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COVID

A redução da transparência dos dados referentes à Covid-19 viola o direito de


acesso à informação, os princípios da publicidade e transparência da
Administração Pública e o direito à saúde.

É necessária a manutenção da divulgação integral dos dados epidemiológicos


relativos à pandemia da Covid-19. A interrupção abrupta da coleta e divulgação de
importantes dados epidemiológicos, imprescindíveis para a análise da série histórica
de evolução da pandemia (Covid-19), caracteriza ofensa a preceitos fundamentais
da Constituição Federal, nomeadamente o acesso à informação, os princípios da
publicidade e da transparência da Administração Pública e o direito à saúde. STF.
Plenário. ADPF 690/DF, ADPF 691/DF e ADPF 692 /DF, Rel. Min. Alexandre de
Moraes, julgados em 13/03/2021 (Info 1009).

União não pode requisitar seringas e agulhas que já foram contratadas pelo
Estado-membro para o plano estadual de imunização e que ainda estão na
indústria, apesar de já terem sido empenhados.

É incabível a requisição administrativa, pela União, de bens insumos


contratados por unidade federativa e destinados à execução do plano local de
imunização, cujos pagamentos já foram empenhados. A requisição
administrativa não pode se voltar contra bem ou serviço de outro ente
federativo. Isso para que não haja indevida interferência na autonomia de um
sobre outro.

TUTELA DE URGÊNCIA EM AÇÃO CÍVEL ORIGINÁRIA. CONCESSÃO


MONOCRÁTICA. VACINAÇÃO CONTRA A COVID-19. REQUISIÇÃO
ADMINISTRATIVA DE INSUMOS DESTINADOS À EXECUÇÃO DO PLANO DE
IMUNIZAÇÕES DO ESTADO DE SÃO PAULO. IMPOSSIBILIDADE.
INTERFERÊNCIA INDEVIDA. AUTONOMIA DOS ENTES FEDERATIVOS. MEDIDA
CAUTELAR REFERENDADA PELO PLENÁRIO. I - Nos termos da histórica
jurisprudência desta Suprema Corte, a requisição administrativa não pode se voltar
contra bem ou serviço de outro ente federativo, de maneira a que haja indevida
interferência na autonomia de um sobre outro. Precedentes. II – Na espécie, os
produtos requisitados já foram objeto de contratação e empenho pelo Estado de
São Paulo, visando, justamente, o uso nas ações de imunização contra a COVID-19
a serem empreendidas por aquele ente federativo, haja vista que a competência da
União, por meio do Ministério da Saúde, de “coordenar o PNI e definir as vacinas
integrantes do calendário nacional de imunizações, tal atribuição não exclui a
competência dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios para adaptá-los às
peculiaridades locais, no típico exercício da competência comum de que dispõem
para ‘cuidar da saúde e assistência pública’ (art. 23, II, da CF)” (ADPF 770-MC/DF,
de minha relatoria). III – Medida cautelar referendada pelo Plenário do Supremo
Tribunal Federal para impedir que a União requisite insumos contratados pelo
Estado de São Paulo, cujos pagamentos já foram empenhados, destinados à
execução do plano estadual de imunização. Por sua vez, caso os materiais
adquiridos pelo autor da presente demanda já tenham sido entregues, a União
deverá devolvê-los, no prazo máximo de 48 (quarenta e oito) horas, sob pena de
multa diária de R$ 100.000,00 (cem mil reais). (ACO 3463 MC-Ref, Relator(a):
RICARDO LEWANDOWSKI, Tribunal Pleno, julgado em 08/03/2021, PROCESSO
ELETRÔNICO DJe-051 DIVULG 16-03-2021 PUBLIC 17-03-2021)

STF estendeu a vigência das medidas de combate à covid-19 elencadas na Lei


13.979/2020 e que estavam previstas para terminar em 31/12/2020.

A prudência — amparada nos princípios da prevenção e da precaução —


aconselha que continuem em vigor as medidas excepcionais previstas nos arts.
3º ao 3º-J da Lei nº 13.979/2020, dada a continuidade da situação de
emergência na área da saúde pública. STF. Plenário. ADI 6625 MC-Ref/DF, Rel.
Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 6/3/2021 (Info 1008).

