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FUGAS | Público N.º 11.355 | Sábado 29 Maio 2021

Especial
Um mar de vinhos
para refrescar
o Verão

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2 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Tendências
NELSON GARRIDO

As modas que estão


a mudar a face
do vinho português
O vinho em Portugal nunca foi tão diverso e estimulante. Dos vinhos de talha aos vinhos
pouco extraídos e de intervenção mínima, o país balança também ao ritmo da moda,
embora haja quem ache que a verdadeira moda foi a “onda Parker”, iniciada a partir dos
anos de 1980, com os vinhos concentrados, extraídos e cheios de madeira. Pedro Garcias
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 3

MÉLANGE À 3
C O M B I N AÇ ÃO I D E A L
D E 3 G R A N D E S C A STA S
MÉNGE À 3 é uma mistura de ideias, talento e ousadia, às quais se juntaram
três castas – Tinta Roriz, Touriga Nacional e Alfrocheiro – para obter um vinho
descomplicado, ousado e absolutamente divertido. Uma porta de entrada
para os sabores do Dão, para desfrutar da maneira mais descontraída possível.

JUNTE-SE À FESTA!
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4 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Tendências
NELSON GARRIDO
a O produtor bairradino Luís Pato é Ribeirinho e dos seus outros vinhos
químico de formação e isso dá-lhe a clássicos. Vinhos da moda, em resu-
vantagem de perceber que as chama- mo, que comercializa sob a chancela
das Leis de Newton também se apli- Duckman, termo criado para subli-
cam ao negócio do vinho, em especial mar a sua rebeldia e sentido comer-
a Primeira e a Terceira Lei. O corpo cial (ver crónica).
teórico criado por Isaac Newton per- Sim, mesmo com atraso, a moda
mite a compreensão dos comporta- dos vinhos pouco extraídos e de baixo
mentos estático e dinâmico dos cor- álcool, a moda dos vinhos de ânfora,
pos materiais. A Primeira Lei, ou a moda dos vinhos ditos naturais, a
princípio da Inércia, postula que todo moda antibarricas, a moda dos espu-
o corpo continua em estado de repou- mantes de uma fermentação só (os
so ou de movimento uniforme numa chamados petnat) também chegaram
linha, a menos que seja forçado a a Portugal e vão fazendo o seu cami-
mudar aquele estado por forças apli- nho. Estão para durar ou serão ape-
cadas sobre ele. Estão a imaginar, não nas um fenómeno de uma geração?
estão, o que seria o mundo do vinho A moda E trouxeram coisas novas e exaltantes
se, de vez em quando, não surgisse dos chamados ao vinho português?
uma moda ou uma nova tendência vinhos
para o abanar? Seguiria monocórdico naturais, Os vinhos “pesadelo”
e estandardizado, ao sabor do gosto ou artesanais,
dominante e dos interesses das gran- ou de Dirk Niepoort, que tem estado na
des companhias mundiais. intervenção dianteira da renovação do vinho por-
A Terceira Lei diz basicamente que mínima, tuguês, baralha estas equações. A
“a toda a acção há sempre uma reac- é geracional. “moda”, na sua opinião, foi a onda
ção oposta e de igual intensidade”. Responde Parker. “Os vinhos de antes dos anos
Transposta para o vinho, ela assegu- a uma nova de 1980 eram mais equilibrados, mais
ra-nos que a seguir a uma moda ou geração mais austeros, menos gulosos, menos fru-
tendência se seguirá inevitavelmente preocupada tados, mais leves, com menos extrac-
algo novo e diferente. Também pode com o cão, menos grau e menos madeira
acontecer que a reacção se dê no mes- ambiente nova. Os jornalistas, nomeadamente
mo campo, mas com uma força e que procura Robert Parker, e pessoas como o [enó-
maior. Quando as grandes corpora- a diferença e a logo] Michel Roland, de Bordéus,
ções do vinho percebem que deter- autenticidade, entre outros, em conjugação com as
minada moda, mais ou menos alter- em detrimento novas universidades, os novos cursos
nativa, começa a ter impacto Ænan- do óbvio e da de viticultura e enologia e a procura
ceiro, entram nela. Porém, com este massificação desesperada de maiores maturações,
movimento estão a escrever as bases é que criaram esta nova tendência de
de uma nova disrupção, porque as fazer vinhos ‘pesadelo’”, defende.
modas são, por natureza, um desaÆo Na sua opinião, a partir dos anos 90
ao gosto dominante e ao poder insta- do século passado, “entrou-se num
lado. exagero que chamaria de ‘moda’ e que
Nos últimos anos, o mundo tem ultrapassou os limites do razoável”.
vindo a livrar-se do longo reinado do Agora “está a pendular-se para um
gosto do crítico americano Robert maior equilíbrio” e “penso que este
Parker, que, a partir do início dos caminho veio para Æcar”, embora “vá
anos de 1980 do século passado, haver pessoas que vão continuar a
“impôs”, de forma brilhante e admi- gostar desses vinhos pesados e inten-
rada, um estilo de vinho encorpado, sos”, diz. Dirk também os fez e com
retinto, extraído e com estágio em muito sucesso. Mas, a partir de deter-
barrica nova. Bastou a Califórnia e MIGUEL MANSO
minada altura, recuou quase em toda
Bordéus aceitarem as suas pontua- fez as primeiras 50 garrafas do futuro a linha e passou a fazer vinhos mais
ções como sentenças para a sua visão Quinta do Ribeirinho Baga Pé Franco. elegantes e mais contidos de álcool.
se tornar quase universal (houve sem- Como era coisa pouca para vender, Os admiradores dos seus Redoma
pre umas Gálias que resistiram, como dividiu-as pelos principais provado- e Batuta iniciais, por exemplo, estra-
foi o caso da indomável Borgonha). res mundiais, “para dar lastro à nharam e alguma crítica encarou esse
Luís Pato, um dos produtores colheita de 1995”, a primeira a ser novo caminho como um retrocesso.
nacionais que mais viaja e mais rapi- lançada comercialmente. Uma jogada Com o mercado e as tendências mun-
damente antecipa a mudança, tam- de mestre. A crítica inglesa Jancis diais de consumo do seu lado, Dirk
bém teve o seu arrufo Parker e até Robinson adorou o vinho e tornou-o não tem vacilado e vai replicando em
chegou a experimentar Cabernet Sau- reputado entre os consumidores mais todas as regiões onde faz vinho os
vignon na Bairrada, seguindo as pisa- esclarecidos. E até Robert Parker lhe mesmos princípios de elegância, fres-
das do pai. Mas percebeu depressa atribuiu 91 pontos em 100, a maior cura e contenção alcoólica. Alguns
que Portugal chega “sempre atrasado nota dada até então a um vinho tran- dos seus novos vinhos, como os da
às modas” e que o melhor é “esperar quilo português. Jancis ajudou ao linha Nat Cool, têm “apenas” a ambi-
que um dia surja a nossa vez”. Esque- prestígio do vinho, Parker ajudou às ção de serem leves e fáceis de beber.
ceu as castas francesas e passou a vendas. Hoje, o Quinta do Ribeirinho Outros, como os Turris e Charme,
apostar na principal casta tinta local, Pé Franco continua a ser uma das aspiram a ter a mesma durabilidade
a Baga. No início, foi difícil. O normal principais referências da Bairrada e dos elegantes tintos da Borgonha, por
era que, numa década, só um ou dois do próprio Luís Pato, que, no entan- exemplo. “Um aspecto que vai mudar,
anos fossem realmente bons para a pé franco (produtor directo, sem xertos americanos, imunes ao insec- to, já não vive só dos seus vinhos clás- já está a mudar, é o facto de os vinhos
Baga. O seu dia acabaria, no entanto, enxerto, como era a vinha em Portu- to, que também não se dá em terrenos sicos, os que verdadeiramente valem modernos serem feitos para se beber
por chegar sete anos depois de ter gal antes de a Æloxera a destruir quase de areia). a pena. No seu portefólio, há também novos. Os vinhos da Niepoort não
decidido plantar num antigo eucalip- por completo; a doença só foi estan- Em 1994, 14 anos depois de ter pas- brancos, tintos e espumantes que seguem essa lógica. São quase todos
tal 1,2 hectares de vinha de Baga em cada com a importação de porta-en- sado a engarrafar em nome próprio, estão nas antípodas do Quinta do vinhos de guarda. Os vinhos c
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6 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Tendências

equilibrados e harmoniosos e com existe nem certiÆcação, nem sequer mais extraídos com mais álcool e não rentes, recorrendo a técnicas de Cáucaso, provavelmente na que é
boa acidez e frescura envelhecem um conceito estabilizado. “Não acre- lhe passava pela cabeça abdicar de viniÆcação e recipientes distintos. hoje a República da Geórgia, um país
muito melhor do que os vinhos ‘pesa- dito que este tipo de vinho tenha sulfuroso para os proteger. “Na altu- Tiago está convencido que não se com uma grande diversidade de cas-
delo’”, garante. vindo para Æcar. O conceito não faz ra, o meu pai preferia vinhos mais trata de um ciclo passageiro, mas tas (os georgianos falam em 500) e
Pode ser, mas muitos vinhos tintos qualquer sentido”, defende Frederi- levezinhos e eu dizia-lhe que mais desvaloriza a sua dimensão. “Tem onde as ânforas de terracota (os pri-
da nova geração são feitos sem ambi- co Falcão, o presidente da Vinipor- valia beber um copo de um vinho mais peso nas redes sociais do que meiros recipientes usados na fermen-
ções de viverem muito tempo e tugal, a entidade que promove o bom do que dois de um vinho mau. na realidade”, garante. tação do vinho) eram enterradas para
alguns têm sobretudo acidez. Da vinho português no exterior. Hoje, ele prefere vinhos mais con- controlar a temperatura.
mesma maneira que houve exageros Tiago Sampaio, criador dos vinhos centrados e eu gosto de vinhos mais “A questão da Em Portugal, os vinhos de talha
na época Parker, também agora se Olho no Pé e Uivo (Douro) e consul- leves e equilibrados. Sinto que mudei ganharam expressão, sobretudo, no
sustentabilidade
assiste a “exageros no sentido contrá- tor dos vinhos Aphros, de Vasco em função do meu paladar. O álcool Alentejo, embora aqui não haja a tra-
rio”, admite Dirk Niepoort. E, se os Croft (região dos Vinhos Verdes), cansa-me”, explica. é a grande mudança” dição de enterrar as ânforas. Fazem-
exageros começarem a multiplicar- dois protagonistas desta nova onda, O interesse do mercado por este Acontece mais ou menos o mesmo se já desde os romanos e em muitas
se, é provável, como vaticina Luís também não gosta do termo “natu- tipo de vinho também ajudou, reco- com os vinhos de talha, outra moda aldeias alentejanas nunca saíram de
Pato, que a dada altura se assista a ral”. “PreÆro ‘mínima intervenção’ nhece, a par da necessidade de adap- que corresponde a um desejo de fazer moda. Apenas perderam prestígio.
um movimento contrário ou até a um ”, diz. No início, há uns 20 anos, Tia- tar os vinhos às vinhas que possui diferente regressando ao passado e à Agora, voltam a estar em alta e têm-se
retorno aos vinhos mais encorpados go também começou por ser um (situadas nos altos do Douro) e do origem do vinho. O vinho terá nascido estendido até outras regiões, num
e extraídos. produtor convencional. Fazia vinhos prazer que tem em fazer vinhos dife- há cerca de oito mil anos na região do movimento de puro mimetismo. Mas
Por agora, e apesar das diÆculda- ADRIANO MIRANDA
nunca serão vinhos de massas, por-
des colocadas pelas alterações climá- que as talhas são caras e difíceis de
ticas, os vinhos de baixa extracção e trabalhar.
pouco álcool são quase uma obriga- O bom desta e de outras modas
ção para mercados como o asiático, (como a dos vinhos biodinâmicos, que
por exemplo, lembra o produtor vieram para Æcar, embora diÆcilmen-
bairradino. “Os asiáticos gostam de te algum dia deixem de ser de nicho)
menos extracção por causa dos tani- é que têm permitido recuperar castas,
nos. Os taninos são maus para a comi- Em Portugal, vinhas esquecidas e até certos méto-
da asiática. Por outro lado, na Ásia, os vinhos dos de viniÆcação que haviam caído
há um elevado consumo feminino e de talha em desuso, alargando o espectro do
os vinhos com muito álcool afastam ganharam vinho português. Mesmo que algumas
as mulheres”, justiÆca. expressão, sejam efémeras, já deixarão um lega-
sobretudo, do importante. A evolução faz-se de
Os vinhos ditos naturais no Alentejo ciclos e o actual está cada vez menos
favorável para vinhos de dupla barrica
A moda dos chamados vinhos natu- nova e epifenómenos como o do Bafa-
rais, ou artesanais, ou de intervenção rela 17, um tinto do Douro de 17% de
mínima, é outra coisa diferente. É álcool que chegou a ter uma vasta
geracional. Responde a uma nova rede de apaixonados em todo o país
geração mais preocupada com o (ainda são muitos, na verdade). DiÆ#
ambiente e que procura a diferença cilmente haverá futuro para vinhos
e a autenticidade, em detrimento do assim, até porque a pressão antiál-
óbvio e da massiÆcação. É também cool, liderada pela Organização Mun-
“uma forma de os pequenos produ- RUI GAUDÊNCIO
dial de Saúde, é cada vez mais forte.
tores se esgueirarem por entre as Os ventos parecem, de facto, favo-
pernas das grandes empresas, de se recer produtores como Dirk Niepoort
afastarem dos vinhos dominantes, de e Tiago Sampaio ou o lado mais
volume”, diz Luís Pato. Apesar de Duckman de Luís Pato. Também
muitos destes novos vinhos “serem sopram a favor de produtos alterna-
ruins e durarem pouco”, porque são tivos, como os vinhos de lata ou os
mal feitos, sublinha, há cada vez mais vinhos de bag-in-box, sobretudo nos
consumidores disponíveis para acei- segmentos mais baixos. Mas favore-
tar imperfeições em nome da tal cerão ainda mais quem Æzer vinhos
autenticidade. realmente bons e quem der priorida-
Por outro lado, acrescenta Luís de à sustentabilidade e à pegada eco-
Pato, os produtores destes vinhos lógica no negócio do vinho. “A ques-
sabem que “estão a integrar uma tão da sustentabilidade é a grande
onda que não tem país e que os pre- mudança que está a acontecer, e essa
ços são mais ou menos iguais em todo veio mesmo para Æcar”, advoga Fre-
o mundo”. Ou seja, o vinho é valori- derico Falcão. O vinho actual é muito
zado em função do estilo e não da sua pouco amigo do ambiente e, se qui-
origem. Graças a isso, alguns vinhos serem ter futuro, os produtores vão
portugueses da onda natural conse- ter que colocar um travão ao uso
guem atingir preços nos mercados indiscriminado de produtos químicos
mais exigentes e cosmopolitas supe- na vinha e na adega, ao desperdício
riores aos de vinhos portugueses clás- de água, à aposta em garrafas pesadas
sicos e mais reputados. e embalagens excessivas e até à forma
Trata-se, portanto, de um cami- como fazem chegar o vinho até ao
nho apetecível e que começa já a consumidor. Sim, o envio de vinho a
atrair algumas grandes empresas, granel para ser engarrafado no desti-
apesar da confusão que o termo no também está de regresso. São as
“natural” continua a gerar, pois não Leis de Newton a funcionar.
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Meia história
a branco e tinto.

Só o nome é meia história.


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8 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Região de Lisboa
FOTOS: DR

Colares vai seguir


a Colares tem história e notorieda- Ramillo
de. Tem um clima e um sistema vití-
O Ramisco é uma aventura
cola que desaÆam a racionalidade
agrícola. Tem castas únicas que que vale a pena
outrora se espalharam por 1000

o exemplo do Pico?
hectares (hoje terá menos de 30).
Tem vinhos tão difíceis novos quan-
to sublimes com tempo de garrafa.
E vive, paredes meias, com Sintra
– Património da Humanidade. Ago-
ra, o que tem isto a ver com a região Pedro Ramillo é designer e o irmão
do Pico? Quase tudo. Nuno é engenheiro civil. Em 2013,

Nove denominações de origem traduzem-se numa Na ilha, cujas vinhas são Patrimó-
nio da Humanidade, também há
pegaram nuns pedaços de terra her-
dados dos pais que rondavam 0,5

diversidade de perƊs de vinhos que já merecia mais história, irracionalidade, teimosia


humana, engenharia primitiva e
hectares. Oito anos depois, estão
perto dos 20 hectares. Dois de chão

atenção por parte dos consumidores. Entre tanta carácter vitícola v incado. Mais
importante, para os vinhos de Cola-
de areia, em Janas, e os restantes em
chão rijo, na encosta do rio Lisan-

riqueza, vale a pena destacar a região de Colares res ou do Pico, há consumidores


que pagam 25, 40, 100 ou 160 euros
dro.
Plantar uma vinha em chão de

porque, em muitos aspectos, poderá renascer das por uma garrafa. Não por uma ques-
tão de exibição, mas por reconheci-
areia cai no cúmulo da irracionalida-
de, em particular no caso da casta

cinzas – à semelhança do que aconteceu com a vinha mento do esforço e da aventura que
é fazer vinhos em Colares ou no
Ramisco. Primeiro, é preciso encon-
trar material vegetativo (coisa rara).

no Pico. Edgardo Pacheco Pico. E é por isso que aqui arranca-


mos com dois bons exemplos.
Segundo, fazer covas na areia até
encontrar terra (isto pode variar c
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VINHOS DO ALENTEJO ENOTURISMO. VINHO DE TALHA . SUSTENTABILIDADE

Mês da GRANJA AMARELEJA


As 8 sub-regiões da DOC Alentejo
1. Borba 5. Portalegre
2. Évora 6. Redondo
3. Granja/Amareleja 7. Reguengos
4. Moura 8. Vidigueira

GRANJA-AMARELEJA

Sobre esta sub-região Casta Moreto


Alonga-se com a fronteira espanhola, A casta Moreto é uma casta tradicional
disposta em redor da vila de Mourão. É do Alentejo, nomeadamente na
aqui que subsiste um dos climas mais sub-região vitivinícola da Granja-Amare-
áridos e inclementes de Portugal. Os leja. Casta produtiva, de maturação
solos são pobres, forrados a barro e tardia, com baixos teores de açúcares,
xisto, proporcionando rendimentos pelo que é geralmente a última casta a
ENOTURISMO muito baixos, condicionados pela falta ser vindimada. Casta de elevada
A Rota dos Vinhos do Alentejo integra um total de 75 adegas que apresentam uma oferta de água, pelo baixo índice de matéria robustez e produtividade, indicada
bastante diversificada, sólida e integrada. A oferta de serviços aos visitantes é variada, orgânica e pela superficialidade da para zonas de calor extremo.
desde uma simples visita às vinhas e à adega, até à realização de provas de degustação, ao cobertura vegetal. É uma zona de
serviço de refeições ou mesmo à sugestão de dormidas, com hotéis rurais que mostram o extremos que dá origem a vinhos de Talha
Seja responsável, Beba com moderação.

charme e a tranquilidade da paisagem alentejana carácter vincado. Os Verões muito Foram os romanos que generalizaram a
quentes e secos implicam maturações cultura do vinho e da vinha no Alentejo. A
SUSTENTABILIDADE precoces, acomodando vinhos quentes e influência romana foi tão decisiva para o
Produzir de forma sustentável na vitivinicultura significa que é preciso ser economicamente suaves, de grau alcoólico elevado. A desenvolvimento da viticultura alenteja-
viável, sensível ao meio ambiente e atento às necessidades e interesses da sociedade. Em casta Moreto, uma das variedades mais na que ainda hoje, mais de 2.000 anos
maio de 2015 a CVRA lançou o Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo. características da sub-região, adaptou- passados, as marcas da civilização
-se especialmente bem a esta sub-região. continuam a estar presentes nos mais
O Alentejo, para além de pioneiro, é a única região do país com um programa de sustentabilidade. de 20 produtores de Doc Alentejo.

