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Paula Sibilia

Paula Sibilia

As novas gerações falam uma língua bem diferente daquela


que servia para comunicar os que se educaram tendo a es­

cola como seu principal meio de socialização e a “cultura


letrada” como seu horizonte universal, com o firme respaldo
institucional do projeto moderno abrigado por cada Estado

Redes ou paredes
nacional. [...] O desafio é enorme, pois implicaria inventar

um dispositivo capaz de fazer com que essas paredí»


corroídas e cada vez mais infiltradas voltem a significar algo
e, desse modo, venham a se transformar tanto sua velho

função confinante e disciplinadora quanto sua condição

emergente de mero galpão ou depósito. [...] Será necessário

transformar radicalmente as escolas [...] redefini-las como REDESou


PAREDES
espaços de encontro e diálogo, de produção de pensamento
e decantação de experiências capazes de insuflar consls

tência nas vidas que as habitam.

Paula Sibilia
A escola em tempos de dispersão

MilifRAPOnTO
Paula Sibilia

Redes ou paredes
A escola em tempos de dispersão

TRADUÇÃO

Vera Ribeiro

COIITRAPOnTO
© Paula Sibilia, 2012

Título original: jRedes o paredes? La escuela en tiempos de dispersión.

Vedada, nos termos da lei, a reprodução total ou parcial deste livro,


por quaisquer meios, sem autorização da Editora.

Direitos adquiridos para a língua portuguesa por


CONTRAPONTO EDITORA LTDA. — O que vocês esperavam ao me denunciar
Av. Franklin Roosevelt 23 / 1405 para o diretor?
Centro - Rio de Janeiro, RJ - CEP 20021-120 — Que o senhor fosse castigado, como nós.
Telefax: (21) 2544-0206 / 2215-6148
— Ah, querem me castigar?
Site: www.contrapontoeditora.com.br
E-mail: contato@contrapontoeditora.com.br — O senhor nos insultou e merece castigo... o
senhor disse “ordinárias” e nós dissemos “filho
Ia edição: setembro de 2012 da puta”, é a mesma coisa!
2a reimpressão: setembro de 2016
— Mas vocês têm que entender que eu sou o
Tiragem: 1.000 exemplares professor, e pronto!
Laurent Cantet, Entre os muros da escola (2008)
Revisão tipográfica: Tereza da Rocha
Projeto gráfico: Regina Ferraz

Antes de mais nada, é necessária a obediência


no caráter da criança, particularmente no do
aluno. [...] A obediência pode nascer da coação,
e então é absoluta, ou da confiança, e então é
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÀO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ raciocinada. Esta obediência voluntária é muito
importante, mas aquela é extremamente neces­
S566r Sibilia, Paula, 1967- sária, porque prepara a criança para o cumpri­
Redes ou paredes: a escola em tempos de dispersão / Paula
Sibilia ; tradução Vera Ribeiro. - Rio de Janeiro : Contraponto,
mento das leis que depois ela terá de cumprir
2012. como cidadã, ainda que não lhe agradem.
Immanuel Kant, Sobre a pedagogia (1803)
Tradução de: ,Redes o paredes? La escuela en tiempos de
dispersión
ISBN 978-85-7866-069-7

1. Educação - Aspectos sociais. 2. Educação - Inovações


tecnológicas. 3. Ensino a distância. 4. Professores - Formação.
5. Professores —Efeito das inovações tecnológicas. I. Título.

CDD: 370.11
12-6425 CDU: 37.017
SUMÁRIO

Introdução: Para que serve a escola? 9


O colégio como tecnologia de época 13
O molde escolar e a maquinaria industrial 27
Educar o soberano disciplinando os selvagens 35
Os incompatíveis: outros tipos de corpos 45
e subjetividades
O desmoronamento do sonho letrado: 63
inquietação, evasão e zapping
As subjetividades midiáticas querem se divertir 81
Do aluno ao cliente, da lei à negociação 93
Da criança ao consumidor: cai o mito da transmissão 105
Do empregado ao empresário, da formação 123
à capacitação
Mercado em vez de Estado: 141
das advertências ao bullying
Violência e insegurança: do reformismo moral 157
à blindagem policial
Do quadro-negro às telas: a conexão contra 173
o confinamento
Salas de aula informatizadas e conectadas: 181
muros para quê?
Resistir ao confinamento ou sobreviver à rede? 199
Conclusão: Inventar novas armas 207
Notas 213
INTRODUÇÃO

Para que serve a escola?

Este ensaio começa com uma pergunta e corre o saudável risco


de desembocar, ao final de todo seu percurso, num mar de
ecos emitidos pela mesma indagação. Enquanto deslizamos
velozmente a bordo deste século XXI que tantas surpresas nos
tem trazido, ostentando seus feitiços tecnológicos e seu estilo
de vida globalizado, será que a escola se tornou obsoleta?
É muito difícil responder a esta interrogação de modo ca­
tegórico; talvez as possíveis respostas ainda sejam impronun-
ciáveis. A finalidade destas páginas é aprofundar esse ques-
tionamento, explorando algumas de suas arestas, não com o
propósito de oferecer soluções tranquilizadoras, mas para re­
finar sua formulação e torná-lo mais fecundo. As ferramentas
de que dispomos para realizar essa tarefa não são as do espe­
cialista em educação, com as vantagens e desvantagens que
isso implica. Em vez de surgir da vasta tradição pedagógica, e
ainda que sem dúvida aspire a dialogar com algumas de suas
vertentes, nossa análise parte de um terreno que ainda costu­
ma ser considerado muito distante dos rituais escolares, quase
seu antagonista: o dos meios de comunicação. Sobretudo em
sua rutilante conjugação informática, digital e interativa, que
vem se colocando em sintonia, no nível mundial, com os avan­
ços já mais assentados da cultura audiovisual.
Tentaremos também, e com ênfase especial, lançar um
olhar antropológico e genealógico sobre o problema, no intui­
to de detectar algumas tendências próprias de nossa era: aque­
la que nos impregna, ao mesmo tempo que a tecemos e cruza­
mos a toda a velocidade, motivando a incerteza da indagação
inicial. Se ainda emudecemos ou titubeamos na hora de res-

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PAULA SIB IL IA • REDES OU PAREDES INTRODUÇÃO: PARA QUE SERVE UMA ESCOLA?

pondê-la, ao menos este clima de época proporciona algo in­ do-se prioritariamente nos modos de ser e estar no mundo
sólito, que deveríamos aproveitar como uma rara dádiva: ele que surgem hoje em dia, e que costumam se relacionar com
permite pôr o presente em questão. Por nos encontrarmos de a escola de modos conflitivos.
repente em uma encruzilhada, vemos como explodem as cer­ Um primeiro desdobramento da questão que nos guia
cas erguidas a partir de velhas convicções e certezas que já não pode ser o seguinte: que tipos de corpos e de subjetividades
funcionam. Sermos contemporâneos não é uma tarefa isenta a escola tradicional produziu em seu apogeu? Essa localização
de riscos: se estivermos atentos aos sinais do mundo, talvez histórica remete principalmente à segunda metade do sécu­
tenhamos a sorte de eles nos perturbarem a ponto de suscita­ lo XIX e boa parte do XX, ou seja, a um denso bloco temporal
rem o pensamento; mas isso só ocorrerá se conseguirmos es­ durante o qual essa instituição irradiava ares de plena sol­
capar dos perigos que aparecem quando pisamos terrenos tão vência, longe de ser acusada de obsolescência ou de estar po­
pantanosos sem evitar a complexidade dos fenômenos nem tencialmente ultrapassada. Há outra pergunta latente nessa
desprezar suas contradições. O desmoronamento em curso averiguação: por que e para que nossa sociedade — ocidental,
é doloroso e desconcertante, mas, a partir dessa abertura, a moderna, capitalista, industrial — se propôs, naquela época,
visão se expande para outras direções. Em consequência disso, gerar esse tipo peculiar de seres humanos? Este trajeto indaga-
os caminhos podem se multiplicar. tório é fundamental, mas sobretudo porque em sua meta cin­
Por tais motivos, o foco deste ensaio não aponta somente tilam os nós problemáticos que privilegiaremos aqui: que tipo
para a escola nem para o peculiar entorno sociocultural, eco­ de modos de ser e estar no mundo são criados agora, no des­
nómico e político que a viu nascer e se desenvolver com sua pontar da segunda década do século XXI? Como, por que e
orgulhosa missão civilizadora. Além de contemplar esse marco para quê?
com suma curiosidade, o estudo tende a se concentrar no con­ Avançando um pouco mais nesta aventura, surgirá a per­
texto atual, que sem dúvida mudou bastante e em vários sen­ gunta mais interessante e também mais espinhosa, cuja res­
tidos em relação àqueles tempos cada vez mais remotos. Com posta talvez ainda deva permanecer aberta e pulsante: que ti­
esta premissa como pano de fundo, nossa análise tem em vista pos de corpos e subjetividades gostaríamos de forjar hoje em
um componente vital dessa maquinaria, cuja modelagem dia, pensando tanto no presente quanto no futuro de nossa
constituiu seu principal objetivo: os corpos e as subjetividades sociedade? Uma vez definida essa sondagem tão complexa, e
para os quais essa instituição foi criada, no momento de sua até no intuito de contribuir para depurá-la ou aprofundá-la,
invenção e durante sua gradativa consolidação. A natureza também seria preciso justificar as possíveis respostas, tornan­
humana não é imutável, constituída como uma entidade inal­ do a indagar sobre seus pontos-chave: por que e para quê? Por
terável através das histórias e das geografias; pelo contrário, as último, nesta tentativa de desentranhar a medula do assunto,
subjetividades se constroem nas práticas cotidianas de cada caberia introduzir a dúvida crucial que inspirou a redação
cultura, e os corpos também se esculpem nesses intercâmbios. deste livro, como um disparo para novos rumos: de que tipo
Este texto busca acompanhar os itinerários que compuseram de escola — ou de que substituto dela — necessitamos para
essa trama até ela chegar à sua configuração mais atual, deten­ alcançar esse objetivo?

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0 colégio como
tecnologia de época

Entre tantas perguntas em aberto e cada vez mais difíceis de


responder, em função de sua crescente especificidade e da di­
ficuldade de imaginar alternativas para o nosso futuro, uma
certeza é quase óbvia e poderia servir aqui como ponto de
partida: a escola está em crise. Por quê? Os fatores que levaram
a essa situação são inúmeros e sumamente complexos, mas
um caminho para compreender os motivos desse mal-estar
consiste em recorrer à sua genealogia. Ao observá-la sob o
prisma historiográfico, essa instituição ganha os contornos de
uma tecnologia: podemos pensá-la como um dispositivo, uma
ferramenta ou um intrincado artefato destinado a produzir
algo. E não é muito difícil verificar que, aos poucos, essa apa­
relhagem vai se tornando incompatível com os corpos e as
subjetividades das crianças de hoje. A escola seria, então, uma
máquina antiquada. Tanto seus componentes quanto seus
modos de funcionamento já não entram facilmente em sinto­
nia com os jovens do século XXI.
Nessa junção — que, ainda assim e apesar de tudo, insiste
em acontecer todos os dias durante longas horas, em quase
todos os cantos do planeta — , as peças não se encaixam bem:
descobrem-se ressaltos imprevistos em suas engrenagens e os
circuitos se obstruem com frequência, ocasionando toda sorte
de atritos, ruídos, transbordamentos e até enormes desastres.
Trata-se, em suma, de organismos que não se ajustam tão har­
moniosamente quanto costumava suceder algum tempo atrás,
e que, por conseguinte, ao serem postos em contato, tendem a
desencadear conflitos de toda espécie e da mais variada gravi­
dade. Para além das particularidades individuais de cada estu-

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0 COLÉGIO COMO TECNOLOGIA DE ÉPOCA
PAULA SI BI LI A . REDES OU PAREDES

dante e das diversas instituições acolhidas na ampla categoria se bem que ainda com métodos experimentais e resultados
“escola”, também deixando de lado as significativas diferenças incertos.
relativas aos contextos socioeconômicos e até geopolíticos de É claro que não se trata de um fenômeno fortuito nem
cada caso, seria difícil negar essa incompatibilidade. Há uma muito enigmático: há explicações históricas e até antropoló­
divergência de época: um desajuste coletivo entre os colégios e gicas para essa discrepância crescente entre os colégios e os
seus alunos na contemporaneidade, que se confirma e prova­ jovens de hoje, assim como para a hostilidade e os dilemas
velmente se reforça dia a dia na experiência de milhões de que costumam acompanhá-la. Essas justificativas abarcam um
crianças e jovens de todo o mundo. É algo que já parece cons­ amplo leque de fatores económicos e políticos, além de impor­
tituir a marca de uma geração e que, aliás, tem sido teorizado tantes mudanças sociais, culturais e morais que se foram de­
por vários autores recorrendo a nomes relacionados com cer­ sencadeando nas últimas décadas, com uma brusca aceleração
tas letras do alfabeto — geração Y ou Z, por exemplo, assim em anos recentes. De que transformações se trata? Embora
como N de net e D de digital — ou, então, ao melancólico ró­ estejam em jogo certos movimentos contraditórios ou de alta
tulo “pós-alfa”, bem como à exitosa expressão “nativos digitais” complexidade, que nada mais fazem do que acrescentar in­
e outras no mesmo estilo. certezas ao quadro atual, seus contornos básicos revelam-se
Seja como for, e embora ninguém ignore que esse desen­ quase óbvios para os que transitaram por algumas décadas
caixe já vem se engendrando há bastante tempo, talvez até do século passado e se tornaram adultos no início do sécu­
ao longo de todo o extenso e conturbado século XX, a brecha lo XXI. E estão longe de poder sintetizar-se mediante a alusão
tornou-se incontestável nos últimos anos. A primeira década exclusiva aos avanços técnicos.
do novo milénio foi decisiva nesse sentido, e é provável que Provavelmente iniciada no período do após-guerra, ou,
o sejam ainda mais as que virão. Esta constatação ocorre jus­ mais seguramente, a partir da década de 1960, a germinação
tamente quando se está soldando um encaixe quase perfeito desses processos demorou bastante, mas agora seus frutos se
entre, de um lado, esses mesmos corpos e subjetividades e, consolidam com um triunfalismo que não dá margem a dúvi­
de outro, um novo tipo de maquinaria, bem diferente da pa­ das. E, embora seja evidente que a causa de tão complexo
rafernália escolar e talvez oposta a ela. Referimo-nos, é claro, movimento histórico não se limita aos dispositivos tecnológi­
aos aparelhos móveis de comunicação e informação, tais como cos recentemente popularizados, sua confluência com essa
os telefones celulares e os computadores portáteis com acesso crise que já se vinha propalando levou, precisamente, a que a
à internet, que alargaram num abismo a fissura aberta há mais fissura se tornasse cada vez mais iniludível. Por um lado, en­
de meio século pela televisão e sua concomitante “cultura au­ tão, temos a escola, com todo o classicismo que ela carrega nas
diovisual”. A partir da evidência desse choque, originaram-se costas; por outro, a presença cada vez mais incontestável des­
as diversas tentativas de fundir de algum modo os dois uni­ ses “modos de ser” tipicamente contemporâneos. Tornou-se
versos: o escolar e o midiático. Essas iniciativas se deflagram muito difícil evitar tamanha desarticulação com um olhar
atualmente em várias partes do mundo, respondendo à urgên­ para outro lado, ou um fingir que não há nada acontecendo,
cia do conflito e procurando resolvê-lo de modos inovadores, ou um buscar em vão remendar esse artefato abstruso que, ao

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PAULA SI BI LIA . REDES OU PAREDES O COLÉGIO COMO TECNOLOGIA DE ÉPOCA

que tudo indica, parece ter perdido boa parte de sua eficácia e que a planejou e procurou pô-la em prática: a modernidade.
seu sentido ao se deparar com a nova paisagem que cresceu É claro que antes houvera escolas ou colégios, mas eles não
a seu redor. equivaliam ao que hoje denominamos por esses termos. Na
Em virtude da generalização desse panorama, este ensaio Idade Média, por exemplo, “eram reservados a um pequeno
pretende examinar em que consistem essas mudanças tão pro­ número de clérigos e misturavam as diferentes idades den­
fundas que vêm afetando os corpos e as subjetividades nos tro de um espírito de liberdade de costumes”, relata Philippe
últimos tempos, e que agora permitiriam vislumbrar a consu­ Ariès, esclarecendo que somente “no início dos tempos mo­
mação de uma metamorfose. De fato, ainda que ela tenha dernos [tornaram-se] um meio de isolar cada vez mais as
prosperado no curto prazo de uma mesma geração, trata-se de crianças durante um período de formação tanto moral como
uma transformação tão intensa que costuma despertar toda intelectual, de adestrá-las, graças a uma disciplina mais auto­
sorte de perplexidades, especialmente naqueles que não nasce­ ritária, e, desse modo, separá-las da sociedade dos adultos”.
ram imersos no novo ambiente, mas atravessaram essa muta­ Mas, como sublinha, o mesmo historiador francês, “essa evolu­
ção e agora sentem seus efeitos na própria pele. Afinal, esta­ ção do século XV ao XVIII não se deu sem resistências”.1
mos aludindo a uma transição entre certos modos de ser e Sem dúvida, foi uma estratégia sumamente ousada, que em
estar no mundo, os quais, sem dúvida, eram mais compatíveis contrapartida também requeria certas condições básicas para
com o colégio tradicional e com as diversas tecnologias adscri­ poder funcionar: além de estipular metas e objetivos, foi pre­
tas à linhagem escolar. Essas novas subjetividades que flores­ ciso estabelecer determinados requisitos de índole variada
cem atualmente manifestam sua flagrante desconformidade para que essa maquinaria pudesse funcionar com eficácia.
com tais ferramentas, ao passo que se encaixam alegremente Entre as exigências históricas a que a criação dessa curiosa
com outros artefatos. entidade procurou responder figuraram os compromissos
A partir desta perspectiva, portanto, fica claro que a es­ desmedidos da sociedade moderna, que se pensou a si mesma
cola é uma tecnologia de época. Ainda que hoje pareça tão — pelo menos idealmente — como igualitária, fraterna e de­
“natural”, algo cuja inexistência seria inimaginável, o certo é mocrática. Por conseguinte, assumiu a responsabilidade de
que essa instituição nem sempre existiu na ordem de uma educar todos os cidadãos para que ficassem à altura de tão
eternidade improvável, como a água e o ar, tampouco como as magno projeto, servindo-se para esse fim dos potentes recur­
ideias de criança, infância, filho ou aluno, igualmente natu­ sos de cada Estado nacional. Era preciso alfabetizar cada habi­
ralizadas mas também passíveis de historicidade. Ao contrário: tante da nação no uso correto do idioma pátrio, por exemplo,
o regime escolar foi inventado algum tempo atrás em uma ensinando-o a se comunicar com seus contemporâneos e com
cultura bem definida, isto é, numa confluência espaçotempo- as próprias tradições por intermédio da leitura e da escrita.
ral concreta e identificável, diríamos até que recente demais Além disso, era necessário instruir todos para que soubessem
para ter se arraigado a ponto de se tornar inquestionável. De fazer cálculos e lidar com os imprescindíveis números. Em
fato, essa instituição foi concebida com o.objetivo de atender suma, um conjunto de aprendizagens úteis e práticas, que fo­
a um conjunto de demandas específicas do projeto histórico ram substituindo uma multidão de dogmas e mitos sem res­

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PAULA SI BI LI A • REDES OU PAREDES 0 COLÉGIO COMO TECNOLOGIA DE ÉPOCA

paldo científico ou cuja inutilidade se tornava flagrante, ou Em contrapartida, a instrução já constituiria a parte positi­
seja, tudo aquilo que já não servia para nada, após ter perdido va da educação, necessariamente inscrita na supressão vital do
o substrato cultural que antes lhe dera sentido. Por último, estado anterior, uma vez que só “a disciplina submete o ho­
embora não menos essencial, era preciso treinar os homens do mem às leis da humanidade e começa a fazê-lo sentir a coação
futuro nos usos e costumes ditados pela virtuosa “moral laica” desta”.3 Portanto, essa fase básica não consistiria apenas em
desfraldada pela burguesia triunfante: um cardápio inédito de ensinar às crianças quais são as regras concretas que coman­
valores e normas que se impôs com esse imenso projeto polí­ dam a sociedade, porém em algo muito mais elementar e im­
tico, económico e sociocultural. prescindível: saber que a lei existe e, como tal, deve ser respei­
Submersa nessa atmosfera em ascensão, a plataforma sobre tada. Seguindo a escala de prioridades da pedagogia kantiana,
a qual se ergueu tal programa ostentava um lema muito claro: além da disciplina e da instrução, em terceiro lugar seria ne­
disciplina. Em suas conferências ministradas no fim do século cessário propagar a “civilidade”, logrando que cada homem
XVIII e publicadas alguns anos mais tarde, em 1803, sob o adquirisse “boas maneiras, amabilidade e certa prudência”
título Sobre a pedagogia, ninguém menos que Immanuel para poder adaptar-se com êxito aos costumes e usos sociais.
Kant deixou claro que seria esse o objetivo prioritário da edu­ Por último, o filósofo destacava que “é preciso cuidar da mo­
cação. “A disciplina converte a animalidade em humanidade”, ralização”, a fim de que, havendo aprendido a executar um
afirmava o filósofo alemão há mais de duzentos anos, asseve­ conjunto de tarefas com finalidades distintas, cada um tivesse
rando que só com esse instrumento nas mãos seria possível também “um critério conforme o qual [escolhesse] somente
“dominar a barbárie”.2 Assim se explicitou a função básica da os bons objetivos”. Em síntese, a pedagogia teria como meta
instituição escolar, então em seus primórdios: humanizar o propiciar “o desenvolvimento da humanidade”, de maneira
animal da nossa espécie, disciplinando-o para modernizá-lo e, cumulativa e cada vez mais aperfeiçoada, procurando fazer
desse modo, iniciar a evolução capaz de convertê-lo num bom com que ela fosse não apenas “hábil, mas também moral”, pois
cidadão. Uma vez atingida essa primeira meta, em segundo “não basta o adestramento; o que importa, acima de tudo,
lugar caberia tornar os homens capazes de desenvolver deter­ é que a criança aprenda a pensar”; e, fundamentalmente, que
minadas habilidades, como ler e escrever ou aprender outras saiba se comportar como convém.4 Esse exercício da raciona­
destrezas mais específicas. Essa tarefa requereria “a instrução e lidade, transmitido pela educação formal assim pautada, era
o ensino”, mas só poderia consumar-se a partir do trabalho também — e, talvez, principalmente — normalizador: ensina­
civilizador previamente realizado sobre a natureza crua dos va-se a pensar e a agir do modo considerado correto para os
alunos. Nesse sentido, para Kant, a disciplina seria um traba­ parâmetros da época.
lho negativo, destinado a anular uma etapa prévia: “a ação pela O texto de Kant, sem dúvida, merece a atenção que lhe
qual se apaga no homem a animalidade”. Assim se expurgaria dedicamos aqui, já que sua obra constituiu um dos pilares da
a condição primitiva ou a barbárie originária que se verificava modernidade; por isso não convém desdenhar do vínculo que
em algo gravíssimo para o projeto moderno: o desconheci­ essa pena selou entre a educação formal e a disciplina como
mento da lei. um projeto basilar do Iluminismo. Esta última deveria ser

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aplicada e infundida de imediato em cada recém-nascido, mente se converteriam em adultos sem disciplina — por isso
“pois, de outro modo, depois é muito difícil modificar o ho­ “estragados” — , esse autor identificava algo semelhante “entre
mem”, explicava o filósofo. Do contrário, aconteceria algo os selvagens, que, ainda que prestem serviços durante muito
muito perigoso: o homem ficaria à mercê de seus caprichos; tempo aos europeus, nunca se acostumam com o modo de
por isso a capacidade de se curvar à razão e à disciplina de­ viver destes”. Ao explicar os motivos de tal resistência ao rigor
veria ser muito precocemente inculcada na trajetória vital disciplinar nos seres provenientes de outras culturas, o filósofo
de todos os cidadãos. “Se, em sua juventude, ele é deixado en­ alemão desmentiria categoricamente que houvesse neles “uma
tregue à sua vontade, conservará alguma barbárie durante nobre inclinação para a liberdade, como creem Rousseau e
toda a vida”, advertia o autor, acrescentando que “de nada lhe outros tantos”. Em vez disso, Kant denunciou uma espécie de
serve, tampouco, ser mimado na infância pela excessiva ternu­ brutalidade que seria inerente a essas criaturas: “O animal
ra materna, pois, mais tarde, não fará senão chocar-se com ainda não desenvolveu em si a humanidade.”7
obstáculos por toda parte e sofrer contínuos fracassos, tão Ainda que essas palavras provoquem certo desconforto nos
logo interfira nos assuntos do mundo”.5Por tais motivos, com­ leitores do século XXI, convém esclarecer que foram redigidas
plementando a severidade paterna e o controle familiar, foi sem hesitação, há dois longos séculos, por um dos pensadores
necessário instituir a escola moderna para reforçar essa mis­ de maior relevância em nossa tradição; e, certamente, suas
são, cuja utilidade seria tanto individual quanto coletiva. reflexões contribuíram para consolidar a instituição escolar tal
Não foi por razões banais, então, que se adotou o novo como a conhecemos. É que a educação formal constituiu um
hábito: desde muito pequenos, os meninos da era burguesa importante braço armado do Iluminismo: além de desenvol­
tiveram que ser enviados todos os dias às escolas, “não ainda ver seus ímpetos modernizantes e secularizadores, libertando
com a intenção de aprenderem algo”, como repisou o próprio o soberano das trevas da ignorância, também acabou sendo
Kant, “mas com a de habituá-los a permanecerem tranquilos e um forte movimento de uniformização cultural, capaz de des­
a cumprirem pontualmente o que lhes [fosse] ordenado”.6 Por qualificar e asfixiar sob sua hegemonia racionalista todas as
isso, para o cidadão moderno, não ter sido instruído a fim de (muitas) manifestações consideradas inferiores. Um exemplo
dominar certas habilidades implicaria um problema, sem dú­ típico foi o dos idiomas que se impuseram como línguas na­
vida; porém, muito pior que qualquer imperícia — mais grave cionais, com a força da coação estatal, esmagando os milhares
até que certa ignorância ou necedade — seria o fato de não ter de dialetos falados nos tempos pré-modernos, tanto nos terri­
disciplina. Isso o levaria a se equiparar a um selvagem ou um tórios europeus quanto em suas colónias ultramarinas. O en­
bárbaro e, uma vez consumada essa falha na criança, ela já não sino irradiado nos colégios foi fundamental para consolidar
poderia ser remediada, mais tarde, com ensinamentos pon­ essa homogeneização em torno da norma e sob a firme tutela
tuais: convertido num adulto indisciplinado, esse homem es­ de cada Estado, contribuindo para cimentar os valores com­
taria arruinado, sem possibilidade de emenda para os fins bus­ partilhados no território delimitado pela simbologia nacional.
cados pela civilização. De fato, além de denunciar com firmeza A democracia representativa exige que os cidadãos dele­
essas falhas de caráter nos pequenos mal-educados, que fatal­ guem seu poder àqueles que manejarão diretamente os recur­

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PAULA SIB IL IA • REDES OU PAREDES 0 COLÉGIO COMO TECNOLOGIA DE ÉPOCA

sos do Estado e tomarão decisões políticas capazes de afetar alguns o associam à falta de luz e à conseguinte necessidade
toda a população do país. Por isso se fez necessário “educar o de ser iluminado (a-lumno),10enquanto outros estudiosos da
soberano” forjando sua “consciência nacional”, algo que só se língua sublinham a ideia de nutrição, segundo a qual o aluno
poderia conseguir por meio de relatos referentes a um passado seria aquele que deve ser alimentado para poder crescer. Mas,
comum a todos os cidadãos de uma mesma nação, capazes de além de ressaltar essa linhagem filológica que revela a plas­
constituir certa identidade ligada à ideia de povo. Com efeito, ticidade do alunato e sua capacidade de ser cultivado, cabe
no século XIX, o “sujeito da consciência”, filosoficamente ins­ destacar o papel crucial desempenhado pelo Estado nesses
tituído duzentos anos antes, tornou-se “sujeito da consciência processos. Afinal, essa entidade alcançou a envergadura de
nacional”, como uma exigência da sofisticação do aparato ju­ uma megainstituição, constituindo-se como um solo firme,
rídico moderno.8 Assim, sobre essa “ficção ideológica” de um capaz de dar sentido e garantir o bom funcionamento de todas
passado comum que seria causador do presente comparti­ as demais instituições em torno das quais se organizou a so­
lhado — um relato gerado pelo discurso histórico — recaiu a ciedade moderna, tais como a família, a escola, a fábrica, o
função de dar consistência coletiva a cada povo. Sua solene Exército e a prisão.
materialidade compôs-se do clássico repertório escolar: hinos Nesse contexto histórico, cujas bases hoje parecem se dis­
cantados orgulhosamente de pé; comemorações pátrias enga­ solver em contato fluido com as lógicas do consumo e dos
lanadas com feriados e atos presididos por porta-bandeiras meios de comunicação, o Estado encarnava a solidez do insti­
sob declamações circunspectas; manuais ou livros de leitura tuído, que ao mesmo tempo era fortemente instituidor. De sua
carregados de relatos edificantes sobre próceres, heroísmos e sóbria investidura surgia a lei universal, sob cujo amparo se
gestas nacionais; e até museus e monumentos a serem visita­ gerou um tipo de subjetividade que alguns autores denomi­
dos nas esporádicas excursões extramuros. nam, precisamente, “estatal” ou “pedagógica”. Segundo o his­
Para que tudo isso pudesse frutificar, com os sentidos con­ toriador e filósofo argentino Ignacio Lewkowicz, por exemplo,
tundentes que tal mitologia soube conquistar naquele período “o Estado-nação delegava a seus dispositivos institucionais a
histórico, era preciso plantar uma semente muito especial na produção e a reprodução de seu suporte subjetivo: o cida­
terra fértil constituída por cada criança escolarizada. Median­ dão”.11 Esse tipo de sujeito era tanto a fonte quanto o efeito do
te o ensino da história e a ritualização das comemorações es­ princípio democrático que postulava a igualdade perante a lei,
colares, dever-se-ia conseguir que brotasse em cada futuro ou seja, um indivíduo constituído em torno desse código, o
cidadão a consciência da identidade nacional. Cabe lembrar qual, por sua vez, apoiava-se em duas instituições fundamen­
que na palavra discípulo ressoa sua entranha disciplinar, cuja tais: a família e a escola, ambas encarregadas de gerar os cida­
origem etimológica remeteria a discere e pueris, dizer às crian­ dãos do amanhã. Trata-se, portanto, de um modo peculiar de
ças: explicar-lhes o que é certo e o que é errado, inculcando­ ser e estar no mundo, que se ia formando minuciosamente
-lhes o que se supunha que deveriam saber e fazer.9 Nessa desde o nascimento de cada indivíduo; assim, em seu desen­
mesma linha, o curioso vocábulo aluno também esconde volvimento progressivo rumo à idade adulta, ele seria capaz de
laços significantes que o ligam à estirpe do esclarecimento: Iransitar entre todas essas instituições irmanadas por um fim

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PAULA SI BI LI A • REDES OU PAREDES 0 COLÉGIO COMO TECNOLOGIA DE ÉPOCA

idêntico, que usavam a mesma linguagem e se alinhavam sob modo a configuração de subjetividades cada vez mais compa­
uma causa comum. Por isso, ao atravessarem pela primeira tíveis com esses estilos de vida.
vez o circunspecto pórtico escolar, vestindo uniformes ima­ A perda de eficácia no funcionamento bem azeitado das
culados e esgrimindo suas maletinhas cheias de materiais de engrenagens disciplinares é, justamente, um dos indícios da
estudo, as crianças já chegavam preparadas graças a uma mo- crise atual. Um ingrediente primordial dessa deterioração é o
delagem prévia que ocorria entre as paredes do lar. Algo seme­ enfraquecimento do Estado no papel de megainstituição ca­
lhante acontecia na transição do colégio para a universidade paz de avalizar e dotar de sentido todas as demais. Em conso­
ou a fábrica: todos esses recintos eram compatíveis entre si e nância com esse declínio, perdem peso e gravidade as investi­
com seu respectivo material humano, já que funcionavam se­ duras que revestiam figuras-chave da autoridade moderna,
gundo a mesma lógica. como o pai e o professor, por exemplo, cujas definições, atri­
Em virtude desse encadeamento, “cada uma das institui­ butos e poderes se transformaram amplamente nos últimos
ções operava sobre as marcas previamente forjadas”, explica tempos. Assim, a incompatibilidade aqui sugerida entre a
Lewkowicz, assegurando e reforçando assim a eficácia do fun­ escola como tecnologia de (outra) época e a garotada de hoje
cionamento disciplinar: “A escola trabalhava sobre as marca­ __seria um sintoma sumamente eloquente desse desajuste
ções familiares; a fábrica, sobre as modulações escolares; a histórico que hoje vivemos.
prisão, sobre as molduras hospitalares.”12 Nesse sentido, cada
uma dessas instituições poderia pensar-se como um dispositi­
vo que exigia dos sujeitos a manutenção de certos traços e a
execução de determinadas operações para nelas permanecer.
Além de produzir as subjetividades de seus habitantes, na prá­
tica cotidiana desse conjunto de atos e gestos, o próprio dispo­
sitivo se consolidava em sua ação: ambos eram fabricados em
uníssono. Desse modo, já convenientemente disciplinados,
instruídos, civilizados e moralizados — para retomar os qua­
tro pilares pedagógicos destacados por Kant — , os sujeitos
podiam ingressar em cada uma dessas instituições munidos
das premissas que as guiavam. Compreendiam então seus có­
digos e eram capazes de colocá-los em prática, para além das
peculiaridades ou novidades encontradas em cada caso e, é
claro, apesar das singularidades individuais e da capacidade de
resistência que também se revelaria essencial para mobilizar
tal aparelhagem. Ao se dirigirem a cada nova instância, esses
traços deviam ser reforçados no cidadão, depurando desse

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0 molde escolar e
a maquinaria industrial

Nos parágrafos anteriores resumimos os principais motivos


que levaram ao desenvolvimento do complexíssimo sistema
escolar, semeando suas ramificações por toda parte, tanto nas
metrópoles mais pujantes do momento como nos confins da
civilização. Por outro lado, para que esse novo e tão ambicioso
artefato sociotécnico pudesse entrar em operação, uma condi­
ção básica era contar com sua matéria-prima indispensável:
certos tipos de corpos infantis. Em seu livro Vigiar e punir,
Michel Foucault explica que, ao tomar por modelo a prisão e
o Exército, a escola concebida pelas sociedades industriais teve
de ser uma instituição em que “cada corpo se constitui como
peça de uma máquina”.13 Um projeto bastante temerário e
nada modesto, até descomunal, mas em perfeita concordância
com a configuração disciplinar dos estilos de vida e com a
inabalável ambição do progresso científico-industrial. No en­
tanto, como sabe qualquer um que tenha mantido contato
com crianças — mais ainda com várias dezenas delas, reuni­
das num mesmo recinto —, não é fácil transformá-las em
peças de um aparelho bem calibrado, nem agora nem nunca,
provavelmente. Mais árduo ainda é conseguir a proeza de
manter essa ordem todos os dias e sem falta, durante várias
horas ao longo de tantos anos, pelo menos até que os peque­
nos componentes desse mecanismo se convertam em adultos
e passem a integrar outros aparatos.
Por causa dessa dificuldade recorreu-se ao confinamento
como um recurso disciplinar de importância vital, não só nos
colégios, mas também nas diversas instituições que subsidia­
ram a industrialização do mundo. Sua chave consiste em en-

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PAULA SI BI LI A . REDES OU PAREDES 0 MOLDE ESCOLAR E A MAQUINARIA INDUSTRIAL

cerrar os indivíduos num espaço delimitado por paredes, gra­ não parecem ser as instituições mais aptas a ensinar tais novi
des e fechaduras, com o interior idealmente diagramado para dades, as quais ainda se encontram em plena mutação e não
os fins específicos de cada instituição, em intervalos regulares deixam de suscitar toda sorte de confusões. No entanto, foi
de tempo, cujos limites e pautas devem ser igualmente estritos. assim que Foucault descreveu os cubículos em que tradicio­
Rotinas idênticas e progressivas se repetem em tais condições, nalmente se desenvolvia o ensino primário: “uma máquina de
com frequência diária e durante longos períodos da vida de aprendizagem”. Em seu afã de reconstruir a trajetória da esco­
cada sujeito. Não se deve subestimar a importância desse trei­ la a partir dos arquivos e outros vestígios deixados pela histó­
namento corporal, tão metódico e a portas fechadas, visto que ria, numa investigação realizada na década de 1970, o filósofo
— como afirmara Kant em suas lições pedagógicas — a fun­ francês relatou que em tais espaços fechados se exercia uma
ção primordial da escola não consistia prioritariamente em “combinação cuidadosamente medida de forças”, que exigia
instruir os alunos em determinados saberes ou conhecimentos “um sistema preciso de comando” e na qual “todo o tempo de
práticos, mas em “habituá-los a permanecer tranquilos e a todos os alunos estava ocupado, ensinando ou aprendendo”."’
observar pontualmente o que lhes é ordenado”.14A primeira e Sem dúvida, tampouco naquela época foi simples implemen­
mais capital etapa do adestramento infantil deveria ser dedi­ tar e manter em funcionamento tal aparato tecno-humano:
cada, portanto, a acostumar as crianças a ficar sentadas em toda uma plataforma teve de ser construída para sustentá-lo e
seus lugares durante períodos regulares e previamente estabe­ justificá-lo, articulando uma multiplicidade de práticas e dis­
lecidos, obedecendo às ordens dos superiores. Ou, como tra­ cursos capazes de se infiltrar de modo capilar nos âmbitos
duz o especialista brasileiro Alfredo Veiga Neto, “ensinar as mais recônditos. Essa estrutura colossal foi montada com o
crianças a ocupar melhor seu tempo e seu espaço”, ou seja, “de objetivo de conseguir algo sumamente improvável: transfor­
forma ordeira, disciplinada” e “de uma forma comum ou pa­ mar a carne tenra das crianças num ingrediente adequado
dronizada”. O primordial, portanto, era forçar essa adaptação para alimentar as engrenagens vorazes da era industrial. Algo
dos corpos infantis às definições radicalmente novas do tempo muito trabalhoso, único na história da humanidade e sur­
e do espaço que se enunciaram na modernidade, já que “qual­ preendentemente recente para a nossa compreensão.
quer um pode aprender as coisas relativas à cultura mais tarde, Tal façanha não só foi consumada com sucesso, como tam­
até mesmo fora da escola”.15 bém se manteve de pé e bem alinhada durante um bom tem­
Mas conseguir que todas as criaturas humanas de curta po, a ponto de ser imensamente difícil a mera tentativa de
idade aprendam a usar adequadamente o tempo e o espaço imaginar como seria um mundo sem escolas — mesmo sa­
nunca foi tarefa menor. É provável que a falência desse projeto, bendo-se que houve, sim, uma época não tão remota em que
na atualidade, seja outro indício da crise que afeta a escola. tais instituições teriam sido impensáveis. Por isso vale a pena
Por um lado, porque tal meta se tornou subitamente inviável; empreender aqui tal esforço de desnaturalização de algo tão
por outro lado, porque se alteraram tanto as definições es- enraizado em nossa cultura, no intuito de compreender os
paçotemporais quanto os usos dessas entidades que se consi­ sentidos dessa invenção extremamente eficaz, que, no entanto,
deram corretos ou equivocados. E também porque os colégios hoje se vê ameaçada. Se, antes da clivagem modernizadora

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PAULA SIB IL IA • REDES OU PAREDES 0 MOLDE ESCOLAR E A MAQUINARIA INDUSTRIAL

tanto na cultura ocidental como em todas as demais —, as chamamos “educação” funcionava de modos diferentes antes
escolas não existiam, deveria haver bons motivos para essa da instauração original dos modernos estabelecimentos de
incrível omissão. Uma explicação é muito simples: não havia ensino coletivo. Na Idade Média e até nos prelúdios da moder­
colégios porque eles não eram necessários. Sua função era nidade, por exemplo, os diversos ofícios eram diretamente
prescindível naquele tipo de sociedades e, por conseguinte, cultivados em oficinas, nas quais o aprendiz burilava sua perí­
não faria sentido investir tanto empenho em concebê-los e cia auxiliando o profissional já versado na habilidade específi­
custeá-los. Em suma: não havia necessidade de adestrar os ca a ser adquirida. Nesses casos, a transmissão do saber era
corpos pré-modernos para que fossem capazes de trabalhar considerada concluída quando o discípulo recebia a anuência
em fábricas, por exemplo, sintonizando seus gestos e ritmos dos habitantes da cidade pertencentes à corporação que con­
com a frequência mecânica de linhas de montagem, cronó­ gregava o serviço em questão. Por outro lado, se dessa maneira
metros e seus diversos automatismos. Tampouco era preciso se reproduziam os saberes práticos no meio popular da vida
instruí-los para que fossem cidadãos de bem, sensatos pais medieval, era nos ambientes impolutos dos mosteiros que se
ou mães de família e, quando fosse o caso, corajosos soldados transcrevia a sabedoria emanada dos livros sagrados e da pa­
capazes de sacrificar tudo pela pátria, defendendo a sobera­ lavra divina, mediante a exegese bíblica e as narrativas prota­
nia nacional. Os brotos mais precoces dessas demandas mal gonizadas por santos ou pecadores. De qualquer modo, tanto
começaram a se disseminar, anunciando seu pronto floresci­ os “conteúdos” de tais ensinamentos quanto os sujeitos en­
mento, na segunda metade do século XVII. Não é à toa que, volvidos nesses rituais estavam muito longe do que viria a
precisamente nessa época, surgiram as primeiras “escolas de ocorrer nos ambientes escolares que seriam instituídos vários
aprendizagem” nos países europeus. séculos depois, e que hoje se encontram ao mesmo tempo
Essa implementação foi lenta e titubeante em seus primór­ naturalizados e em crise.
dios, mas também não admira que tenha se irradiado a partir Não houve só o avanço do método científico, como um
dos povos protestantes do norte da Europa, como assinala o instrumental cada vez mais hegemónico. Além disso, e em es­
inglês Colin Heywood em seu livro dedicado à história da in­ treita relação com esse movimento, a Reforma Protestante
fância. Todavia, o mesmo autor esclarece que a substituição do marcou uma ruptura importantíssima nesse tecido, fertilizan­
trabalho pela educação escolar, como ocupação principal das do o solo para que pudesse brotar o “espírito do capitalismo”,
crianças, só viria a se consumar bem mais tarde, numa data que já lutava por germinar, e junto com o qual surgiria algo até
que soa espantosamente recente para o olhar contemporâneo: então inédito e mesmo impensável: os sistemas nacionais de
no final do século XIX e início do XX.1' Mas então, antes disso, educação. O projeto escolar foi um fruto singular da confluên­
como se aprendiam as coisas? Em primeiro lugar, vale assina­ cia entre, de um lado, esses reformadores que propagavam sua
lar que, entre as imensas transformações implicadas pela mo­ “ética protestante” diante dos portões da modernidade e, de
dernização do mundo, mudou muito o que se considerava que outro, as ideias esclarecidas que impulsionavam o Iluminismo.
convinha aprender: quem tinha de saber o quê, através de Com a ressalva de certas especificidades, que, aliás, não são
quais procedimentos e com que objetivos. Por isso o que hoje meros detalhes, seria possível dizer que essas duas forças his­

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PAULA SI BI LI A • REDES OU PAREDES 0 MOLDE ESCOLAR E A MAQUINARIA INDUSTRIAL

tóricas ansiavam por metas comparáveis: lavrar a alma de seus lei: esse código universal constituiu um eixo vital da moderni­
fiéis ou temperar o caráter de seus cidadãos. Em todo caso, e dade, dedicado a proibir as mesmas coisas a todos os cidadãos,
para além das lutas muitas vezes sangrentas que acompanha­ de modo impessoal — algo que se devia assimilar na escola,
ram tais empenhos, a educação formal se foi lapidando como uma vez delineada a função paterna no seio do lar. Sem dúvida,
uma ferramenta preciosa para consumar tais objetivos. Não trata-se de uma visão pouco idealizada da instituição familiar,
por acaso, os historiadores situam o “nascimento da infância” ainda que os afetos em que ela foi macerada, graças aos influxos
justamente nesse interregno: foi em algum momento impreci­ românticos que insuflaram o éthos burguês, também tenham
so entre os séculos XVI e XVII, reforçando-se ao final deste contribuído para aumentar a eficácia desse aparato.
último, que começou a se cristalizar a figura do filho capaz de Cabe acrescentar aqui um breve parêntese a respeito da
se tornar aluno, a partir de um contexto prévio em que crian­ universidade, um templo do saber que nunca necessitou da
ças e adultos se mesclavam de forma muito mais indiferencia­ infância para funcionar e cuja estirpe, talvez por isso, precedeu
da. Como relata Philippe Ariès em suas pesquisas pioneiras amplamente a genealogia escolar, não só no mundo ocidental
sobre o assunto, essa especificidade crescente do infantil cons­ mas também em várias culturas orientais, como a chinesa e a
tituiu “uma das faces do grande movimento de moralização árabe. Na vertente europeia, seus vínculos com os conventos e
dos homens promovido pelos reformadores católicos ou pro­ as catedrais são evidentes até na arquitetura dos claustros mais
testantes ligados à Igreja, às leis ou ao Estado”; tal dinâmica, tradicionais, por exemplo. Mesmo após sua dispersão global e
é claro, não teria se concretizado “sem a cumplicidade senti­ sua atualização inevitável, ecos eclesiásticos continuam a im­
mental das famílias”.18 pregnar o vocabulário carregado de cátedras, decanos, togas,
Em suma: para que houvesse escola, tinha que haver crian­ púlpitos e aulas magnas, assim como o elitismo sectário e os
ças; por isso, diante da necessidade histórica de realizar o proje­ pomposos rituais de formatura que ainda persistem em vários
to modernizador anunciado pelas revoluções científicas, indus­ estabelecimentos espalhados pelo planeta, ainda que seu nome
triais e democráticas, foi preciso “inventar” as duas. A família, já sugira a mutação renascentista que converteu esses fausto­
é claro, foi um aliado iniludível nessa aventura, e o próprio en­ sos edifícios em santuários do saber universal. É claro que eles
sino formal terminou de consumar tal operação. Com efeito, também se modernizaram quando foi preciso. Nesse processo,
mais de um século antes do pronunciamento kantiano, o teólo­ as universidades converteram-se em instituições disciplinares
go e pedagogo morávio João Amós Comenius, que viveu no comparáveis às escolas. Atualmente, no capítulo mais recente
século XVII e costuma ser reconhecido como o “pai” da educa­ dessa longa história e com suas próprias especificidades, elas
ção moderna, autor de um tratado cujo título é Didactica Mag­ sofrem as turbulências desencadeadas pela mesma incerteza
na, “atribuiu à família a missão de educar no âmbito privado”, que afeta todas as demais organizações desse tipo.
enquanto a escola se ocuparia de idêntica função “no âmbito
coletivo, mais amplo e público, porém sempre encerrado entre
quatro paredes”.19 Poderíamos dizer que uma das funções da
escola era que a criança aprendesse a distinguir entre seu pai e a

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Educar o soberano
disciplinando os selvagens

Voltemos agora às escolas concebidas para ser diariamente


frequentadas por centenas de pupilos impúberes uniformiza­
dos: apesar da marca protestante que chancelou esse projeto
em suas origens, as sacudidelas provocadas pelo cisma cristão
também se fizeram sentir nos países católicos. Na Espanha,
por exemplo, esse impulso foi seguido de modo exemplar pe­
los jesuítas, cuja vocação pedagógica disseminou-se pelo con­
tinente europeu em pleno auge da Contra-Reforma; muito
especialmente, semeou suas sementes missionárias nas co­
lónias latino-americanas, africanas e asiáticas. Nesse sentido
— e isso talvez seja especialmente notório em nossos costu­
mes ibéricos —, a elite iluminista secularizou as ferramentas
educativas fundadas pelos reformadores religiosos, como ex­
plicam os sociólogos espanhóis Julia Varela e Fernando Álva-
rez-Uría em seu livro intitulado Arqueologia da escola.20
Na América colonial, as congregações eclesiásticas desem­
penharam um papel de primeira ordem nos assuntos edu­
cacionais, papel que não desapareceu de todo depois das in­
surreições nacionalistas. Nos territórios norte-americanos,
conquistados à força de massacres para “ampliar as fronteiras
da civilização”, por exemplo, os colonos anglo-saxões funda­
mentaram suas tradições muito respeitáveis reproduzindo ce­
nas edificantes, dignas do seriado Os pioneiros, nas quais a
Igreja e a escola eram pouco mais que sinónimos. Baseado na
saga autobiográfica da verdadeira Laura Ingalls, escritora e
professora nascida no estado de Wisconsin em 1867, esse pro­
grama televisivo dos anos 1970-1980 mostrou de que modo
— com base na inquebrantável e exemplar solidez do compro-