O STF decidiu conferir interpretação conforme à Constituição ao art. 8º da


Lei nº 13.979/2020, a fim de excluir de seu âmbito de aplicação as medidas
extraordinárias previstas nos arts. 3º, 3º-A, 3º-B, 3º-C, 3º-D, 3º-E, 3º-F, 3º-G,
3º-H e 3º-J, inclusive dos respectivos parágrafos, incisos e alíneas.

Art. 8º Esta Lei vigorará enquanto estiver vigente o Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, observado o
disposto no art. 4º-H desta Lei. O Decreto Legislativo nº 6/2020 reconheceu o estado de calamidade pública, com
efeitos até 31/12/2020. Logo, a Lei nº 13.979/2020, em princípio, deveria vigorar enquanto durasse o estado de
calamidade pública, ou seja, até 31/12/2020.

STF determinou que governo deveria detalhar a ordem de preferência na


vacinação dentro dos grupos prioritários (quem deveria ser vacinado primeiro
dentro do grupo prioritário)

A pretensão de que sejam editados e publicados critérios e subcritérios de


vacinação por classes e subclasses no Plano de Vacinação, assim como a
ordem de preferência dentro de cada classe e subclasse, encontra arrimo:
• nos princípios da publicidade e da eficiência que regem a Administração
Pública (art. 37, da CF/88);
• no direito à informação que assiste aos cidadãos em geral (art. 5º, XXXIII, e art.
37, § 2º, II);
• na obrigação da União de “planejar e promover a defesa permanente contra as
calamidades públicas” (art. 21, XVII);
• no dever incontornável cometido ao Estado de assegurar a inviolabilidade do
direito à vida (art. 5º, caput), traduzida por uma “existência digna” (art. 170); e
• no direito à saúde (art. 6º e art. 196).
STF. Plenário. ADPF 754 TPI-segunda-Ref/DF, Rel. Min. Ricardo Lewandowski,
julgado em 27/2/2021 (Info 1007).

O Poder Judiciário, em situações excepcionais, pode determinar que Administração


Pública adote medidas concretas, assecuratórias de direitos constitucionalmente
reconhecidos essenciais, como é o caso da saúde. O Ministério da Saúde divulgou o
Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 (2ª edição) e
nele consta a população que seria imunizada prioritariamente e a estimativa de doses
necessárias. No entanto, não foi detalhado adequadamente qual a ordem de cada
grupo, dentro de um universo de milhões de pessoas. O STF afirmou que, diante
dessa lacuna, seria previsível que o Poder Judiciário seria acionado em múltiplias
ações nas quais pessoas dentro de um mesmo grupo pediriam prioridade, gerando
inúmeras decisões judiciais, algumas conflitantes, o que provocaria insegurança
jurídica. Além disso, foi ressaltado o perigo decorrente da ausência de discriminação
categorizada dos primeiros brasileiros que seriam vacinados. Na visão do STF,
faltaram parâmetros aptos a guiar os agentes públicos na difícil tarefa decisória diante
da enorme demanda e da escassez de imunizantes. O direito à informação e o
princípio da publicidade da Administração Pública constituem verdadeiros pilares
sobre os quais se assenta a participação democrática dos cidadãos no controle
daqueles que gerenciam o patrimônio comum do povo, com destaque para a saúde
coletiva, sobretudo em período de temor e escassez de vacinas. É preciso
rememorar que decisões administrativas relacionadas à proteção à vida, à saúde e
ao meio ambiente devem observar standards, normas e critérios científicos e
técnicos, tal como estabelecidos por organizações e entidades internacional e
nacionalmente reconhecidas.

STF deferiu medida liminar em habeas corpus coletivo impetrado pela DPU
para determinar que os juízes e Tribunais do país cumpram a Recomendação
62/2020 do CNJ e adotem uma série de medidas para evitar a propagação da
Covid-19 nos estabelecimentos prisionais

