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FACULDADE CÁSPER LÍBERO

Comunicação e Sociedade
(a produção social de sentido e a sua eficácia simbólica)

Liráucio Girardi Júnior

São Paulo
2008
FACULDADE CÁSPER LÍBERO
Comunicaۥo e Sociedade
(a produ€•o social de sentido e sua efic‚cia simbƒlica)

Lir‚ucio Girardi J„nior

Pesquisa desenvolvida junto ao Centro


Interdisciplinar de Pesquisa (CIP) da Faculdade
Casper L…bero no per…odo 2006-2007 – Bolsa de
Pesquisa Docente

S•o Paulo
2008

2
À
Ana,
Davi
e Tomás

3
Agradecimentos

Gostaria de agradecer € Faculdade Casper L•bero e ao Centro Interdisciplinar de


Pesquisa – CIP da Faculdade Casper L•bero pelo financiamento deste trabalho e pelo
propƒsito de melhorar cada vez mais a qualifica„…o de seus professores, integrando
Ensino e Pesquisa.
Agrade„o a todos os meus colegas (docentes e discentes) da Linha de Pesquisa
Comunicação, Tecnologia e Política com quem tive a grata satisfa„…o de trabalhar, aos
monitores e ex-monitores do CIP, com quem tamb†m pude aprender coisas que n…o
estavam diretamente relacionadas € minha pesquisa.
Finalmente, manifesto o prazer da experi‡ncia que tive, nesse per•odo, na
orienta„…o de dois importantes trabalhos de pesquisa discente: Marcela R. Mastrocola,
Aventuras na História: intermediários culturais, mercado editorial e cultura de
consumo e Roseani V. Rocha, A Figura do Flâneur no Entendimento da Prática
Jornalística sob a luz de João do Rio. Espero, sinceramente, que tenha contribu•do um
pouco com a forma„…o das novas pesquisadoras.

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Resumo

Na análise da relação entre as Ciências Sociais e as demais


disciplinas envolvidas no estudo dos processos de produção de sentido foi
possível delinear um pequeno campo de problemas e premissas capazes de
orientar o trabalho do pesquisador em Comunicação. Este trabalho
procurou verificar as condições sociais que possibilitam a eficácia
simbólica de um discurso e procurou identificar a relação dialógica entre
as reflexões propostas por Wittgenstein, Bakhtin, Foucault e Bourdieu. A
partir dessa interlocução, julgo ter oferecido algumas contribuições para
um possível debate com o Interacionismo Simbólico, a Estética da
Recepção e a Teoria das Mediações.

Palavras-chave: produção de sentido, mediações, habitus, jogos de


linguagem, gêneros, dispositivos

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SUMÁRIO

Apresentação
05

Capítulo 1: Comunicação e Sociedade


09

Capítulo 2: Jogos de Linguagem


20

Capítulo 3: Mediações, Estudos Culturais e Recepção


29

Capítulo 4: Mercados lingüísticos e o poder simbólico


43

Capítulo 5: Teorias da Enunciação


56

Capítulo 6: Dos dispositivos e das disposições


69

Considerações finais
82

Referências Bibliográficas
85

6
Apresentação

A quest…o desenvolvida neste trabalho de pesquisa † uma das mais complexas


enfrentadas no campo da Comunica„…o e das Ci‡ncias Sociais: a produ„…o social de
sentido nas sociedades humanas e o problema da eficˆcia simbƒlica. Ela desdobra-se na
rela„…o entre linguagem e cultura, linguagem e sociedade, Ling‰•stica e Ci‡ncias
Sociais.
Esta pesquisa teve como propƒsito enfrentar uma s†rie de questŠes com as quais
havia entrado em contato em todos estes anos de ensino e pesquisa, mas nunca tive a
oportunidade de colocˆ-las, efetivamente, em uma situa„…o dialƒgica expl•cita.
Julgava estar trabalhando com enunciados e autores que se propunham a enfrentar em
†pocas diferentes, com objetivos e instrumentos diferentes uma problemˆtica comum.

Foi assim que se desenvolveu uma reflex…o sobre as condi„Šes sociais


necessˆrias para a produ„…o da eficˆcia simbƒlica nos processos de produ„…o de sentido
no mundo social. Uma quest…o clˆssica nas Ci‡ncias Sociais (Mauss, 2003; Levi-
Strauss, 1985; Bourdieu, 1983, 1987, 1996).

A histƒria dessa inquieta„…o estˆ relacionada €s pesquisas desenvolvidas para o


meu livro “Pierre Bourdieu: questŠes de sociologia e comunica„…o”, pesquisas que
permitiram um primeiro contato com alguns artigos dos teƒricos da Est†tica da
Recep„…o e, particularmente, com a Teoria das Media„Šes. Um misto de
reconhecimento e cr•tica tomou conta das primeiras leituras das obras relacionadas a
essas correntes teƒricas de grande express…o na ˆrea de comunica„…o. Uma s†rie de
problemas aparecia quando suas premissas eram confrontadas com a proposta de
constru„…o de uma Economia das trocas simbólicas desenvolvida por Bourdieu.

As seguintes hipƒteses orientaram as reflexŠes deste trabalho: a) a algumas


correntes da teoria literˆria faltaria aten„…o maior sobre as condições sociais da
chamada eficácia simbólica dos bens culturais; b) aos estudos de recep„…o latino-
americanos faltaria melhor avalia„…o do significado e do papel conferido € media„…o
nos processos comunicacionais.

A retomada do diˆlogo com alguns clˆssicos das ci‡ncias sociais, da filosofia da


linguagem e da L•ng‰•stica poderia contribuir, nesse sentido, para o mapeamento das
principais questŠes que, de alguma forma, permanecem em aberto nas teorias citadas.
Essa rela„…o dialƒgica transcorreu a partir de um ponto de articula„…o que † o da

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proposta de constru„…o de uma Economia das Trocas Simbólicas, proposta por
Bourdieu.

Essas inquieta„Šes exigiam alguns estudos mais aprofundados sobre a chamada


virada pragmˆtica nas Ci‡ncias Sociais. Foi preciso, por um lado, uma aproxima„…o
maior com os trabalhos de Wittgenstein e Bakhtin com os quais n…o tinha familiaridade
nenhuma. Por outro lado, foi poss•vel desenvolver algumas articula„Šes importantes
entre os trabalhos de Bourdieu e Foucault. S…o as vozes desses quatro autores,
basicamente, que foram colocadas em movimento, com a proposi„…o de problemas e
dire„Šes na anˆlise.

A pesquisa foi dividida em seis cap•tulos e algumas curtas considera„Šes finais.


No cap•tulo 1, foi apresentada a complexa e complicada quest…o relacionada ao trabalho
interdisciplinar envolvendo a Ling‰•stica e as Ci‡ncias Sociais. Da esperan„a de V†ron
no encontro dos pesquisadores desses campos, que em sua opini…o, jˆ faziam um
trabalho interdisciplinar em “estado selvagem” at† o elogio de Levi-Strauss €
sofistica„…o do trabalho cient•fico na Ling‰istica, tem-se um quadro inicial da busca por
uma ci‡ncia da Comunica„…o capaz de integrar uma s†rie de saberes. Neste cap•tulo s…o
desenvolvidas algumas observa„Šes de Levi-Strauss sobre as rela„Šes entre linguagem e
cultura e sobre os riscos de bons antropƒlogos serem p†ssimos ling‰•stas ou vice-versa,
impedindo um verdadeiro trabalho interdisciplinar fecundo. Depois dessas observa„Šes
iniciais foi feito um deslocamento da aten„…o para as primeiras influ‡ncias da
pragmˆtica na Sociologia, que marcaram os trabalhos da Escola de Chicago. Essas
influ‡ncias colocavam a comunica„…o no centro do trabalho sociolƒgico e podem ser
observadas nas premissas do chamado “interacionismo simbƒlico”, isto †, na maneira
pela qual se centram na produ„…o do significado como a chave para a compreens…o dos
processos de intera„…o social.
No cap•tulo 2, foi desenvolvida uma anˆlise das observa„Šes de Wittgenstein a
respeito dos jogos de linguagem presentes em Investigações Filosóficas. A
concentra„…o do filƒsofo na linguagem ordinˆria e nas condi„Šes de sua eficˆcia, nos
seus usos cotidianos, foi fundamental para o entendimento da rela„…o entre linguagem e
sociedade. Vˆrias vezes, foi poss•vel observar sua influ‡ncia sobre o trabalho de
Bourdieu (senso prˆtico e habitus) por meio de expressŠes como jogos de linguagem,
produ„…o de semelhan„as de fam•lia entre os signos e seu uso, e a percep„…o do
aprendizado da fala como o dom•nio de uma t†cnica.

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No capítulo 3, são apresentadas importantes contribuições dos Estudos Culturais,
da Estética da Recepção e da Teoria das Mediações no entendimento da produção de
sentido no mundo social. Basicamente, há uma concentração no tipo de comunicação
mediada. Aqui, foi possível estabelecer aproximações entre os trabalhos de David
Morley e Roger Silverstone com as pesquisas de Canclini, Martín-Barbero e Orozco.
Foi possível avaliar o peso das propostas da Estética da Recepção na mudança do
paradigma de comunicação até então vigente.
No capítulo 4, são apresentadas as categorias principais da Economia das Trocas
Simbólicas de Bourdieu tais como habitus, campo, mercado simbólico, tipos de capitais,
etc. O que se pretendeu mostrar aqui, foi a percepção da comunicação não apenas como
uma troca de signos, mas uma troca de signos carregados de valor (sujeitos também a
desvalorização) e marcados por relação de poder. Foram avaliadas, também, as
particularidades do habitus lingüístico (o senso de aceitabilidade e o senso de
oportunidade) e a sua relação com o mercado simbólico, além da importância da
produção da doxa e do exercício do poder simbólico.
No capitulo 5, há um maior interesse no desenvolvimento das teorias da
enunciação desenvolvidas por Bakhtin e Foucault. As pesquisas de Bakhtin sobre o
aspecto dialógico de uma obra é de fundamental importância para o entendimento do
processo de produção de sentido e a questão de sua eficácia simbólica. Mesmo entre
autores que nunca se conheceram ou tiveram a oportunidade de conversar diretamente
sobre seu trabalho, o processo dialógico pode ser instaurado. Assim, cada enunciado
integra-se em uma complexa rede da comunicação com a qual se vincula, propõe
questionamentos e reavaliações etc. Este é o mesmo ponto de partida de Foucault em A
Arqueologia do Saber, obra da qual procuro avaliar a importância de categorias como as
de formações discursivas, campo e jogo enunciativo, modulações etc. São
desenvolvidas, rapidamente, algumas observações sobre sua aula inaugural no Collège
de France, A ordem do discurso, que já indica um deslocamento de seu pensamento
rumo a uma genealogia do poder.
No capítulo 6, três pesquisadores são colocados explicitamente em situação
dialógica: Bakhtin (com a análise dos gêneros), Bourdieu (com a análise dos campos
sociais) e Foucault (com a análise dos dispositivos sociais). A questão que se coloca
aqui é a da possibilidade de construção de uma teoria geral dos campos, uma teoria
sobre a produção de fronteiras e domínios discursivos e não-discursivos (gêneros
discursivos e instituições) relativamente autônomos no mundo social. O capítulo tem o

9
título sugestivo: Dos dispositivos e das disposições. Trata-se de uma referência a uma
importante obra de Martín-Barbero, intitulada: Dos Meios às Mediações. Qual ou quais
são as mediações que garantem às instituições e ao seu discurso as condições de
reconhecimento e êxito, as condições para a sua eficácia simbólica.

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Capítulo1: Comunicação e Sociedade

A Filosofia da Linguagem e a Ling‰•stica serviram de base, particularmente, a


partir dos anos 60, para uma virada pragmˆtica e, ao mesmo tempo, estruturalista nas
Ci‡ncias Humanas que n…o puderam passar despercebidas. Eliseo Verƒn, em A
Produção do Sentido, mostrava o carˆter dialƒgico que o conhecimento ling‰•stico
passava a estabelecer com outras ˆreas do conhecimento. A for„a que o estruturalismo
demonstrou ao se apoiar nos estudos de Saussure, indicava, na verdade, a grande inveja
por uma ci‡ncia que, como declara Levi-Strauss, havia conseguido os maiores avan„os
em sua †poca.
Eliseo Verƒn, que trabalhou como sociƒlogo no Instituto Di Tela, em Buenos
Aires e no Laboratƒrio de Antropologia Social de Levi-Strauss (embora possa ser
identificado como um pesquisador voltado para a anˆlise do discurso), fez uma
constata„…o importante a esse respeito. Ele observa que:
“...a ling‰•stica desemboca, cada vez mais claramente, em problemas
sociolƒgicos e a sociologia descobre, no •mago de seus empenhos teƒricos
bˆsicos, os problemas da linguagem. Por outras palavras: os ling‰•stas est…o
fazendo sociologia e os sociƒlogos fazendo ling‰•stica; uns e outros, na
maior parte dos casos, ‘em estado selvagem’. • por meio dessa dupla leitura
(por defini„…o intersticial e pouco c‘moda em termos de reparti„…o atual dos
pap†is universitˆrios) que se pode fazer surgir os contornos imprecisos de
um dom•nio (provisoriamente) homog‡neo: o da produção social de
discursos, que † parte, por sua vez, de um campo mais vasto, o da produção
social do sentido, objeto prƒprio de uma teoria geral das superestruturas.”
(Verƒn, 1980 p. 25)

Em Antropologia Estrutural, Levi-Strauss destaca a import•ncia da reuni…o de


ling‰•sticas e antropƒlogos nos anos 50 para tratar dessa quest…o extremamente
importante para as ci‡ncias sociais: a rela„…o entre a linguagem e a cultura. O
antropƒlogo observa que essa quest…o † uma das mais complicadas jˆ propostas. Como
abordˆ-la? Tratar a linguagem como um dos componentes do complexo conjunto de
institui„Šes, ferramentas, cren„as, costumes etc. ou tratˆ-la como “condição da cultura”,
uma vez que † por meio dela que se constrƒi o sentido social do mundo. Valendo-se das
reflexŠes de Saussure e o seu posterior desenvolvimento por Jakobson, Levi-Strauss
observa que tanto a l•ngua quanto a cultura parece estabelecerem-se por oposi„Šes e
correla„Šes (“pares de oposi„Šes”) organizadas em sistemas. Para Eagleton, uma das
linhas do estruturalismo resulta do encontro de Jakobson (formalista russo, at† aquele
momento, ligado ao Circulo de Praga) com o antropƒlogo Levi-Strauss nos Estados

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Unidos, logo apƒs o in•cio da Segunda Guerra. A partir da•, as complexas questŠes que
envolviam a produ„…o da linguagem passaram a ser o paradigma para se pensar os
mitos, o parentesco, a est†tica etc. (Eagleton, 1983 p. 104). Cuidadosamente, o
antropƒlogo procura estabelecer uma rela„…o entre cultura e linguagem da seguinte
forma:

“Para definir convenientemente as rela„Šes entre linguagem e cultura, †


necessˆrio, parece-me, excluir de in•cio duas hipƒteses. Uma, segundo a qual
n…o poderia haver nenhuma rela„…o entre as duas ordens; e a hipƒtese
inversa, de uma correla„…o total em todos os n•veis. (...) minha hipƒtese de
trabalho se vale, pois, de uma posi„…o m†dia: certas correla„Šes s…o
provavelmente revelˆveis, entre certos aspectos e em certos n•veis, e trata-se,
para nƒs, de encontrar quais s…o estes aspectos e onde est…o estes n•veis.(...)
estas descobertas seriam aproveitˆveis para uma ci‡ncia ao mesmo tempo
antiga e muito nova, uma antropologia entendida em sentido mais lato, ou
seja, um conhecimento do homem que associe diversos m†todos e diversas
disciplinas” (Levi-Strauss, 1985 p.98-99)

Muito citado (juntamente com Edward Sapir) nos estudos sobre a rela„…o entre
linguagem e sociedade, Benjamin Whorf sofre uma dura cr•tica de Levis-Strauss. O que
se deixa transparecer na cr•tica † que normalmente ling‰istas t‡m s†rios problemas na
forma„…o antropolƒgica e antropƒlogos t‡m s†rios problemas na forma„…o ling‰•stica.
Sabe-se que tanto a linguagem quanto os sistemas de parentesco s…o sistemas de
comunica„…o e o antropƒlogo deve considerar fundamental a interpreta„…o da cultura
“em fun„…o de uma teoria da comunica„…o” (Levi-Strauss, 1985 p. 103). Essas trocas
simbƒlicas podem ser identificadas nas regras de parentesco e matrim‘nio (a
comunica„…o por meio da troca de mulheres entre os grupos), nas regras econ‘micas
(comunica„…o de bens e servi„os) e regras ling‰•sticas (comunica„…o de mensagens).
Trata-se, ent…o de verificar as poss•veis homologias entre elas, que estariam sob aten„…o
da sociologia do parentesco, da ci‡ncia econ‘mica e da lingu•stica:

“Todos os tr‡s dependem do mesmo m†todo; diferem somente pelo


n•vel estrat†gico em que cada um escolhe se situar no seio de um universo
comum. (...) A Cultura n…o consiste, pois, exclusivamente, em formas de
comunica„…o que lhe pertencem de modo espec•fico (como a linguagem),
mas tamb†m – e talvez, sobretudo – em regras aplicˆveis a todas as esp†cies
de ‘jogos de comunica„…o’, desenrolem-se estes no plano da natureza ou da
cultura.” (Levi-Strauss, 1985 p. 336)

Entretanto, eles n…o podem ser analisados sob uma mesma escala, pois se †
correto dizer que o casamento † uma comunica„…o de “ritmo lento”, a linguagem seria

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de “ritmo rˆpido”, pois os casamentos, obrigatoriamente, devem ser analisados na
rela„…o pessoa/valor e a linguagem na rela„…o s•mbolo/signo. Nossa sociedade (e essa
discuss…o serˆ retomada, criticamente, com Foucault e Bourdieu) criou uma esp†cie de
rela„…o “imoderada” com a linguagem: “falamos continuamente, qualquer pretexto nos
serve para nos expressarmos, interrogramos, comentarmos... Esta maneira de abusar da
linguagem n…o † universal; nem mesmo freq‰ente.” (Levi-Strauss, 1985 p. 86).

Levi-Strauss observa que as trocas ling‰•sticas conseguiram “isolar” seus


produtos na condi„…o de signos, ignorando que as trocas simbƒlicas s…o tamb†m uma
rela„…o entre valores. Para o antropƒlogo, os poetas s…o os primeiros a lembrar que os
signos comportam valores. Da mesma forma, † preciso lembrar que os valores que
orientam as regras de parentesco, transformam, por outro lado, as mulheres em signos.
Entretanto, um detalhe importante faz toda a diferen„a: os signos n…o podem ser
reproduzidos por si mesmos; as mulheres-signos s…o capazes de faz‡-lo por meio da
fala. Outro aspecto importante, destacado por Levi-Strauss: a rela„…o que os homens
mant‡m com as regras de parentesco lembram uma rela„…o que jˆ tiveram com a
linguagem.

Hˆ, ainda, a refer‡ncia a outro tipo de comunica„…o: as trocas econ‘micas. Estas


podem ser encontradas em uma posi„…o intermediˆria, pois se os bens e servi„os n…o
s…o como pessoas, tamb†m n…o podem reduzir-se apenas a signos. As trocas
econ‘micas comportam, tamb†m, valores.

Levi-Strauss procura mostrar que hˆ uma rela„…o de homologia entre linguagem


e cultura, entre signos e valores, entre os tr‡s tipos de comunica„…o citados acima.
Observa, entretanto, que estamos diante de “jogos de comunica„…o” complexos, nos
quais certas analogias podem ser estabelecidas e, outras, devem ser evitadas. •
importante observar o interesse do antropƒlogo em “traduzir” as regras de parentesco
por interm†dio de uma “teoria da informa„…o”, com enorme destaque para a
contribui„…o dos estudos matemˆticos € pesquisa etnolƒgica. Como observa, a vantagem
que essa teoria permite † a de estabelecer um “conceito unificador” que † o de
“comunica„…o”. Por meio dele, pesquisas muito diferentes poderiam ser consolidadas
em uma ’nica disciplina:

“Se † l•cito esperar que a antropologia social, a ci‡ncia econ‘mica e a


ling‰•stica se associem um dia, para fundar uma disciplina comum que serˆ a
ci‡ncia da comunica„…o, reconhe„amos todavia que esta consistirˆ sobretudo
em regras. Estas regras s…o independentes da natureza dos parceiros

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(indiv•duos ou grupos), cujo jogo comandam. Como diz von Neumann: ‘O
jogo consiste no conjunto das regras que o descrevem’. Poder-se-…o tamb†m
introduzir outras no„Šes: partida, lance, escolha e estrat†gia. Deste ponto de
vista, a natureza dos jogadores † indiferente, o que conta † somente saber
quando um jogador pode escolher, e quando n…o pode.” (Levi-Strauss, 1985
p. 339)

Estaria a antropologia social habilitada a usar esses instrumentos? Esse tem sido
o desafio proposto por Levi-Strauss a si mesmo. Autores como Douglas e Isherwood
procuram mostrar que as rela„Šes de troca e reciprocidade estabelecidas pelo
antropƒlogo sƒ poderiam adquirir seu sentido complexo se fossem integradas a uma
teoria do consumo que envolve necessariamente uma teoria da informa„…o. Um teoria
do consumo deve levar em considera„…o as estrat†gias dos agentes para enfrentar
rela„Šes de exclus…o, apropria„Šes e tentativas de usurpa„…o que devem ser
consideradas, no fundo, rela„Šes de poder. (Douglas& Isherwood, 2004 p. 139-142)

Assim, neste primeiro momento, pretende-se mostrar como o conceito de


“comunica„…o” tem-se apresentado desde muito tempo como um ponto de integra„…o de
vˆrias disciplinas. Boa parte das reflexŠes apresentadas em Antropologia Estrutural, de
Levi-Strauss, p.ex., est…o relacionadas com os problemas do trabalho interdisciplinar,
envolvendo a ling‰•stica e a antropologia social.

Um depoimento contundente de Erving Goffman para Ives Winkin mostra as


dificuldades que esse projeto interdisciplinar encontrava. Ao defender pesquisadores
como Birdwhistell (de quem sofreu forte influ‡ncia), Margaret Mead e Bateson, o
sociƒlogo observa a dificuldade que tinham para encontrar seu lugar nas Ci‡ncias
Sociais e como tinham dificuldade para arranjar emprego. Em sua cr•tica observa que:
“Birdwhistell estˆ fora da sua ˆrea, jˆ que estˆ em comunica„…o (na escola Annenberg).
O departamento de antropologia nunca o convidou para ser professor associado ou o
que quer que seja. O grupo de refer‡ncia continua sendo feito de psiquiatras e
assistentes sociais” (Winkin, 1999 p. 239).

As famosas “Confer‡ncias Macy”, organizadas em Princeton, em meados dos


anos 50, e as “Confer‡ncias sobre semiƒtica”, organizadas pela Universidade de
Indiana, tiveram a participa„…o de Birdwhistell, Bateson e Mead, mas isso n…o
significava nada em termos de prest•gio segundo Goffman. Seus deslocamentos nas

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Ci‡ncias Sociais fizeram com que se tornassem “freaks”, “c…es vagabundos”, que
precisavam falar para pessoas que n…o pertenciam € sua disciplina para serem ouvidos.

Nessa mesma entrevista, Goffman procura desmistificar o interacionismo


simbólico, ao observar que se tratava apenas de um rƒtulo “jornal•stico” atribu•do a um
grupo heterog‡neo de estudantes formados por um grupo heterog‡neo de professores
como Hughes, Warner, Blumer, Mead na Universidade de Chicago. Entretanto, † sobre
esse mito e a sua rela„…o com a comunica„…o que ser…o desenvolvidas algumas
observa„Šes.

Trata-se do esbo„o de um pequeno mapeamento do modo pelo qual a rela„…o


entre linguagem e sociedade foi estabelecida na chamada Escola sociológica de
Chicago. Observa-se, nos dias de hoje, uma tentativa de resgate e revitaliza„…o de uma
s†rie de problemas e procedimentos metodolƒgicos desenvolvidas no complexo e
heterog‡neo trabalho produzido nessa escola.

A comunica„…o obteve aten„…o considerˆvel em vˆrios pesquisadores da


universidade de Chicago. De Goffman a Robert Park, de George H. Mead a Blumer,
uma orienta„…o pragmˆtica fazia-se sempre presente: os grupos humanos produzem a si
mesmos em a„Šes dotadas de sentido, a sociedade sƒ existe “na, pela e para a
linguagem”. Sob influ‡ncia de John Dewey, a sociologia de Chicago † obrigada a
pensar-se como ci‡ncia da cultura, relacionada a valores e a uma orienta„…o pragmˆtica,
voltada para a a„…o reformadora da sociedade em que † produzida. Como observa
Nunes, ao identificar uma forte influ‡ncia da filosofia da linguagem de linha oxfordiana
(Wittgenstein) no pragmatismo metodolƒgico de Dewey: hˆ uma ‡nfase na “linguagem
ordinˆria” pela qual a “linguagem † um instrumento, e usˆ-la † desempenhar uma a„…o.
Portanto, a anˆlise dos significados deve focar contextos particulares nos quais a a„…o †
desempenhada, e os propƒsitos nela envolvidos” (Nunes, 2005 p. 32).

Em um mundo carregado de sentido, ao qual cabe a anˆlise do cientista social, o


entendimento da sociedade estˆ na anˆlise de seus processos de comunica„…o, ou seja,
em suas trocas simbƒlicas. Nesse sentido, entre os diversos estudos produzidos na
chamada Escola de Chicago, observa-se que: “Hˆ mais que um elo verbal entre as
palavras comum, comunidade e comunica„…o”. (Dewey apud R‰diger, 1999 p. 68).

Para essa Escola, os agrupamentos humanos existem em a„…o, em situa„Šes de


intera„…o mediadas pela linguagem. No clˆssico texto de Blumer (In: Mortensen, 1980),

15
jˆ podem ser encontradas as principais premissas que orientam as ci‡ncias sociais nesse
sentido. S…o elas: a) os grupos humanos constituem-se na a„…o e toda a„…o sƒ pode
ocorrer devido € capacidade que esses agrupamentos t‡m de dar sentido a ela; b) esses
sentidos s…o produzidos socialmente, isto †, na intera„…o social; c) s…o experimentados
em processos de interpreta„…o, que podem adequar-se €s mais variadas situa„Šes do
cotidiano.