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PAULA SI BI LIA • REDES OU PAREDES EDUCAR 0 SOBERANO DISCIPLINANDO OS SELVAGENS

misso familiar — essas duas influências se entrelaçaram para ros de Castro em seu ensaio intitulado O mármore e a murta:
assentar as bases do novo mundo. O século XIX já avançava sobre a inconstância da alma selvagem. O texto do sacerdote
velozmente nas agrestes e longínquas paragens do Oeste dos jesuíta refere-se a dois tipos de esculturas: as feitas de már­
Estados Unidos, mas ali a modernidade era austera: os rígidos more e as confeccionadas com arbustos, como metáforas de
preceitos puritanos brotavam tanto da boca do pastor quanto duas classes bem distintas de naturezas humanas que, por isso,
dos lábios da mestra, cujos sermões eram pronunciados no respondem de modo diferente às tentativas de domesticação.
mesmo templo rusticamente construído com o suor e as lágri­ “A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resis­
mas dos paroquianos. tência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessá­
Enquanto isso, no sul do continente, a luta não se valeu rio que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a
apenas da eliminação sumária dos antigos povoadores; além mesma figura”, explicava o religioso português em pleno sé­
disso, exigiu um recurso muito caro à tradição católica: a ten­ culo XVII. Em contrapartida, a escultura lavrada em vegetal
tativa de conversão mediante a evangelização. É claro que esta pode ser modelada com menos esforço, “pela facilidade com
não contemplava apenas a salvação espiritual dos indígenas, que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre refor­
mas também os ensinamentos práticos que pudessem servir mando e trabalhando nela, para que se conserve”. Por isso, “se
aos objetivos buscados pelas autoridades estrangeiras e, acima deixa o jardineiro de [a] assistir, em quatro dias sai um ramo
de tudo, à crença numa lei abstrata, que só poderia ser minis­ que lhe atravessa os olhos, sai outro que lhe descompõe as
trada com fortes doses de disciplina. Retomando as ilustrações orelhas, saem dois que de cinco dedos lhe fazem sete, e o que
provenientes da cultura audiovisual, caberia mencionar, neste pouco antes era homem já é uma confusão verde de murtas”.
caso, o filme A missão, dirigido pelo britânico Roland Joffé em A alegoria começa a se deixar intuir: “Eis aqui a diferença
1986, que mostra tanto as dificuldades como as ambiguidades que há entre umas nações e outras na doutrina da fé”, conclui
e até mesmo as crueldades implícitas nesses processos, capazes o clérigo. Em primeiro lugar estão aquelas “naturalmente du­
de misturar as mais ferozes lutas pelo poder com justificativas ras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a
piedosas e boas intenções. A trama dessa obra se passa nas fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as
florestas do Cone Sul em meados do século XVIII, mas as ce­ armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a von­
nas protagonizadas por sacerdotes jesuítas e guerreiros ligados tade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande
à Coroa espanhola, em tenso contato com os índios guaranis, trabalho até se render; mas, uma vez rendidas, uma vez que
são semelhantes às que ocorreram mais ao norte a partir do receberam a fé, ficam nela firmes e constantes, como estátuas
século XVI, entre missionários de origem portuguesa e grupos de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas”. Sabe­
tupinambás. mos a que tipo de povos se refere o missionário com essa
A comparação vem à tona a partir de um relato muito ilus­ comparação: aos que integravam o velho continente, dos quais
trativo dos mal-entendidos gerados nesse choque, extraído do provinham os impulsos modernizadores. “Há outras nações,
Sermão do Espírito Santo, escrito em 1657 pelo padre Antônio pelo contrário — e estas são as do Brasil —, que recebem tudo
Vieira e resgatado pelo antropólogo brasileiro Eduardo Vivei­ o que lhes ensinam, com grande docilidade e facilidade, sem

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PAULA 51BI LI A • REDES OU PAREDES EDUCAR 0 SOBERANO DISCIPLINANDO OS SELVAGENS

argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir”, confirma converter”, como resume Viveiros de Castro. A evangelização e
em seguida o padre Vieira. “Mas são estátuas de murta, que, a educação em geral encontravam obstáculos no aborígine
em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a sul-americano, não porque ele fosse “refratário e intratável”,
nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato mas porque, “ao contrário, ávido de novas formas, mostrava­
como dantes eram.” Em face dessa inconsistência constitutiva -se entretanto incapaz de se deixar impressionar indelevel­
da alma selvagem, “é necessário que assista sempre a estas es­ mente por elas”. Receptivos, mas impossíveis de moldar ou
tátuas o mestre delas: uma vez, que lhes corte o que vicejam os “inconsistentes”, os índios constituíam uma matéria-prima
olhos, para que creiam o que não veem; outra vez, que lhes incompatível com a maquinaria escolar. “Eram como sua ter­
cerceie o que vicejam as orelhas, para que não deem ouvidos ra, enganosamente fértil, onde tudo parecia se poder plantar,
às fábulas dos antepassados; outra vez, que lhes decepe o que mas onde nada brotava que não fosse sufocado incontinenti
vicejam as mãos e os pés, para que se abstenham das ações pelas ervas daninhas”, acrescenta o antropólogo com base nos
e costumes bárbaros da gentilidade”. Somente desse modo, testemunhos jesuíticos. Por tais motivos, “esse gentio sem fé,
“trabalhando sempre contra a natureza do tronco e o humor sem lei e sem rei não oferecia um solo psicológico e institucio­
das raízes, se pode conservar nessas plantas rudes a forma não nal onde o Evangelho pudesse deitar raízes”.23
natural, a compostura dos ramos”.21 Para além do lirismo lusi­ Dir-se-ia que se os ensinamentos dirigidos a esses alunos,
tano e de toda a riqueza retórica desse sermão jesuíta, não é com sua indolência tão claramente alheia à ética protestante e
difícil associar suas conclusões às do tratado pedagógico mui­ ao seu credo disciplinador, entravam-lhes alegremente por um
to mais reto e áspero emitido por Immanuel Kant, que, quase ouvido, saíam de imediato, sem receio — e talvez sem deixar
um século e meio depois, denunciou nessas criaturas não oci­ demasiadas marcas —, por qualquer outro lado. “A gente des­
dentais uma “certa barbárie” difícil de extirpar por meio da tas terras é a mais bruta, a mais ingrata, a mais inconstante, a
catequese disciplinar.22 mais avessa, a mais trabalhosa de ensinar de quantas há no
Sob o olhar do século XXI, entretanto, esses “selvagens” que mundo”, queixava-se o esforçado clérigo português, execrando
habitaram os territórios americanos antes da chegada dos eu­ essa “deficiência da vontade” com uma perseverança que hoje
ropeus talvez não fossem nem ingenuamente bons, por não desperta certo sarcasmo.24 Segundo os missionários, o proble­
terem sido corrompidos pela civilização, na linha de Jean-Jac- ma dos índios “não residia no entendimento, aliás ágil e agu­
ques Rousseau, nem naturalmente brutos, ainda que talvez do, mas nas outras duas potências da alma: a memória e a
cultiváveis, segundo o raciocínio kantiano ou o jesuíta. Talvez vontade, fracas, remissas”, conclui Viveiros de Castro, confir­
fossem, simplesmente, diferentes. E, conforme se decida julgá­ mando assim o fatídico desencaixe entre esses modos de ser e
-los, tão saudavelmente indisciplináveis quanto politicamente os métodos escolares que em vão tentavam cultivar neles.25
resistentes. Em todo caso, pelo que consta e segundo o teste­ Porém, muito longe desse tipo de interpretações mais relati-
munho dos que tentaram fazê-lo, há um consenso que se re­ vistas — ou até perspectivistas — que caracterizam nosso
vela muito interessante para alimentar a perspectiva antropo­ presente multiculturalizado e pós-colonial, a oposição binária
lógica deste ensaio: eles eram “exasperadamente difíceis de entre civilização e barbárie marcou a cruzada modernizadora,

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PAULA SI BI LI A • REDES OU PAREDES EDUCAR 0 SOBERANO DISCIPLINANDO OS SELVAGENS

que não por acaso se revelou particularmente violenta nas domar as tendências bestiais e embrutecedoras que palpitam
terras sul-americanas em que persistia essa resistência “selva­ nas profundezas da natureza humana, por entender que se
gem” à disciplina ocidental. Algo que, como ficou claro, não trata de “animais influenciáveis” e que “é imperativo, portanto,
poderia ser tolerado pelos impulsos que disseminaram o pro­ proporcionar-lhes o tipo correto de influências”, como resume
gresso industrialista. Peter Sloterdijk. Assim se consuma a transformação do ho­
Assim, avançando para o final do século XIX e início do mem num animal doméstico.27 Eis aí uma rápida síntese da
XX, figuras como a de Domingo Faustino Sarmiento, na Ar­ complexa genealogia escolar.
gentina e no Chile, por exemplo, são emblemáticas dessa gesta. Um exemplo dessa novidade surgida na aurora da era mo­
Uma luta na qual não apenas se brandiram espadas e canhões derna — nesse caso, em território francês — é a Escola Profis­
contra os “bárbaros” — que, nesse caso, viviam muito perto de sional de Desenho e Tapeçaria dos Gobelinos, resgatada por
casa —, mas também se enalteceu a escola como um impor­ Foucault em sua análise dedicada a esquadrinhar como e
tante bastião para alcançar a tão esquiva condição civilizada. por que se constituíram as redes desse tipo de poder que ele
Esta se inspirava na Europa e, sobretudo, nos resplandecentes nomeou “disciplinar”. Organizada em Paris no início do sécu­
Estados Unidos, graças à sua “superioridade moral” de raiz lo XVII, embora ainda segundo os moldes da aprendizagem
protestante, com seu hábito exigente das avaliações periódicas medieval, tratava-se de um estabelecimento dedicado a fabri­
e seu culto da autossuperação. Levando em conta essa densa car luxuosos tapetes bordados e, nesse mesmo processo, qua­
linhagem que, à força de sangue e letra, mesclava puritanismo lificava artesãos especializados nessa técnica. Em 1737, porém,
e esclarecimento, não admira que a escola primária obrigató­ a instituição sofreu uma reforma que seria sintomática de sua
ria — que se instituiria no cerne do Ocidente no final do sécu­ época: implantou um regulamento que, sob o olhar contem­
lo XIX, com suas correspondentes repercussões de ultramar porâneo, parece um ancestral das normas escolares oitocentis­
— tivesse como firme e nobre propósito o de educar e norma­ tas. Esse documento estabelecia várias novidades: “todos os
lizar todos os cidadãos, ensinando-os a serem produtivos e alunos são inicialmente divididos por faixa etária”, por exem­
obedientes. Aqui ressoam novamente as máximas da pedago­ plo, e a cada um desses grupos “é imposto certo tipo de tarefa”,
gia kantiana enunciada no final do século XVIII: disciplinar, segundo relata o filósofo a partir do material de arquivo. “Esse
adestrar, civilizar e moralizar. No fim das contas, esse aparato trabalho deve ser realizado em presença ou de professores, ou
laico seria uma sofisticada derivação de seu ancestral mais de pessoas que o vigiam; e deve ser anotado, como também
rústico, religioso e reformista, de raízes nada menos que puri­ são anotados o comportamento, a assiduidade, o zelo do alu­
tanas. De modo que a história da educação formal está unida no.” Ademais, todos esses registros eram conservados em ar­
à do projeto científico moderno, mas também “à grande refor­ quivos, que se processavam em diversas planilhas e se transmi­
ma moral, inicialmente cristã e a seguir leiga, que disciplinou tiam como relatórios, seguindo uma ordem hierárquica que
a sociedade aburguesada do século XVIII e sobretudo do XIX”, ultrapassava o diretor da instituição de ensino e chegava às
segundo Philippe Ariès.26 Em outras palavras, o processo tam­ autoridades máximas da época. Assim, em torno das tarefas
bém poderia ser descrito como uma tentativa humanista de realizadas pelo aprendiz — convertido, agora, em aluno — ,

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PAULA SIB IL IA • REDES OU PAREDES EDUCAR 0 SOBERANO DISCIPLINANDO OS SELVAGENS

constituiu-se “essa rede de escrita que vai, por um lado, co­ Esse tipo de formação histórica, que começou a se implan­
dificar todo o seu comportamento, em função de certo nú­ tar a partir do Renascimento mas teve seu auge ao longo do
mero de anotações determinadas de antemão, depois esque­ século XIX e boa parte do XX, dedicou grandes doses de ener­
matizá-lo e, por fim, transmiti-lo a um ponto de centralização gia à configuração de certas subjetividades, enquanto evitava
que vai definir sua aptidão ou sua inaptidão”.28 cuidadosamente o surgimento de formas alternativas. A escola
Foi então que a prova ou o exame, tais como os conhece­ foi um componente primordial desse empreendimento, em­
mos, fizeram sua aparição, unindo-se à vigilância hierárquica bora tenha sido apenas mais um entre os diversos moldes aos
e à sanção normalizadora como os baluartes dessa forma pe­ quais recorreu a sociedade industrial para formatar seus cida­
culiar de se exercer o poder sobre os corpos e as populações dãos. Nessa imensa cruzada disciplinante, que constituiu um
humanas. A partir daí, a disciplina se fincaria tão visceralmen­ vetor central de nosso processo civilizador, a atividade que se
te no âmago dos procedimentos educativos, que até hoje se desenvolvia nos colégios foi reforçada por um conjunto de
confunde com seu substrato naturalizado. “É preciso vigiar as “instituições de confinamento”, como as denominou Foucault:
crianças com cuidado e jamais deixá-las sozinhas em nenhum do lar familiar aos reformatórios, da fábrica aos quartéis, dos
lugar, estejam elas sãs ou doentes”, dizia o regulamento das hospitais ou asilos à prisão e à universidade. Graças a esse mi­
escolas de Port-Royal, promulgado em 1721. Essa “vigilância nucioso e persistente labor mancomunado de confinamentos
contínua” devia ser exercida “com doçura e certa confiança, sucessivos, foram-se gerando subjetividades afinadas com os
que faça a criança pensar que é amada, e que os adultos só propósitos da época: certos modos de ser e estar no mundo
estão ao seu lado pelo prazer de sua companhia”, acrescen­ que se tornaram hegemónicos na era moderna por serem do­
tava; “isso faz com que elas amem essa vigilância, em lugar de tados de determinadas habilidades e aptidões, embora tam­
temê-la”.29 Inculcar esse gosto pela disciplina e a ordem não foi bém estivessem lamentavelmente marcados por certas incapa­
tarefa simples, mas revelou-se fundamental para que todo o cidades e carências. Segundo as palavras do próprio Foucault,
projeto pudesse se colocar em andamento. Essa grande trans­ nessa época e dessa maneira se construíram corpos “dóceis e
formação, que afetou os processos de aprendizagem e come­ úteis”, organismos humanos treinados para trabalhar na ca­
çou a alterar suas bases naquele período histórico, está longe deia produtiva e para se mover eficazmente nos reluzentes
de ser um fato isolado: algo semelhante aconteceu com todos traçados urbanos da modernidade. Em outras palavras, sujei­
os demais ramos da atividade humana. Como é bem sabido, a tos equipados para funcionar com eficiência dentro do projeto
irrupção dos tempos modernos significou um cataclismo de histórico do capitalismo industrial.
enorme envergadura na história ocidental e acabou fundando
um estilo de vida sincronizado em escala planetária. Milhões
de corpos se mobilizaram ao compasso dos ritmos urbanos e
industriais, tutelados pelos vigorosos credos da ciência, da
democracia e do capitalismo, rumo a uma meta então consi­
derada indiscutível: o progresso universal.

42 43
Os incompatíveis: outros tipos
de corpos e subjetividades

O quadro que acabamos de descrever, herdado de nossos an­


tepassados imediatos, viu-se notavelmente transtornado nos
últimos tempos, e a venerável instituição escolar não foi a
única vítima dessas turbulências. Vários autores tentaram car-
tografiar o território que emergiu dessa crise, cujas raízes re­
montam ao fim da Segunda Guerra Mundial e cujos coro­
lários ainda se encontram em pleno processo de reordenação,
embora ele já esteja adquirindo a consistência de um novo
drama histórico. Um desses pensadores é Gilles Deleuze, que
recorreu à expressão “sociedades de controle” para designar o
“novo monstro”, como ele mesmo o ironizou num breve e
contundente ensaio publicado em 1990. Já faz mais de duas
décadas, portanto, que esse filósofo detectou a implantação
gradativa de um regime de vida inovador, apoiado nas tecno­
logias eletrónicas e digitais: uma organização social baseada
no capitalismo mais dinâmico do fim do século XX e início
do XXI, regido pelo excesso de produção e pelo consumo exa­
cerbado, pelo marketing e pela publicidade, pelos fluxos finan­
ceiros em tempo real e pela interconexão em redes globais de
comunicação.
Outra característica basilar desse novo mapa é a entroniza­
ção da empresa como uma instituição-modelo, que impregna
todas as demais ao contagiá-las com seu “espírito empresarial”.
Inclusive a escola, é claro, assim como os corpos e as subjetivi­
dades que por ela circulam. Essa nova mitologia propaga um
culto da performance ou do desempenho individual, que deve
ser cada vez mais destacado e eficaz. O grau de êxito obtido
nessa missão já não é avaliado mediante o antiquado instru-

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OS INCOMPATÍVEIS: OUTROS TIPOS DE CORPOS E SUB|ETIVIDADES
PAULA SI B I LIA . REDES OU PAREDES

mental que catalogava a normalidade e o desvio, típico da ló­ ção uniformizadora, homogeneizadora e normalizadora que
gica disciplinar; em vez disso, tal comportamento é medido costumava guiar por princípio a instituição escolar.
por critérios de custo-benefício e outros parâmetros exclusiva­ Porém, antes de serem deflagradas essas mutações no am­
mente mercadológicos, que enfatizam a capacidade de diferen­ biente moderno do último par de séculos, cabe frisar que as
ciação de cada indivíduo na concorrência com os demais. As­ primeiras e mais fundamentais modelagens corporais e subje­
sim se dissemina uma ideologia da autossuperação e uma tivas eram efetuadas na privacidade doméstica: no seio do lar,
busca pela elevação do rendimento que vai além das capacida­ essa doce instituição de confinamento habitada pela família
des de cada sujeito e até dos limites biológicos da espécie, nuclear de inspiração burguesa. E também nas salas, nos pátios
quando se procura alcançar estados pós-normais ou sentir-se e nos corredores do colégio. Os resultados desse trabalho, que
“mais do que bem” com a ajuda de produtos químicos e trei­ era tanto disciplinador como introspectivo, foram conceituali-
namentos específicos. Esses estímulos avivam a aspiração a zados de diversas formas pelos estudiosos das mudanças histó­
efetuar atualizações constantes em todos os planos, inclusive o ricas que torneiam as subjetividades. Surgiram denominações
educativo. Tais atualizações devem ser articuladas graças a um como homo psychologicus, homo privatus ou personalidades
bom gerenciamento de si mesmo sob moldes empresariais. introdirigidas, que aludem à “interiorização” característica de
Essa corrida, por sua vez, é constantemente acelerada e ins­ certa manifestação hegemónica do sujeito moderno. Esses ró­
tigada por uma aliança tácita entre três vetores fundamentais tulos se referem a um elenco de “modos de ser” que estariam
da contemporaneidade: meios de comunicação, tecnociências ficando antiquados porque, neste século XXI que ainda está
e mercado. começando — embora avance a uma velocidade assustadora
Tudo isso implica a necessidade de desenvolver certas com­ —, são outros os corpos e as subjetividades que se tornaram
petências que a escola tradicional não só parece incapaz de necessários. Por isso, agora e em toda parte, não surpreende
inculcar, como seria até contraproducente nesse sentido: po­ que reverberem outros tipos de sujeitos: novos modos de ser e
deria aniquilá-las, abortando em seus alunos a incubação estar no mundo que emergem e se desenvolvem respondendo
dessas habilidades tão valorizadas na atualidade. É o que sus­ às exigências da contemporaneidade, ao mesmo tempo que
tentam muitos discursos relacionados com o “empreendedo- contribuem para gerar e reforçar tais características.
rismo” neoliberal, presentes também no âmbito das reformas Talvez seja nesse sentido que tais configurações mais atuais
pedagógicas em curso, quando destacam a importância da seriam “dóceis e úteis” à sua maneira e no novo contexto, em­
distinção individual e as vantagens da singularização do indi­ bora ainda seja preciso indagar como se encarnam essa docili­
víduo como uma marca, explorando a própria criatividade dade e essa utilidade no tempo presente, e em que medida es­
para poder ser sempre o primeiro e ganhar dos outros. Essas sas tendências poderiam (ou mereceriam) ser recebidas com
propostas aderidas aos novos credos são as mesmas que assi­ resistência. Perguntas que também não admitem respostas
nalam, de modo explícito, que a educação formal poderia de­ fáceis, sobretudo porque se trata de mudanças muito recentes
vastar tais aptidões, cortando pela raiz as potencialidades das que ocorrem num cenário extremamente instável, com deslo­
crianças de hoje, principalmente quando se considera a voca­ camentos constantes e um bom número de contradições. Ain­

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PAULA S IB IL IA • REDES OU PAREDES OS INCOMPATÍVEIS: OUTROS TIPOS DE CORPOS E SUBI ETIVIDAD ES

da assim, algumas características das configurações corporais constante. Em suma: bem-estar corporal, emocional, profis­
e subjetivas atualmente mais valorizadas já estão à vista. Vale a sional e afetivo, derivados de um ideal de felicidade ou de rea­
pena refletir sobre esses traços. Em vez de propagar a silencio­ lização pessoal que atravessa todos os âmbitos e já não parece
sa introspecção e o retraimento nas profundezas do psiquismo encontrar obstáculos nem diques capazes de inibi-lo.
individual, por exemplo, com a ajuda de ferramentas como a Por isso inscrevem-se nessa progénie as qualidades e habi­
leitura e a escrita — gestos que eram tão habituais em tempos lidades mais bem cotadas no mercado de valores da atualida­
não muito distantes e que a escola se ocupava de inculcar —, de, assim como a capacidade individual de administrá-las com
nossa época convoca as personalidades a se exibir em telas desenvoltura e renová-las sem parar, projetando-as na própria
cada vez mais onipresentes e interconectadas. Por outro lado, imagem, como acontece com qualquer outra marca em luta
em vez de cinzelarem nos músculos a rigidez das cadências e por vencer nos comércios altamente competitivos — e tão
dos ritmos da maquinaria industrial, sob o peso gigantesco do instáveis — das reputações. Assim, numa sociedade fortemen­
valor-trabalho e os austeros repertórios da “ética protestante”, te midiatizada, fascinada pela incitação à visibilidade e instada
os novos ritos trabalhistas requerem outras habilidades e dis­ a adotar com rapidez os mais surpreendentes avanços tecno-
posições corporais ou subjetivas, ao mesmo tempo que des­ científicos, em meio aos vertiginosos processos de globaliza­
prezam certas capacidades ou aptidões antes valorizadas, mas ção de todos os mercados, entra em colapso a subjetividade
que são consideradas cada vez menos úteis. interiorizada que habitava o espírito do “homem-máquina”,
Como fruto das várias lutas e disputas travadas ao longo do isto é, aquele modo de ser trabalhosamente configurado nas
século XX, que dinamitaram certas asperezas dos códigos dis­ salas de aula e nos lares durante os dois séculos anteriores. Aos
ciplinares e conquistaram a fusão entre trabalho e ócio, por poucos, ainda que numa velocidade que pode impedir a com­
exemplo, hoje se estimulam a criatividade e o prazer, inclusive preensão dos sentidos dos processos, ao lhes escamotear a
nos ambientes laborais. E, é claro, também nos outrora cir- densidade da experiência, desmorona-se toda a arquitetura
cunspectos territórios escolares. Nessa mesma linha, o circuito psicofísica que sustentava aquele protagonista dos velhos tem­
produtivo contemporâneo busca características antes comba­ pos modernos. Saem de cena, assim, um tipo de corpo e um
tidas, como a originalidade associada a certa espontaneidade modelo de subjetividade cujo cenário privilegiado transcorria
inventiva, além da capacidade de mudar com rapidez, reci­ em fábricas e colégios, e cujo instrumental mais valorizado era
clando o que se é em veloz sintonia com as tendências globais. a palavra impressa em letras de fôrma.30
Também se valorizam a livre iniciativa, a motivação, o perfil Agora, esse eixo “interior” que constituía o nó dos sujeitos
empreendedor e a vocação proativa, como atitudes capazes de oitocentistas e se considerava hospedado nas profundezas de
mover os mercados e gerar benefícios. Sem esquecer, por ou­ cada um — e que, por isso, devia ser moldado e nutrido tanto
tro lado, que tudo isso se dá numa cultura que enaltece a bus­ pelas moralizações familiares quanto pela aprendizagem esco­
ca da celebridade e o sucesso imediato, combinando nesse lar, sem descuidar também dos enfrentamentos cotidianos
projeto a realização pessoal e a satisfação instantânea, exaltan­ contra ambos os tipos de modelagens — transfere-se para
do valores como a autoestima, a aparência juvenil e o gozo outras zonas da condição humana, ao mesmo tempo alimen­

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PAULA SIB IL IA . REDES OU PAREDES OS INCOMPATÍVEIS: OUTROS TIPOS DE CORPOS E SUBIETIVIDADES

tando e respondendo às insistentes demandas de novos modos Fica claro que os dispositivos eletrónicos com que convi­
de autoconstrução. Em vez de uma vivência “marcada pela vemos e que usamos para realizar as mais diversas tarefas,
forte presença normativa de uma interioridade conflituada”, com crescente familiaridade e proveito, desempenham um
como afirma o psicanalista brasileiro Benilton Bezerra, deli­ papel vital nessa metamorfose. Esses artefatos de uso coti-
neia-se “uma subjetividade exteriormente centrada, avessa à diano não só provocam velozes adaptações corporais e subje­
experiência de conflito interno, esvaziada em sua dimensão tivas aos novos ritmos e experiências, permitindo responder
privada idiossincrática e mergulhada numa cultura cientificis- com a maior agilidade possível à necessidade de reciclagem
ta que privilegia a neuroquímica do cérebro, em detrimento constante e de alto desempenho, como também eles mesmos
de crenças, desejos e afetos”.31 Assim, junto com os deslum­ acabam por se multiplicar e se popularizar em virtude de tais
brantes espaços e utensílios que a contemporaneidade deu à mudanças nos estilos de vida. De fato, muitos usos da parafer­
luz, proliferam outras formas de construir a própria subjetivi­ nália informática e das telecomunicações, assim como ocorre
dade e também novas maneiras de nos relacionarmos com os com os frutos da mais recente investigação biomédica e farma­
outros e de agirmos no mundo. cológica, constituem estratégias que os sujeitos contemporâ­
Buscando entender os sentidos desses fenômenos, alguns neos põem em jogo para se manter à altura das novas coações
autores referem-se à sociabilidade líquida ou à cultura somá­ socioculturais, gerando maneiras inéditas de ser e estar no
tica de nosso tempo, que fariam surgir um tipo de eu mais mundo.
epidérmico e dúctil, capaz de se exibir na superfície da pele e Por motivos óbvios, os jovens abraçam essas novidades e se
das telas, edificando sua subjetividade nessa exposição intera­ envolvem com elas de maneira mais visceral e naturalizada,
tiva. Alude-se também às personalidades alterdirigidas e não embora de modo algum se trate de uma exclusividade das ge­
mais introdirigidas, construções de si mesmo orientadas para rações mais novas. Todavia, surge aqui um choque digno de
o olhar alheio ou “exteriorizadas” em sua projeção visual.32 Por nota: justamente essas crianças e adolescentes, que nasceram
outro lado, mas seguindo as mesmas pistas, analisam-se as ou cresceram no novo ambiente, têm de se submeter todos os
diversas bioidentidades que proliferam hoje, como desdobra­ dias ao contato mais ou menos violento com os envelhecidos
mentos de um tipo de subjetividade que se escora nos traços rigores escolares. Tais rigores alimentam as engrenagens oxi­
biológicos — genéticos ou cerebrais, por exemplo, inclusive dadas dessa instituição de confinamento fundada há vários
hormonais — ou no aspecto físico de cada indivíduo. Essas séculos e que, mais ou menos fiel a suas tradições, continua a
novidades estariam substituindo o hábito já meio vetusto funcionar com o instrumental analógico do giz e do quadro­
de tecer secretamente a própria identidade em torno daquele -negro, dos regulamentos e boletins, dos horários fixos e das
núcleo etéreo que se considerava tão interior quanto essencial carteiras alinhadas, dos uniformes, da prova escrita e da lição
e que, precisamente por isso, não só era “invisível aos olhos” e oral. Como diz uma frase que já se converteu em cliché quan­
mais verdadeiro que as vãs aparências, mas também se apre­ do se trata desse assunto, atribuída ao especialista em inteli­
sentava como refratário à decodificação técnica porque estava gência artificial Seymour Papert: “Imaginemos que, um século
— e sempre estaria — cheio de mistérios. atrás, houvéssemos congelado um cirurgião e um professor, e

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PAULA SIBI LIA • REDES OU PAREDES OS INCOMPATÍVEIS: OUTROS TIPOS DE CORPOS E SUBJETIVIDADES

agora os devolvêssemos de novo à vida; o cirurgião entraria na to, enquanto as “novas forças” se apinham do lado de fora e
sala de operações e não reconheceria nem o lugar nem os ob­ ameaçam desbaratá-la. Pois a instituição escolar se sustentava
jetos, e se sentiria totalmente impossibilitado de agir; em con­ — há menos tempo do que parece — apoiada numa série de
trapartida, o professor reconheceria o espaço como uma sala valores que eram considerados indispensáveis para assegurar
de aula e ainda encontraria um pedaço de giz e um quadro­ sua estrutura, e esses cimentos morais deviam conservar certa
-negro com os quais poderia começar a lecionar.” solidez para permitir o bom funcionamento de tão fabulosa
Apoiado na premissa aparentemente antiquada do pro­ maquinaria ortopédica. O respeito pela hierarquia e o reco­
gresso, o relato que acabamos de citar parece autoexplicativo nhecimento da autoridade de professores, diretores e supervi­
em sua valorização negativa daquilo que teria permanecido sores, por exemplo, era um desses pilares dos quais não se
imutável num mundo que se move aceleradamente; no entan­ podia prescindir. Além disso, exigia-se uma valorização posi­
to, talvez valha a pena questionar não só o que essa frase afir­ tiva do esforço e da dedicação concentrada, com metas a longo
ma explicitamente, mas também certas suposições não discu­ prazo, assim como da obediência e do compromisso indivi­
tidas que se ocultam em suas entrelinhas. Para começar, então, dual no cumprimento de rotinas fixadas com antecedência,
se a atmosfera em que estamos imersos mudou tanto, caberia segundo rigorosos enquadramentos espaçotemporais que de­
retomar aqui a pergunta central: para que precisamos de esco­ viam ser meticulosamente acatados — toda uma série de ceri­
las agora? Ou melhor, o que gostaríamos que esse artefato fi­ mónias, enfim, realizadas com uma constância compassada e
zesse com os corpos e as subjetividades que todos os dias tran­ perseverante, que poderiam ser resumidas destacando-se o
sitam por seus domínios, cada vez mais cheios de grades e enaltecimento do trabalho como um valor que constituía a
tentativas de controle? Em sua análise sobre a crise das socie­ pedra fundamental do “espírito do capitalismo”, ao menos em
dades disciplinares e a veloz implantação de um novo estilo de sua configuração clássica, imbuído da “ética protestante”.
vida, Gilles Deleuze foi radical: “Essas instituições estão con­ Por todos esses motivos, a tenacidade disciplinar inscrita
denadas”, diagnosticou o filósofo há duas décadas. “Os minis­ nos regulamentos da época áurea do sistema escolar — cujo
tros competentes não param de anunciar reformas suposta- detalhismo hoje pode nos parecer um tanto disparatado —
mente necessárias”, explicou, aludindo à escola ou ao hospital, internalizava-se, em tempos não muito distantes, nas profun­
ao Exército ou ao presídio. No entanto, o autor entendia que dezas da alma, não apenas a dos estudantes mas também a dos
não há conserto possível para esses inventos vetustos porque pais e professores. “A alma, efeito e instrumento de uma ana­
seu ciclo vital terminou. Essas instituições perderam seu sen­ tomia política; a alma, prisão do corpo”, assim o resumiu Fou-
tido histórico. “Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as cault num célebre jogo de palavras, depois de refletir longa­
pessoas, até a instalação das novas forças que se anunciam”, mente sobre a situação.34 Isso significa que as normas eram
sentenciou Deleuze em 1990.33 respeitadas porque se acreditava serem corretas: prescreviam
Caso concordemos com tal veredicto, caberia desconfiar­ o que era certo ou errado em função de um consenso clara­
mos de que a escola sofre de modo particularmente intenso mente instituído e enraizado num solo considerado sólido.
a angústia implícita de aguardar seu próprio atestado de óbi­ Esse acordo, amplamente compartilhado, via-se iluminado

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PAULA SI BI LI A • REDES OU PAREDES OS INCOMPATÍVEIS: OUTROS TIPOS DE CORPOS E SUBJETIVIDADES

pelo brilho de certa “moral laica”, de cujos propósitos um era rio”, na qual a “obediência é pronta e cega”, pois “a aparência
o de “libertar as consciências da tutela das religiões”, como de indocilidade, o menor atraso, seria um crime”.36 Se essa
explicam os autores do esclarecedor compêndio de manuais descrição soa tão distante dos usos e costumes dos colégios
escolares intitulado A moral na escola.35 Um credo seculariza- contemporâneos, isso se deve principalmente a que o mundo
do, certamente, mas que conservou seu poder de “aprisionar” mudou muito desde a época em que essa entidade foi idealiza­
os corpos modernos, mesmo após a libertação da profunda da e posta em funcionamento, em virtude de sua utilidade
reverência pelo divino e do pavor do demoníaco que, em ou­ para perpetrar as metas políticas, económicas e socioculturais
tros tempos, assombraram as almas pecadoras. Ressoam aqui qUe — segundo se supunha — nos guiariam rumo à evolução
os parentescos antes assinalados entre a magna instituição es­ da humanidade.
colar — de estirpe esclarecida, nacional e estatal, moderna e Afinal, a educação primária tinha por missão “a melhora
laica — e os ancestrais religiosos dessa prática sociocultural de moral, intelectual e física” das populações nacionais, segun­
origem protestante, que foi depurada por jesuítas e dominica­ do a célebre postura do mencionado Domingo Faustino Sar-
nos, assim como pelos severos jansenistas e outras congrega­ miento na passagem do século XIX para o XX. Ao enunciar
ções ou ordens conventuais igualmente “disciplinadas”. Não seus princípios pedagógicos, quase cem anos antes, Kant tam­
surpreende, nesse contexto, que fosse tão tênue a diferença bém havia destacado que “é preciso cuidar da moralização , de
entre um pecado e uma desobediência à lei, como mostram modo que não bastava aprender a ser hábil para todos os fins:
certas cenas escolares de filmes ambientados nos séculos an­ mais que isso, e talvez sobretudo, o aluno adquiriria “um cri­
teriores, desde Jane Eyre (de Cary Fukunaga, 2011) até Oito tério conforme o qual [escolheria] somente os bons objeti­
e meio (de Federico Fellini, 1963). vos”.37A escola devia enraizar nos espíritos infantis os parâme­
As regras desses regulamentos eram cumpridas porque se tros necessários para sempre avaliar o correto e o incorreto,
acreditava firmemente que assim devia ser, sem maiores rebel­ assimilando as normas que regem os comportamentos, assim
dias nem impertinências, não só porque se estava sob estrita como a ideia de que há um lugar e um momento adequados
vigilância e porque seu descumprimento acarretaria castigos para cada tipo de ação. Ao aprender o que é certo e o que é
mais ou menos penosos, mas também porque era assim que a errado, os jovens seriam “capazes de se conscientizar de suas
máquina funcionava, e assim devia ser. Daí o poderoso efeito próprias ações e de seu próprio lugar no mundo”, conforme
moralizador das advertências e suspensões, assim como de explica Alfredo Veiga Neto, para concluir que assim se espera­
todo o conjunto de sanções promulgadas pelos códigos e esta­ va que, mais tarde, na idade adulta, cada indivíduo fosse capaz
tutos da excelsa instituição escolar. Daí também sua eficácia de julgar os próprios atos e os alheios, “de modo que cada um
funcional para consumar tão extraordinária missão. “Colocar se autogoverne, isto é, passe a ser juiz de si mesmo”.38Tudo isso
os corpos num pequeno mundo de sinais, a cada um dos quais sugere, por outro lado, que os padrões morais eram menos
está ligada uma resposta obrigatória e só uma”, explicava Fou- frouxos nesse contexto que já se vai distanciando: se na socie­
cault ao radiografar o aparato escolar como uma “técnica de dade disciplinar estava tão claro o que era correto ou não, por
treinamento que exclui despoticamente [...] o menor murmú­ isso mesmo era bem mais fácil ensiná-lo e castigar seus des­

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PAULA SI BI LIA . REDES OU PAREDES OS INCOMPATÍVEIS: OUTROS TIPOS DE CORPOS E SUBIE TIV IDADES

vios. Mas isso não significa que naquela época todos possuís­ digna espécie, o século XIX ansiou pela singularidade indivi­
sem uma moralidade inata ou certa fibra de caráter que hoje dual e tentou construí-la no espaço privado da intimidade,
escasseia: tais códigos eram considerados tão universais e in­ enquanto no âmbito público imperavam os rigores impessoais
dubitáveis porque eram absorvidos desde muito cedo no coti- da norma.40
diano familiar e escolar. Não foi à toa que esse tipo de indivíduo acabou inventando
Para além do jogo de forças e disputas sempre atuantes, a psicanálise para se converter no objeto dessa terapia: trata-se
especialmente na intensa era moderna, acreditava-se que che­ de uma personalidade que sofria por ter que reprimir seus
gar a esse consenso seria uma virtude das mais civilizadas. desejos proibidos em nome da lei vigente na sociedade, repre­
“Uma sociedade em que cada um é capaz de constranger seus sentada pela figura autoritária do pai, do professor, do Estado.
ímpetos naturais de dentro para fora, em que cada um é capaz Por isso era necessário aprender a dobrar essa “parte maldita”
de pensar, avaliar e censurar previamente suas ações, de modo das paixões descontroladas graças aos poderes moralizadores
a direcioná-las positiva, produtiva e disciplinadamente”, de­ da culpa organizados em torno do superego, ainda que em seu
veria ser “uma sociedade mais segura, mais humana, mais ci­ âmago continuassem a pulsar os tesouros conflitivos e enig­
vilizada e mais feliz”, resume Veiga Neto. É claro que havia máticos de cada interioridade. Esse tipo de sujeito, edificado
brechas nessas convicções, sobretudo a partir do momento em ao longo do século XIX e durante boa parte do XX, é sem dú­
que a sóbria racionalidade ocidental se viu sugada pelo buraco vida bem diferente daquele que constitui o foco das biociên-
negro do romantismo, abrindo os portões para um lado irra­ cias mais recentes, ou mesmo das tecnologias de comunicação
cional e inconsciente que seria constitutivo de cada sujeito e informação que cintilam neste novo milénio. De algum
moderno. No entanto, ainda assim partia-se de um terreno modo, enquanto se desfazem das dores e delícias dessa confi­
supostamente firme, constituído pelo que se considerava nor­ guração “interiorizada”, tanto as subjetividades como os cor­
mal e pela grave falha que implicaria não conseguir alcançá-lo. pos contemporâneos se tornam transparentes, decodificáveis e
“Ainda que cada adulto assim disciplinado conserve em si uma talvez até mesmo reprogramáveis. Nessa metamorfose, não só
parte a ser julgada”, continua Veiga Neto, “cada um será capaz se enfraquece a oposição entre espaços públicos e privados
de olhar para si mesmo a partir de uma parte já não mais como também perde força a ideia de que valeria a pena repri­
selvagem, já na maioridade ou, se quisermos, já civilizada”. mir os próprios desejos em nome de algum valor transcen­
Esse tipo tão peculiar de sujeito, que julga a si mesmo e se dental. “A busca da felicidade individual assume um novo sig­
autogoverna, apesar de se saber habitado por uma interiorida­ nificado no período pós-guerra”, explica o filósofo canadense
de abissal, pensava em si como uma espécie de duplo: “não Charles Taylor, em função de uma gradativa “erosão das limi­
dissociado, mas reflexivo e em tensão permanente consigo tações impostas à realização individual”. Esse tecido de crenças
mesmo”.39 Essa criatura foi esmiuçada pelo sociólogo Richard que escora a atual “era da autenticidade”, segundo a deno­
Sennett em seu livro O declínio do homem público: se o sécu­ minação do mesmo autor, supõe que cada um “possui sua
lo XVIII se viu marcado por um individualismo de cunho ra­ própria maneira de realizar nossa humanidade, e que é impor­
cional e universal, sob o ideal de igualdade que irmanava tão tante encontrar-se a si próprio e viver a partir de si mesmo, em

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PAULA SIB IL IA . REDES OU PAREDES OS INCOMPATÍVEIS: OUTROS TIPOS DE CORPOS E SUBIETIV IDADES

contraposição a render-nos ao conformismo perante um mo­ a opressão de sua liberdade, por estar encerrado ou aprisio­
delo imposto”.41 nado — inclusive dentro da sala de aula — e, por esse motivo,
Assim, como fruto das transformações consumadas na se­ procurava se libertar, rompendo muros ou pulando cercas.
gunda metade do século XX, ter-se-ia desvanecido a ideia de Já não parece ser isso o que acontece nas escolas atuais, por
que se deve sacrificar a satisfação pessoal em nome de algo exemplo. Ou, pelo menos, essa angústia do confinamento e a
mais elevado e incontestável. Até porque os valores desse tipo urgência em dinamitá-lo não se impõem como os problemas
teriam perdido sua consistência, igualmente rachados pelos mais pungentes que assolam os que as habitam, tendo sido
questionamentos das últimas décadas. Não se trata de que substituídos por outras dúvidas e controvérsias.
já não se aposte na família ou no trabalho, por exemplo, ou Embora não convenha exagerar nem esquematizar as rup-
mesmo na pátria e até na religião; porém, todas essas instân­ turas históricas, e apesar das evidentes continuidades que
cias se converteram em opções individuais — não necessaria­ ainda nos atam ao horizonte arduamente tecido durante a
mente dadas a priori, mas adaptáveis e definíveis ao gosto de modernidade, não é difícil constatar até que ponto as coisas
cada um —, em vez de constituírem certezas estabelecidas mudaram. A prescrição regular de castigos físicos nas rotinas
com validade universal, de cunho obrigatório para todos sob estudantis e a severidade contra a prática da masturbação nos
o peso da norma. Algo semelhante, talvez, se poderia dizer a internatos, por exemplo, foram completamente abandona­
respeito da escola? De fato, a uniformização do ensino formal das, já há várias décadas, e seriam inclusive penalizadas como
em seu molde tradicional começa a ser questionada, mesmo graves abusos de autoridade se ocorressem atualmente. A sen­
que seja em busca de dispositivos mais “eficazes” para aqueles sibilidade contemporânea costuma rechaçar com repulsa a
que têm a possibilidade de escolher — e, é claro, o privilé­ visão de cenas habituais em filmes que retratam o universo
gio de poder pagar pelo acesso a tal vantagem diferencial — , escolar da primeira metade do século XX, como Zero de con­
dando abertura à experimentação de alternativas que teriam duta (de Jean Vigo, 1933), A sociedade dos poetas mortos (de
sido impensáveis algum tempo atrás. Peter Weir, 1989), ou mesmo Cinema Paradiso (de Giuseppe
Em função de todas essas redefinições, num mundo satu­ Tornatore, 1988), nos quais os alunos são duramente açoita­
rado de opções e estímulos dos mais diversos tipos, certo so­ dos por seus professores e diretores por terem cometido pe­
frimento por excesso de dispersão caracterizaria as experiên­ quenas infrações que hoje nem sequer seriam registradas, ou
cias contemporâneas, de um modo mais agudo que a clássica que poderiam até vir a ser promovidas pela própria institui­
repressão oitocentista diante do rigor coibitivo da lei. Por isso, ção. Essas diferenças de época na apreciação de tais atos são
paralelamente à manifesta adesão aos ritmos atuais, não é raro indícios — pontuais, embora bastante contundentes — das
que se procure usar estratégias tendentes a deter um pouco mudanças aqui estudadas.
esse fluxo inesgotável, tentando capturar o que acontece para “A criança, sem dúvida, ainda não tem nenhum conceito
convertê-lo em experiência ou até mesmo em pensamento. do moral”, afirmava Kant em 1803. Por isso o filósofo reco­
De um modo comparável, o modelo subjetivo descrito rapi­ mendava não ceder a seus desejos e, em vez disso, prescrever­
damente como típico dos séculos XIX e XX tendia a sofrer com -lhe “muitas coisas como um dever” para assim temperar seu

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PAULA S IB IL IA • REDES OU PAREDES OS INCOMPATÍVEIS: OUTROS TIPOS DE CORPOS E SUBJETIVIDADES

espírito e acostumá-la à obediência. Desse modo se evitaria artigos escritos pela semióloga argentina Cristina Corea no
estragar a criatura, pois “se ela é acostumada a ver realizados ano 2000.43 Talvez nos encontremos diante de uma situação
todos os seus caprichos, depois será tarde demais para que­ comparável à que enfrentaram os missionários que tentavam
brar sua vontade”, e “é preciso empregar castigos muito duros a duras penas “civilizar” os “selvagens” habitantes das colónias
para corrigir o que foi corrompido”. Essa importante tarefa ultramarinas: por incompatibilidades socioculturais muito
estava nas mãos da escola, mas, antes, devia ser inculcada pela diferentes, mas talvez igualmente difíceis de driblar, o alunato
família: as crianças “também são muito prejudicadas ao se atual também é refratário às tecnologias pedagógicas que pre­
acudir a elas quando gritam, cantando-lhes alguma coisa, por tendem inculcar-lhe sua antiquada catequese. Assim é que
exemplo, como têm o costume de fazer as amas”, esclarecera volta à tona, neste ponto, a questão que constitui o eixo deste
o filósofo, acrescentando que “essa é, habitualmente, a primei­ ensaio: uma vez carcomidas suas bases pela reacomodação —
ra perversão da criança, pois, ao ver que tudo atende a seus e pela crescente fluidez — dos solos que sustentam o presente,
gritos, repete-os com mais frequência”. Ao contrário, porém, como se pode pretender que a enferrujada estrutura escolar se
“deixando-as gritar, elas mesmas se cansam; todavia, quando mantenha de pé e continue a funcionar?
se satisfazem todos os seus caprichos na primeira infância, seu
coração e seus costumes se pervertem”. Não se devia ceder,
portanto, à “vontade despótica das crianças”, pois “é muito
difícil reparar esse mal, e dificilmente se chega a consegui-lo”.
No entanto, quando se consegue restringir essas tendências
desde o início, concede-se aos futuros adultos algo inesti­
mável: “Depois, isso lhes é da maior utilidade em toda a sua
vida, pois só o dever, não a inclinação, pode conduzir-nos nas
imposições públicas, nos trabalhos do oficio e em muitos ou­
tros casos.”42
Ante essas pinceladas de moral oitocentista em termos
educativos, parece evidente que são outros os valores reveren­
ciados ao despontar o século XXI, globalizado e multicultural,
tanto dentro como fora das paredes escolares. Por conseguin­
te, não pode nos surpreender que o edifício inteiro ameace
desmoronar — como sugere, a propósito, a problemática re­
tratada no filme Entre os muros da escola, dirigido em 2008 por
Laurent Cantet, cujo espírito está sintetizado na epígrafe que
encabeça este livro. A subjetividade da criança atual “violenta
o dispositivo pedagógico”, segundo afirma já no título um dos

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0 desmoronamento do sonho letrado:
inquietação, evasão e zapping

Além de tudo o que foi argumentado até aqui, de modo bas­


tante veloz e resumido, também seria preciso considerar que a
escola se instaurou sob a égide da “cultura letrada” como um
horizonte de realização, tanto no que concerne a cada Estado
nacional quanto à civilização ocidental como um todo. E esse
é, de fato, outro dos pilares que vêm sendo ruidosamente cor­
roídos nos últimos tempos. Ainda que hoje se publiquem mais
livros que nunca e, periodicamente, vendam-se milhões de
exemplares de certos fenômenos editoriais bem determinados,
tanto em sua versão impressa como nos formatos digitais mais
inovadores, a sociedade contemporânea está fascinada pelos
sedutores feitiços das imagens. De fato, depois de atravessar
um século inteiro sob a luz deslumbrante do cinema e após
várias décadas de intenso contato com a televisão, a cultura
atual é fortemente marcada pelos meios de comunicação au­
diovisuais. Mais recentemente, a produção e a circulação de
imagens se multiplicou exponencialmente, graças à irrupção
triunfal das redes informatizadas.
Esses processos detonaram uma profunda transformação
das linguagens, afetando os modos de expressão e comunica­
ção em todos os âmbitos, inclusive em campos tão vitais quan­
to a construção de si mesmo, as relações com os outros e a
formulação do mundo. Entre os complexos desdobramentos
que ainda estão por ser cartografados e estudados, esse movi­
mento implicou certa crise das “belas artes” da palavra — tan­
to em suas manifestações orais como escritas — e a implanta­
ção gradual daquilo que alguns denominam “civilização da
imagem”. Os autores que pensaram essa mutação são nume-

