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SUMÁRIO

1 PSICOLOGIA PEDIÁTRICA ....................................................................... 3

1.1 Psicologia Da Saúde ............................................................................ 4

1.2 Psicologia Pediátrica ............................................................................ 6

2 PSICOTERAPIA INFANTIL: COMO FUNCIONA E QUANDO É


RECOMENDADO. ..................................................................................................... 14

2.1 O que é a Psicoterapia Infantil? ......................................................... 15

2.2 Qual o objetivo da Psicoterapia Infantil? ............................................ 15

2.3 Como funciona a Psicoterapia Infantil? .............................................. 16

2.4 Como perceber que a criança precisa de psicoterapia?..................... 16

2.5 Benefícios da Psicoterapia Infantil ..................................................... 17

3 O PROCESSO DE HOSPITALIZAÇÃO INFANTIL E O TRABALHO DA


PSICOLOGIA EM UNIDADES DE PEDIATRIA......................................................... 18

3.1 A Inserção da Psicologia no Contexto Hospitalar ............................... 28

3.2 - Cuidar do Cuidador: A Contribuição da Psicologia na Humanização do


Atendimento da Equipe de Saúde à Díade Paciente-Acompanhante .................... 31

3.3 Cuidar do Acompanhante: A Importância de sua Participação no


Cuidado do Paciente e a Parceria com a Equipe de Saúde .................................. 35

3.4 O Desenvolvimento Infantil e o Espaço para Brincar no Cenário da


Hospitalização Infantil ............................................................................................ 37

4 O PSICÓLOGO E O CÂNCER INFANTIL................................................. 39

4.1 Diagnóstico......................................................................................... 41

4.2 Tratamento. ........................................................................................ 42

4.3 Prognóstico ........................................................................................ 42

4.4 A Criança com Câncer ....................................................................... 42

4.5 A Família da Criança Portadora de Câncer ........................................ 47

4.6 A Atuação Do Psicólogo ..................................................................... 50

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4.7 A Psico-oncologia: .............................................................................. 55

BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 62

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1 PSICOLOGIA PEDIÁTRICA

Fonte:nucleo-ppa.com.br

A história da Psicologia nos domínios da saúde mental é relativamente recente,


como de resto o é a história da própria psicologia enquanto ciência aplicada. A
penetração dos psicólogos no contexto da saúde em geral (Serviços Hospitalares,
Centros de Saúde, etc.) é muitíssimo mais recente e conta com um passado de
apenas algumas décadas. Neste sentido, Victor Viana e J. Paulo Almeida afirmam ser
tradicional a intervenção psicológica na saúde mental. Tradicional porque, apesar de
tudo, mas antiga, especialmente por ter sido já produzido neste domínio uma vasta
teorização, relativa a diagnóstico e processos terapêuticos, baseada numa prática de
inquestionável valor, e traduzida em bibliografia prestigiada. Tradicional também
porque se constituiu em modelo para outras práticas em outros domínios. Referimo-
nos, como é óbvio, ao modelo de intervenção clínico, a psicologia clínica, muitas vezes
identificada com a psicologia da saúde.
Alicerçados numa exploração bibliográfica, e na experiência de mais de uma
década como psicólogos de um serviço de pediatria, os autores realçaram na presente
obra a especificidade da intervenção dos psicólogos nos serviços de saúde para
crianças, contribuindo, assim, para uma reflexão que permita implementar e
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desenvolver este domínio no país, de modo a que os psicólogos da saúde possam
desempenhar plenamente o seu papel, contribuindo para o bem-estar físico, social e
psicológico da criança.
Começamos por situar a psicologia pediátrica como psicologia da saúde e, se
compararmos com o que se passa entre a medicina e a pediatria (Teixeira Santos et
al., 1987), poderemos dizer que a psicologia pediátrica é uma psicologia geral da
saúde de um grupo etário. São apresentados os domínios que mais atenção têm
obtido dos psicólogos que intervêm na saúde da criança, relativos à prevenção
primária, abordagem da criança doente e investigação.

1.1 Psicologia Da Saúde

As doenças mais temidas nos países desenvolvidos, deixaram de ser as


tradicionais, provocadas por agentes infecciosos, como a tuberculose, cólera, o
sarampo etc., e passaram a ser as doenças relacionadas com os padrões de consumo
e estilo de vida, como as doenças cardíacas, cancro, obesidade, diabetes, etc. Tal
fato concorreu para o desenvolvimento de um modelo ecológico da saúde. De acordo
com este modelo, a doença e a saúde são entendidas como o resultado da interação
de fatores fisiológicos, psicológicos e sociais. O chamado modelo psicossomático
(Lipowski, 1977) ou modelo biopsicossocial (Matarazzo, 1980; 1982), traz implícito o
reconhecimento da insuficiência do modelo tradicional biomédico e, por isso, tornou
possível e entrada, nos ambientes relacionados com a doença, de outros especialistas
além dos médicos e enfermeiras. Biólogos, matemáticos, psicólogos, sociólogos e
educadores, tem vindo desde então a desempenhar papéis, nos hospitais e centros
de saúde, que antes ou não existiam ou não se encontravam adequadamente
desenvolvidos.
O conceito de saúde, entendida então como um processo global, implicou uma
abordagem multidisciplinar do doente e da doença. A doença é concebida como o
resultado de fatores biológicos intrínsecos ao indivíduo que podem ser hereditários ou
não e em qualquer dos casos são potenciados pelo comportamento de cada cidadão.
O comportamento diz respeito à forma como o sujeito se relaciona com o ambiente e
depende da aprendizagem, da personalidade e de outros aspectos socioculturais, dele
decorrendo em parte a saúde ou a doença. Alguns comportamentos transformam-se
ao longo do tempo em hábitos, cada um de nós dispõe de alguma liberdade para

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decidir sobre os hábitos a adoptar que podem ter implicações na saúde e doença, por
exemplo: evitar hábitos nocivos à saúde, manter ou desenvolver hábitos saudáveis ou
comportamentos de risco (comportamento alimentar, comportamentos aditivos,
prática de desporto, comportamento sexual, etc.). A relação entre comportamento e
doença é mediatizada por alguns fatores. A forma como o sujeito reage ao stress
psicossocial é um dos aspectos mais importantes. Está demonstrado o impacto
negativo do stress, que atua como facilitador do desenvolvimento de algumas das
chamadas doenças da “civilização”. Doenças cardiovasculares, doenças endócrinas,
alguns tipos de cancro, etc., parecem ser fortemente determinadas pelos
acontecimentos marcantes da vida do sujeito e pelo padrão de resposta a situações
de stress e à frustração. Está também comprovado que a exposição a baixos níveis
stress com muita frequência, ou a situações de stress agudo pode provocar
imunodepressão tornando o sujeito mais susceptível de contaminação por diversos
agentes patogénicos (Engel, 1977). Os mecanismos hipotéticos através dos quais o
stress perturba o sistema imunológico poderão ser:
1) provocando a libertação de hormônios na corrente sanguínea, ou
2) afetando diretamente as estruturas do sistema nervoso que controlam o
sistema imunitário.
Quer um ou outro mecanismo poderão ser desencadeados por fatores
psicossociais. As estratégias sistemáticas de que cada um dispõe para responder ao
stress podem aumentar ou diminuir os efeitos deste, dependem de fatores de
personalidade, de sentimentos de auto eficácia e da percepção do controle.
Estratégias de coping são as formas como o sujeito lida com as situações
estressantes, são particularmente importantes na situação de doença aguda e
crônica, influenciam o modo como o sujeito se vai adaptar à nova situação, no sentido
de ser um indivíduo psicológica e socialmente integrado e de prevenir recaídas, a
aderência do doente ao tratamento e às recomendações médicas é então um fator
determinante do prognóstico.
O estilo de vida do indivíduo depende de aspectos da personalidade, de
atitudes e hábitos adquiridos ao longo do seu desenvolvimento. Depende de valores
e normas sociais típicas de uma dada cultura, traduz-se no conjunto de padrões de
comportamento quotidiano, e pode ser considerado saudável ou de risco (Wankel &
Sefton, 1994). Uma grande percentagem das mortes por doença e acidente
provavelmente poderia ser evitada através de modificações no estilo de vida dos

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cidadãos. O tipo e qualidade das ligações sociais estabelecidas pelo indivíduo,
interações familiares e conjugais, amizades e relações com colegas, parece funcionar
como moderador ou atenuador dos fatores de risco (Contrada, Baum, Glass, & Friend,
1991). Os mecanismos pelos quais o comportamento se relaciona com a saúde
podem ser resumidamente descritos em três categorias. O comportamento afeta a
saúde através das alterações fisiológicas provocadas por acontecimentos ou fatores
psicossociais. O comportamento consiste em ações que direta ou indiretamente
influenciam o funcionamento biológico, tais como o tabagismo, consumo de álcool,
drogas, ingestão de alimentos e medicamentos, comportamento sexual, exercício
físico, etc. As respostas dos indivíduos doentes, que implicam reações aos sintomas,
decisões a propósito dos tratamentos e a experiência de estar doente (Contrada, et
al., 1991), constitui outra forma de associação entre comportamento e saúde.

1.2 Psicologia Pediátrica

Fonte:hcancer.com.br

Desde a década de 70 que se tem vindo a propagar, nos E.U.A., a denominação


de Psicologia Pediátrica aplicada ao exercício da psicologia nos serviços de saúde
infantil, centros de saúde materno-infantil, serviços de pediatria, hospitais pediátricos,
centros de desenvolvimento, etc. (Pires & Pires, 1995; Viana & Almeida, 1991, 1987;
Tuma, 1982 ), tal como foi proposto por Wright (1967).
Em 1987 o Executive Committee of the Society of Pediatric Psychology definiu
a psicologia pediátrica como: “... an interdisciplinary field addressing the full range of

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physical and mental development, health, and illness issues affecting children,
adolescent, and families.” O mesmo órgão estabeleceu os critérios dos artigos a
serem publicados no Journal of Pediatrics Psychology como relacionados com uma
grande variedade de tópicos
Roberts, McNeal, Randall e Roberts (1996) descrevem este campo como: uma
amálgama de prática aplicada e pesquisa básica relacionada com os problemas
médicos e psicológicos que afetam as crianças e famílias.
Nestas definições realçamos alguns fatores que nos parecem determinantes
para a caracterização do psicólogo pediátrico: o contexto e objetivos. O contexto de
intervenção é o dos serviços médicos de saúde infantil, a atenção recai naturalmente
na criança e no ambiente sócio afetivo envolvente. Quanto aos objetivos, nem sempre
consistem em intervir na criança doente e família, pois um domínio ainda pouco
explorado, mas, quanto aos profissionais, fundamental e prometedor é o da criança
saudável em risco, ou seja, o objetivo situa-se no domínio da prevenção, e
especialmente nos níveis primário e secundário. O modelo de intervenção e
perspectivas teóricas são da teoria do comportamento (Tuma, 1982), psicologia do
desenvolvimento (Maddux, Roberts, Sledden, & Wright, 1986) e psicologia social
(Contrada, Baum, Glass, & Friend, 1991).
As seguintes questões, formuladas por Lipowski (1977), traduzem as
interrogações fundamentais da psicologia da saúde, e definem, de certo modo, os
caminhos a desbravar:
- Porque é que uma pessoa (criança) responde a uma situação social particular
e acontecimento de vida específico com um dado padrão de mudança fisiológica e
psicológica?
- Que variáveis psicológicas podem ajudar a predizer quando um indivíduo se
tornará doente e que doença irá contrair?
- Que tipo de situações sociais serão predisponentes mais prováveis de
precipitar doença numa dada pessoa ou grupo? - Que comportamentos, atitudes, ou
condições sociais predispõe mais facilmente à saúde ou ao coping adaptado à
doença?
Estas questões, ao definirem muito claramente o domínio e objetivos da
psicologia da saúde em adultos ou crianças, estabelecem-nos concretamente dentro
do que se designa de prevenção primária e secundária. As respostas implicariam
diagnosticar os fatores psicossociais associados à ocorrência de algumas doenças

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(etiologia), assim como a interação dos mecanismos fisiológicos e psicológicos
(influência recíproca dos processos somáticos e psicológicos), identificação dos
fatores que contribuem para que o doente lide eficazmente com a doença, de modo a
ser facilitada a sua adaptação e reabilitação (reações à doença). Nesse caso poderão
ser desenvolvidos e implementados métodos e procedimentos que possam contribuir
para prevenir a doença, prevenir e atenuar as consequências das disfunções crônicas
e morte prematura. Para Tuma (1982), este objetivo poderá ser atingido modificando
comportamentos específicos, atitudes e respostas emocionais e melhorando o suporte
social (e. g. através da intervenção comportamental).

1.2.1.1 Prevenção Primária

Por prevenção primária entende-se a exclusão ou modificação das causas de


uma ou várias doenças de modo a impedir a sua ocorrência (Engstrom, 1984).
Algumas áreas parecem prioritárias no que concerne à prevenção primária. A
implementação de hábitos alimentares adequados e prevenção da obesidade (Dietz,
1994; Johnson & Birch, 1994; Brwnell, 1982) de cuidados básicos de higiene, de
prática de exercício físico (McAuley, 1994; Taylor & Calfas, 1994), medidas de
segurança nos transportes e face ao risco de acidentes na estrada, na rua, em casa,
edifícios públicos etc. (Cristoffel, Donovan et al., 1996), a prevenção do alcoolismo,
toxicodependência e tabagismo, tem sido alvo, com maior ou menor intensidade, de
campanhas realizadas pelas entidades governamentais que superintendem a Saúde
ou o Ensino. Refira-se a título de exemplo que, a propósito do tabagismo nos jovens,
a indústria de tabaco nos E.U.A. fatura cerca de 1.5 milhões de dólares por ano, em
vendas ilegais a crianças e jovens, o logotipo da marca de cigarros Camel (o camelo
Joe) é associado ao tabaco, e reconhecido por cerca de 90% das crianças de 6 anos,
como acontece com rato Mickey (Roberts, 1994). O objetivo das ações de educação
para a saúde é implementar e desenvolver atitudes que suportem ao longo do ciclo
de vida comportamentos saudáveis, ou seja, estimular que desde muito cedo se
estabeleça uma predisposição para que seja adaptado um estilo de vida saudável.
Quer os comportamentos saudáveis quer o estado de saúde, relacionados
entre si, parecem depender das atitudes face à saúde interiorizadas ao longo do
processo de socialização (Bachanas & Roberts, 1995; Tinsley, 1992). Os pais e as
suas atitudes e ações, em relação a si e aos filhos, constituem a mais importante fonte
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das atitudes relativas à saúde. A escola, os colegas e os amigos, assim como os meios
de comunicação e especialmente a televisão são fontes determinantes das atitudes
infantis face à saúde, nomeadamente através da publicidade dos produtos
alimentares.
Nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, a morbilidade no grupo etário
dos adolescentes é atribuída esmagadoramente a fatores psicossociais (Levy, 1995;
Jessor, 1991), e a mortalidade por acidentes representa cerca de metade de toda a
mortalidade nesta idade. Os problemas de saúde dos jovens agrupam-se
maioritariamente nas seguintes categorias: conduta alimentar, insucesso e
absentismo escolar, sexualidade (comportamento sexual, doenças sexualmente
transmissíveis e gravidez), comportamentos aditivos e comportamentos de risco
(Levy, 1995). Conflitos familiares, o comportamento da família, influência e
comportamento dos amigos, são indicadores preditivos dos comportamentos e hábitos
de saúde neste grupo (Sussman, Dent et al. 1995). Mesibov e Johnson (1982)
estabeleceram três alvos principais a ser atingidos pelo esforço de prevenção do
psicólogo pediátrico. Educação dos pais – este alvo seria alcançado principalmente
através de duas estratégias. Sugerem a criação de grupos de pais, que receberiam
informação, treino e apoio em áreas em que fossem considerados carentes. Propõem
a contribuição dos psicólogos na edição de manuais e guias de apoio aos pais em
área como princípios comportamentais e sua aplicação a problemas do quotidiano,
desenvolvimento infantil normal e estratégias para lidar com problemas de
desenvolvimento, e manuais sobre a comunicação e relações entre pais e filhos.
Avaliação e intervenção precoce em populações de alto-risco, incluindo famílias
socioeconomicamente desfavorecidas e crianças com problemas de
desenvolvimento, crianças maltratadas, etc.. Por fim o desenvolvimento de
competências sociais em crianças. O treino de competências visaria implementar
estratégias de resolução de problemas, compreensão das perspectivas dos outros, e
aptidões sociais.
A intervenção psicológica nas Unidades de Neonatologia poderá ser um
exemplo de um modelo que engloba as áreas referidas. Implica uma intervenção
remediativa, que tem como objetivo ajudar os pais a lidar com as reações emocionais
desencadeadas pelo nascimento de uma criança inesperadamente em risco de vida.
Poderá ser um ponto de partida para uma abordagem educativa, que visa desenvolver
competências que facilitem a adaptação destes pais às características inesperadas

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do recém-nascido, e promover uma vinculação adequada e estimuladora do
desenvolvimento da criança em risco.

