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FILOSOFIA

FILOSOFIA MODERNA

Miguel Henrique Teixeira Benetti


Porfírio Amarilla Filho
FILOSOFIA MODERNA
APRESENTAÇÃO
Porfírio Amarilla Filho

Prezado (a) aluno (a)

Seja bem-vindo ao estudo da História da Filosofia Moderna!


Ao longo das unidades faremos um pequeno percurso sobre os principais

aspectos desse período filosófico e suas principais contribuições ao pensamento


humano.

Como disciplina do curso de Filosofia, a Filosofia Moderna se destaca como


um período único que, desde a sua crítica ao período medieval como a construção de

um novo paradigma de ciência, compartilhou junto à história da filosofia


contemporânea a construção do pensamento humano, de quem hoje somos herdeiros.

Por isso, procuraremos compreender, na Unidade 1, a ruptura com


pensamento medieval e as fontes originárias do Renascimento que puseram em

movimento a busca por uma nova compreensão de mundo e uma nova proposta da
concepção de ciência.

Na Unidade 2, percorreremos o pensamento racionalista de Descartes,


Espinosa e Leibniz a fim de compreendermos essa vertente da teoria do conhecimento,

assim como as implicações que tiveram as afirmações racionalistas à filosofia moderna.


Do mesmo modo, percorremos, na Unidade 3, a outra vertente da teoria do

conhecimento, o empirismo, formada por Hobbes, Locke e Hume com o intuito de


compreender por que a filosofia empirista se tornou uma das mais férteis propostas de

pensamento da Filosofia Moderna.


Em seguida, dedicaremos a compreensão do criticismo kantiano e o

racionalismo de uma filosofia idealista que fundamentou não somente as bases do

conhecimento contemporâneo, mas também o entendimento da razão como objeto do


conhecimento humano.

Por último, na Unidade 5, percorremos o pensamento iluminista e os


princípios que fizeram dessa corrente filosófica um dos ícones do pensamento

moderno.

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FILOSOFIA MODERNA
APRESENTAÇÃO
Porfírio Amarilla Filho

O percurso, portanto, é um caminho fértil e imprescindível ao estudo da


Filosofia. Por isso, intencionamos que, ao final dessa disciplina, você possa ter adquirido

uma compreensão desse período filosófico.


Que o estudo dessa disciplina seja um prazer para você! Bons estudos!

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UNIDADE 01 - O SURGIMENTO DO RENASCIMENTO
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CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o período histórico e filosófico do Renascimento é

caracterizado por movimentos de transformações literárias, artísticas, filosóficas e


sociais que se iniciaram ao final do século XIV e se estenderam até o fim do século XVI.

ESTUDANDO E REFLETINDO

No estudo da Filosofia, o Renascimento é um momento de singular importância,

por sua semelhança, dentro de seus próprios aspectos, ao movimento ao da filosofia


pressocrática, ou seja, o questionamento, a contestação e a construção de um

pensamento caracteristicamente próprio.


Segundo Marcondes (2008, p. 143), a tradição da história da filosofia tratou o

Renascimento como um período de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna.


Todavia, há uma tendência, atualmente, de considerá-lo como um período de

identidade própria, já que se desenvolve uma concepção filosófica que provocou o seu
distanciamento das concepções medievais e não se confundiu com as concepções

Modernas.
O Renascimento é, portanto, fundamental como ponto de análise e de

compreensão ao estudo da Filosofia, pois, trata-se de um momento influente e


determinante ao estudo da Filosofia Moderna, sem o qual muito do sentido do

conhecimento científico-filosófico se perderia se não entendêssemos este momento do


pensamento humano.

O pensamento renascentista

O conceito Renascimento tem seu sentido semântico em “um segundo nascer”, o


renascer. Por Renascimento, portanto, designa-se um período histórico e filosófico em

que um novo espírito humano nasce para uma “nova ação”.


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UNIDADE 01 - O SURGIMENTO DO RENASCIMENTO
Porfírio Amarilla Filho

Para Émile Bréhier, trata-se de um período da filosofia caracterizado:


· Por um desejo intenso do homem por outro modo de vida, novo e corajoso;

· Por um enorme crescimento das técnicas e do conhecimento;


· E por profundas transformações nas condições materiais e intelectuais da Europa

(2005, p. 494).
Essas aspirações por transformações sofreram grandes influências de outros

tempos filosóficos, assim como se encontram influências próprias dos contextos que o
homem renascentista produz o seu próprio tempo. Com efeito, percebe-se que, ao

longo do pensamento renascentista, formam-se aspectos que vão caracterizando-se


em linhas distintas uma das outras. Segundo Marilena Chaui, são três as grandes linhas

de pensamento renascentista (2010, p. 60) que se formam, são elas:


(i) Os pensamentos advindos dos clássicos gregos e do conjunto de livros do

hermetismo ou magia natural, que compreendia o homem como agente


sobre o mundo por meio de conhecimento e prática;

(ii) O pensamento florentino que valoriza a vida ativa fundamentada na


liberdade da ação humana na vida política;

(iii) O pensamento que propunha o ideal humano como autor de seu próprio
destino, seja por meio do conhecimento, seja por meio da política, seja por

meio das técnicas.


Para Marcondes, o lema proposto pelo filósofo sofista Protagóras: “o homem é a

medida de todas as coisas”, tomado como exemplo e norte ao pensamento


renascentista, é o que melhor exemplifica o ideal humano que se constrói nesse

período (2008, p. 143).

De fato, o humanismo se caracteriza pela produção de uma nova identidade


cultural humana advindo de temas pagãos gregos contidos nas obras de artes e

literárias, escapando, assim, da concepção filosófico-teológica medieval, da visão


teocêntrica do mundo e de todas as teses morais e políticas ligadas a essa

compreensão de mundo.

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UNIDADE 01 - O SURGIMENTO DO RENASCIMENTO
Porfírio Amarilla Filho

A segunda influência no pensamento renascentista repousa sobre Florença, na


Itália do sec. XV, justamente por ser uma das cidades mais ricas e influentes da Europa.

Parte dessa riqueza acabou se manifestando nas artes, na arquitetura, na literatura e na


filosofia.

Florença, em meio à sua riqueza e ao seu desenvolvimento cultural, social e


político, buscou a construção de uma nova identidade e de um esplendor cultural,

colaborando, principalmente, para o desenvolvimento do pensamento político e,


consequentemente, para a crítica e a ruptura com o pensamento medieval.

A última influencia no pensamento Renascentista se caracterizou pela


importância da compreensão da natureza e dos conhecimentos de alquimia e

astrologia. São representantes dessa corrente filosófica.


· Paracelso (1493-1541);

· Agripa (1486-1535);
· Telésio (1509-1589);

O Renascimento é, portanto, um momento em que se percebe que há uma

renovação do modo de pensar e agir humano, que influenciará o intelecto, a moral, a


ciência, a política e outras áreas do conhecimento humano moderno.

Para fins didáticos, examinaremos, nesse primeiro momento, alguns traços


predominantes no pensamento renascentista que permitem defini-lo, em parte,

também como um movimento humanista, em que o homem é valorizado e colocado


como centro da ação sobre o mundo e defendido em sua liberdade, poder de criação e

transformação.

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UNIDADE 01 - O SURGIMENTO DO RENASCIMENTO
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BUSCANDO CONHECIMENTO

O movimento humanista, embora tenha sua ênfase nas questões artísticas e literárias,
caracteriza-se, também, como um movimento filosófico.

Por um lado, há de se considerar o Humanismo como um movimento concomitante ao


Renascimento e detentor de algumas características próprias que o podem classificar

como um movimento peculiar ao Renascimento.


Por outro, não é difícil encontrar em alguns autores designando tal período como

humanista-renascentista, caracterizando-o como um período do pensamento humano


que buscou um novo sentido para o homem e seus problemas (o Humanismo) e fez

renascer outra civilização e outra cultura (o Renascimento).


De fato, não se tem, no conjunto das obras renascentistas, nenhum grande sistema

filosófico do porte de Platão ou Aristóteles. Todavia, segundo Reali&Antiseri, trata-se de


uma renovação de pensamento de modo gradativo e decorrente da revisita aos

clássicos antigos gregos, como os textos platônicos, aristotélicos e neoplatônicos, bem


como aos grandes autores e artistas romanos. Assim, é um período de críticas e

conflitos entre paradigmas medievais e paradigmas que emergem de outras leituras do


homem europeu sobre o mundo (2004, p. 12).

Destacam-se alguns filósofos que se deixaram influenciar e influenciaram o novo olhar


sobre o mundo:

· Marcílio Ficino (1443-1499)


· Pico Della Mirandola (1463-1494)

· Erasmos de Rotterdam (1466-1536)

· Martinho Lutero (1483-1546)


· Giordano Bruno (1548-1600)

· Tommaso Campanella (1568-1639)


· Nicolau Maquiavel (1469-1527)

· Tomás Morus (1478-1535)

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UNIDADE 02 - O HUMANISMO
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CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o humanismo desenvolvido no período do Renascimento.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O Humanismo
O termo Humanismo foi cunhado no início dos anos 1800 para designar o

movimento filosófico que nasceu na Itália no século XIV, difundindo-se para os demais
países da Europa.

O homem vitruviano - Homem Vitruviano - é o


famoso desenho que acompanhava as notas

que Leonardo da Vinci fez ao redor do


ano 1490 num dos seus diários. Descreve uma

figura masculina desnuda separadamente e


simultaneamente em duas posições sobrepostas

com os braços inscritos num círculoe


num quadrado. A cabeça é calculada como sendo

um oitavo da altura total. Às vezes, o desenho e o texto são chamados de Cânone das
Proporções. (HOMEM VITRUVIANO).

Os pensadores humanistas são aqueles que se influenciaram pelos clássicos


gregos e latinos e que acabaram por constituir alguns elementos para a origem da

cultura moderna.
No humanismo, a totalidade do homem é reconhecida em sua concepção

plena, ou seja, o homem é formado por corpo e alma e determinado a viver em um


mundo, que se apresenta por meio de leis naturais e serem conhecidas e dominadas

pelo homem. Por isso, esse pensamento afirmou a importâncias dos estudos das
ciências naturais, tendo o homem como centro da produção desse saber.

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UNIDADE 02 - O HUMANISMO
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Com efeito, no humanismo, o homem se constitui de uma naturalidade


intrínseca da qual emana a necessidade de conhecer a si mesmo e a natureza que o

cerca. Por isso, o humanismo reivindica para a humanidade a liberdade; o prazer; a


racionalidade e a cientificidade do saber em detrimento de uma vida contemplativa e

apenas teórica.
Diferente do homem medieval, o homem humanista reconhece em si mesmo a

sua historicidade como forma de ligá-lo, de modo distinto, ao seu presente. Se o


homem medieval buscava na leitura dos clássicos gregos as justificativas da fé cristã, ao

humanista, a releitura dos clássicos gregos foi o desafio para descobrir a verdadeira face
da Antiguidade, libertando-a dos sedimentos acumulados ao longo da Idade Média.

A partir da segunda metade do século XIV, tem-se uma tendência aos estudos
das litterae hamanae (letras humanas) em que os paradigmas gregos e latinos são

tomados como ponto de referência para as atividades culturais e espirituais humanas.


Em geral, é na perspectiva platônica que as inspirações humanistas repousam.

Embora seja Platão a fonte inspiradora dos pensamentos humanistas, cabe ressaltar a
presença de Aristóteles em todo decorrer do período humanista, seja como

fundamentos para a rejeição das ideias medievais; seja como fundamento para
reavaliação das leituras clássicas.

BUSCANDO CONHECIMENTO

(1) O termo Idade das Trevas


Petrarca e a nascente do pensamento
tornou-se ao longo do período
humanista renascentista um termo pejorativo para
designar a Idade Media, entre os
Considera-se o poeta florentino séculos IV e XV, como um período de
flagelo e ruína. Porém, são os inúmeros
Francesco Petrarca (1304-1374) como o os aspectos que fazem da Idade Média
precursor do movimento humanista. Embora um período peculiar para o
florescimento das artes, da ciência e da
não fosse um filósofo, foi ele quem defendeu a filosofia.

necessidade da retomada dos clássicos gregos

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UNIDADE 02 - O HUMANISMO
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e a rejeição das especulações metafísicas e teológicas do período medieval. É em


Petrarca também que se originou a visão obscura da Idade Média, ficando conhecida, a

partir dessa interpretação, como a “Idade das Trevas” (1).

Tendo como contrapondo as teses medievais do naturalismo difundido por


Averróis (2) e pelo domínio indiscriminado da

dialética e da lógica, Petrarca argumentou que (2) Averróis – 1126-1198 – o mais


célebre filósofo de língua árabe da Idade
era preciso ao homem moderno objetivar o Média. Sua teoria da unicidade do
intelecto subverteu as concepções
conhecimento de si mesmo, como movimento
para conhecer a própria alma humana, assim como era preciso o abandono da dialética

a favor da eloquência ciceroniana.


Para Petrarca, os homens se encantaram com as coisas do mundo e se

esqueceram de si mesmo: “Há muito tempo eu deveria ter aprendido, inclusive com os
filósofos pagãos, que nada é digno de admiração além da alma, para a qual nada é

grande demais” (APUD IN REALE & ANTISERI, p. 22). Esse movimento socrático de
retornar ao interior de si mesmo, como fundamento para a compreensão do mundo,

contrapõe-se à visão teocêntrica medieval, pois não se tem mais o sentido do mundo
fora de si mesmo, e abre caminho para uma racionalidade que compreende primeiro a

si para depois compreender aquilo que se produz como ideia de mundo.


É a partir dessa retomada do olhar grego sobre o homem e a alma humana

que Petrarca abre o caminho da renovação a outros filósofos, como se verá a seguir em
Leonardo Bruni.

A nova dimensão do pensamento humano segundo Leonardo Bruni

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UNIDADE 02 - O HUMANISMO
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Leonardo Bruni (1370-1444) - http://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_Bruni

Leonardo Bruni (1370-1444) foi chanceler em Florença e ficou conhecido pelas


traduções de A Política e Ética a Nicômaco de Aristóteles. O texto De recta

interpretatione foi anexado à tradução de Ética a Nicômaco para relevar discussões


acerca da tradução. Nesse trabalho, Bruni reavalia o pensamento aristotélico,

considerando que a dimensão contemplativa que propunha Aristóteles ao homem


estava distorcida pelo pensamento medieval.

Para Bruni, o homem é o verdadeiro parâmetro para a construção do


pensamento e dos juízos que advém de si mesmo, seja no conhecimento, seja na

política, seja na ação moral. O homem assume valor maior por pensar o objeto e não o
objeto pensado por ele, pois, quando o pensa, “pensa e age” sobre o objeto e sobre si

mesmo.

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UNIDADE 03 - NICOLAU DE CUSA
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CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o pensamento do filósofo renascentista Nicola de Cusa (1401 –


1464).

ESTUDANDO E REFLETINDO

A Douta Ignorância de Nicola de Cusa

Nicolau de Cusa (1401-1464) foi um dos filósofos renascentistas que se


influenciou pelo pensamento platônico. Um de seus trabalhos que ressaltou tal

influência foi a doutrina da Douta Ignorância (docta


ignorantia), fundamentada na reflexão socrática (3)

da consciência dos limites do próprio saber.


(3) “Só sei que nada sei”
Segundo Cusa, tudo o que homem poderia expressão socrática que visa
a demonstrar o movimento
fazer, em relação a Deus, era confessar a total
dialético entre o conhecido e
impossibilidade de entendê-Lo. Com efeito, o o desconhecido. À medida
que Sócrates busca
conhecimento requer sempre uma passagem do encontrar o homem mais
sábio da Grécia, depara-se
conhecido ao desconhecido. Assim, quando se parte
com a ignorância de si
do infinito, ou seja, do desconhecido, não se tem mesmo e dos outros. Platão
em Apologia de Sócrates
proporção nenhuma para conhecê-lo, pois a afirma que, segundo seu
mestre, o verdadeiro saber
infinitude escapa à compreensão humana. Afirma: consiste em saber que não
se sabe.
Observa isto: o intelecto deseja saber.

Todavia, o desejo natural não o leva a conhecer a


quididade (essência) de um Deus que lhe é afim,

mas a conhecer um Deus tão grande que não existe nenhum limite para a sua
grandeza. Por isso, Deus é maior do que qualquer conceito e do que tudo o que a

mente humana pode conhecer. O intelecto não ficaria satisfeito consigo mesmo se
tivesse uma imagem do seu criador tão pequena e tão imperfeita que pudesse se

tornar cada vez maior e cada vez mais perfeita. (CUSA APUD IN NICOLA, 2005, p, 161)
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UNIDADE 03 - NICOLAU DE CUSA
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Nessa concepção de intelecto, conhecer é fundamentar uma proporção entre o


conhecido e o desconhecido cujo processo é lento, incompleto e gradativo. Ou seja, a

verdade que se busca no conhecimento nunca se estabelece, senão por aproximação,


assim como um polígono, por princípio, nunca poderá ser um círculo, por mais que

multipliquemos os seus lados.


Para Cusa, todos os esquemas cognitivos humanos têm caráter proporcional e

relativo. Por não ser o intelecto a verdade, não coincide com ela e não sendo a mente a
verdade absoluta, única e não relativa, acaba por não poder alcançá-la.

Assim, a conclusão de Cusa é de que o intelecto nunca pode compreender a


verdade de modo preciso, pois há uma desproporção estrutural entre a razão (finita) e

o infinito que, todavia, ela deseja conhecer. Nessa perspectiva, a mente não é senão um
polígono que deseja ser um círculo, mas que pela sua própria estrutura nunca o será.