O interacionismo simbƒlico ganhou enorme proje„…o identificando um conjunto


de premissas sobre o processo de socializa„…o. A socializa„…o se sustenta na capacidade
de desenvolvimento da linguagem, na capacidade de ter o outro como refer‡ncia para si,
na capacidade de colocar-se no lugar do outro.
"O interacionismo simbƒlico baseia-se, em ’ltima anˆlise, em tr‡s
premissas. A primeira estabelecer que os seres humanos agem em rela„…o ao
mundo fundamentando-se nos significados que este lhes oferece. Tais
elementos abrangem tudo o que † poss•vel ao homem observar em seu
universo – objetos f•sicos, como ˆrvores ou cadeiras; outras pessoas, como
m…es ou balconistas de loja; categorias de seres humanos, como amigos ou
inimigos; institui„Šes, como escolas ou o governo; ideais norteadores, como
independ‡ncia individual ou honestidade; atividades alheias, como ordens ou
solicita„Šes de outrem – al†m das situa„Šes com que o indiv•duo se depara
em seu dia-a-dia. A segunda premissa consiste no fato de os significados de
tais elementos serem provenientes da ou provocados pela intera„…o social
que se mant†m com as demais pessoas. A terceira premissa reza que tais
significados s…o manipulados por um processo interpretativo (e por este
modificados) utilizado pela pessoa ao se relacionar com os elementos com
que entra em contato. " (Blumer In: Mortensen, 1980 p. 119)

Em primeiro lugar o “interacionismo simbƒlico”1 parte de um ponto de


converg‡ncia importante com a Pragmˆtica: os grupos humanos constituem-se,
produzem a si mesmos por meio da a„…o. A linguagem † parte instituinte desse mundo
social, † parte importante da a„…o socializadora no reconhecimento dos universos
sociais. A produ„…o de um universo social carregado de sentido, constitui-se por um
processo de constru„…o de “objetos” discretos e reconhec•veis pelo grupo por meio da
intera„…o social, em um processo de “indica„Šes rec•procas” :
"O interacionismo simbƒlico defende a hipƒtese de que os 'universos'
acess•veis aos seres humanos e seus grupos compŠem-se de 'objetos', e que
estes s…o o produto da intera„…o simbƒlica. Entende-se por objeto tudo que
for pass•vel de ser indicado, evidenciado ou referido – uma nuvem, um livro,
uma legislatura, um banqueiro, uma doutrina religiosa, um fantasma etc.

1
Ver: Lirˆucio Girardi J’nior. Pierre Bourdieu: questões de Sociologia e Comunicação. S…o Paulo:
Annablume, 2007 cap. 3

16
Para nossa maior conveni‡ncia, podemos classificar os objetos em tr‡s
categorias: (a) objetos f•sicos, como cadeiras, ˆrvores ou bicicletas; (b)
objetos sociais, como estudantes, padres, o presidente, a m…e ou um amigo e
(c) objetos abstratos, como princ•pios morais, doutrinas filosƒficas ou
conceitos tais como justi„a, explora„…o ou compaix…o." (Blumer In:
Mortensen, 1980 p. 127)

Esses objetos pressupŠem prˆticas sociais significativas, trocas simbƒlicas. Eles


nos despertam cuidados, saudades, memƒria, vergonha etc. Nossa rela„…o com os
objetos deve ser percebida no interior de prˆticas sociais, no processo de intera„…o
social. A capacidade social de produ„…o de coisas carregadas de sentido no mundo
social depende da capacidade de produ„…o simbƒlica dos grupos humanos, ou seja, da
capacidade de se estabelecer os limites dessas coisas, de estabelecer fronteiras, ou seja,
linguagem, como deixa claro Douglas e Isherwood:

“O desfrute do consumo f•sico † sƒ uma parte do servi„o prestado pelos


bens: a outra parte † o desfrute do compartilhamento de nomes.(...) Essas
alegrias de compartilhar nomes s…o as recompensas de um longo
investimento de tempo e de aten„…o, e tamb†m de dinheiro.(...)Se utilizamos
‘nomes’ como alavancas para captar processos cognitivos mais rec‘nditos
para sintetizar o consumo, e se vemos os bens e seus nomes como partes
acess•veis de um sistema de informa„…o, o problema do consumidor na
realiza„…o de seu projeto de vida se torna mais claro. (Douglas & Isherwood,
2004 p. 124-127)

A import•ncia dos objetos na constitui„…o dos universos sociais, identificada


pelo interacionismo simbƒlico, serˆ desenvolvida e reelaborada por uma s†rie de
estudos sobre o gosto e os estilos de vida (Bourdieu). O universo social que compŠe o
estilo de vida † marcado, tamb†m, por uma rela„…o muito particular com a linguagem.
No processo de socializa„…o, a aprendizagem da linguagem ou aquisi„…o da
compet‡ncia social para falar † incorporada na constru„…o do que George H. Mead
chamou de self, isto †, na capacidade de nos pensarmos, localizados em posi„Šes e
situa„Šes sociais, e de pensar os lugares e os pap†is socialmente reconhecidos dos
outros com os quais falamos (Mead In: Coser & Rosemberg, 1966 p. 101-104; R‰diger,
1998 p. 34-39).

Os indiv•duos s…o capazes de reconhecer esses pap†is por serem capazes de


representˆ-los socialmente. Na intera„…o social, na experi‡ncia dos homens no mundo,
os agentes sociais adquirem a compet‡ncia social necessˆria para que se constituam
como pessoas dotadas de voz em uma rede comunicativa: “De forma ampla, ‘voz’ †
usada metaforicamente para qualquer atividade relativa ao uso da linguagem(...)As

17
palavras que usamos definem nosso mundo, no sentido original do termo, ‘criando uma
fronteira, um limite’” (Mey, 2001 p 25-27).

Em 1950, Goffman jˆ propunha uma “etnografia da palavra”, em um movimento


que contribuirˆ para o surgimento da socioling‰•stica com Gumperz e Hymes. O
sociƒlogo propŠe um estudo sobre a situa„…o de comunica„…o, uma anˆlise da
linguagem em atos. Em 1964, elabora o artigo “A situa„…o negligenciada” no qual
destaca a import•ncia do comportamento expressivo na complexa produ„…o social do
sentido na comunica„…o. A linguagem verbal e n…o verbal est…o integradas na conduta
comunicativa, de tal modo que a produ„…o de sentido se dˆ muito mais por um processo
de dramatiza„…o do que por um processo de simples codifica„…o/decodifica„…o. A
rela„…o entre forma e conte’do lembra muito as observa„Šes de Simmel (uma influ‡ncia
marcante na forma„…o dos pesquisadores da Escola de Chicago):

“Com base nas condi„Šes e nas necessidades prˆticas, nossa


intelig‡ncia, vontade, criatividade e os movimentos afetivos, elaboramos o
material que tomamos do mundo. De acordo com nossos propƒsitos, damos a
esses materiais determinadas formas, e apenas com tais formas esse material
† usado como elemento de nossas vidas.” (Simmel, 2006 p. 61)
Nossos recursos expressivos nas situa„Šes de intera„…o s…o “socialmente
situados”, pois pressupŠem essa capacidade de “generaliza„…o do outro” (descrito acima
em Mead) que estˆ sempre presente na produ„…o simbƒlica. Mesmo as situa„Šes mais
•ntimas n…o escapam dessa condi„…o. O processo de socializa„…o permite a incorpora„…o
de esquemas de ritualiza„…o social das trocas simbƒlicas socialmente situadas. Assim
um conjunto de varia„Šes corporais e vocais, escolhas sem•nticas podem ser
experimentadas em uma esp†cie de “jogo de comunica„…o”. Esse jogo tem por base
“pressuposi„Šes cognitivas partilhadas e de constrangimentos automantidos, ou at† de
pressuposi„Šes normativas” (Goffman In: Winkin, 2006 p. 202). Como observa
Wittgenstein:

“Aprende-se o jogo observando como os outros jogam. Mas dizemos


que se joga segundo esta ou aquela regra, porque um observador pode ler
essas regras na práxis do jogo, com uma lei natural que as jogadas seguem.
– Mas como o observador distingue, nesse caso, entre um erro de quem joga
e uma jogada certa? Hˆ para isso ind•cios no comportamento dos jogadores.”
(Wittgenstein, 1989 p. 34)

A simples descri„…o de um gesto, o seu significado, deve pressupor as condi„Šes


nas quais se realiza, como, por exemplo, a dist•ncia social entre os interlocutores, o

18
comportamento n…o-verbal daqueles que est…o na conversa (mas n…o participam
diretamente dela), a percep„…o que os interlocutores t‡m do lugar e das pessoas com as
quais interagem, enfim, tudo o que pode ser chamado de “situa„…o social”, situa„…o de
intera„…o socialmente situada. Os indiv•duos agem por uma s†rie de orienta„Šes
conjugadas e autorizadas no que diz respeito €s trocas simbƒlicas. (Goffman In: Winkin,
1999 p. 150-151)

“...os jogos de cartas, os casais numa pista de dan„a, as equipes


cir’rgicas em a„…o e os combates de boxe s…o outros tantos exemplos de
encontro: todos eles ilustram a organiza„…o social de uma orienta„…o
momentaneamente conjugada (...) Quero sugerir com isso que a palavra se
produz - quando se produz – no seio de uma tal disposi„…o social. (...) Note-
se, portanto, que o habitat natural da palavra † um lugar onde nem sempre a
palavra estˆ presente. (...) A palavra † socialmente organizada, n…o apenas
em termos de distribui„…o de locutores e de registros ling‰•sticos, mas
tamb†m como um pequeno sistema de a„Šes face a face, mutuamente
confirmadas e ritualmente conduzidas. • por outras palavras, um encontro
social.” (Goffman In: Winkin, 1999 p. 152)

Para a Pragmˆtica, os interlocutores n…o usam rigidamente as regras de uma


l•ngua, mas fazem uso delas como em um jogo, que pressupŠe avalia„Šes e jogadas com
recursos ling‰•sticos e extraling‰•sticos de que dispŠem em uma situa„…o dada. Os
jogadores carregam, ainda, a "memƒria" dessas jogadas que podem ser atualizadas
nessas situa„Šes particulares. Esses recursos extraling‰•sticos relacionam-se com um
conjunto de saberes comuns que "objetivam" a comunica„…o, que a localizam de modo
mais ou menos claro em um quadro de refer‡ncia social (frame). “ exemplo de Simmel,
Goffman observa que o “comportamento expressivo” acaba por lan„ar os agentes em
situa„…o de intera„…o/comunica„…o em uma esp†cie de jogo entre formas e conte’do, ou
melhor, conte’dos mais ou menos formalizados. Ao constatar que a linguagem, para ser
bem-sucedida, apresenta-se como uma institui„…o social, o fundamental na anˆlise
pragmˆtica consiste na interpreta„…o das “regras do jogo” no qual a fala † apreendida:
“O que, em compensa„…o, interessa € pragmˆtica, †, antes de mais
nada, a prƒpria din•mica da partida, sua dimens…o ag‘nica. Como no t‡nis
ou no xadrez, os parceiros do interc•mbio verbal participam de um mesmo
jogo, que oferece as condi„Šes de um confronto ritualizado feito de
estrat†gias locais ou globais, o tempo todo redefinidas em fun„…o da
antecipa„Šes dos protagonistas (...) visto que a enuncia„…o † pensada como
um ritual baseado em princ•pios de coopera„…o entre os participantes do
processo enunciativo, a inst•ncia pertinente em mat†ria de discurso n…o serˆ

19
mais o enunciador, mas o par formado pelo locutor e pelo interlocutor(...)”
(Maingueneau, 1996 p. 18-19)

A metˆfora do jogo ou do ritual † explorada com freq‰‡ncia nas ci‡ncias sociais


e como serˆ visto, adiante, serve para engendrar a tens…o entre as “regras” e a
capacidade de “inova„…o” e “inven„…o” do seres humanos. Muitas vezes, o risco de se
analisar a fala como um “texto” † o de excluir da anˆlise o seu carˆter pragmˆtico. Falar
n…o † transmitir uma informa„…o, mas “apresentar um drama” diante de outros. O
aprendizado da fala no processo de socializa„…o † “pontuado” por interven„Šes dos
adultos em “situa„Šes de fala”, ’nica condi„…o que deve ser garantida para que os
“textos” ganhem sentido social. As vozes formam-se integralmente nas complexas
situa„Šes de comunica„…o:
“Toda sociedade se expressa em textos, entendidos como a organiza„…o
coletiva de suas vozes. (...) Uma outra alternativa † pensar as vozes da
sociedade incorporadas n…o somente aos textos orais ou escritos, mas €
totalidade das prˆticas que compŠem a vida diˆria de uma comunidade, uma
vida pressuposta pela prƒpria exist‡ncia do texto.” (Mey, 2001 p. 79)

O risco que o interacionismo corre diz respeito € forma pela qual identifica a
fun„…o da linguagem na constru„…o social do sentido, a linguagem como produtora de
"objetos" carregados de sentido e responsˆvel pela constitui„…o dos universos sociais.
Alguns cuidados s…o necessˆrios, ao se pensar a linguagem em uso ou a produ„…o social
de sentido por meio da linguagem. • preciso romper com a no„…o de que os signos
produzidos na intera„…o social seriam uma esp†cie de etiqueta dada aos objetos e que a
fun„…o da linguagem seria a de nomear, captando o objeto. Corre-se o risco de
identificar a linguagem apenas como uma produtora de “rƒtulos”, o que seria um
equ•voco como mostra Ara’jo (2004):

“N…o obstante, sem a linguagem nomeando, designando, situando,


esclarecendo, discriminando, recortando, afirmando etc., enfim, sem algum
tipo de semiose, isto †, de processo s•gnico, at† mesmo a mais simples das
interven„Šes do homem no mundo seria impraticˆvel. (...) Portanto, falar n…o
† relacionar uma coisa com uma palavra, mas relacionar signos entre si (...)
O signo ling‰•stico † operacional, n…o estˆ simplesmente no lugar de algo”
(Ara’jo, 2004 p. 39)

A publica„…o, em 1962, de How to Do Things with Words, de Austin, demonstra


justamente isto. Nele, pode ser encontrada a cr•tica a certas posturas descritivistas nas
quais a linguagem serviria para representar estados do mundo. Produzir uma enuncia„…o

20
envolve a realiza„…o de uma s†rie de sons com sentido em uma l•ngua (um ato
locutƒrio), um tipo de ato de linguagem que deve ser percebido, convencionalmente, de
certa forma como pedido, amea„a, sugest…o etc. (ato ilocutƒrio), que provoque uma
certa disposi„…o, uma a„…o por interm†dio da palavra (ato perlocutƒrio). Para que a
comunica„…o ocorra † preciso que sejam garantidas algumas condi„Šes (sociais) de
sucesso (Maingueneau, 1996 p. 8-9). Como ser…o vistas, adiante, essas condi„Šes
passar…o, pela anˆlise dos g‡neros discursivos e seus rituais enunciativos.

Deste modo, o significado de uma express…o depende do jogo de linguagem


(socialmente institu•do) no qual se insere. Seu significado † reconhecido, de modo
prˆtico, pelos agentes sociais. Eles desenvolvem uma capacidade de entendimento
prˆtico das “regras” daquele jogo de linguagem espec•fico, estabelecem “semelhan„as
de fam•lia” entre os diversos jogos de linguagem que se dispersam pelo cotidiano. Os
jogos n…o t‡m contornos precisos e as suas poss•veis regras n…o exaurem e nem
determinam, de uma vez por todas, as possibilidades das jogadas. Elas indicam
dire„Šes, uma memƒria do jogo, um campo de possibilidades, um jogo com as
fronteiras. • esse constrangimento e abertura que faz com que a metˆfora do jogo seja
extremamente ’til para pensar a linguagem e o mundo social.

• preciso certo cuidado com leituras “semiologizantes” da sociedade, pois se ela


† uma grande produtora de textos, † preciso entender, tamb†m, que aquilo que estˆ em
jogo n…o † o texto em si, mas as condi„Šes sociais de sua produ„…o, reconhecimento e
exist‡ncia.

Capítulo 2: Jogos de Linguagem

21
Simultaneamente, alguns pesquisadores em teoria literˆria come„am a deslocar-
se da preocupa„…o com a linguagem para a preocupa„…o com o discurso, redirecionando
seus estudos para os atos de fala, em que a linguagem deixa de ser vista como uma
estrutura e passa a ser pensada em sua manifesta„…o, em seu uso, atendendo a algumas
condi„Šes de sucesso (Eagleton, 1983 p. 123).
Rodrigues observa que o modelo de transmiss…o linear e unidirecional (t…o
difundido em algumas teorias da comunica„…o), traduzido no modelo da codifica„…o-
decodifica„…o, sofre de um problema particular. Quando falamos, n…o utilizamos apenas
um cƒdigo, mas precisamos dominar um conjunto de saberes que nos permitam
entender as pistas do nosso interlocutor.
“Segundo uma concep„…o generalizada da linguagem, um locutor
constrƒi os seus enunciados, procedendo a uma codifica„…o daquilo que
pretende dizer, e dirige-os a um ou mais destinatˆrios, que compreendem
aquilo que ele lhes diz descodificando a mensagem veiculada por esses
enunciados. A intercompreens…o seria assim explicada pelo fato de tanto o
destinador como o destinatˆrio de uma mensagem possu•rem em comum o
mesmo código.
Deste ponto de vista, as dificuldades na compreens…o dos
enunciados que podem ocorrer resultam, ora da insuficiente mestria ou do
insuficiente dom•nio do cƒdigo por parte dos interlocutores, ora da
ocorr‡ncia de ru•dos, de fen‘menos perturbadores do processo de
transmiss…o ou da percep„…o das mensagens codificadas, ora de ambas estas
razŠes. [Entretanto] (...) Al†m de utilizarem em comum o mesmo cƒdigo da
l•ngua portuguesa, eles tamb†m ter…o de interpretar ind•cios ou, se
preferirmos, pistas acerca daquilo que cada um cr‡ saber. Este exemplo
mostra assim que, para entenderem o que pretendem dizer, os interlocutores,
al†m de possu•rem um cƒdigo comum, t‡m de possuir em comum um
determinado saber.” (Rodrigues, 1995 p. 140-141)

Essa cr•tica jˆ estˆ bem clara nos trabalhos de Bakhtin, quando observa que o
grande erro das anˆlises abstratas da comunica„…o consiste em avaliar a linguagem do
ponto de vista do locutor como agente isolado. Quando o outro entra nesse modelo de
comunica„…o † na simples condi„…o de “destinatˆrio passivo”.
• um erro considerar o locutor como se fosse o ponto de partida do discurso e o
receptor como um destinatˆrio passivo. Toda enuncia„…o pressupŠe uma s†rie de
condi„Šes sociais que dependem da intera„…o, da presen„a do outro, de sua histƒria:
“ O prƒprio locutor como tal †, em certo grau, um respondente, pois
n…o † o primeiro locutor que rompe pela primeira vez o eterno sil‡ncio de um
mundo mudo, e pressupŠe n…o sƒ a exist‡ncia do sistema da l•ngua que
utiliza, mas tamb†m a exist‡ncia de enunciados anteriores – emanentes dele
mesmo ou do outro – aos quais seu prƒprio enunciado estˆ vinculado por

22
algum tipo de rela„…o (fundamenta-se neles, polemiza com eles), pura e
simplesmente ele jˆ os supŠe conhecidos do ouviente. Cada enunciado † um
elo da cadeia muito complexa de outros enunciados.” (Bakhtin, 2000 p. 291)

A linguagem deixa de ser representada como conjunto de cƒdigos geradores de


informa„Šes que precisam ser decifradas para se transformar no “lugar” no qual
emergem as significa„Šes, pois a linguagem “semiotiza” a realidade ou melhor a
realidade † a semiose em ato (Ara’jo, 2004 p. 56).
Uma primeira observa„…o a ser feita † como as orienta„Šes pragmˆticas
procuraram de um modo ou de outro incorporar em seus argumentos as formas de
representa„…o e a„…o que podem ser encontradas no teatro, no direito e no jogo. A fala
n…o † simplesmente a transmiss…o de uma mensagem, mas a representa„…o de um
drama, que envolve um comportamento expressivo em situa„Šes sociais (Goffman). Os
atos de fala evocam, tamb†m, conven„Šes: esp†cies de contratos discursivos entre
aqueles que falam, contratos que envolvem verdadeiros procedimentos ritualizados. A
metˆfora do jogo pressupŠe, como serˆ visto, a capacidade de incorpora„…o de
esquemas gerais com os quais podem ser produzidas, justamente, essas jogadas
ritualizadas. Ele pressupŠe conven„Šes e representa„Šes dramˆticas.
Essas analogias buscam traduzir a forma pela qual a linguagem pode ser
pensada, das mais variadas maneiras, como a„…o: “O termo ‘jogo de linguagem’ deve
aqui salientar que o falar da linguagem † uma parte de uma atividade ou de uma forma
de vida.” (Wittgenstein, 1989 p. 18). Assim, o que pode ser entendido por significa„…o
de uma palavra † o seu uso espec•fico na linguagem.
A estrutura da enuncia„…o † de natureza social, produto da intera„…o. Os saberes
que essa intera„…o produz n…o precisam ser id‡nticos, mas s…o comuns, tornam-se
comunicˆveis, reconhecidos, demarcadores de limites mais ou menos claros com os
quais os agentes se colocam com suas habilidades e qualidades (Rodrigues, 1995). As
prˆticas discursivas s…o prˆticas sociais de produ„…o, distribui„…o e consumo textual
realizada nos mais diversos campos. Como observa Lahire:
“De maneira geral, antes mesmo de poder falar, a crian„a estˆ colocada
em esquemas de intera„…o com o adulto, guiados por este, e que s…o
indissociˆveis de intera„Šes verbais clˆssicas (...) atrav†s das categorias de
sua l•ngua, e pelos tipos de intera„Šes verbais que a crian„a vai
progressivamente integrar gra„as aos adultos. (...) Estando a linguagem
presente no seio de toda prˆtica, de toda forma de vida social (tanto nas
prˆticas econ‘micas como nas prˆticas educativas, religiosas ou esportivas)
n…o faz nenhum sentido tomar a linguagem como objeto particular de

23
investiga„…o sociolƒgica. A cilada consiste em autonomizar a linguagem(ou
o discurso) e ver apenas signos, trocas significantes, linguagens na moda, do
espa„o, da arquitetura, do consumo etc no contexto de uma semiologia
generalizada.” (Lahire, 2002 p. 169-170)

O processo de socializa„…o permite a incorpora„…o, a internaliza„…o de esquemas


de percep„…o e aprecia„…o do mundo por meio da linguagem (Bourdieu). Como observa
Wittgenstein, jogos de linguagem est…o relacionados a usos sociais espec•ficos que
aprendemos a reconhecer com maior ou menor familiaridade.
Usar a metˆfora do jogo significa dizer que um enunciado † um lan„amento, um
movimento do jogo. A produ„…o social de sentido e a compreens…o sƒ ocorrem quando
nos valemos de “esquemas” para interpretar de forma mais ou menos controlada e
reconhecida determinadas enuncia„Šes. • o que Goffman (1986) provavelmente queria
dizer com a no„…o de frames e situação de comunicação. A capacidade de realizar
certos usos “estrat†gicos” desses esquemas indica a capacidade maior ou menor de
dom•nio de uma t†cnica:
“O trabalho de antecipa„…o, o recurso a estrat†gias sutis destinadas a
controlar, a condicionar o processo interpretativo n…o s…o uma dimens…o
acessƒria, mas constitutiva do discurso (...) Os enunciadores n…o se
contentam portanto em transmitir conte’dos representativos, empenham-se
constantemente em posicionar-se atrav†s do que dizem (...) (Maingueneau,
1996 p. 20)

Rodhen (2003) observa que, no jogo, estamos sempre lutando por alguma coisa,
representando alguma coisa. Respeitar as regras e correr riscos, viver a incerteza e a
tens…o † a caracter•stica dos jogos. • preciso estar envolvido pelo jogo para que ele
tenha sentido. Ele cria uma ordem por meio da qual † poss•vel representar uma s†rie de
outros dramas homƒlogos (o certo e o incerto na vida, a alegria, a ousadia, o risco, o
imprevis•vel).
Nas trocas simbƒlicas † correto dizer que os enunciados sempre podem gerar
interpreta„Šes imprevis•veis. Lances e movimentos de “ast’cia” e “ingenuidade” podem
ser criados, manobras mais ou menos valorizadas e inovadoras podem ser produzidas.
No entanto, uma s†rie de constrangimentos s…o delimitados pelos jogos de linguagem.
Sociologicamente, somos obrigados a nos defrontar com o problema da objetiva„…o da
linguagem, o que a caracteriza como uma “institui„…o”.
O controle da interpreta„…o se dˆ por meio da identifica„…o de parentesco e
familiaridade entre um conjunto de jogadas-enunciados. Os jogos n…o delimitam todas

24
as possibilidades de express…o, mas produzem a familiaridade em torno das quais certas
jogadas t‡m uma probabilidade de acontecer, um campo de poss•veis para o sentido.
Um campo de dispers…o de sentidos poss•veis e reconhecidos.
Para Wittgenstein, os jogos de linguagens s…o capazes de estabelecer um senso
prˆtico da “fam•lia” de significados para determinadas trocas simbƒlicas. Esses
esquemas prˆticos, esse senso prˆtico do mundo e das situa„Šes de intera„…o na qual se
formaram s…o capazes de orientar os indiv•duos no dom•nio de uma t†cnica. Assim, eles
s…o capazes de estabelecer “semelhan„as de fam•lia” ou uma “fam•lia de significa„Šes”
que permitem reconhecer e jogar com as possibilidades desses jogos.
Ao se pensar a comunica„…o a partir de jogos de linguagem, deve-se entender a
produ„…o de sentido como a produ„…o de certos esquemas de reconhecimento dos "ares
de fam•lia" entre os signos e as situa„Šes em que est…o integrados. A partir disso, podem
ser estabelecidas analogias, aproxima„Šes, distanciamentos na experi‡ncia com esses
jogos que em nada se assemelham a uma obedi‡ncia a regras estritas:
"Um esquema grˆfico com uma sucess…o de desenhos de rostos pode
dar a id†ia das 'passagens intermediˆrias' entre exemplares de uma fam•lia
(aqui apresento uma vers…o estilizada; quem tiver habilidade grˆfica poderˆ
fazer um desenho melhor): :-) ;-) ;-| ;=|
Na figura, entre o primeiro membro e o ’ltimo membro n…o hˆ nenhuma
caracter•stica comum, mas existem transi„Šes e membros intermediˆrios que
se apresentam de tal modo que dois membros prƒximos da s†rie das figuras
tenham sempre algo em comum." (Penco, 2006 p. 147)

Wittgenstein observa que o "ensino ostensivo das palavras" e os jogos de


linguagem s…o os meios por meio dos quais as crian„as tornam-se capazes de produzir
sentido ao mundo. Ele observa que pronunciar uma palavra seria como "tocar uma tecla
no piano da representa„…o" (Wittgenstein, 1989 p. 11-12). Mas, a finalidade da palavra
entretanto n…o † "despertar representa„Šes". Aprende-se a linguagem como a t†cnica de
um jogo, prˆtica cheia de significado, produtora de significados que constituem o senso
prˆtico do mundo. Eis que a mimese (Gebaur& Wulf, 2004) torna-se um operador
prˆtico da aquisi„…o dessa t†cnica social, um fator determinante no processo de
produ„…o dos esquemas prˆticos da linguagem. Tanto as situa„Šes concretas do
cotidiano como aspectos do imaginˆrio podem ser produzidos pela mimese no
desenvolvimento cognitivo das crian„as.
S…o esp†cies de “representa„…o em ato”, jˆ que as diversas situa„Šes de intera„…o
vividas por elas em seu universo social permitem que desenvolvam um “saber prˆtico”.

