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EDU 1445

Professora Alicia Bonamino


Trabalho de G1

O QUE É SER PARTE DO SISTEMA DE EDUCAÇÃO EM MEIO À


PANDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS
LUIZA KHOURY
Cursando Licenciatura Bilíngue em Letras
Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ)

Darcy Ribeiro, ministro da educação no período de 1962 a 1963, fez uma


polêmica declaração acerca do sistema de ensino nacional: “a crise da educação no
Brasil não é uma crise; é um projeto”. Infelizmente, não é preciso muito esforço para
que suas palavras sejam comprovadas e aceitas como a realidade brasileira. Ainda que
englobando apenas um período recente de tempo, é possível atestar o péssimo
desempenho da educação no Brasil em exames como o PISA, no qual ocupamos a 57º
posição, um número desagradável para uma das sete maiores economias do mundo.
Problemas como evasão escolar, falta de controle da infraestrutura das instituições de
ensino e carência de materiais são reconhecidos por toda a população como
naturalizados em nosso sistema. A desigualdade presente entre os ensinos da rede
pública e privada de ensino também é notável, como apresentado pelo IBGE ao trazer
dados de que apenas 26% dos alunos formados em escolas do governo ingressam no
ensino superior enquanto, no caso das escolas particulares, tal percentual atinge 79,2%.
Como tudo no Brasil, a educação tem sido brutalmente elitizada ao longo de séculos e,
ainda que haja inúmeras medidas para que esse catastrófico cenário se reverta, a
pandemia da Covid-19 trouxe novamente para a superfície a profundidade dos
problemas estruturais e da desigualdade presentes em nossa educação.

À título de análise da conjuntura supracitada no atual cenário do globo, serão


explorados três pontos de vista das principais figuras do processo educativo: o
professor, o aluno e os responsáveis. Cada um à sua maneira, todos foram brutalmente
afetados pela mudança radical sofrida nas escolas para o ano letivo de 2020. Desde o dia
11 de março do mesmo ano, o ensino presencial foi paralisado para contribuir com o
distanciamento social e, dessa forma, evitar a proliferação do coronavírus. Ainda que a
contaminação em massa no ambiente escolar tenha sido evitada, houve o surgimento de
novas questões de suma importância, como a alimentação dos alunos que dependem da
escola para se sustentar, o acompanhamento do currículo proposto para o ano letivo e o
acesso dos alunos à escola, que agora se encontra em um novo ambiente. As três partes
citadas sentiram os impactos da nova realidade de formas diferentes, mesmo que não
possam ser entendidas como mais ou menos intensas em comparação ao sofrido pelos
outros grupos. A grande questão, no entanto, trata-se de como superar tais impactos,
viabilizando a aprendizagem e consertando o dano causado.

 O PROFESSOR(A).

A imagem do professor em um país que não valoriza a educação sempre foi a de um


profissional batalhador, cuja única motivação possível para o exercício da carreira é o
amor à profissão, a valorização da educação e o ímpeto de formar um futuro de cidadãos
críticos. Dentro da escola, o docente representa a figura de maior confiança do aluno,
uma espécie de guia e mentor para diversas situações que ultrapassam os limites do
conteúdo didático. Também em escolas particulares, mas principalmente nas públicas, o
mestre é quem, inúmeras vezes, socorre seus alunos. Tanto pela relação de confiança,
quanto pelo tempo de convivência diária, os professores são capazes de perceber em
seus alunos indicadores de que foram vítimas de violência doméstica, abuso sexual,
problemas familiares... dessa forma, forma-se uma rede de suporte na escola, que passa
a ser o local seguro de muitas crianças e adolescentes.