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Vinhos do Alentejo
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10 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Região de Lisboa

entre 0,5 metros e 1, 5 metros). Ter- mos perante uma vinha tão histórica
ceiro, esperar que a planta vingue. quanto bonita, cuja base das plantas
Quarto, tapar as covas iniciais. Quin- assentam em calhaus de calcário. E
to, esperar que a vinha comece a o facto de estar numa encosta alta,
produzir alguma coisa de jeito. E, com bom arejamento, impede o apa-
sexto, que o tinto se deixe beber. De recimento de focos de humidade – o
um hectare de Ramisco, na vinha do grande inimigo da casta. O facto de
Camejo, produziram-se, entre 2016 um enólogo contribuir para a salva-
e 2018, 300 quilos de uva por ano. guarda deste património genético já
Em 2019, deu-se um salto para 800 é meio caminho andado para gostar-
quilos e, em 2020, a enormidade de mos de um vinho que, já agora,
2200 quilos. merece ser decantado uma hora
Donde, a pergunta que se impõe: antes de o bebermos.
vale a pena o risco? A resposta de Esta questão da preparação de
Nuno Ramillo: “Sim, vale, quando há certos vinhos brancos antes do ser-
capacidade de posicionar estes viço – não, não é uma regra só para
vinhos nos canais correctos.” tintos – irá merecer um dia um artigo
É evidente que a rentabilidade des- próprio, mas convém, hoje, dizer
te projecto familiar resulta de outros que se este Vital Vinhas Velhas for
vinhos produzidos com castas regio- decantado uma hora antes de ser
nais e não regionais, mas não se pode bebido, a oxigenação vai melhorar
dizer que uma garrafa de Ramisco da muito o seu perÆl aromático. Vamos
marca Ramillo, de 2016, vendida a sentir melhor uma certa mistura de
160 euros, seja um negócio desinte- aromas minerais com algumas Çores
ressante. E muito menos ainda quan- secas e bolbo de funcho. Mas é na
do parte da próxima colheita ainda boca que ele mostra por que razão a
nem foi engarrafada, mas já está paga casta Vital é especial: mineralidade,
por um importador asiático. estrutura, untuosidade, tudo muito
Os vinhos de Malvasia, de Vital ou equilibrado. À medida que o tempo
de Castelão merecem uma prova passa ora sentimos mais fósforo, ora
com tempo, mas, de facto, o Ramisco mais fruta, ora mais ervas secas. Um
2016 é um desaÆo permanente sem- desaÆo.
pre que se roda o copo. Notas de Vital Vinhas Velhas
casca de frutos vermelhos, de bos- 20€
que, de eucalipto, de caruma, de
cedro e por aí fora. Na boca, a pri- Quinta do Cerrado da Porta
meira sensação é vegetal e adstrin-
Muito se faz com Pinot Noir
gente, seguida dos sabores dos tais Como já foi explicado neste arti- ra aromática (notas cítricas e Çorais um trabalho muito minucioso na
frutos vermelhos, mas tudo termina go, quem quiser ganhar dinheiro em bom trabalho de barrica) e por fermentação e trabalho de madeira,
num jogo longo e harmonioso de depressa deve esquecer a viticultu- causa dos sabores que começam visto que há muito equilíbrio entre
acidez, taninos e álcool. ra, mas Joaquim acaba por juntar com a tal carga de sal, mas envolvi- as notas Çorais da casta e certos aro-
Ramisco 2016 uma veia romântica com outra de da por estrutura com untuosidade mas de pastelaria Æna. Em certo
160€ empresário que sabe que certos e boa acidez. Um verdadeiro desaÆo sentido, parece um perfume. Na
negócios precisam de tempo para à mesa. boca vai pelo mesmo caminho. Com Não nos enganaremos se aÆrmarmos
Quinta San Michele vingar. Muito tempo. As três marcas Malvarinto 2017 textura elegante, volume, boa aci- que este Peripécia – da Quinta do
que neste momento produz de dois 22,50€ dez, está feito para dar prazer agora Cerrado da Porta – é o único Blanc
Alguém meteu sal no copo?
hectares de Arinto e Malvasia (mais e durante uns bons anos. É comprar de Noir (vinho branco feito de uvas
uma nova parcela de Galego Doura- Casa das Gaeiras e guardar. tintas) de Pinot Noir criado em Por-
do instalada num terreno vizinho) Casa das Gaeiras Maria Gomes tugal. Em tese, este conceito de
A finura numa garrafa
só saem para o mercado depois de 12€ vinho nem nos entusiasma por aí
dois anos e tal de estágio na adega além, em virtude de a eliminação da
porque o produtor quer que os con- Adega Mãe matéria corante tornar o vinho ino-
A família de Joaquim Camilo produ- sumidores sintam complexidade e doro na boca. Mas aqui não é o caso.
E sai um Vital da montanha
ziu vinho e azeite na região das Bei- não aromas e sabores primários nos Nem de longe nem de perto.
ras. Tendo feito a vida proÆssional seus vinhos. É certo que, às cegas, não diríamos
noutras paragens, seria natural que, E, neste caso, a complexidade Maria Gomes é, como se sabe, o que se trata de um Pinot Noir, mas o
mantendo a paixão pela agricultura, chega-nos, acima de tudo, pelo nome que se dá à casta Fernão Pires vinho caiu-nos em graça desde logo
regressasse à terra natal. É um clás- carácter salino dos vinhos. Vem esta na Bairrada. É uma das mais impor- pelos tons de laranja pálido, bonito
sico. Mas não foi isso que aconteceu. salinidade do mar? É possível, mas tantes castas brancas portuguesas, de ser ver no copo. Depois, em maté-
O empresário resolveu instalar uma a verdade é que há vinhos criados muito usada nas regiões de Lisboa, Não se deve falar da região de Lisboa ria de aromas, alguma fruta subtil
vinha na região de Colares ( Janas), mais próximos do Atlântico e menos Tejo e Península de Setúbal. sem colocar na conversa um branco (nêspera) com cheiro de casca de
com o maior apoio cientíÆco em marcados por esse carácter salino. Não sabemos se o nome Maria de Vital, a casta que quase desapare- uva. Na boca, lá está, não se diria às
matéria de castas, preparação de Será dos solos calcários? Dos ventos Gomes – e não Fernão Pires – foi cia, mas que começa a ser cobiçada cegas que é um Blanc de Noir. Tem
solos, exposição e por aí fora. E por de noroeste? Não sabemos. escolhido por ter uma sonoridade por alguns produtores. textura, tem taninos e muita graça
falar em exposição, da sua vinha Mas o que podemos garantir é que mais reÆnada, mas, sendo o caso, Diogo Lopes, da Adega Mãe, des- para acompanhar peixes. É o que se
vê-se a encosta de Sintra, as casas o Malvarinto 2017 (um feliz nome até foi bem pensado, porque este cobriu umas vinhas velhas na serra chama uma peripécia que pode dar
apalaçadas distribuídas pela paisa- para juntar duas grandes castas branco da Casas das Gaeiras (sub- Montejunto e, vai daí, tudo fez para boa conversa à mesa.
gem e, no alto, o Palácio Nacional da numa mesma garrafa) é um vinho região Óbidos) e da colheita de 2019, que o senhor DelÆm não se desÆzes- Peripécia Blanc de Noir
Pena. desaÆante por causa da sua estrutu- tem grande Ænura. Nota-se, aliás, se delas. E em boa hora, porque esta- 9,40€
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12 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Vinhos Verdes

Em barricas ou em
a Apesar de hoje nos parecer já uma cidade de guarda e envelhecimento
coisa pré-histórica, o certo é que não e destacar-se à mesa em qualquer
vão ainda muito longe os tempos em circunstância.
que os Vinhos Verdes tinham uma Ora, isto exige vinhos com mais
forte ligação com as barricas de corpo e estrutura, normalmente asso-

cubas, há vinhos
madeira. As cubas de inox são uma ciados à fermentação e/ou estágio em
inovação não muito longínqua e a barricas. Mas será que isso é mesmo
modernização que as trouxe para as assim nos Vinhos Verdes? Fernando
adegas é ainda mais recente. A ques- Moura, que é uma espécie de decano
tão era que anteriormente os cascos dos enólogos da região e há muito faz

verdes para todas


eram de madeira inócua e serviam vinhos em todas as latitudes dos Ver-
apenas como instrumentos de depó- des, defende que para se utilizar a
sito e armazenamento dos vinhos, barrica como instrumento enológico
bem ao contrário do que hoje se pre- os vinhos precisam de ter uma boa

as ocasiões
tende com a utilização de barricas. estrutura de álcool – “nunca abaixo
Nos vinhos verdes, o conceito foi dos 13%” – associada a uma elevada
durante muito tempo – e ainda pre- acidez.
domina – de que dispensam o uso de Com experiências de fermentação
barrica, não só pelas suas ditas carac- em barricas desde 1995 na Adega de
terísticas de fruta, frescura e juventu- Monção, será talvez o precursor, dei-
de, mas também porque em regra xando entender que esta é uma solu-
não têm a estrutura que justiÆque a ção residual, ditada mais pela estra-
passagem pelas barricas. A verdade, tégia de mercado do que pela neces-
no entanto, é que os tempos têm sidade do uso da barrica para obter
mudado com grande rapidez e na grandes vinhos. “As experiências são
região vitícola onde até as plantas sobretudo com Alvarinho, em Mon-
crescem mais rapidamente os ventos ção, onde tenho agora dois balseiros
de mudança têm soprado também ovais, e com os Avesso, na zona de
com grande intensidade. Baião.”

A utilização das barricas como instrumento O facto é que a região tem procura-
do descolar rapidamente da imagem
Nesta sub-região colada ao Douro,
aponta o vinho Esculpido, na Quinta

enológico, e não apenas como depósito, começa dos vinhos simples, frescos e fruta-
dos, tendo até avançado com o con-
de Santa Teresa, da A&D Wines, a par
de uma nova experiência que está a

a ter mais adeptos na região dos Vinhos Verdes. ceito de que “há um Verde para todas
as ocasiões”, a querer mostrar que os
fazer na Quinta de Aregos. Já em Mon-
ção, o uso de barrica tem sido assu-

José Augusto Moreira vinhos da região podem ser também


complexos e estruturados, ter capa-
mido nos últimos anos com o Deu-La-
Deu Premium. E resultados? “Os
PAULO PIMENTA
vinhos ganham mais estrutura e força
aromática e por vezes a madeira aju-
da também a limar algumas arestas
nos mostos mais selvagens”, anota.
Ainda sem resultados, o enólogo dá
conta das experiências que tem em
curso na Quinta da Raza, na sub-re-
gião de Basto, com a casta Godelho e
também com Azal.
Jorge Sousa Pinto, outro enólogo
experimentado e com presença nas
várias sub-regiões, diz acreditar que
o recurso à barrica como instrumen-
to enológico terá começado no início
dos anos de 1990 muito por efeito
daquilo que se tem designado pela
“Parkerização”, sobretudo à procura
das notas tostadas, abaunilhadas e
amendoadas que davam boas pon-
tuações da crítica. Um efeito, no
entanto, muito mais sentido na vizi-
nha Espanha que por cá.
Hoje, entende que o mercado exige
esta solução – “o conceito de vinhos
Reserva a isso induz os consumido-
res” – e que o segredo está na utiliza-
ção de métodos e tipos de madeira
que não marquem os vinhos. Um esti-
lo que está bem expresso na Quinta
do Regueiro, com um Alvarinho que
leva o recurso a barricas expresso no
rótulo e é hoje um dos expoentes da
região.
Entusiasta e pioneiro no estudo e
experiências com o uso de barricas,
Anselmo Mendes há trinta anos que
põe no mercado vinhos criados de
Alvarinho em barrica. Com gran- c
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14 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Vinhos Verdes
FERNANDO VELUDO/NFACTOS

de aceitação e sucesso, não só em Quinta de Carapeços


Portugal, como sobretudo na expor- Vinhão
tação, onde os seus vinhos competem
lado a lado com os melhores brancos
do mundo.
Foi a paixão pelo Alvarinho e pelos
grandes brancos da Borgonha que o
levou a estudar e experimentar pro-
fundamente a conjugação entre o A fermentação e estágio em madeira
vinho e o contacto com a madeira. domam-lhe a rusticidade típica da
Como exemplo aponta o seu Muros Entusiasta e casta, conferindo-lhe um perÆl mais
de Melgaço, um vinho perfeitamente pioneiro no soÆsticado e apelativo. Com evidência
aÆnado, com estrutura, corpo, aroma estudo e de frutos negros e silvestres, é um
varietal, madeira discreta e uma gran- experiências vinho muito concentrado na cor,
de capacidade de envelhecimento. com o uso de encorpado, denso, com taninos mui-
Com experiências há mais de uma barricas, to presentes e alguma rusticidade. A
década com Avesso e Alvarinho, tam- Anselmo forte acidez, aqui amaciada pelo está-
bém António Sousa entende que o Mendes há gio, é outra das suas marcas identitá-
uso da barrica se justiÆca apenas nos trinta anos rias. Para apreciadores do estilo.
vinhos que apresentem boa estrutura que põe no
e acidez, coisa que, no entanto, está mercado Casa de Paços Loureiro
cada vez mais longe de ser uma rari- vinhos criados Reserva
dade. Com frequência recorre ao de Alvarinho
estágio em madeira “com Alvarinho em barrica
de todas as sub-regiões e excelentes
resultados”.
Além do volume, estrutura de boca
e texturas mais macias, o enólogo que Vinho 100% Loureiro de vinhas
apoia dezenas de produtores destaca velhas, na zona de Barcelos, sub-re-
também a boa evolução que tem gião Cávado, com estágio parcial de
registado com o envelhecimento des- madeira. A outra parte do lote fer-
ses vinhos, destacando o caso Avesso menta em aço inoxidável. O estágio
Reserva da Casa Vilacetinho, na sub- decorre durante seis meses em barri-
região de Amarante. Agora, está a ca carvalho francês de segundo ano,
experimentar também o uso da de 300 litros. O vinho permaneceu
madeira em vinho das castas Azal e nas borras Ænas por nove meses. Aro-
Arinto, e mostra-se entusiasmado. mas subtis e elegantes, cítricos e de
“Ainda não estão prontos para ir para frutos e Çores brancas, sabores a
o mercado mas estão muito interes- limão e pêssego branco. Boca com-
santes”, regozija-se. plexa e harmoniosa, elegante com
“Para se aÆrmar, a região precisa muita untuosidade, sabor frutado e
naturalmente de ter grandes vinhos boa persistência.
com madeira”, reforça por seu lado
Sousa Pinto, que, além de Monção e Aveleda Ícone – Manuel
Melgaço, onde também usa madeira Pedro Guedes
no Quintas de Melgaço Homenagem,
tem também experiências na Quinta
de Santa Cristina (sub-região de Bas-
to) e na Quinta de Carapeços (sub-re- Por ele, já o faz com os vinhos de vinho um extra de complexidade e ção na integração com a madeira. Ao
gião de Amarante). Santa Cristina e Carapeços e cita até finesse. Aroma muito fresco, boca longo destes anos tornou-se uma refe-
Como requisitos, aponta os índices que lhe dá imenso gozo quando os dá vibrante, corpo elegante, paladar rência em Portugal pela sua elegân- Inspirado no primeiro blend que a
elevados de teor alcoólico e de acidez a provar às cegas e todos identiÆcam intenso, com fruta delicada, notas de cia, classe e consistência. Quinta da Aveleda produziu, apenas
e ainda pH baixo. Quanto à questão como vinhos do Douro. “Só a cor é hortelã fresca, e um Ænal intenso e as melhores uvas de Loureiro e Alva-
da utilização de barricas que não mar- que é ainda um pouquinho mais car- sempre fresco e saboroso. A grandeza Vilacetinho Reserva rinho (90%) provenientes das
quem muito os vinhos e permitam regada”, remata, como a provar que dos melhores Alvarinho! Avesso melhores parcelas da quinta são
uma boa micro-oxigenação que já há mesmo Verdes para todas as seleccionadas para este vinho.
garante complexidade, conta que tem ocasiões. Muros de Melgaço Selecção bago a bago, com metade
grandes expectativas com as expe- a ser fermentada em barricas de
riências que tem em curso com bar- Regueiro Barricas carvalho francês e outra parte em
ricas de acácia. inox. Metade do lote estagia duran-
Outra questão é a dos vinhos tintos, Uvas de vinhas sobre o rio Douro, te oito meses em barricas de carva-
sobretudo da casta Vinhão, defenden- voltadas a sul em terrenos de nature- lho francês, sendo que apenas meta-
do que a região se deve esforçar por As vinhas são de encostas expostas a za granítica Um Avesso com carácter, de é de madeira nova. Só uma
criar um novo perÆl, “mais educado sul, com elevada maturação e níveis fermentado em barricas de carvalho pequena parte do vinho é seleccio-
e consensual”. Vinhos com menos ReÆnado e elegante, com frescura e altos de acidez. Fermenta e estagia francês e posterior estágio durante nada, sendo escolhidas apenas as
extracção e mais delicados, mas tam- complexidade verdadeiramente notá- em barricas de carvalho francês com um ano, a conferir estrutura e com- melhores barricas e cubas para
bém com taninos domados pelo efei- veis. Estagia em barricas usadas de bâtonnage sobre borras totais duran- plexidade. Com notas a baunilha, é composição do lote Ænal, que repou-
to do estágio em madeira. “Uma gran- 700 litros, mas o mais evidente da te seis meses. A sua complexidade e um vinho gastronómico com muita sa depois ainda um ano em garrafa
de região para se aÆrmar não pode madeira está mesmo no rótulo. Com- excelência resultam de cerca de 30 frescura e mineralidade e potencial antes do lançamento. Icónico, natu-
ter só brancos”, sustenta. pletamente integrada, dá apenas ao anos de estudo no alcance da perfei- de guarda. ralmente.
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16 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Entrevista a Jorge Rosas

“A única safa
que o Douro tem
é a qualidade”
No ano em que a Ramos Pinto entra no jogo das
grandes apostas do DOC Douro com um
Ervamoira de 2018, Jorge Rosas faz o balanço
do seu mandato na empresa de capital francês e cola
o seu destino ao da região: o Douro e a Ramos Pinto
não têm vocação para o mercado de massas
nem para os preços baixos. Manuel Carvalho (texto)
e Manuel Roberto (fotos)
a Jorge Rosas faz parte daquelas têm sido bons, apesar de este ano não havia alguns produtores - Ferreira,
linhagens familiares do Porto com ter sido ao nível do que costumamos Quinta da Pacheca ou a Quinta do
séculos de ligação aos vinhos do Dou- ter. Côtto, que eram muito voltados para
ro. O seu pai, José António Ramos O volume de negócios caiu Portugal e para os mercados lusófo-
Pinto Rosas, era um visionário e um quanto? nos. Nós fomos os primeiros a lançar
estudioso; o seu primo, João Nicolau Um pouco mais de 20% de quebra. um projecto de raiz de DOC Douro:
de Almeida, um transgressor que A Ramos Pinto (RP) está muito orien- plantámos uma vinha de raiz, nos
seleccionou castas e mergulhou de tada para o on trade, para os restau- Bons Ares, Æzemos uma adega de raiz
cabeça no DOC Douro. Jorge herda a rantes. Deve ser difícil encontrar um para DOC Douro e estivemos pratica-
empresa que a família vendeu em restaurante que se preze em Portugal mente dez anos sozinhos no mercado
1990 aos franceses da Louis Roederer que não tenha Duas Quintas ou Bons internacional com o Duas Quintas. E
e aceita o desaÆo de a manter inova- Ares. Estamos muito vocacionados isto foi na década de 1990. Depois, no
dora e selectiva. No Porto ou no DOC para aí. Para lá disso, ouço falar de 17 Ænal dessa década começam a apare-
Douro, a ideia é vender menos, mas milhões de turistas que vinham a Por- cer uma série de produtores - Vale
vender bom e, principalmente, tugal e deixaram de vir, simplesmen- Meão, Douro Boys, enÆm -, e toda a
caro. te. Portugal continua a ter um peso gente dizia que isso iria ser péssimo Essa é que é a batalha para nós.
Chegou à administração da importante nas nossas vendas, apesar para nós. Nunca achámos isso. O tem- Tentar posicionar os nossos vinhos
Ramos-Pinto em 2012 e assumiu a de vendermos em quase 100 países. po provou que tínhamos razão. no preço que nós achamos que eles
direcção-geral da empresa em Vendem mais lá fora ou cá? A concorrência acabou por merecem.
2016. Cinco anos depois, o que Em volume vendemos mais cá, mas puxar por vós? Nesse percurso, ser o sucessor de
mudou na casa? em facturação, na média dos últimos Sim, puxou. Nós chegávamos a duas personalidades tão importan-
Mudou um bocadinho a orientação
estratégica para tentarmos subir ain-
anos, vendemos mais fora. SigniÆca
que o preço médio lá fora é mais ele-
Nova Iorque e a garrafa de Duas Quin-
tas estava na prateleira “Outros”, jun-
O grande passo tes e tão emblemáticas na empresa
e no sector, como o seu pai ( José
da mais a qualidade dos vinhos. A
ideia é, a médio-longo prazo, manter
vado.
A maior quebra foi, por isso, em
to com a Bulgária e países assim, com
denominações de origem mais obscu-
é fazer um Ramos Pinto Rosas) e como o João
Nicolau de Almeida, foi uma enor-
as vendas estáveis, mas melhorar a
qualidade. Temos feito grandes esfor-
Portugal.
Foi. Sobretudo este ano. Estamos a
ras. Estávamos no Æm da loja, na pra-
teleira de baixo. A partir do momento
vinho como o me responsabilidade...
Sim. São duas personagens que já
ços e investimentos em termos de
vinha e de adegas.
aumentar as vendas na exportação
neste primeiro trimestre
em que aparece uma prateleira Portu-
gal ou Portugal/Espanha, ou Espanha/
Ervamoira de fazem parte da história do Douro.
Portanto, como dizem os franceses,
De que volume estamos a falar?
Num ano normal, 800 mil garrafas
Em perspectiva, nestes cinco
anos o que tem corrido melhor: o
Portugal, isso já te começa a dar mais
visibilidade. Portanto, foi bom para
2018. Durante tenho de fazer o meu prénom. O meu
pai sempre lutou pela qualidade. Eu
de DOC Douro, incluindo o Regional
Duriense, os Bons Ares, e 1,2 milhões
Porto ou o DOC Douro?
Se me tivesse perguntado há uns
nós. Abrimos o caminho para a deno-
minação na exportação, mas depois
quatro anos acho que é esse o caminho e não há
outro, sobretudo no Douro, onde os
de Porto. Ainda temos uma propor-
ção maior de Porto do que de vinhos
anos diria que seria o Douro, mas ago-
ra acho que tanto um como o outro
correu bem. Agora o passo seguinte é
tentar mostrar na exportação que Por- andámos à custos de produção têm aumentado
de forma exponencial, onde a mão-
não fortiÆcados.
Os resultados, portanto, vêm
estão a correr bem. O Douro começa
agora a ter uma projecção internacio-
tugal é capaz de fazer vinhos de alta
qualidade ao preço que merece, ao procura e agora de-obra é mais difícil, os custos sala-
riais aumentam todos os anos. A
pelo lado do valor acrescentado.
Têm aumentado o preço?
nal. A RP foi a primeira casa do vinho
do Porto a colocar vinhos DOC Douro
mesmo preço dos vinhos bons de
denominações da França ou Itália. conseguimos única safa que o Douro tem é a qua-
lidade. E nós estamos a tentar puxar
Sim, a ideia é essa. Os resultados no mercado internacional. Antes Essa batalha é mais difícil? a coisa para cima.
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 17