Todavia, isso não significa que não haja um caminho para a aproximação do
conhecimento intelectual. Ao contrário, a mente pode superar o modo comum de

racionar, especulando a distinção dos graus de conhecimento. Cusa destaca três graus
de conhecimento que a razão pode percorrer: (i) a percepção sensorial, que é sempre

positiva ou afirmativa; (ii) a razão (ratio), que é discursiva e mantém os opostos


distintos, negando ou afirmando as coisas nos seres (princípio de não-contradição); (iii)

e a intelectual (intellectus), que está acima de toda afirmação ou negação racional ao


captar por um ato intuitivo a coincidência dos opostos.

Cardeal Nicola de Cusa - Nicolau de Cusa fundou um asilo para idosos em


Kues, hoje conhecida como Bernkastel-Kues, cidade localizada a cerca de 130

quilômetros ao sul de Bona, capital da Alemanha. Este edifício abriga hoje a biblioteca

de Cusa, com mais de 310 manuscritos. (Disponível em


http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_de_Cusa )

Segundo Bréhier, a Douta Ignorância é o estado de espírito daquele que não se


satisfaz com o conhecimento racional apenas, mas sabe o quanto está longe do

conhecimento intelectual e busca se aproximar dele (2005, p. 498). Aqui, percebe-se,

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UNIDADE 03 - NICOLAU DE CUSA
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portanto, o espírito moderno que guia a filosofia de Cusa, pois busca propor um
método, tentando extrair do platonismo uma explicação metafísica para compreender o

universo do conhecimento humano.

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_de_Cusa)

BUSCANDO O CONHECIMENTO

O Humanismo neoplatônico

Tanto Petrarca como Bruni e Cusa serviram de contraponto para caracterizar e


analisar os primeiros passos do pensamento humanista que se formava nesse período.

Nota-se que enquanto Petrarca e Cusa afirmaram a filosofia socrática como


fundamento para direcionar o olhar ao seu tempo, Bruni, por sua vez, inspirou-se na

leitura de Aristóteles para afirmar a perspectiva humana e negar a visão medieval. Esse
movimento de navegação entre um e outro filósofo da Antiguidade deve ser

compreendido com particular cuidado.


Reale&Anteseri comentam que as perspectivas de renovação do espírito

humano são evidentes e provocam de fato uma contestação ao pensamento medieval.


Contudo, se por um lado, o humanismo é uma renovação do espírito humano; por

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UNIDADE 03 - NICOLAU DE CUSA
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outro, há implícito uma continuidade do pensamento escolástico, visto que, alertados


pela visão de Kristeller, eles afirmam que o aristotelismo renascentista seguiu os

métodos vigentes até então (2004, p 8). Nessa perspectiva, percebe-se que existiu, em
alguns movimentos, a rejeição óbvia ao aristotelismo-escolástico, mas não existiu o seu

abandono. O Aristóteles lido pelos humanistas é um Aristóteles no original, distantes


dos comentadores medievais e lido com novo olhar, à luz de um novo espírito.

Por isso, cabe ao estudante de Filosofia perceber que o humanismo não se trata
apenas da reprodução do pensamento platônico pura e simplesmente, nem da

negação pontual dos textos aristotélicos, mas de uma leitura dos textos clássicos
gregos a partir de perspectivas neoplatônicas (4), visando ao rompimento e até mesmo

ao abandono da interpretação escolástica.


Pode-se afirmar, com certa segurança, que

a influência de Platão marcou a produção filosófica


do período Renascentista. Marsílio Ficino, Pico Della (4) Neoplatonismo:
Mirandolla, entre outros, foram alguns dos filósofos conjunto de doutrinas
que repercutiram, em suas obras, o predomínio do filosóficas que
especialmente se
neoplatonismo no modo de compor o pensamento
intitularam como
filosófico humanista, cuja intenção era reviver um platônicas no século III
ambiente intelectual fértil a partir do olhar da Grécia
Clássica Antiga.

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UNIDADE 04 - A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA
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CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Entender o início da revolução científica.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O Renascimento e a revolução científica

As transformações que se iniciariam nas artes e na literatura no período


renascentista não poderiam deixar de se estender ao conhecimento científico. A idade

Moderna pode ser considerada o período das revoluções: a reforma, a revolução


científica, a revolução francesa, a revolução industrial são termos que buscam retratar o

espírito inovador que deu margem à surgimento de um novo homem. Obras como
Nova Atlântida e Novum Organum de Francis Bacon; Meditações de René Descartes; O

Príncipe de Maquiavel e Utopia de Thomas Morus são alguns ícones da crítica aos
dogmas medievais e a um velho conhecimento.

Nesse contexto, a disputa entre as teses platônicas e aristotélicas pareciam ser


inevitáveis. Enquanto a primeira ressurgia como a possibilidade de renovar os caminhos

do pensamento humano, como já mencionado; a outra serviria ora de contrapondo às


novas teses, ora como fundamento para surgimento de outras teses.

É inspirado em Aristóteles, por exemplo, que Nicolau Copérnico deu ênfase às


análises e as pesquisas experimentais e na importância da investigação da natureza.

Todavia, é em Platão que o mesmo Copérnico valoriza a explicação do cosmo por


intermédio da matemática.

A Revolução Científica
O termo Revolução Científica indica as profundas inovações ocorridas no

campo da ciência, nas investigações inovadoras dos fenômenos naturais conhecidos,


nas metodologias de pesquisas e na forma de admitir e validar os conhecimentos

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UNIDADE 04 - A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA
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adquiridos, em que a observação, a experimentação e a verificação de hipóteses


constituem critérios à fundamentação do conhecimento.

As contribuições de Nicolau Copérnico, Johannes Kepler e de Galileu Galilei são


inestimáveis para a composição do panorama científico que se desenvolveu ao longo

da modernidade. A eles, somam-se Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton que
complementaram os princípios da ciência moderna.

Assim, no estudo a seguir procurar-se-á abordar alguns movimentos da


Filosofia Renascentista que compuseram o panorama científico da Idade Moderna.

O Sistema Heliocêntrico de Copérnico

Segundo Reale&Antiseri, a teoria (5) Nicolau Copérnico


heliocêntrica de Nicolau Copérnico (1473-1543) nasceu em Torum às
margens do Vístula,
(5) constitui-se como marco da Revolução
Polônia. Estudou
Científica por se apresentar como uma autêntica geometria, cálculos
astronômicos e
“revolução” no mundo das ideias do homem
fundamentos da
sobre o universo e sua relação com esse mesmo astronomia na Cracóvia,
indo para Bolonha, Pádua e
universo (2004, p. 167). Ferrara complementar seus
A teoria heliocêntrica copernicana estudos em direito
canônico.
contrapõe-se à teoria geocêntrica de Aristóteles
Retornando à Polônia,
defendida por Claudio Ptolomeu (sec. II d.C), o
desenvolveu seus estudos
último dos grandes astrônomos gregos. de astronomia, onde, por
volta de 1532, completou
Nicolau Copérnico (1473-1543) - A
os estudos que culminaram
teoria do modelo heliocêntrico, a maior teoria na obra Sobre a revolução
dos corpos celestes (1543).
de Copérnico, foi publicada em seu livro, De
revolutionibus orbium coelestium ("Da revolução

de esferas celestes"), durante o ano de sua morte, 1543. Apesar disso, ele já havia
desenvolvido sua teoria algumas décadas antes.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 04 - A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA
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O geocentrismo foi uma ideia dominante na astronomia durante toda a


Antiguidade e Idade Média. O sistema ptolemaico explicou o movimento dos planetas

por meio de uma combinação de círculos: o planeta se move ao longo de um epiciclo,


cujo centro se move ao longo de um pequeno ciclo chamado deferente. A terra seria

então o planeta que, afastada um pouco do centro do deferente, move-se distante


desse para dar conta do movimento não uniforme dos planetas (OLIVEIRA; SARAIVA,

2000, p. 54).

Fonte: http://www.mat.ibilce.unesp.br

BUSCANDO CONHECIMENTO

Em De revolutionibus, Copérnico propõe uma nova visão de cosmo. Os


princípios que moveram a composição da teoria de Copérnico têm sua influência em

duas fontes: a primeira são as hipóteses não aceitas de Aristarco de Samos (310-230
a.C.), que afirmou pela primeira vez o Sol, e não a Terra, ser o centro do universo, e a

influência dos pitagóricos Filolau (séc. V a.C.) e Ecfanto (séc. IV a.C.) que também

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 04 - A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA
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afirmaram que seria a Terra quem orbitava em torno do Sol; a segunda, o


neoplatonismo.

A partir da primeira fonte, Copérnico opera o conceito de que a Terra é apenas


um dos seis planetas (conhecidos) girando em torno do Sol, colocando cada um deles

em ordem de distância do Sol (Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno) e


determinando as distâncias destes em relação ao Sol. Deduzindo, desse modo, que

quanto mais perto do Sol maior será a sua velocidade orbital.


Na segunda fonte, foram seus estudos com Domingos Maria Novara que o

influenciou à leitura do pensamento neoplatônico a partir de Proclos Lício (412-485).


Proclos propunha a matemática como instrumento para o entendimento do universo.

Nessa concepção, são as propriedades matemáticas que formam as características


verdadeiras e imutáveis das coisas.

Em sua carta dedicatória a Paulo III encontram-se as fontes do seu


pensamento:

“Por isso assumi o trabalho de reunir os livros de todos os filósofos, que


pudesse ter, com o fito de indagar se acaso algum tivesse opinado que os
movimentos das esferas do mundo fossem diversos daqueles que são
admitidos por aqueles que ensinam matemática nas escolas. E encontrei assim
o primeiro em Cícero que Niceto pensara que a terra se movesse. Depois,
também em Plutarco encontrei que outros ainda eram da mesma opinião (...)”
(COPÉRNICO APUD IN REALE&ANTISERI, p. 186)

Copérnico adota a concepção de um cosmo finito fundamentado na forma


esférica, em que o movimento perfeito segue a mesma ordem. Sua teoria, com efeito,

apenas rompe com a proposta aristotélico-ptolomaica por adotar o Sol como centro do
cosmo e não a Terra. Embora seja um universo fechado tal qual o proposto por

Ptolomeu. Contudo, tal proposta torna-se importante por revelar outro caminho à
compreensão da realidade e ao conceber um paradigma alternativo em relação àquele

de tradição milenar.
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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 05 - JOHANNES KEPLER E A ÓRBITA ELÍPTICA
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o pensamento de Johannes Kepler.

ESTUDANDO E REFLETINDO

A órbita elíptica dos planetas

Johannes Kepler (1571-1630) é personagem fundamental ao entendimento


da Revolução Científica. Nascido nas proximidades de Stuttgard, Alemanha,
inicialmente se dedicou ao estudo de teologia, abandonando-o após quatro anos de
seminário. Convidado a ser professor de matemática em Graz, na Áustria,
permaneceu no cargo por apenas alguns anos, pois foi expulso da cidade por ser
protestante, devido à pressão da Igreja Católica com a Contrarreforma.

(Disponível em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_Cop%C3%A9rnico)

Johannes Kepler (1571-1630) - estudou inicialmente para seguir carreira


teológica. Na Universidade, ele leu sobre os princípios de Copérnico

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 05 - JOHANNES KEPLER E A ÓRBITA ELÍPTICA
Porfírio Amarilla Filho

(proeminente cônego católico) e logo se tornou um entusiástico defensor


do heliocentrismo.
Transferiu-se para Praga para trabalhar com o astrônomo Tycho Brahe,
Como assistente de Brahe, Kepler teve a oportunidade de aprofundar seus estudos
sobre os astros e, principalmente, seu interesse na teoria heliocêntrica de
Copérnico.
De influência platônica-pitagórica, Kepler acreditou que a natureza tinha sua
ordem por regras matemáticas. Em sua obra Mysterium Cosmograficum, o sistema
Copérnico vincula-se à concepção platônica de que uma razão matemática divina
presidiu a criação do universo.
Em Timeu, Platão propõe um modelo físico do universo que se constitui
como um conjunto de axiomas cujas propriedades do universo são logicamente
deduzidas, sendo a sua ordem constituída por relações matemáticas. Nessa
proposta, os astros, assim como os sons, circulam de acordo como uma mesma
relação matemática em espaço e tempo (no caso dos sons) que determina a
harmonia do conjunto.
A obra de Kepler consistiu em harmonizar a geometria e a matemática ao
mundo. Deus é matemática, afirmou Kepler. Com essa inspiração, Kepler conseguiu
determinar a órbita terrestre, em que, a partir de dados observados no planeta
Marte, abandonou a ideia copernicana de uma órbita circular, adotando, em seus
cálculos, uma órbita elíptica e de velocidade variável.
Dadas as condições em que as observações se desenvolveram e os
recursos matemáticos disponíveis até então, a descoberta de Kepler, além de
fantástica, rompe com o dogma de que o movimento circular é natural e perfeito.
Esses movimentos na filosofia da natureza, tanto de Copérnico como de Kepler,
iniciam a cisão nas bases do pensamento e do conhecimento medieval. Se
somarmos a isso, as transformações nas artes, na política, na cultura e na religião, o
pensamento medieval sofre pela disposição que se encontra nos homens
renascentistas em renovar o próprio tempo em que se encontram.
Por isso, é sobre Galileu Galilei que repousará a admiração dos homens
modernos e, por que não dizer, dos contemporâneos. O novo sistema cósmico, o
novo instrumento, o novo método são aspectos de uma só intenção: fazer renascer
uma nova interpretação do mundo, em seu sentido amplo.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 05 - JOHANNES KEPLER E A ÓRBITA ELÍPTICA
Porfírio Amarilla Filho

O que se procura ressaltar aqui à compreensão do estudante de Filosofia, é


que os filósofos vistos até aqui, e aqueles ainda não examinados, são apenas parte
de um entrecruzamento do ocaso de um período que se sucumbe, não pela sua falta
de engenhosidade nas explicações filosóficas, mas pela nascente de um período
que viu naquelas explicações o esgotamento de um saber que impedia o progresso
do conhecimento.

BUSCANDO CONHECIMENTO

Para refletir mais sobre o assunto, apresento um excerto sobre a nova


astronomia desenvolvida por Kepler1

Uma Nova Astronomia


Suas investigações se estenderam e culminaram em “Uma Nova
Astronomia”, incluindo as primeiras duas leis dos movimentos planetários, que
começaram com a analise dos dados de Tycho da órbita de Marte. Kepler calculou e
recalculou várias aproximações da órbita de Marte usando uma equante (ferramenta
matemática que Copérnico já havia eliminado de seu sistema), criando um modelo
que usualmente entrava em acordo com as observações de Tycho dentro de um
erro médio de dois minutos de arco (1/60 de grau). Mas ele não estava satisfeito
com os resultados, pois alguns pontos do modelo eram diferentes dos dados em oito
minutos de arco. O vasto conjunto de métodos matemáticos astronômicos parecia
insuficiente para ele, até que conseguiu ajustar os dados em uma órbita ovóide.
Na visão religiosa do cosmos de Kepler, o Sol (um símbolo de Deus Pai)
fonte da força motora no sistema solar. Com embasamento físico, Kepler foi
influenciado pela analogia que William Gilbert apresentou em sua teoria da alma
magnética da Terra em De Magnete (1600) e em seus outros trabalhos em óptica.
Kepler supôs que o poder de radiação do Sol diminuía com a distância, causando
movimentos mais rápidos e mais lentos quando estes se moviam mais próximos ou

1
Disponível: <
https://www.google.com.br/?gfe_rd=cr&ei=XFJaVIKXIcqU8Qev9oGwBA&gws_rd=ssl#q=johannes+kepler+pdf>
, acesso em: 18/10/2014.
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UNIDADE 05 - JOHANNES KEPLER E A ÓRBITA ELÍPTICA
Porfírio Amarilla Filho

mais distantes do Sol. Talvez essa suposição acarretasse em uma relação


matemática que recuperasse a ordem astronômica. Baseado em medidas de afélios
e periélios da Terra e Marte, ele criou uma equação que relacionava os raios dos
movimentos dos planetas ao redor do Sol com o inverso de suas distâncias até o
Sol. Para verificar essas relações do começo ao fim do ciclo orbital, eram
necessários cálculos extensivos, e para simplificar seu trabalho, em 1602, Kepler
reformulou a proporção em termos geométricos da seguinte maneira: "A linha que
liga o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais", conhecida hoje como a
segunda lei dos movimentos planetários ou como a segunda lei de Kepler.
Ele ajustou os cálculos para toda a órbita de Marte, usando sua lei
geométrica e usando a órbita em forma de ovóide. Após aproximadamente 40
tentativas insuficientes, em meados de 1605 ele teve a ideia de uma elipse.
Descobriu que uma órbita elíptica ajustava os dados de Marte, e imediatamente
concluiu que todos os planetas se moviam em elipses, com o Sol em um dos focos,
sendo esta a primeira lei dos movimentos planetários ou primeira lei de Kepler.
Devido ao fato de não possuir um ajudante, Kepler não estendeu suas análises
matemáticas referentes a Marte. Ao final daquele ano, ele completou o manuscrito
de “Uma Nova Astronomia”, embora não pode ser publicado até 1609 devido à
legalização do uso das observações de Tycho, proprietário dessa herança.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 06 - GALILEU E A OBSERVAÇÃO DOS ASTROS
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o pensamento desenvolvido Galileu Galilei.

ESTUDANDO E REFLETINDO

A observação dos astros


Galileu Galilei (1564-1642) é considerado o pai da física moderna. Sua
contribuição para a compreensão do Modelo Heliocêntrico de Copérnico e para os
avanços da ciência nos anos que se seguiram, após as publicações dos seus
trabalhos, são fundamentais ao entendimento do período moderno.
Nascido em Pisa, na Itália, Galileu foi membro de uma família burguesa.
Mudou-se para Florença aos 10 anos de idade, onde iniciou seus estudos e, sob
orientação dos pais, mais tarde, matriculou-se em curso de Medicina, todavia,
abandonando-o. Dedicou seus estudos em matemática graças à influência de Ostílio
Ricci, que fora aluno do grande matemático Nicola Tartaglia.
Galileu Galilei (1564-1642) desenvolveu os primeiros estudos sistemáticos
do movimento uniformemente acelerado e do movimento do pêndulo. Descobriu a lei
dos corpos e enunciou o princípio da inércia e o conceito de referencial inercial,
ideias precursoras da física mecânica newtoniana.