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0 DESMORONAMENTO DO SONHO LETRADO: INQUIETAÇÃO, EVASAO E Z A P P IN G
PAULA SI BI LIA • REDES OU PAREDES

rosos e muito diversos, mas entre eles cabe mencionar Guy tar pequenos laços precários, mas talvez poderosos, meramen­
Debord com seu feroz alarido contra a “sociedade do espetá­ te situacionistas ou válidos para cada ocasião.
culo”, emitido em 1967 e hoje revisitado não só por seu tom Embora não tenha permanecido imune a essas fortes con­
vintage mas também por sua impressionante dimensão visio­ vulsões, é inegável que a escola finca seus alicerces sobre aque­
nária. O espetáculo consistiria na generalização das relações la ferramenta ancestral que hoje se vê sufocada ante os avan­
ços do audiovisual: a palavra, especialmente na medida em
sociais mediadas por imagens e, além disso, seria “o contrário
que costumava se prestar às clássicas operações da leitura e
do diálogo”, segundo vaticinara esse autor há quase cinquenta
da escrita. Também por isso não admira que agora, quando
anos, acrescentando que a arte da conversação já estaria “quase
as novidades das últimas décadas substituíram em boa me­
morta” e que logo também feneceriam “muitos daqueles que sa­
dida os estilos de vida precedentes, a sala de aula escolar tenha
biam falar”.44 De fato, na segunda metade do século XX, a ló­
se convertido em algo terrivelmente “chato”, e a obrigação
gica informacional dos mass-media impregnou o cotidiano e
de frequentá-la implique uma espécie de calvário cotidiano
redefiniu o real, afetando a própria ideia de comunicação ao
para os dinâmicos jovens contemporâneos. A apatia e o es­
reformular as possibilidades de nos vincularmos aos outros
casso entusiasmo que eles demonstram em tais contextos se­
construindo sentidos compartilhados.
riam sintomáticos dessa falta de sentido, evidenciada tam ­
Cabe inserir aqui o ousado diagnóstico da autora mencio­ bém pelas altíssimas taxas de “deserção escolar” que se consta­
nada há pouco, Cristina Corea, para quem “a comunicação tam em todo o mundo. Os professores, por sua vez, muitas
deixou de existir” precisamente em plena era da informação. vezes não sabem como enfrentar esse novo cenário; assim,
“Não importa se é a comunicação verbal, midiática ou midia- além de suportarem a precariedade socioeconômica que asso­
tizada”, esclarece: “O que se esgotou foi o paradigma sob o la a profissão em boa parte do planeta, têm que lidar com as
qual, durante quase um século, pensamos os fenômenos de aflições suscitadas pelos questionamentos acerca do significa­
significação e a produção de subjetividade.”45 Essa falência te­ do de seu trabalho e com a dificuldade crescente de estar à al­
ria sua origem na evaporação dos códigos estáveis e transcen­ tura do desafio.
dentais como a lei universal, que costumavam instituir todo e O “desinteresse” é o principal motivo de abandono da esco­
qualquer vínculo entre os interlocutores — inclusive entre la por parte dos jovens de quinze a dezessete anos, segundo
professor e aluno — nos moldes de uma estrutura garantida um estudo realizado recentemente no Brasil sobre a desmedi­
pela solvência estatal e pela solidez institucional, as quais, por da “evasão escolar”. A pesquisa, efetuada por uma prestigiosa
sua vez, se amparavam num ideal de progresso iluminado pela fundação privada, concluiu que mais de 40% dos alunos dessa
“cultura letrada”. Trata-se de uma hipótese forte e desafiadora: idade que deixaram de ir ao colégio justificaram sua decisão
na sociedade informacional, espetacular e hiperconectada por por esse motivo. “O resultado mostra que manter o jovem na
redes interativas, desmorona-se a utopia da comunicação que escola não é somente uma questão económica”, explicou o
alumiou o sonho iluminista e sustentou o projeto moderno. coordenador do trabalho em declarações à imprensa. “É pre­
Sobre as ruínas dessa ilusão, no entanto, caberia agora inven­ ciso criar e atender a demanda por educação”, acrescentou,

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PAULA SI BI LIA • REDES OU PAREDES 0 DESMORONAMENTO DO SONHO LETRADO: INQUIETAÇÃO, EVASÃO E Z A P P IN C

recorrendo ao léxico empresarial que tudo impregna na con- cas. Em São Paulo, por exemplo, 20% dos jovens entre quinze
temporaneidade. O especialista ressaltou que, para isso, seria e dezessete anos não frequentam escolas; em Porto Alegre, são
necessário “garantir a atratividade da escola”, explicitando o quase 19%, enquanto a taxa nacional beira os 18%. Essa ten­
tratamento da educação formal como uma mercadoria fora dência se justificaria porque nessas cidades é mais abundante
de moda e difícil de vender.46 Quando o jovem deixa de ser e tentadora a oferta de trabalho como uma alternativa atraen­
aluno por excelência e se converte, antes de mais nada, num te às rotinas escolares tediosas e aparentemente inúteis. Porém,
usuário dos meios de comunicação e num consumidor mais os economistas calculam que, “mesmo com problemas, a es­
ativo que muitos adultos, constata-se uma obviedade que não cola dá um retorno ao aluno”, ainda que os maiores ganhos
deveria sê-lo: a lógica do mercado se generalizou. Nessas cir­ de renda decorrentes do nível educacional se verifiquem na
cunstâncias, não parece restar à escola outro remédio senão meia-idade, “portanto, longe do horizonte de planejamento
entrar no jogo como a única coisa que ela poderia ser: um do jovem”.47 O argumento é, mais uma vez, exclusivamente
produto entre inúmeros outros, que deve competir para cap­ financeiro, como convém à mitologia mais indiscutível do
tar a atenção de seus clientes potenciais caso queira conquistar presente. No entanto, embora os dados continuem a indicar
adeptos e subsistir. Mas fica em desvantagem por ser uma que a educação ainda implica uma vantagem diferencial em
mercadoria pouco atraente, destinada a um cliente disperso e termos económicos para quem opta por ela, essa aposta a
por definição insatisfeito, que, por sua vez, vive enfeitiçado longo prazo não resulta convincente para boa parte de seus
pela variada oferta que a maquinaria do entretenimento não “consumidores” potenciais. Sobretudo considerando-se a pés­
para de produzir. Esta última, por outro lado, aparece como sima relação custo-benefício que significaria, para muitos, te­
um inimigo multifacetado e com imensos poderes que a esco­ rem que se submeter por vários anos aos rituais soporíferos da
la oscila entre repudiar, excomungando-o de seu território vida estudantil até conseguir “formar-se” e obter o cobiçado
sem nenhum tipo de negociação possível, e compactuar com diploma que lhes poderia render alguns dividendos adicionais.
ele, assimilando o monstro mediante cuidadosos critérios pe­ Dados desse tipo são divulgados e comentados quase dia­
dagógicos a fim de se atualizar sem perecer nessa difícil opera­ riamente na imprensa, temperados por cifras assustadoras que
ção. Como quer que seja, e pelo menos até agora, a tríplice ilustram o “fracasso educacional” contemporâneo, sugerindo
aliança entre meios de comunicação, tecnologia e consumo que o instrumental escolar se encontraria em decadência, não
costuma competir com fortes chances — e, por conseguinte, só por haver perdido eficácia no cumprimento de suas metas
não raro com sucesso — por conquistar a atenção e as graças específicas, mas também por ter cada vez menos sentido para
do alunato do século XXI. boa parte de sua clientela. Esse desencanto costuma afetar não
Além das altíssimas taxas de reprovação e repetência, a apenas os que estão em idade escolar, mas também muitos de
crescente evasão ou deserção escolar é um problema de grande seus pais, assim como um número nada insignificante de do­
magnitude na América Latina. O estudo brasileiro que men­ centes e a sociedade em geral. Em 2009, o ministro da Educa­
cionamos há pouco constatou um detalhe que poderia soar ção do Brasil, por exemplo, reforçou seus argumentos refor­
paradoxal: o índice de abandono é maior nas regiões mais ri­ mistas com a seguinte declaração: “No caso dos jovens, não

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PAULA SIB IL IA . REDES OU PAREDES 0 DESMORONAMENTO DO SONHO LETRADO: INQUIETAÇÃO, EVASÃO E Z A P P IN G

basta construir escolas; é preciso torná-las atraentes.”48 Em e se tecessem fantasias nesse sentido, essa não teria sido uma
2012, seu sucessor no mesmo cargo comentou outros dados alternativa pensável algum tempo atrás.
igualmente “preocupantes” e esclareceu que a alta taxa de eva­ Por outro lado, inclusive nos casos em que se consegue
são se devia ao “mercado de trabalho aquecido, o que atrai convencer os alunos potenciais a se sentarem todos os dias em
esses jovens para o trabalho e não para a escola”, acrescentan­ suas carteiras e se comportarem de acordo com as regras subi­
do que “os professores e as escolas não estão conseguindo tamente insensatas dessa instituição, as coisas já não funcio­
atrair o jovem no ensino médio”.49 Assim, os estudantes são nam como se supõe que deveriam. É cada vez mais habitual,
novamente tratados como consumidores pouco satisfeitos por exemplo, os egressos do ensino básico serem pouco mais
com o produto escolar que o mercado atual lhes oferece, de que “analfabetos funcionais”, e se multiplicam as pesquisas
modo que seria necessário cativá-los com táticas de marketing que fornecem cifras infaustas para confirmar essa impotência.
para eles voltarem a se interessar por uma mercadoria tão “É natural uma criança passar anos na escola sem aprender a
pouco valorizada. ler e escrever?”, perguntava-se em 2008 a pedagoga Azuete
Processos similares ocorrem em outros países, entre eles a Fogaça. “Até a década de 1980, o analfabetismo brasileiro era
Argentina. Escandalizados com uma declaração da Igreja — explicado basicamente pela escassez de vagas nas redes públi­
segundo a qual só na província de Buenos Aires haveria quase cas de ensino”, afirma essa especialista, “o que diminuía as
1 milhão de jovens de 13 a 19 anos que não estudam nem oportunidades educacionais da maioria da população em ida­
trabalham, ou seja, quase 1/5 dos 5 milhões pertencentes a de escolar.” Mas agora é diferente: “Hoje, o que se comprova
essa faixa etária —, várias autoridades educacionais do país é que os analfabetos estão dentro da escola, que se mostra in­
se reuniram, no início de 2010, para anunciar reformas no capaz de cumprir uma de suas tarefas mais tradicionais e bási­
sistema nacional, depois de admitirem que “a educação secun­ cas, mesmo quando os alunos nela permanecem por até oito
dária é um fracasso” porque os jovens já não a consideram anos.”51A julgar por dados e declarações desse quilate, há cada
“uma ferramenta de progresso”. Entre os dados noticiados vez mais egressos do ensino básico que não sabem escrever
nessa ocasião, informou-se que a evasão escolar pode chegar a sequer o próprio nome.
50%. Além disso, o índice de alunos que repetem o ano duran­ As provas e classificações periodicamente realizadas por
te a primeira parte do ensino secundário nos colégios públicos organismos internacionais, como o já célebre Programa Inter­
é de 21%, enquanto nas escolas privadas atinge 10%.50 Além nacional de Avaliação de Alunos (conhecido pela sigla PISA),
dessa diferença significativa entre o que ocorre nas instituições costumam apresentar resultados calamitosos na avaliação do
públicas e o que se constata nas particulares, não é de admirar desempenho dos estudantes de países da América Latina. En­
que os dados mais chamativos se refiram ao ensino médio. De tre as 65 nações que participaram desse estudo em sua última
fato, os adolescentes atuais têm mais possibilidades que as edição, por exemplo, o Brasil se situou em 53° lugar e a Argen­
crianças de “escolher livremente” o que desejam e agir em tina, em 58°. Isso significa que o aluno médio dessas proce­
consonância com essa decisão, optando por abandonar os es­ dências não consegue demonstrar níveis mínimos de conheci­
tudos, se for o caso. Ainda que houvesse sofrimentos terríveis mento em áreas como linguagem, matemática e ciências, e

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PAULA SIB IL IA • REDES OU PAREDES

também que a desigualdade entre os estudantes é enorme. os alunos nem os docentes costumam ser propriamente lei­
Apesar das muitas críticas que costumam receber as medições tores — muitos deles jamais pisaram numa biblioteca, por
dessa natureza — justificadas, em boa parte, por se tratar de exemplo —, enquanto as habilidades da escrita se deterioram
tentativas de quantificar e padronizar questões que não se de um modo estrepitoso.
prestam sem dificuldades a tal abordagem — , elas desempe­ Esse quadro reverbera também num espaço que se imagi­
nham um papel cada vez mais importante no panorama glo­ naria a salvo de seus golpes: a universidade, tanto nos cursos
bal contemporâneo, operando não só como qualificadores, de graduação como nos de pós-graduação. Uma das queixas
mas também como instrumentos para avaliar as instituições mais comuns dos professores nessas áreas, por exemplo, é que
educativas e até os países. Além disso, com suas peculiarida­ o ato de copiar e colar material da internet se generalizou nos
des, elas ocorrem em todos os níveis, inclusive no do ensino trabalhos preparados pelos estudantes; às vezes, constata-se até
superior. Raramente aparece uma universidade latino-ameri­ que eles nem sequer leem o resultado final da colagem subme­
cana entre as primeiras cem ou até duzentas listadas. tida a avaliação. Antes mesmo de se popularizarem as redes
Uma das premissas abrigadas nas bases do projeto moder­ sociais, há muitos anos proliferam sites como monografias.com,
no e, por conseguinte, também da educação formal afirma que coladaweb e zemoleza.com.br, cujo objetivo é oferecer gratuita­
a civilização é algo a ser conquistado para que a humanidade mente uma variedade de textos prontos para serem usados
se realize plenamente, tanto no plano individual quanto no com esse propósito. Tudo isso “atormenta os administradores
coletivo. E a alfabetização seria um importante baluarte dessa e docentes, mas não parece causar nenhuma angústia moral
epopeia. “Mas, sem Estado com capacidade para instituir a nos estudantes”, comenta o norte-americano Neal Gabler, au­
escola, a família, a universidade ou o trabalho como dispositi­ tor de um livro sobre “a conquista da realidade pelo entreteni­
vos estruturadores de uma subjetividade genérica”, alerta Cris­ mento”.53 Como resultado da naturalização desses hábitos, al­
tina Corea, “o caráter universal da humanidade se vê seria- guns professores não só se acostumaram a executar a tarefa
mente questionado.”52 Não por acaso, as diferenças entre o policial de verificar a autenticidade de cada texto que recebem
que acontece nas instituições públicas e nas privadas são cada — aliás, também são abundantes os programas de informática
vez maiores, limitando a estas últimas a cobiçada insígnia “de dedicados a detectar esse tipo de “plágio”— como também,
excelência”, o que se evidencia nos resultados das avaliações além disso, há quem obrigue seus alunos a escrever à mão,
periódicas e também no currículo dos jovens que obtêm aces­ “para que ao menos eles façam alguma coisa”. Tudo isso parece
so ao ensino superior ou aos empregos de maior prestígio. Por indicar que a tarefa de redigir trabalhos desse tipo perdeu o
esse mesmo motivo, a leitura e a escrita se transformaram sentido para boa parte dos estudantes contemporâneos, ainda
na era da informação, mudando de estatuto ao se desviarem que muitos docentes insistam em dar continuidade a ela.
do ambicioso salvacionismo civilizador, de tom universalista, A esse respeito, Cristina Corea destaca algo digno de aten­
para focalizarem na instrumentalidade utilitária mais pon­ ção: não seria correto supor que os jovens “não fazem nada”
tual do tipo empresarial. Esse princípio de explicação poderia quando exercem esse tipo de práticas. É certo que não reali­
atenuar a perplexidade provocada pelo fato de que, hoje, nem zam um esforço de compreensão e expressão que implique

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procedimentos como a interpretação, o raciocínio ou a dedu­ cena para falar ou atuar, inclusive numa tela, ao passo que ler
ção, mas em contrapartida usam a leitura e a escrita como e escrever são tarefas tão solitárias quanto silenciosas. Longe da
“ferramentas técnicas a serviço da navegação e da conexão”, linhagem das “artes performáticas”, ler e escrever são ativida­
praticando ativamente tarefas como buscar, editar, conectar-se des aparentadas com o artesanal, como esculpir ou trabalhar o
aos sites e trocar materiais ou dúvidas com outros interessa­ barro, como costurar ou tecer. Para realizá-las, é preciso exer­
dos.54 Então esses alunos leem e escrevem, sim, mas não efe­ cer certa pressão contra os ritmos da atualidade. Nessa diver­
tuam essas tarefas como antes se costumava fazer, não apenas gência aloja-se também o problema da timidez como uma
no que concerne à qualidade e à quantidade de trabalho inves­ “falha” cada vez mais intolerável, que chegou a ser catalogada
tido, mas também porque partem de outras premissas e apon­ como uma patologia passível de tratamento neuroquímico.55
tam para objetivos bem diferentes. Para expor essa ideia com Além disso, na experiência de leitura de muitos estudantes
um vocabulário que remete a um paradigma que já não parece contemporâneos nota-se uma dificuldade para identificar e
ser o deles, diríamos que esses jovens não pretendem conquis­ reproduzir o sentido do que se lê, algo que também sugere que
tar a civilização ao se alfabetizarem dessa maneira, marcando essa ação já não se realiza usando-se as ferramentas tradicio­
sua subjetividade a fogo por haverem alcançado tal condição, nais da modernidade. Se essa atividade devia ser silenciosa e
mas talvez busquem (e até consigam) outra coisa: o fato de solitária, assim criando as condições necessárias para se man­
dominarem minimamente esse instrumental lhes proporciona ter um diálogo fecundo com a própria interioridade ou com
as competências necessárias para realizar um conjunto limita­ as demais vozes que povoam uma biblioteca, as novas práticas
do, embora bastante útil, de operações práticas. se efetuam “com a disposição subjetiva de um espectador de
Às vezes, diante de uma nota ruim obtida numa prova, os vídeos”, segundo as palavras de Cristina Corea.56 Ou, mais re­
alunos procuram explicar ao professor o que realmente que­ centemente, com a atitude de quem está habituado a surfar
riam expressar, algo que não teria sido corretamente com­ entre vários materiais midiáticos ao mesmo tempo, a bordo de
preendido pelo docente em sua leitura. Esse tipo de atitude algum dispositivo conectado à internet. Por outro lado e na
também revela a mudança de estatuto da leitura e da escrita, mesma linha, a continuidade entre o que se discutiu numa
já que o autor do texto não consegue se distanciar da palavra aula e na seguinte não parece estar garantida; além disso, a
inscrita no papel, precisando interceder com o corpo e com atenção do alunato nas sessões expositivas não só é frágil e
a fala para respaldar o sentido do que tentou assentar por es­ flutuante, mas costuma durar poucos minutos e requer uma
crito. Isso também parece remeter a mudanças importantes na sedução constante, aparentada com as táticas do espetáculo.
constituição da subjetividade. A era contemporânea estimula O que significa tudo isso? Como interpretá-lo e lhe dar
modos performáticos de ser e estar no mundo mais aptos a agir sentido? Se as observamos em seu conjunto e sob uma pers-
ante o olhar do outro, ou mesmo diante da lente de uma câ- pectiva genealógica, essas novas práticas podem ser considera­
mera (o reluzente universo da imagem), do que a se retraírem das indícios de uma mutação. Por isso, quando esses proble­
na própria interioridade (o mais antiquado império da pala­ mas são pensados em termos de um mero déficit decorrente da
vra). Assim, costuma ser mais fácil e eficaz pôr o corpo em deterioração de certas habilidades, eles estão sendo analisados

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à luz do dispositivo escolar, como uma traição das expectativas mam zombar”. Alguns autores que trabalham na mesma linha
docentes e institucionais que se veem cada vez mais frustradas. sustentam que estaria havendo uma mudança na estrutura
Esse diagnóstico pode não ser falso, mas parece enxergar o mental das novas gerações, ou que “padrões cerebrais” dife­
problema a partir de um ângulo limitado, bloqueando assim a renciados as levariam a ter outras aptidões e lacunas. “É pro­
possibilidade de visualizarmos algumas pistas importantes so­ vável que a exposição maior a informações visuais e auditivas,
bre o que está acontecendo: talvez a subjetividade interpelada em detrimento de informações verbais escritas, venha a dimi­
para realizar essas práticas não esteja equipada com as armas nuir as habilidades de linguagem escrita do ser humano e [a]
necessárias para responder corretamente às demandas do dis­ ampliar as habilidades visuais, por exemplo”, afirma a neurop-
positivo pedagógico. Em outras palavras, retorna aqui a hipó­ sicóloga Leonor Bezerra Guerra, destacando que ainda se trata
tese inicial deste ensaio: talvez tal subjetividade seja incompatí­ de uma hipótese sem confirmação, mas com fortes apostas no
vel com essa aparelhagem, por carecer das marcas prévias que campo da investigação biologista tão em voga atualmente.58
as instituições pelas quais passou deveriam ter-lhe imprimido O que se constata, por enquanto, são pouco mais que luga­
para que lhe fosse possível funcionar com eficácia segundo res-comuns: “eles estão acostumados a receber informações de
essa lógica. Mas não se trata de meras faltas ou deteriorações, maneira realmente rápida”, enumera Prensky, “gostam do pro­
já que esses jovens exibem outros traços e capacidades, mais cessamento paralelo e de multitarefas; preferem gráficos a tex­
moldados no contato ativo com os meios de comunicação e o tos; priorizam o acesso aleatório, como ocorre no hipertexto;
mercado que com os dispositivos disciplinares; muitos desses funcionam melhor quando estão conectados em rede; gostam
traços podem ser bastante úteis para o desempenho na con- da gratificação instantânea e dos prémios ou reconhecimentos
temporaneidade. Eles são “peritos em opinar, fazer zapping e frequentes; preferem os jogos ao trabalho ‘sério’”. Em virtude
ler imagens”, por exemplo, como aponta a referida Corea, ain­ de tudo isso, por estarem habituados à velocidade da internet
da que esse tipo de habilidades não lhes sirva para habitar a e por “terem estado conectados durante a maior parte de suas
situação escolar ou universitária.57 vidas”, resulta que “têm pouca paciência para as conferências,
“Os universitários de hoje passaram, em média, 5 mil ho­ a lógica passo a passo e o tipo de instrução baseado em avalia­
ras de suas vidas lendo, porém mais de 10 mil horas jogando ções sobre o que foi ensinado em sala de aula”.59 Em síntese,
videogames, para não mencionar as 20 mil horas em que assis­ dir-se-ia que, em comparação com as subjetividades cidadãs
tiram à televisão”, afirma o especialista norte-americano Marc ou pedagógicas moldadas no meio disciplinar, solidamente
Prensky. “Os jogos de computador, o correio eletrónico e a constituídas — para o bem ou para o mal —, a subjetividade
internet, os telefones celulares e as mensagens instantâneas informacional ou midiática é instável e precária, e isso tam­
são parte integrante de sua vida.” Isso os torna “nativos di­ bém em ambos os sentidos. Os dispositivos estatais requerem
gitais”, segundo a famosa expressão que ele mesmo cunhou, e e geram instrumentos como a memória, a consciência e o sa­
os diferencia fatalmente dos “imigrantes digitais” que seriam ber, ao passo que o meio contemporâneo tende a expelir ava­
seus pais e professores, de cujo “sotaque” e de cujas dificul­ lanches de informações, imagens e opiniões. As subjetividades
dades de adaptação ao novo meio ambiente “os nativos costu­ capazes de lidar com cada um desses conjuntos de operações

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são diferentes, e por isso também variam as instituições pelas deter-se e se posicionar fisicamente de um modo que permita
quais circulam umas e outras — o que ocorre mesmo que o fazer anotações, evitando outros estímulos perceptivos para
estabelecimento em questão permaneça mais ou menos idên­ poder concentrar-se e memorizar, na intimidade com a pró­
tico, como parece ser o caso do cinema, da televisão e da es­ pria consciência, como quem escuta uma voz interior ou dia­
cola. Mas já não se costuma assistir a um filme como se fazia loga consigo mesmo. Virgínia Woolf o descreveu magistral­
algum tempo atrás, por exemplo: do começo ao fim e sem in­ mente em sua defesa do “teto todo seu”, como um requisito
terrupções, na concentração silenciosa e escura do cinema. imprescindível para que uma mulher pudesse ser uma boa
Embora essa ainda seja uma prática habitual, trata-se de uma romancista ou, em suma, para que pudesse se constituir como
opção entre as muitas disponíveis — na verdade, cada vez um sujeito moderno.60
mais difícil de realizar sem fazer alguma pausa para consultar Já para assistir à televisão, ao contrário, mais vale se jogar
o celular, por exemplo —, enquanto proliferam as telas portá­ confortavelmente num sofá e relaxar, até fazendo outras coisas
teis que permitem ver esses mesmos produtos simultanea­ em paralelo ou deixando que a mente vagueie sem rumo, e
mente a outros vídeos ou atravessados pelas atividades mais convém inclusive estar acompanhado para comentar à vonta­
diversas, como as mensagens de texto e as redes sociais. de o que se vê. A conexão à internet, por outro lado, pede ou­
De maneira comparável, assim como os filmes mudaram tras disposições corporais e habilidades cognitivas, ao mesmo
consideravelmente seu ritmo e sua estrutura, hoje ainda se lê e tempo que estimula o desenvolvimento dessas operações e
se escreve muito, mas isso se faz de formas inovadoras, como capacidades. “Em vez da interioridade e da concentração re­
se vislumbra nas interações da internet ou nos recados envia­ queridas pelo discurso pedagógico, o discurso midiático re­
dos por telefones móveis. Outra pista é fornecida por fenôme­ quer exterioridade e descentramento: recebo informações que
nos editoriais do tipo Harry Potter, que, além de venderem não chego a interiorizar — a prova é que, um minuto depois
milhões de livros, desdobram-se em diversos canais e produ­ de ter mudado de canal, já não lembro mais o que vi — e devo
tos que incluem filmes, jogos e sites da rede. Por isso os usuá­ estar submetido à maior diversidade possível de estímulos:
rios desses meios encarnam uma subjetividade que não se visuais, auditivos, táteis, gustativos”, explica Corea.61 Longe de
constitui lendo, como costumava acontecer com as crianças­ ser disfuncional ou contraproducente, a desatenção é uma
-alunos de algumas décadas atrás, mas se gera na interface atitude adequada ao exercício de tais práticas, de modo que a
desses diferentes suportes. Esse novo tipo de leitura transmi- desconcentração seria um efeito lógico desse contato. No en­
diática exige que o indivíduo elabore estratégias para habitar tanto, ela entra em confronto com o dispositivo escolar, e nes­
o fluxo de informações, entre as quais se inclui a tentativa de se curto-circuito emergem novas “patologias”, como o déficit
se vincular aos outros para dar coesão à experiência. Em con­ de atenção com hiperatividade, conhecido pelas siglas TDA ou
trapartida, estudar com um livro do modo tradicional para TDAH.62 Além disso, surgem mal-entendidos que impedem o
fazer uma prova, por exemplo, requer o manejo de táticas bem reconhecimento das raízes do conflito e, por conseguinte, suas
diferentes, relacionadas com a memória e a atenção, assim possíveis soluções: isso ocorre quando, por exemplo, os alunos
como usos específicos do espaço e do tempo. O sujeito precisa atuais “pedem aos textos escritos a mesma conexão direta que

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PAULA SI BI LI A • REDES OU PAREDES 0 DESMORONAMENTO DO SONHO LETRADO: INQUIETAÇÃO, EVASÃO E Z flP P IN G

a outros suportes, como a internet ou a televisão”,63 e tentam regularmente o inóspito ambiente das salas de aula, embora
desvendá-los recorrendo a idênticas estratégias. raras vezes termine de se configurar a situação esperável numa
O ponto crucial do problema parece residir, justamente, classe. O resultado costuma ser o tédio, a indiferença ou a
nessa incongruência entre o que as crianças e os jovens con­ frustração; em alguns casos, até a violência mais ou menos
temporâneos são e o que as instituições educativas esperam explícita. Desvaneceu-se o valor simbólico que envolvia o co­
deles. “Hoje, a distância entre o que é suposto e o que se apre­ nhecimento com sua pompa de “cultura letrada”, deixando em
senta é abissal”, explica Ignacio Lewkowicz. “Por sua própria seu lugar esses salões esvaziados nos quais ocorrem inúmeros
conformação, a instituição não pode mais que supor o tipo desencontros e fracassos; às vezes, porém, na melhor das hipó­
subjetivo que irá habitá-la; mas, atualmente, a lógica social teses, uns e outros são obrigados a inventar formas alternativas
não entrega essa matéria humana nas condições supostas pela e inovadoras de habitar essa situação para que ela tenha algum
instituição.”64 Assim, o desajuste se torna inevitável. Nas pa­ sentido. “Num ambiente enfraquecido, onde o saber, a ava­
lavras de Corea, isso confirma “a ineficácia da interpelação liação e a autoridade estão destituídos, não pela má-fé por
pedagógica”, pois os estudantes já não respondem às deman­ parte de alguém mas simplesmente pelo esgotamento prático
das de seus docentes como se supõe que um aluno deveria de seus poderes instituintes, nós, docentes, também ficamos
fazer.65Isso ocorre por um motivo que talvez seja mais simples abalados”, constata Corea, logo acrescentando que, em contra­
do que parece: em vez de ter sido moldada nos meios disci­ partida, estamos diante de algo inédito que não deveríamos
plinares que costumavam ser hegemónicos até algum tempo desperdiçar: “A chance de nos constituirmos, em algumas si­
atrás, sua subjetividade se constituiu na experiência cotidia- tuações, num vínculo real de pensamento com os jovens, não
na muito mais midiática e mercantil da contemporaneidade. instituído nem representado pelas instituições.”66
Hoje, quando a criança chega à escola, ou quando o jovem
ingressa na universidade, é comum que se constate esse cho­
que porque sua subjetividade pedagógica não foi convenien­
temente pré-formatada. Além disso, essa configuração tam ­
pouco acaba por se produzir como efeito das práticas e dos
discursos que ocorrem dentro de cada uma dessas instituições
educativas, pois estas perderam o poder de gerar uma subjeti­
vidade capaz de habitá-las.
Por causa desse desmantelamento da lógica disciplinar, os
ensinamentos e as moralizações outrora tão contundentes já
não se assentam nem são absorvidos por esses corpos estu­
dantis, mas resvalam e escorrem por entre as velhas carteiras
que ainda tentam sustentá-los. Mesmo assim, e talvez inexpli­
cavelmente, muitos insistem em frequentar mais ou menos

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As subjetividades midiáticas
querem se divertir

Em 1968, o brasileiro Paulo Freire escreveu um clássico da


educação libertadora: Pedagogia do oprimido. Publicado qua­
tro décadas depois, já no lim iar do século seguinte, o título do
livro que reúne diversos artigos de Cristina Corea e Ignacio
Lewkowicz dialoga e brinca com essa obra seminal: Pedago­
gia do entediado. Não se trata de algo m eram ente anedótico,
porém: a questão do entretenim ento se enraíza no cerne de
um m odo tipicam ente contem porâneo de viver e tam bém de
se exercer o poder. M uitos discursos atuais, inclusive os mais
oficiais, parecem coincidir num ponto: aos alunos do século
XXI é necessário oferecer diversão. Isso é bem diferente do que
acontecia com os “oprim idos” de alguns anos atrás, aos quais
era preciso emancipar, libertando-os do confinam ento alie-
nante e do jugo disciplinar por meio das asas da alfabetização.
O que não significa, é claro, que a opressão ou a alienação
tenham sido erradicadas — nem sequer o analfabetism o o
foi — , particularm ente na América Latina, mas sim que nosso
dram a histórico tem se redefinido nas últimas décadas.
Os jovens de hoje pretendem que as aulas sejam divertidas,
o que evidencia certa defasagem entre duas formas diferentes
de o sujeito se relacionar consigo mesmo, com os demais e
com o m undo. “O discurso pedagógico do esforço exigia que
pudéssemos sustentar um a situação qualquer para além do
fato de estarmos curtindo, nos conectando ou nos divertindo”,
explica Corea. “E aceitávamos fazer o esforço pelo resultado”,
continua, concluindo que “hoje esse esquema se esgotou”, o
que gera uma série de equívocos e m uita frustração na situa­
ção escolar.67 Autor de um livro sobre os dissabores do en-
PA U L A S I B I L I A • R E D E S OU P A R E D E S AS S U B I E T I V I D A D E S M ID lA T I C A S Q U EREM S E D IV ERTIR

treten im en to com o um eixo fundam ental da cu ltu ra con­ ele para lhe explicar que o esforço valia a pena porque mais
tem porânea, Neil Postm an ap o n to u a estreia do program a tarde lhe seria útil. Hoje, porém , isso se tornou “insensato”.
de televisão Vila Sésamo, ocorrida em 1969, com o a origem Algum tem po atrás, ao contrário, mesmo quando esse sacrifí­
sim bólica deste credo hoje tão disseminado: a ideia de que cio podia parecer exagerado em função de suas metas desm e­
aprender teria que ser algo divertido. Além disso, arrastando didas, apostava-se que ele teria valor em si mesmo, com o um
certo pesar am argurado, o crítico estadunidense procura des- exercício capaz de tem perar o espírito infantil, preparando-o
m itificar a ideia de que os produtos midiáticos surgidos dessa para batalhas futuras: “prim eiro a obrigação, depois a diver­
linhagem seriam capazes de “educar”.68 Seja com o for, no qua­ são”, rezava um provérbio com tom de verdade.
se m eio século transcorrido desde então, tanto esse tipo de Essas crenças se dissiparam com os deslocamentos ocorri­
manifestações culturais com o a crença na qual elas se baseiam dos nos últimos anos. Desde então, são infinitas as propostas
dissem inaram -se a ponto de conquistar os pedagogos. Bem ou didáticas que tentam atualizar a escola, incorporando não só
mal, faz tem po que conseguiram ingressar na própria escola. as brincadeiras e a diversão, mas tam bém as diversas mídias:
É claro que não são novas as tentativas de atualizar a edu­ desde o jornal e o cinem a até a televisão e a internet. A guisa
cação formal para torná-la mais prazerosa e eficaz. Ao longo de ilustração, basta m encionar um par de casos bem atuais,
do século XX, a didática tentou introduzir os jogos nas salas de escolhidos quase ao acaso. David Klahr, por exemplo, p ro ­
aula, p o r exemplo, no intuito de aliviar certa carga associada fessor de desenvolvimento cognitivo e educação na Universi­
ao fatigante trabalho escolar, potencializando a aprendizagem dade Carnegie-M ellon, nos Estados Unidos, defende as vanta­
de um m odo divertido. No entanto, esses usos pedagógicos do gens da “aprendizagem por meio do descobrim ento”, com a
lúdico pretendiam subm etê-lo a objetivos mais transcenden­ realização de atividades lúdicas em sala de aula, esclarecendo
tais que o m ero fato de divertir o alunato: o im portante era que “não convém dedicar-lhes cem por cento do tem po”, pois
aprender algo, ainda que se procurasse consegui-lo p o r meio “tam bém é necessária a instrução tradicional, em bora não em
desses recursos inovadores, que retiravam um pouco da antiga excesso, já que esta é mais entediante para os alunos”.69 Por
seriedade das clássicas disciplinas colegiais. O que se buscava, outro lado, para além da esfera científica e acadêm ica mais
em últim a instância, era tran sm itir ou transferir u m saber, circunspecta, m ultiplicam -se iniciativas como as de Salman
mas fazê-lo de m odo mais am eno. Agora, ao contrário, quan­ Kahn, autor de 3 mil vídeos educativos sobre m atem ática e
do o entretenim ento — ou até mesm o o espetáculo — gene­ outros temas, como história e finanças, que se apresentam le-
ralizou-se com o u m a m odalidade privilegiada de relação com gendados em vários idiomas e foram vistos por m ilhões de
o m undo e, ao m esm o tem po, vem se esgotando o ideal da pessoas na internet. Tamanha proeza valeu o título de “m elhor
educação como um a transfusão de conhecimentos de um polo professor do m undo” a esse jovem em presário norte-am eri­
que sabe para o u tro que não sabe, as coisas m udaram . Na si­ cano, por ter “transform ado a aprendizagem em algo mais
tuação anterior, o adulto garantia o processo de aprendizagem atraente, satisfatório, interessante e produtivo”, e por “começar
com sua simples presença: quando a criança se entediava ou, a revolucionar a velha e tediosa rotina escolar”.70 Kahn defende
p o r algum o utro m otivo, negava-se a seguir adiante, ali estava a eficácia dos exercícios interativos e propõe um a inversão

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PA ULA S I B I I I A . R E D E S OU PARE D ES AS S U B J E T IV I D A D E S M IO IÁ T IC A S Q U ERE M S E DIV ERTIR

do tradicional m étodo escolar: fornecer lições em vídeo aos tem porâneas de informação. Pode parecer sutil, mas é enorm e
estudantes para que estes as assistam em seus lares e, depois, a diferença entre essa agitação ininterrupta da atualidade e
façam em sala de aula algo semelhante aos “deveres de casa” os formatos estruturados dos gêneros infantis mais tradicio­
com a ajuda do professor. nais, com o os contos, as histórias em quadrinhos, os filmes
Por mais que tu d o isso soe sensato e a experim entação seja e as cantigas. “A criança que hoje assiste ao Cartoon NetWork
bem -vinda, convém exam inar certas m udanças que tam bém já não habita as condições estáveis e sólidas do Estado, mas
transtornaram o m odo como os jovens veem o que se passa na transita na fluidez m ercantil e na velocidade vertiginosa da
tela e que, provavelmente, com plicam o êxito desse tipo de inform ação”, explica Corea. Certos ritos da infância instituída,
projetos. Q uem faz o alerta é, de novo, Cristina Corea, ao no­ com o os horários fixos para as refeições ou para fazer os de­
ta r que a figura do receptor infantil, inclusive no caso da te­ veres de casa, que teriam se diluído na contem poraneidade,
levisão, desm orona-se ao terem se extinguido “as condições se desdobravam em um a m odalidade tam bém regulada de se
estáveis, regulares e sólidas que perm itiram a instituição de assistir à televisão: davam um suporte no qual se enquadra­
qualquer das form as com unicativas nas quais a infância se vam tais práticas, com o um a espécie de agenda analógica ou
form ou”.71 Em vez de se constituírem como receptores de um a um a “grade institucional que marcava, distinguia, separava,
mensagem, os jovens de hoje tornam -se usuários do dispositi­ encerrava, censurava e até oprim ia”.72 Tudo isso foi sacudido
vo midiático em questão; ainda que essa diferença pareça am ­ nos costumes atuais; em seu lugar, há centenas de canais de
bígua ou enganosa, vale a pena explorá-la. A televisão atual televisão aberta e por assinatura, que transm item seus progra­
difere m uito daquela que alim entou a subjetividade dos que mas sem intervalos durante todo o dia e tam bém noite aden­
hoje têm mais de quarenta anos, p o r exemplo, porque os usos tro, sem diferenciar jornadas de trabalho ou de descanso, com
que ela suscita são outros; portanto, a criança contem porânea notáveis heterogeneidade e fragmentação das linguagens. Nes­
que vê televisão difere daquela que se sentava na frente do tele­ sa vertiginosa hibridação dos gêneros, constata-se inclusive
visor há um p ar de décadas. Já não se trata de observar, escu­ um a m istura daqueles que são considerados infantis com os
tar, receber e interpretar mensagens enquadradas em gêneros adultos, um a fusão diversificada para a qual contribui o uso
específicos e bem definidos — além de ordenadas conforme do controle rem oto com o um mecanismo integrado ao p ró ­
o ciclo de princípio, meio e fim — , transm itidas de maneira prio discurso televisivo.
estável e sem a mediação do controle remoto, com horários Assim, teria acontecido com a televisão algo comparável às
preestablecidos e emissão claramente descontínua. peripécias que afetam a escola: o poder dissolvente da lógica
Ao contrário, a televisão atual emite um fluxo de inform a­ m ercantil e inform acional tam bém arrasou sua solidez, fazen­
ções fragm entadas e dispersas, para cujo consum o o zapping do explodir aquela tem poralidade regular e pautada em cujo
——ou a troca acelerada e consecutiva de canais graças ao con­ transcurso as mensagens eram transm itidas e metabolizadas,
trole rem oto — constitui um elem ento fundam ental. Por isso deixavam marcas e se reproduziam . Nos novos m odos de ver
não se trataria exatamente de um meio de comunicação, como televisão — que, por outro lado, costum am conviver de form a
se costum a dizer, m as de mais um nó nas prolixas redes con­ sincrônica e interm itente com outras atividades m idiáticas,

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propiciadas pelos com putadores conectados à internet e pelos são de vazio, pois a palavra não produz nenhum retraim ento,
telefones celulares — “nada começa, nada term ina, nada p er­ não modula a interioridade necessária para se poder pensar.”76
manece, porque tudo flui velozm ente”, explica Corea; assim, Costuma-se perceber algo dessa ordem nos debates televisivos,
“a imagem contem porânea, mais que convocar o nosso olhar, por exemplo, ou nas intervenções velozmente efémeras dos
nos intim a a um a piscadela instantânea”. Porém, se as figuras especialistas consultados em qualquer program a de interesse
resvalam e não deixam traços nos olhos em panturrados da geral. Mas esse mesmo incóm odo decorrente de um a excessiva
atualidade, algo sem elhante costum a acontecer com a pala­ falta de peso pode afetar a alocução do professor na sala de
vra: ela “se to rn a supérflua, flui, não refere, não marca, não aula, pois muitas vezes ele é escutado com a atenção flutuante
indaga”, com o constata a m esm a autora.73 Em sintonia com a e espasmódica dedicada aos espectros que povoam as telas.
banalização e a saturação imagética, as palavras tam bém não A velocidade e a intensidade dos fluxos atuais conspiram
am arram nem decantam , não chegam a consolidar significa­ contra a produção e a coagulação dos significados. Por isso o
dos em quem as profere nem em quem as escuta: em vez de telespectador contem porâneo — assim com o o estudante, tal­
ancorar experiências com seu peso capaz de m arcar corpos e vez — já não sofre pela imposição de um a mensagem alie-
subjetividades, elas patin am ou deslizam sem se p ren d er a nante num am biente repressivo, mas pelo desvanecimento de
nada, com o opiniões intercambiáveis que se som am à m aré e qualquer sentido e pela dispersão gerada nesse contato sem
desaparecem, em vez de lhe dar espessura fazendo-a se deter ancoragens. Nessas circunstâncias, ao fazer um a “leitura críti­
ou interrom pendo seu devir. Em seu excesso sem densidade, ca” dos meios, corre-se o risco de lançar mais palavras sem
tanto as im agens com o as palavras se m ostram im potentes volume na correnteza de opiniões, todas igualmente válidas
para desacelerar esse fluxo ou para lhe dar coesão: não conse­ porque se carece de um critério capaz de sopesá-las ou con­
vertê-las em pensamento. Então, é com o se tivessem se dissi­
guem se condensar em diálogo nem em pensam ento.
pado tam bém as condições básicas de recepção das mensagens
Essa volatilidade ou superfluidez rem ete ao vaticínio de
midiáticas, que garantiam a solidez do código com o peso da
Guy D ebord a respeito da “m orte da conversação” na socie­
lei e perm itiam sua interpretação, dando lugar tanto à opres­
dade do espetáculo, proferido no fim da década de 1960 e já
são quanto ao sonho e à possibilidade de um a emancipação.
aludido nestas páginas, ou até ao “em pobrecim ento da expe­
O espectador contem porâneo não seria, portanto, exatam en­
riência” analisado p o r W alter B enjam in na década de 1930
te um receptor — aquele que decodifica, critica ou se deixa
como fruto da aceleração m oderna e, principalm ente, da ge­
alienar — , mas um usuário que surfa ininterruptam ente no
neralização da inform ação em lugar dos relatos narrados p o r
caos das informações. Alguém que, portanto, deve produzir de
via oral.74 Tam bém ressoa aqui a voz mais recente de Gilles m odo ativo as operações necessárias para fixar e dar sentido a
Deleuze: “Talvez a fala, a com unicação estejam apodrecidas.”75 esse fluido, apropriando-se dele para transform á-lo em expe­
Acontece que a p ró p ria linguagem se to rn a inconsistente riência — em bora nem sempre se consiga pôr em andam ento
quando a opinião substitui o pensam ento e a inform ação o cu ­ esse tipo de estratégia e, muitas vezes, reste som ente “a figura
pa o lugar do saber ou do conhecim ento: “Sobrevém a im pres­ desesperadora de quem se dissolve na velocidade do zapping,

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ou daquele que se constitui num a imagem que existe e dura constrói-se um tipo de subjetividade bem diferente daquela
tanto quanto um a pulsação do controle rem oto”.77 que germinava na sala de aula. Assim com o a dem anda de
Essa dispersão e a consequente ameaça de se extinguir na diversão gera tédio, a hiperconexão produz desconcentração,
volatilidade daquilo que se passa de m aneira infindável é algo com o um a reação defensiva ante a avalanche de inform ações
inerente aos estilos de vida contem porâneos. De algum modo, e contatos. No entanto, o grande problem a surge quando esse
nos últim os anos, aprendem os a viver assim: com a sensibi­ efeito — que é tam bém um requisito — do estilo de vida
lidade saturada de estímulos que disparam a toda pressa, so­ contem porâneo entra em colisão com as exigências do dispo­
brecarregando as possibilidades de processamento consciente sitivo escolar.
mas, ao m esm o tem po, com a exigência de responder a essas A escola sempre procurou transform ar a criança n u m alu­
dem andas com agilidade e eficácia. O mal-estar tipicam ente no interessado, atento e aplicado. Com essa meta, a subjetivi­
contem porâneo que emerge dessa confluência não equivale à dade estudantil se edificava a partir de práticas que instituíam
agonia provocada pelo aprisionam ento ou pela repressão do a m em ória, a atenção e a consciência, buscando fazer com que
confinam ento disciplinar, mas a um a languidez gerada por tal esta últim a exercesse hegem onia sobre a percepção. Por isso é
m ovim ento centrífugo. “Antes, o tédio se estruturava m edian­ que se procurava, na sala de aula, dom ar o aparelho perceptivo
te a proibição: n ão me deixam brincar porque me portei mal, m ediante um a diversidade de táticas tendentes a reduzir os
então me aborreço em casa”, ilustra Corea. Havia então um a estím ulos, enfatizando a eficácia da razão. Já na percepção
angústia fincada num a interioridade asfixiada e asfixiante, que contem porânea, “a consciência não chega a se constituir: a
não podia se expressar de um m odo libertador por causa do velocidade dos estímulos faz com que o percepto não tenha o
rigor das norm as impostas. No entanto, esse tipo de repressão tem po necessário para se alojar na consciência”, assinala C o­
não está no centro da problem ática atual: hoje, sofre-se por rea, de m odo que “a subjetividade inform acional constitui-se
saturação e p o r dispersão, pois todo o aparato sensorial está à custa da consciência”. As imagens que povoam nossas paisa­
ocupado e foram entupidas as brechas capazes de catalisar a gens costum am nos im pactar com o estím ulos estilhaçados,
experiência. contra os quais estamos mais ou m enos im unizados, sem que
Por isso, assim como acontece com o aluno no colégio, o se chegue a gerar um m ovim ento específico da consciência.
usuário m idiático atual costum a estar potencialm ente ente­ Algo semelhante costum a acontecer com a m aior parte das
diado e desatento, não exatam ente oprim ido nem reprim ido. mensagens midiáticas a que estamos expostos. Se com parar­
Não deixa de ser curioso que essa busca incessante por diver­ mos um m anual escolar e um videogame, por exemplo, n o ­
são term ine engendrando um a mescla de fastio e ansiedade, tarem os que no prim eiro “os estímulos são filtrados, hierar­
que desem boca n u m a insatisfação impossível de saciar. “Ver quizados, ordenados num esquema conceituai”, enquanto no
televisão fragm enta, fissura, não por causa dos valores ruins, segundo impera um a intensa e veloz sim ultaneidade que não
mas pelo tédio que produz; fragm enta porque satura, porque dem anda o mesm o instrum ental para funcionar.79
tudo se torna igual, como acontece no zapping, e não se sabe Em cada uma dessas práticas diferem não apenas o balanço
com o sair disso.”78 Ademais, em contato com tais dispositivos, entre percepção e consciência, mas tam bém a tem poralidade e

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a relação com o espaço. Ao ler, estudar ou escrever com o p ro ­ tímulos, que deslizam sem se assentarem na subjetividade por
põe o dispositivo escolar, p o r exemplo, experim enta-se um meio da consciência. Esse seria um dos motivos, aliás, pelos
tem po cum ulativo, linear e ascendente: cada m om ento requer quais se revela tão im portante tecer redes, já que estas m ulti­
um a etapa anterior que Lhe dê sentido e coerência, com o um plicam as conexões e perm item habitar de m odo conjunto a
avanço gradativo que se enquadra na lógica racional do p ro ­ torrente informacional, produzindo uma densidade capaz de
gresso. Os meios audiovisuais e interativos, ao contrário, soli­ desacelerar essa avalanche e captar de algum m odo o que se
citam e incitam outras disposições corporais e subjetivas, bem sucede tão rapidam ente, transform ando-o em experiência.
distintas daquelas que são postas em prática pela leitura e a Essa necessidade de nos apropriarm os do fluxo tam bém pode­
escrita. “Q uando assisto à televisão, experim ento a atualidade, ria explicar a popularização do hábito de fotografar a vida
a pontualidade do instante”, esclarece Corea, “habito u m tem ­ cotidiana, assim como a necessidade de m ostrar essas imagens
po que não provém do passado nem tem evolução: cada im a­ em vez de guardá-las na privacidade, com o se costumava fazer
gem substitui a seguinte sem requerer um antecedente e, por algum tem po atrás, até porque as fotos agora são tantas que já
sua vez, é substituída por outra.”80 Por isso esse tipo de espec­ não podem ser arquivadas do m esm o m odo; por tudo isso,
tador ou usuário m idiático não interpreta as mensagens rece­ não só incitam a outros usos e costumes, mas tam bém preci­
bidas, mas se conecta diretam ente com o estím ulo que atinge sam dessas m udanças para prosperar.
seu aparelho perceptivo; para poder desfrutar dele, tem que se Aparentemente opostas, portanto, a apatia e a hiperativida-
som ar ao fluxo. O que o m antém sintonizado nessa vivência de seriam dois efeitos com plem entares da saturação contem ­
não é o sentido do que observa, e sim a própria aceleração. porânea: resultados do contato com um meio evanescente em
Q uando a saturação chega a certo nível de esgotam ento, ele se que tudo acontece vertiginosam ente, sem deixar marcas. Nes­
entedia e se desliga. se am biente, é possível que a experiência não se assente, por
Trata-se de u m a diferença crucial entre o aluno-leitor e o faltarem à subjetividade as condições ou as ferram entas neces­
usuário m idiático: este últim o não se funda a si m esm o na sárias para incorporar o que lhe ocorre e se encarnar nessa
experiência da interpretação, mas se apoia na percepção, isto vivência particular. Essa inconsistência é tanto o resultado de
é, “não se constitui em relação à televisão p o r via da consciên­ uma libertação das velhas am arras da interioridade e da cons­
cia, mas p o r via do estím ulo”.81 A lógica característica do sujei­ ciência com o é tam bém um risco enorme: o sujeito vive sob a
to escolarizado presum e que o aparelho perceptivo receba os ameaça de se diluir no turbilhão e “virar um nada”, recorrendo
estímulos e a consciência os reelabore, produzindo um senti­ à justa expressão de Suely Rolnik.82 Por isso o desafio é imenso
do: não se pode ler, por exemplo, sem interpretar. Mas esta nas novas circunstâncias: quando não se realizam em cada
últim a ação não é necessária p ara lidar com a inform ação caso as operações capazes de sedim entar a experiência, deten­
audiovisual e interativa: em sum a, para a subjetividade do es­ do assim a multiplicação desenfreada, quando não se produz
pectador ou do usuário midiático, o sentido não é fundam en­ o pensam ento capaz de produzir algum sentido, gerando sub­
tal. Com o dois lados da m esm a m oeda, hoje a estim ulação é jetividade e encontros, resta apenas um excesso de estimulação
abundante mas escasseia a capacidade de incorporar esses es­ que gira no vazio e se extingue no tédio. A saturação total