Não fazia sentido terem como as ça na lata o nome Porto escarrapa-


outras empresas um vinho de ata- chado. E, pelos vistos, o Instituto dos
que, de gama mais baixa e com Vinhos do Douro e Porto (IVDP)
maior volume? garantiu que isso não vai acontecer.
Não, não faz. Por um lado, porque O instituto tem registado a marca
nós queremos posicionar-nos como Portonic. A denominação de origem
a Hermès, ou a Louis Roederer ou o parece-me nesse caso protegida.
Rolls Royce da região do Douro. Nós Essa é a preocupação que eu tenho.
representamos em termos de vinho Mas a RP não tem perÆl para fazer
do Porto 1% da quota de mercado. este tipo de produtos - isto já não é
Pertencemos às grandes marques, um vinho, é um produto.
como diriam os franceses, mas somos A RP representa 1% do vinho do
muito pequenos comparados à Sogra- Porto. Olhando ao que se passou
pe ou aos Symington. Somos peque- nos últimos anos, com um enorme
níssimos. A nossa estratégia sempre processo de concentração no sec-
foi, já antes de a minha família ter tor, a RP continua a ser uma
vendido a empresa aos Rouzaud, da empresa autónoma com uma quo-
Roederer, foi fazer vinhos com uvas ta tão pequena apenas porque está
próprias. Acreditamos que a única sob a égide de um grande grupo
forma de fazer grandes vinhos é ter internacional?
controlo total sobre a viticultura. A Roederer é o maior grupo do
Compramos uvas? Compramos, mas mundo que se dedica à produção de
em percentagem ínÆma quando com- vinhos de altíssima qualidade. Nas
parada com as outras empresas. denominações onde estão, estão sem-
Quantos anos mais acredita que pre entre os melhores. A Roederer
o vinho do Porto vai ter um peso pode ser considerada como a Rolls
maior nas vossas vendas do que o Royce do mundo dos vinhos. A RP
DOC Douro? Havendo qualquer continua com uma gestão completa-
oportunidade de crescerem em mente independente. Não temos um
volume, será mais pelo lado do único francês na RP. Não há ninguém.
DOC Douro? Ao Æm de 31 anos, e isto é uma coisa
Eu acho que sim. Infelizmente acho única, não se conhece quem tenha
que sim. comprado 100% de uma empresa a
Porquê infelizmente? uma família e mantenha a família, os
Porque o vinho do Porto devia cres- descendentes dos fundadores à fren-
cer. te dessa empresa.
Mas não cresce porquê? Por fal- Isso é confiança?
ta de mercado? Sim, conÆança por um lado, mas
Acho que - eu gostaria de dizer isto também das provas que temos dado.
off the record... A verdadeira razão é Eles são muito exigentes. Eles acredi-
que nós, portugueses, quantas vezes tam que a empresa tem rentabilidade
é que bebemos vinho do Porto? As se os vinhos tiverem qualidade. Essa
pessoas bebem pouco Porto e têm é a sua maior exigência. Tanto em
pouca educação para o vinho do Por- termos de qualidade como em termos
to. Como todos os vinhos do mundo, de resultados Ænanceiros, temos dado
os Porto são complicados. Vais a Bor- provas.
déus e tem tantas appellations: Sainte- Mas há um grande apoio deles
Estèphe, Saint-Émilion, solo aqui, principalmente ao nível da distri-
solo de pedras roladas ali; vais à Bor- buição. Fazer parte do portefólio
gonha e ainda complica mais. No Roederer abre portas.
Nesse legado já tinha a vanta- este vinho. Temos feito provas inter- queremos dar, e ainda é cedo para se Porto temos rubys, tawnies rosés e A área comercial da RP é dirigida
gem de estar numa empresa com nacionais e as pessoas Æcam encan- falar disso, é fazer um vinho de uma dentro de cada família crusted, LBV, pela RP. As estratégias comerciais
a marca do pioneirismo e da ino- tadas. Ervamoira é uma coisa espec- parcela só. Um zoom ainda mais pró- ruby e ruby reserva... as pessoas são implementadas por nós. Nós
vação. Onde estão hoje esses ras- tacular e não fazia sentido que não ximo. Æcam baralhadas com isto. temos uma autonomia enorme em
gos na sua gestão e na RP actual? houvesse um grande vinho que viesse Ervamoira? Uma simplificação tornaria as todas as áreas de gestão da empresa.
Nos DOC Douro, por exemplo. Até dali. Há um grande vinho do Vale Vamos guardar isso para outro pessoas a ficarem mais próxi- Eles gostam com regularidade de vir
agora fazíamos dois grandes tipos de Meão, há um grande vinho da Quinta momento (risos). mas? cá. O Jean-Baptiste Lécaillon, o enó-
vinho: a Quinta dos Bons Ares, que da Leda e ali não havia. Era um blend. O Quinta de Ervamoira vai ser Está a haver uma revolução. Há logo que supervisiona o que está a
tinha uma certa proporção de castas A nossa intenção é reduzir um pouco produzido todos os anos? quem faça vinho do Porto branco acontecer nas diferentes regiões,
estrangeiras (Cabernet Sauvignon no a quantidade de Duas Quintas Reser- Não. Achamos até que 2020 não com água tónica em lata... gosta de vir cá provar e dá conselhos,
tinto, e Sauvignon Blanc, no branco) va, porque uma parte destas uvas vamos fazer. 2019 é possível, mas ain- A RP vai entrar nesse negócio? mas não se mete a fazer lotes. E pode
e depois havia os blends do Douro entravam no Duas Quintas reserva. da é cedo. Está no bom caminho. Não, pelo menos para já não está fazer alguma sugestão sobre alguma
Superior, os Duas Quintas, de Bons Mas estamos a falar de 4275 garrafas Será sempre uma quantidade nos nossos projectos. Não faz sentido. coisa e nós até nem aceitarmos essa
Ares e Ervamoira. O que nós quere- para vender em 75 países. Para Fran- assim? Faz sentido para empresas que têm sugestão. Temos o mesmo circuito
mos fazer agora é um zoom, porque ça, o nosso principal mercado, vão Muito pequena, e só em anos mui- volumes e têm de escoar grandes de distribuição praticamente em
achamos que temos vinhos de quali- 120 garrafas. Duas garrafas por cada to bons. A natureza é que vai decidir quantidades de vinho. Não é o nosso todo o mundo, os mesmos importa-
dade absolutamente extraordinária e um dos nossos agentes (risos). se fazemos vinho ou não fazemos. caso. dores. Mas há outros países com
que antes entravam nos lotes desses Mas, para lá dessa estratégia de É a vossa estratégia de apostar Mas nessa recusa há alguma lei- importadores que não são do nosso
vinhos. O grande passo agora, e isto ter um foco em Ervamoira, não na valorização dos vinhos, produ- tura sobre um risco de abastarda- grupo. Mas sim, pertencer a este gru-
demorou anos porque houve alguns conta o facto de a RP não ter um zindo as mesmas quantidades, que mento do vinho do Porto? po é uma grande vantagem.
ensaios que não funcionaram, é fazer vinho DOC Douro para concorrer faz com que o vosso vinho de Não tenho nada contra empresas A preocupação com a viticultu-
um vinho como o Ervamoira de 2018. com os topos de gama da região? entrada de gama, o Duas Quintas, que engarrafem em latas, desde que ra é uma preocupação antiga da
Durante quatro anos andámos à pro- Era essa a intenção. É posicionar- não seja um vinho barato? a Denominação de Origem Porto, RP - vem dos tempos do seu pai,
cura desse vinho e Ænalmente conse- mo-nos ao lado desses grandes Sim, está na prateleira a 11/12 que demorou séculos a ser construí- que a transmitiu ao João Nicolau
guimos. Estamos entusiasmados com vinhos. O próximo grande passo que euros. da, seja bem construída e não apare- de Almeida... c
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18 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Entrevista a Jorge Rosas


55 a 70 71 a 85 86 a 94 95 a 100

A consagração
Jorge Rosas assumiu
a direcção-geral
da Ramos Pinto em 2016

de Ervamoira
... claro, aqui não há segredo: sem a Entre as grandes e mais especta- grandes clássicos, entra directa-
boas uvas não se fazem grandes culares quintas do Douro, Ervamoi- mente na categoria dos tintos de
vinhos. Nós acreditamos nisso. Uma ra não se distingue pela densidade topo do Douro. Ainda precisa de
das razões pelas quais o meu pai con- da sua história – é uma criação dos alguns anos de garrafa para que a
cordou com a venda aos franceses, anos de 1970. Nem pelo seu patri- expressividade da fruta se integre,
quando a família já era muito nume- mónio ediÆcado – limita-se uma mas nesta sua fase incipiente de
rosa, é porque eles também acredi- casa rural reconstruída numa das evolução é um tinto que não enga-
tam nisso. O meu pai era um viticul- suas elevações, que acolhe um na. O potencial do Douro Superior
tor, era um tipo da terra. E quando museu singelo. O que distingue está lá bem presente.
conheceu o Jean-Claude Rouzaud, Ervamoira é a beleza extrema do A origem do lote está num dos
aquilo foi amor à primeira vista. Eles seu vinhedo, que se estende por um trechos da enorme mancha de
tinham a mesma forma de pensar. Ele anÆteatro voltado para a margem vinha de Ervamoira – 178 hectares,
estava interessado em comprar a esquerda do rio Côa, no meio de ao todo. Escolheram-se uvas de
Quinta do Noval e disse-nos que aban- uma paisagem bíblica. Distingue-a pequenos talhões de parcelas selec-
donou essa ideia por duas razões: também o processo da sua própria cionadas, a pisa fez-se em lagares
quando chegou a Ervamoira Æcou em criação, que resulta do sonho de tradicionais de granito e o estágio
êxtase, e, aliás, quando vem cá diz um homem, José Ramos Pinto de 16 meses dividiu-se em três par-
sempre que não quer ir embora; e a Rosas, que andou anos a vasculhar tes equivalentes por tonéis de
segunda razão foi que ele acreditou cartas militares para consumar pequeno volume, barricas novas e
nos projectos do DOC Douro. Ele que- num lugar ideias avançadas sobre barricas de segundo ano. A concen-
ria uma empresa de vinho do Porto, a viticultura e concretizar a partir tração é evidente, a madeira está
porque a ideia que tinha do vinho desse ponto a ideia de um santuário presente, mas estas componentes
português era o Matéus Rosé, alguns para o futuro do Douro. Distingue-a equilibram-se com a pujança da
Dão completamente oxidados e uns ainda a luta contra uma barragem fruta e o nervo da estrutura tânica
Verdes... que a ameaçou submergir, até ao num vinho onde não falta elegân-
Nessa altura a Ramos Pinto já se momento em que a descoberta de cia. Gordo e voluptuoso, com o
estava a preparar para esses pro- gravuras pré-históricas acrescenta- domínio de fruta e de aromas Çorais
jectos? ram ao vale um valor patrimonial sempre presente, com um volume
Nós comprámos a Quinta dos Bons insubstituível. de álcool elevado mas imperceptí-
Ares em meados da década de 1980. Já Uma quinta assim precisava de vel, deixa no Ænal um rasto de pure-
estávamos a preparar-nos e o meu pai um vinho. Ervamoira era já a marca za, de harmonia e de prazer.
Æcou entusiasmadíssimo com a ideia da Ramos Pinto para os vintage Fica-se, pois, com a sensação de
de vender a uma família que ia dar con- “single quinta”, muitos dos quais que se Ervamoira cumpriu os desíg-
tinuidade ao que ele sempre tentou verdadeiramente bons – prove-se nios do seu criador, esses desígnios
fazer - vinhos de altíssima qualidade. Eu acho que nós temos uma sorte ção, ou o Douro deveria ser um por esta altura o 2004. Esse vinho estão principalmente na excelência
Mas para convencer o Jean-Claude que imensa. As castas do Douro são pre- chapéu onde cabem outras sub- nasceu este ano, a partir da vindima da fruta e na textura que combina
era possível fazer vinhos do Douro, ele paradas para isto. Escaldões sempre regiões? de 2018. E o que se pode dizer é que volume, acidez e estrutura. Produ-
passou horas. Até que ele provou, julgo houve, agora com mais frequência, Eu acho que sim. Esse é um tema do há uma clara aÆnidade entre a gran- to de um lugar único, de um ano
eu, um Tinto Cão de 1981, um vinho granizos sempre houve, e, portanto, género do do beneÆcio: difícil. Há três deza e a beleza da vinha e o vinho excelente e de uma procura focada
espectacular. O meu pai era apaixona- há uma resiliência nas nossas castas. sub-regiões e dentro destas três sub- que ostenta o nome do lugar. O de uma casa com pergaminhos nos
do pelos romanos e tinha feito várias E com o trabalho que Æzemos, esco- regiões podem-se fazer vinhos muito Ervamoira de 2018, na expressão da DOC Douro, este Quinta de Erva-
experiências com a tecnologia desse lhendo as melhores, conseguimos um diferentes. Uma vinha a 80 metros é fruta, na madurez temperada, na moira faz justiça ao nome que
tempo. Quando o João Nicolau de avanço não só na qualidade dos diferente de outra a 400 metros. Uma textura e na sintonia entre um esti- ostenta. O que quer dizer muitíssi-
Almeida já estava cá, ele fez um ensaio vinhos, mas também nessa resiliên- vinha virada a norte é diferente de lo moderno e a complexidade dos mo.
com essa casta e o Rouzaud provou o cia. Quando plantamos vinhas, pen- outra virada a sul. Temos nessa equa-
vinho e disse: ‘Se és capaz de fazer com samos em plantar mais em altitude, ção tantas, tantas variáveis que torna
uma tecnologia rudimentar um vinho
destes, vamos para a frente na Quinta
com mais exposição a norte, o que
para um francês é impensável, por-
possível fazer coisas muito diferentes.
No Cima Corgo chove cinco vezes mais
95
dos Bons Ares com as novas tecnolo- que os franceses querem as exposi- do que no Douro Superior.
gias’. Depois o João Nicolau de Almeida ções a sul... Toda a gente está preocu- O Douro tem vinha a mais?
apresentou-lhe, em 1991 ou 1992, o pada, e eu estou preocupado, mas... O Douro deveria vender mais. Eu Quinta de Ervamoira
Duas Quintas de 1990, ano em que a O meu pai já falava nisto na década de sigo sempre o exemplo dos meus 2018
empresa foi vendida, e ele disse: 1980 e eu acho que temos trabalhado colegas do Champagne, que gerem a Ramos Pinto, Vila Nova de Gaia
‘Engarrafa’. Acreditou. muito em termos de viticultura para oferta e não a procura. Eles há anos Castas: Touriga Nacional 84%,
E dois anos depois, o Reserva de a gestão da folhagem. Estamos a estu- que andam com a malinha debaixo Touriga Franca 16%
1992 foi um sucesso. dar a rega desde a década de 1970, do braço a promover os seus vinhos, Graduação: 15,5% vol
No International Wine Challenge evoluímos bastante aí para controlar e nós acordámos para esta realidade Região: Douro
foi eleito o melhor vinho da Penínsu- o stress hídrico. há 30 anos no máximo - com excep- Preço: 95€
la Ibérica. Foi uma página na história Há algumas pessoas que acham ção do vinho do Porto. Os franceses
da região. a rega errada no Douro. já andam nisto há muito mais tempo.
Falando do Douro, há muitas Vá ver de onde eles são. São do Bai- Se há vinho a mais?, hoje, 2021, é pro-
ameaças à sua sustentabilidade. xo Corgo. No Douro há três regiões vável que haja. Mas tem de haver mais
Como a falta de mão-de-obra e com diferenças muito marcadas promoção. O orçamento de marke-
principalmente a crise climática. Olhando para essa diversidade ting da Moët & Chandon é maior que
Como é que se estão a preparar do Douro, faz sentido continuar-se o de todas as casas de vinho do Porto
para estes desafios? a apostar numa única denomina- juntas, incluindo o do IVDP.
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20 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Vinho do Porto

Os Porto Colheita também


valem quando são jovens
Os sonhadores dos grandes Porto detêm-se nos Colheita de 1855 ou de 1937 que ainda
circulam no mercado. A ambição pela estratosfera tem uma virtude: servir de incentivo
para se experimentar os vinhos desta categoria de vindimas mais recentes.
Fomos à procura de sete exemplos entre 2007 e 2011 para concluir que os Colheita jovens
são bem bons de beber. Manuel Carvalho (texto) e Adriano Miranda (foto)
a Os Porto Colheita têm um proble- ra através de uma oxidação mais tawnies, depois de abertos estes de avaliação. Nas notas de prova que Por deÆnição, um Colheita é um
ma: entalados entre os Vintage que intensa – e aos Vintage – é um vinho vinhos Æcam bebíveis durante algu- se seguem é possível estabelecer dife- vinho de uma única vindima que evo-
retratam com mais Ædelidade o poten- de um ano em concreto –, as suas mas semanas. Guarde-os no frigoríÆ# renças de estilo ou, como se trata de lui pelo menos sete anos em casco
cial de uma determinada vindima e características são tão distintas como co e sirva-os frios. vinhos criados entre 2007 e 2011, de antes de poder ser engarrafado. Pode
os Porto de lotes (10 anos, 20 anos, valiosas. Seja pelo seu volume de Uma selecção de uma série de sete evolução. Mas, no essencial, o que se resultar, ou não, de uma escolha de
etc.) que exprimem com mais rigor a boca, pela sua particular acidez e fres- colheitas de vindimas mais recentes constata é que as propostas deste vinhos provenientes da mesma par-
arte da enologia e o saber das caves, cor ou pela textura que tantas vezes que estão agora no mercado aponta ensaio garantem uma excelente pro- cela, desde que sejam todos de um
Æcam por vezes num limbo de incer- apresentam, os Colheita tanto servem para um segmento de preço entre os va e oferecem um nível de prazer mesmo ano. Quando é viniÆcado e
teza ou indeÆnição. Injustamente. para substituir um tawny de lote 21 e os 52 euros. Pela sua ainda curta condizente com o que se espera de segue para os cascos, tem de ser
Porque apesar de terem característi- enquanto se lê um livro ou vê um Æl- evolução em casco, as suas diferenças um vinho do Porto. Vale a pena expe- declarado ao Instituto dos Vinhos do
cas comuns aos vinhos de lote – é um me, como um Vintage no momento qualitativas não são extraordinárias. rimentar estes Colheita de anos Douro e Porto, que registará as suas
tawny que evolui em cascos de madei- solene de uma sobremesa. Como os Todos se situaram num plano elevado recentes. características e acompanhará o c
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A escolha certa
para este verão

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22 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Vinho do Porto

seu destino ao longo dos anos. Termi- ses com ligações antigas ao vinho do Krohn 2007 Messias 2009 Kopke 2011
nado o prazo mínimo de envelheci- Porto e ao Douro, como os Ferreira
mento, algumas empresas engarra- do Vallado, puderam lançar o Adelai-
fam uma parte da produção e colo- de Tributa de 1866. Mas, apesar do
cam-na no mercado; outras esperam passo rápido, em geral os Colheita
entre dez a 12 anos para o fazer. É têm raízes mais profundas em casas
improvável, porém, que alguma como a Kopke, a Niepoort, a Noval ou
engarrafe no primeiro ano toda a sua a Poças.
produção. Os Colheita são vinhos Se os Colheita mais recentes são já
pensados para resistir décadas ao belos vinhos para se comprovar o
efeito da oxidação. potencial da categoria, os consumi-
Quer isto dizer que um 2007 ou um dores têm nas melhores garrafeiras
2011 pode ser engarrafado este ano e um amplo campo de pesquisa ou de
o que Æca em cascos voltar a sê-lo experimentação. Na Garrafeira Tio
daqui a cinco, dez ou 50 anos. Pelo Pepe podem comprar um Andresen
meio, os provadores das caves limi- de 1900 por 1050 euros ou Barros de
tam-se a atestar os cascos para con- 1957 por 350 euros; na Garrafeira
trolar a oxidação (a evaporação pode Nacional há um Real Companhia
consumir até 3% do vinho num ano), Velha a 790 euros ou um Krohn de
a fazer ligeiras correcções da aguar- 1940 a 385. Subindo no patamar, é Muito original e soÆsticado no nariz, Na cor, este Colheita é o que acusa os Entre todos os vinhos em prova, o
dente ou a arejar o vinho em opera- possível aceder a uma das 1700 gar- com notas ligeiramente fumadas, aro- sinais mais evidentes do envelheci- Kopke é o que se situa numa fase de
ções que acontecem no mínimo de rafas de um Taylor’s de 1896 recente- mas de arbustos e sugestões de noz. mento. Mas a cor por vezes, como é evolução que deixa mais facilmente
três em três anos. Sempre que um mente lançado no mercado por 4700 Mas mais impressiva do que o impac- o caso, dá indicações erradas sobre no ar uma certeza: este vinho está
Colheita é engarrafado, menciona-se euros. Mas se na paixão pelo vinho te olfactivo é a sensação que deixa na a concentração e a pujança dos condenado a um grande futuro.
a data do engarrafamento no rótulo, há, como em tudo, limites para os boca. Nada parece fora do contexto e vinhos. Este Colheita implica uma Robusto e intenso, com um perÆl aro-
o que dá origem a uma informação devaneios, há possibilidades reais nos tudo (vestígios de fruta, estrutura, prova a diferentes velocidades, com mático ainda marcado pelos indícios
preciosa aos consumidores. Porquê? Colheita que se podem comprovar. acidez…) se enquadra para produzir uma intensidade crescente pelo de fruta original, um balanço entre as
Porque nada se ganha em ter um As sete escolhas da Fugas que se um vinho muito Æno e sedutor. A Wie- impacte da sua estrutura e acidez ou suas componentes bem conseguido,
Colheita em garrafa durante anos a seguem são disso uma prova. se & Krohn, empresa de origem pela maior sensação de doçura que distingue-se apesar de tudo pelo seu
Æo em casa. Não é que o vinho se norueguesa que desde 2013 integra o deixa no Ænal da prova. Um Colheita longo e belo Ænal. Já dá um enorme
estrague, mas perde a sua vivacidade grupo da Taylor’s ou da Fonseca, con- com um perÆl mais tradicional, ou prazer ao ser bebido, mas a sua inten-
ao incorporar os aromas da garrafa. Dow’s 2007 tinua a disputar o pódio dos Porto rústico, que dá continuidade à con- sidade e nervo deixam antever um
Provar um Colheita da Niepoort de Colheita. 38€ sistência e qualidade da Messias nes- futuro muito melhor – ou seja, vale a
1937 engarrafado este ano ou há cinco ta categoria. 38€ pena comprar os futuros engarrafa-
anos faz por isso toda a diferença. mentos, porque, como se escreve no
Nesta categoria, a qualidade do ano Quinta do Noval 2007 texto principal, os Colheita não
conta, mas conta menos do que nos Dalva 2011 ganham nada na garrafa. 29€
Vintage. A estrutura e o poder da fru-
ta destes vinhos que Æcam mais pro-
tegidos pelo ambiente redutor de Poças 2011
uma garrafa e de uma rolha exigem
mais da origem. Mas, como é óbvio,
um grande vinho de um grande ano
tem mais possibilidade de crescer no
casco de que um vinho não tão bom
de um ano médio. Na sua prova, não
será possível identiÆcar com a mesma
nitidez a finesse de um Vintage de
1970 ou a grandeza e originalidade
aromática dos de 2016. A oxidação vai Um Porto de grande impacte e com
anulando a evidência destes atribu- uma excelente vitalidade. Apesar de
tos. Mas um 2011 tenderá a ser melhor a sua evolução produzir aromas de
do que, por exemplo, um 2012. frutos secos, ainda há vestígios de
Durante anos, os Colheita estavam fruta. E, como originalidade, uma Numa prova de Colheita os Noval
muito mais inseridos nas tradições sensação de iodo no nariz que lhe estão condenados a Æcar entre os Notas de noz, sensações resinosas de
das casas portuguesas ou aportugue- oferece complexidade. Deixa na boca melhores e este 2007 não é excepção. arbustos, nota torrada (da barrica?)
sadas do que das casas inglesas. Nos uma boa sensação de volume, a sua A sua relativa juventude, patente na compõem um perÆl aromático
últimos anos, a categoria acabou por estrutura é impactante e confere-lhe cor ou nas notas de fruta ou de resina atraente. Na boca revela uma exce- Estamos claramente perante um
merecer o aplauso quase unânime – tensão. Acaba com um rasto de sabo- que deixa, tempera-se com uma lente estrutura e uma boa expressivi- daqueles casos em que o vinho mais
embora casas como a Ramos Pinto ou res associados a frutos secos podero- expressão no nariz e na boca pontua- dade e consistência, com a mesma barato está longe de ser o menos bom.
a Sogrape continuem de fora. A Flad- so e longo. A Dow’s, marca emblemá- da já por uma complexidade que o nota de torrefacção que revela no Pelo contrário, e sem surpresas dados
gate Partnership (Taylor’s, Croft e tica dos Vintage, tem apostado nesta elevam para um patamar de um rela- nariz a reaparecer e a acrescentar os pergaminhos da casa, este é um dos
Fonseca) adquiriu em 2013 a Krohn, categoria com resultados muito posi- tivo classicismo. Um exemplo de har- complexidade. Um vinho opulento, Colheita mais consistentes desta série.
que tinha nos seus armazéns um acer- tivos. 40,90€ monia que produz sensações vibran- jovem e vivaz, que nesta sua fase exi- Porque é dos que tem mais classe,
vo de grandes Colheita de várias gera- tes e um surpreendente Ænal de boca ge (ainda mais do que os outros finesse ou soÆsticação. Nas suas notas
ções. A Gran Cruz e os Symington marcado pela sugestão de caramelo. Colheita desta prova) uma ligeira aromáticas já razoavelmente avança-
revisitaram o seu espólio e dedica- O Quinta do Noval é o vinho mais caro refrigeração para ser conveniente- das a caminho da amêndoa, avelã ou
ram-se a engarrafar vinhos de grande entre todos os presentes nesta prova, mente apreciado. 30€ noz. Na sua harmonia e deÆnição.
classe com esta designação, muitas mas os privilégios têm geralmente Elegante, embora tenso e vincado,
vezes para assinalar datas relevantes sempre um custo incorporado. 52€ complexo e longo, é um Colheita
(o Graham’s de 1952 para celebrar o requintado e exemplar. 21€
início do reinado de Isabel II ou o Ne
Oublie, de 1866, para marcar a vinda
para Portugal do patriarca da família).
Da mesma forma, produtores durien-
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24 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Paulo Nunes

“Sou um enólogo
egoísta que gosta
de se divertir”
O Senhor do Vinho que convidámos para
esta edição especial da Fugas é Paulo Nunes,
enólogo na Região Demarcada do Dão.