1.2.1.2 A Criança Doente

A doença, especialmente se crónica e ameaçadora da vida, é provavelmente


uma das maiores fontes de stress para a criança, com implicações por vezes
devastadoras no seu desenvolvimento psicossocial (Perrin & Mclean, 1988; Willis,
Elliot & Jay, 1982). Apesar de tudo, a doença aguda, ou com poucas implicações no
dia a dia do doente pode, quando vivida num ambiente familiar eficaz e
adequadamente tratada do ponto de vista físico e psicológico, constituir uma
oportunidade única para o desenvolvimento de aptidões de coping, de
autoconhecimento e de competências sociais, e mesmo de desenvolvimento
emocional e cognitivo (Crisp et al., 1996; Parmelee, 1986).
O tipo de intervenção realizada no internamento de crianças depende das
características da criança como a personalidade, o meio social envolvente,
características familiares, idade, sexo, tipo de patologia e modo como a criança reage
à doença. A idade e personalidade da criança, as características da família, são
determinantes no modo como a criança entende e maneja a doença, e se adapta à
situação, de maneira a concretizar um estilo de vida adequado e realista que facilite a
sua reintegração em casa, na escola, no grupo de amigos etc. No que diz respeito à
doença é necessário ter em consideração se é uma situação aguda, crónica, se é
incapacitante; que tipos de tratamentos são necessários, tratamentos agressivos,
dolorosos, que implicam idas frequentes ao hospital e por isso interrupções das aulas,
etc.; qual a qualidade de vida possível para a criança, e qual o prognóstico (Almeida
& Viana, 1990).
Os fatores referidos podem influenciar o desenvolvimento da criança e podem
ter implicações na sua personalidade. A interação de fatores psicológicos ou
psicossociais e funcionamento fisiológico encontra-se largamente demonstrada,
nomeadamente no caso da criança com doença crónica (Ungerer et al., 1988;
Achterberg-Lawlis, 1982; Hamburg & Inoff, 1982; Engel, 1977). A relação entre o curso
da doença e os aspectos psicossociais poderá ser em parte explicada por conceitos
como locus de control, e reatividade que se refere à intensidade com que o sistema

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fisiológico de um indivíduo reage ao stress psicossocial, e aderência aos tratamentos
e recomendações.

1.2.1.3 Criança doente e influência da família

Como é sabido a família tem uma influência determinante na criança, e


especialmente na criança doente. Silver et al. (1996) referem a importância dos fatores
relacionados com a estrutura familiar, como moderadores dos efeitos da doença na
criança, chamam a atenção para a influência negativa da ausência de outros adultos,
para além da mãe da criança.
A propósito da interação de fatores familiares com o curso da doença, Minuchin
e col. propuseram um modelo da família psicossomática, que pretendia explicar o
modo como o sistema familiar contribuía para desencadear, e afetava o curso de uma
determinada patologia. Características da estrutura e interação familiar relacionadas
com a coesão, a aglutinação, e relacionadas com a adaptabilidade, isto é a rigidez, e
ainda a superproteção, deficiente capacidade para resolver conflitos, e envolvimento
da criança doente nos conflitos parentais, contribuiriam eventualmente para
desencadear uma patologia como diabetes ou asma, ou outra, no caso de existir uma
fragilidade biológica predisponente, ou contribuiriam para uma deficiente adaptação
da criança doente (Sargent, 1983; Minuchin et al., 1975). Olson e col. desenvolveram
um método de avaliação, que permite operacionalizar os conceitos coesão e
adaptabilidade através dos itens de uma escala (FACES) (Olson et al., 1985). Este
método possibilita a comparação estatística dos dados transmitidos por diversas
famílias, e tem inspirado diversas investigações sobre a criança com doença crónica
e família (Overstreet, et al., 1995; Viana, 1992; Chaney & Peterson, 1989, Gustafsson,
Kjellman et al., 1987; Gustafsson, Cederblad et al., 1987).
Recentemente Wood propôs um modelo familiar que, ultrapassando algumas
imperfeições da perspectiva de Minuchin (família psicossomática), nomeadamente a
incapacidade em integrar aspectos do nível psicológico e fisiológico no nível sistêmico
e familiar, permite compreender as relações entre as variáveis familiares sistêmicas,
a reatividade comportamental do indivíduo doente e a doença. Este foi designado
Modelo Biocomportamental da Doença Pediátrica (Wood, 1993). O novo modelo
retém do anterior a abordagem da família como um sistema e, particularmente
importante no caso do doente- -criança, o pressuposto da relação entre o
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funcionamento do indivíduo e padrões de interação interpessoal, acrescenta o
princípio de que estes padrões interpessoais interagem com processos
biocomportamentais e inclui um nível individual de funcionamento psicológico e
fisiológico. Trata-se por isso de um novo paradigma, biopsicossocial, no qual o nível
biológico corresponde ao processo fisiológico relativo à doença da criança, o nível
psicológico corresponde à reatividade biocomportamental da criança associada esta
à vulnerabilidade à doença, e o nível social corresponde aos padrões de interação
familiar. Neste último patamar estão incluídos alguns conceitos com interpretação
semelhante à de outros do modelo da “família psicossomática” tais como: proximidade
que se refere à proximidade emocional entre os membros da família, com
repercussões na autonomia, na privacidade e definição dos espaços familiares;
hierarquia geracional, a capacidade dos pais se aliarem de modo a cumprir os papéis
parentais, fornecendo apoio, regras e disciplina aos filhos; responsividade, definida
como o grau ou intensidade com que as pessoas reagem emocional comportamental
e fisiologicamente umas às outras. Todos estes incluídos no conceito de aglutinação.
Os conceitos de triangulação e relações parentais, de certa forma implícitos no
conceito de “triangulação” da criança, referem-se ao grau de envolvimento da criança
nos conflitos e problemas conjugais. De acordo com o modelo, algumas famílias mal
adaptadas tenderão a responder às melhoras com diminuição da responsividade e da
triangulação da criança doente, e redução da disfunção na relação parental. Outras
famílias mal adaptadas tenderão a reagir às melhoras reduzindo a intensidade da
triangulação, o que deverá provocar aumento da disfunção parental. Em qualquer
família, o agravamento da doença tenderá a aumentar a responsividade, a
triangulação e o stress na relação parental. O impacto do curso da doença na
responsividade, na triangulação e na relação parental será atenuado ou incrementado
conforme a família apresenta um nível baixo ou elevado de proximidade, e conforme
o nível de hierarquia é moderado ou extremo (forte ou fraco) (Wood, 1993).

1.2.1.4 Investigação em Psicologia Pediátrica

Do que foi dito e da análise do que existe publicado, ressalta a grande


importância atribuída à investigação em psicologia pediátrica. Este parece ser um
aspecto privilegiado pelos psicólogos que se têm dedicado a este campo e, para
alguns dos autores citados, é um traço de identidade da psicologia da saúde face a
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outros ramos da psicologia. Roberts e col. comentam que muito da pesquisa em
psicologia pediátrica tem pouca relevância para a saúde infantil, e que a investigação
neste domínio deve ser preferencialmente aplicada e de interesse prático para os
outros especialista da saúde (Roberts, McNeal, Randall, & Roberts, 1996). Ou seja, a
investigação deve contribuir para esclarecer processos e problemas do dia a dia dos
médicos e outros especialistas da saúde infantil, e dar respostas que possam ser de
imediato utilizadas com eficácia. A pesquisa teórica e acadêmica, desligada da prática
dos centros de saúde infantil, é considerada inadequada e por isso desencorajada.
Lemanek (1994), considerando a pesquisa em torno da doença e doente crônicos,
afirma que o foco da investigação está direcionado atualmente para a identificação
das variáveis que melhor predizem o funcionamento adaptado ou mal adaptado à
doença quando ela se manifesta e no futuro. Ainda para esta autora, é necessário
dirigir a pesquisa para a identificação dos estádios de desenvolvimento em que as
crianças, adolescentes e suas famílias, estão mais expostos ao risco de desenvolver
problemas psicológicos específicos, ou estão mais resistentes ao stress.
A propósito da investigação surge o problema dos métodos e técnicas de
avaliação. São raros os instrumentos desenvolvidos especificamente para populações
pediátricas, ou que tomem em consideração as características das populações alvo
(La Greca, 1994). Assim os esforços dos psicólogos deverão ser direcionados para a
criação de instrumentos adequados aos grupos em causa, tendo em conta, no
entanto, que uma especialização extrema poderá prejudicar a generalização das
conclusões (Dongen-Melman et al., 1996; Drotar, 1994a). Embora sejam necessários
instrumentos específicos de avaliação psicológica de diferentes grupos de doentes
crônicos (crianças diabéticas, reumáticas, leucêmicas, asmáticas, obesas, etc., para
só citar os mais significativos em número), estes instrumentos terão que permitir a
comparação dos resultados entre diversos grupos e subgrupos. Por exemplo
comparar crianças asmáticas com crianças diabéticas, ou diabéticos mal controlados
com diabéticos bem controlados. Comparar também os resultados dos grupos de
crianças saudáveis com os resultados dos grupos de crianças doentes, sejam
crianças asmáticas com crianças saudáveis, por exemplo. A avaliação no contexto
pediátrico deve ser entendida como um processo e nunca como uma meta nem
diagnóstico psicológico. La Greca e Lemanek (1996) consideram que, ao longo do
processo de avaliação, é fundamental responder, em diferentes momentos, às
questões sobre quem vai ser avaliado, ou seja quais as características da amostra ou

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indivíduo (e.g., que idades e que problemas são apresentados), quais os momentos
adequados e quais os instrumentos que devem ser utilizados, tendo em conta as suas
características psicométricas, e se são mais adequados instrumentos genéricos ou
específicos. Spieth e Harris (1996) consideram fundamental a utilização de
instrumentos específicos na avaliação de fatores como a qualidade de vida e estado
de saúde de crianças com doença crónica, uma vez que a comparação destas com
crianças saudáveis não adequada.
As áreas de pesquisa consideradas mais importantes, por psicólogos da saúde
infantil, foram a doença crônica, adesão e colaboração com o tratamento, prevenção
primária, crianças em risco, os papéis relacionados com a doença na criança, eficácia
do tratamento, neuropsicologia, e estudos de custo-benefício (Walker, 1988). Para
Routh (1982) os aspectos a investigar, característicos do contexto médico, são os
relacionados com o desenvolvimento e comportamento, prevenção primária e
intervenção precoce, técnicas comportamentais de tratamento, acompanhamento dos
pais e família, aspectos psicológicos da saúde e doença infantil, maus-tratos,
acidentes, implicações psicológicas dos tratamentos médicos e internação, doenças
crônicas e que ameaçam a sobrevivência.

2 PSICOTERAPIA INFANTIL: COMO FUNCIONA E QUANDO É


RECOMENDADO.

Fonte:i0.wp.com

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Ser criança é mergulhar em um mundo de descobertas, de transformações e
contato direto com o desconhecido. Para cada fase da vida há um cuidado específico,
e esse cuidado se intensifica quando falamos sobre a infância.
A psicóloga Aline Lisboa explica que é nessa fase que a criatividade se
expressa com facilidade, que os primeiros afetos vão proporcionar acolhimento para
encorajar a vida no futuro e que os monstros imaginários podem provocar mudança
no comportamento e alimentar medos fantasiosos.
Quando a bagunça e o barulho dão espaço ao silêncio e ao isolamento,
causando mudança no comportamento, significa que é um bom momento de cuidar
da saúde mental dos pequenos.
Esse cuidado na infância é de grande importância para que não tome
proporções maiores, impedindo que a as fases seguintes sejam prejudicadas. Cuidar
da saúde mental das crianças é também exercer a função de prevenção da saúde
mental do adolescente, tornando um adulto mais consciente de seus sentimentos.

2.1 O que é a Psicoterapia Infantil?

A psicoterapia infantil é o cuidado e a atenção com a saúde mental da criança.


É um espaço potencial para acolhimento das angústias, medos, inseguranças e um
momento de intervenções com os pais.

Com o intuito de promover uma infância saudável a psicoterapia infantil utiliza


a Ludoterapia para caminhar rumo ao bem-estar familiar, a prevenção e solução de
conflitos.

2.2 Qual o objetivo da Psicoterapia Infantil?

O objetivo é auxiliar na expressão das emoções de cada criança, pois através


da brincadeira ela pode expandir seus sentimentos acumulados de tensão, frustração,
insegurança, agressividade, medo, espanto, confusão e ressignificar os eventos
traumatizantes.
Desta forma, o terapeuta exerce a função de facilitador, sendo capaz de
identificar os conflitos e auxiliar na busca de melhores alternativas para lidar com eles,
ao mesmo tempo em que, orienta os pais a como intervir diante dessas vivências.

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2.3 Como funciona a Psicoterapia Infantil?

As primeiras sessões são realizadas com os pais, ou quem exerce essa função.
O psicólogo realiza entrevistas iniciais para reunir informações sobre a história da
criança e para conhecer a dinâmica da família em que a criança está inserida. Depois,
o psicólogo tem maiores condições de entender a queixa e avaliar os objetivos do
trabalho.
As sessões seguintes são realizadas apenas com a criança. Sabemos que as
crianças não expressam seus sentimentos e emoções como fazem os adultos,
verbalizam menos e tem outras formas de comunicações, por isso, o atendimento a
ela é feito de forma lúdica, ou seja, “brincando” (desenhos, jogos, massinhas, etc.).
É através do brincar que a criança expressará seu mundo simbólico, e com o
auxílio do terapeuta encontrará recursos de enfrentamento para se posicionar diante
do mundo, mas desta vez, de forma saudável e sem prejuízos no seu dia a dia.
Encontros periódicos com os pais serão importantes ao longo da psicoterapia.
A participação dos pais neste processo é imprescindível para sua evolução, muitas
vezes, se faz necessário solicitar aos pais informações, como também, oferecer-lhes
auxílio para o desenvolvimento satisfatório do processo psicoterapêutico. A parceria
com a escola também é importante, já que, é no ambiente escolar que a criança passa
boa parte do tempo.

