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PONTO DE VISTA

Motrivivência Ano XX, Nº 30, P. 76-90 Jun./2008

Sobre a Relação Ensino-Pesquisa na


Formação Inicial em Educação Física

Alexandre Fernandez Vaz1

Resumo Abstract – On Teaching and


Trata-se da relação entre ensino e Researching in Physical Educa-
pesquisa em Educação Física. Ela tion Undergraduate Studies
será pensada em três momentos. The aim of this essay is to show some
O primeiro diz respeito à atividade reflexions on teaching and research
profissional de investigação in Physical Education. Te relation
acadêmica, à produção avaliada e
between both topics is to think in
reconhecida pelos pares e validada
three moments. The first it the profes-
pelas regras do jogo científico.
sional research, the academic pro-
Um jogo que os estudantes têm
que conhecer e, se possível, dele duction that reaches validation by the
participar. O segundo momento scientists and the scientific game in
procura apresentar o lugar que a its rules. This game should be known
pesquisa pode ter na formação, by the students. The second moment
que se refere a um treinamento, a tries to show the place of researching
um aprendizado de pensamento in the undergraduate formation as
sistemático, analítico e rigoroso. training, as learning of systematic,
Apresenta a idéia de que não é analytic and rigorous thinking. It de-
preciso tornar-se propriamente um fends the idea that is not necessary to

1 Doutor em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade de Hannover, Alemanha, Professor da


UFSC (PPGE, PPGICH), Pesquisador CNPq. Contato: alexfvaz@uol.com.br
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pesquisador na licenciatura, mas é become a researcher as a student, but


importante ter a dimensão da pesquisa it is important to observe the resear-
na formação. Ao final, o texto aponta ch dimension in the undergraduate
como essas questões se imbricam na studies. The essay ends with the link
prática de ensino como componente between these questions and the tea-
curricular, como isso pode ser um ching training as a curricular theme,
eixo na formação de professores e how it is an axis in the formation of
professoras de Educação Física. Physical Education teachers.
Palavras-chave: Ensino; Educação Keywords: Teaching; School Physical
Física Escolar; Pesquisa. Education; Research.

Introdução muito escassos, a pesquisa uma


exceção à norma.
Ser testemunha de um ace- Uma das questões para
lerado processo histórico em curso as quais os alunos de hoje podem
pode ser um privilégio, ainda que atentar com mais facilidade é que
não seja algo tão raro em tempos tão a formação inicial é um momento
velozes e de tantas transformações singular, pois ela define, em grande
como os que vivemos hoje. Não parte, a carreira profissional. Ao
há dúvidas de que em um período mesmo tempo, e talvez com menos
historicamente curto, a área de Edu- “pragmatismo”, é bom também sa-
cação Física no Brasil mudou muito. ber que estudar, estar em formação,
Quando iniciei meus estudos na é uma experiência muito relevante
licenciatura, em uma universidade e que deve bastar por si própria.
pública, há cerca duas décadas, Conhecer é bom, não apenas “para
havia apenas um professor com o futuro”, mas para a experiência do
o título de mestre a nos ministrar presente; não para apenas “saber
aulas. Pouco depois da metade mais”, mas para que isso faça viver
do curso, de apenas três anos (o melhor a si mesmo, aos outros.
currículo mudou para quatro du- Como pode ser pensada a
rante meu período na graduação), formação em Educação Física hoje,
recebemos um doutor, apenas um ainda uma área de conhecimento e
dos dois, em Educação Física, que intervenção certamente em atraso
havia no estado de Santa Catarina. em relação a outras disciplinas?
Não se escrevia trabalho de con- Certamente por diversos caminhos,
clusão de curso e não havia bolsas e evidentemente não tenho a pre-
de pesquisa para os estudantes. Os tensão de mostrar uma maneira
recursos para a investigação eram “certa” de fazer isso, mas apenas
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vou esboçar alguns elementos com interesse bélico. Grande parte