1.º Acto enormes potencialidades da Biologia entrar para um grupo de Teatro Uni-
levam-me até Viseu, onde os anos versitário - o Teatro da Academia,
A conversa no lagar
seguintes são passados a completar com o grande Jorge Fraga que me um
A imagem não me sai da cabeça. a licenciatura em Engenharia Ali- dia me convida para outros “voos”.
Era Setembro, época das vindimas mentar e mais tarde o mestrado em Os resultados não podiam ter sido
em Armamar, Douro. Muito em bre- Qualidade e Tecnologia Alimentar, mais surpreendentes: durante um
ve, dali a um mês, ia entrar para o com a publicação do primeiro artigo ano fui actor proÆssional (ainda que
12.º ano, e estava com o meu pai a cientíÆco sobre a casta Encruzado no muito pouco) na produção teatral
pisar uvas a pé, como era normal Journal of the Science of Food and de O MagníÆco Reitor do enorme
naquelas terras e como sempre se fez Agriculture. Freitas do Amaral, contracenando
na minha família - gente humilde, Atraía-me a amplitude e liberdade com nomes como Raúl Solnado, Ana
como muitas outras ligada fortemen- de escolha daquele curso, nada Bustorè e Rui Mendes. Uma expe-
te à terra, onde a agricultura ajudava monocórdico, nada limitador – coisa riência enriquecedora, única e ines-
também ao sustento da casa. que (irei descobrir mais tarde) se quecível. E, pode dizer-se, no míni-
A pergunta dele surge inesperada, tornará recorrente no meu percurso mo irónica.
no silêncio do lagar: “Já pensaste no proÆssional e no meu percurso de Botânica, Microbiologia, Teatro.
que queres fazer da tua vida?” vida. Olhando para trás, vejo estas esco-
Primeiro a surpresa. Desde sem- Na viragem do século, acabado de lhas, tão variadas quanto inconscien-
pre os meus pais me deram a total me licenciar, candidato-me a um tes e não premeditadas, como uma
liberdade – e esse foi e é o grande concurso público que me leva até ao espécie de estojo de ferramentas
mérito deles – de escolher o que que- Infarmed, em Lisboa, onde me é per- para a vida, que a própria vida me
ria, de estudar o que queria, sem mitido explorar e aplicar os meus ofereceu. Uma série de coincidências
nunca terem questionado ou condi- conhecimentos de Microbiologia, e felizes, de pontas soltas que se foram
cionado as minhas escolhas. que se irão revelar absolutamente atando consecutivamente e cujo Æo
Mas imediatamente pensei: “Esta fundamentais no meu futuro. condutor me levou irremediavel-
pergunta é uma saída. Uma porta Mas a vida agitada e vibrante da mente para o mundo do vinho.
para fora deste mundo, deste lado cidade grande, que imediatamente
mais duro da vida.” Naquela idade me cativou e apaixonou, também me 3.º Acto
de tantas dúvidas, no meu íntimo confrontou com as minhas próprias
O chamamento da terra
essa era a certeza que eu sempre ambições. Ironicamente, a minha ma de uma vaga no Instituto da outro lado da barricada. Em breve
tive: “Tudo menos isto.” principal limitação naquela altura Os momentos vividos em Lisboa, Vinha e do Vinho, em Viseu, para a estava numa empresa de consultoria
A porta para o mundo estava de era uma notória diÆculdade em quer a nível proÆssional quer pes- Divisão de Fiscalização e Controlo de de enologia e viticultura, formada
repente ali, aberta. E eu estava pron- comunicar, expressar-me, debater soal, foram uma experiência funda- Qualidade. por um grupo de pessoas da minha
to para sair. em público os meus pontos de vista. mental que me deixou uma paixão e Isto dá-me a amplitude para come- geração, e que me permitiu entrar
Algo que hoje sei ser fundamental um carinho pela cidade que Æcou çar a conhecer uma série de pessoas em contacto com as muitas realida-
2.º Acto para um enólogo, na apresentação e para sempre, e aonde regresso sem- no meio, criar uma crescente rede des diferentes que coexistem no
discussão dos seus projectos, mas pre com enorme prazer. de contactos com enólogos, produ- sector. Gerir todo o processo produ-
O estojo de ferramentas
também para todas as proÆssões Mas ao Æm de algum tempo aper- tores, gente do vinho – não apenas tivo, desde a vinha até à garrafa – e
Um amor antigo aliou-se à necessi- com algum nível de mediatismo cebo-me que sentia falta precisa- no Dão, mas também na Bairrada e por vezes até à comercialização –
dade pragmática de uma escolha público. mente daquilo de que tinha fugido, no meu Douro natal. num meio com tanta heterogeneida-
abrangente, de pés bem assentes na A solução que encontrei surgiu, uma vez mais de forma inconscien- E permite-me chegar a uma rápida de de produtores, de vinhas e de
terra – e aqui de forma bem literal. antes de tudo, como uma forma de te – o Douro, as raízes, o cheiro da certeza: a de que em, vez de perten- gestão de portefólios, rapidamente
A paixão pela Botânica, que me terapia pessoal, uma verdadeira terra. cer aos “polícias” do vinho, a carim- veio conÆrmar a minha convicção
acompanhava de forma quase “terapia de choque” para os meus E uma vez mais a vida volta a ofe- bar papéis sentado a uma secretária, antiga de que é a amplitude de
inconsciente desde a infância, e as problemas de comunicação: decidi recer-me uma oportunidade, na for- preferia estar deÆnitivamente do conhecimento, e não a especializa-
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 25

Paulo Nunes,
aqui fotografado
na Casa da
Passarella

a minha ligação a todos eles é orgâ-


nica. Em todos eles ouço a voz do
meu avô ou do meu pai. Nesse senti-
do, sempre preferi substituir a
expressão “humildade” por “igual-
dade” – já que somos verdadeira-
mente iguais, aprendendo e ensinan-
do uns com os outros. Nunca conse-
gui refugiar-me na arrogância da
formação académica, que pode até
ser redutora e contraproducente
sem o respeito pela experiência de
gerações de famílias que conhecem
a terra e a vinha como ninguém.
Estarei sempre grato a essas pessoas,
porque o meu sucesso é verdadeira-
mente o sucesso delas também.

5.º Acto
Pessoa, o egoísmo
e a diversão
Sempre achei que em Portugal temos
muita sorte. Não conheço mais
nenhum lugar do mundo onde se
encontrem pelo menos quatro deno-
minações de origem simultaneamen-
te tão próximas e tão diferentes em
termos do carácter e perÆl de
vinhos.
Eu vivo em Viseu. Estou no epicen-
tro de quatro regiões – a 40 minutos
da Casa de Saima, na Bairrada, a 30
minutos da Passarella, da Quinta da
Bica e da Madre de Água, do Dão da
serra da Estrela ou a dez minutos da
Quinta Dona Sancha do Dão de Sil-
gueiros, a 45 minutos da Quinta da
Rede do Baixo Corgo e mais uns
minutos chegamos ao Cima Corgo e
Douro Superior da Costa Boal e a uma
hora de Trás-os-Montes. A menos de
uma hora de distância temos uma
riqueza e diversidade verdadeira-
mente únicas, que felizmente tenho
o privilégio de trabalhar.
E assim o processo é naturalmente
divertido. Como admirador de Fer-
ção, que me permite evoluir. Porquê desaÆou e pôs em questão as minhas Casa da Passarella – um desaÆo exi- a audição incluída. Saber ouvir pode nando Pessoa, inspiro-me frequen-
limitarmo-nos a executar apenas próprias certezas – quando descobri gente, quase intimidante, pela sua ser tão importante como saber pro- temente nos seus heterónimos – na
uma tarefa, quando temos a capaci- que a minha open mind não seria complexidade e pela história ante- var ou cheirar, no fascinante proces- Bairrada obrigo-me a pensar e a agir
dade e o conhecimento para execu- assim tão aberta como eu pensava rior da marca e de toda a região, mas so de criação da personalidade um como um bairradino, em Trás-os-
tar várias simultaneamente, com a – e que o meu universo era, aÆnal, que me deu literalmente asas para vinho. Montes como um transmontano, e
mesma dedicação e relevância? mais reduzido, quando confrontado voar, ao permitir-me desenvolver, Quando alguém um dia se referiu por aí adiante. Impor a minha visão
diariamente com todos os outros aliada a uma total liberdade criativa ao meu trabalho como “arqueologia e os meus processos ao produtor
4.º Acto universos. Um período precioso de e de gestão, a minha visão muito do vinho”, não pude deixar de me seria, além de extremamente redu-
aprendizagem, que me levou Ænal- pessoal do que deve ser um produ- sentir confortável com essa descri- tor, uma chatice de todo o tamanho.
O vinho com todos
mente à fase seguinte – o convite de tor do Dão. ção, ou com a interpretação pessoal Eu sou apenas um intérprete de um
os sentidos diversos produtores para desenvol- Essa visão, provavelmente condi- que faço dela. processo que é deles.
Os cerca de sete anos como consul- ver os seus projectos de enologia, cionada pela minha infância e por No meu caso, torna-se muito fácil Com todos os produtores com
tor nesta empresa foram importan- nomeadamente a Casa de Saima, na todo o meu caminho até ali, passava e absolutamente natural conversar quem começo a trabalhar, digo sem-
tes para o meu crescimento como Bairrada, e a Quinta da Bica, no Dão, – e ainda continua a passar – pela e ouvir com atenção todas as pessoas pre a mesma coisa: “Eu estou aqui
enólogo. Em primeiro lugar, porque e em particular o convite feito em convicção Ærme de que o vinho é um com quem trabalho – dos adegueiros para aprender. Sou eu quem precisa
esta incrível variedade de realidades 2008 pelo senhor Ricardo Cabral da produto de todos os nossos sentidos, aos trabalhadores agrícolas – porque de ajuda, não vocês. Neste c
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26 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Paulo Nunes

momento, eu sou aqui o que menos próximos, no sentido de levarmos os


sabe disto tudo. Vocês Æzeram as nossos produtos, os nossos estilos, a
vindimas desde sempre, são vocês nossa identidade a qualquer parte do
que conhecem a vossa adega, são mundo, muito rapidamente. Não
vocês que têm incontáveis anos de signiÆca, obviamente, fazer tudo
viticultura. Uma vez mais, são vocês igual.
quem tem de me dar as vossas ferra- Tive oportunidade, nos últimos
mentas.” anos de uma forma mais regular e
Eu nunca procurei fazer o vinho interactiva, através da presença nos
perfeito porque sei que nunca o vou grandes eventos internacionais do
ter. Da mesma forma que acho nun- sector, assim como intercâmbio de
ca iremos ler o melhor livro ou ver o experiências e novos projectos em
melhor Ælme da nossa vida, mas parceria com outros produtores de
sabemos que quanto mais livros outras latitudes, de tomar um con-
lemos e mais Ælmes vemos, mais tacto mais aprofundado com as rea-
temos a noção do que nos falta ainda lidades, tendências e perÆs de vinhos
ver e fazer – mais abrimos as nossas do resto do mundo.
janelas. Se me perguntassem como Hoje penso que ainda bem que
me deÆniria como enólogo, diria que isso aconteceu quando já estava
sou um egoísta que precisa de se numa fase consolidada da minha
divertir. Fazer um grande vinho, a carreira, porque me permitiu não
acontecer, será sempre a consequên- vir com um modelo formatado na
cia da minha diversão. cabeça e continuar com o meu
modelo: um modelo de referência
6.º Acto da tal “arqueologia” – um perÆl de
vinhos que digniÆque as pessoas
O laboratório
que o Æzeram, que digniÆque aque-
e os erros felizes le espaço e a sua história – e que
Nos últimos dez anos, foi-me dado o mais tarde vim a descobrir que se
privilégio e a liberdade de poder chamava terroir…
experimentar novos caminhos, Curiosamente, quanto mais viajo
nomeadamente na Casa da Passarella, e tomo contacto com produtores de
por exemplo através da sua família de outras latitudes, mais consolido as
vinhos O Fugitivo. E é verdadeiramen- minhas convicções – os vinhos são
te um privilégio porque, no fundo, factores efectivos de diferenciação.
me foi dado um laboratório onde sei Os consumidores querem sentir o
que posso arriscar em processos e espaço onde o vinho foi feito.
abordagens diferenciadas que muitas O vinho deve ser, de facto, uma
vezes não são mais do que um regres- viagem, mesmo que não seja o vinho
so ao passado (aÆnal a história é mes- organolepticamente perfeito para
mo cíclica!). Mas é ao mesmo tempo aquela pessoa.
um processo de importância vital, e Felizmente, em Portugal, identiÆ#
por várias razões. Em primeiro lugar camos e começamos a trilhar estes
porque disponho de uma liberdade novos caminhos da diferenciação,
que alimenta o risco – não tenho de com a procura de pequenas coisas
me preocupar com resultados con- que tragam identidade e carácter –
sensuais, nomeadamente com a con- aquelas vinhas raras ou originais, a
sistência dessas criações nas colheitas promoção das sub-regiões, uma eno-
seguinte. Nos Fugitivos, a única regra logia não massiÆcadora.
é não haver regras. Como exemplo simples, gosto de
Inicialmente, os primeiros Fugiti- comparar o modelo de enologia do
vos nasceram da lógica de “há erros Novo Mundo, copiado no passado
felizes”, erros esses que somos obri- sem grandes resultados, a uma enor-
gados a anular porque essas felizes me fábrica têxtil de grandes quanti-
coincidências eram muitas vezes isso dades e preços baixos. Portugal, pelo
mesmo – apenas coincidências –, e contrário, deve ser um alfaiate.
como tal praticamente irrepetíveis. Criar identidade – fazer com que,
Entretanto, os erros evoluíram para numa prova cega, nos digam “esse
experiências mais premeditadas mas vinho só pode ser Saima, ou Passa-
igualmente arriscadas, baseadas mui-
tas vezes em técnicas do passado já
Eu sou o ciente, a base regular do portefólio – o
que era experimental agora é normal,
Último Acto
O vinho como uma viagem
rella”, ou qualquer outro.
Isso é o mais difícil, e provavel-
esquecidas, transmitidas oralmente
e que existem apenas nas memórias
somatório de nem que seja apenas na abordagem
do processo enológico. É muito provável que aquilo que se
mente o mais caro, mas é o melhor
que posso desejar fazer por um pro-
locais – como o caso do Branco em
Curtimenta, ou do primeiro Bastardo todos os meus É obviamente o motor de um pro-
cesso vivo, dinâmico, em constante
convencionou chamar de estilo e
perÆl de vinhos na enologia moder-
dutor. A bem ou a mal, creio que o
nosso caminho só pode ser esse.
a ser feito no Dão, ou do Vinhas Cen-
tenárias… vinhos e de evolução. Se eu sou o somatório de
todos os meus vinhos e de todas as
na tenha pouco a ver com a história
dos vinhos de Portugal.
Com o maior respeito por todos os
que vieram antes, porque são eles a
Curiosamente, ao Æm de dez anos
deste laboratório, dou por mim a per- todas as minhas minhas vindimas, é para mim evi-
dente que não posso fazer hoje o
Entendo e aceito a ideia da globa-
lização. Mas globalização não é sinó-
razão de estarmos aqui, sinto que
está tudo ainda por fazer.
ceber que as experiências inÇuencia- mesmo vinho que fazia há dez vindi- nimo de massiÆcação. A globalização Admirável mundo velho. Feliz-
ram, muitas vezes de forma incons- vindimas mas. Evoluímos juntos. permite-nos estar todos muito mais mente!
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este tabuleiro,
a rainha é a peça
principal.

No jogo das castas, nem todas as peças têm


o mesmo valor. Há umas que se destacam
em nobreza, valor e até pela sua maturidade.

Prova disso mesmo pode fazer-se com um


QM Vinhas Velhas. Um vinho elaborado
exclusivamente com uvas Alvarinho, a casta
mais valiosa em Portugal, colhidas manualmente
de uma parcela com mais de 30 anos.

O resultado? Um vinho elegante, rico e envolvente


que encanta do início ao final. Características que
o tempo lhe traz e que conquistam o paladar dos
mais exigentes. Mas, outra coisa não seria de
esperar, estando nós na presença de uma rainha.

 


  

Disponível só em locais selecionados.