(Disponível em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Galileu_Galilei )

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 06 - GALILEU E A OBSERVAÇÃO DOS ASTROS
Porfírio Amarilla Filho

Seguindo os passos de Ricci, que propunha que a matemática fosse uma


ferramenta prática para os problemas da mecânica e da engenharia, Galileu
procurou conciliar a visão da matemática às questões da natureza. Entre as suas
contribuições à Revolução Científica está também o uso do telescópio nas
observações. Embora não fosse o inventor do telescópio, coube a Galileu o
aprimoramento e o uso desse instrumento na atividade científica.
Galileu começou suas observações telescópicas em 1610, contribuindo para
várias descobertas na astronomia, destacam-se as mais importantes:
(i) a Via Láctea era constituída por uma infinidade de outras estrelas;
(ii) Júpiter possuía quatro satélites orbitando ao seu redor;
(iii) Vênus passava por um ciclo de fases, igualmente como a Lua;
(iv) A Lua possuía um relevo formado por cavidades e elevações e o Sol
não possuía uma superfície lisa, mas apresentava manchas.

Todavia, as descobertas mais importantes são aquelas que deram


sustentação à tese copernicana sobre o sistema heliocêntrico. Por causa delas,
Galileu foi acusado de heresia pela Inquisição Católica e obrigado a se retratar. O
papa Urbano VIII, convencido pelos adversários de Galileu de que seu Diálogo sobre
os dois máximos sistemas do mundo Ptolomaico e Copernicano se caracterizava
como uma afronta à autoridade papal, chamou-o à Roma para se justificar por que
havia quebrado o acordo, de 1616, junto ao cardeal Berlamino, em que Galileu se
comprometera em não ensinar nem defender as teses copernicanas. Como as
explicações de Galileu não satisfizeram o Santo Ofício, foi obrigado a abjurar sobre
as teses defendidas:

“Eu, Galileu, filho daquele Vicenzo Galileu de Florença, nesta minha idade
de setenta anos, constituído pessoalmente em juízo e ajoelhado diante de
vós, (...) e tendo diante de meus olhos os sacrossantos Evangelhos, que
toco com as próprias mãos, juro que sempre acreditei, acredito agora e,
com a ajuda de Deus, acreditarei no futuro em tudo aquilo que a santa igreja
católica e apostólica mantém, prega e ensina” (APUD IN
REALE&ANTESERI, 2004, p. 209).

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 06 - GALILEU E A OBSERVAÇÃO DOS ASTROS
Porfírio Amarilla Filho

Galileu foi condenado à prisão domiciliar na Vila de Médici e posteriormente


na Vila de Arcetri, onde escreveu sua última obra.
Entre as publicações encontram-se as seguintes obras: Sidereus Nuntius
(Mensageiro Celeste), publicado em 1610; O ensaísta, em 1623; Diálogo sobre dois
máximos sistemas do Mundo Ptolomaico e Copernicano, em 1638, produzido já em
seu cativeiro.

BUSCANDO CONHECIMENTO

A ciência de Galileu

Galileu não é autor de uma teoria da física universal, contudo, seu trabalho
conduz à criação de uma ciência físico-matemática da natureza, capaz de prever
alguns fenômenos. Movido por um intenso desejo de compreensão dos fenômenos
da natureza, Galileu não se preocupou, em suas pesquisas, em dizer como as
coisas se comportam na natureza, mas em provar que a matemática, com seus
triângulos, seus círculos e suas figuras geométricas, é a linguagem capaz de decifrar
o livro da natureza. Desse modo, a natureza passa a ser tratada por Galileu como
uma abstração entre o espaço e pontos que podem ser expressos por meio de
equações matemáticas (MARCONDES, p. 158).
Com efeito, Galileu organizou, sistematizou e sintetizou a contribuição de
vários pensadores anteriores ao seu tempo. Nessa empreitada, concluiu que a
ciência é de fato objetiva, pois procede a partir de um método preciso que se
fundamenta em regras ao buscar o “entendimento das coisas”, fugindo, assim, das
qualidades subjetivas das coisas, ou seja, das
(6) Pitágoras- 570-500 a.C. é
conhecido por ter fundado uma qualidades variáveis e dependentes, ao
associação religiosa de tipo órfico e
menos em parte, do sujeito: a cor, o sabor, a
também conhecido por sua doutrina
da transmigração das almas, luminosidade etc.
contudo, a sua religiosidade está
associada à concepção de que o
Percebe-se, portanto, que o
número é o princípio de todas as pensamento de Pitágoras (6) e de Platão
coisas. Deve-se a ele a
representação do número de forma tiveram uma importância essencial aos
figurativa em vez de linear. estudos de Galileu, pois a demonstração
causal dos fatos, conseguido por meio da

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 06 - GALILEU E A OBSERVAÇÃO DOS ASTROS
Porfírio Amarilla Filho

experimentação, fundou-se na sua submissão aos cálculos e à medida matemática.


Ou seja, uma concepção matemática da natureza, essencialmente pitagórica. Tal
matematização significou considerar os caracteres quantitativos dos fenômenos
sobre os qualitativos. Ou seja, implica em observar unicamente as determinações
quantitativas de grandeza: forma, situação, número, movimento etc.; e reduzir a pura
impressão subjetiva todos os caracteres qualitativos de cores, odores, gostos, calor,
frio etc. Argumenta Galileu em O Ensaísta:

“Tenho pensado nesses sabores, odores, cores e assim por diante, no que
se refere ao sujeito em que nos parece se encontram, não são mais que
puros nomes, que apenas residem no corpo sensitivo, de modo que,
removido o animal, todas essas qualidades são eliminadas e aniquiladas”.
(APUD IN NICOLA, 2005, p.210).

Por isso, há no discurso científico, segundo Galileu, uma autonomia em


relação à fé, quando se pretende descrever o mundo, proposta pela própria
objetividade científica. Fé religiosa e ciência se fixam em um princípio de distinção
fundamentado na finalidade. A relação entre elas se estabelece por uma e outra e
não entre uma ou outra. Enquanto a segunda visa à compreensão de como o
universo funciona, a primeira visa a dar sentido aos destinos dos indivíduos, à vida
humana propriamente dita.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 07 - O MÉTODO CIENTÍFICO DE GALILEU
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o método científico desenvolvido por Galileu.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O método resolutivo-compositivo

A ideia de objetividade, organização e sistematização da ciência, em Galileu,

resume-se em seu método resolutivo-compositivo. O método compositivo de Gallileu


visa a reunir em uma só fórmula matemática os fatos observados. O método resolutivo

permite deduzir das leis observadas um grande número de fatos decorrentes delas.
Galileu propõe quatro etapas para o desenvolvimento das pesquisas: a

observação, em que os dados das observações são delimitados em referência ao


problema que se deseja resolver; a hipótese explicativa, que procura conceber um novo

modo de explicação ao fenômeno, ao mesmo tempo em que tal hipótese se restringe à


confirmação experimental; a dedução, que se configura nas deduções matemáticas das

observações e hipóteses levantadas, e, por último, a verificação experimental, em que se


criam condições empíricas para que se possam medir as consequências dedutivas e as

interferências de outros fatores que não foram previstos nas hipóteses.

Experiências e demonstrações

Segundo Émile Brehier, em Galileu, encontra-se uma ideia clara das leis da
natureza como relações funcionais (2005, p. 20). Disso resulta, o avanço da matemática

e da física e uma nova postura dos filósofos renascentistas diante dos problemas da
natureza. Os fenômenos aqui são interpretados, portanto, em sua realidade verdadeira
e podem ser medidos. É, pois, essa busca de evidências experimentais que levam a
Galileu a demonstrar as hipóteses de Copérnico acerca do heliocentrismo.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 07 - O MÉTODO CIENTÍFICO DE GALILEU
Porfírio Amarilla Filho

Tal confiança de Galileu na observação


experimental propiciou críticas dos filósofos

aristotélicos. Acusado de ser avesso a Aristóteles, O método de Galileu busca


orientar as descobertas da
refuta as acusações se fundamentando na própria ciência e consiste em
“experiências sensatas” e
filosofia peripatética. Para Galileu, se Aristóteles “demonstrações necessárias”.
dispusesse de instrumentos que o levassem a

observações mais precisas, teria modificado suas teses


a respeito do universo.

“Por acaso duvidais de que se Aristóteles visse as novas descobertas no céu ele
não mudaria de opinião, para emendar seus livros e aproximar-se de doutrinas
mais sensatas, afastando de perto de si aqueles tão pobrezinhos de espíritos
que muito pusilanimemente se propõem a defender qualquer dizer seu, sem
entender que se Aristóteles fosse como eles imaginam teria um cérebro
indócil, uma mente obstinada, um ânimo cheio de barbárie, uma vontade
tirânica que, considerando todos os outros como estúpidas ovelhas, quereria
que seus decretos se antepusessem aos sentidos, às experiências, à própria
natureza? Foram seus seguidores que deram autoridade a Aristóteles, e não
ele que a usurpou ou tomou” (Diálogo sobre os dois máximos sistemas do
mundo APUD IN NICOLA, 2005, p. 212).

Assim, Galileu antepôs a experiência ao discurso. Todavia, não significa que um


seja mais importante que o outro. Ou seja, as primeiras são fruto de uma observação

medida e calculada; as segundas consistem em argumentações a partir de hipóteses


rigorosamente construídas e demonstradas.

Isso significa dizer que o modelo de ciência de Galileu surge na esteira do


modelo geométrico. A vinculação estabelecida por Galileu entre a observação e a

demonstração conseguiu, por meios dos sentidos e das demonstrações lógico-


matemáticas, uma vinculação recíproca. As experiências sensíveis da observação não

poderiam valer cientificamente sem a relativa demonstração da sua necessidade, nem a


demonstração lógica e matemática poderia alcançar sua certeza objetiva sem se apoiar

na experiência.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 07 - O MÉTODO CIENTÍFICO DE GALILEU
Porfírio Amarilla Filho

Todavia, ressalta-se, Galileu concebe a experimentação como causa ativa e


racional dos efeitos, e não apenas a pura observação empírica de fenômenos que

aconteçam espontaneamente. Se, por um lado, a observação, no modo de produzir o


seu modelo de ciência, apresenta-se como elemento necessário à análise dos

fenômenos e à descoberta das razões (da experiência à razão, por via compositiva e
resolutiva); por outro, na produção experimental do fenômeno se deve ter em mente as

razões para empregá-las na realização da experiência (da razão à experiência, por via
sintética).

Dessa maneira, a experimentação, dentro do processo sintético, deve ser


precedida da experiência e do processo analítico, este acrescido da hipótese explicativa

e somado à experimentação, por seu processo dedutivo, que pode chegar à certeza do
conhecimento científico. Portanto, a experimentação galileana acha-se precedida e

dirigida por uma razão dedutiva, pela qual a produção dos acontecimentos e dos
experimentos se vê deduzida de uma racionalidade.

Através de experimentos, Galileu provou

que muitos pressupostos antigos e adotados pela


Igreja eram falsos e conduziam ao erro.

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_de_Pisa)

27
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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 07 - O MÉTODO CIENTÍFICO DE GALILEU
Porfírio Amarilla Filho

O princípio da inércia, por exemplo, afirma que o corpo tende a preservar a sua
condição de repouso ou de movimento até que outra força exterior intervenha em sua

condição. Para a realização experimental de suas hipóteses dedutivas, Galileu utilizou


superfícies horizontais, a fim de que o impulso comunicado inicialmente ao móvel não

sofresse alteração pela gravidade, atirando sobre elas pequenas esferas, com a
finalidade de reduzir o mínimo da ação do atrito. Outra experiência realizada de uma

hipótese dedutiva por Galileu foi a de deixar cair dois pesos de massas diferentes para
demonstrar que ambos tocavam o solo simultaneamente.

BUSCANDO CONHECIMENTO

Galileu produz, com base em seu modelo de ciência, quatro leis sobre a queda

dos corpos: a) a velocidade da queda de um corpo é independente de sua massa; b) a


velocidade de um corpo é independente da sua natureza; c) a velocidade adquirida por

um corpo que cai livremente, a partir do repouso, é proporcional aos tempos; c) os


espaços percorridos são proporcionais aos quadrados dos tempos em percorrê-lo.

Assim, para deduzir essas leis Galileu, primeiramente, necessitou criar as hipóteses
abstratamente, contrapondo as opiniões aristotélicas dominantes em seu contexto

filosófico.

28
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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 08 - O CONHECIMENTO CIENTÍFICO SEGUNDO FRANCIS BACON
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender a análise do método científico realizado por Bacon.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O progresso do conhecimento científico

Francis Bacon (1561-1626) foi um dos mais conhecidos e influentes rosacruzes e


também um alquimista, tendo ocupado o posto mais elevado da Ordem Rosacruz, o

de Imperator.

(Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Bacon)

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 08 - O CONHECIMENTO CIENTÍFICO SEGUNDO FRANCIS BACON
Porfírio Amarilla Filho

A importância de Francis Bacon (1561-1626), filósofo inglês, na Revolução


Científica repousa precisamente no movimento filosófico em estabelecer uma análise

na concepção de um método para a validação do conhecimento científico.


Nascido em Londres, em 1561, em uma família da nobreza inglesa, Bacon desde

cedo gozou dos privilégios da corte. Eleito para a Câmara dos Comuns percorreu a
carreira política, chegando a ser nomeado lorde chanceler e recebendo o título de

Barão de Verulam e Visconde de Santo Albano do Rei Jaime I. Todavia, sua carreira
política foi bruscamente interrompida devido a uma acusação de corrupção, segundo

os historiados da filosofia, por aceitar presentes de uma das partes interessadas antes
de uma sentença na qual era o juiz. A partir desse episódio, Bacon foi impedido de

exercer qualquer ofício público, dedicando-se, então, aos estudos de filosofia e à


atividade de escritor.
Ruim para Bacon, bom para a filosofia. Em 1620 publicou a sua principal obra:
o Novum Organum, em que defende o método científico como uma arte de interpretar

a natureza. Em seguida publica Da Dignidade e do Progresso das Ciências, em 1623; e A


Nova Atlântica em 1624.

Há de se notar ao longo da trajetória de Bacon que a sua proposta à ciência


não é somente um instrumento para o intelecto, mas ainda uma ferramenta da ação

que objetiva "conhecer a verdade das coisas de forma clara e manifesta", em que a
experiência detalhada e rigorosa é a melhor demonstração.

Em Novum Organum, Bacon quis estabelecer aquilo que acreditou ser as regras
necessárias para a condução do conhecimento. Em Nova Atlântica, procurou

demonstrar o bem que uma sociedade pode ter ao aplicar a ciência como fonte das

beneficies na relação Estado-sociedade.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 08 - O CONHECIMENTO CIENTÍFICO SEGUNDO FRANCIS BACON
Porfírio Amarilla Filho

É importante ao estudante de filosofia perceber que uma obra se completa


pela outra para compor um só projeto. Juntas, conhecimento e poder unem-se para

formar uma só proposta. Todavia, a proposta de compreensão do conhecimento


científico, além do entendimento do contexto que atravessam as discussões sobre as

reformas no pensamento moderno, e a proposta de uma nova ordem social


fundamentado no saber não podem ser separadas, sob a pena de se perder o ponto de

vista visionário que se estabeleceu nas obras do filósofo inglês.

BUSCANDO CONHECIMENTO

O Novo na construção do conhecimento


A proposta de Bacon cria corpo a partir dos títulos das duas obras

mencionadas acima. Ao usar o termo Novo


em ambas as obras nota-se a proposta
Produzir um novo caminho
para o avanço da ciência e incisiva e explícita de ruptura com o caminho
conseqüentemente ao
desenvolvimento de uma que foi percorrido até então pela tradição,
sociedade política e
seja a antiga, seja a escolástica.
eticamente melhor
Novum, palavra latina para

designar o novo, carrega em si um


significado mais puro e primitivo do que comumente se encontra. Em Bacon, "novo" é

aquilo que não se adapta às regras, que age indiferente ao que “está posto”, que, por
ser assim, recebe um sentido mais amplo, ou seja, aquilo que não tem semelhança com

qualquer outra coisa conhecida. Com efeito, o Novum Organum e Nova Atlântica não

podem ser entendidas sob à luz da tradição filosófica.


A intenção de Bacon não foi apenas trazer à sua época uma releitura dos

métodos filosóficos e ortodoxos para o conhecimento, mas também, devido ao seu


potencial visionário, elaborar uma nova proposta ao desenvolvimento do conhecimento

humano. O que o filósofo inglês visou foi investigar a possibilidade de estender os

31
CENTRO UNIVERSITÁRIO DE ARARAS “DR. EDMUNDO ULSON” – UNAR”
FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 08 - O CONHECIMENTO CIENTÍFICO SEGUNDO FRANCIS BACON
Porfírio Amarilla Filho

limites do conhecimento humano para dar grandeza ao homem e tornar mais sólidos
os seus conhecimento. Conforme comenta: “o conhecimento das causa e dos segredos

dos movimentos das coisas e da ampliação dos limites do império humano para a
realização de todas as coisas que forem possíveis” (1979, p. 262)

Com efeito, pode-se afirmar que Bacon foi o arquiteto do pensamento


científico que dominaria o período moderno e desembocaria na contemporaneidade.