que podem ajudar no horizonte do esforço científico se vincula à
de possibilidades e se baseiam em produção de armas que são letais
argumentos que se pretendem limi- ou, ainda pior, responsáveis pela
tados aos contexto da razão. Com destruição específica de segmentos
isso quero dizer que eles devem corporais. Armas que mutilam ao
apresentar algum tipo de sustenta- invés de matar, uma vez que um
ção teórica e ou empírica, mesmo mutilado é economicamente mais
quando forem algo experimentais, deficitário, em uma guerra, do
arriscados. Lembro que algum risco que um soldado morto. É curioso,
é bom para que se possa alargar ex- aliás, mas não surpreendente, que
pectativas, para que se nos autorize boa parte do conhecimento que se
a ter dúvidas – elas são muito ne- desenvolve para o esporte e para o
cessárias para aprender e produzir treinamento desportivo venha do
conhecimento. Afirmar o universo esforço de conhecimento vinculado
da razão é enfatizar a tentativa de à guerra, ao mundo militar. Os mili-
resistir aos obscurantismos que, de tares – e digo isso como constatação
toda espécie, são uma ameaça sedu- e não propriamente um elogio – não
tora e constante à vida intelectual. apenas desenvolveram parte da gi-
Se esse diálogo argumen- nástica, mas foram responsáveis por
tativo deve ser feito no horizonte da importantes do avanço científicos
razão, ele deve também questionar do esporte. Não é casual que boa
os seus marcos, sobretudo quando parte dos centros de treinamento
relacionados à ciência. Não há esportivo sejam militares, assim
dúvidas quanto ao enorme avanço como também não é o fato de que
proporcionado pela ciência em suas a tecnologia de materiais esportivos
várias ramificações, em especial as deva aos esforços das Armas parte
que chamamos de “naturais”. Tal de seu desenvolvimento. As ana-
avanço tem colocado, aliás, muitos logias do esporte com a guerra, o
desafios às Humanidades (FRIAS primeiro sendo uma representação
FILHO, 2009). da segunda, vão não apenas longe,
A ciência não é, no en- mas ganham uma materialidade
tanto, o porto seguro que muitas bastante insuspeita. Devemos pen-
vezes imaginamos e sua história sar sobre isso quando nos debru-
mostra que ela foi e é enormemente çamos sobre o esporte como tema
responsável por parte das desgra- de pesquisa e intervenção, ainda
ças que vivemos hoje. A ciência é que seja importante lembrar que o
também produzida, por exemplo, esporte não é propriamente guerra,
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mas uma forma de sua representa- co ou nenhum valor. Aquilo que


ção. Melhor, claro, termos alguns se produzimos na Universidade deve
digladiado nas pistas do que cidades permanecer sob os muros dos sabe-
bombardeadas. res terrenos. Portanto, entre ciência
A ciência é uma forma de e auto-ajuda e misticismo, melhor
conhecimento produzida em deter- ficar com a primeira, embora não
minado contexto histórico (a Mo- se deva perder o senso crítico em
dernidade), enraizada em contexto relação a ela.
político e econômico vinculado à re- Este texto trata da relação
produção do capital, e que tem como entre ensino e pesquisa em Educa-
características, entre outras, o fato de ção Física. Ele será pensado em três
ser verificável, contestável, corrigí- momentos interligados. O primeiro
vel. A ciência é secular e, de certa diz respeito à atividade profissio-
forma, auto-referente, com regras, nal de investigação acadêmica, à
instrumentos e métodos próprios, produção avaliada e reconhecida
sejam eles teóricos e/ou empíricos. pelos pares e validada pelas regras
Assim como filosofia e política não do jogo científico. Um jogo que os
são o mesmo, como lembra Hannah estudantes têm que conhecer e, se
Arendt (1992), verdade e ciência não possível, dele participar, seja pelo
são sinônimos. Se ciência não é ape- gosto que ele provoca – que é muito
nas o que se produz em laboratório bom – ou pela formação que ele
ou com medidas estatísticas, muito pode trazer para a vida profissional.
menos é mera opinião ou o desejo A atividade de pesquisa, quando
de como se gostaria que as coisas bem realizada, ensina a pensar de
fossem, mesmo quando isso eventu- forma rigorosa e com método.
almente foi publicado em forma de O segundo momento do
livro ou texto em periódico. Ciência texto, ao retomar outros trabalhos
tampouco não é mero relato de uma (VAZ, 1999; 2002), procura apre-
experiência, mal ou bem sucedida. sentar o lugar que a pesquisa pode
Mas é claro que a ciência ter na formação e se refere a um
nos é fundamental e a crítica a treinamento, a um aprendizado de
ela, como ensinam Horkheimer e pensamento sistemático, analítico
Adorno (1997), só pode ser feita e rigoroso. Todo aquele que atuará
dentro dos marcos da razão e não profissionalmente no ensino e na
a partir de um outro eixo que lhe orientação de práticas corporais
seja externo. Uma crítica à ciência escolares, no lazer, nos esportes,
desde um ponto de vista místico, na “promoção da saúde”, entre
religioso, esotérico etc, tem pou- outras possibilidades, deve ter a
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experiência da pesquisa em sua áreas de conhecimento, como a Edu-