Seja responsável. Beba com moderação
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28 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Portalegre

Um museu
da viticultura
mundial
Dirk Niepoort, João Afonso
ou Vitor Claro são apenas alguns
dos produtores encantados
com a sub-região alentejana.
E lá procuram vinhos que,
de colheita para colheita, não se
repitam. Edgardo Pacheco

a A sub-região de Portalegre é um encanta-o, porque sabe que, de


mimo na grande região vitícola do colheita para colheita, terá mistério
Alentejo. Tem tanta diferenciação de garantido. Donde, vinhos com perso-
clima, altitude, orograÆa e castas que nalidade vincada.
há quem defenda que deveria eman- João Afonso faz 17 mil garrafas por
cipar-se. Opiniões. Mas o certo é que, ano. E, para isso, tem de gerir 12
mesmo nesta pequena sub-região, há vinhas diferentes, o que dá bem a
um Portalegre, digamos assim, agro- ideia de quão complicado – fascinan-
nomicamente mais cientíÆco e outro te, dirá ele – é fazer uma vindima.
que é uma espécie de museu da viti- “Cada vinha tem a sua identidade;
cultura mundial, em co-associação cada vinha tem a sua colecção
com outras culturas (oliveiras, sobrei- ampelográÆca (coisas ainda desco-
ros, cerejeiras e por aí fora). nhecidas) e cada vinha tem a sua
É este Portalegre mais fresco e ver- exposição. E é com esta riqueza que
de de vinhas velhas que, com encepa- eu me divirto a fazer os vinhos. Que
mentos que são tudo ao molho e fé são, com uma outra excepção, os de 2017 e deu-nos pena porque sem excessos e que não sejam foto- não foram feitos por Dirk Niepoort e
em Deus, encanta gente como Dirk vinhos que eu gosto de beber”, começamos logo a imaginar como cópias de vinhos de outras regiões. pela sua equipa (as primeiras colhei-
Niepoort, João Afonso ou Vítor Claro, salienta o crítico, que Æca “triste” estará o vinho daqui a três ou cinco “A memória que eu tenho dos tas criadas de raiz serão da vindima
sempre à procura de vinhos que, de quanto tem um tinto acima dos anos. É a vida. vinhos de Portalegre tem a ver com passada), mas a sua construção já
colheita para colheita, não se repi- 13,5% de álcool. Equinócio umas garrafas Tapada do Chaves que revela bem ao que vem: tons mais
tam. Com tanta variedade de matéria- 21€ comprava numa pastelaria no Porto, abertos e frutos vermelhos delicados
prima, a marca Cabeças do Reguengo coisas que estavam tão perdidas de Aragonês, Trincadeira, Alicante
Cabeços do Reguengo já tem meia dúzia de referências. Adega de Portalegre Winery numa prateleira quanto muito boas e outras castas desconhecidas. Na
Umas mais clássicas, outras mais irre- à mesa, depois de abertas, de manei- boca, a frescura da praxe, taninos
Mais puro é difícil O estilo Dirk chegou à serra
verentes. Umas em modo biológico, ra que sempre Æquei com a ideia de sedosos e nada de excessos de álcool
outras não, mas todas com o mínimo trabalhar em Portalegre”, diz-nos. ou de extracção. É o estilo Dirk, com
de intervenção. Quem nunca provou Dirk acha que “Portalegre – e à o terroir de Portalegre.
os vinhos desta casa deve começar semelhança da Bairrada – pode ser Sempar
pelo branco Equinócio. Quem já teve uma Borgonha portuguesa, por cau- 6,50€
contacto com este ou com o Solstício, sa das características únicas que o
deve, por exemplo, experimentar o clima transmite aos seus vinhos”. Vitor Claro
João Afonso é um dos decanos da crí- Seiva 2017, que é um tinto muito sério. Na sua estratégia de explorar os “Depois, o facto de haver muita
Artesanal, como seria
tica de vinhos em Portugal. Conhece Nós é que nunca nos cansamos do pequenos grandes terroirs do país, vinha velha, só isso faz-me apaixonar
muito bem o país e nunca escondeu Equinócio. Dirk Niepoort chegou como consul- e sonhar com a região.” evidente
um fraquinho pela cultura vitícola É um branco senhorial, com aro- tor à Adega de Portalegre Winery E o que pretende ele fazer em Por-
francesa. Uma vinha toda alinhadinha mas minerais salientes, algumas (antiga Cooperativa de Portalegre). talegre? “Uma coisa muito simples:
em dezenas de hectares não lhe diz ervas secas e nada de fruta enjoativa. E, como seria de esperar, começam Recuperar a história. Só isso. Não
nada. Já umas courelas com cepas Boca poderosa, com volume e uma a chegar vinhos que o consultor julga vamos, nem queremos, inventar
retorcidas pela idade, em parceria acidez que lhe dá grande longevida- serem do interesse de clientes nacio- nada.”
com oliveiras ou cerejeiras, isso de. Abriu-se uma garrafa da colheita nais e internacionais. Ou seja, vinhos Os vinhos base deste Sempar 2017
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 29

FOTOS: DR

Na foto principal,
as vinhas velhas
da serra de São
Mamede de onde
sai o Série Ímpar
da Sogrape;
à direita, a Quinta
da Fonte Souto

Quinta da Fonte Souto


A modernidade em altitude

identiÆcáveis são Tamarez, Pérola, A colecção Série Ímpar é um desaÆo


Alicante Branco, Arinto e Fernão que o administrador da Sogrape, Fer- A Quinta da Fonte Souto é, provavel-
Pires. O mosto arrancou a fermenta- nando da Cunha Guedes, lançou à mente, o projecto de maior dimensão
ção em inox e terminou o processo equipa de enologia: apresentar todos na região de Portalegre com vinhas
num tonel de 1400 litros. os anos um vinho fora de série e de recentes (25 anos de idade), instala-
Com seis marcas no mercado, o uma das várias regiões onde a empre- das e conduzidas de forma cientíÆca.
chef que hoje só cozinha quando lhe sa está implantada. É uma ideia inte- Pela primeira vez na história da famí-
apetece está, neste momento, a cons- ressante do ponto de vista de marke- lia Symington, a herdade tem outras
truir uma adega em Portalegre. ting (haverá sempre ruído comunica- culturas que não a vinha (cereja, cas-
Quem for adepto de vinhos cheios cional à volta da marca) e interessante tanha e azeitona) e a que quer dar a
de fruta madura, álcool e muita estru- para desinquietar a criatividade dos mesma atenção que dá à vinha.
tura, o melhor é gastar os 21 euros enólogos. Para tintos, temos Aragonês, Trin-
noutra marca. Quando se abre este A colecção começou no ano passa- cadeira, Alfrocheiro, Alicante
Dominó Monte Pratas 2019 Æcamos do com um branco bairradino de Bouschet, Syrah e Cabernet Sauvig-
com a ideia de que, no nariz, estamos Sercialinho de 2017, feito por António non. Para brancos, Arinto e Verdelho.
perante uma sidra, tal é a intensidade Braga. Segue agora com este Série Dos 42 hectares de vinhas, apenas
de notas de maçã que revela. Com Ímpar Retorto, de 2018, da responsa- quatro estão destinados a castas bran-
cor, aromas e sabores intencional- bilidade de Luís Cabral de Almeida. cos, pelo que este é um desequilíbrio
mente oxidativos, é na boca, com Vinho que nasce de cepas velhas e que está a ser resolvido agora com
acidez pronunciada, que o vinho se retorcidas que vivem há décadas a alguma reenxertia.
destaca, sendo capaz de acompanhar 640 metros de altitude, na serra de Por crescerem a uma altitude con-
uma cavala marinada com uma sala- São Mamede. siderável (entre 490 e 550 metros de
da ou outra coisa qualquer com sabor E como nessa vinha há uvas das altitude), as uvas são mais ricas em
forte. É um branco a fazer lembrar castas Arinto, Roupeiro, Fernão Pires ácidos naturais, importantes para o
outros tempos? É. e Tamarez, complexidade é o que equilíbrio e a longevidade dos
Dominó – Monte Pratas 2019 marca este branco, no nariz e na vinhos.
21€ boca, mas com perÆl mais internacio- Este Quinta da Fonte Souto 2018
nal. Sentimos umas notas mais cítri- tem notas cítricas intensas, certos
Vitor Claro é o cozinheiro que iniciou signiÆca que caiam na categoria de Sogrape cas – do Arinto – envoltas num traba- aromas tropicais, com uma ligeira
uma tendência de criação gastronó- vinhos naturais, visto que, de acordo lho de aÆnação em madeira que se sensação mineral. Boca com juventu-
O mistério das vinhas velhas
mica que consiste em pratos com com o chef, “é preciso proteger o pauta pelo equilíbrio. Em virtude do de e muita fruta é, claramente, um
sabor, mas a partir de só três ou qua- vinho”. “Eu não entro em radicalis- carácter sedoso e ainda assim fresco vinho com perÆl para agradar a con-
tro ingredientes. Mais é ruído, distrac- mos. Faço é uma intervenção míni- na boca, nem apetece dar-lhe compa- sumidores nacionais e internacionais.
ção ou fanfarronice. ma.” nhia à mesa. Nada nos deve distrair Nesse sentido, é um vinho de Porta-
De maneira que, em coerência, os Este Dominó Monte das Pratas 2019 do vinho. legre bem diferente dos anteriores.
seus vinhos também teriam de trilhar resulta de vinhas velhas de três par- Série Ímpar Retorto 2018 Quinta da Fonte Souto 2018
o caminho da simplicidade. Isto não celas, em que as castas principais e 60€ 15€

Onde Responda pela internet


censos2021.ine.pt
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30 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Wine & Soul

a Provavelmente nunca o terão ima- prosseguido com muito cuidado e casal antes do nascimento do Pintas,
ginado, mas quando um destes dias rigor. E criteriosamente executado. A mas o certo é que as coisas sempre
Sandra Tavares da Silva e Jorge Serô- ideia surgiu durante uma visita, de andaram muito a par. Foi em casa que
dio Borges puderem reler o belíssimo férias, com amigos, às regiões de Bor- decidiram juntar-se à mesa com uma
poema de António Gedeão vão ver déus e da Borgonha. Um impulso a folha em branco, literalmente, onde
que Pedra Filosofal bem lhes podia ter que não era alheia a proÆssão e muito anotaram tudo aquilo que era impres-
sido dedicado. “Eles não sabem que menos uma história de família ligada cindível para chegarem ao seu vinho.
o sonho é vinho, é espuma e fermen- à produção de vinhos, ele no Douro Uma espécie de lista must have,
to; Eles não sabem, nem sonham, que e ela na região de Lisboa. onde as características da vinha, boa
o sonho comanda a vida”, assim regis- Foi nessa viagem, principalmente exposição em altitude, field blend em
tou o poeta, muito antes de ambos na Borgonha, que a ideia acabou por vinha velha com presença de algumas
terem assumido o sonho de fazerem fermentar: “Porque é que no Douro castas, pudessem garantir um perÆl
um grande vinho do Douro. E nem não temos disto, este cuidado e ele- de consistência que o tempo veio a
sonhavam sequer que seria também gância nos vinhos, a atenção ao por- demonstrar ter sido fundamental.
esse vinho a ditar o seu futuro de menor e, sobretudo, esta atitude de
vida. dar vida às vinhas? E isto na Borgonha Melhor que o esperado
“Éramos um casal de miúdos, é o expoente máximo, pega-se numa
tínhamos 25 anos, estávamos muito vinha e ela passa a ter vida própria, Pela história de família, Jorge intuía
confortáveis e tranquilos nas empre- vinhos engarrafados com o seu que seria na zona do vale de Mendiz,
sas onde trabalhávamos, e a ideia de nome.” E se assim pensaram, melhor entre Pinhão e Favaios, que haveriam
fazer um vinho nosso era apenas um o executaram. de encontrar algo que pudesse satis-
sonho, um hobby na mente de dois Olhando para trás, torna-se eviden- fazer o caderno de encargos a que se
jovens enólogos. Longe de pensar em te que o sucesso não é nunca obra do tinham submetido. Até os mais velhos
negócio ou mudar de vida”, contam, acaso. Pode haver sorte, mas dá sem- da aldeia já agora designam a parcela
hoje completamente absorvidos pela pre muito trabalho! E foi com cuidado do “Chão do Seixo” como a vinha do
actividade da Wine & Soul, a empresa e rigor que as coisas foram avançan- Pintas, o que atesta o modo deÆnitivo
que acabaram por criar para a produ- do, sobretudo com o objectivo bem como a marca a tudo se sobrepôs.
ção e negócio de vinhos que agora deÆnido e ideias muito seguras. A tudo, menos ao rigor dos princí-
completa 20 anos de existência e com Aqui chegados, convém esclarecer pios fundadores. Um vinho que res-
um portefólio alargado. que esta não é como a história do ovo peita as características únicas e espe-
Um sonho, no entanto, sempre e da galinha. Sabe-se que já eram um cíÆcas daquela parcela, que é reÇexo

O sonho era fazer


um grande vinho,
mas o Pintas acabou
por criar a Wine & Soul

Quando a produtora fundada por


Jorge Serôdio Borges e Sandra Tavares da Silva
comemora 20 anos de vida, o Pintas mantém-se
como uma das referências internacionais dos vinhos
portugueses. Esteve na origem da expansão da
empresa que exporta mais de 70%
de todos os seus vinhos. José Augusto Moreira (texto)
e Nelson Garrido (fotos)
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 31

do lugar e das concretas condições de passa também por aumentar a área


cada colheita, sem ceder ou tirar van- de vinha. Já nos anos 60 e 70 do sécu-
tagem da fama e sucesso comercial lo passado ali se chegou a engarrafar
que desde logo obteve. Na história - sempre brancos que, no entanto,
das 18 colheitas já engarrafadas sem- nunca chegaram a entrar no circuito
pre foram produzidas as mesmas comercial.
cerca de cinco mil garrafas e o rótulo
Pintas apenas é usado para os vinhos O factor vinha velha
daquela parcela. O tinto, com as uvas
da parte mais alta, e os Porto, que são E se na história do vinho do Porto 20
feitos com as uvas colhidas na parte anos nada representam, é preciso ter
inferior. em conta que no que diz respeito aos
Uma vinha então já com cerca de vinhos DOC a história é radicalmente
70 anos e que acabou por superar até diferente. Além de terem sido dos
as melhores expectativas. “Hoje primeiros a acreditar que na região
podemos dizer que tivemos muita podiam fazer vinhos para estar ao
sorte, já que a vinha não só tinha tudo lado dos grandes clássicos do mundo,
aquilo que pretendíamos para o vinho o seu propósito foi também desde o
que tínhamos idealizado, mas tam- início fazer vinhos com o perÆl da
bém uma identiÆcação muito grande, elegância, modernos e soÆsticados,
de terroir e consistência, que viemos Sandra mas que ao mesmo tempo reÇectis-
a comprovar ao longo deste tempo”, Tavares da sem também a individualidade, o
explica o casal, que acabou por fazer Silva e Jorge terroir e a história do Douro.
a primeira colheita, de 2001, ainda Serôdio Ambos não têm dúvidas de que o
antes de ter conseguido formalizar o Borges, o Pintas teve sucesso pela consistência
negócio de compra. casal Wine & e identidade que está em todas as
Uma consistência e identidade que Soul colheitas, mas também que que isso
é transversal a todas as colheitas e à se deveu à Æxação inicial que tiveram
qual os criadores atribuem boa parte na procura de vinha velha. Mesmo
do sucesso da marca. Tanto que rapi- contra a corrente e numa altura em
damente decidiram avançar para a que todos procuravam modernizar a
produção de outros vinhos. É certo vinha, fazer coisas novas. “A vinha
que o que os clientes pediam era mais Os vinhos componente de mata, de 30 hectares, velha é um património único, não é
Pintas, coisa que seria impossível sem que transfere para a vinha a brisa fres- copiável. E como tal merece ser tra-
adulterar a sua identidade, coisa que Pintas ca que a caracteriza. Solos mais ricos tado e engarrafado de forma exclusi-
sempre esteve fora de causa. Produzido desde 2001, e profundos, com retenção de água e va, com o cuidado de manter a iden-
E a solução foi fazer um vinho que, a colheita desse ano é ainda ciclos de maturação mais longos. Per- tidade”, reiteram.
não sendo o Pintas, tivesse o mesmo o vinho tinto português mais mite produzir vinhos com menos Outro dos propósitos com que par-
carácter. Compraram vinhas à volta pontuado internacionalmente, fruta negra, mais Çorais, algum vege- tiram para o projecto foi o de expor-
e é assim que nasce Pintas Character, com os 98 pontos atribuídos tal bom e especiarias. Um perÆl dife- tar, fazer com que o vinho se confron-
cujo nome, sendo óbvio, conjugou pela revista Wine Spectator. rente, fresco e gastronómico que tasse com os clássicos do mundo. Um
ainda o facto de ter surgido na altura Pintas Character numa empresa pequena permite ter aspecto que levou a que fossem igual-
em que tinha acabado a categoria de É o irmão mais novo do Pintas, estes dois estilos”, resume. mente rigorosos na escolha do nome,
vinho do Porto com a mesma designa- que procura mostrar o mesmo Além disso, permite ter também um processo que acabou por se mos-
ção. carácter mas é também a vinhos num patamar de entrada, a par trar complicado. Além de curto, tinha
A mesma coisa se passou com o expressão de vinhas mais novas do Vinhas Velhas, num estilo que cor- que ser facilmente soletrável para os
branco, o Guru, que muitos ainda com o mesmo enquadramento. responde às tendências mais actuais diversos idiomas, mas o problema é
designam com o Pintas branco, ou o Guru e fornece uma alternativa ao estilo que os nomes vinham sucessivamen-
branco do Pintas, mas que pelas mes- É o Pintas branco e um dos marcadamente duriense do Pintas. A te reprovados até uma altura em que
mas razões não podia aproveitar a primeiros brancos do Douro empresa quer agora focar-se também o vinho estava já quase a sair para o
onda comercial da marca. Se não é a afirmar-se no mercado. na produção de vinhos do Porto na mercado. A solução, aÆnal, estava em
daquelas vinhas, não pode levar a De vinhas com idades a rondar Quinta da Manoella. Recentemente casa, quando Sandra olhou para o
designação. É esta atitude, este cuidar os 50 anos, das zonas altas foram lançados um tawny e um ruby Pintas, o Æel amigo cujo faro seguia o
e respeitar do nome das vinhas, que de Porrais, Murça, numa zona Ænest, é daí que tem vindo o tawny 10 casal em todo o tipo de tarefas.
ambos se impuseram como princí- em que o xisto faz a transição e anos Pintas, e será também em breve DeÆniram qual a quota para Portu-
pios do projecto. já se mistura com os granitos. lançado o branco extra-seco. gal e nunca cederam, por mais vee-
Neste caso, foram à procura das Pintas Porto Vintage Bem recente é também a extensão mentes que tenham sido os pedidos
vinhas nas regiões mais altas, na zona Nasceu em 2003, sendo feito ao Vinha do Altar, um branco de gran- de reforço. Outro princípio que man-
de Porrais, Murça, onde garantem a com as uvas nas quotas mais de qualidade e perÆl sedutor, que têm é o de não terem distribuidores
frescura, mineralidade e finesse que baixas da mesma parcela do igualmente promete implantar-se internacionais. “Queríamos competir
permitem o paralelo com a linha de Pintas. rapidamente no mercado. A vinha, com os clássicos, sermos nós a vender
qualidade e longevidade dos Pintas. Manoella VV com 2,7 hectares, está numa proprie- o vinho, aprender com os mercados,
Desde 2009 que o portefólio da A Quinta da Manoella dá vinhos dade de 27 hectares, e basta ver o ver as reacções. Estar nos locais mais
Wine & Soul inclui também os vinhos cujas características mais entusiasmo com que o casal fala no diversiÆcados, nem que fosse entre-
da Quinta da Manoella, “uma opor- florais, com fruta menos grande projecto de biodiversidade gar num país umas dezenas de cai-
tunidade que surgiu com a redeÆni- carregada e algum vegetal, que aí esta a desenvolver para se per- xas”, contam, explicando que, hoje,
ção do património de família”, intro- são um contraponto à ceber que haverá seguramente boas mais de 70% dos vinhos da Wine &
duz Jorge Serôdio Borges, para expli- concentração de fruta negra novidades. Soul são vendidos para os mais diver-
car que a propriedade, igualmente na dos Pintas. A propriedade, em zonas de maior sos destinos em todo o mundo.
encosta esquerda do vale do Pinhão, Vinha do Altar altitude, perto de Sabrosa, outrora E agora não param de surgir sur-
veio enriquecer e dar outra amplitude Um branco que é a última denominada Quinta da Vinha Gran- presas, como os pedidos de Malta ou
ao portefólio da Wine & Soul. novidade da empresa. de, igualmente na esfera da família de da África do Sul que por estes dias
E nem só pelas vinhas velhas em Vem de uma vinha do planalto Jorge, tem olival, castanheiros e cere- chegaram de clientes com os quais
patamares centenários. “É uma quin- de Sabrosa, em Fermentões, jeiras, tendo este ano sido plantadas nunca tiveram qualquer tipo de con-
ta diferente, fundamentalmente pela a 600 metros de altitude. avelãs e amendoal, mas o projecto tacto.
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32 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Península de Setúbal

Os enólogos
unidos
são mais
divertidos

Duas vezes por ano, os enólogos


da região da Península de Setúbal
almoçam nas quintas uns
dos outros. São concorrentes
no mercado, mas nenhuma
experiência que esteja a decorrer
na adega Ɗca por mostrar
ou comentar. Um caso raro
em Portugal. Edgardo Pacheco
(texto) e Daniel Rocha (fotos)

a “Ora, vamos lá ver quais são as à volta de uma mesa, numa adega da que eu acho bonito é que, numa cussão, livres da rotina do dia-a-dia.” das adegas a bom ritmo. Certa vez
aldrabices que este gajo está para região e/ou fora da região, falam, mesa, estão quase sempre diferentes Hoje, a tertúlia sofreu uma ligeira apareceu uma jovem enóloga num
aqui a fazer.” O provocador é Filipe discutem, propõem, dão a provar gerações. E comecei a ver que os alteração: Um dos almoços – sempre dos almoços. Por questões protoco-
Cardoso, da Quinta do Piloto, e o vinhos, provocam-se e, acima de mais novos, por vezes, traziam confeccionado por Paulo Ferreira –, lares, foi sentada ao lado de Domin-
“gajo” é Luís Simões, da Quinta Bre- tudo, aprendem em ambiente muito vinhos e pediam conselhos aos deca- decorre numa adega da região; o gos Soares Franco. Inicia-se o servi-
jinho da Costa. Em tese, a frase pode- descontraído. No dia 17 de Maio ocor- nos – ao Domingos Soares Franco, ao outro é numa adega de outra qual- ço, mandam-se as bocas da praxe e
ria cair num quadro de maledicên- reu, na Quinta Brejinho da Costa, o Vasco Penha Garcia e à Filipa Tomás quer região, em que vai toda a gente começam a circular as garrafas quan-
cia, mas é exactamente o contrário. 16.º Almoço de Enólogos, que é da Costa. Apesar de serem concor- num autocarro fretado pela CVR de do a jovem enóloga se vira para o
Filipe, Luís e José Caninhas, que está como se chama este informal encon- rentes, ajudavam, com sugestões Setúbal, cujo presidente, Henrique lado e pergunta: “E o senhor, como
por perto, são os três enólogos res- tro de gente do vinho. variadas, os jovens produtores que Soares, faz, animadamente, parte do se chama?”. Resposta: “Eu?! Eu cha-
ponsáveis pela marca Trois (um Trois Fundador e mestre-de-cerimónias estavam a lançar-se no negócio. E foi grupo desde o primeiro almo- mo-me Domingos Soares Franco.”
de Castelão, outro de Fernão Pires e da tertúlia, Paulo Ferreira, do restau- então que imaginei que seria interes- ço. Faz-se um ligeiro silêncio à mesa e,
outro ainda de Moscatel Roxo). São rante Casa das Tortas, em Azeitão, sante levar este ambiente do meu Nalguns destes eventos ocorrem continua, a enóloga: “E trabalha em
amigos e, duas vezes por ano juntam- está habituado a dar de comer a estes restaurante para as adegas da região, peripécias que, volta não volta, vêm que adega?”. Não, não. Não houve
se a um grupo de 12 enólogos da técnicos da região que se juntam à e em que toda esta gente pudesse à baila. No sector do vinho há enólo- risos porque isto é tudo gente edu-
região da Península de Setúbal que, hora do almoço no centro da vila. “O estar um dia em convívio e em dis- gos estagiários que entram e saem cada. No momento, claro, porque,
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 33

