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JORGE LINHARES

ESTE LIVRO É UM GUIA PARA


VOCÊ ALCANÇAR O SUCESSO
JORGE LINHARES
A U T O R D E B Ê N Ç Ã O E M A L D I Ç Ã O
ORAÇÃO DA ÁGUIA
“Senhor,
Quero ser como uma águia.
COM A AJUDA DE DEUS Quero voar acima das nuvens.
Quero habitar nas alturas. Meu
Águias são animais de sucesso. Voam mais alto do que desejo é o de ser como desejas
as outras aves, possuem asas imponentes e enxergam que eu seja. Livra a minha
à distância com precisão. E o mais importante: elas mente da mediocridade;
sabem se renovar, trocando bicos e garras conforme a liberta-me da visão tacanha,
necessidade e ao longo da vida. pequena e distorcida que tenho
Jorge Linhares é presidente do
Conselho de Pastores do Estado mantido a teu respeito até

VOANDO PARA O SUCESSO


Deus nos criou para sermos como águias, e assim então. Quero ver-te como és;
de Minas Gerais (CPEMG),
como elas, muitas vezes temos que dar uma pausa como o Jesus ressurreto e
vice-presidente do Conselho de
para reordenar nossas prioridades e começar um poderoso que o apóstolo João
Ministros Evangélicos do Brasil
processo de renovação. Somente quando nos livramos contemplou. Renova a minha
(CIMEB) e pastor-presidente da
do peso do passado é que podemos aproveitar o visão. Abre-me os olhos para
Igreja Batista Getsêmani, em Belo
resultado valioso que uma auto-renovação sempre traz. que eu possa contemplar tua
Horizonte. É conferencista
internacional, tendo ministrado beleza e tua majestade. Eu me
Voando para o sucesso oferece respostas às suas
LIBERTE A ÁGUIA
na Europa, EUA, África, Oriente e declaro livre como águia de
indagações e também um novo estímulo à sua jornada. Deus para a glória do Pai, do
toda a América do Sul. Autor de
sucesso, ele possui mais de 150
Neste livro, Jorge Linhares vai encorajar você a alçar
vôo e alcançar o cume da montanha. Vai ajudá-lo a
QUE EXISTE EM VOCÊ Filho e do Espírito Santo.”
obras dedicadas a assuntos na
voar mais alto; a voar para alcançar o sucesso. Essa é
área familiar e de liderança.
a vocação das águias, e você vai se sentir como uma
delas ao chegar à última página.

ISBN 978-85-78600-09-9
JORGE LINHARES
A U T O R D E B Ê N Ç Ã O E M A L D I Ç Ã O

LIBERTE A ÁGUIA
QUE EXISTE EM VOCÊ

Rio de Janeiro 2008


Voando para o sucesso
Copyright © 2008 por Jorge Linhares

Editor responsável
Nataniel dos Santos Gomes
Supervisão Editorial
Clarisse de Athayde Costa Cintra
Produtora Editorial
Bárbara Coutinho
Capa
Souto Crescimento de Marca
Revisão
Margarida Seltmann
Magda de Oliveira Carlos Cascardo
Joanna Barrão Ferreira
Projeto gráfico e diagramação
Julio Fado

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

L728v

Linhares, Jorge, 1952-


Voando para o sucesso: liberte a águia que existe em você/Jorge
Linhares. - Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008.

ISBN 978-85-7860-009-9

1. Vida cristã - Escritores batistas. I. Título.

08-3228. CDD: 248.486


CDU: 248

Todos os direitos reservados à Thomas Nelson Brasil


Rua Nova Jerusalém, 345 – Bonsucesso
Rio de Janeiro – RJ – CEP 21402-325
Tel.: (21) 3882-8200 – Fax: (21) 3882-8212 / 3882-8313
www.thomasnelson.com.br
À minha família, com carinho.
À amada Getsêmani.
E a todo aquele que deseja alçar vôos mais altos.
...aqueles que esperam no Senhor renovam
as suas forças. Voam alto como águias; correm e não
ficam exaustos, andam e não se cansam.
Isaías 40:31
Sumário

