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Coleção Estudos da CNBB


96 - Deixai-vos Reconciliar
97 - Iniciação à Vida Cristã: Um Processo de Inspiração
Catecumenal
98 - Questões de Bioética
99 - Igreja e Questão Agrária no início do Século XXI
100 - Missionários(as) para a amazônia
101 - A Comunicação na vida e missão da Igreja no Brasil
102 - O segmento de Jesus Cristo e a Ação Evangelizadora no Âmbito Universitário
103 - Pastoral Juvenil no Brasil – Identidade e Horizontes
104 - Comunidade de Comunidades: Uma nova Paróquia
105 - A Igreja e as Comunidades Quilombolas
106 - Orientações para projeto e construção de Igrejas e
disposição do Espaço Celebrativo
107A - Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade
108 - Missão e Cooperação Missionária
109 - O solo urbano e a urgência da paz
110 - Pastoral da Educação: Estudo para diretrizes nacionais
111 - Orientações pastorais para as mídias católicas: imprensa, rádio, TV e novas mídias
112 - Setor universidades da Igreja no Brasil: identidade e missão
113 - Orientação para adequação litúrgica, restauração e conservação das igrejas
114 - “E a Palavra habitou entre nós” (Jo 1,14). Animação Bíblica da Pastoral a partir das comunidades eclesiais
missionárias
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“E a Palavra habitou entre nós” (Jo 1,14)


Animação Bíblica da Pastoral a partir das comunidades eclesiais missionárias
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
1ª edição – 2021
Direção-Geral:
Mons. Jamil Alves de Souza
Edição:
João Vítor Gonzaga Moura
Revisão:
Leticia Figueiredo
Lohana Gregorim
Capa, projeto gráfico e diagramação:
Henrique Billygran Santos de Jesus
Impressão:
Coronário Editora Gráfica Ltda

978-65-5975-018-4

Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios
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SUMÁRIO
LISTA DE SIGLAS

APRESENTAÇÃO

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1
A PALAVRA FALA DA PALAVRA
1.1. Em saída com a Palavra
1.2. A Parábola do Semeador: contexto (Mt 13,1-9)
1.3. “Jesus saiu de casa... uma multidão ajuntou-se...” (Mt 13,1-3)
1.4. “Um semeador saiu a semear... a semente caiu...”
1.5. “Outras caíram em terra boa e dava fruto...”

CAPÍTULO 2
É TEMPO DE SEMEAR
2.1. A Palavra de Deus e sua importância na vida da Igreja
2.2. A Relação entre os católicos e a Sagrada Escritura: do distanciamento à proximidade
2.3. Animação Bíblica da Pastoral: do que estamos falando, do que se trata, o que
propõe, o que nos cabe fazer
2.4. A Palavra de Deus e Comunidades Eclesiais Missionárias e a Iniciação à Vida Cristã

CAPÍTULO 3
A PALAVRA DE DEUS E OS DESAFIOS À SEMEADURA
3.1. Acesso à Palavra de Deus
3.2. Edições diferentes da Bíblia
3.3. Ausência do primeiro anúncio
3.4. Interpretação da Bíblia e Leitura Fundamentalista
3.5. Palavra de Deus e o pensamento da prosperidade
3.6. Leitura pessoal, social e ecológica da Palavra de Deus
3.7. Desconhecimento da Palavra de Deus
3.8. De quem não podemos nos esquecer hoje

CAPÍTULO 4
SEMEADORES À SEMELHANÇA DO BOM SEMEADOR
4.1. Corresponsabilidade dos batizados na semeadura
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4.2. Serviços e ministérios ligados à Animação Bíblica da Pastoral


4.2.1. Leigos e leigas, Ministros da Palavra
4.2.2. Animadores para a Leitura Orante da Palavra
4.3. Ministros Ordenados, consagrados e consagradas
4.4. A Igreja Diocesana e os projetos para Animação Bíblica da Pastoral
4.4.1. Indicações para projetos diocesanos de Animação Bíblica da Pastoral
4.4.2. A unidade diocesana em vista da Animação Bíblica da Pastoral: as paróquias,
os movimentos, as novas comunidades e demais associações
4.4.3. Animação Bíblica da Pastoral em nível nacional
4.5. Escolas, Institutos e Faculdades em vista da Animação Bíblica da Pastoral
4.6. Instrumentos auxiliares

CAPÍTULO 5
A PALAVRA DE DEUS EM DIVERSOS TIPOS DE TERRENO
5.1. A Palavra de Deus e a Liturgia
5.1.1. A Palavra de Deus na Eucaristia e nos demais sacramentos
5.1.2. As Celebrações da Palavra
5.1.3. As homilias
5.2. A Palavra de Deus e a ação missionária
5.3. A Palavra de Deus, a Iniciação à Vida Cristã e a Catequese em geral
5.4. A Palavra de Deus e a piedade popular
5.5. A Palavra de Deus nas famílias
5.6. A Palavra de Deus e as juventudes
5.7. A Palavra de Deus, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso
5.8. A Palavra de Deus e os meios de comunicação
5.9. A Palavra de Deus e a formação dos ministros ordenados
5.9.1. A Palavra de Deus na formação inicial
5.9.2. A Palavra de Deus na formação permanente

CAPÍTULO 6
A PALAVRA DE DEUS: ACOLHIDA E SEMEADURA
6.1. A Animação Bíblica e as diversas óticas para o contato com a Palavra de Deus
6.2. A Leitura Orante, a Leitura Contínua da Escritura e a Lectio Divina
6.2.1. Leitura Orante
6.2.2. Leitura Contínua
6.2.3. Lectio Divina
6.2.4. O método ver-julgar-agir
6.3. Palavra de Deus concretizada na Caridade e no compromisso socioambiental
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transformador
6.3.1. A fraternidade restaurada em Jesus Cristo
6.3.2. A solidariedade julga os métodos
6.3.3. compromisso socioambiental transformador

CAPÍTULO 7
A ANIMAÇÃO BÍBLICA DA PASTORAL E SUA IMPLANTAÇÃO
7.1. Processos mais que campanhas
7.2. Condições para sua realização
7.2.1. Nível nacional
7.2.2. Nível diocesano
7.2.3. Nível local
7.2.4. Nível virtual
7.3. Um planejamento aberto à ação do Espírito

CONCLUSÃO
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LISTA DE SIGLAS
AL Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia
CIgC Catecismo da Igreja Católica
CfL Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christifideles Laici
ChV Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus Vivit
DAp Documento de Aparecida
DC Diretório para a Catequese – Pontifício Conselho para a Promoção da Nova
Evangelização
DCE Carta Encíclica Deus Caritas Est
DD Carta Apostólica Dies Domini
DGAE 2019-2023 Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-
2023
Doc. 97 Discípulos e servidores da Palavra de Deus na missão da Igreja
Doc. 99 Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil
Doc. 100 Comunidade de comunidades: uma nova paróquia
Doc. 105 Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade
Doc. 107 Iniciação à Vida Cristã
Doc. 108 Ministério e Celebração da Palavra
Doc. 110 Diretrizes para a formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil
DPb Documento de Puebla
DV Constituição Dogmática Dei Verbum
EG Exortação Apostólica Evangelii Gaudium
EN Exortação Apostólica Pós-Sinodal Evangelii Nuntiandi
FC Exortação Apostólica Pós-Sinodal Familiaris Consortio
FT Carta Encíclica Fratelli Tutti
GeE Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate
IBI A interpretação da Bíblia na Igreja – Pontifícia Comissão Bíblica
IGL Introdução Geral ao Lecionário
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LG Constituição Dogmática Lumen Gentium


LS Carta Encíclica Laudato Si’
MV Bula Misericordiae Vultus
NMI Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte
OT Decreto Optatam Totius
PDV Exortação Apostólica Pós-Sinodal Pastores Dabo Vobis
PG Exortação Apostólica Pós-Sinodal Pastores Gregis
QA Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia
RFIS O Dom da Vocação Presbiteral – Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis
SC Constituição Sacrosanctum Concilium
SCa Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis
VD Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini
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APRESENTAÇÃO
As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para o período 2019-2023
apresentam uma única prioridade: as comunidades eclesiais missionárias. Firmes no
vínculo entre seus membros, elas são alimentadas pela Palavra de Deus e pelos
sacramentos, além da vida de oração e da prática da caridade. Por seu testemunho e
suas atividades, vivenciam a dimensão missionária e contribuem para a transformação
de pessoas, grupos e sociedade.
Foi por isso que se considerou a Palavra de Deus como tema central da 58ª
Assembleia Geral dos Bispos. Inicialmente prevista para 2020, só ocorreu, porém, em
2021 e no formato virtual. A responsabilidade diante da pandemia que ainda assola o
mundo e causa apreensão no Brasil não nos permitiu, em consciência, realizar a
Assembleia presencialmente. Este fato acabou por impedir que alguns assuntos, dentre
os quais o tema central, pudessem ser amplamente refletidos e aprovados em definitivo
como um Documento da CNBB. Obteve aprovação como subsídio destinado a estudo e
amadurecimento.
Em linha de continuidade com as reflexões anteriores sobre o mesmo tema, o atual
subsídio apresenta um perfil eminentemente pastoral, não desejando substituir textos
anteriores, primorosos no assunto. Quer contribuir para que a Igreja no Brasil avance
ainda mais na relação com a Palavra de Deus, alimentando pessoas, grupos,
comunidades e demais associações, bem como estimulando o espírito missionário.
Por isso, o coração pastoral de todo o texto ora apresentado encontra-se na Animação
Bíblica da Pastoral, não se tratando apenas de um projeto específico, mas do estímulo a
todas as forças evangelizadoras para que a Palavra de Deus esteja ainda mais na vida
das pessoas, nutrindo-as e fortalecendo-as no anúncio do Reino.
O texto é o esforço de uma comissão de bispos e assessores, em cujo trabalho se
inseriu ampla escuta de catequetas, biblistas, pastoralistas e comissões pastorais em
nível nacional. A partir dele, cabe a cada Igreja local estabelecer seu modo de aplicação,
concretizando as sugestões apresentadas. Desse modo, o atual subsídio haverá de
estimular a Animação Bíblica da Pastoral e as ações levadas a efeito ajudarão a
aprimorar esse texto para que, em uma futura Assembleia presencial, ele seja aprovado
em definitivo.
Coincidentemente, neste ano de 2021, estamos celebrando o Jubileu de Ouro do Mês
da Bíblia, iniciativa que em muito tem dinamizado a presença da Escritura entre nós.
Um dos maiores modos de celebrar este Jubileu será, sem dúvida, acolher esse texto,
refletir sobre ele, buscar sua aplicação e, por meio das Comissões Regionais de
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Animação Bíblico-Catequética apresentar sugestões para que ele seja um grande


instrumento de serviço à evangelização.
A Palavra habitou entre nós (Jo 1,4) e quer produzir seus frutos (Mt 13,8). Que o
Deus da Palavra nos ajude a assim proceder!
Brasília, 29 de março de 2021, Memória de Sta. Catarina de Sena.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte – MG
Presidente
Dom Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre – RS
Primeiro Vice-Presidente
Dom Mário Antônio da Silva
Bispo de Roraima – RR
Segundo Vice-Presidente
Dom Joel Portella Amado
Bispo Auxiliar de São Sebastião do Rio de Janeiro – RJ
Secretário-Geral
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INTRODUÇÃO
Em sua missão evangelizadora, a Igreja se alimenta da Palavra de Deus (Ez 3,1) e a
compartilha com a humanidade faminta (Mt 15,32; Am 8,7.11). Embora, ao longo dos
séculos, a Igreja nunca tenha se distanciado da Palavra de Deus, os modos de realizar
esse contato se diferenciaram bastante.
Em nossos dias, torna-se indispensável estabelecer e fortalecer, em pessoas e
comunidades, o vínculo entre a Palavra de Deus e a vida, tornando a ação pastoral cada
vez mais alicerçada no contato fecundo com a Escritura Sagrada. É o encontro com o
Senhor Ressuscitado que, na força do Espírito, conduz à Igreja, comunidade dos
discípulos e discípulas, e torna essa grande comunidade sempre mais missionária na
vivência e no anúncio da Palavra de Deus.
Para isso, já a Conferência de Aparecida indicava a importância da Animação
Bíblica da Pastoral, como “escola de interpretação ou conhecimento da Palavra, de
comunhão com Jesus ou oração com a Palavra, e de evangelização inculturada (...)”
(DAp, n. 248).1 Essa mesma proposta foi abordada no Sínodo sobre Palavra de Deus,
destacada pelo Papa Bento XVI na Exortação Apostólica Pós Sinodal Verbum Domini (n.
273)2 e concretizada para o Brasil no Documento 97 da CNBB: Discípulos e Servidores da
Palavra de Deus na Missão da Igreja.
Com base, pois, nessa trajetória de crescente aproximação e integração da Escritura
Sagrada com a vida de pessoas e comunidades, é que as Diretrizes Gerais da Ação
Evangelizadora, ao indicarem como única prioridade as comunidades eclesiais missionárias,
apresentam a Palavra de Deus entre os pilares constitutivos de qualquer comunidade
eclesial (DGAE 2019-2023, n. 88-92.143-159).3
É preciso, no entanto, perceber que o pilar da Palavra não pode ser compreendido
apenas como um conjunto de atividades a serem realizadas durante o quadriênio das
DGAE. Trata--se, na verdade, de um passo na Animação Bíblica da Pastoral, permitindo
que, a partir do contato com a Palavra de Deus, as comunidades se fortaleçam e, à
semelhança do grão de mostarda (Mt 13,31-32), irradiem o compromisso pela vida de
pessoas, povos e da casa comum, em especial os que se encontram em situações de
maior vulnerabilidade.
Por tudo isso, as indicações aqui apresentadas querem ser o ponto de partida para
um rico processo de atuação da Igreja no Brasil, processo que certamente ultrapassará o
período de vigência das atuais DGAE, recordando-nos que o amor à Palavra de Deus e
o compromisso missionário nunca se extinguem.
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CAPÍTULO 1
A PALAVRA FALA DA PALAVRA

1.1. Em saída com a Palavra


1. Somos uma Igreja em caminho, atravessando a história, aproximando-se de cada
pessoa. Foi exatamente este o percurso de Jesus, quando esteve entre os seus. É possível
vê-lo em constantes movimentos de saída, de busca. Algumas indicações são bastante
ilustrativas, quer no movimento, quer nas experiências suscitadas: o chamado e a
adesão dos primeiros discípulos surgiram com Jesus caminhando junto ao mar da
Galileia (Mt 4,18). Algo semelhante aconteceu no encontro com o centurião de
Cafarnaum (Mt 8,5), o paralítico (Mt 9,1-2) e com estrangeiros de Tiro e Sidônia (Mt
15,21). Os exemplos podem se estender ao discurso das parábolas (Mt 13,1s). Até
mesmo suas últimas palavras dirigidas aos discípulos, pronunciadas em tom
imperativo, com “toda a autoridade no céu e na terra” (Mt 28,18), propunham o mesmo
movimento de permanente saída: “Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos” (Mt
28,19). As saídas de Jesus não eram mera estratégia de atuação. Muito mais, elas
retratavam que o Filho muito amado (Mt 4,17) mantinha-se em permanente busca por
aqueles que Deus sempre quis ter próximos a si.
2. Hoje não é outra a missão da Igreja. “Evangelizar constitui, de fato, a graça e a
vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade” (EN, n. 14).4 Como seu
Senhor, a ela incumbe proclamar infatigavelmente o Reino de Deus (EN, n. 11). E o
Senhor se comunicava com gestos, toques, olhares e sentimentos... Tudo nele era no
Espírito atuação e realeza da misericórdia do Pai. Entre os encantos e fascínios que Jesus
suscitava, os evangelistas destacam o maravilhamento que seu ensinamento
desencadeava (Mt 7,28; Lc 4,32). Como hoje, também no seu tempo não faltavam
doutrinas e argumentos. Mas o seu falar tinha autoridade. Ele se diferenciava dos
outros Mestres (Mt 7,28-29). Suas palavras tinham a vida do Eterno (Jo 6,68).
3. Essas observações, ainda que breves, sugerem que para a Igreja não existe outro
método. Sem a Palavra é como se a Igreja quisesse evangelizar silenciando o próprio
Jesus. Ele mesmo é a pronúncia viva do Altíssimo. E as páginas que seguem tentam
traduzir o desejo da Igreja no Brasil de alargar os ouvidos à voz do Senhor, que se pôs a
falar em parábolas acerca da Palavra.

1.2. A Parábola do Semeador: contexto (Mt 13,1-9)


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4. Os evangelistas perceberam a grandeza da Palavra no ministério de Jesus. Por isso


os três sinóticos dedicaram-se a conferir grande importância à Parábola do Semeador
(Mc 4,1-9; Mt 13,1-9; Lc 8,4-8). Curiosamente, os três realçam que o próprio Senhor é
também o seu intérprete (Mc 4,13-20; Mt 13,18-23; Lc 8,11-15). Afinal, para os discípulos
a temática da Palavra é de tal modo essencial que ninguém pode lhe conferir outro
sentido que não aquele atribuído pelo próprio Mestre e Senhor. Aliás, o evangelista
Mateus, reconhecido por sua habilidade catequética, enfatiza que é o próprio Jesus a
tomar a iniciativa de interpretar (Mt 13,18s). Esta particularidade é interessante, pois se
trata justamente de uma parábola a respeito da Palavra de Deus.
5. Ela já recebeu diferentes títulos: parábola do semeador; do semeador determinado;
dos diversos terrenos; do camponês atribulado... Mas o próprio autor do Evangelho a
chamou de Parábola do Semeador (9,18). Todavia, é fácil perceber que ele acentua
muito mais a semente que o semeador. Ele mesmo dispõe, enfaticamente, que a semente
é a Palavra (13,19.20.21.22.23).
6. Antes de lançar o olhar ao texto escrito, muito ajuda observar o leitor de Mateus.
Ele sabe que quem está falando em parábolas é aquele que, por ocasião do seu batismo,
os céus foram abertos (3,16). Ou seja, com ele Deus abre suas portas à humanidade.
Nele está o Espírito de Deus, isto é, suas palavras, ações e gestos sustentam-se na força
do alto. É uma realidade absolutamente nova, jamais imaginada: o “Filho amado” do
Altíssimo, portador das afeições (Mt 3,17), participa dos passos da humanidade
pecadora. E justamente ele, eis que o vemos e ouvimos falar em parábolas. Assunto da
primeira delas: a Palavra.
7. Não obstante este quadro inicial de maravilhamento, o leitor do Evangelho
segundo Mateus, talvez muito impressionado, tem ante os olhos as dúvidas de pessoas
retas como João Batista (Mt 11,3: “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar
outro?”), ou da parte dos discípulos dele (9,14). Mas há preocupações maiores. Trata-se
da hostilidade das autoridades religiosas. Já acontecera um sério confronto na cura do
paralítico: a multidão glorificou a Deus (Mt 9,8). Os escribas, por sua vez, reagiram com
murmúrios (Mt 9,3). Também os fariseus mostraram seu desgosto. Até o acusavam por
ter se assentado com publicanos e pecadores (Mt 9,11). Embora Jesus respeitasse a Lei
(Mt 5,17), criticavam-no por não observar o sábado (Mt 12,2.13). Até atribuíram à força
dos demônios todo o bem que Ele fazia (Mt 12,24). A tensão cresceu a ponto de
deliberarem sobre os meios de o eliminar (12,14).
8. Em um mesmo grande quadro há deslumbramentos e contraposições. E Mateus
coloca em face do leitor, de qualquer época, os caminhos favoráveis e contrários à
Palavra. Ela não encontra um acolhimento homogêneo e triunfal. Assim como a
semente na terra, a Palavra é lançada no mundo com todas as suas contradições. Por
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isso ela suscita encontros e desencontros. Se, por um lado, há dificuldades na


semeadura, por outro, está assegurada a alegria surpreendente do fruto produzido. O
leitor do Evangelho percebe que para Jesus e seus discípulos, a situação é de
ambiguidades e crises. Mas Jesus confia na força da Palavra. Não busca outros métodos
senão o do anúncio corajoso e apaixonado. Ele não se curva ante resistências. Tampouco
se deixa fascinar pelo sucesso dos milagres (Mc 1,45). Decisivo, fundamental,
irrenunciável, é lançar a semente, a Palavra.

1.3. “Jesus saiu de casa... uma multidão ajuntou-se...” (Mt 13,1-3)


9. Com grande frequência os evangelistas nos mostram Jesus em ritmos de saída,
sempre a procura. Isso não parece mera casualidade. Este processo aponta muito mais
para o anseio do Filho de Deus de encontrar e deixar-se encontrar. Desse movimento
resultou o chamado dos primeiros discípulos (Mt 4,18s). Houve percursos por toda a
Galileia, anunciando a Boa-Nova do Reino (Mt 4,23); retornando para sua cidade,
trouxeram-lhe um paralítico (9,1-2); sempre em saída, e passando por um certo lugar,
“Jesus viu um homem, chamado Mateus” (Mt 9,9); Ele entrou na casa de Jairo (Mt 9,25)
e, partindo dali, “dois cegos o seguiram” (Mt 9,27). Até mesmo a compaixão, uma das
mais importantes características do Pai, reveladas por Jesus, Ele o fez em um contexto
de saída: “Jesus percorreria, então, todas as cidades e povoados (...). Ao ver as
multidões, Jesus encheu-se de compaixão por elas” (Mt 9,35.36).
10. Introdução muito semelhante existe para a parábola que versa sobre a Palavra:
“Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-se junto ao mar” (Mt 13,1). A julgar pelas
linhas anteriores, são fortes os indicativos de que o evangelista queria oferecer muito
mais que mera informação. Pode-se falar de um princípio de atuação que qualifica o
anúncio do Evangelho. Não se tratava apenas de enunciar a mensagem. Para proclamá-
la era também necessário sair. Sua saída tinha um rumo bem definido. E não era um
lugar religioso como a sinagoga ou ambiente sagrado. Era para um ponto no qual
passariam todos, justos e injustos, curados e doentes, virtuosos e pecadores. É para isso
que aponta a notícia de que Ele “sentou-se junto ao mar” (Mt 13,1).
11. Tampouco o gesto de sentar-se é algo ordinário, como se fosse um gesto habitual
e sem importância. Não era uma mera referência a uma posição física. Significava a
atitude do mestre que se punha a ensinar. Fora assim lá na montanha (Mt 5,1), quando
Ele se pôs a ensinar os discípulos. Mas lá na montanha Ele falava aos discípulos. Aqui
há um novo e importante passo: Ele está falando da Palavra para muitos mais, para a
multidão, precisamente lá onde muitos, de diferentes culturas e etnias, chegavam e
partiam. De fato, o termo multidão, bem como a “margem do lago”, também a “barca”,
apontam para um cenário muito plural. Assim era a também a cidade de Cafarnaum.
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1.4. “Um semeador saiu a semear... a semente caiu...”


12. A semeadura, imagem pouco frequente na tradição bíblica, é sinal de esperança.
Desde o Antigo Testamento ela indica a ação de Deus que continuamente volta a
ocupar-se com seu povo. A imagem da semeadura ilustra que Deus, em grandes
atenções, quer reconstruir a aliança com seus eleitos, após uma situação ou período de
crise da parte de Israel (Is 37,30; Jr 31,27; Os 2,23-35). Ou seja, no caso da parábola o
semeador que, em saída, põe-se a semear, está retratando os encantos renovados de
Deus por seu povo pecador. Enquanto houver a Palavra, Deus não está silencioso e a
Igreja, no movimento de semear a Palavra, mantém vivos e ativos na história os tempos
de esperança.
13. O semeador não se preocupa em escolher o solo no qual deve lançar a semente.
Acaso semear em chão duro, ou pedregoso, ou repleto de espinhos, não se afigura em
insensatez? Seria, acaso, uma imperdoável distração do evangelista narrador? Na
realidade tudo isso é coerente com a surpreendente lógica de Deus, como ensina o Papa
Francisco.5 O Senhor quer a Palavra semeada em toda parte, de modo a fazê-la chegar a
todos os ambientes, até nos espaços e contextos mais distintos e distantes. É isso que se
depreende da explícita delimitação e distinção dos solos: à beira do caminho, com os
passarinhos a comer a semente; no chão pedregoso, símbolo do entusiasmo superficial,
que não resiste às tribulações; no terreno repleto de espinhos, com a pouca terra e sol
abrasador, sufocando a semente. A precisão nos particulares, incluindo os resultados
negativos que incidiram sobre a semente, aponta para as determinações vigorosas e
abrangentes do semeador.
14. Talvez o leitor, ao se deparar com a parábola, surpreenda-se com tais critérios:
ele, semeador, faz a semente da Palavra cair em todos os tipos de solo. Todavia, aqui é
preciso atinar para alguns importantes elementos. O leitor ainda nem passou do
capítulo 13 e observa que o próprio Jesus já tinha se deparado com todos estes tipos
negativos de solo. Basta um breve olhar para perceber. A semente caída na beira do
caminho, logo consumida pelos passarinhos, faz lembrar a Palavra arrebatada pelo
Maligno (Mt 13,18). Algo semelhante tentaram fazer os fariseus com o Senhor Jesus: eles
atribuíram a Beelzebu a força que sustentava suas ações (Mt 9,34; 12,24). Até já haviam
deliberado sobre como matar Jesus (Mt 12,14).
15. Quanto ao destino da semente caída em solo pedregoso ou em meio a espinhos,
os mesmos traços se podem vislumbrar nas palavras de Jesus acerca das cidades à beira
do lago: Corazin, Betsaida, Cafarnaum. Elas foram muito agraciadas pela presença
messiânica de Jesus (Mt 11,20-24), mas não se arrependeram! Nelas a semente caiu,
germinou, porém, foi sufocada. Também na região dos gadarenos Jesus foi intimado a
deixar aquela terra (Mt 8,34). Ou seja, o leitor compreende a lógica da parábola sobre a
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Palavra a partir das ações e opções do próprio Senhor. Aconteceu com Ele o que se
verificou com a Palavra. Ele, o Filho de Deus, levou a Palavra a todos os solos. E, para
superar quaisquer dúvidas, e convidar os leitores de qualquer tempo a aderir a tais
critérios, explicitou a parábola aos discípulos (Mt 13,18-23). Daí se entende aquela frase
conclusiva: “Quem tiver ouvidos, ouça” (Mt 13,23).

1.5. “Outras caíram em terra boa e dava fruto...”