Infelizmente, com a chegada da pandemia e o cessar das aulas presenciais, os


professores foram fisicamente afastados dos alunos, deixando uma questão essencial,
pelo menos de início, sem resposta: como levar a escola em seu papel educativo e de
acolhimento até os alunos. Na Webinar acerca da educação em tempos de pandemia
promovida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o ex-secretário de saúde sulista
Eduardo Deschamps trouxe dois conceitos de extrema importância para debate: a
diferença entre o ensino à distância ou remoto (EAD) e as atividades não presenciais.
Complementado pela professora Maria Helena Guimarães de Castro, os dois
estabeleceram os preceitos de cada uma das ideias expressas pelos conceitos citados.
Para viabilizar o EAD, se faz necessário que os alunos tenham acesso à internet e
aparelhos eletrônicos que funcionem como meios de comunicação ao seu dispor,
possibilitando que tenham disponibilidade no horário das aulas. Como as aulas
invadiriam o ambiente de casa, requer também um espaço calmo e sereno que contribua
para o estudo e a aprendizagem. Infelizmente, essa não é a realidade de boa parte dos
brasileiros, como será mais explorado posteriormente, na abordagem da perspectiva do
aluno em meio à pandemia. Já as atividades não presenciais tratam-se de orientações
remotas fornecidas pela escola para as famílias sem a necessidade do uso da internet.
Para que sejam realizadas, muitas escolas estão aderindo, por exemplo, ao sistema de
imprimir materiais com orientação escrita dos professores e deixá-los no prédio da
instituição para que os responsáveis os busquem e realizem as atividades com os alunos.
Na cidade de Londrina, por exemplo, que tem uma operadora telefônica local, foi dado
um chip de celular para a família de cada aluno. Quando conectado, ele abria grupos
com outros pais e professores e uma série de conteúdos online para o uso das crianças.
Entretanto, apenas o envio de atividades e transmissão do conteúdo não basta para que a
escola seja levada ao aluno, visto que seu papel vai além, como previamente elucidado.

Como a forma mais prática de estarem próximos aos alunos foi por meio do EAD, a
maioria das instituições de ensino público e privado aderiram ao modelo. Segundo
registros de uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC), 91,4% dos professores
aumentaram seu contato com os alunos por meio de redes sociais, seja pelo aplicativo
de mensagens WhatsApp, por SMS ou e-mail. Nesse aspecto, os professores se viram na
necessidade de abrir mão de elementos de sua privacidade, como as redes sociais, para
dar espaço aos alunos e priorizar a interação direta. Ainda acerca do meio, 77,4% dos
docentes utilizaram das redes sociais como forma de enviar material didático para os
alunos e suas famílias, visto que é a forma de mais rápido acesso aos estudantes. Temos,
ainda, os 29,8% de professores que aderiram ao modelo de aulas on-line síncronas,
abrindo mão não só de sua privacidade na rede, mas também revelando e convidando os
alunos à intimidade de seus lares para promover a interação que existiria numa sala de
aula. Foi essa a forma de muitos professores continuarem em contato constante com
seus alunos, já que o encontro presencial não poderia ocorrer. Foi de extrema
importância que os professores pudessem apresentar tamanha acessibilidade, visto que
muitos alunos com problemas em casa (seja por abusos, violência ou semelhantes)
dependem emocionalmente dos professores como imagem de segurança e possibilidade
de socorro. Além disso, a continuidade do trabalho educacional possibilitou atenuar,
ainda que em pequenas proporções quando falamos de rede pública, o caos vigente com
o conteúdo perdido e a suspensão do controle do tempo de aula. Para manter o máximo
de alunos possível participando das aulas, foi necessário que as medidas apresentadas
fossem tomadas para o estabelecimento e manutenção do vínculo entre escola e aluno.
Entretanto, o ganho não pode ocorrer sem algumas perdas no processo.

No Brasil, não é cultural que os professores recebam treinamento para ministrar


aulas com materiais de mídia digital. Os professores de Ensino Médio ainda obtiveram
alguma vantagem, considerando que uma pesquisa do portal Nova Escola indicou que
56,6% deles possuíam treinamento para lecionar virtualmente. Em oposição, a mesma
pesquisa também apresentou que mais de 50% dos professores de outros segmentos do
Ensino Básico não obtém qualquer treinamento, tornando a tarefa ainda mais difícil.
Diante de tantas dificuldades com as plataformas disponíveis, 30% dos professores que
responderam à pesquisa do Nova Escola avaliaram o ensino remoto como péssimo,
enquanto 33% classificaram-no razoável. A problemática da não capacitação prejudicou
muito a rotina dos docentes, o que apenas fez por somar a um quadro já existente de
invasão de privacidade, mais horas de trabalho e a transformação do ambiente de casa
no de trabalho. Infelizmente, o resultado dessa soma foram extremos danos à saúde
mental dos professores, dos quais 28% avaliaram seu estado de saúde mental atual como
péssimo em relação ao período pré-pandêmico.

