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COMENTÁRIO

BÍBLICO
Adventista
do Sétimo Dia
A BÍBLIA SAGRADA COM COMENTÁRIO
EXEGÉTICO E EXPOSITIVO

Em sete volumes
VOLUME 6

Casa Publicadora Brasileira


Tatuí, SP
Título original em inglês:
The Seventh-day Adventist Bible Commentary

Copyright © da edição em inglês 1953, 1957: Review and Herald, Hagerstown, EUA.
Edição revisada cm 1976, 1978.
Direitos internacionais reservados.

Direitos de tradução epublicação


em língua portuguesa reservados à
Casa Publicadora Brasileira
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Tcl.: (15) 3205-8800 - Fax: (15) 3205-8900
Atendimento ao cliente: (15) 3205-8888
www.cpb.com.br

Ia edição: 5 mil exemplares


2014

Coordenação Editorial: Vanderlei Dornelcs


Tradução: Rosangela Lira, Fernanda C. de Andrade Souza, Cecília Eller Nascimento,
Lícius O. Lindquist, Rcjane Godinho,
Revisão: Luciana Grubcr
Projeto Gráfico: Fábio Fernandes
Programação Visual: Fábio Fernandes c Renan Martin
Reprodução de Ilustrações: Lívia Haydée, Rogério Chimello
Capa: Levi Gruber

IMPRESSO NO BRASIL / Printedin Brazil

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Comentário bíblico Adventista do Sétimo Dia /


editor da versão em inglês Francis D. Nichol,
editor da versão em português Vanderlei
Dorneles. — Tatuí, SP : Casa Publicadora
Brasileira, 2014. - (Série logos; v. 6)

Título original: The Seventh-Day Adventist


Bible Commentary.
Vários colaboradores
Vários tradutores
ISBN 978-85-345-2039-3

1. Adventistas do Sétimo Dia 2. Bíblia -


Comentários I. Nichol, Francis D., 1897-1966
II. Dorneles, Vanderlei. III. Série.

14-00207 cdd-220.7

índices para catálogo sistemático:


1. Bíblia : Comentários 220.7

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial,


_ ITO^ por qualquer meio, sem prévia autorização escrita do autor e da Editora.
EDITORA AFILIADA

Tipologia: Fairficld LT Std, 10,5/12,6 - 14322/28776


A Epístola de Paulo aos
ROMANOS
A Epístola de Paulo aos
ROMANOS

Introdução
1. Título. Quando Paulo escreveu esta epístola, provavelmente não lhe deu nenhum
título. Foi apenas uma carta que escreveu aos cristãos em Roma. Mas, posteriormente, ela
veio a ser conhecida como “Aos Romanos” (do gr. Pros Rhomaious), título dado nos manus­
critos mais antigos. Posteriormente, os manuscritos ampliaram o título para um mais descri­
tivo “Epístola de Paulo aos Romanos”, que ainda c usado em algumas versões portuguesas.
2. Autoria. A crença de que o apóstolo Paulo é o autor dessa epístola nunca foi seria­
mente questionada. Alguns estudiosos têm sugerido que o cap. 16 pode não ter feito parte
da carta original, mas que compôs outra epístola enviada a Efeso, onde Paulo havia traba­
lhado durante algum tempo (At 19). Essa teoria se baseia, em grande parle, na extensão
da lista de nomes em Romanos 16 e na suposição de que Paulo não poderia ter feito
tantos amigos numa cidade que ainda não tinha visitado. No entanto, uma vez que as
pessoas de todas as partes do império iam a Roma, não é impossível que o apóstolo
tivesse muitos amigos na capital. Além disso, todos os manuscritos mais antigos incluem o
cap. 16 como parte da epístola. Assim, a erudição ortodoxa não questiona a autenticidade
da epístola.
3. Contexto histórico. Parece evidente que a epístola aos Romanos foi escrita durante a
estada de três meses de Paulo em Corinto, na terceira viagem missionária (At 20:1-3). Muitos
estudiosos datam essa visita no inverno de 57/58, mas alguns optam por uma data anterior.
O fato de a epístola ter sido escrita em Corinto é indicado por suas referências a Caio
(Rm 16:23; cf. ICo 1:14), a Erasto (Rm 16:23; cf. 2Tm 4:20) e por seu elogio a Febe. Paulo
descreve Febe como tendo prestado um serviço especial à igreja de Cencreia, porto orien­
tal de Corinto (Rm 16:1).
Na hora de escrever a carta, Paulo estava prestes a voltar para a Palestina, levando uma
contribuição das igrejas na Macedônia e da Acaia. A olerta seria entregue aos cristãos pobres m
em Jerusalém (Rm 15:25, 26; cf. At 19:21; 20:3; 24:17; ICo 16:1-5; 2Co 8:1-4; 9:1, 2). Depois
de concluir essa missão, ele pretendia visitar Roma e, de lá, viajar para a Espanha (At 19:21;
Rm 15:24, 28). Até então, ele não tinha sido capaz de visitar a igreja cristã na capital do
império romano, embora, muitas vezes, tivesse desejado fazê-lo (Rm 1:13; 15:22). Naquele
tempo, ele cria que havia terminado seu trabalho missionário na Ásia e na Grécia (Rm 15:19,
23), e estava ansioso por avançar ao oeste, a fim de fortalecer o trabalho na Itália e introdu­
zir o cristianismo na Espanha (ver AA, 373). A fim de alcançar esse último propósito, Paulo
desejava conseguir o apoio e a cooperação dos cristãos de Roma. Assim, na expectativa de
sua visita, ele escreveu esta carta, descrevendo-lhes em termos claros e fortes os grandes
princípios do evangelho (Rm 1:15; 2:16; ver p. 91-93).
4. Tema. O tema da epístola é a pecaminosidade universal do ser humano e a graça
salvadora de Deus em prover um meio pelo qual os pecadores não só podem ser perdoados,

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COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

mas também restaurados à perfeição e à santidade. Esse “caminho” é a fé em Jesus Cristo, o


Filho de Deus, que morreu, ressuscitou e vive para sempre para nos reconciliar e restaurar.
Quando Paulo escreveu a epístola, sua mente estava repleta de questões levantadas em
suas controvérsias com os judaizantes. Por isso, ele retoma as questões básicas e as res­
ponde numa apresentação abrangente de todo o problema do pecado e o plano de Deus para
atender à emergência. Primeiramente, Paulo demonstra que todos, tanto judeus como gen­
tios, pecaram e permanecem aquém do glorioso ideal de Deus (Rm 3:23). Não há desculpa
para isso, pois ambos os grupos receberam alguma revelação da vontade divina (Rm 1:20).
Portanto, é justo que todos estejam sob condenação. Além disso, todos os pecadores são
incapazes de se livrar dessa situação, pois, em sua condição decaída, é totalmente impos­
sível a eles obedecer à vontade de Deus (Rm 8:7). As tentativas legalistas de obedecer à lei
divina não só estão fadadas ao fracasso, mas também podem ser evidência de uma recusa
arrogante e hipócrita de se reconhecer a fraqueza humana e a necessidade de um Salvador.
Somente o próprio Deus pode fornecer um remédio, e isso Ele fez pelo sacrifício de Seu
Filho. Tudo o que se exige do ser humano caído é que exerça fé, tanto para aceitar as provi­
sões constituídas para cobrir seu passado pecaminoso como para aceitar o poder oferecido
para levá-lo a uma vida de retidão.
Este é o evangelho de Paulo, desenvolvido na primeira parte da epístola. Os capítulos
restantes tratam da aplicação prática do evangelho a alguns problemas que envolvem o povo
escolhido e os membros da igreja cristã.

5. Esboço.

I. Introdução, 1:1-15.
A. Saudação, 1:1-7.
B. Explicações pessoais, 1:8-15.
II. Exposição doutrinária, 1:16-11:36.
A. A doutrina da justificação pela fc, 1:16-5:21.
1. Justiça alcançada pela fé, 1:16, 17.
2. A necessidade universal da justiça, 1:18-3:20.
a. O fracasso dos gentios, 1:18-32.
b. O fracasso dos judeus, 2:1-3:20.
3. Justiça oferecida cm Cristo, 3:21-31.
468

► 4. Justificação pela fé, uma doutrina do AT, 4:1-25.


5. Os benditos efeitos da justificação, 5:1-11.
6. Os efeitos da justificação contrastados com os resultados da queda de Adão, 5:12-21.
B. A doutrina da santificação pela fé, 6:1-8:39.
1. Morte para o pecado e ressurreição para uma nova vida, 6:1-11.
2. Libertação da escravidão da lei e do pecado, 6:12-23.
3. A relação da lei com o pecado, 7:1-13.
4. O conflito entre a carne e o espírito, 7:14-25.
5. A vida cheia do Espírito, 8:1-39.
C. A eleição de Israel, 9:1-11:36.
1. Tristeza de Paulo pela rejeição de Israel, 9:1-5.
2. A justiça da rejeição, 9:6-13.

510
ROMANOS 1:1

3. A vontade de Deus não deve ser questionada, 9:14-29.


4. A falta de fé por parte de Israel, causa da rejeição, 9:30-10:21.
5. A restauração definitiva de Israel, 11:1-36.
III. Aplicação prática da doutrina da justificação pela fé, 12:1-15:13.
A. O autossacrifício do cristão, 12:1, 2.
B. O cristão como membro da igreja, 12:3-8.
C. Relação do cristão com os outros, 12:9-21.
D. Relação do cristão com o Estado, 13:1-7.
E. Uma dívida de amor do cristão, 13:8-10.
F. A proximidade da segunda vinda, 13:11-14.
G. A necessidade de tolerância mútua entre os cristãos, 14:1—15:13.
IV. Conclusão, 15:14-16:27.
A. Explicações pessoais, 15:14-33.
B. Saudações a várias pessoas, 16:1-16.
C. Advertência contra os falsos mestres, 16:17-20.
D. Saudações dos companheiros e do secretário de Paulo, 16:21-23.
E. Bênção e doxologia, 16:24-27.

Capítulo 1
1 Paulo atesta seu chamado aos romanos e 9 deseja visitá-los. 16 Ele apresenta
a justiça do evangelho. 18 Deus abomina todo tipo de pecado.
21 Os pecados dos gentios.

1 Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para 8 Primeiramente, dou graças a meu Deus,
ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, mediante Jesus Cristo, no tocante a todos vós,
2 o qual foi por Deus, outrora, prometido porque, em todo o mundo, é proclamada a
469

por intermédio dos Seus profetas nas Sagradas vossa fé. •«


Escrituras, 9 Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito,
3 com respeito a Seu Filho, o qual, segundo no evangelho de Seu Filho, é minha testemunha
a carne, veio da descendência de Davi de como incessantemente faço menção de vós
4 e foi designado Filho de Deus com poder, 10 em todas as minhas orações, suplicando
segundo o espírito de santidade pela ressurreição que, nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me
dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor, ofereça boa ocasião de visitar-vos.
5 por intermédio de quem viemos a receber 11 Porque muito desejo ver-vos, a fim de re­
graça e apostolado por amor do Seu nome, para a partir convosco algum dom espiritual, para que
obediência por fé, entre todos os gentios, sejais confirmados,
6 de cujo número sois também vós, chama­ 12 isto é, para que, em vossa companhia, re­
dos para serdes de Jesus Cristo. ciprocamente nos confortemos por intermédio
7 A todos os amados de Deus, que estais em da fé mútua, vossa e minha.
Roma, chamados para serdes santos, graça a vós 13 Porque não quero, irmãos, que ignoreis
outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do que, muitas vezes, me propus ir ter convosco
Senhor Jesus Cristo. (no que tenho sido, até agora, impedido), para

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1:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

conseguir igualmente entre vós algum fruto, 24 Por isso, Deus entregou tais homens à
como também entre os outros gentios. imundícia, pelas concupiscências de seu próprio
14 Pois sou devedor tanto a gregos como a coração, para desonrarem o seu corpo entre si;
bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes; 25 pois eles mudaram a verdade de Deus
15 por isso, quanto está em mim, estou pron­ em mentira, adorando e servindo a criatura em
to a anunciar o evangelho também a vós outros, lugar do Criador, o qual é bendito eternamente.
em Roma. Amém!
16 Pois não me envergonho do evangelho, por­ 26 Por causa disso, os entregou Deus a pai­
que é o poder de Deus para a salvação de todo aque­ xões infames; porque até as mulheres mudaram o
le que crê, primeiro do judeu c também do grego; modo natural de suas relações íntimas por outro,
17 visto que a justiça de Deus se revela no contrário à nature/.a;
evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo 27 semelhantemente, os homens também,
viverá por fé. deixando o contato natural da mulher, se in­
ISA ira de Deus se revela do céu contra toda flamaram mutuamente em sua sensualidade,
impiedade e perversão dos homens que detêm a cometendo torpeza, homens com homens, e re­
verdade pela injustiça; cebendo, em si mesmos, a merecida punição do
19 porquanto o que de Deus se pode conhecer é seu erro.
manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. 28 E, por haverem desprezado o conhecimen­
20 Porque os atributos invisíveis de Deus, to de Deus, o próprio Deus os entregou a uma
assim o Seu eterno poder, como também a Sua disposição mental reprovável, para praticarem
própria divindade, claramcntc se reconhecem, coisas inconvenientes,
desde o princípio do mundo, sendo percebidos 29 cheios de toda injustiça, malícia, avareza
por meio das coisas que íoram criadas. Tais ho­ e maldade; possuídos de inveja, homicídio, con­
mens são, por isso, indesculpáveis; tenda, dolo e malignidade; sendo difamadores,
21 porquanto, tendo conhecimento de Deus, 30 caluniadores, aborrecidos de Deus, in­
não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram gra­ solentes, soberbos, presunçosos, inventores de
ças; antes, se tornaram nulos em seus próprios ra­ males, desobedientes aos pais,
ciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. 31 insensatos, pérfidos, sem afeição natural
22 Inculcando-se por sábios, tornaram-se e sem misericórdia.
loucos 32 Ora, conhecendo eles a sentença de Deus,
23 e mudaram a glória do Deus incorruptível de que são passíveis de morte os que tais coisas
em semelhança da imagem de homem corruptí­ praticam, não somente as fazem, mas também
vel, hem como de aves, quadrúpedes e répteis. aprovam os que assim procedem.

1. Paulo. Anteriormente chamado usa este termo para expressar seu relaciona­
Saulo (sobre o significado desses nomes, ver mento com Cristo (G1 1:10; Fp 1:1; Tt 1:1). A pa­
a Nota Adicional a Atos 7). Paulo seguiu um lavra envolve a ideia de pertencer a um senhor e
antigo costume quando inseriu seu nome de prestar serviço como seu escravo. Paulo en­
como autor em suas saudações iniciais. tendia que os cristãos pertencem a Cristo por
Alguns exemplos desse costume são encon­ compra (iCo 6:20; 7:23; Ef 1:7; lPe 1:18, 19) c
trados em: Joseío, Antiguidades xvi.6.3, 4; aplicava a palavra doulos aos cristãos (Rm 6:22;
Atos 23:26; e 1 Macabeus 11:30, 32. lCo 7:22; Ef 6:6; cf. lPe 2:16; Ap 19:2, 5).
Servo. Do gr. doidos, literalmente, “alguém Não devemos nos envergonhar desse
título. Precisamos reconhecer que fomos «
470

obrigado”, portanto, “servo” ou “escravo”. Paulo

512
ROMANOS 1:4

adquiridos por Cristo e, por isso, nos entre­ do Messias, mas também estava implícita no
gamos à Sua vontade. Esse serviço absoluto significado de todo o AT. O evangelho não foi
constitui a verdadeira liberdade (ICo 7:22; um adendo da parte de Deus, nem foi uma
G1 4:7), pois, quanto mais somos submissos mudança abrupta em Seu propósito constan­
à autoridade de Cristo, mais livres nos tor­ temente revelado ao ser humano. Foi o cum­
namos da escravidão dos homens (ICo 7:23). primento de Sua promessa feita aos nossos
Jesus Cristo. Sobre o significado desses primeiros pais (ver com. de Gn 3:15) e a cada
títulos, ver com. de Mt 1:1. nova geração.
Apóstolo. Do gr. apostolos, literalmente, Por intermédio dos Seus profetas.
“enviado”, portanto, “mensageiro”, “enviado Não foram só os escritores dos livros pro­
em uma missão especial”. No NT, o título féticos do AT, mas também outros, como
é geralmente restrito àqueles que foram Moisés (Dt 18:18), Samuel (At 3:24) e o sal-
selecionados e instruídos pessoalmente por mista (SI 40:7) que profetizaram o evange­
Cristo, ou seja, os doze (Lc 6:13), assim como lho (cf. Hb 1:1).
por Paulo, que também foi chamado dircta- Sagradas Escrituras. Ao longo da epís­
mente pelo Senhor (At 9:15; 22:14, 15; 26:16, tola, Paulo se refere a passagens do AT para
17; G1 1:1) e instruído por Ele (G1 1:11, 12). mostrar que o evangelho estava em plena
Separado. Do gr. aphorizõ, “marcado por harmonia com os oráculos de Deus já reco­
um limite”; a palavra descreve a separação nhecidos (ver At 26:22, 23). Paulo estava
entre o povo de Deus e o mundo (Lv 20:26, ainda mais ansioso para provar a seus com­
LXX), a separação final entre os justos e os patriotas que o cristianismo estava edificado
ímpios (Mt 13: 49; 25:32) e a separação dos sobre o fundamento dos profetas e escritos
apóstolos para tarefas especiais (At 13:2). sagrados judaicos.
E uma explicação do chamado apostólico de 3. Com respeito a Seu Filho. Tam­
Paulo, indicando que ele foi selecionado do bém é possível conectar esta frase com
mundo, dentre seus companheiros, e consa­ “as Sagradas Escrituras” ou com “outrora,
grado ao ministério do evangelho. prometido”.
Evangelho. Do gr. euaggelion (ver com. Nosso Senhor Jesus Cristo (NTLH).
de Mc 1:1). A palavra “evangelizar” vem a par­ No grego e na ARA, estas palavras não estão
tir das mesmas duas raízes. Um evangelista é aqui no v. 3, mas no final do v. 4 (ver com. ali).
aquele que conta as boas-novas. Na carta aos Veio. Do gr. ginomai, “tornar-se”. A pala­
Romanos, Paulo cumpre sua missão de tor­ vra pode ter o significado de “nascer” (ver
nar conhecida uma boa notícia sobre Deus. G1 4:4; ver com. de Jo 8:58).
Tyndale, em 1525, entendeu que a frase “para Segundo a carne. Ou seja, conforme
o evangelho” significa “pregar o evangelho”. Sua natureza humana (Rm 9:5).
Ele tem sido seguido nessa interpretação Descendência de Davi. Os judeus
por um bom número de tradutores moder­ estavam esperando que o Messias viesse da
nos. Outros preferem deixar a frase ambígua. linhagem real (Mt 22:42; Jo 7:42), como pre­
O contexto parece indicar que, aqui, Paulo visto (Is 11:1; Jr 23:5; ver com. de Mt 1:1).
revela o propósito de sua vocação e separa­ 4. Designado. Do gr. horizõ, “marcar
ção. Ele foi chamado para ser apóstolo, sepa­ por um limite”, portanto, “designar”, “deter­
rado para proclamar as boas-novas de Deus minar”, “definir”. A palavra também é tra­
acerca de Seu Filho (ver com. dc Rm 1:3). duzida como “ordenado” (At 10:42; 17:31).
2. Prometido. Essa promessa foi feita Horizõ é a raiz da palavra composta grega
nas passagens do AT que prediziam a vinda traduzida como “separado”, em Romanos 1:1.

513
1:5 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Com poder. Ou, “em poder”. Estas pala­ Paulo, finalmente, identifica o Filho de Davi
vras podem estar conectadas, funcionando e Filho de Deus com o Jesus de Nazaré,
como advérbio com “designado”, ou, como já reconhecido pelos cristãos como Cristo
adjetivo, ligadas a “Filho de Deus”. Tomada e Senhor.
como advérbio, a passagem significa que Esses nomes estavam cheios de signifi­
Jesus foi declarado, de forma poderosa ou cado para os judeus. “Jesus”, transliteração
miraculosa, ser o Filho de Deus, pela ressur- grega do aramaico Yeshua, “Josué”, significa
reição. Tomada como um adjetivo, a passa­ “Yahweh é salvação” (ver com. de Mt 1:1).
gem remete ao estado de exaltação de Cristo “Cristo” é uma transliteração do equiva­
como “Filho de Deus com poder”, na ressur­ lente grego do heb. Mashiach, “Messias”,
reição e depois dela. Ambas as interpreta­ o “Ungido” (ver com. de Mt 1:1). “Senhor”,
ções estão em harmonia com o restante das como título de um divino governante e mes­
Escrituras (cf. Ef 1:19-21). Nenhuma des­ tre, já era familiar por ter sido usado na LXX
sas interpretações dá a entender que Jesus (ver com. de Jo 20:28).
não tinha poder ou qualidade divina antes 5. Por intermédio de quem. Paulo
da ressurreição. afirma que sua missão apostólica originava-
Espírito de santidade. Alguns veem se do próprio Cristo, não de homens.
aqui uma referência ao Espírito Santo e Viemos a receber. Provavelmente, o
citam Romanos 8:11, em apoio a essa inter­ plural é usado para o singular, prática que
pretação. No entanto, o Espírito nunca é não é incomum para pessoas em posição de
designado dessa maneira. Outros interpre­ autoridade. No entanto, também é possível
tam a frase como contrapartida de “segundo que Paulo inclua aqui os demais apóstolos.
a carne” (Rm 1:3). Observam que, segundo a Graça e apostolado. Muitos intérpre­
carne, Jesus era descendente de Davi, mas, tes tomam estes dois termos em conjunto,
de acordo com o espírito de santidade, Ele como equivalente à graça, ou favor, do apos­
também era Filho de Deus. tolado. Paulo fala muitas vezes de seu cha­
As implicações teológicas dessa passa­ mado ao apostolado como a “graça que foi
gem têm sido discutidas pelos intérpretes. dada” por Deus (Rm 15:15, 16; G1 2:7-9;
No entanto, não parece que, aqui, Paulo Ef 3:7-9). Outros, porém, preferem entender
estava preocupado com o contraste entre a que “graça” se refere especialmente à graça
humanidade e a divindade de Cristo, mas pessoal da salvação, que Paulo aceitou pela
em como evidenciar que Jesus é tanto o primeira vez na estrada de Damasco (At 9:1-
prometido Messias judeu como o Filho de 16; cf. 15:10; sobre os significados do termo
Deus. “graça”, ver com. de Rm 3:24).
Dos mortos. Paulo apresenta a ressur­ Para o apóstolo, sua conversão e cha­
reição de Jesus como prova de filiação divina. mado ao apostolado, que ocorreram quase
Jesus afirmou repetidamente que era o Filho simultaneamente, devem ter parecido um
de Deus (Mt 27:43; Jo 5:17-30; 10:36) e previu só evento. De “blasfemo, e perseguidor, e
que ressuscitaria ao terceiro dia (Mt 12:40; insolente” (lTm 1:13), ele foi chamado para
Jo 2:19, 21). Paulo, então, enfatiza que Jesus pregar “a fé que, outrora, procurava des­
foi provado como Filho de Deus, pelo cum­ truir” (G1 1:23). Não é de admirar que Paulo
primento de Sua ressurreição miraculosa, pudesse exclamar: “Pela graça de Deus, sou
como previsto. o que sou” (iCo 15:10), não apenas um cris­
No grego, as palavras “Jesus Cristo, tão convertido, mas também um apóstolo
nosso Senhor” (v. 3) ocorrem no final do v. 4. comissionado.

514
ROMANOS 1:7

Obediência por fé. A frase grega assim expresse aqui sua autoridade para enfrentar
traduzida ocorre novamente em Romanos os cristãos em Roma.
16:26. Esta é a tradução mais literal, pois o Chamados para serdes de Jesus Cristo.
artigo definido não está presente no grego. “Os chamados de Jesus Cristo” (KJV). Isso
Na ausência do artigo, “fé” não é, provavel­ pode significar “os chamados que pertencem
mente aqui, equivalente a um corpo de dou­ a Jesus Cristo”, “chamados por Jesus Cristo”
trina a ser recebido e crido (ver At 6:7; Jd 3, ou “chamados para serdes de Jesus Cristo”.
em que o artigo não ocorre). Fé representa 7. Todos [...] que estais em Roma. Por
o hábito e a atitude de espírito pelos quais o estas palavras, Paulo dá a entender, eviden­
cristão mostra lealdade e devoção a Cristo, temente, todos os cristãos em Roma (v. 8).
assim como sua dependência dEle. Essa fé Amados de Deus. Deus ama a todos
produz obediência. (Jo 3:16; Ef 2:4, 5), mas, para os que foram
“Obediência de fé” pode ser entendida reconciliados com Deus pela morte de
como significando tanto a obediência à fé Cristo, foi removida a barreira que os sepa­
como um princípio controlador quanto a rava do amor de Deus (Rm 5:10; ver com.
obediência que caracteriza ou brota da fé. de Jo 16:27).
De qualquer maneira, o fato significativo é Santos. Do gr. hagioi, literalmente, “os
que Paulo associa a fé à obediência. A grande santos”. O termo é comum no NT para des­
mensagem da epístola aos Romanos é que a crever os cristãos (At 9:32, 41; 26:10; Ef 1:1;
justiça vem pela fé (Rm 3:22; etc.) Essa é a etc.); não representa necessariamente pes­
PVboa notícia que Paulo foi chamado a divul­ soas que já são perfeitas em santidade
gar. Ele considera seu apostolado como uma (cf. ICo 1:2; cf. lCo 1:11), mas aqueles
incumbência de levar a obediência que brota que podem ser considerados separados do
da fé a todas as nações. mundo e consagrados a Deus, pela profis­
Por amor do Seu nome. Ou seja, prova­ são e pelo batismo.
velmente, “por causa do Seu nome”. O obje­ A ideia básica de hagios é “separado
tivo final da missão de Paulo era promover o do uso comum para o sagrado”. Era nesse
conhecimento e a glória de Cristo. O nome sentido que o termo hebraico equivalente,
de Cristo seria engrandecido pela obediência qodesh ou qadosh, era utilizado no AT e apli­
que provém da fé nEle. Paulo estava disposto cado, por exemplo, ao tabernáculo e seus
a arriscar a vida por uma causa (At 15:26; móveis (Ex 40:9). Era usado com respeito ao
21:13; cf. At 9:16). povo judeu como nação (Ex 19:5, 6; Dt 7:6),
Todos os gentios. A palavra “gen­ não que eles fossem, individualmente, per­
tios” se refere aos não judeus e pode apon­ feitos e santos, mas que eram distintos das
tar para o próprio apostolado especial de outras nações e separados para o serviço
Paulo (ver At 22:21; G1 1:16; 2:7-9; Ef 3:1, 8). do verdadeiro Deus, ao passo que as outras
Aqui, no entanto, a frase pode refletir a nações eram dedicadas à adoração de ído­
incumbência original que Jesus deu aos los. Assim, o termo é usado aqui em relação
discípulos (Mt 28:19, 20; Mc 16:15, 16) e a aos cristãos de Roma, que foram chamados
ordem a Paulo, no momento de sua conver­ para ser separados das demais pessoas e de
são (At 9:15), de levar o evangelho a toclo o outras formas de vida e consagrados ao ser­
mundo. viço de Deus.
6. De cujo número. Isto é, dentre todas Graça. Do gr. charis, “boa vontade”,
as nações, ou gentios, em favor de quem não é a palavra comum de saudação usada
ele recebeu sua designação. Talvez Paulo em uma carta grega. O termo comum era

515
1:8 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

chairein, que manifestava o desejo de saúde suas epístolas, suas saudações são mais do
e prosperidade. Chairein ocorre no NT, na que uma mensagem de cortesia. Foram
carta de Lísias ao governador romano Félix transformadas pelo amor cristão em oração
(At 23:26, NTLH) e na epístola de Tiago pela bênção celestial.
(Tg 1:1). Em cada um desses casos, é tradu­ Senhor Jesus Cristo. Jesus e o Pai são
zida como “saudações”. Chairein, usada em colocados juntos, sendo ambos considerados
2 João 10 (“dar as boas-vindas”), indica que a fonte de graça e paz. Essa c uma prova do
os cristãos estavam acostumados a saudar reconhecimento de Paulo sobre a divindade
uns aos outros dessa maneira (ver Mt 26:49; de Cristo (cf. Fp 2:6). No NT, Jesus é men­
27:29; 28:9; Mc 15:18; Lc 1:28; jo 19:3, em cionado como Aquele que trouxe paz ao ser
que chaire e chairete são traduzidas como humano (Jo 14:27; 16:33; At 10:36; Rm 5:1;
“salve“). Ef 2:17).
Mas, em vez de chairein, “saudações”, com 8. Dou graças. Paulo inicia muitas de
sua ideia predominante de prosperidade tem­ suas cartas agradecendo a Deus em favor
poral, Paulo usou charis, “graça”, uma palavra de seus leitores (ver lCo 1:4; Fp 1:3; Cl 1:3;
que começava a assumir um sentido exclusi­ lTs 1:2; 2Ts 1:3; 2Tm 1:3-5; Fm 4) e, às
vamente cristão (ver com. de Rm 3:24). vezes, expressa seu desejo de vê-los (Fp 1:8;
Paz. A forma hebraica comum de sauda­ 2Tm 1:4). Paulo reconhecia e era grato pelos
ção era shalom, “paz”, ou shalom leka, “paz a avanços já alcançados por outros no cami­
vós” (ver Gn 29:6; 43:23; Dn 10:19; Lc 10:5, nho cristão, embora pudessem necessi­
6; etc.). Jesus cumprimentou dessa forma tar de censura (ver lCo 1:4, 5, 11). Dessa
os discípulos reunidos após a ressurreição forma, ele encorajava os cristãos e conquis­
(Jo 20:19, 26). tava sua atenção e simpatia às instruções
A vida, morte e ressurreição de Cristo subsequentes.
deram novo significado para esses dois ter­ Meu Deus. Paulo enfatiza a natureza
mos familiares antigos. “Graça” passou a ser pessoal de sua relação com Deus, como
entendida como o amor redentor de Deus em cristão e apóstolo (cf. JCo 1:4; Fp 1:3; 4:19;
Cristo (ver 2Tm 1:9). “Paz” tornou-se a paz com Fm 4).
Deus por meio da redenção (Rm 5:1). Com Mediante Jesus Cristo. Por ação de
esse significado cristão, “graça” e “paz” se tor­ graças, bem como pela oração, podemos
naram a saudação habitual de Paulo em todas nos aproximar de Deus por meio de Cristo
as suas epístolas (lCo 1:3; 2Co 1:2; Cl 1:3; (cf. Ef 5:20; Hb 13:15).
Ef 1:2; Fp 1:2; Cl 1:2; lTs 1:1; 2Ts 1:2; Fm 3; cf. Em todo o mundo. Isso pode ser o
lTm 1:2; 2Tm 1:2; Tt 1:4). Pedro e João tam­ equivalente ao nosso “em toda parte” (ver
bém usaram saudações semelhantes (lPe 1:2; com. de Jo 12:19; cf. At 17:6; Cl 1:6) ou pode
2Pe 1:2; 2Jo 3; Ap 1:4). ser entendido como se representasse o impé­
Deus, nosso Pai. Como criador, Deus é o rio romano. Uma vez que Roma era a capital,
pai de todos (At 17:28, 29), mas especialmente e os viajantes passavam constantemente por
473

dos cristãos, que nasceram de Deus (Jo 1:12, ela para as várias partes do império, é fácil
13; ljo 5:1; cf. ljo 3:1, 2), que foram adotados ver como as notícias sobre os cristãos roma­
em Sua família (Rm 8:15) e que estão se tor­ nos podería se espalhar para “lodo o mundo”.
nando semelhantes a Ele (Mt 5:43-48). Essa notícia era recebida com interesse pelos
A saudação de Paulo é realmente uma membros das outras igrejas cristãs por todo
oração para que Deus conceda graça e paz o império. Paulo pode ter pensado nestes,
aos crentes de Roma. Assim, em todas as em particular, como os que proclamavam a

516
RO iM AN OS 1:12

fé e a obediência de seus companheiros cris­ a prática de Paulo em seu ministério (ver


tãos em Roma. At 16:7, 9, 10), e somos instruídos a fazer o
Vossa fé. Ou seja, “vossa lealdade e mesmo (Tg 4:15). Pela vontade de Deus, o
devoção a Cristo, vosso cristianismo”. Um pedido de Paulo para visitar Roma foi con­
bom relatório semelhante é mencionado em cedido mais tarde, mas não como o apóstolo
Romanos 16:19: “Pois a vossa obediência é esperava. Ele chegou lá como prisioneiro em
conhecida por todos”. cadeias (At 28:14-16, 20).
9. Deus [...] é minha testemunha. Só Ofereça boa ocasião. Ou, “seja bem-
Deus poderia conhecer a veracidade dessa sucedido”. O significado literal é “uma boa
declaração, e o apóstolo apela a Ele como viagem”, mas, nos tempos do NT, a expres­
testemunha (cf. 2Co 1:23; 11:31; G1 1:20; são era usada costumeiramente para desig­
Fp 1:8; lTs 2:5, 10). Paulo escreveu sua carta nar prosperidade em geral (ver ICo 16:2;
em Corinto, onde pouco antes sua sinceri­ 3Jo 2).
dade fora questionada, especialmente por 11. Dom. Do gr. carisma, “dom de favor
causa do adiamento de uma visita prome­ ou graça”, a partir da palavra charis, “graça”.
tida (2Co 1:15-24). Então, ele estava pres­ Este dom espiritual que Paulo ansiava com­
tes a partir para Jerusalém, aparentemente partilhar pessoalmente com os crentes de
dando as costas à igreja de Roma. E possível Roma era a bênção do incentivo e cresci­
que sua sinceridade fosse novamente posta mento na fé cristã (v. 12).
em dúvida. Podia-se até suspeitar de que Confirmados. Ou, “fortalecidos”. Paulo
ele tivesse vergonha de pregar o evangelho não diz: “para que eu possa fortalecê-los”. Ele
em Roma. No momento em que Paulo não sabe que é apenas um instrumento por meio
estava em posição de provar o contrário, ele do qual o próprio Deus iria fortalecer e revi­
só podia afirmar seu amor, suas muitas ora­ gorar a vida espiritual dos cristãos romanos
ções, seu sincero desejo de vê-los e convidar (cf. Rm 16:25; 2Ts 2:17).
o Deus onisciente como testemunha de que 12. Isto é. Com toda humildade e
ele dizia a verdade (Rm 1:9-16). cortesia cristãs, Paulo se apressa a corri­
Em meu espírito. O serviço de Paulo gir qualquer impressão que possa ter dado
não era mais uma função cerimonial, mas pela declaração do v. 11, de que seu obje­
espiritual, devoção própria a serviço de Deus tivo seria apenas transmitir algo, cabendo
na pregação do evangelho de Cristo. aos cristãos romanos apenas receber. Não
Incessantemente. Paulo mostrava preo­ era sua intenção ter “domínio sobre a fé”
cupação semelhante por outras igrejas (cf. daquela comunidade (2Co 1:24). Ele reco­
Ef 1:15, 16; Fp 1:3, 4; Cl 1:3, 4; lTs 1:2, 3; 2:13). nhecia que seus leitores também eram cris­
O progresso do evangelho em todos os lugares tãos e esperava ser beneficiado pela partilha
era seu único interesse. de uma “fé mútua”.
Faço menção. Paulo nunca tinha visto Confortemos. Ou, “incentivemos”. O v. 12
a comunidade cristã de Roma, mas não se parece ser mais do que uma mera expressão
esquecia dela em suas orações. de tato e cortesia. O apóstolo experiente se
10. Nalgum tempo. Ou, “finalmente”. une aos crentes em Roma como alguém que
Havia muito tempo, Paulo desejava visitar também necessita ser incentivado. A per­
Roma (v. 13). feição cristã não é para ser encontrada em
Pela vontade de Deus. Deus conhece reclusão ou isolamento. Ela é desenvolvida
o fim desde o princípio, e é sempre bom se quando a fé dos cristãos é incentivada e esti­
submeter a Sua vontade e direção. Essa era mulada pelos companheiros fiéis.

517
1:13 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

13. Não quero [...] que ignoreis. A ex­ metrópole, viviam representantes de todas as
pressão usual de Paulo, quando deseja cha­ nações e níveis de cultura e educação. Paulo
mar a atenção para um ponto importante (ver declara sua dívida de pregar o evangelho a
Rm 11:25; iCo 10:1; 12:1; 2Co 1:8; 1Ts4:13). todo o mundo gentílico, independentemente
Impedido. Isto é, obstruído ou estor­ de raça e cultura.
vado. Paulo dá mais uma prova da since­ Tanto a sábios. O evangelho tem uma
ridade de seu desejo de visitar a igreja de mensagem para todos. Os filósofos estavam
Roma. Visitá-los tinha sido não só seu desejo, inclinados a desprezar a multidão ignorante.
mas seu objetivo (At 19:21). Contudo, ele Os escribas judeus consideravam amaldi­
tinha sido impedido de fazer a viagem (Rm çoados aqueles que não conheciam a lei
15:22; cf. lTs 2:18; At 16:6, 7). (Jo 7:49). Mas o evangelho é para todas as
Conseguir [...] algum fruto. Paulo pessoas. Na verdade, parece ter sido mais
esperava colher algum fruto entre eles, de prontamente recebido primeiro pelas pes­
pessoas levadas ao conhecimento de Cristo soas comuns (ICo 1:26-29). Nem os “sábios”
ou ao aumento de fé e boas obras. Jesus deveriam ser esquecidos. Os gregos se orgu­

475
tinha orientado Seus discípulos a “ir e dar lhavam de sua sabedoria e nela confiavam <
fruto”, na própria vida e na vida de outros (ICo 1:22). No entanto, o evangelho era des­
(Jo 15:16; cf. Jo 4:36). “Fruto” é uma figura tinado a eles também. O próprio Paulo era
de linguagem comum no NT. Paulo a utiliza muito educado. As pessoas podem diferir em
para representar os bons e os maus resulta­ língua, cultura e inteligência, mas o evange­
dos (Rm 6:21, 22; 7:4, 5; Gl 5:22; Fp 1:22; lho é para todos. A relação que os homens
4:17; Cl 1:6). têm para com Cristo é mais profunda do que
Gentios. Ou, “nações” (ver com. do v. 5). as distinções nacionais e pessoais.
As palavras “entre vós [...] também entre os 15. Quanto está em mim. Trata-se
outros gentios” sugerem que a igreja de Roma de uma expressão idiomática grega difícil.
era predominantemente gentílica. Muitos intérpretes entendem que a primeira
14. Devedor. Paulo sentia que “pesava” parte deste versículo significa “no que me
sobre ele a “obrigação” de pregar o evangelho diz respeito, e até onde tiver essa oportuni­
(ICo 9:16). Esse sentimento da obrigação de dade, estou pronto a pregar o evangelho a
tornar conhecido o evangelho, tanto quanto vós também”.
possível, a todas as nações da Terra pode Em Roma. Paulo já havia pregado nas
ter sido em parte devido à sua incumbência grandes cidades de Efeso, Atenas e Corinto.
especial para os gentios (At 9:15; Rm 11:13). Ele estava ansioso para proclamar o evange­
Porém, a mesma obrigação repousa sobre os lho na capital do mundo mediterrâneo.
cristãos de todos os lugares, que receberam 16. Não me envergonho. Os judeus
as bênçãos do conhecimento da salvação (ver consideravam Paulo um apóstata. Ele havia
MDC, 135). sido desprezado e perseguido entre os gen­
Tanto a gregos. Paulo adota a divisão tios. Havia sido expulso de cidade em cidade
convencional grega de toda a humanidade e tinha sido considerado “lixo do mundo” e
em gregos e não gregos. Os gregos consi­ “escória de todos” (ICo 4:13). Ele estava bem
deravam como bárbaras todas as pessoas consciente de que a palavra da cruz é “lou­
que falavam línguas estrangeiras. A expres­ cura” para os gregos e “escândalo” para os
são não é necessariamente de reprovação. judeus (ICo 1:23). Mas, por estar tão con­
A distinção é principalmente de língua e de vencido da veracidade do evangelho e por ter
raça (ver ICo 14:11). Em Roma, a grande vivido tão plenamente sua bênção e poder,

518
ROMANOS 1:17

não só se orgulhava do evangelho, mas tam­ grega de acordo com a nacionalidade e


bém exaltava a cruz de Cristo, que era o que cultura (ver com. Rm 1:14.).
mais ofendia a muitos (G1 6:14). 17. A justiça de Deus. Pode-se enten­
De Cristo (ACF). Evidências textuais der que essa frase se refere: (1) à própria jus­
(cf. p. xvi) atestam que estas palavras devem tiça de Deus, seja a justiça que vem de Deus,
ser omitidas. No entanto, a omissão não ou a que é aceitável a Ele; ou (2) à forma
muda o significado da passagem. de restituir o ser humano à justiça de Deus.
O poder de Deus. O evangelho é a Parece que, nesta declaração que resume o
maneira pela qual Deus exerce Seu poder grande tema da epístola, Paulo usa o termo
para a salvação. Onde quer que o evangelho “justiça de Deus” num sentido geral e abran­
encontre corações crentes, ele é um poder gente. O evangelho revela a justiça e a per­
divino pelo qual são removidos todos os feição de Deus (Rm 3:26). Revela o tipo de
obstáculos para a redenção da humanidade. justiça que vem de Deus e como pode ser
Paulo afirmava essa realidade, levando em recebido pelo ser humano (Mt 5:20; Fp 3:9;
conta sua experiência. Ele sentia esse “poder ver com. de Rm 4:3-5).
de Deus” em sua vida e testemunhava de seu Revela. Ou, “está sendo revelada”. O tem­
efeito sobre os outros (ICo 1:18, 24; 2:1-5). po presente indica uma ação contínua. A jus­
Que crê. O evangelho é para todos tiça de Deus foi revelada especialmente na
(iTm 2:4), mas é “o poder de Deus para a sal­ morte de Cristo (Rm 3:21-26), mas a revela­
vação” apenas para aqueles que voluntaria­ ção é repetida na proclamação do evangelho
mente o aceitam. Essa aceitação voluntária é e na experiência espiritual de cada pessoa
a fé (ver Jo 3:16, 17). que ouve e crê no evangelho (G1 1:16). O ser
Primeiro do judeu. Paulo sempre situa humano, sem a ajuda divina, jamais pode­
os judeus em primeiro lugar, no privilégio ría conceber ou atingir essa justiça divina
e na responsabilidade (Rm 2:9, 10). A eles por sua própria razão e filosofia. A justiça
haviam sido confiados os oráculos de Deus de Deus é uma revelação dEle.
(Rm 3:1, 2). Eles tinham a lei e os serviços Nele (ARC). Ou seja, no evangelho.

476
típicos do templo. O Messias tinha vindo por De fé em fé. Comparar com “de glória
meio deles (Rm 9:5). Era mais que natural em glória” (2Co 3:18) e “de força em força”
que o evangelho fosse pregado a eles, em pri­ (SI 84:7). A justiça de Deus é recebida pela fé
meiro lugar. De fato, essa foi a ordem pela e, quando recebida, resulta em uma fé sem­
qual o evangelho foi proclamado ao mundo pre crescente. Conforme a fé é exercitada,
(At 13:46; cf. Mt 10:5, 6; 21:43; Lc 24:47; somos capazes de receber cada vez mais da
At 18:6). Em seu ministério, Paulo costu­ justiça de Deus, até que a fé se torne uma
mava iniciar seu trabalho pelas sinagogas atitude permanente em relação a Ele.
(At 17:1, 2; 18:4, 6; 19:8). Um de seus pri­ Como está escrito. Aqui, como no v. 2
meiros atos após a prisão em Roma foi o de e em muitas outras passagens da epístola,
apresentar o evangelho aos líderes judeus Paulo demonstra que a mensagem do evan­
de lá (At 28:17, 23). gelho está em harmonia com os ensinamen­
Grego. Do gr. hellên, aqui equivalente tos do AT.
a “gentio” (ver Rm 2:9, 10; 3:9; ver tam­ O justo viverá por fé. Ou, “aquele que
bém com. de Jo 7:35). “Judeu e grego” era pela fé é justo viverá”. A expressão “pela fé”
a designação judaica de toda a humani­ pode ser conectada com “o justo” ou com
dade, de acordo com a religião (ver At 14:1; “viverá”. A citação é de Habacuque 2:4.
ICo 10:32). “Gregos e bárbaros” era a divisão Durante a invasão dos caldeus, Habacuque

519
1:18 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

foi confortado com a ccrtcza dc que o justo de misericórdia, “afastou Deus então deles
estaria a salvo, por sua fé e confiança em a proteção, retirando o poder com que res­
Deus (ver com. de Hc 2:4). Um significado tringia Satanás e seus anjos, de maneira que
semelhante pode ser notado no uso que a nação ficou sob o controle do chefe que
Paulo fez da citação em Romanos 1:17. A pes­ haviam escolhido” (CC, 28).
soa justa não viverá na dependência de suas Quando a ira de Deus contra o pecado
próprias obras nem de seus méritos, mas pela caiu sobre Cristo como nosso substituto, foi
confiança e fé em Deus. a separação de Seu Pai que Lhe provocou tão
Outros preferem ligar "por fé”, a “o justo”, grande angústia. “Para escapara essa agonia,
como forma de expressar mais exatamente não deve exercer Seu poder divino. Como
o tema da epístola, a justificação pela fc. homem, cumpre-Lhc sofrer as consequên­
Paulo tenta mostrar que é somente pela cias do pecado humano. Como homem, deve
fé que a pessoa pode ser justa diante dc suportar a ira divina contra a transgressão”
Deus. Unicamente a pessoa que é justa pela (DTN, 686). Finalmcnte, na cruz, “a ira de
fé viverá. Qualquer que seja a forma, o sig­ Deus contra o pecado, a terrível manifesta­
nificado é o mesmo. Em ambos os casos, ção dc Seu desagrado por causa da iniqui­
a ênfase está na fé. dade, encheram de consternação a alma de
18. Porque (ARC). Aqui se inicia o prin­ Seu Filho. [...] O afastamento do semblante
cipal argumento da epístola. Primeiramente, divino, do Salvador, nessa hora de suprema
Paulo procura mostrar que todos, gentios e angústia, penetrou-Lhe o coração com uma
judeus, precisam da justiça que se revela no dor que nunca poderá ser bem compreen­
evangelho, pois todos são pecadores e, por dida pelo homem” (DTN, 753).
isso, estão expostos à ira de Deus, tanto gen­ Assim, como Paulo explica em Roma­
tios (Em 1:13-32) como judeus (Rm 2:1-3:20). nos 1:24, 26 e 28, Deus revela Sua ira
A ira de Deus. Ou seja, o desagrado fazendo cair sobre os impenitentes os resul­
divino contra o pecado, resultando, em tados inevitáveis de sua rebelião. Essa resis­
última análise, no abandono da pessoa ao tência persistente ao amor e à misericórdia
juízo da morte (cf. Rm 6:23; Jo 3:36). A ira de Deus culminará na revelação final da
do Deus infinito não pode ser comparada ira de Deus no dia em que, finalmente, o
à paixão humana. Deus é amor (IJo 4:8) e, Espírito de Deus for retirado. Desabrigados
embora odeie o pecado, Ele ama o pecador da graça divina, os ímpios não terão prote­
(CC, 54). No entanto, Deus não força Seu ção contra o maligno. “Ao cessarem os anjos
amor sobre aqueles que não estão dispos­ de Deus de conter os ventos impetuosos das
tos a receber Sua misericórdia (ver DTN, paixões humanas, ficarão às soltas todos os
22, 466, 759). Assim, a ira de Deus contra elementos de contenda” (CC, 614). Então,
o pecado é exercida quando Ele retira Sua descerá fogo do céu, da parte de Deus, e
presença (e Seu poder de dar vida) daque­ pecado e pecadores são destruídos para sem­
les que optam por permanecer no pecado e, pre (Ap 20:9; cf. Ml 4:1; 2Pe 3:10).
consequentemente, colhem suas consequên­ Todavia, nem mesmo essa revelação final
cias inevitáveis (ver Gn 6:3; cf. DTN, 107, da ira de Deus na destruição dos ímpios será
763, 764; CC, 17, 18). um ato arbitrário de poder. “Deus é a fonte
Isso é ilustrado pela terrível experiência da vida; e quando alguém escolhe o serviço
dos judeus após haverem rejeitado a Cristo. do pecado, separa-sc de Deus, desligando-se
Desde que se firmaram em sua impenitên- assim da vida” (DTN, 764). Deus dá às pes­
cia obstinada e recusaram as últimas ofertas soas um tempo de existência, tempo para

520
ROMANOS 1:20

que desenvolvam seu caráter. Quando isso 19. Que [...] se pode conhecer. Ou,
está feito, elas recebem os resultados de sua “que é conhecido”.
própria escolha. “Por uma vida de rebelião, Entre eles. Ou seja, em seu coração e
Satanás e todos quantos a ele se unem colo- consciência (ver Rm 2:15).
cam-se em tanta desarmonia com Deus, que Deus lhes manifestou. Deus Se revela
Sua própria presença lhes é um fogo consu­ ao ser humano dc três maneiras: por uma
midor” (ibid.; cf. GC, 543). revelação interna à razão e à consciência
Revela. Ou, “está sendo revelada” (ver de cada pessoa (Rm 2:15; cf. Jo 1:9), por
v. 17). A plena manifestação da ira de Deus uma revelação externa nas obras da cria­
será vista no fim do mundo (Rm 2:5; lTs 1:10; ção (Rm 1:20) e pela revelação especial nas
2Ts 1:7-9; Ap 6:16, 17). Mas o desagrado de Escrituras e na pessoa e na obra de Cristo,
Deus contra o pecado também está sendo que confirma c completa as outras revela­
revelado na condição da humanidade. ções. Aqui, Paulo está se referindo às duas
Os vícios degradantes e a maldade delibe­ primeiras. Deus dotou o ser humano de razão
rada a que os pecadores estão entregues e consciência. Ele o fez capaz de ver e inves­
(Rm 1:24-32) comprovam a condenação e tigar Suas obras. Estendeu diante dele a evi­
punição do pecado, da parte de Deus. A pre­ dência de Sua bondade, sabedoria e poder.
gação dc Paulo sobre a justiça de Deus reve­ Assim, Deus tornou possível tanto aos gen­
lada no evangelho (v. 17) também serve para tios como aos judeus aprender dEle.
revelar a ira dc Deus mais claramente. 20. Atributos invisíveis. Ou seja,
Do céu. A revelação da ira divina vem “Seu eterno poder e Sua divindade”, como
do trono de Deus como uma mensagem de é mencionado mais tarde. Em sua cegueira,
advertência. as pessoas tinham substituído esses atribu­
Impiedade. Do gr. asebeia, “falta de reve­ tos invisíveis de Deus pelas imagens visíveis.
rência para com Deus”, “impiedade” (v. 21). Divindade. Do gr. theioiês, “natureza di­
Perversão. Do gr. adikia, “falta dc con­ vina”, “divindade”. Esta é a única ocorrência
duta correta”, “injustiça” (v. 29). de theioiês no NT. Aqui, o apóstolo fala da es­
Detêm. Do gr. katechõ, “possuem”, “segu­ sência divina e a manifestação dos atributos
ram firmemente”, “retêm”, “impedem”, “supri­ divinos, c não da Trindade como tal (compa­
mem”. O contexto aqui mostra que é preferível rar a palavra theotês em Cl 2:9, que signifi­
o significado “deter” (comparar usos seme­ ca “divindade”).
lhantes da palavra em Lc 4:42; 2Ts 2:6, 7). Claramente se reconhecem. Os atri­
A verdade. Referência ao conhecimen­ butos invisíveis de Deus podem ser percebi­
to sobre Deus (cf. Rm 1:19, 25; ver com. de dos pela mente com a ajuda das obras criadas
jo 8:32). da natureza. Apesar de terem sido marcadas
Pela injustiça. Em sua impiedade e por pelo pecado, “as coisas que foram criadas”
meio dela as pessoas retinham e suprimiam testemunham que um poder infinito criou
a verdade sobre Deus. Em sua determinação este mundo. Ao nosso redor, vemos abundan­
de praticar a iniquidade, as pessoas demons­ tes evidências da bondade e do amor divinos.
travam estar dispostas a reter o conheci­ Assim, é possível, mesmo aos pagãos, reco­
mento de um Deus puro e santo, que eles nhecer o poder do Criador.
sabiam que Se opunha a esses atos e que os Desde o princípio do mundo. Ou seja,
punia. Assim fazendo, estavam não apenas desde a criação.
suprimindo a verdade em seu próprio cora­ Indesculpáveis. A revelação de Deus
ção, mas também a escondendo dos outros. pela consciência e pela natureza é suficiente

521
1:21 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

para iluminar os seres humanos quanto às Obscurecendo-se-lhes. As pessoas


exigências divinas. Diante dessa revelação, tinham se afundado tanto na ignorância
eles não têm desculpa por não cumprir o e no pecado que suas mentes se tornaram
dever, isto é, por sua idolatria e por ocultar obscuras e sem sentido. Não percebiam
a verdade. nem entendiam a verdade. Essa condição
21. Tendo conhecimento de Deus. de trevas sempre foi propósito de Satanás
Ou, “embora conhecessem a Deus”, isto é, no grande conflito. Deus deu a cada pes­
pela revelação da consciência e da natureza soa “individualidade, faculdade esta de pen­
(ver com. do v. 20). Além disso, as pessoas sar e agir” (Ed, 17). A salvação depende do
tementes a Deus, como Noé e seus filhos, correto exercício e desenvolvimento desse
conheciam a Deus e transmitiram esse poder na decisão de ter fé em Deus e obede­
conhecimento a seus filhos. Entretanto, cer a Sua vontade. Consequentemente, por
devido à negligência pecaminosa, a mente seis mil anos, tem sido intento de Satanás
da maioria de seus descendentes logo se enfraquecer e destruir esse poder dado por
obscureceu, e o conhecimento de Deus pra- Deus, para que as pessoas se tornem impo­
478

► ticamente se perdeu entre os gentios. tentes e incapazes de reconhecer, receber e


Não O glorificaram. A indisposição praticar a verdade.
de honrar a Deus como o criador foi a verda­ Portanto, uma das primeiras e mais ne­
deira razão do obscurecimento mental e das cessárias promessas do evangelho é que Deus
práticas abomináveis dos gentios. Glorificar dará às pessoas um novo coração ou uma
a Deus significa reverenciá-Lo, amá-Lo e nova mente (Ez 36:26; cf. Jo 3:3). “As pala­
obedecer-Lhe. vras: ‘E vos darei um coração novo’ (Ez 36:26,
Nem Lhe deram graças. A indispo­ ARC) significam: ‘E vos darei um novo en­
sição de dar graças a Deus por Seu amor tendimento”’ (CPPE, 452). Esta é a mensa­
e bondade para com os homens é uma das gem de Paulo na epístola aos Romanos: que
causas da corrupção e da idolatria. A ingra­ essa maravilhosa transformação do coração
tidão endurece o coração e leva as pessoas a e da mente se tornou possível a todos os que
se esquecer dAquele a quem não estão dis­ têm fé em Cristo.
postas a expressar gratidão. Coração. Um termo abrangente, que
Antes, se tornaram nulos. Do gr. se refere a todas as faculdades humanas de
mataioõ, “tornar-se tolo” ou “tornar-se fútil”. pensamento (Rm 10:6), vontade (ICo 4:5),
Maquinando vaidades, os gentios tinham se ou sentimento (Rm 9:2). Os judeus conside­
tornado presunçosos e tolos. A mente humana, ravam o coração como a sede da vida inte­
que cultua os ídolos mudos de madeira e de rior. Pode ser a habitação do Espírito Santo
pedra, transforma-se à imagem do objeto de (Rm 5:5), ou de maus desejos (Rm 1:24; cf.
adoração (SI 115:8). Comparar kenos, também Mc 7:21-23).
traduzido como “vão” (ver com. de ICo 15:10), Insensato. Do gr. asunetos, literal mente,
mas significando “vazio” ou “oco”. “sem entendimento” (ver Mt 15:16), por isso,
Raciocínios. Do gr. dialogismoi, “ima­ “pouco inteligente”, “sem sentido”.
ginações”. Paulo usa o termo para se referir 22. Inculcanclo-se por sábios. Paulo
às idéias e especulações inúteis que os gen­ não está se referindo aqui apenas às preten­
tios tinham chegado a alimentar a respeito sões da filosofia grega, embora desse pouco
de Deus, em oposição à verdade que tinham valor a essa sabedoria (ICo 1:18-25). Ele se
conhecido e que ainda estava diante deles refere à vaidade daqueles cuja sabedoria está
nas obras criadas por Deus (v. 20). conectada a qualquer desvio intencional da

522
ROMANOS 1:25

verdade divina e da qual a idolatria deve ter Egito, os israelitas fizeram o seu bezerro de
surgido originalmente em suas formas diver­ ouro (Ex 32:4). Mais tarde, Jeroboão fez dois
sas e fantásticas. Em sua suposta sabedoria, bezerros de ouro, em Dã e em Betei e lhes
as pessoas se afastaram do verdadeiro conhe­ ofereceu sacrifícios (lRs 12:28-32).
cimento de Deus, e o paganismo foi o resul­ Alguns dos pagãos mais cultos podem
tado inevitável. ter considerado as imagens como meras re­
Tornaram-se loucos. O clímax de sua presentações simbólicas, mas muitas pes­
loucura foi a idolatria (ver Jr 10:14, 15), pois soas comuns consideravam os ídolos como
que tolice poderia ser maior do que adorar os próprios deuses. A Bíblia não leva em
um animal em lugar de Deus? conta essa distinção, mas simplesmen­
23. Mudaram. Melhor, “trocaram”. Em te condena todos os adoradores de ima­
sua loucura, as pessoas tinham trocado a gem como idólatras (Ex 20:4, 5; Lv 26:1;
adoração a Deus pelo culto a imagens. Em Mq 5:13; Hc 2:18, 19).
vez de confiar em um Ser pleno de majes­ 24. Entregou. Quando os pagãos volun­
tade e poder, inclinaram-se diante de répteis tariamente se afastaram de Deus e O remo­
e feras. Permutaram um Ser glorioso de ado­ veram da mente e do coração, Deus lhes
ração pelo que era degradante e humilhante permitiu andar em seus próprios caminhos
(ver SI 106:20; Jr 2:11). O ser humano foi de autodestruição (SI 81:12; At 7:42; 14:16).
designado senhor da criação animal (SI 8:6- Isso faz parte do preço da liberdade moral.
8) e se degradou, adorando as criaturas feitas Se as pessoas insistem em seguir seu mau
por Deus para servi-lo (cf. Os 8:6). caminho, Deus lhes permite fazê-lo, reti­
Incorruptível. Ou seja, imortal c imune rando Sua ajuda e restrição. Em seguida, os
à decadência à qual todas as criaturas estão gentios foram deixados a colher os resulta­
sujeitas. Paulo contrasta a incorruptibili­ dos de sua rebelião em escravidão cada vez
dade de Deus com a corruptibilidade do ser mais profunda sob o poder do pecado (cf.
humano. Somente Deus é imutável, indes­ Rm 1:26, 28; cf. GC, 431).
trutível, imortal, portanto, o próprio objeto Imundícia. Ou seja, impureza, cor­
de adoração (lTm 1:17). rupção moral, como é especificada nos
Imagem. As pessoas não se satisfizeram v. 26 e 27. Geralmente, a imoralidade acom­
em adorar a Deus “em espírito” (Jo 4:23, 24). panha a idolatria e, antigamente, era consa­
Não se contentaram com a revelação do pró­ grada como parte da religião.
prio Deus na natureza (Rm 1:20). Escolheram Pelas concupiscências. Ou, “por meio
representá-Lo para si mesmas, por meio de suas concupiscências”. Isso se refere à
de imagens que se assemelham a homens, condição moral em que eles já estavam
pássaros, animais ou répteis. Paulo parece quando Deus os entregou às consequências
> demarcar as sucessivas fases da degrada­ de suas inclinações e de desejos depravados.
ção moral e intelectual dos pagãos, termi­ Desonrarem o seu corpo. Nosso corpo
nando na representação do Deus vivo do é templo do Espírito Santo, mas essa digni­
Céu por répteis imundos e outras criatu­ dade se perde pela imoralidade (ICo 6:15-
ras rastejantes. 19; fls 4:3, 4). O paganismo deixa sua marca
Deuses em forma humana eram comuns sobre o corpo, bem como sobre a mente de
nas religiões grega c romana. A adoração homens e mulheres.
de todos os tipos de criaturas, como tou­ 25. Mudaram a verdade. Ou, “troca­
ros, crocodilos, serpentes e íbis, era predo­ ram a verdade”. Eles trocaram a verdade de
minante no Egito. Imitando a idolatria do Deus pelo que era falso.

523
1:26 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Em mentira. Comparar com Jr 10:14. Eles se recusavam a reconhecê-Lo. Em vez


Os ídolos são mentiras materializadas. As de aumentar seu conhecimento de Deus
pessoas precisam deles, mas eles não repre­ (v. 21), suprimiam a verdade (v. 18) e se tor­
sentam Aquele que fez o ser humano (Is 40:18- naram “gentios, que não conhecem a Deus”
20). Têm olhos, mas não conseguem ver, (lTs 4:5).
têm boca, mas não podem falar (SI 115:5-7; Conhecimento. Do gr. epignõsis, “pleno
135:15-17). conhecimento”.

480
Adorando e servindo. O primeiro Deus os entregou. Ver com. do v. 24. ^
termo pode se referir à adoração de modo Reprovável. Do gr. adokimos, “repro­
geral, o segundo, a adorar mediante ritos vado”. Uma palavra relacionada, dokimazõ,
especiais ou sacrifícios. “aprovar”, é traduzida como “querem”, no
A criatura. Isto é, qualquer ser ou coisa início do versículo (NTLH). Visto que os
criada. homens não “aprovam” o conhecimento de
Em lugar. Melhor, “em vez de”. Rejeita­ Deus, este os entregou a uma disposição
ram o Criador para adorar a criatura. mental “reprovável”. Como consequência de
Bendito. Do gr. eulogêtos, palavra dife­ sua determinação de esquecê-Lo, Deus os
rente da usada nas bem-aventuranças (ver entregou a um estado mental ímpio, o qual
com. de Mt 5:3), mas, com frequência, é não podia aprovar.
expressão de louvor e glória, como aqui, atri­ Inconvenientes. Ou seja, impróprias,
buída a Deus (cf. SI 89:52, LXX; Rm 9:5; indecentes.
2Co 1:3; 11:31). Essa atribuição é especial­ 29. Injustiça. Termo geral usado para
mente apropriada para mostrar a própria descrever a condição em relação à qual a ira
fidelidade de Paulo a Deus, em contraste de Deus é revelada (v. 18; comparar as lis­
com a apostasia dos gentios, que o após­ tas de pecados em G1 5:19-21; lTm 1:9, 10;
tolo descreve. 2Tm 3:2-4).
26. Entregou. Ver com. do v. 24. Prostituição (ARC). Evidências tex­
Paixões infames. Literalmente, “pai­ tuais (cf. p. xvi) apoiam a omissão desta
xões da desonra”. A história confirma esse palavra.
relato dos vícios antinaturais da sociedade Malícia. Do gr. ponêria, termo geral para
pagã. Assim, em contraste com a liber­ baixeza, malícia, vileza, mesquinhez.
dade dos escritores pagãos de sua época, Avareza. Do gr. pleonexia, “o desejo de
Paulo descreve a imoralidade dos pagãos ter mais”. Em outra parte, Paulo descreve
com reserva considerável. Ele até consi­ esse pecado como idolatria (Cl 3:5).
derava uma vergonha falar dessas coisas Maldade. Do gr. kakia, com signifi­
(Ef 5:12). cado um pouco semelhante a ponêria (ver
27. Homens com homens. Aqui, Paulo acima em “malícia”). Alguns sugerem que
se refere eufemisticamente às práticas depra­ ponêria representa maldade ativa, em con­
vadas de sodomia e homossexualismo. traste com kakia, que salienta o estado inte­
Merecida. Ou seja, devida. A recom­ rior de maldade.
pensa de seu erro de idolatria foi a degra­ Inveja. Do gr. phthonos. A inveja tam­
dação física, mental e espiritual. Essa foi a bém está alistada entre as obras da carne
penalidade inevitável para o que tinham feito. (G1 5:19-21).
28. Desprezado. Literalmente, “não Contenda. Do gr. eris, “discussão”.
aprovavam”. Isso significa que o fato de have­ Paulo não se refere aos debates, no sentido
rem rejeitado a Deus não era inconsciente. atual do termo. A palavra grega enfatiza

524
ROMANOS 1:32

principalmente os elementos de discórdia, (Ef 4:30), a vida revela falta de amor e afei­
brigas e raiva (ver também Rm 13:13; ICo ção natural. Deus não força Seu Espírito de
1:11; 3:3; 2Co 12:20; G1 5:20; Fp 1:15; lTm amor sobre as pessoas. Quando elas persis­
6:4, em que a mesma palavra também é tra­ tem na oposição à vontade de Deus, Ele as
duzida como “porfias” e “provocação”). entrega a suas próprias inclinações naturais
Dolo. Do gr. dolos, “astúcia”, “engano”, e egoístas (Rm 1:24, 26, 28).
traduzida como “traição” (Mt 26:4), “engano” Irreconciliáveis (ARC). Evidências
(At 13:10; iTs 2:3), “dolo” (Jo 1:47, etc). textuais (cf. p. xvi) apoiam a omissão desta
Malignidade. Do gr. kakoêlheia, “malí­ palavra. A mesma palavra grega ocorre, no
cia”, “malvadeza”, “maldade”, “sutileza”. entanto, na lista de pecados em 2 Timóteo
Difamadores. Do gr. psithuristai, “mexe- 3:3, sendo traduzida como “implacáveis”.
riqueiros”, “fofoqueiros”. Sem misericórdia. Ou seja, sem pie­
30. Caluniadores. Ou seja, maledicentes. dade e compaixão. A satisfação mórbida que
Aborrecidos de Deus. Do gr. theostu- os espectadores obtinham no abate de gla­
geis, que também pode ser traduzido como diadores e mártires em Roma indica a pouca
“odiosos para Deus”. No grego clássico, essa piedade e compaixão que havia no cora­
palavra ocorre geralmente no sentido pas­ ção das pessoas daquela época. Jesus ensi­
sivo: “odiados por Deus”. No entanto, mui­ nou que ser impiedoso é evidência de um
tos intérpretes consideram o sentido ativo, caráter corrompido, impróprio para o Céu
“odiar a Deus”, mais apropriado nesta lista (Mt 25:41-43).
de pecados. 32. Conhecendo. A palavra significa
Insolentes. Ou seja, acintosos. Paulo “pleno conhecimento” (comparar com o v. 28).
usa o termo para descrever seu comporta­ Sentença. Do gr. dikaiõma, “lei”,
mento antes da conversão (lTm 1:13). “decreto”. Paulo se refere à sentença justa -<&
Soberbos. Do gr. huperêphanoi, “consi- de Deus, que declara o que é certo e o que é
derando-se superiores aos outros”, “arrogan­ errado e conecta a morte ao pecado e a vida
tes”, “orgulhosos”. à justiça. Esse decreto é revelado não só no
Presunçosos. Do gr. alazones, “fanfar­ AT, mas também na consciência humana
rões”, “afetados”. (Rm 2:14-16).
Inventores de males. Ou seja, inven­ Paulo enfatizou, neste primeiro capítulo,
tores de novas formas de vício e autoindul- que os pecados dos pagãos foram cometidos
gência, dos quais Nero foi um exemplo (ver diante de considerável conhecimento sobre
p. 69-72; DTN, 37). Deus (v. 19-21, 25, 28).
Desobedientes aos pais. O fato de este Passíveis de morte. Isso não se refere
pecado ter sido incluído na lista revela a gra­ à justiça civil, mas às consequências fatais
vidade com que Paulo considerava a desobe­ do pecado (Rm 6:23).
diência aos pais (cf. Ml 4:6; Lc 1:17). Praticam. O grego indica ação repetida
31. Insensatos. Do gr. asunetoi, forma e contínua.
singular da que é traduzida como “tolo” no Aprovam. Ou, “aprovam de coração”,
v. 21. “aplaudem”. A palavra descreve mais do
Pérfidos. Ou seja, falsos em seus contratos. que um assentimento passivo para o mal.
Sem afeição natural. O infanticídio e Sugere ativo consentimento e aprovação (ver
o divórcio eram comuns nos dias de Paulo. At 8:1; 22:20). O clímax da lista de pecados
Quando, por sua rebelião persistente contra de Paulo é a maldade depravada de obter
Deus, as pessoas afastam o Espírito Santo satisfação nas más práticas dos outros.

525
1:32 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Quão profundamente a pessoa degenerada que a inocência não é rara, é inexistente”


vai quando se recusa a conhecer e honrar o (ed. Loeb, Ensaios Morais, vol. 1, p. 183; ver
Deus verdadeiro. também Sabedoria de Salomão 14:22-30;
A imagem escura de Paulo sobre a cor­ comparar com DTN, 36, 37).
rupção pagã pode ser verificada a partir Por quatro mil anos, prosseguiu o experi­
dos escritos seculares do primeiro século. mento para saber se a humanidade poderia
Uma das descrições mais frequentemente se salvar por suas próprias obras. “O prin­
citadas da iniquidade que prevalecia nos cípio de que o homem pode se salvar por
dias de Paulo é a de Sêneca, contemporâ­ suas próprias obras [...] jaz à base de toda
neo de Paulo, que em sua obra De Ira. (ii.9.1) religião pagã” (DTN, 35). Então, ficou claro
declara: “Todo lugar está cheio de crime e que era necessário outro plano de salvação.
vícios; os crimes cometidos são demasiados “Satanás rejubilava por haver conseguido
e ultrapassam qualquer possível restrição. rebaixar a imagem de Deus na humanidade.
As pessoas competem em uma poderosa Então, veio Cristo, a fim de restaurar no
rivalidade de maldade. A cada dia, o desejo ser humano a imagem de seu Criador”
de injustiça é maior, e menor é o temor; (DTN, 37, 38; ver G1 4:4, 5). A boa notícia
tudo que se refere ao que é melhor e mais de que a condição do ser humano não é sem
justo é banido; a luxúria insinua-se onde esperança, mas que a justiça está disponível
quer que deseje, e os crimes não são mais a todos os que têm fé em Cristo foi a men­
secretos. Exibem-se diante de nossos olhos, sagem de esperança de Paulo para o mundo
e a maldade chega a tal estado público e pagão. Este é o “evangelho de Cristo”, tema
ganhou tal poder sobre o coração de todos, desta epístola aos cristãos em Roma.

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

4 - DTN, 600 16, 17-AA, 380 Pj, 18; PP, 82; T5, 738
14-AA, 246, 380; CM, 17 -GC, 125; HR, 341 21, 22-CPPE, 424
212; DTN, 440; Ed, 65, 18-32-OC, 440 22 - PJ, 199; T2, 42
139, 263; Ev, 218; MDC, 20 -PJ, 18, 22, 107; 25 - PJ, 18; FEC, 329;
135; T4, 52; T5, 731. CPPE, 187; DTN, 281; GC, x; PR, 281;
16-CPPE, 255; FEC, Ed, 134; CBV, 410; PP, 91; T4, 595
200; OE, 16; CBV, 215; MS, 103; PP, 116; T8, 2 28 - PP, 82, 91
MCH, 61, 224; T7, 12 21 - AA, 14; FEC, 331; 29-32 - Ed, 235

Capítulo 2
1 Não há desculpa para o pecador e 6 muito menos escape do juízo de Deus,
9 seja ele judeu ou gentio. 14 Os gentios estão soh condenação hem como
17 os judeus, 25 que não podem tirar proveito da circuncisão.

1 Portanto, és indesculpável, ó homem, quan­ praticas as próprias coisas que condenas.


482

do julgas, quem quer que sejas; porque, no que 2 Bem sabemos que o juízo de Deus é segun- •«
julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois do a verdade contra os que praticam tais coisas.

526
ROMANOS 2:1

3 Tu, ó homem, que condenas os que prati­ 16 no dia em que Deus, por meio de Cristo
cam tais coisas e fazes as mesmas, pensas que Jesus, julgar os segredos dos homens, de confor­
te livrarás do juízo de Deus? midade com o meu evangelho.
4 Ou desprezas a riqueza da Sua bonda­ 17 Se, porém, tu, que tens por sobrenome
de, e tolerância, e longanimiclade, ignoran­ judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus;
do que a bondade de Deus é que te conduz ao 18 que conheces a Sua vontade e aprovas as
arrependimento? coisas excelentes, sendo instruído na lei;
5 Mas, segundo a tua dureza e coração im- 19 que estás persuadido de que és guia dos
penitente, acumulas contra ti mesmo ira para o cegos, luz dos que se encontram em trevas,
dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, 20 instrutor de ignorantes, mestre de crian­
6 que retribuirá a cada um segundo o seu ças, tendo na lei a forma da sabedoria e da
procedimento: verdade;
7 a vida eterna aos que, perseveran- 21 tu, pois, que ensinas a outrem, não te en­
do em fazer o bem, procuram glória, honra e sinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve
incorruptibilidade; furtar, furtas?
8 mas ira e indignação aos facciosos, que de­ 22 Dizes que não se deve cometer adulté­
sobedecem à verdade e obedecem à injustiça. rio e o cometes? Abominas os ídolos e lhes rou­
9 Tribulação e angústia virão sobre a alma de bas os templos?
qualquer homem que faz o mal, ao judeu primei­ 23 Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus
ro c também ao grego; pela transgressão da lei?
10 glória, porem, e honra, e paz a todo aque­ 24 Pois, como está escrito, o nome de Deus
le que pratica o bem, ao judeu primeiro e tam­ é blasfemado entre os gentios por vossa causa.
bém ao grego. 25 Porque a circuncisão tem valor se pratica­
I i Porque para com Deus não há acepção res a lei; se és, porém, transgressor da lei, a tua
de pessoas. circuncisão já se tornou incircuncisão.
12 Assim, pois, todos os que pecaram sem lei 26 Se, pois, a incircuncisão observa os pre­
também sem lei perecerão; e todos os que com ceitos da lei, não será ela, porventura, conside­
lei pecaram mediante lei serão julgados. rada como circuncisão?
13 Porque os simples ouvidores da lei não são 27 E, se aquele que é incircunciso por na­
justos diante de Deus, mas os que praticam a lei tureza cumpre a lei, certamente, ele te julgará a
hão de ser justificados. ti, que, não obstante a letra e a circuncisão, és
14 Quando, pois, os gentios, que não têm lei, transgressor da lei.
procedem, por natureza, de conformidade com 28 Porque não é judeu quem o é apenas ex­
a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si teriormente, nem é circuncisão a que é somen­
mesmos. te na carne.
15 Estes mostram a norma da lei gravada 29 Porém judeu é aquele que o é interiormen­
no seu coração, testemunhando-lhes também a te, e circuncisão, a que é do coração, no espírito,
consciência e os seus pensamentos, mutuamen­ não segundo a letra, e cujo louvor não procede
te acusando-se ou defendendo-se, dos homens, mas de Deus.

1. Portanto. Ou, “por causa disso”. fundamental de toda a seção dos v. 18 a 32.
A referencia pode ser tanto ao juízo em Paulo prossegue em seu argumento de que.
Romanos 1:32 (“são passíveis de morte os que há uma necessidade universal do poder sal-
tais coisas praticam”) como ao pensamento vífico contido na revelação da justiça de

527
2:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Deus pela fé (v. 16, 17). Eleja havia traçado nomeado na primeira frase, poderia ter des­
o curso descendente do ser humano a partir pertado imediata oposição dos judeus. Ao
da primeira rejeição voluntária do conheci­ contrário, Paulo escolhe abordar o assunto
mento de Deus em todas as etapas da ido­ de forma gradual e em termos gerais. Então,
latria e do vício. Finalmente, no v. 32, ele depois de ter apresentado provas, ele faz a
descreve que a última etapa da degradação aplicação específica aos judeus (Rm 2:17).
humana, em que os homens não só perde­ Condenas. Do gr. katakrinõ, forma
ram toda virtude, em si, mas chegaram ao do verbo “julgar”, que significa condena­
extremo de aprovar o vício dos outros. Eles ção. O argumento de Paulo é semelhante
mantêm apenas a consciência de sua culpa e ao do profeta Natã ao falar com o rei Davi
483

► miséria, pois conhecem a sentença justa de (2Sm 12:5-7). Paulo disse aos judeus que até
Deus, que é pronunciada contra os que pra­ o próprio ato de se assentar em juízo contra
ticam essas coisas. seus semelhantes os faz pronunciar uma sen­
Paulo, então, passa a explicar que os tença contra si mesmos. Eles apontam como
judeus não são menos culpados que os gen­ criminosos os atos dos quais eles mesmos
tios e que também eles precisam das provi­ são culpados.
sões do mesmo plano de salvação. Mostra Praticas. Do gr. prassõ, palavra que
que os judeus foram abençoados com mais denota prática habitual ou costumeira.
luz do que os gentios e, ainda assim, pratica­ Um exemplo de judeus que condena­
ram as mesmas coisas. Grande parte do que vam a imoralidade dos pagãos e exaltavam
foi dito sobre os gentios em Romanos 1:18 a a própria pureza é encontrado na Carta de
32 também se aplica aos judeus, pois eles Aristeu: “Pois a maioria dos outros homens
também pecaram contra o conhecimento e se contamina por relações promíscuas, pra­
a consciência. ticando, assim, grande iniquidade, e países
Es indesculpável. Os judeus eram rápi­ e cidades inteiras se orgulham desses vícios.
dos em condenar os gentios, mas, tendo em Pois eles mantêm relações sexuais não só
vista que, por séculos, os judeus foram tão com homens, mas contaminam as próprias
favorecidos com maior luz que os gentios, mães e até mesmo as filhas. Mas nós nos
eles eram indesculpáveis por cometer os mes­ temos conservado afastados desses pecados”
mos pecados (ver vol. 4, p. 17-21). (citado de R. H. Charles, The Apocrypha
Julgas. Do gr. krinõ. Esta palavra não sig­ and Pseudepigrapha of íhe Old Testament in
nifica só “condenar”, mas também, “separar”, English, vol. 2, p. 109). O fato de que as con­
“distinguir”, “selecionar”, “mostrar preferên­ dições morais entre os judeus não eram tão
cia por”, “determinar”, “aprovar”, “pronunciar ideais como é indicado aqui é evidente pelas
juízo” e, quando o contexto exige, “condenar”. referências incidentais nos escritos rabínicos
Neste caso, o contexto dos v. 1 a 3 indica o aos vícios antinaturais praticados entre os
sentido de condenar. judeus, hem como pelos regulamentos de pre­
Quem quer que sejas. Paulo começa venção nas leis rabínicas sobre esses vícios.
sua discussão sobre o fracasso dos judeus A situação real, provavelmente, seja refle­
em alcançar a justiça de Deus com uma tida com exatidão razoável nos “Testamentos
declaração aplicável a todos. Ele começa dos Doze Patriarcas” (ver R. H. Charles, The
sua discussão sobre o fracasso dos gentios Apocrypha e Pseudepigrapha, vol. 2), um tra­
com uma declaração semelhante (Rm 1:18). balho pseudoepigráfico judaico do início do
Talvez essa seja uma prova da habilidade do 2o século a.C.: “E, na sétima semana, se tor­
apóstolo em argumentar. Se Paulo os tivesse narão sacerdotes [aqueles que sãoj idólatras,

528
ROMANOS 2:4

adúlteros, amantes do dinheiro, soberbos, imparcial de todos os pecadores por Deus.


sem lei, lascivos, abusadores de crianças e No entanto, parece ter sido a opinião popu­
de animais” (O Testamento de Levi 17:11). lar entre os judeus que, desde que observas­
“Essas coisas vos digo, meus filhos, porque sem os ritos e cerimônias de sua religião,
tenho lido nos escritos de Enoque que vós, Deus não os julgaria tão severamente quanto
aqui, também, vos afastareis do Senhor, faria com os gentios abandonados e idólatras.
andando de acordo com toda a ilegalidade Achavam que sua nacionalidade lhes garan­
dos gentios, e agireis de acordo com toda tia uma consideração especial no juízo. Essa
a maldade de Sodoma” (O Testamento de falsa noção foi repreendida por João Batista.
Naftali 4:1). “Produzi, pois, frutos dignos de arrependi­
Uma questão comumente observada: mento, e não comeceis a dizer entre vós mes­
aqueles que são rápidos em criticar e acusar mos: Temos por pai a Abraão” (Mt 3:8, 9;
os outros são culpados dos mesmos crimes. cf. Jo 8:33; G1 2:15). Pecado é pecado, seja
As vezes, as pessoas são particularmente onde for e por meio de quem seja cometido.
zelosas na oposição a esses delitos que eles Tampouco se torna menos pecaminoso por
mesmos praticam secretamente. O exemplo ser cometido em meio a privilégios religio­
clássico disso é a hipocrisia degradante reve­ sos. O povo de Deus não tem licença espe­
lada pelos piedosos acusadores da mulher cial para pecar, como se Deus não fosse tão
apanhada em adultério. “Esses pretensos rigoroso em perceber as ofensas daqueles que
guardas da justiça haviam, eles próprios, professam servi-Lo. Ao contrário, a Bíblia
induzido a vítima ao pecado” (DTN, 461). ensina de forma consistente que os peca­
Davi prontamente condenou a suposta injus­ dos mais graves entre os seres humanos são
tiça relatada por Natã (2Sm 12:1-6). os cometidos pelo professo povo de Deus
* 2. Bem sabemos. Paulo supõe que a (cf. Is 1:11-17; 65:2-5; Mt 21:31, 32).
484

verdade do juízo de Deus é admitida e que Que te livrarás. O pronome é enfático


pode fundamentar seu argumento sobre ela. no grego.
Juízo. Do gr. krima, referindo-se a uma 4. Desprezas. O amor e a paciência de
sentença, seja ela boa ou ruim; neste caso, Deus produzem apenas um sentimento de
a condenação. desprezo e segurança no coração da pessoa
Segundo a verdade. Enfatizando o ver­ endurecida no pecado. “Visto como se não
dadeiro padrão de medida no juízo divino. executa logo a sentença sobre a má obra, o
Deus não julga segundo as aparências (ver coração dos filhos dos homens está inteira­
Jo 7:24). Seu juízo se fundamenta no conheci­ mente disposto a praticar o mal” (Ec 8:11;
mento das motivações das pessoas e da verda­ cf. SI 10:11, 13). Os judeus estavam acostu­
deira natureza de sua conduta, e é imparcial mados a usar o argumento de que, uma vez
(Rm 2:11). Até os pecados mais secretos são que Deus ainda os estava abençoando, Ele
colocados sob Seu escrutínio (Ec 12:14). não os considerava pecadores (cf. Lc 13:1-5;
3. Pensas. Em outras palavras, “você Jo 9:2). Facilmente podemos cair no mesmo
acha que, por causa de seu elevado conhe­ engano, hoje. Visto que Deus continua gra­
cimento da verdade, ou por causa de sua ciosamente a nos conceder tempo e opor­
ligação com a ascendência divina, ou com o tunidade para nos preparar para Sua volta,
povo escolhido, ficará livre do juízo?” Essa abusamos de Sua misericórdia e paciência,
esperança ilusória de livramento pessoal insistindo em nossos caminhos pecamino­
do juízo é uma forma comum de autoen- sos. Deixamos de reconhecer o propósito de
gano. E contrária à verdade do julgamento Sua paciência e longanimidade.