formação para que possa empregar cação. É também do final dos anos
suas estratégias sistematicamente setenta do século passado a criação
em seu trabalho profissional. Não do Colégio Brasileiro de Ciências
é preciso tornar-se pesquisador, do Esporte (CBCE)2 e de sua revista
mas é importante ter a dimensão (Revista Brasileira de Ciências do
da pesquisa na formação para que a Esporte – RBCE), e das duas década
atividade profissional não seja mera seguintes o surgimento de outras
repetição de fórmulas. associações relacionadas à Educação
Ao final, o texto aponta Física e com pretensão científica,
alguns elementos para pensar como como a Associação Brasileira de Bio-
essas questões se imbricam na prá- mecânica e a Sociedade Brasileira de
tica de ensino como componente Educação Física Adaptada.
curricular, como isso pode ser um Tratava-se, nos anos 1970,
eixo na formação de professores e de uma Educação Física com preo-
professoras de Educação Física. cupações na ciência e contra o que
se considerava a “mera prática”, e
Pesquisa e educação física: isso na época significava, grosso
dois ou três comentários modo, pesquisas muito pueris em
aptidão física e crescimento e de-
O campo da Educação senvolvimento humano ou pouca
Física se ampliou enormemente coisa além disso. “Pesquisa” de fato
nas últimas duas décadas. Uma das era uma novidade e em muitos cur-
faces desse alargamento se relaciona sos de graduação – e mesmo entre
aos cursos de pós-graduação stricto professores – não se sabia bem a
sensu. Os primeiros mestrados são distinção entre uma investigação
da segunda metade dos anos 1970, acadêmica e o que se chama de
os cursos de doutorado só há cerca “pesquisa de opinião” ou mesmo o
de quinze anos. Os doutores eram que se aprendia que era “pesquisa”
em maioria formados no exterior no ensino fundamental e médio: ler
(sobretudo nos Estados Unidos da alguma coisa em um livro e repeti-lo
América e na Europa) ou em outras ou parafraseá-lo.

2. O CBCE, criado em 1978, nasce inspirado no American College of Sports Medicine, também com
uma denominação em língua inglesa (Brazilian College of Sciences Sports). Criado com forte
influência médica edas Ciências Biológicas, em 1987 muda mais radicalmente seu perfil com
a eleição de Celi Taffarel para sua presidência, sendo momento expresão de certa fragmentação
da área de Educação Física (PAIVA, 1994).
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Também é mais ou menos sabemos pela leitura do trabalho de


daqueles anos, o início da década Taborda de Oliveira (2003).
de 1980, um certo movimento de É bom que os alunos da
crítica à Educação Física tradicional graduação de hoje saibam que fa-
e ao esporte, cujos ecos, embora zem parte de uma história de uma
enfraquecidos, ainda hoje encon- área que ainda está em consolida-
tramos. Esse movimento se deve, ção acadêmica. De uma história que
em grande parte, à formação de não começou na semana passada e
pós-graduação em Educação e outras que teve muitos desdobramentos. Se
áreas das Humanidades, que muitos hoje em dia cursar um mestrado em
dos professores de Educação Física, Educação Física ou em outra área
em especial, mas não exclusivamen- de conhecimento (há graduados em
te, universitários, obtiveram a partir Educação Física que cursaram ou
daqueles anos. Não por acaso no estão cursando pós-graduação em
Encontro Nacional de Estudantes de áreas tão diferentes como Filosofia
Educação Física de 1984, realizado e Neurociências, Clínica Médica e
na Universidade Federal de Santa Sociologia Política, História e Fisio-
Catarina, em Florianópolis, o tema logia, Educação e Engenharia) não
central aparecia na forma de uma pe- é um absurdo, há poucos anos era
culiar pergunta: “Educação Física ou tarefa para pioneiros porque o curso
a arte de adestrar seres humanos?” de graduação oferecia com muito
Isso não quer dizer que an- pouca freqüência – e não raro em
tes desse tempo não houvesse pen- caráter muito precário – condições
samento na Educação Física, nem para que um aluno se preparasse
que ele não pudesse ser crítico. Os para a prática da pesquisa.
militares do Exército, com sua Re- Não há dúvidas que a área
vista Brasileira de Educação Física e melhorou muito, ainda que, como
Desportos, foram responsáveis por escrito acima, o atraso seja grande.
manter os leitores atualizados sobre Observe-se uma faceta desse pro-
o que era desenvolvido no mundo, cesso. A pesquisa acadêmica na
principalmente a partir da segunda Educação Física pode ser dividida
metade do século vinte. Por outro tematicamente. De forma muito
lado, a prática dos professores de geral, podemos dizer que há um
Educação Física era, antes dos forte interesse pelas questões de
discursos críticos dos anos oitenta, aptidão física e saúde, da aprendi-
também, mas certamente não só, zagem motora, do crescimento e
experiência de resistência aos dita- desenvolvimento humano, assim
mes do Estado Ditatorial, conforme como também são focos de in-
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vestigação outros temas que têm entre as “subáreas” e que tenha,