Todavia, como foi mencionado, o projeto científico de Bacon incorpora também um


projeto político. Segundo Maria das Graças Nascimento, o saber é entendido por ele

como um poder que se estende não como uma força de opressão ou dominação de
uma sociedade, mas como um projeto utópico organizador da sociedade, da natureza

cooperativa do esforço científico e da orientação das investigações para a promoção do


bem estar de toda a humanidade (2000, p. 374).

Isso significa dizer que na visão de Bacon a ciência ultrapassa a singularidade


do pesquisador e ganha um valor ético universal, o bem para todos. Assim, à medida

que a ciência avança e gera novos recursos ao Estado, esse deve aplicá-los ao bem-
estar do homem e, assim, maior e melhor será o poder daquele e da humanidade.

A proposta de Bacon visou à reforma dos princípios epistemológicos para a


composição do pensamento e do conhecimento científico:

· O balanço crítico das atividades filosóficas e científicas privilegiadas pela


tradição, assim como dos entraves para o progresso da ciência e das causas

inerentes dos erros da razão humana;


· O inventário dos processos cognitivos;

· A divisão das ciências.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 09 - O MÉTODO INDUTIVO DE BACON
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender a análise do método científico realizado por Bacon.

ESTUDANDO E REFLETINDO

Os erros da razão
A filosofia de Bacon caracteriza-se por uma crítica e um rompimento incisivo

com as bases do saber escolásticos, de fundamentação aristotélica. Por isso, antes de


quaisquer especificações epistemológicas, Bacon desenvolveu a teoria dos ídolos da

razão em que enumera as fontes de erros da razão humana diante do conhecimento.


Nessa teoria, postula que a razão humana se via contaminada por ilusões ou

distorções que a bloqueavam no avanço do conhecimento. Assim como uma bússola


que se desorientada leva o navegante a lugar indesejado, acreditando ele ter chegado

ao lugar certo, a razão que se deixa iludir por falsas noções impede-lhe o caminho para
a verdade. Ao contrário da teoria dos ídolos exposta por Demócrito, que tinha como

fundamento de que a razão capta imagens das coisas pela percepção, Bacon procura,
antecipando a base conceitual do termo “ideologia”, difundido por Marx no século XIX,

imputar um conceito de ídolo que figura não como imagens, mas como ilusões de uma
realidade projetada na razão.

O primeiro objetivo, portanto, da teoria dos ídolos foi dar consciência aos
homens referente os aspectos que os podem conduzir ao erro. São quatro os ídolos da

razão humana:
· Ídolo da Tribo, que se fundamenta na própria natureza humana. Tribo

nesse sentido designa a própria espécie humana, ou seja, são erros


inerentes ao próprio espírito humano, cometidos por pressupor

paralelismo, correspondências ou mesmo relações, que na realidade não


existem nas coisas;

33
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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 09 - O MÉTODO INDUTIVO DE BACON
Porfírio Amarilla Filho

· Ídolo da Caverna, que deriva de cada indivíduo devido a sua educação e


relações com outros em sociedade, seja por livros, seja por discursos, seja

por admiração na autoridade daquele que o influencia. Cada indivíduo


possui em si mesmo um espírito singular e variável que compromete o

espírito científico, que tem como objetivo escapar ao senso comum, ao


dogma, ao preconceito;

· Ídolo do Foro, que imputa erros oriundos da linguagem e as


ambiguidades dos discursos. A linguagem, por ser um recurso humano,

pode estabelecer relações enganosas entre as coisas ou até mesmo


designar significados ou abstrações inexistentes nas coisas;

· Ídolo do Teatro, que deriva das doutrinas filosóficas ou concepções


científicas, pois essas se explicitam por regras de demonstrações

duvidosas, às vezes tendo como princípio uma tradição, uma fé cega ou


mesmo um desleixo de quem as conduz. Tais erros são ídolos do teatro,

pois Bacon compara os sistemas filosóficos às fábulas, que são como


cenas de teatros ou mundo fictícios.

Todavia, se por um lado, o que se tem como objetivo fundamental na

concepção dos ídolos da razão é livrar o homem de ideias que lhe são imputadas sem
perceber, como foi mencionado acima; por outro, a teoria dos ídolos opera como base

para desobstruir os caminhos para o avanço da ciência, no sentido prático.


De fato, segundo Chaui, Bacon acreditou que o avanço do conhecimento se

daria com a demolição e reforma da razão e dos conhecimentos adquiridos por ela até

então (2010, p. 165).


Ao estudante de Filosofia cabe entender que a filosofia de Bacon não se limitou

a reorientar os homens ao conhecimento. Além da recondução do homem aos


caminhos do conhecimento, a sua filosofia foi um esforço para produzir fundamentos

seguros à construção de uma nova ciência. Por isso, Bacon retoma o escopo da ciência.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 09 - O MÉTODO INDUTIVO DE BACON
Porfírio Amarilla Filho

Essa tem por finalidade conhecer as formas das coisas, naquele sentido mesmo dado
por Platão e Aristóteles.

Recuperando a tese aristotélica das quatro causas para investigação das


substâncias materiais, a saber: a causa formal, a material, a eficiente e a final, o filósofo

inglês concentrou-se na fundamentação de apenas uma: a causa formal. Para ele, é ela
que revela os segredos inclusos na natureza do objeto: “um homem que conheça as

formas pode descobrir e obter efeitos nunca antes obtidos, efeitos que nem as mudanças
naturais, nem o acaso, nem a experiência, nem a industriosidade humana jamais

produziram” (APUD IN REALE; ANTESERI, 2004, p. 272).


Ora, os fenômenos são produzidos segundo leis naturais intrínsecas a eles

mesmos, desse modo, compreender a forma significa o entendimento das estruturas de


um determinado fenômeno, bem como a lei ou regra que o rege. Isso significa dizer

que aquele que domina os efeitos da natureza, domina a lei que os rege e a estrutura
que os provoca. Ao entendimento das estruturas dos fenômenos Bacon denominou

esquematismo latente; ao entendimento das leis, processo latente. O escopo científico


baconiano, portanto, sustenta, internamente, ser possível rastrear os fenômenos da

natureza, tendo como movimento primeiro a investigação das manifestações mais


explícitas até aquelas mais implícitas ou ocultas.

BUSCANDO CONHECIMENTO

O método indutivo de Bacon


Dados os limites da razão e dados os objetivos da ciência, logo, resta-lhe

fundamentar o método que a ciência deve percorrer.


Enquanto a filosofia antiga e a filosofia medieval se apoiavam no debate das

palavras entre os homens, ora dialético, ora retórico, a filosofia de Bacon instaura um

novo confronto: o homem e a natureza.


Naquele debate medieval, o método clássico para a argumentação se dera na

concepção aristotélica da lógica. Como já fora visto em outros momentos do estudo da


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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 09 - O MÉTODO INDUTIVO DE BACON
Porfírio Amarilla Filho

Filosofia, a lógica se estabelece como método para o início da investigação filosófica ou


científica. Por isso, considerou-se o raciocínio lógico como uma atividade propedêutica

ao processo investigativo, pois ela fornece as regras ou normas ideais, por meio da
dedução e da indução, que conduziriam o pensamento diante das problemáticas da

pesquisa e na demonstração das verdades (CHAUI, 2002, p. 357).


De modo geral, o silogismo ou dedução, segundo Aristóteles, é o

procedimento que deve encontrar as condições que levem uma conclusão à sua
veracidade ou falsidade. Ou seja, a inferência dedutiva consiste em demonstrar que as

análises particulares de um objeto qualquer estão contidas em seus aspectos gerais. Por
sua vez, a lógica indutiva é o movimento que leva a razão à verdade a partir da análise

de dados particulares à conclusão de dados gerais.


É essa lógica que estabeleceu, na tradição clássica, que a ordem de

investigação difere da ordem de exposição. Primeiro, investiga-se por indução e,


depois, demonstra-se por dedução.

Contudo, Bacon rejeita a dedução aristotélica como forma de demonstração de


conhecimento. Para ele, é um instrumento que leva a razão à confusão diante dos

segredos da natureza. “Nós, ao contrário, rejeitamos a demonstração por meio de


silogismo porque ela só produz confusão e faz com que a natureza escape de nossas

mãos” (Novum Organum APUD IN NICOLA, 2005, p. 217), afirma.


Do mesmo modo que afasta a dedução de seus processos científicos, Bacon

rejeita também a indução aristotélica como método à aquisição do conhecimento. A


seu ver, trata-se de simples enumeração de aspectos particulares de um fenômeno,

pois, o método indutivo proposto por Aristóteles, ao concluir os fatos gerais do

fenômeno, acaba por saltar os elos intermediários, levando o pesquisador à construção


de conclusões precárias e contraditórias (REALE; ANTSERI, 2004, p. 275).

Para Bacon, a verdadeira indução é aquela que se fundamenta a partir da


análise dos fenômenos dada na experiência. Tal indução se desenvolve por eliminações

ou exclusões sistemáticas de experiências não concludentes. Ou seja, à medida que se

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 09 - O MÉTODO INDUTIVO DE BACON
Porfírio Amarilla Filho

verifica que casos particulares dos fenômenos se encontram ausentes ou presentes de


modo pleno, pode-se chegar a axiomas que claramente a ele se refere.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 10 - O PROGRAMA DE PESQUISA NEWTONIANO
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Entender as pesquisas realizadas por Isaac Newton.

ESTUDANDO E REFLETINDO

Nascido na Inglaterra no mesmo ano da morte de Galileu, 1642, Isaac Newton


(1642-1727) é considerado o pai da física clássica e aquele que pôs termo à Revolução

Científica. Isaac Newton (1642 - 1727) Em uma pesquisa promovida pela Royal Society,
Newton foi considerado o cientista que causou maior

impacto na história da ciência.

(Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_newton)

Newton entrou para a história da humanidade exatamente pelas suas pesquisas

nas diversas áreas da física: a ótica, a mecânica, a astronomia, e pela invenção dos
cálculos matemáticos diferenciais e integrais. Apoiado nas convicções pitagóricas sobre
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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 10 - O PROGRAMA DE PESQUISA NEWTONIANO
Porfírio Amarilla Filho

um universo formado por números, mesmo que cercadas de certo misticismo, Newton
desenvolveu suas teses fundamentado em uma racionalidade divina, estabelecendo

uma relação entre a sucessão de eventos sistemáticos da natureza, vista por ele como
um plano divino, e as relações matemáticas.

De fato, foi ele quem formulou uma explicação completa ao movimento e à


forma como as forças atuam, concluindo o trabalho iniciado por Galileu Galilei. As leis

da Inércia, das Forças e da Ação e Reação formam os princípios básicos para a


explicação do movimento e da mecânica natural que incidem sobre os corpos. Entre as

várias publicações de seus trabalhos: destacam-se: Princípios matemáticos da Filosofia


Natural (1687) e Óptica (1704.), que compõem o corpo principal das teses newtonianas.

Principia

Todavia, seu lugar na filosofia e na Revolução Científica está por propor uma
teoria metodológica que serviu de fundamento para o pensamento e as atividades

científicas que se seguiram após seu tempo. No Livro III de Principia, Newton compõe o
seu paradigma metodológico de pesquisa. Partindo da compreensão de que os

pressupostos de uma metodologia tem seu fundamento nas questões metafísicas,


Newton propõe a sua 1ª Regra para a investigação (APUD IN REALE; ANTISERI, 2004, p.

236): Não devemos admitir mais causas para as coisas naturais do que aquelas que são
dadas tanto verdadeiras como suficientes para explicar suas aparências.

Isso significa dizer que, na investigação científica, em seu primeiro momento, as


hipóteses não fornecem senão complicações para as observações dos fenômenos. A

simplicidade da natureza é o movimento para a sua compreensão ontológica e, por

isso, tal simplicidade se estende a fundamentação do método que se utiliza para


compreendê-la. Entender como é, significa primeiro entender o que é: a natureza é

simples. Da primeira regra entrelaça-se a 2ª Regra de caráter ontológico formulada por


Newton (IBDEM): Por isso, tanto quanto possível, aos mesmos efeitos devemos atribuir as

mesmas causas.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 10 - O PROGRAMA DE PESQUISA NEWTONIANO
Porfírio Amarilla Filho

Se por um lado a natureza é simples; por outro, a sua simplicidade leva à sua
uniformidade. Por isso, não se deve estender efeitos de uma mesma natureza a causas

diferentes. A luz, por exemplo, comporta-se com o mesmo princípio de uniformidade


seja na Terra, seja em outro planeta.

Disso resulta a 3ª Regra (IBDEM):


As qualidades dos corpos que não admitem aumento nem diminuição de grau,
e que se descobrem pertencerem a todos os corpos no interior do âmbito dos
nossos experimentos, devem ser consideradas qualidades universais de todos
os corpos.
E a 4ª regra a ser observada no método newtoniano:

Na filosofia experimental, as proposições inferidas por indução geral dos


fenômenos devem ser consideradas como estritamente verdadeiras ou como
muito próximas da verdade, apesar de hipóteses contrárias que possam ser
imaginadas, até quando se verifiquem outros fenômenos, pelos quais se
tornem mais exatas ou então sejam submetidas a exceções.

Assim, o método de investigação, defendido por Newton, caracteriza-se pelas


seguintes etapas: observação, experimentação e generalização. Em que a observação e

hipótese estão intimamente relacionadas, pois a primeira consiste o fenômeno em si, a


segunda por sua vez, embora não seja levada em conta como conhecimento específico

nem deva ser usada perdulariamente, a hipótese orienta a seleção dos fatos
organizando-os e dando-lhes, de certo modo, uma proposta antecipada, uma previsão,

do que pode ocorrer de fato.


Ao conter e descartar a hipótese como um conhecimento de fato, Newton visa

ao controle da investigação em termos mais rigorosos, pois a experimentação realizada

nessas condições permite a simplificação dos fenômenos, assim como a repetição


desses experimentos até, se possível, a uniformidade. Por isso, a indução viria a ser, a

seu ver, o melhor meio para estabelecer os princípios de compreensão dos fenômenos.
A generalização, por sua vez, reside em transformar as relações constantes e

necessárias entre os fenômenos em leis gerais. Desse modo, ao se generalizar os


fenômenos a partir de experiências criam-se duas perspectivas de generalização: a

empírica e a teórica, sendo que a primeira deriva de casos particulares, por exemplo, a

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 10 - O PROGRAMA DE PESQUISA NEWTONIANO
Porfírio Amarilla Filho

lei da queda de corpos; e a segunda que reúne diversos casos particulares, como por
exemplo: a lei da gravitação universal, que reúne os princípios das três leis mencionadas

anteriormente, relembrando: da Inércia, das Forças e da Ação e Reação.


O método newtoniano ofereceu uma imagem de um fenômeno qualquer

estruturada em termos de "determinismo causal", em que cada fenômeno, deste que se


conhecessem as condições iniciais desse fenômeno, poderia ser previsível e passível de

conhecimento à medida que se tivesse o ambiente e o instrumental adequado para


realizar as experiências exigidas.

BUSCANDO CONHECIMENTO

A nova ciência

Tal paradigma da física newtoniana encerra o desejo emergente, ao longo dos


séculos XVI e XVII, de se produzir uma nova ciência, porém, não encerra a criação de

novos conceitos, teorias e métodos. Ao contrário, a Revolução Científica implicou, como


se viu, em perceber que a nova ciência fora a ciência da medida, ou seja, as relações e a

mensurabilidade dos fenômenos foram expressas na linguagem dos números e


promovidas pelos instrumentos científicos. Interrogou-se a natureza por meio de

experiências e validou-se o conhecimento por meio de demonstrações empíricas. A


razão, antes dádiva divina, agora surgia com a capacidade de excluir as hipóteses sem

fundamentos, de iluminar a si mesmo e o mundo.


Por isso, falar em Revolução Científica para a Filosofia é buscar em um período

da história da humanidade a percepção de que mesmo a transformação ou

consolidação do saber requer um longo percurso de maturação e de aprofundamento.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 11 - O Racionalismo
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Esta unidade procurará trazer ao estudante de filosofia um panorama geral


sobre o racionalismo na filosofia moderna, sob o aspecto das características que se

formam em torno dessa corrente filosófica, como conhecimento humano, proposições,


métodos e influências recebidas de outros momentos da história do pensamento

humano.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O Racionalismo

Reconhecido como um período do avanço da ciência, das tecnologias, da


cultura e da política, a Idade Moderna está marcada pelo conceito de revolução e de

modernidade, isto é, do novo, do agora mesmo. Segundo Marcondes, a modernidade


toma forma exatamente por romper com

a tradição, pois está associada à


mudança, à renovação e ao progresso O Racionalismo caracterizou-
se, principalmente, por
(2008, p. 141). fundamentar seus argumentos
Como vimos na unidade anterior, na capacidade da razão em
conhecer as coisas no mundo
embora as transformações tenham sido real.

graduais ou progressivas, é possível datar

fatores que foram incisivos às


transformações ocorridas nesse período histórico. Assim, as grandes navegações, a

descoberta do novo mundo; as novas teorias científicas de Nicolau Copérnico, Kepler e


Galileu revolucionaram a concepção do mundo e do universo. Do mesmo modo, a

reforma de Lutero mudou o modo como o cristão percebia o papel da Igreja Católica,
assim como a decadência do feudalismo com o surgimento do capitalismo abalaram a

antiga ordem social e econômica.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 11 - O Racionalismo
Porfírio Amarilla Filho

A efervescência da atmosfera intelectual do Renascimento trouxe uma


avalanche de reformas e revoluções no modo de pensar da Europa. Tudo é sacudido

ou destruído.
Abaladas as estruturas culturais, políticas e sociais, a filosofia não poderia ficar

de fora dos tremores que permearam outras instâncias do pensamento humano. Na


filosofia, por um lado, uma vertente foi aberta pelos avanços da ciência na filosofia

empirista de Francis Bacon; por outro, outra vertente se abriu com a filosofia de
Descartes, o racionalismo.

