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11/09/2002 - 14h45

Saiba mais sobre o traficante


Fernandinho Beira-Mar
RICARDO FELTRIN
Editor-chefe da Folha Online

Luiz Fernando da Costa, 36, o Fernandinho Beira-Mar, é considerado um dos


maiores traficantes de armas e drogas da América Latina. Nascido em Duque de
Caxias, na Baixada Fluminense, ele não conheceu o pai. Foi criado pela mãe, dona
Zelina, uma dona de casa e faxineira, que morreu em 1992 atropelada na rodovia
Washington Luiz, no Rio.

Pobre, como a maioria dos meninos da Baixada, Luiz Fernando Costa encontrou no
Exército uma opção profissional e uma forma de fugir da miséria. Mas não foi a
profissão que o tiraria da pobreza, e sim o crime. Entre os 18 e 20 anos começou a
praticar os primeiros assaltos. Lojas, bancos e até o depósito de materiais do
Exército eram seus alvos principais.

Foi acusado de furtar armas pesadas do Exército e de vendê-las para traficantes do


Rio.

Aos 20 foi preso por assalto, condenado a dois anos. Cumpriu a pena e, ao sair,
voltou a morar na favela Beira-Mar, onde imediatamente se tornou um dos
"cabeças" do tráfico local. Voltou à terra natal como um bandido respeitado até por
traficantes rivais.

Ao mesmo tempo que ganhava dinheiro, investia na favela, ajudando a comprar


remédios, roupas, comida e até pagando dívidas de jogo de amigos da infância. Por
meio dessa "política" paternalista, era querido e protegido pelos moradores da
favela Beira-Mar.

Ninguém sabe ao certo quanta cocaína movimentava a "firma" (como é chamada


nos morros a máquina traficante).

A verdade é que entre 1990 e 1995 Fernandinho Beira-Mar conseguiu abrir canais
próprios de distribuição de drogas _no atacado e no varejo. Morros como o Morel,
Rocinha, Chapéu Mangueira e a favela do Vidigal eram abastecidos por seus
"produtos", entregues em Kombis até então insuspeitas (ou, talvez, em ação
facilitada por policiais corruptos).

O contrabando de armas e drogas chegava sempre aos morros cariocas por via
marítima, aproveitando a enorme costa do Rio de Janeiro, cheia de praias desertas.

Ao mesmo tempo em que enriquecia, Beira-Mar tornou-se alvo de policiais civis e


militares corruptos, que invadiam a favela semanalmente em busca de propina.

O traficante chegou a protestar que não aguentava mais ser "achacado" por
policiais. Beira-Mar colocou a família para trabalhar também. Suas duas irmãs,
Débora e Alessandra, teriam se tornado gerentes da "firma".

Ambas foram presas no Rio, acusadas de pertencer ao narcotráfico. Fernandinho


seria ligado ao Comando Vermelho, maior facção criminosa do país.

Acabou sendo preso em 1996, mas não chegou a ficar um ano no presídio de Belo
Horizonte.
Sua fuga é cercada de suspeitas até hoje. Agentes penitenciários foram acusados
de facilitá-la, mas nada foi comprovado oficialmente. A corregedoria da Polícia Civil
investiga o caso. Sabe-se que Beira-Mar saiu do presídio pelo portão da frente,
andando.

"Surgiu uma oportunidade e eu saí", disse irônico à CPI do Narcotráfico em Brasília,


no final do ano passado.

Depois que fugiu, Beira-Mar teria se tornado uma espécie de 'nômade'. Paraguai,
Uruguai e Bolívia teriam sido alguns dos países em que ele morou, fugindo de uma
ordem de prisão emitida pela Polícia Federal no Rio de Janeiro.

Enquanto passava por esses países, Beira-Mar não apenas escapava da polícia, mas
ampliava seu leque de amizades "ilegais". Ele deixava assim de ser um grande
fornecedor de drogas dos morros fluminenses para se tornar um
supernarcotraficante internacional.

Além de cocaína e maconha, Beira-Mar especializou-se no comércio ilegal de armas


pesadas _principalmente as fabricadas na Rússia.

Foi nesse comércio que se tornou amigo dos principais líderes das Farc (Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia), de quem se tornou o fornecedor oficial de
armamentos de grosso calibre.

Por esse motivo, ele foi considerado mais um "revolucionário" na Colômbia, e


ganhou proteção das Farc na selva amazônica. Até ser preso, em 21 de abril do ano
passado, e extraditado.

O traficante hoje está preso no presídio de segurança máxima, no Rio de Janeiro, o


Bangu 1 _de onde continua comandando o tráfico e a venda de armas no país. Por
celular.

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