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HERMANN

HESSE
ANTOLOGIA POÉTICA

EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
WILLIAM
SHAKESPEARE
24 'So n e t o s
Objeto de estudos exaustivos em mais de três sé­
culos, interpretados diferentemente, examinados à
luz de escolas ou métodos, ultimamente renovados
frente a uma ciência estrutural da linguagem, os So­
netos de Shakespeare pertencem ao melhor patrimô­
nio da Poesia de sempre.
A Editora Nova Fronteira tem a honra de pôr ao
alcance do grande público os 24 Sonetos de William
Shakespeare, em tradução de Ivo Barroso, verda­
deiro trabalho de amor à poesia e à língua.
A edição é bilíngüe e tem Introdução de Nehemias
Gueiros e Prefácio de Antônio Houaiss.

Á
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
sempre um b e s t -s e u e r
novo
DM JON ARJO
AURELÍO
/

escritor alemão. E a tradução foi entre­


ANDARES gue a um ppeta Geir Campos, que aqui
Antologia poética de Hermann Hesse coloca veiá e alma de poeta e transpõe
para o público brasileiro a poesia de
“ Quando Hesse publica sua antolo­ Hesse. E o faz com a desenvoltura de
gia poética, Andares, a Suíça que ha­ quem responde a quantos contestem
bita é uma espécie de ilha não sufi­ validade em traduzir poesia no seu pró­
cientemente distante para que lá não logo a este livro:
chegue a violência dos ecos e perigos "Há quem anuncie e garanta que
da Segunda Guerra Mundial. A alma lí­ ‘poesia não se traduz’: um anúncio e
rica do poeta é como um sismógrafo uma garantia que condenariam lim i­
que registra fielmente todos os abalos narmente inúmeros amantes da poesia
políticos. A confrontação do fenômeno à impossibilidade de tomarem conhe­
literário com o da guerra tinha sido cimento das obras que poetas de re­
uma experiência marcante entre 1914 e nome universal deixaram ou estão dei­
1918. Em 1914 tinha-se deixado levar xando escritas em idiomas que lhes
pelo entusiasmo político; mas logo as­ são estrangeiros.”
sume uma posição pacifista da qual Escrever poesia, para Hermann
não se distanciará jamais.” Hesse, é um jogo de significado multo
Nestas palavras de Nicolás Jorge sério. Trata-se da defesa de valores
Dornheim, ensaísta argentino, en­ particulares. E ele só aceitou um com­
contra-se o retrato do escritor que co­ promisso com a obra literária: a reno­
munga de início com um ponto de vação do homem a partir do seu inte­
vista, se não faccioso pelo menos um rior, do seu sentimento, do seu conhe­
tanto partidário, mas que logo recicla cimento diferenciado de si mesmo.
posições, assume compreensão maior E que melhor forma literária para
do problema humano. E passa para a dizer isto que a novela lírica e a poe­
independência ampla do pacifismo. sia?
Então a Segunda Guerra já não o acha
mais atrelado a facções. É o homem, Tradução de Geir Campos
retirado na sua Montagnola, na Suíça,
numa chácara que bizarramente avisa,
em letreiro à porta, não haver ninguém
em casa, nunca.
Lançado no Brasil há muitos anos,
conhecido do público nacional por
seus romances e novelas, Hermann
Hesse no entanto permanecia inédito
na sua maneira de poeta, no verso lí­
A
EDITORA
rico que solta em vôo alto, livremente. NOVA
FRONTEIRA
E a Editora Nova Fronteira, com esta
sempre um b est -seller
Antologia Poética, apresenta aqui a
nõvõ
maior reunião de poemas do grande DKHONARJO
AURÉLIO
riHRMANN HESSE

ANDARES
(ANTOLOGIA POÉTICA)
Tradução e Prólogo
G e ir cam pos


EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
Título original:
STUFFEN. A USGEWÀHLTE GEDICHTE

Copyright© 1953 e 1961 by Suhrkamp Verlag, Francfurt/Meno

Direitos adquiridos para língua portuguesa pela


EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Barão de Itambi, 28 — Botafogo — ZC-01 — TeL: 266-7474
Endereço Telegráfico: NEOFRONT
Rio de Janeiro — RJ
Capa:
Ilustração
Jo s é Pa u l o M o r e ir a da F o n se c a
Lay-out
R o lf G u n t h e r B r a u m
Revisão
R e in a l d o G a io de A l m e id a e A. T avares
Diagramação
A n t o n io H e r r a n z
SUMÁRIO

D a P o e s ia e da T radução (Geir Campos)............................... 7

ANDARES
(A n t o l o g ia P o é t ic a )

A um amigo com o livro de Noite de solidão, 40.


poesias, 15. Aprendizes, 41
Anoitecer na aldeia, 16. Chioggia, 42.
Fuga da juventude, 17. Passeio noturno, 43.
Noite de verão precoce, 18. A carta, 44.
Primavera, 19. De um passeio noturno, 45.
Sobre Hirsau, 20. Gôndola, 46.
Azul-tarde, 21. Noite, 47.
Nuvem mansa, 22. Ãs vezes, 48.
Pelos campos, 23. Na bruma, 49.
Bétula, 24. Nuvens do entardecer, 50.
Relâmpagos, 25. Entrada de primavera, 52.
Valsa brilhante, 26. Tarde de fevereiro, 53.
Elisabeth, 27. Primavera, 54.
Dentro da noite, 28. Noite, 55.
Noite, 29. Junho em dia de vento, 56.
No Norte, 30. Adágio, 57.
Floresta Negra, 31. Sentimento da noite, 58.
O claustro de Santo Estêvão, 32. O poeta, 59.
Ravena, 33. Noite de verão, 61.
Pousada de andarilhos, 34. Fim de verão, 62.
Templo, 35. Meio-dia em setembro, 63.
Finale, 36. Sorte, 64.
Ciprestes de San Clemente, 37. A caminho, 65.
Esta é a minha mágoa, 38. Montanhas dentro da noite, 67.
Sonho,39. Sozinho, 68.

3
De um andar noturno, 69. Irmã Morte, 117.
Festa noturna dos chineses em Mundo sonho nosso, 118.
Singapura, 70. Õ mundo ardente, 119.
Rio na mata, 71. Desde a infância, 120.
A uma cantora chinesa, 73. Noite de angústia, 121.
De passagem, 74. Fugacidade, 122.
Sina, 75. Outono, 123.
Ramo em flor, 76. Passeio no fim do outono, 124.
Pausa de esqui, 77. Todas as mortes, 125.
Ode a Holderlin, 78. Mágoas, 126.
Na relva deitado, 79. Caminho à noite, 127.
Cemitério rústico, 80. Canção de amor, 128.
Ante uma coleção de esculturas Regresso, 129.
egípcias, 81. O doente, 130.
à melancolia, 83. Fim de inverno, 132.
Rosa branca ao crepúsculo, 84. Doença, 133.
A meu irmão, 85. Media in vita, 134.
Chegada a Cremona, 86. Sonhando contigo, 138.
Na hora de dormir, 87. O amante, 139.
Dia de primavera, 88. Em algum lugar, 140.
Nenhum sossego, 89. O peregrino, 141.
Solene música do entardecer, 90. O poeta, 142.
Bhagavad Gita, 93. Lobo da estepe, 143.
Paz, 94. Os imortais, 144.
Vivência nova, 95. Ao poeta indiano
Sul, 96. Bhartrihari, 146.
Dia na serra, 97. Ensinamento, 148.
Dias do destino, 98. A Morte a pescar de anzol, 149.
Relendo “Maler Nolten”, 99. Gota, 150.
Flor, árvore, pássaro, 100. Lanternas em noite de verão, 151.
Primavqra em Locamo, 101. Outono precoce, 152.
Chuva, 102. Entardecer de verão numa
Comoção, 103. cabana silvestre em Ticino, 153.
Solitário anoitecer, 104. Reminiscência do verão de
A noite, 105. Klingsor, 155.
No quarto ano de guerra, 107. O poeta e seu tempo, 156.
Perdimento, 108. Canto da morte de Abel, 157.
Confissão, 109. Borboleta azul, 159.
Caminho interior, 110. Setembro, 160.
Livros, 111. Linguagem, 161.
Tempo de chuva, 112. Para Ninon, 163.
à noite, 113. Sei de algumas..., 164.
Despertar no meio da noite, 115. Ã notícia da morte de um
Noite de verão, 116. amigo, 165.

4
Sexta-feira Santa, 166. No castelo de Bremgarten, 205.
A caminho do Oriente, 167. Outubro 1944, 206.
A um retrato da mocidade, 168. Prova tardia, 207.
Casario ao anoitecer, 169. Ã escuta, 208.
Canícula, 170. Melancolia, 209.
Chuva noturna, 171. Reminiscência, 210.
*Plenitude do verão, 172. Em face da paz, 211.
Retrospecto, 173. Noite em claro, 212.
Folha murcha, 174. Rascunho, 213.
Reflexão, 175. Pavilhão no inverno, 214.
Sofrimento, 177. Rabisco na areia, 215.
Dedicatória para um livro de Cheiro de outono, 217.
poesia, 178 Dia cinzento de inverno, 218.
Vida de flor, 179. Sol de março, 219.
De carro sobre o Julier, 220.
Lamento, 180. Tempestade em junho, 221.
Mas temos um secreto afã..., 181. Luz da alvorada, 222.
x Serviço, 182. Chuva de outono, 223.
Bolhas de sabão, 183. Lamentação e consolo, 224.
O jogo das miçangas, 184. Necrológio, 226.
Chinês, 185. Viandante em fim de
Caramanchão, 186. outono, 227.
Olhando o vale lacustre, 187. O ancião e as mãos, 229.
Pavilhão vermelho, 188. Um sonho, 230.
Amanhecer em dezembro, 189. Antiga imagem de Buda em
Ao vento morno da noite, 190. ruínas num barranco de bosque
Com um convite para “A Flauta japonês, 231.
Mágica”, 191. Rapazote, 232.
Pensamentos vadios, 193. Noite exausta, 233.
Música de flauta, 195. Jovem noviço num mosteiro
Final de verão, 196. Zen — I, 234.
O Redentor, Í97. Jovem noviço num mosteiro
Andares, 198. Zen — II, 235.
Meio-dia estivai numa velha casa Lej Nair, 236.
de campo, 199. Louis Sutter, 237.
Informe do aluno, 200. Uma vez, há mil anos, 239.
Prosa, 201. Rascunhado numa noite de
Viva, Dom Mundo!, 203. abril, 240.
Relendo “Heumond” e “Schõn Canto mínimo, 241.
is die Jugend”, 204. Ranger de galho rachado, 242.

5
DA POESIA E DA TRADUÇÃO

HÃ QUEM ANUNCIE e garanta que "poesia não se tra­


duz”: um anúncio e uma garantia que condenariam
liminarmente inúmeros amantes da poesia à impossibili­
dade de tomarem conhecimento das obras que poetas de
renome universal deixaram ou estão deixando escritas
em idiomas que lhes são estrangeiros.
Evitando o debate sobre a justeza de tal condena­
ção, preferimos tentar uma abordagem algo técnica da
tradução, que é uma técnica com alguma arte, e da
própria poesia, que é uma arte com alguma técnica.
A começar pela busca de uma conceituação do que
possa ou deva ser a poesia, alinharemos três pronuncia­
mentos, bastante difundidos, de três autores sincrônica e
diacronicamente respeitáveis — em vários lugares, atra­
vés de edições que sobrepassaram muitas fronteiras, e em
várias épocas, através de reedições que venceram muitos
anos: o melhor teste para a respeitabilidade de qualquer
autor.
Para o alemão Novalis (Friedrich von Hardenberg,
1772-1801), talvez o mais sublime representante do ro­
mantismo germânico, “poesia é a arte de excitar a
alma”. Para o norte-americano Thomas Stearns Eliot
(nascido em 1888 e naturalizado cidadão britânico, Prê­
mio Nobel em 1948), “toda verdadeira poesia é uma
visão de mundo”. Para o inglês Samuel Taylor Coleridge
(1772-1834), um dos precursores do romantismo na lite­
ratura do seu país, “poesia são as melhores palavras em
sua melhor ordem”.
Fundindo esses três conceitos magistrais, obtém-se
uma espécie de liga conceituai de elevado teor filosófico-
literário, com um enfoque individual, um enfoque social

7
e um enfoque estético da arte poética: -‘p oesia è a arte de
excitar a alma com uma visão de mundo através das
melhores palavras em sua melhor ordem ”.
Vejamos agora, desses três elementos da obra poéti­
ca, quais os que se podem traduzir, isto é, transplantar
de um idioma para outro.
O de mais fácil transplante há de ser o mais denota-
tivo dos três: a "visão de m undo”, com seus significados
perfeitamente acessíveis por meio de significantes ade­
quados em qualquer idioma. A “visão de mundo", por­
tanto, é traduzível, ainda que seja parte da poesia.
E uma visão de mundo é capaz de, p o r si só, “exci­
tar a alma” de quem a lê hem-posta em palavras de
qualquer idioma — assim como, em qualquer idioma, a
informação puramente jornalística (audiovisual, pelo ci­
nema ou pela televisão: ou apenas áudio, pelo rádio; ou
apenas visual, em foto ou em texto, pelo jornal impresso)
de um oficial executando em praça pública um prisionei­
ro de guerra no Vietnã, por exemplo, há de “excitar a
alma” de qualquer telespectador ou ouvinte ou leitor,
em qualquer parte da "aldeia global” infeliz em que as
telecomunicações vêm transformando o nosso planeta.
Também este elemento, portanto, é traduzível, ainda
que integrado numa obra poética.
Fica assim a questão restante a girar sobresxJteicei-
ro elemento: “as melhores palavras em sua melhor or­
dem ” — pois de fato, no poema bem realizado, em que a
forma e o conteúdo se completam e se equilibram como
os prótons e os eléctrons que gravitam no microcosmo de
um átomo, parecendo depender cada um de cada outro,
qualquer palavra mal mexida é capaz de acarretar o
desmoronamento de todo o edifício verbaL
Nesta parte, "as melhores palavras em sua melhor
ordem”, no bom poema original, não admitem uma
pura e simples substituição pelos seus equivalentes léxi­
cos na “língua-meta” (denominação que os teóricos da
tradução costumam dar ao idioma para o qual algum
outro texto ê transplantado). O bom tradutor tem o
dever, se não o direito, de buscar, se não o de rebuscar,

8
palavras que reproduzam na tradução não só a logopéia
(efeitos de significância), como também a fanopéia
(efeitos de imagem) e a melopéia (efeitos de musicalida­
de) do original, transplantando assim, de um idioma
para o outro, o máximo possível de elementos psicológi-
oos ( “excitação da alm a”), históricos ( “visão de mun­
do") e lingüísticos ( "as melhores palavras em sua melhor
ordem”). Por isso mesmo ainda se permitem ao tradu­
tor de poesia, sem abusos, algumas das chamadas "li­
cenças poéticas”, as bastantes para que ele possa levar a
bom termo o seu trabalho sem "trair”, como temem
alguns, o pensamento e o sentimento do autor na obra
traduzida. Tomadas assim algumas precauções, chega­
mos à conclusão de que também "as melhores palavras
em sua melhor ordem ”, que constituem o terceiro ele­
mento da poesia, são passíveis de transplante de um
idioma para outro, tudo dependendo da habilidade ou
habilitação do tradutor — como a de um Onestaldo de
Pennafort traduzindo Shakespeare e Verlaine, ou a de
um Guilherme de Almeida traduzindo Baudelaire e Ge-
raldy, por exemplos.
Posta em pratos limpos a viabilidade da tradução de
poesia, vejamos a possível aplicação de cada um desses
itens na poesia de Hermann Hesse — um poeta confessa-
damente lírico, introspectivo, evasivo e amargo quase
sempre, de cuja obra poética este volume é uma razoável
amostragem.
A poesia de Hermann Hesse, principalmente em
suas primeiras páginas, é metrificada e rimada com
rigor, um rigor que se fo i amaciando com o avanço do
poeta pelos descaminhos da vida e da literatura. E uma
poesia intimista, de homem afeito à solidão e à natureza,
ainda mais à solidão em meio à natureza. Começou a
poetar muito cedo, e já aos doze anos de idade confiden­
ciava à sua irmã Adele, num bilhete datado de 4 de
dezembro de 1889:
“Faz já algum tempo que me levanto pontualmente
às seis da manhã, e nas primeiras horas matinais, das

9
seis às sete diariamente, acabei de escrever duas poesias,
Der iremde Jáger e Der Schwanenritter...”
Já aos dezoito anos, em carta de maio de 1895 a seu
professor Ernst Kapff, declara-se um lírico, sem vocação
para a dramaturgia (chegou a escrever em 1919 uma
peça em um ato, Die Heimkehr) mas com a esperança de
vir a ser um prosador razoável, confessando ter já em
esboço o plano de um romance.
Na poesia, como na prosa, Hermann Hesse, suíço
(1877-1962) de língua alemã (Prêmio Nobel em 1946),
mostrou-se permanentemente preocupado com a busca
de um sentido para a vida, levando-o essa busca a prefe­
rir a solidão, longe das aglomerações urbanas que lhe
eram penosas de suportar. Poesia e prosa parecem ter
andado sempre de mãos dadas, em toda a existência de
Hermann Hesse — que se dizia, ele mesmo, um poeta
das nuvens, sem raízes e sem pátria-lar: a ausência da
pátria-lar (Heimat) é uma constante na obra desse auto-
condenado ao degredo perpétuo no mundo dos homens.
Parece tê-lo marcado muito uma viagem à índia, em
1913, e a mística do Oriente aparece ou transparece em
várias das suas páginas em verso e prosa. Em 1918,
Hermann Hesse publicou um ensaio, Uber Gedichte,
dando a entender que não existem poesias boas ou más,
porém autênticas ou falsas (um juízo intempestivamente
romântico). Seu primeiro volume de poesias foi publica­
do, por sua conta, em 1899, com o título de Romantische
Lieder ( “Canções românticas”) e influências de Novalis,
Heine e Eichendorf. Em 1902 saiu do prelo o seu segun­
do livro de versos, intitulado simplesmente Gedichte
('Poesias”), já comparando as mutações da natureza
com as do ser humano. Seu terceiro livro de poesias,
Interwegs ( “A caminho"), circulou em 1911. Em 1913
publicou um volume de poemas de sua viagem pela
Índia, Aus Indien. Já com menos rigores formais, com
menos apego ao metro e à rima, sai em 1915, em verso e
prosa, Musik der Einsamen ( “Música do solitário”). Em
1920, Hermann Hesse, que dois anos antes começara a
pintar aquarelas, como um derivativo talvez„ ilustra

10
cada um dos dez poemas do seu novo livro Gedichte des
Malers ("Poemas do pintor”), grande sucesso de venda:
daí por diante, não faltaram admiradores que lhe enco­
mendassem poemas manuscritos e ilustrados, natural­
mente muito bem remunerados. Em 1942 publica-se em
Zurique um volume com Die Gedichte ( "Ospoemas ”) de
Hermann Hesse, com mais de seiscentos títulos, incluin­
do reflexos da guerra e da esperança de paz: o pacifismo
de Hesse reponta em várias páginas da presente antolo­
gia. Em 1963, no ano seguinte ao da morte do poeta, a
Editora Insel publica um volume póstumo com Die spá-
ten Gedichte ( “Os derradeiros poemas”) de Hermann
Hesse, dos quais o último realmente escrito, com data de
8 de agosto de 1962, véspera do passamento do poeta, foi
“Knarren eines geknickten Astes” , incluído no presente
volume sob o título “Ranger de galho rachado
Na tradução de textos versificados de um idioma
conciso e preciso, como o alemão, para um idioma neo-
latino qualquer, uma das licenças permitidas sine qua
non ao tradutor, para um trabalho justalinear, há de ser
a de alongar, em alguns casos, as medidas dos versos,
para não lhes aumentar o número, de modo a caberem
nas linhas traduzidas as denotações e conotações das
linhas originais. Também precisou ser contornado o pro­
blema da rima, presente na maioria dos poemas de
Hermann Hesse: a rima, “ce bijou d’un sou, qui sonne
creux et faux sous la lime” , como diria Verlaine, outro
grande rimador,. e que deveria ser, como queria Du
Bellay, “reçue, non appeléev Toda vez que a rima teria
de ser “convocada”, tivemos o cuidado de abrir mão
dela, aproveitando apenas as que em boa hora se faziam
dadivosas, como sói acontecer em pleno jogo de palavra-
puxa-palavra ou idéia-puxa-idéia.
G.C.

11
ANDARES
(ANTOLOGIA POÉTICA)
A UM AMIGO
COM O LIVRO DE POESIAS

O que me empolgou sempre e me alegrou


desde os lendários dias de rapaz,
toda essa distraída e multifária
dispersão entre inspiração e sonho,
entre orações, clamores e lamentos
— nestas páginas voltas a encontrar.
Se elas são oportunas ou inúteis,
não vamos muito a sério perguntar:
aceita como amigo os velhos cantos!
Para nós, já maduros, a demora
no passado é lícita e confortante:
por trás dessas mil linhas desabrocha
uma vida. algum dia deliciosa.
Ào nos pedirem cõntãs por hos termos
ocupado com tais futilidades,
suportaremos um fardo mais leve
que os aviadores atroando as noites,
e as tropas, e os rebanhos dessangrados,
e os senhores da terra e os potentados.
ANOITECER NA ALDEIA

Com as ovelhas passa o pastor


pelas ruelas tranqüilas:
as casas querem dormir,
anoitece e elas cochilam.