raiz nas Ciências Humanas, como simultaneamente, dois interesses
aqueles de corte historiográfico, so- não hierarquicamente sobrepostos.
ciológico ou filosófico, entre outras Deve-se estar atentos ao avanço do
possibilidades. Há ainda temas que conhecimento e os mútuos respeito e
estão na fronteira entre uma e outra reconhecimento ajudariam a dirimir
abordagem, por assim dizer. as tensões. Mas, devemos também
Há boas pesquisas nas dialogar no sentido do interesse da
duas margens e deve-se saber reco- prática, da intervenção pedagógica.
nhecer as especificidades teóricas Aí podemos encontrar um ponto de
e metodológicas de cada uma. Há apoio e disposição para o diálogo. É
também por toda parte trabalhos de preciso perguntar como as diferentes
qualidade muito duvidosa, meras abordagens e pesquisas podem con-
repetições de dados sem qualquer tribuir para um fim comum vincula-
esforço interpretativo ou ousadia, do, por exemplo, a um planejamento
ou então textos com “boa vontade” mais efetivo da dinâmica da Educa-
e às vezes politicamente engajados, ção Física escolar ou da atividade
mas sem conteúdo que os susten- do professor em uma academia de
tem. Estes acabam por promover, é ginástica e musculação. Obviamente
bom que se diga, um prejuízo muito não é possível o diálogo de todos
grande ao pensamento crítico e à com todos sobre tudo e ao mesmo
transformação das condições que tempo, mas as pontes devem ser não
advogam alcançar. Nessas situações, apenas procuradas, mas construídas.
estamos diante de algo bastante no- Um maior diálogo entre as “tribos”,
civo para a Educação Física e para como sugere Lovisolo (2000).
a produção do conhecimento em Para que se avance na área
geral. Como já foi dito, pesquisa não de Educação Física, nos termos que
é a simples compilação de dados, até agora foram colocados, é neces-
tampouco relato de experiência, sário, em primeiro lugar, que a pes-
embora precisemos dos primeiros e quisa seja profissionalizada e não
possamos tornar a última um objeto vinculada apenas ao esforço indi-
de reflexão. Muito menos panfleto vidual e pontual de um trabalho de
político, ainda que a dimensão po- conclusão de curso, dissertação ou
lítica da produção de conhecimento tese. Conhecemos as dificuldades
não possa ser negada. da maioria de nossas instituições de
Insisto na idéia de que ensino superior, cujos recursos são
deva haver no âmbito da Edu- escassamente destinados à pesqui-
cação Física um diálogo maior sa. Fora das instituições públicas é
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raro que haja pagamento de horas no âmbito da instituição. Um gru-