16. Contudo, há também a notícia boa. Após vários fracassos impostos à semente, eis
que, finalmente, algo se apresenta como gratificante. Aqui vale acompanhar com
atenção o evangelista. Por várias vezes ele empregara o termo “fruto” (Mt 3,8.10; 7,16-
20; 12,33). Na nossa parábola o bom terreno oferecia os seus favores e a semente dava
fruto. Este modo de escrever quer chamar a atenção do leitor. Não se trata de um fato
ou uma experiência única e estanque, que se esgota em um fato isolado. O destaque vai
para o caráter continuativo da ação. Ou seja, a Palavra não deu fruto apenas uma vez, e
tudo terminou. Isso acontece com o grão apenas uma vez. Com a Palavra o efeito se
estende. Ela continuava a dar fruto. Neste caso, a adesão e o acolhimento da Palavra de
Deus se desdobram em fé ativa e perseverante. Em nossos dias, pastoralmente
preocupados com a Iniciação à Vida Cristã, podemos falar do bom terreno sendo aquele
que é iniciado na recepção da Palavra nos outros solos, “não iniciados”, a Palavra foi
queimada pelo sol ou sufocada pelos espinhos.
17. O fruto da Palavra, da semente, é apresentado em três medidas: cem, sessenta e
trinta por um. O fracasso dos três terrenos estéreis é contrabalanceado pelo acolhimento
e gratuidade do bom terreno. Algo assim aconteceu também com Jesus. Fora essa a sua
própria experiência. As multidões, extasiadas com sua Palavra repleta de autoridade
(7,28; 9,8), ainda não são equiparáveis a bons terrenos. Maravilharam-se, mas tudo isso
poderia se assemelhar à semente queimada pelo sol ou sufocada pelos espinhos.
Entretanto o leitor tem bem presente a admiração do Senhor com a fé do centurião (Mt
8,10), ou a fé da mulher padecente de hemorragias (Mt 9,20-22). Eles ofereceram sua
adesão à pessoa de Jesus. Por isso não receberam apenas a cura. Foi-lhes dada a
salvação: “Tua fé te salvou” (Mt 9,22).
18. É este o rumo da expressão conclusiva: “Quem tiver ouvidos, ouça”. Além de
uma advertência em estilo profético, ela ecoa uma voz fundamental e presente em todo
o Antigo Testamento: “Escuta, Israel!” (Dt 6,4). Ouvir a voz de Deus era o primeiro
momento de adesão de fé. Agora se trata de ouvir a Palavra do Senhor Jesus. Já no final
do seu primeiro discurso, aquele da Montanha, ressoou uma primeira exortação: “E
quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática é como um insensato” (Mt
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7,26). Aos discípulos de qualquer tempo, aos de ontem e de hoje, incumbe a grande
missão de ensinar o povo de Deus a ouvir a Palavra e a ela responder.
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CAPÍTULO 2
É TEMPO DE SEMEAR

2.1. A Palavra de Deus e sua importância na vida da Igreja


19. Antes de um novo passo, cumpre aqui destacar o que se quer dizer com a
expressão Palavra de Deus. No Sínodo sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da
Igreja (2008) falou-se de “sinfonia da Palavra, de uma Palavra única que se exprime de
diversos modos” (VD, n. 7). Pode-se falar de Palavra de Deus comunicada na obra da
criação. Também se pode dizer que Deus se revelou nos acontecimentos da história da
salvação, no testemunho dos Apóstolos, na Tradição viva da Igreja. No entanto, a
melhor e a perfeita expressão da Palavra de Deus é Jesus Cristo. Ele é “realmente o
Verbo de Deus que Se fez consubstancial a nós” (VD, n. 7).
20. Todavia, a Sagrada Escritura é uma expressão muito especial e modelar para se
ter acesso à comunicação de Deus à humanidade. Se, por um lado, a Palavra de Deus a
transcende, por outro, ela é portadora das coisas divinamente reveladas e que “foram
postas por escrito sob a inspiração do Espírito Santo” (DV, n. 11).6 De nenhuma outra
expressão da Palavra de Deus se diz tanto quanto no caso da Sagrada Escritura. É, pois,
dotada de uma singularidade única. Consequentemente, o livro da Palavra, isto é, a
Bíblia, é um precioso meio de encontro com Jesus Cristo. “Faz-se, pois, necessário
propor aos fiéis a Palavra de Deus como dom do Pai para o encontro com Jesus Cristo
vivo, caminho de ‘autêntica conversão e de renovada comunhão e solidariedade’. Essa
proposta será mediação de encontro com o Senhor se for apresentada a Palavra
revelada, contida na Escritura, como fonte de evangelização” (DAp, n. 248).
21. A imagem da Escritura como fonte da evangelização é de grande força evocativa.
Se faltar a fonte, a água não jorra; a vida desfalece. Sem água a harmonia da criação se
rompe. A gratuidade e reciprocidade entre os diferentes elementos da natureza cessam.
Enfim, a vida não floresce e a morte se impõe. Algo assim se pode dizer da Palavra. A
própria Escritura a comenta. Ela é como a chuva ou a neve: nunca retornam para o céu
“tornando-a fecunda e (...) produzindo semente para quem semeia e pão para quem
come” (Is 55,10-11). Sem semente, sem pão a vida humana cessa. Sem a Palavra bíblica
facilmente se esgota o diálogo com Deus; sem a leitura da Palavra não é possível o
encanto por Jesus Cristo e o encontro com Ele.
22. Aliás, esta é uma das mais genuínas percepções da Igreja. Faz parte das suas mais
originárias tradições. Muitos exemplos poderiam ser lembrados. Por agora seja
recordado São Jerônimo, chamado por Bento XVI de “o grande enamorado da Palavra
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de Deus”. Ele assim se interrogava: “Como seria possível viver sem o conhecimento das
Escrituras, se é por elas que se aprende a conhecer o próprio Cristo?”.7 Também o
Concílio Vaticano II foi enfático. Basta mencionar aqui algumas breves linhas, mas de
muito alento: “As divinas Escrituras sempre foram veneradas como o próprio Corpo do
Senhor pela Igreja” e, juntamente com a Tradição, a tem como “suprema regra de vida”
(DV, n. 21).
23. Impressiona a força de certas imagens ou expressões adotadas nas últimas
décadas pela própria Igreja. Vale considerar sua linguagem forte. “O estudo da Sagrada
Página seja como que a alma da Sagrada Teologia” (DV, n. 24). “A Sagrada Escritura
deve ser a alma da evangelização” (DPb, n. 372).8 Em Aparecida, as mesmas percepções
se conjugaram: “A Palavra de Deus, escrita por inspiração do Espírito Santo”, é, com a
Tradição, fonte de vida para a Igreja e alma de sua ação evangelizadora. Mas ficou
também uma forte advertência: “Desconhecer a Escritura é desconhecer Jesus Cristo e
renunciar a anunciá-lo” (DAp, n. 247).
24. Portanto, ao propor-se a Animação Bíblica da Pastoral a Igreja no Brasil não busca
nenhuma novidade. No entanto, reconhece que se quiser evangelizar com alma, com
paixão, se deseja que a fonte da Palavra sempre jorre para seu povo, não há caminho
mais efetivo do que deixar-se mover pela força da Palavra em todas as suas ações e
todos os seus projetos. “Quando não se formam os fiéis num conhecimento da Bíblia
conforme a fé da Igreja, no sulco da Tradição viva, deixa-se efetivamente um vazio
pastoral” (VD, n. 73). A expressão “vazio pastoral” é forte. Por se tratar da Escritura, ela
faz aflorar o pensamento de um diálogo silenciado entre Deus e seu povo. Indivíduos e
comunidades continuariam sedentos.

2.2. A Relação entre os católicos e a Sagrada Escritura: do


distanciamento à proximidade
25. O Concílio Vaticano II recordou que “Os fiéis devem poder ter amplo acesso à
Sagrada Escritura” (DV, n. 22). Esta frase, ao dizer o óbvio, assinalava para um caminho
de retorno ao que fora uma das experiências fundantes da Igreja: “Eles eram
perseverantes no ensinamento dos apóstolos” (At 2,42). Para o jovem Timóteo, o
conselho do mestre foi lapidar: “Elas [as Escrituras Sagradas] têm o poder de te
comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé no Cristo Jesus” (2Tm 3,15).
Todavia, por longos séculos e sob o efeito de graves fatores históricos, a Escritura não
recebeu o lugar proeminente e extraordinário que lhe era próprio. Porém, a partir do
Concílio, as portas se alargaram.
26. Desde então, a Sagrada Escritura se tornou semelhante à semente, como na
parábola do semeador (Mt 13,1-9). Foi lançada em muitos ambientes. Os fatos da Bíblia
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e os da vida do povo e das comunidades encontraram muitos entrelaçamentos. Páginas


bíblicas que se afiguravam muito complicadas se tornaram familiares à sensibilidade de
nossa gente. Multiplicaram-se os encontros de formação bíblica; surgiram os chamados
círculos bíblicos; os grupos de reflexão e partilha em torno da Palavra se expandiram
grandemente. Também os movimentos eclesiais e novas comunidades têm
protagonizado um grande dinamismo em torno à Sagrada Escritura.
27. Embora seja justo reconhecer que cresceu muito o apreço pela Sagrada Escritura
nos meios católicos, nem tudo, porém, foi linear. Ocorreram até perspectivas
contrastantes. Correções foram necessárias. As diferenças não foram sem tensões,
gerando às vezes conflitos que reclamaram maturação e aprofundamento. Cabe aqui
reconhecer a participação de bispos e presbíteros particularmente afeiçoados à
Escritura. Mas foram os leigos os protagonistas por excelência para a aproximação e
paixão pela Bíblia. Amadureceram na fé, testemunharam seu amor à Igreja,
aprofundaram sua familiaridade com a Palavra, manifestando-se como autênticos
sujeitos eclesiais (CNBB, Doc. 105, n. 119).9 As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs),
os círculos bíblicos, os grupos de reflexão, a catequese, os movimentos sociais e eclesiais
foram largamente coordenados por cristãos leigos e leigas. E aqui destaca-se a força
evangelizadora das mulheres.
28. Todavia, os tempos mudaram. As transformações culturais têm surpreendido em
intensidade e profundidade. Muito tem se falado em mudança de época (DAp, n. 44).
Fala-se também em pós-verdade, em gerações digitais, mundo digital, em revolução 4.0.
Quase tudo é instável. Surgiu a expressão “sociedade líquida”. Tornaram-se líquidas as
relações, as identidades, os valores fundamentais, os afetos, as crenças, os projetos de
vida... A tecnologia maravilhou o ser humano, mas também desnudou suas impotências
e vazios. Pessoas, comunidades e sociedades estão mergulhadas em profundas crises.
29. Por outro lado, crescem os anseios por respostas ao coração humano. São
maravilhosos os resultados conquistados pela ciência e tecnologia. Eles testemunham a
genialidade da inteligência humana. Talvez se poderia até pensar que a história teria
novos e promissores rumos. Contudo, se faltar uma verdadeira experiência de fé, o ser
humano se desencontra. Observa-se isso no grande consumo religioso. E no Brasil
somos uma Igreja desafiada a uma palavra efetivamente esperançosa. Todo ser humano
tem direito à esperança. E a Animação Bíblica da Pastoral se levanta como uma resposta
criativa. Foi esta a inspiração dos primeiros cristãos. Foi esta a melhor explicação para
tanta fecundidade evangelizadora.

2.3. Animação Bíblica da Pastoral: do que estamos falando, do que se


trata, o que propõe, o que nos cabe fazer
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30. A Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini quis despertar os católicos


para a necessidade fundamental de recolocar a Escritura no lugar central da vida dos
discípulos de Jesus. Com a palavra o Papa Bento XVI: “Juntamente com os Padres
sinodais, expresso o vivo desejo de que floresça ‘uma nova estação de maior amor pela
Sagrada Escritura da parte de todos os membros do Povo de Deus’” (VD, n. 72). É
interessante observar a força das expressões: “vivo desejo”, “nova estação de maior
amor”, “por parte de todos os membros do povo de Deus”. São indicativos que
apontam para uma realidade que insiste fortemente. Há até um reconhecimento
implícito de que a Palavra escrita de Deus ainda não recebe a centralidade que lhe é
devida.
31. E logo no número seguinte da Verbum Domini, o Papa Bento XVI propõe a
“Animação Bíblica da Pastoral inteira” (VD, n. 73). Eis o que ele afirma: “Não se trata
simplesmente de acrescentar qualquer encontro na paróquia ou na diocese, mas de
verificar que, nas atividades habituais das comunidades cristãs, nas paróquias, nas
associações e nos movimentos, se tenha realmente a peito o encontro pessoal com Cristo
que se comunica a nós na sua Palavra” (VD, n. 73). O motivo é o encontro pessoal com
Cristo. Vale notar que o texto pontifício, recolhido de um Sínodo, está a indicar que “nas
atividades habituais” dos cristãos nunca pode faltar o ânimo originado da familiaridade
com a Escritura. Não se trata, pois, de novas reflexões. São hábitos pastorais a carecer de
ânimos bíblicos.
32. O que se pretende com a Animação Bíblica da Pastoral? Não se trata aqui de
enunciar novos formatos, novos esquemas e organismos, novas sistematizações
organizacionais de paróquias ou dioceses. Mais do que tudo, e antes de qualquer outra
iniciativa, por animação bíblica se pretende dizer que todos os agentes evangelizadores,
sejam eles bispos, padres, religiosos(as), catequistas, ministros(as) extraordinários(as),
coordenadores(as), administradores(as) de quaisquer instituições eclesiásticas, todos
tenham o ânimo, a seiva interior originada do encontro com o Senhor mediante a
Palavra. E quem o encontra, se alegra, passa a compreender e interpretar a realidade
com os critérios de sua palavra. É o caminho da conversão pastoral.
33. O que fazer para que nossos evangelizadores sejam “biblicamente animados”?
Trata-se fundamentalmente de espiritualidade bíblica. Esta pode ser cultivada de
diferentes modos. Vale lembrar que a Palavra tem uma “potência sacramental” (VD, n.
56; 195), ou seja, ela realiza o que pronuncia. Escrevia São Jerônimo: “Lemos as
Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as santas
Escrituras são o seu ensinamento” (VD, n. 56). A liturgia, celebrada como verdadeira
linguagem do mistério da pessoa de Jesus, e a Leitura Orante da Palavra apresentam-se
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como as melhores possibilidades para que os discípulos de hoje, do mesmo modo como
os da primeira hora da Igreja, evangelizem biblicamente inspirados.

2.4. A Palavra de Deus e Comunidades Eclesiais Missionárias e a


Iniciação à Vida Cristã
34. Assim como em outros tempos, também nas recentes Diretrizes Gerais da Ação
Evangelizadora estão bem explicitadas as metas a que se propõe nossa Igreja no Brasil:
“Evangelizar no Brasil cada vez mais urbano, em comunidades eclesiais missionárias,
pelo anúncio da Palavra de Deus” (DGAE 2019-2023, p. 9). Pois bem, este propósito é
um solene eco da Verbum Domini, quando propunha a Animação Bíblica da Pastoral.
Afinal a “Igreja funda-se sobre a Palavra de Deus, nasce e vive dela” (VD, n. 3). A
centralidade da Palavra reconduz nossas comunidades às fontes verdadeiras da vida
eclesial. Elas se renovam na medida em que a voz da Escritura for presença, inspiração
e influência.
35. Nossas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora propõem, ademais, que a
evangelização pelo anúncio da Palavra se realize em “comunidades eclesiais
missionárias”. É uma meta presente já na face principal do texto. Não é um ornamento.
É um projeto da vida eclesial. Não se trata de um modo de fazer. É um modo de ser. O
Papa diz ainda: “é bom que, na atividade pastoral, se favoreça também a difusão de
pequenas comunidades, ‘formadas por famílias ou radicadas nas paróquias ou ainda
ligadas aos diversos movimentos eclesiais e novas comunidades’, nas quais se promova
a formação, a oração e o conhecimento da Bíblia segundo a fé da Igreja” (VD, n. 73).
36. É para esta direção que apontam as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora,
quando voltam suas reflexões sobre as comunidades missionárias. Elas “oferecem um
ambiente humano de proximidade e confiança que favorece a partilha de experiências, a
ajuda mútua nas mais variadas situações” (DGAE 2019-2023, n. 34). Novamente o Papa
Bento XVI diz: “Muitas pessoas carecem da experiência da bondade de Deus... Somos
chamados a buscar novos caminhos da evangelização... Um destes caminhos poderiam
ser as pequenas comunidades...”.10 Nessas pequenas comunidades, guiado pela Palavra,
o povo de Deus encontra formas muito singulares e familiares de se reconhecer em sua
vocação e missão, em comunhão e solidariedade.
37. Outro caminho efetivo e criativo para a transmissão da fé, que faz parte das mais
originárias experiências evangelizadoras da Igreja é a Iniciação à Vida Cristã. São
maravilhosos os seus frutos quando empreendida com desvelo. Assim como a Leitura
Orante, individual e/ou comunitária, também a Iniciação se integra quase à perfeição ao
que enfatiza o Papa Francisco: “É preciso ter a coragem de encontrar os novos sinais, os
novos símbolos, uma nova carne para a transmissão da Palavra” (EG, n. 167).11
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Ademais, na Iniciação à Vida Cristã tanto o chamado Pilar da Palavra quanto o Pilar do
Pão encontram expressões e tradições muito vivenciais da fé. Afinal, crer em Jesus
Cristo não é mero sistema religioso a adotar. É encontrar-se com sua pessoa e segui-lo.
Daí a ênfase no querigma, no catecumenato, na purificação-iluminação e na mistagogia.
Por estes passos assegura-se o primado de Jesus Cristo e da vida eclesial.
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CAPÍTULO 3
A PALAVRA DE DEUS E OS DESAFIOS À SEMEADURA

38. Como se percebe na parábola do semeador, o agricultor é zeloso, a Semente é


fecunda e generosa, mas alguns terrenos apresentam desafios à semeadura. Por isso, é
importante ter clareza sobre os desafios que o tempo presente suscita à semeadura. São
desafios que, de algum modo, sempre estiveram presentes na ação evangelizadora. Em
nossos dias, porém, eles têm exigido maior atenção.

3.1. Acesso à Palavra de Deus


39. “Os fiéis devem poder ter amplo acesso à Sagrada Escritura” (DV, n. 22). Por isso,
toda a Igreja, imbuída de um profundo amor à Palavra de Deus, é convocada a
propagar a mensagem de salvação, que vem de um Deus profundamente apaixonado
pela humanidade (DGAE 2019-2023, n. 148). Ao propagar a Palavra, faz-se necessária
atenção às pessoas para as quais a Bíblia é uma grande desconhecida, seja porque elas
nunca encontraram quem lhes apresentasse, seja porque não têm condições materiais de
adquiri-la. Nesse sentido, Palavra de Deus e ação missionária se complementam
irrenunciavelmente, fazendo com que a Igreja, dentre suas preocupações missionárias,
coloque a apresentação da Palavra de Deus e o auxílio à sua acolhida como parte
indispensável da missão. Isso se aplica tanto a quem não participa da vida da
comunidade quanto a quem dela não participa ativamente. Além disso, entre tantas
categorias, chamam atenção algumas situações bem peculiares como as pessoas não
alfabetizadas e pessoas com deficiência, que devem suscitar maior preocupação.
40. A Igreja é constantemente interpelada a dar oportunidade de acesso à Sagrada
Escritura a todos. Especialistas e servidores da Palavra, criativamente, são chamados a
encontrar formas de acesso de todos à Palavra de Deus. O primeiro passo é o acesso
material à Bíblia. Para isso, devem ser feitas campanhas, em diversos níveis: diocesano,
paroquial e chegando até as pequenas comunidades para que as pessoas possuam a
Bíblia e a tenham em mãos. A Igreja Local deve disponibilizar espaços de interação e
aprendizagem entre as pessoas que são excluídas do acesso à Palavra de Deus. Deve-se
incentivar também todas as iniciativas que favoreçam a alfabetização com o uso da
Bíblia, o uso de Libras e do sistema Braile.
41. Importa recordar que algumas comunidades, na prática, não colocam a Palavra
de Deus como elemento central de sua ação pastoral e missionária. Constatam-se, então,
devocionismos, dogmatismos e o esfriamento do trabalho com a Sagrada Escritura. Em
certos cursos de Teologia, percebe-se a ausência de uma grade curricular que trate o
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estudo das Escrituras como verdadeira “alma da Sagrada Teologia” (DV, n. 24). Ela,
contudo, não pode estar somente nas mãos de especialistas. Deve estar nas mãos de
todo o povo. Brota, então, a necessidade de uma linguagem popular, afetiva e espiritual,
utilizando muitos exemplos e comparações para a compreensão. A Palavra de Deus não
pode estar somente nas celebrações litúrgicas, nos cursos de Teologia ou nos grupos
eclesiais de reflexão. Ela deve permear as realidades do mundo, impregnar a cultura e a
comunicação, a economia e a política. Deve tornar-se fonte de santificação da vida
cotidiana.

3.2. Edições diferentes da Bíblia


42. Em alguma atividade pastoral, já se escutou o comentário: “Na minha Bíblia, está
diferente”. Em seu contato com a Bíblia, cedo ou tarde, o cristão percebe que existem
diferenças entre as traduções e edições. De fato, há um grande número de edições de
bíblias no Brasil. No ambiente protestante, prevalece a tradução de João Ferreira de
Almeida, que, de algum modo, dá certa unidade ao universo bíblico protestante. No
ambiente católico, há mais de uma dezena de traduções e edições. Entre as mais
conhecidas e usadas, estão a Bíblia da CNBB, a Bíblia Ave Maria e a Bíblia Pastoral. Nos
ambientes acadêmicos, prevalecem a Bíblia de Jerusalém, a Bíblia da CNBB e a Bíblia do
Peregrino. A pluralidade é uma riqueza, mas, às vezes, pode gerar certa confusão.
43. O fato de haver várias traduções e edições da Bíblia ocasiona problemas práticos
para o seu uso em grupos de reflexão ou em momentos celebrativos. Pode também
gerar alguma confusão em quem tem pouco ou nenhum contato com a Bíblia, ou em
quem exige um texto único para acreditar que está diante da Palavra de Deus. É preciso,
contudo, reconhecer que a variedade de edições deseja tornar a Bíblia mais acessível às
pessoas, de modo que cada pessoa ou grupo escolha a edição que melhor lhe convier.
44. Algumas categorias de pessoas, como crianças e jovens, necessitam de traduções
cuja linguagem, embora permaneça fiel ao sentido original, ajude a compreender a
Sagrada Escritura. Há, contudo, outro desafio a considerar: o Brasil não fala apenas
português. Há inúmeras línguas de povos indígenas que ainda não possuem uma
tradução da Bíblia. Deve-se incentivar, por isso, a formação de tradutores e as parcerias
com as editoras, com a Federação Bíblica Católica e com a Sociedade Bíblica do Brasil.
45. Muitos grupos pensam que a Igreja Católica deveria adotar um texto único
padrão e cada editora organizar apenas notas e introduções. Algumas dioceses adotam
uma única edição de Bíblia para os seus estudos, oração e trabalhos missionários. O que
se percebe é que ainda há um bom caminho de discernimento a ser percorrido.
46. Não é fácil encontrar uma edição que responda à pergunta muitas vezes feita
acerca da melhor Bíblia, ou seja, a melhor tradução. Traduzir de uma língua a outra
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implica sempre mudança de contexto cultural, dado que são textos de outro tempo e
universo (VD, n. 115). Toda tradução é imperfeita; toda edição é incompleta. Cada uma
responde a certos objetivos, mas não consegue abarcar outros. Por isso, mais do que
buscar uma edição única, capaz de atender a todos os tipos de pessoas e grupos, é
necessário incentivar a leitura bíblica em comunidade. A comparação dos textos das
edições pode ajudar a perceber melhor o sentido.
47. Algumas pessoas e grupos se perguntam sobre o uso da Bíblia protestante.
Embora seja a Bíblia Sagrada, por motivos teológicos, litúrgicos e pastorais, é sempre
importante recordar que lhe faltam sete livros e alguns trechos de outros dois, aceitos
em nosso cânon. Importa que, ao se fazer uso de edições protestantes, não se acabe
perdendo a riqueza presente nos livros e trechos que não existem nelas.

3.3. Ausência do primeiro anúncio


48. O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, retoma um pensamento de Bento XVI:
“Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro
com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta
forma, o rumo decisivo” (EG, n. 8). Na base da vida cristã, está a alegria do encontro
com a Palavra. Ela não é, em primeiro lugar, um livro, mas, uma pessoa: Jesus Cristo.
Assim, passa-se de uma compreensão instrutiva para uma compreensão comunicativa
da revelação (CNBB, Doc. 97, n. 8).12
49. Entretanto em nossa ação evangelizadora, encontramos vários sintomas de um
grande desafio: a ausência do primeiro anúncio. Isso impede as pessoas de terem o
contato vivo com o Cristo-Palavra. Há batizados que nunca fizeram a experiência de
encontro pessoal com Cristo. Alguns são agentes de pastoral, eficientes cumpridores de
tarefas, sem nunca terem experimentado a força da boa e alegre notícia do Evangelho
que transforma a vida. Outros foram mergulhados em um cristianismo cultural, pois
nasceram em famílias tradicionalmente cristãs. Correm o risco de apenas cumprir, por
costume, preceitos religiosos.
50. Há também quem vive sua fé exclusivamente a partir dos ritos e costumes
oriundos da religiosidade popular, com pouca adesão a Cristo e à comunidade eclesial.
Outros têm informações detalhadas a respeito de Jesus, da Bíblia, do Catecismo da Igreja
Católica e das práticas religiosas, mas não têm nenhum envolvimento existencial (Lc
18,21). Por várias razões, há pessoas que se afastaram da comunidade e outros tantos
nunca ouviram falar de Jesus Cristo.
51. É preciso reconhecer que nem sempre a evangelização avançou para além de um
verniz superficial (EN, n. 20) e da própria tradição recebida da família. Isso significa que
não houve um anúncio explícito da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo
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que contribuísse para o encontro pessoal e comunitário com o Filho amado de Deus. “E
como crerão naquele a quem não ouviram? E como ouvirão, se ninguém proclamar?”
(Rm 10,14).
52. O anúncio precisa ser explícito. Ele nunca pode ser dado por pressuposto, ainda
que existam num grupo social práticas e costumes originalmente cristãos. Toda pessoa
tem o direito de receber explicitamente o primeiro anúncio, para realizar então o seu
encontro pessoal com o Cristo Senhor. Os primeiros servidores da Palavra, conscientes
de que participavam da missão do próprio Jesus, insistiam no anúncio do
acontecimento da Cruz e Ressurreição (At 2,23-24.36). A partir daí, desenvolvia-se um
itinerário com as seguintes etapas: conversão, Batismo, discipulado, aprofundamento da
fé, compromisso comunitário, pertença eclesial, serviço a Deus e aos irmãos,
testemunho ético no mundo.
53. São João expressa essa realidade com muita beleza: “O que era desde o princípio,
o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos
apalparam da Palavra da Vida ‒ vida esta que se manifestou, que nós vimos e
testemunhamos, vida eterna que a vós anunciamos, que estava junto do Pai e que a nós
se manifestou ‒, isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos, para que estejais em
comunhão conosco” (1Jo 1,1-3). Trata-se, portanto, de encontrar Jesus Cristo, apaixonar-
se por Ele e deixar-se transformar por Ele. Por isso, não pode haver prioridade maior
para a Igreja do que “reabrir ao homem atual o acesso a Deus” (VD, n. 2). Não se pode
planejar a missão da Igreja sem a prioridade do primeiro anúncio, pois “da Palavra de
Deus deriva a missão da Igreja” (VD, n. 92).
54. Quando, pois, falamos de Animação Bíblica da Vida e da Pastoral, é preciso ter
sempre diante de nós a importância de ir ao encontro de todos e realizar o primeiro
anúncio. O Pilar da Palavra deve possibilitar o encontro pessoal e comunitário com
Cristo, e sua proclamação ao mundo, que se transformará em nova adesão. Assim, o
querigma é uma necessidade nascida da própria natureza da fé, tornando-se, portanto,
responsabilidade de todos os batizados, cada um em seu estado. Este anúncio da
Palavra de Deus deve sempre estar em profunda e coerente relação com o testemunho.
Disso depende a credibilidade do anúncio (VD, n. 97).
55. Realizar o primeiro anúncio não significa repetir alguns versículos bíblicos
pinçados, decorados e fora de contexto. Os textos que apresentam Jesus como Messias,
encarnado, morto e ressuscitado para a nossa salvação, são indispensáveis. Eles, no
entanto, precisam ser uma novidade, uma Boa-Nova, capaz de transformar a existência.
É preciso traduzir existencialmente o que é resumido na grande e fundamental
sentença: “Jesus de Nazaré foi morto, ressuscitado e exaltado à direita de Deus Pai”.
Trata-se da apresentação da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo, feita de tal modo
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que suscite nos corações de homens e mulheres de todos os tempos a pergunta


fundamental: “Que devemos fazer?” (At 2,37; 8,36). Essa é a pergunta que brota do
fascínio por Jesus Cristo, ao perceber seu amor radical, que não apenas doa a vida pelo
irmão, mas também e principalmente por quem não merece (Rm 5,7-8). É necessário
discernir o que essa experiência significa para pessoas e comunidades. O que muda em
suas vidas ao acolher Jesus como Messias? O primeiro anúncio não deve suscitar apenas
memorização, mas adesão, discipulado e configuração.
56. Se não houver o primeiro anúncio e se ele não for acolhido, se não acontecer a
descoberta do radical e misericordioso amor do Pai, manifestado em Jesus Cristo, pela
força do Espírito (Lc 4,16-21), o contato com a Palavra de Deus se torna semelhante às
sementes dos três primeiros terrenos (Mt 13,4-7) ou à casa edificada sobre a areia (Mt
7,26-27). Quando surgem as dificuldades, mesmo tendo algum contato com a Palavra de
Deus, a fé desaparece ou a Palavra passa a ser lida com outros critérios que não o do
acolhimento e seguimento do Deus Amor, Misericórdia e Perdão.
57. Com o Sínodo da Amazônia, o Papa Francisco desafiou a Igreja a sonhar em sua
companhia. Ele sonha com uma Amazônia protagonista, que seja lida como uma
totalidade: que lute pelos direitos dos pobres, preserve suas raízes e a riqueza dos
encontros interculturais, seja guardiã de sua beleza natural e gere comunidades cristãs
com rosto amazônico (QA, n. 7).13 Abrem-se novos caminhos para a Igreja na
perspectiva da Ecologia Integral e do anúncio da Palavra de Deus. Não negamos a
nossa fé nem nos envergonhamos de Jesus Cristo. Por isso, à Amazônia, não propomos
um catálogo de normas ou uma mera mensagem social. Propomos uma amizade com
Jesus Cristo: “o grande anúncio salvífico, aquele grito missionário que visa o coração e
dá sentido a todo o resto” (QA, n. 63). Os povos amazônicos “têm direito ao anúncio do
Evangelho, sobretudo àquele primeiro anúncio que se chama querigma” (QA, n. 64).
Sem este anúncio, a Igreja se transforma em ONG. Com este anúncio e com o encontro
pessoal com Cristo, a Igreja se abre à caridade fraterna, pois “o querigma e o amor
fraterno constituem a grande síntese de todo o conteúdo do Evangelho” (QA, n. 65).
58. Em toda e qualquer atividade, em toda circunstância, haja, portanto, espaço para
o anúncio querigmático. Bispos, presbíteros e diáconos estejam especialmente
implicados nessa atividade, mas leigos e leigas, religiosos e religiosas são também a ela
chamados. As ocasiões e os meios são os mais distintos: homilias, missões populares,
visitas domiciliares, aos presídios e hospitais, celebrações de exéquias e matrimônios,
presença nas escolas e meios de comunicação social e usos dos recursos digitais. Em
todas essas situações há de prevalecer os contatos interpessoais, iluminados pela
Palavra de Deus. Para isso, é fundamental continuar investindo na formação de
Ministros e Ministras da Palavra (CNBB, Doc. 108)14 e de agentes da Animação Bíblica
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da Pastoral, além de se dar atenção especial ao uso de uma linguagem acessível,


emotiva, existencial e mística.