Entre estes muros sou eu


o único estranho do dia:
com pena bebe meu coração,
até o fundo, o cálice da nostalgia.

Aonde quer que me leve algum caminho,


por toda parte há uma lareira a arder:
terra-natal ou pátria, apenas eu
jamais pude conhecer.
FUGA DA JUVENTUDE

Fatigado o verão dobra a cabeça


e olha no lago a sua imagem descorada.
Fatigado e coberto de poeira
vou pelas alamedas sombreadas.

Entre os olmos perpassa um vento tímido.


Ãtrás de mim tenho o vermelho céu
ê. à minha frente receios da noite
e crepúsculo e morte.

Vou fatigado e coberto de pó:


atrás de mim, hesitante, de pé,
a juventude abana a linda cabeça
e prosseguir comigo não mais quer.

17
NOITE DE VERÃO PRECOCE

Céu de trovão;
lá no jardim
treme uma tília.
A tarde chega ao fim.

Claro relâmpago
deixa-se ver
com grandes olhos
no tanque úmidos.

Nas hastes frágeis


as flores ouvem
aproximar-se
o anjo da foice.

Céu de trovão,
ar abafado:
— “Fala, não sentes também?”
A rapariga estremece a meu lado.
PRIMAVERA

Em crepusculares criptas
eu longamente sonhei
com teus ares azuis e tuas árvores,
com teus perfumes e cantos de pássaros.

Agora toda te abres


em glorioso resplendor, assim
inundada de luz
como um prodígio diante de mim.

De novo me reconheces e com ternura me tentas:


vibra ao longo de todos os meus membros
tua alegre presença.

19
SOBRE HIRSAU

Fazendo alto em baixo dos abetos,


sinto saudade dos tempos passados
quando, com m inha prim eira paixão,
me vinha este mesmo cheiro dê mato.

Neste lugar, no'm usgo, eu me deitava


ardente e tímido a sonhar com ela:
era uma rapariga esbelta e loura.
prim eira rosa da minha coroa.

Passou-se o tempo, o sonho ‘se cansou


e foi-se embora. Um outro apareceu:
há quanto tempo já me deu adeus!

De qual delas eu gostei mais? — Agora


penso nisto: de qual? Apenas sei
que ela era esbelta, loura, e encantadora.
A ZU L-TA R D E

Õ pura, maravilhosa visão


— quando entre púrpura e ouro,
grave e propício, vais baixando em paz,
resplandecente azul do céu da tarde!

Lembras um m ar azul onde a fortuna


com a âncora se encerra
num bendito repouso. Cai do remo
a última gota de mágoa da terra.
NUVEM MANSA

Minúscula, branca,
leve, sem rumor,
bóia no azul uma nuvem:
volve teus olhos e sente
como em seu alvo frescor te conduz
feliz por entre sonhos azuis.
PELOS CAMPOS

Pelos céus passam as nuvens,


sobre os campos sopra o vento,
pelos campos erra o filho
perdido de minha mãe.

Pelas ruas rolam folhas,


sobre as árvores há pássaros.
Sobre as montanhas, em algum lugar
minha pátria há de estar.

23
BÉTULA

As gaviriha^do sonho de um poeta


não são mais finas ao ramificar-se,
nem se inclinam com mais leveza ao vento",
nem sãò mais nobres no galgar o azul.

Terna e tenra, e superentrelaçada,


deixas que pendam quase em desalento
tuas ramagens claras e alongadas
a cada sopro ocasional do vento.

Assim pendente, flexível e m ansa,


com os teus delicados arrepios,
és para mim o am or da juventude
terno e puro — em feliz alegoria.
RELÂMPAGOS

Relâmpago em febre ao longe.


Pálida e tím ida estrela
de estranho clarão, cintila
o jasmim do teu cabelo.

Ao teu mágico poder


difícil e inconstelado,
trazemos beijos e rosas
— ó noite densa e abafada!

Beijos sem sorte e sem fogo


dos quais mal nos lamentamos;
rosas que em lúgubre dança
murchas pétalas derram am .

Noité sem pingo de orvalho!


Amor sem glória e sem pranto!
Sobre nós paira um mau tempo
que tememos e anelamos.
VALSA BRILHANTE

Na sala, música de Chopin:


selvagem música arrebatada.
Brancas de tempo, as janelas brilham;
orna o piano murcha grinalda.

Tu ao piano, ao violino eu,


sem parar vamos tocando, enquanto
ansiamos por ver qual de nós dois
será o primeiro a quebrar o encanto.

Qual de nós dois a meio compasso


detém-se e as luzes de si desvia:
qual dos dois faz primeiro a pergunta
que sem resposta se apagaria.
ELISABETH

Pousa-te sobre a fronte, boca e mão,


a fina e doce e clara primavera:
o doce encantamento que eu achei
em antigas pinturas de Florença.
Já viveste por certo em outros tempos,
esbelta e mágica forma de maio:
Botticelli pintou-te como Flora
com seu vestido em flores todo aberto.
És aquela também que ao jovem Dante
cativou com a graça de um sorriso:
teu pé já conheceu, sem se dar conta,
o caminho que cruza o Paraíso.
Igual a branca nuvem
no páramo celeste,
branca e bela e distante
és tu, Elisabeth.
A nuvem passa e some,
mal te apercebes dela;
mas no teu sonho, em noite
escura, lá está ela!
E reluz tão argêntea
que, desde então, te invade
daquela branca nuvem
a mais terna saudade.

27
DENTRO DA NOITE

Muitas vezes desperto com a idéia


de que um navio singra a noite ifria,
ganha os mares e rum a a litorais
dos quais me sinto arder de nostalgia.

De que em lugares que marujo algum


conhece, brilha um a aurora boreal
nunca vista. De que em meu travesseiro
há um braço de mulher, belo e sensual.

De que alguém, feito para amigo meu,


longe no m ar chega a um obscuro fim. .
De que minha mãe, que não me conhece
mais, em sonho talvez chame por mim.
NOITE

Com crepúsculo e com piar de melros,


dos vales avultando a noite vem.
Descansam as andorinhas; o dia
longo deixou-as cansadas também .

Pela janela, com velado som,


meu doce violino faz-se ouvir.
Entendes, linda noite, o meu cantar,
minha velha canção, meu canto a ti?

Fresco sussurro chega da floresta,


fazendo rir meu coração tristonho.
De manso, com amistoso poder,
vão-me envolvendo a noite, o sono, o sonho.

29
NO NORTE

Devo dizer com que sonho?


Com esplêndidos solstícios,
morros, bosques, negras árvores,
louras pedras, mansões alvas.

Uma cidade no vale,


branca de igrejas de m ármore
a reluzir para mim
— e que se cham a Florença.

E num vetusto jardim ,


de estreitas ruas cercado,
a sorte a esperar por mim
que ali a deixei de lado.
FLORESTA NEGRA

Estranha e linda linha de colinas,


escuros montes, luminosos prados,
rubros rochedos-, pardas ribanceiras
onde se enfloram sombras de pinheiros.

Se neste instante o piedoso som


de um cam panário vem-se m isturar
aos sussurros dos pinheirais, eu posso
ficar horas e horas a escutar.

Empolga-me, tanto quanto um a lenda


lida de noite ao clarão da lareira,
a memória dos dias pressentidos
como se aqui passara a vida inteira.

Como se a fidalguia destes longes,


destes montes cheios de pinheirais,
mais ricos já tivessem fulgurado
aos meus olhos felizes de rapaz.
O CLAUSTRO DE SANTO ESTÊVÃO
(Veneza)

Retângulo de parede, pálido, velho e encardido,


pintado outrora pela mão de Pordenone.

Tempo comeu as imagens: enxergam-se agora apenas


aqui e ali uns vestígios, quase apagados,

de afrescos que a água lava ainda: um pé, um braço


— fantasmas de beleza gasta que ainda acena.

E há uma criança, também, com olhos que alegres riem


e estranhamente a quem os vê enchem de pena.
RAVENA

Também já estive em Ravena:


pequena cidade morta,
de igrejas e'ruínas muitas,
como nos livros se lê.

Correndo, verás em torno


ruas tristes e apertadas
mudas há milênios, musgo
e capim por toda parte.

É como as velhas canções:


a gente ouve sem achar
graça — a ouvir e pensar nelas
até a noite baixar.
POUSADA DE ANDARILHOS

Como é maravilhoso e singular


que toda noite, ininterruptamente,
refrescada à sombra das aceráceas,'
continue a jorrar a mansa fonte!
E toda vez, com um perfume ainda,
sobre as fachadas cai a luz da Lua;
e, o ar escuro e frio atravessando,
revoam nuvens em ligeiro bando.
Tudo isso aconteceu, provadamente:
ali nós descansamos uma noite,
prosseguindo viagem pelo campo
sem ninguém que ficasse nos lembrando.
Depois, talvez passados muitos anos,
em sonho nos ressurge aquela fonte, .
e os portões e as fachadas — como então
eram e pelo tempo ainda serão.
Em nós refulge, como uma saudade
— e ali só descansamos uma noite —
o estranho teto de estranho hospedeiro
que não chega a ter nome nem cidade.
Como é maravilhoso e singular
que toda noite, ininterruptamente,
refrescada à sombra das aceráceas,
continue a jorrar a mansa fonte!
TEM PLO

Onde entre sombras jaz o deus caído


no capim alto à beira do caminho,
e onde o mato balança as copas negras
em luto pelo templo demolido
— deixa eu também ali, pausa divina,
ao çanto fresco dos veffiõs~cíprestejC
esquecer meu vagáFdè dor e po,
e descansar o peso do meu fardo!

Já não sabes quem sou: durante anos


longe do teu silêncio, em outras terras
segui deuses que amei e reneguei,
entoando-lhes cânticos profanos...
Na volta de tão proscritas jornadas,
deixa minha cabeça atormentada
pousar em paz no retiro dos deuses
em quem uni dia eu cri e a quem traí.
FINALE

Nuvens que passam e vento inclemente


me resfriam, a mim que estive enfermo:
a sonhar, qual sossegada criança,
fico em repouso e me restabeleço.

No mais profundo do meu peito, um som


de minha amada é tudo quanto resta
com seu luto e sua melancolia
a amortecer qualquer rumor de festa.

Esse som, que não chega a ter um nome,


horas e dias eu posso ficar
— enquanto o vento e os abetos ciciam —
entregue todo e em silêncio a escutar.
CIPRESTES DE SAN CLEMENTE

Rodeamos o cume flamante e esguio ao vento,


olhamos os jardins repletos de mulheres
e fqlguedos e risos. Olhamos os jardins
onde gentes nasceram e foram enterradas.

Vemos templos que foram durante muitos anos


apinhados de deuses e seus adoradores:
os deuses estão mortos e desertos os templos,
pedaços de colunas se estendem no capim.

Vemos vales e vemos argênteos descampados


onde gentes se alegram, se cansam e entristecem;
onde ginetes montam e sacerdotes rezam,
onde irmãos e parentes uns aos outros enterram.

Mas à noite, ao chegarem as grandes tempestades,


curvamo-nos tristonhos com a angústia mortal:
fincamos as raízes e quietos esperamos
que a morte nos alcance ou que passe adiante.

37
ESTA Ê A MINHA MÁGOA

Esta é a minha mágoa: com tão numerosas


máscaras ter representado tanto,
a mim e aos outros igualmente bem •
ter sabido enganar. Em mim não há
qualquer gesto ou qualquer menção de canto
sem algum truque ou segunda intenção.

Devo dizer que é esta a minha desgraça:


conhecer o meu íntimo tão bem,
ante-sabendo cada batida do pulso,
que não há símbolo inconsciente de sonho,
nem perspectiva de alegria ou de tristeza,
capaz de alvoroçar-me ainda o coração.
SONHO

O sonho é sempre igual:


um castanheiro com flores vermelhas,
um estuanté* jardim estivai,
e mais a solitária casa velha.

Lá, onde o calmo jardim se èstende,


minha mãe me ninava;
talvez — já tanto tempo faz —
casa, árvore, jardim nem haja mais.

Agora talvez haja uma picada


por onde relha e arado passem:
de pátria, jardim, casa, castanheiro,
nada haveria além do sonho que ficasse.
NOITE DE SOLIDÃO

Vós, que sois meus irmãos, pobres


de perto e de longe, vós
que entre as estrelas sonhais
consolar vossa aflição
sob a noite constelada
pondo as mansas frias mãos,
vós que sofreis e velais,
triste e errante multidão,
barcos sem norte e sem sorte,
estranhos e em comunhão
— devolvei-me a saudação!
APRENDIZES

Findo o dinheiro, vazia a garrafa,


um após outro, deitam-se
no chão, fatigadíssimos
de tanto perambular.

Em sonho, um vê o polícia
de quem a custo escapou;
o outro vê-se deitado
num campo morno ao sol.

A luz apaga-se e tudo repousa,


só as vidraças continuam a brilhar:
ele apanha em silêncio o chapéu e o bordão
e sai no escuro a perambular.
CHIOGGIA

Fachadas encardidas e apertadas, imagens


da Virgem em absconsos nichos, espelhos de água,
e de permeio gôndolas indolentes e largas
barcaças cheias de pescadores tisnados.
Por toda parte, em càda muro desmoronado,
nos becos todos e canais e escadarias,
adormenta-se um luto desesperançado
a querer contar coisas de tempos passados.
Caminho devagar e com íntimo susto
sobre as lajes — pensando a medo em acordá-las:
se as acordasse, eu não escaparia mais!
Passo depressa adiante e vou buscando o cais,
vou procurando o mar e um barco de partida.
Tristes, com sono, os becos titubeiam atrás.

42
PASSEIO NOTURNO

Já a noite cai, descansa a rua.


Em sonolenta pulsação
o rio vai, com suás águas indolentes,
rumo à calada escuridão.
Resmunga ele, no seu leito fundo,
tão contrafeito, pesado'e rouco,
como se só quisesse repousar;
igual a ele. fatigado eu vou.
Afravèssar a noite e terra estranha
é um penoso arrastar-se de um e outro:
silente e imóvel peregrinação
a dois, sem que nenhum saiba para onde.
A CARTA

Sopra do oeste um vento,


as tílias choram mais;
entre os ramos, a lua
vem espiar meu quarto.

Eu tinha, à amada minha


que me deixara já,
escrito uma longa carta:
na folha reluz o luar.

Ao seu tranqüilo clarão


que nas pautas vai pisando
esquece meu coração
lua e prece, choro e sono.
DE UM PASSEIO NOTURNO

O vaguear pela montanha em meio à noite,


por entre o pálido debrum da pradaria
e moles sombras de arvoredos invisíveis,
levou-me ao aberto portão da urbe antiga.

Comprida rua vagarento percorri,


mas em nenhuma das vidraças apagadas
vi uma vela reluzindo a instar comigo
para ficar: tudo dormia, e era só noite.

Eis que, afastando-me de novo pelo prado,


voltando os olhos sobre os escuros frontões
tontos de sono, em alinhada construção,
vi um clarão suspenso lá no alto da torre.

Então havia, na cornija, alguém desperto


que balançava uma lanterna por um fio
e para a frente se inclinava e olhava ao longe
na direção de onde meus passos mal se ouviam.

45
GÔNDOLA

No alto, o azul e o fogacho do sol;


em baixo, o rio eternamente calmo;
sobre a quilha ligeira e graciosa,
coisas de amor e instrumentos de cordas.

Recatados e escuros são teus bordos,


mas com doçura o momento se curte;
estranho e doce é o sonho da morte,
d o f im^ a m O T e -dajUTüe&tüíle.~

Rumo a desconhecidos objetivos


meus jovens anos deslizando vão
— como tu, leve e graciosa gôndola,
por luminosa e amável amplidão.
NOITE

Ümidas nuvens mornas vão passando;


ouvem-se nos juncais aves noturnas
pesadas asas ruflando
e lá na aldeia uma canção de pescadores.

De tempos jamais havidos


sombrias sagas se entoam
e queixas de longevos sofrimentos:
ai daquele que as ouve em meio à noite!

Basta, criança, de murmúrios e lamentos!


De dor, o mundo em redor está cheio.
Vamos ouvir o gorjeio das aves
e essa canção que nos chega da aldeia!
ÀS VEZES

Às vezes, quando algum pássaro chama


ou entre os ramos algum vento sopra
ou nalgum pátio longe ladra um cão,
por longo tempo eu escuto e me calo.

Minha alma voa para o passado,


para onde, há mil esquecidos anos,
o pássaro e o vento que soprava
mais pareciam meus irmãos e eu.

Minha alma faz-se uma árvore,


um animal, um tecido de nuvens...
Transfigurada e estranha, volta a mim
e me interroga. Que resposta lhe darei?
NA BRUMA

Estranho, andar pela bruma:


isolado está cada arbusto oü pedra,
árvore alguma vê outra,
cada qual está só.

Cheio de amigos era para mim o mundo,


quando tinha ainda clara a minha Vida:
agorà, que á bruma cai,
não se vê nenhum mais.

Em verdade, sábio não é ninguém


que não saiba do escuro
inevitável e silencioso
a isolá-lo de tudo.

Estranho, andar pela bruma,.


Viver é ser sozinho.
Ninguém conhece ninguém:
cada qual está só.
NUVENS DO ENTARDECER

O que um poeta imagina e burila,


e anota num livrinho, em verso e rima,
a alguns pode sem nexo parecer;
mas Deus entende e acata com prazer.

Também ele, que cuida do universo,


de vez em vez é poeta também:
quando repicam os sinos da tarde,
como em sonho, toma nas mãos o ar
e, para a festa do final do dia,
faz lindas nuvens de puro tênues, muitas,
a debruar o perfil das montanhas
— espuma carmesim na pompa do crepúsculo.
Uma e outra, que lhe saem melhores,
por algum tempo ele conduz e guarda,
a fim de que, feitas de quase nada,
pairem no céu em contente sorrir.
A que parece um vão jogo de rima
logo tem algo de magia e ímã
a atrair a alma humana .
em nostalgia e oração a Deus.
Então a rir o Criador desperta
do breve sonho, a brincadeira esfria,
e da fresca distância desabrocha
plena de paz a noite.
Assim é que da pura mão de Deus,
mesmo de brincadeira, toda imagem

50
brota perfeita, formosa e feliz
como poeta algum imaginou jamais.
Possa o teu canto terrenal valer
como um acorde mi^sical de sinos,
e que das mãos de Deus, cheias de luz,
brotem nuvens lá em cima.
ENTRADA DE PRIMAVERA

O vento quente zune toda noite,


pesadamente rufla a sua asa molhada.
Aves pernaltas titubeiam no ar.
Nada mais dorme:
toda a terra está acordada,
a primavera chama.

Fica quieto, coração, fica quieto!


Mesmo que densa e íntima no sangue
agite-se a paixão
e caminhos antigos te seduzam:
de volta à juventude
teus caminhos jamais te levarão.
TARDE DE FEVEREIRO

Azul a tarde cai da colina para o lago;


mole em degelo a neve rebrilha fracamente;
como sonhos sem cor e sem forma, na neblina
flutuam enfadonhas coroas de extintas árvores.

Mas na aldeia, por todos os sonolentos becos,


vaga sereno e tíbio o vento incerto da noite:
pousa na sebe, e deixa que nos jardins escuros
e nos sonhos dos jovens faça-se primavera.

53
PRIMAVERA

Mais uma vez percorre a parda senda


dos montes limpos pelos temporais:
aonde a beleza chega, brotam flores '
e cantos de pássaro, uma vez mais.

Uma vez mais bafeja-me os sentidos


para, em tão puro e terno florescer,
doce pátria e propriedade minha
a terra — que me hospeda — parecer.
NOITE

Acabo de apagar a minha vela:


pela janela aberta a noite vem,
me abraça com doçura, e me permite.
ser amigo e irmão dela.

Sofremos ambos da mesma saudade:


cheio de augúrios nosso sonho vai,
e cochichamos sobre velhos tempos
em casa de nosso pai.
JUNHO EM DIA DE VENTO

O lago está parado feito vidro.


Na alcantilada encosta da colina
ondula em prateado a relva fina.

Lastimosa e com seu temor da morte,


grita no ar uma ave de arribação
cambaleando em curvas indecisas.

Voando para cá, vem do outro lado


um som de foice e um forte olor do prado.
ADÀGIO

Irmão e irmã de todas as coisas


tu deves ser,
de modo que te pervaguem todo
e não distingas o teu do meu.

Não caia estrela nem folha alguma


sem que te sintas também morrer:
assim também, com cada uma delas
a todo instante hás de reviver.
SENTIMENTO DA NOITE

Com o fundo poder azul da noite,


que me clareia o coração,
por uma súbita nesga entré as nuvens
reluz o mundo das estrelas e da lua.

Em seu jazigo, lampeja minha alma


com redivivo ardor;
ao pálido perfume das esferas,
a noite dedilha a harpa.

