Você está na página 1de 39

FACULDADE DA TERRA DE BRASÍLIA

CURSO DE AGRONOMIA

ALEX LEONARDO TOSTA

AVALIAÇÃO DE GENÓTIPOS DE CEBOLA EM


DIFERENTES NÍVEIS DE ÁGUA NO SOLO

ORIENTADOR: VALTER RODRIGUES OLIVEIRA

RECANTO DAS EMAS - DF


2009
FACULDADE DA TERRA DE BRASÍLIA
CURSO DE AGRONOMIA

ALEX LEONARDO TOSTA

AVALIAÇÃO DE GENÓTIPOS DE CEBOLA EM


DIFERENTES NÍVEIS DE ÁGUA NO SOLO

Monografia apresentada ao Curso


de Agronomia da Faculdade da
Terra de Brasília – FTB, como
requisito parcial a obtenção do título
de Bacharel em Agronomia.

ORIENTADOR: VALTER RODRIGUES OLIVEIRA

RECANTO DAS EMAS - DF


2009
ALEX LEONARDO TOSTA

AVALIAÇÃO DE GENÓTIPOS DE CEBOLA EM


DIFERENTES NÍVEIS DE ÁGUA NO SOLO

Comissão examinadora constituída por:

___________________________________________________

Dr. Valter Rodrigues Oliveira


Pesquisador – Embrapa Hortaliças
Orientador

___________________________________________________

Ms. Júlio Henriques Fernandes César


Professor – Faculdade da Terra de Brasília
Examinador

RECANTO DAS EMAS – DF, Dezembro de 2009


Dedico este trabalho aos meus irmãos
Fabio, Hugo (Tiuza) e Pedro, e a
todos aqueles que de alguma forma
contribuíram para a sua realização.
AGRADECIMENTOS

A Deus, por ser o principal responsável por trilhar meus caminhos.

Aos meus pais Ajax Batista Tosta e Dionuza Barbosa, por toda
dedicação e empenho na minha educação.
Ao meu tio Hermes Tosta, pelo apoio e ajuda financeira durante a
faculdade.
À minha avó Lizomira Dias da Costa pelo carinho e compreensão na
realização deste trabalho.
À Embrapa Hortaliças, pelo suporte e oportunidade de realizar o estágio
e este trabalho.
A minha companheira Lili (in memoriam), que sempre me ajudou nos
momentos mais difíceis.
Ao Dr. Valter Rodrigues Oliveira, pelos ensinamentos, orientação deste
trabalho e, principalmente, a oportunidade dada.
Ao Dr. Agnaldo Donizete Ferreira de Carvalho, pelo auxílio na condução
do experimento de campo.
Ao professor Júlio Cesar, pelos ensinamentos e por ter aceitado o
convite de ser meu examinador
A Dr. Nirlene Junqueira Vilela, pela ajuda dada ao longo do estágio na
Embrapa Hortaliças.
Aos funcionários de campo da Embrapa Hortaliças Antonio Ribeiro
Pereira (Tonhão) e Rivadalvo Pereira Gomes (Riva), pela contribuição durante
o experimento de campo.
Aos amigos Gustavo e Cléia, pelo apoio e amizade ao longo dos
trabalhos.
A todos os professores da FTB que ministraram disciplinas durante o
decorrer do curso.
Aos demais colegas e amigos da FTB e da Embrapa Hortaliças, pela
amizade e colaboração.
Finalmente, a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para a
realização e sucesso deste trabalho.
LISTA DE TABELAS

Tabela 1. Resumo das análises de variância, relativas à massa fresca de


bulbos totais (diâmetro 35 mm), massa média de bulbos totais, massa seca
de folhas e teor de massa seca dos bulbos de seis genótipos de cebola
cultivados em cinco níveis de água no solo.......................................................35

Tabela 2. Massa fresca de bulbos totais (diâmetro 35 mm), massa média de


bulbos totais, massa seca de folhas e teor de massa seca nos bulbos de seis
genótipos de cebola cultivados em diferentes níveis de água no
solo....................................................................................................................36
LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Detalhes do experimento em casa de vegetação..............................37

Figura 2. Massa fresca de bulbos totais (diâmetro 35 mm) de genótipos de


cebola em função de níveis de água no solo.....................................................38

Figura 3. Massa média de bulbo de genótipos de cebola em função de níveis


de água no solo.................................................................................................38

Figura 4. Teor de massa seca no bulbo de genótipos de cebola em função de


níveis de água no solo........................................................................................39
RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo avaliar o desempenho de genótipos de


cebola em diferentes níveis de água no solo. O experimento foi conduzido em
condições de casa de vegetação na Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa) – Centro Nacional de Pesquisa de Hortaliças
(CNPH). Os tratamentos, em esquema fatorial 6x5, consistiram da combinação
de seis genótipos de cebola („Granex Ouro‟, „Optima F1‟, CNPH 6400,
407Ax474B, 433Ax480B, Grano TX 08), com cinco níveis de água (80, 70, 60,
50 e 40% da capacidade de retenção do solo). Foram avaliadas a massa
fresca de bulbos, a massa média de bulbos, a massa seca de folhas e a
concentração de massa seca no bulbo. Os genótipos de cebola avaliados
apresentaram diferenças marcantes. O genótipo Grano TX 08 foi o mais
produtivo, o de maior massa média de bulbo, o de maior massa seca de folhas
e o de menor concentração de matéria seca no bulbo. Os genótipos CNPH
6400, 407Ax474B e 433Ax480B, todos do tipo Baia Periforme, foram os menos
produtivos, os de menor massa média de bulbo e os com maior concentração
de matéria seca nos bulbos. Os genótipos mais produtivos tenderam a
apresentar menor concentração de matéria seca nos bulbos. A bulbificação foi
drasticamente afetada pelo déficit hídrico no solo.

Palavras-chave: Allium cepa, estresse hídrico, bulbificação.


ABSTRACT

This study aimed to evaluate the performance of onion genotypes at different


levels of water in the soil. The experiment was conducted under greenhouse
conditions in the Brazilian Agricultural Research Corporation (Embrapa) -
National Research Center for Vegetables (CNPH). The treatments in a factorial
6x5, included a combination of six genotypes of onion ('Granex Ouro', 'Optima
F1', CNPH 6400, 407Ax474B, 433Ax480B, Grano TX 08), and five water levels
(80, 70, 60 , 50 and 40% of the retention capacity of soil). We have measured
the fresh weight of bulbs, the average bulb weight, dry weight of leaves and dry
mass concentration in the bulb. Onion genotypes evaluated showed marked
differences. Genotype Grano TX 08 was the most productive, the most average
mass of the bulb, the highest dry mass of leaves and with lower concentrations
of dry matter in the bulb. Genotypes CNPH 6400, 407Ax474B and 433Ax480B,
all of type Baia Periforme were the least productive, those with lower average
weight of bulb and the highest concentration of dry matter in the bulbs. The
higher bulb yield tended to have lower concentrations of dry matter in the bulbs.
The onset of bulbing was dramatically affected by soil water deficit.