3.4. Interpretação da Bíblia e Leitura Fundamentalista


59. A Bíblia é um conjunto de textos que nascem em contextos históricos bastante
específicos. Ela, contudo, é Palavra de Deus às comunidades de fé de todos os tempos. É
fruto de uma relação de amor entre Deus e o seu povo. Ela foi curtida e escrita sob a luz
do Espírito Santo. E deve ser lida e interpretada sob o olhar desse mesmo Espírito, que
dá a unidade entre o ontem e o hoje. Ela é como um tripé: literatura, história e fé. Ela
deve ser lida com as ciências da linguagem, as ciências humanas e sociais, e a teologia.
Na verdade, no texto, há uma riqueza de sentidos. O sentido do texto não está somente
em um dos elementos do tripé. Selecionando-se somente um dos três, estraga-se a
beleza da Palavra de Deus. A esse fenômeno se dá o nome de fundamentalismo, que
pode aparecer sob a máscara do literalismo, do historicismo ou do pietismo. Sua forma
mais conhecida, contudo, é o literalismo ou leitura ao pé da letra.
60. O fenômeno se revela de muitos modos: falta de respeito ao texto sagrado;
leituras subjetivistas e arbitrárias; traição do sentido literal e espiritual do texto (CIgC,
n. 115-116);15 uso equivocado de textos bíblicos descontextualizados para justificar
posturas contrárias ao ensinamento de Jesus Cristo e da Igreja; negação da Bíblia
enquanto Palavra de Deus em palavras humanas; negação da unidade da Sagrada
Escritura; seleção de livros e passagens que são agradáveis e legitimam posturas pré-
fixadas; rejeição ao estudo dos gêneros e formas literários; rejeição aos métodos
científicos e à pesquisa crítica para a interpretação da Escritura; aceitação como verdade
histórica e científica de uma compreensão de mundo já ultrapassada, impedindo o
diálogo com a cultura e a ciência; acolhimento de uma ética do Antigo Testamento
levada à plenitude pelo Evangelho de Jesus. Tudo isso é piorado quando é associado à
exploração mercantilista e à lavagem cerebral que domina as consciências e infantiliza
as pessoas.
61. O mais grave é que o fundamentalismo separa a interpretação da Bíblia da
Tradição e da Igreja, e dificulta a aceitação do próprio mistério da Encarnação do Verbo
de Deus em nossa história. O fundamentalismo é privatista e subjetivista, por isso
antieclesial. Muitos leigos e leigas católicos se sentem desrespeitados por parentes ou
pela pregação proselitista e inflamada, que, pelas casas, praças e pelos meios de
comunicação social, repetem algumas citações bíblicas pinçadas. Isso é motivo de
muitos conflitos e sofrimentos no seio de muitas famílias.
62. A Igreja nos oferece importantes contribuições sobre este fenômeno (DV, n. 12;
VD, n. 44; IBI, p. 220-223).16 O princípio é esse: Deus nos falou, na Escritura, por seres
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humanos. A Palavra foi dita por palavras. Por isso, é preciso estudar com atenção aquilo
que os escritores sagrados disseram à luz do Espírito. Torna-se fundamental conhecer
os gêneros literários, isto é, os modos de sentir, dizer ou narrar segundo as
circunstâncias da cultura e do tempo em que o texto bíblico foi escrito. A Palavra de
Deus é viva. O horizonte vital no qual ela deve ser interpretada é a fé eclesial, em um
contexto da investigação histórica e literária, iluminada pelo único e mesmo Espírito
(VD, n. 31).
63. O critério indispensável para superar o fundamentalismo, além do estudo do
mundo da Bíblia, é a contemplação do mundo da vida, especialmente o universo dos
pobres. Aprendemos, então, duas línguas: a da Bíblia e a da vida. A vida concreta faz
muitas perguntas à Bíblia e ilumina sua interpretação. A Bíblia dá inspiração à vida, faz
o coração arder e nos abre à missão. A superação de todo fundamentalismo baseia-se no
contínuo retorno àquilo que é o essencial sobre Jesus Cristo e o seu Reino.

3.5. Palavra de Deus e o pensamento da prosperidade


64. Nesses últimos anos, temos assistido a um fenômeno que causa profunda
preocupação: a relação entre Bíblia e pensamento da prosperidade. Não tem sido difícil
encontrar leituras da Bíblia centradas na busca de carismas de libertação, saúde física,
satisfação afetiva e, sobretudo, prosperidade material. Tudo isso tem sido justificado
por uma atitude de troca com Deus. Nessa leitura descontextualizada dos relatos
bíblicos, Deus deve se manter fiel ao ser humano que lhe entrega o seu tudo. Para isso,
usam-se textos como o da oferta da viúva (Mc 12,41-44). Por sua vez, o fiel toma posse
de sua bênção. Essa perspectiva fere o amor gratuito de Deus, que faz chover
igualmente sobre todos, merecedores ou não (Mt 5,45). Essa proposta é vinculada à
ideia de bênção presente no Antigo Testamento, distanciando-se da ética e da teologia
da Cruz assumidas por Jesus Cristo.
65. Certamente, saúde, amor e dinheiro são coisas importantes na vida das pessoas.
Deus quer que todos os seus filhos vivam saudáveis, felizes, com dignidade, se
sustentem com o suor do seu trabalho honesto e se empenhem por uma sociedade na
qual haja condições de vida digna para todos. Se for compreendida dessa maneira, não
há contradição entre prosperidade e o Reino que Jesus Cristo pregou. Ao contrário,
Deus compartilha os sonhos de dignidade e superação das misérias e situações
inumanas. A fé e a esperança, que nascem da Palavra de Deus, movem os pobres em
busca de vida e libertação. A saída da casa da escravidão é sempre prosperidade e
libertação. E isso acontece na força do Espírito que gera vida.
66. O problema nasce quando há o desejo de se manipular Deus, de instrumentalizá-
lo. Desse modo, a leitura da Bíblia na perspectiva mecânica da prosperidade é uma
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ideia distorcida de tudo que a Palavra de Deus nos quer transmitir. Deus se torna um
ídolo, uma espécie de marionete nas mãos de quem, pela atitude de troca, se considera
fiel e apto a exigir benefícios dele. Essa atitude não gera pertença a uma comunidade
eclesial. Gera contínua migração ou trânsito religioso, em busca de prosperidade, onde
quer que ela esteja. Quando isso acontece, a própria comunidade vira empresa que
explora.
67. Para muitos, a religião passa a ser vista como uma espécie de loja, onde as
pessoas indicam o que querem e o funcionário, no caso, o próprio Senhor, as atende
desde que, como bons consumidores, arquem com os custos. A noção de vida eterna cai
por terra. A centralidade está unicamente no ser humano, que nem precisa preocupar-se
com conversão. Manipulando-se a Palavra de Deus, busca-se, na religião,
principalmente o que não se vai levar quando se partir dessa vida. Ecoa, assim, em
nossos ouvidos as advertências de Jesus na parábola de Lázaro e do rico epulão (Lc
16,19-31), ou no episódio do homem rico (Lc 18,18-25), ou suas orientações sobre o tipo
de tesouro que deve ser acumulado (Mt 6,19-21).
68. O enfraquecimento do vínculo comunitário se traduz na indiferença em relação
aos pobres e sofredores. Como essa é uma atitude oposta a tudo que a Bíblia ensina, é
importante perguntar como é possível que alguém, tendo contato com a Bíblia e com
Jesus Cristo, especialmente, seja capaz de viver assim, de modo individualista, sem
empatia ou solidariedade. O pecado, agindo em nós, é capaz de tudo, inclusive de levar
a compreensões da Palavra de Deus que estão em oposição com a misericórdia e a
bondade do Deus da Palavra. Por isso, é tão importante ter atenção crítica diante das
mensagens e leituras individualistas e consumistas da Bíblia. Compreensões que levam
a pensar só em si mesmo e no aumento do patrimônio estão distantes do que foi
ensinado por Jesus.
69. A forte relação entre o contato com a Palavra de Deus e o sucesso, seja ele
patrimonial, afetivo ou de saúde, pode chegar ao ponto de não se permitir a correta
compreensão da cruz e do Cristo Crucificado por amor. Não se trata de usar a Palavra
de Deus para justificar equivocadamente o sofrimento, mas de não perceber que ela nos
estimula a acolher a própria cruz (Mt 16,24-25) e a ajudar os irmãos e irmãs a
carregarem as suas, como o Cireneu (Mt 27,32). Quem retira a cruz da pregação da
Palavra acaba por retirar aquele que, por amor até o extremo (Jo 13,1), acolheu a morte
de cruz (Fl 2,8).
70. A própria Palavra de Deus nos adverte a respeito de quem a instrumentaliza para
o enriquecimento próprio. Fingindo piedade, os escribas exploravam as viúvas (Lc
20,47). Há pessoas, como Ananias e Safira, que enganam a comunidade (At 5,1-11). Seu
Deus parece ser outro que não o misericordioso Pai de Jesus Cristo (Fl 3,19). Por
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compreenderem o Deus da Palavra e a Palavra de Deus predominantemente como fonte


de benefícios pessoais, não geram misericórdia nem contribuem para a justa indignação
diante da miséria e da violência. Tornam-se, na verdade, promotores da indiferença,
ainda que prometam libertação e sucesso. Sob a forma de uma palavra de vida, geram,
na verdade, uma palavra de ilusão e morte. Esquecem-se de que o Evangelho de Jesus
Cristo é graça de Deus e que a salvação foi distribuída de graça para todos. Deixam a
forte impressão de que estão tentando pregar outro Evangelho (Gl 1,8-9) que não o
trazido por Jesus Cristo (Mt 7,21).
71. Recorre-se à Palavra de Deus para fundamentar e alimentar uma mentalidade
individualista e consumista, não havendo lugar para a solidariedade e para a
compaixão, pois, para essa compreensão, o pobre é um fracassado, alguém que não
recebeu a bênção divina. Quando, pois, se pensa que Deus deve exclusivamente suprir
as necessidades materiais das pessoas, acionado mediante a contrapartida financeira do
fiel e a sua oração exigente, esquece-se o que a própria Palavra de Deus ensinou: “o
Reino de Deus não é comida e bebida, mas é justiça e paz e alegria no Espírito Santo.
Quem serve assim a Cristo, agrada a Deus e é estimado pelos homens” (Rm 14,17-18).

3.6. Leitura pessoal, social e ecológica da Palavra de Deus


72. A Palavra de Deus chega aos corações e, por meio de corações convertidos,
transforma sociedades e resgata o planeta. Ela possui, desse modo, tanto uma dimensão
pessoal quanto uma dimensão socioambiental, que estão interligadas. Isso não nos
permite reter apenas uma das dimensões, rejeitando as demais. Ao acolher a Palavra de
Deus, buscamos luz para a vida pessoal, mas ela ilumina todas as áreas do nosso ser: as
relações afetivas, familiares, profissionais, comunitárias, sociais, políticas, econômicas e
ambientais.
73. A Pontifícia Comissão Bíblica, no Documento A Interpretação da Bíblia na Igreja,
estudou mais de dez métodos e abordagens usados para a interpretação da Bíblia.
Vários deles são muito úteis e ofereceram grandes contribuições aos estudos bíblicos
nas últimas décadas. Outros se revelaram parciais, negando a riqueza de uma
perspectiva diferente. Esse é o grande perigo. Há pessoas que só conseguem fazer uma
leitura pessoal, subjetiva e até intimista da Bíblia. Outras só conseguem acolher
elementos religiosos e pietistas. Algumas, por outro lado, só conseguem encontrar, nas
passagens bíblicas, política, economia ou ecologia. Esse reducionismo pode nascer por
causa dos desafios que pessoas e comunidades estejam vivenciando, do
desconhecimento teológico básico, das estruturas humanas e psicoemocionais das
pessoas envolvidas, ou da formação recebida por quem conduz a leitura e a
interpretação.
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74. O problema não está em uma ou outra perspectiva, mas na absolutização de um


olhar e na negação dos outros. A Palavra de Deus não pode ser manipulada, manobrada
a serviço das nossas pré-compreensões ou do que nos é conveniente. É preciso
preservar a força sempre nova e a surpresa do Deus que se revela. A Palavra de Deus
ilumina todas as dimensões da vida. Não se pode ir à Palavra de Deus condicionando
encontrar nela aquilo que já se procura.
75. Pode ocorrer ‒ e geralmente ocorre ‒ que, em determinados momentos da vida
pessoal ou comunitária, uma dimensão apareça com maior força. Isso é normal na
existência humana, que tende a olhar para o que mais alegra ou angustia. Não pode,
entretanto, acontecer de se considerar absoluto ou permanente o destaque que se venha
a dar a uma dimensão. Na Bíblia, há um belo equilíbrio entre o pessoal e o comunitário,
o humano e o cósmico, a interioridade e a expressão, a espiritualidade e o compromisso
social. Servem de exemplo algumas duplas bíblicas, como Moisés e Josué, no episódio
da guerra contra os amalecitas (Ex 17,8-16), Marta e Maria, no acolhimento de Jesus em
sua casa (Lc 10,38-42), Pedro e João, na corrida ao túmulo (Jo 20,1-10). Eles nos ajudam a
fazer essa síntese.
76. É urgente também saber falar ao coração das pessoas, superando todas as formas
de intelectualismo. Deve-se sempre buscar um caminho de espiritualidade bíblica,
centrada na pessoa de Jesus Cristo, que una fé e vida, dimensão pessoal, eclesial,
societária e cósmica. Estimule-se uma hermenêutica bíblica que consiga reconciliar a
Palavra de Deus com a Escritura; costurar Palavra de Deus e Eucaristia; unir verdade,
beleza e bondade; integrar estudo, oração e pregação; coligar escuta, discernimento e
vivência; expressar a liberdade como dom e responsabilidade, a oblação pobre de uma
vida entregue e a fraternidade-amor de uma comunidade missionária; unir, sem
prejuízos, mística, justiça social e ecologia integral; juntar conversão e ação de graças.

3.7. Desconhecimento da Palavra de Deus


77. A Dei Verbum cita a célebre frase de São Jerônimo: “ignorar as Escrituras é ignorar
o Cristo” (n. 25). A Bíblia Sagrada, além de ter tido um complexo caminho de tradição
oral, foi escrita ao longo de cerca de mil anos. Há, portanto, evolução do pensamento,
das leis, da teologia, dos costumes. São muitas pessoas envolvidas, inúmeras
comunidades, várias correntes de pensamento, diversos contextos históricos, variados
ambientes, ao menos três línguas, jeitos distintos de organizar o pensamento, de se
sentir e dizer as coisas. Há, entre nós e o povo da Bíblia, distâncias geográficas,
cronológicas e culturais; há grande diferença de compreensão da pessoa, do mundo e de
Deus. Se somarmos a isso fatores atuais, como o analfabetismo, a falta do hábito de
leitura e a dificuldade de interpretar qualquer texto antigo, podemos compreender um
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grande desafio: o desconhecimento da Sagrada Escritura. Muitas pessoas fogem da


Bíblia, e embora tenham alguma curiosidade por ela, acham-na um livro difícil e
estranho.
78. O conhecimento da Sagrada Escritura conduz ao conhecimento de Jesus Cristo,
Palavra encarnada. Na obra de Lucas, o discípulo é denominado Teófilo, o amigo de
Deus. O evangelista o apresenta como alguém que foi instruído sobre Jesus, mas
necessita de maior segurança sobre essas verdades. Ele precisa conhecer melhor Jesus
Cristo a fim de amadurecer sua fé (Lc 1,1-4; At 1,1). Não basta o primeiro contato, nem a
primeira catequese. É necessário convívio e familiaridade (Jo 1,39). O conhecimento
superficial é comparado à semente que cai nos três primeiros terrenos: não produz fruto
(Mt 13,3-6). Um dos caminhos privilegiados para esse conhecimento de Cristo acontece
na vida da comunidade formada e continuamente alimentada pela Palavra de Deus.
79. A Dei Verbum nos dá uma série de recomendações: quem exerce o ministério da
Palavra, especialmente sacerdotes, diáconos e catequistas, deve ter contato íntimo e
fecundo com a Bíblia Sagrada; a leitura de comentários não substitui o contato direto
com o próprio texto das Escrituras; o conhecimento das Escrituras se dá pela leitura
assídua e pelo estudo cuidadoso; as homilias dever ser bem preparadas, dado que a
Liturgia é um ambiente privilegiado de contato com a Palavra de Deus; todos os fiéis
devem se dedicar à leitura frequente da Sagrada Escritura; cada vez mais a oração
pessoal deve ser um colóquio fundado na Escritura; devem ser feitas traduções dos
textos bíblicos e comentários explicativos; devem ser realizados projetos de difusão da
Sagrada Escritura, para que todos se familiarizem com ela (DV, n. 25). Proliferaram,
entre nós, as experiências de difusão por meio de rádio, televisão, internet, escolas
bíblicas, círculos bíblicos, cursos, jornadas ou semanas bíblicas, grupos de leitura orante
da Palavra de Deus, entre outros. Apesar disso, ainda se constata grande
desconhecimento da Palavra de Deus. Esse fato nos impulsiona ainda mais à
missionariedade que nos pede para irmos ao encontro das pessoas como testemunhas
da fé em Jesus Cristo.
80. As últimas DGAE (2019-2023) recordam a centralidade da Palavra de Deus na
vida da Igreja. A isso se chamou Pilar da Palavra. Isso significa que o contato com a
Bíblia não pode concentrar-se somente nas celebrações ou apenas aos domingos. Com a
Palavra de Deus na mão, todos são chamados a ir a todos os lugares, principalmente
aonde ninguém quer ir. Nos seminários, os projetos formativos coloquem em destaque
a Palavra de Deus, não simplesmente como livro de estudo, mas também de
espiritualidade e vida apostólica, como propõe o esquema central da Verbum Domini. A
formação permanente do clero tenha nítida inspiração bíblica, já que o ministro
ordenado é o primeiro “servo e testemunha da Palavra na Igreja e no mundo” (RFIS, n.
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117).17 Cada encontro ou reunião comece sempre com o texto diário da Palavra de Deus.
A Animação Bíblica da Pastoral seja empenho de todos e continuamente, com especial
ênfase para momentos fortes como o Mês da Bíblia. Também se busque a integração
entre a Palavra de Deus e as expressões populares da fé, especialmente a piedade
mariana. É preciso integrar a Palavra e o sentir das pessoas, possibilitando maior
presença da Sagrada Escritura na vida da Igreja.

3.8. De quem não podemos nos esquecer hoje


81. Por um lado, a variedade de traduções e edições da Bíblia busca ajudar as pessoas
e os grupos a melhor se familiarizarem com a Escritura Sagrada, acolhendo-a e
praticando seus ensinamentos em meio às alegrias e aos sofrimentos. Por outro, há
aspectos que nunca podem ser esquecidos. Embora exista sempre a possibilidade de se
ler a Bíblia ora sob o aspecto pessoal, ora sob o social ou o ambiental, leitura alguma
pode deixar de lado três situações que desafiam o mundo de nossos dias, interpelam os
cristãos e estão presentes ao longo de toda a Bíblia, ainda que em diferentes textos e
com distintos modos de as descrever. Essas situações são a pobreza extrema, a violência
e a indiferença.
82. Por certo, deparamo-nos com inúmeros desafios. São realidades que nos fazem
sofrer e que geram morte. Em nossos dias, cresce o número dos pobres e variam as
formas de pobreza. São milhões de irmãos e irmãs sem acesso ao mínimo necessário à
dignidade humana, experimentando a fome, o desemprego ou sua precarização, a falta
de moradia e de saúde, o banimento de suas terras, a migração forçada e tantas outras
situações degradantes. São fortes agressões à vida que, em nome da Palavra de Deus e
do Deus da Palavra, não podem ser aceitas. A carne de Cristo está ferida na carne dos
irmãos.
83. O mesmo acontece com a violência. Em algumas comunidades, já não se pode
fazer reunião à noite. A tentação é de nos acostumarmos com a violência e, voltados
para a própria proteção, nos tornarmos indiferentes, insensíveis. Esquecemo-nos, por
exemplo, de que a miséria já é, em si, uma forma de violência. Quando à miséria se
aliam preconceito, discriminação e extermínio, muitas pessoas se anestesiam,
assumindo postura de absoluto descaso. E, para o horror de todos, torna-se banal, por
exemplo, pôr fogo em pessoas que, em situação de rua, dormem sob as marquises nas
cidades. O ser humano se brutaliza e potencializa seus instintos mais animalescos.
84. Há algum tempo, cunhou-se um termo novo: “aporofobia”, que significa horror a
pobre. Aí está um dos grandes desafios às democracias e às Igrejas Cristãs. Essa tem
sido a advertência que o Papa Francisco nos tem feito, lembrando-nos do que disse o
próprio Deus sobre os sofredores: “Quem vos toca, toca a pupila de meus olhos” (Zc
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2,12). Continua o salmista: “Os justos clamaram e o Senhor os ouviu” (Sl 34[33],18).
Muitos pobres suspiram: “eu, porém, sou indigente e pobre, e o Senhor tem cuidado de
mim” (Sl 40,18). O Papa nos pergunta o motivo de não escutarmos suficientemente o
clamor dos que sofrem. Trata-se, no dizer do Papa Francisco, da globalização da
indiferença (EG, n. 54), em que o pecado nos faz passar pelo outro lado da estrada e já
não percebemos o próximo, vítima da violência, ferido e espoliado à beira do caminho
(Lc 10,30-35).
85. Essa indiferença se torna ainda mais grave quando vivenciada por pessoas que
conhecem a Palavra de Deus, como o sacerdote e o levita da parábola do bom
samaritano (Lc 10,25-37). Eles não permitiram que a Palavra de Deus gerasse
compaixão. Fenômeno bastante sintomático tem sido o desinteresse pelo Ensinamento
Social da Igreja, a desconfiança irônica diante da caridade dos outros e o desequilíbrio
de energia despendida entre os pilares da Liturgia, da Palavra e da Caridade. Esse é um
risco grande para as pessoas de fé: desejarem olhar apenas para Jesus, sem perceberem
que Jesus está olhando para todos, em especial para quem sofre. Jesus nos vê no meio
da multidão, como nos dizem tantos episódios dos Evangelhos, especialmente a cura da
mulher com hemorragia (Mc 5,27-34) e a conversão de Zaqueu (Lc 19,1-10).
86. A Palavra de Deus nos mostra que, algumas vezes, até mesmo os que seguem
Jesus acabam se tornando indiferentes ao clamor dos pobres, doentes e pecadores (Mc
10,46-52), tentando distanciar Jesus dos pequenos (Mc 10,13-16). Jesus, ao contrário, se
volta para quem sofre. Ele mesmo quis se identificar com os sofredores (Mt 25,31-45). Se
amamos a Jesus, esse amor deve se transformar em seguimento e compaixão, fazendo
surgir em nós “os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Fl 2,5), pois a
Palavra de Deus deve gerar atitudes de empatia, paz e misericórdia.
87. A mesma preocupação deve ocorrer em relação à violência. Sabemos que existem,
na Bíblia, inúmeros textos com linguagem violenta. Há textos sobre guerras, lutas e
morte. Existem até mesmo trechos que atribuem a Deus atitudes de violência e
extermínio. Em sua revelação, Deus amorosamente escolheu se manifestar respeitando
a liberdade humana, mas sempre apontou para Jesus Cristo, o “príncipe da paz” e
“rosto da misericórdia do Pai” (MV, n. 10).18 Quando, portanto, equiparam-se textos
mais antigos e de linguagem violenta com a pregação de Jesus Cristo, corre-se o forte
risco de se justificar a violência em nome de Deus. Bento XVI nos dá um critério para se
ler as “páginas obscuras da Bíblia”: deve-se ler “os textos no seu contexto histórico-
literário e em perspectiva cristã” (VD, n. 42).
88. Situações como essas, tão marcantes em nossos dias, desafiam a ação
evangelizadora, pedindo maior empenho para que a fé seja anunciada, despertando o
desejo de conhecer e amar Jesus Cristo, para nele e com ele, amar e servir aos irmãos e
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irmãs, em especial os mais vulneráveis (Mt 25,31-46). O pecado, ao acontecer no coração


humano, transborda para os comportamentos e as atitudes, tornando-nos cegos diante
de situações que clamam aos céus. Por isso, é tão importante trabalhar pela vitória sobre
o pecado e suas consequências, superando o desconhecimento da Palavra de Deus e
levando ao contato com o Deus da Palavra através da oração e da caridade.
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CAPÍTULO 4
SEMEADORES À SEMELHANÇA DO BOM SEMEADOR