Há ainda outro empecilho no trabalho de ensinar, que é a falta de um método viável


de avaliação diagnóstica. Ainda que 68,4% dos professores tenham mantido a grade de
conteúdos propostos pela sua disciplina, de acordo com os dados fornecidos pela FCC, a
flexibilização das aulas, da matéria e das formas de lecionar foram necessárias. Sem que
o currículo fosse menos exigente, teria sido inviável manter os alunos e ainda fazer com
que de fato levassem algum aprendizado. Por outro lado, sem qualquer tipo de avaliação
para medir essa aprendizagem, considerando que o Brasil não é um país preparado para
o modelo online e não havia qualquer planejamento de aulas ou avaliativo, os
professores foram atrelados ao improviso e não possuem maneira exata de medir quanto
conhecimento seus alunos estão ou não absorvendo. Dessa forma, podemos observar
que as adversidades enfrentadas pelos profissionais da educação não terão fim junto à
pandemia. Com o fim do ano letivo, algum tipo de avaliação diagnóstica será
necessário. Contudo, existem dois dilemas nesse quesito. À priori, se faz imprescindível
a compreensão de que será impossível que seja aplicada uma avaliação única. Cada
ciclo escolar conta com determinada bagagem de conhecimento como pré-requisito e
pretende atingir um nível diferente. Como bem exemplificado pela professora Maria
Helena de Castro na supracitada Webinar da FGV, os alunos do primeiro ano do Ensino
Fundamental precisariam recomeçar do princípio o ano letivo, visto que necessitam
passar pelo processo de alfabetização, enquanto os do segundo terão necessidades
diferentes e, por isso, existe a necessidade de avalia-los em sintonia ao conceito de
equidade. O outro problema que acompanhará o retorno das atividades será a lacuna de
aprendizagem deixada pela flexibilização do currículo. Quando o furacão Katrina
passou pelos Estados Unidos, os alunos passaram oito meses sem aulas presenciais e,
para recuperar o tempo perdido, foram dois anos e meio de estudo intensificado. No
Brasil, estamos diante de um problema ainda maior, já que os EUA haviam preparo para
a dinâmica de EAD, enquanto fomos obrigados a agir de forma não planejada. Será um
desafio para os professores procurar preencher as carências deixadas unindo os anos
letivos de 2020 e 2021, o que também representa a necessidade de mais dias letivos e
planejamento de aulas dobrado. Para finalizar, o último – e talvez o maior – dos
problemas dos professores será lidar com o dano psicológico causado na pandemia tanto
na esfera pessoal, quanto na profissional, a partir do entendimento de que um número
significativo de alunos tenderá a voltas às aulas com sequelas do período de isolamento
que podem, com certeza, dificultar as dinâmicas de aprendizagem e convivência em
grupo. O caminho dos professores na resolução dos problemas gerados pela pandemia
será longo, mas acredito que em alguns anos os danos poderão ser recuperados, ainda
que muitas mudanças estejam para ocorrer, tais como a adesão do ensino híbrido.

 O ALUNO(A).