de trabalho para os professores se po deve ter linhas de pesquisa que
dedicarem à investigação. Esse qua- representem de fato aquilo que se
dro dificulta as coisas, mas é preciso produz ou se quer potencializar,
encontrar brechas e criar condições e deve primar pelo diálogo e pela
para a mudança dessa situação. A tolerância, pela abertura e pelo re-
exigência da escrita de um trabalho conhecimento das diferenças. Um
de conclusão de curso de gradua- grupo deve incluir entre seus mem-
ção e especialização ameniza um bros pessoas com diferentes níveis
pouco as dificuldades, uma vez que de formação e por isso a presença
os melhores alunos talvez possam de alunos de graduação é mais que
desenvolvê-los dentro dos grupos desejável. Estes não podem ter, no
de pesquisa. entanto, funções meramente admi-
Este é, aliás, um outro nistrativas, mas, sim, precisam ser
ponto fundamental, a existência de formados disciplinadamente para
uma estrutura que, se organizada e o trabalho na pesquisa. Por outro
posta de fato em funcionamento, lado, um grupo deve ser liderado
dá vida à investigação acadêmica. por pesquisador com experiência,
A constituição de grupos de pes- por alguém vinculado, de fato, à
quisa dentro das instituições e ou tarefa da investigação. Um grupo
de caráter interinstitucional é uma deve ter metas de curto, médio e
condição para o desenvolvimento longo prazo, sendo estas últimas
de uma cultura acadêmica. Os gru- talvez as mais importantes. Não é
pos de pesquisa podem ser constru- fácil formar e consolidar uma es-
ídos de diversas maneiras e abrigar trutura como essa, mas não se pode
linhas de pesquisa distintas. São esperar que as “condições ideais” se
uma estrutura que procura somar coloquem para então constituí-la.
forças, com pessoas que se reúnem Não vivemos em um país que nos
pelo interesse comum em certos dá o direito de esperar por elas.
temas e ou abordagens. Não devem As pesquisas não devem
ser lugar para a disputa de peque- ter a preocupação de gerar uma
nos poderes institucionais, não é quantidade grande de artigos e
bom que sejam pequenos feudos comunicações em congressos, mas
burocráticos ou peças ficcionais, sim buscar um padrão de qualidade
existindo apenas em seu registro que permita ter seus resultados pu-
no diretório do Conselho Nacional blicados em bons periódicos e agir
de Desenvolvimento Científico e no sentido da formação de quadros
Tecnológico (CNPq), ou mesmo para a investigação acadêmica. O
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produtivismo dever ser combati- ter o olhar afiado pela dimensão


do, a repetição deve ser evitada, a investigativa ou imitará durante
inclusão indevida de autores que toda a vida as vivências escolares
apenas assinam um paper é um mal ou as aulas “práticas” da licenciatu-
a ser extirpado porque reafirma uma ra. O tempo não legitima a prática
prática de oportunismo. Por outro profissional. Quantas vezes já se
lado, a inépcia acadêmica precisa ouviu uma das seguintes frases ou
ser superada, buscando-se a geração suas variações: “Isso eu já sei por-
de trabalhos capazes de alçar ao que sou professor há vinte anos”,
debate da comunidade acadêmica, “Criança eu conheço, é assim mes-
material que possa ser não apenas mo”, “Atleta é sempre assim”? É de
registrado, mas lido, citado, testado, se perguntar: esses colegas de fato
refutado, corrigido, criticado. Uma ministram aulas há tanto tempo, ou
vida acadêmica sem crítica, que é há tanto tempo ministram a mesma
sinal de respeito e consideração, é aula? Não se pode desqualificar a
a de uma existência morta. prática docente ou no esporte, mas
Por fim, mas não menos como é possível dizer saber tanto
importante, é preciso lembrar que apenas a partir da vivência não
numa área de intervenção como a sistematizada? Se a proximidade
Educação Física, a pesquisa pode, com o objeto diz muito sobre ele,
tanto quanto possível, estar asso- o distanciamento não é menos
ciada ao ensino, ainda que não se importante para a observação. Se
confunda com ele. Problemáticas não carecemos dos instrumentos de
de ensino podem ser importantes investigação e reflexão apurados,
objetos de investigação, o manancial para que, então, freqüentamos um
de questões da prática pedagógica curso superior?
é quase inesgotável. Nesse mesmo A prática de investigação
quadro, há uma dimensão da pes- como tarefa de professores e pro-
quisa que muito pode contribuir, fessoras de Educação Física deve
mais diretamente, para a melhoria do ser exercitada ainda no período de
ensino, como será tratado a seguir. formação inicial universitária. Nes-
se contexto, as escolas podem ser
Pesquisa e formação entendidas de forma ampla e com-
plexa, como um extenso espaço de
A pesquisa é um eixo para desenvolvimento e aplicação de
a formação de professores. Cada técnicas corporais (MAUSS, 1974) e
educador deve ser um pesquisador de cuidados com o corpo. As aulas
de sua prática pedagógica, precisa de Educação Física e esportes sem
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dúvida constituem espaços privile- discursivamente ou não, em outras


