Você está na página 1de 3

GÊNERO, FEMINISMO E PSICANÁLISE

Se podemos enxergar no feminismo um duplo objetivo, o de questionar o papel da mulher na


sociedade e na relação com o homem e, em segundo lugar, buscar uma transformação que
visa melhorar a vida das mulheres, em Butler, a expansão de “gênero” para a inclusão dos
“gêneros não-inteligíveis” levou a buscar objetivos semelhantes em esferas distintas.

rede de crenças, traços de personalidade, atitudes, sentimentos, valores,


condutas e atividades que diferenciam mulheres e homens. Tal diferenciação é
produto de um processo histórico de construção social, que não apenas gera
diferenças entre os gêneros feminino e masculino, senão que, ao mesmo
tempo, essas diferenças implicam desigualdades e hierarquias entre ambos.
Quando realizamos estudos de gênero, colocamos ênfase na análise das
relações de poder que se dão entre homens e mulheres. (Burin, 1994, p.2).

“Gênero” tem uma história e se transforma dentro do campo feminista. Surge em oposição a
“sexo”, como um recurso para superar concepções que consideravam as diferenças sexuais
biológicas como fator fundamental na compreensão dos aspectos constituintes do
comportamento e da personalidade. Como mencionei na Introdução, não existe um consenso
sobre “gênero”. Para Scott (1995), o uso de “gênero” pelas feministas deveria rejeitar as
explicações biológicas e indicar as “construções sociais”. A definição acima, de fato, atribui aos
gêneros masculino e feminino um processo histórico de sua construção, mas enfatiza a relação
de poder entre os homens e as mulheres, descrevendo desigualdades e hierarquias na relação.
Esse uso de “gênero” foi crucial para levar adiante as reivindicações feministas. No entanto,
com o pós-modernismo, com os movimentos de desconstrução e construção social e com o
destaque dado à afirmação de Simone de Beauvoir, nos anos quarenta, de que “não se nasce
mulher, vem-se a sê-lo” - que tem valor de origem mítica das definições de gênero no
movimento e na teoria feminista -, inevitavelmente o feminismo se deparou com a questão
sobre o que se pretende dizer com o termo “mulher”

Nesse contexto, “gênero” é inicialmente usado de modo descritivo, dizia respeito às coisas
relativas às mulheres. Em certos meios, “gênero” era usado como sinônimo de “mulher”. Nos
anos 80, teóricas feministas, como, por exemplo, Marta Lamas (1986, apud Nuernberg, 2005),
recuperam o termo proposto por Stoller e inauguram os “estudos de gênero”. Incluiu-se, a
partir daí, a masculinidade como nova temática de investigação. No entanto, a inclusão do
estudo da masculinidade nas pesquisas sobre “gênero” não foi exatamente um “avanço” para
algumas feministas. Ao usar “gênero” para falar também de homens, corria-se o risco de
perder um uso de “gênero” que diria respeito à especificidade da opressão das mulheres no
contexto de culturas nas quais a distinção entre sexo e gênero é marcante. Não se chegou a
nenhuma decisão global. “Mulher”, “mulheres”, “gênero”, “relações de gênero”, “estudos
feministas”, “estudos da mulher”, “estudos de gênero”, são termos cujo uso oscila conforme
interesses mais acadêmicos ou mais políticos.(Haraway, 2004). A noção de gênero, ainda que
construtivista, corre o risco de ser a de um gênero fixo e coerente. Ou, como diz Butler, um
gênero “inteligível”.
Para Haraway, todas as definições de “gênero” atuais partem de Simone de Beauvoir. No
entanto, a absorção da “identidade de gênero” de Stoller pelas feministas teria produzido uma
interpretação de certa forma “essencializante” da afirmação de Beauvoir. Isto se deve ao
próprio contexto em que se forjou o conceito de “identidade de gênero”. Ele surge numa
perspectiva de desenvolvimento do que Haraway denomina “tecnologias de sexo e gênero”
dentro da psicologia, da psicanálise, da medicina, da biologia e da sociologia, que constroem a
“mulher” (e também o “homem”), em centros e clínicas médicas que pesquisam a identidade
de gênero nos anos 60