2.4 Como perceber que a criança precisa de psicoterapia?

São muitos os motivos que fazem uma pessoa necessitar de psicoterapia,


porém, isso pode ser percebido quando você sentir que a criança está passando por
“alguma dificuldade” que nem ele e nem os responsáveis, têm conseguido lidar ou
entender tais questões.
Outras vezes, o encaminhamento à psicoterapia pode ser feito por outros
profissionais da área da saúde como pediatra, psiquiatra, fisiologista, fisioterapeuta,
neurologista, entre outros, ou pela escola.
Muitos pais têm dúvidas sobre quando buscar ajuda para os filhos e acabam
inseguros por desinformação. Dificuldades no relacionamento com as pessoas, na
atenção ou aprendizado são aspectos relevantes para buscar auxílio de um psicólogo,

16
outras queixas comuns que indicam a necessidade de acompanhamento psicológico
são:

 Choro excessivo
 Irritabilidade
 Timidez excessiva
 Birras e malcriações
 Isolamento
 Agressividade
 Medo de ficar em determinado ambiente sozinho
 Ciúmes após a chegada do (a) irmão (a)
 Necessidade extrema de proximidade com os pais
 Enurese e encoprese
 Dificuldades escolares
 Recusar ir à escola de forma repentina
 Demora a falar ou andar
 Separação dos Pais
 Perda de algum familiar
 Mudanças no comportamento em geral

2.5 Benefícios da Psicoterapia Infantil

Através do brincar a criança encontrará com o auxílio do terapeuta recursos de


enfrentamento e expressão dos sentimentos, permitindo a resolução de conflitos
internos e aliviando os sintomas. O acompanhamento psicológico na infância promove
uma vida emocional equilibrada, já que é ensinada de forma lúdica a importância de
compreender as emoções para enfrentar os conflitos de forma saudável.
Os benefícios também são voltados aos pais, já que, também é trabalhado as
necessidades de se afastarem da ideia de terem que ser perfeitos em suas funções.
É importante lembrar que, a busca de Psicoterapia Infantil não significa que os
pais não estão sendo bons suficientes, mas é preciso ressaltar que filhos não vem
com manual de instrução, e que as falhas vão existir, mesmo quando os pais estão
fazendo de tudo para não falhar.

17
Muitos se sentem culpados por não conseguir dar o suporte necessário e
resolucionar as dificuldades que a criança está enfrentando. Quanto mais os pais
perceberem o psicólogo como companheiro, mais os ganhos serão alcançados para
o bem-estar da criança.
Os pais não podem ter medo de pedir ajuda, pois em nenhum momento serão
julgados, o psicoterapeuta os receberá com o mesmo acolhimento dado a criança.
Quanto mais os pais compreenderem o que é a psicologia, e o quanto ela está
disponível para o bem-estar da dinâmica familiar, maior é a participação dos
integrantes e mais conquistas o paciente apresentará.

3 O PROCESSO DE HOSPITALIZAÇÃO INFANTIL E O TRABALHO DA


PSICOLOGIA EM UNIDADES DE PEDIATRIA

Fonte:br.guiainfantil.com

Para descrever o cenário da hospitalização pediátrica, considerou-se a área de


investigação e intervenção denominada Psicologia da Saúde Infantil, a qual está
“relacionada com os aspectos psicológicos da saúde e das doenças das crianças”
(Melamed & Matthews, 1986; 1988, citado por Trindade & Teixeira, 1998).
Para tanto, entende-se que “a abordagem desenvolvimentista e o papel da
família assumem particular importância” (Trindade & Teixeira, 1998).
A expressão Psicologia da Saúde Infantil foi considerada mais apropriada do
que o termo Psicologia Pediátrica, o qual foi cunhado pela APA em 1968. Essa opção

18
justifica-se pelo fato de que a terminologia Psicologia Pediátrica possui um caráter de
subordinação da Psicologia “a uma especialidade médica”, conforme consideram
Trindade & Teixeira (1998).
No presente estudo, Thainá H Moreira considera- que crianças são pessoas
com até 12 anos de idade incompletos e adolescentes aquelas entre doze e dezoito
anos de idade, como definido no Art. 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) (Lei nº 8.069 de 13 de julho 1990). Entendidos como sujeitos de direito, o ECA
instituiu que o SUS seja o provedor do direito à vida e à saúde de crianças e
adolescentes. Portanto, sua atuação deverá ocorrer de forma integral, universal e
igualitária, sendo prioridade nas políticas de saúde e nos três níveis de atenção: “essa
tarefa exige o desenvolvimento de ações de promoção da saúde, a prevenção de
doenças, e agravos, a atenção humanizada e o trabalho em rede” (Ministério da
Saúde, 2012b, p. 7).
Para compreender a faixa etária estabelecida pelo ECA para as crianças, é
preciso considerar as modificações que a terminologia infância sofreu ao longo da
história da humanidade ocidental. Segundo Ariès (1981), verifica-se que, inicialmente,
não havia um estágio específico do desenvolvimento humano com tal denominação e
percebe-se que, pela iconografia, a criança era representada como a miniatura de um
adulto, estando expostas a todos os elementos da vida adulta.
Na modernidade, entre o final do século XIX e o começo do século XX, a
infância adquiriu valor moral e social, passando a ser “propriedade” do estado, o qual
garantia a proteção à criança a partir da lei (Ariès, 1981; Postman, 2002). Nas
ciências, o apogeu da discussão sobre infância ocorreu no pós-iluminismo a partir de
variadas publicações de estudiosos, os quais definiam e caracterizavam esse conceito
da sua forma, dentre eles Freud e Piaget (Postman, 2002).
Atualmente, a infância é caracterizada como um estágio específico do
desenvolvimento humano, o qual busca compreender as fases em que a criança se
desenvolve a partir de três grandes domínios que constituem o processo unificado do
desenvolvimento e que estão interligados entre si, sendo eles: físico, cognitivo e
psicossocial (Papalia, Olds & Feldman, 2006). As autoras definem os três grandes
domínios como:
• Desenvolvimento físico: o crescimento do corpo e do cérebro, das
capacidades sensórias, das habilidades motoras e da saúde.

19
• Desenvolvimento cognitivo: a mudança e a estabilidade nas capacidades
mentais, como aprendizagem, memória, linguagem, pensamento, julgamento moral e
criatividade.
• Desenvolvimento psicossocial: a mudança e a estabilidade na personalidade
e nos relacionamentos sociais.
Segundo Papalia et al. (2006), para compreender as diferenças entre as
crianças, consideram-se as seguintes influências em seu desenvolvimento:
hereditariedade (características inatas herdadas pelos pais biológicos); ambiente
(família nuclear e família extensa, condições socioeconômicas, etnicidade e cultura);
maturação do corpo e do cérebro (o que vai influenciar para o comportamento precoce
ou não: na hereditariedade, as síndromes genéticas, e, no meio ambiente, os
estímulos recebidos).
Porém, é preciso considerar se as influências são ou não são normativas e se
o evento é positivo ou negativo. Entende-se que normativo é a “característica de um
evento que ocorre de modo semelhante para a maioria das pessoas de um grupo”,
enquanto que influências não normativas “são eventos incomuns que têm grande
impacto sobre vidas individuais” (Papalia et al., 2006). O presente estudo trabalha com
a perspectiva de influências no desenvolvimento infantil consideradas não-normativas
e atípicas, pois trata-se da experiência de adoecimento e do processo de
hospitalização infantil.
O adoecimento, por si só, mobiliza o enfermo sobremaneira, porém nem
sempre é compreendida “como uma forma de mensagem social, física e psíquica. (...)
muitas vezes a doença é decorrente do relacionamento interpessoal comprometido
na família e de comportamentos, estados alterados ou acontecimentos vinculados ao
aspecto mental do indivíduo” (Chiattone, 2003, p. 25). É preciso compreender a dor
física e a dor psíquica como indissociáveis, “sendo que a dor psíquica equivaleria à
expressão desta, à representação metafórica da experiência dolorosa” (Freud, citado
por Britto, 2010, p. 31).
O adoecimento se dá quando o sujeito humano, carregado de subjetividade,
esbarra em um “real”, de natureza patológica, denominado “doença”, presente em seu
próprio corpo, produzindo uma infinidade de aspectos psicológicos que podem se
evidenciar no paciente, na família, ou na equipe de profissionais (Simonetti, 2009). No
corte, muitas vezes abrupto, entre saúde e doença, imaginário e real do corpo, o
sujeito se vê forçado a destituir o seu ancoramento significante, a desapegar-se, a

20
buscar nos bordejamentos, novas possibilidades de articulação da cadeia significante,
numa tentativa de ressignificar a experiência dolorosa da perda, ruptura e trauma
(Britto, 2010).
Quando se trata de criança, a ressalva é ainda maior, pois se entende que ela
não está em pleno desenvolvimento físico, mental e social. Corroborando com essa
noção, Chiattone (2003) relata que a mobilização é mais significativa nas crianças,
pois a atinge por completo, comprometendo seu desenvolvimento emocional.
Segundo Lima (2004, p. 83), a explicação é devido ao “aparato psíquico ainda imaturo
para lidar com as adversidades vividas em um contexto de adoecimento e internação”,
enquanto para as teorias do comportamento, entende-se que “as crianças têm um
repertório limitado de estratégias devido ao seu estágio de desenvolvimento e a sua
pouca idade” (Trianes, 2002, citado por Castro, 2007).
Distanciados da percepção da incompletude de algo, as crianças são
ensinadas a viver “a sustentação imaginária, ilusória, de saúde perfeita, de certezas e
garantias no corpo e nos laços afetivos” (Britto, 2010, p. 30). O adoecimento, portanto,
gera angústias significativas e, quando combinada com a hospitalização, abre
possibilidades para o aumento das sensações dolorosas e da provocação de outras
emoções (Nigro, 2004).
A doença faz surgir na vida da criança um novo contexto, que exige a
mobilização de recursos internos para a adaptação necessária à situação imposta
pela condição do adoecimento. Novas relações se estabelecem, e o médico e o
hospital passam a fazer parte desse novo contexto (Lima, 2004)
A doença e a hospitalização do sujeito criança repercutem na posição subjetiva
de cada membro da rede familiar, a qual está envolta no desejo parental instável
(Britto, 2010). Nas crianças, em se tratando de hospitalização, existem inúmeras
consequências nocivas, sendo elas: privação materna (sensação de abandono com
possíveis consequências emocionais, físicas, sociais e intelectuais), medo do
desconhecido, medo da morte, estresse, ansiedade, sensação de punição/culpa,
limitação de atividades e estimulação, aparecimento ou intensificação do sofrimento
físico, despersonalização (Britto, 2010; Chiattone, 2003; Lewis & Kellet, citado por
Castro, 2007; Nigro, 2004).
Segundo Chiattone (2003) e Trinca (1987, citado por Lima, 2004), a essas
consequências nocivas da hospitalização da criança podem incutir diversos aspectos,
os quais são:

21
• Idade (consenso entre experiência clínica e estudos na área: faixa etária
entre os dois e os cinco anos de idade é a mais crítica, pois elas têm poucos recursos
para lidar com a situação de doença/hospitalização que elas já conseguem perceber),
• Situação psicoafetiva (quando adoece e é hospitalizada),
• Relacionamento prévio com a mãe e/ou substituta (experiência clínica:
crianças com relacionamento seguro sofrem menos durante a hospitalização e
apresentam poucas sequelas negativas no pós-internação),
• Personalidade (como se caracteriza essa personalidade; como foi o
desenvolvimento da criança antes da doença e da hospitalização; como se caracteriza
seu relacionamento interpessoal),
• Capacidade de adaptação (diante de novas situações, desconhecidas e
ameaçadoras), atitudes da equipe hospitalar (sem flexibilidade e carinho),
• Rotinas hospitalares (rigidez profissional, desconsideração dos aspectos
biopsicossociais),
• Experiências vividas durante a hospitalização (medidas terapêuticas
agressivas, dor, separação materna),
• Duração da hospitalização (aumento de sintomas ansiosos e depressivos
aproximadamente com 14 dias),
• Tipo de internação (emergência ou ambulatório) e
• Natureza da doença (patologia terminal ou patologia simples).

Sabendo da existência desses agressores, algumas medidas preventivas e


humanizadoras podem ser tomadas a fim de reduzir o sofrimento causado pela
hospitalização. Nigro (2004) aponta exemplos que estão no cotidiano da prática
hospitalar, como chamar o paciente e o acompanhante pelo nome, bem como o
reconhecimento dos profissionais por parte do paciente e, “no caso do psicólogo
clínico hospitalar, disponibilizar-se para a escuta, tentando minimizar o sofrimento e a
angústia do paciente e da sua família” (Nigro, 2004).
Uma medida preventiva recorrente é a preparação da criança para a
hospitalização, a qual deve ser realizada pelos pais, os quais serão instruídos para o
bom desempenho dessa função. O objetivo é ambientar a criança quanto à estrutura
e rotina da enfermaria, bem como as pessoas que a frequentam, além do caráter
temporário ou não da internação (Chiattone, 2003). A equipe precisa compreender a
necessidade do “suporte adequado à díade criança-família” (Lima, 2004).

22
É preciso ressaltar que a hospitalização pode gerar sequelas graves e ser um
evento traumático, quando agravado por medidas terapêuticas agressivas, pelo
ambiente ameaçador, por uma equipe de saúde rígida, por sofrimento, dor e pela
imposição da separação da mãe (Chiattone, 2003).
O recurso interpessoal mais importante que as crianças podem ter frente às
situações de doença, dor e hospitalização é o apego seguro aos seus cuidadores
(Trianes, 2002). São eles que vão ajudá-la a enfrentar as dificuldades e a modificar
seu estilo de vida, especialmente quando a criança é pequena. Com o passar do
tempo, as crianças assumem, pouco a pouco, sua própria capacidade de lidar com a
situação (Castro, 2007, p. 402).
Por isso, além de ambientar a criança, é necessário estabelecer um diálogo
recorrente quanto sua condição de saúde, uma vez que ela é capaz de captar
fragmentos nos olhares, gestos e falas codificadas, os quais ela utiliza para conseguir
entender o que lhe acontece. A ausência de preparação, informação e explicação para
os procedimentos médicos que precisa passar são elementos que contribuem para a
criança fantasiar ainda mais sobre sua condição e sobre os medos do que lhe possa
acontecer (Britto, 2010).
A criança como um sujeito de direito deve saber sobre sua condição de saúde
e sobre sua doença, o que contribui para que ele consiga organizar seus sentimentos
e emoções, a partir recursos internos para sua adaptação ou não à situação (Lima,
2004; Trianes, 2002, citado por Castro, 2007).
Diante desses temores, aqueles que estão ao redor da criança (profissionais
de saúde e familiares) tendem a reprimir suas emoções (afetos como medo, raiva e
tristeza) sem se dar conta de que isso pode levar às manifestações sintomáticas e
psicossomáticas. Se a postura desses mesmos cuidadores fosse a de permitir a
criança trazer suas angústias e seus anseios, ou mesmo de manusear os
instrumentos e aparelhos médicos, com os quais passará pelo procedimento, a
possibilidade dela se tranquilizar é maior, além de passar a criar um laço social pelo
discurso com a equipe de saúde (Britto, 2010).
É inquestionável que o diálogo com a criança deva ser franco e sincero, sem
ludibriar com mentiras. Quando a criança percebe que foi enganada, perde a
confiança naquele de quem recebe os cuidados o que pode torná-la resistente aos
atos médicos posteriores (Britto, 2010; Chiattone, 2003).