giados para o ensino de um grande disciplinas. Seria muito interessante
conjunto de técnicas corporais, um saber, por exemplo, das represen-
lugar de experiências (ADORNO, tações do corpo humano ensina-
1997) corporais – aquelas que se das em Ciências ou em Biologia.
incorporam na história pessoal e Com que imagens de corpo essas
coletiva, uma vez que a experiên- disciplinas trabalham? Que tipo de
cia com o mundo é sempre, em implicações há em ver um corpo
última análise, corporal, mediada e como máquina? De um aparato que
incorporada pelos sentidos: visão, podemos trocar as peças, jogá-la no
audição, tato, olfato, gosto. lixo se o conserto for muito caro?
As aulas de Educação Físi- Um corpo pode ser visto como
ca formam um conjunto de objetos uma máquina de combustão? Como
de investigação muito rico. Há um relógio? Ou como um ser vivo
crianças e jovens (e adultos) em com emoções, paixões, dores, he-
diferentes situações de saúde, com sitações, fraquezas, forças? É sobre
domínio técnico e corporal distintos, um corpo vivo, talvez visto como
multiplicidade geracional, relações morto, que a pedagogia atua cana-
de gênero, étnicas, relacionadas lizando pulsões, retendo paixões e
às posições de poder e hierarquia procurando funcionalizar desejos.
(mais hábeis, mais bonitos, menos E o que dizer do corpo nas
pobres, mais “alegres” etc), reforço aulas de Educação Religiosa? Note-
na formação de “tribos”, práticas se que as diferentes religiões tratam
de preconceito – corporal, étnico, o corpo distintamente, conforme o
de gênero, lingüístico, dirigido às ideário que constroem, de acordo
pessoas com deficiência –, enfim, o com a incorporação necessária para
espaço pedagógico é plural e pleno a consolidação de suas concepções.
de significados. Atente-se para os rituais que envol-
Há ainda um enorme con- vem o corpo nos vários registros
junto de outros cuidados e técni- religiosos. Os investimentos sobre
cas que se ocupam do corpo nos ele diferem de religião para religião.
ambientes educacionais, que não Há as que oprimem o corpo como
podem nem devem ser despreza- um lugar de pecado, há as que o ce-
dos. Mais que isso, não se pode lebram como expressão da vida, ou
investigá-los sem que se considere algo transitando entre uma e outra
seu entrelaçamento com as aulas posição. Lembre-se também, como
de Educação Física. São exemplos destaca Dallabrida (2001), o quanto
os conceitos de corpo veiculados, a tradição jesuítica em Educação se
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compraz no incentivo ao esporte. e até mesmo momentos-chave de


Por outro lado temos as conhecidas organização da rotina de creches
dificuldades nas aulas de Educação e escolas (RICHTER; VAZ, 2005).
Física com algumas confissões reli- Aliás, de que saúde escolar estamos
giosas. Há casos em que até mesmo, falando? Como a Educação Física
argüindo a Constituição brasileira, pode com ela contribuir, para além
solicita-se atividade alternativa à das prescrições para um “estilo de
Educação Física alegando “escusa vida ativo”?
de consciência”. É necessário ainda inves-
Observe-se também os tigar as técnicas disciplinares, re-
ritos formadores de masculinidade lacionadas à arquitetura da escola,
e de feminilidade, do homoerotis- ao planejamento dos espaços de
mo nos ambientes educacionais. deslocamento, às proibições e in-
Ressalte-se que, do ponto de vista terditos. As escolas são projetadas
da formação da masculinidade, a como dispositivos de controle e
violência no recalque à dor e ao disciplina corporal? Nesse quadro,
sofrimento é um vetor fundamental estar atento à dinâmica dos castigos
de sua afirmação, ao representar é outro exercício muito importante.
muitas vezes, também na escola, Há uma série de práticas puniti-
a constituição de uma hierarquia, vas nos ambientes educacionais,
especialmente, mas não exclusiva- muitos delas relacionados a dores
mente, entre os meninos. e privações corporais. Poder ou
Como tratamos a relação não deslocar-se para o recreio ou
entre saúde e doença no ambiente para as aulas de Educação Física,
escolar? O que dizer sobre um país levantar da carteira, ir ao banheiro,
como o nosso, onde há muitos des- tomar água, não repetir a merenda,
nutridos e obesos, e mesmo casos não poder sair dos berços ou ca-
de pessoas portadoras de ambas deiras ou almofadas (nos casos das
enfermidades? Como tratamos creches) etc. são castigos corporais
a cultura alimentar nas escolas? bastante fortes, que se assemelham
Nossas crianças como são educa- às agressões diretas, hoje talvez
das para o gosto de comer? Essas menos freqüentes.
questões são importantes, visto Em suma, o espaço do
que as práticas alimentares não são corpo na escola em geral e especifi-
apenas atividades de nutrição, mas camente nas aulas de Educação Fí-
momentos de domínio técnico do sica não pode ser pensado de forma
corpo no uso dos talheres, registro estanque ou segmentada, mas de
cultural na escolha dos alimentos, maneira integrada e interdisciplinar.
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As aulas de Educação Física são mo- e reflexão, exigem o diálogo com