25
S…o esquemas de percep„…o de situa„Šes sociais jˆ conhecidas que servem de refer‡ncia
e antecipa„…o de situa„Šes sociais futuras.
Da mesma forma Lahire critica a id†ia muito difundida na Sociologia de que, em
seu processo de socializa„…o, os indiv•duos incorporam “estruturas sociais” por meio da
linguagem. Para o sociolƒgo, o que se incorpora s…o esquemas de a„…o, de intera„…o, de
representa„…o, percep„…o e aprecia„…o do mundo. Qualquer metˆfora que traduza a
tentativa de “transmiss…o” desses esquemas como transmiss…o de um patrim‘nio
cultural deve ser avaliada com muito cuidado, pois a metˆfora pressupŠe que esse
patrim‘nio seja simplesmente passado € frente como se faz com bens materiais. Na
verdade uma “heran„a cultural” deve pressupor “distor„Šes, adapta„Šes,
reinterpreta„Šes” e um investimento por parte daqueles que estar…o sujeitos a ela. O que
† apropriado ou “transmitido” n…o † propriamente um saber, mas uma experi‡ncia:
“O racioc•nio prˆtico do tipo ‘isso se parece com’, e que raramente
precisa ser dito como tal, † um racioc•nio comumente aproximativo e
variˆvel. Pode perfeitamente bem negligenciar certos tra„os da situa„…o em
curso para reter apenas um esquema relacional geral (a rela„…o homem-
mulher, a rela„…o m…e-filha, a rela„…o superior hierˆrquico-subordinado etc.),
como tamb†m se ater a um detalhe totalmente descontextualizado do
conjunto da situa„…o (um gesto, um cheiro, um sabor, uma palavra, uma voz,
um ru•do, um objeto, um lugar – casa, paisagem, bairro -, uma fotografia
etc.(Lahire, 2002 p. 69)

Gebauer&Wulf observam a import•ncia dos recursos mim†ticos nessas


apropria„Šes, nesse aprendizado, na frui„…o est†tica em geral, nas rela„Šes de trabalho e
comunitˆrias. O que destacam † o carˆter corporal que o aprendizado mim†tico produz
nos processos de socializa„…o: um conjunto de posturas, entona„Šes, gestos engendram-
se a produ„Šes ling‰•sticas em situa„Šes sociais muito particulares. Coloca-se em
movimento nos jogadores uma esp†cie de “intelig‡ncia corporal”, uma héxis (Mauss,
2003).
O universo familiar com seus sons, odores, sabores, horˆrios, rituais conferem
uma percep„…o do espa„o e do tempo muito particulares, com as quais se torna poss•vel
brincar, recriar, interagir, identificar momentos em que se pode perceber a passagem do
tempo socialmente regulado (pela m…e, pais, irm…os, pelos horˆrios dos desenhos na
televis…o, p.ex.):
“Com ajuda da sua capacidade mim†tica a crian„a assume o
significado das coisas e das formas de representa„…o e de a„…o. Em um
movimento mim†tico a crian„a lan„a uma ponte para o exterior. No centro
da atividade mim†tica estˆ situada a refer‡ncia ao outro que n…o estˆ a• para

26
ser incorporado, mas para ser assimilado. O encontro mim†tico com o
mundo ocorre com todos os sentidos, e estes desenvolvem suas
sensibilidades no decorrer deste processo.” (Gebauer&Wulf, 2004 p. 145)

A mimese vai representar, ent…o, um papel important•ssimo na constitui„…o do


sujeito em a„…o no mundo, produzindo uma esp†cie de compet‡ncia social (uma t†cnica,
como diria Wittgenstein).
Entretanto, † importante frisar que o aspecto l’dico do aprendizado social
pressupŠe saberes prˆticos nos quais tamb†m est…o presentes rela„Šes sociais de poder.
Assim: “Por meio do agir e do comportar-se ritualisticamente s…o registradas norma
sociais nos corpos. Com estes processos de registro tamb†m s…o incorporadas rela„Šes
sociais de poder. Esses processos transcorrem de forma considerˆvel fora da consci‡ncia
dos envolvidos...”( Gebauer &Wulf, 2004 p. 146).
A mimese produz um conhecimento, uma memƒria, uma experi‡ncia sensorial
profunda, representada dramaticamente pelo tom de voz, pelos distanciamentos e a
postura dos corpos em uma situa„…o de comunica„…o, pelo controle sobre o
deslocamento no espa„o e no tempo (na casa, na rua, no trabalho). Nesse sentido, o
entendimento do sentido social do mundo pode ser razoˆvel sem que tenha a raz…o
como princ•pio de sua organiza„…o, sem que seja necessˆrio um ato de consci‡ncia para
produzi-lo. • justamente o que estˆ no princ•pio de produ„…o da doxa: “Aquilo que se
sabe quando ningu†m nos interroga, mas que n…o se sabe mais quando devemos
explicar, † algo sobre o que se deve refletir.(E evidentemente algo sobre o que, por
alguma raz…o, dificilmente se reflete” (Wittgenstein, 1989 p. 49)
Nesse sentido, encontramos uma proximidade enorme da filosofia anal•tica com
os estudos de Bourdieu como o prƒprio autor reconhece em Fieldwork in philosophy
(Coisas Ditas, 2004). A compreens…o dos complexos processos que levam ao
desenvolvimento do senso prˆtico e da doxa no mundo social, marcam
consideravelmente certa filosofia da a„…o. • o tipo particular de teoria da a„…o, de teoria
da prˆtica que caracteriza todo o pensamento de Bourdieu e o aproxima de Wittgenstein.
Da mesma forma, como jˆ foi observado no in•cio do cap•tulo, hˆ uma grande
proximidade entre a filosofia anal•tica e a concep„…o de comunica„…o presente em
Bakhtin, quando percebe que o enunciado † um elo na cadeia da comunica„…o:
“Nossa fala, isto †, nossos enunciados (que incluem as obras literˆrias),
est…o repletos de palavras dos outros, caracterizadas, em graus variˆveis,
pela alteridade ou pela assimila„…o, caracterizadas, tamb†m em graus
variˆveis, por um emprego consciente e decalcado. As palavras dos outros

27
introduzem sua prƒpria expressividade, seu tom valorativo, que assimilamos,
reestruturamos, modificamos. (...) O enunciado deve ser considerado acima
de tudo com uma resposta a enunciados anteriores dentro de uma dada esfera
(a palavra ‘resposta’ † empregada aqui no sentido lato); refuta-os, confirma-
os, completa-os, baseia-se neles, supŠe-nos conhecidos e, de um modo ou de
outro, conta com eles.”” (Bakhtin, 2000 p. 314)

O senso prˆtico do mundo, seu sentido social em estado prˆtico, e as rela„Šes de


poder que o instituem, s…o produzidas necessariamente com o outro :
“N…o pode ser que apenas uma pessoa tenha, uma ’nica vez, seguido
uma regra. N…o † poss•vel que apenas uma ’nica vez tenha sido feita uma
comunica„…o, dada ou compreendida uma ordem, etc. - Seguir uma regra,
fazer uma comunica„…o, dar uma ordem, jogar um a partida de xadrez s…o
hábitos (costumes, institui„Šes). Compreender uma frase significa
compreender uma linguagem. Compreender uma linguagem significa
dominar uma t†cnica.”(Wittgenstein, 1989 p. 87)

Os indiv•duos n…o t‡m necessariamente o dom•nio consciente dessa t†cnica, mas


um senso prˆtico das dire„Šes a serem tomadas em determinadas situa„Šes de
comunica„…o (e seus respectivos jogos de linguagem).
No desenvolvimento dos fundamentos de uma Est†tica da Recep„…o, Iser (In:
Lima, 2002) observa que o conceito de jogo deve-se sobrepor ao de representa„…o. O
processo textual sƒ acontece porque os autores fazem com que o texto se torne um
campo de jogo, tornando poss•vel uma inter-rela„…o entre autor-texto-leitor de maneira
din•mica. Os autores esbo„am um mundo de modo a incitar o leitor a imaginˆ-lo e com
isso interpretˆ-lo, conferir-lhe um sentido. Por meio de uma esp†cie de contrato de
leitura, o leitor deve tomar a narrativa como se fosse a realidade, suspendendo de
alguma forma seu v•nculo com “a” realidade.
Por meio desses “esquemas”, torna-se poss•vel uma movimenta„…o, uma
manobra de significados na rela„…o com os textos. Esses esquemas permitem a um texto
representar algo e, ao mesmo tempo, mostram-se incapazes de controlar totalmente a
poss•vel meta estipulada pelo seu autor. Os jogadores desse jogo chamado literatura n…o
podem ter o completo dom•nio sobre tudo o que estˆ em jogo neles.
Permitindo, de alguma forma, que a aus‡ncia direta na produ„…o do texto seja
vivida como presen„a (na figura do leitor), o texto e a experi‡ncia que se tem com
certos jogos de linguagem permitem que ele seja transformado em extensŠes da
experi‡ncia do leitor.

28
Para Stierle, o resultado desse jogo depende de um “potencial de recepcional” ou
no caso de Jauss de um “horizonte de expectativas” que o texto possibilita. Esse jogo
depende da “compet‡ncia recepcional” do leitor para reconstruir a dire„…o e a inten„…o
com a qual o autor objetivou seu prƒprio texto. Para Stierle:
“A comunica„…o pragmˆtica, portanto, funciona apenas quando o
produtor e receptor dialeticamente mediados, interv‡m com posi„Šes de
pap†is em um campo de a„…o. A comunica„…o pragmˆtica funciona apenas
porque o produtor consegue imaginar o papel do receptor e vice-versa. (...) O
sujeito da produ„…o e o sujeito da recep„…o n…o s…o pensˆveis como sujeitos
isolados, mas apenas como social e culturalmente mediados, como sujeitos
‘transubjetivos’ (...)” (In: Lima, 2002 p. 128)

Se na pragmˆtica o discurso † pensado como a„…o, † preciso entender como


“a„…o” o pensar, o imaginar, sonhar, falar, escrever, abaixar-se, andar, fazer um gesto.
Como observa Stierle, pode-se entender por recep„…o o ato de fechar um livro, decorˆ-
lo, presenteˆ-lo, fazer uma cr•tica, montar uma viseira de papel…o e transformar-se em
super-herƒi etc. • o que pode ser muito bem retratado no comportamento de Ema, nos
primeiros cap•tulos de Madame Bovary de Flaubert ou nessa composi„…o de Chico
Buarque e Sivuca:

João e Maria

Agora eu era o herƒi


E o meu cavalo sƒ falava ingl‡s
A noiva do cowboy era voc‡ al†m das outras tr‡s
Eu enfrentava os batalhŠes, os alem…es e seus canhŠes
Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matin‡s
Agora eu era o rei
Era o bedel e era tamb†m juiz
E pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz
E voc‡ era a princesa que eu fiz coroar
E era t…o linda de se admirar
Que andava nua pelo meu pa•s
N…o, n…o fuja n…o
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pi…o, o seu bicho preferido
Vem, me d‡ a m…o, a gente agora jˆ n…o tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lˆ deste quintal era uma noite que n…o tem mais fim
Pois voc‡ sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que † que a vida vai fazer de mim?

29
A questão da leitura será desenvolvida em um capítulo à parte, interligada aos
tipos de comunicação mediada presentes no mundo moderno, ao modo pelo qual se
desenvolvem naquilo que Bakhtin chamou de gêneros secundários (cap.4).

Capítulo 3: Mediações, Estudos Culturais e Recepção

30
Na Am†rica Latina, o campo da comunica„…o sofre profundas transforma„Šes a
partir das novas orienta„Šes teƒricas que passam a dominar o campo das Ci‡ncias
Sociais nos anos 1970-1980. Muitas dessas transforma„Šes devem-se, em grande parte,
€ influ‡ncia de modelos ling‰•sticos ou semiolƒgicos. Al†m disso, a regi…o estava
vivendo uma nova conjuntura social e pol•tica pela a„…o dos movimentos sociais, que
passaram a desempenhar um importante papel nos processos de democratiza„…o e luta
contra as ditaduras. Tratavam-se na verdade de verdadeiras lutas simbƒlicas pela
representa„…o do mundo trazida pelas novas prˆticas sociais.

Esse v•nculo entre ci‡ncias sociais e comunica„…o teve in•cio nos anos 1970 com
os trabalhos de pesquisadores da sociologia da comunica„…o na FFLCH-USP2 e com os
novos direcionamentos que a antropologia passou a dar € no„…o de cultura popular.
Embora n…o seja este o objetivo deste artigo, † preciso lembrar que a transi„…o dos
estudos sobre a cultura popular para os estudos de comunica„…o mediada aparece em
um momento muito particular tanto na Europa quanto na Am†rica Latina.

Em 1964, na Inglaterra, um grupo de pesquisadores entre os quais se destacam


Raymond Williams e Richard Hoggart cria o Centro de Estudos Culturais
Contempor•neos, ligado € Universidade de Birmingham, e modificam radicalmente a
maneira pela qual estavam sendo tratados at† ent…o a anˆlise dos meios de
“comunica„…o de massa”. Em primeiro lugar, Williams come„a por desconstruir o
termo “massa”, recolocando-o em uma chave histƒrica :

“O elemento mais inquietante da complexidade da massa ou das


massas, em seu uso contempor•neo, s…o suas implica„Šes sociais em
sens•vel oposi„…o. Para se engajar no trabalho de massa, para pertencer €s
organizações de massa, para se valer de encontros de massa e
movimentos de massa para viver completamente a servi„o das massas:
estas expressŠes s…o de uma tradi„…o revolucionˆria. Mas, para estudar o
gosto das massas, o uso dos mass media, o controle do consumo de massa,
para se envolver na observação de massa, para compreender a psicologia
das massas ou a opinião das massas: estas expressŠes s…o de uma
tend‡ncia pol•tica e social oposta.” (Williams, 1988 p.196)

2
Gabriel Cohn, Maria Arminda do Nascimento Arruda, Orlando Miranda e S†rgio Miceli. Para Gabriel Cohn (1973),
o grande pioneiro nessa ˆrea, tratava-se de: “Uma estrat†gia de anˆlise sociolƒgica das rela„Šes entre sistemas
simbƒlicos e sistemas sociais, aplicˆvel a uma modalidade historicamente espec•fica da sua manifesta„…o...”.

31
Esse pesquisador reposiciona, tamb†m, a maneira de pensar a rela„…o entre
tecnologia e prˆticas sociais, a partir de seus estudos sobre a televis…o. Sua anˆlise do
desenvolvimento das tecnologias de comunica„…o estˆ vinculada a um conjunto de
transforma„Šes histƒricas que marcaram a sociedade moderna. Entre eles, encontra-se
paulatina instaura„…o de uma mobilidade privatizada centrada no lar na qual revistas,
jornais, telefones e televisŠes encontram “seu lugar”. Como observa Williams, o
desenvolvimento do broadcasting estˆ diretamente ligado a uma forma cultural no
interior dos conflitos de uma ordem capitalista e, † nela, que adquire um sentido social.

O mundo urbano moderno havia gerado duas tend‡ncias aparentemente


contraditƒrias: uma maior mobilidade e, ao mesmo tempo, a produ„…o de um lar auto-
suficiente. Se o primeiro processo de grandes investimentos em tecnologias p’blicas de
eletrifica„…o (ilumina„…o p’blica) e expans…o de rodovias e ruas jˆ havia sido
implementada, surgia agora um tipo de tecnologia para o qual n…o se tinha um nome
adequado ainda, uma tecnologia que se direcionava para um modo de vida centrado na
casa. A amplia„…o das dist•ncias entre o local de moradia e o de trabalho, a melhoria
relativa da renda e a conquista de menores jornadas de trabalho come„aram a
transformar a experi‡ncia social, com o aproveitamento do tempo dispon•vel
despendido no lar. No interior desses processos sociais:

“A nova tecnologia de ‘consumo’ que alcan„ou seu estˆgio decisivo


nos anos 20 serviu a este complexo de necessidades dentro de certos limites
e pressŠes. Houve melhorias imediatas nas condi„Šes e efici‡ncia do lar
privatizado; houve novas facilidades no transporte privado, entregas em
domic•lio; e ent…o, com o rˆdio, houve uma facilidade para um novo tipo de
inputs sociais: not•cias e entretenimento trazidos para o interior do lar.”
(Williams, 1990 p. 26-27)

Stuart Hall dirigiu o Centro de Estudos Culturais Contempor•neos de 1968 a


1979, per•odo em que publica um clˆssico ensaio intitulado Encoding/Decoding que
criou bastante pol‡mica no per•odo. Posteriormente, Hall destacou que o seu objetivo
era contrapor-se ao tipo de pesquisa realizada pelo “Centro de Pesquisa em
Comunica„…o de Massa” da Universidade Leicester, um centro bastante conservador.
Por meio do artigo, Hall mostrava que diversas camadas abriam-se na produ„…o de
sentido nos meios de comunica„…o mediada, destacando o seu carˆter multireferencial
(Hall, 2003 p. 354).

32
As representa„Šes, os textos, os discursos estariam diretamente relacionados a
certos mapas de significados que permitiriam aos agentes sociais interpretar, conhecer,
reconhecer, contestar e agir no mundo social. As condi„Šes sociais, ideolƒgicas e
pol•ticas desiguais experimentadas por esses mesmos agentes no mundo social
constituem e s…o constitu•das nas representa„Šes que se objetivam nesse mundo por
meio da prˆxis. Nesses mapas de significados, produzidos pela frui„…o cultural,
encontra-se uma estrutura em domin•ncia, capaz de impor certas regras performativas,
regras que sinalizam compet‡ncias e usos dominantes e leg•timos na sua interpreta„…o.
O trabalho interpretativo enfrentaria com maior ou menor intensidade uma situa„…o de
domin•ncia simbƒlica.
Essas mudan„as no entendimento do processo de comunica„…o ter…o, tamb†m,
conseq‰‡ncias importantes nas pesquisas da teoria das media„Šes no contexto latino-
americano.
No caso brasileiro, a emerg‡ncia de novos sujeitos sociais em um contexto de
expans…o dos meios de comunica„…o sob censura (Ortiz, 1989) impulsionou diversos
agentes e cientistas sociais a pensarem o significado dessas novas prˆticas, isto †, a
refletir sobre as caracter•sticas e o papel histƒrico desses movimentos sociais. Se at† os
anos 50 e 60 o popular era pensado como importante categoria na busca de uma
identidade nacional, agora, com a presen„a de um mercado de bens simbƒlicos em
expans…o, a quest…o do nacional-popular era acompanhada da discuss…o cultura popular-
ind’stria cultural.

Ao mesmo tempo em que se publicavam diversos ensaios de Adorno sobre a


ind’stria cultural, diversas leituras reducionistas da teoria cr•tica, apoiadas basicamente
em alguns de seus escritos, pareciam inadequadas para representar o que estava
acontecendo com as novas prˆticas midiˆticas dos movimentos sociais (rˆdios
comunitˆrias, rˆdios-livres, reestrutura„…o da imprensa sindical, greve dos jornalistas,
etc.). O “povo” encontrava formas alternativas de participa„…o pol•tica direta, ganhando
visibilidade nos meios de comunica„…o, quando tudo parecia monoliticamente
controlado.

Em um primeiro momento, sob influ‡ncia de Victor Turner e Geertz (Durham,


1977) e do impacto dos pioneiros do que veio a se chamar, posteriormente, de estudos
culturais ingleses (Richard Hoggart, 1973; Raymond Williams, 1969, 1979), a
antropologia desloca a concentra„…o de estudos (marxistas) focados na fˆbrica para um

33
conjunto de prˆticas culturais populares centradas nos bairros e nas formas de consumo
cultural dessa popula„…o.

O atual destaque que a antropologia adquiriu nos estudos de comunica„…o e nos


estudos culturais tem, portanto, uma histƒria3 . Aqui pode ser encontrada uma das
mudan„as que marcar…o profundamente o pensamento latino-americano e ter…o
conseq‰‡ncias importantes na teoria das media„Šes.

Trata-se da “ponte” estabelecida entre os estudos de cultura popular e os estudos


sobre a ind’stria cultural que ganhou for„a na Am†rica Latina por meio do trabalho de
Mart•n-Barbero e a chamada teoria das media„Šes (ou teoria culturalista da
comunica„…o), como pode ser identificada na cita„…o abaixo:

“Na redefini„…o da cultura, † fundamental a compreens…o de sua


natureza comunicativa. Isto †, seu carˆter de processo produtor de
significa„Šes e n…o de mera circula„…o de informa„Šes, no qual o receptor,
portanto, n…o † um simples decodificador daquilo que o emissor depositou
na mensagem, mas tamb†m um produtor. O desafio apresentado pela
ind’stria cultural aparece com toda a sua densidade no cruzamento dessas
duas linhas de renova„…o que inscrevem a quest…o cultural no interior do
pol•tico e a comunica„…o, na cultura” (Mart•n-Barbero, 1997 p.287).

Nessa iniciativa, produz-se um reposicionamento de uma s†rie de questŠes


levantadas pelas novas prˆticas dos movimentos sociais. Os processos de din•mica
cultural, as novas formas de resist‡ncia produzidas no cotidiano, os hibridismos
culturais (Canclini, 1998; Burke, 2006), a reavalia„…o do espa„o dom†stico e das
atividades cotidianas de recep„…o diante da ind’stria cultural e do consumo marcaram a
a„…o de um conjunto de pesquisadores latino-americanos.

Essas mudan„as ter…o um significado importante no entendimento da produ„…o


social de sentido mediada pelos meios de comunica„…o. Seguindo uma tend‡ncia muito
forte na teoria literˆria, na ling‰•stica e nos Estudos Culturais, a comunica„…o deixa de
ser pensada como um processo linear de transmiss…o, e, o texto, deixa de ser
considerado como um elemento aut‘nomo. O grande salto, influenciado pela Est†tica da
Recep„…o, † a introdu„…o do leitor como produtor de sentido no texto.

3
Cultura e comunica„…o s…o categorias que apresentam graus de generalidade semelhantes, capazes de abranger
quase tudo o que existe no mundo social. Quanto aos primeiros ensaios de aproxima„…o entre essas ˆreas, ver as obras
de Edmund Leach, de 1976, com o t•tulo: Cultura e comunicação, e A situação negligenciada, de Erving Goffman,
que † de 1964.

34
O impacto dessa mudan„a de avalia„…o na literatura foi deslocado para os meios
de comunica„…o pelos representantes latino-americanos da Teoria das Media„Šes ou
Teoria da recep„…o. A ind’stria cultural passa a ser vista como um espa„o de lutas
simbƒlicas, um espa„o de reapropria„Šes a partir de uma experi‡ncia particular do
cotidiano.

Canclini, seguindo algumas reorienta„Šes da antropologia, produzidas por Mary


Douglas (2004), passa a tratar a produ„…o de sentido no mundo dos objetos a partir de
uma teoria sociocultural do consumo, na qual o processo de apropria„…o do sentido, em
condi„Šes sociais desiguais, aparece como demarcador da distin„…o, integra„…o e de
diversidade simbƒlica (Canclini, 1992, 1996; Jacks, 1994; Lopes, 1995, 1997).

Essa “teoria” sociocultural do consumo seria, por natureza, multidisciplinar. Ela


deveria contemplar n…o apenas os processos de racionaliza„…o econ‘mica geradas no
interior das grandes corpora„Šes por meio de planifica„Šes e estrat†gias de marketing,
mas os processos de apropria„…o por parte da audi‡ncia e dos usuˆrios desses bens. A
rela„…o entre consumo e cidadania come„ava a ficar cada vez mais vis•vel e o antigo
espa„o de “reprodu„…o” da for„a de trabalho, transformava-se, tamb†m, em um espa„o
de produ„…o e apropria„…o simbƒlica em meio ao qual a produ„…o social de sentido era
negociada.

Canclini critica a ‡nfase dada por Bourdieu ao aspecto distintivo do consumo e


procura mostrar que ele funciona, tamb†m, como processo de integra„…o e de
comunica„…o, como um espa„o de representa„…o das desigualdades, dos desejos, da
histƒria de um grupo social. Como destaca:

“Contudo, nessas pesquisas costuma-se ver os comportamentos de


consumo como se sƒ servissem para dividir. Mas se os membros de uma
sociedade n…o compartilhassem os sentidos dos bens, se estes sƒ fossem
compreens•veis € elite ou € maioria que os utiliza, n…o serviriam como
instrumentos de diferencia„…o (...) Logo, devemos admitir que no consumo
se constrƒi parte da racionalidade integrativa e comunicativa de uma
sociedade” (Canclini, 1996 p. 56)

As no„Šes de consumo cultural, recep„…o e usos sociais dos bens simbƒlicos


produzidos pelos meios de comunica„…o (Cant’ & Cimadevilla, 1998) passam a circular
nos meios acad‡micos como indica„…o de um novo modo de se pensar a ind’stria
cultural nas sociedades latino-americanas. Por consumo pode-se entender o “conjunto

35
de processos socioculturais nos quais se realiza a apropria„…o dos produtos”, condi„Šes
de acesso e controle sobre a produ„…o e circula„…o dos bens culturais, acesso aos meios
e equipamentos necessˆrios para isso, etc; por recepção pode-se entender um modo
particular de consumo dos meios, o ato de ver televis…o, ouvir o rˆdio ou ler o jornal,
que envolve a produ„…o e negocia„…o de sentidos.

Embora n…o possam ser considerados como “momentos” diferenciados do


processo de produ„…o de sentido, o uso social integra a experi‡ncia cultural ao mundo
da vida, permite a negocia„…o de sentido entre os textos e as prˆticas sociais cotidianas.
Sobre a lƒgica dos usos sociais dos meios de comunica„…o, Martin-Barbero observa:
“Enquanto uma classe normalmente sƒ pede informa„…o € televis…o, porque vai buscar
em outra parte o entretenimento e a cultura – no esporte, no teatro, no livro e no
concerto -, outras classes pedem tudo isso sƒ € televis…o.” (Martin-Barbero, 1997 p.
301). Essa experi‡ncia marcada por processos de consumo, recep„…o e usos sociais dos
bens simbƒlicos no cotidiano institui-se por um complexo campo de media„Šes.

A influ‡ncia de Mary Douglas † marcante no trabalho de Canclini. Inicialmente,


ao mostrar que o consumo † bom para pensar, retomando uma c†lebre afirma„…o de
Levi-Strauss a respeito da import•ncia das trocas e da reciprocidade nas sociedades
humanas. Por outro lado, essa influ‡ncia tamb†m pode ser encontrada na ‡nfase dada ao
aspecto ritual•stico dos processos de consumo cultural:

“Por meio dos rituais, dizem Mary Douglas e Baron Isherwood, os


grupos selecionam e fixam - gra„as a acordos coletivos – os significados que
regulam sua vida. Os rituais servem para ‘conter o curso dos significados’ e
tornar expl•citas as defini„Šes p’blicas do que o consenso geral julga
valioso. Os rituais eficazes s…o os que utilizam objetos materiais para
estabelecer o sentido e as prˆticas que os preservam. (...) Consumir † tornar
intelig•vel um mundo onde o sƒlido se evapora. Por isso, al†m de serem ’teis
para a expans…o do mercado e a reprodu„…o da for„a de trabalho, para nos
distinguirmos dos demais e nos comunicarmos com eles, como afirmam
Douglas e Isherwood, ‘as mercadorias servem para pensar’” (Canclini, 1996
p. 59)

O prƒprio processo de produ„…o dos bens simbƒlicos pressupŠe o seu processo


de consumo. Como observa Bakhtin (1997), a enuncia„…o pressupŠe um auditƒrio e
enreda-se a um conjunto de outros textos jˆ produzidos. O grande erro das teorias da
comunica„…o consiste em considerar o locutor de um modo isolado, ignorando que a
presen„a do outro, do interlocutor, da audi‡ncia, † fundamental na produ„…o de qualquer

36
enunciado. O interlocutor produz uma “atitude responsiva ativa”, socialmente ativa,
pois o processo de interpreta„…o obriga-o a se “posicionar” no universo das trocas
simbƒlicas, concordando ou discordando com o que foi dito, ignorando-o,
complementando-o, adaptando-o. “O locutor postula esta compreens…o responsiva
ativa”, observa Bakhtin. Al†m disso, vincula-se a enunciados anteriores que mobiliza,
reelabora, critica, transformando-se um em elo da cadeia complexa de enunciados. Os
g‡neros televisivos s…o umas entre outras tantas media„Šes que permitem ao produtor e
aos canais de televis…o manter alguma rela„…o com o mundo da vida de seus
espectadores. Para Bakhtin:

“A obra, assim como a r†plica do diˆlogo, visa a resposta do outro (dos


Outros), uma compreens…o responsiva ativa, e para tanto adota todas as
esp†cies de formas: busca exercer uma influ‡ncia didˆtica sobre o leitor,
convenc‡-lo, suscitar sua aprecia„…o cr•tica, influir sobre ‡mulos e
continuadores etc. A obra predetermina as posi„Šes responsivas do outro nas
complexas condi„Šes da comunica„…o verbal de uma dada esfera da cultural.
A obra † um elo na cadeia da comunica„…o verbal; do mesmo modo que a
r†plica do diˆlogo, ela se relaciona com as outras obras-enunciados (...) Em
qualquer enunciado, desde a r†plica cotidiana monolexemˆtica at† as grandes
obras complexas cient•ficas ou literˆrias, captamos, compreendemos,
sentimos o intuito discursivo ou o querer-dizer do locutor que determina o
todo do enunciado: sua amplitude, suas fronteiras.” (Bakhtin, 2000 p. 298-
299
De um modo indireto, a anˆlise de Bakhtin aproxima-se da anˆlise de Becker
(1997), quando este pesquisador, ligado € Escola de Chicago, verifica que qualquer
produ„…o simbƒlica depende do contexto organizacional e das regras profissionais que
orientam seus produtores. Representar algo nos meios de comunica„…o, ou em qualquer
outra esfera, depende de um conjunto de constrangimentos no que diz respeito aos
objetivos, concep„Šes est†ticas, g‡neros, regras deontolƒgicas, “equipamentos”
dispon•veis, or„amentos etc. A produ„…o simbƒlica † realizada no interior de campos,
com contextos organizacionais muito particulares. S…o eles que delimitam de alguma
forma o processo de seleção do que entrarˆ ou n…o nesses tipos de produ„…o e a maneira
pela qual se relacionam com o processo de recep„…o. Com jˆ foi dito, os g‡neros passam
a ter um papel importante na estabiliza„…o e na aceita„…o desses limites.