23
O que se espera, portanto, é a honestidade dos pais, que devem conversar
com ela sobre o que sabem, explicando-lhe o que vai ser feito, para que vai ser feito,
de forma clara e em uma linguagem compreensível, ainda que a internação seja de
emergência (Britto, 2010, p. 35).
Outras medidas preventivas e humanizadoras são: recepção do paciente e
familiar ao processo de hospitalização (preparação da equipe para acolher e
orientação clara do funcionamento da enfermaria) prazo de internação (quando
prolongado, utilizar licenças temporárias), direito da criança em receber visitas e
preparo da alta (evita reinternações, abandono do tratamento e prejuízos à saúde
física e mental das crianças) (Chiattone, 2003).
Faz-se necessário salientar que o direito da criança em receber visitas é
diferente do direto da criança à acompanhante. O Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) estabelece que a criança tenha o direito de ser acompanhada em
tempo integral durante a internação. É evidente a redução dos efeitos traumáticos
causados pelo distanciamento da criança do que lhe é conhecido e do impacto
emocional da hospitalização quando na presença de seus pais (Britto, 2010; Crepaldi
& Hackbarth, 2002, citado por Broering & Crepaldi, 2008).
Entendida como um ser único, cada criança terá um posicionamento subjetivo
frente à experiência de internação, “expressando diferentes conteúdos emocionais”
(Mondolfi & Salmem, 1993, citado por Broering & Crepaldi, 2008). E é oferecendo esse
espaço subjetivo que os profissionais de Psicologia encontram a possibilidade de
atuar, acolhendo as demandas, buscando compreender a história da criança até
aquele momento e oferecendo uma escuta que permita o próprio sujeito encontrar
outras saídas para suas angústias e sofrimento (Britto, 2010). O objetivo da Psicologia
nesse contexto é “a diminuição do sofrimento inerente ao processo de hospitalização
e doença” (Chiattone, 2003, p.55).
Entende-se que trabalhar na pediatria é “objetivar a que a criança e a família
sejam elementos ativos no processo de hospitalização e doença, recebendo, é claro,
um suporte verdadeiro por parte da equipe de saúde” (Chiattone, 2003, p.55). Para a
criança, informar sobre questões médicas possibilita que ela adquira e amplie seu
repertório de comportamentos mais ativo em relação ao ambiente hospitalar (Costa,
Coutinho & Ferreira, 2006, citado por Broering & Crepaldi, 2008).
Para tanto, o psicólogo possui diversos instrumentos de trabalho, os quais
podem ser utilizados durante as intervenções, mas a escolha por um ou por outro

24
dependerá do estado em que se encontra a criança no quadro clínico de sua doença.
Chiattone (2003) afirma que “a atuação junto aos pacientes é operacionalizada
através de estimulação, terapia através do brinquedo e terapia de apoio (individual ou
em grupo) ”. O fato é que, “no hospital, faz-se necessário instituir um espaço para o
brincar” (Britto, 2010, p. 47). E é nesse brincar que “muitas vezes, a criança nos
surpreende com a sua capacidade para enfrentar as adversidades, o inusitado, a
doença e a dor” (Britto, 2010, p. 48).
Broering & Crepaldi (2008), ao realizar uma revisão crítica literária quanto às
intervenções com crianças no contexto hospitalar, levantam informações
interessantes como a necessidade de informação à criança do que está acontecendo
com ela e dos diversos procedimentos médicos que o tratamento do seu quadro clínico
exige. Os estudos descritos apontam inúmeras maneiras de intervenção para
promover a preparação psicológica para os procedimentos médicos como um todo,
por exemplo, punções venosas, injeções, administração de medicamentos, cirurgias
etc. São “procedimentos que costumam gerar dor e ansiedade e, embora necessários,
adquirem caráter ameaçador, agressivo e invasivo” (Uman, Chambers, McGrath &
Kisely, 2008, citado por Broering & Crepaldi, 2008, p. 62).
O planejamento da intervenção requer a consideração de fatores importantes
para serem levantados com a família, os quais embasarão a “análise acurada da
criança e de suas condições psicossociais” (Le Roy & cols, 2003, citado por Broering
& Crepaldi, 2008, p. 64). São eles:
(...) o nível de desenvolvimento da criança e seu estilo de enfrentamento; a
compreensão da criança e da família sobre sua condição médica e sobre o
procedimento médico a ser realizado; experiência prévia de hospitalização e
particularmente de situações adversas; sintomas emocionais, cognitivos e físicos;
medos em geral e de procedimentos específicos; composição familiar, incluindo
fatores linguísticos, culturais e religiosos; o método mais apropriado para lhes
transmitir as informações (verbal, visual, escrita e sensorial); outros estressores
familiares como os financeiros, sociais, outros eventuais problemas de saúde; além
do modo segundo o qual os familiares tomam decisões (Le Roy & cols, 2003, citado
por Broering & Crepaldi, 2008).
As intervenções são diversas, mas percebe-se que recorrentemente tem-se a
descrição daquelas utilizadas pela teoria cognitivo comportamental, como “exercícios

25
de respiração, de imaginação, modelação, reforçamento e ensaio comportamental”
(Broering & Crepaldi, 2008, p. 64).
Porém, existem outras possibilidades como a representação do próprio corpo
pela arte ou pelo desenho infantil, “pois transmite de forma simbólica essa relação do
sujeito com os outros e com seu mundo interno” (Nigro, 2004, p. 66).
Independente da intervenção utilizada, a Psicologia clínica hospitalar possibilita
o lugar do sujeito por trás da doença ao funcionar como interlocutora dele a partir da
rede de comunicação estabelecida por uma escuta significativa. Esse lugar permite
ao sujeito que adoece ou ao seu familiar diminuir o sentimento de despersonalização
(Nigro, 2004).
Tanto a criança quanto seus pais devem ser encorajados a expressar suas
emoções durante o período de internação. A adaptação pretendida não é a obtenção
da conformidade e da passividade extremas, mas sim a de ter reações normais de
alegria, de medo, com riso, choro, nos diferentes momentos da hospitalização (Lima,
2004, p. 82).
Considerando a rede de pessoas que está em torno da criança, sejam eles
cuidadores (acompanhantes e familiares), ou profissionais de saúde, as demandas
para os psicólogos também são constantes. Inserida no trabalho de humanização do
atendimento em instituições hospitalares, a família deve participar do processo de
adoecimento e hospitalização (Chiattone, 2003).
Para atuar junto aos cuidadores e às famílias, é preciso compreender o “baque”
causado pelo saber sobre o diagnóstico e pela internação, onde “mitos e verdades
coabitam o espaço/tempo de confronto com a dura realidade” (Britto, 2010, p. 36).
Entretanto, diferentemente do que se pensa, esse “baque” não é oriundo da
dificuldade de compreensão sobre a doença, e sim do impedimento da junção entre
razão e afeto, causado por um bloqueio emocional de um “não querer saber” utilizado
como mecanismo de defesa e proteção do eu (Britto, 2010). “Dificuldades de
elaboração psíquica e de manejo pragmático da situação são comumente vivenciadas
pelos pais, podendo levar a um aumento do nível de ansiedade, que se transmite à
criança de forma negativa” (Lima, 2004, p. 81).
Ainda na tentativa de querer se defender, os pais costumam buscar o culpado
pela situação de adoecimento e pela hospitalização (Chiattone, 2003; Britto, 2010).
Diante disso, a intervenção psicológica acontece no luto ocasionado pela “queda do
ideal de saúde, para que possam aceitar e vir a amar a sua criança, com limitações e

26
imperfeições, duradouras ou não” (Britto, 2010, p. 37), podendo ocorrer também nas
reações de “culpa, hostilidade, agressividade, desestruturação, negação, medo e
depressão” (Chiattone, 2003).
A atuação visa à atenção, o apoio, a compreensão, o suporte ao tratamento, a
clarificação de sentimentos, o esclarecimento sobre a doença, o fortalecimento do
grupo familiar – reorganização do grupo, o levantamento de dados sobre a relação
familiar, o estar junto, o apoio incondicional (Chiattone, 2003, p. 95). Uma
possibilidade de trabalhar os sentimentos e emoções dos cuidadores advindos da
doença e da internação é o Grupo Terapêutico (GT) descrito por Britto (2010), o qual
é um espaço para expor anseios, queixas, angústias, reinvindicações e aflições.
Quando necessário, também é disponibilizado atendimento psicológico individual, de
casal e familiar.
Quanto ao trabalho com os profissionais de saúde, devido o foco do trabalho
do psicólogo hospitalar ser o paciente e seu acompanhante, as intervenções são
pautadas para esse fim (Romano, 1999, citado por Nigro, 2004). Para tanto, “a equipe
de saúde deve atuar procurando fazer com que a hospitalização e a situação de
doença sejam bem compreendidas pela criança e por sua família. Devem-se evitar,
também, situações difíceis e traumáticas durante este período” (Chiattone, 2003).
O objetivo do atendimento da equipe de saúde deve seguir sempre o princípio
de minimizar o sofrimento da criança hospitalizada, promovendo-lhe saúde e
principalmente fazendo dessa criança um elemento ativo dentro do processo de
hospitalização e doença, valorizando a relação de influxos satisfatórios entre mãe e
filho e compreendendo os riscos e sequelas da separação desse binômio, buscando
atingir o desempenho de uma pediatria global (Chiattone, 2003, p. 26).
Porém, assim como a equipe hospitalar espera da criança o comportamento
colaborativo, Lima (2004) aponta para a expectativa que existe com referência à
perfeição materna, sem considerar se a mãe está ou não em condições de prestar o
suporte necessário ao filho: “com frequência, há uma expectativa de que a mãe
permaneça constantemente como acompanhante, acate as orientações médicas e de
enfermagem, mostre-se “estável emocionalmente”, atuando de forma resignada como
corresponsável nos cuidados prestados à criança” (p. 83).
Procura-se “realizar em equipe um atendimento efetivo às mães e famílias de
todas as crianças internadas, para que elas, em troca, possam nos ajudar no
restabelecimento ou no alívio do sofrimento do paciente” (Chiattone, 2003, p. 96). Para

27
tanto, “é desejável que os psicólogos possam contribuir para a sensibilização dos
técnicos de saúde que trabalham com crianças e adolescentes para os aspectos
psicológicos envolvidos nas práticas profissionais” (Trindade & Teixeira, 1998, p. 157).

3.1 A Inserção da Psicologia no Contexto Hospitalar

Fonte:einstein.br

O trabalho da Psicologia no hospital tem como foco o paciente e objetiva


“minimizar seu sofrimento” frente o adoecimento e internação. De certa forma esse
também é o foco dos demais funcionários que trabalham no hospital. Porém, percebe-
se questões que desviam o foco dos profissionais no paciente para a preocupação
com a hierarquia e subordinação, além da constante busca pelo fortalecimento da
classe trabalhadora a que pertencem.
Ressalta-se que a problemática apontada é quanto à mudança de foco, e não o
quanto é inquestionável a necessidade de afirmar o trabalho de cada profissão no
contexto hospitalar. Para não deixar dúvidas, compreende-se que, assim como a
educação, a saúde e tudo o que lhe diz respeito não são tratadas no nosso país como
prioridade, a valer pelo reconhecimento salarial dos profissionais e pela precariedade
da infraestrutura do local de trabalho.
Outra observação é relativa às definições dos âmbitos de atuação de cada
profissão, pois alguns profissionais tomam a iniciativa de responder questões que
competem a outros profissionais responderem. Talvez isso ocorra por adotarem uma
postura de autoafirmação no trabalho ou mesmo por buscarem o sentimento de

28
pertencimento a esse ambiente. Independente do que seja, é preciso definir o que os
profissionais juntos fazem, juntos querem e o que cabe a cada um.
O psicólogo pode, ainda, realizar uma análise da dinâmica multiprofissional,
proporcionando, através dela, reflexões entre os membros, sobre os papeis de cada
um frente ao paciente, à família do paciente e aos demais colegas do grupo, e,
também, sobre o seu próprio papel como parte integrante da equipe, sempre no
sentido de um favorecimento da saúde de todos os envolvidos (Bruscato et al., 2004,
p. 39).
A prática do Modelo Biomédico é um fator que contribui e ainda persiste no
contexto hospitalar. Os que ainda atuam nesse modelo, focam suas práticas na
resolução do problema doença e desconsideram, ou mesmo desprezam, outras
questões de ordem social e psíquica, sem contar a espiritual.
Para melhor compreensão dessa análise, faz-se necessário descrever a
estrutura de funcionamento onde atuam os profissionais. Em geral, as unidades de
Pediatria do hospital são separadas por enfermarias, as quais estão localizadas em
corredores distintos. Cada enfermaria possui os critérios de patologia (grau de
comprometimento e natureza) e de procedimentos necessários para tratar os
pacientes e é composta por diversos profissionais.
Entretanto, a composição dos profissionais nas equipes varia de enfermaria
para enfermaria. Enquanto médicos (staff, residentes e internos), enfermeiro e técnico
de enfermagem estão sempre presentes nas equipes, os demais componentes variam
de acordo com a disponibilidade do profissional da área no hospital, sendo eles:
psicólogo, terapeuta ocupacional, assistente social, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e
nutricionista. Entendo que essa variação da composição da equipe contribui com a
forma como ocorrem as visitas médicas, pois enquanto em algumas enfermarias pelo
menos um profissional das várias áreas de saúde está presente para participar das
discussões dos casos, em outras apenas o médico e seus alunos (residentes e
internos) discutem os casos.
Percebe-se, por essas descrições, que se o trabalho interdisciplinar da equipe
multiprofissional ainda não é realidade em todas enfermarias pediátricas, como exigir
que seja transdisciplinar? Acreditamos que o número insuficiente de profissionais para
o número elevado de demanda para trabalhar seja um fator que contribui com essa
prática. Corroborando com essa prática, os profissionais de Psicologia respondem
administrativamente pelo seu trabalho a um setor de saúde mental, e não diretamente

29
ao chefe de cada enfermaria. Esse fato, apesar de fortalecer o trabalho da saúde
mental a partir de planejamento, promoção e execução de intervenções, contribui para
a perda significativa do espaço da Psicologia na equipe multiprofissional e de sua
participação nas decisões tomadas quanto aos tratamentos oferecidos aos pacientes
e seus acompanhantes, ou seja, deixa de ser um trabalho interdisciplinar.
Apesar disso, alguns profissionais de saúde reconhecem a necessidade da
atuação da Psicologia e de sua participação nas discussões dos casos. Todavia, ainda
permanece, em seus discursos, a incompreensão quanto às diferenças existentes
entre os protocolos da Psicologia e os existentes nas demais categorias de
profissionais de saúde. Por mais avançadas que sejam as pesquisas, entende-se que
cada caso é um caso, pois falamos de pessoas que são únicas e que lidam de forma
diferente com a mesma situação, nessa circunstância o mesmo diagnóstico. Por isso,
faz-se mais do que necessário resgatar o sujeito por trás da doença para torná-lo
elemento ativo no processo de adoecimento e hospitalização.
Outra observação da prática hospitalar é a demanda elevada de pareceres
psicológicos e psiquiátricos. Porém, sabe-se que as respostas aos pareceres, que são
colocadas no sistema unificado de informações de saúde do hospital, nem sempre
são utilizados pelos demais membros da equipe, por mais que seja um sistema de
livre acesso também a esses profissionais. Pergunta-se: para que servem as
evoluções dos atendimentos?
Thainá H Moreira afirma aqui, em seu estudo, que o início do reconhecimento
das questões psíquicas no tratamento do corpo físico seja a solicitação de parecer
para a Psicologia. Contudo, o que a prática evidencia é que as evoluções dos
atendimentos da Psicologia são utilizadas apenas pelos profissionais dessa área. Em
se tratando de um atendimento que acontece em rede, como é o SUS, considero
indiscutível a relevância das evoluções desses atendimentos. Porém, como o trabalho
do psicólogo acontece em uma equipe que é multidisciplinar e que visa o atendimento
interdisciplinar, não faz sentido os demais profissionais apenas solicitarem parecer, e
não considerarem a resposta ao parecer para as tomadas de decisões dos casos
atendidos.
O número elevado de parecer, no meu entendimento, deflagra a má gestão da
atenção básica de saúde, que sobrecarrega a atenção hospitalar e ambulatorial. Para
o psicólogo, especificamente, o desafio torna-se a “articulação entre o atendimento às
demandas da equipe e a preservação da atenção às necessidades do paciente”

30
(Bruscato et al., 2004, p. 39). Contudo, percebe-se que, diante desse desafio e
considerando o número reduzido de profissionais de Psicologia, os psicólogos
acabam sobrecarregados e adoecendo.
Diante desse contexto, a Psicologia tenta se estruturar e se firmar como campo
de atuação no hospital a partir do acolhimento à díade paciente-acompanhante. Para
tanto, busca, através do estabelecimento de vínculo e de uma escuta ativa
qualificada,:
• Analisar a compreensão do diagnóstico e do tratamento por parte do paciente
e seu acompanhante;
• Identificar as estratégias de enfrentamento utilizadas por eles;
• Avaliar a rede de apoio social e as reações emocionais de cada um;
• Intervir após a conclusão da avaliação psicológica, a fim de realizar
aconselhamento psicológico e orientação familiar, com o objetivo de alcançar o bem-
estar emocional do paciente e de seu acompanhante.