Keywords: Allium cepa, water stress, bulbification.


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO...............................................................................................11

2. REFERENCIAL TEÓRICO............................................................................13

2.1. A CULTURA DA CEBOLA..........................................................................13

2.2. CULTIVARES DE CEBOLA........................................................................13

2.3. REGIÕES DE PLANTIO DA CEBOLA........................................................14

2.4. CLIMA.........................................................................................................15

2.5. IMPORTÂNCIA DA IRRIGAÇÃO................................................................16

2.6. IRRIGAÇÃO DA CULTURA DA CEBOLA..................................................20

2.7. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O ESTRESSE................................22

2.8. EFEITO DO ESTRESSE HÍDRICO............................................................24

2.9. ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA AO ESTRESSE HÍDRICO ................24

3. MATERIAL E MÉTODOS..............................................................................22

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO....................................................................25

5. CONCLUSÕES..............................................................................................29

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................30
1. INTRODUÇÃO

A cebola, como as demais espécies hortaliças em geral, é exigente em


água para se obter boa produtividade com qualidade. Assim, na maior parte da
área cultivada com cebola no Brasil e no mundo, a ocorrência de seca ou
períodos de estresse hídrico é um dos principais fatores abióticos causadores
de substanciais reduções na produtividade (Kumar et al., 2007). A irrigação,
além de inacessível para a maioria dos agricultores, devido ao seu alto custo,
quando utilizada, eleva substancialmente o custo de produção e
conseqüentemente o preço final dos produtos.

Com relação aos recursos hídricos, já se pode prever uma crise mundial
de água potável em um futuro próximo. Segundo Meirelles (2000), a irrigação
responde por 73% do consumo mundial de água, ficando 21% para uso
industrial e os 6% restantes para uso doméstico. Para Chaves & Oliveira
(2004), aproximadamente 70% de toda a água potável do planeta, utilizada
pelo homem, é destinada à irrigação e 40% dos alimentos são produzidos sob
este sistema.

Costa (2007) verificou que os estresses abióticos, como a seca, podem


reduzir significativamente os rendimentos das lavouras e restringir as latitudes
e os solos onde espécies comercialmente importantes podem ser cultivadas.
As implicações são enormes, uma vez que não somente produtores, mas toda
a sociedade é afetada. A ocorrência de veranicos e de previsões ambientais
que indicam a ocorrência de um aquecimento global nas próximas décadas,
onde certamente períodos de seca acompanharão este fenômeno, aumentam a
necessidade de desenvolvimento de cultivares tolerantes ao déficit hídrico para
que ocorra a manutenção da produção agrícola brasileira e mundial.

Neste sentido, é necessário que esforços sejam direcionados com o


objetivo de encontrar soluções para os efeitos diretos e indiretos do
aquecimento global. Especificamente em relação ao uso da água, é
fundamental que programas de melhoramento genético de plantas dediquem

11
esforços na busca de cultivares menos exigentes neste insumo. Diversos
programas de melhoramento de plantas vêm buscando desenvolver novos
materiais, mais adaptados a condições edafoclimáticas estressantes, tais como
temperaturas elevadas, solos ácidos, baixa disponibilidade de nutrientes e
déficit hídrico (Terra, 2008). No entanto, ainda são incipientes os resultados
concretos em termos de novas cultivares com caracteres morfofisiológicos que
promovam maior eficiência no uso de insumos utilizados no processo
produtivo.

Especificamente em relação à cebola, apenas pequena parte dos


produtores brasileiros faz uso de irrigação, tornando ainda mais importante o
desenvolvimento de cultivares mais bem adaptadas a condições de deficiência
hídrica. Assim o presente trabalho teve como objetivo avaliar, em condições de
casa de vegetação, o desempenho de genótipos de cebola em diferentes níveis
de água no solo.

12
2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1. Cultura da Cebola

A cebola (Allium cepa L.) possui três prováveis centros de origem: as


regiões de Punjab e Cachemira, localizadas no Norte da Índia, o Afeganistão e
a região que compreende o Tadjiquistão e Uzbequistão (Kassab, 1994). Alguns
autores citam que em muitas regiões da extensa zona compreendida entre os
países do Mediterrâneo Oriental e a Índia, crescem formas espontâneas da
planta (Sobrino Illescas & Sobrino Vesperinas, 1992).

Segundo dados da FAO (2009), a cebola é a terceira hortaliça mais


produzida no mundo e sua produção mundial em 2007 foi de 64,47 milhões de
toneladas, em 3,45 milhões de hectares (produtividade média de 18,64 t ha-1).
No Brasil, após a batata e o tomate, a cebola destaca-se como a terceira
hortaliça economicamente mais importante, principalmente pela quantidade de
emprego e renda que gera em toda a sua cadeia produtiva (Costa et al., 2005).
A importância dessa hortaliça está ligada principalmente ao seu aspecto social,
por envolver um número grande de famílias e por ser típica de pequenas
propriedades (Boeing, 2002).

2.2. Cultivares de Cebola

As cultivares de cebola são mais bem adaptadas a locais e épocas nas


quais ocorrem o mínimo de fotoperíodo e de temperatura exigidos para a
bulbificação. Entre as cultivares de ciclo precoce, médio e tardio que podem ser
plantadas nos estados da região Sul citam-se: Aurora (plantio em abril-junho),
Baia Periforme (março-junho), Bola Precoce (março-maio), Bella Crioula
(março-maio), Crioula (abril-junho). Entre as cultivares super precoces,
precoces e de ciclo médio que podem ser plantadas nas regiões Sudeste tem-
se: Alfa Tropical (plantio em novembro-janeiro), Aurora (abril-junho), Baiadura
13
(março-junho), Baia Periforme Super Precoce (março-julho), Baia Periforme
(março-junho). Na região Centro-Oeste são plantadas cebolas super precoces,
precoces e médias como Optima F1, Perfecta F1, Sirius, Mercedes, entre
outras. Nos estados do Nordeste plantam-se cultivares “super precoces” e
precoces, especialmente as da série IPA como Vale Ouro IPA 11 e
Franciscana IPA 10 e a cultivar BRS Alfa São Francisco desenvolvida pela
Embrapa (Embrapa, 2009).

A maioria das cultivares disponíveis são para semeio de final de verão a


meados de outono e colheita de outubro a novembro, época considerada ideal
no Brasil. O cultivo de verão (semeio de meados da primavera a inicio do
verão) tem como principal inconveniente a bulbificação sob altas temperaturas,
chuvas excessivas e maior incidência de doenças, praga e plantas daninhas. A
cultivar Alfa Tropical, disponibilizada pela Embrapa Hortaliças e Epamig em
1998, é uma cebola para plantio no verão das regiões Sudeste e Centro Oeste
(Embrapa, 2009).

