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“Finalmente livre dos homens, a Terra

ganha nova vida: dá de um tudo. Os


mares respiram. O ar, é como se ele
quisesse rejuvenescer. E o tempo sobra
por toda parte, infinitamente muito
tempo. Mas nós teríamos preferido que
o humano desaparecesse com mais
calma, e não assim, tiro e queda. Nofim
das contas, os homens não tinham
excluído um ocaso retardado, havia
diversos programas, a médio e
longo prazo...”

Foto: Renate von Mangoldt

De Günter Grass
leia também
O tambor
O linguado

A
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA

SEMPRE
UM BOM
LIVRO
GUnter Grass
A RATAZANA
que surgimos no planeta, ela conta
A ratazana sua versão da História, histórias de
ratos, histórias de nosso fim, da
Günter Grass, nascido em Danzig Grande Explosão, do período
em 1927, conhecido do público pós-humano.
brasileiro por seus livros O tambor Numa disputa incessante, as
e O linguado (editados pela Nova histórias dele lutam para chegar ao
Fronteira), é um grande contador fim, na consciência de que talvez
de histórias. Histórias de sua terra, de pouco tempo ainda reste para serem
seu mar, o Báltico, tão poluído, contadas e ouvidas, enquanto ela,
e que as mulheres de sua vida cruzam por sua vez, relata o fim de todas as
a bordo de um navio de pesquisas, - histórias. E as dele, as dela, a nossa
medindo a incidência de águas-vivas; se entrelaçam num livro fascinante,
mar onde vive o linguado, que sabe desses que a gente gostaria que todo
que bem outro é o destino da viagem. mundo lesse.
Histórias de Oskar Matzerath, o Recém-lançada na A lemanha,
anãozinho de O tambor, que retorna, A ratazana deu lugar a uma enorme
com quase sessenta anos, produtor de polêmica, despertando as opiniões
vídeos, empresário de sucesso, às mais extremas e apaixonadas.
vésperas de uma viagem à Polônia Reação digna de um livro ao qual não
para festejar o 107? aniversário de sepodeficar indiferente, e que alguns
sua avó, aquela que usava muitas já consideram como a profecia de
saias, uma por cima da outra. desgraça do nosso século.
Histórias, roteiros, que Günter
Grass escrevepara afirma de Oskar:
sóbre asflorestas que morrem, e, com
elas, os contos de fadas; e sobre
falsificações de quadros em igrejas do
Báltico, símbolo da falsificação da
História, antiga e recente, da
História humana que está para
acabar ou, quem sabe, já acabou.
ELA, a ratazana, équem o afirma.
Ela, que se intromete em todas as
histórias, sonhos, esperanças.
Representante de uma espécie que
pressente todas as desgraças, Capa: Victor Burton
; sobre gravura de Günter Grass:
abandona os navios que vão "A Ratazana diante de Danzig II”

naufragar, e nos acompanha desde


GÜNTER GRASS 4

Y■
i

A RATAZANA
Tradução de
C arlos A b b e n se t h

EDITORA
NOVA
FPQNT£lRA
Título original: DIE RÀTTIN
© 1986 by Herman Luchterhand Verlag
GmbH & Co. KG, Darmstadt un Neuwied

Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela


EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Bambina, 25 - CEP 22.251 - Botafogo - Tel.: 286-7822
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Revisão tipográfica
A n d r e a S o a r e s F a r ia s
E d il s o n C haves C a n t a l ic e
Á lv a ro T avares

CIP - Brasil. Catalogação-na-fonte.


Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Grass, Günter, 1927 -


G7%r A ratazana/Günter Grass; tradução de Carlos Abbenseth. - Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1986.

(Romances de hoje)
Tradução de: Die ráttin.
*
1. Literatura alemã - Romance. 1. Abbenseth, Carlos. 11. Título. III. Série.

86-1286 CDD-833

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SUMÁRIO

Página ....................................................... ........... ............ ........11


0 PRIMEIRO C a p ít u l o , no qual um desejo é satisfeito, na Arca de Noé
não há lugar para ratos, dos homens sobra apenas o lixo, um barco muda
diversas vezes de nome, desaparecem os dinossauros, um velho conhecido en­
tra em cena, um cartão-postal convida para viajar à Polônia, tenta-se
andar de cabeça erguida e agulhas de tricô chacoalham como matracas.

Página ........................................ ............................................... 46


0 SEGUNDO Capítu lo , no qual mestres em falsificação são citados no­
minalmente e ratos entram em moda, o fim é contestado, Joãozinho e M a­
ria fogem, o Terceiro Programa fala sobre Hameln, uma pessoa não sabe se
deve viajar, o barco ancora no lugar da tragédia e em seguida há almôn­
degas, blocos humanos pegam fogo e bandos de ratos interrompem o trân­
sito pelo mundo afora.

Página ......................................................................................... 84
0 TERCEIRO C a p ítu lo , no qual acontecem milagres, Joãozinho e Maria
pretendem urbanizar-se, o Sr. Matzerath duvida da razão, cinco redes es­
tão ocupadas, o Terceiro Programa tem de calar-se, há liquidação em Stege
e escassez na Polônia, uma atriz de cinema é santificada e perus fazem a
História.

Página ........................................................................................120
O QUARTO C a p ítu lo , no qual se diz adeus, um contrato está pronto
para ser assinado, Joãozinho e M aria chegam, encontram-se cocozinhos de
rato, reina uma atmosfera de domingo, vem o último dia, há algumas pe­
ças de ouro excedentes, Malskat tem que ir para o exército, é difícil largar
as mulheres e o barco ancora diante de escarpas de giz.

Página ........................................................................................164
0 QUINTO C a p ítu lo , no qual uma cápsula espacial gira, o Sr. Matze-
rath vê a coisa preta, a ratazana se queixa da falta de medo, a fachada
da cidade de Gdansk fica incólume, as mulheres brigam pelas águas-
vivas, Joãozinho e M aria conclamam à ação, prossegue a educação da espé­
cie humana e é feito um discurso comemorativo.

Página ......................................................................................*.198
0 SEXTO C a p ít u l o , no qual o homem-rato torna-se concebível e há so­
nhos durante a ronda, a ratazana demonstra conhecer o lugar, a erva ca-
xúbia se espalha, as mulheres ganham nomes falsos, logo depois da arru­
mação começa a história pós-humana, eu sou reconhecido como fonte de er­
ro, o dinheiro grosso tem o poder e W ilhem G rim m , uma idéia.

Página ......................................................................................242
0 SÉTIMO CAPÍTULO, no qual se fa z um discurso diante do Congresso Fe­
deral, os Sete Anões são indivíduos, cinco mulheres descem de bordo a fim
de aventuras, as águas-vivas cantam em alto e baixo volume, o Sr. Matze-
rath chega, M alskat se equilibra goticamente no altar-mor, a ratazana
choraminga solitária, Bela Adormecida pica-se no fuso e o barco ancora
sobre Vineta.

Página ........................................................................................292
0 OlTAVO C a p ít u l o , no qual transcorrem cinco minutos de silêncio, o
aniversário segue seu curso, a ratazana fa la de heresias, o cuco pia no
film e e na realidade, as mulheres se enfeitam, Oskar esconde-se por baixo
das saias, quase tudo chega ao fim e cruzes são erguidas no Morro do
Bispo.

Página ....................................................................................................................3 3 3
0 NONO C a p ítu lo , no qual as mulheres recobram o ânimo, o país está
sem governo, a fome rói o estômago, duas múmias são transladadas com
respectivos acessórios, depois do que tem início a agricultura, rato, ave e
girassol formam um quadro, os homens só existem de mentirinha, tudo
fica coberto de verde, Oskar já se intromete de novo e a festa da colheita é
comemorada após a primeira mutação consonântica.

Página ........................................................................................379
O DÉCIMO C a p ít u l o , no qual desaba um temporal durante a solenidade,
o Sr. M atzerath afirma-se, a ratazana fa la de mistérios do casco à deriva,
o Príncipe foge, há novidades de Hameln, os ratos comprimem-se cheios de
expectativa, o correio não traz notícias de Travemünde, mas os sinos repi-
cam ao iniciar-se a nova era.

Página ....... ....................... ........................................................ 416


0 UNDÉCIMO CAPÍTULO, no qual os adventícios tomam-se sedentários, o
sono da Bela Adormecida termina em tragédia, trigêmeos surpreendem
Hameln, em Lübeck chega a hora da sentença no processo de falsificação de
pinturas, a Ilha de Armazéns fica apertada, mais uma vez o Sr. Matze­
rath sabia tudo de antemão, os watsoncricks impõem ordem, e — como o
correio traz boas notícias — a música consola.

Página ....................................................................................... 456


0 DUODÉCIMO CAPÍTULO, no qual uma carruagem toma o rumo do pas­
sado, dois senhores idosos falam de antanho, surge outra Damroka lin­
damente encacheada, colecionam-se peças de museu e engordam-se ratos,
uma notícia triste ofusca a festa de aniversário, Solidarnosc vence, do ho­
mem, entretanto, nada resta e a esperança é a última que morre.
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0 PRIMEIRO CAPÍTULO, no q u a l um desejo é satisfeito, na Arca de


Noé não hà lugar para ratos, dos homens sobra apenas o lixo, um
barco m uda diversas vezes de nome, desaparecem os dinossauros, um
velho conhecido entra em cena, um cartão-postal convida para via­
ja r à Polônia, tenta-se andar de cabeça erguida e agulhas de tricô
chacoalham como matracas.

De Natal, um rato eu desejei, na esperança de palavras


provocantes para um poema que trata da educação da espécie
humana. N o fundo, eu queria escrever sobre o mar, minha
poça d’água báltica; mas o bicho venceu. Meu desejo foi satis­
feito. Debaixo da árvore, a surpresa que me esperava era o
rato.
E nada disso de ficar num canto: sob os galhos do pinhei­
ro, formando um arranjo com os pingentes mais baixos, bem
ali no lugar do Presépio e seu conhecido sta ff, se alojara, re­
tangular, uma gaiola de arame com as grades esmaltadas de
branco e o interior mobiliado com uma casinhola de madeira,
uma mamadeira e a tigela de comida. Ocupava seu posto com
desenvoltura, como se não existissem reticências, como se
fosse natural um presente desses: o rato debaixo da árvore de
Natal.
Curiosidade apenas moderada, sempre que papel rangia.
Ela deslizava com um sussurro pelo forro de serragem ondu­
lada. Quando, depois de um breve salto, ficava de cócoras em
cima de sua casa, o movimento das vibrissas se espelhava no
brilho dourado de uma bola. Desde o começo, causou espanto

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o tamanho de sua cauda tão pelada, e que tivesse cinco dedos,
como o ser humano.
Animal asseado. Aqui e ali: uns poucos cocozinhos de ra­
to, do comprimento da unha do mindinho. Aquele aroma de
noite de Natal, fabricado segundo receita antiga, misturando
cera de vela, perfume de pinheiro, um certo constrangimento
e pão de mel, se sobrepunha à exalação do bicho novo dado
de presente, e que fora comprado de um criador de cobras es­
tabelecido em Giessen, que cria ratos para as cobras come­
rem.
É claro que havia outras surpresas: presentes úteis, supér­
fluos, ordenados à esquerda e à direita. Dar presentes está fi­
cando cada vez mais difícil. Onde ainda sobra espaço? Ah,
essa agonia de não saber mais o que desejar. Tudo foi satisfei­
to. Só nos falta a penúria, dizemos, como se estivéssemos a
fim de desejá-la. E continuamos a dar presentes, sem piedade.
Ninguém sabe mais o quê quando de quem desabou com
simpatia sobre nós. Saciado e carente: tal era meu estado,
quando me perguntaram o que eu queria, e de Natal um rato
eu desejei.
Naturalmente zombaram de mim. Não faltaram pergun­
tas: na tua idade? Tem que ser isso? Só porque agora estão em
moda? E que tal uma gralha? Ou, como no ano passado, copos
soprados à boca? — Bem, pediu, está pedido.
Tinha que ser fêmea. Mas, por favor, não dessas brancas
de olhos vermelhos; por favor, nada de ratos de laboratório,
desses que são usados na Schering e na Bayer-Leverkusen.
Mas será que alguém tem em estoque para vender ra­
tos marrom-acinzentados, vulgarmente chamados ratos-de-es-
goto?
Lojas de animais em geral só vendem roedores que não
sejam difamados, não estejam na boca do povo, sobre «os quais
nada conste de negativo.

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Parece que as notícias de Giessen só chegaram pouco an­
tes do dia 24. Uma vendedora de animais com sortimento ha­
bitual e que tinha um filho que viria para o Norte visitar a
noiva, passando por Itzehoe, enviou um exemplar que corres­
pondia ao desejado; não tinha importância que a gaiola fosse
de porquinho-da-índia.
Eu já havia quase esquecido meu desejo, quando na noite
de Natal a ratazana me surpreendeu em sua gaiola. Dirigi-lhe
a palavra, feito um bobo. Mais tarde, foram tocados discos ga­
nhos de presente. AchamcLS graça de um pincel de barba. Li­
vros o bastante, entre os quais um sobre a ilha de Usedom. As
crianças contentes. Quebrar nozes? dobrar papel de presente.
Fitas vermelho-escarlate e verde-zinco, com suas extremida­
des invariavelmente enroscadas, careciam que se as guardas­
sem em rolinhos, para utilização futura — não se joga nada
fora!
Chinelos forrados. E mais isso, e mais aquilo. E um pre­
sente que eu tinha enrolado em papel de seda para minha pre­
ferida, a mesma que me dera a ratazana: num mapa colorido à
mão, vê-se, diante da costa da Pomerânia, Vineta, a cidade
submersa. Apesar de alguns carunchos e de um rasgo lateral:
uma bela gravura.
Velas que se consomem, o clã familiar compacto, a at­
mosfera difícil de agüentar, a ceia. No dia seguinte, os primei­
ros visitantes disseram que a ratazana era uma gracinha.

Minha ratazana de Natal. Outro nome não há. Com seus


dedos cor-de-rosa do pé, que delicados seguravam a noz, a
amêndoa, os biscoitos prensados de alimento especial. Ainda
receoso, tomando cuidado com as pontas de meus dedos, co­
mecei a mimá-la: com passas, pedacinhos de queijo, tudo do
bom e do melhor.
Coloquei-a a meu lado. Suas vibrissas me registraram. Ela
brinca com meus temores, sabe manipulá-los. Então, falo para

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combatê-los. A princípio, planos nos quais os ratos ainda fi­
cam de fora, como se fosse possível que no futuro acontecesse
alguma coisa sem eles, como se a ratazana pudesse estar au­
sente quando o mar arrojar-se em pequenas ondas, a floresta
morrer por causa do homem, e, ou talvez, um homenzinho
corcunda viajar.
Ultimamente, ela me faz sonhar: coisas da escola, insufi­
ciências da carne, e sei lá que acontecimentos em que o sono
suspeita que me envolvi quando acordado; meus devaneios,
meus sonhos noturnos, são seu território definido.- Não há
confusão a que ela não dê forma com seu rabo pelado. Por
toda parte ela deixa a marca de seu cheiro. Eu posso escon-
der-me atrás de mentiras do tamanho de um bonde ou pro­
fundas ambigüidades: ela as atravessa. Sua roeção ininterrupta,
seu tom professoral. Eu não falo mais, é ela que tenta me con­
vencer.
Basta! diz ela. Vocês são coisa do passado. Não existem
mais, são lembrados como loucura. Nunca mais vocês vão dar
as cartas. Todas as perspectivas se extinguiram. A vez de vo­
cês já passou. Definitivamente. E não era sem tempo!
N o futuro, só ratos. N o princípio, poucos, porque quase
toda vida acabou, mas, ao passo que conta, relatando nosso
desfecho, a ratazana já começa a procriar. Ora sua voz aguda
se enche de pena, como se ela quisesse ensinar suas últimas
ninhadas a chorar por nós, ora ela zomba em sua língua de ra­
to,# como se ainda guardasse rancor. Vocês sumiram, sumiram!
Eu, porém, dou o contra: Não, ratazana, nada disso!
Ainda somos numerosos. Os noticiários relatam pontualmente
nossos feitos. Elaboramos planos que prometem dar certo.
Pelo menos a médio prazo, ainda estamos aí. Até mesmo
aquele homenzinho corcunda, que já quer se intrometer de
novo, disse ainda há pouco, quando eu estava descendo ao po-
* Em alemão Rattenwelsch, para lembrar o Rotwelsçh, a antiga língua secreta dos va­
gabundos, mistura de iídiche, línguas ciganas e elementos dialetais. (N. do T.)

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M

rão para dar uma olhada nas maçãs de inverno: pode ser que a
humanidade chegue ao fim, mas, no fim das contas, somos nós
que decidimos quando acaba o expediente.
Histórias de ratos! Quantas ela conhece. Eles não vivem
so nas regiões mais quentes, parece que. se encontram até nos
iglus dos esquimós. Com os desterrados, os ratos conseguiram
povoar a Sibéria. Fazendo companhia a pesquisadores polares,
ratos de navio descobriram o Ártico e a Antártida. Não houve
ermo que eles achassem inóspito demais. Atravessaram o de­
serto de Góbi atrás da caravanas. Fizeram o percurso de Meca
e de Jerusalém no séquito de peregrinos devotos. Juntinho
dos povos nômades, viram-se ratos errantes. Foram com os
godos até ò mar Negro, seguiram com Alexandre para a índia,
atravessaram os Alpes com Aníbál e éntraram èm Roma como
apêndice dos vândalos. Atrás dos exércitos de Napoleão:
Moscou, ida e volta. Com Moisés e o povo de Israel, cruzaram
o mar Vermelho sem molhar as patas,-para provar do maná
celestial no deserto de Sim; desde o começo não faltaram de­
jetos.
Tudo isso minha ratazana sabe. Ela exclama, que chega a
ecoar: N o começo, foi a proibição! Pois quando o Deus dos
homens esbravejou: porque eu, eis que trago hum dilúvio de
agoas sobre a Terra, para desfazer toda carne, em que há espi­
rito de vida debaixo do ceo, nos foi expressamente proibido
subir a bordo. Fomos barrados, quando N oé transformou sua
arca num zoológico, apesar de seu Deus carrasco, diante do
qual ele tinha encontrado misericórdia, ter dito claramente lá
do alto: de todo animal limpo tomarás para ty sete e sete, ma­
cho e sua femea: mas de animaes que não são limpos, dous,
machos e sua femea, porque farei chover sobre a Terra qua­
renta dias e quarenta noites, e desfarei toda sustancia que fiz
de sobre a face da Terra. Porque me arrependo de os aver feito.
E N oah fez como seu Deus mandara e tomou das aves se­
gundo sua especia, e das bestas segundo sua especia, de todo*

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reptil da Terra segundo sua especia; só criaturas como nós ele
não queria m eter no seu caixote, nem sete nem dous, nem
macho nem femea. Limpos ou não-limpos, para ele nós não
existíamos. Em tão priscas eras já estava o preconceito arrai­
gado. De saída, o ódio e o desejo de ver eliminado o que é
difícil de engolir e dá náuseas. O nojo inato dos homens,
diante de nossa espécie, impediu N oé de agir segundo as pa­
lavras de seu severo Deus. Ele nos rejeitou, riscou-nos de sua
lista, que incluía tudo o que respirava.
Baratas e aranhões, vermes contorcidos, até o piolho e o
sapo verrucoso, faiscantes moscas-varejeiras, de tudo ele le­
vou, dous de cadahum, para bordo de sua arca, menos nós.
Nós deveríamos empacotar, como o numeroso resto da cor­
rompida humanidade, a respeito da qual o Todo-Poderoso,
esse Deus vingativo, que está sempre punindo, amaldiçoando
a porcaria que ele próprio fez, disse para concluir: a maldade
do homem se multiplicou sobre a Terra, e todo o fingimento
dos pensamentos de seu coração somente era mao em todo
tempo.
N o que ele mandou chuva, que caiu por quarenta dias e
noites, até tudo estar coberto pela água, ficando à tona tão-
somente a Arca de N oé com seu conteúdo. Quando as águas
baixaram e os primeiros picos de montanhas emergiram do di­
lúvio, depois do corvo que fora solto, voltou a pomba, da qual
se disse que tornou a elle à hora da tarde, e eis hüa folha de
oliveira tomada em seu bico. Mas não era apenas um capinzi-
nho que ela trazia voando ao encontro de N oé. Ela trazia
também uma espantosa notícia: onde não havia mais nenhum
sinal de vida, ela vira cocozinhos de rato, cocozinhos de rato,
frescos.
Então Deus riu, farto de sua própria picaretagem, pois a
desobediência de Noé acabara se esboroando diánte de nossa
tenacidade. Ele disse, como sempre de cima para baixo: Daqui

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por diante rato e rata acompanharão o homem sobre a Terra,
e eis que trarão sobre elle todas as pragas prometidas.
Ainda fez outros yaticínios, que não estão escritos; nos
incumbiu da peste, e, ao jeito do Todo-Poderoso, fingiu
maiores onipotências. Ele próprio nos teria pessoalmente
poupado do dilúvio. Sobre sua divina mão ficara em segurança
um par da espécie não-limpa. Sobre a mão de Deus a pomba
solta por N oé teria visto frescos cocozinhos de rato. Graças à
sua garra, teríamos subsistido tão numerosos, pois na palma da
mão de Deus teríamos parido nossos filhotes, nove, sendo
que a ninhada se expandira durante os cento e cinqüenta dias
em que as águas tomaram a Terra, formando um pequeno
bando de ratos; tão espaçosa era a mão de Deus onipotente.
Depois desse discurso, N oé ficou calado, impenitente,
pensando coisas feias com seus botões, costume que já tinha
desde a juventude. Quando a arca encalhou no monte Ararat,
as terras inóspitas por ali afora já tinham sido tomadas por
nós. Pois nós, a estirpe dos ratos, tínhamos com nosso apego à
vida escapado do dilúvio, mas não nas mãos de Deus, e sim
em galerias subterrâneas, vedadas por nós com carcaças de ve­
lhos animais, formando tocas transformadas nas bolhas de ar
da nossa salvação. Nós, com nossos rabos compridos! Nós,
com o faro de nossas vibrissas! Nós, com o dente que volta a
crescer! Nós, apertadas notas de rodapé do homem, seu co­
mentário exuberante! Nós, indestrutíveis!
Em pouco tempo, já habitávamos o caixote de Noé. N e­
nhuma precaução adiantou: comíamos do que ele comia. Com
rapidez maior que a capacidade de procriar dos homens que
rodeavam N oé e dos animais de sua eleição, nosso número
cresceu. A espécie humana não se livrou mais de nós.
E então N oé disse, fingindo humildade perante a seu
Deus, e ao mesmo tempo tomando-lhe o lugar: meu coração
estava obscurecido, pois não atentei à palavra do Senhor. Mas
por vontade do Todo-Poderoso, o rato conservou-se em vida

17
conosco sobre a Terra. Amaldiçoado seja a revolver onde haja
detrito em nossa sombra.
Isso se cumpriu, disse a ratazana com que sonho. Por
onde o homem passava, em todo lugar que ele abandonava,
ficava o lixo. Mesmo à procura da verdade última, mesmo no
encalço de seu Deus, ele produzia lixo. Por seu lixo, deposi­
tado camada sobre camada, podia-se invariavelmente reconhe-
cê-lo sempre que se escavava em sua busca; pois mais que o
homem duram seus detritos. E dele tão-somente o lixo sobre­
viveu.

Como sua cauda é pelada e fica ora de um jeito, ora de


outro! Ah, como ela está crescida, minha ratazana de Natal,
tão engraçadinha. Andando inquieta para cima e para baixo, e,
em seguida, tesa, com exceção das vibrissas que tremem, ela
mantém ocupados todos os meus sonhos. Às vezes, ela tagarela
à toa, como se os segredos do mundo, inclusive bagatelas, tives­
sem de ser contados em língua de rato, na qual muito se fofoca e
se cochicha; em seguida, retoma seu falsete professoral,
fazendo-me voltar à escola, dando-me ratazanais lições de co­
nhecida história; finalmente, dá seus veredictos, como se tivesse
engolido a Bíblia de Lutero, os Profetas Maiores e Menores, os
Provérbios de Salomão, as Lamentações de Jeremias, bem co­
mo, de passagem, os Apócrifos, a cantilena dos homens no forno
de fogo ardente, e todos os selos do Apocalipse.
Deveras, vocês não existem mais! ouço-a proclamar.
Como o Cristo morto falou outrora do alto do edifício do
mundo, a ratazana fala tonitruante do alto da montanha de li­
xo: Não existíssemos nós, e sobre vocês não se ouviria pala­
vra. O que restou da espécie humana, arrolamos para a me­
mória. Planícies se estendem, tomadas pelo lixo, lixo ao longo
das praias, vales em que o lixo se acumula. Massa sintética,
movimentando-se em flocos, tubos que não guardam memória
de seu ketchup não apodrecem. Sapatos, nem de couro, nem

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de palha, caminham por si mesmos com a areia, concentram-
se em depressões cheias de lixo, onde já os esperam luvas de
velejar e divertidos bichinhos de banho. Tudo isso fala de vo­
cês sem cessar. Vocês e suas histórias, lacrados em plástico
transparente, fechados êm sacos de conserva, fundidos em re­
sina sintética, vocês em chips e clips: a extinta espécie humana.
O que sobrou, além disso: ferro-velho rolando com es­
trondo por suas pistas. Não há papel para comermos, mas tol­
dos puídos envolvem colunas e vigas de aço. Espuma endure­
cida. Geléia que treme em panquecas, como se nelas houvesse
vida. Por toda parte, apodrecem bandos de vasilhames. Pelícu­
las, libertas de seus cassetes, andam à solta por aí: 0 Caine foi
seu destinof Doutor Jivago, Pato Donald, Matar ou morrer, Em
busca do ouro... Tudo o que para vocês foi a vida, divertida ou
comovente até as lágrimas, em imagens movimentadas.
Ah, os cemitérios de automóveis de vocês, em que anti­
gamente se podia viver bem. Containers e outras coisas de
empilhar. Caixas, que vocês chamavam de cofres e casas-
fortes, estão escancaradas: vomitaram todos os segredos. Sa­
bemos tudo, sem exceção! E o que vocês depositaram em to­
néis ensopados, esqueceram, cancelaram com incorreção: nós
os encontramos, esses seus milhares de milhares de vazadou-
ros de lixo tóxico, locais que delimitamos deixando marcas de
cheiro em sinal de alerta, alerta para nós, pois apenas nós
ainda existimos.
Não há como negar: mesmo o lixo de vocês é notável! E
criaturas como nós com freqüência se espantam quando junto
ao pó irradiante as tempestades trazem de longe, pelas colinas
até a terra plana, partes volumosas de construções pré-
fabricadas. Vejam, um telhado de fibra de vidro vem velejan­
do! Assim nos ocorre à memória a extravagância humana: su­
bir sempre mais, escaladas de imaginação sempre mais íngre­
mes... Vejam como seu progresso despencou, todo amassado!

19
á

E eu via o que sonhava, via geléia tremendo e películas


vagando por aí, ferro-velho rolando e folhas de plástico agita­
das pela tempestade, via substâncias tóxicas vazando de tonéis;
e via a ratazana anunciando do alto da montanha de lixo que o
homem deixara de existir. Isto, dizia ela, é o espólio de vocês!
Não, ratazana, não! gritei eu. Ainda estamos em ativida­
de. Para o futuro, já foram marcados prazos e horas, por
exemplo pelo imposto de renda e no dentista. Os vôos de fé­
rias estão reservados com antecedência. Amanhã é quarta-
feira e depois de amanhã... E há também um homenzinho cor­
cunda em meu caminho, dizendo: Ainda é preciso escrever
mais isto e mais aquilo, para que nosso fim, caso ele venha,
aconteça preconcebido.

Meu mar, que se perde para o Leste,


e ao N orte, onde está Harapananda.
A poça d ’água báltica.
Além disso: o que partiu de Gotland, ilha de ventos.
De como as algas roubaram o ar do arenque
e da cavala, e do lúcio também.

O que eu quero contar poderia,


já que desejo com palavras postergar o fim,
começar com águas-vivas em número sempre maior,
incalculavelmente maior,
até que o mar, meu mar,
todo ele uma água-viva.

O u eu deixo os heróis tão propalados,


o almirante russo, o sueco, Dõnitz, outro mais,
surgirem, até que destroços
não faltem — tábuas e livros de bordo,
listas de provisões —
e se tenham festejado todos os naufrágios.

20
E quando no Domingo de Ramos caiu fogo
do céu sobre a cidade de Lübeck e suas igrejas,
queimou-se a pintura interna das paredes de tijolos;
Malskat, o pintor, deve agora uma vez mais
áubir ao alto do andaime, para que nosso gótico
não desapareça.

Ou, pois eu não consigo largar


a beleza, fala a organista de Greifswald,
rolando seu R em seixo de praia.
Contando bem, ela sobreviveu
onze pastores, mantendo sempre
o cantus firmus.

Agora, ela atende pelo nome da filha de Witzlav.


Agora, Damroka não conta
o que lhe contara o linguado.
Agora, ela ri, do banco do órgão,
em memória de seus onze pastores: o primeiro, um ranheta,
vinha da Saxônia...

Convido vocês: pois cento e sete anos


completa Anna Koljaiczek de Bissau junto a Viereck,
isso é perto de Matarnia.
Vêm todos festejar o aniversário
com gelatina de carne, cogumelos e bolo,
que a gente da Caxúbia se espalhou.

Os do além-mar: eles chegam de Chicago.


A viagem mais longa é a dos australianos.
Quem subiu na vida, no Ocidente,
vem mostrar aos que ficaram
em Ramkau, Kartuzy, Kokoschken
as vantagens do marco alemão.

21
Cinco do Estaleiro Lenin: uma delegação.
Saias-pretas trazem a bênção da Igreja.
Não só o correio estatal,
o Estado polonês se faz representar.
Vem também o Sr. Matzérath
com motorista e presentes.

Mas o fim! Quando chega o fim?


Vineta! Onde fica Vineta?
Elas surgem, e entendem de mar; é que no meio tempo
mulheres entram em ação.
Garrafas com mensagens, quando muito,
fazem suspeitar seu rumo.

Não há mais esperança.


Pois com as florestas,
vai ficar escrito aqui,
morrem os contos de fadas.
Gravatas cortadas logo abaixo dos nós.
O nada às costas, os homens, afinal, recuam de seus postos.

E quando o mar mostrou Vineta às mulheres,


era tarde demais. Damroka se esvaiu,
e Anna Koljaiczek disse: agora cabô-si.
Ah, que é que v^i ser, quando tudo acabou!
Então, sonhei com a ratazana e escrevi:
a Nova Ilsebill desembarca como rato.

Em outubro de 99, quando o Dora, uma barcaça de aço


com fundo de madeira, foi encomendado ao construtor naval
Gustav Junge, e mais tarde, em maio de 1900, quando foi lan­
çado ao mar no estaleiro de Wewelsfleth, seu proprietário,
Richard Nickels, não imaginava tudo o que iria suceder à sua

22
barcaça do Alster, dimensionada para a comporta de Graskcl
ler em Hamburgo. Tanto mais do que o novo século, parrudo
e anunciado aos brados, vinha ao mundo com os bolsos reple­
tos, como se quisesse comprá-lo.
A embarcação tinha quase dezoito metros dé compri­
mento por quatro e setenta de largura. A tonelagem de regis­
tro bruto do Dora era de trinta e oito ponto cinco toneladas e
sua capacidade de carga era de setenta toneladas, estando en­
tretanto declarada com sessenta e cinco. Um bom cargueiro
para grãos e gado de corte*, madeira de construção e tijolos.
O barqueiro Nickels não transportava carga apenas pelo
Elba, Stõr e Oste, ele servia também a outros portos alemães
e dinamarqueses, subindo a Jutlândia e se afastando até a Po-
merânia. Com bom vento, sua barcaça fazia quatro nós por
hora.
Em 1912, o Dora foi vendido, ao banqueiro Johann Hein-
rich Jungclaus, e com ele atravessou incólume a Primeirii.
Guerra Mundial. Em 1923, na época do Raite.nmark * foi
equipado com motor a ignição de 18 HP. Krautsand substi­
tuíra Wewelsfleth como porto de ôrigem, pintado na popa em
letras brancas sobre fundo preto. Ijsço mudou, quando Jungclaus
vendeu a barcaça ao barqueiro _Paul Zens, de 'Cammin no
Dievenow, uma cidadezinha da Pomerânia que hoje se chama
Kamien.
Lá, o Dora deu na vista. Quando a embarcação de fundo
chato navegava pelos rasos de Greifswald, os marinheiros de
cabotagem da Pomerânia chamavam-na com desprezo de atra-
vessa-caminho. Continuava a transportar grãos, repolho de in­
verno, gado de corte, e também madeira para construção, tijo­
los, telhas, cimento, pois construiu-se muito até os primeiros
tempos da Segunda Guerra Mundial: quartéis, barracões de
alojamento. Agora, o proprietário do Dora chamava-se Otto

# Moeda alemã dos anos 1923-24. (N. do T.)

23
Stõhwase, e a popa indicava Wollin como porto de origem: é
o nome de uma cidade, e de uma ilha que se encontra no lito­
ral da Pomerânia ao lado da ilha de Usedom.
De janeiro a maio de 45, embarcações grandes e peque­
nas cruzaram o Báltico, apinhadas de civis e de soldados. Nem
todas conseguiram alcançar os portos das cidades de Lübeck,
Kiel, Copenhague, o Ocidente salvador. Pouco antes de o Se­
gundo Exército soviético atingir o Báltico, também o Dora re­
colheu retirantes na região de Danzig, da Prússia Ocidental,
par u lí. los até Stralsund. Foi quando o Gustloff afundou.
Foi quando o Cap Arcona foi destruído pelo fogo na baía de
Neustadt. Foi quando por toda parte, mesmo na costa neutra
da Suécia, apareceram quantidades de cadáveres boiando; e os
que ainda viviam acreditaram ter escapado, e por isso chama­
ram o fim de hora zero, como se antes nada tivesse aconteci­
do;
Dez anos mais tarde, enquanto a paz reinava armada pelo
mundo, a barcaça, com o comprimento e a largura de sempre,
ganhou um motor diesel Brons de 36 HP, e seu novo proprie­
tário, a firma Koldewitz em Rügen, mudou-lhe o nome de
Dora para llsebill — com certeza em alusão a um conto popu­
lar baixo-alemão cuja narrativa fora registrada na mesma
época em que em toda a Alemanha, e portanto também na
ilha de Rügen, os contos populares foram coligidos.
Atendendo pelo nome da mulher do pescador que pediu
mais e mais do linguado falante, até afinal desejar ser como
Deus, o llsebill ainda serviu por muito tempo como cargueiro
nos rasos de Rügen, no estuário do Peene, e no Achterwasser,
a costa interna do centro de Usedom, até que em meados dos
anos 60, enquanto a paz continuava a reinar armada, quiseram
transformá-lo em sucata e afundá-lo no porto de Warthe em
Usedom, como base de quebra-mar. O casco de aço, cuja
popa indicava a cidade de Wolgast como último porto de ori­
gem, deveria ser inundado.
Isso não aconteceu, pois no rico Ocidente, ao qual a
guerra perdida trouxera sorte, surgiu uma compradora. Origi­
nária de Greifswald, depois de diversas etapas ela mudara para
Lübeck, mas não perdera a fixação por velharias da Pomerânia
Anterior, fossem elas de Rügen, de Usedom ou, como no
caso da barcaça de mezena, com seu casco de aço e fundo de
madeira, tivessem sido levadas para lá; na realidade, ela estava
procurando um dos pesqueiros bálticos, que tinham se tor­
nado uma raridade.
Depois de exaustivas negociações, a compradora, com a
persistência característica da gente de sua terra, conseguiu fe­
char negócio, pois a República Democrática Alemã, que era o
ultimo proprietário, ansiava pela moeda forte do Ocidente; o
transporte da barcaça saiu mais caro que a aquisição.
Por muito tempo, o Dora, aliás llsebill, ficou em Trave-
münde. Casco e mastro de proa pretos, cabine de comando e
demais cobertas azuis e brancas. Em longos fins de semana e
durante as semanas de férias, a nova proprietária, que quero
chamar de Damroka porque gosto dela, limpava, consertava,
dava pinceladas em sua embarcação. Até que, no final dos
anos 70, além da patente de arrais tirou a de navegação costei­
ra, e isso apesar de ser organista de profissão e ter desde a
juventude trabalhado com mãos e pés para Deus e Bach. Dei
xou para trás órgão, igreja e pastor, liberou-se da servidão
musical, e a partir de agora cabe-lhe o nome de capitã Dam ­
roka, não importando que ela pouco saia com seu barco e ele
mais lhe sirva de morada, em cujo convés se deixa ficar, pen­
sativa, inseparável de uma caneca de café sempre pela metade.
Foi só no princípio dos anos 80 que Damroka concebeu
um plano, que, depois de viagens de teste pela baía de Lübeck
e até a Dinamarca, deve ser realizado a partir de maio deste
ano, que segundo o calendário chinês é o ano do rato.
Uma barcaça de mezena construída em 1900, que trocou
várias vezes de proprietário e porto de origem, perdeu o mas­

25
tro da mezena, mas, depois da última reforma, recebeu um
potçnte motor diesel; uma embarcação que, como se devesse
encarnar um programa, atende pelo nome de A Nova llsebill e
em breve será tripulada por mulheres, foi transformada de
barcaça de carga em navio de pesquisas, no porto de Trave-
münde. N a pré-nau, uma parede de madeira separa um es­
treite) compartimento de dormir para a tripulação feminina.
N o bico-de-proa, transformado em armário, cabem sacos de
viagem, livrçs, apetrechos de tricô e coisas de primeiros so-
corros. A meia-nau, o compartimento de carga, com uma
longa mesa de trabalho, vai daqui para a frente servir à pes­
quisa. Sobre a casa de máquinas com o novo motor de 180 HP,
encontra-se a cabine de comando, um pavilhão dé madeira
com janelas para todos os lados, acrescido, em direção à popa,
de uma pequena cozinha: antes um alpendre que uma cozinha
de bordo.
Cinco mulheres: superlotação; é apertado a bordo, não há
muito conforto. Tudo tem sua finalidade: a mesa de pesquisa
serve também de mesa de refeições. A Nota llsebill deve per­
correr o litoral da Alemanha Federal, Dinamarca, Suécia e —
caso a autorização chegue — da RDA. A incumbência é precisa:
medir em certos pontos a densidade de águas-vivas no Báltico
ocidental; pois que o Báltico esteja cada vez mais infestado de
águas-vivas, não é um mero dado estatístico. Nos balneários, o
turismo sofre. Além disso, vivendo do plâncton e das larvas de
arenque, a Aurelia aurita prejudica a pesca. O Instituto de
Oceanografia, com sede em Kiel, resolveu por isso financiar
trabalhos de pesquisa. E claro que as verbas são, como sem­
pre, escassas. E claro que não deve ser pesquisada a causa da
infestação, mas somente a variação dos contigentes. E claro
que já se sabe de antemão que os dados obtidos serão fu­
nestos.
E o que dizem as mulheres a bordo do barco, todas elas
de riso fácil, debochadas, línguas ferinas e, se for 0 caso, ver­

26
dadeiras cascavéis; cabelos grisalhos, elas já não são tão jo­
vens. Desde a partida — o cais a bombordo, tomado por turis­
tas acenando —, a proa atravessa abundantes contigentes de
águas-vivas, que tornam a fechar-se atrás da popa, todos re-
rrfexidos.
Correspondendo aos meus desejos, as cinco mulheres
treinaram para essa viagem. Sabem fazer nós e atracar. Enxar-
ciam e dão um cabo com facilidade. Orientam-se mais ou me­
nos bem pelo balizamento. Tomam cursó como marinheiros.
A capitã Damroka mandou, emoldurar sua* patente, e pendu­
rou-a na cabine de comando. Fora isso, nem mesmo um pe­
queno quadro que pudesse parecer um enfeite; em compensa­
ção, um ecobatímetro Atlas complementa a velha bússola, e
há um receptor meteorológico.
Sabe-se muito bem que o Báltico está infestado de algas,
envelhecido por fiapos de sargaço, mais que saturado de
águas-vivas e, ainda por cima, poluído por mercúrio, chumbo
e tudo mais. Mas é preciso pesquisar onde ã saturação, o enve­
lhecimento, a infestação são maiores, menores, ainda inexis­
tentes, particularmente grandes, sem levar em conta todas as
substâncias danosas que são computadas à parte. Por isso, o
barco de pesquisa foi equipado com instrumentos de medição,
um dos quais se chama “tubarão-medidor”, ironicamente ape­
lidado de “contador de águas-vivas”. Além disso, devem ser
medidas, pesadas e determinadas as reservas de plâncton e de
larvas de arenque, e de tudo mais que as águas-vivas comem.
IJma das mulheres é formada em oceanografia. Ela conhece òs
números de medições ultrapassadas e a composição orgânica
do Báltico ocidental com precisão aritmética. N este escrito,
cia daqui por diante vai ser chamada a oceanógrafa. Sopra um
fraco noroeste, e a barcaça de pesquisa toma curso. Calmas
como o mar, e seguras de seus conhecimentos, as mulheres se
tlcdicam a seus afazeres de bordo. Pouco a pouco, porque as-
sim eu quero, elas se habituam a chamar-se por suas funções e

27
a exclamar “ei maquinista!” ou “onde se m eteu a oceanógra-
fa?”. Apenas a mais velha das mulheres, embora ela cuide da
cozinha, não será chamada por mim de cozinheira, mas de ve­
lha.
Ainda não é preciso largar o tubarão-medidor. Sobra
tempo para histórias. A três milhas de distância dos balneários
da costa de Holstein, a capitã conta à timoneira coisas dos ve­
lhos tempos em que durante dezessete anos ela fora fiel à sua
paróquia e sobrevivera a onze pastores seguidos. Por exem­
plo, ela encurtava o sermão sempre excessivamente longo do
primeiro — “Aquilo era um ranheta, vinha da Saxônia” —
com o coral “É o bastante”. Mas, como a timoneira apenas
sorri no íntimo, permanecendo amargurada como é de sua na­
tureza, Damroka reduz essa história, deixando o primeiro dos
onze pastores falecer depois de uma repentina queda da ba-
laústrada do órgão: “Então só sobraram dez...”

Não, diz a ratazana com que sonho, estamos fartos dessas


lengalengas. Isso já passou, está passado. Não há o que não
esteja escrito, preto no branco. Engordamos com esses arrotos
de sabedoria e esse latim de igreja, nos tornamos eruditos de
tanto comer pergaminhos carcomidos, in-fólios encadernados,
obras completas recheadas de papeizinhos e enciclopédias sa-
bichonas. De d’Alembert a Diderot, conhecemos tudo: o sa­
grado Iluminismo e a repulsa ao conhecimento que o seguiu.
Todas as exalações da razão humana.
Já antes, já nos tempos de Santo Agostinho, estávamos
empanturrados. De Sankt Gallen a Uppsala: não há biblioteca,
de convento que não tenha aumentado nossa sabedoria.
Mesmo deixando de lado o significado real da expressão rato
de biblioteca, nós somos muito lidos, em tempos de fome nos
nutrimos de citações, conhecemos de cabo a rabo a grande li­
teratura e os livros de não-ficção, nos fartamos dp pré-socráti-
cos e sofistas. A barriga está cheia de escolásticos! Sempre nos

28
«Irmos bem com suas frases complicadas, que nós fomos di­
minuindo, diminuindo... Notas de rodapé: uma delícia extra!
Como sempre fomos esclarecidos, as mais pedantes disserta­
ções e tratados, digressões e teses eram para nós um passa-
tcfmpo.
Ah, o suor mental e os rios de tinta de vocês! Quanto pa-
l>rI foi borrado para fomentar a educação da espécie humana!
Panfletos e manifestos. Palavras foram chocadas e sílabas buri­
ladas. Pés de verso contados, seu sentido esmiuçado. Tanta
pretensão. Em tudo o homem punha dúvida. A cada palavra,
replicava com sete. E a briga, do alto de todos os púlpitos, a
propósito de se a Terra era redonda, e o pão, de fato, o corpo
do Senhor. N ós gostávamos especialmente de suas disputas
teológicas. E sem dúvida podia ler-se a Bíblia de um jeito ou
dc outro.
E a ratazana, que não queria saber de Damroka e seus
onze pastores, contou suas recordações dos tempos de fana­
tismo religioso, antes e depois de Lutero: discussões de mon­
ges e desavenças de teólogos. E sempre se tratava da palavra
verdadeira. E claro que o assunto logo voltou mais uma vez a
Noé; ela em purrou a arca, com todos os três andares exigidos
por Deus, para dentro de meu sonho.
Sim! exclamou, ele tinha a obrigação de nos acolher na­
quele caixote de pinho. N o primeiro livro de Moisés não
existe uma palavra dizendo: ratos para fora! Até mesmo a ser­
pente — e se podia ler em letras de imprensa que ela fora
amaldiçoada mais que toda besta e mais que todos os animais
do campo —, até mesmo ela pôde entrar no caixote de madei­
ra, um par, macho e fêmea. E nós, por que não? Isso foi tram­
bique! Nós protestamos diversas vezes.
Então em imagens fluentes como requer o sonho, tive
que ver N oé fazendo sete pares dos animais limpos e um par
de cada bicho não-limpo subirem por uma rampa ao caixote
de vários pavimentos. Ele apreciava seu picadeiro como um

29
diretor de circo. Nenhuma espécie faltava. Eles entravam pe-
sadões, aos pulinhos, deslizando, arrastando-se, batendo asas,
esgueirando-se, contorcendo-se, sem esquecer a minhoca e
seu minhoco. Aos pares, procuravam abrigo; camelo e elefan­
te, tigre e gazela, a cegonha e a coruja, a formiga e o caracol.
E aos pares, depois dos cães e gatos, raposas e ursos, os vários
roedores: arganazes e camundorigos, sim senhor, ratinhos sil­
vestres, campestres, do deserto, saltadores. Mas sempre que
rato e rata queriam entrar na fila, também eles procurando
abrigo, vinha a ordem: fora! Saiam daqui! Está proibido!
Não era N oé quem falava. Ele conferia sua lista sob a en­
trada da arca, lousas de argila em que arranhava sinais, calado,
de cara amarrada. Eram seus filhos, Sem, Cão e Jafé, três su­
jeitos pesadões que mais tarde, segundo instruções do alto,
receberiam a incumbência: frutificai e multiplicai-vos, e en­
chei a Terra. Eles berravam: dêem logo o fora! Ou: está proi­
bida a entrada de ratos! Estavam executando a palavra do pai.
E dava pena ver o par de ratos bíblicos ser escorraçado da
rampa, depois de caçado a pauladas no emaranhado dos lon­
gos fios da lã dos carneiros ou nas curvas do ventre caído dos
hipopótamos. Afinal, desistiram, sofrendo chacota de macacos
e porcos.
E se a mão de Deus, disse a ratazana, não nos tivesse aco­
lhido enquanto a arca se enchia a olhos vistos, ou, para sermos
mais precisos: se não nos tivéssemos enterrado, vedado nossas
galerias subterrâneas, transformando as tocas em bolhas de ar
que nos salvaram, não estaríamos hoje aqui. Não haveria
ninguém digno de menção, capaz de sobreviver à espécie
humana.
Nós sempre existimos. De qualquer forma, já estávamos
presentes no final do Período Cretáceo, quando do homem
nem prenúncios havia. Isso foi na época em que aqui e em
toda parte os dinossauros e outros monstros raparam as flores­
tas de fetos arborescentes e cavalinhas. Idiotas de sangue frio

30
que punham ovos ridiculamente grandes, dos quais saíam no­
vos monstros disformes que cresciam até proporções desco­
munais. Acabamos fartos desses exageros da natureza; meno­
res que hoje em dia, mais ou menos do tamanho dos ratos de
Galápagos, nós quebramos seus ovos gigantescos. Abobalha­
dos e rijos no frio da noite, os dinossauros deixaram-se ficar,
desvalidos, incapazes de uma reação. Caprichos de uma natu­
reza em regra mal-humorada, eles eram obrigados a contem­
plar do alto de suas cabeças relativamente diminutas e quase
esquecidas quando da criação do mundo, como nós, com
nosso sangue que sempre foi quente, nós, os primeiros mamí­
feros de cria parida viva, nós, com o dente que volta sempre a
crescer, nós, ratos ágeis, perfurávamos seus ovos gigantescos
por mais que as cascas duras e grossas opusessem resistência.
Assim que eram postos, e antes que começassem a ser choca­
dos, os ovos que Deus lhes dera se esvaziavam sem apelação,
furo a furo, para nosso divertimento e saciedade.
Pobres dinossauros! zombava a ratazana, mostrando seus
cientes roedores que não paravam de crescer. Ela os citou: o
braquiossauro e o diplodoco, dois monstros que chegavam a
pesar oitenta toneladas; saurópodes escamosos e terópodes
couraçados, sáurios com pés de ave, dos quais fazia parte o ti-
ranossauro, um monstro de rapina com quinze metros de
comprimento; e o tourossauro com seus chifres; figuras desna-
turadas que me apareciam com a realidade do sonho. E, além
disso, anfíbios e répteis voadores.
Meu Deus, exclamei, um monstro pior que o outro! A ra­
tazana disse: Eles logo se acabaram. Depois da perda de seus
ovos gigantescos, despojados de seus monstros-bebês, os di­
nossauros se arrastaram para os pântanos, onde soçobraram
sem lamentos nem danos aparentes. E por isso que, mais tar­
de, o homem, movido por sua curiosidade incansável, encon­
trou seus esqueletos dispostos lado a lado em tão perfeita or­
dem, construindo então espaçosos museus. Encaixados todos

31
os ossos, os sáurios foram expostos, cada exemplar ocupando
uma sala inteira. Também foram encontrados notáveis ovos
gigantes, cuja casca trazia a marca de nossos dentes, mas nin­
guém, nenhum pesquisador do final do Cretáceo, nenhum
pontífice da teoria da evolução, quis confirmar nossas faça­
nhas. Os dinossauros, disseram, desapareceram por razões até
hoje inexplicadas. Supõe-se que a casca estratificada dos ovos,
uma brusca queda de temperatura e um período de chuvas
torrenciais possam ter sido as causas que levaram os monstros
à morte; aos ratos, à nossa espécie, ninguém quis atribuir o
mérito.
De tal forma se queixava a ratazana com que sonho, de­
pois de repetidas e ferozes demonstrações de como abriram
os ovos gigantes. Não fôssemos nós, e ainda hoje haveria es­
ses monstrengos! exclamou. Abrimos espaço para uma nova
vida sem monstruosidades. Graças a nossa diligente roeção,
outros mamíferos puderam desenvolver-se com seu sangue
quente, inclusive as formas primitivas de ulteriores animais
domésticos. E não apenas cães, cavalos, porcos: o próprio ho­
mem remontava a nós, os primeiros mamíferos; o que ele nos
retribuiu com ingratidão, desde os tempos de Noé, em que
rato e rata não puderam entrar na arca...

Temos que cumprimentar uma pessoa. Alguém que se


apresentou como velho conhecido e afirma que ainda existe.
Ele quer voltar a existir. Bem, que volte.
O Sr. Matzerath passou por muitas coisas; aliás, em
pouco tempo vai completar sessenta anos. Deixando de lado o
processo, sua custódia num certo estabelecimento e, além dis­
so, o imponderável da culpa: mesmo depois que teve alta,
muito sacrifício se acumulou sobre a corcunda de Oskar, essas
reviravoltas que acompanham uma prosperidade que aos pou­
cos aumenta. Contrastando com a atenção qüe seus verdes
anos despertaram, ele envelheceu despercebido, e aprendeu

32
então a contabilizar prejuízos como pequenos lucros. As bri­
gas familiares — sempre relacionadas com Maria e particular­
mente com o filho Kurt — continuaram invariáveis, mas a
soma dos anos passados fez dele, além de um empresário in­
dependente, um contribuinte como outro qualquer, sensivel­
mente envelhecido.
Assim, ele caiu no esquecimento, embora suspeitássemos
que ainda existisse: deve viver retraído em algum lugar. Teria
bastado ligar para ele — “Alô, Oskar!” —, e ele apareceria:
loquaz; pois nada indica que tenha morrido.
Eu pelo menos não promovi a morte do Sr. Matzerath,
embora ele também não me inspirasse mais nada de especial.
Desde que fez trinta anos, não houve notícias dele. Ele se re­
cusava. Ou será que fui eu quem o tinha trancado?
Só há pouco, quando eu sem maiores intenções queria
descer ao porão para ver as maçãs de inverno se enrugando, e
meus pensamentos no máximo estavam voltados para minha ra­
tazana de Natal, é que nos encontramos, numa espécie de ní­
vel superior: ele estava ali e não estava, pretendia estar e lan­
çava sua sombra repentina. Ele queria atenção, queria interes­
se. E, prontamente, eu lhe dou atenção. Que faz com que ele
de forma tão repentina se torne de novo interessante? Será
que seu tempo tornou a voltar?
Desde que o 107.° aniversário de sua avó Anna Koljaiczek
está marcado na agenda, perguntam — primeiro a meia voz —
pelo Sr. Matzerath. Um cartão-postal com o convite locali­
zou-o. Quando a festa começar, à moda caxúbia, ele deve estar
entre os convidados. Mas que não vá a Bissau, cujos campos
foram cobertos de concreto, transformando-se em pistas de
|x)uso, e sim a Matem, uma aldeia das imediações. Se ele está
com vontade de viajar? Deve pedir a Maria e a Kurtinho que o
acompanhem? Será que o pensamento da volta amedronta
nosso Oskar?
7

E como está de saúde? Como se veste hoje em dia o ho-


menzinho corcunda? Devemos, podemos reativá-lo?
Quando tentei me assegurar, cauteloso, a ratazana com
que sonho nada tinha a objetar contra a ressurreição do Sr.
Matzerath. Continuando a invocar todo o lixo que teremos
por testemunha, ela disse de passagem: Ele vai comportar-se
de maneira menos desmedida, mais humilde. Ele pressente o
que se confirmou de forma tão desoladora...
Assim, eu chamo — “Alô, Oskar!” —, e ei-lo aqui. Com
sua mansão de subúrbio nobre e seu Mercedão. Inclusive
firma e filiais, lucros e reservas, débitos e amortizações de
prejuízos, inclusive planos engenhosos de pré-financiamento.
E com ele aparecem o resto de sua birrenta família e a produ­
tora de filmes, cuja fatia do mercado cresce sem parar, graças
ao negócio de vídeo começado na hora certa. Depois de uma
notória série pornô, nesse meio tempo suspensa, é principal­
mente seu programa didático que merece honrosa menção e,
como a merenda escolar, alimenta crescente número de alu­
nos com opulenta oferta de cassetes. Ei-lo, com a mania con­
gênita de mídia e o gosto por antecipações e flash-backs. Só
preciso lançar-lhe uma isca, atirar-lhe migalhas para que ele se
transforme no nosso caro Sr. Matzerath.
— Por sinal, que acha o senhor da morte das florestas,
seu Oskar? Como vê o perigo de saturação de águas-vivas,
que ameaça o Báltico ocidental? Onde presume que se loca­
lize Vineta, a cidade submersa? Já esteve em Hameln? Por
acaso o senhor também acha que o fim está próximo?
Mas as florestas que morrem e o excesso de águas-vivas
não o tiram do torpor. É preciso que lhe pergunte o que
pensa do processo de Malskat — “O senhor se lembra, seu
Oskar, foi nos anos 50” —, para que ele fique agitado e, espe­
ro, comece a falar.
Ele coleciona peças daquela época. E não só mesinhas em
forma de rim, que então eram modernas. Seu toca-discos

34
branco, sobre cujo prato ele coloca com cuidado o sucesso
Tbi Great Pretender, é um aparelho da firma Braun, sempre
cheia de preocupações estéticas; nos tempos do processo con­
tra Malskat, ele era chamado “caixão da Branca de N eve”,
sciulo que a tonalidade e a tampa de plexiglas autorizavam a
comparação.
Como me encontro em sua mansão de subúrbio nobre,
•le me mostra os compartimentos do porão; à exceção de um
que, por ficar trancado, desperta a curiosidade, todos eles es-
t&o repletos de peças daqueles anos do recomeço. Um apo-
lento maior é usado para sessões privativas de cinema. Leio os
tftulos nas latas redondas de metal — Sissi, 0 guardião da flo-
m la prateada, A pecadora — e pressinto que o Sr. Matzerath
continua escravo daquela década de mistificações, embora sua
produção de vídeos o identifique como alguém que aposta no
futuro.
— É fato — diz ele —, no fundo, os anos 50 não termina­
ram. Continuamos a viver do embuste fundamentado naquela
época. Era fraude sólida! O que veio depois foi passatempo
lucrativo.
Ele me mostra com orgulho uma motonete de cabine*
Messerschmitt, que do alto de um palanque domina o com­
partimento menor do porão. Parece nova, convidando duas
pessoas a tomarem lugar uma atrás da outra. Nas paredes de
cor creme forradas com papel, estão pendurados grupos de fo­
tografias emolduradas, onde se vê o Sr. Matzerath no banco
cie trás da motonete de cabine. Visivelmente, ele levantou o
assento, pois o homem mal-encarado que está ao volante pa-
rece da mesma altura. Uma foto mostra os dois de pé diante
da moto: agora, a diferença de tamanho é nítida.
— Mas é isso! — exclamo. — Mas é claro! Eu o reconhe­
ço, apesar do boné de motorista...
* Kpéciede Romi Isetta alemã para dois ocupantes, sentados um atrás do outro. (N. doT.)
O Sr. Matzerath dá um sorriso de anãozinho. Não, ele ri
no íntimo, pois sua corcunda dá uns pulinhos.
— Acertou! — diz ele. — E o Bruno. Foi meu enfermei­
ro, mas também foi amigo nos tempos difíceis. Um espírito
fiel. Ele tirou a carteira de motorista assim que eu, depois da
alta, pedi que ele ficasse a meu lado quando eu saísse da casa
de saúde, para aproveitar comigo a nova mobilidade que eu
ganhara. E um excelente motorista, embora teimoso. Mas nem
preciso dizer, o senhor sabe muito bem como ele é.
E agora o Sr. Matzerath conta como ele e Bruno Mün-
zenberg “começaram do nada” em 55. Depois da motonete de
cabine Messerschmitt viera logo um Borgward e, em seguida,
finalmente um Mercedes 190 SL, que seu chofer continuava a
dirigir, e nesse meio tempo virara uma raridade. Caso ele
viaje à Polônia, o que não é nada certo, irá confiando nesse
testemunho indestrutível da precisão alemã. Aliás, o processo
que levou o nome do pintor Malskat se concluíra naqueles
tempos da motonete de cabine. Entretanto, reclamando ainda
da sentença e considerando Malskat, que chega a tratar de “o
Grande Malskat”, como uma alma irmã, o Sr. Matzerath desa­
parece com seu museu...

Preso a uma cadeira de rodas, eu gritava como se dispu­


sesse de um alto-falante em meu sonho: Nós existimos! Con­
tinuamos todos aqui! Eu não me deixo sugestionar! Ela, po­
rém, nem ligava, falando com sua vozinha aguda; no início, era
uma língua de rato incompreensível — D o omincher gripch
Ultemoch! —; depois, ficou clara: Que bom que eles sumi­
ram! Estragaram tudo. Viviam tendo de inventar coisas de ca­
beça para cima. N unca ficavam satisfeitos, nem mesmo
quando estavam sufocando na abundância. Quando era preci­
so, inventavam a escassez. Comilões famintos. Sempre a par
das coisas, na sua burrice! Sempre divididos. N a cama tinham
medo, e saíam procurando perigo. Fartos dos velhos, estraga-
vtun as crianças. Escravos donos de escravos. Beatos hipócri^
ms! Exploradores! Desnaturados. E, por isso, cruéis. Pregaram
O único filho do próprio Deus. Abençoavam suas armas. Que
bom que sumiram!
Não, gritava eu de minha cadeira de rodas, não! Eu estou
aqui. Nós estamos todos aqui. Estamos em plena forma e
iheios de idéias novas. Tudo vai melhorar, é isso mesmo, ficar
mais humano. Só tenho que afastar o sonho, essa confusão, e
nós voltamos, e as coisas continuam a ir para frente, para o
alto, logo depois do café e assim que tiver lido o jornal, eu
vou...
Mas, com seu falsete, ela encobria meu alto-falante: Que
bom que eles não possam mais pensar, inventar coisas, fazer
planos, projetos, estabelecer metas; acabou o eu posso, eu
quero, eu vou dizer, acabou o poder querer superar. Esses
doidos com sua razão e suas cabeças grandes demais, com sua
lógica que se encaixava, até o fim se encaixava.
De nada adiantam meu não, meu Eu existo, Eu continuo
existindo; sua voz prevalecia, ganhava a partida: Eles sumiram,
sumiram! Que bom. Não fazem falta nenhuma. Esses huma­
nos pensaram que o Sol não ia ter coragem de nascer e se pôr
quando eles se evaporassem, desmilingüissem, apagassem,
c|uando sua espécie degenerada sucumbisse, quando viesse o
acabou para a humanidade. Pois nem a Lua ligou. E nenhum
outro planeta. N em mesmo as marés chegaram a prender a
respiração, apesar de os mares terem fervido aqui e ali, ou
procurado novas costas. Desde então: calma. Com eles, foi-se
embora o barulho. E o tempo passa, como se nunca tivesse
sido contado e trancafiado em calendários.
Não! gritei, isso é falso! E exigi imediata retificação. Cal-
culo que sejam seis e meia da manhã. Às sete e pouco, eu vou
acordar, com o auxílio do despertador, vou abandonar essa
cadeira de rodas aconchegante como o diabo, em que estou
sentado como se estivesse preso, e vou começar meu dia —

37
quarta-feira, é uma quarta-feira! — logo depois do café, com
propósitos imaculados, não, depois de escovar os dentes, an­
tes do chá, pão integral, frios, queijo, ovo, e antes que o jor­
nal se intrometa com sua falação...
Mas era impossível dissuadi-la de qualquer coisa; pelo
contrário, ela se multiplicava. Diversas ninhadas de voz aguda
superlotavam a imagem. De novo sua língua de rato: Omin-
cher brejoch. Poch vendovoleche soch! O que significava: Só
sobraram nuvens de poeira e que bom que eles não fazem
mais sombra.
Apenas o lixo lançando radiações e os tóxicos escorrendo
dos tonéis. Não fôssemos nós, ninguém saberia deles, dizem,
estridentes, as ninhadas de ratos e as ninhadas das ninhadas.
Agora que eles se foram, podemos lembrá-los com simpatia,
até mesmo com indulgência.
Quando apenas me restava a cadeira de rodas, a ratazana
voltou a falar sem acompanhamento: É mesmo, nós admirá­
vamos o andar de cabeça erguida dos homens, essa postura em
si, essa façanha deles através dos tempos. Subjugados durante
séculos, a vida inteira pelos corredores, mandados de uma sala
de espera para outra: eles sempre andavam eretos, ou no má­
ximo curvos, era raro vê-los rastejar de quatro. Que bípedes
admiráveis: a caminho do trabalho, do exílio, da morte certa,
avançavam cantando com aspereza, se retiravam calados.
Lembrámos a postura do homem, construindo pedra a pedra
as pirâmides, erguendo a muralha da China, abrindo canais
por pântanos em febre, dizimando-se às portas de Verdun ou
Stalingrado. Onde tomavam posição, ficavam firmes; e quem
recuava sem cumprir ordens era executado. Com freqüência,
nos dizíamos: onde quer que se percam, o andar ereto será
sua marca. Estranhos caminhos e desvios; mas percorreram-
noç passo a passo. E suas procissões, conceqtrações, paradas,
suas danças e corridas! Vejam, ensinávamos a nossas ninhadas:

38
este é o homem. Isto o distingue. É a sua beleza. Esperando
faminto em filas infindáveis, e até mesmo encurvado, esfolado
por seu irmão ou pela carga imaginada que ele chama cons­
ciência, carregando a maldição de seu Deus vingativo, sob o
peso da cruz. Vejam essas imagens, voltadas ao sofrimento em
sempre novas cores! Tudo isso ele suporta. Prossegue ereto
depois da queda, como se quisesse hoje ou depois ser nosso
exemplo, nosso, que sempre estivemos junto dele.
Com brandura, abandonando a língua de rato e os sons
estridentes, sem despejar fel pela boca, a ratazana se di­
rigia a mim, sentado na cadeira de rodas que flutuava desgar­
rada, parecendo mais e mais o assento de uma nave espacial.
Chamou-me de amigo, mais tarde até mesmo de amiguinho.
Veja, amigo: já estamos tentando andar eretos. N ós nos esti­
camos, farejando em direção ao céu. Mas vai correr tempo até
que dominemos a postura humana.
Vi, então, ratos isolados, vi ninhadas, vi bandos de ratos
tentando andar eretos. A princípio, numa terra de ninguém,
deserta, sem árvores ou arbustos; depois, num campo de trei­
namento que me pareceu conhecido, subitamente familiar. A
princípio em praças, depois nas ruas ladeadas de casas com be­
las cumeeiras, que desembocavam em portais de igreja, os ra­
tos se exercitavam como bípedes diante de meus olhos. Fi­
nalmente, abriu-se o interior alto e abobadado de uma grande
igreja gótica. Eles se mantinham de pé, por alguns segundos
apenas, junto às colunas ascendentes, perdiam rapidamente o
equilíbrio, retornavam à mesma posição. Vi bandos de ratos
apinhados sobre o pavimento de pedra da nave central e do
altar-mor, vi-os invadindo as naves laterais até os degraus de
leus altares. A igreja em que esses bandos de ratos praticavam
lua nova postura não era a igreja de Maria em Lübeck, nem
outro exemplo qualquer de gótico báltico em tijolos; era, não
havia dúvida, a igreja matriz de Santa Maria em Danzig, cha­
mada em polonês Kosció Najswietszej Panny Marii.

39
Bem, disse eu, que bom! Tudo continua em seu lugar,
pedra sobre pedra. Não falta uma cumeeira, não se perdeu
uma torrezinha. Como pode ter chegado o fim, ratazana, se
Santa Maria, essa velha galinha choca de tijolos, continua,
como dizer, chocando!? .
Tive a impressão de que a ratazana sorria. É, amiguinho.
É isso. Tudo ali, autêntico, como num álbum de reproduções.
Mas há motivos. Para o último dia de Danzig ou Gdansk,
como preferir chamar sua cidade, estava previsto algo de es­
pecial: algo que destrói e ao mesmo tempo conserva, algo que
só arrebata o vivente, respeitando a coisa morta. Veja só: ne­
nhuma cumeeira ruiu, nenhum capacete de torre foi degolado.
Ainda é impressionante como cada abóbada corre em direção
a seu fecho. Cimeiras e florões, eterna beleza! Fora o homem,
ficou tudo intacto. Grande consolo, que não seja só o lixo que
deponha por vocês...

Peguei-me exterminando salgadinhos:


palitinhos, dispostos em copos,
abertos em leque, convidativos.

N o princípio, fui mordendo um a um,


reduzindo-os a zero com crescente rapidez,
em seguida, extinguia-os aos feixes.

Que mingau salgado!


Gritei por mais, de boca cheia.
Os anfitriões ainda tinham de reserva.

Mais tarde, em sonho, procurei conselho,


pois, mordaz, atrás dos palitinhos,
esçava sempre a fim de exterminar.

40
É sua raiva, que noite e dia,
e dia e noite, procura sucedâneo,
disse a ratazana com que sonho.

Mas quem quero de fato, perguntei,


destruir, reduzir a zero,
seja um a um, ou em feixes?

Você, antes de mais nada, disse ela.


A autodestruição foi a princípio
tão-somente privativa.

Elas tricotam no mar. Tricotam ao largo e tricotam anco­


radas. Seu tricotar tem uma superestrutura. Impossível não
vê-la, pois quando elas tricotam acontece mais do que se pode
contar liso-torcidamente em malhas, como, por exemplo, que
no fundo estão de acordo, embora uma deseje que a outra pe­
gue sarna.
N a realidade, as cinco mulheres a bordo da Nova llsebill
deveriam ser doze. Foi nesse número que se apresentaram
para a viagem de pesquisa na antiga barcaça de carga, e, no
começo, reuni em minha cabeça uma quantidade igualmente
exagerada. Mas como havia um congresso de cinco dias em
Luxemburgo e um seminário de três semanas na ilha de
Stromboli, sempre com oportunidades de tricô coletivo, o
número inicialmente excessivo diminuiu; as inscrições para a
llsebill reduziram-se a nove, e em seguida, a sete, pois duas
mulheres tiveram de ir urgentemente com seu tricô à Floresta
Negra e, para finalizar, duas outras foram chamadas com lã e
agulhas à região do Baixo Eljsa. Pois em toda parte — e não só
em minha cabeça — as mulheres combativas eram muito re­
quisitadas, fosse para lutar em Luxemburgo contra a dioxina
no leite materno, para queixar-se na ilha de Stromboli da vio­

4l
lenta pesca predatória no Mediterrâneo, para tematizar na
Floresta Negra a morte das florestas, ou para protestar nas
duas margens do Baixo Elba contra a concentração de usinas
atômicas. Eloqüentes, versadas em pareceres e pareceres con­
trários, elas discutiam com conhecimento de causa e tinham
fama de exemplares, até mesmo entre os homens. Ninguém
conseguia refutar os fatos que elas apresentavam. Tinham
sempre a última palavra. Mas mesmo assim, apesar do su­
cesso retórico, lutavam em vão, pois as florestas não paravam
de morrer, as substâncias tóxicas continuavam escapando, nin­
guém sabia o que fazer do lixo, e redes finas demais carrega­
vam os últimos peixes do Mediterrâneo.
Era como se só o tricô das mulheres fosse dar em alguma
coisa. Resultados apareciam, em losangos ou ponto labirinto;
em ponto gaiola ou malhas sobrepostas, algo que caía bem fi­
cava pronto. E tem mais. Tricotar em congressos e assem­
bléias de protesto, o que, no começo, despertava sorrisos e
comentários — manias de mulher —, acabou considerado pe­
los oponentes masculinos e também femininos das combativas
tricoteiras como grande fonte de energia. Não que as mulhe­
res tirassem seus argumentos dos fios de lã, de seu ponto pé­
rola duplamente enlaçado: o saber que opunham estava a pos­
tos, ao lado da cestinha de novelos, em classificadores e tabe­
las estatísticas. Era com base no processo, na disciplina cons­
tante, ao mesmo tempo rígida e meiga, de passar o fio, na con­
tagem muda do número de malhas, que o argumento claro da
tricoteira insistia em ser ouvido: era a inexorabilidade do tri­
cotar que, mesmo não convencendo os oponentes, impressio­
nava, e teria acabado por desgastá-los se houvesse tempo
como havia lã.
E elas tricotavam também para si mesmas ou quando es-
tavam sós entre mulheres, sem defrontar-se com oponentes,
como se não quisessem deixar que o fio se Tompesse. É por
isso que em minha cabeça e na realidade as cinco mulheres
que mantiveram a intenção de navegar no barco de pesquisa A
Nova llsebill, medindo os contingentes de águas-vivas do Bál­
tico ocidental, dispõem a bordo de apetrechos de tricô e de lã
em quantidade: lã. tingida, natural e alvejada.
Apenas a mais velha das cinco mulheres embarcou sem
agulhas e lã: um peso-leve duro de roer, que, a não ser em
momentos de repentina tristeza, não aparenta o trabalho e a
fadiga de 75 anos quase completos. A velha é inteiramente
contrária ao que chama de tricotação imbecil. Nem crochê ela
sabe fazer. Isso a poria nervosa ou fraca da cabeça. Mas
quando se trata de lavar e limpar, de forno e fogão, ela supera
todas as outras, que nunca abandonam seus pontos de tricô.
Por isso, encarregou-se da cozinha dè bordo. — Ouçam bem,
mulheres. Eu cozinho para vòcês, mas não quero nem ver es­
ses troços de tricô perto de mim.
Por seu turno, as outras quatro mulheres navegantes não
abandonam os novelos de lã e o chacoalhar das agulhas, nem
mesmo com viração. Assim que a capitã rende a timoneira,
para enfrentar com as duas mãos no leme as rajadas de chuva
vindas do noroeste, a timoneira pega sua lã cem por cento de
carneiro e se põe a tricotar um pulôver de um padrão só, tão
amplo que anseia por um homem da largura de uma porta, do
qual, aliás, nada se sabe, fora sombrias alusões que dão a en­
tender que o sujeito merece uma camisa-de-força.
Quando a capitã, que de coração chamo Damroka, se
afasta do timão, no que a timoneira com ambas as mãos man­
tém o cürso num vento oeste que se amaina, é ela que — sem
perder de vista a bússola e o barômetro — começa a acrescen­
tar mais um quadrado à coberta colorida feita de restos de lã,
rematando com cuidado os retalhos de diferentes padrões. Òu
então ela costura os retalhos alternados, com seus padrões em
espiral, em estrias, desenhados por carreiras em ponto envie­
sado, ou escamados como couraças.

43
Quando a maquinista não é obrigada a se espremer na
apertada casa de máquinas para fazer a manutenção do motor
diesel da barcaça, pode-se estar certo de que também seu tra­
balho de tricô, uma monstruosidade que lembra um poncho,
está progredindo: ela é um verdadeiro boi de carga que se sa­
crificou a vida inteira. Sempre para outros, nunca para si, é
isso que dizem dela.
Com a oceanógrafa é o mesmo. Quando não está a
meia-nau medindo ou pesando aurélias sobre a mesa ou em
banheiras de vidro, ela tricota, duas lisas, duas torcidas, com o
afinco que vem do hábito. Coisinhas e mais coisinhas de
criança para os netos, macacõezinhos de bebê, uma graça, em
pontos com forma de pinhas ou ampulhetas. Tingidos de rosa
ou azul-claro, os finos fios de lã deslizam pelos dedos esguios
e habilidosos que acabaram de lidar com os véus das águas-
vivas.
Além das provisões e de suficiente óleo diesel, em Tra-
vemünde também se abasteceram de lã que deve durar até
Stege, a capital da ilha de Mon, na Dinamarca.
Mas o porto de Stege ainda está longe. Com o tuc-tuc-tuc
barulhento do motor diesel Deutz refrigerado a ar, A Nom ll­
sebill entra na baía de Neustadt. E lá, mesmo sem soltar o tu-
barão-medidor à cata de águas-vivas, as mulheres vão por um
tempo perder o tricotado.

Não, ratazana! Eu levo lã e agulhas a sério, não acho


graça quando o fio se rompe, uma malha se abre, ou é preciso
refazer um trabalho frouxo demais.
Sempre ouvi esse chacoalhar; desde criança e até o pulô­
ver atual, mulheres sempre me aqueceram com amor no que
elas mesmas tricotaram. Não houve tempo em que não esti­
vessem fazendo qualquer coisa para mim, em ponto simples
ou alternado.

44
E mesmo que minha ratazana de Natal não acredite, você,
ratazana, deveria acreditar em mim: eu nunca irei zombar das
mulheres que tricotam em toda parte, no mundo inteiro, que
tricotam por necessidade e gentileza, e também de raiva e de
aflição. Eu as ouço chacoalhar suas agulhas: contra o tempo
que se esvai, contra a ameaça do nada, contra o começo do
fim, contra toda fatalidade, ou por teimosia e na amarga com­
preensão da impotência. Ai de nós, se esse ruído ceder a um
súbito silêncio! A distancia, coisa tola de homem, eu as ad­
miro curvadas sobre seu trabalho de tricô.
Agora, ratazana, que nas florestas e nos rios, em terras
planas e em terras montanhosas, em rezas e manifestos, em
faixas e até mesmo no verso dos contratos, em nossas cabeças
que a especulação esvaziou, se anuncia que nosso fio pode
acabar-se, agora, desde que o fim dia a dia só se adia, as mu­
lheres tricotando são a única força que reage, enquanto os
homens tudo destroem com sua retórica e nada produzem
que possa agasalhar os seres humanos friorentos — nem que
sejam apenas punhos de lã.

45
0 SEGUNDO CAPÍTULO, no qual mestres em falsificação são cita­
dos nominalmente e ratos entram em moda, o fim é contestado, Jo-
ãozinho e M aria fogm , o Terceiro Programa fala sobre Hameln,
uma pessoa não sabe se deve viajar, o barco ancora no lugar da tra­
gédia e em seguida há almôndegas, blocos humanos pegam fogo e
bandos de ratos interrompem o trânsito pelo mundo afora.

— Nós produzimos o futuro! — São palavras que o Sr.


Matzerath diz a seus executivos, com ares de profeta que co­
nhece a própria ressonância, sempre que nos estúdios de pro­
dução escasseiam filmes com o devido poder de comunicação.
Entretanto, quando sugiro assuntos que tenho em estoque, ou
proponho que se produza o futuro, filmando a morte das flo­
restas ou a saturação do Báltico por águas-vivas, ele recusa: —
E cenário de fim do mundo demais! Essa história religiosa de
botar um ponto final! Esse salve-se-quem-puder apocalíptico!
Esse eterno último tango!
Por outro lado, ele quer aproveitar o caso Malskat, se eu
conseguir material suficiente sobre os anos 50; como se fosse
possível produzir o futuro voltando atrás.
Assim, para ele nossa conversa toma as dimensões de um
esboço da era Adenauer-Malskat-Ulbricht.
— Três mestres em falsificação! — diz ele. — Se o se­
nhor conseguir dar uma roupagem à minha tese, que, confes­
so, ainda está nua, no filme ela ficará evidente.
Tento demover o Sr. Matzerath de seu “triunvirato de
falsários” das duas Alemanhas, mas de qualquer forma pro-
meto ocupar-me do caso Malskat. Consigo afinal despertar sua

46
curiosidade para um projeto cujo estofo legendário é tão
clieio de esconderijos, que de fato não poderia deixar de fis­
gá-lo.
Seu vaivém entre os pés de ficus italiano. Agora, ele está
lomado de hesitação diante do quadro-negro na parede de
lundo do andar da diretoria. Mal o homenzinho corcunda
volta à calma atrás de sua mesa, eu digo: — O senhor deveria
luar atento, seu Oskar! Em Hameln, no Weser, estão prepa­
rando uma festa para, depois de setecentos anos, recordar
aquele flautista que, numa época de grande confusão e de êx-
taie febril — viam-se sinais no céu e pressentia-se o fim do
inundo —, atraiu mais de mil ratos até o rio, paia que todos se
afogassem. Segundo outra lenda, parece que ele também se­
qüestrou crianças, que sumiram de vez. E um assunto bastante
controvertido. Não seria uma ocasião propícia para, com o
devido poder de comunicação, entrelaçar a loucura do ano de
1284 com os medos de hoje, o fenômeno dos flagelantes da
Idade Média com as concentrações de massa da atualidade? O
ano do caçador de ratos pode render muito. Basta pensar, por
exemplo, na flauta. Essa doçura estridente. Poeira de prata,
brilhando. Trinados, como um colar dé pérolas. O poder de
sedução de um instrumento musical, já muito antes do seu
tempo, seu Oskar. E logo o senhor, que sempre sentiu a men-
SAgem desse veículo, iria deixar de aproveitar uma chance
dessas?!
O Sr. Matzerath fica calado e desaparece. Há outras in­
tromissões. Um chiado, uma falação, um eçganiçado era-
uma-vez, como se tudo já tivesse passado, como se só conti­
nuássemos a existir na retrospectiva, como se carecêssemos de
orações fúnebres piedosas e zombeteiras — isso não é o nosso
homenzinho corcunda, isso é ela, a ratazana com que sonho...

Pouco antes do fim, nós entramos em moda. Gente mo­


ça, que gostava de aparecer em grupos e se diferenciava dos

47
outros moços pelo penteado e o vestuário, os gestos e a lin­
guagem. Chamavam-se punks, e aqui na Alemanha também,
eram chamados punker. Constituíam sem dúvida uma minoria,
mas em alguns bairros estavam por cima. Assustados, eles as­
sustavam os outros. Correntes de ferro e de metal barulhento
serviam-lhes de enfeite. Eles se exibiam como frangalhos vi­
vos: refugo, lixo varrido para fofa do caminho.
Foi com certeza por isso, por terem sido assimilados à
imundície, que os punks compraram ratos de laboratório, que
amansaram dando-lhes de comer regularmente. Carregavam-
nos com carinho sobre o ombro, no peito aberto da camisa,
ou aninhados no cabelo. Não davam um passo sem o animal
eleito, provocando nojo em toda parte: nas praças movimen­
tadas, diante do rico mostruário das vitrines, nos parques e
gramados, em frente a portais de igrejas e de bancos, como se
formassem um todo com seus ratos.
Essa popularidade não se restringiu entretanto aos bran­
cos de olhos vermelhos. Não demorou muito, e nós, as rata-
zans criadas como alimento de cobras, aparecemos nas lojas
de animais, com nosso pêlo cinzento. Houve procura, e pouco
antes do fim crianças e adolescentes nos preferiam a esses
porquinhos-da-índia e preás até então mimados, paparicados e
freqüentemente empanturrados de comida. Quando, seguin-
do-se aos punks, crianças de boa família também passaram a
ter ratos como bichinhos de estimação, e, pela primeira vez no
longo curso da história humana, tivemos acesso à classe abas­
tada, até mesmo pessoas idosas encontraram prazer em nós. O
que começara como moda transformou-se em necessidade ex­
plicita. Parece que um senhor de uns 55 anos chegou a pedir
um rato de presente de Natal.
Até que enfim, o reconhecimento. E no que nos trouxe­
ram à luz, no que nos tiraram, a nós, notívagos ratos-de-esgo-
^to, da fedentina dos bueiros, descobrindo — Aa mais perfeita
acepção da palavra — nossa inteligência, posando conosco

48
para fotografias, aceitando-nos como acompanhantes animais
da espécie humana, nós, ratos, tornámo-nos públicos. Que
triunfo! Aceitos a posteriori na Arca de N oé. Confesso que
nos sentimos rim. tanto lisonjeados. Tivemos esperança: talvez
o homem pudesse abrir-se a idéias que o salvassem.
No começo, eles quiseram fazer graça e nos chamaram de
ratos públicos. Mas quando a moda punk se alastrou, quando
empregados e até mesmo funcionários públicos começaram a
levar seus ratos ao escritório, às repartições de arrecadação de
impostos, quando pudemos; em companhia de jovens cristãos,
participar dos serviços religiosos de protestantes e católicos,
quando fomos introduzidos em prefeituras e universidades,
salas de reunião e andares de diretoria e, por fim, levados a
zonas de interdição militar por recrutas de todas as armas, ou-
viram-se então os primeiros protestos, chegando a haver in­
terpelações parlamentares. Como resultado de um controver­
tido debate, a exibição pública de ratos deveria ser proibida
por lei. Como justificativa, dizia-se: a publicização de ratos,
em particular de ratos cinzentos, está em contradição com as
necessidades da saúde pública, põe em perigo a segurança e
fere os legítimos sentimentos do povo.
Era um despropósito, simplesmente ridículo! Aliás, não
conseguiram maioria que estivesse disposta a ratificar essa lei.
Alguns parlamentares tiveram até mesmo o atrevimento de ir
ao Congresso levando gente nossa. Instauraram-se inquéritos
sobre ratos. Questões foram colocadas, que já nos tempos de
Noé deveriam ter sido postas, quando nós, rato e rata, fomos
barrados à entrada da arca salvadora.
Que tem o rato a nos dizer atualmente? Soava, com atra­
so, uma pergunta. Pretende o rato nos ajudar em nosso sofri­
mento? Estará o rato porventura mais^próximo de nós, d o que
quisemos realizar desde que o homem é homem?
Mas, por mais que essa recente^atenção nos lisonjeasse e
ficássemos tentados a menosprezar o ódio encarniçado dos

49
homens, a súbita simpatia não deixava de espantar-nos. Estra­
nhávamos aquelas intimidades recatadas e ao mesmo tempo
impetuosas dos jovens e particularmente dos punks assimila­
dos ao lixo. Trazendo-nos no pescoço, junto à artéria que pul­
sava, ou oferecendo-nos seu ventre magro: quanta meiguice,
que carga de ternura acumulada e entrementes supérflua só
agora se extravasava, no relacionamento com os ratos. Era ter­
rível. E que fervor! Podíamos andar para cima e para baixo
pela sua coluna, aninharmo-nos em suas axilas. Como sentiam
cócegas ao contato com nosso pêlo! E a sensação de dedilhar
carinhoso que lhes dava a fria nudez de nossas caudas, as pala­
vras sussurradas por seus lábios trêmulos, pintados de negro,
sopro quase inaudível, como se nossas orelhas lhes servissem
de confessionário: tanta fúria mal contida, tanto amargor,
tanto medo de ganhar e perder, da morte que procuravam e
da vida que cobiçavam, sôfregos. Suas súplicas de amor. Seu:
diz qualquer coisa, rato! Que devemos fazer, rato! Vê se nos
ajuda, rato! — Ah, não paravam de nos encher os ouvidos.
Em tudo misturava-se o medo: em suas malocas lúgubres
e em sua felicidade pincelada a cores. E por isso que aquelas
tonalidades berrantes feriam a vista. Crianças sempre assusta­
das, maquiando-se mutuamente com a palidez da morte,
marcando-se, cheias de pressentimentos, com o verde dos ca­
dáveres. Mesmo o amarelo, o alaranjado que usavam, tinha
matizes de mofo e decomposição. O azul ansiava pelo fim.
Aplicavam gritos vermelhos sobre um fundo branco de cal.
Desenhavam vermes descarnados em tons de violeta. Pelas
costas de alguns deles, sobre seu peito, subindo-lhes pescoço
acima, alastrando-se por seu rosto, cruzavam-se grades pre­
to e brancas, enquanto outros pareciam feridos por chicota­
das. Queriam ver-se ensangüentados. E seus cabelos pente­
ados com esmero tomavam todas as cores. Ah, suas danças da
morte, solenemente encenadas em ruínas de fábricas: resgata-

50
•Ias da Idade Média como se os flagelantes deles se tivessem
apossado.
E quanto ódio destinavam a tudo o que era humano.
Sempre prontos para o ataque, e ao mesmo tempo acossados.
Sacudiam suas correntes como se tivessem o costume das ga­
leras. Queriam virar bicho. Sem nos conhecerem o bastante,
i|ueriam ser como nós. Quando andavam aos pares, eram rato
c rata. E assim se chamavam, com carinho e desafio. Costura­
vam capuzes imitando a forma de nossas cabeças, e usavam
máscaras em que nossa fisionomia era levada ao demoníaco.
Penduravam longos rabos pelados em suas bundinhas e, vin-
dt)S de toda parte, a pé ou motorizados, tomavam a mesma di­
reção, como se para lá levassem todos os caminhos, e só lá
fossem encontrar a salvação.
Isso mesmo! Aos bandos para o lugar difamado; não ha­
via o que errar. Um ímã lhes dava a ordem: concentrem-se
aqui. Em poucas palavras: queriam encontrar-se e inundar
aquela cidade, que é parte de nossa lenda. Queriam fazer lá a
sua festa. E era uma barulhe ira, nós exibidos por todos os la­
dos, a população assustadíssima, eles querendo parecer
bichos.
Não se chegou a tanto. Teriam-nos de qualquer forma
evacuado. A polícia de prontidão, ocupando tudo, do princí­
pio ao fim. Ah, eles queriam ser ratos, mas não passavam de
pobres punks, que acabaram abandonados, abandonados até
por nós. Trataram-nos bem, como antes deles nenhum ho­
mem. Crianças perdidas desde a nascença, só conosco, ratos,
elas eram boazinhas, disse a ratazana com que sonho. Se tivés­
semos sabido onde encontrar proteção, teríamos levado elas
conosco, no fim...

Que história de fim é essa, ratazana! Não há nada acaba­


do. Os buracos não foram tapados, os enigmas ainda estão por
resolver. Nunca houve tantos fios por atar como agora. Tudo
feito mal e porcamente. E os picaretas mandando, com seu
riso debochado. N ão há jornal que não grité, a falação acober­
tando tudo. Não estamos nem a meio caminho; pelo contrá­
rio, voltamos atrás.
Numa situação dessas, você não pode dizer fim, basta,
chega. Seria deserção. Simplesmente dar no pé. E, por sinal,
no meio da frase. Sem o estritamente necessário e antes disso
e daquilo. Por exemplo, garantir a aposentadoria e tratar do
lixo. Pois, sem controlar a crise do aço e outras tantas: remo­
ver essa montanha de manteiga estocada e instalar a televisão
a fio em todo o país, fazer finalmente o recenseamento e re­
solver a questão dos estrangeiros. O negócio é resistir até que
caiam os juros, e o crescimento econômico, pelo qual todos
nós, sem o qual nada, pois antes não havia luz no fim do e
acabou-se o que era doce.
Não senhora, ratazana! Nada de fim. Tanto mais agora
que as grandes potências afinal estão dispostas, para tomar em
tempo, e por sinal as corretas, pois não há quem ainda não
tenha sacado que somente medidas equilibradas e simultâneas
de ambas as partes, a fim de que nós, calculáveis, ainda que no
último minuto.
E numa situação dessas, você, sua ratazana, fica falando
corta, pára, desliga, acabou, salve-se quem puder, amém, era
uma vez, já era, fecha o pano e fim do mundo, por assim di­
zer, o último dia? Pois fique sabendo que temos a incumbência
e estamos obrigados, senão por nós, pelo menos por nossos
filhos, para que não acabemos um dia envergonhados e sem,
estou me referindo aos grandes ideais, como a educação da
espécie humana ou tem-de-sumir-a-fome-absoluta e tem-de-
sumir-a-montanha-de-lixo, pelo menos do visual, até que me­
didas complementares, finalmente, e, novamente, alguns pei­
xes no Elba e no Reno. Ah, é isso mesmo !^ N ós queríamos
também o desarmamento, antes que seja tarde demais.

52
Mas você diz fim. Como se tivéssemos acabado. Como se
jri nos tivéssemos fodido há muito tempo. Como se não hou­
vesse mais isso e mais aquilo por fazer. E, por sinal, logo, não,
imediatamente. Pois não há quem não tenha pelo menos en-
tertdido, ou leve uma mínima noção, que, além da paz e de
um pouquinho mais de justiça, finalmente a floresta, não só a
floresta alemã, mas a floresta em geral, já que não pode mais
icr salva, tem pelo menos que ser filmada. E filmada a cores,
em todas as estações do ano e com todas as atmosferas que
iria, como documento perene, para que não desapareça da
memória, nossa e de nossos filhos Pois sem florestas, rataza­
na, estamos fritos. Razão pélà qual nós, já por isso, e dado que
nós isso nos devemos, temos de nos perguntar o que as flores­
tas, não só alemãs, m as isso eu já disse, representam para nós,
não, nos dizem, para que mais tarde, pelo menos no filme
com nossos filhos, enquanto há tempo, ainda resta.
E, aliás, antes que você, ratazana, diga fim, corta, acabou.
Ainda somos nós que decidimos quando chega o fim. E nosso
dedo que está no gatilho. Somos nós que estamos tomando
conta do botãozinho. Somos nós que, no fim das còntas, va­
mos ter de assumir a responsabilidáde por tudo isso. diante de
nossos filhos e dos filhos de nossos filhos, como também pela
questão do lixo e dos estrangeiros, e finalmente pela fome,
pelo menos a absoluta, pela montanha de manteiga estocada
também.

Como a floresta
morre por causa do homem,
os contos de fadas fogem,
0 fuso não sabe
quem deve espetar,
as mãos da menina,
que o pai decepou,

53
não sabem tocar uma só árvore,
o terceiro desejo fica sem ser dito.

O Rei Bicudo nada mais possui.


As crianças não podem mais perder-se.
O número sete quer dizer só sete, mais nada.

Como a floresta m orreu por causa do homem,


os contos de. fadas vão a pé para as cidades
e acabar mal.

Conheço o percurso. De Lauterbach, onde em outros


tempos na canção um pé de meia se perdeu, o “Caminho
Alemão do Conto de Fadas”, segue através de uma floresta
temperada outrora densa.
Poderiam ser outros caminhos, abertos através da Flo­
resta do Palatinado, subindo até a Floresta Negra, chegando às
profundezas da Floresta da Baviera e da serra de Fichtel, en­
trando no Solling, no Spessart, levando a regiões de florestas
todas elas atacadas pelos conhecidos males, contestados e
comprovados, a cada passo ora só constatáveis à segunda vista,
ora saltando aos olhos. Tem-se notícia de agulhas queimadas,
brotos nascidos do pânico, copas desfolhadas, cernes esponjo­
sos; galhos ressecados caem, a casca se desprende dos troncos
nus e mortos. Por isso, antes de mais nada a pergunta: até
quando a estrada que vem de Lauterbach terá direito a esse
nome tão envolvente de “Caminho Alemão do Conto de
Fadas”?
E, por isso, não é na Floresta Negra ou na serra de Fich­
tel que eu coloco o comboio de viaturas do Primeiro-
Ministro, que viaja acompanhado de outros ministros e asses­
sores, mas aqui: devem passar por aqui, seguindo os pisca-
piscas azuis, escoltados pela polícia. Limusines pretas com cor­
tinas fechadas atravessam a floresta moribunda. Podemos re-
lunhecér o carro do Primeiro-Ministro pela bandeirinha
triangular: Presumimos que, ao atravessar a floresta moribun-
da, no interior dõ carro o Primeiro-Ministro leia pareceres e
i mura-pareceres, estatísticas de substâncias danosas, amostras
ilc mortalidade dos abetos, pois como Primeiro-Ministro deve
fitar diligentemente a par de tudo. Pode ser também que
procure relaxar-se antes de sua grande aparição, e esteja assim
lazcndo palavras-cruzadas, sabendo encaixar bem o nome
I lòlderlin, degustando sua cultura geral, horizontal e vertical.
Mas nada disso. O interior da limusine •do Primeiro-
Ministro está tomado por uma contida atmosfera familiar. Por
rtttôes de imagem pública é da ação por mim imaginada, o
Primeiro-Ministro se faz acompanhar pela esposa, pelo filho e
pela filha. Como será ele? Facilmente descartável, e entre­
tanto de um modelo que nos é familiar: simplório e de triste
lisura. Neste preciso momento, ele está comendo, não, en-
fiando pela boca um pedaço de torta de creme, fato que desa­
grada a sua esposa, sempre tão arrumadinha.
Como a filha do Primeiro-Ministro puxou para o lado a
cortina da janela, vemos de passagem uma tabuleta de madeira
entalhada onde podemos ler, entre anõezinhos também enta­
lhados, “Caminho Alemão do Conto de Fadas”, em letras gó­
ticas formando um alto-relevo. (No começo do filme, a cara­
vana deveria passar lentamente por aqui, em velocidade de
passo, caso a floresta moribunda chegue a virar filme com a
ajuda de produção do Sr. Matzerath.) O Primeiro-Ministro e
sua comitiva estão sendo aguardados num estacionamento da
florestaj circundado de árvores mortas. A tòque de caixa
tomam-se as últimas providências, pois a escolta avançada da
polícia já anunciou pelo rádio a chegada da caravana.
Seguindo as ordens de um guarda-florestal e usando ca­
pacetes, como quer o regulamento, trabalhadores suspendem
cenários altos como árvores ao longo de uma armação de'tu-

55
bos de aço. Tratja-se de uma pintura mostrando uma floresta
intacta, mais ou menos no estilo do pintor Moritz von
Schwind: carvalhos nodosos, pinheiros escuros, faias esparsas
que se transformam em mata fechada, originária. Não faltam
arbustos e fetos arborescentes.
N o alto de uma imensa escada devidamente içada por um
veículo especial, um pintor acrescenta aves canoras às copas
das árvores, com uma rãpidez de trabalho pago por empreita­
da: pintassilgos, pintarroxos, diversos tordos, o rouxinol. O
guarda-íio*c3tal grita: “Acabem logo, pessoal! O Primeiro-
Ministro já vem!” E, mais para si mesmo, ele diz: “E de
chorar.”
N um piscar de olhos, os operários desaparecem de cena.
í
Os policiais da escolta avançada se distribuem, assegurando o
terreno. Atrás dos cenários, um técnico de som liga um grava­
dor. Ouvimos cantos de pássaros, abundantemente mistura­
dos, entre os quais os recém-pintados tordos, pintassilgos e
pintarroxos, mas também um melro dourado e diversas pom­
bas silvestres. O veículo especial parte, recolhendo, com a es­
cada, o pintor, de, forma que o último pássaro na floresta pin­
tada, que deveria ser um cuco piando incansável, fica fragmen­
tário. O guarda-florestal já está fazendo uma cara de saudação.
Isso porque, seguindo os pisca-piscas azuis, a caravana do
Primeiro-Ministro dá entrada. Nas janelas das limusines, as
cortinas são afastadas. Espanto diante de tanta natureza. O
Primeiro-Ministro, secundado pela esposa, o filho e a filha,
desce do carro, ministros e assessores idem. Imprensa e tele­
visão estão imediatamente a postos. Como se se tratasse de
gravar uma mensagem, a mídia registra que o Primeiro-
Ministro aspira e expira fundo diversas vezes. O mesmo faz
sua comitiva.
Assim que aparecem em público, o filho do Primeiro-
Ministro, treze anos, e a filha do Primeiro-Ministro, doze
anos, enfiam um walkman no ouvido, cada um o seu. O olhar

56
vu.itIo para dentro, as crianças parecem ausentes, o que inco-
iiuulu a esposa do Primeiro-Ministro. Suas admoestações —
"Aisim vocês não ouvem os passarinhos na floresta!” — não
nu/ontram ouvidos, o mesmo valendo para o gravador que
lotlu atrás dos cenários. (Imagino os filhos do Primeiro-
Ministro um tanto gorduchos; contudo, eles podem igual­
mente ser magros e até uns palitos, caso o Sr. Matzerath pre-
I ii a esse tipo. Trajes inspirados no uniforme de guarda-
lloi cstal mantêm a família unida: feltro castanho-esverdeado,
Cilçus de caça, borzeguins, botões de chifre de cervo.)
Enquanto, a distância, um coro masculino e atores a cará-
tr r se deslocam para a frente dos cenários de floresta pintada,
ou ministros e assessores se reúnem de forma descontraída em
torno do Primeiro-Ministro; entre eles se encontra o Ministro
IftCob Grimm, responsável pelas florestas, rios, lagos e pelo ar
•mnosférico, secundado por seu Secretário de Estado e irmão
Wllhelm.
Por razões da ação e pelas conotações populares, muito
noi apraz fazer esse empréstimo histórico e deixar Jacob
Cii iinm, vestido segundo a moda atual, dizer a seu irmão: “O
pintor Schwind realizou mais um bom trabalho.” Ao que ve­
mos Wilhelm Grimm sorrir com tristeza. Os dois irmãos são
•Ipecialistas no esforço de dar expressão duradoura a um co-
i itjoso e intemporal “não obstante”, como se sentissem prazer
•m viver fracassando. Dois homens íntegros, capazes de pegar
0 c hapéu, se for o caso; mas, apesar disso, dois tios da caro-
1hinha, que aprenderam a piscar os olhos: já há séculos que
iithcm muito bem o que se passa atrás dos bastidores, mas não
rtclamàm, pois estão sempre querendo evitar o pior.
A distância, os policiais revistam o coro à procura de ar­
mas, e os cantores se reúnem sòbre um palanque. Contidos
ptlos gestos do maestro, ou animados por ele a aumentar o
volume, os cantores entoam a canção: Wer hat dich, du scho-

57
ener Wald, aufgebaut so hoch da droben... * 0 Primeiro-Ministro
sente-se tentado a cantar junto.
Depois de terem também eles passado pelo serviço de
segurança, todos os atores, fantasiados de personagens dé con­
tos de fadas, entram agòra em cena a um sinal dos Irmãos
Grimm, que passaremos a chamar de Irmãos Raiva Contida.**
Os trajes são de sóbrio bom gosto, à mòda da velha Alema­
nha. Branca de Neve, muito recatada com os Sete Anões à sua
volta. Ao lado da Bela Adormecida com o fuso, o Príncipe
que irá despertá-la com um beijo. Aquela ali, debaixo da pe­
ruca comprida, só pode ser Rapunzel. Joãozinho e Maria fa­
zem. reverências e mesuras, entregando ao Primeiro-Ministro
e respectiva esposa presentes de grande riqueza de significa­
do: uma muda de pinheiro, um cesto cheio de frutos de faia e
de carvalho, uma trombeta de caça de brilho antigo. Abrindo
a boca e fazendo bico, o coro masculino canta “Joãozinho e
Maria se perderam na floresta...” Mesmo os policiais se delei­
tam com os cantores, cuja não-periculosidade anteriormente
comprovaram.
Basta dê exibições: agora é a vez do Primeiro-Ministro,
exímio em ler discursos, que fala voltado antes para os meios
de comunicação presentes que para seus ministros. Ele evoca
em imagens um mundo feliz que é ameaçado por desgraças.
“Mais uma vez o destino nos põe à prova!” exclama, como se
o povo alemão desde os primórdios sempre tivesse sido assi­
nante de provas do destino.
Já que desejamos fazer um filme que funcione como
fílme mudo, que só ocasionalmente precise do auxílio de le­
gendas, vê-se a floresta evocada no discurso do Primeiro-

* No original, Grimnibrüder, em lugar da denominação clássica e corrente, que é


Brüder Grimm. Com a inversão, Günter Grass não pretende acentuar o sentido de
Grimm (raiva, ira), mas sim caracterizar ironicamente a nova dupla. (N. do T.)
** Velha canção popular alemã, baseada num poema de Joseph von Eichendorff
(1788-1857), expressando a beleza e a paz das florestas, o amor a elas etc. (N. do T.)

58
Ministro agitando-se num murmúrio feliz. Sobrepõem-se ima­
gens da floresta que abre sua cúpula: as corças pastam; o cervo
se sobressalta; das copas de todas as árvores tombam citações;
e um menino providencial esvazia sua trombeta mágica* sobre
,uma princesa deitada no musgo: flores, libélulas e borbole­
tas...
Como a atmosfera assim criada já chegou a seu auge e
algo deve acontecer, nesse exato momento, depois da frase fi­
nal do Primeiro-Ministro, “Continua, assim, vivendo, ó tu,
floresta alemã!”, que fornece ao filme mudo uma legenda de
concisão exemplar, filho è filha do referido entram aos pulos
em cena.
Gorduchos ou magricelas que sejam, eles atiram sobre o
pai os frutos de faia e carvalho ganhos de presente. A filha
amassa a trompa de caça de brilho antigo. O filho quebra a
mudinha de pinheiro, retira o walkman do ouvido, sobe dê
um salto ao palanque e faz um discurso de réplica, tranfor-
mando em público os assustados ministros e assessores, os
atores da carochinha e cantores, todos eles cheios de espanto,
os policiais e os seguranças à paisana, de novo ressabiados, os
diversos jornalistas que continuam trancrevendo tudo, os câ­
meras que prosseguem impassíveis sua filmagem, todos, sem
esquecer os Irmãos Raiva Contida.
“Você está falando merda de novo!” diz ele ao Primei-
ro-Ministro em sua qualidade de pai, e começa a evocar a re­
alidade. Vêem-se filas e cemitérios de automóveis, chaminés
de fábrica fumegando, misturadoras de concreto esfomeadas.
Desmata-se, nivela-se, cimenta-se, asfalta-se. A notória chuva
ácida cai. A floresta morre, enquanto especuladores imobiliá­
* Alusão a Des Knaben Wunderhom, poema-título de uma coletânea de canções e
poesias populares, publicada èm 1806-08 por von Arnim e Brentano e citada diversas
vezes no texto, que, através de outras alusões, citações e paráfrases, presta homena­
gem a diversos autores, nem sempre mencionados: de Lutero (representado em por­
tuguês pelo grande João Ferreira A. D'Almeida) a Bloch, passando por Goethe, Jean
Paul, Dõblin e Brecht. (N. do T.)