Apresentação 9

Primeira história: “A visita” 13

1. Quem é Jesus para você? 23

Segunda história: “Os óculos de ‘ver de longe’” 47

2. Miopia espiritual 53

Terceira história: “Desafio” 81

3. A covardia cede lugar à ousadia 89

Quarta história: “Júlia quer voar” 109

4. Olhos fitos no chão 115

Quinta história: “O quarto de Marinês” 127

5. Nos limites de um quintal 131

Sexta história: “O último filhote” 143

6. Hora de alçar vôo 147

7. Águia ou galinha (ou sétima história) 161

Conclusão 181

Oração da águia 186


Apresentação

O título era dos mais inusitados para um sermão: “Águia


ou galinha?” É claro que, em minha mente e em meu
coração, aquela mensagem estava muito clara, bem for-
mulada, estruturada mesmo. Coisas de fé, desnecessário
explicar. No entanto, para centenas de pessoas que a ou-
viram em primeira mão — e, imagino, para milhares que,
posteriormente, ouviram pela primeira vez a fita com a
gravação —, aquela informação inicial causava estranheza
tanto quanto curiosidade.
As reações costumavam ser muito parecidas. Conheço
o ditado segundo o qual “elogio em boca própria é vitupé-
rio”, mas não acredito que esteja cometendo nenhum aten-
tado à modéstia ao dizer que a aprovação àquela mensagem
foi impressionante, assim como o interesse indireto que
10 Apresentação

gerou em tantas pessoas que ansiavam por ouvi-la. A quan-


tidade de fitas gravadas não dava conta da demanda.
Diante desse quadro, era mais que justificável o es-
forço de transformar aquela mensagem em um livro, ini-
cialmente com o mesmo título e publicado pela Editora
Getsêmani. Mais uma vez, permito-me abandonar a mo-
déstia para comentar que a versão impressa alcançou o mes-
mo êxito da mensagem gravada. Chegamos à marca de 27
edições, o que ampliou o público, elevando o livro ao status
de best seller. Louvado seja o nome do Senhor por isso.
Uma convicção eu tinha em meu coração: aquela
mensagem era inspirada pelo Espírito, e quanto mais pes-
soas tivessem acesso a ela, maior seu potencial de promover
a edificação dos cidadãos do Reino de Deus. Por essa razão,
recebi a proposta apresentada pela Thomas Nelson Brasil,
de produzir uma nova edição atualizada e ampliada, como
uma confirmação da bela carreira dessa mensagem, agora
destinada a alcançar outros públicos. E mais: como novo
projeto editorial, acrescida de histórias que ilustram o con-
teúdo básico desta obra.
É a esses novos públicos que me dirijo agora: não sei
a fé que você professa, não conheço suas áreas de interes-
se nem imagino o que você faz, mas posso lhe assegurar
que este livro oferece respostas a muitas indagações vitais
e um novo estímulo à sua jornada. A orientação da obra é
total e assumidamente cristã não porque tenha pretensões
Voando para o sucesso
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proselitistas, mas por ser o Cristianismo, em meu entendi-


mento, um estilo de vida que impulsiona o indivíduo para
frente e para cima, tal como o vôo de uma águia majestosa.
Foi isso o que Jesus fez, e é isso que desejo fazer: encorajar
você a alçar vôo e alcançar o cume da montanha. Quero
ajudá-lo a voar mais alto; a voar para alcançar o sucesso.
Não se trata de um texto motivacional. Não há nada
de errado em buscar a realização pessoal, profissional ou de
qualquer outra natureza. O sucesso não é pecado. Mas esse
não é o objetivo definitivo deste livro. Se ele puder ajudar
você a alcançar o sucesso em qualquer área da vida, des-
de que o faça com ética, tanto melhor; contudo, ele não
terá cumprido plenamente seu propósito se não conduzir
o leitor a alcançar as maiores alturas até chegar ao céu de
Deus para contemplar Jesus como ele é. Essa é a vocação
das águias, e a minha oração é no sentido de que você se
sinta como uma delas ao chegar à última página.