3.2 - Cuidar do Cuidador: A Contribuição da Psicologia na Humanização do


Atendimento da Equipe de Saúde à Díade Paciente-Acompanhante

Fonte:i2.wp.com

Mesmo diante de todas as possibilidades de trabalho, boa parte do tempo, as


demandas realizadas aos profissionais de Psicologia concentram-se em “apagar

31
incêndio” e/ou “traduzir o que foi dito”. Essas expressões, geralmente indicadas,
respectivamente, pelos termos “bombeiro” e “tradutor”, são utilizadas pelos servidores
do hospital de maneira geral, até mesmo pelos próprios psicólogos, o que é, no
mínimo, inaceitável, pois esses termos desqualificam nossa atuação.
Para compreender um pouco mais sobre essa demanda, explicaremos melhor
o que querem dizer as expressões acima citadas. O termo “bombeiro” é utilizado para
mencionar o ato de “apagar incêndio” provocado por um paciente ou acompanhante
“descompensado” emocionalmente, que apresenta um ou mais dos seguintes
sintomas: choro constante, irritabilidade, agressividade e outros.
Nessa turbulência de sentimentos, percebemos a dificuldade que os
profissionais encontram de lidar com a dor do outro. Porém, parece existir um tabu
que impede as pessoas de assumirem essa dificuldade, quando, na verdade, essa
comoção pode ser utilizada como uma ferramenta para a alteridade, entendida como
a capacidade de enxergar o outro no sentido de que ele me afeta, assim como eu o
afeto.
A dificuldade dos profissionais perpassa também pela necessidade que
encontram de enquadrar o paciente e seu acompanhante numa determinada lógica
ou papel social esperado, ou seja, nos ideais culturais de criança comportada, mãe
imaculada e pai presente fisicamente (sim, porque o discurso é marcado por questões
de gênero tanto da família quanto da equipe). E isso desconsidera que estamos
lidando com pessoas com singularidades em suas histórias de vida, como por
exemplo o baixo grau de escolaridade e/ou o contexto sociocultural em grande parte
violento e machista. Diante dessa postura, os profissionais parecem esquecer-se da
ética que juraram seguir, misturando-se com discursos meramente leigos e com
posicionamentos preconceituosos, os quais podem chegar a limitar e prejudicar
aquele que deveria ser assistido, causando-lhe sofrimento psicológico.
(...) na equipe, o psicólogo tem ainda a função de redirecionar o olhar dos
demais profissionais para a individualidade de cada paciente e para os aspectos
subjetivos envolvidos no adoecer, ou seja, favorecer o reconhecimento dos aspectos
psicológicos presentes na doença ou na relação com a equipe de saúde, colaborando,
assim, para a humanização do atendimento (Bruscato et al., 2004, p. 39).
O termo “tradutor” é utilizado pelos servidores para designar a função de
traduzir o que a equipe informou ao usuário, no caso, crianças, adolescentes e seus
acompanhantes, quanto ao diagnóstico e ao tratamento. Entendo que essa função

32
seja empoderar o usuário quanto ao processo de doença e hospitalização, tornando-
o elemento ativo e protagonista da saúde. Na Psicologia, parte-se do princípio de que
para cada pessoa será diferente e analisa-se os diversos fatores que podem
influenciar a compreensão ou não do que foi informado ao usuário, sejam eles de
ordem biológica, socioculturais ou psíquicas. Porém, independente da análise, o
psicólogo procura deixar o registro da fala do que precisa ser dito, fazendo um paralelo
entre os termos médicos e termos que são compreendidos pelos usuários do hospital.
Mas por que existe essa necessidade de traduzir? Será por ausência de
conteúdos na formação acadêmica dos profissionais que os permitam compreender a
importância da legitimação dos sentimentos do outro? Isso não seria resolvido a partir
da capacitação continuada? Acredito que em parte sim, pois possibilitaria que eles
conhecessem os fatores do adoecimento e da hospitalização, como procedimentos
invasivos e o ambiente estressante, que desencadeiam consequências emocionais
nocivas ao paciente e seu acompanhante, que podem aparecer a curto, médio ou
longo prazo. Outro conhecimento necessário seria quanto os diferentes perfis de
pessoas com o objetivo de trabalhar a colaboração da díade paciente-acompanhante
com a internação, compreendendo e respeitando a singularidade de cada um. Em se
tratando de internação pediátrica, faz-se necessário ganhar a confiança da criança
sendo preciso estipular a máxima “fale a verdade, jamais minta para uma criança”.
Diante desses conhecimentos, seria possível trabalhar com prevenção no
contexto hospitalar, como, por exemplo, a preparação da equipe para ambientar a
díade paciente- acompanhante à estrutura da enfermaria onde estão internados e de
sua rotina, desde os horários das visitas médicas até os procedimentos necessários
ao tratamento, como punção venosa, raio X, entre outros. Talvez conseguiríamos, ao
final dessa capacitação, um atendimento mais humanizado, o qual está previsto na
Política Nacional de Humanização (PNH). Nessa política, o atendimento humanizado
visa responsabilizar os profissionais pelo atendimento ético prestado aos usuários e o
estabelecimento de vínculo solidário, o qual é necessário para uma prática mais
acolhedora e mais resolutiva (Ministério da Saúde, 2010).
A ineficiência dessa preparação também é preocupante, porque repetem-se
inúmeras vezes os questionamentos quanto ao motivo da internação e a imposição
das regras institucionais aos usuários, o que colabora para revitimizá-los. Nesses
pontos levantados, questiona-se a forma como são realizadas as entrevistas

33
(anamneses), que mais parecem interrogatórios, e a orientação quanto à rotina
hospitalar, a qual acontece repetidas vezes ou simplesmente não acontece.
Entendo que é preciso incluir na graduação dos profissionais da área da saúde
matérias que abordem a importância do vínculo cuidador-paciente. Nelas, um dos
conteúdos desenvolvidos seria a legitimação dos sentimentos e emoções do outro,
ensinando-os a deixarem de lado jargões médicos e a falar de igual para igual. Essas
posturas são importantes para estabelecer sentimentos mútuos, como respeito e
confiança, os quais contribuem não apenas com o tratamento, mas também para um
clima organizacional favorável ao usuário e à equipe de saúde.
Contudo, enquanto isso não acontece, uma estratégia importante seria investir
no comprometimento dos funcionários com seu trabalho, a partir de questões morais
e éticas de uma postura profissional e não leiga. Acredito que isso responsabilizaria
os servidores pelo funcionamento adequado do SUS, pois eles são parte da
engrenagem desse sistema e, se faltam com sua ética e compromisso com o cuidado
do outro, acabam “emperrando” esse sistema.
Essa questão levanta fatores relacionados à Psicologia Organizacional, como
motivação para trabalhar, clima organizacional, saúde do trabalhador, entre outros.
Esses fatores poderiam ser desenvolvidos no macro objetivo do Programa Humaniza
SUS de valorização do trabalho na saúde. Esse investimento contribuiria, de alguma
forma, para minimizar os desgastes ocasionados pela natureza do trabalho no
contexto hospitalar, como estresse, depressão e ansiedade, os quais colaboram com
o adoecimento dos profissionais e, consequentemente, com o aumento de
afastamentos do trabalho por motivo de doença.
O adoecimento dos profissionais é evidente e chega a ser ameaçador, pois
ocorrem, recorrentemente, falhas graves de comunicação entre os membros da
equipe quanto a reprogramação da medicação ou quando rediscutida, a pedido de
outra área da saúde, como a Psicologia, a alta médica de um paciente, e, mesmo
assim, não ser considerada. Percebe-se, enfim, que não há um suporte aos
trabalhadores no que confere sua saúde mental. Exige-se deles atendimento
humanizado, sem prestar-lhes qualquer assistência e condições de trabalho
adequadas, além da remuneração corresponder à falta de reconhecimento da saúde
na política brasileira.
Existe, enfim, a necessidade de trabalhar um projeto que vise o cuidado com o
cuidador, entendendo que eles estão na “linha de frente” dos atendimentos prestados

34
às crianças, adolescentes e seus acompanhantes. Portanto, ao cuidar do cuidador,
podemos minimizar os efeitos nocivos que acarretam a relação interpessoal (paciente-
equipe-acompanhante), que é rotineira.

3.3 Cuidar do Acompanhante: A Importância de sua Participação no Cuidado


do Paciente e a Parceria com a Equipe de Saúde

Fonte:ak2.picdn.net

O direito à acompanhante conquistado pela criança existe e pareceu-me ser


inquestionável nesse contexto hospitalar. Todavia, existe uma incompreensão de
alguns profissionais quanto à importância do acolhimento aos acompanhantes e
participação deles nas decisões tomadas quanto ao tratamento da criança ou
adolescente hospitalizado.
Acredito que, ao trabalhar essas questões, possibilitaria firmar a parceria entre
a equipe médica e o acompanhante (evitando a transferência de cuidados entre as
partes), o que contribuiria com a adesão ao tratamento médico e com a redução de
re-internações, uma vez que as informações e orientações podem ser melhores
trabalhadas e compreendidas pelos acompanhantes quando eles possuem maior
confiança e abertura com a equipe.
O psicólogo, ao integrar a equipe de saúde, deve favorecer o funcionamento
grupal, facilitando, quando necessário, a comunicação interna. Com isso, estará

35
criando possibilidades de vínculos na interação entre os membros do grupo e na
relação do paciente e familiares com a equipe, como um todo (Bruscato et al., 2004).
Além disso, apesar de considerar de suma importância dar voz aos próprios
pacientes (crianças e adolescentes) internados, percebo que eles se mobilizam muito
quando seus entes queridos estão sofrendo. Por isso, faz sentido intervir também com
seus acompanhantes para fortalece-los nos cuidados durante a internação e após alta
médica. Na citação a seguir, por mais que esteja direcionada à primeira infância, faz
todo o sentindo pensar como uma prática que deveria acontecer durante todas as
fases do desenvolvimento humano. (...) o primeiro desafio que nos deparamos, na
primeira infância, é o encontro com os pais, que são os primeiros e maiores
promotores de saúde mental. Pouco pensamos nisso em nossas cartilhas, mas a
saúde de cada bebê que nasce depende das qualidades destes seus primeiros (e,
ainda que indiretamente, eternos) cuidadores (Ministério da Saúde, 2012a, p. 231).
Na hospitalização, o acompanhante (em sua maioria os pais das crianças e
adolescentes) precisa conhecer e reconhecer seu papel cuidador. Esse papel pode
ser proporcionado por um ambiente de atenção, carinho, tranquilidade e amor, ou
seja, cabe a eles transmitir e trocar sentimentos que, apesar de não serem
mensuráveis, são reconhecidos como importantes no tratamento físico.
Informar ao acompanhante o seu papel nos cuidados com seu ente querido e
legitimar seus sentimentos são modos de cuidar dele. Além de prestar continência
emocional e orientação familiar diariamente nas enfermarias pediátricas do hospital,
o psicólogo pode trabalhar com Grupos de Convivência (Grupos de Pais e Oficinas de
Artesanato, por exemplo) com o objetivo de reduzir os sofrimentos psíquicos oriundos
do adoecimento e hospitalização. Essa estratégia é extremamente útil e necessária,
uma vez que, além de minimizar em parte a elevada demanda por atendimento,
trabalhar com grupo tem grandes vantagens terapêuticas, pois a continência
emocional e orientação familiar servirão de alguma forma para todos os membros que
compõem o grupo.
Devido ao elevado índice de demanda e pela necessidade de se trabalhar com
prevenção, entendo que se faz necessário implementar uma Escola de Pais para
preparar mulheres e homens para exercerem a função de mãe e pai, respectivamente.
Mas isso seria melhor implementado na atenção básica.

36
3.4 O Desenvolvimento Infantil e o Espaço para Brincar no Cenário da
Hospitalização Infantil

Fonte:3.bp.blogspot.com

Sabe-se que para promover o desenvolvimento infantil é preciso considerar a


brincadeira como um instrumento valioso, pois ela contribui para o desenvolvimento
cognitivo (memória, atenção e percepção, por exemplo), sensorial (audição, paladar,
olfato, tato e visão) e sócio afetivo. Na promoção de saúde na infância, considera-se
a hipótese de que as práticas de brincar, imaginar e contar são necessárias (Ministério
da Saúde, 2012a).
No contexto hospitalar, a importância da brincadeira como estratégia de
intervenção do psicólogo é indiscutível. Em revisão bibliográfica, Oliveira (2012, pp. 2-
4) aponta que:
No caso de crianças, a criação de estratégias como forma de atenuar o
processo de hospitalização decorrente do estresse e ansiedade devido à doença,
além do sofrimento físico, procedimentos médicos e rotina hospitalar desgastante,
torna-se de fundamental relevância. Dessa forma, o brincar no hospital surge como
um poderoso recurso que possibilita à criança o resgate da sua vida antes do processo
de hospitalização e, segundo Silva (2006), favorece a sociabilidade, interação e
dinamismo mesmo com a restrição do espaço físico e das limitações provenientes do
adoecimento.

37
Guerrelhas, Buenos e Silvares (2000, citado por Reis, 2008) apontam a
brincadeira como uma possibilidade que a criança encontra de aprender maneiras de
se comportar diante de novos estímulos presentes no ambiente, tomando consciência
de si e do local em que se encontra. É importante também salientar as contribuições
da brincadeira para o desenvolvimento infantil, que pode encontrar-se fragilizado em
decorrência da doença e os benefícios que o brincar pode proporcionar ao infante, já
que se encontra num ambiente restrito, limitado, cheio de regras e que impossibilita a
criança de atuar da mesma forma que antes da doença.
A brincadeira no contexto hospitalar é então um instrumento de intervenção
utilizado como forma da criança construir estratégias de enfrentamento em relação à
doença, hospitalização, comunicação e resolução de conflitos. Através do brincar, a
criança pode se expressar melhor, assim como demonstrar os seus sentimentos e
resgatar a si mesma (Fortuna, 2007). A brincadeira também é utilizada como
instrumento para intervenção por diversos profissionais da área hospitalar, mas nem
sempre o material necessário é suficiente e às vezes se quer é disponibilizado. Por
esse motivo, os materiais (como brinquedo, papel e outros) são arrecadados ou em
doações, ou levados pelos próprios servidores. Dessa forma, a utilização desses
recursos lúdicos torna-se limitada, porque não se sabe quando serão repostos.
Compreendendo a importância da brincadeira, a Lei nº 11.104 de 21 de março
de 2005 foi aprovada pelo Congresso Nacional. Essa lei torna obrigatória a instalação
de brinquedotecas nas unidades de saúde que ofereçam atendimento pediátrico em
regime de internação. O Art. 2° dessa lei entende que brinquedoteca é “o espaço
provido de brinquedos e jogos educativos, destinado a estimular as crianças e seus
acompanhantes a brincar”.
Para regulamentar essa lei, a Portaria nº 2.261/GM de 23 novembro de 2005
(2005) aprovou as diretrizes de instalação e funcionamento dessas brinquedotecas
propostas em regulamento específico, porém nem todos os hospitais com internação
pediátrica atendem às recomendações necessárias. Alguns desses hospitais
possuem ambientes para brincar, mas que são inadequados sobretudo no espaço
exigido (dimensionamento de 1,2m2 por paciente); enquanto outros, dividem o espaço
com a classe escolar, a qual também é exigida por lei.
A ausência de brinquedotecas ou o não cumprimento das exigências para seu
funcionamento adequado, como espaço físico e estrutura, prejudicam a excelência no
atendimento às crianças, pois torna-se inviável trabalhar com cada uma delas durante

38
o período de internação. Dessa forma, por mais que os profissionais de saúde prestem
um atendimento mais humanizado, com o objetivo de tornar o ambiente hospitalar
menos hostil para a criança, o espaço lúdico da brinquedoteca potencializa na criança
sua capacidade de elaborar e expressar a experiência de adoecimento e
hospitalização.