529
2:5 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Riqueza. Palavra muito usada de Paulo Dureza. Ou, “obstinação”, “teimosia”.


para descrever a qualidade dos dons e atri- Os judeus se achavam em um estado de espí­
butos de Deus (ver Rm 11:33; Ef 1:7, 18; 2:7; rito em que a bondade e a paciência de Deus
3:8, 16; Fp 4:19; Cl 1:27; etc.) não tinham nenhum efeito.
Bondade. Do gr. chrêstotês, “excelência”, Coração impenitente. Ou seja, um
“bondade”, “ternura”, “gentileza”. coração que se recusa a se arrepender.
Tolerância. Do gr. anochê, literalmente, Não havia mudança de atitude no coração.
“ato de reter”. No grego clássico, este termo As pessoas continuavam e cresciam volunta­
era usado em uma trégua militar. Implica algo riamente no endurecimento do coração, ape­
temporário que pode passar se as condições sar do apelo de Deus.
se alterarem. Assim, esta palavra é usada para Contra ti mesmo. Aqui há um con­
descrever a “paciência” de Deus em conexão traste com as riquezas da bondade de Deus
com a “tolerância” dos pecados (Rm 3:25). (v. 4) e do tesouro celestial (Mt 6:20). A rejei­
Em Sua paciência, Deus tem retido Sua ira, ção das riquezas da bondade tem como con­
como se tivesse feito uma trégua com o peca­ sequência um tesouro de ira. A pessoa que
dor. Isso não significa que, finalmente, Sua rejeita o amor de Deus não está na mesma
ira não será executada. Ao contrário, implica condição de alguém que nunca conheceu a
que virá, a menos que o pecador aproveite graça divina. Toda bênção e privilégio con­
esse tempo de trégua para se arrepender. cedidos trazem uma responsabilidade equi­
Longanimidade. Embora Deus odeie valente. A persistente resistência ao amor
o pecado, em Sua longanimidade, Ele não de Deus acumula gradualmente um supri­
agirá imediatamente para punir o pecado mento de ira para o dia do acerto de contas
no momento em que é cometido. Ao contrá­ (ver Dt 32:34, 35). Como em Romanos 1:18
rio, Ele poupa as pessoas no dia a dia para (ver o com. ali), a ira é o desagrado divino
lhes dar a oportunidade de se arrepender e contra o pecado, que resulta no abandono do
ser salvas (2Pe 3:9). As pessoas “desprezam” ser humano ao juízo da morte.
a longanimidade de Deus, achando que Ele Paulo não diz: “Deus está acumulando
nunca tem a intenção de punir o pecado e ira”, mas, sim: “Você está acumulando ira
que, portanto, podem, com segurança, con­ contra si mesmo”.
tinuar a pecar. Para o dia da ira. Literalmente, “no
Ignorando. Está implícita uma ignorân­ dia da ira”.
cia voluntária (cf. Os 2:8). Justo juízo. O “dia da ira” revelará aos
Que te conduz. O texto grego pode ser homens e aos anjos, bons e maus, que Deus
interpretado como a expressão de um esforço é um juiz justo. Nessa revelação, ocorrerá a
que não pode concretizar seu propósito. retribuição a cada um segundo suas obras
Portanto, a frase poderia significar “destina- (ver DTN, 763, 764; GC, 668).
se a levar-te”, “está tentando levar-te”. Essa revelação final, que se realiza na
Arrependimento. Do gr. metanoia. consumação de todas as coisas, deve ser con­
Como em outras passagens do NT, esta pala- trastada com a revelação da ira e do justo
485

► vra implica inversão de direção, mudança de juízo de Deus, visto na condição depravada
mente, de propósito e de vida. Significa mais da humanidade (Rm 1:18).
do que simplesmente tristeza pelo pecado 6. Retribuirá. Paulo cita Provérbios
(ver com. de SI 32:1). 24:12 ou Salmo 62:12. As Escrituras são unâ­
5. Segundo. Do gr. kata, “de acordo nimes ao ensinar que as pessoas serão julga­
com”, “por causa de”. das de acordo com o que fizeram (cf. Jr 17:10;

530
ROMANOS 2:8

Mt 16:27; 2Co 5:10; Ap 2:23; 20:12; 22:12). em primeiro lugar, o Seu reino [de Deus]”
Todos, inclusive os judeus privilegiados, (Mt 6:33; comparar com “procuramos partir
serão recompensados ou condenados de para [a Macedônia]”, em At 16:10). O mesmo
acordo com sua vida e seu caráter. verbo é usado nessas passagens. Não é sufi­
Alguns têm encontrado problemas em ciente apenas ter o desejo de vida eterna.
conciliar esta passagem com a doutrina de “Não nos é possível deslizar para dentro do
que “o homem é justificado pela fé, inde­ Céu. Nenhum preguiçoso pode entrar lá. Se
pendentemente das obras da lei” (Rm 3:28). não nos esforçarmos para conseguir entrada
No entanto, aqui, Paulo não traça um con­ no reino, se não procurarmos aprender o que
traste entre fé e obras, mas entre o que as constitui suas leis, não estaremos aptos para
pessoas realmente são e o que dizem ser. dele participar” (PJ, 280).
Paulo afirma que Deus julga as pessoas de Glória, honra e incorruptibilidade.
acordo com atos reais de justiça ou injustiça. Essas são concedidas no momento da ressur­
Mais tarde, na epístola, Paulo explica que reição (cf. ICo 15:42, 43; cf. lPe 1:4-7). Em
as meras obras da lei, em contraste com as seu estado original, o ser humano sem peca­

486
obras da fé (cf. lTs 1:3; 2Ts 1:11), não são do foi coroado “de glória e de honra” (Hb 2:7). ◄
atos reais de justiça (Rm 9:31, 32). As obras Mudo isso vai ser restaurado para aqueles que
são reconhecidas no juízo final como pro­ “procuram” por elas, com perseverança.
vas de fé. A fé na graça de Deus não é um 8. Ira e indignação. Gramaticalmente,
substituto para a conduta correta e uma estas palavras não estão relacionadas com
vida santa. A fé pode provar sua realidade a afirmação “que retribuirá”, como estão
e sinceridade apenas mediante essas pro­ as palavras “vida eterna” (ver com. do v. 7).
vas (Tg 2:18). Deus retribuirá a cada um E necessário adicionar alguma palavra,
segundo essa evidência. como “haverá”. Paulo pode ter pretendido
7. Vida eterna. Do ponto de vista gra­ essa mudança de construção para expres­
matical, como o grego indica, esta frase está sar a distinção de que, embora Deus seja
relacionada com a cláusula “que retribuirá” a fonte e o doador da vida eterna, estrita e
(v. 6); assim: “que retribuirá a vida eterna aos principalmente, Ele não é o autor do castigo
que [...]”, etc. Deus retribuirá a vida eterna eterno. A destruição é o resultado necessá­
aos que procuram por eia na forma prescrita. rio da própria conduta do pecador (ver com.
Perseverando. Do gr. hupomonê, “pa­ de Rm 1:18). Distinção semelhante pode ter
ciência”, “perseverança”, “firme resistência”. sido planejada pela mudança de construção
Paulo não fala aqui de uma resignação pas­ em Romanos 9:22 e 23, do passivo “prepa­
siva, mas de uma resistência ativa. rados para a perdição” para o ativo “para a
Em fazer o bem. Literalmente, “em glória preparou”. Deus preparou vasos de
boas obras”. A frase inteira pode ser tradu­ misericórdia para a glória, mas os vasos da ira
zida como “perseverando em boas obras”. são preparados ou arranjados por eles mes­
A Bíblia não ensina que Deus dará a vida mos para a destruição (ver GC, 543).
eterna àqueles que, ocasionalmente, reali­ A ordem das palavras no grego é “ira e
zam boas obras. Ele a dá aos que continuam indignação”. Entende-se que a palavra grega
e perseveram em fazer o bem de tal forma traduzida como “ira” (orgê), expressa senti­
que se torna evidente que obedecer a Deus mento e disposição resolutos (comparar
é seu estilo de vida (ver Mt 10:22; Ap 2:10). com “sobre ele permanece a ira de Deus”,
Procuram. Do gr. zêteõ, que pode deno­ Jo 3:36). A palavra “indignação” (thumos)
tar sério esforço, como em “buscai, pois, expressa um impulso momentâneo ou surto

531
2:9 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

do sentimento de ira, como no dia da des­ ansiedade e a angústia que a pessoa expe­
truição final (Ap 14:10; sobre o significado rimenta quando é pressionada por todos os
da ira divina, ver com. de Rm 1:18). lados por aflições e provas ou punição, e não
Facciosos. Do gr. eritheia, “espírito mer­ sabe aonde ir em busca de alívio. Contrasta
cenário, egoísta”. Eritheia também tinha o a frequente descrição do AT de um estado
significado de “trabalho por salário”. Mais de alegria, como ir para um lugar espaçoso
tarde, a palavra passou a significar “ambição (2Sm 22:20; SI 118:5).
egoísta ou facciosa”, “intriga”, “rivalidade”. Sobre a alma de qualquer homem.
Em outras passagens do NT, a mesma pala­ Ou seja, em cada ser humano. Este versículo
vra é usada para se referir a intrigas e parti­ tem sido usado para apoiar a ideia de que a
darismo (2Co 12:20; G1 5:20; Fp 1:16; 2:3, alma, e não o corpo, sofrerá a penalidade. No
Tg 3:14, 16). Na maioria desses casos, a ARA entanto, a palavra “alma” (psuchê) frequen­
traduz eritheia como “contenda”, evidente­ temente denota toda a pessoa (cf. Rm 13:1;
mente, sob o pressuposto de que a palavra cf. SI 16:10; Mt 10:28).
era derivada de outra raiz com som um pouco Ao judeu primeiro. Como o judeu é o
semelhante, eris, que significa “contenda”, primeiro em obter privilégio e oportunidade,
“briga” (ver com. de Rm 1:29). ele é o primeiro na responsabilidade e na
Em contraste com os justos, que perse- culpa (ver com. de Rm 1:16; cf. Lc 12:47, 48).
veram em fazer o bem, os injustos são aqui 10. Glória [...] e honra, e paz. Em
descritos como egoístas e facciosos em sua contraste com a “tribulação e angústia” que
atitude para com Deus e a verdade. Foi um aqueles que fazem o mal irão sofrer.
espírito semelhante que levou tantos judeus Pratica o bem. Estas palavras estão em
a se opor ao evangelho (ver At 13:45; etc.). contraste com “faz o mal” (v. 9; sobre a rela­
Sua atitude legalista e mercenária em relação ção das boas obras com a salvação, ver com.

487
à religião e sua visão egoísta da salvação os de Rm 3:28). ◄
levaram a rejeitar o caminho de Deus de jus­ 11. Acepção de pessoas. Do gr.
tificação pela fé em Cristo e, assim, a rejei­ 'prosõ-polêmpsia, literalmente, “aceitação da
tar o próprio Deus. face”, que significa “parcialidade”. Esta pala­
Desobedecem à verdade. Comparar vra ocorre em outras partes do NT, apenas
com a experiência dos que “detêm a ver­ em Colossenses 3:25, Efésios 6:9 e Tiago 2:1.
dade pela injustiça” (Rm 1:18). Os facciosos Prosõpolêmptês, “aquele que mostra par­
e egoístas não se importam em ser fiéis à ver­ cialidade”, ocorre em Atos 10:34 (KJV), e
dade. Sendo egoístas (2Tm 3:2), não recebe­ prosõpolêmpteõ, “julgar com parcialidade”,
ram “o amor da verdade para serem salvos” em Tiago 2:9 (KJV). Nenhuma das três for­
(2Ts 2:10). Preferem deleitar-se “com a injus­ mas ocorre na LXX ou em escritos não cris­
tiça" (v. 12). tãos, por isso se acredita que a palavra é de
9. Tribulação. Do gr. thli-psis, denotando origem cristã. No AT, a frase hebraica cor­
pressão de um peso esmagador, como de pro­ respondente significa tanto dar uma recep­
vações e calamidades e, neste caso, de puni­ ção graciosa a um suplicante ou pretendente
ção pelos pecados. (Gn 19:21; Jó 42:8) como mostrar parciali­
Angústia. Do gr. stenochõria, literal­ dade (Lv 19:15; 2Cr 19:7). No NT, a palavra
mente, “estreiteza de espaço”. A ideia é uma tem sempre o sentido negativo de parciali­
restrição. Na tradução LXX de Deuteronômio dade. A liberdade da parcialidade faz parte
28:53 e 57, a palavra descreve o confina- do caráter de Deus, como justo juiz (Dt 10:17;
mento de um cerco. Aqui, ela descreve a 2Cr 19:7; Jó 34:19).

532
ROMANOS 2:12

12. Pois. Por causa de seus privilégios, respeito de a referência ser aos dez manda­
os judeus tinham questionado se o princípio mentos, à lei cerimonial, ou não, deve ser
de que “com Deus não há acepção de pes­ baseada apenas na presença ou ausência do
soas” (v. II) era aplicável a eles. Até então, artigo. No entanto, parece ser bastante con­
eles tinham abusado de sua posição pri­ sensual que, na ausência do artigo, a ênfase
vilegiada, até chegar ao ponto de se sen­ é colocada sobre a palavra “lei”, principal­
tirem livres para condenar os crimes dos mente como um princípio abstrato e uni­
outros, enquanto cometiam os mesmos versal. Quando o artigo está presente, a
pecados (v. 1-3). Então, Paulo passa a expli­ ênfase é sobre “a lei” como um código espe­
car como Deus exercerá imparcialidade no cial c objetivo.
julgamento dos judeus privilegiados e dos Na ausência de uma regra precisa e sim­
gentios menos privilegiados. Cada um será ples para se chegar à identidade da "lei”, por
julgado pelo método apropriado: o judeu, meio da utilização ou não do artigo definido,
pela lei escrita, contra a qual pecou, e o gen­ talvez seja mais sábio depender principal­
tio, pela lei não escrita da consciência, con­ mente do contexto para indicar a identifica­
tra o qual ele pecou. ção específica a ser feita. Em cada passagem
Sem lei. Esta expressão significa, evi­ significativa em que o termo “lei” ou “a lei”
dentemente, sem lei revelada ou escrita, pois ocorre, a menção será feita para saber se o
os gentios não estão sem a lei não escrita da artigo está presente ou ausente no grego. Em
consciência (v. 14, 15). Os gentios não serão seguida, será considerado o contexto para
julgados por uma lei que não possuem. No ajudar a determinar se a referência é à lei
entanto, se transgredirem a lei não escrita moral ou cerimonial, à lei como um princí­
da consciência, estarão perdidos, assim pio, ou a outros aspectos da lei.
como os que pecaram contra a luz maior. Neste versículo, uma vez que o artigo não
Paulo já explicou que os pecados dos gen­ está presente, a passagem pode ser entendida
tios são indesculpáveis, porque rejeitaram como uma afirmação do princípio de que
a revelação de Deus para eles na natureza e aqueles que pecaram contra a lei serão jul­
na consciência (Rm 1:19, 20, 32). A falta de gados pela lei. Aqueles que pecaram sem lei,
mais luz não dá a ninguém o direito de pecar perecerão sem lei. No entanto, é evidente,
contra a luz menor. Os pagãos que pecaram a partir do contexto, que Paulo também se
estarão perdidos, mesmo que não tenham a refere ao código de conduta moral revelado
lei escrita de Deus. Eles pecaram contra a lei ou escrito, contra o qual os judeus pecaram.
que possuem, e a punição segue como con­ Fundamcntalmentc, essa c a lei moral dos
sequência inevitável. dez mandamentos, mas Paulo também pode
Sob a lei. Literalmente, “em lei”, isto ter considerado todo o sistema de instrução
é, na esfera da lei, sob a autoridade da lei. do AT, com suas regras e padrões de con­
Nesta declaração geral do princípio do duta moral baseados nos dez mandamentos
488

juízo de Deus, Paulo usa o termo “lei” sem (ver PP, 464). Aqueles que tiveram o privi-«
o artigo definido “a”. No original da epís­ légio de conhecer essa lei e, ainda assim,
tola aos Romanos, a palavra “lei” (do gr. pecaram contra uma expressão tão clara da
nomos) ocorre 39 vezes sem o artigo e mais vontade de Deus devem receber punição
35 vezes sem ele. O problema da deter­ maior do que a dos menos instruídos. A seve­
minação da lei específica mencionada em ridade da punição corresponde à medida da
cada passagem tem sido objeto de debates. culpa, e a medida da culpa depende do grau
Parece certo que nenhuma decisão final a de oportunidades. A Bíblia ensina que há

533
2:13 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

diferentes graus de punição (Mt 11:21-24; vontade de Deus, mas não estão dispostos a
12:41, 42; Lc 12:47, 48). obedecê-la, com a posição de quem não só
Mediante lei serão julgados. O para­ conhece a vontade de Deus, mas lhe dá seu
lelo “também [...] perecerão” sugere que este pleno cumprimento. Já foi mencionado na
é um juízo de condenação. A palavra “julgar” epístola que essa obediência só pode vir de
pode ter esse significado quando o contexto fé (Rm 1:5, 17; cf. 3:20). Este versículo dá
o indicar (ver jo 3:18; 2Ts 2:12; Hb 13:4, em mais ênfase ao fato de que as pessoas são
que a ARA traduz como “julgado” ou “jul­ julgadas, não pelo que pretendem conhecer
gará"). As duas classes de pecadores serão ou professam ser, mas pelo que realmente
condenadas, ambas morrerão. Mas o juízo fazem (Rm 2:6).
“pela lei” é mencionado apenas sobre aque­ 14. Quando [...] os gentios. Literal­
les que têm a lei. mente, “sempre que os gentios”. A ausência
13. Simples ouvidores. Os judeus do artigo “os” chama a atenção para o cará­
tinham a oportunidade de ouvir a lei, lida ter deles como não judeus.
regularmente nas sinagogas (At 15:21). Não têm lei. Isto é, não têm qualquer
Mas chegaram a supor que o conheci­ código de conduta moral revelado, diferen­
mento teórico da lei, em si, constituía jus­ temente dos judeus. Paulo está prestes a
tiça. Aparentemente, eles não reconheciam explicar que os gentios têm uma lei, mas
a necessidade de obediência perfeita e perpé­ de outro tipo.
tua. jesus repreendeu os judeus por essa ati­ Procedem, por natureza. Ou seja, pra­
tude para com a Palavra de Deus. “Examinais ticam de forma espontânea, não consciente­
as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida mente, agindo de acordo com as exigências
eterna [...] Contudo, não quereis vir a Mim de uma lei exterior, mas de acordo com os
para terdes vida” (Jo 5:39, 40; cf. DTN, 211). testemunhos da consciência (v. 15). “Assim
“Os judeus estavam de posse das Escrituras como por meio de Cristo todo ser humano
e supunham que, no mero conhecimento tem vida, também por meio dEle, cada pes­
que delas possuíam, tinham a vida eterna” soa recebe algum raio da luz divina. Existe
(DTN, 212). Essa mesma visão equivocada em cada pessoa não somente poder intelec­
de que o conhecimento por si só traz jus­ tual, mas percepção espiritual do que é reto,
tiça e salvação ainda é corrente entre judeus anelo de bondade” (Ed, 29). Aqueles den­
e cristãos. A vontade de Deus não só deve tre os gentios que reconheceram a revelação
ser conhecida, mas obedecida (Mt 7:21, 24; de Deus nas obras da criação (Rm 1:19, 20)
Lc 6:47-49; Tg 1:22). e responderam ao impulso divinamente
Da lei. Literalmente, “de lei”. O artigo “a” implantado para fazer o bem têm praticado
está ausente no grego. Aqueles que têm uma “por natureza” as coisas contidas na lei (ver
lei à qual possam ouvir e pela qual possam PJ, 385).
ser guiados devem ser obedientes a ela, se De conformidade com a lei. Neste
quiserem ser “justificados” no juízo. O con­ caso, “a lei” é a tradução literal. O artigo
texto indica que, no que concerne aos judeus, está presente no grego (ver com. do v. 12).
Paulo ainda se refere aqui ao padrão de con­ Evidentemente, Paulo se refere aos princí­
duta moral à sua disposição, revelado no AT pios da lei moral como são revelados nos dez
e, cspecialmcnte, nos dez mandamentos. mandamentos. Os gentios não poderíam rea­
Justificados. Ou, “considerados justos”, lizar “por natureza” as muitas atividades e
“declarados justos”. Paulo ainda contrasta a cerimônias prescritas em toda a lei mosaica,
condição no juízo daqueles que conhecem a mas poderíam cumprir “por natureza” as

534
ROMANOS 2:16

exigências da lei moral. Mais à frente, Paulo possuíam alguma consciência da vontade de
explica que “o cumprimento da lei é o amor" Deus, apesar de sua ignorância da lei escrita.
§► (Rm 13:10; ver DTN, 638). Consciência. Do termo gr. suneidêsis,
Tudo isso está no comentário sobre o “co-conhecimento”, um conhecimento adja­
v. 13: apenas “os que praticam a lei” serão cente que a pessoa tem da qualidade de seus
considerados justos. Os gentios ignorantes, atos, paralelo ao conhecimento dos atos em
que mostraram por seu espírito amorável que si. Paulo usa suneidêsis mais de 20 vezes em
são os verdadeiros “praticantes da lei”, “são suas epístolas. As pessoas têm a capacidade
justos diante de Deus”, enquanto os infor­ de julgar os próprios pensamentos, palavras
mados, judeus e cristãos privilegiados, que e ações. A consciência pode ser superescru-
mostram, por falta de amor, que são apenas pulosa (ICo 10:25) ou “cauterizada” pelo
“ouvidores da lei” “não são justos”. abuso (lTm 4:2). Pode ser esclarecida por
Lei para si mesmos. A necessidade e o mais conhecimento da verdade (ICo 8:7) e
impulso de fazer o bem que existe na razão e agir de acordo com a luz que tem.
na consciência são, em certo sentido, padrão Pensamentos. Ou, “raciocínios”, “pen­
e lei para cada pessoa, como explica o v. 15 samentos”.
(cf. Tg 4:17). Mutuamente acusando-se. Estas
15. A obra da lei (ARC). Ou seja, a obra palavras e as restantes do v. 15 têm sido
que a lei exige, a conduta que a lei requer. explicadas de diversas maneiras. Alguns
A frase também tem sido entendida como o consideram que “mutuamente” significa gen­
efeito prático ou obra da própria lei, ao esta­ tios com gentios, e concluem que Paulo se
belecer a distinção entre o certo e o errado. refere aqui a acusações ou a vindicações fei­
Gravada no seu coração. Muito tas pelos gentios entre si.
embora os gentios não conheçam a lei De qualquer maneira, esta passagem
escrita, sempre que eles revelam amor a indica que Paulo estabelece seu argumento
Deus e a seus semelhantes, eles mostram de que os gentios não estavam privados de
que a norma da lei está escrita em seu cora­ um senso de certo e errado. Por sua res­
ção (cf. jr 31:33; Hb 10:16; sobre o significado posta aos estímulos da consciência, eles são
de “coração”, ver com. de Rm 1:21). “Onde julgados.
quer que haja um impulso de amor e sim­ 16. No dia. Ou seja, no tempo do juízo
patia, onde quer que o coração se comova final (At 17:31). Este versículo pode ser con­
para abençoar e amparar os outros, é reve­ siderado um resumo de toda a argumenta­
lada a operação do Santo Espírito de Deus” ção anterior.
(PJ, 385; cf. G1 5:22). O Espírito Santo não Por meio de Jesus Cristo. A Bíblia
está de forma alguma restrito aos judeus e ensina que Jesus não é nosso Salvador ape­
cristãos, mas trabalha na mente e no cora­ nas, mas também nosso juiz (Mt 25:31-46;
ção das pessoas em todos os lugares. Deve ter Jo 5:22, 27; At 10:42; 17:31; 2Tm 4:1).
sido difícil para os judeus aceitarem a dou­ Segredos. Ou, “coisas ocultas”. Por
trina expressa nesta passagem. Não é menos essas coisas, o caráter é revelado (ver com.
necessária hoje aos cristãos que são tenta­ de Pv 7:19). Uma vez que Deus tem um regis­
dos a assumir uma visão demasiado estreita tro exato de cada coisa secreta em nossa vida
e egoísta da salvação (ver jo 3:16; lTm 2:4). (Ec 12:14; cf. Mt 10:26; Lc 8:17; ICo 4:5),
Testemunhando. Paulo aponta para Ele é capaz de julgar sem “acepção de pes­
o exercício da consciência entre os gentios soas “(Rm 2:6, 11; cf. GC, 486). “Porque Deus
como mais uma prova de que eles ainda há de trazer a juízo todas as obras, até as

535
2:17 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

que estão escondidas” (Ec 12:14). Esse ver­ pelos quais são tão prontos a condenar os
sículo explica ainda mais o principal argu­ gentios. Dessa forma, Paulo prova que todos,
mento de Paulo em Romanos 2. O judeu em todos os lugares, estão sob condenação
favorecido, com todo o seu conhecimento e necessitados da justiça e da salvação reve­
da lei, estava inclinado a desprezar o gentio ladas no evangelho.
ignorante e a considerá-lo indigno da sal­ Que tens por sobrenome judeu. Ou,
vação. Mas somente Deus, que pode ler a “levas o nome de judeu”. Em outras palavras,
vida interior, está em posição de tomar essa “suponha que você se chame judeu”; ou “que
decisão. A disposição amorosa, a pronti­ tal se você quiser levar o nome de judeu”.
dão para obedecer à lei da consciência, são O título “judeu” ocorre pela primeira
coisas que só Deus conhece plenamente. vez em 2 Reis 16:6 (ver o com. ali). Depois
No entanto, essas são as coisas essenciais do cativeiro babilônico, tornou-se o nome
que constituem realmente a observância da nacional do povo hebreu. Os judeus tinham
lei de Deus. São as qualidades de caráter orgulho de seu nome e de sua nacionalidade
► que Deus espera dos judeus e dos gentios, (G1 2:15; Ap 2:9; 3:9). Ser um judeu signifi­
490

e, no juízo final, nenhuma piedade exterior cava ser distinguido das nações e desfrutar
pode expiar sua ausência. de privilégios especiais (Rm 9:4; G1 2:15). Em
De conformidade com o meu evan­ sua discussão sobre a culpa dos judeus, Paulo
gelho. Alguns entendem que isso significa destaca momentaneamente o alardeado pri­
que Paulo estava tão confiante na veracidade vilégio (Rm 2:17, 18) e a pretendida superiori­
de sua mensagem que podia afirmar que seu dade deles sobre os outros (v. 19, 20). Mais
evangelho seria o padrão no juízo final (ver tarde, ele traz à tona a flagrante incoerên­
ICo 15:1; G1 1:6-9). No entanto, Paulo pode cia entre sua profissão elevada e sua prática.
ter pretendido dizer simplesmente que o Repousas na lei. Literalmente, “repou­
fato observado é apresentado no evangelho, sas sobre a lei”. Os judeus tinham chegado a
isto é, que as pessoas não só serão julgadas, considerar a mera posse da lei como garan­
mas que o julgamento será feito por Jesus tia do favor de Deus. Eles se baseavam no
Cristo. O juízo vindouro é ensinado no AT fato de que tinham a lei e tinham sido assim
(Dn 7:9-12, 26, 27). Um dos ensinamentos distinguidos dos outros, em vez de usar a lei
distintivos do evangelho é que Aquele que como regra de vida e luz para a consciência.
viveu e morreu para salvar os seres humanos A mesma palavra grega traduzida aqui como
também irá julgá-los (2Co 5:10). “repousas” ocorre na LXX em Miqueias 3:11:
17. Eis (ARC). Do gr. ide. Evidências “E ainda se encostam ao Senhor, dizendo:
textuais (cf. p. xvi) sugerem que ide seja Não está o Senhor no meio de nós? Nenhum
substituído por ei de, “se, porém” (ARA). mal nos sobrevirá.”
As expressões gregas ide e ei de são muito E te glorias em Deus. Literalmente,
semelhantes na forma e na fonética. A reda­ “te gabas em Deus”, ou "te jactas de Deus”.
ção “se, porém” fortalece a conexão entre os Os judeus afirmavam ter uma relação espe­
v. 17 a 20 e 21 a 24. cial com Deus, mas, em vez de essa relação
Em sua epístola, até este ponto, Paulo se revelar em humilde dependência e obe­
mostrou que os gentios pecaram. Ele expli­ diência leal, manifestou-se em presunção e
cou que judeus e gentios estão sujeitos a um arrogância para com as demais nações. Essa
juízo imparcial, da parte de Deus. Então, foi uma perversão do gloriar-se que Deus
ele passa a mostrar que os judeus são recomenda: “Mas o que se gloriar, glorie-
culpados dos mesmos pecados e vícios se nisto: em Me conhecer e saber que Eu

536
ROMANOS 2:21

sou o S enhor e faço misericórdia, juízo e e mestres da verdade para o mundo. O pecado
justiça na terra” (Jr 9:24). E verdade que os estava em apenas desfrutar seus privilégios sem
judeus foram muito privilegiados por seu cumprir a responsabilidade correspondente.
conhecimento de Deus (Dt 4:7). Esse devia Guia dos cegos. Ver Mt 15:14; ver com.
ter sido motivo de gratidão e não de vanglo­ de Rm 23:16.
ria. Infelizmente, é muito mais comum se 20. Instrutor. Ou, “corretor”. A pala­
orgulhar pelos privilégios do que ser grato vra grega combina os sentidos de ensino e
por eles. Não é nenhuma evidência de pie­ disciplina.
dade que alguém se orgulhe de seu conhe­ Crianças. Isto é, pessoas religiosas ima­
cimento de Deus. A gratidão humilde por turas. Os judeus davam muito valor à con­
possuir esse conhecimento, a gratidão que o quista de prosélitos gentios ao judaísmo.
leva a desejar que os outros tenham o mesmo Jesus usou o termo para Se referir às pes­
privilégio, é evidência da verdadeira piedade soas comuns que O ouviam com prazer
na vida do cristão. (Mt 11:25). Paulo descreveu assim os novos
18. Sua vontade. Ou seja, a vontade conversos de Corinto (lCo 3:1).
de Deus. Na lei. Talvez uma referência geral aos
Aprovas. Do gr. dokimazõ, “testar”, “pro­ ensinamentos do AT como um todo (ver com.
var”, “discernir” (cf. Rm 12:2; 1Co3:13; 11:28; do v. 12).
2Co 8:8), ou “aprovar”, como resultado de um Forina. Do gr. morphosis, “forma”, “esboço”,
teste (ver Rm 14:22; lCo 16:3; lTs 2:4). “simulacro”. Paulo se refere ao esboço sem a
Coisas excelentes. Literalmente, “coi­ substância. A única outra ocorrência desta
sas que são diferentes”, portanto, coisas exce­ palavra no NT está em 2 Timóteo 3:5, em
lentes, do ponto de vista de quem as aprova. que a “forma de piedade” é contrastada com o
Esta passagem se refere tanto à capacidade “poder”. Em Romanos, Paulo fala do esboço,
dos judeus de discernir, por meio da lei entre quadro, personificação do conhecimento e
o bem e o mal, como ao fato de que os judeus da verdade, que os judeus tinham disponí­
realmente aprovavam, em teoria, as coisas veis na lei. Deus havia planejado que essa
que sobressaem. Eles eram orgulhosos desse “forma” fosse não somente um guia para os
refinamento de suas sensibilidades morais, judeus, mas que, por sua vez, fosse usada
como se a mera aprovação sem obediência por eles para ensinar as verdades do evan­
constituísse justiça. E claro que Paulo estava gelho aos gentios.
se preparando para contrastar a iluminação 21. Pois. Uma vez que os judeus faziam
espiritual dos judeus com seu fracasso espi­ uma profissão tão elevada de piedade e rei­
ritual (v. 21-24). vindicavam essa superioridade, era certo que
Instruído. Do gr. katêcheõ. O verbo se deveria esperar muito deles. Mas Paulo
ocorre nos papiros com a conotação de ins­ revela a incoerência entre suas reivindica­
trução legal (comparar seu uso em Lc 1:4; ções e sua conduta real. Eles “dizem e não
At 18:25; lCo 14:19; G1 6:6). Katêcheõ é a fazem” (Mt 23:3).
origem da palavra portuguesa “catequizar”. Furtas. Essa incoerência não era um fato
Os judeus eram instruídos nos ensinamen­ recente entre os judeus. Muito antes, o sal-
tos da lei, em sua juventude, e para o resto mista tinha lamentado a decadência moral
da vida ouviam a leitura regular e a exposi­ de seu povo (SI 50:16). Ao fazer acusação de
ção do AT. roubo, Paulo, sem dúvida, tinha em mente,
19. Estás persuadido. O propósito de entre outras coisas, os métodos desonestos de
Deus era que os judeus fossem testemunhas realização de negócios, como, por exemplo,

537
2:22 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

os que eram realizados no próprio pátio do tido em mente 2 Samuel 12:14 ou Ezequiel
templo, com a aprovação e colaboração dos 36:21 a 24. Paulo aplica a passagem em um
sacerdotes e príncipes (ver com. de Mt 21:12; novo sentido. Isaías falava do desprezo a que
ver também DTN, 155). A acusação de adul­ o nome de Deus fora lançado pelos inimi­
tério pode ter incluído uma referência espe­ gos porque tinha sido permitido que Israel
cial à prática livre do divórcio (ver com. de caísse em suas mãos. Paulo dizia que a
Mt 5:31, 32; sobre as condições morais entre causa da desonra é a vida incoerente dos
os judeus, ver com. de Rm 2:1). próprios judeus.
22. Cometer adultério. Ver com. do v. 1. É blasfemado. Ou, “é mencionado de
Abominas. Do gr. bdellussõ, “detestar”, maneira profana”, “é abusado”. Os gentios
“afastar-se com desgosto”. julgavam a religião dos judeus pela vida
Cometes sacrilégio (ARC). Ou, “rou­ incoerente de seus devotos, por isso, eram
bas os templos”. Esta acusação é geralmente levados a blasfemar de Deus e do Autor
explicada como a pilhagem dos templos da religião. Os judeus se vangloriavam da
pagãos, o que significa que Paulo está se lei, mas, por sua desobediência, lançavam
referindo aqui à incoerência de roubar os desonra sobre o Legislador. A má conduta e
templos, apesar da professada contamina­ hipocrisia dos judeus faziam com que os gen­
ção de contato com a idolatria. A suspeita tios desprezassem uma religião que parecia
de que os judeus tinham reputação de come­ não ter efeito na purificação e restrição
ter esse crime possivelmente pode ser infe­ dos que professavam segui-la. Os judeus
rida a partir de Atos 19:37 a 41, em que o eram tão zelosos do nome de Deus que
escrivão da cidade de Efcso absolve Paulo e sequer pronunciavam a forma mais sagrada
seus companheiros de serem ladrões do tem­ desse nome (ver vol. 1, p. 149, 150). No
plo. Esse pecado era proibido pelos judeus, entanto, viviam de tal maneira que os gentios
cm harmonia com Deuteronômio 7:25. Josefo eram levados a blasfemar do nome divino.
parafraseia assim essa proibição: “Que nin­ 25. Circuncisão. Os judeus davam
guém blasfeme os deuses que outras cidades grande importância ao rito da circuncisão,
reverenciam, nem roube os templos estran­ como se a cerimônia exterior garantisse um
geiros, nem tome tesouro que foi dedicado favor divino especial. Deus instituiu esse rito
em nome de qualquer deus” (Antiguidades, como um sinal de Sua aliança com Abraão
iv. 8.10 [207]). e seus descendentes (Gn 17:9-14; At 7:8).
No entanto, é possível que Paulo se refe­ Como marca e memorial dessa relação, a cir­
risse à profanação do templo judaico e dos cuncisão podería ter sido uma bênção para
serviços do templo. A essência da idolatria os judeus. Mas, visto que, em tão grande
é a profanação de Deus, e disso, os judeus medida, eles não tinham conseguido fazer
tinham um alto grau de culpa. Eles faziam jus às exigências essenciais da aliança, a cir­
da casa de Deus um “covil de salteadores” cuncisão se tornou em nada mais que uma
(Mt 21:13; Mc 11:17; Lc 19:46). forma vazia.
23. One le glorias na lei. Síntese dos Se praticares a lei. Não há artigo no
v. 17 a 20. grego (ver com. do v. 12), pelo que a cláusula,
Transgressão da lei. Síntese da linha talvez, seja equivalente a “se és guardador da
de pensamento estabelecida nos v. 21 e 22. lei”. O guardador da lei é contrastado com o
Desonras. Ver com. do v. 24. transgressor, da frase seguinte. O grego enfa­
24. Está escrito. A referência deve ser a tiza a prática habitual da obediência. O desejo
1 saias 52:5, embora Paulo também possa ter sincero de obedecera lei de Deus sempre foi a

538
ROMANOS 2:29

condição pela qual Deus concordou em cum­ Julgará. No sentido de condenação.


prir Suas graciosas promessas para os judeus A ideia pode ser a de envergonhar pelo con­
(Êx 19:5, 6; Dt 26:16-19; Jr 4:4). traste (cf. Mt 12:41, 42).
Transgressor da lei. Ou, “quebrantador A letra. Do gr. gramma. Esta palavra era
da lei”. “Lei”, aqui, não tem nenhum artigo usada para escritos ou documentos de todos
no grego (ver com. do v. 12). “Transgressor” os tipos (ver Lc 16:6, 7; At 28:21). Neste con­
vem de uma antiga palavra grega parabatês, texto, evidentemente, se reíêre à lei escrita,
que significa “aquele que passa por cima em geral. A ênfase está no fato de que os

493
de uma linha”, portanto, um “transgressor”, judeus possuíam a lei por escrito, em con- <
como a palavra é traduzida em Gálatas 2:18; traste com os gentios, que não eram assim
Tiago 2:11; etc. Existem muitas palavras favorecidos (Rm 2:14). Os judeus transgre­
gregas diferentes no NT para expressar diam a vontade de Deus, apesar de terem
os vários aspectos do pecado. Parabatês se as vantagens da lei escrita, e eram circun-
refere àquele que transgride um manda­ cidados. Assim, eles são condenados pela
mento revelado. obediência de quem cumpre a lei em cir­
26. A incircuncisão. Ou seja, o homem cunstâncias menos favoráveis.
não circuncidado, o gentio. 28. Não é judeu. A mera conformidade
Preceitos. Ou, “requisitos”, do gr. exterior com a lei não faz da pessoa um ver­
dikaiõmata (ver com. de Rm 8:4). Paulo já dadeiro judeu, de acordo com a definição
tinha explicado que era possível aos gen­ da Bíblia, mesmo que seja descendente de
tios cumprir o que a lei exige (ver com. de Abraão e tenha sido circuncidado.
Rm 2:14, 15). 29. Interiormente. Literalmente, “em
Considerada. Ou, “contada”. Se um secreto” (cf. Mt 6:4). Judeus verdadeiros são
gentio obedece às exigências da lei, a incir­ aqueles que possuem espírito e caráter que
cuncisão não torna menos aceitável sua cumprem o propósito de Deus em chamá-
obediência. A circuncisão era um rito sim­ los para ser Seu povo escolhido. Deus os
bólico destinado por Deus a ajudar os filhos separou, não apenas para cumprir certos
de Israel no desenvolvimento de um estilo de ritos exteriores, mas para ser um povo santo
vida coerente com a lei de Deus. Se os no coração e na vida (Dt 6:5; 10:12; 30:14;
gentios, sem o benefício desse rito simbó­ SI 51:16, 17; Is 1:11-20; Mq 6:8).
lico, praticassem as coisas contidas na lei, Do coração. O fundo espiritual da cir­
eles também compartilhariam as promes­ cuncisão, sem o qual a cerimônia exterior era
sas feitas aos judeus (ver Mt 8:11; comparar inútil, foi ensinado no AT (ver Dt 10:16; 30:6;
lCo 7:19; G1 5:6; ver vol. 4, p. 14, 15). Jr 4:4; 9:26; Ez 44:9; ver também At 7:51;
27. Por natureza. “Incircunciso por Fp 3:3; Cl 2:11). O desígnio da circuncisão
natureza” pode ser considerado como cm era que ela devia ser um sinal de separa­
contraste com a expressão “judeus por natu­ ção do mundo pagão e de consagração ao
reza” (G12:15). Então, as palavras significam Deus verdadeiro. O rito incluía a renúncia e
“cm seu estado natural de incircuncisão”, ou o abandono de todos os pecados, a separa­
a frase pode ser considerada equivalente a ção de tudo que era ofensivo a Deus. Essa
“incircunciso”, em conformidade com o obra era claramente “do coração”.
argumento de Romanos 2:28 e 29 de que a No espírito. Literalmente, “em espírito”,
verdadeira circuncisão não é algo exterior isto é, na vida espiritual interior.
e físico. E uma questão de coração, espiri­ Não segundo a letra. Comparar com
tual, e não literal. Rm 7:6; 2Co 3:6-8. Verdadeira circuncisão

539
2:29 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

envolve um trabalho interior e espiritual, de da religião não os pode salvar, não impor­
submissão a Deus, e é mais do que confor­ tando quão ortodoxas sejam suas crenças.
midade exterior com a exigência ritual. A consideração que as pessoas podem colo­
Louvor. Aqui pode haver um jogo de pa­ car sobre sua aparente piedade não é a ver­
lavras. O nome “judeu” é derivado de “Judá”, dadeira medida de seu caráter nem de que
que, em hebraico, é construído em torno de estão com Deus. Os ritos e cerimônias são
uma raiz que significa “louvor” (ver com. muito menos importantes do que a condi­
de Gn 29:35). Em Romanos 2:17, Paulo ção da mente e do coração. O fato de que
começou sua análise da condição espiritual alguém foi batizado, por si só, não irá salvá-
dos judeus referindo-se ao nome do qual eles lo. O fato de a pessoa estar registrada como
eram tão orgulhosos. No v. 29, ele descreve membro da igreja, ou de nascer de ances­
o tipo de pessoa que é digna desse nome. trais piedosos, não garante sua salvação.
E apropriado que Paulo tenha acrescentado O verdadeiro cristão é aquele que o é inte­
que o verdadeiro judeu é a pessoa cujo lou­ riormente, pois a verdadeira religião é uma
vor não provém dos homens, mas de Deus questão individual.
(comparar ISm 16:7). Em toda sua vida diária, o cristão deve
Grande parte do que foi dito sobre os fazer do louvor a Deus o objetivo de sua exis­
judeus neste capítulo pode ser aplicado tência. Não fazemos nosso trabalho “servindo
aos professos cristãos. Aquele que está na à vista, como para agradar a homens, mas
posse da Palavra de Deus e compreende como servos de Cristo, fazendo, de coração,
seu dever é privilegiado. Esse conhecimento a vontade de Deus” (Ef 6:6; cf. Cl 3:22).
pode levar à santidade e felicidade nesta Cristo é nosso exemplo nisso. Ele disse: “Eu
vida e à vida eterna no futuro. Mas é terrível faço sempre o que Lhe agrada” (Jo 8:29).
quando os cristãos negligenciam os privilé­ Paulo igualmente testemunhou da neces­
gios recebidos. Eles serão julgados de acordo sidade de agradar, não aos homens, mas a
com a luz que receberam. A mera profissão Deus (lTs 2:4).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1 - MDC, 124, 125; PE, 53; GC, 673; 11 -AA, 380; CM, 162;
CBV, 485 T4, 646; T7, 180 FEC, 315, 336; PR, 369;
1-3-T8, 85 7-CM, 149; PE, 114; TM, 192; T4, 225;
4 — PJ, 202; CPPE, 366; GC, 533; LS, 48; T5, 677
CC, 27; T8, 64 MCH, 167; Tl, 39; 12, 13-GC, 436
5 - Ev, 27; TM, 146; T7, 88 T2, 102, 229; T7, 235 14-16 - PJ, 385; DTN, 239,
5, 6-GC, 540 9 - GC, 540 638; OC, 436
6-CM, 21; DTN, 708; 10 - MJ, 54 29 - AA, 204; FEC, 399

540
ROMANOS 3:1

Capítulo 3
1 A -prerrogativa dos judeus que 3 eles não perderam. 9 A lei também os convence
do pecado. 20 Ninguém é justificado pela lei. 28 Mas pela fé.
31 Entretanto, a lei não foi abolida.

1 Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a 15 são os seus pés velozes para derramar sangue,
utilidade da circuncisão? 16 nos seus caminhos, há destruição e miséria;
2 Muita, sob todos os aspectos. Principalmcn- 17 desconheceram o caminho da paz.
te porque aos judeus foram confiados os oráculos de 18 Não há temor de Deus diante de seus olhos.
Deus. 19Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que
3 E daí? Se alguns não creram, a incredulidade vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo
deles virá desfazer a fidelidade de Deus? o mundo seja culpável perante Deus,
4 De maneira nenhuma! Seja Deus verdadeiro, e 20 visto que ninguém será justificado diante
mentiroso, todo homem, segundo está escrito: Para dElc por obras da lei, em razão de que pela lei vem o
seres justificado nas tuas palavras e venhas a vencer pleno conhecimento do pecado.
quando fores julgado. 21 Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de
5 Mas, se a nossa injustiça traz a lume a justiça Deus testemunhada pela lei c pelos profetas;
de Deus, que diremos? Porventura, será Deus injusto 22 justiça de Deus mediante a fé em Jesus
por aplicar a Sua ira? (Falo como homem.) Cristo, para todos e sobre todos os que creem; por­
6 Certo que não. Do contrário, como julgará que não há distinção,
Deus o mundo? 23 pois todos pecaram e carecem da glória de
7 E, se por causa da minha mentira, fica em re­ Deus,
levo a verdade de Deus para a Sua glória, por que 24 sendo justificados gratuitamente, por sua gra­
sou eu ainda condenado como pecador? ça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,
8 E por que não dizemos, como alguns, calunio­ 25 a quem Deus propôs, no Seu sangue, como
samente, afirmam que o fazemos: Pratiquemos males propiciação, mediante a fé, para manifestar a Sua jus­
para que venham bens? A condenação destes é justa. tiça, por ter Deus, na Sua tolerância, deixado impu­
9 Que se conclui? Temos nós qualquer vanta­ nes os pecados anteriormente cometidos;
gem? Não, de forma nenhuma; pois já temos de­ 26 tendo em vista a manifestação da Sua justiça
monstrado que todos, tanto judeus como gregos, no tempo presente, para Ele mesmo ser justo e o jus-
estão debaixo do pecado; tificador daquele que tem fé cm Jesus.
JO como está escrito: Não há justo, nem um 27 Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluí­
sequer, da. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela
11 não há quem entenda, não há quem busque lei da lé.
a Deus; 28 Concluímos, pois, que o homem é justificado
12 todos se extraviaram, à uma se fizeram inú­ pela fé, independentemente das obras da lei.
teis; não há quem faça o hem, não há nem um sequer. 29 E, porventura, Deus somente dos judeus? Não
13 A garganta deles é sepulcro aberto; com a lín­ o é também dos gentios? Sim, também dos gentios,
gua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus 30 visto que Deus é um só, o qual justificará,
lábios, por fé, o circunciso e, mediante a fé, o incircunciso.
14 a boca, eles a têm cheia de maldição e de 31 Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de manei­
amargura; ra nenhuma! Antes, confirmamos a lei.

541
3:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

1. Qual é [...] a vantagem do judeu? também provém de pistis. “Descrer” é apisteõ;


Literalmente, “qual é o ganho?" Que privi­ “incredulidade” é apistia.
légio ou vantagem têm os judeus sobre os A referência é, sem dúvida, à falta de
495

gentios? Uma vez que o verdadeiro judeu o crença e fé na revelação de Deus, sobretudo,
é interiormente, qual é a vantagem de per­ à falta de fé em Jesus, o Salvador prometido.
tencer ao povo escolhido? Uma vez que um Pode haver uma referência à infidelidade
gentio incircunciso que preenche os requi­ geral entre os judeus, a sua incapacidade
sitos da lei é considerado como um circun- de viver de acordo com o conhecimento e
cidado (Rm 2:26), qual é a vantagem de ser a instrução a eles confiada. Paulo não diz
circuncidado? Um cristão pode perguntar que todos os judeus eram infiéis ou des­
de maneira similar: se o batismo e a parti­ crentes. “Alguns dos ramos foram quebra­
cipação como membro de uma igreja em si dos” (ver com. de Rm 11:17). No entanto,
não trazem vantagem especial (ver com. de “alguns” (tines) pode representar a grande
Rm 2:29), qual é a utilidade de ser batizado maioria (cf. Hb 3:16).
e de se unir à igreja? Incredulidade. Ou, “falta de fé”.
2. Principalmente. Ou, “em primeiro Desfazer. Do gr. katargeõ, “tornar nula
lugar". Paulo menciona apenas uma vanta­ e sem efeito”. Esta palavra ocorre frequente­
gem e não continua a enumerar as demais. mente nas epístolas de Paulo e é traduzida de
Ele responde à pergunta com mais detalhes diversas maneiras, como “anular” (Rm 3:31),
em Romanos 9:4 e 5. “reduzir a nada” (ICo 1:28), “desistir” (ICo
Foram confiados. Ou, “foram-lhes con­ 13:11), “abolir” (Ef 2:15), “desfazer” (G1 5:11),
fiados" os oráculos. etc. O significado básico é “tornar inútil”.
Oráculos. Do gr. logia, literalmente, A falha dos judeus não significa que Deus
“breves palavras". A palavra ocorre apenas não conseguiu cumprir as promessas feitas a
quatro vezes no NT (ver At 7:38; Hb 5:12; eles. A promessa de salvação ainda é válida,
lPe 4:11). Neste contexto, Paulo evidente­ mas única e tão somente para os que têm fé
mente se refere às Escrituras do AT, embora (Rm 1:16). Em nosso tempo, alguns podem
possa se referir, em particular, às promessas ser tentados a considerar o atraso na volta
e mandamentos de Deus a Seu povo, Israel. de Cristo como uma falha da parte de Deus
A primeira vantagem que os judeus desfru­ em cumprir as promessas ao Seu povo. Mas
tavam era a revelação direta de Deus a res­ as promessas de Deus são condicionais (ver
peito da vontade divina para o ser humano. com. de Ez 12:27). Nossos pecados e a falta
Receber essa revelação era grande honra e de fé tornaram impossível a Deus cumprir a
privilégio e trazia consigo a obrigação corres­ promessa de breve retorno. Os mesmos peca­
pondente de compartilhá-la com o mundo dos que excluíram o antigo Israel da terra
(ver Dt 4:6-8). Se os judeus tivessem reco­ de Canaã têm retardado a entrada do Israel
nhecido e valorizado seu privilégio e respon­ espiritual na Canaã celestial. “Em nenhum
sabilidade, Deus poderia ter atuado por meio dos casos houve falta da parte das promes­
deles para a salvação do mundo (ver vol. 4, sas de Deus. E a incredulidade, o munda-
p. 13, 14). nismo, a falta de consagração e a contenda
3. Não creram. Ou, “estavam sem fé“, entre o professo povo de Deus que nos têm
“foram infiéis". Há uma semelhança funda­ detido neste mundo de pecado e dor por tan­
mental entre as palavras gregas geralmente tos anos” (Ev, 696; ver vol. 4, p. 30-34).
traduzidas como “crer”, “crença” e “fé”, na A fidelidade de Deus. Ver 2Tm 2:13;
ARA. “Crer” é pisteno; “crença” é pistis; “fé” Hb 10:23; 11:11; ljo 1:9.

542
ROMANOS 3:7

4. De maneira nenhuma! Do gr. mê por vós” (2Co 12:11); e (2) “demonstrar”,


genoito, literalmente, “que não aconteça”. “provar” (Rm 5:8; G1 2:18, traduzida pelos
Paulo usa esta expressão 18 vezes, sem­ verbos “provar”, “constituir”). O sentido de
pre para indicar forte aversão. A expressão “provar” pode se aplicar a esta passagem.
hebraica correspondente é chalilah, literal­ Paulo se prepara para enfrentar a objeção
mente, “uma coisa abominável, impensável, de que, se o pecado tende apenas a louvar
profana” (ver com. de iSm 20:2). e demonstrar a justiça de Deus, por que
Seja Deus verdadeiro. Ou, “que Deus seria punido?
continue a ser verdadeiro”, “que Deus seja Justiça de Deus. Ver com. de Rm 1:17.
encontrado verdadeiro”, ou “que Deus prove Neste contexto, parece que Paulo enfatiza a
ser verdadeiro”. Significa que apesar de as perfeição do caráter divino.
pessoas terem sido incoerentes em rela­ Que diremos? Expressão comum nos
ção ao que lhes foi confiado, que Deus seja escritos de Paulo (Rm 4:1; 6:1; etc.).
visto e reconhecido como verdadeiro (ver Será Deus injusto [...]? No grego, a
2Tm 2:13). forma desta pergunta implica que a resposta
Mentiroso, todo homem. Palavras do deve ser negativa.
SI 116:11, na LXX. Por aplicar a Sua ira? Literalmcntc,
Segundo está escrito. Uma citação da “por provocar a ira”, isto é, trazer o desprazer
► LXX, do Salmo 51:4, no qual Davi expressa divino contra o pecado (ver com. de Rm 1:18).
a profundidade de seu arrependimento pelo Falo como homem. Comparar com Rm
pecado com Bate-Seba e reconhece que 6:19; Cl 3:17. O senso de reverência de Paulo
Deus está apenas condenando e punindo o parece pedir desculpas por sua franca analo­
pecado. Paulo apela a essas palavras de Davi, gia entre as coisas humanas e divinas.
em apoio a seu raciocínio no v. 3, de que a 6. Certo que não. Ver com. do v. 4.
infidelidade das pessoas de modo algum anu­ Como julgará Deus o mundo? Para
lou a fidelidade de Deus, mas só serviu para Paulo, não há necessidade de provar a certeza
confirmar Sua justiça. de que Deus julgará a humanidade. Paulo
Justificado. Ou, “reconhecido como não precisaria convencer os judeus dessa ver­
justo”, “declarado justo”. Este é o único sig­ dade fundamenta] (ver Ec 12:14). Uma vez
nificado da palavra que poderia ser aplicado que é geralmente aceito que Deus será o juiz
ao Deus todo-justo. do mundo, a conclusão sugerida no v. 5 (de
Vencer. Ou, “prevalecer”. Palavra grega que Ele é injusto ao punir o pecado) deve ser
que por vezes era usada com referência aos rejeitada. Se for injusto que Deus condene
processos judiciais. e puna o pecado porque este serviu indire­
Fores julgado. Ou, “fores a juízo” (ver tamente para demonstrar Sua justiça, como
ICo 6:1, 6, em que o mesmo termo grego é Ele poderia julgar, afinal?
traduzido assim). Paulo pode se referir aqui 7. Minha mentira. Ou seja, a infi­
à questão central do grande conflito entre delidade às reivindicações de Deus e da
Cristo e o diabo. O caráter e a justiça de consciência, a negação da veracidade das
Deus estavam, de certo modo, sob o julga­ promessas de Deus, especialmente devido
mento da humanidade e de todo o universo a pessoa ter rejeitado a oferta de salvação por
(cf. Rm 3:25, 26). meio de Cristo. Paulo repete o contraste do
5. Traz a lume. Do gr. sunistêmi. Esta v. 4, mas aqui, talvez por causa da argumen­
palavra e suas formas afins são utilizadas no tação, ele fala como se ele próprio levantasse
NT, com dois significados: (1) “ser louvado a objeção (cf. ICo 4:6).

543
3:8 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Fica em relevo. A veracidade de Deus qualquer alegação dos judeus de que estão
não pode ser aumentada, mas pode existir imunes ao juízo de Deus.
em maior abundância, para que Sua glória 9. Que se conclui? A consulta expressa
seja mais plenamente manifestada. uma transição no raciocínio. Aqui, Paulo se
A verdade de Deus. Ou seja, a auten­ refere aos v. 1 e 2.
ticidade ou veracidade de Deus, Sua fideli­ Temos nós qualquer vantagem? Do
dade às promessas. gr. -proechometha, que alguns têm tradu­
Condenado. Ver com. de Rm 2:1. Se zido como “somos piores do que eles?” No
a minha incredulidade e falsidade servem entanto, o contexto parece ser contrário a
para vindicar a Deus, por que ainda sou con­ essa tradução. Paulo já havia declarado no
denado como pecador? Como um ato que v. 2 que os judeus tinham vantagens impor­
tende a promover a glória de Deus pode ser tantes sobre os gentios. No entanto, privilé­
considerado mal? E se essa objeção fosse gio elevado envolve mais responsabilidade.
válida, por que não deveriamos continuar Nesse sentido, é verdade que os judeus escla­
no pecado, para que viesse como resultado recidos mereciam punição mais severa que
maior bem ainda? Paulo não parou para os gentios ignorantes (Lc 12:47, 48). O res­
explicar a evidente falácia desse raciocínio tante do versículo deixa claro que, indepen­
tão destrutivo de toda moralidade. E evi­ dentemente de vantagem ou desvantagem,
dente que o pecador não merece crédito pelo judeus e gentios estão debaixo do pecado e
bem que advém de seu pecado, a despeito necessitados de justificação.
de suas intenções. Não, de forma nenhuma. Isto é, “nem
8. Caluniosamente. Literalmente, um pouco”.
“somos blasfemados”. O falso relatório era Já temos demonstrado. Ou, “já prova­
uma deturpação grosseira da fé e da doutrina mos”. A acusação foi feita contra os gentios
de Paulo e, ainda assim, havia quem “afir­ em Romanos 1:18 a 32 e contra os judeus, em
masse” que o apóstolo havia dito essas coi­ Romanos 2:1 a 29.
sas. A acusação de que Paulo, e os cristãos Gregos. Ou, gentios (ver com. de Rm
em geral, eram culpados de ensinar esse erro 1:16).
era aparentemente uma conclusão extraída Debaixo do pecado. Ou seja, sob o
desses ensinamentos de que o ser humano poder ou controle do pecado. A expressão
é justificado pela fé e não pelas obras da denota a sujeição ao pecado como um poder
lei (Rm 3:20, 28) e que “onde abundou o que governa a vida de todos em seu estado
pecado, superabundou a graça” (Rm 5:20). natural, não regenerado pela graça de Deus
A refutação completa dessa acusação é apre- (cf. Rm 7:14; G1 3:22).
497

► sentada no cap. 6. 10. Como está escrito. Paulo se volta


Condenação. Ou, julgamento. Não está às Escrituras para provar sua acusação de
claro se a última frase se refere aos calu­ pecado universal, o que já íez sob outros
niadores já mencionados, ou àqueles que se motivos. Essa evidência bíblica enfatiza par­
atrevem a dizer: “façamos males, para que ticularmente que até o povo escolhido tem
venham bens”, ou aos que falam e agem de parte na necessidade universal de justiça.
acordo com um princípio tão pernicioso. A seguinte série de citações é extraída de
A últ ima interpretação parece se encai­ vários textos bíblicos (SI 14:1-3; 53:1-3; 5:9;
xar melhor ao contexto, pois a menção de 140:3; 10:7; 36:1; Is 59:7). Os textos estão
Paulo aos caluniadores é apenas incidental em grande parte de acordo com a LXX,
ao seu objetivo nos v. 5 a 8, que é de eliminar embora com algumas variações. Paulo não

544
ROMANOS 3:18

especifica onde qualquer dessas passagens retamente, no temor do Senhor. Depois


pode ser encontrada, admitindo que seus lei­ dessa declaração, o próprio salmista se
tores judeus fossem bem versados no AT. Ele refere à “geração dos justos” (SI 14:5, ARC).
usa citações compostas em outras passagens O próprio discípulo e companheiro de Paulo, *

498
(Rm 9:25-28, 11:26, 27, 34, 35; 12:19, 20; Lucas (ver com. de At 16:10), não hesita
2Co 6:16-18). em dizer que Zacarias e Isabel eram “jus­
Não há justo. Extraído do Salmo 14:1 tos diante de Deus, vivendo irrepreensivel-
ou do 53:1. Em vez de “pratica o bem”, Paulo mente em todos os preceitos e mandamentos
usa a palavra “justo”, transmitindo o mesmo do Senhor” (Lc 1:6). Mas “a geração dos jus­
sentido, mas de uma forma que se adapta tos” seria rápida em concordar com Paulo,
mais facilmente a toda a sua argumentação que “todos pecaram” (Rm 3:23) e que não
sobre a justificação pela fé. Esta frase é um constituem exceção à descrição da pecami-
resumo de tudo o que se segue. nosidade geral. Seriam os primeiros a reco­
11. Não há quem entenda. Uma cita­ nhecer que já estiveram sob o domínio do
ção do SI 14:2. Condensando a passagem, pecado e que a justiça que desfrutam vem
Paulo expressa o sentido negativo implícito dc Deus por meio da fé.
no original. A falta de compreensão univer­ 13. Sepulcro aberto. Como a sepultura
sal é devida ao obscurecimento e a perversão aberta em breve estará cheia de morte e cor­
do intelecto causados pelo pecado (Rm 1:31). rupção, de igual modo, a garganta dos ímpios,
As coisas de Deus se tornaram loucura para a aberta para o discurso, está cheia de falsidade,
pessoa não regenerada (ICo 2:14; cf. Ef 4:18). corrupção e morte (comparar com Jr 5:16, em
O salmo que Paulo cita começa com a decla­ que a aljava dos caldcus também é chamada
ração: “Diz o insensato no seu coração: Não de sepulcro aberto). Alguns explicam que a
há Deus” (SI 14:1). figura significa que seu discurso é como o
Busque. Não há desejo espiritual nem cheiro de um túmulo aberto (ver Jo 11:39).
esforço para conhecer a Deus (cf. Rm 1:28). Urdem engano. Literalmente, “estavam
12. Todos se extraviaram. A citação usando o engano”. O tempo verbal indica
do Salmo 14:3 concorda com a LXX (em que insistência na prática do engano. O texto ori­
está como SI 13:3; ver vol. 3, p. 706). ginal do Salmo 5:9 significa, literalmente,
A uma se fizeram inúteis. A expressão “tornaram suave a língua”, ou seja, usaram
hebraica equivalente no salmo citado signi­ palavras suaves, lisonjeiras.
fica “ser imundo” (ver com. de SI 14:3). Veneno de víbora. Esta parte do ver­
Bem. Do gr. chrêstote. No NT, esta pala­ sículo é idêntica à LXX do Salmo 140:3.
vra só ocorre nos escritos de Paulo. Também O veneno da mentira é tão mortal quanto
é traduzida como “bondade” (Ef 2:7; Cl 3:12; o da serpente.
G1 5:22) e mencionada como fruto do 14. A boca. Ver SI 10:7. “Garganta”, “lín­
Espírito. A palavra pode ser definida como gua” e “lábios” (Rm 3:13) podem ser con­
uma disposição amável para com o próximo. siderados estágios pelos quais o discurso é
Quando as pessoas não têm nenhum desejo produzido. A “boca” resume tudo.
de conhecer a Deus e seu entendimento se 15. Seus pés. Os v. 15 a 17 são uma cita­
tornou obscurecido, elas não têm essa dis­ ção abreviada de Isaías 59:7 e 8, em que o
posição bondosa (cf. Rm 1:28-31). profeta representa o caráter da nação judaica
Nem um sequer. Pode-se objetar que a de seu tempo.
Bíblia e a história registram a vida de mui­ 18. Não há temor de Deus. Uma cita­
tos homens e mulheres nobres que viveram ção do SI 36:1. Paulo começa esta série de

545
3:19 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

citações com uma declaração geral sobre o (Rm 3:21; cf. Mt 5:17; 22:40; etc.), ou sim­
pecado de todos. Em seguida, ele se refere a plesmente como a Lei (ver com. de Jo 10:34).
algumas das várias manifestações do pecado. A fim de apresentar aos judeus a evidência
Por fim, cita uma declaração sobre a origem das Escrituras e evitar qualquer tentativa de
do pecado. A impiedade se origina da falta sua parte de transferir para os gentios a refe­
de reverência para com Deus. Onde não há rência a si mesmos, Paulo chama a atenção
respeito nem reverência pelo caráter, autori­ para o fato de que o AT, a partir do qual
dade e honra de Deus, não há restrição para estava citando, fala especialmente àqueles
o mal (ver também Rm 1:32). a quem foi dado. Os judeus reconheciam a
Essas citações do AT serviram para inspiração divina do AT, que denunciava os
apoiar a afirmação de Paulo de que os judeus pecados da nação judaica. Por isso, dificil­
estavam longe de ficar livres da pecamino- mente, eles poderiam escapar da conclusão
sidade universal do ser humano. Em vista de Paulo de que eles também deviam com­
dessas descrições da condição do povo partilhar com os gentios a culpa universal
judeu, certamente o judeu não podia espe­ do ser humano.
rar ser salvo simplesmente por ser judeu. Se Diz [...] o diz. O primeiro “diz” é a tra­

499
esse era o caráter do povo escolhido, com dução do gr. legõ, que aqui destaca o assunto m
todos os seus privilégios e vantagens, qual do que é falado. O segundo “diz” é a tradu­
deve ter sido a condição dos gentios menos ção do gr. laleõ, que se refere à expressão da
esclarecidos-? Assim, não é difícil acreditar lei. A primeira palavra é aplicável à matéria
na descrição terrível do mundo pagão em contida na lei, enquanto a segunda se refere
Romanos 1. De fato, o mundo inteiro está a sua proclamação. Essa distinção entre as
envolvido em pecado, e todos os seus habi­ duas palavras é ilustrada na tradução: “tudo
tantes estão poluídos, arruinados e inde­ que a lei diz é dirigido àqueles que estão
fesos. A ruína poderia muito bem levar ao sujeitos à lei”.
desalento e desesperança, não fosse o fato Debaixo da lei (ARC). Literalmente,
de que o Deus de misericórdia Se apiedou de “na lei” (ARA), isto é, sob a autoridade da
nossa condição e criou um plano pelo qual lei (ver Rm 2:12).
os seres humanos perdidos e caídos podem Que se cale toda boca. Diante das pro­
ser exaltados à 'glória, honra e incorruptili- vas apresentadas, as pessoas não têm des­
dade” (Rm 2:7). culpa a oferecer (Rm 2:1; cf. SI 63:11).
19. Sabemos. Uma expressão comum Todo o mundo. Judeus e gentios juntos.
em Paulo, referindo-se a algo geralmente Paulo já havia declarado a culpabilidade dos
admitido (ver com. de Rm 2:2; ver Rm 7:14; gentios (ver Rm 1:20, 32).
8: 22) . Culpável. Do gr. hupodikos, palavra
A lei. O artigo está presente também que ocorre somente aqui no NT e não é
no grego (ver com. de Rm 2:12). A referên­ encontrada na LXX. No grego clássico, sig­
cia é entendida como as Escrituras do AT, nifica “passível de ação judicial” e pode ser
das quais Paulo extraiu as citações ante­ seguida por uma referência ao direito vio­
riores. O AT era dividido em três coleções lado, à pessoa lesada ou ao legítimo procura­
de livros: a Lei, os Profetas e os Salmos ou dor. A passagem pode ser traduzida como:
Escritos (ver vol. 1, p. 13). Mas o título com­ “tornar-se responsável diante de Deus”.
pleto, como ocorre em Lucas 24:44, rara­ Portanto, Paulo apresenta Deus como se
mente era usado, e todas as três divisões tivesse uma controvérsia com os pecado­
podem ser referidas como a Lei e os Profetas res (cf. Jr 25:31). Aqui, Paulo fala de Deus

546
ROMANOS 3:20

não só como a parte ofendida, mas também Será justificado. Do gr. dikaioõ, “tor­
como juiz (Rm 2:5, 6, 16). nar justo”, “considerar justo”, “declarar justo”,
20. Por isso (ARC). Paulo apresenta “tratar como sendo justo”, “apresentar como
a razão pela qual toda boca será calada e justo”. A palavra ocorre 39 vezes no NT, 27
todo o mundo será responsabilizado perante das quais estão nos escritos de Paulo. O sig­
Deus (v. 19). nificado de dikaioõ é um pouco obscurecido
Pelas obras da lei. Literalmente, “a par­ pela tradução. No grego, dikaioõ, “justifi­
tir das obras de lei”, isto é, obras prescritas car”; dikaios, “justo”; dikaiosunê, “justiça”,
pela lei. No grego, “lei” está sem o artigo (ver são todos construídos sobre a mesma raiz,
com. de Rm 2:12). Paulo afirma uma verdade e a relação entre os três é clara.
geral que se aplica tanto aos gentios quanto Da forma como é usada no NT, com
aos judeus. A justiça pelas obras da lei tem referência aos seres humanos, a justificação
sido a base de todo falso sistema religioso indica o ato pelo qual a pessoa é colocada
e se tornou o princípio central da religião em um status de justiça em relação a Deus.
judaica (DTN, 35, 36). Mas as obras reali­ Por esse ato, Deus absolve a pessoa que era
zadas em obediência a qualquer lei, seja essa culpada de delito, ou trata como justo alguém
lei conhecida pela razão, pela consciência que era injusto. Isso significa o cancelamento
ou pela revelação, não podem justificar um das acusações contra o crente na corte celes­
pecador diante de Deus (G1 3:21). No cap. 1, tial. “Se vos entregardes a Ele e O aceitardes
Paulo demonstrou que os gentios violavam como vosso Salvador, sereis então, por peca­
a lei que lhes fora revelada na natureza e na minosa que tenha sido vossa vida, considera­
consciência. Da mesma forma, no cap. 2, dos justos por Sua causa” (CC, 62; ver com. de
ele provou que os judeus violavam a lei reve­ Rm 3:28; 4:25; 5:1).
lada a eles no AT e, particularmente, nos Por obras da lei. Literalmente, “por
dez mandamentos (Rm 2). Judeus e gentios meio de lei”. Não há nenhum artigo no grego
necessitam de justificação, mas a lei não tem (ver com. de Rm 2:12).
poder para justificar. Ela só pode expor a Conhecimento. Do gr. eyignõús, pala­
pecaminosidade do pecado em sua verda­ vra que significa conhecimento claro e exato
deira condição. (cf. Rm 1:28; 10:2; Ef 4:13), e não a palavra
Não há contradição entre a declaração comum para o conhecimento (gnõsis). A lei
em Romanos 2:13: “os que praticam a lei hão é a norma do direito, e tudo o que não cum­
de ser justificados” e esta passagem: "nin­ pre a lei é pecado, pois o pecado é rebeldia,
guém será justificado [...] por obras da lei”. desobediência à lei (ljo 3:4). Quanto mais a
A primeira enfatiza o fato de que são justifi­ pessoa fica familiarizada com o padrão da
cados somente aqueles que se submetem tão lei, maior é a consciência e a percepção do
completamente a Deus que estejam dispos­ pecado. E por isso que ninguém pode ser jus­
tos a fazer o que Ele manda, portanto, não tificado pelas obras da lei. No que se refere à
são apenas “ouvidores da lei”. O último enfa­ justificação, a lei fez tudo o que podia fazer
tiza o fato igualmente verdadeiro de que as quando o pecador foi levado a exclamar:
boas obras de obediência nunca podem con­ “Desventurado homem que sou! Quem me
quistar a salvação. Elas podem, na melhor livrará do corpo desta morte?” (ver com. de
das hipóteses, ser a evidência da fé pela qual Rm 7:24). A lei desperta a consciência para
a justificação é recebida. a culpa, mas não pode removê-la.
Ninguém. Paulo, sem dúvida, se refere Este versículo, juntamente com a declara­
ao Salmo 143:2. ção de Paulo de que a lei deve nos conduzir

547
3:2] COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

a Cristo (G1 3:24), mostra a relação entre a entre o AT e o NT. Embora essa manifesta­
lei e o evangelho. De maneira nenhuma o ção da justiça de Deus esteja à parte da lei,
evangelho retira a função necessária da lei. não está em oposição à lei e aos profetas. Ao
A doutrina da justificação pela fé “apresenta contrário, estava prevista por cies (ver Jo 5:39).
a lei e o evangelho, unindo os dois num todo Em sua substância, o AT é profético da jus­
perfeito” (TM, 94). tiça a ser revelada cm Cristo e recebida pela
21. Mas agora. Isto pode ser entendido fé, como está registrado no NT (ver At 10:43;
tanto em sentido temporal: “no momento lPe 10, 11). Paulo já havia citado Habacuque
atual”, como em sentido lógico: “neste 2:4: “O justo viverá por fé” (Rm 1:17). Ao longo
estado do processo” (sobre o último signifi­ da epístola, Paulo se refere constantemente ao
cado, comparar com Rm 7:17; 1; lCo 13:13). AT para fundamentar sua tese de que a jus­
Paulo demonstrou a necessidade universal tiça é pela fé (ver Rm 4; 10:6, 11). A lei ceri­
de justiça (Rml:18-3:20) e então se voltou monial tinha como principal objetivo ensinar
do lado negativo para o positivo do tema pro­ que os seres humanos podem ser justificados,
posto em Romanos 1:17. não pela obediência à lei moral, mas pela fé
Sem lei. Litcralmente, “além da lei”. Não na vinda do Redentor (ver PP, 367).
há artigo no grego (ver com. de Rm 2:12). 22. Mediante fé em Jesus Cristo. Ou,
Estas palavras estão em contraste com “por “pela fé de Jesus Cristo”. Em Marcos 11:22,
obras da lei” (Rm 3:20). Enfatizam que a em que o grego significa, literalmente: “tende
justiça de Deus foi revelada sem qualquer a fé de Deus”, a NVI verteu como: “tenham
referência à lei. Isto é, a justiça de Deus se fé em Deus”. Da mesma forma, o literal “a
manifestou além de todo princípio da lei e fé do Seu nome” é traduzida como “fé em o
toda ideia dc obediência legal como forma nome” (At 3:16). O literal “aquele que tem
de obtenção de justiça, ou além do sistema fé de Jesus” é traduzido como “daquele que
legalista dos judeus, apresentado como base tem fé em Jesus” (Rm 3:26). Os santos são
de justiça. os que guardam os mandamentos de Deus
Manifestou. Literalmente, “tem-se e têm a fé em Jesus (cf. Ap 14:12; TM, 58).
manifestado”. A palavra pode significar que Alguns têm preferido entender que “a fé
aquilo que se manifestou antes estava escon­ de Jesus” representa a fé que o próprio Jesus
dido (ver Rm 16:25, 26; Cl 1:26). Embora a exerceu, Sua fidelidade, a vida santa que
justiça de Deus tenha sido revelada até certo viveu e o caráter perfeito que desenvolveu,
ponto no AT, sua plena manifestação ocorreu que são concedidos como um dom gratuito a
na pessoa de Cristo (ver PP, 373). todos os que O recebem (ver DTN, 762; com­
A justiça de Deus. Ver com. dc Rm parar com “a fidelidade de Deus”, ver com. de
1:17. Em contraste com a pecaminosidade Rm 3:3). Além disso, Sua “fé” incluiría a fide­
universal do ser humano e suas tentativas lidade em Sua morte vicária (cf. Rm 3:25, 26;
fúteis dc obter justiça pelas obras da lei, cf. Fp 2:8). 4
Paulo passa a descrever a justiça de Deus, Em qualquer operação de justificação,
a qual Ele está pronto a conceder a todos os esses dois aspectos estão em atividade. E a
que têm fé em Jesus Cristo. “fé de Jesus” que torna possível para Deus ser
Testemunhada. Ou seja, atestada. “justo e o justificador daquele que tem fé em
Pela lei e pelos profetas. Ou seja, as Jesus” (Rm 3:26). “A fé em Jesus” é o canal
Escrituras do AT (ver com. do v. 19). No grego, pelo qual o indivíduo entra na posse das bên­
a palavra “lei” vem acompanhada de artigo çãos da justificação (ver Ellen G. White,
(ver com. de Rm 2:12). Não há contradição Material Suplementar sobre Rm 4:3-5).

548
ROMANOS 3:23

No entanto, a justiça não é recebida como a um relacionamento correto com Deus


recompensa pela fé em Cristo, mas, em vez (Rm 3:24), um novo coração é criado nelas
disso, é o meio pelo qual nos apropriamos e, assim, são habilitadas pela fé a viver mais
da justiça. Quando, por amor e gratidão, o uma vez em obediência à lei de Deus (ver
crente em Jesus se consagra sem reservas à com. de Rm 5:1).
misericórdia e à vontade de Deus, a justiça Carecem. Do gr. hastereõ, termo tam­
da justificação lhe é imputada. Quando ele bém usado com o significado de “padecer
segue diariamente nessa experiência de con­ necessidade” (Fp 4:12, ARC), “necessitar”
fiança, entrega e comunhão, sua fé aumenta, (Flb 11:37), “passar necessidade” (Lc 15:14).
permitindo-lhe receber mais e mais da jus­ No relato das bodas de Caná, hustereõ é usado
tiça comunicada da santificação. para relatar o fim do suprimento de vinho
A fé é como se fosse a mão que o peca­ (Jo 2:3). O texto grego indica que os peca­
dor estende para receber o “dom gratuito” dores ainda estão aquém das expectativas.
da misericórdia dc Deus (Rm 5:15). Esse é Além disso, a forma particular do verbo pode
o dom que Deus sempre espera e se dispõe expressar não só o fato de estar carente, mas
a nos conceder, não como recompensa por também a consciência dessa falta. Se esse
qualquer ação, mas inspirado por Seu amor é o caso aqui, o verbo poderia ser traduzido
infinito. O dom é nosso quando o recebe­ como “conscientemente continuam a estar
mos, e é recebido “por meio da fé”. carentes”. Esse sentimento de perda levou
E sobre todos. As evidências textuais se as pessoas em todos os lugares a tentar esta­
dividem (cf. p. xvi) quanto a se estas palavras belecer sua própria justiça pelas obras da lei.
faziam parte do manuscrito original. Mas a Glória. Do gr. doxa. Na Bíblia, doxa
omissão delas não afeta o sentido. parece ter dois usos principais e um tanto
Creem. Ou, “têm fé” (ver com. do v. 3). diferentes, embora ambos se baseiem no sig­
Não há distinção. Ou, “não há dife­ nificado original, no grego clássico, de “opi­
rença”. Gentios e judeus estão todos incluí­ nião”, “ideia”, “reputação”. Doxa é usada para
dos no mesmo método de salvação. O motivo significar “honra”, “fama”, “reconhecimento”
de não ser feita distinção entre eles é que (Jo 5:44; 7:18; etc.) E o antônimo de “desonra”
não existe qualquer diferença em sua neces­ (lCo 11:14, 15; 15:43; 2Co 6:8). Nesse sen­
sidade (v. 23). tido, é procurada (Jo 5:44; 7:18; lTs 2:6), rece­
23. Todos pecaram. O pecado de Adão bida (Jo 5:41, 44), dada (Lc 17:18; Jo 9:24), ou
maculou a imagem divina no ser humano atribuída a Deus (Lc 2:14; Ap 1:6).
(ver com. de Rm 5:12; cf. OE, 80) e, desde a Se esse é o uso que Paulo faz do termo
queda da humanidade, todos os descenden­ aqui, então, “a glória de Deus” representa
tes de Adão continuaram a ser insuficientes e a honra, o louvor ou a aprovação que Deus
carentes da imagem e da glória de Deus. Paulo concede e da qual os seres humanos care­
apela para que judeus e gentios igualmente cem. Uma vez que, neste trecho, Paulo trata
reconheçam o fato vital de que toda a evidên­ da posição do ser humano diante de Deus, e
cia da experiência e da história mostra que o se refere, no versículo seguinte, à justifica­
ser humano caído, com sua natureza depra­ ção, a qual constitui o único meio pelo qual
vada, é incapaz de cumprir as exigências da a pessoa pode ser restaurada à aprovação de
lei de Deus e de estabelecer a própria justiça. Deus, esse sentido do termo “glória” pode ser
A única maneira de se obter a justiça é pela fé apropriado nesse contexto.
em Jesus Cristo. Por essa experiência de Por outro lado, “glória” também é usada
fé, as pessoas são mais uma vez conduzidas na Bíblia para significar “brilho”, “aparição

549
3:24 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

gloriosa que atrai o olhar” (ver Mt 4:8; Lc 12:27; está habilitada pela fé a aceitar a justifica­
At 22:11). Às vezes, é usada em um sen­ ção como um dom gratuito.
tido paralelo com “imagem”, “semelhança”, Gratuitamente. Do gr. dõrean, “livre­
“forma”, “aparência” (cf. Rm 1:23; compa- mente, como um presente” (comparar com
§>► rar com Nm 12:8, LXX, que traduz doxa o uso da palavra em Mt 10:8; 2Co 11:7;
por “semelhança”). A glória revelada a Ap 21:6; 22:17).
Moisés (Ex 33:18, 22) foi o caráter, a bon­ Graça. Do gr. chciris, que ocorre 155
dade, a misericórdia e o perdão de Deus (ver vezes no NT. Paulo utilizou esse termo sig­
OE, 417). Essa glória também pode ser refle­ nificativo mais do que qualquer outro escri­
tida naqueles, entre as criaturas de Deus, tor do NT, havendo 108 ocorrências em suas
que são capazes de conhecer, amar e cres­ epístolas. Seu colaborador próximo, Lucas,
cer com seu Criador. Assim, Paulo fala do ser usou a palavra 25 vezes em Lucas e Atos.
humano como “a imagem e glória de Deus” Portanto, o uso de charis por esses dois auto­
(ICo 11:7), sem dúvida, porque ele é capaz res representa, cerca de cinco sextos de todas
de receber e refletir a glória de Deus. A reve­ as ocorrências do NT. “Graça” não foi, de
lação completa da glória e perfeição de Deus maneira nenhuma, uma palavra inventada
é “a glória de Deus, na face de Jesus Cristo” pelos apóstolos. O termo foi amplamente uti­
(2Co 4:6). lizado com diversos significados associados
À medida que essa glória de Deus, reve­ na LXX, na literatura clássica e, posterior­
lada em Cristo, resplandece a partir do evan­ mente, no grego. No entanto, o NT mui­
gelho, para o coração e a mente do crente, tas vezes parece acrescentar um significado
ela o transforma em “luz no Senhor” (Ef 5:8). especial à “graça”, que não se encontra ple­
Assim, “todos nós, com o rosto desvendado, namente fora dele.
contemplando, como por espelho, a glória do Primariamente, graça significa “aquilo
Senhor, somos transformados, de glória em que dá alegria ou prazer”, transmitindo
glória” (2Co 3:18). A esperança e aspira­ noções de beleza, graciosidade, formosura,
ção do cristão é participar cada vez mais algo que encanta o espectador (comparar
plenamente da glória de Deus (cf. Rm 5:2; com “graça se derramou de Teus lábios”, no
ITs 2:12; 2Ts 2:14). SI 45:2, LXX; cf. Pv 1:9; 3:22). A mesma
Se “a glória de Deus” pode ser compreen­ ideia está presente em algumas ocorrên­
dida de modo melhor neste último sentido, cias do NT. Quando Jesus falou em Nazaré,
“carecer da glória de Deus” signifiea carecer Seus ouvintes “se maravilhavam das pala­
da perfeição de Deus, ter perdido Sua imagem vras de graça [literalmente, “as palavras de
e tornar-se destituído de Sua semelhança. graça”] que Lhe saíam dos lábios” (Lc 4:22).
Talvez essas duas interpretações não Paulo aconselhou aos cristãos de Colossos
sejam mutuamente exclusivas, e ambas que suas palavras fossem agradáveis (gr. en
façam sentido neste versículo. charis, Cl 4:6).
24. Sendo justificados. Visto que “Graça” também transmitia a ideia de uma
as pessoas não têm nada pelo que possam emoção bela ou agradável sentida ou expressa
se reconciliar com Deus, a justificação em favor de outros, em gestos de bondade,
deve vir como um dom gratuito. Somente favor, boa vontade. José achou “graça”, aos
quando, com toda a humildade, a pessoa olhos do faraó (At 7:10; cf. v. 46). Quando pre­
está preparada para reconhecer que está gavam, os discípulos contavam “com a sim­
destituída da glória de Deus e que nada patia”, literalmente, “graça”, de todo o povo.
tem em si mesma que a recomende a Ele, Quando Jesus era menino, “a graça de Deus

550
ROMANOS 3:24

estava sobre Ele” (Lc 2:40). Certamente, a a humanidade com amor e bondade, a fim
definição “um favor imerecido”, que muitas de que a revelação de Sua bondade condu­
vezes é atribuída à palavra não é adequada zisse as pessoas ao arrependimento (Rm 2:4).
aqui. A graça deve ser entendida no sentido Essa é a graça de Deus em seu sentido
de Lucas 2:52: “E crescia Jesus em sabedo­ peculiar do NT. Não é apenas o favor de
ria, estatura e graça, diante de Deus e dos Deus para com aqueles que merecem Sua
homens.” aprovação, é Seu amor ilimitado, inclusivo,
Como expressão do sentimento de boa transformador pelos homens e mulheres
vontade, graça tinha o sentido de gratidão. pecadores, e as boas-novas dessa graça, reve­
Assim, “porventura, terádeagradeceraoservo” lada em Jesus Cristo, são “o poder de Deus
(Lc 17:9) significa, literalmente, “será que para a salvação” (Rm 1:16). Não é apenas a
ele tem graça para o servo?” Graça é fre­ misericórdia e a disposição de Deus de per­
quentemente usada nesse sentido na expres­ doar, é um poder energizante, transformador e
são “graças a Deus” ( I C o 15:57; 2Co 8:16; ativo para salvar. Assim, Ele pode encher uma
cf. Rm 6:17; 2Co 2:14; 9:15). Esse não é pessoa (Jo 1:14), pode ser dado (Rm 12:3, 6),
um “favor imerecido”, oferecido pelos mor­ é autossuficiente (2Co 12:9; cf. Rm 5:20),
tais a Deus. reina (Rm 5:21), ensina (Tt 2:11, 12) e esta­
Como expressão substancial de boa von­ belece o coração (Hb 13:9). Em alguns casos,
tade, “graça” também era usada para um a “graça” parece quase equivalente ao “evan­
presente, um favor feito ou uma bênção. gelho” (Cl 1:6) e à obra de Deus em geral
Os judeus foram a Festo e lhe pediram um (At 11:23; lPe 5:12). “A graça divina, eis o
“favor”, literal mente, “graça”, contra Paulo grande elemento do poder salvador” (OE, 70).
(At 25:3). Paulo fala da oferta que as igre­ “Cristo deu a vida a fim de tornar possível ao
jas coletaram para os pobres de Jerusalém, pecador o ser restaurado à imagem de Deus.
como “graça” (ICo 16:3; cf. 2Co 8:4, 6, 7, 19). E o poder de Sua oração que une os homens
► Nenhum dos usos acima é diferente do na obediência da verdade” (CPPE, 249).
encontrado em outra literatura grega. O sig­ Redenção. Do gr. apolutrõsis, literal -
nificado distinto, ligado ao termo “graça” no mente, “resgate”, “libertação por meio de res­
NT e, especialmente, nos escritos de Paulo, é gate”. A palavra grega é composta de duas
o do amor abundante, salvador, de Deus para partes: apo, “de” e lutrõsis, relacionado com
com os pecadores, como Jesus Cristo reve­ lutron, termo comum nos papiros para descre­
lou. Obviamente, visto que “todos pecaram ver o preço para libertar escravos. O termo é
e destituídos estão da glória de Deus” (Rm utilizado para designar a libertação da escra­
3:23, ARC), o favor e a bondade da parte de vidão, do cativeiro, ou de qualquer tipo de
Deus são imerecidos pelo pecador. A huma­ mal. A icleia do pagamento de um preço ou
nidade tem vivido em ódio e rebelião con­ resgate geralmente está implícita. A palavra
tra Deus (Rm 1:21, 30, 32), perverteu Sua “redimir” vem de um verbo latino que signi­
verdade (v. 18, 25), preferiu adorar animais fica “comprar de volta”, “resgatar”.
e répteis (v. 23), maculou a imagem divina No AT, o grande ato típico que simbo­
em seu próprio corpo (v. 24-27), blasfemou lizava a redenção era a libertação do Egito.
de Seu nome (Rm 2:24) e até mesmo des­ Yahwch, como redentor ou libertador, pro­
prezou a Deus por Sua paciência e tolerân­ meteu: “E vos resgatarei com braço esten­
cia (v. 4). Finalmente, assassinou Seu Filho, dido” (Ex 6:6; cf. Rm 15:13). O propósito da
enviado para salvá-la (At 7:52). No entanto, redenção foi a consagração de Israel ao ser­
em tudo isso, Deus continuou a considerar viço de Deus (Ex 6:7). A fim de participar

551
3:25 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

da redenção, os israelitas foram obrigados a exclamasse: “Cristo é tudo em todos” (Cl 3:11).
realizar um ato de fé: comer o cordeiro pas­ A restrição que o apóstolo estabeleceu para
cal e aspergir o sangue (Ex 12). si mesmo não era estreita quando afirmava
Esses tipos são cumpridos na redenção estar determinado a “nada saber entre vós,
da humanidade do pecado e da morte. Jesus senão a Jesus Cristo e este crucificado”
é “o Cordeiro que foi morto” (Ap 5:12; cf. jo (ICo 2:2). Pois conhecê-Lo bem é conhecer
1:29; ICo 5:7; lPe 1:18, 19). É ensinado no todo o plano de Deus para a restauração do
NT que foi pago um resgate ou um preço por ser humano. Não há sabedoria maior.
nossa redenção. Jesus declarou que “o pró­ 25. Propôs. Do gr. protithêmi. Este verho
prio Filho do homem veio [...] para servir e grego traz dois significados associados. Um
dar a Sua vida em resgate por muitos” (Mc significado possível é “expor à vista” (compa­
10:45). Paulo fala de Cristo como Aquele rar com “pães da proposição”, em Mc 2:26).
que “Se deu em resgate por todos” (lTm 2:6). O segundo significado possível, derivado da
Os cristãos são representados como tendo ideia de criar alguma coisa antes, é “deter­
sido “resgatados” (2Pe 2:1), ou “comprados minar um propósito”, “decretar”, “determinar
por preço” (ICo 6:20). “Cristo nos resgatou sua finalidade”. A mesma palavra é traduzida
da maldição da lei, fazendo-Se Ele próprio como “propor” (Rm 1:13). O último sentido
maldição em nosso lugar” (Cl 3:13). Assim, concordaria com o ensino de Paulo (cf. Ef
em certo sentido, a justificação não é gra­ 3:11; 2Tm 1:9), mas o contexto parece indi­
tuita, pois um grande preço foi pago por car que a exposição pública do sacrifício de
ela nos sofrimentos e na morte de Cristo. Cristo é o ponto a ser enfatizado neste ver­
Mas é gratuita para nós, pois seu custo não sículo. Comparar “ante cujos olhos foi Jesus
é cumprido por nós, mas foi pago pelo pró­ Cristo exposto como crucificado” (G1 3:1)
prio Filho de Deus. e “do modo por que Moisés levantou a ser­
Essa redenção nos resgata do pecado pente no deserto, assim importa que o Filho
(Ef 1:7; Cl 1:14; Tt 2:14; Hb 9:15; lPe 1:18, do homem seja levantado” (Jo 3:14).
19), da corrupção, da morte (Rm 8:23) e, O propósito de Deus na exposição pública
finalmente, da presente condição de pecado do sacrifício de Cristo foi “demonstrar a Sua
para a de glória e felicidade (Lc 21:28; Ef justiça”. E essa declaração pública da justiça
4:30). Cristo nos redime da penalidade do de Deus não foi apenas para o benefício da
pecado pela justificação; do poder do pecado, humanidade, mas para todo o universo, para
pela santificação; e, no momento da segunda que as questões do grande conflito fossem
vinda e da ressurreição, nos redime da pre­ entendidas por todos tentados a duvidar da
sença do pecado, pela glorificação. perfeição do caráter de Deus (cf. DTN, 626,
Como no caso dos israelitas, na libertação 758, 759).
do Egito, assim também nossa participação No Seu sangue, [...] mediante a fé.
504

► no plano divino da redenção do pecado exige Ou, “pela fé, no Seu sangue”. A conexão des­
o exercício da fé, o reconhecimento pessoal sas frases com o restante do versículo pode
e a aceitação de Jesus como nosso redentor, ser entendida de diversas maneiras. Como
com tudo o que essa medida significa. foi traduzida pela ARC, esta passagem sig­
Em Cristo Jesus. Ele “Se nos tornou, nifica que o sacrifício de Jesus traz perdão
da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e e reconciliação para os que têm fé em Seu
santificação, e redenção” (ICo 1:30). Ele é sangue. No entanto, é possível conectar
em Si mesmo o redentor (Tt 2:14) e o res­ “mediante a fé” e “em Seu sangue”, sepa­
gate (lTm 2:6). Não é de admirar que Paulo radamente, com “propiciação”, sendo este o

552
ROMANOS 3:25

significado: “A quem Deus propôs, no Seu Propiciação. Do gr. hilastêrion. Esta


sangue, como propiciação, mediante a fé” importante palavra tem sido discutida
(ARA). Gramaticalmente, as duas inter­ extensamente por muitos comentaristas e
pretações são possíveis. A última pode ser tem sido interpretada de diversas maneiras.
preferível neste contexto, por indicar mais A dificuldade parece ser não só descobrir
claramente o sacrifício de Cristo como o o sentido exato do termo grego, mas, tam­
meio pelo qual é realizada a propiciação. bém, encontrar em nossa língua uma pala­
O sacrifício expiatório se torna eficaz por vra ou frase adequada para representar esse
meio da fé que se apropria dele. A menos significado.
que o perdão oferecido seja aceito pela fé, a Hilastêrion ocorre somente aqui e em
expiação não tem nenhum proveito em con­ Hebreus 9:5, em que se refere à parte da
ciliar a mente e o coração das pessoas pelas arca da aliança geralmente conhecida como
quais foi feito o sacrifício. “propiciatório”. Esse uso da palavra é comum
O NT enfatiza a relação entre o sangue na LXX como tradução do heb. kapporeth,
de Cristo e a obra da redenção, jesus falou de que descreve a tampa ou cobertura da arca.
Seu próprio sangue como sendo “derramado Era sobre essa peça de ouro do mobiliá­
em favor de muitos” (Mc 14:24). Somos “jus­ rio que o sangue era aspergido no Dia da
tificados pelo Seu sangue” (Rm 5:9). “Temos Expiação (Lv 16:14, 15), e “do qual, em vir­
a redenção, pelo Seu sangue” (Ef 1:7). Cristo tude da obra expiatória, se concedia o per­
fez “a paz pelo sangue da Sua cruz” (Cl 1:20). dão ao pecador arrependido” (PP, 349). Uma
Aqueles que estavam “longe” foram “aproxi­ vez que essa que era a mais sagrada de todas
mados” pelo Seu sangue (Ef 2:13). A igreja de as cerimônias hebraicas, constituía um tipo
Deus foi comprada “com o Seu próprio san­ (símbolo) da obra expiatória de Cristo, a
gue” (At 20:28). “Em Seu sangue, [Ele] nos compreensão do significado desse termo,
lavou dos nossos pecados” (Ap 1:5, ARC). kapporeth, para o lugar central na cerimô­
No AT, o sangue representa a vida (ver nia típica da expiação pode lançar alguma
com. de Lv 17:11). Deus proibiu o ser humano luz sobre seu uso por Paulo em referência
de comer carne “com sua vida, isto é, com ao sacrifício de Cristo.
seu sangue” (Gn 9:4). O derramamento e a Essa palavra hebraica para o chamado
aspersâo do sangue nos serviços do santuá­ “propiciatório” é derivada de uma palavra
rio do AT significavam a remoção e a oferta (kafar), que significa, basicamente, “cobrir”.
da vida dos animais sacrificados. Assim, o No entanto, apenas uma vez no AT, em sua
derramamento antitípico do sangue de Jesus forma mais simples, kafar é usado para cobrir,
significa a oferta de Sua vida como um sacri­ em sentido comum (Gn 6:14). Na maioria das
fício. O sangue de Cristo representa Sua vida vezes, ocorre em outra forma e é usada em
oferecida como sacrifício expiatório pelos sentido figurado, com o significado de “cobrir
pecados do mundo. o pecado”, portanto, “perdoar”, “ser miseri­
Por representar a vida perfeita de Jesus cordioso”, “expiar”. Para kapporeth, Lutero
oferecida pelo ser humano, o sangue de usou o substantivo gnadenstuhl, “propiciató­
Cristo é eficaz não só para a “propiciação” rio”. Mais tarde, Tyndale assumiu a palavra
(Rm 3:25), justificação (Rm 5:9), como para e, de sua versão, passou a muitas das princi­
a reconciliação (Ef 2:13). “E recebendo a pais versões da Bíblia em inglês. Alguns têm
vida por nós derramada na cruz do Calvário sugerido a tradução “lugar de expiação”, que
que podemos viver a vida de santidade” representa mais claramente a obra da reden­
(DTN, 660). ção e reconciliação que era realizada ali.