4.1. Corresponsabilidade dos batizados na semeadura


89. No início do rito de Batismo de crianças, quem preside pergunta aos pais: “Vocês
querem ajudar seu filho (sua filha) a crescer na fé, observando os mandamentos e
vivendo na comunidade dos seguidores de Jesus?”. Os pais respondem (devem
responder!): sim. Aos padrinhos, pergunta-se e espera-se a mesma resposta: “Estão
dispostos a colaborar com os pais em sua missão?”. Mesma resposta. Uma pergunta é
dirigida, também, aos demais irmãos e irmãs reunidos: “Querem ser uma comunidade
de fé e de amor para esta criança?”.
90. Em sua sabedoria, a Igreja manifesta a razão do Batismo de crianças e, também, a
necessária corresponsabilidade na Iniciação à Vida Cristã. O Ritual, ao longo da
celebração, reafirma com diversas expressões esse empenho da educação-iniciação na fé
entregue a pais e padrinhos e à comunidade toda, responsável não só no gerar, mas no
alimentar a fé dos batizados, até à maturidade em Cristo.
91. Batizando crianças, a comunidade eclesial assume o compromisso de iniciá-las na
fé. Essa corresponsabilidade eclesial finca as raízes na pertença ao Corpo místico de
Cristo e ao ser membros do Povo de Deus. Como tornar conscientes os membros de
nossa Igreja acerca dessa responsabilidade eclesial? Subjetivismo e superficialidade,
insuficiente compreensão da vocação cristã e certos hábitos religiosos, geram, em
muitos batizados, um estilo de vida com escassa participação. Somente quem se
apaixonar por Jesus, tendo feito e vivido uma experiência de fé que aquece, ilumina e
transforma a vida, pode testemunhar sua fé como membro ativo da Igreja, como
discípulo missionário.
92. São Paulo afirmava: “Se eu anuncio o evangelho, isso não é para mim título de
glória. É antes uma necessidade que me é imposta. Ai de mim, se eu não anuncio o
evangelho!” (1Cor 9,16). É mister que, na iniciação-formação de discípulos e discípulas
do Senhor, sobretudo dos que assumem serviços de liderança, tenhamos um projeto
formativo que torne a pertença à Igreja como a entrada em uma nova família, amada
intensamente, pela qual seus membros devem se sentir corresponsáveis. Não, porém,
por extrínseca obrigação, mas qual dom de Deus a ser partilhado. “Se alguém acolheu
este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o
comunicar aos outros?” (EG, n. 8; DGAE 2019-2023, n. 19).
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93. Os bispos são chamados a favorecer, de todas as maneiras, essa consciência de


que a missão foi entregue aos cuidados de todos os batizados. Por isso, surge a urgência
da colaboração entre as diferentes forças eclesiais. A Lumen Gentium observa: “Desta
familiar relação entre leigos e pastores esperam-se muitos bens para a Igreja, pois desse
modo fortifica-se nos leigos o senso da própria responsabilidade, é fomentado o
entusiasmo e mais facilmente as forças dos leigos se associam aos esforços dos pastores”
(LG, n. 37).19
94. Nessa empreitada, o trabalho já começou. Em nossas Igrejas particulares,
constata-se a presença de uma copiosa seara que o divino Espírito e a incansável
semeadura de tantos operários do Evangelho fazem crescer. Como é bonita a atuação de
numerosos missionários e missionárias que trabalham com fé e corresponsabilidade
eclesial: milhares de catequistas, ministros da Palavra e da Eucaristia, membros de
associações religiosas, pastorais, movimentos e outros tipos de grupos.
95. O Papa Francisco reconhece que “embora não suficiente, pode-se contar com um
numeroso laicato, dotado de um arraigado sentido de comunidade e uma grande
fidelidade ao compromisso da caridade, da catequese, da celebração da fé”. Todavia, “a
tomada de consciência desta responsabilidade laical que nasce do Batismo e da
Confirmação não se manifesta de igual modo em toda a parte”. Ele enumera as
dificuldades e as causas dessa exigente colaboração: falta de formação, excessivo
clericalismo, limites da atuação “às tarefas no seio da Igreja, sem um empenhamento
real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade” (EG, n. 102).
96. Citando um pensamento dos Bispos da África ocidental, Francisco recorda que
“Somos chamados, no espírito da nova evangelização, a ser evangelizados e a
evangelizar através da promoção de todos os batizados para que assumam as suas
tarefas como sal da terra e luz do mundo, onde quer que se encontrem” (GeE, n. 33).20 O
Papa insiste também em relação a uma presença feminina mais incisiva, com sua índole,
“tanto na Igreja como nas estruturas sociais” (EG, n. 103).

4.2. Serviços e ministérios ligados à Animação Bíblica da Pastoral


97. Os primeiros cristãos não falaram de Animação Bíblica da Pastoral. Mas a sua
evangelização era profundamente bíblica, inteiramente perpassada pelas experiências e
revelações bíblicas. E, quando o anúncio do Evangelho recebeu sua formulação escrita,
quase tudo era matizado pela palavra dos evangelistas e dos apóstolos. Assim a
Didaqué, bem como a fecunda teologia dos Santos Padres. Eram biblicamente
animados. Muito animados.
98. A Iniciação à Vida Cristã pode ajudar a compreender o alcance da Animação
Bíblica. A Iniciação implica a participação de toda a comunidade, ainda que haja
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agentes de atuação mais direta. Assim também com a Animação Bíblica. A Iniciação não
é projeto limitado a Diretrizes, válidas para um quadriênio. Assim também a Animação
Bíblica. Será preciso tempo e perseverança para sermos uma Igreja cujo ânimo vital para
evangelizar se fundamente na Palavra de Deus. Não é, pois, uma meta restrita a
realizações esporádicas ou circunstanciais. É para permear a inteireza dos processos de
pastoreio. Ambas dependem de ampla ministerialidade. Todos os membros ativos da
vida eclesial, cada um na sua especificidade, são chamados a irradiar o ânimo bíblico.

4.2.1. Leigos e leigas, Ministros da Palavra

99. Não é de hoje que o Ministério da Palavra se tenha alargado para todos os
batizados. É palavra de uma Constituição Dogmática, a Lumen Gentium, segundo a qual
os cristãos leigos e leigas são “incorporados a Cristo pelo Batismo, (...) feitos
participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo” (LG, n. 31). Parece uma
evidência cristalina, talvez até desnecessário citá-la. Mas ainda há que se superar certas
tendências clericalistas que tendem a minimizar a unção do Povo de Deus. É o Batismo
que define a igualdade fundamental dos cristãos. Todos os cristãos são vinculados ao
discipulado e à apostolicidade da Igreja.
100. Por outro lado, nossa Igreja já tem um belo caminho, rico de experiências no
serviço da Palavra, exercido por ministros leigos e leigas. Não é uma concessão. Decorre
de sua própria identidade. “Em virtude da comum dignidade batismal, o fiel leigo é
corresponsável, juntamente com os ministros ordenados e com os religiosos e as
religiosas, da missão da Igreja” (CfL, n. 15).21 No Brasil, “lideranças, catequistas e outros
ministros, bem como os estudiosos e peritos, têm colaborado para uma maior
aproximação, compreensão e vivência da Palavra por parte do povo de Deus” (CNBB,
Doc. 108, n. 35).
101. É importante lembrar aqui o papel do ministro ou da ministra da Palavra nas
celebrações dominicais. Ante a insuficiência de ministros ordenados, muitos leigos e
leigas assumiram as celebrações da Palavra nas comunidades. O que inicialmente se
afigurou como uma função supletiva, na realidade favoreceu entre os católicos a
percepção de que os leigos desempenham um papel importante na vida litúrgica da
Igreja. “Dada a importância que esses ministros foram adquirindo na vida das
comunidades, é necessário que a Igreja no Brasil os valorize mais e os qualifique
adequadamente” (CNBB, Doc. 108, n. 36). Certamente, a participação destes leigos e
leigas será decisiva para bons projetos de Animação Bíblica da Pastoral no seio das
comunidades eclesiais missionárias.
102. Somos uma Igreja agraciada por muitas expressões de eclesialidade nas quais o
serviço e a atuação dos leigos e leigas se tornam uma fonte de bênçãos para a
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evangelização: animadores de assembleia, de pequenas comunidades, coordenadores


de CEBs, de movimentos eclesiais, de novas comunidades, além de muitas pastorais
específicas. Enfim, são muito numerosas as possibilidades, desde que se tenha
“realmente a peito o encontro pessoal com Cristo que Se comunica na sua Palavra” (VD,
n. 73). “Poderemos assim tender para aquela ‘medida alta da vida cristã ordinária’,
desejada pelo Papa João Paulo II” (VD, n. 72).
103. Um segmento pastoral de grande força, para que a Escritura seja conhecida e
acolhida como Palavra de Deus, é a Catequese. Neste âmbito, são muitos milhares de
leigos, mas especialmente leigas. Oferecem do seu tempo, de sua inteligência e de seus
afetos à causa da evangelização. Um texto evangélico muito apreciado, nos meios
catequéticos, é aquele dos Discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). É uma espécie de modelo,
cujo centro está na explicação das Escrituras. Tendo-o ouvido a lhes ensinar a partir das
Escrituras, ardia-lhes o coração, e tornaram-se mensageiros do Ressuscitado (Lc 24,34).
Os catequizandos percebem quando seu catequista é impregnado pela Palavra.
104. O Espírito do Senhor Jesus, fonte perene de vida e missão da Igreja, ilumina
todas as pessoas que se colocam a serviço do Reino de Deus. Ele, com palavras e gestos,
nos ensinou a reconhecer o valor das mulheres, confiando a Maria Madalena, apóstola
dos apóstolos, e às outras mulheres, também elas discípulas, a alegria do primeiro
anúncio da ressurreição (Lc 8,1-3; 24,9-10). Suplicamos ao Senhor que as comunidades
eclesiais missionárias reconheçam que muitas delas são continuamente animadas
pastoralmente e coordenadas por mulheres. A presença e atuação feminina são
essenciais e indispensáveis na realização da ação evangelizadora, sobretudo na liturgia,
na catequese e na Animação Bíblica da Pastoral. Devido a sua natureza, as mulheres se
dedicam com paixão e competência, ternura e sensibilidade, ao serviço precioso à Igreja
em diversos âmbitos pastorais e sociais (DC, n. 128).22

4.2.2. Animadores para a Leitura Orante da Palavra

105. A Leitura Orante da Palavra lança raízes já nos primeiros tempos da Igreja. Os
Santos Padres, do alto de sua autoridade espiritual, foram os grandes arautos. Orígenes
foi um dos seus mestres mais antigos. Esta tradição orante atravessou os séculos pelos
ambientes monásticos. O Concílio Vaticano II ao falar da junção da leitura da Escritura
com a oração reportou-se a Santo Ambrósio: “com ele falamos quando oramos; a ele
ouvimos quando lemos as divinas sentenças” (DV, n. 25). Hoje é uma das formas mais
singelas de manter os discípulos em face da Palavra. Atualmente, superou as fronteiras
dos ambientes conventuais e tornou-se um dos modelos mais criativos de
espiritualidade orientada à evangelização.
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106. Se é verdade que nunca haverá Iniciação à Vida Cristã sem intimidade com a
Escritura, com ainda mais vigor se pode afirmar que nunca haverá Animação Bíblica da
Pastoral sem a Leitura Orante da Palavra. Ela “favorece o encontro pessoal com Jesus
Cristo semelhante ao modo de tantos personagens do Evangelho: Nicodemos e sua
ânsia de vida eterna (Jo 3,1-21), a Samaritana e seu desejo de culto verdadeiro (Jo 4,1-
12), o cego de nascimento e seu desejo de luz interior (Jo 9), Zaqueu e sua vontade de
ser diferente (Lc 19,1-10)” (DAp, n. 249). O discípulo missionário não necessariamente
conhece seu Senhor porque o estuda, mas porque com ele se encontra. É este o lugar da
Leitura Orante em toda a Igreja particular que pretende animar biblicamente sua
evangelização.
107. Muito importante para a Animação Bíblica da Pastoral é superar as tendências a
abordagens individualistas da Palavra. Sim, a Leitura Orante é um meio precioso para a
intimidade pessoal do discípulo com seu Senhor. É a partir da profunda relação com ele
que se assumem as grandes decisões de fidelidade. O Senhor se dirige a cada um,
pessoalmente, mas é a mesma Palavra que constrói comunidade, que constrói Igreja. “É
muito importante a leitura comunitária, porque o sujeito vivo da Sagrada Escritura é o
Povo de Deus, é a Igreja” (VD, n. 86). A abordagem individualista da Escritura alimenta
espiritualidades ambíguas. Tende a fazer de Deus um ídolo. E os caminhos da Leitura
Orante em vista da Animação Bíblica são um precioso meio para a educação da fé
vivida em comunhão.
108. Já se faz longo o tempo em que se fala de pastoral de conjunto ou orgânica. No
entanto, este sempre foi um caminho difícil. Talvez porque, com grande frequência, a
expressão fora compreendida em modo funcional. Como se a unidade eclesial fosse
visível na igualdade de formatos e métodos em um contexto de grande diversidade.
Mas qual seria e eixo unificador? Uma Igreja Particular terá mais unidade quanto mais
evangelizar com o “Verbo que se fez Carne” – a Palavra de Deus. Uma Igreja Particular
caminha para a unidade quando movida pela Palavra de Deus, pois é a Palavra, com os
sacramentos, que sustenta a unidade da Igreja. A difusão da Leitura Orante, pessoal e
comunitária, promove vivamente a unidade, pois é o mesmo Senhor a falar a tantos
diferentes e diferenças.

4.3. Ministros Ordenados, consagrados e consagradas


109. “É fundamental que a Palavra revelada fecunde radicalmente a catequese e
todos os esforços para transmitir a fé” (EG, n. 175). Neste serviço, os ministros
ordenados são os protagonistas por excelência. Por isso, quando se fala da Animação
Bíblica da Pastoral, é preciso insistir que ela somente será realidade se encontrar
receptividade nos ministros ordenados.
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110. A responsabilidade maior é dos bispos. A propósito da relação do bispo com a


Palavra de Deus, São João Paulo II escreveu em tom solene: “Por isso, antes de ser
transmissor da Palavra, o Bispo, com os seus sacerdotes e como qualquer fiel, antes
como a própria Igreja, deve ser ouvinte da Palavra. Deve de certo modo estar ‘dentro da
Palavra’, para deixar-se guardar e nutrir dela como de um ventre materno” (PG, n. 15).23
A imagem ilustra com clareza. Um bom pastoreio é possível somente quando a Palavra
de Deus, particularmente a Escritura, envolver a inteireza da vida pastoral.
111. Também os presbíteros são, por excelência, consagrados sacramentalmente para
o ministério da Palavra. São eles que têm em mãos o cotidiano da prática pastoral.
Segue, pois, que são eles os agentes mais efetivos da Animação Bíblica. Ainda São João
Paulo II, desta vez na Pastores Dabo Vobis, afirma: o padre “precisa de se abeirar da
Palavra com o coração dócil e orante, a fim de que ela penetre a fundo nos seus
pensamentos e sentimentos e gere nele uma nova mentalidade – ‘o pensamento de
Cristo’ (1Cor 2,16). (...) Só ‘permanecendo’ na Palavra, o presbítero conhecerá a verdade
e será realmente livre, superando todo e qualquer condicionalismo adverso ou estranho
ao Evangelho (Jo 8,31-32)” (PDV, n. 26).24 Na realidade, não será possível a Animação
Bíblica sem o protagonismo dos presbíteros.
112. Com impressionante frequência ouve-se nos ambientes eclesiais a seguinte frase:
“O povo tem sede”. Nesta fala, pode-se vislumbrar um apelo originado do sentido de fé
dos fiéis. De fato, já Lucas nos legou esta sensibilidade como um dado da própria vida
de Jesus: “A multidão se comprimia ao redor dele para ouvir a Palavra de Deus” (Lc
5,1). Algo semelhante se verificou também nos Atos dos Apóstolos (At 4,31; 6,2.7).
Assim o evangelista revela os profundos anseios da humanidade pela Palavra de Deus.
Outro evangelista, Mateus, também nos ajuda: “as multidões ficaram maravilhadas com
seu ensinamento. Com efeito, ele as ensinava como quem tem autoridade, não como os
seus escribas” (Mt 7,28-29). Também hoje, dos ministros ordenados o povo de Deus,
sedento, anseia pela Palavra apresentada em modo diverso dos escribas.
113. A animação bíblica do ministério presbiteral não depende tanto de ideias, ou de
métodos, ou de organizações. Fundamentalmente, depende da relação do presbítero
discípulo com seu Senhor. E as comunidades percebem quando as palavras e gestos do
nosso padre procedem de encontros com a Palavra. Daí, até sem expressar, as
comunidades eclesiais esperam que tal intimidade aprofunde raízes já no tempo da
formação. “Os aspirantes ao sacerdócio ministerial são chamados a uma profunda
relação pessoal com a Palavra de Deus, particularmente na lectio divina, porque é de tal
relação que se alimenta a sua vocação” (VD, n. 82). Dificilmente haverá ânimo bíblico na
vida ministerial se este foi parco no tempo de formação.
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114. Um âmbito muito singular para a Animação Bíblica, reservado com


proeminência ao ministro ordenado, é a homilia. Não se trata apenas de habilidades
retóricas ou beleza de oratória. Uma boa homilia proporciona familiaridade entre a
Palavra de Deus, escrita outrora, e os sedentos da Palavra, ouvintes de agora. Por isso
mesmo ensina o Papa Bento XVI: “Devem-se evitar tanto homilias genéricas e abstratas
que ocultam a simplicidade da Palavra de Deus” (VD, n. 59). Já o Papa Francisco
retoma: “A homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade
de encontro de um Pastor com o seu povo” (EG, n. 135). Um pregador cujo ânimo
evangelizador nasce da Palavra sempre aproximará a voz de Deus ao ouvido e ao
coração do povo, pois “o pregador tem a belíssima e difícil missão de unir os corações
que se amam: o do Senhor e os do seu povo” (EG, n. 143).
115. É muito forte na cultura brasileira o fenômeno da piedade popular. Em muitos
ambientes é vista com desconfiança. Em outros ela é supervalorizada. Embora com
insuficiências, ou limites, tornou-se uma “verdadeira expressão da atividade
missionária espontânea do povo de Deus” (EG, n. 122). Nesse âmbito é decisiva a
sabedoria pastoral do presbítero. É verdade que pode haver certas deformações ou
superficialidades em algumas devoções. Mas ela traduz uma “certa sede de Deus que
somente os pobres e os simples podem experimentar” (EN, n. 48). A identidade com
o(a) santo(a) protetor(a), especialmente Nossa Senhora, ou com o Cristo sofredor, é
sempre manifestada em traços de intensa religiosidade. Quando há ânimo e pedagogia
bíblica nos pastores, os pontos de encontro com os primeiros cristãos se apresentam
quase conaturais (At 17,16-34; VD, n. 65).
116. Cabe ainda uma reflexão para as pessoas consagradas quando se quer falar de
Animação Bíblica da Pastoral. A vida religiosa “nasce da escuta da Palavra de Deus e
acolhe o Evangelho como sua norma de vida”. Deste modo, viver no seguimento de
Cristo casto, pobre e obediente é uma ‘exegese’ viva da Palavra de Deus”. Uma exegese
viva da Palavra não pode ter melhor expressão do que explícitos testemunhos bíblicos
que sustentem e realimentem os carismas fundantes que conferem identidade à
evangelização originada da vida religiosa. Afinal foi o Espírito Santo quem iluminou “a
Palavra de Deus, com nova luz, para os fundadores e fundadoras. Dela brotou cada um
dos carismas e dela cada regra quer ser expressão” (VD, n. 83).

4.4. A Igreja Diocesana e os projetos para Animação Bíblica da Pastoral


117. Já são muitos e belos os passos palmilhados em nossa Igreja no Brasil em direção
a um ânimo mais bíblico nos nossos projetos evangelizadores. Para esses passos, muitas
experiências contribuíram enormemente, especialmente a partir do Concílio Vaticano II
com a assim chamada Pastoral Bíblica. Entre todas essas experiências, vale lembrar “a
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leitura popular da Bíblia” feita nos inúmeros Círculos Bíblicos e nas CEBs. O Documento
de Aparecida reconhece, primeiro citando Puebla (DPb, n. 629), “que as pequenas
comunidades, sobretudo as Comunidades Eclesiais de Base, permitiram ao povo chegar
a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do
Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos”
(DAp, n. 178) e que “as Comunidades Eclesiais de Base, no seguimento missionário de
Jesus, têm a Palavra de Deus como fonte de sua espiritualidade” (DAp, n. 179). Assim,
aos poucos, nas dioceses, nas paróquias, nas comunidades eclesiais missionárias, nas
pastorais e movimentos, com grande criatividade, foram se enumerando experiências
de uma paulatina Animação Bíblica da Pastoral.
118. No passado e no presente, há realidades muito promissoras. Percebe-se, pois,
que já há caminhos na formação, na espiritualidade e na mística bíblicas que sustentam
contextos e vivências de uma Igreja sempre mais em saída. Como valorizar essas
experiências? Como fazer que elas sempre mais caminhem para uma verdadeira
Animação Bíblica da Pastoral? Como multiplicar articuladamente mais experiências a
serviço dessa Animação?
119. Antes de mais nada, é preciso sempre ter presente: os interlocutores de uma
Animação Bíblica da Pastoral são sujeitos e não somente destinatários. De fato, não
recebemos a Palavra para guardá-la para nós mesmos. Assim nos ensina Jesus: “O que
vos digo no escuro, dizei-o à luz do dia; o que vos é sussurrado ao ouvido, proclamai-o
sobre os telhados!” (Mt 10,27). Aliás, o episcopado brasileiro já se manifestou acerca do
tema: os “interlocutores da Animação Bíblica da Pastoral são todos os membros do Povo
de Deus: os leigos, enquanto presença da Palavra de Deus em forma de ‘fermento na
massa’; os consagrados enquanto presença da Palavra de Deus na vivência dos
conselhos evangélicos; os ministros ordenados enquanto presença da Palavra de Deus
no exercício do tríplice múnus de ensinar, santificar e liderar” (CNBB, Doc. 97, n. 68).
120. É uma riqueza da nossa Igreja ter tantas formas de evangelizar nas paróquias,
nas comunidades, nas pastorais, nos movimentos, nas associações e nas novas
comunidades. Temos pastorais de matizes proféticos; podemos contar com vigorosos
movimentos; há vibrantes setores e fortes organismos. Qual seria o centro unificador, ou
seja, o vínculo de unidade em qualquer proposta de evangelização? Seria coerente com
as expressões mais originárias da Igreja que este anseio fosse conferido à Palavra de
Deus. Eis aí o lugar da Animação Bíblica da Pastoral. Uma Igreja Particular terá maior
unidade quanto mais contar com as Escrituras para falar de Jesus Cristo, a Palavra que
se fez carne. Sem dúvida, suas expressões de unidade serão mais vivazes e efetivas.
121. Embora já tenhamos percorrido muitos e belos caminhos, não se pode negar que
nós católicos ainda carecemos de maiores afinidades com a Bíblia. Precisamos conhecê-
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la com maior profundidade e têm ocorrido muitos esforços nessa direção. Entretanto,
cabe reconhecer que algumas interpretações se diferenciam por demais. E até
contrastam. Talvez por procurar a Palavra escrita de Deus mais para respaldar ideias e
projetos do que para fazer dela o princípio e fundamento da evangelização. Até
aconteceu de buscar nas páginas da Escritura argumentos para justificar diferenças e
polarizações. Os tempos urgem a novas experiências. Já são muitos os que sabem falar
da Bíblia. Mas agora a Igreja sente a urgência de deixar a Palavra falar.
122. É evidente a necessidade de multiplicar e qualificar os centros de formação
bíblica. Bispos, presbíteros, diáconos permanentes, pessoas consagradas e leigos, todos
são desafiados a maior profundidade. Mas nunca se pode esquecer que Jesus Cristo não
será mais seguido simplesmente porque será mais estudado. O caminho primeiro é
outro. É aquele de proporcionar ao Povo de Deus aquelas experiências que moveram
importantes personagens dos Evangelhos. E a Leitura Orante da Palavra Inspirada, isto
é, densa de Espírito, é um caminho possível e acessível para vivências semelhantes.
123. Sempre será importante ter mais Escolas Bíblicas. Todavia, não se trata de
oferecer apenas informações sobre a Bíblia. É fundamental que se proponham caminhos
de oração e comunhão com a Palavra. Isso vale de forma especial para os Seminários, as
Faculdades de Filosofia e os Institutos de Teologia. Os futuros presbíteros deverão ter
consciência de que eles, juntamente com os bispos, são os agentes privilegiados da
Animação Bíblica da Pastoral.

4.4.1. Indicações para projetos diocesanos de Animação Bíblica da Pastoral

124. Os que assumem mais diretamente a missão de organizar, articular, motivar e


orientar todo o trabalho de animação bíblica, podem ser chamados de agentes da
Animação Bíblica da Pastoral. Em 2018, o Conselho Episcopal Latino-Americano
(CELAM), junto com a Federação Bíblica Católica Latino-Americana (FEBIC-LAC),
elaborou as Orientações para a Animação Bíblica da Pastoral na América Latina e no Caribe.
No documento, há um capítulo inteiro dedicado aos agentes da Animação Bíblica da
Pastoral. Nele se aborda o ser, o saber e o fazer do agente da Animação Bíblica. Essa
Orientações foram traduzidas pela CNBB, portanto, são acessíveis a todos.25
125. Para que haja efetividade e bom direcionamento, será necessário projetar a
Animação Bíblica. Sem clareza dos meios e dos fins também não haverá metas. Aqui se
oferece apenas um esquema para um projeto de Animação Bíblica da Pastoral:
NÍVEIS Diocese Paróquias Comunidades Eclesiais Missionárias
CARACTERÍSTICAS Elaboração e execução de um Acolhida, elaboração e execução de Acolhida, vivência e aplicação dos Projetos
Projeto Diocesano Projetos Paroquiais Diocesano / Paroquial
FINALIDADES Projeto de unidade Projetos iluminados Projetos de acolhida/vivência dos Projetos
e iluminação para a Diocese no âmbito Diocesano Paroquiais iluminados no Diocesano
e para toda a Paróquia
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Pelo quadro acima temos claro:


126. Os Projetos precisam abranger todos os níveis: diocesano, paroquial e as
Comunidades Eclesiais Missionárias. Importa que seu alcance chegue a:

a. a. Todos os níveis da ação evangelizadora, respeitando, por certo, a


especificidade de cada um;
b. b. Todas as instâncias do Povo de Deus: bispos, presbíteros, diáconos
permanentes, consagrados e leigos;
c. c. Representantes dos que estão a serviço dos três pilares eclesiais: catequese,
liturgia e caridade;
d. d. Representantes dos que estão a serviço direto do múnus bíblico tanto
pastoral como acadêmico.
127. A característica dos Projetos de cada nível é:
e. a. Construção primeira do Projeto Diocesano, onde estarão as grandes linhas a
serem seguidas por todos os demais projetos;
f. b. Paróquias, movimentos e demais associações que atuam em nível trans ou
supra paroquial acolhem o Projeto Diocesano e constroem seus projetos,
buscando especificar o que é indicativo para toda a diocese;
g. c. As Comunidades Eclesiais Missionárias, enquanto pequenas comunidades,
não necessitam construir projetos específicos. Podem acolher e viver, em seu
âmbito, os projetos paroquiais iluminados pelo projeto diocesano. Isso as torna
chão concreto da Animação Bíblica da Pastoral.