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PAULA S I B I L I A • R E D E S OU P A R E D E S

im pede de pensar e de agir. Por isso é tão vital resistir ao fluxo Do aluno ao cliente,
mediante estratégias de fixação, algo que a escola contem porâ­ da lei à negociação
nea deveria assum ir com o um dificílimo compromisso. Seja
com o for, o que vier a acontecer só ocorrerá nesse am biente
hiperestim ulado e hiperestim ulante, porque esse é o contexto
no qual vivemos. Portanto, não se trata de verter todas as ener­ Ante os avanços da globalização e de certa “ética neoliberal”, os
gias na tentativa de bloqueá-lo ou isolar-se, mas de tentar algo diversos Estados nacionais parecem ter perdido boa parte de
m uito mais com plicado e interessante: conceber modos de se sua capacidade de articular simbolicamente — am algam ando
subjetivar, pensar e dialogar nessas condições. e coordenando — o conjunto das instituições que eles costu­
mavam abrigar com firmeza, garantindo seu funcionam ento
de m odo concatenado, centralizado e hierárquico. Com o fruto
desses processos, extinguiram -se as condições que perm itiam
produzir aquele tipo de subjetividade m oderna que se poderia
adjetivar de estatal, cidadã, pedagógica, institucional, discipli­
nada e introdigirida. C ontinua a haver escolas no século XXI,
é claro: há milhões delas em todo o m undo, funcionando co-
tidianam ente e afetando de m odo direto as vidas de um a par­
te enorm e da população planetária. No entanto, seu estatuto
parece ser outro, pois se esgotou o dispositivo que as insuflava
e, junto com ele, m udaram os tipos de corpos e os “m odos de
ser” que eram compatíveis com essa aparelhagem. Não se trata
somente das subjetividades do aluno e do cidadão, mas tam ­
bém das do soldado e do operário, por exemplo, hoje igual­
m ente agonizantes e em mutação, com o as instituições que
costum avam produzi-las. Ainda que estas persistam, afrouxa­
ram-se os laços orgânicos que as ligavam a todas as demais.
Isoladas nessa fragmentação, tornaram -se im potentes porque
afundou o solo em que se arraigavam: elas perderam sua capa­
cidade de n u trir o projeto m oderno que constituiu suas bases,
mas que foi corroído nas últim as décadas.
Nessa m etamorfose, muitas escolas deixaram de agir como
aparelhos disciplinares, dedicados a produzir um tipo peculiar
de corpos e m odos de ser, para se tornarem um a espécie de

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em presa cujo fim consiste em prestar um serviço — com di­ tá-lo: “Sem paternidade estatal nem fraternidade institucional,
versos graus de sucesso ou de eficácia — entre os m uitos o u ­ a desolação prospera”, resume Ignacio Lewkowicz.83
tros oferecidos nos m ercados contem porâneos. Seu objetivo Q uando a lógica mercantil passa a im perar sem nenhum
é capacitar os clientes, em vez de form ar todos os alunos de tipo de cerceamento, os direitos e os deveres podem virar m er­
cada nação. Essa redefinição não se dá sem problem as, é claro, cadorias ao alcance de alguns clientes, mas não de todos os
já que se trata de instituições concebidas para funcionar se­ cidadãos. A educação form al não ficou alheia a essa tran s­
gundo a lógica estatal — que é estável p o r natureza, com anda­ formação. “Naquelas m uitas sociedades em que o acesso à es­
da p o r um a lei universal — , não segundo as condições m er­ cola e à sua qualidade são fortem ente diferenciados em função
cantis, que são oscilantes e exdudentes por definição. Assim, das classes sociais a que ela se destina, os efeitos dessas m u d an ­
em vez de se em basar na sanção centralizada, transcendental e ças podem ser ainda mais perversos”, explica Alfredo Veiga
articuladora de um a totalidade m eticulosam ente organizada, Neto.84 O poder disciplinar, fundam entalm ente exercido nos
prom ove-se certa dispersão e certa fragm entação nas expe­ colégios, individualizava as crianças a partir de seu desvio em
riências vitais: no lugar da solidez, da sistematização e da per- relação à norm a, ao mesm o tem po que as massificava ao con­
duração — antes consideradas fundam entais — , agora se im ­ vertê-las em m em bros uniform izados da m esm a classe. Tanto
põe a impressão vertiginosa de que cada um deve lutar por sua as características desse regim e com o seu desm antelam ento
própria carreira nu m contexto hostil e m utante. gradativo podem ser examinados a partir de um exemplo sim ­
A m egainstituição que garantia a eficácia e o sentido de ples: a elim inação do uniform e escolar, ou pelo m enos sua
todas as dem ais, inclusive a escola, costum ava ser o Estado. atenuação ao se perm itir o uso de adereços e outros elementos
Agora que sua soberania se dissolve na liquidez do capital e capazes de singularizar quem os veste. Assim como a carteira
dos fluxos inform ativos, qual terá sido a entidade que assu­ de identidade é um em blem a do m odo pelo qual a sociedade
miu esse poder ante o declínio dessa? Uma possível resposta é disciplinar individualiza e massifica os cidadãos, o cartão de
quase evidente: o mercado, ou melhor, certa “ética em presa­ crédito ou o celular podem sim bolizar as novas tendências
rial” conjugada com o “espírito do consum ism o”. Portanto, já nesse campo. Ao se instaurar a possibilidade de um a diferen­
não seria a lei — universal e idêntica para todos — o critério ciação dos demais através de um a personalização ou customi-
que organiza a contem poraneidade, e sim algo distribuído de zação das aparências, as liberdades individuais se am pliam ,
m odo desigual p o r excelência: o dinheiro. O u, então, um a mas ao mesm o tem po são com pletam ente perpassadas pelas
entidade ainda mais volátil: o poder aquisitivo, que tam bém se regras do capital.
quantifica em função do posicionam ento individual nas cota­ A lei — como instrum ento por excelência do Estado m o ­
ções globais sob a roupagem da inform ação. Sem desmerecer derno cuja hegem onia estaria em crise atualm ente, pelo m e­
a bem -vinda libertação da brutalidade form al de outrora, isto nos em sua capacidade de articular sim bolicam ente as demais
está longe de ser um a boa notícia. Pois, apesar do autoritaris­ instituições — não só é igual para todos, mas estipula clara­
m o e das rudezas inerentes à aparelhagem disciplinar, o novo m ente o que se pode e o que não se deve fazer, sustentando a
panoram a pode ser m uito m ais cruel para os que têm de habi- m oral vigente e irradiando seu peso impessoal de um m odo

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centralizado e “cego”. O que se verifica nos am bientes escolares isso o filósofo enfatizava a igualdade do tratam ento dispensa­
e familiares da atualidade, entretanto, é que neles já não é do a todos os alunos: “Entre várias crianças, o professor não
evidente o pleno vigor dessa norm a: tornou-se necessário ne­ deve m ostrar predileção nem qualquer afeto preferencial por
gociar constantem ente as regras que devem im perar em cada alguma, pois, caso contrário, a lei deixará de ser universal.”
situação. N ada parece estar assegurado por definição prévia O risco de falhar nesse ensinam ento fundam ental era claro:
ou por institucionalidade transcendente, nem mesm o os la­ “A criança torna-se rebelde ao ver que nem todos são subm e­
ços familiares ou a autoridade do professor: agora tu d o tem tidos à mesma lei.”86
que ser construído com o fruto de escolhas individuais ou No entanto, em vez de adm itirem a preexistência desse es­
grupais sem pre transitórias, num esforço constante de elabo­ tatuto consensual, com sua capacidade de proibição impessoal
ração e m anutenção dos vínculos. Fazer o correto ou o incor­ e universal, os estudantes de hoje costum am supor a hegem o­
reto já não depende tanto do ditam e de um código universal nia da opinião, um quadro em que a antiga lei não passa de
— a lei, injetada nas consciências com disciplina e culpa — um a opinião a mais, e nem sempre é a mais bem cotada. Algo
mas dos desejos, da responsabilidade, dos recursos e da inicia­ semelhante acontece com o saber em itido pela voz do profes­
tiva de cada um , assim como da negociação perm anente com sor, que perde sua antiga com postura para se converter em
os demais. outra opinião descartável. Todavia, um a vez derrubado o p o ­
Este não é um detalhe menor, pois a subjetividade cidadã der simbólico daquele código organizador, não se deduz que
se apoiava na suposição básica e com partilhada de que a lei é as únicas alternativas sejam o caos ou a “indisciplina”, mas
idêntica para todos, e o mesm o ocorria com o regulam ento surge a possibilidade de se instaurarem em cada caso outras
escolar. Esse regime de vida se sustenta sobre um tecido de regras do jogo, mais frágeis e complexas, mais trabalhosas
valores e crenças que rejeita as noções de privilégio ou de porque constantem ente reformuladas e passíveis de questio-
exclusividade, tão caras à lógica mercantil e aos credos con­ nam ento, mas não necessariamente piores. O inegável é que,
tem porâneos: “a lei é uniform e, proíbe ou perm ite igualmente diante desse panoram a que se vislum bra no início do sécu­
a todos”, e “o cidadão se define por essa relação com a lei”.85 lo XXI, para o bem ou para o mal, parecem estar longe de
As instituições devem garantir essa igualdade de condições, ser cum pridas as metas enunciadas por Kant no fim do sé­
conform e estipula a doutrina dem ocrática, deixando entregue culo XVIII: disciplinar, instruir, civilizar, moralizar, tudo isso
à natureza, à sorte e à própria força de vontade o que cada inculcando o sacrossanto valor da obediência à legalidade.
sujeito já form ado venha a realizar em seu futuro. Q uando Até mesmo dentro das outrora circunspectas paredes es­
destacava a necessidade de fom entar a obediência no caráter colares a lei perdeu seu peso e sua eficácia: não raro, os alunos
das crianças, Kant distinguia dois tipos: a absoluta e a racioci­ nem sequer aprendem a ler ou escrever e, em m uitos casos,
nada, esclarecendo que em bora esta últim a fosse m uito im ­ isso não parece ter grande im portância para eles; há quem
portante, a prim eira “é extrem am ente necessária, porque pre­ diga que eles ignoram os regulamentos e a mais ínfima etique­
para a criança para o cum prim ento das leis que depois ela terá ta, zom bando com orgulho desse desprezo; é com um não par­
de cu m p rir com o cidadã, ainda que não lhe agradem ”. Por ticiparem produtivam ente das aulas e, além disso, estorvarem

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os demais com sua desconcentração; m ultiplicam -se as quei­ novo contexto, o desafio não consiste em transgredir regras
xas de que eles são im pertinentes e “m al-educados” com os dem asiadam ente duras e cerceadoras das liberdades indivi­
adultos e entre si, chegando inclusive a praticar atos de extre­ duais, mas em enfrentar o problem a de que elas não existem
ma violência. Tudo isso porque não dispõem dos equipam en­ ou que tenham se tornado im potentes: surge a necessidade
tos básicos que lhes perm itiriam habitar e constituir a situação desesperada de “instituir” algo para que se produza um diálo­
da sala de aula: não contam com as aptidões que, segundo a go, inclusive entre mestres e alunos. Ante o enfraquecim ento
expectativa docente e institucional, deveriam possuir. Porém, da aparelhagem legal, as regras — sem pre precárias e tem po­
se certam ente lhes faltam os traços que as crianças e os jovens rárias — têm que ser negociadas e enunciadas em cada situa­
deveriam trazer consigo ao ingressarem em cada um a das eta­ ção, em vez de partirm os da base de que existem norm as im ­
pas da educação formal, presum indo-se que existe um solo plícitas que deveriam ser seguidas por unanim idade.
com um a todas, é porque ruiu aquele código, com partilhado Ao desaparecer aquele substrato com um e aglutinador, se
pelas diversas instituições disciplinares, que unificava sob o bem que tam bém arbitrário e opressivo, sobre cuja superfície
mesmo regim e o conjunto de experiências desenvolvidas entre se inscreviam sucessivamente os traços da subjetividade disci­
seus m uros. A dedução surge p o r si: as coisas deixaram de plinada, tudo tem que ser construído no m om ento — por
funcionar com o se esperava porque os sujeitos contem porâ­ exemplo, em cada encontro na sala de aula — , sem as certezas
neos já não carregam consigo as marcas sucessivas que cada antes propiciadas pela suposição de que haveria um solo bási­
instituição deveria ter im prim ido em sua subjetividade, a fim co com partilhado. Agora é preciso aprender a habitar as situa­
de adequá-los cada vez mais a esses m odos de ser e viver. Em ções sem a pretensão de efetuar transposições regulamentares
vez disso, eles possuem outros traços e apontam para outras entre elas, o que é extrem am ente delicado: se os professores
conexões. proíbem o uso de “palavrões”, por exemplo, enquanto os pais
Por isso se intui que aquele regim e teria se esgotado, evi­ o perm item , em vez de adm itir o choque entre duas leis con­
denciando a incompatibilidade antes m encionada e gerando traditórias e a consequente anomia, seria preciso aceitar que se
um a ru p tu ra nesse ciclo mais ou m enos bem engrenado. As trata de meras regras que só têm valor dentro dos limites de
subjetividades hoje interpeladas pela escola — ou até pela cada am biente. A título de ilustração, Lewkowicz m enciona
universidade — já não são as de outrora: aquelas cinzeladas de os resultados “catastróficos” de um a avaliação que tentou m e­
forma sucessiva sob a moral do regulam ento. O m ercado e a dir os conhecim entos históricos de um grupo de estudantes:
mídia, assim com o os ritm os de vida característicos da con- “O que faltava não eram algumas datas, mas o próprio concei­
tem poraneidade, levam à com posição de outros m odos de ser, to de tem po sequencial.” É provável que isso se deva a que a
cujas operações básicas diferem em grande m edida daquelas tem poralidade midiática e mercantil da sociedade atual não se
regidas pela lei universal ou pela figura centralizada e hierár­ afirma na linearidade, mas “na substituição de fatos sem arti­
quica do Estado nacional. Assim, quando o aparato escolar culação entre passado, presente e futuro”, motivo pelo qual a
solicita a esses novos corpos que p onham em prática tais habi­ própria ideia de que existiria um a sucessão cronológica orde­
lidades e recursos, o desajuste se faz evidente. Por isso, nesse nando um a série de acontecim entos do passado não deveria

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ser dada por certa, e sim discutida e avaliada em cada ocasião e um conjunto de riscos inéditos; em contrapartida, caem em
para que seja possível “pensar(-se) historicam ente”.87 desuso e se desvalorizam outras aptidões que antes eram cul­
Assim com o diferem os corpos e as subjetividades que os tivadas e premiadas, sem que nada disso se reflita de m odo
habitam, os sofrim entos gerados por am bos os tipos de escolas explícito nos estatutos ou nos currículos. C onquanto esses
— as m odernas e as contem porâneas — tam bém são distin­ processos possam ser interpretados à luz de um a perspectiva
tos. Os ocupantes das instituições disciplinares não apenas m oralizadora, que os entende em term os de decadência e cor­
suportavam o peso norm alizador de seus regulamentos como rosão, tam bém podem ser tom ados com o um a oportunidade
ainda construíam a si mesm os nesse embate, enquanto nos de repensarm os algo que sempre esteve longe de ser perfeito.
colégios atuais se sofre p o r outros motivos. E não se trata De todo modo, um dos maiores desafios consiste em evitar
som ente dos alunos, mas tam bém dos docentes, diretores e que o lugar esvaziado por essa lei debilitada seja ocupado
técnicos, sem excluir os pais e outros familiares. Agora o p ro ­ exclusivamente pela lógica mercantil: se hoje, de fato, a escola
blem a não se centra no risco de abusos autoritários nem na se despoja da investidura estatal que a sustentava — rija e às
necessidade de evitar a alienação ou a repressão m ediante p ro ­ vezes cruel, mas tam bém ilum inada por um ideal de igualdade
postas em ancipadoras, mas na impressão de caos que inibe o e emancipação — , perderíam os m uito se ela o fizesse para se
estabelecimento de algum tipo de ordem porque falta a coesão transform ar num a empresa com o outra qualquer.
sim bólica im plícita nos projetos e valores com partilhados. Apesar de ser um dos mais evidentes, esse não é o único
“Os habitantes da escola nacional sofrem porque a norm a li­ perigo que enfrentam os diante do colapso do m odelo tra d i­
m ita suas ações”, sintetiza Lewkowicz, enquanto aqueles que cional. Uma escolarização que já não se inscreve na lógica
circulam pelos colégios contem porâneos se afligem “porque disciplinar, perm itindo m aior liberdade para os alunos, re­
não há um a no rm a com partilhada”.88 Por isso estes últim os nuncia a ensinar aquilo que a pedagogia kantiana considerava
seriam equivalentes a um galpão, “um recinto em cuja m ate­ tão valioso e que se pode sintetizar com o “autogoverno”.90 Isso
rialidade não supom os um a dignidade simbólica”, por ter-se poderia ser bastante benéfico, no sentido de evitar os cercea­
esvaziado de seus antigos significados instituídos e por se h a­ m entos que a escola m oderna e sua “ética protestante” soube­
verem esfum ado seus poderes instituintes.89 ram im por de m odo tão esmagador a sucessivas gerações de
Longe de ser vivido com o um a m era vitória sobre as anti­ estudantes; no entanto, tam bém os deixaria à mercê dos vai­
gas opressões, o sofrim ento aqui se deslancha quando não se véns m uito suspeitos do mercado, bem com o de práticas de
logra a adaptação a esse am biente excessivamente instável, que controle e coerções externas que a sociedade contem porânea
implica um a dinâm ica de regras precárias e sem pre mutáveis, não parou de multiplicar. Ao se relaxar a pesada hegem onia
o que suscita u m a impressão de inconsistência e falta de senti­ da consciência sobre a percepção, a rigorosa capacidade de se
do. Para habitar essa nova situação, portanto, requer-se um a autojulgar e se autogovernar — essa m onstruosa autocons­
série de habilidades antes desnecessárias e até com batidas, ciência regida pelo superego que habitava a interioridade do
com o a flexibilidade e a capacidade de reciclagem, as quais sujeito m oderno — parece estar cedendo lugar à autoestim a
im plicam u m a vulnerabilidade m uito m aior da subjetividade e a outras qualidades com andadas pelo princípio do prazer,

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alim entando um a cultura livre das antigas culpas, mas que que não têm acesso — a bens, recursos, serviços e até mesmo
muitos consideram narcisista e hedonista. Nesse sentido, dis­ a com ida”, sintetiza Alfredo Veiga Neto, enfatizando o esgo­
sem ina-se a ideia de que já não haveria barreiras a serem tam ento do horizonte igualitário tutelado pelo peso da lei
transgredidas e de que, portanto, educar consistiria na difícil supostam ente democrática. Agora estaria em andam ento, ao
tarefa de “im por limites” a esse desenfream ento, algo que de­ contrário, “uma grande e progressiva divisão do m undo entre
certo não é nada simples, um a vez dinam itada a hegem onia da aqueles — um a pequena m inoria — que vão viver de um jeito
lei e de sua m oral disciplinar. e os outros — a grande m aioria — que vão viver de outro jei­
No en tanto, apesar dessas transform ações rapidam ente to”. Para os que tiverem a sorte de ficar do lado bom dessa d i­
com entadas, convém notar que não são poucas as exigências visão, “talvez a escola ainda seja (e continue sendo) m uito in­
atuais com respeito ao desem penho individual, que já não teressante, na sua configuração tradicional, bem disciplinar”.92
se supõe que deva se aproxim ar da norm alidade mas ir além, Ou, caberia acrescentar, até em suas versões mais adaptadas
buscando sobressair-se e ultrapassar os outros em todos os aos estilos de vida e aos valores contem porâneos, as quais cos­
cam pos. Eis mais um efeito colateral desses deslocamentos: tum am ser fruto da iniciativa privada e extrem am ente caras,
quando o ideal a ser alcançado não se baseia na disciplina e além de obterem altas pontuações nas avaliações periódicas.
na culpa, m as nos recursos próprios de cada um e na inicia­ No extremo oposto estão os jovens deixados mais o u menos
tiva individual, os que não conseguem ficar à altura do desafio “à m argem ”, que não têm e nunca terão acesso a esses luxos,
são desqualificados com o fracassados ou “perdedores”, recor­ e são castigados porque não conseguem fazer the right thing,
rendo-se aqui a um vocábulo m uito caro à retórica neoliberal mas tam pouco têm direito ao ju st do it ou ao impossível, e
e à m itologia escolar norte-am ericana que se irradiou através m uito m enos a serem “idiotas”, com o propõe a glam orosa
de inúm eros produtos da indústria cultural. Assim, em vez de marca de jeans que m encionam os.93 Vários filmes latino-am e­
certas palavras de ordem de raiz puritana, com o Do the right ricanos tratam desse apartheid tão atual: desde o chileno M a­
thing (Faça o que é certo) ou No pain, no gain (Não há recom ­ chuca (de Andrés Wood, 2004), centrado na experiência de um
pensa sem esforço), não chega a ser curioso que hoje se disse­ colégio que tentou dim inuir essa brecha antes da últim a d i­
m inem slogans publicitários de grande sucesso que encarna­ tadura m ilitar, até o mexicano Zona do crime (de Rodrigo
riam certa “ética pós-protestante”, como o famoso Just do it Piá, 2007) e o argentino Uma semana sozinhos (de Celina Mur-
(Simplemente, faça-o)* da Nike, o Impossible is nothing (Nada ga, 2007), que retratam os resultados desses processos históri­
é impossível) da Adidas, e o incrível Be stupid (Seja idiota) da cos já em nosso século XXI, com a emergência de pelo menos
marca de jeans Diesel.91 dois tipos de infâncias bem diferentes e segregadas pelos m u ­
“O m undo está se tornando dividido: entre aqueles que são ros que resguardam a vida nos condom ínios fechados.
e aqueles que não são, entre aqueles que têm acesso e aqueles Segundo Lewkowicz, haveria até “um a nova definição o n ­
tológica do ser hom em ”, surgida nos últim os tem pos junto
com certo núm ero de práticas, hábitos e valores inéditos. Essa
* O u, com o diríam os em diferentes expressões de gíria o u da linguagem co­
loquial, “Vai fu n d o ”, “M anda ver”, “M anda brasa” etc. [N.T.] concepção seria mais estreita que as ideias filosóficas sobre a

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condição hum ana herdadas da m odernidade: aquelas que per­ Da criança ao consumidor:
manecem mais ou m enos cristalizadas sobre seus antigos pe­ cai o mito da transmissão
destais, inclusive os que ainda adornam o m obiliário escolar.
Por esse motivo, choca-se com elas, gerando ruídos e tensões,
algo que se evidencia de um m odo especialmente violento na
m anutenção do projeto tradicional de educação formal. Se­ Com este complexo panoram a como pano de fundo, um a das
gundo esses reajustes conceituais, nem todos os seres vivos tentativas de explicar a situação atual aponta para a ideia de
pertencentes à espécie hum ana fariam parte das novas defini­ infância: talvez esse conceito esteja m udando novam ente, ou
ções, posto que agora “só é hom em aquele que se insere nas talvez seu significado histórico tam bém tenha ressecado e es­
redes do m ercado, que participa do conjunto dos consum ido­ teja agora em vias de extinção. Vários autores trabalham com
res, que se vê refletido e se espelha n u m a tela de televisão, que essa hipótese, apresentando diferentes argum entos mas se­
tem acesso à saúde”.94 Ainda assim, a velha ideia de educar o guindo preocupações similares. Se “a prensa tipográfica criou
soberano — com o se todos continuássem os a ser, em tese, a infância, [...] a m ídia eletrónica a fez ‘desaparecer’”, con-
dem ocraticam ente livres, iguais e fraternos — parece seguir jecturou o já citado Neil Postman, por exemplo, em seu livro
inspirando boa parte dos projetos pedagógicos públicos e p ri­ O desaparecimento da infância, escrito no início da década de
vados, ainda que as ações concretas insistam em conspirar de 1980. “Para onde quer que a gente olhe, é visível que o com ­
diversos m odos contra tais preceitos meio em bolorados. portam ento, a linguagem, as atitudes e os desejos — mesmo
Neste contexto, que aparentem ente constitui um a transi­ a aparência física — de adultos e crianças se to rn am cada
ção para o u tro regim e cujos contornos ainda não podem os vez mais indistinguíveis”, insistiu o professor estadunidense.96
vislum brar com m uita clareza — e cujo futuro, de algum a Com o quer que seja, se ser criança já não é o que costumava
forma, está em nossas mãos — , a escola tenta se transform ar, ser, é provável que isso se deva ao atual esgotam ento — ou, no
adaptando-se de diversas m aneiras; mas, em term os gerais, m ínim o, à metamorfose — das instituições que sustentaram a
continua a executar sua tarefa do m odo mais ou m enos trad i­ infância durante os últim os séculos, encabeçadas pela família
cional e apesar de tudo. Nesse esforço cotidiano, essa institui­ e pela escola.
ção “tenta co n tin u ar a ap o n tar para a hum anidade em seu Em que sentido se pode dizer que a infância é um a inven­
sentido clássico, m as nas práticas efetivas só um a parte dessa ção m oderna? Em princípio, essa era histórica organizou a
suposta h u m anidade se inclui na órbita da educação da m o ­ vida de todos os cidadãos, com partim entando-a em faixas
dernidade”.95 Essa parcela dos m em bros da espécie pode nem etárias cada vez mais estreitas e definidas — infância, adoles­
sequer constituir a m aioria da população: são aqueles que se cência, juventude, idade adulta, velhice — , atribuindo a cada
encaixam, de algum modo, na categoria de consum idores dos um a delas a realização de certas atividades, bem com o direitos
m ercados globais. E que ainda têm a oportunidade de conti­ e deveres específicos, canalizando e m odelando as forças vitais
n u ar a desfrutar da condição de alunos, tirando disso algum através desse instrum ental de época que Michel Foucault de­
proveito. nom inou “biopoder” e “biopolíticas”.97 Assim com o a medi-

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cina sanitarista e o higienismo, a educação formal foi essen­ histórico passível de ser localizado e analisado; assim, hoje se
cial nesse sentido, ao classificar cada criança e cada jovem em sabe que nem sem pre houve crianças, pelo m enos com o as
função de traços biológicos determ inados por sua idade, es­ conhecemos e as tratam os a partir da modernidade: em outras
pecificando-os assim como alunos de diferentes níveis hierár­ épocas havia meras crias hum anas. “A descoberta da infância
quicos cronologicam ente encadeados. Philippe Ariès m ostra com eçou sem dúvida no século XIII, e sua evolução pode ser
até que ponto os aprendizes dos mestres medievais, p o r exem­ acom panhada na história da arte e na iconografia dos sécu­
plo, não se dividiam dessa maneira: “A prática da aprendiza­ los XV e XVI”, conta Ariès, “mas os sinais de seu desenvolvi­
gem é incompatível com o sistema de classes de idade”, já que m ento tornaram -se particularm ente num erosos e significati­
“obriga as crianças a viver entre os adultos, que assim lhes vos a partir do fim do século XVI e durante o século XVII.”101
com unicam o savoir-faire e o savoir-vivre”.98 Mesmo nos esta­ O utro historiador já m encionado, o britânico Colin Hey-
belecimentos que mais tarde foram denom inados escolas, “to ­ wood, que tam bém se dedicou a estudar esse assunto, tentou
das as idades se confundiam num mesmo auditório”, que m ui­ nuançar certas ideias de Ariès e seus seguidores, incorporando
tas vezes se improvisava num a praça ou no claustro de uma várias sutilezas históricas e culturais, assim com o as diferen­
igreja." Mas essa ordenação p o r grupos etários se tornaria ciações que ainda persistem entre os jovens de todo o m undo
cada vez mais imprescindível a partir do século XVIII, inclusi­ por força de sua condição socioeconôm ica, gênero, origem
ve pelo uso de determ inadas vestimentas para cada etapa da étnica e localização geográfica, por exemplo. Esse autor relati-
vida e vários rituais complementares: foi assim que se instituiu viza o fato de que “durante aproxim adam ente 2 mil anos, des­
o que hoje conhecem os com o infância. O utros estudiosos, de a Antiguidade até o século XVIII, os crianças do Ocidente
como o inglês Jon Savage, dem onstraram que m uito mais tar­ eram pensadas com o adultos im perfeitos”, por serem “con­
de, já avançado o século XIX, surgiria a ideia m oderna de ju ­ sideradas deficientes e inteiram ente subordinadas aos adul­
ventude e, em seguida, a noção de adolescência como um fe­ tos”.102 Contudo, e apesar das gradações inseridas nesse tipo de
nôm eno do século XX.100 afirmações, destacando especialmente as lutas travadas ao lon­
O historiador francês citado no parágrafo anterior foi um go da m odernidade, Heywood adm ite que essa visão do infan­
pioneiro nas pesquisas genealógicas desse campo, sim bolica­ te com o algo não concluído teve um a vigência bastante con­
mente inauguradas em 1969 com a publicação de seu famoso sensual até bem entrado o século XX. Ainda na década de
estudo sobre a criança e a família durante o Ancien Régime. 1960, “os especialistas viam a criança com o um ‘organism o
Ainda que tenha recebido críticas por generalizar demais al­ incom pleto’, que podia se desenvolver em direções distintas
guns processos que são extrem am ente complexos e que tive­ com o resposta a diferentes estím ulos” de m odo que “a idade
ram evoluções variadas, ou p o r ser m uito categórico na iden­ adulta era considerada um a etapa da vida para a qual a infân­
tificação de ru p tu ras no tecido histórico, seu trabalho é hoje cia era um mero preparativo”. Encravadas nessa perspectiva,
reconhecido por ter estabelecido as bases de um questiona- as ciências hum anas e sociais enfatizavam o desenvolvimento:
m ento então inédito, mas que agora se to rn o u consensual: “O que im portava era encontrar maneiras de transform ar a
a desnaturalização do infantil. Essa categoria seria um invento criança im atura, irracional, incom petente, associai e acultural

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n u m adulto m aduro, racional, com petente, social e au tó n o ­ disciplinares, era o da latência, de m odo que a criança consti­
mo.”103 Trata-se de um a visão da infância com o um estado tuía algo que ainda não é, mas que depois será. Ela não existia
não apenas anterior mas tam bém deficiente em relação à con­ “com o sujeito no presente, mas com o promessa no futuro”,
dição adulta, na qual ressoam ecos da pedagogia kantiana an ­ conform e afirma Cristina Corea na introdução de seu livro
tes com entada. intitulado, precisamente, A infância acabou?.104 Já as crianças
Assim, tran sfo rm ad a n u m a-lum no que deveria ser ali­ de hoje, ao contrário, não se definem apenas nem principal­
m entado e ilum inado graças à transfusão do saber, a criança m ente por aquilo que ainda não são, tam pouco se ancoram de
m oderna foi posta nas m ãos da escola, aquela m áquina encar­ m odo determ inante — e m uito m enos exclusivo — nessas
regada de forjar o cidadão do am anhã a partir dessa m atéria­ estruturas fixas e universais que se encarregavam de m o l­
-prim a que ainda não chegava a configurar um sujeito pleno dá-las. Para além de qualquer condição que possam assum ir
de consciência. Partia-se do pressuposto de que essa criatura num futuro por demais incerto, elas são acima de tudo os con­
era frágil e inocente, m otivos pelos quais requeria am paro e sum idores da atualidade — ou, então, os “excluídos” desse
educação: tin h a que ser cuidadosam ente tutelada com vistas m esm o universo. É assim que sai de cena a obsoleta inocência
à sua formação, que seria fruto de um processo evolutivo de que envolvia o m undo infantil de alguns anos atrás, enquanto
transm issão de conhecim entos e norm alização de condutas. se reconfigura o instrum ental destinado a protegê-la ou a ex­
Por tudo isso considera-se que essa instituição cham ada infân­ plorá-la. E tam bém é assim que a infância, que costumava ser
cia foi idealizada naquele período histórico, sendo sua fabrica­ um a instituição sólida, perde consistência na atualidade: já faz
ção atribuída àquelas duas outras criações m odernas com selo tem po que se evanesceram aquelas figuras engomadas e cheias
estatal: a família e a escola. Em prim eiro lugar, portanto, ins­ de brilhantina que ilustravam os manuais escolares de antiga­
taurava-se na criança o princípio da legalidade encarnado na m ente, com suas calças curtas, seus coques esticados e seus
figura do pai, que representava a lei no seio do lar; depois, essa penteados com topetes, além de seu orgulhoso respeito pelas
função era transferida para o colégio, que devia dar conti­ autoridades irrepreensíveis da idade adulta.
nuidade ao trabalho form ativo do futuro adulto. Assim como A criança atual já não é frágil nem ingénua: ao contrário,
a família, portanto, a escola foi equipada com o o utro aparato presume-se que saiba muitas coisas e seja capaz de escolher,
p ro d u to r de consciência (nacional) nessa criatura destinada a opinar e consumir. Não é mais um infante— cuja etimologia
se converter n u m hom em de bem. remete, justam ente, àquele que não fala — nem se supõe que
O que se propõe pensar aqui é que essa criança, que se de­ deva ser “form ada” para o futuro, mas é constantem ente b o m ­
finia em virtude de sua potencialidade para se to rn ar um cida­ bardeada por informações que lhe m ostram com o ser um ga­
dão com o resultado da conjunção entre o filho — produzido roto ou um a m enina de hoje. Isso não significa, é claro, que
pela família — e o aluno — m oldado pela escola — , talvez seja esteja im une a qualquer fragilidade, mas que m udaram os
hoje um a figura em extinção. Um sintom a desse declínio seria m odos com o esta últim a se manifesta: trata-se de um a vulne­
certa m udança na relação entre o presente e o futuro: o tem po rabilidade semelhante à que agora afeta tam bém os adultos
da infância m oderna, gerada e albergada por essas instituições — em bora, às vezes, os pequenos pareçam mais seguros e

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“senhores de si” que seus pais e professores. Cabe acrescentar, sável por sua própria queda.” 106 Seria possível dizer algo sem e­
neste sentido, que, assim com o vem se esgotando a ideia de lhante a respeito dos docentes, para o que se mostra ilustrativo
infância, ruiu tam bém a investidura paterna, junto com a do este texto que integrava um m anual escolar da prim eira m eta­
docente e a do Estado, bem com o o laço de cum plicidade ins­ de do século passado: “Obedecei à vossa professora, queridas
titucional que irm anava todas essas autoridades e lhes conce­ crianças, com o obedeceis a vossos pais, com presteza, com
dia seus privilégios em face dos pequenos. Com os avanços diligência e sem reservas.” Após discorrer pom posam ente ao
dos meios de com unicação de massa, posteriorm ente reforça­ longo de algumas frases sobre a natureza da obediência e de­
dos pelas mídias interativas, os pais perderam boa parte de fender suas virtudes ju n to a um a bela estam pa no mesm o
suas antigas certezas e prerrogativas: “Os adultos já não se tom , o serm ão se encerrava assim: “Essa obediência à vossa
sentem superiores em relação a seus filhos”, afirm ou o soció­ m estra deve se constituir tanto de gratidão e am or quanto de
logo David Riesman em seu livro A multidão solitária. E estes dever, pois isso é o que merece aquela que, depois de vossos
últim os já não enfrentam som ente a exigência de proceder pais, é vossa m aior benfeitora neste m undo.”107
corretam ente, seguindo os cam inhos traçados p o r aqueles, O desabam ento das antigas hierarquias no seio familiar e
m as “lutam tam bém com o problem a de definir o que seria escolar, essa indistinção gradual entre os papéis de pais e filhos
agir bem no novo contexto”, com os meios de com unicação ou professores e alunos, é sem dúvida um aspecto im portante
convertidos na principal fonte para pais e filhos.105 da dissolução das etapas da vida organizadas pela m oderni­
As figuras paternas se transform aram radicalmente; pode­ dade. Um processo que tam bém se percebe em certa “erotiza-
ríam os até dizer que se desvalorizaram. Para constatá-lo, basta ção precoce” que estaria ocorrendo na atualidade, por exem­
observarm os a distância que separa um Charles Ingalls de um plo, assim com o nos debates relativos à im punidade — cada
H om er Simpson, por exemplo. Se o protagonista daquele se­ vez m ais questionada — que exime de responsabilidade os
riado televisivo que foi tão popular em vários países do m u n ­ jovens que se envolvem em crimes por serem “m enores” e,
do algumas décadas atrás, Os pioneiros, era um m odelo de pai, portanto, inimputáveis. De m odo que, por um lado, há um a
hom em e m arido exemplar, tão querido quanto respeitado e espécie de infantilização generalizada da sociedade e, por o u ­
adm irado por todos os m em bros da família, por sua integrida­ tro, certo apagamento do que é propriam ente infantil. Essas
de m oral, o personagem do famoso desenho anim ado do fim questões vêm sendo tematizadas no cinem a há muitos anos:
do século XX e princípio do XXI situa-se quase que em seu um marco foi o filme Kids, de Larry Clark, que surpreendeu
oposto diam etral. “H om er é o representante da deterioração em 1995 por sua crueza ao retratar um universo infantil que já
da autoridade paterna, que foi perdendo inclusive seu lugar de não parecia sê-lo, im pregnado de um a sordidez inusitada que
‘chefe de família’”, afirm a o psicanalista argentino Juan Vasen. incluía sexo, drogas e violência. A figura infantil que emerge
“O curioso é que seu vizinho Flanders, que encarna um pai­ dessa m utação é aquilo que o psicanalista Vasen denom inou
-m odelo, m oderno, religioso e solidário, tam bém é caricatura­ “pós-pirralhos”.108
do em suas rotinas e seus limites, o que significa que o modelo Essas transform ações tam bém atingem o consum idor m i-
que se deixou para trás não era ‘perfeito’ e tam bém é respon­ diático: em bora ele pareça ter se libertado dos velhos esca­

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ninhos ou etiquetas que o enquadravam em identidades fixas deve ser sacrificado nem adiado pela promessa do que virá”,
e estáveis em função de características com o sua faixa etária, como explica Juan Vasen. “Antes, essa promessa dotava de sen­
agora ele costum a se sentir arrasado por certa indefinição e tido o percurso e a dem ora”, continua o mesmo autor, mas
pela já habitual dispersão pulverizadora. Segundo C ristina “hoje, enfraquecida a prom essa, só resta a im paciência.” 111
Corea, no fluxo inform acional da contem poraneidade, “não Claro que isso constitui um problem a para a lógica escolar,
há crianças, não há adolescentes, não há adultos: há consu­ pois “assim como não há infância sem am anhã, não há educa­
m idores de m eios”.109 Nesse sentido, já não haveria gêneros, ção sem futuro”, resum e Corea. Por isso, afastadas da noção
temas ou conteúdos exclusivos para crianças, nem m esm o es­ m oderna de infância, as múltiplas figuras midiáticas da garo­
tilos ou estéticas específicos para esse público: os limites entre tada de hoje subvertem o dispositivo pedagógico e o tornam
as diversas idades se dissipam tam bém nesse campo. As m a­ anacrónico, não só porque a criança atual se nega a assum ir
nifestações m idiáticas atuais parecem ignorar as barreiras etá­ seu papel de pequeno adulto inacabado, mas porque nesse
rias com o princípio de separação entre os tipos de audiências, gesto são redefinidos tam bém os papéis dos pais e dos p ro ­
para se guiar p o r parâm etros mercadológicos ao segm entarem fessores. “Se a criança é um ser pleno, com o acontece agora,
seus consum idores. “O recorte de idades do marketing já não a capacidade transform adora da educação é im ediatam ente
corresponde ao da psicologia”, afirm a Corea: “Ser jovem ou ser questionada”, afirma a mesma autora. Não apenas porque essa
adolescente, no discurso midiático, mais que ser possuidor de operação se aplicava a algo que só se consolidaria plenam ente
um a idade — com a conotação que tinha esse term o no para­ no futuro, mas tam bém porque a força presente desses jovens
digma da vida concebida em etapas — , significa possuir um a não depende nem da escola nem do Estado, mas de outras
imagem, ostentar certos signos característicos do ser jovem, instâncias bem mais atuantes na contem poraneidade. “O que
mas que qualquer indivíduo pode exibir.”110 A autora se refere a criança pode, o que a criança é, verifica-se fundam entalm en­
aos m odos de falar e vestir, ao repertório gestual ou à fideli­ te na experiência do mercado, do consum o ou da m ídia”, cons­
dade com ercial a certas marcas que aderem à própria ideia tata Corea, “já que nesses âm bitos ela pode escolher produtos
de juventude, m as que qualquer consum idor atual pode ado­ e serviços, pode operar aparelhos tecnológicos, pode opinar,
tar — inclusive até se costum a presum ir que todos deveriam pode ser imagem.” 112
adotá-los. Todas essas práticas e crenças que se conjugam na m oral
A infância m oderna, portanto, era um a aposta no futuro contem porânea fazem parte do declínio da infância com o um
que o Estado devia avalizar. Já na perspectiva mercantil, se o fenôm eno de nossa época. Em lugar daquela meninice m oder­
presente é fluido e volátil, o futuro é pouco mais que um a na, protegida e resguardada institucionalm ente por sua fragi­
abstração: longe de ser garantido pela solidez das instituições, lidade e incom pletude, o consum ism o exige dos jovens atuais
é algo que só se produzirá se seus protagonistas fizerem o es­ um a quantidade transbordante e hiperativa de gestos e infor­
forço necessário para abrir esse horizonte e habitá-lo com seus mações que fazem im plodir os velhos escalões familiares. Em
próprios projetos. O tem po linear da m odernidade se vê ab­ função dessas m udanças, muitas decisões que se tom am no lar
sorvido pela força do instante, supondo-se que “o agora não ficam nas mãos das crianças. Foi o que constatou a pesqui-

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sa intitulada O poder de influência da criança nas decisões de ve-se de pé durante m uito tempo, e sobre ela se apoiou o p o ­
compra da fam ília, que entrevistou 15 mil pessoas em onze der instituinte da tecnologia escolar. Ilum inado pelo halo pro­
países para chegar à conclusão de que “a opinião das crianças tetor da “cultura letrada”, o conhecim ento era considerado
é seriamente considerada pelos pais mesmo quando o produto algo digno de ser acum ulado. Por isso a intervenção pedagó­
não se destina a elas”, com o é o caso dos autom óveis, p o r gica costumava produzir os efeitos esperados com o resultado
exemplo, acrescentando que suas fontes de inform ação são a de sua transfusão: estavam dadas as condições para que a m á­
internet e a televisão.113 Isso é m uito diferente do que costu­ quina escolar funcionasse corretam ente. As dúvidas com eça­
mava acontecer em outras épocas: agora elas parecem saber o ram quando a eficácia e o valor desse saber foram postos em
que querem , escolhem e opinam , e suas decisões são respeita­ dúvida, em boa m edida pela redução da solidez e da estabi­
das pelos adultos. Por tudo isso, cabe perguntar: qual seria o lidade que caracterizavam a estrutura estatal, mas tam bém
papel da educação se já não se trata de form ar o cidadão de pelos avanços da cultura midiática e de sua lógica concom i­
am anhã, ou seja, aquele que ainda não sabe quase nada nem tante, a da informação. Assim, aquela autoridade que se ba­
é um sujeito de pleno direito? Será que é possível, hoje em dia, seava no status conferido por sua capacidade de transmitir
continuarm os a falar do ensino em term os de transmitir sabe­ verdades tam bém perde sua sustentação e seu poder institui­
res, conhecim entos ou informações a partir de um pedestal dor. Isso ocorre igualmente porque “o saber que se supunha
autorizado? Talvez essa ideia tenha se tornado insustentável, nela — tantas vezes solenizado e enrijecido — vem sendo
o que im plica um a enorm e ru p tu ra nas concepções tradicio­ destituído”, com o esclarece Vasen, “gerando um a abertura e
nais e m odernas destiladas pela pedagogia — um vocábulo de um questionam ento inéditos dos m odos de ser e, ao mesm o
origem grega que, aliás, conjuga duas noções hoje em confli­ tem po, estreitando o que as gerações precedentes podiam
to: paidós (criança) e agogé (condução). transm itir como bagagem às novas”. Em consequência, acres­
Aquilo que era considerado um a transm issão ou transfe­ centa o mesm o autor, “pais e professores são considerados
rência de saber ocorria entre um sujeito possuidor desse valor cada vez m enos sapiens”.115
(o professor), aquele que sabe, e outro indivíduo em formação Enquanto o dispositivo pedagógico se edificava em torno
(o aluno), considerado hierarquicam ente inferior e depositá­ do saber e do conhecim ento, a m atéria-prim a do discurso
rio da ação form adora porque não sabe. “A aprendizagem por m idiático é a inform ação e, a partir dela, a opinião. “Nossa
meio da com unicação com os semelhantes e da transm issão época dem anda mais velocidade que consistência”, assinala de
deliberada de pautas, técnicas, valores e lembranças é um p ro ­ novo Vasen; e, nesse ritm o, “a opinião é mais funcional que o
cesso necessário para se vir a adquirir a plena estatura h u m a­ pensam ento”.116 A diferença entre os dois é crucial, em bora
na”, conform e definiu o filósofo espanhol Fernando Savater possa parecer um tanto confusa ou sutil demais, porque não se
em seu livro O valor de educard 14 Em bora toda essa lógica es­ refere a temas nem a “conteúdos” que seriam exclusivos desse
teja em crise no m om ento, subm etida a múltiplos questiona- ou daquela, mas aos efeitos que cada dispositivo é capaz de
m entos e controvérsias em plena era da interatividade e da produzir. O saber é cum ulativo e se sustenta na escrita, ao
participação colaborativa, sua cadeia de suposições m an te­ passo que sua circulação se produz graças à transm issão entre

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dois polos diferenciados: um que em ite e o utro que recebe, pergunta Corea. Em seguida, ela própria responde que, em tais
sendo ambos os papéis definidos antecipadam ente de forma casos, “o dispositivo pedagógico se torna inoperante e ineficaz
fixa e estável. A inform ação, em contrapartida, é instantânea e em sua capacidade de produzir efeitos transform adores”; em
m últipla, não responde a organizações hierárquicas preesta- vez disso, acaba destilando tédio, agressividade e frustração
blecidas e seu su p o rte privilegiado costum a ser m idiático; nos dois extremos da antiga relação bipolar.117
além disso, não depende da transm issão unidirecional para De fato, essa redefinição dos papéis docentes e discentes
circular, mas se dissem ina form ando redes. Por isso ambas as não é propriam ente um a novidade: a pedagogia vem p en ­
m odalidades requerem e produzem subjetividades diferen­ sando e lançando novas propostas há pelo m enos três o u qua­
ciadas. No prim eiro caso, trata-se de um par cujo estatuto é tro décadas. Tentou-se reform ular todo o dispositivo sobre o
desigual — o professor e seu correlato igualm ente legitimado qual se assentava a transmissão: a distribuição das carteiras na
pela instituição responsável, o aluno; já no segundo caso, pode sala de aula, o redesenho do m obiliário e do espaço arquitetô­
se tratar de apenas um ou de m uitos, mas esses atores não se nico, até o vocabulário relativo à situação de aprendizagem.
definem de m odo hierárquico nem precisam se envolver num a Em vez de continuar a usar term os com o mestre ou professor
relação de transm issão: aparece a figura do consum idor. — o especialista que se define por sua mestria ou por professar
Q uando u m a situação regulada, em princípio, pelo discur­ sua sabedoria — , propuseram -se alternativas m enos hierar­
so do saber — com o era o caso do colégio tradicional — vê-se quizadas, tais com o “coordenador de atividades” ou “facilita-
repentinam ente atravessada pela lógica da inform ação, “ou dor da aprendizagem”, insinuando que sua função deveria se
quando a subjetividade pedagógica é destituída de fato pela transform ar nesse sentido. Assim, em lugar daquele que pres­
subjetividade m idiática”, com o diz Corea, “o desencaixe entre creve a verdade, teríam os algo bem mais modesto: um m edia­
os discursos p ro d u z violência”. As diferenças enunciativas, dor ou articulador dos significados produzidos por todos, que
simbólicas e jurídicas que funcionavam na situação escolar circulam de m odo mais ou menos igualitário na situação da
clássica, fundando o princípio de autoridade avalizado pela lei aula, estim ulando assim a construção conjunta de conheci­
estatal, acabam sendo “im pertinentes” e até violentas num m entos e o protagonism o dos jovens nessa tarefa. Em contra­
regime dom inado pela informação. Por isso, um a vez derruba­ partida, portanto, o aluno tam bém deixaria de ser um mero
da a posição de autoridade a p artir da qual se enunciava e se receptáculo de conteúdos a ele transferidos de cima para bai­
transm itia a educação form al, as reações costum am oscilar xo, para se tornar um sujeito ativo e autónom o: um intrépido
entre o autoritarism o e o caos: “O saber, tom ado pela lógica da aprendiz, capaz de se lançar com força própria nas descobertas
inform ação, dissem ina-se em opiniões, pareceres, pontos de educativas.
vista”, os quais, p o r definição, não se baseiam em virtudes san­ No entanto, sem desmerecer suas boas intenções nem ig­
cionadas nem em m éritos adquiridos. A pergunta seria, então, norar seus acertos, todos esses esforços teóricos e essas tenta­
se as práticas pedagógicas podem ser eficazes nessas novas tivas de reform ular o dispositivo pedagógico não parecem ter
circunstâncias. “O que acontece quando, p o r exemplo, pelo ido suficientem ente longe em sua contundência — ou não
autom atism o do hábito tratam os a inform ação com o saber?”, tiveram, até agora, a eficácia buscada em seu reform ism o radi-