59
rios e chefões da indústria mandam e desmandam em enormes
salas de reunião e deixam dinheiro grosso correr solto em
conversas particulares. Ela sucumbe em público. Cadáveres de
árvores agüentam firme, levantando sua morte aos céus. Com
toda a coerência, o menino de ainda há pouco derrama uma
outrq trombeta mágica sobre a princesa adormecida cochi­
lando numa floresta morta: lixo, embalagens de tóxico, ferro-
velho. Como que compelido a simbolizar a descarga dos au­
tomóveis, ele peida no rosto da princesa, que tão logo se fran­
ze, dado o elevado teor de chumbo dos gases do menino..
Depois da frase final e legenda do filho — “E essa a tua
floresta alemã!” —, a filha do Primeiro-Ministro entra em
ação: com uma faca que roubou do guarda-florestal durante
uma curta ação paralela, ela corta, zás-trás, todos os cabos com
os quais o cenário da floresta é mantido suspenso, preso por
nós. Em câmera lenta, os cenários se desmoronam. Nenhum
passarinho pintado foge voando para salvar-se. Corça lebre
ouriço nenhum tenta escapar. E não se vê apenas a armação de
tubos de aço: é a própria floresta morta que se mostra, sem
apelação.
A filha desliga o gravador com o canto dos pássaros. Si­
lêncio. Galhos esquálidos estalam, quebram-se. Com o em­
buste vão gralhas pelos ares. O medo surge, sem meias pala­
vras: a morte.
Entre os apavorados atores da Carochinha, a Bela Ador­
mecida e seu Príncipe Encantado tentam se safar dando garga­
lhadas. Wilhelm diz a Jacob Grimm de forma adequada para
uma legenda: “Meu Deus, assim a verdade vem à luz!” Apro­
veito o prolongado instante de pavor para imaginar os Irmãos
Grimm em sua extensão até o nosso final do século XX, vaci­
lando apenas ocasionalmente, inteligentes e sensíveis, so­
frendo em segredo de falta de radicalismo, em palavras como
Irmãos Raiva Contida liberais, que estão agora torcendo as
mãos; enquanto isso, nosso filme mudo recobra o ânimo para

60
uma nova ação: filho e filha do Primeiro-Ministro arrancam o
gorro e a touquinha das figuras da Carochinha fantasiadas de
Joãozinho e Maria, jogam fora seus walkman, fazem caretas
para pai e mãe e ainda por cima para a televisão, e correm flo­
resta adentro como Joãozinho e Maria, mas por vontade pró­
pria, fazendo pouco caso da versão dos Grimm.
A esposa do Primeiro-Ministro chama: “João! Maria Luí-
sa! Façam o favor de voltar, imediatamente!”
A mídia está satisfeitíssima. Gravadores em punho, jor­
nalistas preparam matérias^ sensacionais. Fotógrafos dispa­
ram fhashes do instante da fuga. A televisão grava, implacável.
A fuga dos filhos do Primeiro-Ministro começa a fazer histó­
ria. Entretanto, o Primeiro-Ministro impede que os policiais
empreendam, nos moldes usuais, a perseguição dos fugitivos.
Ele exclama: “Mais dois desses que abandonam tudo! Ingra­
tos! Saberemos superar este golpe!” Embora tente disfarçar,
tomando uma postura que considera digna, não consegue im­
pedir que seu rosto se contorça, arreganhando os dentes de
uma forma que deveria ser analisada.
Enquanto ao longe, entre árvores mortas, ainda se vis­
lumbram os dois ingratos que deram no pé e abandonaram
tudo, Wilhelm teria a oportunidade de dizer baixinho a Jacob
Grimm: “Você está vendo, querido irmão, os velhos contos
nunca acabam.”
Para combater a prolongada atmosfera de catástrofe, o
coro masculino se reúne às pressas e canta, contagiado pelo
arrebatamento do maestro, uma canção alegre, cujo som, en­
tretanto, fica inaudível, embora pudesse chamar-se “No Gru-
newald, verde floresta, há leilão de madeira”, como o velho
sucesso berlinense. E ainda por cima começa a cair uma chuva
<ácida. O Primeiro-Ministro anseia pelo doce consolo de uma
guloseima. As crianças evadidas sumiram de vez.

61
Em companhia de minha ratazana de Natal, ouço no Ter­
ceiro Programa* que, segundo os cálculos do calendário chinês,
este é o ano do rato, do amealhar diligente e do aumento de
produção; mais que isso, numa transmissão cultural introduzi­
da por musiquinhas de flauta; chama-se a atenção da cidade do
Weser para o jubileu de sua lenda. Estão previstos o discurso
de um poeta da Boêmia, a estréia de uma peça para marione­
tes, conferências científicas sobre o tema, a venda de um selo
especial do Flautista de Hameln, com carimbo especial, e cor­
tejos festivos, nos quais os filhos dos atuais habitantes, em
vestes da Idade Média, seguirão um caçador de ratos de au­
têntica inspiração. Além de uma exposição com reproduções
de motivos pertinentes, o programa inclui a venda de uma gi­
gantesca torta-do-caçador-de-ratos diante da Casa Capitular. O
departamento municipal de turismo está exultando: espera-se
um maior número de visitantes, alguns até mesmo de outros
continentes, estando anunciada a presença de um fã-clube te-
xano do caçador de ratos, e das Children of Hameln do Japão.
E bem verdade que os porta-vozes políticos da cidade temem
presenças indesejáveis, já tendo inclusive declarado que serão
tomadas as medidas cabíveis, caso haja uma invasão dos cha­
mados punks oupunker provenientes das grandes cidades, com
seus bichos. Apesar disso, encara-se com otimismo o jubileu
que, dados os comprovantes históricos, será festejado condig-
namente pela própria Igreja. O Superintendente da Igreja Lu­
terana já confirmou sua participação.
Tudo isso nos é oferecido, a minha ratazana e a mim,
pelo Espelho da Cultura do Terceiro Pfograma. Agradável,
trabalhada à perfeição em inúmeras transmissões, rica em mo­
dulações irônicas e parênteses críticos, e não obstante infor­
mada com precisão milimétrica, informada com inteligência,
mais que nós informada sobre Hameln, seus bastidores e pro-
* Emissora de rádio com programação fundamentalmente cultural e educati­
va. (N.do T.)

62
fundezas, a voz do locutor, essa voz com poder de comunica­
ção, chega até nós, provinda de uma caixa de radio que se en­
contra sobre meu armário de ferramentas, à direita da casa da
rata de Natal, enquanto eu estou sentado à esquerda da rata­
zana, embora na intenção já esteja de trouxa amarrada a cami­
nho de Hameln.
Queremos ir até lá. Há certas velhas mentiras que devem
ser arrancadas pelas raízes. E nosso dever. Pois uma coisa é
certa: nem há setecentos anos, nem nos séculos que se suce­
deram, houve qualquer documento falando de ratos ou de ca­
çadores de ratos. Só se menciona um soprador de flauta que,
“no dia de São João e São Paulo”, teria levado até um morro
fora da cidade, ou simplesmente levado embora, cerca de
cento e trinta crianças, das quais nenhuma voltou.
Teriam passado pela Porta do Leste? Será que o seqües­
tro depois da batalha de Senemünde influenciou a lenda? Ou
tratou-se de gente debandando aos quatro ventos, aos passos
da dança-de-são-vito? Nenhum documento narra o sucedido.
Nem mesmo cem anos depois encontra-se na crônica da igreja
da cidade qualquer menção à partida das crianças, embora ela
lembre tudo o que se refiça a Hameln, cada incêndio, cada en­
chente do Weser, cada ida e vinda da peste bubônka. Uma
história escabrosa, mantida ex-officio em segredo e que prova­
velmente teve mais a ver com a expulsão dos incômodos flage-
lantes ou com o aliciamento de jovens cidadãos de Hameln
para as zonas de colonização do Leste do que com a arte cheia
de truques de um soprador de flauta. Ainda mais que os ratos
e o respectivo caçador só foram adicionados à lenda duvidosa
quinhentos anos depois do dia de São João e de São Paulo.
Então apareceram os poetas procurando rimas, Goethe em
primeiro lugar.
Mais tarde, os Irmãos Grimm encontraram em diversas
lendas a partida das crianças de Hameln, misturadas às habi­
tuais histórias de caçadores de ratos. E como os dois colecio­

63
nadores de contos populares transcreviam tudo o que se con­
tava ao pé da lareira, junto à roca de fiar e nas mornas noites
de agosto, podemos ler que um rapaz vestido de forma extra­
vagante, a quem fora prometido pagamento, desratizou a ci­
dade de Hameln; para tanto, com auxílio de uma música espe­
cial, atraiu os ratos até o Weser, onde se afogaram. Além dis­
so, somos informados de que, tendo o prefeito e os conselhei­
ros municipais se recusado a paga-lhe, o flautista e caçador
lèvou as crianças na cantada para fora da cidade, de forma que
todas elas, cento e trinta no total, já arroladas em outras len­
das, para todo o sempre desaparecessem no monte do Calvá­
rio.
Uma história de cunho moral, em que, além dos ratos,
são punidos os cidadãos qúe faltam à palavra e, ainda por ci­
ma, as crianças que se deixam seduzir.
E não só crianças. Qualquer um que aja de forma leviana,
deixe-se enganar como um burro ou levar como um carneiro,
confie credulamente, acredite sem refletir e dê crédito a qual­
quer promessa, deixe-sê levar na flauta, é tido em alemão
como engabelado pelo caçador de ratos, que por tal razão não
tardou a entrar na política. Em panfletos e tratados pode-se
ler: ele agita os camponeses, desperta a cobiça dos pobres,
leva a paz dos cidadãos, faz perguntas que só o diabo sabe
responder. E quem por ele se deixa levar mexe igualmente
com o fogo, agita, conspira, rebela-se, vira insurreto, é um re­
volucionário e herege ao mesmo tempo. Foi assim que caça­
dores de ratos, austeros ou espalhafatosos, mas com nomes
sempre novos, levaram à desgraça bandos de camponeses des­
garrados e artesãos rebeldes, grupos de transviados e dissiden­
tes, no mais das vezes simples minorias radicais, mas, afinal,
até mesmo povos inteiros; como ainda há pouco o povo ale­
mão em sua boa-fé, a quem o eterno caçador de ratos apresen­
tou-se dizendo, não que “os ratos são nossa desgraça”-— coisa
sem maior serventia —, mas pondo nos judeus a culpa de to­

64
das as desgraças, até que praticamente cada alemão pensava
saber de onde a desgraça provinha e quem a trouxera e espa­
lhara, devendo por isso ^er reunido a toque de apito e exter­
minado como os ratos.
Como se vê, a coisa é simples; é bem fácil — basta dar
uma boa arrumadela — cultivar a mora das lendas, até que ela
frutifique, dando crimes de corpo inteiro.
O Sr. Matzerath tem mais ou menos a mesma opinião; à
semelhança dos animais acossados, ele por toda vida procurou
abrigo, mesmo quando teve a idéia de posar de caçador. E
“sempre que se falou de ratos e de exterminar os ratos, acaba­
ram eliminando outros como ratos, embora a olhos vistos não
o fossem”, diz ele.

Tem endereço, escreve cartas e recebe correspondência.


Desde que há dois anos lhe extraíram um cálculo biliar, ele se
diz sadio, reclamando, contudo, de dificuldades ao urinar, de­
pois de reuniões cansativas e durante congressos de comuni­
cação de massas cheios de controvérsias, advêm dolorosas re­
tenções urinárias; provavelmente, o stress irrita sua próstata,
mas ele teme o bisturi do urologista.
Ele agora deu para colecionar moedas de ouro, usa grava­
tas de seda, aprecia alfinetes de gravata ornados de rubis,
aplica água-de-colônia depois de barbear-se e deseja, à noite,
sentir-se perfumado de alfazema antiga, certamente para re­
cordar sua pobre mãe, que exalava esse perfume tão duradou­
ro. À exceção da coroa de cabelos que cai com reflexos prate­
ados sobre o colarinho, ele é calvo. Sua careca, bronzeada em
todas as estações do ano, brilha como que polida. Sente-se
tentado a afagá-la; e parece que há mulheres que se deixam
levar pela tentação — boatos insistentes, que ele nunca con­
tradiz.
E fato que ele raramente é visto em sociedade, mas,
quando recebe, o homenzinho corcunda se posta entre gala-

65
laus, damas e cavalheiros escolhidos pela altura, como se ainda
precisasse acentuar sua diminuta compleição. Por isso, da di­
reção à produção, seus empregados têm todos mais de um
metro e oitenta. Essa mania, conhecida na indústria cinemato­
gráfica, já deixou de provocar sorrisos, tanto mais que a parti­
cipação no mercado mostra com clareza quem está por cima.
Ele enche previamente a agenda: fases de trabalho exacerba­
do, destinadas exclusivamente à produção de vídeos, alter­
nam-se com períodos de calma em lugares isolados; e não é só
devido à próstata sensível que ele procura estações de águas:
Marienbad, Baden-Baden, Lucca, e Bad Schinznach, na Suíça.
Sua frase predileta é citada com freqüência: “Apenas os ratos
têm futuro, e naturalmente nossos vídeo-cassetes.”
Enquanto se recupera, sem aproveitar os entretenimentos
das estações de águas, sua imaginação trabalha a todo vapor,
produzindo como sempre teses de muitos andares e corres­
pondentes antíteses. O ra ele quer filmar acontecimentos que
ainda estão por vir, produzindo o futuro, a fim de que já
exista quando se tornar presente; outras vezes, ele deseja ver
filmado o que aconteceu antes do aparecimento do filme
como meio de comunicação, por exemplo, o embarque na
Arca de Noé. Seguindo rigorosamente uma lista, toda a bicha­
rada deve aparecer aos pares na tela: javali e javalina, ganso e
gansa, égua e garanhão, e, repetidas vezes, aquele par especial,
barrado na arca, mas que assim mesmo não esmorece, ten­
tando entrar de penetra no meio dos roedores admitidos.
Nas raras pausas que se permite, sente o peso da infân­
cia, da qual, envelhecendo, gostaria de reaproximar-se: a
queda da escada do porão, idas ao médico, excesso de enfer­
meiras... Entretanto, não faz mais anotações sobre suas ori­
gens, e muito menos confissões, por maior que seja o fervor
com que suas eleitas o peçam. “Isso tudo já passou!” diz ele.
“Vivemos hoje, e cada dia é o último.”

66
Agora se alegra com o mês de setembro deste ano, mas
não sabe ainda como vai comemorar seu sexagésimo aniversá­
rio: será preferível ficar em toda a calma, sozinho — circun­
dado apenas de fotografias —, ou rodear-se de convidados
pernaltas?
Mas, antes disso, é a vez dos festejos de Anna Koljaiczek,
sua avó: com finos presentes e uma surpresa que imaginou em
Bad Schinznach, e colocou em produção logo depois da esta­
ção de águas.
Sobre sua escrivaninha de tamanho exagerado e sempre
impecavelmente vazia, encontra-se tão-somente o cartão-
postal com o convite, escrito pela mão do vigário da paróquia
de Matarnia, que outrora se chamou Matern: “...tenho a honra
de convidar meu neto, Sr. Oskar Matzerath, para meu 107.°
aniversário.”
Por mais que leia essa frase, ele não sabe se deve viajar.
Por um lado, teme a volta; por outro, imagina presentes e vive
falando a respeito da festa iminente. Como lhe dá prazer que
todos o chamem de “o seu Matzerath”, não finge que não
ouve quando cochicham perto dele: “Imagine só, o seu Mat­
zerath talvez vá à Polônia. Já sabe que o seu Matzerath está
planejando uma viagem à Polônia?”
Ele ainda hesita. E o velho jogo de uma pessoa que inter­
rompeu conscientemente o próprio crescimento, mas acabou
crescendo uns poucos centímetros: será que devo ou não d e­
vo?
Além disso, Bruno, que como chofer está sempre pronto
a fazer qualquer viagem sem reclamar, dessa vez mostra-se
preocupado e procura motivos para impedir, ou pelo menos
adiar, a viagem. Ele invoca os médicos, que teriam desaconse­
lhado. Diz que a situação política da Polônia é insegura. A d­
verte sobre arbitrariedades do estado de sítio. Sem mencionar
razões palpáveis, insinua que o Sr. Matzerath seria atualmente
persona non grata na Polônia.

67
O visto ainda não foi solicitado. Apesar disso, Oskar
compra gravatas de seda e faz, em xadrez, todo um esportivo
guarda-roupa de alto padrão. Recusa-se a ir eventualmente de
avião e, mais ainda, de trem. “Se eu voltar lá em casa”, diz ele,
“vai ser no Mercedes.”
Toma a precaução de enriquecer sua coleção de moedas,
embora, ou porque, com o aumento da cotação do dólar, o
preço do ouro esteja baixando. Como se as circunstâncias pu­
dessem obrigá-lo a deixar-nos por um período mais longo,
tem conselhos em profusão para todos. A mim, dç que me
ocupe apenas do caso Malskat. Quando lhe peço que consi­
dere finalmente também os outros projetos, ele responde,
apressado: — Sobre a floresta e Hameln falamos mais tarde!
— e me deixa ali, parado, abarrotado de histórias que insis­
tem, todas ao mesmo tempo, para sair do começo.

Antes de a barcaça a m otor A Nova llsebill, deixando para


trás as planuras da ilha de Fehmarn, tomar a direção das es­
carpas de giz da costa de M 0n, as mulheres a bordo do navio
de pesquisas colhem amostras da baía de Lübeck, segundo um
plano previamente estabelecido. Como existem dados sufi­
cientes sobre o fiorde de Kiel, pesquisa-se aqui a migração
vertical do plâncton. Com seis redes, o tubarão-medidor entra
em ação. A coleta dura cinco minutos, e, no percurso de me­
dição, a profundidade das águas varia de dezoito a vinte e três
metros, de forma que, paralelamente à coleta vertical,
podem-se recolher simultaneamente amostras de cinco pro­
fundidades diferentes.
Enquanto a timoneira lança o tubarão-medidor e o conta­
dor de águas-vivas escalonado, a oceanógrafa e a maquinista
manipulam as aurélias, cujo diâmetro chega a mais de quatro
centímetros. A água-viva é medida na altura dos véus. Águas-
vivas menores chamam-se éfiras; as maiores, medusas. Para a
determinação do volume, as medusas têm de ser rapidamente

68
escorridas, sendo em seguida mergulhadas, como massa, em
cilindros fixos cheios de formalina. O encolhimento que daí
decorre é naturalmente considerado na medição. O diâmetro
das águas-vivas de todos os grupos de tamanho diminui apro­
ximadamente quatro por cento, depois de dois dias de fixação
ininterrupta. A oceanógrafa aprendeu tudo isso e muito mais
— por exemplo, a pesagem comparativa de larvas de arenque
e medusas — durante os estudos universitários, começados
tarde. Sob sua orientação com petente, a maquinista, que na
realidade trabalha numa empresa de transportes, e a timonei­
ra, que dirige um escritório de advocacia, aprendem a contar,
medir e pesar as éfiras e medusas. Com paciência, ela dá de­
monstrações de oceanografia aplicada. N unca se falou de m e­
dusas com tanta sobriedade.
Primeiro, as mulheres pescaram com aparelhagem espe­
cial a duas milhas de Timmendorfer Strand; depois, diante de
Scharbeutz e Haffkrug; agora, elas estão coletando amostras
do Báltico na baía de N eustadt até a entrada de Pelzerhaken.
Mais para o norte, a concentração de águas-vivas diminui.
Diante da costa leste de Holstein, porém, a oceanografia, pura
e aplicada, ganha subitamente uma nova dimensão, pois a ti­
moneira diz à capitã: — Foi por aqui que nós, em 70, 70 e
poucos, apanhamos o linguado. Por acaso. Com uma tesouri-
nha de cortar unhas. Ele encheu a boca. Esperanças mil, pro­
meteu mundos e fundos. N ão deu em nada. Tudo águas-vivas
que se encolhem assim que você olha para elas.
Como se o chamasse, de fato, a timoneira exclama em di­
reção ao mar calmo: — Ei, linguado! Você nos passou para
trás. Nada mudou. Os mesmos cavalheiros continuam com a
faca e o queijo na mão. Eles é que mandam, mais ninguém,
apesar de estar tudo desabando morro abaixo. E nós, que pen­
sávamos então: chegou a vez das mulheres, do poder femini­
no, inteligente. Foi engano. O que é que você diz disso, hem?
Então, linguado, abra a boca, seu fanfarrão.

69
O mar continuou sem fala, mas a explosão da timoneira,
uma gritaria pelo achatado peixe falante como há muito não se
ouvia, atraiu a oceanógrafa e a maquinista, que vieram do an­
tigo compartimento de carga da barcaça, onde tinham medido
a última coleta de águas-vivas. Mal chegou ao convés,.a ma­
quinista exclamou: — Pare com essa porcaria de ontem!
— E pare de se lamentar. Aqui a bordo não entra ho­
mem. N em assim você está satisfeita? — disse a oceanógrafa.
E, da cozinha, a velha gritou:
— Linguado ou não, por aqui sempre aconteceram coisas!
Deixa a gente ancorar.
A capitã reduz e desliga o motor, soltando em seguida as
duas âncoras, obediente, como se a velha estivesse agora no
comando; enquanto isso, a oceanógrafa tira as luvas de plás­
tico transparente. Ela joga ao mar essas coisas descartáveis, e
aponta sucessivamente na direção de Pelzerhaken, Neustadt, *
Scharbeutz:
— Era ali que eles estavam, três navios. Eu usava tranci-
nhas com laços feito hélice e tinha acabado de completar doze
anos quando o Cap Arcona, o Thielbeck e o Deutschland anco­
raram aqui. Nós tínhamos sido evacuados de Berlim. Perde­
mos tudo duas vezes, nos bombardeios. Isso foi em abril de
45, pouco antes do fim. De manhã, quando eu ia à escola, os
navios estavam sempre lá. Pareciam até uma pintura. E eu
também os desenhava, na mesa da cozinha. Com lápis de cor,
todos os três. Os adultos diziam: estão cheios de prisioneiros
dos campos de concentração. N o dia 3 de maio, minha mãe
me mandou mais uma vez à cidade, porque em Neustadt esta­
vam distribuindo rações de açúcar, e então eu vi da praia que
havia alguma coisa com os navios. Estavam soltando fumaça.
Foram atacados. Hoje, a gente sabe mais: os prisioneiros vi­
nham de Neuengamme, e algumas centenas de Stutthof. E os
navios foram atacados por Typhoons britânicos, que eram mu-

70
nidos de foguetes. D a praia, era um espetáculo divertido, pa­
recia treinamento. De qualquer forma, mais tarde o Cap Ar-
cona pegou fogo e emborcou. O Deutschland, que não tinha
prisioneiros de campos de concentração a bordo, foi posto a
pique. O Thielbeck, onde os prisioneiros tinham içado lençóis
como bandeiras brancas, emborcou em chamas e naufragou. E
claro que da praia não se podia ver o que acontecia dentro dos
navios. Também, é difícil de imaginar. Mas, apesar disso, eu
ainda continuei por muito tempo a desenhar navios pegando
fogo. M eu Deus! De qualquer forma, antes do ataque havia
por volta de nove mil prisioneiros a bordo do Arcona e do
Thielbeck. Uns trezentos morriam diariamente de fome. E
mais ou menos cinco mil e setecentos prisioneiros — polone­
ses, ucranianos, alemães e, é claro, judeus — morreram quei­
mados, afogados, ou foram simplesmente fuzilados na praia,
quando chegavam nadando até a costa. Por homens das SS e
comandos da marinha. Eu vi isso quando tinha doze anos. Es­
tava lá com minhas tranças, e olhava. Havia também muitos
adultos de N eustadt lá, observando os prisioneiros serem aba­
tidos assim que saíam da água, ainda tremendo de frio. E claro
que eles até hoje afirmam que não viram nem ouviram nada.
E também na Inglaterra ninguém abre a boca. Foi um aciden­
te, e pronto. Durante dois anos o mar trouxe cadáveres, atra­
palhando o funcionamento dos balneários. Pois logo depois
tinha vindo a paz. E por muito tempo ainda se podiam ver os
cascos, até que foram rebocados para virar sucata.
A oceanógrafa mostra saber como se chamavam o gaulei-
ter de Hamburgo e os capitães dos navios; enquanto isso, as
mulheres observam o mar, que nada deixa transparecer. Em
meio à calmaria, está garoando, como tem sido freqüente*
neste verão em que só chove. D a cozinha, a velha diz: — E
claro, isso destoa da história. Um incidente besta. Isso inco­
moda. Coisas assim, a gente esquece. Passa a esponja, como se
dizia antigamente. Bem, vamos comer? H á almôndegas com

71
cebolas fritas e, para acompanhar, batata amassada e salada de
pepino.
Como não há nada mais a dizer, a capitã recolhe as ânco­
ras e dá o rumo: mar aberto. Que bom que o m otor obedece e
pega na hora. Ao lado da timoneira, Damroka está agarrada à
sua caneca de café. — Vamos dar p fora daqui! — diz ela, sem
mais palavras, pensando porém no verdadeiro objetivo da via­
gem, que só ela conhece; e eu também desejo que as mulhe­
res deixem de lado o passado, e voltem a fixar-se exclusiva­
mente nas aurélias.
Para a refeição, é desimpedida a mesa à meia-nau, sobre a
qual se encontravam tabelas e dados de medição. Todas têm
de elogiar as almôndegas, a cozinheira. Batem papo sobre o
tempo e o verão em que só chove. Que bom que não ficam
pensando. Para acompanhar as almôndegas com batata amas­
sada, as mulheres bebem cerveja nos gargalos das garrafas.
Assim que acaba de comer, a capitã vai ao leme buscar a ti­
moneira.
Só mais tarde, depois que as planuras da ilha de Fehmarn
desapareceram, é que todas se reúnem no convés, trazendo
seus apetrechos de tricô. Còm a respiração curta, o mar lança
pequenas ondas. Brisa fraca. Noutras partes, a chuva escorre
em véus. Vez por outra, o sol aparece. Assim que a costa
baixa da ilha dinamarquesa de Lolland se delineia a bombor­
do, a llsebill começa a atravessar campos de águas-vivas, de
povoação ora densa, ora escassa. Aqui, não se coletam dados.
O tubarão-medidor pode descansar. A barcaça faz oito nós e
meio.
Mas de repente — só porque a figura branca de uma
barca desponta a sudeste —, cessa o bate-papo. Não posso
impedir que a oceanógrafa pare de tricotar e recomece a falar
dos navios de prisioneiros. Como a maquinista quer informa­
ções mais precisas e detalhadas — “Por que os prisioneiros es­
tavam nos navios? Como é que os ingleses?” —, eu faço a ve­

72
lha exclamar lá da cozinha, onde está lavando louça; — Pois
sim, senhora! G ente morrendo de fome, queimada, afogada,
depois nadando, para §er logo em seguida abatida a tiro. E
gente deixando outras pessoas morrerem de fome, queimadas,
afogadas, e que viu as poucas pessoas que chegaram a terra
serem abatidas sem apelação. Por seres humanos. SÓ se fala
dos seres humanos, e do que eles fizeram a outros seres hu­
manos. E os ratos? Quem fala dos ratos queimados e afoga­
dos? Querem apostar como havia quantidades de ratos a bor­
do, com certeza alguns milhares...
Nesse ponto, a ratazana com que sonho disse, sem inter­
ferir na imagem e conseguir afugentar o navio: Engano, pe­
queno engano. E fato que sempre fomos chegados ao homem,
mas de seus naufrágios nós nos esquivamos. Sabíamos de an­
temão o que ia acontecer. Não ficávamos em navios suspeitos.
Apesar de todo o amor pela espécie humana, não queríamos
m orrer queimados ou afogados junto dela.
Eu não estava sonhando com uma cadeira de rodas. Era
uma cápsula espacial, onde, preso a um assento, era obrigado
a seguir minha órbita. Logo eu, que não tenho noção de toda
essa parafernália espacial; eu, que não disponho do saber es­
pecializado, altamente qualificado, que estica os braços às es­
trelas e consegue chamar todas as galáxias pelo nome; eu,
desprovido dos conhecimentos lingüísticos que nesse meio
tempo não são mais apanágio de astronautas tagarelas, mas
familiares a qualquer criança de escola; eu, um doido antiqua­
do, para quem até mesmo telefonar continua sendo um mila­
gre incompreensível, estava preso ao assento de uma cápsula
espacial e chamava: Terra! Responda, Terra!
Mas meu monitor só captava a ratazana. Tão-somente ela
respondia, era expansiva e loquaz. Eu podia gritar, desespera­
do: Ainda existimos! Estamos aqui! N ão desistimos! — ela
não se comovia, e falava de tempos passados: com melancolia
e paciência, como se quisesse me paparicar.

73
Amigo, dizia a ratazana, preste atenção. Você chamou a
Terra, aqui está falando a Terra. Terra, responda! foi seu de­
sejo, aqui é a Terra, respondendo. Nós nos enterramos, pois
já tínhamos um pressentimento. Enquanto os homens, como
se fosse a sua sina, davam mais uma de loucos, e desta vez de­
finitivamente, querendo superar-se de forma absoluta, nós nos
enterramos fundo. N ão falemos de instinto; foi o saber,
transmitido de geração a geração, nossa memória, desperta
para esses casos desde os tempos de N oé, que nos aconselhou
o subsolo, a sobrevivência em bolhas de ar, graças ao sistema
de vedação. Não era à toa que a sabedoria humana dizia: os
ratos abandonam os navios que afundam, embora isso com
freqüência fosse repetido sem maiores reflexões. Desde
aquela instrução que nos proibiu terminantemente de entrar
no caixote de pinho de N oé — ella terah trezentos covados de
comprido, cincoenta de largo e trinta de alto —, nós desconfia­
mos particularmente de navios. Sempre que ouvíamos dizer que
ratos tinham abandonado um navio — covardemente, segundo o
juízo dos homens —, era certo que pouco depois receberíamos a
confirmação de que o navio abandonado afundara.
E mesmo, exclamou a ratazana. Essa frase firmou nosso
conceito. Mas quando, no fim, se tratou do navio Terra, não
dava para trocar de planeta. Por isso, abrindo caminho sob
construções e alicerces, procuramos refúgio debaixo do sis­
tema de abrigos subterrâneos dos homens. E também estoca­
mos provisões, coisa que na era humana somente o rato-de-
bengala tinha feito.
Embora eu, em minha cápsula espacial, tentasse repetidas
vezes induzir o monitor a apresentar imagens mais simpáticas,
a ratazana me conduziu por sistemas de túneis, cujas galerias
de passagem e ligação levavam a tocas, a gargantas que ser­
viam de comportas, e a bolsões espaçosos, verdadeiros silos,
cheios de cereais e de caroços. Em ramificações l&birínticas,
um mundo se abria nas entranhas da Terra.

74
Eu queria ver luz, sonhar coisas bonitas: Damroka!
Ela dizia: não havia outra escapatória.
Eu imprecava contra o Sr. Matzerath: ele deve dizer sim e
produzir meu filme sobre a floresta moribunda. Ela me tirava
o* som e dizia, estridenté: ficamos alarmados com a atmosfera
que reinava entre os homens, com sua esperança exagerada de
paz, que nada justificava, com essa esperança que vivia de si
própria, autofágica, essa tentativa agitada de insuflar esperan­
ça, enquanto ao mesmo tempo a engrenagem dos homens não
saía do ponto morto; ficamos alarmados com essa mania in­
consolável de esperança.
Eles se cobriam de imposições objetivas. Como se o
tempo fosse inesgotável, se consumiam de reunião em reu­
nião. Pode ser que os estadistas achassem isso engraçado, pelo
menos eles não abandonaram seu risinho, até o fim. Ah, o pa­
lavrório deles! Se, antes, o humano tinha sido capaz de idéias
de longo alcance, embora com freqüência estranhas, nas pro­
ximidades do último dia ele parecia um papagaio, recitando
idéias ultrapassadas e até mesmo velharias estapafúrdias: naves
espaciais, construídas e populadas segundo o princípio da arca
e da seleção. Era óbvio que o homem estava se entregando.
Ele, cuja cabeça tinha idealizado tudo isso, que tinha até então
sabido dar forma a seus pensamentos; ele, sempre tão orgu­
lhoso de sua cabeça e das vitórias dela sobre o obscurantismo
e a superstição, os charlatães e a feitiçaria; ele, cujo espírito
tantos livros de peso tinha criado — ele queria a partir de
agora dispensar a cabeça e obedecer apenas aos sentimentos,
embora no humano os sentimentos sejam subdesenvolvidos,
mais ainda que o instinto.
Resumindo, disse a ratazana com que sonho: um número
sempre crescente de homens se entregou a uma vida irracio­
nal. Feito videntes e gurus, os poetas falavam o que bem en­
tendiam. Todo problema não-resolvido chamavam de mito.
Por fim, até mesmo as manifestações pela paz, habituais há

75
anos, e a princípio inteligentes no que diziam e provavam,
transformaram-se em ajuntamentos religiosos. Infelizmente,
nossos punks, que tinham se afeiçoado a nós — e nós a eles
—, também se deixaram levar. Nossa memória de ratos recor­
dou os cortejos de flàgelantes da Idade Média, que, levados
pelo medo, castigaram o Ocidente cristão, desencadeando
progromes, orgias de chibatadas ensandecidas, não se detendo
diante de nada, porque então grassava a peste, chamada fla­
gelo da humanidade. N o que procuraram e encontraram cul­
pados: nós e os judeus, que a teríamos introduzido ç dissemi­
nado. Partindo de Veneza ou Gênova. Velhas histórias, sem
dúvida; e, no entanto, sempre novas...
Seja como for, vimos o fenômeno dos flagelantes reapa­
recer no final da história humana, embora não dirigido contra
os judeus ou contra nós. Pelo contrário, depois dos cortejos e
ajuntamentos, de forma isolada e, mais tarde, coletiva, surgi­
ram casos de auto-imolação pelo fogo: primeiro em Amsterdã,
depois em Stuttgart, a que se seguiram simultaneamente
Dresden, Estocolmo e Zurique, e, por fim, diariamente em
cidades grandes e pequenas da Europa, em estádios de futebol
e salões de exposições, congressos religiosos e campings. A
moda — caso se possa usar essa expressão — encontrou então
seguidores em outros continentes: de início em Atlanta e
Washington, depois em Tóquio e Kioto, naturalmente em Hi-
roxima. N o final, quando até mesmo de países subdesenvolvi­
dos chegavam notícias dessas auto-imolações coletivas, nem a
própria União Soviética ficou imune: desesperada e nada ilu­
minando, a chama saltou de Kiev para Moscou e Leningrado.
Em toda parte em que a razão era arquivada — e deveríamos
mencionar ainda Tschenstochau e Roma —, o fenômeno se
repetia, idêntico: jovens se agrupavam formando um bloco
compacto. D entro desse bloco humano — diante da catedral
de Colônia foram, parece, mais de quinhentos —, em meio a
rezas e canções em que cada linha e verso compungia a paz,

76
era aceso, depois de súbito silêncio, o raio da exortação, pro­
duzido pelos muitos galões de gasolina passados abertos de
mão em mão. Gasolina foi o que não faltou até o fim.
Ah, o humano! Essa espécie humana! Até mesmo num
estado de confusão e desespero, era tudo bem organizado.
Um serviço de ordem arrumava os blocòs dispostos à auto-
imolação. Ambulâncias estavam a postos, em proporção à
quantidade de pessoas. Entre as vítimas havia um número
acentuado de mães com crianças pequenas. Professores com
seus alunos. Padres e pastores com catequistas e confirman-
dos. Em Neckarsulm e Wolfsburg, grandes empresas perde­
ram seus aprendizes e instrutores. Em diversos centros milita­
res, os recrutas acenderam o raio da exortação durante o ju­
ramento. N o curso ulterior dessa autodestruição antecipada, a
imprensa, o rádio e a televisão tiveram a sensatez de não mais
informar os números das perdas diárias.
E eu vi o que a ratazana enumerara, vi raios da exortação
diante do pano jde fundo subitamente iluminado das cidades,
vi crianças de peito junto às mães, alunos com professores,
jovens cristãos ladeando reverendos, aprendizes agrupados
em torno de seus mestres, e recrutas consumindo-se em cha­
mas durante o juramento da bandeira. Gritei, mas fiquei preso
em minha cápsula espacial. Basta! Quero despertar! gritei.
Pedi, choraminguei, disse com ternura ratinha, ratazana de
Natal. Imaginei sugestões absurdas: não teria, não seria possí­
vel... Ela, porém, apresentava relatório objetivo de uma época
passada.
Sem dúvida poderia e teria sido possível... E no começo
chegou-se a tentar conter a loucura que se alastrava, e a dis­
solver com violência os blocos. Mas em Bruxelas, N urem ber-
gue e Praga, policiais isolados e, posteriormente, batalhões in­
teiros desertaram, para, como então se dizia, serem partícipes
do auto-sacrifício exortatório, e desde então as forças da or­
dem foram mantidas a distância. Contemplavam-se passiva­

77
mente os raios da exortação. Em áreas de grande concentração
urbana, eles faziam parte do cotidiano, assim como nas regiões
afastadas a fome pertencia ao dia-a-dia. Diante desse cenário
de fumaça, mau cheiro e — como escreveu um policial ilustre
— de crescente propensão para a morte, os estadistas pude­
ram facilmente dar uma aparência de racionalidade à sua mo­
vimentação vazia. De tal forma que pessoas mais velhas e pre­
ocupadas se associaram por um tempo a um movimento
oposto que, -usando a divisa: armar a paz! veio a encontrar
uma certa ressonância. E quando havia choques entre os dois
grupos, naturalmente os raios da exortação faziam ainda mais
vítimas.
Tive a impressão de que a ratazana sorria no sistema de
galerias. Pode ser também que ela não sorrisse, que só eu em
minha cápsula espacial achasse tudo isso loucamente engraça­
do, de se escangalhar de rir. E de fato disse, aos urros: não
brinque, ratazana! Pare de zombar de nós. Grande vantagem
vocês rirem, em seus buracos de rato.
E verdade, amiguinho, disse a ratazana, mas apesar disso
você deveria ouvir por que nós nos escondemos. Por volta do
fim da história humana, os homens se habituaram a uma lin­
guagem tranqüilizante, de conciliação, toda cheia de deferên­
cias, que não dava nome às coisas e parecia racional até*
mesmo quando apresentava besteiras como conhecimentos. E
espantoso como os políticos, os graúdos dignitários, conse­
guiam tornar as palavras maleáveis e submissas. Com o terror,
nossa segurança cresce, diziam eles. Ou: o progresso tem seu
preço. Ou: não se pode conter o desenvolvimento técnico. Ou
ainda: não queremos voltar à Idade da Pedra, não é mesmo? E
essa língua de ilusionistas era tolerada. Assim, vivia-se com o
terror, corria-se atrás de negócios ou diversões, lamentavam-
se as vítimas dos raios da exortação, consideradas supersensí-
veis e portanto incapazes de suportar as contradições da épo­
ca; depois de balançar a cabeça, passava-se à ordem do dia,

78
que por si só já era fatigante. Não se dizia expressamente: de­
pois de nós, o dilúvio; mas vivia-se o mais comodamente pos­
sível na certeza de que .o humano fracassara, de que fracassara
sua tentativa, repetida desde os tempos de N oé, de impregnar
a espécie dos homens de um comportamento menos assassino.
Como derradeira visão do mundo, o finalismo encontrou res­
sonância e seguidores, e sem maiores problemas dizia-se a
amigos e conhecidos: não deixem de voltar aqui em casa antes
que seja tarde demais. As pessoas se cumprimentavam: que
bom ver você ainda uma vez. Nas despedidas, a expressão até
logo caiu em desuso. E às crianças, diziam com carinho, mas
pensativos: no fundo, queridinhos, vocês não deveriam mais
ter existido. Em comemorações familiares e ensejos oficiais,
mesmo quando da inauguração de pontes, faziam-se citações
relacionadas ao fim dos tempos. Não é de espantar que nós,
ratos, nos tenhamos enterrado.
Eu deixara de replicar. Estava achando minha cápsula es­
pacial sempre mais aconchegante. Por que deveria continuar
chamando: Terra! Responda, Terra! ? Eu brincava com botões,
comutadores e outros instrumentos para mim incompreensí­
veis; cheguei a receber imagens que me distraíam; elas se apa­
gavam umas às outras, de propósito, e me diverti com as toli­
ces que essas superposições criavam; acreditei serem bons so­
nhos, mas atento ao que a ratazana dizia, já de acordo com ela.
Sempre ocupada com nossa fase final, ela disse: Afeiço­
ados ao homem desde que o rato é rato, nós tentamos
preveni-lo antes de nos enterrarmos. Saímos às centenas de
milhares dos extensos sistemas de túneis de suas vias públicas,
e de nosso domicílio preferido, os esgotos. Abandonamos os
depósitos de lixo e ferro-velho, os matadouros e zonas por­
tuárias, os poços dos edifícios e nossos outros territórios. À
luz do dia, indo quase contra nossa natureza, marchando pelas
ruas principais de todas as metrópoles européias: legiões de
ratos evadidos aos bandos, um irrefreável vagalhão de ratos.

79
Depois, intensificamos nosso programa. Não só uma, mas di­
versas vezes por dia, seguimos a Rua Gorki até a Praça Ver­
melha. Em Washington, caminhamos três vezes em torno da
Casa Branca; em Londres, formamos uma estrela, vindo de di­
versos pontos até o TráfaJgar Square. Dois fluxos de ratos,
com direção oposta, bloquearam os Champs-Elysées. Foi as­
sim que demonstramos nossa preocupação ao gênero humano.
Como o homem acreditava em imagens, produzimos nossa
imagem aterradora. Subimos e descemos bulevares e avenidas,
sempre de lombo e rabo esticados. Queríamos mostrar aos
homens: vejam como nós temos medo! Nós também temos
consciência de que a derrocada deste mundo é iminente.
Como vocês, nós conhecemos os respectivos trechos da Bí­
blia. Nossa fuga, determinada pelo pavor derradeiro, signifi­
cava: parem de dar cabo de si em pensamento, homens. Aca­
bem com essa de acabar com tudo. A sabedoria dos provér­
bios se comprova, é impossível ignorá-lo...
Fingi e sp a n to : E aí? Houve pânico, não foi? Todos se uni­
ram n u m só grito, não é m e sm o ? Eu imagino, no pique do
trâ n sito , to d o m u n d o voltando do trabalho, as donas-de-casa
co m as bolsas d e co m p ras... — disse e u ainda, como se qui­
sesse re p a ra r o q u e a h u m an id ad e p e rd e ra .
As palavras da ratazana soavam cansadas, ainda na re tro s­
pectiva se sen tia a decepção: E claro qu e ou vim os g rito s d e
tran seu n tes aterrorizados, q u e talvez tenham até in terpretado
co rretam en te nossa evasão em massa; é claro qu e o trânsito
sofreu im ediatam ente um colapso no cen tro das cidades; é
claro que, nas ruas principais, todas as janelas de frente esta-
vam tom adas p o r olhos esbugalhados; mas, fora isso, nada
aconteceu, a não ser o fato de que a televisão filmou com
grande aparato as cenas espetaculares: nossa travessia nas
pontes do Sena, as repetidas passagens diante do Palácio de
Bückingham, nossa fuga contornando o alto chafaíriz de G e­
nebra. O s turistas já estavam tirando fotografias. E como nos-
80
sas demonstrações de patas rápidas com freqüência duravam
horas, oferecíamos motivos suficientes.
Mas, exclamei, será que não se. Q uero dizer, providên­
cias. Pelo menos com canhões de água. O u de helicópteros.
Ou, muito simplesmente...
Sim, sim, disse a ratazana, naturalmente, antes de mais
nada eles pensaram em veneno. Mas só em poucas grandes ci­
dades usaram meios de extermínio para tentar combater nossa
aparição maciça. Em Roma até mesmo o lança-chamas: a con­
seqüência foram grandes incêndios que se alastraram ao longo
da Via Veneto. As paredes de vidas humanas contrabalança­
ram nossas baixas. Em sua burrice, eles até o fim lançaram
mão da violência. Apenas em Pequim, Hong-Kong e Cingapu-
ra, onde dominava a variedade chinesa do humano, em Nova
Déli e Calcutá, onde, se não chegávamos a ser sagrados, pelo
menos sempre fomos respeitados, compreenderam que nossos
sinais de alarme eram apelos; mas os computadores centrais
estavam localizados em outra parte.
Não me acudiu nenhuma idéia melhor do que dizer: Mas
que pena! E pensar que vocês se esforçaram como o diabo,
ratazana. Não recuaram diante de nenhum risco.
Só então, depois de tanto esforço inútil, é que nós ratos
começamos a nos enterrar.
Foi um erro! disse eu. O u então, foi cedo demais. De
qualquer forma, vocês deveriam ter continuado...
Mas nós continuamos, dias e mais. dias...
Não! disse eu. Vocês desistiram de nós. E desistiram
cedo demais...
Ainda uma vez, como se ela quisesse comprovar a mim e
si mesma a inutilidade de seus esforços, vi no m onitor de mi­
nha cápsula espacial uma rápida seqüência de imagens mos­
trando a ternura dos punks com os ratos, muitas centenas de
punks a caminho de Hameln em companhia de seus ratos,
raios da exortação acesos em blocos humanos e, em seguida,

81
vagalhões de ratos em movimentos circulares e opostos. En­
tão, eu os vi se enterrando. Escavando o solo, feito cunhas.
Milhares de buracos cuspindo areia, saibro, argila. Seus rabos,
a princípio na superfície, depois como que tragados pela T er­
ra. Ao mesmo tempo e em toda parte. Tantas imagens derra­
deiras e, por fim, uma salada de imagens, à qual a ratazana
sempre voltava a misturar-se, mas já sem som, e das entranhas
da Terra. E eu vi o Sr. Matzerath dando início a um discurso,
os filhos do Primeiro-Ministro correndo pela floresta mori­
bunda como Joãozinho e Maria, no que a ratazana ipais uma
vez, não, era minha ratazana de Natal que dormia enroscada
ou fingia-se de santa, no que o pintor Malskat misturava tintas
para pinturas estranhamente góticas, até que, dê supetão,
Damroka, tricotando com outras mulheres, atravessou o mar
saturado de águas-vivas, e a ratazana sempre mais fundo, e as
crianças na floresta, que, com a rigidez de um cadáver...
A salvação foi que o Sr. Matzerath exibia finalmente seu
pedido de visto, preenchido sem rasuras em letra de impren­
sa: à Polônia ele quer ir, à Polônia.
E já é tempo, disse a mim mesmo ao acordar, pois entre
Ramkau e Matern os caxúbios começaram a preparar a festa.
Vão tecer com flores o número cento e sete.

N o fim, quando nada mais havia para rir, os políticos se refu-


[giaram num risinho unânime de escárnio.
Sem motivo, pois nada de cômico se apresentava, eles come-
[çaram no mundo inteiro com suas risadinhas debochadas.
Traços faciais contidos, tomados de assalto.
Não eram sorrisos constrangidos.
Caretas derradeiras, nada mais.
Achando, porém, que era alegria, fotografaram risadinhas e ri-
[sinhos dos políticos unânimes.
As fotos da última conferência de cúpula comprovaram o bom
[humor contagiante.
Devem ter suas razões p^ra sair do sério, comentou-se.
Como houve reuniões até o fim, o humor resistiu até o fim.

83
no qual acontecem milagres, Joãozinho e
0 TERCEIRO C a p í t u l o ,
Maria pretendem urbanizar-sey o Sr. Matzerath duvida da razão,
cinco redes estão ocupadas, o Terceiro Programa tem de calar-se, há
liquidação em Stege e escassez na Polônia, uma atriz de cinema é
santificada e perus fazem a História.

Minha ratazana de Natal não gosta quando eu corro atrás


de Malskat. Ela fareja, cheia de inquietação, assim que eu es­
palho reportagens e comentários sobre o processo ao lado da
gaiola, por exemplo com o título: “Um Tiulenspiegel* da Prússia
Oriental”. Fica assustada quando eu comparo as fotos publica­
das de Malskat com a imagem que faço dele: aparenta séculos
de malícia e, em lugar do gorro de lã emaranhada, ele poderia
usar chapéu de duas pontas com guizos, combinando com sa­
patos de bico, calças godê e mangas tufadas.
Estamos ouvindo o Informe da Mídia, com novidades so­
bre o mercado de vídeos, em que o Sr. Matzerath não é o
único a ver um grande futuro. Contornando a gaiola de minha
ratazana de Natal, estendo o braço e localizo o botão que, no
meio de uma frase, tira o Terceiro Programa do ar; ruídos de
fundo atrapalham a procura de Malskat atrás do papel impres­
so. Conto com a cóttipreensão de minha ratazana, por mais
que ela goste de ouvir novidades científicas e o nível das águas
do Elba e do Saale.

* Eulenspiegel — brincalhão, gozador; de Till Eulenspiegel, personagem real


cujas aventuras picarescas foram transportadas para o português sob o nome
de Pedro Malasartes. (N.do T.)

84
Nada de travessuras ou maldades. N ão se trata de um go-
zador barulhento. Constato que o nariz de Malskat, cuja base
se eleva, desigual, conferindo às sobrancelhas a expressão de
quem vive vendo milagres, retorna nos traços de seus afres-
tos, enfeitando o rosto de rapazinhos angelicais e santos an­
ciães na catedral de Schleswig e na igreja de Maria em Lü-
beck. Com olhos dolorosamente dilatados, todos eles vêem
mais do que se podia ver em tempos bíblicos. São dotados do
talento de farejar não só a futura salvação, mas também a tra­
gédia iminente, graças a um nasal já observado no princípio
dos anos 50, numa tese de doutorado que se deixou enganar
pelo gótico malskatiano: “As figuras do coro e da nave central
apresentam narizes de comprimento fora do comum que re­
forçam o olhar visionário dos santos. Deles emana uma certa
audácia nórdica, que procuraríamos em vão em outros afres­
cos do alto gótico, excetuando-se a catedral de Schleswig,
onde o Salvator mundi e diversos motivos que enfeitam os
contrafortes levam a supor, dada a configuração do nariz, que
o ateliê do mestre da nave central e do coro de Lübeck exer­
ceu também aqui suas atividades.”
Pressinto por que minha ratazana de Natal fareja, inquie­
ta, e despreza até sementes de girassol, quando eu me lanço
sobre a amarelecida década de 50. E como se eu devesse per­
der a memória, viver hoje e só hoje, me perguntando inces­
santemente que desgraças já amanhã poderiam suceder.
Está bem, ratinha, digo eu, ela ainda vai chegar, a nossa
concordata. Mas antes de fazer o balanço, é preciso descobrir
por que o talento de Malskat, apesar de mal pago deveras gó­
tico, foi, na época, atual e correspondeu a uma necessidade
básica, à propensão geral para o embuste; como as gralhas na
floresta moribunda, a trapaça tem de aparecer, por mais bem
cotada que ainda esteja. Ah, longe de terem as pernas cur­
tas, as mentiras caminharam a passos largos!

85
É que na Alemanha os anos depois da Segunda Guerra
Mundial fizeram de conta que os anos precedentes tinham
passado por um sonho ruim, por algo de irreal que é preciso
deixar de lado, para que não cause pesadelos. Procuravam-se
sonhos que trouxessem alívio. Eu me lembro: naquela época,
um curandeiro andou pelo país vendendo bolinhas miraculo­
sas de folha de estanho que combatiam qualquer doença, e o
povo acorria, como que condicionado. Podiam-se comprar a
prestação grupos estofados, uma beleza para sonhar sobre es­
puma de borracha. Em todas as revistas, príncipes v.iviam ca­
sando com princesas. E em Capri, o Sol vermelho não parava
de pôr-se sobre o mar. Em quadros que mais tarde viraram
papel de parede, todo o horror por que se passara deixava de
existir. E a política, da qual se estava farto, foi por força maior
delegada a homens velhos, aos quais o país dividido se ajus­
tava mais por acaso do que pela metade.
Mas eis que os velhos conseguiram elevar os alemães
vencidos à qualidade de alemães amigos dos vencedores,
sendo que, como sua capacidade inata de trabalho sobrevivera
milagrosamente à guerra, eles logo se mostraram úteis tanto a
um campo vencedor como ao outro. E zás: rearmamento, já se
era de novo alguém. Por isso, o povo agradeceu aos dois ben­
feitores, embora odiasse o Barbicha, como Ulbricht era cha­
mado, e, mesmo votando na velha raposa Adenauer, não o
amasse de coração como em anos passados, povo ainda unido,
tanto amara a Hitler.
Malskat se adaptava bem àqueles tempos. Sua pintura
mural, considerada autêntica, foi chamada “o milagre de Lü­
beck”; pois um povo que se vê perseguido pela desgraça e —
como que de passagem — trouxe desgraça a outros povos,
mas apesar disso recebe a. dádiva de tantos santos de feições
góticas, pode sem dúvida contar a misericórdia divina também
no terreno profano. Nisso, outros milagres se efetuaram, en­
tre os quais o milagre econômico, cujas bonificações já se fa­

86
ziam sentir em princípios dos anos 50; o governo, segundo se
dizia, provisoriamente instalado na cidade de Bonn, deu cento
e oitenta mil marcos de dinheiro novo ao episcopado de Lü-
beck, de forma que sempre mais santos apareceram e — todo
trabalho tem seu preço — o pintor Malskat não precisou te­
mer por seu salário — hora de noventa e cinco pfennige.
Mas minha ratazana de Natal não liga para isso ou para
outros milagres. Ela não dá valor à riqueza ainda hoje baseada
nos mistérios de então. Ela poderia dizer: deixa pra lá! anun­
ciando em seguida sua previsão de que, de tudo isso, nem
mesmo a sombra vai restar. Ela se contenta, entretanto, em
deslizar inquieta sobre a serragem, e não dá nenhuma atenção
a meus flashbacks. O que quer que ela fixe com seus olhos de
um preto lustroso, Malskat neles nunca se reflete.
Só mais tarde, quando eu deixei Joãozinho e Maria cami­
nharem pela floresta morta e os filhos evadidos do Primei­
ro-Ministro não quiseram ater-se a meu roteiro, preferindo, já
que na floresta nada acontecia, passar para o lado dos punks,
onde havia mais agitação, é que minha ratazana de Natal disse,
já como ratazana pura e simples: os dois são gente boa. Não
sobrou neles o menor vestígio do passado. Olhe só o que es­
tão carregando, quem estão afagando, em que ouvidos estão
sussurrando, de quem são os rabos pelados que lhes fazem có­
cegas, de quem os dois gostam, por quem querem ser amados
da cabeça aos pés, os únicos com quem Joãozinho e Maria são
meigos...

E eu vi que os filhos evadidos do Primeiro-Ministro e es­


posa traziam junto a si dois ratos. Pode ser que, antes, tenham
sido ratos de laboratório, com pêlo branco. Agora, porém, um
deles estava pintado de verde-zinco e o outro de roxo, assim
como ò cabelo em corte iroquês de Joãozinho era verde-zinco
e as diversas mechas empinadas de Maria brilhavam em tons

87
de roxo. Parecia que as crianças formavam um todo com seus
bichos.
Tentei mandá-los de volta à floresta m orta e, deixando de
lado os ingredientes animais, à seqüência de meu roteiro, de
cuja moral, entretanto, elès fizeram pouco caso. Com seus ra­
tos espalhafatosos, eles só queriam, espalhafatosos, ser punks
no meio de punks. Em número crescente, aglomeravam-se na
imagem, que ficou abarrotada: um ajuntamento. Teimosos,
mas uniformes, todos os punks tinham se ornado com ferro-
velho; e também Joãozinho e Maria, de forma que mal se di­
ferenciavam dos outros. Cadeados e alfinetes-de-fralda tama­
nho gigante prendiam todo aquele refugo. Ajudado pela rata­
zana, contei no sonho quantos eram. Contamos cento e trinta
punks e o mesmo número de ratos.
Isso eu tenho que dizer ao Sr. Matzerath, exclamei: João­
zinho e Maria, que são a cara dos filhos evadidos do Primei-
ro-Ministro e esposa, viraram autênticos punks, malocados em
Berlim-Kreuzberg e fazendo caretas para apavorar o mundo
com sua imagem distorcida. Formam um bando desesperada­
mente divertido. Bons conselhos não adiantam mais. Eles se
esconderam todos com seus ratos numa das últimas casas ocu­
padas, um prédio de fundos com as janelas pregadas.
Veja só, ratazana, exclamei: que coisa mais típica, é Maria
quem manda no grupo, e Joãozinho e os outros fazem o que
ela quer. Ele diz: quando vierem com o arrombador, nós es­
tamos é perdidos. Ela replica: se eles vierem nos despejar, a
gente se manda para Hameln e se arrasta para o alto do mor­
ro, como nos tempos em que a coisa estava preta que nem ho­
je. E Joãozinho exclama: mas olhem só esses caretas. Eles não
sacam de jeito nenhum que estão mortos!
Nesse ponto, a ratazana com que sonho disse: As crianças
gritaram, mas ninguém queria ouvir. Por isso, nós, a estirpe
dos ratos, dissemos, nos precavendo: vamos ter de nos enter­

88
rar. É pena, por causa dos homens. E mais pena ainda por
causa dos punks, tão carinhosos conosco.

De repente, o Sr. Matzerath se interessa. Ainda ontem,


ele estava reservado; hoje, mostra simpatia por Joãozinho e


Maria. Diante da lousa cinemascópica entre os pés de ficus ita­
liano, ele diz: — Com exceção da floresta, a história me agra­
da. Seria preciso maior impacto. Se tomarmos a decisão de
produzir o filme, ele poderia começar mais ou menos assim:
em toda parte, os ratos saem dos buracos para virem a público
em plena luz do dia; ao mesmo tempo, também na dividida
cidade de Berlim, bandos de ratos, estabelecidos separada­
mente em ambos os lados do muro, correm simultaneamente
pelas ruas; caso eles, do lado de lá, achem a Alameda de
Frankfurt apropriada, aqui eles ficarão satisfeitos com o com­
primento do Kurfürstendamm, indo da Gedãchtniskirche até
Halensee. E assim que nós iremos focalizá-los. Imediatamen­
te, o trânsito sofrerá um colapso em diversos pontos das duas
metades da cidade provocando engavetamentos. Em carros
amassados de diversos tipos, os passageiros assustados vêem
multidões de ratos, nas duas direções, passando às pressas so­
bre os automóveis obrigados a ficarem parados, sejam Wart-
burg ou Opel, Tatra ou Ford. Ninguém, nenhum transeunte
ou motorista, compreende o sentido profundo da passeata que
não fora anunciada. N a parte leste da cidade, a coisa é consi­
derada nociva ao socialismo, sendo por isso silenciada como
vergonhosa, enquanto na parte oeste ela consegue o valor
efêmero de uma sensação. A meia-voz, diz-se lá como cá: eles
vêm do outro lado.
— Mas quando as notícias chegam pelo telégrafo, confir­
mando passeatas de ratos no mundo inteiro — inclusive em
Washington e Moscou! —, e a comparação das horas locais
traz a prova de que, por três dias seguidos, a espécie dos ratos
fez pontualmente sua apresentação em todo o globo terrestre

89
— em todo lugar às quatro e meia da tarde — e, diante disso,
ninguém mais ousa falar de acaso e nem mesmo líderes políti­
cos encontram palavras capazes de acalmar seus povos fre-
mentes de nojo, e portanto ficam calados, ficam calados rindo
amarelo, só quando a inundação passa lêem-se comentários
que se avizinham do sentido das passeatas mundiais dos ratos,
sem que o propósito de conscientização entretanto seja consi­
derado.
— Zoólogos mencionam o sistema de alarme altamente
desenvolvidos dos roedores. Entre os pesquisadores de com­
portamento torna-se habitual o uso da expressão síndrome de
pânico. Teólogos conclamam a humanidade cristã a levar a sé­
rio o sinal de alerta manifestado por Deus através de sua mais
baixa criatura, e a de agora em diante procurar forças na
crença e só nela. O fenômeno é considerado inexplicável. E
nos folhetins citam-se o Apocalipse, Nostradamus, Kafka,
Camiis e os vedas indus. Isso é tudo. Alguns jornais de Berlim
Ocidental abordam o assunto da maneira habitual. Culpam os
punks de Kreuzberg: com a mania de ratos, eles teriam desen­
cadeado a desgraça. Desde que se viram punks andando com
ratos por aí, essa bicharada tinha entrado em moda. A repug­
nância expressa pelos sentimentos normais não mais bastava.
Era hora de se tomarem medidas enérgicas e inadiáveis.
— Apenas algumas cartas de leitores, escritas por crian­
ças, falavam a verdade: eu acho que os ratos têm medo, por­
que os homens não têm medo bastante. — Eu acredito que os
ratos querem se despedir dos homens, antes que tudo acabe.
— Minha irmãzinha, que viu as passeatas dos ratos na televi­
são, diz: primeiro foi Deus que nos abandonou, e agora tam­
bém os ratos estão dando o fora. Mas logo surgem outros fa­
tos importantes: o aumento vertiginoso da cotação do dólar,
agitação em Bangladesh, um terremoto na Turquia e compras
de trigo pela União Soviética; a inundação de ratos teria sido,

90
segundo se lê retrospectivamente, apenas um sonho mau da
humanidade.
Pelo menos é assim que o Sr. Matzerath vê as coisas. Ele
se levanta de um salto e posta-se, pequenino, diante do
enorme quadro-negro ladeado por seus pés de ficus. 'Esbanja
números, apresenta provas. Em flashes rápidos, misturando
planos diversos, ele quer pular de Tóquio para Estocolmo, de
Sidney para Montreal, de Berlim Oriental para Berlim Oci­
dental, mostrando em seu vídeo-cassete tudo o que aconteceu
durante a invasão de ratos,.o pavor dos transeuntes, os poli­
ciais espancando, os lança-chamas e canhões de água em ação,
incêndios e caos, pânico em Soho e saques no Rio.
Ele diz: — E em cenas acabrunhantes volta-se sempre a
ver as duas crianças com seus bichinhos de estimação pintados
de roxo e de verde-zinco: fugindo, formando bandos com ou­
tras crianças, ocupando uma casa, fugindo de novo depois de
brutalmente despejadas, descobertas por policiais e cães raste-
jadores, perseguidas, acuadas, até encontrarem guarida junto
aos ratos e desaparecerem com eles após a invasão de ratos,
conseguindo assim — esperemos — salvar-se.
Depois de alguma reflexão, como se já estivesse calcu­
lando as chances desse cassete no mercado, ele diz: — O se­
nhor deveria imaginar um fluxo, infindável tanto na panorâ­
mica quanto no detalhe, uma inexorabilidade solene, a sereni­
dade, mesmo a grandeza sobre-humana dessa última demons­
tração pela paz.
Depois de ficarmos um tempinho discutindo sobre as
possibilidades da conscientização visual — eu aposto no cine­
ma; ele afirma que só o grande show de vídeo e o cinema em
casa têm futuro —, o Sr. Matzerath diz de sopetão: — Talvez
devêssemos fazer uma produção à maneira do velho mestre da
conscientizaçãso cinematográfica, do grande Walt Disney. Os
homens estão fartos de documentários. Tanta realidade cansa.
E em fatos não há mais mesmo ninguém que acredite. Só os

91
sonhos do repertório de truques ainda apresentam fatos
coerentes. Não devemos nos iludir: a verdade chama-se Pato
Donald, e Mickey Mouse é seu profeta! Não há dúvida de
que era bastante boa a idéia de mostrar Joãozinho e Maria
como punks; mas o melhor seria inventar um supér-rato,
desenhar-lhe uma figura divertida em seqüências fabulosas e
colocá-la, sim senhor, uma fêmea, por assim dizer sua rataza­
na, liderando todas as passeatas de ratos. Em Roma e Bruxe­
las, em Moscou e Washington, ela, superesperta, à frente de
todos. Poderíamos chamar a ratazana em nosso desenho ani­
mado simplesmente de Mary, não, Dorothea, ah, já sei: Ilse-
bill, e transformá-la num ídolo, com o poder da mídia...
Durante o planejamento semanal de programação, o Sr.
Matzerath repete tudo isso no círculo de seus colaboradores.
Cavalheiros e damas de alta estatura assentem com a cabeça.
Ele manda que escrevam, na lousa, esquema de instruções do
jeito que a mídia requer. A produção quer saber em que
ponto está.
Não, diz a ratazana com que sonho, já era tarde demais
para desenhos animados esclarecedores ou outras coisas.

Pois digo: nada.


As palavras tropeçam, caem em seu buraco.
Já não são mais que adendos.

Uma longa conversa sobre educação,


que se rompeu sem chegar
ao término.

Pelas últimas notícias.


Como foi anunciado por volta do fim
e logo em seguida desmentido.

92
Alguns exemplares da espécie humana tentaram,
por último,
começar do começo.

Parece que por volta do fim de estação


houve ensejo de esperança,
a preço vantajoso.

Finalizando, falou-se
do Bem e do Mal, e de que isso
não existe.

Quando, porém,
ou também Deus,
com suas eternas desculpas esfarrapadas.

Transmitida no tempo: a decisão


de adiar-se.
para breve.

Pensamos que isso era uma piada,


quando de repente
se nos foi o riso.

De qualquer forma, depois


ninguém mais ficou faminto,
globalmente.

Mas, no fim, muitas pessoas teriam


gostadò de ainda uma vez - ?. *
ouvir Mozart.

São ilhas minúsculas, cujos nomes ficaram conhecidos no


mundo inteiro quando fizeram desabrochar sobre elas cogu-

93
meios revoltos de fumaça, segundo se disse: em caráter expe­
rimental. Também nessas ilhotas nós nos testamos. Por isso,
pode-se chamar nosso comportamento de reflexo de Biquíni.
Desde então, sabemos. Daí para a frente, nossa premonição
não mais se restringiu a navios que possuíssem aquela aura do
naufrágio próximo, só a nós visível, pois pressentíamos igual­
mente outras catástrofes: grandes incêndios, inundações, ter­
remotos e períodos de seca, de forma que estávamos em con­
dição de transferir ainda em tempo nossos domínios. Não
houve fogo de estepe do qual não tenhamos sabiamente esca­
pado. Além disso, sempre soubemos que espécie seria a pró­
xima a perecer, por mais que ela se acreditasse forte e cheia
de vida. Confesso que, no caso dos disformes dinossauros, nós
ajudamos um pouco a encurtar o processo; gostaríamos, en­
tretanto, de ter ficado mais tempo junto aos homens, por mais
que seu ódio a tudo que fosse rático nos fizesse sofrer. De
resto, não só os judeus eram para eles semelhantes aos ratos,
mas também os japoneses, que chamavam de japas japonas
japurongas.
Depois dos golpes arrasadores contra Hiroxima e Naga-
sáqui, que nos pegaram de surpresa, incluímos o novo perigo
entre nossos conhecimentos prévios. Por isso, os testes com
bombas atômicas e de hidrogênio, feitos por americanos, fran­
ceses e ingleses usando como alvo algumas ilhas dos Mares do
Sul, nao nos pegaram desprevenidos. E fato que nossos povos
não puderam fugir de lá da mesma forma como tinham vindo:
de navio, mas a terra lhes ofereceu refúgio. Assim que a popu­
lação humana das ilhas era evacuada, construíamos abrigos
profundos e ramificados, que, seguindo o princípio anti-Noé,
eram vedados como bolhas de ar, com o auxílio de velhos ra­
tos dispostos ao sacrifício. Já então lembramo-nos de armaze­
nar provisões: polpa de coco e amendoim. Apesar disso, pou­
cos ratos sobreviveram.

94
Pareceu-me que ela fazia uma pausa para refletir. O u será
que a ratazana queria homenagear as vítimas de sua espécie no
atol de Biquíni e outras ilhas de teste?
Depois de algum tempo — à medida que se pode alcan­
çar o sonho com a escala do tempo —, ela disse com objetivi­
dade acentuada: Quando, muitos anos depois, mediu-se a ra­
dioatividade nas ilhas em questão, os índices ainda foram con­
siderados altos demais para que os nativos, saudosos de sua
ilha, a eles pudessem ser submetidos. Qualquer vida é ali im­
possível! disseram, em bora nos tivessem encontrado: saudá­
veis e de novo numerosos.
Mas o homem não deu importância ao fato de termos so­
brevivido. Fora notícias de jornal — na coluna de variedades
— que encontraram mais eco como curiosidade que como in­
formação, não houve reações. N enhum susto profundo, no
máximo um sorriso espantado atrás do jornal da manhã ao
tomar o café: mas vejam só. Bichos mais resistentes. Sobrevi­
vem a tudo. Assim eram os seres humanos. D o jeito que ber­
rava, se fazia de importante ou, seguro de seu poder, manti­
nha silêncio. Vivia falando de imortalidade, e ao mesmo
tempo pressentia que no máximo nós, os bichos resistentes,
tínhamos condição de ser imortais.
E quando nos enterramos em toda parte — dessa vez já
não era caso apenas de umas ilhotas —, não poupamos esfor­
ços. Os ossos mais duros de roer cederam. A mordidas, forçá­
vamos nosso caminho se alguma coisa se atravessava diante de
nós. Não há o que resista a nosso dente. Ele é a expressão de
nossa paciência. Solapávamos o concerto dos homens. Em al­
gumas regiões, minas deixadas abertas se ofereciam. As cata­
cumbas romanas foram alargadas. E naquela cidade que tem
particular interesse para você, nosso amigo, guardado na cáp­
sula espacial, aproveitamos as casamatas do morro de Hagel,
que, com o morro do Bispo, desde tempos imémoriais do­
mina a cidade. São morainas finais, que se assentaram aqui

95
como colinas. No morro de Hagel esteve instalado Jagel,
príncipe e deus dos prúzios. E já os suecos abriram galerias
nesse morro. Mas as verdadeiras casamatas são testemunhas
dos tempos napoleônicos: alojamentos e estrebarias solida­
mente murados, que ainüa na guerra intermediária serviram
como depósitos de munição. Sempre estivemos em casa ali, e,
assim, não foi difícil instalarmos corredores de evasão mais
profundos e grandes tocas. Mas só uma parte de nossos ban­
dos estabelecidos em Gdansk e cercanias procurou abrigo no
morro de Hagel, pois a maioria se enterrou com unhas e den­
tes no interior da Caxúbia. Lá em cima, nós por enquanto não
queríamos mais nada.
Eu não quero ir lá embaixo. Quando criança, brinquei nas
casamatas e encontrei uns ossinhos, até um crânio, não sei de
quem. Ela que vá! Ela que se enfurne o mais fundo possível, e
que todos os ratos do mundo sejam tragados pela terra em sua
companhia; eu viro a página e quero que as coisas continuem.
Quero ficar com pelancas, sulcado de rugas, velho e decrépi­
to, contando malvadas histórias da carochinha à minha Dam-
roka: era uma vez há muito, muito tempo...

Se é para esse filme mudo chamar-se mesmo A floresta,


embora ele não possa salvá-la, e se conseguirmos o Sr. Matze­
rath como produtor, ele que sempre apreciou catástrofes e
vive vendo a coisa preta, então terei que familiarizá-lo com a
1 ação ulterior, com tudo o que deve acontecer na floresta
morta e lugares outros, e que apresentar-lhe uma descrição
precisa das personagens; pois o Oskar gosta de esconder atrás
das costas detalhes de seu particular, mas adora minúcias. Ele
poderia perguntar qual será a aparência do Primeiro-Ministro
e de sua esposa? Como foi que os filhos deles se desencami-
nharam, antes de virarem Joãozinho e Maria? Eles são vítimas
normais do bem-estar social? Será que eles ainda continuam
sendo punks?

96
Como o Sr. Matzerath aguarda uma resposta antes de via­
jar para a Polônia, preciso me definir. A imagem cinematográ­
fica do Primeiro-Ministro não deve ser criada usando-se o
Primeiro-Ministro atual como modelo. Mas, assim que
aperto os olhos e imagino um Primeiro-Ministro de cinema
mudo, disponho com incrível facilidade dos ornamentos com
os quais se poderia fabricar um Primeiro-Ministro de brin­
quedo; para que ele não degenere em semelhanças excessivas,
teremos de fazê-lo frágil.
Por isso, sugiro um Primeiro-Ministro que se comporte
de forma insegura, não saiba onde pôr ãs mãos, tenha medo
de esquecer o texto, mas, por razões que no máximo a lei da
inércia seria capaz de elucidar, permanece no cargo. Não há
jeito, é impossível evitá-lo.
E a esposa dele? Ela vive ininterruptamente procurando
alguma coisa na bolsinha. Ah, se nós dois estivéssemos de
volta em casa, lá é tão gostoso. Eles podiam viver tão satisfei­
tos um com o outro, se ele não tivesse se tornado Primeiro-
Ministro e ela não fosse da manhã à noite obrigada a ser es­
posa do Primeiro-Ministro.
As pobres crianças. Como se chateiam. Uma hora são
postadas aqui, outra hora ali, quando prefeririam ficar em ou­
tra parte, correr, traquinar, perder-se. Vê-se que estão de saco
cheio. Poderiam vomitar, de tanto que isso as repugna. E claro
que prefeririam ser punks e carregar ratos pintados sobre o
corpo. Mas isso elas não podem, pois o Sr. Matzerath anda di­
zendo: — No fim das contas, elas devem andar pela floresta
morta e não errar pela selva urbana.
Para finalmente conquistá-lo, já que ele deve produzir o
filme, vou paramentar as crianças de um modo que o nosso
Oskar recordará o pessoal de sua infância. Se olharmos bem, a
filha do Primeiro-Ministro não tem certa semelhança com a
menina magricela que se chamava Ursula Pokriefke, a Tulla,

97
como todo mundo a chamava, e que morava na Rua Else, no
cortiço do Liebenau, o mestre-carpina?
E o filho do Primeiro-Ministro não nos lembra, com o
olhar sombrio que parece pregado em coisas que não existem,
o garoto que era chamado Stõrtebeker e que, chefiando um
bando de jovens, roubava a paz de Danzig e de sua zona por­
tuária? Isso foi na fase final da última guerra. A má fama de
Stõrtebeker e seus pivetes se estendia além das fronteiras da
província da Prússia Ocidental. E não aconteceu que o pe­
queno Oskar, saindo da igreja do Coração de Jesus,* em Lang-
fuhr, cheio de pensamentos tristes, deu de cara com o chefe
Stõrtebeker e seu bando?
De qualquer forma, os dois ficam bem como filhos do
Primeiro-Ministro: ela, capaz de qualquer golpe baixo, ele,
cheio de repulsa; ela, destemida, ele, pronto para grandes fa­
çanhas; ela com treze anos e meio, ele com quinze; ela e ele,
crianças da guerra então, são agora os frutos imaturos da paz
que perdura; ambos têm o walkman, bem outra música so­
ando nos ouvidos.
Interpelado a respeito desse par, o Sr. Matzerath se lem­
bra dos adolescentes de seu tempo de juventude. — Correto
— diz ele —, a pequena Pokriefke, uma molequinha terrível,
era chamada de Tulla, mas também era conhecida pelo nome
de guerra de Lucie Rennwand. Eu não gostaria de tê-la como
irmã. Ela cheirava a cola de carpinteiro e era trocadora de
bonde, lá pelo fim da guerra. E mesmo! A linha cinco. Subia
do Heeresanger até a Weidengasse e voltava. Disseram que
ela partiu de Danzig com o Gustloff e morreu. Tulla Pokrief­
ke, urii pavor que até hoje não me abandonou.
Ele se cala e tem a imagem de um velho senhor que pode
permitir-se que os pensamentos lhe fiijam. Mas quando eu o
solicito, quero barrar-lhe todas as escapatórias, ele exclama: —
Mas é claro, naturalmente! O chefe do bando de pivetes. E
como me lembro. Quem não ouviu falar então de Stõrtebeker

98
e suas façanhas? Pobré garoto. A cabeça sempre cheia de mi­
nhocas. Naquela época, não havia apelação. Será que ele so­
breviveu ao fim? Que terá sido dele? Ele tinha aptidão peda­
gógica. Vai ver que acabou dando mais um professor.
Quando eu, entretanto, peço ao Sr. Matzerath que
aprove minhas sugestões, ele se mostra disperso e um tanto
cansado; a retrospectiva pela infância esgotou-o. Esfrega a
amplidão da testa, como se devesse afastar com massagens os
pensamentos particularmente dolorosos. Então, ele se estica
de repente, volta a ser chefe, pronto para decisões: — Sim,
sim — diz ele —, os dois estão perfeitos como Joãozinho e
Maria. Mais ainda: eles são Joãozinho e Maria. Já estou vendo
como esse Stõrtebeker estraga a comemoração florestal do
Primeiro-Ministro. Vejo como Tulla, a molecà, corta os cabos
para que os cenários de floresta pintada desabem. Mãos à
obra. Prossiga o trabalho! Vamos produzir assim que eu esti­
ver de volta da Polônia. E estranho que os dois tenham mais
uma vez que cruzar o meu caminho. Vejo-os andando como
Joãozinho e Maria. De mãos dadas. Afastando-se no fundo da
floresta morta...

Na proa da barcaça A Nova llsebill, as redes acompanham


os movimentos da embarcação, que segue seu rumo embalada
pelo ruído do motor diesel. Presas em ganchos, elas se estiram
da cabeça aos pés quando ocupadas; agora, durante o dia, ba­
lançam soltas e com lugar para desejos: novos hóspedes para
pernoite, troca de redes, enquanto a barcaça, numa leve vira-
ção, se dirije à ilha de Mon.
E se outras mulheres tivessem subido a bordo em Trave-
münde? Por exemplo, todas as que desistiram, preferindo
dormir em camas?
Fiz sobrarem cinco. O u só cinco sobraram para mim. Fiz
minha escolha e não fiz escolha, não havia outro modo de
ocupar as redes, por desejo ou imposição. Mas as mulheres

99
vivem mudando de lugar. Cada turno livre deita planos por
terra, as mulheres sempre deitadas como eu não as quero: on­
tem, onde se deitou de impermeável a maquinista desperta
hoje de pijama a oceanógrafa; não é a timoneira, fora as meias
de lã, nua e despida, quem está deitada na rede do canto a
estibordo, é Damroka de camisola longa; e aceito que a velha,
de camisolinha florida, tenha se escondido a bombordo, fi­
cando lá, sem querer trocar, como ela diz, “com nenhuma das
mulheres”, embora tivesse preferido que ela ficasse na rede
do meio.
Desta forma elas se deitam, uma juntinho da outra, pois
de nascença a barcaça só tem quatro metros e setenta de lar­
gura. Damroka é a única a deitar com a cabeça para a proa.
Esticada, quase de bruços: o sono pesado da timoneira. Fico
enternecido ao ver a oceanógrafa e a velha dormindo encolhi­
das de lado, quase como embriões: uma delas chupa o dedo.
A maquinista rola, agitada, em seus trapos suados. De costas,
relaxado: o sono da capitã. As vezes, ela ronca, e o volume da
timoneira é idêntico, embora misturado a sons de apito. A
oceanógrafa choraminga baixinho: certamente sonha que é
criança. O sono da maquinista é cortado por gemidos de quem
suporta uma carga pesada. De repente, palavras, resmungos,
imprecações: é a velha.
Não sei mais nada de seus sonhos, por mais achegadas a
mim que tenham sido. Que bom que só cinco mulheres subi­
ram a bordo, e não as doze do tempo da inscrição. Isso teria
ocasionando um aperto terrível em minha cabeça e o que mais
seja.
E, de fato, três mulheres teriam bastado para operar a
embarcação, e a mim também. Mas quem seria a terceira,
junto a Damroka e à oceanógrafa? Provavelmente a velha, que
sempre estava ali, ficava de lado, chiava depois e agüentava
tudo.

100
Não consegui tomar uma decisão. Por isso, ficou aperta­
do. Que bom que vieram sete desistências: eu e o navio so­
mos pequenos demais.
* Mas será que eu não teria podido partir sozinho com
Damroka? Eu, marinheiro dela! Eu, seu grumete! Ei, ei, sir,
eu! Ela teria de me ensinar, a dar nós, levantar a âncora, ler
bóias, cuidar do motor, apanhar águas-vivas com o tubarão-
medidor, muitas aurélias, chamadas medusas...
A barcaça se aproxima de M 0 n ; enquanto isso: pensa­
mentos descabidos. Há lugar para tanta coisa em redes des­
preocupadas. No convés, é manhãzinha, mas nem mesmo os
turnos livres querem deitar-se, por mais que eu insista com a
timoneira e, mais ainda, com a oceanógrafa. Todas elas leva­
ram os sacos de dormir para cima, para arejar — e, natural­
mente, o tricô. Testo a carga das redes, de bombordo para bo-
reste. Três estão afundadas. Volto a esticá-las, aperto os nós
junto aos ganchos. Duas redes foram trançadas com barbante
incolor, devem ter sido compradas em negócios que vendem
acessórios para veleiros. As outras são coloridas, uma verme­
lho e branca, a próxima num tom desbotado de azul e amare­
lo, a terceira tecida com barbante tingido de vermelho. As re­
des coloridas terminam em varandas com franjas, borlas e fri­
sos desenhados. São originárias da América Latina.
Gostaria de saber agora o que estou fazendo aqui. Sou
tímido, retraído, tenho medo que me peguem. Minha preocu­
pação grisalha: todas as histórias de mentirinha poderiam ir
pelos ares, de forma que só reinasse a verdade, enfadonha.
Seus passos sobre o convés. Hoje é dia de lavar roupa,
branca e de cor, que elas penduram para secar numa corda
comprida. Deve ser engraçado: a roupa estendida entre o mas­
tro da proa e a cabine de comando, batendo à brisa fraca. Elas
cantam as canções habituais de estender roupa. Mas onde será
que Damroka deixou sua caneca de café? Tomara que não
chova.

101
Debaixo do convés, só eu. Fico espiando o resto dos per­
tences delas, que estão à vista em sacos de viagem e malas
embaixo das redes e no armário de proa. Sem vergonha, meto
o dedo em tudo. Procuro cartas, velhas cartas, velhíssimas car­
tas — confissões e declarações —, mas não encontro um pa-
pelzinho que me identifique. Corro os olhos por fotografias
das quais estou ausente. Recordações, enfeites, correntes de
prata trançada, mas peça alguma que tenha sido presente meu.
Tudo estranho. Nada de mim perdurou. Fui cancelado: sem
condição bastante de navegar. O que é de mim ficou em terra.
Acho que reconheço apenas aquele mapa amarelecido,
com rasgos nas bordas, que encontro dobrado em três no saco
de viagem dè Damroka, misturado à sua roupa de baixo. Ele
mostra a costa da Pomerânia com as ilhas do litoral. Mare Bal-
ticum, vulgo De Oost See, é o que está escrito, parte em gótico,
parte em caracteres antigos, encimando dois homens mascara­
dos que seguram o brasão com o grifo. N a gravura colorida à
mão, que se pretende meio mapa terrestre, meio carta mari­
nha, foi traçado um círculo com lápis vermelho, diante de
Usedom, a leste do estuário do Peene, com uma anotação que
desvenda o nome da cidade submersa. Agora estou certo do
destino da viagem e reponho a gravura dobrada em seu lugar
no saco.
Lá em cima, elas estenderam a roupa. Lá em cima, mulhe­
res tricotam, venha o que vier. Mais tarde, as cinco redes ba­
lançam mais forte, pois o vento gira para nordeste e a llsebill
toma novo curso ao largo do extremo sul da ilha de Falster.
Não sei quando Damroka concebeu o plano. De qual­
quer forma, foi ainda em terra e já há meses, pois o trânsito
pelas águas territoriais da RDA foi solicitado com bastante an­
tecedência. Como objetivo de pesquisa, indicou-se a medição
de águas-vivas. Mas só vão receber os papéis carimbados do
capitão de portos de Visby na ilha de Gotland. As outras mu­
lheres — e em primeiro lugar a timoneira — suspeitaram por

102
seu turno que o objetivo dessa viagem não se limitava às auré-
lias. Ela e a velha viram da cabine de comando quando Dam­
roka ficou quase uma horâ agachada na proa, dirigindo-se ao
man. Isso foi a leste de Fehmarn, depois de concluída a última
coleta de águas-vivas com o tubarão-medidor. Comentou-se:
— Era com o linguado que ela estava...
— E ontem à noite de novo — afirma a maquinista. Foi
quando o G ronsund se abriu a bombordo, M 0 n se encontrava
adiante, a roupa já há muito estava seca na corda, e o vento, à
noitinha, saltou de nordeste para este, amainando em seguida.
— Bem, eu não vi o linguado, mas conversar os dois con­
versaram, por sinal em baixo-alemão. — ATmâí|uinista disse
que isso ela não compreendia, acrescentando: — Infelizmente.
— Mas o apelo: linguadinho, linguadinho, sempre repetido,
ela ouvira muito bem. E tinha-se falado amplamente de uma
depressão chamada Vineta, como a cidade submersa.
Agora as mulheres conhecem o destino suplementar da
viagem. Embora a oceanógrafa sempre repita: — Eu não acre­
dito nisso. Vocês estão doidas. N ós nos dirigimos a Klint
Stege em M 0 n . Eu nunca teria entrado nessa e muito menos
com vocês, se uma besteira dessas estivesse no programa.
A timoneira também não quer ir: — Nunca se falou dis­
so. Seria contra o combinado. — E, no entanto, as duas toma­
rão parte, embora sob protesto. A palavra Vineta fica no ar.
— N o fim, vocês vão querer ir exatamente para lá —
diz a velha. — Não há alternativa.
A timoneira não é a única a estar cansada. As muitas lutas
em favor da causa feminina, a eterna briga, não só com o es­
cangalhado sexo masculino mas com as próprias mulheres,
desgastaram a vontade de erigir, contra o poder dos homens,
um reino feminino em meio a uma sociedade indiferente. Esse
plano já foi há muito abandonado, apesar de todas, e princi­
palmente a timoneira, continuarem dizendo: — A gente devia,

103
a gente tinha de, a gente precisava desde o começo radical­
mente...
E assim, enquanto elas pescam águas-vivas e larvas de
arenque das águas de Bog0 e, mais tarde, diante de Klint,em
M 0 n , seus pensamentos' fogem para um reino submerso no
fundo do mar, reino que lhes fora prometido e, nas palavras
do linguado, estaria aberto a todas as mulheres. Quando con­
versou em baixo-alemão com Damroka, a capitã, parece que
ele disse: — Bem, mulherres, é hora de vocês irem lá embai­
xo.
Em suas cinco redes, as mulheres talvez tenham sonhos
multicoloridos de Vineta. Deitadas juntinho uma da outra,
basta que elas queiram, para que o reino feminino se torne
palpável. A barcaça a motor sobe e desce, muito de leve, atra­
cada no porto de Stege: quase diante da ponte que leva ao
centro da cidade, no cais da usina de açúcar. Ao fundo, um
monte dé coque e silos de um verde esmaecido. Cheiro podre
de água rasa. Algas demais. Profusão de águas-vivas.
As cinco dormem. — Em M0n — disse Damroka —, não.
precisamos montar guarda. — Estão deitadas segundo meus
desejos: a velha, resmungando e imprecando durante o sono,
enrolada no meio; a boreste, a timoneira de boca aberta; a
bombordo, apoiada no dorso sereno, Damroka; entre ela e a
velha, a oceanografia; encolhida de lado, entre a velha e a ti­
moneira, a maquinista rola inquieta na rede.
Amanhã, as mulheres querem fazer um passeio pela cida­
de. Há liquidação em Stege. As provisões têm de ser renova­
das. A lã está acabando, e não só ela. A velha ainda não sabe
se quer ir junto.
Utopia Atlântida Vineta. Mas parece que essa cidade
existiu mesmo, como povoação dos sorábios. Há quem diga
que está submersa diante da costa de Usedom; entretanto, ar­
queólogos poloneses estão ultimamente fazendo escavações e
encontrando restos de muros, cacos, moedas árabes, em Wol-

104
lin. No começo, Vineta tinha outro nome. Acredita-se que
durante muito tempo foram as mulheres que mandaram nessa
cidade, até que um dia os.homens quiseram ter voz ativa. A
velha história. Os senhores acabaram mandando. Havia rega-
bofes, e as crianças ganhavam brinquedos de ouro de presen­
te. Então, Vineta submergiu com toda a sua riqueza, até vir
um dia a ser redimida: por cinco mulheres — é claro —, e que
uma delas seja de origem sorábia e se chame Damroka.

Durante o dia ela está sonolenta e se enrosca toda, vi­


rando o rosto às minhas histórias. Mas gosta de ouvir comigo
o Terceiro Programa. Ele apresenta: Leitura Màtutina, Rá-
dio-Escola para Todos, Música Festiva do Barroco; entre uma
coisa e outra, o noticiário, a Reportagem sobre a Mídia; mais
tarde, o Eco do Dia; a seguir, mais uma vez música barroca,
desta feita religiosa.
*

E espantoso seu interesse pelo nível das águas. Ela acha


que vale a pena ouvir que o nível do Elba, com um oito zero,
manteve-se inalterado em Dessaü, enquanto em Magdeburgo
subiu para um seis zero mais um. Ela ouve diariamente a que
altura se encontra o Saale em Halle-Trotha, e a profundidade
goniométrica de Geesthacht até Fliegenberg. Mas por notícias
atuais minha ratazana de Natal não se interessa. Problemas
não-solucionados andam por aí afora, em toda parte. De cres­
cimento, só se fala quando se trata de crises, e minha jovem
ratazana, que sem rabo tem mais ou menos o comprimento de
um dedo indicador, cresce como as crises que, estando uma
colada à outra, se confundem e formam — para usar uma ima­
gem — o chamado novelo de ratos.
Na Reportagem sobre a Mídia, por exemplo, as recentes
preocupações com a televisão a fio são contrabalançadas pelos
problemas ainda maiores que se arrastam no séquito da
transmissão por satélites. O Sr. Matzerath, que adora conce­
ber no grande quadro-negro uma associação abrangendo todos
os meios de comunicação, comenta a respeito: — Pode crer
em mim, amanhã mesmo nós vamos criar uma realidade que,
com a intervenção da mídia, roubará ao futuro tudo que é
vago e casual; venha o que vier, é sempre possível produzi-lo
previamente.
E então, ratazana, como está nossa associação de mídia?
À noite, você aparece nos meus sonhos, toda crescida e com
um tremendo rabo. Mas nem meus devaneios estão livres de
ratos. E como se você quisesse deixar o ar de sua graça em
toda parte, demarcar seu território, barrar minhas saídas, até
mesmo onde eu pensava estar atrás do muro, na privacidade.
O Terceiro Programa é obrigado a calar-se. Nada de Rá-
dio-Escola para Todos: fissão nuclear simplificada para crian­
ças; em vez disso, desde que a barcaça A Nora llsebill está an­
corada no porto de Stege, estou escrevendo uma longa lista
das coisas que o Sr. Matzerath poderia levar à Polônia, já que
ele, finalmente, fez o requerimento dos vistos, para si mesmo
e seu chofer.
Além dos presentes de aniversário para sua avó, a bajjrn-
gem deve incluir um saquinho de anões de plástico azul e
branco. As renovadas proles de crianças caxúbias vão se ale­
grar com os smurfs.
Além disso, eu sei como está sendo preparado o 107.°
aniversário de Anna Koljaiczek. Pacotes de açúcar e de fari­
nha, pois não vão faltar fôrmas de bolo de farelo e de semen­
tes de papoula. A gelatina de cabeça de porco já está no fogo,
cozinhando até prometer virar gelatina por si mesma. Con-
tam-se os vidros de conserva caseira cheios de cogumelos do
último outono, inclusive as rússulas-esverdeadas, sempre li­
geiramente barrentas. Alguém traz todo o cominho para a sa­
lada de repolho. Atendendo a um pedido de longe, derretem
banha com torresmo. Juntam-se ovos de Kaschemken e Ko-
koschken, de toda parte. E será que vai haver bastante peônias
em ponto de corte? Com o auxílio da Igreja, cento e sete ve-

106
Ias estarão disponíveis. A aguardente de batata, em garrafas,
ainda falta.
A propósito do pintor Malskat só posso dizer que apre­
sentarei um relatório assim que a ratazana permitir. Quando e
onde nasceu. Com quem fez seu aprendizado. Aonde o leva­
ram os anos de peregrinagem. De onde provinham seus so­
nhos tão góticos nos altos andaimes. Por que o processaram
em Lübeck, cidade que não só o maçapão tornou famosa.
Talvez eu devesse, enquanto Joãozinho e Maria conti­
nuam andando pela floresta morta, acrescentar o passeio das
mulheres pela cidade. Apenas quatro desembarcaram. A velha
disse que precisava dar uma fervura no repolho roxo.
Como Stege, na ilha de M 0 n , é antes de mais nada um
centro comercial, onde na rua principal o ano inteiro está
anunciada uma Udsalg*, as mulheres fazem muitas compras.
Num supermercado chamado Irma elas enchem três (carri­
nhos: vidros e lataria, frutas embaladas em plástico, legumes,
carne empacotada e congelada, diversas espécies de pão cro­
cante, ricota, maionese, pipoca para a oceanógrafa, mais isso e
mais aquilo, detergente, papel higiênico, muita cerveja em
garrafa e duas garrafas de aquavit para a velha. H á salsa e ce-
bolinha frescas em estoque. Estão cheias dé embrulhos pesa­
dos para carregar. O padeiro tem rosquinhas, na peixaria há
arenques frescos, na tabacaria jornais e fumo para todos os
gostos.
N a segunda ida à terra, a velha vem junto. A maquinista
compra lubrificante e querosene para os lampiões, a oceanó­
grafa vai às pressas ao correio, e a timoneira remexe montes
de pulôveres, aproveitando a liquidação geral; enquanto isso,
num negócio de lãs quase em frente aos bancos de M 0 n ,
Damroka se reabastece. A velha compra um saquinho de alca-
çuz.

* Liquidação, em dinamarquês. (N. do T.)

107
Só agora, ratinha, depois que tudo foi guardado na cozi­
nha de bordo, na proa e à meia-nau, voltamos a ouvir o Ter­
ceiro Programa. Música para alaúde, a que em geral se segue o
noticiário: vamos ver quem desmente o quê...

Sonhei que me aposentara


e as malvas subiam às janelas.

Amigos passavam, diziam sobre a cerca:


até que enfim que você se aposentou.

E eu também me dizia no caramanchão:


até que enfim que me aposentei.

Visto assim, pacatamente*


o mundo não é maior que meu terreno.

O que me amola, amolar não pode,


posto que já me aposentei.

Tudo tem seu lugar, vira memória,


empoeirado, estável.

Meu balanço diria:


aposentadoria bem-merecida.

Ah, se sonhasse, nada interferisse,


ficasse sentado, feliz, sem precisão.

E ela pudesse — por favor, ratazana!


se aposentar também.

108
Com ela, surge a avidez,
agitação de um cio, entre mesa e cama.

Então, para que me desse paz, escapei


na audácia de pular o muro.

Agora, estamos os dois fazendo trottoir,


e os amigos na maior preocupação.

Medoch vendej doch taram! exclamou ela. O que signifi­


cava: pernas, pra que te quero. Então, corrigiu-se: não fora
preciso pressa. Sobrara um resto de tempo, pois os programas
humanos para o fim do campeonato tinham sido encenados
com lentidão de elegia; muita pompa teatral, como se tives­
sem desejado, já que era para morrer, fazê-lo com beleza.
A ratazana relata com serenidade: antes de nos enterrar­
mos, transferimos nossas proles, abandonando os alvos do
primeiro ataque, como a região de Frankfurt, o pólo de con­
centração da Saxônia, as bases da Suábia. Mas, em grande es­
cala, também reassentamos excedentes de Milão e Paris no in­
terior da Suíça. Vales na Áustria eram uma possibilidade. Essa
nova distribuição territorial há muito se fazia mais que neces­
sária. E como na Polônia faltavam novamente víveres, sendo
preciso ajudar, não só os homens, mas nós também providen­
ciamos alimentos no Ocidente, onde sobravam, os homens
mandando-os pelo correio pacotes de comida, e nós através
do chamado corredor de ratos, de modo que na Polônia, para
homens e ratos, em pouco tempo a escassez diminuiu. Além
disso, ainda conseguimos transferir com os víveres algumas
populações que corriam perigo: os bandos de ratos da região
do Ruhr, a qual, de resto, tinha sido outrora marcada pela
imigração polonesa.

109
A ratazana com que sonho dizia isso à sua mais recente
ninhada, que ela, cheia de orgulho, me apresentava como a
primeira cria sem defeitos de transição. Depois, ela tinha que
dar explicações, respondendo a perguntas dos filhotes: que
são poloneses? Que são alemães, exatamente? A aparência de­
les era muito diferente? Onde é que eles ficaram? Também
havia ratos alemães e poloneses, antes da explosão? E por que
os homens sumiram e nós, ratos, continuamos aqui?
Enquanto meu sonho durou, a ratazana respondeu com
paciência a todas as perguntas de sua ninhada de nove rabos.
Transferiu para odia-a-dia dos ratos a escassez decorrente da
economia planificada. Imaginem só: em vez de cada clã poder
cuidar de si mesmo, de forma previsível, todo alimento fica
estocado numa central distante, para ser distribuído entre os
ratos. As conseqüências seriam prejuízos em transporte, des­
leixo, inveja pela comida do outro. Por isso, a Polônia fora
dominada por uma autêntica e permanente economia de es­
cassez. Ao mesmo témpo, havia alimentos estocados em
abundância: pão de farinha grossa, manteiga e banha, pesos de
carne de porco enlatada, e uma delícia especial: lingüiça polo­
nesa. Uma lástima, a bagunça humana!
Ainda excitada, a ratazana exclamou: Para não ferir susce-
tibilidades, nem mesmo hoje se pode dizer abertamente que
aquela economia, de característica tão polonesa segundo a vi­
são que os alemães têm dos homens, também impregnou os
ratos poloneses. Razão pela qual necessariamente surgiam
tensões e até mesmo hostilidades entre poloneses e alemães,
embora no aspecto eles não se diferenciassem de modo nítido;
o mesmo se dava entre ratos alemães e poloneses: esse ódio,
tanto amor desprezado...
Mas isso, disse a ratazana, é história humana e já passou
há muito tempo. Ela falou a seus filhotes dos Cavaleiros Teu-
tônicos, e do banquete que se deu no campo de batalha de
Tannenberg. Relatou as divisões da Polônia, quando russos e

110
austríacos, e os prussianos também, cada qual queria seu pe­
daço, até Napoleão, depois principalmente Bismarck; todavia
voltou com a águia-dupla 'a ser Estado, até que um certo Hi-
tler.e um certo Stalin comeram toda a Polônia; não obstante,
esta não se deu por perdida, mas, como reza a canção, nova­
mente...
Nesse ponto, ela parou — Isso não leva a nada! — e disse
à ninhada de nove rabos: N ão havia apenas poloneses e ale­
mães. Nos tempos humanos, era mais ou menos a mesma ma­
tança entre sérvios e croatas, ingleses e irlandeses, turcos e
curdos, negros e negros, amarelos e amarelos, cristãos e ju­
deus, judeus e árabes, cristãos e cristãos, índios e esquimós.
Eles se esfaquearam e massacraram, fizeram-se morrer de fo­
me, se exterminaram. Tudo isso brotava primeiro em suas ca­
beças. E porque o homem concebeu o próprio fim, que então
executou como tinha planejado, o humano não existe mais.
Talvez os homens tenham querido apenas provar a si mesmos
que não só em pensamento eram capazes de ir até o fim. E
preciso confessar: foi uma prova convincente! Mas pode ser
também que os humanos tenham deixado atrofiar-se aquela
outra capacidade que nós, ratos, sempre possuímos: a vontade
de viver. Resumindo, eles perderam o apetite. Eles se entre­
garam e, apesar de ódios e brigas, estavam de acordo quanto a
acabar com tudo. Do omincher nifteren Ultemoch! exclamou.
Depois desse discurso tão definitivo, fiquei calado, e sua
própria ninhada não colocou mais questões, simplesmente vi­
veu, exercendo o preceito bíblico: multiplicai-vos! Muito al­
voroço, muita rearrumação de rabos. Com que rapidez os fi­
lhotes ficaram adultos e tiveram novos filhotes. Como eles,
enlevados, pensavam unicamente em multiplicar-se, meu so­
nho conseguiu procurar outras imagens: andou atrás das crian­
ças na floresta morta, mas apenas um pequeno trecho, indo
em seguida chafurdar no Báltico saturado de águas-vivas, revi­
ver angústias do pátio de recreio, fadigas da carne, até captar,

111
finalmente, o pintor Malskat, que, entretanto, não estava
montado em seu andaime a pintar afrescos góticos com o pin­
cel veloz, e sim devorando, pedacinho a pedacinho, tortinhas
de maçapão no Café Niederegger de Lübeck, em companhia
do Sr. Matzerath. Em meu sonho, os dois se entendiam muito
bem. Riam, trocavam experiências, passavam o tempo falando
da década de 50.

Era uma vez um país chamado alemão.


Lindo ele era, ondulado e plano
e não sabia para onde ir.
Então fez uma guerra, pois queria
estar no mundo inteiro, e daí minguou.
Nisso muniu-se de uma idéia de botas,
calçou botas de guerra, para ver o mundo,
voltou como guerra, sonso e calado,
como se usasse chinelos de feltro,
e não fora cruel o espetáculo lá fora.
Lida de trás para diante, a idéia de botas
foi, porém, reconhecida como crime: tantos mortos.
Então, o país chamado alemão foi dividido.
Agora, duas vezes se chamava, sem saber,
plana e ondulada que fosse sua beleza,
para onde ir, como antes não sabia.
Depois de curta reflexão, ofereceu-se uma terceira guerra
a ambos os lados.
Desde então nenhum pio, silêncio mortal, paz na Terra.

Era uma vez um pintor que deveria acabar famoso cómo


falsário. E, nem bem começou, a história já está errada, pois
ele nunca falsificou, tendo sempre com ambas as mãos pintado
em verdadeiro estilo gótico. Para quem não acrfedita nisso,
não adianta nenhum parecer.

112
Nosso pintor nasceu em 1913 às margens do Pregel, na
cidade de Kõnigsberg, na Prússia Oriental. Filho de um anti-
quário, ele cresceu entre pinturas a óleo de escurecimento
tardio e madonas brilhando em dourado envelhecido, cercado
de peças autênticas e falsas, sob camadas de verniz, sempre na
proximidade dos cupins, envolto em poeira e velharias. Ob­
servava o pai, perito em fazer envelhecer furtivamente ex-
votos e pequenas pinturas de mestres holandeses menores.
Depois de concluir o primário, foi ser aprendiz de um pintor
de interiores; aprendeu o què havia de aprender na profissão,
e no tempo livre fazia cópias de painéis alemães do século
XIV. O aprendiz não tardou a tomar gosto pelas dores e delí­
cias do gótico.
A família Malskat — tal era o nome do pai de nosso pin­
tor — morava no Flinsenwinkel, em Kõnigsberg.
O rio Pregel desaguava no Frisches Haff, uma lagoa que,
por sua vez, se abria para o mar Báltico, na altura de Pillau.
Hoje, Kõnigsberg chama-se Kaliningrado, e também o rio
mudou de nome. Flinsenwinkel não existe mais. Restaram
apenas recordações que se desfazem, e, além de, livros escri­
tos em vão pelo filósofo Immanuel Kant, estabelecido em
Kõnigsberg durante toda a vida, e, ainda, pratos saborosos
que tomaram o nome da cidade, como as almôndegas em mo­
lho de alcaparra agridoce; há também sobrenomes prussiano-
orientais feito Kurbjuhn, Adromeit, Margull, Tolkmit e Mals­
kat. Esses nomes são de origem prúzia, tomados, sem tirar
nem pôr, dos prúzios, que foram exterminados para que a
Prússia pudesse aparecer; razão pela qual, antes de falar-se em
falsificações, e, no final, do processo de falsificação de pintu­
ras, deve ser dito aqui: o nome Malskat é autêntico.
Depois de freqüentar por pouco tempo uma escola de ar­
tesanato, onde em matéria de gótico nada de novo lhe ensina-
hull, J-othar Malskat partiu em peregrinação com sua mochila
forrada de peie. Andava de knickerbockers e sandálias. Parece

113
que foi até a Itália e aprendeu que atrás de um morro
escondem-se outros morros e oportunidades poucas. Era um
desses numerosos artesãos errantes e vagabundos que, em
meados da década de 30, iam de casa em casa, consertando
uma cocheira aqui, batendo tapetes ali, vivendo ao deus-dará,
quase sempre de barriga vazia e sem endereço certo, cruzando
o país, enquanto em Berlim e, depois, em toda a Alemanha se
fazia a História que ele, aliás, não tinha em bom conceito.
Mesmo assim, foi na capital do Reich que soou sim hora.
Procurando trabalho, ele conheceu em Berlim-Lichterfelde o
professor de arte Ernst Fey, restaurador famoso. Este deixou
que ele pintasse a cerca de seu jardim, o que valia uma sopa
quente e uma mesada. A atividade permitia fugir em pensa­
mentos: um rostinho adoravelmente bonito se transformava
em quadro, ora triste, ora zombeteiro, palpável até mesmo
depois do expediente e da primeira mão na cerca do jardim;
Malskat ia muito ao cinema, onde viu a popular atriz Hansi
Knoteck, primeiro em Castelo Hubertus, voltando depois sem­
pre a vê-la, até ela marcar seu estilo com tal intensidade, que
ninguém deveria espantar-se com o impacto que mais tarde
veio a causar, ao ser pintada em afrescos góticos nas igrejas de
tijolos do Norte da Alemanha. De qualquer forma, o restau­
rador logo reconheceu o talento especial do pintor de pare­
des. Pode ser que o professor tenha, além disso, se deixado
levar pelo nariz eulenspiegeliano de Malskat, pela curva visio­
nária de suas sobrancelhas, para não falar no fervor dedicado a
cada ripa da cerca.
Na primavera de 36, deixaram que ele fosse a Schleswig,
no Schlei, no carro esporte DKW amarelo, acompanhando o
filho de Fey, que se chamava Dietrich e provocava generali­
zado fascínio com suas pestanas longas e a cabeça fina e com­
prida. Era a cidade que tinha dado nome à metade da região
situada entre o Báltico e o mar do Norte. Lá na catedral, havia
trabalho esperando por eles.