128. Um Projeto Pastoral, como é o caso da Animação Bíblica da Pastoral, deve seguir
os passos conhecidos de um projeto de trabalho. Isso torna claro os objetivos, a matéria,
os envolvidos, a execução, os prazos e a própria contínua avaliação. Por isso, nunca é
demais lembrar das perguntas que um projeto deve responder: Por que fazer? O que
fazer? Com quem fazer? Como fazer? Quando fazer? O que avaliar?

4.4.2. A unidade diocesana em vista da Animação Bíblica da Pastoral: as paróquias, os movimentos, as


novas comunidades e demais associações

129. A Palavra de Deus a que os cristãos acedem pelas Escrituras é portadora de uma
imensa capacidade de formar iniciados em Jesus Cristo. Isso porque são palavras densas
do Espírito de Deus. É esta a razão de sua centralidade nos caminhos da Iniciação à
Vida Cristã. É Palavra que forma discípulos de Jesus. Os relatos evangélicos atestam
que tudo começou quando o Senhor se pronunciou a eles e a Palavra pronunciada
encontrou resposta (Mc 1,16-18; 2,14-15). Houve encontro. Tudo começou com um
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chamado ao discipulado. Terminou com um envio missionário (Mt 28,16-20). Isso


porque a Palavra do Ressuscitado suscita paixão pela missão.
130. Embora seja o Ressuscitado que, pela força do Espírito Santo, conduza a Igreja
na missão evangelizadora, é importante que, por meio de um bom planejamento, a
Animação Bíblica da Pastoral seja efetivada. O atual momento pede que
compreendamos bem o que essa Animação significa e como podemos levá-la adiante.
Para isso, a etimologia ajuda. Por este caminho é possível vislumbrar o que se quer
acentuar. O termo latino animus refere-se àquela força interior, àquele princípio
espiritual que, a partir de dentro, move ou motiva alguém a determinadas escolhas e
ações. É como a alma que suscita dinamismos em favor de uma causa. O contrário é des-
ânimo, falta de vigor, de alegria, falta de encanto. O Documento de Aparecida, ao propor a
Animação Bíblica da Pastoral, associa-a com “fonte de evangelização”, “alimento com o
Pão da Palavra”, “encontro com Jesus Cristo vivo” (n. 248).
131. Por certo, não há como falar de Animação Bíblica naquelas situações em que
parece bastar uma “pastoral de mera conservação” (DAp, n. 370). Diante, porém, dos
desafios do mundo presente, estaríamos realizando uma Igreja sem ânimo. O então
Cardeal Ratzinger foi muito perspicaz: “Nossa maior ameaça ‘é o medíocre
pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com
normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”
(DAp, n. 12). Muito já se falou de unidade na ação evangelizadora. Esta é uma
dificuldade que ainda persiste. E persistirá enquanto for apresentada mais com conceito
do que como experiência internalizada.
132. Frente a esse desafio da unidade na missão, a Leitura Orante da Palavra é um
meio que torna todos ouvintes da mesma voz. A unidade se alcança muito mais pela
Palavra ouvida do que pelo discurso formulado. Os que ouvem a mesma voz é como se
bebessem da mesma fonte. Dioceses, paróquias, pastorais específicas, pequenas
comunidades, novas comunidades, movimentos, de todos a Palavra de Deus presente
nas Sagradas Escrituras espera respostas. Sem a Palavra bíblica de pouco valem as boas
estratégias organizacionais ou até mesmo as eficiências comunicativas. Não são os
pensamentos de Jesus que salvam. Nem suas “ideias”. É a sua pessoa. Daí o lugar
central do “Verbo que se fez carne”. Por não encontrar a Palavra entre nós, muitos filhos
da nossa Igreja procuraram-na em outras (VD, n. 73). Cabe-nos uma honesta revisão e
corajosa opção.

4.4.3. Animação Bíblica da Pastoral em nível nacional

133. “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e
transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar
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e nos escolher” (DAp, n. 18). O ministério pastoral da Igreja nasce da Palavra de Deus. E
para que ela seja confiável à sua missão terá que fixar seus olhos no pastoreio de Jesus.
É com Ele que deve confrontar-se. O núcleo central de sua mensagem foi o Reino de
Deus. Este é dom, é gratuidade. Mas é também tarefa, é missão a empreender em
lugares históricos e concretos. Para tanto, os diferentes níveis da Igreja são chamados
àquelas escolhas que mais colaboram para “transmitir o tesouro”.
134. Como já mencionado acima, houve a partir do Concílio Vaticano II um belo
percurso. Mas ainda são muitos os caminhos a percorrer no que toca ao conhecimento e
à interpretação da Palavra de Deus por parte do nosso povo. Não basta torná-la
acessível. É preciso também torná-la conhecida. Não podem faltar aqueles horizontes de
encontro entre os homens e mulheres de fé, presentes na Bíblia, com os homens e
mulheres de fé que hoje podem caminhar com a Bíblia. Foi esta a leitura feita no tempo
do Exílio. Assim surgiram muitos escritos do Antigo Testamento. O mesmo fizeram os
primeiros cristãos. A partir de tais encontros, foram escritos os Evangelhos e as
epístolas. Hoje não se trata de escrever. Mas de ler, de acolher, de “saborear” para viver
a Palavra de Deus.
135. Todavia, se a palavra bíblica não for lida tendo em apreço o contexto histórico
em que foi escrita, considerando os quadros culturais e literários em que foi redigida
(DV, n. 12), facilmente podem se impor reducionismos ou fundamentalismos. Aqui
entra a participação de pessoas especializadas. Sua ajuda será decisiva para os pastores
e agentes da Animação bíblica. Deles e delas se espera proximidade com as Escrituras,
com a fé professada pela Igreja, além de sensibilidade com as expressões de fé do Povo
de Deus. É neste contexto que assumem papel de grande relevância os congressos,
seminários, simpósios e demais eventos voltados aos estudos da pastoral bíblica, da
teologia e da hermenêutica bíblica. Todavia, não se trata apenas de labor intelectual. É
preciso perceber como um serviço à Palavra de Deus e ao seu povo.
136. Uma das mais expressivas maneiras de colocar as Sagradas Escrituras nas mãos
do Povo de Deus é o Mês da Bíblia. Já lançou raízes profundas na história recente da
nossa Igreja no Brasil. Já se tornou tradição e tipificação da ação da Igreja. Seus textos-
base, juntamente com os muitos subsídios produzidos pelo país afora, oferecem às
comunidades eclesiais a experiência de fé daqueles que primeiramente acederam ao que
Deus queria revelar de Si mesmo. É um criativo esforço de aproximar os crentes de hoje
aos protagonistas da fé de ontem. É como se os de outrora e os de agora se reunissem
para orar e conversar sobre aquele Deus que se deixou conhecer na profundidade do
seu amor. Se crescer em sua difusão, o Mês da Bíblia será um meio muito precioso em
favor da Animação Bíblica da Pastoral.
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137. Outro caminho eficaz para a difusão da Palavra de Deus se verifica nos meios
digitais. Sua incidência no cotidiano das pessoas é muito poderosa. O mundo virtual
arraigou-se, com espantosa velocidade e intensidade, no mais profundo da vida das
pessoas. Gerou maravilhamentos e vazios profundos. Por um lado, aproximou
multidões; por outro, isolou pessoas. É uma nova civilização. Seja como for, por estes
meios, a Palavra de Deus pode chegar a ambientes nunca pensados, especialmente nos
meios juvenis. Já não é possível evangelizar sem sites, plataformas, aplicativos, spots,
prints... Nestes meios a Igreja pode ajudar muito a juventude, oferecendo-lhes a Palavra.
E os jovens têm “um mundo” a abrir para a Igreja, tornando-se para ela servidores da
Palavra em um espaço imenso de anúncio.
138. Aliás, quando se fala em anúncio da Palavra pelos meios digitais, não se quer
apenas e tão somente fazer referência ao modo eficiente e de grande alcance no serviço
de proclamá-la. Aos novos tempos correspondem também novas culturas. Atestam-no
expressões já muito comuns como “mudança de época”, “novos paradigmas”, “pós-
modernidade”, “pós-verdade”, “novo normal” e muitas mais. Por outro lado, o
evangelista nos recorda que “a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14).
Essa maravilhosa expressão, tão densa de verdade e de sentido, aponta para uma
escolha radical do próprio Deus: viver entre os seus (Jo,1,11-12). Segue, pois, que não se
pode descurar a relação intrínseca entre a Palavra de Deus e as culturas humanas. “De
fato, Deus não Se revela ao homem abstratamente, mas assumindo linguagens, imagens
e expressões ligadas às diversas culturas” (VD, n. 109).

4.5. Escolas, Institutos e Faculdades em vista da Animação Bíblica da


Pastoral
139. Nenhum movimento nasce maduro. Tampouco os projetos nascem prontos.
Muito mais os de pastoral, pois evangelizar é antes uma experiência vivida em caráter
existencial mais do que teorizações aplicadas. “Em nosso Brasil, com grande
criatividade, multiplicaram-se as experiências de serviço missionário sustentadas pela
Palavra. Muitas comunidades conservaram-se vivas e dinâmicas alimentadas somente
pela Palavra. O Espírito Santo sustentou toda esta vitalidade” (CNBB, Doc. 97, n. 67).
Todavia, se faltar a reflexão adequada, se não houver uma correta hermenêutica, se
faltar o labor intelectual, é grande o risco de desorientações.
140. Consequentemente, surge a necessidade de cuidadosa formação bíblica e
pastoral em nossas igrejas particulares. Como já salientado, a Animação Bíblica não é
um projeto para um quadriênio. É para que nossa Igreja seja mais bíblica na sua
evangelização. Para tanto requer-se que seja a “Formação bíblica permanente (no tempo),
sistemática (no currículo) e profunda (nos conteúdos) para assessores e multiplicadores
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da Animação Bíblica da Pastoral” (CNBB, Doc 97, n. 69). Alarga-se, portanto, o lugar de
atuação das escolas de educação da fé presentes em muitas dioceses do Brasil, além dos
institutos e faculdades de teologia. Desse modo, os professores de hermenêutica, de
teologia e de exegese bíblicas recebem enorme relevância.
141. Das escolas de teologia se espera que não se limitem a cumprir exigências
acadêmicas e curriculares reservadas especialmente aos candidatos ao sacerdócio e a
leigos que podem aceder à formação teológica e bíblica. Na Animação Bíblica da
Pastoral, os institutos e professores podem qualificar os movimentos de difusão da
Palavra escrita de Deus interpretando, atualizando e inculturando a mensagem da
Escritura. Isso não se dá apenas com o estudo. É necessário também comunhão com a
Palavra e comunhão com Povo de Deus. Se faltar esta comunhão qualquer formação
será privada de esperança para nossa gente.
142. Por outro lado, quando as escolas de formação, os institutos e as faculdades,
além da dimensão especificamente acadêmica que lhes incumbe, se dedicarem a levar
as Escrituras ao Povo de Deus e este às Escrituras, a evangelização do nosso tempo
experimentará daquelas motivações que suscitaram encantos em homens e mulheres da
Bíblia. As comunidades se tornarão mais criativas, pois que, mediante o conhecimento
das Escrituras, lhes será possível discernir os sinais dos tempos. E suas respostas terão a
linguagem de quem expressa a fé com sentimento de fraternidade.

4.6. Instrumentos auxiliares


143. Às vezes, no começo de um namoro, há alguém que possibilita os primeiros
encontros que ajudam a conhecer a pessoa amada. A namorada ou o namorado,
contudo, é muito mais importante do que quem colaborou. Assim acontece com a Bíblia
Sagrada. Há alguns bons instrumentos que podem nos ajudar muito na leitura da Bíblia
Sagrada, mas nunca podem substituir o contato direto com o texto bíblico. Nas boas
edições de bíblias, há excelentes introduções às partes da Bíblia e a cada livro. Algumas
bíblias têm notas ao pé da página com comentários bastante esclarecedores para se
compreender o sentido de cada unidade literária. São também significativas as notas
marginais, especialmente com os textos paralelos das citações ou textos que fazem
alusão àquela passagem. Essa riqueza deve ser mais aproveitada.
144. Nos últimos tempos, no Brasil, tem aumentado a publicação de comentários
bíblicos de excelente qualidade. É preciso somente determinar o perfil de cada um:
entre os principais, há comentários mais científicos e exegéticos, outros de perfil
pastoral, outros ainda primam pela leitura espiritual e litúrgica. Instrumentos de
especial importância são também os livros de caráter introdutório. Muitas dioceses têm
proposto, geralmente mensalmente, esquemas bastante bem-feitos para ajudar os
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grupos de leitura orante da Palavra de Deus ou os círculos bíblicos. Muitas pessoas têm
se dedicado ao estudo das línguas bíblicas, especialmente grego e hebraico, o que tem
sido de grande ajuda para a compreensão da Sagrada Escritura. Outras têm utilizado os
dicionários bíblicos, exegéticos e teológicos, para a pesquisa de temas específicos. É
também rico o uso das concordâncias bíblicas. Por meio delas, consegue-se pesquisar
um termo ao longo de todos os 73 livros da Bíblia Sagrada.
145. Como pastores, vemos com grande alegria e incentivamos o bom uso dos meios
de comunicação social, especialmente do rádio, da televisão e da internet, para a
expansão da meditação da Palavra de Deus. Reconhecemos que, nos últimos anos,
aumentou bastante a presença católica na internet nesse universo do contato com a
Palavra de Deus. Há muito mais bispos utilizando a internet para comentários aos
textos da liturgia. Talvez precisemos nos capacitar mais nesse caminho. Acolhemos
como uma esperançosa notícia o esforço que tem sido feito pelo Grupo de Reflexão
Bíblica São Jerônimo, um grupo de professores de Sagrada Escritura, do Brasil inteiro,
que comentam a Santa Palavra a cada dia. Entre tantos outros, incentivamos também o
Projeto Lectionautas, coordenado pela Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-
Catequética da CNBB e que produz Leitura Orante da Palavra de Deus diariamente, e
deseja atingir sobretudo os jovens. Nesse universo da internet, contudo, é preciso ter
cuidado e discernimento, pois nem tudo é de boa qualidade.
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CAPÍTULO 5
A PALAVRA DE DEUS EM DIVERSOS TIPOS DE TERRENO

5.1. A Palavra de Deus e a Liturgia


146. A Constituição Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, reconhece que a presença
de Cristo na vida eclesial encontra, nas celebrações litúrgicas, o momento privilegiado
(n. 7).26 Entre todos os terrenos nos quais a Palavra é semeada, esse deve receber uma
atenção especial para tornar concretas as solenes declarações dos documentos eclesiais.
147. O mesmo documento pede que a Igreja dê à Palavra o devido lugar: “É de suma
importância a Sagrada Escritura nas celebrações litúrgicas. Pois dela são tomadas as
leituras que serão explicadas na homilia e os salmos que serão cantados” (SC, n. 24). Na
Constituição Dei Verbum, o Concílio expressava uma exigente orientação, mais do que
uma verdade histórica: “As divinas Escrituras sempre foram veneradas como o próprio
Corpo do Senhor pela Igreja, que – máxime na sagrada Liturgia – não cessa de tomar e
distribui aos fiéis o pão da vida, tanto da mesa da Palavra de Deus quanto da mesa do
Corpo de Cristo” (DV, n. 21). Enfim, recordamos uma expressão da Verbum Domini: “A
Igreja funda-se sobre a Palavra de Deus, nasce e vive dela” (n. 3).
148. Nos últimos decênios, os ensinamentos teológicos e pastorais da Igreja repetem
esses ensinamentos. Isso significa que ainda não foram bastante acolhidos! Então, é
preciso avaliar onde estão as resistências para que esse pilar da identidade e missão da
Igreja seja acolhido e permeie a praxe pastoral da Igreja. O divino Espírito nos ensine a
acolher com entusiasmo a “força tão grande e o poder da Palavra de Deus”; ela
“constitua o sustento e o vigor da Igreja” e seja “para os seus filhos fortaleza da fé,
alimento da alma e fonte pura e perene da vida espiritual” (DV, n. 21). Na Introdução
ao Lecionário, escreve-se:
Por meio da própria Palavra de Deus, transmitida por escrito, “Deus continua falando ao seu povo” (SC, n.
33), e mediante o uso constante da Sagrada Escritura, o povo de Deus se faz mais dócil ao Espírito Santo por
meio da luz da fé e assim pode dar ao mundo, com sua vida e seus costumes, o testemunho de Cristo (IGL, n.
12).27

5.1.1. A Palavra de Deus na Eucaristia e nos demais sacramentos

149. O Concílio Vaticano II deu à Palavra o devido lugar, na Igreja. A renovada


centralidade da Palavra na vida resplandeceu, de maneira própria, na celebração da
Eucaristia. A Constituição Sacrosanctum Concilium orienta: “Para que a mesa da Palavra
de Deus ofereça aos fiéis, com maior abundância, os tesouros da Bíblia, seja ela
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preparada de maneira que no decorrer de um período determinado de anos sejam lidas


ao povo as partes mais importantes das Sagradas Escrituras” (SC, n. 51).
150. A Reforma pós-conciliar levou a término esse pedido. A riqueza dos textos
bíblicos foi distribuída, com abundância e sabedoria, no decorrer do Ano litúrgico.
Nestes decênios, as propostas conciliares enriqueceram a vida espiritual dos nossos
fiéis, sobretudo dos que acompanham a Palavra de Deus com leitura orante e frequente
reflexão. Grandes avanços aconteceram na aproximação dos cristãos católicos à Palavra
de Deus. Numerosos fiéis possuem sua Bíblia e não poucos têm o hábito, no passado,
quase totalmente desconhecido, de manusear o Livro e frequentar a Palavra, e alimentar
com a Palavra sua vida espiritual. Ao Senhor que bate para entrar em suas casas (Ap
3,20), tantos cristãos abrem, hoje, também pelos meios digitais. Às luzes, porém,
acompanham-se sombras e limites. Constatamos que, ainda é longo o caminho para que
a Palavra ocupe o desejado lugar na Igreja e na vida de numerosos fiéis. Portanto, é
preciso que nós pastores assumamos, com renovado ardor e amor, essa prioridade
pastoral.
151. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2019-2023 orientaram para que as
Comunidade Eclesiais Missionárias sejam edificadas sobre alguns pilares, dentre os
quais o pilar da Palavra. Essas orientações pedem, antes de tudo, aos bispos o
compromisso para que todos os colaboradores mais próximos – padres, religiosos e
religiosas, ministros da Palavra, catequistas e demais agentes de pastoral – assumam,
com amor e competência, essas orientações. De fato, não basta reafirmar princípios! É
urgente amadurecer convicções e traduzi-las em escolhas pastorais coerentes, capazes
de fomentar a mudança que se faz necessária.
152. Todas as ações litúrgicas – recomendava a Verbum Domini – “devem favorecer
uma crescente familiaridade com a Palavra de Deus” (n. 64). Todos os Rituais
elaborados depois do Concílio, pedem que todos os Sacramentos sejam celebrados com
a prévia escuta da Palavra: “Para que apareça claramente a profunda sintonia do rito
com a Palavra na Liturgia” (SC, n. 35). “Certamente, ‘a liturgia da Palavra é um
elemento decisivo na celebração de cada um dos sacramentos da Igreja’ (...). É ‘dever
dos sacerdotes e diáconos, sobretudo quando administram os sacramentos, evidenciar a
unidade que formam Palavra e Sacramento no ministério da Igreja’” (VD, n. 53).

5.1.2. As Celebrações da Palavra

153. O Concílio fez o pedido: “Promova-se a celebração da Palavra de Deus nas


vigílias das solenidades mais privilegiadas (...), especialmente, onde houver falta de
sacerdote, quando serão presididas por diáconos ou alguém delegado pelo Bispo” (SC,
n. 35,4). Depois do Concílio, os documentos eclesiais reafirmam a necessidade de
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valorizar a celebração da Palavra. Em nosso Continente, as numerosas Comunidades


eclesiais se alimentam quase exclusivamente com a Palavra de Deus. Essa experiência
amadureceu, também, pela escassez de ministros ordenados, e continua revelando um
extraordinário potencial em ordem à espiritualidade e à vida das Comunidades
mesmas.
154. O Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, acolhe
essa experiência latino-americana, quando afirma: “O Sínodo convidou a um esforço
pastoral particular para que a Palavra de Deus apareça em lugar central na vida da
Igreja, recomendando que ‘se incrementem a pastoral bíblica, não em justaposição com
outras formas da pastoral, mas como Animação Bíblica da Pastoral inteira’” (VD, n. 73).
Falando dessas celebrações, pouco antes, reconhece-se nelas “ocasiões privilegiadas de
encontro com o Senhor. Por isso, tal prática não pode deixar de trazer grande proveito
aos fiéis, e deve considerar-se um elemento importante da pastoral litúrgica” (VD, n.
65).
155. Adquire urgente sentido o que escrevemos em nossas últimas Diretrizes Gerais da
Ação Evangelizadora: “Para formar discípulos missionários, é urgente aproximar mais as
pessoas e as comunidades da leitura orante da Palavra de Deus. (...) Igualmente, é
indispensável uma leitura orante comunitária” (DGAE 2019-2023, n. 91). Ainda: “O
contato intensivo, vivencial e orante com a Palavra de Deus confere à reunião da
comunidade um caráter de formação discipular. O importante é o encontro com a
Palavra que muda a vida e dá sentido ao ser e agir de quem é cristão” (DGAE 2019-
2023, n. 92). Úteis e apropriadas orientações, a esse respeito, encontram-se no
Documento da CNBB 108: Ministério e Celebração da Palavra.
156. “Entre as formas de oração que exaltam a Sagrada Escritura, conta-se, sem
dúvida, a Liturgia das Horas. (...) ‘uma forma privilegiada de escuta da Palavra de
Deus’” (VD, n. 62). No Brasil, ela tem significativa expressão de oração inculturada: o
Ofício Divino das Comunidades. Como “oração pública da Igreja” (SC, n. 90), a Liturgia
das Horas “verdadeiramente é a voz da Esposa que fala com o Esposo, ou melhor ainda,
é Jesus Cristo, com seu Corpo Místico, que ora ao Pai” (SC, n. 84). Nela, “manifesta-se o
ideal cristão de santificação do dia inteiro, ritmado pela escuta da Palavra de Deus e
pela oração dos Salmos” (VD, n. 62). O Papa Bento XVI, acolhendo o voto do Sínodo
sobre a Palavra de Deus (2010), pediu que houvesse uma maior difusão dessa oração
eclesial, sobretudo das Laudes e Vésperas (VD, n. 62). Reconhecemos que “este
incremento fará crescer nos fiéis a familiaridade com a Palavra de Deus” e exortamos
que “as paróquias e as comunidades de vida religiosa favoreçam esta oração com a
participação dos fiéis” (VD, n. 62). Assim, como desejava o Concílio, esse “venerável e
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secular tesouro”, tornar-se-á “fonte de piedade e alimento da oração pessoal” (SC, n.


90).

5.1.3. As homilias

157. “A pregação faça parte da ação litúrgica (...), pois este ministério deverá ser
exercido com fidelidade e exatidão, tendo como fonte a Escritura proclamada e a ação
litúrgica celebrada” (SC, n. 35,2). Este princípio geral é reafirmado pela Constituição
Sacrosanctum Concilium quando trata da Eucaristia e sua celebração: “É vivamente
recomendada a homilia, parte integrante da própria Liturgia. Convém que seja
inspirada nos textos sagrados” (SC, n. 52). As orientações conciliares visavam dar um
estilo e um espírito a esse momento celebrativo. Os sucessivos documentos eclesiais
retomam o assunto, até nos detalhes.
158. O Papa Bento XVI, na Verbum Domini, usa sábias palavras sobre a necessidade
de melhorar a qualidade da homilia. De fato, esta constitui parte integrante da ação
litúrgica, uma atualização da mensagem da Sagrada Escritura. Portanto, deve levar à
compreensão do mistério que se celebra, convidar para a missão, preparando a
assembleia para a profissão de fé, a oração universal e a liturgia eucarística. Deve ficar
claro aos fiéis que aquilo que o pregador tem como objetivo é mostrar Cristo, que deve
estar no centro de cada homilia (VD, n. 59). Por isso, é de se esperar que os pregadores
façam “com que a homilia coloque a Palavra de Deus proclamada em estreita relação
com a celebração sacramental e com a vida da comunidade, de tal modo que a palavra
de Deus seja realmente apoio e vida da Igreja” (SCa, n. 46).28 Portanto, a homilia deve
levar em conta a Palavra proclamada, o mistério celebrado e a ligação com a vida
pessoal e comunitária.
159. O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium (n. 135-159), desenvolve uma detalhada
e exigente análise sobre a identidade e a execução da homilia. Suas insistentes
orientações sejam acolhidas e praticadas por todos os homiliastas! Recordando
ensinamentos de São João Paulo II (DD, n. 41),29 a homilia é definida “diálogo de Deus
com o seu povo” (EG, n. 137), e deve “dar fervor e significado à celebração” (EG, n. 138),
ser um “manancial de água viva” (EG, n. 139). Recomenda que a homilia não seja “um
espetáculo de divertimento”, nem deve corresponder “à lógica dos recursos midiáticos”
(EG, n. 138). Outra significativa recomendação do Papa: “Falar com o coração implica
mantê-lo não só ardente, mas também iluminado pela integridade da Revelação e pelo
caminho que essa Palavra percorreu no coração da Igreja e do nosso povo fiel ao longo
de sua história” (EG, n. 144). Essa dúplice fidelidade, orienta a identidade e a qualidade
da homilia.
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160. Surge um questionamento: como é a qualidade das homilias em nossa realidade


eclesial? Com certeza, em tantas paróquias os fiéis experimentam alimento sólido e
gostoso que proporciona um impacto positivo em suas vidas. Também nas redes
digitais, circulam propostas de eminente reflexão. Porém, não podemos silenciar que
ainda deixam a desejar homilias de quem preside até nas TVs católicas e nas redes
digitais como já observam nossas Comunidades, queixa essa de parte dos fiéis. Assiste-
se, às vezes, à banalização desse serviço da Palavra de Deus, quando o homiliasta
discursa de tudo, mas sem respeito e fidelidade pela Palavra proclamada. Que dor
quando se usa desse momento tão precioso para contar historinhas e fazer piadas,
enquanto a Palavra se torna pretexto para entreter “espectadores” ou para dar
orientações de ordinário moralismo.
161. É preciso rigor e fidelidade! Os irmãos Bispos, em cuja jurisdição se encontram
meios de comunicação (rádio e TV), são convidados a cuidar, orientar e exigir coerência
com as orientações da Igreja no que se refere à proclamação da Palavra e às homilias.
Também, pertence aos nossos deveres de Pastores vigiar para que padres e diáconos
que anunciam a Palavra pelos meios digitais, sobretudo no contexto de celebrações
litúrgicas, mantenham-se coerentes com as diretrizes da Igreja. São João Paulo II,
recorda Francisco, pedia ao pregador para “se abeirar da Palavra com o coração dócil e
orante, a fim de que ela penetre a fundo nos seus pensamentos e sentimentos e gere nele
uma nova mentalidade” (EG, n. 149).