Produ„Šes simbƒlicas exigem, portanto, sele„…o. Al†m disso, criam uma lƒgica
prƒpria de tradução: anota„Šes de campo, entrevistas, observa„…o direta, s…o traduzidas
em diˆlogos, tabelas estat•sticas, grˆficos, reportagens, perfis etc. Sua organiza„…o no

37
interior dos g‡neros obedece a arranjos muito particulares, hierarquiza„…o das
anota„Šes, associa„Šes, desmembramento por cap•tulos etc.

Finalmente, todo o processo sƒ existe porque a produ„…o sempre terˆ como


pressuposto a exist‡ncia do outro, de um interlocutor, ouvinte, audi‡ncia, recep„…o etc.
Qualquer trabalho de produ„…o simbƒlica envolve inevitavelmente processos de
interpretação. Se uma imagem do poss•vel receptor da enuncia„…o (ou comunidade €
qual perten„a o interlocutor) interfere, desde o come„o, no processo de produ„…o,
chega-se, finalmente, € raz…o de ser de qualquer bem cultural: o consumo, a recep„…o e
seus usos sociais ou o que Bakhtin chama de “atitude responsiva ativa”. Tem-se, assim,
o processo de interpretação (socialmente constru•do) na complexa cadeia de enunciados
que definirˆ, provisoriamente, o sentido e o “valor” do bem produzido.

De certo modo, todos esses processos foram sintetizados entre os pesquisadores


latino-americanos na no„…o de “media„Šes”. Al†m deles, as prƒprias forma„Šes sociais
e culturais latino-americanas funcionam como media„Šes no processo de produ„…o de
sentido dos bens culturais, o que poderia explicar as complexas reapropria„Šes
produzidas no processo de interpreta„…o local de produtos culturais globalizados. Em
seus estudos sobre telenovelas, p.ex., Mart•n-Barbero procura definir com maior
precis…o o que entende pela express…o “media„Šes”.

Os espa„os sociais, os espa„os de rela„Šes sociais locais e suas situa„Šes de


intera„…o cotidianas (a casa, a vizinhan„a, o bairro, a escola etc.) estabelecem media„Šes
na produ„…o de sentido. Os movimentos sociais, p.ex., com suas prˆticas e
reivindica„Šes, colocaram em quest…o a lƒgica “mediacentrista” ao tornarem vis•veis
esse complexo universo de media„Šes:

“Por isso, em vez de fazer a pesquisa partir da anˆlise das lógicas de


produ„…o e recep„…o, para depois procurar as rela„Šes de imbrica„…o ou
enfrentamento, propomos partir das mediações, isto †, dos lugares dos
quais prov‡m as constru„Šes que delimitam e configuram a materialidade
social e a expressividade cultural da televis…o” (Mart•n-Barbero, 1997 p.
292).
Esses lugares mobilizam elementos e prˆticas relacionadas com a cotidianidade
familiar (espa„o cotidiano no qual a TV se insere), com a temporalidade social (a
cotidianidade e a temporalidade gerada pela TV) e com a compet‡ncia cultural
necessˆria para o reconhecimento prˆtico dos g‡neros televisivos. A teoria das
media„Šes produz um deslocamento importante nos estudos sobre os meios de

38
comunica„…o ao resgatar a “cotidianidade” como espa„o de produ„Šes simbƒlicas que
merecem considera„…o teƒrica, pois transforma-o em um espa„o de cria„…o e n…o apenas
de reprodu„…o da for„a de trabalho.

“Na percep„…o popular, o espa„o dom†stico n…o se restringe €s tarefas


da reprodu„…o da for„a de trabalho. Pelo contrˆrio, e frente a um trabalho
marcado pela monotonia e despojado de qualquer atividade criativa, o
espa„o dom†stico representa e possibilita um m•nimo de liberdade e
iniciativa. Da mesma forma, nem toda forma de consumo † interioriza„…o
dos valores de outras classes. O consumo pode falar e fala nos setores
populares de suas justas aspira„Šes a uma vida mais digna.” (Martin-
Barbero, 1997 p. 289)

Deslocar-se dos meios para as media„Šes, resgata a cotidianidade e o espa„o de


recep„…o dom†stico, pressupŠe reconhecer importantes contribui„Šes de Bakhtin e da
Est†tica da Recep„…o quanto ao processo de encontro com o outro, de troca, de
apropria„…o cultural. Produtores e consumidores precisam partilhar, estabelecer pontes
entre si, por caminhos que n…o podem ser controlados com total precis…o pelas
estrat†gias das grandes corpora„Šes midiˆticas.

A prƒpria exist‡ncia dos meios tecnolƒgicos de comunica„…o depende de


complexas media„Šes culturais produzidas por sociedades humanas. Caso contrˆrio,
seria poss•vel imaginar uma tecnologia desenvolvendo-se autonomamente. Tecnologias
est…o inseridas em rela„Šes de sentido e produzem novas possibilidades de produ„…o de
sentidos. Deste modo, destaca-se a import•ncia de Raymond Williams ao pensar a
televis…o desenvolvendo-se no interior de uma forma„…o cultural e histƒrica muito
particular (Williams, 1990).

A televis…o, p.ex., pode ser pensada como uma constru„…o tecnolƒgica e social
baseada em m’ltiplas media„Šes. A tecnologia cria condi„Šes para experi‡ncias
desterritorializadas, produzindo um campo de experi‡ncias culturais muito espec•ficas.
O prƒprio desenvolvimento do design e das fun„Šes dispon•veis nos aparelhos
eletr‘nicos (diminui„…o de tamanho, melhoria da recep„…o, funcionalidade), abre a
possibilidade de novos usos e apropria„Šes no interior do espa„o dom†stico e sua
integra„…o ao cotidiano da fam•lia. • importante notar a converg‡ncia teƒrica que se
desenvolve entre a Teoria das media„Šes e as novas gera„Šes dos Estudos Culturais,
particularmente com os trabalhos de Morley (1990, 1992) e Silverstone (1990, 1991,
1996), concentradas justamente na constru„…o das chamadas “tecnologias dom†sticas” e

39
de uma nova “economia moral” centrada na fam•lia. Esses estudos mostram que o
ambiente comunicacional produzido pela televis…o † tanto tecnolƒgico como social e
que as media„Šes, nele presentes, devem ser avaliadas com bastante cuidado como uma
s†rie de prˆticas rotinizadas e ritualizadas.

Por outro lado, observam que o estudo da televis…o n…o pode ser separado do uso
de outras m•dias no espa„o dom†stico. Embora n…o fa„a uso do termo media„…o ou
mesmo ecologia midiˆtica, Silverstone parece propor estudos desse tipo na anˆlise das
intera„Šes em torno da m•dia no espa„o dom†stico. De um lado, observar a din•mica
interna das prˆticas midiˆticas dom†sticas distribu•das entre variˆveis como idade,
g‡nero, tamanho da fam•lia, condi„…o social e por outro lado, relacionˆ-la € din•mica
externa de consumo cultural, uso de bens e servi„os, acesso a financiamentos e recursos
culturais. A televis…o † uma tecnologia que articula dois grandes processos de produ„…o
de significados e produz uma economia de significados muito complexa identificada da
seguinte forma: a) ela pode ser vista como um demarcador do estilo de vida, ao mesmo
tempo, em que abre a possibilidade para o acesso simbƒlico a um vasto conjunto de
estilos de vida; b) por outro lado produz um conjunto de significados mediados
disponibilizados para negocia„…o e transforma„…o por aqueles que a ela tem acesso.

A televis…o † um signo que disponibiliza signos. • uma mercadoria que


disponibiliza mercadorias. Ela exerce sua influ‡ncia como experi‡ncia privada (o ato de
ver televis…o) e p’blica (como indicador de inclus…o ao mundo tecnolƒgico moderno).
Ela deve encontrar seu lugar no espa„o dom†stico e se integra e, simultaneamente,
reorganiza o uso ritualizado do tempo (in•cio das atividades, ajustes de horˆrio entre o
jantar e o programa preferido, o deslocamento da mesa para o sofˆ como espa„o
preferencial de trocas afetivas e simbƒlicas, os conflitos sobre os programas preferidos
de cada um). A experi‡ncia ritualizada com a televis…o cria novas possibilidades de
identifica„…o e constru„…o de comunidades virtuais e v•nculos provisƒrios. Eles podem
ser estabelecidos por meio dos programas (futebol, novelas, filmes, noticiˆrio) e de sua
regularidade (organizando o ritmo da vida cotidiana, conferindo uma estabilidade
simbƒlica, uma sensa„…o de que as coisas est…o no seu lugar). “ exemplo do que
destacam Douglas e Isherwood (2004), todo consumo envolve um consumo de
significados em uma complexa intera„…o entre consumidor e produtor e entre a inova„…o
e a negocia„…o de seus prƒprios significados.

40
Nesse sentido, essa nova gera„…o dos Estudos Culturais aproxima-se muito das
anˆlises latino-americanas sobre as media„Šes. Para Morley & Silverstone (1990)
existem 04 importantes dimensŠes a serem abordadas nos estudos das tecnologias de
comunica„…o e entretenimento (basicamente, a televis…o): a) o significado da televis…o
n…o estˆ no ato de ligˆ-la, mas na sua inclus…o €s atividades rotineiras e ritualizadas
centradas no lar, b) a televis…o estˆ inserida em um campo de experi‡ncias (traduzido no
interior do ambiente dom†stico e nas rela„Šes sociais externas) que † mobilizado no
processo de interpreta„…o dos espectadores, c) os graus de envolvimento com as
tecnologias de comunica„…o e entretenimento (televis…o, telefone, v•deo, DVD, ipod
etc.) variam entre os membros da fam•lia d.) os variados modos de direcionamento ou
endere„amento (“modes of address”) dessas tecnologias integram-se a contextos
culturais e sociais muito particulares.

A cria„…o de dispositivos de recep„…o mƒveis trazidas pelas novas tecnologias de


comunica„…o e entretenimento provocarˆ uma s†rie de transforma„Šes nos seus usos,
funcionando como uma esp†cie de media„…o tecnolƒgica para um novo campo de
produ„Šes art•sticas e da informa„…o. O acesso a conte’dos em condi„Šes de mobilidade
ou em espa„os p’blicos como caf†s e livrarias redimensionarˆ consideravelmente o
ambiente midiˆtico. O barateamento e a possibilidade de intera„…o com a programa„…o
exigir…o uma reformula„…o considerˆvel do prƒprio processo de produ„…o. Como as
tecnologias de informa„…o e entretenimento n…o existem isoladas, elas ter…o de se
integrar ou reorientar um conjunto de outras prˆticas encontradas no universo social na
qual estar…o inseridas.

As condi„Šes de recep„…o, como jˆ foram vistas, interferem muitas vezes nas


prƒprias condi„Šes de produ„…o. O contexto de recep„…o da televis…o interfere
consideravelmente na constru„…o do fluxo dos bens simbƒlicos que produz. Para que
estabele„a um m•nimo de aten„…o do espectador, ela deve disputar essa aten„…o, sua
hegemonia, diante de uma s†rie de outros eventos presentes no espa„o dom†stico. A
possibilidade de uso de diversos televisores espalhados pela casa resolveu um s†rio
problema que transformava a sala de estar em um campo de batalhas pelo acesso €s
maravilhas e ao torpor trazido pela televis…o. N…o hˆ nada de novo nesse processo. A
prƒpria rela„…o dos leitores com os livros exigiram a produ„…o de uma s†rie de
“interfaces” (sumˆrio, •ndices, manchetes, numera„…o, a institui„…o do cƒdice etc.) que

41
pressupunham uma nova forma de organiza„…o de produ„…o do pensamento e de sua
recep„…o mais ou menos previs•vel (L†vy, 2006).

Para Orozco (2005), a televis…o † um meio t†cnico de produ„…o e transmiss…o de


informa„…o, mas, ao mesmo tempo, transformou-se em “uma institui„…o social
produtora de significados”. O pesquisador identifica uma s†rie de media„Šes envolvidas
na rela„…o entre espectadores e as produ„Šes televisivas (e a prƒpria televis…o como um
signo do universo midiˆtico moderno).

As formas de mediação cognitiva e as de media„…o situacional, p.ex., est…o


diretamente relacionadas. A recep„…o depende de um tipo de media„…o baseada em
“scripts” que se ajusta a uma situa„…o dada. A presen„a dos “Scripts” na socializa„…o da
crian„a lembra muito a fun„…o dos “jogos de linguagem”, identificada por Wittgenstein,
e dos frames, destacados por Goffman. Como se pode ver:

“Deste modo, os scripts prescrevem para o atuante formas ‘adequadas’,


culturalmente aceitas para a intera„…o dele com os outros (...) Um script
pode ser aprendido por meio da observa„…o de atua„Šes espec•ficas dos
outros, ou de atua„Šes prƒprias. Na medida em que os guias podem se
reproduzir a partir da mera observa„…o, permitem ao atuante saber o que
fazer em situa„Šes sociais novas” (Orozco, 2005 p. 32)

Os g‡neros televisivos ganham enorme relev•ncia na produ„…o de um tipo muito


particular de compet‡ncia midiˆtica, pois s…o eles que produzem a media„…o entre o
sistema produtivo e a lƒgica dos usos produzida pelos espectadores. Uma anˆlise da
pragmˆtica associada aos g‡neros televisivos observa n…o somente a arquitetura interna
de um g‡nero ou seu lugar na grade de programa„…o (vertical na grade da rede ou
horizontal na compara„…o com outras redes), mas as condi„Šes de suas apropria„Šes.
Deste modo:

“Hoje se prefere falar de ‘roteiros’ (ou ‘scripts’); eles definem


contextos que permitem que o leitor integre informa„Šes do texto em
encadeamentos coerentes. T‡m ao mesmo tempo uma fun„…o de filtragem e
de expans…o. Identificar um roteiro † ‘desdobrar’ um leque a partir de
indica„Šes lacunares, mas † tamb†m reduzir uma indetermina„…o, pois a
mesma a„…o pode a priori participar de uma produ„…o de roteiros distintos.
(...) Confrontado a ind•cios pertinentes, o leitor ativarˆ o roteiro
correspondente, se sua familiaridade com o intertexto literˆrio for
suficiente.” (Maingueneau, 1996 p. 47-50)

42
Esses roteiros podem ser reconhecidos pelo leitor como um estereƒtipo gen†rico,
isto como um exemplo de um g‡nero (literˆrio, televisivo etc.) jˆ conhecido ou entend‡-
lo como um caso “original” e “inovador”. Certas produ„Šes propŠem-se a ativar roteiros
mais ou menos conhecidos enquanto outras “jogam” com as suas fronteiras. Por meio
dessas media„Šes, o espectador ou leitor torna-se, de algum modo, c’mplice do autor e
segue pelas indica„Šes lacunares deixadas pelo texto. Deste modo, ele † capaz de
“enquadrar” o tipo de bem cultural com o qual se relaciona, perceber uma mudan„a de
rumo ou at† mesmo de g‡neros na grade da programa„…o televisiva (Eagleton, 1983 p.
83).

Os scripts, postulados ou mobilizados para se assistir a um programa de


televis…o, s…o integrados €s formas de mediação situacional. A relativa solid…o do
espectador, a presen„a de vˆrias pessoas no ato de recep„…o, a presen„a de mais de uma
televis…o na casa (os limites espaciais e controle sobre o barulho) s…o media„Šes
situacionais.

Ver televis…o torna-se um processo cultural muito mais complexo do que pode
ser normalmente avaliado. A televis…o ganha a vida cotidiana, ocupa o espa„o das
conversa„Šes diˆrias, torna-se foco de aten„…o. A presen„a da televis…o se faz mesmo
antes de se ligar o aparelho, dada a familiaridade que os espectadores jˆ estabeleceram
com esse meio, sua grade de horˆrio, seus g‡neros. Uma verdadeira rotina midiˆtica †
instaurada, regulando e ritualizando o uso do tempo no interior do espa„o dom†stico. Se
a rela„…o com a televis…o ocorre muito antes de se ligar o aparelho, esta rela„…o †
prolongada mesmo depois de ter sido desligado. Ela ocupa a conversa com a esposa, o
conselho aos filhos, as piadas no trabalho, a indigna„…o p’blica com a personagem e o
seu papel no horˆrio nobre etc.

Al†m disso, † preciso observar que nem sempre a comunidade de apropriação


em que essas media„Šes est…o presentes coincide com a comunidade de interpretação,
uma vez que o processo continua por um tempo mais ou menos indefinido. Assim, uma
mesma comunidade de apropria„…o pode desdobrar-se em m’ltiplas comunidades de
interpreta„…o (na escola, no trabalho, no bar, no futebol etc.) conflitantes.

Se ao ligar o aparelho de televis…o nos transformamos em telespectadores, n…o se


deixa de ser, por isso, pai, filho, irm…o, patr…o, empregado, aluno, vizinho, homem,
mulher, crian„a etc. A fam•lia (em alguns casos, cada vez menos) torna-se uma primeira
inst•ncia de media„…o institucional, jˆ que o lar † o local privilegiado para esse tipo de

43
experi‡ncia midiˆtica. Essa mediação institucional relaciona-se de modo complexo com
a mediação de referência, que se caracteriza pelos diversos modos de produ„…o da
identidade por g‡neros, gera„…o (idade), etnia, orienta„…o religiosa, o local de moradia e
a origem geogrˆfica (migra„Šes), a classe social, a profiss…o etc.

A presen„a das media„Šes no processo de produ„…o de sentido pode ocorrer de


forma contraditƒria ou de modo complementar, podem neutralizar umas €s outras ou
refor„ˆ-las. Portanto, † preciso pensar as media„Šes como uma esp†cie de “jogo” no
interior de uma economia de significados:

“Tr‡s premissas bˆsicas orientam a anˆlise da recep„…o televisiva.


Primeira, que a recep„…o † intera„…o; segunda, que essa intera„…o estˆ
necessariamente mediada de m’ltiplas maneiras e terceira, que essa
intera„…o n…o estˆ circunscrita ao momento de estar vendo a tela. O objeto
de estudo, por conseguinte, ser…o as diversas media„Šes ao ‘longo e amplo’
processo de recep„…o” (Orozco, 2005 p. 37)

Uma nova quest…o se coloca a partir de ent…o: o que caracteriza uma


determinada interpreta„…o como sendo “autorizada e valorizada” e outra como sendo
simplesmente “est’pida” ou “motivo de riso ou desprezo”. Ao lado de uma economia de
significados, desenvolve-se uma economia moral e pol•tica de significados.

44
Capítulo 4: Mercados Lingüísticos e o poder simbólico

Boa parte da discuss…o mapeada neste trabalho sobre a produ„…o social de


sentido tem suas ra•zes no impacto que a anˆlise de Saussure trouxe para a Ling‰•stica e
todo o campo da Semiologia. A abordagem estruturalista marcou sensivelmente uma
gera„…o de pesquisadores nos anos 60 e 70. A teoria da a„…o impl•cita no modelo de
Saussure n…o estabelece categorias intermediˆrias entre os indiv•duos e a sociedade,
entre os falantes e a l•ngua, “n…o dispŠe de termos intermediˆrios, n…o tem media„Šes
entre falantes individuais solitˆrios e o sistema ling‰•stico como um todo.” (Eagleton,
1983 p. 122)
Bourdieu revela os riscos que a introdu„…o desse modelo ling‰•stico trouxe para
as Ci‡ncias Sociais ao introduzir em seu meio uma teoria da a„…o muito particular. O
sociƒlogo franc‡s come„a a perceber que a lƒgica utilizada na cria„…o dos modelos
etnolƒgicos, inspirados por essa concep„…o, n…o s…o capazes de traduzir a lƒgica prˆtica
dos agentes sociais, pois incorpora as rela„Šes sociais a modelos que chama de
"escolˆsticos", modelos que n…o traduzem a práxis dos agentes no jogo social. Deste
modo:
"Da• resulta que, pelo fato de construir-se do ponto de vista
estritamente intelectualista que † o da decifragem, a ling‰•stica saussuriana
privilegia a estrutura dos signos, isto †, as rela„Šes que eles mant†m entre si,
em detrimento de suas funções práticas que n…o se reduzem jamais, como o
supŠe tacitamente o estruturalismo, €s fun„Šes de comunica„…o e
conhecimento (...) Em poucas palavras, logo que se passa da estrutura da
l•ngua para as fun„Šes que ela preenche, isto †, os usos que dela fazem
realmente os agentes, percebe-se que o simples conhecimento do código n…o
permite sen…o imperfeitamente dominar as intera„Šes ling‰•sticas realmente
efetuadas (Bourdieu, 2000 p. 242-243; 1983a p. 50-51)

Nesse ponto, Bourdieu vincula-se € virada pragmˆtica produzida por


Wittgenstein, jˆ descrita acima. A sua transi„…o da filosofia para a etnologia e da
etnologia para a sociologia deve-se € resposta que procurou dar a esse tipo de problema
epistemolƒgico. O sociƒlogo coloca em quest…o os prƒprios fundamentos da “filosofia
intelectualista” que legitima incorpora„Šes desse tipo €s Ci‡ncias Sociais.
Diante disso, a anˆlise da produ„…o de sentido no mundo n…o pode estar
desvinculada de uma Economia das Trocas Simbƒlicas que desloque o objetivismo
(estruturalista) e o interacionismo (de ordem fenomenolƒgica) de suas posi„Šes
dominantes no interior das Ci‡ncias Sociais. Se as trocas ling‰•sticas s…o rela„Šes de

45
comunica„…o, elas n…o se reduzem de forma alguma a essa fun„…o. Isolar a linguagem
de suas condi„Šes sociais de produ„…o † ignorar que a resposta para a eficˆcia simbƒlica
da comunica„…o n…o estˆ na linguagem em si, mas no mundo social que a produziu.
Logo, rela„Šes de comunica„…o s…o rela„Šes de poder fundadas em um arb•trio, em
rela„Šes de viol‡ncia simbƒlica, socialmente institu•das. Como a produ„…o de sentido no
mundo † marcada por processos de viol‡ncia simbƒlica, o que funda qualquer troca
ling‰•stica inevitavelmente s…o rela„Šes de poder. Valer-se de uma linguagem n…o †
compartilhar um imenso tesouro comum. Os mecanismos de apropria„…o e uso desse
tesouro n…o est…o dispon•veis igualmente a todos e, todo acesso a ele, envolve
complexos processos ritualizados de concorr‡ncia, monopƒlio, exclus…o,
marginaliza„…o, domina„…o.
Inspirado em Weber e Mauss, Bourdieu desloca da economia (“econ‘mica”) um
conjunto de conceitos para desenvolver uma economia muito particular, produzida pelo
universo simbƒlico. A partir dessa orienta„…o, que reorienta as premissas do objetivismo
e da fenomenologia e rompe tanto com alternativas economicistas quanto culturalistas, o
sociƒlogo introduz nos estudos das trocas ling‰•sticas uma s†rie de no„Šes como as de
capital (econ‘mico, cultural, simbƒlico e social), lucro (simbƒlico) e mercado
(ling‰•stico). A partir de Mauss, observa que a l•ngua em si mesma n…o † capaz de
garantir sua exist‡ncia. Ela depende da expectativa coletiva que lhe garante o sentido
social. Ela se sustenta sobre as mesmas condi„Šes sociais que garantem a cren„a no
feiticeiro e sua magia:
“A l•ngua leg•tima n…o tem o poder de garantir sua prƒpria perpetua„…o
no tempo nem o de definir sua extens…o no espa„o. Somente esta esp†cie de
criação continuada que se opera em meio €s lutas incessantes entre as
diferentes autoridades envolvidas, no seio do campo de produ„…o
especializado, na concorr‡ncia pelo monopƒlio da imposi„…o do modo de
express…o leg•tima, pode assegurar a perman‡ncia da l•ngua leg•tima e de seu
valor, ou seja, do reconhecimento que lhe † conferido. (...) a luta tende
continuamente a produzir e reproduzir o jogo e tudo o mais que estˆ em
jogo, reproduzindo naqueles que se encontram diretamente envolvidos nele
(mas n…o apenas entre eles) a ades…o prˆtica ao valor do jogo e do que estˆ
em jogo (mƒveis de concorr‡ncia), que define o reconhecimento da
legitimidade. (...) Qualquer jogo termina quando se come„a a perguntar se
vale a pena.” (Bourdieu, 1996 a p.45)

Bourdieu substitui o termo situação de comunicação muito comum nas


perspectivas interacionistas de anˆlise do discurso por mercado simbólico. As condi„Šes
de sucesso da comunica„…o, levantadas por Austin, revelam-se como capital e lucro