O encontro
deste ano
decorreu
na Quinta
Brejinho
da Costa

quando a enóloga se ausentou, foi uma infusão para gin com espécies Simões está a fazer o que mais gosta: da criatividade uma regra (da revo- A partir daqui começa a discussão
um fartote de gargalhadas. botânicas sem Æm, dissertar sobre a “Experimentar, voltar a experimen- lução que foi a feitura de vinhos tran- sobre a pressão das modas impostas
Nesta última visita, os enólogos impressionante linha de aguardentes tar e experimentar de novo.” E, cla- quilos com Moscatel Galego à recu- de fora, sobre a falta de cultura víni-
aproveitaram para ver, cheirar, pro- varietais, ou, ainda, comentar uma ro, a partilhar com os colegas – uma peração do Moscatel Roxo) e, claro, ca dos consumidores, sobre a impor-
var e comentar os trabalhos de Luís vodka de batata-doce que cresceu espécie de emblema destes Almoços para não variar, o abandono, nos tância de se usar uma casta ou duas
Simões na adega da Quinta Brejinho nos terrenos arenosos das redonde- com Enólogos. últimos anos, da casta Castelão. castas emblemáticas para dar iden-
da Costa, junto ao estabelecimento zas. No almoço propriamente dito, e Contudo, o cenário é promissor tidade à região ou sobre a onda da
prisional de Pinheiro da Cruz. Enó- E são as ânforas que atraem os debaixo de três pinheiros impressio- porque, aos poucos, os produtores biodiversidade. A dada altura, rema-
logo não é a melhor classiÆcação colegas. Querem sentir como estão nantes – uma massada de marisco voltam a ter orgulho numa casta ta Luís Simões: “Atenção que eu não
para Luís Simões. Druida é o mais a evoluir os mesmos vinhos base em com uns lagostins apanhados na que – custa a crer mas é verdade – foi faço vinhos de Castelão porque ago-
correcto. E isto porque é capaz de, recipientes de barro de formatos e quinta –, as conversas varrem todos abandonada pela falta de cor. É cer- ra muita gente quer tintos abertos e
ao mesmo tempo, controlar vinhos composições técnicas diferentes. os assuntos. A pressão dos preços to que nem sempre esteve plantada frescos. Eu quero fazer vinhos de
para engarrafar, espreitar o que Nuns casos a componente aromática por parte das cadeias de distribuição nos melhores solos, mas, hoje, pare- Castelão porque gosto deles. Se os
acontece nas ânforas de barro pro- é mais expressiva e, noutros, a estru- e a destruição de valor no sector, a ce caricato deixar de lado uma casta consumidores gostarem, melhor. Eu
venientes de diferentes países, tura de boca faz toda a diferença. falta de reconhecimento público de por dar origem a vinhos mais aber- sou enólogo. Não trabalho no negó-
mexer um recipiente de plástico com Como tudo isto é novo na adega, Luís uma região com adegas que fazem tos. cio da moda”. Bem pensado.
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34 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Vinhos chumbados

Afectos, chamada de atenção,


provocação ou marketing?
O que leva um produtor a lançar no mercado um vinho reprovado pela
sua comissão vitivinícola regional, assumindo-o como tal? E o que leva quem certiƊca
a chumbar um vinho? Fomos à procura de respostas. Miguel Pires

António Maçanita (à esquerda), António Madeira (ao centro) e Mário Sérgio Nuno (à direita) são três produtores que decidiram colocar vinhos chumbados no mercado

a A história não é de hoje. Ao nave- Alentejo na altura. Tal não os impediu damente por defeitos ou falta de tipi- acontece, ele não é de meias medi- que eu quero apelar é para não uni-
garmos pelas redes sociais não é raro de lançarem o primeiro vinho uma cidade. das, rotula-os apenas com o selo do formizarem. Eu digo sempre isto: não
depararmo-nos com a queixa deste década depois, a que chamaram Na região da Bairrada, Mário Sér- IVV (Instituto da Vinha e do Vinho) estou à espera que todas as pessoas
ou daquele produtor, relacionada Incógnito. No contra-rótulo coloca- gio Nuno, da Quinta das Bágeiras, e imprime no rótulo em letras bem ou que os provadores da CVR gostem
com a reprovação de um vinho pela ram uma curta descrição em inglês, trabalha a vinha, produz, engarrafa visíveis a palavra “Chumbado”. Nes- do meu vinho. Eu quero é que eles
comissão vitivinícola da sua região acentuando as iniciais de cada frase e vende os vinhos feitos apenas com sa altura, deu logo que falar e ao lon- tentem perceber que existem outras
(CVR). O lamento assume o tom de que formavam, de forma muito pou- uvas próprias. Carismático e respei- go dos anos a classiÆcação acabou coisas para além daquilo que normal-
indignação ou de sarcasmo e perante co dissimulada, a palavra Syrah. Jun- tado, o bairradino é reconhecido por sendo vista mais como uma qualida- mente é mais pontuado ou mais con-
a situação há quem Æque a remoer-se taram-lhe ainda outra frase, de Bob não atalhar caminhos, característica de, com bons proveitos comerciais, sensual.”
por dentro e há quem, dotado de uma Dylan, que dizia: “Para viveres fora que se espelha no perÆl dos seus do que como um estigma. No entan- No Dão, para António Madeira o
convicção inabalável sobre os predi- da lei, tens de ser honesto”. Tal como vinhos: estruturados, muitas vezes to, Mário Sérgio recusa que o seu protesto não é impresso no rótulo.
cados do seu vinho, assuma o protes- a história, o resultado é bem conhe- austeros, longevos e reconhecíveis acto seja visto como um oportunis- Lusodescendente, deixou a vida de
to e o atire cá para fora, escancaran- cido. O Incógnito tornou-se um dos como um estilo da região. Por isso, mo “marketeiro”. engenheiro em Paris e, em 2017, ins-
do-o no rótulo. mais icónicos vinhos do Alentejo e a quase sempre ostentam a designação “Com esta decisão, que tomei com talou-se de vez na terra de onde o seu
Um dos primeiros a fazê-lo foi o Syrah não só passou a ser uma casta máxima atribuída pela CVR, a DO o primeiro Pai Abel que Æz, em 2011, pai partira, próximo da serra da Estre-
casal Jorgensen, da Cortes de Cima, autorizada como é hoje a quinta mais (Denominação de Origem) Bairrada. quis chamar a atenção das pessoas. la. Aqui, além de trabalhar as próprias
que quando chegou à Vidigueira, em plantada na região. Porém, os casos “Quase sempre”, porque de quando Repare, em 31 anos que produzo vinhas em modo biodinâmico, resga-
1988, viu naquelas terras o clima ideal mais recentes, cujos testemunhos em quando algumas das amostras vinhos, nunca tive um único Regional tou várias parcelas de vinhas velhas
para plantar Syrah, casta famosa do trazemos aqui, foram reprovados nas que submete à certiÆcação são repro- Beira ou Regional Atlântico, foram/ dispersas pela zona e começou a fazer
vale do Ródano, não autorizada no CVR por questões diferentes. Alega- vadas na prova sensorial. Quando são sempre Bairrada. No entanto, o o seu próprio vinho da forma c
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36 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Vinhos chumbados

É na prova
sensorial
menos interventiva possível. Com o
que surgem apenas sabe o ano colheita, se é bran-
orgulho de poder conceber os seus
vinhos na denominação de origem
os chumbos - co, tinto, rosé, e a casta, no caso de
provar varietais.
(DO) de onde descende, António
Madeira fez questão de estampar nos
e é sobre ela que É nesta prova sensorial que surge a
generalidade das queixas dos produ-
rótulos a designação “Dão”, com um
destaque maior do que o seu nome,
surgem tores. É que por mais que se apliquem
metodologias e critérios objectivos, ou
como é hábito nos vinhos franceses
mais conceituados de regiões (ou suas as queixas se treine um painel de provadores
para serem “máquinas de detectar
sub-regiões), que muito aprecia.
Porém, se os seus vinhos tintos ou as dos produtores defeitos”, é impossível retirar a condi-
ção humana da equação. E assim,
referências com mais tempo de está- factores como o gosto, a experiência
gio, como o Vinhas Velhas, chegam individual, o critério de tipicidade,
quase sempre a DO Dão, o mesmo não questão, produzidos em quantidades acabam, de uma forma ou outra, por
pode dizer dos brancos e rosés que reduzidas, apresentam normalmente inÇuenciar. A questão da tipicidade,
pretende colocar mais cedo no mer- um “perÆl mais aberto do ponto de que não faz parte dos critérios das
cado, que são reprovados frequente- vista de aroma volátil”, bem como Æchas de prova, é paradigmática. Fer-
mente na análise sensorial, o que uma cor mais clara, que aÆrma ser nando Mateus, presidente da CVR
impossibilita o uso do nome Dão. característica dos tintos que produz Alentejo (CVRA), explica que, havendo
“O problema é sempre na prova com uvas de vinhas velhas de Castelão uma frequência de vinhos com deter-
sensorial. Não quero privilegiar um e Tinta Carvalha, duas castas tradicio- minados estilos, entre os 3500 que
critério visual a um gustativo. Para nais do Alentejo que perderam prota- provam por ano, estes acabam “por ir
mim, o mais importante num vinho gonismo ou estão mesmo afastadas modelando aquilo que é o mais fre-
é que na boca dê realmente prazer, do perÆl da maior parte dos vinhos da quente, logo o mais típico da região”.
que estimule as papilas. Para fazer região das últimas décadas. Responsável de controlo e certiÆ#
colagens e Æltrações vai perder tudo cação na CVR Dão, Luís Fialho é mais
isso, vai perder o que faz dele um Já do lado das CVR... categórico a este respeito. “É lógico
grande vinho.” que a tipicidade também esteja pre-
Em relação à cor, António Madeira Se os casos e queixas dos produtores sente na análise sensorial”, mas admi-
considera que “o amarelo mais carre- são mais conhecidos e têm tido aten- te que “não é um item da Æcha de
gado” do seu branco, pelo qual é ção mediática, raramente se ouve o prova actual”. Na CV Bairrada os pro-
penalizado pelos provadores da CVR, outro lado, o das CVR. Em Portugal vadores são cedidos pelas casas asso-
“é que é a verdadeira cor do vinho” e existem 14, cada uma com a sua dinâ- ciadas, como é o caso de João Soares.
que os enólogos, para terem um tom mica e especiÆcidade, mas com pro- O enólogo é crítico do actual sistema
“mais aguado”, que responda ao cri- pósitos semelhantes: entre outros, o que os treina para serem autênticos
tério de valorização pelo mercado de controlar o cumprimento das “cães de screening de defeitos” e, por
massiÆcado, usam “métodos muito regras e a certiÆcação dos vinhos pro- isso, acha que se devem estabelecer
interventivos que não só levam sub- duzidos na sua região. São estas orga- critérios e pedir a cada provador
stâncias associadas à cor, como carac- nizações, constituídas por produto- somente “se aceita o vinho ou não,
terísticas que são muito boas a nível res, cooperativas, etc, que têm o como pertencente a esta região”.
gustativo”. poder de atribuir as certiÆcações DO Segundo João Soares, certos vinhos
No que diz respeito à limpidez, e IG, que permitem conter referências reprovam “porque têm um defeito
reconhece que o tempo de estágio de envelhecimento, utilização de identiÆcável que o próprio produtor
resolve o problema – “é o que faço no madeira, menções como Quinta, aceita e quer ter, porque faz parte, e
Vinhas Velhas, que Æca dois anos Casa, Herdade, Paço, Palácio ou Solar, se calhar até traz coisas positivas ao
antes de engarrafar” –, mas sublinha referências aos nomes da DO ou IG ou vinho”. “Só que a Câmara de Prova-
que os vinhos que quer colocar no menções tradicionais. São os produ- dores, como é treinada para identiÆ#
mercado no ano a seguir à colheita, tores que candidatam os seus vinhos car e acusar esses erros, faz o seu
quando passam na prova, “é mesmo às certiÆcações, podendo optar por trabalho e reprova.” Já Luís Fialho
à justa”. “E muitas vezes não passam. não o fazer e engarrafá-los apenas mostra pouca abertura a esta ideia de
Muitas vezes só por esse critério.” com o selo do IVV. Neste caso, os cri- que certas características considera-
Figura badalada do sector do vinho térios são mais abrangentes, mas das como defeitos possam deixar de
português actual, António Maçanita apenas podem colocar no rótulo pou- o ser. Para ele, um vinho turvo ou
tem disputas recorrentes com as CVR. co mais do que o ano de colheita e as com uma ligeira acidez volátil detec-
Polémico e provocador, Maçanita é castas. tada (mesmo dentro dos limites
uma personagem inquieta que gosta to com a CVA e que por vezes se sente volto a fazer tinto de talha” (todos eles Os vinhos enviados para certiÆca- legais) será sempre um vinho com
de experimentar e que aÆrma que, motivado em manter o diálogo. vinhos reprovados pela CVA, em ção nas CVR passam primeiro pela defeito que não pode passar. “Defei-
enquanto produtor, está “tão próxi- Porém, outras vezes “só apetece é algum momento). Como se não bas- avaliação físico-química efectuada tos são defeitos em todo lado. Colocar
mo de aprofundar a nossa cultura e desbaratar”. Em 2016, perante mais tasse, na Æcha técnica voltou à carga: nos laboratórios das comissões, que um vinho no mercado com um defei-
as castas locais como está em mudar uma reprovação, resolveu manifestar “Não se pode chamar de talha pois a são certiÆcados por normas interna- to é estar a contribuir para o mau
o mundo com novos desaÆos”. Acon- o seu aziúme no rótulo de um vinho comissão não deixa e não pode ser da cionais. Se em conformidade, seguem nome da denominação.”
tece que o resultado deste conceito de talha a que deu o irónico nome de região porque a comissão não gosta. então para a câmara de provadores,
esbarra com frequência nas regras O Tinto do Pote de Barro. Como num Fica assim o nosso ensaio de castigo que os analisa de acordo com o aspec-
das entidades reguladoras, nomeada- castigo de escola, juntamente com a no canto da sala reduzido a um digno to (limpidez, intensidade/tonalidade
mente nas da Comissão Vitivinícola ilustração de uma cadeira onde pou- e humilde Pote de Barro, bem à ima- da cor), aroma (complexidade e
do Alentejo (CVA), a principal região sam umas orelhas de burro, lê-se o gem do vinho.” intensidade) e sabor (complexidade,
onde exerce actividade, através da seguinte: “Não volto a fazer Fina Flor. António Maçanita acha que há adstringência/amargor, corpo/estru- Pode ler uma versão alargada
Fitapreta Vinhos. Não volto a fazer Branco de Tintas. “sobretudo uma ideia de gosto” por tura, equilíbrio, Æm de boca) - as deste artigo em
Maçanita diz ter um discurso aber- Não volto a fazer branco de talha, não detrás destes chumbos. Os vinhos em amostras são anónimas e o provador www.publico.pt/fugas
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38 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Compras
NUNO ALEXANDRE MENDES

Quinze vinhos
frescos
e desaƊantes
para o Verão

Porque o consumo não tem


que ser repetitivo, Ɗzemos uma
selecção de brancos, tintos
e rosés que possam amansar
a sede do Verão que está
à porta e valorizar as refeições,
tornando-as ainda mais
agradáveis. Pedro Garcias
a O Verão está à porta, mas os dias tintos, de perÆl mais Æno e digestivo,
já começam a aquecer. E, se as pre- sem taninos grosseiros e com boa
visões dos especialistas da meteoro- fruta e frescura.
logia se conÆrmarem, os próximos Já não há razões para se beber
meses vão ser tórridos. Quem não sempre o mesmo, por falta de alter-
passa sem vinho, vai mesmo precisar nativas. O vinho português diversiÆ#
de vinhos frescos, leves e fáceis de cou-se de tal maneira que a maior
beber. Brancos, tintos e rosés que diÆculdade é escolher. De brancos
possam amansar a sede e valorizar de talha a tintos de maceração car-
as refeições, tornando-as ainda mais bónica, o leque de vinhos desaÆantes
agradáveis. Vinhos com vocações ao dispor dos consumidores é imen-
distintas, porque o consumo não tem so. E a maioria até tem preços aces-
que ser repetitivo. síveis.
Vai haver dias com refeiçõe s tão Para lhe facilitar a escolha, selec-
frugais em que só apetece mesmo cionámos e testámos alguns vinhos
um rosé simples e fresquinho. Nou- que podem responder a diferentes
tros, quando a mesa estiver recheada gostos e contextos estivais. Alguns
de bom peixe, será necessário recor- não se encontram nos circuitos tra-
rer a um branco fresco mas com uma dicionais, mas também aqui não
riqueza no mínimo proporcional à estamos perante um problema irre-
da comida, para não se desperdiçar solúvel. Hoje, é raro o produtor que
um bom momento gastronómico. E não entregue o vinho em casa do
também haverá espaço para alguns cliente.
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 39

CONTEÚDO
COMERCIAL

Quintas de
As nossas escolhas Melgaço:
uma quinta vinícola
Herdade do Rocim parecido, mas o que realmente que faz brilhar a casta
Fresh From Amphora atrai neste vinho é a possibilidade
Branco 2020 de provar algo distinto e singular,
embora a um preço demasiado
Alvarinho
elevado. 25€. P.G.
Do espírito empreendedor de um português
Jo&Co. Atitude Arinto raiano nasceu uma quinta que enaltece
aquela que é uma das castas mais amadas de
Portugal e além-fronteiras: a Alvarinho. Dela
O nome diz tudo. Trata-se de um nascem vinhos que, à mesa, proporcionam
branco alentejano feito em ânfora momentos de puro prazer.
e com uma frescura deliciosa, de

A
perfil mais cítrico do que em
edições anteriores (parceria da Este branco do Douro, de escassos quilóme- sures 2020; ou a do Duplo
Herdade do Rocim com Dirk pequena produção, não tem ano, tros a sudoeste da Ouro na Sakura Japan Wo-
Niepoort no âmbito do projecto mas presumo que seja de 2019 vila Melgaço, em man’s Wine Awards 2021,
NatCool). Tem apenas 11% de (ainda estou para perceber qual é Viana do Castelo, repousa alcançada pelo Alvarinho
álcool, mas quem espera um a lógica de não se colocar o ano uma das mais belas quin- QM, após ter sido Ouro no
vinho a fugir para o verde vai ter do vinho no rótulo e de tal ser tas desta zona raiana. Em mesmo concurso, em 2020,
uma boa surpresa. É amigável e permitido). É um Arinto dos altos plena região dos Vinhos e no 26º Grand Internatio-
salivante. Feito com castas de do Douro (Alijó), muito directo e Verdes, a Quintas de Mel- nal Wine Awards Mundus
pouco prestígio mas com com uma frescura natural gaço conta uma história Vini, no mesmo ano.
tradição local (Manteúdo, Perrum assombrosa. A acidez é escrita pela mão empreen- Este projecto, que começou
e Rabo de Ovelha), é um branco elevadíssima, mas, como é boa, dedora do seu mentor e com um sonho ousado de
agradabilíssimo que se bebe sem até porque as uvas pelo seu amor à terra que o Amadeu Abílio Lopes, ac-
pretexto e a acompanhar amadureceram o suficiente, não viu crescer. Melgacense de tualmente, representa uma
qualquer tipo de comida. 12€ agride. Com ostras ou peixe, faz origem, Amadeu Abílio Lo- importante força de desen-
(garrafa de litro). P.G. um brilharete. 10€, à venda em pes rumou ao Brasil, onde volvimento socioeconómi-
Loja Casteleijo. P.G. fez fortuna e se estabele- co para a região, projectan-
António Maçanita ceu como um empresário do-a para o atlas mundial.
perta os sentidos. Ao olhar,
Alicante Branco Rebuscado Maceração industrial de referência. A sua missão é alcançada
destaca-se a cor amarela ci-
Vinhas Velhas 2019 Carbónica Tinto trina, brilhante. O seu aro-
O desejo de ver prosperar através do empenho e ca-
ma intenso e fresco agrada
a região onde nasceu, dita rinho diários que os seus
o olfacto, onde se destacam
o motivo do seu regresso. 530 sócios, ou seja, as suas
as notas de frutos tropicais
( E?
ť‡ť  ťʝ  ť - 530 famílias colocam dia-
ŧ E
  ʞ ť
 ŧ>
quenos e médios produto- riamente no cumprimento
Na boca, revela-se cheio e
 ĩŧ
ť? ť ʝ  das suas funções.
frutado, com uma acidez
enaltecer o potencial dos
Conhecida como Boal de Alicante Outro vinho sem ano, embora, Um “branco de luxo”  E
ŦťťEʝť