114
Enquanto o belo Dietrich conseguia impor-se em toda a
cidade episcopal, e de forma particularmente sensível na sala
de música da casa do pastor, onde logo reuniu uma grinalda
de filhas de reverendos à sua volta, Malskat continuou encon­
trando maior entretenimento nos filmes em que Hansi Kno-
teck desempenhava papéis principais ou secundários, e com
ele aprendeu um único artifício: misturar aquela cor especial
cujo vermelho-castanho era apropriado aos contornos no
claustro da catedral. Mas foi por si só que ele aprendeu com
mestria a refazer velhas pinturas e a envelhecer novas com o
auxílio de um caco de vidro e de uma escova de aço. O resto
era providenciado por um saco de pó-de-arroz cheio de arga­
massa branca moída.
Malskat tinha de pintar com rapidez, pois, assim que se­
cavam sobre o reboco dos quadriláteros do claustro, os con­
tornos vermelho-castanhos deviam demonstrar sua origem gó­
tica. Encorajado por vestígios reconhecíveis da pintura origi­
nal, ele conseguiu realizar, em nove dos dez quadriláteros, uma
pintura de contornos com coerência interna, impetuosa e con­
tida, arrojada no conjunto e espantosa nos detalhes; o último .
quadrilátero em direção oeste ficou vazio.
Pintou os três Reis Magos e a Adoração, João Evangelista
e o Infanticídio de Belém, a Fuga para o Egito, o Beijo de Ju­
das, o Flagelo e tudo o mais que completa um claustro. Fe­
chou a parte mais baixa de cada quadrilátero de ogiva com um
friso de animais, por exemplo, o que representa q Flagelo,
com galos e veados que se alternam em medalhões; leões e
águias sob o Beijo de Judas. Mas foi o friso que limita o
quarto quadrilátero, contando de oeste para leste, que entrou
para a história, quer dizer: provocou discussões, e será aqui
especialmente mencionado.
Enquanto o belo Fey obsequiava as filhas de reverendos
com cestinhos de flores escolhidas com sensibilidade e convi­
dava jovens damas para passeios de barco no Schlei, Malskat

115
também realizava um ótimo trabalho no coro da catedral de
Schleswig. Nos intradorsos das janelas em torno do altar-mor
e no alinhamento dos contrafortes ele pintou rapidamente
vinte e seis cabeças, emoldurando-as com medalhões; uma de­
las o reproduz com o nariz comprido, o arco arrojado das so­
brancelhas e um cigarro atrás da orelha, o qual, embora bem
escondido, atesta que naqueles anos Malskat preferia a marca
Juno: “Com boa razão, Juno na mão!”
Fumando, ele pintou além disso o pessoal dos anos de sua
juventude às margens do Pregel nos luminosos intradorsos e
colunas do átrio do altar, alto e abobadado. Os cadernos de
rascunho do aprendiz de Kõnigsberg foram úteis; aplicado
desde pequeno, ele tinha tracejado velhos oficiais, o mestre
— repetidas vezes —, os outros aprendizes, mas também fre­
gueses da loja de antiguidades do pai, como o advogado Ma-
ximilian Lichtenstein e o Conselheiro Sanitário Jessner, e to­
dos eles, já presentes em idéia, tomavam agora forma nos vãos
desocupados.
Em seguida, Malskat atacou as cabeças destinadas à devo­
ção, usando o método já comprovado: caco de vidro e escova
de aço ajudaram a criar uma distância de aproximadamente se-
tecentos anos. Para concluir, o saco de pó-de-arroz. Não es­
moreceu enquanto — embora ligeiramente danificadas e com
os contornos corroídos — suas vinte e seis cabeças de santos
não lançaram ao átrio do altar e à nave central da igreja olha­
res vindos dos primórdios do gótico e imbuídos de religiosi­
dade. Concluiu a última cabeça no dia 3 de maio de 38. Lá
fora, a golpes sucessivos fazia-se a História, a fim de que a
Alemanha sempre maior ficasse; montado no andaime, Lothar
Malskat festejava seu 25.° aniversário; só à noite seria hós­
pede da casa paroquial, em companhia de Fey: circundado de
filhas de pastores que, quando não se chamavam Gudrun ou
Freia, atendiam por Heike, Dõrte ou Swantje.
Há ponche de aspérulas. Vemos que está constrangido,
deslocado. Quando não ia ao cinema, Malskat passava o resto
de seu tempo no bairro dos pescadores, para os lados do
Schlei. Com a Knoteck, estavam levando na ocasião A moça do
albergue no pântano.
Também obra sua — e até hoje notável — é o Salvator
mundi na abóbada românica da nave central desta catedral de
três naves; admirá-lo vale um torcicolo: uma composição am­
bígua que inclui o arco-íris do sexto dia da Criação e forma
um todo, apesar das características de estilo contraditórias, o
que representou um intrincado enigma para os historiadores
da arte. Acabaram considerando o Salvator mundi de Malskat
uma das grandes obras de arte de sua época...
No conjunto, o trabalho do pintor, cujo nome ou sobre­
nome não aparecia nem mesmo entre parênteses, foi elogiado
em numerosos pareceres; mais ainda, ele foi elevado à catego­
ria de “arte racialmente pura”. Ascendência acentuadamente
alemã: tal foi o juízo sobre as cabeças de aspecto nórdico dos
intradorsos e contrafortes, e sobre alguns caracteres rúnicos
que Malskat arranhara no reboco dos vãos e nas proximidades
de seu Salvator mundi, a pedido de Fey, desejoso de agradar
ao espírito do final da década de 30: “Marco Marcial dos Mor­
tos” e outras baboseiras aliteradas.
Mencione-se que, à frente de todos os peritos, um histo­
riador da arte chamado Hamkens se deliciava nas publicações
especializadas com os olhares voluntariosos das santas cabeças
de herói, seus narizes compridos e seus queixos marcada-
mente nórdicos. Logo depois do aparecimento da pintura tão
pronto envelhecida, que, de resto, trouxe a Malskat um sensí­
vel aumento de salário, Hamkens mandou fotografar aquelas
cabeças arianas, ao que, por ordem do comandante do Reich
SS, essa coleção de fotografias de autenticidade indiscutível
foi comprada pela curadoria do Patrimônio Ancestral Alemão
e mostrada em exposições itinerantes.

117
A obra de Malskat ganhava notoriedade. E o friso de
animais que ele imaginou para arrematar a cena do Infanticí-
dio no claustro da catedral teve conseqüências quase irrepará­
veis; pois em quatro dos sete medalhões, ao contrário da barra
sob o enternecedor motivo de Hansi Knoteck como Virgem
com o Menino, Malskat não pintara nem veados e galos, nem
grifos e capricórnios, mas sim perus nitidamente reconhecí­
veis como tais. Nos três círculos restantes sobraram apenas
vestígios de aves, graças a caco de vidro, escova de aço e saco
de pó-de-arroz.
Mas os quatro perus incólumes bastaram. A prova estava
dada. Finalmente se confirmava o que até então era apenas
suposição questionável ou escarnecida idealização popular.
Graças a Malskat, a verdade histórica vinha à luz. Pois essa
pintura do gótico antigo comprovava que não fora o latino Co­
lombo, mas, antes dele, os vikingsy germânicos portanto, ho­
mens nórdicos com narizes compridos e queixo acentuado,
quem inequivocamente trouxera o galináceo americano para a
Europa; a partir daí, os perus de Malskat, esses simples con­
tornos em tonalidade castanho-avermelhada e dispostos com
acuidade, tiveram de prestar-se à cabível reescritura da Histó­
ria em diversos e eruditos pareceres. A chamada disputa do
peru durou entre os especialistas, desde a primavera de 39 até
por volta do fim da guerra, sobrevivendo a seu começo no ou­
tono daquele ano, acompanhando as vitórias, mas também
sem deixar-se incomodar pela batalha de Stalingrado, pela
destruição das cidades e as conseqüneicias da invasão; estou
seguro de que ainda hoje persiste, encoberta.
E, no entanto, Malskat desde o começo assinou suas re­
criações do gótico antigo ao alto gótico, abreviando e mistu­
rando línguas com as letras t.f.L.M. — tout fecit Lothar Malskat
—, embora as tenha escondido em arabescos e com leves re-
<•

toques. Não era um falsário. Os outros, que, mais tarde, na


época das grandes falsificações de interesse do Estado, vieram

118
a processá-lo e puni-lo, foram, em plenos anos 50, os verda­
deiros mistificadores. Continuam, se não cobertos de postos,
pelo menos de honrarias, piscando um para o outro,
outorgando-se condecorações. Seus vinhos e cadáveres bem
guardados no porão.
Era uma vez um país que se chamava Ale...

119
0 QUARTO C a p ít u l o , no qual se diz adeus, um contrato está
pronto para ser assinado, Joãozinho e M aria chegam, encontram-se
cocozinhos de rato, reina uma atmosfera de domingo, vem o último
,
dia na at&umas peças de ouro excedentes, Malskat tem que ir para
o exército, é difícil largar as mulheres e o barco ancora diante de
escarpas de giz.

Sonhei que tinha de despedir-me


de tudo o que me circundava
lançando sua sombra: os muitos pronomes
possessivos. Despedida do inventário,
dessa lista de achados diversos.
Despedida dos perfumes cansativos,
dos odores que impõem vigília, da doçura,
do amargor, da acidez em si
e do grão de pimenta, quente, picante.
Despedida do tique-taque do tempo,
da irritação na segunda-feira, do prêmio
esfarrapado da loto na quarta, do domingo
e sua insídia quando o tédio se aloja.
Despedida dos apontamentos: dos prazos
vencidos no futuro.

Sonhei que tinha de despedir-me


de cada idéia, natimorta ou nativiva,
do sentido que procura o sentido
atrás do sentido,

120
e também da esperança em sua eterna corrida.
Despedida do juro composto da cólera poupada,
do produto dos sonhos eiígavetados,
de fudo que está no papel, memória: metáfora
de quando montador e montaria viraram monumento.
Despedida dos quadros que a pessoa pintou.
Despedida da canção, do lamento rimado, despedida
das vozes entrelaçadas, do júbilo a seis coros,
do fervor dos instrumentos,
de Deus e Bach.

Sonhei que tinha de despedir-me


dos galhos sem folhas,
das palavras botão, flor, fruto,
das estações do ano, fartas de sua atmosfera
e insistindo na despedida.
Névoa da manhã, fim de verão, casaco de inverno.
Exclamar: primeiro de abril! Cólquico, amarílis,
seca gelo degelo — dizer, mais uma vez.
Correr fugindo de pegadas na neve. Talvez,
para a despedida, €ê£ê|il maduras. Talvez,
perdendo o Juízo, o cuco pie. Uma vé£ IHâis
fazer ervilhas saltarem da vagem, verdes. Ou
o dente-de-leão: só agora entendo o que ele quer.

Sonhei que da mesa, porta e cama tinha


de despedir-me, forçando, escancarando,
testando em despedida a mesa, a porta, a cama.
Meu último dia de aula: soletro os nomes
dos amigos, repito de cor seus telefones: há
dívidas a pagar; escrevo por fim uma palavra
aos inimigos: esponja nisso — ou:
Não valeu a briga.
De repente, tenho tempo.

121
Meu olho, como que treinado a despedir-se,
esquadrinha horizontes, as colinas
atrás das colinas, a cidade
dos dois lados do rio,
como se fosse para lembrar poupar salvar o que
está na cara: perdido, é certo, mas ainda assim
concreto, lúcido.

Sonhei que tinha de despedir-me


de você, você e você, da insuficiência
minha, do resto do eu: casas decimais
de muito à míngua.
Despedida da distância mais que familiar,
dos hábitos que se dão razão, gentis,
de nosso ódio autenticado, registrado. Nada
tãó chegado a mim como tua frieza. Tanto amor
lembrado com a precisão do erro. No fim
tudo tratado: montes de alfinetes de segurança.
Resta ainda a despedida de tuas histórias
sempre à procura do baluarte, do navio
vindo de Stralsund, a cidade em fogC, ~
carregado de re&Sntés;'
Z uespedida de meus copos que só em cacos,
sempre em cacos, em si mesmos como cacos
pensavam. Não, basta
de malabarismos.

E dores, nunca mais. Nada


de expectativas pela frente. Esse fim
é matéria escolar, conheço. Essa despedida
foi treinada em cursos. Vejam só os segredos:
nus, como são baratos! Traição não mais compensa. .
A preços de banana, os sonhos desvendados do inimigo.
A vantagem acabou se anulando: nos igualamos

122
no acerto final,
última vitória da razão,
sem diferenças, tudo:
o quç é animado, o que se agita
por aí, tudo: o ainda
impensado e que viria a ser, talvez,
acaba, vai-se.

Mas quando sonhei que precisava


despedir-me imediatamente de' toda criatura
para que não ficasse resquício daquela bicharada
para a qual Noé construíra a arca, outrora,
vieram no sonho o peixe, o carneiro, a galinha,
desaparecendo, todos, com a estirpe humana, e veio então
[a ratazana, uma só, pariu novo filhotes
e o futuro era dela.

Nós, não! Ela chiava, negava, desmentia. Nunca demos


uma dessas de narcisismo. Nos bastávamos sem espelhos. Não
descobrimos sentido profundo em besteira nenhuma; fora de
aos, não houve objetivo que nos atraísse, elevasse, liberasse: o
super-rato nunca existiu!
E também nenhuma construção intelectual de muitos an­
dares em que transcendêssemos, chegando às estrelas, na lou­
cura total da imortalidade. Livres dessas bobagens humanas,
éramos numerosos, sem que jamais tivéssemos contado quan­
tos. Faltava-nos a consciência do próprio ser, um defeito que
nos impediu de passar privações.
Mesmo sendo um exemplo tão cabal para o tipo de alego­
rias que o homem promovia quando, como na Bíblia, chamava
as pragas pelo nome, para nós não surgia nenhum exemplo,
ninguém podia servir-nos de ideal, nenhum outro bicho e
nem mesmo o homem, a quem seguíamos desde que nos en­

123
tendemos; é certo que ele nos maravilhava, mas, por todo o
tempo em que existiu de fato e lançando sua sombra, ele
nunca se tornou nosso deus.
Só depois que ele se foi é que demos por sua falta. Sen­
timos a ausência da despensa e dos refugos, crus e cozidos, de
sua cozinha, mas não foi só isso, também de suas idéias, que
todos nós tínhamos literalmente devorado, houve desde então
grande carência; para usar uma imagem, teríamos, como de
costume, segurado com prazer a escarradeira aos pés de sua
abundância, nós, o zé-povinho de seus delírios, nós, modelo de
seus pavores. Razão pela qual o homem produziu com pala­
vras imagens nossas, temendo a peste dos ratos, amaldiçoando
a comida de ratos. Nós, o Mal intrínseco, estávamos presentes
nas câmaras de terror de seus pensamentos mais recônditos.
Tinha nojo de nós, de nós que limpávamos, papávamos sem
cerimônia, afastando de seus olhos sensíveis o que dele escor­
ria, gosmento ou em pedacinhos, seus excrementos, seus res­
tos em fermentação, tudo o que ele vomitava assim que a náu­
sea lhe apertava a garganta; tinha nojo de nós, felizes de seu
vômito. Tinha mais nojo de nós que das aranhas. Não havia
água-viva, verme, tatuzinho que lhe causasse maior repugnân­
cia. Quando falava por acaso de nós, sentia náuseas. Quando
nos via, queria vomitar. E particularmente lhe repugnavam
nossos rabos, pois eram pelados e de excessivo comprimento;
personificávamos o nojo. E em livros que enalteciam o nojo
de si mesmo como expressão particular da existência humana,
éramos nós o que entre linhas se lia; pois quando sentia nojo
do humano, e para tanto desde os primórdios jamais faltara
ocasião, era a nós que mais uma vez apelava para designar o
inimigo em mira, os vários inimigos: seu rato! seus ratos!
cambada de ratos! E com a capacidade que tinha, o homem,
levado pelo ódio a seus semelhantes, procurou-nos dentro
*
de
si, sem mais delongas nos encontrando, assinalando, aniqui­
lando. Seus hereges e degenerados, quem ele reputava infe-

124
M

áL

rior ou considerava escória, hoje a plebe, ontem a nobreza,


sempre os exterminou invocando o necessário extermínio de
cambadas de ratos.
Mas talvez também tenha se dado o seguinte: não sendo
capaz de livrar-se de nós, nem com estricnina, nem com arsê­
nico, e não conseguindo, apesar de pesticidas sempre novos
— por fim queriam empregar ultra-som —, eliminar nosso
crescimento — como o homem, não parávamos de nos multi­
plicar —, ele liquidou seus semelhantes em nosso lugar; como
era de se prever: com sucesso.
Só agora, disse a ratazana com que sonho, é que por
nossa vez começamos a fazer sua imagem, a procurá-lo e tam­
bém a encontrá-lo, o homem escondido em nossas entranhas.
Está cada vez mais lindo e quer ver-se no espelho: sua sime­
tria, o andar ereto em que noite e dia nos exercitamos. Temos
consciência de nossas limitações, incapazes que somos de
emoção, de humor. Ah, se pudéssemos enrubescer de vergo­
nha como ele enrubescia, em geral por motivos derrisórios.
Ah, se uma de suas idéias nos engravidasse, habilitasse ao
parto cerebral.
Não, nós, ratos, não nos despedimos dele como ele se
despediu de sua glória. Não, disse a ratazana antes de desapa­
recer, nós não abandonamos o homem.

Uma refeição de negócios a dois. Ele manda trazer lombo


de veado com finíssimos cogumelos e murtinhos. Sentado
diante de mim, em cima de duas almofadas, o Sr. Matzerath
gostaria de saber como eu imagino a figura histórica dos Ir­
mãos Grimm, na versão atual desse filme mudo sobre a flo­
resta moribunda, que por um lado deve ser um ato de acusa­
ção, a fim de ainda salvar as florestas na última hora, por outro
quer dizer adeus, pois já é tarde, tarde demais.
— Eu não gostaria de viajar para a Polônia sem ter escla­
recido essa questão — afirma ele—, ainda mais que também lá

125
muitas coisas costumam desaparecer em nuvens de catoli­
cismo.
Minhas explicações se estendem até a sobremesa — Rote
Grütze* com calda de baunilha. Se Jacob é Ministro extraordi­
nário para a proteção do meio ambiente, Wilhelm, na quali­
dade de seu Secretário de Estado, vai se encarregar dos cres­
centes danos florestais. De qualquer forma, ambos se conside­
ram comprometidos com a floresta. Estão informados sobre
taxas de toxidez e absorção. Fomentam a pesquisa de ozônio
com verbas federais. Em teses que na ocasião foram motivos
de escárnio, ambos, já cedo, colocaram em dúvida que pu­
desse ser mantido o equilíbrio do ecossistema, diante de um
crescimento descontrolado. A crítica ao setor energético ainda
é digna de citação, embora tenha dado em nada. Seu conjunto
de medidas indispensáveis não é contestado por quase nin­
guém, mesmo que nunca disponham de maiorias parlamenta­
res. Já pediram demissão repetidas vezes, entretanto, conti­
nuam em seus cargos.
Dizem que os Irmãos Raiva Contida são excessivamente
liberais. Cheios de tolerância, eles não abrem a boca durante
os sucessivos discursos dos outros ministros, enquanto, por
seu turno, são bruscamente interrompidos, irritados por apar­
tes, escarnecidos como lunáticos e, no máximo, respeitados
como figuras excêntricas — e é preciso que haja tais figuras!
São um luxo que o governo se permite. Quando vem visita
oficial, o Primeiro-Ministro os exibe.
Mas, mesmo assim: toda essa atualidade não impediu que
os Irmãos Grimm permanecessem fiéis a si mesmos enquanto
Irmãos Raiva Contida. Paralelamente à sua atividade gover­
namental sem dúvida ineficaz, mas nem por isso menos apre­
ciada, eles coletam dados sociais sobre os trabalhadores es­

* Espécie de compota de diversos frutinhos vermelhos: framboesas, moran­


gos, groselhas etc. (N. do T.)

126
trangeiros e testemunhos de sua cultura, além de neologis-
mos, assim como outrora coletaram contos, lendas e palavras
de A a Z, até que Jacob, quando se aproximava da letra F, fi­
cou coberto por uma neve de papeizinhos.
Sem falar em suas publicações. Enquanto Wilhelm
Grimm, com um ensaio sobre “O papel das mulheres turcas
no cotidiano da República Federal da Alemanha”, encontrou
reconhecimento até mesmo junto a feministas, um livro do
Jacob Grimm contemporâneo, intitulado 0 smurfês, vem
tendo ampla ressonância, pois tomando como exemplo a lin­
guagem plastificada desses bonecos de maciça difusão, o autor
conseguiu comprovar a desagregação generalizada da língua
alemã, “a poluição de campos verbais outrora florescentes” e a
decadência do vernáculo. Há alguns anos, os Irmãos Raiva
Contida receberam um grande apoio em todo o país ao pro­
testarem, em companhia de outros sábios, contra uma mu­
dança da Constituição: gigantes da oratória, como sempre,
mas não lhes deram ouvidos; segundo se disse, isso decorreria
da tradição comum do país dividido.
Como em meu filme mudo que tratará da floresta mori­
bunda, os Raiva Contida estarão sujeitos, entretanto, a uma
ação linear de conto de fadas, seus escrúpulos e atividades pa­
ralelas só poderão ser notáveis como notas de rodapé. Assim,
nos gabinetes dos irmãos, ligados por uma porta aberta, en-
contram-se por exemplo comprovantes de sua faina de cole­
cionadores: a sala menor, de Wilhelm, terá como enfeite, em
meio às estantes de livros plenas de sociologia, um pano de
parede formado por mais de trinta lenços dc Cabeça de diver­
sas cores, usados por muihürés dos operários-hóspedes turcos;
no gabinete Sühisterial de Jacob chama a atenção, além de um
retrato emoldurado do sábio prussiano Savigny, uma vitrine,
cujas prateleiras estão repletas de divertidos smurfs, arranja­
dos em grupos. Como pesquisadores, os Irmãos Raiva Con­
tida vêem-se com ironia.
127
Mas o Sr. Matzerath ainda quer certas informações, en­
quanto eu misturo um restinho de Rote Grütze com o que so­
brou da calda de baunilha: sim, os dois fazem música, reivin­
dicam uma ampliação do ensino de artes e defendem a sub­
venção à indústria cinematográfica, orientada para a qualidade.
Em princípio, eles não são contra os novos meios de comuni­
cação, embora alertem para os perigos de que a mídia se asso­
cie de forma incontrolável.
Levantamos os copos, bebemos à nossa saúde. Não, não,
os Irmãos Raiva Contida não fazem o gênero de intelectuais
de gabinete. São divorciados, propensos a trocar de compa­
nhia feminina. Podemos observá-los de traje esporte, fotogê-
nicos mesmo quando não formam dupla. Usam gravatas-bor-
boletas que combinam com seus casacos de tweed. Inclusive as
férias eles passam juntos no Spessart, Vosges, onde quer que
floreste. Poderíamos chamar o filme simplesmente A floresta
ou, com maiores pretensões, Florestas de Grimm\ só que ele
deveria ser rodado enquanto ainda vislumbrem-se florestas.
— Mas por que — diz o Sr. Matzerath tomando o café —
tem de ser de qualquer jeito um filme mudo?
Porque tudo está dito, porque só resta a despedida. Pri­
meiro, dos diversos abetos, pinheiros, depois, das faias tão li­
sas, dos poucos bosques de carvalhos, dos bordos, do freixo,
das bétulas, amieiros, dos olmos sempre doentios, da orla rala
das florestas, cheia de cogumelos sob os arbustos. Onde vai
ficar a samambaia sem as ramagens que lhe servem de teto?
Para onde fugir, onde perder-se?
Despedida da encruzilhada no fundo da floresta. Do'for­
migueiro que nos ensinou 0 espanto, nos despedimos, sem
saber do quê. Dos numerosos cercados que p ro m e tia m lucros
e árvores de Natal, da árvore oca com lugar para todos os p a ­
vores, despedida da resina que escorria, cobrindo para sempre
o besourinho. Despedida das raízes, curvadas para tropeçar­
mos nelas, encontrando finalmente o trevo de quatro folhas, a

128
felicidade. Despedida da amanita mata-moscas, que faz sonhar
estranhos sonhos, das orelhas-de-pau que povoam os cepos
dos troncos, da cornucópia abrindo tarde seus cones saboro­
sos, enquanto o falo-impudico chama de longe a atenção. Pi­
cada, clareira, cercado de caça. Despedida de todas as palavras
vindas da floresta.
E por fím nos despedimos da discussão dos guias impro­
visados e do albergue Gigante da Floresta, da seiva que sobe e
do verde, das folhas que caem e de todas as cartas que come­
çam assim. Apaga-se o que está escrito sobre a floresta e os
bosques atrás dos bosques. Não há mais juras talhadas nas
cascas dos troncos. Nem carga de neve caindo de pinheiros.
Nunca mais o cuco vai nos ensinar a contar. Ficaremos sem
contos de fadas.
Por isso, o filme será mudo. Porque as lentes da câmara
vêem a floresta como se fosse a última vez. Quem ainda vai
querer falar... Morrendo, as florestas falam por si mesmas.
Somente a ação, querendo sempre prosseguir, impelindo, de­
sejando dar saltos, pedindo exclamações, lamentos, indica­
ções, somente ela é que requer legendas, necessariamente
curtas: Ah, que bom que ninguém sabe. Espelho, espelhinho
meu. Atrás dos sete morros, porém. Por que suas orelhas são
tão compridas? Joga tua trança. Criança minha, corça minha!
Das filhas do rei a mais jovem. Há sangue no sapato. O vento,
o vento, o filho do céu...
Pois Joãozinho e Maria continuam andando em silêncio
pela floresta, mas vai chegar a hora, não, agora mesmo a flo­
resta vai ganhar vida e ajudar as crianças com sinais, a fim de
que elas cheguem, saudadas por uma legenda: “Olá, até que
enfim vocês chegaram!”
O Sr. Matzerath, que gosta de falar, tendo sempre se ex­
plicado com verborragia, concorda entrementes que terá de
ser mudo o filme que ele — e quem, senão ele? — deve pro­

129
duzir. Ele mexe o café na xicrinha, esticando ao mesmo tempo
o dedo mindinho, calado.
Será que eu agora vou ter que pressioná-lo para que ele
aceite, diga finalmente sim como produtor? Ele deveria saber
que enquanto não se pronunciar, a viagem prevista será adia­
da.
Para desviar o assunto, ele mostra o visto.
Eu aceno para o contrato de produção: —- Está faltando
sua assinatura, aqui, bem aqui, por favor.
Ele lamenta que o mercado de vídeo-cassetes ande satu­
rado.
Eu, porém, não quero um cassete: — O que eu quero é
um filme de cinema, mudo, com legendas.
Ele diz: — Assim que eu voltar da Polônia com saúde,
talvez...
Eu digo: — Poderia me ocorrer, entre uma frase e outra,
deixar seu visto simplesmente vencer.
Ele chama a isso de "chantagem!”, de “presunção de au­
tor!”
— Mas está bem — diz ele. — De qualquer forma, só
mesmo no filme ainda se consegue salvar a floresta.
— Já se pode desejar boa viagem ao senhor amanhã? —
digo eu, apressado.
O Sr. Matzerath paga o lombo de veado e tudo o m ais
para nós dois, como refeição de negócios, deixando uma pol­
puda gorjeta para o garçom; anota então no espaço corres­
pondente o título do filme, Florestas de Grimm, e assina final­
mente como Oskar Matzerath-Bronski, numa caligrafia antiga
e arredondada. Enquanto isso, depois de longos rodeios refe­
rentes à sua viagem e à situação política na Polônia, ele diz: —
Teria perferido me decidir pelo Malskat, o pintor. Gosto
*
de
seu gótico.

130
De mãos dadas, em meio à rigidez cadavérica. Eles cami­
nham pela floresta morta, passando por depósitos de lixo, va-
zadouros de tóxico e zonas militares. (Na qualidade de pai e
mãe, o Primeiro-Ministro e sua esposa contam entrementes à
imprensa que estão inconsoláveis. Pelo país afora, através de
cartazes, pela televisão, as crianças fugitivas estão sendo pro­
curadas; chamam-se João e Maria Luísa.)
Agora não mais de mãos dadas: Joãozinho e Maria cami­
nham como se outro jeito não houvesse. Quase sem esforço, e
nem um pouquinho desanimados. Ora Joãozinho vai à frente,
ora Maria. Enquanto caminham, a floresta morta, que parece
os montes Metalíferos em fotografias recentes, começa a to­
mar tons esverdeados, ficando em seguida decididamente e,
por fim, violentamente verde, de um verde sempre mais den­
so, como num álbum de estampas, até transformar-se na verde
floresta intransponível dos contos de fadas.
O gaio, a coruja levantam vôo. Arvores rangem, fazendo
caretas. Vêem-se cogumelos brotando de tapetes de musgo.
Anõezinhos piscam, escondidos embaixo das raízes, como se
fossem parte dos tubérculos e talos. Saindo de um formi­
gueiro agitado, uma mão de longos dedos acena e mostra a
direção às crianças. O unicórnio irrompe dos arbustos, tem
um olho fogoso e um olho triste, e se afasta em seguida, tro­
tando por entre as faias, como se bom mesmo fosse em outra
parte.
Eles só têm um pouquinho de medo. “Aqui não tem
mesmo monstros de verdade!”, exclama Maria. Ambos olham
a floresta como se pela primeira vez tivessem motivo de es­
panto. Já não caminham, apenas procuram e tateiam. Per-
dem-se e encontram-se entre troncos de árvores tão grossos
que até a dois mal dá para abraçar. O teto de folhas se fecha
sobre eles, rompido por raros clarões de sol. Os dois nadam
em fetos arborescentes que lhes chegam ao peito.

131
Finalmente, uma pomba silvestre puxando um fio dou­
rado dirige Joãozinho e Maria através da floresta, até que ela
se abre.
N o meio de uma clareira, ao lado de um tanque escuro
em que deslizam sete cisnes, encontra-se uma casa de madeira
de altos e baixos, com telhado de tábuas e — quando as crian­
ças se aproximam — reconhecível como hospedaria da floresta
pelo letreiro Casinha de Chocolate. Diante das estrebarias la­
terais, há um cercado, onde uma corça levanta a cabeça. Para
cá e para lá atrás das grades, o lobo mau chega a parar. Joãozi­
nho e Maria se aproximam, hesitantes, de um poço murado ao
lado do qual dorme uma senhora envolta num longo vestido.
Sobre a testa da senhora está sentado um sapo, respirando
como se bombeasse ar. Joãozinho e Maria trocam um olhar
que demonstra que eles já conhecem mais ou menos essa his­
tória. (Por isso, nada de legendas mais explícitas enquanto o
sapo respira sobre a testa.)
Cortinas brancas esvoaçam das janelas abertas. Diante da
casa, encontra-se um antiquado vendedor automático, uma
caixa de lata pintada com ornamentos imitando pão de mel e
outras guloseimas. Joãozinho procura moedas no bolso das
calças, mas não encontra nem dinheiro trocado, nem uma
fresta para introduzir as moedas, e sim a inscrição, em letras
góticas: “Por favor, crianças, sirvam-se!”
Maria é a primeira a puxar uma V gavetinha onde se encon­
tra um saco de avelãs. Então, Joãozinho puxa uma outra gave-
tinha e ganha de surpresa um favo de mel. Famintos depois da
caminhada pela floresta a princípio morta e depois viva, os
dois esvaziam os saquinhos.
Eles ainda estão mastigando, descobrindo caroços de faia
num outro saquinho, quando, detrás de roseiras silvestres car­
regadas de flores, uma mulher se levanta de sua espreguiça­
deira, onde provavelmente adormecera lendo o jornal. O jor­
nal chama-se Mensageiro da floresta e está datado do começo do

132
século passado, pouco antes da batalha de Iena e Auerstedt. A
mulher, nem jovem nem velha, é ao mesmo tempo feia e bo­
nita. Está com bobs no cabelo e seu colar é uma fileira de ore­
lhas «ressecadas. No momento em que ela abotoa sobre o sutiã
o robe de amplas flores, Joãozinho vê tetas enormes, maiores
do que aquelas com que ocasionalmente sonha. Maria reco­
nhece, entretanto, a bruxa do dito conto de fadas.
(Caso o Sr. Matzerath queira saber quão bela a bruxa é
feia, pintemos-lha, pois nosso filme mudo é um filme mudo
colorido: ela não é ruiva, sendo contudo levemente vesgos
seus olhos cor de âmbar.) Sem espantar-se nem um pouco, ela
diz o texto para a legenda: “Então, crianças! Até que enfim
vocês chegaram.”
No que ela se aproxima, puxando a pontinha da orelha de
Joãozinho, este fica próximo não só das tetas de sonho, mas
também dos enfeites do colar, as inúmeras orelhas secas. De
repente, como se quisesse impedir que surgissem pensamen­
tos inoportunos, a bruxa faz girar, célere, sempre mais depres­
sa, uma matraca de madeira, dessas que antigamente eram
usadas para exorcizar espíritos. (Ruídos dessa espécie, bem
como gorjeios de pássaros e outros sons da natureza, são
permitidos em nosso filme mudo.)
O ronco barulhento da matraca faz efeito. Todos os hós­
pedes da pensão abandonam sucessivamente a Casinha de
Chocolate: uma Branca de Neve mais para o esquálido que
para o esbelto aparece apoiada na Madrasta Má, uma figura
imponente em costume de viagem; a Bela Adormecida esfrega
os olhos, tonta de sono, e o Príncipe, que a acompanha feito
um enfermeiro pago, vive tendo de beijar a dorminhoca para
que ela acorde; Chapeuzinho Vermelho, reconhecível pelo
casquete basco, com o qual ela combina botas igualmente ber­
rantes, traz consigo a avó meio surda; vestindo um macacão
com alicate e metro no bolso do peito, forma prática de
identificar-se, Rübezahl, o espírito da serra Gigante, apre­

133
senta-se como zelador; de uma janela do andar de cima, Ra-
punzel deixa seu cabelo esvoaçar entre cortinas igualmente
esvoaçantes, a fim de que logo se saiba qual é o nome dela;
em veludo negro, o mais triste de todos os casaizinhos de na­
morados: Jorinda e Joringel.
Todos os hóspedes da pensão envelheceram sem perder a
beleza. Estão contentes com a chegada de Joãozinho e Maria,
que há muito aguardavam. Ninguém pergunta de onde. A
Madastra Má diz: “Sintam-se em casa.” Chapeuzinho Verme­
lho é a única que faz impertinência: “Eu sempre imaginei
Joãozinho e Maria como crianças proletárias e não como eva-
didos da sociedade de consumo.” A bruxa volta a tocar a ma­
traca.
Vem chegando uma garota com crostas de sangue nos co-
tocos dos braços, carregando atrás das costas as mãos decepa-
das, penduradas num cordão. (Caso o Sr. Matzerath apresente
objeções a esta cena — “N ão podemos chocar o público com
crueldades desse gênero!” — vou invalidá-las gritando “Cen­
sura!” e lembrando-lhe a encruzilhada de bestialidades que foi
sua infância. Além disso, a Menina sem Mãos é um exemplar
típico da coleção de contos de Grimm, enquanto Rübezahl,
que por desejo do Sr. Matzerath vai ser zelador nesse filme,
só existe como figura de um conto literário e melancólico, por
sinal de Musãus.)
Só agora, depois que estão todos reunidos, aparece Rum-
pelstino na frente da casa, com uma bandeja cheia e de uni­
forme de garçom. Mancando de leve, mas de forma acentua­
da, ele oferece diversos drinques aos hóspedes da pensão Ca­
sinha de Chocolate: “Uma batida de frutinhos do espinheiro!
Aceita uma taça de licor de caroço de rosa? O u um coquetel
de mel silvestre?” Visando Joãozinho e Maria, a legenda diz:
“E para vocês, crianças, um ótimo suco de morangos silves­
tres, espremidos na hora.”
Todos bebem, bebericam, conversam, cochicham, ou fi­
cam calados como Jorinda e Joringel, lendo um nos olhos do

134
outro uma tristeza escura e aveludada. O Príncipe, muito solí­
cito, volta sempre a acordar com mais um beijo sua Bela
Adormecida. Chapeuzinho Vermelho grita ao ouvido da avó
má-criações como “Vê se hão fica de porre de novo!” A Bru­
xa, agora de óculos, apalpa Maria e, mais ainda, Joãozinho;
Rumpelstino leva galantemente um copo de suco de flor de
sabugueiro aos lábios da Menina sem Mãos; a Madrasta Má
apazigua a briga entre Branca de Neve e Rapunzel, que vem
de tempos imemoriais; e Rübezahl, afastado, empilha braçadas
de lenha de reserva para a cozinha da pensão, como se o espí­
rito da montanha quisesse mostrar uma força de arrancar ár­
vores. Enquanto tudo isso acontece, nuvens cobrem o céu e
cai uma pancada de chuva, fazendo subir o aparelho de medi­
ção situado ao lado do poço e composto de tubos de vidro;
como em todo o país, a chuva que cai aqui é ácida, o que ate­
moriza as figuras da carochinha.
Então, da testa da senhora que dorme o sapo pula para
dentro do poço, de onde logo em seguida o Rei Sapo sai num
escafandro muito justo, mas de coroa e tudo. A princesa com
ares de senhora acorda e, como que atormentada por dores de
cabeça, esfrega a testa ainda há pouco habitada pelo sapo. N is­
so, o Rei Sapo ajuda-a a levantar-se e oferece-lhe o braço, e
todos fogem para dentro de casa, por último a bruxa, que leva
Joãozinho e Maria, depois de ter lido em voz alta os alarman­
tes resultados da medição: “N em nossa floresta de conto de
fadas agüenta uma coisa dessas.”
Por dentro, a Casinha de Chocolate está arrumada como
um museu: estantes, vitrines repletas. Cada objeto em exposi­
ção é explicado por pequenos letreiros. Branca de Neve mostra
a Joãozinho e Maria a miniatura de seu caixão de vidro, onde,
do tamanho de uma boneca, ela se encontra graciosamente
deitada: ao lado, pode ver-se, no tamanho original, a maçã en­
venenada e mordida, recoberta de resina sintética.
A Madrasta Má puxa Joãozinho e Maria para longe do
caixão de Branca de Neve, levando-os até seu Espelho Mági­

135
co, que serve de tampo frontal a um cofre de madeira situado
significativamente no meio do aposento, sobre uma cômoda,
em cujas gavetas poderiam estar guardados livros, edições ori­
ginais de coleções de contos de fadas, alguns manuais de er­
vas.
Todos querem mostrar a Joãozinho e Maria as peças com
que estão representados. Rübezahl demonstra seu cajado no-
doso. Rumpelstino, o garçom capenga, mostra uma perna
conservada em álcool que ele, segundo algumas versões do
conto a que deu título, ter-se-ia arrancado de raiva por tèrem
adivinhado seu nome*. O Rei Sapo designa áurea uma bola —
•‘Ouro de lei, de ducados!” — que rolou outrora poço aden­
tro, quando sua senhora ainda era menininha em tenra idade.
Com os cotocos de braço, a Menina sem Mãos aponta o ma­
chado do pai. Numa vitrine, cujos objetos estão precisamente
datados, além de rotulados com clareza — “Tal deu-se no mês
de maio do ano de 1789” — “Tal sucedeu-se no outono do
ano de 1806” —, pode ver-se a coleção de ossinhos da bruxa.
E, pendurados em sete ganchos, sete capuzes de anõezinhos,
como se esse bando estivesse para chegar.
Fora isso, gravuras coloridas reproduzem os Irmãos
Grimm. Em todas as paredes, desenhos de fino traço dos pin­
tores Ludwig Richter e Moritz von Schwind. Acrescentem-se
silhuetas reunindo os Músicos de Bremen, e o Lobo e os Sete
Cabritinhos. E outros motivos da carochinha. (Talvez eu de­
vesse incluir em segredo uma fotografia do Sr. Matzerath
ainda garotinho, vestido de marinheiro, com seu instrumento
a tiracolo, embora o preferisse como produtor, careca e emol­
durado.)
Nem todos os objetos são, porém, rígidos e museológi-
cos. Vassoura e malho encontram-se em seu cantinho. A um
sinal da bruxa, eles começam a dançar, em seguida a perseguir
Rumpelstino, o garçom capenga, pela sala, em volta do Espe­
lho Mágico, e ele representa seu papel, gemendo e apanhando

136
como se tivesse merecido uma surra. As figuras da carochinha
acompanham entediadas esse número tantas vezes exibido. A
Menina sem Mãos nem quer olhar. Jorinda e Joringel não se
mexçm, grudados um nos olhos do outro. Só Joãozinho e Ma­
ria estão deslumbrados.
Depois de mandar a vassoura e o malho pararem e se re­
colherem a seu canto, a bruxa desafia a Madrasta Má a dar
uma prova de sua magia. Com um sorriso irônico, que des­
venda alguns dentes de ouro, mas cheia de respeito, como se
fosse começar uma competição, ela acena para o Espelho
Mágico.
A Madrasta Má não se faz de rogada. No bolso lateral do
casaco encontra-se uma caixinha de verniz, cujas teclas ela
aperta em segredo: imediatamente, o Espelho Mágico se
anima e, depois de um lusco-fusco, começa a emitir a história
de Joãozinho e Maria.
Como na televisão, os filhos fugitivos do Primeiro-
Ministro vêem sua pré-história, um filme em preto-e-branco
dos tempos do cinema mudo. Seguindo com fidelidade a ver­
são de Grimm, os pobres pais, cesteiros ou vassoureiros, en-
jeitam diversas vezes as crianças famintas. A Casinha de Cho­
colate é feita de biscoitos chocolatados. N o fim, Joãozinho e
Maria, que de fato se assemelham aos filhos fugidos do
Primeiro-Ministro (e, não obstante, devem lembrar Stõrtebe-
ker e Tulla Pokriefke ao Sr. Matzerath), empurram a bruxa
para dentro do forno...

A ratazana com que sonho riu, como se aos ratos fosse


dado rir, rir de deboche ou de coração, às gargalhadas ou com
bondade. Pois é, pois é, disse ela rindo, não eram apenas os
contos de fadas, todas as histórias de vocês acabavam assim.
Pra dentro do forno, fim! As especulações de vocês sempre
tendiam a essa solução. O que nós menosprezávamos como
histórias de mentira, era para vocês verdadeiramente sério.

137
Não deveria causar espanto, nem muito menos decepção, que
a chanchada humana tenha terminado na maior banalidade.
Entreguemo-nos a um riso — como se dizia em tempos hu­
manos? —, a um riso liberto!
Totalmente perplexo, só agora eu entendia que sua garga­
lhada se referia a nosso fim, que ela, rindo, pretendia lamen­
tar: E óbvio que nós consideramos terrível o desaparecimento
de vocês. Causa-nos embaraço, esse desliga-tudo. Ainda foge
de nossa compreensão esse acabou, essa dramaturgia ppr de­
mais humana: abre o forno, bruxa para dentro, fecha a tampa,
bruxa morta! Baixa o pano, fim do espetáculo. Mas isso não
pode ser verdade! dizemo-nos. Ainda anteontem eles falavam
cheios de esperança na educação da espécie humana, queriam
dar novas lições, estabelecer como regra notas mais justas,
melhorar o homem de alto a baixo, e hoje, ou melhor, desde
ontem, acabou a escola. Pavoroso! exclamamos. Inimaginável!
E todas as tarefas que não foram levadas a cabo. O objetivo da
classe não foi atingido. Dá pena dessa pedagogia tão bem pen­
sada, sempre dirigida a novas metas de aprendizado, e que no
fim não leva mesmo a nada. D á pena também da quantidade
de professores; agora, que tenhamos sido nós que causamos o
fim de vocês, fechamos suas escolas, cancelamos os currículos
e cargos docentes, não tem graça nenhuma, só faz rir como
última piada humana.
A ratazana reprimiu seu sarcasmo. D a risada por fim amar­
ga, refugiou-se na objetividade: E claro que nós entendemos que
dos dois lados — como sempre foi o jeito dos homens —
colocou-se imediatamente a questão da culpa, quando a troca de
murros começou, num primeiro tempo só no raio europeu dos
mísseis de médio alcance. Como, na opinião de ambos os lados,
esse mal-entendido cheio de conseqüências fora inequivoca­
mente causado de propósito pelo lado respectivamente oposto,
e como, além disso, os dois sistemas de defesa excluíram mal­
entendidos não propositais, repetiu-se publicamente durante

138
meio dia, isso onde ainda havia uma opinião pública: os outros
começaram. Deixando os floreios de lado, as duas potências
protetoras acusaram-se usando as mesmas palavras, tal era sua
proximidade e semelhança às vésperas do fim. Foi então que
surgiu aquela piada que nos fez rir.
Escute só, amiguinho, exclamou a ratazana: O primeiro e
o segundo golpe eram irreversíveis, não se podiam mais dis­
tinguir as fronteiras, nem localizar o inimigo, nem captar
quaisquer sinais de vida, mesmo que abreviados; a honrada,
boa e velha Europa tinha sido definitivamente pacificada. En­
tão, numa daquelas vastas centrais de computadores da potên­
cia protetora ocidental, programada para a partida final e glo­
bal e por isso construída como um anfiteatro, encontraram
corpos estranhos, o imprevisível, o inimaginável, partículas do
tamanho da unha de mindinho, em quantidade de início pe­
quena, mas sempre crescente, e que foram designadas como
sujeira, excremento, titica, finalmente como cocozinhos de ra­
to, sem a menor demonstração.
A ratazana deu um risinho. A palavra lhe fazia cócegas.
Repetiu-a com entonações diversas, falou em língua de rato
de kaporech rottamoch, e divertiu-se em brincadeiras lingüís­
ticas, variando feito uma boba o achado fatal: zococinho, so-
nhozico, sonhizococ e assim por diante. Por fim, sempre in­
terrompida por acessos de riso, ela lembrou-me tempos bíbli­
cos, quando para espanto de N oé já uma vez cocozinhos de
rato... N a palma da mão de Deus! exclamou, e só voltou a ser
objetiva quando eu pus em dúvida os cocozinhos achados e
exclamei balelas. Mas isso são balelas!
Vamos ao assunto! disse a ratazana: Enquanto a troca de
murros prosseguia alastrando-se* pela Europa inteira, falaram
pelo telefone com a central estratégica de computadores da
potência protetora oriental, aliás sem nenhuma interferência,
pois ambas as potências protetoras sempre tiveram interesse
em poder conversar pelo telefone de emergência até o final.
Receberam a informação de que lá também tinha sido encon­
trado excremento animal na zona de segurança número um,
provavelmente cocô de rato. De qualquer forma, a entrada em
ação do programa Paz dos Povos tinha sido ocasionada pôr in­
tervenção animal. E tudo estava seguindo o curso programa­
do, sem que um veto da mais alta esfera pudesse surtir efeito.
Ainda assim, disse a ratazana, eles continuaram conver­
sando por um tempinho, aliás numa paz fora do comum. Com
franqueza nunca vista antes, as potências protetoras trocaram
pelo telefone de emergência os dados dos objetos estranhos.
Elas compararam os diagnósticos e chegaram à mesma conclu­
são, o que espantou a ambas. Os graúdos dignitários, que era
como nós chamávamos seus chefes de Estado, dois senhores
idosos que até então mal tinham falado um com o outro e um
do outro só mal tinham falado em seus discursos dominicais,
entrando em contato direto, tentaram falar. Conseguiram, de­
pois do pigarro inicial. Os dois velhos lamentaram não terem
já antes encontrado a ocasião para uma conversa: dificuldades
de entrar em acordo quanto à data. Eles acabaram batendo
papo, perguntaram pelas mazelas físicas respectivas, acharam-
se simpáticos e, só então, revelaram quais seriam o segundo e
o terceiro golpes na escalada de seus sistemas a serviço da paz.
Fizeram-no como quem troca péssimas notícias, cuja causa os
dois a princípio declararam ser inexplicável, para em seguida
designá-la como irrefutável: cá e lá, as provas não davam mar­
gem a equívocos.
A ratazana hesitou, antes de prosseguir o depoimento.
Quando voltou a falar, sua voz tinha um quê de compaixão. E
com dor que nós somos obrigados a constatar que, assim que
se colocou a questão da culpa, as duas potências protetoras fi­
caram de acordo com incrível rapidez. Ao alarme: ratos no
computador! seguiu-se a afirmação: estamos diante.de uma
diabólica terceira potência. As duas potências da paz estariam,
como seria obrigatório reconhecer, nas mãos de um complô

140
internacional. Uma conspiração mundial de ratos estaria há
muito visando à destruição da humanidade, sem que se pu­
desse por enquanto falar dé forças ocultas. Esse plano teria an­
tecedentes: aquilo que fora tentado há mais de seiscentos anos
com a disseminação premeditada da peste, mas que finalmente
acabara tendo de fracassar, depois de fazer incontáveis vítimas
humanas, deveria agora ser conseguido através de meios nu­
cleares. Tudo isso seguiria uma lógica que infelizmente não
era dessemelhante da humana. Era claro que o plano dos ratos
realizar-se-ia segundo concepção detalhada a fundo. Essa solu­
ção final teria sido até mesmo anunciada com insolência ao
público. Com demasiado atraso voltariam à memória aquelas
manifestações dos ratos, de inexcedível clareza, que, não faz
tanto tempo assim, assolaram todas as metrópoles. Estaria
agora também explicado o repentino desaparecimento desse
gênero de difusão territorial generalizada. Ah, se tivéssemos
sabido interpretar a tempo esses prenúncios! Ah, se tivésse­
mos ficado alarmados, globalmente!
Sim, disse a ratazana, se eles tivessem, se eles fossem. Ela
fincou pé: ambas as potências protetoras teriam até o fim
afirmado que nenhuma das duas apertara o botão; pelo con­
trário, os programas Fazer a Paz e Paz dos Povos teriam sido
acionados segundo instruções dos ratos e, além disso, como
agora se sabia, simultaneamente, apesar da diferença de fusos
horários. Os acontecimentos seriam irreversíveis, porque o
poder decisório final fora transferido a computadores. A pró­
xima etapa na manutenção da paz seria por isso inevitável: o
emprego de mísseis intercontinentais. Uma coisa segue com
fatalidade a outra. Possa Deus ou quem quer que seja prote­
ger nossos países, o meu e o seu! teriam exclamado os chefes
de Estado um para o outro.
Pios votos, embora tardios, disse a ratazana. Entretanto,
assim que tinham entrado em acordo quanto à atribuição da
culpa, as duas potências protetoras começaram a imprecar

141
contra a terceira potência: Malditos ratos! Canalhas! Que raça!
Corja ingrata; comeu da nossa mesa durante milênios; foi pa­
paricada até vingar de novo, depois dos tempos de calamidade
humana. Desfalcou um terço de nossa produção de milho, ar­
roz, trigo, milho-miúdo.* Açambarcou a metade das colheitas
de algodão. E era assim que agradeciam!
Porém, disse a ratazana, confessaram também falhas pró­
prias. Os chefes de Estado admitiram, ambos, a falta de pre­
caução nos sistemas de segurança computadorizados. Milhões
e milhões de chips e clips deveriam ter sido tratados com toxi­
nas. Além disso, teria sido aconselhável sonorizar todos os
maxicomputadores com ultra-som, num tom ininterrupto que
irritasse os ouvidos dos ratos. Nada disso acontecera. Tam­
bém, quem ia pensar numa coisa dessas! teria dito o graúdo
dignitário do Leste, enquanto o velho do Ocidente, com seu
humor popular, teria se comprazido em contar anedotas: Sr.
Secretário-Geral, Vossa Excelência conhece aquela. Um rus­
so, um alemão e um americano chegam ao céu...
Em seguida, teriam contudo se queixado a uma só voz: a
culpa era indiscutivelmente dos ratos; embora não se pudesse
excluir que certos círculos, bem, pessoas de determinada ori­
gem, falando francamente, pessoas de credo mosaico, mas
também sionistas fanáticos, judeus afinal, judeus em conspira­
ção internacional, poderiam ter tido um certo interesse em
desenvolver aquele plano diabólico, aprimorando e ades­
trando em especial ratos particularmente inteligentes, os
quais, como há milênios se sabe, são espertos feito judeus,
para...
A ratazana voltou a rir à sua maneira, mas não era mais
um riso aberto, era mais para dentro. Sacudia-se toda. Profe­
riu uma ou outra palavra em língua de rato — futze iwri! e
goremech ippuch — e ficou séria em seguida, levada pela
soma da amargura: Bem, não é de hoje. Culpados são òs ratos
e os judeus, os judeus e os ratos. Naquele tempo usaram a

142
peste, hoje seguem métodos nucleares. N o fim das contas, foi
em grande parte invenção deles. Queriam vingar-se. O obje­
tivo deles sempre foi essè, nunca tiveram outro. De forma
diabólica, requintada, desumana. E assim que a aspiração de
Sion se realiza. E indiscutível: essa dupla corja, judeus e ratos,
são culpados!
Desse jeito vociferaram os grandões de vocês. E quando
não vociferavam, os velhos se lamentavam mutuamente como
chefes de Estado: coisa mais besta, que isso tivesse podido
acontecer. Tanto mais que houvera uma aproximação nas ne­
gociações que ainda ontem prosseguiam, uma aproximação
sempre maior, cheia de confiança.
Mas, ouvi minha voz exclamando no sonho, mas isso é
absurdo!
Pois é, disse a ratazana, foi isso mesmo: absurdo.
Como é que os ratos teriam podido? questionei.
Mas quem foi que disse, exclamou ela, que nós ou os ju­
deus?
Então não foram os ratos?
Nós estaríamos perfeitamente em condições.
Então nós, os homens, contradizendo todas as intenções
declaradas acabamos...
Tudo correu como previsto.
E ninguém queria parar de acabar?
Que é que você quer? Ela se enroscou, como se fosse
dormir. ♦_
Ei, ratazana! exclamei. Diga algo, faça alguma coisa! Isso
não pode ser sua última palavra!
Então a ratazana disse: Está bem. Uma anedota, para ter­
minar. Lá dentro daqueles teatros construídos para a partida
final, os dois idosos chefes de Estado das potências protetoras
viram finalmente que mais de mil Pacificadores, Amigos dos
Povos e similares, que era como se chamavam os mísseis in­
tercontinentais, estavam se aproximando de seus respectivos

143
alvos, e portanto também dos Centros Estratégicos de Segu­
rança; nesse momento, ajudados pelos intérpretes, eles pedi­
ram perdão um ao outro, diversas vezes; um gesto tipicamente
humano.

Premeditada, criminosa: minha raiva,


e não se evade, não pode.
Sensatez a impede, cerca, que a visão apenas
consegue traspassar.

De longe, portanto, repleto de raiva sedimentada, *


maturada como queijo maturá, engrossando,
vejo-os, perfeitamente racionais,
a preparar o fim: esmerando nos detalhes.

Arcanjos se qualificaram, inabaláveis.


Aí fracassa nosso parco medo, que quer viver,
a qualquer preço, como se viver fosse valor
intrínseco.

Que fazer com a raiva que não pode evadir-se?


Dispersá-la em cartas, que só cartas
têm por conseqüência, cartas, nas quais
lamenta-se a situação, do jeito que anda, profundamente?

Ou domesticá-la,
domá-la para objetos frágeis?
Ou deixá-la virar pedra?
Remanescente depois do fim?

Sem nenhuma sensatez a cerceá-la,


ela estaria livre, afinal,
testemunhando, petrificada, minha raiva
que não se evadiu, não pôde.

144
Enfiado numa cápsula sideral como observador do espa­
ço. Que me impede de saltán sobre a Suécia ou, pelo menos,
sobre o golfo de Bengala? Por que há sonhos que se impõem,
embora tudo os contradiga? E de quem é a lógica a seguir no
sonho?
Não sirvo para tripulante. Não me deram nem um ma­
nual de cosmonauta. Preso no assento, só de pijama. Sem ex­
periência no espaço, fora a Lua idiota só conseguia reconhecer
a Via-láctea, a Ursa Maior e, indo na sorte, uma falsa estrela
chamada Vênus. Que diabo, onde estava Saturno, ameaçante?
Até conheço veredictos de astrologia, sei que o sagitariano é
presunçoso, e que o ascendente Escorpião traz dificuldades à
Libra. Mas sei lá o que sobre mim são estrelas fixas e planetas.
Um trapalhão no cosmos, tive assim mesmo que servir de tes­
temunha.
Era ruim, chegava a ser pior do que a versãp dada nos
filmes que, às vésperas do desfecho, atraíam um público ma­
níaco pelo apocalipse e se afirmaram mundialmente como
campeões de bilheteria. Lembro a tensão na contagem regres­
siva e os silos abrindo-se, solenes. Eram filmes feitos com pe­
rícia, cada escalão do terror se sucedia com veracidade. O
novo parâmetro, não sei quantos megamortos, era atingido.
Por isso, eu reconhecia tudo o que via de dentro de minha
cápsula espacial, achava até familiar.
Não há, assim, nada a testemunhar. O terrível não requer
descrições. Não sucedeu nada de inimaginável. Confirma­
ram-se os piores prognósticos. Basta que eu diga: o que se via
através do oval transparente de minha cápsula, voltado para a
Terra, era horroroso em toda parte, especialmente na Europa,
não, onde quer que fosse.
Apesar disso, continuei sendo o maluco que só podia ser
e chamei: Terra! Terra, fale! Responda Terra! Sem temer re-
:petições, eu chamava meu planeta azul, agora enegrecido.

145
No começo, ainda vinha uma salada de palavras, que não
deixava de ser familiar, pois ouvira uma mistura semelhante
de disparates naqueles filmes tecnicamente perfeitos que re­
tratavam a partida final — abreviaturas, siglas, impropérios,
números de código, sei-lás —, em seguida, minha voz ficou
sozinha comigo, tornando-se então cavernosa, sinistra. Tentei
mesmo atrair companhia — Que é que o senhor diz disso, seu
Oskar? Então, contente de ir à Polônia e ver a senhora sua
avó? —, fiz esforços para salvar a floresta no filme mudo, en­
tremeei gritos, pedindo que minha Damroka ligasse o motor
do navio de pesquisas; mas apenas ela ela ela aparecia na ima­
gem: desta feita insistente, irada, o pêlo eriçado, todas as vi-
brissas em alerta.
Objeções — Que é isso, ratazana? Eu não sirvo para via­
gens espaciais! — ela ignorava. O que a fizera rir no começo
do sonho, caso esse sonho pudesse ter começo ou fim, os co­
côs de rato do tamanho da unha do mindinho esfarelados
junto a maxicomputadores, agora lhe aumentava o ódio: Típi­
co! Não é de hoje! Tão cômodo, jogar nas nossas costas as
falhas humanas. Nós, sempre, tendo que arcar com as conse­
qüências de tudo. Quando a peste, o tifo, a cólera os assola­
vam, quando, ante a fome que grassava, só sabiam aumentar
os preços, diziam sempre: os ratos são nossa desgraça, ou, às
vezes: os judeus são nossa desgraça, freqüentemente ao
mesmo tempo. Não queriam suportar tantas desgraças juntas.
Por isso, tentaram encontrar alívio. Programaram o extermí­
nio. Adiantando-se a todos os outros povos, o povo alemão
sentiu-se chamado a desoprimir a humanidade, e a determinar
o que é rato, e a exterminar, se não os ratos, pelo menos os
judeus. Embaixo dos barracões e entre eles, nós estávamos lá,
em Sobibor, Treblinka, Auschwitz. Não que, por nosso turno,
tivéssemos computado os ratos desses campos, mas 4esde en­
tão sabemos que o homem, metodicamente, transforma em
números seus semelhantes, números que se podem cortar,

146
passar simplesmente um traço por cima. Anular era o termo
que usavam. Contabilizavam as baixas. Como poderiam ter
nos poupado, se, à semelhança dos judeus, éramos seu pre-
textb mais vagabundo. Desde Noé: era o jeito deles. Por essa
razão, até o fim: são os ratos! Eles fizeram, foram eles! Maldi­
ção, ratos, não há dúvida! E isso em todos os sistemas de
computadores, dos russos, dos americanos também. — Até
acabarem, jogavam a culpa em nós, feito criancinha.
Eu nunca tinha visto a ratazana com que sonho pular da­
quele jeito de uma imagem para a outra, fora de si: esprei­
tando aqui, pronta para atacar ali, e, agora, girando atrás do
rabo como que possuída. Por qué ela não ria, como há pouco?
Por que não descarregava em mim, sua pedra de amolar, o fio
de seu humor? Ninguém poderia parecer mais ridículo que eu
em minha cápsula espacial. Ratazana, chamei, vamos, ria disso!
Continuou amargurada, explicou-se diversas vezes, fazia
questão de ser inocentada, absolvida. Exigia a posteriori uma
demonstração rigorosa. Em última instância, perguntou a
mim, como se eu pudesse providenciar ou impedir qualquer
coisa: Por que, nas duas centrais de computadores, chamaram
imediatamente — e sem mais nem menos — de cocô de rato
os excrementos encontrados? Por que não determinaram um
exame das fezes? Não seria porventura concebível que outros
roedores tivessem acionado os programas da partida final? Os
porquinhos-da-índia de vocês, tão bonitinhos, por exemplo?
Ou não pode ter sido, o que é de se supor, sujeira de camun-
dongo, que estava lá? Por que só podemos ter sido nós, sem­
pre nós?
Protestei indignação, falei de desleixo englobando os dois
blocos, disse que era um escândalo que nenhum americano ou
russo tivesse analisado a sujeira, mas, no fundo, pensava: é
claro que só mesmo os ratos. Quem, fora os ratos, poderia ser
tão persistente...

147
Eu a escutava, a meia-voz agora, como se a raiva de nada
servisse: Enquanto o mundo ainda tinha ouvidos, voltavam
sempre a martelar no resultado de nossa pretensa atividade
subversiva — a execução irremediável, até a etapa final, dos
programas Fazer a Paz e Paz dos Povos, determinada por for­
ças de obediência alienígena. Fim de mensagem!
Já não mais saltando na imagem, mas sim recolhida em si
mesma, vibrissas fora de ação, a ratazana disse: Nós sabemos
que foram camundongos. E camundongos que atuaram segundo
um plano humano, que eles são burros demais para agir por
iniciativa própria. Com o auxílio de camundongos adestrados,
uma potência protetora queria paralisar os computadores de
comando da outra, para poder arrasá-la, e vice-versa. Plano as­
tucioso.
Foram camundongos dê laboratório, brancos com olhos
vermelhos. Soubemos por intermédio de nossas ratazanas de
laboratório, cuja inteligência também deixava a desejar, mas
que pelo menos eram de confiança. Depois de anos de expe­
riências, tinham conseguido obter crias treinadas para ativida­
des programadas previamente, funcionando como se tivessem
sido alimentadas com silício. E claro que a biotecnologia não
deixou de contribuir. Seja como for, os órgão de segurança
das potências protetoras conseguiram introduzir esses camun­
dongos especiais junto ao inimigo, simultaneamente, como se
seguissem um impulso.
Como se pôde ver, fizeram um trabalho fantástico; em­
bora esse elogio tenha de sofrer restrições, pois se refere ape­
nas à sensibilidade com que colocaram os camundongos pro­
gramados. Pensativa, a ratazana acrescentou: erradamente
programados, é preciso que se diga, pois as centrais de com­
putadores não foram paralisadas, os camundongos, burros
como eles são, acionaram em vez disso a contagem rçgressiva,
simultaneamente nas duas centrais; a Grande Explosão, como
diremos daqui para a frente.

148
Mas ratazana, exclamei, no fundo isso é engraçado!
De certa forma, disse ela, não deixa de ser, basta pensar
na burrice desses camundonguinhos.
Na minha opinião, disse eu, a constatação: camundongos
no computador! seria bem mais plausível e faria melhor figura
que essa acusação maligna: ratos!
Sim, sim, concordou ela, novamente alegre, embora pen­
sativa e distante: No fundo, deveríamos nos divertir com essa
derradeira bobagem. Camundonguinhos bonitinhos de labora­
tório deram fim na orgulhosa, na magnífica, na poderosa espé­
cie humana. Por mais trágico que seja, também é evidente, não
é? Não há dúvida de que tudo isso parece leviano. Ninguém
que se preze gostaria de ser posto fora de campo de uma
forma tão banal.
Tive a impressão que a ratazana cismava.
Vamos, fale! exclamei.
Alguma coisa está faltando.
Sim! exclamei, a perspectiva!
Ela disse: Tudo isso parece um descuido irrefletido, uma
das costumeiras porcarias dos homens.
Confirmei: Uma pane deplorável.
E por isso, disse a ratazana, que eu não considero tão er­
rada assim aquela primeira suspeita que se baseava nos coco-
zinhos de rato e levava logicamente à conclusão: ratos nó
computador! Na realidade, quem deveria ter agido éramos
nós, e não aqueles camundongos idiotas. E razões nós tínha­
mos de sobra.

Para economizar as taxas em Stege e Klintholm Havn, A


Nova llsebill ancora num domingo diante de Klint, em M0n,
para seguir na segunda-feira rumo a Gotland. Depois de ter-
me dado as últimas instruções referentes ao caso Malskat, o
Sr. Matzerath decide visitar ainda um leilão de moedas na
quarta-feira, partir na quinta, percorrer a Polônia na sexta e

149
chegar à Caxúbia no sábado antes do aniversário de Anna Kol-
jaiczek. Como eu quero que assim seja, a partida vai ficar
adiada para sexta-feira; mas parece que a coisa aconteceu num
domingo.
Domingos são adequados, disse a ratazana com que so­
nho. Os domingos eram intrinsecamente catastróficos. Esse
sétimo dia de uma Criação mal e porcamente feita estava de
saída predestinado a suprimi-la de novo. N a época humana, o
domingo — que também podia chamar-se sabbath ou como
quer que fosse — servia sempre para declarar anulada a se­
mana precedente.
Resumindo! exclamou ela, como invariavelmente fazia
quando minhas objeções — esses resmungos! — cruzavam sua
torrente de palavras; resumindo: com todos aqueles sistemas
de controle intransponíveis, reinava uma autêntica atmosfera
de domingo nos dois abrigos centrais. Sobre aqueles monito­
res e telas que abarcavam a extensão dos diversos continentes,
pairava um brilho especial; um sentimento, digamos global, de
férias iminentes se espraiava. N os grandes salões, em que não
se encontrava uma só mosca, ouvia-se, entretanto, um zunido,
aquele zunido inconfundível do tédio dominical. Quem via
gosto na faina e no repouso humanos podia imaginar que o
sétimo dia fora assim: tudo a postos, mesmo que passível, aqui
e ali, de melhorias.
E claro que, fora dos abrigos centrais, não faltavam pes­
simistas e detratores, que até nos domingos procuravam onde
botar defeito; mas, mesmo assim: era gratificante. Sem dúvida
se erguia potência armada contra potência armada, mas ao
mesmo tempo potência estava assegurada contra potência:
através do terror cuidadosamente dosado, com auxílio de dis­
positivos de controle que fiscalizavam dispositivos de contro­
le, pela transferência da responsabilidade a chips e clips, de
forma que não sobrara espaço para decisões do desleixo hu­
mano, essa propensão a comportar-se desrespeitando regras,

150
já comprovada desde os tempos de Noé. Aquele foco tradi­
cional de insegurança, o homem, tão amável quanto espontâ­
neo, agindo a priori errado, prestava agora serviços secundá-
riõs: sem responsabilidades.
Podíarpos vê-lo, despreocupado, solto, livre num sentido
superior. Nessa situação, era lícito que ousasse brincar com os
monitores. Dava entrada numas bobaginhas, armazenava na
memória, comentando com humor os resultados do beisebol
no âmbito dominical de uma potência protetora, ou os resul­
tados futebolísticos do fim de semana no âmbito da outra.
Tudo isso sem permissão explícita, é certo, mas tolerado com
indulgência, desde que nada se passasse nos telões, e neles
nada se passava.
Que beleza de harmonia! Encontravam-se no nível mais
avançado do conhecimento e mostravam uma alegria inocente
por um saber tão vasto. As horas universal e local permitiam
comparações em que o domingo de um lado amanhecia em
seus albores, enquanto do outro já chegava ao fim. Consultas
de rotina faziam tudo ficar ainda mais seguro. Além disso, era
sabido que a responsabilidade se aninhara em outra parte.
Tocava-se para a frente o servicinho secundário, e não havia o
que errar.
Passavam-se as horas, a universal e a local. O Dynamo de
Kiev e os Dodgers de Los Angeles tinham vencido. Ligeiras
alterações nas colocações de tabela, nada de sensacional. Ten­
dência preponderantemente positiva nas outras notícias. N e­
nhum terremoto ou inundação, nenhum avião seqüestrado,
nem mesmo uma notícia de putsch. Só não estavam previstos
aqueles ruídos estranhos nos computadores centrais, ruídos
que não tinham sido solicitados a nenhum dos instrumentos
de controle; depois da descoberta quase ocasional dos cocozi-
nhos, um estalido mínimo teve de ser encarado como força
soberana — tarde demais!

151
Nós não conhecemos o domingo, disse a ratazana. Sa­
bíamos, porém, que na esfera de domínio das potências, prote­
toras o gênero humano se dava ao luxo de domingos, e que
aos domingos se mostrava sonolento e, no íntimo, irritado,
pelo mundo afora. Sempre consideramos os homens como ca­
pacitados a todo o possível, bem como e simultaneamente ao
contrário de tudo isso. Era a impressão que davam: dispersi­
vos, pois perdidos em pensamentos, na eterna nostalgia de de­
sejos ^ tardas, carentes de amor, procurando vingança, inde­
cisos entre o Mal e o Bem. Constatamos que o homem, in-
trinsecamente dividido, nos domingos era dado a esfacelamen­
tos particularmente numerosos. Tinha, então, existência im­
própria. Perdido no empurra-empurra de suas disposições.
Esfarelando-se apesar de todo o afinco em servir. Acresce que
uma melancolia incontida parecia inundar a sociedade huma­
na, como se lhe desse prazer lançar olhares de adeus aos obje­
tos a que se afeiçoara; até o impalpável e, portanto, envolto
em conceitos, como Deus, a Liberdade, ou o que considerava
Progresso, Razão, era despedido. Assim, nos próprios centros
de segurança aquela atmosfera de melancolia pairava sobre
cada aparelho.
Foi por isso que o dia do Senhor nos pareceu adequado.
Foi por isso que aconteceu num domingo de começo de ve­
rão. Em junho, no ápice da temporada esportiva. Utilizamos
como de costume os esgotos, encontramos os dutos de manu­
tenção dispostos sob os alicerces dos superabrigos, atacamos
os computadores centrais por baixo, atravessamos sem esforço
o metal leve, aproveitamos nossa experiência, descobrimos ao
primeiro olhar onde o quê a quem, apalpamos com nossas di­
minutas graciosidades, introduzimos nosso código no ponto
decisivo, que infectou imediatamente todos os sistemas de se­
gurança acoplados, deixamos, porém, em funcionamento òs
programas de controle costumeiros, para disfarçar, e, no cen­
tro dos dois circuitos, ao mesmo tempo na diferença de tem­

152
po, assim que nossa senha “N oé” desencadeara lá e cá todos
os impulsos, começamos a contagem regressiva.
Nós, disse a ratazana, nós provocamos apenas o que o
homem a si mesmo destinara: o bastante para, nas palavras de
seu Deus vingativo, desfazer toda carne em que há espírito de
vida; dava diversas vezes e ainda sobrava, tal era a profundi­
dade com que os humanos queriam extirpar a si e às outras
criaturas. Chueles por terrech! — Fim de expediente na Ter­
ra! exclamou ela.
Como acionamos quase que em silêncio o programa en­
contrado, e, de qualquer forma, aquele contínuo domingo não
dava margem a maiores atenções, não nos descobriram,
tornando-se, assim, necessário deixar alguma indicação.
Abandonamos a caixa e depusemos nosso cartão de visitas.
Um empreendimento arriscado, que só por acaso deu certo.
Descobertos pouco depois, os corpos estranhos deram, então,
lugar a hipóteses, seguidas do diagnóstico: fim de todos os
domingos!
A partir desse momento, falamos da Grande Explosão.
Nada disso! exclamou a ratazana. Não nos arrependemos de
nada. Tinha de ser assim. Quantas vezes não os alertamos, em
vão. Nossas passeatas à luz do dia foram bastante claras. E,
apesar disso, não aconteceu nada que pudesse diminuir nossas
preocupações. Aquelas notícias difundidas pouco antes do úl­
timo dos domingos foram reações histéricas, simplesmente ri­
dículas, que nem merecem ser mencionadas. Disseram ter
visto contingentes de nuvens soltas, numa formação plástica,
sobre o Báltico ocidental. Não teriam sido nuvens isoladas,
correndo de noroeste para sudeste, mas sim um interminável
cortejo de mais de cem mil pequenas nuvens que tomaram os
céus do Sul da Suécia e, depois, da ilha de Gotland: uma mar­
cha de ratos-nuvens, populações de ratos marchando nebulo­
sas, não, não eram carneirinhos, eram claramente nuvens com
a cinzenta figura de ratos, esticadas, apressadas, as longas cau­

153
das dispostas de rato a rato como traços-de-união. Tudo isso,
esse sinal aterrador dos céus, teria sido observado e fotogra­
fado em ilhas dinamarquesas, de navios, das costas do mar
Báltico, além de filmado e interpretado como advertência
divina. Até mesmo ateus teriam exclamado: é o típico apo­
calipse!
Não acredite nisso, amiguinho. Nós éramos capazes de
muita coisa, por último de suprimir a calma do domingo
usando os programas humanos de Fazer a Paz e Paz dos Po­
vos, mas produzir configurações de nuvens, elevar-nos a sinal
dos céus, isso nós não podíamos.

Protesto, ratazana! Você ainda está aí na gaiola pintada de


branco, forrada de serragem que eu vou trocar amanhã, para
que minha ratazaninha de Natal, que está crescendo, continue
passando bem; e eu estou aqui, sentado a seu lado com meus
papéis. Nossos planos entopem a agenda. O navio tem de
atracar pontualmente em Visby. A viagem dos punks para
Hameln está acertada. E quando o Sr. Matzerath, dispondo de
um visto válido, partir para a Polônia, nós vamos desejar-lhe
boa viagem; antes, porém, vamos pedir-lhe que nos indique
outros presentes para sua avó, que devem ser acomodados na
mala do Mercedes.
Ele está se despedindo de sua coleção de moedas de ou­
ro, que vai mudar-se para um cofre bancário antes da viagem
começar — podemos vê-lo pesando nas mãos ducados-duplos
de Mansfeld, o meio luís-de-ouro, o guilherme-de-ouro de
cunho prussiano, a peça de um rublo da época do segundo
Nicolai^, um pequeno punhado de táleres da Saxônia e de
Nassau. E comovente ver como lhe custa despedir-se do ouro,
pois diversas peças ele deita em veludo nas gavetas de uma
caixinha, o maximiliano-de-ouro da Baviera, por exemplo, o
valioso ducado de Sigismundo Augusto de Danzing, do ano
de 1555, algumas decadracmas da Trácia, e aquela moeda chi­

154
nesa de cunho recente, ouro de vinte e quatro quilates, mos­
trando o urso-panda em toda a sua graça mais preciosa —, mas
quer-nos parecer que ele não se despede definitivamente do
ouro, que ele, antecipando-se agora a seu retorno, já prevê o
valor aumentado de seus tesouros, embora o preço do ouro
venha diariamente caindo.
Outros produtos de suas viagens numismáticas são trans­
feridos para uma caixinha que deve acompanhá-lo à Polônia; o
Krügerrand de uma onça, cujo estampo reproduz o antílope
sul-africano, Vrenelis suíços de diversos pesos, um táler lu-
tuoso de Hohenlohe com relevo brilhante de cunho fresco, e
duas moedas comemorativas cunhadas na União Soviética,
tendo a bailarina Ulanova e o cantor Chaliapin como motivo.
E nós nos perguntamos o que isso quer dizer: por um lado as
despedidas, por outro, a seleção. Não consegue separar-se do
ouro? O u porventura a Polônia será agraciada com ouro?
Agora, ele acrescenta moedas mexicanas e, para finalizar, o
dominador do mundo, o dólar de ouro dos EUA.
Mas qualqúer que seja o seu plano, o Sr. Matzerath pensa
no futuro e pula de um apontamento para o outro; como eu,
que também estou ocupado até em meus subterfúgios; ou o
navio, tomando rumo a meio caminho; ou o pintor Malskat,
que, mal acabara de pintar a seu gosto a catedral de Schleswig,
foi logo absorvido por outras incumbências altamente góticas:
da primavera de 39 até princípios de setembro ele trouxe
prestígio ao Hospital do Espírito Santo, em Lübeck. Isso, na
cidade hanseática do maçapão e do processo, até hoje não
querem aceitar. Autêntico gótico! continuam exclamando os
especialistas em arte; autêntico Malskat! diz, seguro de sua ca­
ligrafia, o pintor, nesse meio tempo amargurado, que já há
muito se retirou para uma ilha no charco de Deepen, só
dando acesso a quem grita: vem buscar!
N o Hospital do Espírito Santo, eu também pintei imita­
ções perfeitas, até ir para o exército, diz ele quando pergun­

155
tam; pois poucos meses antes da convocação de Malskat, a Se­
gunda Guerra Mundial começara em todas as fronteiras da
Polônia.
Teve o pintor de despedir-se da tinta de contornos
castanho-avermelhada, da escova de aço e do saco de pó-de-
arroz, da alegre solidão no alto dos andaimes de sacras cons­
truções norte-alemãs, dos golpes de ar e do eterno resfriado
de verão; mas o soldado Malskat não perdeu a esperança de
que após a guerra se lhe abrisse uma ou outra igreja,‘cujos
coros, contrafortes e arcos de janela pudesse de tal forma de­
leitar com suas mãozinhas góticas — bem no alto, sempre, e
alheio a quaisquer comparações de época.
E nós? Não é menor nossa esperança. Continuamos, mi­
nha ratazana de Natal e eu, dentro de nossa ordem, com o
Terceiro Programa preenchendo as pausas: Ei! ainda estamos
aqui, presentes em extensos comentários. Ouvimos ò que se
passa, acontece, é adiado. Para nós, até o informe do nível das
águas são mensagens. Não abrimos mão, nem*de nós, nem da
floresta. Estamos loucos por futuro, embora eu, confesso, es­
teja com uma sensação de perda nos andares mais baixos; pois
quando sonhei que tinha de despedir-me de todas as coisas,
sonhei também que tinha de despedir-me de toda carne em
que há espírito de vida...

Com nova lã a bordo, alvejada ou tingida, comprada em


Stege numa casa de lãs de preços estáveis, perdida entre as lo­
jas de liquidação e suas tabuletas de Udsalg, o navio delas an­
cora a menos de uma milha marítima da Klint, em M0n, diante
da costa escarpada de giz que se eleva, abrupta, atingindo uma
altura tal que de seus cumes cobertos de árvores pode-se ver
o planalto da ilha de Hiddensee junto à ilha de Rügen, se a
visibilidade for boa. Lançaram a âncora dupla num ponto de
grande significado.

156
Damroka as chama, a todas, e vai dizendo os nomes di­
namarqueses: do Dronnjngeskamlen e Dronningestolen até o
Storeklint, passando pelo Hytjedals Klint e chegando ao Lil-
leldint. No brilho que emana da costa de giz à luz da manhã, o
verde do mar a seus pés se turva, leitoso; tão logo a tarde cai,
a costa ameaça, fechada em sombras. O maciço esbranquiçado
se contrapõe carrancudo ao mar cujo cinza se ajustou à cor
camuflada dos navios de guerra de Leste-Oeste.
— Foi exatamente aqui — diz a timoneira — que as mu­
lheres, que naquela época ainda tinham sei lá que esperanças,
soltaram o linguado. Ela, entretanto, não o chama, não quer
atraí-lo: “Diga alguma coisa, linguado!” nem maldizê-lo: “Seu
embusteiro, seu mentiroso, sujeito de merda é o que você é!”
Elas estão sentadas à frente da cabine de comando, enco­
lhidas a sotavento. Olhando o mar sereno ou escarpas de giz
cheias de gretas, quatro das cinco mulheres fazem tricô e fa­
lam de si como se tivessem de livrar-se de restos. Udsalg, a
liquidação de queixas compridas que ficaram encalhadas.
Também a velha, que não tricota, fala de si, enquanto
descasca batatas, limpa cenouras, destripa arenques; o sêmen e
as ovas ela repõe no peixe limpo. São arenques do Báltico, sa­
borosos, menores que os do mar do Norte, e que estão su­
mindo do mercado.
O assunto das mulheres varia, mas gira sempre em torno
da mesma história: arquivados, desgastados, duros e cansados,
aproveitadores, fracassados, por um tempo adoráveis, agora
enfadonhos, é dos homens passados que ela trata. E dos filhos
de uns e de outros, que não querem mais ser crianças, e sim
adultos, todos eles, pois as mulheres a bordo da barcaça A
Nova llsebill são abastadas em anos; nisso a velha, que nem
mais conta os seus, não está sozinha.
A timoneira diz o nome de três filhas, cada uma delas ge­
rada por um pai diferente. Ela diz: — Agora elas são indepen­
dentes e não se deixam amarrar que nem sempre foi comigo,

157
porque eu custei a largar da idéia de que a dois também dava
certo, estava convencida dessa besteira. E dava sempre errado.
Não ficou nada. Só as meninas, mas também para elas eu fiz
tudo, tudo mesmo, para que com elas não acontecesse como
comigo, burra do jeito que eu era, me deixando sempre enga­
belar.
E tricotando, apesar de todo o falatório, um pulôver de
três homens, ela fala dos pais de suas filhas (“Um deles bebia,
o outro vivia atrás de mulheres, e o terceiro só pensava na
carreira”), fala bem deles, mas principalmente mal: — Não
quero me queixar, que eu também não fiz muito sacrifício. Do
jeito deles, eram até muito bonzinhos, todos os três, mas
muito estropiados. Só que durou demais. E eu sempre levei a
pior. Só hoje é que eu superei isso finalmente.
A maquinista ainda não conseguiu por sua vez decidir-se
entre dois homens, um israelense e um palestino, que moram,
ambos, em Jerusalém, sem disposição de serem um homem
só. Ela vive repetindo isso: — Fantástico! Teria sido o máximo
se desse para pegar os dois e fazer um único sujeito. E nem
eram assim tão opostos, do jeito gue se olhavam através dos
óculos escuros. Podiam ter feito camaradagem, até negócios,
com a mania de carro que tinham. Botavam uma oficina jun­
tos, carros usados e essas coisas, por que não? Mas viviam
tendo que brigar. E eu no meio, feito barata tonta. Já nem sa­
bia mais o que era certo, nem em política. E como falavam:
sempre com a maior lógica. E nessa, nenhum dos dois cedia. E
de certa forma, todos os dois sempre tinham razão. Eles uma
fera: não se meta nisso! e eu sem saber o que fazer. Eles me
usaram. Diziam por trás: vamos ver se a gente leva na con­
versa essa alemã complexada. E eu era mesmo, estava carre­
gada de complexos. Tudo trazido de casa. Vivia querendo fa­
zer tudo çertinho. Reconciliar os dois, ver se dava para eles
ficarem irmãos, pois é, fazer dos dois um sujeito só. Mas eles
só pensavam em si mesmos, até que eu me mandei de uma

158
hora para outra, com a criança que um deles me botou na bar­
riga. E ainda deixei um bilhete em cima da mesa: escrevam,
quando entrarem num acordo. Mas eu não quero mais, nem
se* eles. Enchi deles! — diz a maquinista, que ultimamente
anda tricotando meias de homem.
Então, ela ainda fala do garoto: — Acabou de se recusar a
fazer o serviço militar — diz ela, a fim de que todas saibam
para quem são as meias. E a oceanógrafa tricota coisinhas de
criança, sempre coisinhas de criança, cor-de-rosa e azul-claro,
porque ficou avó muito cedo, “cedo demais”, como ela diz.
Tudo o que aconteceu na vida dela, e em geral foi mau e
deu errado, aconteceu ou cedo demais, ou tarde demais, razão
pela qual ela conclui ou introduz suas histórias com indicações
de tempo: — Eu tinha que ter descoberto isso mais cedo, ou
pelo menos suspeitado, não é mesmo? Mas é claro que aí já
era tarde demais. Ah, se eu tivesse ido a tempo para Londres,
e sozinha, de qualquer forma antes de ter ido para Bruxelas
com anos de atraso. Foi só quando tudo isso já tinha passado,
que eu compreendi, tarde demais. Porque se eu tivesse feito
oceanografia no começo, em vez de ir para a escola de intér­
prete e mais um diploma e mais outro, para ficar de dona-de-
casa, ainda por cima diplomada. Mas não. Um bebê, e mais
outro, e mais outro, e todos cedo demais. E o divórcio, tarde
demais. E o novo cara, cedo demais. E agora que eu estou
começando a ser eu mesma, a ser simplesmente eu, viro avó,
cedo demais, isso não é engraçado?
— Homem de Deus! — exclama a velha, que não faz
tricô para ninguém, e sim limpa cenouras. — Homem de
Deus! Vocês, mulheres, estão mas é doidas. Como se essa
bosta que está por aí só fosse porcaria de homem, sem apela­
ção. Eu só tive um, ele já morreu. Era do jeito que era, e foi
ele que eu quis. Sei lá se foi cedo demais ou tarde demais.
Veio e ficou. Até que a morte levou ele de mim, de uma hora
para a outra. Mas lugar para outro homem ele não deixou não.

159
Tá ainda aí. E melhorar, também não melhorou. Continua do
jeito que era. E olha que não era fácil, mais de criar problema.
Fez das suas. E como, meu Deus! O que eu não tive de engo­
lir, às vezes. Ou fazia que não via, e pronto. Pensava: ele
acaba voltando. E voltava. Mas uma vez ele trouxe uma dona
para casa, lá de Wiesbaden.. Parecia um cabide de roupas cheio
de penduricaihos por cima. Disse que era para eu ficar amiga
dela. Moça nova, jeitosa, se chamava Inge. O u ela ou eu, eu
disse. Aí, ele não pensou muito. E depois disso, tudo jóia.
Mas também não tinha sido moleza o que a gente tinha pas­
sado aqueles anos todos. Ou bem era pré-guerra, ou bem
pós-guerra, e no meio era guerra. Que nem hoje, quando a
coisa pode começar amanhã mesmo. — A velha faz um gesto
de repulsa. — Só amor de verdade é que conta — diz ela.
Em silêncio, Damroka tricota seu cobertor de restos de
lã, tão longo que daria para aquecer todas as cinco mulheres.
Antes que a timoneira possa recomeçar, ela diz: — Sempre fui
boa de amor, porque sou lenta desse jeito. Se a gente não
nota quando ele começa, quando ele acaba, não sofre o pior.
Até quando não havia nada, mesmo assim eu amei. Não dá
para guardar dentro da gente. E os homens, pois é. O que eu
tenho agora, até que se esforça, fica bastante comigo, quando
não está de viagem...
Voltou a calar-se, porque é lenta desse jeito e tem de se
alcançar. Vê, então, todos aqueles arenques recheados de sê­
men e ovas, que a velha enfileirou sobre a tábua de picar, ca­
beça junto de rabo; conta quantos são, chega a onze, e tem de
rir, pois a conta lhe traz de volta a servidão na banqueta do
órgão.
— Vocês já sabem — diz Damroka —9 em dezessete
anos, onze pastores. E todos onze eu deixei para trás. So­
bre o primeiro não há mais nada a dizer. O segundo, vocês
também já conhecem. O terceiro se foi em tempo. Mas o
quarto me veio com ares suábios, com mania de pietismo.

160
Não tinha noção de liturgia, mas Jesus Nosso Senhor vivia fa­
lando com ele, até quando o sujeito estava sentado na priva­
da... — É assim que Damroka enumera seus saias-pretas.
•—O quinto era de Uelzen, doido por um licorzinho... —\
ela não deixa nenhum de fora. — O sexto era metido a alter­
nativo... O sétimo, bem, a mulher dele fugiu com o sacristão...
Mas o oitavo e o nono também...
Nesse meio tempo, as outras tricoteiras continuam fa­
lando como para evitar que a linha acabe, de modo que só
pela noitinha, depois que os penhascos de giz escurecem, vem
um vislumbre, espécie de pressentimento: não é a lã que logo
vai chegar ao fim, são os homens, que não dão mais nada. Elas
comem, caladas, o cozido de batata com cenoura, salpicado de
manteiga e salsa para dar gosto, acompanhando os arenques
fritos, onze ao todo. Os klinten de M 0 n se aproximam, acin­
zentados. Como tudo foi dito, ninguém quer dizer mais nada.
Essas histórias só servem para dar sono.
As mulheres descem à cabine de proa, a maquinista na
frente; lá embaixo, mesmo com o barco parado como está,
suas redes balançam, uma juntinho às outras. Ruídos da velha
lavando a louça; depois, ela desce a ponte. Somente a rede de
estibordo ainda se enrosca, vazia, Damroka ficou no convés
com sua caneca de café: — Vou ouvir o boletim meteoroló­
gico — diz ela —, venho logo depois.
Assim que a faixa negra de nuvens começa a desfazer-se a
partir do noroeste, nuvenzinhas em flocos correm contra um
céu ainda claro, pois no Norte demora a escurecer quando é
verão. Uma multidão de farrapos esfiapados. E como se bi­
chos de nuvem fugissem sem cessar. Na superfície da água
não venta, mas lá em cima a coisa está agitada. Minha Damro­
ka, porém, não quer decifrar o céu; são outros os desígnios
que procura.
Atrás da cabine de comando, alguém chama o linguado,
três vezes. O linguado, que antes só aos homens falava, a

161
quem unicamente a causa masculina estava confiada para o
que desse e viesse, ele, cujo conselho custava caro até que sua
longa história terminou mal, no que recolheu-se em si mesmo
só querendo então ser escravo de mulheres, de fêmeas unica­
mente, ele, o linguado três vezes chamado, responde a Dam­
roka de trás da popa da barcaça, onde ela está agachada, de
forma que seus cabelos caem sobre os joelhos.
O que eles conversam passa voando por mim. As per­
guntas dela se formulam lentamente, ele dá respostas breves.
Eu não o vejo, embora seja de se supor que ele tenha tomado
posição à beira d’água, ao alcance da mão; mas eu vejo as ou­
tras mulheres subindo da cabine de proa pela escotilha, atrás
da timoneira. Elas guardam distância, agrupadas em torno de
um lampião de querosene. A velha segura ó lampião. Se eu
estivesse agora embaixo do convés, poderia dèitar-me em to­
das as redes. Mas não posso. Estou de fora. Também a mim
deram as despedidas.
Damroka concluiu sua conversa com o linguado. De có­
coras como está, os cabelos continuam caindo-lhe sobre os
joelhos. Não se espanta ao ver as outras mulheres sobre a
proa, espremidas em torno do lampião. Iluminadas dessa
forma e aproximando-se passo a passo, as quatro parecem uma
pintura. A velha na frente, com o lampião. — E então? — diz
ela. Que é que ele sabe?
Por mais calmamente que Damroka fale, toda cheia de
pausas, para apartes não sobra espaço. Ela não dá ordens, ela
constata: — Não há tempo. Vamos recolher as âncoras ime­
diatamente. Rumaremos direto para Gotland. Nossos docu­
mentos se encontram lá, carimbados. Só sobra meio dia para
Visby e um desembarque. A história das águas-vivas acabou.
Ele diz que o fim está chegando. Ele diz que precisamos estar
diante de Usedom, sobre a depressão de Vineta, o mais tardar
no sábado antes do pôr-do-sol.

162
As pedras de giz, caídas do penhasco,
que se encontram, cinzentas e negras,
amontoadas na costa de M 0n, são, parece,
mais velhas que se pensa.

Somos turistas, um verão após outro.


Espreguiçando, erguemos a cabeça
e olhamos para o alto das escarpas de giz,
os klinten, com seus nomes dinamarqueses.
Vemos então no sopé, ao nosso pé, empilhadas,
pedras-de-fogo, agora com as curvas de um corpo,
algumas de arestas cortantes.
*
E raro, sempre mais raro,
a sorte nos tocar como vôo de gaivota,
e vermos bichos que viraram pedra,
assim um ouriço.

Adeus a M 0n e à vista de lá.


Adeus à ilha do verão e das crianças,
poderíamos ter envelhecido junto a ela,
ficado mais dinamarqueses. Adeus
a radares erguidos para proteger-nos
sobre bosques de faia.

Ah, pudéssemos nos conservar deitados no giz,


até que em exatos setenta e cinco milhões de anos
venham turistas da nova espécie e, tocados pela sorte,
encontrem partículas nossas, petrificadas: minha orelha,
teu dedo que aponta.

163
0 QUINTO C a p í t u l o , no qual uma cápsula espacial gira, o Sr.
Matzerath vê a coisa preta, a ratazana se queixa da falta de medo,
a fachada da cidade de Gdansk fica incólume, as mulheres brigam
pelas águas-vivas, Joãozinho e Maria conclamam à ação, prossegue
a educação da espécie humana e é feito um discurso comemorativo.

Eu tentava sonhar folhetos de viagem, quando ela disse:


Finalmente, depois que os abrigos centrais das duas potências
protetoras alvejaram um ao outro, ficando arrasados, uma vez
transcorrido o tempo previsto, de forma que não sobrou nada
que pudesse dar um pio — pois nossas ratazanas especiais se
desincubiram até o fim de sua missão — ; depois que tudo si­
lenciou e parou por toda a extensão da Terra, sobre os mares
e até nas alturas do espaço sideral, exceto as tempestades que
cruzavam os ares espalhando globalmente a poeira e fuligem,
de forma que em toda parte reinaram as trevas; resumindo:
depois que chegou o último dia, um único e inofensivo saté­
lite de observação não se desviou de sua órbita, demonstrando
até mesmo que estava tripulado, pois seu ocupante, um ho­
menzinho pouco versado em técnica, que não estava a par do
jargão dos astronautas nem dos dados que seus aparelhos de
medição continuavam a transmitir, incansáveis e cuja aptidão
para tarefas no cosmos parecia duvidosa, não parava de cha­
mar Terra! Responda, Terra!, de forma que fomos obrigados a
dar-lhe a entender, com muito tato, que ele seguia sua órbita
completamente abandonado, explicando por que "cessara a
comunicação entre os homens e que na Terra apenas nós con-

164
tiiluávamos a existir. Assim que abandonamos nossas galerias
— o que não deixava de ser perigoso — chamamos: N ão fique
triste, amigo, não vartlos deixar você na mão. N o futuro, so-
,mos nós que respondemos quando você chamar Terra! Res­
ponda, Terra!
Não, disse eu, não! Como falar de minha Damroka com a
ratazana se intrometendo? Como podem seus cabelos jorrar
sobre meu papel, se uma pele lisa importuna todo sonho?
Como dizer que as mulheres rumaram das falésias brancas de
M 0 n para Gotland, no Báltico oriental, se desde ontem — ou
quando foi o último dia, ratazana? — essa viagem, como a via­
gem do Sr. Matzerath, que quer de qualquer jeito ir à Polô­
nia, acabou, foi-se, passou para sempre? Ah, se existisse uma
esperança em algum lugar, um fiapo de vida, tímidos sinais
humanos: ainda estamos aqui. Voltamos a nos mexer. Alguns
remanescentes começam de novo, com pá e enxada. N ós va­
mos, no futuro...
E verdade, disse a ratazana, vocês gostavam dessa idéia
como final, depois de catástrofes, no cinema como na vida: a
entrada em cena de heróis machucados, mas sobreviventes,
além da arca salvadora, sempre na mais moderna execução, e a
lenda inabalável da história que continua. Mas a história de
vocês acabou. Lamentamos profundamente!
Voltou a falar com a voz ungida de compaixão: O ho­
mem! Sobrevivendo-o, sentiremos sua falta. Depois de tanto
tempo em sua sombra, perguntamo-nos: pode-se, porventura,
conceber o rato sem o homem? Capazes de tolerar a radiação
de seu espólio, poderíamos mesmo assim definhar. Roídos
pela saudade da espécie humana, ficaremos doentes, decrépi­
tos. Ah, dissemo-nos logo depois da Grande Explosão, se eles
pudessem permanecer conosco, nem que fossem apenas alguns
exemplares. E já antes do último dia, dizíamos: doch omin-
cher jissorech! Que será de nós sem suas histórias, onde
temos cadeira cativa? Sem seu arrepio por causa dos ratos que

165
talvez estivessem em algum canto, quem sabe até nadando
com os dentes arreganhados na privada? Enquanto a época
humana ainda durava, embora chegando visivelmente ao fim,
nossa dor prefigurou a sua ausência, e decidimos conservá-lo
em quantidade controlável. Infelizmente, só conseguimos
poupar uflr. Ah, não fosse você em sua cápsula espacial, em
sua órbita, você com suas histórias e mentiras lindamente en-
cacheadas, você, nosso amigo, conservando fielmente a ima­
gem do homem para nós, e teríamos de cair em desespero.
De tal forma a ratazana se queixava, cheia de saudade' de
nós, enquanto nosso fim sucedia, inapelável. Mas eu repliquei,
apresentei-lhe fatos atuais. Gritei meu riãonãonão! como se
fosse possível livrar-me do sonho^conjurei o Terceiro Pro­
grama: já vamos ouvir o Espelho^da Imprensa, O utra realidade
se anuncia. Disse que em breve haverá gasolina sem chum bo..
Afirmei que a fome se resolve por si mesma, falei da próxima
conferência de cúpula que certamente iria realizar-se, dos es­
forços pela paz em Estocolmo e outras partes, até do Papa e
de seus próximos planos de viagem eu lhe falei. Apesar de
todo o ceticismo, já podemos recobrar a esperança, exclamei,
sem querer acreditar no que acontecia. Escute aqui, ratazana!
concluí, ainda hoje vou plantar uma árvore.
Então ela falou comigo como a uma criança: Está bem. Si­
ga em frente. Sonhe, amiguinho, sonhe com o que lhe vier à ca­
beça, com as mulheres que precisar, com o gótico malskatiano,
com os ducados de ouro do Sr. Matzerath. Gostamos dessas suas
evasivas. N ão precisa se incomodar com o que sabemos. Faça
de conta que a espécie humana ainda vive. Acredite simples­
mente que vocês existem: numerosos e ativos. Você tem seus
planos. Q uer salvar a floresta. Pois faça ela sarar, faça o navio
de pesquisas prosseguir, permita que as mulheres que você
tanto gosta contem todas as águas-vivas e larvas de arenque do
mar Báltico, deixe que o pintor pinte o emboço com engano­
sos perus e madonas, e deixe seu homenzinho corcunda partir

166
afinal para a Polôhià, antes que seu visto acabe perdendo a va-
lidade.
Ah, é mesmo, disse a ratazana antes de sumir, e continue
ouvindo o Terceiro Programa, como se notícias ainda
houvesse...

Seria preciso dissuadi-lo. Ele deveria mandar um tele­


grama: “Lamento não poder vir pois adoeci.” Uma inflamação
da próstata, por exemplo. Sua avó seria compreensiva. A boa
Anna Koljaiczek sempre compreendeu tudo.
Não se deveria de jeito nenhum exigir dele essa viagem:
é uma viagem de volta. Tanta coisa passada que pode entrar
em ação, mexer com ele, assustá-lo. Afastado de seu andar da
diretoria, longe de sua mesa descomunal, dos pés deficus ita­
liano, ele voltaria de repente a ter fundo, origem, cheiro de
estábulo caxúbio.
Deveria ser poupado, pois assim que perguntam sobre
sua infância o Sr. Matzerath se refugia no aconchego de frases
menores. Só de passagem ele menciona o tombo na escada do
porão, qualificando seu crescimento de “contido” ou “hesitan­
te”, como se os primórdios de sua vida ainda o fizessem so­
frer. Ele não chega de fato a negar as excursões pela cidade
velha e a roça caxúbia, as etapas e aventuras no subúrbio de
Langfur, em Danzig, notórias e chegadas até nós. Mas assim
mesmo se recusa a confirmar qualquer episódio, como sua
contribuição em defesa dos Correios Poloneses, ou as faça­
nhas referentes ao vidro, do alto da Torre do Calabouço. Ele
deixa em aberto seu número na tribuna, bem como a rápida
turnê no Atlantikwall, dizendo no máximo: “Não faltaram
acontecimentos notáveis na minha infância e juventude.” O u
então: “O senhor, principalmente, não deveria acreditar em
tudo o que está escrito, não obstante meus primeiros tempos
terem transcorrido de forma mais fantasiosa do que certos es-
cribas imaginam.”

167
O que o Sr. Matzerath prefere mesmo é ficar calado,
restringindo-se a sorrir com sua boquinha. Perguntas insisten­
tes ele despacha com rudeza: “Deixemos minha infância tran­
cada. Ocupemo-nos do amanhã. Tudo indica que a chuva con­
tinua. Horrível.”
Por isso, eu afirmo: ele não deveria viajar. Não existe a
volta. Poderia acabar sendo uma viagem sem retorno. Sua
próstata não é de brincadeira, ela é sensível, dada a irritações.
Onde já se viu: sentir falta de seu ambiente! Um empresário
de sucesso pode viver muito bem sem fundo. Sobram exem­
plos em Düsseldorf. Ontem, quando fui visitá-lo em Oberkas-
sel, para despedir-me, tendo a sensação de que sua mansão es­
tava à sua altura apesar da fileiras de aposentos sem vida, eu
lhe disse: — É melhor o senhor não viajar, seu Oskar.
Ele não quis ouvir. Falou de Maria e dos aborrecimentos
que Kurtinho diariamente lhes causava — “O garoto vive con­
traindo dívidas por toda parte!” —, chamou o obeso quaren-
tão de filho degenerado, e levou-me, então, a seu museu no
subsolo e, em seguida, ao salão, dando explanações como se as
peças expostas, da década de 50, por exemplo a coleção de
cacos de preciosos copos de vidro, tivessem para mim o cará­
ter das mais recentes aquisições. Sua frase: “Meu relaciona­
mento com o vidro sempre foi peculiar”, magoou-me; para
que me visse como seu contemporâneo, foi necessário che­
garmos diante das fotos emolduradas de Bebra, então famoso
cômico de revistas. — O senhor sabe que o sucesso de Bebra
como empresário de concertos se deveu à minha aptidão para
a mídia — disse ele. — Quantos grandes espetáculos com a
casa cheia! — A transição: “Isso foi durante minha carreira de
shvw-marí’, levou-o a desenrolar seu tema predileto, o co­
meço dos anos 50, ele próprio, Maria e Kurtinho, sem esque­
cer o pintor Malskat, que ele gosta de assimilar aos estadistas
na época preponderantes.
Diante de seu pedido de fornecer-lhe detalhes — “Sou
aferrado a detalhes!” —%prometi uma vez mais realizar a pes­
quisa. Lamentei, porém, que quase não exista material sobre o
período da primavera de 40 até maio de 45, em que Malskat
estava no exército, e tentei objetar que não era possível colo­
car simplesmente num mesmo saco dois estadistas tão opostos
e um tardio pintor gótico, falando sem mais nem menos de
um triunvirato. Mas, então, mudei de assunto e perguntei de
chofre ao Sr. Matzerath o que ele comprara de presente para
os cento e sete anos de sua avó.
Ele mencionou visitas a negociantes de moedas e apontou
para uma caixa envernizada que podia servir de cofre de jóias.
— Além disso — disse ele —, encomendei um bolo-tronco al­
tíssimo, que já foi entregue. Uma produção extra de vídeo
também faz parte dos presentes; só quero ver como os meus
caxúbios milagreiros vão receber essa brincadeira mediai.
E então o Sr. Matzerath falou, bem-humorado, de um
saco cheio de smurfs que ele vai dar de presente às novas e
numerosas proles de crianças caxúbias. Ele levantou o saco de
juta e disse, segurando-o como se pesasse um tesouro:
— Cento e trinta exemplares! Veja — tirou um punhado
do saco, sem escolher, e mostrou —*, é uma turminha que dá
duro. Olhe aqui, um smurf é pedreiro, o outro é mecânico.
Dois deles jogam tênis, outros dois bebem cerveja. Esses
aqui, com ancinho e foice, lavrando a terra. E eles tocam lia
banda da roça: um na corneta, o outro na flauta, e esse aqui
no baixo, e esse, olhe, olhe só, está rufando o tambor, u;n
tambor vermelho e branco.
Mal lhe escapara a palavra até então evitada, o Sr. Matze­
rath calou-se, só voltando a falar, pouco adiante, em termos
comerciais. Andava de um lado para outro, em passinhos cur­
tos, os dedos cruzados sob a corcova. Falou da crescente con­
corrência no mercado de vídeo, de furto, roubo, piratas do ví­
deo. Uma coisa tão antiquada como um filme de cinema seria

169
quase impossível de financiar. Mas podia ser que o tema da
morte das florestas permitisse arranjar subvenções do Estado.
De qualquer jeito, essa idéia exigiria um roteiro com ações pa­
ralelas. — Rumpelstino — sugeriu ele — poderia, por exem­
plo, se apaixonar. E, aliás, pela menina com as mãos decepadas.
Seriam possíveis cenas tocantes. — Em seguida, ele quis saber
se um final positivo para o filme mudo Florestas de Grimm,
mesmo não sendo concebível, não seria factível: — Não é pre­
ciso que todo conto de fadas termine mal.
Por fim, Oskar colocou-se diante de um espelho dimen­
sionado para atletas, mexeu na gravata, postou-se de corpo in­
teiro, ora de um jeito, ora de outro; com uma escova, ele deu
vida à coroa de cabelos prateados que envolvia a careca bron­
zeada, gozando da bênção perene de reflexos luminosos, e
disse, enquanto seus cabelos ainda crepitavam: — Aliás, como
vai sua ratazana de Natal? E seus sonhos, continuam tão catas­
tróficos?
Quando me despedi, desejando “boa viagem” e pergun­
tando, entre uma coisa e outra, se o bolo-tronco para Anna
Koljaiczek teria acaso noventa e quatro centímetros de altura,
o Sr. Matzerath ainda conseguiu espremer um sorriso de sua
boquinha, mas seus olhos estavam arregalados de medo.
Desde que marcou a partida — viaja amanhã, finalmente! — ,
anda metido a Cassandra.
Ele deveria enviar um telegrama, deveria seguir meu con­
selho. Quem, como ele, deu para ver a coisa preta onde quer
que olhe, não deveria ir à Polônia. O Sr. Matzerath está ate­
morizado.