A essa convocação, mingua a penúria


e a preocupação foge.
Mesmo que eu amanhã já não esteja
aqui — aqui estou hoje!
O POETA

Somente para mim, o solitário,


murmura a fonte de pedra sua canção de magia;
só para mim, só para o solitário,
errantes nuvens passam arrastando
sombras de cores como sonhos sobre o campo.
Nem ofício me é dado,
nem casa, nem lavoura, nem pomar:
é meu somente o que a ninguém pertence
— é meu o arroio que coleia atrás do véu da mata,
meu é o fecundo mar,
meu é o trinado de pássaros das crianças que brincam,
a tristeza e o pranto do apaixonado a sós no entardecer.
Meus são também os templos dos deuses, meu é
o venerável horto do passado.
Minha pátria é não menos
a abóbada celeste com a luz do amanhã:
muitas vezes nas asas da saudade arroja-se minha alma
para o alto,
a olhar o glorioso porvir da humanidade,
o amor acima da lei, o amor de povo a povo.
VoltO a encontrá-los todos nobremente mudados:
o camponês, o rei, o comerciante, a ativa marujada,
o jardineiro e o pastor, todos
agradecidos celebrando a festa mundial do porvir.
Falta apenas o poeta
— ele, o contemplativo marginal,
a imagem pálida e o portador do anseio da humanidade,

59
a quem o futuro, a plenitude do mundo,
já não faz falta: murcham
numerosas coroas em seu túmulo,
mas a memória dele está apagada.
NOITE DE VERÃO

Pingos caem, o ar está inquieto.


Não sopra nenhum vento.
Na rua um ébrio canta longamente:
é um canto incerto e frágil como uma criança.

Cala-se agora:
o céu se dilacera,
e no intenso azul claro do relâmpago
fulgura a rua.

ÇomçLum trotar de cavalos brancos \ -


vem o barulho da chuva.
ApagadaTãs luzes, dissolvidas as formas,
águas se precipitam e me rendem cativo.

61
FIM DE VERÀÓ

De mansinho, monótona e queixosa,


no morno entardecer a chuva corre
chorando como cansada criança
ao encontro da meia-noite próxima.

Farto de suas festas, o verão


toma a própria coroa nas mãos murchas,
atira-a longe — flores não tem mais —
e curva-se com medo e quer morrer.

Nosso amor também foi coroa a arder


em aquecidas festas estivais;
pouco a pouco se esvai a última dança,
os convidados vão-se, a chuva cai.

Antes que do esplendor arrefecido


tenhamos pejo, e do extinto fervor,
aproveitemos esta noite grave
para dizer adeus ao nosso amor.
MEIO-DIA EM SETEMBRO

O dia azul se detém


por uma hora em sua alta pousada.
Em sua luz todas as coisas se contêm.
Como num sonho, a gente pode ver
desensombrado o mundo
— em ouro e azul ninado —
pender em fundo alento e sazonada paz.

— Se neste quadro caísse uma sombra!

Nem bem nisto pensaste


e já a hora dourada
desperta do seu levíssimo sonho
e empalidece, enquanto ri mais sossegada,
e em sua ronda o sol esfria mais.
SORTE

Enquanto vives perseguindo a sorte,


não estás pronto para-ser feliz,
ainda que seja teu o que mais queres.

Enquanto te lamentas do perdido,


e tens metas e não te dás descanso,
não podes saber o valor da paz.

Só quando a todo anelo renuncias,


sem objetivos nem desejos mais,
e já não dás à sorte qualquer nome,

já a maré dos eventos não te atinge


o coração, e se acalma tua alma.

64
A CAMINHO

E quando sobre nuvens no alto da montanha


eu pisava a ascender em ares mais sutis,
abriu-se para mim o domínio dos mortos:
uma nuvem de mil distantes ancestrais,
cintilante clarão de espíritos sem número.
E me empolgou então a espantosa noção
de que eu não sou sozinho, estrangeiro não sou,
de que a alma que eu tenho e o olhar dos meus olhos,
minha boca e ouvidos, e o ritmo dos meus passos,
não são novos nem são meus exclusivamente,
nem a vontade, tida como dona de mim.
Sou um raio da luz, uma folha da árvore
de gerações sem conta, cujos primeiros povos
viviam nas florestas e em hordas erradias,
outros de guerra em guerra a tomar-se de fúria,
e outros mais cujas casas de madeiras de lei
e ouro e pedras preciosas elevavam-se esplêndidas
em cidades formosas de muitas maravilhas.
A partir de tudo isso, inclusive o silente
olhar de minha mãe, que órfão me deixou,
tudo é um caminho só, seguro e inevitável,
para o meu existir — esse mesmo caminho
que se estende ante mim rumo a tempos sem margens,
para homens de quem eu" sou o aricèstfal distante
e em cujas vidas há de estar contida a minha.

65
E quando sobre nuvens no alto da montanha
em ares mais sutis ia eu pisando, a vida
minha, meus olhos vendo, meu coração batendo,
eram um rico feudo que eu grato conduzia,
cuja glória e valor, porém, não me pertencem,
por isto não se acabam.
E eis que de mim adeja
o ar fresco das alturas me rodeando a fronte.
MONTANHAS DENTRO DA NOITE

O lago está apagado,


escuro dorme o canavial
a resmungar em sonho.
Espalham-se terríveis sobre a terra
as longas ameaças das montanhas:
elas não têm descanso,
respiram fundo e ficam
umas de encontro às outras apertadas,
num surdo respirar,
carregadas de forças abafadas
sem remissão numa paixão insaciada.
SOZINHO

Por sobre a terra se estendem


ruas e caminhos mil,
mas levam todos
ao mesmo fim.

De dois em dois, três em três,


indo a pé ou a cavalo,
o último passo — sozinho
hás de dá-lo.

Não há, portanto, saber


nem poder algum melhor
doljue o difícil a gente
fazer só.
DE UM ANDAR NOTURNO

Tempestade, chuva oblíqua,


negreja a pradaria,
solenes sombras de nuvens
fazem-nos companhia.

De um vão entre escuras nuvens


súbito a se iluminar
a noite esgueira-se e espia
plena de luar.

Límpidas ilhas do céu,


estrelas sóbrias saúdam;
ao luar, fímbria de nuvens
em rios de prata ondula.

Alma, prepara-te, alma!


Das trevas do tempo,
irmãos de longe te acenam
com pisos de ouro.

Alma, responde ao sinal:


banha-te no espaço!
Deus guiará para a luz
teus obscuros passos.
FESTA NOTURNA
DOS CHINESES EM SINGAPURA

Ao vaivém das lanternas


em cima, na varanda engrinaldada,
tranqüilos acocoram-se na noite tranqüila,
dizem versos de bardos mortos há muito tempo,
contentes ouvem as vibrantes notas do alaúde
que faz ainda maiores e mais belos os olhos das raparigas.

Na noite sem estrelas a música retine


nos copos, como um toque de asas de grandes libélulas;
olhos castanhos riem-se em quieta ventura.
Ninguém há que não tenha um sorriso nos olhos.
Em baixo, aguarda insone, com mil claros
olhos de luz, à beira-mar, a esplêndida cidade.

70
RIO NA MATA

Flui há milênios através da mata


vendo as choupanas dos morenos homens nus,
de madeira e de palha, a altear-se e a sumir.
Em contínua torrente a sua água marrom
enrola folhas e galhos e barro do mato virgem,
e fermenta ao calor do sol a pino.
De noite vem o tigre ou vem o elefante
e ávido banha suas poderosas forças
e ruge em surda volúpia varando a mata.
Na lama turva e nos capins da mata ronca
o crocodilo, pesado como há milhares
e centenas de milhares de anos; esquivo e esguio
irrompe entre os caniços o temível jaguar.

Aqui na mata eu vivo dias de repouso


em choupanas de palha e em ligeiras canoas,
e é raro ouvir-se um eco do mundo dos homens
a despertar adormecidas lembranças.
No fim da tarde, quando a noite vem
hostil e rápida, eu fico à beira do rio,
ponho-me à escuta, e aqui e ali, próximo e longe, eu ouço
perdidos sons — cantos de vozes humanas na noite.
É o pescador ou o caçador que a noite apanha de surpresa
nos seus pequenos botes
e a quem um medo pueril afrouxa o coração:
medo das forças e do crocodilo
e das almas dos mortos
que se mexem de noite sobre as águas escuras.

71
Ê um canto estranho e sem palavra que eu entenda,
e ainda assim, quando eu estou em casa
ou no Reno ou no Neckar, não soa de outro modo •
à noitinha a canção
que um pescador ou uma rapariga entoa:
respiro medo e respiro saudade
e o mato bravo e o rio escuro são para mim pátria
— pois aqui, como em toda parte onde há seres humanos,
as almas correm aflitas para perto de seus deuses,
os pavores da noite conjurando com alguma canção.

De regresso ao prècário abrigo da choupana


deito-me, tendo em volta a noite e a mata
e o vítreo e estridente zunir da cigarra,
até o sono vir raptar-me e vir a Lua
com sua fria cláridade consolar o mundo amedrontado.

72
/

A UMA CANTORA CHINESA

íamos pelo rio sossegado na tarde,


em cor de rosa o pé de acácias reluzia,
em cor de rosa as nuvens -— mas eu não via:
só via a flor de cerejeira em teu cabelo.

Ias sorrindo à minha frente no bote enfeitado,


tendo nas mãos habilidosas o alaúde:
entoavas o canto da pátria sagrada,
enquanto nos teus olhos flamejava a juventude,

Junto ao mastro em silêncio eu só pensava em ser


escravo para sempre desses olhos ardentes
— eternamente a ouvir-te, em misto dè enlevo e dor,
o teu cantar e o toque das tuas mãos em flor.

73
DE PASSAGEM

À memória de Knulp

Não fiques triste: já vem vindo a noite


quando veremos sobre a terra esbranquiçada
a Lua fria, como que a rir-se por dentro,
e então descansaremos de mãos dadas.

Não fiques triste: já vem vindo o tempo


quando teremos sossego. Nossas cruiinhas estão
erguidas juntas na margem clara da vida,
chove e neva,
e os ventos vêm e vão.

74
SINA

Em fúria e incompreensão,
como crianças,
nos separamos e nos evitamos,
barrados por estúpida vergonha.

Os anos foram passando por cima,


com remorso e esperança.
Já os jardins da nossa mocidade
rua nenhuma alcança.
RAMO EM FLOR

Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche; de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida

76
PAUSA DE ESQUI

No tope da ladeira, prestes à descida,


firmo-me no bastão para um breve descanso
e fico deslumbrado a ver por toda parte
o mundo em seu revérbero de azul e branco.
Para cima, em silêncio, crista sobre crista,
os solitários montes gelados avisto;
para baixo, a perder-se em meio a tanto brilho,
de vale em vale arroja-se a sinuosa trilha.
Eu me demoro ainda um instante, perplexo,
tocado pela calma e pela solidão,
e desço deslizando pela encosta íngreme,
rumo ao vale, com pressa e sem respiração.

77
ODE A HOLDERLIN

Companheiro da minha juventude: cheio de gratidão


retorno a ti,
em certas tardes, quando
no sabugal do bosque adormecido
ouve-se só a fonte murmurante.

Ninguém sabe de ti, amigo:, a nova era


anda muito distante da tranqüila fascinação da Grécia.
Õrfã de deuses e sem oração
erra no pó a insípida multidão.

Mas para o grupo secreto dos que meditam mais fundo,


a quem o Deus tocou com nostalgia a alma,
fazem-se ouvir para esses até hoje
os acordes da tua harpa divina.

Fatigados do dia, com fervor nos voi s


para a noite ambrosíaca do teu cant
cuja asa desdobrada
vem num sonho dourado nos agasalhar.

Ah, e crepita mais forte, quando nos vem o encanto do


teu canto,,
com mais paixão flameja, rumo à saudosa terra do
passado,
rumo aos templos dos gregos,
a nossa imorredoura saudade de uma pátria.

78
NA RELVA DEITADO

Então tudo isto é mágica de flores,


é campina estivai com seu frouxel de cores,
ampla ternura azul de céu, zumbir de abelhas?
Tudo isto é sonho de algum suspiroso deus?
Forças de instinto a clamar pela redenção?
E na distância a linha da montanha
temerária e formosa a altear-se no azúl,
também é espasmo só?
É só selvagem tensão da natureza em fermento?
É só dor, só tormento, mera agitação
num tatear sem fim, sem sentido e sem glória?
Ah, não! Longe de mim, sonho ruim
das aflições do mundo!
À luz da tarde picam-te nuvens de mosquitos,
atordoam-te aves agourentas,
sopra de ti um vento
que com adulação me esfria o rosto.
Longe de mim, velhíssima dor do homem!
Pode ser tudo tormento,
pode ser tudo sombra e aflição
— mas esta hora doce de sol, não,
nem este aroma de trevo encarnado,
nem este intenso e terno bem que estou sentindo
no coração!

79
CEMITÉRia_RÜSXICO

Trepadeiras galgando as cruzes inclinadas,


sol manso, doce aroma e zumbido de abelhas.
Felizes de vós, que jazeis em segurança
aconchegados ao bom coração da terra!
Felizes de vós, que tranqüilos e sem nome
descansais retornados ao seio materno!
Mas escutai: no vôo de abelhas e nas flores
pulsa uma ânsia de vida e um prazer de existir,
do fundo sono das raízes vem à tona
o anelo da substância há longo tempo morta,
há destroços de vida enterrados no escuro
a se transfigurar e a clamar por presença,
e regiamente vai a mãe-terra cedendo
em meio à urgência de tão vários nascimentos.
Não: no fundo da cova o tesouro da paz
não pesa mais que um sonho no fundo da noite.
Turva fumaça apenas é a ilusão da morte,
e por trás dela a vida é que é o fogo forte.

80
An t e u m a c o l e ç ã o
DE ESCULTURAS EGÍPCIAS

De trás das gemas dos olhos


silenciosos e eternos olhais
para nós: retardatários irmãos.
Parece que nem ânsia nem amor
conhecem vossas brilhantes feições polidas.
Soberanos e aos astros irmanados,
um dia incompreendidos,
entre templos vagastes.
Como um distante olor divino, a santidade
em vossos rostos ainda hoje sopra,
a dignidade rodeia-vos os joelhos.
Vossa beleza respira serena:
na eternidade tendes vossa pátria.
Mas nós, irmãos mais novos.
semdêuséiT tropeçando numa vida enganosa,
vemos abrir-se avidamente às nossásTálmas
tõdôs os torvelinhos da~paixão.
cádã^àiaTiade-enrtyrãsã^.
Nossa meta é a morte,
nosso credo â inconstância;
rrao ha lapso ae tempo que se contraponha
Xnossa efígie súplice.
contudo trazemõi~nós também
ILestigma-clejim secreto vínculo espiritual
em fogo na alma:

81
nós pressentimos deuses e sentimos
perante vós, silenciosas imagens da antiguidade,
amor sem medo. Nos vedes
sem ódio a nenhum ente, nem à morte:
o sofrer e o morrer
não nos abalam a alma,
pois aprendemos a amar mais profundamente.

É do pássaro o nosso coração,


e do mar e do bosque; aos miseráveis
e aos escravos tratamos como irmãos,
e à pedra e ao animal também chamamos com amorosos
nomes.
Sendo, assim as imagens
do nosso efêmero ser
não nos hão de sobreviver em dura pedra:
sorridentes.se desvanecerão
e ém transitória poeira de sol
novos encantos e tormentos, a cada momento,
impacientes e perpétuas ressuscitarão.

82
À MELANCOLIA

No vinho ou entre amigos, de ti eu fugia,


pois do teu olho escuro eu sentia pavor:
ingrato filho teu, assim èu te esquecia
ao toque do alaúde e nos braços do amor.

Com toda a discrição, no entanto, me seguias:


sempre estavas no vinho que eu tonto bebia
e no mormaço das minhas noites de amor
e no desdém com que eu a ti me referia.

Agora me refrescas os membros cansados


e tens minha cabeça em teu colo macio,
para o regresso das minhas longas viagens
— pois a ti me traziam todos os meus desvios.

83
ROSA BRANCA AO CREPÚSCULO

Inclinas triste o rosto


nas folhas, para a morte,
respiras luz fantástica
e emites sonhos pálidos*

Intima como um canto,


à última luz flutua
no quarto, a tarde toda,
a doce fragrância tua.

No inefável se engaja
tua alma temerosa,
e vai rindo e morrendo
em meu peito, irmã rosa.

84
A MEU IRMÃO

Quando revemos nossa casa, agora,


andamos encantados pelos cômodos,
ficamos longo tempo no jardim
onde — meninos levados — brincávamos.

E de todos os outros esplendores


que pelo mundo afora conquistamos,
nenhum mais nos alegra nem agrada
quando o sino da igreja faz-se ouvir.

Calados repisamos velhas trilhas


cruzando o verde terreno da infância:
e elas no coração tornam-se vivas,
grandes e estranhas, como um belo conto.

Mas tudo o que estaria à nossa espera


já não há de ter mais o puro brilho
de outrora — quando, ainda rapazolas
no jardim caçávamos borboletas.

85
CHEGADA A CREMONA

Canta a chuva, a planície está cheia de noite,


vem das árvores altas um som fresco e úmido;
ternos toques de sino pingam do cruzeiro
e, embalados de manso pela chuva, dormem.
Ao clarão de lanternas, por alegres ruas
vou tranqüilo a vagar pela cidade estranha:
escurecem telhados, janelas se embaçam,
calmos burgueses sentam-se à roda do vinho.
Escancara-se um átrio defronte aos meus passos
e vagarosamente uma escada me leva
a um alpendre, em colunas; pelas lajes úmidas
a minha fraca sombra parece escorrer.
Eis que do átrio vejo então abrir-se o poço:
detenho-me assustado — prédio atrás de prédio,
erguem-se a catedral, a torrei o palacete,
e lá no alto choca a noite fabulosa
Apenas entrevisto, tudo é familiar
e soa bem perante o assombrado olhar,
com a harmonia e com a pureza da música
límpida como uma canção do Paraíso.

Sonhados por criaturas de um tempo diverso,


erguem-se a catedral e a torre e o palacete
com majestade, e falam-me, e a Eternidade
entre as colunas sopra e das arcadas ri.

86
NA HORA DE DORMIR

Depois que o dia exausto me deixou,


amavelmente a noite constelada
há de acolher meu-ardente desejo
como a uma criança fatigada.

Mãos, esquecei todos os afazeres!


Rosto, deixa o pensar ao abandono!
Agora todos os sentidos meus
querem afundar no sono.

A alma, sem ter quem tome conta dela,


em vôos libérrimos quer flutuar
e no círculo mágico da noite
a vida de mil formas esgotar.
DIA DE PRIMAVERA

Vento na mata e piar de pássaros;


lá, no mais alto e mais doce azul,
soberbo e leve barco de nuvens...
Eu sonho com certa mulher loura
e nos meus tempos de jovem penso:
o céu altíssimo azul e extenso,
abre-se em meu berço de saudade
onde, a cismar aquietado
em tépida bem-aventurança,
a ressonar de leve me embalo
como nos braços da mãe
uma criança.
NENHUM SOSSEGO

Âlma, pássaro assustado,


tu sempre perguntarás:
quando, após tantos maus dias,
vem a calma, vem a paz?

Mas sei: tão logo tenhamos


calmos dias sob a terra,
com saudade .hás de fazer
de cada dia uma praga.

E, apenas salva, estarás


cansando-te em outras penas:
e impaciente arderás como
a mais jovem das estrelas.
SOLENE MÜSICA DO ENTARDECER

ALLEGRO

Nuvens esgarçam-se; do céu em brasa


errante luz bruxuleia sobre vales ofuscados.
Pando com o vento quente da procela
fujo a passo incansável
atravessando uma vida nublada.
Ah, se por um instante
ao menos, entre mim e a luz eterna
uma propícia borrasca soprasse o cinzento nevoeiro!
Estrangeira é a terra que me cerca:
leva-me longe, arrancado da pátria,
de um lado para outro o poderoso vagalhão do destino.
Vamos, vento: corre com essas nuvens,
rasga esses véus
para que a luz me possa cair sobre os incertos atalhos!

ANDANTE

Consolador ainda
e sempre novo em resplendor de eterna criação
o mundo a meus olhos ri,
vive e cresce em mil formas respirantes,
adeja a borboleta ao vento e ao sol,
a andorinha veleja em glorioso azul,
estua o mar no litoral rochoso.

90
/ x

Ainda e sempre árvores e estrelas,


nuvens e pássaros são meus parentes próximos,
o rochedo me faz sinais de irmão,
amigável me chama o infinito mar.
Insensato me leva meu caminho
a uma perdida lonjura azul:
em parte alguma um sentido, nenhures meta segura.
Cada regato na mata, contudo,
cada mosca a zumbir, vem me falar de uma profunda lei,
uma sagrada ordem,
pela qual sobre mim também se estende a. abóbada
celeste,
pela qual sons secretos
como ao passar dos astros
no pulsar do meu coração também retinem.

ADÂGIO

Repõe o sonho o que o dia consome;


à noite, quando a vontade sucumbe,
afloram forças libertas
acompanhando divinos pressentimentos.
Murmuram bosque e rio, e através da alma esperta
um relâmpago cruza o céu de azul de noite.
Dentro e fora de mim
é o mesmo: somos um, o mundo e eu.

91
A nuvem flutua em meu coração,
sonha meu sonho o bosque,
contam-me a casa e a pereira
as esquecidas sagas de uma infância comum.
Em mim ressoam rios e ensombram-se barrancos,
são companheiras íntimas a lua e as estrelas pálidas.
E a benfeitora noite
que sobre mim se inclina com nuvens macias
tem o semblante dé minha mãe,
e sorrindo me beija com amor inexaurível,
sonhadora balança como nos velhos tempos
a adorável cabeça, e seus cabelos
pelo mundo flutuam, e estremecem
em palidez inquieta os milhares de estrelas.