4 O PSICÓLOGO E O CÂNCER INFANTIL

Fonte:vivamelhoronline.files.wordpress.com

O câncer é uma doença genética caracterizada pela divisão e proliferação


desordenada de células que sofreram mutação em seu material genético. Ele ocorre
em qualquer parte do organismo e é o acúmulo das células dá origem aos tumores.
Os tumores são caracterizados pelo agrupamento de células anormais, que uma vez
formadas serão destruídas pelo organismo, permanecerão como tumores benignos
ou se transformarão em tumores malignos. Tudo dependerá do sistema imunológico
do indivíduo, que será influenciado por diversos fatores de risco. (Associação
Brasileira do Câncer [ABC], 2007)
O tumor costuma atingir tecidos ou órgãos próximos à sua localização, mas
caso ele não seja detectado e tratado precocemente, pode causar metástase, que é
39
a formação de novos tumores a partir do primeiro e que atingem tecidos e/ou órgãos
de áreas mais distantes da lesão inicial. Eles podem ser classificados em benignos ou
malignos. O que diferencia as duas classificações é que ao contrário da primeira a
segunda oferece risco de vida ao paciente devido ao seu caráter invasivo. Esta
classificação só é possível a partir da realização de uma biópsia.
O câncer é a principal doença causadora de morte em crianças com menos de
15 anos de idade. O que diferencia a manifestação do câncer infantil do adulto é que
o primeiro geralmente afeta o sistema sanguíneo e os tecidos de sustentação, já o
segundo afeta as células do epitélio que recobre diferentes órgãos do corpo humano.
No caso do câncer infantil, ainda não são claros os fatores de risco que podem
desencadear ou ativar a doença, ao contrária dos cânceres dos adultos, que além do
fator hereditário, também é influenciado por fatores ambientais, hábitos alimentares,
estilo de vida e aspectos emocionais. Sendo assim, como a prevenção ainda não é
possível, o diagnóstico precoce do câncer infantil torna-se ainda mais importante.
Os tipos mais comuns de neoplasias infantis são as leucemias, os tumores do
sistema nervoso central e os linfomas. As leucemias caracterizam-se pelo acúmulo de
células imaturas anormais na medula óssea, sobrepondo-se ao número de células
normais, que prejudicam a produção das células sanguíneas, já que, é na medula
óssea que são produzidas as células que compõem o sangue. São elas: os eritrócitos
(glóbulos vermelhos), que abastecem os tecidos com oxigênio retirado dos pulmões;
os leucócitos (glóbulos brancos), que produzem anticorpos que protegem o organismo
de infecções; e as plaquetas, que auxiliam a coagulação sanguínea. A leucemia é
classificada como linfóide ou mielóide dependendo do tipo de célula sanguínea que
tem sua produção reduzida ou impedida. (ABC, 2007; INCA, 2007)
Os tumores do sistema nervoso central são responsáveis por 20% das
neoplasias malignas infantis. Estes tipos de tumores podem localizar-se por toda a
área que compreende o SNC e sua localização vai determinar o ritmo de evolução da
doença, os sintomas e o prognóstico. Geralmente os tumores do SNC não extrapolam
a cavidade craniana, impedindo a ocorrência de metástases. Devido à localização
sensível, dependendo da área onde se encontra o tumor, não é possível a realização
da cirurgia para a retirada do mesmo ou caso esta ocorra, é comum o risco de
sequelas. Os sintomas mais frequentes são: dor de cabeça, vômito, náuseas,
convulsão, paralisia de nervos e alterações da fala, marcha, equilíbrio e coordenação.
(ABC, 2007; INCA, 2007; Núcleo de Apoio à Criança com Câncer [NACC], 2007)

40
Os linfomas têm origem nos linfonodos. Estes localizam-se no sistema linfático,
que é responsável pela produção de células responsáveis pela imunidade. Os
linfonodos podem ser encontrados em todas as partes do corpo e produzem os
linfócitos, que são células com funções importantes no combate a infecções. A
transformação destas células de normais para anormais seguidas de crescimento e
disseminação descontrolada (que pode causar metástase) é o que caracteriza os
linfomas. Este tipo de câncer é classificado em linfoma de Hodgkin e linfoma não-
Hodgkin. O primeiro pode ocorrer em qualquer parte do corpo e seu diferencial está
na presença de células denominadas Reed-Sternberg no tecido do paciente. Já o
segundo só ocorre no pescoço, nas axilas e na virilha. (ABC, 2007; INCA, 2007)
Além disso, também são típicos nas crianças o tumor de gânglios simpáticos
(neuroblastoma), o tumor renal (tumor de Wilims), o tumor da retina do olho
(retinoblastoma), o tumor germinativo, o tumor ósseo (osteossarcoma) e os tumores
de partes moles (sarcomas). (INCA, 2007)
Os sintomas do câncer infantil podem ser facilmente confundidos com outros
de doenças comuns na infância, o que pode retardar a procura de um pediatra e
consequentemente a detecção precoce da doença, tornando-se assim, fundamental
a atenção dos pais a qualquer um dos sintomas e no caso do surgimento de algum
deles, a procura de um especialista para que o mesmo possa fazer o diagnóstico
correto. (NACC, 2007)

4.1 Diagnóstico

O diagnóstico do câncer infantil deve ser feito precocemente, a fim de impedir


que a doença se agrave e com isso o prognóstico seja ruim. Ao contrário dos adultos,
não existem exames preventivos que, feitos rotineiramente, detectem a manifestação
do câncer. Daí a importância da avaliação periódica de um pediatra durante toda a
infância.
São muitos os procedimentos utilizados na detecção dos cânceres. Entre os
mais comuns e conhecidos estão: biópsia, punção, ultrassonografia, tomografia
computadorizada, ressonância magnética, hemograma, mielograma (exame da
medula óssea), entre outros.

41
4.2 Tratamento.

As tecnologias de detecção e tratamento do câncer infantil evoluíram muito


nas últimas décadas, com exceção da prevenção, ao contrário dos adultos, já que
nestes, já se sabe que a doença está associada a fatores ambientais. Além disso, o
diagnóstico precoce muitas vezes não ocorre pois, em geral, como já foi dito, os
sintomas são muito semelhantes aos de outras doenças comuns na infância. (INCA,
2007)
As condutas terapêuticas utilizadas no tratamento do câncer costumam ser a
cirurgia, a quimioterapia, a radioterapia e o transplante de medula óssea no caso das
leucemias
Geralmente estas terapêuticas são utilizadas de forma associada e a escolha
por cada uma delas, bem como a frequência e o tempo de utilização, dependerá de
fatores como o tipo de câncer, a localização do tumor, o estágio de evolução da
doença, o perfil do paciente, entre outros.

4.3 Prognóstico

O que determinará se o prognóstico da criança com câncer será bom ou ruim


será a combinação de diversos fatores, como o tipo de câncer, a classificação
(benigno ou maligno) e o estágio em que ele se encontra, sendo que o que
determinará estes fatores será a precocidade do diagnóstico. Por este motivo ressalta-
se a importância de uma detecção precoce para um melhor prognóstico.

4.4 A Criança com Câncer

Aspectos Emocionais: Ao abordar a infância, é indispensável que haja uma


delimitação deste período a fim de que se possa melhor compreender e relativizar as
informações oferecidas.
O presente trabalho considera infância o período compreendido desde o
nascimento até os 12 anos de idade como é determinado pelo Estatuto da Criança e
do Adolescente (ECA), sendo que todas as descrições que serão feitas a seguir a
respeito da criança com câncer, não irão se referir a idades específicas e sim à criança

42
de uma forma geral, partindo do princípio de que sempre haverá variações
quantitativas e qualitativas dependendo da idade da criança.

Fonte: minutobiomedicina.com.br

A infância é um período crucial na vida de qualquer sujeito. É na infância, a


partir das vivências das relações familiares e sociais como um todo, que o indivíduo
constrói sua relação com o próprio corpo, com o mundo externo, e a partir daí adquire
uma estrutura de personalidade que vai ser a base para todas as suas experiências
futuras.
A doença é um evento inesperado e indesejável, e o câncer, dependendo do
tipo e da precocidade do diagnóstico, pode causar sequelas físicas e psíquicas que
serão marcantes para a criança. Além disso, ela tem sua rotina completamente
alterada e todos os hábitos comuns próprios da infância tornam-se algo distante para
ela devido às limitações que a doença e o tratamento impõem.
A reação da criança em relação ao diagnóstico dependerá da reação de seus
pais. A respeito disso, Dávila (2006) afirma que quando uma criança é diagnosticada
com câncer, são os pais os primeiros a necessitarem de ajuda, pois visto que a criança
desconhece a doença, são eles quem vão transmitir ao filho todos os sentimentos
provocados pela descoberta do diagnóstico, e quando a família está bem orientada,
os efeitos da doença são menos prejudiciais, pois os pais saberão manejar a situação
da melhor maneira possível para que ela não seja tão sofrida para a criança. Para o
autor, a criança somente se depara realmente com a doença, no momento em que ela

43
começa a sofrer os efeitos do tratamento, pois ela passa a ter sua vida limitada, não
podendo realizar as atividades que costumava anteriormente.
Ainda que a criança não tenha sido informada do diagnóstico ela também
reagirá, não ao diagnóstico, mas a uma situação, um clima que se instalará no
ambiente familiar, já que os pais sabem da existência da doença e seu comportamento
falará de alguma forma que algo está errado. Romano (1999, p.32) diz que “(...) a
ignorância sobre a verdadeira condição é que alimenta a fantasia dos doentes,
mobilizando sentimentos irracionais, e até desproporcionais de medo. O conhecer os
dissipa (se não, atenua), reforçando sentimentos de cooperação, confiança e
esperança”. Sendo assim, não revelar o que está acontecendo à criança, não impede
que esta sofra e pode até ser pior, pois ao saber que algo não vai bem e ao mesmo
tempo não saber o que se passa, faz com que a criança imagine e fantasie inúmeras
situações, que podem até mesmo ser piores que a situação real.
Após o impacto do diagnóstico, a criança deve lidar com a incerteza em relação
ao futuro. A sensação de perda de controle também é outra questão com a qual a
criança terá que lidar tendo em vista que ela passará a depender dos outros para
muitas tarefas que antes realizava sozinha, perderá sua privacidade, terá que se
submeter a normas e tratamentos impostos pela equipe cuidadora, terá suas
atividades limitadas e a superproteção de seus pais (Pedreira & Palanca, 2007).
Segundo Greer (citado por Pedreira & Palanca, 2007), os sintomas físicos
resultantes da doença e do tratamento representam uma ameaça à autoimagem da
criança e à imagem que os outros tem dela, gerando reações emocionais como
ansiedade, raiva, culpa ou depressão. Além disso, no que diz respeito aos aspectos
comportamentais, a criança poderá isolar-se, ter seu rendimento acadêmico
prejudicado ou não desejar mais frequentar a escola. Sentimentos negativos de
aislamiento, rabia, culpa, vergüenza, soledad, apatía y confusión se observan com
frecuencia y están en relación com el miedo de la muerte, a la recurrencia de la
enfermedad o a los procedimientos médicos”. (Pedreira & Palanca, 2007, p.8)
Segundo Silva, Teles e Valle (2005), estudos voltados à compreensão das
experiências das crianças diante do câncer, revelaram que em diferentes contextos e
momentos do tratamento, as temáticas abordadas pelas crianças diziam sempre
respeito aos mesmos assuntos. São eles: a identidade (o mundo, o próprio corpo); a
doença e o tratamento (o diagnóstico, a história do tratamento, os procedimentos, as
consequências, a equipe), a vida (o mundo, relações, histórias e situações vividas

44
e/ou imaginadas, a família, a escola) e a morte (expectativa diante de perdas). São
temas que permeiam todo o período do desenvolvimento infantil e que com a presença
da doença tornam-se mais vivos, mais presentes e por isso exigem uma maior
elaboração.
Pedreira & Palanca (2007) descrevem as particularidades dos momentos
referentes ao tratamento da criança com câncer e todas as alterações psicossociais
que estes eventos podem provocar. São eles:

- Hospitalizações: provocam o distanciamento da criança tanto do ambiente


familiar quanto da escola, este último resultando em repercussões negativas no
rendimento acadêmico e na socialização.
- Procedimentos médicos: devido ao caráter invasivo e doloroso, são
causadores de muito estresse e de sentimentos de impotência da criança frente ao
que vem de fora. Podem provocar quadros psiquiátricos como, por exemplo, fobias.
Além disso é importante que a criança tenha a capacidade de distinguir os “pais bons”
que cuidam dos “pais maus” que a obrigam a submeter-se aos procedimentos. Ao
permitir que isto seja realizado os pais convertem-se em “carrascos” e temem perder
o amor de seus filhos. Outro aspecto importante concernente aos procedimentos
médicos é a correlação existente entre a ansiedade dos pais e a dos filhos, o que quer
dizer que o nível de ansiedade dos pais irá refletir na conduta da criança diante da
doença e do tratamento.
- Efeitos colaterais: são diversos os efeitos colaterais provocados pelo
tratamento do câncer. Náuseas, vômitos, queda de cabelo, úlceras bucais, ganho de
peso, amputação, esterilidade, danos cerebrais e atraso no crescimento são alguns
desses efeitos. Mas os que são considerados como fator de risco para a apresentação
de doenças psiquiátricas são aqueles que causam comprometimento
neuropsicológico, podendo acarretar distúrbios referentes à visão, memória, atenção,
cognição etc.
- Acompanhamento a longo prazo: refere-se às consultas médicas que devem
ser mantidas, apesar da remissão da doença. No caso do câncer a remissão nunca é
encarada como cura pois sempre há a incerteza da sobrevivência devido ao temor da
recaída ou aparecimento de outros tumores, o que é gerador de extremo estresse
mesmo com a ausência da doença, mas devido à sombra desta que costuma
permanecer.

45
A hospitalização: Sem dúvida, todo o processo que envolve o tratamento do
câncer infantil é extremamente desagradável e causador de muito sofrimento para a
criança, mas é fato que a hospitalização é uma situação que merece mais atenção
pois além de submeter-se aos procedimentos tão incômodos, comuns deste processo,
a criança se vê afastada de sua família, de seus amigos, de seu ambiente habitual.
De acordo com Steinmuller (1999), apesar da forte tendência e já notada mudança,
os hospitais costumavam oferecer um ambiente hospitalar igual ao dos adultos para
as crianças internadas, sem pensar na angústia e no sofrimento gerados por esta
situação, e que para uma criança pode ter consequências muito mais sérias e
traumáticas. A própria doença e as constantes internações podem provocar um
impacto psicológico muito grande e negativo a ponto de a criança ter seu
desenvolvimento emocional comprometido e criar uma atitude negativa em relação
aos serviços de saúde.
Apesar de todos os esforços na humanização do ambiente hospitalar e do
próprio atendimento ao paciente hospitalizado, não há como a criança deixar de
experienciar situações e sensações que são intrínsecas à hospitalização.
A presença da mãe ou de um familiar acompanhando a criança durante a
hospitalização é uma questão importante e causadora de inúmeras divergências e
resistências entre os profissionais de saúde, pois muitos ainda têm uma visão muito
bioligicista da doença e não consideram o impacto emocional que a doença e a
internação produzem, o que faz com que também desconsiderem a importância da
presença de um familiar durante a hospitalização da criança.
Chiattone (op.cit) cita a privação materna como a pior experiência que a criança
pode passar durante uma internação hospitalar, principalmente quando não recebe o
cuidado e o carinho adequados dos membros da equipe a fim de minimizar a ausência
da figura materna. A autora destaca que todas as experiências serão influenciadas
pela idade da criança, a situação psicoafetiva da mesma no momento da internação,
seu relacionamento prévio com a mãe, sua personalidade, sua capacidade de
adaptação a situações difíceis, às atitudes da equipe hospitalar, às experiências
vividas durante a hospitalização, à duração da mesma, o tipo de internação e a
natureza da doença.