-
ou Boal Cachudo, diz a literatura pelo lote, se depreenda que é de vinhos da região e da casta
go e persistente. A qualida-
vitícola que é uma variedade com 2020. É um tinto de produção Alvarinho. Abre a adega em
Das vinhas mais antigas e de deste néctar tem vindo a
uma sensibilidade à oxidação minimal (700 garrafas), criado por 1994 e faz nascer a socieda-
nobres da Quintas de Mel- ser distinguida em premia-
muito elevada, neutra de aroma e João Meireles e Daniel Miranda, de da Quintas de Melgaço.
gaço, cuja idade ultrapas- ções internacionais como o
sabor, com uma capacidade de dois jovens que trabalham para a sa os 30 anos, nasce o QM Challenge International du
Uma casta única, uma
envelhecimento quase nula, falha Folias de Baco, de Tiago Sampaio, Vinhas Velhas, ex-líbris da Vin (França) ou o Decanter
de acidez e não recomendável produtor dos vinhos Olho no Pé e região autêntica
quinta. Com uvas da casta - World Wine Awards. Uma
para vinhos elementares, Uivo (Planalto de Alijó, Douro). A Através da combinação Alvarinho cuidadosamente combinação que, só por si,
podendo servir como adjuvante ideia deste projecto paralelo é seleccionadas, o seu carác- é um convite irrecusável
de métodos e saberes an-
da Fernão Pires e da Arinto ou testar diferentes tipos de ter elegante e sublime des- para o provar.
cestrais no tratamento da
então como uva de mesa. Um vinificação e diferentes vinhas.
casta Alvarinho nascem
retrato destes afasta qualquer Desta vez, a opção recaiu na
vinhos únicos e inconfun-
consumidor, mas António maceração carbónica, processo
díveis, de personalidade e
Maçanita arriscou e fez um vinho que consiste em fermentar os
estreme de Alicante Branco no cachos inteiros num ambiente
temperamento fortes, que
seu Chão dos Eremitas, no sopé sem oxigénio. Como a têm vindo a ser reconheci-
da Serra d’Ossa, no Alentejo. É o fermentação se dá dentro dos dos pela crítica nacional e
primeiro vinho desta casta, uma bagos, é possível fazer um tinto internacional.
novidade absoluta. Uma parte do de pouco álcool e sedoso, sem Nas suas menções mais
lote fermentou em barricas taninos verdes e agressivos. É honrosas, destacam-se
usadas, o que explica a sua boa assim que é feito o famoso distinções como a do Espu-
boca. Como é pouco maduro, Beaujolais. Este Rebuscado, de mante QM Super Reserva,
também tem uma frescura apenas 11,5 % de álcool, resultou ŧ
ťʝŧť  ŧ   E  
razoável. O produtor diz que num tinto muito perfumado, 50 Melhores Espumantes
possui um nariz intenso, com dominado por aromas a fruta do Mundo, pela Wine Plea-
notas de toranja, pêssego e vermelha (morango, sobretudo),
pólvora. Com boa vontade, é fresco e saboroso. Pode ser
possível descortinar algo bebido à mesma temperatura c
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40 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Compras

de um branco e até acompanha caso, através de aromas nos quais corpo da Touriga e a garra tânica frescura imensa, que o convertem Fonte da Vila Single
com peixe. Uma delícia. 9€, pode se destaca o mel e notas de fruta e a componente vegetal da em versátil parceiro para as Vineyard Branco 2017
ser comprado através da empresa seca e por uma sensação na boca Cabernet Sauvignon, condições refeições de Verão. Sobretudo
Folias de Baco.P.G. despida de sensações de fruta e ideais para harmonizar a gordura pelo perfil muito gastronómico
marcada por uma evidente da carne. Membro de uma família apoiado numa finura de boca e
Sem Maneiras Tinto 2017 rusticidade. É, por isso, um vinho de vinhos que, sejam brancos ou acidez marcante. Fino, longo e
diferente, que interpela e convida tintos, se destacam pela classe ou poderoso, com intensidade
a situar os tradicionais descritores pela longevidade (quem por aromática, notas de bosque, fruto
aplicados aos vinhos brancos acaso tiver um Touriga Nacional vermelho e leve vegetal. Tudo em Toda em produção biológica,a
num contexto muito diferente. No de Cidrô da vindima de 2010 é grande harmonia e equilíbrio e Quinta da Biaia fica na parte
final da experiência, que se gente com sorte), este tinto está ainda com um potencial de nascente das encostas da serra
recomenda, fica um rasto de numa boa condição de equilíbrio guarda e evolução fantásticos. da Marofa, com as vinhas a uma
Tinto de Portalegre (Alentejo), frescura marcante. Produziram-se entre a complexidade do tempo e 44€. J.A.M. altitude média de 750m - as que
parceria entre Dirk Niepoort e o 800 garrafas. 22€. M.C. a garra da juventude. Fresco, estarão a maior altitude de
chef Ljubomir Stanisic. O título é intenso e longo, é uma boa Casas do Côro Reserva Portugal. A casta Síria é,
um achado, porque remete para Taboadella Encruzado escolha para actividades ao ar Tinto 2015 naturalmente, a jóia da coroa da
o nome do restaurante de 2019 livre. 18,80€. M.C. Biaia, com a qual é feito este
Ljubomir (o 100 Maneiras) e para branco de grande finesse,
a sua falta de tento na língua. Quanta Terra puro e absolutamente
E o vinho, de vocação social e Phenomena 2020 transparente na forma como
gastronómica, também tem muita destaca as características da
graça, com aromas muito frescos casta e do local. À complexidade
e limpos (flores, fruta vermelha) Associado ao projecto turístico aromática associa uma prova de
e um paladar fino e suculento. As razões pelas quais a casta com o mesmo nome, é um vinho boca elegante e intensa, sempre
9,50€. P.G. Encruzado se está a transformar que soma à extrema elegância muito cremosa e precisa.
num caso de sucesso junto dos uma extraordinária frescura e Notas de frutos secos à mistura
Quinta de Monte D’Oiro consumidores têm neste Os tempos em que havia sempre finura de boca. Carácter muito com toranja, num bando de
Rosé 2010 Taboadella uma explicação um branco ou um tinto melhores mineral e acidez exuberante, que frescura e perfeição ácida. Um
evidente. O seu volume de boca é do que o rosé que nos era reflectem o terroir de granito das dos grandes brancos de Portugal.
notável, deixando no palato um proposto estão cada vez mais terras altas da Beira Interior em 32,50€. J.A.M.
rasto seivoso e intenso. A sua longe. Hoje, em Portugal, é cada que se encaixa a aldeia histórica
estrutura é poderosa e marcante. vez mais possível associar as de Marialva e as vinhas muito Kopke Winemaker’s
E mesmo que a sua feições que procuramos num velhas onde são colhidas as uvas. Collection Rosé 2020
expressividade aromática seja grande vinho a esta categoria. Um tinto de cor aberta, muito
Rosé de Syrah, uma das castas razoavelmente contida, a Entre boas propostas de Norte a saboroso, com boca sumarenta,
predilectas do produtor, Bento presença de fruta de polpa Sul do país, a da Quanta Terra, que combina a grande vocação
dos Santos. Possui um frescor branca temperada por sensações trabalhada a partir da casta Pinot gastronómica com notas de
magnífico e a leveza certa - vegetais na boca, pela presença Noir (bem conhecida pelo frutos silvestres, corpo elegante e
diferente de simplicidade. É seco discreta da barrica e por uma enólogo Celso Pereira nas suas taninos muito finos. Um belíssimo
e não muito aromático, acidez retemperadora aventuras com o espumante tinto de Verão. 33,50€. J.A.M. Do Douro para o Mundo, um rosé
mostrando maior riqueza na boca, providenciam uma harmonia Vértice), está entre as mais bem muito elegante, amplo e
o que o recomenda ainda mais tentadora e muito vocacionada conseguidas. O Phenomena Casa da Passarella Villa complexo, que associa ainda uma
para a mesa de Verão. De resto, o para a mesa – peixes gordos, revela um aroma sofisticado, com Oliveira 2.ª Edição boa aptidão gastronómica. Com
ligeiro amargor que deixa no final queijos fortes ou comida italiana. notas cítricas e sugestões base na casta Tinto Cão e o perfil
exige mesmo alguma companhia, No mercado há, felizmente, tropicais, corpo denso e de cor aberta e grande elegância
por mais leve que seja. 8€. P.G. muitos e bons Encruzados, mas impressivo, e uma magnífica da moda, este rosé tem
como síntese das qualidades secura final marcada pela acidez. sobretudo a virtude do equilíbrio
Poças Fora de Série desta casta (e do Dão), esta Um vinho com uma grande entre uma boa estrutura, acidez
Orange 2018 criação dos enólogos Jorge Alves versatilidade (a sua frescura é marcante e sabor bem definido.
e Rodrigo Costa é uma excelente retemperadora e o seu músculo Segundo engarrafamento de um Além de fresco e jovial, é também
proposta para os meses de calor. tornam-no muito gastronómico), vinho que é um blend de cinco um vinho com boa aptidão
15,90€. M.C. bonito na sua cor próxima do colheitas (2015 a 2019), cujo gastronómica, com base na sua
salmão e bem bom de beber. resultado é absolutamente secura e estrutura, que mesmo
Quinta de Cidrô Touriga 24€. M.C. arrebatador. O expoente de assim não esconde os sedutores
Nacional/Cabernet subtileza, elegância e intensidade aromas frutados. Um rosé de
A Poças criou o projecto Fora de Sauvignon 2016 Quinta da Vegia Superior da casta Encruzado, rainha no Verão, mas também seco e com
Série para fazer experiências e, ao Tinto 2015 Dão. Um vinho de enorme perfil de boca sério que também
fazê-lo, acaba por proporcionar riqueza, com múltiplas nuances o recomendam para a mesa.
experiências distintas aos e camadas, fruta muito subtil, 19,75€. J.A.M.
apreciadores de vinho. Caso intensidade aromática e grande
deste Orange Wine, um branco pureza. Às notas frutadas associa
com uma tonalidade oxidada já algumas nuances e evolução,
(laranja) em resultado de um Se o Verão é tempo de churrasco, mas com uma textura fina,
contacto prolongado das este Quinta de Cidrô é uma João Pedro Araújo é um produtor de grande elegância, a destacar
películas e grainhas das uvas com companhia ideal para o independente, vigneron a acidez de expressão madura
o mosto (curtimenta), produzido a acompanhar. Já com a primeira autêntico, que teima em lançar e muito assertiva. Um branco
partir da casta Arinto. Se espera manifestação dos aromas do para o mercado apenas vinhos de de grande, grande, nível!
um vinho dentro dos padrões envelhecimento a temperar o alta qualidade e só quando estão 78,90€. J.A.M.
convencionais dos brancos, músculo da fruta original, este aptos a destacar todas as suas
esqueça. Esta proposta é mesmo tinto conserva ainda assim a virtudes. Este é um vinho do Dão
para desafiar os sentidos. No complexidade aromática ou o de grande intensidade e uma
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 41

Vinhos

Um branco colossal do Luís Pato clássico


que o Duckman da moda jamais fará
ADRIANO MIRANDA

Elogio do vinho

Pedro Garcias
a Um conterrâneo, há dias: “Sabias
que o pai de Luís Pato estagiou aqui
em Alijó, na Real Companhia Velha?
Fez cinco pipas de vinho branco ao
meu pai. O vinho era tão bom que
ele e os amigos beberam as cinco
pipas num ano.”
Imagino as tainadas. Conheci
alguns senhores desse grupo, tudo
gente bem posta na vida e com
reputação. Quando era para beber
e comer, e era quase sempre, não
brincavam. Viveram todos longas
vidas.
“Não, o meu pai não foi”,
esclarece Luís Pato. “Ele era um
simples agricultor na Bairrada. Pode
ter sido o Adelino Pato, que era o
enólogo do meu pai [e das caves
Messias]. Ele esteve na Real
Companhia Velha a fazer
espumantes. Ou então o Mário Pato,
o homem que criou a tabela da
aguardentação do vinho do Porto. mais casta donzela - ou donzelo, Um branco infante ao lado de um mas não fui o único a Æcar de boca outra cooperativa (a de Cantanhede
Era primo do meu avô.” para respeitar a diversidade de branco com 30 anos. aberta. Há vinhos que não faz alguns brancos bem bons) e os
São muitos os Patos, como se vê. género. Em geral, de um branco permitem dúvidas, nem longevos e formidáveis brancos de
Na linha directa de Luís, a Ælha Fui buscar outra garrafa, do português com esta idade é legítimo divergências. Este é um deles. Foi caves já extintas, como Vale d’Arcos,
caçula, João, também já faz uns mesmo Luís Pato, o Branco Vinhas não esperar grande coisa. Se estiver com este branco monumental que por exemplo. Os solos (areia e
brancos com o pai, vinhos sem Velhas 1991. Os anos terminados em ainda vivo, já é uma boa notícia. Eu Luís Pato conseguiu entrar nos calcário, no casos dos brancos) são
sulÆtos, ditos naturais, que a família 1, assegura o próprio, são sempre provara há uns anos o Luís Pato restaurantes de Martín Berasategui um dos trunfos da Bairrada. A
comercializa sob a chancela anos de grande acidez, pelo menos Vinhas Velhas 1990 e estava muito e Andoni Aduriz, dois dos mais proximidade do mar é outro aliado.
Duckman. É um sucesso, sobretudo na Bairrada. São bons para brancos. bom. Contava com uma boa estrelados chefs espanhóis, por E as castas, dominadas pelo trio
nos Estados Unidos. Recentemente, Já os anos terminados em 5 são bons surpresa, mas não esperava exemplo. São vinhos assim que Maria Gomes, Bical e Cercial,
abri uma garrafa de um Duckman da para tintos. Há, de facto, grandes encontrar um branco assim, tão fazem o prestígio de um produtor, também ajudam, em especial a
casta Sercialinho, uma variedade tintos da Bairrada de 1995, 2005 e extraordinário e ainda tão cheio de de uma região e de um país. última, a mais ácida.
que, de acordo com exames de 2015, por exemplo. vida. Foram 30 anos de evolução A Bairrada, numa frase, é uma No Luís Pato Vinhas Velhas 1991
ADN, parece ter nascido do O ano de 1991 foi, pequena região de espumantes e de entram as três (a Cercial aparece no
cruzamento das castas Vital portanto, grandioso para perfeita. Um vinho tintos de uma casta só, a Baga. Mas rótulo com a graÆa “Cerceal”, que é
(comum na zona de Lisboa) e Uva brancos. Ainda não sabia com uma limpidez, dizer apenas isto é muito pouco. outra variedade, uma velha
Cão (mais popular no Dão), quando desta conjugação astral riqueza e frescura Também se diferencia pelos confusão) e também a Sercialinho,
se julgava que era um híbrido de quando provei o Luís Pato admiráveis. belíssimos e duradouros brancos embora não conste (é ainda mais
Vital e Alvarinho. A garrafa, de um Vinhas Velhas 1991. Abri a Provado às cegas, que faz (apesar de os brancos pungente do que a Cercial). O vinho
ano recente, foi-me oferecida pelo garrafa para defender a passava por um representarem apenas cerca de um tem 12% de álcool. Em novo, devia
próprio Luís Pato, numa visita que honra do produtor, sem grande branco do terço da produção total). Não é só ser um punhal a deslizar pela
fez ao Douro. Abri-a num almoço querer colocar em mundo. Com um Luís Pato. Há outros: Caves São língua. Agora é água de Canã. Sabe
com uns amigos. O vinho, turvo e confronto um branco rótulo francês de João, Quinta das Bágeiras, quanto custa? 26,50 euros, menos
com um pouco de gás, estava clássico (protegido renome, haveria Campolargo, Quinta de Baixo (agora de um euro por cada ano de vida do
fresquíssimo e curioso, mas, para com sulfuroso, colado gente disposta a da Niepoort), Casa de Saima, vinho (preço na Garrafeira
ser sincero, éramos uns dez e não e Æltrado) com um pagar centenas de Bussaco (os brancos são quase só da Nacional). Mais ou menos o que
conseguimos beber a garrafa. Outra vinho natural (purinho euros por uma Bairrada, enquanto que os tintos custam aos americanos os “quaaaq,
geração talvez a esvaziasse num mas protegido apenas garrafa. Não é um também levam uvas do Dão), quaaaq” acabados de fazer da série
abrir e fechar de olhos, excitada pela sua boa acidez e elogio gratuito, Quinta do Encontro, Colinas, Duckman.
com a sua acidez vibrante, o ligeiro por uma oxidação nem um arrebate Kompassus, Filipa Pato, só para
sabor lácteo, a graciosidade preventiva na fase de nacionalista. citar alguns produtores já mais Jornalista e produtor
pétillant, o ser como é, puro como a decantação do mosto). Podia ser de mim, consagrados. Sem esquecer uma ou de vinho no Douro
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42 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Ventozelo Hotel & Quinta

Comer da horta
e da mata
na Cantina de uma
quinta duriense

Miguel Castro e Silva serve no restaurante


do Ventozelo a “cozinha das quintas do Douro”,
com um receituário que vai da Beira Alta ao Minho
e que traz até a memória de sabores árabes.
Os produtos, vai buscá-los à horta biológica
e à “mata do Astérix”. Alexandra Prado Coelho
a Às vezes um prato comove-nos aquela cabidela não precisava de
apenas porque está tudo tão certo
com ele e connosco que só queremos
i mais nada para garantir a total felici-
dade dos recém-chegados.
agradecer silenciosamente aquele Tínhamos estado aqui no Ænal de
encontro inesperado. Foi assim com Ventozelo Hotel e Quinta Agosto de 2019, quando o enoturis-
o arroz de cabidela que nos esperava Quinta de Ventozelo – mo se preparava para abrir portas, e
à chegada a Ventozelo. Ervedosa do Douro tínhamos encontrado Miguel Castro
Para quem vem de Lisboa, chegar São João da Pesqueira e Silva fascinado com as possibilida-
ao Douro demora algum tempo. Tel.: 254249670 des que se abriam neste hotel que,
Tínhamos ido de comboio até ao E-mail: em primeiro lugar, é uma quinta do
Porto e depois de carro – um imper- hotel@quintadeventozelo.pt século XVI, com vinha a perder de
turbável Tesla, que durante parte do hotel.quintadeventozelo.pt vista, comprada em 2014 pelo Grupo
caminho veio em condução automá- Actividades Gran Cruz, com o qual o chef traba-
tica, algo que só descobrimos duran- Percursos por sete trilhos na lha também no Casario, restaurante
te a viagem de regresso – e quando quinta: o Caminho das Vinhas, do Hotel Gran Cruz House, na Ribei-
chegámos à quinta em Ervedosa do do Moinho, dos Sobreiros, do ra do Porto, e no deCastro Gaia, no
Douro eram quase três da tarde e Javali, do Rio, de Ervedosa. Espaço Porto Cruz.
trazíamos algum apetite. Existe um audioguia de apoio, Agora a Cantina está a funcionar
Miguel Castro e Silva, o chef res- que pode ser descarregado em pleno e a lista de pratos que
ponsável pela Cantina, o restauran- numa aplicação. podem ser servidos ao longo do ano de cogumelos e Porto, truta sobre Grupo Gran Cruz, que lhe falou na
te de Ventozelo no antigo espaço de Actividades na cozinha, com a é imensa e vai, entre as possibilida- escabeche de citrinos, pescada assa- “zona de inÇuência da bacia hidro-
refeições dos trabalhadores, tinha preparação de receitas simples; des para almoços (há sempre um da com couve guisada ou raia com gráÆca do Douro”. A partir desse
planeado um almoço mais leve, mas agrícolas, dependendo dos prato por dia, mais entradas e sobre- milhos de ervas frescas. conceito, o chef foi fazendo uma
alguém sugerira que, “para entra- trabalhos em curso em cada mesa), do rancho duriense com cou- Não há propriamente uma gastro- compilação de receitas que podem
da”, se pedisse um arroz de cabide- altura do ano, e de observação ve ao cachaço de bísaro com milhos nomia do Douro, embora haja a ser da Beira Alta, de Trás-os-Montes
la. E assim, quando nos sentámos à da natureza. de tomate, do cabrito assado no for- cozinha das quintas do Douro, aÆr- ou do Minho – ou até de Marrocos
mesa, posta no exterior, junto ao Visita ao Centro Interpretativo. no a lenha com arroz de forno à fei- ma Miguel Castro e Silva. Várias gas- ou do Líbano, porque encontrou
forno de lenha, os tachos começa- Provas de vinho. joada de polvo, passando por uma tronomias cruzam-se neste territó- pontos comuns com a gastronomia
ram a chegar. Houve ainda quem Piqueniques. inesperada beringelada. Ao jantar, rio onde se misturavam portugueses árabe, tal como a broa doce de
temperasse com o vinagre de vinho Todas as actividades implicam introduz-se um toque de maior soÆs- e britânicos, Ædalgos e povo. A liga- Mirandela lhe fez lembrar a bebinca
do Porto que se está a fazer na quin- inscrição prévia. Condições ticação e podemos encontrar, por ção entre tudo isto nasceu de uma goesa – e que o inspiraram a criar a
ta, mas apenas para o provar, porque especiais para hóspedes. exemplo, peito de pato com molho ideia de Jorge Dias, director-geral do carta da Cantina.
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 43

FOTOS: JOÃO BERNARDINO

+
lenha e outros para transformarmos
em pickles, num dos workshops de
cozinha que quem Æca instalado em
Ventozelo pode fazer.
Um pão do passado A ideia aqui, explica João Bicho,
e do futuro é “tentar atrair para a zona de cul-
turas a grande biodiversidade que
É a Díbia, padaria e pastelaria existe na área da Çoresta”. Ou seja,
de Vila Real, que fornece o pão a pássaros, minhocas e outros ani-
Ventozelo e na visita à quinta mais são bem-vindos, “mesmo que
temos a oportunidade de o preço seja perder uma parte das
assistir a uma verdadeira aula culturas”. Mas, sublinha, tudo tem
sobre pão e cereais, dada por o seu tempo e não vale a pena apres-
Aníbal Morais, o mentor do sar a natureza. “Acredito que os
projecto, que conta com a ajuda sapos e os ouriços-cacheiros vão
da mãe, Maria Gradelina, aparecer naturalmente. É um pro-
responsável por amassar a broa cesso que não pode ser forçado.”
de milho que vamos comer mais É verdade que as minhocas cha-
tarde, parte dela em versão do mam as toupeiras, e que ter galinhas
tipo de massa de pizza, – um projecto ainda não concretiza-
cravejada de enchidos e do – pode vir a ser uma tentação
pedaços especialmente para as raposas, mas um ecossiste-
tentadores de carne de porco. ma saudável deve existir neste equi-
Do projecto faz também parte líbrio entre espécies, com as plantas
Maria Manuel, garantia de que o a servirem de alimento para as abe-
conhecimento científico entra lhas que por ali voam e de abrigo
nesta equação. E se Maria aos insectos que ajudam a combater
Gradelina recorda os tempos as pragas que as atacam.
de infância em que “levava ao E se, como acontece, os javalis se
moinho dois alqueires de milho reproduzirem em excesso (num
e trazia a farinha” e mostra a passeio vemos dois, pequeninos, a
vassoura de giesta que fez para saltitar no meio da vinha), então é
limpar o forno, Maria Manuel possível caçar algum e Miguel vai
lamenta que em Portugal falte usar a carne na tarte e nas covilhe-
legislação que defina tes que vamos encontrar mais tarde,
exactamente o que é um pão de entre o escabeche de peixe do rio,
massa mãe ou o pão integral, e as cerejas acabadas de colher, os
Workshops de pickles explica que a fermentação lenta vinhos de Ventozelo (alguns deles
ou de pão são apenas “não provoca picos glicémicos” com a assinatura do chef), e o gin
algumas das actividades enquanto mede o pH dos pães feito com botânicos locais, num
que se podem fazer na quinta que acabam de sair do forno de piquenique que nos espera na Casa
lenha. Grande.
Fundadores em Portugal do É aqui, na maior das unidades do
“Nestes três anos tenho vindo a muito rica em técnicas. Não vou fazer sou e que caçou um dos animais que Clube Richmond, pretendem enoturismo, que Æcamos a dormir,
pesquisar muito”, conta Miguel Cas- robalo, o que havia aqui era a raia, o andam à solta pela mata. É preciso “ensinar, partilhar e divulgar a rodeados por vinha e descansando
tro e Silva. “Quero fazer a cozinha congro.” dizer que Ventozelo tem 400 hecta- cultura do pão e da pastelaria”, do passeio que nos levou da horta e
que já se praticava aqui há 50 ou 100 res, sendo 200 ocupados por vinha, explicam. Um dos resultados do pomar até à frescura da mata,
anos. Uma beringelada aqui? De Um ecossistema saudável aos quais se junta o olival e uma das pesquisas que fazem é o esse “mundo do Astérix e do Obé-
repente estou a ler livros sobre a Lis- grande mata com área de caça. pão que dedicaram aos lix”, como o descreve Miguel. Aí há
boa quinhentista, capital cosmopo- No início de tudo, estão, claro, os A horta biológica é um projecto profissionais de saúde. corços (eram dois ainda há pouco,
lita com todo o tipo de culturas, produtos. Ainda estamos a deliciar- do arquitecto paisagista João Bicho. Chamaram-lhe 4Ss – saudável, agora são já 11), raposas e, debaixo
judeus, mouros, cristãos-novos. Há nos com o arroz de cabidela e já o É por aí que começamos um passeio sustentável, saboroso e de uma abóbada de árvores, escon-
núcleos de famílias que se mudam chef está a perguntar se concorda- durante o qual Miguel Castro e Silva solidário –, tem nozes, passas e dem-se as ruínas de um velho moi-
para Trás-os-Montes, para Bragança mos ter para o jantar o javali caçado vai apanhando Çores de curgete figos e é servido nos nho de água, junto ao ribeiro pelo
e trazem inÇuências. Não preciso de por José Júlio Vintém, do Tombalo- para fazer em tempura, alguns legu- pequenos-almoços da Cantina qual, diz-nos a terra, terão passado,
criar coisas novas. Esta é uma região bos, em Portalegre, que por ali pas- mes para usar à noite no forno de de Ventozelo. há não muito tempo, alguns javalis.
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44 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Harmonizações

Que vinho
DANIEL ROCHA

português vai
bem com uma
catchupa
ou um picante
de Sichuan?
À esquerda,
a comida
do Ararate,
Pedimos a seis restaurantes de restaurante
arménio;
comida internacional que em cima,
Valentina
propusessem outros tantos vinhos e Michel,
do italiano
portugueses para harmonizar Ruvida

com alguns dos seus pratos.