,.
, No dia do Senhor, achei-me no Espírito e ouvi por
trás de mim uma voz forte, como de trombeta, que di-
zia: “Escreva em um livro o que você vê e envie a estas
sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes,
Filadélfia e Laodicéia.” Voltei-me para ver quem fala-
va comigo. Voltando-me, vi sete candelabros de ouro e
entre os candelabros alguém “semelhante a um filho de
homem”, com uma veste que chegava aos seus pés e um
cinturão de ouro ao redor do peito. Sua cabeça e seus
cabelos eram brancos como a lã, tão brancos quanto a
neve, e seus olhos eram como chama de fogo. Seus pés
eram como o bronze numa fornalha ardente e sua voz
como o som de muitas águas. Tinha em sua mão direita
sete estrelas, e da sua boca saía uma espada afiada de dois
gumes. Sua face era como o sol quando brilha em todo
o seu fulgor. Quando o vi, caí aos seus pés como mor-
to. Então ele colocou sua mão direita sobre mim e disse:
“Não tenha medo. Eu sou o Primeiro e o Último. Sou
Aquele que Vive. Estive morto, mas agora estou vivo para
todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do Hades.”
Apocalipse 1:10-18
Primeira história

“A visita”

Naquele dia, a galinha acordou antes do galo. Aflita, que-


ria que todas as coisas estivessem em ordem para a che-
gada da visitante ilustre. Afinal, havia mais de cinco anos
que não via a águia. Tinham se conhecido por acaso, ain-
da filhotes, e por algum motivo que ela não conseguia se
recordar, as duas nunca mais se viram. No entanto, antes
da separação, estabeleceram um pacto: voltariam a se ver,
pelo menos, a cada cinco anos. Como o tempo de vida
da galinha varia de quinze a vinte anos, provavelmente só
teriam chance de se rever três ou quatro vezes, mas isso
não era tão importante.
Acontece que, desde o tempo de filhote, a galinha
se tornara um pouco arrogante. Gostava de se exibir, de
14 Primeira história

mostrar a vida boa que levava, de falar das mordomias que


lhe eram oferecidas. Fazia isso o tempo todo. Para as patas e
as gansas do sítio, a galinha era insuportável. Vivia dizendo
que tinha mais privilégios, que era a primeira a ser alimen-
tada, que morava em um galinheiro muito confortável, que
vivia bem protegida, coisa e tal. No entanto, como as ou-
tras aves da criação também eram bem tratadas, não havia
muito do que se gabar.
Por isso, a galinha mal podia esperar pela chegada
da águia. Era capaz de apostar que a vida da conhecida era
muito mais complicada e difícil que a dela. Considerava-se
um sucesso. Já havia até planejado o que faria quando a
visita chegasse. Começaria mostrando o belíssimo galinhei-
ro, construído em madeira de lei e pintado de branco pero-
lado, com três andares de poleiros amplos com acabamento
emborrachado nas pontas. Na frente, uma tela de proteção
em arame antioxidante que permitia a ventilação freqüente
e garantia proteção total. O ninho, feito de palha fresca, era
mantido em temperatura agradável até no inverno, graças à
instalação de uma lâmpada de 150 watts.
Depois de mostrar o galinheiro, a galinha faria ques-
tão de levar a águia a conhecer o terreiro, que também era
tudo de bom: o espaço era amplo, ensolarado, com direito
a estacas de madeira e pedras para descanso e lazer, telheiro
para proteger do calor excessivo ou da chuva, área verde
com muito capim e arbustos, cerca de arame farpado para
A visita
15

fitness e acesso ao laguinho artificial com água corrente de


um córrego — não que a galinha fosse chegada a banhos,
mas como a água era limpa e sempre fresquinha, ela não
passava sede.
Esse, aliás, seria o gancho para a galinha falar a respei-
to de sua vida cheia de mordomias. Todos os dias, o casal
de proprietários do sítio cumpria a rotina de cuidados. A
mulher tomava a iniciativa de se dirigir ao galinheiro, ge-
ralmente com algumas espigas de milho na mão, não raro
mais de uma vez no dia. Bastava ela despontar na porta
de casa e todas as aves a cercavam, alvoroçadas. Por um
impulso estranho, todas avançavam em cada grão que caía
conforme a mulher debulhava as espigas, apesar de sempre
trazer o suficiente para todas — mais um motivo para a
arrogância da galinha.
E o melhor de tudo é que, para desfrutar daquilo
tudo, a galinha não precisava fazer nada. Absolutamente
nada. Sua vida não poderia ser mais fácil. Pela manhã, de-
pois de cumprir o ritual da alimentação, ela ciscava um
pouco aqui e ali, se empoleirava em alguma estaca, descia,
ciscava mais um pouco, subia no poleiro, descia de novo,
ia até o laguinho beber água, ciscava um pouco no meio do
capim, subia na cerca, descia, ciscava, ciscava, ciscava, mais
um pouco de água, mais umas ciscadinhas e pronto: já era
noite, hora de se empoleirar e dormir até a manhã seguinte
para mais uma rodada de milho fresco.
16 Primeira história

