Você está na página 1de 5

Nome: Sabrina Rodrigues Cáceres

Data: 08/11/2021
Disciplina: Metodologia da Pesquisa em Comunicação
Professoras: Cássio dos Santos Tomaim e Liliane Dutra Brignol
Trabalho: Resenha de capítulo de livro - Aulas 4 e 5

1) Referências:

BONIN, J. Questões metodológicas na construção de pesquisas sobre apropriações


midiáticas. in: MOURA, C.P. e LOPES, M.I.V. Pesquisa em Comunicação: Metodologias e
práticas acadêmicas. Porto Alegre : EDIPUCRS, 2016.

2) Resenha:
O texto de Jiani Bonin (2016) busca refletir sobre os tantos aspectos metodológicos
que perpassam as pesquisas voltadas para a questão das apropriações midiáticas. De início, é
importante ressaltar, que a autora usa a expressão “apropriações midiáticas” ao invés de
“recepção” por acreditar que exponha melhor as múltiplas atividades dos sujeitos com as
mídias, seja com relação às produções de sentido quanto com as formas de participação na
produção midiática nas plataformas digitais (BONIN, 2016, p.214).
Bonin (2016) ao longo de seu texto trabalha várias questões metodológicas, a primeira
sobre a construção teórica das pesquisas, especialmente no que se refere a problemática da
midiatização e como ela atravessa os estudos sobre apropriações midiáticas. A autora aborda
também a essencialidade da pesquisa exploratória sobre o objeto empírico para a idealização
do arranjo metodológico e, por fim, fala sobre a construção de métodos e procedimentos com
relação à pesquisa com sujeitos.

Questões relativas à construção teórica das pesquisas


Nesse subtítulo a autora dá ênfase à questão da construção teórica dos estudos, o que
se reflete em compreender e organizar a pesquisa com base no contexto da sociedade
midiatizada. Bonin (2016) aponta que não é possível fabricar estudos sobre apropriações
midiáticas sem considerar o processo de midiatização social pois todas as esferas da
sociedade contemporânea são atravessadas pelas ações midiáticas. E, com esses
atravessamentos, “foram se constituindo sensibilidades, culturas, identidades e modos de vida
midiatizados” (BONIN, 2016, p.215).
As mídias estão completamente inseridas no nosso cotidiano, a partir desse ponto de
vista, Bonin se apropria do conceito de ethos midiático de Sodré (2006) para explicar que se
constroem costumes, comportamentos, afetos, etc, com base nessa lógica. Por meio da
convivência com as mídias, os sujeitos passam a compreender os padrões de funcionamento,
os processos produtivos, os formatos, e assim vão conquistando “competências midiáticas”
(BONIN, 2016, p216), o que é de extrema relevância e por isso devem ser considerados nas
pesquisas.
Desde o final do século XX e mais fortemente no século XXI, muitas transformações
no campo midiático foram ocorrendo, especialmente com relação à convergência e
mobilidade. Bonin (2016) diz que as mudanças mais significantes com relação às ambiências
digitais são “a disseminação e o domínio progressivo de recursos e de práticas de produção
tecnológica de comunicação; inauguram-se novas formas de participação, compartilhamento
e geração de produtos culturais digitalizados por produtores diversos” (BONIN, 2016, p.216),
o que traz uma mudança também para os estudos das apropriações midiáticas.
A partir desses novos contornos que os cenários digitais trazem, principalmente no
que se refere a interação entre os sujeitos, aos compartilhamentos, à atuação dos indivíduos, é
necessário que sejam alargados os limites teóricos estabelecidos para que dêem conta das
novas problematizações pensadas com base nesses novos comportamentos midiáticos e que
se situem no contexto contemporâneo da midiatização. Porém, como bem destaca a autora,
não devemos desconsiderar as teorias que já foram concebidas, “concebemos que o desafio
que se coloca é de rever essas produções, para recolher o que nos legam de produtivo para a
compreensão das apropriações das mídias” (BONIN, 2016, p.216-217).
Bonin (2016) cita Martín-Barbero em suas notas de rodapé como um exemplo de
teórico que reformulou alguns de seus conceitos com base nas mudanças causadas por esses
novos comportamentos midiáticos. Martín-Barbero reconheceu o lugar da mediação da
tecnicidade como estrutural na relação dos indivíduos com a mídia, ou seja, pensar a
plataforma digital como mais do que uma ferramenta e sim uma ambiência onde surgem
novas práticas e linguagens midiáticas (MARTÍN-BARBERO, 2018)1.
A autora destaca a profundidade dessas problemáticas e de como essa produção
midiática dos sujeitos deve ser complexamente pesquisada. Todos os aspectos das mídias
digitais devem ser considerados para que não haja dissolução desse protagonismo, pois há
muitos ângulos a serem examinados, com relação à plataforma, suas lógicas, seus meios de
interação, suas funções e seus usos e apropriações. E, sobretudo, os usos têm as suas próprias
complexidades, pois nem todos os indivíduos possuem o mesmo tipo de acesso, nem o
mesmo tipo de conhecimento acerca da plataforma, e, por consequência, não fazem o mesmo
tipo de uso, trazendo ainda mais questões para se explorar nas pesquisas de apropriações
midiáticas.