46
simbólico. A produ„…o social de sentido † pensada a partir dos atos de fala e n…o da
l•ngua. • preciso lembrar que todo ato de fala sƒ pode ser colocado em movimento por
toda uma conjuntura que mobiliza as disposi„Šes incorporadas pelos agentes (habitus)
em sua experi‡ncia social em campos sociais muito particulares. A Economia das trocas
simbƒlicas observa que o discurso n…o † uma simples troca de signos em situa„Šes de
comunica„…o, mas o encontro de certas disposi„Šes sociais (habitus) com certos
mercados simbƒlicos e seus “sistemas de forma„…o de pre„os”. A fala tem um valor e
um poder diretamente relacionado a uma institui„…o e † dele que retira sua for„a
simbƒlica e as condi„Šes de sua eficˆcia.
As condi„Šes de sucesso (Austin) da comunica„…o dependem de uma rela„…o de
poder desigual, € qual o sociƒlogo dˆ o nome de poder simbólico, um tipo de poder
capaz de fazer coisas com palavras. A vantagem dessa mudan„a † enorme, pois chama
aten„…o para o fato de que na fala n…o encontramos apenas trocas de mensagens, mas
rela„Šes de autoridade, de atribui„…o de valor, de valoriza„…o ou desvaloriza„…o dos
diversos discursos que circulam nos mais diversos mercados/campos sociais. Essa
constata„…o revela que os agentes sociais desenvolvem um senso prˆtico (habitus
ling‰•stico) da aceitabilidade e oportunidade de seus discursos, antecipando de modo
prˆtico os lucros simbƒlicos de sua a„…o nas trocas simbƒlicas cotidianas.
Uma s†rie de acontecimentos ling‰•sticos n…o teriam sentido sem esse
referencial teƒrico. O senso de aceitabilidade produz um efeito de censura considerˆvel
nos agentes sociais, pois permite a antecipa„…o do que pode ou n…o pode ser dito em
determinadas situa„Šes (mercados). • por isso que, tendo a “compet‡ncia t†cnica” para
falar, os agentes sociais podem encontrar-se totalmente desprovidos da “compet‡ncia
social” que o mercado ling‰•stico no qual est…o inseridos exige. Assim, fica muito mais
fˆcil entender porque em determinados mercados, os agentes sejam capazes de dizer
com tremenda sinceridade que “n…o sabem falar”, isto †, “n…o sabem falar a partir dos
capitais reconhecidos pelo mercado simbƒlico no qual est…o colocados”. Um pequeno
trecho da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, dˆ o tom da rela„…o entre habitus e
mercado ling‰istico:
“Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitˆ-lo: dizia palavras
dif•ceis, truncando tudo, e convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se
perfeitamente que um sujeito como ele n…o tinha nascido para falar certo.
Seu Tomˆs da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de
jornais e livros, mas n…o sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem
remediado ser cort‡s. At† o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos
obedeciam a ele. An!Quem disse que n…o obedeciam?” (p. 23)

47
Da mesma forma, desde muito cedo, a crian„a desenvolve uma esp†cie de
kairós, um senso de oportunidade que antecipa o momento de interven„…o em uma fala.
Desde cedo, a crian„a desenvolve um senso prˆtico a respeito do tempo e da
oportunidade de suas interven„Šes e percebe que n…o pode falar sobre qualquer coisa,
com qualquer um, a qualquer momento. As antecipa„Šes que o senso de aceitabilidade e
o senso de oportunidade (conferidos pelo habitus ling‰•stico) confere aos agentes
sociais levam em considera„…o tamb†m a avalia„…o do mercado simbƒlico em que se
apresentam. • o que pode ser observado em outro trecho de Vidas Secas:
“Na palma da m…o as notas estavam ’midas de suor. Desejava saber o
tamanho da extors…o. (...) ouvira falar em juros e prazos. Isto lhe dera uma
impress…o bastante penosa: sempre que os homens sabidos diziam palavras
dif•ceis, ele sa•a logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente sƒ
serviam para encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. “s vezes decorava
algumas e empregava-as fora de propƒsito. Depois esquecia-as. Para que um
pobre da laia dele usar conversa de gente rica?” (p. 97-98)

Esses diversos mercados simbƒlicos em que a personagem de Fabiano circula,


em Vidas Secas, colocam-no em contato com diversos tipos de institui„Šes e campos
sociais.4 A obra de Graciliano Ramos traduz de maneira brilhante a rela„…o corporal
(uma héxis) que Fabiano estabelece com a linguagem, o sons guturais que emite, as
gesticula„Šes etc. O habitus ling‰•stico † tamb†m um tipo de disposi„…o corporal que
envolve o modo de articula„…o e as posturas adotadas nos atos de fala. A imagem do
soldado amarelo: “E por mais que forcejasse, n…o se convencia de que o soldado
amarelo fosse governo. Governo, coisa distante e perfeita, n…o podia errar.” (p. 33) A
anˆlise dos g‡neros do discurso, realizada por Bakhtin, tamb†m, s…o importantes para o
entendimento do que se passa no romance:
“S…o muitas as pessoas que, dominando magnificamente a l•ngua,
sentem-se logo desamparadas em certas esferas da comunica„…o verbal,
precisamente pelo fato de n…o dominarem, na prˆtica, as formas do g‡nero de
uma dada esfera. N…o † raro o homem que domina perfeitamente a fala numa
esfera da comunica„…o cultural, sabe fazer uma explana„…o, travar uma
discuss…o cient•fica, intervir de uma maneira muito desajeitada numa
conversa social. N…o † por causa de uma pobreza de vocabulˆrio ou de estilo
(numa acep„…o abstrata), mas de uma inexperi‡ncia de dominar o repertƒrio
dos g‡neros da conversa social, de uma falta de conhecimento a respeito do
que † o todo do enunciado, que o indiv•duo fica inapto para moldar com
facilidade e prontid…o sua fala e determinadas formas estil•sticas e
composicionais; † por causa de uma inexperi‡ncia de tomar a palavra no

4
Ver: Jo…o Guimar…es Rosa. “Famigerado” In: Primeiras Estórias. 15” ed. Rio de Janeiro, 2001 pp. 56-61

48
momento certo, de come„ar e terminar no tempo correto (nesses g‡neros, a
composi„…o † muito simples).” (Bakhtin, 2000 p. 303-304)

A import•ncia dos jogos de linguagem t…o destacados por Wittgenstein, a sua


‡nfase na id†ia de que o dom•nio de uma linguagem † o dom•nio de uma t†cnica,
encontra-se diretamente relacionada €s observa„Šes de Bourdieu, que tamb†m resgata a
import•ncia dos atos de fala destacados por Austin.
A quest…o que se coloca novamente † a da eficˆcia simbƒlica da fala. Os atos de
fala sempre ocorrem a partir de posi„Šes sociais € exemplo do que foi observado por
Bakhtin. Sabe-se que n…o somente os enunciados est…o em uma cadeia complexa de
enunciados anteriores (com os quais se posiciona, estabelece uma rela„…o dialƒgica)
como as posições sociais daqueles que produzem uma enunciação est…o em uma
complexa cadeia de institui„Šes e campos (seus mercados ling‰•sticos, seus g‡neros de
discurso) histƒrica e socialmente constru•dos.
Esses campos e institui„Šes produzem rituais, g‡neros de discurso, processos de
“encantamento”, uma verdadeira magia social, que delimita fronteiras entre os que est…o
fora e dentro do jogo que produzem e reconhecem como leg•timo.
O m†rito de Bourdieu, que declara vˆrias vezes sua liga„…o com Wittgenstein,
foi contribuir para a demarca„…o de ruptura com o estruturalismo. Assim, ao reelaborar
os princ•pios de uma teoria geral da a„…o, o sociƒlogo franc‡s, reformula tamb†m os
princ•pios de uma teoria da comunica„…o. Sua teoria da prˆtica ou sua Economia das
trocas simbólicas evita a queda inevitˆvel em uma s†rie de dicotomias criadas nas
ci‡ncias sociais, que foram incapazes de dar inteligibilidade €s trocas simbƒlicas. Por
meio de uma categoria como a de habitus foi poss•vel integrar dicotomias como
indiv•duo/sociedade, a atividade mental do eu e do nƒs (Bakthin), recursos discursivos e
n…o-discursivos (Foucault), o I e o Me, de George Mead. Essa categoria jˆ conhecida,
mas reelaborada por Bourdieu, conserva elementos das premissas do interacionismo
simbƒlico, mas reintroduz na intera„…o social, o tempo, o passado das experi‡ncias dos
agentes incorporados como disposi„Šes (est†ticas, esportivas, profissionais etc):
"A prˆtica †, ao mesmo tempo, necessˆria e relativamente aut‘noma
em rela„…o € situa„…o considerada em sua imediaticidade pontual, porque ela
† o produto da rela„…o dial†tica entre uma situa„…o e um habitus – entendido
com um sistema de disposi„Šes durˆveis e transpon•veis que, integrando
todas as experi‡ncias passadas, funciona a cada momento como uma matriz
de percepções, de apreciações e de ações – e torna poss•vel a realiza„…o de
tarefas infinitamente diferenciadas, gra„as €s transfer‡ncias analƒgica de
esquemas, que permitem resolver os problemas da mesma forma, e €s

49
corre„Šes incessantes dos resultados obtidos, dialeticamente produzidas por
esses resultados." (Bourdieu, 1983a p. 65)

N…o se trata de uma “memƒria discursiva” ou de representa„Šes, mas de


disposi„Šes. O habitus † uma media„…o fundamental que se produz nos primeiros
momentos dos processos de socializa„…o da crian„a e † por meio dela que a linguagem
aparece em seu mundo. Um esquema de percep„…o e aprecia„…o por semelhanças de
família, na linguagem de Wittgenstein (Cap. 2 p. 18).
Para Bourdieu, o processo de constru„…o do habitus † coletiva e ao mesmo
tempo individual, pois depende do processo de intera„…o que se estabelece entre as
crian„as e o mundo em que chegam. Nesse processo, a fam•lia tem um papel
fundamental, pois † detentora de um conjunto de capitais (econ‘micos, simbƒlicos,
culturais e sociais) que precisa de algum modo “transmitir” €s novas gera„Šes. O capital
econ‘mico pode ser identificado pelo n•vel da renda familiar e pelo tipo de profiss…o
exercida, enquanto que o capital cultural pode ser avaliado n…o somente pelo n•vel de
escolaridade, mas, tamb†m, pelas “Escolas” freq‰entadas. O capital simbƒlico tem uma
rela„…o direta com o sobrenome de fam•lia e a necessidade de mant‡-lo, reconvert‡-lo
ou ampliˆ-lo. O capital social consiste na rede de relacionamentos que a fam•lia e as
escolas permitem estabelecer e que ter…o um significado de m†dio e longo prazo nas
estrat†gias de reprodu„…o do capital simbƒlico da fam•lia por meio de uma s†rie de
formas de reencontros, escolhas, casamentos etc.
Como jˆ foi comentado em outro cap•tulo, a partir das anˆlises de Lahire (2002),
† preciso romper com qualquer imagem de transmiss…o direta que a metˆfora do
patrim‘nio familiar pode pressupor. N…o se transmite um patrim‘nio cultural como se
“transmite” um carro a outra pessoa. Uma “heran„a” cultural exige uma s†rie de
investimentos por parte daquele que a recebe e todo o esfor„o familiar,
constrangimentos, apoios, elogios, direcionamentos, incorpora„…o de certos desejos e
expectativas de vida que estˆ sujeito a releituras, apropria„Šes inesperadas, resist‡ncias,
ajustes mais ou menos perfeitos etc.
Para Bourdieu, hˆ uma rela„…o entre a posi„…o ocupada pelos agentes sociais no
espa„o social (o que depende da estrutura e do volume dos capitais – econ‘micos,
culturais, sociais e simbƒlicos- que mobilizam) e o modo pelo qual essas posi„Šes se
traduzem em estilos de vida. As posi„Šes e os estilos de vida transformam certas
prˆticas e certos gostos em prˆticas e gostos distintivos que indicam a dist•ncia social
entre os agentes sociais. Essa dist•ncia passa necessariamente pela formas de

50
apropria„…o da fala e pelo dom•nio dos modos mais raros de express…o em uma
sociedade. • que observa Bakhtin, ao analisar a produ„…o do enunciado no interior de
g‡neros do discurso (ver cap•tulo 5) jˆ que † por meio do enunciado concreto que a
l•ngua † incorporada € vida e, a vida, incorporada € l•ngua:
“Aprender a falar † aprender a estruturar enunciados (porque falamos
por enunciados e n…o por ora„Šes isoladas e, menos ainda, † ƒbvio, por
palavras isoladas). Os g‡neros do discurso organizam nossa fala da mesma
maneira que a organizam as formas gramaticais (sintˆticas). Aprendemos a
moldar nossa fala €s formas do g‡nero e, ao ouvir a fala do outro, sabemos
de imediato, bem nas primeiras palavras, pressentir-lhe o g‡nero, adivinhar-
lhe o volume (a extens…o aproximada do todo discursivo), a dada estrutura
composicional, prever-lhe o fim, ou seja, desde o in•cio, somos sens•veis ao
todo discursivo que, em seguida, no processo de fala, evidenciarˆ suas
diferencia„Šes. Se n…o existissem os g‡neros do discurso e se n…o os
dominˆssemos, se tiv†ssemos de construir cada um de nossos enunciados, a
comunica„…o verbal seria quase imposs•vel.” (Bakhtin, 2000 p. 302)

Os estilos de vida, que possuem rela„Šes homƒlogas €s da linguagem (moda, a


est†tica, a gastronomia, as prˆticas esportivas, o consumo cultural etc.), estabelecem um
sistema de desvios, de diferen„as sistemˆticas, de marcas distintivas que provocam uma
divis…o do mundo social de cima a baixo como os g‡neros do discurso. O dom•nio ao
qual se refere Bakhtin † o dom•nio de uma t†cnica social (Wittgenstein) ou um dom•nio
em estado prˆtico, um senso prˆtico dos g‡neros, produzido pela forma„…o de um
habitus ling‰•stico (Bourdieu). Quando certas prˆticas e posi„Šes adquirem a condi„…o
dominante no espa„o das posi„Šes elas passam a servir de crit†rio (com seus princ•pios
de avalia„…o e rela„Šes de for„a simbƒlica) para a dispers…o de prˆticas distintivas por
todo o espa„o social e pelos diversos mercados simbƒlicos que nele s…o produzidos
cotidianamente.
A experi‡ncia da crian„a nos mais variados mercados simbƒlicos produzidos
nesses espa„os sociais (e nos seus “jogos de linguagem”), permitem a incorpora„…o
mim†tica de esquemas de percep„…o e aprecia„…o do mundo, que por processos de
assemelhamento, “semelhan„a de fam•lia” (Wittgenstein) servem como verdadeiros
sensores sociais. Como observa Bourdieu:
“Sustentar que a percep„…o do mundo social implica um ato de
constru„…o n…o implica, de modo algum, que se aceite uma teoria
intelectualista do conhecimento: o que † essencial na experi‡ncia do mundo
social e no trabalho de constru„…o que ela comporta opera-se, na prˆtica,
aqu†m do n•vel da representa„…o expl•cita e da express…o verbal.” (Bourdieu,
1989 p. 140)

51
O fato de Bourdieu trabalhar com o habitus, no entendimento da produ„…o social
de sentido no mundo, parece extremamente interessante, pois reintroduz a linguagem no
conjunto de uma teoria da a„…o, que envolve compet‡ncias ling‰•sticas, t†cnicas do
corpo (Mauss), perspectivas, memƒria, enfim, compet‡ncias sociais. Envolvido pelos
“jogos de linguagem”, assim redefinidos, o mundo ganha sentido prˆtico ou como
observa Marcondes: a for„a do sentido produzida por esses jogos tem um "carˆter
impl•cito, s…o internalizadas e n…o tematizadas" (Wittgenstein, 1989 p. 39)
Aprender uma l•ngua † adquirir uma compet‡ncia social, uma t†cnica que † no
fundo social. • certo que podemos falar e essa † uma compet‡ncia “t†cnica” produzida
coletivamente pelos seres humanos, mas o que † fascinante no entendimento da
linguagem † que n…o se fala de qualquer modo, com qualquer um, a qualquer momento,
sobre qualquer coisa. A fala † mais ou menos ritualizada em todas as sociedades
humanas como observa Levi-Strauss e Foucault. O senso prático da aceitabilidade de
um enunciado leva os agentes sociais a desenvolverem um senso prˆtico dos lucros
simbƒlicos que a fala † capaz de produzir em determinado mercado (honra, distin„…o,
reconhecimento, obedi‡ncia). Jˆ o senso de oportunidade (kairós), dˆ o ritmo das
interven„Šes e jogadas a serem produzidas pelos atos de fala nesse mercado.
A adequa„…o do senso prˆtico da aceitabilidade e da oportunidade ao mercado
ling‰•stico, no qual o discurso estˆ inserido, produz jogadas mais ou menos valorizadas,
mais ou menos carregadas de autoridade e legitimidade. Constata-se, ent…o, que os
discursos n…o s…o produzidos apenas para serem decifrados, compreendidos e
interpretados. Eles s…o constantemente avaliados na sua prƒpria forma ritualizada, pelo
dom•nio do g‡nero de discurso no qual os enunciados se inserem etc. Por isso, a eficˆcia
simbƒlica de um discurso pode ser produzida sem que se tenha qualquer tipo de
compreens…o “ling‰•stica” como fator principal. O ajuste mais ou menos intenso entre o
dom•nio prˆtico das estruturas da enuncia„…o e as disposi„Šes (habitus) adquiridas no
longo contato prˆtico com os g‡neros do discurso permite n…o sƒ a compreens…o do que
† dito, mas, tamb†m, de tudo aquilo que n…o † dito para que a enuncia„…o alcance a sua
eficˆcia (o senso de oportunidade, antecipa„…o das rea„Šes e avalia„Šes dos
interlocutores, do mercado/g‡nero identificado etc.) • o que pode ser observado nesta
experi‡ncia do menino mais velho em Vidas Secas, de Graciliano Ramos:
“Agora tinha a id†ia de aprender uma palavra, com certeza importante
porque figurava na conversa de sinha Terta. Ia decorˆ-la e transmiti-la ao
irm…o e € cachorra. Baleia permaneceria indiferente, mas o irm…o se
admiraria, invejoso.

52
- Inferno, inferno.
N…o acreditava que um nome t…o bonito servisse para designar coisa
ruim. E resolvera discutir com sinha Vitƒria. Se ela houvesse dito que tinha
ido ao inferno, bem. Sinha Vitƒria impunha-se, autoridade vis•vel e
poderosa. Se houvesse feito men„…o de qualquer autoridade invis•vel e mais
poderosa, muito bem. Mas tentar convenc‡-lo dando-lhe um cocorote, e isto
lhe parecia absurdo. Achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes
se zangavam, pensava at† que a zanga delas era a causa ’nica dos cascudos e
puxavantes de orelhas. Esta condi„…o tornava-o desconfiado. Fazia-o
observar os pais antes de se dirigir a eles. Animara-se a interrogar sinha
Vitƒria por que ela estava bem-disposta” (Ramos, 2004 p. 59)

O grande segredo da eficˆcia simbƒlica do discurso estˆ no fato de funcionar


como doxa, isto †, como uma verdade evidente e por parecer razoˆvel sem ter a raz…o
como princ•pio. • no universo produzido pela doxa que o sentido do mundo ganha for„a
e † nessa condi„…o que as disposi„Šes (habitus) s…o produzidas. Assim, um senso
prˆtico de percep„…o e aprecia„…o do mundo inscreve-se profundamente nos corpos e
nas mentes. Mais uma vez, † preciso lembrar que o prƒprio ato de fala † um ato f•sico
(esse conjunto de disposi„Šes corporais) e estˆ diretamente ligado a uma t†cnica
corporal, uma héxis (Mauss, 2003).
A t†cnica social produzida com os jogos de linguagem, mencionada por
Witgenstein, assume a forma de um "princ•pio gerador duravelmente armado de
improvisa„Šes regradas". Essa produ„…o social de sentido depende de uma percep„…o do
mundo que se institui como auto-evidente e que, em sua auto-evid‡ncia, constitui-se
como verdadeira for„a simbƒlica entre os falantes, fruidores, consumidores de bens
simbƒlicos. Retomando uma observa„…o jˆ citada de Wittgenstein: : "Aquilo que se
sabe quando ningu†m nos interroga, mas que n…o se sabe mais quando devemos
explicar, † algo sobre o que se deve refletir.(E evidentemente algo sobre o que, por
alguma raz…o, dificilmente se reflete)." (Wittgenstein, 1989 p. 49)
Essa experi‡ncia do mundo social, que se transforma em doxa, define n…o
somente o espa„o dos poss•veis da fala, mas tamb†m as posi„Šes que os sujeitos devem
ocupar e as disposi„Šes que devem ter para poder falar. Ela cria as condi„Šes sociais
necessˆrias ou reconhecidas para que os interlocutores possam falar com autoridade,
isto †: delimita espa„os e situa„Šes onde objetiva quem pode falar o qu‡, com quem, em
qual circunst•ncia ou lugar. Assim:

“Bourdieu cunhou o termo doxa com o objetivo de capturar o


fen‘meno que previamente chamei de voz societal, ao qual retornaremos a
seguir. (...)Para fazer com que a voz de algu†m seja ouvida na sociedade, hˆ

53
um n’mero de qualifica„Šes que essa pessoa deve ter (...) O carˆter
pragmˆtico do exerc•cio da voz (voicing) torna-se claro quando fazemos a
pergunta pragmˆtica apropriada: de quem s…o as vozes que ouvimos, ou,
ainda, de quem † a voz que pode ser ouvida? (...) A voz que está sendo
ouvida, contudo, n…o † a voz do indiv•duo membro da sociedade como tal,
mas do membro da sociedade informado por ela (no sentido acima referido)
e pertencendo a uma classe societal por ‘sobredetermina„…o’ (Mey, 2001 p.
79-81)

Nas prˆticas cotidianas, a auto-evid‡ncia da doxa † produzida na


linguagem/intera„…o social como for„a simbƒlica. A luta pelo sentido † a luta pela
constitui„…o de um mundo auto-evidente, simbolicamente reconhecido por meio das
palavras, da autoridade e do reconhecimento (impl•cito) daqueles que as usam e vivem
em meio a elas (Bourdieu, 1983, 1987,1996a, 1997).

O poder de ajuste entre as estruturas objetivas do mundo (espa„o social/estilos


de vida em meio €s quais s…o produzidas as disposi„Šes) e as estruturas de percep„…o e
aprecia„…o do mundo (o habitus), † produzido em meio a rela„Šes de domina„…o
leg•tima, €s quais Bourdieu dˆ o nome de poder simbólico. Os agentes sociais s…o
capazes de mobilizar seu capital simbƒlico (nome de fam•lia, t•tulos, experi‡ncia
profissional, experi‡ncia de vida etc.) em seus discursos e com isso produzem uma
sensa„…o de ordenamento no seu mundo. Entretanto, o poder simbƒlico n…o †
distribu•do de modo homog‡neo por todos os agentes sociais. A institui„…o como uma
rede complexa, que posiciona os sujeitos de um enunciado em redes de rela„Šes de
autoridade e poder, garante minimamente a produ„…o de certas condi„Šes para a
realiza„…o da eficˆcia simbƒlica ao discurso. Deste modo:

“ O poder simbƒlico como poder de constituir o dado pela enuncia„…o,


de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a vis…o do mundo e,
deste modo, a a„…o sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mˆgico
que permite obter o equivalente que † obtido pela for„a (f•sica ou
econ‘mica), gra„as ao efeito espec•fico de mobiliza„…o, sƒ se exerce se for
reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrˆrio.(...) O que faz o poder das
palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a
subverter, † a cren„a na legitimidade das palavras e daquele que as
pronuncia, cren„a cuja produ„…o n…o † da compet‡ncia das palavras”
(Bourdieu, 1989 p. 14-15)

As lutas simbƒlicas s…o as marcas das lutas pela manuten„…o ou


reposicionamento das posi„Šes do discurso nas mais diversas esferas do mundo social
(os campos). No interior delas, certos enunciados passam a ser considerados, isto †,

54
passam a ser avaliados e reconhecidos como leg•timos, a circular e a ter “efeitos”,
deixando de ser simplesmente “textos” para tornarem-se a„…o.

Para mudar o mundo faz-se necessˆrio um complexo trabalho sobre a produ„…o


de representa„Šes autorizadas e sobre a sua circula„…o pelos diversos mercados
simbƒlicos dispersos hierarquicamente pelo mundo social. Trata-se de um poder de
produ„…o de categorias sociais, de vis…o e divis…o desse mundo, que se traduzem em
formas de reconhecimento social. O poder simbƒlico constitui-se, ent…o como a
capacidade de fazer coisas com palavras, com signos. A capacidade de fazer ver
“coisas”, de fazer crer naquilo que † visto e de fazer agir, transformando-se tanto em um
poder de revela„…o como em um poder consagra„…o no mundo social (Boudieu, 1989,
1990). Por isso, † importante destacar, como Bakhtin, que:

“A l•ngua, a palavra, s…o quase tudo na vida do homem. Essa realidade


polimorfa e onipresente n…o pode ser da compet‡ncia apenas da ling‰•stica e
ser apreendida apenas pelos m†todos ling‰•sticos. (...) A ling‰•stica estuda
somente a rela„…o existente entre os elementos dentro do sistema da l•ngua, e
n…o a rela„…o existente entre o enunciado e a realidade, entre o enunciado e o
locutor.” (Bakhtin, 2000 p. 346)

Um caso importante a ser analisado nos estudos de comunica„…o, p.ex. † a


maneira pela qual o campo pol•tico e o campo mid•atico transformam-se nos dias de
hoje em um complexo espa„o de lutas simbƒlicas que s…o atravessadas pela figura
fundamental da palavra do porta-voz (o pol•tico, o l•der comunitˆrio, o •ncora, o
repƒrter etc.): “O porta-voz † aquele que, ao falar de um grupo, ao falar em lugar de um
grupo, pŠe, sub-repticiamente, a exist‡ncia do grupo em quest…o, institui este grupo,
pela opera„…o de magia que † inerente a todo o ato de nomea„…o.” (Bourdieu, 1989 p.
159). A produ„…o de um enunciado a partir das posi„Šes ocupadas pelos seus
respectivos enunciadores nos campos (acad‡micos, pol•ticos, midiˆticos, literˆrio etc.) e
a partir do capital simbƒlico acumulado por eles (em suas lutas simbƒlicas anteriores no
campo), cria as condi„Šes para um verdadeiro jogo social de produ„…o de uma ordem
discursiva.

Assim, o processo de comunica„…o n…o consiste apenas na simples produ„…o e


troca de signos livremente elaborados pelo indiv•duo, mas na constru„…o de fronteiras
de sentido exercidas por poderes simbƒlicos, socialmente institu•dos ou imaginados.
Todo ato de fala ou de produ„…o de sentido † avaliado, isto †, pressupŠe tamb†m um ato

55
de valida„…o e de avalia„…o. Produz-se n…o apenas sentido, mas valor e poder no ato de
fala:

“...a cr•tica sociolƒgica submete os conceitos ling‰•sticos a um tr•plice


deslocamento, substituindo: a no„…o de gramaticalidade pela de
aceitabilidade ou, se quisermos, a no„…o de l•ngua pela no„…o de l•ngua
leg•tima; as relações de comunicação (ou de intera„…o simbƒlica) pelas
relações de força simbólica e, ao mesmo tempo, a quest…o do sentido do
discurso pela quest…o do valor e do poder do discurso; enfim e
correlativamente, a compet‡ncia propriamente ling‰•stica pelo capital
simbólico, inseparˆvel da posi„…o do locutor na estrutura social” (Bourdieu,
1983 p.157).

As sociedades envolvem-se em uma rede simbƒlica, em jogos de linguagem


institu•dos que transformam os atos de fala em atos de for„a, em a„…o, construindo as
condi„Šes sociais, isto †, institucionais, de uma ordem simbƒlica (Castoriadis,1987;
Marcondes, 1992). Voltamos sempre a uma indica„…o de Marcel Mauss sobre a magia:

“Em semelhantes casos, o mˆgico n…o pode ser concebido como um


indiv•duo que age por interesse, a seu favor e por seus prƒprios meios, mas
como uma esp†cie de funcionˆrio investido, pela sociedade, de uma
autoridade na qual ele prƒprio † obrigado a crer. De fato, vimos que o
mˆgico era designado pela sociedade, ou iniciado por um grupo restrito, ao
qual esta delegou seu poder de criar mˆgicos. Ele tem naturalmente o
esp•rito de sua fun„…o, a gravidade de um magistrado; † s†rio porque †
levado a s†rio, e † levado a s†rio, porque se tem necessidade dele.” (Mauss,
2003 p.131).