Nessa concepção, a experiência sensível não basta para fornecer todos os


conhecimentos. Na tradição filosófica essa questão entre razão e sentidos retoma os

tempos antigos, desde a filosofia pressocrática, com Heráclito e Parmênides, passando,


posteriormente, por Platão e Aristóteles. Desde aqueles tempos, houve um debate para

fundamentar as fontes do conhecimento, na modernidade, porém, essa discussão se


torna mais evidente entre os filósofos. Descartes, Espinosa, Leibniz e Kant são

considerados filósofos do racionalismo, cada um a seu modo, e Hobbes, Locke e Hume,


do empirismo.

Entre os racionalistas há necessidade de ressaltar que Kant também adotou


para a sua doutrina filosófica o termo Racionalismo, embora, em seu racionalismo, ele

tenha operado a junção das duas fontes de conhecimento, o seu racionalismo se


direcionou para as indagações críticas da razão, em que procurou investigar o papel, a

função, o significado e o limite do pensamento da razão humana à construção


conhecimento (ABBAGNANO, 2007, p. 967).

Todavia, o racionalismo, como forma de pensamento filosófico, recebeu seu

significado como corrente e expressão filosófica em Hegel, que o demarcou, como


corrente, a um período entre Descartes a Espinoza e Leibniz e, como significado,

chamou-o como a “metafísica do intelecto”.


O primeiro movimento da filosofia racionalista é a recusa de outra autoridade

para o conhecimento, senão a própria razão. Se antes, no período medieval, a razão era

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 11 - O Racionalismo
Porfírio Amarilla Filho

iluminada a conhecer por uma vontade divina, ou seja, como um “dom” dado por Deus;
no racionalismo é a razão que se movimenta sobre si mesma para o saber, estimulada

pela própria liberdade de examinar as coisas. Assim, há um deslocamento do


conhecimento fundamentado no teocentrismo medieval para o antropocentrismo

moderno.
O segundo movimento, que convém delinear na corrente racionalista, é a

desconfiança dos sentidos humanos como fonte do saber. Esses são passíveis de erros,
já que projetam apenas representações da realidade na mente. Tais projeções são, de

fato, conhecimento quando construídas e constituídas pela própria razão do sujeito que
as conhece.

Dois elementos fundamentam esse aspecto racionalista: primeiro, a dúvida se


instala como o primeiro ponto para a produção do conhecimento, assim como para

afastar o dogmatismo que permeiam a razão humana; segundo, a realidade passa a ser
interpretada pelo subjetivo (pela ideia que o sujeito faz) do sujeito que conhece.

Por último, a necessidade da razão se fundamentar em um método na busca


do saber como forma de orientá-la no seu percurso para o conhecimento. Por isso, a

razão recebe uma confiança plena no alcance do conhecimento, pois, se orientada,


pode ser apta a explicar a realidade além das suas aparências evidentes.

De fato, a corrente racionalista demarcou uma reviravolta na construção do


pensamento crítico e nos princípios que fundamentaram a metafísica e a teoria do

conhecimento na modernidade. Por isso, como não poderia deixar de ser, o estudo da
Filosofia Moderna se dá, para nós, também por essa fonte primeira de transformação.

A história da filosofia tem por tradição inaugurar a Idade Moderna com o

filósofo francês René Descartes. Assim como Copérnico foi um dos marcos para o
pensamento renascentista e para a Revolução Científica, René Descartes se destacou

pela forma como abordou o seu principal objetivo, a verdade, e pelo modo com
constituiu seus argumentos em torno dela. A partir dele, tem-se um caminho que

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 11 - O Racionalismo
Porfírio Amarilla Filho

diverge do pensamento medieval em relação às explicações da realidade das coisas e


da própria razão em conhecê-las.

BUSCANDO CONHECIMENTO

O racionalismo cartesiano

Notabilizou-se sobretudo por seu trabalho revolucionário na filosofia e


na ciência, mas também obteve reconhecimento matemático por sugerir a fusão

da álgebra com a geometria - fato que gerou a geometria analítica e o sistema de


coordenadas que hoje leva o seu nome. Por fim, ele foi uma das figuras-chave

na Revolução Científica.
Nascido em La Haye, Tourraine, na França, Réne Descartes (1596-1650)

(Cartesius) foi filho de um conselheiro do parlamento da Bretanha. Criado pela avó


materna, Descartes foi enviado, aos 10 anos, para o colégio jesuíta de La Fleche. Lá,

como ele mesmo narra em sua obra, estudou línguas, matemática, filosofia, cultura,
literatura e teologia, e seduziu-se pela matemática, enquanto se decepcionava pelas

outras disciplinas, em particular pela filosofia. Depois de formar-se em Direito em 1616


em Portiers seguiu para a vida militar, participando do exército Holandês e Alemão.

Após o seu período militar, parte para a Alemanha, Holanda, Suíça, Itália e
permanecendo por três anos em Paris. Por fim, em 1628, decidiu instalar-se na Holanda,

onde pretendeu levar a cabo as suas reflexões filosóficas.


Entre 1628 e 1629, escreveu um pequeno tratado metafísico sobre a existência

de Deus e as almas humanas, que serviria de base para a sua física. Porém,

desmotivado pela condenação de Galileu pelo Santo Ofício, renunciou à publicação de


suas explicações sobre a formação do planeta Terra. Comenta em carta escrita à

Mersenne em 1633, “eu estou quase resolvido a queimar todos os meus escritos ou pelo
menos não deixar que ninguém os veja (...) Confesso se [o movimento da Terra] é falso,

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 11 - O Racionalismo
Porfírio Amarilla Filho

todos os fundamentos da minha filosofia também os são” (APUD IN Bréhier, 2005, p. 44).
O tratado, no entanto, foi publicado em 1677.

Anos mais tarde, sua principal obra Meditações sobre a Filosofia Primeira (1641)
teria muita repercussão nos meios acadêmicos e suscitaria diversas objeções de

teólogos e filósofos contemporâneos a ele.


Destacam-se, ao longo de toda a sua trajetória filosófica, além dessas acima

mencionadas, as seguintes obras: Regras Para a Direção do Espírito (1628); Discurso


sobre o método (1637); Princípios de Filosofia (1644); As Paixões da alma (1649).

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 12 - O Método Cartesiano
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o método cartesiano desenvolvido por Descartes.

ESTUDANDO E REFLETINDO

A intenção de ruptura com a tradição e a reconstrução de uma nova

concepção de saber é a maior intenção de Descartes ao longo de toda a sua trajetória


filosófica. Talvez, por isso, sejam esses os movimentos mais incisivos em o Discurso

sobre o método.
Para Descartes, a apologia dessa proposta para ciência dependeria da

fundamentação de um caminho que pudesse garantir um rumo certo à razão.


Argumentando, ao traçar as primeiras linhas do Discurso¸ que aquilo que houvera

aprendido até então não fora senão dúvidas e erros e nada lhe trouxera de verdade
para que pudesse construir novos saberes, Descartes postulou o bom uso da razão,

afirmando que “não basta ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem” (1999, p. 35).
Embora sejam todos os homens dotados de razão, não significa que todos

saibam fazer uso dela. Por serem entre si diferentes em vivacidades e prontidões, em
memórias, de maior ou menor grau, em imaginação, mais ou menos fantasiosas, e em

conhecimentos, faz-se necessário que se evite que eles tomem diferentes caminhos e
que guiem a sua razão para o bom uso. E isso se dá por um método.

As regras do método

O método é, de fato, um conjunto de princípios a serem seguidos pela razão,


que tem, por principal finalidade, pô-la no bom caminho para o alcance da ciência,

escapando assim dos erros que outros homens cometeram com o seu mau uso.
Descartes procurou não somente por termo a uma velha ciência, mas também

a intenção de estabelecer um caminho para que uma nova ciência possa avançar sobre
o conhecimento.
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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 12 - O Método Cartesiano
Porfírio Amarilla Filho

O método em si mesmo não é um manual de procedimentos para o alcance da


verdade, mas apenas modo de demonstração como Descartes conduziu a sua razão.

Comenta: “o meu propósito não é ensinar aqui o método que cada um deve seguir para
bem conduzir a sua própria razão, mas somente mostrar que maneira procurei conduzir

a minha”. (1999, p.32)


Em si mesmo o método é de uma ordem lógica bem simples e fácil execução.

São quatro regras ou princípios inspirados na geometria que devem ser postos em
práticas efetivamente: “assim, em lugar de um grande número de preceitos de que a

Lógica é composta, acreditei que já me seriam bastante quatro, contanto que tomasse a
firme e constante resolução de não deixar uma só vez de observá-los” (1999, p. 49)

São elas:
Primeira regra: “consistia em nunca aceitar, por verdadeira, coisa nenhuma que

não conhecesse como evidente; isto é, devia evitar cuidadosamente a precipitação e a


prevenção; e nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão

distintamente ao meu espírito que não tivesse nenhuma ocasião de pôr em dúvida”;
Segunda regra: “dividir cada uma das dificuldades que não examinasse em

tantas parcelas quantas pudessem ser e fossem exigidas para melhor compreendê-las”;
Terceira regra: “conduzir por ordem os meus pensamentos, começando pelos

objetos mais simples e mais fáceis de serem conhecidos, para subir, pouco a pouco, como
por degraus, até o conhecimento dos mais compostos e supondo mesmo certa ordem

entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros”;


Quarta regra: “fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais,

que ficasse certo de omitir”. (1999, 49-50)

Numa análise primeira, reduzem-se as regras acima em quatro movimentos:


clareza e distinção, evidência, ordem e enumeração. Todavia, na filosofia cartesiana,

existem movimentos precisos que se apresentam como necessários a explicação afim


de não reduzi-la à síntese pura de normas procedimentais ou apenas à crítica aos

preceitos e dogmas da tradição.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 12 - O Método Cartesiano
Porfírio Amarilla Filho

BUSCANDO CONHECIMENTO

Ao propor as quatro regras, Descartes estabelece primeiro dois movimentos


importantes para a compreensão de seu projeto: o primeiro, seria o afastamento das

certezas e verdades, que passam a ser consideradas opiniões de caráter duvidoso.


Segundo Marcondes, esse aspecto cauteloso com que Descartes tomou a si

mesmo e as verdades conhecidas seria um traço marcante de toda a filosofia cartesiana


(2008, p. 167), visto a crise que passava a ciência e o saber em seu tempo. De fato,

como vimos na unidade anterior, tanto a ciência como a teologia atravessam uma crise
generalizada de autoridade. Assim, a tradição que antes se alicerçava em terreno sólido

e verdadeiro agora se via em terreno arenoso e dúbio. Por isso, ao longo da filosofia
cartesiana, seria a prudência em aceitar algo como certo e verdadeiro que moveria

Descartes a análises mais fundamentais em seu objeto de estudo, cuja finalidade era
fazer dos próprios pensamentos credibilidade a si mesmo e por si mesmo.

O segundo aspecto do método, de caráter afirmativo, quer, por um lado,


refutar juízos apressados que pudessem incutir em erros; por outro, quer tornar aquilo

que se investiga em uma ideia convergida à clareza, à distinção e à evidência na razão,


ou seja, que se produza a partir do objeto de investigação uma ideia clara e evidente

dada apenas à “luz da razão”. Tais movimentos referem-se, portanto, como comentam
Reali&Antiseri, a um ato de autojustificação e autofundamentação sobre um objeto

qualquer em que a ideia que se constrói ainda não esteja conjugada com outras ideias,
por isso livre de outras interpretações, senão a do próprio sujeito.

A evidência a que Descartes se referiu foi, portanto, puramente intelectual ou

metafísica, nada tendo a ver com os sentidos, aquela de origem física. Ou seja, um ato
intuitivo que nasce de uma mente pura, atenta, exata e que se apresente

imediatamente sem deixar nenhuma dúvida (2004, p. 289).


Pois bem, se na primeira regra têm-se dois movimentos de ordem

epistemológica, as demais regras se ligam a ela como processos de justificativa do

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 12 - O Método Cartesiano
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princípio de evidência da verdade solicitado por ela mesma. Isso significa dizer que se a
primeira regra é o ponto de partida para a construção do conhecimento, é também o

ponto de chegada, sendo pressupostos necessários as segunda, terceira e quarta


regras.

Assim, cabe uma análise de como tais regras se inserem e se conectam umas as
outras como procedimentos da razão na busca do conhecimento.

A segunda regra apresenta-se como analítica: dividir cada uma das dificuldades
que não examinasse em tantas parcelas quantas pudessem ser e fossem exigidas para

melhor compreendê-las; pois busca a simplicidade do complexo, decompondo, desse


modo, o todo em partes para que se possa ali perceber as relações necessárias ou

ambíguas que possa vir a apresentar.


A terceira regra apresenta-se como sintética: conduzir por ordem os meus

pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de serem conhecidos,
para subir, pouco a pouco; pois requer que as partes sejam recompostas e direcionadas

aos seus elementos relativos, condicionais ou independentes, formando, dessa forma, a


cadeia de raciocínios que irá se expressar como um conjunto de elos em sua

complexidade. Todavia, não havendo uma ordem ou faltando nela elos que conectem
relações entre uns e outros, é preciso então supô-la como hipótese de interpretação do

objeto. Isso significa dizer que a ordenação do simples ao complexo exige também um
ato dedutivo da razão para que se possam preencher, hipoteticamente, os elos que

faltam na cadeia de raciocínios.


A última apresenta-se como forma de impedir qualquer precipitação: fazer

sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais, que ficasse certo de omitir.

Trata-se da verificação da regra dois e três (análise e síntese) cuja finalidade é estar
seguro de não ter nada omitido.

Segundo Bréhier, o método teve como primeiro passo o conhecimento


intuitivo de certas verdades que se apresentaram à razão, todavia, esse primeiro

conhecimento se estendeu às verdades que dependem dele (2005, p 51). De fato, as

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 12 - O Método Cartesiano
Porfírio Amarilla Filho

regras são procedimentos racionais simples que se constituem pela disjunção das
partes do objeto para que possa ser compreendido mais facilmente, uma influência

geométrica que Descartes trouxe para o método.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 13 - As Meditações Cartesianas
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender as meditações sobre o conhecimento realizado por Descartes.

ESTUDANDO E REFLETINDO

As Meditações de Descartes
Em sua obra mais famosa, Descartes descreve em seis capítulos ou seis

meditações a sua trajetória sobre a própria consciência e conhecimento humano.


Partindo da rejeição do saber adquirido ao longo de sua vida, ele propõe reiniciar seu

conhecimento a partir dos fundamentos para que possa estabelecer nesse movimento
algo “sólido e duradouro nas ciências”. (1999, p. 249)

É aqui que se percebe como se deu o desenrolar da construção do cogito e


como se torna possível a possibilidade da razão conhecer as coisas do mundo. Dessa

forma, em Meditações, não somente a dúvida cartesiana se evidencia, como também o


método proposto por ele. A dúvida cartesiana se aplica primeiramente sobre os

sentidos:
“até o momento presente, tudo o que considerei mais verdadeiro e certo,
aprendi-o dos sentidos ou por intermédio dos sentidos, mas às vezes me
dei conta que esses sentidos eram falazes e a cautela manda jamais
confiar em quem já nos enganou uma vez”. (1999, p. 250)

Em seguida sobre os pensamentos da própria razão, movimento que ficou

conhecido como o argumento do sonho:


“(...) meditando diligentemente sobre isso, recordo-me de haver sido
muitas vezes enganado, quando dormia, por ilusões análogas. E,
persistindo nesta meditação, percebo tão claramente que não existem
quaisquer indícios categóricos, nem sinais bastante seguros por meio
dos quais se possa fazer uma nítida distinção entre a vigília e o sono,
que me sinto completamente assombrado: e meu assombro é tanto
que quase me convence de que estou dormindo”. (IDEM, p. 251).

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 13 - As Meditações Cartesianas
Porfírio Amarilla Filho

A dúvida cartesiana não deixa escapar nada em sua radicalidade, por isso passa
dos sentidos ao conhecimento matemático, seguindo uma ordem de generalização à

particularização, do complexo ao simples. Todavia, como existem movimentos na


própria razão que são internos a ela mesmo e de certo modo evidentes pela própria

lógica racional, o argumento do gênio maligno ou deus enganador surge como artifício
para aplicar a dúvida naquilo que lhe parece mais evidente, como a matemática.

De fato, a dúvida cartesiana atinge seu ápice ao desconsiderar tudo que há na


razão, no entanto, a dúvida não consegue duvidar de si mesma enquanto pensamento

na razão. Eis aqui uma constatação óbvia e, por isso, genial do movimento filosófico
cartesiano. A dúvida como fundamento racional e preciso para o estabelecimento da

verdade. Analisar-se-á a seguir como se deu esse movimento.

O Cogito e a dúvida cartesiana


Comecemos pela análise e entendimento do cogito para compreender como a

dúvida cartesiana se aplica à sua construção. O cogito é uma evidência dada pela
dúvida em si mesma: duvido, logo existo.

Segundo Bréhier, cogito em Descartes tem dupla finalidade: fornecer o


fundamento ao primeiro elo da ordem da razão e para a distinção radical entre razão e

corpo (2005, p. 59). Assim, o cogito foi, portanto, o ponto de partida, dado como certo
e verdadeiro, ao estabelecimento de princípios da ciência. Tal ponto se estabelece

exatamente pela dúvida cartesiana. Isso significa dizer que Descartes ao se dar conta de
que pode duvidar de tudo existente na razão, não pode duvidar que, em si mesmo, o

ato de duvidar é o único pensamento claro e distinto dado na razão. Logo, ao duvidar
pensa, se pensa, existe: “Eu penso, eu existo, é necessariamente verdadeira, todas as

vezes que a enuncio ou que a concebo em meu espírito”.