Quantas vezes nós nos perguntamos: por quê? Mas,


desde a Grande Explosão, sabemos o que faltava a vocês. Era
o medo, disse a ratazana. Doch omincher nhumes halemoch!
repetiu ela em língua de rato, e passou então, mais num tom
de conversa, a relatar nosso caso: E verdade que em incòntá-

170
veis ocasiões o homem ficava com medo, e que ele fez seguro
contra tudo, até contra o mau tempo e o adultério, de tal
forma que a humanidade ficou sempre mais viciada em segu­
ros .globais. Mas, enquanto os pequenos temores floresciam e
davam lucro fácil, o grande medo, digamos assim, pulverizou-
se. Diante do altar do deus Segurança, vocês gritaram, uns
para os outros: agora, não precisamos mais ter medo. Nada de
deixar-se assustar. Vamos nos intimidar mutuamente. E o
principal é que a intimidação seja a sério. Os russos sabem
disso, os ianques também. Quanto mais nos intimidarmos,
maior nossa segurança.
Assim, vocês se imbuíram de coragem, disse a ratazana.
Intimidando-se mutuamente, vocês expulsaram o medo, degrau
por degrau. Ele estava interditado, não podia aparecer em par­
te alguma. Ninguém queria ser visto em sua companhia. No fi­
nal, os homens eram covardes demais para terem medo; e quem
o apresentasse em público, ou, como os punks, o exibisse em
forma de rato, como se os ratos fossem a encarnação do me­
do, era empurrado para fora. Vocês queriam ficar livres do
medo, como das preocupações, do pecado, das dívidas e,
como sempre, da responsabilidade, dos empecilhos, dos es­
crúpulos, ratos, judeus. Mas o homem livre do medo é parti­
cularmente perigoso.
Depois de longos silvos em língua de rato, manifestando
asperezas, pura raiva, a ratazana disse: Pois vimos vocês fica­
rem cegos e, em seguida, imbecis pela falta de medo. Nossa
liberdade vale qualquer sacrifício, rezava uma das frases he­
róicas que se liam nos cartazes; e, no entanto, vocês já tinham
há muito sacrificado a liberdade ao ídolo da Segurança. Vocês
não eram livres. Vocês eram prisioneiros de uma técnica que
armazenava tudo, trancando a chave as últimas dúvidas, de
modo que no fim foram extirpados livres de responsabilidade.
Doidos! Os últimos restos da Razão, feito pedacinhos de quei­
jo, vocês deram de comer aos insaciáveis computadores, para

171
que eles assumissem a responsabilidade; e dentro de vocês,
mesmo assim, ficou aquele medo três vezes renegado, amar­
rado, embrulhado lá no fundo, enterrado, impedido de sair,
de se mostrar, de gritar mamãe!
Vejam, disse a ratazana, nosso medo era patente, vocês
poderiam ter nos procurado e dito: queridas ratazanas,
ensinem-nos a viver com vocês. Nós, homens, fizemos a tolice
de acreditar que nos bastávamos. Tudo o que realizamos, pen­
samos, esprememos entre rimas, transformamos em música
polifônica, em torre que se alçava sobre si mesma, tinha sem­
pre em mira a imortalidade. Mas, ultimamente, nos aborrece a
idéia de que, no futuro, não mais existiremos, mas sim vocês,
tão-somente vocês. Pedimos de coração que nos ensinem a
sermos imortais como vocês. Nunca mais vamos lhes fazer
mal, nem falar mal de vocês, nunca mais. Por favor, queremos
aprender!
Absurdo! teríamos exclamado, disse a ratazana. Teríamos
protestado com horror. Até mesmo nós somos mortais. Tam­
bém a espécie dos ratos é passageira, e desde que o rato se
entende, ele sabe que tem começo e fim. Mas, tivéssemos nós
podido ensinar-lhes, a primeira lição teria sido assim: de hoje
em diante, a educação da espécie humana vai parar de falar de
eternidade. O homem vive enquanto vive. Depois da morte,
não há nada. E fora o lixo, dele nada vai restar. Vocês homens
devem portanto ter medo, atemorizar-se, ser mortais como
nós, talvez vivam um pouquinho mais, então.
Eles, porém, não falaram conosco, disse a ratazana. Esta­
vam vidrados em sua partida final. Nenhuma advertência
adiantava. Fizemos de graça nossa exibição como bandos de
ratos apavorados. E só perdemos a paciência depois que nossa
última tentativa de dar-lhes, a eles que não tinham medo, o
medo essencial à vida — produzimos nuvens negro-acinzen-
tadas figurando ratos fugidos — levou unicamente acomentá-
rios idiotas sobre miragens ou a correspondentes citações da

172
Bíblia. Desistimos então dos homens, acabamos com eles, an­
tes que eles, para nossa surpresa, tivessem podido apertar o
botão zinho...
Fiquei calado: Continue, ratazana, continue!
Ela falou por muito tempo ainda, em termos gerais e tom
professoral, até dar por mim na cápsula espacial e dizer: Você,
amiguinho, é o único que nos ouve e é compreensivo — tar­
de demais, porém. Omincher nibbelet ultemoch! como dizía­
mos então. Mas temos uma notícia que vai dar-lhe alegria.
Na sua terra, lá de onde você vem, as coisas ficaram um pouco
como antes, com aquele aspecto bem gótico. Pode ser que
isso lhe cause surpresa, mas era assim que estava previsto na
última concepção dos homens, cuidadosamente.
Veja! disse ela, mas apareceu apenas sua própria imagem,
afirmando que quatro ou cinco bombas de resguardo, detona­
das sobre Gdansk, teriam eliminado toda a vida na região ur­
bana, nas vizinhanças da foz do Vístula e até na Caxúbia; co­
mo, porém, o impacto fora fraco, tendo o projétil de ogivas
múltiplas sido detonado a novecentos metros de altura, todos
os prédios históricos da cidade foram preservados, bem como
os pombais de apartamentos das adjacências e as instalações
do porto. Tudo isso estaria de pé, com estruturas e paredes.
Apenas a Porta do Guindaste de madeira fòra consumida pelo
fogo, e todas as vidraças, inclusive vitrais de igreja, estavam
perdidas.
Ela disse: O resto ficou muito pior. A cidade industrial de
Gdynia e as cidades vizinhas de Weihjerowo e Sopot estão
destruídas até os alicerces, mas onde você nasceu daria para
viver. No período do frio cortante e da escuridão opressiva,
os vendavais de poeira e cinza cobriram de fuligem todas as
paredes, tudo o que tinha ficado intacto, mas, apesar disso, a
fisionomia da cidade não foi comprometida; conservou sua be­
leza, alegre-se!

173
A conferência que a ratazana fez a seguir foi de tal modo
técnica e prolixa, que até sonhada chegou a cansar. Resumin­
do, ela disse: Essas armas especiais representavam ulteriores
desenvolvimentos daqueles projéteis táticos de nêutrons,
produzidos para Lance, o míssil de curto alcance, e que, no
começo da fase final, deram lugar a polêmicas exigindo inclu­
sive que fossem proscritos, já que seus efeitos, que resguarda­
vam apenas os corpos sólidos, foram considerados inumanos.
Do ponto de vista dos ratos, não nos cumpre contradizer tal;
pode-se, porém, argumentar em favor desse sistema que veio
mais tarde a ser altamente desenvolvido: a produção de bom­
bas de nêutrons de efeito sobre grandes extensões possibili­
tou, finalmente, a proteção de monumentos culturais. No
mais, ambas as potências dispunham desse potencial compro­
metido com o patrimônio da cultura. Segundo nossas infor­
mações, numerosos conjuntos de prédios históricos ficaram
intactos pelo mundo afora. Infelizmente, e apesar de esforços
de todas as partes, Jerusalém sucumbiu; as pirâmides reunidas
em Gizé perduraram, entretanto, conseguindo conservar sua
fisionomia que também a nós é familiar. Em cima da hora, um
acordo entre as duas potências protetoras delimitara um nú­
mero equilibrado de zonas de resguardo, de forma que as
grandes instalações de computação ainda puderam ser repro­
gramadas segundo esse último acordo cultural...
A ratazana, que tinha até então povoado meu sonho
como que no ar, terminou sua conferência sentada numa artís­
tica jarra de cobre batido de origem flamenga, final do século
XV. Sua conferência imprimia sempre novo impulso à jarra,
de forma que esta rolava, obrigando a ratazana a correr em
sentido contrário.
Ela não é linda? disse ela, de alta qualidade e merecendo
ser preservada?
Eu disse: Essa jarra e coisas parecidas eu conheço," lá do
museu da Fleischergasse. Nos meus tempos de escola, èu, já

174
então doido por arte, ia muito ao museu: com meu bloco de
rascunho e a cabeça cheia de minhocas. Às vezes, eu ia até du­
rante o recreio, porque o ginásio era bem ao lado...
A ratazana falou, de dentro de sua jarra que rolava: E se
essa peça de museu da Fleischergasse sobreviveu, além de ou­
tros objetos artísticos, foi graças àquela bomba que, na fase
final do período humano, foi chamada Amiga das Artes, em­
bora se soubesse quão limitada era essa amizade...
Com um salto rápido', ela abandonou a jarra de cobre,
que ainda ficou ressoando por longo tempo, enquanto, no
primeiro plano, a ratazana prosseguia seu relato: As imagens
se assemelhavam em todo lugar. Nos centros culturais res­
guardados do Ocidente, o homem encolhia, pois perdia toda a
umidade até o momento da morte. Meses depois da Grande
Explosão, assim que a escuridão se levantou e o frio amainou,
nós, ratos, saímos àquela luz ainda sombria, dando uma arru­
mação geral, e vimos, então, homenzinhos de pele curtida, em
geral andando de quatro, rastejando, tentando pôr-se de pé,
como se mesmo no fim ainda quisessem recuperar a capaci­
dade de andarem erguidos. Que gestos! Que riqueza de lin­
guagem, a daqueles corpos sofridos! Os tempos de êxtase do
gótico antigo nos vinham à mente. Não, nunca antes tinha o
homem encontrado tal força de expressão como em seu es­
tado de enxugamento.
E eu vi o que a ratazana com que sonho evocava como
passado, vi corpos atrofiados e nanicos caídos pelas ruas e pra­
ças, empinando-se uns sobre os outros, vi-os diante de palá­
cios da Renascença enegrecidos pela fuligem e sobre escada­
rias de prédios de fachada gótica, diante dos portais de igrejas
com paredes de tijolos, todas elas nobres e belas sob a camada
de fuligem: intactas as abóbadas e ogivas, nenhuma rachadura
nas colunas, os santos todos presentes, as torres todas de pé,
não faltava um fecho, uma cimeira, uma torrinha; o homem,

175
porém, reduzira-se a/ um invólucro, a uma imagem encolhida
de si mesmo, servindo por fim, eu o vi, de alimento aos ratos.

Não ouvem o que eu digo. Isso tinha de acontecer A


Nova llsebill segue pelo mar calmo rumo a Gotland, a todo va­
por, mas a bordo da barcaça, que dá seus oito nós, as opiniões
se chocam asperamente.
As mulheres brigam. E como sabem sussurrar e gritar,
lançar farpas e dar alfinetadas, ser cruéis. Pelos tempos afora,
tragédias de rainhas que se digladiam encontraram quem as
representasse. Papéis imortais. Vozes, proferindo a maldição e
excomungando. Perfis, cada qual mais nítido. Mãos que gesti­
culam, lançadas contra osxéus. Indicadores alongados, invoca­
ções. Cabelos revoltos como o recôndito da alma. Um movi­
mento joga fora, outro recolhe. Pelo jeito de andar para cima
e para baixo, de fazer do navio um palco a céu aberto, balan­
çando sobre os pés, ou imóveis como estátua, sem deixar que
a tensão jamais decresça, reconhecem-se os anos de prática
que têm essas mulheres: só briga assim quem, brigando, se
sente mais bonita.
Mas por que brigam? De quem é o domínio a defender,
reconquistar, dividir? Digam, rainhas: qual é a coroa em lití­
gio?
E do rumo do navio que se trata: percorrer, como previs­
to, os recifes ao sul da Suécia, recolhendo águas-vivas, ou, só
porque o linguado falou, ir direto para Visby na ilha de Go­
tland e partir de lá imediatamente para a costa rasa de Use-
dom, como que se deixando acossar por esse peixe achatado?
Eis a timoneira: — Primeiro as águas-vivas! Quando é
que vocês vão finalmente compreender que um dia o Báltico
vai morrer? Não apenas nas profundidades de mais de trinta
metros. Não! Fedendo inteirinho, morto. *

— Mas em 8 1 a baía de Kiel já estava praticamente mor­


ta. N o ano seguinte — aqui estão os números, informem-se!

176
— ela voltou a viver. A mudança de clima ajudou, vento sufi­
ciente, correntes que se deslocaram. — Essa é a oceanógrafa,
que está cheia da oceanografia e de tudo o mais, e por isso
anda querendo ir com Damroka até Vineta.
A timoneira grita de dentro de seus cabelos esvoaçantes:
—r Clima! Vento! Que merda! Essas oscilações estão fora da
influência humana. A tendência mostra que ele morre! — A
maquinista ajuda: — E as águas-vivas? Nossas medusas, tão
bonitinhas, tremendo e melando? Nosso maldito objeto de
pesquisa, a Aurelia aurita?
Como Damroka mantém o rumo, calada, depois de proi­
bir várias vezes qualquer coleta com o tubarão-medidor, é a
oceanógrafa quem fala em seu lugar: — No fundo,, as águas-
vivas são uma pròva de que o Báltico está vivo. Pois onde há
vida, há plâncton. Onde há plâncton, há larvas de arenque em
quantidade suficiente. E onde há abundância de larvas de
arenque e de plâncton, como por exemplo na baía de Kiel,
também há um número significativo de aurélias, entendido?
— Sim! —- grita a timoneira. — Até o mar virar uma
água-viva. Uma única Aurelia aurita.
A maquinista mantém-se inflexível: — Nossa incumbên­
cia é...
Damroka fica calada. A velha ouve, balançando a cabeça.
Cozinha afora e pausa adentro, ela diz: — Vocês estão ruins
da bola! — ou: — Típico bate-boca de mulher! — ou: —
Chega dessas malditas águas-vivas, se não eu vou cozinhar
água-viva para vocês, com alho-poró e erva-doce.
Certo, o problema é o rumo, mas, por trás disso, há uma
briga pessoal entre as mulheres, uma briga que vem de longe
e parece imbricada e intrincada. Talvez sejam palavras ferinas,
de que se recordam, e que eu esqueci, como se não fosse co­
migo. Por mais próximas que as cinco estejam umas das ou­
tras, por mais que seja irmã pra lá, irmã pra cá, quando faz
bom tempo, à primeira contrariedade, elas entram em choque.

177
Excéssc? de rainhas. Isso poderia acabar em assassinato, pre­
meditado ou por repentina inspiração. Imagino grampos de
cabelo envenenados, certos pozinhos. Qual delas pretende
misturar arsênico ou estricnina na caneca de café de Damro­
ka? Ódio pega fogo, quer tirar do caminho. Como se costuma
dizer elas não se dão. Mas minha cabeça exige que se en­
tendam.
O linguado fica de fora, pois Damroka é a única a falar-
lhe. Por isso, enquanto a briga dura, às águas-vivas pagam o
pato. Embora, no fundo, se trate de mim e, principalmente,
de Vineta, novo destino da viagem, as palavras são: quando é
que o Báltico vai morrer? Deve-se considerar a infestação de
águas-vivas como perigo ou prova de vida? Mas, no fim das
contas, por que estamos discutindo sobre essas aurélias?
Elas pertencem à família das sifomedusas, não são águas-
vivas urticantes, que produzem queimadura; são, assim, ino­
fensivas, um tanto monótonas em seu azulado pálido e leitoso,
mas cheias de beleza para quem admira naturezas transparen­
tes ou, vendo-as, cai em devoção como se estivesse diante de
anjos.
Aurelia aurita, a aurélia vulgar, está disseminada em
quase todo o litoral entre setenta graus de latitude norte e se­
tenta graus de latitude sul. As correntezas fizeram-na correr
mundo. Observadas em Hong-Kong e nas costas das Malvi­
nas. Presença maciça no mar Negro e nãs águas do litoral ja­
ponês e peruano. Bloqueiam a entrada da água de refrigeração
de usinas elétricas. Como os gafanhotos, os bóstricos e os ra­
tos, também as aurélias têm a designação geral de pragas.
Como todas as medusas se separam sexualmente em ma­
chos e fêmeas, a timoneira fica enfezada. Fala em “mania da
natureza”, mas se deixa em parte apaziguar quando a oceanó­
grafa demonstra que o esperma dos machos não é absorvido
diretamente, mas com o alimento. A fecundação dos óvulos,
no ovário, se passa de forma quase que incidental. Os óvulos

178
maturados se deslocam pela cavidade gástrica até a bolsa de
incubação etcétera, etcétera.
N a sala de pesquisas da llsebill, que ao mesmo tempo
setve de refeitório e sala de estar, há gráficos pendurados en­
tre as vigias, mostrando, esquematicamente, o ciclo evolutivo
das aurélias, sua presença, e a influência do regime de ventos
local sobre os contingentes de águas-vivas. Um gráfico de­
monstra a densidade de aurélias no fiorde de Kiel, um outro
na baía de Lübeck, o terceiro diante das escarpas de giz da
costa de M 0 n, o quarto nos recifes suecos, o quinto entre Go-
tland e Oland, e o sexto a Leste de Rügen, na enseada de
Trampe e diante da ilha de Usedom. Todos os gráficos, pen­
durados pela oceanógrafa, que lhes acrescentou explicações
em letras redondas e facilmente legíveis, baseiam-se em dados
de pesquisa levantados no fim da década de 70 e princípios
dos anos 80.
— Fundo de baú! — diz a maquinista, que dá pouco valor
à pesquisa e muito à vivência direta. — Quando partimos on­
tem de Klint, em M 0 n, nosso motorzinho me contou até que
ponto o mar está infestado de águas-vivas. Deveríamos mon­
tar um contador na hélice do motor. Em todo caso, sempre
que atravessamos campos de águas-vivas, eu constatei uma re­
dução de um nó. Como freiam, essas medusas de vocês!
Com um mar sempre calmo, coberto por farrapos cinzen­
tos e velozes formando um tapete de nuvens esgazeadas, A
Nova llsebill passa por Bornholm, seguindo rumo a Visby, em
Gotland. N o mar aberto, os contingentes de águas-vivas dimi­
nuem, todavia, as medições intermediárias situam-se sensi­
velmente acima da média. A timoneira exige que o tubarão-
medidor seja lançado de meia em meia hora, com velocidade
reduzida. A maquinista a apoia, a oceanógrafa cede — “já que
nós fomos incumbidas dessa pesquisa idiota” — e a velha fala
ora de um jeito, ora de outro. Assim, Damroka é obrigada a

179
aceitar a redução de marcha; com um gesto que dá a transi­
gência por virtude, ela entrega o leme à timoneira.
— Não fique chateada! — diz-lhe a velha.
— Isso é perda de tempo — diz Damroka, mais para si
mesma.
— Um absurdo, essas medições. A incidência é mínima.
N em se compara com 81 — diz a oceanógrafa.
E Damroka, que, sem que eu saiba por que, recobrou su­
bitamente a serenidade, diz: — Sempre houve anos de águas-
vivas. N a transmigração dos povos godos, por exemplo, quan­
do, depois do sorteio, a primeira leva queria deixar Gotland
para trás. Os velhos godos tiveram que penar no remo. Parece
que precisaram de meio dia, até saírem do campo de águas-
vivas e conseguirem finalmente içar as velas e entrar para a
História. E em 1613 — exatamente em 26 de junho —,
quando os veleiros de Gustavo Adolfo chegavam à ilha de
Usedom para desembarcar perto de Peenemünde com quinze
mil camponeses suecos e finlandeses, não foi contra Tilly ou
Wallenstein que ele teve de lutar conio o diabo, e sim contra
as águas-vivas, que eram católicas fanáticas e tinham preso os
botes de desembarque do rei numa gelatina. Mas isso não im­
pediu que os godos chegassem a Roma e ao próprio fim, nem
que os suecos ficassem um bom tempo na Alemanha. Portan­
to, gente, não há razão para perder a calma. Tudo visto e sabi­
do. O mar já existia antes de nossas preocupações.
Esses cachos, essa abundância, essa confiança à prova do
tempo. Sua persistência, que desmancha qualquer briga como
um pulôver tricotado às pressas. Ela serve para metáforas.
Procuro abrigo nos cabelos de Damroka. Seu barco corre
agora a todo vapor. A timoneira parou de reclamar. A oce­
anógrafa anota os últimos dados. A maquinista assobia errado,
em algum lugar. N a cozinha, a velha prepara almôndegas com
molho agridoce de alcaparras. As mulheres ficaifi todas con­
tentes com meu prato predileto. Um lindo sonho, com mar

180
calmo e vento de terra. N enhum a ratazana me interrompe. Só
o Sr. Matzerath, pelo telefone do automóvel: está a caminho,
com o chofer. Encontra-se entre Düsseldorf e Dortmund, em
► seu Mercedes. Deseja que eu aproveite sua ausência. O caso
Malskat ilumina os sombrios anos 50. Ele não quer ter pre­
ocupações na Polônia. Claro que volta. Ele é um joão-
teimoso, diz, e nem eu, nem ninguém, pode acabar com ele.
Previne contra falsas esperanças. Fim das instruções por tele­
fone.
Ah, Damroka! Veja só com que candura o mar faz suas
ondinhas. Que história é essa de fim do mundo. N o sonho,
ainda há montes de planos. Amanhã, volto a salvar a floresta.

Crianças, brincamo$ de perder-se


e cedo demais nos encontramos.

O que há atrás dos Sete Morros,


sabemos agora: o hotel Atrás dos Sete Morros,
em cuja barraquinha estão à venda
lindas lembranças dos tempos da inocência,
quando nem pensávamos que existia
a síndrome de Rumpelstino

Os contos da carochinha: interpretados.


N a faculdade, fadas boas e más tricotam.
O sistema de cooperativa dos anões.
A bruxa e seu meio social.
Joãozinho e Maria no pós-capitalismo ou
o grupo de empresas do Rei Bicudo.
Uma monografia
sobre o sono profundo da Bela Adormecida.

181
N a opinião dos Irmãos Grimm, entretanto,
as crianças,
se pudessem perder-se, estariam salvas.

Acabou o filme em preto-e-branco. O Espelho Mágico brilha,


apagado. A história de Joãozinho e Maria terminou. Depois
do final do filme, todos riem, inclusive a bruxa, que não leva a
mal o buraco do forno onde fora empurrada. De escafandro
negro, o Rei Sapo abraça os filhos do Primeiro-Ministro, os
quais acham esquisitos e meio irreais os antecedentes da pró­
pria história. Joãozinho diz a Maria: “Pô, sem o happy end a
história seria o maior barato, hem?”
Todo o pessoal reunido na pensão A Casinha de Choco­
late fala agora dos bons velhos tempos em que palha trançada
virava ouro e três penas davam direito a desejos, em que os
contos ainda eram adivinhos. E esforçando-se por evocar o
que passou, eles vão ficando cada vez mais tristes: melancolia
contamina.
Como parou de chover, o Rei Sapo tem de voltar ao bu­
raco do poço, e a princesa com jeito de senhora deita-se para
que o rei com figura de sapo possa saltar-lhe sobre a testa, o
que alivia sua dor de cabeça.
N a escada da porta da frente, está agachada a menina com
as mãos decepadas pendendo, moles, do barbante; ela fita seus
cotocos de braço com a crosta de sangue.
À beira de uma janela do andar superior da Casinha de
Chocolate, Rapunzel penteia seus cabelos: fios dourados ficam
flutuando na imagem.
Diante da casa e das cocheiras, usando os dedos como se
conhecessem a língua dos surdos-mudos, Jorinda e Joringel
comunicam-se sua dor e a tristeza mortal dos antecedentes de
sua história.

182
Bela Adormecida tem sempre de ser despertada pelo
beijo do Príncipe, que executa essa tarefa com indiferença,
embora de forma responsável; a cada vez, Bela Adormecida
• abre os olhos com espanto, para voltar a ser tomada pelo so­
no. (Se bem entendi, o Sr. Matzerath deseja que, em outra
parte, nos estendamos mais sobre o beijo compulsivo.)
Rumpelstino continua dentro da casa, perdido em pen­
samentos diante do grande frasco de boticário em que se en­
contra, conservada em álcool, sua perna outrora raivosamente
arrancada, por sinal do joelho para baixo.
Com o olhar embotado, como se não quisesse mais parti­
cipar, a avó observa Chapeuzinho Vermelho afastar-se, entrar
na jaula, abrir o zíper na barriga do lobo, onde desaparece,
encolhida, fechando-a por dentro.
A Madrasta Má liga um pouquinho seu Espelho Mágico,
vê a si mesma falando ao espelho na versão preto-e-branco de
seu conto, vê em seguida a carinha bonita de Branca de Neve
no espelho, desliga a imagem. Seu olhar cruel procura Branca
de Neve, que está acariciando uma peça de museu, de vidro,
seu caixão em miniatura.
Do jeito que ela brinca com seu colar de orelhas secas ao
ar, até a bruxa parece preocupada. O criado Rübezahl fita suas
tetas enormes e não consegue de modo algum desviar os
olhos.
Joãozinho e Maria tentam em vão consolar as figuras da
carochinha, fazendo caretas e besteiras. Exclamações como:
“Vamos, Rumpelstino, vê se deixa essa perna velha dormir!”
ou: “Posso fazer alguma coisa por você, bruxa?” não adiantam;
todos estão envoltos em tristeza, parece sortilégio. Sofrimento
duro de velho, que consome; mas penas ainda piores estão
por vir.
Os Sete Anões voltam de uma longa viagem, com pastas
007 e ternos de flanela com listras finas. Eles apanham, mal-
humorados, seus sete gorros dos sete ganchos. Trazem notí-

183
cias ruins e exibem as piores provas possíveis: galhos mortos
atestando anomalias de ramagem — “a síndrome de lameta!”
—, córtices doentes; ramos de pinheiro dos quais as agulhas se
desprendem, marrons; raízes ressequidas e material fotográ­
fico mostrando em segmentos miolos apodrecidos de árvores
enfermas.
Esses testemunhos trazem as figuras da carochinha de
volta à realidade atual, até Chapeuzinho Vermelho sai enco­
lhida A~ u',rriga do lobo. Com a legenda: “Os brotos enganam.
As árvores estão em pânico!” os Sete Anões apontam brotos
abortados e falsos rebentos nos ramos mortalmente doentes.
A um aperto de botão, o Espelho Mágico confirma os fa­
tos. Correspondendo à legenda da Madrasta Má, “Espelho, e
na Alemanha, espelho meu, onde é que o bosque quase já
morreu?”, vêem-se imagens do maciço de Fichtel, da Floresta
da Baviera, da Floresta Negra, do Spessart, do Solling e da
Floresta da Turíngia. Arvores derrubadas pelo vento, encostas
de Oeste áridas, árvores tombando, cadáveres de árvores, bós-
tricos.
Rübezahl, deixando de fixar-se na bruxa, quer ver a serra
Gigante: “Eu sou de lá!” Ao que a tela mostra árvores mortas
por todos os lados.
E como se o fim já os tivesse alcançado. Todos sentem
que, caso a floresta morra, eles também terão de morrer.
Branca de Neve e os Sete Anões choram. A bruxa permite
que o criado Rübezahl enfie a cabeça entre suas tetas. Cha­
peuzinho Vermelho quer voltar para a barriga do lobo; mas
todos os que querem sair de fininho são detidos por Joãozi­
nho, que clama: “Aqui ninguém deserta!”
Chegou a hora dos bons conselhos. Com auxílio de uma
longa legenda, Joãozinho e Maria dizem, alternando-se: “Não
fiquem tristes. Sabemos onde encontrar ajuda. Os #Irmãos
Raiva Contida, cujos retratos de outros tempos estão pendu­
rados nas paredes de vocês, são hoje Ministro e Secretário de

184
Estado. Eles estão num ministério especial. A morte das flo­
restas é da competência dos dois. Eles até que continuam sim­
páticos. Os Irmãos Raiva Contida vão ajudar vocês. Ainda não
é tarde demais. Não aceitem isso. Você está ouvindo, bruxa!
Sem a floresta, vocês estão liquidados. Sem a floresta, vocês
deixam de existir. E preciso resistir! Ouçam: é preciso resis­
tir!”
Os Sete Anões são os primeiros a apoiar. “E preciso resis­
tir!” Agora, outros também clamam. A agitação reina na Casi­
nha de Chocolate, e pouco depois, diante dela, um clima de
partida.
Rübezahl e os Sete Anões empurram um velho Ford para
fora da cocheira. Mas, como o automóvel já está parado e de
tanque vazio há muito tempo, a bruxa tem de providenciar
uma gasolina substitutiva, coisa que sabe por receita antiga.
Entre risos e obas a bruxa é colocada sobre o capô do ve­
lho Ford. Ela se agacha sobre um funil, recolhe as saias, mira e
mija exatamente dentro do funil, que o tanque logo ressoa.
Até a menina com as mãos decepadas permite que suas .liiãos
batam palmas. Todos ficam contentes, menos a avó, que re­
clama e exige que Chapeuzinho afaste os olhos. Tanibém a
Madrasta Má poderia mostrar-se consternada. E, espantoso:
Jorinda e Joringel sorriem. A bruxa mija um tempão, olhando
de esguelha com seus olhos cor de âmbar. Os anões gritam:
“mais, bruxa, mais!” Finalmente, ela encheu o tanque do ve­
lho Ford, à maneira das bruxas.
E hora de Rumpelstino escolher a delegação. Como a
Madrasta Má, animada para tanto pela bruxa, recusa-se a
participar — “daqui mesmo, acompanharei tudo atentamente”
—, Bela Adormecida e seu despertador-beijoqueiro tomam
assento no fundo do carro. Um dos Sete Anões é escolhido na
sorte. Ela senta-se ao lado do motorista, Rumpelstino vai na
direção. No último momento, Rapunzel quer ir junto: “Eu
também quero ir à cidade e viver coisas fantásticas!” — “Eu

185
também!” brada Chapeuzinho. Ela empurra Branca de Neve,
que grita “E eu?” — Nenhuma delas pode vir, nem a menina
cujas mãos decepadas pedem por favor.
Diante do radiador, Rübezahl dá o arranque, com uma
manivela. A qualidade da gasolina de bruxa continua de pri­
meira. A ignição funciona, o motor pega, o velho Ford arranca
e sai devagar da clareira, passando entre o lago da floresta e o
cercado das corças.
Maria (que na opinião do Sr. Matzerath gamou pçlo Rei
Sapo) derrama um balde d’água no poço, ao que o sapo pula
da testa da senhora poço adentro e volta como Rei.
Ele, a princesa com um jeito de senhora, Joãozinho e Maria,
todos acenam e gritam atrás do velho Ford. Até as mãos decepa­
das esvoaçam e acenam, presas ao cordão. Os seis anões restan­
tes bradam em direção ao carro o destino da viagem: “Para
Bonn! Para Bonn!” diz a legenda sinalizadora, como se Bonn
fosse a morada da salvação.

Tarde demais, tarde demais! escarnecia ela, apoderando-


se de meu sonho. Agachada aqui e ali sobre uma árvore mor­
ta, ela dizia: Vocês precisavam ter posto essas pernas para an­
dar muito antes. Vocês precisavam ter parado de brincar com
fogo. Vocês precisavam pra cá, vocês precisavam pra lá! A flo­
resta agonizante, esquece, e os rios fedorentos, os mares que
mal conseguem respirar, os lençóis d’água contaminados por
tóxicos, quer que eu enumere? Todas as partículas que im­
pregnam o ar, novas pragas, velhas epidemias que renascem:
denguch e col! Quer que eu calcule o aumento dos desertos e
o desaparecimento dos pantanais, que grite do alto das mon­
tanhas de lixo: vocês são ladrões, exploradores, vocês envene­
nam tudo?!
E lá estava ela no alto de uma montanha, zombando de
' m

nós: uma lástima, o balanço final de vocês! Fome em toda par­


te, e vocês falavam, num jogo de palavras, da fome que roía o

186
estômago. Permanentes guerras locais, que na opinião de vo­
cês deveriam impedir a guerra geral. Milhões de desemprega­
dos, que vocês diziam liberados do trabalho. E outros eufe­
mismo s. E os congressos dispendiosos: milhares de esbanjado­
res viajando sem nada a oferecer. Dinheiro que só aumentava
em forma de dívidas. Idéias desgastadas, requentadas. A inca­
pacidade de sugar um pouco de conhecimento tardio, senão
de novas palavras ideais, pelo menos das antigas que poderiam
chamar-se Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Era éxímio em
iludir-se, o gênero humano que chegava ao fim, sabendo tudo
e burro ao mesmo tempo. E, no final, vocês estavam fartos até
mesmo da sabedoria valiosa que se estendia dos Provérbios de
Salomão ao último livro de Bloch.
Não a ouvia mais do alto da montanha de lixo, esse edifí­
cio do mundo dos ratos, mas sim próxima, ao alcance da mão:
E, no entanto, vocês poderiam ter aprendido conosco. Basta­
ria que tivessem reconhecido nosso Eu como exemplar, esse
Eu saturado de experiência, constantemente enriquecido, que
abriu seu caminho a dente, venceu roendo sempre. Nós, disse
a ratazana que agora mobiliou meu sonho como uma sala de
aula, com quadro-negro, giz e bastão, como se a lousa no an­
dar da diretoria do Sr. Matzerath lhe servisse de modelo, nós
não precisávamos que ninguém mastigasse tudo para nós, até
entrar na cabeça feito matéria de escola. Nós, e não o homem,
aprendemos com as lições da vida. Mas vocês, reincidentes do
princípio ao fim, voltavam sempre a cair em suas próprias ar­
madilhas macetadas, como se isso lhes causasse divertimento
ou prazer. Bastaria consultar o Primeiro Livro de Moisés, por
exemplo — E Deus nosso Senhor falou, veja, Adão se tornou
semelhante e sabe o que é bom e o que é mau —, para saber
que estava podre o fruto que a árvore da Sabedoria de vocês
deu. Ah, seus loucos parecidos com Deus!
Então, ela escreveu. Em meu sonho, a ratazana escreveu
com giz num quadro-negro. Ela, muito lida, arrolou longa lista

187
de danos dos quais nós, seres humanos, poderíamos ter tirado
as lições, caso tivéssemos apenas aprendido com os ratos a
sermos um nós reunido ao invés de um isolado eu. E, en­
quanto escrevia com o giz — de resto naquela antiquada cali­
grafia acentuadamente redonda, que odeio —, a ratazana não
interrompia sua fala, esse chiado estridente e nasalado, seu
resmungo e nhenhenhém.
Tive de ouvir lições: Como estávamos sempre à frente de
seus experimentos, os homens nos consideravam particular­
mente dóceis. O que nos laboratórios fizeram conosco, quer
dizer: o que exigiram dos ratos de laboratórios, produtos este-
réis comparativamente tolos, é sem dúvida, de um ponto de
vista estritamente científico, notável: sem nós, não haveria
medicina humana! Mas, no contato com ratos vivendo em li­
berdade — ratos-de-esgoto na visão arrogante dos laboratório
— os resultados poderiam ter sido bastante diversos, e levado
o homem a outras decisões. Ainda hoje nos excita essa idéia
marcante, merecedora de um prêmio mesmo segundo crité­
rios humanos.
A ratazana perorava, imbuída de uma idéia fixa, sentada,
junto ao quadro-negro, numa cátedra que fazia parte do mobi­
liário de meu sonho. Parecia que falava a um grande público.
Por exemplo: Nós perpetuamos hereditariamente o saber. O
homem vivia tendo de decorar sua tabuada, nós, não! Ainda
nem bem paridos, nós já sabemos o que é preciso saber e
transmitimos esse patrimônio de ninhada a ninhada. Por isso,
sorríamos — dentro das possibilidades dos ratos — sempre
que os homens nos denominavam animais inteligentes, todos
orgulhosos de suas experiências com os chamados ratos de la­
boratório. Esse menosprezo, essa presunção! Ah, se eles tives­
sem permitido que nós testássemos suas repetições compulsi­
vas, que submetêssemos a séries de testes o entulho de seus
recalques, interpretássemos segundo nossos métodos a agres­
sividade inata dò homem, sua crueldade, sua dureza, seu pra-

188
zer no Mal, tudo o que o fazia tão contraditório. Ah, se ele
tivesse aceito nossa assistência e descoberto em nosso meio,
de rato para rato, a'realização de seu mandamento da boca
, para fora de amor ao próximo, que nós nunca proferimos. Se
ele tivesse, repetimos; talvez ele então ainda existisse, o ho­
mem, em si espantoso.
Eu não gostava desse sonho. Eu a acusei das guerras alu­
cinadas entre os ratos, do extermínio do rato preto doméstico,
da propagação da peste, de comportamento parasitário, bebe-
zinhos mordiscados, muita leitura rápida sem provas. E quis
fugir do sonho, enquanto ela refutava pacientemente minhas
acusações: o rático teve de adaptar-se a vocês, para poder so­
breviver. Mas fugir para onde? Para o bosque de fadas? Para o
caimento dos mantos góticos do pintor Malskat? Para o navio
tripulado de desejos e mulheres? Ou diretamente para a Po­
lônia, acompanhando o Sr. Matzerath, sem visto?
A sala de aula continuou trancada. O ensino obrigatório
dominava o sonho. A didática dela não deixava nenhuma es­
capatória, não permitia nenhum estalar de dedos infantil: Pro­
fessora, posso ir... E fato que no sonho o giz não fazia chiado
e não havia cheiro de assoalho encerado, mas mesmo assim
havia aquela caligrafia cuidada e redonda, sofrimento de mi­
nha juventude, com seus laços e pontas que eu era obrigado a
copiar.
A ratazana se queixou: O homem fora ingrato. Vivera
prestando honra exclusivamente a si mesmo. Para nós, apenas
injúria e desonra, nojo e aversão...
Mas eu, ratazana, ouvi-me asseverando, eu enalteço você
linhas a fio e em desenhos tracejados . Em meu brasão sempre
houve posto para você. Jovem ainda, fiz duas ratazanas, cha­
madas Traço e Pérola, conversarem com humor sobre os ho-
, mens, durante uma enchente. E agora, com a velhice diante
dos olhos, cheguei até a desejar uma de vocês de presente de
Natal. Como você sabe, meu desejo foi realizado. Encontrei

189
sua jovem imagem e semelhança embaixo da árvore de Natal.
E como cresce, como cresce minha ratinha, é o que lhe digo!
Vive bem tratada na gaiola aberta, sobre uma cômoda cheia de
papel em branco, e não quer sair, quer que eu a distraia.
À esquerda de minha ratazana de Natal está a mesa, so­
bre a qual histórias em excesso se dispersam em anotações. À
sua direita, sobre a estante de ferramentas, encontra-se nosso
rádio. Ouvimos juntos no Terceiro Programa que a educação
da espécie" humana ainda está longe de ficar concluída.
Confesso: o aspecto é crítico. Em todo lugar realizam-se
festas de encerramento às expensas do Estado. Inclusive artis­
tas participam. Com fogos de artifício e raios laser, gênios
concebem dispendiosas imagens no céu, que prefiguram sun-
tuosamente o fim do mundo, colhendo aplausos. Na Áustria,
o Gólgota foi há pouco festejado diante de um público seleto
— com três mil litros de verdadeiro sangue animal! Tudo
chama-se mito, inclusive a fome que se alastra. E certo, rata­
zana, nós não poupamos esforços para preparar nossa extin­
ção. Consta que é possível trinta e seis vezes seguidas ou si­
multâneas, para que nada dê errado. Muitos dizem: loucura!
Fala-se de resistência. Em Mutlangen, Heilbronn e outros sí­
tios, eu também participei. E talvez, com o tempo, se consiga,
quero dizer, talvez nós homens compreendamos finalmente,
assim tão perto do último dia, que temos de aprender os ensi­
namentos e ficar muito mais modestos, abandonar essa arro­
gância, para que a educação da espécie humana — você se
lembra, ratazana! — volte ao programa, doravante com sua
ajuda...

Era nosso propósito: que, aos poucos, se aprendesse


a lidar não apenas com garfo e faca,
mas com seu semelhante também,

190
além disso com a Razão, o onipotente
abridor de latas.

. Possa, educada, a espécie humana, livremente,


sim senhor, livremente autodeterminar-se, para,
livre de sua menoridade, aprender a tirar
da natureza o hábito do caos, com prudência,
com a maior prudência.

Tenha a espécie humana, que, durante sua educação,


encher-se de virtude, exercitar com afinco
o condicional e a tolerância,
mesmo que seja isso difícil
entre irmãos.

Uma lição particular nos incumbiu


de vigiar o sono da Razão,
para que todo animal onírico, domado,
coma doravante, mansinho, da mão
do esclarecimento.

Parcialmente iluminada, não mais tinha a humanidade


que fazer loucuras, sem plano no lodo original;
pelo contrário, começou a limpar-se sistemática.
A higiene aprendida claramente se expressou: ai
dos sujos!

Assim que nossa educação chamou-se avançada,


o saber foi declarado poder
e aplicado não apenas no papel. Bradaram
os esclarecidos: ai
dos ignorantes!
Como afinal, apesar de toda a Razão, não se conseguiu
eliminar do mundo a violência, a espécie humana
educou-se para a intimidação recíproca. Assim,
aprendeu a manter a paz,, até que um acaso qualquer
interveio, sem esclarecimento.

Com isso, a educação da espécie humana estava,


por fím, praticamente concluída. Uma grande claridade
iluminou cada ângulo. Pena que depois
ficou tão escuro e ninguém mais encontrou
sua escola.

Devia-se escrever a Estocolmo. Muitas pessoas, e em pri­


meiro lugar médicos e cientistas, deviam escrever detalha­
damente a Estocolmo, enumerando todos os méritos dos ra­
tos, para que aqueles cavalheiros compreendam afinal que a
medicina e a bioquímica e a pesquisa de base e sei mais o quê
estariam numa situação lastimável, não fosse a espécie dos ra­
tos. Até que você tem chances, ratazana.
Se imaginamos os senhores da comissão, é possível que
antes de mais nada seja considerado o rato de laboratório de
pêlos brancos e olhos vermelhos, mas todo o mundo compre­
enderá que a distinção visa a todos os ratos. Existirão atual­
mente cinco bilhões e meio; eles ficarão contentes. E eu tam­
bém vou colocar uma nova fita em minha máquina de escre­
ver, intimamente satisfeito, e ligar o botão do outro lado de
sua gaiola, pois nós queremos ouvir isso no Terceiro Progra­
ma, minha ratazana de Natal e eu. De repente, depois que fo­
ram anunciadas Novidades da Ciência, não transmitirão uma
dessas bobagens sobre espaço sideral e satélites; em vez disso,
falarão extensamente de você, pois você — fiqiie contente! —
ganhou afinal o Prêmio Nobel, por seus méritos no campo da
pesquisa genética. O locutor lembra amplamente seus prede-

192
cessores, os professores Watson e Crick, que foram na ocasião
— já se passaram mais de trinta anos — distinguidos pela des­
coberta da estrutura do A DN e puderam viajar para Estocol­
mo; mas então, ratazana, seria a mim — quem mais poderia
ser? — que ouviríamos no Terceiro Programa, fazendo a lau-
datio à meritória espécie dos ratos...
Digníssima Academia! Pudesse eu, começando em solo
sueco, saudar na primeira frase a você, como rato em si, em­
bora você não pareça ter comparecido, para só então apresen­
tar as saudações ao Rei da Suécia, aqui presente. Chegaria tão
logo ao assunto: enfim, Majestade! Não é sem tempo que são
reconhecidos méritos e contribuições para com a medicina, e
particularmente no terreno da pesquisa genética — e da ma­
nipulação genética de tão duradouro êxito —, que, sem a rata­
zana, seriam impensáveis.
Não, minhas senhoras e meus senhores! Não deveríamos
tomar o caminho fácil de limitar nossa homenagem aos ratos
de laboratório. Isso seria ao mesmo tempo um erro e uma im-
propriedade. Devemos considerar a espécie dos ratos em ge­
ral, tão próximos do homem, a ratazana em si. Ela, incompre­
endida e assimilada aos animais daninhos; ela, a quem pelos
séculos afora imputou-se toda desgraça e toda praga; ela, cujo
nome teve de servir como palavra ofensiva, sempre que o
ódio procurou exprimir-se, a boca espumando; ela, motivo
seja de terror, seja de nojo, mas sempre colocada em compa­
nhia da carniça, da fedentina, do lixo; ela, que, no melhor dos
casos, encontrou carinho e confiança junto a jovens confusos
que, de forma gritante e espalhafatosa, colocaram-se à mar­
gem da sociedade; a ratazana deve aqui ser enaltecida, por
seus méritos para com a espécie humana.
Mas poderia dizer-se: o mesmo não vale analogamente
para os camundongos, porquinhos-da-índia, macacos rhesus
cães, gatos, etcétera? Sem dúvida, também esses animais me­
recem nossa homenagem. São indiscutíveis os serviços que

193
prestaram à humanidade. Cães e macacos foram, além das ra­
tazanas, os primeiros mamíferos enviados ao espaço. Lem­
bremos o nome de Laica, a cadelinha soviética. A expressão
cobaia tornou-se proverbial. Estou, outrossim, seguro de que
os membros da Academia Sueca, escolhendo os candidatos
dignós do prêmio, ponderaram acuradamente se a honra não
deveria ser conferida ao macaco rhesus ou ao cão e, por que
não?, ao camundongo, ou, mais ainda, ao porquinho-da-índia;
a decisão dos cavalheiros não terá sido fácil.
Foi, porém, com razão que a ratazana prevaleceu. Desde
tempos imemoriais ela a nós se associou. O rático tornou-se
um princípio. Tome-se em mãos o romance A peste, ou a peça
teatral de Hauptmann a que nossa agraciada emprestou o
nome — embora no masculino plural. Além de Goethe e do
freqüentemente citado Orwell, poderíamos mencionar ulte-
riores exemplos da contribuição dada pela ratazana ao desen­
volvimento da literatura universal; quando não aparece lite­
ralmente, ou mesmo, como a mais corajosa das ratazanas, no
título, é lida nas entrelinhas com sua longa cauda. Todavia,
nossos poetas se comprazeram em consolidar a fama negativa
de nossa agraciada, se bem que em imagens inesquecíveis e
com uma lorça que se tornou legendária. Aterradora: a cena
da tortura no famoso romance de Orwell; discutível, o relevo
exagerado da exceção, o bebê roído por ratos famintos. E, ao
contrário, meritório que graças à coleção de lendas de Grimm,
bem como através da obra épica de Robert Browning, tenha
* se tornado conhecido o Flautista de Hameln, cidadezinha cu­
jos habitantes irão, por sinal, alegrar-se particularmente com o
Prêmio N obel este ano conferido.
Retenhamos aqui: função, em geral, da miséria humana,
da pobreza, da fome, dó horror, da doença e da carência de
nojo, a ratazana conseguiu até hoje apenas discutíveis honras
literárias: imputaram-lhe epidemias, entrou em cena com a
miséria que roía o estômago, seu lugar chamava-se cloaca, fa­

194
vela, masmorra, campo de concentração,, submundo. Era pre-
núncio de desgraças, de tempos ruins e de naufrágios.
Sim, ela estava sempre presente, reflexivamente até, de
um ponto de vista histórico. Limitemo-nos, para começar, à
história sueca; o lugar da premiação outorga ao mesmo tempo
um privilégio: quem acompanha os godos, quando a superpo­
pulação da ilha de Godand leva ao início da grande transmi-
gração dos povos? Ratos de navio, velejando nos porões rumo
ao Sul, cruzando o Báltico até surgir terra à vista, a região da foz
do Vístula, ao que a História seguiu seu curso com um sé­
quito de ratos. E quem se aninhou em todos os navios da po­
derosa frota do grande rei sueco que atravessou o Báltico com
seu exército camponês, para participar da guerra confessional
que assolava a Alemanha? Ratos. E, mais uma vez, havia natu­
ralmente ratos sobre a quilha quando o cadáver real foi trans­
portado de volta.
Que aconteceu, entretanto, no princípio de nosso século,
quando a esquadra russa do Báltico, fundeada no ancoradouro
da cidadezinha de Libau, aqueceu as caldeiras e levantou ânco­
ras, para começar a longa viagem marítima em direção ao Ja­
pão? Milhares de ratos abandonaram os navios de passageiros
e encouraçados, os comboios e torpedeiros, pois essa frota es­
tava destinada a naufragar no mar Amarelo. Os ratos escapa­
ram a nado; ninguém compreendeu, porém, que essa fuga era
um sinal de alarme; quando muito, se lhes rogaram pragas.
Elas são nossas contemporâneas! A história da espécie
humana, tão cheia de vicissitudes, é inconcebível sem a rata­
zana. E agora, afinal, tarde mas tomara que não tarde demais,
ela encontra reconhecimento. Manifesta-se a humana gratidão.
Sim, aprendemos com ela. Paciente e despreendida, ela nos
ajudou a encontrar novos caminhos na medicina. E lícito per­
guntar: que seria da indústria farmacêutica sem a ratazana? E
se a expectativa de vida do homem moderno, calculada pela

195
média, aproxima-se dos bíblicos oitenta anos, é igualmente a
ela que devemos esse acréscimo.
Ela teve de sofrer por nós, e não foi fácil para a ciência
resistir aos protestos dos protetores de animais; mas suas ex­
periências não eram um fim em si mesmo, pelo contrário, elas
renderam: a ratazana não sofreu gratuitamente. Depois de
anos de cooperação com geneticistas de renome, ela conse­
guiu finalmente superar o caráter ideal, simbólico, poético, de
sua ligação com o homem, para compartilhar do próprio hu­
mano; a ratazana começa a atuar no homem, o homem na ra­
tazana. Pois após a fissão do átomo, conseguiu-se cindir o nú­
cleo da célula. O código genético foi decifrado. E eis que no
núcleo celular encontrou-se guardada a memória da célula,
herança agora transferível a qualquer parte: Tornou-se possí­
vel a manipulação segundo planos genéticos. Como outrora a
astúcia camponesa cruzara cavalo e burro, obtendo esse útil
animal que é a mula, conseguem-se hoje, a partir de microor­
ganismos, bactérias programadas para, obedecendo ordens
genéticas, devorar a lama de óleo difundida pelo mundo afora.
Sim, o lado fáustico do ser humano possibilitou isso e ainda
mais; pois ela, nossa ratazana, dedica-se a ulteriores êxitos.
Eu sei que não faltam inimigos do progresso, que em to­
das as épocas tentaram sufocar com palavras as grandes idéias
e submergir em temores todo arrojo. A eles, seja dito: onde
foi omissa a Criação, os sucessos de hoje se alevantam! Onde
— com todo respeito — o bom Deus acreditava ter trabalhado
bem, são hoje possíveis correções de há muito necessárias. A
madeira torta que, no dizer do filósofo Kant, seria a imagem
invariável do homem, pode, como sabemos, ser finalmente
distendida. As mais nobres características de ambas as espé­
cies, o mais precioso patrimônio genético do homem e as co­
nhecidas qualidades da ratazana, podem formar uma simbiose
através de genes escolhidos; pois se tudo ficasse como era e é,
e o homem tivesse a liberdade de comportar-se, incorrigível,

196
como' vem se comportando desde tempos do velho Adão, ele
fracassaria ante a penúria de suas próprias bases. Seus genes,
agora decifrados, fazem terríveis revelações. Pobremente pro­
vido, ele iria necessariamente arruinar-se. Esgotadas suas pos­
sibilidades, ele não teria outra opção senão extinguir seu se­
melhante, o incorrigível ser humano.
E preciso agir para que tal não aconteça. Razão e Ética
nos obrigam a sublinhar aqui: o homem subsistirá apenas num
novo modelo, aprimorado através de ingredientes seletos.
Somente se o rático enriquecer, completar, controlar a subs­
tância humana, amortecer-lhe certos aspectos e fortalecer-lhe
outros, tomar-lhe aqui, dar-lhe lá, libertá-la do Eu, abri-la ao
Nós, tornando-nos, porque melhorados, novamente aptos a
viver, podemos ter esperança de futuro. A espécie Rattus nor-
vegicus vai regenerar o Homo sapiens. Criação se realiza. No fu­
turo, tão-somente o homem-rato existirá.
Por enquanto — Majestade! — apenas o pressentimos.
Sua imagem — digníssima Academia! — ainda não tem con­
tornos firmes; Quando muito, sonhos dão-lhe nitidez. Mas, já
agora, as últimas manipulações permitem reconhecer os pri­
meiros sinais de sua existência. Seja em centros de pesquisa
americanos ou em laboratórios soviéticos, seja em institutos
japoneses ou indianos, em toda a parte ele nasce; nasce, por­
tanto, também na venerável universidade sueca de Uppsala,
surge, se conforma, estando no mundo inteiro o homem e ra­
tazana decididos a recriar-se.
Por isso, também ele deve ser homenageado hoje. Cum­
primentando nossa ratazana pelo merecido Prêmio Nobel,
transmitimos nossas felicitações a ele, que ainda não existe,
por quem ansiamos. Que venha trazer-nos alívio e superar-
nos, melhorar-nos e tornar-nos novamente possíveis, render-
nos e redimir-nos; que logp, clamo, logo, antes que seja tarde
demais, venha ele a existir o magnífico homem-rato!

197
0 SEXTO C a p ít u l o , no q u a l o homem-rato torna-se concebível e
há sonhos durante a ronda, a ratazana demonstra conhecer o lu ­
gar, a erva caxúbia se espalha, as mulheres ganham nomes falsos,
logo depois da arrumação começa a história pós-humana, 4u sou re­
conhecido como fonte de erro, o dinheiro grosso tem o poder e W i-
Ihelm G rim m , uma idéia.

— Por que não! — exclama ao telefone o Sr. Matzerath,


enquanto seu chofer o leva pela auto-estrada em direção ao
Leste. — Por que não homens-ratos — diz ele e, como eu re­
plico, mostra-se imediatamente disposto a fazer um longo dis­
curso. — Eis uma simples idéia que já vem de calças, sapato e
meia...
— N em tudo o que o homem imagina deveria tomar
corpo!
— E o que Deus Padre precisava ter-se dito, quando pôs
as mãos na massa para forjar o velho Adão.
O Sr. Matzerath deixa que Bruno, seu motorista, para
quem já nos tempos do hospício os desvarios de Oskar eram
realidade, confirme suas opiniões. O monstro agrada, tanto
mais que o homem-rato remete a Malskat e suas pinturas:
— Se o pintor, depois daqueles perus no friso gótico da
catedral de Schleswig, que imprimiram finalmente movimento
à rígida visão da História, tivesse transferido ao emboço ou­
tros seres de fábula, o velhíssimo sonho humano de poder ser
homem e animal ao mesmo tempo teria encontrado mais uma

198
vez a força da imagem e a credibilidade junto a todos os espe­
cialistas em arte.
O Sr. Matzerath enumera: centauros de quatro cascos, a
esfinge sorridente, os graciosos homens com cabeça de touro
de Picasso, a cabeça de elefante do Ganesh indiano, com sua
tromba engraçada, ninfas e nereidas, deuses com cabeça de
pássaro, cão e cobra. 0 jardim das delícias, do pintor Bosch,
convida-o a passeios de motivo a motivo. Francamente entu­
siasmado, como se desejasse ter garras e uma cabecinha de
animal, ele diz ao telefone:
— As catedrais góticas da França estão salpicadas de gár-
gulas com feições grotescas, demoníacas, infernais, todas elas,
se repararmos bem, assimilando o gênero humano a outras
espécies animais. De monstros fazendo caretas, surgem cha­
cais e linces. Vi mulheres com rostos de cabra e sujeitos chi­
frudos. Sempre desejamos virar bicho, ser cervo ou águia,
peixe também, ter escamas ou asas, mesmo que apenas pela
metade. Qual a bela mulher que não sonha em divertir-se com
um monstro! E o poderoso par de asas dos anjos! E o bode
que está dentro do diabo, e o diabo fedendo dentro do bode!
Não, não são apenas as crianças que acreditam no Gato de
Botas. Imaginamo-nos como besouros, de costas, desampara­
dos. E tal é o poder das lendas, que, com freqüência, nos con­
vertemos em veados, sapos, sete cisnes, contra nossa vontade,
quando no entanto nada mais éramos que pessoas amaldiço­
adas. Pergunte ao Rei Sapo, que vive no poço bem ao lado da
Casinha de Chocolate, e que em seu filme será visivelmente
um mero coadjuvante...
Nesse ponto, o Sr. Matzerath é obrigado a interromper-
se. Pelo telefone do automóvel, pode-se ouvir nitidamente o
conhecido ruído, acompanhado dos freios e, em seguida, a
praga do chofer. Pouco antes de Helmstedt — “é típico”, diz
Bruno —, o motorista de um BMW causou o acidente numa
ultrapassagem. A polícia, que está imediatamente a postos,

199
não precisa, graças a Deus, solicitar uma ambulância pelo rá­
dio. O partido contrário me é descrito como “casal brigão, de
uns trinta e cinco anos”.
— Mau sinal! — digo eu, agourento.
— Nada que nos possa reter!
— O senhor deveria retornar, dar meia-volta com a maior
rapidez!
— Que é isso! — exclama o Sr. Matzerath. — Estragos ha­
bituais na lataria. Uma horinha de tempo perdido. Chegaremos
à Polônia com uma amassadela e alguns arranhões, o que, por
outro lado, não fica bem num Mercedes. Essa mania de velo­
cidade é um aborrecimento! Mas, para continuar o assunto:
por que não homens-ratos, no futuro! O pintor Malskat prati­
camente não teria objeções.

. Esse, por enquanto, não podia pintar catedrais góticas,


claustros, abóbadas de naves transversais e contrafortes, pois a
guerra reinava nos quatro pontos cardeais. Malskat ainda la­
vou uma pintura de liga de caseína do século XIX, conside­
rada autêntico gótico, que se encontrava danificada sob a divi­
sória do coro do Hospital do Espírito Santo, em Lübeck, subs­
tituindo-a por seu gótico de rápido envelhecimento. Ele con­
cluiu também ulteriores encargos da firma Fey, na Alta Silésia,
já então ocupada. Daí, foi para o exército.
A maior parte do tempo ele pertenceu às tropas de ocu­
pação no Norte da Noruega, onde, fazendo ronda, chegou a
primeiro-cabo. No que eu saiba, nunca chegou a dar tiro. Não
houve insubordinações, nem penas de prisão. Não lhe pen­
duraram condecorações, nada de heróico a contar, mal há
anedotas.
“Ele era um mau soldado, mas uma pessoa interessante”,
declararam em meados da década de 50 os ex-praças *
interro-
gados como testemunhas por solicitação do advogado de de­
fesa Flottrong, durante o processo pela falsificação de pintu­

200
ras, em Lübeck. Já naquela época, Malskat se divertia com a
controvérsia que os historiadores da arte travavam sobre o pe­
ru. Para quem quer que pedisse, ele desenhava em série
exemplares desse galináceo, nunca entretanto para oficiais.
Uma das testemunhas lamentou que seu desenho de peru, as­
sinado por Malskat, tivesse se extraviado durante a retirada.
Os companheiros de quarto divertiam-se particularmente
quando, nas longas noites de inverno, Malskat lia para eles
passagens de um livro em que um professor de arte usava o
friso do peru para demonstrar a descoberta da América pelos
vikings. Era de se escangalhar de rir.
Segundo outras declarações, Malskat teria enfeitado a
parte interna da porta de seu armário de caserna com a foto
de Hansi Knoteck, artista de cinema popular tanto na paz
como na guerra. Bem, durante a guerra havia fotos de atrizes
nos armários de todos os soldados, servindo de motivo para
certas coisas. Malskat, porém, dissera que a Knoteck repre­
sentava algo de especial, que servira de modelo para várias
madonas góticas, anjos, santos; além disso, ele a respeitava e
não perdera um filme com ela.
Durante seu processo em Lübeck, o pintor confessou que
mesmo depois da guerra continuara fiel à bonita estrela de ci­
nema; por último, tivera o prazer de revc-la em Esse posto de
gasolina é uma folia, bem como em Sinos do rincão natal, por
sinal diversas vezes, o que seria constatável em seus murais no
coro e na nave principal da igreja de Maria.
A comparação das fotografias demonstrou, além dessa
semelhança, o dom de Malskat para a elevação expressiva:
ele extraiu sofrimento e fogo interior daquele rostinho antes
bem-comportado. Tanto Maria com o Menino no primeiro
painel no coro, que se tornou famosa, quanto a Mãe de Deus
no grupo da crucificação na nave principal, ou a Maria Mada­
lena, cuja cabeça eleva-se a fragmento pela lacuna no olho es­
querdo, ou ainda a Maria da Anunciação, com a pomba, todas

201
elas são irmãs góticas daquela formosura das telas de cinema,
cujo retrato de corpo inteiro — por sinal uma foto da filma­
gem da opereta Terra natal — mudou durante quatro anos de
armário para armário, pois a unidade de Malskat foi transferida
para cá e para lá, com ele sempre fazendo ronda.
Assim o vejo, com sua carabina K98. Ele vigia depósitos
de muniçãó, alojamentos de tropa, tesourarias. O frio é indes­
critível. Seu longo nariz está enregelado. Ele gostaria de visi­
tar o pintor Munch em seu ateliê de inverno, cujos quadros
repletos de gritos e silêncio encontram-se expostos em Oslo,
para com ele aprender expressão. Mas nenhuma de suas via­
gens de serviço o leva até lá.
Fora isso, há pouco a relatar sobre seus tempos de solda­
do. Enquanto avanços se convertiam em recuos batizados reti­
ficação de frente, submarinos nunca mais voltavam à tona, ci­
dades desapareciam sucessivamente sob tapetes de bombas, os
discursos do Führer tornavam-se cada vez mais raros, acredita-
va-se em armas milagrosas, e em campos de extermínio ainda
anônimos as entradas eram computadas como saídas, Lothar
Malskat produzia paisagens em pastel com motivos noruegue­
ses, trocando-as por cigarros ou chocacola. Sempre fora um
fumante inveterado. N um ponto, as testemunhas são unâni­
mes: esse prussiano-oriental, apreciado pelos oficiais e pela
tropa, nunca empunhou pincel ou giz seguindo ordens; mas
tão-somente quando queria.
Aconteceu então, enquanto ele fazia ronda no extremo
N orte, que, na noite do domingo de Ramos de 42, a cidade
de Lübeck foi bombardeada por aviões ingleses. Malskat leu a
respeito, com atraso, num jornal para soldados que denun­
ciava o bombardeio como ataque terrorista. O centro e as
igrejas de tijolos foram particularmente atingidos. O mare­
chal-do-ar inglês Harris teria desejado assim. A igreja de Ma-
ria foi consumida pelo fogo. Diversas abóbadas do coro ruí-
ram. Uma vez construído um teto de emergência e tapadas as

202
abóbadas, o bispo de Lübeck, que, como muitos prelados
evangélicos, era nazista, mandou colocar a cruz suástica como
fecho da abóbada final 'do coro. Malskat ainda deve ter visto
e.ssa insígnia dos cristãos-alemães de Lübeck quando, em 49,
subiu ao alto do andaime com seus potes de tinta e sua escova
de aço, e encontrou muito trabalho à sua espera.
Naturalmente a suástica foi demolida logo depois, era as­
sim que se fazia em toda parte no princípio dos anos 50; o
bispo, entretanto, ficou, caso não tenha morrido, nazista no
seu mais profundo âmago, até os dias de hoje.

E se, como já há tempos pondera o Sr. Matzerath, além


de aves americanas, o pintor Malskat tivesse pintado ratazanas
em lugar das águias e leões que se alternam embaixo do Beijo
de Judas, no segundo quadrilátero ao lado da porta? Ratazanas
a correr, que poderiam acasalar-se de medalhão a medalhão
com homenzinhos enroscados? E se ele tivesse levado adiante
esse motivo amadurecido depois dos anos de guerra; se, como
imagem de fábula na chamada janela dos bichos junto à.Brief-
kapelle,* em Lübeck, tivesse ele conseguido a união, mais ain­
da: a conciliação de rato e homem à maneira gótica?
Mas em Malskat não se encontram ratos. Ele nunca foi
além de perus. E certo que, logo depois do processo, seus
vinte e um santos do coro foram brutalmente lavados, como
demonstram quadriláteros que ainda hoje continuam sujos;
assim, não se podem eliminar certas conjecturas, segundo as
quais ele teria entremeado homens-ratos nas folhas de orna­
mento de um ou outro dos capitéis de coluna, sobre os quais
seus santos se apertavam em tríades. Depois de tanto fazer
ronda no extremo N orte, ele bem que seria capaz.
O Sr. Matzerath já superou os estragos na lataria. Che­
gando a Helmstedt com bastante atraso, ele vê agora diante de

* Çapela das cartas, em que as orações são feitas por escrito. (N. do T.)

203
si a República Democrática Alemã, inclusive a fronteira mar­
cada com exagero, e pega pela última vez o telefone do carro,
para dar-me sua aprovação, também em nome de seu chofer.
— Essa idéia me agrada — diz ele. — Por que não? A ca­
pacidade de Malskat foi freqüentemente subestimada. Com
certeza, ele procurou uma oportunidade de expressar seus de­
vaneios, nem que fosse apenas em detalhes. No alto da nave
da igreja de Maria, em Lübeck, o profeta Jonas não se encon­
tra na boca do peixe, como se a baleia e ele formassem uma só
figura? Verifique isso! E o rato não está dentro do homem
como, biblicamente, Jonas dentro da baleia?
O controle na fronteira inclui visivelmente um certo
tempo de espera. O chofer propõe mudar o programa de via­
gem, pernoitando em Berlim Ocidental. O Sr. Matzerath in­
siste, entretanto, nos leitos de hotel de Poznan e começa a ta­
garelar, prefigurando como vai apresentar-se à avó, cheio de
vagas lembranças:
— A partir de Posen, não vai haver atrasos. Será que
ainda há girassóis na cerca? Será que ela ainda usa quatro
saias, uma sobre a outra? Aliás, uma figura de proa, exposta
no museu da cidade, representou um papel misterioso na mi­
nha juventude, acompanhado de diversos acidentes. Uma mu­
lher de madeira, pintada, que crescia com o peito enorme de
um rabo de peixe cheio de escamas. Chamava-se Niobe ou,
popularmente, Garota Verde; diziam que seus olhos de âm­
bar, embutidos, tinham efeito letal. Do homem-rato poder-
se-á pelo contrário esperar um efeito regenerador. Se Malskat
não o fez, alguém deve ilustrar nosso futuro: terrível ou para
rir. Eu, de qualquer forma, estou curioso. O homem está su­
perado e tornou-se extremamente monótono; há muito que
ele requer manipulações arrojadas. No que eu saiba, essa nova
atividade que tira um gene daqui, insere um outro ali, está se
tornando familiar a um número crescente de ativos* profissio­
nais.

204
Parece que a barreira foi levantada. O Sr. Matzerath des­
liga. Vai atravessar a RDA a cem quilômetros por hora com
seu Mercedes ligeiramente amassado, até que, atrás da ponte
sobre o Oder, em Frankfurt, uma nova barreira se levante,
dessa vez branca e vermelha, e a Polônia, sofrendo catolica-
mente sua sina, abra-se numa planura diante dele.
Como está curioso e amedrontado a um só tempo. Será
que sua avó continuou tão espaçosa, como ele sempre dese­
jou-lhe a vida interna? Eu temo que ele tema. Mas, agora, ele
tem que viajar. Em harmonia com a boa metade de sua discu­
tível existência, Oskar vai para casa.

Ainda dormindo, teso de expectativa,


sei o que virá: hálito, que eu conheço.
Já há respostas em posição de sentido.

Os presentes podem ficar embrulhados,


e guardado todo segredo.
Há anos que estudo esse papel.
Saturado de antegosto, estou a par
do fim de toda a história.

Que espero, todavia?


Gaguejar e sair do texto.
Querida, que sejamos estranhos,
nunca antes suspeitei,
que me faças permeável
a palavras que choramingam, resmungam.
Acabou-se a esperança barata, em pílulas,
e portadores de felicidade,
redondos como elas, isso acabou.
Mas o medo, diante do papel em branco.

205
A tela ainda treme, fosca,
procurando seu programa.
O navio não quer chegar,
a ação escapou da floresta,
da Polônia nada de novo; mas
a imagem se enche, e eu sei: é você,
ratazana com que sonho.

Teso de expectativa, pressinto


o que vem agora: em continuações,
nosso fim.

Virada para mim, as vibrissas abertas em todas as direções


para que nada de alheio penetre em seus domínios, ela disse:
N o fundo, não tem importância se foram camundongos ades­
trados, ou se fomos nós, ratos, que, pessoalmente, ocupamos
os sistemas de supercomputadores, pois a seqüência dos pro­
gramas humanos fora deliberada exclusivamente pelo homem.
Nós jamais poderíamos ter imaginado aquele espetáculo in­
fernal. A designação para o resultado atingido é, portanto,
correta: terra devastada.
Ela fez uma pausa e conteve o movimento de algumas vi­
brissas. Eu podia agora imaginar aquela situação tão propalada,
que recebera o nome de estado final; entretanto, expressões
como paisagem lunar ou devastação total seriam eufemismos.
Então, ela disse: Até mesmo a amena Caxúbia, outrora
denominada Suíça caxúbia, com seus campos de batata, cercas
de amoreiras e florestas de pinheiros e ramagens, seus lagos
piscosos e o riacho chamado Radaune, até mesmo ela se desfi­
gurou. Embora não fosse diretamente atingido, o interior so­
freu a ação dos raios de nêutrons e gama, cujos efeitos se es­
tenderam até Tczew e Kartuzy. E sofreu mais aincia com os
golpes atômicos desferidos diretamente sobre os centros das

206
cidades de Gdynia e, a leste do Vístula, de Elblag. Sendo pla­
no, o terreno não reteve as ondas de compressão, e os bos­
ques ondulados consumiram-se em labaredas que reduziram a
cinzas tudo o que era combustível, até os confins da charneca
de Tuchel. A região de colonização ancestral dos caxúbios so­
freu, porém, principalmente com o eclipse solar, a queda de
temperatura e as tempestades de poeira radiativa, que se se­
guiram à Grande Explosão, determinando o clima do mundo
inteiro e exterminando quase toda a vida. Ainda hoje — e,
desde então, já transcorreu'm uito tempo — nós tememos o
séquito desses vendavais.
O amiguinho conhece muito bem os prognósticos deta­
lhados, feitos pelos cientistas de vocês. Quando a era humana
estava se acabando, houve uma verdadeira competição de
pontos finais e adições. Tratava-se de megatons e megamor-
tos. Eram os chamados cenários. Mas, por mais contraditórios
que parecessem os detalhes dessas previsões, no conjunto es­
sas últimas realizações da espécie humana, para as quais con­
correram os cérebros de muitos especialistas, demonstraram
estar certas: nenhuma região foi poupada, em lugar nenhum
sobrou qualquer paraíso, mesmo os refúgios no mais pro­
fundo Sul foram, embora com retardo, alcançados finalmente.
Partículas radiativas meteram-se em toda parte, não houve
vale que fosse estreito demais, nem ilhazinha perdida. Aqui, a
morte veio de imediato; lá, o sofrimento arrastou-se. N e­
nhuma vida se manifestava, não, digamo-lo segundo critérios
humanos: toda forma superior de vida deixou rapidamente de
manifestar-se. Para usar uma palavrinha que o homem ocasio­
nalmente, brincando, punha em lugar da palavra radical, pois
seu radical éramos nós, os ratos: tudo fora consumido de
forma ratzekahl. *

* Gíria alemã para radical/radicalmente, composta de Ratze (ratazana) e kahl


(calvo, árido). (N. do T.)

207
Como faltaram meu protesto e minhas perguntas, ela me
poupou os detalhes, e disse: Não queremos comprovar o fim
de vocês até o último reduto. Trata-se, pelo contrário, de ficar
nessa região, por mais que você tenha gostado de sua imagem
de viajante: até na índia, na China e no Alasca você esteve.
Mas, para onde quer que sua curiosidade o tenha atraído, não
era em Calcutá que você estava em casa, e sim entre a região
da foz do Vístula e os altos das encostas bálticas. Seja como
for, sua Caxúbia regrediu ao estado de moraina final despro­
vida de árvores, com brejos em meio ao cascalho, coberta de
lodo endurecido, cheio de gretas e rachaduras, habitável ex­
clusivamente por nós, ratos, se bem que mesmo nós tenhamos
perdido mais de dois terços de nossa população. Sem dúvida
fora acertado enterrar-se a tempo; agora, porém, os remanes­
centes de nossos bandos só podiam apelar para a formação de
estoques, antes desconhecida, e para duros exercícios de con­
dicionamento...
Ela quis então convencer-me de que, por volta do fim da
era humana, clãs escolhidos de ratos teriam se alojado em usi­
nas nucleares e depósitos intermediários de lixo atômico,
como medida de fortalecimento e imunização. Ridículo! —
exclamei eu — típica falação de rato.
Ela continuou relatando, fingindo que não ligava: De
qualquer forma, quando abandonamos os sistemas de prote­
ção, vimo-nos num maldito isolamento. Pois com o homem,
tinham sucumbido todos os animais domésticos. Não houve
cão e gato que agüentassem. Com as florestas, sumira a caça:
nenhum ouriço conseguira sobreviver, nenhuma javalina.
Bem mais tarde apenas, notamos com alívio, e também com
certa irritação, que não estávamos tão sós como à primeira
vista parecera.
_Ela não conseguia parar de admirar-se: Espantoso, não é
mesmo: além das baratas e moscas-varejeiras, tinham escapado
alguns pardais e pombos. E nos brejos da Caxúbia subsistiram

208
ovas de rã e peixe, de forma que podíamos contar com a re­
generação das águas. Salamandras e lagartos logo apareceram;
e quando, mais tarde, muito mais tarde, nova vida surgiu em
torno dos brejos — musgos, liquens, cavalinhas, juncos, matos
rasteiros —, voltaram também os mosquitos, até mesmo as li­
bélulas e esses eternos chatos que são os caramujos, terrestres
e aquáticos. Ah, é, havia vermes nojentos, não eram bem mi­
nhocas, nós os chamávamos vermes de fuligem. Mas isso não
era muito. Alguma coisa faltava. Ah, meu amigo, queixou-se a
ratazana, como vocês nos deixaram sós.
Como eu fingia de morto, sem vontade de fazer qualquer
objeção, ela prosseguiu sua narrativa retornando uma vez mais
ao último dia: Poucos dias depois da partida final de vocês,
nós achamos opressivo demais o silêncio em nossos sistemas
de galerias e recintos de abrigo, e enviamos alguns ratos novos
à superfície. Ao mesmo tempo, era preciso retirar todas as
crias nascidas durante a Grande Explosão, e que tinham de
imediato perecido. N enhum dos ratos novos retornou.
Seguiram-se perdas análogas, por diversas vezes. Afinal, para
poupar as novas gerações, mandamos para o alto ratos velhos,
alguns dos quais voltaram com notícias, depois do que se enri­
jeceram, agonizando: hemorragias internas, tumores. O amigo
pode crer que as notícias da superfície até pareciam exageros
humanos. Lá em cima não havia nada. Palavras como terra de
ninguém ou luneret terrech, a propalada terra da devastação,
foram a derradeira mensagem dos velhos ratos. E quando,
principalmente nas grandes cavernas, a ordem interna come­
çou a esfacelar-se, tivemos de revogar a fase de resguardo, em
grandes clãs, mas sempre pensando nas reservas. Pois quise­
mos voltar imediatamente, preferindo sofrer o estresse lá em­
baixo a suportar o vazio lá em cima.
A ratazana calou-se, como se seu silêncio devesse sinali­
zar o vazio, o nada.

209
Então eu parei de fingir de morto: E vocês agüentaram
isso: primeiro, ficar sepultados lá embaixo, depois, enjeitados
lá em cima?
Que nos restava, disse ela. Como não tínhamos nenhuma
escapatória, tivemos que adotar um comportamento que
aprendemos desde que o rato é rato. E, mesmo assim, foram
poucos os que conseguiram suportar esse período inicial da
nova era. Muitos definharam, outros ficaram incapazes de ge­
rar ninhadas sadias. Vivíamos tendo que trincar crias defor­
madas. Só lentamente conseguimos nos adaptar às condições
pós-humanas. Não, continuamos a sofrer as conseqüências
tardias...
Mas, felizmente, disse a ratazana, os clãs que durante a
conclusão da era humana tinham se estabelecido nas usinas
nucleares e nos depósitos intermediários de lixo atômico, es-
tavam bastante imunes e se adaptaram às tempestades de po­
eira e suas prendas radiativas. Eles conseguiram parir as pri­
meiras ninhadas sadias. Mas sadio não significa inalterado:
nosso pêlo, que antes era castanho-acinzentado, tornou-se
verde desde então, como se tivéssemos querido salvar aquela
cor praticamente eliminada junto aos homens. E não apenas
nós nos tranformamos. Pardais e pombos têm plumagem
branca e escarlate. Sapos e batráquios ficam muito maiores,
mas são quase transparentes. Nos brejos, os peixes se asseme­
lham às carpas, lúcios e sargos tradicionais, mas também eles
se transformaram na região das brânquias e barbatanas, como
se ali pretendessem crescer membros brevemente aptos à lo­
comoção por terra. Ah, é mesmo! Ainda falta isso: as mos-
cas-varejeiras põem filhotes vivos e mamam, imagine, mamam
como nós. Há caramujos voadores, e aranhas que tecem suas
teias debaixo d’água. Os vermes, indiscutivelmente úteis, vi­
vem da fuligem sedimentada; são, porém, intragáveis, até
mesmo para nós...

210
Isso você leu, ratazana! D eu com isso em algum livro.
Que banalidade, esse circo de ficção científica! São seres de
fábula malskatianos, ou monstros de Breughel. Sempre o
mesmo engodo da mutação!
i

Calmamente, como se há muito já esperasse o meu apar­


te, ela disse: Preste atenção, meu velho. Se não quer ouvir,
não precisa acreditar. Mas assim que houver oportunidade, te­
remos prazer em mostrar-lhe alguns peixes que vão à terra,
caramujos voadores zunindo e moscas mamíferas. Você não
perde por esperar.
I Eu estava irritado com as intimidades que ela tomava,
chamando-me meu tio, tio velho de guerra, mas a ratazana
atinha-se serenamente! a seu relato, ignorando observações
maliciosas de minha parte a respeito do que eu denominava
fantasias de ratos de biblioteca: De qualquer forma, desde en­
tão nós voltamos a habitar a superfície terrestre. Apenas nos­
sas provisões permaneceram armazenadas no subsolo. D e iní­
cio, lá em cima pouco havia para mastigar, e o pouco que ha­
via estava contaminado. Tivemos de desenvolver sistemas de
alarme e usar nossas provisões, até que acabamos quase imu­
nes e pudemos encher a barriga com o que encontrávamos. E
em nossa região, que já foi a sua, havia abundância. Pois os
edifícios construídos pelo homem, fossem pombais de apar­
tamentos ou quartéis, casas de avenida ou fábricas, igrejas ou
teatros, ficaram de pé e continham o necessário para nosso
crescimento em seus porões e depósitos. N ós até que não vi­
víamos tão mal assim, na época de transição. Dá gosto lembrar
os depósitos de conservas da Milícia polonesa. Latas de
folha-de-flandres não eram um problema para nós. Encontra­
mos principalmente repolho com cominho, salsinhas cozidas e
gulasch, enlatados. Além disso, havia estoques de carne em
gordura e de tripas, em latas e potes. E não faltavam miúdos
de ganso, cozidos com cevadinha. Foi em Hochstriess, no su­
búrbio de Langfuhr, onde há muito tempo estivera aquarte-

211
lado um regimento de hussardos da guarda do Príncipe Her­
deiro e, por último, a Milícia, que nós localizamos esse grande
depósito organizado para a autodefesa do Estado. Em Danzig,
verificamos que muitos armazéns de cooperativas e a despensa
do Estaleiro Lenin estavam bem abastecidos de lataria. Fora is­
so, as despensas e geladeiras da cidade despovoada parece­
ram-nos parcamente providas. Tínhamos de procurar e procu­
rar, e assim, acabamos urbanos.
Você vê, disse a ratazana, que nossa situação era bastante
aceitável. Tendo as bombas de resguardo, como era seu feitio
e propósito, eliminado apenas o que vivia, os prédios do cen­
tro e do porto conservavam sua inteireza, veículos e aparelha­
gens estavam igualmente intactos. Não faltava uma torre ou
cumeeira da cidade tantas vezes arrasada pela mão do homem
e, depois, dispendiosamente reconstruída. Santa Maria cho­
cava como sempre, e como sempre a torre elegante da Prefei­
tura elevava aos céus um rei qualquer, dourado sGb a fuligem.
As casas das ruelas — Langgasse, Frauengasse, Hunde, Jopen
e Brotbànkengasse — enfileiravam-se, cada qual com a fa­
chada mais rica. As velhas portas da cidade, abertas, com seus
belos arcos; a Porta Verde, suntuosa, embora enegrecida
como qualquer edifício. Por toda parte, as escadas, e os terra­
ços das casas, em pedra cinzelada. O Netuno de bronze, em­
punhando um tridente diante do Artushof, onde ainda conti­
nua no seu lugar de sempre, lembrava a extinta espécie huma­
na, com sua graça e o movimento de seus músculos.
Maldição! Ela ganhava credibilidade. Falava com conhe­
cimento do lugar. Sabia que da Wollwebergasse chega-se ao
Arsenal e, passando pelo Moinho Grande, ao Hotel Orbis
Hevelius. Mesmo a ilha de Armazéns à esquerda e à direita da
Milchkannengasse ela conhecia, e a cidade baixa: Langgarten
acima até Keipab; esse bairro teria porém se transformado
num lamaçal, disse ela, penalizada, e aliás as avalanches de
lama, vindas de todo lado, teriam cercado a cidade, chegando

212
quase à fachada da igreja da Trindade e à Porta de Oliva. Ela
indica exatamente a situação dos subúrbios de Ohra e
Schidlitz. Também quando falou de um trem expresso,
pronto para partir para Varsóvia na plataforma três, estava
correta a localização da estação central; e conhecia igualmente
o monumento aos operários diante do portão do Estaleiro Le-
nin, bem como a própria área do estaleiro. Fiquei tentado a
acreditar quando ela afirmou que teria visto navios em cons­
trução e em reparo, nas docas, no dique seco, ao longo do
cais, navios de diversas origens e tonelagens, amarrados por
cabos de aço. Ela disse: As motonetas e bicicletas dos operá­
rios e estivadores desidratados mantiveram as aparências.
Ei, ratazana! exclamei. E que foi que vocês fizeram com
os desidratados, que diabo!? Eles deviam estar estendidos por
toda parte, encolhidos, como você diz.
Amigo! exortou a ratazana: Um pouco mais de sentimen­
to! Você está falando de seres humanos, de seus semelhantes.
Sim, nós os encontramos por toda parte. Nas casas, ruas e
igrejas, no Mercado de Feno, no Mercado de Carvão, no alto
da Ponte Comprida, nos bondes, nos trens suburbanos, no
trem expresso que devia ir a Varsóvia. Cadáveres ressequidos,
curtidos e escuros de fuligem desde os tempos negros dos
vendavais de poeira. Deitados, agachados, encolhidos, enlaça­
dos uns nos outros como se, no final, tomassem por modelo
nossas crias ocasionalmente grudadas, conhecidas como nove­
los de ratos. Nas cabines dos navios, nos tombadilhos, ao
longo dos ancoradouros, na cantina do Estaleiro Lenin, em
toda parte o sangue, o catarro, a água, a última seiva, tinham
sido extraídos dos homens. Comprimidos ao tamanho de
anões, eram leves de carregar quando os levamos embora.
Muitos — turistas, sem dúvida — agarravam-se às suas máqui­
nas fotográficas. Mas, creia! mesmo reduzido a restos, o ser
humano era belo. Os membros torcidos numa gesticulação
selvagem, a face contraída numa careta, e belo. Perdera o

*213
vermelho dos lábios e o brilho dos olhos, o sorriso tímido, a
voz suave ou autoritária, o hábil movimento dos dedos e o
porte ereto, e continuava belo. Nem mesmo aquele revesti­
mento seboso e negro, que a todos cobria e que nós afastamos
com cuidado e paciência, pôde diminuir sua beleza. Não con­
seguíamos separar-nos daqueles restos de uma grandiosidade
passada. Mas não foi apenas a fome que nos obrigou a elimi­
nar os desidratados; a era pós-humana deveria pertencer ex­
clusivamente a nós, à espécie sobrevivente dos ratos.
Tive a impressão de que a ratazana com que sonho
tomava-me pela mão. Longe de minha cápsula espacial, ela me
levava através de ruelas vazias pela cidade despovoada. Eu não
tinha sombra, mas ouvia meus passos. Por mais que a fuligem
cobrisse todas as construções, as velhas inscrições das portas
da cidade ainda estavam lá. Em redondas letras latinas, em
alemão e em polonês também, elas falavam de Danzig e
Gdansk. A ratazana soletrava o que eu não conseguia decifrar.
Na Porta da Langgasse encontrava-se ainda o lema da cidade
outrora rica, entregue quase com obsessão ao comércio, que
durante séculos fora citado no preâmbulo do arbítrio munici­
pal e, agora, valia para os ratos: Nec temere, nec timede. Quere­
mos ser assim, disse a ratazana: nem excessivamente temerá­
rios, nem por demais receosos. Ah, meu amigo, é magnífica a
sua cidade e, para nós, ela é ao mesmo tempo acolhedora!
O que eu via comprovava que as fachadas estavam ene­
grecidas e sem vidraças, mas que permaneciam intactas até os
últimos arabescos. Um cenário sombrio, é certo, todavia nem
por isso menos reconhecível. O revestimento uniforme im­
primia maior destaque que antes às cornijas, ornamentos de
cumeeira, terraços e figurações, dos baixos-relevos. Surpreen­
dente como sempre: a torre de Santa Maria, vista da Langgas­
se, sobressaindo ao fundo da estreita Beutlergasse. Será que o
interior do templo, caiado tão protestantemerite de branco,
ainda continua a clamar por murais malskatianos? Quis entrar,

214
mas a ratazana não permitiu visitas a igrejas. Mais tarde, disse
ela, mais tarde, talvez.
Ao longo da Ponte Comprida, atravessando todas as por-
ta^ ç?m direção ao Mottlau, reinava a agitação dos ratos, co­
mendo ou se acasalando. Não quis ver o que eles devoravam.
Sei Já o que poderiam ser aqueles nacos de couro endurecido.
A ratazana me poupava; ao invés de falar ininterruptamente
como de hábito, ela citava passagens da Bíblia referentes à ati­
vidade dos ratos que satisfaziam ao preceito: multiplicai-vos.
Como que às cegas, machos cobriam fêmeas que se deixavam
cobrir sem fazer escolha. Em seguida, voltavam a comer:
qualquer coisa.
Nós somos assim, disse a ratazana: A procura do alimento
para que possamos multiplicar-nos mantém-nos em forma. O
amigo teria uma sugestão melhor?
O amor, disse eu, esse sentimento grande, abrangente,
que faz sua escolha, celestial, mas profundamente humano,
que eu, quando penso em minha Damroka...
Esquece! exclamou a ratazana. Quando estavam chegando
ao fim, vocês já não sabiam mais quem era homem e quem era
mulher. Estavam atarantados pelos produtos da própria cabe­
ça, e queriam ser ambas as coisas ao mesmo tempo, mamíferos
procriadores que procuravam satisfação autônoma com o
pinto intrínseco na vagina intrínseca.
Rimos, os dois. Está bem, ratazana! Por você, vale a pena
sonhar. Preciso contar isso às mulheres navegantes, que me
cancelaram, me puseram para fora do barco, junto com aquela
pequena diferença...
Abandonamos então a parte direita e velha da cidade,
toda ela cercada de lama e cascalho que se amontoavam, sem­
pre que chegávamos a seus limites, ao longo da Wallgasse, a
ruela de circunvalação. Aquela papa lodosa, que, entretanto,
parecia seca e transitável, prolongava-se pelo H oher Seigen e
o Schlüsseldamm adentro, até diante da Porta de Jacó e a en­

215
trada do estaleiro que, a valer a inscrição metálica, continuava
a chamar-se Estaleiro Lenin. Ali, sobressaía o monumento
para os operários fuzilados pela Milícia em dezembro de 70,
três altas cruzes de ferro, das quais pendiam três âncoras de
ferro batido, como se âncoras pudessem ser crucificadas.
Eu disse: Francamente, ratazana, francamente, que acham
vocês, ratos, de Solidarnosc?
E ela: N a prática, essa idéia sempre foi nossa.
F futuro, caso uma dominação viesse a oprimi-los,
vocês iriam...
Nunca mais, disse ela, nunca mais a espécie dos ratos vai
esconder-se em buracos.
Mas se, simplesmente por hipótese, um rato-chefe...
Ridículo! exclamou a ratazana. Só mesmo cérebros hu­
manos podem pensar uma coisa dessas. Não há nada colocado
acima de nós.
No terreno do porto, encontrava-se o que sobrara intacto
dos tempos humanos: guindastes, containers, empilhadeiras,
instrumentos bélicos de diversos calibres. Atracados nas cabe­
ças de amarração: três caça-minas, prontos para partir. Mas
braços, comandos, gaivotas não havia mais. Só ratos, ratos por
toda parte, também aqui seguindo o preceito bíblico. Em cadã
convés de navio, amontoados em torno de containers que eles
abriram roendo, ao longo das instalações do cais. Diante da
sucata enegrecida e sobre ela: seu pêlo verde-zinco. Tão-so-
mente eles davam cor àquele quadro.
A ratazana voltou a rir. Aliás, amigo, você sabe como se
diz ratazana em polonês?
Eu não queria saber de nada. Queria voltar à minha cáp­
sula espacial, pairar acima de tudo, tomar distância, sonhar
com imagens de outro ritmo. Ir embora daqui, já!
Szczur, disse ela, antes de sumir. E assim que se diz rata­
zana em polonês. Szczur! lançou em minha direção. Repita,
por favor: szczur!

216
A Caxúbia também não é só uma roça, uma província à
margem dos grandes acontecimentos, limitação ondulada atrás
dos Sete Morros, bastando-se a si mesma; a erva caxúbia de
Anna Koljaiczek espalha-se pelo muncjo afora. Mudas da li­
nhagem dos Woyke, que remonta a Zõkowo, onde outrora,
antes de transformar-se em terra dominial, encontrava-se o
convento, foram parar na Austrália ao fim de mais uma guer­
ra. Dois irmãos Woyke deixaram, ilegítimos, a mãe Stine, e
partiram de navio, levando noivas de Kokoszki e Firoga.
Depois dessa guerra e da próxima, diversos membros do
ramo Stomma e um Kuczorra emigraram para a América,
onde encontraram, em Chicago e Buffalo, descendentes da­
quele Josef Koljaiczek que, como é sabido, tinha escapado de
sua Anna no começo do século, escondido sob balsas; desde
então, há muitos Colchics, habilidosos no comércio de varejo
e de atacado.
Um Bronski da raiz paterna de Anna, cujo solo é Matar-
nia, já tinha chegado até o Japão, ainda em tempos do Impe­
rador, onde aprendera a comer com pauzinhos. Um de seus
netos fez família e fortuna em Hong-Kong.
Depois de 45, além do neto Oskar, que se estabeleceu na
Renânia, vários netos cfe Amanda, Hulda e Lisbeth, falecidas
irmãs de Anna, firmaram-se na Suábia e na região do Ruhr, já
que, como então se comentava — e não só em mesas caxúbias
—, o Leste era mais bonito, mas o Ocidente era melhor.
Um Kurbiella, da linhagem materna de Anna — que, en­
tretanto, como pode verificar-se nos registros paroquiais de
Katuzy, Matarnia e Weihjerowo, vivia se enlaçando indissolu-
velmente com as linhagens dos Woyke, Stomma, Kuczorra, e
das Lemke e Stobbe por matrimônio —, entrou para a mari­
nha mercante, ficando entretanto na Suécia, a partir de me­
ados dos anos 50! De lá, decidiu-se a emigrar para a África:
seus cartões-postais, exibindo frufos exóticos e praias com
palmeiras, provêm de Mombasa, onde ele atua na hotelaria.

217
Por mais que os caxúbios emigrados se apresentem como
cidadãos dos EUA, membros do Commonwealth ou, de forma
extremada, como alemães ocidentais, eles continuam recen­
dendo a Caxúbia, a esse aroma de coalhada e melaço; mesmo
o Sr. Matzerath, que gosta de parecer cosmopolita e viajado,
cheira familiarmente a estábulo por baixo da água-de-colônia.
Quando os cartões-postais com o convite de Anna Kol-
jaiczek conclamaram a seu 107.° aniversário* suas palavras
ecoaram em todos os cinco continentes, e aliás também em
Montevidéu, onde um bisneto do foragido Josef Koljàiczek se
dedica ao comércio de madeiras de lei e construção, como de
praxe entre os Colchics. Além disso, parece que há Colchics.
ajudando a devastar a floresta amazônica no Brasil, e como
proprietários de uma fábrica de caixotes na Islândia.
Assim, as viagens não se limitam ao Sr. Matzerath vindo
por Poznan e Bydgoszcz, que antes se chamava Bromberg;
enquanto um Woyke, que hoje é ferroviário e atende roma­
nescamente pelo nome de Viking, vem por mar da Austrália
em companhia da mulher, um único dentre os numerosos mis­
ter Colchic, casado com uma Stomma, chega com a esposa de
avião, vindo do lago de Michigan.
Um vôo de Hong-Kong, via Frankfurt, traz a Varsóvia o
casal Bruns, ex-Bronski, exportadores de brinquedos baratos
da colônia Coroa e, no momento, tremendo de ansiedade para
saber como Mrs. Bruns — de visível origem chinesa — vai
arranjar-se em meio aos caxúbios.
O comerciante de madeiras de lei de Montevidéu teve in­
felizmente que declinar /o convite; vem, porém, o antigo ma-
rinheiro que chegou à Africa pela Suécia e, como hoteleiro,
continua a chamar-se Kurbiella.
Embora os netos das falecidas irmãs de Anna — Amanda,
Hulda e Lisbeth — sejam os que mais perto moram da Caxú­
bia, apenas o Sr. e a Sra. Stomma, ela nascida Pipka, prom ete­
ram vir com dois filhos adolescentes. Os Stomma partem de

218
trem de Gelsenkirchen, onde sua loja de bicicletas, com ofi­
cina de consertos e filial em Wanne-Eickel, dá para sustentar
inclusive um gerente.
Foi em vão que o Sr. Matzerath tentou convencer seu
presuntivo filho Kurt e respectiva mãe — que, como se sabe,
é uma Truchinski — a acompanhá-lo no Mercedes; pois Maria
considerou-se imprescindível. Depois da morte do marido,
pouco antes do fim da guerra, morte que Oskar hoje acha que
poderia ter sido evitada, ela continuou sem casar e com tino
para negócios.
Parece que ela exclamou: “Não, não! Pra lá voltar mais
eu não quero!” O que acarretou uma discussão, em cujo de­
curso paternidades foram postas em dúvida; esmiuçar aqui
esse assunto desagradável iria, porém, levar-nos longe demais.
A coisa ficou na recusa de Maria Matzerath: ela não podia
deixar simplesmente na mão sua cadeia de lojas.
Quando, pouco antes de sua partida, perguntei-lhe, como
que de passagem: — Diga, seu Oskar, quais desses caxúbios
espalhados e estabelecidos pelo mundo afora o senhor co­
nhece pessoalmente? —, ele disse: — Uma certa timidez
impediu-me até hoje de viajar pesquisando meu passado.
Houve, sem dúvida, muita correspondência, mas nada foi vi-
zualizado, exceto fotografias, sendo que sobretudo os Col-
chics fotografaram com afinco. Agora, espero rever, se não
meu tio Jan, tão dolorosamente íntimo de minha pobre mãe,
de qualquer forma seu filho: Stephan é apenas dois meses
mais velho que eu.
Depois de uma pausa qiie aproveitou para rodar os anéis
em seus dedos, ele disse:
— Bem, não teremos nada de muito profundo a nos di­
zer. O senhor sabe como são esses ajuntamentos familiares.
Muito aperto e pouca intimidade. A mim, me interessa prin­
cipalmente minha avó. Ela é a única que, para mim, tem exis-
*

tência palpável. E ela, e apenas ela, que eu quero visitar.

219
Mesmo assim, Anna Koljaiczek não mora mais em Bissau-
Abbau, e sim para os lados de Matern, que hoje se chama Ma-
tarnia. A construção do novo aeroporto foi o motivo dessa
expulsão. Por isso, as roças de batata que minha avó plantou e
limpou, desde a juventude, desapareceram, além de outros
mito», embaixo do concreto.
Depois de um pernoite sem sonhos, ele segue viagem de
Posen e aproxima-se de Bromberg em seu Mercedes abalro-
ado; enquanto isso, é preciso fazer outras perguntas, se não a
ele, pelo menos retoricamente: Por que mais uma véz Oskar?
Não poderia ele ter mantido seus trinta anos e ficado no sana­
tório? E, já que envelheceu e está ultimamente vidrado na
mídia, por que a espera até òs cento e sete anos? Por que não
anos atrás, quando havia a boa ocasião de festejar o número
redondo? E por que, em todos os aniversários transcorridos,
Anna Koljaiczek não admitiu cerimônias — nove-horas, como
ela dizia —, até que acabou finalmente enviando cartões-
postais com o convite pelo mundo afora?
Porque ela estava tomada por uma inquietação que vinha
sentar-se a seu lado no banco diante de casa. Porque a frase
que repetia com insistência há anos — “Já num vejo a hora di
meu fim chegá” — não se referia mais somente a ela, a ma-
cróbia, mas tinha se consolidado, abrangente: “Já num vejo a
hora di mi acabá com u qui maix é”.
Por isso, perto ou distantes, seus próximos receberam,
todos, cartões-postais que o padre teve que escrever para ela
em Matarnia; pois Anna Koljaiczek dissera ao reverendo:
“Festejá é cumigo, mãis iscrevê é sei lá quem qui tem”.
E um desses cartões-postais convocou o Sr. Matzerath.
Ele, que ano após ano pensara pontualmente nos natalícios de
sua avó, mas nunca mais voltara para casa, desde o fim da úl­
tima guerra, quando, enfermo, fora transportado para o Oci­
dente num vagão de carga. Agora, está viajandd em direção
nordeste, os olhos amedrontados fitos na nuca do chofer,

220
como se nela procurasse apoio; pois, como Anna Koljaiczek,
também ele vê a coisa bastante preta.

Cobrir com um pano, e pronto! Não quero que a rata­


zana volte a falar agora. Por isso, a gaiola de minha ratazana de
Natal fica coberta. Fechar os olhos, fechar os ouvidos! Nada
de Terceiros Programas, em que o mundo se decompõe em
comentários entremeados de música barroca. Estou sabendo
perfeitamente que vai tudo por água abaixo, e cada vez mais
depressa. N os meus papéis,'as coisas também não vão melhor,
com a floresta morrendo por aí afora. Malskat? Era uma vez.
(E alguém lá quer saber como se chama aquele bispo de Lü­
beck que fez inserir uma suástica esculpida em pedra na abó­
bada final do coro?) Sobra o navio. Talvez seja por isso. Eu
deveria me guiar pelas mulheres...
Já se pode avistar Gotland. A Nova llsebill desenvolve
suas nove milhas. A barcaça de pesquisa faz uma barulheira,
tal é a trepidação do motor diesel. Damroka quer recuperar
todo o tempo perdido com discussões e contagens de aurélias
por princípio.
As mulheres não brigam mais. A oceanógrafa assevera
que o material recolhido é suficiente.
A timoneira diz: — Se a gente ainda fizer rapidamente
umas medições entre Õland e Gotland, terminamos e, por
mim...
Damroka fica calada. Não quer continuar repetindo o
que o linguado disse.
A velha grita de trás da louça suja na cozinha de bordo:
— Vai dar para chegar a tempo. Vineta não vai correr de vo­
cês.
E quando a timoneira propõe ainda lançarem algumas ve­
zes o tubarão-medidor entre Rügen e Usedom — “Para que
os idiotas da RDA acreditem que estamos fazendo pesquisa”
—, a maquinista aprova: — Martha tem razão. Se alguém quer

221
procurar Vineta, e nada mais, eles não deixam de jeito ne­
nhum entrar no litoral.
Como o nome da timoneira é antiquado e severo! Mas, se
eu a chamasse na intimidade, não diria Martha, e sim um
nome muito diferente. É se aqui a maquinista de repente
chama-se Helga, e a oceanógrafa Vera, lá, onde exercem suas
verdadeiras profissões — e, diga-se de passagem, com sucesso
—, as duas têm nomes de sonoridade bem diversa. Também
Damroka é chamada Damroka somente aqui, a meu lado
bastam-lhe menos sílabas. Apenas a velha poderia em qual­
quer parte e tempo atender por Erna.
*

E preciso que eu diga, pois do jeito como são chamadas lá


fora, as cinco mulheres a bordo jamais tripulariam um barco
juntas; foi meu arbítrio que as reuniu sobre o convés, a
meia-nau, em redes, e levou-as ao rumo desejado. Não foi
nada fácil. Disseram: Típico! Só homens pensam uma coisa
dessas. Ele vive querendo harmonizar. Está a fim de uma Via­
gem da Paz!
Tive de bolar truques e mentiras forçadas, de prometer
pouco antes da partida que não surgiriam tempestades, nem
seria preciso temer que o motor enguiçasse em alto-mar.
Mesmo assim, me impuseram condições: não posso con­
tar covinhas ou descobrir sinais, nem interpretar ruga alguma,
vertical ou horizontal. Nenhuma das mulheres quer seme­
lhanças. Recusam-se a parecer como gostaria de refleti-las.
Por isso, estou proibido de desenhar perfis, de arredondar
uma testa e deixar curta a outra, de riscar o molde de seus
olhos. Quando as faço falar ou calar-se, a boca que fala ou cala
tem de ficar de fora. Como os lábios se abrem, se encontram,
apertam, umedecem, eloqüentes ou reservados, nada disso
pode ser dito. Deixaram de ser características as maçãs do
rosto largas, um queixo delicado, outro cheio e saliente, lóbu­
los de orelha numa soltos, noutra presos. A nenhum cheiro —
pois cada uma tem seu próprio cheiro — é permitido procurar

222
adjetivos. E cor alguma pode apresentar-se; seria uma traição.
Por isso, nenhuma das mulheres a bordo tem olhos azuis, cin­
zentos ou castanhos. Não se pode falar de cabelos negros
co/no a noite, lourinhos, castanhos-escuros, cor de trigo.
Apenas que Damroka tem lindos cachos fique aqui consigna­
do. E isso ainda: o cabelo de todas as mulheres está ficando
mais ou menos grisalho. Elas não param de envelhecer, vão de
uns quarenta e cinco a bem mais de setenta, embora especial­
mente a velha goste de parecer menina.
São muitos anos de vida. Se me permitem dizer: com o
tempo, elas ficaram mais bonitas. Como, segundo se disse,
desde o princípio tinham ótima aparência, envelhecendo elas
conseguiram descer um véu sobre sua beleza antes excessiva­
mente à mostra.
É isso: trata-se de cinco beldades envoltas em véus, que
querem ir a Vineta. Até suas histórias, que giram todas em
torno de homens passados, são histórias veladas; pois eu ja­
mais poderia dizer como para elas tornei-me estranho,
perdi-me, eternamente inacessível, faminto, ou escapando-
lhes casualmente. E saber quem magoou quem, usou, passou
por cima, sentiu falta, deixou esperando na chuva é coisa que
tampouco serve de lastro para uma nave que já tomou o rumo
do porto de Visby, em Gotland, e que, portanto, logo partirá
à procura da cidade submersa.
— Puxa vida! — exclama a maquinista Helga, balançando
braços e pernas. — Que vontade de descer a terra!
A oceanógrafa Vera diz: — Vou colocar um novo filme.
Dizem que em Visby há ruínas interessantes. Tudo autêntica
Idade Média.
A velha, que de um jeito ou de outro é chamada Erna,
enumera o que tem que ser comprado: — E precisamos sem
falta de líquido, umas garrafas de aquavit. Quem sabe o que
vai haver nesse reino submarino de vocês?!