mentos complexos que escapam da várias disciplinas do conhecimento,
nossa análise mais superficial. São não são objeto exclusivo da Educa-
momentos que nos desafiam e por ção Física. Esse diálogo, que deve
isso são importantes, instigantes, ser simultaneamente nos marcos
interessantes. teórico e metodológico, delimita
Quantos de nós conhece- e ao mesmo tempo possibilita a
mos, de fato, a escola ou academia investigação do problema.
ou clube em que trabalhos? Sabemos A Educação Física não é
sobre os aspectos físico-estruturais, uma ciência, nem precisaria ser,
a política de captação de recursos mas uma área acadêmica cujo foco
humanos, financeiros e materiais, os principal é a intervenção pedagógi-
aspectos históricos da instituição e, ca, na escola e fora dela, e que se
principalmente, o projeto pedagógi- serve da tradição do conhecimento
co, declarado e não, assumido por ocidental para suas pesquisas. Se
ela? O que sabemos sobre o universo queremos, por exemplo, estudar a
que circunda a instituição? Mais do hierarquia que se forma em torno da
que isso: o que podemos dizer sobre violência corporal entre os alunos
o que acontece no pátio, na quadra e alunas, não podemos prescindir
ou no aparelho de musculação à
de recursos nem das Ciências Hu-
nossa frente? Temos dados sobre as
manas e Sociais, nem das Ciências
raízes familiares, étnicas, os costu-
da Saúde. O olhar interdisciplinar,
mes, os hábitos, a cultura primeira
teórico e metodológico, é uma exi-
das crianças, jovens, adultos, idosos,
gência do objeto. Para isso é preciso
que estão conosco? Estamos informa-
dominar um instrumental de inves-
dos sobre o que eles fazem fora dali?
tigação adequado e saber operar
Temos uma memória escrita sobre
nossas experiências, ou seja, temos com conceitos, esses instrumentos
registro de nossas aulas, de nossos do pensamento, de forma que se
acertos, erros, sentimentos? Sabemos possa mais bem conhecer.
dados epidemiológicos das popula-
ções com as quais trabalhamos? Considerações finais: um nexo
Um problema de pes- com a prática de ensino
quisa relacionado a esses temas,
diga-se outra vez, será dificilmente Todo esse processo pode
investigado de forma meramente encontrar um desiderato na prática
disciplinar. As experiências cor- de ensino de Educação Física, en-
porais, como objetos de pesquisa tendida não como uma disciplina
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terminal do curso de licenciatura, letivo, acompanhando um estudante