92
BHAGAVAD GITA

Mais uma vez deitado e insone, horas e horas,


a alma ferida e cheia de incrível tristeza.

Incêndio e morte eu via na terra a arder,


mil inocentes a sofrer, morrer, apodrecer.

E no meu coração eu reneguei a guerra,


cega deusa de males e aflições sem sentido.

E eis que me assoma a ressoar, então,


a relembrança da sombria solidão,

e a palavra de paz me vem trazer


de um velho livro sagrado da índia:

“Guerra ou paz^uma ou outra tanto faz,


pois morte alguma afeta o'reino do espírito.

Abrasse ou feche-se o pano da paz,


nãò diminui a penúria do mundo.

Portanto, luta e não fiques inerte:


é desígnio de Deus que cries forças.

Mas, ainda que te leve a luta a mil triunfos,


há de continuar batendo intacto o coração do mundo.”

)3
/

PAZ.

Todos a tinham,
valor ninguém lhe dava:
esbanjavam-se todos em sua doce fonte...
Ah, como soa agora esta palavra — Paz!

Deixa-se ouvir à distância e a medo,


deixa-se ouvir encharcada de lágrimas:
ninguém sabe nem adivinha o dia,
nele pensando todos cheios de ansiedade.

Em tua direção
vão toda noite os olhos do meu sonho
e impacientes palpam uma viva esperança,
já pressentindo o fruto louro da árvore.

Bem-vinda sejas, um dia,


como acima do sangue e da miséria
no céu da terra brilhavas
— arrebol de um futuro muito outro!

94
VIVÊNCIA NOVA

Mais uma vez eu vejo véus caírem,


e o mais familiar torna-se estranho:
novos espaços siderais acenam,
a alma salta freada pelo sonho.

Em reiterados círculos de novo


ao meu redor vai-se ordenando o mundo,
e eu vejo em mim um sábio envaidecido
igual a uma criança dentro dele.

Mas já de anteriores nascimentos


vago pressentimento me palpita:
astros caíram e nasceram astros,
porém vazio nunca esteve o espaço.
A alma curva-se humilde e se levanta,
respira no infinito,
e de esgarçados fios se entretecem
novas e belas ás vestes de Deus.
SUL

Exíguos becos, frescos abismos de sombra,


cristal de mar, ar de serena claridade,
argênteas árvores em austeros jardins,
gente criança a fazer coisas e negócios,
livre e sem pejo a pobreza apanhando sol
junto aos muros com os dourados camaleões.

Tudo quanto por longas luas cor de cinza


eu me pintava em ansiedade e sonho e canto,
abre-se imperturbavelmente à (boa sorte;
curvam-se em fila as arcadas acolhedoras,
um odor acrè têm no sul a fruta <To vinho
tinto vertido fartamente com jactância.

Acolá, sobre a fímbria clara da montanha,


meu coração rebusca a pátria sempre longe
— o império límpido das nuvens e do vento:
nunca mais há de pertencer-me o doce sul,
nunca mais há de dar-me entrada o Paraíso,
nunca mais há de ser criança o homem adulto.

96
DIA NA SERRA

Canta, coração meu: é hoje o teu-momento!


Amanhã estás morto:
estrelas brilham e tu não vês,
pássaros cantam e tu não ouves.
Canta, coração meu, que é teu este momento:
o teu fugaz momento!
Sobre a neve irisada e resplendente sorri o sol,
nuvens ao longe pairam coroando a várzea,
tudo é novo, tudo é calor e brilho,
não há sombra que pese nem aflição que doa.
Respirar é tão bom; respirar é um dom,
é prece e cântico.
Alma, respira: abre-te bem ao sol,
enquanto dura o teu fugaz momentoí
£ doce a vida, a dor é doce, e o enlevo:
feliz de cada floco em pó ao vento,
feliz de mim — cerne da Criação,
dileto filho da Terra e do Sol,
por um momento,
por um risonho momento,
até que o floco se dissipe acuxento!
Canta, coração meu: ê hoje o teu momentor-
Amanhã estás morto:
estrelas brilham e tu não vês,
pássaros cantam e tu não ouves.
Canta, coração meu, que é teu este momento:
o teu fugaz momento!
DIAS DO DESTINO

Quando são de espantar os dias turvos—


e o mundo hostil e frio se apresenta,
amedronta-se a confiança tua
a depender de ti completamente,

Mas fechado em ti mesmo, desterrado


do país da relembrada alegria,
vais entrevendo paraísos novos
em que a crença tua se repatria.

Já reconheces como afim de ti


o que antes parecia adverso e estranho,
e passas a chamar com novo nome
o destino que tu vais aceitando.

O que fora ameaça de esmagar-te,


mostra-se afável* a respirar luz:
é qual um mensageiro, qual um guia
que bem alto e mais alto te conduz.

98
RELENDO MALER NOLTEN

Humilde bato uma vez mais ao teu portão


e vou entrando pelo jardim muito amado:
a predileta flor da minha juventude
aspiro então com sentido mais apurado.

Da minha idade juvenil me vem o aroma


das longas horas em que eu enlevado lia;
jamais, porém, como nesta hora de tristeza,
senti o profundo valor de tanta poesia.

De frias grutas vêm cantar-me ao coração


uma paixão dulcíssima e flores se abrindo:
vai-se tornando sagrado o que antes doía,
e. ao sinal da poesia, aprendo a dor sorrindo.
FLOR, ÁRVORE, PÁSSARO

Estás só, no vazio:


ardes só, coração.
Saúda-te, do abismo,
negra flor de aflição.

Alteia bem seu caule


a árvore da tristeza:
entre seus ramos canta
o pássaro do eterno.

A dor da flor é muda:


não encontra palavras.
A árvore chega às nuvens
e canta sempre o pássaro.
PRIMAVERA EM LOCARNO

Frondes agitam-se em trevoso fogo.


No confiante anil
tudo se mostra mais novo ao olhar,
mais infantil.

Degraus velhos, bastante transitados,


afagam a montanha
com prudência; de requeimados muros
me chamam ternas flores prematuras.

No agrião verde um regato coleia,'


pinga a pedra e o sol lambe:
eis-me pronto a esquecer o gosto amargo
que tem a terra alheia.
CHUVA

Morna chuva de verão


chia no mato, na árvore:
ó, que bênção, outra vez
sonhar até me fartar!

Demorei tanto no claro,


que estranho a onda de agora:
ter casa na própria alma,
infenso a apelos de fora.

Nada almejo, nada peço:


nanas de criança canto
e vou retornando ao lar
de morno sonhado encanto.

Coração, como és sofrido!


Que bom às cegas saltar
só sentindo, só sentindo
sem saber e sem pensar!
COMOÇÃO

Turvou-se de repente o vinho no meu copo,


fatigado sentei-me e püs-me a olhar o chão:
Senti branco o cabelo e vago o coração.
Riam alto os amigos, bêbados, no salão.

Veio à janela a amiga de minha juventude:


a Lua, a dilatar o saguão com seu brilho,
reluzindo em meu copo e nas lágrimas minhas.
Cantavam e berravam, bêbados, meus amigos.

Hora após hora eu ando agora, e em minhas faces


em fogo sinto os ventos de um distante verão;
vocalizo canções de quando era rapaz,
penso na pátria — e sei que não a encontro mais.

103
SOLITÁRIO ANOITECER

Na vazia garrafa e no copo


bruxuleia a luz da vela.
Dentro do quarto faz frio.
Lá fora a chuva cai mole na relva.
Mais uma vez te recostas para um pequeno descanso,
curtindo o frio e a desolação.
Manhã e tarde passam e voltam,
sempre passam e voltam,
mas tu não.
A NOITE

Rescende a flor na várzea,


longíngua flor da infância
que só de raro em raro'ao sonhador
abre o velado cálice
e deixa ver — cópia do sol — seu interior.
Por cima das cordilheiras azuis
cega a noite vagueia
puxando sobre o seio a veste escura:
sorrindo esparze a esmo
sua dádiva — o sonho.
Curtidos pelo dia, em baixo dormem
os homens: têm os olhos
cheios de sonhos,
alguns viram o rosto suspirando
para as flores da infância
cujo aroma os atrai de leve na penumbra,
e ao severo chamado paternal do dia
confortados se alheiam.
Para o exausto, é um alívio
refugiar-se nos braços da mãe
que os cabelos do sonhador alisa
com mãos despreocupadas.
Somos crianças, logo nos fatiga o sol
— ainda que seja para nós destino e futuro sagrado —
e tombamos a cada anoitecer
pequeninos de novo no regaço da mãe,
balbuciamos palavras da infância,
palpamos o caminho do regresso às origens.

105
Também o pesquisador solitário
que para o vôo ao sol se propusera
vacila, também ele, à meia-noite
voltado para o ponto de partida longe.
E o que dorme, quando um pesadelo o desperta,
confusa a alma, pressente no escuro
a hesitante verdade:
toda corrida, para o sol ou para a noite,
conduz à morte, leva .a novo nascimento,
dores que a alma receia. I
Mas seguem todos o mesmo caminho:
todos morrem e tornam a nascer,
porque a eterna mãe
devolve-os eternamente ao dia.

106
NO QUARTO ANO DE GUERRA

Embora a tarde fria e triste esteja,


e a chuva rumoreje,
sem saber quem me' escuta, o meu cantar
em tempo entôo ainda.

Embora o mundo se asfixie em guerra e medo,


rialgum lugar,
em segredo, sem que ninguém o veja,
o amor flameja ainda.

107
PERDIM ENTO

Sonâmbulo tateio entre bosque e barranco,


há um halo de magia aceso ao meu redor:
sem reparar se sou bem aceito ou maldito,
sigo à risca o meu próprio m andato interior.

Quantas vezes veio chamar-m e a realidade


em que vós existis, para me comandar!
Dentro dela eu ficava assustado e sem forças,
e logo descobria um jeitò de escapar. -

Ao meu pais ardente, do qual me privais,


ao meu sonho de amor, do qual me sacudis,
como as águas retornam' sempre para o m ar
tam bém meu ser retorna usando mil ardis.

Amigas fontes guiam-me Com seu cantar,


aves de sonho as plum as de luz á ruflar:
de novo faz-se ouvir ó som da m inha infância
— em áurea rede, ao doce zum bir das abelhas,
junto de minha mãe volto enfim a me achar.

108
CONFISSÃO

Aos jogos teus, propícia aparição,


vês que me entrego voluntariamente:
outros terão propósitos e fins,
já para mim viver é suficiente.

Tudo que a meus sentidos comovia


antes, agora quer me parecer
mero reflexo do infinito e uno
que tão vivido sempre eu pude ver.

Decifrar todos esses ideogramas


compensará meu viver até o fim
— pois o eterno, imutável, essencial
eu sei que trago la cada instante em mim.

109
CAMINHO INTERIOR

Quem descobre o caminho interior.


quem na mais fervorosa introspecção
vislumbra o cerne da sabedoria,
passa a sentir Deus e o mundo
à sua imagem e semelhança:
para ele, cada ação ou pensamento
será um diálogo com a própria alma,
que a Deus e ao mundo em si mesma contém.
LIVROS

Todos os livros do mundo


felicidade alguma hão de trazer-te,
pois te remetem misteriosamente
em retorno a ti mesmo.

Aqui tens tudo de que necessitas:


sol, estrelas e lua
— pois a luz que querias
em ti mesmo reside.

Sabedoria, que tanto buscavas


em bibliotecas,
em cada uma destas folhas brilha agora:
e é tua, toda.
T E M P O D E CHUVA

Há longo tempo ouço cantar a chuva,


por muitos dias e por m uitas noites:
qual se pairasse a m urm urar sonhando
envolta em som eternam ente igual.

Igual me soava outrora em longes terras


dos chinos a música deslizante:
como um cantar de grilo, intenso e fino.,
mas tão prenhe de encanto a cada insta* te.

M urm úrio de chuva, cantar de chinos,


som de cascata, marulho de m ar
— que força é esta com que me atrai sempre
vossa magia pelo m undo afora?

Tendes por alma o som imperecível


que não conhece tempo nem m udança,
cuja pátria evadimos no passado
e o coração nos queima na lembrança.

112
À N O IT E

à noite casais passeiam


vagarosos pelo campo,
mulheres' soltam cabelos,
vendeiros contam dinheiro,
cidadãos a medo lêem
novas do jornal da tarde,
bebês cerram as mãozinhas
dormindo em profunda paz.
Cada qual faz o que é certo,
por sublime orientação:
e eu, não?

Também meus atos noturnos,


dos quais um escravo sou,
entram n a voga do mundo:
também eles têm sentido.
Para cima e para baixo
vou eu, dançando por dentro,
m urm uro canções de rua,
louvo a Deus e louvo a mim,
bebo vinho e me alucino
como se fosse um paxá,^
sinto cansaço nos rins,
dou risada, bebo mais,
digo sim ao coração
(am anhã pode ser não),
fio passadas tristezas
e vou tecendo um poema;
vejo em roda lua e estrelas,
perscruto-lhes o destino
e vou seguindo com elas
para onde nem imagino.
DESPERTAR NO MEIO DA NOITE

Pela janela, me desperta a lua:


grossos de sono forcejam meus olhos
e no magnífico paior pressinto
a precipitação de novos sonhos.

Cá e lá um clarão e uma brancura,


e por trás da azulada escuridão
longos trilhos de vidros espelhados,
velas bentas e caudas de Satã.

De claro e escuro o espírito do sonho


vai sifentes palácios construindo,
cepo e machado, noiva de grinalda,
festejos, bebedeiras, bailarinas.

Então destaca-se encantada a alma


sobre um mundo real que apodreceu
e vira-se feliz para o outro lado
a deslizar num império que é seu.
NOITE DE VERÃO

As árvores gotejam do aguaceiro.


Na relva molhada reluz o frio
luar. No vale, o invisível rio
reboa escuro com inquieta voz.

No casario ladram cães. Õ noite


de verão e de estrelas mal veladas:
como seduz, vossa pálida estrada,
meu coração ébrio de espaço e viagem
IRMÃ MORTE

Também a mim tu hás de vir um dia


não te esqueces de mim,
e os grilhões rompem-se
e o martírio chega ao fim.

Distante e estranha te mostras ainda,


irmã Morte querida,
qual fria estrela
sobre a minha pobre vida.

Porém um dia mais perto hás de vir


e toda em chamas:
— Vem, Amada, aqui estou eu!
Leva-me, que sou teu!
MUNDO SONHO NOSSO

Em sonho, à noite, cidades


e gentes, castelos no ar,
monstros — tudo, bem o sabes,
do escuro da alma a brotar,
tudo é imagem e obra tua,
és tu próprio, em teu sonhar.

Vai à cidade, de dia,


olha as ruas, rostos, nuvens,
e hás de ver maravilhado
que é tudo teu: és o autor!
Tudo que ante os teus sentidos
avulta e vive cem vezes
é bem teu, fundo em ti cala,
sonho que tua alma embala.

Andando sempre em ti mesmo,


ora a estreitar-te, ora a abrir-te,
és o que fala e o que escuta,
o que cria e o que destrói.
Velha è esquecida magia
sagradas miragens fia,
e o mundo com seu portento
vive pelo teu alento.
0 MUNDO ARDENTE

Velho ou moço, isto eu sempre senti: uma montanha


na noite, uma mulher calada na varanda,
branca rua ao clarão da lua, num embalo
que do corpo o saudoso coração me arranca.

Ardente mundo, branca mulher na varanda,


cão no vale a ladrar, trem no longe a rodar:
como mentíeis, como me tínheis enganado,
conquanto ainda sejais minha ilusão mais doce!

Muitas vezes tentei a horrível realidade


onde professor, lei, câmbio e moda vigoram;
mas frustrado e liberto escapei sempre só
para onde o sonho e a adorável loucura brotam.

Vento de noite em árvore, negra cigana,


mundo de anelos vãos e fragrância de poeta,
esplêndido mundo a cuja mercê me encontro
— eis que tua voz me chama e eu tremo ao teu relâmpago!

119
DESDE A INFÂNCIA

Desde a infância
me sopra uma voz que um dia
me prometera a bem-aventurança:
sem ela, a vida bem mais difícil seria.
Calada a sua magia,
fico sem luz,
vejo em redor a angústia e a escuridão;
mas volto a ouvir, em meio ao sofrimento
que fiz por merecer,
a doce voz da bem-aventurança
que mágoa ou culpa alguma estragaria.
Voz adorada,
luz da casa minha,
não tornes a apagar-te,
não cerres mais os teus olhos azuis
— pois o mundo depressa perderia
toda a sua aparência de carinho,
estrelas grandes e pequenas tombariam,
e eu estaria sozinho.

120
NOITE DE ANGÚSTIA

A medo fala o relógio com a teia de aranha na parede,


com força o vento bate na porta da loja,
queimadas até em baixo e escorridas de cera
estão minhas bruxuleantes velas,
vinho algum mais no copo,
em todos os cantos sombras
a estender para mim os dedos longos.
Como nos tempos da infância,
respiro a custo e entrecerro meus olhos,
o medo prende-me agachado na cadeira;
mas já não vem mãe nenhuma,
nenhuma criada ralhona e boa,
quebrar gostosamente o encantamento e iluminar-me
com novo conforto.
Demoro-me agachado em meio às trevas,
escuto o vento nas telhas e junto aos muros a morte
a fiar com enregelados dedos,
sob o tapete ouço o ranger da areia:
quisera vê-la e pegá-la, arregalo os olhos,
meu olhar cai no vazio e à distância
escuto o lento assobio dos seus lábios zombeteiros.
Vou tateando em direção à cama: dormir, que bom,
dormir!
Mas o sono se fez um pássaro assustado,
difícil de pegar e de reter, tão fácil de esmagar,
e se afasta a piar, com amarga ironia,
ruflando as asas para o vento o carregar.'

121
FUGACIDADE

Cai-me folha após folha


da árvore da vida.
Õ m undo múltiplo e vertiginoso,
como sacias,
como sacias e cansas,
como embriagas!
O que hoje é brasa ainda,
am anhã será cinza.
Já vem ranger o vento
sobre meu pardo túmulo,
Sobre o meninozinho
curva-se a mãe:
quero rever-lhe os olhos,
seu olhar é a estrela que me guia;
tudo mais pode ir-se e dissipar-se,
tudo morre e faz bem tudo em morrer.
Apenas permanece a eterna mãe
da qual somos oriundos:
seu dedo escreve a brincar
o nosso nome na fugacidade do ar.
OUTONO

Pássaros, que nos ramos


entoais vosso canto
pelo crestado bosque:
pássaros, aviai-vos!

Já vem o vento que sopra,


já vem a morte que ceifa,
já vem o cinério fantasm a que gargalha
a enregelar-nos o coração
— e o jardim perde toda a sua pompa,
e a vida perde todo o seu fulgor.

Amados pássaros entre as folhagens,


irmãozinhos queridos,
permiti que cantemos e nos alegremos:
nós já vamos ser pó!
PASSEIO NO FIM DO OUTONO

Chuva de outono esgravatou o bosque cinza,


ao vento da manhã o vale tem arrepios de frio,
caem do castanheiro os duros frutos
e racham-se e gargalham úmidos e pardos.

O outono tem esgravatado minha vida,


o vento puxa. as folhas em frangalhos,
sacode galho por galho: ondè está o fruto?

Dei flor de amor, o fruto foi de dor. 1 y/


Dei flor de fé, o fruto foi de ódio.
O vento me repuxa os galhos secos:
rio-me dele e ainda resisto aos temporais.

Para mim, o que é fruto? O que é meta? — Eu dei flor,


e minha meta era florir. Agora eu murcho,
e minha meta é murchar: nada mais.
Escassas metas se propõe o coração...

Deus vive em mim, Deus morre em mim, Deus pena


no peito meu: para mim, é meta bastante.
Caminho ou descaminho, flor ou fruto,
é tudo a mesma coisa: palavras, apenas.

Ao vento da manhã o vale tem arrepios de frio,


caem do castanheiro os duros frutos
a rir em alto e bom som. E eu, com eles, me rio.

124
TODAS AS MORTES

Já morri todas as mortes,


todas as mortes quero tornar a morrer:
morrer morte de madéira na árvore,
morrer morte de pedra na montanha,
morte de terra no chão,
morte de folha na relva a crepitar no verão,
e a pobre morte de sangue no ser humano.

Flor quero ser quando nascer de novo,


árvore e relva quando de novo nascer,
peixe e gamo, pássaro e borboleta,
e dessas formas todas
o anelo irá conduzindo meus passos
para as dores mais altas
— as dores do ser humano.

Õ arco tenso a vibrar,


quando o punho do furioso anelo
os dois pólos da vida
tenta envergar até que os dois se toquem!
Mais uma vez e muitas vezes mais,
da morte ao nascimento, me perseguirás
na dolorosa via da materialização
— maravilhosa via da materialização.
MÁGOAS

De dor se torce no fogão a acha de lenha acesa:


trêmula escrita a fogo risca-lhe a pele de cinza.
Fora troveja a noite e cai úmida a sofrer como
bicho acuado a clamar por misericórdia e morte.

Fico de cócoras, no meio, à luz que bruxuleia:


para minha alma, insuportável parece o destino.
Meu coração tem calafrio sobre calafrio:
sinal da mágoa com que a mim mesmo torturo e queimo.

Como essa lenha em brasa, como a noite lancinada,


o coração se entrega aflito ao inimigo em fúria
— à mágoa em que rendidos e inermes nos abrasamos,
que ao fogo e à lenha, à trovoada e ao bicho nos irmana.