2.3. Regiões de Plantio da Cebola

As distintas regiões produtoras de cebola do país apresentam


diversidade quanto às épocas de semeadura e colheita. Isto possibilita o
atendimento da demanda nacional, com produção interna durante o ano todo
(Costa et al., 2007).

A época de plantio deve ser definida em função da compatibilização das


exigências fisiológicas da cultivar com as condições ambientais locais e do
mercado consumidor. O plantio na época certa determinada, principalmente,
em função das exigências climáticas de cada cultivar em relação ao
fotoperíodo e à temperatura, proporciona aumento da produtividade e melhoria
considerável na qualidade dos bulbos. Na região Sul (Santa Catarina, Rio
Grande do Sul e Paraná), efetua-se a semeadura no período compreendido
entre abril e junho, e a colheita de novembro a janeiro. Na região Sudeste (São

14
Paulo e Minas Gerais), faz-se a semeadura no período de fevereiro a maio e a
colheita de julho a novembro (Costa et al., 2007).

Na região Centro-Oeste (Goiás), Costa et al. (2007) afirma que a


semeadura é feita de fevereiro a março e a colheita de julho a setembro. No
Nordeste, o cultivo da cebola é realizado durante o ano todo, com
concentração de plantio nos meses de janeiro a março e colheitas de maio a
julho, para atender à demanda dos mercados consumidores das regiões
Nordeste, Sul e Sudeste.

2.4. Clima

Os elementos climáticos exercem forte influência sobre a cultura da


cebola, sendo os mais importantes a temperatura e o fotoperiodismo (Brewster,
1994). A cebola é fisiologicamente uma espécie de dias longos para
bulbificação que, de modo geral, não bulbifica em dias com duração inferior a
10 horas de luz. Em função do número de horas de luz diária exigido, as
cultivares de cebola são tradicionalmente classificadas em quatro grupos: de
dias curtos (DC), de dias intermediários (DI), de dias longos (DL), e de dias
muito longos (DML) (Bosch Serra & Currah, 2002). As DC iniciam a
bulbificação em dias com pelo menos 12 horas de luz, as DI exigem dias com
13 ou mais horas de luz, as DL exigem mais de 14 horas de luz diária, e as
DML exigem dias com duração superior a 15 horas.

De acordo com Resende et al. (2007), no Brasil, em função dos


fotoperíodos que ocorrem ao longo do ano, as cultivares possíveis de serem
plantadas em condições normais de temperatura são as dos tipos DC e DI.
Uma vez satisfeita às exigências fotoperiódicas para a indução à bulbificação, é
importante temperaturas elevadas para completa formação dos bulbos (ideal
entre 15 e 25ºC).

15
2.5. Importância da Irrigação

Por irrigação, subtende-se a aplicação de água ao solo no qual se


pratica a agricultura, com o objetivo de suplementar a chuva, aumentando,
assim, o crescimento das plantas, a qualidade do produto e a produtividade
(Reichardt, 1990). Ainda segundo Reichardt (1990), a irrigação é praticada
principalmente em regiões áridas e semi-áridas, porque nestas regiões a chuva
é geralmente insuficiente para o ciclo completo de uma cultura, de tal forma
que a produção agrícola ou é impossível ou é severamente prejudicada sem a
aplicação artificial de água. É comum também em regiões úmidas a presença
de períodos de déficit de água que limitam drasticamente a produtividade do
solo e, nestes casos, a irrigação suplementar garante a agricultura produtiva.

De acordo com Ludlow & Muchow (1990), a redução no conteúdo de


água no solo causa significativa variação na distribuição e desenvolvimento
radicular, podendo mudar o período de disponibilidade e a quantidade de água
disponível para as plantas. No entanto, nem toda água que o solo armazena é
disponível às plantas. Segundo Carlesso (1995) o suprimento de água às
plantas é determinado pela habilidade da cultura em utilizar a água
armazenada no solo, enquanto a demanda da atmosfera está relacionada à
combinação dos fatores meteorológicos interagindo com o dossel vegetativo da
cultura.

O uso total de água pelas plantas, também chamado uso consuntivo,


engloba toda a água transpirada pelas plantas, a evaporada da superfície do
solo e retida nos tecidos vegetais. Como a parcela retida nos tecidos vegetais
representa cerca de 1% do total transpirado, durante todo o ciclo de
crescimento, a necessidade das plantas refere-se apenas à evapotranspiração
(Costa et al., 2002).

Colocar em disponibilidade genótipos produtivos e com características


de tolerância a estresses abióticos, especialmente quanto à deficiência hídrica,
é desafio contínuo para os programas de melhoramento, pois a seca é a maior

16
fonte de instabilidade do rendimento das hortaliças em áreas sujeitas a tal
condição (Lazar et al., 1995).

2.6. Irrigação da Cultura da Cebola

A irrigação é uma das práticas agrícolas de maior importância para a


atividade hortícola. O seu sucesso está diretamente relacionado ao correto
dimensionamento e manejo do sistema de irrigação, além da água utilizada ser
de boa qualidade. Questões sobre quanto e quando irrigar não são tão simples
quanto parecem, podendo acarretar em drásticas reduções de produtividade
e/ou desperdício de água (Marouelli et al., 2008).

A cebola é constituída por cerca de 90% de água, possui sistema


radicular pouco desenvolvido e ciclo curto, o que torna o uso da irrigação de
fundamental importância para a obtenção de bulbos mais uniformes e de
melhor qualidade, garantindo assim alta produtividade, além de possibilitar
mais de um ciclo de cultivo por ano (Costa et al., 2002; Embrapa, 2009). No
Brasil Central seu cultivo é totalmente realizado com o uso da irrigação, já na
região Sul predomina plantios sem irrigação, observando-se tendência de
aumento no uso de irrigação nos últimos anos, com incremento de
produtividade e menor risco de perda da produção (Marouelli et al., 2005).

Marouelli et al., (2005) afirma que apesar da cebola ser sensível ao


déficit hídrico, necessitando de boa disponibilidade de água no solo e irrigações
freqüentes para seu bom rendimento, o excesso de água pode ser igualmente
prejudicial, favorecendo a incidência de doenças, reduzindo o crescimento e,
conseqüentemente, a produção e a qualidade de bulbos. Normalmente, são
preferíveis as irrigações por aspersão ou infiltração, pois o alagamento do
terreno pode levar ao apodrecimento dos bulbos. A irrigação deve cessar logo
após iniciada a maturação, ou seja, pouco antes da colheita. Tal medida
contribui para a conservação do produto após sua colheita (Angeletti &
Fonseca, 1987; Minami & Tessarioli Neto, 1994; Embrapa, 2009).