mas como um eixo articulador da ou um grupo deles, ao longo de
formação de professores e professoras algumas disciplinas da formação de
de Educação Física. Para tanto, é es- professores. É preciso ir a campo, ob-
sencial que a prática de ensino esteja servar, coletar dados, transformá-los
distribuída ao longo do curso de for- em resultados de pesquisa por meio
mação de professores, conforme pau- de análise cuidadosa. Mas para isso
latinamente vem acontecendo com as é preciso saber o que vai ser feito, ter
recentes diretrizes curriculares, e que paciência, rever equívocos e reco-
o aprendizado vinculado à pesquisa nhecer avanços, ter uma orientação
seja capaz de oferecer subsídios para segura. Um docente com pouca expe-
uma análise crítica e pormenorizada riência de pesquisa terá dificuldades
das situações de ensino. para orientar seus alunos.
Em outras palavras, os A pesquisa é uma arma
alunos devem aprender a identificar fundamental para a construção de
problemáticas, pontos de tensão, um mundo melhor, ainda que possa
questões pertinentes que confor- ser também produtora, por seus ins-
mam a prática pedagógica de Edu- trumentos ou resultados, de muito
cação Física. Uma vez identificadas, sofrimento, como já antes dito.
elas devem constituir objetos de es- Gerar uma cultura de investigação
tudo e reflexão como problemáticas e produção de conhecimento no in-
de pesquisa, de forma que se torne terior da prática de ensino significa
um hábito a relação rigorosa com um investimento na construção de
os objetos que entendemos serem um pensamento mais rigoroso, fun-
importantes na prática pedagógica. damental para aqueles que querem
Sem conhecer, não podemos inter- ser professores ou trabalhar com os
vir com qualidade e o processo que esportes e outras práticas corporais.
leva à formação deve se desdobrar Para todo aquele que pretende man-
ao longo de todo o curso de licen- ter uma relação pedagógica em sua
ciatura. Um futuro professor deve atividade profissional.
aprender a se debruçar sobre as Uma última palavra. Para
problemáticas da educação do cor- a formação de um professor, e in-
po na escola, tanto aquelas afeitas discutivelmente de um pesquisador,
à Educação Física, quanto as que é importante que não transformemos
estão fora dela. nossos alunos em idiotas discipli-
Um problema de pesquisa nares (Fachidioten), pessoas (de)
pode se desdobrar como foco de in- formadas em uma única dimensão,
vestigação para mais de um semestre que talvez conheçam razoavelmente
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bem seu tema de pesquisa ou do- ADORNO, T. Gesammelte


cência, mas que não conseguem Schriften 3. Frankfurt am Main:
vê-lo dentro de uma história, de um Suhrkamp, 1997.
contexto mais amplo. Em outras pa- LOVISOLO, H. R. Atividade física,
lavras, não logram observá-lo senão educação e saúde. Rio de Janeiro:
em uma de suas faces, a mais super- Sprint, 2000. 112 p.
ficial. Isso não significa ser contra MAUSS, M. Sociologia e
a especialização ou as disciplinas antropologia. Tradução de
em sua força e integridade. Muito Lamberto Puccinelli, Mauro W.
pelo contrário, é preciso defender a B. de Almeida. São Paulo: EPU,
legitimidade disciplinar ou não tere- 1974, v. 2, 331 p.
mos interdisciplinaridade. Mas, um PAIVA, F. S. L. Ciência e poder
professor ou um pesquisador deve simbólico no Colégio Brasileiro
ser alguém cultivado. Com isso não de Ciências do Esporte. Vitória/
podemos condescender. ES: CEFD/UFES, 1994.
RICHTER, A. C. ; VAZ, A. F.
Corpos, Saberes e Infância:
Referências um inventário para estudos
sobre a educação do corpo em
ADORNO, T. W. Theorie der ambientes educacionais de 0
Halbbildung. In: ______. a 6 anos. Revista Brasileira de
Gesammelte Schriften 8. Ciências do Esporte. Campinas,
Frankfurt am Main: Suhrkamp, v. 26, p. 79-93, 2005.
1997. p. 93-121. TABORDA DE OLIVEIRA, M.
ARENDT, Hannah. Between Past A. Educação Física escolar e
and Future. New York: Peguim, ditadura militar no Brasil: entre a
1992. adesão e a resistência. Bragança
DALLABRIDA, N. A fabricação Paulista: Editora da Universidade
escolar das elites: o Ginásio São Francisco, 2003.
Catarinense na Primeira VAZ, A. F. Aprender a produzir e
República. Florianópolis - SC: mediar conhecimentos: um olhar
Cidade Futura, 2001. 293 p. sobre a Prática de Ensino de
FRIAS FILHO, O. Seleção natural: Educação Física. Motrivivência,
ensaios de cultura e política. São Florianópolis, ano XI, n. 13,
Paulo: Publifolha, 2009. 218 p. p.11-34, novembro 1999.
HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. ______. Ensino e formação de
W. Dialektik der Aufklärung: professores e professoras no
Philosophische Fragmente. In: campo das práticas corporais. In:
90

______; PINTO, F. M.; SAYÃO, Florianópolis : Editora da UFSC,


D. T. (Org.) Educação do corpo 2002. p. 85-107.
e formação de professores:
reflexões sobre a Prática de Recebido: 30/agosto/2009
Ensino de Educação Física. Aprovado: 20/outubro/2009

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