Nem voar ela precisava. Bastava circular pelo terrei-


ro e ciscar, mais nada. Para falar a verdade, bem que ela
tentava, vez ou outra, bater as asas, mas suas tentativas de
vôo se limitavam a alguns rasantes, muitos deles na base
do susto — como quando um dos filhos dos proprietários
do sítio resolvia se divertir, correndo atrás dela. Mas aque-
les arremedos de decolagem não serviam para muita coisa.
Ajudavam a acelerar a fuga, é verdade, e também a exercitar
um pouco as asas, que a galinha dificilmente abria. E só.
Mesmo assim, tudo bem. Afinal, para que voar? Era
tudo tão mais simples, mais tranqüilo ao rés do chão. Sim,
a vida de quem não sabe voar é muito mais previsível. Para
a galinha, aquele mundinho formado pelo galinheiro, o
terreiro e a beira do lago era suficiente. Não que ela jamais
tivesse notado o morro ao lado do sítio e a vastidão na ou-
tra margem da estrada que ladeava a casa dos donos. Claro
que sabia da existência de mais espaços, mas não tinha in-
teresse em arriscar a certeza do milho fresco, da água limpa,
da cerca segura, do poleiro confortável.
Que vantagem teria se soubesse voar? Muito provavel-
mente, teria de fazer como os tico-ticos, os joões-de-barro,
os urubus, as maritacas, os pintassilgos, os bem-te-vis, os
trinca-ferros, os sanhaços, as patativas, os pardais, os mar-
recos e toda sorte de parentes voadores: viver de um lado
para outro em busca de comida, fugindo dos predadores
ou dos moleques de estilingue na mão, construindo ninhos
A visita
17

com restos de gravetos espalhados na relva, batendo as asas


até se cansar... ufa... esse tipo de vida não servia para ela.
Bem... é claro que dava uma pontinha de inveja —
companheira de andar de mãos dadas com a arrogância.
Afinal, aquela passarada toda parecia tão feliz. A galinha
não dava bandeira, por isso guardava para si aquela pitadi-
nha de curiosidade de saber o que havia do outro lado do
morro e da estrada. Era uma sensação estranha, geralmen-
te acompanhada de um frio na barriga próprio do medo.
Quando isso acontecia, ela procurava pensar ou se distrair
com outra coisa. Ou minimizava. “Que bobagem”, pen-
sava. “Seria uma grande tolice trocar o certo pelo incerto.
Além disso, duvido que essas aves que voam por aí não
morram de inveja de mim. Aposto que, se tivessem a opor-
tunidade, adorariam trocar de lugar comigo.”
A galinha estava convencida de que a águia pensava
dessa maneira. Para ela, a visita seria especialmente praze-
rosa, pois certamente teria a oportunidade de comprovar
sua tese. Bastaria comparar o estilo de vida de cada uma e
ficaria clara a diferença a seu favor. A cada vez que pensava
nisso, a galinha ficava ainda mais ansiosa e agitada. Checou
repetidas vezes cada detalhe: os poleiros estavam limpos, o
terreiro continuava em ordem. Agora era só esperar.
Alguns minutos depois, a silhueta da águia surgiu
imponente por trás do morro. Sobrevoou o sítio algumas
vezes, como se tentasse reconhecer o terreno. A cada vez,
18 Primeira história