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cal do que acontece nas escolas. Uma das grandes dificuldades instituições transcendentais, mas em operações localizadas e
parece residir no fato de não se ter pensado em profundidade em práticas concretas de coesão, e por isso não oferece garan­
sobre um a questão: o que significaria educar, quando as sub­ tias e requer um trabalho perm anente de elaboração. O víncu­
jetividades envolvidas nesse processo já não são as do profes­ lo se m antém porque os interlocutores se escolheram m utua-
sor e do aluno, mas as de consum idores imersos em plena era m ente em cada caso e decidem preservar essa relação, como
midiática? Em boa medida, e apesar das muitas transform a­ explica o mesmo autor: “Não por haver um a ancoragem dada
ções que ocorreram ultim am ente, os laços que se tecem nas de antemão, mas porque o fato de terem se encontrado produz
salas de aulas contem porâneas insistem em copiar o m ode­ um am biente significativo.”120 Esses laços não se geram nem
lo do dispositivo pedagógico m oderno: em que pese a óbvia persistem porque assim o dita o regulamento nem porque a
“crise”, o ideal continua a ser a formação do futuro cidadão m oral vigente indica que assim deve ser, por bem ou por mal,
p o r meio de um a educação baseada na transm issão de sa­ mas é preciso repensá-los e construí-los todos os dias. Trata-se
ber, segundo o princípio da autoridade delegada pelo Estado. de um a tarefa artesanal e angustiante: custa m uito escorar
“Talvez tenham os que aprender a ensinar sem educar, a pensar as situações sem um aval institucional, exigindo um esforço
sem saber”, aposta C ristina C orea.118 Para isso seria preciso enorm e de pensam ento e invenção. Além disso, m esm o nos
enunciar — e negociar — , sem pre de m odo autónom o, as casos em que é bem -sucedida, a fórm ula não pode se repetir
regras do jogo requeridas em cada situação, assim construindo de form a automática porque as circunstâncias se transform am
a possibilidade de um diálogo que evite recair nos pressupos­ constantem ente e as mesmas ações podem ter efeitos diversos
tos do velho esquem a cuja eficácia desabou, sem sucumbir, no dia seguinte, ou na sala de aula ao lado.
no entanto, à tentação do caos e da dispersão. Nesse difícil Soma-se a estas questões o fato de se haver alterado, nas
desafio de ensinar sem educar e pensar sem saber, a propósito, subjetividades contem porâneas, a equação que dava hegem o­
ressoam certos ecos da proposta filosófica desenvolvida por nia à consciência sobre a percepção. Assim, o quadro se com ­
Jacques Rancière no livro O mestre ignorante.1'9 plica ainda mais quando se insiste em m anter o dispositivo
Seja como for, na fluidez contem porânea que destronou a pedagógico. Os múltiplos estímulos simultâneos e as constan­
solidez sobre a qual se erigia a transm issão de conhecimentos tes distrações do m undo contem porâneo provocam “vivências
do dispositivo pedagógico, torna-se vital repensar os papéis do dom inadas pela percepção”, nas palavras de Juan Vasen, “que
professor e do aluno. C om o a investidura prévia já não está se opõem à aprendizagem clássica que exigia a consciência,
garantida, os vínculos atuais são sempre contingentes e podem a m em ória e a palavra para gerar um a experiência”.121 O pen­
não acontecer. Esses dois nós que entram em relação — que sam ento de base perceptiva difere do reflexivo. Sabe-se pouco
podem ser o docente e o aluno, assim com o o pai e o filho — sobre essas transform ações em curso, mas tanto a transm issão
se conectam “p o r terem sido realizadas as operações p ertinen­ quanto a explicação parecem alheias à nova lógica. No caso
tes para eles perm anecerem juntos, e não porque um arcabou­ dos videogames, por exemplo, quando se aprende a usá-los,
ço estrutural os encerre no mesm o espaço”, explica Ignacio é claro que ocorrem aprendizagens e pensamentos, m as estes
Lewkowicz. O contato que se possa conseguir não se apoia em não parecem ser reflexivos, conscientes e racionais, baseados

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na explicação ou na interpretação, e sim em “um a eficácia do pela repressão institucional de algum tem po atrás. Q uando
operativa que não necessita da consciência”, segundo afirm a a circulação de estímulos se torna tão veloz e intensa, o desafio
Cristina Corea. Talvez por isso seja tão difícil explicar a alguém — tanto para os adultos com o para os jovens — não consiste
como se usam esses dispositivos: se o sujeito pensa, não con­ em tentar se livrar da opressão, mas em gerar formas de “se
segue operá-los; então, é preciso mostrar e fazer diretam ente prender a algo” que lhes perm ita se constituir e incorporar
com o outro. De qualquer m odo, nessas situações em que o a experiência. Hoje, em últim a instância, talvez o aprender
equilíbrio entre percepção e velocidade é fundam ental, a ação consista nisso.
pode perder eficácia quando a consciência intervém , pois esse Por esses mesmos motivos, não só ruiu o ideal de transm is­
tipo de reflexão retarda as reações. “O pensam ento reflexivo são de conhecim entos mas tam bém o de infundir valores, não
entorpece a conexão”, prossegue Corea, pois “não há um p en ­ somente aqueles am arrados à moralização tradicional, na li­
sam ento representacional, m as estritam en te conectivo.” 122 nha de Kant ou Sarmiento, mas tam bém aqueles que costu­
E até m otriz ou corporal, caberia acrescentar — ou seja, bem mavam ser considerados críticos ou em ancipadores, segundo
diferente daquele proposto pela filosofia cartesiana que fu n ­ a perspectiva de um Paulo Freire ou de um Theodor Adorno,
dou a m odernidade. por exemplo. N um am biente tão instável com o o contem po­
Portanto, esse tipo de pensam ento de cunho novo, em bora râneo, não há situações análogas que perm itam a transferência
cada vez m ais dissem inado — do qual pouco se sabe e que, no de valores de um a para outra, assim com o não há m odelos
entanto, parece integrar prioritariam ente o arsenal das novas firmes aos quais seja fácil se identificar ou se opor, critican­
subjetividades — , entra em choque com o dispositivo escolar do-os, quer se trate de líderes cristalizados em estátuas, quer
por prescindir de duas de suas operações prim ordiais: a expli­ de seus ilustres detratores. Portanto, em vez de ativar o canal
cação e a transm issão. O contato dos jovens atuais com a in ­ institucionalizado para transm itir a verdade, o desafio consis­
formação não ocorre por meio de nenhum a dessas duas estra­ te em criar vínculos que sejam capazes de m anter um diálogo
tégias, mas m ediante as operações que se realizam em fusão e que não se apoiem na antiquada autoridade disciplinar, mas
com o fluxo de dados. “Esse saber, que é basicam ente percep- em algum tipo de confiança forjada para a ocasião. C uriosa­
tivo e conectivo, e que não requer a consciência, é um saber mente, é assim que se constroem tam bém as relações que se
que não se transfere”, afirm a Corea, pois gera um a série de geram no mercado: não se confia por princípio ou por lei num
recursos e destrezas que não se podem transm itir de um a pes­ território cujas hierarquias e cujos mapas já foram traçados, e
soa para o u tra nem de um a situação para o u tra.123 Até porque sim por motivos mais instáveis e dependentes de cada situa­
tudo m uda com dem asiada rapidez, e o que antes tinha valor ção. “Se a autoridade é um esteio em condições sólidas, a con­
se depreciará em seguida: tan to os objetos quanto os conheci­ fiança o é em condições de incerteza”, afirm a Corea. Por isso,
mentos caem rapidam ente em obsolescência e, então, não ser­ “quando não há um sentido institucional em que se apoiar, a
vem para m ais nada. Essa fugacidade gera u m mal-estar, um a confiança torna-se indispensável”.124
ansiedade que im pele a lutar constantem ente contra a am eaça Assim, havendo desabado as categorias de aluno e de p ro ­
de evaporação: um inimigo m uito diferente daquele encarna­ fessor, os que ainda se veem instados a ocupar esses papéis

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devem ser capazes de gerar operações ativas de diálogo e pen­ Do empregado ao empresário,
samento para que algo possa acontecer nessa troca, mas sem ­ da formação à capacitação
pre levando em conta que as subjetividades envolvidas nesse
dispositivo são outras e que, portanto, todo o quadro se m e­
tamorfoseia. Dialogar é m uito diferente de educar, ainda que
em seu seio se produzam ensinam entos e aprendizagens. Essa Segundo alguns dos argumentos expostos nas últimas páginas,
conversa não equivale, p o rtan to , nem a um a transm issão a criança contem porânea teria abandonado sua condição de
nos velhos moldes escolares nem ao entretenim ento midiático. inepto a ser protegido e educado, para se tornar um consum i­
Ressoam aqui os ecos do veredicto de Debord, já m encionado, dor a ser conquistado e com o qual se deve aprender. Podería­
segundo o qual o espetáculo “é o contrário do diálogo”, em mos dizer que deixou de ser um aluno, mero destinatário da
fecunda ressonância com esta afirmação de Cristina Corea: transm issão de um saber que o nutriria e ilum inaria em sua
“Dialogar com um a criança é o oposto de educar.”125Ademais, futura trajetória cidadã, para se encarnar num ativo prossumi-
esse difícil contato terá que emergir em um contexto fluido e dor ou produsuário, recorrendo-se aqui a neologismos surgi­
instável, no qual não só se esgotou a função bipolar do dispo­ dos da confluência entre term os como produtores, usuários e
sitivo pedagógico, mas que, além disso, está com pletam ente consumidores, em inglês, cuja aplicação vem se expandindo
im pregnado pela lógica inform acional. Fruto de complexas para outros campos. Nos últimos anos, o uso dessas expres­
operações sem pre inacabadas, esse diálogo se contrapõe a tal sões penetrou tanto nos discursos em presariais quanto em
fluxo, ao m esm o tem po que se distancia da antiga transfusão certos setores da pesquisa acadêmica, para fazer referência aos
de conhecim entos inculcados com rigor. “A letra com sangue novos tipos de consumidores ou usuários “ativos” que contri­
penetra”, sentenciava um provérbio arrepiante daqueles te m ­ buem com seus aportes para alim entar o acervo disponível na
pos, em bora não pareça ser nada disso o que acontece agora internet, por exemplo, em bora sua utilização tam bém perpas­
nas escolas — o que não deixa de ser um alívio, mesm o que se práticas artísticas, jornalísticas, comerciais, educativas e po­
essa libertação tam bém não tenha se consum ado da m elhor líticas que ultrapassam as redes informáticas.
m aneira possível. Em todo caso, não é com a mesma dor que As transformações do capitalismo são ambíguas, salpicadas
a avalanche de imagens, opiniões e dados irrom pe por toda de inúm eras continuidades e muitas contradições, mas cos­
parte e im pregna os corpos e as subjetividades. Talvez esteja tum am ser bastante contundentes em seus efeitos: se o im pul­
aberto o horizonte para algo m uito mais rico e interessante so industrial que acom panhou o surgim ento da escola tinha
que valeria a pena explorarmos, ainda que exija esforços des­ como meta a formação do bom trabalhador, o credo neolibe-
com unais para a constituição prévia de suas condições de pos­ ral que im pera hoje se concentra na moldagem do consum i­
sibilidade, que de m odo algum podem ser tidas com o certas. dor perfeito. E isso não só no sentido de semear um tipo de
subjetividade adequada a esse perfil, mas tam bém no que se
refere à moralidade e à arm ação jurídica que o “protege” e o
“conscientiza”, abandonando-se assim boa parte das leis traba-

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PAU LA S I BI LIA • R E D E S OU P A R E D E S DO EM P R E G A D O AO E M P R E S Á R I O , DA FO RM AÇÃO À C APACIT AÇÃO

lhistas defendidas pelos sindicatos em sua época de ouro, para outro. A subjetividade cidadã e pedagógica parece insuflar a
enfatizar os serviços de atendim ento e defesa do consum idor prim eira postura, enquanto sua versão m idiática e em presarial
que hoje proliferam . Im ersos nesse am biente, “aprendem os, transparece na segunda.
explícita ou im plicitam ente, tan to o desejo de consum ir q u an ­ Nessa delicada convivência entre a mídia, o m ercado e a
to a ilusão de pensar que som os livres em nossas escolhas dos escola, que tipo de criança se configura atualm ente? Até m es­
bens e serviços que consum im os”, afirm a Veiga Neto, posto m o na escola, ante o desm oronam ento do dispositivo pedagó­
que o discurso em presarial enfatiza essa ideia da livre escolha gico, com o já foi com entado, a situação de aprendizagem já
e a entrelaça com valores dem ocráticos, em plena crise das não é assegurada na transm issão de conhecim entos por parte
instituições que im plem entaram esse regime: “Somos ensina­ do professor, mas se apoia nas operações que cada jovem con­
dos a desejar e a imaginar que som os livres.”126 segue realizar com as ferram entas de que dispõe. “O docente já
Apesar da com plexidade da questão, e em nom e dela, con­ não espera que o aluno faça tal ou qual coisa, alcance esse ou
vém evitarm os a visão sim plista que consiste em reduzir tudo aquele objetivo ou atitude”, afirm a C ristina Corea, m as aposta
a um a acusação não isenta de m oralism os: a criança atual seria em que ele “saberá pensar de m aneira responsável quais são as
um mero consum idor desprovido dos valores de antigam ente operações m ediante as quais se tornarão necessários, para ele,
e lançado no desenffeam ento que m ercantilizou a existência. alguns recursos que lhe são oferecidos”. Assim, o sentido da
No torvelinho que im plica viver nessas condições, o desejo aprendizagem estaria no aprendiz, com o u m a figura talvez
de possuir certas m ercadorias pode até im plicar um a estra­ mais adequada ao novo quadro que a do antigo aluno, pois já
tégia de coesão: u m a vontade de adensar o fluxo, to m an d o não se trataria de “um discípulo que põe toda a responsabili­
posse de determ inados objetos e exercendo a capacidade de dade no docente, fonte única de saber e autoridade”.12' C erta­
interrom per ativam ente o bom bardeio sem fim, nu m gesto m ente, essa ênfase atual no protagonism o daquele que ap ren ­
m enos banal e m ais “ativo” do que se costum a siipor. Mas, as­ de — m esm o que se trate de um “m en o r”— im plica novas
sim com o a ideia de liberdade, as noções de passividade e ati­ experiências de ensino, bem distantes daquelas que se forja­
vidade tam bém devem ser repensadas nesse contexto, ju n to vam no dispositivo escolar tradicional: agora se baseiam na
com a valorização que as envolve, já que o “espírito em pre­ confiança e na responsabilidade, não mais na autoridade nem
sarial” costum a explorar a receptividade e a plasticidade sub­ na lei, e se destinam a um sujeito infantil que está longe de ser
jetiva dos jovens de u m m odo que está m uito longe de ser o típico aluno de outrora.
natural. Nesse sentido, são interessantes as disputas com o a Essas redefinições são inovadoras e, em certa medida, equi­
que gira em to rn o da proibição de anúncios publicitários d iri­ param -se às estratégias que o am biente m idiático e m ercan­
gidos ao público infantil, atu alm en te em debate em vários til tam bém solicita ao jovem de hoje: transform ar-se não só
países, que oscila entre duas posições opostas: a dos que p ro ­ nu m consum idor ou n u m usuário, ou ainda n u m prossumidor
curam “resguardar” as crianças do abuso consum ista p o r m eio ou produsuário, mas tam bém num agente ativo, com parável a
de proibições e barreiras legais, p o r um lado, e a dos que se um operador ou até m esm o um editor. D ecididam ente, tudo
opõem a esse tipo de “censura” em nom e da liberdade, por isso tem ressonâncias explícitas de certo discurso neoliberal

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que enaltece u m a figura m u ito particular: a do indivíduo em ­ que antes eram pouco dem andados à m aioria das profissões e
preendedor. M uito presente na retórica em presarial, a atitude hoje se configuram essenciais para form ar um corpo não mais
em preendedora costum a ser apresentada com o u m cam inho dócil e prosaico, mas acima de tudo criativo, autónom o e ex­
para solucionar diversos problem as contem porâneos, desde a traordinário”.129Além disso, com o um com plem ento da inicia­
dem anda de realização pessoal e sucesso individual até o de­ tiva e do em penho individual sem limites espaciais nem tem ­
sem prego estrutural que afeta a econom ia global. Vale a pena porais, o fenôm eno da autoajuda tam bém seria um recurso
tecer aqui um a breve genealogia desse term o, rem ontando à desse arsenal. E constitui o utro sintom a do esgotam ento da
governabilidade p ro p o sta pelo liberalism o do século XVIII. transferência hierárquica e disciplinar do saber: a solução ago­
Segundo esse ideário, em b o ra as leis estritas e universais coi­ ra está nas m ãos de cada indivíduo, que deve adm inistrar seus
bissem certas liberdades individuais graças à propagação ins­ conhecim entos e “autoajudar-se” a aprender sem ter de recor­
titucional da norm a, tam bém se atenuava o grau de responsa­ rer a um a autoridade com investidura institucional.
bilidade de cada u m na tom ada de decisões, am ortizando-se Um dos vídeos de m aior sucesso que circulam pela internet
assim suas consequentes vitórias ou fracassos. N a segunda é um a breve exposição do “especialista em criatividade” Ken
m etade do século XX, no entanto, foi se in stau ran d o um a for­ Robinson, proferida em 2006 durante as famosas C onferên­
m a de governo m ais frugal, m enos reguladora e m ais eficiente cias TED e legendada em vários idiomas, na qual ele argum en­
em term os económ icos, que dim inuiu o peso das instituições ta “de m odo divertido”, e com os recursos de um verdadeiro
estatais e au m en to u a livre circulação de capitais, pessoas e showman, que “as escolas m atam a criatividade das crianças”.
inform ações: o neoliberalism o.128 Novas racionalidades e p rá­ Por o utro lado, cabe assinalar que um dos reality shows mais
ticas se desenvolveram em função de tais m udanças, reivindi­ vistos e copiados de todo o planeta leva um título m uito sin­
cando valores com o a autonom ia, a flexibilização, a iniciativa tom ático: O aprendiz. Esse program a consiste na concorrência
e a motivação, a superação e a responsabilidade individuais; de um grupo de executivos p o r um a polpuda quantia em d ó ­
em síntese, certa “ética em preendedora”. lares e um contrato para dirigir um a das em presas do m ulti­
Nesse novo contexto, a educação form al já não é a única via m ilionário D onald Trum p; decididam ente, trata-se de um a
possível — nem sequer a m elhor — para alcançar o tão busca­ entrevista de trabalho tão extenuante com o espetacular, que
do êxito profissional e financeiro. Mais que as qualidades asso­ dura treze semanas e é projetada nas telas do m undo inteiro
ciadas ao ensino tradicional, e até em choque com elas, privi­ ao som da música For the love ofm oney. Por o utro lado, ta m ­
legiam-se outras, com o o talento ou a criatividade em algum bém houve tentativas de levar a situação escolar tradicional e
dom ínio explorável, som ados à dedicação e à vocação em ­ real à televisão nesse m esm o form ato, pelo m enos em um a
preendedora, que se deveriam desenvolver além — e até ape­ experiência realizada em 2011 no Brasil, que provocou bas­
sar — de se freq u en tar a escola. N ão se trata, contudo, de tante polêm ica e pouco entusiasm o por parte dos telespecta­
“tirar o estudo e o aprendizado form ais com o m eios para o b ­ dores.130 No entanto, convém ressaltar que esse tipo de entre­
ter reconhecim ento e d inheiro”, com o esclarece Julia Salgado tenim ento “vai além de ser um m ero passatem po, lazer ou
em sua análise sobre o tem a, “mas sim de acrescentar fatores diversão”, com o afirm a Veiga Neto, m as “funciona tam bém

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com o um a técnica de ensino-aprendizagem que nos b o m b ar­ ser nom eado recorrendo-se a esses neologismos: é preciso ser
deia continuam ente, trazendo com o resultado, entre outras proativo ou produsuário — em síntese, em preendedor.133
coisas, a banalização e a naturalização do controle”.131 Para desenvolver esse perfil, as qualidades mais apreciadas
O espetáculo é, sem dúvida, um ingrediente fundam ental referem-se à capacidade de gerir a própria vida com o se adm i­
desse quadro. Além disso, porém , quando a racionalidade ins­ nistra um a empresa, e de gerir o eu com o um a marca, m edian­
trum ental se im põe com o linguagem universal, capaz de es­ te estratégias de marketing que apontem para um a concorrên­
tender a todos os dom ínios sua lógica do cálculo, da técnica e cia bem -sucedida com os dem ais buscando o êxito económ ico
do m ercado sem deixar nada de fora, não surpreende que a e a celebridade. “Faça MBA FGV, aum ente o índice Você”, diz a
própria vida tam b ém seja tratada nesses term os. Assim, a bio- propaganda de um curso de pós-graduação em negócios m i­
política contem porânea se vê absorvida pelo espírito em pre­ nistrado por um a escola privada brasileira de alto prestígio.
sarial e pelas do u trin as mercadológicas que o insuflam: um O com ercial é ilustrado por um círculo de aros concêntricos,
m odo de fu ncionam ento que perm eia todas as instituições no qual se distribuem pequenas figuras hum anas n um a aglu­
e abarca todos os cam pos. C om o resultado, tanto a vida de tinação decrescente em direção ao centro, onde aparece uma
cada indivíduo q uanto a da espécie h u m an a — e até a do co n ­ silhueta isolada: aquele que investiu no pro d u to à venda e,
junto da biosfera — são pensadas à luz dessa m esm a lógica, portanto, tem um a cotação bem mais alta que os m uitos o u ­
segundo a qual-os corpos tam bém são u m capital ou deve­ tros que circundam o perím etro porque o p taram p o r um a
riam ser capitalizados. Foi nesse ecossistema que floresceu um form ação universitária ordinária. Do m esm o m odo, circula
conceito fundam ental para o entendim ento desses processos: há anos e com notável êxito, tam bém no Brasil, um a revista
o de “capital h u m a n o ”.132 Essa noção ap o n ta para a capaci­ cham ada Você SA, dedicada ao am plo público interessado em
dade diferencial com que conta cada indivíduo, e não se refere capitalizar sua carreira profissional. Ademais, recentem ente,
exatam ente à força de trabalho nem à capacidade de execu­ foram publicados em vários idiom as livros com o Eu 2.0, de
tar tarefas braçais — as quais, com a autom ação da indús­ D an Schawbel, conhecido com o “o guru do m arketing pes­
tria, tornaram -se executáveis p o r m áquinas e, po r conseguinte, soal”, que se transform ou n u m sucesso global de vendas graças
perderam valor — , m as aos conhecim entos de que dispõe cada à prom essa enunciada em sua capa: Como aproveitar todo o
sujeito, bem com o a seus atributos para se desenvolver em d i­ potencial das mídias sociais para a promoção pessoal. A propos­
versas áreas e em cenários mutáveis, o que inclui a capacidade ta baseia-se na ideia de “m arca pessoal”, expressão cunhada em
de inventar soluções originais para problem as imprevistos. Por 1997 e que revela “com o vendem os nossa im agem aos outros”.
outro lado, em grande sintonia com essa lógica, a quantidade Portanto, a retórica em preendedora já não se restringe aos
e a qualidade dos contatos que se têm tam bém se transfor­ cenários privilegiados do m u n d o em presarial e aos discursos
m aram num a cifra desse tipo: o “capital social” de cada um. midiáticos, mas penetra em todas as áreas e atinge tam bém a
Assim, sob a égide do “novo espírito do capitalism o”, não se educação. H á até quem defenda a inserção desse tipo de valo­
trata som ente de ser produtivo, m as de algo que com eçou a res e atitudes nos currículos escolares, substituindo-se o clás-

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sico arsenal científico e cultural inoculado m ediante técnicas ção de novas soluções tecnológicas. Um dos ingredientes de
disciplinares p o r o u tras propostas que estim ulem a criativi­ seu receituário sugere que não é necessário ser exatamente um
dade e a flexibilidade, assim p reparando os jovens para o m e r­ “bom aluno” para triunfar dessa nova m aneira, priorizando
cado de trabalho contem porâneo. Cabe sublinhar que isso não outras qualidades, com o a originalidade e a ousadia, além da
acontece apenas n u n s poucos estabelecim entos privados que agilidade e da velocidade que perm itiriam dar o passo adequa­
desejam se colocar em sintonia com as últim as tendências, do antes dos demais e, assim, ganhar m uito dinheiro e reco­
mas envolve tam bém as políticas públicas de adaptação ed u ­ nhecimento, já que é disso que se trata.
cativa. Um peq u en o m u nicípio do Rio G rande do Sul, por Os defensores dessas m udanças de rum o na educação ar­
exemplo, aprovou em 2010 “u m a lei que institui com o obriga­ gum entam que o m undo contem porâneo não necessita de
tória a disciplina Empreendedorismo na grade curricular das empregados nem de trabalhadores à m oda antiga, o que não é
escolas m unicipais”, cujo pro g ram a deve incluir tópicos com o de surpreender quando proliferam os autom atism os técnicos
os seguintes: “identificação de oportunidades, preparação para e se atingem índices de desemprego jamais registrados, em bo­
o m ercado de trabalho e o p rim eiro em prego; construção de ra não se trate apenas disso, mas de um complexo tecido de
com petências profissionais, habilidades sociais e m arketing causas e efeitos. Assim, em vez de operários e escriturários ou
pessoal; m otivação p ara superar obstáculos, estím ulo à criati­ soldados, no lugar dos alunos que seriam futuros cidadãos
vidade, form ando alunos autónom os, éticos e responsáveis”.134 inspirados nessas figuras e passíveis de se converterem nelas,
Essa pedagogia em preendedora procura inculcar nas crian­ agora se necessita de empresários e consumidores globalizados
ças o espírito em presarial para que elas m esm as encontrem — algo que nem a escola uem o Estado estão em condições de
alternativas ao desem prego, crian d o pequenas em presas ou “form ar”. A rigor, essa ideia não é nada nova, mas tem um a
carreiras p au tad as pela autossuficiência, em vez de terem digna estirpe filosófica. Em 1872, o jovem Friedrich Nietzsche
com o único horizonte o em prego form al assalariado, que foi proferiu um a série de conferências que depois foram p ubli­
hegem ónico nas sociedades disciplinares. Esse ideário já tem cadas com o título Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos
seus próp rio s heróis, que são exaltados pelos m eios de com u­ de ensino. Nessa ocasião, o orador pro p u n h a esquadrinhar
nicação com o os m odelos ideais das novas gerações: trata-se “as vísceras do presente” para investigar tão inquietante as­
dos fundadores de em presas com o Facebook, Google, Yahoo sunto e, com esse objetivo, presum ia que a educação servia
o u Twitter, que se to rn ara m m ilionários quando ainda eram aos propósitos da sociedade m oderna: sua finalidade seria
jovens estudantes. Eles co n tribuem para naturalizar essa fértil “formar, o mais depressa possível, em pregados úteis e garantir
m itologia com seus relatos épicos que não precisam ser edifi­ sua docilidade incondicional com provas m uito duras”, num a
cantes — com o m ostra o filme A rede social (de David Fincher, época especialmente “hostil a tudo o que é inútil”.135
2010) sobre a proeza de M ark Zuckerberg, inventor e d o n o do A postura nietzschiana tem evidentes ressonâncias nas teo­
Facebook — , m as sem pre incluem a fusão entre a descoberta rias enunciadas depois por Foucault, já que o filósofo ale­
perspicaz de u m a necessidade coletiva inexplorada e a concep- m ão identificava no projeto ilum inista não só aquela tentativa

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explícita de em an cip ar o cidadão concedendo-lhe a idade cim entos das anteriores, pode realizar constantem ente um a
adulta e o saber e, ju n to com eles, a liberdade, mas tam bém o educação que desenvolva de m odo proporcional e conform e a
firme propósito de explorá-lo e oprim i-lo: extrair sua capaci­ um fim todas as disposições naturais do hom em , e assim con­
dade produtiva para gerar algo útil. Esse m ecanism o torna-se duzir toda a espécie hum ana a seu destino”, sonhava Kant em
ainda mais arguto ao se considerar a afinidade desse projeto seu m anifesto pedagógico publicado em 1803.136 A dissolução
histórico com a lógica do capital, que tu d o tran sfo rm a em dessa missão salvacionista se evidencia na brecha crescente
m ercadoria e incita a seu consum o com o tal, não apenas a que se instalou entre as instituições educativas públicas e p ri­
mão de obra, m as tam bém a cultura e a educação. De fato, ao vadas, assim com o no oneroso abism o que separa as escolas
perder sua feição disciplinar e toda a m oral que sustentava sua com uns daquelas outras cujo prestígio é periodicam ente ava­
estrutura, a educação pode ser oferecida com o fa st food ou em liado graças às classificações internacionais e que estão longe
sua versão gourmet, assim com o em suas diversas gradações de ser gratuitas ou universais.
interm ediárias, m as todas diferem m uito daquilo a que se p ro ­ Tudo isso difere m uito do que se pro p u n h a alcançar a edu­
punha o projeto m oderno de escolarização obrigatória e gra­ cação m oderna, cujas raízes éticas rem ontam à tradição grega.
tuita para o co n junto dos cidadãos. Além de útil — e em vez C om base na paideia, produziu-se em certo m om ento um a
de divertida o u estim ulante — , ela costum ava ser penosa e diferenciação entre a educação, a cargo de um pedagogo, e a
severa, já que operava sob o peso repressor de um regulam en­ instrução, nas m ãos de um professor ou mestre. Segundo Fer­
to que se aplicava a todos p o r igual e porque o aluno estava nando Savater, o prim eiro convivia com seus discípulos para
longe de ser com o o cliente: aquele que sem pre tem razão e lhes ensinar “os valores da cidade, form ando seu caráter e ve­
que deseja se divertir, ou, de algum m odo, lucrar com seus lando pelo desenvolvim ento de sua integridade m oral”, e n ­
investimentos. quanto o segundo era um colaborador externo que se ocupava
Já não se trata de perseguir um ideal norm alizador e ho- de transm itir “conhecim entos instrum entais, com o a leitura, a
mogeneizante, guiado pelos princípios civilizadores e m orali- escrita e a aritm ética”. Por isso o pedagogo era um educador
zadores da m odernidade. Na oferta educacional co n tem p o râ­ e sua missão era considerada fundam ental, já que pretendia
nea busca-se oferecer u m serviço adequado a cada perfil de preparar as crianças para a digníssim a vida ativa da política,
público, proporcionando-lhe recursos para que cada um possa enquanto o professor exercia um a atividade secundária: a ins­
triunfar nas árduas disputas de m ercado. Isso não é para to ­ trução para a vida produtiva m enos notável, com posta de h a­
dos, com o a lei, m as tem u m a distribuição desigual com o o bilidades e inform ações práticas. “Em linhas gerais, a educa­
dinheiro: todos os consum idores querem ser distintos e ú n i­ ção, orientada para a form ação da alma e o cultivo respeitoso
cos, singulares, capazes de com petir com os dem ais para se dos valores m orais e patrióticos, sem pre foi considerada de
destacar com suas vantagens diferenciadas, n u m m u n d o glo­ categoria mais elevada que a instrução, que dá conhecim ento
balizado no qual im pera u m capitalism o cada vez mais jovial, de destrezas técnicas ou teorias científicas”, conclui o autor
em bora tam b ém feroz. “C ada geração, provida dos conhe- espanhol. Ele afirm a que tal ideia foi retom ada e persistiu in-

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clusive até o Ilum inism o, quando esse equilíbrio com eçou a veito das circunstâncias graças à habilidade em presarial e ao
se alterar até que, m ais recentem ente, “a proporção da esti­ empowerment, para usar o u tra expressão m uito pertinente à
m a se inverteu e os conhecim entos técnicos — q uanto mais retórica aqui com entada.138 “N ão é de espantar que esse culto
especializados e p ro n to s p ara u m ren d im en to im ediato no à autonom ia e à performance acabe produzindo sujeitos de­
trabalho, m elhor — vieram a ser valorizados acima da form a­ pendentes de todo tipo de ajuda especializada”, conclui o psi­
ção cívica e ética, sujeita a controvérsias incansáveis”.137 Nessa canalista brasileiro antes citado, Benilton Bezerra. Essa ten ­
valorização da instrução parece residir o germ e da atual ênfase dência gera um a “au to n o m ia assistida”, que se baseia n u m
na capacitação técnica para se obter sucesso no m ercado de “processo infinito de autoexam e, autorregulação e autoapri-
trabalho — u m tip o de ensino que agora costum a ser nom ea­ m oram ento, e num a dem anda incessante de bens e serviços de
do recorrendo-se a vocábulos esportivos com o training ou apoio”.139 Assim, o p róprio m ercado coloca à disposição de
coaching, que significam trein am en to ou ad estram en to — , seus clientes um a série sem pre renovada de recursos com pen­
bem com o do ab an d o n o da ideia de form ação integral para o sadores dessas falhas.
futuro cidadão. N um ensaio dedicado a exam inar o “culto da performance’’
Tal com o acontece com os atletas profissionais, que se va­ na sociedade atual, p o r exemplo, o sociólogo francês Alain
lem dos mais sofisticados recursos técnicos, inclusive do do- E hrenberg cita um relatório oficial de seu país que cham a
ping, o em p reen d ed o r realm ente proativo não se resigna à atenção para o enorm e aum ento da prescrição de m edicam en­
norm alidade: ele q u er ir mais longe, p ara p oder vencer su­ tos psicotrópicos com o m odo de reagir às “dificuldades exis­
p eran d o todos o s d e m a is. O s c am in h o s a d o tad o s p ara se tenciais” da população.140 Nos am bientes escolares da atuali­
conseguir isso tam p o u co são lim itados, e não se supõe que dade, o exemplo mais dissem inado é o transtorno do déficit
devam necessariam ente seguir o receituário convencional. De de atenção com ou sem hiperatividade (TDA ou TDAH), que
fato, a com binação entre o declínio dos rigores disciplinares e, costum a ser diagnosticado com o um a deficiência neuroquí-
ao m esm o tem po, a alta dem anda de desem penho em todos m ica e tratado com m edicam entos com o a famosa Ritalina
os cam pos produz certo sofrim ento naqueles que não conse­ — em term os mais técnicos, metilfenidato — , com um a u ­
guem ficar à altura desses parâm etros e que, além disso, care­ m ento notável em sua prescrição a partir dos anos 1990. Dig­
cem do equipam ento m oral que aprisionava seus corpos en ­ no de nota, nesse caso, é que os professores costum am ter in ­
quanto os m obilizava produtivam ente. Por um lado, há um fluência tanto no diagnóstico quanto no tratam ento de certos
desm antelam ento das redes de segurança que o Estado costu­ alunos especialm ente perturbadores da ordem , já que são eles
mava fornecer e, p o r o u tro lado, crescem as dem andas de alta que inform am aos pais os problem as ocorridos em sala de
com petitividade e flexibilidade, a busca de autossuperação e aula. As empresas farm acêuticas sabem disso e, por tal m o­
de reconhecim ento através da fama. Presum e-se que to d o in ­ tivo, desenvolvem estratégias para conquistar esse público:
divíduo deva enfrentar os riscos a que se expõe nesse quadro, “enquanto tem havido um am plo debate sobre a ética da co­
que com bina desam paro e exigências extrem as, tiran d o p ro ­ mercialização de alim entos sem valor nutritivo nas escolas,

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têm sido pouquíssim as as discussões sobre as consequências forço são investidas nessas buscas. Uma dessas promessas seria
dessa infiltração da in d ú stria bioquím ica”, conclui a especia­ a possibilidade de saborear todas as delícias gastronóm icas do
lista C hristine Phillips.141 m undo globalizado sem engordar, por exemplo, e sem ter que
C om ou sem o apoio dos docentes, fora ou dentro das es­ fazer exercícios ou qualquer outro tipo de sacrifício para per­
colas e universidades, as substâncias desse tipo são usadas com m anecer “em form a”, graças a produtos com o a ginástica pas­
crescente frequência com o recursos técnicos para m odular o siva, a reprogram ação genética ou as pílulas e os cremes com
com portam ento, sintonizando os corpos e as subjetividades poderes mágicos. No plano educacional, um equivalente seria
com os requisitos do m ercado. Assim com o há drogas para o sonho do microchip im plantável no cérebro, por exemplo,
potencializar a concentração e a atenção, há tam bém as desti­ que perm itiria incorporar à bagagem intelectual de cada sujei­
nadas a adequar o estado de ânim o, acalm ando a ansiedade ou to, em poucos segundos e sem esforço, o conteúdo de um a
os quadros depressivos, há com prim idos para relaxar ou d o r­ biblioteca inteira convertida em inform ações digitalizadas e
m ir e, tam bém , para despertar e “se ligar”. Tais soluções, que com patíveis com os circuitos neurais. Apostas sem elhantes
parecem fu n d ir ingredientes da m agia com a técnica e são são as oferecidas por certas técnicas inovadoras para ap ren ­
fartam ente com ercializadas na con tem p o ran eid ad e, não se der idiom as em tem po recorde e de m odo divertido, inclu­
enquadram no ideário da “ética protestante”, que prescrevia sive d o rm in d o ou praticando o u tras atividades m uito dis­
um trabalho diário e perseverante de “cuidado de si” com vis­ tantes das provas e das aulas transm itidas por um professor
tas à form ação integral do cidadão de bem . Longe disso, elas que discorre na sala confinada enquanto os alunos escutam e
respondem a u m a situação bem diferente, na qual se conju­ to m am notas em concentrado silêncio. Assim com o a auto­
gam , de um lado, o estím ulo ao prazer im ediato e à satisfação m ação industrial e dom éstica conseguiu elim inar a necessi­
constante, rechaçando qualquer defesa do sacrifício ou do es­ dade de se exercerem atividades físicas pesadas ou repetitivas,
forço com m etas a longo prazo, e, de outro, um a forte dem an ­ considera-se que seria desejável conceber soluções técnicas
da de m otivação e iniciativa para triu n far nos mercados. E n­ equivalentes que nos livrassem dos sofrim entos implícitos nos
tretanto, desprovida de boa parte da plataform a m oral que m étodos tradicionais da escolarização. Eis aí mais uma face,
algum tem po atrás costum ava sustentar as façanhas do self portanto, da ética pós-protestante: para que fazer o esforço, se
made man, segundo a qual “não há recom pensa sem esforço , puderm os com prar a coisa pronta para usar?
a subjetividade co n tem p o rân ea sonha com u m dispositivo Enquanto essas opções ainda são mais quim éricas que efi­
tecnológico que, sob a form a de m ercadoria disponível para o cazes, “n um a sociedade de controle que é ao mesm o tem po
consum o, p erm ita alcançar essas proezas sem desgaste algum. com petitiva, o sucesso dos indivíduos dependerá, em grande
Fantasias desse tipo foram ilustradas no filme Sem limites parte, de sua m aior capacidade de se autogovernar”, afirm a
(de Neil Burger, 2011), m as não se restringem ao plano da Alfredo Veiga Neto, de m odo que ocorre algo aparentem ente
ficção: a tecnociência de cunho em presarial procura realizá-las co n trad itó rio : os indivíduos mais disciplinados terão m ais
para poder vendê-las. Enorm es quantidades de dinheiro e es­ chances de êxito. Afinal, no novo contexto que valoriza a sub-

136 137
DO E M P R E G A D O AO E M P R E S Á R I O , DA FO RM AÇÃO À C A PA C IT A Ç Ã O
PA U L A S I B I I I A - R E D E S OU P A R E D E S

jetividade em p reen d ed o ra, d o m in ar as antiquadas técnicas É o caso da Asignación Universal por Hijo, ou Pensão Univer­
disciplinares pode ser um a vantagem diferencial. Mas é preci­ sal p o r Filho, na Argentina, e no Brasil dos program as Bolsa
so assinalar que agora essas destrezas e habilidades são capita­ Fam ília e Bolsa Escola, além de iniciativas m ais pontuais,
lizadas a p artir de outras prem issas e com objetivos m u ito d i­ com o o ReUni e o ProUni, ou as cotas que dão os egressos de
ferentes: a in tenção aqui é tira r proveito da capacidade de escolas públicas ou m em bros de determ inados grupos étnicos
dobrar a força de vontade p ara gerar m otivação e, graças a ela, certa prioridade na adm issão nas m elhores universidades -—•
vantagens económ icas; não se trata de o perar sob a lei univer­ as quais, paradoxalm ente, são estatais e gratuitas — , conquista
sal e o ideal de norm alização porque é certo ou errado fazer que se revela cada vez mais difícil para eles quando deixada
as coisas dessa m aneira. Porém , as subjetividades convenien­ nas m ãos da “livre concorrência”, por força da acirrada dispu­
tem ente disciplinadas podem estar aparelhadas para “passar ta nas rigorosas provas de admissão. No entanto, para além do
mais im unes pelas técnicas de vigilância” tão sofisticadas da que essas m edidas políticas possam conseguir, elas mesm as
contem poraneidade, assim com o para “encontrar as linhas de constituem tanto um a reação com o um efeito do abandono
fuga e as fraturas n u m a sociedade saturada pelo co ntrole”.142 gradual de um ideário que, até pouco tem po atrás, não era
Tudo isso pode soar paradoxal, m as não é: aí encarna u m dos questionado: o da educação com o um dever do Estado e um
dram as da atual crise, ap ro fu n d an d o a desigualdade e deixan­ direito de todos os cidadãos. C om a transferência dessa res­
do nas m ãos do m ercado aquilo que antes pretendia ser regu­ ponsabilidade para os indivíduos cada vez mais convertidos
lado — ou, pelo m enos, com pensado — pelo Estado. em consum idores e em presários de si mesmos, propaga-se a
Ao renunciar a «eu ideal igualitário e nivelador, a escolari­ crença de que cada um pode e deveria ser capaz não só de se
zação se to rn o u fortem ente heterogénea, na grande m aioria capacitar, m as tam bém de adm inistrar sua carreira, otim izan­
dos países capitalistas, o que se verifica de u m m odo p articu ­ do seus próprios recursos e m inim izando a necessidade de
larm ente injusto na Am érica Latina. Mas esse efeito perverso intervenção pública.
não depende do que se costum a d en o m in ar “conteúdos ensi­
nados”, segundo esclarece Veiga Neto: ainda que “se consiga
que em todas as escolas se ensinem os m esm os conteúdos —
em si m esm a, u m a situação im praticável — , um trato dife­
rente das questões disciplinares poderá, p o r si só, gerar um a
profunda desigualdade em term os sociais”.143 Para com pensar
de algum m odo essas brechas com plexas que parecem abrir-se
cada vez mais, sem as barreiras protetoras do Estado p ara con­
ter as injustiças dessa lógica p u ram en te m ercantil que se gene­
raliza com o u m m onopólio, vários países latino-am ericanos
im plem entaram p rogram as de subsídios nos ú ltim o s anos.

138
Mercado em vez de Estado:
das advertências ao bullying

Em sum a, são m uitos e cada vez mais estridentes os indícios


de que a escola está em ruínas. No entanto, m ilhões de pessoas
do m u n d o inteiro a frequentam todos os dias e, apesar da in ­
dubitável m agnitude e da legitim idade dos questionam entos,
de algum m odo sua existência continua a parecer im prescin­
dível para que a sociedade possa prosseguir funcionando. Essa
im portância não se refere apenas — e talvez cada vez m enos
— ao papel de educadora de crianças e jovens para seu correto
desem penho com o cidadãos de bem no futuro de cada nação,
ou m esm o a sua condição de capacitadora com vistas ao su­
cesso no m ercado do trabalho. Para tudo isso seria possível
im aginar sucedâneos. O mais impensável, em m uitos casos, é
um substituto para seu papel daquilo que Ignacio Lewkowicz
e C ristina Corea denom inaram galpão, isto e, um espaço físico
no qual a criançada passa boa parte dos dias, ainda que careça
tanto da eficácia quanto da coesão lógica e simbólica que essas
instituições costum avam ter algum tem po atrás. O que fariam
os pais — para não falar dos professores e dem ais agentes da
estru tu ra escolar — se, de repente, não mais houvesse colégios
onde pudessem deixar os filhos durante boa parte do dia?
Em consonância com tam anho desconcerto, b rotam por
toda parte as estratégias que pretendem enfrentar o desm o­
ro n am ento da velha escola erigindo propostas alternativas,
tanto no setor público com o no privado e em todos os níveis
de ensino. Em alguns casos, trata-se de iniciativas particulares
que, com diferentes graus de êxito, ten tam reciclar a in sti­
tuição tradicional, m aquiando-a com disfarces tecnológicos
e m idiáticos para seduzir o alunato — e seus pais — , fingin-
M ER C A D O EM VEZ DE E S T A D O : DA S A D V E R T Ê N C IA S AO B U L L Y IN O

do haver entrad o em sintonia com os tem pos atuais, em bora do XIX, “porque assim se criam interesseiros e se causa neles
o que acontece en tre as paredes da sala de aula continue a um a índole mercenária.” Cabe lem brar que, m esm o opondo-se
ser mais ou m enos o m esm o de sempre. Mas essas tentativas às gratificações, o filósofo recom endava os castigos físicos e
de atualizar a escola tam bém costum am em anar do setor p ú ­ o u tras penalidades bastante severas, em bora advertisse que
blico, cada vez com m ais intensidade e com perspectivas de era preciso “usá-los com prudência para não produzir um a
o p erar m odificações em larga escala. Assim, regularm ente, índole servil ”.145
os dirigentes da área educacional nos níveis nacional, estadual Para m encionar uns poucos exem plos dessas propostas
ou m unicipal dos diversos países m anifestam sua p reocupa­ atuais que, sem dúvida, teriam horrorizado Im m anuel Kant,
ção e tentam revitalizar seus atribulados estabelecim entos de cabe citar prim eiram ente um a experiência europeia divulgada
ensino, apresentando planos de recuperação elaborados por em 2010. Trata-se de um projeto-piloto contra o abandono
especialistas. escolar que com eçou a ser im plem entado em três escolas técni­
A essas tentativas frustradas se referia desdenhosam ente cas dos arredores de Paris, baseado na concessão de prém ios
Gilles Deleuze sob o rótulo de “reform as supostam ente neces­ de até 10 mil euros para os grupos com m enor quantidade de
sárias” que estariam condenadas de antem ão ao fracasso, se­ faltas. Na inevitável polêm ica desencadeada p o r esse plano,
gundo a perspectiva do filósofo, p o r se tratar de um a in stitui­ ele foi criticado pela própria m inistra da educação superior
ção típica de u m a sociedade que já não é a nossa e que, no do país, que recorreu à retórica escolar clássica para atacá-lo:
novo contexto, não teria razão de ser.144 Entre as m anobras “A assiduidade é o prim eiro dever do aluno”, de m odo que seria
mais destacadas — talvez p o r estarem tão longe do ideal da sum am ente questionável que fosse “preciso pagar a um adoles­
éscolá tradicional e, ao m esm o tem p o , tão afinadas com a cente para fazer algo que é sua obrigação”. No entanto, a com ­
“ética neoliberal” que im pera atualm ente — figuram as re­ preensível indignação dessa alta autoridade não foi capaz de
com pensas em d inheiro p ara os resultados positivos da ap ren ­ responder a alguns dados que haviam m otivado a proposta:
dizagem, com pagam entos especiais p ara os professores e alu­ o índice de estudantes que faltam regularm ente às aulas na
nos que obtiverem algum sucesso. São vários os projetos desse França é m uito alto, sobretudo entre os dezesseis e os dezoito
tipo que foram postos em prática em diversos lugares do pla­ anos de idade, e aum enta ainda mais nas escolas técnicas; com o
neta nos últim os anos e se m ostram especialm ente eloquentes resultado, nesse país ainda orgulhoso de sua tradição letrada,
por introduzirem a lógica do m ercado e o espírito em presa­ cresce o núm ero de jovens que renunciam ao sistema educacio­
rial num terreno que se su p u n h a refratário a essas barganhas. nal sem obter um diploma. “É preciso tentar tudo para lutar
C ontudo, é significativo o fato de que esse tipo de incentivos, contra o absenteísmo escolar”, argum entou o m inistro da edu­
gratificações ou prém ios, todos estritam ente m onetários, fi­ cação da época, seguindo um a iniciativa do secretário para a
gurem agora com o a única possibilidade de d ar sentido ao juventude, que foi o idealizador da m edida posta em prática
esforço de ensinar o u ap ren d er nos m oldes da educação for­ com o plano-piloto em 2009. “Estamos tentando coisas novas”,
mal. “Convém não conceder recom pensas”, aconselhava Kant justificou este último, ainda adm itindo tratar-se de um “cho­
em seu tratado pedagógico do final do século XVIII e início que cultural”, mas que seria “aceito, caso se m ostre eficaz”.146