223
A timoneira, cujo nome eu digo ser Martha, quer de
qualquer forma viver uma aventura em terra.
— Acho que ainda vou, depressa, fisgar um homem —
prediz ela —, para perder o gosto.
Damroka, que eu em segredo sempre chamei de Damro­
ka, quer procurar a capitania do porto imediatamente depois
de atracar, para apanhar os documentos carimbados. Ela diz:
— Então só falta Mõnchgut aparecer a estibordo e nós mos­
trarmos nossos papéis em dia à guarda fronteira da RDA,
quando eles vierem pelo lado com o barco.* Depois disso, pra­
ticamente nada mais pode nos acontecer.
Eu não me meto, não digo o que sei. Que pode ser tarde
demais, fica não dito. Ah, se Vineta estivesse mesmo aberta
para as mulheres!

A ratazana nos data segundo seu próprio calendário.


Tudo o que aconteceu antes de seu aparecimento na Europa,
com dia e horã calculadinhos por nós, ela resume com a fór­
mula: isso foi no tempo do rato preto doméstico. Sua origem
permanece obscura. Ela mais cria lendas do que esclarece, di­
zendo: Vivemos muito tempo no mar Cáspio, até que um dia
decidimos atravessar o rio Volga a nado e nomadizar, o que
fez com que ficássemos conhecidos como ratos nômades.
As notícias, tanto dos portos do continente, quando das
Ilhas Britânicas, concordam quanto à sua chegada à Europa
durante os anos 50 do século XVIII. Assim, como a ratazana
diz, foi no período do rato preto doméstico que ocorreu a
transmigração dos povos e a peste se espalhou.
E todos aqueles ratos em Magdeburgo, Stralsund, Brei-
sach e por aí afora, que durante a Guerra dos Trinta Anos ti­
nham seu preço, crus e esfolados, e, fritos ou cozidos, seu va­
lor nutritivo, eram da mesma forma ratos pretos domésticos.
Apesar disso, a ratazana, que é rato nômade partido da
Ásia e tem a denominação imbecil de Rattus norvegicus, as­

224
sume aquela espécie hoje pouco encontradiça do Rattus rat-
tus, assume a longa história do rato preto doméstico, que tudo
indica ter sido um tantô menor, com focinho mais pontudo,
roas de cauda proporcionalmente ainda mais longa.
Ela diz: Nós não fazemos essas diferenças. Rato é rato. E
como rato em si, também nós estivemos presentes em todas as
transmigrações de povos, no avanço da peste, à sombra das
Cruzadas e dos cortejos de flagelantes, em torno da fogueira
de Joana, diante do castelo de Macbeth, com todos os impe­
radores em Roma, e nos campos de batalha da Guerra dos
Trinta Anos. Se houve ratos nos navios de Gustavo Adolfo,
quando ele atravessou o Báltico em direção à Pomerânia,
éramos nós que estávamos nos porões, em nossa versão preta.
E se em Hameln eles pretendem ter afogado no Weser milha­
res de ratos domésticos — embora sejam conhecidos como
bons nadadores —, então, mais uma vez fomos nós que eles
tentaram afogar.
Mas os ratos nômades só entraram propriamente em ação
a partir do começo da Revolução Francesa, a qual, na opinião
da ratazana, terminou quando a Comuna de Paris foi esmaga­
da. Por esse motivo, a guerra de 70, 71, em que crus e fritos
os ratos novamente tiveram seu preço, assume para ela uma
importância particular. Sempre que toma fôlego para uma
conferência mais longa, ela diz: Quando nós, nos tempos da
Comuna de Paris..., ou: Isso foi pouco depois do levante da
Comuna de Paris...
Pelos cálculos da ratazana, a história dos ratos de labora­
tório de pêlo branco e olhos vermelhos, essa história triste e,
segundo ela, indigna, começou pouco antes da Comuna de Pa­
ris. Na década de 50 do século XIX, surgiu uma moda na
França e na Inglaterra que consistia em se prenderem, sem
possibilidade de fuga, cem a duzentos ratos nômades captura­
dos, e um cão particularmente bravo, em geral um terrier,
fazendo-se então apostas sobre o tempo necessário à elimina­

225
ção dos ratos; divertimento esse que não era exclusivamente
das classes baixas. Mas sempre que se encontravam albinos
entre os ratos capturados, eles eram separados e exibidos
como curiosidade em feiras e circos. Tais seleções duraram
cerca de dez anos, até qüe, primeiro na França e, com atraso,
na Inglaterra, uma lei proibiu o estraçalhamento de ratos em
jogo de apostas. Entretanto, a procura por ratos branco-
vermelhos tinha crescido, e começou-se assim a juntar casais
desses albinos apropriados para exibições, o que acabou origi­
nando uma série de ninhadas branco-vermelhas.
Um médico de Genebra, conta minha ratazana, foi o pri­
meiro a submetê-los a experiências de laboratório, testando
alimentos, misturando mais tarde remédios à ração, e final­
mente, inoculando seus ratos de laboratório com bacilos de
doenças humanas corriqueiras: difteria, escarlatina, gripe. So­
mente trinta e cinco anos após o levante da Comuna de Paris
é que os branco-vermelhos impuseram-se internacionalmente
como cobaias, quando o Instituto Wistar de Filadélfia come­
çou a produzir em larga escala aqueles ratos de laboratório de
utilidade tão propalada até as vésperas do último dia.
Minha ratazana diz: Aproximadamente cento e cinqüenta
anos depois de nosso desembarque na Europa — nós viemos
de navio — começa, com a entrada do rato de laboratório na
história humana, o desenvolvimento que levaria à Grande Ex­
plosão.
Tendo levado minha instrução histórica até esse ponto,
ela disse: Por sinal, você sabia que os laboratórios de criação
em Wilmington, Delaware, apresentaram no último ano
da espécie humana um faturamento mundial de dezoito mi­
lhões de ratos de laboratório anuais, com um lucro de trinta
milhões de dólares?
E impossível demovê-la de fazer um apanhado do século
XX. A Primeira e a Segunda Guerra Mundial, t>em como a
terceira prefigurada por seus semelhantes, são por ela resumi­

226
das num único desenvolvimento bélico que, segundo suas pa­
lavras, concluiu-se coerentemente com a Grande Explosão.
Por isso, quando amplia sua narrativa, ela fala sempre da
época anterior ou posterior à Grande Explosão. Ultimamente,
ela também tem usado palavras como época humana e época
pós-humana.
Num sonho recente, ela disse: Isso ainda foi durante a
época humana, mas bem uns cento e cinqüenta anos depois da
época do rato doméstico, _quando, no começo da época do
rato de laboratório, a esquadra russa do Báltico, sob o co­
mando do almirante Rojetvensky, estava para zarpar de Libau,
no que nós desembarcamos. E logo depois da batalha naval de
Tsushima, da qual participamos exclusivamente a bordo de
navios japoneses, começou aquela grande guerra que, apesar
de algumas interrupções utilizadas com inventividade para o
desenvolvimento de novos meios de extermínio, fixara-se
como objetivo a liquidação da humanidade, para, ao fim da
guerra mundial em três etapas, inaugurar a época pós-humana.
Outro dia, a ratazana levou em consideração nosso calen­
dário, e disse: Pela contagem da história humana, foi no ano
de 1630, quando desembarcamos na ilha pomerana de Use­
dom com a frota do rei sueco Gustavo Adolfo e, por ocasião
desse desembarque, descobrimos uma cidade submersa diante
de Usedom, a qual, fundada na época do rato doméstico,
chamara-se inicialmente Jumne, tendo depois tomado outro
nome.
Quando, na frase seguinte, a ratazana mencionou o nome
da cidade submersa, uma queixa despontou dentro de mim: ó
Deus, se as mulheres descobrissem que a ratazana sabe onde
se encontra Vineta, iriam ficar desesperadas. Preciso alertá-
las. Assim que acordar, vou falar a Damroka de minha rataza­
na, de ratos domésticos e nômades, de rotta, radau, ràt, radda
e rotto que só depois da mutação ratzf ratze foram chamados
em italiano ¥àttò\ em francês rat e em alemão Ratte e Ràttin.
Furioso, eu a interrompi quando ela reencetava um longo
discurso: Isso foi depois da Grande Explosão...
Mentira! gritei. Tudo mentira. Não houve Grande Explo­
são. E caso aconteça, o que não é totalmente improvável, vo­
cês também, e você também, ratazana, não vão sobreviver a
esse dia D.
Ela ficou impassível, explicou mais uma vez o sistema de
rolhas comprovado desde os tempos de N oé, e disse: Já antes
da explosão, sempre que, à moda dos mata-ratos, tentavam
lançar gases nas galerias e tocas, usamos ratos velhos como ro­
lhas; com seus gordos traseiros, eles vedavam hermeticamente
nossos esconderijos.
Como eu continuasse gritando mentira! e não!, ela me
transformou em aluno especial: Sua burrice, velhinho, está a
exigir uma enorme paciência de nós. Para você aprender —
pois você não sabe nada, mas nada mesmo! —, vamos dese­
nhar com giz, no quadro-negro, nosso sistema de segurança.
Enquanto mais um quadro-negro era deslocado para den­
tro de meu sonho, como se meu destino fosse suportar lições
eternamente, ouvi: D e resto, nunca foi preciso obrigar os ve­
lhos a proteger-nos. Muitas vezes, tantos se ofereciam, que
nós inseríamos três rolhas sucessivas em cada entrada, po­
dendo vedar completamente todas as tocas contra as tentativas
humanas de matar-nos com gás^Assim como podemos nos es­
ticar, afilar e enfiar, fininhos, por tubulações estreitas, somos
igualmente capazes de nos inflar e transformar em rolhas, não
só contra gás tóxico, mas também contra infiltrações; com is­
so, espera-se que até mesmo para você com sua falta de com­
preensão esteja explicado como sobrevivemos ao dilúvio.
E ela desenhou corredores, câmaras e rolhas no quadro-
negro: um labirinto. N ão parou de dar lições: Quando, ainda
há pouco, andávamos pela velha cidade de Danzig, o amigo
não escondeu sua alegria pelo fato de que as atrações históri­
cas, em bora negras de fuligem, estivessem em bom estado de

228
conservação, e, com certeza, pensou: é espantoso como o
dia-a-dia dos ratos transcorre despreocupado depois da
Grande Explosão. M as,é uma falsa impressão. Repentinos
temporais de poeira continuam a nos assolar, e existe um
único remédio contra seus efeitos destrutivos: fugir para os
sistemas de galerias, o velho e comprovado arrolhamento. N o
começo, era difícil continuarmos numerosos na época pós-
humana. Muitas crias tinham de ser mortas a dentadas: alei-
jões, cabeças abertas, caroços nos rabos. Por isso, ainda prote­
gemos nossas tocas com ratos velhos. Seus traseiros marcados
por tumores demonstram que não passou a necessidade desse
serviço. Olhe só, amigo, olhe direitinho.
E a ratazana virou-se, apresentando-me seu traseiro para
que eu reconhecesse nela uma das ratas velhas que prestam
serviço de rolha contra a precipitação radiativa. O que ela
mostrava era uma ferida só, purulenta, os ossos expostos. A
cauda se reduzia a uma fileira de cartilagens. D o pêlo, não so­
brara nada. Tumores eliminando pus. Seu sexo, uma cratera
fremente, que espumava, se contraía, expelia coágulos...
Ratazana! gritei. Assim eu perco você.
E daí? — Ela virou o traseiro, aquela chaga viva, devagar,
devagar demais, para o outro lado.
Sem você, eu vou ficar sozinho na minha cápsula espacial,
vai ser uma maldita solidão...
Você exagera.
Fique boa de novo, ratazana, eu lhe peço!
Ouvi-a então rir baixinho, a imagem mostrava apenas as
vibrissas: Seu velho bobo. Ainda não percebeu que não vamos
abandonar você, que ficamos a seu lado, nascendo sempre de
novo, sem conhecer esse Eu humano e mortal de vocês, pois
nosso Eu compõe-se de incontáveis existências de ratos e, as­
sim, supera a morte? Não tema. Você não vai nos perder.
Nunca ficará sem nós. Temos afeição por você, pois, no fim
das contas, foi você que nos serviu quando se tornou necessá-

229
ria uma fonte de erro para desencadear a Grande Explosão e
iniciar a era pós-humana...

Alguma coisa está errada.


Não sei o quê; a direção, talvez.
Qualquer coisa feita errada, mas o quê,
e errada quando, e onde,
tanto mais que tudo vai que é uma beleza,
embora numa direção
que as placas sinalizam como errada.

Agora, procuramos a fonte do erro,


procuramos fora de nós, feito loucos,
até que, de repente, alguém diz: nós,
nós todos, suponhamos por brincadeira,
poderíamos ser a fonte do erro,
ou você, ou você.
Não é uma acusação pessoal.

Um cede a precedência ao outro.


Enquanto tudo corre, lubrifícado,
na direção errada,
da qual se diz
que, mesmo que errada,
é a única, os homens se cumprimentam
exclamando: eu sou a fonte de"erro, você também?

Rara entre nós, tanta unanimidade.


Ninguém mais procura onde o que e quando
foi feito errado.
E tampouco a questão da culpa
ou do culpado se coloca.

230
Pois sabemos que cada um de nós.
Satisfeitos como nunca, todos correm,
seguindo os sinais, na direção errada,
e esperam que eles estejam errados
e nós salvos mais uma vez.

Preso à poltrona cósmica, fiquei estarrecido. Pare, rataza­


na! Chega de brincadeiras. Eu teria, eu fiz, só sou eu?
Disse para mim mesmò: finge de idiota, surdo, morto, e
me fingi de idiota, surdo, morto.
Só agora compreendia: para ela, vem bem a calhar. Me
coloca na cápsula espacial, e me transforma na fpnte de erro.
Foi bem bolado, pois eu até que servia: um idiota técnico,
completamente deslocado dentro dessa caixa, só pode consti­
tuir um risco. Incapaz de manejar uma simples calculadora de
bolso, e sem nem de longe te r noção de tudo o que os diver­
sos microprocessadores sabem, podem e realizam, eu, sentado
aqui, sou a fonte ideal de erro; porque ela afirma: que eu teria
brincado com teclas e botões de forma imbecil e imprudente.
Como uma nulidade picaretando pelo espaço sideral, eu teria,
de tédio e devido ao infindável domingo, tido repentinamente
a idéia de irritar os graciosos chips de silício; pior: através do
video-transfer, eu teria dado entrada, no output real, a imagens
de filmes de ficção científica, quais sejam seqüências de dra-
malhões sobre o fim do mundo; ao mesmo tèmpo, ignorara o
sinal de avaria, de forma que meu programa-catástrofe — ob­
jetos voadores alheios aproximando-se do alvo — teria final­
mente alimentado o último terminal, primeiro da superpotên­
cia ocidental e, em seguida, da oriental; e, naturalmente, am­
bas não vacilaram muito.
Foi assim que a Grande Explosão pôde ser desencadeada
sem a intervenção dos ratos, disse a ratazana. Com seguran­
ça lúcida fabulosa e precisão de imagem, eu conseguira dar

231
entrada àqueles certeiros objetos estranhos, e harmonizar de
novo o código de tempo que inicialmente desregulara.
Eu sou a fonte de erro! Logo eu fui conseguir, brincando,
acabar com tudo. Não! gritei. Essa carapuça não me cabe.
Você devia saber, ratazana, que mal consigo trocar uma lâm­
pada, e nem dirigir eu sei. Foi sempre assim, desde quando eu
era um gurizinho, mais tarde, na guerra, como ajudante de
aviação em nossa oito ponto oito, onde eu, como artilheiro
K6, nunca conseguia regular o ponteiro de direção com o
ponteiro de seqüência, o que ainda hoje me leva a sonhar com
essa e outras incapacidades. E eu aqui, como orbit-observer!
Como acrobata espacial! Eu, sem noção do que são chips e
clips. Eu, que só do cinema conheço o blablablá dos cosmo­
nautas. Eu, que há pouco ainda tentei, desesperadamente,
conter o que se desenrolava, gritando para baixo parem!
alarme falso!
Em vão, é claro. N ão dou para isso, sou burro demais.
Terra! chamei. Responda, Terra! Mas só veio apito. Depois,
silêncio. Ruídos intestinos.
Quero acordar agora, disse no sonho para mim mesmo.
Não quero ser sonhado como fonte de erro. Logo depois de
acordar, ainda antes de tomar o chá, quero pegar o jornal. Aí
é que vamos ver mesmo quais são as notícias. Não estará nada
escrito sobre uma fonte de erro. Pelo contrário, tudo segue
como de hábito. E claro que há perigos, mas quando não os
houve? A vontade de paz nunca foi tão grande!
Mesmo assim, eles deveriam ser advertidos, os velhos
com o dedo tremendo junto ao botãozinho. Ouçam, podero­
sos anciãos, exclamei: dizem que vocês querem conversar, que
não querem mais ficar tão brabos um com o outro. Isso é
bom. Falem, falem, por favor, tanto faz sobre o quê, o impor­
tante é falar. Entretanto, precisamos nos perguntar: de que
serve ao mundo o retorno à falação, se, longe desse palavrório
sobre a paz, erros que começam tiquitinhos e logo ficam bas­

232
tante avantajados infiltram-se em nosso sistema de segurança,
quer dizer avançam roendo, como o fazem certos roedores
para atravessar madeira,' cimento e inclusive metal, até — su­
ponhamos por brincadeira — atingirem ambos os computado­
res centrais, provocando despropósitos, pior ainda: embara­
lhando todos os chips e clips, nossa segurança com tanto apuro
elaborada, não, pior ainda, não embaralhando, mas, pelo con­
trário, acionando o que está aí mesmo à espreita de uma opor­
tunidade, algo de definitivo, que não pode mais ser revogado.
Roedores são capazes disso. Camundongos, por exemplo; eles
entram, saem, passam onde quer que seja; para eles, não há
buraco pequeno demais, nem fresta excessivamente estreita.
Por isso, anciãos, trata-se de dar o alarme. Estão ouvindo,
alarme! As centrais de comando obedecendo a computadores
têm de ser protegidas contra ataques de camundongos, e isso
logo, não, imediatamente. E não contra camundongos apenas.
Pois sempre seria possível que outros roedores particular­
mente tenazes e resistentes a tóxicos, além do mais excepcio­
nalmente inteligentes, ratos, por exemplo, contornassem as
medidas de segurança atuantes contra os camundongos, e ig­
norassem a vontade humana de paz.
Por quê? Quais seriam os motivos?
Ora, eles querem acabar conosco, dar um acabou geral na
humanidade, porque estão fartos de nós, porque sonham com
tempos pó$-humanos, e querem ficar só na deles, numa boa;
no máximo, ainda aceitam tatuzinhos, moscas-varejeiras ma­
míferas e o zunido de caramujos voadores...
Pois ouçam, vocês que são os Grandes, sobre quem tanta
responsabilidade pesa, ouçam o que sonhei: nós não mais exis­
timos. Em Gdansk, minha terra, onde passei a infância, estive
na juventude hitlerista, fui ajudante de aviação, só vi ratos.
Então, sonhei: estou sentado numa cápsula espacial, mas não
me fixo em fenômenos estelares; em vez disso, me esforço
por fazer entrar em meus aparelhos o que se passa na Terra,

233
para que lá embaixo finalmente compreendam que assim não
pode continuar. Refiro-me aos muitos problemas que, vistos
de cima, estão jogados por toda parte, nitidamente irresolvi-
dos. Por exemplo: para onde levar o lixo? Ou: como fazer a
contagem desse excesso de águas-vivas? E quem vai curar de
novo as florestas moribundas, quando nós, qual príncipes da
carochinha, tivermos descoberto finalmente a fonte de erro?
Pouco antes de despertar, ainda acabei conseguindo ani­
mar o monitor de minha cápsula espacial. Depois da costu­
meira salada de imagens que os sonhos quase sempre acarre­
tam — mais uma vez incapaz como K6 —, vi diversos perso­
nagens da carochinha seguindo dentro de um carro...

Com Rumpelstino ao volante, o anão sorteado como


co-piloto, Bela Adormecida e o Príncipe beijoqueiro nos as­
sentos de trás, eles atravessam a cidade de Bonn, que, se­
gundo se afirma, é a Capital Federal.
O anão está sentado sobre duas almofadas, percorrendo
com o indicador uma planta da cidade que aperta contra os
joelhos. Rumpelstino, que não conhece o lugar, segue as ins­
truções do anão: “Tome a faixa da esquerda!” — “Dobre à di­
reita depois da segunda rua.”
O Príncipe volta sempre a despertar com um beijo a sua
Bela Adormecida, para mostrar-lhe as atrações da Capital: o
Reno visto da Ponte do Reno, a Beethovenhalle, mais tarde,
depois de uma odisséia pelos bairros dos lobistas, um edifício
encimado por três letras maiúsculas* e um prédio baixo que,
apesar de moderno, deve lembrar um barracão. Bela Adorme­
cida tem que esbugalhar os olhos atônitos, envoltos por longas
pestanas, mas volta sempre a adormecer. Rumpelstino quase
chega a ignorar a ordem de parada de um sinal luminoso.
“Está vermelho!” grita o anão.

* Sede do SPD, o partido social-democrático. (N. do T.)


N o centro, o velho Ford, com seu m otor incansável gra­
ças à gasolina da bruxa, entra no meio de várias passeatas de
protesto, que carregam *faixas diversas e, com freqüência,
opostas. O Príncipe e o anão lêem: “Quando será o ano do
bebê?” — “Fora com os turcos!” — “Basta de mísseis!” —-
“Armar a paz!” — “Contra as experiências com animais!” —
“Fora com os ratos e moscas-varejeiras!”* e: “Mesmo sem flo­
restas a vida continua.” — “A floresta morre e os Irmãos
Raiva Contida dormem!”
Alguns manifestantes estão mascarados, outros armados
com pedaços de pau, muitos se fantasiaram de cadáveres ou
de ratos verde-zinco. Uma pessoa de pé lê um jornal, cuja
manchete brada: “Russos escondem filhos do Primeiro-
Ministro!” Como o trânsito está congestionado, e o leitor do
jornal, nas proximidades, o anão lê de viva voz a sensação. Ele
dá risadinhas e bate palmas.
Finalmente, a seta: “Sede do Governo”. Depois de um
curto trajeto, eles param diante da cabine de controlei Rum­
pelstino apresenta-se ao oficial de guarda como chefe da co­
missão “Salvem os contos de fadas”. Uma vez mais, o Príncipe
é obrigado a acordar sua Bela Adormecida com um beijo:
“Chegamos, querida!”
Como o guarda está hesitante, o anão repete uma longa
legenda de nosso filme mudo: “Procuramos o Ministério Es­
pecial para Danos Florestais de Médio Alcance e temos uma au­
diência com os senhores Ministro e Secretário de Estado Ja-
cob e Wilhelm Grimm. Nossa senha é Floresta Mágica. E ur­
gente!”
Seguindo instruções do oficial, um soldado de guarda
bate a senha num aparelho eletrônico. Aparece no monitor.
“Senha: Floresta Mágica”. Em seguida, vem a resposta: “Libe­

# Velha designação nazista para intelectuais rebeldes, retomada há alguns


anos por políticos da direita alemã. (N. do T.)

235
rar Floresta Mágica”. A barreira se ergue. O oficial bate conti­
nência. Pela porta aberta, o Príncipe dá uma gorjeta. O jovem
oficial, sem saber direito o que fazer, vê espantado uma mo­
eda de ouro na palma de sua mão. (Consultar o Sr. Matzerath
a respeito. Deve ser um maximiliano ou um rublo de ouro?)
N a Casinha de Chocolate, as figuras da carochinha vêem
o que se passa em Bonn. Eles aplaudem quando a delegação
salta do velho Ford e é recebida por Jacob e Wilhelm Grimm,
à entrada do Ministério. Até as mãos decepadas da menina ba­
tem palmas. Joãozinho e Maria explicam a Rapunzel quem é
Jacob e quem é Wilhelm. Excitada, a bruxa mordisca ossinhos
de sua coleção. A avó, que mal ouve, diz a Chapeuzinho
Vermelho: “Tomara que eles tragam o dicionário. Não preci­
sam ser todos os volumes. O anão prom eteu.”
Nas paredes dos gabinetes dos Irmãos Raiva Contida
encontram-se pendurados mapas de grandes regiões, mos­
trando zonas de florestas e danos florestais marcados em di­
versas cores. Jacob solicita que as figuras da carochinha
sentem-se em torno de uma mesinha de centro. Wilhelm
apresenta à delegação um velho exemplar dos contos de
Grimm, pedindo autógrafos. Bela Adormecida é a primeira a
autografar, depois vem o Príncipe. O anão assina como “T er­
ceiro Anão”. Rumpelstino faz o gesto de quem vai dar uma
grande assinatura, mas hesita e traça três cruzes. E só aten­
dendo a um pedido de Bela Adormecida — ela diz: “Más os
cavalheiros sabem...” — que ele escreve ao lado, entre parên­
teses, “Rumpelstino”.
Depois de admirar os divertidos arranjos de smurfs na vi­
trine de Jacob Grimm, o terceiro anão (segundo sugestão feita
pelo Sr. Matzerath) expõe o pedido da avó de Chapeuzinho,
referente ao dicionário de Grimm: “Ela ouve tão mal, e gosta
tanto de ler”. Lisonjeado, Jacob Grimm entrega*um exemplar
autografado: “Finalmente ela saiu, a edição completa. E o pri­

236
meiro volume, de A a Biermolke. Continuaremos fornecendo
com prazer os volumes ulteriores.”
Só agora as figuras da carochinha apresentam sua queixa.
Rumpelstino levanta-se de um salto, exige, bate com os pés
no chão, sacode os punhos. O Príncipe age com distinção, so­
lícito como um diplomata. O terceiro anão agita com conota­
ções anarquistas. Bela Adormecida, que acabou de ser des­
perta com um beijo, choraminga, o olhar boiando.
As queixas dos personagens da carochinha devem consis-
(ir em gestos altamente expressivos, do cair de joelhos até o
torcer das mãos, bastando-lhes poucas legendas: “Sem a flo­
resta, estamos perdidos!” — “N ós também morreremos com a
floresta!” — “Os homens ficarão pobres, sem florestas e con­
tos de fadas!” — “Iremos nos vingar!”
Jacob Grimm aponta fotos de enormes fábricas e cemité­
rios de automóveis. Ele diz: “Infelizmente, nós não podemos
luzer nada. A democracia é apenas pedinte. O dinheiro grosso
tem o poder!”
Wilhelm Grimm está quase às lágrimas: “N ão apenas os
poderosos, todos teremos parte da culpa se a floresta m orrer.”
Bela Adormecida tem uma crise de choro e não se deixa
consolar pelo Príncipe. O terceiro anão pragueja: “Depois da
floresta, são os homens que vão m orrer!”
Furioso, Rumpelstino arranca a perna devidamente pre­
parada para esse efeito, colocando-a demonstrativamente so­
bre a mesa do Ministro para Danos Florestais de Médio Al­
cance, na sede do Governo.
N a Casinha de Chocolate, as figuras da carochinha obser­
vam a perplexidade que reina em Bonn. Todos estão arrasa­
dos. Rapunzel se esconde atrás de seus cabelos, não quer ver
nem ouvir mais nada. Branca de Neve só está com vontade de
comer a maçã venenosa conservada em resina sintética. Um
dos seis anões que permaneceram na floresta de fadas excla­
ma: “Será que o capitalismo tem sempre de vencer, sem exce­

237
ção!?” Chapeuzinho bate com as botinhas vermelhas no chão:
“Merda! Vou deixar o lobo me comer!” e corre para fora da
casa.
A avó não entende nada, balança a cabeça, pega a caixi­
nha de verniz da Madrasta Má, que está ao lado, desliga Bonn,
e liga o filme em preto-e-branco Chapeuzinho Vermelho e o lobo
mau. Depois de uma breve salada de imagens com vestígios de.
diversos motivos da carochina, ela vê finalmente como o lobo
devora Chapeuzinho e tem olhos de fogo.
Irritada, a Madrasta Má desliga seu Espelho Mágico e diz:
“Que besteira é essa, avó!”
Enquanto Joãozinho procura consolar as figuras da caro­
chinha, em desespero, Maria vai até ò poço, onde com uma
pancada de água do balde ela atrai o Rei Sapo de dentro do
buraco. Com um sorriso dolorido, a princesa com ares de se­
nhora aceita esse começo de um relacionamento a três. (E o
Sr. Matzerath que deseja essa complicação.)
Mas, agora, a bruxa está se lamentando a altos brados:
“Ai! Sem floresta as crianças nunca mais poderão perder-se!”
Joãozinho a consola, consegue, porém, esquivar-se antes que
ela o aperte contra suas tetas. Ele exclama: “Chega de chora­
deira! H á de existir um caminho. Basta a gente querer! O ser
humano não pode viver sem a floresta. Será que isso está cla­
ro, fínalçiente!?”
Em Bonn, Wilhelm Grimm tem de repente uma idéia.
Ele esquadrinha os mapas de florestas nas paredes, e diz:
“Vamos convencer o Primeiro-Ministro a vir finalmente co­
nosco e outros especialistas, e vistoriar a floresta moribunda.”
Jacob Grimm aprova: “Talvez lá aconteça um milagre.” O
terceiro anão quer saber direitinho: “Onde, onde é que isso
será exatamente?”
Jacob Grimm mostra no grande mapa florestal onde está
a inspeção. Wilhelm Grimm traça um círculo em torno do lo­
cal. O Príncipe acorda com um beijo a Bela que adormecera

238
c horando e aponta o local dos futuros acontecimentos com
um belo e comprido dedo, enquanto Rumpelstino atarracha
novamente sua perna.
A feliz reviravolta é captada pelo Espelho Mágico na Ca­
sinha de Chocolate. Joãozinho anota o local da visita. Os
anões aparecem com um primitivo mapá florestal. A anotação
cie Joãozinho é comparada com o ma£>â."Eles encontram o sí­
tio, assinalam-no e bolam um plano com Joãozinho.
As outras figuras da carochinha vêem televisão. O Espe­
lho Mágico mostra a delegação partindo. Bela Adormecida
deu um beijinho de despedida em Wilhelm. Os Irmãos Raiva
Contida acenam para o velho Ford. A menina sem mãos está
tão fascinada, que suas mãos decepadas acenam igualmente.
Resmungando, a avó desliga o Espelho Mágico, e diz: “Onde
está Chapeuzinho, essa menina boba!” Ela se arrasta para a
frente da casa. Todos a seguem.
N a jaula, o lobo adormecido é virado de lado. Rübezahl
abre a barriga de zíper. Mal se esgueirou para fora do lobo,
Chapeuzinho léva uma bofetada da avó.
Com auxílio do mapa florestal, os anões explicam o plano
elaborado a todas as figuras da carochinha. Joãozinho, Rübe­
zahl e a Menina sem Mãos chegam com ferramentas: pás, an­
cinhos e enxadas.
Nesse momento, o velho Ford com a delegação se apro­
xima, vindo da floresta. Todos se reúnem para as grandes
boas-vindas. A bruxa elogia Rumpelstino. Algazarra e batidi-
nhas nos ombros entre os anões, que com a volta do terceiro
estão de novo completos.
A avó recebe de presente o volume I do dicionário de
Grimm, e lê (como desejou o Sr. Matzerath de acordo com
modificação do roteiro) algumas palavras, que àpáíecem tam­
bém na legenda: “angústia, angustiante, angustiado, aflição, es­
tar numa aflição, aflito, ansiedade, agonia...”

239
Os outros não se incomodam com tanto “amedrontamen-
to”. Acompanhada de um grande manda-brasa!, a bruxa enche
mais uma vez o tanque do velho Ford. Joãozinho e os anões
gritam: “Vamos!” e “Exen pliis!” Rübezahl gira a manivela do
arranque.
Seguindo ordens da bruxa, um anão busca o fuso da Bela
Adormecida. Um outro anão entrega enxadas a Jorinda e Jo­
ringel. A Madrasta Má traz o Espelho Mágico de dentro da
Casinha de Chocolate. Cheia de iniciativa, Rapunzel prende
os cabelos num coque. A menina com a$ mãos decepadas or­
dena que suas mãos peguem uma pá.
Todos querem partir, só a avó deseja ficar em casa com
seu dicionário. Ela lê de viva voz para os outros: “Adeus, dar
adeus, a hora do adeus, Deus te acompanhe, dar adeus ao
mundo...”
As figuras da carochinha respondem com beijos de adeus.
O último, a avó ganha de Rumpelstino, por cima do dicioná­
rio.
Só agora, a menina com as mãos decepadas manda que
suas mãos tomem a dianteira com a pá. Elas voam embora, se­
guidas de sete corvos. Superlotado de figuras da carochinha, o
velho Ford desaparece na floresta, deixando para trás apenas a
avó e o lobo. Ela lê para ele fragmentos do dicionário de
Grimm; “abatimento, abespinhar, ablativo, abráquio, o abs-
côndito desejo...”

As belas palavras.
Nunca mais dir-se-á bálsamo.
Língua alguma se mexe para falar taciturna.
Não retomam as vozes que nos prometiam
a bem-aventurança. Tanta agrura sem fala.
Despedida de palavras falando do homem na terra de Uz:
nu saiu do ventre de sua mãe.
Pudéssemos prosseguir dizendo queijo de coalho,
ou puxa, cântaro, caixão de farinha.
Restam apenas saudades da ama.
Quem sabe que coruja já foi mocho?
Quem quer chamar-se Eufrásio, Baltazar,
um Janjão qualquer? Despedir-se de palavras carecendo
a dádiva da manhã, o pão da tarde, a ceia.

Quem nos acenará com um velho adeus?


Quem murmurará que a alcova está pronta?
Nada que venha a nós, nos encubra, acoite,
e conheça, como o anjo prenunciou
à Virgem.

Ensurdecidos para a despedida,


as palavras se nos acabam.

241
0 SÉTIMO CAPÍTULO, no qual se faz um discurso diante do Con­
gresso Federal, os Sete Anões são indivíduos, cinco mulheres descem
de bordo a fim de aventuras, as águas-vivas cantam a alto e baixo
volume, o Sr. Matzerath chega, Malskat se equilibra goticamente
no altar-mor, a ratazana choraminga solitária, Bela Adormecida
pica-se no fuso e o barco ancora sobre Vineta.

Quando a ratazana apareceu-me êm sonho com a cidade


de Danzig — por cujas ruelas, único transeunte, eu batia per­
nas —, e barco hesitava e hesitava, a caminho de Vineta, não
querendo atracar no porto de Visby — como Oskar em via­
gem, ficando também pelo caminho em estradas da Polônia
—, sonhei, depois de em outros sonhos ter várias vezes cla­
mado não! afirmado há de haver ijma saída! e evocado um
tiquinho de esperança, que poderia comparecer ao Congresso
Federal e lá fazer um discurso, improvisado ou lido. E quando
vi as bancadas de deputados à minha frente, sabendo que atrás
de mim, no alto, se encontrava o Presidente do Congresso e, à
minha direita, o Primeiro-Ministro com seu gabinete, tomei a
palavra, como se ela estivesse à mão:
Senhor Presidente, minhas senhoras e meus senhores! É
como num sonho que os vejo a todos nessa bem pensada dis­
posição de lugares. E como é em sonho que estou postado
atrás da tribuna, pode acontecer que alguns detalhes de minha
exposição se diluam nas margens, enquanto outros firam por
sua contudêhcia. Pois os sonhos têm uma ótica peculiar, fazem
questão de não ser equilibrados. Os estudos de sua natureza
mostram que eles, num plano mais elevado, dizem a verdade,
sem que, entretanto, dêem no fim das contas muita importân­

242
cia à exatidão, pois já agora, depois de olhar de relance este
plenário lotado, começam a esmaecer as transições entre as
diversas bancadas: não reconheço mais partidos, só vejo inte-
rçsses.
Desenrolam-se também estranhas ações paralelas. Mal
comecei meu discurso, salta aos olhos que um bando de por­
tadores de dinheiro, carteiros uniformizados, entrega cédulas
a vários deputados e, repetidamente, leva importâncias à ban­
cada dos ministros, sendo que antes de cada retribuição os po­
legares são umedecidos.; Álém disso, tenho a impressão de
que enquanto falo o Primeiro-Ministro à minha direita enfia
na boca, pedaço a pedaço, uma enorme fatia de torta de
creme.
Eu sei, naturalmente, que deputados e ministros não são
pagos em público. E jamais o Primeiro-Ministro entregar-se-ia
de forma tão evidente a seu doce prazer. É apenas meu sonho
que torna isso possível. Ele desvenda a realidade e me permite
até solicitar que o bando de carteiros interrompa sua incansá­
vel correria para fazer uma merecida pausa para o café; tam­
bém não é preciso que se suborne e sonegue da manhã à noi­
te. Peço-lhe, outrossim, Sr. Primeiro-Ministro, que guarde
esse segundo pedaço de torta para o próximo orador, de tal
modo que, eliminada essa dispersiva atividade paralela, possa
fazer-se ouvir uma proposta que se encontra exclusivamente a
serviço da cultura.
Trata-se da bomba de nêutrons. Como todos se lembram,
minhas senhoras e meus senhores, ela deu lugar a controvér­
sias. Devia ser proscrita. Causou indignação. Também eu me
opus, naquela oportunidade. Chamei-a de abertamente desu­
mana. O que ela é, continua a ser. Pois onde a bomba de nêu­
trons cai, o homem perece, e com ele todos os animais.
Estou informado que os raios gama e de nêutrons, acele­
rados, paralisam inicialmente o sistema nervoso do homem,
destroem em seguida o aparelho digestivo, acarretando ao

243
mesmo tempo hemorragias internas, transpiração acentuada e
diarréias, e extraem finalmente as últimas gotas d’água do cor­
po, até que sobrevenha a morte — desidratam-no, portanto,
como dizem nossos médicos.
Isso é pavoroso e qüase inconcebível. São, desta forma,
compreensíveis os numerosos protestos. Mas, abstraindo-se
dos homens e dos outros seres vivos, o emprego da bomba de
nêutrons praticamente não destrói nada. Prédios, aparelhos,
veículos permanecem incólumes. E portanto também bancos,
igrejas e garagens, elevadas ou subterrâneas, com* respectivos
acessórios. Não obstante, foi dito então, e com razão: isso não
nos basta. De que nos servem fábricas aptas a produzir, tan­
ques funcionando e quartéis intactos, se o homem sucumbe?!
Mas eu lhes pergunto, minhas senhoras e meus senhores:
e se a bomba de nêutrons viesse a cumprir tarefas de preser­
vação cultural? Que dizer de uma bomba que se afirmasse
como protetora das artes? Poderíamos conviver com ela, caso,
além de tanques e canhões, também deixasse incólumes cate­
drais góticas e fachadas barrocas? Com outras palavras, todos
nós, ainda ontem indignados, deveríamos estabelecer um
novo relacionamento com a bomba de nêutrons, um relacio­
namento descontraído, reconhecendo seu verdadeiro caráter;
dito explicitamente: sua veia artística.
Não podemos esquecer que a violenta discussão de então
deteve um rápido desenvolvimento dos projéteis meramente
táticos em direção à bomba de nêutrons de efeito estratégico.
O tempo perdido pode entretanto ser recuperado, tanto mais
que as capacidades não faltam. Quem deseja ver nosso patri­
mônio cultural protegido com continuidade — e estou se­
guro de que todos os deputados estão imbuídos desse desejo
— tem que exigir a produção de muitas bombas de resguardo.
E óbvio que essa exigência vale para as duas superpotên­
cias. Ao equilíbrio do terror devç corresponder um equilíbrio
da preservação. Por isso, torna-se necessário um tratado espe-

244
ciai, pelo qual a bomba de nêutrons, em sua qualidade de
bomba de resguardo, fique exclusivamente comprometida
com a proteção da cultura. Basta querermos, para que uma
comissão representando as alianças das duas superpotências
comece a atuar inicialmente na Europa e, em seguida, em to­
dos os continentes, elaborando uma lista dos principais cen­
tros culturais. Então, tratar-se-á de, mantendo o equilíbrio,
determinar as zonas de resguardo e, portanto, de alvo. Será
por fim necessário o rearmamento no âmbito de ambas as po­
tências protetoras, pois o potencial disponível não é suficien­
te. Queremos resguardar o máximo possível de substância cul­
tural que, fora isso, seria presa da destruição atômica.
Se bem compreendo seus apartes, minhas senhoras e
meus senhores, Vossas Excelências começam a demonstrar in ­
teresse. Exortam que vá ao assunto; exclamam com paixão:
arte é questão de gosto!
E como têm razão. Mas como nosso gosto em questões
de arte vai encontrar-se, tão logo em nossa própria casa, no
âmbito interalemão, arrolemos nominalmente o que vale pre­
servar: sugiro Bamberg e Dresden como cidades a serem neu-
tronizadas; a Opera de Semper, reconstruída, e o Cavaleiro de
Bamberg hão de servir-lhes como lembrete. Sem que eu com
isso assuma qualquer compromisso, poderiam seguir-se
Rothenburg-no-Tauber aqui, Stralsund do outro lado, então
Lübeck e Bautzen...
Minhas senhoras e meus senhores — muito obrigado,
Sr. Presidente —■, peço-lhes que se abstenham de apartes co­
mo: e cadê Celle, ou: por que não Bayreuth?, pois o aspectó *
de globalidade alemã do resguardo planejado deveria gozar de
primazia.
Como é de se supor que a maioria das cidades vai concor­
rer à graça de uma neutronização filo-artística — pois em toda
parte há restos de cultura —, tocará grande responsabilidade à
comissão selecionadora a ser constituída. Ela terá que de-

245
monstrar compreensão artística. Mas terá também que dizer
não, sempre que uma ou outra cidade, chame-se ela Leipzig
ou Stuttgart, Magdeburg ou Frankfurt-do-Meno, deva perma­
necer na categoria dos alvos tradicionais.
Sim, senhores! Também lamento profundamente. É dolo­
roso ter de dizer que muitas capitais européias não poderão
reivindicar proteção neutrônica. Mas caso haja a determinação
de agir em tempo hábil, será possível transferir boa parte de
todo os bens culturais ameaçados por golpes nucleares para
cidades cuja neutronização resguardante esteja garantida.
Os tesouros do Vaticano, por exemplo, poderiam ir para
Avignon, as obras de arte do Louvre, para Estrasburgo, o
acervo de Varsóvia, para Cracóvia, e as maravilhas da Ilha dos
Museus de Berlim Oriental, para o âmbito cultural de Wei-
mar, que é digno de resguardo. Não excluo que portais de
igreja que são parte de nós, fachadas barrocas que conquista­
ram nosso amor, pias batismais usadas desde gerações, e san­
tos que nos habituamos a ver enfeitando pontes sejam eva­
cuados voluntariamente — mas com pesar, sem dúvida — para
zonas de resguardo; de resto, tal transação abrangeria a Eu­
ropa inteira, e esjtaria perfeitamente apta a criar frentes de
trabalho. Por que — por exemplo — não teríamos a capaci­
dade de transportar a Catedral de Colônia para Dinkelsbühl, a
Torre de Londres para Stratford?
Pois, minhas senhoras e meus senhores, que não faríamos
nós para salvar os testemunhos da cultura européia! ? Assim, a
Europa poderia pela última vez demonstrar sua grandeza,
dando um exemplo protetor a ser imitado por outros conti­
nentes. Por isso, peço que me permitam uma observação pes­
soal que — com a autorização do Sr? Presidente — é aqui
oportuna: se Danzig, minha cidade natal, que desde a — por
enquanto — última guerra mundial chama-se Gdansk, tivesse
a felicidade de pertencer ao rol das cidades neutronizadas, e
pudesse, portanto, subsistir à Terceira G uerra Mundial, com

246
su.is torres e torrinhas, as casas de cumeeira e os terraços, a
Ponte de N etuno e toda a sua sisudez de tijolos góticos, ser-
me-ia fácil suportar qualquer sacrifício, fosse o que fosse.
E certo que dirão: isso é desumano! E cinismo! E também
CU me perguntei a princípio: de que nos serve a preservação
c ultural, se nas cidades neutronizadas toda carne em que há
espírito de vida, como diz a Bíblia, será desidratada até o ad­
vento da morte? Quem restaria para admirar o que foi res­
guardado e exclamar com enlevo: que beleza imperecível!?
Não podemos entretanto deixar-nos confundir. Não h á .
outra escolha. Como a liberdade, também a arte reclama seu
preço. Por isso, minhas senhoras e meus senhores, é com toda
a firmeza que Vossas Excelências deveriam tomar sua decisão.
Olhando, porém, para o plenário, e vendo como o re­
cinto esvaziou-se, mais ainda: que estou só nesta Alta Casa —
pois desapareceram agora o próprio Primeiro-Ministro com
seu gabinete —, começo a duvidar. Pergunto-me: estarão os
deputados ausentes dispostos a agir em favor da arte com a
mesma conseqüência que demonstraram em outra ocasião,
quando se tratava de defender nossa liberdade aprovando por
maioria esse troço de médio alcance — como é mesmo o
nome?!?
Mas eles se foram, não ouvem mais nada. E eu que gosta­
ria de fazer ulteriores sugestões capazes de aperfeiçoar a pro­
teção dos monumentos artísticos neutronizados. Trata-se da
sujeira depois.
Com o sei de fonte pós-humana — e também pelo que os
diversos especialistas já hoje asseguram —, nuvens de cinzas
irão obscurecer o céu depois da Grande Explosão. Levada por
ventanias, essa expressão compacta da extrema possibilidade
humana irá cobrir a esfera terrestre, de forma que as catedrais
intactas, os castelos cheios de ornamentos e as alegres facha­
das barrocas logo ficarão negras de fuligem. Fuligem que se
depositará sobre tudo. Fuligem grossa, sebosa. A conseqüên-

247
cia seriam danos irreparáveis. Uma lástima! Uma vergonha
cultural! Mas será que ninguém quer ouvir? Ei, Primeiro-Mi-
nistro!
Foi embora, só deixou farelos. E pensar que é preciso
tomar medidas. Agora, imediatamente! Seria preciso liberar
verbas para pesquisa, mobilizar o espírito inventivo dos ale­
mães, solicitar que nossa indústria química desenvolva uma
matéria protetora descolável, para que a fuligem não continue
eternamente...
Eu sei, a questão fica em aberto: quem, que diabo, desta­
caria mais tarde o revestimento protetor? Caso Vossas Exce­
lências ainda estivessem presentes, minhas senhoras e senho­
res da Oposição, poderiam causar-me embaraço com o aparte:
mas os homens estão todos contaminados, desidratados, mor­
tos! Mesmo assim, eu teria uma saída. Não carece que toda a
fadiga e trabalho pesem sobre os ombros do gênero humano,
como diz a Bíblia. Lembro aqui a comprovada capacidade de
subsistência do rato nômade vulgar, denominado Rattus norve-
gicus. Ele existirá quando não mais existirmos. Ele encontrará
o acervo cultural ,que nossa previdência terá resguardado.
Sempre achegadas ao homem, as ratazanas sobreviventes —
curiosas como elas são — descascarão centímetro a centímetro
o invólucro protetor enegrecido pela fuligem, surpreenden­
do-se então com a beleza intacta...
Nisso, parei de sonhar que podia fazer um discurso
diante do Congresso Federal. Quando me ouvi dizendo a frase
conclusiva — Agradeço-lhes, minhas senhoras e meus senho­
res, por sua eloqüente ausência! —, já estava completamente
desperto.
Que bom, que nada foi ainda decidido: o Sr. Matzerath a
caminho, o barco entrando no porto de Visby, minha ratazana
de Natal que dorme, quem sabe sonhando cotn o Terceiro
Programa; mas nas Florestas de Grimm cresce a resistência, as
figuras da carochinha cheias de feroz determinação.

248
Como imaginar os Sete Anões isolados? Que dizer de Jo-
rinda e Joringel, além de que são o mais triste de todos os ca-
saieinhos tristes? Vale a pena analisar mais profundamente o
beijo compulsivo?
Tudo isso e coisas mais quer o Sr. Matzerath saber assim
que voltar da Polônia. Embora aprove que eu imprima a todos
os anões uma posição de fundo anarquista, ele deseja ver cada
anão equipado individualmente. O segundo poderia, ao estilo
de um guarda-livros, anotar cada beijo do Príncipe num ras­
cunho de contas, enquanto o quarto macaqueia o Príncipe
despertador. Mais tarde, veremos como o primeiro, o sexto e
o,sétimo vigiam desconfiados o rapaz com a insaciável boca
beijoqueira.
Salta aos olhos que todos os sete se servem de Branca de
Neve: a criatura doentia tem não apenas que lavar e passar
roupa, pregar botões, engraxar e dar brilho a sete pares de sa­
patos; vê-se também um ou outro desaparecer num cubículo
do sótão com a obediente mãezinha de família. Assim que o
cliente desce a escada, assobiando, depois de um intervalo re­
lativamente curto, enquanto Branca de Neve, cada vez mais
esgotada, sai cambaleando de seu cubículo, a Madrasta Má
embolsa moedas de cunho antigo, entre as quais táleres prus­
sianos, peças de ouro.
Eles são rudes, barulhentos e vidrados em seus jogos de
dado. Exercícios em comum mantêm seus corpos em forma:
engancha-dedos e rasteiras. Só são gentis com a bruxa, que é
respeitada por todos os hóspedes da pensão, mesmo pela Ma­
drasta Má; ambas aprofundam-se ocasionalmente em conver­
sas, em cujo decurso questões de emancipação não deixam de
encontrar resposta.
A senhoria da Casinha de Chocolate comporta-se sempre
como dona de pensão, ou seja, ao mesmo tempo severa e ob-
sequiosa; sua natureza só se revela ocasionalmente, quando

249
brinca com os dedos de Joãozinho. Pode-se supor que ela
mantém uma ligação com o zelador Rübezahl, ou com Rum­
pelstino, ou com ambos, pois o gigante grosseiro e o garçom
capenga obedecem imediatamente ao menor sinal de seu
longo indicador. Ela não vê com prazer quando Rübezahl
deixa que Rapunzel lhe penteie a barba. Também não lhe
agrada quando Rumpelstino desamarra a perna para comparar
seu próprio cotoco com os cotocos de braço da menina.
Muitas vezes a bruxa chama a si o Rei Sapo, que tanto ela
como Maria atraem jogando água no buraco do poço com fre­
qüência maior que a requerida pelo filme. Ambas gostam de
bater papo com o mergulhador coroado, cujas histórias sub­
marinas são cheias de graça. A madame ignora a conversação;
assim que o sapo salta de sua testa para dentro do poço, ela
passa a ocupar-se exclusivamente com sua dor de cabeça. Uma
certa admiração pela beldade sofredora torna-se visível
quando a senhoria da Casinha de Chocolate lhe estende pí­
lulas de ovas de sapo com um gole de um líquido verde cor
de rã.
A bruxa gostaria de ficar deitada ao lado do poço; no que
ela porém, autorizada pela senhora, chega a deitar-se em seu
lugar, o sapo recusa-se a pular da amurada do poço sobre sua
testa bruxal. Como que pensando em algum ditado sobre a
espontaneidade do amor para a legenda, a madame estende-se
sorrindo e encontra imediato refrigério. Maria, que tudo viu,
sorri com malícia; até parece que a criança sabe a forma de
induzir o sapo real a guarnecer de outro modo a testa da se­
nhora.
N em todas as sugestões do Sr. Matzerath são compreen­
síveis: nem que seja para me irritar, ele quer que o dicionário
de Grimm venha trazido, volume a volume, por caramujos gi­
gantes, até que a avó disponha de todos os trinta e dois volu­
mes; além disso, antes de viajar para a Polônia, ele determina
que Chapeuzinho só deve abrir o zíper e encolher-se na bar­

250
ri#a do lobo quando a avó recusar-se a deixar que a tolinha se es-
conda por baixo de suas saias. Não quero comentar essa inter-
vcnção em meu roteiro, embora eu não entenda o Sr. Matze-
ritth: a avó de Chapeuzinho Vermelho não é nenhuma Anna
Koljaiczek; concordamos, porém, quando Oskar quer que o
beijo compulsivo do Príncipe receba um destaque particular.
O absurdo do beijar, o beijador como reincidente, o des­
pertar com um beijo como ocorrência mecânica, esse estúpido
desprezo pela higiene, tudo isso exige um ator que tenha o
talento de beijar com isenção uniforme a qualquer coisa que
ie pareça com a Bela Adormecida; pois no curso da ação o
Príncipe será privado do objeto original do beijo, vindo então
não apenas a distribuir beijos entre Rapunzel e Branca de
Neve, como também a atentar contra uma boneca que o sexto
e o sétimo anão confeccionaram de palha, musgo e trapos.
Eu jamais iria tão longe como o Sr. Matzerath, que consi­
dera beijar uma doença que prefigura o' gosto da morte; a ação
cinematográfica deve entretanto mostrar os perigos que a bei-
jação do Príncipe acarreta. Vazio e bonito como é, sem a Bela
Adormecida ele ficará fora de si.
E Jorinda e Joringel? Como representar uma tristeza que
insiste numa mímica invariável? E Rapunzel? Seus cabelos de
um comprimento fatal? Essa profusão que leva qualquer pente
a capitular?
Nada disso! Em meu roteiro não entra nenhuma peruca
que poderia acabar arrancada por anões anarquistas e virar
uma bola de cabelo enrolado, cobrindo Rapunzel de ridículo.
Longos de sonho, fiados de rubro ouro e mesmo assim natu­
rais devem ser os cabelos que esvoaçam das janelas do andar
de cima da Casinha de Chocolate, cabelos de desejo, cabelos
de devaneio, única bandeira que estou disposto a seguir. Por
isso, digo que minha Damroka é lindamente encacheada. Com
seus cabelos, toca-me mais do que a ratazana — lá está ela de
novo! — pode destruir com suas palavras. E como eu me

251
amarro literalmente nos cabelos de Damroka, Rapunzel não
será submetida — não, Sr. Matzerath! — a peruca nenhuma.

Depois de atracarem seu barco no porto de Visby, em


Gotland, as cinco mulheres, mesmo tendo chegado, estão
mais longe do que nunca de Vineta. Seu barco navegou bem
umas trezentas e cinqüenta milhas rumo ao Leste. Depois da
ilha de M 0n, elas viram sumir a ilha de Bornholm. N a altura
de Ystad e, mais tarde, quando discutiam na baía de Hanõ, a
Suécia continental esteve ao alcance de sua vista: uma faixa li­
torânea plana, marcada por instalações industriais. Finalmente,
deixaram a bombordo a ilha alongada de Õland. Depois de
sessenta e duas horas de viagem, em que, segundo meus cálcu­
los, consumiram mais de setecentos litros de óleo diesel, elas
entraram no porto de Visby com o tanque de reserva quase
vázio. Todas as provisões chegavam ao fim. A água potável es-
casseava. D e lã, nem se fala. A discussão durante a derradeira
coleta de águas-vivas na baía de Hanõ consumira muitas pala­
vras. Assim, as mulheres só trocavam frases truncadas, di­
zendo o que o barco exigia.
Como, além disso, muito tempo passou, sobram apenas
poucas horas para o desembarque. Damroka procura a capita­
nia do porto para apanhar os papéis carimbados da RDA. A
maquinista e a timoneira enchem o tanque e todos os botijões
de reserva da Nova llsebill. A velha e a oceanógrafa pegam
tudo o que a cozinha precisa, nos freezers de uma cooperativa
de consumo. A velha amaldiçoa o Reino da Suécia e respec­
tiva moral, pois nas prateleiras não há aquavit para comprar, e
cerveja, só da fraca. Finalmente, com a ajuda de um finlandês
bêbado, ela consegue arranjar, no meio de uns barracões de
depósito, duas garrafas de uma cachaça braba, a preço ma-
jorado.
Só agora as mulheres estão livres para um paSseio em ter­
ra. M udar depressa de roupa, enrolar as capas de chuva. Dam-

252
toka prefere ficar a bordo, mas se deixa convencer, animada
(tf Ia velha e a oceanógrafa — “sem você não tem graça ne­
nhuma” —, e pelos protestos — “então nós também ficamos a
bordo”
* — da maquinista e da timoneira. Um pouco alheia,
como se devesse recolher pensamentos longínquos, ela pro-
i ura as chaves, fecha a cabine de comando e as escotilhas,
mas, infelizmente, não todas.
Nos prospectos, Visby é uma cidade que oferece mais do
que se poderia ver a pé em pouco tempo. Mesmo assim, há
muita agitação, e mal dá para a oceanógrafa fotografar as ruí­
nas amontoadas por todo canto, sem contar que não se con-
i rctiza o desejo da timoneira de apanhar rapidamente um
homem, assim de passagem. A velha não consegue arranjar
mais bebida alguma. Damroka não tem desejos. E a maquinis­
ta, que estava simplesmente a fim de ir a terra, diz, vendo a
animação na cidade: — Vamos, deixa a gente entrar nessa,
quem sabe acontece alguma coisa.
Isso porque, como em muitas outras cidades, a essa hora
também em Visby se protesta contra uma coisa e outra. Dam­
roka, que se lembra de uns rudimentos de sueco, tem que
traduzir o que faixas e coros dizem, pois há cinco ou seis pas-
ícatas de protesto, que tomam direções diferentes e se expri­
mem em faixas e coros contra experiências com animais e pela
liberdade ao mesmo tempo na Polônia e Nicarágua.
Depois de rápida deliberação, as mulheres decidem-se.
( lontra a corrida armamentista elas não querem mais marchar.
— Com drogas — exclama a velha — eu nunca tive nada
a ver.
— Não se pode botar Polônia e Nicarágua no mesmo
saco — diz a maquinista.
Dessa forma, como a oceanógrafa diz: — Vamos ver se
eles também são contra a contagem de águas-vivas —, elas se­
guem a reboque dos protetores de animais.

253
Passam por igrejas escangalhadas e passam pelo muro da
cidade, que está parcialmente destruído e em parte restaurado
com esmero, e, como está escrito no prospecto, conta a histó­
ria de Visby. N os limites da cidade, a passeata de protesto
pára diante de um prédio baixo, com ares reservadamente
científicos, mas que visivelmente perdeu a reputação, pois to­
das as trinta ou quarenta crianças, mulheres e homens, nas
quais se podem incluir as cinco mulheres desembarcadas, gri­
tam repetidas vezes em sueco que são contra testes com ani­
mais. A velha grita em alemão, primeiro sozinha, depois
acompanhada pela oceanógrafa: — Parem com essa contagem
idiota de águas-vivas!
Chove, como é freqüente chover nesse verão que a chuva
estragou. Fora isso, não acontece nada, até que alguém atira
uma pedra e vidraças se estilhaçam, ao que muitas pedras são
atiradas. As janelas da fachada do Instituto de Pesquisas Bási­
cas não demoram a ficar todas quebradas.
Estou certo de que a maquinista atirou a primeira pedra,
e a timoneira, a segunda. Só depois da terceira pedra, atirada
pela velha ou pela oceanógrafa — pois Damroka não joga pe­
dras —, é que eu vejo suecos arremessando. De qualquer
forma, a maquinista foi a primeira, para que acontecesse al­
guma coisa. N a beira da rua, há restos de obras com montes
de seixos do tamanho de ovos de pombo, bem à mão.
N o prédio, nada se mexe, ninguém impede o povo sueco
de entrar pela porta já sem vidraça. — Sigam-me! — diz a ti­
moneira, querendo ir atrás deles. A maquinista já pegou um
pedaço de pau. A oceanógrafa bate umas fotos: — Duas ou
três, rapidinho, de recordação — como ela diz. A velha ex­
clama: — Vamos! Quem sabe lá dentro tem umas garrafas. —
Mas Damroka decide: — Temos que sair daqjii. Já chega.
Acabou o passeio em terra. Dentro de uma hora nós zar­
pamos.
Assim, as mulheres não vêem o que eu vejo: os animais
dc laboratório que os suecos, todos protegidos contra o
lampo por capas de plástico amarelas ou vermelhas, põem em
liberdade.
» Além de porquinhos-da-índia, camundongos e ratos
de laboratório, também dez coelhos, cinco cachorros e quatro
mucacos rhesus.
As mulheres alcançam finalmente o barco, bastante can-
Miulas de tanto arrastar pé dando voltas para se desviarem das
pusseatas de protesto que obstruíam o caminho e da polícia
que acabou chegando com uivo de sirenes, levantando barrei­
ras e iniciando uma perseguição com unidades de busca pro­
vidas de cães.
A suposição da maquinista: — Aposto que eles deixaram
escapar uma porção de bichos —, é aceita sem comentários,
assim como a queixa da velha: — Coitados dos bichos, agora
estão perdidos por aí. A gente devia ter trazido um. Tinha até
um fílhotinho de cachorro.
Damroka não precisa das instruções. Enquanto recolhem
os cabos, ela abre a cabine de comando; diante da última esco­
tilha, ela pára, pensativa, pois a proa está aberta.
Nisso, a maquinista dá partida ao motor. A oceanógrafa
tliz: — Alguém sabe onde foi parar minha calculadora de bol­
so? — E A Nova llsebill zarpa, antes mesmo que a velha desar-
rolhe a pinga filandesa e encha os copos para si e a timoneira.
E começo de tarde. Parou de chover por um tempo. N e­
nhuma das mulheres quer falar. As pedras atiradas já não ren­
dem mais assunto. Teria o desembarque sido uma decepção?
É como se as mulheres estivessem presas a uma jura de silên­
cio que, fora imprevistos, só pode ser rompida sobre a cidade
submersa.
Mas à noitinha, na claridade do N orte, quando elas pas­
sam sobre o banco de Hoburg, um raso ao sul de Gotland,
entrando num campo de águas-vivas que reduz a marcha do
barco e dá a impressão de segui-lo mesmo depois de um des­

255
vio para estibordo, quer parecer às mulheres — e também a
mim que as mantenho mudas — que um som paira sobre a
água, crescendo e baixando, um canto sem palavras, sem prin­
cípio nem fim, como se no raso milhões de aurélias — quem
mais? — tivessem repentinamente voz, ou estivessem por su­
perior vontade milagrosamente afinadas para o canto.
A oceanógrafa já está arrastando o tubarão-medidor para
o convés. Com ajuda da timoneira, ela lança ao mar a rede es­
pecial, e volta a recolhê-la, a marcha reduzida, pois também
Damroka quer que se faça essa coleta. Ela derrama o con­
teúdo sobre a mesa a meia-nau, abre mais de doze águas-vivas
de tamanho, inédiò sobre o tampo de trabalho, e ouve o
mesmo que a timoneira e a maquinista: as aurélias produzem
um ruído, não, um som musical, de entoação mais grave que o
canto sobre o mar, mas que se encorpa num coral, e pode ser
ouvido até mesmo no convés, sobrepujando o ruído do mo­
tor, pois a velha abandona o macarrão na cozinha de bordo, e
exclama, rompendo o mandamento de silêncio imposto por
mim: — Puxa, elas cantam de verdade! —; ao que todas as
cinco mulheres, por último a oceanógrafa, acreditam nos gra­
ves e agudos que estão ouvindo.
A Aurelia aurita, com as marcas da beleza e o estigma de
um trevo de quatro folhas azul-violáceo no centro lobulado,
sabe cantar. Elas, as medusas translúcidas e etéreas, respirando
com o mar, errando em bandos, amaldiçoadas como praga;
elas, que, apenas estendidas sobre a mesa, encolhem-se sem­
pre sem um ai, perdendo o brilho assim que a formalina lhes
retarda 3 atrofia, elas cantam agora, apesar dos véus murchos:
um tom que cresce, tremula nos agudos, estertora nos baixos,
estreitando o porão da antiga barcaça de carga. A não ser no
bíblico forno de fogo ardente, jamais cantou-se com tanta
contundência. *

Mesmo quem quer acreditar exige provas. Damroka


permite que se recolham águas-vivas com o tubarão-medidor,

256
uma segunda, uma terceira vez. Depois de entregar o leme à
timoneira, ela segue a sugestão da oceanógrafa e registra o
canto das medusas com- um gravador que até então servira
pura cantatas de Bach e prelúdios de órgão, como se só
mesmo a técnica pudesse confirmar o inaudito, ou — o que as
mulheres esperam e, em segredo, temem — refutá-lo com
uma fita que não desse um pio.
Elas tocam a gravação. E quando esta, tecnicamente per­
feita, reproduz o canto das medusas, a oceanógrafa leva o apa­
relho para o convés, e o sôm da fita mistura-se maravilhoso
com a ladainha mais aguda que paira sobre o mar, como se
técnica e natureza estivessem excepcionalmente dispostas a
fazer causa comum.
Já era tarde, anoitecia, quando os campos de águas-vivas
se dispersaram, e esvaiu-se o som original. Mas as mulheres
nem pensam em ir para as redes. Ficam ouvindo e ouvindo
aquela fita, gravada na sala de trabalho e depois à superfície da
água com o microfone pendurado num anzol. Elas quase não
falam durante a audição de controle. A oceanógrafa diz: —
Ninguém no instituto vai acreditar nisso que está aí, gravado
ao vivo.
Mesmo assim, sorriem da opinião da velha, de que se
trata de um fenômeno inexplicável. As especulações prolife­
ram; a maquinista, por exemplo, pergunta se da altura do
canto das medusas pode-se deduzir a densidade dos bandos de
águas-vivas. — Nesse caso — diz ela —, teríamos descoberto
um método que dispensa tubarões-medidores e outros badu-
laques.
Damroka fala do aspecto policoral do canto dos campos
de águas-vivas, e cita obras para coro de Gesualdo. A oceanó­
grafa conhece dados: — O bando sobre o banco de Hoburg
tinha um tamanho fora do comum, mas não era tão denso
como os encontrados no fiorde de Kiel. Lá, chega-se a medir
sete bilhões de indivíduos entre março e outubro, o que

257
convertendo-se, dá um peso total de um milhão e seiscentas
toneladas. Imaginem toda essa biomassa cantando, e nós
podendo, com nosso microfone...
Já passa muito da meia-noite, e as mulheres continuam
tentando imaginar como seria o canto das medusas com uma
densidade tão compacta de águas-vivas. Damroka faz compa­
rações com cantos litürgicos. “O gregoriano”, diz ela, e “até
Palestrina”.
— Tudo besteira, essa mania de explicação de vocês! —
diz a velha, e bebe um trago à saúde do fenômeno inexpli­
cável.
Quem falou de “efeitos cósmicos”? A maquinista, a timo­
neira?
Todas falam ao mesmo tempo. E assim que eu gosto de­
las: fadas boas como más, tinindo agitadas num feitiço. Seus
gestos, violentos ou abertos. Seu sorriso, que não quer mais
ser objetivo. Elas cantam encantadas, acompanhando o grava­
dor à maneira das medusas, finalmente de acordo: no acorde.
Eu jamais teria conseguido entrelaçar suas vozes com tanta
harmonia...
Quando decidem afinal procurar as redes por algumas
horas, Damroka diz, com o café passado fresco: — N o come­
ço, eu pensei: puxa, isso é o “Suscepit Israel” do Magnificat,
mas agora eu podia apostar que as águas-vivas são dodeca-
fônicas.
O resto da noite pertence ao motor.
Com o nascer do Sol, a ladainha das aurélias volta a pairar
sobre o mar. O sono das mulheres foi curto. Elas não fazem
mais capturas de medição que reduzem a marcha; em vez dis­
so, gravam uma fita depois da outra, registrando o canto agora
mais baixo dos bandos rarefeitos de águas-vivas, e apagando
velhas gravações: as cantatas de Bach e os prelúdios para ór­
gão, mas também Joan Baez, Bob Dylan, e tudo mais que ou­
viram com o passar dos anos.

258
A oceanógrafa observa os números no contador do apare­
lho de gravação, e anota-os na carta marítima. Elas já deixaram
para trás o raso do banco médio, e passam agora sobre pro-
fundidades de cem metros, a nordeste de Bornholm. Uma ma­
lha tênue de vozes entrelaçadas continua sobre o mar e ajuda
a fazer boa viagem até o fim da tarde.
À noitinhã, depois de passarem novamente por água rasa
a noroeste do banco de O der e de reconhecerem, então, no
binóculo e, por fim, a olho nu, Rügen, Kap Arcona, Stubben-
kammer, as falésias de giz, "o canto se eleva e reduz a marcha;
na altura da ilhota de Greifswald um barco da polícia de fron­
teira da RDA fá-las parar.
Em coro múltiplo, o canto das meduas sobrepõe-se no
tuctuctuc dos motores desacelerados das embarcações. Três
homens de uniforme sobem a bordo. Damroka mostra os pa­
péis carimbados. Os guardas de fronteira são gentis, meticulo­
sos. Revistam o barco de pesquisa, e é evidente que já espera­
vam que ele surgisse nas águas da República Democrática
Alemã. Sem comentários, as redes são contadas. Passam os
olhos com benevolência pelas tabelas de medidas, tomam
gosto pelos gráficos e levantamentos estatísticos. Mas quando
a oceanógrafa, precipitada, lhes fala no canto das medusas, os
guardas de fronteira são tomados por uma desconfiança cres­
cente. Negam, bruscos: a seus ouvidos não chega canto ne­
nhum; a incidência de águas-vivas é perfeitamente normal; de
resto, pelo menos na RDA, todo mundo sabia que águas-vivas
não cantam.
Graças a um visível repelão, a maquinista consegue im­
pedir que a oeanógrafa dê uma demonstração do canto das
medusas com o auxílio das fitas. Damroka acalma a descon­
fiança em serviço: — Os senhores sabem muito bem que nós
mulheres às vezes ouvimos pulgas tossirem.
Os policiais agradecem com risadas à capitã. Chegam a
ousar uma piada de homem: — E as senhoras também sabem

?59
nadar? — Mas o trago que a velha lhes oferece em copos
d’água cheios pela metade, eles recusam à moda das duas
Alemanhas: não se bebe em serviço. Desejam “boa viagem e
um fim de semana calmo”.
Quando o barco-patrulha zarpa, um dos policiais exclama
de bordo a bordo: — Nós vamos noticiar esse novo sucesso,
garotas; as águas-vivas da RDA sabem cantar! — E as medu­
sas, como se quisessem confirmar esse progresso, aumentam o
volume de seu canto, enquanto os navios se distanciam.
Eu pretendo afirmar que esse canto inaudível aos policiais
vale apenas para as mulheres e o destino de sua viagem; pois
quando elas, a meio vapor, tomam o rumo do sul em direção à
ilha litorânea de Usedom, o coral das medusas não ganha ape­
nas volume, mas uma expressividade que aumenta como se
fossem entoar um hosana. São coros de júbilo, que saúdam A
Nova llsebill e comandam o rumo do navio, pois sempre que a
proa se desvia para oeste, em direção ao raso de Greifswald,
ou aponta para a ilha de Wollin, por demais a leste na costa
polonesa, o canto baixa, para jubilar de novo no rumo exato
do sul.
Damroka retirou do saco de viagem, abrindo-o, aquele
mapa amarelecido em que se encontra assinalada a depressão
de Vineta. Acima da marca, a leste da ilha de Ruden, ao norte
da foz do Peene, está escrito o nóme da cidade submersa.
Damroka se orienta exclusivamente pelo canto das medusas,
segue o rumo correspondente, e vê o mapa confirmado. Já é
tarde da noite quando elas fundeiam sobre o ponto assinalado.
Mas como o mar, escurecido, não permite mais olhar para o
fundo, as mulheres têm que esperar a manhã seguinte, por
mais que queiram morar já agora em sua cidade.
Mesmo sob um céu limpo de estrelas o canto das medu­
sas não quer extinguir-se. E uma nota, levada por um leve
respiro. Damroka afirma ouvir um Kyrie e, mais tarde, um
Agnus Dei. A oceanógrafa ouve sons eletrônicos, e a velha,

260
X

um órgão Wurlitzer. A maquinista ou à timoneira ocorre a


comparação com música das esferas. Ouvindo o que preten­
dem ouvir, elas permanecem ainda por muito tempo, sentadas
juntinho umas das outras atrás da ponte de comando, até se­
guirem a advertência de Damroka: — Amanhã temos de estar
bem dormidas. — Caem nas redes, mas não no sono.
Amanhã é domingo. Não sei se, mais tarde, o linguado
ainda vai ser chamado. Se soubesse, eu não ouviria o que ele
tem a dizer.

Não, não ratazana! Mais alguém chega ao destino. Você


eu não quero ouvir, você não! disse eu. A outra viagem ainda
tem que terminar.
Então, a ratazana com que sonho disse: Está bem, ami-
guinho. Tudo isso já passou, é vida que já foi vivida, mas não
faz mal, fique aí no seu presente, a dizer que elas se mexem
nas redes, que ele sobe a Granewaldska em seu Mercedes,
dirigindo-se à Porta de Oliva, que amanhã bem cedo as mu­
lheres, ainda hoje ele, agorinha mesmo...
No sábado à tarde, o Sr. Matzerath chega com seu chofer
a Gdansk, onde ambos se hospedam em quartos que foram
reservados no Hotel Monopol, em frente à estação central.
Depois de um rápido passeio pela cidade transbordando de
turistas que comparam o que viram com as atrações dos car-
tões-postais; e depois de encontrar o caminho que, passando
pela Porta da Langgasse, leva da Torre do Calabouço à própria
Langgasse, onde, após olhar de banda para as ruelas laterais,
ele viu mas não reconheceu sua Danzig, o Sr. Matzerath de­
cide partir para a Caxúbia ainda hoje, na véspera do aniversá­
rio, embora a Fonte de Netuno e a água salobre do Mottlau
lembrem a terra natal. Ele só quer permitir-se uma rápida
volta pelas ruas de sua infância no subúrbio de Langfuhr. En­
tretanto, uma agitação irrefreável o precipita ao encontro da
avó — ou seria ela, seu turbilhão, que o arrastava, aspirava,

261
atraía? — de forma que Oskar, depois de uma olhadela de re­
lance no Labesweg e no longo prédio de tijolos da Escola Pes-
talozzi, dá o visto por perdido e não quer entrar na igreja do
Coração de Jesus, nem mesmo para postar-se diante do altar
de Maria; pelo contrário, ele insiste que o chofer siga agora
pelo caminho de Hochstriess e Brentau, que leva diretamente
a Matern, onde Anna Koljaiczek encontrou paradeiro numa
casinha baixa, desde que foi expulsa de Bissau-Abbau.
Ela tem um jardim com macieiras, e girassóis na cerca.
Diante da casa os convidados já se encontram reunidos, em ­
baixo do castanheiro para festejos antecipados. A sala de visi­
tas de teto baixo em que a avó completará amanhã seus cento
e sete anos é muito apertada, ela não comporta tanta gente
vinda de longe e das vizinhanças.
Bruno ficou junto ao Mercedes, que é uma atração para
as crianças caxúbias. E lá está finalmente nosso homenzinho
corcunda em meio aos Woykes e Bronskis, aos Stommas e
Kurbiellas, aos Vikings, Bruns e Colchics chegados de longa
viagem. Num a roupa feita sob medida, ele esboça reverên­
cias, e mistura-se embaixo do castanheiro aos convidados da
festa, que se espantam ao vê-lo ali de corpo presente, embora
todos conheçam a lenda do Sr. Matzerath, que parece ter pre­
cedido seu Mercedes. O sorriso com que o recebem não é
apenas familiar; é como se quisessem dizer-lhe: estamos in­
formados.
Mesmo assim, ele se apresenta a um òu outro convidado,
e encontra um intérprete que lhe traduza as gentilezas caxú­
bias de seus parentes para o alemão falado na região do Ruhr:
Siegesmund Stomma, aquele imponente vendedor de bicicle­
tas que veio de Gelsenkirchen em companhia da mulher e
duas filhas adolescentes. Com o Sr. e Sra. Bruns, que anima-
ram-se a vir de Hong-Kong até a Caxúbia e trazem uma nota
exótica aos festejos preliminares, o Sr. Matzerath conversa
num inglês bastante fluente, e igualmente com os Vikings aus-

262
indianos e os Colchics do lago de Michigan, que, como Kasi-
mir Kurbiella, de Mombasa, no oceano Índico, virão mais
tarde a abraçá-lo na sala'de visitas apinhada, cumprimentan­
do-o com estardalhaço um tanto excessivo.
Mas, por enquanto, ele ainda está embaixo do castanheiro e
chama M m Bruns de lady, de forma qúe logo todos falam de
MLady Bruns”, como se ela pertencesse à aristocracia chinesa.
Ele se serve de bolo de papoula, e não declina um cálice
de aguardente de batata. Diante da casa baixa, encontra-se so­
bre uma mesa comprida o que os caxúbios têm a oferecer
mesmo em anos de vacas magras: cogumelos em vinagre e
ovos cozidos cobertos de cebolinha verde, salada de repolho
com cominho e tigelas cheias de gelatina de cabeça de porco,
rabanetes, pepinos na erva-doce e na mostarda, bolo de farelo,
de papoula e de ricota, lingüiça cortada em pedaços da gros-
sura de um polegar, pudim de semolina e de baunilha. E ainda
banha com pedacinhos de torresmo, purê de maçã e pirogas
com recheio de carne moída, oferecidas ao Sr. Matzerath pelo
padre de Matarnia, aquele que escreveu os cartões-postais
com os convites e enviou-os aos quatro cantos do mundo.
O saia-preta apresenta-lhe outros parentes, inclusive dois
rapazes de bigode na moda que trabalham no Estaleiro Lenin
e têm olhos de um azul tão inocente que Oskar não se espanta
ao saber que seus interlocutores são filhos de Stephan Brons-
ki.
— Inconfundível — diz ele —, é o avô de vocês, m eu
querido tio Jan, que era tão intimamente ligado à minha pobre
mãe, olhando para mim como tantas vezes olhou, como se
quisesse guardar e assim mesmo trair um segredo.
Os filhos de Bronski têm de inclinar-se para que o tio
possa abraçá-los. A troca de cumprimentos com o pai dos dois
operários de estaleiro parece, pelo contrário, um tanto cons­
trangida, embora o padre não precise traduzir. Os dois senho­
res, cujo grau de parentesco é presumivelmente mais próximo

263
do que gostariam de confessar, têm mais ou menos a mesma *
idade.
— Assim a gente acaba se encontrando — diz o Sr. Mat­
zerath a Stephan Bronski, e mantém as distâncias.
Quantos parentes! Além de trocar amabilidades, falam
das respectivas doenças com os devidos pormenores. Então, o
padre aponta o caminho com um gesto e conduz Oskar à casa:
— Agora vamos tomar coragem de entrar na sala de visitas — diz
ele. Lá dentro, escondida atrás de convidados que se acotove­
lam, bebem às pressas, trocam infindáveis cumprimentos, sua
avó está sentada à janela em sua poltrona.
Há algumas horas ela usa, sobre o vestido preto de do­
mingo, uma insígnia branca e vermelha entregue e imediata­
mente espetada por dois senhores de Varsóvia, em nome da
República Popular da Polônia. Ela, que antes era imponente,
encolheu com a velhice, ficou frágil. Seu rosto se assemelha a
uma maçã de inverno. Parece que as mãos fundiram-se com o
rosário, cujas contas ela desfia, sem despregar os olhos da agi­
tação dos convidados: uma a uma, como se de orações ainda
houvesse excedentes.
Ah, penso com meus botões, será que o nosso homenzi­
nho corcunda está com muito medo? Como se sente, se­
guindo o padre pelo bloco compacto dos convidados: alegre
ou temeroso? E a bebida, os risos, os tapinhas nas costas: será
que vão parar, já que todos querem observar o encontro do
Sr. Matzerath com a avó?
A poltrona está enfeitada de flores. Girassóis aparecem
pela janela, não estão muito crescidos depois do começo de
verão frio e chuvoso, mas brilham mesmo assim, lembrando
outros girassóis que, há muitos anos e muitos maiores, cres­
ciam junto à cerca do jardim da avó.
Coragem, Oskar! digo ao Sr. Matzerath. Os dois funcio­
nários do governo encontram-se à esquerda, e um prelado de
Oliva, representando o bispo, à direita da poltrona enfeitada

264
de flores. Entre o Estado e a Igreja, está sentada Anna Kol-
jtticzek, e por baixo do vestido preto de domingo vestiu cer­
tamente outras saias. Coragem! E o padre de Matarnia já está
empurrando o homenzinho corcunda para aquela posição pela
qual ele tanto tempo ansiou embora sempre pensasse nela
com temor. Quero assisti-lo, e sugiro com um grito que caia
de joelhos.
Mas o Sr. Matzerath mantém-se firme. Ele se curva sobre
us mãos que desfiam o rosário, beija-as, uma mão e a outra,
diz, em meio ao silêncio dos convidados que se espremem:
“Prezada Senhora, Minha Avó”, e apresenta-se como neto: —
Eu sou, a senhora certamente se lembra, o Oskar, o pequeno
Oskar, ele próprio, que nesse meio tempo já chegou quase
aos sessenta...
Como Anna Koljaiczek só sabe falar do jeito que sempre
falou, ela faz primeiro uma festa na mão do homenzinho e
começa em seguida a repetir: — Num é quieu sabia quiocê
acabava vindo, Oskarzinho, num é quieu sabia...
Então, eles falam dos velhos tempos, tudo o que aconte­
ceu e agora já passou. De como as coisas pioraram sempre e
só às vezes melhoraram um pouquinho. De tudo o que devia
ter sido e deu errado, completamente diferente. Quem já
morreu e quem ainda vive aqui e ali. E quem está em que ce­
mitério e desde quando.
Estou seguro de que ambos vão chegar às lágrimas assim
que falarem de Agnes, filha de Anna Koljaiczek e mãe do Sr.
Matzerath: de Jan e Agnes e Alfred e Agnes e de Jan, Agnes e
Alfred. Mas como a massa de convidados voltou a ocupar-se
com si mesma e não interrompe suas infindáveis e ruidosas
saudações, somente consigo registrar umas poucas frases dessa
conversa. Ouvem-se muitos “ocê se alembra, Oskarzinho” e
constantes “taí, num posso misquecê”.
Afinal, depois de uma pergunta de passagem por Maria e
Kurtinho, ouço perguntarem: — Ocê já foi ao correiu pra vê

265
1
onde foi? — Ao que o Sr. Mátzerath promete à avó: na manhã
seguinte ele irá visitar os Correios Poloneses, aquele prédio
entrementes histórico no Rãhm, e lembrar seu tio Jan.
Ele se despede então, prometendo voltar cedo no “dia so­
lene de amanhã”. — Querida e prezada avó, a senhora me
permite chamá-la babka, querida babka, como antes, a se­
nhora se lembra, quando nos despedimos na estação de
cargas?
Vejo o Sr. Matzerath desaparecer no empurra-empurra, a
corcova coberta por um paletó xadrez. Posso agora
reconhecê-lo de novo entre os Bronskis e Woykes. Apertada
daquele jeito, a sala de visitas cheira a azedo, como se tivesse
sido esfregada com soro de leite. Repetidas trocas de sauda­
ções com os Colchics americanos. Kasimir Kurbiella convi-
da-o logo na primeira frase a vir a Mombasa. A chinesa, que
com seu aspecto excessivamente delicado destoa no meio de
tantos caxúbios. Finalmente, depois de uma última piroga e
dois tragos de cristalina aguardente de batata, ele se dirige ao
Mercedes. Bruno está sentado dentro do carro, imóvel, pro­
tegendo em sua qualidade de chofer de boné a estrela do capô
contra mãos cobiçosas.

Seus sapatos, tamanho trinta e cinco, são de um amarelo


de açafrão no bico e no calcanhar e, no peito do pé, de couro
branco. Minha ratazana de Natal é obrigada a ouvir com que
elegância eu arrumo o Sr. Matzerath: ele usa óculos de aros de
ouro e um número excessivo de anéis nos dedinhos curtos. O
alfinete de gravata com um rubi engastado faz parte de seu
enxoval. Nas estações mais frias, ele usa um macio chapéu de
pelúcia; durante o verão, chapéus de palha. Em seu Mercedes
há uma mesinha de abrir, sobre a qual ele joga skat com um
parceiro e mais outro, as cartas à mostra, quando viagens mais
longas começam a fatigá-lo; mais tarde, durante o retorno aò

266
I lotei Monopol, Oskar terá por exemplo a alegria de ganhar
um jogo de copas contra Jan Bronski e sua pobre mãezinha.
Mesmo aqui, visitando a avó no coração da Caxúbia, ele
nlo consegue parar de revolver os anos 50, como se tesouros
eip*eciais tivessem sido enterrados nesse campo. O prelado de
Oliva, um senhor como que ungido de amabilidade e bastante
reservado no domínio da língua alemã, é quem tem de escutar
u história do pintor Malskat e suas imitações perfeitas do góti­
co: pacientemente, predestinado a ouvir; como minha ratazana
de Natal, que está aí para eseutar-me.
Depois de o Sr. Matzerath ter escapado de um bate-boca
que descambava para briga embaixo do castanheiro —
tratava-se de Solidarnosc, o sindicato proibido —, o prelado
de Oliva acompanha o homenzinho corcunda de alfínite de
rubi na gravata e sapatinhos de duas cores até seu Mercedes,
cuja lataria está visivelmente danificada. Com o sol da tarde
brilhando sobre seu crânio polido, o chapéu de palha diante
do peito, Oskar discursa como se estivesse diante de uma
concorrida assembléia. Ouço o prelado suspirar, mas não sei
se ele suspira devido às teorias matzerathianas ou por causa da
palavra “Solidarnosc”, que agora, além do Estado, causa tam­
bém preocupações à igreja. Sua paciência católica lembra-me
a serenidade de minha ratazana de Natal, que — estou certo
— em lugar de minhas tentativas de reativar Oskar-, prefere
ouvir o Terceiro Programa, a Rádio-Escola para Todos: algo
sobre estrelas fixas, velocidade da luz e galáxias a cinco mil
anos-luz de distância...
Sempre na mesma posição, ela com as conchas dos ouvi­
dos encostadas e as vibrissas em constante movimento, os
olhos límpidos como contas de vidro, ele de sotaina, atrás de
óculos de lentes grossas e como que ungido por fora e pelo
avesso: é assim que a ratazana de Natal e o prelado de Oliva
escutam respectivamente a narrativa sobre o pintor Malskat
feita por mim e o Sr. Matzerath. O prelado sabe naturalmente

267
que o Mercedes partirá logo, levando o homenzinho loquaz,
de forma que a Igreja terá a última palavra; e minha ratazana
de Natal sabe por sua vez que eu terei de escutá-la quando
sonhar com ela.
Mas, por enquanto, ainda é a minha vez. A ratazana tem
de esperar. Antes do fim vem a farsa, caso tudo chegue
mesmo ao fim...

A partir do inverno de 49/50, ele se equilibrava a trinta


metros de altura, primeiro na nave principal e, depois, no al-
tar-mor da igreja de Santa Maria em Lübeck, sozinho e inventi­
vo, pois seu patrão raras vezes subiu tão.alto. Elegante e sempre
muito dado, Dietrich Fey ficava lá embaixo, aparentando
grandes afazeres em meio ao entulho. Ele tinha de isolar
Malskat. Nenhum olhar indevido podia ver como o milagre
de Lübeck ganhava forma. Por isso, ele mandara colocar tabu­
letas de perigo por toda parte: “Atenção, perigo de desaba­
mento!” — “Cuidado!” — “Entrada proibida a estranhos!”
Nem mesmo os montadores de andaimes e os pedreiros
estavam autorizados a subir às alturas do reino de Malskat.
Quando vinham visitantes entendidos, inclusive historiadores
da arte nacionais e estrangeiros que começaram a aparecer in­
dividualmente ou em grupos a partir do começo de 51, Fey e
seus aimliares provocavam estalidos com os tirantes, para
alertar Malskat lá em cima. Em geral, Fey conseguia livrar-se
dos especialistas com algumas cópias, feitas de passagem para
efeitos de informação e uma exposição itinerante; as duplica­
tas eram sempre obra do próprio Malskat.
A exposição itinerante tornou-se um sucesso no país in­
teiro, tanto que o Presidente da República e o Rei da Suécia
tinham balançado a cabeça em sinal de aprovação diante de
diversas reproduções. Em jornais e conferências* repetia-se o
neologismo “estilo lúbico”. A cidade foi festejada como
“berço do gótico”. Falou-se de um ateliê que, sob a direção de

268
um mestre genial, teria criado escola a partir do final do sé-
i ulo XIII. Surgiu a crença no milagre de Lübeck.
Assim, não é milagre que o Conservador público Dr.
I lifschfeld, o primeiro a manisfestar dúvidas, não tenha con-
urguido manter sua posição de criticismo. Ele acabou duvi­
dando de si mesmo, e escreveu em seu livro sobre Santa Ma-
rift em Lübeck: "... No altar-mor e no alto da nave principal,
temos diante dos trabalhos do mestre a imediata sensação da­
quela gigantesca força criativa que apenas o original possui.”
Em junho de 51 surgiu novo perigo. Por ocasião de um
congresso de curadores de monumentos da Alemanha Oci­
dental, vindos a Lübeck especialmente em razão do milagre,
diversos senhores estiverem na igreja de Santa Maria e não
deixaram que Fey os impedisse de subir ao alto do andaime.
Malskat afastou-se, modestamente. Fey explicou, demonstrou,
usou bastante saliva, mas não pôde evitar que os professores
Scheper e Deckert manifestassem reservas e, apesar de toda a
sua verve, descessem do andaime com um resto de dúvida.
Todavia, quando os curadores reunidos em Lübeck se en­
contraram no dia seguinte, aconteceu novo milagre: nenhuma
acusação foi levantada; pelo contrário, os congressistas solici­
taram ao governo, em Bonn, que entregasse mais cento e cin­
qüenta mil marcos nas mãos do Episcopado de Lübeck. Para
alegria do Superior Conselheiro Eclesiástico Gõbel, mas tam­
bém de Malskat, que via seu salário assegurado.
Os transtornos ulteriores não despertaram maiores cui­
dados. Uma estudante quis verificar in loco sua tese de douto­
rado sobre “Os afrescos da igreja de Maria em Lübeck” e su­
biu em segredo ao andaime, sendo descoberta por Fey, que
apontou branda mas expressamente para os perigos de tais es­
caladas. Embora ela usasse calçados leves e apropriados e
dissesse não sofrér de vertigens, nunca mais pôde subir até
Malskat.

269
Mas mesmo limitada àquela breve olhadela lá em cima, a
estudante colocou questões críticas depois de descer. Usando
as fotos e cópias, ela apontou elementos românicos no cai-
mento dos mantos. Sua surpresa pelo brilho das cores no
altar-mor estava eivada de dúvidas. Tanto no alto da nave
como no coro,* disse ela, o azul-de-cobre deveria ter-se oxi­
dado e enegrecido na noite de véspera do domingo de Ra­
mos de 42, quando a igreja de Santa Maria em Lübeck pegou
fogo de dentro para fora.
Quando Fey surpreendeu mais uma vez a estudante que­
rendo subir até Malskat, para tirar provas da tinta azul-de-
cobre, ele ameaçou vedar-lhe a igreja. Em tal solidão era man­
tido o inventivo pintor, a trinta metros de altura.
Um pouco mais tarde, a Srta. Kolbe — assim se chamava
a estudante — conseguiu superar sua desconfiança. Ela se en­
cheu de entusiasmo pelo milagre de Lübeck, embora em sua
tese de doutorado repetisse diversas vezes que os afrescos do
altar-mor eram de uma raridade inacreditável. Por mais que
ela tentasse, não foi possível comprovar nenhuma semelhança
com o estilo de pregueado habitual no N orte da Alemanha.
Ela continuou atônita com os elementos românicos, particu­
larmente no terceiro vão, chegando à conclusão seguinte: no
altar-mor sentir-se-ia de um modo geral a influência de Char-
tres e Le Mans. O mestre do coro de Lübeck deveria ter via­
jado pela França, aprendido lá.
Sem dúvida muito se poderia especular sobre as pré-en-
carnações de Malskat e suas viagens de estudo ao fim do sé­
culo XIII; é inegável que ele, no alto do andaime, estava ali­
jado do presente, dono de uma liberdade que lhe permitia
traçar os contornos deixando-se levar por sensações góticas
que, pouco a pouco, imprimiram uma expressividade defini­
tiva aos vinte e um santos do coro e aos cinqüehta e seis do
alto da nave. O tempo era imponderável. O arco de setecen-
(mn unos tinha a duração de um salto e de um instante de
fVilolhimento fervoroso.
Foi com razão que os historiadores da arte, ludibriados e
|»rr<picazes a um só tempo, verificaram na ocasião que os
nlrcscos da catedral de Schleswig podem ser considerados
Como estudos preliminares para a decoração de Santa Maria
rm Lübeck. Malskat continuará a ser Malskat, apesar dos
innpos de guerra e de soldado, mais amadurecido, talvez, e
inuis conseqüente em seu passadismo; pois quando digo hoje
que sua época foi a Idade Média, ele aparece diante de mim
rm pessoa no alto do andaime, como há setecentos anos: a
louca de lã emaranhada cobrindo as orelhas.
Terá atuado depois da decadência do Império dos Ho-
henstaufen, numa época confusa e desregrada, pintando mui­
tas igrejas e hospitais do Espírito Santo, até atingir idade pro-
vecta, pouco antes do surgimento da peste; seu ateliê deixou
vestígios por toda parte. Por isso, podemos partir do pressu­
posto que também os cinqüenta e seis santos do alto da nave
em Santa Maria são obra dele. Embora tenham transcorrido
décadas entre a primçira pintura al secco no coro e o trabalho
realizado mais tarde na nave central, em vermelho, azul, ver­
de, amarelo-ocre e preto, pode reconhecer-se o pincel do
mestre do coro nos mantos de todos esses santos, cujo olhar
transcende as misérias humanas.
E tudo alia prima, à mão livre. Encontram-se poucos pon­
tos de apoio em livros de motivos referentes à iconografia. Só
mais tarde, durante o processo, o livro de um certo Bernath
— A pintura da Idade Média — foi reconhecido como a fonte
de Malskat. Mas essa indicação confirma apenas as antigas in­
fluências românicas, bizantinas e, no frontispício direito ao sul
da ábside do coro, até mesmo cópticas. Malskat conseguiu re­
criar o que o mestre do coro e da nave central pintara setecen­
tos anos antes. Foi assim que ele ultrapassou os séculos-e ani­

271
quilou o furor destrutivo da última guerra, triunfando sobre o
tempo.
Ora seja, eu conheço as restrições dos Srs. Scheper e
Grundmann: o Cristo da igreja de Santa Sofia em Constanti-
nopla teria servido de inspiração para uma obra, a Maria ao
Trono da catedral de Trieste para outra. Fizeram-se testes de
incandescência com os diversos pigmentos de tinta, secciona-
mentos de camadas de argamassa, análises químicas e micros­
cópicas. Além disso, a confissão de Malskat: a escova de aço!
Os cacos arranhando os contornos e superfícies pintadas. A
arte do envelhecimento precoce. O saco de pó-de-arroz.
Diga-se a respeito que Fey, seu patrão, exigia dele essa
autentificação do tempo que passa e deixa seus vestígios. Não
se queria nada de novo, queria recuperar-se o velho, mesmo
que um pouco danificado. O talento de Malskat permitiu es­
ses extras. Afinal, aquele que viria a ser o mestre do coro —
e, por que não? também da nave central — plagiara quadros
de Chagall e Picasso nos anos que precederam a reforma mo­
netária; Fey, que se tornara seu patrão logo depois de 45, fazia
a ligação com o mercado de arte. Era assim que se ficava à
tona.
Com a nova moeda que da noite para o dia tomou o lugar
do imprestável Reichsmark, abriu-se porém ao mesmo tempo
uma nova época que, para começar, exigia uma falsificação
mais sólida como fundamento. Falsear e falsificar converte­
ram-se genericamente numa forma de vida que logo tornou-se
governamental, sendo então a velha situação batizada de nova
situação, como se não tivesse levado a conseqüências terríveis;
e assim surgiram dois Estados na Alemanha, lançados no m er­
cado como moedinhas falsas de cinq^ent^, falsehe Fuffziger —
nome que o Sr. Matzerath dá aliás a todos os produtos da­
quela longínqua década —, continuando em circulação e tidos
entrementes por autênticos.

272
O que Malskat fez estava de acordo com seu tempo. Se
cie não tivesse aberto o jogo, nunca teria sido processado. Ele
deveria ter deixado o trambique escondido, como fizeram os
estadistas cujo duplo embuste tinha o futuro a favor. Eles logo
levaram o mundo inteiro a acreditar que um dos Estados per­
tencia a um dos blocos vencedores, e o outro, ao outro, trans­
formando assim uma guerra perdida numa dupla vitória lucra­
tiva; dois falsche Fuffziger, é certo, mas dinheiro em caixa.
A falsificação teria sido naturalmente palpável, m^s os
embusteiros sem pestanejar consideraram-se reciprocamente
autênticos; além do mais, o ganho extra convinha aos vence­
dores, agora inimigos. E mesmo que a falsificação tenha sido
reconhecida, mantiveram-se as belas aparências; pois os origi­
nais eram mesquinhos demais e estavam cheios de defeitos:
dois montes de destroços que não queriam reunir-se num só.
Por isso, o Sr. Matzerath vive repetindo: — Malskat es­
tava certo. Ele deveria ter se colocado entre Adenauer e Ul-
bricht nos capitéis pintados das colunas, sem tem er influências
bizantinas ou çópticas, e celebrando-se como peça central
dessa trindade; por exemplo, no frontispício sul à direita,
onde três eremitas cognominados monges tinham sua conver-
sinha particular.
Falar é fácil, e além disso já passou a hora. Pois na época,
montado num andaime de trinta metros de altura, exposto ao
frio e a golpes de ar, dando vida aos sete painéis do altar-mor
com seus diversos santos e a Virgem inclusive Menino do vão
central, e fumando sem parar sua marca predileta Juno, en­
quanto sem parar dinheiro de Bonn corria para Lübeck, Lot-
har Malskat ganhava por hora noventa e dois pfennig da nova
moeda; como é que ele poderia imaginar-se em meio a esta­
distas de tal porte.
Não, não, Sr. Matzerath! N o quê diz respeito à cotação
do Primeiro-Ministro da época e do então Secretário Geral do
Partido Socialista Unificado, pode ser que o senhor esteja cer-

273
to, aí de longe na Caxúbia, e enquanto o prelado de Oliva lhe
der ouvidos; o Velho e o Barbicha eram embusteiros da gema,
e está bem que sejam doravante chamados de falsche Fuffziger;
Malskat, porém, assinava seu gótico, mesmo que escondido.

O Estado dividido da discórdia.


Dita em dobro, a mentira única.
Alguns retoques de tinta fresca
nos remendos das paredes.
O agravo comum que se compensa:
jogo de números; valor estatístico,
somas finais arredondadas.

Faxina na casa geminada.


Para ocasiões especiais, um pouco de vergonha.
Uma troca rápida de sinalização das ruas;
nivelamento das saliências da memória.
E a culpa, em embalagem duradoura,
fica para os filhos, deixada como herança.
Deve ser o que é, somente; o que foi, não vale mais.

Inscreve-se, assim, a dupla inocência


no registro comercial, pois contraposição
serve ao negócio. Pela fronteira,
a falsificação se espelha: dissimilado disfarce,
mais que autêntica, acumulando excedentes.
Para nós, diz a ratazana com que sonho,
a Alemanha nunca esteve dividida,
foi sempre, toda ela, um prato feito.

*
Certo, desde então não se vive nada mal. Nós nos demos
bem com a época pós-humana: aumentamos sob todos os as-

274
pectos. Finalmente livre dos homens, a Terra ganha nova vida:
dá de um tudo. Os mares respiram. O ar, é como se ele qui­
sesse rejuvenescer. E o tempo sobra por toda parte, infinita­
mente muito tempo.
Mas nós teríamos preferido que o humano desaparecesse
com mais calma, e não assim, tiro e queda. N o fim das contas,
os homens não tinham excluído um ocaso retardado, havia di­
versos programas, a médio e longo prazos. O espírito humano
sempre perseguiu muita coisa ao mesmo tempo. Tomemos,
por exemplo, a contaminação dos elementos, um gravame que
aumentou até ultemoch — era assim que nós chamávamos o
fim —, e causou sérios danos até ao gênero dos ratos, embora
nós com o tempo soubéssemos tornar qualquer veneno assi­
milável; pois bem, sua realização conheceu grandes progres­
sos, mas não fora projetada de forma metódica. Mesmo assim,
nós farejávamos com preocupação os golpes que o homem
desferia contra rios e mares, todas aquelas coisas que ele es­
tava disposto a misturar ao ar, e como deixava suas florestas
morrerem ladeira abaixo, lamentando-se passivamente. Como
ratos, para os quais viver e sobreviver é a mesma coisa, só
podíamos supor que os humanos não tinham mais gosto pela
vida. Eles estavam fartos. Para eles, chegava. Eles se entrega­
vam, e só continuavam fazendo de conta, feito macacos. O
futuro, aquela fileira de quartos antes tão fantasticamente mo-
biliados, era agora motivo de piadas. O nada tornara-se, pelo
contrário, algo que valia a pena fitar. Cada ação — e, como de
hábito, eles continuavam ativos — tinha um cheiro de falta de
sentido, exalação que a nós, por sinal, repugnava.
E você também, amigo, vivia se despedindo. Podia ler-se
nos livros, e nós liamos proverbialmente muito. Ah, ó que
não se rimou com fim! Como soava bem a certeza de que não
havia um dia atrás do outro. A apoteose final era promovida
com ardor, como uma competição, e, mais engraçado ainda:
muitos artistas, arrebatados pelo desfecho, entregaram-se por

275
completo, acreditando talvez que seus louros fossem como
sempre continuar eternamente verdes e a própria imortali­
dade já estivesse assegurada.
Eu tinha a sensação de que a ratazana pensava em nós
comovida e com tristeza. Mas logo ela voltou ao assunto. Ou­
ça: houve uma outra variante-de desfecho que a espécie hu­
mana disputou — a superpopulação. Os homens davam im­
portância ao crescimento numérico, principalmente nas zonas
de pobreza, como se quisessem superá-la com a bênção da
natalidade; seu último Papa foi um advogado itinerante desse
método. Assim, morrer de fome tornou-se grato a Deus e en­
trou em progressão não apenas estatística. Roubavam uns aos
outros a escassa comida.
Por que os homens não mataram a fome, exclamou a ra­
tazana, se nós tínhamos o bastante? Porque a abundância de
um lado alimentava a miséria do outro. Porque eles, para
manterem os preços, reduziam a oferta. Porque uma pequena
parcela da espécie humana vivia da fome da maioria. Eles di­
ziam, porém: há fome porque há gente demais.
Essa conta é ridícula. Futze jaerech! Sua maldita eco­
nomia da escassez. Assim como nós nos saciávamos sem difi­
culdades, embora houvesse bilhões de ratos no mundo intei­
ro, também a população humana, que no momento da Grande
Explosão era mais ou menos equivalente, teria perfeitamente
podido ser alimentada; nos depósitos havia o bastante. Mais
ainda, nós gostaríamos de ter correspondido aos prognósticos
de crescimento humano, festejando com eles o ano dois mil,
como seis, ou. mesmo sete bilhões de ratos, cada espécie con­
tente e satisfeita!
Depois de ter apinhado meu sonho com dados estatísti­
cos, a ratazana disse: Infelizmente, isso não deu em nada. Os
homens decidiram não morrer de fome, não perecer saturados
de veneno, e nem mesmo morrer lentamente de* sede com a
falta de água, além de famintos e intoxicados. Quiseram, em
vez disso, procurar a morte repentina, decisão egoísta e de
uma impaciência infantil, que a nós, ratos, ainda hoje causa
problemas, sobre os quais não tínhamos podido refletir bas-
taate: vamos ter que transformar-nos. A época pós-humana
exige de nós um novo comportamento. Carecemos de um
vis-à-vis. Sem a espécie humana, suas colheitas, depósitos, de­
jetos, sensações de nojo e manias de extermínio, nós ratos
não poderemos no futuro contar com ninguém. Confesso que
foi fácil viver em sua sombra, fácil demais; agora, o homem
nos faz falta...
Como ela continuava a queixar-se, eu disse: Mas existe
uma ou outra cidade neutronizada. Com auxílio das bombas
de resguardo, nós criamos refúgios que externamente estão
intactos. Um acordo cultural em favor de vocês foi a penúl­
tima obra humana. Por favor, ratazana! Nós não andamos
ainda há pouco por ruelas livres de homens? E não ficamos
contentes de ver as cumeeiras, as torres, os arcos das portas,
essas atrações de aspecto tão familiar, que continuam as mes­
mas, apesar de negras de fuligem?
Consolo vão. A ratazana com que sonho não queria parar
de lastimar-se. Eu não a via mais enterrada em esconderijos,
nem andando pelas ruas de Danzig, era morando no lixo que a
encontrava. Aqui, de dentro da sucata amássada, ela falava de
repentinas tempestades de poeira que continuavam desgra­
çando o gênero dos ratos; ela vivia ali, protegida por películas
de plástico agitadas pelos ventos, que erravam com minha ra­
tazana, como velas sempre enfunadas. E voltava sempre à
Grande Explosão. À solidão que se seguiu. E com maior insis­
tência ainda: à falta que o homem lhes fazia.
Mas eu estou aqui! exclamei. Eu, em minha cápsula espa­
cial, em minha órbita. Eu, você e eu, em meus, em seus so­
nhos.
Tem razão, amiguinho. E um consolo que haja alguém
aqui, condescendeu a ratazana. Alguém que vive dizendo eu,

277
eu eu eu; já temos até certa veneração por você. Nos abrigos
e reservas urbanos há bandos de ratos que chegam mesmo à
idolatria. Quando exercitam o porte ereto nas praças e igrejas,
é em você que eles pensam. Nós, dos bandos de fatos rurais,
temos outra pessoa, além de você; seus restos ainda respiram
e merecem adoração. E um caquinho, mas com vida. Visivel­
mente uma velha velhíssima. Ela ficou em sua poltrona,
quando todos correram para fora e se estreparam. Vive com
dificuldade, alimentada por nós. Nós olhamos por ela. Damos
de beber quando ela tem sede. Como os ratos urbanos vene­
ram você, nós ratos rurais veneramos a velha velhíssima. Ela
balbucia para nós: como era antigamente. Tudo o que ficou
passado. Quem veio de visita. O que lhe fez sofrer tirou-lhe o
pouquinho de alegria, e não queria parar de doer.
Mas é isso, exclamei. Ratazana, por favor! Ainda falta o
aniversário dela. O domingo é só amanhã. Ela quer festejar,
ser festejada.
Tudo bem, disse a ratazana. Mas agora ela quer m orrer e
não pode. Por isso, ela nos conta histórias tristes de antiga­
mente, às vezes também são alegres. De tempos de pré-
guerra, guerra, e entre-guerra. De como era a convivência dos
caxúbios com poloneses e alemães, ora sofrível, ora péssima.
E de como ela, quando mocinha, ia de Kokoschken para a
feira na cidade, de carroça e cavalo, e depois, quando veio o
progresso, de trem. E dos balaios cheios de tanta coisa: batatas
e nabos, pepinos e framboesas. Ovos frescos, amêndoas a um
florim ela vendia. E dois gansos por dia de São Martinho. E no
outono, cestos e mais cestos de rússulas e mosquelas, cantare-
los e boletos castanhos, dos mais diversos cogumelos que se
amontoavam nas flores da Caxúbia...

