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ENUNCIADO E IDEOLOGIA NA TRADUÇÃO EM LIBRAS

Ednéia Bento de Souza Fernandes

A história das línguas de sinais se confundem muito com a história do tradutor de


línguas de sinais, porque são sujeitos historicamente situados nos contextos de interação
através da comunicação gestual. Nesse sentido, cabe pensar o papel do tradutor de línguas de
sinais como enunciador presente em lugares históricos marcados pela presença de pessoas
surdas e ouvintes. O tradutor de língua de sinais é alguém que meneia signos da cultura surda
para a ouvinte e vice-versa. Ele se relaciona com uma rede de signos dentro da trajetória
histórica das lutas de classes tanto pelo domínio do conhecimento sobre os surdos efetuado
pela igreja na idade média e modernidade quanto pelo reconhecimento de sua língua e pelo
direito à educação na contemporaneidade. A tradução é entendida nesse ensaio como
enunciado concreto, considerando que o tradutor é um sujeito compreendedor que através do
ato tradutório produz enunciados encadeados entre as culturas surda e ouvinte.

todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de
comunicação. Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual,
mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de
enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso. A riqueza e a
variedade dos gêneros do discurso são infinitas, pois a variedade virtual da atividade
humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de
gêneros do discurso que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria
esfera se desenvolve e fica mais complexa.

Falar em enunciado e ideologia no processo de tradução em línguas de sinais requer a


compreensão de que a tradução é uma atividade humana que esteve relacionada à
transformações sociais, culturais e econômicas em determinados períodos históricos.
Sabemos que o próprio significado da palavra traduzir traz dentro de si a neutralidade que faz
parte do signo ideológico no sentido de que em determinados contextos é utilizada com
sentido de negociação, translado, traição, domesticação e assimilação. Nesse sentido
podemos considerar o ato tradutório entre línguas de sinais e as línguas orais como um
gênero do discurso presente em esferas sociais bilíngues em que as escolhas lexicais são
também formas de expressão das lutas de classes tendo como arena a própria construção de
sentidos diante das escolhas do tradutor.
Trataremos a tradução entre as línguas de sinais e as línguas orais como um gênero do
discurso situados historicamente na própria história da educação de surdos, considerando que
a idade média, moderna e contemporânea são marcadas por acontecimentos únicos
decorrentes das relações de poder nas interações entre surdos e ouvintes. A tradução é um
campo da atividade humana permeada por signos neutros, no sentido de que essa atuação
pode se prestar à dominação, à escravidão, à assimilação e a libertação.

Mas a palavra não é somente o signo mais puro, mais indicativo; é também um
signo neutro. Cada um dos demais sistemas de signos é específico de algum campo
particular da criação ideológica. Cada domínio possui seu próprio material
ideológico e formula signos e símbolos que lhe são específicos e que não são
aplicáveis a outros domínios. O signo, então, é criado por uma função ideológico
específica. Pode preencher qualquer espécie de função ideológica: estética,
científica, moral, religiosa Bakhtin (2014, p.37).

Para construirmos essa argumentação escolhemos uma palavra do Hino Nacional


Brasileiro em língua portuguesa e vamos comparar com duas traduções dessa mesma palavra
em língua de sinais brasileira para percebermos que embora neutra a palavra é produzida por
sujeitos historicamente situados cuja significação revela os embates presentes em
determinadas esferas sociais. Retiramos a palavra “Ouviram” presente no Hino Nacional do
Brasil, Letra de Joaquim Osório Duque Estrada e Música de Francisco Manuel da Silva que
foi traduzido para libras pela intérprete surda Suely Ramalho e também pelo intérprete surdo
Bruno Ramos. Sabemos que o signo pode ser compreendido significando e refletindo
realidades diferentes.
Percebam que os dois intérpretes escolhem sinais em libras diferentes para traduzir a
palavra “Ouviram” para libras. Nessa escolha estão implícitos os elementos visuais que
também fazem parte da composição do discurso. Dessa forma podemos inferir que essas
escolhas são formas refratárias de representar o signo presente em língua portuguesa, e que o
tradutor como um sujeito responsável pela interação entre surdos e ouvintes manifesta em sua
enunciação o cenário das lutas, das vontades e posicionamentos sociais constituindo seu
discurso

A palavra é a arena onde se confrontam os valores sociais contraditórios; os


conflitos da língua refletem os conflitos de classe no interior mesmo do sistema:
comunidade semiótica e classe social não se recobrem. A comunicação verbal,
inseparável das outras formas de comunicação, implica conflitos, relações de
dominação e de resistência, adaptação ou resistência à hierarquia, utilização da
língua pela classe dominante para reforçar seu poder Bakhtin (2014, p.14).

A interação verbal nesse sentido pode se apresentar através de vários tipos de


manifestações presentes nas traduções, considerando que as línguas de sinais são de
modalidade gestual e visual, precisamos atentar não apenas para as mãos dos tradutores como
também para as expressões faciais e corporais que representam a entonação, com compõe os
enunciados ou em muitos casos representam enunciados concretos. Outro elemento
fundamental é buscar em Bakhtin (2011) a compreensão dos recursos utilizados pelo tradutor
para a construção do enunciado, como jogos de câmera, pano de fundo e outros recursos
visuais que corroboram para a diferenciação entre as duas traduções.

Mas a palavra não é somente o signo mais puro, mais indicativo; é também um
signo neutro. Cada um dos demais sistemas de signos é específico de algum campo
particular da criação ideológica. Cada domínio possui seu próprio material
ideológico e formula signos e símbolos que lhe são específicos e que não são
aplicáveis a outros domínios. O signo, então, é criado por uma função ideológica
específica. Pode preencher qualquer espécie de função ideológica: estética,
científica, moral, religiosa Bakhtin (2014, p.37).
As teorias de Mikhail Bakhtin (2011, 2014) são fundamentais para produzirmos um
excedente de visão acerca dessas traduções/enunciados dentro de um tempo que comporte
pensá-las como expressão de vozes sociais em constante tensão, e que se utilizam da tradução
como o lugar de enunciação, apropriando-se no processo de interação social de artefatos
culturais presente no universo dos ouvintes socializando experiências históricas e sociais que
são apreendidas e ressignificadas nas vivências com os surdos. É nesse sentido que essas duas
versões do Hino Nacional em Libras são tomados como enunciados que refletem e refratam
as práticas sociais de linguagem e se expressam de determinada forma, suscitando outros
enunciados num jogo ideológico que ultrapassa a visão da tradução como uma atividade
puramente técnica.

As traduções foram realizadas em vídeo por dois intérpretes surdos e disponibilizadas


[1]
em domínio público no youtube1 , elas foram selecionadas considerando que a tradução da

intérprete Sueli Ramalho remonta à primeira década do ano 2000 e a segunda tradução é do
ano 2015 fato que nos possibilita pensar essas traduções inseridas em contextos de interação
social diferentes.

Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. Os gêneros do discurso. In: _____. Estética da Criação


Verbal. Trad. Paulo Bezerra - 6ª. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch; VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da


linguagem. Tradução, notas e glossário Sheila Grilo e Ekaterina Vólkova Américo; 2. ed.
São Paulo: Editora 34, 2018.

1
Sueli Ramalho, ativista surda tradutora/intérprete, atriz e psicóloga e Bruno Ramos, Ator e Tradutor
e Intérprete: https://www.youtube.com/watch?v=S7JnjLby1aY
https://www.youtube.com/watch?v=STrLJipI18Q&t=139s
jjjjj

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