46
4.5 A Família da Criança Portadora de Câncer

Quando uma criança é diagnosticada com câncer, a notícia e todas as


consequências do diagnóstico afetarão principalmente a criança, mas também os pais
(ou aqueles que cuidam dela), já que são eles os responsáveis por seus filhos.
O câncer infantil, quando confirmado, não é exclusivo da criança, mas também de
seus pais, já que estes também terão suas vidas transformadas tanto na rotina
doméstica quanto nos aspectos financeiro, profissional, assim como na vida conjugal.
(Cavicchioli, 2005).
A forma como cada família irá reagir a esta situação irá variar e levará em conta
diversos fatores que incluem desde o contexto social até a estrutura egóica de cada
membro da família.
Segundo Gotflieb (citado por Tomaz, 1997), após confirmada a neoplasia de
seus filhos, os pais experimentam choque e desesperança. Além disso, questionam-
se do motivo pelo qual seus filhos são portadores de tal doença apesar de todo
cuidado que ofereceram a eles desde o nascimento, o que leva a uma auto-
culpabilização em relação à doença de seus filhos, ou uma atribuição aos médicos da
culpa pela demora do diagnóstico.
Após o choque do diagnóstico, como responsáveis por seus filhos, os pais
devem tomar importantes decisões em relação ao tratamento dos mesmos, que no
geral são longos, invasivos, com efeitos colaterais bastante desagradáveis, limitam
atividades cotidianas e em muitos casos provocam mutilações. Além disso, um câncer
infantil sempre é permeado pelo risco de morte, e em alguns casos leva a óbito. Diante
disso, diferentes reações são manifestadas. A questão é que diante da agressividade
provocada pela doença, o bem-estar da criança passa a ser responsabilidade dos
pais, já que apesar da equipe ser responsável pela realização dos procedimentos
referentes ao tratamento, são os pais quem decidem se eles serão realizados ou não.
Apesar de raro, alguns pais recusam o tratamento pelos mais diversos motivos.
“Eles podem negar a gravidade do diagnóstico, têm ansiedades confusas sobre o
efeito do tratamento em seu filho, ou consideram o tratamento incompatível com suas
crenças religiosas” (Tomaz, 1997, p.23). Por outro lado, muitos pais aceitam
aleatoriamente as opções de tratamento na tentativa desesperada de salvar a vida de
seus filhos.

47
Mudanças na dinâmica familiar: Visto que a família de uma criança com câncer
também é afetada pela doença, isso significa que a dinâmica familiar também sofre
mudanças que refletem a maneira como cada membro está lidando com a situação.
Além das questões emocionais, a rotina e os papéis desempenhados por cada
membro da família mudam muito, já que o tratamento do câncer geralmente exige
uma atenção integral ao doente principalmente durante as longas internações às quais
deve submeter-se e que exigem a presença constante de pelo menos um familiar (na
maioria das vezes a mãe). No geral, a mãe, que é culturalmente a responsável pela
casa e pelos filhos, abandona todas as suas atividades para se dedicar integralmente
ao filho doente enquanto o marido tem que trabalhar e ao chegar em casa dividir com
os filhos saudáveis ou fazer sozinho (no caso de não haver outros filhos) as atividades
antes delegadas à esposa. A configuração familiar muda e todos devem adaptar-se a
ela.
Segundo Ortiz (2003), a mãe da criança com câncer também está
psiquicamente vulnerável às experiências decorrentes da doença, já que é ela a
principal interlocutora e cuidadora nesta situação. Esta vulnerabilidade psíquica diz
respeito a todas as angústias resultantes de todo o processo que envolve a doença,
desde o diagnóstico até o fim do tratamento, além das crises familiares que ocorrem
como consequência de uma redefinição do papel da mãe dentro da família.
Após pesquisa bibliográfica, Silva, Teles & Valle (2005, p.258) concluíram que
“o câncer infantil é caracterizado como um impacto desestruturador na unidade
familiar”. A partir disso, é possível pensar que, em alguns casos, ainda que por um
lado, a palavra “desestruturar”, tenha conteúdo negativo, por outro, seus efeitos
também podem ser benéficos.
Segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1986), “desestruturar”
significa “desfazer a estrutura” (p.562). Sendo assim, uma vez desfeita uma estrutura,
esta nova realidade pode ser boa ou não, dependendo da forma como cada família
irá lidar com ela.
A relação matrimonial dos pais da criança geralmente sofre alguns abalos.
Toda a tensão provocada pela situação do filho, faz com que o casal esqueça de sua
vida conjugal e desloque toda a sua atenção e energia para os cuidados do filho
doente, o que pode resultar em sérios problemas no relacionamento do casal.
Irmãos de crianças com câncer também são membros da família que sofrem
muito com a presença da doença pois, principalmente na fase do tratamento, o foco

48
dos pais está todo no filho doente e isso traz diversos transtornos na relação destes
com o filho saudável e na rotina do mesmo:
Segundo Murray (citado por Cavicchioli, 2005, p.22), a atenção aos filhos
saudáveis é extremamente negligenciada e estes apresentam sentimentos como
“depressão, raiva, ansiedade, ciúmes, culpa e isolamento social”. Para Pedrosa e
Valle (citados por Cavicchioli, 2005) os irmãos saudáveis, por perceberem que o irmão
tem ganhos secundários com a doença, passam a manifestar queixas
psicossomáticas na tentativa de chamar a atenção da família.
A instabilidade emocional provocada pelo câncer infantil nos irmãos saudáveis,
além de afetar seu comportamento dentro do contexto familiar, também repercute no
ambiente escolar, provocando uma diminuição do rendimento devido à falta de
atenção, indisciplina, agressividade, e em outros casos, introspecção (Cavicchioli,
2005).
Apesar das dificuldades provocadas pela doença, muitos irmãos saudáveis têm
consciência da gravidade da situação de seus irmãos doentes, da necessidade que
eles têm de cuidados e do quanto seus pais sofrem com tudo que acontece. Ainda
que em alguns casos reações negativas como isolamento, depressão e agressividade
sejam uma forma destes irmãos saudáveis demonstrarem que não suportam o
tratamento diferenciado que passaram a receber, em outros são simplesmente uma
demonstração de que não estão sabendo lidar com a situação sozinhos ou que estão,
da forma deles, tentando enfrentar todas as dificuldades.
Mas mesmo que muitas reações negativas sejam notadas entre os irmãos de
crianças com câncer, também há reações positivas. Muitos irmãos assumem uma
postura protetora da criança doente, assim como uma atitude cooperativa nas tarefas
domésticas e nos cuidados com o irmão doente. Eiser (citado por Pedreira & Palanca,
2007, p.12) revela que “(...) en algunos estudios se han observado em estes niños,
mayor empatia, más conductas de ayuda, de compartir y capacidad para mostrar
afecto, que sus compañeros de clase”.
A desestrutura familiar causada pelo diagnóstico de câncer infantil é inevitável,
mas a forma como cada membro da família irá reagir será singular, não havendo
padrões de comportamento ainda que estes possam ser previsíveis, o que é muito
importante para o trabalho da equipe de saúde com a família e com a própria criança
doente.

49
4.6 A Atuação Do Psicólogo

Fonte: midia.gruposinos.com.br

4.6.1.1 A Psicologia Hospitalar

Nos últimos anos, a relevância dos aspectos psicológicos no processo de


adoecimento tem sido cada vez mais reconhecida pelos profissionais de saúde e
consequentemente a importância do psicólogo no ambiente hospitalar. É
imprescindível falar deste tema devido ao fato de que a hospitalização é uma das
etapas vividas pela criança com câncer durante seu tratamento e a presença do
psicólogo nesta situação é extremamente necessária. Hoje, é inadmissível não
reconhecer que a doença é resultado de uma interação constante entre mente e corpo
e influenciada por diversos fatores, que vão além do biológico e incluem fatores
psicológicos, sociais e culturais.
Fica claro que, seja no surgimento, desenvolvimento ou prognóstico de uma
patologia, além de outros fatores, os aspectos psicológicos estão sempre envolvidos
e por isso também necessitam de atenção, tanto quanto os aspectos físicos. Além
disso, os aspectos emocionais também podem ser desencadeados pela própria
doença. Para Simonetti (2004, p.20), “o psicólogo pode fazer muito pouco em relação

50
à doença em si, este é o trabalho do médico, mas pode fazer muito no âmbito da
relação do paciente com seu sintoma: esse sim é um trabalho do psicólogo”.
Rodrigues e Gaparini (In Mello Fillho,1992, p.97) também falam da questão da
multicausalidade da doença quando se refere ao adoecer “não como um evento
casual na vida de uma pessoa, mas sim representando a resposta de um sistema, de
uma pessoa que vive em uma sociedade”. Ou seja, não é por acaso que a doença se
instala no sujeito. Tudo que ocorre não só na vida, mas também no corpo do indivíduo
é resultado de sua interação com o meio ambiente, e sua relação com este meio
envolve vários aspectos que devem ser considerados quando o sujeito é acometido
por alguma patologia.
Junto a esta gradual mudança de visão em relação à doença também tem
ocorrido um grande esforço em torno da humanização do tratamento oferecido aos
pacientes nos hospitais, visando a uma atenção global do sujeito sem focar a doença
em detrimento da sua história de vida e da sua identidade. É importante lembrar que
a humanização envolve desde a administração do hospital até a equipe de saúde que
cuida diretamente do paciente. Ela é responsabilidade de todos.
Uma tendência ainda muito forte entre muitos psicólogos que atuam na área
hospitalar e que é responsável por muitas atuações malsucedidas e até mesmo o
isolamento do profissional em relação à equipe de saúde, é a transposição do trabalho
de psicoterapia realizado nos consultórios particulares para o contexto hospitalar.
Claro que isso não ocorre por simples má fé destes psicólogos. A formação acadêmica
destes profissionais totalmente focada em uma psicologia clínica voltada para o
consultório e com pouquíssimas ou nenhuma disciplina específica na área da saúde,
contribui fortemente para a tendência destes profissionais de querer repetir no hospital
o que fazem em seus consultórios ou aprenderam na graduação. Este fato demonstra
a importância de uma especialização na área hospitalar para atuar na área da saúde,
pois o hospital possui uma dinâmica de trabalho que é inerente a este contexto e que
exige conhecimento teórico e técnico específicos, que caracterizam de fato o
psicólogo como psicólogo hospitalar, pois não é somente o contexto que caracteriza
esse profissional, mas também a atividade exercida por ele.
O psicólogo hospitalar atua oferecendo assistência à paciente, família e equipe
de saúde sempre visando ao bem-estar do paciente, num contexto de trabalho que,
como já foi dito, possui características próprias. Algumas destas características são:

51
- O ambiente institucional: no hospital, o psicólogo está referido a uma
instituição e como qualquer outra esta possui regras e valores aos quais seus
funcionários estão submetidos, e com o psicólogo não é diferente. Seu trabalho deve
adequar-se ao perfil da instituição, mas isto jamais deve ferir os princípios éticos do
seu exercício profissional.
- A situação do paciente: o paciente quando está internado em um hospital,
perde sua identidade. Ele não é mais o sujeito de nome próprio, que mora em sua
própria casa, possui objetos particulares, exerce atividades diárias, possui uma rede
social e uma autonomia que lhe permite gerir sua própria vida. Numa enfermaria ele
é mais um paciente doente, identificado por sua patologia, longe de sua casa, de suas
coisas, de sua família, amigos e está totalmente dependente e submetido à equipe de
saúde. É uma situação de completa fragilidade, desamparo e incerteza em relação à
própria vida. De acordo com Moretto (citado por Simonetti, 2004, p.18), “a psicologia
está interessada mesmo em dar voz à subjetividade do paciente, restituindo-lhe o
lugar de sujeito que a medicina lhe afasta”.
- O trabalho multi e interdisciplinar: dentro de um hospital, o psicólogo nunca
trabalha sozinho. Ele atua dentro de uma equipe multidisciplinar, ou seja, uma equipe
composta por profissionais de diferentes especialidades. Como integrante de uma
equipe multidisciplinar, o psicólogo deve estar apto para desenvolver um trabalho
interdisciplinar, ou seja, um trabalho visando à interação e à troca de informações e
conhecimentos entre os diferentes profissionais que integram a equipe.
- O setting: o hospital não é o local ideal para um atendimento psicológico,
mas para o psicólogo hospitalar é o local de atendimento. Seja no leito, nos corredores
ou no pátio do hospital, sujeito a interrupções da equipe, sem privacidade, sem tempo
determinado, ou seja, em meio a toda imprevisibilidade do hospital, o psicólogo deve
atuar de forma flexível e criativa tentando adequar na medida do possível suas
atividades, à rotina hospitalar. Barroso (In Mello Filho, 1992, p.363) fala da
consequência que o ritmo hospitalar gera para o trabalho do psicólogo quando diz que
“a prioridade, a frequência e a duração das sessões só devem ser estabelecidas sob
a forma de intenção”.

A área hospitalar oferece uma variedade de serviços com características muito


particulares e que exigem um planejamento específico. Ambulatórios, emergências,
CTIs e enfermarias oferecem serviço, ambiente, rotina e pacientes de características

52
muito singulares e que devem ser levadas em conta no momento em que psicólogo
delineia suas atividades.
O trabalho do psicólogo com o paciente tem como objetivo principal, através
das palavras e das mais diversas formas de comunicação (olhares, gestos, entre
outros), fazer com que o paciente expresse suas emoções, fale de seus medos e
angústias, coloque-se como sujeito ativo e participante do seu processo de
adoecimento e com isso possa simbolizar e elaborar da melhor forma possível a
experiência do adoecer.
Para a realização dos atendimentos, o psicólogo respeitará a rotina do serviço
bem como as condições físicas do paciente. Sendo assim, nem sempre atendimentos
previamente programados poderão ser realizados, devendo ser remanejados, seja
porque o paciente precisou fazer um exame de última hora ou porque está sob efeito
de alguma medicação. Isto demonstra a necessidade da flexibilidade e da criatividade
do psicólogo hospitalar.
Não são todos os pacientes de um hospital que necessitam de atendimento
psicológico. Muitas pessoas, apesar dos aspectos negativos que o ambiente e a
situação hospitalar proporcionam, possuem uma estrutura egoica forte o suficiente
que permite que elas atravessem esta experiência sem repercussões emocionais
negativas. Outras com ego mais fragilizado e que não desenvolveram uma maturidade
emocional razoável, necessitam de suporte e é papel do psicólogo estar atento para
esta necessidade que nem sempre é percebida pelo próprio paciente. Família e
equipe também estão aptas para perceber a demanda e devem ser sensibilizados
para esta atitude, colaborando para o trabalho da psicologia e consequentemente
estimulando o trabalho interdisciplinar.
Em relação aos familiares do paciente internado, estes também sofrem as
consequências do adoecimento do parente doente e necessitam de apoio psicológico.
Eles também são tomados pelas incertezas e pela angústia da experiência vivida por
seu ente querido, sendo fundamental que tenham a possibilidade de expor seus
sentimentos, visando a um melhor enfrentamento da situação. O psicólogo deve
oferecer uma escuta atenta e sensível às questões que emergem para os familiares
devido ao momento difícil atravessado por seu parente e que gera implicações
emocionais para todo o núcleo familiar.
A oportunidade de poder falar e desta forma simbolizar todas as angústias
sofridas proporciona não só um melhor enfrentamento da situação como também o

53
estreitamento dos vínculos familiares, resultando assim em uma atitude mais
cooperativa em relação ao tratamento do parente doente. Em se tratando da equipe,
esta lida com a possibilidade de morte durante todo o tempo que estão no hospital.
Não só a possível morte do outro se faz presente a todo o momento como também
esta situação provoca questionamentos sobre a própria finitude. Sentimentos de
impotência e onipotência se alternam e demonstram uma grande dificuldade de lidar
com a doença e a morte. Mecanismos de defesa são utilizados a fim de lidar melhor
com um cotidiano extremamente estressante do qual não se pode fugir e muitas vezes
estes mecanismos levam a comportamentos que podem prejudicar a relação da
equipe com pacientes e familiares.
O apoio psicológico à equipe pode ser feito tanto através de conversas
informais durante a rotina de trabalho, através da realização de grupos ou atuando em
situações específicas, nas quais o psicólogo é solicitado ou perceba a necessidade e
pertinência de uma intervenção.
É sempre importante lembrar que o psicólogo também faz parte da equipe de
saúde e assim como ela, ele também está sujeito a uma rotina estressante e sendo
obrigado a lidar com a finitude do outro e a própria também. Para realizar um bom
trabalho e para poder dar suporte a pacientes, família e equipe, ele necessita rever
sua posição diante da morte, elaborando o medo e a negação em relação a este tema.
O psicólogo antes de ser um profissional, é e deve ser um ser humano sensível às
questões da vida e das outras pessoas e empático na realização de suas atividades.
De acordo com LeShan (1994, p.80) “Se os sentimentos do terapeuta estiverem mal
resolvidos por ele estar trabalhando com alguém que está morrendo, fazendo-o sentir
que seus esforços são inúteis e sem esperança, provavelmente esses sentimentos
serão transmitidos ao paciente”. Assim sendo, ao invés de uma posição de
neutralidade máxima, de onipotência, ou até mesmo de apatia, o psicólogo hospitalar
deve manter seu lado humano e solidário, caso contrário jamais poderá compreender,
lidar e ajudar pessoas em situações tão difíceis como as que são encontradas todos
os dias nos hospitais.
Além das condutas terapêuticas realizadas no cotidiano hospitalar com a tríade
paciente-família-equipe, é dever do psicólogo hospitalar investir nas áreas de ensino
e pesquisa, formando e especializando novos profissionais para trabalhar na área e
participando de estudos que proporcionem novas informações e conhecimentos sobre
o tema e que divulguem a importância da especialidade na área da saúde.