553
3:25 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Os tradutores da LXX estavam cientes do amor que já estava na vontade do cora­


desse significado do nome e escolheram para ção de Deus” (Ellen G. White, Signs of the
representá-lo o gr. hilastêrion. O significado Times, 30/05/1895; cf. CC, 15). Na verdade,
de hilastê é ainda iluminado por uma com­ Deus Se sacrificou em Cristo para a reden­
paração das outras palavras relacionadas que ção da humanidade. “Deus estava em Cristo
ocorrem no NT. Hilaskomai é usado na ora­ reconciliando consigo o mundo” (2Co 5:19;
ção: “ó Deus, sê propício a mim, pecador!” cf. DTN, 762).
(Lc 18:13) e na descrição da obra de Jesus Para manifestar a Sua justiça. Lite­
“para lazer propiciação pelos pecados do ralmente, “para uma demonstração de Sua
povo” (Hb 2:17). Outra forma relacionada, justiça”, isto é, para exibir a própria jus­
hilasmos, ocorre duas vezes nas descrições tiça divina. Esta exposição foi necessária
de Cristo como “a propiciação pelos nossos por causa do perdão dos pecados passados.
505

pecados” (ljo 2:2; 4:10). A finalidade é explicada no v. 26.


Como é usado em Romanos 3:25 e, Por. Do gr. dia, “por causa de”, “por
nesse contexto, descrevendo a oferta de jus­ este motivo”. Isto introduz o motivo pelo
tificação e redenção por meio de Cristo, qual a manifestação da justiça de Deus foi

506
hilastêrion, “propiciação”, parece represen­ necessária. «
tar o cumprimento de tudo o que era tipi­ Remissão (ARC). Do gr. paresis, a única
ficado pelo hilastêrion, “propiciatório”, no ocorrência desta palavra grega no NT. E dife­
santuário do AT. Por Sua morte sacrifical, rente da palavra traduzida como “remissão”
Jesus foi estabelecido como meio dc expiação (aphesis) em Mateus 26:28. O significado não
(ver DTN, 469), propiciação (ver CC, 15) e é primariamente de perdão, mas de passar
reconciliação. Talvez não exista uma palavra por alto, passar de lado. Nos papiros, paresis
em nossa língua que retrate adequadamente é usado para remissão da pena e da dívida.
tudo o que está implícito. E mesmo alguns Tolerância. Do gr. anochê, literalmente,
dos termos mencionados acima receberam “suspensão”, “retenção”. A palavra ocorre no
definições de teólogos em completa divergên­ NT só aqui e em Romanos 2:4 (ver com.
cia com a verdadeira natureza da expiação. ali). Em Seu amor pelo ser humano peca­
Devem ser tomados cuidados na utilização dor e, de acordo com Seu plano de revelar a
desses termos para que significados indevi­ graça a todas as inteligências criadas no uni­
dos não se apeguem a eles. verso, Deus havia protegido as pessoas do
Seja qual for a palavra usada, o signifi­ pleno resultado de seus pecados (ver DTN,
cado deixa claro que a morte sacrilical de 764). Essa tolerância ao pecado levou a um
Jesus Cristo pagou a pena do pecado e tor­ grave equívoco sobre o caráter de Deus (cf.
nou possível o perdão e a reconciliação de SI 50:21; Ec 8:11). É verdade que a morte
todos os que têm fé em Cristo. Isso, natu­ havia prevalecido e que houve alguma reve­
ralmente, não significa que o sacrifício de lação do desprazer divino contra o pecado
Cristo foi, como os sacrifícios pagãos, ofe­ (Rm 1:18-32). Também c verdade que o sis­
recido para conciliar um Deus ofendido e tema sacrifical foi instituído para simbolizar
para persuadi-Lo a aceitar os pecadores de a percepção divina da gravidade do pecado
modo mais favorável. “A expiação de Cristo e o preço infinito que deveria ser pago para
não foi feita a fim de induzir Deus a amar redimir a humanidade da condenação e do
aqueles a quem de outra forma odiaria, não poder do pecado. Mas a grande manifesta­
foi feita para produzir um amor que não exis­ ção da justiça de Deus e de Seu ódio pelo
tia, mas foi feita como uma manifestação pecado foi dada pela vida c morte de Jesus.

554
ROMANOS 3:26

Não há mais necessidade de que a paciência Justificador. Literalmente, “justificante”.


de Deus seja mal interpretada como indife­ A conexão com a justiça de Deus seria mais
rença para com o pecado. evidente se essa parte do versículo fosse tra­
O tratamento gracioso de Deus para com duzida como: “para que Ele seja justo e con­
os pecadores culpados não significa que Ele siderado justo”. Estes versículos refletem a
ama a culpa e o pecado, pois expressou Seu questão central no grande conflito, o ponto
repúdio a essa poluição no sacrifício expia­ fundamental no plano da redenção (ver com.
tório de Seu Filho. Quando o Senhor admite do v. 4). Satanás havia declarado que a jus­
pecadores que outrora foram rebeldes, não tiça era incompatível com a misericórdia e
significa que Ele aprova seu comportamento que, se a lei fosse transgredida, seria impossí­
e caráter passados, pois já mostrou o quanto vel que o pecador fosse perdoado. A rebelião
odeia seus pecados, permitindo que Seu e o pecado subsequentes ofereceram mais
Filho sofresse uma morte vergonhosa em uma oportunidade para Satanás apresentar
favor dos pecadores. suas acusações arrogantes contra o caráter
Pecados. Do gr. hamartêma. Não em e governo de Deus. “O Senhor não podia ser
sentido abstrato, hamartia (“pecaminosidade”, justo, argumentava, e ainda mostrar miseri­
cf. com. de Mt 18:15; ver também ljo 3:4). córdia ao pecador” (DTN, 761).
Hamartêma se refere a atos de pecado e de Por milhares de anos, Deus suportou
desobediência (ver Mc 3:28; 4:12; ICo 6:18). as acusações de Satanás e a rebeldia do
Anteriormente cometidos. No con­ ser humano. Em todo o tempo Ele desdo­
texto, parece que Paulo não trata princi­ brou gradualmente Seu maravilhoso plano,
palmente dos pecados cometidos pelos que não só possibilitaria perdoar e restau­
crentes antes da conversão, mas dos peca­ rar os pecadores, mas também demonstra­
dos do mundo antes da morte expiatória de ria a absoluta perfeição de Seu caráter e <
Cristo. Deus tinha permitido que os gen­ a união completa da justiça e do amor no
tios “andassem nos seus próprios caminhos” governo divino.
(At 14:16). Ele havia passado por alto, ou Tudo isso foi antecipado por tipos, sím­
fechado os olhos, para os “tempos da igno­ bolos e profecias em todo o AT. A mani­
rância” (At 17:30). Por isso, a justiça de Deus festação suprema foi dada na encarnação,
fora um tanto obscurecida, daí a necessi­ vida, no sofrimento e morte do próprio Filho
dade de uma manifestação ou demonstração de Deus. Por fim, Deus estava vindicado
pública. Então, finalmente, “no tempo pre­ perante o universo, por Sua aparente des­
sente” (Rm 3:26), essa manifestação se rea­ consideração dos pecados humanos e por
lizou no sacrifício de Cristo (comparar com ter justificado aqueles que tinham fé. A vida
Jo 15:22; At 17:30; Tg 4:17). e a morte de Jesus provaram para sempre
26. No tempo presente. Literalmente, como Deus considera o pecado (2Co 5:19;
"na época de agora”, “presentemente”. Por cf. DTN, 762). Provou para sempre Seu
séculos, Deus tinha “fechado os olhos” amor ilimitado por todas as Suas criatu­
aos pecados humanos (At 17:30), mas Sua ras - amor que não só podia perdoar, mas
justiça foi manifestada no envio de Seu também ganhar os pecadores caídos à sub­
Filho, finalmente, na “plenitude do tempo” missão, fé e obediência perfeitas. Assim, as
(Cd 4:4; Ef 1:10). acusações de Satanás foram refutadas e a
Justo. Do gr. dikaios, “justo”. O signifi­ paz do universo foi garantida eternamente.
cado da frase é: “para que Deus seja consi­ O caráter de Deus foi vindicado perante o
derado justo”. universo (ver PP, 68, 69).

555
3:27 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Daquele que tem fé em Jesus. Ou, “considerar” (4:4, 8:18,14:14) e “atribuir”


“daquele que tem a fé de Jesus” (ver com. do (4:6). O sentido aqui parece ser “conside­
v. 22). A justificação é concedida somente rar”, “manter”.
para aquele que aceita a revelação de Jesus Pois. As evidências textuais se dividem
sobre a justiça e o amor de Deus, que se (cf. p. xvi) entre “pois” e “portanto”. “Pois”
vê como um perdido e condenado, neces­ parece mais adequado aqui. Paulo confirma
sitado de um redentor. Tendo encontrado o a declaração do v. 27 de que a jactância é
Salvador, o crente O reconhece confiante­ excluída pelo princípio da fé.
mente e se entrega de todo o coração. O homem. Do gr. anthrõ-pos, o termo
27. Onde, pois, a jactância? Uma vez geral para qualquer membro da raça humana.
que todos pecaram e não conseguiram esta­ Justificado pela fé. Esta justifica­
belecer a própria justiça pelas obras da lei, e ção não se trata de mero ajuste impessoal
visto que todos são igualmente dependentes da condição legal da pessoa perante Deus.
da graça de Deus para a justificação, todos os A fé em Cristo envolve uma relação pes­
motivos para vangloria humana foram remo­ soal com o Redentor. Implica uma atitude
vidos. Isso se refere às pretensões dos judeus, de amor e gratidão para com o Salvador, em
que se orgulhavam de seus privilégios (ver resposta ao Seu amor por nós, pecadores.
Rm 2:17, 23). Baseia-se em profunda admiração de Jesus,
Por que lei? Literalmente, “por que tipo por tudo que Ele é, com um sincero desejo
de lei?” No grego, “lei” aqui está sem o artigo de conhecê-Lo e de se tornar semelhante a
(ver com. de Rm 2:12). Paulo se refere à lei Ele. Significa uma confiança em Cristo sem
como princípio. reservas, que estamos dispostos a tomá-Lo
Das obras? Ou seja, um princípio por Sua palavra e seguir aonde quer que Ele
segundo o qual a justiça vem pela obediência nos conduza.
à lei. Esse princípio não exclui a vangloria, Sem essa fé não pode haver justifica­
pois, se alguém pudesse alegar justifica­ ção. Deus não está preocupado apenas com
ção e justiça com base no cumprimento dos o perdão dos pecados passados, mas com
atos exigidos por lei, essa pessoa poderia ter a restauração do ser humano. A restaura­
alguns motivos para manifestar orgulho e ção só pode ser experimentada por meio
jactância (cf. Rm 4:2; Ef 2:9). Não haveria da fé em Jesus Cristo. Portanto, a justifica­
lugar para a graça. ção não pode ser separada das experiências
Pela lei da fé. Literalmente, “por uma transformadoras da conversão, novo nasci­
lei de fé”. Não há artigo no grego (ver com. mento e subsequente crescimento na santi­
508

de Rm 2:12). Paulo se refere ao princípio do ficação. Só os que pela fé aceitam e entram <
evangelho de que a justificação e a justiça voluntariamente em todas as fases do plano
vêm pela fé. A fé recebe com humildade e de Deus para a restauração podem reivin­
gratidão o que Deus provê, e isso dificil­ dicar legitimamente a justiça imputada de
mente abre espaço para vangloria. “O que Cristo para a justificação (ver com. do v. 22;
é justificação pela fé? E a obra de Deus ao Rm 4:25; 5:1).
lançar a glória do homem no pó e fazer pelo Independentemente das obras da lei.
homem aquilo que ele por si mesmo não Literalmente, “sem as obras da lei”. No grego,
pode fazer” (TM, 456). “lei” está sem o artigo (ver com. de Rm 2:12).
28. Concluímos. Do gr. logizomai. O significado desta frase é claro no contexto
A mesma palavra é usada com o signifi­ de todo o capítulo. A base de todo sistema
cado de “pensar” (Rm 2:3), “imputar” (4:3), religioso falso é a ideia equivocada de que

556
ROMANOS 3:31

a justificação pode ser alcançada pela obe­ Senhor de todos os reinos da Terra (Dt 6:4;
diência à lei. Mas as obras da lei não podem 2Rs 19:15; Is 44:6; ICo 8:4-6; lTm 2:4-6).
expiar os pecados passados. A justificação “De um só [Ele] fez toda a raça humana”
não pode ser conquistada. Ela só pode ser (At 17:26), e nEle todos nós “vivemos, e nos
recebida pela fé no sacrifício expiatório de movemos, e existimos” (v. 28). Esse mesmo
Cristo. Portanto, nesse sentido, as obras da e único Deus oferece a justificação a todos,
lei não têm nenhuma relação com a justifi­ em todos os lugares, sem “acepção de pes­
cação. Somos justificados sem haver qual­ soas”, sobre a base da fé.
quer coisa em nós que nos faz merecer a O circunciso. Ou seja, a circuncisão, os
justificação. judeus (ver G1 2:9).
Evidentemente, isso não pode ser inter­ Mediante a fé. Isto é, a fé mencio­
pretado como se o que foi justificado passa nada no início do versículo. Não é certo que
a estar livre de obedecer à lei ou de reali­ se deve dar importância à diferença entre
zar boas obras. A fé pela qual foi justificado “mediante a fé” e “pela fé”. Alguns têm consi­
se revelará na obediência. Paulo enfatiza derado essencialmente o mesmo significado.
o lugar das boas obras na vida do cristão A ênfase está na fé. A fé, não a circuncisão,
(lTm 5:10; 6:18; 2Tm 3:17; Tt 2:7, 14; .3:8; trará justificação para o judeu. Da mesma
etc.). Mas ele também deixa claro que essas forma, o gentio, mesmo que não seja circun-
boas obras não conquistam a justificação (cf. cidado, será justificado pela mesma fé exi­
Rm 4:2, 6; 9:32; 11:6; Cl 2:16; 3:2, 5, 10; gida do judeu.
Ef 2:9; 2Tm 1:9). 31. Anulamos. Do gr. katargeõ, “tornar
29. Somente dos judeus. Uma vez que nulo e sem efeito” (ver com. do v. 3).
a justificação é pela fé e não pelas obras da A lei pela fé. No grego, “lei” está sem o
lei, está tão livremente disponível aos gen­ artigo (ver com. de Rm 2:12). Paulo já havia
tios, como aos judeus, que foram privilegia­ dito que a justiça de Deus se manifestou sem
dos com a lei escrita. A salvação é oferecida a lei (Rm 3:21) e que o ser humano “é justi­
a gentios e judeus precisamente nos mesmos ficado pela fé, independentemente das obras
termos. Deus deu Seu Filho, pois amou “ao da lei” (v. 28). Presumindo que essas decla­
mundo” (Jo 3:16), não só os judeus. Quer rações podiam levar à ideia errônea de que a
que “todos os homens” sejam salvos (lTm fé anula o princípio da lei, Paulo levanta essa
2:4). Para alguns líderes judeus da igreja pergunta retórica e responde com uma nega­
cristã primitiva, não era fácil entender ção imediata e categórica. E verdade que
essa concepção do amor todo-inclusivo de Paulo “anulou” a ideia judaica da lei como
Deus (ver At 10:28, 34; 11:1-3, 17, 18; 15:1, meio de alcançar a justiça e a insistência
8-11). Não existe parcialidade no Senhor judaica de que os gentios devem seguir o
(Rm 2:11). mesmo método (At 15:1; G1 2:16-19). Mas a
30. Visto que Deus é um só. Evidên­ lei, em sua verdadeira função, é confirmada,
cias textuais (cf. p. xvi) favorecem a variante em vez de ser revogada, pelo método desig­
“se é que Deus é um só”. Paulo sabe que nado por Deus para justificar os pecadores
sua declaração sobre a unicidade de Deus (ver com. de Rm 3:28.).
é tão certa para seus leitores quanto para De maneira nenhuma! Ver com. do v. 4.
ele mesmo, mas ele se expressa dessa forma Antes. Em vez disso, “ao contrário”. «o
para tornar a lógica de seu raciocínio mais Confirmamos a lei. Paulo enfatiza o
eficaz. A mais fundamental de todas as cren­ papel da lei como um princípio e, particular­
ças judaicas era que só o Senhor é Deus e mente, no contexto deste capítulo, como

557
3:31 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

está implícito na lei revelada do AT. Ele Deus é um dos motivos mais fortes para a
já havia falado do testemunho do AT obediência. Não repetimos fácil e pronta­
sobre ensinamentos que estavam prestes mente uma linha de conduta que provo­
a se tornar conhecidos como o NT (v. 21). que calamidades a nossos amigos. De igual
Então, ele afirma que a lei, considerada modo, temos ódio pelos pecados que infli­
como uma revelação da santa vontade de giram desgraças sobre nosso Amigo maior.
Deus e dos princípios eternos da moral, Uma das principais glórias do plano da sal­
é justificada e estabelecida pelo evange­ vação é que, enquanto o plano torna possí­
lho da justificação pela fé em Jesus Cristo. vel a justificação do pecador pela fé, também
Jesus veio a este mundo para engrande­ fornece influências poderosas para incutir
cer a lei (Is 42:21; cf. Mt 5:17) e para reve­ nele o desejo de obedecer.
lar, por intermédio de Sua vida de perfeita O plano da justificação pela fé situa a
obediência a ela, que os cristãos podem, lei em sua posição correta. A função da lei
por meio da graça capacitadora de Deus, é convencer do pecado (v. 20) e revelar a
prestar obediência à Sua lei. O plano da grande norma de justiça. O pecador que se
justificação pela fé revela a consideração confronta com a lei enxerga não somente
de Deus por Sua lei, ao exigir e oferecer o o pecado, mas também sua falta de quali­
sacrifício expiatório. Se a justificação pela dades positivas. A lei, portanto, o conduz a
fé anulasse a lei, não haveria necessidade Cristo e ao evangelho (G1 3:24). Então, a fé
da morte expiatória de Cristo para liber­ e o amor produzem uma nova obediência à
tar o pecador e, assim, restaurar-lhe a paz lei de Deus, que brota da fé (Rm 1:5; 16:26)
com Deus. e do amor (Rm 13:8, 10).
Além disso, a fé genuína inclui uma E sobre essa questão da autoridade e da
disposição irrestrita para cumprir a von­ função da lei de Deus que se dará a bata­
tade de Deus em uma vida de obediência lha final no grande conflito entre Cristo
à Sua lei (ver com. de Rm 3:28). A verda­ e Satanás. O último grande engano que
deira fé, baseada no amor incondicional Satanás traz sobre o mundo é que não mais
pelo Salvador, só pode conduzir à obediên­ é necessário dar completa obediência a
cia. O fato de Cristo ter suportado tanto todos os preceitos da lei de Deus (Ap 12:17;
sofrimento por termos transgredido a lei de 14:12; cf. DTN, 763).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

2-AA, 380; T5, 533 512 T9, 193


4 - Tl, 323 25- GC, 461, 468 27, 28 - CC, 59
11, 12 - PJ, 189 26- PJ, 163, 168; 31 - PJ, 128, 314; GC, 468,
18-T2, 292, 348, 560, 630 DTN, 762; A4J, 70; 584; MDC, 50;
20 - GC, 467; T2, 449, 452, T4, 418; T5, 739; PP, 373

558
ROMANOS 4:1

Capítulo 4
1 Pela fé, Abraão alcança a jristiça 10 antes de ser circtmcidado. 13 Ele e sua
descendência recebem a promessa pela fé. 16 Abraão é o pai de todos
os que creem. 24 A justiça é imputada mediante a fé.

1 Que, pois, diremos ter alcançado Abraão, herdeiro do mundo, e sim mediante a justiça
nosso pai segundo a carne? da fé.
2 Forque, se Abraão foi justificado por obras, 14 Pois, se os da lei é que são os herdeiros,
tem de que se gloriar, porém não diante de anula-se a fé e cancela-se a promessa,
Deus. 15 porque a lei suscita a ira; mas onde não há
► 3 Pois que diz a Escritura? Abraão creu em lei, também não há transgressão.
Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. 16 Essa é a razão por que provém da fé, para
4 Ora, ao que trabalha, o salário não é consi­ que seja segundo a graça, a fim de que seja firme
derado como favor, e sim como dívida. a promessa para toda a descendência, não somen­
5 Mas, ao que não trabalha, porém crê na­ te ao que está no regime da lei, mas também ao
quele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atri­ que é da fé que teve Abraão (porque Abraão é
buída como justiça. pai de todos nós,
6 E é assim também que Davi declara ser 17 como está escrito: Por pai de muitas na­
bem-aventurado o homem a quem Deus atribui ções te constituí.), perante aquele no qual creu,
justiça, independentemente de obras: o Deus que vivifica os mortos e chama à existên­
7 Bem-aventurados aqueles cujas iniquida- cia as coisas que não existem.
des são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; 18 Abraão, esperando contra a esperança,
8 bem-aventurado o homem a quem o Senhor creu, para vir a ser pai de muitas nações, segun­
jamais imputará pecado. do lhe fora dito: Assim será a tua descendência.
9 Vem, pois, esta bem-aventurança exclusi­ 19 E, sem enfraquecer na fé, embora levasse
vamente sobre os circuncisos ou também sobre em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo
os incircuncisos? Visto que dizemos: a fé foi im­ já de cem anos, e a idade avançada de Sara,
putada a Abraão para justiça. 20 não duvidou, por incredulidade, da pro­
10 Como, pois, lhe foi atribuída? Estando messa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando
ele já circuncidado ou ainda incircunciso? Não glória a Deus,
no regime da circuncisão, e sim quando incir- 21 estando plenamente convicto de que Ele
cunciso. era poderoso para cumprir o que prometera.
11 E recebeu o sinal da circuncisão como 22 Pelo que isso lhe foi também imputado
selo da justiça da fé que teve quando ainda in­ para justiça.
circunciso; para vir a ser o pai de todos os que 23 E não somente por causa dele está escri­
creem, embora não circuncidados, a fim de que to que lhe foi levado em conta,
lhes fosse imputada a justiça, 24 mas também por nossa causa, posto que
12 e pai da circuncisão, isto é, daqueles que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a
não são apenas circuncisos, mas também andam nós que cremos naquele que ressuscitou dentre
nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai, os mortos a Jesus, nosso Senhor,
antes de ser circuncidado. 25 o qual foi entregue por causa das nossas
13 Não foi por intermédio da lei que a Abraão transgressões e ressuscitou por causa da nossa
ou a sua descendência coube a promessa de ser justificação.

559
4:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

1. Que, pois, diremos [...]? Expressão ser ligada a “ter alcançado” ou a “nosso pai”.
comum nos escritos de Paulo, ligando o que A primeira conexão diria: “Que diremos, o
segue com a passagem anterior (ver também que Abraão, nosso pai, alcançou com relação
Rm 6:1; 7:7; 9:14, 30). Se o plano da justifi­ à carne?” Isto é, Abraão foi justificado por
cação pela fé exclui toda jactância (Rm 3:27) alguma coisa que se refira à carne? A outra
c não faz distinção entre judeus e gentios conexão possível significaria: “Que diremos,
(v. 22, 23), que diremos sobre o caso de o que Abraão, nosso pai segundo a carne,
Abraão? Certamente, os judeus poderíam alcançou?” isso estaria se referindo a Abraão
afirmar: o pai do povo escolhido foi aceito como antepassado por descendência natural.
diante de Deus por causa de seu grande Qualquer alternativa faz sentido nesse con­
mérito. Então, Paulo passa a explicar, sob texto. Alguns veem uma terceira conexão
a autoridade das Escrituras do AT, que até possível: “Que diremos, então? Que verifica­
Abraão foi justificado na mesma base em que mos [serj Abraão o nosso antepassado [ape­
a justificação é oferecida aos pagãos. Além nas] de acordo com a carne?”
disso, Abraão desfrutou essa experiência 2. Foi justificado. Se Abraão tivesse
antes de ter sido circuncidado (Rm 4:10). sido justificado como recompensa por suas
Assim, dificilmente podería ser alegado que obras de obediência, ele teria algo de que se
Paulo lançou uma doutrina estranha, ao sus­ orgulhar. Mas Abraão não tinha nada de que
tentar que a justificação vem pela fé. Ele se vangloriar diante de Deus. Paulo explica
podia alegar que se mantinha dentro do espí­ por que nos v. 3 a 5. A verdade é que Abraão
rito da religião do Al' no ensino de que os não recebeu sua justificação como recom­
gentios, emhora não circuncidados, também pensa por obras, absolutamente, mas da
podiam ser justificados pela fé. A história da mesma forma que todos os demais crentes.
fé demonstrada por Abraão (ver Gn 15:6) for­ 3. A Escritura. Uma citação de Gn 15:6,
nece um exemplo da justiça “sem a lei” e “tes­ da LXX. Em Gênesis, a passagem é um
temunhada pela lei” (Rm 3:21). comentário sobre a fé demonstrada por Abraão
Ter alcançado. Evidências textuais (cf. na promessa de que seus descendentes seriam
p. xvi) apoiam a omissão destas palavras. tão inumeráveis quanto as estrelas.
Quer as palavras estejam incluídas, quer Creu. Do gr. pisteuõ, forma verbal do
não, o propósito de Paulo é claro. A per­ substantivo pistis, “fé” (ver com. de Rm 3:3).
gunta geral: “Qual é, pois, a vantagem do Assim, a citação também poderia ser tra­
judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?” duzida por: “Abraão teve fé em Deus”, ou
(Rm 3:1) é respondida por uma recapitulação “Abraão depositou sua fé em Deus”. A fé
da experiência do grande patriarca. Em que demonstrada por Abraão não foi apenas uma
consiste realmente a superioridade incontes­ crença em algo impessoal, mas a confiança
tável de Abraão? em Deus (ver com. de Rm 3:22).
Abraão, nosso pai. As evidências tex­ Imputado. Do gr. logizomai. A mesma
tuais se dividem (cf. p. xvi) entre esta e a palavra é traduzida como “considerado”
variante “Abraão, nosso antepassado”. Os (v. 4) e “atribui” (v. 6). No grego clássico e
► judeus se orgulhavam muito em ter Abraão nos papiros, a palavra era usada em conexão
como seu progenitor, e um exemplo extraído com a prestação de contas. A fé de Abraão
de sua vida e conduta seria especialmente foi lançada no lado do crédito para a justiça.
forte (ver com. de Mt 3:9; Jo 8:39, 40, 53). A palavra hebraica usada em Gênesis 15:6
Segundo a carne. Tem havido alguma (chashah) significa “pensar”, “considerar”,
incerteza quanto a saber se esta frase deve “contar”. Ela ocorre em 1 Samuel 1:13: “por

560
ROMANOS 4:5

isso, Eli a teve por embriagada” (comparar 4. Ao que trabalha. Ou seja, esperando
o uso de chashab em Gn 38:15; 2Sm 19:19; assim merecer a justificação. Paulo extrai sua
SI 32:2; Is 10:7; Jr 36:3; Os 8:12). ilustração da vida quotidiana. Este verbo era
Para justiça. As implicações legais da utilizado para retratar a permuta do trabalho
imputação da fé demonstrada por Abraão pelo sustento (ver At 18:3; ICo 9:6; 2Ts 3:12).
para justiça têm sido a fonte de sério debate Salário. Do gr. misthos, “pagamento”,
por muitos estudiosos da Bíblia. Mas pode “salário”, “recompensa merecida” (ver Mt 20:8;
ser bom observar aqui que é possível discutir Tg 5:4).
o plano da justificação pela fé em termos tão Considerado. Do gr. logizomai (ver com.
legalistas que não seja mais justiça pela fé, do v. 3). Esta palavra pode ser usada para regis­
afinal. Os judeus receberam os princípios da trar algum valor na conta de uma pessoa que
justificação pela fé no monte Sinai, mas, por pode ou não lhe ser devido. Neste versículo,
causa de sua atitude legalista para eom esse o salário do trabalhador é “creditado” ou
plano para sua restauração, logo o transfor­ “contado” como seu direito legal. No v. 8,
maram em justiça pelas obras. Paulo fala que o Senhor “não imputará aos
O fato de que a fé demonstrada por homens” ou “atribuirá” o pecado do pecador.
Abraão lhe foi imputada como justiça não Como favor. Ou seja, como presente
significa que a fé tem em si algum mérito (ver com. de Rm 3:24).
que lhe permita alcançar a justificação (ver Dívida. “Digno é o trabalhador do seu
Ellen G. White, Material Suplementar sobre salário” (Lc 10:7). Se necessário, ele pode rei­
Rm 4:3-5). A fé em Deus foi contada como vindicá-lo em um tribunal legal. Isso repre­
justiça para Abraão. Essa fé é uma relação, senta o método legalista de buscar a salvação.
atitude ou disposição da pessoa para com Se a justificação é uma recompensa para as
Deus. Isso significa uma disposição de rece­ obras, fazemos de Deus nosso devedor. Não
ber com alegria tudo o que Deus revela e existe participação da graça.
fazer com alegria tudo o que Deus ordena. 5. Ao que não trabalha. Ou seja, a
Abraão amava a Deus, confiava nEle e Lhe pessoa que não tenta comprar a justificação
obedecia porque O conhecia e era Seu por suas obras. Isso não nega a necessidade
amigo (Tg 2:21-23). Sua fé era um verda­ de boas obras (ver com. de Rm 3:28). Paulo
deiro relacionamento de amor, confiança e enfatiza mais uma vez a verdade fundamen­
submissão. Além disso, Abraão conhecia o tal de que a pessoa é justificada, não pelas
evangelho da salvação, sabia que sua jus­ obras, mas pela fé. Assim, a pessoa participa
tificação dependia do sacrifício expiatório da vida e da justiça de Deus, o que gera e
dAquele que havia de vir (G1 3:8; cf. Jo 8:56). inspira boas obras.
Na época da elaboração da aliança, o plano Crê nAquele. Ou, “tem fé nAquele”,
da redenção “foi-lhe ali desvendado, na “confia nAquele” (ver com. de Rm 3:3). Essa
morte de Cristo, o grande sacrifício, e em fé não é mera crença na bondade de Deus,
- Sua vinda em glória” (PP, 137). Abraão creu mas a confiança em Deus para justificar
na promessa do Messias, e a “fé do patriarca aqueles que não poderiam ser justificados,
fixou-se no Redentor vindouro” (PP, 154). caso fosse aplicada a justiça sem misericór­
Foi a aceitação grata e confiante de Abraão dia. Isso inclui não apenas confiança nas
da expiação e da justiça de Cristo que lhe promessas de Deus, mas a completa sub­
foi creditada. Essa é a mesma experiência da missão do coração e da vida Àquele em quem
justificação pela fé desfrutada por todos os o crente aprendeu a confiar. Crer nEle sig­
cristãos que creem. nifica mais do que considerar Sua palavra

561
4:6 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

como verdade. Tem que ver com uma rela­ Declara ser bem-aventurado. Lite­
ção pessoal (ver com. de Rm 4:3). ralmente, “fala a bênção”, daí a tradução
ímpio. Do gr. asebês, palavra mais forte preferida por muitos intérpretes na língua
do que “injusto”. Descreve aquele que não inglesa (exemplo: “Davi pronuncia uma bên­
adora o Deus verdadeiro, como um pagão e, ção”, RSV). Outros, porém, preferem atribuir
em sentido mais geral, se refere a uma pes­ a Deus a pronúncia de bênção, pela seguinte
soa ímpia ou irreligiosa. Paulo pode ter esco­ tradução: “Davi também fala da bênção.”
lhido esta palavra para aumentar o contraste Atribui. Do gr. logizomai (ver com. do
entre o ser humano em sua indignidade e a v. 3). Atribuir justiça é o mesmo que justi­
misericórdia de Deus em justificá-lo. ficar. O objetivo do Salmo 32, o qual Paulo
Sua fé lhe é atribuída. Esta é a fé cita, é mostrar que é bem-aventurado aquele
da pessoa que, reconhecendo-se “ímpia”, que é perdoado, cujos pecados não são cobra­
indigna e incapaz de se justificar por suas dos dele, e que, portanto, é tratado como uma
próprias obras, confia plenamente na mise­ pessoa justa. Já não é considerado como um
ricórdia de Deus para justificá-la. Em con­ pecador rebelde, mas como amigo de Deus.
traste com a autossuficiência daquele que Independentemente de obras. Davi
se atreve a afirmar a justificação como não usa esta frase, mas a ideia está implícita
recompensa por suas boas obras, a fé atri­ no salmo. As obras não são de nenhum pro­
buída como justiça envolve a renúncia a veito para expiar a iniquidade passada (ver
todo mérito. Pela fé, o pecador arrependido com. de Rm 3:28).
apresenta a Deus os méritos de Cristo, e 7. Bem-aventurados. Do gr. makarioi,
o Senhor credita à sua conta a obediência que também pode ser traduzido como “feliz”.
de Seu Filho (ver Ellen G. White, Material A mesma palavra grega é usada nas bem-
Suplementar sobre Rm 4:3-5). aventuranças (ver com. de Mt 5:3).
Mais uma vez, a palavra “fé” inclui não Iniquidades. Do gr. anomiai, literal­
apenas um ajuste legal, mas o início de uma mente, “ilegalidades”, “violações da lei”.
nova vida de amor, obediência e transforma­ Pecados. Do gr. hamartiai, “falhas”,
ção. A justiça de Cristo, revelada em Sua vida “defeitos”, pecados e desvios de todo tipo.
perfeita e morte sacrifical, tornou possível a Cobertos. Do gr. epikalwptõ, literal­
Deus ser justo aos olhos do universo e justi- mente, “cobertos como uma mortalha”, “vela­
ficador de todos os que têm fé em Jesus (ver dos”. A palavra ocorre somente aqui no NT.
com. de Rm 3:26). A aceitação da justiça de 8. A quem. As evidências textuais se
Cristo pela fé torna possível que o passado dividem (cf. p. xvi) entre esta e a variante “de
pecaminoso do pecador seja coberto e seu quem”. A última forma torna possível a tradu­
ser pecaminoso seja transformado. ção: “Bem-aventurado o homem cujo pecado
6. E assim também que Davi. Uma o Senhor não levará em conta”.
citação do SI 32:1, 2. Está de acordo com a Jamais imputará pecado. Ou seja, o
LXX e não com o texto massorético. A decla­ Senhor não irá cobrar ou lançar seu pecado
ração de Davi é citada por Paulo para con­ contra ele. Este é o lado negativo da justifica­
firmar e explicar melhor sua interpretação ção: o perdão dos pecados passados. Do lado
da experiência de Abraão, que ele retoma positivo, como está expresso nos v. 3, 5, 6, 9,
em Romanos 4:9. Assim, ele fornece outras 11 e 22, é a imputação da justiça. Os dois são
evidências de que a doutrina da justifica­ inseparáveis. Enfatizar apenas o primeiro,
ção pela fé, sem as obras, está bem apoiada pensando na justificação somente como per­
► no AT e era entendida pelos líderes judeus. dão, pode remover dessa experiência parte de

562
ROMANOS 4:11

seu poder reconciliador e vivificante. A per­ toda a obediência que Cristo cumpriu por
cepção positiva de que Deus não apenas per­ mim, se eu tão somente aceitar esse bene­
doa, mas também atribui a justiça de Cristo, fício com um coração crente” (comparar com
enche não só de gratidão, mas também de Ellen G. White, Material Suplementar sobre
esperança e aspiração para o futuro. Deus Rm 4:3-5).
está interessado não apenas em perdoar, mas 9. Vem, pois, esta bem-aventurança
em restaurar o pecador à comunhão com [...]? Ou, “é esta declaração de bem-aven­
Ele. Pensar na justificação simplesmente turança?” Não há verbo no texto grego desta
como perdão é, talvez, olhar demais para passagem. Paulo se prepara para responder
o passado. Deus deseja que saibamos que à possível objeção de que, embora se deva
Ele não só nos perdoou, mas também nos admitir que a justificação seja pela fé, em
trata como se nunca tivéssemos pecado (ver vez de pelas obras, certamente, o fato de
CC, 62). A vida passada não será usada con­ que Davi e Abraão tinham obedecido à lei
tra nós. A partir da fé, seremos tratados como da circuncisão deve ter tido algo a ver com *
amigos, até mesmo como filhos (ljo 3:1, 2). sua justificação. Caso se considere que seja
Assim, Ele nos dá um novo começo. Ele assim, aqueles que são circuncidados devem
fez todo o possível para nossa reconcilia­ ter alguma vantagem no plano da justificação.
ção completa. Essa consciência pela fé, do Paulo responde a esse argumento, apontando
significado da experiência da justificação, que Abraão foi justificado antes de ser circun-
inspira-nos com coragem e determinação cidado. Na verdade, Abraão não foi circunci-
para o futuro. Sabemos que o caráter per­ dado até alcançar os 99 anos de idade (Gn 17:1,
feito de Cristo atribuído a nós na justificação 10, 11, 24), quando seu filho Ismael tinha 13
pode ser-nos transmitido na santificação, anos (v. 25). A experiência de fé demonstrada
para assim transformar nosso caráter à Sua por Abraão na promessa de Deus ocorreu
semelhança. Assim, enquanto a justifica­ antes que Ismael nascesse (Gn 15:6).
ção se refere principalmente ao passado, ela Os circuncisos. Ou seja, os judeus.
representa não apenas o fim de uma vida de 10. Como, pois, lhe foi atribuída?
alienação e rebelião, mas, também, e mais Ou seja, em que circunstância Abraão estava
importante, o início de uma nova vida de quando foi justificado? Será que ele teve
amor e obediência. essa experiência antes ou depois de ter sido
O catecismo evangélico de Heidelberg, circuncidado? O AT mostra que sua justi­
publicado pela primeira vez em 1563, explica ficação antecedeu em muito a circuncisão
a justificação com essas palavras: “Como és (Gn 15:6; cf. Gn 17:24).
justo diante de Deus? Resposta: Somente 11. Sinal da circuncisão. Ou seja, a
mediante verdadeira fé em Jesus Cristo, ou circuncisão como um sinal. Quando insti­
seja, embora a minha consciência me acuse tuiu a circuncisão, Deus disse: “será isso por
de que pequei gravemente contra todos os sinal [LXX, semêion, sinal’] de aliança entre
mandamentos de Deus e nunca guardei Mim e vós” (Gn 17:11).
nenhum deles, e que ainda sou propenso Selo. Do gr. sphragis. Esta palavra era
sempre a todo o mal, Deus, sem qualquer usada para determinadas marcas pelas quais
mérito meu, por mera graça, me concede os contratos e acordos eram confirmados ou
e me atribui a perfeita satisfação, a jus­ autenticados, ou para os instrumentos com
tiça e a santidade de Cristo, como se eu os quais se faziam as marcas (ver lCo 9:2;
nunca tivesse cometido nem tivesse qual­ 2Tm 2:19; Ap 5:1; 7:2). Assim, a circuncisão
quer pecado, e tivesse eu mesmo praticado foi concebida como sinal distintivo exterior,

563
4:12 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

simbolizando a ratificação da aliança feita 12. Pai da circuncisão. Ou seja, pai


com Abraão e a confirmação de sua expe­ dos circuncisos. Isso deve ser conectado
riência anterior de justificação pela fé. Assim, com “para vir a ser” (v. 11). Era desígnio de
a circuncisão não pode ser considerada Deus que Abraão passasse o rito da circun­
como o motivo para a aceitação de alguém cisão a todos os seus descendentes físicos
diante de Deus. Para Abraão e seus descen­ como sinal da fé que deveríam compartilhar
dentes, era apenas um sinal e selo da justiça com ele. Paulo não minimiza o significado
que vem pela fé. A circuncisão não transmi­ da circuncisão, corretamente entendido (ver
tia justiça, mas dava apenas uma evidência Rm 3:1, 2). Era um privilégio ser um mem­
exterior dela. Da mesma forma, para o cris­ bro do povo escolhido e ostentar o selo da
tão, o batismo não traz justiça, mas a orde­ justificação pela fé.
nança pode ser considerada como um sinal Apenas circuncisos. Enquanto Abraão
e selo da fé e da justificação experimentada era o antepassado físico de todos os judeus
antes do batismo. circuncidados, ele era “pai” apenas daqueles
Justiça da fé. Ou, “justificação pela fé”. que receberam a circuncisão com o mesmo
Comparar com a frase “a obediência por fé” espírito e a mesma fé que ele tinha. A mera
(Rm 16:26). circuncisão nada valia, mas a circuncisão
O pai. Ou seja, o pai espiritual. Abraão conectada com a fé semelhante à de Abraão
é o antepassado daqueles que têm fé. Nessa assinalava os que eram seus verdadeiros des­
condição, ele é um modelo e exemplo. cendentes (Rm 2:28, 29; 9:6, 7).
Aqueles que seguem seus passos são consi­ Andam. Do gr. stoicheõ, “seguir uma
derados seus filhos espirituais (ver Lc 19:9; pessoa [ou coisaj”, “estar de acordo com”,
Jo 8:39; G1 3:7, 29). “concordar com”, “submeter-se”. No antigo «
Creem. O dom da salvação é oferecido a jargão militar, significa “mover-se em linha”
todos, em todos os lugares, nas mesmas con­ (comparar com o uso de stoicheõ em G1 5:25;
dições, quer sejam circuncidados quer não Fp 3:16). Abraão é o pai dos que são não ape­
(Rm 3:29, 30). Abraão e todos os seus ver­ nas circuncisos, mas também “andam nos
dadeiros filhos preencheram esse requisito. passos” e seguem o exemplo da fé que ele
O único laço nessa família espiritual é a fé. tinha antes de ter sido circuncidado. O exem­
Alguns membros da família possuem o sinal plo da fé demonstrada por Abraão lança mais
externo dessa fé, outros, não. A condição de luz sobre o significado da fé genuína. Sua
membro não é determinada pela posse do fé não foi uma experiência momentânea,
sinal, mas, sim, daquilo que o sinal tinha a mas o hábito de uma vida, revelando-se em
intenção de representar. consistente obediência e boas obras. Deus
Se o significado original da circuncisão mesmo declarou que “Abraão obedeceu à
não tivesse sido perdido, os judeus sempre Minha palavra e guardou os Meus manda­
seriam lembrados do alcance universal do dos, os Meus preceitos, os Meus estatutos
plano da salvação, pelo qual a imputação e as Minhas leis” (Gn 26:5).
da justiça é oferecida a todos os que creem. 13. Por intermédio da lei. Não há
Assim, eles teriam sido mais prontos a coope­ artigo no grego (ver com. de Rm 2:12). Além
rar com Deus no cumprimento do significado disso, no grego, esta frase surge no início
espiritual de Suas promessas a Abraão de do versículo, talvez para enfatizar que “não
que ele seria pai de muitas nações (Gn 17:4) por intermédio de lei foi a promessa feita a
e que nele seriam abençoadas todas as famí­ Abraão”. O raciocínio de Paulo aqui se asse­
lias da Terra (Rm 12:3). melha ao de Gálatas 3:18. Ali, “lei”, sem

564
ROMANOS 4:16

o artigo (ver com. de Rm 2:12), é mencio­ 15. Suscita a ira. Os legalistas que
nada como um princípio em oposição à “pro­ dependem de obediência à lei para a justi­
messa”. A herança não pode ser dependente ficação do pecado baseiam suas expectati­
de lei, porque Deus a concedeu a Abraão pela vas cm uma falsa premissa. A função da lei é
promessa. Aqui, “lei” e “justiça de fé”, ambos revelar o pecado (Rm 3:20) e mostrar que ele
sem o artigo, são os dois princípios contras­ é a transgressão da vontade de Deus. Longe
tantes. Paulo afirma que a promessa deve ser de justificar o pecador, ou de o tranquilizar,
realizada e apropriada, “não por intermédio a lei o condena e traz a ira de Deus sobre ele.
de lei” (cf. v. 14, 15), mas “pela justiça de fé” Uma vez que Paulo já provou que todos peca­
(cf. v. 16, 17). ram (Rm 1-3), segue-se que qualquer pessoa
Herdeiro do mundo. Esta expressão que tente ser justificada pela lei se envol­
exata não ocorre em nenhuma das promes­ verá apenas em ira e condenação. Assim, a
sas feitas a Abraão. É possível que Paulo lei pode produzir um efeito oposto ao que se
tenha resumido todas as promessas nesta pretende com a promessa.
expressão abrangente, ou pode se referir par­ Por este versículo, Paulo não nega de
ticularmente à mais inclusiva de todas as forma alguma a necessidade da lei. Ele só
promessas: “nela [tua semente] serão ben­ esclarece a função da lei no plano da salva­
ditas todas as nações da Terra” (Gn 22:18). ção (ver com. de Rm 3:20, 31; ver Cl 3:21).
Essa foi “a bênção de Abraão”, que deveria Não há transgressão. Ou seja, não há
ser estendida aos gentios por meio de Jesus desobediência a um mandamento conhe­
Cristo (G1 3:14). Todos os que são de Cristo cido. Paulo parece usar esta declaração
são “descendentes de Abraão e herdeiros negativa para confirmar a veracidade de
segundo a promessa” (G1 3:29). Sendo que sua afirmação positiva de que onde existe
o reino de Cristo vai encher toda a Terra, lei, a transgressão é revelada e traz a ira.
Abraão e sua semente são realmente her­ Ele tenta deixar claro aos legalistas que, se
deiros do mundo. A promessa será cumprida a justiça nãoé mediante a fé, mas mediante a
literalmente quando os reinos deste mundo lei, não há esperança de salvação. Para os
forem entregues ao povo do Altíssimo e judeus, há uma lei, e todos transgrediram
Cristo reinar com Seus santos para todo o suas exigências. Assim, todos estão expos­
sempre (Dn 7:27). tos às penalidades da transgressão, e, se a
14. Da lei. Literalmente, “de lei”. Não hápromessa de justificação sem as obras da
artigo no grego (ver com. de Rm 2:12). Aqui lei não se aplicar a eles, eles estão comple­
são descritos os que dependem da obediên­ tamente sem esperança.
cia para obter a justificação: os legalistas. 16. Essa é a razão por que provém
Anula-se. Se os legalistas hão de herdar da fé. Literalmente, “por conta dessa fé”.
o reino, então, a fé foi esvaziada de todo sig­ Visto que a lei só traz condenação, a justifi­
nificado e não há nenhuma razão para o elo­ cação e a salvação devem provir da fé, como
gio de Deus a Abraão. a Abraão (Cl 3:11, 12).
Cancela-se. Do gr. katargeõ, “torna­ Segundo a graça. Ver com. de Rm 3:24.
da ociosa”, “tornada inútil” (ver com. de Neste capítulo, Paulo contrasta lei, obras e
Rm 3:3). Se o cumprimento da promes­ mérito, por um lado, com a promessa, fé e
sa dependesse de nossa obediência legalis­ graça, do outro. O legalismo tenta obter a sal­
ta, nunca poderia ser cumprida plenamente. vação por meio dos três primeiros. Mas o sis­
Em Romanos 4:15, Paulo explica por que (ver tema está fadado ao fracasso pelas razões já
também G1 3:17-19). expostas. A salvação só poderia vir mediante

565
4:17 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

graça, promessa e fé, pois Deus deve suprir que a passagem diga: “Aquele que se des­
o total desamparo do ser humano. Além taca como o pai de todos nós na presença de
disso, são a graça e o amor de Deus que Deus, em quem ele cria”. Ou a frase pode
trazem o pecador de volta à reconciliação ser conectada com a primeira parte do ver­
e à vida de fé. sículo anterior, enfatizando, assim, a certeza
A fim. Ou, “para o efeito”, “a fim de que”. ou a garantia da promessa aos olhos de Deus.
Firme. Do gr. bebaios, “seguro”, “estabe­ Aqui, Paulo pode ter levado em conta a
lecido”, o oposto de “sem efeito” (cf. v. 14). ocasião da conversa de Abraão com Deus,
Se a promessa dependesse da perfeita con­ quando aceitou pela fé a promessa divina de
formidade do ser humano com a lei, essa que seria pai de muitas nações (Gn 17:1-4).
não seria certa, pois só Cristo prestou Aos olhos humanos, a promessa tinha cum­
essa obediência. Mas a promessa é firme primento impossível. Mas Abraão, como
a toda a descendência de Abraão, judeus e amigo de Deus, estava na presença do Deus
gentios, pois sua única condição é a resposta todo-poderoso da criação, que poderia pre­
de fé à graça de Deus. ver o futuro e levar a efeito Suas próprias
Toda a descendência. Ou seja, todos ordens. E enquanto Abraão estava lá, ele foi
aqueles que creem (G1 3:29). Paulo os divide nomeado pai de muitas nações.
em duas classes. A experiência de Abraão é típica de todos
Que está no regime da lei. Ou seja, os crentes. Deus promete perfeita restaura­
os crentes entre os judeus, que possuíam a ção ao pecador e, humanamente falando, não
lei. O artigo está presente no grego (ver com. parece possível que a promessa se cumpra.
de Rm 2:12). No entanto, a promessa é certa, pois nos é
Ao que é da fé. Ou seja, os crentes dada à própria vista dAquele que nos vê e
gentios. conhece, o Deus que possui o poder criativo
Pai de todos nós. Os crentes judeus e de nos transformar novamente à Sua ima­
os gentios compõem a família da qual Abraão gem. Tudo o que nos pede é que aceitemos
é o pai espiritual (ver com. do v. 11). isso pela fé, como Abraão fez.
17. Está escrito. Uma citação de Vivifica os mortos. O poder mila­
Gn 17:5. Na época em que a promessa foi groso de Deus é muitas vezes representado
feita, o nome de Abrão foi mudado para na Bíblia como capaz de ressuscitar mor­
Abraão (ver com. de Gn 17:5). Paulo inter­ tos (ver Dt 32:39; iSm 2:6; Is 26:19; jo 5:21;
preta essa promessa como uma referência à 2Co 1:9).
paternidade espiritual de Abraão. A razão para a referência de Paulo ao
Constituí. Do gr. tithêmi, “nomear”, poder vivificador de Deus neste versículo
“constituir”. O verbo usado no hebraico de não está clara. Parece ser consensual que
Gênesis 17:5 também pode ser traduzido Paulo pensa primeiro nas circunstâncias do
assim (sobre o uso semelhante desta pala­ nascimento de Isaque (Rm 4:19) e, depois,
vra grega no NT, ver Mt 24:51; Jo 15:16; na ressurreição de Cristo (v. 24; comparar
At 13:47, em que é traduzido respecti­ com Hb 11:19). -i
vamente por “lançar a sorte”, “designar” Chama [...] as coisas. A parte final do
e “constituir”). versículo diz, literalmente, “chama as coisas
Perante. Ou, “na presença de”. Este que não existem como existindo”. Isso pode
termo pode ser conectado com as palavras ser entendido no sentido de que Deus chama
que precedem imediatamente a citação entre à existência as coisas que não existem, ou
parênteses de Gênesis 17:5, fazendo com que Deus fala de coisas inexistentes como

566
ROMANOS 4:20

se existissem. Também pode haver uma refe­ 19. Sem enfraquecer na fé. Ou, “ele
rência remota ao chamado dos gentios que, não enfraqueceu na fé”.
embora ainda não fossem povo de Deus, Nem atentou (ARC). Evidências tex­
estavam incluídos na promessa, como se fos­ tuais (cf. p. xvi) sugerem a omissão da palavra
sem. “Chamarei povo Meu ao que não era “nem”. Se o “não” for mantido, a expressão
Meu povo; e amada, à que não era amada” pode ser entendida como se referindo à nar­
(Rm 9:25; cf. Os 1:9, 10). rativa de Gênesis 15:1 a 6. Na ocasião, está
Todas essas interpretações podem ter o registrado que Abrão não deu ouvidos às difi­
mesmo sentido. Deus prometeu a Abraão culdades contidas na promessa, mas logo a
que seria pai de muitas nações, que ainda aceitou. Se o “não” for omitido, a expressão
não existiam, no momento em que o próprio pode ser entendida como se referindo à expe­
Abraão ainda não tinha herdeiro e quando riência registrada em Gênesis 17:17, a partir
já havia passado da idade em que poderia da qual Paulo toma emprestadas algumas
esperar ter um (Rm 4:19). Mas Abraão teve palavras. Desta vez, Abraão considerou devi­
fé para crer que Deus podia dar vida ao seu damente as circunstâncias desfavoráveis, o
corpo morto e podia chamar à existência as fato de que ele e Sara estavam bem além da
coisas que prometia, das quais Deus falava idade normal de ter filhos, mas sua fé não
em Sua presciência, como se já existissem. foi enfraquecida. A fé que persiste, mesmo
A fé cristã não deve ser inferior, e, nos ver­ em face de dificuldades reconhecidas, é mais
sículos seguintes, Paulo expõe a fé demons­ forte do que a que simplesmente as ignora.
trada por Abraão como um exemplo. Amortecido. Ou seja, incapaz de gerar
18. Contra a esperança. Apesar das filhos (cf. Hb 11:12). A primeira promessa de
circunstâncias desesperadoras, Abraão con­ um filho foi feita a Abraão antes do nasci­
tinuou a exercer esperança e fé. “Contra a mento de Ismael (Gn 15:3, 4), e Abraão tinha
esperança” se refere ao fato de que a idade 86 anos quando Ismael nasceu (Gn 16:16).
tornava impossível o cumprimento da pro­ A segunda promessa foi feita quando Abraão
messa de forma natural. A segunda “espe­ tinha 99 anos (Gn 17:1), embora ele mesmo
rança” era inspirada na palavra da promessa dissesse que tinha cem, e Sara tinha, prova­
de Deus. velmente, 89 anos (v. 17).
Para vir a ser. Ou, “de modo que se Idade avançada de Sara. Ver Gn 18:11.
tornou”. Isto pode ser entendido como resul­ 20. Não duvidou. Ou, “não vacilou”,
tado da fé de Abraão, “para vir a ser pai de “não titubeou”. O texto grego sugere um
muitas nações”. Ou pode se referir ao pro­ esforço mental.
pósito de Deus para Abraão, que “creu, a Pela fé, se fortaleceu. Literalmente,
fim de que, de acordo com o propósito de “foi reforçado na [sua] fé”, ou “foi reforçado
Deus, se tornasse pai de muitas nações”, ou pela [sua] fé”. Isso pode ser entendido no sen­
à própria esperança e aspiração de Abraão tido de que a fé demonstrada por Abraão
de se tornar tudo o que havia sido prome­ foi reforçada. Sua fé cresceu à medida
tido. Ele creu com a plena intenção de se que foi exercitada. Ou pode significar que o
tornar o que Deus prometera, “pai de mui­ próprio Abraão recebeu o poder, por meio
tas nações”. da fé. A incredulidade não o levou a vaci­
Segundo lhe fora dito. Ou seja, a pro­ lar. Pelo contrário, sua fé foi fortalecida. Em
messa de Gênesis 15:5, de que a descendên­ outra ocasião, Paulo afirma que “pela fé, tam­
cia de Abraão seria tão numerosa quanto bém, a própria Sara recebeu poder para ser
as estrelas. mãe” (Hb 11:11). isso parece confirmar a

567
4:21 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTÍSTA

segunda interpretação, embora a primeira, um caso como no outro. O pecador honra a


sem dúvida, seja verdade quanto à experiên­ Deus, confiando em Sua graça, tanto quanto
cia de Abraão. Abraão fez para confiar em Seu poder.
Dando glória a Deus. Isto não inclui, Poderoso. Do gr. dunatos, tradu­
necessariamente, uma expressão verbal de zido assim em outras passagens (Lc 24:19;
louvor, mas pode se referir a qualquer coisa At 18:24; 2Co 10:4). A ocasião da aceita­
que tenda a glorificar a Deus, seja em pen- ção da promessa de Abraão não foi a única
► sarnento, em palavra ou ação (ver Js 7:19; vez em que ele mostrou tanta confiança no
Jr 13:16; Lc 17:18; Jo 9:24; At 12:23). Abraão poder de Deus. Sua fc estava decidida e forte
deu glória a Deus por sua firme confiança quando lhe foi ordenado que sacrificasse seu
nas promessas de Deus. Assim, ele reconhe­ filho prometido (Hb 11:19).
ceu a onipotência de Deus. Dessa forma, O objetivo do discurso sobre Abraão é
todos os que creem nas promessas divinas mostrar, com referência a Gênesis 17:15 a
honram a Deus. Dão testemunho de que 22 c 18:9 a 15, como a fé que Abraão manti­
Deus é digno de confiança. Abraão tam­ nha na promessa de uma semente por meio
bém deu glória a Deus cm atos, bem como de Sara essencialmente corresponde à nossa
em pensamentos, por sua pronta obediência fé “naquele que ressuscitou dentre os mor­
(Gn 17:22, 23). tos a Jesus, nosso Senhor” (Rm 4:24). A íê
21. Estando plenamente convicto. demonstrada por Abraão estava na força di­
Do gr. plêrophoreõ, “satisfazer plenamente”. vina sobrenatural, nAquele que é capaz
Na forma usada aqui, significa estar preen­ de trazer à vida o que está humanamente
chido com um pensamento ou uma convicção, morto. Assim como a fé do patriarca no nas­
portanto, estar totalmente convencido. Paulo cimento prometido de Isaque envolveu mais
usa a mesma palavra para exortar Timóteo fé no cumprimento de todas as promessas
a “cumprir cabalmente” o seu ministério por meio de Isaque, assim também a fé dos
(2Tm 4:5) e expressar o propósito de Deus de cristãos na ressurreição de Cristo envolve fé
que por meio dele a pregação do evangelho em tudo o que está simbolizado e assegurado
fosse “plenamente cumprida” (v. 17). por esse evento. Não só na experiência aqui
A verdadeira fé significa convicção. descrita, mas em toda a sua vida, Abraão se
A vida de fé é uma vida de confiança e segu­ destacou como um exemplo de fé habitual
rança. Assim, Paulo podia dizer: “Eu sei em em uma ordem divina, além da visão comum.
quem tenho crido e estou certo de que é O que prometera. Visto que foi Deus
poderoso para guardar o meu depósito até quem fizera a promessa, Abraão creu sem
àquele dia” (2Tm 1:12). E um erro supor questionar. A fé em Deus é, em essência,
que a falta dessa convicção é uma prova de um relacionamento pessoal. O conhecimento
humildade. Pelo contrário, duvidar das pro­ e a confiança que Ahraão tinha em Deus
messas de Deus e de Seu amor é desonrá-Lo, eram tamanhos que estava pronto para acei­
porque duvidar é questionar Seu caráter e tar tudo o que Deus dizia e para obedecer
Sua palavra (ver TM, 518, 519). É mais difícil tudo o que Ele ordenava.
para muitos acreditar que Deus pode amar 22. Pelo que. Isto se refere ao contexto
e lhes perdoar, não importa sua pecaminosi- anterior (v. 18-21). Foi a fé inabalável de
dade, do que era para o velho patriarca crer que Deus podería cumprir tudo que havia
que seria pai de muitas nações. Mas a con­ prometido que foi imputada como justiça a
fiança em Deus de que Ele pode fazer o que Abraão. A análise de Paulo sobre a expe­
nos parece impossível é tão necessária em riência de Abraão fornece uma evidência

568
ROM ANOS 4:24

adicional sobre o tipo de fé que pode ser interpretação histórica das Escrituras, mas
assim abrigada. A fé que Abraão tinha não também com sua aplicação para a vida cristã.
era somente uma crença de que Deus dizia 24. Mas também por nossa causa.
a verdade. Sua vida de confiança e obediên­ Não apenas para ser um incidente e um
cia consistentes, apesar da evidência natu­ exemplo histórico (ver com. de Rm 4:21; ver
ral de que poderia ser tentado a pensar e Rm 15:4; ICo 10:11), mas, sobretudo, para
agir de outra forma, revela que sua fé era nos assegurar que a justiça será igualmente
uma verdadeira relação pessoal com Deus. atribuída a nós.
Abraão creu em Deus (v. 3, 17). Ou seja, Que cremos. Ou, “para aqueles que
Abraão colocou sua fé em Deus, não em algo creem”. Isso descreve a classe a quem a fé
impessoal. Sua fé não estava em uma dou­ vai ser considerada como justiça.
trina ou em um credo, mas num Deus pes­ Naquele. Paulo enfatiza que a fé atri­
soal. Assim, foi possível a Abraão aceitar e buída a ele como justiça deve ser colocada
obedecer ao que o Senhor prometera ou orde­ em Deus como pessoa. Assim, a fé não é sim­
nara, mesmo quando, humanamente, parecia plesmente uma convicção da veracidade de
razoável supor que essas promessas e ordens um fato histórico. E uma relação interpes­
nunca poderíam ser cumpridas. soal. O mesmo Deus a quem Abraão buscou
Hoje, a fé do cristão não deve ser menor para o cumprimento da promessa é aquele
do que a de Abraão (PJ, 312). Nossa vida cujo poder e fidelidade foram manifestados a
revela se estamos ou não aproveitando essa uma era posterior, na ressurreição de Cristo
experiência. e na qual, portanto, os cristãos depositam
Em nenhum desses versículos que tratam sua confiança.
do reconhecimento da justiça, ou da atribui­ Que ressuscitou [...] a Jesus. A fé
ção da fé como justiça, é afirmado expressa- cristã é semelhante à de Abraão não ape­
menle que a justiça de Cristo é creditada ao nas no sentido devocional, mas também na
crente. No entanto, está implícita no sentido crença em que Deus é capaz de extrair vida
pleno da experiência da justificação pela fé, da morte. Abraão depositou sua íé numa pro­
entendida à luz de todo o grande plano de messa que somente o poder criativo e vivi-
Deus para a restauração do ser humano (ver ficador de Deus poderia cumprir (v. 17). Da
com. de Rm 3, 5, 8; cf. Rm 3: 25, 26, 28). mesma forma, os cristãos acreditam na jus­
A lei requer justiça, a qual o ser humano é tificação c na redenção por meio do Deus
incapaz de dar. Mas Jesus, enquanto esteve que já ressuscitou Jesus dentre os mortos
na Terra, viveu uma vida justa e desenvol­ para esse exato propósito.
veu um caráter perfeito. Estes, Ele oferece A restauração do ser humano caído à ima­
como um presente para os que os desejam. gem de Deus (com a qual ele foi criado) só é
Sua vida se ergue pela vida da humanidade possível por meio do exercício do poder cria­
(ver DTN, 762; Ellen G. White, Material dor. A ressurreição de Cristo é a garantia
Suplementar sobre Rm 4:3-5). Por causa da suprema de que o poder vivificante de Deus
vida perfeita de Cristo, culminando com pode triunfar sobre a morte e que, pela fé, esse
Sua morte sacrifical, é possível que a pes­ mesmo poder criativo está disponível para
soa seja tratada como se ela mesma tivesse restaurar a imagem de Deus em nós. A res­
cumprido as exigências da lei. Assim, a jus­ surreição de Cristo foi um triunfo do poder
tiça de Cristo é atribuída a ela. do Deus todo-poderoso, semelhante, embora
23. E não somente por causa dEle. muito maior, à geração de Isaque no corpo
Paulo está preocupado não só com a “amortecido” de Abraão. Pela fé no milagre

569
4:25 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

da ressurreição, com tudo o que isso implica, também de Sua ressurreição lança mais luz
a ressurreição é espiritualmente repetida em sobre o significado da experiência de ser­
nós, tornamo-nos novas criaturas em Cristo mos considerados justos por Deus (ver com.

520
e caminhamos com Ele em novidade de vida de Rm 3:20, 28). Deus não está preocupado <
(cf. Rm 6:4; Ef 1:19, 20; Cl 3:1). com nosso passado pecaminoso, mas com
25. Foi entregue. Do gr. 'paradidõmi. a restauração futura. Justificação não é só
Esta palavra significa, basicamente, “entre­ perdão, mas também reconciliação, o esta­
gar ao outro”. E usada nos evangelhos belecimento de um novo relacionamento, a
para a traição de Cristo (Mt 10:4; 17:22, experiência da reconciliação com Deus. Essa
Jo 6:64, 71). experiência só é possível pela fé no Cristo
Por causa. Ou, “por conta de”. Isso vivo, que está “vivendo sempre para inter­
pode ser entendido no sentido de que Jesus ceder” por nós (Hb 7:25). A justificação é
foi entregue por causa das nossas transgres­ dada apenas aos que aceitam e se compro­
sões, ou seja, como resultado delas, ou a metem com todo o plano divino de justifi­
fim de expiar nossos pecados. Na verdade, cação pela fé, o que significa amar o Cristo
ambos estão implícitos, pois a morte de vivo e recorrer a Ele em busca de interces-
Cristo foi o resultado de nossas transgres­ são e de poder transformador. Na cruz, nosso
sões e, na medida em que foi o propósito Senhor Se entregou por nós. Pela ressurrei­
de Deus, pela morte, fazer expiação pelos ção, Ele Se dá a nós.
nossos pecados. Além disso, a ressurreição de Cristo asse­
Transgressões. Do gr. 'paraptõm.ata, gura que nossa redenção foi aprovada pelo
“passos em falso”, “erros”. A palavra também Pai (At 2:36; 3:13-15; ICo 15:15, 17, 18) e que
é traduzida como “ofensas” (Mt 6:14), e no os propósitos de Deus por meio dEle estão
singular, “ofensa” (G1 6:1, ARC). sendo cumpridos (At 17:31). A ressurreição
Por causa da nossa justificação. Ou, revela a veracidade das afirmações de Jesus
“por conta da nossa justificação”, ou seja, sobre Si mesmo (ver com. de Rm 1:4) e a cer­
“com vista à nossa justificação”. A decla­ teza de Suas promessas de salvação para o
ração de Paulo de que nossa justificação pecador (Jo 5:40; 6:33, 63; 10:10; 11:25, 26;
depende não apenas da morte de Cristo, mas ICo 15:20, 22; 2Co4:14).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1-5 - PJ, 401 11-PP, 138, 140 17-Ed, 254


3 - CBV, 21; PP, 137; 13-PP, 170 25-T5, 221
T5, 526 15-T4, 13

570
RO iM ANOS 5:1

Capítulo 5
1 A justificação pela fé traz paz com Deus, 2 alegria e esperança. 8 Os que são
reconciliados quando ainda inimigos, 10 muito mais serão salvos da ira.
12 O pecado e a morte vieram por Adão, 17 mas a justiça e a vida
vieram por Jesus Cristo. 20 O pecado abundou,
mas a graça superabundou.

1 Justificados, pois, mediante a fé, temos paz 13 Porque até ao regime da lei havia pecado
com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; no mundo, mas o pecado não é levado em conta
2 por intermédio de quem obtivemos igual­ quando não há lei.
mente acesso, pela fé, a esta graça na qual es­ 14 Entretanto, reinou a morte desde Adão até
tamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à
glória de Deus. semelhança da transgressão de Adão, o qual pre-
3 E não somente isto, mas também nos glo­ figurava aquele que havia de vir.
riamos nas próprias tribulações, sabendo que a 15 Todavia, não é assim o dom gratuito como
tribulação produz perseverança; a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, mor­
4 e a perseverança, experiência; e a expe­ reram muitos, muito mais a graça de Deus e o
riência, esperança. dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, 4
5 Ora, a esperança não confunde, porque o foram abundantes sobre muitos.
amor de Deus é derramado em nosso coração 16 O dom, entretanto, não é como no caso em
pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado. que somente um pecou; porque o julgamento deri­
6 Porque Cristo, quando nós ainda éramos vou de uma só ofensa, para a condenação; mas a gra­
fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. ça transcorre de muitas ofensas, para a justificação.
7 Dificilmente, alguém morreria por um 17 Se, pela ofensa de um e por meio de um
justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se só, reinou a morte, muito mais os que recebem a
anime a morrer. abundância da graça e o dom da justiça reinarão
8 Mas Deus prova o Seu próprio amor para em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo.
conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, 18 Pois assim como, por uma só ofensa, veio
sendo nós ainda pecadores. o juízo sobre todos os homens para condenação,
9 Logo, muito mais agora, sendo justificados assim também, por um só ato de justiça, veio a
pelo Seu sangue, seremos por Ele salvos da ira. graça sobre todos os homens para a justificação
10 Porque, se nós, quando inimigos, fomos re­ que dá vida.
conciliados com Deus mediante a morte do Seu 19 Porque, como, pela desobediência de um
Filho, muito mais, estando já reconciliados, se­ só homem, muitos se tornaram pecadores, assim
remos salvos pela Sua vida; também, por meio da obediência de um só, mui­
11 e não apenas isto, mas também nos glo­ tos se tornarão justos.
riamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, 20 Sobreveio a lei para que avultasse a ofen­
por intermédio de quem recebemos, agora, a sa; mas onde abundou o pecado, superabundou
reconciliação. a graça,
12 Portanto, assim como por um só homem 21 a fim de que, como o pecado reinou pela
entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também reinasse a graça pela jus­
morte, assim também a morte passou a todos os tiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo,
homens, porque todos pecaram. nosso Senhor.

571
5:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

1. Justificados. Ou, “tendo sido justi­ ocorre em Mateus 21:38 em que foi tradu­
ficados” (ver com. de Rm 3:20, 28; 4:8, 25). zida como “vamos, matemo-lo e apoderemo-
Pois. Ou seja, tendo em vista a decla­ nos da sua herança”. Visto que a justificação,
ração do versículo anterior e de toda argu­ em seu sentido pleno, inclui a reconciliação
mentação e evidência dos cap. 1 a 4. Paulo e a paz, Paulo diz aqui: “Visto que fomos jus­
demonstrou que todos, tanto judeus como tificados pela fé, mantenhamos [ou, desfru­
gentios, são pecadores e necessitados de jus­ temos] a paz que já possuímos”.
tiça. Provou que essa necessidade de justiça Se, no entanto, a leitura “temos paz” for a
não pode ser satisfeita de forma legalista preferida, o significado não é essencialmente
pelas obras (Rm 3:20). Mas, como foi reve­ diferente. A ênfase está na bênção da paz
lado nas boas-novas do evangelho, Deus fez que vem com a experiência de ser perdoado
tudo o que é necessário para suprir nossas e estar reconciliado com Deus mediante a fé
necessidades. Deus oferece a todos, como em Jesus Cristo.
dom gratuito de Sua graça, o perdão com­ A verdadeira religião é representada
pleto e reconciliação pela fé em Jesus Cristo, na Bíblia como uma experiência de paz
que viveu, morreu e ressuscitou para a reden­ (Is 32:17; At 10:36; Rm 8:6; 14:17; Cl 5:22).
ção c restauração do ser humano caído. Muitas vezes, Paulo chama a Deus de “Deus
Tendo estabelecido a doutrina da justifica­ da paz” (Rm 15:33; lTs 5:23; Hb 13:20;
ção pela fé como a única maneira pela qual cf. 2Co 13:11; 2Ts 3:16). Os pecadores são
judeus e gentios podem obter justificação, descritos como inimigos de Deus (Rm 5:10;
como Abraão, Paulo passa a explicar alguns cf. Rm 8:7; Jo 15:18, 24; 17:14; Tg 4:4). Para
dos benefícios experimentados pelos que eles, não há paz, não há sossego nem segu­
passam por essa experiência salvífica. rança (Is 57:20). Mas o efeito da provisão
Temos paz. As evidências textuais se de Deus cm nos dar justiça pela fé é trazer
dividem (cf. p. xvi) entre esta e a variante paz ao antes atribulado e alienado coração
“tenhamos paz”. A evidência pelos manus­ do pecador. Antes da experiência da justifi­
critos, por si só, favorece a última forma. No cação, o pecador se encontra em um estado
entanto, muitos comentaristas e tradutores de inimizade contra Deus, como é mostrado
se opõem a ela porque não se encaixa no por sua rebelião contra a autoridade de Deus
contexto. Afirmam que é muito improvável e pela transgressão de Suas leis. Mas, depois
que Paulo exortasse os que haviam sido jus­ que está reconciliado, ele tem paz com Deus.
tificados a procurar ter paz. Acreditam que Antes, ainda sob o sentimento de culpa do-*£j
ele assegurou aos crentes que já tinham paz, pecado, ele não tem nada, a não ser medo
como resultado da justificação. e inquietação na consciência. Com os seus
No entanto, existe uma forma de tradu­ pecados perdoados, ele tem paz no coração,
zir essa frase, tornando possível aceitar a sabendo que toda a sua eulpa foi retirada.
forma favorecida pelos manuscritos e ainda A associação da paz com a justificação
dar uma interpretação apropriada ao con­ pela fé, feita por Paulo, torna ainda mais claro
texto. A forma do verbo traduzido como que a justificação não é um mero ajuste de
“tenhamos” permite a tradução “continue­ status legal do pecador com Deus (ver com.
mos a ter paz”, que significa “vamos des­ de Rm 3:20, 28; 4:25). Por si só, o perdão
frutar a paz que temos”, ou “desfrutemos não necessariamente traz a paz. Aquele que
a paz”. Se Paulo tivesse a intenção de dizer foi perdoado de algum crime pode ter um
“obtenhamos a paz”, a forma do verbo grego sentimento de gratidão para com seu ben­
teria sido diferente. Essa forma diferente feitor, mas, ao mesmo tempo, também pode

572
ROMANOS 5:2

estar repleto de tanta vergonha e embaraço, somente aqui e em Efésios 2:18; e 3:12. Aqui,
que procura evitar a companhia até mesmo ela pode ser entendida como uma introdu­
daquele que o perdoou. Embora perdoado, ção, não pelo ato de irmos a Deus, mas por
ele pode se sentir pouco melhor do que um Cristo nos levar a Ele. O mesmo pensamento
criminoso solto. Sua autoestima desapare­ é igualmente expresso em 1 Pedro 3:18: “Pois
ceu, e há pouca motivação para uma vida também Cristo morreu, uma única vez, pelos
de justiça. pecados, o justo pelos injustos, para condu-
Se a justificação não significasse mais zir-vos [prosagõ] a Deus.” A ideia sugerida é
do que isso, estaria realmente agindo con­ a sala de audiências do rei, em que os súdi­
tra o plano de Deus para nossa restaura­ tos não podem entrar sozinhos, mas devem
ção. A única maneira de a imagem divina ser apresentados por alguém que esteja em
ser restaurada no ser humano é pela comu­ posição de autoridade. Nesse caso, Jesus é
nhão confiante e amorosa com Cristo pela Aquele que nos apresenta. Não podemos
fé. Portanto, Deus não apenas perdoa, mas entrar, por nós mesmos, na sala de audiên­
também nos reconcilia, nos coloca em boas cia de Deus, pois nossos pecados estão entre
relações com Ele mesmo. Ele nos trata como nós e Deus, e nos separam dEle (Is 59:2).
se nunca tivéssemos pecado, atribuindo a Mas Cristo, em virtude de Seu sacrifício, é
justiça de Seu Eilho para cobrir nosso pas­ capaz de nos levar de volta a Deus e de nos
sado pecaminoso (ver com. de Rm 4:8). Ele apresentar ao glorioso estado de graça e de
nos convida à comunhão com Jesus, que nos favor no qual estamos firmes (ver Hb 10:19).
inspirará com coragem para o futuro e nos Mediante Cristo, fazemos nossa primeira
fornecerá um exemplo, pelo qual possamos aproximação a Deus, e é por meio dEle que
modelar a vida. o privilégio é mantido para nós. Esse acesso
Essa compreensão da justificação pela a Deus, essa introdução à Sua presença
fé revela o papel da conversão e do renas­ divina, deve ser considerado um privilégio
cimento na experiência do pecador arre­ duradouro. Não somos apresentados a Deus
pendido. Não seria possível ao ser humano com o propósito de ter uma entrevista, mas
caído entrar na nova relação espiritual de para permanecer com Ele.
paz à qual a justificação o habilita e admite, Pela fé. As evidências textuais se divi­
exceto pela mudança miraculosa realizada dem (cf. p. xvi) quanto à omissão ou não
pelo novo nascimento espiritual (Jo 3:3; desta frase. No entanto, tenha ou não Paulo
lCo 2:14). Portanto, quando Deus justifica mencionado a fé neste versículo, é óbvio
o pecador convertido, Ele também cria um que podemos ter acesso à graça somente
coração puro e renova um espírito inabalá­ pela fé nAquele por meio de quem a graça é
vel dentro dele (ver Sl 51:10; sobre a relação disponibilizada.
entre conversão, novo nascimento e justifi­ Esta graça. Ou seja, a condição de
cação, ver Pj, 163; GC, 470; CC, 52, 53). reconciliação e aceitação por Deus (ver com.
2. Obtivemos. Litcralmentc, “temos de Rm 3:24).
tido”. O texto grego indica não apenas a Estamos firmes. Comparar com I Pe 5:12.
obtenção do acesso, mas a contínua posse O estado de justificação representa segu­
do privilégio. Tivemos esse acesso desde que rança e confiança.
nos tornamos cristãos pela primeira vez, e E gloriamo-nos. Do gr. kaiichao-
o temos, enquanto continuarmos cristãos. mai. Em contraste com toda falsa vanglo­
Acesso. Do gr. prosagõgê. Esta palavra ria, o crente possui a esperança da glória de
é usada apenas por Paulo no NT e ocorre Deus. Os judeus se vangloriavam de suas

573
5:3 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

realizações (Rm 2:17). Os cristãos exultam e eleição (2Pe 1:10). A possibilidade de fra­
£[► no que Deus faz. A verdadeira religião, mui­ casso era um poderoso estímulo à fidelidade
tas vezes, é descrita na Bíblia como a pro­ e santidade, mesmo na vida do próprio após­
dução de muita alegria e satisfação (Is 12:3; tolo Paulo. Ele exercia estrita autodisciplina,
52:9; 61:3, 7; 65:14, 18; Jo 16:22, 24; At 13:52; para que, tendo pregado a outros, ele mesmo
Rm 14:17; G1 5:22; lPe 1:8). não fosse rejeitado (ICo 9:27). Assim, o cris­
A expressão grega pode ser traduzida tão que está na graça e exulta na esperança
tanto por 'exultamos” como por “exultemos” da glória de Deus também deve cuidar para
(ver com. de Rm 5:1). Aqui, como no v. 1, não cair (ICo 10:12).
“tenhamos” significa “continuemos a ter”, por Na esperança. Ou, “com base na
isso, aqui, “alegremo-nos” significaria “conti­ esperança”.
nuemos a nos alegrar”. De acordo com essas Da glória de Deus. Ver com. de Rm
palavras, Paulo exortava os crentes justifica­ 3:23.
dos a continuar desfrutando a paz com Deus 3. Não somente isto. Paulo explica
e a se manter exultando na esperança da gló­ como o plano divino da justificação pela
ria de Deus. fé traz paz e alegria, não só em tempos de
A alegria e confiança triunfantes da fé prosperidade, mas também nos momentos
de Paulo contrastam com a doutrina dos de angústia e provação. A esperança da gló­
que acreditam que “fé” significa, neces­ ria futura e a resistência nos problemas pre­
sariamente, que a pessoa deve estar sem­ sente andam juntas. Jesus notou esse fato
pre em estado de ansiedade e incerteza quando disse: “Estas coisas vos tenho dito
sobre a justificação. Deus quer que saiba­ para que tenhais paz em Mim. No mundo,
mos que fomos aceitos, para que realmente passais por aflições; mas tende bom ânimo;
tenhamos a paz que vem dessa experiência Eu venci, o mundo” (Jo 16:33).
(Rm 5:1; 8:1). João também diz que pode­ Também nos gloriamos. Do gr. kau-
mos saber que já passamos da morte para a chaomai, que também é traduzido como “glo-
vida (ljo 3:14). Fé significa não apenas crer riamo-nos” no v. 2 (ver com. a li). A frase pode
que Deus pode nos perdoar e restaurar. A fé ser traduzida como “continuemos exultando”.
cristã significa crer que Deus, em Cristo, Nas próprias tribulações. Ou, “em
nos perdoou e que criou um novo coração nossas tribulações”. O termo gr. thlipsis sig­
dentro de nós. nifica “pressão”, “esmagar”, “opressão” e é tra­
Isso, naturalmente, não significa que, duzido diversas vezes como “problemas” ou
uma vez justificados, nossa salvação futura “aflição”. Os primeiros cristãos foram cha­
está assim garantida e não há necessidade de mados a suportar diversas formas de perse­
uma contínua experiência de fé e obediência. guição e sofrimento. O apóstolo não poderia
Deve existir uma importante distinção entre prometer aos crentes qualquer isenção da
a certeza de um presente estado de graça e tristeza. Em vez disso, ele explicou como a
da certeza da futura redenção (ver PJ, 155). fé cristã pode usar as tribulações para aper­
A primeira está implícita no sentido da verda­ feiçoar o caráter.
deira fé, a aceitação pessoal de Cristo e todos Paulo informou aos discípulos em Listra
os Seus benefícios. A última é uma questão que, “através de muitas tribulações, nos
de esperança e deve ser acompanhada por importa entrar no reino de Deus” (At 14:22).
constante vigilância. Mesmo que se tenha Os apóstolos se alegravam “por terem sido con­
a alegria e a paz da justificação, é necessá­ siderados dignos de sofrer afrontas” (At 5:41).
ria a diligência para tornar segura a vocação Pedro escreveu que os cristãos não devem

574
ROMANOS 5:4

estranhar o "fogo ardente”, mas precisavam o abandono da boa causa que se pode ter
“alegrar-se” (lPe 4:12, 13). Jesus mesmo abraçado (Mt 13:21). Mas, para os que são
disse: “Bem-aventurados os perseguidos por espirituais e, consequentemente, estão sob
causa da justiça” (Mt 5:10; cf. Rm 8:17, 28, 35; a influência do Espírito de amor, aflição e
2Tm 2:12). No entanto, os cristãos não provações produzem a mais perfeita paciên­
devem se tornar fanáticos e se gloriarem no cia e resistência (ICo 13:7).
sofrimento em si. Devem se alegrar na afli­ O supremo exemplo de força cristã na
ção porque consideram uma honra sofrer por aflição foi demonstrado por Jesus durante
Cristo. Também percebem que as tribula- as últimas horas antes de Sua morte.
ções sofridas são uma oportunidade para Suportando a toda crueldade e todo insulto,
testemunhar do poder de Jesus manifestado Jesus Se entregou com paciência majestosa
ao apoiá-los e livrá-los. Também sabem que (ver DTN, 710, 731, 734-736, 744). O cris­
o sofrimento, quando suportado devida­ tão que deseja ser semelhante a Cristo vai se
mente (ver Hb 12:11), torna-se um instru­ alegrar nas provações e nos sofrimentos que
mento de santificação e preparação para a Deus permita recair sobre ele, sabendo que
utilidade presente e futura. A última dessas por meio dessas experiências ele pode ganhar
razões é o que Paulo enfatiza, particular­ mais da paciência divina de Cristo e, assim,
mente, neste contexto (ver T3, 416). ser capaz de suportar até o fim.
Sabendo. Paulo podia dizer isso com 4. Experiência. Do gr. dokimê, a partir
certeza. Talvez nenhum outro cristão tenha de um verbo que significa “testar” ou “apro­
sofrido mais do que ele, na tentativa de divul­ var”. Esta palavra grega é usada apenas por
gar o evangelho (ver 2Co 11:23-27). Paulo Paulo no NT. Em outras passagens, é tradu­
sabia por experiência própria que “a tribula- zida como “prova”, “provado” (2Co 2:9; 8:2;
ção produz perseverança”. 9:13; 13:3; Fp 2:22). O termo pode se referir
Produz. Do gr. katergazomai, “alcançar”, tanto ao processo do teste, quanto ao resul­
“trazer”, “trabalhar”. A palavra também é tra­ tado dele. Neste contexto, o último signifi­
duzida como “desenvolver” (Fp 2:12). cado parece ser o mais adequado (ver com.
Perseverança. Do gr. hu-pomonê. do v. 3). A tradução mais literal seria “prova”,
“Paciência” pode sugerir apenas resistên­ “aprovação”, “aprovação por meio de testes”.
cia passiva ao mal, submissão calma de Provações e aflições suportadas paciente­
alguém que se conforma com o sofrimento. mente provam a legitimidade da religião e o
Hupomonê significa mais que isso; é tam­ verdadeiro caráter da pessoa.
bém uma virtude ativa, perseverança cora­ Esperança. A perseverança nas provas
josa e persistência que não pode ser abalada e tribulações confirma e refina a fé do cris­
pelo temor do mal ou do perigo. A melhor tão. Desse processo advém uma esperança
tradução seria “fortaleza” ou “resistência”. cada vez mais confiante. E a esperança ini­
O verbo do qual esse substantivo deriva cial do crente de participar da glória de Deus
ocorre frequentemente no NT e é tradu­ (v. 2) que o encoraja a perseverar, da qual ele
zido como “perseverar” (Mt 10:22; 24:13, obtém uma constante e calma segurança.
Mc 13:13; ICo 13:7; 2Tm 2:10; Hb 10:32; A esperança e a fé crescem quando são tes­
12:2, 7; Tg 1:12, 5:11). tadas e exercitadas. Por exemplo, a fé já exis­
No homem ou na mulher natural, que tente dos discípulos de Cristo foi confirmada
não tenha nascido de novo do Espírito Santo, e aumentada no milagre que Jesus realizou
tribulação, atraso e oposição muitas vezes em Caná (Jo 2:11). A experiência de Jó ilus­
produzem apenas impaciência, ou até mesmo tra como a severa disciplina do caráter pode