Quando falamos, produzimos um tipo magia social cujo fundamento n…o †


propriamente ling‰•stico. As trocas simbƒlicas est…o marcadas por processos de
avalia„…o e pela capacidade de exerc•cio de um poder simbƒlico. Se † poss•vel realizar
coisas € dist•ncia com um discurso, o fundamento desse poder mˆgico, as condi„Šes de
sua eficˆcia simbƒlica, n…o est…o nas rela„Šes que os signos estabelecem entre si, mas na
compet‡ncia social, na t†cnica social desenvolvida pelos agentes sociais em sua
trajetƒria, sua experi‡ncia no mundo e os campos/mercados simbƒlicos em que seus
discursos s…o produzidos. O poder de realizar coisas com palavras, de fazer ver, crer e
agir por meio de palavras a partir de atos ritualizados, † o que pode ser chamado de
poder simbólico. Assim:
“Os rituais representam o limite de todas as situa„Šes de imposição,
nas quais, por meio do exerc•cio de uma compet‡ncia t†cnica, que pode ser
muito imperfeita, se exerce uma compet‡ncia social, a do locutor leg•timo,
autorizado a falar e a falar com autoridade. (...) Toda domina„…o simbƒlica

56
supõe, por parte daqueles que sofrem seu impacto, uma forma de
cumplicidade que não é submissão passiva a uma coerção externa nem livre
adesão a valores. (...) Através de um lento e prolongado processo de
aquisição, tal reconhecimento se inscreve em estado prático nas disposições
insensivelmente inculcadas pelas sanções do mercado lingüístico e que se
encontram, portanto, ajustadas, fora de qualquer cálculo cínico ou de
qualquer coerção conscientemente sentida, às possibilidades de lucro
comercial e simbólico que as leis de formação dos preços característicos de
um determinado mercado garantem objetivamente aos detentores de um
certo capital lingüístico. (Bourdieu, 1996a p.38)

Nesse caso, é preciso bastante cuidado na análise como orienta o próprio


Bourdieu. Valer-se de categorias retiradas da economia não significa que a aquisição de
capitais, a busca de lucro simbólico e a construção de mercados lingüísticos ocorram
como um objetivo perseguido racionalmente pelos agentes sociais. Pensar a teoria da
ação como uma Economia das Trocas Simbólicas, significa introduzir na linguagem a
questão do valor, das condições sociais de sua produção e manutenção, da concorrência,
do monopólio, do mercado que a ela estão associados. Essa teoria lembra que na
linguagem inscrevem-se complexos processos de avaliação, poder e relações de
autoridade. Essa proposta lança o problema da produção social do sentido em um
campo interdisciplinar complexo, mas ao mesmo tempo, controlado teoricamente.

57
Capítulo 5: Teorias da Enunciação

Foucault, em seus estudos sobre a arqueologia do saber e, posteriormente, na


anˆlise genealogia do poder, procurou entender como mecanismos discursivos e n…o-
discursivos tornam-se capazes de "criar um modo de classifica„…o de certas ordens de
objetos, certos modos de vis…o, certas t†cnicas do corpo, certos modos agir, pensar,
viver". Como as forma„Šes discursivas conseguem adquirir for„a social, aparecendo
como um sistema de dispers…o de representa„Šes e a„Šes. Como uma forma„…o
discursiva pode constituir seus porta-vozes e seus quadros institucionais criando,
desvalorizando, reorientando, sobrepondo ou excluindo todo um conjunto de outras
forma„Šes discursivas e saberes.
Os atos de constitui„…o do mundo e de seus sentidos s…o atos de viol‡ncia
simbƒlica (Bourdieu), † um produto de rela„Šes de poder presentes na produ„…o de
sentido do mundo. O discurso, portanto, † um modo de a„…o no mundo, que o cria sob
certas condi„Šes. Logo, a ordem e o sentido do mundo objetivam-se socialmente,
transformando-se em dispositivos de saber, poder e constitui„…o dos sujeitos.
Este cap•tulo retoma uma s†ria de rela„Šes dialƒgicas que vem sendo propostas
desde o in•cio do projeto. Sendo assim, que dialogismo foi produzido entre Bakhtin,
Wittgenstein, Bourdieu e Foucault?
Primeiro, Bakhtin constata, rompendo com o objetivismo, que "n…o existe
atividade mental sem express…o semiƒtica", n…o havendo uma "distin„…o qualitativa
entre o conte’do interior e a express…o exterior" (Bakhtin, 1997 p. 112). Os seres
humanos n…o “pensam” primeiro para depois encontrar as palavras adequadas a esse
pensamento. A atividade mental (conte’do interior) e express…o exterior (express…o
semiƒtica) s…o indissociˆveis. Esta † a condi„…o de exist‡ncia da atividade mental e sua
capacidade de constituir formas semiƒticas expressivas. Assim:
“As ci‡ncias humanas n…o se referem a um objeto mudo ou a um
fen‘meno natural, referem-se ao homem em sua especificidade. O homem
tem a especificidade de expressar-se sempre (falar), ou seja, de criar um
texto (ainda que potencial). Quando o homem † estudado fora do texto e
independentemente do texto, jˆ n…o se trata de ci‡ncias humanas (mas de
anatomia, de fisiologia humanas etc. (...) O ato humano † um texto potencial
e n…o pode ser compreendido (na qualidade de ato humano distinto da a„…o
f•sica) fora do contexto dialƒgico de seu tempo (em que figura como r†plica,
posi„…o de sentido, sistema de motiva„…o).” (Bakhtin, 2000 p. 334)

58
Essas formas expressivas s…o produzidas na intera„…o social por meio da qual
posso me definir com rela„…o ao outro, definindo-me como aquele que fala e aquele que
† capaz de se colocar no lugar de quem ouve. Nesse processo, os agentes sociais n…o
seguem regras mecanicamente, mas movimentam-se dentro de algumas fronteiras ou at†
mesmo ultrapassam-nas para alcan„ar algum efeito de poder ou originalidade, com seus
desvios e inova„Šes.
Com isso, os fundamentos sociolƒgicos do discurso come„am a se destacar, pois
o sentido sƒ pode ser produzido na rela„…o com o outro, na intera„…o. Sem as trocas
simbƒlicas presentes na intera„…o qualquer tipo de associa„…o humana seria imposs•vel.
Al†m disso, seria extremamente importante retomar duas observa„Šes feitas por
Bakhtin: a) qualquer enuncia„…o † uma "fra„…o de uma corrente de comunica„…o verbal
ininterrupta (concernente € vida cotidiana, € literatura, ao conhecimento, € pol•tica etc.”)
e b) “a comunica„…o verbal † sempre acompanhada por atos sociais de carˆter n…o-
verbal (gestos do trabalho, atos simbƒlicos de um ritual, cerim‘nica etc.) dos quais ela †
muitas vezes apenas o complemento, desempenhando um papel meramente auxiliar"
(Bakhtin, 1997 p. 12). Essa quest…o, retomada aqui, foi desenvolvida de algum modo,
no cap•tulo anterior, com a no„…o de habitus e héxis , mimese e senso prˆtico.
A enuncia„…o deve ser pensada ent…o como parte de uma rede de enuncia„Šes
anteriores com as quais estabelece um diˆlogo, contesta ou submete a reformula„…o. Da
mesma forma deve ser pensada sempre em rela„…o a uma situa„…o de enuncia„…o,
sempre diante da possibilidade de dirigir-se a um auditƒrio. O prƒprio livro, considerado
por Bakhtin como um “ato de fala impresso” † feito para ser apreendido de modo ativo,
estabelecendo seu complexo v•nculo com outros textos e outros autores que vieram
antes dele.
Quando Mey observa que as palavras dos falantes n…o s…o sempre suas, o que
estˆ sendo retomada † essa observa„…o muito destacada nos textos de Bakhtin: a
enuncia„…o † uma "fra„…o da corrente de comunica„…o verbal ininterrupta". Bakhtin
observa que a comunica„…o verbal encontra sua express…o exterior em situa„Šes
espec•ficas. A situa„…o e o p’blico a que se destina estabelecem o campo no qual as
estrat†gias enunciativas elaboram-se de modo a encontrar a sua express…o exterior
adequada. O discurso pressupŠe a presen„a do outro na situa„…o enunciativa. Certa
habilidade para decifrar o cƒdigo pode ser bastante ineficaz se n…o encontrar um
conjunto de refer‡ncias/saberes extra-ling‰•sticos com as quais dialoga.

59
Bakhtin constata que o enunciado n…o depende apenas do locutor (uma cr•tica ao
modelo linear de transmiss…o da informa„…o jˆ vista acima) para dar in•cio a uma
esp†cie de processo de comunica„…o. Todo enunciado postula um ouvinte jˆ que “n…o
existe palavra que n…o seja de algu†m” ou dirigida a algu†m. O locutor como o primeiro
elemento do enunciado, com seus “direitos imprescrit•veis sobre a palavra”, encontra
um interlocutor com seus direitos sobre a mesma. Esse interlocutor (o segundo
elemento) pode ser visto como mais ou menos prƒximo, concreto ou imaginˆrio, por
meio do qual o locutor espera por uma atitude responsiva ativa. O que † bastante
instigante no pensamento de Bakhtin † a presen„a de um terceiro elemento:
“ A palavra † um drama com tr‡s personagens (n…o † um dueto, mas
um trio). (...)o autor do enunciado, de modo mais ou menos consciente,
pressupŠe um superdestinatário superior (o terceiro), cuja compreens…o
responsiva absolutamente exata † pressuposta seja num espa„o metaf•sico,
seja num tempo histƒrico afastado. (...) Em diferente †pocas, gra„as a uma
percep„…o variada do mundo, este superdestinatˆrio, com sua compreens…o
responsiva, idealmente correta, adquire uma identidade concreta variˆvel
(Deus, a verdade absoluta, o julgamento da histƒria, a ci‡ncia etc.) (...) Todo
diˆlogo se desenrola como se fosse presenciado por um terceiro, invis•vel,
dotado de uma compreens…o responsiva, e que se situa acima de todos os
participantes do diˆlogo (os parceiros)” (Bakhtin, 2000 p. 350 e 356)

Nessa mesma dire„…o Foucault trabalha com uma teoria da enunciação, por
meio da sua no„…o de formações discursivas, que remete a um poss•vel ponto de
converg‡ncia com o superdestinatário, o terceiro elemento no drama da enuncia„…o,
destacado por Bakhtin. Da mesma forma, Foucault observa que um livro, p. e.x, †
tamb†m um sistema de remissŠes, um nƒ em uma rede. Em sua pesquisa arqueolƒgica e
genealƒgica, o filƒsofo franc‡s procura entender como aparecem os sistemas de
dispers…o por meio dos quais os discursos encontram seu modo de exist‡ncia e sua
materialidade, como s…o capazes de estabelecer os nƒs de uma rede discursiva.
Esse empreendimento nos leva € tentativa de aproxima„…o entre a teoria da
enuncia„…o de Bakhtin, e a da arqueologia do saber e a genealogia do poder em
Foucault. Todos, sustentam, de alguma forma um concep„…o pragmˆtica das trocas
simbƒlicas e por meio dessa discuss…o, torna-se bastante produtivo o entendimento do
processo de produ„…o de sentido pelos jogos de linguagem socialmente institu•dos.
A arqueologia do saber e a genealogia do poder fazem parte de um mesmo
projeto que lentamente vai se definindo para Foucault, pois se o primeiro procedimento
busca entender o processo de forma„…o social e histƒrica dos discursos, o segundo

60
procura entender como esses discursos apresentam-se como rela„Šes de poder, baseados
em regimes de instaura„…o da verdade e do saber.
“A tarefa do analista do discurso † dupla: o arqueƒlogo do saber
localiza e descreve os discursos como prˆticas que dispŠem as coisas para o
saber (...) e o genealogista do poder mostra a proveni‡ncia, a forma„…o da
vontade de verdade que tem produzido discursos. (...) Os discursos n…o
possuem •mago, n…o s…o um conjunto de significa„Šes. S…o s†ries de
acontecimentos que a ordem do saber produz e controla. (...) Da• as
perguntas sobre como o discurso funciona, quem o det†m, de que lugar se
fala, como seus efeitos s…o produzidos e regulados, serem as armas cr•ticas
mais eficientes para reconhecer o tipo de saber/poder que tem por alvo e
produto o indiv•duo moderno.” (Ara’jo, 2004 p. 236-237)

As formações discursivas delimitam dom•nios, espa„os de poss•veis, dispers…o


de objetos de conhecimento e controle. Um campo discursivo n…o se define pela
unidade do objeto ou por um conjunto de no„Šes homog‡neas, nem sequer organiza-se
progressivamente.
As formações discursivas caracterizam-se por um sistema de regras de
dispersão em certo n’mero de enunciados ou objetos. Apresentam uma "superf•cie de
emerg‡ncia" na arte, na sexualidade, nas puni„Šes, marcando um campo de
diferencia„…o, uma diacrisis. Um mesmo objeto (como a loucura, a criminalidade, a
sexualidade) pode entrar em regimes de dispers…o em uma forma„…o discursiva, de
modo descont•nuo. Como a loucura, p.ex., apareceu sob o regime discursivo da
medicina, da justi„a penal, da religi…o, da literatura etc.? Como a medicina cl•nica
articulou seus saberes e interesses com a economia clˆssica? Como a constru„…o de uma
bio-política, desloca seu interesse dos indiv•duos para grandes popula„Šes, objetivando-
se na forma da medicina social ? Quais s…o as condições de possibilidade que esses
acontecimentos discursivos oferecem para a produ„…o de objetos e seu controle?
(Gregolin, 2004 p. 71-74) .
• preciso encontrar no discurso "o nexo das regularidades que regem sua
dispers…o" (Foucault, 1986 p. 55) na qual aparecem como “feixes de rela„Šes”. As
forma„Šes discursivas dependem de grades de especifica„…o, sistemas, regularidades
que agrupam, opŠem, associam, classificam objetos em uma "trama de palavras e
frases". Com isso, Foucault procura mostrar que "o objeto n…o espera nos limbos a
ordem que vai libertˆ-lo e permitir-lhe que se encaixe em uma vis•vel e loquaz
objetividade; ele n…o preexiste a si mesmo (...) mas existe sob as condi„Šes positivas de
um feixe complexo de rela„Šes (Foucault, 1986 p. 51). Elas oferecem um campo de

61
exterioridade, limites aos objetos sobre os quais se pode falar, oferecendo regimes de
nomea„…o, classifica„…o, explicita„…o, transformando o discurso em uma prˆtica social
objetivada, em um campo de possibilidades e de regras. Assim:
"Essas regras definem n…o a exist‡ncia muda de uma realidade, n…o o
uso can‘nico de um vocabulˆrio, mas o regime de objetos (...) consiste em
n…o mais tratar os discursos como conjunto de signos (elementos
significantes que se remetem a conte’dos ou representa„Šes), mas como
prˆticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente
os discursos s…o feitos de signos; mas o que fazem † mais que utilizar esses
signos para designar coisas. • esse 'mais' que † preciso fazer aparecer e que †
preciso descrever." (Foucault, 1986 p. 56)

• preciso resgatar novamente Wittgenstein para lembrar que a palavra n…o † uma
esp†cie de “batismo” do objeto e que n…o hˆ qualquer rela„…o direta entre o signo e o
objeto. O discurso encontra seu sentido no jogo de linguagem em que estˆ situado e †
nele e por meio dele que produz certos efeitos: “Como o prƒprio Einstein reconheceu, †
a linguagem que usamos – os conceitos que articulamos e portanto as perguntas que
formulamos – que determina o tipo de espa„o que somos capazes de ver.” (Wertheim,
2001 p. 223 )
O espa„o relativ•stico dependeu de Einstein e da comunidade de f•sicos da
relatividade, da mesma forma que “o espa„o da alma medieval desapareceu com o
falecimento da comunidade que suportava esse conceito” (Wertheim, 2001 p. 224).
Em Arqueologia do Saber, Foucault substitui a no„…o de episteme pela no„…o de
forma„Šes discursivas, reintroduzindo a histƒria na configura„…o do discurso e das
condi„Šes de sua exist‡ncia. Marca-se, assim, um primeiro deslocamento em seu
pensamento, que se realinharˆ, posteriormente, com a sua no„…o de dispositivos sociais,
capazes de articular forma„Šes discursivas e n…o-discursivas em um trabalho de
genealogia do poder que envolve os saberes. No fundo, a quest…o que permanece
constante em meio ao movimento teƒrico do filƒsofo † a das condi„Šes de possibilidade
de aparecimento de um enunciado em uma ordem do saber. Como o enunciado, em
meio a tantos outros poss•veis, aparece em uma forma„…o discursiva como um
acontecimento. Assim:
“... um enunciado † sempre um acontecimento que nem a l•ngua nem o
sentido podem esgotar inteiramente. Trata-se de um acontecimento estranho,
por certo: inicialmente porque estˆ ligado, de um lado, a um gesto de escrita
ou € articula„…o de uma palavra, mas, por outro lado, abre para si mesmo
uma exist‡ncia remanescente no campo da memƒria, ou na materialidade dos
manuscritos, dos livros e de qualquer forma de registro; em seguida, porque

62
† ’nico como todo acontecimento, mas estˆ aberto € repeti„…o, €
transforma„…o, € reativa„…o; finalmente, porque estˆ ligado n…o apenas a
situa„Šes que o provocam, e a conseq‰‡ncias por ele ocasionadas, mas, ao
mesmo tempo, e segundo uma modalidade inteiramente diferente, a
enunciados que o precedem e o seguem.” (Foucault, 1986 p. 32)

Para Foucault, a arqueologia n…o procura um saber que se constitui como um


“edif•cio progressivamente dedutivo, nem como um livro sem medida que se escreveria,
pouco a pouco, atrav†s do tempo, nem como a obra de um sujeito coletivo”. O que se
procura † um sistema de dispers…o que atravessa um dom•nio de objetos, enunciados,
temas que permitem a elabora„…o de uma s†rie de possibilidades estrat†gicas de
produ„…o de um saber. • percept•vel a inquieta„…o do filƒsofo com essa quest…o. Em
suas obras, † poss•vel sentir como ele parece “tatear” os caminhos de uma resposta para
lan„ar alguma inteligibilidade sobre as forma„Šes discursivas, os saberes, os
dispositivos sem cair em outras formas de positividade, mantendo uma esp†cie de
tens…o no seu prƒprio discurso.
Em A ordem do discurso, Foucault esbo„a, claramente, os primeiros movimentos
de transi„…o e reorienta„…o de sua arqueologia do saber para uma genealogia do poder
capaz de avaliar os aspectos ling‰•sticos e extra-ling‰•sticos dos dispositivos sociais
que emergem no mundo moderno. Nesse texto, apresentado como aula inaugural no
Coll•ge de France, o filƒsofo come„a por observar que as sociedades humanas n…o
toleram o discurso incontrolado, temendo seu poder mˆgico e seus perigos, sua
materialidade. Trata-se de uma quest…o que n…o passou despercebida a Levi-Strauss ao
constatar que a maior parte das culturas chamadas de “primitivas” tem por caracter•stica
usar a linguagem com parcim‘nia, ao contrˆrio da nossa, na qual, aparentemente, se fala
constantemente, de qualquer coisa, a qualquer momento (Levi-Strauss, 1985 p. 86).
Bourdieu, destaca, tamb†m, no cap•tulo anterior, o poder mˆgico das palavras
quando produzidas em determinadas condi„Šes sociais. Como o discurso produzido por
certos agentes, em certas posi„Šes, constitui um verdadeiro campo de lutas simbƒlicas
pela representa„…o do mundo e da ordem social. O poder mˆgico das palavras † o poder
simbƒlico de fazer ver certas coisas (produzir o seu acontecimento), de fazer crer e agir
por meio das palavras, ao mudar as categorias de percep„…o, de vis…o e divis…o do
mundo. (Bourdieu, 1989, 1990)
Foucault identifica o exerc•cio do controle discursivo sobre esse “medo” a partir
de alguns procedimentos de exclus…o, sujei„…o e rarefa„…o (Gregolin, 2004 p. 97,
Foucault, 2006 p. 51) Os procedimentos ou princ•pios de exclus…o e sujei„…o, de

63
delimita„…o do discurso relacionam-se com os modos de interdi„…o e institui„…o
constru•dos historicamente, capazes de produ„…o do reconhecimento da “palavra
proibida” e da “palavra leg•tima”. Trata-se de uma interdi„…o e um investimento que
estˆ relacionado € rela„…o entre o desejo e o poder (sempre presente no discurso) a partir
da produ„…o de um ritual da palavra, de um ritual de enuncia„…o:
“Sabe-se que n…o se tem o direito de dizer tudo, que n…o se pode falar
de tudo em qualquer circunst•ncia, que qualquer um, enfim, n…o pode falar
de qualquer coisa. Tabu do objeto, ritual da circunst•ncia, direito
privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala: temos a• o jogo de tr‡s tipos de
interdi„Šes que se cruzam, se refor„am ou se compensam, formando uma
grade complexa que n…o cessa de se modificar (...) o discurso n…o †
simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de domina„…o, mas
aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.”
(Foucault, 2006 p. 9-10)

Foucault destaca a fala do “louco” e a sua ambig‰idade ao ser tratada ora como
motivo de desprezo e riso, ora como reveladora de segredos e verdades ocultas.
Lentamente e de modo descont•nuo, os discursos sobre a loucura passam a ser
produzidos, deslocados, envolvidos em uma rede de institui„Šes e prˆticas que conferem
a seus agentes, seus portadores e representantes leg•timos, poderes mˆgicos: a produ„…o
de um lugar no qual se reconhece a produ„…o de discursos leg•timos sobre a loucura (a
psiquiatria).
A configura„…o dos dispositivos discursivos e seus “terr•veis poderes” pode ser
observada por uma s†rie de estrat†gias historicamente configuradas em um sistema de
dispers…o dos enunciados sobre os poderes do discurso. No s†culo VI, p.ex., o discurso
verdadeiro “era o discurso que, profetizando o futuro, n…o somente anunciava o que ia
se passar, mas contribu•a para a sua realiza„…o, suscitava a ades…o dos homens e se
tramava assim o destino”. No s†culo XVI, “a verdade a mais elevada jˆ n…o residia mais
no que era o discurso, ou no que ele fazia, mas residia no que ele dizia: chegou um dia
em que a verdade se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enuncia„…o, para o
prƒprio enunciado” (Foucault, 2006 p. 15). No s†culo XIX, o discurso † diferente nas
formas, nos dom•nios e nas t†cnicas em que se apƒia, distanciando-se de toda a cultura
clˆssica:
“Ora, essa vontade de verdade, como os outros sistemas de exclus…o,
apƒia-se sobre um suporte institucional: † ao mesmo tempo refor„ada e
reconduzida por todo um compacto conjunto de prˆticas como a pedagogia,
† claro, como o sistema dos livros, da edi„…o, das bibliotecas, como as
sociedades dos sˆbios outros, os laboratƒrios hoje. [Trata-se do] ... modo

64
como o saber † aplicado em uma sociedade, como † valorizado, distribu•do,
repartido e de certo modo atribu•do.” (Foucault, 2006 p. 17)

Mas, o que estˆ em jogo nessa “vontade de dizer esse discurso verdadeiro”,
t•pica do mundo moderno? Um processo de “viol‡ncia simbƒlica” (Bourdieu), uma
“prodigiosa maquinaria de exclus…o” de todos os que historicamente a denunciam. Uma
poderosa illusio (Bourdieu) na qual se organiza o dispositivo discursivo e o transforma
em uma for„a que se “faz ouvida” em todos os sentidos, um discurso pelo qual todos
devem passar, se quiserem falar (com o m•nimo de legitimidade) de seus “objetos”
(Foucault, 2006 p. 20).
Destaca-se, ent…o, import•ncia dos rituais que marcam a exist‡ncia de um
enunciado e de um g‡nero do discurso. Por meio deles, torna-se poss•vel dar um lugar,
qualificar, dar forma p’blica e socialmente aceita ao sujeito do discurso, atribuindo-lhe
o lugar e as qualidades necessˆrias para cumprir com a fun„…o de autor que o enunciado
exige. Os novos dispositivos sociais de conhecimento e controle substituem as antigas
formas de sociedade de discurso, orientando novas formas de apropria„…o dos saberes e
exerc•cio dos poderes que articulam. Por meio deles, impŠe-se a ordem do discurso. A
doutrina tem o sinal de uma pertença prévia, pois † responsˆvel pela liga„…o ritualizada
de um conjunto de indiv•duos a certos tipos de enuncia„…o (o que implica a exclus…o de
todos os outros tipos). Mas, justamente, por ligˆ-los a esses tipos de enuncia„…o,
contribuem para diferenciˆ-los de outros indiv•duos e a gerar um processo de identidade
entre eles (Foucault, 2006 p.43).
Essas observa„Šes levam a uma reflex…o do filƒsofo sobre a produ„…o de um
“desnivelamento” entre as modalidades de discursos nas sociedades:
“...os discursos que ‘se dizem’ no correr dos dias e das trocas, e que
passam com o ato mesmo que os pronunciou; e os discursos que est…o na
origem de certo n’mero de atos novos de fala que os retomam, os
transformam ou falam deles, ou seja, os discursos que, indefinidamente, para
al†m de sua formula„…o, são ditos, permanecem ditos e est…o ainda por
dizer.” (Foucault, 2006 P. 22)

Essa distin„…o entre os discursos do cotidiano e o discurso cient•fico ou literˆrio,


p.ex., n…o passou despercebida por Bakhtin, ao identificar dois grandes g‡neros
discursivos em meio aos quais o enunciado encontra seu lugar. A complexa produ„…o de
esferas de atividades relativamente aut‘nomas no mundo moderno produz, tamb†m,
uma complexa rede de dispositivos sociais em meio aos quais circulam esses g‡neros.