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De m aneira similar, n u m a escola técnica de M arselha ta m ­ dassem , e não funcionou”, explicou seu coordenador. “Este
bém se opto u p o r to m ar m edidas de em ergência com toques program a é um a experiência, mas é essencial estarm os abertos
de marketing e de inegável apelo ao espetáculo: todos os m e­ para novas ideias e observarm os os resultados.” O objetivo que
ses, os alunos que não faltassem seriam prem iados com en tra­ n o rteo u a novidade foi encontrar “soluções criativas para a
das para ver os jogos de futebol mais populares da cidade. desigualdade social” que aflige as m inorias dos Estados U ni­
E m bora tu d o isso soe m ais ou m enos sensato aos ouvidos dos, im plem entando “incentivos a curto prazo para criar há­
contem porâneos, exibe u m a flagrante contradição com as re­ bitos a longo prazo”.147 Além disso, de acordo com esse plano,
gras tradicionais do ensino form al. As entidades que reuniam há recom pensas de até 3 mil dólares para os professores cujos
os pais dos estudantes, p o r exemplo, puseram a boca no tro m ­ alunos obtiverem sucesso. Na província argentina de La Pam ­
bone: “Resolver com dinheiro u m problem a de educação é pa, p o r sua vez, em 2005 tentou-se conceder esse tipo de estí­
catastrófico”, sen ten ciaram n u m a declaração oficial, ad m i­ m ulo económ ico aos estudantes que se destacassem p o r suas
tin d o a existência do problem a, porém arg u m en tan d o que notas: a ideia era entregar qu in h en to s pesos aos m elhores
o caso mereceria “m edidas relativas ao conteúdo da aprendi­ alunos de cada série, “mas a iniciativa provocou grande rejei­
zagem, que deveria despertar o interesse dos alunos”. Do m es­ ção entre pedagogos, professores e pais”, motivo pelo qual foi
m o m odo, foi dito que os alunos “devem ser instruídos, não aban d o n ada.148 Já em o u tra província argentina, San Luis, a
com prados”, e que “o dinheiro não deve en trar na escola”, de­ ideia parece haver vingado p o r meio de um sistem a de troca
finida com o um “lugar de saber” ao qual se deveria ter acesso de dólares por selos, destinado a “frear a evasão e a repetên­
gratuitam ente e com boa vontade. Apesar dos protestos e de cia”; desse m odo, entre a prim eira e a quinta séries, as crianças
todos os debates que esse tipo de iniciativa costum a gerar, es­ que não repetem o ano nem ficam na dependência de m até­
ses dois projetos franceses estão m uito longe de ser os rinicos rias podem acum ular até 1.200 dólares. No Qatar, o projeto foi
que procuram rem endar as falhas do anacrónico sistema esco­ im plem entado nas universidades com a intenção de “m otivar
lar m ediante atalhos tão sintonizados com os valores contem ­ os estudantes a se afastarem das distrações”. Um especialista
porâneos. Nos últim os tem pos, anunciaram -se propostas se­ consultado para com entar a nova tendência, Andreas Schlei-
m elhantes em locais tão diferentes e distantes q u an to os cher, dem onstrou sua enfática reprovação: “Se não podem os
Estados Unidos e os Em irados Árabes, além de províncias ar­ convencer os estudantes da im portância do que estudam , e de
gentinas com o La Pam pa e San Luis, insinuando um m ovi­ que os benefícios sociais e económ icos que eles conseguem
m ento que envolve de m aneira crescente todo o planeta. com a aprendizagem superam seus custos, então, há alguma
Em Nova York, desde 2008, u m program a financiado por coisa fundam entalm ente errada.”149
doações de fundações privadas prem ia os alunos de oito a Tanto o m ercado quanto os meios de com unicação e a tec-
onze anos de idade com pagam entos de até dez dólares, só por nociência existem há bastante tem po e foram im portantíssi­
com parecerem às provas de inglês e m atem ática, po r exemplo, m os para a sociedade m oderna. No entanto, graças à intensifi­
acrescentando depois vinte a quarenta dólares conform e as cação desse regim e que soube conjugar o capitalism o com
notas obtidas. “T entam os de tu d o para que as crianças estu­ u m a ética pós-disciplinar para desem bocar em todas as novi­

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dades aqui com entadas, parece ter se h ipertrofiado o papel ram ente profissionais, não divulgado para que qualquer um
da tecnologia e do m idiático na espetaculização cotidiana. pudesse vê-lo. “Im agine um gráfico estilo ‘linha do tem p o ’
Além disso e acim a de tu do, “o m ercado, que era p ensado com o naquelas aulas chatas de história”, convidava o com er­
com o um lago interno dentro da solidez estatal, cresceu a tal cial de um a m arca brasileira de calçados. “Agora, im agine esse
ponto que se tran sfo rm o u nu m oceano”, m etaforiza Ignacio gráfico com fotos e vídeos, contando a sua própria história”,
Lewkowicz, “de m odo que os dem ais term os em ergentes são acrescentava, para concluir: “M uito mais divertido, não?” Com
agora ilhotas conectadas p o r u m m eio fluido”, com o vestígios o lem a Ninguém segura você, essa cam panha publicitária so­
m ais ou m enos obsoletos que flu tu am à deriva nesse m ar m ou-se à nova tendência, oferecendo um a ferram enta infor-
im enso e im previsível.150 Assim, o espírito em presarial se dis­ m acional capaz de criar esse film inho pessoal de m odo mais
sem ina p o r toda parte, com o u m a ideologia que se apoia nos ou m enos autom ático e facilitar sua divulgação pela internet.
pilares m encionados há pouco — m ercado, m ídia, tecnociên- Além disso, ela prom etia um a recom pensa adicional: “Se a sua
cia — , e invade inclusive o o u tro ra circunspecto âm bito esco­ história for m uito, m as m uito engraçada m esm o, pode até vi­
lar, violentando o dispositivo pedagógico até convertê-lo em rar anúncio e com ercial de TV.”151
outra coisa, ainda que ele pareça persistir sob roupagens mais Em harm onia com essas m udanças m ais recentes, já faz
ou m enos idênticas. tem po que a velha solenidade dos festejos patrióticos se con­
No novo am biente, perdem sentido aqueles relatos edifi­ verteu num a ocasião propícia para fazer turism o, ou, simples­
cantes sobre as gestas patrióticas repletas de grandes aconteci­ m ente, para não ir à escola nem ao trabalho, em bora poucos
m entos e figuras adm iráveis, que pontilhavam o im aginário saibam com exatidão qual é o motivo de cada feriado — e
escolar com batalhas e proclam ações com andadas p o r hom ens nem m esm o se inquietem com essa ignorância. Essa p ro p en ­
ilustres, p o r exem plo, en q u an to cresce o interesse p o r um a são tem sido apoiada por vários Estados nacionais, que deslo­
m ultiplicidade de pequenas narrativas sobre as m inúcias p ri­ caram por decreto todas as efemérides para as segundas-feiras,
vadas de qualquer um . Não se tra ta apenas do surgim ento e da sem que venha ao caso se as datas são referentes a indepen­
veloz popularização de fenôm enos com o os reality shows da dência nacional, com em orações de proezas bélicas ou hom e­
televisão e a interação via internet, em bora u m exem plo bem nagens a grandes estadistas, a fim de m obilizar a econom ia
claro dessa transm utação surja neste últim o cam po. Trata-se prom ovendo o setor turístico — ou, então, de m inim izar as
da “linha do tem p o ” que a rede social Facebook im plem entou supostas perdas pelas faltas em massa q u ando um dia de
em 2011 para expor o perfil de seus m ilhões de associados, trabalho cai justam ente entre um feriado e o fim de semana.
convertendo a história pessoal de cada u m n u m breve relato “A intervenção do discurso histórico, du ran te grande parte
audiovisual. A p roposta encarna um a versão m uito co n tem ­ dos séculos XIX e XX, foi assegurada pela hegem onia política
porânea do circunspecto curriculum vitae, que era diagram a- do Estado nacional”, afirm a novam ente Lewkowicz, acrescen­
do com sobriedade, não co n tin h a n en h u m dado sobre a vida tando que, ao se esgotar tal poder, tam bém perderam eficácia
privada e até era m alvisto q u an d o incluía fotografias, além de sua narrativa e sua capacidade de m obilizar corpos e subjeti­
ser apresentado som ente a q u em o solicitasse com fins p u ­ vidades.152 De m odo similar, os atos escolares realizados em

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razão de tais datas vão se despojando de sua antiga form alida­ Avançado de Educação, fruto da ação conjunta entre um a
de e seus patrióticos protocolos, para adotar um a estética mais im p o rtan te com panhia de telecom unicações do Brasil e os
próxim a da m idiática e espetacular. órgãos públicos que regulam a área educacional nos estados
Tam bém se atenuou o sentido de certos rituais que faziam do Rio de Janeiro e de Pernam buco. Seu objetivo é “fazer a
parte do dispositivo estatal e eram solenem ente cum pridos escola falar a linguagem de sua época”, oferecendo um am ­
com ho n ra e orgulho pátrio, tais com o o serviço m ilitar o b ri­ biente de aprendizagem m ultim idiático e preparando os es­
gatório e a defesa da soberania nacional em eventuais guerras, tudantes para as “profissões do futuro”. O projeto fundam en­
p o r exemplo. Se, de fato, d im inuiu a consistência desse tipo de ta-se na ideia de que a educação form al está em crise por haver
cerim ónias — que hoje se vislum brariam com o m eras perdas perdido atualidade e se propõe ultrapassar sua condição disci­
de tem po o u terríveis injustiças com as possibilidades de rea­ plinar criando um a escola “com pletam ente diferente”. Assim,
lização individual — , outros ritos se to rn aram atraentes e há prom ovem -se valores com o a singularidade individual, a cria­
quem lute p o r aceder a eles com petindo com os dem ais candi­ tividade e o prazer ou a diversão, a com petência e o pragm a­
datos igualm ente interessados. Os estágios em em presas são tism o, a m otivação e a vocação em preendedora, além de se
um bom exem plo, visto que passaram a integrar o currículo destacar a im portância das novas tecnologias com u m uso
de qualquer form ação universitária. Se os jovens de poucas intensivo de com putadores, internet, redes sociais, videogames
décadas atrás “sacrificavam” u m par de anos de suas vidas, e celulares, para “transform ar o m u n d o ”.153
com certa resignação porém mais ou m enos de b o m grado, Esse deslocam ento do dispositivo estatal para o em presa­
para cum prir o dever de cidadania de servir à pátria — pois, rial tam bém se observa no já m encionado caso de Salm an
afinal, assim eram as coisas e assim se supunha que deviam ser Kahn: o “p ro fesso r virtual” que, com pouco m ais de trin ta
— , hoje isso seria inconcebível para a m aioria dos adolescen­ anos de idade, deixou seu lucrativo em prego no setor financei­
tes que desejam e podem escolher o que querem fazer com ro para se dedicar a um novo tipo de educação. A aposta foi
suas carreiras. E ntretanto, m uitos deles não duvidariam da bem -sucedida, tendo conquistado o apoio de empresas com o
vantagem de “investir” um prazo idêntico de trabalho gratuito Google e M icrosoft para m anter um site denom inado Kahn
nas firm as m ais cintilantes do m om ento — com o Google ou Academy na internet, onde ele oferece m ilhares de vídeos que
Facebook, p o r exemplo, ou até Coca-Cola, Petrobras ou M on­ já foram vistos gratuitam ente por milhões de pessoas de todo
santo — , e o fariam inclusive com prazer e extrem a dedicação, o m undo. De acordo com a descrição que se lê no próprio
já que esse tipo de opção lhes renderia valores considerados portal, sua missão consiste em “ajudar você a aprender o que
im portantes para as subjetividades contem porâneas. quiser, quando quiser e no lugar que lhe agradar”.154 O famoso
Nesse contexto, não surpreende que as próprias empresas em presário Bill Gates, que inventou o sistem a operacional
enveredem pelo territó rio antes supostam ente “im poluto” da W indows em 1983 e fundou a M icrosoft, associou-se a esse
educação, com iniciativas inovadoras que tam bém são tra ta ­ jovem em preendedor ao n o tar o entusiasm o que as aulas dele
das com o estratégias publicitárias para posicionar a im agem despertavam em seus próprios filhos, além de com provar que
de suas m arcas. U m exem plo é o projeto Nave, ou N úcleo am bos “com partilhavam a m esm a acidez na crítica à escola”

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e que a iniciativa de Kahn “poderia d ar início a um a revolu­ aquelas que procuram fazer algo diferente com base nos m é­
ção”.155 Os vídeos tratam de inúm eros tem as e são produzidos todos M ontessori, W aldorf ou Pestalozzi, entre outros, bem
ao ritm o de dez p o r dia, n u n ca ultrapassam vinte m inutos com o na pedagogia anarquista de Célestin F re in e t/ H á ta m ­
de duração e não m ostram o rosto do docente, para d ar um a bém iniciativas mais pontuais e localizadas, com o o colégio
im pressão “m enos professoral”. C om a proposta de u n ir en tre­ dos Pés Descalços****e o program a Buraco na Parede/** am bos
tenim ento, concisão e sim plicidade, “fazendo da escola algo na índia. Assim com o o m ovim ento organizado pelos defen­
mais prazeroso e eficaz, duas coisas que ela não é”, seu m étodo sores da “educação sem escolas”, especialm ente concentrados
já foi adotado em quinze colégios situados no Vale do Silício. nos Estados U nidos sob a denom inação de homeschoolers, em
Esses estabelecim entos “de m entalidade inovadora” enfocam a alusão ao ensino em casa — um a proposta que, de qualquer
experiência individual, usando p ara isso ferram entas de infor­ m odo, costum a distar bastante do projeto mais radical de “de-
m ática inspiradas no m u n d o em presarial, capazes de m edir sescolarização da sociedade” prom ovido por Ivan Illich nos
o desem penho de cada criança a fim de prem iar seu ren d i­ anos 1970. Isso para m encionar, quase ao acaso, um as poucas
m ento. Assim, “os alunos que aprendem mais rápido recebem entre as muitíssim as iniciativas atualm ente em curso.
tarefas mais desafiadoras e se to rn am tutores dos que estão Todavia, a tendência antes destacada parece ser hegem óni­
mais atrasados”, explica Kahn, p ara qu em u m a das chaves do ca e está em plena expansão: nela lateja tanto sua sustentação
sucesso é que “os jovens se sentem com o n u m jogo, sendo no trip é form ado por m ercado, tecnociência e m ídia com o
prem iados e prom ovidos de nível pelo b o m desem penho”.156 o apoio manifesto dessas três entidades. De fato, o arsenal mi-
Sem nen h u m tem o r de desenvolver nos estudantes aquilo diático costum a aclam ar os “aspectos que conectam a escola
que K ãnt batizara de “índole m ercenária”, esse tipo de inicia­ às políticas neoliberais regidas pela atenção prim ordial às m o­
tiva se m ultiplica p o r to d a p arte e se caracteriza p o r u m a vim entações do m ercado”, com o afirm a a pedagoga M arisa
enorm e diversidade. N ão obstante, é possível identificar al­
guns elem entos com uns: a customização ou personalização * N a década de 1920, esse pedagogo francês concebeu u m m étodo educativo
da aprendizagem ; o estím ulo à au to n o m ia individual, que se antidisciplinar, baseado no estím ulo à “ânsia de ap ren d er” de cada alu n o e
in co rp o ran d o , p ara isso, u m a série de ideias e técnicas inovadoras com a
com bina com sofisticadas técnicas de m ensuração e controle;
ênfase depositada n a liberdade e no trabalho. A tualm ente, sua experiência
e a intenção de desenvolver habilidades que seriam úteis para foi reto m ad a pela Federação Internacional de M ovim entos de Escola M o­
o m ercado de trab alh o contem porâneo, tais com o criativida­ d e rn a (FIMEM), < http://w w w .ridef2012.org>. [N.A.]
* * C o m sede em R ajasthan e fu n d ad a p o r B unker Roy, desde 1972 essa o r­
de, flexibilidade, com petitividade e livre iniciativa. É claro que ganização ensina os h ab itan tes de áreas ru rais a executarem tarefas que
os projetos desse tip o não são os únicos ensaios nesse cam po, lhes p e rm ita m to rn a r suas aldeias autossuficientes e autossustentáveis.
que está mais q u e n u n ca ab erto à experim entação e inclui P ara m ais info rm açõ es, c o n su lta r < h ttp ://w w w .b arefo o tco lleg e.o rg > e
< h ttp ://vim eo.com /34484169> . [N.A.]
propostas das m ais variadas e interessantes. O docum entário *** Trata-se de um projeto im plem entado desde 1999 em zonas pouco privile­
A educação proibida (de G erm án D ion, 2012), p o r exemplo, giadas da Índia, coordenado p o r Sugata M itra, que tenta explorar a “cu rio ­
sidade n atu ral” dos jovens com u m a “educação m in im am en te invasiva”,
m ostra várias experiências de “educação não convencional”
m ed ian te a qual eles ap rendem entre si a usar com putadores, p o r exemplo.
na A m érica Latina. Já em escala m u n d ial, cabe m en cio n ar P ara m ais dados, ver < http://w w w .hole-in-the-w all.com >. [N.A.]

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V orraber Costa. “D espontam aí as reportagens e propagandas m eritocracia-cooperação — algo que, no entanto, soa co n tra­
em torno do discurso salvacionista de introdução e in corpora­ ditório com o regim e de poder contem porâneo.158
ção das novas tecnologias ao cotidiano da escola”, sublinha a N um a linha sem elhante, há queixas sobre a crescente rejei­
m esm a autora, destacando “certa celebração vanguardista de ção de alunos com necessidades especiais p o r parte das escolas
um a nova tecnologia de m ercado disponível: as franquias es­ particulares, que tem em perder pontos em suas avaliações e
colares (Objetivo, Positivo, Pitágoras), que vendem projetos em sua reputação ao aceitarem esse tipo de estudante em seus
educativos em ‘pacotes’ para corresp o n d er às dem andas de recintos. Uma professora universitária cujo filho adolescente
um a sociedade utilitarista, ávida por resultados im ediatos e foi diagnosticado com síndrom e de Asperger e epilepsia refra­
garantidos em term os de sucesso e em pregabilidade”.157 Assim, tária, p o r exemplo, relatou as dificuldades que encontrou para
constata-se a transm utação da escola nu m a em presa vendedo­ m atriculá-lo nas últim as séries do ensino básico e nas p ri­
ra de serviços, com o concom itante abism o que se abriu entre m eiras do m édio. No últim o capítulo de sua peregrinação
os estabelecim entos públicos e privados, ou, mais explicita- cada vez mais m arcada pelo fracasso, na véspera do início das
m ente, entre os b em avaliados nas classificações, p o r se consi­ aulas, ela foi inform ada de um a m udança de planos por parte
derar que oferecem u m produto de alta qualidade, e, no o utro do estabelecim ento que finalm ente o havia aceitado: optou-se
extrem o do leque de ofertas, todos os dem ais, que se afundam pela rejeição ao supor que “ele sofreria bullying, não daria
num a m ediocridade irrecuperável. conta do conteúdo e os professores não o queriam na sala de
Na prática, os sistem as de incentivos e gratificações que aula”.159 O caso é especialm ente interessante por revelar vários
prem iam os docentes e as escolas em função dos bons resulta­ aspectos das transform ações aqui analisadas, in tro d u zin d o
dos obtidos p o r seus alunos podem co n trib u ir para aum entar inclusive o candente tópico do “acossamento escolar”, que ul-
essas brechas, já que os professores mais cotados “irão buscar tim am ente ganhou centralidade ao ser potencializado pelo
escolas mais bem avaliadas o u trabalharão som ente com os alcance das redes sociais da internet, pelos celulares com
alunos com mais recursos culturais”, com o explica a especia­ câm eras, pelos blogs e por sites de vídeos com o o YouTube.
lista brasileira M aria Alice Setúbal, um a vez que estes poderão No entanto, parece evidente que as causas desse fenôm eno
lhes fornecer recom pensas maiores. Assim, é improvável que tam pouco se lim itam às inovadoras possibilidades técnicas de
as escolas com problem as mais graves sejam livremente esco­ difusão midiática: tam bém neste caso, o problem a rem ete a
lhidas pelos professores com pontuações mais altas, acentuan­ um a com plexa rede de fatores que incluem m udanças na sub­
do o problem a em vez de solucioná-lo. Tais defasagens insi­ jetividade e nas relações de poder suscitadas pelos m odos de
nuam que a concorrência de m ercado não com bina com os vida contem porâneos.
ideais da educação igualitária e universal, já que essa lógica Os dram as vividos pelos jovens atuais não são os m esm os
suporia que os m elhores professores deveriam cuidar dos es­ que foram vividos pelas crianças e os jovens de outros p erío­
tudantes e dos estabelecim entos com m aiores dificuldades, os dos da m odernidade. No século XIX e boa parte do XX, a exis­
“que mais necessitam deles”. Setúbal propõe, portanto, um a tência infantil e juvenil era fortem ente m arcada por ritos de
substituição da equação m eritocracia-com petição pelo par passagem ligados à sexualidade, entre a m oral vitoriana e a

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psicanálise, enquanto hoje se vivem situações de u m a violên­ Vários filmes abordam esses assuntos, com o Bang, bang! Você
cia m ais explícita, po rém tam b ém de o u tra índole. “Enfren­ morreu! (de Guy Ferland, 2002), Bem -vindo à casa das bonecas
tam -se situações em que os pares desafiam, pressionam ”, relata (de Todd Solondz, 1995) e Twelve: vidas sem rumo (de Joel
C ristina Corea, o que configura “experiências rituais m uito Schumacher, 2010). Neles se esboçam tanto o relaxam ento da
violentas, quando as m udanças advindas com o crescim ento já investidura docente e paterna quanto a angustiante agressi­
não são antecipadas n em incentivadas pela instituição fam i­ vidade que pode ser expelida pelo olhar dos colegas “de confi-
liar, m as pelos pares”.160 Tanto os professores q u an to os pais se n am en to ” nu m a cultura que valoriza, de m odo crescente e
to rn am supérfluos nessas circunstâncias, p o r serem incapazes sem contrapesos, o aspecto físico e o desem penho visível de
de antecipar tais situações, que ultrapassam seu im aginário, cada um , tanto para construir com o para julgar quem se é.
ao passo que os p ró p rio s jovens o fazem e sofrem em conse­ O cinem a tam bém retrata outros casos em que essa violên­
quência disso, carentes do am paro e da proteção que costu­ cia escolar chegou a extrem os antes impensáveis em Elefante
m avam ser destinados à infância “inocente” de algum tem po (de Gus Van Sant, 2003), Tiros em Colum bine (de M ichael
atrás. Esses deslocam entos são im portantes e parecem im pli­ M oore, 2002) e Precisamos falar sobre o Kevin (de Lynne
car tam bém u m trânsito que ab an d o n a a culpa — interior e Ramsay, 2011).
íntim a — para se encam in h ar em direção à vergonha — exte­
rior e pública — com o a em oção predom inante na m odulação
m oral da subjetividade contem porânea, algo que se to rn a p ar­
ticularm ente m anifesto no caso dos m ais jovens.161 Talvez es­
teja ocorrendo tam bém u m a transição da ênfase no autogcV
verno para u m privilégio da autoestim a, com o já sugerim os
aqui. Tal m ovim ento teria relação com a perda de hegem onia
da consciência sobre a percepção, assim com o com a passagem
da personalidade interiorizada para u m a construção de si b a­
seada no visível.
O tem a é am plo e de tam an h a im portância que, sem d ú ­
vida, m erece ser estu d ad o com atenção. M as cabe ap o n tar
que talvez seja p o r tu d o isso que as crianças e os jovens de
hoje se sentem bem m ais aterrorizados com a possibilidade
de sofrer acossam ento e ser publicam ente “desm oralizados”
nu m a performance h u m ilh an te — o que de fato ocorre com
frequência crescente, daí a súbita p o p u larid ad e do bullying
— do que com a ideia de sofrerem advertências o u suspen­
sões pelas au to rid ad es in stitu cio n ais ao se p o rta re m mal.

1 5A 155
Violência e insegurança:
do reformismo moral à blindagem policial

Esta é o u tra dificuldade que vem afligindo a m altratada insti­


tuição escolar, sem dúvida relacionada com tudo que se discu­
tiu até aqui: o aum ento brutal dos atos violentos entre seus
m uros. Nos últim os anos cresceu dem ais a incidência de epi­
sódios que há pouco tem po eram raríssim os ou que, pelo m e­
nos, m antinham -se contidos sob pressão: agressões verbais e
físicas dirigidas a professores ou funcionários, brigas entre
estudantes, que podem chegar ao assassinato, e até furtos de
equipam ento e depredação da estru tu ra física dos colégios.
Todos os dias ocorrem casos desse tipo. De m odo algum eles
constituem um “privilégio” local ou regional, pois são em ble­
m áticos os episódios de m aior estardalhaço que vez por o u tra
m ancham o noticiário internacional, relatando massacres com
dezenas de vítimas ocorridos em países com o Estados Unidos,
Alem anha ou Finlândia. Os eventos habitualm ente incluídos
nessa categoria rivalizam em diversidade, em bora costum em
trazer ingredientes que revelam certas características da subje­
tividade e dos estilos de vida contem porâneos, a tal pon to que
jam ais poderiam ter acontecido em outras épocas. Em 2009,
p o r exemplo, foi relatada um a “onda de estrangulam entos” na
França, que provocou a m orte de pelo m enos quatorze alunos
do prim eiro e segundo graus, m otivados pela busca de “sensa­
ções extrem as” através da asfixia. Algo sem elhante aconteceu
em 2010 num a pequena cidade do norte da A rgentina, com
um saldo de oito adolescentes m ortos por um m étodo ensi­
nado pela internet.
C om a proliferação de aparelhos que captam im agens e fi­
cam cotidianam ente ligados a todos os corpos, tam bém é ha-

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bitual que os mais diversos episódios de violência praticados 23 anos entrou na escola em que havia concluído os estudos,
nas escolas — ou em to rn o delas — cheguem à m ídia e sejam situada num subúrbio do Rio de Janeiro, e m atou um a dezena
divulgados de form a banalizada em larga escala. Assim, cos­ de alunos entre doze e quatorze anos, antes de ser m orto por
tum am se dissem inar vídeos que m o stram estudantes de n í­ um policial. Mas os casos são m uitos e parecem se m ultiplicar
veis e idades diferentes p erp etran d o toda sorte de agressões, com desconcertante velocidade, irm anados não só pelo in ­
que alguém filma com o telefone celular e publica na internet; grediente espetacular — que está sem pre presente, de algum
depois, em alguns casos, as im agens aparecem na program a­ m odo — m as tam bém por certo tom “reivindicativo”, com o
ção televisiva. Um dos episódios desse tipo que mais foram assinala Juan Vasen: todos parecem ser “m ovidos por um im ­
com entados no Brasil foi o de u m a estu d an te universitária pulso cego de restaurar um a dignidade que cada qual à sua
hostilizada por u m a m u ltid ão de alunos, p o r causa da “m inis­ m aneira sentia ser desprezada pela exclusão do m u n d o do
saia provocante” que ela vestia para ir às aulas. As imagens do consum o, por seus colegas ou pela rejeição de um a garota”.162
tum ulto, captadas pelas câm eras dos celulares dos colegas, O fenôm eno agora conhecido com o bullying costum a rondar
inundaram a in tern et e os m eios de com unicação de massa. quase todas as histórias desse tipo.
A jovem acabou expulsa da faculdade particu lar em que estu­ No entanto, boa parte da perplexidade provocada por
dava e, de im ediato — em perfeita sintonia com os tem pos esses relatos refere-se ao fato de ser cada vez m ais com um
atuais — , tran sfo rm o u -se n um a pequena e decerto efém era que crianças e jovens entrem com arm as nas escolas, inde­
estrela m idiática, com direito a p articipar de reality shows, a pendentem ente de ocorrer ou não esse tipo de tragédia aci­
dar entrevistas m uito com entadas em jornais e program as de dental ou prem editada — algo que, decerto, parece flagran­
televisão, e a ser fotografada nua em revistas. Temente incom patívet com a condição de aluno. Mas talvez
A espetaculização e o desejo de obter fam a costum am m ar­ convenha adm itir que não se trata de um problem a interno de
car esses fenôm enos que, nos casos mais extrem os, constituem cada colégio, e sim de um a m udança m uito mais complexa
todo um gênero: o assassinato em massa seguido por suicídio, — relacionada inclusive com a destituição da noção de infân­
com m anifestos film ados que expõem os m otivos do fato se­ cia — que atravessou os m uros escolares e, mais um a vez,
gundo seus protagonistas. Entre os que causaram m aior co­ am eaça fazê-los explodir. “O jovem não vai arm ado à escola,
moção figuram o do estudante da universidade Virgínia Tech vai assim a todos os lugares, e as paredes da escola não estabe­
que m atou mais de trin ta alunos e professores em 2007, e a lecem nenhum a diferença”, com enta Ignacio Lewkowicz, uma
tragédia do In stituto C olum bine, em 1999, que mereceu tra ta ­ vez que elas já não dem arcam um a barreira entre o interior e
m ento cinem atográfico em dois filmes m encionados há p o u ­ o exterior desse edifício, convertendo a antiga instituição num
co: Elefante e Tiros em Columbine. Este últim o longa-m etra­ m ero galpão.163 C om o os m uros do colégio perderam seu p o ­
gem tinha sido objeto de u m trab alh o escolar realizado pelo der simbólico, o u trora tão fundam ental, a figura do transgres­
jovem de quinze anos que, em 2004, m ato u três de seus cole­ sor não teria sentido nesses casos, pois trata-se de subjetivida­
gas e feriu outros cinco n u m colégio de ensino m édio n um a des que não foram organizadas em função da legalidade mas
pequena cidade do sul da A rgentina. Em 2011, um rapaz de cresceram no am biente m idiático e m ercantil da atualidade.

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Poder-se-ia até dizer que se trata de “vândalos” ou m esm o de m ento em questão fora inaugurado em 1909 e funciona num
“bandidos”, com o os denom ina certo discurso jornalístico: em elegante edifício protegido pelo p atrim ó n io histórico local.
m uitos casos, eles não destroem para se afirm ar p o r meio da “Trancaram os professores por rebeldia, para m ostrar força”,
violação de u m a norm a, tam pouco para obter algum benefí­ explicou outra docente, acrescentando que “algum a punição
cio. Não o fazem p o r rebeldia mas, talvez, p o r conta do vazio a escola tem que d ar”, já que acontecim entos desse tipo vêm
e do tédio. Em algum as situações, aliás, fazem -no para partici­ ocorrendo há tem pos. No entanto, a m esm a professora deu
par de um g rupo e pertencer a um a tu rm a ou “trib o ”, assim um a pista sobre a distância entre essa situação e as ilum inadas
incorrendo em atos que não possuem u m sentido prefixado e pela mais feroz das hierarquias disciplinares: “Os funcionários
que, por isso m esm o, costum am escapar à com preensão dos não registravam ocorrência por terem m edo de represálias
adultos que os observam e os julgam . dos alunos.” 164
Por o utro lado, sem chegar ao assassinato ou aos eventos D iante de eventos desse tipo, propõem -se várias táticas
extraordinários que reverberam nas vitrines midiáticas, com para reforçar os am eaçados andaim es escolares na luta contra
frequência sucedem atos de violência mais ou m enos cotidia- esse outro “flagelo de época” que os está corroendo. Uma delas
nos e com uns nos colégios do m u n d o inteiro. Cenas que te­ se m ostra especialm ente interessante por constituir um sinto­
riam sido im pensáveis algum tem po atrás, quan d o a m oral m a eloquente das transform ações que este ensaio focaliza:
disciplinar ainda conseguia “aprisionar” os corpos m odernos trata-se dos projetos de instalação de câmeras de segurança
com suas réguas e esquadros. Assim é que se descreveu, por nos prédios educativos. Em princípio, isso parece ser um a
exemplo, um q u ad ro mais ou m enos habitual ocorrido no m era atualização tecnológica do panóptico, aquele dispositivo
final de 2008 n u m a escola de ensino m édio dos subúrbios de vigilância com vocação reform adora idealizado em 1789
de São Paulo: “Pedras e carteiras foram arrem essadas nos vi­ pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham, que Michel Fou-
dros, portas arrom badas, tapas e socos fizeram os professores, cault resgatou por constituir um m odelo arquitetônico para as
acuados, se tran carem dentro de um a sala.” Em meio a esse m odernas instituições disciplinares. “Basta então colocar um
caos, enquanto vários adolescentes “choravam e gritavam , a vigia na torre central e em cada cela trancar um louco, um
“diretora da escola desm aiou”. Em bora o acontecim ento tenha doente, um condenado, um operário ou um escolar”, explicou
chegado aos noticiários, um professor relatou não se tratar de o autor de Vigiar e punir, exemplificando os usos do panóptico
um fato isolado, pois desde o início do ano os alunos tinham com o um m ecanism o útil para m onitorar os sujeitos m oder­
quebrado janelas e até tentado incendiar o edifício. Só não nos em seus diversos papéis — prisioneiros e alunos, talvez
conseguiram p orque a polícia m ilitar interveio”, contin u o u o fundam entalm ente, mas não apenas eles. Graças ao efeito de
m esm o docente, acrescentando que tin h a ouvido os alunos lum inosidade, cada silhueta isolada em seu cubículo gradeado
falando que iriam d erru b ar a escola. “Acho que o problem a se oferecia ao olhar vigilante, “perfeitam ente individualizada e
nem é com os professores”, concluiu; “eles se revoltam ” pelo constantem ente visível”.
fato de a instituição “ser em período integral”. Um dos jornais Apesar da eventual sem elhança entre a velha m asm orra e a
que divulgaram a notícia esclareceu tam bém que o estabeleci­ prisão m oderna, esta últim a baseada nesse m ecanism o inova­

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anunciados ao longo desse m esm o ano p o r outros m unicípios


d o r que perm itia “ver sem p a ra r”, trata-se, na realidade, de
e estados brasileiros, com o Pernam buco (que se propõe “coi­
duas tecnologias bem distintas: das três funções exercidas pela
bir furtos, depredações, tráfico e agressões físicas de que são
antiga instituição gótica — encerrar, privar de luz e escon­
alvo professores, funcionários e alunos que desejam realm ente
der — , em sua versão m ais “civilizada” só se conservou a p ri­
estudar ), R ondônia (cuja m eta é “g aran tir a segurança da
m eira, suprim indo-se as o u tras duas. “A plena luz e o olhar
com unidade estudantil” e “conter a violência nas escolas p ú ­
de u m vigia captam m elh o r que a som bra, que finalm ente
blicas e privadas ) e M ato Grosso do Sul (com a intenção de
protegia”, constata Foucault, assim concluindo a com paração:
“prevenir e ap u rar atos crim inosos ou que atentem contra a
“A visibilidade é u m a arm ad ilh a”.165 Por isso, fazendo aqui
segurança da com unidade escolar e a preservação do p atrim ó ­
um m ovim ento sim ilar de pensam ento, cabe deduzir que o
nio da escola”).
circuito integrado de câm eras de vigilância — essa tecnologia
Um ano antes de essas políticas com respaldo estatal se
tão contem porânea — parece sim plificar de um m odo mais
generalizarem de form a m ais institucionalizada, várias escolas
eficaz aquela ingrata tarefa que antes tin h a que ser feita de
públicas de Foz do Iguaçu já haviam instalado câmeras “para
form a canhestram ente artesanal, recorrendo-se a um a co m ­
m o n ito rar o com portam ento dos estudantes”, p o r exemplo,
plexa aparelhagem de sentinelas, torres e grades na contraluz.
não só com a autorização, m as graças à iniciativa e aos esfor­
Entretanto, essa aparência de continuidade entre os dois dis­
ços de pais e alunos, que até ajudaram a pagar os equipam en­
positivos pode ser tão enganosa quanto a perspectiva que p en ­
tos. O objetivo era evitar a destruição dos edifícios e o roubo
sava a prisão m o d ern a com o u m m ero aperfeiçoam ento do
de aparelhos eletrónicos. “A depredação ocorre por parte de
calabouço medieval. Em bora pareçam simples versões renova­
poucos-alunos”, explicou o vice-diretor de um desses colégios;
das e m ais “elegantes” do velho panóptico, os sistem as eletró­
p o r isso, com a instalação das câm eras, “garantim os que os
nicos tam bém têm especificidades m u ito significativas, que
dem ais estudantes terão um a escola du rad o u ra”.167 Ao se en­
trazem a m arca de nossa época. Portanto, vale a pena exam i­
cerrar a prim eira década deste século e se iniciar a segunda,
ná-las com o tais.
esse tipo de iniciativa autónom a foi se dando em estabeleci­
Em vez de subsidiar a disciplina escolar p o r m eio de um a
m entos educacionais situados em diversas partes do m undo,
vigilância centralizada — ou m elhor, além de ten tar cum prir
com o fim de solucionar problem as idênticos e atingir m etas
essa m eta cada vez m ais q u im érica — , os novos sistem as
sem elhantes. Sua proliferação mais ou m enos espontânea le­
apontam de m odo p rio ritário para algo m uito mais contem ­
vou, em alguns casos, à form ulação de iniciativas mais in stitu ­
porâneo: o controle da insegurança. Na cidade de Florianópo­
cionalizadas e abrangentes. Assim, precipitadas por um par de
lis, p o r exem plo, u m sistem a desse tipo foi im plantado em
episódios especialm ente violentos que ocorreram em escolas
2009 com o objetivo de “trazer mais conforto e segurança aos
públicas nos meses anteriores, as autoridades educativas de
alunos”, pois, além de “pro p o rcio n ar m aior rapidez e agilidade
São Paulo tam bém anunciaram um plano de “redução dos
na repressão de possíveis delitos contra os bens públicos m u ­
índices de crim inalidade no começo de 2010. O sistema foi
nicipais, será útil no sentido de to rn ar esses espaços mais segu­
elaborado com a assessoria da Polícia M ilitar e contem plava a
ros para os alunos”.166 Fins sem elhantes têm os projetos de lei

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instalação de dezenas de m ilhares de câm eras nas 5 mil escolas com plicada, vivemos em um a com unidade carente que não
da jurisdição, conectadas a u m program a on-line de registros entende que a escola é de todo m undo.”169
de incidentes e adm inistradas p o r um a em presa especializada A m eta prioritariam ente alegada por esse tipo de projetos
em m onitoram ento. Segundo o presidente do conselho de se­ é, p o rtan to, conferir segurança e restringir os atos delituosos
gurança local, trata-se de um a “necessidade de interesse p ú b li­ nas instituições educacionais m ediante a instalação de câm e­
co” relativa tanto a funcionários e professores quanto aos fa­ ras p o r toda parte. “Os pais se sentirão mais seguros ao deixa­
miliares dos estudantes “que acreditam na instituição escolar” rem seus filhos nas escolas”, afirm ou um a m atéria jornalística
e, tam bém , “no seu trabalho educacional, que, supõe-se, p o d e­ sobre o assunto, acrescentando o utro m otivo que costum a ser
rá resultar na construção de u m futuro prom issor para crian ­ m encionado em segundo plano: “Tam bém se acredita que as
ças e adolescentes”.168 câm eras poderão ser grandes aliadas no processo educativo.”
Enquanto essas iniciativas mais ou m enos isoladas se d e­ O m esm o artigo citou a seguinte declaração da mãe de um
senvolviam em diversas regiões do país, na capital, Brasília, os estudante: “Tem que haver câm era na escola; acho mais se­
planos eram mais am biciosos e estavam ainda mais adianta­ guro, é um jeito de conseguir que os alunos se autolim item .”
dos. A lei que prevê a instalação de mais de mil câm eras em De fato, a diretora de um a das escolas contou, nessa ocasião,
todas as escolas públicas do D istrito Federal, “para tentar d i­ que os estudantes “deixaram de pichar os banheiros após a
m inuir os atos de violência e vandalism o”, além de “garantir a instalação das câm eras”. Em contrapartida, num a sala da sexta
segurança dos alunos e funcionários, assim com o evitar picha- série que tam bém passou a ser m onitorada por seu alto índice
ções e depredações do p atrim ó n io público”, com eçou a ser de alunos repetentes, “no início, a tu rm a ficou quieta”, com en­
posta em prática em 2007, inicialm ente com recursos reco­ tou um dos alunos, “mas, na sem ana seguinte, a bagunça vol­
lhidos por cada estabelecim ento, antes m esm o de ser efetiva­ tou e tu d o continuou do m esm o jeito”. Todavia, um a das p ro ­
m ente sancionada. O orçam ento do sistem a chega a R$ 70 fessoras consultadas destacou pelo m enos um a utilidade do
milhões, mas esse enorm e investim ento parece valer a pena sistema: “Sempre que algo errado acontece, eles afirm am que
em virtude do seguinte cálculo: o governo da capital brasileira não o fizeram”; porém , “com a câmera, está tudo registrado”,
gasta, anualm ente, quase 1/5 desse total para reparar as escolas de m odo que não haveria com o negar qualquer envolvimento
depredadas ao longo de cada ano letivo. U m estudante da sex­ assim com provado. A diretora tam bém declarou estar satisfei­
ta série do ensino fundam ental, p o r exemplo, m anifestou sua ta, em bora considere que a escola ainda necessita de pelo m e­
concordância com a iniciativa ao destacar que sua escola esta­ nos o u tras cinco câm eras além das onze já instaladas: “assim,
va sem pre pichada e as brigas entre seus colegas eram cons­ controlam os nossos estudantes e evitam os roubos”.170
tantes. “N ão m e incom oda ter um a câm era ali, me film ando Depois desse rápido percurso, torna-se evidente que, ape­
o dia inteiro”, afirm ou o jovem de doze anos. “É m elhor do que sar das sem elhanças entre todas essas experiências atuais e o
estudar em um a escola destruída.” O diretor de um dos colé­ sistema panóptico descrito p o r Foucault com o um dos m eca­
gios vigiados com pletou esse depoim ento do seguinte m odo: nism os básicos das instituições disciplinares, há um a diferença
“N ão deveríam os precisar fazer tu d o isso, m as a situação está sutil, po rém fundam ental. A justificativa que costum a pairar

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sobre a vigilância eletrónica já não é m oral, mas nitidam ente pancadas, tam bém se fazem — com crescente assiduidade —
policial. Sua m issão prim ordial não consiste exatam ente em recorrendo-se a artefatos mais eficazes quando se trata de p u ­
inculcar respeito pela lei nem em atiçar a culpa pelo descum - lar m uros e fugir de câm eras vigilantes, tais com o a in te r­
prim ento do dever ou pela desobediência, com o p ro p u n h am net, os celulares, os blogs, os fotologs, as redes sociais e os ví­
as pedagogias da linhagem kantiana; em vez disso, seu objetivo deos publicados na rede. Por isso cabe assinalar aqui que as
reside em tirar p artid o do m edo sem deixar n en h u m interstí­ prim eiras iniciativas brasileiras desse tipo rem ontam a m ea­
cio fora de controle. As câm eras não têm com o m eta p rio ritá­ dos de 2006, quando se apresentou um projeto de lei que to r­
ria ten tar fazer com que os alunos vigiados internalizem as naria obrigatória a instalação de câm eras em todas as escolas
norm as, diante d a am eaça de punição, e que, com o resultado públicas e privadas do país. O objetivo era tam bém “c o n tri­
desse processo de m oldagem corporal e subjetiva, passem a se b u ir para a m elhora da segurança nos estabelecim entos de
com portar corretam ente p o r convicção própria, com o seria o ensino”, porém se presum ia, além disso, que conservar as gra­
caso de um pan óptico atualizado em seu aspecto tecnológico. vações d urante trin ta dias seria “eficaz para o controle de in ­
Sem abandonar p o r com pleto essa m eta que hoje soa um ta n ­ frações” e para a prevenção tanto das pequenas transgressões
to ilusória, as novas redes de circuitos integrados se propõem , internas quanto das agressões externas “que sofrem as escolas
com m uito m ais afinco, evitar roubos e outros “atos de vanda­ e os alunos, especialm ente nos estabelecim entos situados em
lism o” contra os bens m ateriais que constituem o patrim ó n io regiões com altos índices de crim inalidade”. Mas havia um
de cada escola e da nação. Além disso, p retendem proteger detalhe especialm ente significativo nessa proposta inicial: os
docentes e alunos co n tra eventuais ataques de to d a sorte, p ro ­ pais dos alunos poderiam ter acesso ao m aterial filmado. Se­
venientes tanto de fora quanto de den tro da p ró p ria in stitu i­ gundo a deputada que propôs a m edida, isso seria “extrem a­
ção. Uma confirm ação dessa lógica apareceu nu m a notícia do m ente im portante para que haja m aior envolvim ento dos pais
início de 2012, segundo a qual qu atro estudantes de doze a na educação de seus filhos, perm itindo que acom panhem as
quinze anos teriam sido filmados p o r câm eras de segurança atividades escolares no m om ento em que elas estiverem ocor­
quebrando os vidros, as lâm padas e até as próprias câm eras ren d o ”.172 Em bora este últim o dado possa soar pertu rb ad o r
instaladas n u m a escola do Paraná, no sul do Brasil. Os jovens em vários sentidos, não chega a surpreender dem ais na era do
se justificaram p erante a diretora dizendo que teria sido um a Facebook e do Twitter, quando qualquer um pode saber o que
brincadeira”, po rém o mais interessante é que a pena im ple­ outros fazem ao consultar as vitrines virtuais que integram a
m entada não consistiu em nen h u m tipo de sanção discipli­ rede m undial de com putadores. Até os pais podem fazê-lo
nar para esses alunos notavelm ente entediados e m uito pouco com relação a seus filhos, e vice-versa, fundando um a transpa­
oprim idos, e sim n u m a punição a ser aplicada a seus progeni­ rência que não parece ser motivo de consternação nem para os
tores, em dinheiro: “A escola quer que os pais paguem os p re­ que espiam nem para os que se expõem voluntariam ente.
juízos provocados pelos alunos.” 171 N ada disso teria sido facilmente m etabolizado pelos in d i­
Se os ataques desse tipo podem (e costum am ) ser p ratica­ víduos m odernos, pouco tem po atrás; p o r este m otivo cabe
dos com arm as de fogo o u com facas e pedras, com socos e in tu ir que nessa m utação talvez se escondam pistas im p o rtan ­

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tes para com preender o que estam os deixando de ser e para diato é o aum ento da segurança social”, continua o m esm o
onde nos dirigim os, u m processo no qual a “crise da escola” autor, m as “o custo é a saturação do constrangim ento indivi­
desem penha u m p ap el nada insignificante e no qual os novos dual im posto de fora para dentro”, algo m uito diferente do que
sistem as de vigilância constituem u m elo adicional. Talvez ocorria quando a alm a disciplinada aprisionava os corpos m o ­
pareça cansativa o u exagerada a atenção dedicada à instalação dernos p or meio da internalização da culpa. A sociedade con­
de câmeras nos estabelecim entos de ensino, com especial aten­ tem porânea aponta cada vez m enos para o disciplinam ento
ção para a experiência brasileira, m as a insistência vale a pena precoce e vertical de todos os corpos, privilegiando em troca
se ela perm ite esclarecer alguns nós do problem a enfocado u m controle perm anente, horizontal e m inucioso. “Enquanto
neste ensaio. Por quê? Pois bem , se na “sociedade de controle” na sociedade disciplinar a ênfase recai no autogoverno a ser
se produz tanto u m a intensificação com o um a sofisticação de ap ren d id o no in tern am en to em certas instituições d u ran te
certos dispositivos disciplinares, en q u an to tam bém se colo­ um a fase de nossas vidas, na sociedade de controle todos con­
cam em jogo alguns m ecanism os com pletam ente inovadores trolam todos, todos vigiam todos, durante todo o tem po e em
— que correspondem a novas prem issas e apontam para o u ­ qualquer lugar”, esclarece ainda o especialista brasileiro.173
tros objetivos — , essas iniciativas de registro eletrónico nas Além disso, há um detalhe singular: esse olhar costum a ser
escolas são exem plos perfeitos de tais processos. Em vez de se fervorosam ente desejado e buscado. As redes sociais, assim
apresentarem com o m era atualização do velho panóptico in ­ com o os reality shows, por exemplo, ensinam e perm item con­
dustrial, e ainda que algo dessa continuidade sem dúvida seja sum ar o anseio de ser vigiado ou, em term os mais exatos, vi­
válido, essas estratégias se alinham com outras expressões bem sualm ente consum ido. Por isso, se a subjetividade co n tem ­
atuais que definem m elhor o que som os ou aquilo em que porânea se torna “controlada”, isso não se dá com o efeito de
estamos nos transform ando, cada vez mais distantes de tu d o o um panóptico externo que vigia e norm aliza todos os cidadãos
que deixamos de ser. sob o peso m oral da lei, m as pela am eaça de exclusão — ou
Foi essa nova co n ju n tu ra que p erm itiu a invenção e a p o ­ até de inexistência — que pode ser provocada pela falta de
pularização dos condom ínios ou bairros fechados, p o r exem ­ alguém que (m e) olhe. Volta à tona aqui o já citado pavor
plo, assim com o dos autom óveis blindados e dos alarm es que de “virar um nada”, que pode ser particularm ente atroz q u an ­
defendem a propriedade privada com o uso de senhas digitais do o que se é não se baseia na própria interioridade, mas se
ou cartões m agnéticos, longe dos m étodos mais antiquados constrói na visibilidade dos corpos e das telas. “Certas m ídias
que tentavam in jetar com sangue a m oral da boa letra nos e certos artefatos culturais trivializam o controle e, assim, nos
corpos confinados. Por isso o que se pretende aqui é co m ­ ensinam novos padrões de norm alidade, m oralidade, estética
preender essas iniciativas de vigilância film ada, tam b ém e e conduta”, afirm a Veiga Neto. “Na m edida em que nos ensi­
principalm ente, com o novos dispositivos de subjetivação que nam a ser bons consum idores, nos ensinam a consum ir ta m ­
dissem inam u m tip o de controle “baseado na visibilidade m i­ bém o próprio controle.”174 E a desejá-lo, caberia acrescentar,
nuciosa, total e p erm a n en te”, conform e o descreve Alfredo buscando-o e fazendo o impensável para obtê-lo, com o se nele
Veiga Neto. “N u m a sociedade assim de cristal, o ganho im e­ estivesse im plícita certa realização pessoal ou um a confirm a­