575
5:5 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

fortalecer a fé e a esperança de um crente Santo, de cuja presença e atividade na expe­


sincero (ver com. de Jó 40, 42). riência cristã ele tem mais a dizer, especial­
5. Não confunde. Do gr. kataischunõ, mente no cap. 8. O Espírito Santo derrama o
“desgraçar”, “desonrar”, “chegar a nada” amor em nossos corações, testemunhando de
(comparar com o uso de kataischunõ, em Jesus (Jo 15:26; 16:14). Quando vemos a gló­
2Co 7:14; 9:4). A esperança cristã nunca ria, perfeição e amor de Jesus, somos trans­
traz desgraça nem desonra. Paulo pode ter formados à Sua semelhança, sob a influência
pensando no Salmo 22:5: “Confiaram em do Espírito (2Co 3:18).
Ti e não foram confundidos.” Essa não é Que nos foi outorgado. Ou, “que nos
uma esperança comum, pois, muitas vezes, foi dado”, ou “a quem foi dado”. Paulo pode
a esperança é desapontada. Essa é a espe­ se referir especialmente ao dom no dia de
rança fundamentada na consciência da jus­ Pentecostes (At 2:1-4, 16, 17), mas, além
tificação e apoiada pela presença do Espírito disso, à experiência de cada crente (ver
Santo no coração (Rrn 8:16). Tal esperança At 8:15; 19:2; 2Co 1:22; 5:5; G1 4:6; Ef 1:13;
não pode decepcionar nem envergonhar. 4:30). O Espírito Santo é representado como
O amor de Deus. Este pode ser enten­ tendo habitação em nós (ICo 3:16; 6:19).
dido como o amor de Deus por nós ou nosso 6. Porque [...] quando. Paulo passa a
amor a Deus. Os versículos seguintes pare­ dar mais provas de que a esperança cristã,
cem indicar que este é o amor de Deus baseada no amor de Deus, não pode falhar.
para conosco, revelado por Deus em Cristo. Ele descreve a suprema grandeza desse amor,
A esperança do cristão não se baseia em nada conforme é revelado pelo fato de Cristo ter
dele mesmo, mas na certeza do amor imu­ morrido por nós, estando nós ainda em nosso
tável de Deus por ele. Esse sentimento de estado impotente e ímpio.
Seu amor, por sua vez, nos conduz a amar Fracos. Ou, “sem força”, “impoten­
a Deus (IJo 4:19) e os nossos semelhantes tes”. Paulo trata da condição de desam­
(v. 7), e essa experiência de amor fortalece a paro exposta nos capítulos anteriores. No
confiança e esperança para o futuro. A base grego, a palavra usada aqui é aplicada aos
da certeza de que a esperança não deixa cair fisicamente doentes e fracos (ver Mt 25:39;
na vergonha do desapontamento é o amor Lc 10:9; At 5:15). E traduzida como “impo­
► de Deus. tente”, descrição adequada da condição de
E derramado. Literalmente, “foi derra­ um pecador antes de aceitar a graça e o poder
mada”. A doação das bênçãos espirituais é de Deus. A referência de Paulo à impotência
descrita como “derramamento”. “Derramarei e ao desamparo do pecador não regenerado
o Meu Espírito sobre a tua posteridade e a contrasta com a imagem do crente justifi­
Minha bênção, sobre os teus descendentes” cado, regozijante quando se torna mais forte
(Is 44:3; cf. Jl 2:28, 29; Jo 7:38, 39; At 2:17, na esperança, na resistência, no caráter e na
18, 33; 10:45; Tt 3:5, 6). Essa figura seria certeza do amor de Deus.
especialmente significativa nos países do A seu tempo. Ou, “no momento certo”,
Oriente Médio, tendo cm vista o calor e a fre­ “no momento apropriado”. Essencial mente, é
quente escassez de água. “Derramada” tam­ o mesmo que “a plenitude do tempo” (G1 4:4;
bém pode sugerir a riqueza e a abundância cf. Mc 1:15). Por milhares de anos, a expe­
do amor e das bênçãos de Deus. riência de obter justiça pelas obras seguiu
Coração. Ver com. de Rm 1:21. seu curso. Mas os legalistas mais zelosos
Espírito Santo. Esta é a primeira men­ entre os judeus e os intelectuais mais escla­
ção de Paulo, em sua epístola, ao Espírito recidos entre os gregos e os romanos não

576
ROM ANOS 5:8

conseguiram conceber qualquer esquema não ser utilizado o artigo no texto grego.
que pudesse curar os males do mundo e Cristo morreu por nós, seres humanos
salvar o ser humano do pecado e da morte. ímpios. Se dissermos que não pertencemos
Ao eontrário, o pecado e a degradação leva­ aos ímpios, excluímo-nos dos benefícios da
ram a humanidade às maiores profunde­ expiação de Cristo, assim como os judeus
zas quando Jesus veio a este mundo. Em (cf. Lc 5:31; ljo 1:10).
alguns casos, homens e mulheres se entre­ 7. Dificilmente. Do gr. molis, “com difi­
garam ao controle de Satanás, e o próprio culdade”, “dificilmente”, “não facilmente”.
selo dos demônios se estampou em seu sem­ O objetivo dos v. 7 e 8 é ilustrar a gran­
blante. Assim, foi demonstrado ao universo deza do amor de Deus, comparando-o com
que, sem Deus, a humanidade nunca pode- o máximo que as pessoas estão dispostas a
ria ser restaurada. A menos que algum ele­ lazer. Enquanto, entre as pessoas, é difícil
mento novo de vida e poder fosse dado pelo conceber que alguém esteja disposto a dar a
Criador, não havia esperança de que o ser vida mesmo por uma pessoa justa, a mara­
humano fosse salvo (ver DTN, 36, 37). Foi vilha do amor que Cristo teve por nós é que
nesse momento decisivo que Jesus veio para Ele esteve disposto a morrer pelos ímpios
morrer pelos ímpios. pecadores.
Este foi também o momento predito pelo Um justo. Literalmente, “o bom [homem!”.
profeta Daniel em que o Messias deveria De acordo com vários comentaristas, Paulo
morrer (Dn 9:24-27; cf. Jo 13:1; 17:1). Era faz uma distinção entre “uma pessoa justa”
também o momento certo, no sentido de que e “uma pessoa boa”, embora a intenção exata
as condições no mundo tinham preparado da distinção não seja clara. Parece consen­
o coração de muitos para receber com ale­ sual que o “justo” é alguém rigorosamente
gria as boas-novas do evangelho. Em todo o justo e inocente e tem o cuidado de realizar
mundo, havia homens e mulheres cansados todas as tarefas exigidas dele. O “bom” não é
do ritual interminável e vazio da religião lega­ apenas justo, mas também amoroso e bene­
lista e estavam ansiosos pela libertação do volente e está sempre feliz em prestar favo­
pecado e de seu poder. Além disso, na pro­ res aos outros. Portanto, Paulo afirma que,
vidência de Deus, o mundo estava unido sob apesar de alguém dificilmente se dispor a
um só governo, falava uma só língua, e o povo morrer pela pessoa correta ou estritamente
judeu tinha sido disperso entre as nações, justa, ela se disporia a dar a vida pela pessoa
tornando assim possível a rápida dissemina­ nobre e gentil que inspira amor e carinho.
ção das novas da salvação. “Ninguém tem maior amor do que este:
Assim, Cristo veio e morreu, quando o de dar alguém a própria vida em favor dos
mundo mais precisava d Ele, no tempo pre­ seus amigos” (jo 15:13). Mas Paulo enfatiza
visto e na hora em que Seu sacrifício pudesse que isso é o máximo que se pode esperar do
cumprir melhor sua finalidade de revelar a amor humano. E possível que alguém esteja
justiça e o amor de Deus para a salvação da disposto a se sacrificar por um amigo querido
humanidade caída (ver com. de G1 4:4). que seja suficientemente bom e amável. Mas
Pelos ímpios. Literalmente, “pelos o amor de Deus por Suas criaturas errantes é
[homens] ímpios” (sobre o significado do tão grande que Jesus morreu por nós quando
termo “ímpio”, ver com. de Rm 4:5). Paulo éramos inimigos ímpios e rebeldes.
não sugere que Cristo morreu pelos “ímpios” 8. Prova. Do gr. sunistSmi, que tam­
como uma classe distinta dos “piedosos”, mas bém tem o significado de “recomendar” (cf.
por serem todos ímpios. Isso é mostrado por Rm 16:1; 2Co 4:2). Daí o uso que a KJV faz,

577
5:9 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

como “louva”, pode ser apropriado aqui, pois resgate por todos” (lTm 2:6). Se a morte de
abrange os dois sentidos possíveis, e ambos Cristo tivesse sido uma morte involuntária,
podem estar envolvidos nesse contexto. teria sido suficiente dizer que Ele morreu
A morte de Cristo pelos pecadores não só “em nosso lugar”. Mas Paulo também diz que
prova que o amor de Deus é um fato, como Cristo morreu “por” nós, “em nosso favor”.
também expõe esse amor diante de nós em Como amigo e irmão, Ele entregou delibe­
toda a sua grandeza e perfeição. rada e voluntariamente a própria vida por
A forma da palavra no grego indica que amor a nós, porque nos ama (Ef 5:2). Por
Deus continua a provar e demonstrar Seu esse sacrifício, Ele Se tornou nosso repre­
amor por nós. O sacrifício de Cristo perma­ sentante, pois quando “um morreu por todos;
nece como a maior demonstração de Seu logo, todos morreram” (2Co 5:14). Assim, é
amor. Jesus morreu uma vez por todas, mas, correto dizer que Cristo morreu “em nosso
nos resultados duradouros de sua morte, lugar” e “em nosso favor”, e a palavra sim­
temos sempre presente a prova do amor de ples “pois” parece ser uma escolha apropriada
Deus em favor de cada um de nós. para cobrir essas duas idéias.
Seu próprio amor. O amor de Deus Pai Ainda pecadores. Não havia nada no
foi revelado na morte de Cristo. Esse fato homem para merecer o amor de Deus. O hipo­
vital deve ser reconhecido pela compreensão tético “bom” (v. 7) é afetuoso, benevolente,
correta da expiação (ver com. de Rm 3:25). amável e inspirado. Mas o amor que Deus
Cristo não morreu para apaziguar o Pai ou teve em relação a nós não foi uma resposta
para induzi-Lo a nos amar. Foi o amor divino ao amor que tínhamos por Ele, pois éramos
que concebeu o plano de expiação e de sal­ Seus inimigos. “Nisto consiste o amor: não
vação no início, e tanto o Pai como o Filho e em que nós tenhamos amado a Deus, mas
o Espírito Santo trabalharam juntos em per­ em que Ele nos amou” (ljo 4:10).
feita harmonia para efetivá-la (ver Jo 3:16; 9. Muito mais agora. Se Cristo morreu
10:30; 14:16, 26; 15:26; 17:11, 22, 23; Rm por nós quando ainda éramos pecadores, é
3:24; 8:32; Ef 2:4-7; 2Ts 2:16; ljo 4:10). certo que Ele vai nos salvar, agora que esta­
Alguns acham que é difícil conciliar essa mos justificados. Se Seu amor foi tão grande
concepção do amor eterno de Deus com a que Ele Se dispôs a dar a vida por Seus ini­
ira divina frequentemente mencionada. Mas migos, certamente Ele salvará Seus amigos
a ira divina é o antagonismo de Deus ao da ira (v. 10).
pecado, resultando, em última análise, na Pelo Seu sangue. Isto é, por Sua morte,
completa erradicação do pecado do universo. a doação de Sua vida perfeita no sacrifício
Enquanto as pessoas optam por permane­ expiatório (ver com. de Rm 3:25). Neste ver­
cer sob o domínio do pecado, estão envolvi­ sículo, Paulo fala da justificação como sendo
das na ira de Deus (ver com. de Rm 1:18). “pelo Seu sangue”, em vez de “pela fé”, por­
Foi Seu amor pelos pecadores que levou que aqui ele considera a justificação do ponto
Deus a dar Seu Filho para morrer, e Ele de vista de Deus. Nossa fé não acrescenta
deu a Si mesmo nesse sacrifício expiatório nada ao dom de Deus, além de aceitá-lo.
(2Co 5:19). O preço infinito pago por nossa redenção
Por. Do gr. hyper, que pode ser enten­ revela não só o maravilhoso amor de Deus,
dido como “em favor de”, “em lugar de”. Paulo mas também o alto valor que Deus vê no ser
não diz apenas que Cristo morreu “em nosso humano. Paulo raciocina que, como Deus
lugar”, como “propiciação” (Rm 3:25), como nos ama tanto que esteve disposto a pagar
“oferta e sacrifício” por nós (Ef 5:2) e “em um preço infinito para nossa justificação,

578
ROMANOS 5:11

com certeza vai conservar o que foi com­ para Deus (ver com. de Rm 5:8). Na verdade,
prado por um preço tão elevado. o plano e a provisão de Deus para a recon­
Da ira. A ira de Deus porvir (cf. lTs 1:10; ciliação da humanidade foi concebido na
ver com. de Rm 1:18; 2:5). eternidade, antes mesmo que o ser humano
10. Inimigos. Paulo repete e amplia o pecasse (Ap 13:8; cf. PP, 63; DTN, 834).
raciocínio do v. 9. Assim, em antecipação ao sacrifício expia­
Reconciliados. Do gr. katallassõ. A pala­ tório, foi possível que a fé demonstrada por
vra significa basicamente “troca”, portanto, a Abraão fosse contada como justiça (Rm 4:3)
mudança de relação entre partes hostis para e que o patriarca fosse considerado amigo de
uma relação de paz. Pode ser usado tanto para Deus (Tg 2:23) muito antes de Cristo mor­
hostilidade mútua como unilateral, e o con­ rer na cruz.
texto deve determinar qual significado se O argumento de Paulo nesta primeira
aplica. O pecado fez com que a humanidade parte de Romanos 5 é: uma vez que temos
se alienasse de Deus, e seu coração estava evidência tão esmagadora do amor sem limi­
em guerra contra os princípios da lei divina tes de Deus, mesmo pelos pecadores alie­
(Rm 1:18—3:20; 8:7). No entanto, Deus deu nados, temos alicerce seguro sobre o qual
Seu Filho para que o ser humano pecador e fundamentar nossa paz, alegria e esperança
rebelde fosse reconciliado (Jo 3:16). da salvação final.
Em parte alguma a Bíblia diz que Deus A referência à reconciliação, neste ver­
foi reconciliado com o ser humano. E ver­ sículo, paralela à justificação do v. 9, dá mais
dade que a morte de Cristo tornou possí­ uma confirmação da ideia de que a justifi­
vel que Deus fizesse algo pelo ser humano cação não é apenas o perdão, mas também
que não podería ter feito de outra forma (ver a renovação de um relacionamento de amor
com. de Rm 3:25, 26). Por tomar a pena da (ver com. de Rm 3:20, 28; 4:25; 5:1).
transgressão, Cristo proveu a maneira pela Morte. O mesmo que “sangue” do v. 9,
qual a humanidade poderia ser restaurada ao pelo qual foi obtida a justificação.
favor de Deus e ser levada de volta para Pela Sua vida. Literalmente, “na Sua
sua casa no Éden (ver PP, 69); mas, a não vida”. Isso pode ser entendido no sentido de
ser pelo sacrifício de Cristo, todos teriam que somos salvos pela união pessoal com 528

colhido os resultados inevitáveis do pecado e o Salvador vivo, que vive para sempre para a
rebelião: a destruição final sob a ira de Deus interceder por nós (Hb 7:25; cf. Rm 4:25).
(Rm 2:5; 3:5; 5:9; lTs 1:10). Mas isso não Jesus disse: “porque Eu vivo, vós também
quer dizer que Deus precisava ser reconci­ vivereis” (Jo 14:19; cf. Rm 8:11; G1 2:20). Se
liado. A alienação foi inteiramente da parte a morte de Cristo tinha tal poder salvador
do ser humano (ver Cl 1:21), e é Deus que, para efetuar a reconciliação, Sua vida tem
em Seu grande amor, toma a iniciativa da muito mais poder de levar a salvação a um
reconciliação. “Deus estava em Cristo feliz cumprimento.
reconciliando consigo o mundo” (2Co 5:19; 11. Não apenas isto. Paulo menciona
cf. Ef 2:16; Cl 1.20). Embora Deus odeie o outros resultados da justificação pela fé.
pecado, Seu amor pelos pecadores é ainda Ele já havia dito que nos alegramos nas tri-
mais forte, e Ele não poupou nada, por mais bulações e na esperança da glória de Deus
caro que fosse, para prover a reconciliação (v. 2, 3). Ele acrescenta que “também nos
(ver DTN, 57). Cristo não morreu para con­ gloriamos em Deus”.
quistar o amor de Deus pela humanidade, Gloriamos. Do gr. kauchaoniai (ver com.
mas para conquistar a humanidade de volta dos v. 2, 3).

579
5:12 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Em Deus. Não há motivo para nos glo­ salvadora de Cristo na reconciliação e justi­
riarmos em nós mesmos (Rm 3:27; 4:2), ficação do pecador e estendendo-lhe a espe­
mas temos todos os motivos para nos glo­ rança de salvação final.
riar em Deus, especialmente tendo em vista Assim com por um só homem. Com
Seu amor salvífico (Jr 9:23, 24; Rm 5:5-10; estas palavras, Paulo inicia a comparação
ICo 1:31; 2Co 10:17). entre os efeitos do pecado de Adão e os resul­
Os cristãos se alegram na beneficência de tados da redenção em Cristo, mas traz ape­
Deus e no fato de que o universo está sob a nas a primeira parte da comparação. Tendo
administração de Deus. O pecador se opõe afirmado essa parte, ele faz uma pausa, à sua
a Deus e não encontra prazer nEle. Ele O maneira característica, para discutir alguns
teme ou odeia. Uma evidência dc conversão problemas envolvidos no que já havia dito.
e reconciliação com Deus é alegrar em Deus No entanto, Paulo parece retomar seu racio­
e encontrar prazer na contemplação de Sua cínio no v. 15.
perfeição, conforme revelada nas Escrituras. Se Paulo tivesse completado a compara­
Por nosso Senhor. Em todos os atos ção, ele poderia ter dito algo como: “Assim
e experiências da vida cristã, a media­ como por um só homem entrou o pecado no
ção de Cristo é continuamente destacada mundo, e pelo pecado a morte, assim tam­
pelos escritores do NT. Nós nos gloriamos bém a morte passou a todos os homens, por­
em Deus por meio de jesus Cristo, que que todos pecaram; assim também, por um
nos revelou o verdadeiro caráter de Seu Pai só homem, Jesus Cristo, a justiça entrou no
e nos reconciliou com Ele. mundo, e a vida por meio da justiça, para que
Reconciliação. Do gr. katallagS, “recon­ todos, sendo justificados pela fé, sejam sal­
ciliação”; o verbo “reconciliar” é katallassõ vos.” Philip Schaff observa que “o apóstolo
(ver com. do v. 10). Em todas as outras três poderia ter poupado os comentaristas de uma
ocorrências da palavra gr. kcitallagS no NT, grande quantidade de problemas, se tivesse,
ela é traduzida por “reconciliando” ou “recon­ dc acordo com as regras normais de composi­
ciliação” (Rm 11:15; 2Co 5:18, 19). Paulo se ção, exposto primeiramente a comparação na
refere aqui não ao meio pelo qual a reconci­ íntegra e, em seguida, dado as explicações e
liação foi realizada (Rm 3:25), mas ao fato qualificações; mas essas dificuldades grama­
da reconciliação (Rm 5:10). A palavra grega ticais nas Escrituras são geralmente deixa­
para o sacrifício expiatório é diferente desta das para uma investigação e elucidação mais
(ver com. de Rm 3:25.). profunda do sentido” (Langes Commentary,
12. Portanto. A passagem aqui introdu­ sobre Rm 5:12).
zida tem sido considerada por muitos como a Nesta passagem, os principais pontos de
mais difícil do NT, se não de toda a Bíblia. comparação que Paulo enfatiza são: (1) assim
No entanto, essa difieuldade parece ter sido como o pecado e a morte, como princípio
em grande parte devida à tentativa de usar e poder foram transmitidos de Adão a toda
a passagem para fins diversos do que Paulo a humanidade, também a justiça e a vida,
pretendia. O principal objetivo do apóstolo como um princípio e poder neutralizante e
parece ter sido enfatizar os resultados de conquistador, passaram para toda a humani­
529

longo alcance da obra de Cristo, comparando dade, a partir de Cristo; e (2) assim como a <
e contrastando as consequências de Seu ato morte foi transmitida a todas as pessoas que
justificador com o efeito do pecado de Adão. participam no pecado de Adão, da mesma
A conjunção “portanto” provavelmente maneira, a vida é transmitida a todos os que
remete à descrição no v. 1 a 11 sobre a obra participam da justiça de Cristo. No entanto,

580
ROMANOS 5:12

o paralelo não é perfeito, pois, embora a par­ Adão e, especialmente, quanto ao tipo de
ticipação no pecado de Adão seja universal, morte transmitida a seus descendentes.
a participação na justiça de Cristo é limi­ Grande parte dessa dificuldade tem sido
tada aos crentes. Todos são pecadores, mas, devida à incompreensão geral quanto à natu­
embora a justiça de Cristo seja igualmente reza da morte. Paulo, no entanto, não parece
universal em poder e propósito, nem todos estar preocupado com esses problemas, neste
são crentes. Além disso, o que Cristo obteve contexto. Ele simplesmente afirma o fato his­
é maior do que aquilo que foi perdido por tórico de que o pecado entrou no mundo por
Adão (ver DTN, 25). meio de Adão, e a morte foi a consequên­
Entrou [...] no mundo. Paulo repre­ cia. Não havia nem pecado nem morte neste
senta o pecado como algo que veio de fora mundo antes da ofensa de Adão. Depois
do mundo para a humanidade. O termo disso, ambos passaram a existir. Portanto, a
“mundo” é frequentemente utilizado para transgressão de Adão foi a causa de ambos.
designara humanidade (Rm 3:19; 11:15; cf. O contraste importante é entre a morte como
Jo 3:16, 17). Além disso, Paulo não discute resultado do pecado e a vida de Adão como
a origem do mal. O primeiro humano violou resultado da justiça de Cristo. O raciocínio
a lei de Deus e, dessa forma, o pecado foi de Paulo é que o dom da vida e os benefí­
introduzido entre os seres humanos. cios oferecidos por Cristo são muito maiores
Pecado. Paulo aqui personifica o pecado. que os efeitos do pecado de Adão. A tônica
Ele “reina pela morte” (v. 21), causa a morte desta passagem é que “superabundou a
(Rm 7:13), tem domínio (Rm 6:14), des­ graça” (Rm 5:20).
perta toda sorte de concupiscência (Rm 7:8), A morte passou. Do gr. dierchomai,
engana e mata o pecador (Rm 7:11). Pela “espalhar”, “impregnar”. A cláusula pode ser
“ofensa” de Adão, o princípio do “pecado” traduzida como “a morte passou completa­
entrou no mundo (comparar Rm 5:12, 13, 20, mente a todos”. A palavra sugere que a morte
21 com os v. 15-18). O “pecado”, por sua vez, fez seu caminho para cada membro da famí­
se tornou a fonte de inúmeros “crimes”. Ao lia humana.
longo desta seção, pode ser vista a diferença A todos os homens. Equivalente ao
entre o “pecado” como princípio e essên­ anterior “ao mundo”, mas se distingue como
cia da ilegalidade (ver com. de ljo 3:4) e os as partes concretas são diferentes do todo
atos concretos do pecado, aqui traduzidos abstrato. “Passou a todos” é diferente do
como “ofensas”. anterior “entrou”, assim como ir de casa em
Pelo pecado, a morte. Antes que o casa é diferente de entrar em uma cidade.
pecado acontecesse, Deus advertiu Adão Essa afirmação de que a morte pro­
de que a morte seria o resultado do pecado nunciada sobre Adão passou a todos mos­
(Gn 2:17). Após o pecado, Deus pronunciou tra que a sentença de Adão (Gn 2:17) não
a frase: “és pó e ao pó tornarás” (Gn 3:19). se refere à “segunda morte” (ver GC, 544).
A Bíblia fala de três tipos de morte: (1) A segunda morte não pode ser transmitida
a morte espiritual (cf. Ef 2:1; ljo 3:14); (2) a aos outros, pois vem como resultado do
morte temporal, a “primeira morte”, descrita juízo final, do qual se diz que “foram julga­
por Jesus como um “sono” (ver Jo 11:11-14; dos, segundo as suas obras” (Ap 20:12, 13).
Ap 2:10; 12:11); e (3) a morte eterna, a “segunda O juízo final de Deus e a sentença de morte
morte” (ver Mt 10:28; Tg 5:20; Ap 2:11; 20:6, eterna se baseiam na responsabilidade indi­
14; 21:8). Tem havido muita discussão sobre vidual (Rm 2:6). Todos descem igualmente
o tipo de morte que resultou do pecado de à sepultura, e é nesse sentido que todos

581
5:13 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

tomam parte na sentença da transgressão Paulo acrescenta que, até Moisés, as pes­
de Adão. A vida foi perdida pela transgres­ soas “não pecaram à semelhança da trans­
são. Adão não poderia transmitir à posteri­ gressão de Adão”.
dade aquilo que não possuía (ver GC, 533). Quando Adão e Eva se rebelaram contra
E nesse sentido que “em Adão, todos mor­ Deus, eles não só perderam o direito à árvore
rem” (lCo 15:22). da vida, o que resultou, inevitavelmente, em
Não fosse pelo plano de salvação, o resul- sua morte e na transmissão da morte a seus
530

► tado do pecado de Adão teria sido a morte descendentes; mas, pelo pecado, também
eterna. Mas, pelas provisões do plano divino, passaram a possuir uma natureza depra­
todos os membros da família de Adão, bons vada, perdendo força para resistir ao mal
ou maus, ressuscitarão da sepultura (At (ver PP, 61). Assim, Adão e Eva passaram a
24:15; cf. ICo 15:22). Nesse tempo, será seus descendentes a tendência para o pecado
claramente reconhecido pelos perdidos que e a sujeição ao castigo: a morte. Pela trans­
eles permanecerão nessa situação unica­ gressão, o pecado foi introduzido à natureza
mente como resultado de seu pecado. Eles humana como um poder contagioso, antagô­
não conseguirão culpar Adão por sua situa­ nico a Deus, e esse contágio continua desde
ção. Aqueles que “fizeram o bem”, que pela então. E devido a esse contágio da natureza,
fé aceitaram a justiça de Cristo e se apro­ proveniente do pecado de Adão, que as pes­
priaram dela, sairão para a “ressurreição da soas precisam nascer de novo (ver com. de
vida” (Jo 5:29). “Sobre esses a segunda morte Rm 3:23; 5:1).
não tem autoridade” (Ap 20:6). Aqueles que Sobre a transmissão da natureza pecami­
“praticaram o mal”, que rejeitaram a justiça nosa de pai para filho, deve-se ter em mente
de Cristo e que não obtiveram o perdão por o seguinte: “E inevitável que os filhos sofram
meio do arrependimento e da fé, irão para as consequências das más ações dos pais,
“a ressurreição da condenação” (Jo 5:29, mas não são castigados pela culpa deles, a
ARC). Estes receberão a pena da transgres­ não ser que participem de seus pecados.
são, o “salário do pecado” final (Rm 6:23), “a Dá-se, entretanto, em geral, o caso de os
segunda morte” (ver GC, 544). filhos andarem nas pegadas de seus pais.
Porque. Do gr. efh’ hõ. Esta frase tem Por herança e exemplo os filhos se tornam
sido fonte de muita controvérsia teológica, participantes do pecado dos pais. Más ten­
e foi traduzida de diversas maneiras. Parece dências, apetites pervertidos e moral vil,
claro, no entanto, que o significado é sim­ assim como enfermidades físicas e degene-
plesmente “porque” ou “à medida que”. ração, são transmitidos como um legado de
No grego clássico, a expressão geralmente pai para filho, até a terceira e quarta gera­
significava “sob a condição de que”, mas ção” (PP, 306).
isso não parece representar seu uso no NT 13. Até ao regime da lei. Literalmente,
(comparar com sua utilização em 2Co 5:4; “até lei” (ver com. de Rm 2:12). Ou seja,
Fp 3:12; 4:10). durante o período entre Adão e Moisés
Todos pecaram. A frase apresenta a (Rm 5:14). Embora, neste contexto, “lei” se
mesma forma verbal de Romanos 3:23. Aqui, refira à lei dada no tempo de Moisés, o artigo
Paulo não enfatiza primeiramente que todos é omitido. Todos estão igualmente envolvi­
“transgrediram” individualmente e, por essa dos na morte. Paulo procura mostrar que há
razão, a morte foi compartilhada por todos algo mais em ação, além da culpa pelos peca­
(ver com. de Rm 5:13). Essa interpretação dos individuais. Esse algo é o resultado da
não condiz com o contexto, pois, no v. 14, queda de Adão. Todos os descendentes de

582
ROMANOS 5:14

Adão participam do efeito da queda de Adão, o reinado universal da morte como prova do
porque a morte e a tendência para o pecado efeito devastador do pecado de Adão. Essa
são males herdados. tirania da morte teria sido eterna, não fosse
Havia pecado no mundo. Aqui, Paulo por causa do evangelho.
emitiu uma declaração que seus leitores não À semelhança. Isto é, do mesmo
poderiam contestar. modo como Adão pecou, contra uma ordem
Levado em conta. Do gr. ellogeõ, pala­ expressa. Mesmo que as pessoas tenham um
vra diferente daquela traduzida como “con­ conhecimento apenas limitado da vontade de
siderado”, “atribuído”, “imputado” (ver com. Deus, revelada pela natureza e pela cons­
de Rm 4:4-6, etc.). No NT, ocorre apenas ciência (Rm 1:20; ver com. de Rm 2:15), elas
aqui e em Filemom 18, e significa “acertar a tinham alguma medida de culpa (Mt 10:15).
conta de alguém”. Seu significado é ilustrado Mas, além de possíveis graus de culpa indi­
nos papiros em que duas mulheres escrevem vidual, a morte reinou igualmente sobre
ao seu mordomo: “coloque em nossa conta todos. Mesmo as crianças estavam sob
tudo o que gastar no cultivo da propriedade”. seu domínio.
Paulo não quer dizer que os gentios, Prefigurava. Do gr. typos, “tipo”. Esta
que não possuíam a lei escrita, estavam palavra é comum no NT, mas é traduzida
sem pecado. Ele já havia observado que diversas vezes como “forma” (Rm 6:17),
todos, tanto judeus como gentios, “pecaram “sinal” (Jo 20:25), “modelo” (At 7:44), “ter­
e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23) e, mos” (At 23:25; Fp 3:17) e “figura” (Hb 8:5).
novamente, em Romanos 5:12, que “todos Isso significa, basicamente, a impressão feita
pecaram”. Assim, os gentios não estavam por uma estampa. Por isso, passou a signi­
► sem pecado. Eles estavam sob a obrigação ficar “cópia”, “figura”, também “padrão” e
de obedecer à lei que até então lhes tinha “exemplo”.
sido revelada (ver com. de Rm 1:20; 2:14, 15). Paulo não entra em todas as possíveis
O pecado tem estado no mundo desde a implicações do que disse, mas se concen­
transgressão original de Adão. Ele pode ser tra apenas em um argumento, ou seja, que
definido como falta de conformidade com os efeitos do pecado de Adão foram trans­
a vontade de Deus, seja em ato, disposição mitidos a todos. O princípio e o poder do
ou condição. pecado e da morte têm sido transmitidos a
A argumentação de Paulo é que, tivessem todos os descendentes de Adão. Visto que
ou não um conhecimento explícito da von­ seu ato afetou toda a humanidade, ele é um
tade de Deus (Rm 5:14), “todos pecaram” e tipo dAquele cujo ato de justiça resultou na
estão envolvidos na herança da morte (v. 12). transmissão do princípio e no poder da jus­
O ato da transgressão de Adão resultou na tiça e da vida a todos os que nasceram de
entrada do pecado como um princípio e um novo em Sua família (Jo 1:12, 13 ).
poder neste mundo. Mesmo na ausência de Havia de vir. Comparar “aquele que
transgressões pessoais, como no caso das estava para vir” (ver Mt 11:3; Lc 7:19). Adão
crianças, as pessoas estão sujeitas à morte. era um tipo de Cristo na medida em que
Paulo enfatiza a universalidade do pecado e os dois eram representantes de toda a famí­
da morte, a fim de destacar a universalidade lia humana. Ele era o representante e autor
da graça, por contraste. da humanidade caída. Cristo era o repre­
14. Reinou a morte. Paulo personi­ sentante e autor da humanidade restaurada.
fica a morte como já havia personificado o Em vista disso, Cristo é chamado “o último
pecado (ver com. do v. 12). Ele aponta para Adão” (ICo 15:45) e “o segundo homem”

583
5:15 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

(v. 47; cf. GC, 647). No entanto, não há ape­ todos, relativamente poucos aceitam a graça
nas uma semelhança, mas também uma oferecida (Mt 22:14). Não há limite no dom
grande diferença entre a obra dos dois Adões, em si, mas apenas na disposição da pessoa
como Paulo passa a explicar. em aceitá-lo.
15. Dom gratuito. Do gr. charisma, 16. Não é como no caso em que
derivado de charis, “graça” (ver com. de somente um pecou. Literalmente, “atra­
Rm 3:24), e significa “ato de graça”, “dom vés de um tendo pecado”. Paulo diz que não
da graça”. Charisma é usado para os poderes há comparação entre o “dom” de Cristo e os
sobrenaturais concedidos pelo Espírito Santo resultados do pecado de Adão.
(ICo 12:4, 31). Paulo faz seu primeiro con­ Julgamento. Do gr. krima, “decisão pro­
traste entre o efeito do pecado de Adão e o ferida”, “sentença”. O pecado de Adão resul­
da obra de Cristo. Não há comparação entre tou na sentença de condenação.
a queda da justiça e o dom da graça. De uma só ofensa. Literal mente, “a par­
Ofensa. Do gr. paraptõma. Literalmente, tir de um”. “Um” pode ser entendido como “um
“deslize”, “passo em falso”, “erro”. E uma homem”, referindo-se assim ao fato de “um ter
palavra apropriada para o momento em que pecado”, ou pode ser entendido como se refe­
Adão caiu da justiça. rindo a “uma ofensa”, tendo em vista o paralelo
De um só. Literalmente, “de um”, isto com “muitas ofensas”. De qualquer maneira, a
é, de Adão. linha de raciocínio de Paulo é clara.
Muitos. Literalmente, “os muitos”, equi­ Condenação. Adão tinha recebido uma
valente a “todos”, como mostra a frase “todos ordem específica: “Não comerás.” E essa
os homens”, no v. 18. ordem trazia consigo uma penalidade: “No
Graça. Ver com. de Rm 3:24. Para Paulo, dia em que dela comeres, certamente morre­
a graça de Deus não é apenas Seu favor ime­ rás” (Gn 2:17). Seu pecado, portanto, foi uma
recido, mas também o poder salvador de Seu transgressão explícita da ordem, e foi ime­
amor por meio de Jesus Cristo. diatamente “atribuído” ou tido em conta (ver
Dom. Definido no v. 17 como “o dom com. de Rm 5:13). A sentença de condena­
da justiça”. ção foi pronunciada de modo justo contra
De um só homem. Literalmente, “por ele. Mas a frase não pronunciada sobre o pri­
um só homem”. meiro humano se estendeu, em seus efeitos,
Abundantes. Do gr. perisseuõ, “estar a todos os seus descendentes.
mais e acima” (comparar com o uso da pala­ Dom gratuito (ARC). Do gr. charisma
vra em Rm 3:7; ICo 14:12; 2Co 1:5). “dom de favor ou graça”, a partir de charis,
Sobre muitos. Literalmente, “aos mui­ “graça” (ver com. de Rm 3:24). O dom gra­
tos”. Cristo morreu por toda a humanidade tuito é definido em Romanos 5:17 como “o
(2Co 5:14, 15; Hb 2:9; ljo 2:2). A oferta de sal­ dom da justiça”.
vação é feita a todos (Mt 11:28, 29; Mc 16:15; De muitas ofensas. Uma ofensa de
jo 7:37; Ap 22:17). Assim, a provisão foi feita Adão foi seguida por muitas outras, suas
► para atender a todos os males da queda de e das pessoas que o seguiram. Cada uma
Adão, disposição tão extensa em sua aplica­ delas era merecedora de condenação. Porém,
bilidade quanto a ruína causada pelo pecado. cada uma significa uma oportunidade para a
No entanto, esse dom da justiça não serve revelação do favor imerecido e do perdão de
para nada se não for aceito pela fé (Jo 3:16), Deus, portanto, o dom gratuito foi “de mui­
mas nem todos escolhem crer. Apesar da tas ofensas para justificação”, para aqueles
ampla provisão feita para a salvação de que aceitaram o dom.

584
ROMANOS 5:19

Justificação. Do gr. dikaiõma, geral­ santificador que transforma a vida presente e


mente “ato de justiça”, “exigência”, “decreto” lhe assegura a vida eterna no por vir.
(ver com. de Rm 2:26). No entanto, aqui 18. Pois. Do gr. ara oun, “se assim”, indi­
Paulo parece usar dikaiõma em vez de dikaio- cando a conclusão do raciocínio. A mesma
sis, “justificação” (ver com. de Rm 4:25). Um expressão grega ocorre em Romanos 7:3, 25;
possível motivo para a utilização de dikaiõma e 8:12. Paulo resume as comparações e con­
é sugerido pelo grego. As palavras “dom”, trastes dos versículos anteriores.
“julgamento”, “condenação”, “dom gratuito” Uma só ofensa. Da mesma forma, “um
e “ofensas”, todas terminam em ma. Não é só ato de justiça” pode ser traduzido como
improvável que Paulo tenha usado dikaiõma “uma justiça”. <
simplesmente como um recurso literário. Veio o juízo. Estas palavras foram acres­
17. Reinou a morte. Ver com. do v. 14. centadas. O mesmo ocorre com as palavras
Muito mais. O contraste neste versículo “veio a graça”. Em grego, o versículo é con­
é entre a transgressão e a graça, a morte e a ciso, indicando paralelos e contrastes. O ver­
vida, Adão e Cristo. sículo pode ser traduzido literalmente como:
Recebem. A justiça é um dom de Deus, “Portanto, assim como por uma só ofensa, a
e seja ela atribuída na justificação ou trans­ todos os homens, para condenação, assim
mitida na santificação, é um dom a ser também, por um só ato de justiça, a todos os
recebido pela experiência de fé em Jesus homens, para justificação da vida.”
Cristo. Somente os que estiverem dispostos Justiça. Do gr. dikaiõma, a mesma pala­
a reconhecer a própria impotência e neces­ vra traduzida como “justificação”, no v. 16
sidade e, com toda a humildade e gratidão, (ver com. ali). No entanto, aqui ela provavel­
aceitarem a justiça como um dom, reina­ mente tem o significado de “ato de justiça” e
rão em vida. é provavelmente equivalente a “obediência”,
Reinarão. Tendo mencionado duas vezes mencionada no v. 19. A vida perfeita de Jesus,
o reino da morte, Paulo o contrasta com o a obediência até a morte (Fp 2:8), previa a
reinado em vida. A Bíblia descreve frequen­ justificação de todos os que olham a Jesus
temente os santos reinando na vida após a com fé (ver com. de Rm 4:8).
morte. “Se sofrermos, também com Ele rei­ Justificação que dá vida. Deve sig­
naremos” (2Tm 2:12, ARC; cf. Lc 22:30; nificar justificação que resulta em vida.
Ap 3:21; 20:6; 22:5). O plano da redenção Comparar com “assim também reinasse a
restaura tudo o que foi perdido pelo pecado. graça pela justiça para a vida eterna” (v. 21).
Quando a terra for restaurada e se tornar 19. Desobediência. Do gr. ■parakoê,
o lar eterno dos salvos, o propósito origi­ “ouvir erradamente”. A palavra ocorre apenas
nal de Deus na criação do mundo terá sido duas vezes mais no NT (2Co 10:6; Hb 2:2).
cumprido (ver GC, 674). O domínio perdido O verbo “desobedecer” (parakouõ) ocorre
da humanidade terá sido recuperado (ver em Mateus 18:17 e é traduzido por “recusar
PR, 682). “Os justos herdarão a terra e nela ouvir”. A sugestão de descuido implícita
habitarão para sempre” (SI 37:29). nesta palavra pode indicar o primeiro passo
Em vida por meio de um só. Essas para a queda de Adão.
palavras enfatizam a posição que Cristo Muitos. Literalmente, “os muitos” (ver
ocupa como mediador na obra de reden­ com. do v. 15).
ção dos seres humanos. Por Sua morte, o Tornaram. Do gr. kathistêmi. Em fito 1:5,
crente é justificado e, mediante a união com kathistêmi é usado no sentido de “constituir”,
Ele, o cristão recebe esse poder vitalizante e isto é, para um cargo ou função. Esse é o uso

585
5:20 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

mais comum no NT (ver Mt 24:45; At 6:3; tempo de Moisés, como a ocasião em que a
7:10; Hb 5:1). O significado básico é “estabe­ “lei” sobreveio. Foi no Sinai que as leis de
leceram’', e a palavra é usada no grego clás­ Deus foram formalmente declaradas para
sico com o significado de “levar a”, como um a orientação de Seu povo, apesar de Sua lei
navio para a terra ou uma pessoa a outra pes­ moral dos dez mandamentos ter sido escrita
soa ou a algum lugar. Esse é o seu significado no coração de Adão na criação.
em Atos 17:15. Daí vem o significado “colo­ Abundou. Este não era o objetivo prin­
car como”, “tornar” e “constituir”. cipal da lei: revelar o padrão de justiça. Mas,
Em que sentido os seres humanos foram por causa da tendência hereditária e culti­
constituídos pecadores pela desobediência vada para o mal dos seres humanos, real­
de Adão? O paralelismo sugere que foram mente, o efeito da lei foi o de multiplicar
constituídos pecadores pela transgressão de a transgressão. A lei teve esse efeito por­
Adão da mesma forma como são constituí­ que proibia certos atos pecaminosos, que
dos justos pela obediência de Cristo. Uma até aquele momento não haviam sido reco­
vez que a ênfase nesse contexto está na justi­ nhecidos como pecaminosos. Mas, quando
ficação, em vez de na santificação (Rm 5:16, a lei foi formalmente declarada, a continua­
18), a ideia de Paulo parece ser que as pes­ ção desses atos se tornou transgressão pre­
soas são feitas justas pelos resultados do ato meditada. Visto que a lei é espiritual e santa
redentor de Cristo, independentemente de e proíbe a indulgência pecaminosa, inevi­
seus próprios esforços (ver com. de Rm 3:28). tavelmente desperta oposição nos corações
Da mesma forma, como resultado da deso­ rebeldes e se torna ocasião para incitar o
bediência de Adão, eles se tornaram peca­ pecado e multiplicar a transgressão. Se o
dores (ver com. de Rm 5:12-14). coração humano fosse santo e houvesse a
No entanto, esse pensamento não pode disposição de fazer o bem, a lei não teria
ser separado do fato de que, como resul­

534
essa tendência. <
tado da desobediência dc Adão, seus des­ Superabundou. Do gr. hyperperisseuõ,
cendentes vivem em transgressão (v. 16), de “abundar sobre e acima”. A palavra ocorre
igual modo a obediência de Cristo resulta somente aqui e em 2 Coríntios 7:4.
na vida de obediência por parte de todos os “Abundam” e “abundantes” no início do
que vivem em união com Ele pela fé. Essa é versículo são do gr. pleonazõ, “ser muitos”,
a ênfase de Paulo no cap. 6. “multiplicar-se”. Deus permitiu o pecado e
Obediência. Do gr. hupakoê. A ideia permitiu que se multiplicasse, e depois o
desta palavra é de “submissão ao que ouve”. anulou para fazer a mais maravilhosa expo­
Está em contraste com a palavra “desobe­ sição dc Sua glória e graça, a fim de que os
diência” (parakoê), “deixar de ouvir”, ou benefícios da redenção ultrapassassem infi­
“recusar-se a ouvir” (sobre a obediência de nitamente os males da rebelião.
Cristo, ver com. do v. 18). 21. Pela morte. Ou, “na morte”, pois,
20. Sobreveio. Do gr. pareiserchomai, por assim dizer, a morte é a esfera ou domí­
literalmente, “entrar pelo lado”. A palavra nio em que a soberania do pecado é exer­
ocorre em outras partes do NT, apenas em cida (cf. v. 14, 17). O pecado reina sobre um
Gaiatas 2:4, em que é traduzida como “se reino de morte.
entremeteram”. Reinasse a graça. Graça (ver com. de
A lei. Literalmente, “lei” (ver com. de Rm 3:24) é personificada aqui como o foram
Rm 2:12; 5:13). A partir de Romanos 5:13 o pecado (ver com. de Rm 5:12) e a morte
e 14, fica claro que Paulo está pensando no (ver com. do v. 14).

586
ROMANOS 5:21

Justiça. Isto é, a justiça de Cristo atribuída indignos. Então, para aumentar o amor e a
na justificação e comunicada na santificação graça de Deus como base de esperança e con­
(ver com. de Rm 3:31; 4:8). fiança do cristão, Paulo passou a contrastar a
Mediante Jesus Cristo. Paulo iniciou o extraordinária abundância e o poder da graça
cap. 5 descrevendo a alegria e a certeza que so­ salvadora de Deus, mediante Jesus Cristo, com
brevêm ao crente que aceitou a justificação pela o pecado e a degeneração do ser humano, resul­
fé em Jesus Cristo. Isso o levou a falar da gran­ tantes da queda de Adão. Deus fez ampla provi­
deza do amor e da graça de Deus em possibili­ são para atender a todos os terríveis resultados
tar tão generoso plano para salvar os pecadores da grande apostasia do ser humano.

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1 - AA, 476; DTN, 337; 3, 4-T3, 416 TM, 246


MDC, 27; PP, 373; 3-5-T2, 510, 514 9, 10-MDC, 20
T4, 386 5-MCH, 185; T4, 93; 12-GC, 533; MJ, 69
1, 2-T2, 509 T6, 171; T8, 139 19 - MCH, 323
1-21 -TM, 94 8-MDC, 76; CBV, 66, 161; 20-DTN, 26; OE, 157

Capítulo 6
1 Não pode viver no pecado quem para ele morreu, 3 como demonstrado pelo
batismo. 12 O pecado não mais reina, 18 pois o justificado está
a serviço da justiça. 23 A morte é o salário do pecado.

1 Que diremos, pois? Permaneceremos no 8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos


pecado, para que seja a graça mais abundante? que também com Ele viveremos,
2 De modo nenhum! Como viveremos ainda 9 sabedores de que, havendo Cristo ressus­
no pecado, nós os que para ele morremos? citado dentre os mortos, já não morre; a morte já
3 Ou, porventura, ignorais que todos nós que não tem domínio sobre Ele.
fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados 10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez
na Sua morte? para sempre morreu para o pecado; mas, quanto
4 Fomos, pois, sepultados com Ele na morte a viver, vive para Deus.
pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscita­ 11 Assim também vós considerai-vos mortos
do dentre os mortos pela glória do Pai, assim tam­ para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo
bém andemos nós em novidade de vida. Jesus.
5 Porque, se fomos unidos com Ele na seme­ 12 Não reine, portanto, o pecado em vosso
lhança da Sua morte, certamente, o seremos tam­ corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas
bém na semelhança da Sua ressurreição, paixões;
6 sabendo isto: que foi crucificado com Ele o 13 nem ofereçais cada um os membros do
nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja seu corpo ao pecado, como instrumentos de ini­
destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; quidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressur- 4
7 porquanto quem morreu está justificado retos dentre os mortos, e os vossos membros, a
do pecado. Deus, como instrumentos de justiça.

587
6:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

14 Porque o pecado não terá domínio sobre 19 Falo como homem, por causa da fraqueza
vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da da vossa carne. Assim como oferecestes os vossos
graça. membros para a escravidão da impureza e da mald
15 E daí? Havemos de pecar porque não es­ de para a maldade, assim oferecei, agora, os vosso
tamos debaixo da lei, e sim da graça? De modo membros para servirem à justiça para a santificaçã
nenhum! 20 Porque, quando éreis escravos do pecado,
16 Não sabeis que daquele a quem vos ofere­ estáveis isentos em relação à justiça.
ceis como servos para obediência, desse mesmo 21 Naquele tempo, que resultados colhes­
a quem obedeceis sois servos, seja do pecado tes? Somente as coisas de que, agora, vos enver­
para a morte ou da obediência para a justiça? gonhais; porque o fim delas é morte.
17 Mas graças a Deus porque, outrora, es­ 22 Agora, porém, libertados do pecado, trans­
cravos do pecado, contudo, viestes a obedecer formados em servos de Deus, tendes o vosso fruto
de coração à forma de doutrina a que fostes para a santificação e, por fim, a vida eterna;
entregues; 23 porque o salário do pecado é a morte, mas
18 e, uma vez libertados do pecado, fostes fei­ gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo
o dom
tos servos da justiça. Jesus, nosso Senhor.

1. Que diremos, pois? Sobre esta frase, Portanto, diante dessa incompreensão da jus­
ver com. dc Rm 4:1. No capítulo anterior, tificação pela fé que envolve essa falha tão
Paulo abordou a decadência universal do ser grande em perceber o propósito do plano de
humano, resultante da queda de Adão. Mas Deus para a restauração da humanidade,
o apóstolo assegurou ao crente que, apesar de o Paulo explica o que deve seguir a expe­
ser humano ter herdado e cultivado tendên­ riência genuína da justificação, ou seja, a
cias para o mal, a graça de Deus é mais do santificação.
que suficiente para salvá-lo do pecado e 2. De modo nenhum! Ver com. de
transformar a transgressão em justiça, e a Rm 3:4.
morte, em vida eterna. Quanto mais o pecado Viveremos ainda. Uma coisa é come­
transbordou, a graça de Deus, muito mais. ter um pecado ocasional, por causa da fra­
Será que isso implica, Paulo pergunta, que queza da carne. Outra bem diferente é viver
as pessoas poderiam continuar pecando para em pecado. Viver em pecado significa que o
que a graça seja ainda mais transbordante? pecado é a atmosfera moral em que respira­
Permaneceremos. Do gr. epimenõ, ou mos. Essa vida é absolutamente incompatí­
seja, em primeiro lugar, “permanecer", “habi­ vel com a fé. A fé em Cristo, que possibilita
tar" ou “habitar com” (ver ICo 16:8; Fp 1:24). a justificação ao pecador, inclui a disposição
Também significa “perseverar” (cf. Rm 11:23; irrestrita para cumprir Sua vontade e o ódio a
Cl 1:23). A pergunta de Paulo é: “permane­ tudo o que causou tão grande sofrimento ao
ceremos no pecado?” Salvador (ver com. de Rm 3:28, 31). A fé que
Paulo já havia mencionado que a doutrina alega justificação, mas permite a continuação
da justificação pela fé sem as obras da lei de velhas formas de pecado não é verdadeira.
estava sendo deturpada pelos inimigos, como A evidência de que a pessoa está justificada,
incentivo a praticar o mal para que sobreviesse nasceu de novo e passou da morte para a
o bem (ver com. de Rm 3:8). Também havia vida é que encontra prazer em obedecer à lei
o perigo de que mesmo os crentes abusas­ de Deus (ljo 2:1-6; cf. Rm 13:8). “No novo
sem da liberdade recém-encontrada (G1 5:13). nascimento, o coração é posto em harmonia

588
ROMANOS 6:4

com Deus, ao colocar-se em conformidade assim dizer, uma unidade espiritual (ver
com a Sua lei. Quando essa poderosa trans­ ICo 12:12, 13, 27; Gl 3:27).
formação se efetua no pecador, ele passou O conceito de Paulo sobre a união com
da morte para a vida” (GC, 468). E verdade Cristo revela que sua conversão foi mais
que, por vezes, o crente pode cair nalgum que uma mudança intelectual. O fato de
pecado (ljo 2:1), mas a evidência de que ter aceitado a Cristo pessoalmente como
a pessoa realmente nasceu de Deus é que não seu redentor e senhor o levou a uma comu­
► permanece na prática do pecado (ljo 3:9) ou, nhão espiritual tão próxima e fascinante, que
como Paulo afirma, já não vive em pecado. quase se tomou uma verdadeira identifica­
Que para ele morremos. O texto grego ção da vontade (Gl 2:20). Não é incomum, no
aponta para um tempo ou evento em par­ caso da amizade normal, que duas pessoas
ticular, neste caso, a entrega do crente a Cristo compartilhem uma unidade de propósito tão
e seu consequente novo nascimento e justifi­ grande que pareçam pensar e agir como se
cação. Para Paulo, viver em pecado é incom­ fossem uma só. A amizade com Cristo está
patível com o fato de ter morrido para ele. em nível ainda mais elevado e ligada por uma
3. Ou, porventura, ignorais [...]? força não somente humana, mas divina.
Literalmente, “Ou sois ignorantes?” Em Na Sua morte. O significado desta
outras palavras: “Você admite a verdade do expressão é dado nos versículos que se
que digo, ou é possível que não perceba tudo seguem, especialmente os v. 10 e 11, nos
o que está envolvido no seu batismo?” quais Paulo explica que, assim como Cristo
Batizados. A frase assim traduzida morreu pelo pecado, o cristão também deve
ocorre também em 1 Coríntios 10:2, refe­ se considerar morto para o pecado. Assim
rente à experiência dos israelitas com Moisés. como o crente mostra participar na morte
Em decorrência de terem estado sob a nuvem de Cristo pelo pecado (v. 10) em seu favor,
e passado pelas águas do Mar Vermelho, os certamente ele não pode continuar a viver
israelitas vivenciaram uma estreita união com no pecado que tornou necessária essa
seu líder. O povo “creu no Senhor e em Moisés, morte (v. 2).
Seu servo” (Ex 14:31). A partir de então, tive­ A fim de que o sacrifício de Cristo efe­
ram mais confiança em Moisés, como seu tue a salvação para o pecador, o crente deve
libertador e comandante. Evidentemente, a participar conscientemente da experiência
união do cristão com o Salvador é de ordem e do sentido representados pela morte, pelo
superior. Envolve uma relação de mais amor sepultamento e ressurreição de Cristo em
e certeza irrestrita de que o crente de fato seu favor. Como uma confissão pública dessa
está transformado à semelhança da bondade experiência, o crente se submete à cerimô­
e misericórdia do Redentor (ver 2Co 3:18; cf. nia da imersão, em harmonia com a ordem
CPPE, 249). de Jesus (Mt 28:19).
A expressão “em Cristo Jesus” significa 4. Fomos [...] sepultados. Do gr.
“em união com Cristo Jesus”. Não significa sunthaptõ, literalmente, “sepultar juntos”.
que o batismo por imersão, por si só, real­ A descrição de Paulo de que o batismo repre­
mente efetua essa união; o batismo é a pro­ senta o sepultamento é uma evidência de
clamação pública de uma relação espiritual que batizar por imersão era uma prática dos
com Cristo, que ocorre antes da cerimônia primeiros cristãos (ver com. de Mt 3:6). Se
exterior. O batismo representa a união da Paulo estivesse se referindo a uma das outras
vida do cristão, de tanta intimidade com formas de batismo que se tornaram popu­
a vida de Cristo que os dois se tornam, por lares nos séculos futuros, seu simbolismo

589
6:5 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

neste versículo teria sido bastante limitado, Andemos. Literalmente, “continuemos


se não inútil. andando”, sugerindo a conduta habitual, por­
Na morte. Estas palavras podem tanto, “vivamos” (cf. Rm 8:4; 2Co 5:7; 10:3;
estar conectadas com “sepultados” ou com Ef 2:10; 4:1).
“batismo” (v. 3). A diferença não é impor­ Vida. Do gr. zõê. Note-se que Paulo
tante. O argumento de Paulo é que a imersão não usa a palavra bios, que significa o estilo
ensina que a morte do crente para o pecado é de vida e é traduzida por “vida” ou “sus­
tão real e completa quanto a morte de Cristo. tento” (Mc 12:44; Lc 8:14; iTm 2:2; 2Tm 2:4;
E se é tão completa, certamente, deve mar­ ljo 2:16, etc.). Zõê denota o princípio da vida
car o fim do antigo modo de vida e o início (Mt 19:16; Lc 1:75; 12:15; Jo 1:4; 3:16; 5:26;
do novo. A continuação da antiga vida de Rm 11:15; Ap 22:1, etc.). A conduta da via
pecado representa uma negação do signifi­ diária já foi representada pela metáfora da
cado e do propósito do batismo. O sepulta- “caminhada”. Quando o crente nasce de novo
mento (ou imersão total) na água batismal é do Espírito Santo, a partir daí é animado
seguido pelo ressurgimento total. O mesmo por um novo elemento vital (ver Rm 8:9-11).
ocorreu com a morte de Cristo pelo pecado, Assim, “andar em novidade de vida” é andar
simbolizando que a imersão deve ser seguida “segundo o Espírito” (v. 4). Portanto, a con­
pela ressurreição com Ele para um novo duta diária do cristão revelará na vida a pre­
estilo de vida. sença e o efeito do Espírito (ver Cl 3:1-3;
Batismo. Do gr. baptismos, de baptizõ, T6, 98, 99).
que significa “mergulhar”, “imergir” (ver com. 5. Unidos com. Do gr. symphutoi,
de Mt 3:6). “crescemos junto”. A ideia é a de estar vital­
Foi ressuscitado. E importante reco­ mente ligados. E um quadro da união vital
nhecer que o batismo simboliza não só a que existe entre Cristo e os que entraram
morte e o sepultamento, mas também a em comunhão íntima de fé com Ele (com­
ressurreição. O rito aponta em duas dire­ parar com a parábola de Cristo da videira e
ções: ao passado, à morte para o pecado, os ramos, Jo 15:1-8). A menos que o crente
537

► e ao futuro, à nova vida em Cristo. Assim entre pela fé nessa ligação vital com Cristo,
como a morte de Cristo tinha em vista a é impossível que ande em novidade de vida,
ressurreição (ver Rm 4:25), assim também não importando o quanto deseje fazê-lo.
a obra da graça não termina com a morte Seremos também. A última parte deste
do crente para o pecado. Ao contrário, essa versículo é muito menor no grego. Traduzido
morte para o pecado olha para o futuro, para literalmente, diz: “também seremos da ressur­
uma vida mais elevada, mais santa e abun­ reição”. Alguns têm aplicado esta passagem
dante. A justificação antecipa a santificação principalmente à ressurreição futura, mas isso
completa do cristão. não é indicado pelo contexto. Paulo enfatiza
A glória de Deus representa toda a per­ que, assim como o crente participa da seme­
feição e excelência divinas (ver com. de lhança da morte de Cristo, pelo fato de Ele
Rm 3:23). O atributo de poder foi espe­ mesmo ter morrido pelo pecado, da mesma
cialmente manifestado na ressurreição de forma, deve partilhar na semelhança da res­
Cristo (cf. Rm 1:4; lCo 6:14; 2Co 13:4; surreição de Cristo, ressuscitando para uma
Ef 1:19, 20). A respeito da ressurreição de nova vida de justiça. Nas duas experiências,
Lázaro, Jesus declarou: “Não te disse Eu ele mostra sua união vital com o Salvador.
que, se creres, verás a glória de Deus?” Evidentemente, é verdade que o novo
(Jo 11:40). nascimento espiritual e a vida no Espírito

590
ROMANOS 6:6

levam à ressurreição final e à vida eterna. transformadora que será sempre lembrada
Na verdade, para os que andam em novi­ como símbolo do fim da velha vida de pecado
dade de vida, em certo sentido, a vida eterna c o início da nova vida de justiça em união
já começou (ver com. de Jo 8:51). com Cristo.
6. Sabendo isto. Comparar com "igno­ Nosso velho homem. Ou seja, nossa
rais” (v. 3). O reconhecimento da união vital antiga condição corrompida e pecaminosa.
provém da compreensão do significado e O uso que Paulo faz dessa expressão ilus­
propósito da morte e ressurreição de Cristo, tra seu significado aqui (cf. Ef 4:22, 23;
como Paulo passa a desenvolver. Cl 3:9).
Foi crucificado. A referência é à expe­ O corpo do pecado. Ou seja, o corpo
riência do crente quando ele aceita a Cristo como sede do pecado, o corpo que pertence
pela primeira vez, tendo renunciado ao seu ao poder do pecado e é governado por ele,
passado de pecado e morrido para o pecado. no qual os membros são instrumentos de
Contrastando seu estado anterior com o iniquidade (v. 13). Expressões semelhantes
atual, Paulo sentia como se fosse um novo em outros lugares são “o corpo desta morte”
ser e havia passado por uma mudança tão (Rm 7:24), ou seja, “o corpo que está conde­
completa quanto a da morte para a vida. Seu nado a morrer”, “o corpo da carne” (Cl 2:11),
antigo "eu” havia perecido. Ele era um novo que significa “o corpo que está propenso a
ser em Cristo, e Cristo habitava nele (ver servir aos seus próprios impulsos carnais”.
2Co 5:17; G1 2:20). Assim, “o corpo do pecado” é equivalente a
Esta passagem enfatiza o fato de que a "o nosso velho homem”. Representa o corpo,
conversão e o novo nascimento significam na medida em que é sede e instrumento do
mais que uma simples mudança de profissão pecado e escravo do pecado. Deve ser cruci­
e hábitos de vida. Envolvem uma mudança ficado e "destruído”, de modo que o pecado
interior radical, que só pode ser feita pelo já não o possa usar como um escravo.
Espírito regenerador de Deus. O plano para Destruído. Do gr. katargeõ, mesma pala­
a salvação da humanidade provê não só a vra usada em Rm 3:3, em que é traduzida
libertação da condenação pela aceitação dos como “desfazer” (comparar o uso da palavra
benefícios do sacrifício de Cristo, mas pro­ em Rm 3:31; 4:14). Katargeõ significa colocar
duz também o nascimento ou a criação de o corpo do pecado a um estado de inércia e
um novo ser, livre da escravidão do pecado. incapacidade. Isso não significa que o corpo
O profundo significado do rito do físico deva ser destruído, mas que o corpo,
batismo, como é explicado aqui, é uma prova em sua relação com o pecado, deve ser sub­
clara de que o batismo infantil de forma jugado, ao ponto de estar tão completamente
► alguma cumpre o propósito do Senhor na inerte, como se estivesse morto.
ordenação desse rito. E a participação inte­ Sirvamos o pecado. Ou, “ser escravos
ligente no significado do simbolismo que traz do pecado” (v. 17). Viver em pecado (v. 2)
ao crente a bênção pretendida. Ele medita é a escravidão ao seu poder. Jesus ensinou
sobre cada etapa do processo e pensa: "Agora, que "todo o que comete pecado é escravo do
vou entrar em comunhão com Cristo na Sua pecado” (Jo 8:34), mas que a verdade pode
morte. Quando estiver imerso, serei sepul­ libertar as pessoas da escravidão (v. 32). E por
tado com Cristo. Quando emergir da água, meio dos impulsos da carne que o pecado
sairei para a nova vida em Cristo.” Assim, a exerce seu domínio e mantém a pessoa sob
cerimônia não é uma formalidade exterior seu controle. Por isso, o velho homem deve
vazia, mas uma experiência confirmadora e ser “crucificado com Cristo” (G1 2:20), de

591
6:7 COM ENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

modo que o crente seja libertado da influên­ 10. Quanto a ter morrido. Litcral-
cia do domínio do pecado. mente, “aquilo que Ele morreu”, que pode
7. Quem morreu. Literalmente, “aquele ser traduzido como “a morte que Ele morreu”
que morreu”. No v. 6 (ver com. ali), o peca­ (comparar com “a vida que agora vivo”, lite­
dor é representado como um escravo. Só a ralmente, “o que eu vivo”, G1 2:20).
morte com Cristo pode libertá-lo da escra­ De uma vez. Do gr. ephapax, “de uma
vidão do pecado. Paulo ilustra isso apon­ vez por todas”. Não há necessidade de o
tando para a verdade óbvia de que, quando sacrifício ser repetido (ver Hb 7:27; 9:12,
um escravo morre, ele deixa de estar sujeito 26, 28; 10:10).
ao controle de seu senhor. Assim, o cristão, Morreu para o pecado. Ele Se tor­
quando morre para o pecado, está livre do nou “pecado por nós”, mesmo sendo “aque­
controle do pecado (cf. lPe 4:1). le que não conheceu pecado” (2Co 5:21).
8. Se já morremos. Literalmente, “se O pecado que Ele carregou não era dEle,
morremos” (v. 7). mas nosso (ver lPe 2:22, 24). Porém, quan­
Cremos. Assim como Abraão creu que do Cristo Se humilhou e Se tornou obe­
o que Deus tinha prometido “Ele era pode­ diente até a morte (Fp 2:8), a reivindicação
roso para cumprir” (Rm 4:21; cf. ITs 5:24; sobre Ele como nosso portador de peca- 4
2Ts 3:3; 2Tm 2,11). dos estava satisfeita. A finalidade para a
Também com Ele viveremos. Isso qual foi realizada Sua submissão voluntá­
não se refere principal mente à vida futura ria tinha sido alcançada uma vez por todas
em glória, embora esse sentido esteja de (cf. Rm 3:25, 26).
certa forma embutido (ver com. do v. 5). Quanto a viver. Literalmente, “aquilo
Paulo enfatiza que a morte libertadora da que Ele vive”, que pode ser traduzido como
escravidão do pecado é seguida por uma “a vida que Ele vive”. Nas palavras “Ele vive”,
nova vida de liberdade (v. 8-11), que não temos o testemunho de alguém que tinha
mais está sob o domínio do pecado, mas visto o Senhor. Na luz ofuscante que bri­
é dedicada ao serviço de um novo Senhor lhou ao seu redor na estrada para Damasco,
(v. 12-14). Paulo se refere particularmente Paulo reconheceu a presença divina e per­
à “novidade de vida” (v. 4) a ser desfrutada guntou: “Quem és Tu, Senhor?” Depois, veio
pelo cristão aqui neste mundo, a vida de a descoberta surpreendente de que Jesus,
Cristo no crente (G1 2:20) e a vida do crente cujos seguidores ele perseguia, estava vivo
em Cristo (Cl 3:3). (At 9: 3-9).
9. Sabedores. A crença de que vive­ Para Deus. Evidentemente, a vida de
remos com Cristo está baseada na cons­ Cristo na Terra foi também “para Deus”.
ciência de que Ele está vivo para sempre Mas Paulo parece fazer uma distinção entre
(Hb 7:25). a vida de Cristo na Terra, uma vida de con­
Já não morre. Comparar com Ap 1:18. flito com o pecado e sujeição à morte, e Sua
Já não tem domínio. Ou, “não é mais presente vida glorificada, exaltada à direita
senhor”. Foi o pecado que levou Cristo a do Pai (Jo 17:5; At 7:55). Porque Ele “o fez
estar sujeito ao domínio da morte, não Seu pecado por nós” (2Co 5:21), Jesus sentiu
pecado, mas o nosso. Por nossa causa, Ele “a ira divina sobre Ele, como substituto do
Se submeteu voluntariamente (ver Jo 10:17, homem” (DTN, 753). Mas, assim que triun­
18). Uma vez que Sua experiência de humi­ fou sobre o pecado e a morte, Ele mais uma
lhação terminou, Ele permanece para sem­ vez desfruta ininterrupta comunhão com o
pre como conquistador e senhor da morte. Pai e vive “para Deus”.

592
ROMANOS 6:13

11. Considerai-vos. Com a finalidade descrito como estando crucificado com


de explicar a experiência cristã, Paulo fala do Cristo (v. 6), ainda estamos em nosso “corpo
crente, como se ele consistisse de dois seres. mortal”, com seus desejos e paixões mun­
O velho homem morreu, pois foi crucificado danos. O pecado ainda é um poder. Se per­
com Cristo (v. 6). O novo ser está vivo, nas­ mitirmos, o pecado ainda pode ter domínio
cido de novo do Espírito Santo (v. 4). Assim, sobre nós. Nascer de novo do Espírito Santo
Paulo pode falar de alguém como estando, não erradica os desejos mundanos da carne.
ao mesmo tempo morto para o pecado e vivo No entanto, a experiência nos coloca em con­
em relação a Deus. Além disso, Paulo parece tato com uma força maior, pela qual pode­
definir a consciência da pessoa para além do mos sempre resistir com êxito à tentativa de
velho e do novo ser, de modo que o crente c dominação do pecado. Mas ainda cabe a nós
capaz de decidir conscientemente se vai con­ decidir se vamos continuar fiéis aos impul­
servar morto o antigo, e vivo, o novo. sos pecaminosos ou a Cristo.
Mortos. Isto sugere uma continuação do E por essa razão que devemos experi­
estado da morte. Assim como Cristo morreu mentar uma “nova conversão” todos os dias
uma vez por todas para o pecado (ver com. do (ver Tl, 699; T7, 44). Nossa experiência de
v. 10), o crente, de uma vez por todas unido a ontem não é suficiente para hoje. Embora,
Cristo, deve se considerar para sempre morto ontem, tenhamos morrido para o pecado,
para o domínio do pecado. nosso “velho homem” pode se erguer, hoje.
Vivos para Deus. A nova vida do crente Unicamente mantendo o velho “eu” morto
pertence a Deus e deve ser dedicada ao Seu para o pecado, representado pelo batismo,
serviço. Como Cristo “vive para Deus” (v. 10), somos capazes de viver diariamente para
assim também o cristão vive para “Deus” Deus. Essa experiência só é possível pela
uma vida que começa na Terra em santi­ união com Jesus Cristo, por uma fé nEle
dade e vai continuar no Céu em glória, honra tão real e constante que odiemos o pecado «
e imortalidade. e amemos a justiça (comparar com Pj, 331;
Em Cristo Jesus. A conformidade do sobre a experiência de Paulo de consagra­
crente à semelhança da morte de Cristo para ção diária, ver ICo 15:31; CBV, 452, 453;
o pecado e sua vida para Deus é alcançada, cf. ICo 9:27).
e não apenas “por meio de”, mas “em” Cristo 13. Ofereçais. A palavra “oferecer”
Jesus. Essa experiência foi disponibilizada para ocorre duas vezes neste versículo, mas
o cristão “por meio de” Cristo, mas somente o as formas em grego são diferentes. A pri­
crente que está “em” Cristo pode participar. meira indica uma ação contínua, “não con­
Nosso Senhor (ARC). Evidências tex­ tinuem oferecendo”, ou “parem de oferecer”.
tuais (cf. p. xvi) apoiam a omissão desta frase, A segunda significa “oferecer-se uma vez por
o que não afeta o significado. todas” (ver também Rm 12:1).
12. Reine. Ou, “continue reinando”, Membros. Ou seja, os órgãos e faculda­
como fez no passado. Ao usar a palavra des do corpo (ver também Rm 7:5, 23; 6:15;
“reine”, Paulo não sugere uma comparação 12:12, 18, 20).
entre reinar e simplesmente existir, mas Instrumentos. Do gr. hopla. A mesma
entre reinar e ser deposto. Os crentes mor­ palavra é traduzida como “armadura”, ou
rem com Cristo, para que o pecado não mais “armas” (Jo 18:3; Rm 13:12; 2Co 6:7; 10:4).
tenha qualquer domínio sobre eles. No NT parece ser usado, sobretudo, a res­
De maneira que obedeçais às suas peito de armas militares. Alguns comenta­
paixões. Embora o “velho homem” seja ristas têm visto neste versículo uma imagem

593
6:14 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

da guerra entre o pecado e a justiça, recru­ poder para vencê-lo. O pecador que procura
tando tropas para seu exército. O pecado, ser salvo pela lei encontra somente conde­
procurando ter domínio, convoca o exército nação e a escravidão ainda mais profunda.
dos desejos da carne e procura usar os órgãos Onde quer que seja mantido o princípio de
e faculdades do corpo como armas com as que a pessoa pode se salvar por obras pró­
quais os desejos restabeleçam a tirania da prias, não existe barreira eficaz contra o
injustiça. Outros, porém, preferem enten­ pecado (DTN, 35, 36).
der que Paulo simplesmente diz aqui que Mas o cristão não procura a salvação
nossos membros nunca devem ser submeti­ por meios legalistas, como se pudesse ser
dos à direção dos desejos pecaminosos para salvo por suas próprias obras de obediência
realizar qualquer tipo de propósito injusto (Rm 3:20, 28). Ele reconhece que é trans­
(comparar com T2, 454). gressor da lei divina e que, por sua própria
Mas oferecei-vos. Ou seja, uma vez força, é incapaz de cumprir os requisitos,
por todas. merecendo com justiça estar sob condenação
Ressurretos. Ou seja, aqueles que res­ e se oferecendo, por meio da fé em Cristo,
suscitaram para a nova vida em Cristo (v. 11). à graça e à misericórdia de Deus. Então, pela
Instrumentos de justiça. Ao dedicar graça de Deus (ver com. do v. 24), seu pas­
assim seus membros a Deus, o cristão se sado pecaminoso é perdoado e ele recebe
compromete a lutar, pela capacitação do o poder divino para andar em novidade de
Espírito de Deus, pela maior perfeição pos­ vida. Quando a pessoa está “sob a lei", ape­
sível de todos os órgãos do corpo e quali­ sar de seus melhores esforços, o pecado con­
dades da mente, a fim de conhecer, amar tinua a ter domínio sobre ela, porque a lei
e servir a seu Redentor de forma aceitável não pode libertá-la. Sob a graça, no entanto,
(ver PJ, 330). a luta contra o pecado não é mais uma espe­
14. Não terá domínio. Ou, "não será rança vã, mas um triunfo garantido.
o senhor". E verdade que o pecado vai ten­ O oferecimento para estar debaixo da
tar e molestar. No entanto, não terá domínio graça, para se obter vitória sobre o pecado,
sobre o verdadeiro cristão. Assim, o crente e o poder capacitador para o alcance de todas
deve se submeter corajosamente ao serviço as virtudes íoi estendido a cada um dos des­
de Deus, pois a vitória sobre o pecado está cendentes de Adão (Jo 3:16). Contudo, mui­
prometida. tos escolhem cegamente ou com obstinação
Não estais debaixo da lei. Literal­ permanecer debaixo da lei. Muitos dos que
mente, “não sob lei". O artigo definido "a" professam o desejo sincero de ser salvos pre­
não é usado nem com "lei”, nem com "graça" ferem permanecer debaixo da lei, como se
(ver com. de Rm 2:12). Aqui, Paulo não está pudessem se promover diante dc Deus e
se referindo principalmente a qualquer lei obter a salvação. Essa era a experiência dos
em particular, mas à lei como um princípio. judeus, e é a de muitos cristãos de hoje que,
Seu argumento é que os cristãos não estão em seu orgulho de autojustificação, não estão
debaixo da lei, como forma de salvação, dispostos a reconhecer a própria impotência
mas da graça. A lei não pode salvar o peca­ e entregar-se à misericórdia e à graça trans­
dor, nem pode pôr fim ao pecado ou ao seu formadoras de Deus.
domínio. A lei revela o pecado (Rm 3:20), Paulo afirma que, enquanto a pessoa*
e a lei faz com que a transgressão aumente, está sob a lei, ela também permanece sob
pur assim dizer (Rm 5:20). A lei não pode o domínio do pecado, pois a lei não a pode
perdoar o pecado, nem comunica qualquer salvar nem da condenação nem do poder

594
ROM ANOS 6:17

do pecado. Todavia, os que estão debaixo da Servos. Do gr. douloi, “escravos”, “ser­
graça recebem não só a libertação da conde­ vos”. Entre os gregos e romanos, um escravo
nação (Rm 8:1), como também o poder para era considerado propriedade de seu dono, e
vencer (Rm 6:4). Assim, o pecado não tem seu proprietário podería dispor dele como
domínio sobre eles dali em diante. quisesse. Sob um senhor cruel, a vida do
15. Havemos de pecar [...]? Ver com. escravo era mais opressiva e, às vezes, ele
do v. 1. A forma do verbo grego pode sugerir era tratado pior do que um animal. Essa é
o ato ocasional do pecado, em comparação a condição de cada miserável pecador. Ele
com a permanência numa vida de pecado é escravo de Satanás, e seus próprios maus
(v. 1). Podemos nos entregar ao pecado de vez desejos e apetites são seus feitores implacá­
em quando, agora que não estamos debaixo veis (v. 12).
da lei, mas debaixo da graça? A resposta de Paulo usa a mesma palavra “escravo” para
Paulo é que qualquer condescendência com descrever os servos de Cristo (ver com. de
o pecado é um retorno à escravidão da qual Rm 1:1). Com isso, ele deixa claro que são
a graça libertou o pecador. realmente propriedades do Senhor. Mas,
A suposição de que estar sob a graça signi­ considerando que Cristo é infinitamente
fica que o crente alcançou a liberdade de deso­ bom e benevolente, o serviço a Ele repre­
bedecer impunemente à lei moral de Deus senta a perfeita liberdade, pois não requer
representa uma compreensão falsa de todo obediência que não se torne em uma vanta­
o propósito de Deus no plano da salvação. gem eterna para Seus servos.
Em primeiro lugar, foi a violação da lei de Sois servos. Nossa conduta mostra a
Deus que levou Deus, em Seu amor, a ofe­ que senhor servimos. Ninguém pode servir
recer graça ao pecador. Pela graça de Deus, a dois senhores simultaneamente (Mt 6:24;
as pessoas são libertas do jugo do pecado. Lc 16:13; cf. Jo 8:34).
Então, como alguém pode conceber que seja Para a morte. Isto é, levando à morte.
certo ou razoável voltar deliberadamente à Obediência. Isto é, naturalmente, a obe­
antiga escravidão? Desobedecer à lei de Deus diência a Deus, como se deduz pelo contexto.
é se tornar mais uma vez servo do pecado, E a obediência da fé (ver com. de Rm 1:5;
pois a desobediência à lei divina é pecado cf. Rm 16:26).
(ljo 3:4), e quem continua pecando é escravo Justiça. Aqui, talvez, significando um
do pecado (Jo 8:34). Continuar na satisfa­ caráter correto. Os atos de obediência levam
ção do pecado, depois de aceitar a graça per- aos hábitos de obediência, e esses hábitos
doadora e transformadora de Deus é negar o compõem um caráter justo.
propósito dessa graça. Quem se recusa a per­ 17. Graças a Deus. Comparar com
mitir que a graça de Deus o conduza mais e Rm 7:25, que usa a mesma expressão grega.
mais à perfeita obediência à lei divina rejeita Outrora, escravos. Esta tradução lite­
a própria graça e vira as costas para a liber­ ral ista do grego parece dar a entender que
dade e a salvação. Paulo agradece a Deus o fato de os cristãos
Debaixo da lei. Literalmente, “sob a romanos terem estado sob a escravidão do
lei”, como no v. 14 (ver com. ali). pecado. Obviamente, não é o caso. Ao con­
De modo nenhum! Ver com. de Rm 3:4. trário, o apóstolo é grato porque, embora
16. Não sabeis [...]? Paulo ilustra sua tenham sido escravos do pecado, eles já
resposta à pergunta formulada no v. 15, refe­ tinham se tornado obedientes. Deve ser
rindo-se aos costumes da escravidão, fami­ ocasião de grande alegria e gratidão quando
liares a seus leitores. os pecadores são ganhos para a obediência

595
6:18 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

(cf. Lc 15:7, 23, 24). Se atribuíssemos tanto figuras da escravidão e da servidão eram ina­
valor à vida humana como o Céu o faz, have­ dequadas para descrever a relação do cristão
ría mais alegria entre nós quando os perdi­ com o Senhor, pois poderia sugerir um ser­
dos fossem encontrados e levados a Cristo. viço mecânico e forçado.
De coração. Este é o tipo de obediên­ Fraqueza da vossa carne. Ou, “vossa
cia que brota da fé em Cristo. E a resposta fragilidade humana”. “Carne” representa a
de amor e confiança. E a obediência sob a natureza humana em sua fraqueza física,
graça, em oposição à obediência legalista. mental e espiritual. Paulo parece explicar
Não forçada, mas disposta e sincera. que escolheu extrair sua ilustração da vida,
Forma de doutrina. Literalmente, “tipo considerando a falta de discernimento espi­
542

► de ensino” (sobre “forma” ou “tipo”, typos, ritual por parte dos crentes (cf. Hb 5:11-14).
ver com. de Rm 5:14). O significado que Ele talvez tivesse preferido descrever o rela­
parece mais adequado a esse contexto é o cionamento com Cristo em termos mais abs­
de “modelo”, “exemplo” (cf. Fp 3:17; lTs 1:7; tratos e estritamente espirituais, mas, como
2Ts 3:9; ITm 4:12; Tt 2:7). Paulo trata da todo bom professor, Paulo usou a ilustração
norma ou padrão da fé e do dever cristão mais adequada ao ambiente e à capacidade
em que os crentes tinham sido instruídos. de seus “alunos”.
A que fostes entregues. Pode parecer Escravidão da impureza. Ou seja,
mais normal falar de uma forma de doutrina escravos da impureza. O prazer aparente­
a ser entregue aos crentes (ver 2Pe 2:21; Jd 3). mente livre que surgia com o pecado, na rea­
Contudo, é possível que aqui Paulo prossiga lidade, era uma dura servidão.
em sua ilustração da transferência do peca­ Maldade. Do gr. anomia, “ilegalidade”.
dor para um novo senhor. Os crentes, que Esta é a definição de João para o pecado (ver
antes eram escravos do pecado, tornaram-se com. de ljo 3:4). “Impureza” e “ilegalidade”
obedientes de coração ao padrão de ensino descrevem adequadamente as características
ao qual foram entregues. do paganismo (cf. Rm 1:24-32; lPe 4:3, 4).
18. Uma vez libertados. Ou, “tendo Para a maldade. Submeter os mem­
sido postos em liberdade”, isto é, libertos do bros do eorpo à “impureza” e “ilegalidade”
domínio do pecado. resulta na prática habitual do pecado. A con­
Fostes feitos servos. Ou, “fostes escra­ descendência com o pecado é punida pelo
vizados”. A conversão significa mudança de abandono ao pecado (Rm 1:24, 26, 28).
senhorio. O crente é libertado da escravidão Contraste com o efeito de justiça, resultando
do pecado tirano e se torna escravo da justiça. em santificação.
Porém, a escravidão da justiça é realmente Servirem à justiça. Ver com. do v. 18.
a verdadeira liberdade. Aqueles que servem Paulo exorta os crentes a se dedicar tão ple­
ao pecado e a Satanás são escravos de seus namente à vida de retidão como tinham se
próprios impulsos e paixões que, por sua vez, dedicado anteriormente à vida de pecado.
estão sob o controle do maligno. Ao chamar Santificação. Do gr. hagiasmos, termo
as pessoas a servir à justiça, Deus lhes ofe­ traduzido como “santificação” (ICo 1:30;
rece a liberdade. “Obediência a Deus é liber­ lTs 4:3, 4; 2Ts 2:13; lPe 1:2). Hagiasmos é
dade do cativeiro do pecado, livramento das usado para descrever tanto o processo pelo
paixões e dos impulsos humanos” (CBV, 131). qual é obtida a santidade como seu estado
19. Como homem. Isto é, em termos resultante. A última condição é também
humanos conhecidos (comparar com Rm 3:5; indicada por hagiõsunê (ver Rm 1:4; 2Co 7:1;
G1 3:15). Evidentemente, ele sentia que as ITs 3:13). Ambos se baseiam no termo

596
ROM ANOS 6:23

gr. hagios, “santo”. Aqui, hagiasmos prova­ Morte. Ver com. do v. 23.
velmente denota o processo da santificação. 22. Libertados do pecado. Ou seja,
A santificação é um processo contínuo de da escravidão do pecado (ver com. do v. 18).
consagração (cf. Ef 4:12-15; 2Pe 1:5-10). É o Transformados em servos. Ou, “torna­
dia a dia do desenvolvimento harmonioso das dos escravos”. A mesma palavra grega é usada
faculdades físicas, mentais e espirituais, até no v. 18 (ver com. ali). Paulo não tinha vergo­
que a imagem de Deus, cm que foram ori­ nha dc se chamar escravo de Cristo (ver com.
ginalmente criadas, seja restaurada em nós de Rm 1:1). No entanto, em nosso serviço a
(ver Ed, 15, 16; GC, 470; CRA, 57). O propó­ Deus, não obedecemos porque estamos sob
sito de Deus no plano da salvação não é ape­ escravidão, mas porque O amamos (Jo 14:15),
nas nosso perdão ou justificação, mas nossa e Deus, por sua vez, na verdade não nos trata
restauração ou santificação. E propósito de como escravos, mas como filhos (G1 4:7).
Deus povoar a nova Terra de Deus com san­ Para a santificação. Ver com. do v. 19.
tos transformados. E é a essa experiência e Aquele que é “escravo” de Deus produz fru­
ao processo de transformação que o após- tos permanentes e altamente desejáveis, ou
l► tolo Paulo exorta os crentes a se dedicar de seja, o fruto do Espírito (G1 5:22). Esse ser­
corpo, mente e coração. viço significa o desenvolvimento de todos
20. Escravos do pecado. Ver com. do os poderes da mente, do corpo e do cora­
v. 6; cf. com. dos v. 17-19. ção (Rm 12:1, 2) e resulta em vida eterna
Isentos em relação à justiça. Ou seja, (cf. Rm 2:7; 5:21).
livres no que se refere à justiça. Não signi­ A vida eterna. Ver com. de Rm 6:23;
fica que estavam livres das reivindicações cf. Mt 25:46.
da justiça, mas que estavam inteiramente 23. Salário. Do gr. opsõnia. Esta não
dedicados ao pecado, como os antediluvia- é a palavra comum no NT para “salário”,
nos (Gn 6:5). “recompensa”, que é misthos (ver Lc 10:7;
21. Naquele tempo. O texto grego jo 4:36; Rm 4:4, etc., em que misthos é
introduz a passagem com a conjunção “por­ usado). Opsõnia vem de uma palavra que sig­
tanto”, a qual é omitida na ARA. A expres­ nifica “comida cozida”, especialmente carne
são “portanto” remete à escravidão do pecado ou peixe, juntamente com outra palavra que
mencionada no versículo anterior. Então, a significa “comprar”. Por isso, passou a signi­
passagem pode ser traduzida como: “Portanto, ficar “provisão”, “subsídio”, “soldo”, tais como
que fruto vocês tinham naquele momento, ou a “ração” dada aos soldados (ver Lc 3:14;
seja, durante sua servidão ao pecado?” iCo 9:7; 2Co 11:8). Mais tarde, foi usada
E possível concluir a pergunta com as para salários, ou ordenados em geral. E pos­
palavras “naquele tempo” e considerar “as sível, embora não seja certo, que Paulo
coisas de que, agora, vos envergonhais” estende aqui a metáfora do serviço militar
como resposta. A versão ARA não fornece (ver com. de Rm 6:13).
nenhuma resposta afirmativa, mas clara­ Morte. O pecado paga aos escravos
mente sugere que eles não tinham frutos, exatamente o que eles buscam. ‘A alma
pelo menos bons frutos. A última opção, tal­ que pecar, essa morrerá” (Ez 18:4). Visto
vez, deva ser a preferida. que, aqui, a morte é contrastada com a
Resultados. Sobre o sentido e o uso vida eterna, Paulo se refere principalmente
deste termo, ver com. de Rm 1:13. à morte eterna, a “segunda morte” (Ap
Colhestes. Ou, “estáveis tendo”; o grego 20:6, 14, 15; cf. GC, 544; PE, 51). Na des­
denota continuidade. truição final, os pecadores serão tratados

597
6:23 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

como merecem. Rejeitaram o oferecimento A vida eterna. O dom da vida eterna,


divino de graça e vida eterna e receberão os que Adão e Eva perderam por causa de sua
resultados de sua própria escolha (ver com. transgressão (ver com. de Rm 5:12), será res­
dc Rm 2:6; Ver DTN, 763, 764). taurado a todos os que estiverem dispostos a
Dom. Do gr. charisma, mesma palavra recebê-lo e se preparar para ele, dedicando
anteriormente traduzida como “dom gratuito” a vida ao serviço de Deus (Rm 2:7; 6:22;
(ver com. de Rm 5:15). “Dom” está em nítido cf. Ap 21:4; 22:2, 3).
contraste com o “salário”. Aquilo que o cristão Em Cristo Jesus. Ou, “em Jesus Cristo”
recebe é representado como um dom da graça (ver com. de Rm 6:11; cf. 2Tm 1:1). Cristo é
de Deus. Até o serviço e a obediência que o a “ressurreição e a vida” (Jo 11:25). E o autor

544
crente justificado e nascido de novo é capaz de da vida, que concede vida eterna a todos os «
prestar a Deus não são devidos a sua própria vir­ que têm fé nEle (Jo 6:40). O dom divino da
tude, mas são fruto do Espírito Santo. Nenhum vida eterna não é apenas concedido por meio
de nós pode conquistar a salvação. Nenhum de de Cristo, mas é em Cristo, sua fonte per­
nós merece redenção. Somos salvos pela graça manente e só pode ser recebido mediante a
mediante a fé como “o dom de Deus” (Ef 2:8; união com Ele, que é “a nossa vida” (Cl 3:4;
ver com. de Mt 20:15). cf. DTN, 786, 787).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

2-GC, 468 13-LA, 128; MJ, 55; T2, 239, 488, 551;
4 - CPPE, 258; Ev, 307, T5, 116 T3, 538
372; PE, 217; GC, 461; 15- T4, 295 23-AA, 519; PE, 220; FEC,
Tl, 20; T3, 365; T9, 20 16- MJ, 114; SL, 92; 234, 376; GC, 503, 540,
5 - T6, 98 Tl, 404; T2, 442; 544; MS, 180; PP, 61, 70,
II -TM, 147; T5, 436 T4, 105, 453, 607 341, 741; Tl, 543; T2, 210,
12-Te, 183; T2, 381; T4, 33 16-18 -T3, 82 286, 289; T3, 365, 475;
12, 13-T2, 454 22-CPPE, 329; TI, 289; T4, 11, 31, 363; T5, 730

Capítulo 7
1 Nenhuma lei tem poder sobre a pessoa após a morte. 4 O justificado está morto
para a lei. 7 No entanto, a lei não é pecado, mas 12 santa, justa, boa.
16 Mesmo assim o ser humano não cumpre os requisitos dela.