54
4.7 A Psico-oncologia:

Segundo Holland e Almanza-Muñoz (2007), a Psico-oncologia tem como foco


de cuidado o paciente oncológico e tem como objetivo principal proporcionar uma
maior qualidade de vida ao paciente com câncer através de uma abordagem
psicossocial, a incorporação do conceito de cuidados paliativos e a valorização do
aspecto religioso.
Para os autores, o trabalho da Psico-oncologia tornou-se possível devido a uma
maior possibilidade e abertura dos pacientes com câncer e seus familiares de falar
sobre a doença e o prognóstico, já que antigamente muitos médicos tinham o costume
de esconder ou atrasar a revelação do diagnóstico, o que impedia qualquer tipo de
trabalho que envolvesse as questões emocionais relativas à doença.
Segundo Gimenez, Carvalho – Magui e Carvalho (In Angerami-Camon, 2006),
a Psico-oncologia no Brasil surgiu a partir da mudança de visão dos profissionais de
saúde e da opinião pública em geral, a respeito da doença e seu aspecto psicossocial.
Neste mesmo contexto, o reconhecimento dos fatores psicológicos como contribuintes
para o desenvolvimento do câncer e a necessidade de uma intervenção psicossocial
nesta área, fez com que diversos profissionais, inspirados em serviços de Psico-
oncologia existentes em outros países, percebessem a necessidade de investimento
neste Campo.
A formação em Psico-oncologia é essencial para o cuidado aos pacientes com
câncer já que representa a união entre Psicologia e Oncologia, resultando em um
maior conhecimento a respeito destas duas áreas de trabalho. Este conhecimento
possibilita a integração destas duas especialidades dentro de uma perspectiva de
trabalho que vise à valorização dos aspectos emocionais do paciente oncológico e a
inclusão destes fatores no seu tratamento.
Possibilidades de atuação do psicólogo na Oncologia Pediátrica. Como já foi
possível notar durante todo este trabalho, a participação do psicólogo na equipe de
Oncologia Pediátrica é imprescindível, devido ao fato de que o câncer não se trata
somente do adoecimento de um corpo devido a uma multiplicação desordenada de
células. O câncer, assim como qualquer outra doença, atinge o corpo sim, mas o corpo
de um sujeito, alguém que possui uma história de vida, faz parte de um contexto
específico e possui uma singularidade, o que faz com que ele seja diferente de todos
os outros pacientes com a mesma doença. Isto quer dizer que cada paciente

55
enfrentará o câncer de uma maneira diferente e por isso não devem ser tratados como
se fossem mais um paciente oncológico dentro de um grupo padrão. Sobre isto,
Schavelzon (citado por Dubkin, 2007, p.1) diz que “para el cancerólogo la historia
comienza com el diagnóstico de cáncer. Para el psicoterapeuta la historia comenzó
mucho antes, compreende a su entorno, llega hasta el cáncer y continua”.
Carnaviera (citada por Petrilli, 2004) fala da equipe de saúde que trata o
paciente com câncer e do cuidado que esta deve ter para não o tratar como objeto,
mas sim como sujeito, principalmente devido á posição passiva que a criança doente
se encontra por estar submetida aos cuidados da equipe e também às características
físicas dos pacientes com câncer, que por acabar tornando-os parecidos, faz com que
a equipe os trate como iguais.
Sendo assim, antes de qualquer intervenção na Oncologia Pediátrica, o
psicólogo deve estar consciente de que está lidando com crianças doentes e não com
a doença, e que não é possível levar a cabo nenhum tipo de intervenção terapêutica
direcionada a uma criança que não inclua sua família. Além disso, outra regra básica
que deve embasar e anteceder qualquer tipo de trabalho do psicólogo é a sua
capacidade para o trabalho multi e interdisciplinar, pois para olhar o sujeito na sua
totalidade é necessário que o seu trabalho seja compartilhado com todos os outros
membros da equipe pertencentes a todas as especialidades necessárias ao
tratamento do sujeito.
Na Oncologia Pediátrica, o psicólogo tem 3 focos de intervenção: a criança, a
família e a equipe de saúde.
Em se tratando da criança, as intervenções do psicólogo podem ser realizadas
de várias formas. No leito ou individualmente (quando a criança estiver impossibilitada
ou recusar-se a participar de atividades grupais); ou em grupo (musicoterapia, arte
terapia, etc.), através da elaboração de atividades com outras crianças, que visem a
uma interação social e o compartilhamento de experiências e sentimentos que podem
também ajudar para um melhor enfrentamento e elaboração da doença e da
hospitalização. Além disso, caso haja necessidade, o suporte emocional à criança
também deve ser oferecido após a alta hospitalar.
Além de receber informações, a criança deve ser ouvida, seja através de suas
palavras, gestos ou até mesmo através do brincar, quando esta e outras técnicas
lúdicas tornam-se possíveis de serem utilizadas no ambiente hospitalar. Toda forma
de expressão deve ser utilizada como meio de comunicação com a criança para que

56
esta possa falar de seu mal-estar, de sua angústia, tirar dúvidas, dar significado aos
acontecimentos e tentar minimamente posicionar-se como sujeito na situação que
vivencia.
Alguns temas básicos na vida do ser humano e que ganham significado durante
a infância, tornam-se mais presentes durante a vivência de um câncer para a criança.
Vida, morte, doença, identidade, autoimagem, corpo, são alguns destes temas e a
maneira como eles serão tratados definirá a importância e o significado que cada um
deles terá no futuro da criança. É papel do psicólogo auxiliar a criança a fim de que o
sofrimento proporcionado pelo câncer não influencie de forma negativa nas
significações atribuídas pela criança a estes temas.
A sensação de perda de controle sobre o próprio corpo (tanto pela submissão
aos procedimentos invasivos quanto pelas limitações impostas pelos sintomas da
doença e efeitos colaterais do tratamento) e a sensação de perda da liberdade (tanto
devido às limitações de certas atividades impostas pela equipe ainda que a criança
sinta-se disposta a realizá-las quanto pela superproteção dos pais) deverá ser
trabalhada com muita cautela com a criança pois são sensações desagradáveis, sobre
as quais ela não tem controle e dos quais ela deve ser orientada e muitas vezes até
mesmo convencida do motivo, da importância e da necessidade de submeter-se a
elas.
A autoimagem também é um tema importante a ser trabalhado com a criança,
pois sua aparência modifica bastante durante o tratamento e a forma como ela se vê,
a maneira como ela imagina que os outros a percebem e a importância que ela dá a
isso, são fundamentais na forma como ela vai lidar com as mudanças estéticas que
ocorrem com ela.
O ambiente hospitalar também deve ser modificado de acordo com a
necessidade exigida e as possibilidades oferecidas pela instituição a fim de que a
criança, apesar dos aparelhos e dos procedimentos invasivos, sinta-se o menos
possível longe de casa através de uma proximidade com objetos que sejam familiares
a ela e que tornem o ambiente minimamente com a sua “cara”. Além disso Steinmuller
(2007) afirma que o espaço hospitalar deve ser rico em elementos sensoriais que
estimulem o interesse visual, auditivo, olfativo e tátil, na tentativa de fazer do hospital
o lugar mais agradável possível.
Todo o trabalho da Psicologia realizado com a criança na Oncologia Pediátrica,
visa à elaboração dos efeitos traumáticos que essa experiência pode proporcionar e

57
fazer dela uma vivência positiva, na medida em que possibilitará a aquisição de
recursos saudáveis para lidar com situações difíceis. Além disso a Psicologia também
ajudará a impedir que a relação desta criança com o ambiente hospitalar e a imagem
que ela terá dele sejam negativas e acabem provocando problemas para ela já que
independentemente da criança ter outras doenças ou não, uma vez acometida pelo
câncer e mesmo curada clinicamente o contato com o ambiente hospitalar ou algo que
remeta a ele, ainda que seja através de um consultório médico será inevitável.
Em relação à família, o psicólogo deve oferecer um suporte emocional a fim de
que esta possa também enfrentar, da melhor forma possível a situação, já que ela
também vivencia tudo com a criança, principalmente a mãe que geralmente é quem
toma para si a responsabilidade pelo cuidado do filho doente. O grupo terapêutico com
familiares é uma excelente forma de fazer com que estes coloquem em palavras suas
emoções e compartilhem sentimentos e vivências com outros familiares que estão
passando pela mesma situação. Atendimentos individuais também são indicados em
momentos de maior angústia ou para familiares que demonstram uma dificuldade tão
grande de lidar com a situação que o impede de assistir a criança doente sem que
esta seja afetada negativamente por seu estado emocional
Além de ser bom para cada membro da família ter a oportunidade de falar sobre
seus medos, angústias e fantasias e assim ter seu nível de ansiedade reduzido, a
criança também ganha com isso pois quanto mais tranquilos os pais, mais
tranquilidade eles transmitirão à criança, pois eles são uma das formas de mediação
entre esta e a doença, já que são eles, juntamente com o médico e todos os demais
integrantes da equipe que vão dar significado e justificativa de tudo que se passará
com a criança a partir do diagnóstico.
Inicialmente, um dos meios de minimizar e organizar a confusão de sentimentos
que acomete os pais com o recebimento do diagnóstico do filho é desmistificar o
caráter mortal do câncer. Mostrar aos pais que cada caso é único e o câncer não afeta
a todos da mesma maneira. Também é de grande utilidade esclarecer dúvidas ou
pontos obscuros quando necessário e de preferência juntamente com o médico (a fim
de estreitar a relação paciente-médico e não desempenhar um papel que não é do
psicólogo, quando os esclarecimentos de informações médicas se tornam uma rotina).
Outra questão importante e que determina muitas das reações dos pais é a auto
culpabilização ou a atribuição de culpa do diagnóstico do filho ao médico. É necessário

58
que os pais tenham consciência de que não há culpados e de que buscar uma causa
para a doença, além de ser um esforço inútil, não ajudará na recuperação da criança.
A questão da culpa também está relacionada ao consentimento dos pais para
que procedimentos invasivos e dolorosos sejam administrados. O motivo pelo qual os
procedimentos serão realizados assim como o caráter de necessidade dos mesmos
deve ser sempre reforçado para que os pais não se culpem e não temam perder o
amor de seus filhos. Este tipo de intervenção também deve ser utilizado nos
momentos em que os pais precisam tomar decisões importantes em relação ao
tratamento, decisões que muitas vezes podem colocar em risco a vida da criança.
Ao falar em família, não se pode esquecer os irmãos da criança com câncer,
pois eles também têm suas vidas abaladas e sofrem com a ausência dos irmãos
quando estes estão hospitalizados. A forma de abordar os irmãos irá variar de acordo
com a idade, mas independentemente da faixa etária, eles também devem ser
ouvidos, receber um suporte emocional e serem informados de tudo o que se passa.
Os pais devem ser encorajados a falar com os outros filhos sobre a doença e o
tratamento, e atualizá-los a respeito do estado do irmão doente sempre que houver
novidades, pois a falta de informação pode levá-los a pensar o pior, e dessa forma
agravar o sofrimento. As visitas também devem ser estimuladas.
Devido ao sentimento de abandono vivido pelos irmãos da criança com câncer
é importante que haja uma conscientização dos pais a respeito da rotina familiar,
orientando-os para que esta permaneça a mesma na medida do possível. Que não
negligenciem suas atividades e obrigações por causa da doença do filho e
principalmente que não deixem de atender também às necessidades dos filhos
saudáveis, que podem não ter caráter de vida ou morte, mas também podem ser
traumáticas se negligenciadas por muito tempo.
Também deve haver um trabalho específico com os pais, a fim de que estes
não negligenciem a própria relação conjugal, pois uma vez descoberto o câncer de
um filho, toda a rotina da família passa a girar em torno da criança e da sua doença,
como se mais nada importasse e merecesse atenção. Sendo assim, quando a criança
é curada e a vida volta ao normal, esta já não é mais a mesma. A realidade se mostra
e tudo aquilo que deixou de ser investido, expões as consequências do abandono, e
no caso dos pais, a maior consequência costuma ser a separação, que muitas vezes
ocorre ainda durante o tratamento da criança. Um trabalho voltado para os pais
consiste em um apoio psicológico tanto preventivo, antes mesmo que o conflito entre

59
o casal se instale, através de aconselhamento e orientação para que não se esqueçam
da vida conjugal e não permitam que esta seja afetada pelo momento vivido. No caso
de um conflito já instalado, a terapia de casal ou individual caso um dos pais não aceite
a primeira opção também são válidas.
Ao trabalhar com o paciente e sua família, o psicólogo deve basear-se no
conceito de crise.
Sendo assim, é tarefa do psicólogo atuar junto a pacientes e familiares neste
momento de crise que é a descoberta do câncer e auxiliá-los na busca de recursos
mais eficientes para adaptar-se à situação e lidar com ela da forma mais saudável
possível, fazendo dela uma oportunidade de crescimento e amadurecimento. Assim
como as crianças, no caso das famílias, caso seja necessário, o apoio psicológico
também deve ser oferecido após a alta hospitalar da criança.
O trabalho da Psicologia com a equipe, além de envolver a permanente troca
de informações a respeito do paciente a fim de que este seja visto na sua totalidade,
também é importante que o psicólogo fortaleça o vínculo terapêutico entre paciente,
família e equipe, pois uma boa relação entre eles só tende a favorecer um melhor
enfrentamento da situação por parte do paciente e da família, além de colaborar para
o trabalho da equipe. O psicólogo deve estar atento a falhas na comunicação na tríade
paciente-família-equipe que possam causar uma dificuldade de relacionamento e
intervir quando necessário, pois o mais prejudicado em uma situação destas costuma
ser o paciente.
É fundamental levar em conta que a equipe que trata de crianças com câncer
também necessita de um suporte emocional pois ainda que aquelas crianças não
sejam seus parentes, elas estão sob a responsabilidade da equipe, e cabe a ela salvar
vidas ou pelo menos tentar amenizar os prejuízos que a doença pode causar. Mas no
geral estes sentimentos não são exteriorizados e interpretados por pacientes como
frieza ou má vontade.
Sendo assim, em situações de crise, é importante a mediação do psicólogo
como facilitador da comunicação entre a equipe-paciente-família visando sempre ao
bem-estar da criança doente.
As formas e oportunidades de intervenção do psicólogo não se esgotam aqui.
O que foi exposto foram algumas das inúmeras possibilidades de trabalho que podem
ser realizados na Oncologia Pediátrica. A atuação no contexto hospitalar, seja com
pacientes com câncer ou acometidos por outras patologias é extremamente versátil e

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como já foi dito, exige muita flexibilidade e criatividade nas ações cotidianas, pois as
demandas são sempre diversas e imprevisíveis. Desta forma, não há como enumerar
as possibilidades de atuação do psicólogo, pois elas são infinitas e estão sempre em
constante invenção e renovação.

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