Alguns dos casamentos foram
surpreendentes. Alexandra Prado
Coelho e José Augusto Moreira
Ararate a casta Voskehat, grau menor (13,5º amplitudes térmicas). Improvável? Muito. Parecia a escolha centrado nos molhos, e é quem mais
para os 14,5º do tinto) e mais Çoral e Fizemos várias experiências menos óbvia. Mas, apesar de ser se dedica aos vinhos.
Cozinha de montanha,
frutado. Só para experimentarmos, casando os vinhos arménios com a encorpado e indicado para pratos “90% dos nossos pratos são à base
vinhos de altitude? vem para a mesa um Yerevan Pome- comida do chef Andranik Mes- mais intensos, à temperatura de 16º de massa”, explica, “e o glúten é uma
A história do vinho na Arménia é granate, que Abel descreve como ropyan, do suave pastel com ervas a que foi servido, bateu-se com os espécie de gordura, que forma uma
muito antiga – foram descobertos uma espécie de sangria e que, na (jinguyalov khatz), tradicional de vinhos arménios e, pelo menos para camada na boca”. Isso pede vinhos
vestígios de uma adega com mais de realidade, é um vinho de romã mui- Nagorno Karabakh, à desaÆante nós, saiu vencedor. A.P.C. “com acidez, mineralidade, comple-
seis mil anos, se bem que o período to típico da Arménia. Demasiado sopa de iogurte (spas) que parte de Ararate xidade”, precisamente para cortar
soviético tenha prejudicado a ima- doce, foi excluído à partida. um lácteo fermentado (difícil para Av. Conde Valbom, 70, Lisboa essa camada e “ajudar a perceber
gem da produção nacional, privile- A principal característica da cozi- qualquer vinho) e inclui um trigo Tel.: 925 451 509 melhor a segunda garfada”. Para
giando o brandy. É natural, portanto, nha arménia, explica o nosso anÆ# integral chamado dzavar, ao pastel além do glúten das massas, a cozinha
que a primeira proposta que nos trião, são os sabores suaves, sem tradicional com queijo e ovo (kha- Ruvida italiana é marcada pelo queijo, “usa-
fazem quando pedimos conselho no muita gordura (se exceptuarmos o chapuri barco), e passando pelos do como um push de sal”, e pelo
A massa fresca de Valentina
restaurante Ararate – em Lisboa, jun- queijo) e sem grandes intensidades deliciosos rolos de vitelão em folhas tomate, que, pela sua acidez, se pode
to à Fundação Calouste Gulbenkian, de picante ou de doce. É, no fundo, de videira (dolmá) e pelos saquinhos pede um branco tornar complicado para um vinho.
o que não é um acaso – seja para uma cozinha próxima da árabe e da de massa recheados (khinkali), dum- Dão, Beira Interior e Bairrada são as Daí que Michel e Valentina acon-
bebermos um vinho arménio. mediterrânica, com carnes grelhadas plings com um caldo aromático e regiões vinícolas que mais entusias- selhem frequentemente um vinho
Abel Matos, que nos recebe, apre- e um uso generoso de ervas aromáti- que exigem alguma perícia para mam Michel Fant, do restaurante branco ou um verde, se bem que
senta-nos um Hin Areni 2016 Tinto, cas. E, ao mesmo tempo, uma cozi- serem comidos. italiano Ruvida, em Lisboa. Se, nes- tenham uma predilecção também
feito 100% com a casta Areni (domi- nha de altitude, o que, pela lógica, Mas, curiosamente, o que melhor te casal, Valentina Franchi é a res- pela casta Baga. “Um branco mineral
nante nos tintos, proveniente de pediria vinhos de altitude, como são resultou não foi um vinho arménio, ponsável pelas massas – e podemos seco é perfeito para o tomate”, frisa
solos vulcânicos e com notas de os que se fazem na Arménia (as vinhas foi um vinho proveniente de um ter- vê-la a preparar massa fresca sobre Michel. “Os tintos mais encorpados
pimenta e bagas silvestres, e um Hin do Hin Areni situam-se entre os 1300 ritório sem altitude: o algarvio Bar- o balcão de pedra enquanto come- e com mais fruta não funcionam tão
Areni branco também de 2016, com e os 1400 metros e sofrem enormes ranco Longo Reserva Syrah 2016. mos –, Michel está na cozinha, con- bem com a comida italiana”, se bem
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 45

DANIEL ROCHA
gal, ligados sobretudo à gastronomia picante, um prato frio – há vários na que dura 24 horas. Atenção porque
de Cantão. Esqueçam os crepes chi- carta e nestes a sensação que o pican- este é um prato feito em quantidades
neses, o arroz chau chau (o arroz te nos provoca na boca é sempre limitadas, há cerca de 15 por dia, e
branco, sem sal, é aqui o mais indi- menos intensa do que nos quentes. num jantar mais tardio pode já não
cado) ou o molho de soja. “O espumante vai fazer-nos salivar estar disponível.
José Peixoto, que elaborou a carta mais cedo e prepara-nos o palato”, Terminamos com um creme de
de vinhos, aconselha um espuman- nota José Peixoto. Seguem-se os manga com tapioca (sobremesa
te Terras do Demo para as entradas: noodles translúcidos (feitos a partir de adaptada aos gostos ocidentais, já
panquecas chinesas fritas, xiao- feijão mungo) com carne de porco que os chineses preferem simples-
longbao (pãezinhos recheados com picada, para os quais aconselha um mente fruta) e um Moscatel da Baca-
carne de porco picada e cogumelos) branco, o Terra a Terra Reserva 2018, lhoa com dez anos, que, sublinha o
e guiozas com molho picante de do Douro. nosso anÆtrião, deve ser “servido
nível 1 (no The Old House há três O pato à Pequim não é um prato entre 14 e 16 graus”. A.P.C.
níveis de picante, sendo que quan- típico de Sichuan, mas é uma das The Old House
do o restaurante abriu eram mais especialidades do The Old House, e Rua da Pimenta, 9, Lisboa
intensos e tem havido alguma adap- o mais pedido pelos portugueses (Parque das Nações)
tação ao paladar português). (30% dos clientes da casa são chine- Tel.: 218 969 075
O importante é ter vinhos com ses). De sabor muito suave, é comido
frescura e acidez. Em princípio, os enrolado numa Æna panqueca e, O Canário Alegre
brancos e os rosés podem funcionar para ele, José Peixoto escolheu um
A catchupa pede tinto com
melhor, mas um tinto mais leve, com tinto do Dão, o Casa Américo, um
taninos pouco marcados e boa aci- monocasta de Jaen, que não se sobre- corpo e frescura
dez também pode ser uma opção. põe à “gentileza” da carne de pato Elias cresceu no coração da ilha de
Provamos também o pato desÆado cozinhada num complexo processo Santiago, a zona agrícola mais c

que para a poderosa Cotoletta Petro-


niana (t-bone de vitela panada com
presunto de Parma, parmesão e
bechamel), ícone da gastronomia de
Bolonha, se “possa perfeitamente
abrir um Pêra Manca”.
Para a carta de vinhos do Ruvida,
Michel fez uma grande pesquisa em
Portugal e descobriu “a grande varie-
dade do vinho português, que, infe-
lizmente, é pouco conhecido lá
fora”. Interessou-se pelo efeito da
proximidade do oceano e das gran-
des amplitudes térmicas no resulta-
do Ænal e descobriu castas como a
Baga, o Encruzado, o Alvarinho.
Para o prato que pedimos – Creste
di gallo [ravioli] ripiene di cacio&pepe
com verdure primaverili – propõe um
Chronicle branco, do Douro Supe-
rior, na zona de Foz Côa. É um vinho
de lote, no qual predomina a casta
Rabigato, e que vem de solos xisto-
sos, situados a uma altitude de 600
metros. “Adoramos este vinho por-
que exalta imenso a mineralidade.”
A.P.C.
Ruvida
Praça da Armada, 17, Lisboa
Tel.: 213 950 977

The Old House


Que vinhos para o picante
de Sichuan?
Não é tarefa fácil encontrar os vinhos
certos para a cozinha de Sichuan,
região chinesa conhecida pelos ele-
vados níveis de picante e pela presen-
ça de uma pimenta (a pimenta de
Sichuan) que deixa uma leve dormên-
cia na boca. O que nos chega à mesa
num almoço no The Old House é um
conjunto de pratos – as mesas chine-
sas são obrigatoriamente fartas –,
todos deliciosos, de sabores fortes e
cheios de especiarias.
Não se espere encontrar aqui o
tipo de comida a que nos habituámos
nos restaurantes chineses em Portu-
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46 | FUGAS | Sábado, 29 de Maio de 2021

Harmonizações
DANIEL ROCHA

fértil de todo o arquipélago de Cabo cozinhas nativas do Brasil. “Não têm


Verde, onde a catchupa é não só o nada a ver com aquilo que por cá
prato mais nutritivo, com também o costumamos associar a cozinha bra-
mais comum e popular. Em casa há sileira”, adverte. Tem o pratos típicos
sempre, e come-se a qualquer refei- do Brasil como a carne do sol, a
ção, inclusive quando é aconselhado moqueca ou filet mignon Osvaldo
um pequeno-almoço mais nutritivo Aranha - assim conhecido pelo costu-
para enfrentar o dia de trabalho. me deste político do Rio pedir sempre
Numa família com dez crianças, a peça de carne acompanhada por
Elias habituou-se a vê-la ser cozinha- muito alho frito, arroz e farofa.
da pela irmã Olívia e não precisou que Ao sábado e domingo, há também
ninguém lhe transmitisse qualquer sempre a famosa feijoada brasileira,
conselho ou explicação adicional. e todos os dias sobremesas com tapio-
“Foi o sabor da catchupa que me ensi- ca e sorvetes de frutos tropicais. A par
nou a fazê-la”, diz, agora que a forma- da cozinha nativa, o restaurante tem
ção culinária na Escola de Turismo de também uma ampla esplanada inte-
Lamego lhe deu todas as ferramentas rior onde funciona um bar tropical
e técnicas. que tem sido um must depois do con-
O cozinheiro prefere a catchupa Ænamento. J.A.M.
guisada, servida nos dias seguintes ao Capim Dourado
cozinhado, sendo guisada numa ser- Rua de Cedofeita, 322, Porto
tã para reduzir sucos e apurar sabo- Tel.: 915 500 081
res. A concentração e intensidade do
cozinhado aconselham, por isso, um
Casa Vasco
vinho encorpado, com boa estrutura,
mas ao mesmo tempo fresco e diges- A “peixeirada pura” dá-se
ADRIANO MIRANDA
tivo, como é o caso do Quinta do bem com a boa acidez
Arcossó Reserva 2015, um vinho da Mesmo estando já há mais de 15 anos
região de Trás-os-Montes ao qual o no Porto, Camilo Jaña não esquece os
tempo deu já um grande equilíbrio e ceviches que o pai sempre fazia aos
riqueza de taninos. Mas ainda fresco domingos durante a sua infância, tal
e perfeito para a gordura das carnes como a empanada de vieiras e maris-
de porco e intensidade da catchupa. cos que os acompanhavam. No Chile,
Elias gosta de a fazer segundo os de onde é natural, o chef que coorde-
cânones tradicionais da sua ilha natal, na as cozinhas do Cafeína, Terra e
mas acrescenta-lhe o conhecimento Casa Vasco, na Foz, no Porto, apren-
técnico e um empratamento mais deu também com o progenitor as
apelativo. É coroada com um ovo técnicas que usa para preparar os
estrelado e linguiça frita com travo de seus ceviches.
cominhos, que chega de Cabo Verde, Chama-lhes “peixeirada pura”,
e acompanha com o típico pastel de para brincar com o termo mas tam-
milho com recheio de atum. bém para vincar que tudo tem por
Antes de abrir por estes dias O base a marinada com as espinhas e os
Canário Alegre, na zona onde vive restos da carne depois de desmancha-
fora do centro de Guimarães, Elias do o peixe. O ceviche é um método
Varela tinha chamado a atenção na ADRIANO MIRANDA
de conservação, que inclui sempre
cidade-berço com o restaurante Em cima, a cozinha três ingredientes principais: peixe
Morabeza, onde servia exclusivamen- de Sichuan, depois branco magro, abacate e batata-doce.
te cozinha de raiz cabo-verdiana, um a catchupa, o ceviche e, Na “peixeirada”, Camilo associa qui-
projecto que rapidamente se implan- por fim, o camarão noa e usa a corvina como peixe.
tou mas que mais rapidamente ainda na moranga Além do sumo de lima, tem que
a pandemia obrigou a fechar. levar também cebola roxa, gengibre,
O Canário Alegre é agora um recuo usado, para que o prato não se torne coentro e malagueta, a que junta o
estratégico, em condições menos exi- pesado e mantenha a frescura e aro- suco da marinada, o chamado leite de
gentes, que quer manter alguns pra- mas do marisco. tigre. É um prato típico da região
tos da cozinha de Cabo Verde. Além O camarão e a abóbora são saltea- andina, que atravessa a América do
da catchupa, coisas como o Ælete de dos em azeite dendê e a abóbora onde Sul, e no Chile é transversal a todo o
robalo com molho achim, arroz de é servido o creme com os camarões país, garante Camilo.
atum, feijão congo com cordeiro e acompanha com arroz de coco. Para Para harmonizar, escolheu o vinho
arroz de coco, ou xerém com porco o copo, o cozinheiro escolheu o da Quinta de Azevedo com Loureiro
na cerveja.J.A.M. Camaleão Chardonnay, um Vinho e Alvarinho, um clássico dos Vinhos
O Canário Alegre Verde que combina aromas tropicais Verdes com os aromas muito focados
Rua 1.º de Maio, 10, Guimarães com a frescura ácida, ideal quando o nas notas frescas e cítricas, mas tam-
Tel.: 911 033 965 prato conjuga idêntica força aromá- bém volume de boca, textura e uma
do este prato que tem o camarão A base do prato é o creme de abó- tica em combinação com a gordura acidez Ærme. Características que são,
Capim Dourado como protagonista. No fundo, é uma bora, camarão e leite de coco. Associa das natas. Acidez precisa-se, portan- precisamente, as mesmas do ceviche,
moqueca cozinhada numa abóbora, ainda a mandioca, que dá cremosida- to, e esta é uma das mais marcantes pelo que em vez de casamento per-
O Camaleão adapta-se
cujo interior se vai juntando com a de, e coentros para aromatizar. No particularidades deste vinho do feito se pode falar até de uma comple-
ao camarão na moranga moqueca à medida que se come. João Nordeste brasileiro é também costu- Minho criado pelo enólogo João ta fusão. J.A.M.
A moranga é uma variedade de abó- Wink prefere cozinhar com o creme me juntar requeijão ou queijo para Cabral de Almeida. Casa Vasco
bora do Nordeste brasileiro com a da abóbora, usando-a apenas como gratinar quando vai ao forno, mas que No Capim Dourado, João Wink Rua do Padrão, 152, Porto
qual é tradicionalmente confecciona- recipiente para ir à mesa. na versão do Capim Dourado não é oferece pratos inspirados nas suas Tel.: 226 180 602
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Sábado, 29 de Maio de 2021 | FUGAS | 47

O gato das botas

É mais fácil dizer mal da malta


nova do que aprender com ela
menos porque têm menos seis pessoas. Escolhem em o vinho e o vinho puxa a comida, mesmo elas trazem gordura e sal
dinheiro para gastar. conjunto e depois dividem. Se acabando-se por comer mais para que alteram a boca do vinho.
Muito mais interessante - e forem cinco pessoas, cada uma beber mais vinho ou a beber mais A razão para comer quando se
elucidativo - é o facto de gastarem bebe um decilitro e meio de vinho. vinho para comer mais. bebe é, sejamos francos, para
mais dinheiro por garrafa de Ora, por muito que protestem os O que tenho visto com as podermos beber mais. “Faz-se a
vinho. Isto é, preferem, grosso mais velhos e mais ricos, 1,5 pessoas mais novas - que já não cama” ao vinho para atrasar o
modo, comprar vinhos melhores decilitros chegam perfeitamente são tão novas como isso tudo - é vinho no estômago e abrandar-lhe
Miguel Esteves Cardoso do que as gerações anteriores. para apreciar um vinho: tanto o que divorciam o vinho das a absorção no intestino delgado.
Note-se bem: estão dispostos a aroma e o sabor como o efeito refeições. Faz sentido: como Mas no caso de beber pouco,
gastar mais um bocadinho (ou alcoólico, já muito agradável. bebem menos, dão-se ao luxo de porque não apreciá-lo sem ajudas
a Há uma parte de mim que folga bocadão, dependendo dos países) Isto é tabu para as gerações mais beber com o estômago vazio para nem muletas?
quando o mundo do vinho para beber um vinho de maior velhas que estou à vontade para o decilitro ter oportunidade de Para isso, o vinho tem de ser
continua na mesma, indiferente às qualidade. (Que qualidade é esta? denunciar porque faço parte delas bater. melhor. Tem de ser menos
mudanças de gosto e de consumo Já iremos ver.) (e de que maneira): nós somos Deveríamos encorajá-los e mexido. O que quer isto dizer:
a que se chamam Aqui chegamos à mudança mais gulosos porque queremos abraçá-los porque estão a beber levar menos produtos, “remédios”
depreciativamente modas. impressionante: as novas gerações qualidade e quantidade ao mesmo vinho como aperitivo ou como e “maquilhagens”; ser “bio” e
Descontar e desvalorizar os não se importam de beber menos tempo. Posto de uma maneira bebida principal, resistindo à respirar saúde e ser puro e fresco,
gostos da “malta nova” faz parte vinho para poderem beber um mais prosaica: bebemos de mais. cerveja, ao gin tónico, às recusando-se a ser ensopado em
do ethos da indústria. É por isso vinho melhor. Ou seja, preferem a À volta disso há todo um caipirinhas, aos mojitos e a todos carvalho novo e outras
que resultam tão mal os esforços qualidade à quantidade. Ou seja: Ængimento acerca das quantidades os outros cocktails. perfumarias perniciosas.
patéticos que faz, de vez em são elas que têm razão, são elas de vinho em que a bitola mínima E têm razão: os bons vinhos não Aquilo que os millennials
quando, por descargo de que sabem o que é bom. parece ser uma garrafa inteira precisam de comida. O sabor deles querem é o que todos deveríamos
consciência, para corresponder a Como é que fazem isto? para duas pessoas, ao longo de merece ser apreciado sem mais querer: mais qualidade. Quanto à
esses gostos, tornando-se Primeiro, partilham as garrafas uma refeição. nada. Talvez umas amêndoas quantidade, é com os apetites (e
embaraçosamente trendy. com mais três, quatro, cinco ou A verdade é que a comida puxa torradas não chateiem muito. Mas com a bolsa) de cada um.
Cada geração tem a mania que o FERNANDO VELUDO/NFACTOS
gosto dela é bom; é que é o bom;
que é esse o bom gosto. Esquece
que esse gosto existe sempre por
oposição a outros, nomeando os
gostos diferentes como maus,
como o mau gosto que tem de ser
combatido pelo bom gosto. Só que
esse bom gosto é forçosamente só
gosto.
Esta atitude tem um lado
positivo e paciente: “Continuemos
como sempre Æzemos porque
estas manias de agora também
hão-de passar e o pessoal acabará
por ganhar juízo e afeiçoar-se aos
vinhos que são realmente bons.”
Chamemos-lhe o reÇexo
tradicionalista. Mas também tem o
lado negativo que é o da
insensibilidade, da cegueira e da
teimosia. Chamemos-lhe o reÇexo
solipsista.
Repare-se no que fazem as
pessoas mais novas, ditas
millennials para Ængir que são
todas parecidas e que gostam
todos, mais ou menos, das
mesmas coisas, só porque
nasceram entre 1980 e 2000.
Como é que bebem vinho? Que
vinhos bebem? Gastam menos
dinheiro em vinho do que as
gerações anteriores? Este parece
ser o único facto que preocupa os
solipsistas. Na verdade a
explicação é simples: gastam

FUGAS N.º 1088 FICHA TÉCNICA Foto da capa: Nelson Garrido Direcção Manuel Carvalho Edição Sandra Silva Costa Edição fotográfica Nelson Garrido Directora de Arte Sónia Matos Designers Joana Lima e José Soares
Infografia Cátia Mendonça, Célia Rodrigues, José Alves e Francisco Lopes Secretariado Lucinda Vasconcelos Fugas Rua Júlio Dinis, nº270, Bloco A, 3º, 2, 4050-318 Porto. Tel.: 226151000. E-mail: fugas@publico.pt. www.publico.pt/fugas
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