1 Porventura, ignorais, irmãos (pois falo aos homem; porém, se morrer o marido, estará
que conhecem a lei), que a lei tem domínio sobre livre da lei e não será adúltera se contrair novas
o homem toda a sua vida? núpcias.
2 Ora, a mulher casada está ligada pela lei 4 Assim, meus irmãos, também vós morres­
ao marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo tes relativamente à lei, por meio do corpo de
morrer, desobrigada ficará da lei conjugal. Cristo, para pertencerdes a outro, a saber, aquele
3 De sorte que será considerada adúltera que ressuscitou dentre os mortos, a fim dc que
se, vivendo ainda o marido, unir-se com outro frutifiquemos para Deus.

598
ROM ANOS 7:1

5 Porque, quando vivíamos segundo a carne, 14 Porque bem sabemos que a lei é espiri­
as paixões pecaminosas postas em realce pela lei tual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravi­
operavam em nossos membros, a fim de frutifi­ dão do pecado.
carem para a morte. 15 Porque nem mesmo compreendo o meu
6 Agora, porém, libertados da lei, estamos próprio modo de agir, pois não faço o que prefi­
mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de ro, e sim o que detesto.
modo que servimos em novidade de espírito e 16 Ora, se faço o que não quero, consinto
não na caducidade da letra. com a lei, que é boa.
7 Que diremos, pois? E a lei pecado? De 17 Neste caso, quem faz isto já não sou eu,
modo nenhum! Mas eu não teria conhecido o mas o pecado que habita em mim.
pecado, senão por intermédio da lei; pois não 18 Porque eu sei que em mim, isto é, na minha
teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: carne, não habita bem nenhum, pois o querer o
Não cobiçarás. bem está em mim; não, porém, o cfetuá-lo.
8 Mas o pecado, tomando ocasião pelo man­ 19 Porque não faço o bem que prefiro, mas o
damento, despertou em mim toda sorte de con- mal que não quero, esse faço.
cupiscência; porque, sem lei, está morto o pecado. 20 Mas, se eu faço o que não quero, já não sou -«
9 Outrora, sem a lei, eu vivia; mas, sobre­ eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.
vindo o preceito, reviveu o pecado, e eu morri. 21 Então, ao querer fazer o bem, encontro a
10 E o mandamento que me fora para vida, lei de que o mal reside em mim.
verifiquei que este mesmo se me tornou para 22 Porque, no tocante ao homem interior,
morte. tenho prazer na lei de Deus;
11 Porque o pecado, prevalecendo-se do man­ 23 mas vejo, nos meus membros, outra lei
damento, pelo mesmo mandamento, me enga­ que, guerreando contra a lei da minha mente,
nou e me matou. me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos
12 Por conseguinte, a lei é santa; e o manda­ meus membros.
mento, santo, e justo, e bom. 24 Desventurado homem que sou! Quem me
13 Acaso o bom se me tornou em morte? De livrará do corpo desta morte?
modo nenhum! Pelo contrário, o pecado, para 25 Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso
revelar-se como pecado, por meio de uma coisa Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo,
boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo man­ com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas,
damento, se mostrasse sobremaneira maligno. segundo a carne, da lei do pecado.

1. Porventura, ignorais [...]? Lite­ lei para a graça e quais deveriam ser os resul­
ralmente, “ou vocês são ignorantes?” (ver tados dessa mudança. O cap. 7 amplia o sen­
com. de Rm 6:3). A partícula “ou” sugere tido de sua declaração fundamental: “pois
uma alternativa. Paulo, na verdade, diz: não estais debaixo da lei, e sim da graça”
“Ou vocês admitem a veracidade da minha (Rm 6:14). Para explicar isso, eleja se refe­
afirmação de que sua morte para o pecado riu ao batismo e à relação entre escravos e
(cf. Rm 6:11) significa que vocês não mais senhores. Então, ele apresenta uma ilustra­
estão sob a lei (cf. Rm 6:14), ou vocês devem ção, usando a lei do casamento.
ser ignorantes sobre a natureza da lei, com a Conhecem a lei. Literalmente, “conhe­
qual eu acreditava que vocês estavam bem cem lei”. A ausência do artigo “a” antes de “lei"
familiarizados.” Ele apresenta outra ilustra­ sugere que Paulo está se referindo ao prin­
ção para mostrar como é feita a transição da cípio da lei em geral (ver com. de Rm 2:12).

599
7:2 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Seu raciocínio é que a lei não pode processar Está ligada pela lei ao marido. Ou
ou punir alguém depois que ele está morto. seja, a lei referente ao marido, as regras da lei
No contexto deste capítulo, no entanto, mais que tratam do casamento (comparar com a
tarde, se torna evidente que Paulo tem em expressão “a lei do leproso”, Lv 14:2). Quando
vista a lei do AT (ver Rm 7:7). o marido morre, a mulher é dispensada da
Tem domínio. Paulo já tinha personi­ “lei do marido”, que define sua relação jurí- ^
ficado a “morte” e o “pecado” como “tendo dica com ele e proíbe o casamento dela com
domínio”, ou “governo”, sobre o pecador outro, enquanto o marido vive.
(Rm 5:14, 17; 6:12). Para o apóstolo, estar sob Ele vive. A cláusula diz, literalmente:
o domínio da lei é equivalente a estar sob o “para o marido vivo” (comparar com lCo 7:39).
domínio do pecado (ver com. de Rm 6:14). Desobrigada. Do gr. katargeõ (ver com.
A razão para isto é que a lei revela meramente de Rm 3:3). Aqui, a definição “libertar de” é
o padrão do direito. Não pode remover a culpa apropriada. Com a morte do marido, o status
nem o domínio do pecado. Ela exige com­ da mulher como esposa é anulado e abolido.
pleta obediência a seus preceitos, mas não 3. Considerada. Do gr. chrêmatizõ, que
oferece ao pecador o poder capacitador para pode sugerir que a mulher é formalmente
tanto. Por outro lado, a graça faz aquilo que considerada ou tida como adúltera. Assim,
é impossível à lei. A graça tanto anula a culpa ela estaria sujeita à punição mais grave sob
do pecado como confere poder para vencê-lo. a lei do AT (ver Lv 20:10).
Assim, Paulo considera o fato de estar sob a Da lei. Ou seja, a lei relativa ao marido
lei como estar sob o pecado, e morrer para (ver com. do v. 2).
a lei como sendo equivalente a morrer para o 4. Assim. Paulo aplica a ilustração da lei
pecado. Seu propósito neste capítulo é enfa­ do casamento à experiência do cristão. Seu
tizar que, devido ao pecado e à fraqueza da principal argumento é que a morte dissolve
carne pecaminosa (Rm 8:3), a lei é incapaz a obrigação legal. Portanto, assim como a
de produzir salvação em favor do pecador. morte liberta a esposa das reivindicações da
Homem. Do gr. anthrõpos, “humani­ lei matrimonial, para que ela possa se casar
dade” em geral (ver Mt 8:20; Mc 2:27, etc.), com outro, da mesma forma a crucifixão do
ou pessoas de ambos os sexos (ver Mt 15:11; cristão com Cristo o liberta do domínio do
Jo 3:4; 16:21, etc.). A palavra “homem”, que pecado e da lei, para que ele possa entrar
se distingue do termo “mulher”, é aner (Mc em nova união espiritual com o Salvador
10:2; Lc 1:27, etc.). ressuscitado.
Toda a sua vida. E possível traduzir do Morrestes. Literalmente, “fostes conde­
grego “sua vida”, significando: “enquanto a lei nados à morte”, referindo-se à crucifixão do
está em vigor”. No entanto, “toda a sua vida” “velho homem” com Cristo (Rm 6:6). Na ilus­
é a tradução mais natural e adequada ao con­ tração, foi a morte do marido que libertou da
texto. Paulo se prepara para aplicar o princí­ lei a mulher. Na aplicação, é a morte do velho
pio de que a lei só pode exigir a obediência homem pecador que liberta o crente da con­
de alguém enquanto este vive. denação e do domínio da lei e o libera para se
2. Casada. Do gr. hupandros, literal­ juntar a Cristo. Como em Romanos 6, Paulo
mente, “debaixo de um marido”, isto é, sujeita vê o eristão como se ele tivesse uma vida
ao marido. Esta palavra ocorre somente aqui dupla: a velha vida condenada pelo pecado,
no NT. É encontrada na LXX (Nm 5:20, 29; que ele abandona com Cristo, e a nova vida
Pv 6:24, 29) e pode ser traduzida como “a de aceitação e santidade, para a qual ele res­
mulher casada”. suscita com Cristo (ver com. do v. 11).

600
ROMANOS 7:6

Relativamente à lei. A morte do velho essas paixões, identificando-as como peca­


homem tem como resultado a libertação dos. Ao fazer isso, a lei presta um serviço
da escravidão autoimposta de tentar obter vital preliminar para a salvação dos peca­
a salvação pelas obras da lei (ver com. de dores. Portanto, é um grande erro culpar ou
Rm 6:14). condenar a lei por alcançar esse propósito
Por meio do corpo de Cristo. Isto é, necessário.
pela morte sacrifical de Cristo (cf. Ef 2:15; Paulo não minimiza a necessidade ou a
Cl 1:22; lPe 2:24). O crente é batizado nessa importância da lei moral. Ao contrário, sua
morte (Rm 6:4) e, participando da morte de teologia, na verdade, serve para exaltar a lei.
Cristo para o pecado e a lei (cap. 6), pode Uma de suas principais preocupações é que
considerar que seu velho “eu” morreu para as pessoas devem compreender a correta
as coisas de que ele já foi cativo. Aquele que relação que existe entre a lei e o evangelho.
aceita a Cristo, por assim dizer, toma seu Sua grande mensagem é que os pecadores
lugar com Ele na cruz, e ali seu antigo “eu” não podem depender da lei, nem mesmo da
é crucificado. lei de Deus, para realizar o que pode ser feito
Para pertencerdes a outro. Literal­ unicamente pela graça justificadora e santi-
mente, “ser para outro", embora “casar-se” ficadora de Deus por meio de Jesus Cristo.
seja, evidentemente, o significado correto A compreensão dessa verdade fundamental
neste contexto. A comparação da união en­ da salvação não diminui o respeito pela lei
tre Cristo e os crentes com o casamento não de Deus, mas, sim, tem um efeito precisa­
é desconhecida para Paulo (ver 2Co 11:2; mente oposto sobre aqueles que têm fé (ver
com. de Rm 3:31). *

547
Ef 5:25, 28, 29; cf. Jr 3:14).
Aquele. Isto é, a Cristo. Operavam. Ou, “estavam ativas” (com­
Frutifiquemos. O simbolismo deste parar com Rm 6:6).
capítulo se assemelha de perto ao de Em nossos membros. Ou seja, nos
Romanos 6. O “velho homem” é o primeiro órgãos e faculdades do corpo (ver com. de
marido. A crucifixão do “velho homem” Rm 6:13).
(Rm 6:6) é a morte do marido. A ressurrei­ Frutificarem. Comparar com Tg 1:15.
ção para uma nova vida (Rm 6:5, 11) é o novo 6. Libertados. Do gr. katargeõ (ver
casamento. Em cada caso, o resultado final com. de Rm 3:3). A palavra é usada em Ro­
é a produção de frutos para Deus, frutos de manos 7:2 para descrever o desligamento
uma vida reformada (Rm 6:22). do vínculo matrimonial, deixando a mulher
5. Segundo a carne. Ou seja, unidos ao desobrigada em relação ao marido falecido.
velho homem, no corpo do pecado (Rm 6:6), “Libertados da lei” equivale a não estar “sob
obedecendo aos impulsos da natureza infe­ a lei” (sobre o significado desta expressão,
rior. A frase descreve a vida não regenerada, ver com. de Rm 6:14).
cujo principal objetivo é a satisfação dos ape­ Estamos mortos. Paulo reafirma o meio
tites e sentidos. Ela deve ser contrastada com pelo qual somos libertos da lei. Isso é con­
a vida “no Espírito” (Rm 8:9). seguido pela morte do velho homem peca­
Pela lei. Literal mente, “por meio da lei”; minoso (v 4), assim como a morte do marido
Paulo explica isso nos versículos a seguir. dava liberdade à mulher (v 2). Quando o
Seu raciocínio não é que a lei seja a fonte nosso velho homem foi crucificado com
dessas paixões pecaminosas, mas que, Cristo (Rm 6:6), à semelhança da esposa
devido à natureza pecaminosa e rebelde do na ilustração, morremos para a lei (Rm 7:4),
ser humano, a lei serviu para revelar (v. 7) que exercia domínio opressivo sobre nós por

601
7:7 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

causa da infeliz união entre nós e nossa velha se prepara para resolver outro possível mal­
natureza pecaminosa (ver com. de Rm 6:14). entendido sobre o que havia dito sobre a rela­
De modo que servimos. O enunciado ção entre a lei e o pecado.
pode ser entendido como expressão de fina­ E a lei pecado? Paulo havia afirmado
lidade (cf. v. 4) ou de resultado (cf. Rm 6:22). (v. 5) que o pecado faz uso da lei para trazer
Em novidade de espírito. Os crentes a destruição do pecador. Será que isso signi­
que morreram para o pecado e ressuscitaram fica que a lei em si é pecaminosa, cuja única
em novidade de vida (Rm 6:2, 4) passaram finalidade é tornar as pessoas piores? Paulo
a prestar um serviço novo e espiritual. Sua responde explicando que o mal não está na
obediência à lei de Deus não é mais legalista lei, mas no ser humano. Embora seja verdade
e mecânica, como se a justiça consistisse que a lei é a “ocasião” para o pecado (v. 8),
apenas no cumprimento de um conjunto no entanto, o próprio mandamento é “santo,
de regras exteriores de conduta, sem qual­ e justo e bom” (v. 12).
quer referência à condição do coração. Pela De modo nenhum! Ver com. de Rm 3:4.
união com o Salvador ressuscitado, os cren­ Mas. Do gr. alia, geralmente traduzido
tes aprenderam uma nova forma de obe­ como “mas”, e, aqui, possivelmente, equiva­
diência espiritual, verdadeira e sincera. Esse lente a “ao contrário” (ver ICo 12:22). Ou
serviço e essa adoração somente são possí­ seja, longe de a lei ser pecado, pelo con­
veis para aqueles que nasceram de novo, do trário, ela expõe o pecado. Alia também
Espírito Santo, e vivem sob Sua influência. pode ser entendido como “contudo” ou “no
Paulo explica isso melhor no cap. 8. entanto” (cf. Rm 5:14). Ou seja, mesmo que
Na caducidade da letra. Literalmente, se negue que a lei seja pecado, não obstante,
“na velhice da letra”. Isso descreve a obediên­ se não fosse pela lei, eu não teria conhecido
cia legalista dos que tentam assegurar a sal­ o pecado. Qualquer dessas interpretações é
vação pelas obras da lei. Era assim o serviço apropriada no raciocínio de Paulo.
dos fariseus, que tinham o cuidado de “dar o Eu não teria conhecido o pecado.
dízimo da hortelã, do endro e do cominho”, Visto que pecado é “iniquidade” ou “trans­
mas, ao mesmo tempo, omitiam as coisas gressão da lei” (ver com. de Ijo 3:4), é lógico
“mais importantes da Lei: a justiça, a mise­ que o efeito da lei na experiência do ser
ricórdia e a fé” (ver com. de Mt 23:23). Essas humano deve ser revelar a ele seu pecado
548

“coisas mais importantes” eram os assuntos em sua verdadeira natureza. A atitude ilógica *
do coração e do espírito. O serviço “na caduci­ para com a lei é considerá-la inimiga por ter
dade da letra” só pode conduzir ao pecado e à feito essa exposição verdadeira. O espelho
morte (Rm 7:5). Mas o evangelho traz o ofere­ não é inimigo de alguém porque lhe revela
cimento de Deus para capacitar as pessoas a sua feição natural. Nem o médico é inimigo
prestar serviço espiritual de coração. O novo do paciente porque lhe revela a doença.
nascimento do Espírito Santo significa a cria­ O médico não é a causa da doença, nem o
ção de um coração puro e a renovação de espelho é a causa da aparência.
um espírito reto (ver SI 51:10), de modo que, Por intermédio da lei. Ver com. de
a partir de então, o crente não mais serve a Rm 2:12.
Deus por um sentimento de escravidão legal c Cobiça. Do gr. epithumia, “desejo arden­
por medo, mas em um novo espírito de liber­ te”, às vezes, por coisas adequadas (Lc 22:15;
dade e amor (cf. Jo 4:23; 6:63; 2Co 3:6). Fp 1:23) mas, geralmente, por coisas proi­
7. Que diremos, pois? Uma frase bidas (Rm 13:14; Tg 1:14, 15, etc.). A pa­
característica (ver com. de Rm 4:1). Paulo lavra para “cobiçar” no final do versículo é

602
ROMANOS 7:8

epithumeõ, forma verbal de epithumia. A re­ que nos envolve e assedia (Hb 12:1), nos
lação entre as duas palavras pode ser ilustra­ reduz à escravidão (Rm 6:12), nos sedu­
da pela seguinte tradução: “Eu não sabería o zindo e, assim, nos conduzindo à morte
que é a cobiça se a lei não dissera: Não cobi­ (Tg 1:14, 15). Em outras palavras, o pecado
çarás” (ver com. de Rm 7:8, em que epithu- é representado como tudo que Satanás, o
mia é “concupiscência”). arqui-inimigo da humanidade, procura rea­
Não dissera. Referência ao décimo lizar, tentando-nos. Satanás usa a lei como
mandamento (Ex 20:17). ocasião para tentar e seduzir a humanidade
Não cobiçarás. E significativo que à desobediência, a fim de sujeitá-la à conde­
Paulo tenha escolhido o décimo manda­ nação e à morte (ver com. de Rm 7:11).
mento, pois este não é apenas uma amos­ Ocasião. Do gr. aphormê, “oportuni­
tra do restante, mas contém o princípio dade”, “incentivo”. A palavra é usada apenas
subjacente a todo pecado (ver PP, 309). por Paulo no NT (Rm 7:11; 2Co 5:12; 11:12;
O uso desse mandamento neste contexto G1 5:13; lTm 5:14).
revela um significado mais profundo para Mandamento. Um único preceito, neste
ele do que as palavras podem expressar caso, o décimo mandamento, em contraste
literalmente. Ele viu nela a proibição não com “lei”, que se refere a todo o código.
só do desejo de certas coisas menciona­ A expressão “pelo mandamento” pode
das especificamente no mandamento, mas ser conectada com “tomando ocasião”, o que
também do desejo de qualquer coisa proi­ significa que o pecado tirou vantagem do
bida por Deus. Em outras palavras, a lei mandamento. Ou pode ser conectada com
proíbe qualquer tipo de desejo egoísta e “despertou em mim”, significando o que o
pecaminoso, e era isso que Paulo não teria pecado operou em mim com a ajuda do man­
conhecido “senão por intermédio da lei”. damento. O segundo sentido pode ser compa­
Ele descobriu que a verdadeira obediên­ rado com a “morte operou em mim por aquilo
cia aos mandamentos de Deus não era uma que é bom” (v. 13). Em ambos os casos, o sig­
simples conformidade exterior à letra da nificado é o mesmo.
lei, mas uma questão de mente, coração Despertou. Do gr. katergazomai, “tra­
e espírito (v. 14; cf. Rm 2:29). Por outro balhar para um acabamento”, “realizar” (ver
lado, o pecado não é a mera violação exte­ também Rm 2:9; ICo 5:3; 2Co 7:10). É usado
rior da letra da lei, mas uma condição pro­ tanto para realizar o bem como o mal (cf.
funda de mente, ânimo, hábito e caráter, Rm 7:15, 17, 18, 20).
dos quais brotam os atos pecaminosos (ver Concupiscência. Do gr. epithumia, tra­
Mt 5:28; ljo 3:15). No entanto, o efeito ini­ duzida como “cobiça” no v. 7 (ver com. ali).
cial dessa profunda descoberta no cora­ Paulo afirma que o mandamento para não
ção regenerado de Paulo foi despertar sua cobiçar o fez cobiçar tudo o mais. Essa é a
natureza corrupta para a oposição pecami­ reação natural do coração não regenerado
nosa (Rm 7:8). pela vontade expressa de Deus. O fato de
8. Pecado. Aqui há uma personificação que algo foi proibido, muitas vezes, parece
549

do pecado, como um princípio e poder anta­ fazer com que seja mais desejável e provo- a
gônico à lei de Deus (ver com. de Rm 5:12). que as más paixões de um coração rebelde
O pecado é representado no NT como um (cf. Pv 9:17).
inimigo que esta sempre à espreita para pro­ O pecador pode muitas vezes parecer
vocar nossa ruína, e aproveita cada oportu­ calmo e tranquilo, em paz consigo mesmo e
nidade para isso. E descrito como um poder com o mundo, mas quando a lei de Deus é

603
7:9 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

apresentada à sua consciência, ele não raro Sem lei. Ou, “além da lei” (ver com. de
fica irritado e até mesmo furioso. Ele rejeita Rm 2:12).
sua autoridade, mas a consciência lhe diz Está morto o pecado. Paulo já suge­
que ela está certa. Ele tenta descartá-la, riu que o pecado está "morto” sem a lei
mas treme sob seu poder. Para mostrar inde­ (Rm 4:15; 5:13). Evidentemente, por “morto”,
pendência e determinação para o pecado, ele não quer dizer que ele não exista, mas que
mergulha na iniquidade e se torna um peca­ está inativo, sem vida (comparar com “a fé
dor mais perverso e obstinado. Ele insiste sem obras é morta” [Tg 2:26]). O pecado rei­
numa luta pela vitória, e, na controvérsia nou desde a transgressão de Adão (Rm 5:12,
com Deus, resolve não ser vencido. Assim, 21), mas a total malignidade e o poder do
muitas vezes, acontece que a pessoa é mais pecado ficam expostos apenas quando a lei
profana, blasfema e desesperada quando se revela as restrições e proibições. Então, o
encontra sob a convicção do pecado do que pecado é mostrado como rebelião contra a
em outras circunstâncias. Por esse motivo, às vontade de Deus, e a natureza humana não
vezes, quando a pessoa se torna particular­ regenerada é incitada à oposição e atividade
mente violenta e abusiva em sua oposição a pecaminosa.
Deus, isso pode ser uma indicação clara de 9. Outrora [...] sem a lei. O período
que está sob essa convicção. anterior da vida de Paulo, ao qual ele se
Em sua própria experiência anterior, refere aqui, tem sido objeto de muita dis­
Paulo tinha resistido à vontade de Deus cussão. Parece evidente, pelo contexto, no
que lhe fora revelada. Depois do martírio entanto, que ele fala de antes de se tornar
de Estêvão, ele ficou irritado com sua con­ consciente da verdadeira natureza, espiri­
vicção íntima de que Estêvão estava com a tualidade e extensão da lei divina. Foi um
razão e, para sufocá-la, mergulhou com zelo período em que ele se considerava justo e,
frenético em uma campanha de perseguição, no que se refere aos atos externos, parecia
terror e morte (ver A A, 112, 113). Procurou obedecer à lei. Mas era uma justiça lega­
“recalcitrar contra os aguilhões” da convic­ lista, da mesma da qual o jovem rico se jac­
ção e da consciência esclarecida (At 26:14). tava, quando colocado face a face com os
Seu preconceito e orgulho de popularidade mandamentos: “Tudo isso tenho observado;
o levaram a se rebelar contra Deus, até que que me falta ainda?” (Mt 19:20). Da mesma
se tornou instrumento nas mãos de Satanás forma, Paulo poderia alegar que, “segundo
(ver A A, 101, 102). Foi assim que a revela­ a justiça que há na lei”, ele era “irrepreen­
ção da vontade de Deus despertou a natu­ sível” (Fp 3:6; cf. At 26:5; comparar com
reza pecaminosa de Paulo para um pecado a oração prepotente, hipócrita do fariseu,
ainda maior, ate que, finalmente, foi levado Lc 18:11, 12). Mas, quando Paulo percebeu
ao ponto em que se dispôs a reconhecer o caráter espiritual da lei, o pecado surgiu
seu pecado e a necessidade de um Salvador em sua verdadeira repugnância. Viu-se como
(At 9:6; ver AA, 119). um transgressor, e sua autoestima se desva­
A experiência de Paulo é uma clara ilus­ neceu (ver CC, 29, 30).
tração do fato de que a lei não é capaz de Eu vivia. Paulo se refere à própria expe­
erradicar a rebeldia e o pecado. Seu efeito riência, mas, por meio dela, ele representa a
pode ser exatamente o oposto. Só quando de todos os não convertidos que dependem
Paulo ficou frente a frente com Cristo, ele da própria justiça.
encontrou a libertação do poder e da conde­ Sobrevindo o preceito. Ou seja, quando
nação do pecado. o significado espiritual do mandamento

604
ROM ANOS 7:10

“Não cobiçarás” (v. 7), foi levado à sua mente maus desejos (v. 8). Assim, ele se conscien­
e consciência. Paulo viu nessa proibição de tizou, no sentido mais amplo, de que era um
todo desejo pecaminoso o espírito de toda pecador e descobriu que não tinha qualquer
a lei, e quando esta chegou a ele como a esperança de vida (Rm 6:21, 23).
palavra de Deus, viva e eficaz, e mais cor­ 10. E o mandamento. Literalmente,
tante do que qualquer espada de dois gumes “o mandamento aquele para a vida, este foi
(Hb 4:12), a sua complacente justiça própria encontrado para mim para a morte.”
foi subitamente abalada. Que me fora para vida. A promessa de
Reviveu o pecado. Paulo não quer vida acompanhou a outorga das leis de Deus
dizer aqui que antes, quando sobreveio o a Tsrael (Lv 18:5; Dt 5:33; Ez 18:9, 21; 20:11,
mandamento, o pecado, aqui personifi­ 13, 21; cf. Mt 19:17). Não há nada arbitrário
cado como uma criatura repugnante, tinha nisso. As leis de Deus para o nosso bem-estar
estado inativo em sua vida, mas que ele não físico, mental e espiritual foram todas con­
o havia percebido, nem sua verdadeira natu­ cedidas para nosso bem. A vida e a prosperi­
reza nem suas consequências fatais (v. 13). dade, tanto na época atual como nos séculos
Na verdade, o pecado tinha estado sem opo­ vindouros, dependem da perfeita conformi­
sição no controle de sua vida (v. 5). Mas dade com as leis imutáveis de Deus.
a vinda do “mandamento” desafiou a pre­ Verifiquei. Literalmente, “isso foi encon­
sença do pecado e de seu direito de contro­ trado por mim”. Ou seja, o mandamento
lar a vida. Então, o pecado se ergueu para foi encontrado. A repetição do sujeito com
manter sua autoridade contestada. Em toda a palavra “esse mesmo” (ARA), acrescenta
a sua malignidade e força, ele surgiu em seu ênfase à estranha incoerência expressa neste
verdadeiro caráter, como um enganador, ini­ versículo. O próprio mandamento, cuja
migo e assassino. observância Paulo estava contando para a
Quando e como Paulo começou a sen­ salvação, ele finalmente entendeu que só
tir o poder da condenação da lei, ele não poderia condená-lo à morte.
informa. No entanto, sabemos o suficiente Este é um versículo chave no raciocínio
sobre seus primeiros anos para ter uma ideia de Paulo de que os pecadores não devem
de sua experiência com a lei antes da con­ depender da lei para a salvação. Paulo
versão. Como um fariseu bem estudado, explica claramente e ilustra, a partir da pró­
vivendo de acordo com a mais severa seita de pria experiência, que a hipócrita dependên­
sua religião, ele tinha tentado, com esforço cia da lei é um grave equívoco a respeito
intenso, mas inútil, satisfazer pela observân­ da própria lei e só pode levar à descoberta
cia exterior às demandas de uma lei santa e expressa neste versículo. A lei de Deus apre­
perscrutadora. Mas a serenidade e o amor senta um padrão espiritual tão elevado que
perdoador apresentados por Estêvão em seu nenhum mortal pecador consegue atin­
martírio tocaram profundamente a mente de gir pelos próprios esforços. Ele está diante
Paulo e despertaram sua consciência para somente de culpa e condenação. Porém,
alguma noção de que a obediência à lei era feliz é a pessoa que percebe seu desamparo
mais do que uma questão exterior (ver com. e necessidade e se volta para o Salvador, em
do v. 8). quem unicamente pode encontrar justiça e
Eu morri. Quando Paulo compreendeu salvação (G1 3:24).
a natureza espiritual da lei, o novo conheci­ O grande erro de muitos judeus era
mento só serviu para acusá-lo como trans­ o entendimento sobre a função da lei em
gressor e despertar nele todos os tipos de um mundo pecaminoso. Em seu orgulho e

605
7:11 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

justificação própria, não estavam dispostos a à transgressão. O engano do pecado con­


reconhecer sua culpa perante a lei e a inca­ siste em apresentar o objeto de desejo peca­
pacidade de viver de acordo com os precei­ minoso como uma coisa boa. No entanto,
tos dela. Assim, não viam a necessidade do depois que é obtido, ele se revela como um
Salvador. Dedicavam-se ao estudo diligente mal (Tg 1:14, 15; cf. Hb 3:13, 17). Satanás
das Escrituras, acreditando que na lei encon­ insistiu que, comendo do fruto proibido,
trariam vida, não condenação. Não queriam Eva atingiría uma esfera mais elevada de
ir a Cristo para obter justiça e vida (jo 5:39, existência e obteria um conhecimento mais
40; ver com. de Ez 16:60). amplo (ver PP, 54). Dessa forma enganosa,
Para morte. Pela lei, Paulo obteve o Satanás usou o mandamento como uma pro­
conhecimento do pecado (v. 7-9; cf. Rm 3:20), vocação para o pecado. E quando seu mau
e “o salário do pecado é a morte" (Rm 6:23). propósito tinha sido realizado, ele usou o
11. Porque o pecado. A expressão mesmo mandamento, como forma de con­
“porque” introduz uma explicação do v. 10. denação. Pois Satanás não é só o tentador
A primeira parte do versículo é semelhante do ser humano, mas também é seu acusador
ao v. 8, mas a ordem diferente das palavras (Ap 12:10; cf. Jó 1:9-11; 2:4, 5). Assim, Eva
em grego dá ênfase ao fato de que não foi o descobriu, para sua amarga tristeza, que o
mandamento, mas o pecado, que enganou que ela tinha desejado como fonte de prazer
e “me matou”. O pecado é novamente per­ trouxe apenas condenação e morte.
sonificado e representado como o exercício Nenhum ser no universo está mais ilu­
do poder de seduzir e destruir, que normal- dido do que um pecador quando cede ao
i* mente é atribuído a Satanás. desejo proibido (ver Pv 7:21-23).
Pelo mesmo mandamento. Estas E me matou. Comparar com “eu morri”
palavras podem estar conectadas a “preva­ (v. 9). O mandamento, embora em si mesmo
lecendo-se” ou a “me enganou” (cf. com. do seja santo e designado para trazer vida, tor-
v. 8). As palavras seguintes: “e me matou” nou-se ocasião não só do pecado, mas tam­
podem indicar que a segunda ligação é a bém da morte, como consequência. E tudo
preferida. A passagem, então, significaria: isso aconteceu por engano. O objeto de
“Porque o pecado, tomando ocasião, me desejo não era muito bom, mas a luxúria e a
enganou pelo mandamento.” A barreira que cobiça inspiradas pelo tentador fizeram que
a lei erige contra o pecado é tomada como parecesse assim. Um grande propósito do
ocasião para sugerir a prática do pecado. poder transformador da graça de Deus é dis­
Enganou. Do gr. exapataõ, que signi­ sipar essa ilusão destruidora, para levar as
fica, basicamente, “fazer alguém perder o pessoas de volta à verdadeira visão das coi­
caminho”. Esta expressão é usada no NT sas e, assim, à vida e paz com Deus.
somente por Paulo (cf. Rm 16:18; lCo 3:18; 12. Por conseguinte. Isto introduz uma
2Co 11:3; 2Ts 2:3). No jardim do Éden, conclusão baseada na discussão dos v. 7 a
o pecado se aproveitou do mandamento: 11 e uma resposta à pergunta do v. 7: “E a
“Dele não comereis, nem tocareis nele, para lei pecado?”
que não morrais” (Gn 3:3), para incitar o A lei. O artigo também ocorre no grego
desejo do mal. Diante da árvore proibida, (ver com. de Rm 2:12). Como em Romanos
Eva se perguntou por que Deus havia retido 7:9, Paulo pode ter usado o termo “lei” para
deles o seu fruto (ver PP, 54). Essa foi a opor­ se referir a todo o código, e o termo “o man­
tunidade de Satanás, e ele usou a proibi­ damento”, para se referir a um preceito espe­
ção divina para enganar Eva, levando-a cífico da lei.

606
ROMANOS 7:13

É santa. Longe de a lei ser pecado (v. 7), senão vida e bênção, agora e por toda a eter­
ela é santa e pura. Como revelação do cará­ nidade (ver com. do v. 10). Se obedecido,
ter de seu Autor e expressão de Sua mente promoverá justiça e felicidade em todos os
e vontade, a lei de Deus não pode ser nada lugares (ver SI 19:7-11).
além de verdadeira, justa e santa. 13. O bom [...] se tornou em morte?
E o mandamento, santo. Paulo afir­ A primeira parte do versículo diz, literal­
mou primeiramente a santidade de toda a lei. mente: “Será que o que é bom, então, se
Então, ele enfatiza, mais especificamente, tornou em morte para mim?” Em outras
a santidade, a justiça e a bondade do man­ palavras, será que a culpa pela minha morte
damento “Não cobiçarás”. Provavelmente, a está na lei que é boa? Paulo responde à per­
ênfase se deve ao fato de que esse manda­ gunta, repetindo que a culpa não estava na
mento particular, foi descrito nos v. 7 a 11 lei, mas em si mesmo e em suas inclinações
como sendo a ocasião especial para o aumento pecaminosas.
do conhecimento e da atividade do pecado. De modo nenhum! Ver com. de Rm 3:4.
O décimo mandamento, como os demais, A lei não produz morte mais do que o pecado
é uma expressão da santa vontade de Deus e o laz.
proíbe os desejos impuros e profanos. A san­ Pelo contrário, o pecado. Depois
tidade do mandamento não é afetada pelo desta frase, as palavras: “causou-me a morte”
fato de ele revelar o pecado (v. 7-9), expondo precisam ser acrescentadas. O raciocínio de
a condição de condenação e morte do peca­ Paulo é claro na tradução NTLH: “Será que
dor. A falha não está no mandamento, mas o que é bom me levou à morte? E claro que
no pecador, que, em sua fraqueza e pecami- não! Foi o pecado...”
nosidade, é incapaz de viver de acordo com Para revelar-se como pecado. Ou, “a
o elevado padrão de pureza e santidade que fim de se manifestar como pecado”, isto é,
a lei corretamente exige. para que possa ser visto em sua verdadeira
Justo. O mandamento é justo e reto em luz como pecado.
suas exigências. Estabelece o padrão de um Causou-me a morte. Ou, “operou a
caráter justo. E, apesar das acusações de morte para mim”. A verdadeira natureza do
Satanás, não exige obediência que não possa pecado torna evidente como ele usa o que
ser prestada pelos seres humanos (ver com. é bom para causar o mal e a morte. Toma
de Mt 5:48; ver AA, 531; DTN, 24, 309). aquilo que é a revelação do caráter e da von­
A própria vida de obediência de Jesus deu tade de Deus, que tem o propósito de ser­
suporte à justiça das reivindicações da lei de vir como padrão de santidade, e usa para
► Deus. Provou que a lei poderia ser observada aumentar a culpa e a condenação dos seres
e demonstrou a excelência do caráter que a humanos (v. 8-11). O propósito de Deus em
obediência desenvolver ia. Todos os que obe­ permitir que o pecado produzisse morte
decem como Jesus fez declaram igualmente pela lei era que o pecado, ao perverter o que
que a lei c “santa, e justa, e boa”. Por outro é bom, se expusesse e se apresentasse em
lado, todos os que violam os mandamentos toda a sua pecaminosidade e todo engano
defendem a pretensão de Satanás de que a (ver PP, 42, 43).
lei é injusta e não pode ser obedecida (ver Sobremaneira maligno. Literalmente,
com. de Rm 3:26; ver DTN, 29). “pecaminoso de acordo com o excesso”.
Bom. Do gr. agathos, bom em sentido O termo grego para “excesso” é hyperbolê, a
moral (cf. com. do v. 16). O mandamento partir do qual é derivada a palavra em por­
tem o objetivo de nada trazer ao ser humano tuguês “hipérbole” (sobre os usos que Paulo

607
7:14 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

faz do termo, ver ICo 12:31; 2Co 1:8; 4:7, 17; de Paulo antes ou depois de sua conversão.
12:7; C.1 1:13). O apóstolo já havia explieado Parece evidente que Paulo fala de sua luta
como a lei serviu para revelar a enormidade com o pecado (cf. v. 7-11; CC, 19; T3, 475).
do pecado. Também é verdade que ele descreve um con­
Em Romanos 7:7 a 13, a lei de Deus é jus­ flito experimentado por toda pessoa que se
tificada de todas as acusações de que ela é a confronta com as reivindicações espirituais
responsável pelo pecado e a morte que rei­ da santa lei de Deus e é despertada por elas. «
nam sobre a humanidade (cf. Rm 5:14, 17). Mais importante é saber que período de
A culpa é atribuída ao pecado. E, à medida sua experiência Paulo está representando.
que as pessoas persistem em se identificar Alguns comentaristas afirmam que a des­
com o pecado, elas compartilham sua culpa crição se refere à experiência real de Paulo
e condenação. como cristão convertido. Para tanto, enfa­
Esses versículos também enfatizam a tizam o tempo presente dos verbos e apon­
doutrina de Paulo de que a salvação não pode tam para expressões que revelam o ódio ao
vir pela lei. A principal função da lei é des­ pecado (v. 15, 19) e o desejo sincero de fazer
mascarar o pecado e condenar o pecador pelo o bem (v. 15, 19, 21). Argumentam que a pes­
erro de seus caminhos, mas não pode elimi­ soa não convertida não seria capaz de dizer:
nar o espírito rebelde ou perdoar a transgres­ “No tocante ao homem interior, tenho pra­
são. “A lei revela ao homem os seus pecados, zer na lei de Deus” (v. 22), e “sou escravo
mas não provê remédio” (GC, 467). da lei de Deus” (v. 25). Outros comentaris­
Estes versículos servem ainda para tas, porém, acreditam que a luta deve ter
esclarecer a relação entre a lei e o evan­ sido anterior a sua conversão. Argumentam
gelho. E contínua função dos mandamen­ que expressões como “sou carnal, vendido
tos revelar o padrão de justiça, convencer à escravidão do pecado” (v. 14), “o pecado
do pecado e mostrar a necessidade de um que habita em mim” (v. 17), “pois o querer o
Salvador. Se não houvesse lei para conven­ bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo”
cer do pecado, o evangelho seria impotente, (v. 18) e “desventurado homem que sou!
pois, a menos que o pecador fosse conven­ Quem mc livrará [...]” (v. 24) não pode­
cido de seu pecado não sentiria necessidade ríam se referir à condição de Paulo depois
de arrependimento e de fé em Cristo. Assim, do novo nascimento. Eles destacam, no
a alegação de que o evangelho aboliu a lei entanto, que Paulo não descreve sua expe­
não só deturpa o papel e a importância da riência no momento em que “outrora, sem
lei, como também debilita o propósito e a a lei, eu vivia”, mas no momento em que,
necessidade do evangelho e do plano da sal­ “sobrevindo o preceito”, “reviveu o pecado”,
vação (ver com. de Rm 3:31). e ele “morreu” (ver com. do v. 9).
14. Porque. Paulo confirma sua defesa A experiência assim descrita seria, então,
da lei e revela a verdadeira natureza do não de um crente regenerado em geral, mas
pecado, mediante a análise profunda da de um pecador sob a profunda convicção de
operação do pecado na experiência pessoal. que é infeliz em sua carga de culpa e que
O significado dos v. 14 a 25 tem sido um dos se esforça sinceramente, mas por seus pró­
problemas mais discutidos em toda a epís­ prios méritos, para colocar a vida em harmo­
tola. As principais questões se concentram nia com as exigências divinas. Seus melhores
em definir se a descrição dessa intensa luta esforços terminam em fracasso miserável até
moral seria autobiográfica e, em caso afir­ que encontra Jesus Cristo e experimenta
mativo, se a passagem se refere à experiência o poder capacitador do evangelho. Essa é

608
ROMANOS 7:14

também a experiência da pessoa que, embora sido demonstrar a incapacidade humana de


tenha sido convertida, não tira proveito dos alcançar a justiça pelas obras da lei. Os que
benefícios do evangelho e se esforça para estão debaixo da lei mostraram estar sob a
obter pureza de vida pelas próprias forças, escravidão do pecado (ver com. de Rm 6:14).
ou do cristão nominal que nunca fez uma Apesar de seus melhores esforços, são inca­
entrega completa a Cristo. pazes de cumprir o que a lei exige. São infe­
O principal objetivo de Paulo nesta pas­ lizes e miseráveis até encontrarem Jesus
sagem parece ser demonstrar a relação entre Cristo. Em seguida, a condenação os aban­
a lei, o evangelho e a pessoa que enfrenta dona (Rm 8:1). Aquilo que antes eram inca­
duras lutas contra o pecado, em sua prepa­ pazes de realizar, enfim podem alcançar
ração para a salvação. A mensagem de Paulo pelo poder capacitador de Cristo (Rm 8:3, 4).
é que, embora a lei possa servir para precipi­ Já não valorizam as coisas da carne (Rm 8:5),
tar e intensificar a luta, somente o evange­ mas caminham segundo o Espírito (Rm 8:1).
lho de Jesus Cristo pode trazer vitória e alívio Bem sabemos. Paulo presume que a
(v. 25; Rm 8). A intensidade do esforço e a espiritualidade da lei é reconhecida por seus
ocasião de seu início variam na experiência leitores (cf. Rm 2:2; 3:19).
de cada pessoa levada pela lei ao conheci­ A lei é espiritual. Paulo resume e repete
mento do pecado. Certamente, cada cris­ o que já dissera no v. 12. Ele novamente enfa­
tão pode reconhecer, a partir de sua própria tiza que a lei não é responsável pelos males
experiência, que uma intensa luta continua que ele mencionou. A lei é espiritual em sua
após a conversão e o novo nascimento. A vida origem, pois foi dada por Deus, e “Deus é
do próprio apóstolo Paulo era “um constante espírito” (Jo 4:24). E de natureza espiritual, «
conflito com o próprio eu. [...] Sua vontade e no sentido de que é “santa, e justa e boa”, e
seus desejos lutavam cada dia com o dever e na medida em que exige obediência que pode
a vontade de Deus” (CBV, 452, 453). ser prestada apenas por aqueles que são espi­
A realidade da luta de Paulo é revelada rituais e têm o fruto do Espírito (Mt 22:37-
por suas palavras: “esmurro o meu corpo e o 39; Jo 15:2; Rm 13:8, 10; G1 5:22, 23; Ef 3:9).
reduzo à escravidão, para que, tendo pregado Eu, todavia, sou. A mudança do tempo
a outros, não venha eu mesmo a ser desqua­ passado nos v. 7 a 11 para o tempo presente
lificado” (lCo 9:27). Da mesma forma, para aqui e nos versículos restantes do capítulo
cada cristão convertido, renascido e justi­ é considerada por alguns como evidência de
ficado, o processo de santificação envolve que Paulo descreve sua experiência. Outros
combates árduos e relutantes com o próprio veem nela um simples presente histórico ou
eu (PJ, 331; AA, 560, 561). Quanto mais nos dramático, como ocorre em Marcos 14:17;
aproximamos de Cristo, mais claramente dis­ e Lucas 8:49.
cernimos a excessiva malignidade do pecado Carnal. Ou seja, feito de carne e sangue,
e mais confessamos a culpa (ver com. de denotando a natureza humana em sua fra­
Ez 20:43; ver Ez 16:62, 63; PJ, 160, 161). queza (ver também 2Co 3:3). Este é o modo
Embora seja verdade que, muitas vezes, de Paulo expressar: “O que é nascido da carne
intensas lutas morais ocorram após a con­ é carne” (Jo 3:6). Seu equivalente “o que é
versão, quando os cristãos se consagram dia nascido do Espírito é espírito” (Jo 3:6) segue
a dia novamente (ver Lc 9:23-25; 2Co 4:16; em Romanos 8. Em contraste com a espiri­
T5, 200; T7, 44), não se pode ter certeza tualidade e a santidade da lei divina, Paulo
de que o apóstolo aqui se refira a essa luta. se vê como uma criatura de carne, portanto,
Até aqui, seu propósito na epístola tem sujeito a todo pecado e autoindulgência para

609
7:15 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

os quais sua natureza corrupta é inclinada. Em comparação com a espiritualidade da


Assim, no desejo de obedecer à lei espiri­ lei, o mais santo dos seres humanos é carnal.
tual, ele se vê envolvido em uma contínua Seu discernimento do caráter sagrado dos
vuerra com suas tendências herdadas e
O
mandamentos de Deus deixou Paulo ainda
cultivadas para o pecado (Um 7:23). Ele exorta mais consciente de sua própria imperfeição.
os crentes a crucificarem a carne e declara E, quando ele se descreve como estando
que ele mesmo mantém seu corpo em sujei­ “vendido sob o pecado”, dá a entender a pro­
ção (ICo 9:27; G1 5:24). Também os exorta a fundidade de sua convicção. Um exemplo
viver com temperança (ICo 10:31) e a oferecer disso foi Jó, que, apesar de descrito pelo pró­
o corpo a Deus como sacrifício santo e vivo prio Senhor como um homem íntegro e reto
(Rm 12:1). Descreve o corpo como o templo (Jó 1:1; 2:3) confessou mais tarde: “Eu sou
do Espírito Santo (ICo 6:19) e exorta os cris­ indigno”, e “me abomino e me arrependo no
tãos a glorificarem a Deus no corpo (v. 20). pó e na cinza” (Jó 40:4, 42:6).
Menciona que tanto a carne como o espírito 15. Porque. Paulo passa a explicar sua
requerem purificação (2Co 7:1) e espera pela experiência durante o período em que estava
redenção e glorificação do corpo (Rm 8:23; “vendido à escravidão do pecado” (v. 14).
ICo 15:51-53). Compreendo. Do gr.ginõskõ, “conhecer”,
Vendido à escravidão do pecado. “vira conhecer”, “perceber”, “reconhecer”.
Isto é, sob o poder do pecado (comparar Meu próprio modo de agir. Três ver­
com “Acabe, que se vendeu para fazer o que bos gregos diferentes expressam ação neste
era mau” [1 Rs 21:25; cf. lRs 21:20; Is 50:1]). versículo. No primeiro caso, Paulo usa kater-
O domínio do pecado sobre a carne pode ser gazomai, a mesma palavra que, no v. 8, foi
tão completo como o de um senhor sobre o traduzida como “despertou” e também sig­
escravo que lhe foi vendido. Alguns enten­ nifica “alcançar” ou “realizar”.
dem que esta expressão comprova que o Não faço. O verbo fazer vem do gr.
apóstolo fala de seus dias anteriores à con­ prassõ, “praticar”. A palavra também ocorre
versão, isto é sobre o tempo em que esteve em Romanos 1:32; 2:1 a 3 e 25, etc.
sob profunda convicção, mas ainda não Prefiro. Do gr. thelõ, “desejar”, “querer”.
tinha se rendido totalmente a Cristo (ver Isso faço (ARC). Neste caso, a palavra
com. de Rm 7:9). Para defender essa posi­ “faço” (poieõ) envolve o desempenho ou a con­
ção, levam em conta as declarações de clusão de um ato, como em Romanos 4:21. m
Paulo anteriores de que o cristão convertido Martinho Lutero, evidentemente, tinha apren­
está livre da escravidão do pecado (Rm 6:18, dido o significado dessa experiência quando
22). Outros defendem que Paulo pode ter disse: “Tenho mais medo de meu coração do
escolhido usar uma linguagem tão enfática que do papa e de todos seus cardeais.”
para expressar a força da depravação con­ Aqueles que defendem que Paulo des­
tra a qual lutava, para mostrar que ele agia creve sua experiência quando se encontrava
como o escravo de outra vontade, obede­ sob convicção, mas antes de submeter-se
cendo aos impulsos de sua natureza carnal. a Jesus Cristo (ver com. de Rm 7:14), acre­
Ele acrescenta que o pecado ainda habita ditam que o apóstolo enfatiza ainda mais
em sua carne (v. 17, 18) e que, embora tenha a impotência de tudo que não seja o evan­
chegado ao ponto de se regozijar na lei de gelho para fornecer a energia que permite
Deus, ainda via um poder maligno agindo executar as obras de justiça (comparar
em seus membros, pondo-o na prisão do com a experiência de Charles Wesley, ver
pecado (v. 22, 23). GC, 254-256). A experiência de todos os

610
ROMANOS 7:18

que buscam a salvação sem entrega total seus atos pecaminosos é em si mesmo evi­
a Jesus Cristo será a completa frustração. dência de que ele considera boa a lei de Deus.
Aqueles que defendem que Paulo des­ Boa. Do gr. halos, “belo”, “excelente”,
creve a luta contínua contra o próprio eu e aqui, provavelmente, referindo-se à beleza
o pecado, mesmo após a conversão, salien­ moral e à excelência da lei, qualidades que
tam que, mesmo depois da conversão, os Paulo admite aqui. No v. 12, a palavra tra­
cristãos ainda estão conscientes da própria duzida como “bom” é agathos, ou seja, bom
imperfeição e do pecado em sua vida, e em sentido moral. Kalos está relacionado com
essa é uma fonte contínua de inquietação agathos, assim como a aparência está relacio­
e ansiedade. Em momentos de descuido, nada com a essência.
por vezes, a força da paixão natural pode 17. Neste caso. Do gr. nuni, que pode
superá-los. O poder de hábitos longamente ser entendido tanto em sentido temporal, ou
cultivados ainda os incomoda. Os maus seja, “no momento”, ou em sentido lógico,
pensamentos de autoindulgência ainda “sendo este o caso”. Este último parece mais
surgem em sua mente com a velocidade adequado aqui (cf. Rm 7:20; iCo 14:6).
de um raio. Aquele que, antes da conver­ Já não sou eu. O “eu” é enfático no grego.
são, era infiel e cuja mente era preenchida Por “eu”, Paulo aqui se refere ao “homem inte­
pelo ceticismo, pode notar que o efeito de rior” (v. 22), que se distingue de outro “eu” no
seus antigos hábitos de pensamento ainda qual habita o pecado e é definido, no v. 18,
persiste em sua mente e perturba sua paz como “minha carne” e, no v. 23, como “meus
por muitos anos. Esses são os efeitos do membros”. Paulo não afirma isso para negar
hábito. A própria passagem de um pensa­ a responsabilidade da pessoa por seus atos
mento impuro pela mente deixa um rastro pecaminosos. Pelo contrário, ele faz essa afir­
de poluição. Onde o pecado é o espetáculo, mação para mostrar o grande poder interior
ele deixa uma ferida queimando na mente, do pecado, que se afirma contra seus esfor­
mesmo depois da conversão, produzindo ços mais sinceros. Assim, se o cristão estiver
aquele estado de tensão com o qual todo desprevenido, o mal pode ganhar a suprema­
cristão está familiarizado. cia em sua vida. Ouando, ao falar de suas
Ao ver esses antigos desejos e senti­ obras, Paulo diz: “todavia, não eu, mas a
mentos, que ele desaprova e odeia, dia a graça dc Deus, que está comigo” (lCo 15:10),
dia buscando reafirmar seu poder sobre ele não quer dizer que não executa as obras,
ele, o cristão luta contra sua influência e mas que as realizou sob a influência da
anseia por ser preenchido com todo o fruto graça de Deus. Da mesma forma, quando
do Espírito de Deus. Mas ele descobre que ele diz: “vivo, não mais eu, mas Cristo vive
nem por si mesmo nem com a ajuda da lei em mim” (Gl 2:20, ARC), ele quer dizer que
ele pode alcançar a liberdade do que odeia, era dependente dc Cristo para a origem e a
ou ter sucesso no cumprimento desses atos manutenção de sua nova e restaurada vida.
que ele aprova c deseja praticar. Cada noite, Então, ele não se desculpa pelas violações
ele testemunha sua penitente confissão de da lei, mas afirma que fez essas coisas sob
impotência e seu desejo de obter a ajuda uma influência que não mais era dominante
divina (ver T4, 429). em sua mente.
16. Consinto. Do gr. sumphsmi, literal­ 18. Bem nenhum. E impossível ao cris­
mente, “falar com”, portanto, “concordar”, tão resistir por si mesmo ao poder do mal.
“concorrer”. Esta é a única ocorrência desta Um poder superior deve tomar posse do ser
palavra no NT. O fato de Paulo desaprovar para que as más paixões sejam subjugadas.
7: J 9 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Paulo experimentou a dolorosa frustração que envolvido em uma luta de vida ou morte
sobrevêm a todos os que procuram alcançar para escapar do poder cativante de suas más
a justiça pelas próprias forças. inclinações.
Está em mim. Literalmente, ‘está ao Guerreando contra. Do gr. anlislraleu-
556

► meu lado”, isto é, está à mão. omai, a única ocorrência desta palavra no
19. Não faço. Este versículo é uma repe­ NT. A forma do verbo sugere a realização de
tição do v. 15, acrescentando ênfase à reali­ uma campanha militar. A lei nos membros
dade e força da batalha da vontade contra o está em campanha contra a lei da mente (ver
pecado (ver com. do v. 15). também G1 5:17; lPe 2:11).
20. Mas, se eu. Este versículo repete A lei da minha mente. Paulo entende
o que se afirma nos v. 16 e 17 (ver com. ali). “mente” como uma inteligência contempla­
21. Encontro a lei. Literalmente, “acho, tiva, o “homem interior” (v. 22). E esse ser
então, a lei”. O artigo definido está presente superior que concorda que a lei de Deus é
no grego (ver com. de Rm 2:12). Com o termo boa (v. 12, 16, 22). E a lei de Deus, reve­
“lei”, Paulo aqui se refere à força maligna que lada e aprovada pela mente, torna-se a lei da
operava nele, provocando problemas em sua mente. Por outro lado, Paulo vê outra lei em
experiência, descritos nos v. 18 e 19. ação com os impulsos do corpo e os desejos
22. Tenho prazer. Do gr. sunêdomai, da carne: a lei “que está nos meus membros”,
literalmente, “alegro-me com”. É a única “a lei do pecado” (ver com. do v. 21).
ocorrência desta palavra grega no NT. E tal­ 24. Desventurado. Do gr. talaipõros
vez mais forte do que “consinto”, no v. 16 também pode ser traduzido como “angus­
(cf. SI 1:2; 119:97). tiado”, “miserável”. A única outra ocorrên­
No tocante ao homem interior. Ver cia no NT está em Apocalipse 3:17, em que
com. do v. 17. talaipõros descreve a condição da igreja de
Na lei de Deus. O artigo também está Laodiceia. O sofrimento resultante do con­
presente no grego (ver com. de Rm 2:12). flito interno e, às vezes, a luta agonizante
Paulo pode se referir a toda a vontade de entre o bem e o mal leva Paulo a emitir esse
Deus revelada ao ser humano. grito aparentemente desesperado, pedindo
23. Nos meus membros. Ou seja, nos ajuda. Mas ele conhece a fonte de liberta­
órgãos e faculdades do corpo (ver também ção de seus problemas e se apressa a declará-
Rm 3:13-15; 7:5; ICo 6:15; 12:12, 18, 20). la (Rm 7:25).
Outra. Do gr. heteros, “outra de um tipo Quem me livrará [...]? Ou, “quem vai
diferente”. Heteros não só distingue, mas, fre­ me salvar?” A pergunta fornece a Paulo a
quentemente, contrasta (ver com. de G11:6, 7). oportunidade de expressar a boa-nova que é
Essa “lei” diferente se opõe à lei que o ser inte­ tema de toda a sua epístola. A libertação vem
rior aprova. A “lei do pecado” (Rm 7:23, 25), pela lei? Alguém pode ganhar libertação e
a força maligna do v. 21 (ver com. ali), se apro­ liberdade por sua força de vontade e de inte­
veita de todos os impulsos carnais. lecto? Em vão as pessoas têm utilizado esses
Que [...] me faz prisioneiro. Ou, métodos, que resultaram em consequências
“fazendo-me prisioneiro”. A palavra gr. desastrosas. Há apenas uma maneira: em
aichmalõtizõ ocorre apenas aqui, em Lucas “Jesus Cristo, nosso Senhor” (v. 25).
21:24 e em 2 Coríntios 10:5. Paulo empre­ Corpo desta morte. Ou, “este corpo de
gou expressões muito fortes neste versículo morte”. A construção grega é inconclusiva
para descrever a gravidade do conflito con­ sobre se “desta” está conectada com “corpo”
tra o pecado. Representa a si mesmo como ou com “morte”, embora esta última conexão

612
ROMANOS 7:25

pareça mais natural. O significado desta pas­ suas reivindicações. Não é suficiente con­
sagem tem sido muito debatido. Pelo menos, sentir que ela é boa ou até mesmo deliciar-se
parece ser consensual que não há nenhuma com seus preceitos. Nenhum esforço sério
evidência de que Paulo se refira a um cos­ de obediência vale contra a lei do pecado
tume antigo de acorrentar um prisioneiro nos membros, até que o pecador em batalha
vivo a um cadáver, embora essa prática horrí­ se entregue à fé em Cristo. Então, a entrega
vel forneça uma vivida ilustração dessa situa­ a uma Pessoa toma o lugar da obediência
ção espiritual. legalista a uma lei. E visto que é uma sub­
Paulo considera o corpo, a carne, a sede missão a uma Pessoa muito amada, ela é per­
do pecado, a morada da lei do pecado que cebida como perfeita liberdade (ver CC, 19;
atua nos membros para levar à morte (v. 5, CBV, 131; DTN, 466).
► 13, 23, 25). Com isso, ele não quis dizer que Sou escravo. Alguns se perguntam por
o corpo físico é mau (ver com. do v. 5). Seu que, depois de atingir o clímax glorioso na
grito de libertação é a libertação da escravi­ expressão “graças a Deus por Jesus Cristo
dão da lei do pecado, para que o corpo deixe nosso Senhor”, Paulo se refira mais uma vez
de servir como sede do pecado e da morte, às lutas das quais ele, aparentemente, tinha
para ser oferecido a Deus como “sacrifício sido libertado. Alguns entendem a expres­
vivo, santo e agradável" (Rm 12:1). são de ação de graças como uma exclamação
25. Dou graças a Deus (ARC). As evi­ entre parênteses. Acreditam que essa excla­
dências textuais se dividem (cf. p. xvi) entre mação segue naturalmente o grito: “quem
esta e a variante “graças a Deus” (ARA). me livrará?” Sustentam que, antes de prosse­
Paulo não dá uma resposta direta à sua per­ guir com uma discussão ampliada da gloriosa
gunta: “quem me livrará?” Tampouco escla­ libertação (Rm 8), Paulo resume o que disse
rece pelo que ele é grato a Deus. Mas isso é nos versículos anteriores e confessa uma vez
indicado pelo contexto. O cjue a lei, a cons­ mais o conflito contra as forças do pecado.
ciência e a força humana desajudada não Outros sugerem que por “eu, de mim
podem fazer, pode ser feito pelo plano do mesmo”, Paulo queira dizer: “entregue a
evangelho. A libertação completa está dis­ mim mesmo, deixando Cristo fora de cogita­
ponível por meio de Jesus Cristo c por meio ção”. Acreditam que Paulo afirma aqui uma
dEle apenas (comparar com “graças a Deus, verdade geral, válida em qualquer ponto da
que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus experiência cristã. Por isso, consideram que
Cristo” [ICo 15:57]). a exclamação de Paulo não está entre parên­
Este é o clímax para o qual aponta o teses, mas em boa sequência lógica. Sempre
raciocínio de Paulo neste capítulo. Não é que alguém tenta encontrar a vitória sobre
suficiente ser convencido da excelência da o pecado por si mesmo, à parte do poder de
lei ou reconhecer a sabedoria e a justiça de Cristo, está fadado ao fracasso.

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

7- -T2, 512 PR, 15, 625; PP, 123, 16 -CC, 19


9- -CC, 30; T3, 475 365, CC, 19; T2, 513 18 -AA 561; PJ 161
12 - DTN, 309; Ev, 13-GC, 507; San, 81; 24 - PJ 201; DTN, 203;
372; PE, 66; FEC, T3, 476 GC, 461; CBV, 84;
238; GC, 467, 469; 14-CC, 19; T3, 475 CC, 19; T6, 53

613
8:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Capítulo 8
1 Os que estão em Cristo e no Espírito estão livres de condenação. 5, 13 Os males da
carne e 6, 14 o bem do Espírito. 17 Os filhos de Deus e 19 a natureza
anseiam libertação 29 decretada previamente por Deus.
38 Nada pode nos separar do amor de Deus.

1 Agora, pois, já nenhuma condenação há 13 Porque, se viverdes segundo a carne,


para os que estão em Cristo Jesus. caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito,
2 Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo mortificardes os feitos do corpo, certamente,
Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. vivereis.
3 Porquanto o que fora impossível à lei, no 14 Pois todos os que são guiados pelo
que estava enferma pela carne, isso fez Deus Espírito de Deus são filhos de Deus.
enviando o Seu próprio Filho em semelhan­ 15 Porque não recebestes o espírito de es­
ça de carne pecaminosa e no tocante ao pe­ cravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados,
cado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, mas recebestes o espírito de adoção, baseados
558

► o pecado, no qual clamamos: Aba, Pai.


4 a fim de que o preceito da lei se cumpris­ 16 O próprio Espírito testifica com o nosso
se em nós, que não andamos segundo a carne, espírito que somos filhos de Deus.
mas segundo o Espírito. 17 Ora, se somos filhos, somos também
5 Porque os que se inclinam para a carne herdeiros, herdeiros dc Deus e coerdeiros com
cogitam das coisas da carne; mas os que se in­ Cristo; se com Ele sofremos, também com Ele
clinam para o Espírito, das coisas do Espírito. seremos glorificados.
6 Porque o pendor da carne dá para a morte, 18 Porque para mim tenho por certo que os
mas o do Espírito, para a vida e paz. sofrimentos do tempo presente não podem ser
7 Por isso, o pendor da carne ó inimizade comparados com a glória a ser revelada em nós.
contra Deus, pois não está sujeito à lei dc Deus, 19 A ardente expectativa da criação aguar­
nem mesmo pode estar. da a revelação dos filhos de Deus.
8 Portanto, os que estão na carne não podem 20 Pois a criação está sujeita à vaidade, não
agradar a Deus. voluntariamente, mas por causa daquele que a
9 Vós, porém, não estais na carne, mas no sujeitou,
Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habi­ 21 na esperança de que a própria criação
ta em vós. E, se alguém não tem o Espírito de será redimida do cativeiro da corrupção, para a
Cristo, esse tal não é dEle. liberdade da glória dos filhos de Deus.
10 Se, porém, Cristo está cm vós, o corpo, na 22 Porque sabemos que toda a criação, a um
verdade, está morto por causa do pecado, mas o só tempo, geme e suporta angústias até agora.
espírito é vida, por causa da justiça. 23 E não somente ela, mas também nós, que
11 Se habita em vós o Espírito dAquele que temos as primícias do Espírito, igualmente ge­
ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo memos em nosso íntimo, aguardando a adoção
que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mor­ de filhos, a redenção do nosso corpo.
tos vivificará também o vosso corpo mortal, por 24 Porque, na esperança, fomos salvos. Ora,
meio do Seu Espírito, que em vós habita. esperança que se vê não é esperança; pois o que
12 Assim, pois, irmãos, somos devedores, alguém vê, como o espera?
não à carne como se constrangidos a viver se­ 25 Mas, sc esperamos o que não vemos, com
gundo a carne. paciência o aguardamos.

614
ROMANOS 8:1

26 Também o Espírito, semelhantemente, 33 Quem intentará acusação contra os elei­


nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabe­ tos de Deus? E Deus quem os justifica.
mos orar como convém, mas o mesmo Espírito 34 Quem os condenará? E Cristo Jesus
intercede por nós sobremaneira, com gemidos quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o
inexprimíveis. qual está à direita de Deus e também interce­
27 E Aquele que sonda os corações sabe qual de por nós.
é a mente do Espírito, porque segundo a von­ 35 Quem nos separará do amor de Cristo?
tade de Deus é que Ele intercede pelos santos. Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou
28 Sabemos que todas as coisas cooperam fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?
para o bem daqueles que amam a Deus, daque­ 36 Como está escrito: Por amor de Ti, somos
les que são chamados segundo o Seu propósito. entregues à morte o dia todo, fomos considera­
29 Porquanto aos que de antemão conheceu, dos como ovelhas para o matadouro.
também os predestinou para serem conformes 37 Em todas estas coisas, porém, somos
à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o mais que vencedores, por meio dAquele que
primogênito entre muitos irmãos. nos amou.
30 E aos que predestinou, a esses também cha­ 38 Porque eu estou bem certo de que nem a
mou; e aos que chamou, a esses também justificou; morte, nem a vida, nem os anjos, nem os princi­
e aos que justificou, a esses também glorificou. pados, nem as coisas do presente, nem do por­
3.1 Que diremos, pois, à vista destas coisas? vir, nem os poderes,
Se Deus é por nós, quem será contra nós? 39 nem a altura, nem a profundidade, nem
32 qualquer outra criatura poderá separar-nos do a
Aquele que não poupou o Seu próprio Filho,
antes, por todos nós o entregou, porventura, não amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso
nos dará graciosamente com Ele todas as coisas? Senhor.

1. Agora, pois. Esta frase introdutória e esse esforço como o melhor serviço do
indica a estreita ligação entre Romanos 7 e 8. crente, e compensa a deficiência com Seu
O cap. 8 é uma expansão da exclamação de próprio mérito divino” (Ellen G. White, Signs
Paulo em Romanos 7:25: “Graças a Deus ofthe Times, 16/06/1890). Para esses, não há
por Jesus Cristo, nosso Senhor.” Ele então nenhuma condenação (Jo 3:18).
deixa sua análise da dolorosa luta contra Em Cristo Jesus. Esta frequente
o pecado para uma explicação sobre a vida expressão do NT sugere a proximidade da
de paz e liberdade oferecida aos que vivem relação pessoal entre o cristão e Cristo.
“em Cristo Jesus”. Isso significa mais do que ser dependente
Nenhuma condenação. A boa notícia de Deus ou simplesmente ser Seu seguidor
do evangelho é que Cristo veio para conde­ ou discípulo. Inclui uma união viva e diária
nar o pecado, e não os pecadores (Jo 3:17; com Cristo (Jo 14:20; 15:4-7). João descreve
Rm 8:3). Para os que creem nas generosas essa união como estar “nEle” (ljo 2:5, 6, 28;
disposições do evangelho e as aceitam e, com 3:24; 5:20). Pedro também fala de estar em
fé, comprometem-se a uma vida de amor e Cristo (IPe 3:16; 5:14). Mas a ideia é pró­
obediência, Cristo provê justificação e liber­ pria de Paulo. Ele a aplica às igrejas (G1 1:22;
dade. Ainda pode haver deficiências no cará­ lTs 1:1; 2:14; 2Ts 1:1), bem como às pessoas
ter do crente, mas “quando está no coração (ICo 1:30; 2Co 5:17; Ef 1:1) Jesus enfatizou
obedecer a Deus, quando são feitos esforços a proximidade dessa união na parábola da
nesse sentido, Jesus aceita essa disposição videira e dos ramos (Jo 15:1-7).

615
8:2 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

A menos que a pessoa experimente essa a vida. O Espírito de vida, habitando no


união transformadora com Cristo, não pode crente, inspira obediência e confere poder de
reivindicar liberdade da condenação. A fé mortificar “os feitos do corpo” (v. 13). Assim,
salvadora, que traz reconciliação e justifica­ a lei do Espírito da vida atua diretamente
ção (Rm 3:22-26), requer a experiência que nos membros, em oposição à lei do pecado e
Paulo caracteriza como estar “em Cristo” da morte; provê ao crente poder para vencer
(ver com. do v. 28). a influência destrutiva do pecado e o liberta
Que não andam (ABC). Evidências da escravidão e da condenação do pecado.
textuais apoiam (cf. p. xvi) a omissão da 3. O que fora impossível à lei. Literal­

560
frase: ‘que não andam segundo a carne, mas mente, “a coisa impossível da lei”. No texto <
segundo o Espírito” (ARC). Considera-se, grego, o artigo também está presente em
geralmente, que foi acrescentada aqui de conexão com “lei” (ver com. de Rm 2:12).
acordo com o v. 4. Essa construção grega tem sido discutida.
2. Espírito da vida. Isto é, o Espírito No entanto, a intenção de Paulo parece clara:
que dá vida. Ele é chamado assim porque Deus fez o que a lei não era capaz de fazer.
exerce poder vivificante (v. 11). A lei Ele condenou o pecado, portanto, é possí­
do Espírito da vida é o poder vivificante do vel ao cristão vencer seu poder e viver de
Espírito Santo, vigorando como uma lei da maneira vitoriosa em Cristo.
vida. A expressão “da vida” expressa o efeito Enferma pela carne. Este fator de fra­
obtido, como em “justificação de vida” (ver queza já foi explicado em Romanos 7:14 a 25.
com. de Rm 5:18) e “o pão da vida” (Jo 6:35). A lei pode apontar o caminho certo, mas não
O Espírito traz vida e liberdade, em contraste pode capacitar o ser humano, fraco e caído,
com a lei do pecado, que produz morte e con­ a andar nele. Paulo continua a vindicar a
denação (ver com. dc Rm 7:21-24). lei (ver Rm 7:7, 10, 13, 14), atribuindo sua
Em Cristo Jesus. Alguns tradutores “fraqueza” não a qualquer defeito inerente
conectam estas palavras ao “Espírito da à lei em si, mas à impotência da natureza
vida”; outros as relacionam com “te livrou”. humana, corrompida e enfraquecida pelo
Esta última parece ser a interpretação mais pecado. Não é função da lei perdoar e res­
natural. Paulo enfatiza que o Espírito exerce taurar para a obediência. A lei só pode revelar
Seu poder vivificante pela união com Cristo. a transgressão e a justiça e ordenar obediên­
E na experiência de comunhão e união com cia (Rm 3:20; 7:7). Portanto, a lei de Deus
Cristo que o crente recebe poder para ven­ não pode ser responsabilizada nem despre­
cer o pecado. zada por não alcançar os resultados para os
Porque [...] te livrou. Ou, “te liber­ quais nunca foi designada. A responsabili­
tou”. As evidências textuais se dividem (cf. dade pela incapacidade de prestar perfeita
p. xvi) entre as variantes “me” e “te”. A dife­ obediência é do próprio pecador.
rença é irrelevante. Paulo se refere a sua Seu próprio Filho. A palavra “próprio”
experiência de novo nascimento c batismo, enfatiza a relação entre o Pai e o Filho (v. 32).
quando ele começou a andar “em novidade Em Colossenses 1:13, Cristo é descrito como
de vida” (Rm 6:4) e “em novidade de espí­ “Filho do Seu amor”, literalmente. Há a ten­
rito” (Rm 7:6). dência de enxergar mais amor e autossa-
Lei do pecado e da morte. Ou seja, a crifício em Cristo do que no Pai. E bom
autoridade exercida pelo pecado e que leva lembrar que foi “porque Deus amou o mundo
à morte. O pecado já não exerce mais o pre­ de tal maneira que deu o Seu Filho unigê-
domínio e a influência controladora sobre nito” (Jo 3:16; ver ljo 4:9) a fim de salvar

616
ROM ANOS 8:4

o pecador. Deus Se sacrificou em Seu Filho este sentido na LXX. Só em Levítico há mais
(ver 2Co 5:19; cf. DTN, 762). Cristo veio para de 50 dessas ocorrências (ver Lv 4:33; 5:6, 7,
revelar o ilimitado amor do Pai (jo 14:9; cf. 8, 9; 7:37, etc.; cf. SI 40:6). A frase também
Mt 5:43-48). ocorre com esse significado em Fíebreus 10:6
Carne pecaminosa. O Filho de Deus a 8, em que é citado o Salmo 40:6 a 8. Por
veio a este mundo com a divindade velada isso, algumas versões optam pela tradução
sob a humanidade a fim de alcançar a huma­ “como oferta pelo pecado” (NVI).
nidade e com ela comungar em seu estado Por outro lado, no entanto, o contexto
enfraquecido e pecaminoso. Se Ele tivesse pode indicar que a expressão deve ser enten­
vindo em Sua condição celestial, o pecador dida em sentido mais geral. O propósito de
não suportaria a glória de Sua presença (ver Paulo, nesta passagem, é explicar que o cris­
PP, 330). Portanto, em Seu grande amor e tão pode ter vitória presente sobre o pecado.
propósito divino de salvar a humanidade, A lei foi impotente para lhe dar essa vitória,
Jesus "não julgou como usurpação o ser mas Deus, enviando Seu Filho, já tornou dis­
igual a Deus; antes, a Si mesmo Se esva­ ponível o poder necessário. Cristo veio não
ziou, assumindo a forma de servo, tornando- só para assumir a penalidade do pecado na
Se em semelhança de homens” (Fp 2:6, 7; ver morte, mas também para destruir seu domí­
DTN, 22, 23; vol. 5, p. 1014, 1015). nio e removê-lo da vida de Seus seguidores.
Ao assumir a condição humana, era tam­ Esse amplo propósito de Sua missão pode
bém propósito de Cristo demonstrar à estar incluído nas palavras “e no tocante
humanidade e a todo o universo que Satanás ao pecado”. Ele veio solucionar o problema
e o pecado podem ser combatidos, e que do pecado, por meio da expiação e da des­
a obediência à vontade de Deus pode truição do poder do pecado. Assim, Ele jus­
ser prestada pelos seres humanos nesta tifica e santifica as vítimas do pecado.
vida (ver AA, 531; DTN, 761, 762). Desde Condenou [...] o pecado. A huma­
a queda de Adão, Satanás havia apontado nidade impecável de Cristo é uma vivida*
o pecado da humanidade como prova de condenação do pecado (ver Mt 12:41, 42;
que a lei de Deus era injusta e não podia FIb 11:7). Além disso, a cruz de Cristo
ser obedecida. Então, Cristo veio para redi­ (Rm 6:10) revelou a malignidade do pecado,
mir o fracasso de Adão. Ele foi feito seme­ pois foi o pecado que provocou a morte sacri-
lhante aos irmãos em todas as coisas, sofreu ficial do Filho de Deus. Essa condenação ao
e foi tentado em todos os sentidos, como pecado, efetuada pela vida c morte de Cristo,
nós; mas viveu sem pecado (ver Píb 2:17, 18; também significa a destruição do poder
4:15; sobre a natureza humana de Jesus em maligno do pecado sobre o crente. Unido a
relação à tentação e ao pecado, ver com. de Cristo em Sua morte, o crente renasce com
Mt 4:1; 26:38, 41; Hb 2:17;4:15, ver Nota Ele em novidade de vida no Espírito (v. 1-13).
Adicional a João 1). Na carne. Cristo enfrentou, venceu e
E no tocante ao pecado. Ou, "a res­ condenou o pecado no campo em que este
peito do pecado”. O conectivo “e” indica liga­ já havia exercido seu domínio e senhorio.
ção com a frase anterior. Deus enviou Seu A carne, contexto de antigos triunfos do
Filho em semelhança da carne do pecado pecado, então se tornou o palco de sua der­
e tendo em vista o pecado. “No tocante ao rota e expulsão.
pecado”, do gr. peri hamartias, também pode 4. Justiça (ARC). Do gr. dikaioma.
ser traduzido por “como oferta pelo pecado”. Esta não é a palavra comum para “justiça”,
A expressão peri hamartias é usada com que é dikaiosunê, usada por Paulo nesta

617
8:5 COM ENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

epístola (Rm 1:17; 3:5; 4:3). Dikaiõma expressa Não segundo a carne. Ou seja, não con­
a ideia de “o que está previsto como direito”, forme a carne. Aqueles em quem o preceito
'preceito” (ARA; cf. Rm 2:26; cf. Lc 1:6, em da lei se cumpre não mais vivem de acordo
que dikaiõma é traduzido como “preceitos”, com os ditames e impulsos da carne. A satis­
inclusive pela ARC). Assim, Paulo se refere fação dos desejos carnais não é mais o prin­
aqui aos justos reclamos da lei, às suas jus­ cípio orientador de sua vida.
tas exigências. Segundo o Espírito. Ou seja, a con­
Lei. O artigo está presente também no duta de acordo com a orientação do Espírito,
grego (ver com. de Rm 2:12). Neste contexto, o Espírito de Cristo que habita no cristão
Paulo ainda fala da lei, que ele aprovava (v. 9). As justas exigências da lei se cum­
(Rm 7:16) e na qual ele se deleitava (v. 22), prem nele. O que a lei exige está resumido
mas que se considerava incapaz de obede­ no amor cristão, pois “o amor é o cumpri­
cer, sem Cristo (v. 15-25). mento da lei” (Rm 13:10). Da mesma forma,
Se cumprisse. Ou, “se realizasse”. Deus o resultado da ação do Espírito Santo na vida
enviou Seu Filho à semelhança de carne do é o amor, pois “o fruto do Espírito é amor”
pecado para que as pessoas fossem total­ (G1 5:22). Assim, a vida segundo o Espírito
mente capacitadas a viver em conformidade significa uma vida em que são cumpridas as
com os preceitos de Sua santa lei. Levar a justas exigências da lei; uma vida de amor e
vida do ser humano à harmonia com a von­ obediência. O grande propósito para o qual
tade divina é o propósito do plano da salvação. Deus enviou Seu Filho ao mundo foi que
Deus não enviou Seu Filho a fim de alterar essa vida fosse possível aos crentes.
ou revogar a lei nem para libertar as pessoas Alguns comentaristas preferem interpre­
da necessidade de perfeita obediência. A lei tar esta frase como se referindo particular­
é a expressão da vontade e do caráter imutá­ mente ao espírito humano renovado, por
vel de Deus. O ser humano caído é incapaz de intermédio do qual o Espírito Santo trabalha.
obedecer às suas exigências, e a lei não possui Entendem que Paulo estava enfatizando que
poder para capacitá-lo a obedecer. Mas Cristo a vida do cristão não é mais governada pela
veio para tornar possível à humanidade pres­ natureza inferior, mas pela natureza espiri­
tar perfeita obediência. Esses versos indicam tual. Essa interpretação se reflete em versões
o lugar permanente e a autoridade da lei de que grafam “espírito” sem letra maiuscula
Deus no evangelho e no plano da salvação (ver RV).
(ver com. de Rm 3:31). 5. Os que se inclinam. Isto pode ex­
Paulo não diz “fosse parcialmente cum­ pressar um aspecto diferente de “andar” (v. 4). «g
prido”. A Bíblia sempre fala de transfor­ Inclinar-se “segundo a carne” significa ter
mação completa e de obediência perfeita a carne como princípio governante do scr.
(cf. Mt 5:48; 2Co 7:1; Ef 4:12, 13; Cl 1:28; “Andar segundo a carne” é seguir esse prin­
4:12; 2Tm 3:17; Hb 6:1; 13:21). Deus exige cípio na vida prática. “Andar” reflete a ma­
perfeição de Seus filhos, e a perfeita vida nifestação da condição interior de estar
humana de Cristo é a certeza de Deus de que, “inclinado” (ver com. do v. 4).
pelo Seu poder, o cristão também pode alcan­ Cogitam. Do gr. phroneõ, “pensar”, “cui­
çar perfeição de caráter (ver PJ, 315; AA, 531). dar”, “aplicar a mente e o coração”, “esfor­
Andamos. Literalmente, “caminha­ çar-se após”. A palavra denota a ação tanto
mos”, no sentido de conduta habitual. Por dos afetos e da vontade como da razão (com­
isso, pode ser traduzida como “vivemos” parar com o uso de phroneõ, em Mt 16:23;
(cf. Rm 6:4; 2Co 5:7; 10:3; Ef 2:10; 4:1). Rm 12:16; Fp 3:19; Cl 3:2). Toda a atividade

618
ROMANOS 8:7

mental e moral daqueles que “se inclinam” segundo a carne” (v. 4, 6) conhecem apenas
para a carne é voltada para a gratificação a experiência de escravidão e condenação
egoísta dos desejos não espirituais. (v. 1, 15, 21) e só podem esperar juízo e morte
Coisas da carne. A pessoa está sob a (Rm 1:32; 2:5, 6; 6:21, 22).
influência predominante de um ou outro 7. Por isso. Paulo explica por que o pen­
dos dois princípios em contraste neste ver­ dor da carne dá para a morte.
sículo. O princípio que obtiver o domínio Pendor da carne. Do gr. fhronêma tês
determina também a natureza da vida e o sarkos (ver com. do v. 6).
caráter das ações. Paulo descreve o contraste Inimizade contra Deus. Ter a mente
absoluto entre as coisas da carne e as coisas dirigida pelas coisas da carne e, como resul­
do Espírito (ver G1 5:16-24). tado, levar uma vida egoísta é viver de forma
6. O pendor da carne. Literalmente, hostil a Deus e em desarmonia com Sua von­
“a mente [ou ‘desejo’] carnal”. Neste caso, tade (ver Tg 4:4). Esse modo de agir leva ao
“mente” significa “pensamento”, “objetivo”, afastamento de Deus, a fonte da vida. Essa
“intenção” ou “inclinação”, como na sentença: separação significa morte. A hostilidade con­
“Ele sabe qual é a mente do Espírito” (v. 27). tra Deus é o oposto da paz em que vivem os
Morte. Pensar apenas na satisfação dos que estão no Espírito (Rm 8:6).
desejos carnais é caminhar para a morte. Não está sujeito. Na terminolo­
Quem vive para esse propósito egoísta está gia militar, o verbo significa sujeição às
morto (lTm 5:6; ver também Ef 2:1, 5), e sua ordens. O tempo presente sugere insubor­
atual condição de morte espiritual só pode dinação contínua. A mente dirigida pelas
levar à morte eterna. O motivo para isso é coisas da carne revela hostilidade a Deus
explicado em Romanos 8:7. mediante contínua desobediência.
Pendor [...] do Espírito. Literalmente, Nem mesmo pode estar. A mente car­
“a mente [ou ‘desejo’] do Espírito”. nal é totalmente incapaz de se submeter à
Vida e paz. Ter a mente voltada para as lei de Deus. Unicamente mediante o poder
coisas do Espírito e os pensamentos e dese­ transformador do Espírito Santo a obediên­
jos regidos pelo Espírito resulta naquela cia é possível novamente.
harmonia saudável e vivificante de todas as Quando foi criada, a mente e, por isso,
funções espirituais e é uma garantia e ante­ a vida do ser humano estavam em perfeita
cipação da vida futura (cf. Ef 1:13, 14). A pre­ harmonia com a vontade de Deus. Os prin­
sença do Espírito Santo traz amor, alegria e cípios da lei foram escritos em seu coração.
paz (G1 5:22), o início do reino de Deus, que Mas o pecado trouxe separação de Deus,
é “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” e o coração dos seres humanos veio a ser
(Rm 14:17). preenchido por inimizade e rebeldia. Assim,
Aqueles que têm o “pendor do Espí­ desde a queda ao poder do pecado, os seres
rito” e “andam [...] segundo o Espírito” (Rm humanos seguiram as inclinações da carne, o
8:4) desfrutam a paz do perdão c da recon­ que levou à desobediência à lei de Deus. Por
ciliação (Rm 5:1). O amor de Deus é “der­ esse motivo, é impossível alcançar a justiça
ramado” em seus corações (Rm 5:5), e eles e a salvação pelas próprias tentativas lega­
tem a alegria e o encorajamento de ver os listas de obedecer. A menos que morra para
justos requisitos da lei cumpridos cm sua si mesmo e para o pecado, e nasça de novo
vida (Rm 8:4). Aguardam a salvação final e para uma vida nova no Espírito (Rm 6), o ser
a vida eterna. Ao contrário, os que andam humano é incapaz de se submeter à vontade
segundo o “pendor da carne” e “andam [...] de Deus (ver PP, 64).