voava mais baixo. As aves do sítio olhavam com admiração


a elegância da águia. Era impossível não deixar de notar a
imponência de sua presença. Conforme ela se aproximava
do solo, maior era o ar de deslumbramento dos outros ani-
mais. Até a galinha parou para ver a chegada de sua visita,
mas disfarçou. Com a melhor pose que conseguiu encontrar
em seu repertório, foi até o meio do terreiro, onde a águia
acabara de pousar, cercada pelas demais aves do sítio.
— Águia, minha querida, há quanto tempo, hein?
Seja bem-vinda!
— Obrigado, amiga galinha. Sim, é verdade. Muito
tempo. Como você tem passado?
— Ah, muito bem, obrigado. Como você pode ver,
estou feliz, estável. Vivo tranqüila, não tenho do que recla-
mar. E sua vida, como anda?
— Agitada, como sempre. Sabe como é... todo dia
correndo atrás do pão.
— Imagino, amiga águia. Imagino... — disse a ga-
linha, já pensando na chance que teria de tripudiar sobre
a visitante.
Na meia hora seguinte, a galinha monopolizou a
conversa. Falou de todas as vantagens que tinha: a tranqüi-
lidade de morar em um galinheiro, a garantia de um teto,
a segurança da rede de proteção, a certeza do alimento;
enfim, desfiou todos os argumentos de que dispunha para
convencer a visitante de que vivia muito bem. Durante a
A visita
19

explanação da galinha, a águia se limitou a balançar a cabe-


ça enquanto ouvia educadamente.
— Pois é isso, amiga águia — disse a galinha, ao fim
de seu discurso. — Não consigo imaginar outra vida me-
lhor do que essa. Mas já falei muito. Agora é a sua vez.
Conte aí o que tem feito, onde está morando. Ouvi dizer
que você mora na montanha. Não é perigoso?
— Amiga, tudo é perigoso. Se você precisa viver cer-
cada com tela de arame, é sinal de que corre algum risco,
concorda?
A galinha gaguejou. Não tinha como argumentar.
— Bem... é... s-sim, a-acho que você tem razão.
— E a altura também tem suas vantagens. Poucos
animais conseguem alcançar meu ninho. Tenho privacida-
de. E a vista é maravilhosa.
A galinha não sabia o que dizer, mas também não es-
tava disposta a sair desmoralizada daquela conversa. Tentou
simular compaixão para demonstrar superioridade.
— Pois é, amiga águia, mas imagino como deve ser
dura a lida para conseguir comida todos os dias. Não deve
ser fácil acordar a cada manhã sem ter a certeza do alimen-
to, do pão de cada dia.
— Amiga, não vou negar que há dias em que fico va-
gando horas até encontrar o alimento. Mas eu seria ingrata
se dissesse que cheguei a passar necessidade. Pelo contrário,
aprendi que esses cuidados diários consomem demais, e
20 Primeira história

resolvi viver mais e me preocupar menos. Na verdade, até os


vôos que costumo fazer em busca de uma presa se tornaram
mais divertidos e edificantes. Aprendo muito todos os dias.
Aquela conversa estava deixando a galinha incomo-
dada. A águia parecia muito segura do que estava dizendo,
e também muito sincera. O encontro não estava correndo
muito bem do jeito que a galinha havia planejado.
— Pode ser, mas ainda prefiro a minha vida aqui.
Sei o que esperar de cada dia. Tudo o que preciso está ao
alcance de meus olhos.
— É uma opção, querida galinha. Sua vida vai até
onde sua visão alcança. E se um dia você subir aquele mor-
ro ao lado do sítio e olhar daquela altura, saberá do que
estou falando.
A conversa durou mais um bom tempo a partir dali. A
galinha ficou calada, ouvindo a águia contar sobre as coisas
que havia do outro lado do morro, as terras que já sobrevo-
ara, as paisagens que contemplara, os lagos maravilhosos,
as belas cordilheiras. Sim, sua vida não era tão previsível,
mas águias não foram feitas mesmo para a previsibilidade.
— Amiga — concluiu a águia ­—, agradeço sua hos-
pitalidade, mas agora preciso ir. Tenho de voar por aí, em
busca de meu alimento. Não sei onde está, mas tenho cer-
teza de que vou adorar os lugares por onde passarei até
encontrá-lo. Cuide-se. Daqui a cinco anos, volto para cum-
prir o combinado.
A visita
21

A despedida foi melancólica para a galinha. A águia


alçou vôo com a mesma elegância de sua chegada, nova-
mente despertando a admiração de todas as outras aves do
sítio. Em espiral, subiu até chegar ao alto do morro, atrás
do qual desapareceu. Melancólica, a galinha nem percebeu
quando a proprietária do sítio saiu com as espigas de mi-
lho. Enquanto a ansiedade pelos grãos causava o alvoroço
costumeiro, a galinha olhou para o céu. Jamais desejara
tanto saber voar.

,.