Por maior que seja o cetismo: esta floresta ainda está sa­
dia. Em nosso filme Florestas de Grimm ela tem faias, pinhei­
ros, carvalhos, freixos e bétulas, esparsas ou em mata densa,
há até bordos e olmos. Os arbustos se abrem, fecham-se.
Animais no mato baixo. Os tons de verde se sucedem, surgem
cores de fim de verão, começo de outono. As sorveiras carre­
gadas. Dos tapetes de musgo e espinhos brotam orongas e
copos-de-leite, o chapéu-de-sol. Debaixo dos carvalhos, màta-
moscas apregoam boletos vizinhos. Outros cogumelos, cheios de
escamas. Hordas de orelhas-de-pau encobrem cepos de árvores.
E murtilhos, para colher com pentes. Mais adiante, os fetos vol­
tam a ladear o caminho da floresta pelo qual as figuras da carochi­
nha seguem para o local da ação, Rübezahl e os anões a pé, os
outros no velho Ford com Rumpelstino ao volante.
Um dos anões, creio que o segundo, que vai sobre o es-
1tribo enquanto os outros andam às carreiras, grita: “Parem!”
Sobre o musgo, entre cogumelos que formam um círculo má­
gico, os Sete estendem um mapa da floresta desenhado a mão.
Medem, comparam, discutem, por uma estimativa de olhôme-
tro indicam finalmente a nova direção: “E por aqui!” E é por
aqui que encontram as mãos da menina que voaram à frente
com a pá, e agora entram em ação.
Pois aqui o caminho tem de ser desviado, e apagado o
velho sulco. Até Jorinda e Joringel, que não sabem fazer nada
além de ficar tristes, têm de cavar e remexer a terra.
A bruxa manda várias árvores se desenraizarem e deita­
rem novamente raízes num lugar assinalado. As mãos decepa-
das da menina cavam um buraco, onde o terceiro e o quarto
anões fixam uma placa de sinalização que apontava anterior­
mente numa direção bem diversa.
O Rei Sapo deita-se num riacho, transforma-se em sapo e
desvia o curso d’água para um novo leito que cruza o velho
caminho, depois do quê volta a ser Rei e refresca com água de
fonte a testa de sua senhora que sofre sem fazer nada.
Rübezahl arrasta-se de quatro pelo velho caminho. À
medida que sua barba toca as marcas, surge musgo, fetos cres­
cem, brotam cogumelos.

279
Rumpelstino bate com o pé no chão, e um formigueiro é
obrigado a mudar, para instalar-se de novo com ovos e cria
a sete saltos dali. (Segundo instruções do Sr. Matzerath, a
boba da Chapeuzinho Vermelho deve ficar agachada numa ár­
vore oca, chupando o dedo e olhando preguiçosa para as figu­
ras da carochinha que trabalham.) Agora, o falso caminho pa­
rece o verdadeiro, e ò verdadeiro já quase nem se nota.
Nisso, a Madrasta Má começa a dar ordens: Rübezahl
tem que separar Bela Adormecida do Príncipe, à força. Até há
pouco Duiii*chão, o gigante fecha a cara. Com uma única mão,
ele agarra e levanta Bela Adormecida; não é mais o caseiro,
mas o espírito autoritário da Serra Gigante. O primeiro,, sexto
e sétimo anões seguram o Príncipe que chora. O quarto anão
corre com o fuso atrás dos pés ligeiros de Rübezahl, que se­
qüestra a Bela já novamente adormecida para o local da ação.
O Príncipe não quer deixar-se consolar por Branca de
Neve. Também não quer saber de Chapeuzinho, que saltou
da árvore oca. As mãos decepadas da menina afagam a triste
cabeça encaracolada, cuja boca beijoqueira distribuiu em de­
sespero beijos de ar. Ele está fora de si. Só Rapunzel com seus
longos cabelos consegue fazer o Príncipe esquecer seu sofri­
mento.
“O Espelho, por favor!” comanda a Madrasta Má, ao que
as mãos decepadas trazem o Espelho do velho Ford e colo-
cam-no sobre um cepo de árvore. Assim que a* figuras da ca­
rochinha estão reunidas diante do Espelho, formando um
grupo com Joãozinho e Maria ao centro, como se fosse terça-
feira e eles uma família numerosa que quer ver D alias, a Ma­
drasta Má liga seu televisor miraculoso. (Como o Sr. Matze­
rath disse ainda recentemente: “Até a mídia mais moderna
teve sua origem nos contos de fadas.”)
Primeiro, vê-se Rübezahl a caminhar pesadão pela flo­
resta morta com Bela Adormecida às costas. r .cansável, o
quarto anão vem correndo atrás com o fuso.
Em seguida, aparece a avó de Chapeuzinho Vermelho,
que continua lendo em voz alta para o lobo o dicionário de
Grimm, volume um.
E agora, surge na tela o comboio do Primeiro-Ministro,
acompanhado de outros ministros e assessores. Ele ainda se
encontra na rodovia, precedido de písca-piscas azuis e escol­
tado por motocicletas da polícia.
A Madrasta Má muda mais uma vez de canal: o anão com
o fuso segue Rübezahl, que sobe as escadas de uma torre em
ruínas, carregando Bela Adormecida até o quarto do alto da
torre, onde falta o teto. De repente, surge a imagem das mãos
decepadas, Elas limpam o quarto da torre, enquanto Rübe­
zahl, cuidadosamente, senta a Bela Adormecida junto a uma
mesa de pedra; o anão coloca o fuso no colo da beldade que
dorme.
Diante do Espelho Mágico, ecoam elogios ao afinco da
Menina sem Mãos. O Príncipe, que tudo viu através dos cabe­
los de Rapunzel, cai em lamentações. Ele quer ir acordar com
um beijo sua Bela Adormecida, como de hábito. Mas, por
mais que estrebuche, os anões não o largam. Rapunzel volta a
encobri-lo.
Depois de nova aparição da avó, que continua lendo para
o lobo, o Espelho Mágico mostra o comboio do Primeiro-
Ministro entrando na floresta sadia. Precedido pelos pisca-
piscas azuis, ele chega cada vez mais perto. A um sinal da bru­
xa, todas as figuras da carochinha escondem-se. Os anões em­
purram o velho Ford para dentro do mato. Apenas Joãozinho
e Maria permanecem onde estão, parecendo crianças enjeita-
das, abandonadas por Deus e por todos. Assim, elas ficam à
espera no novo caminho falso.
Do fundo da floresta chega o comboio do Primeiro-
Ministro atrás dos pisca-piscas azuis. Joãozinho e Maria ace­
nam e chamam: “Aqui, papai! Nós estamos aqui!” Eles correm
pelo caminho falso, chamando. O Primeiro-Ministro e pai

281
segue-os rumo ao local da ação, e a floresta, ainda há pouco
saudável, toma-se sempre mais doentia, mais pantanosa, in­
transitável. Walkies-talkies emitem chiados, apitos, ordens:
“Perseguir filhos Primeiro-Ministro!” — “Desdobrar, cercar!”
Os automóveis negros ficam presos, têm de ser abando­
nados por todos os passageiros e afundam no lamaçal borbu-
lhante, por último o próprio carro do Primeiro-Ministro, cuja
estrela de Mercedes cintila até o fim.
O Primeiro-Ministro e seus assessores e ministros, inclu­
sive os Irmãos Raiva Contida, vagueiam desordenados pela
floresta morta. Com as pistolas destravadas, os policiais se es­
forçam por manter a segurança de que foram incumbidos. O
pessoal da televisão geme sob o peso de sua aparelhagem, sem
por isso deixar de filmar a confusão.
O Primeiro-Ministro chama: “Crianças, onde estão vocês?
Onde é que vocês estão, crianças?”
Os assessores discutem a propósito do rumo a tomar. Os
policiais assustam-se uns aos outros. Os Raiva Contida aju-
dam-se mutuamente a sair do lodaçal. O Primeiro-Ministro
chama. A televisão fica em cima. Sete corvos em árvores res­
secadas. Joãozinho e Maria atraem aquele bando de desvalidos
sempre mais para dentro da floresta morta. Eles chamam: “Por
aqui, papai, por aqui!”
Por sugestão do Sr. Matzerath, que sempre pensa em
ações paralelas, os Irmãos Raiva Contida encontram agora um
longo fio de cabelo doirado no meio daquele ermo. Outros
tantos passos, e brilha áureo um fio mais. E assim por diante.
Em seguindo os cabelos doirados, os Raiva Contida vêem fi­
nalmente quem os desencaminhou: entre árvores mortas, Ra-
punzel. Linda de se ver, ela brinca com a longa cabeleira,
atraindo numa certa direção o Ministro para Danos Florestais
de Médio Alcance, bem como seu Secretário de Estado.
#
Outras figuras da carochinha aparecem e desaparecem en­
tre as árvores; os Sete Anões carregam o caixão de Branca de

282
Neve; Rumpelstino pula, dança e exclama: “Que bom que
ninguém sabe que meu nome é Rumpelstino”; Chapeuzinho
Vermelho caminha com a cestinha na mão.
Figuras da carochinha continuam surgindo e sumindo: Jo-
rinHa e Joringel, melancólicos; a pobre menina com ás mãos
decepadas; uma senhora que passa altaneira, de sapo sobre a
bela testa; a imagem repetida da bruxa que ri. E tudo o mais
que acontece no livro de contos de fadas. Como que apáticos,
os Irmãos Raiva Contida seguem suas figuras, até que a flo­
resta morta converte-se novamente em floresta de fadas, que
se abre então numa clareira em cujo centro encontra-se um
monumento esculpido em pedra mostrando, ombro a ombro,
os Irmãos Grimm. (O Sr. Matzerath gostaria de ver reunido
aqui e agora um grupo de professores, todos eles especialistas
em contos e pesquisadores de seu sentido oculto. Eles deve­
riam iluminar dimensões sociológicas, lingüísticas e psicológi­
cas dos contos populares de Grimm, e envolver os irmãos
numa longa conversa especializada. Eu sou contra.)
Nada de perguntas, apenas o espanto dos Irmãos Raiva
Contida ao verem-se esculpidos em pedra como Jacob e Wi-
lhelm Grimm, enquanto as figuras da carochinha reúnem-sc
pouco a pouco em torno deles.
Branca de N eve levanta-se* sorrindo de dentro do caixão
de vidro. Rapunzel está de pé, vestida com seus cabelos. A
Menina sem Mãos esconde os cotocos atrás das costas. Um
tanto embaraçada, a bruxa fecha um botão sobre as enormes
tetas. Todos se mostram, sem exceção, só falta Rübezahl.
Ele está afastado, chorando porque não aparece nos con­
tos de Grimm como Espírito da Montanha. (Apesar disso, eu
considero complicada demais a sugestão do Sr. Matzerath, de
fazer o pobre Rübezahl chamar por seu contista Musàus. Seria
mais plausível que Wilhelm, tendo a sensibilidade de reco­
nhecer o sofrimento de Rübezahl, fosse procurar o brutamon-
tes para trazê-lo ao seio dos personagens dos contos de

283

i
Grimm.) A legenda de Wilhelm diz: “Daqui para a frente Rü-
bezahl também é nosso.”
“Pois é”, diz Rumpelstino, “é assim que a gente se en­
contra, cavalheiros.”
Wilhelm Grimm diz:- “Veja, caro irmão, todos reuniram-
se em tomo de nós.”
a

Jacob Grimm diz: “Nem todos estão presentes, caro ir­


mão. Joãozinho e Maria faltam. E olhe em torno de você:
falta-nos a Bela Adormecida.”
Enquanto os três anões-vigias retêm o Príncipe, que quer
dar com a língua nos dentes, a Madrasta Má, exibindo sempre
grande segurança diante dos Raiva Contida, coloca seu Espe­
lho Mágico aos pés do monumento esculpido em pedra e liga
o programa de ação.
Bela Adormecida está no local da ação, sentada junto à
mesa de pedra no quarto da torre, com o fuso ao colo. As
mãos decepadas cuidam para que o fuso não caia no chão. O
Primeiro-Ministro e sua comitiva reúnem-se em volta da tor­
re. Sem perder tempo, o anão quç carregou o fuso acorda
Bela Adormecida com um beijo à maneira do Príncipe. Ele
desce então as escadas e pernas para que te quero em compa­
nhia de Joãozinho e Maria, que esperaram escondidos atrás da
torre. As mãos decepadas e os sete corvos seguem-nos. Maria
não pára de dizer: “Tomara que dê certo!”
Em volta da torre, a discussão dos assessores recomeça.
Os policiais formam um círculo de segurança em torno do
Primeiro-Ministro e comitiva. Esgotado, o Primeiro-Ministro
pede que um chefe-de-seção lhe dê um pedaço grande de
torta que se encontra na bolsa de mantimentos. “Ai”, diz ele,
“como criam problemas para meu governo!” Ele dá então uma
dentada, mastiga e, no que mastiga, tristemente, vê a Bela
Adormecida sentada no quarto da torre em ruínas. Ela bate
com as pálpebras, quer voltar imediatamente a dormir. Aí, o

284
Primeiro-Ministro pergunta, com a boca cheia pela metade:
“Você por acaso viu meus filhinhos?”
A Bela Adormecida leva um susto e pica o dedo com o
fuso, até sangrar.
Então, um torpor se apossa de todos ao mesmo tempo:
do Primeiro-Ministro com o pedaço de torta na mão, dos mi­
nistros envolvidos na discussão com os assessores, dos poli­
ciais com o dedo no gatilho, dos homens da televisão com as
câmeras sempre em punho, dos jornalistas à espreita de uma
dica. E no ato mesmo de discutir de dedo em riste, procurar o
inimigo com pistolas automáticas, rabiscar anotações, fazer
zunir a câmera de televisão, e de deglutir, eles caem num pro­
fundo sono junto à Bela Adormecida.
Entre as ávores mortas daquele sítio isolado começa a
brotar imediatamente uma cerca de espinhos que vai ga­
nhando altura, sempre mais fechada e impenetrável como se
seus botões fossem de arame farpado, até que o grupo entor­
pecido desaparece aos pés da torre em ruínas onde dorme a
Bela Adormecida, e o Governo com seus apetrechos todos
deixa de existir.
Pelo Espelho Mágico na base de estátua, as figuras da ca­
rochinha acompanham com os Raiva Contida o sucesso de sua
ação. Reina alegria. Esse gênero de deposição chega a agradar
aos irmãos.
Joãozinho e Maria, o quarto anão e as mãos decepadas
são recebidos efusivamente. A bruxa faz-lhes um cumprimen­
to: “Vocês foram maravilhosos, meus filhos!”
Todos batem palmas, inclusive as mãos decepadas. So­
mente os Raiva Contida mostram transtorno por reverem aqui
os filhos desaparecidos do Primeiro-Ministro: reencarnados
como Joãozinho e Maria. Wilhelm Grimm chega a cumpri-
mentá-los amavelmente com a legenda: “E nós que temíamos
que os russos tivessem seqüestrado os filhos do Primeiro-
Ministro!” Jacob Grimm, porém, se enche de escrúpulos: “Ai,

285
coitados de seus pais! Ainda por cima, não existe mais Gover­
no. Vai imperar a desordem. Há o perigo de caos.”
Nesse momento, o Príncipe despertador-beijoqueiro
liberta-se dos cabelos de Rapunzei e oferece seus serviços aos
Irmãos Raiva Contida: “Querem que eu desperte novamente a
Bela Adormecida com um beijo? Eu sei fazer isso.”
Tenta escapulir, mas os três anões^vigias penduram-se
imediatamente nele. Rübezahl — da cabeça aos pés Espírito
da Montanha, carvoeiro, Gigante da Floresta — dá umas bofe­
tadas no Príncipe. Joãozinho exclama: “Vai ficar aquií” (Antes
de viajar para a Polônia, o Sr. Matzerath ainda disse: agora, a
dama do Rei Sapo deve apresentar sua testa atormentada ao
beijo do Príncipe que chora; eu, entretanto, acho que essa
ação paralela só faria desviar da continuação da história.)
Sem cerimônias, as figuras da carochinha querem mostrar
aos Irmãos Raiva Contida sua pensão, a Casinha de Chocolate,
onde nesse meio tempo foram entregues todos os volumes do
dicionário de Grimm: por quatro caracóis de carga em fila in­
diana; o último carrega o volume trinta e dois, de Zobet a Zy-
pressenzweig

A avó db conto de fadas continua lendo


para o lobo mau do conto de fadas
verbetes do dicionário.

Sua barriga de lobo, que um zíper


abre e fecha, está cheia de palavras *>
de antigamente: Wehmutter, Wehmut, Wehleid...

* D e zibelina a ramo de cipreste; mais adiante, as palavras compostas de


Weh (dor) significam parteira, melancolia e piangência. (N.do T.)

286
No dicionário de Grimm a avó encontra agora
— tendo os volumes sido todos publicados —
o nome da cidade de Vineta, onde moravam os vinetos,

até que o mar inundou a cidade. Então, o lobo chora


e quer ouvir mais da boca da avozinha
do que sobre Vmeta escrito está.

'Na calmaria, diz a avó ao lobo da história,


ouvem-se sinos que tocam, badalam, repicam,
sinos sobie o mar sereno.

Não, o sono não vem. Uma ladainha que nunca mais


acaba chega até as redes na cabine de proa do barco fundeado.
Vocês, suaves aurélias, translúcidas e leitosas, águas-vivas de
desenho azulado ou violáceo, bandos de medusas que, como
se sabe, vivem de plâncton e de larvas de arenque, pouco pes­
quisadas e, por isso, de péssima reputação, já que capazes de
transformar ainda amanhã o mar, meu mar, o mar Báltico,
numa única água-viva; vocês, beldades que navegam com a
corrente, na certeza da repugnância humana como os ratos fi­
lhos da terra; vocês, do tamanho de um prato, ou, travessa, a
biomassa vibrando sensível, çheia de segredos, seres imortais
de número indefinido, cuja mudez comprovada — vo­
cês sabem cantar.
Não é milagre que as mulheres não consigam dormir,
subjugadas pelo poder dessa música. Elas rolam e empinam na
rede. E como sempre, de nada valem meus conselhos. A velha
já começou a maldizer o canto das medusas: ele faz a gente
ficar agressiva. A timoneira desenterra velhas histórias. Por
causa de palavras ultrapassadas, ela clesentende-se com a oce­
anógrafa; em seguida, ataca Damroka: a capitã teria traído o
trabalho de pesquisa e desviado o barco para um rumò absur­

287
do. Não era caso de correr atrás de mitos e lendas, mas sim de
provar que o Báltico estava ameaçado por uma catástrofe eco­
lógica. Damroka falhara, tendo perseguido exclusivamente
seus interesses particulares: — E, nisso, você sempre se desta­
cou. Mas agora, chega. A partir de amanhã sou eu quem de­
termina o rumo! — exclama a timoneira.
Como a maquinista e até a oceanógrafa colocam-se contra
Damroka, sem dar razões — nem mesmo eu sou mencionado
—■,parece possível que aconteça um motim a bordo da Nova
llsebill, ou melhor, que a capitã seja destituída, em correto
exercício democrático. A própria velha está vacilante, e fala
ora de um jeito, ora de outro. À meia-noite, cessa o canto das
medusas, pouco depois de a timoneira ter dito: — E o teu fa-
latório com o linguado também está me enchendo os nervos.
Ele não se extingue, ele se interrompe, como se uma ba­
tuta tivesse suspendido para sempre aquele concurso coral.
Sobram apenas os ruídos do barco. E as mulheres, que tinham
considerado insuportável a cantoria das aurélias, que as tor­
nava agressivas, acham ensurdecedor esse silêncio repentino.
A velha é a primeira a pular da rede. Ela quer beber um
trago, entorna o segundo, exclama: — Pois é o que eu digo,
um fenômeno inexplicável!
A oceanógrafa quer maiores detalhes. Ajudada pela ma­
quinista, ela lança um puçá para a coleta de águas-vivas,
arrastando-o ao longo do barco, a boreste e a bombordo, uma
vez, duas vezes, e sempre sem resultado. Nada, nem mesmo
um carapau-
Uma angústia baixa sobre o navio. A oceanógrafa rói as
unhas. E a vez da maquinista pedir um trago e mais um. A
timoneira começa a chorar baixinho, aumenta o volume: ela
não queria dizer o que disse na discussão. As cinco estão aga-
chadas, sentadas, de pé atrás da cabine de comando, a Lua
qusre desapareceu, e escutam Damroka que fala como se de­
vesse tirar medo de criança, contando a história do povoado

288
sorábio de Jumne, destruído pelos vikings e dinamarqueses,
mais tarde reconstruído, chamado Vineta. A princípio, havia
um refúgio de vikings, ó castelo de Jom, ao lado de Jumne,
uipa aldeia de pescadores que se converteu em cidade. Dam­
roka conhece histórias de Gorm, o Velho, e de Harald
Dente-Azul, que venceu o príncipe sorábio Burislav na ilha de
Usedom. — Isso foi há quase mil anos — diz ela —, quando
Dente-Azul e Burislav entraram em acordo, logo depois da
matança. Dizem que eu descendo de um neto desse Burislav,
que se chamava Witzlav e tomou por mulher uma filha do
príncipe caxúbio Swantopolk, chamada Damroka.
Ela fala dos inquietos vikings de Jom, que corriam os ma­
res em rapinas e conquistas, chegando até a Islândia e a Gro­
enlândia. — Eles comerciaram com Haithabu, e das costas da
América, que começaram a saquear bem antes de Colombo,
trouxeram uma nova ave, perus gorgolejantes, que, mais tar­
de, entraram no repertório de pintores góticos. Mas o povo
de Jumne permaneceu sedentário. Eles faziam comércio, trafi­
cavam com muamba, e transformaram os perus selvagens em
barulhentos animais domésticos. Por isso, parece que inicial­
mente o animal do brasão de Jumne era um peru heráldico.
Diante da calma aterradora do mar, e do desaparecimento
das medusas que cercavam e festejavam o barco com seus co­
ros de júbilo, Damroka tenta animar suas marinheiras com
histórias de peru. Mas as mulheres não acham graça nem
mesmo nos nomes cômicos dos vikings, sujeitos que se cha­
mavam Thorkel, Pal e Knuddel.*
Damroka diz: — Eles morreram todos em briga. E Jumne
enriqueceu, depois voltou a ficar pobre, enriqueceu de novo,
e assim por diante, vocês conheceüi essas histórias de homens.
Mais tarde se disse que Jumne tèna queimado três dias segui­
dos, de tão entupida de isca que á cidade estava. Mas eu não

• Nom es que lembram em alemão cambalear e amassar (N. do T.)

289
acredito nisso. É mais provável que Adam de Bremen tenha
razão. Ele viajou pela costa do Báltico até a foz do O der e re­
latou que as tribos eslavas dos vitizíos e vinetos tinham se
apoderado de Jumne, sendo que pouco mais tarde, depois que
um monte de outros sujeitos brigaram até morrer, a cidade
chamava-se Vineta e ficou rica, por fim podre de rica, até que
veio a inundação com um vendaval de noroeste, isso foi lá por
volta de mil duzentos e qualquer coisa. Mas também há outros
relatos, todos eles com seus erros e acertos...
Damroka nunca chega ao fim. Suas histórias abrem o ape­
tite. E as mulheres ouvem com prazer a descrição que ela faz
do brando governo dominado pelo poder doméstico das mu­
lheres. Ela conta que, paralelamente ao Conselho de Mulhe­
res, havia também um Conselho de Homens. Juradas femini­
nas julgavam ao lado de jurados masculinos. Por isso,
encontra-se também menção a mulheres como carrascos. Uma
lenda fala até de capitãs femininas.
— Mas então — diz ela —, chegou gente estranha, cento
e trinta mulheres e sujeitos do Weser, onde um flautista da
cidade, de fato um aliciador itinerante, os tinha recrutado com
as mais doces promessas. Foram chamados colonos novos.
Com sua chegada — isso foi no dia de São Martinho do ano
de 1284 — começa a decadência da cidade de Vineta, pois os
homens dentre os colonos novos eram estritamente contra o
domínio feminino, e traziam além disso um séquito de milha­
res e milhares de ratos, razão pela qual via-se um rato em­
baixo do peru no último brasão da cidade, sendo que a ave
com o bico virado para a direita e o rato correndo para a es­
querda.
Damroka busca a velha carta marítima na cabine de co­
mando; naquela semi-escuridão, ela mostra às mulheres o
ponto onde estão ancoradas. — Aqui — diz ela —, diante da
foz do Peene, a cidade insulana se estendia bastante para o
Leste. Estamos ancoradas em cima do centro da cidade. Dizem

290
que antes da inundação o mar ficou parado como hoje. Teria
sido também um ano de águas-vivas, e um canto que parecia
entoado por anjos pairavá sobre as águas.
• Depois disso, as mulheres decidem tentar mais uma vez
dormir. N o domingo pela manhã elas querem verificar se é
justo o ponto onde ancoram chamar-se Vineta, comó afirma a
amarelecida carta marítima; a oceanógrafa não é a única a du­
vidar.
Já estão nas redes, quando Damroka diz: — Aliás, parece
que a inundação veio num domingo. Por isso, ainda hoje se
ouvem sinos tocando na calmaria.

291
0 OITAVO CAPÍTULO, no qual transcorrem cinco minutos de silên­
cio, o aniversário segue seu curso, a ratazana fala de heresias, o
cuco pia no filme e na realidade, as mulheres se enfeitam, Oskar
esconde-se por baixo das saias, quase tudo chega ao fim e cruzes são
erguidas no Morro do Bispo.

De manhã cedo, uma hora antes de seu motorista tomar o


café, e ainda antes que as mãos do padre administrem a sa- j
grada comunhão à avó sentada na poltrona, domingo de ma­
nhãzinha, o Sr. Matzerath atravessa com suas pernas curtas a
cidade velha em que se misturam prédios novos e partes res- 1
tauradas, indo do H otel Monopol em direção de Hakelwerk
até o Ràhm, onde, fechado mas perfeitamente visível, o edifí- 1
cio de tijolos vermelhos dos Correios Poloneses da época em
que Danzig era Cidade Livre espera por ele, testemunha e
ator, trânsfuga e cúmplice; pois uma lápide disposta diante do
portal daquele conjunto histórico enumera em caracteres cu-
neiformes os nomes de todos os funcionários dos Correios
Poloneses que, ao desencadear-se a Segunda Guerra Mundial,
que começou aqui, exatamente aqui, responderam ao fogo ati­
rando das janelas e clarabóias, embora contassem com prepa- 1
ros apenas sofríveis; e, excetuando-se os mortos e dois ou três
fugitivos, foram logo presos, e executados perto do velho ce­
mitério de Saspe.
Ele limpa os óculos de aros de ouro. Procura e encontra o
nome de seu tio gravado na pedra. Toma um passo de distân­
cia e fica de pé, juntando os sapatos brancos e amarelos, o
chapéu de palha estendido ao lado da perna. O repicar de si­

292
nos próximos e distantes não se deve a ele. Ninguém tira a
foto comprovadora, para que a cena seja de verdade. Assim,
aos primeiros devotos que caminham apressados em direção
de Santa Maria ou Santa Catarina, ele oferece a imagem de
um senhor idoso de baixa estatura, vestido à ocidental, carre­
gando o fardo de sua corcova, e cujos pensamentos parecem
concentrar-se na lápide de granito do prédio dos correios.
Estou certo de que o Sr. Matzerath não pensa apenas em
seu tio Jan Bronski e em sua pobre mãe; ele evoca tambén\ o
Oskar daquele tempo, o anjo' de inocência que de tudo parti­
lhava sem participar. D e qualquer forma, ele agora está ali
sem se ausentar ao mesmo tempo. Assim parece. A cabeça
baixa, mergulhado em si mesmo por mando da avó. O sol da
manhã depõe luzes cintilantes sobre seu crânio. D e vez em
quando, nuvens que o ensombrecem.
Devem ter passado agora cinco minutos, pois ele se des­
contrai, hesita, põe o chapéu no devido lugar, dá uma meia-
volta repentina e segue o caminho de retorno com passos rá­
pidos, mas certamente cheio de sofridos pensamentos. Diante
do Hotel Monopol, ele embarca no Mercedes que está à espe­
ra, depois de alguém ter-lhe feito uma vantajosa proposta de
câmbio.
Não precisa dar instruções ao chofer. Pelo contrário, é
Bruno que, como já na véspera, demonstra a ele saber orien­
tar-se. Seu antigo enfermeiro conhece aquelas ruas de velhas
histórias há muito ultrapassadas, em cujo decurso os conduto­
res de bonde gritavam os nomes das estações, e os caminhos
de ida e volta eram além disso sempre refletidos: já estão mais
uma vez seguindo da Porta de Oliva pela Grunewaldska, que
outrora chamou-se sucessivamente Grande Alameda e Ala­
meda Hindenburg; pela rua principal de Langfuhr, que tam­
bém mudou várias vezes de nome; dobrando agora à esquer­
da, subindo por Hochstriess, passando pelos quartéis dos hus-
sardos, mais tarde da polícia, depois da Wehrmacht e agora da

293
Milícia, até que, depois de Brentau, em cujo cemitério de solo
arenoso sua pobre mãe repousa, eles chegam à terra ondulada
dos caxúbios. Redordações demais. Ele se distrai com uma re­
vista versada em moedas.
Diante da casinha de sua avó, os parentes estão nova­
mente reunidos embaixo do castanheiro. Dão a impressão de
terem continuado ali desde ontem. Hoje, porém, trançado
com escovinhas, o número 107 balança sobre a porta de en­
trada da cozinha, cujas três portas internas levam respectiva­
mente ao estábulo, no fundo, ao quarto de dormir, à direita,
e, à esquerda, à sala de visitas. Estão todas abertas, pois tudo,
até mesmo o estábulo vazio há anos, está tomado por convi­
dados que se sentam em bancos, banquetas e cadeiras, acoto-
velam-se de pé, bebendo suco de ruibarbo adoçado ou — por
cedo que seja — uma cristalina aguardente de batata, cujo es­
toque parece milagrosamente aumentar.
Ao lado da poltrona de Anna Koljaiczek, na qual ela se
encontra sentada como se nunca mais quisesse abandoná-la,
há uma mesa, e sobre a metade mais próxima dela continuam
acesas cento e sete velas doadas pela Igreja; a outra metade já
está carregada de presentes de aniversário. Todos admiram a
estatueta de porcelana de um cavalo ao galope, cuja cauda se
alça, arrojada. Com toda a sua fragilidade, ele foi importado
de Hong-Kong para a Caxúbia pelo casal Bruns. Lady Bruns,
toda ela envolta numa seda florida de vermelho e amarelo,
explica com um movimento esvoaçante dos dedos que o ani­
mal é uma cópia fiel dos cavalos de porcelana da época Ming.
Os Vikings acharam justo trazer uma churrasqueira elé­
trica da Austrália para a Polônia carente de carne. Como a
perfeição técnica é uma atração em si, é preciso testar o apare­
lho à vista de todos. Causa espanto ver como o espeto girató-^
rio vazio do eletrodoméstico acelera lentamente ao toque de
um botão, ronrona em velocidade e emite sinais por meio de

294
uma campainha, anunciando devida e oportunamente o estado
da carné, passada ou no ponto.
Os Colchics trouxeram do lago Michigan uma gigantesca
cabeçade bronze, cujos traços foram copiados de uma fota da
década de 20. Postumamente, o bronze deve assemelhar-se
àquele Josef Koljaiczek bigodudo que, perseguido como in­
cendiário político nos tempos do Imperador Guilherme, en­
controu junto a Anna Bronski, que viria mais tarde a chamar-
se Koljaiczek, um refúgio de tal ordem, que o fruto de seu
amor, batizado Agnes, veio então à luz, enquanto Josef teve
de fugir* novamente, desta feita enquanto pai de família, para
aparecer, depois de longa clandestinidade,, em Chicago, onde
fez fortuna no comércio de madeiras, trouxe ao mundo mui­
tos Koljaiczeks mais tarde chamados Colchics, e estava até
para ser senador, morrendo entretanto em fevereiro de 45,
quando o Segundo Exército soviético*, sob o comando do ma­
rechal Rokossovsky, abateu-se sobre òs caxúbios: de ataque
cardíaco e apesar da distância no espaço. Quando viu a prenda
trazida da América, seu brônzeo Josef, Anna terá dito depois
de refletir um pouco: — Poix pudia tê ficado maix tempo di
carniossu cumigo.
De Mombasa, uma cidade africana situada no oceano In­
dico, Kasimir Kurbiella trouxera por seu turno uma mulher
mais ou menos da altura de uma cadeira,‘lavrada em ébano,
brilhando negra como a noite. Com seu traseiro protuberante
e os peitos pontudos, ela causou geral estranheza pelos mem­
bros alongados, até que o prelado de Oliva tocou a peça pe­
caminosa, chamou-a de arte, levantou-a, observando-a como
conhecedor, em todos os detalhes.
Não sei o que os Stomma de Gelsenkirchen deram de
presente. Foi provavelmente aquele relógio cuco da Floresta
Negra, acionado a pilha e piando de meia em meia hora, que
se encontra agora ao lado da imagem do Coração de Jesus tra­
zida de presente pelo prelado com dedicatória de próprio pu­

295
nho do Papa de origem polonesa, e por ele mesmo, prelado,
pendurada na parede em lugar da Santa Ceia salpicada de cocô
dè mosca.
Que outras prendas de aniversário devo enumerar? Os
caxúbios estabelecidos entre Kartuzy e Weihjerowo são po­
bres, mas gostam de presentear. Estenderam toalhinhas de
crochê e chinelos forrados de pele de carneiro ao lado de xí­
caras com dedicatórias. Tantas lembrancinhas feitas com afin­
co. Um secretário dos correios estatais trouxe um abridor de
cartas com cabo de âmbar. A delegação do Estaleiro Lenin, à
qual pertencem os filhos de Stephan Bronski, chegou com um
presente que foi logo disfarçado de propósito atrás dos ou­
tros, apesar de os representantes do Estado já ontem mesmo
terem regressado a Varsóvia.
Essa lembrança já causou discussões que continuam laten­
tes. E, no entanto, a artística inscrição de ferro fundido, cujas
letras compõem, como que manuscrita, a palavra “Solidar-
nosc” com a barra final do “n” erguendo uma bandeira esmal­
tada branca e vermelha parece um enfeite que poderia muito
bem ser colocado à direita da imagem do Coração de Jesus.
Esse presente teria certamente desagradado aos funcionários
governamentais de Varsóvia; mas também o prelado disse que
a inscrição de ferro fundido era sem dúvida um bom trabalho,
que atestaria nobreza de sentimentos, não sendo entretanto
adequada num dia festivo como aquele, que estava acima de
qualquer política. As agruras do dia-a-dia deveriam ficar hoje
do lado de fora da porta enfeitada de flores. Foi mais ou me­
nos isso o que ele disse.
Com palavras semelhantes, Stephan Bronski contradiz os
filhos. A discussão já recomeçou, não na sala, mas na frente da
casa e pela cozinha adentro, quando o Sr. Matzerath chega de
Mercedes e chofer, e se vê logo envolvido na insanável desa­
vença.

296
— A nós, caxúbios* a política trouxe muitos dias come­
morativos, mas pouco benefícios. — Ele, que gosta de falar
cm termos de princípio, consegue com essa frase podar como
quç de passagem alguns extremos da discussão sobre o sindi­
cato proibido pelo Estàdo. Para terminar, Kasimir Kurbiella
— chamado Kasy, em Mombasa — ainda bota para fora o an­
tigo marujo. Embaixo do castanheiro, ele exige a relegalização
do Solidarnosc, ao que Stephan Bronski, apoiado por Herr
Stomma, afirma e repete que a palavra Ordem não pode conti­
nuar um privilégio da língua alemã, devendo imperar também
em polonês. A bênção final — para ambos os lados — fica por
conta do prelado de Oliva, que representando a posição da
Igreja acalma os ânimos das forças amantes da Ordem e sindi­
cais.
Bruno, que nem na sala de teto baixo tira seu boné de
motorista, só agora traz sucessivamente para dentro de casa os
presentes que o neto de Anna Koljaiczek idealizou durante
longas estações de águas em Baden-Baden e Bad Schinznach,
bem como no curso de viagens numismáticas. Bruno não
gosta que o ajudem a desembrulhar. Singularmente, ele en­
rola e guarda os barbantes, e nunca permite que a tesoura
economize tempo. Cada nó requer paciência. Afinal, todos os *
invólucros caíram. Nesse meio tempo, as crianças caxúbias ti­
veram permissão de soprar todas as velas, já quase consumi­
das. Rapidamente, abre-se espaço para os presentes de Oskar.
Muitas palmas para o bolo-tronco que, como o Sr. Matze­
rath acentua, tem noventa e quatro centímetros de altura, e é
logo cortado pela Sra. Stomma como boa dona-de-casa de
Gelsenkirchen: fatias fininhas para todos. O s caxúbios deixam
que o bolo, estriado do mais fino chocolate, dissolva-se na
boca como hóstia.
Todos se maravilham quando Bruno demonstra o pró­
ximo presente: uma câmera Polaroid, com a qual podem-se ti­
rar fotografias dos convivas reunidos assim ou assado e, como

297
sublinha o Sr. Matzerath, “de nossa querida aniversariante”.!
Fotos que, logo depois de batidas, podem ser extraídas do
aparelho e contempladas: a princípio foscas, elas vão a olhos
vistos desvendando brilhantemente seus motivos, até que cada
qual reconhece os outros e se espanta diante de si mesmo.
Em seguida, ri-se de um saquinho que, esvaziado, libera j
cento e trinta anõezinhos de plástico azuis e brancos, destina-j
dos à numerosa prole de crianças caxúbias. Grandes exclama- J
ções quando Mister Bruns constata — e Lady Bruns confirma, I
sorrindo — que boa parte dos smurfs trazem a marca de quali- j
dade Made in Hong Kong estampada nas smúrficas solas; o que,
além de provar que quase a metade dos smurfs pode provir da
fabricação de brinquedos do próprio Bruns, demonstra tam- ,
bém, no dizer de todos os convidados, como o mundo é pe­
queno.
Depois de todas essas dádivas para os caxúbios e respec­
tivos filhos, aparece afinal um estojo envernizado, em cujas
onze gavetinhas encontram-se cento e sete moedas de ouno j
pousadas em veludo branco, que devem ser tesouro exclusivo '
da aniversariante. Consultado, o Sr. Matzerath explica as pe- -
ças. Ele diferencia entre luíses, maximilianos e fredericos de
ouro. Estas aqui foram cunhadas na Suíça, diz ele, aquelas na
África do Sul, essa peça e mais outra nos tempos do Império,
e toda uma prateleirinha no reino dos Habsburgos. H á duca- i
dos e coroas, rublos de ouro da Rússia dos czares e moedas ;
comemorativas soviéticas. Todos admiram os Vreneli suíços e
dólares donos do mundo, pesos mexicanos e o Krügerrand.1
Até uma cunhagem chinesa para colecionadores pode ser ad­
mirada, tendo o urso-panda como motivo. As moedas passam1
de mão em mão, e voltam todas ao seu lugar.
— Ié pra tudu isso sê di ouru? — diz Anna Koljaiczek, j
desconfiada, sem largar o seu rosário.
— Trata-se de peças de ouro puro — afirma o neto —, j
para cada ano, querida babka, uma moeda de ouro.

298
Ela acaba balançando na mão um velho ducado de Dan­
zig, dos tempos do Rei Sigismundo Augusto.
Acompanhando o linguajar roceiro da avó, Oskar diz: —
E pra num sofrê maix necessidadi. — Apenas diante de Joe
Colchic ele menciona que a cotação do ouro vem caindo há
longo tempo, numa voz que não deixa de ser queixosa, como
se ele tivesse razões para responsabilizar os caxúbios america­
nos pela depreciação dos tesouros de seu cofre.
Então, enquanto os convidados divertem-se, rindo muito
dos smurfs, gozando os primeiros instantâneos da Polaroid, o
Sr. Matzerath achega-se ao ouvido da avó, em cujo colo re­
pousam as moedas de ouro.
— Ai, babka — diz ele —, esse mundo vai mal. As pes­
soas querem se destruir. Têm o poder de liquidar todo ser vi­
vo. Prenúncios não faltam, em lugar nenhum: vai irromper um
tempo ruim, se não for hoje, será amanhã.
Sem deixar que esse anúncio sussurrado de desgraça imi­
nente diminua a alegria pela algazarra de convidados e paren­
tes, Anna Koljaiczek diz:
— Tô sabendu, Oskarzinho, u tinhosu tá dentro di tudu.
Então, ela quer que ele aproxime a orelha, mais, mais
ainda:
— Ante* tinha ratu aqui ditraix di casá. Valhamenossassi-
nhora! Foi tudimbora.
Munido dessa informação, o neto volta a misturar-se na
agitação da festa. Ele tem de explicar as moedas e seus pesos.
Há sempre alguém ainda querendo balançar uma peça de ouro
na mão. Uma moeda mexicana de cinqüenta pesos causa atra­
ção especial. Os caxúbios de Kartuzy e Weihjerowo, Firoga,
Kokoszki e Karczemki rememoram o peso estampado —
trinta e cinco ponto cinco gramas — e as palavras mágicas: oro
puro. À medida que caminha de mão em mão, a áurea carga
produz um pequeno susto. Alguém — um Kuczorra de
Chmielno — recusa-se a tocar a moeda de ouro. Kasy Kur-

299
biella, porém, que gosta de fazer gracinhas e, entre mulheres,
de solteirão interessado, prende ao olho um Vreneli suíço de
ouro fino, como um monóculo.
Já sem boné, como convidado, o chofer Bruno serve de
fotógrafo aos grupos caxúbios que se alternam. Ora são os
Colchics americanos que querem aparecer num retrato com os
Woykes de Zukowo. Ora são os Vikings australianos entre
Stephan Bronski e senhora — uma Pipka de nascimento — e
os filhos de Bronski com respectivas noivas. Ora é ainda o ca­
sal Bruns que quer mais uma vez mostrar o cavalo de porce­
lana chinesa à aniversariante, para uma fotografia. Os Stom-
mas, com as filhas adolescentes que parecem sempre amuadas
e têm que levar uns empurrões e repelões, formam um grupo
com os Stommas de Kartuzy em torno da poltrona de Anna,
hoje, de resto, encimada em branco e vermelho por uma gri­
nalda de peônias. Apesar dos tímidos protestos do secretário
dos correios, Kasy Kurbiella não abre mão de um instantâneo
que fixe para a eternidade a delegação do Estaleiro Lenin,
junto a ele que ergue sobre o peito branco da camisa a “Soli-
darnosc” escrita em ferro fundido.
A metamorfose do papel opaco numa imagem representa
sempre um milagre que se repete no silêncio da expectativa; é
como entre o sacrifício e a transfiguração: uma mistura de pa­
vor e suspense.
Por mais que se recuse e implore, o Sr. Matzerath vive
naturalmente tendo que posar, sempre que possível no centro
da foto: entre a Igreja e o Estado poloneses, como elo de liga­
ção entre famílias com ramos em demasia, no meio das crian­
ças caxúbias. Mas ao mesmo tempo se bebe, canta, ri, chora.
No aperto dos convidados, continua aquele cheiro azedo.
Com prolongado prazer, um volta a contar aos outros suas
doenças, inclusive tratamento e duração. Por que Kasy Kur­
biella continua solteiro, qual é o tamanho de Chicago, o custo
de vida em Hong-Kong, quanto ganha Anthony Viking na

300
ferrovia australiana. Desentendimentos, só de passagem, o en­
sejo da festa concilia os ânimos, razão pela qual todos acham
os smurfs azuis e brancos a coisinha mais linda, tanto os ho­
mens do Estaleiro Lenin, quanto os adeptos de uma Ordem
que precisa imperar em alemão e polonês. Stephan Bronski
diz: — Sabe, Oskar, você nos fez de novo uma surpresa de
verdade.
Todos os convidados estão de acordo, e bebem à sua saú­
de: aguardente de batata e agora também licor de ovos. Mas,
na mala de seu Mercedes e em seu coração, no qual nunca se
pôde confiar, o Sr. Matzerath guarda uma surpresa especial.

Antes, nós sabíamos mais do mundo; durante a primeira


fase da época pós-humana, cuja longa duração não se pode
medir em anos de folhinha, nós quase não tínhamos porém
notícia dos ratos que se enterraram em outros lugares. Como
estávamos certos de que nossos semelhantes viviam por toda
parte, ansiávamos ainda mais por novidades. Chegaram então
os primeiros retirantes vindos do Leste, que foram alojados na
baixada ainda pantanosa, fora da cidade e do interior caxúbio.
Mas esses imigrantes também não sabiam muito, apenas que
na Rússia a situação era péssima, pior do que a nossa, mal su­
portável até mesmo para ratos. Isso não eram informações.
Havia pouco de concreto, somente queixas e boatos, dos
quais estávamos fartos.
Na época humana era diferente, disse a ratazana com que
sonho. Desde a antiguidade, viajamos de continente a conti­
nente no fundo de navios de todos os tamanhos, sempre que
navios isolados ou frotas inteiras não exalassem cheiro de nau­
frágio. A Armada espanhola afundou sem nós. Evitamos o 77 -
tanic. E não havia ratos a bordo quando o 'Wilhelm Gustloff,
um navio da Kraft durch Freude, * foi torpedeado em janeiro

* Força através da Alegria, programa de recreação nazista. (N. do T.)

301
de 45 e soçobrou logo depois de abandonar a baía de Danzig,
apinhado de fugitivos com que zarpara de Gdynia, que na oca­
sião chamava-se Gotenhafen. Pode-se dizer o mesmo do Steu-
ben, que levava quatro mil feridos, do Goya, e de outros na­
vios que bateram em liiinas, viraram, ou foram tragados pela
popa. Um almirante-mor mandara todos eles até a Curlândia,
a fim de que trouxessem para o Ocidente o maior número
possível de soldados e civis. Sabemos disso porque houve
igualmente retirantes nossos, que vieram em navios que não
foram a pique. N ós ocupamos sete vezes o Cap Arcona, de­
sembarcando até mesmo duplicados em portos dinamarqueses
e do N orte da Alemanha; desistimos, porém, desse antigo na­
vio de luxo quando ele foi carregado com prisioneiros do
campo de concentração de Neuengamme; assim, estava dado
o sinal de seu naufágio.
Quem não acreditar nisso, disse a ratazana não querendo
parar de comemorar naufrágios evitados, que se lembre de
nossa fuga dos encouraçados e navios de linha da frota russa
do Báltico, quando pressentimos a batalha naval de Tsushima...
Ela continuou tagarelando, perdida no meio de seu as­
sunto predileto. Os cruzadores Swetlana e Chemtchug, o
navio-almirante Ostiaba, o encouraçado Almirante Nachimov,
os navios de linha Borodin e Zuvorov, todos esses ela enum e­
rou. Ao todo, quarenta e duas botijas negras, abandonadas na
noite de treze para quatorze de outubro do ano de zero qua­
tro por tudo que tinha rabo pelado.
Mas amigo, disse ela, para que falarmos aqui de naufrá­
gios, quando devemos lembrar tantos navios em que viajamos
ê chegamos sem preocupações, embora eventualmente conge­
lados, como aqueles ratos da Nova Zelândia que queriam de
qualquer forma vir dos antípodas para a Europa, e usaram na­
vios carregados de carne de carneiro. Entretanto, íqí possível
sobreviver ao choque de frio destinado à carne verde. Ele não
teve maiores conseqüências para os neozelandeses congela­

302
dos, cuja extrema agilidade voltou em Londres, que era o
porto de destino. O congelamento não tinha podido apagar
nada de sua memória de ratos. A baixa temperatura conser-
vou-a fresca. Nenhuma perda por frio! Vieram com notícias, e
levaram notícias a outra parte com os próximos navios.
A ratazana enaltecia o sistema circular de informação dos
povos de ratos, que ligava todos os continentes; depois, ela
voltava a lamentar a situação de desinformação da época pós-
humana, terminando por exceder-se em entusiasmos pelo de­
senvolvimento técnico do que ela chamava fase humana con­
clusiva. Ela contava histórias de ratos voadores que usavam
tanto aviões de carga quanto de passageiros. Não havia em­
presa aérea que não nos contasse entre seus clientes! Sempre
a par das coisas, estávamos invariavelmente melhor informa-
*
dos que o gênero humano. E uma pena que hoje não nos che­
gue praticamente nenhuma notícia.
Mas ratazana, disse eu, para que vocês precisam de notí­
cias e informação? Em calma, sem manchetes supérfluas que
sempre se anulam no dia seguinte, sem esse relatório coti­
diano de catástrofes, vocês podem finalmente viver uma vida
própria, digna dos ratos. Depois de terem posto um ponto fi­
nal na agitação humana, vocês não deviam ligar para novida-
/des, sensações enfadonhas.
Em princípio, você tem razão, concordou ela. A vida
corre mais serena quando a gente não precisa saber qual é a
programação atrás dos Sete Morros. Mas, mesmo assim, nós
gostaríamos de saber como é que os ratos que vivem em ou­
tros lugares controlam uma tendência que preocupa nossos
bandos estabelecidos aqui, e mais que isso, põe em risco, pior
ainda: poderia arruinar, pois...
Eu a via às carreiras de um lado para outro, os contornos
borrados, e depois, de novo desfocada, dividida em três, mas
unânime: E sem dúvida compreensível, dizia ela, que aquela
mulher velhíssima sentada na poltrona, que gostaria de m orrer

303 ^
I

e não pode, seja venerada pelos ratos rurais, e não há dúvida


também de que no âmbito urbano muitas igrejas intactas
encontram-se à disposição para uso comum. Mas será preciso
que a veneração por uma velha e as reuniões de nossos povos
no campo degenerem em idolatria, e descambem nas cidades
para o irracional? E inegável: estamos ficando religiosos. Mal
desapareceu a espécie humana, e já nós começamos a olhar
por trás das coisas, a procurar sentido e criar imagens. Mesmo
que pouco compreensível, tudo isso seria tolerável se ficásse­
mos devotos de um credo único, unificante. Mas não, à moda
humana, a crença é em variações. Detalhes superficiais carac­
terizam correntes, cada uma seguindo outro credo. Já surgem
motivos de discórdia, que quer chegar às vias de fato, e aliás
de forma implacável, como se devêssemos imitar a vida dos
humanos.
Com contornos mais nítidos, e também mais nitidamente
tripartida,'inclusive vibrissas, a ratazana disse: Num a diferen­
ciação sumária, três religiões se delineiam, sendo que a ori­
gem de nossos povos representa talvez um certo papel: nós
somos ratos tradicionalmente estabelecidos nesta região; há,
então, os que imigraram do Ocidente pelo chamado Corredor
dos Ratos, poúco antes da Grande Explosão; e, ainda, os que
se infiltraram recentemente, vindos das imensidões da Rússia;
em sua essência, os três povos não apresentam diferenças de
fundo, até a pelugem pós-humana é do mesmo verde-zinco; só
que eles divergem na devoção...
Quando eta disse isso, não consegui determinar qual de­
las dissera divergem, e qual devoção, pois em meu sonho três
ratazanas ocupavam a imagem: evitando-se, eriçadas uma con­
tra a outra, correndo inquietas pra lá e pra cá. Uma ratazana
perseguia a segunda, que estava atrás da terceira. Eu nunca sa­
bia qual delas dirigia-se a mim no sonho. Ouvi acusações ab­
surdas, uma praguejando que a outra deveria vòltar para os
confins da Rússia de onde viera, ao que ela acusou a terceira

304
de economia polonesa, para terminar xingada de prussiana
pela ratazana russa e a polonesa, que sabe Deus se encaravam
com mútuo ódio.
Mas, no fundo, a briga das três ratazanas, cada uma das
quais poderia ser a minha, dava-se por causa de questões reli­
giosas. Podiam-se ouvir querelas cristãs ecoando em seu
bate-boca. Quando uma exercia o amor ao próximo contra a
outra, a coisa tomava jeito humano. Se a primeira se enchia de
zelos protestantes, a segunda teimava em seu catolicismo, en­
quanto a terceira — mas qual delas!? — tentava ortodoxa­
mente superar o zelo e a temosia das outras duas. Encolhidas
para o bote, ou na fúria de morder-se, os dentes arreganha-
dos, as vibrissas frementes. Em seguida, cada uma delas sibi-
lava em solilóquio; eu tinha dificuldades em deslindar o ema­
ranhado de sua briga.
Deixando de lado as desavenças teológicas e tudo o mais
que elas humanizavam, tratava-se de questões de espaço:
quem poderia reunir-se quando e em quç igreja. As ratazanas
imigradas da Rússia, vivendo em condições mais que precárias
na baixada pantanosa do Vístula, reivindicavam a exclusivi­
dade da igreja de Santa Bárbara, cercada por avalanches de
lodo na cidade baixa. Quanto às ratazanas imigradas da Ale­
manha pouco antes do fim, e à antiga população, seu pro­
blema era Santa Maria e o uso e partilha dos prédios religiosos
restantes. As ratazanas católico-polonesas não queriam de
jeito nenhum liberar a antiga igreja dominicana para os pro­
testantes. N ão menos birrentas, as ratazanas de origem alemã
reivindicavam para si as igrejas de Santa Brígida e Santa Cata­
rina.
Mas, disse eu em meio à confusão, que é feito do amor
ao próximo, que diabo! Um pouco mais de tolerância, por
favor.
Com isso, as três voltaram-se contra mim. Era só o que
faltava, esse último homem querer ensinar boas maneiras aos

305
ratos. Já não estava satisfeito com sua cápsula espacial. Ele que
não se metesse. Que itrevimeuto! A espécie humana foi capaz
de tudo, menos de tolerância. Entã >, voltaram a brigar as três
entre si mesmas, e parecia que ;e divertiam com isso.
Mas, prosseguindo a disputa religiosa, havia já quatro e
depois cinco ratazanas que se engalfinhavam sem largar uma
da outra. Se bem entendi, as protestantes tinham se dividido,
e entre as ortodoxas havia desvios comunistas de cristianismo
primitivo. Isso veio bem a propósito para a caxúbio-polonesa.
Ela — mas qual era a católica? — exigiu imediatamente de
volta a igreja de Santa Bárbara na cidade baixa e, é claro, a
antiga capela real-polonesa ao lado de Santa Maria, que a
quarta ratazana reivindicava de forma absurda para ajuntamen­
tos calvinistas, enquanto as adeptas do primitivo comunismo
cristão reclamavam a igreja de São Jaime próxima ao antigo
Estaleiro Lenin.
Pois bem, disse eu, o que não faltam são igrejas, que dia­
bo. Mas seria ótimo se, em qualquer igreja e de todos os púl­
pitos, também os ratos devotos conseguissem finalmente
pregar já não digo a tolerância, mas o amor ao próximo:
ratzekahl.
Uma vez mais, estavam todas, agora cinco, contra mim.
Essa situação parecia-me muito familiar: experiências de que
estava farto. Procurei comparações, quis enfiar no sonho o
navio tripulado por mulheres, mas só conseguia gritar comple­
tamente enraticido: amor ao próximo, que diabo! Um pou­
quinho mais de amor ao próximo!
A resposta eram gargalhadas de escárnio: isso não era ne­
cessário pregar aos ratos. Isso sempre fora hábito entre eles,
desde que os ratos se entendem. Foi o gênero humano que
teve de transformar o amor ao próximo num mandamento
que era incapaz de cumprir, como ficou demonstfado. Em vez
disso, inventaram o homicídio e a tortura, desenvolvendo-os à

306
perfeição. Esse último homem tinha mais é de calar o bico em
sua cápsula espacial, exclamou uma das cinco ratazanas.
Quando eu, apesar disso, protestei, ameaçando com so-
Yihos de realidade bem diversa — o Sr. Matzerath ainda tem
uma surpresa a postos, o barco continua fundeado sobre Vine­
ta, o sono da Bela Adormecida se prolonga, mantendo presos
o Primeiro-Ministro e comitiva —, todas as cinco ratazanas ri­
ram, pelo que ouvi. Mas apenas uma, provavelmente a católi­
ca, exclamou: — Vê se se arranca! Mande-se, vá para sua his­
tória. Para que a gente precisa de você! A velha velhíssima
vive ainda em sua poltrona, balbuciando sem parar e não con­
seguindo morrer...
Voltaram à briga. Mas dessa vez não se tratava do uso das
igrejas intactas na cidade que fora resguardada. Não brigavam
mais como que do alto dos púlpitos, e sim numa terrível con­
fusão, sobre um monte de lixo cheio de cacos de porcelana,
pequenas figurinhas de brinquedo e moedas jogadas a esmo,
por causa daquela velha mulher que queria m orrer e não po7
dia, que me parecia conhecida, por mais que eu me recusasse
a chamá-la pelo nome, pois eu me dizia que somente quando
me dirigisse a ela ela estaria de fato perdida.

O Sr. Matzerath fala como se fosse a última vez. Ele bate


palmas com suas mãozinhas excessivamente cheias de anéis; a
compulsão a dirigir. Sobre uma cadeira, para que o vejam fa­
lando, ele pede1qualquer coisa sob aquele teto baixo, e ime­
diatamente a atenção cresce em torno de sua figura elevada.
Oskar fala, afinal, no círculo de um parentesco afastado, e
envolto por convivas não aparentados. Elevam os olhos para
ele, que fala de si, do mundo, e de si. É discurso que fez com bas­
tante freqüência diante de mim, como se precisasse ensaiar.
De há muito essas frases destinadas à humanidade formaram-
se dentro dele, palavras derradeiras, por assim dizer.

307
— Vejam em mim, por favor — disse ele —, alguém que
em meio à riqueza enganosa do Ocidente preside uma firma
de porte médio, cujo corpo executivo deu a tempo atenção a
todas as possibilidades audiovisuais, acionando uma produção
de tal forma diversificada que eu, hòje, depois de fornecer­
mos ao mundo milhares de milhares de cassetes, posso dizer à
nossa querida aniversariante: tudo está filmado! Como requer
a exatidão da mídia, eu enumero: tudo quanto o destino lan­
çou em nossa conta e a memória nos traz — seja com as ve­
lhas cores familiares, ou saturado de aromas que, então, eram
novos para nossos narizes —, aquilo que tinha gosto de papa
de criança, churrasco de casamento, banquete de enterro, e
foi arrotado, e abriu o apetite, esse infatigável era-uma-vez
está filmado. Mas também nossas esperanças curvaram-se à
mídia, com seus desejos de cores e aromas futuros, novos sa­
bores e, além disso, de sensações que não sejam velhas co­
nhecidas, mas incógnitas; tudo isso encontra-se disponível em
filmes, um cassete ao lado de outro. Como eu já disse: tudo
está filmado! O que pensamos ser uma nova experiência, já
foi alhures exibido ao público virando história antes de acon­
tecer de fato. Por esse motivo, meus queridos parentes, nós,
mesmo acreditando firmemente que nunca nos vimos antes —
tal é a extensão dos ramos em que viceja nossa erva caxúbia
—, somos íntimos, estamos fartos de nos conhecer de velhos
filmes que ainda cintilavam em preto-e-branco e nos quais fes­
tejamos outras festas; pois ensejos nunca faltaram, fossem tris­
tes ou nos causassem alegria. E novo ensejo se apresentará em
breve, quando este seu Oskar completar sessenta anos. Con­
vido cordialmente a todos, e em primeiro lúgar à senhora,
prezada avó, querida babka, para uma festa em setembro,
festa essa que já vejo como um filme que passasse diante de
meus olhos: começando, animando-se, procurando um clímax
m

e perdendo-se em diversas ações paralelas...

308
Enquanto os aplausos ainda agradecem por esse convite
para visitar o longínquo Ocidente, o Sr. Matzerath prossegue:
— Como se vê, o mundo nada de novo tem a nos ofere-
cçr; no máximo, nós somos arranjados de qualquer jeito e,
surpreendentemente, por vezes ao contrário, como os smurfs
com que as crianças brincam, esquecidas de si mesmas. Sim,
sim! Somos smurfs pré-moldados, que uma execução especial
— nem tudo tem que vir de Hong-Kong! — elevou a tama­
nho adulto, para, fantasiados ora disso, ora daquilo, represen­
tarem seus papéis ensaiados em centenas de filmes; envolvi­
dos de um lado em seqüências alegres e muito freqüente­
mente idiotas, de outro, em seqüências tristes, em geral ter­
minando tragicamente, ora aferradas ao suspense, ora longas e
cansativas, que consideramos a vida que brilha, em bora te­
nham sido pré-moldadas, sejam vida filmada, atrás da qual
corremos ofegantes, temerosos de perdermos uma cena de
beijo ou pancadaria. E como eu digo: descobertas pouco re­
centes. Café requentado, diversas vezes servido! Já a filha
única de nossa aniversariante, Agnes, minha pobre mãe, repe­
tia, sempre que os amigos estavam sentados em torno de sua
mesa para jogar skat valendo tostões: a vida é como um filme!
Com juízos de tão elevado teor são contemplados os ca-
xúbios vindos de longe e das vizinhanças. Maravilhados, os
operários do Estaleiro Lenin, bem como os representantes da
Igreja e do correio estatal poloneses, balançam a cabeça em
aprovação: pois a vida não é mesmo como um filme que a
gente conhece? Não se teve de voltar sempre a saborear a
desgraça da Polônia? E aquele eterno pressentimento angus­
tiado de que as coisas iam continuar seguindo seu caminho ou
descaminho?
— Tá com a razão, Oskar! — exclama Stephan Bronski
— E isso mesmo, do jeito que foi e que era.
Diante da poltrona enfeitada de flores, novas gerações de
crianças caxúbias saídas daquele emaranhado de Woykes,

309
Stommas e similares brincam com a gracinha de smurfs que o
Sr. Matzerath trouxe do rico Ocidente junto com o bolo-
tronco, a câmera Polaroid e os ducados de ouro. Em sua maio­
ria, os smurfs estão rindo, como se para tanto não faltasse oca­
sião, mas também há alguns de cara amarrada, solitários, pro­
fundamente tristes. Um gorro branco coroa invariavelmente a
barriga redonda de um azul carregado e os narizes de batata.
Todos eles estão ocupados, levam uma ferramenta ou outra
carga; alguns empunham artigos esportivos, outros comem
torta de creme. Um dos smurfs segura a pá de pedreiro com a
direita e levanta um tijolo à esquerda, o próximo brande um
machado. H á um mecânico com chave de parafusos, e um
smurf de foice e feixe de trigo às costas representa o campesi­
nato. Esse aqui está regulando o trânsito com sua sinaleira
vermelha-e-branca. Um smurf deu uma dentada no sanduíche
da merenda, outro não tira a garrafa da goela. Estão todos em
ação, menos um, que está de mãos abanando. Desempregado,
ele baixa os olhos com vergonha. Assim, enquanto Oskar
enaltece o filme como vida pré-moldada, os smurfs com que
brincam as crianças caxúbias refletem a ativa espécie humana.

— Que beleza — diz o Sr. Matzerath — poder demorar-


se de novo no seio da família. Até as doenças de vocês conti­
nuaram as mesmas. Praticamente nada mudou. Bem, há a polí­
tica. Mas também ela não é de hoje. E que envelheçamos nós,
criaturinhas humanas, é uma verdade que em meus vídeos já
foi perfeitamente levada em prévia consideração. Como eu
disse: tudo que acontece, repetindo-se acontece, inclusive pe­
quenas variações e novidades da moda. Nós, tantos os enrai­
zados aqui como todos os caxúbios vindos de longe, somos o
melhor exemplo para minha tese, e por isso eu gostaria de
apresentar à sua apreciação — e em primeiro lugar*à sua, que­
rida babka — um vídeo-cassete especial, que meteu a colher
no futuro e corresponde a meu programa de produção que em

310
breve será internacionalmente difundido sob a marca Post
Futurum.
Ajudado por um operário do estaleiro, o chofer Bruno já
está trazendo para dentro da baixa sala de visitas uma caixa
provida de uma ampla tela. Providencia-se rapidamente uma
mesinha, que é colocada junto à parede, diante de Anna Kol-
jaiczek. O televisor, ao qual está acoplado um vídeo-recorder,
encobre o pano bordado de parede que mostrava a imagem de
um anjo salvando uma criança de cair no abismo. O cuco pia
ao lado do quadro com o Coração de Jesus, pois são onze e
meia.
Nisso, o chofer introduz no aparelho o vídeo-casssete
anunciado. Rindo e bebendo com os copinhòs na mão, e ao
mesmo tempo sempre a ponto de chorar, mas, tudo somado,
alegres e tementes a Deus, os convidados formam grupos à
esquerda e à direita da poltrona enfeitada de peônias, em cu­
jos flancos se postam o prelado e o secretário do correio. As
crianças caxúbias abandonam os smurfs e ficam de cócoras,
deitadas, de pé na frente dos adultos. Estão todos olhando
para a tela opaca como se esperassem uma aparição de Maria.
— Oskarzinho! — exclama Anna Koljaiczek — ocê tá que­
rendo me fazê uma surpresa?
A um sinal do Sr. Matzerath, que se pôs de lado com
modéstia, o chofer Bruno aciona o cassete pré-moldado. Pri­
meiro, aparece o título: “O centésimo sétimo aniversário da
veneranda Anna Koljaiczek, nascida Bronski”. Mas assim que
as imagens iniciais enchem a tela, mostrando a casinha de la­
vrador da avó, com seu castanheiro, suas macieiras, a cerca do
jardim e os girassóis pouco crescidos nesse verão chuvoso e,
então, atrás da cerca, a mesa posta para a festa e os primeiros
convivas, entre eles Mister e Lady Bruns, e, com maior re­
alismo ainda, vê-se como eles se servem, devoram pirogas e
bolo de papoula, o círculo de convidados comprimidos na sala
reúne-se num aaah de espanto coletivo que, entrecortado de

311
suspiros, passa ao silêncio quando, depóis de um corte focali­
zando sobre a porta de entrada o número cento e sete tran­
çado com escovinhas, aparecem a cozinha e, em seguida, a sala
de visitas apinhada em que a aniversariante fica por enquanto
encoberta e fora de cena; as velas, porém, que há pouco ainda
queimavam e foram então sopradas, estão todas elas acesas.
E todos os convidados estão previstos no filme: o prelado
de Oliva e o padre de Matarnia, os dois representantes do Es­
tado polonês, que infelizmente já ontem tiveram que partir, e
a delegação do Estaleiro Lenin, ainda presente. Até o secretá­
rio dos correios, que chegou atrasado, aparece na tela. A pre­
sença de cada convidado confirma-se pré-moldada: os Col­
chics da América cumprimentando, barulhentos e cordiais, os
Woykes de Zukowo; os Stommas de Gelsenkirchen, brin­
dando inúmeras vezes com Stephan Bronski e sua mulher
sempre distanciada e ranzinza; o hoteleiro Kasy Kurbiella tra­
duzindo o inglês dos Vikings para o polonês, a fim de que o
ferroviário Antek Kuczorra de Kokoschken conheça o sistema
ferroviário australiano; o orgulho que o fabricante de brin­
quedos de Hong-Kong sente por sua esposa asiática e pelo ca­
valo de porcelana dado de presente, ambos pressagiados pela
câmera de vídeo até os detalhes da cauda esvoaçante e do pen­
teado em franjinha. Ah, como Lady Bruns é frágil, no filme e
na realidade!
Mesmo as crianças caxúbias já sopraram velas de aniver­
sário durante a produção desse cassete, e brincaram com
smurfs do rico Ocidente, antes de terem podido realmente so­
prar velas e brincar com smurfs. Como o filme preestabeleceu,
os filhos de Stephan Bronski estão noivos há anos de uma
moça socada cujo permanente se enrosca num louro do lito­
ral, e de uma bonequinha miúda, cujos cabelos castanho-
escuros destoam da raça. “Tá faltando moradia”, confirma o
som sincronicamente, ao passo que acordes de polca acompa­

312
nham todo o desenrolar do filme, ora em surdina, ora convi­
dando a dançar.
Apenas a música é *novidade; todo o resto acabara de
passar-se. Na sala de visitas, repetem-se imagens do jardim:
bebidas e tira-gostos pedindo mais doces e salgados que já fo­
ram engolidos, mastigados, digeridos; gelatina e bolo de fare­
lo, pepinos e pudins de que se provara. Diversos convivas
reuniram-se no canto bem antes de terem começado de fato a
cantar para animar a festa. Waldeslust, Waldeslust tinham can­
tado em alemão velhos caxúbios, para o filme e em homena­
gem a Oskar, voltando mais tarde na vida a entoar a mesma
canção da alegria na floresta. Até a discussão dos operários do
estaleiro com os representantes do Estado da Polônia sobre a
legalidade do sindicato “Solidarnosc” foi prefigurada com ri­
queza de gestos e passa agora mais uma vez na gravação origi­
nal: Kasy Kurbiella de Mombasa, por um lado, e pelo outro
Herr Stomma de Gelsenkirchen e Stephan Bronski, gritando
“E preciso Ordem!” em alemão e polonês, misturam-se na
discussão, até que o prelado da Polônia apazigua as contradi­
ções; os operários riem com-a garganta seca quando o reve­
rendo abençoa os dois lados e transforma o povo trabalhador
e os representantes do Estado em filhos de Deus, amantes da
paz.
Nesse ponto, Stephan Bronski exclama por cima do som
do filme: — Mas como é que ocê conseguiu isso, Oskar, diz
pra gente!
E o Sr. Matzerath diz como quem não quer nada: — An­
tigamente, chamava-se isso de divina Providência, não é mes­
mo, reverendo? Hoje, são minúsculos microprocessadores,
que armazenam tudo o que aconteceu e botam para fora o que
virá. O resto é carpintaria audiovisual. Uma brincadeira de
crianças!
E no momento em que, no curso de sua explanação, ele
acrescenta que tudo o que se imagina pode tambem ser pro-

313
duzido, Oskar aparece pessoalmente na tela. Ele é cumpri­
mentado vivamente, tanto no filme como na sala de visitas da
avó, onde é exibido o filme visionário. Pela segunda vez os
convidados se maravilham com todos os presentes que o Sr.
Matzerath trouxe do Ocidente. Eles vêem como Anna Kol­
jaiczek, em sua poltrona enfeitada, fica feliz pelo bolo-tronco
e os ducados, e mais ainda pelo homenzinho corcunda: — Os-
karzinho! — diz ela, e fica feliz mais uma vez.
Com o filme seguindo ao fundo, ouvimo-la dizer na re­
alidade: — Foi assim quieu imaginei meu aniversário sempri,
Oskarzinho —, enquanto no filme ela diz o mesmo que disse
ao balançar na mão um florim do tempo do Rei Sigismundo
Augusto: — Ié pra tudu isso sê di òuru?
A euforia das crianças caxúbias quando aparece o saqui­
nho com os smurfs que ganharam de presente. E ao verem a
própria imagem brincando no filme como brincavam ainda há
pouco, antes de o cuco dar as onze e meia, as*crianças acredi­
tam que o filme reproduz fielmente o que elas representaram
para ele.
E que capacidade de alegrar-se! A tela mostra agora em
close o seu novo brinquedo: o smurf com a sinaleira para regu­
lar o trânsito; diversos smurfs com pás de pedreiro; também o
da foice, formando um grupo de sete com outros cortadores.
Entre os smurfs quê tocam instrumentos, o com o tambor
branco e vermelho ganha um destaque especial: — Oskar!
Oskar! — exclamam as crianças caxúbias diante da tela, por
, dentro das coisas. Observando-se bem, nota-se que os smurfs,
inclusive o do tambor, têm apenas quatro dedos: o polegar e
, mais três. Pergunta-se por quê. Mas nem mesmo o tio Bruns
de Hong-Kong, que já produziu milhões dos mais adoráveis
smurfs estampados com o carimbo de qualidade de sua ope­
rosa cidade, é capaz de dar uma resposta, seja nò filme ou na
realidade.

314
É supérfluo contar que, já durante a produção do filme,
os instantâneos tirados há quase uma hora com a Polaroid pre­
senteada pelo Sr. Matzérath encontraram seus ângulos, inclu­
sive o que mostra os representantes do Estado e da Igreja po­
loneses à esquerda e à direita da poltrona de Anna Koljaiczek; e
o outro, que mostra a delegação dos operários do Estaleiro
Lenin agrupados em torno de Kasimir Kurbiella, o qual segura
como uma relíquia o “Solidarnosc” de ferro batido.
— E u quieu digu sempre — diz alegremente Anna Kol­
jaiczek —, num teim nada di novu, tudu já passo.
Como que para confirmar a frase do eterno retorno, o Sr.
Matzerath anuncia agora, no filme que está passando, a sur­
presa que trouxe de presente: a produção Post Futurum de
sua firma especializada em previsões. E os convidados do ani­
versário vêem o chofer sem boné e o operário do estaleiro
trazendo o aparelho de televisão para a sala de visitas,
colocando-o diante da imagem do anjo da guarda sobre a me-
sinha que fora providenciada; foi assim que os dois atuaram
ainda há pouco, antes que a bateria embutida começasse a
alimentar o gravador especial, e o cassete a girar acompa­
nhando os acordes de polca da música de fundo.
Mas agora que no filme o filme mais uma vez começa e
antes disso o cuco dá as onze e meia como daqui a pouco piará
de fato doze vezes, os convidados do aniversário emudecem
na sala de visitas. Não há mais aaahs, suspiros ou risos secos.
Horrorizado, paralisado de horror, o círculo de convidados vê
na televisão como todos fitam um filme de vídeo que mostra
um círculo de convidados acompanhando alegre e de boa fé
um filme de vídeo que o prelado de Oliva ainda há pouco sor­
rindo admitiu como versão técnica da divina Providência, mas
que agora procura exorcizar com auxílio de pelos-sinais, pois
o decurso da ação do filme com toda a conseqüência...
Ainda por cima, como se a sala de visitas real fosse atri­
buto dessa obra do demônio, o relógio de cuco vindo de Gel-
senkirchen pia nesse instante em seu lugar, ao lado da imagem
do Coração de Jesus autografada pelo Papa; cuco, cuco... doze
vezes. O próprio Sr. Matzerath se assusta dentro do terno sob
medida. Como no filme, ele em verdade mexe nervosamente
no alfinete da gravata. E, veridicamente cheio de apreensão,
ele se vê, como se fosse a última vez, também no filme agora
apreensivo...

Também as mulheres a bordo da embarcação costeira a


motor, A Nova llsebill, arrastam pesados pensamentos. Custa­
ram demais a levantar das redes. Perderam a hora. Perderam
tempo. A manhã de domingo já vai avançada quando elas so­
bem ao convés em roupas de dormir. O Sol brilha alto sobre o
Báltico, que não está mais envolto por cantos. Abandonadas
pelas medusas, seu consolo é que ao longe, na direção de Pe-
enemünde, a lancha da guarda costeira da RDA está igualmente
fundeada, como se quisesse dar a entender às cinco mulheres:
levantem a cabeça, garotas, vocês não estão sozinhas!
Apenas a oceanógrafa está mais desperta que as outras,
cuja lentidão cambaleante se consome em bocejos e espregui­
çadelas. Ela percorre o barco a bombordo e boreste, voltando
sempre a curvar-se, espalmando ambas as mãos sobre os
olhos, na proa e depois na popa, para fitar o mar calmo, que
mal pulsa. Ela chama.
— Acordem de uma vez, crianças! Nós já chegamos! Que
loucura! Vineta embaixo de nós!
Agora, todas debruçam-se sobre o mar, formam túneis
com as mãos, para afastar a luz. A maquinista não quer acredi­
tar no que vê:
— Que incrível — diz ela —, mas é fantástico. Eu já vi
isso uma vez, não sei onde.
— Puxa! — exclama a velha. — Eu não estou mvendo só
sete igrejas, estou vendo bares também, parece até que são
mais.

316
A timoneira procura qualquer coisa além-da simples ci­
dade submersa: — Está ali. E ali que nós queremos ir.
E também a oceanógrafa acredita que elas agora chegaram
ao destino:
— Eu sempre soube, ou pressenti, que nós um dia, já que
não se encontrava lugar nenhum...
Mas o reino das mulheres abre-sê à timoneira mais palpá­
vel ainda que para as outras: como se pudessem ocupar ime­
diatamente todos os seus aposentos. Ele está pronto a abrigar,
hospitaleiro, o desejo tanto tempo acalentado como um fruto
amadurecido, como um fruto passado de seus ventres; por­
que, de fato, estende-se abaixo delas a Jumne sorábia, a cidade
de Vineta, cheia de torres, praças e fachadas de cumeeira, seu
refúgio derradeiro, o inconfessado e apesar de muita contro­
vérsia preestabelecido destino de sua viagem.
Mas por que Damroka fica em silêncio, só olhando,
olhando?
Como Vineta é familiar com seu emaranhado de ruelas!
A cidade situa-se à beira de um rio, que forma uma ilha sobre
a qual armazéns altos e largos prometem riquezas atrás de suas
paredes de enxaimel. Pontes atravessam o rio e levam às por­
tas da cidade. Ainda hoje altivas, as fachadas trabalhadas das
casas de cumeeira alta medem-se de um lado a outro das ruas.
Cornijas sobrepostas das mais variadas formas. Terraços
diante das portas flanqueadas por colunas. Cisnes, âncoras
douradas, tartarugas, cabeças de javali enfeitando as cumeeiras
das casas. A maquinista descobre Fortuna sobre o globo que
gira, como ornato de uma delas. E sobre muitas cumeeiras,
não, em toda parte, engastado nas arcadas dos portais, sobre a
escadaria que leva à prefeitura, a velha vê, exclamando “ali, e
ali também”, o brasão da cidade, que segundo Damroka —
mas ela agora se cala — mostraria o heráldico peru sobre a
ratazana heráldica.

317
— Ali — diz a timoneira —, bem ao lado da prefeitura
onde se reúne o Conselho de Mulheres, é com certeza a Casa
da Mulher. Só ela pode ter janelas tão altas, de topo tão del­
gado.
E o prédio defronte, cuja cumeeira é encimada por uma
figura feminina segurando uma balança, deve na opinião da oce­
anógrafa ser o lugar onde as juradas têm seu tribunal. Por
toda parte elas descobrem sítios e paradeiros convenientes
para levar-se a cabo a causa das mulheres, defender o seu di­
reito, estabelecer seu reino. E como a cidade está limpa! Não
há fiapos de sargaço colados em parte alguma, nem um só te­
lhado ou arcada de portão, coberto de algas. Dava vontade de
descer, vadiar à toa pelas ruelas, de braços dados.
— Vamos! — exclama a maquinista. — Nós ocupamos
Vineta!
— Claro — diz a oceanógrafa —, é só descer.
— Sigam-me! — exclama a velha, e quer ser a primeira a
pular, mas a timoneira acha que ela própria* mais que todas,
deve ter a preferência..
— Para que as coisas fiquem claras. Eu já me batia pelos
direitos das mulheres, quando vocês ainda corriam atrás dos
caras. Vocês eram dependentes, servas voluntárias. Não é
mesmo, querida, eu vou ser a primeira...
Nesse ponto, Damroka, que até então somente olhara
para o fundo, molhando seus cabelos encaracolados, diz às ou­
tras mulheres e provavelmente também a si mesmâ:
— N ós devíamos nos arrumar antes de entrarmos em Vi­
neta. Assim, com essas roupas, nós não podemos descer.
Minha lenta Damroka mostrou mais uma vez que era ca­
pitã. Rapidamente, a timoneira diz: — Exatamente. E o que eu
também proponho. Nós deveríamos nos empetecar todas, nos
enfeitar, ficar bonitas como para uma festa.
Com isso, as cinco mulheres voltam à cabine de proa.
Embora elas tenham desperdiçado tempo demais, gosto de

318
vê-las mexendo nas malas e sacos de viagem. Tirem logo essas
camisolas suadas!
Isso eu posso dizer -nenhuma delas ficou gorducha e,
muito menos, gorda; pelo contrário, são magras e até magrice­
las. E todas elas, quando me eram chegadas ou estranhas, gos­
tavam de arrumar-se com verdadeira devoção, menos a ma­
quinista, que adorava andar numas camisolas mal-ajambradas.
Até parece que elas pressentiram essa ocasião: é espan­
tosa a quantidade de opções que sua bagagem marítima ofere­
ce. Elas estendem, escolhem, rejeitam: vestidos que vão até os
tornozelos, com mangas enfunadas; mantos, cuja amplidão
permite arremessos sobre os ombros, drapejamentos; túnicas
de corte severo e solene; vestidinhos arriscando flores e fru­
tas; roupa justa, da qual se diz que assenta como uma luva;
saias-calças que lembram o Oriente; véus, écharpes, xales e
mantilhas de todos os comprimentos. E quantas jóias essa via­
gem requeria: pesados penduricalhos de prata; âmbar bruto,
alinhado em longos cordões; colares dè coral e de marfim;
além do mais, broches de strass, pregadores de madrepérola,
braceletes de ébano, ônix, chifre. E sapatos, sapatinhos, boti­
nhas. Até mesmo chapéus encontram-se nas malas e srtcos.
Roupa de baixo: simples e rendada.
Que bom que há um espelho no tapume que separa a ca­
bine do bico-de-proa; rachado, é certo, mas ainda em função,
permitindo comparações. As mulheres precisam de tempo
para encontrar o que combina e fica bem.
Eu gostaria que elas trocassem seus trajes e mantos; elas,
porém, não querem ser prestativas umas com as outras, não
ubrem mão de um fiapo. Embora eu na saia-calça oriental pre­
ferisse ver Damroka à maquinista, e a timoneira me agradasse
mais num vestidinho engraçado que na túnica severa, elas re­
pudiam o que me agrada. N o máximo, posso desaconselhar
esse cinto largo demais, esse excesso de colares, e advertir

319
que se apressem também posso, pois o tempo passa, tempo
em demasia.
Minha preocupação, confessadamente pequeno-burguesa:
talvez elas se embonequem, subam ao convés ridiculamente
emperequetadas, overdressed, como se diz. Já estou com medo
da cena; mas, quando finalmente sobem à escotilha, as mulhe­
res estão lindas no,conjunto e em separado: à frente, caminha
a oceanógrafa, num vestido justo de seda, aberto ao longo da
perna à chinesa, envolta num véu de aspecto espanhol. Por úl­
timo, como se a seqüência tivesse sido combinada comigo,
surge Damroka num manto amarelo-açafrão de amplas man­
gas, sobre o qual tombam as duas voltas de um colar de âmbar
bruto e seus cabelos infinitamente encacheados. Com a saia-
calça tufada, a maquinista usa um turbante vermelho vivo.
Nunca pensei que, vestindo uma túnica preta, a timoneira
fosse ficar bem de chapéu de abas largas, ainda por cima,
branco, que ela usa enviesado e caído para a frente. E mesmo
de espantar, como a velha sobe a escada aos pulos feito uma
mocinha com seu vestidinho rodado de florzinhas indo até o
joelho, e, nos pés, sapatos floridos de fivelas.
E o que ainda reparo: penduricalhos de prata pesada so­
bre a túnica preta; uma travessa de madrepérola com reflexos
esverdeados assentando o turbante; o cinto de verniz combi­
nando com a saia aberta; o broche de strass junto às florzinhas;
quando ela sobe a escotilha recolhendo o ^marelo-açafrão,
vejo que Damroka usa botas pretas de cano alto.
Brincos, clips de orelha, a correntinha de coral, o brace-
lete pesado. E portam consigo carteiras ou bolsinhas de cro­
chê de malha fina, cheias do indispensável. Todas elas fizeram
uma maquilagem pálida, ou puseram ruge, as pestanas retoca­
das, ou — como preferiu a timoneira — as sobrancelhas pin­
tadas numa expressão de dor.
As mulheres ainda deixam-se ficar um pouco. Embora o
tempo urja, elas andam sobre o convés para cima e para baixo,

320
como se quisesem agradar tão-somente a si próprias. Q ue pre­
ciosidade! Insubstituível! Tenho a impressão de já tê-las visto
em outro lugar, únicas e inesquecíveis como agora. N o cine­
ma, jtalvez? Santo Fellini! Essa dobra do braço, esse colo, esses
olhares cansados, trágicos, e de desafio, entretanto. Gestos,
espalhafatosos ou introspectivos. D a cabine de comando até a
proa, indo e vindo, elas caminham solenes. A velha ensaia um
passo de dança. A oceanógrafa perde um brinco que Damroka
encontra. A timoneira se ergue com seu chapéu como uma es­
tátua, enquanto a maquinista de bombachas dá saltos grotes­
cos em torno dela. O que eu esperava, mas nunca achei possí­
vel: elas se cumprimentam, trocam sorrisos, levam-se a sério,
são irmãs que se dão bem. Então, Damroka diz: — Já é tem­
po.
Mas quando as mulheres, vedando com as mãos o sol do
meio-dia, olham para o fundo uma vez mais a bombordo e a
boreste, é a mesma Vineta que continua lá embaixo, mas
parece-lhes que há movimento nas ruelas da cidade submersa.
Elas vêem sombras deslizando. Apenas reflexos de liiz? Não,
não são miragens ou espelhos. N em peixinhos ou cardumes
de arenque. São ratos, ratos que andam pelas ruas, habitam
Vineta, construíram seu reino. Passam agitados pelas diversas
portas da cidade em direção à praça da prefeitura. Saem da
Casa da Mulher, entram no tribunal de júri feminino. Ratos
que afluem às muitas igrejas de Vineta, ou deixam-se ficar
junto aos portais depois da missa. Em volta da Fonte de N e-
tuno, sobre a ponte da Ilha de Armazéns, nos terraços, diante
das sedes das guildas, escada acima escada abaixo, subindo ao
alto das torres e torrinhas: ratos por toda parte.
Eles se acasalam com o ornato das cumeeiras, com o gan­
so, a tartaruga, os perus. Sobre as torrinhas da Matriz, até a
ponta da torre da Prefeitura, sobem tão alto que ficam ao al­
cance da mão quase à flor da pele lisa do mar Báltico, tangí­
veis com suas vibrissas em movimento, como se os ratos qui­

321
sessem dar a entender às mulheres a bordo da barcaça: che­
gamos primeiro. Vineta está ocupada, já tem dono, é habitada.
Não há lugar aqui para domínio humano ou reino de mulhe­
res, a não ser que vocês procurem refúgio junto a nós e quei­
ram doravante viver em meio aos ratos. Venham, andem, ve­
nham...
E mal as mulheres compreenderam que para elas não há
lugar neste mundo, a menos que percam a repugnância, parem
de gritar “iiih!” e “que nojo!” como estão repetindo, mesmo
agora, e, em vez disso, partam para junto dos ratos, caladas e
festivas como estão vestidas, a fim de doravante viverem em
meio aos ratos, e, digo eu, mal ficou claro pára as mulheres
que não há mais refúgio em parte alguma, mas elas não saltam
— saltem, vamos! —, elas não saltam, raios rasgam o céu ao
longe e nas imediações. Luz jamais vista. Elas ficam cegas. São
bafejadas por um calor ardente. Esvaem-se. Aonde quer que
eu aponte, procure, não existe nada mais.
A sudoeste e a oeste do ancoradouro, e atrás da linha do
horizonte, ao N orte, brotam aqueles cogumelos tantas vezes
descritos. A três golpes desferidos nas proximidades — seus
alvos eram Stralsund, Peenemünde e, mais afastada, Stettin —,
aos raios ofuscantes, seguem-se ondas de calor e compressão.
As cobertas da embarcação, a cabine de comando, o mastro,
os respiradouros desapareceram com as mulheres. Só resta o
casco irradiante. Não tivesse a barcaça sido construída em fer­
ro, quando ainda devia chamar-se Dora e transportar cargas
pelo Elba, e ela teria igualmente desaparecido.
Arrancada que foi das duas âncoras, A Nova llsebill — um
destroço que com a pintura perdeu também o nome — segue
agora à deriva em direção leste.

Ultemoch!
A. quantidade de contas não pagas,

322
e de casos e crimes sem solução.
Os matrimônios a contrair, divórcios
que deveriam ter se consumado, separações de bens.
O resto das férias, que foi por água abaixo.
Antes que depois do assado, pois aconteceu num domingó,
viesse o pudim, amarelo de gema de ovo.
No meio da frase, da jura, da praga, da reza,
logo depois dos dois pontos,
piadas truncadas antes da graça.
Eu ainda teria querido dizer que...

Tanta brincadeira estragada.


Tanto prazer da cãrne que se perdeu para sempre
bem quando vinha o agora-agora.
A ponto de bater, na partida de biriba,
ou uma soneca de domingo à tarde,
que, por assim dizer, nunca acabou.
E ficaram faltando ainda: encontros de turma
várias vezes adiados, a próxima reunião, aniversários,
a restituição do imposto de renda, os primeiros dentinhos,
o tempo amanhã,
retribuições de visitas e jogos de tabela,
heranças, o resultado do laboratório aguardado com apreen­
são,
vencimentos, o correio.
Ah, e as compras no shopping center, promessa antiga.

Nós queríamos pintar a casa, mudar de ares,


ir, só nós dois, ao teatro, como antes era mais freqüente,
e depois, comer bem, no restaurante italiano.
Sob certas condições, teria sido bom
recomeçar de novo
e dar-se a um luxo ou outro.
Prometêramos às crianças férias com pôneis na fazenda,
e a nós, mutuamente, consideração maior.
Estávamos economizando para o segundo carro,
o dicionário de Grimm, um equipamento completo de cam-
ping.
Nosso plano era: descansar finalmente,
dar um fim nessa de sempre subir mais e mais alto.
Ainda queríamos...

É claro que acabaram todas as guerras locais e a fome,


e com o capitalismo, o socialismo,
com o bem, o mal também, e com o amor, o ódio.
Idéias totalmente novas ficaram a meio caminho.
A reforma educacional simplesmente interrompida.
Sem resposta a questão de Deus e outras mais.
Havia pessoas satisfeitas consigo mesmas, pode ser,
mas ficaram desejos insatisfeitos, grandes, pequenos.
E o preço do ouro também caiu, para nunca mais...
Pois.
Num domingo.
Ultemoch.

Pòucos minutos mais tarde, e apenas cinco minutos de­


pois que o relógio de cuco da Floresta Negra piara cuco doze
vezes ao lado da imagem do Coração de Jesus, caem quase si­
multaneamente — pois os programas finais se desenrolam
numa sucessão de golpes — no Sul e no Norte, no Oeste e no
Leste, e portanto também sobre Gdynia e Gdansk, na pri­
meira uma bomba atômica normal, na segunda quatro ou
cinco bombas de nêutrons, resguardando a substância das
construções como previsto naquele acordo cultural válido no
mundo inteiro, que ainda fora ratificado justo a tempo pelo
governo polonês.

324
Distante — mas não o suficiente — dos dois centros alve­
jados, encontra-se Matarnia, uma aldeia em cujos limites
Anna Koljaiczek festeja seus cento e sete anos em meio a seus
convidados, sentada na poltrona e desfiando o rosário.
Ela e seus convidados estavam vendo um vídeo da linha
de produção Post Futurum, de seu neto. Abstraindo-se de
certas imprecisões — a partida antecipada dos funcionários
governamentais vindos de Varsóvia, quatro peônias em ex­
cesso no enfeite da poltrona —■, tratava-se de uma exibição
bem-sucedida, que tocava de perto todos os convidados, tanto
mais que o prelado de Oliva vira em última instância, no novo
veículo, uma configuração da divina Providência e Onipotên­
cia.
Mas no que eles continuam festejando e vendo na tela
seus próprios festejos, na Caxúbia, como no resto do mundo,
o céu também é cortado por raios, e com isso os convidados
correm para fora, onde todos sucumbem, uns de forma rápida
e misericordiosa, outros padecendo horrivelmente, enco­
lhendo por desidratação; pois a região de Matarnia, Firoga,.
Zukovo, Kartuzy, na qual — onde antes era Bysewo — si-
tuam-se há diversos anos, pistas pouso de concreto, é atingida
por dois sistemas de destruição: a onda de calor e compressão,
e a precipitação radiativa, bem como por raios acelerados,
gama e de nêutrons.
O estábulo, inclusive cozinha e dormitório, é arrancado
da casa. Os vidros das janelas restantes pulverizam-se, o teto
fica destelhado. O velho castanheiro e as macieiras conso­
mem-se em chamas, assim como os bosques ao norte de Ma­
tarnia, parte da grande floresta que se estende sobre as colinas
até o mar; eles se queimam como se tivessem crescido exclu­
sivamente com esse fim.
O calor inflama diversos carros estacionados diante do
portão do jardim, que a onda de compressão reduz a sucata;

325
outros, como a pesada limusine do prelado e o Mercedes do 4
Sr. Matzerath, ardem impassíveis.
A princípio, parece que apenas Anna Koljaiczek em sua
poltrona ainda há pouco enfeitada de flores tenha sobrevivido
ao fim, pois, embora cega, ela continua a respirar; mas seu
neto Oskar encontra-se sob os escombros, e se mexe. Quando
todos os convidados correram para fora e até o chofer Bruno
foi de roldão, ele ficou para trás. Sobraram assim os dois, pro­
tegidos pelas quatro paredes da sala de visitas e poupados por
minha vontade, imposta contra a ratazana e seu decreto.
E a tela continua animada. Nela, sem que Anna Koljaic­
zek possa vê-los agora, os convidados prosseguem reunidos,
pois o filme de vídeo do Sr. Matzerath — que tudo antevira,
menos esse fim — não perde a vontade de entreter. Nova
aparição de Lady Bruns entre os filhos de Stephan Bronski,
nova aparição ungida do prelado... o cassete termina afinal aos
sons da polca, mostrando, depois de um close da aniversariante
ainda cheia de vivacidade, uma última legenda que diz: “Fim
do centésimo sétimo aniversário da veneranda Anna Koljaic­
zek, nascida Bronski.” Apenas a tela permanece tremeluzindo.
Assim que as pilhas acabarem, também ela ficará inanimada.
Sentindo falta dos convidados e parentes, a avó de Oskar
chama várias vezes, sentada em sua poltrona: — Ondié qui
ocês todus ficarum? —, sem conseguir compreender.
Sobre a mesa colocada a seu lado, encontram-se os cacos
do cavalo de porcelana. O resto do bolo-tronco, todo desmi-
lingüido. Uma viga do teto atingiu a churrasqueira elétrica. O
relógio de cuco caiu da parede, a cabeça de bronze sumiu sob
os escombros, o ébano desnudo partiu-se. Mas “Solidarnosc”,
a inscrição de ferro forjado, ficou incólume, e o abridor de
cartas com seu cabo de âmbar. Por toda parte, sobre a mesa e
espalhados em torno da poltrona, encontram-se ducados de
ouro e smurfs engraçadinhos, inclusive o de tambor. — Oskar-

326
A
A
zinho! — chama Anna Koljaiczek. — N um tô venu nada.
Num qué dizê pra sua vó ondiocê tá?
Ele também deve estar cego. Orienta-se provavelmente
apenas pelo olfato. Desligaram seu som, mas ele engatinha.
Sai se esgueirando de baixo do entulho da cozinha, atravessa
de quatro a sala de visitas em direção à poltrona, à avó que
exclama “Oskarzinho!”. Estranhamente, não perdeu os óculos
de aros de ouro. O alfinete de gravata está faltando. Q uer me
parecer que, enquanto no mundo inteiro e também na Caxú­
bia tudo chegava ao fim, nósso Oskar ficou menor, como se
encolhesse a olhos vistos. Ele está nesse momento passando
sobre vigas do telhado, chegou junto aos smurfs engraçadi­
nhos, está agora aos pés da avó. E nosso encurtado Sr. Matze­
rath se refugia tão certeiramente debaixo das saias, que é
como se ele por toda a sua vida tivesse procurado esse lugar.
Ele sumiu, eu me livrei dele. De sua .parte, acabaram-se
os protestos. Vai encolher ainda um tempinho debaixo das
saias e estará completamente desidratado quando sobrevier o
óbito, como rezam as certidões. E Anna Koljaiczek, que pa­
rou de chamar “Oskarzinho!”, em vez disso desfia seu rosário:
será que ela dá por Oskar debaixo de suas saias?

Esse fim, a gente já conhece.


Tornou-se imagem corrente: viramos vapor,
capazes, encolhendo-nos, do último êxtase.

Isso não nos pode surpreender, pois sabemos de antemão


como serão as tempestades de poeira e os constantes regelos.
Vamos deixar bem-informados de ser bem-informados.

Sorrimos, quando nos falam de grupos


que treinam sobrevivência
no Canadá, Nova Zelândia, interior da Suíça.

327
Duros consigo e com os outros.
Pensando em continuar depois.
Gente afeita à volta por cima, é claro.

Segundo o combinado, começará na Europa.


E razoável; a maioria das coisas começou aqui,
propagando-se então, globalmente.

Assim, todo o progresso partirá de nós.


Meio cansados do fardo histórico, datamos
o fim de toda a história.

O Sr. Matzerath insistiu nisso antes de partir para a Polô­


nia; ou terá sido a ratazana, naquele sermão do alto do púlpito
para os bandos de ratos reunidos?
Dizia a ratazana: retornem ao único credo; e ele comen­
tava um vídeo educativo, dizendo as horas — cinco para
meia-noite — para invocar a razão; sendo que a ratazana falava
em retrospectiva. O mundo saía dos eixos, mas os graúdos
dignitários do gênero humano protelavam-se, de uma refeição
de trabalho para a outra; daí as advertências do Sr. Matzerath,
precedendo o filme: o mundo começou a sair dos eixos, mas
os estalidos, bem audíveis, são em toda parte declarados como
desgaste de material, com o qual seria preciso viver.
Q ue os homens vissem chegar seu fim e dissessem entre­
tanto: é, parece que não tem mesmo jeito, foi coisa que a ra­
tazana registrou penalizada, mas que a ele continuou enfure­
cendo, como se dispusesse de esperança em estoque: será que
vocês não estão vendo, seus idiotas, que está nas mãos de vo­
cês, agora, a um passo do abismo...
Ah, exclamou a ratazana, como nós gostávamos deles! E
não demos bastante sinais de advertência?

328
A
A

Vocês não viram os ratos marchando, exortava Oskar


ainda uma vez à espécie humana, marchando à luz do dia, avi­
sando vocês?
Outros bichos, lembrou-se a ratazana no alto do púlpito
cia igreja de Santa Maria, deram igualmente a entender que
tinham medo. Mas o homem não queria amedrontar-se.
De acordo com as últimas notícias, dizia Oskar, não fala o
peixe loquaz; em vez disso, as águas-vivas começam a cantar
cm bandos sobre os mares.
Eles, porém, não viam nem ouviam, queixava-se a rata­
zana aos ratos que rezavam; vocês estão vendo e ouvindo, mas
não querem converter-se à razão, acusou Oskar.
Se as galinhas tivessem posto ovos quadrados em sinal de
advertência, o homem teria chamado o ovo-cubo de progresso,
escarnecia ela; e ele trovejava, como se a eternidade o tivesse
acudido com palavras: será que os rios têm que correr monta­
nha acima e os morros que virar de cabeça para baixo, a fim
de que vocês entendam?
Do púlpito de Santa Maria, a ratazana não parava de re­
memorar a loucura humana. Malucolech balesseks! excla­
mava ela. E o Sr. Matzerath, incansável, ameaça a humanidade
de destruição ao longo de todo o seu filme educativo, razão
pela qual ele liberaria a produção desse cassete uma vez de
volta da Polônia. A ratazana, por sua vez, continuava o ser­
mão, exortando os povos dos ratos reunidos a não se desagre­
garem em desavenças religiosas como o homem, permane­
cendo em vez disso unidos na fé, para que pudessem assim
rezar juntos o necrológio dos últimos humanos.
Ela se referia a Anna Koljaiczek em sua poltrona e a
mim, em órbita dentro da cápsula espacial; pois, sem deixar o
púlpito, ela passara do sermão a um tom que era até bem-hu-
morado, e me contava novidades da história pós-humana,
sendo que Oskar não conseguia mais retom ar a palavra.

329
Ela disse: uma boa descompostura ainda faz milagres.
Alegre-se amiguinho, nós não brigamos mais! A disputa reli­
giosa está se amainando. H á compromissos, declarações reite­
radas de que não há nenhum propósito de cismas. H á o de­
sejo de conversar, surgiram ofertas, algumas inclusive consi­
deráveis. Q uer dizer: nós católicos vencemos mais uma vez.
Você se lembra daquela minoria, aquele grupelho que se cin­
diu dos ortodoxos, declarando-se adepto do comunismo dos
primeiros cristãos, e que foi, então, perseguido pelos outros
grupos? Pois bem, ele acabou nos ajudando. Foram provavel­
mente protestantes fanáticos — talvez até os próprios ortodo­
xos — que se deixaram levar ao extremo: falou-se de torturas,
e que os hereges teriam sido submetidos a suplícios que quase
pareciam imaginados pelo homem. Só em seguida houve a
execução pública, para intimidar. Que tenhamos sido nós, ca­
tólicos, e sem apelação, é um boato alheio a qualquer verdade
superior, embora o caso em sua plasticidade tenha vindo
como se fosse chamado.
Foi assim que eu ouvi falar das crucificações no Morro do
Bispo. Ela disse: Você sabe muito bem que do alto dessa ele­
vação tem-se um panorama de toda a cidade.
Lembrei-me de painéis medievais da escola holandesa,
nos quais a crucificação de Cristo e dos ladrões se desenrolava
tão nitidamente no M orro do Bispo, que se viam ao fundo as
torres da cidade de Danzig. E atrás, animado por navios, o
Báltico.
Eles crucificaram cento e trinta ratos adeptos do cristia­
nismo primitivo, no alto do M orro do Bispo, disse a ratazana.
Eu não acredito, não acredito! exclamei.
Eles dispuseram as cruzes em três filas.
Mas crucificaram como, e com quê?!
Ora, com pregos, seu burro!
Mentira!

330
/
Para que eu acreditasse, a ratazana mostrou-ine a cena
que, no alto do M orro do Bispo, dera ensejo à unificação, ela
dizia conciliação, dos bandos de ratos brigados. Com auxílio
de um daqueles flashbacks que estão sempre à sua disposição,
vi mais de cem cruzes bem pregadas, das quais pendiam os
cristãos primitivos. E assim como no àltar-mor da igreja de
Santa Maria vêem-se Maria e João à esquerda e à direita aos
pés do Crucificado, havia dois ratos chorando altivos ao lado
de cada uma das cento e trinta cruzes do M orro do Bispo.
Trata-se de madeira de enxurrada dos tempos da inunda­
ção, disse a ratazana, explicando. E pregos encontram-se por
toda parte, de todos os gêneros e tamanhos. As cruzes alinha­
das num topo formavam um desenho tão plástico, que o fun­
do, as torres e torrinhas fuliginosas da cidade resguardada, pa­
recia seu prolongamento natural, seguido pelo mar onde, en­
tretanto, não se viam navios até a linha do horizonte.
Um exemplo efetivo! Desde então, nós não apenas fize­
mos as pazes, como começamos também a descolar das pare­
des aquele invólucro protetor que a espécie humana usara
pouco antes da Grande Explosão para revestir os monumentos
classificados para resguardo. Que cabeça! N o finzinho ainda
se lembraram de sua cultura!
Como se quisesse me desviar dos ratos crucificados, ela
cortou para cenas urbanas e comentou a nova atividade: Aliás,
os grandes clãs protestantes parecem divertir-se particular­
mente retirando os invólucros protetores. São muito diligen­
tes, como se quisessem fazer penitência. Mas talvez seja ape­
nas sua origem alemã, que propicia esse afinco. Olhe só como
limpam sistematicamente as paredes. Trabalham em turnos.
Além disso, conseguiram colocar a seu serviço esses vermes
nojentos e pretos de fuligem, que nós — você há de lembrar-
se — consideramos intragáveis. D e qualquer forma, metade
da torre de Santa Maria já voltou a exibir seus tijolos verme­
lhos, e o mesmo vale para a magnífica cumeeira ornamental da

331
Sagíada Trindade. Olhe só como as paredes de tijolos se con­
servam bem sob o revestimento!
E eu olhei. Uma multidão de ratos descascavam paredes,
eliminavam a fuligem trazida pelas tempestades de poeira, se­
cundados por vermes de fuligem do comprimento de um po­
legar. Até mesmo em prédios profanos'vi ratos protestantes
fazendo penitência: eles limpavam a Porta Verde do lado do
Mottlau e do Mercado, a fachada do Artushof e a Prefeitura,
cuja torre esguia percorriam facilmente até o topo em que se
ergue um rei polonês revestido de ouro.
Ele voltou a brilhar! Isso não é lindo? exclamou a rataza­
na. Não vale de novo a pena viver? Por isso, nós dizemos que
não foi em vão o sacrifício no Morro do Bispo. Nós, ratos,
voltamos a nos unir na fé. Veneramos juntos o último ser
humano respirando em sua poltrona, que, como nós, procura
força na oração: a velha velhíssima desfia sem parar o seu ro­
sário. Ouvimos o murmúrio: Mãe dolorosa, bendita sois...
E eu! gritei. A quem devo, suplicante? Como posso per-
severar em minha cápsula espacial, se só o destroço vai à de­
riva e não existe mais Damroka...
Que sofrestes por nós... Impassível, a ratazana repetia as
palavras de Anna Koljaiczek, até desaparecer rezando.