A “identidade de gênero”, segundo ela, tornou-se um paradigma que orientou a discussão da


política feminista dos anos 70 e 80 em torno do “determinismo biológico” versus
“construcionismo social”. O equívoco das feministas que adotaram o paradigma da identidade
de gênero para se trabalhar com a noção de “gênero” foi o de deixar de interrogar a história
sócio-política de categorias binárias, tais como sexo/gênero, no discurso ocidental. “Gênero”
teria perdido, dessa maneira, seu poder enquanto conceito de análise e promovedor de
transformação social. 24 Ao adotar o paradigma da identidade de gênero, as feministas
hesitaram em criticar a distinção sexo/gênero, pois esta lhes era útil no combate aos
determinismos biológicos utilizados contra elas. (Haraway, 2004, p. 11) Ou seja, ainda que
gênero seja cultural, podendo explicar certas coisas, em detrimento de um puro determinismo
biológico, permaneceu uma identidade essencial como homem ou mulher em termos
anatômicos. A biologia não foi questionada. A natureza não foi questionada. Haraway é
radical: o corpo não estava sendo questionado, não estava sendo desconstruído.

2.1. Feminismo e Psicanálise

A história do encontro entre feminismo e psicanálise não é apenas uma história de


colaboração, mas é também uma história de confronto, tendo como foco a sexualidade
feminina, a explicação da aquisição de gênero e o papel da psicanálise na reprodução da
hierarquia entre os gêneros, resultando na desvalorização do gênero feminino

. O desprezo pelo orgasmo clitoridiano e o enaltecimento do orgasmo vaginal foram


interpretados pelas feministas como uma forma de a psicanálise se colocar a serviço da
repressão da sexualidade feminina. Ela ajudaria a organizar a sexualidade das mulheres para o
prazer dos homens e, também, a serviço da reprodução. Soma-se a isso a afirmação freudiana
de que as crianças acreditam que existe apenas o sexo masculino até o momento em que
descobrem que a mulher é castrada, por não ter um pênis: o campo estava armado para se
travar uma guerra entre Freud e as feministas.

Sobre o modo como Freud “constrói” a mulher, diz Rubin: “Se a fase edipiana evolui
normalmente e a menina “aceita sua castração”, sua estrutura libidinal e a escolha de seu
objeto agora estão de acordo com o papel do gênero feminino. Ela se tornou uma mulherzinha
– feminina, passiva, heterossexual.” (Rubin, 1993, p. 47)27. Além desse caminho, considerado
normal, e da possibilidade de reprimir a sexualidade e tornar-se assexuada, resta o tornar-se
“masculina” ou homossexual. Ela não pode ser simplesmente “mulher”. Dentro das
possibilidades colocadas por Freud, as mulheres estão numa posição de ser um grupo
preparado psicologicamente, desde a infância, para conviver com a própria opressão. (Rubin,
1993)

2.3 A teoria social


A teoria social trouxe a idéia de que havia uma história da subordinação das mulheres aos
homens tanto no domínio público como privado, que deveria ser avaliada a partir do poder
visto como um fenômeno cultural e não, natural. O desejo e as teorias que o analisavam e
regulavam, e aí poderíamos incluir a psicanálise, podiam ser entendidos em termos políticos.

A teoria social compreende a racionalização dos vínculos sociais quando a psicanálise, que não
separa estruturas da subjetividade e modo de subjetivação social, mostra como os sujeitos
individuais vêm a adotar determinados padrões, como eles investem os vínculos sociais.

A teoria social esclarece a dimensão política do sexo e do gênero, o papel social da mulher,
mas a dimensão pessoal da questão é fornecida pela psicanálise. A psicanálise traz
interpretações sobre a mulher e sobre o desejo e se constitui como uma via de acesso aos
processos de representação que compõem os sistemas simbólicos da psique e da sociedade.
(Dimen, 2000, p.190).

2.5 Breve resposta às feministas

Segundo ele, pode-se mitigar o recurso de Lacan à anatomia em vários momentos de sua obra,
se considerarmos que, na lógica lacaniana, os termos centrais seriam os de “limite”, “falta” e
“perda” e Lacan os usa, tendo como referência a castração.

A afirmação de Fink de que não há razões teóricas para que o falo deixe de ser o significante
do desejo, parece não se enquadrar com as razões, igualmente teóricas, das feministas,
segundo as quais os discursos atravessados por relações de gênero, que implicam em
dominação e ausência de reconhecimento, perpetuam essas mesmas relações de
desigualdade.

2.6 Binarismo de gênero

Gênero combate a predominância de uma interpretação dos indivíduos baseada no registro do


imaginário. “A recusa em tornar-se ou permanecer homem ou mulher marcado/a pelo gênero
é, então, uma insistência eminentemente política em sair do pesadelo da muito-real narrativa
imaginária de sexo e raça”. (Haraway, 2004, p.30). Parece-me que esse é o xeque-mate de
Haraway. Gênero é uma categoria política.

Você também pode gostar