126
CAMINHO À NOITE

Pé ante pé na escuridão vou ponao:


imensa e mansa me rodeia a noite.
Junto ao úmido muro vou molhando,
no musgo aljofarado. mão e rosto.

Em sombra contra os ares e as estrelas


o pé de acácia embala-se;
no longe reluzem luzes
e o perto eu mal consigo perceber.

Com seu mágico fio, o amor faz vir


até meu coração toda a distância:
as Plêiades e a Estrela-Polar chamam
ao céu os seus irmãos. \

Ao mundo todo eu me sinto ligado,


a toda forma de vida eu me abro:
de novo achei a estrada
que me integra no plano do universo.
CANÇÃO DE AMOR

Tu és a corça e eu o cervo,
pássaro tu e eu árvore,
o sol tu e eu a neve,
tu és o dia e eu o sonho.

De minha boca adormecida à noite


um pássaro de ouro voa a ti:
tem a voz clara, multicores asas,
e vai cantar-te a canção do amor
— e vai cantar-te a canção de mim.
REGRESSO

De regresso de uma viagem longa,


acho em meu quarto a correspondência a esperar-me:
sento-me, abro aflito os énvelopes,
e o meu alento embaça o recinto gelado.

Ah, gente estranha, que vagueia e que procura


como eu: que me escreveis em tantas cartas?
Se não restassem noite e enigma por trás de tudo,
como seria a vida desolada e horrível!

Vossas cartas empilho na escura lareira:


para o que indagam todas, não tenho resposta...
Aquecei-vos comigo, com as chamas que elevam-se
animadas!
Alegrai-vos comigo, com o dia que vem com o amanhã!

Hostil e frio é o mundo murado à nossa volta:


só o nosso coração parece aberto ao sol e às coisas boas.
Ah, como treme em nosso peito a assustada centelha
que ainda assim sozinha sobrevive aos espectros do
mundo!

129
O DOENTE

Que nem vento, passou a minha vida.


Aqui me deito acordado e sozinho.
Pela janela o crescente da lua,
a espiar o que faço.
Deitado e frio faz tempo que estou.
Sinto no quarto a morte.
— Como bates com medo, coração!
Pegando fogo ainda?
Começo a cantar baixinho,
a cantar mansamente a lua e o vento,
o gamo e o cisne,
Maria e seu Filho:
vêm-me à cabeça todas as canções
que podem ser cantadas,
entram nelas a lua e as estrelas,
bosque e gazela estão dentro de mim.
As mágoas e alegrias todas correm-me
detrás dos olhos fechados
sem poder distinguir-se umas das outras:
todas são doces, todas são ardentes.
Onde estou, eu não sei:
vêm mulheres de lábios pálidos e vermelhos,
bruxuleiam de amor como assustadas velas,
chama-se Morte uma delas.
Ah, como o seu olhar fervente de paixão me suga o
coração!

130
Deuses abrem os seus olhos antigos,
e cerram velados céus
— céus para rir e céus para chorar —
rodam seus astros num correr mais apressado,
deixam que brilhem todas as luas e sóis.
Mais manso e baixo torna-se o meu canto;
o sono chega do centro do céu
beirando o mundo dos deuses,
a andar por ruas de estrelas:
seu andar é como pisar em neve...
Que tenho ainda a pedir?
Tudo quanto eu amava, já se foi:
nada mais dói.
A

%
FIM DE INVERNO

Na verde encosta coberta de asas


já repica um azul de violetas.
Somente ao longo da floresta escura
demora a neve em línguas dentilhadas,
mas gota a gota vai-se desfazendo
atraída pela sede da terra.
No pálido céu alto pastam alvos
rebanhos de nuvens. Um pintassilgo
em amoroso canto se desfaz:
— Homens, amai-vos e cantai em paz!

132
DOENÇA

Bem-vinda, noite! Bem-vinda, estrela!


Estou com sede de sono, acordado não posso mais ficar,
pensar não posso mais, não mais chorar e rir:
eu gostaria apenas de dormir,
dormir cem anos, mil anos,
com as estrelas por cima de mim...
Minha mãe sabe quão fatigado eu estou:
curva-se a rir, cheia de estrelas nos cabelos.

Não deixes, mãe, que torne a amanhecer!


Não deixes que o dia me desponte jamais:
tão má e hostil é a sua claridade branca,
nem sei dizer!
Tão longas ruas quentes tenho andado,
meu coração está todo queimado.
Abre-te, noite, para mim, no país da Morte!
Outra vontade não tenho,
nem posso dar mais um passo.
Mãe Morte, dá-me tua mão:
dos olhos teus, deixa eu me ver na amplidão!

133
MEDIA IN VITA

Um dia, coração, descansarás:


um dia morrerás a derradeira morte,
e te encaminharás para o silêncio
daquele sono profundo e sem sonhos.
Muitas vezes ele te faz sinais da escuridão de ouro,
muitas vezes pressentes que ele vem
— porto ao longe, quando tua canoa
corcoveia no mar de procela em procela.
Porém o sangue ainda
te embala sobre as ondas escarlates entre o agir e o
sonhar.
Ardes ainda, coração, com ímpetos de vida e flama;
nas grimpas da árvore da vida,
serpente e fruto engambelam-te ainda com suave insis­
tência
o desejo e o apetite, a culpa e o prazer;
nas sete cordas do arco-íris do teu peito
um canto de cem vozes faz-se ouvir;
tenta-te o jogo do amor
na selva do prazer, para o espasmo do gozo,
a te fazer embriagado hóspede ou animal ou deus,
excitado ou já frouxo, a vacilar sem meta;
atrai-te a arte, silenciosa feiticeira,
ao seu círculo de venturosa magia
— pinta um véu colorido sobre a morte e a desgraça,
faz da dor um prazer, do caos faz harmonia,
induz o espírito a subir mais alto

134
»

para o jogo diante das estrelas,


coloca-te no fulcro do universo
e rege ao teu redor o Todo em coro;
mostra as pegadas do percurso ansioso,
faz de ti o ponto final da Natureza,
abre escuros portões à tua frente,
deixa ver deuses, mostra o espírito e o instinto,
dá a entender que dela se desdobra o mundo dos sentidos,
e como o infinito se refaz em formas sempre novas.
e faz o mundo espumar, para o jogo
mais uma vez amares
— pois és aquele que sonha com ela e com o Todo.
Também depois dos sombrios percursos
onde o sangue e o instinto fazem coisas horríveis,
daí se abre a trilha
em que floresce do medo o êxtase, do amor o assassinato,
fermenta o crime, esbraseia a insânia,
sem que uma pedra marque a divisão entre o sonho e a
ação.
Qualquer desses inúmeros caminhos tu podes escolher,
podes entrar em todos esses jogos,
e ao seguir cada um deles hás de ver
abrir-se um outro ainda mais sedutor...
Que bons, os bens e o dinheiro!
Que bom, desdenhar o dinheiro e os bens!
Que beleza, em renúncia desviar os olhos deste mundo!
Quê beleza, anelar com todo o ardor os encantos do
mundo!

135
Elevar-se até Deus, voltar ao animal,
e ver por toda parte palpitando uma glória fugaz:
ir aqui, ir ali, ser homem, bicho, planta...
Infinito é o sonho multifário do mundo,
incontáveis as portas que se abrem:
cie cada uma se escuta o coro da vida,
chama de cada uma, de cada uma acena
|uma efêmera glória, um doce aroma esquivo.
Põe em prática a virtude e a renúncia, quando tiveres
medo!
Sobe à torre mais alta, arroja-te de lá!
Fica sabendo, porém: és hóspede, em toda parte,
e apenas hóspede — do ar, da dor, do próprio túmulo,
que, antes mesmo de teres descansado,
já te cospe de novo para o eterno fluxo dos nascimentos.
Dos mil caminhos, entretanto, existe um,
difícil de encontrar, fácil de imaginar,
que como um passo mede a volta ao mundo,
que não se perde jamais, que alcança a última meta.
Nesse caminho te florescerá o conhecimento
do teu ego interior, que morte alguma destrói,
e que só a ti pertence,
infenso ao mUndo que se consome em palavras.
Foi de extravio a tua longa peregrinação,
extravio no cerco do equívoco sem nome,
enquanto perto de ti sempre esteve o verdadeiro caminho.
Como pudeste andar por tanto tempo às cegas?
Como te pôde acontecer esse feitiço
de nunca terem visto esse caminho os olhos teus?
Agora acaba-se o poder desse feitiço:
tu despertaste,
agora escutas o coro das vozes
no vale dos sentidos e dos erros,
e te voltas de fora calmamente
para dentro, para o teu próprio ser.
Terás descanso agora,
morrerás afinal a morte última
de retorno, ao silêncio
para ò profundo sono sem sonhos.

137
SONHANDO GONTIGO

Às vezes quando me deito


e meus olhos se fecham,
com a chuva batendo na cornija os seus dedos molhados,
tu vens a mim,
esguia corça hesitante,
dos territórios do sonho.
Então andamos ou nadamos ou voamos
por entre bosques, rios, bandos de animais,
estrelas e nuvens com tintas de arco-íris:
tu e eu, a caminho da terra de origem,
rodeados de mil formas e imagens do mundo,
ora na neve, ora ao fogo do sol,
ora afastados, ora muito juntos
e de mãos dadas.

Pela manhã o sono se dissipa,


afunda dentro de mim,
está em mim e já não é mais meu:
começo o dia calado, descontente e irritadiço,
porém algures continuamos a andar,
tu e eu, rodeados de coleções de imagens,
a interrogar-nos entre os encantos da vida
que nos embroma sem saber mentir.

138
O AMANTE

Agora está teu amigo na calma noite acordado,


ainda morno de ti, ainda envolto em teu aroma,
em teu olhar e em teu càbelo e no teu beijo — ó meia-
noite,
ó Lua e estrela e ar de névoa azulada!
De ti, amada, eleva-se o meu sonho
alto como do mar o monte e o precipício,
salpicado em ressaca e esvaído na espuma,
e é sol, bicho, raiz,
só por estar contigo,
por estar junto a ti.
Saturno e Lua gravitam longe, e eu não vejo:
só vejo a pálida flor do teu rosto,
e em silêncio me rio e embriagado choro,
nem alegria nem tristeza existe mais,
só tu, só tu e eu, imersos
no imenso Todo, no profundo mar,
e dentro nos perdemos,
e aí morremos e aí renascemos.

139
EM ALGUM LUGAR

No deserto da vida eu erro e ardo


a gemer sob o peso do meu fardo,
mas em algum lugar quase esquecidos
sei de frescos jardins em sombra e em flor.

Em algum lugar, nos confins do sonho,


sei que um abrigo vela
onde a alma volta a ter pátria
e estão à espera o sono, a noite e as estrelas.

4
140
O PEREGRINO

Estive sempre em viagem,


peregrino sempre.
Pouco tratei de mim:
sorte e azar vão e vêm.

Desconhecidos o sentido e o objetivo


do meu peregrinar,
das mil vezes que caí
tornei a me levantar.

Ah. havia a estrela do amor,


de que eu andava atrás:
lá nas alturas posta,
santa e longe demais.

Antes de conhecer o objetivo,


andei à toa:
tive sublimes prazeres
e alguma coisa boa.

Agora, que mal entrevi a estrela,


é tão tarde, afinal:
ela se escondeu, já,
desaba o aguaceiro matinal.

Despede-se o variegado mundo


a que eu tão bem queria:
mesmo tendo perdido o objetivo,
a viagem valeu pela ousadia.
O POETA

à noite, eu muitas vezes não consigo dormir:


a vida dói.
Fico então a brincar com as palavras,
com as boas e as más,
com as gordas e as magras,
è vou nadando pelo espelho do mar delas.
Longínquas ilhas surgem com azuis palmeiras,
da praia sopra um vento perfumado,
na praia um menino cata conchinhas de várias cores,
banha-se em verde cristal uma mulher cor de neve.
Como no mar arrepiam-se as cores,
em minha alma flutuam sonhos-versos:
gotejam de prazer, enrijecem de luto,
bailam, correm, dispersam-se perdidos,
enrolam-se em palavras conformados com essa vesti­
menta,
interminavelmente vão trocando de som, forma e sem­
blante,
parecem antiquíssimos e contudc cheios de inconsis­
tência.
A maioria das pessoas não entende:
dão por loucura os sonhos e me dão por perdido
— e assim me vêem mercadores, jornalistas, professores.
Crianças e mulheres muitas, de outro lado,
sabem de tudo e me amam como eu a elas,
pois também elas estão vendo o caos dos aspectos do
mundo
e a elas também a deusa emprestou seu véu.
LOBO DA ESTEPE

Lobo da estepe, vou eu trotando, trotando.


O mundo cobre-se todo de neve.
De uma bétula, sai voando um corvo;
mas em nenhum lugar se vê uma lebre,
não se vê uma gazela.
Com as gazelas sou tão delicado,
ah, se uma aparecesse!
Tomá-la-ia nas garras, nos dentes:
não há coisa mais linda.
Aos mansos, mostro o meu bom coração:
em seus tenros pernis enterraria suavemente os dentes,
e o sangue claro eu iria sorvendo até mais não poder,
para ficar depois a noite inteira uivando em solidão.
Uma lebre já me contentaria:
mornas carnes de gosto doce à noite.
— Mas será que de mim se esconde tudo
que torna a vida um pouco mais bonita?
Em minha cauda o pêlo já branqueia
e eu já não tenho a vista tão certeira;
faz anos que morreu-me a companheira.
Agora vou eu trotando e sonhando com gazelas,
vou eu trotando e sonhando com lebres,
ouvindo o vento a zunir na noite de inverno;
engulo neve, a ver se a goela me acalma,
e vou seguindo com o diabo na alma.

143
OS IMORTAIS

Agora e sempre dos fundos vales da terra


sobe até nós a fumegante compulsão da vida:
necessidade selvática, alucinante transporte,
embriaguez sanguinária de mil nações de carrascos,
longos espasmos de gozo, intermináveis desejos,
mãos de assassinos, mãos de agiotas, mãos de beatos,
magote humano fustigado de prazer e medo,
que cheira a podre e abafado, brutal e quente,
transpira beatitude e rudes cios,
a um tempo se devora e se vomita,
choca guerras e artes refinadas,
adorna de ilusões o abrasado bordel,
e se anrola e consome e fornica em picantes
passatempos de feira em seu mundo infantil,
a erguer-se renovado ao passar cada onda,
como antes dela vir se decompunha em esterco.
Nós, ao contrário, já nos encontramos
no gelo do éter constelado por dentro,
dia e hora não contam para nós,
nem homens nem mulheres, jovens nem velhos, somos.
Vossos pecados e vossos temores,
vossos crimes e lascivos deleites,,
são para nós uma cena como a dos astros nas órbitas,
e para nós o mais longo dos dias é qualquer um.
Silentes balançamos a cabeça ante a palpitação de vossas
vidas,
silentes contemplamos as estrelas que em si mesmas
gravitam,

144
respiramos o inverno do universo,
já afeiçoados ao dragão celeste.
Frio e imutável é a nosso eterno existir,
frio e alumiado de astros é o eterno riso nosso.

145
AO POETA INDIANO BHARTRIHARI

Igual a ti, ancestre e irmão, também vou eu


entre o espírito e o instinto, em zigue-zague:
hoje sábio, doido amanhã, hoje de todo
entregue a Deus, amanhã ao ardor da carne.
Com ambos os açoites vou me flagelando
em sangue os costados: volúpia e penitência
— monge ou estróina, pensador ou bestial.
A culpa do existir em mim pede perdão.
Hei de pagar pecados em ambos caminhos,
em ambos fogos ardendo me aniquilar.

Os que me veneravam ontem como santo,


hoje em mim vêem um perdido libertino;
os que comigo chafurdavam na sarjeta
ontem, hoje me vêem jejuar e orar;
e todos cospem de lado e fogem de mim
— o amante falso, sem decoro e dignidade.
Em minha coroa de espinhos eu também
trago, entre as rosas rubras, a flor do desdém.

Hipócrita palmilho um mundo de aparências,


malquisto por vós e por mim, para as crianças
um monstro — e sei que qualquer ação, vossa ou minha,
perante Deus pesa menos que o pó ao vento.
E sei mais: nesta senda inglória de pecado
me sopra o bafo de Deus e eu devo agüentá-lo,
devo abusar — cada vez mais culpado, no êxtase
do prazer ou na proscrição dos meus malfeitos. *

146
Qual o sentido desta agitação, não sei:
com as imundas e perversas mãos esfrego
o pó e o sangue do m.eu rosto — e bem ou mal
este caminho hei de levar até o final.
ENSINAMENTO

Mais ou menos embuste, meu querido rapaz,


há sempre nas palavras de todas as criaturas:
definitivamente damos conosco em fraldas
e logo nos achamos dentro da sepultura.

Jazendo então ao lado de nossos ancestrais,


enfim sábios e plenos de fria lucidez
vamos com brancos ossos repicando a verdade,
e uns mentem só pensando em viver mais uma vez.

148
A MORTE A PESCAR DE ANZOL

Senta-se a Morte e vai pescando-nos da vida


com sua linha torpe, invisível e fina.
Não há truque ou esforço que nos valha mais:
ela tem paciência e uma isca que fascina.

Quem cai no seu anzol, pode cavar na areia


ou no lodo, ou tentar qualquer manha mesquinha
senta-se a Morte nele, e não mais lá na beira.
Está perdido, mesmo que arrebente a linha.

Pode, numa escapada, no fundo revolto


longo tempo esconder-se ainda com medo dela:
para finar-se, está completamente solto.
Nada tem gosto mais: o anzol pegou na goela.
GOTA

Nos dias em que os dedos não posso dobrar


passam-me as horas todas escrevendo versos;
e se acaso algum verso bom eu chego a achar, •
pouco me importa a dor, a gota, o universo.

Em outros dias é impraticável a escrita


e eu fico a ouvir a que do fundo dos meus ossos
avulta sobre mim, serpenteando sempre
— a morte, sim, a quem também chamamos gota.

Não gosto dela: nós estamos sempre em luta.


Mas eu sei, muitas vezes, que não é por mal
que se cansa comigo: visa à redenção!
E avanço com vontade mais um estirão.

No dia em que nos virmos unidos e em paz,


de gota nem de morte eu a chamarei mais:
hei de vê-la então como eterna mãe, seu grito
como sinal de amor, e eu como filho aflito.

150
LANTERNAS EM NOITE DE VERÃO

Quentes na fresca sombra do jardim


bóiam fileiras de lanternas coloridas:
no tumulto das folhas, irradiam
um clarão terno e recheado de mistério.

Sorri uma em cor clara de limão,


riem-se gordas as brancas e as encarnadas;
uma azul dá a impressão de residir
com algo de espírito e lua entre as ramadas.

De repente uma delas pega fogo,


tem um assomo trêmulo e se extingue logo...
Juntas e mudas ficam tremendo as irmãs,
sorrindo à espera da morte chegar:
a purpurina, a ouro-de-vinho, a azul-luar.

151
OUTONO PRECOCE

Odor picante já de folhas murchas,


trigais a abrir-se vagos e sem vista:
sabe-se que das tempestades próximas
uma desnucará nosso exausto verão.

As vagens da giesta rangem. De repente


avultam ante nós o distante e o lendário:
o que hoje imaginamos ter na mão
perde-se, e cada flor, misteriosamente.

Na alma assustada cresce um tímido desejo:


de não prender-se à vida em demasia,
de aceitar como as árvores o emurchecer,
de não deixar que ao seu outono faltem cores e alegria.

152
ENTARDECER DE VERÃO
NUMA CABANA SILVESTRE EM TICINO

Brinca ainda nos troncos dos plátanos a luz.


Por entre as altas frondes arqueadas filtra-se ainda o
azul
a espelhar-se no vinho. Uma mulher
invisível no bosque fala com crianças.
De uma aldeia na várzea sobe a música
domingueira e suada a ressoar.
Lá fora, aos raios oblíquos do sol,
fumega ainda o mundo do verão aquecido e pesado.

Aqui porém respiram folhas de mato e pedras,


conventual inocência perpassa e a tarde cai em festa,
o bocado de pão e o vinho fresco
provendo com suave poder de sonho mágico.
Rescende picante e forte a filifolha do caminho,
já entre as madeiras a ratazana desperta,
o primeiro morcego persegue a sua presa
pelos varais de entrelaçados galhos.
E som por som, então, e luz por luz,
o dia morre — e das árvores brota
pesada e grossa, cheirando a resina e mel,
a noite que maternalmente nos aquieta.

Vão-se esfumando com o dia os nomes


com que pomos em ordem nosso mundo:
plátano, ácer, freixo, penedia, casa
— fundem-se numa coisa só, e a policrômica
variedade retorna ao seio da mãe,

153
entregue toda ao surdo prazer da infância.
Cheiram a medo o fungo e a hortaliça, uma coruja pia,
o trançado das folhagens das árvores oscila vagarento.

Que cheiro bom tem mesmo assim a efemeridade!


Como o espírito anela pelo sangue, e o dia pela noite!

154
REMINISCÊNCIA
DO VERÃO DE KLINGSOR

Dez anos já passados desde um verão em Klingsor


quando, junto com ele, varando a noite quente,
entre vinho e mulheres perdido eu florescia
e entoava as canções dos boêmios do lugar.