65
Cada esfera de atividade (que † em si comunicativa) articula um repertƒrio de g‡neros.
Para identificˆ-los, † necessˆrio levar em considera„…o o sistema de dispers…o que
organiza seu conte’do temˆtico, seu estilo verbal e a sua constru„…o composicional. Se
o enunciado † ’nico e aparece como acontecimento em meio €s forma„Šes discursivas,
ele † ao mesmo tempo ligado a uma rede dialƒgica.
Para Bakhtin, o enunciado encontra-se no “cruzamento excepcionalmente
importante de uma problemˆtica” que n…o pode ser reduzida € anˆlise ling‰•stica. Os
g‡neros do discurso do qual o enunciado † portador serve de “correia de transmiss…o”
que permite estabelecer homologias entre a histƒria da sociedade e a histƒria da l•ngua,
jˆ que nenhum acontecimento discursivo “pode entrar no sistema da l•ngua sem ter sido
longamente testado e ter passado pelo acabamento do estilo-g‡nero” (Bakhtin, 200 p.
285). Por isso, Foucault pode destacar, em Microfísica do poder, que ao falar de uma
teoria da enuncia„…o seu problema n…o † necessariamente ling‰•stico. • por meio dos
enunciados concretos que a l•ngua passa a fazer parte do mundo social, da vida dos
agentes sociais, e, ao mesmo tempo, † o meio pelo qual a vida passa a fazer parte da
l•ngua. Assim:
“Quando escolhemos um determinado tipo de ora„…o, n…o escolhemos
somente uma determinada ora„…o em fun„…o do que queremos expressar com
a ajuda dessa ora„…o, selecionamos um tipo de ora„…o em fun„…o do todo do
enunciado completo que se apresente € nossa imagina„…o verbal e determina
nossa op„…o. A id†ia que temos da forma do nosso enunciado, isto †, de um
g‡nero preciso do discurso, dirige-nos em nosso processo discursivo”
(Bakhtin, 2000 p. 305)

Os g‡neros do discurso, para Bakhtin, podem ser identificados como primˆrios e


secundˆrios de acordo com a esfera de comunica„…o a partir do seu conte’do temˆtico,
seu estilo verbal (recursos lexicais, fraseolƒgicos e gramaticais) e sua constru„…o
composicional (tipos de estrutura„…o e de conclus…o, tipo de rela„…o com o interlocutor
etc.).
Os g‡neros primˆrios s…o identificados, nos termos utilizados por Foucault,
como “aqueles que ‘se dizem’ no correr dos dias e das trocas”, (g‡neros fˆticos,
felicita„Šes, cumprimentos, revela„Šes, casos, novidades, ordens) que podem ser mais
ou menos familiares ou •ntimos5 . Por outro lado, os g‡neros secundˆrios tendem a

5
Para Bakhtin, hˆ uma possibilidade de integra„…o de enunciados de um g‡nero em outro. Entretanto,
esse deslocamento muda a condi„…o do enunciado. Em todo caso: “A †poca, o meio social, o micromundo
– o da fam•lia, dos amigos e conhecidos, dos colegas – que v‡ o homem crescer e viver, sempre possui
seus enunciados que servem de norma, d…o o tom; s…o obras cient•ficas, literˆrias, ideolƒgicas, nas quais

66
oferecer um grau de “oficialidade” em sua entona„…o expressiva, assumindo um carˆter
normalmente prescritivo e, de certo modo, bastante complexo. Eles exigem uma esfera
de comunica„…o relativamente aut‘noma, tendem a reduzir as manifesta„Šes da
individualidade (com exce„…o dos g‡neros art•sticos-literˆrios), adquirindo uma forma
padronizada de express…o (a nota oficial, o ordem, o diagnƒstico etc.) e uma
materialidade prƒpria. Foucault aproxima-se enormemente de Bakhtin aqui:
“O enunciado depende da superf•cie de emerg‡ncia na qual possa se
fixar, uma superf•cie de emerg‡ncia, uma materialidade em que possa tomar
corpo, deixar sua marca no tempo (n…o como acontecimento fortuito e sem
sentido), gravando-se como memƒria. O enunciado “precisa ter uma
subst•ncia, um suporte, um lugar, uma data. Quando esses requisitos se
modificam, ele prƒprio muda de identidade. (...) Composta das mesmas
palavras, carregado exatamente do mesmo sentido, mantido em sua
identidade sintˆtica e sem•ntica, uma frase n…o constitui o mesmo enunciado
se for articulada por algu†m durante uma conversa, ou impressa em um
romance; se for escrita um dia, hˆ s†culos, e se reaparece agora em uma
formula„…o oral. As coordenadas e o status do material do enunciado fazem
parte de seus caracteres intr•nsecos." (Foucault, 1986 p. 115)

Os g‡neros secundˆrios (como o romance p.ex.) s…o controlados por um


princ•pio interno de rarefa„…o. Os dispositivos discursivos aparecem como “princ•pios
de classifica„…o, de ordena„…o, de distribui„…o” que podem ser identificados na fun„…o
do comentário, do lugar do autor e da formação da disciplina (Foucault, 2006 p. 26).
O comentˆrio produz uma rela„…o original entre o “texto primeiro” e o “texto
comentado” de tal modo que: a) com ele se constrƒi novos discursos sobre o que o texto
primeiro trazia de m’ltiplo ou oculto; b) ele revela o que estava “articulado
silenciosamente” no texto primeiro, ao “dizer pela primeira vez aquilo que, entretanto,
jˆ havia sido dito e repetir incansavelmente aquilo que, no entanto, n…o havia jamais
sido dito”. Tratar-se-ia, ent…o, de uma esp†cie de vontade de “realiza„…o do texto”
(Foucault, 2006 p. 25). Esse comentˆrio † produzido no interior de um campo
enunciativo, como jˆ foi visto, pois o enunciado † relacional, sua emerg‡ncia como
acontecimento coloca-o no jogo e estrat†gias enunciativas das quais o comentˆrio †
parte.
Quanto ao sujeito da enuncia„…o, ele ocupa uma fun„…o determinada, uma
“fun„…o vazia” para Foucault, pois o mesmo indiv•duo pode ocupar diferentes posi„Šes
e assumir o papel de diferentes sujeitos em uma mesma s†rie de enunciados. O autor

as pessoas se apƒiam e €s quais se referem, que s…o citadas, imitadas, servem de inspira„…o” (Baktin,
2000 p. 313)

67
n…o † aquele que pronunciou ou escreveu um texto, mas aquele que funciona como
“princ•pio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas significa„Šes,
como foco de sua coer‡ncia”, pois:
“ (...) existem, ao nosso redor, muitos discursos que circulam, sem
receber seu sentido ou eficˆcia de um autor ao qual seriam atribu•dos:
conversas cotidianas, logo apagadas; decretos ou contratos que precisam de
signatˆrios mas n…o de um autor, receitas t†cnicas transmitidas no
anonimato. Mas nos dom•nios em que a atribui„…o a um autor † regra –
literatura, filosofia, ci‡ncia – v‡-se bem que ela n…o desempenha sempre o
mesmo papel; na ordem do discurso cient•fico, a atribui„…o a um autor era,
na Idade M†dia, indispensˆvel, pois era um indicador de verdade” (Foucault
p. 27)

Se no discurso cient•fico n…o hˆ mais a id†ia de “um autor” ’nico, por meio do
qual o texto ou a fala tiram sua credibilidade, como na Idade M†dia (depende-se, hoje,
da comunidade cient•fica); na literatura, a no„…o de autor passou a ser essencial
(quando, na Idade M†dia, circulava mais ou menos no anonimato). Na busca do autor,
torna-se muitas vezes, necessˆrio buscar uma ordem, uma coer‡ncia, uma temˆtica
dif•cil de se estabelecer com clareza.
N…o † € toa que Bourdieu desconfia daquilo que chamou de “ilus…o biogrˆfica”.
Para Foucault, ocorre o mesmo. Com certeza, hˆ um indiv•duo que escreve e inventa.
Entretanto, sua cria„…o irrompe como acontecimento em uma rede mais ou menos
organizada na qual cumpre a “fun„…o do autor”. Por meio dela, o valor do autor se
instaura, seu capital simbƒlico constitui-se, sua autoridade † reconhecida de modo que
possa (a exemplo da figura do porta-voz discutida acima) falar em nome da prƒpria rede
discursiva que representa e contribui para atualizar, modificar ou, em alguns casos
extremos, destruir.
O enunciado “† prescrito pela função do autor, tal como a recebe de sua †poca
ou tal como ele, por sua vez, a modifica. (...)”. O que estˆ em jogo † sempre a “posi„…o
de autor” (nova ou deslocada) em um campo de lutas estrat†gicas de representa„…o.
(Foucault, 2006 p. 29). A posi„…o-fun„…o de autor sofre a varia„…o no interior dos
g‡neros de discurso produzidos nos mais diversos campos sociais (literˆrio, cient•fico,
religioso etc.), podendo assumir um estatuto jur•dico e institucional, deslocar-se (como
o que ocorreu com a fun„…o de autor na literatura), indicar posi„Šes, que podem ser
assumidas por diversos autores reais. Por meio dessa atribui„…o † que o discurso ganha
exist‡ncia, materialidade e circula no interior do campo.

68
O ’ltimo procedimento interno de controle, de rarefa„…o do discurso, encontra-
se na forma„…o da disciplina. As disciplinas interpŠem-se e opŠem-se ao princ•pio do
comentˆrio e do autor por apresentarem-se explicitamente como um sistema an‘nimo:
“Ao do autor, visto que uma disciplina se define por um dom•nio de
objetos, um conjunto de m†todos, um corpus de proposi„Šes consideradas
verdadeiras, um jogo de regras e de defini„Šes, de t†cnicas e de
instrumentos: tudo isto constitui uma esp†cie de sistema an‘nimo €
disposi„…o de quem quer ou pode servir-se dele, sem que seu sentido ou sua
validade estejam ligados a quem sucedeu ser seu inventor.
Mas o princ•pio da disciplina se opŠe tamb†m ao do comentˆrio, o que †
suposto no ponto de partida, n…o † um sentido que precisa ser redescoberto,
nem uma identidade que deve ser repetida; † aquilo que † requerido para a
constru„…o de novos enunciados. Para que haja disciplina † preciso, pois,
que haja possibilidade de formular, e de formular indefinidamente,
proposi„Šes novas. (...) uma disciplina n…o † a soma de tudo o que pode ser
dito de verdadeiro sobre alguma coisa; n…o † nem mesmo o conjunto de tudo
o que pode ser aceito, a propƒsito de um mesmo dado, em virtude de um
princ•pio de coer‡ncia ou de sistematicidade.” (Foucault, 2006 p. 30-31)

Os erros, tanto quanto as verdades, fazem parte de uma disciplina. Em uma


disciplina † preciso que a proposi„…o se dirija a um plano de objetos determinado, fa„a
uso de instrumentos conceituais ou técnicas bem definidas (e suas metˆforas), pertencer
a um horizonte teórico de reconhecimento dessas proposi„Šes. As no„Šes metafƒricas
que ganharam a classifica„…o de “senso comum”, de crendices etc. foram substitu•das
por outras no„Šes metafƒricas, reconhecidas pelas regras do jogo disciplinar.
O “erro” sƒ existe no interior desse jogo, de um sistema de rela„Šes entre
posi„Šes e proposi„Šes reconhecidas e n…o reconhecidas. O n…o reconhecimento de uma
“verdade” deve-se ao fato de n…o ser reconhecida no horizonte teƒrico em que †
produzida (a constru„…o de um “objeto” biolƒgico totalmente novo como aquele que foi
produzido por Mendel). Envolvida por esse jogo de reconhecimento, um novo objeto
exige novos instrumentos conceituais (e t†cnicos) e novos fundamentos teóricos.
Mendel produz uma proposi„…o verdadeira que n…o † reconhecida como verdade no
discurso biolƒgico de sua †poca. Nesse, pode-se dizer que † perfeitamente poss•vel a
ocorr‡ncia de um “erro disciplinado” perfeitamente aceito (Foucault, 2006 p. 33-35). O
enunciado “verdadeiro” sƒ ocorre no interior de um discurso, por uma polícia discursiva
reativada constantemente na produ„…o do prƒprio discurso.
Logo, para enfrentar o desafio do trabalho arqueolƒgico sobre as forma„Šes
discursivas, uma nova postura metodolƒgica † exigida. Trata-se de observar : a) o
princípio da inversão: reposicionar o papel do autor na rarefa„…o do discurso, b) o

69
princípio de descontinuidade: n…o se estˆ € procura de um “discurso ilimitado, cont•nuo
e silencioso”, c) o princípio de especificidade: o mundo n…o tem uma face leg•vel que
dever•amos decifrar, jˆ que o discurso n…o deixa de ser “uma viol‡ncia que fazemos €s
coisas” e d) o princípio da exterioridade: o discurso deve ser avaliado nas suas
condições externas de possibilidade.
A observa„…o desses princ•pios leva Foucault a substituir a no„…o de cria„…o pela
de acontecimento, a de unidade (representada pela obra, †poca, tema) pela de série, a de
originalidade (individual) pela de regularidade e a de significa„…o (possivelmente
oculta nas obras) pela de condições de possibilidade.
.

70
Capítulo 6: Dos dispositivos e das disposições

Encontrar um enunciado significa descobri-lo no campo em que se produz certo


jogo enunciativo, inseri-lo em uma rede enunciativa na qual os agentes sociais dispostos
€s condi„Šes do jogo elaboram uma s†rie de escolhas estrat†gicas. Seria este, tamb†m, o
passo inicial para a identifica„…o de um dispositivo? Seria viˆvel uma tentativa de
articula„…o da teoria dos dispositivos com a teoria dos campos de Bourdieu? Pode-se
falar de disposi„Šes enunciativas ou habitus enunciativos?
Um dispositivo discursivo representa um campo de lutas simbƒlicas, um campo
de produ„…o de “positividades”. Mas, nesse caso, † preciso entender que o poder que se
inscreve no discurso n…o † somente repress…o ou interdi„…o, n…o se trata de uma
obriga„…o ou uma proibi„…o, mas um espa„o de produ„…o de saberes, um poder que se
apƒia nos agentes sociais por ele investidos. Esse poder n…o † propriamente possu•do,
mas exercido em meio a um campo de posi„Šes estrat†gicas dispersas pelo mundo
social, no que pode ser chamado de sua capilaridade (Eco, 1984 p. 316). A
subjetividade produzida pelos dispositivos † na verdade um “processo de produ„…o
dirigido a gera„…o de modos de exist‡ncias, ou seja, modos de agir, de sentir, de dizer o
mundo” (Foucault, 1986 p. 143).
Retomando as proposi„Šes da Pragmˆtica † preciso lembrar que o discurso n…o
se transforma apenas em um processo de representa„…o da verdade ou dos fatos
cotidianos: “A linguagem † uma prˆtica, uma prˆtica discursiva que interfere,
transforma a realidade (...) Pertencente ao plano das prˆticas, a linguagem † tamb†m
exerc•cio de realiza„Šes emp•ricas. Constitui objetos, cria situa„Šes novas” (Tedesco In:
Queiroz & Cruz, 2007 p. 143)”.
Como jˆ foi visto no cap•tulo anterior: “Descrever uma formula„…o enquanto
enunciado n…o consiste em analisar as rela„Šes entre o autor e o que ele disse (ou quis
dizer, ou disse sem querer); mas em determinar qual † a posi„…o que pode e deve ocupar
todo indiv•duo para ser seu sujeito (Foucault, 1986 p. 109)”.
Um enunciado emerge em uma rede enunciativa ritualmente produzida em um
complexo campo de possibilidades de prˆticas discursivas no qual adquire sua for„a
simbƒlica. Por meio dessa rede e dos g‡neros ritualmente exercidos em seus dom•nios,
delimita-se as fronteiras desse campo. Trata-se de um princ•pio de delimita„…o de
fronteiras entre os que est…o dentro ou fora dos rituais de enuncia„…o.

71
Assim, um acontecimento discursivo sƒ ocorre como enunciado se estiver
imerso em um campo discursivo no qual circula uma complexa rede de jogos e
estrat†gias enunciativas. Por isso:
“O enunciado n…o † a proje„…o direta, sobre o plano da linguagem, de
uma situa„…o determinada ou de um conjunto de representa„Šes. (...) N…o hˆ
enunciado que n…o suponha outros; n…o hˆ nenhum que n…o tenha, em torno
de si, um campo de coexist‡ncias, efeitos de s†rie e de sucess…o, uma
distribui„…o de fun„Šes e de pap†is. Se se pode falar de um enunciado, † na
medida em que uma frase (uma proposi„…o) figura em um ponto definido,
com uma posi„…o determinada, em um jogo enunciativo que a extrapola.”
(Foucault, 1986 p. 114-115)

• o referencial do enunciado que "...define as possibilidades de aparecimento e


delimita„…o do que dˆ € frase seu sentido, € proposi„…o seu valor de verdade". Ele estˆ
inscrito em um dom•nio, em suas fronteiras, estˆ imerso em um campo enunciativo no
qual aparece em sua singularidade, com suas margens “povoadas de outros enunciados”
(Foucault, 1986 p. 104). Deste modo, ele depende, inteiramente, do campo enunciativo:
"(...) onde tem lugar e status, que lhe apresenta rela„Šes poss•veis com
o passado e que lhe abre um futuro eventual. (...) n…o hˆ enunciado livre,
neutro, independente; mas sempre um enunciado fazendo parte de uma s†rie
ou de um conjunto, desempenhando um papel no meio de outros, neles se
apoiando e deles se distinguindo: ele se integra em um jogo enunciativo,
onde tem sua participa„…o, por ligeira e •ntima que seja" (Foucault, 1986 p.
114)

Em certo momento, na anˆlise das forma„Šes discursivas, Foucault introduz a


no„…o de "modula„…o discursiva". Para um mesmo discurso pode haver uma dispers…o
dos lugares, posi„Šes e planos que † poss•vel ocupar quando se fala. A forma„…o
discursiva † um campo de dispers…o de posi„Šes e modalidades enunciativas, † uma rede
de lugares, uma prˆtica, um conjunto de regras que dispŠem certos enunciados em uma
s†rie, caracteriza-se pelo uso de procedimentos de interven„…o (t†cnicas de escrita,
m†todos de transcri„Šes de enunciados, modos de tradu„…o de enunciados, m†todos de
sistematiza„…o das proposi„Šes). Ela † o lugar de emerg‡ncia de um feixe de rela„Šes
produtoras de sentido (poder simbƒlico), emerg‡ncia de conceitos, de uma rede
conceitual. Esse feixe de rela„Šes cria uma esp†cie de "anonimato uniforme" que exerce
uma press…o sobre todos os que pretendem falar no interior dessa forma„…o.
Essas regras n…o podem ser traduzidas ou transferidas automaticamente para
outros campos, embora possam estabelecer rela„Šes de homologia ou regimes de
dispers…o semelhantes.

72
Forma„Šes discursivas n…o s…o coisas (palavras ou objetos) que se agrupam, mas
esquemas, regras de organiza„…o e dispers…o, "maneiras reguladas (e descrit•veis como
tais) de utilizar as possibilidades dos discursos" (Foucault, 1986 p. 77). Devido €s suas
regras de dispers…o, nem todos os jogos discursivos podem ser realizados, pois segundo
Foucault tudo depende da economia da constelação discursiva, um sistema de desvios e
escolhas estrat†gicas em meio €s quais se travam lutas simbƒlicas.
Se em uma forma„…o discursiva produz-se uma nova constela„…o, isso significa
que o que estˆ em jogo s…o novas modalidades de exclus…o, novas possibilidades de
escolhas, novas associa„Šes, aproxima„Šes e abandonos que ela permite na delimita„…o
de sua forma e sua materialidade. No entanto, † preciso lembrar que se a forma„…o
discursiva † um campo de dispers…o, lacunar, ele † tamb†m um campo de lutas. O
campo enunciativo † caracterizado como um campo de presen„a (nƒ em uma rede de
conhecimentos anteriores), um campo de concomit•ncia (pode ocorrer uma homologia
na estrutura de vˆrios campos - filosƒfico, teolƒgico e matemˆtico) e um campo de
memƒria. Bakhtin destaca esse carˆter dialƒgico do enunciado:
“O enunciado sempre cria algo que, antes dele, nunca existira, algo
novo e irreproduz•vel, algo que estˆ sempre relacionado com um valor (a
verdade, o bem, a beleza etc.). Entretanto, qualquer coisa criada se cria
sempre a partir de uma coisa que † dada (a l•ngua, o fen‘meno observado na
realidade, o sentimento vivido, o prƒprio sujeito falante, o que † jˆ conclu•do
em sua vis…o de mundo etc.) o dado se transfigura no criado . (...) No exame
de seu histƒrico, qualquer problema cient•fico (quer seja tratado de modo
aut‘nomo, quer fa„a parte de um conjunto de pesquisas sobre o problema em
quest…o) enseja uma confronta„…o dialƒgica (de enunciados, de opiniŠes, de
pontos de vista) entre os enunciados de cientistas que podem nada saber uns
dos outros, e nada podiam saber uns dos outros. O problema comum
provocou uma rela„…o dialƒgica” (Bakhtin, 2000 p. 349e 354)

A aten„…o estˆ voltada para a fun„…o que o enunciado desempenha nas


forma„Šes discursivas. Um enunciado estˆ vinculado a um "referencial", um campo de
possibilidades de aproxima„…o, combina„…o, nomea„…o mais ou menos conhecidas,
reconhecidas, impostas ou negadas.
Neste cap•tulo, pode-se dar continuidade € anˆlise das proposi„Šes de Foucault,
observando o deslocamento de sua arqueologia e genealogia rumo a uma teoria dos
dispositivos e o modo pelo qual se aproxima da teoria dos campos de Bourdieu.
O mundo moderno produziu um complexo processo de autonomiza„…o de uma
s†rie de esferas de atividades, transformando-as em um complexo espa„o sobre o qual
se instituem campos de for„as mais ou menos din•micos. Portanto, um dos momentos

73
arqueolƒgicos do trabalho do cientista social consiste em identificar o campo de for„as,
o regime de dispers…o, que estˆ presente na g‡nese do campo, identificar como se
produziu em seu interior um processo de depura„…o capaz de transformˆ-lo em uma
rede de enunciados, g‡neros de discurso, posi„Šes, disposi„Šes e rituais delimitadores
de fronteiras discursivas e n…o-discursivas. Assim:
“Compreender a g‡nese social de um campo, e apreender aquilo que
faz a necessidade espec•fica da cren„a que o sustenta, do jogo de linguagem
que nele se joga, das coisas materiais e simbƒlicas em jogo que nele se
geram, † explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrˆrio e do
n…o-motivado, os atos dos produtores e as obras por eles produzidas (...)
(Bourdieu, 1989 p. 69)

O campo depura-se em torno da cren„a no jogo que ele propŠe, exigindo de


todos os que estejam dispostos a jogˆ-lo, uma Illusio, uma esp†cie de encantamento
com o jogo. Cada campo cria um pre„o de entrada, exige uma mobiliza„…o e
disponibiliza„…o de um tipo de capital espec•fico, transformado em investimento por
parte daqueles que nele pretendem ingressar. Todo o processo, descrito no cap•tulo 4, de
forma„…o do habitus a partir da experi‡ncia social da crian„a no espa„o social (a
mobiliza„…o dos capitais familiares na sua forma„…o – capital cultural, econ‘mico,
social e simbƒlico), precisa ser traduzido para o tipo de capital valorizado no campo.
Quanto mais ajustada for essa tradu„…o, mais natural se darˆ a passagem, aumentando as
chances de sucesso a serem experimentadas.
Bakhtin (2000) observa que todo enunciado † individual, mas a esfera de
utiliza„…o da l•ngua pressupŠe certas formas estabilizadas de produ„…o de enunciados de
acordo com seu conte’do temˆtico, estilo e estrutura composicional. Essa estabiliza„…o
dos enunciados em formas mais ou menos estˆveis e reconhecidas caracterizam os
g‡neros de discurso, que podem ser primˆrios ou secundˆrios. O que † importante na
anˆlise dos campos sociais † sua rela„…o com a produ„…o de g‡neros secundˆrios(como
o romance, o teatro, o discurso religioso, cient•fico, profissional etc.) que marcam um
tipo de comunica„…o cultural mais complexa relativa a uma esfera relativamente
aut‘noma como a produ„…o art•stica, cient•fica, pol•tica, t†cnica, ideolƒgica.
Os g‡neros e os enunciados produzidos no campo t‡m um carˆter dialƒgico, pois
est…o sempre colocados em resposta a enunciados anteriores, com os quais concordam,
subvertem, refutam etc. Dominar o jogo em um campo † ter um senso prˆtico desse
dialogismo, † saber dominar os g‡neros de discursos que articulam os enunciados
articulados pelo campo. Como jˆ foi observado no cap•tulo 4, n…o basta ter o capital

74
cultural necessˆrio para dominar a l•ngua para ser capaz de circular pelos campos
sociais e seus respectivos mercados simbƒlicos. • preciso ter o dom•nio, saber
reconhecer e jogar com temˆticas, estilos e estruturas composicionais prƒprias desses
campos e mercados. • preciso desenvolver o senso prˆtico do uso dos g‡neros.
• por isso que as escolhas profissionais, p.ex., exigem toda uma reconvers…o de
capitais e habitus familiares aos tipos de capitais e habitus (discursivos) valorizados
pelo jogo neles produzidos. Para Bourdieu, o senso prˆtico de percep„…o e aprecia„…o
do mundo gerado pelo habitus, marca um estilo de vida no qual estˆ inclu•da uma s†rie
de expectativas de circula„…o por certos campos sociais. A naturalidade com que os
agentes sociais muitas vezes encontram seus lugares nesses campos mostra que o ajuste
estˆ longe de ser arbitrˆrio. Isso pode ser notado nos processos de escolha dos cursos a
frequentar (se houver realmente escolha), das profissŠes a seguir etc.
Por isso, desenvolver uma illusio por um campo, significa ser capaz de produzir
em si mesmo um interesse muito particular pelo jogo social que esse campo produz,
achar que o jogo vale a pena, sentir-se dentro do jogo, saber avaliar o que estˆ em jogo
ali, reconhecer as jogadas mais ou menos valorizadas, estabelecer uma rela„…o
encantada com o jogo. Deste modo:
“A illusio † estar preso ao jogo, preso pelo jogo, acreditar que o jogo
vale a pena ou, para diz‡-lo de maneira mais simples, que vale a pena jogar.
(...) Dito de outro modo, os jogos sociais s…o jogos que se fazem esquecer
como jogos e a illusio † essa rela„…o encantada com um jogo que † produto
de uma rela„…o de cumplicidade ontolƒgica entre as estruturas mentais e as
estruturas objetivas do espa„o social. (...) todo campo social, seja o campo
cient•fico, seja o campo art•stico, o campo burocrˆtico ou o campo pol•tico,
tende a obter daqueles que nele entram essa rela„…o com o campo que chamo
de illusio.” (Bourdieu, 1996 p. 139)

A rela„…o ontolƒgica, € qual Bourdieu se refere, consiste em n…o desvincular a


produ„…o do campo das condi„Šes sociais de sua exist‡ncia que n…o pode ser explicitada
a n…o ser pelo pensamento sociolƒgico, pela atitude reflexiva, pelo trabalho de
anamnese da origem da cren„a no campo. Em cada um dos campos † produzida uma
doxa, um ponto de vista sobre o mundo, um senso de evid‡ncia a respeito de sua
exist‡ncia que sequer † colocado em quest…o.
As intera„Šes sociais sƒ podem sustentar a objetividade do discurso porque s…o
recebidas como formas objetivadas pela educa„…o, pela doxa. As experi‡ncias das novas
gera„Šes, dos agentes sociais que est…o sendo socializados e a sua integra„…o aos mais
diversos campos sociais n…o † dada gratuitamente. Trata-se de uma viol‡ncia simbƒlica

75
característica das sociedades humanas, uma violência que cria as condições para o
reconhecimento dos enunciados. A presença das estruturas sociais e dos discursos
objetivados nos agentes sociais só pode ser realizada não por uma simples imposição ou
interiorização dessas estruturas, mas pela produção de esquemas de ação, de
pensamento, classificação e fala que se construíram lentamente nas experiências dos
agentes sociais.
O que se produz na experiência desses agentes, desde a infância, são esquemas
de percepção e apreciação, que produz um mundo que se auto-evidencia em
repreensões, anseios, desejos, promessas de futuro, recompensas, gestos, posturas. A
produção desses esquemas no processo de socialização nunca é "garantido" de antemão.
Bourdieu chama atenção para fato que a percepção desses esquemas começa
muito antes da verbalização e que a evidência do mundo pode se constituir de sentido
mesmo que não haja palavras para denominá-la. Não se trata de uma articulação com a
noção de capilaridade do poder à qual se refere Foucault?
Essas disposições produzem um ajuste entre as esquemas cognitivos (a
percepção do mundo e do lugar dos agentes sociais no mundo) e as estruturas objetivas
(que levam à antecipação de suas chances no deslocamento pelo espaço social e pelos
campos sociais). As disposições são as condições para os exercícios dos jogos sociais.
Por isso, fazer parte de um campo é incorporar (literalmente) o jogo, isto é,
adquirir as disposições necessárias para que o jogo pareça natural àquele que o realiza,
naturalidade distintiva que marca o estilo dos bons jogadores. Bons jogadores que,
sabendo o lugar no qual a bola vai cair, são capazes de antecipar as jogadas, chegar
antes, uma vez que estão familiarizados com o jogo.
Logo, o campo produz um espaço social, hierarquicamente estruturado, sobre o
qual se dispersam posições em dominantes e dominadas, que se formaram
historicamente com o próprio campo. O tempo é um fator importante, pois através das
lutas simbólicas e pelos e rituais de consagração que produz é possível identificar e
distribuir nesse espaço os pioneiros, os pais fundadores do campo, as novas gerações, o
deslocamento e perda de autonomia do campo, estratégias e alianças, lutas pela
conquista da hegemonia, efeitos de envelhecimento no campo etc. Um espaço de
posições mais ou menos dinâmico desloca as posições de seus jogadores, ao mudar os
tipos de capitais exigidos na sua configuração. A formação de um campo enunciativo é
marcada por descontinuidades (lutas simbólicas) e pela construção de positividades
provisórias.