619
8:8 COM ENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

8. Portanto. Do gr. de, aqui, simples­ convidado a exercer controle total da vida.
mente, “e”. A palavra não introduz uma con­ Quando o Espírito realmente habita no inte­
clusão ou consequência do v. 7, mas apenas rior, cessa a vida segundo a carne.
repete a ideia de forma diferente e, talvez, Este versículo é um convite a um exame
mais pessoal. A conexão pode ser parafra­ de consciência. Temos a mente dirigida pelo
seada assim: “O pendor da carne é inimizade Espírito e vivemos no Espírito “se, de fato”
contra Deus [...] e os que estão na carne não o Espírito de Deus habita em nós. Podemos
podem agradar a Deus.” saber se o Espírito habita em nós pela presença
Na carne. Esta expressão pode ser mais ou ausência do fruto do Espírito (G1 5:22).
forte do que “segundo a carne” (v. 4, 5). A ausência do fruto evidencia que ainda vive­
Significa ser absorvido e governado pelas coi­ mos na carne.
sas da carne. Habita. Isto indica a presença contí­
Não podem agradar a Deus. O Senhor nua e permanente do Espírito, e não apenas
Se alegra com a fidelidade e a obediência. arroubos ocasionais de entusiasmo e zelo.
Ele Sc alegrou com Seu Filho (Mt 3:17; 12:18; Em outro texto, Paulo fala do Espírito Santo
17:5; Jo 8:29). Contempla com prazer atos de habitando no coração dos cristãos (ver ICo
fé e de amor (Fp 4:18; Cl 3:20; Hb 13:16, 21). 3:16; 6:19). A expressão “em vós” denota a
Mas essa vida de fé, obediência e amor é proximidade da ligação entre o crente e o
possível apenas aos que vivem pelo poder Espírito. Isso implica a completa submissão
do Espírito Santo que neles habita. Os que da vontade do crente à vontade de Deus.
estão na carne não podem fazer as coisas Espírito de Cristo. Em outros textos,
que agradam a Deus. Sua natureza os leva à o Espírito Santo é chamado de “Espírito de
hostilidade e desobediência. Cristo” (lPe 1:11; cf. 2Pe 1:21), “Espírito
Este versículo acrescenta explanação à de Seu Filho” (G1 4:6) e “Espírito de Jesus
argumentação de Paulo de que as tentativas Cristo” (Fp 1:19; sobre a relação do Espírito
de obediência legalista são falhas (Rm 3:20; Santo com Cristo, ver Jo 14:26; 15:26; 16:7,
7:14-25). Aqueles que dependem da falsa 13, 14).
esperança de que suas próprias obras de Esse tal não é dEIe. Ou, “não pertence
obediência agradam a Deus e merecem a Ele”. Não é suficiente estar intelectual­
Seu favor para salvá-los são alertados de mente convencido da veracidade do cristia­
que isso não é possível. Os que estão na nismo. O Espírito de Cristo deve habitar na
carne não podem agradar a Deus nem obe­ vida. A profissão de fé, em si, não torna a
decer à Sua lei. pessoa uma verdadeira seguidora de Cristo.
9. Vós, porém. Em sua forma caracte­ E possível saber que realmente pertence­
rística, Paulo expressa confiança em seus mos a Ele se Ele nos deu do Seu Espírito
leitores. Mas, então, ele qualifica sua afir­ (1 Jo 4:13). O amor, a alegria, a paz e as outras
mação, acrescentando a condição da qual graças do Espírito (G1 5:22) são evidências do
depende necessariamente essa declaração. verdadeiro cristianismo. Mas se, ao contrário,
No Espírito. Ou seja, “se tendes a mente a vida está marcada por crueldade, egoísmo e
espiritual e estais sob a direção e influência vaidade, então é porque a pessoa não é dEIe.
do Espírito Santo”. Este versículo é repleto de advertências.
Se, de fato. A velha vida na carne só O cristão pode defender as doutrinas e estar
deixa de existir quando começa a nova vida em conformidade com as práticas da igreja;
no Espírito. O poder dominante da carne pode ser ativo na causa de Deus e disposto
só pode ser expulso quando o Espírito é a doar os bens para alimentar os pobres ou

620
ROMANOS 8:12

mesmo a oferecer o próprio corpo para ser Alguns comentaristas preferem limi­
queimado; mas, se o Espírito não habitar tar o significado da justiça nesta passagem
nele, e o fruto do Espírito (G1 5:22) não for à justiça de Cristo atribuída ao crente para
evidente em sua vida, ele não é um dos que a justificação que dá vida (Rm 5:18). Mas o
> pertencem a Cristo (ICo 13:3). O orgulhoso, contexto não parece indicar essa limitação.
vaidoso, frívolo, mundano, avarento, cruel e Tomando a justiça em seu sentido mais
crítico tem comunhão, não com o Espírito amplo, o significado da expressão parece ser
de Cristo, mas com outro espírito (T5, 225). que, embora o corpo esteja morto por causa
10. Se, porém, Cristo. Isto mostra que do pecado de Adão, do qual todos participam
ter o Espírito de Cristo (v. 9) é ter Cristo (ver com. de Rm 5:12), o espírito é vida por
habitando no coração, como princípio de causa da justiça de Cristo, atribuída na jus­
vida (ver Jo 6:56; 15:4; 2Co 13:5; G1 2:20; tificação e, depois, transmitida na santifi­
Ef 3:16, 17; Cl 1:27). cação. Esse dom da justiça é acompanhado
O corpo, na verdade, está morto. pelo dom da vida eterna (Rm 5:17, 18, 21).
Os comentaristas têm interpretado este A evidência do recebimento do dom da jus­
texto de diversas maneiras. No entanto, a tiça e da reconciliação com Deus é a pre­
referência evidente do v. 11 à ressurreição sença do Espírito de Deus (Ef 1:13).
do corpo mortal indica que Paulo trata da 11. Vivificará também. Paulo fala da
morte física por causa do pecado (Rm 5:12). ressurreição de Cristo como o penhor da
Mesmo os que nasceram de novo para uma ressurreição do crente (ICo 6:14; 15:20-23;
nova vida no Espírito ainda estão sujei­ 2Co 4:14; Fp 3:21; iTs 4:14).
tos à morte, que passou de Adão a todos. Por meio do Seu Espírito. Evidências
Mas, uma vez que o Espírito habita neles, textuais favorecem (cf. p. xvi) a variante:
aguardam a ressurreição e a vida eterna “por causa de Seu Espírito”. De acordo com
(Rm 8:11). a tradução da ARA, o Espírito Santo é o
O espírito. Ou, “o Espírito” (NTLH). poder pelo qual os mortos são ressuscita­
O contexto, especialmente o contraste direto dos. De acordo com o outro entendimento,
entre “corpo” e “espírito” (cf. ICo 7:34; 2Co 7:1; o Espírito Santo é o motivo para serem res­
Tg 2:26), parece indicar que Paulo se refere suscitados. As duas idéias são verdadeiras e
ao espírito humano. apropriadas ao contexto. O Espírito Santo é o
E vida. Paulo não diz que o espírito Espírito da vida (v. 2), e é natural que, quando
“está vivo”, mas que “é vida”, apesar de mui­ o Espírito está presente, também haja vida.
tas versões recentes traduzirem como “está Portanto, seria correto dizer que, tanto “pelo
vivo” ou “tem a vida”. O espírito humano, poder do Espírito” como “por causa da pre­
que é permeado pelo poder vivificante do sença do Espírito”, Deus vai ressuscitar aque­
Espírito Santo, possui vida sustentada em les nos quais o Espírito doador de vida habita.
Deus. E no espírito (mente) da pessoa que 12. Somos devedores. A presença
o Espírito de Deus realiza Sua obra vivifica- salvífica do Espírito Santo traz obrigações
dora e transformadora. morais de se viver de acordo com o pendor do
Por causa da justiça. Ao longo das Espírito. Paulo explica que o poder da carne
Escrituras, a justiça é frequentemente asso­ produz morte (v. 6). Portanto, o crente não
ciada à vida, assim como o pecado o é à deve estar sob as ordens de sua natureza car­
morte. Quando há justiça na vida, há evi­ nal. Por outro lado, o Espírito de Deus traz
dência da presença e do poder do Espírito liberdade da escravidão e da condenação do
de Deus; e isso significa vida. pecado (v. 2; Rm 6:22), sendo a garantia da

621
8:13 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

vida eterna por vir (Rm 8:11). Isso coloca na faz, deve ser realizado tendo em vista a gló­
posição de devedores aqueles pelos quais o ria de Deus (ICo 10:31).
Espírito realiza essa obra salvífica e transfor­ Certamente, vivereis. Este é o futuro
madora. Eles devem tudo ao Espírito, e sua simples do verbo, portanto, difere da forma
fidelidade e obediência devem ser comple­ da expressão “caminhais para a morte”. A dis­
tas, tendo em vista esse poder superior pre­ tinção sugere que, embora a morte seja a con­
sente em sua vida. sequência inevitável de uma vida segundo a
Este versículo é uma resposta aos que carne, a vida eterna não é exatamente a con­
não compreendem a liberdade do evangelho. sequência de se mortificar as obras do corpo.
O evangelho liberta da condenação da lei e E, antes, um dom de Deus por meio de
do erro destrutivo de tentar guardar a lei Cristo (ver com. de Rm 6:23).
► pelos próprios esforços. Mas ele não isenta Seja qual for a profissão de vida espiri­
da obediência à lei de Deus, que é o eterno tual, permanece para sempre a verdade de
e imutável decreto de Deus ao qual todas as que, quando se vive segundo a carne, a morte
Suas criaturas devem obedecer (ver com. de é certa (ver G1 6:7, 8; Ef 5:5, 6; Fp 3:18, 19;
Rm 3:31). Longe de o evangelho ser o fim ljo 3:7, 8). Um dos dois deve morrer: a vida
da obediência, ele é o começo da verdadeira de pecado ou o pecador. Ninguém pode ser
obediência. Paulo mostra que o Espírito des­ salvo em seus pecados.
perta a vontade e a motivação para obedecer. 14. São guiados. Ou, “estão sendo guia­
Quando se permite ao Espírito plena atuação dos”. O tempo presente indica ação con­
na vida, essa necessidade de obedecer não tínua. A direção do Espírito não significa
representa qualquer sentimento de subser­ um impulso momentâneo, mas uma influên­
viência. Na verdade, há um sentimento de cia habitual e constante. Os filhos de Deus
alegria na harmonia com a vontade de Deus não são aqueles cujo coração é tocado ocasio­
(cf. Rm 7:22), quando o Espírito Santo nos nalmente pelo Espírito, ou que vez por outra
dá poder para viver segundo a mesma. se submetem a Seu poder. Deus reconhece
Segundo a carne. Ver com. dos v. 4, 5. como filhos os que são continuamente guia­
13. Caminhais para a morte. O texto dos pelo Seu Espírito.
grego é mais enfático do que a forma verbal O poder orientador e transformador do
em português expressa. Para os que vivem Espírito é descrito como guiando, nunca
segundo a carne, a morte é inevitável (com­ forçando. Não há coerção no plano da sal­
parar com Rm 6:21). vação. O Espírito só habita naqueles que O
Mortificardes. O tempo presente indica aceitam pela fé. E a fé significa submissão
um processo contínuo de mortificação. voluntária à vontade de Deus e à influência
Os feitos do corpo. Paulo se refere às do Espírito Santo.
ações do corpo, considerando sua tendência Filhos de Deus. Paulo pode estar
moral, que, neste caso, é inclinada para o fazendo alguma distinção entre “filhos” (huioi,
mal. Neste versículo, o apóstolo reafirma substantivo masculino) e “filhos” (iekna, subs­
o argumento desenvolvido nos dois capítu­ tantivo genérico, “crianças”; v. 16). Se assim
los anteriores, de que a vida carnal significa a for, “crianças” denota a relação natural que
morte, mas a crucifixão da carne significa os filhos têm com seus pais, enquanto “filho”
vida (ver Rm 6:6; 8:6). O cristão não deve implica, além disso, o status e os privilégios
ceder aos impulsos e apetites do corpo, a não reservados aos herdeiros. No v. 15, a posição
ser quando estejam em conformidade com a de filiação é contrastada com a dos servos ou
lei de Deus. O comer, o beber e tudo o que escravos (ver G1 3:26; 4:1-7).

622
ROMANOS 8:15

Enquanto vive sob a lei, a pessoa é escrava Outra vez, atemorizados. Isto implica
(ver com. de Rm 6:14) e procura, pelas pró­ uma recaída no estado de medo em que a
prias obras, obter a recompensa. Mas, apesar pessoa vivia antes de ser cristã. Quem
dos melhores esforços para estabelecer a pró­ ainda está sob a lei e na escravidão do peca­
pria justiça, ela colhe apenas condenação e ira do (Rm 6:14) se assombra sob o peso do pecado
e está diante de seu Senhor e Juiz com temor e não perdoado (cf. Rm 1:32; cf. Hb 2:14, 15).
tremor. Como escrava, a pessoa não tem parte Quando o Espírito Santo é recebido, esse
na herança. Não espera a vida, mas a morte. estado desditoso termina. O Espírito traz
Todavia, quando, pela fé, ela alcança justifi­ vida, amor e libertação do temor (ljo 4:18),
cação e nasce do Espírito Santo, passa de um com a certeza de que, em vez de ser escravo,
estado de escravidão para o de filiação. Em o cristão é filho e herdeiro.
vez da ira do Juiz, o amor do Pai então repousa Adoção. Do gr. huiothesia, literalmente,
sobre ela. Em vez do medo de um escravo, tem “colocar como um filho”. Há alguma diferença
a confiança de um filho. Ser filho de Deus é de opinião quanto se a frase “o Espírito de
viver verdadeiramente (cf. Rm 8:13). adoção” é uma referência ao Espírito Santo,
O privilégio da filiação é apenas para os que produz a condição de adoção, ou ao espí­
que são guiados pelo Espírito. Eles nasce­ rito, que é característica dos que são admiti­
ram de novo (Jo 1:12, 13; 3:3-8) e, sendo dos a essa relação de filiação. Se Paulo trata
judeus ou gentios, são os verdadeiros filhos da consciência de adoção, “espírito” deve
► de Abraão, os filhos da fé (G1 3:7). ser escrito sem maiuscula, que é o caso de
15. Porque não recebestes. O texto muitas versões (em contraste com NVI e
grego pode ser entendido como uma referên­ ACF). Naturalmente, é o Espírito Santo
cia ao início da vida cristã, quando o crente que traz a consciência de filiação. A cons­
é reconciliado, justificado e nasce de novo. ciência da adoção produz o sentimento de
Nesse momento, Deus envia o Espírito ao carinho, amor e confiança, como os filhos
crente (G1 4:5, 6). têm em relação a seus pais, e não o espí­
O espírito de escravidão. Paulo não se rito servil, temeroso dos escravos em relação
refere ao espírito humano nem ao Espírito aos senhores.
divino. Ele faz um uso geral do termo “espí­ Os judeus não deviam ter a prática da
rito” para expressar um estado de espírito, adoção, mas ela não era incomum entre os
um hábito ou sentimento. Assim, a expressão gregos e romanos. A maneira de Paulo usar
pode ser traduzida como “o senso de escra­ esse termo era, portanto, compreensível a
vidão”, “um sentimento de servidão”, “um seus leitores em Roma. Ele usa a expres­
espírito servil”. Isto pode ser comparado a são em outros textos de suas epístolas para
“espírito de ciúmes” (Nm 5:14, 30), “espí­ descrever a adoção típica da nação judaica
rito angustiado” (Is 61:3), “espírito de prosti­ (Rm 9:4), a adoção real de crentes judeus e
tuição” (Os 4:12), “espírito de enfermidade” gentios como filhos de Deus (G1 4:5; Ef 1:5)
(Lc 13:11), “espírito de mansidão” (ICo 4:21), e a adoção aperfeiçoada dos crentes no futuro
“espírito de covardia” (2Tm 1:7), “espírito do estado de glória (Rm 8:23).
erro” (ljo 4:6). Adotar é tomar e tratar um estranho como
A servidão, que ao longo desta epístola o próprio filho, e Paulo aplica o termo para
é contrastada com a liberdade dos filhos de os cristãos porque Deus os trata como Seus
Deus, é a escravidão do pecado (Rm 6:6, 16, próprios filhos, mesmo que, por natureza,
17, 20; Rm 7:25) e da morte como consequên­ fossem estrangeiros e inimigos (Rm 5:10;
cia do pecado (Rm 5:21). Cl 1:21). Considerando que, por natureza,

623
8:16 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

o pecador não tem nenhum direito em Deus, não pode ser discutida pelo gênero dos prono­
Seu ato de adotá-lo é de puro e soberano mes que podem ser utilizados (cf. AA, 53; TM,
amor (jo 3:16). Significa também que, como 64). A obra do Espírito Santo é declarada nas
filho adotivo, o pecador está sob a proteção e Escrituras (ver Jo 14:26; 16:8, 13-15; Rm 8:26
o cuidado de Deus e que, em gratidão, deve etc.), mas a natureza do Espírito Santo é um
manifestar obediência voluntária em todas mistério. Em “relação a tais mistérios, dema­
as coisas (ver com. de Rm 8:12). siado profundos para o entendimento humano,
No qual clamamos. Literalmente, “no o silêncio é ouro” (AA, 52).
qual gritamos”. Também pode ser traduzido Com o nosso espírito. O testemu­
como, “quando choramos”, caso em que as nho do espírito do próprio crente de que
palavras seriam ligadas ao versículo seguinte, ele é filho de Deus depende do testemu­
como ocorre em algumas versões (ver RSV). nho do Espírito Santo de que isso é assim.
Sc a outra conexão for seguida, Paulo estaria Paulo diz que “ninguém pode dizer: Senhor
dizendo que o grito é motivado pela consciên­ Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (ICo 12:3).
cia da adoção como filhos de Deus. A pala­ Também é verdade que ninguém pode cha­
vra traduzida como “grito” significa um brado mar a Deus de Pai, se não for pelo mesmo
expressivo de profunda emoção. Espírito (G1 4:6). A seguinte tradução
Aba, Pai. A primeira palavra é uma torna esta passagem um estreito paralelo a
transliteração do aramaico, a língua falada Gálatas 4:6: “Quando clamamos: Aba, Pai’,
pelos judeus na Palestina. A segunda é tradu­ é o próprio Espírito testificando com o nosso
zida do grego, língua também entendida por espírito de que somos filhos de Deus” (RSV).
muitos judeus da Palestina. A menção da Filhos de Deus. Da mesma forma que
palavra “Pai”, primeiramente em aramaico nos tornamos filhos de Deus pelo poder
e, depois, em grego, reflete o caráter bilíngue regenerador do Espírito (Jo 1:12, 13; 3:5),
das pessoas às quais o cristianismo chegou. a certeza de que somos filhos de Deus vem
Porém, parece não haver explicação defini­ pela habitação do Espírito (Rm 8:14). O fato
tiva do motivo da repetição. Ela ocorre uma de Ele habitar em nós evidencia-se pela pre­
vez em Marcos 14:36, e Paulo a usa nova­ sença do fruto do Espírito (G1 5:22). Se há
mente em Gálatas 4:6. Alguns sugerem que amor para com Deus e os semelhantes,
a palavra grega tenha sido introduzida por pode-se saber que já se passou da morte
► Paulo e Marcos simplesmente para explicar o para a vida (IJo 3:14), que se tornou filho
significado do termo aramaico aos leitores de do Pai celestial (Mt 5:44, 45), adotado na
língua grega. No entanto, outros dizem que família divina.
as três passagens em que ocorre essa repe­ 17. Também herdeiros. No plano de
tição são emocionais e que, por isso, a repeti­ Deus para a restauração completa do ser
ção pode indicar a intensidade do sentimento. humano, filiação e herança ocorrem juntas
16. O próprio Espírito. Ou, “o mesmo (cf. G1 4:7). Se nascemos de novo e somos
Espírito”, como em muitas versões (ver ARC). adotados como Seus filhos, Deus também
O gênero gramatical da palavra “Espírito”, nos trata como herdeiros. A herança é o
do gr. pneuma, é neutro. Assim, o adjetivo reino da glória (Mt 25:34; lPel:4, 5) e vida
“próprio” no grego também é neutro. Quando eterna (Rm 2:7). A plena posse dessa herança
o Espírito Santo é mencionado pelo nome é ansiosamente aguardada pelos filhos de
masculino Paraklêtos, “Consolador”, é utilizado Deus (Rm 8:18-25; cf. IJo 3:1-3).
o pronome masculino (ver Jo 15:26; 16:7, 13). Coerdeiros. Jesus Se descreveu como
E óbvio que a personalidade do Espírito Santo “herdeiro” na parábola dos lavradores maus

624
ROiM ANOS 8:18

(Mt 21:38). Como o “primeiro entre mui­ Mas é por essas provas e perseguições que
tos irmãos’’ (Rm 8:29), Cristo admite que o caráter de Cristo é reproduzido e reve­
Seus irmãos igualmente compartilham a lado em Seu povo. “Muitos serão purifica­
herança que Ele conquistou, não para Si, dos, embranquecidos e provados” (Dn 12:10).
mas para eles (ver Jo 17:22-24; 2Tm2:ll, 12; Ao compartilhar os sofrimentos de Cristo,
Ap 3:21). somos educados, disciplinados e preparados
Com Ele sofremos. Ou, “sofremos jun­ para compartilhar as glórias futuras.
tamente”. No grego, Paulo usa três palavras 18. Tenho por certo. Do gr. logizomai.
compostas antecedidas pela preposição sun, A mesma palavra é traduzida em outros luga­
“com”. Os cristãos são “coerdeiros”, ou herdei­ res como “pensas” (Rm 2:3), “concluímos”
ros em conjunto (sugklêronomoi), que “sofrem (Rm 3:28), “suponho” (2Co 11:5) e “julgo”
com” (sumpaschõ) e estão “glorificados com” (Fp 3:13). Não denota mera opinião ou supo­
(.sundõxazõ). Se sofremos com Cristo, Deus sição, mas julgamento ponderado.
nos trata como coerdeiros com Seu próprio Os sofrimentos. Paulo podia falar disso,
Filho. O mero sofrimento não satisfaz a con­ por sua experiência dolorosa. Quando escre­
dição aqui implícita. Ele deve estar sofrendo veu esta carta, ele já tinha sofrido muito
com Cristo (cf. 2Tm 2:11, 12). por Cristo e pelo evangelho, e muito sofri­
A vida de Cristo é um exemplo para o mento ainda lhe estava reservado antes de
crente. Através da dor, Jesus alcançou a paz; sua execução (ver At 19:23-41; 20:23; 21:27-
pelo sofrimento, chegou à glória. Assim tam­ 36; 2Co 1:3-11; 6:4-10; 11:23-33; Cl 1:24).
bém farão todos os que O amam (cf. Mt 10:38; Tempo presente. A luz da eternidade, o
16:24; 20:22; 2Co 1:5; Cl 1:24; lTs 3:3). presente nada mais é que um período breve
Sofrer com Ele significa sofrer por causa e transitório, uma “leve e momentânea tri-
d Ele e do evangelho. Quando os primei­ bulação” (2Co 4:17).
ros cristãos foram confrontados com a per­ Comparados. Em comparação com a gló­
seguição cruel por amor a Cristo, Pedro os ria vindoura, todos os sofrimentos da vida pre­
encorajou com as palavras: “Pelo contrário, sente se tornam insignificantes (ver PE, 17).
alegrai-vos na medida em que sois copartici- A ser revelada. Paulo representa a
pantes dos sofrimentos de Cristo, para que futura revelação da glória como algo que cer­
também, na revelação de Sua glória, vos ale­ tamente acontecerá. As mesmas palavras são
greis exultando” (IPe 4:13). utilizadas na mesma ordem categórica, em
Sofrer com Cristo pode significar tam­ Gálatas 3:23.
bém lutar contra os poderes da tentação, A glória prestes a ser revelada inclui o bri­
como Ele o fez, para que, assim como Ele lho celestial da segunda vinda e a manifesta­
foi aperfeiçoado “por causa do sofrimento” ção de Cristo em toda a Sua divina perfeição
(Hb 2:9, 10, 18), também o sejamos nós. e pleno poder (ver Tt 2:13). Essa glória será
O plano de salvação não oferece aos cren­ compartilhada pelos fiéis seguidores de
tes uma vida imediata livre de sofrimento e Cristo (Cl 3:4), pois eles serão semelhantes
provações. Pelo contrário, convida-os a seguir a Ele, quando O virem como Ele é (ljo 3:2).
a Cristo no mesmo caminho de abnegação e Eles O refletirão como um espelho e serão
► opróbrio. Assim como Jesus sofreu a oposição transformados à mesma imagem, de glória em
de Satanás e a perseguição do mundo, assim glória (2Co 3:18). A revelação da glória tam­
também o é para todos os que são transfor­ bém incluirá o esplendor e a beleza do Céu,
mados à Sua semelhança. A diferença deles do trono de Deus (At 7:49), lugar brilhante e
em relação ao mundo provoca hostilidade. glorioso (Ap 21:10, 11, 23, 24; 22:5).

625
8:19 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

A expectativa dessa glória futura susten­ Aguarda. Do gr. apekdechomai, palavra


tará os cristãos em suas aflições terrenas. rara no NT (Rm 8:23, 25; lCo 1:7; G1 5:5;

569
Os sofrimentos podem parecer intensos, mas Fp 3:20; Hb 9:28; ver 1 Pe 3:20, em que evi-«
são “leves” em comparação com o “eterno dências textuais atestam a variante ape-
peso de glória” que lhes espera (2Co 4:17). xedechetó). Como a palavra traduzida por
São apenas por um momento, mas a glória “ardente expectativa”, esta também é muito
será eterna. Passam logo, mas a glória nunca expressiva. Denota esperar por alguma coisa
vai escurecer nem diminuir (]Pe 1:4). com forte desejo e expectativa, com a aten­
Em nós. Ou, “para nós”. A preposição ção retirada de tudo mais.
eh sugere a ideia de que a glória se estende Revelação. Do gr. apokalupsis, “revela­
a nós em sua esplendorosa transfiguração. ção”, título do último livro do NT. Apokalupsis
19. Ardente expectativa. Do gr. apoka- está relacionado com o verbo traduzido como
radokia. Esta palavra grega altamente expres­ “revelou” (apohaluptõ), no v. 18. A revela­
siva é composta de três partes: apo, “longe”, ção dos filhos de Deus será a manifestação
kara, “cabeça”, dokeõ, aqui, “aguardar”. O sig­ pública de toda a obra da graça redentora,
nificado literal seria “aguardar com a cabeça em sua plenitude. Isso ocorrerá na segunda
erguida”. O prefixo apo, “longe” sugere um vinda de Cristo (Cl 3:4; ljo 3:2), em que os
distanciamento de tudo e a fixação dos olhos justos mortos serão ressuscitados, e os vivos
em um único objeto. Sugere esperar com a serão arrebatados para o encontro com o
cabeça erguida e os olhos fixos naquele ponto Senhor nos ares (1 Co 15:51-53; 1Ts4:16, 17).
do horizonte a partir do qual o objeto espe­ A descrição de Paulo mostra que a criação
rado está por vir. aguarda ansiosamente por essa revelação.
Criação. Do gr. kthh, “criação”. A pala­ 20. Está sujeita. O tempo do verbo grego
vra ktisis pode significar tanto o ato cria­ indica que o evento ocorreu em um momento
dor (ver Rm 1:20) como a coisa criada (ver particular, que seria a queda de Adão e Eva.
Mc 16:15; Rm 1:25; 8:22; Cl 1:23; Hb 4:13). O pecado do ser humano produziu conse­
Aqui é utilizada neste último sentido. O sig­ quências que alcançaram todo o mundo ao
nificado da passagem tem sido debatido lon­ redor. Ouando o homem, centro da criação,
gamente, e os comentaristas têm procurado foi desviado de seu verdadeiro curso, toda a
traçar linhas de distinção entre o que está e esfera da qual ele era o centro foi afetada e
o que não está incluído no termo “criação”. ficou sob a sentença divina (Gn 3:17-19).
Alguns entendem que a “criação” se refere a Vaidade. Do gr. mataiotês. Esta pala­
todo o mundo da natureza, seres animados vra expressa ausência de finalidade, frus­
e inanimados, exceto o ser humano. Outros tração, expectativas frustradas. Há apenas
incluem também o mundo da humanidade. outras duas ocorrências de mataiotês no NT
Alguns pensam que só a humanidade está (Ef 4:17; 2Pe 2:18). O verbo relacionado,
em discussão. Talvez seja melhor não limi­ mataioõ, pode ser comparado com “torna­
tar a aplicação, pois, certamente, toda a ram-se nulos” (Rm 1:21), com o adjetivo rela­
natureza, em sentido figurado, e a huma­ cionado, mataios, “vão” (lCo 3:20; lPe 1:18).
nidade, literalmente, gemem sob a maldi­ O livro de Eclesiastes é um comentário sobre
ção e esperam a liberdade. Não é incomum a “vaidade” (ver Ec 1:2). Embora, no prin­
nas Escrituras que o mundo da natureza cípio, Deus haja criado tudo “muito bom”
seja descrito como se fosse capaz de ter (Gn 1:31), depois, por toda parte, mos­
consciência humana (ver Dt 32:1; Is 35:1; traram-se as marcas da decadência e da
Os 2:21, 22). morte. A fúria dos elementos c os instintos

626
ROMANOS 8:22

destrutivos dos animais são uma prova da morais e físicas. A vida de lutas e cuida­
vaidade e da falta de rumo a que a criação dos que, a partir de então, deveríam ser o
foi submetida. Tudo que é imperfeito, cor­ destino do ser humano foi planejada para o
rompido e vil é a sombra que Adão, pelo bem final dele. Era uma disciplina neces­
pecado, lançou sobre sua posteridade: os sária como resultado do pecado (ver PP, 59,
descendentes, os animais, as plantas e todo 60). Além disso, a história da terrível expe­
o seu domínio. riência de rebelião serviría para alertar con­
Não voluntariamente. Era Adão que tra a futura transgressão (ver GC, 499).
tinha a escolha entre o serviço a Deus ou Criatura (ARC). Melhor, “a criação”
pela vaidade, e por causa de sua decisão (ARA; ver com. do v. 19).
rebelde, a humanidade e a natureza ficaram O cativeiro da corrupção. Isto é, o
sujeitos à vaidade. Sua posteridade não teve estado de sujeição que resultou em dissolu­
escolha. A natureza é inocente. No entanto, ção e decomposição. A sujeição involuntária «

570
Deus providenciou um meio de escape (ver a uma condição que resulta em corrupção é
com. de Ez 18:2). chamada dc “escravidão”.
Por causa dAquele. A cláusula diz, A liberdade da glória. Liberdade é um
literalmente, “por conta de quem o sujeitou”. dos elementos do estado de glória mencio­
Alguns a têm relacionado à humanidade como nados no v. 18. No aparecimento de Cristo,
um todo, ou a Adão, em particular, ao passo toda a criação espera compartilhar da eman­
que outros a relacionam a Deus. A última cipação prometida.
opção talvez seja a interpretação mais sim­ Para os filhos de Deus, “a liberdade da gló­
ples (sobre por que a maldição foi permitida, ria” significa completa liberdade da presença e
ver com. de Ez 18:2; ver GC, 497-499). do poder do pecado, liberdade da tentação, da
21. Na esperança. Muitos comentaris­ calamidade e da morte. No estado futuro de
tas e algumas versões conectam estas pala­ glória, eles estarão livres para exercer as suas
vras ao v. 21; e traduzem: “na esperança de faculdades em perfeita harmonia com a von­
que a criação”. Qualquer que seja a cone­ tade e os propósitos de Deus. A mais elevada
xão, o significado deixa claro que a sujei­ forma de liberdade é estar sob a soberania e
ção à vaidade não era o fim do propósito de o governo do sábio Criador. Na Nova Terra,
Deus. A criação foi submetida na esperança a alegria e o desejo dos salvos será viver em
de que alcançasse o objetivo que Deus tinha harmonia com Deus. Uma vida de obediên­
em mente ao sujeitá-la. O mundo da natu­ cia eterna é a verdadeira liberdade. A longa
reza foi feito para a humanidade e, em seu história do pecado provou que tudo é escra­
estado original, estava adaptado para ser­ vidão, exceto o serviço a Deus; tudo é escravi­
vir às alegrias e felicidade de seres huma­ dão, a não ser a submissão às ordens divinas.
nos sem pecado. Mas, quando o homem 22. Porque sabemos. Paulo apela para
caiu, a natureza também mudou, e foi adap­ a experiência de seus leitores em suas obser­
tada para atender à condição alterada do ser vações do mundo ao redor.
humano e para servir ao plano da redenção. Criação. Do gr. ktisis. Esta é a mesma
O paraíso estava perdido e, sob a maldi­ palavra traduzida como “criatura”, nos v. 19,
ção do pecado, toda a natureza testemu­ 20 e 21 (ver com. do v. 19).
nha à humanidade o caráter e os resultados Geme. Estas dores indicam esperança,
da rebelião contra Deus. Mas a “vaidade” da bem como sofrimento. Paulo retrata a criação
natureza se tornou um incentivo para que sob as dores de parto, uma vez que aguarda
os seres humanos exercessem as faculdades a libertação (cf. Jo 16:21).

627
8:23 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Somente o cristão, com as Escrituras o corpo terrestre se transformará em corpo


nas mãos, pode explicar o mistério do sofri­ celestial (ver lCo 15:44-53; cf. 2Co 5:1-5).
mento e da tristeza. Mediante a revelação O texto grego desta passagem também
da Palavra de Deus, ele conhece a causa e pode ter o sentido de que o Espírito mesmo
a origem do sofrimento que vê em “toda a é as primícias, como promessa ou antecipa­
criação”. Sabe que as dores de um mundo ção das bênçãos por vir (cf. 2Co 1:22).
cm agonia apontam para a futura libertação, Aguardando. Do gr. apekdeckomai (ver
em que haverá “novos céus e nova terra, nos com. do v. 19).
quais habita a justiça” (2Pe 3:13). Adoção. Do gr. huiothesia (ver com. do
Até agora. As dores da criação têm exis­ v. 15). O cristão que recebeu o dom do Espírito
tido desde a entrada do pecado, e o sofri­ Santo já é um filho adotivo de Deus (Rm 8:15,
mento não vai cessar até a vinda de Cristo. 16; G1 4:6). Mas o cumprimento final dessa
23. Não somente ela. Literalmente, adoção ocorrerá na “manifestação dos fi­
“não apenas”. E melhor acrescentar “a criação”. lhos de Deus” (Rm 8:19) por ocasião da
Os cristãos, juntamente com o restante da vinda de Cristo.
criação, suspiram pelo momento em que sua Redenção do nosso corpo. O pleno
adoção como filhos de Deus será completa, cumprimento da adoção ocorre quando ^
e seu corpo mortal, transformado. Tudo o o corpo for resgatado. Paulo usa a palavra
que eles viram até então só os faz aspirar “redenção” (apolutrosis) não para enfatizar
por algo mais. a ideia de resgate (ver com. de Rm 3:24),
Nós [...] igualmente. A repetição é um mas apenas para expressar a libertação da
recurso de ênfase. Mesmo os cristãos, sob escravidão. Na segunda vinda de Cristo, o
tantas bênçãos espirituais, também gemem corpo será libertado da atual condição de
juntamente com a criação. Embora tenham fraqueza, pecado, decadência e morte (ver
as primícias do Espírito, a santificação está lCo 15:49-53; Fp 3:21; cf. lTs 4:16, 17).
apenas começando, e há tempo para alcan­ 24. Na esperança. Normalmente,
çar a perfeição e redenção completa. Cada Paulo fala da fé, em vez da esperança, como
dom da graça de Deus traz um suspiro cor­ o canal de salvação (Rm 3:28). No entanto,
respondente pelo que ainda está faltando. alguns favorecem a tradução “por meio da
Primícias. Do gr. aparchê. Esta pala­ esperança” (NTLH, KJV). As duas tradu­
vra é usada na LXX para os primeiros fru­ ções se ajustam ao contexto. Mesmo que a
tos da colheita, a parte consagrada a Deus esperança seja diferente da fé (lCo 13:13),
como oferta de gratidão (Ex 23:19; Lv 23:10; ela é inseparável dela. E a esperança que
Dt 26:2). As “primícias do Espírito” podem apresenta vividamente a salvação diante do
ser entendidas como os dons iniciais do crente e assim o leva a se esforçar, pela fé,
Espírito Santo, o penhor do pleno derrama­ para obtê-la.
mento do poder divino. O Espírito Santo des­ Fomos salvos. Às vezes, Paulo diz, lite­
ceu em proporção especial no Pentecostes, ralmente, “sois salvos” (Ef 2:5, 8); outras vezes:
e Suas bênçãos continuaram, como é evidente “estais sendo salvos” (lCo 15:2) e, às vezes,
pelos vários dons espirituais (iCo 12-14) “serás salvo” (Rm 10:9; cf. v. 13). Para o
e pela transformação de caráter que distin­ crente em Cristo, a salvação é uma condi­
gue os cristãos verdadeiros (Cl 5:22, 23). ção já experimentada, mas que também deve
A aquisição desses dons iniciais só aumen­ ser mantida na vida diária. E ela não chega
tou o desejo de uma concessão maior, espe­ ao completo cumprimento antes da vinda
cialmente, o dom da imortalidade, quando de Cristo.

628
ROM ANOS 8:26

Quando, pela fé, a pessoa se torna filha Espírito Santo sustenta. Uma fonte de enco­
de Deus, pode-se dizer que foi salva. Isso rajamento é humana, e a outra, divina.
está em harmonia com a afirmação: “acres­ No entanto, outros preferem fazer a cone­
centava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam xão com todo o raciocínio anterior. Nesse
sendo salvos” (At 2:47). No entanto, quando caso, o significado é que, assim como os
o cristão é um “recém-nascido”, a salvação que creem gemem em seu íntimo, também
está apenas começando. Ele deve esperar o Espirito intercede por nós com gemidos
uma vida de contínuo crescimento e trans­ inexprimíveis. As palavras “geme” (v. 22),
formação e a futura e completa libertação. “gememos” (v. 23) e “gemidos” (v. 26) parecem
O cristão pode ser tentado a supor que sua indicar que a segunda conexão deve ser pre­
salvação é uma certeza e, por isso, relaxar a ferida. O Espírito de Deus se une ao crente e
vigilância e o exame interior. Nesse caso, é com o mundo da natureza ansiosa pela con­
bom lembrar o testemunho do mesmo após­ clusão da salvação.
tolo: “Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à Assiste. Do gr. sunantilambanoniai, lite­
escravidão, para que, tendo pregado a outros, ralmente, “segurar junto”, “enfrentar”, “colo­
não venha eu mesmo a ser desqualificado car-se em favor de [alguém]”. A única outra
(ICo 9:27). ocorrência deste verbo duplamente composto
Esperança que se vê. Neste caso, Paulo no NT está em Lucas 10:40, em que Marta
não está se referindo à esperança, como um pede que Jesus envie Maria para ajudá-la.
sentimento, mas ao objeto da esperança, Paulo não diz que o Espírito remove as enfer­
isto é, a coisa esperada (cf. At 28:20; Cl 1:5; midades, mas que ajuda e dá forças para
lTm 1:1). Quando a coisa esperada já está vencê-las (cf. 2Co 12:8, 9).
presente diante dos olhos, deixa de ser um Fraqueza. Evidências textuais favore­
objeto de esperança. A esperança não busca cem (cf. p. xvi) a forma singular: “fraqueza”,
as coisas que se veem, mas as que não se A palavra pode se referir a fraqueza espiritual
veem (cf. Hb 11:1). enquanto se espera pela redenção final. Mas
Espera. As pessoas não continuam espe­ a fraqueza particular que Paulo menciona é
rando por algo que já veem e possuem. que “não sabemos orar como convém”.
25. Paciência. Do gr. hupomonê, pala­ Como convém. Literalmente, “como
vra que denota perseverança em meio a obs­ é necessário”. Devido à falta de clareza da
táculos. Sem dúvida, Paulo aponta para os visão humana, o crente não sabe se a bênção
sofrimentos mencionados no v. 18. Ainda não que pede será a melhor. Só Deus conhece o
se pode ver a salvação final, mas se espera fim desde o princípio. Portanto, em oração,
por ela. Por isso, o cristão se dispõe a supor­ deve-se expressar sempre completa submis­
tar com paciência os sofrimentos com que são à vontade divina. Jesus deu o exemplo
se depara. neste sentido quando orou: “Todavia, não
Aguardamos. Do gr. wpekdechoviai (ver seja como Eu quero, mas como Tu queres”
com. do v. 19; cf. v. 23). (Mt 26:39; cf. Jo 12:27, 28).
26. Semelhantemente. Alguns conec­ O mesmo Espírito. Ou, “o próprio
tam a seção assim introduzida às palavras Espírito” (ver com. do v. 16).
anteriores, no sentido de que a ajuda do Intercede. Do gr. huperenlugchanõ.
Espírito é um segundo motivo de encoraja­ Esta é a única ocorrência do verbo dupla­
mento para a espera paciente, em meio ao pre­ mente composto no NT. A forma simples
sente sofrimento, pela glória a ser revelada. (entugchanõ) ocorre cinco vezes (At 25:24;
Assim como a esperança sustenta, também o Rm 8:27, 34; 11:2; Hb 7:25) e significa “clamar”,

629
8:27 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

“interceder” ou “suplicar”. A pitoresca pala­ Intercede. Do gr. entugchanõ (ver


vra mais longa huperentugchanõ enfatiza a com. do v. 26). O Espírito Santo é o outro
ideia de “em seu favor”. E obra do Espírito “Consolador” (Paraklêtos, ver com. de Jo 14:16),
Santo motivar a orar, ensinar o que dizer e que defende a causa de Deus em nós, assim
mesmo a falar por intermédio do crente (ver como Cristo é nosso “Advogado” (Paraklêtos)
Mt 10:19, 20; Rm 8:15; Cl 4:6; PJ, 147). junto ao Pai (ljo 2:1).
Gemidos. Do gr. stenagmoi, que ocorre Pelos santos. Literalmente, “por santos”.
no NT somente aqui e em Atos 7:34. O verbo 28. Sabemos. Paulo acrescenta outro
stenazõ, “gemer”, é usado para o suspiro de motivo para se olhar confiantemente o
Jesus na ocasião da cura do surdo e gago futuro. O crente sabe que, de acordo com
(Mc 7:34) e para o anseio pelo dia da reden­ o eterno propósito de Deus, todas as coi­
ção (Rm 8:23). sas contribuem para o bem daqueles que
27. Aquele que sonda. Isto é, Deus O amam. Mesmo os problemas e sofrimentos
(cf. lSm 16:7; lRs 8:39; Jr 17:10; At 1:24; da vida, longe de impedir a salvação, podem
Ap 2:23). ajudar a aprofundá-la. A cada passo, o cris­
Mente. Ou seja, pensamento, intenção tão pode estar nas mãos de Deus e cumprir
ou propósito (ver com. do v. 6). Deus conhece o propósito divino.
os desejos que o Espírito Santo inspira no Todas as coisas. Paulo deseja que essa
coração. Ele não precisa que essas emoções afirmação seja entendida no sentido mais
profundas sejam expressas em palavras nem amplo possível, incluindo tudo o que é men­
que a eloquência da linguagem O induza a cionado nos v. 35, 38 e 39. Mas ele pode estar
ouvir. Ele entende os anseios do coração e se referindo especialmente aos “sofrimentos
está pronto para ajudar e abençoar. do tempo presente” (v. 18).
Porque. Do gr. hoti, também traduzido Cooperam. As evidências textuais se
como “que” (ARC). Nesse caso, a tradução dividem (cf. p. xvi) entre as variantes “todas
se baseia no entendimento de que o restante as coisas cooperam para o bem” e “Deus faz ■<
do versículo não dá o motivo pelo qual Deus todas as coisas para o bem”. Inserindo-se
conhece a intenção do Espírito, mas uma des­ a palavra “Deus” ou não, este é o significado
crição da natureza da intercessão do Espírito. pretendido por Paulo. E Deus quem faz com
A maioria, contudo, prefere “porque”. que todas as coisas cooperem para o bem de
Segundo a vontade de Deus. Literal­ Seus filhos.
mente, “segundo Deus” (ver 2Co 7:9). No Para o bem. Nada pode tocar o cristão
grego, estas palavras estão em posição de sem a permissão do Senhor (ver jó 1:12; 2:6),
destaque antes do verbo “interceder”. e todas as coisas que são permitidas coope­
A segunda metade deste versículo ofe­ ram para o bem daqueles que amam a Deus.
rece as razões pelas quais Deus conhece Se Deus permite que o sofrimento e a per­
a mente do Espírito. O Espírito intercede plexidade caiam sobre o cristão, não é para o
em conformidade com a vontade e propósito destruir, mas para o refinar e santificar (ver
de Deus, pois “o Espírito a todas as coisas com. de Rm 8:17). Os problemas e decep­
perseruta” (ICo 2:10). Além disso, a inter­ ções tiram as afeições do mundo e levam a
cessão do Espírito é pelos “santos”, e os san­ olhar para o Céu, para o lar. Eles ensinam
tos são o objeto especial do propósito divino, a verdade sobre a condição frágil e mortal
de acordo com o qual o Espírito intercede. e levam a confiar em Deus em busca de
O propósito de Deus para os santos é o tema apoio e salvação. Também formam um espí­
dos versículos seguintes. rito mais humilde e manso, com disposição

630
ROMANOS 8:29

mais paciente. Essa tem sido a experiên­ Santo para tornar o chamado eficaz. Os que
cia do povo de Deus ao longo da história “amam a Deus” têm na própria experiência a
e, no final, ele pode dizer que tudo contri­ evidência de que foram “chamados segundo
buiu para o bem e para a glória de Deus (ver o Seu propósito”, pois o chamado produziu o
SI 119:67, 71; cf. Hb 12:11). José foi capaz de efeito pretendido (ver Rm 8:16).
dizer a seus irmãos: “Vós [...] intentastes o Propósito. Do gr. prothesis, ou seja, basi­
mal contra mim; porém Deus o tornou em camente, uma “proposição”, a colocação de
bem” (Gn 50:20). alguma coisa aos olhos dos outros. E, por­
Daqueles que amam a Deus. No tanto, aplicada ao pão colocado sobre a mesa
texto grego, esta frase é enfatizada. As pala­ dos pães da proposição (Mt 12:4; Mc 2:26;
vras descrevem os verdadeiros seguidores de Lc 6:4). Em Romanos 3:25, o verbo do qual
Deus, os que têm fé e confiam na direção este termo é derivado (;■protithêmi) é usado
divina. Seu amor a Deus é uma resposta ao para descrever o ato de Deus de “propor” Seu
amor de Deus por eles e à Sua obra divina Filho. Quando em conexão com a mente, o
para a salvação. Antes que a pessoa, por termo significa “plano” ou “propósito”.
sua vez, ame a Deus, o amor de Deus deve E propósito eterno de Deus (Ef 3:11)
estar em seu coração (ljo 4:19), assim como salvar os pecadores pela graça (2Tm 1:9).
o Espírito Santo deve primeiro esclarecer E, como que é “o propósito dAquele que faz
a pessoa para que saiba orar como convém todas as coisas conforme o conselho da Sua
(Rm 8:26). vontade” (Ef 1:11), segue-se que “todas as coi­
Paulo já falou do amor de Deus pelos sas” devem “cooperar para o bem” dos que são
fiéis (Rm 5:5, 8) e menciona isso novamente “chamados” de acordo com esse propósito.
(Rm 8:39). Ele também fala várias vezes sobre Paulo reconhece a liberdade humana.
o amor pelos semelhantes (Rm 12:9, 10; A ênfase que essa exortação desempenha em
13:8, 9). Mas esta é a referência mais espe­ suas epístolas prova isso. Mas, por trás de
cífica na epístola ao amor para com Deus. tudo, ele vê a soberania e o propósito de Deus.
A fé foi mencionada frequentemente; a espe­ Não há contradição nisso, pois o propósito de
rança foi tema dos versículos anteriores (ver Deus de salvara humanidade se cumpre pelo
Rm 8:24, 25). Então, Paulo aumenta a lista, exercício correto da liberdade humana.
mencionando o amor a Deus. Evidentemente, 29. Porquanto. Ou, “porque”. A con­
todas as referências à fé ao longo da epístola fiança expressa no v. 28 é justificada e confir­
também fazem referência ao amor, pois a fé mada por uma explicação sobre a forma
cristã se baseia em amor e admiração a Deus como é desenvolvido o propósito de Deus
e por tudo o que Ele é. Em benefício dos que para aqueles que O amam. Esse propósito
têm esse amor, Deus está sempre atuando inclui todas as fases do processo de salvação
(ver iCo 2:9; Ef 6:24; 2Tm 4:8; Tg 1:12). (v. 29, 30). Assim, os que aceitam o chamado
Chamados. O contexto indica que de Deus e se submetem a Seu propósito têm
os chamados foram aceitos (cf. Rm 1:6, 7; a certeza de que Ele vai completar por eles
IC o 1:2, 24; Jd 1; Ap 17:14). Os cristãos cada etapa em Seu plano de salvá-los. As afli­
são considerados “chamados” porque Deus, ções nada mais são do que o meio pelo qual
fazendo uso do evangelho, os chamou para a eles devem chegar a “ser [...] conformes à
salvação. A salvação nunca é forçada ao peca­ imagem de Seu Filho”.
dor relutante, mas é resultado de sua livre O significado do v. 29 tem sido objeto de
aceitação do convite. Juntamente com o cha­ discussão. Quando a mente humana finita
mado, Deus provê a influência do Espírito tenta considerar os propósitos eternos do

631
8:29 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Deus infinito, é bom atentar para este conse­ De maneira que, se Eu a não possuísse,
lho sobre a passagem: “Em um caminho tão Sempre tais quais existiriam eles.
elevado e escorregadio para a razão humana, Sem coação, pois, sem sombras de
a segurança está em firmar os passos apenas destino.
onde o apóstolo inspirado já firmou os dele. Sem força alguma que de Mim emane,
Aventurar-se, como muitos se aventuraram, Transgrediram.
além dos limites, conduz a dificuldades por
todos os lados, das quais dificilmente o mais Predestinou. Do gr. proorizõ, “sepa­
cauteloso pode escapar” (E. H. Gifford, The rar de antemão”. A palavra é traduzida
Epistle of St. Paul to the Romans, p. 160). como “predeterminar” (At 4:28) e “preorde-
De antemão conheceu. Do gr. proginõskõ, nar” (lCo 2:7). Deus predestinou aqueles a
“conhecer antecipadamente”. A palavra ocorre quem de antemão conheceu. Para usar a lin­
em outras passagens (At 26:5; Rm 11:2; guagem humana, visto que Deus previa e,
IPe 1:20; 2Pe 3:17). Deus conhece porque portanto, conhecia de antemão cada gera­
é onisciente, isto é, Ele sabe todas as coi­ ção que viria ao palco da ação deste mundo,
sas. Acerca dEle, as Escrituras afirmam: Ele ligou com Sua presciência a decisão de
“Todas as coisas estão descobertas e paten­ predestinar todos eles para serem salvos.
tes aos olhos dAquele a quem temos de pres­ Deus nunca teve qualquer outra finalidade
tar contas” (Hb 4:13), Aquele “que desde o a não ser a salvação da família humana.
princípio [anuncia] o que há de acontecer” Ele “deseja que todos os homens sejam
(Is 46:10) e “que faz estas coisas conheci­ salvos e cheguem ao pleno conhecimento
das desde séculos” (At 15:18). Passado, pre­ da verdade” (lTm 2:4), “não querendo que
sente e futuro são igualmente conhecidos por nenhum pereça, senão que todos cheguem ao
Ele. Nada menos que o conhecimento abso­ arrependimento” (2Pe3:9). "Tao certo como
luto iria satisfazer o nosso conceito funda­ Eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer
mental da perfeição de Deus. Visto que Ele na morte do perverso, mas em que o perverso
conhece o futuro, Ele nunca é apanhado de se converta do seu caminho e viva” (Ez 33:11).
surpresa. A apostasia de Satanás e a queda O próprio Cristo disse: “Vinde a Mim, todos
do homem foram previstos por Deus, que os que estais cansados e sobrecarregados, e
tomou providências para atender à situação Eu vos aliviarei” (Mt 11:28). “Quem quiser
de emergência (lPel:20; Ap 13:8; DTN, 22). receba de graça a água da vida” (Ap 22:17).
A profecia preditiva é a prova suprema da Sua “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira
presciência. A profecia revela o que a pres- que deu o Seu Filho unigênito, para que todo
ciência de Deus viu que ocorrerá (ver Ellen o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida
G. White, Review and Herald, 13/11/1900). eterna” (jo 3:16).
Os eventos previstos não ocorrem porque A salvação é oferecida a todos. Mas
são previstos, mas são previstos porque terão nem todos aceitam o convite do evangelho.
lugar. Isso foi bem ilustrado por John Milton, “Muitos são chamados, mas poucos, escolhi­
ao comentar sobre a queda de Satanás e seus dos” (Mt 22:14; cf. Mt 20:16). A salvação não
anjos (Paraíso Perdido, Canto III, linhas 117 é imposta contra a vontade. Quem opta por
e ss. Trad. Antônio José de Lima Leitão): resistir ao propósito de Deus, estará perdido.
A presciência e predestinação divinas de
“Minha presciência vê como presentes modo algum excluem a liberdade humana.
Quantos sucessos no porvir se envolvem: Paulo, ou qualquer outro escritor bíblico, não
Deles, porém, nenhum dela depende: sugere que Deus predestinou alguns para

632
ROMANOS 8:30

serem salvos e outros para se perderem, inde­ Primogênito. Do gr. prõtotokos, usado
pendentemente de sua própria escolha. para Cristo (Mt 1:25; Lc 2:7; Cl 1:15; 18;
O objetivo deste versículo parece ser Hb 1:6; Ap 1:5). A ênfase de Paulo aqui é
prático. Paulo tenta confortar o aflito povo sobre a posição de Cristo como irmão mais
de Deus, mostrando que a salvação está velho da família dos remidos. O objetivo
nas mãos divinas e em processo de ser final do plano da salvação é a restauração
executada segundo o propósito eterno e da unidade familiar do reino de Deus, para
imutável do Céu. Evidentemente, a sal­ que Deus seja tudo em todos (ICo 15:28).
vação também depende da perseverança Nessa família, Cristo, o irmão mais velho,
(Hb 3:14; cf. lCo 9:27), mas esse não é o percorreu o caminho antes de nós e nos dá o
objetivo da ênfase dc Paulo aqui. exemplo. E embora seja perfeito e divino, Ele
Conformes. Do adjetivo gr. sum- não Se envergonha de chamar os que seguem
morphos, cuja única outra ocorrência no Seus passos de “irmãos” (Hb 2:11; ver vol. 5,
NT é em Filipenses 3:21, sendo tradu­ p. 1013; com. de Jo 1:14).
zido como “igual”, e se refere à mudança Muitos irmãos. Cristo nos faz Seus
de nosso corpo terreno à semelhança do irmãos pela nova criação (2Co 5:17; G1 6:15) e,
corpo glorioso de Cristo. O verbo associado assim, conduz “muitos filhos à glória” (Hb 2:10).
(,summorphoõ) é usado em Filipenses 3:10, lendo nascido “da água e do Espírito” (Jo 3:5),
na frase “conformando-me com Ele na Sua o crente é adotado na família celestial (Ef 1:5),
morte”. A conformidade não será apenas arrolado na “igreja dos primogênitos” e inscrito
na aparência exterior e superficial, mas na no registro da família “nos Céus”, o livro da
semelhança interior e essencial. vida (ver com. de Hb 12:23).
Imagem de Seu Filho. Cristo é a ima­ 30. Predestinou. Ver com. do v. 29.
gem do Pai, a manifestação visível do Deus Chamou. Este chamado é feito pela
invisível (2Co 4:4; Cl 1:15). É o glorioso pregação do evangelho, como em 2 Tessa-
destino de todo cristão ser transformado à lonicenses 2:14: “Para o que também vos
semelhança do Filho de Deus (ICo 15:49; chamou mediante o nosso evangelho.' O uso
2Co 3:18; Cl 3:10). Como uma transformação do verbo “chamar”, bem como do adjetivo
tal pode ocorrer é a mensagem do evangelho, “chamados” (ver com. de Rm 8:28), parece
acerca do perdão, novo nascimento, santifi­ ser limitado ao chamado eficaz. O contexto
cação e glorificação final. A mudança é feita indica que a referência é aos que responde­
pela união do humano com o divino. Assim ram ao chamado de Deus. O apelo divino
como o Filho de Deus pôde tomar sobre Si a é o primeiro grande passo para a salvação,
natureza humana, os cristãos podem se tor­ e a resposta constitui a experiência da con­
nar templos do Espírito Santo (ICo 6:19) c versão. O “chamado” indica a autoria divina
Cristo pode habitar neles (Jo 14:23). O crente dessa experiência e o poder soberano pelo
se torna participante da natureza divina qual somos chamados.
(2Pe 1:4). Então, sob a influência do Espírito Justificou. Ver com. de Rm 3:20, 28;
(Rm 8:13, 14) e inspirado pelo exemplo de 4:25; 5:1.
Cristo (Jo 15:12; Fp 2:5), ele passa a viver Glorificou. Jesus disse: “Eu lhes tenho
em santidade. Pela perseverança nos sofri­ transmitido a glória que Me tens dado”
mentos, o caráter mais e mais se asseme­ (Jo 17:22), mas a experiência da completa
lha ao do Salvador (Rm 5:3, 4; lPe 2:21-24), glorificação ainda está por vir (Rm 8:18).
até o dia da glorificação final, quando a Embora ainda esteja no futuro, Paulo usa o
semelhança será completa (ljo 3:2). verbo no passado: “glorificou”, como faz com

633
8:31 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

todos os verbos nesta frase: “predestinou”, Quem será contra nós? É encorajador
“chamou” e “justificou”. Isso sugere que no reconhecer que, se Deus propôs e está ativa­
eterno conselho de Deus o processo, com mente engajado em realizar a salvação, todos
todas as suas fases, está completo (cf. Ef 1:4-6). os inimigos dos fiéis também são Seus ini­
Outra explicação pode ser encontrada no migos (ver SI 27:1; 118:6).
tempo aqui empregado nos quatro verbos 32. Aquele que. A expressão é enfática
gregos: o aoristo, que pode indicar atempo- no grego e pode ser traduzida como “aquele
ralidade. Com essa forma verbal, a tradução mesmo”, significando que o mesmo Deus
poderia ser: “Aqueles a quem Ele predes­ que não poupou Seu próprio Filho certa­
tina Ele também chama, aqueles a quem Ele mente vai nos dar tudo mais.
chama Ele também justifica, aqueles a quem Poupou. Do gr. 'pheidomai. Paulo usa
576

► Ele justifica Ele também glorifica.” este verbo várias vezes em suas epístolas
Seja qual for a explicação, o objetivo de (Rm 11:21; ICo 7:28; 2Co 1:23; exceto em
Paulo neste versículo é expressar a certeza Paulo, só ocorre em At 20:29; 2Pe 2:4, 5).
dos estágios no processo de ser amoldado à A mesma palavra é usada na LXX sobre a
imagem de Cristo. O primeiro passo é o cha­ disposição de Abraão de sacrificar Isaque
mado. Se este é aceito, traz consigo a justifi­ (Gn 22:12, 16), e pode ser que Paulo se refira
cação e tudo o que isso implica no processo. ao registro dessa experiência. O elogio do
Assim, se o cristão permite a Deus operar Seu Senhor à conduta de Abraão de oferecer seu
bom propósito para com ele (cf. Rm 11:22), o filho dá um vislumbre do espírito do ato de
resultado inevitável será a glorificação. Seria Deus em entregar Seu próprio Filho Jesus.
esperado que Paulo mencionasse a santifica­ O maior de todos os dons é a mais forte de
ção como uma das etapas, mas esta está sufi­ todas as provas de que Deus é “por nós”
cientemente implícita como consequência da (Rm 8:31; ver Rm 5:6-10).
justificação e como condição necessária para Seu próprio Filho. Esta expressão é
a glorificação. enfática no grego e denota algo que é dis­
31. Que diremos, pois [...]? Ver Rm tinto da pessoa (cf. Rm 14:4).
3:5; 4:1; 6:1; 7:7; 9:14, cm que esta pergunta Entregou. Do gr. 'paradidõmi. Este é o
comum introduz uma conclusão contrária. mesmo verbo usado em Romanos 4:25, ao se
Mas aqui e em Romanos 9:30, ela intro­ afirmar que Jesus “foi entregue por causa das
duz uma frase em harmonia com o argu­ nossas transgressões”.
mento anterior. Dará graciosamente. Do gr. charizo-
Destas coisas. Ou seja, as coisas men­ mai, “dar como um favor”; comparar com o
cionadas nos versículos anteriores, o pro­ uso da palavra em Lc 7:21; At 3:14; ICo 2:12.
pósito de Deus revelado e todos os passos O verbo está relacionado aos substantivos
de seu cumprimento. Em vista dessas coi­ “graça” (charis; ver com. de Rm 3:24) e “dom
sas, que conclusão se deve tirar em relação gratuito” (charisma; ver com. de Rm 6:23).
ao poder de Deus em sustentar os fiéis nas Com Ele. Paulo argumenta do maior
provações? para o menor. Se Deus não poupou nem
Se Deus é por nós. Não há dúvida mesmo Seu próprio Filho, o que Ele have­
sobre isso, como mostra a construção grega. ría de recusar?
Paulo já garantiu que Deus está do nosso Todas as coisas. Comparar com Rm 8:17;
lado. Deus nos vê como Seus filhos (v. 15-17) ICo 3:21-23; Fp 4:19. O cristão não poderia
e envia Seu Espírito (v. 26) para nos ajudar, esperar mais fundamento para a confiança e
porque Seu propósito é nos salvar (v. 28-30). a perseverança do que é dado neste versículo.

634
ROMANOS 8:34

Quando Deus deu Seu Filho, Ele também escolhendo pessoas (Mc 13: 20; At 1:24;
deu a Si mesmo (2Co 5:19; cf. DTN, 762) 13:17) ou coisas (ICo 1:27, 28). Em Mateus
e, assim, revelou ao universo o que estava 22:14, Jesus faz uma distinção entre os
disposto a fazer para salvar os pecado­ chamados e os escolhidos. Paulo, porém,
res arrependidos. Certamente, então, não identifica os dois grupos, entendendo
importa que provas possam vir, nunca se que o termo “chamados” inclui o sentido
deve duvidar de que Deus está atuando dc que o chamado foi aceito (ver com. de
diretamente em cada experiência do crente Rm 8:30). Para Paulo, os eleitos de Deus são
a fim de prover o necessário para seu bem os que não só ouviram, mas também aten­
presente e futuro. deram ao chamado divino para ter salvação
33. Intentará acusação. Do gr. egkaleõ, em Cristo.
termo legal que significa literalmente ‘cha­ E Deus quem os justifica. Os eleitos de
mar”, “pedir contas”, “trazer uma acusação Deus não precisam temer a nenhum acusa­
contra” ou “acusar” (ver At 19:38, 40; 23:28, dor. E o próprio Deus, o juiz de todos, que
29; 26:2, 7). Satanás é o grande acusador dos os declara justos de acordo com Seu plano
irmãos (Ap 12:10). de justificação (Rm 3:20-26). “Justificar” é o
O texto de Romanos 8:33 a 35 apresenta oposto de “intentar acusação”.
certas dificuldades, e os comentários e ver­ 34. Condenará. Satanás tem conheci­
sões oferecem diferentes soluções. Alguns mento de todos os pecados que conseguiu
recomendam que a última frase do v. 33 e a levar as pessoas a cometer e os apresenta a
577

► primeira do 34 sejam pontuadas de forma Deus como prova de que elas merecem des­
a indicar uma ligação estreita entre elas: truição (ver GC, 618). Mas Deus responde
“E Deus quem os justifica; quem os conde­ às acusações levantadas contra Seus escolhi­
nará?” (AA). dos. Cristo pagou seus pecados com a pró­
Outros comentaristas argumentam que pria vida (Rm 4:25). Os eleitos de Deus estão
todas as frases dos v. 33 e 34 devem ser con­ livres de condenação (Rm 8:1).
sideradas como uma série de perguntas. A BJ Ressuscitou. Ou, “foi ressuscitado” (ver
pontua as duas frases do v. 34 como duas Rm 4:24, 25; 6:4, 9; 7:4). Não adoramos a
perguntas. um Cristo morto, mas a um Deus vivo. Isso
Qualquer que seja o arranjo seguido, o não significa que a ressurreição tem mais
argumento encorajador de Paulo se destaca valor para a salvação do que a crucificação,
claramente. Deus declara que Seu povo é mas enfatiza que Cristo não somente mor­
justo. Cristo, que morreu por eles, está à direita reu, mas também vive para completar o pro­
de Deus, intercedendo por eles. Então, quem, pósito de Sua morte em favor dos fiéis (ver
pode acusar os justificados? Quem pode con­ com. de Rm 4:25).
dená-los? Quem pode jamais separá-los do A direita de Deus. A mão direita era
amor de Cristo? Parece evidente que Paulo considerada a posição dc honra (cf. lRs 2:19;
tem em mente Isaías 50:8 e 9: “Perto está SI 45:9) e indicava participação no poder e
o que me justifica; quem contenderá comigo? na glória real (Mt 20:21). Estava previsto
[...] Eis que o Senhor Deus me ajuda; quem que Cristo ocuparia essa posição junto ao
há que me condene?” Pai (SI 110:1; cf. Mc 16:19; At 7:56; Ef 1:20;
Eleitos. Do gr. eklektoi, “escolhidos”, Cl 3:1; lPe 3:22). Sua posição à direita indica
“escolhido”, do verbo eklegomai, usado não só a glória, mas também o poder, do
para descrever Cristo escolhendo Seus dis­ exaltado Filho do Homem (ver Hb 1:3; cf.
cípulos (Lc 6:13; Jo 6:70; 13:18), e Deus Mt 26:64).

635
8:35 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Intercede. Do gr. entugchanõ. Esta é Tribulação. Ver com. de Rm 5:3. Paulo


a palavra usada para a súplica do Espírito é habilitado a falar sobre este assunto, tendo
Santo, no v. 27 (ver com. do v. 26). As Escri­ em conta as próprias experiências (ver
turas afirmam claramente que Cristo é nosso ICo 4:10-13; 2Co 11:23-33).
intercessor e advogado junto ao Pai (Hb 7:25; Angústia. Do gr. stenochõria (ver com.
9:24; 1Jo2:1; cf. Hb 4:14-16; 9:11, 12). Isso de Rm 2:9). Os males mencionados neste
não significa que Deus precise ser persua­ versículo eram todos comuns aos primeiros
dido a fazer coisas boas a Seu povo, pois cristãos.
Ele tanto amou o mundo que deu Seu Filho 36. Como está escrito. Uma citação do
unigênito. A natureza dessa intercessão SI 44:22. Paulo se refere a sofrimentos ante­
divina pode, talvez, ser ilustrada pela ora­ riores do povo de Deus eomo típicos de per­
ção intercessória de Cristo por Seus discí­ seguições a que os cristãos estavam expostos
pulos (Jo 17:11, 12, 24). em seus dias. Desde a entrada do pecado,
Neste versículo, Paulo acrescenta razões o ódio dos ímpios contra os justos tem sido
diversas para a certeza de que nada pode constante (ver Cl 4:29; ljo 3:12).
separar o cristão do amor de Cristo. Não Somos entregues à morte. Ou, “esta­
é de um Cristo morto, mas vivo, que ele mos sendo mortos”.
depende. Não é apenas um Cristo vivo, mas 37. Porém. Do gr. alia. Apesar das afli­
um Cristo entronizado em poder. Não é ape­ ções, o crente continua a obter vitória espi­
nas um Cristo poderoso, mas um Cristo de ritual (2Co 12:10).
amor salvífico, que vive para interceder por Somos mais que vencedores. Do gr.
Seu povo (cf. Hb 7:25). hupernikaõ, de hyper, “acima”, e nikaõ, “con­
A Bíblia retrata todo o Céu em constante quistar”, portanto, “superar na conquista”
atividade para salvar os eleitos. Neste capí­ ou “conquistar gloriosamente”. Esta pala­
tulo, Paulo fala sobre a obra do Pai ao cha­ vra composta só ocorre aqui, no NT. Paulo
mar, justificar e glorificar. Ele descreve a usa uma palavra que retrata o excesso de
direção e a intercessão de Cristo e do Espírito bênçãos de Deus sobre a necessidade do ser
Santo. Em outros textos, os anjos são repre­ humano (Rm 5:20).
sentados como sendo espíritos ministradores, Aquele que nos amou. Evidcntcmcnte,
578

* “enviados para serviço a favor dos que hão a referência é a Cristo, por cujo amor (v. 35)
de herdar a salvação” (Hb 1:14). O Céu não incomparável nos tornamos vencedores.
podia fazer mais. Sc alguém se perder eter­ O tempo passado, “amou”, pode apontar
namente será o resultado da própria decisão para a revelação especial desse amor em Sua
de resistir e rejeitar o amoroso propósito e o morte (Rm 5:6). Em vez de as tribulações nos
poder de Deus para salvar. separarem do amor de Cristo (Rm 8:35), “por
35. Separará. Do gr. chõrizõ, literal­ meio dAquele que nos amou”, somos vito­
mente, “colocar um espaço entre os dois”. riosos sobre elas. Não há aflição tão pesada,
Alguém pode distanciar o crente do amor tentação tão forte, que não possa ser supe­
de Cristo? Pode fazer com que Ele deixe de rada por meio dc Cristo. Pois Aquele que nos
amar Seus filhos? Nenhuma das coisas que amou a ponto de dar a Si mesmo vive em nós
Paulo menciona fará Cristo amar menos para continuar a obra da salvação (G1 2:20).
os fiéis. Portanto, podemos todas as coisas por meio
Amor de Cristo. Este é, evidentemente, dAquele que nos fortalece (Fp 4:13). Paulo
o amor de Cristo por nós, em vez de nosso experimentou e reconheceu esse poder salva­
amor por Cristo (cf. com. de Rm 5:5). dor, que o levou a exclamar: “Graças a Deus,

636
ROMANOS 8:39

que nos dá a vitória por intermédio de nosso Mas o futuro reservava ainda mais provas de
Senhor Jesus Cristo” (lCo 15:57). engano e angústia, pois a vinda de Cristo
38. Estou bem certo. Ou, “estou con­ seria precedida pela apostasia e o apareci­
vencido”. Paulo expressa a convicção pessoal mento do anticristo (2Ts 2). E essa apari­
de que nenhum poder, nem no Céu nem na ção seria acompanhada pela “eficácia de
Terra, no tempo ou na eternidade, pode nos Satanás, com todo poder, e sinais, e pro­
separar do amor divino. Ele diz com isso que dígios da mentira” (2Ts 2:9). No entanto, a
é impossível ao crente cair e se perder (ver confiança de Paulo permanecia inabalável.
Cl 1:23; cf. lCo 9:27). Significa que nada Poderes. Do gr. dynameis. As evidên­
pode nos tirar de Cristo contra nossa von­ cias textuais requerem (cf. p. xvi) a coloca- ««
tade (ver com. de Jo 10:28). ção da palavra após a frase “coisas do porvir”,
Nem a morte, nem a vida. Comparar embora, de forma mais natural, se possa
com “se vivemos, para o Senhor vivemos; se esperar que ela esteja associada a “principa­
morremos, para o Senhor morremos” (Rm 14:8). dos” (Ef 1:21). Em 1 Pedro 3:22, “poderes”
Anjos. Eles são mencionados no NT, são mencionados junto a “anjos” e “autorida­
geralmente os bons, e não os maus. No des” que foram sujeitados a Cristo, quando
entanto, a palavra em si não indica qualidade ascendeu ao Céu.
particular. A distinção deve ser expressa ou 39. A altura, nem a profundidade.
ficar implícita pelo contexto (ver Mt 1:20; E possível que nesta passagem retórica Paulo
25:41; lCo 6:3; 2Pe 2:4; Jd 6). Seria incon­ não tivesse a intenção de que cada uma des­
cebível que os anjos de Deus, enviados para tas expressões fosse muito bem definida.
ministrar aos santos (Hb 1:14), procurassem “Altura” e “profundidade” podem ter sido
alienar a mente dos cristãos de seu Salvador, usadas para expressar simplesmente dimen­
ou que sua influência tivesse essa tendência. sões do espaço, assim como “coisas presen­
No entanto, Paulo pode estar enfatizando seu tes” e “do porvir” são dimensões explícitas do
argumento, falando hipoteticamente, como tempo. O uso desses termos enfatiza ainda
faz em Gálatas 1:8. Mesmo que os anjos mais a ideia de universalidade, que parece
bons tentassem desviar Seu povo do amor ser o propósito de Paulo nestes versículos
de Cristo, o que obviamente não fariam, eles (comparar com Ef 3:18, 19).
não poderíam fazê-lo! Qualquer outra criatura. Ver com.
Principados. Do gr. archai. Esta pala­ do v. 19; cf. v. 19, 22. Paulo enumera dez
vra se refere aos governantes civis, bem como itens que não podem nos separar do amor
aos poderes sobrenaturais que tentam exer­ de Deus. O décimo é suficientemente amplo
cer domínio maligno sobre as pessoas (cf. para incluir qualquer coisa que tenha sido
Ef 6:12). Alguns comentaristas sugerem que omitida, iodos os termos talvez devam ser
a referência de Paulo aos “anjos”, “principa­ tomados em seu sentido mais geral. A pró­
dos” e “potestades” pode refletir a designa­ pria indefinição serve para enfatizar o argu­
ção judaica da hierarquia dos anjos (ver a mento de Paulo de que não há nada que se
obra apócrifa Enoque 61:10; cf. lCo 15:24; possa imaginar em todo o universo criado,
Ef 1:21; 3:10; Cl 1:16; 2:10, 15). que afaste o cristão de seu amado Salvador.
Coisas do presente. Comparar com Separar. Do gr. chõrizõ (ver com, do v. 35).
lCo 3:22. As experiências do tempo pre­ Amor de Deus. “O amor de Cristo” (v. 35)
sente já eram suficientemente proban- não é outro senão “o amor de Deus”, reve­
tes para Paulo e os primeiros cristãos lado a nós e que trabalha em nosso favor
(Rm 8:18, 23; 2Co 1:4-10; 6:4-10; lPe 4:12). na pessoa de Cristo (ver com. de Rm 5:8).

637
8:39 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Paulo retrata a cooperação suprema do Pai, Com esta expressão de confiança


do Filho e do Espírito Santo na manifesta­ ilimitada no amor salvífico de Deus
ção do amor divino. Por exemplo: “o amor (v. 31-39), Paulo atinge o clímax da explica­
de Deus é derramado em nosso coração pelo ção do plano de Deus para a restauração da
Espírito Santo” (Rm 5:5); “Deus prova o Seu humanidade. Justiça e salvação vêm pela
próprio amor para conosco pelo fato de ter fé. Essa fé deve se apoiar numa pessoa cujo
Cristo morrido por nós” (5:8); o Espírito, amor seja tão grande e cujo objetivo de
cuja vontade e propósito é nossa salvação salvar seja tão forte que tenha tomado
(Rm 8:29, 30), intercede por nós “segundo a todas as providências possíveis para tanto.
vontade de Deus” (v. 26, 27); e Cristo morreu Então, os cristãos devem se unir ao após­
por nós, e agora intercede por nós à direita tolo em prestar a Cristo confiança e obe­
do Pai (v. 34). diência irrestrita.

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1 - CS, 69; GC, 477; 316; T6, 60; T7, 229; T7, 29; T9, 59
PP, 517; CC, 51, 64; BS, 93 33, 34 - DTN, 568;
San, 30; T2, 170 18-AA, 577; GC, 351; CBV, 90
2 - DTN, 210, 466 MDC, 30; MCH, 326; 34- AA, 36; CES, 124;
3-DTN, 116, 175, 312; PP, 127; San, 95; Tl, CPPE, 14; DTN, 833;
PP, 330 432; T8, 125 Ed, 95, 132; FEC, 262;
3,4- PP, 373 22-CS, 579; Ed, 263; GC, 350; OE, 259;
4 - GC, 263, 468; MDC, 78 GC, 673; PP, 443, 542; CBV, 419, 424; PP, 517;
6- T5, 267 CC, 33 CC, 74; TM, 95, 157,
7- AA, 84; DTN, 172; 24 - CBV, 165 391; T2, 319;
PE, 69; GC, 467; MJ, 68, 26 - PJ, 147; CPPE, 509; T8 177, 287
CC, 18, 63; Tl, 161,440; Ed, 263; FEC, 242; OE, 35 - MCH, 326; T2, 288
T2, 454; T3, 442; T4, 13; 217; CBV, 229 35- 39 -AA, 85; Ed, 69;
T5, 341 28-AA, 481, 574; Ed, 154; San, 96; T2, 345
9-PJ, 251; MDC, 28; T3, MDC, 71; CBV, 474, 36, 37 -AA, 468
538; T5, 223, 386 487, 489; MCH, 185; T3 37 -OC, 467; CM 21;
11 - DTN, 320; FEC, 332 67; T8, 123; T9, 286 CPPE, 183; GC, 633;
14-MDC, 28, 149 29 - DTN, 341, 827; MCH, 313, 326; MS,
14- 17-T8, 126 MDC, 61; T6, 175 144; MJ, 348; CC, 72;
15- GC, 468; T5, 739 30 - PJ, 163 Te, 216; TM, 104, 328,
16 — Ev, 616 31 - PR, 645 456; T2, 320, 409; T3,
17 -AA, 590; CE, 34; CM, 31, 32-SC, 240; CBV, 66 476, 483, 540; T4, 36,
37; PJ, 154; Ev, 199; PE, 31-39 -T2, 517; T7, 245 214, 368; T5, 82, 309,
115; FEC, 251; MDC, 32 - PJ, 174; CPPE, 184; 741; T8, 131; T9, 22, 188
104; CBV, 169; San, 17; GC, 477; MDC, 111; 37-39 - GC, 350
Te, 111; Tl, 287; T3, 45, PP, 154; CC, 95, 118; 38, 39 -AA, 553; PE, 30;
458; T4, 16, 33; T5, 230, TM, 246; T2, 319; T5, 316; CBV, 66; T2, 288

638
ROMANOS 9:1

Capítulo 9
1 Paulo se entristece pelos israelitas. 7 Nem todos os descendentes de Abraão são filhos
da promessa. 18 Deus tem misericórdia de quem Ele quer. 21 O oleiro pode fazer
o que quiser com o barro. 25 O chamado dos gentios e a rejeição dos israelitas.
32 Por que poucos israelitas abraçam a justiça pela fé.

1 Digo a verdade em Cristo, não minto, tes­ 15 Pois Ele diz a Moisés: Terei misericór­
temunhando comigo, no Espírito Santo, a minha dia de quem Me aprouver ter misericórdia
própria consciência: e compadecer-Me-ei de quem Me aprouver ter
2 tenho grande tristeza e incessante dor no compaixão.
coração; 16 Assim, pois, não depende de quem quer
3 porque eu mesmo desejaria ser anátema, ou de quem corre, mas de usar Deus a Sua
separado de Cristo, por amor de meus irmãos, misericórdia.
meus compatriotas, segundo a carne. 17 Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto
4 São israelitas. Pertence-lhes a adoção e mesmo te levantei, para mostrar em ti o Meu
também a glória, as alianças, a legislação, o culto poder e para que o Meu nome seja anuncia­
e as promessas; do por toda a terra.
5 deles são os patriarcas, e também deles des­ 18 Logo, tem Ele misericórdia de quem quer
cende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre e também endurece a quem Lhe apraz.
todos, Deus bendito para todo o sempre. Amém! 19 Tu, porém, me dirás: De que se quei­
6 E não pensemos que a palavra de Deus xa Ele ainda? Pois quem jamais resistiu à Sua
haja falhado, porque nem todos os de Israel são, vontade?
de fato, israelitas; 20 Quem és tu, ó homem, para discutires
7 nem por serem descendentes de Abraão são com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar
todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a quem o fez: Por que me fizeste assim?
a tua descendência. 21 Ou não tem o oleiro direito sobre a massa,
8 Isto é, estes filhos de Deus não são pro­ para do mesmo barro fazer um vaso para honra e
priamente os da carne, mas devem ser conside­ outro, para desonra?
rados como descendência os filhos da promessa. 22 Que diremos, pois, se Deus, querendo
9 Porque a palavra da promessa é esta: Por mostrar a Sua ira e dar a conhecer o Seu poder,
esse tempo, virei, e Sara terá um filho. suportou com muita longanimidade os vasos de
10 E não ela somente, mas também Rebeca, ira, preparados para a perdição,
ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. 23 a fim de que também desse a conhecer as
11 E ainda não eram os gêmeos nascidos, riquezas da Sua glória em vasos de misericórdia,
nem tinham praticado o bem ou o mal (para que para glória preparou de antemão,
que o propósito de Deus, quanto à eleição, pre­ 24 os quais somos nós, a quem também cha­
valecesse, não por obras, mas por aquele que mou, não só dentre os judeus, mas também den­
chama), tre os gentios? •<
12 já fora dito a ela: O mais velho será servo 25 Assim como também diz em Oseias:
do mais moço. Chamarei povo Meu ao que não era Meu povo;
13 Como está escrito: Amei Jacó, porém Mc e amada, à que não era amada;
aborrecí de Esaú. 26 e no lugar em que se lhes disse: Vós não
14 Que diremos, pois? Há injustiça da parte sois Meu povo, ali mesmo serão chamados fi­
de Deus? De modo nenhum! lhos do Deus vivo.

639
9:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

27 Mas, rclativamente a Israel, dele clama 30 Que diremos, pois? Que os gentios, que
Isaías: Ainda que o número dos filhos de Israel não buscavam a justificação, vieram a alcançá-la,
seja como a areia do mar, o remanescente é todavia, a que decorre da fé;
que será salvo. 31 e Israel, que buscava a lei de justiça, não
28 Porque o Senhor cumprirá a Sua palavra chegou a atingir essa lei.
sobre a terra, cabalmente e em breve; 32 Por quê? Porque não decorreu da fé, e sim co­
29 como Isaías já disse: Se o Senhor dos mo que das obras. Tropeçaram na pedra de tropeço,
Exércitos não nos tivesse deixado descendência, 33 como está escrito: Eis que ponho em Sião
ter-nos-íamos tornado como Sodoma e seme­ uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, e
lhantes a Gomorra. aquele que nela crê não será confundido.

1. Digo a verdade. Paulo deixa, então, alguma falha no cumprimento das promessas
o clímax triunfante de Romanos 8 e passa de Deus a Israel (v. 6-13). Nem há qualquer
a considerar um problema que o enche de injustiça da parte de Deus nesse assunto
“grande tristeza e incessante dor” (Rm 9:2). (v. 14-29). A razão está na rejeição “da jus­
Por que os judeus, o povo escolhido de Deus, tiça que vem da fé” (Rm 9:30—10:21). Mas
rejeitaram tão amplamente o evangelho? Se Paulo não descreve a nação como estando
o evangelho traz a certeza de salvação para sem esperança. Ele passa a falar da salvação
os eleitos de Deus, por que Israel não se de “um remanescente segundo a eleição da
encontrava entre os herdeiros dessa salva­ graça” (Rm 11:1-10), e da aceitação dos gen­
ção? Se a boa-nova da salvação é o cumpri­ tios (v. 11-22), evidências da sabedoria e da
mento das promessas a Israel, certamente glória de Deus (v. 33-36).
deveria contar com a aprovação daqueles a Em Cristo. Paulo apela para sua expe­
quem fora especialmente designada. Mas, riência, como alguém que estava unido a
em vez disso, despertou neles a mais amarga Cristo, como prova da veracidade do que
oposição. está prestes a dizer (cf. 2Co 2:17).
Paulo já vinha preparando o cami­ Não minto. Comparar com 2Co 11:31;
nho para a discussão desse difícil tópico, G1 1:20; ITm 2:7. Paulo estava ciente de
salientando que, embora o evangelho esteja que muitos judeus o consideravam um trai­
disponível a judeus e gentios, foi apresentado dor (At 21:28; 22:22; 25:24). Seus frequen­
primeiramente aos judeus (Rm 1:16; 2:10). tes conflitos com os judeus e os judaizantes
Ele também havia enfatizado que Deus não naturalmente lançavam dúvidas sobre seu
faz acepção de pessoas (2:11), e que os judeus amor à própria nação. Por isso, ele expressa
eram culpados de pecado (2:17-24). Ele dedi­ a sinceridade de sua preocupação para com
cou um capítulo inteiro para provar que o seu povo nestes termos fortes.
evangelho da salvação pela fé está apoiado Testemunhando. O mesmo verbo é
no AT (Rm 4). Em Romanos 3:1, ele mesmo usado em Rm 2:15; 8:16.
começou a considerar o problema direta­ No Espírito Santo. Ver com. de Rm 5:5.
mente, mas sua discussão completa sobre Paulo falou sobre a união do crente com o
a questão foi reservada para Romanos 9, Espírito de Deus (Rm 8:9, 11, 16). O Espírito
10 e 11. Santo é “o Espírito da verdade” (jo 14:17;
Em primeiro lugar, Paulo afirma o amor 15:26; 16:13), e o testemunho de uma cons­
por seu próprio povo (Rm 9:1-3). Em seguida, ciência iluminada por Ele e sob Sua influên­
declara que a causa da rejeição não era por cia deve ser um guia verdadeiro e seguro.