17
A deficiência hídrica pode provocar perdas significativas à cebolicultura,
pois as taxas de transpiração, fotossíntese e crescimento são reduzidas por um
leve grau de falta de umidade do solo. A cebola é mais sensível ao estresse
provocado pela seca do que muitas outras culturas (Brewster, 1990).

2.7. Considerações Gerais Sobre o Estresse

O estresse hídrico é uma situação comum na agricultura, resultando,


quase invariavelmente, em decréscimo de crescimento e produção das culturas
(Lecoeur & Sinclair, 1996). A freqüência e a intensidade do déficit hídrico
constituem os fatores mais importantes à limitação da produção agropecuária
mundial. De acordo com Ortolani & Camargo (1987), sem se considerar os
efeitos extremos, esta limitação é responsável por 60 a 70% da variabilidade
final da produção.

A falta de água na cultura da cebola pode levar a planta a apresentar


perda de turgidez e tonalidades verde mais escuro das folhas, podendo
acarretar redução de produtividade da ordem de 25%; ao passo que, quando
as irrigações são realizadas apenas quando as plantas apresentam sintomas
visuais de déficit hídrico severo, ou seja, murchamento das extremidades
foliares e predominância de coloração verde-acinzentado, a queda de
produtividade pode chegar a 60%, além de comprometer a qualidade dos
bulbos (Embrapa, 2009).

Para a maioria das hortaliças, o teor de água deve ser mantido próximo
à capacidade de campo para obter-se produtividade máxima. Naturalmente,
isso depende da espécie, sendo as hortaliças folhosas as mais exigentes,
seguindo-se as hortaliças produtoras de frutos e as tuberosas (Filgueira, 1982).

A necessidade total de água da cultura da cebola, dependendo das


condições climáticas, do ciclo da cultivar e do sistema de irrigação,
normalmente varia de 350 a 650 mm. A necessidade aumenta de forma
proporcional ao crescimento vegetativo das plantas, atingindo o máximo no

18
estádio de bulbificação e reduzindo nos estádios de maturação e colheita
(Embrapa, 2009).

2.8. Efeito do Estresse Hídrico

As plantas, sob condições de deficiência hídrica, apresentam como um


dos primeiros efeitos biofísicos significativos, a redução na turgescência da
célula e alterações nos processos fisiológicos dependentes do turgor, como o
crescimento celular (Taiz & Zeiger, 2004). Com o aumento da severidade do
déficit hídrico, a fotossíntese e a transpiração são afetadas devido,
principalmente, ao fechamento dos estômatos e ao bloqueio da difusão de
dióxido de carbono (CO2) (Kumar et al., 1994), bem como a redução do
conteúdo de clorofila em função da desintegração de membranas causado pelo
estresse oxidativo em espécies menos tolerantes (Moran et al., 1994).

Além disso, com a perda do turgor, ocorre diminuição do volume celular,


aumento progressivo na concentração do citossol e desidratação do
protoplasto, devido ao fato de uma célula não ser capaz de retirar água do
ambiente a menos que o potencial hídrico nesta seja menor que o do ambiente
ao redor, devendo estabelecer um gradiente no potencial hídrico para que a
água flua do exterior para a célula (Buchanan et al., 2000; Larcher, 2004).

Assim, para extrair água mais firmemente retida no ambiente, as células


acionam um mecanismo denominado ajuste osmótico, que é o processo pelo
qual o potencial hídrico pode ser diminuído sem que haja decréscimo no turgor
ou no volume celular através da acumulação de solutos compatíveis (ou
osmólitos compatíveis), que são compostos orgânicos comumente sintetizados
pela célula e que não interferem nas funções das enzimas (Taiz & Zeiger,
2004). A cebola é uma planta que apresenta pouca habilidade para diminuir o
potencial osmótico da folha para compensar o estresse hídrico (Andrade et al.,
2008).

19
2.9. Estratégias de Resistência ao Estresse Hídrico

A produtividade de plantas, limitada pela água, depende da quantidade


disponível deste recurso e da eficiência do seu uso pelo organismo. Uma
planta capaz de obter mais água ou que tem maior eficiência no seu uso
resistirá melhor à seca. Algumas plantas possuem adaptações, como os tipos
fotossintéticos C4 e CAM, que lhes permitem explorar ambientes mais áridos.
Além disso, as plantas exibem mecanismos de aclimatação que são ativados
em resposta ao estresse hídrico (Taiz & Zeiger, 2004). Dentre esses
mecanismos destacam-se:

Fechamento estomático: quando as raízes das plantas percebem a


deficiência hídrica no solo, uma das primeiras respostas é o fechamento
estomático, causando a redução da evapotranspiração. As respostas
estomáticas à desidratação foliar podem apresentar ampla variação inter e
intra-específica (Taiz & Zeiger, 2004).

Absorção mais eficiente de água: algumas espécies de plantas


desenvolveram um sistema radicular bastante profundo e/ou denso, o que
possibilita buscar água em regiões mais profundas do solo (Larcher, 2004),
como é o caso de muitas espécies da caatinga e do cerrado. Outras, porém,
conseguem sintetizar sais em suas raízes, criando potencial osmótico menor,
aumentando, assim, a possibilidade de entrada de água.

Aumento da espessura da cutícula: na maioria das plantas, as células


epidérmicas são cobertas por uma camada praticamente impermeável à água,
denominada cutícula (Ferri, 1985). Quando a cutícula é espessa, a perda de
água ocorre quase exclusivamente pelos estômatos. As plantas ao serem
submetidas ao déficit hídrico podem tornar a cutícula mais espessa, reduzindo,
assim, a perda de água para a atmosfera, o que pode ser reforçado pelo
fechamento estomático devido à ação do fitormônio ácido abscísico (ABA).

Redução da área foliar: com o estresse de seca, o teor de água na


planta diminui, resultando em pressão de turgor menor e subseqüente maior

20
concentração de solutos nas células, o que dificulta a perda de água (Taiz &
Zeiger, 2004), pois nesta condição existe um potencial osmótico menor. Esse
ajuste osmótico nas células auxilia na manutenção do balanço hídrico na
planta. As mesmas podem ainda promover a abscisão foliar, devido à síntese
do fitormônio etileno, reduzindo a sua superfície transpirante.

Reserva de água: algumas espécies de plantas desenvolveram meios


para estocar água em órgãos como caules, raízes, bulbos e outros, e utilizá-la
quando houver maior demanda pela planta e déficit hídrico no solo. Um
exemplo é a cebola que tem água como reserva em seu bulbo (Taiz & Zeiger,
2004).

Melhor utilização da água: plantas com mecanismo fotossintético C4 e


MAC apresentam melhor controle transpiratório, reduzindo consideravelmente
a perda de água para a atmosfera (Taiz & Zeiger, 2004).