76
Ao se falar de estrat†gias produzidas pelos jogadores de um campo † preciso
lembrar que n…o se trata de um cˆlculo racional a n…o ser em casos muito espec•ficos, e
† justamente esse ocultamento do interesse pela estrat†gia que gera uma economia de
cinismo entre os agentes sociais. • preciso acreditar e investir no jogo para que ele
exista, mas trata-se de um interesse “desinteressado”, que deve ser dissimulado, n…o
porque † objeto de um cˆlculo que n…o pretende ser revelado, mas por se ajustar €s
disposi„Šes dos agentes trazidos para o campo. (Bourdieu, 2001 p. 174)
Mediante esse interesse dissimulado, a conquista de posi„Šes dominantes no
campo relaciona-se com estrat†gias, alian„as e o ac’mulo de capital simbƒlico por parte
dos agentes que as ocupam, provisoriamente, estabelecendo com elas uma rede de
saberes e poderes. Todo campo produz uma distribui„…o de capital e lucro simbƒlico aos
agentes dispostos e com as disposi„Šes adequadas para fazer parte dele:
“Chamo de capital simbƒlico qualquer tipo de capital (econ‘mico,
cultural, escolar ou social) percebido de acordo com as categorias de
percep„…o, os princ•pios de vis…o e divis…o, os sistemas de classifica„…o, os
esquemas classificatƒrios, os esquemas cognitivos, que s…o em parte,
produto da incorpora„…o das estruturas objetivas do campo considerado, isto
†, da estrutura de distribui„…o do capital no campo considerado.” (Bourdieu,
1997 p. 149)

Em Regras da Arte, Bourdieu (1996b) retoma a id†ia de "campo de


possibilidades estrat†gicas" como um espa„o de poss•veis dentro dos campos. Indica a
grande contribui„…o de Foucault, ao destacar a rela„…o de interdepend‡ncia, de produ„…o
de homologias, que podem ser estabelecidas nas forma„Šes discursivas. Os jogos
discursivos est…o relacionados €s disposi„Šes produzidas no prƒprio campo. A maior
parte das teorias literˆrias que querem ver no autor as suas condi„Šes psicolƒgicas e
sociolƒgicas diretamente representadas na obra, ignoram que a produ„…o do valor de
uma obra n…o estˆ apenas nos aspectos fundamentais da trajetƒria social do autor, mas
na sua capacidade de imposi„…o de um estilo. Logo a resposta n…o estˆ no autor ou na
obra isolada, mas no campo que permite o seu reconhecimento (ou n…o) e sua avalia„…o.
Produzindo a cren„a no produtor, o campo produz as condi„Šes para a cren„a na obra e
no seu valor:
“Sendo dado que a obra de arte sƒ existe enquanto objeto simbƒlico
dotado de valor se † conhecida e reconhecida, ou seja, socialmente institu•da
com obra de arte por espectadores dotados da disposi„…o e da compet‡ncia
est†ticas necessˆrias para a conhecer e reconhecer como tal, a ci‡ncia das
obras tem por objeto n…o apenas a produ„…o material da obra, mas tamb†m a

77
produ„…o do valor da obra ou, o que dˆ no mesmo, da cren„a no valor da
obra.”(Bourdieu, 1996b p. 259)

O campo da literatura e dos meios de comunica„…o precisam ser socialmente


avaliados e legitimados, isto †, objetivados, institu•dos. • preciso que se produza a
compet‡ncia est†tica necessˆria para reconhecer e posicionar uma obra nesse espa„o
social de posi„Šes e produ„Šes simbƒlicas, uma rede de rela„Šes de agentes sociais
diferenciados e muitas vezes hierarquizados, movidos pela Illusio, a cren„a no jogo que
institui o campo. Logo, quem produz o valor da obra de arte, a avalia„…o e o
reconhecimento dos enunciados e g‡neros do discurso aos quais se vincula n…o † o
autor, mas o campo no qual atua em uma verdadeira luta simbƒlica. O jogo elaborado
com os g‡neros de discurso de um campo fazem parte dessa illusio e †, tamb†m, por
meio deles que um campo pode ser identificado.
Por isso, em sua anˆlise, n…o se deve levar em considera„…o apenas os
produtores (escritores, compositores, artistas), mas as institui„Šes, os mercados
simbƒlicos em meios aos quais os bens culturais circulam e recebem avalia„…o e
sentido, mercados que envolvem editores, cr•ticos, historiadores da arte, colecionadores,
rituais de consagra„…o (premia„Šes, men„Šes etc.). Deve-se levar em considera„…o as
inst•ncias administrativas e as rela„Šes pol•ticas (atua„…o de minist†rios, funda„Šes etc.)
e as escolas responsˆveis pela reprodu„…o dos princ•pios de percep„…o e aprecia„…o
desses bens culturais.
Quando a teoria das media„Šes observa o processo de media„…o no consumo
cultural (no caso dos meios de comunica„…o), ignora muitas vezes que o “sentido” dos
bens culturais depende tamb†m do universo e dos valores muito particulares que
circulam no campo midiˆtico (Souza, 2003). Quais s…o os agentes e institui„Šes que por
sua posi„…o no campo s…o capazes de produzir estrat†gias que lhes permitem controlar
os princ•pios de avalia„…o do campo? Quais s…o as inst•ncias de legitima„…o
historicamente constru•das para atribui„…o de valor € obra (•ndicies de audi‡ncia ou a
vendagem ( best-seller)? Qual † o processo de sele„…o dos ingressantes no campo (sua
trajetƒria social e as disposi„Šes e capitais que exigem)? Quais s…o os regimes de tens…o
que se estabelecem entre a divis…o social dos agentes no interior dos campos (diretores,
editores, escritores, atores, profissionais da ˆrea t†cnica, responsˆveis pelo “marketing”
das obras e pela sua circula„…o interna e externa?

78
O prƒprio Bourdieu parece reconhecer um poss•vel ponto de aproxima„…o entre
o espaço dos possíveis sentidos de uma obra que a teoria dos campos oferece e o campo
de possibilidades estratégicas que a teoria da enuncia„…o encontra nas forma„Šes
discursivas. Assim:
"De fato, † sem d’vida em Michel Foucault que se encontra a
formula„…o mais rigorosa dos fundamentos da anˆlise estrutural das obras
culturais. Consciente de que nenhuma obra cultural existe por si mesma, isto
†, fora das rela„Šes de interdepend‡ncia que a unem a outras obras, ele
propŠe chamar ‘campo de possibilidades estrat†gicas’ o ‘sistema regrado de
diferen„as e de dispersŠes’ no interior do qual cada obra singular se define.
[Entretanto] (...) não é possível, como no caso do campo científico, tratar a
ordem cultural (a epist†me) como totalmente independente dos agentes e
das instituições que a atualizam e levam à existência, e ignorar as conexões
sócio-lógicas que acompanham ou sustentam as consecuções lógicas. (...)A
eficácia dos fatores externos, crises econômicas, transformações técnicas,
revoluções políticas ou, muito simplesmente, demanda social de uma
categoria particular de comanditários, de que a história social tradicional
busca a manifestação direta nas obras, não pode exercer-se senão por
intermédio das transformações da estrutura do campo que esses fatores
podem determinar. (Bourdieu, 1996b p.225-232)

O deslocamento da anˆlise das forma„Šes discursivas para a anˆlise dos


dispositivos resolverˆ em grande parte o problema questionado por Bourdieu no trecho
grifado. Os campos, como o habitus, aparecem objetivados e todos os ingressantes
pagam um pre„o de entrada neles, o campo e o habitus carregam uma tradi„…o, uma
heran„a, um estado de coisas "dissimulado", tˆcito, reconhec•vel aos iniciados que dele
se valem como cƒdigos de contato, uma postura, uma t†cnica quase corporal. Sƒ um
trabalho de anamnese, de cunho "arqueolƒgico" porque n…o dizer, † capaz de revelar as
condi„Šes sociais de sua institui„…o como um verdadeiro dispositivo.
Uma quest…o importante na anˆlise do campo como um espa„o de posi„Šes e um
espa„o de rela„Šes de for„a relativamente aut‘nomo † a sua rela„…o com o espa„o do
consumo, de usos e apropria„Šes, a que estˆ sujeita. Como as obras de um campo
encontram o seu p’blico? Como as obras e os discursos sobre as obras (os enunciados e
g‡neros em meio aos quais ganham sentido) tornam-se dignas de reconhecimento e
encontram seu p’blico?
"Tudo isso significa que n…o se podem criar na ci‡ncia das obras duas
partes, uma consagrada € produ„…o, a outra € recep„…o. (...) O que a anˆlise
da ess‡ncia esquece s…o as condi„Šes sociais da produ„…o (ou da inven„…o) e
da reprodu„…o (ou da assimila„…o) das disposi„Šes e dos esquemas
classificatƒrios que s…o empregados na percep„…o art•stica.(...) O que †
descrito pela anˆlise a-histƒrica da obra de arte e da experi‡ncia est†tica †, na

79
realidade, uma instituição que, enquanto tal, existe de alguma maneira duas
vezes, nas coisas e nos c†rebros. Nas coisas, sob a forma de um campo
art•stico, universo social relativamente aut‘nomo que † o produto de um
lento processo de emerg‡ncia; nos c†rebros, sob a forma de disposi„Šes que
se inventaram no prƒprio movimento pela qual se inventava o campo a que
est…o ajustadas. (...) Essa rela„…o de causalidade circular, a da cren„a e do
sagrado, caracteriza toda institui„…o que pode funcionar apenas se †
institu•da a um sƒ tempo na objetividade de um jogo social e em disposi„Šes
que predisponham a entrar no jogo, a interessar-se por ele. (Bourdieu, 1996b
p.322-324)"

• imposs•vel avaliar uma obra sem avaliar o campo no qual o valor e a cren„a na
obra e no seu autor s…o produzidos. Essa realiza„…o dial†tica entre a objetividade e a
forma„…o da subjetividade em um campo faz com que esses jogos sociais objetivem-se
como experi‡ncia e produzam lentamente as disposi„Šes, o conhecimento e o
reconhecimento necessˆrio para que a cren„a e o interesse no jogo se mantenha. Em
Esboço de uma teoria da prática, Bourdieu chama isso de a "dial†tica de interioriza„…o
da exterioridade e exterioriza„…o da interioridade", produto e condi„…o do processo de
intera„…o e produ„…o de sentido do mundo.
Diante disso, n…o se pode dizer, ent…o, que estamos diante de verdadeiros
dispositivos sociais? Al†m disso, esses dispositivos n…o estariam diretamente ligados a
certas disposi„Šes necessˆrias para que produzam a eficˆcia simbƒlica necessˆria para
sua exist‡ncia? Seria poss•vel aproximar Bourdieu e Foucault e integrar uma teoria dos
dispositivos e das disciplinas a uma teoria geral (uma economia) dos campos ou vice-
versa? A prƒpria no„…o de dispositivo (€ qual o filƒsofo chega depois de passar pela
anˆlise da episteme e de propor uma arqueologia do saber e uma genealogia do poder)
exige uma s†rie de “estrat†gias enunciativas” de sua parte. Isso pode ser observado em
Microfísica do Poder:
“Atrav†s deste termo tento demarcar, em primeiro lugar, um conjunto
decididamente heterog‡neo que engloba discursos, institui„Šes, organiza„Šes
arquitet‘nicas, decisŠes regulamentares, leis, medidas administrativas,
enunciados cient•ficos, proposi„Šes filosƒficas, morais, filantrƒpicas. Em
suma, o dito e o n…o dito s…o os elementos do dispositivo. O dispositivo † a
rede que se pode estabelecer entre estes elementos. (...)[• preciso observar,
ainda, que] entre estes elementos, discursivos ou n…o, existe um tipo de jogo,
ou seja, mudan„as de posi„…o, modifica„Šes de fun„Šes, que tamb†m podem
ser muito diferentes.
Em terceiro lugar, entendo dispositivo como um tipo de forma„…o que,
em determinado momento histƒrico, teve como fun„…o principal responder a
uma urg‡ncia. O dispositivo tem, portanto, uma fun„…o estrat†gica
dominante. (...) O dispositivo, portanto, estˆ sempre inscrito em um jogo de

80
poder, estando sempre, no entanto, ligado a uma ou a configura„Šes de saber
que dele nascem, mas que igualmente o condicionam. • isto, o dispositivo:
estrat†gias de rela„Šes de for„a sustentando tipos de saber e sendo
sustentadas por eles.” (Foucault, 1988 pp. 245-246)

No desenvolvimento de suas pesquisas Foucault, cada vez mais, observa que o


sujeito de um discurso estˆ situado em uma rede discursiva e, ao mesmo tempo, n…o-
discursiva. A divis…o entre discursivo e n…o-discursivo que † usada para a identifica„…o
da rede social heterog‡nea que compŠe o dispositivo, torna-se um problema para
Foucault, pois s…o constantes as perguntas sobre o que seria ou n…o um elemento n…o-
discursivo. Sua resposta: os elementos n…o discursivos s…o as institui„Šes (“todo o social
n…o discursivo”) e seus mecanismos coercivos. N…o parece uma resposta adequada, pois
o prƒprio enunciado sofre um processo coercivo no interior dos g‡neros do discurso.
Isto tornaria os g‡neros uma institui„…o, logo tudo seria uma institui„…o (tanto os
elementos discursivos quanto os n…o-discursivos).
Esse impasse obriga-o a lembrar seus leitores de que seu problema n…o †
propriamente “ling‰•stico”, mas a produ„…o de dispositivos que articulam rela„Šes de
poder e saber. Esse exerc•cio que, certamente, envolve uma teoria da enuncia„…o n…o
pode ser reduzido € anˆlise ling‰•stica, como observa o prƒprio Bakhtin (2000 p. 346).
Esse † um recurso ao qual Bourdieu procurou fugir, pois sabia dos impasses que
traziam. Para o sociƒlogo, o campo, as trocas simbƒlicas, a doxa, o habitus s…o
objetivados no mundo, ou seja, s…o institu•das. Ter permanecido no campo da filosofia,
com o qual Bourdieu rompeu, pode ter trazido alguns problemas sociolƒgicos no tipo de
problema proposto por Foucault.
De certo modo, pode-se dizer que as prˆticas discursivas e n…o-discursivas
constituem um dispositivo, objetivam-se no mundo, ganham uma positividade. Nesse
sentido, a loucura, p.e.x, submetida aos saberes e poderes da medicina, produz n…o sƒ
um campo discursivo, mas uma arquitetura de reclus…o e distribui„…o das diversas
patologias no espa„o. Assim:
“O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito †
simplesmente que ele n…o pesa como uma for„a que diz n…o, mas que de fato
ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso.
Deve-se considerˆ-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo
social muito mais do que uma inst•ncia negativa que tem por fun„…o
reprimir.” (Foucault, 1988 p. 8)

81
Nesse mesmo caminho, ao identificar a rela„…o entre discurso e desejo como
formadores de um campo, Foucault aproxima-se de Bourdieu e sua id†ia de Illusio:
"Tendo defendido meu uso da no„…o de interesse, tentarei agora
mostrar como podemos substitu•-la por no„Šes mais rigorosas como a de
illusio, investimento ou at† libido. (...) illusio, palavra latina que vem da raiz
ludus (jogo), poderia significar estar no jogo, estar envolvido no jogo, preso
pelo jogo, acreditar que o jogo vale a pena ou, para dize-lo de maneira mais
simples, que vale a pena jogar. (...)Dito de outro modo, os jogos sociais s…o
jogos que se fazem esquecer como jogos e a illusio † essa rela„…o encantada
com um jogo que † produto de uma rela„…o de cumplicidade ontolƒgica entre
as estruturas mentais e as estruturas objetivas do espa„o social." (Bourdieu,
1996. p. 140)

As sociedades modernas produzem dispositivos disciplinares capazes de


organizar uma vasta “economia” de saber/poder, t†cnicas, jogos de linguagem,
institui„Šes capazes de fazer circular esse poder de maneira cont•nua. Inspirado por
Nietzsche, Foucault observa que “a verdade n…o existe fora do poder” e que “a verdade
† deste mundo” e estamos, todos nƒs, submetidos a um “regime” da verdade.
N…o † o sujeito o ponto de partida da eficˆcia simbƒlica de um enunciado
particular, mas o dispositivo social no qual se insere, em meio aos ritos de institui„…o e
as inst•ncias de legitima„…o dos saberes e poderes que produz. As “forma„Šes sociais de
sentido”, que constituem os dispositivos sociais, compŠem-se desses elementos
discursivos e n…o-discursivos, de esferas de dizibilidade e de visibilidade:
“Da g‡nese emp•rica das visibilidades criam-se modos de ver e fazer
ver, jˆ da produ„…o das dizibilidades surgem maneiras espec•ficas de falar e
fazer falar. • no conjunto de falas e olhares que o objeto se constitui (...) A
forma de visibilidade pris…o, por exemplo, faz ver presos, a da escola,
alunos. A arquitetura espec•fica desses espa„os, com os seus regimes de vida
forjados pela fun„…o dos horˆrios e das atividades – o que fazer, como fazer,
quando, onde -, constrƒi os objetos do plano das visibilidades.” (Tedesco In:
Queiroz & Cruz, 2007 p. 144-145)

• o que Deleuze chama de “curvas de visibilidade” e “curvas de enuncia„…o” ou


“regimes de enuncia„…o” presentes nos dispositivos (1990), que os transformam em
verdadeiras mˆquinas de fazer ver (um “regime de luz” que produz o vis•vel e o
invis•vel sobre corpos, prˆticas, conhecimento) e um fazer falar (um investimento, um
“regime de enuncia„…o”, um processo de produ„…o da subjetividade). Quais s…o os
lugares (o escritƒrio, a cl•nica, o laboratƒrio, a reparti„…o p’blica, a sala de aula) nos
quais os agentes s…o reconhecidos, incorporam, recriam, estabelecem e s…o investidos de
uma subjetividade ?

82
Foucault n…o teme efetuar deslocamentos em suas teorias, hesita, muda de
dire„…o, reavalia posi„Šes, produz conscientemente um discurso dialƒgico. O que se
constata na anˆlise de sua obra e de suas palestras e entrevistas † o movimento de uma
arqueologia do saber (centrada nas forma„Šes discursivas) para uma genealogia do
poder (que pressupŠe, tamb†m, as rela„Šes n…o-discursivas) at† uma composi„…o
conceitual mais complexa, identificada como dispositivo. O saber (a vontade de
verdade) e o poder realizam-se efetivamente pela produ„…o de dispositivos sociais. O
dispositivo, como foi visto, † identificado com uma rede heterog‡nea de elementos que
comportaria discursos, institui„Šes, disciplinas, organiza„Šes arquitet‘nicas,
proposi„Šes filosƒficas etc. Ele comportaria o dito e o n…o dito dessa rede. Esse
dispositivo † a resposta € percep„…o e constru„…o de um tipo qualquer de “urg‡ncia” (a
loucura, a sexualidade, a criminalidade etc.).
Entretanto, † preciso fugir da imagem do poder e do saber, produzidos pelo
dispositivo, como o ocupante de um lugar centralizado do qual emanaria. Para Foucault,
o poder † um feixe de rela„Šes, um regime de micro-rela„Šes e estrat†gias, que
pressupŠe uma capilaridade. Ele n…o apenas pressupŠe repress…o e proibi„…o capaz de
excluir aqueles que n…o o possuem, mas pressupŠe, tamb†m, um investimento. O poder
investe os agentes sociais, impŠe-se por meio deles, apƒia-se neles.
Nesse sentido, seria correto dizer que o que se configura nos dias de hoje † o
aparecimento de novos dispositivos sociais (as novas tecnologias de comunica„…o e
informa„…o, novos regimes de visibilidade e de enuncia„…o, novas arquiteturas, novas
regimes legulatƒrios) de uma sociedade de controle frente € nova “urg‡ncia” do s†culo
XXI.

83
Considerações finais

Na análise da relação entre as Ciências Sociais e as demais disciplinas


diretamente envolvidas no estudo dos processos de produção de sentido foi possível
delinear um pequeno campo de problemas e premissas capazes de orientar o trabalho do
pesquisador em Comunicação. Este trabalho de pesquisa estabeleceu uma explícita
relação dialógica entre as reflexões propostas por Wittgenstein, Bakhtin, Foucault e
Bourdieu. A partir dessa interlocução foi possível reconhecer importantes contribuições
e apontar algumas críticas ao Interacionismo simbólico, à Estética da Recepção e à
Teoria das Mediações.

Como foi visto no decorrer deste trabalho, os grupos humanos existem em ação
e para agir precisar conferir sentido ao mundo em que vivem. Esse sentido é produzido
coletivamente, mas depende sempre de um complexo processo interpretativo, realizado
pelos indivíduos que os compõem. Para que possam agir, os indivíduos precisam de
algum modo, ter algum tipo de definição da situação em que se encontram. A produção
de sentido no mundo depende dos processos de interação nos quais os indivíduos
aprendem a se situar simbolicamente diante do(s) outro(s). Assim, quando uma criança
aprende a falar, ela não aprende apenas os signos ou códigos lingüísticos de uma
determinada língua, mas a posição a partir da qual se fala, o ritmo, o senso prático e
ritualizado dessas trocas simbólicas. Essas são premissas do Interacionismo Simbólico,
da Pragmática e estão muito próximas, em alguns aspectos, das formulações
bakhtinianas e bourdieusianas.

A teoria das Mediações também entende a definição de situação como uma das
mediações no processo de produção social de sentido. Logo, a família, a vizinhança, os
amigos do futebol e da escola etc. produzem situações de comunicação capazes de
redirecionar, recriar e reavaliar qualquer produto simbólico que lhes chega por
intermédio dos meios de comunicação.

Todas essas teorias colocam-se, de alguma forma, contra um modelo linear e


unidirecional de comunicação que se destacou no desenvolvimento da chamada
Communication Research. Um modelo de progressão linear da comunicação que se
inicia no emissor, passa por um meio qualquer e termina no receptor (como um
destinatário).

84
Bakhtin, muito antes do aparecimento da Communication Research no final dos
anos 50, já apontava suas falhas conceituais e chamava a atenção para uma teoria do
enunciado e dos gêneros do discurso. Sua concentração nos atos de fala rompe com a
postura de Saussure (importante para o aparecimento do estruturalismo de Levi-Strauss)
e procura mostrar que se o enunciado é um momento único de ação dos indivíduos no
mundo (sua originalidade) ele, também, é controlado (socialmente) pela sua localização
em um gênero de discurso. Além disso, todo enunciado é um ponto na complexa rede de
enunciados já produzidos, com os quais mantém-se unido, questiona, reavalia etc.

A teoria do enunciado de Bakhtin encontra extrema afinidade com a teoria da


enunciação de Foucault em A Arqueologia do Saber, obra que, também, abre uma série
de pontos de articulação com os estudos de Bourdieu a respeito das trocas lingüisticas.
Nesse caso, o discurso deixa de ser visto apenas como uma troca de signos, que depende
de um ajuste mais ou menos adequado entre codificação e decodificação, para
representar, também, uma relação marcada por valores. Trata-se de uma troca simbólica
sujeita a avaliações, uma relação marcada por relações de autoridade e poder, que
produz e delimita, de alguma forma, as fronteiras do que pode ser dito e aqueles que
podem pronunciá-lo.

Bourdieu entende que o discurso está imerso na relação entre o habitus


lingüístico (desenvolvido pelos agentes sociais em sua experiência no mundo social) e
um mercado simbólico. Esse mercado permite a antecipação do valor simbólico dos
enunciados nele produzidos. A fala é marcada por uma competência social específica.
Uma competência caracterizada por um senso de aceitabilidade e oportunidade que
permite aos agentes sociais antecipar os lucros simbólicos de sua ação. Em cada
mercado simbólico circulam gêneros de discurso muito particulares e o domínio prático,
o senso prático desses jogos discursivos é fundamental para a avaliação dessas trocas.
Não se pode falar a qualquer hora, com qualquer um, em qualquer situação, de qualquer
modo. O gênero orienta escolhas, composição, ritmos, jogos enunciativos muito
particulares. Bakhtin e Bourdieu tem um importante ponto de convergência aqui.

Se a fala somente pode ser entendida no contexto, na situação em que ocorre (tal
como o Interacionismo observa) é preciso observar, também, que os agentes sociais
identificam esses contextos e situações a partir de experiências passadas que tiveram
com esses mesmos contextos. O conceito de habitus lingüístico, apontado por Bourdieu,
procura mostrar que falar é colocar em movimento certas disposições sociais (modos de

85
articulação e pronúncia, posturas corporais, escolhas semânticas e sintáticas,
antecipações e avaliações) adquiridos no longo processo de socialização dos agentes
sociais. Um senso prático dos jogos de linguagem, o domínio de uma técnica social tal
como destacou, antes de todos, Wittgenstein. Um domínio prático dos jogos de
linguagem, um domínio prático dos gêneros do discurso que escapam de qualquer plano
estratégico ou marcado pelo cálculo. Como observa Bourdieu, os atos de fala podem ser
razoáveis sem que tenham a razão como guia.

Finalmente, realizou-se aqui uma relação dialógica entre a teoria dos campos de
Bourdieu e a teoria dos dispositivos de Foucault. Se os campos sociais são construídos
historicamente como um universo relativamente autônomo de objetos, discursos,
posições, disposições, lutas simbólicas, mecanismos de consagração etc. depreende-se
que o método arqueológico e genealógico de Foucault é um dos meios pelos quais se
pode identificar o complexo mecanismo de sua construção.

A arqueologia do saber e a genealogia do poder que instituem (positivam) os


campos são marcadas pela descontinuidade, pelo regime de dispersão, por uma
materialidade de suas formações discursivas e não-discursivas. Bakhtin também aparece
aqui, com a sua teoria dos gêneros secundários (relacionados ao campo científico,
religioso, profissional etc., mais complexos que os gêneros da fala cotidiana, primários),
para mostrar que o enunciado em um campo qualquer exige o domínio prático do jogo
enunciativo com os gêneros desse campo.

Pode-se dizer, ainda, que um campo pode ser identificado pelos dispositivos
sociais que lhe dão identidade e materialidade (o hospital, a escola, o laboratório, o
campus, a igreja etc.) e seus mecanismos de vigilância e controle das práticas e dos
discursos que ele cria, delimita e faz circular.

A correta posição e entendimento da questão da produção social de sentido e das


condições sociais de sua eficácia simbólica são fundamentais para o entendimento dos
fundamentos sociológicos da comunicação.

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