Ainda que diferentes dos percalços encontrados pelos educadores, os alunos também
se encontraram em um cenário complicado e cheio de dúvidas com a adesão do ensino à
distância, principalmente ao considerarmos que alguns não tiveram acesso a ele. O Data
Senado divulgou uma pesquisa revelando que, dos 56 milhões de estudantes brasileiros
matriculados no ensino básico ou superior, 19,5 milhões não tiveram aulas no período
de isolamento, número que corresponde a 35% do total, enquanto 58% (32,4mi)
estudam em instituições que aderiram ao EAD. Tal estatística preocupa nas
universidades, mas traz maior insegurança em relação ao ensino básico. Dos professores
do segmento básico que responderam à pesquisa proposta pelo portal Nova Escola,
apenas 4% constataram que todos os alunos participam das atividades propostas,
enquanto 44,9% relatou que poucos alunos mostraram que estão acompanhando a rotina
escolar. Essa diferença é extremamente preocupante, já que indica a formação de uma
lacuna educacional para os estudantes, a qual será um desafio preencher. Infelizmente, a
falta de participação dos alunos não se mostra um problema de fácil resolução. Suas
raízes aparentam vir da desigualdade social vigente no Brasil, considerando a alta
acessibilidade dos alunos de escola privada ao ensino remoto e o baixo acesso dos
alunos da rede pública. O Data Senado também trouxe o interessante dado de que 26%
dos alunos dos colégios públicos não possuem acesso à internet, enquanto esse número
cai para 4% ao falar dos estudantes da rede privada. Levando em consideração que
grande parte das escolas aderiram ao modelo de ensino remoto, é impossível acessá-lo
sem uma conexão de rede estável. Seja para coletar o material disponibilizado, assistir
vídeos pré-gravados pelos professores ou participar de aulas síncronas online, o acesso à
internet se faz primordial. Como os alunos sem conexão tendem a possuir baixa renda, o
fato de ficarem prejudicados apenas é mais um fator contribuinte para o
aprofundamento da desigualdade social da população brasileira, já que esses alunos
estão sendo privados de um ano letivo de conteúdo. Mas não são apenas os alunos sem
acesso de rede que têm dificuldades para acessar as aulas. Foi apontado na mesma
pesquisa que cerca de 64% dos estudantes acompanham as aulas pelo aparelho celular,
enquanto 24% utilizam-se do computador. Ter disponibilidade no horário de aula
significa ter conexão, um local para o estudo e um aparelho eletrônico que possua fins
comunicativos à disposição do aluno. Em muitas famílias brasileiras, essa não é a
realidade. Estudantes em casas com muitos irmãos ou que possuem poucos cômodos
também encontram dificuldades no acompanhamento das classes, visto que não
necessariamente há quietude ou aparelhos o suficiente para que todas as crianças e
adolescentes da residência possam conectar-se às aulas.

Apesar de a falta de acesso dos estudantes às aulas ser de extrema gravidade, não é o
mais profundo dos problemas enfrentados por eles na pandemia. Como dito na Webinar
promovida pela FGV pela professora Patrícia Guedes, a escola tem papel social para
com inúmeros alunos e suas famílias. Muitos dependem da instituição para questões de
suma importância tais como a alimentação e o refúgio de problemas de violência
doméstica. Com os alunos em casa, índices tenebrosos como os da fome e dos casos de
pedofilia apenas fizeram por crescer. Os alunos foram brutalmente afastados de seu
refúgio e, por isso, as opções de socorro foram cerceadas. Para ao menos atenuar o
problema gerado pela indisponibilidade das escolas para a alimentação dos alunos, as
instituições levaram o problema como prioridade, procurando solucioná-lo deixando a
comida para ser buscada na instituição ou fazendo entregas à domicílio, como dito
também na Webinar por Eduardo Deschamps. Em meio à dificuldade de acesso ao
ambiente escolar, ao isolamento social e, em muitos casos, à violência doméstica, os
alunos desenvolveram uma série de dificuldades psicológicas e pedagógicas, como
observado pelos professores. A Fundação Carlos Chagas divulgou que 49,7% dos
professores apontaram que seus alunos estão com dificuldades de aprendizagem no
ensino remoto, enquanto apenas 8,6% alegam perceber produtividade e facilidade na
absorção dos conteúdos. Já no âmbito psicológico, 53,8% dos professores afirmaram ter
percebido o aumento de sintomas associados à depressão e ansiedade e seus alunos. As
duas estatísticas não são elementos à parte, visto que a distância do ambiente de
estímulo intelectual e da segurança da proposta social da escola pode gerar sofrimento
emocional e problemas psicológicos, os quais dificultam a aprendizagem.