A cebola demonstra uma estratégia conservativa de água, a transpiração


e a fotossíntese podem ser reduzidas em solos áridos e as plantas são
capazes de limitar seu crescimento e sobreviver por longo período de seca
(Andrade et al., 2008)

21
3. MATERIAIS E MÉTODOS

O experimento foi conduzido em casa de vegetação na Empresa


Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) - Centro Nacional de Pesquisa
de Hortaliças (CNPH), Fazenda Tamanduá, localizada na rodovia DF-158, na
área rural de Ponte Alta, em Brasília, Distrito Federal. A área experimental
possui as seguintes coordenadas geográficas: 15º 56‟ 00" de latitude sul, 48º
06‟ 00" de longitude oeste, altitude de 997,62 m.

O solo utilizado no experimento foi um Latossolo Vermelho-Amarelo


coletado no campo experimental da Embrapa Hortaliças. O solo apresentava
as seguintes características químicas antes da adubação: pH (H2O) de 5,8; 4,0
mg.dm-3 de P (mehlich-1); 20,7 g.dm-3 de M.O.; 127 mg.dm-3 de K; 10 mg.dm-3
de Na; 6,4 cmolc.dm-3 de Ca; 1,8 cmolc.dm-3 de Mg.

Depois de coletado, o solo foi autoclavado e em seguida adubado,


adicionando-se, para cada 150 dm3 de solo: 44,2 g de sulfato de potássio; 12,0
g de cloreto de potássio; 34,0 g de uréia; 1.060,0 g de superfosfato triplo e;
225,0 g de calcário dolomítico (PRNT 100%). A esta mistura, ainda foi
adicionado 5% de composto orgânico obtido de capim elefante e cama de
frango. O solo devidamente homogeneizado foi levado para a casa de
vegetação e espalhado sobre lona plástica para secar por cerca de 10 dias,
sendo em seguida transferido para vasos com capacidade para 5 dm3,
adicionando-se 4,6 kg de solo em cada vaso.

Para a determinação da capacidade de retenção de água do solo, três


vasos com capacidade para 5 dm3, contendo furos na base, foram forrados
com papel de filtro e cheios com 4,6 kg de solo. Em seguida os vasos foram
colocados dentro de um recipiente contendo lâmina de água de cerca de 5 cm,
de forma que o solo pudesse absorver água pela base até a saturação. Vinte e
quatro horas após, os vasos foram cobertos com filme plástico para evitar a
perda de água por evaporação e, em seguida, retirados da água e colocados
sobre bancada. Para a determinação da capacidade de retenção de água, os
vasos foram pesados a intervalos de 24 horas durante quatro dias até se obter
22
massa constante, o que ocorreu 48 horas depois de retirados da água,
obtendo-se, então, a capacidade de retenção de água do solo.

O experimento, em esquema fatorial 6x5, consistiu da combinação de


seis genótipos de cebola („Granex Ouro‟, „Optima F1‟, CNPH 6400, 407Ax474B,
433Ax480B, Grano TX 08), com cinco diferentes níveis de água (80, 70, 60, 50
e 40% da capacidade de retenção total). O delineamento experimental foi o de
blocos casualizados com cinco repetições e parcelas com três vasos,
totalizando 450 vasos.

As mudas (Figura 1) foram produzidas em bandejas de poliestireno


expandido de 128 células, tendo sido o semeio realizado em 05/05/09. Três
mudas foram transplantadas em cada vaso em 21/07/09, mantendo-se o nível
de água no solo em torno de 60% da capacidade de retenção até 14/09/09,
quando, então, eliminou-se uma planta de cada vaso e iniciou-se a aplicação
dos níveis de água pré-estabelecidos.

O teor de umidade do solo foi mantido aproximadamente constante por


meio de pesagens diárias dos vasos, repondo-se a água evapotranspirada.
Para reduzir a perda de água por evaporação, colocou-se uma camada de
palha de arroz sobre o solo dos vasos.

Foram feitas três adubações nitrogenadas em cobertura, adicionando-se


em cada vaso o total de 5 g de uréia. Aplicações de inseticidas para controle de
tripes (Thrips tabaci) e de fungicidas para controle da mancha-púrpura
(Alternaria porri) foram realizadas de acordo com a necessidade da cultura.

As plantas foram colhidas em 31/10/09, quando já estavam tombadas,


ou seja, apresentavam indicativo de maturação completa dos bulbos.
Inicialmente foram colhidas as folhas das plantas, realizando-se o corte a cerca
de 1 cm acima do bulbo. Estas folhas foram colocadas em sacos de papel e
levadas para estufa de secagem (a 60ºC) até se obter massa constante,
determinando-se então a massa seca de folhas.

23
Os bulbos, depois de colhidos, foram levados para laboratório e
classificados pelo diâmetro transversal nas classes 1-chupeta (< 35mm); 2 (35
50mm); 3 (50 70mm); 4 (70 90mm); 5 (> 90mm), conforme
portaria no 529 de 18/08/1995 (Brasil, 1995), obtendo-se a massa fresca de
bulbos.

Para a determinação do teor de matéria seca nos bulbos, três bulbos de


cada tratamento foram pesados, picados, colocados em sacos de papel
identificados e levados para a estufa de secagem (a 60ºC) até se obter massa
constante, determinando-se então a massa seca dos bulbos e posteriormente o
teor de matéria seca.

Os dados de massa seca de folhas, massa fresca de bulbos, massa


média por bulbo e teor de matéria seca nos bulbos foram submetidos à análise
de variância e regressão. A comparação das médias de genótipos foi com base
no teste de Tukey. Para os níveis de água, foram ajustadas equações de
regressão relacionando as variáveis dependentes aos níveis de água
aplicados, selecionando-se os modelos com base na significância dos
coeficientes da regressão e estimativa do coeficiente de determinação.

24
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Não houve efeito significativo (Teste F, P<0,01) da interação genótipos x


níveis de água no solo sobre a massa fresca de bulbos de cebola, mas, houve
efeito significativo de genótipos e de níveis de água (Tabela 1). A massa fresca
dos bulbos aumentou de forma linear e crescente com o aumento da
disponibilidade de água no solo (Figura 2). O genótipo Grano TX 08 foi o que
apresentou a maior massa fresca de bulbos (211,60 g/parcela), diferindo
significativamente dos híbridos 407Ax474B e 433Ax480B e da população
CNPH 6400, que produziram, respectivamente, 137,0; 120,2 e 133,2 g/parcela
(Tabela 2).