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ção da própria existência, ou, então, com o se o desejo de al­ que em certas escolas japonesas já se estavam utilizando pe­
cançá-lo fosse algo n atu ral e indiscutível. quenos chips ou “etiquetas inteligentes”, que são im plantados
É claro que nad a disso acontece sem resistência. A título nos corpos dos alunos e transm item um a m ensagem de texto
de exemplo, vale m encionar a retirada das câm eras de segu­ autom ática ao celular dos pais quando seus filhos entram na
rança das escolas das cidades de La Plata e Buenos Aires, na escola. Mas não é preciso ir tão longe: em 2012, foi inaugurado
Argentina, p o r oposição de alguns pais e sindicatos docentes. um sistema sem elhante em todas as escolas m unicipais de um a
Os fatos ocorreram n o final de 2011, com base em sentenças cidade do nordeste brasileiro, Vitória da Conquista, m ediante
judiciais que m otivaram a suspensão das respectivas iniciati­ um chip em butido nos uniform es que é acionado por um sen­
vas públicas. No entanto, cabe n o ta r que os próprios professo­ sor instalado nas portas dos colégios. “Percebemos que m uitos
res confessaram não discordar da instalação de tais aparelhos pais deixavam os alunos na escola, mas logo saíam correndo
fora das instituições: “O que não querem os são câm eras d en ­ para o trabalho e não viam se eles entravam ”, contou o repre­
tro [das escolas], já que desse m odo se viola claram ente a in ­ sentante da Secretaria M unicipal de Educação, acrescentando
tim idade dos alunos e, além disso, tam bém se atenta contra que a tecnologia pretende evitar que os estudantes “descubram
a dos funcio n ário s”, explicaram os docentes de La P lata.175 um jeito de burlar o sistema”.178 Esse tipo de dispositivo será
No caso da capital d o país, os representantes do sindicato dos cada vez mais com um : num a feira denom inada Expoeducação,
professores recorreram à justiça com o apoio dos familiares de dedicada a oferecer às escolas diversos produtos e serviços —
alunos de duas escolas envolvidas, e tam bém fizeram declara­ desde m étodos de apoio à aprendizagem até program as de
ções similares: “Q uerem os que se m antenha o plano de segu­ adm inistração ou dispositivos para que pais e professores te­
rança, m as não que haja câm eras no in terio r dos estabeleci­ n h am acesso aos boletins escolares — , foram apresentados
m entos”, porque “os pais não querem que seus filhos sejam vários sistemas que perm item às famílias acom panhar de casa
filmados e ouvidos.” 176 ou do escritório a entrada e a saída dos alunos.179
De qualquer m odo, pelo visto, as redes eletrónicas anseiam Cabe concluir que “apesar de ser um a invasão de privacida­
por controlar aquilo que Gilles Deleuze vaticinou com o um de , com o declarou um policial envolvido nos projetos de vi­
grave desafio para a nova configuração sociopolítica e econó­ gilância em escolas brasileiras, “quando se quer ter um pouco
mica: a “explosão dos guetos e favelas”, com a decorrente am ea­ mais de segurança” é preciso “dim inuir a liberdade em busca
ça de irradiar esse m al de época conhecido com o inseguran­ do equilíbrio”, assim atualizando em chave inform ática o freu­
ça.177 Assim, ante a crise generalizada da sociedade disciplinar, diano “m al-estar da civilização”.180 Afinal, esse vocábulo com
busca-se com as redes eletrónicas controlar essa “falta de segu­ ressonâncias tão com edidas talvez não passe de um sinónim o
rança” que em erge com o um temível fantasm a para o novo um tanto lírico daquela palavrinha mágica que tanto se p ro ­
regime. Além disso, oferece-se aos pais e outros adultos a ilusão nuncia: em tem pos de fluidez vertiginosa e riscos exorbitantes
de que podem exercer algum tipo de controle sobre os corpos ainda que tam bém m uito calculados e sem pre em vias de
hiperativos e indisciplinados dos jovens e crianças co ntem po­ solução técnica — , o que se busca é segurança. E se supõe que
râneos. Algum tem p o atrás, p o r exemplo, circulou a notícia de esta não será alcançada pela repressão culposa dos desejos

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PA U L A SI BI LIA • R E D E S OU P A R E D E S

transgressores, e sim p o r meios bem mais contem porâneos. Do quadro-negro às telas:


“Se a escola funcionou — e ainda funciona — com o a grande a conexão contra o confinamento
fábrica de um a sociedade disciplinar, ou seja, um a instituição
fabricando um a sociedade em que cada u m deve ser capaz de
exercer seu autogoverno”, explica Veiga Neto, “e se a sociedade
pode prescindir cada vez m ais desse autogoverno — na m edi­ Apesar do avanço veloz das redes de vigilância eletrónica que
da em que novas tecnologias dissem inam e barateiam a vigi­ se infiltram pelos m uros das escolas atuais, fazendo circular
lância perm anente — , então aquela prim eira função que Kant imagens e inform ações em tem po real, ainda é costum e p ro i­
tinha atribuído à educação escolar talvez esteja perdendo im ­ b ir os alunos de en trar nos edifícios com suas próprias câ­
portância.” 181 O au to r se refere, é claro, à o u tro ra tão benquis­ m eras e dem ais dispositivos característicos da sociedade de
ta disciplina. controle, com o celulares, com putadores ou tablets. O u, pelo
No entanto, não se pode deixar de ressaltar que a transição m enos, procura-se evitar isso m ediante um a balbuciante p ro ­
de u m regime predom inantem ente disciplinar para um basea­ m ulgação de leis, decretos e norm as, ou se dosa seu uso em
do n o controle não afeta igualm ente a todos, nem ao mesm o cada caso por meio de negociações internas mais ou m enos
tem po nem com idêntica intensidade. Para os que não passa­ enfáticas; ou ainda, o que é cada vez mais habitual em virtude
ram pela escola ou que, m esm o tendo frequentado suas salas e do conflito crescente: fiscaliza-se esse uso pedagogicam ente
corredores, não aprenderam a se governar com as doses espe­ p o r meio de program as oficiais de inform atização das aulas.
radas de disciplina e obediência, restam outras instituições Mas vale a pena observar com mais cuidado o itinerário dessa
com plem entares, com o a prisão, o m anicôm io e até algumas epopeia, para poder desatar alguns nós e avançar rum o a n o ­
fábricas. Esse m ecanism o ainda costum a ser aplicado aos “vân­ vas indagações.
dalos” ou àqueles jovens que ficam “à m argem ”, por exemplo. Em m aio de 2009, por exemplo, foi am pliada — e, de al­
Mas a novidade nesse novo regime de vida é que, agora, e em gum m odo, ratificada — a lei que proibia o uso de telefones
boa m edida com a ajuda das tecnologias digitais, o controle já portáteis nas escolas públicas estaduais do Rio de Janeiro, in ­
não precisa de paredes nem de grades para funcionar com efi­ cluindo-se então outros aparelhos na lista original: reproduto­
cácia: ao contrário, dissem ina-se por todos os espaços, sem li­ res de m úsica, videogames, agendas eletrónicas e m áquinas
mites tem porais. “É o to d o social que se aparelhou com o um a fotográficas. “Essa alteração na lei aum enta seu alcance e sua
im ensa e intensa instituição de controle”, traduz Veiga N eto.182 eficácia, já que sabem os que os celulares não são os únicos
Tanto os circuitos de câm eras de vigilância com o os sistemas responsáveis por distrair os alunos e atrapalhar as aulas”, ex­
de geolocalização, os telefones celulares e as redes sociais da plicou o deputado responsável pelo projeto da em enda legal.
internet exem plificam essa novidade; p o r isso tais dispositivos “Agora ficará mais fácil garantir a atenção em sala de aula”,
am eaçam desbaratar a antiga lógica disciplinar, algo que pode acrescentou. Vale destacar que a proibição não se referiu ape­
revelar-se especialm ente significativo no caso de um a institui­ nas aos alunos mas tam bém aos professores, exceto nos casos
ção de confinam ento m u ito especial: a escola. em que a escola autorize o uso dos aparelhos para fins didá-

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0 0 QUADRO NEGRO ÀS T E L A S : A CON EX ÃO C ON TRA 0 C O N FIN A M E N TO
PAULA S I B I L I A . R E D E S OU P A R E D ES

educar os cidadãos oitocentistas com a força do sangue, do


ticos.183 Tudo isso é significativo para começar a arrem atar esta
suor e da palavra, agora se estendem as tram as atraentes da
reflexão sobre as transformações que vêm afetando a área edu­
conexão, que opera de outro m odo e com objetivos diferentes:
cacional e que chegam a questionar seus próprios fundam en­
enfeitiçando os consum idores contem porâneos com suas in­
tos, delineando um a última pergunta que talvez seja esclarece­
contáveis delícias transmidiáticas.
dora. O modelo analógico da sociedade disciplinar foi a prisão,
Apesar da agudeza e do sentido visionário de seu diagnós­
pois nela se inspiravam e decalcavam todas as demais institui­
tico, quando Gilles Deleuze expressou — há mais de vinte
ções, inclusive a escola. E seu principal mecanismo de poder
anos — que “não há necessidade de ficção científica para se
era o confinam ento, ou seja, o trancafiam ento nu m espaço e
conceber um m ecanism o de controle que dê, a cada instante,
num tem po m inuciosam ente pautados e regulamentados. Le­
a posição de um elemento em espaço aberto”, ele mesmo não
vando em conta esses elementos fundam entais do regime que
poderia ter previsto o incrível desenvolvimento desses dispo­
estamos abandonando, qual seria a instância exemplar da atual
sitivos na prim eira década do século XXI.184 E menos ainda
sociedade inform atizada que está substituindo aquela outra?
teria intuído esse autor, nos longínquos prim órdios da década
Talvez essa instituição m ultifacetada e m odelar que im ­
de 1990, a extensão atual do desejo de r e la ta r — de m odo
prim e sua m arca no presente não seja tão som ente o inefável
constante e voluntário — os usos mais banais do tem po e do
espírito em presarial que tu d o im pregna, mas tam béfn —
espaço. Tudo isso realizado a toda hora por milhões de pes­
e, quem sabe, mais precisamente — as redes de conexão glo­
soas, à quais não incom oda o fato de estarem sempre localizá­
bal, com o a internet. O u o tecido sem fios da telefonia celular,
veis e disponíveis para contato. Pois esse meticuloso “trabalho”
óu então as redes sociais, com o Twitter e Faeebook. O u seja,
individual que agora realizamos, e que não deveria ter pausa,
recursos intensam ente utilizados pelos colegiais em escala
não é em preendido em obediência à pesada obrigação m oral
planetária e que já vêm se infiltrando nàs paredes da escola
de cum prir regulamentos e evitar castigos, como ocorria sob
sem necessidade de derrubá-las fisicamente. Essa penetração
a lógica do confinam ento disciplinar; ao contrário, tudo isso
ocorre corrí o consentim ento das autoridades escolares, mais
. hoje se faz por prazer. E desperta o interesse dos demais, te­
ou m enos a contragosto, ou, quando não é esse o caso, aconte­
cendo-se assim um a rede m uito eficaz de perm anente con­
ce de todo m odo graças aos.maisj diversos subterfúgios. Seja
trole m útuo. *
com o for, se essa derrubada (ainda?) não se consurppu de
“Praticamente todos os alunos de ensino médio que pes­
m odo literal e material, pelo m enos um a parte de seus resul­
quisei têm telefones celulares e consideram ser seu direito usá-
tados já parece ser m uito eficaz, tanto simbólica quanto vir­
-los na escola”, assegura M artin Beattie, professor da LJniversi-
tualm ente. Aásim, em vez da prisão — com suas grades, seus
dade da Tasmânia que se dedicou a investigar o assunto. “Mais
cadeados, suas norm as estritas e punições severas — , teríamos
de 90% dos estudantes com que falei usam seus telefones no
como. m odelo 'universal, cada vez mais, um a rede eletrónica
colégio; mesmo nas instituições com políticas rigorosas contra
aberta e sem fios, à qual cada um se conecta por livre e espon­
tais aparelhos, 85% dos alunos adm itiram m andar mensagens
tânea vontade: apenas onde, quando e se quiser. Por isso, ali
de texto sem a permissão do professor”, de m odo que “os regu-
onde im peravam as norm as ríspidas do confinamento para

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lam entos escolares têm um a influência m ínim a em seu uso”, com um poder m uito mais tênue sobre o corpo.” 186 Mais suave
concluiu o pesquisador. “Eles se com unicam com amigos fora e elegante, sim, em bora tam bém mais difícil de m apear ou
da escola (62%) e com seus pais (30% )”, acrescentando que burlar e, talvez por isso m esm o, bem mais eficiente no cum ­
tam bém usam os aparelhos “para buscar ajuda nos estudos ou prim ento de suas metas.
para solucionar emergências, com o dúvidas sobre consultas Em contraste com o instrum ental já antiquado que as esco­
marcadas com médicos ou transporte para casa”. Além disso, o las ainda insistem em usar, parecem ser mais eficazes as novas
professor australiano detectou que “67% dos pais entram em formas de atar os corpos contem porâneos aos circuitos inte­
contato com os filhos d u ran te o horário escolar, a m aioria grados do universo atual. Em bora essas novidades sejam mais
para lembrá-los de com prom issos relacionados à saúde ou si­ sutis e até divertidas, porque agora estamos todos “livremente”
milares”. Levando em conta esses dados, Beattie aconselha seus conectados não só às redes sociais, ao correio eletrónico e ao
colegas docentes a “desistir da luta” contra esses aparelhos, de telefone móvel, mas tam bém a outros dispositivos de rastrea-
preferência incorporando-os às rotinas de ensino e procuran­ m ento, com o os sistemas de geolocalização do tipo GPS, os
do tirar deles o m aior proveito possível.185 cartões de crédito e os program as de fidelidade empresarial.
Talvez o que esteja acontecendo é que a vigilância centra­ E exercemos essas práticas com devoção cotidiana, o tem po
lizada, o confinam ento com horários fixos e as pequenas san­ todo, porque querem os e porque isso nos agrada. As crianças
ções que im peravam nas instituições típicas dos séculos XIX e os mais jovens parecem apreciá-lo especialmente, motivo
e XX, como a escola, a fábrica e a prisão, já não são mais ne­ pelo qual se dedicam a tais atividades a todo m om ento e em
cessários para transform ar seus habitantes em corpos “dóceis qualquer lugar. M uitas vezes o fazem, inclusive, driblando as
e úteis”. Tudo isso deixou de ser fundam ental — e nem se­ eventuais proibições das hierarquias escolàres; aliás, costu­
quer seria eficaz — para convertê-los em subjetividades com ­ m am recorrer a essas conexões para sobreviver à chatice que
patíveis com os ritm os do m undo atual. De fato, o próprio implica ter que passar boa parte de seus dias encerrados nas
Foucault detectou essas transform ações, apontando o ano de salas de aula, mais desesperadam ente desconectados que disci­
1968 como um a data simbólica para a irrupção de tais ten­ plinadam ente confinados.
dências. Isso confirm aria que as tecnologias são mais fruto “Na sociedade da informação, já não há lugares, mas flu­
dessas m udanças que um a de suas causas — em bora, um a xos; o sujeito já não é um a inscrição localizável, mas um pon­
vez inventadas e adotadas, não parem de reforçá-las. Mas foi to de conexão com a rede”, afirm a Cristina Corea. Nesse novo
naquela época, há m ais de quatro décadas, que tanto a dis­ contexto, a velha ideia de com partilhar códigos e respeitar leis
ciplina quanto certa ética p u ritan a foram postas em xeque universais que sustentem a possibilidade de transm itir conhe­
com o as grandes forças im p u lsio n ad o ras do capitalism o. cim entos de cima para baixo — tão cara ao dispositivo peda­
Por isso a escola tam bém com eçou a transitar seu cam inho gógico m oderno — deixou de ser um m ito para se converter
rum o à crise atual. “Percebeu-se que esse poder tão rígido não n u m anacronism o. E nesse desm ascaram ento talvez resida a
era assim tão indispensável q uanto se acreditava”, explicou chave para com preenderm os m uitos equívocos e m al-enten­
Foucault, e “que as sociedades industriais podiam se contentar didos que ocorrem nas escolas. A autora acima citada destaca

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P A U L A S I B I LI A - R E D E S OU P A R E D E S
DO Q U A D R O - N E G R O À S T E L A S : A C O N E X Ã O C O N T R A O C O N F IN A M E N T O

a figura da im p ertin ên cia p ara ilustrar essa “des-com unica-


p ara d ar à luz o u tra coisa, am pliando assim o cam po do pen-
ção”, pois não se trataria de falhas na com preensão do código
sável e do possível.
ou ruídos no canal, m as de algo m u ito m ais radical: a flagran­
Para concluir esta parte do périplo, convém sublinhar que
te inexistência de p arâm etro s instituídos p ara reconhecer os
todas essas m udanças im plicam um a b em -vinda libertação
signos que são m anejados nessas situações. “A com unicação
dos velhos m ecanism os de orto p ed ia social: aqueles que m as­
requer que haja lugares p ara o em issor e o receptor”, explica,
sacravam d ia riam e n te os corpos nas sociedades m o dernas
ao passo que a inform ação os apaga ou os anula em seu fluxo
para adaptá-los a seus ritm os e com eles alim entar as engrena­
contínuo e veloz. Por isso sim plesm ente não haveria interlocu-
gens da industrialização. C ontudo, para os fins desta pesquisa,
ção nos choques entre professores e alunos que são tão h ab i­
caberia p erg u n ta r qual é a capacidade de a escola resistir a
tuais nos colégios co ntem porâneos, “pois tam p o u co há tem po
sem elhante m utação, e se essa e stru tu ra envelhecida estará
p ara que se estabilizem os referenciais o u se estabeleçam os
em condições de se adaptar às novas regras do jogo, tran sfo r­
fam osos acordos sobre o sentido”.187
m ando-se de um m o d o efetivo e interessante. Vale lem brar
N o entanto, ainda que nad a disso esteja g arantido com o
que a ru p tu ra que inaugurou este novo horizonte ao provocar
" algo preestablecido e institucionalizado, sem pre existe a possi­
a crise do m odelo anterior foi, em boa m edida, fruto do suces­
bilidade de p roduzi-lo: inventar em cada caso, com esforço
so daquele projeto disciplinar em seus esforços de form atação
e coletivam ente, as possibilidades de en co n tro e de diálogo,
co rp o ral. Esse “trab a lh o insistente, o b stinado e m eticuloso
en u n cian d o as regras e as condições que p erm itam h abitar
que o poder exerceu sobre o corpo das crianças” acabou p ro ­
em conjun to cada situação. Nesse sentido, a p ro p o sta da se-
vocando, segundo Foucault, u m efeito de rebeldia co n tra tais
m ióloga arg en tin a revela-sé m uito valiosa p ara os1objetivos
poderes, q u e tiveram que recu a r e reconfigurar suas forças
deste ensaio:.“N ão é restabelecendo os códigos deteriorados
para p oder se ad ap tar ao novo q u ad ro sem perder sua eficá­
pelo esg o tam en to das in stituições que vam os nos ligar aos
cia.189 Assim, todo esse estím ulo disciplinador que foi descar­
outros.” P ortanto, não se tra ta de te n tar reátaurar o que está
regado nos corpos infantis e adolescentes resultou n u m des­
fatalm ente perd id o , não só p o rq u e seria inútil, m as p orque
p erta r das forças corporais, com as decorrentes revoltas cujo
provavelm en te não é desejável; ao c o n trá rio , seria preciso
sím bolo é o m ítico 1968, que assinalam os. Afinal, foi naquele
. “pensar os m o d o s pelos quais nos com unicam os sem supor
m o m en to que os corpos dóceis, obedientes, esforçados, repri­
u m código c o m p a rtilh a d o ”.188 M as as dúvidas são irrtensas:
m idos, confinados, trabalhadores, disciplinados e úteis inicia­
com o dialogar,'ensinar e ap ren d er em novas circunstâncias tão
ram sua alegre conversão para os corpos vorazes, ansiosos,
desafiadoras? Talvez a resposta seja esta: in stitu in d o em cada
flexíveis, perform áticos, hedonistas, narcisistas, hiperativos,
caso o papel do o u tro e o de si m esm o, pensando e enunciando
m utantes, consum idores, conectados e úteis da atualidade.
sem pre as regras segundo as quais serão organizadas as signi­
ficações. Em face da co n tu n d ên cia da lei universal, fincada no
m agno p o d er estatal, essa solução p o d e parecer fraca dem ais.
M as talvez convenha ex plorar as potências dessa fragilidade

178
179
S a la s de aula inform atizadas
e conectadas: muros para quê?

Faz algum tem po que os gritos são ensurdecedores: a escola


tin h a que e n tra r em ó rb ita e, de fato, o im postergável já está
acontecendo. Nessa tentativa de atualização, lançou-se o u tra
estratégia bastante ousada e geradora de incontáveis disputas:
a que contem pla os projetos inicialm ente conhecidos com o
“u m co m p u tad o r p o r aluno”. Após alguns anos de discussão e
m uitas dúvidas, estão sendo im plem entados em várias regiões
ou em países inteiros da A m érica Latina, com o o pioneiro
U ruguai e, em seguida, a A rgentina, en q u an to perm anecem
em discussão ou com o experiências-piloto em outros países,
entre os quais o Brasil. Iniciativas com o essas partem da evi­
dente constatação de um a defasagem , que constitui a m edula
deste livro e pode ser resum ida dá seguinte form a: enquanto
os a lu n o s de hoje vivem fu n d id o s com diversos dispositivos
eletrónicos è digitais, a escola continua obstinadam ente arra i­
gada em seus m étodos e linguagens analógicos; isso talvez ex­
plique p o r que os dois não se en ten d em e as coisas já não
funcionam com o se esperaria. A nte esse q uadro e essa h ip ó te­
se, quase todos concordam em que ta n to a instituição de ensi­
no, em geral, q u an to o desprestigiado papel do professor, em
particular, deveriam se ad ap tar aos tem pos da internet, dos
celulares e dos com putadores. Por isso, apesar dos enorm es
investim entos de capital exigidos p o r esses program as, equipar
os colégios e seus habitantes com tecnologia de p o n ta parece
ser o prim eiro passo para ten tar vedar essa brecha.
Apesar de dispendioso e tem erário, esse prim eiro passo é o
m ais fácil de dar. Pois a tão buscada adequação entre a escola
e o m u n d o atual não deve lim itar-se a “usar as tecnologias

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P A U L A SI BI LI A • R E D E S OU P A R E D E S

com o recursos didáticos”, o u a “fazer da telem ática u m in stru ­ países da região. Esse gesto im plicou abrir as portas das escolas
m ento a favor do barateam en to e da dissem inação do ensino”, para a entrada dos novos dispositivos digitais, em vez de elas
com o alerta Alfredo Veiga Neto. Esse tipo de reducioriism o é se en trincheirarem em seu interior m ais ou m enos im poluto
bastante habitual e costum a revelar u m apego àquilo que m u i­ com o se fossem ilhotas de resistência em m eio ao oceano h o s­
tos consideram “a velha e boa escola m o d ern a”, segundo a ex­ til da contem poraneidade. Esse tipo de rejeição, h ab itu alm en ­
pressão do m esm o au to r.190 Em tais casos, a aparelhagem téc­ te envolto num a roupagem defensora dos antigos valores em
nica é considerada u m m ero in stru m en to a ser in co rp o rad o decadência, revela-se conservador no pior sentido e, além dis­
às práticas escolares, com o se fosse u m a ferram enta n eu tra so, é provável que seja estéril o u até suicida. N o entanto, ta m ­
capaz de atualizá-las, rem ed ian d o assim a tão p ro clam ad a bém não se devem ignorar os perigos im plícitos no cam inho
crise. É evidente que essas adaptações tam bém são necessárias escolhido: essa a b e rtu ra h istó rica talvez seja equivalente a
e até prom issoras, m as seria ingénuo acreditar que soluciona­ abrir a caixa de Pandora, já que ninguém sabe o que vai acon­
rão por si sós os com plicados problem as que foram discutidos tecer quando esses dois universos o u tro ra incom patíveis —
- ao longo deste ensaio. C o m efeito, n em os com putadores nem o dispositivo pedagógico e as redes inform áticas -— te rm in a­
a in tern et n em os telefones celulares são recursos “n eu tro s”, rem de se fundir ou, então, entrarem em colapso.
com o se costum a dizer, cuja eficácia dependeria da utilização Assim, o prim eiro passo — o m ais fácil, em b o ra sem des­
que lhes é dada. Ao contrário, com o ocorre com todas as m á ­ m erecer suas dificuldades — já foi dado o u está em vias de ser
quinas, essas não são boas nem más, po rém tam pouco se pode consum ado. Isso im plica, em princípio e evidentem ente, um a
supor que sejam neutras. C arregam consigo u m a série de va­ vitória em relação aos processos que costum am ser cham a­
lores e m odos de uso que estão im plícitos, p o r m ais que sem ­ dos de “inclusão digital” o u “alfabetização inform acional”, por
pre exista certo grau de flexibilidade, agenciam ento, experi­ p erm itir o acesso e a fam iliarização de todos os alunos e d o ­
m entação e ap ro p riação p o r p arte de seus psuários, m as isso centes com um a párafernália prim ordial para desenvolver vá­
não significâ q u e não po ssu am sua p ró p ria m aterialidade e rios aspectos da vida contem porânea. Isso é especialm ente
sua m arca bastante característica. válido para os program as que não restringem o uso dos apare­
lhos ao âm bito escolar e possibilitam que estes sejam levados
Para além dessas questões, que estão Jonge de ser detalhes
sem im portân cia, no final da p rim eira década do século XXI para o lar, com o é p caso de C onectar Igualdad, o projeto im ­
e com eço da segunda, após várias m archas e contram archas, plem entado em 2011 pelo M inistério da Educação da A rgen­
os órgãos públicos de diversos países com eçaram a d istrib u ir tina. É claro que essa decisão acarreta outros inconvenientes,
centenas de m ilhares de co m p u tad o res p ortáteis a alu n o s e já que os equipam entos ficam sujeitos a m uito m ais riscos de
professores, e in stalaram term inais de acesso à in tern et p o r roubo e avarias, m as é provável que valha a pena em virtude
b an d a larga nas-escolas de sua jurisdição. Sem dúvida, trata-se de seus m éritos, sobretudo em países nos quais as diferenças
de um a a titu d e corajosa, repleta de riscos, m as tam b ém lo u ­ socioeconôm icas são m uito graves e o acesso a esse tipo de
vável apesar de seus custos altíssim os — n ão apenas eco n ó ­ artefato está longe de ser igualitário ou garantido pelo livre
m icos — , que foi abraçada com entusiasm o e garra em vários jogo do mercado.

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U m a vez d ad o esse p rim eiro passo, p o rém , a escola in ­ pelo visto, continuará a ocorrer p rio ritariam en te entre as p a ­
form atizada terá de en fren tar desafios gigantescos. Por isso, redes da sala de aula. Nesse sentido, tam bém foram realizados
apesar das gran d es expectativas que suscita essa am biciosa trabalhos sérios de criação de m ateriais didáticos em form ato
novidade, ela tam b ém co stu m a g erar m u ita desconfiança a digital, que contem plam o apoio à capacitação dos professores
respeito de suas possibilidades de êxito, ainda que o processo e a im p lem entação de foros para co m p artilh ar dúvidas o u
já esteja em plena m archa e p rovoque experiências inéditas experiências. A inda assim, o risco m ais am eaçador é que os
nas vidas de m ilhões de pessoas. E ntre as críticas m ais h ab i­ aparelhos se convertam n u m novo e poderoso agente de dis­
tuais figuram os problem as que surgirão com os inevitáveis persão ou de fuga do confinam ento, o qual parece haver p er­
furtos e o decorrente tráfico ilegal das m áquinas, assim com o did o seu sentido, de m o d o ainda m ais evidente ao ser infor­
os altos custos de m an u ten ção de to d o o sistem a e a dificulda­ m atizado. D epois de p e rm itir o acesso ao fluxo — m esm o
de de im plem en tar soluções técnicas eficazes p a ra aten d er à sabendo-se que, de fato, seria tolo o u inútil te n tar barrá-lo — ,
m iríade de pequenas necessidades do dia a dia, visto que são agora o problem a será “ensinar” a lidar com ele. Trata-se de
m ilhões de usuários intensivos e em co n stan te renovação. E n­ algo extrem am ente difícil, para o qual os professores deveriam
tretan to , para todas essas questões se idealizaram respostas, ser “capacitados” tan to ou m ais do que para lidar com os co m ­
desde o design de eq u ip am en to s à prova de choques e outros p u ta d o re s e seus p ro g ram a s d idáticos. M as o p ro b lem a é
acidentes, p o r exem plo, até travas de segurança que os desa- m aior ainda, pois talvez ninguém saiba realm ente em que con­
bilitem após qualq u er suspeita de roubo, assim com o a capa- siste esse ensino, e é m uito duvidoso que os docentes co n tem ­
citação e a co n tratação èm m assa de técnicos profissionais. p o rân eo s possam assu m ir essa tarefa te n d o -sé dissolvido o
A continuidad e do projeto tam bém é o u tro p o n to inquietante, m i t n da t r a n s m i s s ã o , sobretudo nesse cam po em que os jovens
já q u e tanto o hardware q u an to o software req u erem atu ali­ parecem “saber” m ais que eles.
zações periódicas, e o esquem a de apoio in stitucional a um N o contexto atual, “qualquer conexão p ro d u z efeitos d is­
program a de tam an h a m ag n itu d e não deve ser m enosprezado. persivos”, lem bra C ristina Corea. “Sem princípio de a u to rid a ­
Seja com o for, todas essas ressalvas relativas a questões téc­ de n em código estabelecido, to d a conexão com o fluxo, to d a
nicas p o d eriam ser resolvidas sem m aiores problem as, ainda intervenção, p ro d u z u m a m ultiplicidade dispersa de efeitos”,
que im pliquem altos investim entos em to d a sorte de recu r­ acrescenta a m esm a autora. “Sem código e sem instituições,
sos, além de m u ita paciência d u ran te o necessário p erío d o de q u alq u er recepção põe em evidência a fragm entação.” D iante
adaptação até que u m sistem a dessa envergadura term in e de dessa pulverização das condições de recepção que o dispositi­
se ajustar. vo pedagógico costum ava garantir, a conexão deve ser m uito
Em o u tro nível, p o rém , a discussão to rn a-se m u ito m ais seriam ente pensada p ara evitar-se que gere p u ra desagregação.
com plexa e fu n d am en tal, com o p o r exem plo q u an d o se q u es­ P or isso há pelo m enos duas operações que agora é necessário
tio n a até que p o n to a tecnologia se in teg rará a u m p rojeto efetuar e que eram dadas p o r certas nos velhos tem pos in stitu ­
pedagógico realm ente inovador, capaz de co n ce n trar de novo cionais: “P roduzir condições de recepção e agir sobre os efeitos
a atenção do co n ju n to de alunos n a aprendizagem — a qual, dispersivos.” N en h u m a dessas duas tarefas é sim ples, já que a

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p o r u m a experiência ju n to com os dem ais. Esse efeito se evi­


tendência im pele os sujeitos con tem p o rân eo s a se conectarem
autom aticam en te e ig n o rar qualquer política relativa aos efei­ dencia nos usos m ais habituais do chat pela internet, que se
tos dessa atividade. A sim ples disponibilidade de alternativas configuram com o m era “função fática”, p o r exem plo: algo p a ­
interativas ou a possibilidade de in terv ir no desenvolvim ento recido com o que costum a acontecer com boa parte das m e n ­
das n arrativ as com o u m “u su ário ativo” p o r exem plo, não sagens de texto o u na utilização do celular em geral, assim
garantem a qualidade dos resultados n em sua transform ação com o do Twitter e do Facebook, de blogs e fotologs, e até dos
em diálogo, experiência ou pensam ento: isso dependerá das vídeos divulgados no YouTube. Nesses casos, o canal não está
operações que cada u m realize, e, p ara consegui-lo, será preci­ a serviço da m ensagem , m as ao contrário: serve tão som ente
so estar preparado. “C onvém d istinguir entre o sim ples atuali- com o algo a que é possível nos agarrarm os para sobreviver à
.zador que se conecta e navega sem o p e ra r”, p o r u m lado, e dispersão, m antendo-nos conectados. “Q u ando os jovens b a ­
aquele que dispõe de algum a estratégia o u realiza algum a o p e­ tem papo nos chats, eles não contam coisas uns aos outros,
ração tendente a d ar sentido ao fluxo, p o rq u e são dois tipos de m as perm anecem em contato; não se detêm para pensar no
conexões diferentes: dois m odos distintos de lidar com a in ­ que lhes diz o outro, m as ‘vão m andando o que sai’”, exem pli­
form ação ou de h ab itá-la.191 Cabe sugerir, p o rtan to , que a es­ fica Corea. “N ão pensam no que dizem ”, acrescenta, ao passo
cola inform atizada do, século XXI teria que ser u m espaço ca­ que “qu ando se escreve um a carta, tom a-se tem po para lê-la,
paz de ensinar os alunos a se con stitu írem com o esse últim o para corrigi-la”; nas condições atuais, entretanto, “dissolve-se
tipo de subjetividade. não apenas o código, mas tam bém a p ró p ria com unicação.” 193
Todavia, vale a pen a insistir nas dificuldades im plícitas nes­ Por isso nessas práticas m ais contem porâneas não haveria co­
sa m eta. A conexão às redes dissolve o espaço — sobretudo m unicação nem diálogo, m as contato o u interação, o u seja,
aquele que é p au tad o pelo c o n fin a m en to ,— , m as tam b ém di­ aquilo que costum am os cham ar de conexão.
lui o tem po, am bos com o fontes capazes de organizar a expe­ É p o r esse mesttno m otivo qué, às vezes, os jovens co n ti­
riência. Assim, esta passa a ser co n stru íd a na pu ra velocidade n u am a assistir às aulas, m esm o que o confinam ento tenha
dissolvente dos fluxos inform ativos. “N a dispersão há frag­ p erd id o seu sentido e que a situação de aprendizagem nunca
m entos que navegam e que,, q u an d o não conseguem se aco­ chegue a se consolidar: haveria nesse gesto o u tro s m otivos,
plar, en tra m em ch o q u e”, descreve Lewkowicz, esclarecendo com o o m ero fato. de “estarem ju n to s” com partilhando essa
que essa aglutinação já não se pro d u zirá “a p artir de u m co n ­ coesão m ínim a, porque isso seria preferível à intem périe e à
tinente que lhes dê form a”, com o costum ava o correr o u tro ra, dispersão de um tem po-espaço desprovido de m uros e o u tras
p o rém graças a “u m a operação Capaz de criar u m rem an so ”.192 ancoragens. “Q u an d o a subjetividade não está co n stitu íd a,
De fato, ainda que isso pareça co n trad itó rio com o significado q u an d o ela é supérflua, o fato de ter u m lugar aonde ir, chegar
m ais evidente da palavra aqui usada p ara designar essa nova a u m lugar, já é algum a coisa para enfrentar a incerteza to tal”,
m o d alid ad e triu n fa n te de relação co m o p ró x im o e com o esclarece Corea, em bora o que efetivam ente acontece n a sala
m u n d o , ã sociedade inform acional não conecta, m as tende a de aula não corresponda à expectativa escolar o u universi­
desligar, dificultando as possibilidades de dialogar ou de co m ­ tá ria.194 Ante o desvanecim ento da solidez institucional, n in -

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guém tem m u ita certeza de existir (de ser alguém ) o u de não dos jovens e pode inclusive bloqueá-las q u an d o o considerar
ser prescindível p ara os dem ais, de m o d o que a subjetividade necessário. Essa possibilidade de c o n tro la r e in terferir nos
se constitui nessas estratégias de vinculação que se to rn ara m com putadores dos alunos pode não se lim itar ao h o rário de
tão vitais. Daí a en o rm e im p o rtân cia, de novo, das redes e dos aulas n em tam pouco ao perím etro do prédio escolar, d e p e n ­
contatos para esse tipo de subjetividade, o que toca em cheio d en d o do projeto de que se trate. N ão é raro que esses privilé­
no âm ago da co n trad ição de que tra ta este ensaio. O m eio in- gios do professor provoquem certa resistência nos alunos, b a ­
form acional e m idiático funciona m u ltip lican d o as conexões, seada no tem o r de que seus equipam entos sejam invadidos
em vez de atenuá-las, com o costum ava fazer a instituição es­ pela autoridade. Em co n trap artid a, tam b ém não seria estra­
li­
colar. Então, com o conciliar as d u as tendências e conseguir n h o os professores ficarem inseguros de seu dom ínio pessoal
que se p ro d u za algum a aprendizagem ? “O usu ário eficaz dos da tecnologia, chegando m esm o a desconfiar de que os jovens
dispositivos de inform ação é hipercinético, não só p o rq u e a possam ser capazes de b u rlar a program ação dos sistem as para
velocidade da inform ação é a velocidade da luz, m as p o rq u e o fazer coisas indevidas.
m eio inform acional exige que ele esteja ‘a m il’, hiperconectado Seja com o for, essa desigualdade nas prerrogativas de cada
em diversas interfaces desarticuladas en tre si”, alerta C o rea.195 categoria de usuário — docente e aluno — tam p o u co condiz
Esse é um traço im prescindível p ara os estilos de vida co n tem ­ com os usos e costum es que envolvem o conceito de rede. Ao
porâneos, não u m distú rb io patológico, ainda que seja in c o n ­ co n trário, parece até reproduzir a lógica do dispositivo p ed a­
gruente com o desem penho pedagógico. Por isso, q u an d o o gógico; p o rtanto, tam b ém é provável que se to rn e u m a fonte
tem po e o espaço se to rn a m caóticos, é preciso desenvolver de conflitos e negociações. O u tro p o n to igualm ente p ro b le­
estratégias ativas p ara in terv ir nessa desordem em busca de m ático ê o fato de a e stru tu ra da sala de aula perm anecer fiel
coesão e p ensam en to : u m trab alh o p e rm a n en te p ara evitar ao esquem a tradicional, com a única ressalva de ter in co rp o ra­
que tu d o se dissolva. Estará a escola em condições de assum ir do novas ferram entas consideradas m ais o u m enos “n eu tras”.
tam an h o com prom isso? C o n tu d o , m antêm -se idênticos os principais ingredientes do
O papel d a in te rn e t n a sala de aula é fu n d am e n tal p ara velho dispositivo. Em prim eiro lugar, o espaço fechado do re­
pensar estas questões. De fato, n em sem pre o acesso à rede cinto. Em seguida, as carteiras em que as crianças o u os jovens
global é ab erto e irrestrito nos p ro g ram as educacionais que se sen tam e, à frente delas, um a escrivaninha para o m estre
ap o n tam para a inform atização escolar, m esm o que esse tipo que, dessa m aneira, co n tin u a a ser aquele que “professa”. A seu
de lim itações n ão pareça estar de acordo com a ideologia in ­ lado e diante de todos, o qu ad ro -n eg ro — seja eletrónico e
form acional e, m u ito provavelm ente, venha a gerar conflitos. m ultim idiático o u não — , sem pre com andado pelo docente.
E m princípio , os co m p u tad o res u sad o s em aula co stu m am Além disso, os h o rário s pautados do m o d o habitual, com p e ­
estar interconectadôs p o r m eio de u m a rede in tern a baseada ríodos regulares cortados p o r recreios igualm ente estáveis. Por
n u m servidor local que abarca todos os alunos e o docente de ú ltim o , a rede in fo rm ática co n tro lad a pelo professor, cujas
cada tu rm a. O eq u ip am en to do professor, p o r sua vez, está capacidades são distintas e m uito m ais am plas que as de todos
apto a m o n ito ra r as atividades desenvolvidas nas m áq u in as os m em bros da tu rm a, e incluem a possibilidade de observar

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unidirecionalm ente e até intervir do m esm o m odo nos equi­


ta m b ém sem n en h u m a possibilidade de reação. Fica claro,
pam entos dos alunos.
aqui, que nossa tragédia deixou de ser a opressão pelo confina-
N ão é à to a que tu d o isso se revela potencialm ente con­
m ento e pela lei, sim bolizada por figuras com o o professor, o
flitante: afinal, trata-se de um a tentativa de pro d u zir a hibrida-
diretor, o pai, o panóptico, o regulam ento, as advertências e as
Vão de dois regim es tão diferentes — inclusive contraditórios,
suspensões, o boletim e as paredes duríssim as que confisca­
ou até incom patíveis — com o são o dispositivo pedagógico
vam rigorosam ente o tem po cotidiano de cada aluno. A dm iti­
disciplinar e a conexão em redes inform áticas. A inda é cedo
do esse deslocam ento, não é difícil constatar que nem m esm o
dem ais para saber qual será o resultado dessa alquim ia; en tre­
os recursos policialescos incorporados aos com putadores dos
tanto, cabe assinalar algum as dúvidas e perguntas a p a rtir das
professores nesse tipo de program as, tam p o u co as câm eras de
.reflexões expostas nestas páginas. O que acontecerá se o fluxo
segurança que vigiam os edifícios escolares, funcionam exata­
inform ativo tam b ém invadir o in te rio r dos colégios? Apesar
m ente com o o velho panóptico, pois não se apoiam na lei nem
de todas as transform ações que o co rreram nos últim os tem -
na m oral disciplinar que cultuava a obediência. No caso dos
. pos, e da crescente inflúência que o universo m idiático e m er­
novos m étodos, bastará que se encontre a m aneira de burlá-
cantil foi im p rim in d o nos estilos de vida contem porâneos, a
-los o u fugir deles, com o m eros obstáculos que de fato são,
instituição escolar m apteve-se consideravelm ente isolada des­
para poder consum ar assim todas as possibilidades da cone­
sa vertente loquaz. O p eran d o com o u m a espécie de refúgio
xão sem as restrições herdadas da cosm ovisão analógica.
mais ou m enos im aculado, rio qual se agia segundo o u tra ló ­
No livro Os adolescentes e as redes sociais, dedicado a anali­
gica, a escola se en trin ch eiro u corno p ô d e p ara se proteger das
sar a influência dos novos recursos técnicos na “construção da
investidas que inundavam e tran sm u tav am o espaço exterior.
id e n tid ad e juvenil”, a especialista arg en tin a em educação e
Até m esm o a publicidade, que im p reg n o u quase tudo, p erm a­
m eios de com unicação Roxana M orduchow icz define qual é
necia relativam ente alheia a esse universo. Tudo isso m otivou,
“o principal m otivo da atração despertada pela internet nos
precisam ente, sua fam igerada crise atual. Então, agora que fi-
adolescentes: estar em comunicação com os amigos depois da
nalm erite se ab rira m essas co m p o rtas cansadas de resistir, qual
escola”.196 A au to ra o p tó u p o r destacar em itálico a atividade
será a função dos m uros que ainda insistem em perm anecer de
m ais usual e mais apreciada pelos jovens usuários de d isp o ­
pé? Se o dispositivo inform acional, com sua conexão em rede,
sitivos inform áticos. Porém , à luz do assunto tratad o neste
conseguir o cq p ar à vontade o espaço escolar, algo parece ine­
ensaio, talvez seja m ais adequado sublinhar a expressão que
vitável: o dispositivo pedagógico será abolido graças ao golpe
vem logo em seguida, com o um a espécie de ressalva: depois da
de m isericórdia do qual vem se salvando a duras penas.
escola. Essa restrição faz sentido e é provável que esteja certís­
Já não será preciso d erru b ar paredes, pu lar cercas o u esca­
sim a, mas cabe aqui o u tra im p o rtan te observação: as coisas só
pulir p o r entre,grades, n em sequer m ed ian te o etéreo álibi dos
continuarão a ser assim se o dispositivo pedagógico p e rm a n e ­
sonhos ou da im aginação, pois os antigos poderes do confi-
cer de pé, o u seja, se o confinam ento persistir em sua tentativa
n an ien to estarão desativados pelas on d as sem fios que os a tra ­
de resistir à dispersão, proibindo a conexão. E ntretanto, essa
vessarão. Sem m u ita querela e com sigilosa “elegância”, m as
resistência parece ter se esgotado, de m odo que o desafio se

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agiganta — sendo assim , para o bem o u p ara o m al, a últim a e tem pos. No caso dos adolescentes, e principalm ente no das
parte da frase citada há pouco terá que ser elim inada. crianças, a situação é m ais com plexa, pois não se trata so ­
Assim com o a relação professor-aluno em rede, talvez os m ente de receber um conjunto de instruções para o desen­
usos escolares do tem p o e do espaço — herdados de m odo volvim ento profissional de certas habilidades, m as de um p ro ­
quase intacto do velho dispositivo pedagógico —- devam ta m ­ jeto educacional m ais am plo que inclui a socialização infantil
bém ser repensados e reform ulados de form a radical. U m pos­ no am b iente cu ltu ral e, fu n d am e n talm en te , u m lugar para
sível cam inh o para atin g ir essa m eta seria in c o rp o ra r as m o ­ se estar d u ran te certo tempo, em quase todos os dias do ano.
dalidades cada vez m ais em voga de e-learning o u educação Algo que, em últim a instância, b em poderia ser substituído
a distância. De fato, essas experiências estão em veloz cres­ p o r u m galpão ou um a espécie de depósito. Por isso raros
cim ento em to d o o m u n d o e parecem especialm ente bem - são os projetos com o o das escolas suecas de ensino básico
-sucedidas no caso do ensino su p erio r, em b o ra ain d a haja adm inistradas pelo grupo educativo V ittra, u m a das quais —
certa desconfiança em relação à falta do co n tato físico p ro ­ ch am ad a Telefonplan e situada em Estocolm o — foi in a u ­
m ovido pelo co n fin am en to espaço-tem poral característico da g u rad a em 2011 com a p ro p o sta de “fazer um a experiência
educação form al m o d ern a. M as, em 2012, d ian te do im p etu o ­ d erru b an d o as paredes das salas de aulas e p o n d o um laptop
so avanço dessa novidade, o M inistério da Educação brasileiro nas m ãos de cada aluno”. Nesse estabelecim ento, su rp reen d en ­
chegou a to m ar a drástica decisão de vetar esse tipo de recur­ tem en te gratuito, o projeto do espaço “assem elha-se m ais a
sos no ensino m édio, p o r exem plo, m esm o nos casos em que u m peq ueno parque de diversões ou aos escritórios de um a
se tra ta de u m á com plem entação. parcial das atividades p re­ em presa com o G oogle do que a u m a escola trad icio n a l”.199
senciais.197 A inda assim , de uns tem pos para cá, essa m o d alid a­ Nessa escola sem salas de aula, sem tu rm as e sem notas, os
de com eça a ser cada vez m ais aceita, so b retu d o nos p ro g ra­ alunos se distribuem livrem ente pelos am bientes “flexíveis e
m as educativos dirigidos a adultos: no Brasil, p o r exem plo, articulados” que com põem sua arq u itetu ra, de m o d o que p a ­
15% dos alunos m atriculados em cursos universitários já os recem trabalhar de form a a u tó n o m a com seus com putadores
fazem a distância. Essa cifra em intenso avanço inclui ta n to os portáteis: onde, q u ando e com o lhes for m ais confortável e
program as que p o d eriam ser qualificados com o gourm et — conveniente. Entre as ideias que respaldam esse projeto, sua
destinados a profissionais em plena atividade que desejam se d ireto ra destaca a intenção de que a curiosidade e a criativi­
atualizar o u especializar, m as não têm tem p o p ara desperdiçar dade floresçam nas crianças, além da sem pre enfatizada perso­
com m inúcias — q u an to as ofertas fa st fo o d que se m u ltip li­ nalização: “Os jovens têm currículos individuais, projetados
cam no o u tro extrem o do leque, com u m perfil de clientela segundo suas p ró p rias necessidades e capacidades.”200 Cabe
“m ais velha e m ais p o b re”, ou seja, aqueles q u e não p o d em se ressaltar, porém , que em bora se prescinda de paredes internas,
d ar ao luxo de freq u en tar u m a escola trad icio n a l.198 m esm o nesse caso, os m uros que separam o edifício escolar do
De qualq u er m o d o , p ara os adultos q u e desejam se capa­ m u n d o exterior co n tin u am presentes; e estes são b em m ais
citar, está claro que é m ais fácil e pode ser cada vez m ais sensa­ essenciais que os outros q u ando se tra ta de definir u m a insti­
to o p ta r p o r essas ofertas m ais flexíveis em term o s de espaços tuição de confinam ento.