Ementa: REFERENDO DE MEDIDA CAUTELAR EM HABEAS CORPUS


COLETIVO. PANDEMIA MUNDIAL. COVID-19. GRUPO DE RISCO.
SUPERLOTAÇÃO CARCERÁRIA. CRIMES COMETIDOS SEM VIOLÊNCIA OU
GRAVE AMEAÇA À PESSOA. RECOMENDAÇÕES DE ORGANISMOS
INTERNACIONAIS. RESOLUÇÃO DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA.
EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL. SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO.
ESTADO DE COISA INCONSTITUCIONAL. APDF 347 - MC. PLAUSIBILIDADE
JURÍDICA DO PEDIDO. PERICULUM IN MORA. ANÁLISE INDIVIDUAL DAS
SITUAÇÕES CONCRETAS PELO JUÍZO COMPETENTE. CONCESSÃO EM
PARTE DA MEDIDA CAUTELAR. 1. A jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal admite a impetração de habeas corpus coletivo para discutir pretensões
de natureza individual homogênea. 2. A Organização Mundial da Saúde – OMS,
em 11 de março de 2020, declarou a epidemia de Covid-19, doença causada
pelo novo coronavírus – Sars-Cov-2, como emergência em saúde pública de
importância internacional. 3. A Organização das Nações Unidas – ONU e a
Comissão Interamericana de Direitos Humanos – CIDH, antes ao perigo de
propagação da Covid-19 em estabelecimentos prisionais e aos efeitos dessa
contaminação generalizada para a saúde pública em geral, recomendaram aos
países que, sem o comprometimento da segurança pública, adotassem medidas
para reduzir o número de novas entradas nos presídios e para antecipar a
libertação de determinadas grupos de preso, dentre eles, aqueles com maior
risco para a doença. 5. A adoção de medidas preventivas à infecção e à
propagação do novo coronavírus em estabelecimentos prisionais foi trilhada por
diversos países do mundo como os Estados Unidos da América, o Reino Unido
e Portugal. 6. No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça recomendou aos
magistrados e aos Tribunais do País a adoção de medidas com vista à redução
dos riscos epidemiológicos. Recomendação n. 62/2020 do CNJ. 7. A
Constituição da Federal e a Lei de Execuções Penais asseguram a saúde como
direito das pessoas privadas de liberdade, ao mesmo tempo que colocam a
assistência à saúde do detento como dever do poder público (art. 196 da
Constituição Federal; arts. 10; 11, II; 14; 41, todos da Lei de Execução Penal). 8.
O Supremo Tribunal Federal reconheceu o “estado de coisas inconstitucional” do
sistema penitenciário nacional, dado que presente um “quadro de violação
massiva e persistente de direitos fundamentais” das pessoas recolhidas ao
cárcere decorrente de falhas estruturais e de políticas públicas (ADPF 347 MC,
rel. Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 09/09/2015). 9. Os dados
trazidos aos autos pelo Departamento de Monitoramento e Fiscalização do
Sistema Carcerário do Conselho Nacional de Justiça – DMF/CNJ demonstram
que o novo coronavírus representa maior risco para a população prisional do
que para a população em geral. 10. O perigo de lesão à saúde e à integridade
física do preso é agravado quando se considera presídios com ocupação acima
da capacidade física e detentos pertencentes a grupo de risco para a Covid-19.
11. O risco à segurança pública, por sua vez, é reduzido quando se contempla
com as medidas alternativas ao cárcere somente àqueles detidos por crimes
cometidos sem violência ou grave ameça à pessoa. Juízo de proporcionalidade.
Exclusão dos crimes listados no art. 5º-A da Recomendação do CNJ n.º 62/2020
(incluído pela Recomendação n.º 78/2020). Dispositivos constitucionais e
normas convencionais assumidas pelo Brasil. 12. A aferição da presença dos
requisitos para a concessão das medidas alternativas ao cárcere deve ser feita
pelo Juízo de origem em processo específico no qual se assegure o contraditório
e a ampla defesa. Necessidade de comprovação e de análise da realidade
sanitária do estabelecimento prisional. Precedentes do STF. 13. Plausibilidade
jurídica do pedido e perigo da demora configurados. Medida cautelar deferida
em parte. (HC 188820 MC-Ref, Relator(a): EDSON FACHIN, Segunda Turma,
julgado em 24/02/2021, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-056 DIVULG 23-03-
2021 PUBLIC 24-03-2021)

Medidas determinadas pelo STF no julgamento do habeas corpus coletivo:


Diante de tudo que foi exposto, para fins da efetividade da Recomendação nº
62/2020 do CNJ, o Min. Edson Fachin deferiu medida liminar que foi referendada
pela 2ª Turma do STF, com as seguintes determinações para os juízes e
Tribunais do país:
 