Semelhante ao observado para o caráter massa fresca de bulbos,


também não houve efeito significativo (Teste F, P<0,01) da interação genótipos
x níveis de água no solo sobre a massa média dos bulbos, mas, houve efeito
significativo de genótipos e de níveis de água (Tabela 1). Houve aumento do
tamanho médio do bulbo de forma linear e crescente com o aumento da
disponibilidade de água no solo (Figura 3). A exemplo do observado para a
produção de bulbos por parcela, o genótipo Grano TX 08 foi o que apresentou
bulbos de maior massa média (35,27 g), diferindo significativamente dos
demais híbridos 407Ax474B e 433Ax480B e da população CNPH 6400, que
produziram, respectivamente, 22,83; 20,03 e 22,31 g (Tabela 2).

Quanto a massa seca das folhas, não houve efeito significativo (Teste F,
P<0,01) da interação genótipos x níveis de água e nem do fator nível de água,
mas houve efeito significativo de genótipos (Tabela 1). De acordo com a Tabela
2, o genótipo Grano TX 08 foi o que apresentou a maior massa seca de folhas,
com 6,12 g/parcela, e diferiu significativamente apenas do híbrido Optima F1,
que apresentou a menor biomassa seca de parte aérea (3,09 g/parcela).

Para o teor de matéria seca no bulbo, assim como observado para as


características anteriores, houve efeito significativo dos fatores genótipos e
níveis de água no solo, mas não houve efeito da interação entre os fatores
(Teste F, P<0,01) (Tabela 1). De forma inversa ao ocorrido com os caracteres

25
produção e massa média de bulbo, a concentração de matéria seca nos bulbos
decresceu linearmente com o aumento da disponibilidade de água no solo
(Figura 4). O teor de massa seca no bulbo oscilou entre 8,94 e 17,68% nos
genótipos, com destaque para o híbrido 433Ax480B, o genótipo com maior
concentração de matéria seca (17,68%), que diferiu significativamente de
Grano TX 08 e „Granex Ouro‟, que apresentaram teores de matéria seca de
8,94 e 10,40%, respectivamente (Tabela 2).

Os coeficientes de variação experimentais, que dão uma idéia da


precisão experimental, variaram de 13,57 para teor de massa seca no bulbo a
21,60% para massa média por bulbo. Os valores relativamente altos do
coeficiente de variação se devem, provavelmente, ao pequeno número de
plantas por parcela e a dificuldade de se manter um controle preciso da
umidade do solo em todos os vasos.

Analisando-se o comportamento dos genótipos, o que se verificou neste


estudo é um resultado muito próximo do que normalmente ocorre em
condições de campo em áreas de produção comercial, ou seja, germoplasmas
importados dos tipos Grano como TX 08, Granex como „Granex Ouro‟ e
Gladalan como „Optima F1‟ são mais produtivos que germoplasmas do tipo
Baia Periforme como CNPH 6400, 407Ax474B e 433Ax480B (Tabela 2).
Contudo, ao se transformar a massa fresca dos bulbos em massa seca,
verifica-se que a maior produtividade dos genótipos importados se deveu
basicamente a maior habilidade de acumular água nos bulbos, visto que a
produção de massa seca pelos três genótipos do tipo Baia Periforme foi
numericamente igual ou maior do que a dos três genótipos importados. A maior
habilidade de acumular água pelos materiais importados é um aspecto positivo
por um lado, pois resulta em maior produtividade comercial, mas é negativo por
outro, pois proporciona diminuição da vida pós-colheita.

Em relação ao fator água, os resultados do presente estudo mostram a


capacidade da cebola em responder ao aumento na disponibilidade de água e
alicerça o observado em outros estudos por Curry (1937); Costa Filho et al.,
(1975) e Silva & Araújo (1975) que relatam maior rendimento de bulbos nos

26
tratamentos que receberam irrigações pesadas e freqüentes, sem, no entanto,
interferir na incidência de defeitos ou anomalias, e que a irrigação contribui
marcadamente para a produção de bulbos de maior tamanho.

O aumento linear da produção de matéria fresca dos bulbos, à medida


que aumentou a quantidade de água, indica que o nível máximo de água
aplicado (80% da capacidade de retenção do solo) não foi excessivo para a
cultura. Marouelli (2007) afirma que o excesso de água pode ser igualmente
prejudicial à cebola, favorecendo a incidência de doenças, reduzindo o
crescimento e, conseqüentemente, a produção e a qualidade de bulbos.

A cultura de cebola apresenta baixa tolerância ao déficit hídrico,


requerendo um bom suprimento de água durante todo o ciclo de cultivo. A fase
de crescimento de bulbo é a mais sensível ao déficit hídrico, principalmente
durante o período de rápido espessamento das bainhas (Sing & Alderfer, 1966;
Lis et al., 1967; Garrido & Caixeta, 1980). Isto se confirmou neste estudo, pois
mesmo estabelecendo-se os níveis de água apenas nos últimos 40 dias do
ciclo da cultura (fase de bulbificação) foi possível detectar diferenças
significativas na produção de bulbos (Figuras 2 e 3). Brewster (1990) relata que
as taxas de transpiração, fotossíntese e crescimento da cebola são reduzidas
por um leve grau de falta de água do solo. Segundo Chaves (1991), o controle
estomático é de fato uma das primeiras linhas de defesa da cebola contra a
dessecação e permite manter altos valores de potencial da água por períodos
prolongados de seca.

De acordo com McMichael & Quisenberry (1993), o déficit hídrico pode


mudar a partição de assimilados entre as raízes e parte aérea, o que pode
causar grande efeito na produtividade da planta. Segundo Chaves (1991), um
dos mecanismos que a cebola apresenta em condições de estresse hídrico é a
redução da sua parte aérea (por ocorrer abscisão e redução da área foliar)
para preservar a umidade, evitando assim perda de água tanto por evaporação
como transpiração. Ainda segundo este autor, o estresse hídrico afeta o
metabolismo quando o período é prolongado e a desidratação é severa,

27
ocorrendo mudanças nas funções metabólicas e no comportamento da planta
como um todo.

Mengel & Kirkby (1982) relatam que, quando uma tensão hídrica externa
se traduz em déficit hídrico, ocorre uma série de mudanças fisiológicas e
metabólicas na cebola, resultando, de imediato, na redução do crescimento e
conseqüentemente menores quantidades de matéria seca na parte aérea. Taiz
& Zeiger (2004) apontam que uma das maneiras para a planta se adaptar ao
estresse hídrico consiste em desenvolver mecanismos para minimizar a perda
de água, como o fechamento estomático para reduzir a evapotranspiração e
aumento da espessura da cutícula. Estes mecanismos provavelmente
ocorreram no presente estudo, embora não tenham avaliados.

Mudanças morfológicas, fisiológicas e de desenvolvimento de plantas


apresentam bases moleculares e genéticas. Desta forma, a caracterização de
genótipos tolerantes ou sensíveis à seca é um pré-requisito para seleção e
manipulação genética (Turner, 1997). A tolerância à seca não é uma
característica simples, mas um complexo de mecanismos que funcionam em
conjunto ou isoladamente para tolerar períodos de déficit hídrico (Casagrande
et al., 2001).