332
á

,
0 NONO C a p ít u l o no qual as mulheres recobram o ânimo, o país
está sem governo, a fome rói o estômago, duas múmias são transia -
dadas com respectivos acessórios, depois do que tem início a agricul­
tura, rato, ave e girassol formam um quadro, os homens só existem
de mentirinha, tudo fica coberto de verde, Oskar já se intromete de
novo, e a festa da colheita é comemorada após a primeira mutação
consonântica.

Na realidade, eu deveria falar do pintor Malskat, acom­


panhando sua faina sem me antecipar: então ele pintou o
quarto vão, em seguida o quinto... Mas, assim que eu comecei
a escalar o alto do andaime interno de Santa Maria em Lübeck
para atingir a abóbada do coro — que vento aqui em cima,
que frio úmido! —, o presente me arrancou do estrado: quem
se incomoda com os falsche fuffziger, quando nesse mesmo
instante a floresta se estropia, e, com ela, lá se vão os contos
de fadas; que nos importam anos de pós-guerra em tempos de
pré-guerra, se, dormindo ou acordado, meus sonhos coinci­
dem com o ano de Orwell. Além disso, Anna Koljaiczek quer
morrer e não pode. Os destroços da Nova llsebill seguem à de­
riva para o alto-mar. Tudo histórias à procura de desfecho, ao
passo que a história de Malskat vive querendo recomeçar,
como se pudesse ter graça desenterrar e colocar sobre pedes­
tais o velho Adenauer e o barbicha Ulbricht, só porque os
dois fundadores de Estados acrescentaram sua dupla mistifica­
ção às miragens sacras de Malskat; dupla mistificação com a
qual deu para viver bastante bem, pelo menos até agora, con- *
forme disse o Sr. Matzerath antes de sua viagem à Polônia.

333
Mas, que significa agora? A ratazana com que sonho diz:
Agora já deixamos toda aquela briga para trás, finalmente.
Unânimes, os bandos de ratos reunidos na espaçosa igreja de
Santa Maria adoram o último satélite que circunda a Terra...
Em cujo assento eu estou preso. Eu, no trono cósmico.
Vendo tudo: eu. Boa visibilidade, depois que passou a fuma-
ceira negra de fuligem. A velha Terra é redonda, de estranho
desenho, como se tendesse a seguir as linhas da costa do
tempo de Vasco da Gama, quando os mapas eram só aproxi-
mativos.
A ratazana confirma minhas perguntas: degelo e ressacas
esgarçaram o litoral. Não foram apenas o mar da Arábia e o
M editerrâneo que ganharam terreno, meu Báltico também
cresceu. Ilhas e ilhotas sumiram. O estuário dos rios se alar­
gou. Vista do alto, minha Danzig ou Gdansk surge a meus
olhos como uma cidade que se cercou com uma muralha de
lama contra a restinga inundada. O mar Báltico deve agora es­
tar livre de águas-vivas, diz a ratazana, que sempre me arre­
mata quando eu, de dentro de meu trono espacial, dou ao dis­
curso dimensões latifundiárias.
Pergunto como aqueles ratos vindos da Rússia, tendo lhes
sido vedado o perímetro urbano, conseguiram instalar-se nas
baixadas da foz do Vístula, que antigamente foram férteis, mas
agora estão debaixo d’água. Sobraram restos de diques, ater­
ros de estradas de ferro, bancos lodosos, diz ela. Rato sempre
encontra onde pisar. Além disso, as águas estão baixando. E
como nos tempos de N oé, quando as águas do dilúvio se es­
coaram.
Contrapondo-se às minhas tentativas de provar a existên­
cia humana por meio de citações do Terceiro Programa, ou
detalhes de atualidade, as cotações do dólar, recordes olímpi-
*
cos, a ratazana conta fatos do dia-a-dia pós-humano. Fala de
ninhadas que vingaram, e por sua vez tiveram ninhadas perfei­

334
tas. De permeio, ouço Anna Koljaiczek resmungando: quiria
mesmu tê um fim diuma vêix.
Há pouco, minha cápsula espacial estava sobre outros
conjtinentes, em parte alongados, em parte reduzidos, sendo
que o golfo de Bengala e o antigo burburinho apertado de
Calcutá cruzaram então, como simples pontos negros, meu
campo visual. Agora, depois de um curto período de sonho,
volto a ver o mar Báltico lá embaixo, com o destroço indo à
deriva, mas claramente rumo ao Leste. Evoco imediatamente a
atualidade humana: que bom que mesmo assim a cerca de es­
pinhos cresça na floresta morta e o velho truque de Bela
Adormecida continue dando certo. Fujo para os anos 50 e ob­
servo o pincel de Malskat que traça os contornos do décimo
segundo dos vinte e um santos. Para abalar a convicção pós-
humana da ratazana, eu digo: Daqui a pouco, o Primeiro-Mi-
nistro Adenauer vai participar das comemorações pelos sete-
centos anos de Lübeck, para ver o milagre. Bem, ele vai se
espantar!
Abandonando o tora de conversa, a ratazana com que so­
nho disse, irritada: Suas cinco mulheres estão se esvaindo a
bordo do navio... Mentira! exclamei. Isso eu sei melhor que
você. Anna Koljaiczek não é a única que não encontra um
fim, no casco do navio também não morre ninguém. Por que
eu não quero. N o fim das contas, ratazana, fui eu que por
medo e fraqueza tripulei de mulheres aquela velha barcaça de
carga. Eu tinha amor por todas elas. Estava preso a elas por
fios, uns curtos, outros mais longos. Com o correr dos anos
eu, entretanto, as perdi, e por isso localizei-as novamente,
para reuni-las num pequeno espaço. Queria que se dessem
bem, no caso ideal como irmãs. Assim, imaginei um barco e
transformei-as em marinheiras. Não foi difícil, pois todas ti­
nham jeito para coisas práticas, sabiam lidar com chaves de
boca, velas de ignição, e sabiam também de um lugar que pro­
curaram longamente nas nuvens e acabaram encontrando em ­

335
baixo d’água. Já o tinham visto, arrumaram-se todas para a
chegada; e aí, você, ratazana, deu seu grito de fim basta aca­
bou, de ultemoch ratazanal. Agora elas se arrastam com lesões
insanáveis pelo convés do barco, debruçadas sobre o mar,
querendo ver a cidade submersa nas águas do litoral. E uma
das cinco mulheres, não mais lindamente encacheada, e sim
careca como as outras, exclama como se sua boca que se trans­
formou numa chaga ainda pudesse exclamar Ali, nossa Vineta
está ali! Debaixo de nós. Nunca a água foi tão límpida. N e­
nhum fiapo de alga turva sua transparência. As ruelas ainda es­
tão inanimadas, mas logo as Senhoras de Vineta percorrerão a
cidade em seus vestidos luminosos, vão nos saudar, acenar
para que nos juntemos a elas. Virão buscar-nos para seu reino
que não conhece violência ou coação, todo feito de mansidão
e amenos folguedos. E vão nos curar, até que fiquemos de
novo lisos e encacheados. Olhem, irmãs! Há movimento em
todas as ruelas. Um alegre vaivém. Chegamos, chegamos fi­
nalmente...
Doía, o sonho acordado. As imagens se empurravam, im­
pacientes. Eu queria sonhar coisas bonitas, uma dança harmo­
niosa — o alegre vaivém —, mas, sobre o asfalto urbano de
Vineta, somente ratos corriam pelas ruas, entrando e saindo
de todas as igrejas, aos bandos na mão e contramão, sobre as
pontes...
Foi quando uma das mulheres disse com sua boca ferida:
Eles estão enfeitiçados. Isso é bruxaria que fizeram com eles.
Uma maldição, temos que rompê-la.
Foi o linguado! exclamou outra boca. Ele tem que vir,
ajudar, resgatar as mulheres!
Linguado! disseram elas, ouça nosso apelo. Até esmore­
cer, elas exigiram que o peixe chato de tantos poderes cum-
prisse sua promessa, libertasse Vineta dos ratos, transforman­
do-a novamente na cidade das mulheres.

336
4

Mas linguado nenhum ajudou, falou ou cumpriu. Não


eram apenas as águas-vivas que faltavam; com exceção daquela
raça que vagabundeava pelas ruelas, o mar estava inteiramente
sem ,vida sob o céu vazio que se cobria de turbilhões de fu­
maça vindos do Leste e do Oeste.
E verdade que só existem ratos, perguntei a Anna Kol­
jaiczek, que vivia com esforço, por toda parte ratos, até
mesmo em Vineta, cujas portas deveriam estar abertas às mu­
lheres, conforme o linguado tinha prometido diante das es­
carpas de giz de M 0 n e sempre que fora chamado?
E Anna Koljaiczek, que na verdade queria ficar calada e
morrer, disse então: Teim linguado nãum. Neim maix conto di
fada nenhum num teim. E us homein tambeim si acabo. Era só
cubiça e istrago, era só ruindadi seimpre. Agora teim maix na­
da, tudu pru brejo, qui Deuxnossosinhô mando castigu. Ai
qui chega di tanta pena!
Mas ainda que eu escrevesse: ela morreu, está morta, ela
mesmo assim não poderia morrer; como eu não podia parar
de circundar a Terra.
Mariaijosé! exclamou Anna Koljaiczek, cabô-si in todu
mundu.
Responder! exclamou o homem na poltrona cósmica.
Será que entrou tudo pelo cano, que diabo? Vocês não podem
ter, todos, sumido...
Agora não há nem mesmo uma boca em chagas. As mu­
lheres estertoraram. Minha vontade não conseguiu retê-las.
Não me ocorreu mais nada que lhes adiasse o fim. Só agora —
ou mais uma vez — o destroço da Ilsebil se perdia em alto-
mar sob um céu negro de fumaça.
Anna Koljaiczek continua, baixinho: Ai meu Deux , ai
meu Deux. Ai, quieu quero morrê logu...
E ouvi minhas próprias queixas: mas que foi que nós fi­
zemos? Que foi que nos levou a um fim desses? Acabaram-se

337
as mulheres, o linguado, os contos de fadas, pois a floresta,
que até o fim clamou por salvação, também virou fumaça...
Como se quisesse consolar-me, a ratazana disse: Mas nós
existimos. E a fumaça já baixou há tempos. As ventanias dis-
tribuíram-na com justiça, para que toda criatura recebesse a
bênção irradiante. A Terra teve de girar por longo tempo sem
ser aquecida pela luz. Mesmo nós estávamos quase dizimados
logo após o frio e a escuridão. Mas, em seguida, voltamos a
crescer, e não ficamos sozinhos: em toda parte as coisas se
animavam, nos brejos e nos rios, nos rasos do mar. Velhas es­
pécies com novas formas, e espécies nunca vistas, que até a
nós causaram surpresa. Tenha coragem, amigo! A vida vai se
alastrar de novo. A velha Terra vai se renovar. E novas lendas,
em que as velhas sobreviverão de um jeito estranho, serão
transmitidas de ninhada a ninhada.

Tudo deu certo, o fuso picou a Bela Adormecida até sair


sangue e espalhou magia pelo lugar, fazendo com que o Pri­
meiro-Ministro e seu gabinete, todos os assessores e policiais,
até os caras da televisão e os matreiros jornalistas com a úl­
tima palavra rabiscada caíssem num profundo sono de Bela
Adormecida. Assim que a cerca de espinhos fica pronta e es­
pessa, as figuras da carochinha vão-se embora, afastam-se do
local da ação na floresta morta e do monumento esculpido em
pèdra, e seguem para a pensão, sua Casinha de Chocolate na
floresta intacta, onde só ficara a avó de Chapeuzinho com o
lobo.
Joãozinho e Maria levam os Irmãos Raiva Contida pela
mão. Rumpelstino saltita na frente sobre sua única perna. N o
velho Ford vão a Madrasta Má, que leva o Espelho Mágico, e,
no banco de trás, Branca de Neve com os anões,.que têm ma­
nia de bolinar; as mãos decepadas da menina seguram o vo­
lante.

338
/
Com seus cabelos, Rapunzel enrola o Príncipe, que sem­
pre se volta, chorando, e forma um beijo com os lábios, como
le só pensasse nisso, só soubesse fazer isso e nada mais, como
le estivesse incumbido desse dever, imbuído dessa compul­
são, obrigado a despertar eternamente com um beijo sua Bela,
por longe que adormecida. Ele hesita, pára, pula fora dos ca­
belos de Rapunzel, quer voltar à cerca de espinhos, dividi-la
com sua frágil espada, subir ao alto da torre em ruínas, debru-
çar-se sobre a jovem... Mas a bruxa está à espreita na árvore
oca. Ela o agarra pelo cangoté e dá-lhe um beijo de abrir o
laço do sapato. Aos gritos, ele sai correndo atrás dos outros,
com a bruxa em seu encalço. Por último vem Rübezahl, que
empurra o casalzinho triste, pois Jorinda e Joringel estão sem­
pre querendo cobrir-se de musgo, petrificados de melancolia.
N a Casinha de Chocolate reina a atividade de uma pen­
são. Em sua qualidade de garçom, Rumpelstino serve bebidas ;
azuis, vermelhas e verdes. Os Irmãos Raiva Contida bebem
um coquetel de aspérula. Depois de ter entornado seu drin­
que, o Rei Sapo deita a senhora que sofre de enxaqueca ao
lado do poço, ao qual ele desce para retornar imediatamente
com um pulo, alojando-se como sapo sobre a testa senhorial.
Então, Maria deita-se ao lado da senhora, como se também
sua testa precisasse ser refrescada. O sapo, que antes respirava
uniformemente, é tomado por uma inquietação: ele salta da
testa madura para a infantil e vice-versa, tornando e tornando
a trocar de testa. A bruxa a tudo observa com olhos amarelos.
Quando ela experimenta deitar-se do outro lado da senhora, o
sapo salta também sobre sua testa feiticeira. E os pulos se su­
cedem sem repouso, cada testa reclamando frescor.
Os hóspedes da pensão divertem-se a observar esses es­
forços ofegantes. Os Sete Anões insinuam o sentido da pula-
ção com gestos maliciosos. Joãozinho se irrita com Maria: “Ela
pirou!” Os Irmãos Raiva Contida registram um tanto surpre-

339
sos as saltitantes variações. Wilhelm diz a Jacob: “Como você
vê, irmão, nossos contos têm vida própria.”
Nisso, a Madrasta Má aproveita a ausência da bruxa e
começa a mostrar o museu aos irmãos. Ela diz: “Tudo em bom
estado. O s ossinhos, a maçã envenenada, o pente, o cinturão.
Falta apenas o fuso. Os cavalheiros podem imaginar por quê!”
Todas as damas cercam os Raiva Contida de cuidados,
particularmente Chapeuzinho Vermelho e sua avó, que que­
rem mostrar-lhes sua história. Mal o velho filme em preto e
branco começa a passar no Espelho Mágico, as duas são expul­
sas por Rapunzel, que quer exibir seu próprio filme para re­
animar o Príncipe. Depois de uma curta discussão em que ca­
belos são puxados — Chapeuzinho e Rapunzel —, a Madrasta
Má acalma os ânimos: “Devíamos propiciar uma distração ao
Príncipe. Coitadinho. Vejam como está sofrendo!”
Depois disso, todos vêem as imagens tremeluzentes de
um filme antiquado, em companhia dos Irmãos Raiva Contida,
que estão a um só tempo comovidos é confusos.
A história é tão triste, que a M enina sem Mãos tem que
chorar. Ela rói as unhas de sua mão esquerda decepada, e para
tanto segurada pela direita. Rumpelstino assoa o nariz. Jo-
rinda e Joringel banhados em lágrimas.
O Príncipe da Bela Adormecida olha meio bobo para o
príncipe do filme, e dá uma risada fora de hora quando este
diz: “Rapunzel, Rapunzel, joga-me tua trança” num comentá­
rio legendado da película do Espelho Mágico.
Chapeuzinho Vermelho corre enfurecida para fora de ca­
sa, a avó atrás. Ela ainda consegue ver onde Chapeuzinho se
escondeu. A velha senta-se junto ao lobo empanturrado, cuja
barriga de zíper está estufadinha, e lê para ele palavras do di­
cionário de Grimm que começa com de: degenerado, depre-
car...
O sapo continua pulando de uma testa para outra, em­
bora nesse meio tempo um tanto abatido.

340
â
JL

Ao lado da casa, Rübezahl corta lenha, furioso.


Os Sete Anões jogam cartas diante da pensão.
Ninguém agüenta mais o final feliz do filme de Rapunzel;
elçi é a única que fica sentada, alheia a tudo, contemplando sua
felicidade.
O Príncipe despertador-beijoqueiro corre pela casa, que­
rendo beijar, beijar... Quando ele dá um beijo na Menina sem
Mãos, é esbofeteado nas duas faces pelas mãos decepadas.
Com o apoio de Joãozinho, os Irmãos Raiva Contida
dirigem-se preocupados à Madrasta Má. (Ao contrário do que
sugeriu o Sr. Matzerath, não deveria começar aqui uma dis­
cussão sobre a versão autêntica do conto da Branca de Neve,
segundo a qual a mãe natural é que seria má, enquanto a ver­
são posterior de Bechstein fala de uma Madrasta Má; em vez
disso, é preciso reencertar a ação.)
Jacob Grimm diz: “N ão se pode deixar as coisas conti­
nuarem assim! Afinal, a República está sem governo.”
Wilhelm Grimm fala, apreensivo: “Poderia criar-se um
caos!”
Joãozinho exclama: “Isso mesmo! Em Bonn eles devem
estar feito loucos. Emergência e coisa e tal!”
E a Mãe Cruel (segundo Grimm) e Madrasta Má (se­
gundo Bechstein) de Branca de Neve diz: “Bem, então vamos
dar uma olhadela.”
Apertando decididamente o botão, ela desliga o final do
programa de Rapunzel e chama: “Ouçam! Ouçam, todos! Nós
vamos agora mudar de canal para Bonn.”
Com isso, a avó abre o zíper, Chapeuzinho sai saltitante
da barriga do lobo, Rübezahl pára de cortar lenha e os anões
de jogar cartas. Com o resto de suas forças, o sapo salta da
testa de Maria para dentro do poço, vindo logo em seguida
como rei ajudar sua senhora, a bruxa, e por fim Maria se levan-
tarem-se. A senhora sorri com tolerância. O sorriso de Maria

341
não é mais o de uma criança. À bruxa o tratamento horizontal
fez bem.
Voltou a ser senhoria da cabeça aos pés, e quer mandar.
“N ão admito essas perturbações. Em minha casa ainda sou eu
quem determina quando se deve mandar ouvir!”
Depois de rápida troca de olhares com a bruxa, a Ma­
drasta Má diz: “Vocês ficam à toa, jogam cartas, brincam com
o namoradinho, enquanto pelo país afora e nas cidades está
tudo de pernas para o ar. Bonn não tem governo. Nós, os
contos de fadas, tomamos o poder!”
Todos olham incrédulos, achando-se incapazes de tomar
de fato o poder, e ouvem então a Madrasta Má dizer: “Espe­
lho, espelho meu, mostre a Alemanha, quem manda sou eu!”
Depois de uma curta salada de imagens, o Espelho Má­
gico mostra em cortes rápidos uma sucessão de pessoas agita­
das, passeatas, saques, intervenções da polícia é do exército,
gente mascarada, resistência violenta. Em Bonn e outros luga­
res, jornais são apregoados. Surgem imagens de manchetes:
“Primeiro foram os filhos, agora é o Primeiro-Ministro!” —
“Primeiro-Ministro e gabinete desaparecidos na floresta!” —
“República Federal sem direção!” — A isso seguem-se ca­
nhões de água, ordens de baixar o cassetete, corridas aos su­
permercados, bandeiras negras. Sinais de guerra civil iminen­
te.
N a Casinha de Chocolate, as figuras da carochinha reuni­
das diante do Espelho Mágico ficaram silenciosas. Estão em
parte orgulhosas, em parte embaraçadas. A própria Madrasta
Má não quer acreditar em seu espelho.
Os Irmãos Raiva Contida compreendem, assustados, o
poder que ainda emana dos contos de fadas. Wilhelm cochicha
ao ouvido de Jacob: “Isso foi obra nossa, irmão. Como fomos
nós que compilamos e editamos, somos nós os verdadeiros
responsáveis.”

342
Jacob responde cochichando: “Levaram nossos contos por
demais ao pé da letra.”
Nisso, Joãozinho e Maria exclamam: “Chegou a nossa ho­
ra! Mostrem do que são capazes. Abracadabra, pé de cabra,
encanto, esconjuro. Bruxa! Ande logo com isso!”
Pela primeira vez ela ri sua risada de bruxa de amolecer
pedra: “Vamos levar a floresta para a cidade deles!”
“Isso mesmo!” exclama Rumpelstino, “precisa brotar,
crescer, deitar raiz, vicejar, trepar, florescer e verdejar em
todo lugar!”
Os Irmãos Raiva Contida tentam contemporizar: “Mas,
mas. Também não vamos exagerar. N ós não podemos levar
excessivamente a sério o que está escrito.”
Os anões, todos os sete, opõem-se aos Raiva Contida:
“Nada de ir aos pinguinhos, é ou vai ou racha!” e: “Todo o
poder aos contos de fadas!” dizem eles, batendo o compasso
com os pezinhos.
Nesse meio tempo, a bruxa abriu baús e armários, garra-
fões, cofres e fardos. Diante da Casinha de Chocolate, ela
chama, sem legendas explicativas, pois o que ela chama acorre
da floresta e dos ares: as Fadas Boas e Más, gralhas e corvos,
duendes, gnomos e outros anõezinhos, feiticeiros famosos e
gigantes da floresta, pombas silvestres e ratazanas. Por fim,
com gestos de ivocação, ela chama suas irmãs, todas elas pilo­
tando com perícia vassouras e aspiradores; um ajuntamento de
donas de majestade perfeitamente feminista.
Grandes gestos, reencontro cordial, saudações infindá­
veis. Em meio àquela reunião fantástica, mas vestida prepon­
derantemente com elegância burguesa, destaca-se o mago
Merlim. O Rei Bicudo cumprimenta com jovialidade o Rei
Sapo e, em seguida, os Irmãos Raiva Contida, que estão com­
pletamente perdidos naquela multidão e não sabem o que fa­
zer.

343
r

Por meio desses crachás habituais em congressos, nós re­


conhecemos a Sra. Holle e o Alfaiatezinho Valente, a Gata
Borralheira e Setebela, Joãozinho Feliz e — depois que a câ­
mera aponta especialmente para ele — o Pequeno Polegar,
que trouxe um gigante em cuja orelha está sentado.
*
E claro que os Sete Cabritinhos estão a postos com a Mãe
Cabra. Mas não veio apenas o que os Irmãos Grimm, Ludwig
Bechstein e Johann Karl August Musàus coletaram e envolve­
ram com ornamentos, também as bonitas invenções de An-
dersen comparecem ao encontro (por desejo do Sr. Matze­
rath, que, não estivesse retido na Polônia, teria gostado de
participar como homenzinho corcunda): o intrépido Soldadi­
nho de Chumbo e — em bora sem tripulação — a Mala Vo­
adora. Por causa da Floresta Negra agonizante, poderia estar
presente o Homenzinho de Schatzhausen, do conto de Wi­
lhelm H auff “O coração de pedra”.
A bruxa distribui agora entre os convocados sacolas e sa­
quinhos, garrafas e latas cheias de sementes e poções mágicas.
Há em estoque pomadas de quebra-pedra e elixires milagro­
sos. Ela enche até as beiras a Mala Voadora. As Fadas Boas e
Más trocam truques e segredos. O grande Merlim empresta
amistosamente varinhas de condão a algumas figuras da caro­
chinha sem dúvida vistosas, mas sem recursos. A Gata Borra­
lheira enche os papos das pombas silvestres com sementinhas
que fazem milagres que nem conto. Bruxas inferiores espa­
lham ração mágica pelo chão, e as ratazanas devoram-na, para
que atue mais tarde. As mãos diligentes da menina distribuem
garrafinhas e sacolas a todos que ainda querem mais. Joãozi­
nho e Maria precipitam-se a ajudar a bruxa: até o pomposo
Rei Bicudo eles contemplam com um sortimento; e o Pe­
queno Polegar na orelha do gigante também ganha um salei-
rozinho, para poder ter sua serventia.
E agora que todos os caixotes, baús, cofres, fardos e ar­
mários estão vazios, o protesto dos Irmãos Raiva Contida —

344
“Vocês não podem fazer isso! Essa história vai acabar mal!” —
não encontra mais ouvidos, pois a bruxa já está mandando aos
quatro ventos os bichos è gnomos reunidos, os feiticeiros e
fadas, os duendes e gigantes da floresta, a Sra. Holle com seu
travesseiro de penas, e a Mala Voadora cheia até as beiras.
E encerrando a reunião, ela faz gestos de bruxaria e pro­
fere conjuras. O Alfaiatezinho Valente muniu-se de agulhas
milagrosas e fio mágico. Empanturrados e carregados, os Sete
Cabritinhos e os Sete Anões se põem a caminho. Há quem
parta a pé, e quem parta pelos ares. Merlim, o Grande Mago,
desfaz-se em nada.
Jacob Grimm está apreensivo, não, aterrado: “Que é que
vocês estão tramando? Isso é subversão, é anarquia!”
Wilhelm diz: “N ós não soubemos sempre que poder nos­
sos contos exercem sobre os homens, irmão?”
E, temerosos, eles acompanham com o olhar as figuras
que outrora — isso foi no tempo de Napoleão — coleciona­
ram com afinco e que acreditavam desde então protegidas em
seu livro de contos caseiros e infantis.
Não, o despertador-beijoqueiro não pode partir. Ele está
nas mãos da bruxa. A Madrasta Má também fica em casa, mas
Branca de Neve pode botar ruge e ir atrás de seus
anões. Jorinda e Joringel desaparecem impelidos por Rü­
bezahl. Por causa do Príncipe, Rapunzel tem de ficar. Mas
as mãos decepadas da menina voam embora, a direita levando
uma sacola, a esquerda, uma garrafa. Com seus cotocos, a me­
nina acena para.suas mãos. Chapeuzinho parte com a cestinha
no braço. E a avó de Chapeuzinho fica lendo o dicionário de
Grimm para o lobo...

Bruxa, bruxaria, bruxado.


Esfregar três cabelos: não;
juntar meimendro à poção: neca;

345
semente mágica, gotas a mais,
maldições, esconjuro: nada disso
é necessário.

Sabemos, e de aprendizado,
casar abóbora e cebola,
gato com camundongo.
Dois genes pra cá, quatro pra lá: nós manipulamos.
Sem essa de natureza! Temos jeito para tudo,
damos melhoria em Deus.

As quimeras dos velhos dicionários


são de espécie inferior.
Breve, o homem superior será atingido;
nosso programa o prevê.
Armazenado em bancos de genes, dia a dia mais rico:
não apenas dotado de razão.

Mais que outros bichos — mesmo que o porco —


é o rato que se abre ao homem
com solicitude especial
para que ele se supere.

Então veio a fome. O que sobrara depois da Grande Ex­


plosão — seu lixo, as latas de conserva estocadas, seus cadáve­
res encolhidos e coriáceos — alimentara-nos durante algum
tempo, de forma que conseguimos parir as primeiras ninhadas
fora das galerias e cavernas em que nos abrigávamos. Volta­
mos a constituir bandos em zonas demarcadas; mas para o es­
tômago pouco se encontrava. Pode ser que tenha sido a penú­
ria que nos tornou devotos, ou católicos, como você, nosso
irônico amo, considera.

346
Como se quisesse encarnar a fome, a ratazana apareceu-
me em sonho emagrecida, desgrenhada, uma imagem da misé­
ria. Vi-a mordendo lata, ferro-velho, pedras. Nada mais se
oferece,
H
disse ela. Devido aos dentes em crescimento inces-
sante, era preciso, como se vê, viver mordendo e cortando
qualquer coisa, e fosse o aço de uma chave de boca ou sobras
tle arame farpado. Felizmente, ainda se encontravam aqui e ali
uns últimos corpos encolhidos; mas prato de eleição eles não
eram.
Então, sonhei com ela novamente gorda e de pêlo liso.
Falava de barriga cheia dos tempos de fome, sem mencionar
as causas da recente boa vida. Naquela época, disse a ratazana,
quando a fome ensinou-nos a rezar, e a beatice por sua vez só
nos trouxe disputa encarniçada, tínhamos uma zona que em ­
bora inóspita e rural era algo à parte, pois dentro de uma casi­
nha de paredes ainda mais ou menos sólidas balbuciava e res­
pirava levemente aquela mulher que por contagem humana
era velhíssima e que o amigo parece conríecer de velhas histó­
rias que ressoam ainda.
De qualquer forma, também nós a veneramos. Com que
paciência ela nos tolerou e a nossa curiosidade. O que quer
que balbuciasse e por mais que nos aproximássemos dela,
nunca falou minimamente mal de nós. Ouvimos uma vez: Ma-
riaijosé! Quius ratos mi livrem disso...
Mas isso nós não podíamos fazer, pois abstraindo-se de
uma existência longínqua, preservada numa cápsula espacial, a
velha velhissíma era o único ser humano que por fim nos res­
tara. Queríamos tratar e cuidar dela, conservá-la. Depois da
época de fria escuridão, quando ela mal respirava e parara de
resmungar, fomos em grupos visitar seu domicílio, cheios de
atenções. E não apenas os ratos rurais, também os urbanos
enviavam delegações. Como diminuía a olhos vistos e, embora
respirando, parecesse secar, nós lhe demos de beber e de co­
mer, comida premastigada, que apesar da penúria podíamos

347
dispensar. Ratos novos estavam sempre lhe servindo. Nós não
apenas a adorávamos, nós paparicávamos a velha.
E eu vi o que a ratazana contava dos tempos de fome
pós-humanos. Reduzida ao tamanho de uma anã e submersa
em seu vestido domingueiro agora excessivamente amplo, eu
vi Anna Koljaiczek cercada de ratos velhos em adoração, ser­
vida por magros ratos jovens. Via como cuidavam dela, como
sua boca desdentada se abria para que os ratos novos a seu
serviço pudessem injetar-lhe líquidos e enfiar pelos lábios
murchos a papa mastigada.
Repugnante! exclamei.
Esse tom a gente já conhece, respondeu a ratazana.
Mas ela quer que isso tenha um fim.
Da comidá ela ainda gosta. Escute só, ela estala a língua.
E do que é que ela está gostando, do quê?
Tivemos de sacrificar algumas crias novas, de ninhadas
sadias, é claro...
Mas que diabo, por que vocês não deixam que eia morra!
exclamei e ouvi minha voz ecoando.
A ratazana retardou sua resposta, como se quisesse dar-
me a entender o passar do tempo: Ainda em vida ela para nós
já era uma santa. Tudo o que se encontrava junto a ela
tornou-se com ela objeto de nossa adoração, por mais coisas
que houvesse a seu^pés. E mais ainda que aquelas moedas de
ouro jogadas como que a esmo em volta de sua poltrona, mos­
trando ora a cara, ora a coroa ou imagens de cabeças outrora
coroadas, se nos tornaram venerandas as criaturinhas que se
encontravam dispersas em cima e embaixo dos escombros.
Feitas à semelhança do humano e suas múltiplas atividades,
elas nos lembravam a espécie dos homens. Quando as limpá­
vamos, elas ficavam de cor azul e branca. Uma vez livres da
fuligem, suas ferramentas e outros apetrechos voltaram a ser
vermelhos, verdes, marrons, prateados e amarelos. Como
eram bonitinhas. Com que graça exibiam sua aplicação. Nós

348
â

teríamos gostado de brincar com elas, não fosse cada figurinha


sagrada para nós, como a velha velhíssima.
Também isso transformou-se em imagem: ratos entre du­
cados de ouro e smurfs. E havia mais, jogado por ali: um ca­
valo de porcelana em cacos, uma inscrição de ferro forjado, o
abridor de cartas com cabo de âmbar, o cuco cujos ponteiros
assinalavam a hora derradeira de doze e cinco, uma coisa e ou­
tra, a churrasqueira elétrica, toda amassada, e a dentadura de
Anna Koljaiczek, que deve ter escapulido da boca depois da
Grande Explosão; o rosário' ela continuava segurando.
Pois é, disse a ratazana, ela nos dava apoio. Ela mandou
que voltássemos a unir-nos, pois o tempo da penúria foi
acompanhado da disputa pela verdadeira fé. Você há de
lembrar-se, nós macaqueávamos a espécie humana, perse­
guíamos, torturávamos, crucificávamos nosso semelhante, de
forma que ter-se-ia podido considerar os ratos como hereges
fanáticos e fanáticos perseguidores de hereges. Por fim, uma
minoria de tamanho nada desprezível seguia com tal fanatismo
doutrinas heréticas, que tivemos motivo para temer pela sorte
da velha velhíssima. Se quiséssemos fazer analogia com as dis­
putas religiosas entre os homens e procurar em sua história
aberrações de semelhante atrocidade, teríamos que falar de
valdenses, hussitas ou anabatistas e trotskistas que, num con­
tingente de sete bandos de ratos, tentaram diversas vezes to­
mar de assalto a sede da velha velhíssima, aquela zona por nós
delimitada e considerada sacrossanta, para dar um fim à idola­
tria, segundo sua palavra de ordem. Houve lutas que nos en­
fraqueceram. Pode ser que além disso a fome nos tenha enfu­
recido...
Vi, então, os ratos lutando, encarniçados. As batalhas se
sucediam em torno da casinha danificada de Anna Koljaiczek,
no terreno que já fora jardim e roça de batata, e agora, presa
da devastação, só comportava mesmo a briga e o ódio dos
bandos de ratos, ou digamos: a luta entre católicos e hussitas.

349
WÊM

N o acesso da casa em ruínas eu consegui reconhecer a


carcaça do Mercedes do Sr. Matzerath em meio a destroços
desfigurados. Sobre o capô amassado, a estrela ficara ridicu­
lamente intacta, objeto de lutas particularmente ferozes.
Como eles se estraçalhavam, como investiam, atingindo a gar­
ganta do adversário com dentes capazes de atravessar chapas
de aço! Trincados uns nos outros, devoravam-se mutuamente
até sucumbirem estrebuchando; revolvidos, enroscados em
tripas próprias e alheias, mordiam às cegas chegando a atingir
o próprio coração.
Em seguida, vi ratos lutando na antiga sala de visitas de
Anna Koljaiczek, visivelmente pelos smurfs, pois também es­
tes levavam dentadas. Quando a luta deslocou-se para seu
múltiplo vestido domingueiro, alastrou-se para as mãos no
colo que não queriam largar o rosário, e envolveu afinal a gola
do vestido, quando um primeiro e, depois, um segundo rato
do chamado partido hussita fincaram os dentes no rostinho
querido e chupado de Anna Koljaiczek, dei um grito e enxo­
tei a imagem; mas não o sonho, que a ratazana voltou a ocupar
como se não tivesse acontecido crueldade alguma.
Ela disse: Mais tarde a luta cessou, mas não a fome. A
maioria impôs-se. Ficamos novamente unidos na fé, e adorá­
vamos juntos, finalmente em paz.
O quê? gritei eu, ela ainda vivia?
Curamos pacientemente alguns ferimentos que lhe foram
causados no fervor da luta, mas daí em diante ficou faltando a
orelha esquerda...
E que mais?!
Para que tanto alvoroço? advertiu a ratazana. Um pouco
mais de humildade, por favor. A velha velhíssima morreu logo
em seguida. E quando a encontramos sem respiração, após
uma das últimas tempestades de poeira, não destinamos seu
cadáver à alimentação, embora ainda houvesse grupelhos in­

350

tu
corrigíveis, que tivemos de manter à distância com seu ódio e
sua fome insaciável.
Depois de uma pausa para eludir as últimas lutas de ex­
termínio, ela disse: Pois bem, seca e encolhida feito miniatura
como estava, pudemos pensar em transportá-la, tão leve a
achamos. Seu lugar não era mais naquele casebre. Imediata­
mente, a maioria escolheu um posto digno dela. Os bandos de
ratos, todos, queriam que ela fosse transportada para lá. As­
sim, deixamos cuidadosamente que a velha velhíssima escor­
regasse da poltrona. Não podia haver dobras, rasgos, quebras,
nada devia faltar. E quando nós ã afastamos do trono, suas di­
versas saias sobrepostas deixaram entrever uma criancinha
ressecada, que talvez tenha vindo ao mundo na hora da
Grande Explosão, singularmente com roupas bonitas, embora
grandes demais, de sapatos brancos e amarelos e cheia de
anéis nos dedos, além de usar óculos de aros de ouro. Pude­
mos pressentir pela calça e o casaco, e também nos assegura­
mos: por último, a velha velhíssima dera à luz um garotinho.
Era trabalhoso fixar no homenzinho os anéis e a armação dos
óculos, que não haviam encolhido; pois também o anãozinho
nós queríamos transportar. Assim, os ratos se sucederam car­
regando em diversas etapas, pela terra inóspita, tanto a santa
de peso leve quanto seu filhinho. Isso dem orou um tempo.
Se você não quer acreditar, que se faça a imagem diante
de seus olhos, disse a ratazana. Olhe só como o translado
desenrolou-se vagaroso e solene.
E eu vi ós ratos sucederem-se conduzindo os restos mor­
tais de Anna Koljaiczek — e de nosso Oskar novamente re­
duzido a anãozinho —, através dos campos ondulados de uma
Caxúbia inteiramente desprovida de vegetação. Um longo
cortejo, pois ratos e mais ratos arrastavam smurfs azuis e
brancos, e até mesmo os cacos do cavalo de porcelana chinesa
atrás das duas múmias. Aliás, o neto era levado à frente da
avó. A alguma distância, seguiam ratos bastante carregados,

351
pois traziam o relógio de cuco cujo mostrador anunciava sem­
pre a hora derradeira e, com esforço, a inscrição de ferro bati­
do. Outros ratos isolados levavam miudezas na boca: um anel
com rubi que caíra do dedo descarnado de Oskar, a condeco­
ração que enfeitara o vestido de Anna Koljaiczek, outorgada
pela Polônia como Estado. De dois em dois, os ratos carrega­
vam o abridor de cartas com cabo de âmbar, a dentadura, os
óculos; encontraram motivo até para transladar a disputada es­
trela do Mercedes. O final do cortejo consistia numa longa fila
de ratos, cada um deles segurando na boca uma moeda de
ouro.
Provavelmente ainda ficaram tralhas na casinha de Anna:
por exemplo, a churrasqueira australiana amassada, o aparelho
de televisão e a cabeça de bronze que devia assemelhar-se ao
americano Joe Colchic, anteriormente Josef Koljaiczek. Em
resumo: um translado penoso, uma verdadeira façanha em
tempos de fome pós-humanos. Inclusive, diversos ratos desfa­
leceram pelo caminho, sendo imediatamente devorados, como
mandava a necessidade. Além disso, um serviço de segurança
protegia o cortejo, e suas dentadas eram temidas pelas bestas
de carga. Afinal, de longe, vi as torres da cidade.
Conseguimos chegar! exclamou a ratazana. Veja só, nós a
erguemos sobre a base do altar da igreja de Maria. E ali o lu­
gar de nossa santa, embaixo da cruz fixada no alto da abóbada.
Aos pés do Filho do Homem, preso por três pregos, encon-
tra-se ela, assentada sobre um caixote que na época humana
chamavam tabernáculo, sentindo o filhinho de roupa bonita
sob a bainha das saias. E em volta de seu posto e sede — pois
ela se nos secou em posição sentada — dispusemos tudo o
que a ela pertencera e que junto a ela de veneração é digno:
as moedas de ouro e o anel do garotinho, o pesado letreiro de
ferro e aquelas criaturinhas deliciosas que infelizmente sofre­
ram sérias mordidas na época das lutas religiosas.

352
Mas você pode conferir: eles ainda continuam engraçadi­
nhos, azuis e brancos. Ainda são a imagem espirituosa da dili­
gente espécie humana, só que se arranjam com um dedo a
menos do que contava a mão do homem e à nossa foi dado
tet. Olhe só, que graça!
Não havia dúvidas: era risível. Sobre a base do altar que
elevava as múmias, eu vi todos os smurfs: isolados ou em gru­
pos. Vi os smurfs com as pás de pedreiro, o de chave de boca,
o smurf com o machado, os sete cortadores munidos de foice.
Os músicos, entre os quais o de tambor. O desempregado e o
smurf entornando a garrafa. E mais uns e outros. Contei: não
faltava nenhum; todos estavam porém marcados por vestígios
de mordidas. *
Então, a ratazana voltou a ocupar meu sonho. Ela disse:
Por mais que nos esforçássemos a encher os olhos com a santa
e seu fílhinho, as figuras, as moedas: a fome continuava ro-
endo o estômago. Já éramos obrigados a separar metade de
nossas ninhadas. Já parecia que os bandos de ratos não tinham
futuro, como antes a espécie humana; mas então, algumas fi­
gurinhas agrupadas sobre o altar-mor nos deram a idéia salva­
dora; ou melhor, o que aconteceu foi que se quebrou um
dedo da mão esquerda com que a velha velhíssima segurava o
rosário, rolando de seu colo até parar onde se encontravam
enfileirados sete homenzinhos com suas foices, enquanto ou­
tros branco-atzuizinhos carregavam feixes de trigo. Era um si­
nal, cuja interpretação nos deu o que pensar, mas que nem
por isso encheu minimamente nossas barrigas.
Em seguida, ela ficou mexendo as vibrissas, calada, como
se quisesse sublinhar a longuíssima gestação da nova idéia. Fi­
nalmente, ela disse: Não, não foi por acaso. Nós, ratos, não
conhecemos o acaso. De qualquer modo,4entre o que sobrara
das provisões que ao aproximar-se ultemoch guardáramos nas
cavernas mais profundas de nossos abrigos, encontravam-se
diversos sortimentos de sementes. Bem embalados e longe da*

353
umidade, eles não tinham sofrido dano, já que quando nós in­
terpretamos na prática o sinal da velha velhíssima e imitamos
as figuras azuis e brancas, revolvendo aqui e ali um pedaço de
terra que parecia bom e prometia colheita, pois estava tomado
de pés-de-galinha e tiririca; quando nós, portanto, arrancamos
as ervas daninhas desses campos experimentais, abrindo sulcos
paralelos que cobrimos de terra depois de semear, as semen­
tes que salváramos germinaram, quando já nem tínhamos mais
esperanças: uma maravilha.
E como as chuvas de primavera quase não trouxeram
mais partículas nocivas, e as tempestades de poeira desapare­
ceram, e o clima pós-humano estabilizou-se quente e úmido, o
que germinara cresceu e madurou.
Pelo relato da ratazana parecia até que os ratos sempre
foram agricultores natos: D o fim do verão até o outono pu­
demos fazer nossa primeira colheita. E considere-se que tí­
nhamos semeado lentilhas, milho e cevada, plantado beterra­
bas. Um campo de girassóis deu particularmente bem. Essa
planta despretensiosa, mas de muito rendimento, transfor­
mou-se logo em nossa principal cultura, pois suas sementes
são oleosas. O novo clima permitia duas colheitas por ano. E
além das colinas caxúbias, também os diques lodosos em
torno das zonas urbanas eram propícios aos sementões. Nós,
que antes só atuávamos à noite, tínhamos agora nosso dia de
trabalho. Nós, notívagos inveterados, plantávamos girassóis.
Olhe só, sinhozinho, a extensão...

Vêm de Hong-Kong e são baratos,


numa mão e noutra,
só quatro dedos têm,
com os quais seguram, maneiros,

354
ferramentas, mas também raquetes de tênis,
ou um raminho de flores.

Prensados em massa plástica colorida,


eles são duráveis,
e vão — isso é seguro —
sobreviver à caduca espécie humana,
em grupos ou como indivíduos.

É um consolo, inspirados que foram em criação


por nós mesmos, cuja vida é feita de trabalho;
mas os smurfs são de natureza alegre,
e brincam sempre com o martelo,
a foice e o telefone.

Nada consegue estragar seu bom humor.


Começam o dia contentes, venha o que vier.
Só a fala, aqui nesta Alemanha
chamada smurfês, eles poderiam
perder, no fim.

Restará, mudo, seu risinho


e dia e noite sem parar
seu afinco.

Desde criança você conhece as colinas caxúbias: região de


batatas, entre florestas e águas. Beterrabas, aveia, cevada e o
que mais dava. Das florestas não sobrara nada, e apenas em
torno dos charcos e de novos rios — o próprio Radaune nas­
cia com água fresca em outro lugar — tímidos arbustos faziam
suas primeiras tentativas: brotavam bétulas, amieiros e cho-.
rões. Assim, nós poupávamos a promissora vegetação, na es­
perança de florestas. Mas das colinas do Sul da Caxúbia até

355

as dunas das praias do Báltico, e igualmente em todos os alu-
viões, nós lavrávamos o solo, barrento aqui, arenoso ali; o lodo
das baixadas, que se estancou formando diques, teria sido
bom para o plantio de trigo, mas não dispúnhamos de semen­
tes.
Lá estava ela de novo, trabalhando a terra enquanto me
falava: Não, nada de roças de batatas! Esse forra-bucho desa­
pareceu com a espécie humana. Mas nós plantamos milho, be­
terraba, cevada, em rodízio de culturas, e grandes extensões
de girassóis. Veja como eles se erguem em suas carreiras, re-
luzindo ao longe. Você se admira que nós, animais notívagos,
tenhamos nós tranformado? Para renovar a frase suspeita: nós
não mais tememos a luz. Convertemo-nos em bóias-frias da
busca do alimento.
A ratazana deu um tempo para que eu visse e admirasse,
dizendo então: Será que foi a luminosidade das flores, essa co­
roa de raios de ouro, que nos tirou o hábito da vida noturna e
nos deu o gosto pela luz do dia? Besteira! Foi a necessidade
que nos levou à luz e transformou, enquanto a espécie hu­
mana teve de perecer, porque, apesar da necessidade, não
quis mudar, transformar-se. Mas nós mudamos.
Ela calou-se, eu via agora porém campos de girassóis en­
tre as águas caxúbias: charcos, poços, lagos que voltavam a re­
fletir o céu, as nuvens brancas de algodão, mas também gru­
pos de árvores tenras, amieiros, bétulas e chorões, e o junco
espesso. Eu via ratos cultivando a terra, ratos que faziam tom­
bar, de carreira a carreira, os girassóis de talos altos, carrega­
dos de sementes, usando cunhas como se devessem derrubar
árvores. Com que rapidez suas dentadas punham os troncos
por terra. Com que afinco trabalhavam, que cuidado. Não se
perdia uma semente. E com que habilidade eles decapitavam
literalmente os capítulos, alinhando-os em seguida nás orlas
do campo para secar. Turmas bem entrosadas, e não se viam
mais capatazes, feitores ou chicotes. Havia entretanto guardas,

I I 336

11
como se a colheita corresse riscos — mas por parte de que, ou
quem? —, como se existissem alheios aproveitadores de seu
esforço, como se além de ratos e, supostamente, moscas-vare-
jeiras mamíferas, também tivessem sobrevivido à Grande Ex­
plosão outros animais consideráveis.
Bem, disse a ratazana,, essa história de caracóis voadores,
aranhas submarinas e moscas dando cria viva não era natural­
mente verdade. Nós só imaginamos esses bichos horríveis e
monstros deformados para entreter você, que gosta de histó­
rias de faz-de-conta. Mas, sinhozinho, não está ouvindo os
gorjeios e arrulhos? Não apenas os pardais, também os pom­
bos campestres brindaram o pós-humano com sua presença,
como você sabe. Multiplicam-se a olhos vistos. Eles, e particu­
larmente os pardais, poderiam tornar-se uma praga. E que
mais? Reapareceu o camundongo campestre: burro, mas sabo­
roso. Um coelho ou outro. Os pardais são branco-prateados, a
plumagem dos pombos tem tonalidades cor-de-rosa, e os ca­
mundongos são de um amarelo ridículo. Tudo isso é produto
da Grande Explosão, da mesma forma que nós tivemos de de­
sistir de nosso castanho-acinzentado. Nossas ninhadas são
verde-zinco, mais tarde rompe um tom cor de terra. Nós, ra­
tos velhos, usamos roupagem plúmbea. De qualquer forma,
você pode ver enquanto ainda estão no pé, os pesados giras­
sóis são diligentemente protegidos dos bicos dos pássaros por
nossos ratos novos e levinhos, cuja cor ainda é verde-zinco.
E eu vi que todo girassol maior, perto de amadurecer, es­
tava com o lado da sombra ocupado por um rato novo; meu
sonho era evidentemente colorido, pois o pêlo verde-zinco se
destacava do verde dos cálices, se bem que de forma quase
imperceptível. Eu pude então observar com que pontaria os
ratos novos abocanhavam os pardais ladrões; eles davam conta
até mesmo das pombas: trincavam o dente em sua goela, eram
erguidos pelas aves que batiam as asas, alçavam vôo com elas,
para tombarem pouco depois ao solo com a presa extenuada.

357
Cenas seguidas de vôo repentino, batalha aérea sobre o campo
de girassóis, queda como se uma pedra caísse; vi que a co­
lheita era de fato protegida com eficácia. E como os frutos co­
lhidos, também os pombos e pardais capturados encontra­
vam-se em fileiras à borda do campo. Conforme hábito dos
ratos, tudo devia ser dividido; pois quando nós, homens, ainda
procurávamos a própria vantagem, já eram os ratos conheci­
dos como espécie que partilhava, sem que nos tenham servido
de exemplo.
Desde então, rato, ave e girassol formam um quadro. O
que em sonho se relacionara, se me tornou natural ao acordar.
Os girassóis, enquanto ainda acenarem de trás das cercas de
jardim como velhos conhecidos, eu nunca mais os verei can-
didamente como simples flores, sem tão logo associá-los à ave
abocanhada pelo rato.
A ratazana com que sonho continuou entretanto objetiva,
e disse: Não permitimos que nossa colheita de sementes fosse
diminuída por parasitas, como nós, que antes da explosão
éramos comensais diplomados e freqüentemente reduzíamos *
em mais de trinta por cento a colheita de arroz e trigo na ín­
dia, e de milho no México. Para não falar de nossos abatimen­
tos nos silos em que se encontravam montanhas de troços ar­
mazenados para manter alto o preço no mercado.
Mas, então, ela elevou todos os frutos da lavoura à esfera
das especulações místicas. A ratazana disse: Mais ainda que a
espiga de milho, a cevada e nosso forra-bucho, a beterraba,
mais que qualquer produto da lavoura, foi o girassol que para
nós assumiu importância; mais que isso, ele transformou ani­
mais que só agiam na calada da noite em criaturas sedentas de
luz, voltadas para a luz, que em suas orações atribuem desde
então ao Sol uma força divina; razão pela qual temos um ulte-
rior ensejo de devoção à maneira dos ratos, na igreja de Santa
Maria, o sítio de nosso perpétuo lamento pela espécie humana
desaparecida.

358
quadro voltou a ampliar-se, ganhou três dimensões.
Eu vi de longe, aproximando-se como que chamada, a base do
altar e seus recentes enfeites. Já não era apenas o domicilio
final da carne seca ao ar de Anna Koljaiczek e de seu netinho
eiicolhido; produtos da lavoura tinham lhes sido acrescenta­
dos. A nova ordem do altar obrigara os smurfs a juntar-se
formando um grupo apertado. Os ducados de ouro foram em­
pilhados em torres, como se estivessem aos cuidados de uma
caixa. O dístico de ferro batido cobria o cuco sem vida. Den­
tadura, óculos, anel e condecoração compunham com a estrela
do Mercedes uma natureza morta de pequeno formato. O es­
paço assim obtido pertencia a grinaldas de frutos derraman­
do-se opulentas, e a uma seleção de animais apreendidos.
Só agora eu via que também as extremidades anterior­
mente vazias da base do altar estavam ocupadas: gigantescas
beterrabas, feixes de espigas de milho, espigas de cevada
associavam-se à oferenda. Mas aquele girassol maduro pare-
ceu-me mais significativo, pousado que estava no colo de
Anna Koljaiczek, cobrindo suas mãos, das quais a esquerda,
com um dedo a menos, continuava certamente segurando o
rosário. A seus pés, em composição com o anãozinho Oskar,
vi lentilhas secas amontoadas.
Mas para que isso tudo! exclamei. Vocês esqueceram o
catolicismo, ratazana? Por acaso a sua devoção não se dirige
mais ao Filho do Homem crucificado? A velha com o garoti-
nho tornou-se divina para vocês, uma deusa da fertilidade?
Vocês perderam a razão?
Ela me pareceu um tanto embaraçada quando ocupou por
sua vez meu sonho, brincando com sementes de girassol.
Responda, ratazana! exclamei. Ela sibilou a meia voz em
sua língua de rato, na qual predominavam novos sons a que eu
não estava habituado, ainda incompreensíveis.
Não estou entendendo nada. Fale normalmente!

359
n 1

A ratazana disse: Bem. Nós nos arranjamos. Como conti­


nuamos afeiçoados ao homem, é assim que agradecemos pela
colheita. Por enquanto. Pode ser que apareça qualquer coisa.
Uma outra coisa. E, racionalmente falando...
Mas, o quê? perguntei. Por acaso o super-rato!
Não, não, sinhozinho! disse ela e eriçou as vibrissas. Algo
de mais elevado. Algo que nunca existiu, mas que poderia ter
sido concebido durante os tempos humanos. Uma figura, não,
diversas figuras que transcendam o rático em sua forma atual e
também a extinta espécie humana...
Ela gosta de ouvir música para alaúde; pela Reportagem
sobre a Mídia, o interesse é regular; para o Eco do Dia ela não
liga, e do noticiário nem se fala: ela dorme. Acima de tudo,
ela continua gostando de ouvir a Rádio-Escola para Todos.
Ontem, ensinaram as diferenças entre impostos, taxas e outras
deduções. Num quadro auditivo, falaram de tributos históri­
cos, por exemplo do dízimo: de como os camponeses gemiam
espremidos pelos coletores de impostos, de tudo o que eles
rinham de entregar, e de como muitas vezes não sobrava bas­
tante grão para a semeadura. Minha ratazana de Natal corria
agitada, farejava com interesse.
Hoje, a Rádio-Escola se estendeu sobre métodos de pro­
dução agrícola passados e presentes. Como num radioteatro,
falaram de queimadas, em seguida de rodízio triplo, de mono­
cultura e, por fim, de lavoura biodinâmica, estrume, lavagem
de urtigas e assim por diante. Quieta, como que ensimesmada,
ela permaneceu de frente para o rádio, as orelhas redondas de
pé, todas as vibrissas em posição de presta-atenção. Gostou
até do Alegre campônio de Schumann como música conclusiva.
Agora, o Terceiro Programa está mudo. Nem ela nem eu
queremos ouvir os pontos de vista segundo os quais as repar­
tições de Bruxelas represam a torrente de leite ou determi­
nam as novas cotas de captura do bacalhau. Que, segundo da­
dos da FAO, de três ponto cinco a quatro crianças morrem de

360

í
fome por segundo mundial, nós já sabemos. Estou de acordo
com minha ratazana de Natal; a despeito de todas as exclama­
ções apelativas — “Está melhorando! Podemos voltar a ter es­
peranças!” —%tudo corre, desliza, escorrega ladeira abaixo,
em direção ao fim estatisticamente certo.
Mas, talvez também seja assim: o fim já ocorreu. Nós não
existimos mais. Vivemos só de mentirinha, um reflexo, um es-
trebuchar conclusivo.
Ou talvez alguém esteja sonhando conosco. Deus ou um
ente superior parecido, um supergrandalhão que nos sonha
em capítulos sucessivos, porque gosta de nós ou nos acha en­
graçados, e que por isso não nos larga, não se farta de ver-nos
estrebuchando. Nós perduramos em seus flashbacks e graças
aos apetites audiovisuais de um Princípio Divino, embora a úl­
tima sessão, ou ultemoch, como diz a ratazana, já tenha ocor­
rido há muito tempo; desaparecemos imperceptivelmente, pois
— mesmo que os homens tivessem casualmente notado o fim
num domingo de junho — seu comportamento e a atualidade
de seus negócios, horas marcadas e promissórias, seus hábitos
aprazíveis e seus terríveis imperativos não se deixaram trans­
formar nem redimir, cancelar ou superar; de tal forma era ou
é imutável a espécie humana.
Como se ainda continuássemos a existir, eu disse à minha
ratazana de Natal: Preste atenção! Um pouco antes do noticiá­
rio de meio-dia o Terceiro Programa costuma transmitir mú­
sica coral; você não aprecia motetos? Então, enquanto você
ouve Schütz, eu quero procurar Malskat no alto do andaime.
Ele realizou um bom trabalho. Depois de mais de cinqüenta
santos na nave, dentro em pouco vinte e um santos estarão
postados em grupos de três no altar-mor, lançando olhares gó­
ticos.
Peguei emprestados sapatos de andaime. Visito Malskat,
puxo seu saco, elogio seus contornos poderosos, rio com ele
de padres burros e especialistas tagarelas, mas, no que eu falo
wmI

e falo, quero outra coisa: convencê-lo a colocar girassóis, se


não nos ornamentos dos capitéis, então em espaços vazios; gi­
rassóis protegidos por ratos contra bicadas de pombo. D e­
signo essa emblemática como cristalina, tanto mais que o
pombo corresponde ao rato: no futuro, ambos serão igual­
mente tenazes...
Malskat não é avesso à idéia. Ofereço-lhe um cigarro, Ju ­
no, naturalmente. Conversamos sobre filmes de Hansi Kno­
teck que ambos vimos quando jovens. Voltamos a falar des-
contraidamente sobre pombos e ratos. Ele diz: Poderia
atribuir-se esse motivo do alto gótico à peste, aquela praga
que, com auxílio do rato preto doméstico e de uma espécie
entrementes extinta de pombo campestre, alojou-se na Eu­
ropa a partir de meados do século X IV e, como flagelo de
Deus, abriu os olhos dos cristãos de todos os países para a
chegada do fim do mundo, também em Lübeck, onde de dez
viventes nove foram ceifados...
Não, não! exclamo eu e desço do andaime. Isso nós con­
seguimos sem ratos e pombos. Nós não carecemos de peste
nenhuma como flagelo de Deus. Desde os tempos do alto gó­
tico de Malskat, o homem continuou a desenvolver-se. Ele
pode dar-se um fim por si mesmo, majestático, finalmente
emancipado, um fim radical, para que resíduo algum tenha de
ficar sofrendo. Por isso, ele já agora ataca a natureza e suas
exuberâncias. Porque antes do homem é essa floresta que tem
de sumir, essa mata baixa sensível, esse subterfugio absurdo,
esse reino incalculável do Rei Bicudo...

A avó de Chapeuzinho continua lendo no dicionário pa­


lavras esquecidas que o lobo, que teve de ficar em casa,
gosta de ouvir. Os Irmãos Raiva Contida estão preocupados,
porque as ações que as figuras da carochinha começam a reali­
zar podem levar a excessos e a explosões incontroladas da na­
tureza. Rapunzel joga dominó com o Príncipe e a bruxa

362
reúne-se à Madrasta Má num jogo de damas, para passar o
tempo. E a menina fica pensando nas mãos que voaram embo­
ra. Enquanto isso, as Fadas Boas e Más, os corvos e gralhas
espalham a semente mágica sobre a cidade e os campos, pom­
bais de apartamentos e pistas de-concreto. Lá do alto, sozinha
sem tripulantes, a Mala Voadora derrama outras tantas semen­
tes sobre enormes instalações fabris.

Também em terra firme a sociedade industrial recebe vi­


sitas inesperadas. Os Sete Anões misturam poção mágica nas
bombas de gasolina: somente poucas gotinhas contadas. A ces-
tinha de Chapeuzinho vai ficando mais leve a cada estação de
metrô. As mãos decepadas da menina demonstram sua habili­
dade no emaranhado de mastros das linhas de alta-tensão que
correm pelo país afora. Em estações de trem e debaixo de
pontes vêem-se gnomos, duendes e outros anõezinhos
agitando-se com fervor. Os Sete Cabritinhos deixam cair
qualquer coisa junto aos sinais de trânsito. Não há transfor­
madores em que não se encontre o testemunho de cocôs de
ratos, nem aparelhos telefônicos em que pombos não esva­
ziem seus papos.
Feiticeiros atravessam às pressas praças movimentadas.
Por toda parte: o grande Merlim. Neste momento, ele acom­
panha o Rei Bicudo, de forma que todas as portas se abrem
para eles. Visitam usinas elétricas a carvão e nucleares, as ins­
talações da Hoechst e a Bayer-Leverkusen. Como chefões
cheios da nota, cercados de senhores serviçais, eles inspecio­
nam linhas de montagem da Ford, Mercedes e Volkswagen.
Estão agora examinando a produção do tanque Leopard nas
fábricas da Krauss-Maffei. Merlim profere fórmulas mágicas
célticas, e o Rei Bicudo faz encomendas, impõe prazos de en­
trega.
Enquanto isso, no aeroporto Rhein-Main de Frankfurt
bruxas bem arrumadinhas e gigantes da floresta de aspecto

363
exótico misturam-se ao público viajeiro: podemos vê-los em
escadas rolantes, no check-in e como aeromoças. Em lojas de
self-service, a Sra. Holle deixa penas voarem aqui e ali de tra­
vesseiros de flores coloridas. D o alto de arranha-céus por cu­
jos andares espalhou agulhas, o Alfaiatezinho Valente desen­
rola seu grande carretei de linha.
Em poucas palavras: por toda parte em que o espírito de
negócios se manifesta, a lacuna no mercado é descoberta, o
consumo é incitado e o produto nacional bruto promete cres­
cer, há forças que semeiam num canto e pingam no outro em
atividade subversiva, não esquecendo uma só fissura do siste­
ma. Raras vezes houve manutenção mais acurada do meca­
nismo da economia livre de mercado.
Em silêncio, sem necessidade de legendas explicativas,
fórmulas são murmuradas e dedos cruzados. Em uniformes
sucessivos, o intrépido Soldadinho de Chumbo consegue pe­
netrar nas zonas militares da Bundeswehr e da superpotência
aliada. Ele é saudado por comandantes de guarnição, pois foi
de súbito promovido a alta patente. Ele afaga tanques, ca­
nhões, silos de mísseis, visita velozes navios de guerra. Como
co-piloto, ele sobe em supersônicos. Até atas secretas ele tem
permissão de folhear, e por toda parte, inclusive no Ministério
da Defesa, ele esquece umas coisinhas do tamanho de um
grão; ele é muito distraído, o intrépido Soldadinho de Chum­
bo.
E o antídoto começa a atuar: primeiro, indeciso, como se
a nova primavera precisasse ainda tomar coragem, mas então:
veloz e repetino. A princípio, são apenas transformações ve-
getativas que causam espanto, mas, em seguida, o desenvol­
vimento luxuriante leva a concentrações de massas humanas.
Plantas brotam de chaminés e pilastras de ponte, e alas­
tram-se emaranhadas. Pistas de rodovia rompem-se, deixando
surgir folhagens que crescem céleres. O verde jorra* de linhas
de montagem, motores, escadas rolantes, poços de elevador,

364
r 23
J

-
vendedores-automáticos e caixas de lojas de departamentos.
As torres de refrigeração das usinas nucleares, os tanques e
supersônicos prontos para o ataque são tomados por musgos e
I líquens. Algas cobrem de verde as fragatas e torpedeiros até o
alto de seus radares, como se todos os navios de guerra tives­
sem afundado, o que seria de qualquer forma seu destino.
Trepadeiras sobem pelos mastros de alta-tensão e torres de te­
levisão. Dos canos de canhões crescem galhos cobertos de
brotos e, em seguida, de folhas. Estações transformam-se em
estufas. O verde inunda violento o aeroporto de Frankfurt,
vomita das janelas dos ministérios e andares de diretoria: ape­
nas o verde se expande.
Crescimento! A natureza atravessa todos os caminhos.
Ela inventa plantas estranhas e jamais vistas, plantas que des­
gastam o concreto, rompem paredes, entortam tubos de aço,
plantas que devoram fichas de arquivo e até mesmo apagam
dados com seus pistilos. Musgos e líquens estouram o banco.
Fungos brotam de parquetes. Letras do tamanho de um ho­
mem, formando nomes de firmas, enchem-se de mudas e fi­
cam ilegíveis. A natureza se excede, incoercível. Não há mais
trânsito em nenhuma direção, nem chaminés expelindo fuma­
ça, nem descarga de carros, ar viciado. As pessoas, a princípio
assustadas, ficam de repente alegres, elas têm tempo.
Grupos e grupinhos passeiam entre instalações industriais
convertidas em jardins botânicos, e por rodovias verde jantes.
Alguns colhem flores, outros descobrem frutos que de tão
doces causam tentação. Meninos e meninas sobem pelas tre­
padeiras. Casaizinhos de namorados se alojam em morangos
gigantes, que por toda parte convidam a folguedos cheios de
sentido oculto. O Jardim das Delícias está aberto a todos.
E por isso, nas praças tomadas pelo mato, homens e m u­
lheres, crianças e anciãos erguem faixas e cartazes em que se
lê: “Todo o poder aos contos de fadas!” — “Respire fundo,
vale a pena novamente!” — “Queremos um governo dos Ir-

365
mãos Raiva Contida!” — “Até que enfim, o crescimento jus­
to!” — “Exigimos um governo da carochinha!”
Enquanto vemos por toda parte pessoas que se entregam
com prazer ao ócio, a câmera se afasta, mostrando o quadro
reduzido na tela do Espelho Mágico. N a Casinha de Choco­
late também reina a alegria. De braços dados: a Madrasta Má e
a bruxa. Joãozinho e Maria, tão crianças como antes nunca
puderam ser. Algumas figuras da carochinha já voltaram de­
pois de concluído o trabalho. E não é só a Menina sem Mãos
que está sorrindo, até Jorinda e Joringel estão. Apenàs os Ir­
mãos Raiva Contida balançam a crítica cabeça. (O Sr. Matze­
rath também irá certamente manifestar suas reservas quando
voltar da Polônia.)
“Isso leva ao caos e à obscenidade! Um mínimo de O r­
dem é necessário. Por razão de Estado, ou vontade de Deus.
Assim é que não pode continuar!” exclamam alternadamente
Jacob e Wilhelm Grimm.
Depois de alguma hesitação, o Rei Sapo, inclusive senho­
ra, Branca de Neve e o despertador-beijoqueiro concordam
com os Raiva Contida. Animado por Branca de Neve, o Prín­
cipe diz: “Acho que já chegou a hora de despertar minha Bela
Adormecida com um beijo.”
Rübezahl ameaça dar uns bofetões no Príncipe. A bruxa e
Maria estão amargamente decepcionadas com o Rei Sapo.
Como o Príncipe quer escapulir, Rumpelstino lhe passa uma
rasteira. A bruxa e as Fadas Más fazem mãos de avanço. Antes
que. elas o agarrem, os Sete Anões, seguindo instrução de Jo ­
ãozinho, amarram o Príncipe com uma madeixa de cabelos de
Rapunzel; ele é colocado junto a uma boneca de palha, musgo
e folhas que deve parecer com Bela Adormecida; ele beija
imediatamente a boneca. Nisso, os anões lançam-se sobre
Branca de Neve, querem arrastá-la para uma moita.
Os Irmãos Raiva Contida estão indignados. Eles sempre
abominaram violências e crueldade mental. “Vocês deviam ter

366
A

vergonha!” exclama Wilhelm. E Jacob Grimm diz: “Por acaso


vocês também pretendem impedir-nos de partir!?”
Com isso, os Sete Anões largam Branca de Neve; mas
eles batem com os pés e balançam os punhos fechados. Rübe-
zahl incha como o irado Espírito da Montanha. Os olhos da
bruxa ficam amarelos. Aí, Joãozinho e Maria dizem: “Deixem
partir os Irmãos Raiva Contida.” — “Eles vão formar um go­
verno novo e bom.”
As figuras da carochinha discutem a respeito, reunidas
entrementes diante da pensão. Os Sete Anões agitam contra,
apoiados pelas Fadas Más. As Fadas Boas, o Rei Sapo e sua
senhora, a Sra. Holle e por fim também o Rei Bicudo são a
favor. Enquanto no Espelho Mágico aparecem sempre mais
faixas com a palavra de ordem: “Irmãos Raiva Contida no po­
der!”, uma correspondente maioria se delineia na Casinha de
Chocolate graças ao voto da Madrasta Má. Apenas Rumpels­
tino, o Alfaiatezinho Valente, os anões e as Fadas Más conti­
nuam desaprovando. Muitos ainda estão indecisos. As mãos
da Menina sem Mãos jogam no palito, a bruxa joga ossinhos.
Rübezahl mexe no nariz com o dedo. Curvada sobre o dicio­
nário, a avó de Chapeuzinho diz: “Aqui está escrito: votar!”
Assim, uma nítida maioria vota por “deixar ir embora”.
Fadas Boas e Más delit>eram. Afinal, as três Fadas Boas escre­
vem sobre pétalas de nenúfar, com o sangue dos dedos, as
reivindicações das figuras da carochinha: “Ar puro! Água lim­
pa! Frutos sadios!” Como isso parece fácil e modesto quando
se lê.
Dançando, as fadas demonstram as exigências. Os Irmãos
Raiva Contida guardam as pétalas de nenúfar como documen­
tos e prometem constituir um bom novo governo. “Doravan­
te, os contos de fadas terão direito de opinar!” diz Wilhelm.
Acompanhados pelas três Fadas Boas, eles abandonam a
clareira que circunda a Casinha de Chocolate. Algumas figuras
da carochinha acenam em sua direção. As outras estão pensa­

367
tivas. O Rei Sapo entra no poço. A senhora deita-se. O Rei
Sapo salta sobre suà testa, e quer então trocá-la pela testa in­
fantil, pela testa feiticeira; mas a bruxa continua jogando ossi-
nhos e Maria afastou-se de cara amarrada.
As mãos da menina recomeçam a jogar palito consigo
mesmas. Fora de si, o Príncipe beijoqueiro beija alucinada­
mente a boneca. A avó de Chapeuzinho lê em voz alta para o
lobo palavras de tempos passados. E todos esperam que essa
história ainda venha a acabar bem.

— Protesto! Estou vendo a coisa preta com esse filme. A


inclinação da história é catastrófica demais — diz ele. — Para
que essa tolerância imotivada! Não se pode jamais deífcar os
Irmãos Raiva Contida partirem assim sem mais nem menos.
. Ele está aí, se intrometendo. Quer ser chefe de novo, e
produtor. E no entanto, a viagem à Polônia lhe fez mal. Ele
envelheceu. Não fica mais esticado, mas de pernas vergadas, e
evita o espelho. O olhar rabugento de sofrimento interior. A
roupa, sempre sob medida, está caída pelo corpo. Que será
que aconteceu com o Sr. Matzerath pelo caminho?
Mal ele iniciara a viagem de volta, começou o suplício. A
necessidade imperiosa de urinar obrigava-o a aliviar-se com
esforço a cada cinqüenta quilômetros, e, depois, em intervalos
menores, sempre que surgia uma moita à beira da estrada. O
Sr. Matzerath ainda supôs: — São as emoções, o reencontro, a
despedida, isso ataca a bexiga. — Mas quando o Mercedes se
aproximou à tarde do rio Oder, fronteira ocidental da Polônia,
e urinar transformou-se numa agonia, causando dores e, por
fim, tornando-se impossível — mal caíam umas gotinhas —r,
embora o aperto não passasse, Bruno ficou preocupado, e não
só como chofer: — Assim que chegarmos no Ocidente, seu
Oskar, em Braunschweig, o mais tardar em Hanover, nós va­
mos ter que procurar um médico.

368
J

Por mais macio e confortável que fosse o assento, o Sr.


Matzerath atravessou sofrendo a RDA: a testa coberta de
suor. Seus dedinhos tamborilavam, ou apertavam os joelhos
que tremiam. Essa necessidade incessante, esse temor de mo­
lhar as calças.
Acresce que a tentativa inutilmente exasperada de mijar
um pouquinho — nem que fosse só um calicezinho de licor —
ao lado da rodovia e nem bem chegado atrás de uma moita,
essas freqüentes paradas do Mercedes em plena estrada causa­
ram suspeita à Polícia Popular configurada numa patrulha que
lhes deu ordem de encostar, seguindo-se um interrogatório
que se estendeu por um tempo torturante. Os guardas de
trânsito não queriam entender que o passageiro de um Mer­
cedes — ao qual todavia faltava a estrela — pudesse sofrer de
tão banal indisposição. Fizeram pormenorizado protocolo de
tudo, inclusive do furto do símbolo, localizado na Polônia, de­
sejaram entretanto boa-viagem, depois de curta indecisão,
quando o Sr. Matzerath solicitou o protocolante a testemu­
nhar com os próprios olhos seu mal-estar.
Que bom que os controles na fronteira transcorreram
com negligência. Sem esperar até Braunschweig, e muito me­
nos até Hanover, procurou-se ainda em Helmstedt, a altas ho­
ras, o hospital municipal, encontrado sem maiores périplos
graças ao senso de orientação de Bruno. O paciente estava in­
ternamente agitado e choroso quando o médico que dava
plantão de emergência apalpou seu baixo-ventre, chamando
imediatamenté um urologista, que, com dedo protegido, fez
inclusive um exame retal do caso.
Sei de tudo isso de primeira mão. Quantas vezes ele não
se estendeu sobre sua infelicidade! Mal voltara da Polônia,
procurou meu ouvido: — Eu me considerava disposto e sadio.
E agora isso. Uma doença de velho. Mazela senil. O urologista
disse que se trata de uma próstata extremamente dilatada.
Que dentro de pouco tempo será necessário uma intervenção,

369
uma cirurgia. Com um laço pela uretra, raspando, diminuindo,
ou radicalmente, através de um corte na barriga.
Em Helmstedt foi introduzida apenas uma sonda descar­
tável, que lhe proporcionou imenso alívio, por mais penosa
que lhe tenha sido a intervenção.
Sua bexiga estava carregada, não, sobrecarregada com mil
quatrocentos e setenta mililitros de urina. O urologista —
“jovem, mas capaz” —- ficara espantado quando escorrera uma
tal quantidade, mas não aceitara sua explicação: — Foram as
emoções na Polônia, doutor; os cento e sete anos.de minha
avó, esse reencontro comovente. — Pois segundo ele não se
tratava de uma dilatação passageira, bastante comum, mas
de um mal crônico, e, por isso, a próstata teria que ser redu­
zida dentro de pouco tempo.
— Não antes do meu sexagésimo aniversário! — dizia
ainda agora o Sr. Matzerath. Entrementes, ele foi munido de
uma sonda permanente. Desde então, ele quase não tem re­
clamações, fora aquele feio corpo estranho balançando.
Mesmo assim, ele não deixou de consultar vários médicos —
“capacidades”, diz ele —, esperando em vão que um deles o
absolvesse. Ele me dá conselhos, diz que devo evitar café, ál­
cool e, principalmente, vinho branco e cerveja gelada; mas,
assim que eu pergunto por detalhes de sua viagem à Polônia,
ele fica lacônico, só fala com monossílabos.
Apenas de passagem eu descubro alguma coisa, como:
“Essa tragédia da Solidarnosc não quer acabar... A briga divide
até as famílias... Sempre essa política... Isso não é coisa para os
caxúbios... Ainda vai terminar mal... E a Virgem Maria entra
constantemente na brincadeira... E provável que a sorte da Po­
lônia tenha atacado minha bexiga.”
Quando eu fiz perguntas diretas e familiares, ele deu
apenas informações rápidas. Sim, sim, a avó estava bem. Ficara
mesmo alegre feito uma criança com todos os presentes, prin­
cipalmente com os smurfs. Estava até pensando em fazer uma

370
viagem, imagine só. “Poix num é quiisso até qui mi atrai”, dis­
sera ela sobre os sessenta anos do neto.
E claro que eu não digo ao Sr. Matzerath que ele não
existe mais; ele que continue fazendo de conta que é chefe.
Aiáda há outros — e mesmo eu — que acreditam que, seja
como for, as coisas prosseguem. Por isso, ele não precisa co­
nhecer a situação real da Caxúbia. Já basta que ele tenha voi-
tado para casa com uma sonda.
Assim, nós falamos sobre “Florestas de Grimm” e os fal­
sos 50, quando, com Malskat no andaime, todos os embustes
estavam altamente cotados. Não, não! Nunca deverá chegar a
seus ouvidos que ele agora só existe como enfeite de altar,
nanico e mumiflcado, servindo à devoção dos ratos; pois os
médicos são unânimes: nada de emoções! O Sr. Matzerath
tem de ser poupado.

Que nós somos musicais, deveria ser sabido; mas que


gostássemos particularmente do som da flauta era uma idéia
falsa, uma crendice tola, muito difundida, entretanto, antes da
Grande Explosão e difícil de extirpar como erva daninha. Se­
gundo ela, a flauta, doce ou transversal, teria um poder de
atração sobre nós; bastava aparecer alguém com dedos ágeis e
lábios treinados, soar sua flautinha, extrair dela uns trinados e
escalas velozes, para que nós nos deixássemos levar na flauta
pelo caçador de ratos tantas vezes invocado, dispostos a correr
às cegas para os braços de nossa desgraça ciosamente prepara­
da, morrendo, por exemplo, lastimavelmente afogados no rio
Weser.
Isso ainda foi no tempo do rato doméstico. Queridinho,
disse para mim a ratazana, assim como diz ultimamente patrão
e sinhozinho. Seu novo jeito de falar faz com que sua língua
de rato me soe mais familiar, pois foram cortadas as pontas do
silvo habitual, e ela tem a pronúncia arrastada da roça. Q ueri­
dinho, disse ela, de Hameln etcétera e tal, falamos mais tarde.

371
Nessa lenda está tudo errado. Mas é certo que nós, ratos, con­
seguimos emitir um som que ouvido humano algum jamais
ouviu, e de que nenhum instrumento é capaz, seja ele flauta
ou rabeca; um som que transmite notícias a longa distância e
cujas seqüências foram medidas por cientistas com auxílio de
ultra-som, quando terminava a época humana; isso foi em
Boston, EUA.
A ratazana enchia a boca: nosso sistema de informações!
Então, ela disse: Mas — se você quiser, sinhozinho — também
pode comparar nossa sonoridade com aquela ladainha que
suas mulheres — ela disse fêmeas — pretendem ter ouvido
como canto de águas-vivas, quando procuravam com seu
barco uma cidade submersa. Embora se referissem a um canto
de medusas, foi mencionado também um Papa músico como
modelo para o que as águas-vivas entoavam. E caso se quisesse
transpor nossos sons para o âmbito do audível, eles lembra­
riam o canto gregoriano, tanto mais que a música sacra do
homem sempre foi de nosso agrado.
Enquanto a ratazana falava comigo, eu tinha a impressão
de, ao fundo, ouvir cantochão: Já durante os primeiros tempos
do cristianismo, nós cantávamos com eles — sem que eles nos
ouvissem — em seus abrigos, as catacumbas. Com eles desen­
volvemos nosso kyrie. Com eles seguimos a fé. E com eles
fomos caluniados e perseguidos durante séculos. Ah, se essa
harmonia tivesse persistido: nós afinados com eles, eles co­
nosco. E seus coros ensaiados! Sua polifonia! Os poloneses es­
tabelecidos aqui cantaram com fervor especial até antes da
Explosão; e por isso, nosso canto, que com freqüência sempre
maior enche a igreja matriz de Santa Maria até o alto da abó­
bada, tem resquícios do arrebatamento atribuído ao povo po-
. lonês.
Não, não, sinhozinho! Não há motivo para temer conota­
ções nacionalistas. Continuamos sabendo que rato em polonês
era szczur — e de brincadeira, chamamo-nos assim ou, mais

372
carinhosamente: szczurzyca —, mas é claro que não somos ra­
tos poloneses. Eles nunca existiram, nem existem, como tam­
pouco existiram, ou existem pós-humanamente, ratos portu­
gueses ou húngaros, isso apesar de o homem, em sua compul­
são* de tudo denominar — ninguém sabe por que —%ter nos
chamado de Rattus norvegicus. Mas um pouquinho poloneses
nós somos mesmo assim, pelo menos nesta região. Nossa pre­
dileção pelo agridoce e por tempero de cominho, por exem­
plo, decorre do gosto que anteriormente aqui predominava.
Por isso, além das lavouras principais, nós plantamos pepinos,
abóboras e cominho, com bom resultado; também de suas
sementes encontramos saquinhos em nossos abrigos. Nós cul­
tivamos bolor e fungos. E acrescentando a tênue podridão,
produz-se o gosto agridoce. Também nosso caráter sofreu in­
fluência polonesa. Ao contrário dos bandos de ratos imigra-
dos, não, mais precisamente: transferidos do Ocidente, que
invariavelmente tentam sistematizar tudo, nós vivemos mais
despreocupados, embora imbuídos de uma profunda, alguns
dizem obstinada, seriedade. Nós almejamos alguma coisa.
Nossas orações transbordam de anseios. Uma coisa mais ele­
vada, que não se pode, ainda não se pode obter — os polone­
ses chamavam-na a seu tempo liberdade —, paira diante de
nós como se fosse palpável...
Isso é besteira! Absurdo! A ratazana interrompeu as pró­
prias palavras. E claro que não existem ratos poloneses e ale­
mães. Para isso, as diferenças são pequenas demais. Apenas na
superfície de nossa existência rática nós somos ocasionalmente
opostos, como durante os tempos da fome, em que nos obsti­
namos em questões religiosas. Certo: eles estão mal acostu­
mados e gostam de enumerar tudo o que possuíam no rico
Ocidente, e que perderam. Eles se excedem em lástimas e
elogios por nossa modéstia. Não param de mexer-se. E tam­
bém não perdem a tendência a querer saber tudo melhor; mas
há coisas que eles sabem melhor, por exemplo, como organi-

373
zar a armazenagem de sementes. Como não dão demasiada
importância à liberdade, eles são mais ordeiros que nós, de
uma forma que por vezes parece um tique. Vá lá que eles te­
nham começado a desenvolver um interesse técnico pelos es­
taleiros na zona do porto; mas que comecem agora a sortir e a
desenferrujar trabalhosamente parafusos e parafusinhos, ro­
lamentos, porcas e pinos, e ainda por cima falem com, empáfia
de seu almoxarifado dè peças sobressalentes, é uma afetação
ridícula, tanto mais que eles troçam de nosso modo de lidar
com os achados metálicos, que é mais descontraído* embora
não desajeitado; figuras quase artísticas que nós montamos e
exibimos diante* do A rtushof ou sobre os terraços da Frauen-
gasse são com freqüência intencionalmente destruídas.
Vocês não deviam levar isso tão a sério, disse eu, in te r-.
vindo. N o fundo, os ratos alemães sofrem com seus imperati­
vos de ordem. Eles admiram a facilidade de vocês, esse dòm
para improvisar, sua veia artística inata. Vale mesmo a pena
ver essas composições de ferro-velho!
Q ue é isso! disse a ratazana, é só para passar o tempo,
brincadeira. Mas tampouco reconhecem nossos esforços sé­
rios. Pois nós cuidamos dos prédios antigos, cujo estado lhes é
indiferente. Sem nosso método de misturar uma argamassa re­
sistente ao tempo, usando cal, que obtemos de conchas da
areia de aluvião, e areia, que o vento constante traz para as
ruas, as construções históricas da cidade direita e velha de
Gdansk decairiam com rapidez ainda maior. Eles, porém, fa­
lam possessivamente de nossa Danzig. Se não persistisse a mi­
gração de bandos remanescentes de ratos da Rússia, onde de
acordo com todos os relatos a situação continua preta, nossos
conflitos, ou, digamos tranqüilamente, as contradições entre
alemães e poloneses, poderiam voltar a aguçar-se. Que bom
que existem os russos, e não apenas eles e nós. Sabe-se aonde
isso levou nos tempos da espécie humana e ainda na época
pós-humana; pois quando nos engalfinhamos no período da
m

1 ......... ■ ■ ■
fome, a coisa não se limitou aos ardores pela verdadeira fé,
mas uns xingaram também os outros de: seus polacos! seus
prussianos!
Ah, sinhozinho, disse a ratazana, que bom que desde que
Aos nos dedicamos à agricultura e, sem exceção, deixamos de
temer a luz do dia, estamos todos unidos por uma mutação
consonântica. Nossa língua se ajusta às novas atividades e há­
bitos. Diga, queridinho, você não notou que nossa fala está
mais macia, palatal? Acabou o falsete, o silvo. Conseguimos
até emitir sons profundos e abertos. Terminações em dâde,
palavras antes estranhas como estâdo, estrume, cevada e, last
but not least, girassóis, convertem-se em sonoridades comuns.
Nossos fonemas, que outrora eram agudos e sibilantes,
tornaram-se mais encorpados, mas também mais baixos, eles
se alongam. Isso acontece porque nós falamos tanto sobre a
colheita, a semeadura, e, incessantemente, sobre o tempo.
Nas regiões rurais, fala-se de forma particularmente avultada e
esparramada. N os territórios urbanos, criam-se èntretons. Lá,
consegue-se pronunciar melodicamente o A, o O e o U. N ós
treinamos palavras como êxtase, papoula, crespúsculo.
E eu ouvi os ratos tagarelarem urbanamente e com sotaque
rural. N o campo como na cidade, eles diziam guâda ou gòda
em vez de cauda. Quando falavam do período de frio depois
da Grande Explosão, ouvia-se: Iissu foi maix um’a calamidâde,
qui noix pudia tê tüdu murridu di friu. Coiêta queria dizer co­
lheita, e intiia, lentilha. E eles chamavam a velha de èia ou
èixca. Soava aconchegante e quente, como se o modo de falar
de Anna Koljaiczek tivesse propiciado tanto aos ratos rurais
quanto aos urbanos a sua mutação consonântica. A ratazana
disse: Intãu, quiridinho, num què ixcutà na igreja u qui’n-
saiâmu pra feixta da coiêta?
Ela ainda mostrou-me frentes de trabalho incumbidas de
estabilizar com reboco de cal as paredes que ruíam na cidade
velha, além de diversas esculturas de ferro-velho criadas à

375
imagem do homem e que estavam expostas no Mercado. De­
pois disso, eu fui puxado para dentro da igreja de Santa Maria,
como se tivesse que ser eternamente conduzido àquele celeiro
gótico de almas, onde cada palavra torna-se significativa.
Os bandos de ratos reunidos comprimiam-se de tal forma
que não se chegava a ver o pavimento de pedra e as lápides
das famílias patrícias da velha Danzig. Soou, cheio de dor e,
mais tarde, de júbilo, um canto que estertorava nos baixos e
cobria-se de reflexos de prata nas regiões agudas, entoado cer­
tame" tc —~»r vários coros, pois se entrelaçava com mestria e
tomou o pavilhão da igreja até o alto da abóbada reticulada
em que as colunas morriam procurando seu fecho.
A missa de ratos em Santa Maria já havia começado; ou
não teria ela princípio e fim? Do portal Leste até o distante
altar-mor em que, conforme eu sabia de sonhos anteriores,
encontravam-se, venerandos, Anna Koljaiczek, pedaço enco­
lhido de couro, mas ainda reconhecível, e, a seus pés, o neto
Oskar envolto em saias quebradiças, os bandos de ratos
moviam-se obedecendo ao ritmo entoado. Como um bando
único, os ratos levantaram-se. Uns sobre os outros, de pé so­
bre as patas traseiras, as vibrissas frementes, eles esticavam os
focinhos de rato em direção ao alto da abóbada, mas sem cru­
zarem as patas dianteiras para a oração; pelo contrário, eles es­
tendiam as garras dt suas mãozinhas delicadas, pareciam to­
mados por uma ânsia, ao passo que seu canto pòlicoral
perdia-se igualmente em anseios. Mesmo seus* rabos estavam
de pé, enlaçavam-se ém direção aos céus. Então, voltaram,
quadrúpedes, ao chão e mostraram seus dorsos redondos de
rato ao longo das três naves do pavilhão. Tinham todos do­
brado os rabos. Praticavam a humildade, para erguerem-se
novamente com a expressão de súplica ansiosa, um bando de
ratos de milhares e milhares de cabeças.
Vendo-os em súplicas e orações — os ratos velhos, de um
verde-terroso, atrás, os novos, ainda verdes-zinco, para os la-

376
J
c

dos do altar —, pareceu-me entretanto que não rezavam mais


segundo o rito católico, e sim com um fundo pagão; a exem­
plo daqueles frutos da terra amontoados como oferenda sobre
o altar, que se sobrepunham a todas as relíquias: ao rosário de
Anna Koljaiczek, ao dístico de ferro forjado. Tão-somente os
smurfs e os ducados de ouro continuavam visíveis. Além do
habitual, havia desta feita pepinos e abóboras. Mas os girassóis
predominavam; seus capítulos repletos se alastravam pela
própria cruz pendurada sobre o altar, de forma que se podia
apenas intuir o Filho do Homem nela pregado.
Não! gritei eu. Vocês não podem fazer isso! Isso é paga­
nismo, idolatria, blasfêmia...
A ratazana sussurrou: Fique quieto, sinhozinho. Você não
está vendo como eles invocam o Sol, suplicantes...
Mas ratazana, por favor, vocês não preferem voltar ao
cristianismo e, se não ao cristianismo, pelo menos ao catoli­
cismo...
Suas basílicas, disse ela, servem a muitas crenças, é como
se tivessem sido feitas para nós...
Mas eu não quero! exclamei. Não agüento mais ouvir es­
sas súplicas e lamentos. Religião nunca foi meu forte. Estou
pouco ligando para as esperanças de vocês. Além disso, vai ser
difícil que o Sr. Matzerath sirva, como um gnomo esturricado,
de enfeite de altar para os bandos de ratos de vocês, pois ele
voltou para CBS2, voltou há poucos dias da Polônia, em carne e
osso. A viagem o abateu, o reencGíiíro* a despedida. Um
aperto excessivo, que não quer escorrer, lhe dá o que fazcí.
Desde então, ele tem que usar uma sonda permanente. Isso é
incômodo, é penoso para ele. Mas a avó quer vir visitá-lo
quando ele fizer sessenta anos, daqui a pouco. Você está ou­
vindo, ratazana, ela quer visitar o Oskarzinho, pessoalmente...
E, disse ela, você continua sempre pensando em conti­
nuações de sua história.

377
E então, e então?
Então veio a reforma monetária.
E depois, que aconteceu depois?
O que antes faltava, veio.vindo aos poucos,
um milagre, quase tudo em prestações.
E como é que continuou, depois de tudo isso?
Arranjamos filhos e acessórios.
E os filhos, que é que eles fizeram então?
Perguntas bobas: o que fora antes
e então e depois.
E aí? Vocês contaram tudo?
N ós nos lembramos
do tempo de praia no verão de trinta e nove.
E de que mais?
Tempos ruins, depois.
E então, e depois?
Então veio a reforma monetária.

378
A

4
0 DÉCIMO CAPÍTULO, no qual desaba um temporal durante a so­
lenidade, o Sr. Matzerath afirma-se, a ratazana fala de mistérios
do casco à deriva, o Príncipe foge, há novidades de Hameln, os ra­
tos comprimem-se cheios de expectativa, o correio não traz notícias
de Travetnünde, mas os sinos repicam ao iniciar-se a nova era.

É meu mar, costeado por muitas terras, desde Reval e Ri-


ga, a Leste, com seais países bálticos, até os rasos e baías do
Oeste, com as igrejas de Santa Maria em Lübeck, Stralsund e
Danzig, as catedrais de Schwerin e Schleswig, e também a
igreja de São João em Stege, na ilha de M 0 n, e a igreja caiada
em Elmelunde, em muitas cidades da Dinamarca e depois ao
longo das praias de Schonen, da costa sueca, de recifes, em
Ystad e Estocolmo, subindo o golfo de Bótnia, no litoral fin­
landês, até o N orte onde o Báltico se perde, nas ilhas de Bor-
nholm, Gotland, Rügen, no interior plano ou ondulado, em
toda parte em que foram cozidos tijolos, cheio de catedrais e
basílicas, prefeituras e arsenais, abençoado além disso com
Hospitais do Espírito Santo e Pavilhões de São Jorge, com
mosteiros de cistercienses e franciscanos, todos eles — e não
apenas as construções da Hanse em território sorábio — per­
tencentes ao gótico de tijolos e embainhando meu mar. O mar
do Leste, pouco salgado, brando, traiçoeiro, cheio de á-
guas-vivas. Acresce que cada prédio está repleto de tesou­
ros de arte. Ora são os bancos do coro, ora a prataria de
uma guilda, cuja importância é reconhecida. Inscrições bobas
e orgulhosos enchem-se de humildade perante Deus sob brasões
patrícios. Madonas excessivamente esguias parecerti mesmo

379
assim engravidadas. Vale a pena ver os oratórios e as cenas da
crucificação lavradas em madeira, e também os instrumentos
das câmaras de suplício; e somos por vezes surpreendidos por
restos de afrescos espantosos.
Já falei da catedral de Schleswig às margens do Schlei,
cujas imagens sobre o emboço de cal o pintor Malskat torna­
ra novamente góticas até os confins do claustro. Que ele num
piscar de olhos tenha contemplado o Hospital do Espírito
Santo em Lübeck com os afrescos do alto gótico na divisória
do coro, é coisa até hoje contestada. Mas é fato garantido que
ele exerceu suas capacidades no alto da nave e, posteriormen­
te, do coro daquela igreja de Maria que, apesar das dimensões
de catedral francesa, é considerada a mãe de todo o gótico em
tijolos e estava então às vésperas da comemoração de seu sé­
timo centenário.
Malskat tinha de apressar-se. O patrão Fey pressionava.
O andaime do pavilhão já fora desmontado. Estava prevista
uma solenidade oficial. Foi até mesmo impressa e vendida
uma edição milionária de selos comemorativos em dois valo­
res — sendo o de quinze pfennig verde-esmaecido, e o de
vinte e cinco castanho-avermelhado —} ambos mostrando a
Cena da Anunciação do rápido pintor; isso conferiu maior
significado à iminente comemoração e trouxe ainda por cima
lucro ao episcopado de Lübeck.
Os saias-pretas embolsaram cento e oitenta mil marcos
alemães de brilho ainda recente; o pintor, porém, curtindo
eternamente seu resfriado no alto do andaime, não viu um
tostão furado daqueles selos pelos quais os colecionadores pa­
gam hoje em dia preços que eu presumo proibitivos. Ele, o
criador daquela Cena da Anunciação, cuja expressividade foi
louvada pela assembléia dos entendidos, ficou de mãos aba­
nando.
Alheio a todos os negócios: poder-se-ia esquecê-lo total­
mente, tal era o isolamento em que o perseguia lá em cima

380
uma idéia que, à semelhança do cupim, era impossível desli­
gar. E quando, no dia 1.° de setembro de 1951, a solenidade
oficial teve finalmente lugar na igreja de Maria, em Lübeck,
nosso pintor, que não sofria de vertigens e durante três anos
trabalhara com afinco na nave e no coro, não se encontrava
todavia sentado no centro dos festivos acontecimentos, ao
contrário, naturalmente, de seu patrão, que estava junto aos
convidados solenes e altos dignitários; não, ele encontrara um
lugar lá atrás, na nave da igreja, na penúltima fila, em meio à
plebe ignara. E assim que o. vejo, e me pergunto se a idéia,
uma vez concebida, continua moendo em sua cabeça. E seus
vinte e um santos do coro viam-no de muito longe, postados
em sete tríades sobre pilastras pintadas, em parte com sapatos
de bico dobrados lateralmente, em parte descalços.
Mais perto de Malskat, que se mantinha quieto em seu
banco de fundo, encontravam-se os muitos santos do pavilhão.
Cada vão do alto da nave testemunhava sua obra. Com restos
de tinta que levantavam pó ao menor toque, seguindo vestí­
gios ainda remanescentes, mas em geral por própria inspira­
ção, ele esgotara sua mina por um salário de fome. Vazio, es­
vaziado, Lothar Malskat ocupava seu lugar no banco de fundo,
usando o velho terno que Dietrich Fey envergara nos tempos
do claustro de Schleswig. As calças curtas demais, o casaco
apertado nos ombros. Beliscava, de tão estreito. Lá do alto, os
santos deviam encará-lo como um lastimável espantalho; e de
longe, de dentro do frontispício do coro, sua Virgem com o Me­
nino devia considerá-lo um confirmando tardio. Entrementes
famosa, sua reprodução enfeitava o volume de luxo no qual os
historiadores da arte, sem mencionar Malskat, elevavam a mi­
lagre os afrescos da igreja de Maria, em Lübeck.
Ele ria de boca fechada. Pois, embora seus contornos pa­
recessem corroídos pelos séculos e decompostos por ilhas
brancas de argamassa, a Virgem tinha uma expressão especial:
selvagem, áspera, de uma doçura ensombrecida. Durante uma

381
pausa para o café em maio de 50 — isso foi quando acabara o
racionamento dos últimos gêneros alimentícios — ele pintara
a agora famosa Madona com o Menino, pensando exclusiva­
mente numa artista de cinema que tinha revisto na véspera,
com o frescor de sempre, como se nunca tivesse havido guer­
ra; estava passando Esse posto de gasolina é uma folia.
Enquanto Malskat continuava rindo de boca fechada, o
Bispo Pantke dirigia-se do púlpito a todos, mas particular­
mente ao Primeiro-Ministro Adenauer, que parecia entalhado
em madeira. Não era o bispo que o demônio inspirara a colo­
car uma suástica como fecho da abóbada do coro, e sim um
homenzinho senil quem se dirigia aos convidados solenes e al­
tos dignitários, e provavelmente também à plebe ignara sen­
tada nos bancos de trás.
Assim como eu não sei o que levava Malskat a seu riso
íntimo durante a fala do bispo, e só posso presumir que se tra­
tasse da madona artista de cinema ou daquela idéia insistente,
também não sei o que pensava o Primeiro-Ministro Adenauer
ao ser contemplado com a prédica do Bispo Pantke. Não te­
rão sido certamente os convidados solenes e altos dignitários
que o levaram a cismar, pois estes circundavam-no com a ino­
cência estampada nos rostos obesos. Pode-se entretanto supor
que ele se preocupava com o rearmamento dos alemães que
tinham sido desarmados algum tempo atrás, pensando em
termos de divisões; ou será que ele ouvia com impassibilidade
católica a prédica de um bispo protestante?
Este louvava e agradecia a Deus, enchendo com ele pe­
ríodos curtos e longos. Falava da Misericórdia de Deus e da
Bondade de Deus, do Amor de Deus garantido também aos
pecadores, do Milagre de Deus em tempos negros, e além dis­
so, numa referência atual, dos derrotados a quem Deus com
seu poder figurativo dera um sinal.
Quando o Bispo Pantke entoou o coral Agora agradecei
todos a Deus, Lothar Malskat cantou junto em voz alta. Canta-

382
A
tT

vam o patrão Fey, o construtor de igrejas Fendrich, o Superior


Conselheiro Eclesiástico Gõbel, o curador de monumentos
Münter. Cantava o Conselheiro Ministerial von Schõnebeck,
que tinha financiado em Bonn o milagre de Lübeck. Políticos
estaduais e federais cantavam. A plebe ignara cantava, como
sempre cantou. E cantava o primeiro Primeiro-Ministro do Es­
tado recém-desfornado, como Malskat um milagreiro talento­
so; a seu lado — ou diante dele — poderia ter-se colocado
perfeitamente o fundador e milagreiro do outro Estado,
acompanhando o canto, embora com texto laico; pois o Sr.
Matzerath tem razão em ver o triunvirato Adenauer, Malskat,
Ulbricht agindo como trinca. Já antes do começo daqueles
anos que ele chama de falsche fuffziger, eles começaram a re­
criar o antigo a partir do nada que ruía, e a enganar magis­
tralmente todo o mundo, cada um de seu jeito.
Isso parece convincente. Entretanto, eu não aprovo a su­
gestão do Sr. Matzerath de que hoje, com a devida distância e
depois que o trambique dos 50 foi finalmente desvendado, se­
jam impressos selos de formato vertical, e postos em circula­
ção nas duas. Alemanhas, tendo como motivo um trio de
corpo inteiro sobre capitéis de colunas, a exemplo da Cena da
Anunciação daqueles tempos, que atingiu entrementes preços
tão proibitivos: à direita do pintor da Prússia Oriental com um
gorro de lã emaranhada, deveria estar postado, embaixo de
uma cartola, o Primeiro-Ministro renano, e à esquerda o saxão
Presidente do Conselho de Estado, usando um boné. Atribu­
tos podem estar ã mão das figuras laterais, por exemplo, tan­
ques de construção americana e soviética, em tamanho de
brinquedo; o homem do centro mereceria pincel e escova de
aço. Desta forma, personificada, a sagrada trindade da falsifi­
cação daqueles anos poderia transfigurar-se em selo, assim
como a afluência atual repousa sem dúvida sobre um trambi­
que cujo vencimento caducou.