Progressão antecipada da pena:
O STF determinou que os juízes de execução penal do País, de ofício ou
mediante requerimento das partes, desde que presentes os requisitos subjetivos
(art. 112, § 1º, da LEP), concedam progressão antecipada da pena aos
condenados que estejam no regime semiaberto para o regime aberto em prisão
domiciliar e que, cumulativamente, atendam aos seguintes requisitos:
i) estejam em presídios com ocupação acima da capacidade física;
ii) comprovem, mediante documentação médica, pertencer a um grupo de risco
para a Covid-19 conforme contido no art. 2º, § 3º, da Portaria Interministerial n.º
7, de 18 de março de 2020;
iii) cumpram penas por crimes praticados sem violência ou grave ameaça à
pessoa, exceto os delitos citados no art. 5º-A da Recomendação n. 62/2020 do
CNJ;
iv) faltem 120 dias para completar o requisito objetivo para a progressão do
regime semiaberto para o aberto (art. 112 e parágrafos da LEP).
 
O juízo competente, caso entenda adequado, poderá deixar de conceder ao
condenado em cumprimento de pena em regime semiaberto a progressão
antecipada para o aberto em prisão domiciliar, estejam presentes as seguintes
hipóteses cumulativas:
1) ausência de registro de caso de Covid-19 no estabelecimento prisional
respectivo;
2) adoção de medidas preventivas ao novo coronavírus pelo presídio;
3) existência de atendimento médico adequado no estabelecimento prisional.
 
Alternativamente, o juízo competente, na apreciação dos processos individuais,
poderá deixar de conceder a progressão ao regime aberto em prisão domiciliar,
caso presentes situações excepcionalíssimas que demonstrem objetivamente a
ausência de risco concreto e objetivo à saúde do detento na hipótese de sua
manutenção no cárcere e que o regime aberto em prisão domiciliar, ainda que
com monitoração eletrônica, mostra-se manifestamente inadequado ao caso
concreto e causa demasiado risco à segurança pública.
 
Quanto à prisão domiciliar e à liberdade provisória:
O STF determinou que os juízes e os Tribunais, de ofício ou mediante
requerimento das partes, concedam prisão domiciliar ou liberdade provisória,
ainda que cumuladas com medidas alternativas do art. 319 do CPP, a presos
que, cumulativamente, atendam aos seguintes requisitos:
i) estejam em presídios com ocupação acima da capacidade física;
ii) comprovem, mediante documentação médica, pertencer a um grupo de risco
para a Covid-19 conforme contido no art. 2º, § 3º, da Portaria Interministerial n.º
7, de 18 de março de 2020;
iii) não estejam presos por crimes praticados sem violência ou grave ameaça,
exceto os delitos citados no art. 5º-A da Recomendação nº 62/2020 do CNJ.
 
O juízo competente, caso entenda adequado, poderá deixar de conceder a
prisão domiciliar ou a liberdade provisória, caso estejam presentes as seguintes
hipóteses cumulativas:
1) ausência de registro de caso de Covid-19 no estabelecimento prisional
respectivo;
2) adoção de medidas de preventivas ao novo coronavírus pelo presídio;
3) existência de atendimento médico no estabelecimento prisional.
 
Alternativamente, o juízo competente, na apreciação dos processos individuais,
poderá deixar de conceder prisão domiciliar ou liberdade provisória, caso
presentes situações excepcionalíssimas que demonstrem objetivamente a
ausência de risco concreto e objetivo à saúde do detento na hipótese de sua
manutenção no cárcere e que a soltura, mesmo com imposição de medidas
cautelares diversas à prisão (art. 319 do CPP), mostra-se manifestamente
inadequada ao caso concreto e causa demasiado risco à segurança pública.
 
O órgão emissor da decisão no processo individual, em analogia ao art. 316,
parágrafo único, do CPP, deverá reavaliar a presença dos critérios fixados na
presente decisão, a cada 90 dias.
 
A presente medida liminar possui vigência até o fim da situação de emergência
de saúde pública decretada pela autoridade responsável (art. 1º, § 2ª, da Lei
13.979/2020) ou até decisão judicial em sentido contrário.
STF. 2ª Turma. HC 188820 MC-Ref/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em
24/2/2021 (Info 1006).

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