5.2. A Palavra de Deus e a ação missionária


162. “Necessitamos desenvolver a dimensão missionária da vida de Cristo. A Igreja
necessita de forte comoção que a impeça de se instalar na comodidade, no estancamento
e na indiferença, à margem do sofrimento dos pobres do Continente. Necessitamos que
cada comunidade cristã se transforme num poderoso centro de irradiação da vida em
Cristo” (DAp, n. 362). Escolhemos algumas das numerosas mensagens do Documento de
Aparecida que, insistentemente, reafirmam a urgência que a missão que Jesus entregou
aos discípulos seja assumida com renovado vigor e entusiasmo por nós, discípulos e
discípulas do Senhor, hoje.
163. A Palavra está repleta desse anseio pela missão! “Ide, pois, e fazei discípulos
todos os povos” (Mt 28,19). O evangelista Mateus resume em um de seus grandes
discursos a insistência missionária de Jesus: “Por onde andardes, proclamai: ‘O Reino
dos Céus está próximo’” (Mt 10,7). A missão é, antes e acima de tudo, anunciar e
testemunhar a beleza de ter encontrado Jesus Cristo: “Conhecer a Jesus é o melhor
presente que qualquer pessoa possa receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu
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em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DAp,
n. 29).
164. Nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, afirmamos que: “A missão,
irradiação da experiência do amor gratuito e infinito de Deus, supõe um anúncio
explícito da Boa-Nova de Jesus Cristo” (DGAE 2019-2023, n. 116). Os desafios para o
anúncio do Palavra são grandes e bem conhecidos. Na sociedade hodierna, a fé não é
pressuposta nas mentes e nos corações de muitos de nossos irmãos e irmãs; “grandes
setores da sociedade” vivem “uma profunda crise de fé”.
165. Nesse contexto sociocultural, o anúncio evangélico torna-se ainda mais urgente.
Pede, porém, testemunhas do Evangelho apaixonadas, que se entregam de alma e corpo
à missão. O Papa Francisco, desde a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, com
insistência constante, repete a urgência dessa missão, antes de tudo, pelo seu valor
intrínseco, pela riqueza de vida contida na Palavra do Senhor. Por isso, alerta: cuidado
para não “sufocar a alegria da missão”: “Não nos deixemos roubar o entusiasmo
missionário!” (EG, n. 80).
166. Somente evangelizadores apaixonados pelo Evangelho poderão transformar o
ministério em missão, e se deixar iluminar, sustentar, queimar e mover pelo zelo
missionário, sem medo diante das diversas situações em que a missão acontece. Pede-se
renovada criatividade, gerada por uma experiência viva e transformadora do encontro
com o Ressuscitado. Métodos e instrumentos novos serão úteis na proporção do ardor e
do amor gerados pela experiência íntima, de autêntica mística, que inflame o coração e
encha de sabedoria os missionários do Evangelho. “Tenho ainda outras ovelhas, que
não são deste redil; também a essas devo conduzir, e elas escutarão a minha voz (...).
Ninguém me tira a vida, mas eu a dou livremente” (Jo 10,16.18). Ser anunciador(a) do
Evangelho se assume somente com esse ardente amor de “perder a própria vida”, livre
e totalmente por amor. Novas orientações, belos documentos, palavras renovadas de
pouco servem se não for o Espírito do Senhor que escolhe e manda (Jr 1,4-8), que
queima e purifica (Is 6,6-7), que chama, a deixar barco e trabalho (Mc 1,16-20 e par.),
segurança e projetos pessoais.

5.3. A Palavra de Deus, a Iniciação à Vida Cristã e a Catequese em geral


167. “Iniciação à Vida Cristã e Palavra de Deus estão intimamente ligadas. Uma não
pode ocorrer sem a outra” (DGAE 2019-2023, n. 90). Essa exigência acompanha o
documento Iniciação à Vida Cristã. No caminho de iniciação, é necessário que as etapas
proporcionem um progressivo envolvimento com a Palavra: “A Iniciação à Vida Cristã
é lugar privilegiado de animação bíblica da vida e da pastoral. Os processos de Iniciação
se fundamentam na Sagrada Escritura e na liturgia, educam para a escuta da Palavra e
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para a oração pessoal, mediante a leitura orante, evidenciando uma estreita relação
entre Bíblia, catequese e liturgia” (CNBB, Doc. 107, n. 66).30
168. No mesmo documento, afirmamos: “é urgente a revisão de nosso processo de
transmissão da fé. (...) tomar a sério cada pessoa e o projeto que Deus tem para ela”
(CNBB, Doc. 107, n. 1); a Vida Cristã é um novo projeto de vida. (...) A pessoa aprende e
se deixa envolver pelo mistério amoroso do Pai, pelo Filho, no Santo Espírito. Seu agir
será outro, passando a um novo modo de vida no campo pessoal, comunitário e social.
E isso se realizará por meio de símbolos, ritos, celebrações, tempos e etapas” (CNBB,
Doc. 107, n. 5). Tornem-se convicção espiritual e pastoral: “A Igreja cresce, não por
proselitismo, mas por ‘atração’: como Cristo ‘atrai tudo para si’ com a força do seu
amor’” (DAp, n. 159, enfatizando palavras do Papa Bento XVI).
169. O processo de Iniciação à Vida Cristã requer novas disposições pastorais. São
necessárias perseverança, docilidade à voz do Espírito, sensibilidade aos sinais dos
tempos, escolhas corajosas e paciência, pois se trata de um novo paradigma (CNBB,
Doc. 107, n. 9). “Todo esse processo de iniciação à vida cristã supõe um encontro
pessoal e comunitário com Jesus Cristo, proporcionado de forma privilegiada pela
celebração da Palavra de Deus e pela leitura orante (VD, n. 65)” (DGAE 2019--2023, n.
88). Como exorta o Papa Bento XVI, “a inteligência das Escrituras exige, ainda mais do
que o estudo, a intimidade com Cristo e a oração” (VD, n. 86). Essas concretas
orientações dos documentos, pedem para serem acolhidas, assumidas e traduzidas em
estilo de vida por parte de todos os agentes de pastoral. É uma mudança que exige
conversão evangélica e novos métodos.
170. O recente Diretório para a Catequese, do Pontifício Conselho para a Promoção da
Nova Evangelização, começa dizendo: “A catequese pertence plenamente a um
processo mais amplo de renovação que a Igreja é chamada a realizar para ser fiel ao
mandato de Cristo” (DC, n. 1). Isso comporta que a catequese seja uma iniciação
mistagógica, tenha inspiração catecumenal, favoreça uma íntima comunhão com Cristo,
amadureça uma mentalidade de fé. Entre as várias recomendações, destaca-se “o papel da
comunidade cristã como lugar natural da geração e do amadurecimento da vida cristã”
(DC, n. 4).
171. Torna-se necessário e urgente a formação de catequistas e agentes de pastoral
habilitados para traduzir essas diretrizes. O esforço deve ser articulado, nos diferentes
níveis do nosso ser Igreja, tendo cada diocese seu centro propulsor, com a ajuda e
articulação dos Regionais e da Dimensão bíblico-catequética da CNBB. Enfim, é preciso
que, na celebração dos Sacramentos, desde o Batismo, a Palavra de Deus se torne o
alimento da preparação de pais e padrinhos e, segundo a idade, dos que recebem os
Sacramentos. A catequese toda deve ser impregnada pela Palavra de Deus a ser
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estudada e respirada constantemente, no processo de iniciação, de modo que oração e


testemunho de vida encontrem nela alimento e luz. Pedimos a quem prepara subsídios
catequéticos e orienta a formação de catequetas e catequistas que colaborem, nos
conteúdos e no método, nesse sentido.

5.4. A Palavra de Deus e a piedade popular


172. Abrindo a Conferência de Aparecida, o Papa Bento XVI qualificou a piedade
popular como “rica e profunda, na qual aparece a alma dos povos latino-americanos”,
“precioso tesouro destes povos”. Os povos do Continente, observava o Papa, têm uma
ligação profunda com a religiosidade, penetra sua alma religiosa que se expressa, antes
de tudo, através de sua piedade, que o Papa convidou a “promover e proteger”.31
173. O Documento de Aparecida recomenda: “É necessário cuidar do tesouro da
religiosidade popular de nossos povos, para que nela resplandeça cada vez mais a
‘pérola preciosa’ que é Jesus Cristo, e seja sempre novamente evangelizada na fé da
Igreja e por sua vida sacramental” (DAp, n. 549). O Documento de Aparecida acrescenta:
“A piedade popular penetra delicadamente a existência pessoal de cada fiel e, ainda que
se viva em uma multidão, não é uma ‘espiritualidade de massas’” (DAp, n. 261). Nessa
piedade, encontramos as riquezas e os limites de nossa evangelização. Em geral, o nosso
povo expressa sua piedade com novenas, festas de padroeiros, romarias, folias de reis e
do Divino, a reza do Terço, o Ofício de Nossa Senhora, as Vias-Sacras e outras formas
de rezar. Essas expressões religiosas são vividas e participadas com intensidade
emocional e espiritual, às vezes mais do que a Missa dominical e a Celebração do Culto.
174. “Nos diferentes momentos da labuta cotidiana pela sobrevivência, sobretudo os
mais pobres e sofredores, recorrem a algum pequeno sinal do amor de Deus: um
crucifixo, um rosário, uma vela que se acende para acompanhar o filho em sua
enfermidade, um Pai Nosso recitado entre lágrimas, um olhar entranhável a uma
imagem querida de Maria” (DAp, n. 261). Aparecida ainda convidou a “valorizar
positivamente o que o Espírito Santo já semeou”; o “discípulo missionário deve ser
“sensível a ela, saber perceber suas dimensões interiores e seus valores inegáveis” (EN,
n. 48). Trata-se de “uma espiritualidade encarnada na cultura dos simples” (DAp, n.
263) que, como observava São Paulo VI (EN, n. 48), “reflete uma sede de Deus que
somente os pobres e simples podem conhecer” (DAp, n. 258). Enfim, é “uma maneira
legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser
missionários” (DAp, n. 264).
175. Nessa realidade, devemos valorizar e complementar a riqueza da piedade
popular, procurando purificá-la e orientá-la. Nisso, a sede que numerosos dos nossos
fiéis manifesta para o uso da Sagrada Escritura deve encontrar pessoas sensíveis e
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preparadas para partilhar orientações e conhecimentos que, sem desmerecer o húmus


espiritual do povo, dê um alicerce mais sólido à fé fundamentando-a na Palavra de
Deus. Numerosas iniciativas já existem nesse sentido, ou podem oferecer preciosas
oportunidades: desde as Novenas dos Padroeiros até a reza do Terço: tornem-se
momentos comunitários alimentados, de maneira sábia e sóbria, para incentivar
conhecimentos bíblicos e a leitura espiritual da Palavra, de modo que alimente essa fé,
simples e profunda, e, ao mesmo tempo, proporcione um mais sólido alicerce à sua fé.

5.5. A Palavra de Deus nas famílias


176. A família, “sujeito fundamental da ação missionária da Igreja” (DGAE 2019-
2023, n. 140), é o lugar por excelência onde a Palavra de Deus deve ser escutada,
acolhida, vivida e transmitida. A vocação da família cristã é de ser “escola de liberdade
e de paz” (AL, n. 194);32 nela se aprende “a solicitude, a paciência e o carinho” (AL, n.
195). Falando em família cristã, entendemos a família fundada no vínculo indissolúvel
do Matrimônio, constituída por um homem e uma mulher e por eventuais filhos. Trata-
se do melhor modo para se viver o amor humano, a maternidade, a paternidade,
porque corresponde ao desígnio de Deus e é caminho de realização humana. Na
realidade familiar, hoje sempre mais complexa, encontram-se “várias situações
chamadas ‘irregulares’” (AL, n. 297). Também a elas o Senhor quer fazer chegar o seu
Evangelho e o convite à comunhão eclesial, para experimentarem a ternura, a
misericórdia e o amor do Senhor.
177. Nas Bodas de Caná (Jo 2,1-11) faltou o vinho, símbolo da alegria, do amor. O
que deveria ser uma festa poderia acabar em fracasso. Mas os noivos tinham convidado
Maria, Jesus e também os discípulos. Ela percebeu qual era a grande necessidade.
Conhecia o Senhor e reconhecia a grande urgência daquela comunidade. Sua reação foi
propor a Palavra como melhor caminho: “Fazei tudo o que ele vos disser!” (Jo 2,5). Ele
transformou a água em vinho e a festa pôde continuar. Nossa família pode ser uma bela
festa do amor ao longo dos anos se, a cada dia que começa, tivermos o cuidado de
convidar Jesus, Maria e os discípulos do Senhor. Nesse caso, o vinho não irá faltar.
178. O Papa Francisco, com palavras sábias, convida-nos a formar a família à escola
da Palavra:
Diante das famílias e no meio delas, deve ressoar sempre de novo o primeiro anúncio, que é o “mais belo,
mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário” e “deve ocupar o centro da atividade
evangelizadora”. É o anúncio principal, “aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras
e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar (...)”. Porque “nada há de mais sólido, mais profundo, mais
seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio” e toda a formação cristã é, primeiramente, o
aprofundamento do querigma (AL, n. 58, citando EG, n. 164 e 165).
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Nesse terreno tão propício, a nossa presença eclesial deve procurar oportunidades e
métodos sempre novos. Já temos tantas e belas experiências junto às famílias por parte
da Pastoral Familiar, de Movimentos antigos e novos, grupos de diferente
espiritualidade. Reconhecemos que os esforços criativos dos últimos decênios
produzem frutos fecundos junto às famílias, para enfrentar os desafios cotidianos,
superar as dificuldades com coragem e fé, não desanimar diante das mudanças
exigentes e complexas, e testemunhar o amor. Desse modo, “a Palavra de Deus se
apresenta (...) como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em
crise ou imersas nalguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho” (AL, n. 22).
179. Com certeza, a escuta cotidiana da Palavra torna a família uma autêntica Igreja
Doméstica, chamada a “custodiar, revelar e comunicar o amor, como reflexo vivo e
participação real do amor de Deus pela humanidade e do amor de Cristo Senhor pela
Igreja, sua esposa” (FC, n. 17).33 O Papa Francisco recorda: “A Palavra de Deus é não só
uma boa-nova para a vida privada das pessoas, mas também um critério de juízo e uma
luz para o discernimento dos vários desafios que têm de enfrentar os cônjuges e as
famílias” (AL, n. 227). Nessa empreitada, nós bispos, com os padres, diáconos –
especialmente os casados – religiosos e religiosas, necessitamos marcar presença junto
às famílias, em busca de “desenvolver novos caminhos pastorais” (AL, n. 199).
180. O Papa Francisco nos orienta com propostas significativas. Resumindo:
reconhecer as famílias como “sujeitos principais da Pastoral Familiar”. (...) A nossa
tarefa consiste em cooperar na sementeira: o resto é obra de Deus. (...) Requer-se um
esforço evangelizador e catequético orientado para o núcleo da família” (AL, n. 200).
“Por isso exige-se a toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se contentar
com um anúncio puramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas” (AL,
n. 201).
181. Coerente com sua visão econômica e social, o Papa destaca a necessidade de que
a evangelização denuncie “os condicionalismos culturais, sociais, políticos e
econômicos, bem como o espaço excessivo dado à lógica do mercado, que impedem
uma vida familiar autêntica, gerando discriminação, pobreza, exclusão e violência” (AL,
n. 201). Mais um luminoso pensamento em Amoris Laetitia, que incentiva a nos
alimentar na escola da Palavra:
Com este olhar feito de fé e amor, de graça e compromisso, de família humana e Trindade divina,
contemplamos a família que a Palavra de Deus confia nas mãos do marido, da esposa e dos filhos, para que
formem uma comunhão de pessoas que seja imagem da união entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Por sua
vez, a atividade geradora e educativa é um reflexo da obra criadora do Pai. A família é chamada a
compartilhar a oração diária, a leitura da Palavra de Deus e a comunhão eucarística, para fazer crescer o
amor e tornar-se cada vez mais um templo onde habita o Espírito (AL, n. 29).

5.6. A Palavra de Deus e as juventudes


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182. São tantos os rostos dos jovens que encontramos nos caminhos da vida (ChV, n.
68-70).34 Por isso, falamos em juventudes. É outro terreno prioritário (DGAE 2019-2023,
n. 175). Nossa Igreja tem uma longa história de atenção prioritária e empenho constante
para com as novas gerações. Reafirmamos esse empenho para acolher, respeitar e
acompanhar os jovens com seus rostos, anseios, potencial, fadigas e limites (DGAE
2019-2023, n. 119).
183. Hoje em dia, os jovens vivem sempre mais conectados. Boa parte de seu tempo
se consome no digital, estabelecendo novos parâmetros que desafiam a ação
evangelizadora e, ao mesmo tempo, proporcionam novos contatos. Afirmam de
maneira imperiosa e, às vezes, frágil, sua individualidade, enquanto procuram laços e
relações de amizade, de atenção, de autoafirmação. Buscam emoções fortes e fazem
escolhas “do momento” (ChV, n. 13.21); atraídos pela novidade, receosos diante do
futuro. Temem a exclusão social, clamam por educação e vivem na incerteza do
trabalho, e não poucos, aliciados pelas diferentes drogas promissoras de felicidade.
184. Ao pensar a relação entre Palavra de Deus e as juventudes, constata o Papa
Francisco:
Muitos jovens são capazes de aprender a gostar do silêncio e a intimidade com Deus. Os grupos que se
reúnem para adorar o Santíssimo e orar com a Palavra de Deus também cresceram. Não há que subestimar
os jovens como se fossem incapazes de se abrirem para propostas contemplativas. Só é preciso encontrar os
estilos e as modalidades apropriadas para ajudá-los a se iniciarem nessa experiência de tão alto valor (ChV,
n. 224).

As juventudes precisam desta luz para caminhar: “Lâmpada para os meus pés é a
tua palavra” (Sl 119[118],105). A Palavra alerta: “Lembra-te do teu Criador nos dias da
tua juventude” (Ecl 12,1); “Como poderá o jovem manter puro o seu caminho?
Observando as tua palavras” (Sl 119[118],9); a Palavra orienta: “Filhos, obedecei a
vossos pais” (Ef 6,1); a Palavra estimula a dialogar: “vossos anciãos terão sonhos, vossos
jovens terão visões” (Jl 3,28-29); a Palavra encoraja: “Eu vos escrevi jovens, porque sois
fortes” (1Jo 2,14); a Palavra valoriza e desafia: “Ninguém te menospreze por seres
jovem. De tua parte, procura ser para os que creem um exemplo pela palavra, pela
conduta, pelo amor, pela fé, pela castidade” (1Tm 4,12); a Palavra convoca: “Quem
enviarei? (...) Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8); a Palavra envia: “Não digas: ‘Sou apenas
um menino’, (...) pois estou contigo para te livrar” (Jr 1,7-8).
185. O coração das juventudes permanece terreno bom. Na História da Salvação,
Deus chamou jovens como Samuel, Davi, Jeremias, Daniel, Maria. Hoje, o Senhor
continua chamando. Saiu o Semeador a semear. A resposta amorosa, generosa e
corajosa de cada um, de cada uma, será dada no dia a dia. Jesus disse: “Minha mãe e
meus irmãos são estes: os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21).
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186. Aos agentes de pastoral voltados para as juventudes, pede-se que sejam mestres
da Palavra, capazes de levar os jovens a orientarem seu estilo de vida iluminados pelas
propostas, fortes e sempre envolventes, da Palavra, assim como o jovem Jesus viveu e
propõe. No fascínio de Jesus, encontrem luzes para o engajamento na vida, nos
compromissos do testemunho e da resposta vocacional:
Apaixonados por Cristo, os jovens são chamados a dar testemunho do Evangelho em todas as partes, com
sua própria vida. Santo Alberto Hurtado dizia que “ser apóstolo não significa usar um distintivo na lapela
da jaqueta; não significa falar da verdade, mas vivê-la, encarnar-se nela, transformar-se em Cristo. Ser
apóstolo não é levar uma tocha na mão, possuir a luz, mas ser a luz (...). O Evangelho (...), mais que uma
lição, é um exemplo. A mensagem convertida em vida vivente” (ChV, n. 175).

187. Em uma Igreja que se capilariza em redes, importa propiciar espaços onde os
jovens tenham condições de ouvir a Palavra, esclarecer dúvidas, encontrar mentes e
corações de adultos, como também de outros jovens, que saibam acolher, partilhar,
apontar caminhos de vida em plenitude, de esperança e sonhos, apesar dos desafios e
das decepções que a vida também carrega. A prática da leitura orante da Palavra, com
propostas pelas redes sociais ou nas comunidades eclesiais, deve ser proposta de forma
simples e com educadores na fé que transmitam a paixão pela Palavra, pela sua beleza e
eficácia.
188. A Palavra dará frutos de vida e alegria se os jovens encontrarem educadores
praticantes da Palavra (Tg 1,22), que saibam abrir horizontes de esperança, em
alternativa às mensagens correntes de individualismo, consumismo e hedonismo,
propostas que não saciam a fome de autenticidade que, apesar de tudo, tantos jovens
sentem. Então, realizar-se-á a profecia de Amós: “Eis que virão dias, – oráculo do
Senhor Deus –, em que enviarei fome à terra. Não fome de pão nem sede de água, mas
de ouvir as palavras do Senhor” (Am 8,11).

5.7. A Palavra de Deus, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso


189. Nas últimas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora afirmamos: “A Sagrada
Escritura é patrimônio comum de todas as Igrejas cristãs. É importante que ela se torne
sempre fonte inspiradora de oração comum, de fraternidade e de conversão. Por meio
dela, os cristãos, em suas variadas denominações, são convocados a se unirem,
buscando, na prática ecumênica, seu único Senhor e caminhando para a superação do
escândalo da divisão” (n. 149). Nesse sentido, o florescimento de diversas
hermenêuticas de caráter popular no seio de nossas comunidades e grupos, acolhendo
as variadas denominações cristãs ao redor da Palavra, constitui uma fonte de unidade,
oração comum e serviço à sociedade.
190. Na Exortação Apostólica Verbum Domini, o Papa Bento XVI escreve que “a
escuta comum das Escrituras impele ao diálogo da caridade e faz crescer o da verdade”
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(n. 46). A Escritura “‘é um exímio instrumento da poderosa mão de Deus para a
consecução daquela unidade que o Salvador oferece a todos os homens’. Por isso, é bom
incrementar o estudo, o diálogo e as celebrações ecumênicas da Palavra de Deus, no
respeito das regras vigentes e das diversas tradições” (VD, n. 46). Na mesma Exortação
Apostólica, lê-se: “A Igreja reconhece como parte essencial do anúncio da Palavra o
encontro, o diálogo e a colaboração com todos os homens de boa vontade,
particularmente com as pessoas pertencentes às diversas tradições religiosas da
humanidade, evitando formas de sincretismo e de relativismo” (VD, n. 117). Em
seguida, afirma-se: “Tendo em conta a distinção entre a ordem sociopolítica e a ordem
religiosa, as religiões devem dar a sua contribuição para o bem comum” (VD, n. 118).
191. Na Carta Encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco, de forma genial e poética, fala
da “música do Evangelho”: “fonte de dignidade humana e fraternidade”. Se essa
música deixar de tocar, “teremos extinguido a melodia que nos desafiava a lutar pela
dignidade de cada homem”. É do Evangelho, ensina o Papa, que bota “para o
pensamento cristão e para a ação da Igreja, o primado reservado à relação, ao encontro
com o mistério sagrado do outro, à comunhão universal com a humanidade inteira,
como vocação de todos” (n. 277).
192. Essas claras orientações de importantes documentos eclesiais encontram ainda
uma vivência religiosa repleta de conflitos, motivados pelo (mau) uso da religião.
Assim, a Palavra doada para unir e favorecer a fraternidade, a acolhida do outro, a
solidariedade humana e a esperança, torna-se instrumento de conflito e divisão. A
ferida do pecado, de orgulho e egoísmo, afeta até o maior instrumento que o Pai, em
Cristo e no Espírito, deu à humanidade. Mas, “se os cristãos se dividirem pela
interpretação da Escritura, ao redor dela poderão se reencontrar” (CNBB, Doc. 97, n.
63). A vivência do autêntico ecumenismo é sinal profético de que a Palavra de Deus está
produzindo seus frutos. Acolher a Palavra de Deus comporta promover a paz, construir
pontes e derrubar muros, viver na misericórdia, alimentar a esperança (DGAE 2019-
2023, Apresentação).
193. Sem confundir ecumenismo com relativismo ou até mesmo com o risco de perda
da identidade, somos convidados sempre mais a tecer laços de ecumenismo e diálogo
inter-religioso, com todos que estiverem disponíveis. Isso fará crescer a convivência
humana, tão perturbada e, sustentados pela Palavra e pelo divino Espírito, seremos
semeadores de dias melhores para a humanidade toda. Caminhando na história,
guardando e alimentando o sonho do Reino da paz e da justiça de Deus. “Pois toda a lei
– escreve o Apóstolo – se resume neste único mandamento: ‘Amarás o teu próximo como a
ti mesmo’” (Gl 5,14).
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194. Segundo o exemplo de São João Paulo II, em Assis (1986), e dos demais
encontros que a Igreja Católica promoveu, valorizemos os momentos de oração em
comum entre cristãos, com outros que acreditam em Deus e com expressões religiosas
diferentes da nossa. O Papa Francisco, no encontro com o Grande Imã Ahmad Al-
Tayyeb, declarou que “as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos
de ódio, hostilidade, extremismo, nem convidam à violência ou ao derramamento de
sangue. Essas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos” (FT, n.
285).
195. Esse estilo nas relações religiosas, com importantes consequências para a ação
pastoral e a presença da Igreja Católica no diálogo ecumênico e inter-religioso, deve ser
amadurecido e assumido por todos os discípulos do Senhor. Cabe a nós Pastores, antes
de todos, cuidar com afinco para que essa postura amadureça em nossas Igrejas
particulares e zelar para que gere atitudes e comportamentos coerentes na prática
pastoral de nossas comunidades eclesiais.