Como as noites de agora me parecem insípidas,


como vão por aí apagados os meus dias!
Mesmo que uma palavra mágica devolvesse
a embriaguez de outrora — eu não quereria mais.

Não fazer mais girar para trás a roda célere!


Dizer um sim tranqüilo à morte mansa no sangue!
Não ter mais pretensão de alcançar o inconcebível:
é esta agora a minha lei, o bem de minha alma.

Outra glória, outro encanto, depois daquele tempo


me tocou muitas vezes: ser apenas um espelho
no qual por horas pousem, como no Reno a lua,
imagens das estrelas, dos anjos e de Deus!

155
O POETA E SEU TEMPO

Fiel a imagens eternas, firme na contemplação,


tu estás pronto para o ato e para o sacrifício;
falta-te ainda, no entanto, um tempo desassombrado
de ofício e púlpito, confiança e autoridade.

Há de bastar-te, num posto perdido,


ante o deboche do mundo, compenetrado da fama que
tens.
renunciando ao brilho e aos prazeres do mundo,
guardar aqueles tesouros que não azinhavram nunca.

Não te faz mal a zombaria das feiras,


enquanto ouves a voz sagrada, ao menos:
se ela entre incertezas cala, te sentes um renegado
do próprio coração — feito um bobo na terra.

Pois é melhor, por uma realização futura,


servir sofrendo, ser sacrificado,
do que ter grandeza e reino pela traição
ao sentido do teu sofrer — tua missão.

156
í

CANTO DA MORTE DE ABEL

Morto jaz na relva Abel:


fugiu seu irmão Caim.
Um pássaro aproxima-se,- mergulha o bico
no sangue, leva um susto e sai voando.

Foge o pássaro pelo mundo inteiro,


molhado o vôo, estridulante a voz,
carpindo o seu lamento interminável:
sobre o formoso Abel e a dor da sua morte,
sobre o feio Caim e seu mortal pecado,
sobre seus próprios dias juvenis.
Logo lhe atira Caim ao coração sua flecha:
e logo há de levar disputa e guerra e morte
a todas as cabanas e cidades,
fará inimigos para assassiná-los,
a' eles e a si mesmo em desespero odiando,
a eles e a si mesmo por todos os becos
caçando torturado até à próxima Noite Universal,
até de si por fim vomitar-se Caim.

Foge o pássaro: do seu bico ensangüentado


um lamento de morte faz-se ouvir cobrindo o mundo
inteiro.
Caim o escuta, o morto Abel o escuta,
mil o escutam sob o toldo celeste,
dez mil e mais não o escutam, porém,
sobre a morte de Abel não querem saber nada,
nada sobre Caim e o peso em seu coração,
157
nada do sangue a jorrar de tantas feridas,
nada da guerra que estava aí ainda ontem
e da qual sabem agora lendo romances.
Para esses todos, alegres e satisfeitos,
fortes e brutos,
Caim e Abel, tristeza e morte, não existem:
louvam a guerra como um tempo formidável.

E quando passa voando o pássaro lamentoso


dizem que é agourento e pessimista,
sentem-se fortes e invictos^
e apedrejam o pássaro
até fazê-lo calar e sumir,
ou tocam música para não mais o ouvirem
porque a voz triste dele os incomoda.

O pássaro com suas pequeninas


gotas de sangue no bico, voa de um a outro lugar
e o seu pranto por Abel não pára de ressoar.

158
BORBOLETA AZUL

Pequenina borboleta
azul no vento esvoaça:
um tremor de madrepérola
flameja, reluz e passa.
Num átimo, num piscar
de olhos, eu vi assim
flamejante e reluzente
a sorte passar por mim.
SETEMBRO

Entristece o jardim.
Fria nas flores a chuva cai.
O verão se arrepia
em silêncio diante do seu fim.

Pétala a pétala goteja em ouro


do alto pé de acácia.
O verão ri abatido e perplexo
no sonho do jardim em agonia.

A prolongar-se ainda junto às rosas,


ele espera, de pé, pelo repouso,
e os grandes olhos fatigados vai
entrecerrando aos poucos.
LINGUAGEM

O sol nos fala com luz;, com cor


ê corri perfume nos fala a flor;
com nuvens, chuva e neve nos fala
o ar. Há no sacrário do mundo
um incontido afã de romper
com a mudez das coisas e expor
em gesto e som, em palavra e cor,
todo o mistério que envolve o ser.
A clara fonte das artes flui
para a palavra, a revelação;
para o mental flui o mundo, e aclara
erçi lábio humano um saber eterno.
Pela linguagem a vida anseia:
em verbo, cifra, cor, linha, som,
conjura-se a nossa aspiração
e um alto trono aos sentidos ergue.
Como na flor o vermelho e o azul,
na palavra do poeta volta-se
para dentro a obra de criação,
sempre a iniciar-se e a acabar jamais.
Onde palavra e som se combinam,
e soa o canto, a arte se revela,
e cada cântico e cada livro,
cada imagem, é uma descoberta
— uma milésima tentativa
de cumprimento da vida una.
A penetrar nessa vida una
vos chama a música, a poesia:
para entender a criação vária,
já é bastante um olhar no espeiho.
Ojpie^cgnfuso antes parecia,
é çlaro e simples na poesia:
a mUcern chove, a flor ri, o mudo
fala — o mundo faz sentido em tudo.
PARA NINON

Por ficares junto a mim


quando escura é minha vida
e fora os astros têm pressa,
e tudo faz-se esplendor,.

Por saberes ver um fulcro


nas engrenagens da vida
— és como um anjo do bem
para mim, com teu amor.

Em minha treva adivinhas


a estrela tão escondida
e com teu amor me apontas
o cerne doce da vida.
SEI DE ALGUMAS..

Em certas almas é tão arraigada a infância,


que elas não perdem nunca de todo a magia:
vivem numa cegueira povoada de sonho
e jamais falam a língua do dia-a-dia.

Ai delas, quando alguma desgraça as alcança,


a lhes abrir os olhos para a realidade!
Postas fora do sonho e da infantil confiança,
fitam a vida com horror e em desamparo.

Sei de algumas que a guerra veio despertar


quando estavam passando já da meia-noite:
ficaram, desde aí, a ir e vir pela vida
como sonâmbulos trêmulos e assustados.

É qual se a espécie humana, em tais desesperados,


buscasse a própria terra encharcada de sangue
e a própria atrocidade e a própria alma perdida,
com temor e tremor de se tornar consciente.

164
A NOTÍCIA
DA MORTE DE UM AMIGO

Murcha depressa o efêmero.


Dissipam-se depressa os anos gastos.
Olham zombando òs astros que eternos parecem.

Dentro de nós, o espírito somente


pode assistir impassível ao jogo
sem zombaria ou dor:
“efêmero” e “eterno” para ele
querem dizer mais ou menos o mesmo.

O coração, porém,
luta e em amor se inflama,
e'capitula. emurchecida flor,
ànte o infinito chamado da morte,
ante o hífimto chamado do amor.

165
SEXTA-FEIRA SANTA

Dia encoberto, neve ainda no bosque,


pia um melro no galho desfolhado;
paira a medo um sopro de primavera
inchado de prazer, de água encharcado.

Pequenino e silente em meio à relva


o tufo de açafrão ou de violetas
tem perfume e não sabe a que o empresta:
perfuma por igual a morte e a festa.

Lágrimas cegam os brotos nas árvores,


o céu pende pertíssimo e inquieto;
são Gólgotas e são Getsêmanis
todos os morros, todos os jardins.
A CAMINHO DO ORIENTE

A esmo por este mundo, desgarrado das Cruzadas,


muito irmão há de vagar pelos áridos desertos
dos números e das horas, a inquietar-se afastado
da alta meta pela qual combatera e padecera;
contudo, enquanto o chamusca a desértica solina,
tem sempre em vista as palmeiras da sua terra de sonho.

Dele assim perdido zombam sem piedade nenhuma


as crianças que se ajuntam nas urbes e nos mercados;
como a Menão, entretanto, a esse colosso em letargo
cada raio de arrebol faz novamente vibrar
— e ele, Dom Quixote, ri para o castelo encantado
na distância e para as fadas que embelezam o lugar.

E sempre, por toda parte, entre os gracejos da plebe


e o sangue dos mártires, algum rapaz aparece:
ergue para Dom Quixote o maravilhado olhar,
prosterna-se, presta a Deus o sagrado juramento
e, rumo ao Santo Sepulcro, acompanha o peregrino.

167
A UM RETRATO DA MOCIDADE

De uma aurora lendária, o meu retrato


de moço me contempla e me pergunta:
se da luz que uma vez alvorecia
alguma coisa brilha ou arde ainda.

A esse que fui, agora em minha frente,


a caminhada trouxe mágoas muitas
e noites e amaríssimas mudanças:
não gostaria de percorrê-la outra vez.

Mas perfiz lealmente o meu caminho


e dou valor ao que ele quer dizer:
houve muitos desvios, muitos erros,
mas não tenho de que me arrepender.
CASARIO AO ANOITECER

À tardia e oblíqua luz de ouro


se inflama o. grupo das casas caladas:
em cores ricas- e intensas floresce
feito prece o final de outra jornada.

Uma se encosta aconchegada à outra,


irmanadas crescendo na lareira:
velhas e simples como uma cantiga
que nenhuma aprendeu e todas sabem.

Paredes, caiações, telhados tortos,


pobreza e orgulho, decadência e glória:
com doce e funda ternura irradiam,
devolvido, o calor daquele dia.
CANlCULA

Nas giestas que cobrem a ladeira,


na pedra parda, no dourado pó,
nas folhas da amarela acacieira,
o verão desabafa o seu excesso
e se consome no seu próprio fogo.
Em vagens secas estalam grãos negros,
e à noite estão pesadas as estrelas
sazonadas demais no firmamento
que lateja feito um pulso com febre
a ferver de contidas tempestades.

Onde há pouco em alegres aguaceiros


molhada a vida corria brincando,
morro acima o verão vai ofegando
enfurecido. Ele não quer durar,
quer o êxtase e a glória do holocausto,
a Morte o chama: num cavalo esquálido
ele sai a galope e deixa a terra
pará trás — murcha, queimada, esgotada.

Relva e folhagem a gemer se espicham


e rangem com crepitações de vidro.

170
CHUVA NOTURNA

Mesmo no sono a adivinhei


e com isso acordei:
escuto-a bem agora e sinto
o seu rumor a encher a noite
de mil vozes frescas e úmidas,
risos, murmúrios e queixumes.
E fico a ouvir enfeitiçado
as notas moles do seu dedilhado.

Após o seco e áspero som


de tantos dias de sol forte,
o manso lamento da chuva
inquieta um pouco mas é bom.

Do peito ufano irrompe então,


por frágil que pareça,
o gosto infantil do soluço,
a amada torrente de lágrimas
— e escorre e geme e lava o encanto,
a fim de que fale o que foi calado,
e ao gozo de nova paixão
abre caminho e o coração.
PLENITUDE DO VERÃO

O azul dos longes vai-se clareando


espiritualizado e luminoso
com esse mágico e suave tom
que só setembro é capaz de compor.

Depois da noite o amadurecido


verão quer colorir-se para a festa:
eis que tudo sorri em plenitude
e como que anelando fenecer.

Alma, arranca-te deste tempo ao menos,


deixa de lado a tua aflição vã,
e demonstra que estás ansiosa e pronta
para o vôo na tão sonhada manhã!
RETROSPECTO

Na encosta vão desabrochando as urzes


e a giesta se eriça em tufos pardos:
quem é que lembra ainda o verdejante
frouxel do bosque em maio?

Quem lembra ainda como é que soavam


o pio do cuco e o canto do melro?
O que era som de tanto encantamento
está findo e esquecido.

A festa da tarde estivai na mata


com lua-cheia em cima da montanha,
quem anotou? Quem fixou? Quem guardou?
Tudo está terminado.

Também de ti e de mim, daqui a pouco


ninguém há de lembrar-se nem falar:
outros virão morar aqui e ninguém'
sentirá nossa falta.

Esperamos pela névoa da auro_ra


e pela estrela da tarde nos céus:
de bom grado florimos e murchamos
no amplo jardim de Deus.

173
FOLHA M URCHA

Para o fruto tende a flor,


para a tarde o amanhecer:
nada é eterno rta terra
— salvo o m udar e o des-ser.

Mesmo o mais belo verão


há de em outono m urchar:
tem paciência, folha, espera
vir o vento te buscar!

Faz teu papel sem teimar:


suceda o que suceder,
deixa o vento te arrancar
e em tua casa te deixar.
REFLEXÃO

Divino e eterno é o Espírito.


A ele, de que somos imagem e instrum ento,
leva o Caminho: nosso mais profundo anelo
é tornarmo-nos ele, em sua luz brilharm os.
Porém, terrestres e mortais que somos,
sobre nós — as criaturas — inerte cai o peso.
Em verdade propícia e m aternal a Natureza cálida
cuida de nós, aleita-nos a terra, prepara-nos o berço
e a sepultura...

mas não nos apazígua


— paternalm ente vara-lhe o m aterno encanto
a im orredoura centelha do Espírito:
paternalm ente faz do filho um homem,
apaga a inocência e nos acorda para a luta e a consciência.

Assim entre mãe e pai,


assim entre corpo e Espírito,
vacila o filho mais frágil da Criação
— homcin de alma trem ente, afeito ao sofrimento
qual nenhum outro Ser, e afeito ao mais sublime:
o mais crédulo e espèranços « amor.

Dureza é seu caminho, pecado e morte o seu alimento;


muitas vezes vagueia pela tteva, m uitas vezes seria
para ele

175
melhor não ter sido criado nunca.
Mas eterno sobre ele fulgura o seu anelo,
seu propósito: a luz, o Espírito.
E sentimos que a ele, ao desgraçado,
ama o Eterno com especial amor.

Por isso, a nós, erradios irmãos,


cabe, talvez mesmo na desavença, o amor;
não julgamento e ódio,-
mas paciente amor.
A aceitação amorosa nos leva
mais perto do sagrado objetivo.
SOFRIMENTO

O sofrimento é um mestre que nos vem


apequenar, fogo que nos abrasa
miudamente: isola-nos da vida,
empareda-nos e nos deixa sós.

Amesquinham-se amor e sapiência,


confiança e esperança se adelgaçam
e fogem; com paixão ciumenta e rude,
o sofrimento nos faz e desfaz.

O eu — forma terrena — se contorce


e se bate e resiste em meio às chamas,
depois todo se afunda e silencia;
e eis que tembém o mestre renuncia.
DEDICATÓRIA
PARA UM LIVRO DE POESIA

Do arvoredo sopram folhas,


da vida canções de sonho
vão tocando por aí.
Muitas perderam-se desde
quando primeiro as cantamos:
carinhosas melodias.

Canções também são mortais:


nenhuma se escuta sempre,
a todas o vento apaga.
Flor e borboleta são
transitórias aparências
de algo que nunca se acaba.
VIDA DE FLOR
7
De verde anel de folhas' a apertar-se infantis,
olha em redor e mal se atreve a contemplar:
sente-se rodeada por ondas de luz,
acha o dia e o verão estranhamente azuis.

Fazem-lhe a corte o vento, a luz, a borboleta:


pela primeira vez sorri, seu coração
abre-se aflito à vida, e aprende a se entregar
à seqüência de sonhos da sua pouca idade.

Agora ri-se toda e fulguram-lhe as cores,


intumesce no cálice o dourado pólen,
prova o incêndio do meio-dia abafado,
e à tarde se reclina exausta na folhagem.

Seus bordos lembram lábios de mulher madura


em cujas linhas treme um pavor de velhice:
seu riso brota quente e já nele farejam
a saturação e o amargor do declínio.

Já se enrugam também, e se esgarçam e pendem


sobre o talo, cansadas, as pétalas miúdas.
As cores se desbotam, fantasmais: enorme
é o segredo que envolve o que na morte dorme.

179
LAMENTO

Não nos é dado Ser. Ãgúas de rio,


a toda forma dóceis nos prestamos:
dia ou noite, caverna ou catedral,
a tudo nos impele a ânsia de Ser.

Forma após forma enchemos sem descanso:


nenhuma nos faz falta nem é pátria
ou sorte. Hóspedes sempre, sempre em trânsito,
terra e arado e pão nunca são nossos.

Um dia endurecer em pedra! Um dia


durar! — Ê disso que temos vontade,
mas o que fica sempre é um arrepio
de medo, sem pausa na caminhada.

180
MAS TEMOS UM SECRETO AFÃ.

Grácil, espiritual, delicado arabesco,


parece a nossa vida, assim como a das fadas,
girar em danças leves ao redor de um nada
ao qual oferendamos o presente e o ser.

Encanto de sonhar, graciosa brincadeira


tão bem soprada, tão puramente afinada:
por baixo de tua face calma arde profundo
anelo de noite e de sangue e de barbárie.

Sem pressão nem urgência, a nossa vida livre


gira no vácuo, sempre disposta a brincar
— mas temos um secreto afã de realidade,
de cópula e de parto, sofrimento e morte.

181
SERVIÇO

No começo os devotos príncipes mandavam


benzer a terra, o grão, o arado, e praticar
o rito das medidas e dos sacnfícios
da raça dos mortais — sequiosos que eram

de. terem o governo justo do Invisível


que mantém sempre sol e lua em equilíbrio
e cujas figuras de eterno resplendor
desconhecem o mundo da morte e da dor.

A sagrada linhagem dos filhos de deuses


hT muito se extinguiu: os homens estão sós
na voragem de gozo e dor, longe do Ser,
nuriretSrno devir sem bênção nem medida.

Entretanto a intuição da verdadeira vida


nW. morre, e é nosso ofício, em meio à decadência,
pér-meio de signos, de símbolos e canto,
'promover a observância do santo respeito.

É possível que a treva algum dia termine,


é possível que o tempo um dia volte atrás
e que torne a reger-nos o Sol como um deus
a tomar-nos das mãos as nossas oferendas.

182
BOLHAS DE SABÃO

De muitos anos de estudo e meditação


destila um homem, já de idade, a sua obra
de madurez — em cujas torcidas gavinhas
ele fiou brincando um suave saber.

Cheio de ardor chega um solícito estudante


que em bibliotecas e arquivos andou buscando
muito e que sente-se arder na ambição
de uma obra jovem de genial profundidade.

Um rapaz senta-se e sopra um canudo


enchendo coloridas bolhas de sabão,
e a cada qual ostenta e louva como um salmo,
e vai sua alma pondo inteira nesse sopro.

E assim os três — o velho, o estudante e o rapaz


fazem, da espuma de ilusão do mundo,
mágicos sonhos, que nada valem por si,
nos quais porém sorrindo se reconhece
a luz eterna que mais alegre rebrilha.
O JOGO DAS MIÇANGAS

Música das esferas e música dos mestres


estamos sempre prontos a ouvir com devoção,
a evocar para festas de pureza maior
os amados espíritos de eras mais afáveis.

Deixamo-nos levar mais alto pelo mistério


dessas fórmulas mágicas em cuja extensão
em límpidas parábolas veio a se m oldar
o que tem de infinita e de im petuosa a vida.

Cristalinas retinem, como constelações:


em seu serviço ganha sentido a nossa vida,
e do círculo delas cair nenhum a pode
senão no rumo do ponto central sagrado.

184
C HIN ÊS

De um a opalina brecha entre nuvens, o luar


conta a custo as pontudas sombras dos bambus;
pinta o reflexo da ponte como a corcova de um gato
redonda e límpida sobre as águas.

São imagens que ternam ènte amamos


sobre o fundo apagado do m undo e da noite,
com encanto a flutuar, por encanto traçadas
e já riscadas pela hora seguinte.

Sob a am oreira o poeta em briagado,


que m aneja o pincel como segura o copo,
descreve a noite de lua que tão propícia o empolga,
suaves sombras e luzes que passam.
Os traços rápidos do seu pincel
desenham nuvens e a lua e todas as coisas
que em sua lembriaguez seguem passando,
para poder cantá-las tão fugazes,
para animá-las com sua ternura,
para doar-lhes alm a e perm anência.

E elas passam a ser intransitórias.

185
CARAMANCHÃO

Aqui, no vermelho caramanchão,


abanavam-se as damas na festa do verão;
aqui banqueteavam-se e bebiam,
cantarolando árias do Don Pasquale.
Aqui dançavam, déspotas benévolos,
patrões da época de Bonaparte:
diziam coisas ternas às damas em flor,
e com o vinho gritavam-se obscenos desafios.
Os netos dessa gente, nós ainda conhecemos:
aos senhores, na aldeia tirava-se o chapéu.
Mas o fausto passara, derrocados os bens
— terras, casa e jardim, levados à hasta pública.
Já os portões, que a inveja rondava, não se fecham:
caminhos de capim convidam qualquer um
a passear aqui, hóspede de uns momentos,
junto à finada pompa da aristocracia.
Parece haver goteiras nos telhados, infiltrações nos
muros
onde verdeja sedutor o ornato de musgo e hera;
desolação e ruína espreitam das janelas
— dá pena, agora, o que foi tão soberbo um dia.
Esvoaçam morcegos varando os aposentos.
Derradeiro consolo, ainda mais altas que antes,
no parque destratado as nobres árvores
estendem sobre tanta decadência a sua compaixão.