Mesmo não sabendo o que vem a ser enquanto existência, já que não há nada

que possa demonstrar-lhe o que seja, nem deus, nem pensamento, nem os sentidos,
sabe Descartes que duvida e por duvidar, somente enquanto duvida, pensa, se pensa,

logo existe.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 13 - As Meditações Cartesianas
Porfírio Amarilla Filho

Duvidar exprime, assim, a autoevidência existencial do sujeito pensante. Ora, se


o Cogito prova a existência, não prova que tipo de coisa ele é. Poderia ser Descartes

uma luz que pensa? Ou, ainda, um grão de areia pensante perdido na infinitude de
uma praia? Não, ao menos por enquanto ele nada sabe a respeito disso. A dúvida que

traz dentro de si não o permite afirmar.


"Nada admito agora que não seja necessariamente verdadeiro: nada
sou, pois, falando precisamente, senão uma coisa que pensa, isto é, um
espírito, um entendimento ou uma razão, que são termos cuja
significação me era anteriormente desconhecida". (IDEM, p. 261).

Apesar do fato de ele não saber o que seja devido à refutação do corpo no
processo da dúvida, nada impede que o pensamento seja conhecido com certeza (res

cogitans):
(a) Eu não posso duvidar que eu sou uma coisa que pensa;
(b) Eu posso duvidar que eu sou um corpo;
(c) Duas coisas que não compartilham de todas as suas propriedades não são
idênticas (daqui a dualidade cartesiana entre substância pensante e extensão);
(d) Eu não sou corpo;
(e) É mais fácil conhecer a razão que o corpo;

Daí as afirmações: "nada sou, pois, falando precisamente, senão uma coisa que
pensa".

Desse modo, a verdade: penso, logo existo, tornar-se uma exigência necessária
da dúvida, pois duvidar significa ter como pressuposto a existência de uma coisa

pensante. Todavia, apenas revela a existência de um pensamento puro e nada mais,


caindo, desse modo, no solipsismo. Ou seja, o isolamento do Eu em relação ao mundo

exterior.

BUSCANDO CONHECIMENTO

As idéias inatas

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 13 - As Meditações Cartesianas
Porfírio Amarilla Filho

Ao se ver isolado do mundo a partir de si mesmo, Descartes se viu obrigado a


reconstruir a realidade ao qual de algum modo tinha consciência como ideias das

coisas. Assim, na terceira meditação em Meditações, Descartes rumou em direção ao


conhecimento, como possibilidade de ter a certeza de que as ideias, que ora habitavam

sua mente, correspondiam, de fato, aos objetos de quem são representações.


Aqui, identificou três tipos de ideias: (i) as inatas, que nascem com o sujeito; (ii)

as adventícias, que formam-se a partir da experiência; (iii) e as imaginações, que


formam-se na razão a partir de elementos da experiência.

Disso decorre que a terceira meditação de Descartes tem como exame a


origem das ideias e como tais ideias habitam a razão humana.

Para ele, o infinito e a perfeição não são ideias que se originam de outra fonte
senão da própria razão, pois tanto finito como o imperfeito não são causa de algo

existente, mas efeito, visto que a razão tem consciência da sua finitude e imperfeição e,
assim, em virtude do princípio de causalidade, somente o infinito pode ser causa do

finito.
A ideia de um ser perfeito não pode, portanto, proceder de um ser imperfeito.

Ora, se há na razão a ideia de perfeição, a sua origem não pode ter causa em si mesma,
mas outra fonte. É aqui nesse movimento que a prova da existência de Deus entra

como argumento para fundamentar a existência das coisas e a possibilidade de


conhecê-las.

Isso se explica pela seguinte via de raciocínio cartesiana: tendo a razão ideias
que representam objetos em si mesma e sendo a ideia de perfeição um movimento em

que a razão não poderia alcançar, já que em si mesma nota-se a sua imperfeição, tal

ideia teria outra origem e não ela mesma. Tal ideia, portanto, teria de ser
necessariamente dada por Deus. Pois, sendo Deus ideia da maior perfeição (essência),

não se pode admitir que se tenha a ideia Dele sem a sua existência, o conhecimento da
essência dá, necessariamente, a existência do objeto. Assim, a ideia de Deus não se dá

em outra origem senão na própria razão.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 13 - As Meditações Cartesianas
Porfírio Amarilla Filho

Segundo Marcondes, esse movimento da filosofia cartesiana fundamenta dois


argumentos acerca da existência de Deus: um cosmológico e outro ontológico.

Cosmológico, pois, recorre à noção de causa para designar que Deus é criador das
coisas do mundo.

É ontológico, pois, designa Deus como a origem da própria existência (2008, p.


176). Do mesmo modo, a ideia do gênio maligno ou o Deus Enganador se dilui, pois

não pode Ser Deus de tal modo, pois a ideia de perfeição não pode vir de um ser
maligno nem vir do nada.

O argumento cosmológico, por sua vez, fornece a possibilidade de que Deus é


o criador do mundo, dando, desse modo, a existência de um mundo que pode ser

conhecido pela razão humana.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 14 - O Racionalismo Espinosano
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o projeto filosófico de Baruch Espinosa (1632-1677).

ESTUDANDO E REFLETINDO

Espinosa tornou-se um dos filósofos mais exigentes em relação aos rigores que

a filosofia propõe ao conhecimento e pensamento humano


Quase um desconhecido em vida, mas muito odiado, Baruch Espinosa (1632-

1677) é o tipo de filósofo que encarna a figura do ser crítico e subversivo. Dono de uma
história de vida simples e cheia de embates contra os dogmas e as ilusões filosóficas,

Espinosa tornou-se um dos filósofos mais exigentes em relação aos rigores que a
filosofia propõe ao conhecimento e ao pensamento humano.
Espinosa nasceu em Amsterdam em 1632, em uma família judia de origem
espanhola, que antes de habitarem a Holanda, passaram por Portugal.

Católicos por imposição, a família de Espinosa nunca abandonou a Sinagoga.


Por isso, Espinosa recebeu uma sólida formação hebraica e orientação para ser rabino.

Entre 1652 e 1656, frequentou a escola de Francisco Van den Enden, de formação
católica, onde aprofundou-se no estudo sobre a Bíblia, além de ter aprendido latim,

tendo contato com as obras de Cícero, Sênega e os modernos Descartes, Bacon e


Hobbes .

O espírito crítico de Espinosa, desde cedo, entrou em conflito com o credo


religioso judaico. Conflito esse que acabou ocasionando a indisposição entre os

teólogos e doutores da Sinagoga, resultando na sua expulsão em 1656. Refugiado em


uma pequena aldeia próxima a Amsterdam, Espinosa iniciou seus escritos filosóficos em

Apologia, obra que não chegou até os nossos tempos.


A cultura e vida de Espinosa são notáveis. Homem de hábito simples e

cometido retratou não apenas em suas obras toda uma proposta filosófica ímpar, mas
também levou à sua vida privada aquilo que identificou como movimento filosófico
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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 14 - O Racionalismo Espinosano
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para a humanidade. Suas fontes de inspiração foram das mais diversas ordens da
filosofia, passando pelos filósofos gregos, aos medievais, principalmente pelos judaicos

medievais, até aos pensadores renascentistas, como Giordano Bruno, Descartes e


Hobbes.

O primeiro trabalho escrito por Espinosa, em 1660, foi o Breve tratado sobre
Deus, sobre o homem e sua felicidade, porém, somente publicado no século XIX. Outro

escrito, em 1661, foi o Tratado sobre a emenda do intelecto, seguido de sua obra-prima
Ética, escrito entre 1661 e 1662, ambos publicados postumamente em 1667. Tem-se

ainda Princípios de filosofia de Descartes, de 1663, e Tratado teológico-político, de 1670.


Em um sentido bastante amplo, pode-se dizer que a filosofia de Espinosa liga o

progresso do conhecimento ao problema moral e domínio das paixões como uma


visão capaz de identificar os elementos que impede o homem de alcançar a

tranquilidade e a serenidade. Ou seja, seu itinerário quer possibilitar a liberdade do


homem e dar-lhe condições para a paz consigo mesmo e com o mundo.

O método geométrico

Todavia, não se pode começar os estudos de Espinosa, em filosofia, sem ter em


mente o modo como ele opera a lógica e a demonstração de seu pensamento.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 14 - O Racionalismo Espinosano
Porfírio Amarilla Filho

Em Ética, sua obra maior, Espinosa


desenvolve seus argumentos conforme os

procedimentos geométricos, fundamentado no IMPORTANTE


modelo Euclidiano, de demonstração, ou como ele É importante ao estudante de

mesmo define: ordine geométrico demonstrata. Filosofia ter a concepção de que


a obra de Espinosa, parte não
Trata-se de um método, que já havia sido utilizado
somente de elementos
por Descartes, indutivo-geométrico. fornecidos e desenvolvidos por

A escolha de tal método tem múltiplas


outras filosofias, mas que
também trata-se do ponto de
motivações entre elas a necessidade de uma chegada. Isso implica que a
expressão racional absoluta. Assim, se por um lado, leitura da Ética e outras obras
do autor tem como movimento
o método geométrico prima por uma ordem
fundamental colocá-lo na
expositiva que requer definições, axiomas, história que o precedeu e dar

proposições, demonstrações e escólios conta das preocupações que se


fizeram problemas a partir
(elucidações), em que o rigor da exposição implica desse movimento.
em uma racionalidade extrema; por outro, o Dessa maneira, uma leitura
método pretende por termo no procedimento exata e completa da filosofia de
Espinosa não pode deixar de ter
silogístico abstrato, característica de muitos
em si um conhecimento de
escolásticos; a rejeição dos procedimentos diversos modos de relações,

retóricos e a rejeição dos procedimentos prolixos derivações e oposições entre os


conceitos fundamentados pelo
dos rabinos. filósofo holandês.
Segundo Reale&Anteseri, além dessas, a
escolha do método por Espinosa tem uma

exigência primordial: as conexões se estabelece entre como ele entende a realidade e

como essa realidade tem como pressuposto Deus (2004,p. 15).

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 14 - O Racionalismo Espinosano
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BUSCANDO CONHECIMENTO

A dualidade cartesiana
Pois bem, posto isso, passaremos a percorrer o projeto filosófico de Espinosa.
Para esse nosso estudo, importa primeiro uma análise primeira dos princípios operados

em sua obra Ética.


Aqui, como em outros lugares, a influência de Descartes e a proposta de um

conhecimento dado por uma nova ciência é patente. Todavia, isso não significa que tal
influência seja de acordo com o filósofo francês, ao contrário, há diferenças entre

alguns movimentos do pensamento de Descartes e Espinosa, bem como há uma nítida


oposição a ele.

A dúvida metódica, por exemplo, não pode ser, pois o ponto de partida de
uma da investigação metafísica, já que pela ordem ela necessita da existência de Deus

para sua validação. Segundo Espinosa, a dúvida expressa exatamente a falta de ordem
que se tem sobre as coisas. Na ordem metódica, há de se ter um princípio do qual tudo

se deduz, em que em si mesmo tal princípio não possa ser deduzido de outro. Por isso,
é primordial que se estabeleça um princípio.

A percepção de Espinosa sobre o conceito de substância e, principalmente, o


conceito de uma substância única, requer que o filósofo holandês parta do conceito de

causa, como movimento fundamental à concepção de uma única substância. Desse


modo, Espinosa começa a sua Ética definindo tais conceitos e demonstrando como

uma essência envolve necessariamente a existência.


Essa necessidade se deveu exatamente por um problema flagrante na filosofia

cartesiana, a separação entre razão (res cogitans) e corpo (res extensa). A dualidade
cartesiana remete a uma ambiguidade sobre o seu conceito de substância.

Ao defini-la como aquilo que, para existir, não necessita de mais nada senão de
si mesmo, Descartes comete um erro ao inviabilizar outras substâncias, senão Deus.

Contudo, tal substância necessita dar sentido à realidade e só Deus, em si mesmo, pode
fazer isso. Por isso, surge um segundo conceito de substância, dado pelo filósofo

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 14 - O Racionalismo Espinosano
Porfírio Amarilla Filho

francês, entendida como aquilo que enquanto são realidades, para existir, necessitam do
concurso de Deus, a saber: as duas substâncias pensamento e extensão

(REALE;ANTISERI, 2004, p. 16).


Desse modo, os conceitos de substâncias se demonstram incoerente e se

chocam formalmente, pois não se pode dizer que substância é aquilo que, para existir,
não necessita de mais nada, senão a si mesmo, mas que também substâncias são as

criaturas que, para existir, necessitam do concurso de Deus.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 15 - A Substância Divina
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender a ideia de Substância Divina desenvolvida por Espinosa.

ESTUDANDO E REFLETINDO

A substância Divina

Como objetivo de Espinosa é fundamentar Deus como a única substância e dar

conta de que a realidade das coisas são atributos infinitos de Deus, é preciso que ele
retome os princípios cartesianos e os amplie o sentido em um conceito próprio, para

poder estendê-lo e concluir que toda substância é infinita, pois, só há uma única
substância pensante e só há uma substância extensa (DELBOS, 2002, p. 41).

Ora, ao definir a substância como “aquilo que é em si e em si concebida”,


Espinosa coincide com a sua definição de causa de si: aquilo cuja essência envolve a

existência (1973, p. 85-86). A noção de substância, desse modo, remete-se a Deus como
desempenho de um papel gerador, ordinariamente, dos infinitos atributos Dele mesmo,

dos quais cada um é, em seu gênero, infinito. Por atributo entendo o que o intelecto
percebe da substância como constituindo a essência dela (1973, p. 84).

Cada simples pensamento, cada coisa extensa e cada manifestação empírica


tornam-se afecções das substâncias de Deus ou modos infinitos ou finitos. Por modo

entendo as afecções da substância, isto é, o que existe noutra coisa pela qual também é
concebida (1973, p. 84). Ou seja, a substância se manifesta e se exprime tanto através

dos atributos infinitos como dos modos infinitos ou finitos. Os atributos infinitos e
eternos de Deus não são mais que os diferentes aspectos ou gêneros sob as quais se

manifestam sua essência.


Esse princípio, que Espinosa retoma, tem sua origem nas escolásticas, que diz

que um ser tem mais realidade quanto mais atributo tem, assim, fundamentando que
Deus concebe em si mesmo todas as realidades infinitas e finitas. “Por Deus entendo o
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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 15 - A Substância Divina
Porfírio Amarilla Filho

ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consta de infinitos atributos, cada
um dos quais exprime uma essência eterna e infinita” (1973, p. 84).

Os modos infinitos e finitos não são senão modificações da substância infinita,


as modalidades de Deus, pelos quais os atributos de Deus se manifestam sob os seres

particulares e singulares.

Os atributos e modos infinitos e finitos de Deus


Tal movimento da filosofia de Espinosa é fundamental, pois, ele é o princípio de

todo o sistema filosófico de Espinosa. Por ser uma questão metafísica por excelência, é
a definição de substância que dará sentido aos movimentos da razão, aos movimentos

da realidade e as relações que um estabelece com o outro e do Todo com aquilo que é
imanente de si mesmo.

Do mesmo modo, é na definição de substância que se pode definir que


somente Deus é causa livre e somente Dele surgem as demais essências e existências,

sendo assim: a substância Deus existe e age por necessidade de si mesmo, sendo a
causa eficiente e imanente de todas as essências e existências e, por isso, inseparável

das coisas que Dele procedem.


É da definição de substância, portanto, que partiu a proposição de que todas as

naturezas dos seres estão compreendidas no Ser de Deus. Nesse movimento,


compreende-se que os atributos da substância divina não passam de uma mesma coisa

e os modos que deles decorrem são correspondentes. A causa dessa elaboração de


Espinosa sobre os atributos de Deus tem a finalidade de reduzir as substâncias criadas

por Descartes, como res congitans e res extensa, em atributos de Deus que expressam a

natureza divina. Havendo, desse modo, uma perfeita conformidade entre as coisas que
o atributo é a extensão e entre as idéias que o atributo é o pensamento.

O mundo é dado pelos modos infinitos e finitos de Deus. Isso significa dizer
que aquele não existe sem Esse e, por ser manifestação da essência divina, o mundo é

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 15 - A Substância Divina
Porfírio Amarilla Filho

necessariamente determinado pela natureza de Deus. Não havendo, desse modo, nada
contingente nele, senão a necessidade de Deus e agir sobre os modos.

BUSCANDO CONHECIMENTO

A vontade e a necessidade em Deus

O Deus de Espinosa não se confunde com o Deus religioso. Todas as


representações antropomórficas que se conhece de Deus se diluem na própria ordem

de natureza que Espinosa postulou. Deus apresenta-se, em Espinosa, como natura


naturans (natureza naturante) e o mundo como natura naturata (natureza naturada).

Isso implica dizer que Natureza Naturante é causa da Natureza Naturada. Todavia não
é seu efeito como objeto separado dela, ao contrário, há em si mesma na natureza

naturada a causa de si, que é a natureza naturante.


Nessa concepção, a vontade não pode pertencer a Deus, pois, a vontade supõe

um início e um fim, logo, sendo Deus eterno, Ele não age por vontade, mas por
necessidade e na ordem natural que a ação exige. A vontade não pode ser chamada de

causa livre, mas somente de causa necessária (1973, p. 116).


Assim, à vontade e o intelecto não têm outra relação com Deus, senão a de

movimento e repouso. Somente à natureza naturada pertence a vontade. Essa exclusão


da vontade na ação divina contradiz diretamente a tese de criação, comumente

entendida pelas doutrinas ortodoxas ou pelas religiões mais tradicionais. Ao associar o


termo criação de Deus à vontade de Deus, a tradição imputa a Deus a possibilidade de

outro modo de existência do mundo. Deus quis assim e não de outro modo.

