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Criado, (trazendo uma carta). ² Para o senhor Brás Ferreira, do Porto.


Brás Ferreira ² Sou eu: dá cá. (abre) Ah! é para o tal pagamento. (O criado sai.) Vejamos as
minhas contas: quanto tenho eu em dinheiro? ... Dá-me licença, Duarte; tenho uns papéis que
arranjar. Conversa com minha filha. (Tira a sua carteira, e vai sentar-se à esquerda.)
Amália (baixo a Duarte) ² Não se emenda, está visto.
Duarte ² De a adorar? Não, decerto.
Amália ² Não é disso, é do seu maldito vício que nos deita a perder: meu pai jurou que
desfazia o nosso casamento se daqui até à noite o apanhasse numa mentira.
Duarte ² Oh meu Deus, o que fiz eu?!
Amália ² Pois que é, Duarte? Tudo quanto tem estado a dizer? ...
Duarte ² É verdade no fundo; acredite: agora os detalhes... os pormenores«eu não sei como
isto é... não é com má tenção... mas a maior parte das vezes, as coisas contadas tais quais
como elas são... ficam duma sensaboria tal...
Amália (com ironia) ² Que não pode resistir ao desejo de as enfeitar, e de mostrar a riqueza
da sua imaginação.
Duarte ² Não torno mais. Juro-lhe que nunca mais.
Amália ² Cale-se, que pode ouvir meu pai.
Duarte ² Não me importa, não tenho medo: estou emendado e para sempre. Amália, prometo,
hei-de ser o modelo dos maridos, leal, sincero, verdadeiro, sempre...
Amália ² Sempre! Se meu pai ouvisse essa palavra, desfazia logo o nosso casamento.
Duarte ² Amália, isso também é de mais! ...
Brás Ferreira (chegando com um papel) ² Não tenho dinheiro que chegue. E eu sem me
lembrar! Duarte, hás-de-me fazer um favor.
Duarte ² Qual? Estou pronto.
Brás Ferreira ² Uma letra de três contos de réis para descontar.
Duarte ² Em bem má ocasião, coa fortuna! não tenho pinto.
Brás Ferreira ² Não tens!... e aquele dinheiro?
Duarte ² Qual dinheiro?
Brás Ferreira ² O da tua casa.
Duarte ² Da minha casa? ... Ah sim, é verdade. É que actualmente...
Brás Ferreira ² Já dispuseste dele?
Duarte ² Não, não, isto é, de certo modo já; mas propriamente...
Amália (baixo a Duarte) ² Vê o que é mentir.
Duarte ² Em suma, porque lhe não hei-de dizer francamente o que é, meu tio? ... Eu tinha
minhas dívidas...
Amália ² Outra, Duarte?
Duarte ² Não, esta não; é verdade puríssima. Um rapaz não pode viver sem isso. Ora sucedeu,
por uma coincidência esquisita, que o comprador da minha casa, o tal senhor José Marques...
Brás Ferreira ² Inda agora disseste Tomás...
Duarte ² Tomás José Marques, um fino agiota de gema...
Brás Ferreira ² Tinhas-me dito um negociante...
Duarte ² Negociante, porque negoceia em papéis e descontos por atacado, e faz usura em
grosso. Enfim, o meu honradíssimo homem, que já é comendador e sai conselheiro um dia
destes, era o que me tinha emprestado o dinheiro. De sorte que na compra da casa, feitas
bem as contas...
Brás Ferreira ² E tu devias ao comprador?
Duarte ² Uns dez a doze contos de réis.
Brás Ferreira ² Então vendeste por trinta e três; tem de te dar ainda de tornas vinte e um
contos.
Duarte (atrapalhado) ² Vinte contos de réis... É o que lhe eu dizia... (aparte) Como hei-de eu
sair desta?
Brás Ferreira (olhando para ele) ² Dar-se-á caso que tu me pregasses uma das tuas... que tal
comprador não exista? ...

O    


, Almeida Garrett


1. Este texto, extraído da peça de teatro O    


, fala-nos de um
determinado vício.
1.1. Qual é o ´maldito vícioµ de que fala Amália?
1.2. Como justifica Duarte o seu ´vícioµ?
1.3. Que consequência(s) pode(m) vir a resultar deste defeito?

2. Considera o provérbio: ´De promessas e de boas intenções está o Inferno


cheio.µ.
2.1. A que parte desta cena se p ode aplicar este provérbio?
2.2. Explica porquê.

3. Explica por palavras tuas as expressões destacadas:


a) ´Não é nada disso, é do seu maldito vício que nos deita a perderµ (2ª fala de
Amália)
b) ´(...) as coisas contadas tais quais como elas são... ficam de uma sensaboria
tal...µ (3ª fala de Duarte)
c) ´Em bem má ocasião, coa fortuna! Não tenho pinto .µ (8ª fala de Duarte)

4. ´Amália (com ironia) ² Que não pode resistir ao desejo de as enfeitar, e de


mostrar a riqueza da sua imaginação.µ
4.1. Explica o que é a ironia.



1. Completa convenientemente as seguintes afirmações:

a) Um autor de um texto dramático denomina -se


____________________________________.
b) O ____________________ é uma das divisões do texto dramático sempre que
há mudança de cenário.
c) O assunto da peça Falar Verdade a Mentir gira em torno de
_________________________.
d) Chama-se _____________________ à modalidade discursiva em que várias
personagens falam entre si e _________________________ à modalidade
discursiva em que fala apena s uma personagem. Os _________________ são
indicações que o actor dá e que se destinam a serem ouvidas apenas pelo
público, provocando geralmente o riso.
e) Almeida Garrett, autor da peça Falar Verdade a Mentir, viveu no século
_________.



1.Elementos da oração:
1.1- Identifica a função sintáctica dos elementos destacados de cada frase:
a) Brás Ferreira veio do Porto de comboio.
b) Amália e Joaquina estão muito apreensivas, desde ontem.
c) José Félix continua o jogo com as outras personagens.
d) Eles encobriram-lhe a verdade com mestria.

2. Identifica a oração subordinante (principal) e a oração subordinada em cada


uma das frases apresentadas:

a) Ele ficou muito contente porque recebeu as cem moedas.


b) Para que o casamento se realize, Duar te não pode ser apanhado em mentiras.
c) Se ele adivinhasse as futuras aflições, não teria mentido tanto.
d) O general Lemos chegou quando eles estavam a almoçar.