186
OLHANDO O VALE LACUSTRE

Entre cinzentos ramos de abetos eriçados,


entre vermelhas e ásperas hastes de pinheiros,
entre azulados cedros que solenes se inclinam,
entre caules de tílias com seus restos de folhas
amareladas, por apertadas perspectivas,
vai o olhar afundando, a descer montanha a baixo,
até o vale lacustre amigavelmente longe.
Tudo parece manso, conquanto multifário':
o vítreo lago no seu debrum de claridade,
as aldeias sorrindo com seus tetos ao sol,
os campos como faixas de matizes sonhados
pela alma de um pintor a espalhar-se repartidas.
Tem-se a impressão de um vale sem sombras e feliz,
bem arejado e firme qual límpido cristal,
com festivas aldeias e matas e relvados
a comporem, por gosto, uma rústica pintura:
como se aqui contasse a beleza unicamente
numa ciranda de luzes de diversos tons.
Lindo divertimento de um pintor ou poeta,
o mundo aqui se mostra feito de alguma luz
que a si mesma exercita e que a si mesma dá forma.
Encanta-nos o palco, tanto quanto o espetáculo,
e agora não queremos tomar conhecimento
da dor que também pesa sobre tão doce mundo.

187
PAVILHÃO VERMELHO

Vermelho pavilhão, escondido no parque


a se perder em meio ao matagal:
ah, que alegria davas ao lugar,
quando te rias em tua manhã ainda jovem!
Sobre a clareira te erguias ufano,
octogonal, ousado, gracioso e galante;
muitas festas em ti se prepararam,
com o vinho para a caça e o licor do banquete.
Foi o mato crescendo e aí te vês
apequenado,, secreto e quase esquecido:
respiras um finado encanto de matizes
com a melancolia de uma rima antiga
que um dia fez-se ouvir insólita e vibrante,
e que dá pena agora com seu toque ancestral.
Enterrado em lembranças,
deixas que venha o fatigado sol da tarde
lamber os teus gradis,
a tua arcada em ponta, o teu telhado.
Abandonado às tuas formas trabalhadas,
refletes sobre as festas acabadas...
É o que fazemos também nós ao respondermos
ao cumprimento de um amor da mocidade — agora de
cabelos
embranquecidos, agora em suas feições
encantadoras e calmas da rapariga que foi
trazendo inscritos os traços da morte —
e a quem nós, comovidos, retomamos a amar:
a ela e ao inefável que ela era uma vez.

188
AMANHECER DE DEZEMBRO

Em fina gaze a chuva cai. No véu cinzento


entretecem-se flocos indolentes
que nos galhos e fios se penduram,
dissolvem-se a boiar no frio úmido,
e dão ao cheiro da terra molhada
algo de tênue, vago e inconsciente,
enquanto as gotas escorrem com gestos
de hesitação e a luz do dia assume
uma doentia e enfastiada palidez.
Na fila de vidraças que a aurora cegou
desponta com rosada e morna claridade
uma janela acesa ainda em meio à noite.
Uma enfermeira surge, lava os olhos
com neve, fica um momento parada,
olha em redor, e volta a entrar no quarto.
A vela apaga-se, e ainda mais cinzento
no dia desbotado o muro estende-se.

189
AO VENTO MORNO DA NOITE

Ao amornado vento da montanha balança-se a figueira


de novo contorcendo como cobras os galhos conturbados;
sobre o escalvado cume a lua-cheia sobe para iim festim
de solidão, a povoar de sombras o espaço; a luz da lua,
entre os barcos de nuvens que deslizam, distraída
conversa
consigo mesma, enfeitiçando a noite sobre o vale do lago
e transformando-a em silente imagem da alma e da poesia
para no fundo do meu coração a música acordar.
Num incontido assomo de saudade minha alma então
eleva-se,
luta contra o destino, pressentindo que lhe falta uma
coisa,
brinca com o sonho da felicidade, remoendo cantigas:
quisera começar tudo de novo, de novo o já longínquo
ardor da juventude restaurar na frigidez do agora,
quisera andar à toa e cortejar inclusive uma estrela,
tenutizar o repique dos sinos de vagantes desejos...
Fecho a janela com hesitação e acendo o lampião,
vejo em branco na cama os travesseiros esperando por
mim,
em branco a lua e o mundo e a flutuante poesia das
nuvens,
ao amornado vento da montanha, sobre o jardim prateado:
sinto-me pouco a pouco reintegrado às coisas de costume
e, até pegar no sono, ouço a canção da minha juventude.

190
COM UM CONVITE PARA
“A FLAUTA MÁGICA”

Mais uma vez eu estarei a ouvir-te,


música muito amada — e entre as bênçãos
do templo aceso, entre os corais de padres
e as flautas, serei um dos convidados.

Tantas vezes em tantos anos já


essa obra me tocou profundamente,
e a cada vez repete-se o milagre
e em silêncio eu refaço o mesmo voto

que me faz elo da vossa corrente


— romeiro do oriente em antiquíssimo
vínculo, apátrida ao redor do mundo,
sempre a achar novos serviçais ocultos.

Este reencontro deixa-me, Tamino,


temeroso: meu fatigado ouvido
e o velho coração serão capazes
de compreender-vos como em outros tempos
— coro de padres, vozes de rapazes?
Estarei pronto para as vossas provas?

Viveis eterna juventude, espíritos


puros, infensos aos baques do mundo:
sêde irmãos nossos, e guias e mestres,
até que o facho nos caia das mãos!

191
E ao soar a solene hora de serdes
eleitos, e ninguém mais vos lembrar,
novos sinais vos seguirão nos céus,
pois toda vida aspira a se expressar.
PE N SA M E N T O S V A D IO S

Um dia tudo isto deixará de existir:


nada mais destas guerras burramente geniais,
destes gases diabólicos lançados sobre
o inimigo, destes ermos de concreto,
destas florestas farpadas de arame
em vez de espinhos, destes berços mortuários
onde aterrados jazem tantos milhares,
destas redes mortíferas tramadas
com tanto engenho e arte, em meio a tão covardes
gracejos, na terra, no mar, no ar.

Montanhas hão de elevar-se no azul;


constelações refulgirão na noite
— Gêmeos, Cassiopéia, Ursa Maior —
eternas em sereno gravitar;
relvas e folhas orvalhadas pela noite
voltarão a pintar de verde o dia;
e ao sopro eterno do vento as marés virão
bater nas pedras e nos pálidos barrancos.

Assim tem-se passado a história deste mundo:


com dilúvios de sangue, convulsão e mentira,
tem a arrogância de um montão de lixo,
de traços apagados, saciada
a sua desmedida gulodice
— e o ser humano esquecido.

193
Esqueceram-se os jogos infantis
que com tanta doçura e encantamento
imaginávamos, curiosos e belos;
as poesias que então concebíamos,
e todas as figuras da nossa ternura
gravadas no mundo em torno de nós;
nossos deuses, mistérios e santuários,
taboadas e alfabetos — não existem mais.
Nossas fugas de órgão, nosso afã de céu,
nossas igrejas de torres esguias
e altaneiras, nossos livros e pinturas,
linguagens, fábulas, sonhos e idéias,
apagaram-se. A terra está sem luz.
E o Criador, que ao ocaso
de tudo quanto é mau e quanto é bom
silencioso assiste, longamente
se põe a observar a terra libertada:
alegremente ecoa à sua volta o gravitar dos astros
— escuro paira o pequenino globo,
entre tanto esplendor. Sempre pensando,
Ele toma nas mãos um punhado de barro
e se põe a amassá-lo: vai fazer
mais uma vez um homem — um minúsculo filho
que lhe faça orações, um minúsculo filho
em cujos risos e artes e inocências
Ele espera ainda ter algum prazer.
Alegram-se os Seus dedos, o barro modelando,
e Ele se compraz niSso, enfim: está criando!

194
MÜSICA DE FLAUTA

Uma casa na noite: entre arbustos e árvores


deixava-se entrever de leve uma janela
e em algum cômodo invisível por trás dela
um flautista a tocar.

Era uma melodia tão velha e conhecida


a fluir tão gostosa em meio à noite
como se a pátria fossem todos os países
c palmilhados todos os caminhos.

Era o secreto sentido do mundo


a se manifestar em seu alento,
e se entregava de bom grado o coração
e os tempos todos conjugavam-se em presente.

195
FINAL DE VERÃO

Dia a dia o verão no fim ainda oferece


o seu doce calor. Sobre ümbelas de flores
adeja aqui e ali cansada borboleta
repampeando as asas de veludo e ouro.

As tardes e manhãs respiram a umidade


de uma neblina tênue, ainda um tanto morna.
Com súbito clarão solta-se da amoreira
uma folha amarela a tremular no azul.

Dorme um lagarto sobre a pedra ensolarada.


Entre as sombras das folhas escondem-se as uvas.
Em sono e sonho o mundo dá a impressão de estar
encantado, a pedir que o esperem despertar.

A música se embala em múltiplos compassos,


cristalizando-se em doürada eternidade
— até que, despertando, o mundo quebra o encanto
e volta a se animar de vida e atualidade.

Nós, idosos, colhemos da parreira os frutos


e aquentamos ao sol as nossas mãos tisnadas.
O dia ri-se ainda, ainda não foi embora:
nos prende e lisonjeia ainda, aqui e agora.

196
O REDENTOR

Sempre e sempre retorna feito homem,


fala a devotos e a surdos ouvidos,
chega-se a nós e já de novo some.

Sempre e sempre sozinho Ele conduz


as misérias e anelos dos irmãos,
e sempre acaba pregado na cruz.

Sempre e sempre se faz proclamar Deus:


quer que o espírito domine a carne
e que à terra venha o reino dos céus.

Sempre e sempre, nestes dias ainda,


de passagem, o Salvador redime
nossas angústias, queixas e perguntas

— com seu olhar de bem-aventurança


que nem ousamos nós retribuir,
pois só o encaram olhos de criança.
ANDARES

Como emurchece toda flor, e toda idade


juvenil cede à senil — cada andar da vida
floresce, qual a sabedoria e a virtude,
a seu tempo, e não há de durar para sempre.
A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver.

Devemos ir contentes, de um lugar a outro,


sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:
não nos quer atados, o espírito do mundo
— quer que cresçamos, subindo andar por andar.
Mal a um tipo de vida nos acomodamos
e habituamos, cerca-nos o abatimento.

Só quem se dispõe a partir e a ir em frente


pode escapar à rotina paralisante.
É bem possível que a hora da morte ainda
de novos planos ponha-nos na direção:
para nós, não tem fim o chamado da vida...
Saúda, pois, e despede-te, coração!

198
MEIO-DIA ESTIVAL
NUMA VELHA CASA DE CAMPO

Tílias e castanheiros seculares


sussurram lentos, respirando o morno vento.
Kcbrilha o chafariz e de bom grado
cede ao sopro do ar. Sobre as copas das árvores
os pássaros calam-se quase todos.
Lá fora a rua está quieta ao sol a pino.
Na relva estiram-se cães sonolentos.
Carros de feno chiam na distância quente.

Nós nos sentamos longamente à sombra: velhos,


um livro ao colo, baixando o olhar deslumbrado,
pelo verão docemente embalados,
e intimamente a pensar nos que já se foram
e para os quais não há mais verão nem inverno,
e que contudo pelos átrios e caminhos
ainda os sentimos invisíveis junto a nós
lançando a ponte que liga o aqui e o além.
INFORME DO ALUNO

Meu Mestre está deitado e silencioso há dias:


às vezes eu não sei se luta com a dor
ou com o pensamento. Quando eu digo algo,
não me ouve; porém, quando eu me sento e canto,
cerra os olhos e escuta como que enlevado,
talvez sábio da mais alta categoria,
talvez criança a quem alegram certos sons,
mas fiel sempre à regra da senda do meio.

Vez por outra levanta a mão adormecida,


qual se empunhasse o lápis e fosse escrevendo.
Mas logo voltam-se de novo para a porta
os olhos dele, com indizível amor,
como se então ouvisse alados mensageiros
e visse acolhedores os portões do céu
ou as colinas da pátria distante com
palmeiras balançando à brisa da manhã.

Ãs vezes temo estar eu doente e não ele,


como se eu fosse o velho, grisalho e apagado,
e aquela a adelgaçada silhueta de alguém,
como as que a luz da aurora vem pintar no muro.
Ele, porém, o Mestre — parece embebido
e prenhe de essência, de realidade e ser:
enquanto eu vou minguando, ele abarca o universo,
a encher o céu, radiante e todo-poderoso.

200
PROSA

A um poeta

Divertimento algum lhe dá o versejar


com que nós, aprendizes, tanto nos maçamos.
Certo provou também, na sua juventude,
esse agridoce jogo em toda a plenitude.
Nüo: a arte beletrista da metrificação,
da estrofação, da rima, do encavalgamento,
para ele já não tem mais nenhuma atração.
Acha batida e plana por demais essa rua,
fácil em demasia por essa via o acesso
ao belo, mesmo que feito com mil cuidados.
Já conhece magias que dão ocultas flores
de efeitos misteriosos sem comparação.

A prosa dele é simples, descerimoniosa,


cotidiana quase — parece brincadeira
de criança, mas é melhor deixar assim: v
pois, a olhar mais de perto, indescritível torna-se
o que antes parecia ingênuo e simples, cria-se
de nonadas um mundo, melodias de alentos
que em aparência vãos e por prazer deslizam
mas que à lembrança voltam com outro sentido
e que preparam novos sempre inesperados.

Por fim uma sentença que lhe sai dâ pena,


e que com ligeireza a princípio saltamos,
torna-se um carrascal Com oásis de vogais,
por entre as sílabas sopram ventos e cedros,
raios de lua fazem brilhar golfos de prata,

201
uma vírgula é trilha entre bosque e jardim,
uma assonância tem acenos de coquete,
e a salvação é um ponto de interrogação.

Como é que ele faz isso, como com palavras


do simples dia-a-dia, sem peso e sem pose,
produz uma poesia de tanta magia
em que as sílabas são como pendões ao vento
— isso, amigos, jamais entenderemos bem.
Baste-nos ir olhando, com veneração,
como olhamos o monte e olhamos sobre o arroio
a borboleta azul e as flores, que também
se entendem tais como se deixam parecer,
mas são milagres para o olho capaz de ver.

202
VIVA, DOM MUNDO!

Em cacos jaz o mundo:


já o amamos demais,
a própria'morte agora
não nos assusta mais.

Não xinguemos o mundo


tão vário e tão selvagem:
velhíssimos encantos
sopram-lhe ainda a imagem.

Com gratidão queremos


retirar-nos do jogo:
deu-nos prazer e dor,
e nos deu muito amor.

Viva, dom Mundo! Sempre


juvenil e direito:
o teu bem e o teu mal
deixam-nos satisfeitos.
RELENDO “HEUMOND”
E “SCHON IST DIE JUGEND”

Incompreensivelmente estranho e longe


deixa-se ver o país da juventude:
suas estrelas e constelações
já não clareiam mais o meu caminho,
suas fadigas e momentos bons
não passam hoje de canção e lenda
— nomes e gestos que ainda agora vão
como folhas brincadas pelo vento.

Mas eis que de umas páginas de livros


voltam, ligadas a certas imagens:
tomam forma e parecem aguardar,
cada qual fielmente em seu lugar.

Assim, após anos cheios de mágoa,


capazes de em nós tanto destruir,
o mundo volta a ser o que uma vez
foi: uma lenda que se torna a ouvir.

Empalidecem bem as suas runas,


seus ecos na distância se enfraquecem;
mas, com a sua feiticeira graça,
tem um deslumbramento que não passa.

204
NO CASTELO DE BREMGARTEN

Quem um dia plantou os velhos castanheiros,


quem um dia bebeu a àgua a esguichar da fonte,
quem um dia dançou no salão enfeitado
— foram-se todos, esquecidos e enterrados.

Hoje é a nossa vez: para nós brilha o dia


e cantam para nós alegres passarinhos,
sentamo-nos à mesa e sob a luz das velas
brindamos ao dia que é para nós eterno.

Quando nos formos e estivermos esquecidos,


nas árvores altas ainda se há de escutar
o gorjeio do melro e o cântico do vento,
e lá em baixo entre as pedras o rio a espumar.

No vestíbulo, na hora do grito noturno


do pavão, hão dè estar aqui outras pessoas:
falarão, louvarão a maravilha da hora,
embandeirados barcos estarão passando,
e o eterno presente há de rir como agora.

205
OUTUBRO 1944

Corre com paixão a chuva,


lança-se a terra em soluços,
fios dágua gorgolejam
rumo ao transbordante mar
há pouco tão transparente.

Termos sido outrora alegres


e achado graça no mundo,
foi sonho: experimentados,
outonais e encanecidos,
vimos e odiamos a guerra.

Raspado e sem lantejoulas


jaz o mundo, que antes ria;
sopra entre os galhos sem folhas
um vento amargo de morte,
e agadanha-nos a noite.
PROVA TARDIA

Mais uma vez das larguezas da vida


volta o destino rude a constringir-me:
pretende, no aperto e na escuridão,
sub meter-me à miséria e à provação.
O que a custo pareço ter obtido
— calma, sabedoria, um certo tato,
uma vida sem medo e sem remorso:
seriam coisas para mim, de fato?
Ah, cada um desses amáveis dons
me foi como que arrancado das mãos,
um após outro, pedaço a pedaço...
Foram-se os tempos de satisfação!
Montão de cacos e lugar de escombros
foi sempre o mundo e foi a minha vida:
talvez choramingando eu me rendesse,
não fosse esta minha obstinação!
Esta teima, do fundo de minha alma,
em fincar pé, lutar sem desistir;
esta crença em que o atual tormento
há de ceder à claridade antiga.
Esta inflexível e quase insensata
crença infantil que soem ter os poetas
em eternas e inapagáveis luzes
brilhando acima de qualquer inferno.
À ESCUTA

Um som tão doce, um alento tão novo


passa através do dia acinzentado
qual tímido aroma de primavera,
qual adejar de pássaro assustado.

Das horas matinais da vida sopram


reminiscências
a tremer e passar
como aguaceiros de prata no mar.

De hoje para ontem tudo me parece


distante, e próximo do já esquecido:
com seus contos de fadas, para mim
o passado abre-se como um jardim.

Talvez agora acorde meu avô,


transcorridos mil anos de repouso,
e agora fale com a minha voz
e busque no meu sangue algum calor.

Talvez lá fora esteja um mensageiro


chegando cada vez mais junto a mim:
talvez eu me veja de novo em casa
ainda antes que este dia chegue ao fim.

208
MELANCOLIA

à morte se consagram hoje todas


as que ainda ontem para mim ardiam:
uma por uma, vão caindo as flores
da árvore da melancolia.

Eu as vejo caindo, como cai


a neve em flocos sobre a minha senda:
já não se ouvem passos ressoando,
acerca-se o grande silêncio.

O céu já não tem mais nenhuma estrela,


nem mais o coração nenhum amor:
há silêncio na cinza da distância,
o mundo está velho e sem cor.

Quem é que pode ter o coração


a salvo, neste tempo de porfia?
Uma por uma, vão caindo as flores
da árvore da melancolia.
REMINISCÊNCIA

Quem anda sempre a pensar no futuro


com objetivo e sentido na vida,
a esse cabem a ação e a ambição,
muito embora a tranqüilidade não.

O melhor mesmo seria viver


numa imperecedoura atualidade
— mas essa graça foi dada à criança
e a Deus, só, com exclusividade.

Tudo quanto é passado, para nós,


poetas, é consolo e alimento:
conjurar e guardar o conjurado
são nosso ofício de todo momento.

Flori de novo o que havia murchado,


o ancião ri com jovialidade,
e uma beatífica reminiscência
guarda tudo com toda a lealdade.

Para em épocas idas e infantis


podermos mergulhar ainda mais fundo,
para lembrarmo-nos em nossa mãe
— para isso viemos nós ao mundo.
EM FACE DA PAZ

Para a festa de comemoração


do armistício na Rádio Basiléia

Do pesadelo de ódio e da embriaguez de sangue


acordando, ainda obumbrados e surdos
pelos clarões e ruídos mortíferos da guerra,
a tantos horrores já habituados,
das suas armas e das medonhas tarefas
diárias abrem mão
os cansados guerreiros.
“Paz” soa como o eco
de algum conto de fadas ou sonho de crianças:
“Paz” — e mal a alegrar-se
o coração se arrisca, vendo mais perto a lágrima.
Pobres de nós, humanos,
tão capazes do bem quanto do mal,
entre o deus e o animal! — Como pesava
a dor, hoje a vergonha pesa em nós com a cara no chão.
Mas temos esperança: em nosso peito
vive um ardente anelo
dos milagres do amor.
Irmãos! A nós compete
o retorno ao espírito e ao amor,
e se abrem para todos
os perdidos portões do paraíso!

Sabei querer! Esperar! Amar!


E a terra novamente vos pertencerá.

211
NOITE EM CLARO

A noite pálida de vento espia,


a lua espera mergulhar na mata.
que é que me força a estar desperto e olhar
em redor, com a dor a me inquietar?

Eu estava dormindo e até sonhando:


que foi que me acordou e assustou tanto,
em meio à noite, como se eu tivesse
esquecido a coisa mais importante?

Melhor seria eu deixar esta casa,


o jardim, a cidade, o país, tudo:
seguir esse chamado, essa palavra
mágica — e sempre mais, seguir o mundo.

212
RASCUNHO

No junco seco, encanecido ao cair da tarde,


ringe o vento do outono;
esvoaçam gralhas, do salgueiro, terra a dentro.