Se por um lado, o Deus de Espinosa não é pessoa, nem é criador nem age por
vontade própria, não pune nem dá recompensa, pois age por necessidade do seu ser e

não pela livre vontade do seu ser, porque isto não faz parte da sua essência. Tal Deus é
ainda uno, existe necessariamente, é absolutamente infinito e é a causa imanente, e não

transitiva, de todas as coisas e, por isso, pode ser conhecido por si só, não precisando

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 15 - A Substância Divina
Porfírio Amarilla Filho

de outras coisas para ser conhecido, como queriam os medievais. Por outro, segundo
Espinosa, é inconcebível que a onipotência divina pudesse agir e não faria, como se

dada uma causa não houvesse necessariamente seu efeito, o que seria uma imperfeição
na causa, o que é absurdo em se tratando de Deus. Portanto, afirma Espinosa: a

potência de Deus é a sua própria essência e tudo que concebemos estar no poder de
Deus existe necessariamente, o que nos leva à proposição não existe coisa alguma de

cuja natureza não resulte qualquer efeito (1973, p. 122).


Se Deus por necessidade age, age também por pura liberdade, pois sendo

necessário Deus agir e algo o impedisse não seria Deus livre, o que é um absurdo. Isso
significa dizer, portanto, que necessidade e liberdade coincidem em Deus.

Espinosa assim encadeia a ideia de uma substância única que age por
necessidade e liberdade sobre todas as coisas que se manifestam necessariamente na

substância. O mundo não é senão a totalidade contínua, eterna e infinita dos atributos
de Deus, manifestada em seus diferentes modos.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 16 - O Empirismo
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Essa unidade tem como objetivo percorrer na Filosofia Moderna a


perspectiva dos filósofos empirista do século XVII e XVIII. Com uma característica

própria, o pensamento empirista detona uma das correntes mais férteis da Filosofia e
ao estudo da Filosofia.

ESTUDANDO E REFLETINDO

Nada está no intelecto que não tenha passado pelos sentidos


Conhecer, essa é a questão que fundamenta as principais discussões que

permeiam a filosofia do período moderno. Se antes o pensamento tinha como seus


principais movimentos a metafísica e as questões sobre o ser, na modernidade eles se

deslocam para a questão do conhecimento. Quais são as fontes do conhecimento


humano? A razão? Os sentidos?

Para os racionalistas, como vimos na unidade anterior, os sentidos nos


enganam ou não podem fornecer elementos primordiais ao conhecimento sem um

exame da razão. Essa é quem pode levar o homem ao conhecimento verdadeiro. Assim,
se por um lado, o racionalismo acredita na razão como necessidade no encadeamento

de verdades e não apenas como faculdade; por outro lado, para o empirismo tal
necessidade não existe, pois todo e qualquer encadeamento de verdades deve ser

posto à verificação empírica, para que possa ser abandonada, modificada ou, mesmo,
justificada.

Como a ciência experimental se desenvolvia a passos largos no século XVII, os


meios ao desenvolvimento da nova ciência foram se desenvolvendo na mesma medida.

Os fenômenos naturais deveriam ser mensuráveis e, por conseguinte, a matemática e


os instrumentos experimentais tornaram-se recursos necessários ao conhecimento.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 16 - O Empirismo
Porfírio Amarilla Filho

Assim, reforça-se a necessidade de uma investigação filosófica mais profunda para


validar uma fonte de conhecimento fundamentada nos sentidos.

O termo que designa o empirismo tem sua raiz no grego empeiria cujo
significado é uma forma de saber derivado da experiência sensível ou dados acumulados

com base na experiência. A partir dessa característica fundamental, surgem outros


aspectos que se juntam para formular a filosofia empirista, como:
· A negação de qualquer conhecimento ou princípio inato;
· A negação do suprassensível, entendido pelos empiristas como qualquer realidade que
não seja possível a verificação;
· A ênfase na realidade de fato ou aquilo que se apresenta de imediato aos órgãos dos
sentidos com ênfase na evidência experimental;
· Reconhecimento do caráter humano, em si mesmo, como instrumento natural limitado,
parcial e imperfeito para dispor a verificação sem a ajuda exterior de outros
instrumentos.

Desse modo, o empirismo tem sua valorização na realidade e na experiência


humana, na atividade concreta em detrimento da metafísica.

A tradição empírica floresce, sobretudo, na Inglaterra e nos filósofos de língua


inglesa, como: Francis Bacon, Thomas Hobbes, John Locke e o escocês David Hume,

tomados pela tradição filosófica como os principais defensores dos sentidos na


fundamentação do saber.

Assim, o nosso estudo procurará percorrer as características gerais que


fundamentaram o empirismo como corrente filosófica e os principais pensadores que

se destacaram no pensamento empírico.

BUSCANDO CONHECIMENTO

Os princípios do pensamento empírico inglês


Thomas Hobbes defendia a ideia segundo a qual os homens só podem viver
em paz se concordarem em submeter-se a um poder absoluto e centralizado.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 16 - O Empirismo
Porfírio Amarilla Filho

Hobbes, a partir de sua obra, talvez seja um dos filósofos mais


incompreendidos do período moderno. Durante muito tempo, quase dois séculos, foi

considerado o filósofo do absolutismo, da ditadura, do totalitarismo. Somente no


século XX, quando foram retomadas as suas obras, a partir de uma leitura mais atenta,

reconheceu-se Hobbes como um grande pensador da política do período moderno.


Nascido na Inglaterra em Malmesbury, Thomas Hobbes (1588-1679) desde cedo
adquiriu gosto pelas línguas clássicas, estudando grego e latim. Aos sete anos, foi aluno
de Robert Latimer versado em latim e grego, que lhe proporcionou sólidos

conhecimentos nas línguas clássicas, rendendo-lhe a sua primeira tradução, Medeia de


Eurípedes, aos 15 anos de idade.

Aos 14 anos de idade, ingressou em Magdalen Hall, Oxford. Após ter terminado
seu curso superior em Oxford, em 1608, empregou-se como preceptor de várias

famílias nobres, entre elas a família de Carlos Stuart (1640), futuro Rei Carlos III.
Viajou pela Itália, onde conheceu Galileu, e pela França, passando por Paris,

onde viveu um exílio voluntário de 1640 a 1651, e Merssene, onde participou dos
círculos cartesianos.

Morreu aos noventa e um anos, em dezembro de 1679, deixando obras cuja


reflexão acerca da política é o seu principal tema, seguido da teoria do conhecimento

humano: Os elementos da lei natural e política (1640); Do cidadão (1642-1647); Da


natureza humana ou elementos fundamentais da política (1650); Leviatã (1651); Do

homem (1658); Tratado do homem (1658); Sobre a liberdade e a necessidade (1682);


Questões referentes à liberdade, à necessidade e ao acaso.

O empirismo nominalista
A irredutibilidade da substância pensante sustentada por Descartes é

duramente criticada por Hobbes. Ao contrário do que propunha Descartes acerca da


substância, Hobbes defende um materialismo radical, no qual toda substância é

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 16 - O Empirismo
Porfírio Amarilla Filho

corporal. Para ele, uma coisa que pensa é algo corporal, a razão apenas participa com
suas sutilezas agindo sobre os sentidos. Afirmou em Leviatã:
“não podemos conceber qualquer ato sem sujeito, assim também não
podemos conceber o pensamento sem uma coisa que pense, a ciência
sem uma coisa que saiba e o passeio sem uma coisa que passeie (...)
que uma coisa que pensa é alguma coisa corporal” (2004, p. 9).

Como corpo, Hobbes entende tudo aquilo que não depende do pensamento e

é causa das sensações. Ele designa como corpo aquilo que ocupa espaço, tem certa
grandeza e uma forma determinada. Por isso, o corpo exterior é, ao homem, a causa

das sensações, pois os órgãos sensoriais humanos são sensibilizados por ações
corporais que são propagadas até a mente.

Isso significa dizer que, por um lado, as causas principais das pressões que
sentimos dos outros corpos é o movimento e “são muitos os movimentos da matéria

que pressionam nossos órgãos de maneira diversa” (IDEM, p. 33), sendo que as
aparências que tocam os sentidos é o movimento local dos corpos, ou seja, a mudança

dos corpos no espaço; por outro, é através da memória que o homem registra as
qualidades dos objetos, os fantasmas sensíveis, que são os efeitos dos corpos e do

movimento nos sentidos humano.


Segundo ele, há três tipos de corpos:
· naturais inanimados;
· naturais animados;
· artificiais (como o Estado Político).

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 17 - O Empirismo de John Locke
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o empirismo desenvolvido por John Locke (1632-1740).

ESTUDANDO E REFLETINDO

John Locke (1632-1740) nasceu perto de Bristol, em Wrington, Inglaterra.

Filósofo do empirismo inglês e pai do liberalismo, cuja obra deu norte ao pensamento
iluminista, Locke foi filho de comerciantes puritanos. Embora sempre houvesse criticado

a sua formação, por ele definida como obscura (principalmente a filosofia), estudou
grego e foi professor de retórica em Oxford.

Locke rejeitou a doutrina


das ideias inatas e afirmou
que todas as nossas ideias
tinham origem no que era
percebido pelos sentidos.

Como autodidata, estudou ciências médicas (anatomia, fisiologia, física) e, por


isso, era chamado de Doutor pelos seus pares, sem, de fato, ter alcançado a titulação.
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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 17 - O Empirismo de John Locke
Porfírio Amarilla Filho

Em 1668, foi nomeado membro da prestigiosa Royal Society, todavia, quatro


anos depois, tornou-se secretario do lorde Asheley Cooper, chanceler da Inglaterra,

participando da vida pública e política inglesa.


Devido a suas posições políticas, sucederam-se uma série de fatos que

deixaram marcas profundas em seus pensamentos políticos. Em 1675, viaja a Paris, onde
conhece o cartesianismo. Em 1683, refugiou-se na Holanda onde trabalhou ativamente

em suas obras. Volta à Inglaterra em 1688, após a ascensão de Guilherme de Orange,


onde ocupará vários cargos oficiais, intervindo em polêmicas econômicas e políticas.

Em 1704, John Locke morre no castelo de Oates.


Os méritos políticos de Locke são vários: pensador da democracia moderna e

pregador da tolerância, John Locke propagou ideias sobre a separação da Igreja e o


poder político. Na filosofia, sua obra mais famosa foi Ensaio sobre o Entendimento

humano (1690) teve um sucesso enorme, foram quatro edições em 10 anos, nela Locke
expõe os fundamentos da sua teoria do conhecimento.

Outras obras são também da autoria de Locke: (1689) Cartas sobre a tolerância;
Dois tratados sobre o governo (1690); Alguns pensamentos sobre a educação (1693); Da

conduta do entendimento (1706).

O inatismo em Locke
A teoria do conhecimento de Locke tem como ponto de partida duas questões

críticas ao racionalismo: “de onde provém o conhecimento”?; e existem conhecimentos


ou alguma ideia inata?

Enquanto Bacon propunha um empirismo repousado no objeto, com suas

análises e observações, Locke propõe-se a examinar o intelecto do ponto de vista das


capacidades para fundamentar e dar validade ao conhecimento. Desse modo, seu

projeto filosófico volta-se para a tentativa de estabelecer a natureza, a origem e o valor


do conhecimento, definindo, nesse movimento, os limites em que o intelecto humano

se move e se desenvolve diante do seu próprio saber.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 17 - O Empirismo de John Locke
Porfírio Amarilla Filho

Para isso, ele derrubou a tese cartesiana ao afirmar que nenhuma razão possui
uma ideia em si mesmo sem que possa entendê-la, fato está em que loucos e crianças

não possuem em si mesmos ideias de Deus nem dos princípios fundamentais de


geometria, como demonstrou Platão em Menon.

Desse modo, debatendo com as ideias cartesianas, Locke demonstrou que a


experiência é a fonte primeira das impressões de ideias na razão e, por isso, não há nela

nenhuma ideia que seja dada por ela mesma. Por conseguinte, o conhecimento não
tem nada que possa ser inato, não há na mente humana gravada qualquer imagem se

quer; nenhum intelecto é capaz de criar ou destruir uma ideia; a experiência constitui-se
como a única fonte de conhecimento.

Como ideia Locke compreendeu tudo aquilo que é objeto do entendimento


quando um homem pensa, mas será que há algo que o homem pensa seja de fato

inato na sua mente? A crítica ao inatismo é, portanto, o ponto de partida para a


construção do empirismo. No inatismo, segundo Locke, o pensamento básico de seus

defensores estava em conceber que os homens compartilham “o consenso universal”,


que Locke considerou um argumento falho, pois tal consenso pode ser adquirido de

outro modo e não somente pela ideia inata. Para ele, no homem não existe qualquer
ideia inata, tais como a de "extensão", de "perfeição" e outras, como pretendia

Descartes.

BUSCANDO CONHECIMENTO

Os sentidos como fonte do conhecimento

Locke acreditou que o conhecimento, a formação de ideias, começa pelos


sentidos. E isso se demonstra pela ausência dos princípios de não-contradição e de

identidade nas crianças e nos deficientes cognitivos, em Ensaio sobre o entendimento


humano afirma:

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 17 - O Empirismo de John Locke
Porfírio Amarilla Filho

“Se os meus leitores estivessem livres de todo preconceito para convencê-los


da falsidade bastaria que eu lhe mostrasse como os homens podem adquirir
todos os conhecimentos que possuem simplesmente utilizando as suas
faculdades naturais, sem recorrer a qualquer noção inata; e como podem
chegar à certeza, sem precisar de tais noções ou princípios originais.” (LOCKE
IN APUD NICOLA, 2005, p. 269).

Ainda, a afirmação de que alguns princípios morais são também pré-existentes


no intelecto humano não se fundamenta exatamente porque existem outros povos que

se comportam de modo contrário a tais princípios. Do mesmo modo, verifica-se a


relação da ideia de Deus com outros povos, visto que em alguns casos não há nem

sequer um nome para designá-lo nem religião nem culto que se refiram a essa ideia.
A afirmação de Locke sobre a fonte das ideias na razão humana é contundente:

a mente é uma folha de papel em branco, nada há nela que não tenha sido dado pela
experiência. Tudo quanto é conhecido é sempre aprendido ou pela percepção do

ambiente ou sobre a reflexão sobre a própria condição interior. De outro modo, a


mente limita-se a reelaborar sob a forma da abstração dados e observações que recebe

do mundo exterior. Tais dados, por conseguinte, não têm outra fonte senão os sentidos
humanos.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 18 - O Criticismo kantiano
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Esta unidade tem como objeto de estudo principal o pensamento do filósofo
Immanuel Kant, procurando destacar os principais aspectos que compuseram a Crítica

da Razão Pura, obra máxima do filósofo alemão.

ESTUDANDO E REFLETINDO

A filosofia de Kant em um papel peculiar no desenvolvimento do pensamento


humano. Ao filósofo alemão, a história da filosofia sempre lhe dedicou um capítulo à

parte em seus estudos. Compor a filosofia moderna ou mesmo a filosofia


contemporânea sem os domínios das reflexões que Kant proporcionou à filosofia seria

um erro capital na própria compreensão do quem vem a ser a filosofia, em si mesma,


como pensamento na razão humana.

Kant revela à filosofia uma revolução no desenvolvimento dos problemas


filosóficos. Seu criticismo inaugura uma nova era na filosofia.

Como uma corrente do pensamento filosófico, o criticismo firmou os seguintes


pontos fundamentais na sua reflexão:

· Trata-se de uma formulação crítica do problema filosófico e, portanto,


reconhecer a metafísica como uma instância de problemas que estão além

da possibilidade da razão;
· Definir a tarefa da filosofia como reflexão sobre a ciência e sobre as

atividades humanas voltadas a ela, a fim de determinar as condições que

garantem ou limitam a validade da ciência;


· Distinção fundamental, no domínio do conhecimento, entre os problemas

relativos à fonte e ao desenvolvimento do conhecimento no homem e a


validação do próprio conhecimento na razão

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 18 - O Criticismo kantiano
Porfírio Amarilla Filho

· Fundamentar um conceito moral como forma da razão em seu uso prático


(ABBAGNANNO, 2007, p. 260).

Com efeito, o criticismo kantiano emerge como um movimento contrário ao

dogmatismo (KANT, 1999, p. 47). Se o dogmatismo se estabeleceu como uma


pretensão em fazer progredir um conhecimento apenas fundamentado em conceitos,

em particular os filosóficos, segundo princípios dado somente pela razão sem sequer
questionar como e com que direito ela chegou a eles, é tarefa necessária, portanto,

elaborar uma crítica que precede o seu próprio poder. Partindo desse ponto de
reflexão, Kant se propôs à tarefa de examinar criticamente os limites da razão teórica e

estabelecer os critérios para o alcance de um conhecimento legítimo.


É esse o movimento fundamental que se encontra na leitura da maior obra de

Kant: A Crítica da Razão Pura. Nela, o estudante de filosofia encontrará toda a


construção kantiana do criticismo para encontrar os fundamentos do conhecimento na

razão.
Por isso, iremos caminhar nessa unidade sobre os passos da filosofia kantiana

em busca de compreender o que vem a serem os fundamentos de uma crítica à razão,


à nossa razão.

BUSCANDO CONHECIMENTO

Considerado ao lado de Descartes e Hume um dos maiores filósofos da

modernidade, Immanuel Kant (1724-1804) tornou-se referência necessária à

compreensão do pensamento contemporâneo.


Filho de uma família modesta e puritana de origem alemão, Kant nasceu em

Königsberg. Estudou no Colégio Fredencianum de F. A, Schulz, frequentando em


seguida a Universidade de Königsberg. A morte do pai, em 1746, e vários problemas

financeiros que se seguiram, obriga-o a trabalhar como professor e abandonar os

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UNIDADE 18 - O Criticismo kantiano
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estudos. Emprega-se como preceptor de famílias nobres locais. Somente em 1756


obteve a sua livre-docência e um modesto emprego de professor em Königsberg.