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S A L A S DE A U L A I N F O R M A T IZ A D A S E C O N E C T A D A S : M U R O S PA RA QUÊ?
PA U L A S I BI LIA - R E D E S OU P A R E D E S

Algo assim tam bém foi constatado p o r C ristina Corea, a


Ainda assim, essas iniciativas mais ousadas são escassas no p artir de sua própria experiência n u m sem inário de pós-gra­
âm bito da educação infantil e até no ensino m édio; p o r isso duação efetuado nas duas m odalidades, que ela m esm a coor­
ainda surpreendem e deflagram polêm icas. N o cam po univer­ denou. “O presencial era supervalorizado em relação ao vir­
sitário, em co n trap artid a, é cada vez m ais habitual que se m i­ tu al”, concluiu a professora, em bora sua hipótese inicial tivesse
nistrem cursos inteiros de graduação ou pós-graduação a dis­ sido de que “a presença, o fato de com partilhar um espaço e
tância, en q u an to se fundam “laboratórios sem paredes” com u m tem po instituídos, outorgava à situação pedagógica um a
tem poralidades flexíveis e vocação global; aí, sim , os m uros espessura, um a envergadura e algum as qualidades que o vir­
externos se desvanecem em b o a m edida. Acontece que o perfil tual não tinha”. C ontrariam ente a esse preconceito ainda co ­
do estudante adulto co n tem p o rân eo se ajusta de m odo mais m um , porém , descobriu-se que “a m odalidade virtual perm ite
dúctil à figura em p reen d ed o ra e proativa que essas propostas u m a sustentação do vínculo pedagógico que hoje a m o d alid a­
solicitam : alguém capaz de traçar sua carreira em to rn o de de presencial não tem ”. Isso em vários sentidos, inclusive no
projetos individuais p ara se diferenciar e vencer os outros. Vale mais básico de todos: nos cursos universitários, os grupos p re­
lem brar, porém , que isso é quase o inverso da vocação integra­ senciais costum am se encontrar u m a ou duas vezes p o r sem a­
d o ra e hom ogeneizante esgrim ida pelo antigo dispositivo p e­ na, enquanto a interação on-line é m uito m ais frequente, pois
dagógico. N o entanto, há u m detalhe im p o rtan te: para ap ro ­ a ubiquidade do dispositivo p erm ite que cada um se conecte
veitar um pro g ram a de e-learning, necessita-se de dedicação e q u an d o está em condições de participar, o que nem sem pre
perseverança, além de u m a capacidade de concentração que acontece nas salas de aula com uns. Portanto,,essa flexibilidade
perm ita estu d ar em am bientes não escolares. Pór o u tro ládo, p o d e constituir “u m a grande vantagem com relação à in s ti^
cada aluno tem que organizar o p ró p rio h o rário de estudos e, tucionalidade da aprendizagem presencial, que fixa um h o rá ­
com frequência, é preciso conciliar essas atividades com um rio e u m lugar, um a distância real que é preciso p ercorrer”.202
o u vários em pregos. P or tu d o isso, e apesar dos preconceitos C onstata-se, assim, algo inesperado: dadas as transform ações
q ue ainda estigm atizam a educação a distância, “m uitas vezes, ocorridas na subjetividade dos estudantes — e dos professores
o aluno da educação a distância é m ais dedicado que o da e d u : — no contato crescente com as ferram entas digitais, a fluidez
cação convencional”, conform e explica a pedagoga C laudete das possibilidades de conexão pode ser mais proveitosa para o
Paganucci, au to ra de u m a tese sobre o assunto, ressaltando que aprendizado que a rigidez do confinam ento.
“aprender em casa exige disciplina e persistência”. Essas quali­ Além disso, o u tra surpresa com que esse tipo de experiên­
dades, porém , não parecem fazer p arte do cardápio básico das cias costum a deparar é que os efeitos da dispersão parecem
crianças e dos jovens atuais, desprovidos das m arcas antes m ais insidiosos na sala de aula que na interação a distância.
im pressas pelas instituições disciplinares. M as a interação pe­ “A presença institucional, tal com o foi pautada pela cham a­
las redes inform áticas “p o d e fu ncionar m elhor do que na sala da m odalidade presencial, que a rigor deveria ser cham ada
de aula”, acrescenta a m esm a especialista, “já que o aluno tem de tradicional, é altam ente dispersiva”, afirm a Corea, já que
a possibilidade de d iscu tir individualm ente — e repetidam en- “a dispersão não está na internet, m as em nós”.203 Assim, p o r
te — com o professor sobre o conteúdo trab alh ad o ”.201
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exemplo, além do cansaço e da d ecorrente distração, o exer­ desconhecim ento, m as pela sensação de vazio e pela desorien­
cício da opinião — que é o u tro dos obstáculos mais habituais tação: p o r certa perda de sentido derivada da falta de con­
à produção de p en sam en to — costum a se exacerbar na sala de sistência daquilo que se lê o u se escreve nas redes, p o r exem ­
aula presencial, ao passo que p o d e ser in ib id o nos debates plo. Por isso a necessidade de im p rim ir ou o hábito de to m ar
m ais form ais cujo su p o rte é a palavra escrita, m esm o que eles notas à m ão podem ser pensados com o vestígios das velhas
ocorram via in tern et. Por isso as tecnologias de inform ação práticas pedagógicas, assim com o o desejo de presença na si­
podem funcionar com o estratégias coesivas e, de fato, são cada tuação de aprendizagem ; m as talvez tam bém sejam estratégias
vez m ais usadas co m o um apoio extra nos cursos tradicionais: tendentes a gerar certa densidade no caos centrífugo da dis­
m o n tam -se foros de discussão e se enviam m ateriais co m ­ persão. Se o saber ou o conhecim ento que se transm itia segun­
plem entares p o r correio eletrónico, p o r exem plo. Talvez co u ­ do as regras escolares tradicionais po d ia ser excessivam ente
besse, então, ch am ar de o u tra m an eira essas novas práticas: sólido e consistente, além de categórico e taxativo dem ais em
a aprendizagem pelas redes inform áticas não se define neces­ sua am bição de representar a verdade, a inform ação sofre de
sariam ente pela falta da presença, pela distância ou pela expe­ volatilidade e fragm entação. De algum m odo, as aulas infor­
riência de um a ausência, m as p o d e co n stitu ir u m tipo de v ín ­ m atizadas terão que enfrentar essas condições e fazê-las fu n ­
culo mais produ tiv o que aquele engendrado no confinam ento. cionarem a seu favor.
N o entanto, é m u ito pouco o que se sabe até agora nesse te rre ­ U m a notícia divulgada recentem ente p roduziu u m im pac­
no ainda ex p erim en tal, so b retu d o no caso da educação de to sim bólico que pode ilustrar esses processos. A célebre Enci­
crianças e adolescentes — em b o ra se trate, sem dúvida, de u m clopédia Britânica, em blem a d o dispositivo pedagógico m o ­
cam inho a ser explorado. d ern o que com eçou a ser publicado em 1786, deixou de ser
É claro que tam b ém será preciso ap ren d er a lidar com a im pressa em 2012 para se tran sfo rm a r em u m site da internet.
volatilidade ineren te ao cam po “v irtu a l” caracterizado pela A decisão foi o corolário de u m a batalha perd id a p ara in i­
condição evanescente da inform ação, p eran te a qual é preciso ciativas com o a Wikipedia: e n q u an to esta últim a, q ue vem
desenvolver estratégias ativas de ap ro p riação . N ão se tra tá sendo coletivam ente criada há apenas u m a década, contabiliza
exatam ente de arm azen ar e registrar, operações que são típ i­ 10 m ilhões de consultas diárias em seu serviço on-line e gra­
cas do dispositivo pedagógico; aqui, em co n trap artid a, o desa­ tuito, as vendas dos grossos volum es ingleses vêm caindo fra-
fio consiste em coagular e adensar o fluxo. “A acum ulação ou gorosam ente. Já faz vinte anos que a edição im pressa d a Britâ­
o arquivo trab a lh am para a in stitu ição do saber”, d istin g u e nica é com plem entada p o r m ateriais disponíveis na internet,
Corea, e n q u a n to “a coesão é necessária p ara tra n sfo rm a r a que colhem cerca de 100 m il visitas diárias, m as agora esse site
inform ação em algo utilizável o u significante”.204 Agora, não abrigará todo o m aterial à disposição de quem pagar algum as
basta registrar e arm azenar, pois co stu m am faltar o tem p o e a dezenas de dólares anuais. “É u m a m udança histórica m as faz
capacidade para filtrar ou m e tab o lizar as in fo rm açõ es que sentido, não só porque o público está na internet, m as ta m ­
fluem co n stan tem en te e se acu m u lam às toneladas. A subje­ b ém p o rque esse suporte p erm ite atualizar m ais rapidam ente
tividade m idiática n ão se sente am eaçada pela alienação do os co n teú d o s”, explicam os editores. N o en tan to , ainda que

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tente se atualizar, essa obra parece inserida na lógica escolar de


um m odo com parável a com o a Wikipedia encarna o que se
R esistir ao confinamento
está gerando agora. N ão só porque esta últim a nasceu em rede, ou sobreviver à rede?
e essa ubiquidade constitui sua m aio r v irtu d e — m esm o ao
preço de eventuais im precisões e bastan te volubilidade — ,
Se u m dos dram as históricos m ais vitais dos sujeitos m o d er­
m as tam bém p o rq u e ela se renova todos os dias em quase tre ­
nos que habitaram os séculos XIX e XX foi a busca da liberda­
zentos idiom as, graças ao trabalho voluntário de m ilhares de
de, escapulindo do ap risio n am en to disciplinar ou d esm as­
usuários de todo o m undo, e contem pla 20 m ilhões de tópicos,
caran d o seus m ecanism os, qual seria seu equivalente hoje?
enquanto sua ilustre ancestral letrada trata de apenas 75 mil
“M uitos jovens pedem estran h am en te para ser ‘m otivados’;
assuntos. É claro que ela contava com a solidez de textos assi­
solicitam novos estágios e form ação perm an en te”, assinalou
nados por figuras do p o rte de Sigm und Freud, Albert Einstein,
Deleuze no texto já citado. “Cabe a eles descobrir a que estão
M arie C urie o u Leon Trotski, m as ta m b ém foi acusada de
sendo levados a servir, assim com o seus antecessores descobri­
publicar artigos “defasados, burgueses, racistas ou sexistas”.205
ram , não sem dor, a finalidade das disciplinas.”206 H á algo que
hoje parece óbvio e, em larga m edida, simples: para escapar do
confinam ento, bastava c o n to rn a r ou d estruir os m uros, algo
que se conseguia enfrentando valentem ente as hierarquias ou
arreb en tan d o as trancas com jubilosa rebeldia. Essa vitória
com toques heroicos levava à conquista do rom anceado espa­
ço exterior, no qual não im peravam as odiosas n orm as dos
regulam entos: as ruas das cidades, os bares e os cafés, o cam po
e o mar. No entanto, fugir do controle em que estam os “en re­
dad o s” e sobreviver à saturação p o r hiperconexão parece bem
m ais difícil, talvez p o r se tra ta r de nossa p rópria batalha e por
nela estar em jogo nada m enos que nossas vidas.
O novo am biente propaga certa sensação vaga e am orfa,
m as m u ito insidiosa, de que já não haveria fo rm a de lu tar
co n tra o que existe: as coisas são assim e pro n to , até porque
não nos escapa que poderiam ser m u ito piores. N ão obstante,
talvez com o n u n ca antes, em bora o entusiasm o e as ousadias
possam an d ar escassos, não faltam jazidas onde buscar ingre­
d ientes capazes de gerar novas arm as e, com elas, te n ta r a
proeza de am pliar o cam po do possível. A filosofia, a ciência e
a arte são três dos territó rio s em que os sujeitos m o d ern o s
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convidavam sem m uitos rodeios a p ô r bom bas e fazer explodir


costum avam buscar essa m atéria-p rim a; no caso que nos o cu ­
a sacrossanta instituição escolar. Em //.., por exem plo, d iri­
pa aqui, por exem plo, a produção artística do últim o século foi
gido por Lindsay A nderson n o em blem ático ano de 1968, o
um im p o rtan te catalisador dessa m etam orfose, afora as lutas
cenário é um rígido colégio inglês e o enredo m ostra u m a re­
políticas, jurídicas e socioeconôm icas m ais óbvias. O co n junto
belião crua, liderada p o r o u tra figura alegórica do universo
de pequenas delícias e grandes sofrim entos inoculados pela
disciplinar em declínio: um estudante interpretado pelo ator
escola, em seu apogeu, encarnou-se em incontáveis obras lite­
M alcolm M cDowell, protagonista de Laranja mecânica.
rárias, desde o clássico Coração (1886), do italiano E d m u n d o
C o ntudo, em se tratan d o de m encionar cenas que se im p ri­
De Amicis, até O jovem Tõrless (1906), do austríaco R obert
m iram com força no im aginário coletivo, é im possível fugir
Musil, com suas tribulações m u ito m ais som brias, e as p rim ei­
daquela im agem de The Wall que m ostra um a fila bem alinha­
ras sublevações exaladas em O apanhador no campo de centeio
da de co rp in h o s infantis pateticam ente dóceis e úteis, todos
(1951), do n o rte-am erican o J. D. Salinger.*
uniform izados de azul-m arinho e sem expressão no rosto, que
Mas não su rp reen d e que o cinem a tenha sido o en carre­
se dirigem com passo firm e para u m m o edor de carne. M etá­
gado de m etabolizar com m ais vigor as insurreições que p ro ­
fora pouco sutil e bastante im placável dos m ecanism os esco­
piciaram o grande declínio. U m dos prim eiros bastiões dessa
lares, esse aparelho não fazia m ais do que hom ogeneizar as
epopeia é quase extem porâneo e já foi m encionado: o sim p á­
singularidades para tran sfo rm ar a jovem substância vital nos
tico m édia-m etrag em Zero de conduta, dirigido pelo jovem
tijolos idênticos que sedim entariam o im perturbável edifício
Jean Vigo em 1933, às vésperas de sua m orte, dois anos antes
da sociedade industrial. C orria já o ano de 1982, p o rém , e,
de ele com pletar trin ta anos. De algum a form a, esse film e se
ju stam ente p o r isso, tu d o vibrava ao som de um a m archa com
irm ana a Tempos modernos, o clássico que C harles C haplin
fú ria destrutiva: “ N ão precisam os de educação, não p reci­
dirigiu em 1936 e que co n tin u a sendo u m dos m ais c o n tu n ­
sam os de controle m ental, chega de sarcasm os obscuros na
dentes libelos co n tra as crueldades da sociedade disciplinar.
classe... professor, deixe os garotos em paz!” Assim, nesse m a ­
Essa genealogia p o d eria c o n tin u a r com o to m m elancólico
nifesto audiovisual sonorizado p o r P ink Floyd e film ado por
de Os incompreendidos, a o b ra au to b io g ráfica de F rançois
A lan Parker, ain d a que o severo docente em questão co n ti­
Truffaut que estreou em 1959, den u n cian d o escolas e reform a -
nuasse a descarregar diariam ente suas frustrações e sua p eq u e­
tó rio s em n o m e de u m a insu b o rn áv el liberdade criad o ra e
na dose de p o d er hierárquico naqueles m eninos aterrorizados,
juvenil. Por sua vez, Crónica de um nino solo, de Leonardo Fa-
a tela já denunciava sua decadência irrevogável. N o fim, a figu­
vio (1965), p o d eria se apresentar com o sua versão latin o -am e­
ra colossal do velho m estre cai ruidosam ente do pedestal e se
ricana. D epois v ieram outros filmes b em m ais enfáticos, que
d esbarata até ser m otivo de chacota, chegando a ser ridiculari­
zada n u m a im agem da vida conjugal: na m iséria de seu lar
* Edmundo De Amicis, Coração, trad. João Ribeiro. 45a ed. Rio de Janeiro:
p eq u eno-burguês, na h o ra do jantar, a tão tem ida autoridade
Francisco Alves, 1953 (Acervo Histórico do Livro Escolar —AHLE); Robert
Musil, O jovem Tõrless, trad. Lya Luft. São Paulo: Folha de São Paulo, 2003; escolar perde to d a a p o m p a e se subm ete aos abusos expressos
J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio, trad. Antônio Rocha Jorio pela d o m inação grosseira de sua esposa. Ficava assim rem ata­
Dauster e Álvaro Alencar. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1965. [N.T.]

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da, com um bom pontapé, a hecatom be de todas essas in sti­


M as vale a pena nos determ os n u m filme bem recente que
tuições disciplinares e seus respectivos valores.
p o d eria se en q u ad rar nessa m esm a categoria: trata-se do já
C aberia ainda m en cio n ar alguns belos filmes sobre profes­
m encionado Entre os muros da escola, que estreou com certa
sores que deixaram m arcas em seus alunos, so b retu d o pela
repercussão em 2008. O filme registra em cores vivas as peripé­
capacidade de lhes oferecer u m a brecha p ara fugir das a n ­
cias de outro tipo de mestres e, tam bém e principalm ente, de
gústias do confinam ento, usando a im aginação e o desejo de
o u tro s alunos. N um a cena paradigm ática, esses estudantes do
liberdade, em contextos de asfixia salpicada de férrea disci­ globalizado século XXI questionam o professor que tenta lhes
plina e outro s abusos do dispositivo pedagógico em suas ép o ­ ensinar a m anejar corretam ente sua p ró p ria língua: os jovens
cas gloriosas. Nesse co n junto se en q u ad ram A língua das m a ­ resistem a aprender os tem pos verbais da belle langue com cer­
riposas (de José Luis C uerda, 1999), A sociedade dos poetas to desprezo e m uita m á vontade, perguntando de que lhes serve
mortos (de Peter Weir, 1989) e Os coristas (de C hristophe Bar- desperdiçar sua energia aprendendo a conjugação do su b ju n ti­
ratier, 2004), assim com o T h a t’s w hat I am (de M ichael Pa- vo se “ninguém mais fala assim”; isso “é coisa da Idade M édia”.
vone, 2011) e M achuca (de A ndrés W ood, 2004). A pesar das De nada servem os titubeantes argum entos do professor, que
tragédias e dos finais pouco felizes que costum am ter as n a rra ­ chega a ser alvo de piadas quando confessa que na noite an te­
tivas desse tipo, u m d en o m in ad o r co m u m é que essas figuras rior, n u m jan tar com amigos, usara essa denigrida form a ver­
singulares dos m estres e x tra o rd in ário s sem pre conseguem bal. C om toques autobiográficos e u m estilo am biguam ente
deixar m arcas em alguns dos jovens com os quais p ro cu ram docu m ental, o filme dirigido p o r L aurent C antet baseia-se
dialogar. N ão é esse o caso de obras cinem atográficas b em n u m livro escrito p o r seu protagonista, o recém -m encionado
m ais desesperançadas, que abordam a m esm a tem ática com professor de francês François Bégaudeau, que se autointerpreta
desenlaces catastróficos, com o O senhor das moscas (de H arry em situações de inegável realismo. Assim, oscilando entre algu­
H ook, 1990) e A onda (de D ennis Gansel, 2008), ou o capítulo m as alfinetadas de sarcasm o inclem ente e certo tom nostálgico
d enom inado N ão ficção de u m filme u m tan to ácido in titu ­ em face da evaporação de um obscuro sonho de ordem , a tela
lado, em p o rtu g u ês, Histórias proibidas (de Todd Solondz, exibe algo que já se sabe: a incom patibilidade desses corpos
2001). H á tam b ém longas-m etragens que recorrem ao esque­ infantis e adolescentes de hoje com as antiquadas norm as cole­
m a oposto: alunos rebeldes ou problem áticos dem ais que fi­ giais. N ão parece haver m aneira de estabelecer u m diálogo en ­
nalm ente en co n tram u m professor redentor, com o em M entes tre essas inquietas subjetividades tão contem porâneas, com
perigosas (de John N. Sm ith, de 1995) e no clássico Ao mestre seus próprios sonhos e am bições, seus estilos de vida e suas
com carinho (de James Clavell, 1967). De certa m aneira, este realidades cotidianas, de um lado, e, de outro, a parafernália
últim o m odelo parece m ais caduco que o anterior, em b o ra escolar, com seus rançosos ritos disciplinares e sua inútil insis­
tência nas diferenças hierárquicas, seu respeito surrado pela
possa ressuscitar em versões heroicas de u m n aturalism o às
tradição letrada e sua aposta no valor do esforço a longo prazo.
vezes irrespirável, com o é o caso de Q uando tudo começa (de
N ão é à to a que o filme francês alude às práticas escolares,
B ertrand Tavernier, 1999).
a p a rtir do p ró p rio título, com o algo que ocorre encerrado
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“entre os m u ro s”. O co nfinam ento é u m a característica essen­ toda a superfície global e respondem com extrem a precisão.
cial do regim e que estam os a b an d o n a n d o p o rq u e seus d is­ Por isso não são apenas as paredes da escola que se d erru b am
positivos já não funcionam e to d a sua aparelhagem deixou de hoje em dia, m as tam bém as de o u tras instituições panópticas
ser útil. Agora, u m dos m ecanism os m ais eficazes p ara nos com o a prisão e o hospital público. Em alguns casos, esse de­
sujeitar não é o confinam ento, m as algo que está m u ito asso­ sabam ento chega a acontecer literalm ente — vidros e tijolos
ciado à conexão p erm an en te e voluntária: a dívida, tan to no que explodem com violência ou desm oronam p o r p u ra negli­
sentido literal q u an to no m etafórico. Os sujeitos c o n tem p o râ­ gência — , m as, em sua m aioria, acontece ao m enos n o plano
neos já não estão confinados, p o rém “endividados”, com o bem m etafórico, graças à infiltração sub-reptícia dos m uros pelas
detectou D eleuze, p o rq u e na sociedade de controle n u n ca se redes sem fio de com unicação, faturam ento e m onitoram ento.
te rm in a n ad a.207 Por isso hoje a b u n d a a sensação de q u e o T am pouco su rp reen d e, p o rta n to , que o filme de C antet
tem po é sem pre insuficiente e escoa depressa dem ais, de que term in e m o stran d o um a aparente h arm o n ia no jogo de fute­
tu d o é urgente e veloz, de que estam os atrasados e com várias bol que se realiza no pátio da escola parisiense, a céu aberto,
dívidas sim ultâneas, plasm adas em coisas p endentes que ja ­ com risos e outras m anifestações de descontração grupai entre
m ais se p o d erão consum ar. De fato, tem os u m a q u an tid ad e todos os protagonistas da tragédia educativa antes dissecada.
infinita de alternativas possíveis e u m a suposta liberdade de Ali, ao co n trário , fora das paredes, propaga-se u m a alegria
opção em todo s os planos, sem pre decalcada nos m oldes do espontânea, u m a leveza festiva que estava com pletam ente a u ­
m ercado; além disso, acredita-se que, nesse tu rb ilh ão de p o s ­ sente no quadrilátero confinado onde se pretendia tran sm itir
sibilidades m últiplas, n in g u ém deveria p erd er nada. O p r o ­ lições. Essas cenas de intercâm bio lúdico ao ar livre se en tre­
blem a é que, ao “sofrer p o r su p erflu id ez”, nada é filtrado e m eiam , em silenciosa conclusão, com im agens m udas da sala
p o u co se assen ta na p ró p ria experiência; em co n seq u ên cia vazia. N aquele espaço ésvaziado, porém , ainda ressoam ecos
disso, acabam os p erd en d o tudo. “É dem o lid o ra a sensação que da confissão de u m a das alunas, que até então havia p e rm a n e ­
tem os de que as coesões são contingentes ou precárias, os p ro ­ cido calada, m as que nesse instante final dispara — em tom
jetos não d u ra m m u ito e sem pre é preciso recom eçar”, co n sta­ solene e com m ais veem ência que em todas as o u tras frases
ta C ristina C orea.208 pro n u nciadas ao longo do filme — que não havia aprendido
A contece q ue a lógica da sociedade de controle em que v i­ nada em todo o ano letivo, que não entendia qual era o senti­
vem os funciona a cu rto prazo e é de rotação ráp id a, com o do do que eles faziam diariam ente n o colégio e que, apesar de
explicava D eleuze, m as ao m esm o te m p o é co n tín u a e ilim ita­ ainda lhe faltar u m ano de escolarização para decidir se p ro s­
da. E nquanto cada um a das instituições disciplinares fu n cio ­ seguiria os estudos, no intuito de obter um título profissional,
nava com o u m m olde descontínuo, com regras sem elhantes, ela sabia que não o faria. N ão queria co n tin u ar aprendendo
em b o ra específicas — da escola ao quartel, da fábrica ao asilo nada, já que, de fato, nada havia aprendido; assim, optava p o r
— , a articulação atual n ão precisa de m u ro s divisórios p ara não repetir esses rituais de educação am uralhada em n e n h u ­
p ô r em ação as suas m odulações incessantes ao a r livre; em m a o u tra instituição de confinam ento. M uito m ais que nas
b o a m edida, graças aos dispositivos eletrónicos que cobrem o u tras cenas do filme, nessa o professor fica literalm ente sem

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PA ULA S I B I L I A • R E D E S OU P A R E D E S

CONCLUSÃO
palavras. “Ante a frustração de não poder ensinar, ante o fato
Inventar novas armas
de chegar a uma instituição de ensino com uma expectativa e
de essa expectativa ser sempre frustrada, nossa preocupação se
foi deslocando de o que se ensina para por que não se pode en­
sinar”, relata Cristina Corea em um de seus artigos . 209 Nas páginas deste livro tentou-se m ontar um mosaico com­
Uma possível resposta a essa inquietação é a tese do desa­ posto pelos diversos fatores que estão em jogo no fenômeno
juste histórico ou da incompatibilidade que se gerou entre o conhecido como “crise da escola”, com o foco voltado para as
dispositivo escolar e as crianças e os jovens de hoje em dia, que subjetividades influenciadas pelo uso de dispositivos digitais,
já não se encaixam nos moldes desta categoria em vias de ex­ com isso procurando contextualizar a incorporação de com ­
tinção: os alunos. Diante da constatação dessa defasagem, des­ putadores e o acesso às redes de informática na sala de aula.
se m al-entendido entre a subjetividade daqueles que (não) O objetivo era adensar o debate sobre esse im portante p ro­
aprendem e a daqueles que pretendem ensinar, tanto uns cesso que está em pleno andamento, trazendo uma voz exter­
como outros tentam tecer estratégias capazes de consumar a na ao campo pedagógico que conjugasse um olhar genealó­
experiência da aprendizagem, uns com mais esperteza e sorte gico e antropológico capaz de interrogar seu sentido histórico
que outros. Por parte dos estudantes que talvez já não o sejam, e, de passagem, suscitar algumas provocações destinadas a
o que se busca em muitos casos não é exatamente aprender, ampliar o leque de perguntas. Não sabemos como continuará
mas ser “aprovado”, e talvez não sejam poucos os professores esta história, que de qualquer modo se move a toda a veloci­
que também se resignaram a não ensinar, mas a ir levando a dade. Talvez esta seja uma das características mais instigantes
situação da melhor maneira possível. Por tudo isso, embora a de viver nesta época: a aventura de sermos contemporâneos.
escola ainda tenha serventia para alguns estudantes que conse­ O futuro ainda nos reserva muitas surpresas, inclusive em suas
guem se adaptar com relativo sucesso ao estranho ambiente vertentes mais imediatas, e nesse turbilhão todas as previsões
escolar, tirando proveito do que este ainda pode oferecer a eles, são arredias. Se há algo que não deixa dúvida, porém, é que
são muitos os que sentem que tam anho esforço não faz senti­ as novas gerações falam uma língua bem diferente daquela
do. Convém sublinhar novamente que essa diversidade de ex­ que servia para comunicar os que se educaram tendo a escola
periências tam bém costuma ser amplamente perpassada por como seu principal meio de socialização e a “cultura letrada”
graves diferenças socioeconômicas, que somam ainda mais como seu horizonte universal, com o firme respaldo institu­
complicações a um quadro por si só bastante delicado. Seja cional do projeto m oderno abrigado por cada Estado nacio­
como for, e para além dos matizes e das contradições que sem nal. E desses jovens do século XXI depende, em boa medida, o
dúvida existem, a problemática de que tratamos aqui tem ca- desenvolvimento dos próximos atos deste drama.
racterísticas universais: é fruto da situação histórica em que “Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas”, ati­
nos encontram os imersos nesta sociedade globalizada do co­ çava Deleuze em seu texto publicado há mais de vinte anos .210
meço do século XXI; e, portanto, é a partir dela que devemos Referia-se, provavelmente, à criação de estratégias capazes de
pensar e agir.
PA U L A SI BI LIA • R E D E S OU P A R E D E S C O N C L U S Ã O : IN V E N T A R NOVAS A RM AS

superar velhos fantasmas e resistir aos mais sedutores meca­ cialista em educação consultada pela imprensa para com en­
nismos de controle associados às “alegrias do marketing ’ para tar os dados recém-divulgados .211 Talvez seja pouco e devêsse­
expandir tanto o imaginável quanto o que de fato se pode fa­ mos sonhar mais alto, antes que esses valores que ainda a res­
zer. Mas que armas seriam essas? Pois bem, é mais fácil no­ paldam percam sua capacidade de evitar o colapso. Por isso,
meá-las que em punhá-las ou mesmo imaginá-las, ainda que como um antídoto destinado a fugir tanto dos moralismos
adm itir a necessidade de inventá-las talvez já seja bastante. nostálgicos e do mal-estar apático quanto dos festejos oportu­
Para revitalizar a educação, devemos incorporar a mídia e a nistas ou vazios, Deleuze alertava também para o fato de que
conexão global ao âmbito escolar, como se vem tentando fazer não caberia indagar “qual é o regime mais duro, ou o mais
com bastante ousadia, contra as inúmeras resistências e difi­ tolerável, pois é em cada um deles que se enfrentam as libera­
culdades que ainda se erguem? A incerteza é profunda e com­ ções e as sujeições”. 212 O fato é que voltar atrás no tempo não é
plexa, mas sem dúvida é preciso explorá-la. Contudo, será possível. Além disso, também não seria sensato jogar no lixo
possível levar esse projeto a suas últimas consequências, abrin­ tantas conquistas obtidas na luta contra as asperezas do m un­
do os velhos muros disciplinares ao tsunam i do fluxo infor- do disciplinar, que com altos custos e uma boa dose de sofri­
macional e, ao mesm o tempo, conseguir que a instituição as­ mento conseguimos desmantelar.
sim alterada conserve sua condição de escola? E mais: seria Por isso, em bora ainda não tenham surgido respostas nem
desejável insistir nessa definição? O que se tentou propor nes­ projetos alternativos mais ou menos convincentes, refletir so­
te ensaio é que, para poder responder a todas essas perguntas, bre este assunto é tão urgente quanto agir nessa direção, e esse
é preciso pensar profundam ente nesta outra: para que neces­ desafio cabe sobretudo aos mais jovens — ou seja, àqueles que
sitamos de escolas, hoje em dia? O que queremos que esses vivem na própria pele, todos os dias, o mal-estar provocado
estabelecimentos façam com as crianças e os jovens contem ­ pela falta de sentido de algo que não termina de se configurar
porâneos, ou com aqueles que ainda virão mais adiante? e cujo questionamento poderia conduzir, talvez, a grandes re­
Uma pesquisa realizada há dois ou três anos revelou que, formulações e a invenções fantásticas. Estas páginas consti­
apesar de tudo, a escola pública é uma das instituições que tuem uma tentativa de fom entar esse diálogo, convocando
mais confiança despertam , particularm ente entre os argenti­ várias vozes para um a espécie de aposta. Em síntese, esse coral
nos. Segundo o estudo efetuado pela empresa Ibope e deno­ sugere que a escola — ou aquilo que vier a surgir de sua fusão
minado índice de confiança social, num a escala de um a cem, as com as redes informáticas e que ainda permanece inominável
relações interpessoais receberam oitenta pontos enquanto as — talvez possa assumir certo papel disruptivo dos fluxos con­
instituições não conseguiram chegar a cinquenta, confirm an­ temporâneos, instaurando-se como um retraimento do m un­
do mais uma vez o descrédito do dispositivo estatal. O notável, do a partir do qual se possa resistir ativamente aos efeitos de-
contudo, é que a valorosa escola foi a que obteve a melhor sagregadores da conexão. O desafio é enorme, pois implicaria
posição dentro desse últim o e surrado conjunto. “As pessoas inventar um dispositivo capaz de fazer com que essas paredes
podem achar que a escola é ineficiente ou chata, mas não que corroídas e cada vez mais infiltradas voltem a significar algo e,
é corrupta, e isso aum enta a confiança”, declarou um a espe­ desse modo, venham a se transform ar tanto sua velha função
PAU LA S I B I L I A • R E D E S OU P A R E D E S
C O N C L U S Ã O : IN V E N T A R NO VAS A R M A S

confinante e disciplinadora quanto sua condição emergente


de mero galpão ou depósito. finamento mediante a irrupção das novas tecnologias. Falta,
Talvez se trate de “tornar mais opaco um mundo que pare­ sem dúvida, o mais difícil: redefini-las como espaços de en­
ce cada vez mais transparente”, como argumenta Veiga Neto . 213 contro e diálogo, de produção de pensamento e decantação de
Ou de, nas palavras de Deleuze, descobrir linhas de fuga que experiências capazes de insuflar consistência nas vidas que as
provoquem curtos-circuitos nessa lógica e permitam burlar habitam. Não se trata, de m odo algum, de restaurar a velha
suas miragens: “criar vacúolos de não-comunicação, inter­ instituição oitocentista, supostamente boa porque “funciona­
ruptores, para escapar ao controle ”. 214 Se a “utopia cinética” va bem”, tam pouco de atualizá-la transformando-a em mais
da modernidade acabou por nos lançar na catástrofe do hi- um nó das redes de conexão para dissolvê-la fatalmente nessa
permovimento, talvez seja preciso resistir a essa “mobilização metamorfose. De que se trata, então? De reinventá-la como
infinita”, como a chamou Sloterdijk, recorrendo a um novo algo ainda impensável. Nada simples, sem dúvida, mas é este o
tipo de passividade ou lentidão, a uma espécie de calma cui­ tipo de combate pelo qual vale a pena nos batermos.
dadosamente construída que, sem dúvida, será bem diferente
da quietude pré-industrial contra a qual se ergueu o fabuloso
projeto m oderno . 215 Além de pôr em prática essas táticas des­
tinadas a deter os fluxos, para que algum sentido possa se
consolidar, seguindo as propostas de Corea e Lewkowicz, tais
operações devem ser realizadas em contato sensível com os
demais, ainda que tenha se desmoronado o solo que costu­
mava garantir os vínculos na situação escolar. Decididamente,
trata-se de que volte a acontecer alguma coisa nas aulas, mas
que isso seja diferente do que acontecia algum tempo atrás
porque assim era estipulado pelos regulamentos: agora, con­
tra o tédio e a dispersão, é preciso dar densidade à experiên­
cia, despertando entusiasmo e vontade de aprender. Afinal,
como afirmou Vasen, “a atenção é resultado da curiosidade
despertada por um m undo interessante ”. 216 E, como se supõe
que teria escrito Montaigne há quatrocentos anos, “a criança
não é uma garrafa a ser enchida, mas um fogo que é preciso
acender ”. 217
É claro que, para consum ar esta meta, será necessário
transform ar radicalmente as escolas, e para isso não basta dar
o vertiginoso prim eiro passo que consiste em desativar o con-
NOTAS

1. Philippe Ariès, História social da criança e da família, trad. Dora Flaksman.


Rio de Janeiro: LTC-GEN, 2011, p. 107.
2. Immanuel Kant, Sobre pedagogia. Buenos Aires: Ed. Elaleph.com, 2001, p. 4
e 18 [ Sobre a pedagogia, trad. Francisco Cock Fontenella. São Paulo: Uni-
mep, 2a ed. rev., 1999].
3. Ibid., p. 5 e 18.
4. Ibid., p. 18 e 19.
5. Ibid., p. 5 e 8.
6. Ibid., p. 5.
7. Ibid., p. 6.
8. Ignacio Lewkowicz, “Escuela y cidadania”. In: Cristina Corea e Ignacio
Lewkowicz, Pedagogia del aburrido: escuelas destruídas, famílias perplejas.
Buenos Aires: Paidós, 2010, p. 21.
9. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola como uma instituição que pelo menos
garanta a manutenção das conquistas fundamentais da modernidade (En­
trevista)”. In: Marisa Vorraber Costa (org.), A escola tem futuro?. Rio de
Janeiro: DP&A, 2003, p. 116.
10. Juan Vasen, Las certezas perdidas: padres y maestros ante los desafios del
presente. Buenos Aires: Paidós, 2008, p. 88.
11. Ignacio Lewkowicz, “Escuela y cidadania”. In: Cristina Corea e Ignacio
Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 20.
12. Ibid.
13. Michel Foucault, Vigiar e punir: história da violência nas prisões, trad. Ligia
M. P. Vassallo. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 1.48.
14. Immanuel Kant, Sobre pedagogia, op. cit., p. 5.
15. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola...”. In: Marisa Vorraber Costa (org.),
A escola tem futuro?, op. cit., p. 106.
16. Michel Foucault, Vigiar e punir, op. cit., p. 149.
17. Colin Heywood, A History of Childhood: Children and Childhood in the
West from Medieval to Modern Times. Malden: Blackwell, 2003 [ Uma
história da infância: da Idade Média à época contemporânea no Ocidente,
trad. Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2004].
18. Philippe Ariès, História social da criança e da família, op. cit., p. XI.
19. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola...” In: Marisa Vorraber Costa (org.),
A escola tem futuro?, op. cit., p. 116.
20. Julia Varela e Fernando Álvarez-Uría, Arqueologia de la escuela. Madri: La
Piqueta, 1991.
21. Antônio Vieira, Sermão do Espírito Santo, p. 5-6.
22. Immanuel Kant, Sobre pedagogia, op. cit., p. 6.
23. Eduardo Viveiros de Castro, “O mármore e a murta: sobre a inconstância
da alma selvagem”. In: A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac
Naify, 2011,p. 184-185.
NOTAS
PAULA S I B I U A . R E D E S OU P A R E D E S

49. Rosângela Vitar e João Villaverde, “No governo Dilma, educação é questão
24.Vieira, apud Eduardo Viveiros de Castro, op. cit., p. 185. de Estado, diz Mercadante”, Valor Económico, São Paulo, 19 mar. 2012.
25.Ibid., p. 188.
50. Carlos Pastrana, “Vários ministros advierten que hoy el secundário es um
26.Philippe Ariès, História social da criança e da família, op. cit., p. 78. fracaso”, La Nación, Buenos Aires, 12 fev. 2010.
27.Peter Sloterdijk, Regras para o parque humano, trad. José Oscar de Almeida 51. Azuete Fogaça, “O analfabetismo vai à escola”, O Globo, Rio de Janeiro, 29
Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p. 17.
set. 2008.
28. Michel Foucault, O poder psiquiátrico, trad. Eduardo Brandão. São Paulo: 52. Cristina Corea, “La destitución de la interpelación pedagógica”. In: Cristi­
Martins Fontes, 2006, p. 62.
na Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 83.
29. Philippe Ariès, História social da criança e da família, op. cit., p. 88. 53. Neal Gabler, Vida, o filme: como o entretenimento conquistou a realidade,
30. Para aprofundar essas questões, ver Paula Síbilia, O homem pós-orgânico: trad. Beth Vieira. São Paúlo: Companhia das Letras, 1999, p. 189.
corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Contraponto, 54. Cristina Corea, “La destitución de la interpelación pedagógica”. In: Cristi­
2012 .
na Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 85.
31. Benilton Bezerra Jr.,“0 ocaso da interioridade e suas repercussões sobre a 55. Susie Scott, “The medicalisation of shyness: from social misfits to social
clínica”. In: Carlos Plastino (org.), Transgressões. Rio de Janeiro: Contraca­ fitness”, Sociology of Health & Illness, v. 28, n. 2, 2006, p. 133-153.
pa, 2002, p. 232.
56. Cristina Corea, “La destitución de la interpelación pedagógica”. In: Cristi­
32. Para aprofundar essas questões, ver Paula Sibilia, O show do eu: a intimi­ na Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 88.
dade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. 57. Cristina Corea, “El desfondamiento de las instituciones educativas”. In:
33. Gilles Deleuze, “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. In: Con­ Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 167.
versações: 1972-1990, trad. Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Editora 34, 58. Leonor Bezerra Guerra, “Cérebro, criança e mídia”, Pontocom, Rio de Ja­
1992, p. 220.
neiro, 18 ago. 2010.
34. Michel Foucault, Vigiar e punir, op. cit., p. 32.
59. Marc Prensky, “Digital native, digital immigrant”, On the Horizon, NCB
35. Jean Gougaude Colette Hernapdez, La Morale à 1’école (1905-1950). Paris: University Press, v. 9, n. 5, out. 2001, p. 1-3; e “Digital, native, digital im ­
Berg International Éditeurs, 2009. migrant. Part II: Do They Really Think Differently?”, On the Horizon, NCB
36. Michel Foucault, Vigiar e punir, op. cit., p. 149.
University Press, v. 9, n. 6, dez. 2001.
.37. Immanuel Kant, Sobre pedagogia, op. cit., p. 19.
60. Virgínia Woolf, Un cuarto propio y oiros ensayos. Buenos Aires: A-Z Edito­
38. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola...” In: Marisa Vorraber Costa (org.), ra, 1993 [Um teto todo seu, trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fron­
A escola tem futuro?, op. cit., p. 116.
teira, 1985],
39. Ibid., p. 117.
.61. Cristina Corea, “Pedagogia y comunicación en la era del aburrimiento”. In:
40. Richard Sennett, O declínio do homem público: às tiranias da intimidade, Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 50.
trad. Lygia Araújo Watanabe. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. 62. Sobre esse assunto, ver Juan Vasen, La atención que no se presta: el “mal”
41. Charles Taylor, Uma era secular, trad. Nélio Schneider e Luzia Araújo. São llamado ADD. Buenos Aires: Noveduc, 2007; e Rossano Cabral Lima, So­
Leopoldo: Unisinos, 2008, p. 569. mos todos desatentos? O TDA/H e a construção de bioidentidades. Rio de
42. Immanuel Kant, Sobre pedagogia, op. cit., p. 37-38 e 74-75.
Janeiro: Relume Dumará, 2005.
43. Cristina Corea, “EI nino actual: una subjetividad que violenta el dispositi­ 63. Cristina Corea, “Los chicos-usuarios en la era de la información”. In: Cris­
vo pedagógico”, Jornadas sobre violência social, Univ. Maimónides, 2000. tina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 175.
Disponível em <http://www.estudiolwz.com.ar>. 64. Ignacio Lewkowicz, “Entre la institución y la destitución, ^qué es la infan­
44. Guy Debord, A sociedade do espetáculo, trad. Esteia dos Santos Abreu. Rio da?”. In: Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op.
de Janeiro: Contraponto, 1997, p. 14,18 e 189.
cit., p. 106.
45. Cristina Corea, “Pedagogia y comunicación en la era del aburrimiento”. In: 65. Cristina Corea, “La destitución de la interpelación pedagógica”. In: Cristi­
Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 43. na Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 89.
46. “Desinteresse afasta alunos das escolas”, O Globo, Rio de Janeiro, 16 abr.
66. Ibid., p. 90.
2009; e Marcelo Néri, Motivos da evasão escolar. Rio de Janeiro: FGV, 67. Cristina Corea, “Los chicos-usuarios en la era de la información”. In: Cris­
2009.
tina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 175.
47. “Desinteresse afasta alunos das escolas”, cit. 68. Neil Postman, “Teaching as an amusing activity”. In: Amusing Ourselves to
48. Hélio Schwartsman, “Taxa de analfabetismo recua pouco no País”, Folha de Death. Nova York: Penguin, 1986, p. 142-154.
S. Paulo, 19 set. 2009.
PAU LA SI BI LI A • R E D E S OU P A R E D E S
NOTAS

69. Nora Bar, “Jugar, una propuesta de la neurociencia para aprender mejor”,
La Nación, Buenos Aires, 13 mar. 2012. 93. Silvia Duschatsky e Cristina Corea, Chicos en banda: los caminos de la
70. Mônica Weinberg, “O melhor professor do mundo”, Veja, n. 2254, São subjetividad en el declive de las instituciones. Buenos Aires: Paidós, 2002.
Paulo, 1 fev. 2012. 94. Lewkowicz, Ignacio, “Escuela y cidadania”. In: Cristina Corea e Igna-
71. Cristina Corea, “Pedagogia y comunicación en la era del aburrimiento”. In: cio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 26.
95. Ibid., p. 27.
Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 58.
96. Neil Postman, O desaparecimento da infância, trad. José Laurenio de Melo
72. Ibid., p. 60.
e Suzana Menescal. Rio de Janeiro: Graphia, 2011, p. 12 e 18.
73. Ibid., p. 58 e 60.
97. Michel Foucault, História da sexualidade I: a vontade de saber, trad. Maria
74. Walter Benjamin, “Experiência e pobreza” e “O narrador”. In: Obras esco­
Thereza C. Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro:
lhidas: magia e técnica, arte e política (v. 1), trád. Sérgio Paulo Rouanet. São
Graal, 1980; Em defesa da sociedade, trad. Maria Ermantina d’Almeida
Paulo: Brasiliense, 1994, p. 114-119, 197-221.
Prado Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000; O nascimento da biopoliti-
75. Gilles Deleuze, “Controle e devir, entrevista com Toni Negri”. In: Conver­
ca. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2008.
sações: 1972-1990, op. cit., p. 217.
98. Philippe Ariès, História social da criança e da família, op. cit., p. XIV.
76. Cristina Corea,“Pedagogia y comunicación en la era del aburrimiento”. In:
99. Ibid., p. 108.
Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 72.
100. Jon Savage, A criação da juventude: como o conceito de teenage revolucionou
77. Ibid., p. 61.
o século XX, trad. Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
78. Ibid., p. 68. 101. Philippe Ariès, História social da criança e da família, op. cit., p. 28.
79. Ibid., p. 51. 102. Colin Heywood, A History of Childhood, op. cit., p. 2.
80. Ibid., p. 51.
103. Ibid., p. 3.
81. Cristina Corea, “^Qué hacen los chicos con la tele?” In: Cristina Corea e 104. Cristina Corea, “Ensayo sobre la destitución de la ninez”. In: Cristina
ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 188-189. Corea e Ignacio Lewkowicz, ySe acabó la infanda? Buenos Aires: Lumen
82. Suely Rolnik, “Toxicómanos de identidade: subjetividade em tempo de Humanitas, 1999, p. 4.
globalização” In: Daniel Lins (org.), Cultura e subjetividade. Campinas: 105. David Riesman, A multidão solitária, trad. de Rosa R. Krausz e J. Guins-
Papirus, 1997, p. 19-24. burg. São Paulo: Perspectiva, 1995, p. 111-119.
83. Ignacio Lewkowicz, “Escuela y ciudadanía”. In: Cristina Corea e Ignacio 106. Juan Vasen, Las certezas perdidas, op: cit., p. -47.
Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 31. 107. Jean Gougaud e Colette Hernandez, La Morale à 1’école (1905-1950),
84. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola...” In: Marisa Vorraber Costa (org.), op. cit., p. 40.
A escola tem futuro?, op. cit., p. 120. 108. Juan Vasen, }Post-mocositos? Presencias, fantasmas y duendes en la clínica
85. Ignacio Lewkowicz, “Escuela y ciudadanía”. In: Cristina Corea e Ignacio psicoanalítica com nihos y adolescentes de hoy. Buenos Aires: Lugar Edito­
Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 21. rial, 2000.
86. Immanuel Kant, Sobre pedagogia, op. cit., p. 74. 109. Cristina Corea, “La destitución mediática de las etapas de la vida”. In: Cris­
87. Ignacio Lewkowicz, “Escuela y ciudadanía”. In: Cristina Corea e Ignacio tina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 115.
Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 34. 110. Ibid., p. 116.
88. Ibid., p. 31. 111. Juan Vasen, Las certezas perdidas, op. cit., p. 90.
89. Ignacio Lewkowicz, “Entre la institución y la destitución, ^qué es la infan­ 112. Cristina Corea, “El nino actual: una subjetividad que violenta el dispositi­
da?” In: Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. vo pedagógico”, Jornadas sobre violência social, Univ. Maimónides, 2000,
cit., p. 106. p. 1-2. Disponível em <http://www.estudiolwz.com.ar>.
90. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola...” In: Marisa Vorraber Costa (org.), 113. “Quem manda lá em casa? As crianças”, Pontocom, Rio de Janeiro, 9 nov.
A escola tem futuro?, op. cit., p. 120. 2011 .
91. Para uma análise bem interessante dessa última campanha, ver Cézar Mi- 114. Fernando Savater, El valor de educar. Barcelona: Ariel, 1997, p. 37.
gliorin e André Brasil, “Be stupid: a Diesel e o biopoder”, Ciberlegenda n. 22, 115. Juan Vasen, Las certezas perdidas, op. cit., p. 58.
Niterói, 2010. Disponível em < http://www.proppi.uff.br/ciberlegenda/ 116. Ibid., p. 100.
be-stupid>. 117. Cristina Corea, “El nino actual”, cit., p. 1-2.
92. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola...” In: Marisa Vorraber Costa (org.), 118. Ibid., p. 2.
A escola tem futuro?, op. cit., p. 115. 119. Jacques Rancière, O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação inte­
lectual, trad. Lílian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
NOTAS
PAU LA SI BI LIA • R E D E S OU P A R E D E S

140. Alain Ehrenberg, O culto da performance: da aventura empreendedora à


120. Ignacio Lewkowicz, “Entre la institución y la destitución, ;qué es la infan depressão nervosa, trad. e org. Pedro F. Bendassolli. Aparecida, SP: Ideias e
cia?”. In: Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. Letras, 2010, p. 133.
cit., p. 113. 141. Christine Phillips, “Medicine goes to school: Teachers as sickness brokers
121. Juan Vasen, Las certezas perdidas, op. cit., p. 91. for ADHD”, PLOS Medicine, abr. 2006.
122. Cristina Corea, “Los chicos-usuarios en la era de la información” In: Cris­ 142. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola...” In: Marisa Vorraber Costa (org.),
tina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 178. A escola tem futuro?, op. cit., p. 118 e 121.
123. Ibid., p. 180. 143. Ibid., p. 121.
124. Cristina Corea, “La destitución de la interpelación pedagógica”. In: Cris­ 144. Gilles Deleuze, “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. In: Con­
tina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 77 versações: 1972-1990, op. cit., p. 220.
e 80. 145. Immanúel Kant, Sobre pedagogia, op. cit., p.76.
125. Guy Debord, A sociedade do espetáculo, op. cit., p. 18 e 189; Cristina Corea, 146. “Lutte contre 1’absentéisme: cagnotte ou carotte?”, LeNouvel Observateur,
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PAU LA S I B I L I A • R E D E S OU P A R E D E S

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179. Marisa Vorraber Costa, “A escola rouba a cena”. In: A escola tem futuro?, op. Telefonplan.aspx>.
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180. Juliana Boechat, “Governo local prepara licitação para instalar câmeras em On-line, 27 mar. 2012.
todos os colégios públicos do DF”, cit. <. 202. Cristina Corea, “La destitución de la interpelación pedagógica”. In: Cristi­
181. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola...” In: Marisa Vorraber Costa (org.), na Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 91 e 94.
A escola tem futuro?, op. cit., p. 119. 203. Ibid., p. 93.
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184. Gilles Deleuze, “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. In: Con­ nos Aires, 15 mar. 2012.
versações: 1972-1990, op. cit., p. 224. 206. Gilles Deleuze, “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. In: Con­
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desconexão: como uma mãe e três adolescentes passaram seis meses totalmen­ 208. Cristina Corea, “Fraternidad, aguante, cuidados: la producción subjetiva
te desconectados e sobreviveram para contar a história, trad. Alessandra Es- en el desfondamiento”. In: Cristina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia
teche. São Paulo: Paz e Terra, 2011, p. 86. del aburrido, op. cit., p. 135.
186. Michel Foucault, “Poder - Corpo”. In: Microfísica do poder, trad. Roberto 209. Cristina Corea, “Los chicos-usuarios en la era de la información” In: Cris­
Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. 148. tina Corea e Ignacio Lewkowicz, Pedagogia del aburrido, op. cit., p. 175.
PAU LA SI BI LI A • R E D E S OU P A R E D E S

210. Gilles Deleuze, “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. In: Con­


versações: 1972-1990, op. cit., p. 220.
211. Raquel San Martin, “A pesar de la crisis educativa, la gente aún confia en la
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212. Gilles Deleuze, “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. In: Con­
versações: 1972-1990, op. cit., p. 220.
213. Alfredo Veiga Neto, “Pensar a escola...” In: Marisa Vorraber Costa (org.),
A escola tem futuro?, op. cit., p. 119.
214. Gilles Deleuze, “Controle e devir, entrevista com Toni Negri”. In: Conver­
sações: 1972-1990, op. cit., p. 217.
215. Peter Sloterdijk, La Mobilisation infinie: vers une critique de la cinétique
politique. Paris: Seuil, 2003.
216. Juan Vasen, Las certezas perdidas, op. cit., p. 129.
217. Fernando Savater, El valor de educar, op. cit., p. 1.

2a reimpressão, setembro de 2016

Impressão: Editora Vozes, Petrópolis


Papel da capa: Cartão supremo 250g/m2
Papel do miolo: Pólen bold 70g/m2

Tipografia: Minion, 11/14,5

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