28
5. CONCLUSÕES

Com base nos resultados obtidos no presente trabalho, pode-se concluir que:

Os germoplasmas de cebola disponíveis no mercado brasileiro apresentam


diferenças marcantes em produtividade;

Genótipos mais produtivos tendem a apresentar menor concentração de


matéria seca nos bulbos;

A bulbificação é drasticamente afetada pelo déficit hídrico no solo.

29
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, R. M.; RODRIGUES, S. D.; CRUZ, M. A. D. Cebola. In CASTRO,


P. R. C.; KLUGE, R. A.; SESTARI, I. Eds. Manual de Fisiologia Vegetal:
Fisiologia de Cultivos – Piracicaba: Editora Agronômica Ceres, 2008. p. 670-
684.

ANGELETTI, M. P.; FONSECA, A. F. A. Instruções técnicas para o cultivo


comercial de cebola em Rondônia. Porto Velho, RO: EMBRAPA-UEPAE
Porto Velho, 1987. 21p. (EMBRAPA - UEPAE Porto Velho. Circular Técnica,
12).

BOEING, G. Fatores que afetam a qualidade da cebola na agricultura


familiar catarinense. Florianópolis: Instituto Cepa/SC, 2002. 88p.

BOSCH SERRA, A. D.; CURRAH, L. Agronomy of onions. In: RABINOWITCH,


H. D.; CURRAH, L. (Eds.). Allium crop science: recent advances. Wallingford:
CABI Publishing, 2002. p. 187-232.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Abastecimento e Reforma Agrária.


Portaria n. 529 de 18/08/1995. Diário Oficial da República Federativa do Brasil,
Brasília, 1 set. 1995, Seção 1, p.13513.

BREWSTER, J. L. Onions and other vegetable alliums. CAB International,


1994. 236p.

BREWSTER, J. L. Physiology of growth and bulbing. In: RABINOWITCH, H. D.;


BREWSTER, J. L. Eds. Onions and allied crops. Florida: CRC Press, 1990,
p.166-167

BUCHANAN, B. B.; GRUISSEM, W.; JONES, R. L. Biochemistry & Molecular


Biology of Plants. Rockville, US: American Society of Plant Physiologists,
2000. 1367 p.

30
CARLESSO, R. Absorção de água pelas plantas: água disponível versus
extraível e a produtividade das culturas. Revista Ciência Rural, Santa Maria,
v. 25, p.183-188, 1995.

CASAGRANDE, E.C. Expressão gênica diferencial durante déficit hídrico em


soja. Revista Brasileira de Fisiologia Vegetal, Campinas, SP, v.13, n.2, p. 2001.

CHAVES, M. M. Effects of water deficits on carbon assimilation. Journal of


Experimental Botany, v. 42, p. 1-16, 1991.

CHAVES, M. M.; OLIVEIRA, M. M. Mechanism‟s underlying plant resilience to


water deficits: prospects for water-saving agriculture. Journal of Experimental
Botany, v. 55, p. 2365-2384, 2004.

COSTA N. D.; RESENDE M. G.. Características produtivas e conservação pós-


colheita de cebola em diferentes e espaçamentos de cebola. Horticultura
Brasileira 23: 707-711. 2005.

COSTA, D. N.; CUNHA, T. J. F.; RESENDE, G. M. Cultivo de Cebola (Allium


cepa L) no Nordeste. Disponível em :
<http://sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/FontesHTML/Cebola/CultivoCeb
olaNordeste/solos.htm> Acesso em: 25/ 11/ 2009.

COSTA, E. F. N. Melhoramento visando tolerância ao estresse hídrico –


Seminários em Genética e Melhoramento de Plantas – Esalq, Piracicaba, 2007.
p.1-2.

COSTA, N. D.; LEITE, D. L.; SANTOS, C. A. F.; CANDEIA, J. A.; VIDIGAL, S.


M. Cultivares de Cebola. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 23, n. 218,
p. 20-27, 2002.

EMBRAPA HORTALIÇAS. Sistema de Produção de Cebola (Allium cepa L)


Disponível em: <http://www.cnph.embrapa.br/sistprod/cebola> - Acesso em:
25/11/ 2009.

FAO. Agricultural production, primary crops. 2009. Disponível em


http://faostat.fao.org/production/crops primary/html. Acesso em 20/10/2009.
31
FERRI, M. G. Fisiologia Vegetal. Editora Pedagógica e Universitária, 2ª
edição, São Paulo, 1985, 362p.

FILGUEIRA, F. A. R. Manual de Olericultura: cultura e comercialização de


Hortaliças, v. 2. São Paulo: Agronômica Ceres, 1982. 357p.

GARRIDO, M. A. T.; CAIXETA, T. J. Irrigação em cultura de cebola. Informe


agropecuário, Belo Horizonte, v.6, p.41-44, 1980

KASSAB, A. L. Cebola: do túmulo dos faraós às exigentes mesas


modernas. 2.ed. São Paulo: Editora Ícone, 1994. 114p. (Coleção Brasil
Agrícola).

KUMAR, A.; SINGH, D. P.; SINGH, P. Influence of water stress on


photosynthesis, transpiration, water use efficiency and yield of Brassica juncea
L. Field Crop Research, Amsterdam, NL, v. 37, n. 2, p. 95-101, may 1994.

KUMAR, S.; IMTIYAS, M.; KUMAR, A.; SINGH, R. Response of onion (Allium
cepa L.) to different levels of irrigation water. Agricultural Water Management
- Central Institute of Post Harvest Engineering and Technology, Abohar, Punjab
– India, 2007. 15p.

LARCHER, W. Ecofisiologia Vegetal. Trad.: Prado, C.H.B.A. São Carlos:


RIMA, 2004. 531p.

LAZAR, A. M. D.; SALISBURY, C. D.; WORRALL, W. D. Variation in drought


susceptibility among closely related wheat lines. Field Crops Research, v. 41,
p. 147-153, 1995.

LECOEUR, J.; SINCLAIR, R.T. Field pea transpiration and leaf growth in
response to soil water deficits. Crop Science, Madison, v. 36, p. 331-335,
1996.

LIS, B. R.; PONCE, I.; CAVAGNARD, J. B.; TIZIO, R. M. Studies of water


requirement of horticultural crops, III. Influence of drought at different growth
stages of onion. Agronomy Journal, v.39, n.6, p.573-576, 1967.

32
LUDLOW, M. M.; MUCHOW, R. C. A critical evaluation of trits for improving
crop yields in water-limited environments. Advance in Agronomy, San Diego,
v.43, p.107-153, 1990.