Infelizmente, a evasão escolar também se mostrou em alta com a ascensão do


coronavírus. Muitos alunos abandonaram a escola seja pela dificuldade de acompanhar
as aulas remotas ou por terem que ajudar as famílias com complementação da renda,
visto que a pandemia trouxe consigo a necessidade do fechamento temporário do
comércio e, consequentemente, uma crise econômica em proporções jamais imaginadas.
Mais problemático do que os alunos abandonarem os estudos é apenas o fato da
incerteza de sua volta, ressaltando o caráter de imprevisibilidade da situação. O aumento
da evasão escolar e a diminuição da absorção do conteúdo apenas são mais elementos
de aprofundamento da desigualdade já presente. Os alunos da rede pública e os da rede
privada sempre vivenciaram realidades completamente diferentes, o papel da pandemia
foi, além de agravar a situação, expô-la para toda a sociedade. É impossível que
continuemos a negligenciar os estudantes das instituições públicas, principalmente num
momento em que se encontram sensibilizados e sem amparo. As desigualdades expostas
e pioradas levarão muito tempo para que sejam corrigidas, mas não é uma realidade que
dialoga com a impossibilidade. Principalmente para a correção da lacuna deixada na
vida acadêmica desses alunos, serão necessárias intensas políticas públicas que visem
colocar em dia o ano letivo de 2020, considerando que uma reprovação em massa
apenas agravaria o panorama da evasão e que seguir com o currículo do ano de 2021
sem recuperar o de 2020 é completamente inviável. Os alunos afetados merecem, acima
de tudo, respeito e o cumprimento de seu direito à educação, assegurado pela
Constituição Federal de 1988, vigente até os dias de hoje.

 O RESPONSÁVEL

Se no período pré-pandêmico o papel dos responsáveis era resumido a cobrar boas


notas ou dedicação, durante o isolamento ele foi completamente transfigurado. Ainda
que não substituam a presença de um professor – e que uma das maiores dificuldades do
momento tenha sido a compreensão desse fato – os responsáveis pelos estudantes se
encontraram num novo papel de mediação do estudo e da aprendizagem. Seja por meio
de buscar os materiais nas escolas e aplicar seguindo as orientações escritas do
professor ou pelo fornecimento de meios para que os alunos possam estudar, o ambiente
escolar nunca esteve tão perto do responsável. Com a escola tendo sido transferida para
casa, foi inevitável que a comunicação entre responsável, professor e escola passasse a
ser mais frequente. Entretanto, também foi atestado que a desigualdade social mostrou
diferenças no acompanhamento familiar das redes pública e privada. Na mesma
pesquisa já citada do portal Nova Escola, foi constatado que, enquanto 58% das famílias
das escolas particulares participam das atividades escolares, esse número cai para
apenas 36% na rede pública. Isso se dá, em parte, porque a maior parte dos empregos de
baixa remuneração não cessaram durante a pandemia, fazendo com que a jornada de
trabalho das famílias mais carentes prosseguisse, deixando menos tempo para que os
responsáveis pudessem apoiar os alunos nos estudos. Também é possível que o aumento
do desemprego tenha feito esses responsáveis procurarem ocupações informais durante
o isolamento, o que também contribui para sua ausência em casa.

No entanto, por estarem presencialmente mais próximos dos estudantes e em contato


frequente, sua percepção do ensino remoto é de grande valia para compreender a
realidade da educação em tempos de pandemia. Segundo o Data Senado, 63% dos
responsáveis entendem que a qualidade da educação caiu na quarentena. Tal visão vai
de encontro à dos professores, que afirmam que a aprendizagem diminuiu, e ao difícil
acesso do conteúdo. Para tentar reverter esse cenário, muitos pais e responsáveis se
colocam, diariamente, no papel de ensinar os alunos. Considerando que muitos não
possuem a devida formação ou não tiveram contato com o conteúdo em muito tempo,
tal posição é um desafio. Além disso, é necessário que, para que a parceria entre escola
e família funcione, os responsáveis levem a educação como fator de prioridade na rotina
e dediquem tempo ao estudo com os alunos, prestem atenção e possam ser bons
mediadores. Existe o risco de a relação com os alunos pode ficar desgastada, visto que
os responsáveis estariam procurando assumir um papel para o qual não estão
preparados: o de educador. Ainda assim, seu apoio é necessário para que o ensino
aconteça. Para conseguirem participar sem comprometer o relacionamento com os
filhos, é necessário que os responsáveis valorizem o vínculo e a disponibilidade
oferecidos pelos professores, que se comuniquem com eles e possam, assim, ser
mediadores das atividades sem a necessidade de assumir uma responsabilidade que não
lhes pertence, mas sim ao professor.