Aspectos metodológicos relativos aos desenhos investigativos


Nesta parte do texto, Bonin (2016) se dedica a falar sobre a importância de não deixar
de fora da pesquisa os contextos em que o objeto se insere, especialmente os contextos
comunicacionais e midiáticos. A autora salienta que em um contexto de midiatização, onde
os indivíduos possuem relações com os meios de comunicação, “é preciso considerar que as
apropriações focalizadas especificamente na investigação estão atravessadas pela trajetória de
relações e de vínculos com outras experiências de apropriação midiáticas” (BONIN, 2016,
p.220-221). Então é necessário ter esse entendimento de contexto para também compreender
a “complexidade multidimensional constitutiva das apropriações midiáticas contemporâneas”
(BONIN, 2016, p.221).

A pesquisa exploratória na construção das problemáticas e dos métodos e


procedimentos investigativos
Nesta parte do texto, Bonin (2016) se dedica a um tema recorrente em seus textos: a
pesquisa exploratória. Para a autora, é fundamental que deixemos o mundo empírico falar
conosco, que as práticas da pesquisa exploratória estejam imbricadas com as teorizações
acerca do tema pesquisado pois é a partir dos sinais captados na observação do objeto
empírico que conseguimos organizar um arranjo metodológico que responda a questão do

1
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Introducciones a De los medios a las mediaciones. In: RINCÓN, Omar (org.).
Pensar desde el Sur. Reflexiones acerca de los 30 años de De los medios a las mediaciones de Jesús
Martín-Barbero. Bogotá: Fescomunicación, 2018. p.16-54
nosso estudo. É necessário compreender a complexidade dos objetos empíricos midiáticos
contemporâneos e o que eles demandam em cada investigação.
Sobre os aspectos da pesquisa exploratória, Bonin (2016) explica:

É realizada através de aproximações empíricas ao fenômeno investigado, com o intuito de


perceber seus contornos, nuances, singularidades. Os movimentos concretos de pesquisa
exploratória necessitam de construção laboriosa em termos de seus objetivos, desenho,
estratégias e táticas de implementação. Devem ser, também, flexíveis para acolher os
requerimentos advindos do processo e se refazer no andar, a depender de perspectivas que se
abrem e que se redesenham nas explorações, pensadas em articulação com os pólos teóricos e
contextuais em construção. (BONIN, 2016, p.222)

Além disso, pode incorporar outros procedimentos, como levantamento de dados obtidos em
outras pesquisas para que seja possível problematizar, criticar, ou fomentar o problema de
pesquisa em questão.
A pesquisa exploratória permite que, com o suporte da observação, sejam feitas
experimentações e posteriores viabilizações dos melhores métodos e procedimentos a serem
empregados no estudo, como entrevistas, questionários, entre outros, a fim de melhor
responder ao problema e alcançar os objetivos. Ainda, é um grande meio para se conseguir
refletir e construir de maneira criteriosa amostras de sujeitos e corpus de produtos midiáticos.