5.8. A Palavra de Deus e os meios de comunicação


196. Os evangelistas destacam que Jesus é movido pelo ardor de anunciar a Palavra.
Depois do grande discurso missionário, Mateus acrescenta: “Jesus partiu dali, a fim de
ensinar e anunciar nas cidades da região” (Mt 11,1). O povo se maravilhava pela sua
sabedoria: “De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres?” (Mt 13,54). Uma força
interior e uma autoridade coerente entre o agir e o dizer marcam o estilo de Jesus.
197. No mundo complexo e exigente da comunicação, para descobrirmos como
anunciar hoje a Palavra, devemos olhar para Jesus. De maneira exponencial,
aumentaram os meios da comunicação. Nem por isso, qual imediata consequência,
melhora o anúncio da Palavra! Antes, quanto maiores os meios, maiores os desafios e a
necessidade de uma qualidade, não só no uso, mas no testemunho. Nos últimos anos, o
acesso à Sagrada Escritura e aos numerosos comentários, escritos e falados, tornou-se
muito facilitado. O acesso aos diferentes meios de comunicação foi muito facilitado e
entrou nos hábitos de grande parte do povo, também dos mais humildes; a informação
corre com a velocidade da luz, em todo canto do mundo e nos rincões do nosso imenso
Brasil. Temos à disposição instrumentos de extraordinária potência: como usá-los em
prol da evangelização?
198. Antes de tudo, retorna a urgência de uma formação prática no uso desses meios,
mas não é suficiente, é só o primeiro passo. O segundo, e mais exigente, é o
conhecimento dos conteúdos que pretendemos comunicar. Por isso, é preciso continuar
investindo na formação humana, espiritual e bíblico-teológica dos que usam desses
meios. Enfim, é necessário acompanhar as palavras e a Palavra com o testemunho da
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vida. Relembremos as palavras de São Paulo VI: “A Boa-Nova há de ser proclamada,


antes de tudo, pelo testemunho” (EN, n. 21); e ainda: “O homem contemporâneo escuta
com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres. (...) Ou então, se escuta os
mestres, é porque eles são testemunhas” (EN, n. 41).
199. Com certeza, reconhecemos que, no uso correto e enriquecedor desses meios, os
avanços, por parte da nossa Igreja, foram enormes. Agradecemos os numerosos e
competentes irmãos e irmãs que investiram não só capitais econômicos, mas de
inteligência e amor. Agradecemos os milhares de agentes da Pastoral da Comunicação
(Pascom) que, orientados pela Comissão da CNBB, tanto contribuíram e contribuem,
especialmente no tempo da pandemia, para facilitar contatos do povo de Deus com suas
Comunidades eclesiais, favorecendo que chegassem, até aos lugares mais afastados e de
difícil acesso, a Palavra do Senhor e a celebração da Eucaristia, junto com palavras de
conforto dos líderes religiosos.
200. Hoje, com renovado empenho e amadurecida competência, é preciso continuar a
difundir mensagens de esperança e de fé, com entusiasmo missionário. Aos que
trabalham nesse setor, pede-se que sejam vozes proféticas da Igreja, amplificando sua
voz para que ressoe vibrante a Palavra de Deus. Preocupa-nos, porém, certo uso
ambíguo e distorcido dos meios digitais para veicular propostas éticas e interpretações
equivocadas da Palavra, não em comunhão com as orientações e a doutrina do
Magistério da Igreja. Uma exortação queremos dirigir aos que atuam nas editoras, nas
rádios e nas televisões de inspiração católica, além das diversas plataformas digitais:
procurem caminhar em comunhão com a nossa Igreja, passando conteúdos de sólida
doutrina e verdadeiro respiro eclesial.
201. A Pastoral da Comunicação é chamada a contribuir na oferta de serviços à
Igreja, a partir de seus eixos: formação, articulação, produção e espiritualidade. Todos
eles sustentam a Pascom, que busca “incentivar a reflexão e estimular ações que, tendo
sentido comunicativo, conduzam à comunhão e à ação evangelizadora” (CNBB, Doc. 99,
n. 249).35 Ainda em palavras de São Paulo VI: “O Espírito Santo é o agente principal da
evangelização: é Ele, efetivamente, que impele para anunciar o Evangelho” (EN, n. 75).
Com essa espiritualidade, em comunhão com os Pastores da Igreja Católica, procure-se
“encontrar palavras para encorajar uma estação evangelizadora mais ardorosa, alegre,
generosa, ousada, cheia de amor até o fim e feita de vida contagiante!” (EG, n. 62). Dê-se
voz aos tantos mestres, em doutrina e sabedoria, atuantes em nossas igrejas (dioceses,
faculdades, institutos de formação), para que o povo de Deus seja alimentado com
riqueza de ciência e sapiência. E cresça a fome, como desejava o profeta Amós: “Não
fome de pão nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor” (Am 8,11).
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5.9. A Palavra de Deus e a formação dos ministros ordenados


202. A formação dos ministros ordenados é um caminho que necessita ser
incessantemente percorrido. Essa afirmação se aplica a toda a Igreja que, no decorrer da
história, observando os sinais dos tempos, ajusta rumos, apresenta destaques e busca
solucionar impasses. Vale igualmente para os próprios ministros ordenados, sujeitos
primeiros de sua própria formação. Seja, portanto, na formação inicial, seja ao longo da
vida, na formação permanente, a Palavra de Deus assume importância da qual não se
pode abrir mão, e ignorar o próprio Senhor de todas as vocações.

5.9.1. A Palavra de Deus na formação inicial

203. Em uma cultura pluralista e individualista que tem incentivado o cultivo do


subjetivismo e de polarizações, a busca de segurança em elementos exteriores tem se
tornado caminho comum. Diante dessa realidade, a centralidade da Palavra de Deus
contribui para que o formando não se esconda atrás de exterioridades, mas deixe que a
Palavra leia a sua vida e a revele como é a fim de que haja progressos no seguimento a
Jesus Cristo. Se descobrir na Palavra de Deus a luz para sair de si mesmo, o formando
encontra a força para viver também a missionariedade. O profeta Isaías (55,10-11),
comparando-a com a chuva que fecunda a terra, afirmava que a Palavra tem em si uma
força missionária, pois realiza a vontade daquele que a enviou. Por isso também quem a
recebe, acolhe o seu dinamismo e sua vida se torna missionária.
204. O Seminário é – deve ser – escola de Evangelho! Cada dimensão formativa com
suas várias atividades, deve brotar da vida de Jesus missionário e ter a missão como
eixo. O espelho tanto nas relações humanas como na modalidade pedagógica, deve ser
o Evangelho. Desse modo, amadurecerá a motivação fundamental que faz o formando
perceber que “ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia,
mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo
horizonte e, dessa forma, o rumo decisivo” (DCE, n. 1).36
205. Nesse processo formativo, o encontro com Jesus Cristo é o ponto fundamental
que faz a pessoa reconhecer-se amada e chamada para o seguimento ao Verbo que se fez
carne, assumindo sua vida missionária e abrindo-se à conversão que é contínua, integral,
pessoal, comunitária, pastoral, cultural, ecológica e sinodal. Viver a escola do Evangelho
é tomar consciência de que o homem interior precisa dedicar um cuidado atento e fiel à
vida espiritual, centrada prioritariamente na comunhão com Cristo.
206. Desde o início do processo formativo os candidatos “sejam educados à
simplicidade, à sobriedade, ao diálogo sereno, à autenticidade e, como discípulos na
escola do Mestre, aprendam a viver e a trabalhar naquela caridade pastoral que
corresponde ao ser ‘ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus’ (1Cor
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4,1)” (RFIS, n. 42). Para tanto, “reconheçam e corrijam ‘a mundanidade espiritual’:


obsessão pela aparência, uma segurança doutrinal ou disciplinar presunçosa, o
narcisismo e o autoritarismo, a pretensão de impor-se, o cuidado somente exterior e
ostentado com a ação litúrgica, a vanglória, o individualismo, a incapacidade para
escutar o outro e todo o gênero de carreirismo” (EG, n. 93-97) (CNBB, Doc. 110, n. 64).37
207. Toda a vida de Jesus é Palavra eterna do Pai que, pela força do Espírito Santo, é
oferecida para que, sendo acolhida, possa crescer e fecundar a vida da pessoa chamada
ao ministério ordenado. Meditando a vida do Filho amado de Deus, o candidato
encontra motivação para assumir o caminho daquele que, tendo amado os seus que
estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13,1). O objetivo geral de todo o processo
formativo é cooperar na configuração dos presbíteros a Jesus Cristo, Mestre, Sacerdote e
Pastor, levando-os a buscar a santidade, ser discípulos missionários, verdadeiros
pastores do povo de Deus (OT, n. 4),38 exercendo com humildade a função pastoral de
guia dotado de autoridade, mestre da Palavra e ministro dos Sacramentos, a fim de
praticar uma fecunda paternidade espiritual (RFIS, n. 33; CNBB, Doc. 110, 72).

5.9.2. A Palavra de Deus na formação permanente

208. Nas Diretrizes para a formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil, encontramos: “A
configuração plena a Jesus Cristo é a meta de todo o itinerário formativo. A expressão
formação permanente invoca a ideia de que a experiência unitária de discipulado dos
chamados ao presbiterado jamais se interrompe. O presbítero, não somente ‘aprende a
conhecer Cristo’, mas, sob a ação do Espírito Santo, ele se encontra inserido no interior
de um processo de gradual e contínua configuração a Jesus, no seu ser e no seu agir, que
constitui um permanente desafio ao crescimento interior da pessoa” (CNBB, Doc. 110, n.
60).
209. A configuração a Cristo é consequência do seguimento, no qual se aprendem e
se praticam “as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor
e sua obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua
proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão encomendada, seu
amor serviçal até à doação de sua vida” (DAp, n. 139), para conhecer o que Ele fez e
para discernir o que se deve fazer nas atuais circunstâncias. A configuração a Cristo
implica “Identificar-se com Jesus Cristo e também compartilhar seu destino” (DAp, n.
140). A configuração nasce a partir de dentro, pois é a Palavra de Deus que transforma a
nossa vida em vida de discípulo missionário. A Palavra é, por sua própria natureza,
missionária, pois ela é como a semente que vai ao encontro dos vários terrenos (os
corações das pessoas). O Espírito Santo suscita a colaboração das pessoas para que a
Palavra-Semente possa encontrar o terreno apropriado, nascer e produzir frutos.
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210. A Palavra é sempre “em saída”! Concretiza-se especialmente nas periferias


existenciais, sociais, geográficas e eclesiais. O Papa Francisco nos diz: “Deus é sempre
novidade, que nos impele a partir sem cessar e a nos mover para ir além do conhecido,
rumo às periferias e aos confins. Ele nos leva aonde se encontra a humanidade mais
ferida e aonde os seres humanos, sob a aparência da superficialidade e do conformismo,
continuam à procura de resposta para a questão do sentido da vida. Deus não tem
medo! Não tem medo! Ele ultrapassa sempre os nossos esquemas e não lhe metem
medo as periferias. Ele próprio se fez periferia (Fl 2,6-8; Jo 1,14). Por isso, se ousarmos ir
às periferias, lá o encontraremos: Ele já estará lá. Jesus antecipa-se no coração daquele
irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sombria. Ele já está lá”
(GeE, n. 135).
211. Na formação permanente do presbítero, esse é um importante exercício de
contemplação a fim de encontrar Jesus que se faz pobre, periferia. Esse exercício deve
ser constante e, pelo despojamento de si mesmo, contribui para que a própria vida
missionária seja fonte de luz que alimenta o ministério ordenado e não somente
desgaste, onde se percebem, em primeiro lugar, dificuldades e sofrimentos. Quanto
mais unidos a Jesus Cristo, missionário pobre que não se cansa de ir ao encontro das
pessoas, tanto mais sentiremos a alegria do encontro com as pessoas em situação de
periferia. Na formação permanente, a Palavra de Deus guia a nossa vida a fim de que
possa reconhecer os três âmbitos no processo de evangelização: âmbito daqueles que já
estão reunidos e têm consciência da participação na vida da comunidade eclesial;
daqueles que já são batizados, mas têm uma participação ocasional; e daqueles que
ainda não conhecem Jesus Cristo ou dele, por algum motivo, se afastaram.
212. A missão é inseparável do discipulado. Por isso, não é somente uma etapa que
segue a formação inicial ou realizar algumas atividades em determinados períodos. A
missão exige a prática assídua da leitura orante da Palavra de Deus. Comunidades,
pastorais, movimentos, serviços, grupos e pessoas, poderão descobrir sinais da ação de
Deus através do testemunho. Então, nascerá a pergunta: o que anima e fortalece a vida
de quem tanto se doa pelo bem dos outros? Desse modo, a vida missionária se torna
Palavra que gera motivações profundas, sementes vivificadas pela força do Espírito
Santo, protagonista da missão. E produzirão os frutos de Deus: frutos de fé, esperança,
solidariedade, justiça, paz, sinodalidade e comunhão!
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CAPÍTULO 6
A PALAVRA DE DEUS: ACOLHIDA E SEMEADURA

213. A parábola do semeador, generoso no lançar as sementes em diversos tipos de


terreno, ensina que somente as sementes que caíram em bom terreno produzem com
largueza. E Jesus explica: “O que foi semeado na terra boa, porém, é quem ouve a
palavra e a entende; esse produz fruto: um cem, outro sessenta, outro trinta” (Mt 13,23).
A capacidade de acolhida da Palavra é questão fundamental. Como preparar a terra da
existência para que acolha a boa semente? Quais meios podem ser oferecidos na Igreja
para que a Palavra de Deus seja ouvida, entendida e acolhida na vida de seus diversos
interlocutores? Somente assim a Palavra poderá gerar os frutos da presença de Deus e
de seu Reino: justiça e paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14,17).
214. Cada vida que se abre ao poder da Palavra de Deus é mais que um campo de
trabalho. Pessoas evangelizadas, que permanecem no diálogo com o Deus que se dá
continuamente, tornam-se semeadoras. Quem recebe a Palavra, além de ser por ela
fecundado, é constituído seu portador e propagador pelo testemunho de vida e pelo
anúncio. Os discípulos de Jesus Cristo, Palavra encarnada, são seus eficazes
missionários, espalhando generosamente a Palavra em outros tantos corações: “De
graça recebestes, de graça dai!” (Mt 10,8).

6.1. A Animação Bíblica e as diversas óticas para o contato com a


Palavra de Deus
215. Os diferentes modos de aproximação da Palavra de Deus são complementares
entre si: leitura exegética e teológica, leitura pessoal e litúrgico-comunitária. Deve-se
buscar sempre conjugar a atenção à letra do texto – literatura e história de sua formação
– com o seu sentido teológico e espiritual. “Onde a exegese não é teologia, a Escritura
não pode ser a alma da teologia e, vice-versa, onde a teologia não é essencialmente
interpretação da Escritura na Igreja, essa teologia já não tem fundamento” (VD, n. 35).
216. No diálogo com Deus, ouvindo-o, recebendo-o e respondendo às suas
interpelações, os discípulos missionários dedicam-se à leitura e à escuta, à meditação e
ao estudo, à celebração e à partilha, bem como à vivência, testemunho e anúncio da
Palavra de Deus.
217. Em um Brasil cada vez mais urbano, o melhor modo de aproximar-se da Palavra
de Deus é fazer isso em pequenos grupos, com forte sentimento comunitário e
dinamismo missionário. Por isso, nas atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, faz-
se uma decidida opção por formar Comunidades Eclesiais Missionárias (DGAE 2019-2023,
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n. 4). A própria Palavra de Deus convoca, reunindo as pessoas, resgatando-as do


individualismo, da indiferença e da solidão tão marcantes na cultura urbana. A Palavra,
o Pão da liturgia, da espiritualidade e da Caridade edificam essas pequenas
comunidades com clara identidade eclesial. O testemunho de vida capaz de atrair e o
profetismo conferem a elas o vigor da ação missionária (DGAE 2019-2023, n. 8).
218. As Comunidades Eclesiais Missionárias, reproduzindo a experiência de Jesus com
os Doze, são um ambiente especial para a acolhida da Palavra por serem lugar de
relacionamentos que encontram sua fonte em Cristo. O ouvir e o falar são dinamismos
constitutivos do grupo. A Palavra de Deus é operária que edifica a pessoa e a
comunidade, é coluna que sustenta, mas também é moradora que acolhe e convive:
“Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o que foi feito. (...) E a
Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,3.14). Desse modo a casa-comunidade
é reconhecida como Casa da Palavra.
219. Essas pequenas comunidades se encontram em direta e irrenunciável relação
com a Animação Bíblica da Pastoral em toda Igreja. Isso acontece em nível diocesano,
paroquial, nos movimentos, nas pastorais e nos diversos tipos de associações. Assim
como o atual momento da vida da Igreja pede a setorização das grandes paróquias
(DAp, n. 370; CNBB, Doc. 100, n. 136.244-256),39 elas correspondem à necessidade de
uma experiência eclesial cujo relacionamento fraterno seja iluminado pela Palavra.

6.2. A Leitura Orante, a Leitura Contínua da Escritura e a Lectio Divina


220. Para qualificar a experiência litúrgica de escuta da Palavra de Deus e percorrer o
caminho iluminado pela luz da Palavra, os católicos são chamados a crescer na
convivência com a Sagrada Escritura. A Bíblia precisa ganhar espaço na agenda, na
rotina dos discípulos missionários. Para ouvir em profundidade a Palavra, devemos
conjugar dois tipos de encontro com o texto: a Leitura Orante e a Leitura Contínua.

6.2.1. Leitura Orante

221. A Leitura Orante permite aos discípulos, individual ou comunitariamente, deter-


se em um texto bíblico, com a mente e o coração abertos ao que Deus tem para
comunicar. Bater à porta do texto na certeza de que ele comunicará uma Palavra viva e
eficaz, “útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a
justiça” (2Tm 3,16). A Leitura Orante é um método simples de diálogo a partir da
leitura-escuta do texto bíblico.
222. Realizada na oração ou meditação pessoal, a Leitura Orante se torna um precioso
instrumento para o crescimento espiritual. O texto bíblico a ser considerado na oração
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pode ser escolhido, por exemplo, dentre os textos da liturgia diária: Evangelho,
primeira leitura ou mesmo o salmo responsorial.
223. Para a Leitura Orante em família ou nas Comunidades Eclesiais Missionárias, é
oportuno assumir o texto da liturgia dominical. Os primeiros três anos de encontros
comunitários podem ter os Evangelhos por guia (anos A, B e C). Em seguida pode-se
fazer a leitura orante tendo por base a primeira leitura das celebrações dominicais,
favorecendo-se uma releitura cristã de vários textos do Antigo Testamento (VD, n. 41).
Os três anos seguintes podem, então, ser dedicados aos textos da segunda leitura
dominical. Com isso, é possível estabelecer um mergulho na Palavra de Deus que dura
nove anos. Os encontros em família, ou na pequena comunidade, privilegiam a Leitura
Orante de um dos textos da liturgia do domingo seguinte (Evangelho, primeira ou
segunda leitura), como preparação para celebração dominical: Missa ou Celebração da
Palavra.
224. A Leitura Orante se apresenta como a primeira abordagem comunitária da
Palavra. Ela provoca ressonância nos corações dos membros da comunidade e,
ultrapassando os momentos do encontro, gera um testemunho autêntico, estabelecendo
a relação entre a Palavra de Deus e a vida dos discípulos. “Na Palavra de Deus
proclamada e ouvida e nos Sacramentos, Jesus, aqui e agora, diz a cada um: ‘Eu sou teu,
dou-Me a ti’, para que o ser humano O possa acolher e responder-Lhe dizendo por sua
vez: ‘Eu sou teu’. Assim a Igreja apresenta-se como o âmbito onde podemos, por graça,
experimentar o que diz o Prólogo de João: ‘A todos os que o receberam, (...) deu-lhes o
poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,12)’” (VD, n. 51).
225. A Leitura Orante proporciona uma aproximação existencial do texto, por meio de
perguntas simples que permitam à Palavra falar às realidades vividas pelos membros
da comunidade: O que a Palavra diz? (observa-se o texto com atenção); O que a Palavra
diz para mim? (abertura à subjetividade); O que a Palavra diz para nós? (dimensão
sócio comunitária). Após cada pergunta, ou outras parecidas com essas, mas sempre
partindo do texto bíblico, cada membro da família ou da pequena comunidade tem
oportunidade de falar.

6.2.2. Leitura Contínua

226. A Leitura Contínua dos livros da Bíblia tem uma finalidade diversa: uma espécie
de ambientação ou familiaridade com a Sagrada Escritura. Aos poucos, lendo e relendo
textos bíblicos em continuidade, com maior extensão do que os textos da Leitura Orante,
pode-se compreender o contexto histórico, o ambiente literário e cultural dos diversos
livros. Esse tipo de leitura torna mais fecunda a Leitura Orante. São abordagens
complementares no encontro pessoal com a Palavra de Deus.
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227. A sequência dos livros a serem lidos de maneira contínua pode ser indicada por
fontes diversas: subsídios para estudo bíblico, planos diocesanos de animação bíblica
etc. Inicialmente, é importante saber que a porta de acesso e o critério de compreensão
dos textos sagrados são sempre os Evangelhos. Neles, o querigma e a teologia dos
primeiros dias da comunidade cristã permitem nutrir a fé e aproximar-nos, aos poucos,
de ambientes religiosos e culturais que estão mais distantes de nós. Sendo a Bíblia uma
coleção de obras literárias, uma autêntica biblioteca de livros inspirados, situamo-nos, a
partir do acesso inicial, em outros campos literários, históricos e culturais.
228. A Leitura Contínua abre o caminho para o estudo dos livros da Sagrada Escritura.
O conhecimento crescente dos textos bíblicos ajuda os discípulos de Jesus Cristo a
reconhecê-lo como aquele que confere a unidade entre o Antigo Testamento e o Novo
Testamento. Tal como na liturgia, quando na maioria dos domingos a primeira leitura
provém do Antigo Testamento e está em relação com o Evangelho, aprende-se a
reconhecer Cristo em toda a Escritura, e observa-se que os dois testamentos se
iluminam reciprocamente.
229. Uma leitura fragmentada da Escritura coloca-a em uma condição de fragilidade,
podendo ser manipulada e sufocada. Daí a necessidade de um programa de leitura e
estudo que permita superar o aprisionamento da comunicação divina pelos interesses
humanos capazes de manipular a mensagem recebida.

6.2.3. Lectio Divina

230. A convivência com as Sagradas Escrituras pela Leitura Orante, a Leitura Contínua
e o estudo dos livros permite adentrar em novas experiências, por exemplo, a Lectio
Divina. Trata-se também de um modo orante de encontro com a Palavra de Deus,
consagrado ao longo dos séculos na vida da Igreja. A Lectio Divina propõe quatro passos
fundamentais sintetizados pelo Papa Bento XVI na Exortação Apostólica Pós-Sinodal
Verbum Domini:
(...) começa com a leitura (lectio) do texto, que suscita a interrogação sobre um autêntico conhecimento do seu
conteúdo: o que diz o texto bíblico em si? Sem esse momento, corre-se o risco que o texto se torne somente um
pretexto para nunca ultrapassar os nossos pensamentos. Segue-se depois a meditação (meditatio), durante a
qual nos perguntamos: que nos diz o texto bíblico? Aqui cada um, pessoalmente mas também como realidade
comunitária, deve deixar-se sensibilizar e pôr em questão, porque não se trata de considerar palavras
pronunciadas no passado, mas no presente. Sucessivamente chega-se ao momento da oração (oratio), que
supõe a pergunta: que dizemos ao Senhor, em resposta à sua Palavra? A oração enquanto pedido, intercessão,
ação de graças e louvor é o primeiro modo como a Palavra nos transforma. Finalmente, a lectio divina conclui-
se com a contemplação (contemplatio), durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar, ao
julgar a realidade, e interrogar-nos: qual é a conversão da mente, do coração e da vida que o Senhor nos pede? (VD,
n. 87).

231. Precisamos aprender a estabelecer essa contínua relação com o texto bíblico,
trazendo-o para a vida e apresentando a vida à Palavra de Deus. Esse caminho de mão
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dupla é sempre feito sob o impulso do Espírito Santo. É ele que abre nossos corações à
Palavra e à conexão da Palavra com a vida. É ele que nos ajuda a encontrar luz para
nossos passos nos âmbitos pessoal, comunitário, social e ambiental. Para todos esses
âmbitos a Palavra de Deus é luz que permite enxergar (CIgC, n. 2715).

6.2.4. O método ver-julgar-agir

232. Há já uma bela história de fecundidade evangelizadora em favor do método ver-


julgar-agir. Ele embasa o Documento de Aparecida e as Conferências anteriores do
Episcopado Latino-Americano (DAp, n. 19). Mas em muito se enriquece com as
inspirações do Papa Francisco. A ele são caras as atitudes dialógicas. Desde então, segue
sua preferência por termos e expressões como “escutar”, “contemplar”, “acompanhar”,
“compreender”, “proximidade” e “cultura do encontro”. Quem escuta a Palavra de
Deus não permanece o mesmo. Ela muda a direção da vida (Mt 4,19). Assim, o contato
frequente com as Escrituras gera uma visão que permite compreender e julgar a
realidade. Liberta-nos de reducionismos de todos os tipos, livra-nos da tentação de
subordinar a acolhida da Palavra de Deus a outros critérios que não ela mesma. Entre a
Palavra de Deus e a vida, o cotidiano com suas exigências e propostas, existe uma
irrenunciável ligação. A Palavra se destina à vida (Jo 10,10), e a vida encontra seu
significado na Palavra.
233. Por certo, devemos reconhecer que, ao entrar em contato com a Palavra de Deus,
não deixamos de lado nossas compreensões da vida. Sempre acolhemos a Palavra de
Deus a partir do que somos e de onde estamos. Por isso, ao mesmo tempo que
assumimos nossa identidade, necessitamos estar atentos para que o peso dessa
identidade pessoal, social e cultural não seja excessivo e acabe por não deixar que a
Palavra de Deus seja de Deus mesmo, isto é, que não seja a nossa perspectiva a
predominar sobre a Palavra.
234. Em nossa Igreja no Brasil, o mesmo método foi largamente aplicado com muitos
frutos. Ele tem impulsionado o compromisso evangélico diante de muitas situações, em
especial as mais sofridas (DAp, n. 19). Com seus três passos característicos, faz-nos ter o
coração no alto, sem dúvida, mas com os pés no chão. Ele nos convida a: 1) ver
(contemplar) a realidade; 2) buscar na Palavra de Deus a iluminação para julgar
(avaliar, discernir) a realidade; e 3) agir (propor) trilhando os caminhos necessários para
transformar essa mesma realidade. Esse é um processo a ser colocado em prática ao
longo de toda a vida por pessoas e comunidades. É um caminho aberto, sempre
crescente e amadurecedor. É o caminho do discipulado missionário, caminho de quem
sabe captar a vida, com todos os seus desafios, e sabe igualmente ouvir a Palavra, com
sua riqueza, que sempre ultrapassa nossas compreensões.
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235. Os verbos “contemplar”, “discernir” e “agir” são apresentados pelo Papa


Francisco, rejuvenescendo o método ver-julgar-agir.40 Não devemos compreender a
Leitura Orante e o método contemplar-discernir-agir como opostos entre si. Ambos são
caminhos importantes para o acolhimento da Palavra de Deus. A dificuldade não se
encontra nos caminhos, mas nos caminhantes. Se, por um lado, é verdade que o
caminho se faz caminhando, por outro, não adianta a quem caminha desejar que a
estrada seja apenas desse ou daquele modo. É preciso estar aberto para o jeito como a
estrada se manifesta. Há momentos de subida e outros de descida. Há retas e curvas. Há
túneis e pontes. O caminho é rico. Importa caminhar. Por isso, a autêntica Animação
Bíblica da Pastoral pede a capacidade de integrar e articular os diferentes caminhos de
contato com a Palavra de Deus, de modo que ela ilumine toda a realidade: pessoal,
comunitária e socioambiental.

6.3. Palavra de Deus concretizada na Caridade e no compromisso


socioambiental transformador
236. A Palavra que se nos comunica fez a escolha da encarnação por amor. O Verbo
divino se faz próximo, doa-se a nós, mas sempre na eterna decisão de oferecer salvação
e vida plena. A Palavra de Deus se oferece por amor e no amor. De outro modo, ela se
reduziria a discurso ou reflexão. Da escolha divina pela encarnação do Verbo procede,
coerentemente, a vocação dos discípulos a viver por amor e em um sério compromisso
transformador da sociedade e do meio ambiente.

