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JUVENTUDE ESCLARECIDA

de Fernando Arrabal
Peça em 1 ato

ARRABAL, Fernando. Teatro Completo. Madrid, Espasa-Calpe, 1997.

Tradução do espanhol: Enjolras Matos


Consultoria: Henrique Santos

PERSONAGENS: UMA GAROTA


UM GAROTO
UMA VELHA
UM HOMEM

Um Bosque com um arbusto em primeiro plano.


O homem está lendo um livro cujo título está claramente visível para os espectadores: Relatividade
do tempo. Quando ele vê um garoto e uma garota aproximarem-se, o homem se esconde. Os dois
saltam como se fossem dominados por uma excitação alegre e ingênua.

UM GAROTO – Você é bela, muito bela e eu te amo.


UMA GAROTA – Você me ama?
UM GAROTO – De sua boca escapam inumeráveis frutos fantasiados que dançam a sua volta
uma valsa vacilante.
UMA GAROTA – Como são as minhas mãos?
Ele coloca seu rosto no solo e se cobre com a camisa.
UM GAROTO – Eu vejo suas mãos. São duas mãos direitas e três esquerdas. Elas são brancas
como seiscentas divinas comédias e seus dedos estão cheios por minúsculas pistas de aterrisagem
para helicópteros e anjos exterminadores.
UMA GAROTA – E os meus pés?
UM GAROTO – Os seus pés voam como dois passarinhos negros com os bicos repletos de
poemas.
UMA GAROTA – O que é a felicidade?
UM GAROTO – A felicidade é você.
UMA GAROTA – Quer que eu te dê um presente?
UM GAROTO – Sim, eu quero um presente.
UMA GAROTA – Então fecha os olhos. ( Ele fecha os olhos. A Jovem se veste de bailarina de
luxo. Diz em tom solene.) Vou dançar para você que é tão bonito, que eu gostaria de plantar em
seu corpo mil orquídeas. Abre os olhos. ( Ele abre os olhos. Ela dança como uma bailarina, porém
com certa estupidez.) Você gostou do presente?
UM GAROTO – Maravilhoso. Você quer que eu te dê um presente também?
UMA GAROTA – Quero. Estou fechando os olhos.
UM GAROTO – Não, não, olhe. Não tenho nada nas mãos. ( Faz uma cambalhota sem nenhuma
habilidade e tira da manga uma corrente curta adornada com 7 trevos. Ajoelha-se diante dela e põe
a corrente cerimoniosamente nos tornozelos. Abraçam-se e iniciam uns passos de dança. Brincam
de saltar o burro.) Quem é meu burrinho de orelhas de veludo e de reinos encantados?
UMA GAROTA – Sou eu, sou eu, sou eu...
UM GAROTO – Quem é o duende que planta em meu peito, e em meu pão inumeráveis tochas
incendiadas.
UMA GAROTA – Eu, sou eu.
UM GAROTO – Quem são as irmãs siamesas inocentes e sensuais que me dão tudo sem eu
mover um só dedo?
UMA GAROTA – Eu, eu...
UM GAROTO – Quem é a escrava submissa e tirânica que tem umas pernas por onde passam e
repassam dez mil peixinhos alucinados?
UMA GAROTA – Eu, eu...
UM GAROTO – Quem é a mulher que eu inventei que jorra como um dilúvio nas minhas costas
nuas?
UMA GAROTA – Eu, eu...
Seguem saltando burro. De repente, ele fica muito triste. Ela cuida dele com muita ternura e
solicitude.
UM GAROTO – (Com um tom inesperadamente brutal.) Vou te amarrar no arbusto.
UMA GAROTA – Não comece, pelo amor de Deus, faz um esforço para se controlar; você já sabe
o que sempre acontece.
UM GAROTO – Eu disse que ia te amarrar.
UMA GAROTA – Você é como uma abelhazinha meiga e sem defesa. Veja, seus olhos brilham
como se fossem sair tuas esperanças. Não seja mau.
UM GAROTO – Eu sou mau?
UMA GAROTA – Controle-se. Não fale dessa forma.
UM GAROTO – Você está me provocando. Eu disse que vou te amarrar e vou mesmo.
Ela se coloca diante do arbusto. Ele a amarra. Ela chora.
UM GAROTO – Você está chorando?
UMA GAROTA – Não.
UM GAROTO – Está sim.
UMA GAROTA – (Com lágrimas nos olhos.) Estou dizendo que não.
UM GAROTO – Sei por quê você está chorando. É para me fazer sofrer.
UMA GAROTA – Eu te amo.
UM GAROTO – Diga que eu não sou cruel.
UMA GAROTA – Você não é cruel.
UM GAROTO – Você não me conveceu.
UMA GAROTA – Você não é cruel. Você é muito bom. ( Com um tom de convencimento). Você me