Estratégias multimetodológicas na pesquisa empírica com sujeitos


Para Bonin (2016), muitas possibilidades de desenhos, modelos, estratégias, devem
ser considerados para a construção da pesquisa, por esse motivo, a autora defende a
elaboração de “arranjos multi/transmetodológicos” (BONIN, 2016, p.223) por conta da
complexidade de nossos objetos empíricos e dos vários contextos em que ele está inserido.
Em prol da formação desses arranjos, Bonin (2016) destaca alguns aspectos
importantes: devem apresentar múltiplas possibilidades; precisa se nutrir da reflexão teórica
dos métodos; fazer um desenho coerente com as pistas obtidas na pesquisa exploratória;
superar ou recriar os limites de um método/procedimento; permitir a interpretação de ângulos
diversos dos dados ou de um aspecto (BONIN, 2016, p.224). Também ganha destaque a
desconstrução metodológica de outras pesquisas no que diz respeito a experimentações,
limites, que podem ser de bastante valor.
Além das questões já pontuadas pela autora, é importante observar nos métodos e
procedimentos em que medida eles podem ser frutíferos para os objetos e problemas, a
articulação com a base teórica e, em especial, se adaptar às realidades e culturas dos
sujeitos/grupos, dos produtos midiáticos e das plataformas estudadas. Bonin (2016) diz que
para isso são necessárias invenções e reformulações metodológicas, e a pesquisa exploratória
pode contribuir muito nesse sentido. A autora explica que o nosso trabalho engloba
“reformulações de métodos de outros campos de saber, pois pensamos que eles precisam ser
dominados em suas bases epistêmicas para, então, serem reconstruídos de modo a darem
conta das dimensões requeridas pelo foco comunicacional/midiático de nossas pesquisas”
(BONIN, 2016, p.225).
Sobre essa reformulação/apropriação de métodos de outros áreas de conhecimento,
Bonin (2016) põe em evidência os métodos da história de vida midiática e comunicacional, a
autora diz que eles têm inspirações de outros campos, mas que têm sido realinhados para que
priorizem o eixo midiático das pesquisas. Esse tipo de método tem sido bastante usado pois a
perspectiva histórica é uma dimensão fundamental para compreender os movimentos das
apropriações midiáticas. Segundo Bonin (2016), “as marcas vinculadas à experiência vital e
social dos grupos e sujeitos só podem ser devidamente apreendidas na pesquisa empírica se
adotamos procedimentos que incluem a perspectiva diacrônica” (BONIN, 2016, p.226).
A partir desse método, surgem duas questões importantes as quais Bonin (2016) se
refere, a memória e a relação entre pesquisador e pesquisado. Na elaboração do relato de
vida, a questão crucial é a rememoração, pois os relatos não são reflexos da experiência, são
as marcas que se registram na memória do indivíduo/grupo e que são resgatadas nesse
trabalho da rememoração. Para a ativação dessas memórias, Bonin (2016) cita diversos
modos, mas o que tem sido muito trabalhado é a rememoração através das materialidades
midiáticas, pois ao criar um ambiente de recordações do contexto para o entrevistado por
meio de fotos, objetos, etc, o trabalho se torna mais fácil.
Desse modo, se faz necessária uma relação estreita entre pesquisador e pesquisado. É
fundamental para o processo de recuperação da memória que a relação seja de confiança e
cumplicidade, e que o pesquisador exercite a escuta com sensibilidade. Todos esses aspectos
citados por Bonin (2016) ao longo do texto, mostram a importância da reflexão, do
planejamento metodológico, da aproximação do pesquisador com o seu objeto empírico e que
seja possível deixar o objeto falar conosco para que possamos entender as suas necessidades
metodológicas.

Você também pode gostar