Sozinho pausa à beira da água um velho:


em seu cabelo sente o vento, sente a noite e a neve
que vem perto;
da sua margem de sombra olha a luz do outro lado,
onde entre lago e nuvem uma fímbria
da costa mais afastada em tíbia luz brilha ainda
— dourado além, feliz como o sonho e a poesia.

Fixo nos olhos mantém o luzido quadro,


pensa na terra natal, lembra-se dos seus tempos,
vê o ouro ir desbotando-se, apagando-se;
volta-se e caminha a esmo
devagar, terra a dentro, entre os salgueiros.

213
PAVILHÃO NO INVERNO

Falso tataraneto de um templo de Adriano,


ilegítimo herdeiro de vilas medicéias,
com ares de lembrança de Versalhes
empoado, sorris
com tuas colunatas e degraus e vasos e volutas,
pouco à vontade numa praia bárbara,
a contemplar uma terra a que não pertences,
a ostentar seduções e encantamentos
que não te assentam bem;
e a neve em torno é fria
através das vidraças que tens em demasia.

Semelhas, com tua pompa de empréstimo,


a infeliz rapariga que na cidade grande
sorri pelas esquinas com sombra de tristeza
e não é tão bonita como se quer mostrar
e nem tão rica assim com suas jóias falsas
nem tão alegre atrás da pintura do rosto.
Com ela te pareces: algo de ironia
e algo de compaixão por ti respondem.
E a neve em torno é fria
através das vidraças que tens em demasia.

214
RABISCO NA AREIA

Que encantamento e beleza


sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
— fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta — notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem —
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa.
que nem pelo tempo de uma
batida do coração
deixam-se reter, prender.
Som apos som, mãí se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternamente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
— rochas, mundo estelar, jóias
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efêmeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia.
CHEIRO DE OUTONO

Mais uma vez é um verão que nos abandona,


agonizando num temporal atrasado:
tranqüila a chuva rumoreja, enquanto um cheiro
amargo e tímido vem do bosque molhado.

Na relva pálida a liliácea se retesa


em meio a grande profusão de cogumelos;
tem-se a impressão de que se esconde e se retrai
o nosso vale, ontem ainda imenso e belo.

Retrai-se e cheira a timidez e a amargura


o mundo, com toda a claridade perdida:
prontos, olhamos o temporal atrasado,
pois acabou-se o sonho de verão da vida!
DIA CINZENTO DE INVERNO

É um dia cinzento de inverno


e sem luz quase em seu lügar:
velho ranzinza, ele não quer
que ninguém lhe venha ialar.

Ouve o rio jovem correr


cheio de ímpeto e paixão:
vê nessa forte impaciência
uma inútil ostentação.

Aperta os olhos com desdém,


poupando um pouco mais de luz,
e sobre o rosto cai-lhe a neve
a encobri-lo como um capuz.

O estridular das gaivotas


irrita-lhe o sonho de velho,
tanto quanto na árvore calva
a briga ruidosa dos melros.

Ri-se de todas essas coisas,


em sua imensa presunção
— e vai deixando cair neve
até chegar a escuridão.
SOL DE MARÇO

Embriagada de ardor matinal,


tonteia uma borboleta amarela.
Encolhido e com sono, um homem velho
descansa sentado junto à janela.

Entre as folhas da primavera, um dia


de viagem cantando partiu ele:
de uma porção de ruas a poeira
passou voando sobre os seus cabelos.

Naturalmente as árvores em flor


e as borboletas voando amarelas
parecem hoje as mesmas de outros tempos:
como se o tempo não tocasse nelas.

Os perfumes e as cores, entretanto,


tornaram-se mais finos e mais raros:
fez-se mais fria a luz, e o próprio ar
parece mais difícil respirar.

Como abelha a zumbir, a primavera


baixinho entoa os seus graciosos cantos:
a borboleta adeja em amarelo,
e o céu vibra em cristal de azul e branco.

219
DE CARRO SOBRE O JULIER

Ermo rochoso, finados campos de escombros,


algas de cores como o verde e o cinza e o rubro,
do fundo cinza cresce a pedra alcantilada,
passeiam nuvens por cima das cumeadas,
hostil e frio corta o vento resmunguento,
param as águas nos brejos mudos e cegos,
em muros pálidos ainda há feridas frescas
com sangue escuro e crostas raladas de pedras.
Cansada mas firme e traçada com rigor
estende-se no meio da rua uma linha,
ontem caminho de romeiros e hostes, hoje
gasta por máquinas que ronronam levando
dentro pessoas — todas pensando em salvar-se
do barulhão para o descanso do verão,
só não têm tempo, não, tempo elas não têm não.
Juntos também nos apressamos: ficam longe
lugares como Bivio, Chur, Paris, Berlim...
Vamos às pressas pelas ruas apertadas,
olhando as nuvens por cima das cumeadas,
calhaus de pedra em meio a turvas poças dágua;
o cinza frio ainda nos tenta um arrepio,
porém a. máquina arranca-nos inclemente,
daqui,e dali, para bem longe. Heroicamente
sobre o fundo de cinza a pedra se desenha.
Nós vamos fugindo e vamos sentindo: “pena...”

220
TEMPESTADE EM JUNHO

Sol que enferma, montanha que se encolhe,


negra fileira de nuvens de chuva
em forças que rastejam tocaieiras,
pássaros que de susto voam baixo,
sombras de chumbo que cobrem a terra.

Trovão que com estrépito se escuta


a retumbar de quebrada em quebrada
como um conjunto de sonoros címbalos,
metálicas trombetas de faíscas
uma após outra varando o aguaceiro.

Chuva que cai em bátegas espessas


com seu frio de prata e de cristal
a inflar arroios e a roncar nos rios
com fúria de pranto muito guardado,
e o vale cada vez mais aterrado.

221
LUZ DA ALVORADA

Pátria, infância, hora da manhã da vida


muitas vezes perdida e deslembrada:
tardia mensagem me vem de ti,
a reflorir do que mais fundo estava
soterrado no âmago de minha alma
— ó doce luz, fonte ressuscitada!

Entre o outrora e o agora, a vida toda


que se havia por orgulhosa e rica,
não conta mais: volto a escutar, absorto,
o tão antigo sempre e sempre novo
cantar da fonte dos contos de fadas,
infantis cantilenas olvidadas.

Acima de tudo, com teu clarão


vais removendo o pó e a confusão
e o esforço da ambição irrealizada
— ó fonte límpida, ó luz da alvorada!
Chuva, ó chuva de outono:
montanhas com véus de cinza,
árvores com folhas últimas a descair exaustas.
Entre as janelas com calços espia
com o peso do adeus o ano agonizante.
A tiritar de frio em seu molhado manto,
lá te vais. Na folhagem desbotada
na orla da floresta, tartarugas
e salamandras bêbadas tateiam.
Estrada a baixo
correm e gorgolejam infinitas águas,
até no relvado junto à figueira
juntarem-se em paciente lagoa.
E da torre da igreja sobre o vale
gotejam vacilantes e cansados
dobres de sinos por alguém da aldeia
que foram sepultar.
Aflige-te, meu caro*
não pelo teu vizinho sepultado,
nem pela dádiva do verão longo,
mas sim pelo festim da juventude!
Tudo perdura em piedosa lembrança:
em palavra ou imagem ou canção as coisas vão ficando
sempre prontas para o ritual do retorno,
com renovada e nobre vestimenta.
Ajuda a confirmar e a transformar,
e em crédula alegria o coração em flor
verás desabrochar!
223
LAMENTAÇÃO E CONSOLO

Aquela luz, que tão suave antigamente


ardia nos quartos de nossa juventude,
não está mais em parte alguma. Nós, que quando
moços e moças, a conhecemos e amamos,
vêmo-la murcha e apodrecida sobre túmulos.

A luz que hoje tão fria e tão penetrante


se vê nas ruas, e com tanta profusão
flameja e brilha por cima da multidão,
é diferente de todas as outras luzes
que nas cidades de nossa infância existiam:
e também outras são as vielas e praças
tão novas, tão abertas, tão cheias de pedras.

Também o que depois das guerras foi ficando


— velhas e amigas vilas e aldeias natais —
fita com olhos diferentes e assustados:
gemem e roncam impacientes motores,
e em tal tumulto igreja e cemitério
mostram-se velhos, intimidados, perdidos
aos olhos frios e aflitos dos motoristas.

Porém a chuva, quando em chão de primavera


cai de mansinho ou na folhagem do verão
sussurra e tine e cheira como antigamente,
e o movimento silencioso da serpente
que ouve e fareja com a angulosa cabeça,

224
ou a secreta tristeza da meia-lua
quando se eleva misteriosa e furtiva
sobre as ameias das serras anoitecidas,
e o salgueiral estremecendo ao vento sul...
Ah, e o profundo ardor das montanhas na noite,
e o acanhado açafrão a florir primeiro
— são como sempre, não se lhes quebrou o encanto:
como há tempos, quando, naquele naufragado
mundo, amigáveis nos saudavam e falavam
a encher-nos a alma de consolo e de alegria,
falam-nos hoje ainda, e dão ao coração
— de quem os anos vê voarem como os dias —
resposta igual à luz da vela e do lampião
que iluminavam as noites da nossa infância.
NECROLÓGIO
Ao meu querido amigo H. C. Bodmer,
no dia de sua morte: 28 de maio de 1956.

Tu te foste tão cedo, amigo meu!


Estéril se resseca à minha volta o espaço que foi uma
vez um bosque:
velha árvore esquecida, fiquei só.

Poucos te conheciam, e nenhum por inteiro:


oculta sob a máscara leviana
do cavaleiro, bebedor, oficial, mecenas
— vivia tua secreta e radiante realeza.

Que por trás dessa austera pose senhorial


tivesses humildade, abnegação, aptidão para amar
o grandioso, o sagrado — só os amigos
do círculo mais íntimo sabiam: um saber
que guardávamos como precioso segredo.

Salve, impetuoso e indômito!


Fielmente conservo a imagem do teu cavalheirismo.
E longamente, na devastada colina,
contemplo o ermo lugãr
onde um dia talvez tua coroa quiseras descansar.

226
VJANDANTE EM FIM DE OUTONO

Através do trançado de galhos do bosque sem folhas


cai dos ares cinzentos a neve primeira
e descai e cai mais... Como o mundo ficou tão parado!
Não cicia uma folha, nem um passarinho nos ramos:
nada mais que a brancura e o cinzento e a quietude
— a quietude.

O viandante também, que com seu canto e seu alaúde


luas novas e cheias varava,
emudece cansado de alegria
e cansado de andanças e de cantoria.
A lhe dar arrepios, da fria e cinzenta ironia
sopra o sono e o arrasta — e de manso descai
a neve que continua a cair.

De uma longínqua primavera e de uma extinta


felicidade de verão vém a lembrança
falar com pálidas e dispersas imagens:
pétalas de flor de cereja em fundo azul
de luz suave,
tenra borboleta marrom e dourada
de asas fragílimas tremulando entre os juncos,
tempestade e coriscos e aguaceiro de verão no juncal,
melodia de flauta de estranha janela na noite,
grito agudo de gralha no bosque em manhã...

227
Cai a neve e cai mais. O viandante
ouve o canto do pássaro e o toque da flauta
que uma vez alegria trouxeram ao seu coração:
ó mundo belo, como ficaste parado!
Inaudível avança através da macia brancura
rumo à pátria, de há muito esquecida,
e que agora o concita com doce compulsão;
rumo ao vale e ao arroio entre os álamos,
e ao mercado, e à velha casa paterna,
e ao muro recoberto de hera atrás do qual a mãe
e o pai e os avós jazem.

Não cicia uma folha, nem um passarinho nos ramos...


O ANCIÃO E AS MÃOS

Penosamente ele faz o percurso


da sua longa noite:
espera, escuta e vèla.
Diante dele sobre a coberta repousam
ambas as mãos: a direita e a esquerda
hirtas, nodosas, cansadas serventes
— e ele ri
baixó, para não as acordar.

Infatigáveis mais que a maioria


trabalharam bastante,
quando em pleno vigor.
Muito haveria ainda por fazer,
mas as obedientes companheiras
quereriam agora descansar e retornar ao pó.
Para serventes,
estão cansàdas e ressecadas.

Baixo, para não as acordar,


o senhor ri-se delas:
a longa caminhada da existência
parece agora curta, embora longo
o percurso de uma noite... E mãos de criança,
mãos de adolescente, mãos de adulto,
no entardecer, no fim,
olham-se assim.

229
UM SONHO

Salões timidamente atravessados,


mil semblantes estranhos...
Uma depois da outra, devagar
as luzes se enfraquecem:
no lusco-fusco que a tudo acinzenta
e encobre no matiz crepuscular,
um rosto me parece familiar,
e a memória do amor vai descobrindo
que conhece um e outro
dos rostos ainda há pouco tão estranhos.
Ouço nomes chamados
de pais, irmãos, companheiros,
até de heróis, mulheres e poetas,
que eu amei quando moço.
Mas nenhum, entre tantos,
me concede um olhar:
como as chamas das velas,
dissipam-se no nada,
deixando para trás, no coração
— ecos de poesias esquecidas —
lamento e escuridão
em torno dos contidos
dias de sonho e lenda
alguma vez vividos.
ANTIGA IMAGEM DE BUDA
EM RUÍNAS NUM BARRANCO
DE BOSQUE JAPONÊS

Amolecido e gasto entre oferendas


de muitas chuvas e geadas, verdes
de limo as faces e as pálpebras grossas
caídas — fitas em silêncio a meta:
o des-ser voluntário e o vir-a-ser
no Todo em transmutação sem limites.
Teu gesto desfigurado ainda lembra
a nobreza de tua real missão,
e já procura, em humo e lodo e terra,
em forma livre, a própria perfeição:
será amanhã raiz, folha em sussurro,
água a espelhar a pureza do céu,
crespidão de capim ou alga ou hera
— imagens do que é vário no Uno eterne
RÀPAZOTE

Quando me castigam
eu fico calado:
vou dormir chorando
e acordo curado.

Quando me castigam
dizem “o pequeno” ;
eu não choro mais
e vou dormir rindo.

Morrem os mais vélhos


— os avós, os tios —
mas eu vou ficando
sempre por aqui. ’
NOITE EXAUSTA

Morde o vento da noite


uma queixa abafada
pelas folhas.-No pó
caem gotas pesadas.

Nos rotos muros brotam


musgos e samambaias.
Anciãos silenciosos
se agacham nos umbrais.

Mãos retorcidas pousam


sobre os joelhos duros,
entregues ao descanso
enquanto vão murchando.

Enormes gralhas voam


por sobre o cemitério.
Samambaias e musgos
nos rasos morros medram.
JOVEM NOVIÇO
NUM MOSTEIRO ZEN — I

A mansão de meu pai levanta-se no sul


entre o calor do sol e o ar do mar azul:
de noite estou sonhando, às vezes, com meu lar,
e as lágrimas me molham para me acordar.

Será que os meus colegas percebem também


o que há comigo? Assustam-me com seu desdém.
Idosos monges roncam como uns animais;
só eu, Yu Wang, esfrio-me e não durmo mais.

Um dia. um dia eu ainda pego o meu bastão,


calço as sandálias, e não fico aqui mais não:
por um milhar de milhas peregrinarei
de volta ao lar e à sorte que eu mesmo deixei.

Mas quando o mestre fita o olhar de tigre em mim


a penetrar-me, o meu destino eu vejo enfim:
sinto-me todo ardendo e todo me gelando,
envergonho-me, tremo, e fico e vou ficando.

234
JOVEM NOVIÇO
NUM MOSTEIRO ZEN — II

Seja tudo ilusão e fantasia,


permanecendo a verdade indizível:
entretanto, a montanha me contempla
com seu contorno bem reconhecível.

Cervo e corvo, rosa rubra e lilás,


azul de mar e mundo variegado:
se te concentras, tudo se desfaz
no grande Uno amorfo e inominado.

Recolhe-te ao mais fundo do teu ser


e assim aprende a ver, aprende a ler!
Concentra-te... e o mundo faz-se aparência.
Concentra-te... e a aparência faz-se essência.

235
LEJ NAIR

CPequeno lago negro do bosque


de Engadin sobre o Surlej)

Detrás de rígidas trancas de pedra


que as margaridas tentam suavizar,
há um negro espelho d’água para as nuvens
e a floresta e a montanha retratar.

A sombra azul e um a fresca umidade


enchem toda a baixada; e então parece
que, do lago para o clarão da neve
nos altos cumes, seu silêncio cresce.

Vale a baixo, com a sonenta chuva,


deslizam preguiçosos fios d’água;
em cima da lama e dos seixos pardos
branqueiam velhos esqueletos de árvores.

Olha fixo o pinhal e eSpalha sombras


o lariço; ainda há pouco tão vivaz,
o vento agora hesita e busca exausto
um lugar onde se deitar em paz.
LOUIS SUTTER*

A pintar quadros lindos e perfeitos,


a tocar no violino sonatas sem defeito
e lindas — a Kreutzer, à Primavera —
aprendi, já faz tem po, quando jovem
corria para o mundo aberto e claro:
eu era moço, era louvado e era am ado...
Mas certa vez me olhou pela janela,
a rir com a maxila descarnada,
a Morte — e o coração
gelou dentro de m im , gelou a mim
e me gela ainda hoje. Eu escapei,
vaguei de um lado para outro,
mas me pegaram e me puseram fechado
ano após ano. D a minha janela,
por entre as grades, ela me arregala os olhos
e arregalada ri. Me conhece. Ela sabe.
Em papel grosso às vezes pintó homens,
pinto mulheres, pinto Jesus Cristo,
Adão e Eva, o Gólgota,
não perfeitos, não lindos, mas sentidos.
Com tinta e sangue eu pinto, com verdade,
e a verdade é terrível.
Recubro a folha, risca sobre risca,
mais alta, mais grudada, cinza, prata, preta,
* Louis Sutter, músico e pintor, viveu de 1871 a 1942, foi dileto aluno do violinista Ysaye.
Acometido de tifo, passou as últimas décadas de sua vida num sanatório, onde fazia
desenhos com uma fúria genial, como se pode ver por sua obra publicada, muito depois
que ele morreu, pela editora Mermod,de Lausanne (Nota de H. Hesse).

237
e as pontas dos hieróglifos
deixo encresparem-se espalhados feito musgo,
crepitarem como granizo seco, afilarem-se em espinhas
[de peixe,
cinzentos véus, redes de linhas finas, teias de aranha,
vento na relva, trança de raízes, caligrafias,
rabisco dez mil linhas em blocos e mais blocos,
lisas, inchadas, arrepiadas,
em plumas flamejantes, empinadas, esquivas,
poupo aos rabiscos os corpos de neve,
jogo Jesus no chão
sob o fardo da cruz, voejam pássaros
como espectros num matagal de sonho, flores em flocos
a rir aflitas entre ervas murchas.
Eu às vezes esqueço,
eu às vezes conjuro tanta angústia,
eu às vezes escuto de distantes
anos de sombra, muitos anos, música:
sonata a Kreutzer... Mas na janela
sei que, nas minhas costas,
riem de mim.
Mas quem me conhece, quem sabe — é Ela.

238
UMA VEZ, HÂ MIL ANOS

Inquieto e com vontade de viajar,


ao acordar de um sonho esfacelado,
ouço dentro da nòite a melodia
que os meus bambus estão a sussurrar.

Em vez de me aquietar, de me deitar,


eu me sinto arrancar dos velhos trilhos
a me precipitar, a ir pelo ar
em vôo picado rumo ao infinito.

Uma vez, há mil anos, existiu


uma terra natal e um jardim onde
no canteiro onde se enterravam pássaros
a neve enrijecia os açafrões.

Quisera eu me estender em vôo de pássaro,


além do desterro que me enclausura,
até lá — até aqueles tempos cujo
ouro até hoje para mim fulgura.

239
RASCUNHADO NUMA NOITE DE ABRIL

Que existam cores:


azul, amarelo, branco, vermelho e verde!
Que existam sons:
soprano, baixo, trompa, oboé!
Que existam línguas:
vocábulos, versos, rimas,
delicadeza de acordes,
marcha e dança de sintaxes!
Quem com tais jogos brincou,
quem seus encantos provou,
terá sempre a sórrir-lhe e a encaminhá-lo
o coração e os sentidos.

O que amaste e desejaste,


o que sonhaste e viveste,
faz parte do teu saber:
foi deleite ou sofrimento?
Lá-bemol, sol-sustenido,
mi-bemol, ré-sustenido:
pode isolá-los o ouvido?
CANTO MÍNIMO

Poesia de arco-íris,
magia de luz morrendo,
felicidade em música diluída,
paixão no rosto da Virgem,
êxtase amargo da vida...

Flores batidas pela tempestade,


grinaldas postas sobre sepulturas,
alegria que não dura,
estrela que cai no escuro:
véu de beleza e de luto
sobre a voragem do mundo.
RANGER DE GALHO RACHADO

Já todo em lascas o galho


ano após ano pendente,
seco ao vento a ranger o seu cantar,
sem folhas e sem casca,
calvo e encardido de tanto viver,
farto de tanto morrer:
Duro e tenaz retine o seu cantar,
obstinado retine, com seu temor interno,
mais um verão,
ainda mais um inverno.
COMPOSTO PELA LINOTIPIA
LUNA. RUA CAMERINO, 162,
LOJA 2, RIO, E IMPRESSO PELA
EDITORA VOZES LTDA., RUA
FREI LUlS, 100, RJ, PARA A EDI­
TORA NOVA FRONTEIRA EM
JANEIRO DE 1976
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