MAROUELLI, W. A.; COSTA, E. L.; SILVA, H. R. Irrigação da cultura de


cebola. Brasília, DF: Embrapa Hortaliças, 2005. 17p. (Embrapa Hortaliças.
Circular Técnica, 37).

MAROUELLI, W. A.; SILVA, W. L. C.; SILVA, H. R. Irrigação por aspersão em


hortaliças. 2.ed. Brasília, DF: EMBRAPA-CNPH, 2008. 152p.

McMICHAEL, B. L. & QUISENBERRY, J. E .1993. The impact of the soil


environment on the growth of root systems. Environmental and Experimental
Botany, v.33, p. 53-61, 1993.

MEIRELLES, F. Impactos decorrentes nos principais setores usuários - Setor


agrícola: A visão da FAESP. A cobrança pelo uso da água. THAME, A. C.de
M. (Coord.). São Paulo: IQUAL Instituto de qualificação e editoração LTDA.,
p.197-200, 2000.

MENGEL, K.; KIRKBY, E. A. Principles of plant nutrition. Bern: International


Potash Institute, 655p, 1982.

MINAMI, K.; TESSARIOLI NETO, J. Cultura da cebola. Piracicaba: SEBRAE;


ESALQ, 1994. 46p.

MORAN, J.; BECANA, M.; ITURBE-ORAETXE, I. Drought induces oxidative


stress in pea plants. Planta, Berlim, DE, v.194, p. 346-352, 1994.

ORTOLANI, A. A.; CAMARGO, M. B. P. Influência dos fatores climáticos na


produção. In: CASTRO, P. R. C.; FERREIRA, S. O.; YAMADA, T.
Ecofisiologia da produção agrícola. Piracicaba: Instituto da Potassa e
Fosfato,. p.71-100, 1987

REICHARDT, K.; A água em Sistemas Agrícolas. 1.ed. São Paulo: Editora


Manole LTDA, 1990 – 188p.

33
RESENDE, G. M.; COSTA, N. D.; SOUZA, R. J. Cultivo de Cebola no Nordeste
Disponível em: <
http://sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/FontesHTML/Cebola/CultivoCebo
laNordeste/clima.htm> - Acesso em: 25/ 11/ 2009

SINGH, V. A. B. Avaliação de cultivares de cebola sob irrigação por


aspersão no Baixo Parnaíba. Parnaiba: EMBRAPA- CNPAI, 1992. 8p.
(EMBRAPA-CNPAI. Comunicado Técnico, 18)

SOBRINO ILLESCAS, E.; SOBRINO VESPERINAS, E. Tratado de


horticultura herbácea: hortalizas de legumbre, tallo, bulbo y tuberosas.
Barcelona: Biblioteca Agricola Aedos, 1992. v. 2., 333p.

TAIZ, L.; ZEIGER, E. Fisiologia Vegetal. Trad. SANTARÉM, E.R.., 3.ed., Porto
Alegre: Artmed, 2004. 719p.

TERRA, T. G. R. Avaliação de características morfofisiológicas de


tolerância à seca em uma coleção nuclear de acessos de arroz de terras
altas (Oryza sativa L.). 2008. 81p. Tese (Mestrado em Agronomia). Campus
Universitário de Gurupi. Universidade Federal do Tocantins, Tocantins, 2008.

TURNER. N.C. Further progress in crop water relations. Advances in


Agronomy, San Diego, USA, v.58, p.293-338, 1997.

34
Tabela 1. Resumo das análises de variância, relativas à massa fresca de bulbos totais (diâmetro 35 mm), massa média de
bulbos totais, massa seca de folhas e teor de massa seca dos bulbos de seis genótipos de cebola cultivados em cinco níveis de
água no solo. Brasília - DF, Embrapa Hortaliças, 2009.

Quadrado Médio

Fonte de Variação G. L. Massa fresca de bulbos Massa média/bulbo Massa seca de folhas Teor de massa seca no

(g/parcela) (g) (g/parcela) bulbo (%)

Blocos 4 2.053,33 58,02 0,64 1,56

Tratamentos 29 7.588,99** 208,44** 4,93** 50,85**

Genótipo (G) 5 27.053,37** 747,57** 23,65** 271,24**

Níveis de água (NA) 4 13.905,42** 378,30** 2,10ns 14,96**

GxNA 20 1.459,61ns 39,68ns 0,82ns 2,93ns

Resíduo 116 1.103,25 30,71 0,89 3,05

C. V. (%) 21,59 21,60 20,82 13,57


** significativo, a 1% pelo teste F.
ns
não-significativo.

35
Tabela 2. Massa fresca de bulbos totais (diâmetro 35 mm), massa média de bulbos totais, massa seca de folhas e teor de massa
seca nos bulbos de seis genótipos de cebola cultivados em diferentes níveis de água no solo. Brasília - DF, Embrapa Hortaliças,
2009.

Genótipos Massa fresca de bulbos Massa média/bulbo Massa seca de folhas Teor de massa seca no

(g/parcela) (g) (g/parcela) bulbo (%)

Grano TX08 211,60 A 35,27 A 6,12 A 8,94 B

Granex Ouro 169,00 AB 28,17 AB 4,78 AB 10,40 B

Optima F1 152,00 AB 25,33 AB 3,09 B 11,09 AB

407Ax474B 137,00 B 22,83 B 4,41 AB 15,23 AB

CNPH 6400 133,20 B 22,31 B 4,45 AB 13,81 AB

433Ax480B 120,20 B 20,03 B 4,33 AB 17,68 A

Média 153,83 25,66 4,53 12,86

d.m.s 71,00 11,85 2,02


Médias seguidas pela mesma letra, na coluna, não diferem entre si a 5% de probabilidade pelo teste de Tukey.

36
FIGURA 1. Detalhes do experimento em casa de vegetação.

37
Massa fresca de bulbos (g)
200

150

100 Y = 77,24+1,28**x

R2 = 0,84
50

0
40 50 60 70 80
Níveis de água no solo (%)

Figura 2. Massa fresca de bulbos totais (diâmetro 35 mm) de genótipos de


cebola em função de níveis de água no solo. Brasília - DF, Embrapa Hortaliças,
2009.
Massa média de bulbo (g)

35
30
25
20 Y = 12,99+0,21**x

15 R2 = 0,84
10
5
0
40 50 60 70 80
Níveis de água no solo (%)

Figura 3. Massa média de bulbo de genótipos de cebola em função de níveis


de água no solo. Brasília - DF, Embrapa Hortaliças, 2009.

38
Teor de massa seca no bulbo
14,5
Y = 15,14-0,038ns x
14
R2 = 0,72
13,5
(%)

13

12,5
12
40 50 60 70 80
Níveis de água no solo (%)

Figura 4. Teor de massa seca no bulbo de genótipos de cebola em função de


níveis de água no solo. Brasília - DF, Embrapa Hortaliças, 2009.

39