prometeu que iria construir um rochedo, e depois um castelo sobre o rochedo, e que deixaria
flutuando pelos ares para que vivêssemos sozinhos, longe de tudo. Lembra?
UM GAROTO – Sim, eu me lembro.
UMA GAROTA – A corda está me ferindo, desamarre um pouco, por favor.
UM GAROTO – Você ainda se queixa. (Ele aperta ainda mais.)
UMA GAROTA – Apertou ainda mais. Está sendo mau comigo. E você é todo o meu universo
proibido. Eu te amo loucamente, mas não me faça sofrer. Você pode mostrar que é muito bom.
UM GAROTO – Como? Como é que eu posso? Se eu já sou bom.
UMA GAROTA – Claro que você é.
UM GAROTO – Sempre.
UMA GAROTA – Sempre.
UM GAROTO – Diga que eu não te fiz mal.
UMA GAROTA – Não, você não me fez nenhum mal. (Geme)
UM GAROTO – Então, por que você está se queixando?
UMA GAROTA – A corda está me apertando muito.
UM GAROTO – Viu, você está se queixando?
UMA GAROTA – Não.
UM GAROTO – Se eu quisesse eu poderia realmente te fazer sofrer.
UMA GAROTA – Sei que você não fará, por que você é bom. E principalmente, não vai me
esfregar com urtigas.
UM GAROTO – Que foi que você disse?
UMA GAROTA – Que você não vai me esfregar com urtigas. Promete.
UM GAROTO – (Irado.) Me dá o pé.
UMA GAROTA – Pelo amor de Deus, seja bonzinho, não me faça mal.
UM GAROTO – Eu disse para você me dar o pé.
UMA GAROTA – Eu te amo, eu te amo loucamente. Quando te vejo parece que um saxofone em
chamas passeia por todo o meu corpo.
UM GAROTO – Dá o pé.
UMA GAROTA – Tome. ( Ele tira o sapato. Vai procurar urtigas. Não encontra.) Não encontrou
urtigas?
UM GAROTO – Diga onde é que eu encontro.
UMA GAROTA – Ali, atrás daquelas plantas.
Ele volta com as urtigas.
UMA GAROTA – Não, por favor, não esfregue nos meus tornozelos, que é o lugar mais sensível.
Ele esfrega nos tornozelos. Ela chora, grita. O Homem que estava escondido sai do
esconderijo.
O HOMEM – Mas, o que é isso? Deixa essa menina em paz.
UM GAROTO – O que? Não se meta.
O garoto atira-lhe uma pedra. O Homem desmaia. A luz se concentra em seu rosto. O resto
do cenário cai na escuridão. Longa pausa. Por fim, o homem desperta. A cena se ilumina. O
cenário é o mesmo, mas parece como se várias dezenas de anos houvesse passado desde o
momento que ele desmaiou. O arbusto se transformou numa árvore. Entra A Velha vestida um
pouco como a garota (com as mesmas cores, com o mesmo corte de vestido), se bem que com
bastante diferenças. A Velha dirige-se para a árvore. Ela toca na árvore e a examina com ternura.
Olha todos os lados com angústia. Repara na presença do homem.
A VELHA – O senhor podia me fazer um favor?
O HOMEM – Pode dizer.
A VELHA – Me amarre nesta árvore.
O HOMEM – Mas...
A VELHA – Pelo amor de Deus.
O HOMEM – É um jogo?
A VELHA – Por favor me amarre. (O Homem a amarra.) Mais forte. Aperte com mais força.
O HOMEM – Assim eu machuco a senhora.
A VELHA – Não, não, com mais força ainda.
O HOMEM – Assim?
A VELHA – O senhor podia tirar o sapato do meu pé direito? ( O Homem tira.)
O HOMEM – A senhora tem uma corrente com sete trevos.
A VELHA – O senhor gosta?
O HOMEM – É estranho!
A VELHA – Eu vou lhe pedir uma coisa... por favor não me diga não... Olhe, atrás daquelas
plantas, tem umas urtigas, o senhor podia arrancar umas pra mim. ( O Homem arranca as urtigas.)
Por favor, agora o senhor podia esfregar as urtigas no meu pé.
O HOMEM – A senhora vai sofrer deste jeito.
A VELHA – Por favor.
O HOMEM – (Esfregando.) Mas... a senhora está chorando.
A VELHA – Não, não, o senhor pode continuar.
O HOMEM – Mas, a senhora está chorando mesmo.
A VELHA – ( Muito lentamente e sem gemer.) Estou chorando porque há sessenta anos... um
garoto... toda vez que eu olhava para ele, era como se um saxofone em chamas passeasse por
todo o meu corpo... me amarrou nesta mesma árvore... e... (CORTINA)

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