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entendo por cabível utilizar das considerações finais para expor que as graves
sequelas deixadas pelos mais de sete meses sem aula não encontraram seu fim com a
chegada da vacina, tal como a pandemia. Apesar de a recente adesão da base nacional
comum curricular (BNCC) operar como um facilitador para colocar em dia as
necessidades acadêmicas dos estudantes, os problemas educacionais não serão
resolvidos tão facilmente. Ainda serão anos até que todo o atraso de conteúdo seja
alcançado e, mesmo quando ocorrer, a educação ainda seguirá desigual, como era antes
da Covid-19. Existe, também, um grande problema administrativo deixado pela
pandemia. Se a previsão da Fenep de que 80% das escolas particulares de Educação
Infantil irão à falência em decorrência de não ser um ciclo de cunho obrigatório e da
crise econômica, serão milhões de crianças sem matrícula e procurando creches e
escolas públicas, de modo a inflar um sistema que não tem preparo financeiro para o
recebimento dessas crianças. A mesma preocupação foi exposta na Webinar realizada
pela FGV pelo professor Eduardo Deschamps, que também afirmou, com clareza, que
estamos enfrentando uma emergência na educação.

O coronavírus não adoeceu apenas seres humanos, mas também evidenciou um


sistema que, há muito tempo, já estava doente. Atualmente, a educação no Brasil respira
por aparelhos e necessita de recursos, políticas públicas e dedicação para que seja salva.
É impossível não atender às novas necessidades surgidas na mesma proporção que se
faz fundamental a solução dos problemas anteriores ao período pandêmico. Para dizer o
mínimo, não é justo que estudantes sejam prejudicados por fatores externos tais como
pandemias ou classe social. Retomar dois anos letivos em um será um desafio, mas
acredito que o mesmo sistema fundador de projetos como o “Brizolão” e a escola em
tempo integral tem o que é preciso para superar tais problemas. Resta tomar a atitude.

Referências:

1. IDOETA, Paula Andamo. GUIMARÃES, Ligia. Com a debandada de alunos, escolas


de educação infantil começam a desaparecer na pandemia. BBC News, 2020.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53229846. Acesso em:
21/10/2020.

2. BIMBATI, Ana Paula. Qual é a situação dos professores brasileiros durante a


pandemia. Nova Escola, 2020. Disponível em:
<https://novaescola.org.br/conteudo/19386/qual-e-a-situacao-dos-professores-
brasileiros-durante-a-pandemia >. Acesso em: 21/10/2020.

3. CHAGAS, Elisa. DataSenado: quase 20 milhões de alunos deixaram de ter aulas


durante pandemia. Senado, 2020. Disponível em:
<https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/08/12/datasenado-quase-20-
milhoes-de-alunos-deixaram-de-ter-aulas-durante-pandemia >. Acesso em: 21/10/2020.

4. MAIA, Barbara. Apenas 36% dos alunos da rede pública ingressam na faculdade. A
Cidade On, 2020. Disponível em:
<https://www.acidadeon.com/ribeiraopreto/cotidiano/cidades/NOT,0,0,1405779,apenas
+36+dos+alunos+da+rede+publica+ingressam+na+faculdade.aspx#:~:text=A
%20pesquisa%20divulgada%20pelo%20Instituto,estudantes%20v%C3%AAm%20de
%20escolas%20privadas >. Acesso em: 21/10/2020.

Material Interno:

https://www.fcc.org.br/fcc/educacao-pesquisa/educacao-escolar-em-tempos-de-
pandemia-informe-n-1

https://www.youtube.com/watch?v=zYRyw3v2Zag&feature=youtu.be

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