Nunca deixou Königsberg, contudo, seus escritos e sua carreira universitária


trouxeram-lhe vários convites e honrarias, entre elas a nomeação para a Academia de

Ciências de São Petersburgo.


Entre as suas obras encontram-se: Do mundo sensível e do mundo inteligível

(1770); A Crítica da Razão Pura (1781); Prolegômenos a toda metafísica futura que possa
se apresentar como ciência (1783); Ideia de uma história universal de um ponto de vista

cosmopolita (1784); Resposta: o que é esclarecimento (1784).


Seria interessante começar o estudo de Kant pela compreensão de sua

proposta primeira: a Revolução Copernicana. Todavia, se a Revolução Copernicana é o


movimento primeiro que dará a luz ao seu projeto filosófico, há de perguntarmos o

que o motivou a pensar nessa revolução? Segundo Kant, como afirmou em seu
Prolegômenos, foi Hume que o despertou do sonho dogmático.

A inspiração de Hume

O corte incisivo que Hume operou no conhecimento, como vimos na unidade


anterior, ao romper com o racionalismo e, consequentemente, com os alicerces que

sustentaram a razão como fonte de conhecimento, deu luz à tarefa de investigar


princípios na própria razão que fundamentam a si mesmo como fonte de

conhecimento.
Com efeito, Hume questionou os princípios de causalidade, em que afirmou

que seria a imaginação e não o entendimento que responderia pela concepção de

causa e efeito. Por isso, Kant não partiu, na construção da sua teoria do conhecimento,
da relação da razão com os objetos, como era comumente elaborados os movimentos

filosóficos da tradição clássica, mas partiu de um exame profundo para compreender os


movimentos que a razão opera no entendimento de si mesmo e das coisas do mundo.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 18 - O Criticismo kantiano
Porfírio Amarilla Filho

Desse modo, a Revolução Copernicana instala-se como um Tribunal da Razão


ao inverter, como Copérnico, o modo de abordagem do problema. Com efeito, Kant

abandonou a abordagem do exame começando pelos objetos e, em sentido contrário,


começou pela razão como matéria de investigação, deixando que ela examine a si

mesma e encontre ali os critérios que a façam compor a experiência e os outros


pensamentos como conhecimento.

“O mesmo aconteceu com os primeiros pensamentos de Copérnico que, depois

das coisas não quererem andar muito bem com a explicação dos movimentos
celestes admitindo-se que todo o exército de astros girava em torno de
expectador, tentou ver se não seria mais bem-sucedido se deixasse o expectador

mover-se e, em contrapartida, os astros em repouso” (1999, p. 39).

Ora, Hume foi quem guiou as reflexões de Kant, pois foi exatamente a oposição

ao filósofo inglês que permitiu que Kant percebesse os movimentos filosóficos


necessários para investigar a razão. Assim, emergem questionamentos necessários que

deram vazão à filosofia de Kant.


Seria, então, necessário definir:

· O que é a experiência?;
· Qual a causa de a experiência se apresentar como um conjunto de objetos

possíveis ao entendimento?;
· Quais são as premissas necessárias para definir o que é pensar?;

· Há regras prévias na razão que determinam o que é derivado da


experiência?

· O que é percepção e o que é entendimento na razão?

São esses questionamentos que moveram a abordagem kantiana em


estabelecer que não há experiência sem razão, pois qualquer determinação objetiva

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 18 - O Criticismo kantiano
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dado pelos sentidos passa pela razão, todavia, nem todos os pensamentos que se
encontram nela mesma são derivados da experiência.

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 19 - O Movimento Transcendental
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o movimento transcendental desenvolvido por Kant.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O Movimento transcendental
Kant chama a atenção ao processo do modo de entendimento, que chamou de

Transcendental, ou seja, o esforço de apresentar todas as possibilidades cognitivas


puras. Aqui, a intenção desse movimento de Kant fica evidente ao tentar determinar a

origem, extensão e valor do conhecimento a priori. Disso resulta, que, se por um lado, é
da sensibilidade que procedem as intuições; por outro, é do entendimento que

procedem os conceitos. O entendimento tem, portanto, o papel de fornecer conceitos


das representações dadas pela intuição.

A verdade dos juízos, que não consistem em meras elucidações, conceituais só


é possível a partir da união do sensível e do intelectual, ou seja, faz-se necessário no

entendimento acrescentar conceitos às intuições.

Espaço e tempo
A separação das impressões dos sentidos daquilo que é dado somente na

razão gera outro tipo de análise: a exterioridade ao pensamento não equivale às


próprias coisas que representa, pois há nessa exterioridade algo que a razão aplica para

poder compreendê-las e isso é o espaço e o tempo. Espaço e tempo, segundo Kant, são

duas formas puras inerentes ao homem; portanto, a priori.


Pode-se conceber o espaço sem qualquer objeto posto nele, contudo, não se

pode conceber um objeto fora do espaço. O espaço, portanto, é dado a priori


exatamente porque a sua representação é a própria condição de possibilidade do

fenômeno (PASCAL, 1977, p. 51). Por isso,

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 19 - O Movimento Transcendental
Porfírio Amarilla Filho

“o espaço não é um conceito empírico abstraído de experiências externas.


Pois a representação de espaço já tem que estar subjacente para certas
sensações se referirem a algo fora de mim (isto é, a algo num lugar do
espaço diverso daquele em que me encontro), e igualmente para eu
poder representá-las como fora de mim e uma ao lado da outra e, por
conseguinte, não simplesmente como diferentes, mas como situadas em
lugares diferentes. Logo, a representação do espaço não pode ser tomada
emprestada, mediante a experiência, das relações do fenômeno externo,
mas esta própria experiência externa é primeiramente possível só
mediante referida representação” (1999, p. 73).

O mesmo se assemelha ao tempo. O tempo se apresenta como dado a priori,

pois é condição do vir-a-ser na experiência. O movimento em si mesmo não revela o


espaço e o tempo, como propôs Hume na sua concepção de causa e efeito, mas,

apenas o deslocamento de um instante do objeto de um local a outro. Não obstante, se


o movimento é a percepção sensível de objeto de um local a outro, ele só pode ser

entendido como conceito na razão na sua dimensão espacial e temporal. O movimento


de um objeto qualquer como deslocamento de um instante a outro é a posteriori, mas

o seu entendimento como conceito de mudança ou deslocamento só se torna


compreensível pelo tempo, assim como pelo espaço (1999, p. 78).

“O tempo não é um conceito empírico abstraído de qualquer experiência.


Com efeito, a simultaneidade ou a sucessão nem sequer se apresentaria
à percepção se a representação do tempo não estivesse subjacente a
priori. Somente a pressupondo pode-se representar que algo seja num e
mesmo tempo (simultâneo) ou em tempos diferentes (sucessivo). (...) O
tempo é uma representação necessária subjacente a todas intuições.
Com respeito aos fenômenos em geral, não se pode suprimir o próprio
tempo, não obstante se possa do tempo muito bem eliminar os
fenômenos. O tempo é, portanto, dado a priori. Só nele é possível toda a
realidade dos fenômenos. Estes podem todos em conjunto desaparecer,
mas o próprio tempo (como a condição universal da sua possibilidade)
não pode ser suprimido” (1999, p. 77).

Os juízos analíticos e sintéticos

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 19 - O Movimento Transcendental
Porfírio Amarilla Filho

Agora sabedor de que a razão opera seu entendimento das coisas sobre aquilo
que se lhe apresenta a intuição dada pelos sentidos, é necessário a Kant investigar

quais são os critérios da razão, ou seja, a lógica dos juízos que fundamentam o
conhecimento ou o entendimento das coisas.

Kant decompôs os juízos da razão em três formas:


· Juízo analítico: fundamenta-se a priori sem a necessidade de se valer da experiência,
em que a conectividade do predicado com o sujeito for pensada de modo direito e
imediato, assim ele se apresenta como universal e necessário ao objeto de análise. O
enunciado um triângulo possui três ângulos é um enunciado analítico, pois dentro do
conceito do objeto (sujeito) é evidente a propriedade três ângulos (predicado).
· Juízo Sintético a priori: ao contrário do analítico, amplia o conhecimento que se tem
do objeto à medida que se avança sobre as propriedades dos objetos, que de certo
modo não se apresentam de modo evidente. Trata-se de um juízo mais fecundo em
relação ao predicado, mas que em si mesmo são necessários e universais: um
triângulo retângulo possui três ângulos, sendo dois ângulos de 45º graus e um de 90º
graus.
· Juízos sintéticos a posteriori: são juízos que estavam contidos implicitamente no
objeto, mas que são extraídos da experiência. Os juízos da ciência experimental são
todos juízos sintéticos a posteriori, pois se valem da experiência para extrair
predicados gerais, todavia, segundo Kant, não são universais e necessários.

BUSCANDO CONHECIMENTO

A Analítica Transcendental ou Analítica dos Conceitos


Kant visa, de fato, compreender como se dá a construção dos conceitos na

razão, por isso busca o fio condutor para a descoberta de todos os conceitos puros do
entendimento. Para isso, detona uma organização, em forma de tabela, dos conceitos

puros a partir da proposta que pensar é julgar. Ou seja, pensar é estabelecer relações
entre representações reduzindo-as em unidades:

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 19 - O Movimento Transcendental
Porfírio Amarilla Filho

Desse modo, Kant distinguiu entre as formas lógicas do juízo que se insere ao
lado do quadro de categorias necessárias à experiência:
TABELA DE JUÍZOS TABELA DE CATEGORIAS
I – Quantidade
Universais Unidade
Particulares Pluralidade
Singulares Totalidade
II – Qualidade
Afirmativos Realidade
Negativos Negação
Indefinidos Afirmação
III – Relação
Categóricos Da inerência e substância
Hipotéticos Da causalidade e dependência
Disjuntivos Da reciprocidade
IV – Modalidade
Problemáticos Possibilidade-impossibilidade
Assertórios Existência-inexistência
Apodíticos Necessidade-contigência

Com efeito, Kant percebe que a análise dos juízos supõe uma unidade sintética
introduzida pelo entendimento nas intuições. Isso significa dizer que a razão, a partir

dessas categorias mencionadas acima, unifica e sintetiza o múltiplo encontrado nas


coisas e que no conhecimento não tem outro uso senão a de serem consideradas nos

objetos da experiência. Segundo Reale&Antiseri,

“os conceitos puros ou categorias são as condições pelas quais e somente


pelas quais é possível que algo seja pensado como objeto de experiência,
assim com o espaço e tempo são as condições pelas quais e somente
pelas quais é possível que algo seja captado sensivelmente como objeto
de intuição” (2004, p. 364).

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 20 O Iluminismo
Porfírio Amarilla Filho

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Abordar o Iluminismo a fim de que se possa ter um panorama geral desse

movimento que tanto influenciou na construção do pensamento moderno.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O Iluminismo ou Século da Luzes tratou-se de um movimento cultural amplo,


que repercutiu um determinado de conceber o mundo, o homem no contexto social e

político europeu. Foi um movimento do pensamento europeu que se caracterizou


como forma de manifestação nas artes, na literatura, nas ciências, na teoria política e na

doutrina jurídica.
O iluminismo se difundiu em diversos países da Europa de modos diferente e

em diferentes épocas, contudo, adquiriu algumas características próprias que o fazem


ser um movimento dotado de certo pensamento específico que o define como tal. Na

Filosofia, o iluminismo difundiu-se principalmente na França, na Inglaterra e na


Alemanha. São vários os pensadores que participaram desse movimento cultural, entre

eles: na França, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778); Voltaire (1694-1778); Fontenelle


(1657-1757); Helvetius (1715-1771); Montesquieu (1689-155); Diderot (1713-1784) e outros;

na Alemanha, Herder (1744-1803); Kant (1724-1804) e Goethe (1749-1832); na Inglaterra,


David Hume (171-1776); Adam Smith (1723-1790).

Na Filosofia, pode-se caracterizar o Iluminismo, Ilustração ou Esclarecimento,

como em geral é traduzido esse movimento filosófico, como o empenho em estender a


razão como crítica e guia a todos os campos da experiência humana. É Kant quem

melhor define, a nosso ver, o Iluminismo, afirmou:

“o iluminismo é saída dos homens do estado de minoridade devido a eles


mesmos. Minoridade é a incapacidade de utilizar o próprio intelecto sem

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 20 O Iluminismo
Porfírio Amarilla Filho

a orientação do outro. Essa minoridade será devida a eles mesmos se


não for causada por deficiência intelectual, mas por falta de decisão e
coragem para utilizar o intelecto como guia” (KANT, Resposta à
pergunta: o que é esclarecimento?, p. 5).

O Iluminismo se fundamenta em três aspectos diferentes, porém, segundo

Abbagnano, interligados, são eles:


I. A extensão da crítica a toda e qualquer crença e conhecimento, sem exceção;
II. Realização de um conhecimento que, por ser aberto à crítica, inclua e organize os
instrumentos para a sua própria concepção;
III. O uso efetivo, em todas as áreas, do conhecimento com a finalidade de melhorar a vida
pessoal e social dos homens (2007, p. 618).

A oposição às trevas, à ignorância, à superstição torna-se patente nas reflexões


iluministas. O grande instrumento iluminista para por luz sobre a realidade é a razão, a

consciência individual e autônoma do homem que constrói o mundo a sua volta.


Por um lado, os filósofos iluministas depositaram na razão a mesma fé que

Descartes depositou em sua filosofia; por outro, compreenderam os limites do poder da


razão. Por outro, as correntes empíricas, David Hume, por exemplo, e mesmo as

racionalistas, como Kant, acreditaram que a razão possuía, em si mesma, limites que se
dão na própria apreensão da realidade.

Hume demonstra que a razão detona erros que comprometem os


fundamentos da verdade e, por isso, compromete a apreensão do real. Já o criticismo

de Kant, por exemplo, procura, em sua perspectiva filosófica, delimitar os limites da


razão diante da apreensão e entendimento da experiência.

Não obstante, todos partem do pressuposto que o homem possui uma luz
natural capaz de permitir que conheça o real, que tenha consciência da sua liberdade e

possa empreender finalidades para a sua ação, a partir da condução da razão.


Por isso, a Educação, a ciência e o conhecimento são fontes de luz para a razão

iluminista. A tarefa dessas instâncias da construção do conhecimento, assim como da

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 20 O Iluminismo
Porfírio Amarilla Filho

Filosofia, é promover a superação dos obstáculos e permitir que se possa por em


andamento o progresso e o desenvolvimento humano.

Dessa intenção, projetos filosóficos na política, na ciência e na economia


emergem na Europa. A Enciclopédia francesa talvez seja a revelação mais nítida da

intenção desse projeto no campo do conhecimento.


A mesma intenção permeia as críticas políticas de Locke, levada a termo por

Montesquieu e Voltaire. Do mesmo modo, a moral também não ficou fora das reflexões
iluministas. Tais críticas punham em evidência importância das paixões humanas na

conduta do homem.
Exemplo disso são as considerações de Hume sobre a moral, que marcou a

abertura desse campo à crítica racional e à busca de novos fundamentos para a


conduta do homem em sociedade. Embora, o filósofo empirista não tenha aderido ao

sentimento de melhorar a vida dos homens com a sua filosofia, conforme ele mesmo
comentou: filosofava para o próprio deleite (IDEM, p. 619).

Todavia, talvez por isso, o Iluminismo não tenha obtido seu mérito em um
sistema fechado nem consistiu na totalização de um resultado, mas, em sentido oposto,

seu mérito repousou em ter invadido domínios que antes permaneciam fechados,
permitindo reflexões sobre esses domínios.

BUSCANDO CONHECIMENTO

O que ficou evidente no movimento iluminista foi a percepção de que havia na

tradição uma força que mantinham vivas as crenças sem fundamentos e cercadas de

preconceitos, que resultou na recusa da autoridade clerical. Com efeito, tal recusa é a
expressão iluminista mais contundente nas suas manifestações, seguida da necessidade

do pensamento autônomo para a condução do homem à maioridade, como sugeriu


Kant. Assim, o que antes, segundo os iluministas, caracterizou-se como um

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FILOSOFIA MODERNA
UNIDADE 20 O Iluminismo
Porfírio Amarilla Filho

impedimento ao progresso, tornou-se laico e secular e, por isso, fora dos domínios das
crenças e das superstições.

Percepção essa que levou à reflexão sobre a tolerância, a emancipação e o


progresso racional no discurso iluminista. A tolerância exigiu do homem a compreensão

da convivência pacífica entre os vários credos religiosos, todavia, impediu a influência


da religião na política. A emancipação exigiu a consciência sobre a capacidade do

homem em produzir por si mesmo os próprios pensamentos e deliberar livremente


sobre eles, rompendo assim com a opressão e o domínio de outrem. O progresso

remeteu ao compromisso de transformação melhoria do saber e da condição de vida


humana.

Por isso, às bases para a construção dos elementos que sustentam as


considerações sobre a vida humana fundamentam-se nos princípios iluministas i) de

liberdade, que defendeu à livre iniciativa dos homens; ii) do individualismo, que
sustentou a existência de um sujeito autônomo em si mesmo e conscientemente capaz

de se autodeterminar; iii) da igualdade, que procurou suprimir dos direitos jurídicos os


privilégios de alguns (MARCONDES, 2008, p. 208). Tais princípios se refletiram nas artes,

na literatura, na política, na filosofia, na economia e na sociedade moderna.


Movimentos como a queda do absolutismo em vários países da Europa, a

Revolução Francesa, a Revolução Inglesa, a independência americana, são frutos dos


ideais Iluministas.

Pode se considerar a tarefa do iluminismo inacabada, contudo, não se pode


negar que a razão iluminista abriu espaços para outra compreensão do homem em

relação a si mesmo, ao conhecimento e ao mundo que o cerca. As condições de

realização do projeto iluminista ainda servem de reflexão e de debate na


contemporaneidade, somos herdeiros do iluminismo.

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