383
r

— E sobre o trabalho! — exclama o Sr. Matzerath. —


Eles produziram, incansáveis, suas miragens, observando os
menores detalhes. Tanto quanto o outro maquinaram, cozi­
nharam, evocaram com sotaque saxão e carolice sua Alemanha
de mentira, para que o terceiro lhes construísse a gótica abó­
bada do teto, em Lübeck, onde corre a fronteira entre os dois
países. Como poderiam os três deixar de virarem um símbolo,
mesmo que sejam unidos num quadradinho dentado. Vejo-os
sobre cartas e pacotes, e até, no menor valor, sobre cartões-
postais, caminhando em trio daqui para lá, de lá para cá. O
que a política não conseguiu, postalmente se reúne. Um selo
interalemão, autenticado, carimbado. Uma vitória da filatelia!
O Sr. Matzerath não se incomoda com meu protesto.
Caso se trate de selos, digo eu — mas ele só ouve a si mesmo
—, então que sejam postos em circulação apenas Ulbricht e
Adenauer, devidamente acoplados, lado a lado, como sempre
aparecem os dois poetas ou — com os perfis sobrepostos —
os Irmãos Grimm. Porque, no fim das contas, Malskat aban­
donou o trio dos falsários logo depois da comemoração dos
setecentos anos, e, além disso, depois de ter primeiro traba­
lhado com a cabeça.
Na tarde do dia 1.° de setembro de 1951 ele estava con­
tinuando a festa com alguns operários de construção no Fre-
denhags Keller. Ainda em traje de gala, o patrão Fey deu um
pulinho até lá e pagou umas rodadas de pinga e cerveja. En­
tão, teve de ir à Prefeitura, onde deveria ser apresentado ao
Primeiro-Ministro, ele, o belo Fey, e não Malskat. Segundo
reportagens da imprensa local, Adenauer teria dito: “Então, o
senhor legou uma bela tarefa para os historiadores da arte.”
Nunca foi confirmada a lenda de que .o Primeiro-Ministro te­
ria em seguida piscadò para Fey.
Mais tarde, Malskat foi com alguns colegas de obra ao
Café Niederegger. Estava firmemente decidido a acabar por
fim com aquele embuste. Aquela idéia que parecia cupim o

384
Ê
/
f - "
impelia. Pois durante a solenidade, exatamente no momento
cm que Fey recebia um diploma de honra datado e selado, um
temporal desabara do alto, certeiro, sobre Lübeck. O nítido
protesto dos céus assustou o pintor em seu penúltimo banco
de igreja. Com a mesma devoção com que pintava, ela via
raios e trovões como advertência. Os clarões repentinos vol­
tavam sempre a iluminar as miragens do coro e da nave. Além
disso, fora blasfêmia contra Deus marcar a solenidade pública
para o dia 1.° de setembro, o mesmo dia em que doze anos
atrás a guerra tinha sido declarada, inicialmente aos polo­
neses...
Ainda por cima, os raios com o sucessivo estampido tra­
zendo o trovejar do Eterno lembravam o domingo de Ramos
de 42, quando os aviões ingleses tinham descarregado suas
bombas sobre o centro de Lübeck. Uma bomba incendiária
rompera então o teto da igreja de Maria, provocando um in­
cêndio tão abrangente no prédio de tijolos, que não apenas o
sino grande caíra dentro da nave, como, além disso, saltara das
paredes o giz lavado da grossura de um dedo com que tinham
sido revestidas camada a camada na época da Reforma, e que
desde então preservava a sobriedade protestante do interior
do templo; assim, apareceram os contornos e manchas colori­
das de afrescos góticos: frágeis insinuações apenas, reflexo
descascado de uma beleza imperfeita. E fora unicamente
Malskat quem transformara no Milagre de Lübeck esses restos
que desde a noite do incêndio tinham-se perdido sempre
mais; ele e só ele, e não o Fey que recebera o diploma de
honra e a possível piscadela do Primeiro-Ministro.
Seus santos. Com três metros de altura no coro, e dois na
nave. Ora colocados sobre pilastras, ora sob baldaquins. Sim,
senhor! Condimentos românkos, bizantinos e até cópticos
combinavam expressamente com eles. Debaixo de abas retilí-
neas, sobre pés de barbatana virados de lado para o alto, a
comunidade dos santos não tem nada a dizer-se e é contudo

385
1
eloqüente quando, por exemplo, a Ressurreição responde do
quarto quadrilátero à Crucificação no quadrilátero sul. Parti-
cularmente elogiada pelos historiadores da arte que em junho Bj
de 51, quando quase tudo estava realizado, escalaram o an w
daime grande conduzidos por Fey, foi a figura de São Barto-
lomeu; aquele que tem uma faca.
N a ocasião, Malskat escapulira para o lado do andaime, '
Sem que ninguém pudesse vê-lo, ele ria das explicações ri-
bombantes de Fey. Ele, sempre só ele. Ele tinha, ele sabia, ele
estava seguro de todos os detalhes. Detalhes que Malskat na
pressa esquecera de executar, como, por exemplo, a chaga na
mão esquerda do Ressurreto, e também os estigmas em ambas
as mãos de São Francisco, eram atribuídos por Fey a lapsos do
mestre gótico do coro e da nave: “com certeza, já então ti­
nha-se que trabalhar pressionado pelo tempo”.
'Alto, magro e, no andaime, sempre com seu gorro de
pompom apesar do verão, foi assim que Malskat ouvira as
mentiras especializadas. Ele ria para dentro, como desde
criança aprendera, e decidiu pela primeira vez divulgar seus
segredos do andaime.
Quando o pintor foi entretanto à repartição de monu­
mentos e perambulou além disso por todos os escritórios da
Igreja, ninguém quis acreditar nele. Os protetores de monu­
mentos consideraram-no um fanfarrão, os pastores temiam o
escândalo. N o fim das contas, estava-se às vésperas da come­
moração do sétimo centenário. O Primeiro-Ministro tinha as­
segurado expressamente sua presença. Esse Malskat atrapa­
lhava, com sua mania da verdade e suas histórias de escovas de
aço. “Q ue negócio é esse de falsificação!” exclamavam os
saias-pretas. “Uma centena de especialistas que dizem, sem
exceção: autêntico, verídico, característico, não podem se
enganar.”
Era mesmo a época das piscadelas, do branco que lava
mais branco dos atestados de desnazificação, das belas apa- j

386
i^ncias. N a década dos cordeirinhos inocentes e dos coletes
brancos, dos assassinos cobertos de postos e honrarias, e dos
hipócritas cristãos nas bancadas do governo, ninguém queria
Iftber certinho das coisas, tanto fazendo o que acontecera.
Malskat já queria desistir e deixar o trambique para lá.
Não fosse o temporal que desabou sobre Lübeck com raios e
palavras trovejantes, e possivelmente ele teria calado. Mas
agora, depois que o céu claramente se dirigira a ele, o pintor
juntou seus esboços e modelos, anotações de diário e outros
testemunhos, contratou um advogado e fez uma autodenún-
cia, trazendo à luz a verdade, o inoportuno.

Por mais que a sonda permanente incomode, ele está vi­


sivelmente satisfeito. Caminha de um lado para o outro em
passos rápidos, escandindo as palavras. Desta feita, de sapatos
de verniz. Ele não dá sossego. Basta pensar uma coisa, e ela
tem de tomar forma. N a parede do fundo, sem janelas, de seu
andar de diretoria exageradamente amplo, ele mandou colocar
ao lado do quadro-negro uma reprodução em preto-e-branco,
bastante ampliada: em formato vertical, vê-se a tríade pintada
por Malskat, que continua enchendo o décimo sétimo vão no
alto da nave da igreja de Maria, em Lübeck; só os santos do
coro foram lavados depois do processo. Ele aponta detalhes
com o bastão: — Aquele ali com a espada. O do meio segura
um pincel. A barba do terceiro corre pontuda. — Ele quer me
convencer, feito um mestre-escola.
— Era para eu rir! — exclama ele. — Pretendem ser san­
tos, possivelmente apóstolos! E onde, por favor, onde estão as
auréolas? Muito bem, eu conheço a explicação: foi o aloprado,
o distraído do Malskat que, passando apressado por cima, já
que o salário era baixo demais, esqueceu três vezes de traçai;
um contorno redondo de travessa. D a mesma forma como ele
às vezes deixa de pintar um sapato, omite as chagas do Senhor

387
e os estigmas de São Francisco, também aquelas auréolas terão
uma duas três escapado. Mas se nós olharmos bem — o que
não é privilégio de todos —, reconheceremos segundas inten­
ções. Eu afirmo que esses três homens não são apóstolos in­
completos, mas reproduzem em vez disso nosso esperto pin­
tor e dois estadistas, ou graúdos dignitários, como diz sua ra-'
tazana; mesmo que não retratisticamente, sem dúvida de um
ponto de vista ideal. Nada disso! Eu não estou afirmando que,
no alto do andaime, Malskat tenha um belo diã decidido dizer:
Opa! Agora eu vou me pintar entre o velho Adenauer -e o Ul-
bricht barbicha; eu antes presumo que o espírito da época lhe
tenha dado a inspiração dessa trindade. Repentinamente ilu­
minado, ele se viu posto ali no meio. Ou será que ele mistu­
rou inconscientemente, por assim dizer inocentemente, essa
constelação profana em sua comunidade de santos? Vou pro-
curá-lo, vou sentar com Malskat no Café Niederegger. E to­
mando chá com biscoitos, nós vamos recordar como uns ma­
níacos: quem e o quê colaborou com aquela produção genera­
lizada de miragens da época. Se eu não estivesse com essa
sonda pendurada, já partiria hoje.
Ainda bem que ele deu azar. Sem corpos estranhos como -
apêndice, ele tiraria imediatamente as conseqüências que cos­
tuma tirar depois de um longo discurso. O Sr. Matzerath está
em silêncio, envolto visivelmente por coisas passadas. Ele pas­
seia inseguro, procura um começo; encontrou, pois seu dedo
anular — é aquele com o rubi — acena para que eu me apro­
xime, mais, mais perto ainda. Tenho de curvar-me, cheirar sua
água-de-colônia, pois ele quer cochichar: — Não é mesmo? O
senhor queria acabar comigo, queria me matar. Sua intenção
era concluir minha história lá longe na Polônia, debaixo das
saias de minha avó. Um desfecho que todo o mundo conside­
raria plausível, mas que era óbvio demais. Pode ser qué eu te­
nha sobrevivido a mim mesmo; mas não é dessa* forma que
conseguem me eliminar!
Depois de uma pausa concedida a si próprio e também a
mim, o Sr. Matzerath prosseguiu do fundo de sua poltrona
executiva: — Eu poderia entender perfeitamente sua tendên­
cia a acabamentos precipitados; mais ainda, eu compreendo
que minha existência é um estorvo. Minhas intromissões de­
vem desaparecer. O senhor quer livrar-se de mim, para que
ninguém possa mais invocar minha pessoa quando referir-se
ao senhor. Resumindo, se fosse pelo senhor eu já estaria ris­
cado do mapa...
E claro que eu protesto, mas isso não impede que ele
continue me imputando a intenção de assassiná-lo: — Pare fi­
nalmente de negar que o senhor pretendia comemorar meu
próximo aniversário com um necrológio elaborado de ante­
mão. Uma intoxicação urinária com desenlace fatal lhe viria
bem a calhar, uma morte feita sob medida para mim! Ainda
bem que meu chofer cruzou seus planos, e já em Helmstedt
abandonou a auto-estrada, dirigindo-se enquanto ainda era
tempo ao melhor urologista do lugar. Imagine o senhor a be­
xiga continha mil quatrocentos e setenta miligramas de urina...
Com isso, o Sr. Matzerath está de volta aos conhecidos .
detalhes, esfuziante de vida. Desde que foi preciso in­
troduzir-lhe uma sonda seu ego encontrou novo assunto.
Nada consegue desviá-lo do prestimoso tubinho e respectivo
tampão.
— Repare na simplicidade, na genialidade dessa inven­
ção! — diz ele, e não se cansa de explicar como, através de
uma ramificação enfiada em sua uretra, enche-se a bolinha 4o
tamanho de uma cereja que sustenta por trás a sonda, dando
segurança ao usuário. — Veja o senhor — diz ele —%é isso
que carateriza o homem: por mais desesperada que seja a si­
tuação, ele acaba encontrando uma saída.
Entretanto, ele não admitiu minha objeção de que seria
bastante possível que sonda alguma apresentasse seus présti-

389
mos na situação atual, cujo declive ninguém e nem mesmo ele
negaria.
— Isso é mau agouro! Onde quer que eu vá, só ouço mau
agouro. Mas, por outro lado, olhe só para mim: apesar de te­
rem premeditado meticulosamente meu fim, eu voltei da roça
caxúbia, ainda que padecendo. E embora não se possa evitar
uma operação logo que eu completar sessenta anos, o senhor
pode ficar seguro de que eu não corro o perigo de ser demi­
tido deste mundo; foi o senhor que, pelo contrário, se rarefez
e parece que foi amaldiçoado a flutuar numa cápsula espacial,
nem que seja apenas de brincadeira...

Mas era preciso isso, ratazana? Era preciso que uma


grande explosão colocasse um ponto final em tudo? E eu, é
preciso que fique agora curtindo miséria com o gnomozinho
Oskar reduzido a enfeite de altar, para ouvir logo em seguida
esse falatório do Sr. Matzerath, que vive engendrando planos
e dando sinais de vida a todo o mundo? Será que nada quer
acabar, nem o Terceiro Programa? E será, ratazana, que en­
quanto vocês em seus bandos de ratos fazem uma colheita
após a outra e amontoam sementes de girassol, a mim só me
resta falar de um destroço que vai à deriva, já que as mulheres
foram riscadas do mapa assim que Vineta surgiu a seus pés? E,
daqui para a frente, só poderão ocorrer-me necrológios?
Desviei rápido: para perto delas; pois mulheres me abas­
teceram temporariamente com seus sentimentos: uma, cari­
nhosa como se estivesse voltada para si mesma; a outra, impe­
tuosa e impaciente; a terceira, numa ou noutra ocasião; a
quarta não se deixou desanimar; a quinta apoderou-se comple­
tamente de mim até hoje: Damroka...
Você tem de convir, ratazana: sempre faltou algo, ou res­
tos queixavam-se. E nunca eu estava em casa como queria. A
bola sempre amassada. Por isso, imaginei um navio tripulado
por mulheres. Só por tentativa, para ver no que dava, me ar­
vorei a mandá-las de viagem, em harmonia geral, embora fos­
sem inimigas figadais e na verdade se evitassem ciosamente.
As mulheres são assim mesmo, dizia-se então. Mas vocês, ra­
tazana, cancelou minha tentativa de vê-las a todas como irmãs,
cóm você foi tiro e queda. Ah, se eu estivesse me apagado
com elas, sem deixar vestígios.
Você, entretanto, quer que eu escreva. E assim, eu escre­
vo: o barco vai à deriva em direção leste.
Sempre que o Báltico se estende sob minha cápsula espa­
cial, você exige que eu não-perca de vista o destroço.
Mas somente para você o destroço tem importância, eu já
o cancelei há tempos, como quis cancelar o Sr. Matzerath.
Que mais que ele quer! Por que ele fica se intrometendo co­
migo!? De que me serve esse maldito destroço!
Com todas as cobertas do barco pintadas de azul e bordas
negras, as mulheres consumiram-se. Como sinto falta delas.
Junto a elas, fui lastimável e magnífico. Amor! Disso você não
entende, ratazana. Desse demais-nunca-é-bastante. Vocês que­
rem apenas viver e sobreviver. Fique de olho no destroço! ex­
clama você. Algo se mexe lá, amiguinho, algo se mexe, sim!
E, pranchas de convés, batendo. Restos da balaustrada
que se dobram para fora, caem de bordo. Que mais pode ser?
Jogos de sombras? Reflexos de desejos? O u por acaso as fitas
tocam por conta própria no gravador?
Não ouço nada. Nenhum canto de medusas. Calmo ou
encrespado, o mar não está mais escurecido pelas tempestades
de poeira. Ele brilha, jovem de novo, e possivelmente cheira
como cheirava quando eu era criança e no verão sempre...
Pode ser que o mar tenha rejuvenescido, que respire,
cheio de vida, habitado agora por plâncton, larvas de arenque,
aurélias, peixes estranhos, desses que um dia andarão por ter­
ra. Pode ser que no fundo mais fundo do mar o linguado saia
de seu leito de *areia, como vocês saíram de seus buracos.
Pode ser que aconteça algo. Mas o destroço sobrou simples­

391
mente. Segue à deriva, inanimado. Mas sempre no rumo do
Leste, mesmo se a corrente é contrária.
Que eu refletisse, aconselhou-me a ratazana. Lembre-se
do que sucedeu em Gotland pouco antes do último dia,
quando suas mulheres desembarcaram- em Visby! Aquele
grupo de cinco, cheio de iniciativa. O andar ostensivo de
lobos-do-mar. Vamos logo com isso, amiguinho. Lembre-se!
A princípio, a mais miúda das mulheres, a velha, que es­
tava sempre cozinhando, lavando louça e vivia dando arruma­
ção, queria fazer a guarda de bordo. Mas, então — sim, eu me
lembro —, vigorou desembarque geral. Elas queriam botar
para quebrar naquele museu de ruínas cheio de turistas. Botar
para quebrar em termos! Primeiro, fazer umas compras: co­
mida sueca congelada. Não se conseguia aquavit em parte al­
guma. Em vez disso, passeatas. O s protestos então habituais.
Bem, contra uma coisa e outra, e em favor da paz. Gente de
Gotland, jovens bem jovens e velhos bastante idosos, mar­
chando de tênis è botas de borracha. Chovia? Garoava, pois
aquele verão foi péssimo. Mas todos pacíficos, atrás das pala­
vras de ordem pintadas. Os gotlandeses andavam pela cidade,
bem treinados e visivelmente sonolentos. Opunham-se a tudo
o que as faixas e cartazes de barriga consideravam perigoso.
Sim, sim, ratazana, eu quero recordar o que era atual pouco
antes do último dia. A praga do óleo, a depauperação em toda
parte, e igualmente a corrida armamentista e a morte das flo­
restas. Eu já disse: contra uma coisa e outra. E alguns eram
por Jesus. E mesmo, ainda o seguinte: um grupo era contra
experiências com animais.
M uito bem! disse a ratazana, até que enfim. E que acon­
teceu então? Eles só ficaram andando por ali?
Esse último cortejo não era muito grande; além de faixas,
ele carregava imitações gigantescas de cachorros e macacos
rhesus pintados a mão; havia até quem usasse máscaras» de ca­
mundongos e ratos. Foi nessa passeata que minhas cinco mu­

392
lheres entraram; elas tinham se engaianado todas para o pas­
seio em terra: uma usava algo em amarelo-ouro, a outra estava
embaixo de um turbante, e de calças tufadas, a terceira em
seda negra...
À ratazana advertiu para que eu nao mudasse de assunto.
Quando eu zombei das mulheres, que ainda ontem tinham re­
colhido e medido águas-vivas, e agora estavam em corrimentò
com os protetores de animais, a ratazana tornou a interromper
meu relato que descambava para o pessoal.
Isso não interessa! disse ela. N ada de histórias de mulhe­
res. Só o que aconteceu em Visby hoje ainda tem interesse.
Pois seja. Houve uma arruaça. Na periferia da cidade,
diante de um instituto de pesquisas. Era um anexo de Uppsa-
la. Eu não creio que um dos nativos tenha começado, por
moço ou velho que fosse. Provavelmente foi a maquinista que
lançou a primeira pedra, ou a velha. E então a timoneira avan­
çou. De qualquer forma, Damroka, que sempre fora a mais
lenta, foi a primeira a entrar naquele caixote. As outras mu­
lheres vieram atrás, seguidas pelo pessoal de Gotland. Mais
tarde, foi dito que eles mais pareciam vândalos. Troços caros
para burro, todos quebrados nos laboratórios. Mas então, zás,
gaiolas abertas. Parece que, quando foi solto, um macaco
mordeu uma bibliotecária sueca, o que teve conseqüências,
porque o macaco...
Nada de divagações! Continue, continue! solicitou a ra­
tazana.
Mais tarde, foram recapturados coelhos e cães, todos os
macacos rhesus e porquinhos-da-índia, e até alguns camundon­
gos. As mulheres voltaram naturalmente a bordo quando a po­
lícia chegou com seus pisca-piscas azuis. Logo em seguida, sol­
taram as amarras, partindo para Vineta. Queriam poupar-se
aborrecimentos. Pois parece que escaparam duas dúzias de
ratos, particularmente interessantes, segundo se disse, c que

393
foram vistos pela última vez em meio aos canteiros do porto,
por um marinheiro finlandês que, contudo, estava bêbedo...
Pois aí está! exclamou a ratazana eriçando as vibrissas.
Então, ela exigiu que eu continuasse a observar o destroço.
Ele tinha estado desaparecido por longo tempo. Escapara até
de mim, homem de visão. Você se lembra, amiguinho, da es­
pessura daquela fumaceira saturada de fuligem que cobriu mar
e terra depois da Grande Explosão. A Terra ficou sem luz.
N em vócê, nem nós, podemos medir o tempo da escuridão.
Que terá acontecido com aquele destroço à deriva durànte es­
ses dias — ou meses, ou anos — de frio? Ficou à deriva, en­
volto numa mortalha negra? O u ficou preso na geleira perma­
nente, coberto de gelo? Caso houvesse vida no casco do na­
vio, qualquer forma de vida, perguntamo-nos com freqüência,
como teria ela podido subsistir?
Exatamente! exclamei. Ninguém agüenta uma coisa des­
sas, nem um percevejo. Podemos esquecer o destroço. Isso
não dá em nada. O Sr. Matzerath também. Fora com ele! São
coisas mais que ultrapassadas. E preferível você, ratazana, con­
tar como anda a agricultura. Choveu demais na primavera? E
as últimas colheitas, renderam bem? Não esqueçam do rodízio
de culturas!
Maix é clâru, sinhozinho! disse ela em seu arrastado tom
roceiro. E eu vi campos, até os horizontes: beterrabas, milho,
cevada e girassóis. Como os capítulos se curvavam, pesados!
Vi sementes alinhadas com ordem. E pássaros coloridos sobre
os campos. Um lindo sonho...

Assim que os Irmãos Raiva Contida se foram, Rumpels­


tino exclama, como garçom: “Vamos esperar tomando alguma
coisa!” Ele serve bebidas na frente da casa. Grupinhos bem-
humorados conversam, afeitos a uma brincadeira ou outra,
como se a bruxa estivesse dando um coquetel parâ o pessoal
de contos amplamente conhecidos. Trocam-se amabilidades
f y

..
m :

antiquadas, mas, aqui e ali, desabrocham tensões provenientes


de tempos remotos: as Fadas Más não conseguem reprimir
impertinências que se referem às Fadas Boas. O Alfaiatezinho
Valente procura briga com os gigantes da floresta. Anões e
duendes se remexem birrentos. A bruxa e a Madrasta Má
lançam-se olhares fulminantes. Rübezahl ofendeu a Sra. Hol-
le. Chapeuzinho tenta passar uma cantada em Joãozinho. E,
como o Rei Sapo não quer entrar no poço, Maria quer por sua
vez esconder-se no lobo, mas o zíper fica preso. Ninguém es­
cuta a avó, que está repetindo velhas palavras de dicionário.
Há algo de mais atraente: o mago Merlim e o Rei Bicudo dão
audiência. Anões e duendes empurram. As bruxas inferiores
querem ficar perto. “Mesmo eu aceitaria um Jacob Grimm
como Primeiro-Ministro!” exclama Bicudo. Merlim, que aca­
bava de relatar intrigas da Távola Redonda do Rei Artur,
aquiesce: “Pelo menos, nós toleraríamos os Irmãos Ràiva
Contida.” Seguem-se risos, e brindes à saúde do novo
governo.

I
Somente a menina com as mãos decepadas está triste. As
mãos pendem apáticas do barbante em torno do pescoço. Ela
perambula entre os grupos que estão conversando, não aceita
os drinques que Rumpelstino lhe oferece, não quer ouvir as
vantagens que Rübezahl conta rememorando os tempos em
que pregava sustos em pobres carvoeiros e sopradores de vi­
dro; ela observa, preocupada, os anões arrastarem Branca de
Neve sucessivamente para o mato, e fica mais triste ainda ao
dar com Jorinda e Joringel; por fim, enfurna-se na Casinha de
Chocolate, onde Rapunzel, em cujos cabelos o Príncipe está
amarrado, encpntra-se ao lado da Madrasta Má, sentada sobre
um parapeito de janela diante de cortinas esvoaçantes.

O Príncipe continua beijando a boneca feita à imagem dé


sua Bela Adormecida. Rapunzel e a Madrasta Má fazem 395
cama-de-gato, um enrolado jogo de dedos e barbante que a
Menina sem Mãos contempla longamente.
Ela toma finalmente coragem, e diz: “Posso ver como o
senhor meu pai dá as duas machadadas?” A Madrasta Má
mostra-se amistosa, e, então, as mãos da menina, para ajudá-
la, tomam-lhe a artística teia de barbante, de forma que ela
pode pegar a caixinha, apertar um botão e, enquanto a tela
começa a tremeluzir, retomar a cama-de-gato dos dedos da
menina, para apresentá-la a Rapunzel que modifica a teia no
ato mesmo de recebê-la.
Agora, o espelho se anima com cenas da carochinha que
se sucedem: vemos os Sete Anões postados em torno do cai­
xão de vidro de Branca de Neve; Rumpelstino arranca a pró­
pria perna, enfurecido; os cabritinhos fogem, um deles para
dentro da caixa do relógio; a senhora que padece de uma
eterna dor de cabeça deixa, ainda criança, a bola doirada cair
no poço; por fim, o Espelho Mágico apresenta o conto das
mãos decepadas.
Acocorada sobre um banquinho puxado para bem junto
do espelho, as mãos presas ao barbante sobre os joelhos, é as­
sim que a menina vê como o pai, seguindo mandamento do
Diabo, a quem se entregara em sua desgraça, dá dois golpes
com o machado; como ela, depois, anda pelo mundo afora,
triste e sem destino, as mãos decepadas presas a um barbante,
como, por fim, um príncipe cheio de amor a ajuda a abraçar a
árvore extraordinária, e com isso as mãos ligam-se de novo
aos braços da menina que com o príncipe torna-se feliz.
Mas, apesar da complicada cama-de-gato, a Madrasta Má
acompanha com um olho o filme da carochinha e, má como
tem de ser, ela manipula com o dedinho o desenrolar da ação,
de forma que as cenas mudam numa rápida seqüência; ora é o
pai com os dois golpes de machado, ora o príncipe ajudando a
abraçar a árvore, e então volta o pai, terrível, depois o prínci­
pe, presfimoso, uma vez mais o machado; breve felicidade e
terror sem fim.

396
E como no filme, também no banquinho diante do espe­
lho as mãos da menina juntam-se, para voltarem a cair dece­
padas sobre os joelhos, numa aflição que se repete.
, Enquanto isso, o coquetel se prolonga. Algumas figuras
da carochinha representam seus papéis. D e touquinha de
dormir, a avó de Chapeuzinho mostra de repente uma cara de
lobo. A bruxa faz as vassouras dançarem. Rübezahl entorta
barras de ferro. Como se caminhasse num sonho, a senhora
do Rei Sapo leva-o como sapo sobre uma bandeja, de um
grupo para outro. Joãozinho e Maria tiram os últimos caroços
de faia e avelãs do aparelho diante da Casinha de Chocolate.
As Fadas Boas e Más transformam-se mutuamente em espan­
talhos. A Gata Borralheira e o Rei Bicudo, o intrépido Solda­
dinho de Chumbo e a Sra. Holle estão igualmente enfronha-
dos em suas histórias. Representam-se, perdidos em si mes­
mos. Até Branca de Neve não quer mais ir para o mato com
anões que se alternam, e sim ser mil vezes mais bela, seja para
quem for. Assim, um conto se prolonga no outro. Jorinda está
deitada com o $oldadinho de Chumbo, Joringel deitou-se
junto à Gata Borralheirâ. Apenas a bruxa continua fiel a si
mesma e a Joãozinho: acamado entre suas tetas enormes, ele
não se limita a sonhar com o que sucede atrás da moita de ro­
seira brava.
E, a seu modo, também a Madrasta Má e Rapunzel estão
agora absortas em seu jogo. N a sucessão de entregas de suas
figuras de barbante, elas não notam que o Príncipe se liberta
dos grilhões de cabelos de Rapunzel, salta pela janela entre
cortinas esvoaçantes e, com poucos pulos mais, escapa, pois a
floresta começa bem junto à casa.
Tampouco a Menina sem Mãos presta atenção: ela conti­
nua vendo seu filme em cuja seqüência um outro príncipe traz
a felicidade, que não é, entretanto, duradoura; a Madrasta Má
segue manipulando com o dedinho.

397
Lá fora, o coquetel chega ao fjim. Violentas rajadas de
vento. Quem em par se acomodara acha que de repente faz
frio. Transtornados, todos correm para dentro de casa. Sem­
pre servindo chá e sucos, o garçom Rumpelstino diz: “Será
que os Irmãos Raiva Contida já formaram um novo e bom go­
verno?”
As figuras da carochinha lembram-se assustadas da reali­
dade. A menina, cujas mãos são no filme mais uma vez dece­
padas e, portanto, ficam soltas sobre os joelhos, é empurrada
rudemente pelos Sete Anões. A Madrasta Má abandona a
cama-de-gato e muda o canal do Espelho Mágico para Bonn.
Todos, até mesmo Rapunzel com seus longos cabelos,
acotovelam-se para ver o que se passa lá longe.
Em Bonn, o verde continua luxuriante. Trepadeiras e ci­
pós enroscam-se até nas janelas do palácio do governo, en­
trando na própria sala de reuniões. Lá, os Irmãos Raiva Con­
tida realizam a primeira reunião ministerial de seu governo de
emergência, composto de chefões da indústria, bispos, gene­
rais e professores. Eles passam de mão em mão pétalas de ne­
núfar com. as reivindicações das figuras da carochinha: ar puro,
água limpa, frutos sadios. Os bispos e professores balançam a
cabeça, cautelosos e reticentes. Os generais, impassíveis em
suas cadeiras à mesa do ministério, sentem-se incomodados
por aquele capim que cresce por todo lado. Os chefões da in­
dústria, cheios de indignação, gesticulam e dão murros na
mesa de reuniões ministeriais, a qual, coberta de feltro, é pro­
verbialmente verde. Discute-se aos brados e cochicha-se em
segredo. Por baixo da mesa, onde reina a selva, cédulas são
furtivamente passadas a bispos e professores.
Com exceção dos Irmãos Raiva Contida, todos agora se
pronunciam contra as três reivindicações, por mais fáceis de
entender e mais modestas que sejam. Furioso pela primeira
vez, Jacob Grimm dá um murro na mesa. Seu irmão é o único

398
a assustar-se. Os chefões e generais dão-se ares de espanto e
condescendência. Os professores sentem-se melindrados.
Jacob exclama: “O Primeiro-Ministro ainda sou eu!”
Wilhelm confirma: “Os senhores não deveriam esquecer
isáo!”
A resposta são gargalhadas, às quais os próprios bispos se
associam, embora de forma contida.
N a Casinha de Chocolate, vê-se Wilhelm Grimm falando
das três Fadas Boas ao ministério, que se diverte. Todos
acompanham fascinados o que se passa em Bonn. Eles vêem
com inquietação o pouco que vale a palavra dos Irmãos Raiva
Contida.
Nisso, Maria exclama de repente: “O Príncipe, onde
está o Príncipe!?”
Susto, confusão, buscas perplexas. Rübezahl dá uma surra
nos Sete Anões. A bruxa agarra Rapunzel pelos cabelos, já
quer pegar a tesoura. E quando a Madrasta Má diz: “Ele não
pode estar longe!”
Ela desliga o canal de Bonn, no qual Wilhem Grimm con­
tinua falando entusiasmado das Fadas Boas, e procura no Es­
pelho Mágico até localizar o Príncipe correndo.
Alternando-se, a bruxa, Merlim e a Madrasta Má lançam
ao fugitivo fórmulas mágicas e de bruxaria, maldições. O Prín­
cipe tropeça, cai, dá cambalhotas, mas continua andando.
Agora é seu nariz que cresce. Agora ele fica com .orelhas de
morcego. Mas ele não pára de andar. E como as fórmulas se
intensificam, sobrepujam, sobrepõem, ele se transforma em
veado, em unicórnio, em esfera, mas mesmo assim ele pula,
trota, rola, até atingir os limites da floresta — de novo Prín­
cipe da cabeça aos pés —, encontrar a rodovia coberta de
mato e — uma placa envolta em folhagem mostra a direção —
seguir para Bonn.
N a Casinha de Chocolate, o mago Merlim e a Madrasta
Má discutem. (O Sr. Matzerath quer que a bruxa, com o

399
olhos amarelos de raiva, pegue agora de fato a tesoura; mas
não me agrada ver Rapunzel careca, e eu salvo seus longos ca­
belos, jogando Joãozinho contra a bruxa.) Como se tivesse vi­
rado homem atrás da moita de roseira brava, ele simplesmente
toma-lhe a tesoura das mãos: “Isso não adianta!”
Maria exclama: “Ainda não está nada perdido!”
Atendendo instruções de Maria, a Madrasta Má liga o Es­
pelho Mágico de novo para a reunião do gabinete. Apoiado
pelo irmão, Jacob Grimm continua lutando com o corrupto
governo de emergência. Chefões da indústria cochicham com
generais. Embaixo da mesa, professores contam as cédulas,
grana alta, como popularmente se diz. Sobre a mesa, os bispos
sorriem como só bispos sabem sorrir; ao mesmo tempo, eles
giram os polegares ou folheiam o brevivário.
Jacob Grimm exclama: “Ainda sou eu quem estabelece as
diretivas políticas!”
Os chefões da indústria rasgam as pétalas de nenúfar. Um
deles diz: “Mas quem manda aqui somos nós!”
Um outro: “Por cima de nós ninguém passa!”
Todos: “Basta de contos de fadas!”
Aí, vemos Wilhelm Grimm chorar. Jacob senta-se, esgo­
tado. Um dos generais aperta um botão chamando guardas à
sala do ministério e manda prender os Irmãos Raiva Contida,
no que o outro general senta-se depressa na cadeira desocu­
pada do Primeiro-Ministro.
Embora os professores manifestem reservas, os Irmãos
são algemados. Wilhelm diz: “Você vê, irmão, é com esse
desprezo que sempre nos trataram.”
Jacob diz: “Não obstante, nós resistiremos. Escreverei
um memorial.” Ambos vão ser levados pelos guardas.
Aí, o Príncipe despertador-beijoqueiro precipita-se ofe­
gante gabinete adentro. Ele distribui beijos pelo ar e apre­
senta ofegante relatório: “Eu sou, eu tinha, aí eu fui, mas cor­
ri, corri, e agora estou aqui!”

400
Vendo os Irmãos Raiva Contida algemados, ele exclama
depois de uma reverência: “Meus senhores! Ofereço-lhes mi­
nha ajuda serviçal. Tenho porém que lhes solicitar que orde­
nem a imediata soltura dos mui prezados Irmãos Raiva Conti­
da.”
Como militares e grandes empresários parecem indecisos,
o Príncipe dá uma mãozinha: “Para que a gente se entenda.
Sem mim e meus beijos, as coisas aqui não andam. Operação
Bela Adormecida. Deu para sacar!?”
Enquanto os generais continuam em conferência com os
chefões da indústria, um dos bispos tira as algemas dos Irmãos
Raiva Contida, por ordem do recém-empossado General
Primeiro-Ministro; o outro bispo sorri, indulgente. O General
Primeiro-Ministro diz: “Fica, por clemência, na prisão domici­
liar. Assim, os cavalheiros encontram paz para escreverem o
que bem entendam. Por mim, podem ser até contos de fadas!”
Solícitos, os professores entregam os chapéus aos Irmãos
Raiva Contida. Jacob e Wilhelm pegam o chapéu e saem, tris­
tes e de cabeça erguida.
(Como eu partilho a opinião do Sr. Matzerath, segundo a
qual agora não é o caso de focalizar e, muito menos, de sabo­
rear a choradeira na Casinha de Chocolate, a cena pertence ao
Príncipe beijoqueiro.) Ele mostra no mapa da floresta o ponto
onde a cerca de espinhos cobriu a Bela Adormecida, o
Primeiro-Ministro adormecido e o profundo sono de sua co­
mitiva.
Irrompe imediatamente uma atividade febril. “Nível de
alarme número três!” — “Instrução ao comando especial!”
“Suprimir diretamente sono de Bela Adormecida!”
Telefones são localizados dentro do matagal. Ordens eco­
am. Já sentindo o gostinho de Sua felicidade, o Príncipe beija
os bispos, primeiro um, depois o outro, e mostra-se então
pródigo em beijos de ar. (O Sr. Matzerath afirma com toda a
razão: isso é doença. Pior ainda: o beijo encerra a morte.)

401
Nada de mexer nisso.
Ai, se alguém se curva,
lança sombra, entra em ação.

Nunca mais o idiota de um príncipe


deve levar a cabo seu papel,
para que o cozinheiro dê, sonora,
a bofetada no ajudante de cozinha,
além de forçosas conseqüências mais.

Basta um só beijo.
Depois, volta tudo o que dormia,
volta pior que antes;
até parece que nada aconteceu.

Mas num sono de Bela Adormecida,


ainda estão todos presos
os que soltos dariam medo.

Como todas as outras emissoras de rádio, o Terceiro Pro­


grama também anunciou hoje, repetidas vezes, exercícios de
alarme para um caso de emergência. O uivo de sirene gra­
duado terá diversas significações. Apitos que aumentam e di­
minuem de volume, o som de sirene constante, etcétera. Isso
é preciso aprender. Daí, o apelo a todos, para que liguem os
aparelhos de rádio a uma determinada hora e ouçam as impor­
tantes mensagens. Essas instruções devem ser seguidas. Quem
ainda ouve o eco dos alarmes e fins de alarme dos tempos da
última guerra está solicitado a refrescar seus pavores.
Mais tarde, minha ratazana de Natal e eu ouvimos significa­
tivos uivos de sirene. O estaleiro das proximidades está equi-

402
/ A

pado para a paz e para a catástrofe. N ós distinguimos o pré-alar-


me, o alarme aéreo, o fim de alarme. Tudo correu como anun­
ciado. Agora, a gente sabe.
Daqueles apitos nuariceados emanava estranhamente uma
sensação de proteção, que garantia segurança. N ão seremos
pegos de surpresa.
Depois, ouvimos a Rádio-Escola: algó sobre educação para
o trânsito; então, um assunto pedagógico sobre como lidar com
crianças de educação difícil; e então, People Talking. N o co­
meço do noticiário foi dito que o fracasso da conferência de
cúpula de Bruxelas deveria ser avaliado apenas como um fra­
casso passageiro: lá pelo fim, foi comunicado um êxito: em
Uppsala, na Suécia, tinha-se conseguido isolar material heredi­
tário de dois mil e quatrocentos anos de idade, que se encon­
trava em múmias egípcias; genes velhíssimos, que estavam sendo
agora multiplicados em cultura de tecidos: um progresso.
Minha ratazana de Natal e eu temos a mesma opinião: es­
sas notícias são só para inglês ver. Pois em bora tudo continue,
nada anda mais. N o Terceiro Programa, seja em Bruxelas ou
Uppsala: o fôlego acabou. O que ainda existe são reflexos,
adiamentos, violação de múmias! Mas, enquanto eu impreco
contra os caçadores de mordomias de Bruxelas e os captado-
res de herança suecos — Imagine você, eles agora transferem
informações mumificadas para células fresquinhas! —, minha
ratazana se enrosca sonolenta, como se do ponto de vista dos
ratos não valesse a pena ficar de vibrissa em pé.
Então, eu conto para ela o que descobri recentemente em
Hameln quando, à margem da programação do festival, visitei
a cripta da igreja de São Bonifácio.
Agora eu sei, rata. Foi depois das Cruzadas de Crianças e
uns sessenta anos antes de surgir a peste. Naquela época, as
pessoas andavam bastante confusas. Ninguém sabia o que era
certo. Durante muitos anos não tinha havido imperador, só
chacinas. Cada qual fazia o que bem entendia, e pegava o que

403
não tinha. O que não faltava era medo. Medo do que estava
por vir. Medo de tudo e de todos. Gente moça percorria o
campo e atravessava as cidades, em todas as direções; no Oes­
te, eles subiam o Reno. Dançavam como se tivessem sido pi­
cados, e flagelavam-se até sangrar. Suas canções, aqueles uivos
do flagelo, davam medo aos judeus, pois, impelidos pelo me­
do, os flagelantes matavam os judeus.
Outros jovens, porém, mais razoáveis e menos medrosos,
tomaram o rumo do Leste, da Morávia e da Polônia, chegando
até a Caxúbia e a terra dos vinetos, onde se assentaram na
costa do Báltico. Em Hameln, terão sido cento e trinta rapazes
e moças que, no dia de São João, datado de 26 de junho do
ano de 1284, seguiram um aliciador que, segundo consta, teria
tocado maravilhosamente a flauta.
Acredite, ratazana, nenhuma crônica fala de vocês. Os
pesquisadores nunca puderam comprõvar que o flautista se
ocupasse secundariamente com caçadas aos ratos. E mesmo o
pensador Leibniz limitou-se a especular, lançando a hipótese
mais que plausível de uma tardia Cruzada de Crianças. O que
há de positivo é que os ratos foram inventados, porque as pes­
soas se diziam que quem seduz nossos filhos — nem que seja
a uma imigração bastante racional — é um caçador de ratos;
quem caça ratos, também caça e seduz crianças.
Desde que estive na cripta da catedral de São Bonifácio,
eu acredito, porém, que a história transcorreu bem diferente.
Em Hameln sempre houve muitos moinhos e celeiros, e por­
tanto também ratos. E claro que as pessoas que viviam do co­
mércio de cereais não gostavam de ratos. Para qualquer mo­
leiro, comerciante de trigo ou mestre de corporações corres­
pondentes, eles eram uma» praga e nada mais. Entretanto,
como a época *era tão louca, seus filhos começaram a brincar
com os ratos. E possível que eles quisessem aborrecer os pais,
dando de comer aos ratos e levando-os consigo em público,
como as crianças malcomportadas gostam de fazer atualmente.

404
E como os punks de hoje. em dia, as crianças daquela época
carregavam seus ratos de estimação ao ombro, aninhados nos
cabelos, e por baixo da camisa. Ratazaninhas apontavam de
dentro de bolsas e sacos.
Isso causou aborrecimentos, brigas em família. Por decisão
do Conselho, ficou proibido brincar com ratos, dar-lhes de
comer, e muito menos carregá-los consigo. Algumas crianças e
jovens tinham medo de castigo; elas cederam e ficaram boazi-
nhas. Mas cerca de cento e trinta crianças de Hameln não se
deram por vencidas. Elas enfrentaram a proibição, juntaram-se
com seus ratos e fizeram passeatas subindo e descendo a Rua
dos Padeiros, percorrendo a Rua da Catedral até o rio Weser,
passando pelos moinhos d’água, atravessando o bairro sorábio
até o Mercado e a Prefeitura, que ocuparam por algumas ho­
ras e denominaram blasfemicamente de Ratatura. Chegaram a
levar seus ratos à igreja de São Bonifácio para a missa e o ofí­
cio vespertino; estavam completamente loucas por ratos, para
não usar a expressão oficial da época.
Uma ou outra criança foi chicoteada em praça pública e
colocada no pelourinho, mas como entre os cento e trinta se
encontravam, maníacos por ratos e incorrigíveis como os ou­
tros, os filhos dos cidadãos de maior renome, até mesmo fi­
lhos e filhas de Conselheiros, os jurados não ousaram
decidir-se por penas de tortura, como o estiramento, o alicate,
o ferro em brasa.
Porém, quando correu o boato de adoração a Satanás e
culto rático, sendo que a cripta da Sé sempre dava o que fa­
lar; quando os cento e trinta começaram a vestir-se à moda
dos ratos e, guarnecidos com caudas peladas, saquearam tabu­
leiros de pão e carne em plena luz do dia, igualando-se, sem­
pre mais selvagens, a seus ratos, os curtidores e carregadores
começaram a resmungar contra a negligência e os panos quen­
tes. Nas lojas das corporações faziam-se discursos rebeldes.

405
Do alto dos púlpitos, dominicanos clamaram contra a cambada
de ratos humanos.
Por fim, agora sob pressão dos padres e provavelmente
também por medo de corporações amotinadas, o Conselho e
os jurados decidiram em sessão secreta providências as mais
severas. Um gaiteiro desconhecido na cidade, bom na flauta e
na gaita de foles, foi recrutado de fora contra um adiantamento
para conquistar as crianças embrutecidas e, um dia — mar­
cou-se São João —, como que a fim de um passeio alegre, sair
com elas pela Porta Leste, levando-as ao som de sua flauta até
o vizinho M onte do Calvário, em cuja gruta mais profunda o
flautista começou a festejar uma festa com as cento e trinta
crianças de Hameln e seus ratos de colo. Fritaram lingüiça de
porco e beberam cerveja de cevada. N o revezamento da dan­
ça, consta que os ratos também dançaram. E ergueu-se um
canto infernal.
Mas, no melhor da festa, e quando o cansaço tomou
conta das crianças por efeito da cerveja de cevada, o flautista
esgueirou-se da gruta, cuja entrada, feito uma porta de aço
desse tamanho, foi então vedada pelo meirinho da cidade,
murada por pedreiros de corporação, e, por fim, entulhada
com carregamentos de areia dos camponeses e aspergida sem
misericórdia com a água benta dos padres. Parece que só gri­
taria pouca escapou da gruta. Boatos mais tarde em voga sa­
biam apenas de um rato que escapara.
Muita lamentação pelas crianças que sumiram tragadas
pela terra. Mas o flautista foi pago com prata sonante. E tam­
bém a cidade teria em breve ganho mais. uma lenda. Em sua
crônica, encontrava-se datada e anotada ambiguamente a pala­
vra “partida”. Desde então, fala-se de Hameln com mentira e
falsidade. Isso gera vingança, ratazana, isso gera vingança com
certeza...

406
As crianças, mais e mais amedrontadas.
Cabelos de cores berrantes,
rostos pintados de verde-mofo
'ou branco feito cera,
para espantar o medo.
Perdidos para nós, seu grito é mudo.

Meu amigo, que envelheceu comigo


— a gente pouco se vê, manda lembranças de longe —,
aquele da flauta, que consegue variar sempre
as cadências, depois de muitas vezes quase
ter perdido o filho,
ele tinha vinte anos,
perdeu-o agora de vez.

Filhos, bíblicos, ou cuidados do jeito que for,


escapam cedo.
Ninguém mais quer ver o pai agonizante,
aguardar a bênção, carregar a culpa.
Nossa oferta — sempre mais barata — só a nós ainda comove.
Viver assim não paga.
Para esse percurso — por nossa medida —
eles não têm tempo.
O que nós agüentamos, animando-nos com graça,
não deve dar mais para agüentar.
Nem mesmo um não irado querem eles
opor a nosso sim caxias;
desligam-se simplesmente.

Ah, querido amigo, que foi


que nos ensinou a duvidar, tão duradouros?
Desde quando erramos coerentes atrás de nossos alvos?
Por que somos possíveis sem sentido algüm?

407
Como eu temo por meus filhos, por mim;
pois mesmo as mães, que compreendem sempre tudo,
não entendem mais nada.

À deriva, não mantendo rumo. Em direção leste, apesar do


vento contrário, e mais que isso: o destroço do Dora, antigo
veleiro de carga, posteriormente llsebill barco de cabotagem a
motor, e, afinal, navio de pesquisa A Nova llsebill, põe-se à
capa na altura da península Hela; circunda essa língua de t<erra
que como tal estava coberta pelo mar quando do fim, mas que
agora se alça e transforma a baía em lagoa; toma rumo sul en­
trando na lagoa e dirige-se — caso se possa dizer tanto de um
destroço — ao quebra-mar e ao porto da cidade de Gdansk,
que continua reconhecível de longe pelas torres da velha ci­
dade hanseática de Danzig e exerce um magnetismo irresistí­
vel — não fosse assim, como poderia, além de mim, por tantas
vezes, atrair agora um destroço abandonado.
O destroço vai a meio vapor. Vejo isso de minha cápsula
espacial, sob a qual o Báltico volta sempre a tremeluzir. Na
faixa subjacente a meu percurso orbital prefixado, o delta do
Nilo, por exemplo, ou o golfo de Bengala, ou as ilhas de Sun-
da, maiores e menores, nada oferecem sob seus véus; mas
basta que eu, vindo do Norte, siga minha órbita, e a costa do
sul da Suécia se delineie, para que encontre claramente a
meus pés o mar Báltico, meu mar, como uma poça d’água que
o olhar abarca. E fato que desapareceram Gotland, Bornholm,
todas as ilhas, mas em Schonen eu localizo estruturas agríco­
las, lavouras.
Meus instrumentos óticos permitem que eu focalize bem
de perto o destroço, que não segue mais à deriva, e sim man­
tém rumo. E verão. Também no interior dessa região, os cam­
pos de girassol e outras lavouras anunciam o começo do ama­
durecimento, vida. Já me sinto tentado a chamar Terra! Terra,
venha! Terra, responda! — mas bem sei que não existe mais
ninguém que exclame Roger! e: alguma coisa, Charly? Só ela
sabe a resposta, distrai-me com novidades, quer saber mais do
que eu consigo ver daqui/fareja sensações e ouve até...
.Preste atenção! disse a ratazana, ruído de motor. Preste
bem atenção: é um barulho de motor de navio. Alegre-se si-
nhozinho, sua llsebill está tripulada. Se não, como é que o mo­
tor podia. Mesmo não sendo suas mulheres, alguém tem que
ter. Estava para lá de escangalhado. E agora, rodando que dá
gosto. Ah, o velho diesel. Correndo solto, você está ouvin­
do?!
Nunca a vi tão excitada. Saltava sobre a ilhota, subia e
descia a Ponte Comprida, entrava no estaleiro, corria pelos
muros dò cais ao longo do porto, pulava finalmente sobré uma
cabeça de amarração, procurava palavras, não conseguia com­
pletar uma frase.
Sinhozinho, queridinho! exclamou. Será? Pode ser, não
é?, que mesmo com o gelo, frio, escuridão. Apesar das tempes­
tades de poeira, essa maldita dádiva radiativa, que até nós mal
conseguimos... E se, na hora? Nem dá para pensar. Quem sa­
be, alguns exemplares. Olhe só a nossa expectativa. Estamos
com tanta esperança. Mas com tanto medo, também...
Ela não estava sozinha sobre as cabeças de amarração;
bandos e mais bandos de ratos ocupavam o cais. Eles se com­
primiam sobre todos os guindastes e rampas do Estaleiro Le-
nin, no alto dos silos junto^ao tanque de enxofre que eles cos­
tumavam evitar, sobre as paredes elevadas do dique seco. Em
qualquer ponto de onde a visibilidade fosse boa: na ilhota,
onde se encontram o Mottlau e o braço morto do Vístula; em
ambas as margens do Mottlau. No canal Novo, que antes se
chamava Novy Port, e cujas zonas residenciais encontram-se
soterradas por diques de lama que vão até depois de Wrzeszcz
e formam agora um cinturão verde em torno do porto, co­
berto de plantações, em geral de girassol, e chegando até o

409
1
quebra-mar: ratos, ratos por toda parte, curiosos, agitando-se
empilhados uns sobre os outros, enrolados em grossos nove­
los.
E quando o barulho do motor de 180 H P deixou de ser
questionável ou mero fruto do anseio, passando em vez disso
a ocupar meu sonho como único ruído no silêncio que reina­
va, pois os ratos estavam hirtos; quando converteu-se em no­
tícia o boato de que o casco do antigo navio de pesquisas hão
iria entrar no moderno porto de Ultramar, mas que rumava
pelo contrário para o velho porto histórico em cuja Ponte
Comprida desde o último dia apenas dois navios turísticos ou-
trora brancos encontravam-se atracados; quando, por fim, o
destroço do navio, cujo convés permanecia inanimado, encos­
tou com o ronco de seu motor diante das ruínas de armazéns
do tempo da Segunda Grande Guerrae dos armazéns reconstruídos
do tempo de entreguerra, encostou com perfeição náutica de­
fronte à Ponte Comprida; quando entre os bandos de ratos
alastrou-se a informação de que os adventícios tinham atra­
cado definitivamente na Ilha de Armazéns, que em polonês
outrora chamara-se Spichlerze, então, os ratos que estavam na
zona do porto e do estaleiro da cidade nova, no Novo Canal e
nos diques de lama acorreram numa torrente à cidade velha e
direita, atravessando suas ruelas até o porto do Mottlau, de
forma que, logo depois de encostado o destroço, eles entu­
piam a Porta das Mulheres e a dos Padeiros, a Porta Verde e a
Porta do Espírito Santo, inundavam os canteiros das margens
do rio, abarrotavam janelas das casas góticas dando para o
Mottlau, e formavam cachos de ratos que pendiam de suas
cumeeiras.
Excesso de carga sobre os navios turísticos enferrujados.
Coalhadas sem exceção as praças e mirantes. A torrezinha do
observatório tomada por ratos. Repletos os restos carboniza­
dos da Porta do Guindaste. Irreconhecíveis as figuras orna­
mentais da vasta Porta Verde. Tão-somente a orla da Ilha de

410
Armazéns, ainda agora debruada de ratos, se esvaziara ao en­
costar o destroço. Foi poupada, como se quisessem abrir es­
paço para o que iria acontecer.
Chame a isso respeito ou temor, de qualquer forma im-
pujiha-se distância. Nós pressentíamos que algo viria, mas não
sabíamos qual seria a configuração. A reza coletiva invocara
imagens, mas eram tantas que se apagavam. E embora nosso
canto em Santa Maria — e quantas vezes você não nos viu
reunidos em devoção — tivesse por meta o retorno do huma­
no, e em cada oração incluíssemos a velha velhíssima e seu ga-
rotinho murcho, não ficara claro de que forma o homem res­
suscitaria; nem mesmo do contorno de sua sombra suspeitá­
vamos.
Não é milagre que abundassem especulações, disse a ra-
tana. Como será ele? Do tamanho normal que conhecemos?
Agigantado? Com um olho só ou com quatro olhos e visão
circular? E embora no altar-mor de nossa igreja principal ti­
véssemos agrupado plasticamente aqueles anõezinhos azuis
e brancos, esse brinquedo em forma de gente produzido em
massa no período humano conclusivo, nós esperávamos que o
homem não nos fosse trazido de volta como um gnomo. N os­
sas expectativas permaneceram indefinidas. E, no entanto, de­
veríamos ter sabido ou podido imaginar o que nos esperava.
Testados, submetidos a longas séries de experiências, expos­
tos a venenos e antídotos, servidores da peçquisa humana e,
por volta do fim, até mesmo altamente distinguidos, premia­
dos, nós sabíamos o que a inteligência deles tinha idealizado
em última instância, quando se tratava de aprimorar a espécie
humana, pois era assim que se chamava seu programa de pes­
quisas. Mas o que surgiu, por assim dizer veio à luz, assus-
tou-nos, a despeito de toda a alegria antecipada.
Assim que o destroço se pusera de costado entre duas
cabevdS de amarração, nós colocamos em torno delas girassóis,
beterrabas especialmente grandes, espigas de milho, além de

411
pombos campestres e pardais depenados, e isso às pressas,
para dispersar-nos rapidamente antes de sua aparição. Eu já
disse que montes de ratos reunidos em feixes conseguiram ba­
ter os sinos na torre de Santa Maria e na armação de outras
torres de igreja? Mais de cem gordos ratos velhos pendurados
nas cordas. De qualquer forma, quando os adventícios surgi­
ram e nós ficamos paralisados pela expectativa, os sinos repi-
caram como nos tempos humanos.
E eu os vi saindo da escotilha de proa, subindo eretos,
andando, parados então. Vi-os trocando displicentemente de
perna de apoio, perna solta. Teriam mais ou menos o tamanho
de um guri de três anos. De ambos os sexos, e só parcial­
mente cobertos de pelugem rática, eles apresentavam propor­
ções humanas e tinham enormes cabeças de rato sobre longos
pescoços, embora eu não tenha localizado nem mesmo um co-
toco de rabo.
A ratazana, que estava postada de lado, defronte a eles no
beirai do telhado da Porta Verde, disse: A princípio, eles fin­
giram que não nos tinham notado. Os sinos continuavam repi-
cando. Eles esticavam as pernas, andando de um lado para ou­
tro sobre o convés, se espichavam e sacudiam. Só então, eles
acenaram para a margem fronteira e o alto das cumeeiras e
torres das casas e portas da cidade, displicentemente, como se
quisessem dizer oi. Se até aí nós tínhamos tentado.empurrar
para ver melhor, agora nós estávamos paralisados. Acredite,
patrão: não se mexia um rabo. Apenas nas vibrissas se mani­
festava vida. Susto? Mas decepção também veio à tona; e co­
meçou a dar vontade de rir, de rir dos adventícios, mal eles
tinham chegado. Mas o susto prevaleceu. Graças a Deus o re-
picar dos sinos foi aos poucos se esvaindo.
De minha parte, eu me divertia com o que a ratazana
mostrava. Eu ria no sonho. Quando os peludos homens-ratos,
ou cabeludos ratos-homens — primeiro eram cinco, depois
sete e, finalmente, doze — amarraram o casco da Nova llse-

412
bill, sendo que dois ou três desembarcaram, eles viram junto
às cabeças de amarração os presentes de boas-vindas amonto­
ados pelos ratos. Sem, maiores cerimônias, eles apanharam e
devoraram beterrabas, milho e girassóis, inclusive sabugos e
cálices. Não tocaram nos pombos e pardais. Visivelmente en­
joados pela carne crua, eles jogaram os cadáveres depenados
no Mottlau. .
Isso foi quando os últimos sinos se calaram. A imobili­
dade dos ratos dissolveu-se. Eles se retiraram de todas as ca­
sas, das cumeeíras, das torres das Portas, do cais da Ponte
Cpmprida, e igualmente dos navios de turismo diante da Porta
do Guindaste em ruínas. Foi um sumiço silencioso, do qual eu
deduzia decepção. Reuniram-se provavelmente em Santa Ma­
ria, sítio de seu recolhimento.
Sem que sua imagem aparecesse, a ratazana me disse mais
tarde, quando eu já queria sonhar com outra coisa: E por esse
ridículo produto da ciência humana — você há de lembrar-se,
patrão — nos concederam o Prêmio Nobel. Comprovados
serviços no terreno da biotecnologia, foi dito. E deu nisso:
homens-ratos ou ratos-homens, como se vê. Os adventícios!
Escárnio das nossas esperanças.
A princípio, nòs os chamamos assim: os adventícios. Por
um tempo, falou-se de manipulicos, abreviando: pulicos. Por
fim, lembramo-nos daqueles dois digníssimos senhores que na
fase conclusiva da humanidade tinham desvendado a estrutura
do ADN, cindido o núcleo da célula, tornado legíveis as ca­
deias de genes, e chamavam-se Watson e Crick; daí para a
frente, o nome dos adventícios passou a sen watsoncricks.
Dadas a gestação mais longa — dezoito semanas — e as ni­
nhadas menores — quatro a cinco filhotes —, eles se multipli­
cavam mais lentamente que nós. De resto, cinco dos doze
watsoncricks que desembarcaram eram fêmeas e estavam pre-
nhes. Deveríamos tê-los aniquilado a todos, imediatamente.

413
O Sr. Matzerath, a quem contei a chegada dos homens-
ratos, considera o tamanho de gurizinho suficiente, e fala de
um esboço no fim das contas bem-sucedido. Sobre minha
mesa há excesso de correspondência, mas nenhuma notícia de
Travemünde. Ultimamente, eu dei para sonhar repetições e
variações. Já não basta que a bruxa, zás, corte os longos cabe­
los de Rapunzel com uma tesoura que a Madrasta Má lhe en­
trega; sem ser chamada, a ratazana volta sempre a me exibir a
mesma cena: primeiro, o cabelo das mulheres — os cachos de
Damroka — pega fogo, e em seguida elas se carbonizam de
fio a pavio. Não, em vez disso, as mulheres ficam cada vez
mais pálidas, reduzindo-se finalmente a vestígios de tinta so­
bre uma argamassa corroída que o pintor Malskat, agora a ser­
viço do Sr. Matzerath, lava com uma escova dura, para esbo­
çar então com pinceladas certeiras cinco mulheres que, entre­
tanto, se assemelham todas à atriz de cinema Hansi Knoteck e
não têm o menor traço em comum com minha Damroka.
Ainda não chegou nenhum cartão-postal de Travemünde.
No Terceiro Programa, a vida continua, ^ toda semana, pon­
tualmente, minha ratazana de Natal ganha serragem fresca,
conforme prometido. Em Hameln, as festividades chegam ao
fim sem maiores ocorrências. A notícia de Uppsala, segundo a
qual a substância hereditária isolada de múmias do Egito an­
tigo começa a reproduzir-se como clone, aparece em meus
sonhos em capítulos sucessivos, emprestando aos watson-
cricks, nem bem eles desembarcaram, um perfil de antigui­
dade histórica: como que provenientes do tempo, do primeiro
Radamés, eles se postam ou caminham estatüários, ombros
quadrados, mãos, pés e umbigo estilizados; e mesmo suas ca­
beças de rato tiveram provavelmente no delta do Nilo seu ha­
bitat originário.
Coisa que o Sr. Matzerath não pode admitir. Ele insiste
em ver traços suecos nos desembarcados. Mas concorda co­
migo quando eu, dentre o grupo de doze, destaco cinco ou
seis, pois usam jóias. Nem bem se decidiram à primeira volta
em terra, e já os vejo de penduricalhos de prata, colares de
marfim, ônix, argolas de ouro.
Isso aí, exclamo em sonho, é um cinto tecido com fio de
prata, que vi pela última vez em meio a badulaques no saco de
Viagem de Damroka; agora, ele pende frouxo daquela barriga,
apesar da gestação adiantada. E aquele cordãozinho de coral
por baixo de uma cabeça de rato, servindo de enfeite a outra
manipulação sueca, eu o dei certa vez de presente à oceanó­
grafa — mas isso ela terá esquecido — quando ainda estáva-
mos de bem. Também reconheço uma peça e outra do estojo
da timoneira, que ela não se cansava de usar, embora tenha­
mos terminado logo. Brincos! Uma das mulheres-ratos, grá­
vida como as outras, usa brincos com longos pingentes; se eu
conseguisse lembrar quem e quando — ainda sei o preço —
ganhou de mim essas preciosidades: pelo aniversário, de Na­
tal, ou no dia das mães...
A respeito, a ratazana com que sonho diz: Mesmo que o
mundo desabasse, suas histórias de mulheres não iam acabar.
Olhe melhor, paizinho! Anéis que você barganhou por aí,
comprou sem maiores discussões, deu sempre de mão aberta.
Quem os usa agora são os pulicos machos, e o gozado é que
no polegar.
Então, a bruxa pega de novo a tesoura," e aí Rapunzel
chora de cabeça pelada. Então, eu vejo Malskat, que, sem te­
mer quebras de estilo, já está de novo em ação no alto do an­
daime, impondo uma severa antiguidade egípcia aos afrescos
góticos; trata-se de um auto-retrato, que ele realiza com rápi­
das pinceladas: jovem e um tanto eulenspiegeliano, ele se
aperta entre as figuras acabadas de dois senhores idosos que
casam muito bem com os rasgos faraônicos. Então, sonho cor­
respondência com carimbo de Travemünde. Então, vejo o Sr.
Matzerath contratando os Irmãos Raiva Contida. Então, o re­
lógio de cuco bate doze vezes. E agora os watsoncricks de­
sembarcam uma vez mais ao repicar dos sinos...
0 UNDÉCIMO CAPÍTULO, no qual os adventícios tomam-se seden­
tários, o sono da Bela Adormecida termina em tragédia, trigêmeos
surpreendem Hameln, em Lübeck chega a hora da sentença no pro­
cesso de falsificação de pinturas, a Ilha de Armazéns fica apertada,
mais uma vez o Sr. Matzerath sabia tudo de antemão, os watson­
cricks impõem ordem, e — como o correio traz boas notícias — a
música consola.

Nossos sonhos se cancelam.


Nós dois, lúcidos,
um diante do outro,
até cansar.

Sonhei com um homem,


disse a ratazana com que sonho.
Falei com ele, até que acreditou
que me spnhava, e em sonho disse:
a ratazana com que sonho crê sonhar-me;
é nossa recíproca leitura: em espelhos,
mútuo interrogatório.

Seria possível que ambos,


a ratazana e eu,
sejamos sonhados, sonho
de uma terceira espécie?

N o fim, esgotadas as palavras,


veremos o que é real e não apenas
possibilidade humana.

416
Têm olhos azuis. Aos poucos, ganham forma. Lançam
sombra e possuem qualidades, algumas gozadas.
'Se, há pouco, dissemos que, abstraindo-se das cabeças e
da pelugem parcial, eles possuem proporções humanas e an­
dam perfeitamente eretos, podemos dizer agora: seu pêlo é
louro, e por isso os olhos azuis não causam estranheza nas
enormes cabeças de rato; como ingrediente, os genes suecos
transferiram-se de forma tão.típica aos ratos de laboratório,
tanto de pêlo branco, quanto de olhos vermelhos, que a ori­
gem escandinava dos imigrantes não pode mais ser posta em
dúvida ou confundida com contribuições exóticas: eles são
inequivocamente um produto daquele anexo da Universidade
de Uppsala — os engenheiros genéticos de lá correspondiam
com seus colegas de Boston, Bombaim e Tífilis —, que já
cedo armazenara culturas celulares enriquecidas. A ciência es­
tava sintonizada mundialmente. Por isso, o desembarque re­
cebido com bimbalhar de sinos deve ser considerado como
continuação da história humana. Religava-se o que por um
tempo relativamente curto a Grande Explosão interrompera:
mais uma invasão. Pois assim como vieram outrora navios car­
regados de godos que tomaram pé na região da foz do Vístula
e, depois de um assentamento efêmero e pouco animado, se­
guiram rumo ao Sul para cumprirem sua parte na transmigra-
ção dos povos, também as criaturas libertadas na capital de
Gotland devem ser entendidas como uma força que — como
já agora é visível — fará história.
Quem disse isso? A ratazana com que sonho? O u fui eu
que repeti o ditado? O u ela, dizendo o que pus em sua boca?
O u a ratazana e eu, falando em sonho, síncronos?
Ficamos ambos confusos com a aparição dos manipulicos,
com seu cândido olhar azul maçantemente louro, embora a ra­
tazana tenha ansiado pela chegada dos adventícios, que eu te­

417
mera. N o começo, nos refugiamos em risadas: Eles não são
gozados, de m orrer de rir? Esses braços feito alças! Esse passo
de cegonha, com os joelhos esticados. E os machos encobrem
o sexo quando mijam, as fêmeas se agacham. E os gestos sole­
nes deles, os cumprimentos cheios de cerimônia. São mesmo
esquisitos!
Desde o desembarque nós observamos como eles se
apossaram de terras, sem qualquer impedimento por parte dos
bandos de ratos. Ocuparam a Ilha de Armazéns entre os dois
braços do Mottlau — espaço prenhe de história, portanto — e
urinaram e defecaram sobre as pontes que levam à cidade di­
reita e à cidade baixa, delimitando assim seu território ao
modo habitual dos ratos, e agindo como se suas pretensões es­
tivessem asseguradas.
Deve ter sido assim, disse a ratazana, disse eu, que os Ca­
valeiros Teutônicos conseguiram a seu tempo impor a pre­
sença de sua Ordem. E apoderando-se sem mais nem menos
da Ilha de Armazéns, os adventícios acabaram não apenas to­
lerados pelos bandos de ratos do lugar, mas também respeita­
dos como manifestações de uma força superior: à devida dis­
tância. Não, nada de tomar contato, nada de brincar de medir
forças. E também nada de respeitos subservientes, uma vez
passado o toque de sinos inicial. N o máximo, chegamos ulti­
mamente a nos acercar sobre as pontes, farejamo-nos: estra­
nhos.
Estamos aguardando. Dia a dia nós os observamos, sem
por enquanto conseguir entendê-los. Mas num ponto minha
ratazana e eu concordamos: dos homens-ratos de manipulação
sueca — ela diz demonstrativamente: ratos-homens — emana
uma força latente, inerte, possivelmente bruta, que eles, por
enquanto, não precisam demonstrar; mas mesmo assim, logo
se vê que, se for o caso, estarão dispostos a agir com energia:
calmamente e sem perder tempo, sempre guardando as pro­
porções, jamais desmedidos. Eles encarnam Poder, não a vio­

418
lência cega. Uma disciplina displicente lhes é inata. Vivem
dentro de sua Ordem imperceptível, sem que para isso capa­
tazes tenham de mordê-lçs, o que entre os ratos infelizmente
é necessário.
A ratazana diz, eu confirmo: depois que se dissipou o ri­
dículo de sua imagem, vemos que os adventícios são belos, de
uma beleza assustadora. N ão a distância, mas de perto, obser­
vados das pontes, eles não são clones idênticos, e sim indivi­
dualidades bem caracterizadas, cada qual com sua beleza pró­
pria. O azul de seus olhos vai de um tom claro, ora aguado,
ora leitoso, passando por um frio azul-metálico, até chegar
àquele azul-escuro por vezes repentinamente negro que na
época humana tinha a fama de olhar de herói. E tudo isso en-
trecortado por momentos daquela cor luminosa do céu: sua
candura azul que nos comove.
A ratazana e eu vemos como eles medem com seus pas­
sos a Ilha de Armazéns, ocupando serenamente o território:
louros como o trigo e a crosta de pão, como o ouro, com tons
de ruivo. Ficam parados, pensando, diante das ruínas da
guerra intermediária; e mais adiante, não hão de suspeitar
que, paralelamente à Adebargasse, ao longo da Münchengas-
se, se perdia outrora o último gueto judeu. Nessa história eles
não estão metidos. Não têm um passado a superar. Entram em
cena programados a partir de zero, e sem que culpa alguma os
coaja. Sentimos inveja.
Possuem algo de desajeitado. As pernas são um tanto ar­
queadas. N em todos têm cabelo liso. Em alguns, o pêlo desce
encaracolado pelas costas, os braços, as coxas. Mesmo sobre as
falanges de dedos e artelhos — sim, são mãos e pés humanos
que lhes servem de garra, apoio, recurso — escrespam-se pê­
los esparsos. Os de cabelo liso mantêm-no longo, repartido ao
meio. Também seus olhos suecos, azuis de claro a escuro, es­
tão envoltos por pestanas louras.
Eu acho isso bonito. A ratazana, pelo contrário, pretende
constatar, além dos ingredientes ráticos, contribuições do
porco doméstico. Quando ela aponta para a falta de rabos
compridos, eu verifico que a coluna vertebral dos homens-ra-
tos desemboca em dois rabichos enroscados sobre o traseiro,
mínimos, sem dúvida, mas de qualquer forma localizáveis. A
ratazana diz isso sem ironia, como se a manipulação de genes
humanos junto a suínos e ráticos fosse preferível a um pro­
grama que se limitasse a genes ráticos e humanos.
Certo, o divertido rabicho enroscado é um argumento.
Depois de alertado diversas vezes quanto à sua presença, não
posso deixar de vê-lo. Entretanto, eu avalio de outra forma es­
ses rabos de porco, diminutos e ainda por cima torcidos. Re­
cuso-me a designá-los como rabos de porco, menciono possí­
veis caprichos da natureza manipulada, e continuo insistindo
na nova espécie: homem-rato ou rato-homem. Esse enrique­
cimento basta. Apenas o rático pode ou deve tornar-se sensí­
vel no humano. Desde que nós tradicionalmente não existi­
mos mais, voltamos, repensados, a ser pelo menos possíveis.
Unicamente o rato pode elevar e aprimorar o homem. Apenas
essa cadeia de genes superou a natureza. Tão-somente desta
forma conseguiu-se continuar a Criação. Falar de ingredientes
suínos — por favor, ratazana! — seria difícil para mim.
Eles vivem aos pares. Uma dominância feminina chama a
atenção, nítida, sem ser excessiva. A mulher-rato não se res­
tringe a criar as ninhadas. Depois de dar de mamar a seus tri-
ou quadrigêmeos, as fêmeas perambulam pensativas, en­
quanto os machos tomam conta da prole. Fica claro que, no
fim das contas, a igualdade entre os sexos acabou realizada. O
que em tempos humanos não fora possível, levando a brigas
na copa e cozinha, no quarto, sem solução por maior que
fosse o amor, é vivido agora: completamente à vontade, na
harmonia pedida a Deus, embora um tanto enfadonha. Por
mais que eu deseje descobrir tensões e princípios de desaven­
ças em seu dia-a-dia, não se ouve um estalido, não se vê uma
chispa, tudo segue num tédio convincente.
Mal tinham desembarcado, eles procriaram. E apesar de
não se multiplicarem no mesmo ritmo dos bandos de ratos do
higar, já os primeiros novos pares estão se acasalando, e as
manipulações suecas constituem um clã que em breve formará
um povo. A ratazana e eu contamos mais de cem pares de
olhos azuis, cujo território é a Ilha de Armazéns e que que­
rem expandir-se. Dois dos prédios de enxaimel de cinco anda­
res que foram reconstruídos depois da guerra intermediária
estão ocupados até o teto, funcionando como casa de crianças
e de jovens. Com a alimentação, eles ainda não precisam
preocupar-se, pois os armazéns estão cheios de provisões dos
bandos de ratos daqui: espigas de milho, montes de trigo, len­
tilhas e sementes de girassol acantonadas.
A ratazana com que, segundo creio, sonho vê isso com
maus olhos; e eu, que — como ela diz — por ela sou sonhado,
fico igualmente apreensivo: toda provisão acaba um dia. Mais
cedo ou mais tarde, isso traz problemas.
Por sua vez, ela se queixa de omissões: Deveríamos tê-los
exterminado assim que desembarcaram. Eram apenas doze.
Teria sido uma barbada, zás, acabar com eles.
Em princípio, dou razão a minha ratazana, e provavel­
mente até fui eu quem solicitou a eliminação imediata dos
manipulicos, temendo pelos bandos de ratos estabelecidos na
região de Danzig. Seja como for, nós concordamos: essa paz
engana. D entro em pouco, a Ilha de Armazéns ficará super-
povoada. A quarta geração de olhos azuis já está púbere. N os
depósitos, as sementes de girassol vão baixando, andar por
andar. Os estoques do antigo armazém da caixa de pecúlio
Raiffeisen — tratava-se de cevada — já foram visivelmente
consumidos. Espigas de milho roídas bóiam em quantidade
sempre crescente em ambos os braços do Mottlau. Os ratos
não estão na indigência, mas mesmo assim surge a apreensão:

421
que vai acontecer quando tiverem consumido tudo? Que fazer
com eles, famintos e excedentes?
.Suas reuniões ainda apresentam uma imagem pacífica.
Quando formam grupinhos à noite e passeiam de braços da­
dos para íá e para cá, eles parecem inofensivos, totalmente
ocupados com eles mesmos e sua reprodução: os machos mais
para o meigo, as fêm eas. dominadoras. Populam ordenada­
mente a Ilha de Armazéns, como se esse canto lhes bastasse.
Chamam de volta as crianças, com severidade, sempre que al­
gumas delas se aventuram brincando até as pontes e ultrapas­
sam marcas de território, seja em direção à Porta Verde, ou
passando pela Torre da Leiteira no rumo da cidade baixa,
onde nossos russos vivem atrás de diques de lama.
Suas crias são obedientes. Desde pequenas, elas apren­
dem a deliberar levantando os braços. Eles não querem meter
os pés pelas mãos, e fazem questão de dar-se bem com os vi­
zinhos. Seu neutralismo é inato. Procedem agradavelmente
como escandinavos, e como se a biotecnologia lhes tivesse
ainda por cima imprimido um certo comportamento social-
democrático; dizemos isso para nossa tranqüilidade.
Até hoje, jamais um watsoncrick deu o ar de sua graça no
Mercado, na frente da Prefeitura ou do Artushof. Enquanto
nós tememos pelo futuro, deles e nosso, eles não parecem ter
a m enor preocupação: os manipulados repousam sublimes em
si mesmos. Estoques que se acabam e uma aflitiva falta de es­
paço não impedem que eles se multipliquem mais e mais, lou­
ros, olhos candidamente azuis. Sua beleza aumenta, ameaça­
dora, brilha lisa ou encacheada por todas as frestas dos arma­
zéns.
Ainda gozamos de seu encanto, mas, ultimamente, pu­
demos observar que os pulicos crescidos fazem ordem-unida.
Do outro lado do Mottlau, a ratazana e eu vemos como eles se
dispõem em formações de coluna e angulares. Andando ere­
tos, eles treinam passo marcial, meu Deus, eles marcham.

422
A

Evoluem à esquerda, volvem à direita, marcam passo; rijos ao


comando de sentido, lançam o olhar na direção ordenada,
marcham em frente uma vez mais. Sobre as águas calmas, a
ratazana e eu ouvimos suas instruções. E uma língua palatal, se
quisermos, de aspecto bonachão, que me lembra os gaguejos
daqueles brindes que o Sr. Matzerath trouxe à Polônia para as
pobres crianças caxúbias; é como se eu ouvisse os watson-
cricks bradando sem cessar: direita, smurfar, marche! meia-
volta, smurfar! smurfar, passo! smurf: dois, três, quatro,
smurf: dois, três, quatro, smurf...

Estão chegando! O Espelho Mágico da Madrasta Má,


diante de cuja tela se comprimem todos os presentes na Casi­
nha de Chocolate, mostra veículos de esteira jamais vistos,
que abandonam as gargantas repentinamente escancaradas de
silos de concreto subterrâneos. Com suas garras giratórias, a
grade limpa-tudo estirada, o punção, os bate-estacas, as trom ­
bas de sucção articuladas lateralmente, eles mais parecem dra­
gões de lenda; e por isso, assim como os tanques de guerra
levam o nome de feras, eles são denominados “dragões lim-
pa-tudo”.
Eles avançam sobre as rodovias, esmigalhando todas as
plantas, e chegam cada vez mais perto. (O Sr. Matzerath de­
seja que esses veículos especiais — que até hoje só serviram
para desocupar extensas áreas de favelas na índia e na Amé­
rica do Sul, mas que agora estão dispersando todo mundo que
há pouco ainda festejava o governo da cafochinha dos Raiva
Contida — sejam além disso munidos de lança-chamas. Eu me
oponho a tal armamento antiquado, mas preciso levar em
conta que as marcas de infância de Oskar acabarão se impon­
do; para se ver como foi profunda a impressão que lhe causou
o uso de lança-chamas na luta pelo Correio Polonês.)
N a Casinha de Chocolate irrompe o pânico. O Rei Bi­
cudo teme por suas propriedades. As Fadas Boas choram, as

423
Más se contorcem como que pisadas. Jorinda e Joringel estão
petrificados. Rapunzel se enrola em seus longos cabelos,
como se tivesse frio. N o que o sapo pula, aterrado, da testa da
senhora para dentro do poço, o Rei Sapo arrasta-se, tremendo
de medo, para fora do buraco. Com as mãos decepadas, a me­
nina cobre os olhos que não querem ver nada de horrível. E a
avó de Chapeuzinho lê para quem quiser ouvir palavras na
zona de desgraça do dicionário de Grimm: “desdita, descala­
bro, desolação, descoroçoado, desilusão...”, mas também:
“despreocupado, desembaraçado, destemido...”
Inicialmente^apenas Rübezahl com seu porrete está dis­
posto a resistir; agora, também o Alfaiatezinho Valente e o in­
trépido Soldadinho de Chumbo. Açodadas pelos anões, diver­
sas bruxas inferiores mijam em garrafas vazias reunidas às
pressas, que os anões então arrolham. As mãos decepadas da
menina realizam gestos técnicos.
N um canto, Branca de Neve e Chapeuzinho aconselham
os filhos do Primeiro-Ministro a escapar dali: “Vocês deviam
ir para casa, crianças, antes que seja tarde demais!” Mas João­
zinho e Maria recusam-se: “Nosso lugar é aqui com vocês!”
Nesse meio tempo, o Espelho Mágico mostra que os dra­
gões limpa-tudo abandonaram a rodovia. Eles se aproximam
da floresta, lançam-se sobre ela, dèvoram-na, deixando atrás
de si um vômito de madeira picada, musgo mastigado, raízes
moídas. D a cúpula do primeiro dragão, o despertador-beijo-
queiro mostra a direção ao General Primeiro-Ministro do Go­
verno de Emergência, mandando beijos para onde sabe que
atrás de espinhos se encontra sua Bela Adormecida.
N a Casinha de Chocolate, todos continuam furiosos com
a fuga do príncipe traidor. Rapunzel sente vergonha. A bruxa,
o mago Merlim e as Fadas Más tentam deter os dragões lim-
pa-tudo com maldições e fórmulas mágicas. Mas os sortilégios
ricocheteiam, lançando fagulhas, ou transformam apenas deta­
lhes de fachada: crescem dentes de dragão nos veículos espe­

424
ciais, eles ganham olhos frenéticos, e uma língua dupla salta
fora, em brasa, entre o punção e a grade; desta forma, o lan-
ça-chamas do Sr. Matzerath acaba fazendo parte do equipa­
mento do dragão limpa-tudo.
Apenas o Príncipe de nada disso se dá conta. Extasiado,
fora de si, ele lança beijos indicando o rumo. O comboio, cujo
último dragão transporta uma tropa especial munida de escu­
dos e capacetes com visores, alcança agora a clareira em cujo
centro se ergue a estátua de pedra dos Irmãos Grimm.
Horrorizadas, as figuras da carochinha vêem no Espelho
Mágico como um dos dragões limpa-tudo avança o bate-esta­
cas, toma distância, golpeia o monumento, golpeia a base e,
tomando novamente distância, derruba os Irmãos Grimm es­
culpidos em pedra, e eles se esfacelam, e seus pedaços são
esmagados no solo da floresta pelos outros dragões limpa-tu-
do, inclusive as queridas cabeças a nós tão familiares e agora
dolorosamente danificadas.
N a Casinha de Chocolate, é como se todas as figuras da
carochinha quisessem, testemunhas da violência prática, afun­
dar na terra com os Irmãos Grimm. As Fadas Boas e Más ex­
clamam: “Ai das criaturas humanas, elas não sabem o que fa­
zem!”
O Príncipe despertador-beijoqueiro, que de início con­
templou perplexo aquela destruição, puxando em seguida o
gorro sobre os olhos, indica uma nova direção. Como os dra­
gões limpa-tudo não seguem entretanto a instrução do Prín­
cipe e, em vez disso, tomam um rumo oposto, a violência não
se dirige ainda contra o sono da Bela Adormecida atrás da
cerca de espinhos; antes disso, há uma conta a ajustar rapida­
mente. O comboio penetra sempre mais fundo na floresta vi­
va.
“Ai! ” exclama Branca de Neve, “agora minha história vai
logo acabar!”

425
Lamentos de Jorinda e Joringel: “N unca mais vai existir
nossa tristeza.”
Chapeuzinho Vermelho, essa boboca, diz: “N ão pode ser
que eles só venham nos visitar!?”
Rapunzel sabe: “Seríi contos de fadas os homens vão em­
pobrecer.”
“Que é isso”, diz Rumpelstino, “a eles nós há muito
tempo não fazemos falta.”
Passando por cima da choradeira das legendas (à qual o
Sr. Matzerath acaba de se associar neste momento: “Esse des­
fecho trágico me preocupa!”), Rübezahl clama à resistência:
“Sigam-me!” diz ele brandindo o porrete.
Todos abandonam a Casinha de Chocolate. A Madrasta
Má apanha sua menina dos olhos, o Espelho Mágico, em cuja
tela os dragões limpa-tudo continuavam sua destruição genera­
lizada. Lá fora, o lobo é solto da corrente. As Fadas Más des­
fazem todas as maldições dos corvos e cisnes amaldiçoados, da
corça, e nisso um bando de jovens príncipes traquinas estica
as pernas com embaraço, e se junta em seguida: a um tempo
temeroso e insolente.
Os anões distribuem as garrafas cheias de mijo de bruxa.
O Rei Bicudo não consegue imaginar nada de mais desvalido
do que promover o intrépido Soldadinho de Chumbo a gene­
ral. De rabo entre ás pernas, o lobo quer voltar à corrente. O
Rei Sapo tenta se refugiar no poço, mas sua senhora, e tam­
bém a bruxa, impedem que ele se esquive. A Menina sem
Mãos é a primeira a ouvir aquela violência cada vez mais pró­
xima: ela tampa os ouvidos. Joãozinho segura a mão de Maria.
Agora, eles irrompem da floresta, seis no total, formando
um leque aberto. Esticam as garras, o punção, as trombas de
sucção laterais. Os bate-estacas ameaçadores, as grades limpa-
tudo. Entre a grade e o punção, a língua dupla, em brasa. Um
horror, aqueles olhos girando. Atrás dos dragões, af tropa es­
pecial saltou e guarda o terreno desmatado, protegendo-se

426
com seus escudos e capacetes. De uma torre blindada, o Prín­
cipe beijoqueiro sorri e acena feito um idiota para as figuras
da carochinha, dispostas à luta, mas perdidas. Ele chega a dis­
tribuir beijos, até que o punho do comandante obriga-o a en-
colher-se no veículo. D e outros visores, os bispos abençoam
os acontecimentos decididos de antemão. (Tenho a impressão
de que o Sr. Matzerath, acostumado a isso desde a juventude,
aliou-se ao inimigo, ou pelo menos faz causa comum com ele;
pressinto, não, vejo que ele está entre os chefões da indús­
tria.) “Abaixo os contos de .fadas!” é a palavra de ordem do
General Primeiro-Ministro.
Os Sete Anões, bem como outros gnomos e duendes,
lançam mijo de bruxa engarrafado como coquetéis molotov.
Os frascos explodem, mas os dragões limpa-tudo, marcados
agora adicionalmente por esgares grotescos, não interrompem
seu ataque frontal. As línguas duplas avançam, lançando laba­
redas a distância.
Rübezahl, que de clava em punho opõe-se aos dragões, é
o primeiro a ser massacrado; seguem-se o intrépido Soldadi­
nho de Chumbo, e então todos os anões gnomos duendes que
só tarde demais tentam entrincheirar-se. Depois disso, chega a
vez dos príncipes traquinas, que há pouco ainda eram cisne,
corvo ou corça. Atacando finalmente, o lobo dá um bote, é
repelido, estraçalhado. As Fadas Boas e Más, o Rei Bicudo, o
Rei Sapo, tremendo junto à bruxa e sua senhora, todas as
bruxas inferiores, Branca de Neve, a Madrasta Má, Chapeuzi­
nho Vermelho, Jorinda, Joringel, Rumpelstino e a Sra. Holle,
por fim os gigantes da floresta e o Alfaiatezinho Valente, to ­
dos, todos são derrubados ou, como a Mala Voadora e as bru­
xas cavalgando suas vassouras, atingidos por garras, por trom ­
bas aspiradoras, por línguas de dragão, sugados, massacrados,
queimados ou — como se diz em alemão — eliminiert: os dra­
gões limpa-tudo vomitam por trás tudo o que conseguem pe­
gar pela frente.

427
O mago Merlim é traspassado pelo punção. Os longos
cabelos de Rapunzel ficam presos na corrente da esteira de
um dos dragões. A Menina sem Mãos arde em chamas, en­
quanto suas mãos até o fim ainda tentam obstruir um visor,
afrouxar um parafuso, acabando por sucumbir à violência dra-
gontina. E até ser também ela atingida e despedaçada, a avó de
Chapeuzinho opõe em altos brados palavras do dicionário de
Grimm aos roncos da violência: “Clemência!” lê ela, “clemen­
te, clemenciar, inclemente...” Mas não há nada que detenha os
dragões.
A Casinha de Chocolate é destruída como que de passa­
gem. Espalhados pelo chão, feito mingau, rotos, partidos, des­
pedaçados: o Espelho Mágico e a perna de Rumpelstino, os
gorros dos anões, a barriga de zíper do lobo, estropiada, e o
chapeuzinho vermelho. Mutiladas as mãos da menina, em ca­
cos o caixão de Branca de N eve, estraçalhado o dicionário, do
primeiro ao último volume...
Ai, que tristeza, que pena! (E não fosse sua deserção, ele
teria tido o mesmo triste fim, diz o Sr. Matzerath.)
Apenas Joãozinho e Maria sobreviveram. C orrer a tempo
eles sabem. Perseguidos pelos dragões limpa-tudo, eles fogem
de mãos dadas pela floresta viva e entram na floresta morta
até chegar à exuberante cerca de espinhos atrás da qual pros­
segue o sono generalizado de Bela Adormecida.
Joãozinho e Maria escondem-se atrás de árvores caídas. O
despertador-beijoqueiro ensina a nova direção ao General
Primeiro-Ministro, aos bispos e chefões da indústria, que
olham das cúpulas de outros dragões limpa-tudo. D o esconde­
rijo, as crianças vêem como em clássica aliança — Capital
Igreja Exército — os interesses do Poder devoram, põem por
terra, esmagam a cerca de espinhos, desobstruindo tudo: a
torre em ruínas com a Bela Adormecida, o Primeiro-Ministro
rígido em seu sono e sua enrijecida comitiva.
Agora (enquanto o Sr. Matzerath escapa por uma fresta
lateral, pretendendo mais uma vez ser inocente, como se brin­
casse de criança), um braço do dragão de comando agarra o
despertador-beijoqueirò, ergue-o da torre blindada para o al­
to, mais alto, ainda mais alto, até o quarto sem teto da torre
em ruínas, onde o Príncipe imediatamente e sem hesitação ar­
rebata sua Bela Adormecida, beija-a, beija-a como fora de si,
beija-a como jamais beijara, desesperado e esperançoso, como
se houvesse razão para esperanças, despertando-a com um
beijo sem fim, flutuando então com a Béla Despertada por
um beijo em seus braços, alçado pela garra que o recolhe late­
ralmente da torre em ruínas, e nisso pouco a pouco aparece a
imagem dé um Primeiro-Ministro estremunhado e sua estre-
munhada comitiva.
Pois é, essa história ainda funciona. O Primeiro-Ministro
dá imediatamente uma dentada numa enorme fatia de torta de
creme que tinha nas mãos, enquanto durou seu sono de Bela
Adormecida. Assim que acordam, os assessores e ministros
prosseguem a tradição de discutir por causa de detalhes. Num
piscar de olhos, os policiais, pondo-se em guarda, engatilham
as pistolas. Os jornalistas continuam a frase iniciada. De ime­
diato, metros e metros de filme começam a correr. Todos co­
nhecem as respectivas senhas. A gente faz as coisas do jeito
que aprendeu. Tudo transcorre como se nada tivesse aconte­
cido, perfeitamente normal como antes.
E mastigando ainda depois da última mordida, o Primei-
ro-Ministro chama: “Filhinhos! Meus queridos filhinhos! Está
tudo bem de novo. As assombrações foram embora. Voltem!
Papai e mamãe pedem que vocês voltem para casa, onde tudo
continua bem, como antes.”
Aí, Joãozinho e Maria abandonam seu esconderijo e vol­
tam a fugir. (Novamente afastado dos acontecimentos, o Sr.
Matzerath deseja essa seqüência, que de qualquer forma é
concebível; e eu concordo com ele.) Sem que seja por ordem

429
do Primeiro-Ministro, que acredita poder continuar simples­
mente governando, como se não existissem generais padres
chefões, a garra do dragão de comando lança longe o Príncipe
despertador-beijoqueiro e sua Bela Adormecida, de forma
que ambos são imediatanlente massacrados.
O dragão passa agora por cima do casal, que ainda na
morte se beija, e quer perseguir Joãozinho e Maria, quer de­
vorar e arrasar os filhos do Primeiro-Ministro; mas os dois já
estão longe, sumiram...

Isso nós não queríamos,


dizem uns, profundamente consternados,
aos outros, em extrema comoção,
e o valor estatístico é inegável.
O ibope nunca foi tão alto.

Estamos horrorizados! exclamam em coro


a outros coros, também profundamente abalados.
Como se pode computar, estamos majoritariamente
consternados em profunda comoção.
Depois, o assunto é a nova firmeza adquirida,
fala-se das perdas
com que temos de viver, por triste que seja.

A nova maioria tomou nova coragem,


não se deixa vencer assim sem mais nem menos.
Mas, rezam comentários, apesar disso
o homem deve poder mostrar consternação;
pelo menos às vezes, depois do noticiário.

Prometi à minha ratazana de Natal que a coisa nãõ vai fi­


car na simples fuga; em vez disso, procurarei um outro desfb-

430
A
/

cho, possivelmente transfigurado, uma guinada feliz, con­


forme o Sr. Matzerath aconselhou-me recentemente com duas
ou três dicas — “Não deixar m orrer a esperança! Jamais ex­
cluir um milagre!” — quando voltamos a nos importunar
como de hábito. Não obstante, ela fica impassível em sua gaio
la, mostrando apenas as pontas das vibrissas. N ada a seduz
nem música sacra, nem o nível das águas do Elba e do Saale, e
muito menos o Eco do Dia; a própria Rádio-Escola para To­
dos, de interesse sempre assegurado, não consegue arrancar-
lhe um pingo de atenção;^ nossa cotidiana prova de vida, c
Terceiro Programa, fracassa dessa vez.
Então, eu tento com Hameln. Ouça, ratazana, os festejos
já começaram há semanas. H á discursos comemorativos e éx-
posições de quadros tendo ratos como motivo. Eu também
mandei umas folhas inspiradas por você, e reproduções de
meus sonhos: ratos exercitando o porte ereto, ratos se enter­
rando, fugindo, rezando. Uma ratazana correndo diante do
cenário cheio de torres da cidade de Danzig-Gdansk. E o
homem-rato ou rato-homem. A pincel carregado de preto, de­
senhados com carvão da Sibéria, ou cortados a buril em placas
de cobre, entalhados, tracejados a fino...
E no entanto, eu teria preferido contar em Hameln o que
aconteceu de fato há setecentos anos. Mas lá, ninguém quer
ouvir falar de punks góticos em união com ratos mimados.
Essa triste verdade não combina com o programa das come­
morações. Ela poderia prejudicar a hotelaria, os restaurantes.
Quem sabe os punks de hoje não teriam a súbita idéia de
ainda vir de longe com seus ratos pintados de cor-de-rosa ou
verde berrante, para lembrarem seus precursores góticos à
margem do rio Weser: barulhentos, sacudindo correntes, ma-
quilados com a palidez da morte, transtornando os cidadãos.
Dessa forma, o caos voltaria a encontrar pousada em Hameln.
E voltariam o clamor pela Ordem e a manutenção da Ordem.
Chamados por telex de Hanover e Kassel, viriam os batalhões

431
da polícia com chemical mace e canhões de água. Os policiais
protegidos atrás de escudos e visores, como na Idade Média.
E quem quer isso: baixar o cassetete! Combates de rua. A
festa do sétimo centenário poderia fugir ao esquema, cau­
sando sensação: “Hameln chamou — os punks vieram!” e ou­
tras manchetes escandalosas do gênero.
Não, essa história não entra no programa. Sua verdade é
crua demais. Pois ainda por cima, ratazana, entre os cento e
trinta punks góticos que foram emparedados e enterrados no
Monte do Calvário havia a filha caçula do burgomestre Lam-
bert Rike, particularmente meiga com seu rato. Era uma me­
nina de dezesseis anos, quieta e introvertida, que atendia por
Marie e estava prometida com suas tranças ao filho do rico
moleiro Hornemule. Loura como o trigo, ela rezava que era
uma beleza, horas a fio e cheia de fervor, até que, como ou­
tras moças e rapazes antes dela, apaixonou-se por ratos em ge­
ral, e particularmente por um rato único e exclusivo. E consta
que essa Marie, caçulinha do burgomestre, batizou seu rato de
João, tendo possivelmente feito aquilo com seu Joãozinho-
Rato, transado com ele, repetidas vezes.
Que história é essa de consta e possivelmente! Ela tran­
sou, deixou, fez e aconteceu.
Até então, sua bocetinha jamais tinha sido impugnada.
Com auxílio de orações transcendentais ela afastava qualquer
pensamento que, comprido como um dedo, tentasse impor-
tuná-la. O filho do rico moleiro só podia aproximar-se até o
alcance da voz. E mesmo na missa, fora troca de olhares, nada
era permitido que provocasse comichões.
Mas o rato ela deixou. A princípio, Marie só permitiu en­
tradas de brincadeira, mas depois, João pôde cada vez mais, e
finalmente pôde tudo, e isso sempre. Então, a filha do burgo­
mestre ficou grávida e, depois de uma gestação inadequada­
mente curta, trouxe ao mufido trigêmeos que, em bofa de ta­
manho reduzido, tinham as proporções habituais dos bebês de

432
Hameln, com exceção daquela gracinha linda que eram as ca-
becinhas de rato.
N o grupo dos cento e trinta punks góticos foi a maior
alegria. Como o filho do encarregado paroquial — ele se cha-
mavá H inner — tinha a chave, eles à noite conseguiram todos
entrar pela porta da sacristia na igreja de São Bonifácio, se­
guindo para o fundo da cripta, onde os três filhinhos foram
batizados com os nomes dos Reis Magos, chamando-se então
Gaspar, Melquior e Baltasar. Garotos e garotas em frangalhos
circundavam a pia batismal esculpida em pedra, e não permi­
tiam que os guizos costurados sobre seus trapos dessem um só
tinido metálico. E quietos como um camtindongo estavam
também os ratos que eles traziam nos cabelos desgrenhados
ou ao contatò da pele por baixo de seus trastes de mendigo. O
H inner dò encarregado paroquial disse o que ocorria dizer no
batismo. Sob a abóbada baixa, os outros repetiram a profissão
de fé: credo inunum deum...
Depois disso, festejaram até a manhã seguinte à margem
do rio Weser. Os cidadãos de Hameln não se deixaram, entre­
tanto, contagiar pela alegria dos punks góticos. Palavras como
“ácido nucléico” e “cadeia de genes” ainda não tinham entrado
em uso. Bicho era bicho, e gente era gente; misturas só apare­
ciam em contos de fadas, imagens de lenda e — o que já era o
cúmulo — na festa das bruxas; más de jeito nenhum em H a­
meln, em plena luz do dia. As ruelas se encolheram de tanto
cochicho que houve. Monges de branco e monges de cinza
anunciaram o inferno. As corporações inferiores já se suble-
vavam contra o patriciato dominante. E como não só os curti­
dores e carregadores falavam num tom rebelde, mas também
moleiros e doceiros, havia tumulto iminente.
Entretanto, quando o meirinho quis ir às vias de fato e
tomar da jovem mãe os bebês recém-nascidos, o bando dos
cento e trinta formou, ameaçador, um círculo de proteção em
torno da linda ninhada. Além disso, eles prometeram, em caso

433
de violência, atear fogo a todos os moinhos d’água, à casa de
dízimos do convento e aos celeiros de trigo diante da Porta de
Thy.
Foi por fim o próprio burgomestre Rike que, dada a ver­
gonha de sua filha caçula, e além disso pressionado por todos
os conselheiros, pelo encarregado capitular e pelo conde da
Hanse, mandou vir de longe, de Winsen às margens do Luhe,
um flautista que tinha fama de sons especiais. Contra a pro­
messa selada de remuneração em prata uma vez consumada a
proeza, ele veio e conseguiu entrosar-se com os cento, e trinta,
usando suas flautas de diversa afinação. Sempre que eles que­
riam, ele tocava para dançarem, e ensinou-lhes novas danças.
Em pouco tempo, ele ficou sabendo de esconderijos e abri­
gos, e assim também da ampla gruta no Monte do Calvário,
onde Marie se refugiara com seu Joãozinho-Rato e os três sin­
gulares filhinhos, para escapar aos beleguins da cidade e aos
porretes dos rudes moços de moinho.
E no dia de São João, o flautista, que também sabia fazer
respirar a gaita de foles, levou na flauta os restantes cento e
vinte e nove para fora da cidade, segundo suas palavras a fim
de dar uma festa para a mãe Marie, João e as três criancinhas.
Conduziu-os por atalhos e prados, mata baixa e moitas de
avelã até a gruta onde deviam festejar com cerveja de cevada
e panquecas, toucinho de fumeiro e favos de mel.
E claro que também se pensara nos ratos levados à festa.
Eles gostavam de casca de queijo e sementes de girassol. Em
farrapos e cobertos de guizos, os cento e trinta dançaram com
seus ratos até bem depois da meia-noite. Os filhos do comer­
ciante Amelung, as filhas do doceiro Stencke, o Jõrg do Cava­
leiro Scadelaur, ãs crianças de vários senhores de guilda e
mestres-cervejeiros contorciam-se, estrebuchavam. Em meio a
eles, na alucinação da dança, Marie e seu João. Eram danças
de pular, sacolejar, bater pés. Pois tudo isso acontecia numa
época em que se adorava dançar. Os bailarinos estavam tão

434
3

entregues uns aos outros, que se fez dia sem que eles dessem
pela falta do gaiteiro: quando a animação chegara ao auge, e
também outras meninotas abriam passagem para seus ratos,
ele tinha escapulido.
• Consta que ele balançou seu gorro do alto de uma árvore,
e que aconteceu então o que estava previsto. Como nós sa­
bemos, a gruta foi emparedada, soterrada e agraciada com
água benta; e assim — incluindo os filhinhos Gaspar, Mel-
quior e Baltasar — devemos falar de cento e trinta e três
crianças de Hameln que desapareceram aos vinte e seis de ju­
nho do ano de mil duzentos e oitenta e quatro no Monte do
Calvário e nunca mais foram vistas.
Para minha ratazana de Natal, que por força da narrativa
saíra de sua casinhola e tinha eriçado as vibrisSas, eu disse: De
resto, se deixarmos de lado os historiadores da arte e seguir­
mos a vida anterior do pintor Malskat, foi nessa época que a
igreja de Santa Maria em Lübeck foi pintada por dentro. Não
só a nave e o coro, também os intradorsos das janelas e as ar­
cadas: Surgiram assim as brincadeiras das janelas de fábula.
Nelas vêem-se o burro e a galinha: o burro manejando linha e
agulha, e a galinha por sua vez chocando ovos dos quais cer­
tamente vai sair o Mal. Há caranguejos jogando xadrez. A ra­
posa é um monge pregando ao carneiro e à cabra. Por que
será que o cervo trabalha sentado à roca de fiar? Os pássaros
que voam no trifólio superior e entre as ogivas das janelas de
fábula talvez sejam pombos. N um dos intradorsos, porém,
nós vemos, acima de uma cabeça de donzela emoldurada por
um medalhão, um outro medalhão do mesmo tamanho, que
mostra um animal de cauda comprida e lisa, com a cabeça bar­
buda de um homem; sua evidência não permite ulteriores co­
gitações: fica comprovada a influência de Hameln sobre o ate­
liê do mestre da nave central e do coro de Lübeck.
De qualquer forma, os afrescos da igreja-mãe do gótico
em tijolos dão testemunho de uma época terrível. E quando

435
cerca de seiscentos e oitenta anos mais tarde novamente um
pintor subiu ao alto do andaime, ele rememorou milagres e
presságios, danças-de-são-vito e danças da morte, todas as
pragas e horrores ali prefigurados. Não passou muito tempo,
e veio a peste, imputada aos ratos, trazendo com o suor da
morte o que em temores se pressentira...

O processo pela falsificação de pinturas em Lübeck, de­


tonado pela autodenúncia de Malskat, arrastou-se durante
dois anos, com sucesso de público garantido sempre que o réu
prussiano-oriental entrava em cena. Consulto o auto de acusa­
ção, passo pelo crivo os protocolos: as sessões do Tribunal de
Relação de Lübeck rendem pouco fora palavrório, pois se
Malskat e seu patrão foram condenados respectivamente a de­
zoito meses e a dois anos de prisão, o juiz não questionou a
probidade dos verdadeiros mistificadores; assim, eles até hoje
continuam fazendo suas trapaças, passando seus contos-do-
vigário, mentindo e afetando devoção. Quanto aos estadistas
trambiqueiros, também nunca foram processados. Ficaram
impunes, e quando morreram, decrépitos, um foi enterrado
com todas as honras, o outro num semi-anonimato.
Desse modo, aquele logro dos anos 50, que chamamos
abreviadamente de RFA—RDA, ainda é considerado autênti­
co, enquanto que boa parte da arte de Malskat, os vinte e um
santos do coro em sete vãos, que eram obra exclusivamente
sua, foram lavados com esfregões e escovas no ano de 55. En­
tretanto, deixou-se de seguir o exemplo dos iconoclastas e
caiar protestantemente de branco os espaços agora livres da
arte; a violação das obras de Malskat continua assim patente
até hoje, nos borrões e nas manchas escurecidas.
Ah, se tivessem deixado em paz suas pinturas, tanto mais
que elas desvendavam a verdade, e revogado em vez disso o
verdadeiro embuste, jamais confessado, as porcarias feitas pe­
los fundadores das duas Repúblicas. Ele, que lançou ao juiz

436
sua confissão, foi para trás das grades; os dois mestres-
falsários, pelo contrário, puderam prosseguir incólumes com
suas jogadas cruéis, lançar Estado contra Estado, opor mentira
a mentira, cunhar moeda falsa contra moeda falsa e, em pouco
tempo — ao passo que a obra gótica de Malskat era leviana­
mente destruída —, deslocar divisões de soldados para seus
campos de tiro contrapostos: soldados alemães, mais uma vez;
e isso até hoje, herança dos velhos, sempre mais soldados,
com mira sempre mais certeira e a intenção já ensaiada de ir
até o fim.
Não, ratinha, Rádio-Escola não adianta mais. De que nos
serve o Eco do Dia, se ao eco de passados terrores e crimes
eles sobrepõe um falatório casual? Os programas apagam-se
mutuamente. Nada que possa doer, grudar na pele. Lembrar,
só com brancos na memória: havia uma coisa ali, havia uma
coisa, havia...
Apenas vestígios sobraram. Exatamente na época em que
as alianças militares firmaram seus pactos, contrapostas, o
Episcopado de Lübeck deu ordem que se apagassem os vinte e
um santos do coro; foram mais borrados que lavados, des­
truindo com a obra principal muitos detalhes que Malskat,
fosse por capricho ou seguindo seu passatempo gótico, tinha
como que às pressas pintado ou arranhado no fundo de cal,
entrelaçando-os numa prega, num capitel, arranjando-os no
ornamento.
Detalhes visivelmente contemporâneos: junto aos sapatos
de bico de um santo no quarto vão, descubro em vestígios de
prego os arranhões de um mapa, onde, entre a ilha de Rügen,
denominada Rugia, e a foz do Peene, há uma cruz significati­
va, pois a ela corresponde o nome rabiscado da cidade sub­
mersa: Winneta. E no capitel central pintado no sexto vão
encontra-se uma miniatura que reúne num ornamento três
criaturinhas humanas com cabecinhas de animal de focinho
pontudo, tocando flauta em trio; o ornamento se enquadraria

437
com toda a naturalidade na folhagem, não fosse um arranhão
lateral com a indicação: “succedido em hamelin ao dia de sao
joao ed sao paolo”.
Trata-se nitidamente de três garotinhos tocando flauta. O
terceto está pelado. Não tenho pejo de dizer que os garoti­
nhos possuem cabecinhas de rato; essa tardia descoberta, que
— confesso — baseia-se em fotografias pouco nítidas, não
deve entretanto servir como prova adicional no processo pelas
pinturas falsificadas de Lübeck, tanto mais que Malskat foi
condenado por força da lei e cumpriu bem-humorado sua
pena.
Alguns meses lhe foram até mesmo comutados. Recebeu
montes de correspondência. Sua fama cintilava na luz baça da­
queles tempos. Levou blocos de rascunho e giz de cor para a
cela, mas só produziu coisas de somenos. Jamais voltou a dar
testemunho de terrores, passados, a captar reflexos góticos.
Nesse meio tempo, está tudo ultrapassado.

Ela fala. Ou será que ela, sonhando-me, permite que eu


continue piaménte a acreditar que sonho com ela, qüe, como
ratazana, retomou sem sombra de dúvida a palavra, para que
eu me cale?
E a cápsula espacial: ainda é meu lugar? E essa órbita: fi­
cará fixada eternamente? Sonhar elipses, desejar pequenos
desvios, saltar simplesmente, como se não estivesse preso
pelo cinto de segurança?
Ela está agachada na cúpula do observatório, ao lado da
Porta das Mulheres, que leva ao Mottlau. Ela diz: Desse