640
ROMANOS 9:4

Consciência. Ver com. de Rm 2:15; cf. a igreja cristã, à qual Paulo se refere como
At 23:1; 24:16. “o Israel de Deus” (G1 6:16).
2. Tristeza. Do gr. lupõ, “tristeza”, “dor”. Adoção. Ver com. de Rm 8:15. Aqui, o
Incessante. Do gr. adialeiptos, literal­ termo inclui a relação entre Deus e Israel,
mente, “sem sair”. Há apenas mais uma ocor- anunciada em Êxodo 4:22: “Israel é Meu
► rência desta palavra no NT (ver 2 Tm 1:3). filho, Meu primogênito” (cf. Dt 14:1; Dt 32:6;
Dor. Do gr. odunê, “dor”, “angústia”, pala­ Jr 31:9; Os 11:1). O chamado de Abraão e à
vra que ocorre só aqui e em 1 Timóteo 6:10. sua descendência para ser o povo peculiar
Coração. Ver com. de Rm 1:21. de Deus marcou o início desta “adoção” (ver
3. Porque. Este versículo não dá o vol. 4, p. 12-14).
motivo para a tristeza de Paulo, mas eviden­ A glória. Ver com. de Rm 3:23. Neste
cia sua sinceridade. caso, a referência parece ser ao sinal visí­
Desejaria. Literalmente, “estaria dese­ vel da presença de Deus. Isso foi visto na
jando” ou “estava orando”. A frase grega é coluna de nuvem e de fogo, na luz brilhante
uma expressão idiomática que significa um no monte Sinai, o shekinah no tabernáculo
desejo real, mas já abandonado como algo e no primeiro templo (ver Ex 16:10; 24:16;
impraticável. O desejo estava em sua mente, 40:34, 35; lSm 4:22; lRs 8:10, 11; Hb 9:5).
mas havia condições que tornavam impossí­ Entre todas as nações, só Israel tinha tido o
vel o cumprimento (ver a mesma expressão, privilégio de tal manifestação da presença
em G1 4:20). de Deus (ver com. de jo 1:14).
Anátema. Tem havido discussão sobre Alianças. Estas são “as alianças da pro­
o significado desta expressão forte de Paulo. messa” às quais os gentios eram “estranhos”
A solução mais simples parece ser a com­ (Ef 2:12, 13; ver também Gn 17:2, 7, 9;
paração com a oração de Moisés: “Agora, Ex 2:24). Os judeus achavam que essas
pois, perdoa-lhe o pecado; ou, se não, alianças punham Deus sob a obrigação de
risca- me, peço-te, do livro que escreveste” favorecê-los com Sua proteção e Sua bên­
(Ex 32:32). A resposta de Deus a Moisés ção. Ao mesmo tempo, ignoravam suas obri­
mostra que essa oração não poderia ser aten­ gações e não cumpriam as condições sobre
dida. “Riscarei do Meu livro todo aquele que as quais as alianças estavam firmadas.
pecar contra Mim” (Ex 32:33). Legislação. A referência é, sem dúvida,
Segundo a carne. Ou seja, os judeus, às leis dadas no Sinai. Israel, acima de
que eram irmãos de Paulo pela relação todas as outras nações, tinha sido favorecido
racial. Segundo o espírito, Paulo era mem­ pela revelação da vontade de Deus (Dt 4:8;
bro do Israel espiritual, e seus irmãos espi­ Ne 9:13, 14). Paulo já havia repreendido
rituais eram os membros da igreja cristã (cf. os judeus por pensar que a mera posse da
Mc 3:33-35). lei, sem a obediência, traria bênçãos (cf.
4. Israelitas. Paulo não os chama de Rm 2:17-29).
“hebreus”, nome que os distinguia pela lin­ Culto. Do gr. latreia, traduzido como
guagem, nem de “judeus”, que caracteriza “serviço” (Hb 9:1). A referência é ao serviço
a raça. Em vez disso, ele usa o título que do santuário (ver Hb 9:6, em que latreia é
designa sua posição como povo escolhido de novamente traduzido como “serviços sagra­
Deus. Como descendentes de Jacó, que dos”). Uma vez que todo o propósito do sis­
recebeu de Deus o nome de “Israel”, eles tema cerimonial era desenvolver um povo
eram herdeiros das promessas feitas aos pais santo e ensinar-lhe as disposições do plano
(Ef 2:12). No NT, o título é transferido para da justificação pela fé na vinda do Redentor,

641
9:5 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

os israelitas tinham sido altamente favore­ passagem se referir a Cristo como afirmação
cidos por lhes ser confiados os “serviços de Sua divindade. Essa tem sido a visão tradi­
sagrados”. Mas esse privilégio não fora hon­ cional e é a interpretação oferecida pela ARA
rado (ver Mt 21:13; Jo 2:14-16). e a maioria das outras versões. Uma segunda
Promessas. Estas são as promessas do possibilidade é colocar uma vírgula depois
AT a respeito do Messias e de Seu reino e da palavra “carne” e um ponto depois de
do futuro glorioso de Israel (ver também “todos”. A passagem, então diria: “De quem é
At 26:6; G1 3:16, 21; Hb 7:6). Cristo segundo a carne, o qual é sobre todos.
5. Patriarcas. Abraão, Isaque e Jacó Deus seja [é] bendito eternamente”.
eram considerados os “patriarcas” (At 3:13; Uma terceira possibilidade é colocar um
7:32). Os judeus reputavam por grande mérito ponto após a palavra “carne” e traduzir o res­
ser descendentes desses nobres antepas­ tante do versículo como: “Aquele que é Deus
sados (ver com. de Mt 3:9; cf. Jo 8:39, 53; acima de tudo seja bendito para sempre”,
§► 2Co 11:22). Mais à frente, Paulo fala do amor ou “Deus, que está acima de tudo, seja ben­
de Deus por Israel “por causa dos patriarcas” dito para sempre”. Esta é a redação prefe­
(Rm 11:28). rida pela RSV.
Deles. Ou, “de quem”. O maior de todos O ponto básico é que a passagem deve
os privilégios concedidos aos israelitas foi ser interpretada como uma declaração da
que o Messias nasceu como um judeu. Todas divindade de Cristo. Considerá-la assim, por­
as outras bênçãos apontavam para esse pri­ tanto, é a interpretação mais simples e natu­
vilégio mais sublime. ral da construção gramatical do versículo, e é
O Cristo. Referindo-se ao título e posi­ a mais adequada ao contexto. No versículos
ção como “o Messias”. anteriores, Paulo relaciona os muitos bene­
Segundo a carne. Paulo limita a ori­ fícios e privilégios que Deus havia confiado
gem judaica de Jesus a Sua natureza humana a Israel como Seu povo escolhido. Como clí­
(cf. Rm 1:3). max dessas bênçãos, Paulo menciona a des­
O qual é. A interpretação da última cendência do Messias de sua própria nação.
metade do v. 5 gerou muitos debates. As Mas essa descendência se restringia à natu­
discussões chegaram a um ponto alto com reza física. O Messias tem outra natureza,
o lançamento do NT da versão inglesa revi­ que não a da carne, e Paulo então dá a des­
sada (RV), em 1881. Revistas teológicas crição mais detalhada de Cristo: “o qual é
daquele tempo dedicaram espaço conside­ sobre todos, Deus bendito eternamente”.
rável à questão. O problema tinha que ver A expressão de Paulo sobre a humanidade de
com o fato de os manuscritos gregos origi­ Cristo parece exigir como antítese essa clara
nais terem sido escritos sem qualquer forma afirmação de Sua divindade (cf. Rm 1:3, 4).
de pontuação. De forma que o texto poderia Cristo é realmente divino e é “sobre todos”.
ser lido como “o qual é sobre todo deus ben­ Isso é ensinado em inúmeras passagens do
dito eternamente”. Natural mente, a solução NT (ver Jo 1:1-3; Ef 1:20-22; Fp 2:10, 11;
era uma questão de interpretação (cf. com. Cl 1:16, 17; 2:9; Nota Adicional a João 1).
de Lc 23:43). Sobre todos. Comparar com Rm 11:36.
Com diferentes pontuações, três possí­ Esta descrição do supremo poder e da digni­
veis interpretações da passagem foram pro­ dade dAquele que era um israelita por des­
postas (cf. texto da RV e margem). Uma delas cendência humana ressalta os privilégios da
é deixar sem pontuação, ou colocar uma vír­ nação judaica. Ao enumerar esses privilé­
gula depois da palavra “carne” e fazer toda a gios, Paulo dá o motivo de sua “incessante

642
ROMANOS 9:8

tristeza”. Cada privilégio mencionado lembra Isaque será chamada a tua descendência”
o propósito original de Deus para Israel e o são uma citação da LXX de Gênesis 21:12
destino glorioso reservado para essa nação (ver (cf. Hb 11:18).
vol. 4, p. 12-15). Chamada. Segundo a carne, tanto
6. Não pensemos. No entanto, Paulo Isaque quanto Ismael eram filhos de Abraão.
não pretende que a dor por seus compatriotas No entanto, a Isaque e seus descendentes
seja entendida como fracasso da promessa de foram feitas as promessas. Ismael não foi
Deus a Israel. incluído. Isso não significa que Ismael e
Palavra de Deus. Ou seja, a vontade e seus descendentes estavam fora do alcance
o propósito declarados de Deus. da salvação, mas simplesmente que Deus
Haja falhado. Do gr. ekpvptõ, literal­ tinha escolhido os descendentes de Isaque
mente, “cair fora”, portanto, “falhar”. para serem Seus representantes perante o
Nem todos os de Israel. A passa­ mundo. Eles deveríam revelar os princípios
gem diz, literalmente: “pois nem todos os de Seu reino perante as nações a fim de
que são de Israel, são Israel”. O que Paulo que o mundo fosse atraído a Ele (ver vol. 4,
está dizendo é que nem todos os que des­ p. 13-17; ver com. de Ez 25:1). Deus atri­
cendem de Israel pertencem realmente a bui responsabilidades a pessoas e nações
segundo Sua vontade (ver com. de Dn 4:17).
584

► Israel no pleno significado espiritual desse


nome. Seu propósito ao fazer esta declara­ 8. Filhos de Deus. Isto se refere, his­
ção é dizer que a palavra de Deus a Israel toricamente, aos descendentes de Abraão
não falhou. O cumprimento da promessa de por meio de Isaque. Eles foram os únicos a
Deus é limitado àqueles que reúnem as con­ ter a relação de aliança com Deus, herda­
dições dessa relação de aliança. Para esse ram as promessas e receberam os privilégios
remanescente fiel e obediente, a palavra de como povo escolhido. A partir dessa distin­
Deus não falhará. ção entre Isaque e Ismael, Paulo expressa
Israelitas. Paulo se refere aos filhos o princípio de que a verdadeira filiação a
de Israel segundo a carne, os descenden­ Abraão e a verdadeira filiação a Deus não
tes de Jacó. Realmente, a promessa divina dependem da descendência física. Essa era
foi dada a Israel, mas isso não inclui todos uma verdade dura para os judeus devido à
os que poderiam afirmar a descendência de crença mais acariciada deles de que o sim­
jacó, sem qualquer outra limitação. Paulo ples fato de ser judeu torna a pessoa um
já havia explicado que os crentes em Cristo filho de Deus. Mas, ao mesmo tempo, ela
são os verdadeiros filhos de Abraão (Rm 4; era muito encorajadora para os gentios.
Cl 3:7-9; cf. Rm 2:28, 29). Os da carne. Estes são os descen­
7. Descendentes. Ver Cl 3:29. dentes meramente físicos, que nascem no
Filhos. Ou seja, no sentido mais amplo, curso natural dos acontecimentos, como foi
como em Romanos 8:17: “se somos filhos, Ismael (ver G1 4:23). Mas as bênçãos de
somos também herdeiros”. Os descenden­ salvação não são herdadas pela ascendên­
tes de Abraão não têm os direitos de herança cia natural.
simplesmente por recitar sua ascendência Filhos da promessa. Sem dúvida,
física até ele. Paulo se refere ao caso de Isaque. Ele nas­
Em Isaque. Ou, “por meio de Isaque”. ceu quando já havia passado o tempo para
A mesma palavra grega traduzida como Abraão e Sara terem filhos naturalmente.
“em” (en) é traduzida como “pelo” (Mt 9:34) Mas a promessa de Deus, aceita pela fé, tor­
e “por” (iCo 6:2; Cl 1:16). As palavras “em nou possível a eles se tornarem os pais de

643
9:9 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Isaque (ver com. de Rm 4:18-21). Da mesma No entanto, Jacó foi escolhido para ser o pro-
forma, assim como Paulo, é a partir do novo genitor da nação pela qual Deus planejava
nascimento sobrenatural que os gentios difundir o conhecimento de Sua vontade.
podem se tornar filhos de Abraão, filhos da 11. Ainda não eram [...] nascidos.
promessa (ver G1 4:21-31). O fato de o mais novo ter a preeminência
9. Palavra da promessa. A frase pode sobre o mais velho foi predito a Rebeca antes
ser traduzida como “a palavra é uma pro­ de seu nascimento (ver com. do v. 12).
messa”. No grego, a ênfase está sobre o Eleição. Do gr. eklngê, “processo de esco­
termo “promessa”. O raciocínio de Paulo é lha”, “seleção” (ver At 9:15; Rm 11:5, 7, 28;
que, quando Deus disse: “Por esse tempo, lTs 1:4; 2Pe 1:10). Provém do verbo gr. eklego-
virei, e Sara terá um filho”, Ele fez uma pro­ mai, “escolher” ou “eleger” (ver com. de Rm 8:33;
messa. O nascimento de Isaque era uma sobre a eleição em relação à salvação, ver com.
promessa. A promessa não dependia do nas­ de Rm 8:29; ver PP, 207, 208; TM, 453, 454).
cimento. Não fosse pela promessa e pela Prevalecesse. Ou, “permanecesse”, “con­
intervenção divina, Isaque não teria nascido. tinuasse”. Este é o oposto de “falhasse” (v. 6).
A partir daqui, Paulo continua a explorar o Não por obras. Isto é, não por causa de
princípio de que a simples conexão com a qualquer mérito obtido pelas obras.
nação judaica “segundo a carne” não signi­ Aquele que chama. Deus nomeia pes­
fica participação na promessa mais do que soas e nações segundo Sua vontade (ver com.
significava nos dias de Isaque e Ismael. do v. 7). As pessoas podem procurar “com
Por esse tempo. Literalmente, “de acordo zelo, os melhores dons” (ICo 12:31), mas é
com esta estação” (citação de Gn 18:10, 14). Deus que, pelo Espírito, distribui os dons,
10. E não ela somente. Paulo, então, “como Lhe apraz” (v. 7-11). Simplesmente
apresenta uma ilustração ainda mais clara. porque Jacó foi escolhido como progenitor
Pode-se objetar que a eleição de Isaque e a da nação que seria o povo de Deus repre­
rejeição de Ismael são facilmente compreen­ sentante dEle, de maneira nenhuma signifi­
didas, tendo em vista que Sara era esposa de cava que seu irmão foi eleito para se perder.
Abraão, enquanto Hagar era apenas uma Essa dedução é injustificada. Esta passagem
escrava (Gn 16:1). Mas a escolha de Jacó em tem sido usada para apoiar a doutrina de que
detrimento de Esaú não podia ser explicada Deus predestina alguns para a salvação e
dessa forma, pois suas origens eram idênticas. outros para a condenação eterna, indepen­
Mas também Rebeca. A frase que dentemente do caráter. Mas essa doutrina é
► começa com estas palavras é interrompida contrária à Palavra de Deus (ver com. de Rm
pelo parêntese no v. 11 e, depois, continua 8:29). Portanto, não pode ser esse o conceito
no v. 12. O significado, no entanto, é claro: de Paulo neste versículo. O apóstolo explica
Rcbcca é mencionada em lugar dc Isaque, aos judeus, referindo-se à conhecida história
pois foi a ela que se dirigiu a profecia citada de Isaque e Ismael, Jacó e Esaú, que a mera
no v. 12. ascendência étnica ao povo escolhido não
De um só. Estas palavras enfatizam que garante as bênçãos da salvação. Era neces­
havia apenas um pai. No entanto, apesar de sário que Paulo enfatizasse esse ponto por­
Jacó e Esaú terem o mesmo pai e a mesma que os judeus entendiam mal a relação de
mãe, as situações peculiares na vida delas aliança e se valiam dela.
foram diferentes. 12. A ela. Assim como Paulo descreveu
Isaque, nosso pai. Os gêmeos tinham a eleição de Isaque, citando a predição do
por pai o patriarca da nação escolhida. Senhor a Abraão (v. 7), da mesma forma, ele

644
ROM ANOS 9:16

descreve a eleição de Jacó, repetindo a predi- que nem mesmo a presente rejeição signi­
ção divina a Rebeca, citando Gênesis 25:23. fica que Deus é injusto.
Será servo do mais moço. Esta pre- 14. Que diremos, pois? Esta pergunta
dição não se cumpriu literalmente no caso introduz a primeira de duas possíveis obje-
de Esaú e Jacó, mas aconteceu na história ções que um judeu poderia apresentar ao
posterior de seus descendentes (ver com. de argumento de Paulo. A segunda está no
Gn 25:23). O fato de a eleição divina de Jacó v. 19. A eleição de Israel e a rejeição de Ismael
em detrimento de Esaú também incluir as e Esaú foram exemplos das escolhas de Deus
nações que deles descenderíam está claro na que um judeu gostaria vivamente de apro­
predição inicial. var. Mas Paulo argumenta que esses exem­
13. Como está escrito. Uma citação plos envolvem um princípio que justificaria
de Malaquias 1:2 e 3. a exclusão da então descrente nação judaica.
Amei Jacó. Este versículo não explica Certamente, para essa conclusão, ele espera
o motivo da escolha de Jacó e a rejeição de uma objeção imediata.
Esaú por parte de Deus. Em vez disso, ele Há injustiça [...]? A construção grega
descreve a história dos dois filhos e dos dois implica uma resposta negativa. Paulo res­
povos que deles descenderam, Israel e Edom. ponde a essa questão apelando a uma auto­
Os descendentes bem como os antepassados ridade que não pode ser questionada por
estão incluídos. Isso é evidente a partir do um judeu. Deus não pode ser acusado
contexto de Malaquias 1:2 e 3. de ser injusto, pois as Escrituras deixam
Porém Me aborreci de Esaú. Esta claro que Deus, em questão de eleição, não
expressão não indica aborrecimento, como a de salvação, decide segundo Sua própria
palavra é entendida hoje, mas que Deus pre­ vontade.
feriu escolher Jacó a Esaú como progenitor De modo nenhum! Ver com. de Rm 3:4.
da nação escolhida (ver com. do v. 10, 11). 15. Terei misericórdia. Citação de
Era comum nos tempos bíblicos o uso do Ex 33:19. As palavras foram ditas a Moisés
termo “aborrecer” nesse sentido. Assim, a em conexão com seu pedido para ver a glória
preferência de Jacó por Raquel implicava de Deus. A questão não é de salvação pes­
“aborrecer” Lia (Gn 29:30, 31, ARC). Da soal, mas do direito de Deus de eleger Seus
mesma forma, Jesus fala sobre “aborrecer” representantes. O fato de Deus não reve­
pai e mãe (Lc 14:26) e “odiar” a própria vida lar Sua glória a outros da maneira com o
(Jo 12:25; comparar com Mt 6:24; ver com. fez a Moisés não é qualquer forma de injus­
de Ml 1:3). tiça. “Deus é sábio demais para errar e bom
Referindo-se à história dos patriarcas, demais para reter qualquer coisa boa aos que
Paulo mostra que a escolha do Israel espi­ andam em retidão” (CC, 96; ver SI 84:11).
ritual (ver com. de Mt 21:33-43), tendo em Quem. Citação de Ex 33:19. Paulo enfa­
vista o fracasso dos judeus em cumprir o tiza que cabe a Deus decidir quem serão
propósito divino, é plenamente coerente com Seus representantes na Terra.
Sua atitude no passado. Deus não estava 16. Pois. A conclusão extraída das pala­
sendo infiel a ninguém. Chamando a igreja vras de Deus a Moisés é que a eleição do
cristã a cumprir Seus propósitos para com o povo escolhido não depende da vontade ou
mundo, Deus estava seguindo o mesmo prin- esforço humano, mas da sabedoria de Deus,
► cípio que empregou originalmente quando que sabe o que é melhor e que “silenciosa­
escolheu os israelitas e rejeitou os edomitas mente, pacientemente” executa, “os conse­
e os ismaelitas. Paulo começa então a provar lhos de Sua própria vontade” (Ed, 173).

645
9:17 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Corre. Isto indica esforço extenuante. ver PP, 267). A questão em análise não é a
A metáfora, inspirada nas corridas a pé, é salvação pessoal do faraó, mas sua posição
recorrente nos escritos de Paulo (ICo 9:24, como líder de uma grande nação em seu
26; G1 2:2; 5:7; Fp 2:16). tempo. Deus opera mediante as nações e
Mas de usar Deus. Deus oferece a seus líderes para cumprir Seus propósitos
salvação a todos (lTm 2:4). Ninguém pre­ na Terra (ver com. de Dn 4:17).
cisa temer ficar fora do alcance da reden­ Mostrar em ti o Meu poder. A tradu­
ção. Mas, em Sua sabedoria, Deus escolhe ção literal de Exodo 9:16 diz: “mostrar-te o
os instrumentos pelos quais executa Seus Meu poder”. A frase usada por Paulo con- •<
propósitos. Se aqueles que Ele escolhe para corda com a LXX. A contínua obstinação do
executar determinada tarefa falham, Ele faraó levou a manifestações cada vez maiores
escolhe outros para tomar seu lugar. As pes­ do poder divino, até que, finalmente, o pró­
soas são exortadas a cooperar com os planos prio monarca foi forçado a admitir o poder
divinos e a não correr sem que o Senhor as superior de Deus (Ex 9:27).
tenha chamado (ver Jr 23:21). Seja anunciado. Ou, “seja publicado
17. A Escritura diz. As Escrituras são amplamente”. Este propósito de Deus ainda
personificadas nesta fórmula de citação está sendo cumprido onde quer que o livro
(ver também Cl 3:8, 22). Em Romanos 9:15, de Exodo seja lido.
Paulo usou as palavras "Ele diz”, isto é, “Deus 18. Logo. Novamente, como no v. 16,
diz”, para introduzir a citação das palavras de Paulo parte para a conclusão geral a partir
Deus a Moisés. dos exemplos citados.
Para isto mesmo. O objetivo é afir­ Tem Ele misericórdia. Ver com. do v. 15.
mado no restante do versículo. A citação de Quer. Do gr. thelõ, “deseja”.
Exodo 9:16 tem algumas variações e faz parte Endurece. Do gr. sklêrunõ. As outras
das palavras dirigidas por Moisés ao faraó ocorrências desta palavra no NT estão em
após a praga das chagas. Atos 19:9; Hebreus 3:8, 13, 15; e 4:7. Em
Levantei. Do gr. exegeirõ. Há apenas Exodo, o endurecimento do coração do faraó,
mais uma ocorrência desta palavra grega às vezes, é descrito como sendo autoprodu-
no NT (I Co 6:14), em que descreve a res­ zido (Ex 8:15, 32); outras vezes, como sendo
surreição. O contexto de Exodo 9:16 indica produzido por Deus (Êx4:21; 7:3). Na Bíblia,
que a passagem significa “Eu te levantei [da às vezes, Deus é representado por fazer o que
doença]”, isto é, o faraó não havia perecido não impede (ver com. de 2Cr 18:18). Neste
nas pragas até então. Embora, devido ao seu contexto, Paulo escolhe a última representa­
caráter rebelde, o rei merecesse ser destruído, ção por ser mais adequada a seu propósito.
Deus havia preservado sua vida e nele cum­ O endurecimento do coração resulta de rebe­
pria Seu propósito. Outros veem uma referên­ lião contra a revelação divina e rejeição ao
cia mais geral ao fato de Deus levar o faraó Espírito de Deus. Anteriormente, Paulo
ao palco da história (cf. FIc 1:6; Zc 11:16) e, havia falado como Deus entrega as pessoas
por seu intermédio, cumprir uma finalidade às consequências inevitáveis de sua desobe­
específica (ver com. de Rm 9:16). diência obstinada (Rm 1:24, 26, 28; sobre
Uma coisa que esta passagem definiti­ o endurecimento do coração do faraó, ver
vamente não quer dizer é que Deus havia com. de Rm 4:21).
predestinado o faraó a uma vida de rebe­ 19. Tu, porém, me dirás: Isto introduz
lião e destruição. Essa interpretação é con­ a segunda objeção que pode ser levantada
trária às Escrituras (ver com. de Rm 8:29; contra o argumento de Paulo (v. 14).

646
ROMANOS 9:21

De que se queixa ele ainda? A ques­ 20. Quem és tu [...]? A ordem das pala­
tão pode ser parafraseada como: Se Deus vras em grego e o significado literal da frase
endurece o coração de alguém, como Ele seria: “O homem, na verdade, você, quem
pode encontrar falha nessa pessoa? Como é você?” Um contraste enfático é sugerido
Deus pode culpar os pecadores, se a conduta entre Deus e o ser humano. Paulo lembra
deles estiver de acordo com Seu propósito que a verdadeira relação nesse caso é a da
e for resultado de Sua vontade irresistível? criatura com seu Criador. Portanto, o ser
Essa objeção pode lembrar a repreensão de humano tem que direito de reclamar ou
Deus ao faraó: “Ainda te levantas contra o de questionar os atos de Deus? Em vez de
Meu povo, para não deixá-lo ir?” (Ex 9:17), responder às perguntas levantadas no ver­
e: “até quando recusarás humilhar-te perante sículo anterior, Paulo volta à questão que
Mim?” (Ex 10:3). No caso do faraó, o oposi­ as motivou.
tor diria: “Se Deus decidiu endurecer o cora­ Discutires. Do gr. antapokrinomai,
ção do rei, por que Ele ainda encontra falha literalmente, “responder por contradição”.
nele?” (comparar com Ex 9:15, 16). A outra ocorrência deste verbo no NT, Lucas
Paulo não tenta responder por com­ 14:6, em que é usado para descrever a inca­
pleto essa objeção. Ele enfatiza que, em pacidade dos fariseus de “responder” a Jesus.
Seu governo sobre o mundo, Deus tem per­ Da mesma forma, neste versículo, a palavra
feita liberdade para lidar com as pessoas pode sugerir a contradição a uma resposta
segundo Seus propósitos e não segundo os que Deus já deu.
delas. Evidentemente, isso não tem a ver com Objeto. Do gr. -plasma. O verbo relacio­
a oportunidade de salvação pessoal. nado, plassõ, significa “moldar” ou “formar”,
Por não entender o argumento de Paulo, al­ como com argila ou cera. A comparação do
guns teólogos têm visto nestes versículos poder de Deus com o controle que um oleiro
algumas idéias que o apóstolo nunca defen­ tem sobre o barro é comum no AT (Paulo
deu. Calvino concluiu por este texto que cita aqui Is 29:16; 45:9; cf. Is 64:8; Jr 18:6).
Deus criou arbitrariamente alguns para a O uso que o apóstolo faz dessas palavras de
salvação e outros para a destruição. Esse con­ Isaías é apropriado, considerando que tra­
ceito do propósito de Deus não está de acordo tam do mesmo assunto: a relação de Deus
com a explicação de Paulo, em outras seções com Israel e o direito divino de lidar com a
desta mesma epístola. Paulo afirma que nação como julgar melhor.
Deus não mostra parcialidade (Rm 2:11), Por que me fizeste assim? Subentende-
que julga cada um segundo as suas obras se uma crítica à presunção de queixar-se
(Rm 2:6-10; cf. 3:22, 23) e que salva todo contra Deus. Como criador, Deus tem o
aquele que O invoca (Rm 10:12, 13). direito de distribuir dons segundo Sua von­
Resistiu. A pergunta significa: “Quem tade (ver com. do v. 11).
está resistindo à vontade de Deus?”, suge­ 21. Direito. Do gr. exousia, “poder” ou
rindo que ninguém o pode fazer. “autoridade”. Negar que Deus tem o direito
Vontade. Do gr. boulêma. Esta não é a de fazer o ser humano como desejar equi­
palavra comum do NT para “vontade”, que vale a afirmar que o oleiro tenha completo
é thelêma (Rm 2:18; 12:2; 15:32). Há apenas controle sobre o barro. Paulo pode se refe­
outras duas ocorrências de boulêma no NT: rir aqui a Jeremias 18:6. Nessa declaração
Atos 27:43 e 1 Pedro 4:3. Boulêma define de Jeremias, afirma-se a natureza condi­
melhor a ideia de propósito consciente e cional das promessas de Deus (Jr 18:7-10).
deliberado. Deus age pelo bem das pessoas e das nações.

647
9:22 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Mas, por sua obstinação e perversidade, elas o propósito da “paciência e longanimidade”


trazem ruína sobre si mesmas. de Deus é levar os pecadores “ao arrependi­
Do mesmo barro. A partir da mesma mento”). E verdade que a longanimidade de
matéria, a seu critério, o oleiro pode optar Deus pode ser “desprezada” e, consequente­
por fazer um vaso para fins nobres e outro mente, resultar no endurecimento do coração
para uso mais humilde. Da mesma forma, e em mais severidade no juízo, como no caso
Deus tem autoridade sobre toda a huma­ do faraó. Mas o objetivo principal da paciên­
nidade e lida com as pessoas de acordo cia de Deus é dar à humanidade a oportuni­
com Seus propósitos. Ao trabalhar para a dade para que se arrependa.
salvação da humanidade, Deus considera Ira. Ver com. de Rm 1:18.
apropriado permitir que pessoas e nações Seu poder. Literalmente, “o que Lhe é
sofram as consequências de sua própria possível” (v. 17).
rebelião. Muitas vezes, a Bíblia representa Longanimidade. Ver com. de Rm 2:4.
aquilo que Deus permite como se fosse Vasos. Paulo continua com a figura do
algo feito diretamente por Ele (ver com. oleiro e do barro.
de 2Cr 18:18). De ira. Ou seja, que merecem a ira, ou
22. Se Deus. Literalmente, “mas se experimentam a ira, como na frase “filhos
Deus”. A frase está incompleta, mas a cons­ da ira” (Ef 2:3).
trução não é incomum (ver Lc 19:41, 42; Preparados. Do gr. katartizõ, que, na
Jo 6:61, 62). Paulo afirma que se Deus forma encontrada aqui, pode ser traduzida
tem direito de lidar com Suas criatu­ como “prontos” para a destruição. A constru­
ras da maneira que Lhe parecer melhor, ção grega é diferente da traduzida como “já
na realidade, Ele tem exercido paciência dantes preparou”, do v. 23. Paulo não quer
com todos. dizer que Deus tinha preparado os vasos de
Querendo. Alguns comentaristas ira para a destruição, mas apenas que eles
interpretam isto como “porque Deus quer”, estavam “maduros” ou “prontos” para isso.
outros, como “enquanto quer’ ou “embora 23. A fim de que também desse a
Deus queira”. Se o primeiro for o correto, conhecer. A ligação gramatical entre os
Paulo estaria dizendo que Deus suporta v. 22 e 23 é imperfeita, mas o sentido é claro.
pacientemente os vasos da ira porque deseja A paciência de Deus pelos que estão prepa­
revelar Sua ira e poder em um juízo final rados para a destruição também tem o pro­
mais terrível. Assim, Deus poupou a vida pósito de mostrar misericórdia para com os
do faraó (v. 17), suportando com paciência que estão dispostos a cumprir o plano de
o monarca obstinado, para dar ainda maio­ Deus. Embora os judeus tivessem merecido a
res manifestações de Seu poder e determi­ ira, Deus lhes mostrara paciência, tanto para *
nação em punir a crueldade e a opressão seu próprio bem como para o bem supremo
(ver PP, 268). Mas, se a segunda ou a ter­ de Sua igreja.
ceira tradução estiver correta, o significado Riquezas da Sua glória. Cf. Ef 1:18,
seria que, embora Deus queira dar a conhe­ 3:16; Cl 1:27; sobre o significado do termo
cer Seu poder e Seu ódio contra o pecado, “glória de Deus”, ver com. de Rm 3:23.
ainda assim, Ele restringe com paciência Sua Vasos de misericórdia. Ou seja, os
ira e preserva os vasos preparados para a des­ vasos que receberam e experimentaram
truição. A última interpretação parece con­ misericórdia. Dificilmente isso poderia ser
cordar melhor com o contexto e com o tema interpretado como sendo “vasos merecedo­
da epístola (ver, por exemplo, Rm 2:4, em que res de misericórdia”, como no caso dos “vasos

648
ROM ANOS 9:28

de ira” (ver com. do v. 22). A misericórdia de Em seu contexto original, é uma predição do
Deus nunca é merecida. chamado das tribos da diáspora. Paulo mos­
Preparou de antemão. Do gr. 'proetoimazõ. tra como a promessa se cumprirá em relação
A outra ocorrência deste verbo no NT encontra- à igreja (ver com. de Os 1:10).
se em Efésios 2:10. Paulo afirma que é Deus No lugar. Isto parece significar que,
quem prepara os vasos de misericórdia para a no mesmo lugar em que as tribos, ou mais
glória, embora não descreva Deus preparando tarde, os gentios, haviam sofrido a vergonha
vasos de ira para a destruição (ver com. de Rm de ouvir que não eram povo de Deus, seriam
9:22). Deus prepara Seu povo de antemão para chamados povo de Deus.
a glória (Rm 8:28-30; cf. 2Tm 1:9). 27. Clama. Do gr. krazõ, palavra que
24. Os quais somos nós. Ou seja, a indica intenso fervor (ver Jo 1:15; 7:28, 37;
igreja cristã, a quem foram atribuídos os 12:44; At 23:6).
privilégios concedidos no passado a Israel. Isaías. Paulo passa então das profe­
“Aquilo que Deus propôs realizar em favor cias aplicáveis ao chamado dos gentios para
do mundo por intermédio de Israel, a nação outras sobre a rejeição de todos, à exceção
escolhida, será executado afinal por meio de um remanescente de Israel.
de Sua igreja na Terra hoje” (PR, 713; ver Ainda que o número. Uma citação de
vol. 4, p. 21-23). Isaías 10:22 e 23, não idêntica ao hebraico
Não só dentre os judeus. A igreja nem à LXX. No entanto, as variações não
cristã é constituída de judeus e gentios. Mais alteram o significado da profecia.
uma vez, Paulo enfatiza a universalidade da Areia do mar. As palavras de Isaías refle­
graça divina (cf. Rm 3:29, 30). Ninguém é tem a promessa feita a Abraão (Gn 22:17).
chamado e salvo porque é judeu. A salvação O remanescente. Significa, neste con­
é oferecida a judeus e gentios nas mesmas texto, “só um remanescente”. A doutrina do
condições (Rm 3:22; 10:12, 13). remanescente era uma parte importante
Gentios. Com esta referência aos gen­ da mensagem de Isaías. Foi incluída no
tios, Paulo introduz o assunto a ser discutido comissionamento divino do profeta para
até o final de Romanos 11. ser mensageiro a Israel (Is 6:13), e ele a
25. Como também diz. Paulo pro­ enfatiza repetidamente (Is 1:9; 10:20-22;
cura apoiar suas conclusões no AT, espe­ 11:11-16; 37:4, 31, 32; 46:3). Isaías foi ainda
cialmente quando trata de temas polêmicos. instruído pelo Senhor a chamar um dc seus
Então ele mostra que tanto o chamado aos filh os de Shear-jasub, literalmente, “Um
gentios como a salvação de um remanescente Remanescente Voltará”. Outros profetas do
de Israel estavam previstos pelos profetas. AT também mencionam frequentemente
Chamarei. Uma citação de Oseias 2:23, o “remanescente” (ver jr 6:9; 23:3; 31:7;
embora não idêntica ao hebraico nem à Ez 6:8; 14:22; J1 2:32; Am 5:15; Mq 2:12;
LXX. Da forma como foram citadas por 4:7; 5:7, 8; 7:18; Sf 2:7, 9; 3:13; Ag 1:12, 14;
Paulo, as palavras gregas dizem, literal­ Zc 8:6, 12).
mente: “Chamarei o não Meu povo de Meu Será salvo. O texto hebraico diz: “vol- -«g
povo e os não amados de amados” (sobre o tará”. Este retorno não deveria ser apenas
significado da afirmação de Oseias em seu do exílio, mas “ao Deus forte” (Is 10:21).
contexto original, ver com. de Os 2:23; cf. Portanto, a tradução grega “será salvo” repre­
Os 1:6, 9). senta correta mente a intenção da profecia.
26. E sucederá que (ARC). Uma 28. Cumprirá. O versículo pode ser tra­
segunda citação do AT, de Oseias 1:10. duzido, literalmente, como: “por uma palavra,

649
9:29 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

completando[-a] e abreviando [-a] em justiça, que “antes” significa “em uma passagem ante­
porque uma breve palavra o Senhor vai trazer rior”. A declaração seria de uma parte
sobre a Terra”. No entanto, evidências tex­ anterior dos escritos de Isaías (Is 1:9).
tuais apoiam (cf. p. xvi) a omissão das pala­ Se o Senhor. Uma citação de Isaías 1:9.
vras “em justiça, porque uma breve palavra”. Dos Exércitos. Do gr. Sabaoth, trans-
A expressão mais longa é a da LXX (sobre o literação do heb. tsebaoth, “hostes”, “exér­
significado do texto hebraico, ver com. de citos” (sobre o significado do título “Senhor
Is 10:22). dos Exércitos”, ver com. de Jr 7:3).
Palavra. Do gr. logos, termo usado no Descendência. Ou, “filhos”; os “rema­
NT com diversos significados. E tradu­ nescentes” do v. 27. O hebraico de Isaías 1:9
zida como “notícia” (Mc 1:45), “pergunta” diz: “um pequeno remanescente”. A LXX,
(Mc 11:29; Lc 20:3) e “contas” (Hb 13:17). bem como Paulo, os representa como “des­
Logos ocorre mais de 300 vezes no NT, cendência”, da qual a nação brotará nova­
sendo traduzido em geral por “palavra”; e é mente (cf. Is 6:13; Os 2:23). O objetivo da
traduzido como “obra” somente aqui, pela citação é dizer que, a não ser por esse rema­
ACF. Logos é o equivalente grego ao heb. nescente, a rejeição de Israel seria tão com­
dabar. Vários significados são possíveis neste pleta como a de Sodoma e Gomorra. Mas,
contexto em particular. Um deles é sugerido ao longo dos séculos, um pequeno rema­
pela tradução de logos em Romanos 14:12: nescente manteve a aliança. Apesar da infi­
“Assim, pois, cada um de nós dará contas delidade e da apostasia dominante, essa
[logos] de si mesmo a Deus.” Esse signifi­ linhagem ininterrupta de testemunhas se
cado está por trás da seguinte tradução da manteve fiel a Deus e às condições de Suas
passagem em questão: “Pois o Senhor exe­ promessas a Abraão (Rm 11:4, 5; cf. SI 22:30,
cutará na Terra a Sua sentença, rápida e 31; Is 6:12, 13).
definitivamente” (NVI). Outra interpreta­ Como Sodoma. A destruição de Sodoma
ção faz logos se referir às promessas de Deus e Gomorra é frequentemente mencionada no
a respeito de Israel, cumpridas apenas em AT como exemplo de destruição violenta (ver
grau limitado no remanescente. Ou, “abre­ Dt 29:23; Is 13:19; Jr 49:18; 50:40; Lm 4:6;
viando” (ARC) pode se referir ao próprio Am 4:11; Sf 2:9). Jesus também Se refere a
Israel, cujo número seria muito reduzido essas cidades quando fala do juízo divino
na seleção do remanescente. (Mt 11:23, 24; Mc 6:11; Lc 10:12).
29. Já disse. Alguns tomam isto como 30. Que diremos, pois? Tendo enfati­
significando “anunciou” ou “predisse” (cf. zado a autoridade e a justiça divina na rejei­
Mt 24:25; At 1:16). Outros entendem que sig­ ção dos judeus e na vocação dos gentios,
nifica simplesmente “disse em um momento Paulo então se volta para a responsabilidade
anterior” (cf. 2Co 7:3; G1 1:9). A decisão humana.
depende de as palavras de Isaías serem con­ Os gentios. Alguns gentios alcançaram
sideradas como uma predição ou como uma a justiça. A conclusão que Paulo faz de sua
descrição da situação de Israel em seu tempo. discussão até aqui é: a promessa de Deus não
Neste último caso, Paulo estaria usando as falhou, mas, enquanto os gentios obtiveram
palavras de Isaías como suas próprias a fim justiça, os judeus não conseguiram encontrá-
de descrever a condição semelhante de Israel la, porque a procuraram no caminho errado.
em seus dias. Em qualquer caso, a citação Isso, naturalmente, levanta a questão do
ó apropriada para o raciocínio do apóstolo. v. 32: “Por que?”, e introduz o ponto em d is- «
Ainda uma terceira interpretação considera cussão seguinte: a falha c a culpa dos judeus,

650
ROMANOS 9:32

questão que Paulo discute deste ponto até mais as leis religiosas na busca legalista de
Romanos 10:21. um princípio de vida que os tomasse justos
Buscavam. Do gr. diõkõ, “perseguir”. aos olhos de Deus.
Vieram a alcançá-la. Do gr. katalambanõ, Outra interpretação, bem adaptada ao
“colheram”, “obtiveram”. Tanto diõkõ quanto contexto, é considerar a frase a “lei de jus­
katalambanõ são usados em conexão com a tiça” equivalente a “justiça que se baseia na
pista de corridas (ver com. de Rm 9:16; cf. lei”. A ênfase de Paulo nestes versículos está
ICo. 9:24; Fp 3:12). Paulo afirma que os na natureza legalista da busca de Israel por
gentios, que sequer estavam se esforçando justiça.
para obter a justiça, a compreenderam. Ele Essa lei. Literalmente, “para uma lei”.
não diz que não havia nenhum desejo ou Evidências textuais favorecem (cf. p. xvi)
anseio por justiça entre os gentios, mas que, a omissão de “justiça” nesta segunda frase
em contraste com os judeus legalistas, eles (comparar ARA e ARC). Israel seguia “uma
não estavam deliberadamente buscando-a. lei de justiça”, mas não conseguia alcançá-la.
No entanto, quando a salvação lhes foi ofe­ A razão para essa falha é que a justiça da
recida no evangelho, eles a receberam. lei exige o perfeito cumprimento da lei, e as
Anteriormente, Paulo falou sobre os gentios pessoas não são capazes de prestar essa obe­
que preenchem os requisitos da lei, embora diência por si mesmas. Consequentemente,
não tenham qualquer código revelado, como dependendo da justiça de uma lei que não
os judeus, que tinham o privilégio de possuí-la podiam obedecer, os judeus não conseguiam
(ver com. de Rm 2:14). chegar aos ideais prescritos pela lei nem à
Da fé. Esta definição do tipo de justiça justiça que perseguiam.
que os gentios obtiveram explica o aparente 32. Porque. A primeira parte da res­
paradoxo de terem alcançado a justiça pela posta diz, literalmente: “porque não decor­
qual não estavam se esforçando. reu da fé, e sim como que das obras da lei”.
31. A lei de justiça. Literalmente, “uma Evidências textuais favorecem (cf. p. xvi) a
lei de justiça”, ou seja, uma justiça que pro­ omissão da expressão “da lei” (ARC).
duz lei. Paulo diz que os gentios não busca­ Como que das obras. Literalmente,
vam, mas obtiveram a “justiça”. No entanto, o “como se fosse pelas obras”. Por essa frase
que Paulo diz que os judeus perseguiam, mas qualificadora, Paulo indica que era opinião
não alcançavam é “a lei de justiça”. Esta frase dos judeus que a justiça podia ser obtida desta
tem sido interpretada de diversas maneiras. forma. Eles pensavam que poderíam se tornar
Alguns a consideram uma referência especí­ justos mediante as obras, o que, na verdade,
fica à Ieí do AT. Outros entendem que a frase era impossível (ver Rm 2:25-3:20). Perfeita
significa que os judeus buscavam um princí­ justiça só é possível pela fé (Rm 3:21, 22).
pio e uma regra de vida moral e religiosa que Tropeçaram. Do gr. proskoptõ. Este
os tornasse justos (comparar com o uso da verbo significa, literalmente, “chocar-sc con­
palavra “lei” na expressão “lei da fé”; ver com. tra” (Mt 4:6; Lc 4:11), por isso, “tropeçar”
de Rm 3:27; cf. Rm 7:23). Os judeus pensa­ (Jo 1.1:9, 10) e, metaforicamente, “ofensa”
vam ter encontrado esse princípio em seu sis­ (1 Pe 2:8). Cristo veio para trazer justiça a todos
tema de leis morais e religiosas. Mas, visto os que a aceitam pela fé. Mas os judeus, que
que nunca foram capazes de viver de acordo a buscavam de outra maneira, ofenderam-se
com os requisitos da lei, seus princípios de com Ele e Sua mensagem. Era tão arraigada
justiça não poderíam produzir a justiça que a crença errônea de que a justiça podería ser
procuravam. Isso os levou a multiplicar ainda obtida pelas obras, que esta os levou a se

651
9:33 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

oporem abertamente ao Salvador e, final­ nem à LXX. Pedro aplica estes dois versí­
mente, até a matarem-No. Se Paulo usa culos a Cristo (lPe 2:6-8). A predição reúne
o verbo no sentido literal de “tropeçar”, estes as duas classes que Paulo descreve: aqueles
So- versículos descrevem os judeus como perse­ para quem Cristo é motivo de escândalo e
guindo sinceramente a meta da justiça, mas aqueles para quem Ele é a pedra angular de
tropeçando sobre a própria Pessoa que veio sua fé (ver SI 118:22; Mt 21:42; Mc 12:10;
ajudá-los a alcançá-la. Lc 20:17; At 4:11).
Pedra de tropeço. Evidentemente, o Nela. Esta expressão não está na LXX
problema não estava na pedra, mas na atitude nem no texto hebraico de Isaías 28:16. Ao
daqueles para quem ela se tornou motivo de acrescentá-la, Paulo enfatiza a referência
tropeço. O “Cristo crucificado” era “escân­ pessoal a Cristo.
dalo” para os judeus, mas o “poder” e “sabe­ Não será confundido. Esta é a tra­
doria de Deus” para os crentes (ICo 1:23, dução da LXX. O hebraico diz: “não se
24). Ele é pedra de tropeço para os infiéis apressará”, mas também permite a mesma
e desobedientes, mas precioso aos que têm tradução. Em ambos os casos, a ênfase está
fé (lPe 2:7, 8). na confiança que tem o que exerce fé em
33. Está escrito. Citação de Isaías Cristo e avança para o alvo da soberana voca­
28:16 e 8:14, mas não idêntica ao hebraico ção de Deus.

COMENTÁMOS DE ELLEN G. WHITE

1-5 - AA, 374 20, 21 -T8, 187 28 - PE 50, 75; T6, 19, 233;
2, 3 - AA, 129 21-26-AA, 376 T8, 49
11 -GC, 261; PP, 207 27-29 - AA, 379

Capítulo 10
5 A diferença entre a justiça da lei e a da fé. 11 Judeus e gentios que creem andam na
luz. 18 Os gentios recebem a palavra. 19 Israel é ciente dos planos divinos.

1 Irmãos, a boa vontade do meu coração e a 6 Mas a justiça decorrente da lê assim diz:
minha súplica a Deus a favor deles são para que Não perguntes em teu coração: Quem subirá ao
sejam salvos. céu?, isto é, para trazer do alto a Cristo;
2 Porque lhes dou testemunho de que eles 7 ou: Quem descerá ao abismo?, isto é, para
têm zelo por Deus, porém não com entendimento. levantar Cristo dentre os mortos.
3 Porquanto, desconhecendo a justiça dc 8 Porém que se diz? A palavra está perto de
Deus e procurando estabelecer a sua própria, ti, na tua boca c no teu coração; isto é, a palavra
não se sujeitaram à que vem de Deus. da fé que pregamos.
4 Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de 9 Se, com a tua boca, confessares jesus como
todo aquele que crê. Senhor c, cm teu coração, creres que Deus o res­
5 Ora, Moisés escreveu que o homem que suscitou dentre os mortos, serás salvo.
praticar a justiça decorrente da lei viverá por 10 Porque com o coração se crê para justiça
ela. e com a boca se confessa a respeito da salvação.

652
ROMANOS 10:2

11 Porquanto a Escritura diz: Todo aquele 17 E, assim, a fé vem pela pregação, e a pre­
que nEle crê não será confundido. gação, pela palavra de Cristo.
12 Pois não há distinção entre judeu e grego, 18 Mas pergunto: Porventura, não ouviram?
uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a
para com todos os que O invocam. Sua voz, e as Suas palavras, até aos confins do
13 Porque: Todo aquele que invocar o nome mundo.
do Senhor será salvo. 19 Pergunto mais: Porventura, não terá che­
14Como, porém, invocarão Aquele em quem gado isso ao conhecimento de Israel? Moisés já
£► não creram? E como crerão nAquele de quem nada dizia: Eu vos porei em ciúmes com um povo que
ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? não é nação, com gente insensata Eu vos provo­
15 E como pregarão, se não forem enviados? carei à ira.
Como está escrito: Quão formosos são os pés dos 20 E Isaías a mais se atreve e diz: Fui acha­
que anunciam coisas boas! do pelos que não Me procuravam, revelei-Me aos
16 Mas nem todos obedeceram ao evange­ que não perguntavam por Mim.
lho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na 21 Quanto a Israel, porém, diz: Todo o dia es­
nossa pregação? tendí as mãos a um povo rebelde e contradizcnte.

1. Irmãos. Paulo utiliza esta expressão Que sejam salvos. É significativo que,
com frequência quando deseja ser enfático após a discussão sobre a rejeição de Cristo
(cf. Rm 7:1; 8:12; 12:1; lCo 14:20; G1 3:15). pelos judeus, Paulo fale em orar pela sal­
O tema discutido neste capítulo é afirmado em vação deles. Isso mostra que ele não consi­
Romanos 9:31 a 33, que Israel não alcançou a dera o caso deles sem esperança, apesar de
justiça porque a buscava com base nos méri­ sua culpa. Se Paulo considerasse essa rejei­
tos próprios. Mas, antes de apontar a falha e a ção como resultado de uma determinação de
culpa de seu povo, Paulo reitera sua preocupa­ Deus para a destruição deles, como alguns
ção pela salvação deles (cf. Rm 9:1-3). entendem a doutrina da predestinação, ele
Boa vontade. Do gr. eudokia, “aprova­ não teria orado para que eles ainda fossem
ção”. Comparar com o uso da palavra em salvos. Por isso, ele afirma que “todo aquele
Mt 11:26; Ef 1:5, 9; Fp 1:15; 2:13; 2Ts 1:11. que invocar o nome do Senhor será salvo”
Paulo desejava sinceramente a salvação de (v. 13). O evangelho é para todos, incluindo
seus compatriotas judeus. os judeus (Rm 1:16; 3:29, 30; 10:12).
Súplica. Do gr. deêsis, “petição”, “rogo” 2. Por que lhes dou testemunho.
(cf. Ef 6:18; Fp 4:6; iTm 2:1; 5:5), a partir Paulo podia fazer isso a partir da própria
da palavra deomai, “querer”, “implorar” ou experiência. Ele mesmo havia sido “extre­
“orar”. Deêsis descreve um pedido particular mamente zeloso das tradições de [seus] pais”
e se distingue de proseuchê, uma oração geral (G1 1:14), portanto, estava familiarizado com
(Rm 1:10). o zelo equivocado deles (ver At 22:3; Fp 3:6).
A favor deles. Evidências textuais favo­ Zelo por Deus. Comparar SI 69:9 e
recem (cf. p. xvi) a variante “por eles”, isto é, Jo 2:17. Os judeus se orgulhavam de seu
os que foram mencionados antes (Rm 9:31- zelo por Deus e pela lei (At 21:20; 22:3; cf.
33). O pronome indica a ligação entre os dois G1 1:14), e Paulo descreve o ardor deles pela
capítulos. O cap. 10 é uma continuação do religião durante esse período.
raciocínio de Paulo sobre a rejeição de Israel, A triste história dos judeus é que, ape­
discutida no cap. 9. sar do fervor religioso, eles não alcançaram

653
10:3 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

a justiça (Rm 9:30-32). A religião deles era Em seu professo zelo por Deus, os judeus
legalista e formal. A aparência de obediên­ estavam realmente trabalhando para si mes­
cia era um disfarce para a corrupção inte­ mos. Oseias já dizia: “Israel é uma vide fron­
rior (Rm 2:17-29). No entanto, Paulo parece dosa; dá fruto para si mesmo” (Os 10:1, ARC).
falar de seu zelo por Deus como algo que, Em vez de buscar a justiça de Deus, os
em si mesmo, é louvável. Antes de discutir judeus se baseavam em suas próprias
as falhas deles, ele primeiro aponta para uma obras (cf. Fp 3:9). Consideravam os sacri­
boa qualidade (Rm 1:8). Ele parece encon- fícios e as ordenanças como meios de jus­
► trar nesse zelo mal direcionado alguma coisa tiça, em vez de buscar a justiça dAquele a
para incentivar; a esperança de que, se o zelo quem todas essas coisas apontavam. Assim,
fosse direcionado para o verdadeiro caminho a religião deles degenerou para um forma­
da justiça, eles ainda poderíam ser salvos. lismo de autoglorificação e autossuficiência.
Entendimento. Do gr. epignõsis, pala­ E quanto mais os judeus perdiam de vista a
vra que denota conhecimento pleno e pro­ justiça de Deus, mais rigorosos se tornavam
fundo (cf. Rm 1:28; 3:20). Os judeus não no cumprimento dessas formas de estabele­
estavam sem tal conhecimento (gnõsis), mas cer a justiça própria.
faltava-lhes o verdadeiro conhecimento que Sujeitaram. Do gr. hwpotassõ, verbo que
os poderia ter levado a servir a Deus correta­ comumente significa “colocar-se sob ordens”,
mente. Eles tinham sido favorecidos com o “obedecer” (cf. Tg 4:7; lPe 2:13; 5:5). A forma
conhecimento de Deus (Rm 3:1, 2), mas verbal aqui empregada é mais bem tradu­
o zelo deles não era inteligente. Embora zida como “submeteram-se”. Os judeus se
conhecessem a Lei e os Profetas, não com­ orgulhavam de seu conhecimento de Deus
preendiam o significado das palavras e das e da lei divina (Rm 2:17-20), mas recusavam
obras de Deus. O fervor sem discernimento obedecer à vontade de Deus. Confiantes na
tornou-se fanatismo, e eles mostravam mais própria justiça, não se dispunham a ceder
zelo para com os rituais e a letra da lei do o coração a um plano que exigia que con­
que para com Deus. fessassem não ter justiça aceitável (Is 64:6)
3. Porquanto. Este versículo explica e que a salvação dependia dos méritos de
que o zelo dos judeus era “não com entendi­ outrem. Nenhum obstáculo para a salvação
mento”. Se estivessem dispostos a obedecer pela graça é tão grande quanto a autojusti-
à vontade de Deus, eles teriam chegado ao ficação do pecador. Por causa da indispo­
conhecimento da verdade (ver Jo 7:17), mas sição em se submeter ao mandamento de
se recusaram. Deus, isto é, crer “em o nome de Seu Filho”
Desconhecendo. Mais tarde, Paulo (ljo 3:23), os judeus revelaram que sua fé em
mostra que essa ignorância era indesculpável, Deus era inoperante, pois a essência da fé é
pois os judeus haviam tido todas as oportuni­ confiar e obedecer. Essa relutância em crer
dades para se tornar iluminados (Rm 10:14- era a causa, não só da ignorância, mas tam­
21; cf. Jo 5:39, 40). bém da rejeição como povo escolhido.
A justiça de Deus. Ver com. de Rm 4. O fim da lei é Cristo. No texto
1:17. grego, a palavra “fim”, telos, está com ênfase.
Procurando. Do gr. zêteõ, literalmente, Estas palavras têm sido interpretadas como
“buscar”, “esforçar-se para”. se Cristo fosse o fim da lei como tal (cf.
Estabelecer. Do gr. histêmi, “instituir”. G1 3:24), Cristo sendo o cumprimento da lei
A palavra sugere o orgulho dos judeus no (cf. Mt 5:17) e Cristo sendo o fim da lei como
esforço para desenvolver justiça própria. meio de salvação (cf. Rm 6:14). A primeira

654
ROMANOS 10:5

interpretação, antinomista, é um equívoco Ao fazer isso, ele também mostra que não
(ver com. de Rm 3:31). A segunda apresenta há contradição entre o AT e o NT sobre esse
uma proposição verdadeira; mas a terceira é assunto.
a que melhor se enquadra no contexto deste Escreveu. Do gr. grnphõ, literalmente,
versículo. Paulo contrasta o caminho da jus­ “escrever”. Há evidência textual (cf. p. xvi)
tiça de Deus pela fé com a tentativa humana para a seguinte variante do v. 5: “Moisés
de obter a justiça pela lei. A mensagem do escreveu que o homem que pratica a jus­
evangelho é que Cristo é o fim da lei como tiça baseado na lei viverá por ela.” A cita­
forma de justiça a todo aquele que tem fé. ção é de Levítico 18:5, que diz: “Portanto,
É significativo que, no texto grego, não há os Meus estatutos e os Meus juízos guar­
um artigo definido (“a”) antes da palavra dareis; cumprindo-os, o homem viverá
nomos, “lei” (ver com. de Rm 2:12), o que por eles” (cf. G1 3:12). Paulo cita essas
indica que Paulo se refere à lei, em geral, e palavras para mostrar que, com base em
não a uma lei específica. Além disso, o des- conceitos judaicos, a justiça pela lei exige o per­
595

► dobramento da argumentação mostra que feito cumprimento da lei. Ela deve ser obser­
Paulo trata de lei em sentido geral. vada criteriosamente. Não há graça nem
Este versículo não significa que a justiça, misericórdia na lei. Tudo o que a lei exige
na verdade, podería ser obtida pela lei nos deve ser cumprido, ou não há salvação (cf.
tempos do AT, e que, com a vinda de Cristo, G1 3:10-13). Mas essa é uma condição que
a fé substituiu a lei como forma de justiça. jamais foi cumprida pelo ser humano caído,
Desde a queda de Adão, Deus revelou apenas como Paulo mostra em Romanos 1 a 3, e que
um caminho pelo qual a humanidade pode­ não pode ser cumprida por pecadores não
ría ser salva: a fé no Messias (Gn 3:15; 4:3-5; regenerados (Rm 8:5-8). Portanto, só pode
Hb 11:4; cf. Rm 4). A passagem tam­ haver condenação para os que dependem
bém não pode ser usada para afirmar que de seu próprio cumprimento da lei para se
Cristo é o fim da lei como tal e que, por­ justificarem diante de Deus (Rm 3:20).
tanto, em Cristo, as pessoas estão isentas No contexto de Levítico 18:5, a lei de
da obediência à lei de Deus. É a lei como Deus é descrita como um conjunto de esta­
método de obtenção de justiça que foi tutos e juízos que poderíam ser guardados
levada ao fim, em Cristo. O propósito de e mediante cuja observância as pessoas
Deus para proclamar sua lei era revelar a seriam mantidas na vida. As referências a
pecaminosidade do ser humano (Rm 3:20) essa mesma passagem em Ezequiel 20:11, 13
e a necessidade de um Salvador (G1 3:24). e 21 e Ncemias 9:13 e 29 também sugerem
Mas os judeus tinham torcido o propó­ que a condição pode ser cumprida. Deve-se
sito de Deus e usavam as leis, tanto morais observar, no entanto, que Deus entregou a
quanto cerimoniais, como meio de estabe­ lei ao povo de Israel (Ex 20) não na condi­
lecer a própria justiça. Cristo veio elimi­ ção de escravos no Egito para que fosse cum­
nar esse uso equivocado da lei e apontar o prida e, por isso, o povo pudesse ser salvo;
caminho de voltaàfé.Afé não aboliu a lei, mas a mas na condição de povo salvo pelo sacri­
confirmou (ver com. de Rm 3:31), tornando fício do cordeiro, imolado na Páscoa. Eles
acessível aos seres humanos a justiça per­ deveríam obedecer a Deus a fim de perma­
feita de Cristo (ver com. de Rm 8:4). necer na condição de salvação dada a eles
5. Ora, Moisés. Paulo então descreve o por Deus, por Sua graça (Ex 3:6-9). No NT,
contraste entre a justiça pela lei e a justifica­ a exemplo de Israel, os cristãos recebem a
ção pela fé, com linguagem extraída do AT. graça do evangelho e são chamados a exercer

655
10:6 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

fé no Redentor a fim de obter o perdão dos intermédio de Moisés foi parte desse plano.
peeados e receber graça para a obediência Além disso, Moisés foi usado por Deus para
(ver com. de Ez 16:60; 20:11; 36:26). Esses dar o grande sistema de tipos e cerimônias
textos não devem ser tomados para supor que que simbolizavam o plano da justificação
a justiça pode ser obtida pela guarda da lei pela fé em Cristo. Por isso, não é razoável
sem o exercício da fé. Contudo, os fariseus e, supor que Moisés fosse ignorante sobre o
por influência deles, o povo judeu entretinha relacionamento entre a lei e o evangelho,
essa visão errônea. Eles esperavam justiça e nem que, ao falar sobre a obediência aos
vida como recompensa pela estrita obser­ mandamentos de Deus, elogiasse a justiça
vância da lei. O relacionamento deles com pela lei e em lugar da fé.
Deus era puramente legalista. A aliança Assim diz. Isto é, fala desta maneira;
com Deus era pelas obras, não por meio da uma citação de Dt 30:11-14. Nesse capí­
fé e da graça. Deus procurou levá-los a uma tulo, Moisés enumera as bênçãos prome­
experiência mais elevada, mas eles se recusa­ tidas a Israel mediante a obediência à lei
ram a avançar (ver com. de Ez 16:60). de Deus. Moisés fala àqueles a quem tinha
A fim de expor o mal-entendido dessa dito anteriormente: “Deus, circuncidará o
posição, Paulo cita Levítico 18:5. Ele usa as teu coração [...] para amares o Senhor, teu
palavras do próprio Moisés para lembrar Deus, de todo o coração e de toda a tua
aos judeus legalistas que a justiça só vem alma, para que vivas” (Dt 30:6). Ele se refere
para os que obedecem perfeitamente. Mas o ao Israel convertido e fiel. Ele fala da fun­
ser humano não é capaz de prestar essa obe­ ção da lei para os israelitas circuncidados
diência. Jesus respondeu ao doutor da lei que de coração. Paulo não se apropria das pala­
buscava “a justiça que é da lei”, indicando: vras de Moisés sobre a lei para aplicá-las a
“Faze isto e viverás” (Lc 10:28). algo que Moisés não tinha em mente. Assim
6. Decorrente da fé. Paulo perso­ como Paulo ressalta a justificação pela fé
nifica a justificação pela fé, como se esti­ em Abraão, que creu e obedeceu a Deus,
vesse falando por si mesma. O mesmo com aqui ele destaca a essência da justificação
a sabedoria (Pv 1:20; Lc 11:49) e a exorta­ pela fé na experiência dos israelitas salvos
ção (Hb 12:5). O apóstolo poderia ter dito: do Egito para viver em novidade de vida em
“Moisés fala assim sobre a justificação pela Canaã. As palavras de Moisés, entendidas à
fé”. Assim, as afirmações em Romanos 10:4 luz dos atos salvíficos de Deus no êxodo, de
são provadas pelo testemunho de Moisés, ou screvem uma justiça que, de fato, é fruto
seja, a impossibilidade de se obter a justiça da fé no Cordeiro de Deus.
por intermédio da lei (v. 5) e a certeza de que Não perguntes em teu coração. Estas
podemos obter a justificação pela fé (v. 6-8). palavras de Deuteronômio 9:4 são usadas
Muitos comentaristas encontram difi­ por Paulo para introduzir sua citação de
culdade no lato de Paulo usar palavras de Deuteronômio 30:12 a 14. “Dizer no cora­
Moisés que parecem pertencer apenas à ção” é uma expressão idiomática hebraica
lei, para descrever a justificação pela fé. que significa “pensar”, geralmente um mau
Mas a dificuldade reside na suposição de pensamento (ver também Dt 15:9; 18:21;
que a lei e o evangelho são opostos entre SI 14:1; Mt 3:9, 24:48; Ap 18:7; cf. ICo 7:37).
si. O problema é resolvido quando se reco­ Quem subirá ao céu? Moisés pronun­
nhece que a justificação pela fé sempre ciou estas palavras para indicar que a Palavra
foi o método de Deus para salvar a huma­ de Deus não está longe nem fora do alcance,
nidade, e que a promulgação da lei por mas que já foi revelada e deixada clara. Paulo

656
ROMANOS 10:9

aplica as mesmas palavras ao evangelho, a espírito” (ver com. de Ez 36:26). Assim, a


revelação ainda mais clara da Palavra de justificação pela fé lhes foi oferecida, “mas
Deus, dada em Cristo. a palavra da pregação nada lhes aprovei­
Para trazer do alto a Cristo. Como se tou, visto não ter sido acompanhada pela fé
Ele não houvesse chegado ainda. O crente naqueles que a ouviram” (Hb 4:2; cf. G1 3:8).
justificado diz: “Não duvido: O Filho de A palavra estava “perto” deles. Tudo o que
Deus já Se fez homem e habitou entre nós. era exigido deles era crer e confessar. Assim,
A fé é lógica, pois Cristo já veio”. Paulo contrasta a simplicidade da justificação
7. Quem descerá ao abismo? Em vez pela fé à tarefa trabalhosa e sem esperança de
de “Quem passará por nós além do mar?” buscar a justiça da lei (Rm 10:2, 3, 5).
(Dt 30:13), Paulo pergunta: “Quem descerá A palavra da fé. Ou seja, a mensagem
ao abismo?” Assim como não havia necessi­ do evangelho em relação à lé. Esta é a única
dade de os israelitas procurarem no além-mar ocorrência desta expressão no NT. A pala­
para encontrar os mandamentos de Deus, vra que Moisés descreve como “mui perto de
também não havia necessidade de ninguém ti, na tua boca e no teu coração, para a cum­
descer ao abismo para encontrar a Cristo. Ele prires” (Dt 30:14) é a mesma que “a palavra
já ressuscitou. da fé” pregada por Paulo, o evangelho que
Abismo. Do gr. abussos, “abismo” (ver anuncia a lé como meio da justiça.
com. de Mc 5:10). Paulo parece aplicar o Que pregamos. Paulo acrescenta isto
termo ao lugar dos mortos, aonde Cristo tinha para enfatizar que a verdade da justifica­
“descido”. ção pela fé não é desconhecida, mas pode
8. Porém que se diz? Isto é, o que diz ser entendida por todos dispostos a ouvir.
a justificação pela fé? Paulo continua a per­ Os judeus já não podiam se desculpar, ale­
sonificar a justificação (ver com. do v. 6). gando ignorância (v. 14-21).
A palavra está perto de ti. O pro­ 9. A saber (ARC). Se esta tradução
pósito dessa passagem do AT era garantir (equivalente a “que”, KJV) for mantida, Paulo
a Israel que Deus provera condições para estaria se referindo ao conteúdo da mensa­
que a lei pudesse ser cumprida. A aliança gem sobre a fé. Se “porque” for preferido,
eterna feita com Adão no Éden provia per­ Paulo estaria dando uma prova de que a pala­
dão para a transgressão e a graça habilita- vra da fé está próxima. Em ambos os casos,
dora para a obediência por meio da fé no o apóstolo mostra que o conteúdo da mensa­
Messias por vir. As pessoas revelavam fé gem da fé corresponde ao ensino de Moisés
no Redentor apresentando seus sacrifícios de em Deuteronômio.
animais e observando os demais requisitos Confessares. Do gr. homologeõ, palavra
da lei. Mas os israelitas foram reticentes em traduzida como “direi” (Mt 7:23), “professam”
receber essa aliança dada a Adão e renovada (Tt 1:16) e “confissão” (Hb 3:1). Significa, lite­
► a Abraão (ver com. de Ez 16:60). Eles esco­ ralmente, “de acordo com”, “dizer a mesma
lheram, em lugar disso, buscar a justiça por coisa que outra pessoa”. Assim, a confissão
seus próprios esforços em obedecer. Os pro­ de um crente é sua expressão de concordân­
fetas do AT tentaram levar o povo a aceitar cia com tudo o que Deus declarou ser ver­
as disposições do eterno plano de Deus, mas dade. Isso inclui o que Deus revelou sobre
sem sucesso. Por intermédio de jeremias, o Sua lei, nosso pecado e nossa necessidade
Senhor lhes ofereceu uma nova aliança (ver do Salvador. Inclui tudo o que Deus decla­
com. de jr 31:31-34). Ezequiel ressaltou a rou sobre o único meio de salvação: a fé em
necessidade de um “novo coração” e “novo Seu Filho Jesus Cristo.

657
10:10 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Jesus como Senhor. Ou, “que Jesus é o 11. A Escritura diz. Uma citação de
Senhor” (cf. ICo 12:3; Fp 2:11). Os judeus atri­ ísaías 28:16 (ver com. de Rm 9:33).
buíam senhorio apenas a Deus, o Pai. Os gen­ Todo aquele. Esta expressão não está no
tios adoravam o imperador como seu senhor. texto de ísaías. Paulo enfatiza que o evange­
Mas os cristãos reconheciam a Cristo como lho é destinado a todos.
o Senhor dos céus (ICo 15:47), o “Filho uni- 12. Pois. Isto introduz a explicação de
gênito” de Deus (Jo 3:16), que é a “cabeça da Paulo acerca de “todo aquele”, no v. 11.
igreja” (Ef 5:23) e “Senhor de todos” (At 10:36). Distinção. Ou, “diferença” (cf. Rm 3:22).
A confissão do senhorio de Cristo inclui a dis­ Judeus e gentios pecaram e necessitam de
posição de seguir Sua liderança e obedecer salvação (ver com. de Rm 3:23). Deus proveu
a Seus mandamentos (Jo 14:21; ljo 2:3, 4). apenas um meio pelo qual as pessoas po­
Creres. Normalmente, a crença vem dem ser salvas. Ele não tem uma provisão para
antes da confissão, mas Paulo segue a ordem os judeus e outra para os gentios. Assim,
do v. 8, em que a boca é mencionada antes todas as distinções étnicas, sociais, econô­
do coração. No v. 10, ele dá a ordem normal: micas e individuais desaparecem.
fé, depois confissão. Grego. Ou seja, o gentio (ver com. de
Deus O ressuscitou. Ver com. do v. 7. Rm 1:16).
A ressurreição foi a confirmação das reivindi­ O mesmo é o Senhor de todos. Judeus e
cações de Cristo, a aprovação divina de Seu gentios têm o mesmo Senhor (cf. Rm 3:29, 30),
sacrifício (ver com. de Rm 1:4). Crendo que que redimiu toda a humanidade (Jo 3:16).
Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, o Uma comparação entre Romanos 10:9 e 10
cristão reconhece o triunfo de Cristo sobre indica que “Senhor” aqui se refere a Jesus.
o pecado c a morte, bem como Seu poder de Cristo é “Senhor de todos” (At 10:36; cf.
justificar e salvar os pecadores (ver com. Rm 14:9; Fp 2:10, 11).
de Rm 4:25). Em contraste com a justiça pela Rico para com todos. Não há limite
lei (Rm 10:5), a justificação pela fé depende para os recursos do Senhor (cf. Rm 8:32;
do que Cristo fez e pode fazer, e não do que 11:33; Ef 1:7, 2:7; 3:8).
somos capazes dc fazer. Que O invocam. Invocar o Senhor ou
10. O coração. Ver com. de Rm 1:21. Os invocar o nome do Senhor é uma expres­
judeus consideravam o coração como sede são habitual quase equivalente a adorar o
da vida interior, do pensamento c do sen­ Senhor. Pode ter surgido do hábito de iniciar
timento. Para eles, o coração não represen­ um discurso a uma divindade com a menção
tava as afeições em contraste com o intelecto. de seu nome. Os hebreus eram conhecidos
Ao se referir à crença “com o coração”, Paulo como os que invocavam Yahweh. Os cristãos
sugere que a fé envolve completa mudança eram os que invocavam a Cristo (ICo 1:2).
interior, e essa mudança resulta em justifi­ E significativo ver esta expressão de Cristo
cação e justiça (Rm 3:22; 5:1). no NT, pois, sendo que a adoração é devida
Confessa. A evidência externa da mu­ somente a Deus, este é um claro reconheci­
dança interior é a confissão verbal, a deci­ mento da divindade de Cristo (ver At 7:59,
dida defesa do que se acredita ser verdade. 60; 9:14, 21; 22:16; 2Tm 2:22; sobre a divin­
A disposição de confessar a Cristo em pala­ dade de Cristo, ver Nota Adicional a João 1).
vras e ações é o teste do verdadeiro discipu- 13. Todo aquele que invocar. Uma
lado (Mt 10:32; Lc 12:8; cf. Ap 3:5). A firme citação de J1 2:32, passagem também citada
confissão diante do mundo, mantida até o por Pedro no sermão do Pentecostes (At 2:21).
t* fim, resulta em salvação (cf. Ap 2:10). Os judeus entendiam que a passagem de Joel

658
ROM ANOS 10:15

significava que todos os verdadeiros adorado­ Não, pois Isaías também predisse que alguns
res de Yahweh seriam libertos no dia do juízo. não receberíam a mensagem (v. 16, 17).
Paulo aplica a passagem a Cristo. As pala­ E possível que alguns dos judeus não tenham
vras “toda a carne” (J1 2:28) mostram que os ouvido falar (v. 18)? Isso não poderia ser,
gentios estão incluídos na profecia. pois a mensagem do evangelho foi procla­
14. Como, porém, invocarão [...]? mada cm todos os lugares. Mesmo que Israel
Tendo declarado a universalidade da salva­ tenha ouvido o evangelho, é possível que não
ção pela fé, Paulo então discute as condições tivesse compreendido (v. 19)? Isso também
para que todos tenham a mesma oportuni­ não poderia ser, pois, como Moisés e Isaías
dade. Ele menciona essas condições como descreveram, os gentios menos privilegia­
uma série de perguntas. Cada pergunta é dos e menos esclarecidos eram capazes de <

599
um argumento, e a conclusão é assumida entendê-lo (v. 19, 20). Portanto, os judeus
claramente e constitui a base da pergunta não podem alegar a ignorância do evange­
seguinte. Por exemplo: “Como invocarão lho como desculpa para a incredulidade.
Aquele em quem não creram?” Não podem, O fato real é que, como Isaías já havia dito,
por isso, devem primeiro crer. “E como cre­ eles são um povo rebelde e obstinado (v. 21).
rão naquele de quem nada ouviram?” Não De quem. Ouvir o evangelho de um pre­
podem. E assim por diante. gador enviado por Cristo é ouvir o próprio
Alguns conectam os v. 14 e 15 com a pas­ Cristo (2Co 5:20). O Senhor fala por meio
sagem anterior e os relacionam com a prega­ de Seus representantes.
ção do evangelho aos gentios. Se o evangelho 15. Se não forem enviados. Do gr.
é destinado a todos, como está implícito na apostellõ, do qual vem “apóstolos”. Assim
expressão “todo aquele” (v. 13), ele deve ser como o Pai enviou Seu Filho, também o
pregado a todos. Outros preferem conectar Filho enviou Seus apóstolos, e eles, por sua
os v. 14 e 15 aos versículos restantes do capí­ vez, sob a orientação do Espírito de Cristo,
tulo. Argumentam que, neste capítulo, Paulo enviaram outros (cf. Lc 9:2; 10:1, 3; Jo 4:38;
não trata da missão aos gentios, mas da incre­ 17:18; At 26:17; lCo 1:17). A proclamação da
dulidade dos judeus. Os judeus, como Paulo mensagem divina deve ser feita por alguém
já havia explicado, eram “ignorantes” acerca comissionado por Deus (cf. Jr 1:7; 7:25; 14:14,
da maneira de se obter justiça. Para con­ 15; 23:21).
vencê-los de sua grande culpa nessa ques­ Como está escrito. Uma citação de
tão, Paulo procura mostrar que eles tiveram Isaías 52:7, feita de forma livre e breve, omi­
ampla oportunidade de conhecer e entender tindo “sobre os montes”, talvez por ter signifi­
o plano de Deus. Ele começa perguntando cado só local ou poético, mudando o singular
pelas condições para se “invocar o Senhor” “que anuncia” para o plural e omitindo “que
e, em seguida, mostra que essas condições proclamam a salvação”.
foram cumpridas. Portanto, os judeus são Quão formosos são os pés. Ver com.
indesculpáveis por sua incredulidade. de Is 52:7.
O raciocínio dos v. 14 a 21 pode ser resu­ Que anunciam a paz (ARC). Evidên­
mido da seguinte forma: os pregadores do cias textuais favorecem (cf. p. xvi) a omissão
evangelho foram enviados a fim de que todos desta frase.
tivessem a oportunidade de crer (v. 14)? Ao utilizar esta citação, Paulo sugere que
Sim, o evangelho foi pregado, como Isaías os mensageiros comissionados foram envia­
profetizou (v. 15). Será que o fato de nem dos (ver com. de Is 52:7). Judeus e cris­
todos crerem prova que não ouviram (v. 16)? tãos consideravam que essa seção de Isaías

659
10:16 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

apontava para a obra do Messias. As boas- “a mensagem acerca de Cristo”, como “a pala­
novas da libertação do cativeiro babilônico vra da fé” (v. 8), representando “a mensagem
simbolizam a boa notícia da salvação. sobre a fé” (ver com. do v. 8). Este versículo
Que anunciam coisas boas. Do gr. é uma importante declaração da natureza e
euaggelizõ, do qual vem a palavra euagge- da fonte da verdadeira fé. A fé genuína não
lion, “evangelho” (ver com. de Rm 1:1). é cega confiança que precisa ser exercida na
16. Obedeceram. Do gr. hupakouõ, “obe­ ausência de provas. A fé é a convicção das
decer, como resultado de ouvir”, “dar ouvidos”, coisas que não se podem ver (Hb 11:1), con­
“atender” (ver com. de Rm 5:19). A palavra é vicção que deve ser fundamentada no conhe­
apropriada neste contexto, em que Paulo des­ cimento da Palavra de Deus, a mensagem de
creve a incredulidade com que foi recebida a Cristo. Como meio de desenvolver uma fé
mensagem do evangelho. Os judeus ouviram, operante, não há substituto para o estudo e
mas não atenderam. a prática da palavra de Deus.
Evangelho. Ou, “boas-novas”, “boa notí­ 18. Mas pergunto. Os judeus podiam
cia" (ver com. de Rm 1:1). alegar que não tiveram a oportunidade de
Isaías diz: A citação é de Tsaías 53:1. ouvir e, por isso, não aceitaram o evangelho.
O texto hebraico não contém a palavra Paulo passa a refutar essa objeção.
Porventura, não ouviram? Ou, “será-*

009
“Senhor”, mas ela ocorre na LXX. A deso­
bediência dos judeus também foi prevista que não conseguiram ouvir?” A construção
pelo profeta. Imediatamente após sua des­ grega desta pergunta indica que se espera
crição dos mensageiros das boas-novas uma resposta negativa e que a desculpa não
(Is 52), Isaías prediz o fracasso das pessoas pode ser admitida. O pronome subentendido
por receber a mensagem (comparar com a “eles” se refere a “nem todos”, do v. 16, ou
declaração do cumprimento dessa profecia seja, aos judeus.
em jo 12:37, 38). Essa citação também traz Sim, por certo. Esta é a correção de
a implicação (cf. Rm 10:15) de que a mensa­ Paulo à sugestão de que eles não tinham
gem foi dada, do contrário, não poderia ter ouvido a mensagem. Ele afirma, ao contrá­
sido ouvida e crida. rio, que o evangelho foi pregado a todo o
17. Fé. Para ver a ligação entre os v. 16 mundo, e faz sua afirmação com base nas
e 17, deve-se observar que a língua grega não palavras do Salmo 19:4.
tem duas palavras para “crença” e “fé”. O subs­ Voz. Do gr. phthoggos, palavra onomato­
tantivo gr. pistis, “fé” ou “crença”, deriva de paica, pronunciada de forma a imitar o som
pisteuõ, verbo traduzido como “acreditou”, no produzido pela vibração de um instrumento
v. 16 (ver com. de Rm 3:3). musical (cf. lCo 14:7). No AT, a expressão
Pregação. Do gr. akoê, que ocorre duas tem o sentido literal de “linha de medir” (ver
vezes neste versículo, e, Iíteralmente, signi­ com. do SI 19:4). De acordo com o salmista,
fica “ouvir” (ARC). Sendo atribuído o mesmo a “voz” da natureza é a testemunha silenciosa
significado ao termo, ao contrário do que com a qual “os céus proclamam a glória de
faz a ARC, fica evidente a conexão entre os Deus, e o firmamento anuncia as obras das
v. 16 e 17: “quem acreditou na nossa prega­ Suas mãos” (SI 19:1). O salmista compara a
ção? E, assim, a fé vem pela pregação, e a revelação de Deus em Suas obras (SI 19:1-6)
pregação, pela palavra de Cristo”. com a revelação especial de Si mesmo em
Palavra de Deus (ARC). Evidências Sua palavra (SI 19:7-11). Paulo vê nisso uma
textuais apoiam (cf. p. xvi) a variante “a pala­ representação da pregação global do evan­
vra de Cristo” (ARA). Isto pode significar gelho, e usa as palavras do salmista para

660
ROMANOS ] 0:2 ]

descrever como o “som” dos pregadores da “não-nação” porque não estavam em relação
palavra da fé percorrem “toda a Terra”. de aliança com Deus, a exemplo de Israel
Mundo. Do gr. oikoumenê, “o mundo (ver Dt 4:5-8). Eram “gente insensata” por­
habitado” (ver com. de Lc 2:1). Por ocasião que não tinham recebido a mesma revelação
da escrita desta epístola, o evangelho tinha de Deus. Em vez disso, adoravam ídolos de
sido pregado relativamente a todos os luga­ madeira e pedra (ver com. de Rm 1:21). Paulo
res, pois, evidentemente, ainda não tinha queria provocar ciúmes em seus compatrio­
sido levado à Espanha (ver Rm 15:20, 24, tas, afirmando que, como Moisés havia pre­
28). No entanto, a mensagem de fé já havia dito, Deus estava admitindo como Seu povo
se espalhado tão amplamente em todo o nações que os judeus estavam acostumados
mundo que Paulo é justificado ao fazer esta a considerar inferiores (ver Rm 11:14). Assim
declaração geral. Na verdade, dentro de sua fazendo, o apóstolo esperava que, por suas
geração, o evangelho foi levado “a toda cria­ orações, seu povo se arrependesse e acei­
tura debaixo do céu” (Cl 1:23; cf. Ed, 96). tasse a salvação em Cristo (Rm 9:1-3; 10:1).
Além disso, a mensagem sempre foi levada 20. Fui achado. Citação de Isaías
“primeiro aos judeus” (At 9:20; 11:19; 13:5; 65:1. A inesperada fé dos gentios deveria
14:1; 17:1, 2, 10; 18:4, 19; 28:17; Rm 1:16) e, ser uma repreensão aos privilegiados e ilu­
provavelmente, era o propósito primordial de minados, mas ainda incrédulos judeus (cf.
Paulo, neste capítulo, mostrar que nenhum Rm 9:30-33).
israelita podia se desculpar sob a alegação de 21. Quanto a Israel. Isto é, no que diz
que nunca tinha ouvido do evangelho. respeito a Israel.
19. Não terá chegado isso ao conhe­ Diz. Ou seja, Isaías diz. O profeta fala
cimento de Israel? Ou, “será que Israel em nome de Deus. Paulo cita Isaías 65:2,
não sabia?” Como no v. 18, a construção segundo a LXX, mais do que como o^S
grega sugere uma resposta negativa. Apesar hebraico.
da revelação de Deus por meio de Moisés e Todo o dia. Isaías expressa, portanto,
dos profetas, Israel permaneceu ignorante a paciência e a longanimidade de Deus
acerca do caminho da justiça de Deus. para com Seu povo, apesar de persistir na
Primeiramente (ARC). Isto é, pela pri­ desobediência e de recusar Seus apelos.
meira vez na linha profética. A atitude de Deus, mesmo com rebeldes, é
Moisés já dizia. Citação de Deutero- plena de ternura e compaixão. Ele estende
nômio 32:21. Moisés, que transmitiu a Israel o braço da misericórdia aos rebeldes e con-
as vantagens da aliança em relação aos gen­ tradizentes. Finalmente, mesmo os que
tios, também tinha criado a norma de fé pela rejeitaram a Cristo reconhecerão que Deus
qual essa posição favorecida podería se rever­ sempre foi gracioso e longânimo (Ap 15:4;
ter no futuro (ver Dt 32:18, 20). GC, 670, 671).
Eu vos porei. Ao mostrar misericórdia Contradizente. Literalmente, “falantes
para com os gentios, Deus esperava provo­ contra”, “contraditórios”. Ao recusar e resistir
car ciúmes em Seu próprio povo e inspirá-lo ao evangelho, os judeus estavam revelando
a ter zelo por Ele (comparar com Os 2:23; uma característica que há muito havia sido
Rm 9:25). apontada e condenada pelos profetas. Antes
Com um povo que não é nação. de seu martírio, Estêvão fez a mesma acusa­
Ver Dt 32:21. Os gentios são chamados de ção (At 7:51-53; ver também Lc 13:34).

661
11:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1 - AA, 374 6-9 - DTN, 184 14-OE, 19; TM, 399;


2- T1, 165; T2, 110, 147, 10- LA, 401; CPPE, 242; T6, 21; T9, 52
232; T3, 109; T4, 489; T5, 536 14, 15-T7, 224
T5, 343 11, 12-MS, 251 17 - PJ, 100
3- MDC, 55; PR, 709, 11- 13-DTN, 403 20 - PR, 367
PP, 372 12- DTN, 249 20, 21 - AA, 375, DTN, 458

Capítulo 11
1 Deus não rejeita Israel. 7 Alguns foram eleitos e outros, endurecidos.
16 Há esperança de conversão para todos. 18 Os gentios não podem
se gloriar. 26 Há promessa de salvação para eles.
33 Os planos de Deus são insondáveis.

] Pergunto, pois: terá Deus, porventura, rejei­ 10 escureçam-se-lhes os olhos, para que não
tado o Seu povo? De modo nenhum! Porque eu vejam, e fiquem para sempre encurvadas as suas
também sou israelita da descendência de Abraão, costas.
da tribo de Benjamim. 11 Pergunto, pois: porventura, tropeçaram
2 Deus não rejeitou o Seu povo, a quem de an­ para que caíssem? De modo nenhum! Mas, pela
temão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura sua transgressão, veio a salvação aos gentios, para
refere a respeito de Elias, como insta perante pô-los em ciúmes.
Deus contra Israel, dizendo: 12 Ora, se a transgressão deles redundou
3 Senhor, mataram os Teus profetas, arrasa­ em riqueza para o mundo, e o seu abatimento, em
ram os Teus altares, e só eu fiquei, e procuram riqueza para os gentios, quanto mais a sua
tirar-me a vida. plenitude!
4 Que lhe disse, porém, a resposta divina? 13 Dirijo-me a vós outros, que sois gentios!
Reservei para Mim sete mil homens, que não Visto, pois, que eu sou apóstolo dos gentios, glo­
dobraram os joelhos diante de Baal. rifico o meu ministério,
5 Assim, pois, também agora, no tempo de 14 para ver se, de algum modo, posso incitar
hoje, sobrevive um remanescente segundo a elei­ à emulação os do meu povo e salvar alguns deles.
ção da graça. 15 Porque, se o fato de terem sido eles rejei­
6 E, se é pela graça, já não é pelas obras; do tados trouxe reconciliação ao mundo, que será
contrário, a graça já não é graça. o seu restabelecimento, senão vida dentre os
7 Que diremos, pois? O que Israel busca, isso mortos?
não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os 16 E, se forem santas as primícias da massa,
mais foram endurecidos, igualmente o será a sua totalidade; se for santa a
602

8 como está escrito: Deus lhes deu espírito raiz, também os ramos o serão. <
de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos 17 Se, porém, alguns dos ramos foram que­
para não ouvir, até ao dia de hoje. brados, e tu, sendo oliveira brava, foste enxerta-
9 E diz Davi: Torne-se-lhes a mesa em laço do em meio deles e te tornaste participante da
c armadilha, em tropeço c punição; raiz e da seiva da oliveira,

662
ROM ANOS 11:1

18 não te glories contra os ramos; porém, se 27 Esta é a Minha aliança com eles, quando
te gloriares, sabe que não és tu que sustentas a Eu tirar os seus pecados.
raiz, mas a raiz, a ti. 28 Quanto ao evangelho, são eles inimigos
19 Dirás, pois: Alguns ramos foram quebra­ por vossa causa; quanto, porém, à eleição, ama­
dos, para que eu fosse enxertado. dos por causa dos patriarcas;
20 Bem! Pela sua incredulidade, foram que­ 29 porque os dons e a vocação de Deus são
brados; tu, porém, mediante a fé, estás firme. irrevogáveis.
Não te ensoberbeças, mas teme. 30 Porque assim como vós também, outro-
21 Porque, se Deus não poupou os ramos na­ ra, fostes desobedientes a Deus, mas, agora,
turais, também não te poupará. alcançastes misericórdia, à vista da desobediên­
22 Considerai, pois, a bondade e a severidade cia deles,
de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, 31 assim também estes, agora, foram deso­
para contigo, a bondade de Deus, se nela perma­ bedientes, para que, igualmente, eles alcancem
neceres; doutra sorte, também tu serás cortado. misericórdia, à vista da que vos foi concedida.
23 Eles também, se não permanecerem na in­ 32 Porque Deus a todos encerrou na deso­
credulidade, serão enxertaclos; pois Deus é pode­ bediência, a fim de usar de misericórdia para
roso para os enxertar de novo. com todos.
24 Pois, se foste cortado da que, por natureza, 33 Ó profundidade da riqueza, tanto da sa­
era oliveira brava e, contra a natureza, enxertado em bedoria como do conhecimento de Deus! Quão
boa oliveira, quanto mais não serão enxertados na insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutá-
sua própria oliveira aqueles que são ramos naturais! veis, os seus caminhos!
25 Porque não quero, irmãos, que ignoreis 34 Quem, pois, conheceu a mente do Senhor?
este mistério (para que não sejais presumidos em Ou quem foi o Seu conselheiro?
vós mesmos): que veio endurecimento em parte a 35 Ou quem primeiro deu a Ele para que lhe
Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. venha a ser restituído?
26 E, assim, todo o Israel será salvo, como está 36 Porque dEle, e por meio dEle, e para Ele
escrito: Virá de Sião o Libertador e Ele apartará são todas as coisas. A Ele, pois, a glória eterna­
de jacó as impiedades. mente. Amém!

1. Pergunto, pois. Estas palavras mar­ Rejeitado. Do gr. apõtheõ, literalmente,


cam o início de uma nova etapa na argumen­ “repelir”, “afastar de si” (cf. At 7:27). A forma
tação de Paulo a respeito da condição dos da pergunta em grego sugere resposta nega­
judeus. “Pois” ou “portanto”, do gr. oun, pode tiva: “Deus não repudiou Seu povo, não é
se referir à descrição de Isaías da desobediên­ mesmo?” Essa pergunta surge naturalmente,
cia de Israel (Rm 10:21) ou a toda a discussão após o que foi dito sobre a falta de fé e a
anterior da rejeição de Israel. Até aqui, nos desobediência de Israel. No entanto, Paulo
cap. 9 e 10, Paulo explicou que Deus, como levanta a questão a fim de respondê-la de
criador soberano, é livre para rejeitar Israel da forma enfática.
posição de povo escolhido. Além disso, uma Seu povo. Paulo podia ter em mente
vez que os judeus recusaram o caminho da a passagem do AT: “Pois o Senhor não há
justiça de Deus, eles devem ser rejeitados. de rejeitar o Seu povo, nem desamparar
A rejeição, no entanto, é da posição de nação a Sua herança” (SI 94:14; cf. ISm 12:22)
escolhida (ver vol. 4, p. 17-22), não da opor­ para, com isso, antecipar a negação pres­
tunidade de salvação. tes a ser feita.

663
11:2 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

De modo nenhum! Ver com. de Rm 3:4. passagem citada. Este último caso pode ser
Porque eu também. Paulo mos­ demonstrado a partir da literatura rabínica
tra que nem todos os judeus foram rejeita­ (ver Strack e Billerbeck, Kommentar zum
dos. Ele mesmo era israelita e foi aceito por Neuen Testament, vol. 3, p. 288).
Deus. Ele sabia por experiência que as bên­ Insta. Do gr. entugchcmõ, “reunir-se
çãos prometidas lhe pertenciam. Muitos com”, “conversar com”, portanto, “defender”,
► outros judeus cristãos podiam testemunhar “apelar” (ver com. de Rm 8:26). O apelo pode
a mesma experiência de Paulo. ser em favor de alguém (Rm 8:27, 34) ou con­
Descendência de Abraão. Ver com. tra alguém, como neste caso.
de Mt 3:9. 3. Senhor, mataram. Citação de
Tribo de Benjamim. Por esta referên­ 1 Reis 19:10 e 14. As palavras foram ditas
cia, Paulo afirma que era do próprio núcleo da por Elias quando fugia de Jezabel para a
nação judaica. As tribos de Judá e Benjamin caverna no monte Horebe (ver com. de
estiveram unidas por ocasião da revolta das IRs 19). A essa altura, o profeta acreditava
dez tribos do Norte ( I R s 12:21) e mantiveram que toda a nação de Israel havia se apos-
a continuidade teocrática da nação judaica tatado e que só ele permanecera fiel. Mas
depois do exílio em Babilônia (Ed 4:1; 10: 9). Deus respondeu que, embora fosse verdade
Assim, um descendente da tribo de Benjamin que a nação como um todo O tivesse aban­
era, de fato, “hebreu de hebreus” (Fp 3:5; donado, ainda havia um remanescente de
cf. 2Co 11:22). adoradores fiéis.
2. Não rejeitou. Paulo nega a questão 4. Resposta divina. Do gr. chrêmatismos,
que levantou no v. 1. “a resposta divina”, a única ocorrência desta
Seu povo. Mesmo que Israel, como palavra no NT. Ela vem do verbo chrêmatizõ,
nação, houvesse rejeitado profeta após pro­ usado no NT para descrever uma comuni­
feta e, finalmente, selado sua rejeição do cação ou um aviso divino (ver Mt 2:12, 22;
evangelho ao crucificar a Cristo, Deus não Lc 2:26; At 10:22; Hb 8:5; 11:7).
os rejeitou como indivíduos (ver AA, 375). Reservei para Mim. Ou, “deixei para
E verdade que Deus havia abandonado a Mim”; citação de 1 Reis 19:18.
Israel “como nação” (PE, 213; GC, 615). Diante de Baal. Do gr. tê Baal, lite­
“Devido à incredulidade e à rejeição do pro­ ralmente, “da Baal”. Às vezes, também na
pósito do Céu para eles, Israel como nação LXX (ver Os 2:8; Sf 1:4), o nome grego de
perdera sua ligação com Deus” (AA, 377). “Baal” é precedido pelo artigo definido
No entanto, isso não significa que Deus feminino {tê), embora Baal seja masculino.
houvesse retirado toda possibilidade de sal­ Uma explicação é que, apesar de Baal ser
vação em relação aos judeus que cressem um ídolo masculino, frequentemente, ima­
em Cristo. A mensagem de Romanos II é gens pagãs de deuses eram designadas pelo
de esperança para os judeus. Deus ainda os feminino, daí a tradução “imagem da Baal”.
chama, bem como aos gentios (ver vol. 4, Outra possível explicação é que os judeus,
p. 17-21; ver com. de Rm 9:6). que tinham aversão a pronunciar o nome de
Conheceu. Ver com. de Rm 8:29. Baal, desenvolveram o costume de ler, em
De Elias. Litcralmcntc, “cm Elias”, que seu lugar, a palavra feminina “vergonha”,
significa, provavelmente, “na passagem da heb. hosheth, gr. aischunê (ver IRs 18:19, 25,
Escritura que contém a história de Elias”. na LXX). Essa substituição pode ter estado na
A frase pode ainda ser traduzida como “por mente de Paulo quando escolheu usar o
Elias”, isto é, Elias foi quem pronunciou a artigo feminino.