6.3.1. A fraternidade restaurada em Jesus Cristo

237. A fraternidade das origens, narrada no livro do Gênesis, possui marcas de


fracasso. Os irmãos estão em contraste e conflito nas narrativas sobre Ismael e Isaac (Gn
21,8s), Esaú e Jacó (Gn 25,19s), sobre os filhos de Jacó com seu irmão José (Gn 37,12s).
Os conflitos entre irmãos são preanunciados no relacionamento fratricida entre Caim e
Abel (Gn 4,1-8). A fraternidade esperava por um redentor!
238. Jesus, chamando os Doze, acolhendo tantos outros homens e mulheres como
discípulos, restaura e redefine a fraternidade. Ele se faz irmão e amigo, capaz de dar a
vida pelos seus. Jesus convida os discípulos a superarem a competição e a cultivarem a
caridade entre si: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor,
assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.
(...) Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei”
(Jo 15,10.12). O amor recíproco entre membros das comunidades cristãs é gerado na
obediência à Palavra do Mestre.
239. Nas numerosas experiências comunitárias presentes na Igreja, a caridade
assume uma forma especial. Ela cresce com a partilha da vida, com a narração da
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própria experiência, nos encontros onde se escuta a Palavra de Deus. As dores e as


ausências, as alegrias e as conquistas de cada irmão são assumidas como próprias pelos
demais membros da comunidade. Afinal, “espiritualidade de comunhão significa
também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico,
isto é, como ‘um que faz parte de mim’, para saber partilhar suas alegrias e seus
sofrimentos, para intuir seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-
lhe uma verdadeira e profunda amizade” (NMI, n. 43).41
240. A partilha de vida durante os encontros das pequenas comunidades, ou em
família, deve gerar uma autêntica vida fraterna. A partilha dos testemunhos de vivência
da Palavra de Deus no cotidiano – em casa, no estudo e trabalho, no esporte e lazer, nas
redes sociais e nos ambientes digitais – suscita a esperança no coração dos irmãos que
também lutam para progredir na vivência da mesma fé.
241. Reconhecendo as necessidades atuais de algum dos irmãos de comunidade, eles
se unem para responder com o amor concreto, com a caridade que se faz gesto. Afinal,
ouvimos da Carta de Tiago: “Imaginai que um irmão ou uma irmã que não tem o que
vestir e que lhes falte a comida de cada dia; se então algum de vós disser a eles: ‘Ide em
paz, aquecei-vos’ e ‘Comei à vontade’, sem lhes dar o necessário para o corpo, que
adianta isso? Assim também a fé: se não se traduz em obras, por si só está morta” (Tg
2,15-17). A semente não produz seus frutos.

6.3.2. A solidariedade julga os métodos

242. A caridade de Cristo, vivida entre os membros das comunidades cristãs, deve
transbordar para a sociedade em que vivemos. A palavra de Jesus orienta os discípulos
a olharem ao seu redor. Eles percebem mais nitidamente, com o amadurecimento da
vida cristã, os desafios presentes no cotidiano, ficam mais atentos aos que vivem em
meio à carência, aos sofrimentos, à violência e a outros sinais de morte. Associados ou
não, vivenciam as obras de misericórdia e se orientam criativamente pela Doutrina
Social da Igreja. Cresce, assim, o compromisso de amor por todos, e a mesma Palavra
que transformou a vida desses discípulos lhes dirá um dia: “Vinde, benditos de meu
Pai! Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo”
(Mt 25,34).
243. A caridade dos discípulos, transformados pela Palavra de Deus, torna-os
criativos no testemunho social em favor de pessoas e grupos deixados à margem na
sociedade. Surgem “ações derivadas de uma união que propende cada vez mais para o
outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das
aparências físicas ou morais. O amor ao outro por ser quem é impele-nos a procurar o
melhor para a sua vida. Só cultivando essa forma de nos relacionarmos é que
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tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade
aberta a todos” (FT, n. 94). “Com efeito, em Jesus Cristo, o que vale é a fé agindo pelo
amor” (Gl 5,6).
244. Assim, a Palavra de Deus, ouvida, partilhada e celebrada, também é
testemunhada “no trabalho, na escola, na família e na educação” (DGAE 2019-2023, n.
84), tornando a Igreja presente em tais realidades. Solidariedade e missão apresentam a
Igreja como sacramento da proximidade divina (LG, n. 1 e 48): “O que era desde o
princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e
nossas mãos apalparam da Palavra da Vida (...), isso que vimos e ouvimos, nós vos
anunciamos, para que estejais em comunhão conosco” (1Jo 1,1.3).

6.3.3. compromisso socioambiental transformador

245. A verdade da Palavra de Deus, verdade que liberta, provoca círculos cada vez
mais amplos de conversão. A luz da Palavra acolhida na tradição da fé da Igreja faz com
que os discípulos missionários superem os riscos do intimismo religioso e do
relativismo ético. O intimismo religioso pode aprisionar o “eu” no sentimentalismo
subjetivo, impedindo-o de lançar-se verdadeiramente na aventura da caridade (FT, n.
184). Já o relativismo ético, esse velho conhecido de nossos tempos, despreocupado da
verdade e do bem, desresponsabiliza e nega o compromisso com as mudanças
necessárias na sociedade.
246. O cuidado por todas a pessoas e pelo meio ambiente, dado a toda a
humanidade, é fundado na verdade e na caridade que vêm de Deus. O Reino de Deus,
sempre dom do Pai e a ser anunciado pela Igreja, não se ausenta de qualquer porção da
humanidade, não ignora uma parte do planeta, casa de todos. A inclusão de todas as
pessoas e a atenção à casa comum podem ter fomentadores nos discípulos missionários
de Jesus Cristo, como sal e luz (Mt 5,11-16). Eles devem qualificar os processos
necessários nessa direção, mas não são seus atores exclusivos. Necessita-se do
envolvimento do maior número possível de pessoas. O compromisso socioambiental
transformador deve sustentar dinamismos de uma nova cultura: a cultura do encontro.
Acolhida, respeito e diálogo estão na base da cultura do encontro. Cada outro,
considerado amorosamente, é essencial e tem muito a contribuir.
247. As bases ecumênicas podem ser reforçadas pelo amor à Palavra de Deus e pelo
amor àqueles que a Palavra se entrega na encarnação. A escola do diálogo entre cristãos
de diversas denominações também contribui para o diálogo e o encontro com tantos
irmãos e irmãs de outras religiões. Também no âmbito político podem-se criar pontes
que diminuam as distâncias e possibilitem assumir com maior eficácia a integração de
todos. As palavras do Papa Francisco são esclarecedoras: “O que conta é gerar processos
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de encontro, processos que possam construir um povo capaz de colecionar as


diferenças. Armemos os nossos filhos com as armas do diálogo! Vamos ensinar-lhes o
bom combate do encontro!” (FT, n. 217).
248. A formação técnica e científica, com seus ambientes de fomento à pesquisa,
particularmente as universidades, os educadores e o universo da comunicação são
chamados à colaboração lúcida e decidida em favor do meio ambiente. O cuidado dos
biomas, a vigilância sobre os processos de restabelecimento do equilíbrio dos
ecossistemas, bem como na formulação de propostas de políticas de sustentabilidade
ambiental devem nortear o surgimento de uma ecologia integral (LS, n. 137).42 O ser
humano, considerando-se participante da obra da Criação, e não como seu dono,
administra os recursos a ele confiados (Gn 1,26-31).
249. A criação por sua existência mesma louva seu Criador. O pensar e agir que
respeitem o meio ambiente em cada região terão como ponto de partida a cultura local.
No campo ou na cidade, a cultura própria (LS, n. 144), recolhendo os processos
históricos de integração já existentes, abre-se a novos recursos, técnicas e políticas
ambientais que incrementam a integração de todo o ser criado.
250. A boa acolhida da semente faz-se colheita e a semeadura se renova, projetando a
ação evangelizadora para o futuro. A Palavra de Deus vem decidida a fecundar vidas,
comunidades, sociedade, reconciliando pessoas entre si e com todo o ser criado. Mas é
preciso assumir decididamente a Animação Bíblica da Pastoral em cada recanto, em
todas as iniciativas de nossa Igreja no Brasil, na fidelidade ao Reino de Deus.
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CAPÍTULO 7
A ANIMAÇÃO BÍBLICA DA PASTORAL E SUA IMPLANTAÇÃO

7.1. Processos mais que campanhas


251. Implantar a Animação Bíblica da Pastoral não se restringe a um tempo de
campanhas, mas estabelecer um conjunto de ações que ajudem a que a Escritura
Sagrada se faça mais presente na vida de uma diocese, uma paróquia, uma associação,
uma pastoral ou um movimento. Campanhas têm começo, meio e fim. Destinam-se a
uma finalidade bem específica. São diferentes de processos, que, para serem
deslanchados, necessitam de adequação à realidade local, acompanhamento contínuo,
longa duração e envolvimento de todas as forças evangelizadoras. Destinam-se à
mudança de mentalidade. Por isso, não podem ficar restritos a pequenos períodos, mas,
ao contrário, tendem a uma longa duração, acontecendo em etapas bem planejadas e
continuamente revisadas. Podem envolver campanhas e outros momentos.

7.2. Condições para sua realização


252. São muitas as condições para a Animação Bíblica da Pastoral. Cada lugar haverá
de discernir aquelas que mais se aplicam à sua realidade. Algumas, no entanto, são
indispensáveis em qualquer contexto, devendo ser consideradas desde o início do
planejamento.
253. A primeira dessas condições diz respeito à irrenunciável relação entre Igreja e
Palavra de Deus. A Igreja, como comunidade dos discípulos e discípulas do Senhor,
alimenta-se da Palavra e a transmite pelo testemunho e o ensinamento. A Palavra de
Deus manifesta ainda mais sua beleza quando lida a partir da experiência de
comunidade, estimulando a fraterna convivência, que transborda para a solidariedade e
o serviço em prol da vida. Esta é a razão pela qual as DGAE, tendo uma única
prioridade, que são as comunidades eclesiais missionárias, indicam, entre os elementos
essenciais para sua concretização, o pilar da Palavra de Deus. Desse modo, não se trata de
apenas estabelecer ações que permitam maior contato com a Escritura Sagrada, sem
que, no entanto, se trabalhe pela formação e pelo fortalecimento das comunidades
eclesiais missionárias. O que se vive em comunidade é iluminado pela Palavra de Deus.
O que se lê na Palavra de Deus é concretizado na vida em comunidade.

7.2.1. Nível nacional

254. Exatamente por não ser uma campanha, a Animação Bíblica da Pastoral não
apresenta muitas propostas para o nível nacional, em que as ações deverão ser de ajuda
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às igrejas locais para que, essas sim, façam o discernimento do caminho a seguir,
concretizem o que vier a ser discernido e, sob o impulso do Espírito Santo, aproximem
sempre mais a Palavra de Deus da vida de pessoas, grupos e comunidades.
255. Para o nível nacional, permanece a importância do Mês e do Dia da Bíblia,
realizados em setembro. Voltados sempre mais para a conexão entre Palavra de Deus e
Comunidade, os temas de cada ano devem ser acolhidos e colocados em prática por
meio de tudo a que já estamos acostumados: cursos, encontros, retiros, celebrações,
atividades ecumênicas e ações sociotransformadoras.
256. Também o Domingo da Palavra de Deus, instituído pelo Papa Francisco e
celebrado sempre no 3º Domingo do Tempo Comum, deve ser motivado em nível
nacional, se possível, com o mesmo tema do Dia e do Mês da Bíblia, de modo que não
se tenham motivações distintas, mas, ao contrário, uma única temática, ainda que de
modo progressivo. O fato de o Domingo da Palavra de Deus ser geralmente próximo à
Quaresma pede que sua celebração esteja também em sintonia com a temática a ser
refletida pela Campanha da Fraternidade. Desse modo, Domingo da Palavra de Deus,
Campanha da Fraternidade, Mês e Dia da Bíblia podem ser vivenciados em um
contínuo amadurecer, cujas grandes propostas cabem ao nível nacional da Animação
Bíblica da Pastoral.
257. Em vista da importância em se motivar todo o país a compreender a Animação
Bíblica da Pastoral e a colocá-la em prática, é recomendável que, a partir da Comissão
Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética, realize-se um encontro anual
com representantes dos diversos Regionais da CNBB e dos inúmeros serviços e
caminhos para a Animação Bíblica.

7.2.2. Nível diocesano

258. Será, portanto, na diocese que a Animação Bíblica da Pastoral vai se concretizar
ainda mais, exigindo, portanto, maior atenção. Embora não se trate de burocratizar a
ação evangelizadora, será necessário e mesmo urgente estabelecer alguma estrutura
específica destinada a impulsionar o processo, pois, só cresce adequadamente aquilo
que é devidamente cuidado. Em consequência, junto à Coordenação Diocesana de
Pastoral, é necessária a criação de um grupo voltado para a Animação Bíblica. A
formação do grupo, com o perfil de seus membros, deverá corresponder à realidade de
cada Igreja local, observando-se, no entanto, a importância de se ter pessoas
conhecedoras da Sagrada Escritura e gente com experiência na dinamização da pastoral,
todos conhecendo bem a relação proposta pelas DGAE entre as comunidades eclesiais
missionárias e a Animação Bíblica da Pastoral, representada pelo pilar da Palavra.
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259. A essa equipe diocesana caberão duas grandes linhas de ação. Primeiramente,
deverá discernir caminhos para que tudo que já vem sendo feito possa ser ainda mais
iluminado pela Palavra de Deus. Não se trata, portanto, de criar atividades novas, mas
de ajudar a integrar o que já vem sendo feito com a Palavra de Deus. Ter sempre a
Escritura Sagrada presente, ler, interiorizar, acolher e praticar.
260. Para isso, certamente, algumas atividades precisarão ser desenvolvidas e para
essas também vale o princípio da concretização local. Serão encontros, cursos, criação e
manutenção de um centro de animação bíblica, local em que pessoas e grupos poderão
participar de multiformes encontros formativos, conhecendo caminhos para a conexão
entre a vida, a pastoral e a Palavra de Deus. Desses lugares, poderão sair equipes
itinerantes de missionários e missionárias da Palavra de Deus.43 Poderão ser produzidos
roteiros e outros textos que ajudem a acolher a Escritura Sagrada em tudo que estiver
acontecendo, desde os grandes eventos diocesanos até a relação individual com Deus. A
essas equipes diocesanas também caberá, em articulação com os responsáveis do nível
nacional, concretizar as celebrações do Domingo da Palavra de Deus, o Mês e o Dia da
Bíblia.
261. Uma atividade necessita ser concretizada em nível diocesano, pelo menos uma
vez ao ano. Trata-se da reunião das diversas forças evangelizadoras em um encontro
para conhecer e amadurecer a proposta da Animação Bíblica. Não se trata de um
momento para estudo da Bíblia nem de qualquer documento da Igreja, mas exatamente
para conhecer o significado da Animação Bíblica e os caminhos para sua concretização,
discernindo entraves e fortalecendo avanços. Sem a contínua reflexão sobre a Animação
Bíblica da Pastoral, o processo não vai avançar.
262. Por certo, entre o nível nacional e o diocesano, os Regionais da CNBB e as
províncias eclesiásticas são terrenos com muitas possibilidades de semeadura e boa
colheita. Na medida em que as grandes experiências da vida são transmitidas mais por
atração e fascínio do que por cursos e conferências, momentos celebrativos, de estudo
ou de oração realizados, ainda que uma vez ao ano, nos níveis regional e/ou de
província podem ser de grande ajuda para que se fortaleça ainda mais a convicção rumo
à Animação Bíblica da Pastoral.

7.2.3. Nível local

263. Por nível local, devemos entender a atuação nas paróquias, nas pastorais, nos
movimentos, nas congregações religiosas, nas associações e principalmente nas
pequenas comunidades, isto é, nas comunidades eclesiais missionárias. Se desejamos
levar a efeito a Animação Bíblica da Pastoral e se, de fato, é no nível mais capilar que ela
vai acontecer e se concretizar, também em cada um desses espaços aqui mencionados
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torna-se importante a existência de uma equipe, por menor que seja, para pastoralmente
estimular a crescente integração entre a Escritura Sagrada e a vida das pessoas e da
instituição. Na verdade, tudo que se aplica aos níveis anteriores, aplica-se também e de
modo imprescindível ao nível mais pontual, local, ainda que feitas as devidas
adaptações.
264. Na medida em que as comunidades são chamadas a terem seus conselhos
pastorais, cuja responsabilidade, junto com os ministros ordenados, é exatamente a de
zelar pelo conjunto da ação evangelizadora, é muito importante que, nesses conselhos,
haja representantes da Animação Bíblica da Pastoral. Os conselhos proporcionam o
intercâmbio de experiências, a escuta mútua e o discernimento dos rumos, não se
justificando, portanto, que tudo isso aconteça sem a presença efetiva e afetiva da
Palavra de Deus.

7.2.4. Nível virtual

265. Com a pandemia vivenciada em 2020 e 2021, aceleraram-se os processos de


virtualização da vida e da pastoral. O que caminhava a passos mais lentos precisou ser
dinamizado a ponto de termos atualmente maior experiência nesse campo, uma
experiência que não podemos perder. Assim como é verdadeiro que nada substitui o
fisicamente presencial e que ser comunidade implica convívio, é igualmente correto
reconhecer que o ambiente virtual pode e deve ser acolhido como ajuda eficaz para a
vida em comunidade e, nela, para a Animação Bíblica da Pastoral.
266. Consequentemente, a ação nas redes sociais, nos meios de comunicação,
destacando-se as editoras, as rádios e as televisões de inspiração católica, é urgente que
se produzam programas, lives e outros modos de orientação para a Animação Bíblica,
com testemunhos, indicação de materiais acessíveis e guias para a leitura orante.

7.3. Um planejamento aberto à ação do Espírito


267. Por tudo isso, vemos que planejar a Animação Bíblica da Pastoral consiste em
deslanchar processos e sustentá-los pelo tempo necessário para sua consolidação, ainda
que seja um tempo mais longo que o desejado. São processos que se iniciam com
pessoas que acreditam na causa abraçada, a ela se dedicando, se possível, com
exclusividade. É por isso que, mais do que indicações muito específicas, importa
descobrir essas pessoas, formar grupos ou comissões, iniciar o trabalho pelo
conhecimento da realidade e o discernimento de caminhos, somando forças e trocando
experiências de tempos em tempos. Essa entrega confiante ao caminhar na história,
ainda que em meio a avanços e dificuldades, será sempre uma escuta pessoal e
comunitária do Espírito que fala à Igreja (Ap 2,7), quando ela se reúne com a
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predisposição a ouvi-lo (At 2,1-13). Gera-se a comunhão apesar das diferenças e


polarizações (At 2,7-11) e a Palavra ilumina a vida (At 2,17-37).
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CONCLUSÃO
268. Trazendo na mente e no coração a Parábola do Semeador e sua explicação pelo
próprio Senhor, a Igreja no Brasil é convocada a unir forças e, na consolidação das
comunidades eclesiais missionárias, investir assertivamente na Animação Bíblica da
Pastoral.
269. Vivemos um tempo de incertezas e perplexidades. A atual crise de referências é
capaz de gerar distanciamento da Palavra de Deus ou sua leitura a partir de
perspectivas que a própria Palavra condena. A forte individualização, que, aliada ao
consumismo, vem marcando o mundo de nossos dias, corre o risco de levar ao
distanciamento da vida em comunidade e, consequentemente, à diminuição do contato
com a Palavra de Deus. Por isso, embora muito tenha sido feito, especialmente nas
décadas posteriores ao Concílio Vaticano II, estamos em um daqueles momentos
históricos em que é necessário fazer ainda mais. Estamos em um tempo em que a
dispersão e a fragmentação exigem que focalizemos nossa ação evangelizadora na vida
em comunidade e no contato com a Palavra de Deus.
270. Sobre a vida em comunidade e os rumos que lhe são solicitados, a Igreja na
América Latina e no Brasil já se manifestou bastante (DAp, n. 372, 518c; CNBB, Doc.
100), cabendo às Igrejas Particulares do Continente e de nosso país levar adiante o que
foi indicado.
271. Sobre o contato com a Palavra de Deus, tem crescido a consciência de que
estamos em um tempo em que a Animação Bíblica da Pastoral adquire a característica
de urgência. O Semeador permanece em contínuo e gratuito semear. A distinção, bem
sabemos, encontra-se nos terrenos. Estes, por sua vez, devem ser preparados, não
bastando permanecer na atitude de apenas resmungar sobre a qualidade ruim dos
terrenos. E isso exige a coragem de “entrar decididamente, com todas as forças, nos
processos constantes de renovação missionária e de abandonar as ultrapassadas
estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DAp, n. 365).
272. Para cuidar dos terrenos e os preparar à semeadura, são necessárias, entre outras
coisas, a vida em comunidade – de modo especial nas pequenas comunidades eclesiais
missionárias – pessoas disponíveis ao anúncio e à ajuda no acolhimento da Palavra,
locais onde seja possível compreender o significado da Animação Bíblica da Pastoral,
conhecer as Escrituras Sagradas e praticar a leitura orante. São igualmente
indispensáveis corações generosos, que, percebendo em si o dom para tanto, assumam-
se missionários e missionárias da Palavra de Deus. E, desse modo, missão, comunidades
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eclesiais missionárias e Animação Bíblica da Pastoral se complementam de modo


irrenunciável.
273. Não deixemos, portanto, que este tempo tão propício à Animação Bíblica da
Pastoral se torne mais um tema a ser superado quando outra novidade surgir, pois,
como bem sabemos, não se trata de uma novidade. Ao contrário, trata-se de sermos
como o escriba que tira do seu tesouro ensinos novos e antigos (Mt 13,52). Ele o faz
exatamente porque sabe que tem nas mãos um tesouro.
274. Maria é modelo de familiaridade com este tesouro. Especialmente nos episódios
da Anunciação, da Visitação e em Caná da Galileia, ela nos oferece o verdadeiro
itinerário do discipulado perfeito: 1) ouve a Palavra de Deus e a guarda no seu coração
(Lc 1,28; 2,19); 2) deixa-se questionar por Deus, ficando intrigada e refletindo sobre o
significado da mensagem do Senhor (Lc 1,29); 3) como mulher madura, humana e
espiritualmente, ela tem a ousadia de questionar o próprio Deus (Lc 1,34); 4) quando
percebe que é obra de Deus, ela cede, assume a condição de serva e permite que a
Palavra do Senhor aconteça plenamente em sua existência (Lc 1,38); 5) em Maria, a
Palavra é frutífera e fecunda, é vida gerada, torna-se carne (Lc 1,35); 6) em Maria, a
Palavra se torna missão, pois ela não se contém em si, precisa comunicar essa alegre e
esperançosa notícia ao mundo (Lc 1,39-45); 7) em Caná, Maria se torna pedagoga da fé,
verdadeira mistagoga, conduzindo a comunidade dos discípulos a fazer tudo o que
Jesus disser (Jo 2,5).
275. Permita o Pai de Misericórdia que, na força do Espírito, a Igreja no Brasil saiba
ouvir e preparar o terreno para que muitos irmãos e irmãs ouçam a voz do Filho muito
Amado (Mt 3,17) e, assim fazendo, colaborem para a preservação da vida e vida em
plenitude (Jo 10,10).
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1 CELAM. Documento de Aparecida: Documento Conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília-São Paulo: Edições
CNBB-Paulus-Paulinas, 2008.
2 BENTO XVI. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. (Documentos Pontifícios, 6). Brasília:
Edições CNBB, 2011.
3 CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023. (Documentos da CNBB, 109). Brasília: Edições CNBB, 2019.
4 SÃO PAULO VI. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi sobre a Evangelização no Mundo Contemporâneo, 8 de dezembro de 1975.
5 FRANCISCO. Angelus, 22 de dezembro de 2019.
6 CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum: sobre a Divina Revelação. In: SANTA SÉ. Concílio Ecumênico Vaticano II: Documentos. Brasília:
Edições CNBB, 2018, p. 175-198.
7 SÃO JERÔNIMO. Epistula 30,7.
8 CELAM. Documento de Puebla: Conclusões da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Puebla de Los Angeles: jan/fev de 1979.
9 CNBB. Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz do Mundo (Mt 5,13-14). (Documentos da CNBB, 105). Brasília: Edições CNBB, 2016.
10 BENTO XVI. Discurso aos Católicos Alemães, 24 de setembro de 2011.
11 FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: a Alegria do Evangelho sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. (Documentos Pontifícios, 17).
Brasília: Edições CNBB, 2015.
12 CNBB. Discípulos e servidores da Palavra de Deus na missão da Igreja. (Documento da CNBB, 97). Brasília: Edições CNBB, 2012.
13 FRANCISCO. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia. (Documentos Pontifícios, 43). Brasília: Edições CNBB, 2020.
14 CNBB. Ministério e Celebração da Palavra. (Documentos da CNBB, 108). Brasília: Edições CNBB, 2018.
15 SANTA SÉ. Catecismo da Igreja Católica. Brasília: Edições CNBB, 2013.
16 PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. A interpretação da Bíblia na Igreja.
17 CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. O Dom da Vocação Presbiteral – Ratio Fundamentalis Institutionis
Sacerdotalis. (Documentos da Igreja, 32). Brasília: Edições CNBB, 2017.
18 FRANCISCO. Misericordiae Vultus: Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. (Documentos Pontifícios, 20). Brasília: Edições CNBB, 2015.
19 CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium. In: SANTA SÉ. Concílio Ecumênico Vaticano II: Documentos. Brasília: Edições CNBB, 2018, p.
75-173.
20 FRANCISCO. Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate sobre o chamado à santidade no mundo atual. (Documentos Pontifícios, 33). 3. ed. Brasília: Edições
CNBB, 2019.
21 SÃO JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christifideles Laici sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo, 30 de dezembro de
1988.
22 PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO. Diretório para a Catequese. (Documentos da Igreja, 61). Brasília: Edições CNBB,
2020.
23 SÃO JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Pastores Gregis sobre o Bispo, servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo.
(Documentos Pontifícios, 31). Brasília: Edições CNBB, 2017.
24 SÃO JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Pastores Dabo Vobis sobre a formação dos sacerdotes nas circunstâncias atuais, 25 de março de 1992.
25 CELAM. Orientações para a Animação Bíblica da Pastoral na América Latina e no Caribe. Brasília: Edições CNBB, 2018.
26 CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia. In: SANTA SÉ. Concílio Ecumênico Vaticano II: Documentos. Brasília:
Edições CNBB, 2018, p. 21-74.
27 Introdução Geral ao Lecionário.
28 BENTO XVI. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis sobre a Eucaristia fonte e ápice da vida e da missão da Igreja, 22 de fevereiro de 2007.
29 SÃO JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Dies Domini sobre a santificação do domingo, 31 de maio de 1998.
30 CNBB. Iniciação à Vida Cristã: itinerário para formar discípulos missionários. (Documentos da CNBB, 107). Brasília: Edições CNBB, 2017.
31 BENTO XVI. Discurso Inaugural à Conferência de Aparecida, n. 1.
32 FRANCISCO. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia sobre o amor na família. (Documentos Pontifícios, 24). 3. ed. Brasília: Edições CNBB, 2018.
33 SÃO JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Familiaris Consortio sobre a função da família cristã no mundo de hoje, 22 de novembro de 1981.
34 FRANCISCO. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Chritus Vivit. (Documentos Pontifícios, 37). Brasília: Edições CNBB, 2019.
35 CNBB. Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil. (Documentos da CNBB, 99). Brasília: Edições CNBB, 2014.
36 BENTO XVI. Carta Encíclica Deus Caritas Est sobre o amor cristão. (Documentos Pontifícios, 1). Brasília: Edições CNBB, 2007.
37 CNBB. Diretrizes para a formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil. (Documentos da CNBB, 110). Brasília: Edições CNBB, 2019.
38 CONCÍLIO VATICANO II. Decreto Optatam Totius sobre a formação sacerdotal. In: SANTA SÉ. Concílio Ecumênico Vaticano II: Documentos. Brasília: Edições
CNBB, 2018, p. 455-480.
39 CNBB. Comunidade de comunidades: uma nova paróquia – A conversão pastoral da paróquia. (Documentos da CNBB, 100). Brasília: Edições CNBB, 2014.
40 MONICA WEINBERG. Vamos Sonhar Juntos. O caminho para um futuro melhor – Papa Francisco em conversa com Austen Ivereigh. Rio de Janeiro: Ed.
Intrínseca, 2020, 153.
41 SÃO JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte ao episcopado, ao clero e aos fiéis no termo do grande Jubileu do ano 2000, 6 de janeiro de
2001.
42 FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si’ sobre o cuidado da Casa Comum. (Documentos Pontifícios, 22). Brasília: Edições CNBB, 2016.
43 CNBB. Orientações para a Animação Bíblica da Pastoral na América Latina e no Caribe, p. 257ss.

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