664
ROMANOS 11:7

5. Assim, pois, também. No tempo de a não ser o remanescente de Israel, foram


Elias, a apostasia de Israel não era tão univer­ incapazes de entender isso.
sal quanto parecia. Da mesma forma, tam­ Já não é pelas obras. Evidências tex­
bém a rejeição de Cristo pelos judeus não tuais favorecem (cf. p. xvi) a omissão do res­
era tão completa como alguns podiam supor. tante deste versículo, cujo significado já está
Havia, então, um remanescente fiel. Deus incluído na primeira metade do mesmo.
ainda estava lidando com Seu povo sob os Já não é graça. Literalmente, “já não
mesmos princípios. se torna graça”. Ou seja, a graça deixa de ser
Remanescente. Do gr. leimma, do o que era.
verbo leipõ, “deixar”. Leimma não ocorre em 7. Que diremos, pois? Que conclusão
nenhum outro lugar do NT. “Remanescente” deve ser extraída das verdades aqui declara­
é traduzido de kataleimma (Rm 9:27) e de das? Uma vez que Deus não rejeitou o povo
loipos (Ap 11:13; 12:17; 19:21). No entanto, de Israel, qual é exatamente sua posição?
o significado das duas palavras não é subs­ Paulo passa então a mostrar que a declaração
tancialmente diferente. de Romanos 9:31 deve ser entendida no sen­
604

► Eleição da graça. Deus escolhe, para tido de que, embora, como nação, Israel não
constituir o remanescente, aqueles que acei­ tenha atingido o objetivo, a falha não é com­
tam a graça. Eles não obtêm esse direito por pleta. Uma parte de Israel, os eleitos, atingiu.
causa de obras, mas porque aceitaram livre­ Busca. O tempo presente indica que
mente a graça (v. 6). A razão pela qual havia a busca ainda está em andamento. Como
apenas um remanescente de fiéis deixados nação, Israel estava e ainda está em busca
em Israel é que a massa dos judeus confiava em da justiça, a mesma que não conseguiu
suas próprias obras, em vez de confiar na obter. O objeto da busca de Israel, procura­
graça de Deus. Portanto, Deus retirou o do da maneira errada, já foi explicado em
Espírito de graça e entregou os impeni- Romanos 9:31 e 32; 10:2 e 3. O princípio
tentes à dureza de seus corações (v. 7-10). básico apresentado nesses textos foi repetido
O remanescente fiel, nos dias de Paulo, era em Romanos 11:6.
constituído por aqueles que aceitaram Jesus Conseguiu. Do gr. epitugchanõ, “atingir
como Messias e que se tornaram membros a marca”, portanto, “alcançar”, “obter”.
da igreja cristã (ver AA, 376, 377). A eleição. Ou, os eleitos. Pode ser com­
6. Se é pela graça. Ou seja, se a elei­ parado com a expressão “a circuncisão”, ou
ção do remanescente é pela graça. Neste seja, os que foram circuncidados (Rm 3:30;
versículo, contra qualquer mal-entendido, 4:9). Paulo enfatiza que os salvos devem sua
Paulo procura deixar clara a doutrina da condição inteiramente à graça e à eleição
justificação pela graça de Deus mediante a divinas.
fé. Se a salvação é pela graça, já não é mais Foram endurecidos. Do gr. pornô,
na base do que os seres humanos fazem. “endurecer”, “tornar-se empedernido”, “tor-
Caso contrário, a graça já não seria graça. nar-se insensível” (cf. 2Co 3:14). A citação
Se os remanescentes merecessem ser elei­ do AT em Romanos 11:8 fala de Deus como
tos, já não haveria graça no trato de Deus o único responsável por este endurecimento.
com eles. A ideia da graça imerecida, dada Na linguagem bíblica, às vezes, se diz que
livremente, é contrária à dos salários aufe­ Deus faz aquilo que não impede (ver com.
ridos ou da recompensa merecida. Se o dom de 2Cr 18:18).
de Deus pudesse ser ganho como salário, a Portanto, fica claro que os crentes judeus,
graça perderia o sentido. No entanto, todos, assim como os crentes gentios, são salvos

665
11:8 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

somente pela graça (Rm 11:6; cf. Ef 2:8). história de Israel para provar o mesmo ponto
Quanto aos demais de Israel, eles foram (At 7:2-53).
endurecidos não porque Deus os rejeitou 9. Diz Davi. Citação do Salmo 69:22
(Rm 11:1, 2), mas porque queriam a justiça e 23, diferente do hebraico e da LXX. No
das próprias obras em vez de se submeteram contexto original, o salmista invoca a ira de
à justiça de Deus (Rm 10:3). Deus sobre seus inimigos, a quem ele consi­
8. Como está escrito. Uma combinação dera que também são inimigos de Deus (ver
de frases de Deuteronômio 29:4; Isaías 6:9, com. de salmos “de maldição”, vol. 3, p. 703).
10; e 29:10. A situação de torpor espiritual Várias passagens do Salmo 69 são emprega­
de Israel não era nova na história da nação. das por escritores do NT como referência
Espírito. Aqui, a condição mental; profética ao Messias, o sofredor sem pecado
pode ser comparada a “espírito angustiado” (ver com. de SI 69). Estas palavras citadas por
(Is 61:3), “espírito de mansidão” (ICo 4:21) e Paulo são aplicadas aos que rejeitam a Cristo.
“espírito de escravidão” (Rm 8:15). Mesa. Do gr. trapeza, que pode designar
Entorpecimento. Do gr. katanuxis, também o que está sobre a mesa. Os Targuns
derivado de um verbo que significa, literal­ interpretam esta mesa como algo espalhado
mente, “ferroar violentamente” (ver At 2:37), diante do Senhor, como nas festas de sacri­
portanto, “atordoar”, como por um golpe ou fício. As bênçãos que os judeus aprecia­
uma emoção avassaladora (ver Gn 34:7; vam se tornaram uma maldição para eles.
Dn 10:15, na LXX). No entanto, a palavra Da mesma forma, as Escrituras, as leis e
hebraica, em Isaías 29:10, significa “um as instituições religiosas, nas quais eles
sono profundo”, como o que caiu sobre Adão confiavam para a vida e salvação dadas por
(Gn 2:21), Abraão (Gn 15:12) e os servos de Deus (Jo 5:39, 40; Rm 2:17; AA, 99, 100;
605

► Saul (ISm 26:12). DTN, 212), se tornaram uma armadilha e


A afirmação de que é Deus quem dá um empecilho. Os dons de Deus para eles,
esse espírito de entorpecimento deve ser por terem sido mal interpretados e mal uti­
entendida no mesmo sentido do endure­ lizados, tornaram-se a causa de sua queda e
cimento que Deus traria ao coração das da persistência na incredulidade. Os mais
pessoas (ver com. de Rm 9:18; cf. 11:7). preciosos dons do Céu, quando usados de
Desde a queda de Adão, a condição natu­ forma inadequada, trazem problemas para
ral da humanidade tem sido de insensibi­ quem os recebe.
lidade espiritual (ICo 2:14). Por Sua graça, 10. Escureçam-se-lhes os olhos.
Deus procura mudar essa condição e des­ O escurecimento dos olhos é usado como
pertar a percepção espiritual e, ao mesmo figura da cegueira espiritual (ver com. de
tempo, apresenta as verdades da salvação. Is 6:9, 10). Assim, embora possuíssem claras
Mas, quando as pessoas resistem persis­ revelações da vontade de Deus, os judeus per­
tentemente à graça, Deus, que não força maneceram ignorantes acerca do significado
ninguém, retira Sua graça e deixa o ser e propósito das mesmas, ao passo que alguns
humano com as consequências naturais gentios foram capazes de compreendê-las.
de sua resistência obstinada. Encurvadas. Do gr. sugkamptõ, literal­
Para não ver. A recusa em aceitar a mente, “dobradas juntas”, como dos cativos,
graça divina resulta da falta de lucidez para cujas costas eram encurvadas sob fardos.
discernir as coisas espirituais (ICo 2:14). O salmo diz: “Faze que sempre lhes vacile
Até ao dia de hoje. Isto lembra o o dorso” (SI 69:23). A expressão de Paulo
relato detalhado feito por Estevão sobre a concorda com a LXX. A imagem sugerida

666
ROMANOS 11:12

é de temor e desânimo. Este versículo des­ A visão de outros recebendo esses privi­
creve bem a condição dos judeus incrédulos. légios deveria despertá-los de sua apatia e
Eles deram atenção às formas exteriores dos inspirá-los a compartilharas bênçãos então
rituais e cerimônias e perderam o discerni­ desfrutadas pelos gentios.
mento espiritual e a capacidade de apreciar 12. A sua queda (ARC). Ver com. do
as verdades morais e espirituais essenciais v. 11.
(ver Mt 23:23-25; Mc 7:2 -9). Nas tentativas Riqueza para o mundo. Os judeus
contínuas de estabelecer a justiça própria, a foram chamados para ser missionários de
carga de exigências legais era sempre aumen­ Deus ao mundo (ver vol. 4, p. 13-16), mas
tada (ver Mt 23:4). falharam na tarefa. O mundo fora deixado
Ao utilizar essas citações do AT, Paulo na ignorância. A rejeição da nação de Israel
mostra que a descrição que fazia sobre a como embaixadora escolhida para o mundo
condição de seus irmãos judeus era apoiada e o chamado da igreja cristã para a evange-
pelas Escrituras em que eles criam. Além lizaçâo dos gentios (Mt 28:18-20) resulta­
disso, a condição pecaminosa deles não era ram num poderoso movimento missionário.
nova nem diferente da que havia no tempo O mundo gentio ouviu falar das “inson-
de Moisés e dos profetas. dáveis riquezas” (Ef 3:8), e muitos aceita­
11. Tropeçaram A construção ram a Cristo.
grega da pergunta implica resposta nega­ Abatimento. Do gr. hêttêvia, “perda”,
tiva (v. 1), como se dissesse: “Eles não tro­ “derrota”, “fracasso”. A outra ocorrência
peçaram a ponto de cair, não é?” Os judeus desta palavra no NT é em 1 Coríntios 6:7,
realmente “tropeçaram na pedra de tropeço” em que é traduzida por “derrota”. Também
(Rm 9:32, 33). Muitos ficaram ofendidos com ocorre uma vez na LXX, em Isaías 31:8, em
Cristo. Mas o tropeço deles resultou no anún­ que significa claramente “derrota”. Este pode
cio do evangelho aos gentios. Isso, por sua vez, ser o significado aqui. A incredulidade dos
deveria ser como um incentivo aos judeus. judeus não foi apenas um passo em falso e
Para que caíssem. Ou, “de modo a uma transgressão, mas também uma derrota.
cair”. A construção grega pode ser interpre­ Porque, por essa derrota, eles foram rejei­
tada como expressão tanto de objetivo como tados como nação, pois não consegui­
de resultado. O último é o mais apropriado ram obter o que procuravam. No entanto,
neste contexto. alguns comentaristas preferem compreender
Caíssem. Do gr. paraptõma, literal­ hettema como referência ao declínio de
mente, “escorregão [ou queda] para fora”, Israel. Argumentam que essa interpretação
!► “um passo em falso”. Em Romanos 5:15 a preserva uma antítese mais exata de “pleni­
20 , paraptõma é traduzida como “ofensa”. tude” no final do versículo.
De modo nenhum. Ver com. de Rm 3:4. Riqueza para os gentios. Deve ser
Aos gentios. A rejeição do evangelho entendida como variante literária de “riqueza
pelos judeus e a crescente oposição por parte do mundo”.
deles promoveram grandemente a pregação Plenitude. Do gr. plêrõma. Esta palavra
do evangelho aos gentios bem como sua acei­ pode ser entendida no sentido passivo, “o que
tação (ver At 8:4; 11:19-21). Esse foi o caso foi preenchido”, “a totalidade”, ou no sentido
na experiência de Paulo em Antioquia da ativo: “o que enche”, “preenchimento” (cf.
Pisídia (At 13:45-49). Jo 1:16; Rm 13:10; ICo 10:26; Ef 1:23; 3:19;
Pô-los. Ou seja, os judeus. Os privilégios Cl 1:19). Os comentaristas discordam quanto
os haviam tornado negligentes e apáticos. ao significado exato deste versículo. Mas o

667
11:13 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

argumento principal de Paulo parece ser de (Rm 10:19; 11:11). A mesma tradução nos três
que, se a perda e derrota dos judeus foram casos não obscureceria a conexão com a pro­
provocadas por Deus para produzir riqueza fecia original de Deuteronômio 32:16 e 2]
aos gentios, quanto mais se a reparação dessa (citada em Rm 10:19).
perda significar riquezas para todos! Meu povo. Ou, meus parentes (cf.
13. Porque (ARC). As evidências tex­ Rm 9:3). O objetivo de Paulo é despertar
tuais se dividem (cf. p. xvi) entre “pois”, “e” e nos judeus o desejo de compartilhar as bên­
“mas”. Paulo chega a um ponto em que sua çãos oferecidas primeiramente a eles, mas
argumentação sobre a condição dos judeus que, então, estavam sendo desfrutadas em
afeta a posição dos gentios (v. 11, 12). Portanto, grande medida pelos gentios.
faz uma pausa para explicar, entre parênte­ Salvar alguns. Comparar com lCo
ses, que tanto seu amor por seus irmãos como 9:22.
seu zelo para levar avante sua incumbência 15. O fato de terem sido eles rejeita­
aos gentios operavam com o mesmo fim. Seu dos. Do gr. apobolê. A palavra ocorre no NT
desejo de salvar seus irmãos judeus o tornava só aqui e em Atos 27:22, em que é traduzida
ainda mais zeloso em trabalhar pela salvação como “perderá”. Paulo havia negado que Deus
dos gentios, pois isso faria bem aos judeus e tivesse rejeitado Seu povo (Rm 11:1, 2); mas,
traria mais bem ainda aos gentios. aqui, ele afirma isso. No entanto, as duas afir­
Vós outros, que sois gentios. Paulo se mações são apropriadas. A nação de Israel,
referiu aos judeus na terceira pessoa, “eles” como povo escolhido para uma missão no
(v. 11, etc.), mas se dirige aos gentios na mundo, de fato, foi rejeitada, mas um rema­
segunda pessoa, “vós” (v. 13-31). Este versí­ nescente fiel tinha aceitado o Messias, e os
culo fornece uma evidência adicional de que esforços missionários deste produziam gran­
a igreja de Roma cra composta em grande des resultados (ver vol. 4, p. 21, 22).
parte por gentios (ver com. de Rm 1:13). Neste versículo, o argumento do v. 12 é
Visto, pois, que. Evidências textuais repetido de outra forma. Apesar de ter que
apoiam (cf. p. xvi) o acréscimo da palavra “pois” abandonar a maior parte de Seu antigo povo
entre “visto que”. A inclusão desta expres­ por causa da falta de fé, Deus anulou isso
são separa esta frase da anterior, “dirijo-me para reconciliar consigo aqueles que não
a vós outros, que sois gentios”, e se conecta à O haviam “procurado” (cf. Rm 10:20).
segunda frase com: “glorifico o meu ministé­ Reconciliação ao mundo. Paulo con­
rio”. Algumas versões colocam um ponto após siderava seu ministério como uma obra de
“gentios” (ARA, NVI, TB). reconciliação (2Co 5:18, 19; cf. Cl 1:20).
Ministério. Do gr. diakonia, “trabalho” Após a rejeição da nação de Israel (ver com.
(NTLH). Paulo glorificava seu ministério de Rm 11:2, 12), o evangelho de Cristo se
aos gentios, empenhando-se para levar o espalhou a todas as nações do mundo, e os
evangelho a eles. Ele expressa a esperança crentes em todos os lugares eram reconcilia­
de que o sucesso de seu ministério entre os dos com Deus.
gentios produza influência favorável sobre Restabelecimento. Do gr. proslêpsis,
os judeus (ver com. de Rm 11:11). Ele glo­ “aceitação”, “recepção”. A palavra não ocorre
rificava seu ministério a fim de trazer ciú­ em nenhum outro texto no NT, mas seu sig­
mes a seus irmãos judeus e, assim, salvar nificado é claro pelo uso do verbo do qual
alguns deles (v. 14). ela é derivada (ver Rm 14:3; 15:7). Paulo
14. Incitar à emulação. Do gr. parazêloõ, fala da chegada à igreja dos judeus que acei­
palavra traduzida como “pôr em ciúmes” tam Cristo.

668
ROMANOS 11:17

Vida dentre os mortos. Alguns comen­ Raiz. Paulo usa uma segunda metáfora
taristas têm entendido esta declaração de para expressar a mesma ideia. Se a raiz é
forma literal, indicando que, assim como o santa, a árvore inteira também é santa.
propósito de Deus foi cumprido no “restabe­ 17. Alguns dos ramos. Jeremias repre­
lecimento” de Israel, esse mesmo propósito senta Israel como uma oliveira (ver Jr 11:16;
para a salvação do mundo também será con­ cf. Os 14:6), bem como outras passagens do
cluído, e o reino de Cristo será anunciado na AT (SI 80:8; Is 5:7). Jesus Sc comparou a uma
ressurreição. videira, e os discípulos, aos ramos (Jo 15:1-6). 4

608
No entanto, este Comentário assume que Forem quebrados. Literalmente, “foram
a linguagem de Paulo aqui é figurativa (cf. quebrados”. A referência é aos judeus incré­
Lc 15:24, 32). A expressão “vida dentre os dulos, que, por rejeitarem Cristo, selaram
mortos” não é usada em outras passagens não só o próprio destino, mas também o da
do NT para a “ressurreição”. Paulo estava nação. O reino de Deus foi tirado deles e
se referindo a mudanças rápidas que varre­ “dado a uma nação que dê os seus frutos”
ríam o mundo, como resultado da pregação (ver com. de Mt 21:43).
do evangelho. Muitos judeus espiritualmente Oliveira brava. Isto pode ser entendido
mortos aceitariam Jesus Cristo e se uniríam como “um broto de oliveira selvagem”, ou de
na proclamação do evangelho (ver AA, 381). “zambujeiro” (ARC). A figura representa a
A expressão “o seu restabelecimento” não condição dos gentios, que antes não conhe­
deve ser vista como uma previsão de que ciam as bênçãos da aliança da salvação.
o status anteriormente atribuído a Israel Foste enxertado. Paulo não fala de
estivesse para ser restaurado e que a nação uma possibilidade futura, mas de algo que
judaica voltaria a ser o povo escolhido de já estava ocorrendo na experiência de muitos
Deus. A perda da condição de povo eleito, gentios. O enxerto do ramo de uma árvore
por causa da morte de Cristo, foi definitiva. selvagem no tronco de uma árvore cultivada
Jesus deixou isso bem claro na parábola dos é um processo que, normalmente, nunca é
lavradores maus (ver com. de Mt 21:33-43). realizado. O procedimento comum é o
O “reino de Deus” foi tirado deles e “entregue enxerto de um ramo de fruto agradável em
a um povo que lhe produza os respectivos um “porta-enxerto” de fruto amargo, como,
frutos” (Mt 21:43). No entanto, como indiví­ por exemplo, a laranjeira num tronco de
duos, eles podem ser salvos pela união com limão. Paulo declara, no v. 24, que o enxerto
a igreja cristã (ver com. de Rm 11:23, 24). dos gentios no porta-enxerto de Israel é
16. E. Do gr. de? “pois”, “agora”. “contrário à natureza”. O chamado e a con­
Primícias. Paulo se refere à cerimônia versão dos gentios eram contrários à expec­
descrita em Números 15:19 a 21, de dedicar tativa judaica.
uma porção da massa de farinha a Deus. Em meio deles. Esta é a tradução mais
A oferta das primícias santificava toda a simples, ou seja, “entre os ramos bons”. No
massa. As primícias representavam a pri­ entanto, também se usa a frase “em lugar
meira parte da colheita do evangelho entre deles” (ARC), ou seja, “no lugar dos ramos
os judeus (ver AA, 377). cortados”.
Massa. Do gr. phurama, literalmente, Tornaste participante. Ver Ef 3:6.
“aquilo que está misturado”. Os cristãos gentios se tornaram participan­
Igualmente o será. Ou seja, toda a tes do plano eterno divino de salvação.
massa: aqueles que, posteriormente, se tor­ Da raiz e da seiva. Evidências textuais
naram membros da igreja cristã. apoiam (cf. p. xvi) a omissão da palavra “raiz”,

669
11:18 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

o que não altera o significado. Outras evi­ Não te ensoberbeças. Ou, “pare de
dências apoiam a variante “seiva que vem da pensar em coisas elevadas”, no sentido
raiz” (NVI). de ficar convencido. O cristão gentio não pos­
18. Não te glories. Seria totalmente ina­ suía mais méritos do que o judeu. Portanto,
ceitável que cristãos gentios, beneficiados pe­ não tinha motivos para ser vaidoso. Além
la salvação por meio dc Israel e chamados para disso, a fé não permanece na pessoa cuja
serem arautos dessas bênçãos, viessem a se “alma se incha” (Hc 2:4, ARC).
vangloriar sobre os judeus que caíram. Mas teme. O excesso de confiança e
19. Dirás. Paulo já havia afirmado que a falsa sensação de segurança levariam aos
a rejeição dos judeus resultou no enrique­ mesmos resultados que os judeus haviam
cimento dos gentios (ver com. dos v. 11-15). experimentado (ver Hb. 4:1).
Mas seria arrogância imaginar, como nesta 21. Não poupou. Este versículo explica
suposição, que Deus tivesse rejeitado Seu a razão pela qual os gentios convertidos
povo com a finalidade única de levar bên­ deviam temer. Apesar de seu privilégio
çãos aos gentios, como se fossem de mais como crentes, Deus não poupara os ramos
naturais quando pecaram. Mais razão havia «

609
valor que os judeus. O egoísmo é implícito
no texto grego pelo pronome pessoal enfático para que os enxertos selvagens temessem
ego, “eu”, na frase “que eu fosse enxertado”, que Deus não os poupasse, se cometessem
Alguns ramos. Evidências textuais o mesmo pecado.
apoiam (cf. p. xvi) a omissão do artigo “os” Teme (ARC). Evidências textuais (ver
(ARC). Nem todos os ramos foram quebrados. p. xvi) apoiam a omissão deste verbo.
20. Bem! Do gr. kalõs, “isso é verdade”, 22. Bondade. Do gr. chrêstotês, “bene­
“concedido” (cf. Mc 12:32). Paulo admite que volência”, “gentileza” (ver com. de Rm 3:12).
alguns ramos foram quebrados e que outros Severidade. Do gr. apotomia, literal­
foram enxertados. mente, “que corta”, portanto, “de rigor infle­
Incredulidade. Do gr. apistia, “falta de xível”. Esta palavra não ocorre em outras
fé”. A palavra pistis é traduzida por “fé”, na passagens do NT. E derivada do verbo
frase seguinte. Há uma estreita relação entre apotemnõ, “cortar”. O advérbio relacionado,
as duas palavras no grego. apotomõs, é traduzido como “rigor” (2Co 13:10)
Mediante a fé, estás firme. Paulo e “severamente” (Tt 1:13). O relacionamento
continua a corrigir a falsa segurança de Deus com os gentios mostra que Ele
expressa no versículo anterior, lembrando é bondoso e longânimo (cf. Rm 2:4) e usa de
os cristãos gentios de como eles haviam se bondade para com os que nEle confiam, inde­
tornado membros do Israel espiritual. Os pendentemente de seus méritos ou posição.
judeus tinham sido rejeitados devido à pró­ Por outro lado, o relacionamento de Deus
pria incredulidade. Os gentios foram acei­ para com os judeus revela a severidade com
tos devido à fé. Quando a verdadeira causa que Ele trata os que confiam em si mesmos.
da rejeição de Israel é reconhecida, não há Com os que caíram. Ou seja, os judeus
por que o cristão gentio se vangloriar. Ao desobedientes.
contrário, é um aviso para que se apegue à Para contigo. Os gentios.
fé como a única condição para permanecer Se nela permaneceres. A maneira
como ramo enxertado. Portanto, o crente de permanecer na bondade e na graça de
gentio não devia se “ensoberbecer”, mas cui­ Deus (At 13:43) é “permanecer firmes na
dar para não cair como outros caíram (ver fé” (Cl 1:23), não se afastando da confiança
com. de Rm 3:3; 10:17). na misericórdia alcançada. Este versículo

670
ROMANOS 11:25

ensina que há a possibilidade de se cair da cristãos. Assim, o apóstolo descreve toda a


graça. Os crentes podem desprezar e rejei­ revelação cristã como um mistério (Rm 16:25;
tar a bondade de Deus e, assim, ser cortados. ICo 2:7-10; Ef 1:9; 6:19; Cl 1:26; 2:2; lTm 3:9).
23. Eles também. Deus não só tem a Ele aplica o termo à encarnação de Cristo
vontade, mas também o poder de restaurar (lTm 3:16), à união de Cristo com a igreja, tipi­
os que foram cortados da oliveira. O fato de ficada pelo casamento (Ef 5:32), à transforma­
Deus ter esse poder de restaurar é ilustrado ção dos santos na segunda vinda (ICo 15:51),
na conversão dos gentios (ver v. 24). à oposição do anticristo (2Ts 2:7) e, especial­
24. Quanto mais. A conversão de gen­ mente, à admissão dos gentios ao reino de
tios pagãos e ignorantes à aliança da salvação Deus (Rm 16:25, 26; Ef 3:1-6; Cl 1:26, 27).
mostra que Deus é bem capaz de restaurar O mistério que Paulo menciona é o pro­
os judeus rejeitados. pósito de Deus de salvar judeus e gentios
25. Ignoreis. Comparar com Rm 1:13; para o reino dos céus. O endurecimento de
ICo 10:1; 12:1; 2Co 1:8; lTs 4:13. Israel seria usado, além da compreensão
Mistério. Do gr. mystêrion, no sentido humana (Rm 11:33), para a concretização
grego clássico de “coisa oculta”, “segredo”, pala­ desse plano divino.
vra relacionada com mystês, “iniciado”. A forma Presumidos em vós mesmos. Literal­
verbal myeo significa “iniciar” e está relacio­ mente, “sábios em vós mesmos”, ou “sábios
nada a myõ, “fechar [os olhos ou a boca]”. por vós mesmos”. Paulo procura evitar que os
Entre os pagãos, mystêrion, geralmente gentios se tornassem vaidosos por supor que a
no plural, mystêria, era usado para segredos aceitação deles daquilo que os judeus haviam
ou doutrinas secretas, que deviam ser conhe­ rejeitado constituía, de alguma forma, um
cidos apenas por iniciados. Era o termo téc­ mérito próprio. Não havia motivo para os
nico para cerimônias e ritos secretos, bem crentes gentios desprezarem os judeus incré­
como para os implementos místicos e orna­ dulos. Esta frase indica que os “irmãos”, aos
mentos usados nos mesmos (sobre o uso do quais Paulo se refere, são os cristãos gentios.
termo “mistério" na literatura Qumran, ver Ele fala desses cristãos desde o v. 13.
vol. 5, p. 79). Endurecimento. Do gr. põrõsis (cf.
No NT, mystêrion se refere a algo que Rm 11:7; Mc 3:5; Ef 4:18). Aqui indica “embo-
Deus deseja revelar aos que estejam dis­ tamento mental”, “insensibilidade espiritual”.
postos a receber a revelação, e não a algo Em parte. O endurecimento não veio a
que Ele queira manter em segredo. Ao todo o Israel, mas apenas “em parte”. O “rema­
longo dos escritos de Paulo, a palavra tem nescente segundo a eleição da graça” não foi
o sentido de coisas que, embora não pos­ afetado (v. 5). “Alguns dos ramos” não foram
sam ser compreendidas pela mente humana, de todo quebrados (v. 17).
são dadas a conhecer pela revelação divina Até que. Até o fim dos tempos, a dureza
(Rm 16:25, 26). Em Apocalipse 1:20; 17:5 e 7, “parcial” seria o estado espiritual dos judeus.
a palavra se refere a um símbolo que requer As duas frases-chave nos v. 25 e 26 são “a ple­
interpretação. nitude dos gentios” e “todo o Israel” (v. 26).
Paulo considerava que sua missão era Se, como alguns entendem, Paulo inclui nes­
tornar conhecida “a revelação do mistério tas frases, literalmente, a população total dos
guardado em silêncio nos tempos eternos” gentios e “todos” da raça judaica segundo a
(Rm 16:25; cf. ICo 2:7; Ef 3:3, 4). O pro­ carne, então ele ensinaria a salvação univer­
pósito eterno de Deus de redimir a huma­ sal. Apesar da dificuldade deste texto, é certo
nidade em Cristo havia sido revelado aos que ele não ensina a salvação universal, pois

671
11:26 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

há várias declarações inequívocas em opo­ na segunda.A salvação dos primeiros é des­


sição a essa doutrina (cf. Rm 1:18, 32; 2:1- crita na expressão “todo o Israel será salvo”; e
11; 2Ts 1:7-10). a destes últimos por “até haja entrado a ple­
Deus não impõe a salvação a ninguém. nitude dos gentios”.
Se as pessoas escolhem endurecer o coração Outros comentaristas afirmam que “todo
contra o evangelho, Ele não interfere nessa o Israel” representa o Israel espiritual. Essa
escolha. O endurecimento do coração, por­ visão se fundamenta na ideia de que Paulo
tanto, é de resultado de escolha deliberada. está completando sua ilustração da oliveira.
Por isso, a responsabilidade não é colocada Ele mostrou como os ramos, que represen­
sobre Deus (ver com. de Rm 9:18). Só é possí­ tam os judeus incrédulos, foram quebrados, e
vel Deus salvar uma nação na medida em que como os brotos de oliveira selvagem, represen­
as pessoas aceitem a Cristo por si mesmas. tando os gentios, foram enxertados. Explicou
Haja entrado. Ou seja, ao reino de também como os ramos cortados poderiam
Cristo, à comunidade do povo de Deus, que se unir novamente ao porta-enxerto. Pelo
é representada pela oliveira boa e na qual enxerto desses ramos, a árvore represen­
alguns dos gentios já estavam enxertados. tando o Israel espiritual, voltaria a ser com­
Plenitude. Ver com. do v. 12, em que pleta. “Todo o Israel”, portanto, representa a
Paulo menciona a “plenitude” dos judeus. totalidade dos salvos, judeus e gentios, que,
“A plenitude dos gentios” pode ser entendida juntos, constituem “todo” o verdadeiro Israel
como referência aos gentios que aceitam as (Rm 2:28, 29; Cl 6:15, 16).
disposições da salvação. Como está escrito. Uma citação de
26. E assim. Do gr. kai houtõs, “e, desta Isaías 59:20 e 21; 27:9, mais semelhante à
forma”. O advérbio expressa maneira, não LXX do que ao hebraico. Em vez da expres­
conclusão ou tempo. são da LXX “pelo amor de Sião”, a citação
Todo o Israel. Paulo não ensina a salva­ de Paulo diz “a partir de Sião”. A modifica­
ção universal para gentios nem para judeus ção pode ter sido sugerida por diversas pas­
(ver com. do v. 25). Além disso, por que só a sagens (SI 14:7; 50:2; 53:6; Is 2:3; Mq 4:2).
geração de judeus que viver no tempo do fim Sião. Isto é, Jerusalém (ver com. de
teria a oportunidade da salvação por algum SI 48:2).
decreto divino? Paulo expressa a esperança de Libertador. O texto hebraico de Isaías
que “alguns deles” (v. 14) fossem salvos. Fica 59:20 dizgoel, “redentor” (ver com. de Jó 19:25;
evidente que ele cria que muitos rejeitavam cf. Dt 25:5-10; Rt 3:12, 13; 4:7-10).
os esforços por salvá-los, e que, portanto, ele Jacó. Ou seja, Israel (ver Nm 23:21;
nunca imaginou a conversão de toda a nação. SI 78:5; Mq 3:8).
Alguns comentaristas afirmam que o Impiedades. Do gr. asebeia, “impiedade
remanescente fiel (ver com. do v. 5), ao qual em pensamento e em ação”, “incredulidade”.
são acrescentados os judeus que aceitam a A predição de Isaías expressava a esperança
Cristo durante a era cristã, constitui “todo de que um avivamento alcançasse as fileiras
Israel” que será salvo. Essa visão se funda­ do apóstata Israel, e que a nação finalmente
menta na observação de que a preocupa­ cumprisse seu destino divino. Paulo mos­
ção de Paulo em Romanos 11 é a salvação tra como a profecia se cumprirá, não com
dos israelitas. Ele contrasta a salvação deles a nação judaica, mas com os judeus indivi­
com a dos gentios. Os dois grupos são distin- duais que aceitarem Jesus como Messias e
guidos ao longo do capítulo pela referência forem enxertados no porta-enxerto do ver­
aos judeus na terceira pessoa e aos gentios, dadeiro Israel (v. 23).

672
ROMANOS 11:32

27. Minha aliança. Literalmente, “a perdão e salvação àqueles a quem chamou e


Minha aliança”. A base da nova aliança de escolheu e sobre quem derramou tantas bên­
Deus com Israel era o perdão dos pecados çãos (Rm 9:4, 5).
(ver Jr 31:31-34). Quando o Redentor condu­ 30. Outrora. Ou seja, antes da pregação
zir o remanescente (Rm 9:27), desviado da do evangelho entre os gentios. Deus havia
semente de Abraão, a se converter da trans­ escolhido os judeus para serem Seus embai­
gressão, a aliança quebrada será renovada, e xadores ao mundo, mas eles falharam. Por
Deus não mais se lembrará de seus pecados isso, no tempo da igreja cristã, foi estendido
(comparar com Hb 8:6-13). o convite para a salvação dos gentios.
28. Inimigos. Talvez uma referência à Desobedientes. Do gr. apeitheõ. A antiga
hostilidade dos judeus para com o evangelho, desobediência deles deveria reprimir todos
ou ao fato de que, tendo rejeitado Cristo, tor- os sentimentos negativos que os gentios
naram-se realmente inimigos de Deus. Este pudessem ter a respeito da desobediência
último sentido é refletido na tradução “ini­ dos judeus (v. 18-20).
migos de Deus” (NTLH). Desobediência. Do gr. apeitheia. A de-
Por vossa causa. O resultado da exclusão sobed iência dos judeus resultou em o evan­
dos judeus foi o chamado aos gentios, como gelho ser levado aos gentios (At 13:46).
Paulo já havia explicado (v. 11, 12, 15, 19). 31. Assim também estes. Paulo, falando
Quanto [...] à eleição. Literalmente, então sobre os judeus que, por causa da deso­
“de acordo com a eleição”, aqui, provavel­ bediência, se puseram em pé de igualdade
mente se referindo ao princípio da eleição, com os gentios.
ou seja, ao fato de Deus ter escolhido Israel A misericórdia. Os judeus perderam
para ser Seu povo, e que salvará o remanes­ todos os privilégios da aliança e só podem
cente fiel entre eles. ser recebidos de volta da mesma forma pela
Amados. Comparar com Rm 9:25. Mesmo qual os gentios o são. Alguns comentaris­
rejeitados, os judeus são amados por Deus. tas consideram que esta referência adicio­
Por causa dos patriarcas. Comparar nal tinha o propósito de provocar um ciúme
com At 3:25; Rm 9:4, 5. piedoso em Israel por ver os gentios desfru­
29. Dons. Do gr. charismata, “dons da tando “a misericórdia e as bênçãos de Deus”
graça” (ver com. de Rm 5:15; 6:23). (v. 11). Assim, Deus usou a desobediência
Vocação. Sobre a natureza do chamado dos judeus como uma ocasião para levar
de Deus, ver com. de Rm 8:30. misericórdia aos gentios (At 13:46). Então,
Irrevogáveis. Do gr. ametamelêta, “sem por sua vez, Ele usa a revelação de Sua mise­
arrependimento”. A única outra ocorrência ricórdia aos gentios para levar misericórdia
desta palavra no NT é em 2 Coríntios 7:10. novamente aos judeus.
Deus não mudou de ideia em relação a Israel 32. Encerrou. Do gr. sugkleiõ, literal­
(ver com. de Mt 21:33-46), mas um remanes­ mente, “aprisionar juntos”, como uma rede
cente dele será salvo. Deus não Se arrepende que prende uma infinidade de peixes (Lc 5:6).
de ter chamado a descendência de Abraão e Sugkleiõ também é traduzido como “encer­
lhe ter dado dons (ver Nm 23:19; ISm 15:29; rar” (G1 3:22, 23). O significado da frase
SI 89:34-36; Ez 24:14; Tt 1:2; Hb 6:18; Tg “Deus encerrou a todos em desobediência” é
1:17). As pessoas podem falhar, e Deus pode esclarecido pela tradução da LXX do Salmo
mudar de método, mas nunca abandona Seu 78:62: “Entregou o Seu povo à espada”, lite­
propósito. Paulo expressa essa verdade como ralmente, “Ele os encerrou para a espada”.
uma razão para crer que Deus ainda oferece Paulo já havia descrito como Deus entregou

673
11:33 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

os seres humanos aos seus pecados (ver com. e termina com misericórdia a todos. “A ira de
de Rm 1:24; cf. com. de Rm 1:18). Deus [... revelada] do Céu contra toda impie­
Neste versículo, Paulo declara que todas dade e perversão” (Rm 1:18) dá lugar à mise­
as relações de Deus com a humanidade, ricórdia que alcança todos os povos da Terra.
embora, por vezes, difíceis de se entender, Essa grande verdade, afirmada em Romanos
estão em conformidade com Seu grande 11:32, leva a irromper em reconhecimento
esforço para salvar. Mesmo a atitude do ser pela infinita sabedoria e bondade de Deus.
humano contra Deus é transformada por Ele Riquezas. Comparar com Rm 2:4; 9:23;
em ocasião para cumprir Seu plano. Não que 10:12; Ef 1:7, 18; 2:7; 3:16; Fp 4:19. Por meio
o pecado da incredulidade e da desobediên­ desses recursos insondáveis de Sua glória
cia seja desejado por Deus. Mas, quando o e graça, Deus é capaz de extrair o bem até
pecado está presente, Deus é sábio para orga­ mesmo do mal.
nizar Seu governo de forma a anular o mal Tanto da sabedoria. A primeira parte
com o bem. deste versículo pode ser traduzida como:
Assim, ao permitir que o ser humano se “O profundidade da riqueza e da sabedo­
envolva com as consequências da própria ria e do conhecimento de Deus!” A sabedoria
rebeldia, Deus procura ensinar-lhe o hor­ de longo alcance de Deus é demonstrada
ror do pecado e revelar a absoluta fraqueza em Sua intervenção nos eventos a fim de
de quem se separa do poder divino. Deus cumprir Seus propósitos de salvação (ver
permite aos que tentam estabelecer a pró­ lCo 1:21-24; Ef 3:9-11).
pria justiça mediante as obras colherem os Juízos. Ou, “decisões”, como aquelas
resultados inevitáveis dessa atitude. Assim, pelas quais Israel foi rejeitado, e os gentios,
Ele procura deixar claro a todos que a sal­ admitidos. Para a razão humana alienada,
vação só pode ser obtida pela fé e pela sub­ esses juízos são tão insondáveis quanto o
missão ao amor, à misericórdia e ao poder grande abismo (SI 36:6).
transformador revelados em Cristo. Inescrutáveis. Do gr. anexichniastoi,
A todos. Iodas as pessoas, incluindo literalmente, “que não podem ser rastrea-
judeus e gentios. dos”. A outra ocorrência da palavra no NT é
Desobediência. Do gr. apeitheia, como em Efésios 3:8. O livro de Jó é um comen­
no v. 31. tário sobre o mistério inescrutável dos cami­
Misericórdia para com todos. Nem nhos de Deus (cf. Jó 5:9; 9:10). Uma parte
todos aceitam se submeter à misericórdia da sabedoria de Deus pode ser conhecida
de Deus. As pessoas são livres para acei­ (Rm 1:20), mas não toda ela (cf. Ec 8:17).
tar e rejeitar. Mas Deus está pronto e dis­ Mesmo Paulo, com seu grande intelecto e
posto a ter misericórdia de todos (2Pe 3:9). aguçada percepção das coisas de Deus,
Todos os Seus atos sábios e pacientes com é constrangido a reconhecer que as deci­
os seres humanos caídos têm cooperado para sões e os caminhos de Deus estão além da
o cumprimento desta finalidade: a revelação limitada compreensão humana. Deus nos
do amor divino na salvação dos pecadores. revela Sua sabedoria e Seus propósitos até
33. Profundidade. Ou seja, a plenitude à medida que é para nosso bem. Além disso,
incomensurável e inesgotável. O salmista devemos contar com as amplas evidências de
declara que “os Teus juízos [são] como um Seu amor, misericórdia e poder.
abismo profundo” (SI 36:6). Paulo alcança o 34. Quem, pois, conheceu [...]? Uma
clímax de seu raciocínio. Tudo começou com citação de Isaías 40:13, conforme a tradu­
a condenação de todos os pecadores (Rm 1, 2) ção da LXX (cf. ICo 2:16). O hebraico diz:

674
ROMANOS 11:36

'‘Quem guiou o Espírito do Senhor, ou, sendo 36. Porque dEle. Este versículo dá a
Seu conselheiro, Lhe ensinou?” Paulo justi- razão pela qual não se pode fazer de Deus
fica as exclamações feitas em Romanos 11:33, um devedor. Pois todas as coisas foram cria­
citando textos do AT que falam do conheci­ das por Ele (ver At 17:24, 25; ICo 8:6). Tudo
mento, da sabedoria e da riqueza de Deus. que vive deve a contínua existência e ativi­
Este versículo fala do conhecimento e da dade Àquele que “opera tudo em todos” (ICo
sabedoria de Deus; o v. 35, de Suas riquezas. 12:6; cf. At 17:28; Hb 2:10). E todas as coi­
35. Quem primeiro deu a Ele [...]? sas são dirigidas para a elaboração de Seus
Citação de Jó 41:11. Nenhum dom divino propósitos e a glória de Seu nome.
pode ser considerado como pagamento de um A Ele, pois, seja a glória. Comparar
favor ou de uma oferta feita a Deus. Todas com Rm 16:27; G1 1:5; Fp 4:20; 2Tm 4:18;
as bênçãos se originam de Sua graça. Mais Hb 13:21. Com essa breve, mas sublime
uma vez, Paulo aponta o erro dos judeus, doxologia, Paulo chega ao fim de mais uma
de que se pode conquistar o favor de Deus seção doutrinária e argumentativa de sua
mediante as obras. epístola.

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1-5; 11-15-AA, 375 33 - CPPE, 426; DTN, 48; 266, 301, 699; T6, 238;
16 - T7, 249 Ed, 172; FEC, 179; GC, T8, 261, 285, 287
16- 22-AA, 377; T6, 239 527; CBV, 424, 438; 34-36 - CBV, 433; T8, 282
17- 21 - PJ, 306 MCH, 22, 26, 182, 290;
23-36-AA, 378 CC, 106; TM, 376; T5,

Capítulo 12
1 A misericórdia motiva a agradar a Deas. 3 Ninguém deve se exaltar
mas, 6 servir na função para a qual foi chamado. 9 O que
Deus exige de nós. 19 A vingança é proibida.

1 Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias 4 Porque assim como num só corpo temos
de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sa­ muitos membros, mas nem todos os membros
crifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o têm a mesma íunção,
vosso culto racional. 5 assim também nós, conquanto muitos,
2 E não vos conformeis com este século, mas somos um só corpo em Cristo c membros uns
transformai-vos pela renovação da vossa mente, dos outros,
para que experimenteis qual seja a boa, agradá­ 6 tendo, porém, diferentes dons segundo a
vel e perfeita vontade de Deus. graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo
3 Porque, pela graça que me foi dada, digo a a proporção da fé;
cacla um dentre vós que não pense de si mesmo 7 se ministério, dediquemo-nos ao ministério;
além do que convém; antes, pense com mode­ ou o que ensina esmere-se no fazê-lo;
ração, segundo a medida da fé que Deus repar­ 8 ou o que exorta faça-o com dedicação; o
tiu a cada um. que contribui, com liberalidade; o que preside,

675
12:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

com diligência; quem exerce misericórdia, com 16 Tende o mesmo sentimento uns para com

614
alegria. os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condes- 4
9 O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, cendci com o que é humilde; não sejais sábios aos
apegando-vos ao bem. vossos próprios olhos.
10 Amai-vos cordialmente uns aos outros com 17 Não torneis a ninguém mal por mal; esfor­
amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos çai-vos por fazer o bem perante todos os homens;
outros. 18 se possível, quanto depender de vós, tende
11 No zelo, não sejais remissos; sede fervoro­ paz com todos os homens;
sos de espírito, servindo ao Senhor; 19 não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas
12 regozijai-vos na esperança, sede pacientes dai lugar à ira; porque está escrito: A Mim Me per­
na tribulação, na oração, perseverantes; tence a vingança; Eu é que retribuirei, diz o Senhor.
13 compartilhai as necessidades dos santos; 20 Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome,
praticai a hospitalidade; dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber;
14 abençoai os que vos perseguem, abençoai porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas
e não amaldiçoeis. sobre a sua cabeça.
15 Alegrai-vos com os que se alegram e cho­ 21 Não te deixes vencer do mal, mas vence
rai com os que choram. o mal com o bem.

1. Rogo-vos. Paulo então se volta para a e cumprir “a boa, agradável e perfeita von­
aplicação prática da justificação pela fé, que tade de Deus” (Rm 12:2).
explicou nos cap. 1 a 11. Ele mostra que jus­ Misericórdias. Do gr. oiktirmoi, pala­
tificação pela fé significa não só perdão dos vra que exprime a mais terna compaixão
pecados, mas também novidade de vida. Inclui (ver 2Co 1:3). E uma palavra mais forte do
justificação e santificação; reconciliação bem que eleos, traduzida como “misericórdia” em
como transformação. O propósito de Deus é Romanos 11:31. Paulo apresenta essas ter­
restaurar completamente os pecadores, tor­ nas misericórdias como o motivo da obediên­
nando-os aptos a viver em Sua presença. cia. Deus mostrou grande misericórdia ao
Pois. Isto pode se referir à misericórdia dar Seu Filho para morrer pelos pecadores
de Deus (Rm 11:32-36) ou, de forma mais e para perdoar a rebelião, a fim de que se
geral, a toda a argumentação precedente da dedicassem a Ele.
epístola, da qual Romanos 11:32 a 36 é o clí­ Apresenteis. Do gr. paristêmi, literal -
max. Uma vez que o crente foi justificado mente, “vos coloqueis [ou, “permaneçais”]
pela fé em Cristo e restaurado como filho ao lado de”, portanto, “apresentai” (comparar
de Deus e membro da família celestial, deve com o uso da palavra em Lc 2:22; Ef 5:27;
levar uma vida de pureza e santidade, como Cl 1:28).
convém a sua nova condição. Assim, Paulo Vosso corpo. Paulo primeiramente apela
deixa claro que a justificação pela fé e a salva­ aos cristãos para que consagrem o corpo a
ção pela graça não permitem a ilegalidade ou Deus. Então, ele os exorta a dedicar a Ele
o descumprimento dos mandamentos de suas faculdades intelectuais e espirituais
Deus. Ao contrário, aquele que é justificado e (v. 2). A verdadeira santificação é a dedica­
santificado torna-se cada vez mais disposto ção de todo o ser: corpo, mente e espírito
a obedecer, pois “a justiça da lei” está sendo (lTs 5:23), ou seja, o desenvolvimento har­
cumprida nele (Rm 8:4, ARC). Em amor monioso das faculdades físicas, mentais e
e gratidão, procura conhecer, compreender espirituais, para que a imagem de Deus, na

676
ROMANOS 12:1

qual, originalmente, o ser humano foi criado, contrário, a dedicação de si mesmo a Deus
seja restaurada (Cl 3:10). não pode ser aceitável.
Em grande medida, a condição da mente Esse requisito não é arbitrário. O propó­
e da vida espiritual depende da condição do sito de Deus para os crentes é a completa
corpo. Portanto, é essencial que as forças restauração. Isso inclui, necessariamente,
físicas sejam mantidas com a boa saúde e a purificação e o fortalecimento da integri­
o melhor vigor possível. Qualquer prática dade física, bem como dos poderes mentais
nociva ou condescendência egoísta que e espirituais. Portanto, o cristão que, pela fé,
diminua a força física torna mais difícil se submete à maneira divina de salvar, de
que o desenvolvimento mental e espiri­ bom grado obedece a essa ordem de manter
tual ocorra. O inimigo do bem sabe disso e, a saúde do corpo. O contrário impede a obra
dessa forma, dirige suas tentações para divina de restauração.
enfraquecer e degradar a natureza física. Agradável. Literalmente, “bem agradá­
Os resultados dessa obra maligna estavam vel” (cf. Fp 4:18; Cl 3:20; Tt 2:9). O Deus que
evidentes a Paulo, que tentava libertar os amou o mundo de tal maneira que deu Seu
pagãos de suas práticas degradantes (ver Filho para salvar deleita-Se quando os peca­
Rm 1:24, 26, 27; 6:19; Cl 3:5, 7) e estabele­ dores se convertem dos hábitos autodestru-
cer os novos conversos numa vida de pureza tivos e se dedicam a Ele. Isso torna possível
(ver lCo 5:1, 9; 6:18; 11:21; 2Co 12:21). Por a Ele cumprir Seu propósito de restaurá-los
isso, ele apelou para que apresentassem seus e levá-los de volta à perfeição em que foram
“membros” a Deus como “instrumentos de originalmente criados.
justiça” (Rm 6:13; cf. lCo 6:15, 19; 7:34). Culto. Do gr. latreia. Este termo se refere
O cristão deve colocar as tendências da natu­ a um culto religioso. Em Hebreus 9:1 é tra­
reza física sob o domínio das faculdades supe­ duzido como “serviço sagrado” (cf. Rm 9:4).
riores de seu ser, e estas, por sua vez, devem Paulo fala de um culto que diz respeito a
ser submetidas ao controle de Deus. “O régio mente, razão e entendimento, em contraste
poder da razão, santificada pela graça divina, com o que é exterior e formal. A vida cristã
deve controlar a vida” (PR, 489). Só então, em pureza e santidade é um ato de adora­
► o crente poderá sentir-se apto a oferecer a ção espiritual. O sacrifício já não consiste
Deus o “culto racional”. de animais, mas da própria pessoa, num ato de
Sacrifício vivo. Os sacrifícios do sistema culto que diz respeito à sua razão. Nessa
cerimonial do AT eram de animais mortos. perspectiva, Pedro descreve os crentes como
O sacrifício cristão é o ser vivo. O adorador “um sacerdócio santo, para oferecer sacrifí­
cristão se apresenta vivo com todas as suas cios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus
energias e faculdades dedicadas a Deus. Cristo” (lPe 2:5, ARC; cf. T3, 162).
Santo. Os judeus eram proibidos de Este versículo eleva o significado dos
oferecer em sacrifício um animal que fosse princípios do viver saudável. O crente rea­
coxo, cego ou vítima de qualquer defor­ liza um ato de adoração espiritual, ofere­
midade (Lv 1:3, 10; 3:1; 22:20; Dt 15:21; cendo a Deus um corpo santo e saudável,
17:1; Ml 1:8). Toda oferta era examinada e, juntamente com mente limpa e coração con­
se descoberta qualquer mancha, o animal sagrado, porque, assim fazendo, submete à
era rejeitado. Da mesma forma, os cristãos vontade de Deus tudo o que há nele e abre
devem apresentar o corpo na melhor condi­ o caminho para a plena restauração da ima­
ção possível. Todas as faculdades e virtudes gem divina em si. E um ato de culto preser­
devem ser preservadas puras e santas; caso var as faculdades físicas na melhor condição.

677
12:2 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

O motivo é que o cristão glorifica a Deus ressuscitar (Rm 6:4, 11, 13) e ser nova cria­
em seu corpo (ICo 6:20; cf. ICo 10:31), ser­ tura (2Co 5:17; G1 6:15).
vindo como exemplo vivo da graça salvífica Renovação da vossa mente. Antes da
de Deus e participando com mais força e conversão, o poder de raciocínio e a faculda­
vigor na obra de difundir o evangelho. Foi de de discernir entre o certo e o errado
assim que a corte de Babilônia viu em Daniel estão sob o domínio dos impulsos corporais.
e seus companheiros “a ilustração da bon­ A mente é descrita como “carnal” (Cl 2:18).
dade e beneficência de Deus e do amor de Mas, na conversão, a mente é posta sob a
Cristo” (PR, 489). A vida pura e o excelen­ influência do Espírito de Deus. O resultado é
te desenvolvimento físico, mental e espiri­ que “temos a mente de Cristo” (ICo 2:13-16).
tual desses jovens foram uma demonstração “As palavras: ‘Também vos darei um novo
do que Deus faz por aqueles que se entre­ coração’ significam: Vou lhes dar uma nova
gam a Ele e procuram cumprir Seu propósito mente” (Ellen G. White, Review and Herald,
(ver com. de Dn. 1:12, 18). 18/12/1913). A morte da velha vida na carne e
Racional. Do gr. logikos, “racional”, o início da nova vida no Espírito (Rm 6:3-13)
“espiritual”, “lógico”. A outra ocorrência são descritos como “o lavar regenerador
desta palavra no NT é em 1 Pedro 2:2, em e renovador do Espírito Santo” (Tt 3:5). Essa
que “espiritual” é a tradução preferível (ver renovação, que começa quando o crente é
com. ali). convertido e nasce de novo, é uma transfor­
2. Conformeis. Do gr. suschêmatizõ, mação progressiva e contínua, pois o “homem
“assumir a forma de outro padrão”. A pala­ interior se renova de dia em dia” (2Co 4:16)
vra é traduzida com o significado de “amol­ para o “pleno conhecimento” (Cl 3:10). E, ao
dar-se”, em 1 Pedro 1:14. ser o interior transformado pelo poder do
Século. Do gr. aiõn, literalmente, Espírito Santo, a vida exterior é progressi­
“época” (ver com. de Mt 13:39; 24:3). Assim, vamente alterada. A santificação da mente
“os filhos deste mundo” (Lc 16:8; 20:34) pode se revela por um modo de vida mais santo,
ser traduzido como “os filhos deste século”. assim como o caráter de Cristo é reproduzido
O cristão não deve seguir os costumes de sua cada vez mais no crente (ver PJ, 69).
época, como era seu hábito anterior, quando Experimenteis. Do gr. dokimazõ. Esta
vivia segundo a carne (Rm 8:12). Ao contrá­ palavra significa testar e aprovar. Inclui o
rio, deve passar por completa transformação duplo processo de decidir qual é a vontade
mediante a renovação da mente. de Deus e, em seguida, aprovar e agir em
Transformai-vos. Do gr. metamorphoõ, conformidade com ela (cf. Rm 2:18; Ef 5:10;
► de onde vem a palavra “metamorfose”. A pala­ Fp 1:10). Pela renovação da mente, o crente
616

vra é usada para descrever a transfiguração é habilitado a saber o que Deus deseja que
de Cristo (Mt 17:2; Mc 9:2). Também des­ ele faça. E iluminado para rejeitar as formas
creve a transformação do crente à imagem de de conduta desta época má. Se já não tem
Cristo (2Co 3:18). Paulo afirma que o cristão mente carnal, mas a mente de Cristo, ele
não deve reproduzir os costumes externos e está disposto a fazer a vontade de Deus e,
passageiros deste mundo, mas ser transfor­ assim, é capaz de reconhecer e compreender
mado em sua natureza interior. A santifica­ a verdade (Jo 7:17). Só a mente renovada pelo
ção inclui tanto a separação dos costumes Espírito Santo pode interpretar corretamente
mundanos como a transformação interior. a Palavra de Deus. As Escrituras inspiradas
Em outras partes do NT, essa mudança só podem ser compreendidas pela ilumina­
é descrita como nascer de novo (Jo 3:3), ção do mesmo Espírito por meio de quem

678
ROMANOS 12:5

foram originalmente dadas (ver jo 16:13, 14; si mesmo. A humildade é o efeito imediato
iCo 2:10, 11; OE, 297). da entrega a Deus e à consequente renova­
Qual seja a boa. A segunda parte deste ção da mente. O cristão consagrado reco­
versículo pode ser traduzida como: “para que nhece sua dependência da graça de Deus
experimenteis e aproveis qual é a vontade por todo dom espiritual que possa desfrutar,
de Deus, que é boa, agradável e perfeita”. e isso não deixa espaço para autoestima des­
De acordo com a tradução ARA, são descri­ virtuada. O cristão vê a si mesmo com dis­
tas as características da vontade de Deus; já cernimento iluminado e julgamento sóbrio.
a NTLH ressalta o conteúdo dessa vontade. A medida da fé. Este é o verdadeiro
A diferença de significado é pequena. padrão pelo qual se deve medir. A pessoa
3. Porque [...] digo. Paulo passa então com mente carnal não regenerada avalia-
a demonstrar os resultados práticos da mente se pelos padrões do mundo, por riqueza,
renovada e iluminada. Primeiramente, ele posição ou erudição. Está sempre se esfor­
fala da humildade e sobriedade de espírito çando para dar a impressão de ser maior do
que convêm ao crente consagrado e do uso que realmente é. Mas, quando a fé assume
apropriado dos dons espirituais para a cons­ o comando, e a mente se renova, a pessoa
trução unificada da igreja. tem poder para discernir as reais limitações
Pela graça. Paulo fala em virtude de sua de suas habilidades. A fé apresenta um novo
autoridade para declarar a vontade de Deus, padrão de medida, de acordo com o qual se
conferida a ele como apóstolo (cf. Rm 1:5; pode determinar com precisão a natureza
15:15, 16; ICo 3:10; 15:10; G1 2:9; Ef 3:2, 7, 8). e a extensão das habilidades e, assim, não
A cada um. Com estas palavras enfáti­ pensar demasiadamente sobre si mesmo.
cas, Paulo inclui cada membro individual da Percebe-se que, quanto maior a fé, maior será
igreja de Roma, não importando seu ofício a influência e o poder espiritual. Mas isso
ou sua influência. Talvez o apóstolo temesse não pode ser um motivo para orgulho, pois
que os cristãos de Roma caíssem na mesma quanto maior a medida da fé, mais elevada
presunção espiritual dos crentes de Corinto, será a percepção da dependência de Deus.
de onde estava escrevendo (ver ICo 1-5; 4. Num só corpo. A razão pela qual os
2Co 10:13). cristãos devem ter humildade e bom-senso é
Não pense. No grego, há aqui um jogo que a igreja, assim como o corpo humano,
de palavras que não pode ser reproduzido em é composta de muitos membros, com dife­
português. A tradução literal seria: “Para não rentes funções a executar. Essas funções
se ensoberbecer além do que deveria pensar, são necessárias e importantes, mas nem
mas pensar de modo a estar sóbrio.” Esta todas parecem igualmente gloriosas. Na
é uma advertência contra superestimar-se igreja, o bem-estar e o progresso de todos
a si mesmo. Cada cristão precisa se fami­ dependem do espírito de amor, coopera­
liarizar com os pontos fracos, bem como ção e estima recíproco entre os membros,
com os traços positivos de seu caráter, a fim cada um exercendo suas funções designa­
► de estar protegido contra o envolvimento das. Essa ilustração do corpo e seus mem­
em empreendimentos e responsabilidades bros é desenvolvida de forma mais completa
para os quais Deus nunca o capacitou (ver em 1 Coríntios 12:12 a 27.
OE, 319). Função. Do gr. praxis, “cargo”, “modo
Moderação. Do gr. sõphroneõ, “ter de agir”.
mente sadia”, “ter a ideia correta”. O orgu­ 5. Um só corpo em Cristo. Assim
lhoso e vaidoso não tem uma ideia correta de como muitos membros compõem um só

679
12:6 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

corpo humano, assim também, a multidão Proporção. Do gr. analogia, palavra que
de cristãos é um só corpo em Cristo. Jesus ocorre somente aqui no NT. No grego clás­
é o único que une e vitaliza toda a congrega­ sico, era usada como termo matemático. Ela
ção de crentes. Paulo descreve Cristo como a é a origem da palavra “analogia”. O signi­
cabeça da igreja, e os membros todos sujeitos ficado da expressão “de acordo com a pro­

618
a Ele (Ef 1:22; 4:15, 16; Cl 1:18). Essa uni­ porção da fé” é indicado pela frase paralela <
dade da igreja cristã sugere a interdependên­ “segundo a medida da fé que Deus repartiu
cia de seus membros. Uma vez que todos a cada um” (v. 3). Se a mente do cristão foi
pertencem a um só corpo, pertencem indi­ renovada (v. 2) e se torna capaz de fazer um
vidualmente uns aos outros. Assim, Paulo julgamento sóbrio (v. 3), ele avalia correta­
ordena que os crentes trabalhem unidos, mente as próprias habilidades e poderes e
cada um em sua própria esfera, para o bem empregá-los adequadamente e com humil­
comum da igreja. dade a serviço de Deus, que o dotou com
6. Diferentes. De acordo com a graça esses dons para esse fim (ver com. do v. 3).
recebida, Paulo foi nomeado apóstolo (ver 7. Ministério. Do gr. diakonia. O termo
com. do v. 3). Pela mesma graça, outros cren­ é usado no NT em sentido geral em referên­
tes foram designados como profetas, mes­ cia a todos os ministérios e cargos da igreja
tres, operadores de milagres e curadores (ver At 1:17, 25; 20:24; 21:19; Rm 11:13;
de doentes, entre outros (ICo 12:28). Pela ICo 12:5; 2Co 3:8, 9; 4:1; 5:18; 6:3; 11:8;
graça de Deus, os membros da igreja cristã Ef 4:12; lTm 1:12; 2Tm 4:5, 11). Às vezes,
são dotados de grande variedade de poderes é usado em sentido especial de distribui­
espirituais, a fim de atender às diferentes ção de assistência e atenção às necessida­
necessidades de seus irmãos e disseminar o des físicas (At 6:1; 11:29, em que é traduzida
evangelho a cada nação, língua e povo. Paulo como “socorro”; 12:25; Rm 15:31; ICo 16:15;
desenvolve esse assunto com mais detalhes 2Co 8:4; 9:1, 12, 13).
em 1 Coríntios 12 (ver com. ali). Uma vez que Paulo fala aqui de diferen­
Dons. Do gr. charismata, “dons da tes dons e distingue “ministério” de profe­
graça” (cf. Rm 1:11; 5:15, 16; 6:23; 11:29; cia, ensino e exortação, parece evidente que
ICo 7:7; 12:4, 9, 28). Estas são qualidades e a palavra deve ser entendida no sentido mais
faculdades especiais transmitidas aos cren­ limitado de serviço em assuntos temporais e
tes pelo Espírito Santo, para o serviço da externos, tais como o suprimento das neces­
igreja. Muitas vezes, parecem ser talen­ sidades dos pobres, dos doentes, bem como
tos naturais de que o Espírito Se apropria, dos estrangeiros.
aumentando seu poder e santificando seu Dediquemo-nos. Esta expressão foi
uso. Todos os dons espirituais são “dons da acrescentada e, aparentemente, de forma
graça”, concedidos de acordo com a vontade correta. O texto grego diz, literalmente: “Ou
e o propósito de Deus. Os que os recebem ministério, em nosso ministério”. O sentido é
não têm motivo para vaidade. A fonte de sua que os que foram chamados para esse tipo de
força e influência não está em si mesmos. serviço devem se dedicar a ele. O trabalho de
Profecia. Nas Escrituras, este termo atender às necessidades temporais da igreja
se aplica a qualquer palavra inspirada e não não deve ser considerado de pouca impor­
deve ser limitado à predição de eventos. Um tância. E tanto um dom da graça de Deus
profeta pode falar do passado, do presente ou como o é a profecia. O significado espiritual
do futuro (ver Êx 7:1; Lc 1:76, 77; At 15:32; desse serviço é enfatizado pelo fato de que,
ICo 14:3, 24, 25). no tempo dos apóstolos, só homens “cheios

680
ROMANOS 12:8

do Espírito Santo e de sabedoria” eram colo­ liberais de seus irmãos na fé (cf. At 2:44, 45;
cados sobre “o ministério diário” da assistên­ Rm 15:26; lCo 16:1; G1 2:10).
cia (At 6:1, 3). Liberalidade. Do gr. haplotês, “sinceri­
Ensina. Em 1 Coríntios 12:28, o mestre dade”, “singeleza de propósitos”, portanto, às
é alistado logo depois de apóstolos e profe­ vezes, “liberalidade” (ver 2Co 8:2; 9:11, 13).
tas. Seu trabalho é organizar, desenvolver, O cristão que compartilha os bens com os
impressionar a mente e aplicar à vida prá­ outros deve fazê-lo com singeleza de coração
tica as verdades reveladas. Este dom con­ (cf. Ef 6:5; Cl 3:22) e não para se gloriar. Não
siste em um entendimento iluminado e na deve nutrir qualquer ostentação nem obje­
habilidade da exposição clara. Essas foram tivo egoísta. Essa sinceridade e generosidade
as qualificações que deram a Apoio grande também são dons do Espírito, cuja influên­
poder (ver At 18:24-28). Os que foram cia orientadora é necessária para o uso cor­
chamados por Deus para ser mestres não reto das riquezas (cf. Mt 6:3; 19:21).
devem lamentar não terem sido conside­ O que preside. Literalmente, “aquele
rados prontos a ser profetas ou apóstolos, que é colocado à frente”. A palavra é usada
nem devem desprezar seu trabalho como no NT para quem ocupa posição de autori­
sendo de menor importância e consequên­ dade ou influência, seja na igreja (lTs 5:12;
cia. O Espírito de Deus nomeia os crentes lTm 5:17) ou em casa (lTm 3:4, 5, 12). Este
para o tipo de serviço para o qual são mais é o dom de “governo” (lCo 12:28).
adequados e estão de acordo com o propó­ Diligência. Do gr. spoude. Em outras
sito divino para a igreja. Portanto, o mes­ passagens do NT, a ARA traduz esta expres­
tre cristão que tem fé na liderança da igreja são por “sem demora” (Mc 6:25), “apressa­
de Cristo dedica-se inteiramente em seu damente” (Lc 1:39), “cuidado” (2Co 7:11),
ministério. Além disso, como Paulo instruiu “solicitude” (2Co 7:12; 8:16) e “diligência”
Timóteo (lTm 5:17), os anciãos que traba­ (2Co 8:8). De toda pessoa em posição de
lham no ensino são dignos de “dupla honra”. liderança, espera-se energia e zelo. Essas
8. Exorta. Do gr. paralilêsis, “apelo”, qualidades são dons do Espírito Santo, e
“encorajamento”, “consolação” (comparar o cristão que delas foi dotado deve dedicar
com Rm 15:5; 2Co 8:4; Fp 2:1). O ensino é todo esforço ao trabalho a ele designado.
dirigido ao entendimento. A exortação visa, Exerce misericórdia. Nesta lista de
sobretudo, ao coração e à vontade. Alguns dons, Paulo faz alguma distinção entre
têm o dom especial de estimular as pessoas o ato de dar esmolas e a prática da bon­
à ação, ou confortá-las quando em afli­ dade. Talvez ele se refira a formas de mos­
ção. Esse é um dom de Deus a ser empre­ trar misericórdia como “visitar os órfãos e
gado para a edificação da igreja (ver com. as viúvas nas suas tribulações” (Tg 1:27),
de Mt 5:4). “curar os quebrantados de coração” (Is 61:1;
Contribui. Do gr. metadidõmi. O termo cf. Lc 4:18) e visitar os doentes ou presos
significa “contribuir” ou “compartilhar” os (Mt 25:36, 39, 44).
próprios bens e as riquezas (comparar com Alegria. Do gr. hilarotês, de que se ori­
Lc 3:11; Ef4:28). Paulo passa então dos dons ginam as palavras portuguesas “hilaridade”,
que qualificam para um cargo específico na “hilariante”. Essa é a única ocorrência da
igreja a outros de natureza mais geral. A acei­ palavra no NT, embora o adjetivo (hilaros)
tação do cristianismo implicou pobreza para seja usado em 2 Coríntios 9:7: “Deus ama a
muitos dos primeiros crentes, e tornou-se quem dá com alegria.” Seja ao confortar os
necessário que fossem apoiados pelas ofertas enlutaclos ou ao aliviar os sofredores, quem

681
12:9 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

“exerce misericórdia” deve deixar claro que Lv 10:1, 2; PP, 360, 361; lSm 3:13; 4:11,
o serviço é prestado voluntariamente e de 18-22; PP, 575-579).
bom grado. Os atos de bondade realizados Apegando. Do gr. kollaõ, literalmente,
com ânimo e alegria são de mais elevado “colar [ou “cimentar”], portanto, “juntar-se”
valor do que aqueles praticados apenas pelo a algo (ver Mt 19:5; At 8:29).
cumprimento do dever. Jesus era constante­ 10. Amai-vos cordialmente. Do gr.
mente cercado por sofredores e enfermos; philostorgoi, termo que expressa o terno amor
e sempre agia de forma gentil, bondosa e e carinho existente entre parentes próximos.
alegre (ver CBV, 24). Portanto, a palavra é aplicada à irmandade
Os vários dons que Paulo menciona da família cristã. Os crentes devem conside­
devem ser exercidos no devido espírito e para rar-se mutuamente com amor, como filhos e
o bem de todos. O cristão não desprezará a filhas do mesmo Pai (cf. Mc 3:35).
posição ou função particular que o Senhor Amor fraternal. Do gr. philadelphia,
lhe confiou. Nem vai pensar de si mesmo termo que descreve o vínculo estreito que
além do que deveria. Seu objetivo e sua ale­ deve existir entre os memhros da igreja (com­
gria serão cumprir com fidelidade os deve­ parar com 1Ts4:9; Hb 13:1; lPe 1:22; 2Pe 1:7).
res a que Deus lhe chamou. A ordem literal das palavras desta parte do ver­
9. Amor. Do gr. agapê (ver com. de Mt 5:44;
sículo é: “em amor fraternal, uns aos outros,
ICo 13:1). Da discussão sobre o uso correto amai-vos cordialmente”. Paulo afirma que,
dos dons espirituais, Paulo passa então a ins­ em amor por seus irmãos em Cristo, os cren­
truir os crentes acerca do exercício do maior de tes devem manter aquela mesma calorosa afei­
todos os dons e do princípio básico de todo o ção que os parentes próximos.
verdadeiro cristianismo: o amor. Assim, como Preferindo-vos. Do gr. proêgeomai,
em 1 Coríntios 12 e 13, Paulo aqui conclui literalmente, “ir antes como líder”. Esta é a
a discussão acerca dos dons espirituais com única ocorrência da palavra no NT. A frase

620
uma referência ao amor. As virtudes enume­ grega aqui traduzida como “preferindo-vos «
radas em Romanos 12:9 a 21 são o desenrolar em honra uns aos outros” é de difícil tra­
do genuíno amor cristão. dução. Ela tem sido interpretada de diver­
Sem hipocrisia. Do gr. anupokrilos, sas formas: “prefiram dar honra aos outros
“sincero”, “genuíno”, “real” ou “verdadeiro”. mais do que a si próprios” (NVI), “se esfor­
Só é verdadeiro o amor que repele o que é cem para tratar uns aos outros com respeito”
mau e se apega ao bem (cf. ICo 13:6). (NTLH). Talvez o significado pretendido seja
Detestai. Do gr. apostugeõ, que ocorre o sugerido na passagem quase paralela de
só aqui no NT e significa aversão tão grande Filipenses 2:3: “por humildade, considerando
a algo que a pessoa se mantém longe do cada um os outros superiores a si mesmo”.
mesmo. O amor sincero não pode tolerar o Um resultado do verdadeiro amor é que a
mal, mesmo que seja numa pessoa amada. pessoa não busca a própria honra ou vanta­
Seu objetivo será sempre combater o mal gem, mas está disposta a honrar os outros.
e encorajar o bem. O amor de EJi por seus Os cristãos, motivados pelo amor genuíno,
filhos rebeldes não revelou essas marcas serão mais dispostos a prestar respeito do
de autenticidade. Caso seu amor tivesse que a recebê-lo. Ninguém deve ambicionar
sido verdadeiro, ele teria corrigido as más honra para si mesmo, mas cada um deve pro­
tendências dos jovens. As Escrituras regis­ mover a honra ao próximo.
tram os resultados desastrosos da indulgên­ 11. No zelo. Do gr. spoudê-. “zelo”,
cia cega em lugar do verdadeiro amor (ver “ardor”, “fervor”. Spoudê é traduzido como

682
ROMANOS 12:12

“diligência”, no v. 8. Aqui, Paulo não se de Cristo pela humanidade caída e, assim,


refere a negócios seculares, mas ao zelo e encontra a mais profunda satisfação em
energia espirituais. O cristão não deve per­ ministrar às necessidades dos semelhantes.
mitir que seu zelo esmoreça, mas deve colo­ Assim como o Senhor, ele tem uma energia
car o coração a serviço do Senhor (Cl 3:23). que outros não conhecem, pois sua comida
O zelo permanente é resultado do genuíno “consiste em fazer a vontade dAquele que
amor cristão, pois é o amor de Cristo que [o] enviou e realizar a Sua obra” (Jo 4:32-34).
“constrange” ou “controla” Seus seguidores Servindo ao Senhor. Zelo e fervor são
(2Co 5:13, 14). No reino de Deus não há naturais no coração de quem reconhece, em
lugar para preguiçosos (cf. TM, 183, 184), qualquer esfera de atividade em que esteja
pois a falta de zelo é marca de egoísmo e falta servindo, que está trabalhando “como para
de amor. Os preguiçosos não foram motiva­ 0 Senhor e não para homens” (Cl 3:23, 24;
dos pelo amor e pelo sacrifício de Cristo a cf. Ef. 6:5-8).
ponto de estar dispostos a se unir com todas 12. Regozijai-vos na esperança. As
as forças ao Mestre na obra urgente de res­ três orientações deste versículo parecem
gate dos pecadores. ainda mais claras quando se mantém a ordem
Remissos. Do gr. oknêroi, “demorados”, das palavras como estão no grego: “Na espe­
“hesitantes”, “tímidos”, “lentos”, “descuida­ rança, alegria; na tribulação, pacientes; na
dos”, “preguiçosos”. A palavra ocorre com fre­ oração, perseverantes.” Paulo já havia elo­
quência na LXX, em Provérbios (ver Pv 20:4; giado o espírito de alegria (v. 8). Em Romanos
e outros), e é usada para descrever o servo 5:2, ele fala da alegria “na esperança da gló­
mau na parábola dos talentos (Mt 25:26). ria de Deus”. A esperança cristã é a causa da
Fervorosos. Do gr. zeo, literalmente, alegria, e é explicada em Romanos 8:20 a 25.
“ferver”. Apoio é descrito como alguém que E ela que permite ao cristão olhar para além
era “fervoroso de espírito” (At 18:25). O cris­ da escuridão e das dificuldades do mundo
tão zeloso sempre mantém o interesse na presente para as coisas invisíveis e eternas
causa de Deus, como se estivesse a ponto (2Co 4:17, 18). A esperança, bem como mui­
de ebulição. Seu fervor lhe dá poder com tas das virtudes cristãs, brota da virtude fun­
as pessoas (At 18:25, 28) e lhe traz o poder damental, que é o amor. Isso é indicado por
de Deus. O apóstolo João era “pregador de 1 Coríntios 13:7: o amor “tudo espera”.
poder, fervente e profundamente sincero”, Pacientes. Do gr. hupomenõ, “supor­
e “o fervor que lhe caracterizava os ensi­ tar” (cf. hii-pomcme, “paciência”; ver com. de
nos [dava-lhe] acesso a todas as classes” Rm 5:3). O zelo descrito no versículo anterior
(AA, 546). logo encontra oposição e problemas. Mas,
Espírito. Esta palavra pode se referir com a esperança da glória de Deus diante
tanto ao espírito humano quanto ao Espírito de si, o cristão não murmura contra Deus
de Deus. Talvez Paulo esteja falando sobre nem alimenta inimizade contra os persegui­
o espírito humano inspirado e encorajado dores. Ele permanece em seu posto de dever,
pelo Espírito de Deus. O crente consagrado apesar das provações que isso envolva. Essa
e ativo não considera o exercício de suas fun­ perseverança foi exemplificada por Cristo,
ções cristãs como um trabalho desinteres­ que, sob circunstâncias ainda mais difíceis,
sante e penoso, mas uma experiência alegre sofreu mais do que qualquer de Seus segui­
e vitalizante. Com o coração em chamas, ele dores. A virtude da resistência era neces­
sempre se apressa para onde quer que haja sária nos tempos angustiosos pelos quais a
algum bem a ser feito. Compartilha o amor igreja passava nos dias de Paulo. O apóstolo

683
12:13 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

sabia por experiência que os sofrimentos lTs 5:15; Hb 12:14; lPe 3:11). O termo indica
por causa de Cristo seriam intensos (ver que os cristãos não devem apenas ofere­
Rm 8:35; 2Co 1:4; lTs 1:6; 3:3-7; 2Ts 1:4-6). cer hospitalidade, mas estar ansiosos por
A conexão entre o amor e a persistência tam­ praticá-la.
bém é sugerida em 1 Coríntios 13:7: o amor Hospitalidade. Do gr. philoxenia, lite­
“tudo suporta”. ralmente, “amor aos estranhos”, portanto,
Perseverantes. Do gr. proskartereõ, “abrigar os estranhos”. Desde cedo, os cris­
“persistir”, “continuar firmes”, “perseve- tãos consideraram a hospitalidade uma das
rar”. A mesma palavra é traduzida como mais importantes virtudes cristãs (cf. ITm
“tivessem pronto” (Mc 3:9), “serviam [...] 3:2; Tt 1:8; Hb 13:2; lPe 4:9). Isso ocorria em
continuamente” (At 10:7) e “atendendo vista do grande número de viajantes e per­
constantemente” (Rm 13:6). Unicamente seguidos. Muitos cristãos eram expulsos de
pela constante comunhão com Deus é que suas casas e cidades e obrigados a procurar
o cristão pode conservar a força e a coragem abrigo com aqueles que mantinham a mesma
para suportar os desafios próprios da fé (ver fé (ver At 8:1; 26:11). A hospitalidade que os
At 1:14, 6:4; Cl 4:2). O demorar-se nas coi­ crentes praticavam uns para com os outros
sas que são de cima (Cl 3:2) e medir cada contribuía para os vínculos que mantinham
ato e impulso pela contemplação da glória unidos os membros dispersos da igreja.
e da vontade de Deus é o antídoto contra 14. Abençoai. Do gr. enlogeõ, “falar bem
a impaciência sob provocação e oposição. de”, “invocar bênçãos sobre”. No v. 13, Paulo
Além disso, Deus dá o Espírito aos que dese­ fala do tratamento dos cristãos aos amigos;
jam Sua presença constante (Jo 16:23, 24; neste versículo, ele indica o tratamento
At 1:14; 2:4). O mesmo Espírito que traz adequado aos inimigos. Nós “abençoamos”
“amor” (cf. Rm 12:9) e “alegria” (v. 12) tam­ nossos perseguidores, quando oramos e tra­
bém desperta “paciência” e “temperança”, balhamos por seu bem. As palavras de Paulo
literalmente, “domínio próprio” (GI 5:22, 23). são semelhantes às de Jesus (ver Mt 5:44; cf.
13. Compartilhai. Do gr. koinõneõ, Lc 6:28; lPe 3:9).
“compartilhar”, “tomar parte em”, “atuar como Perseguem. Do gr. diõkõ, “perseguir”,
parceiro” (ver Rm 15:27; Fp 4:15; ITm 5:22; muitas vezes com má intenção, como aqui.
Hb 13:16; lPe 4:13). Paulo afirma que os cris­ Esta é a mesma palavra traduzida como “pra­
tãos devem compartilhar as necessidades de ticai”, no v. 13. O cristão deve “perseguir” a
seus irmãos na fé, e atendê-las como se fos­ hospitalidade para com os irmãos e aben­
sem as suas próprias. Isso é muito mais do çoar os ímpios que os “perseguem”. Com essa
que dar esmolas, é uma aplicação prática prescrição, Paulo antecipa o pensamento que
do princípio do amor (Rm 12:9). Paulo pra­ desenvolve mais plenamente nos v. 17 a 21,
ticava o que pregava; isso é evidente em seu de que é dever do cristão amar seus inimi­
esforço para arrecadar fundos para a assis­ gos e vencer o mal com o bem. Esse dever
tência dos conversos atingidos pela pobreza só pode ser realizado pela pessoa cuja mente
(cf. Rm 15:25, 26; lCo 16:1; 2Co 8:1-7; 9:2-5; foi renovada pelo Espírito (v. 2) e cujo amor
GI 2:10). é “sem hipocrisia” (v. 9).
Santos. Ver com. de Rm 1:7. Os que são 15. Alegrai-vos. A simpatia em todas as
“da família da fé” merecem cuidado espe­ circunstâncias é uma evidência da autenti­
cial (GI 6:10). cidade do amor. Das duas formas de simpa­
Praticai. Do gr. diõkõ, literalmente, “per­ tia mencionadas neste versículo, a primeira
seguir”, “seguir após” (comparar com lCo 14:1; talvez seja a mais difícil. Parece mais fácil

684
ROMANOS 12:17
622

► e natural simpatizar-se com a dor. Mas ale­ Paulo esteja falando de “deveres humildes”
grar-se com o sucesso e as alegrias dos outros ou “tarefas humildes”.
requer nobreza de caráter. Os opostos dessas A maioria dos membros da igreja era
virtudes são a inveja, que diz respeito à boa pobre, e os poucos ricos podem ter sido ten­
sorte dos outros, e a dor e a maldade, que tados a considerar com algum desdém os
se satisfazem com os infortúnios dos outros. irmãos mais humildes (Tg 2:1-9). Mas essa
Essas manifestações de egoísmo são tendên­ falta de amor e simpatia tornaria impossí­
cias naturais do coração não regenerado. Em vel aos crentes ter “o mesmo sentimento uns
1 Coríntios 12:26 e 27, Paulo compara a sim­ para com os outros”. Portanto, os cristãos
patia que deve haver entre os membros da devem ter a mente semelhante à de Jesus.
igreja com a que é mantida por uma parte Mesmo sendo divino, Ele não “cuidava das
do corpo para com a outra. Jesus chorou em coisas altivas”. Ao contrário, "assumiu a
simpatia junto ao túmulo de Lázaro (Jo 11:35; forma de servo” e “Se humilhou”, a fim de
DTN, 533). Ele Se alegra com a salvação Se aproximar de pessoas humildes e pecami­
mesmo do pecador mais indigno (ver Lc 15:5- nosas e trabalhar com elas em favor de sua
7, 10, 23, 24, 32; Jd 24). salvação (Fp 2:5-8). Se o filho de Deus Se
16. Tende o mesmo sentimento. O cris­dispôs a humilhar-Se por amor de Suas cria­
tão deve compartilhar dos sentimentos e aspi­ turas corrompidas, certamente, os cristãos
rações de seus irmãos (cf. Rm 15:5; 2Co 13:11; devem estar dispostos a “rebaixar-se” para se
Fp 2:2; 4:2). Entre os cristãos, deve existir associar a qualquer um dos seus semelhan­
sempre a harmonia que resulta de um obje­ tes (ver OE, 330-336; ver com. de Tg 1:9, 10).
tivo comum, esperanças e desejos comuns. Sábios aos vossos próprios olhos.
Em lugar de serdes orgulhosos. Ou, Literalmente, “sábios por vós mesmos”, o
"não te ensoberbeças” (Rm 11:20), "não cui­ que significa “sábios na própria opinião” (cf.
deis das coisas altivas” (TB). "O amor [...] não com. de Rm 11:25). Esse tipo de orgulho é
se ufana, não se ensoberbece” (ICo 13:4). um pecado contra o amor cristão, pois sig­
O orgulho pode ser motivado até por rea­ nifica desprezo pela opinião dos outros e,
lizações espirituais (ver ICo 12). A harmo­ finalmente, até mesmo aos conselhos de
nia não pode existir onde há pessoas cuja Deus. Portanto, Isaías adverte: “Ai dos que
mente esteja determinada a "coisas altivas” são sábios a seus próprios olhos e pruden­
e exista ambição pessoal, presunção ou des­ tes em seu próprio conceito!” (Is 5:21; cf.
prezo pelos outros. Pv 3:7). O cristão que tem a mente renovada
Condescendei. Do gr. sunapagõ, lite­ não confia na presunção da própria habili­
ralmente, “carregar consigo”, como por uma dade e compreensão nem se recusa a ouvir
inundação; portanto, "sujeitar-se”, "submeter- os conselhos dos outros. Ao contrário, em
se”, “entregar-se”. Há só mais duas ocorrên­ amor e humildade, ele respeita o julgamento
cias deste verbo no NT (G1 2:13; 2Pe 3:17), de seus irmãos e mantém a mente aberta e
nas quais o sentido desfavorável é indicado receptiva ao ensino. Está pronto a reconhe­
pelo contexto, não pelo verbo. cer suas limitações e seus erros, e a apren­
Humilde. O texto grego aqui é ambí­ der com os outros.
guo e pocle se referir tanto a homens humil­ 17. Não torneis. Ou, "retribuais”,
des como a coisas humildes. A palavra “pagueis de volta” (sobre o princípio aqui
grega para “humilde” (tapeinos) é usada estabelecido, ver com. de Mt 5:38-48).
para pessoas, em outras passagens do NT, O amor devolve o mal com o bem e trabalha
mas não é impossível que, neste contexto, para promover bênçãos, e não destruição, aos

685
12:18 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

outros (cf. Rm 12:14; lCo 13:5, 6; lTs 5:15; quase constante, mostra que nem sempre é
IPe 3:9). possível manter em paz. Em um mundo cujo
Esforçai-vos. Do gr. pronoeõ, “agir príncipe é Satanás, os soldados de Cristo
depois de pensar”. não devem esperar que tudo seja paz. No
Fazer o bem. Do gr. kala, “coisas boas”, entanto, o cristão deve sempre se certificar
“coisas nobres”, “coisas corretas”. Paulo de que, se a paz for quebrada, que não seja
pode estar se referindo à versão LXX de por sua culpa.
Provérbios 3:4. A fim de desarmar a opo­ 19. Não vos vingueis. A ordem das pala­
sição, o cristão deve pensar e agir a fim de vras no grego é “não vos vingueis, amados”.
que sua conduta, devido a bondade e jus­ Dai lugar à ira. O artigo definido antes
tiça transparente, seja irrepreensível não só da palavra “ira” indica que a referência é
diante de Deus, mas aos olhos de todos. Os à ira de Deus (cf. com. de Rm 5:9). Essa
seguidores de uma causa impopular que que­ interpretação é confirmada pelas palavras
rem convencer outros da veracidade e exce­ seguintes: “a Mim Me pertence a vingança;
lência de sua mensagem devem fazer com Eu é que retribuirei”. “Dar lugar” significa
que seu comportamento esteja acima de “dar espaço” para que a ira vingadora de
qualquer suspeita. O cristão deve fazer sua Deus opere. Os cristãos nunca devem bus­
luz brilhar diante dos semelhantes, para que car vingança contra quem os trata injusta­
vejam suas boas obras e gíorifiquem ao Pai mente. Devem deixar o assunto com Deus.
que está nos céus (Mt 5:16). Para isso, nunca Apenas um Deus onisciente, todo-amoroso
devem se engajar em atividades ou empreen­ e perfeito pode julgar e punir os malfeito­
dimentos de caráter duvidoso que coloquem res com justiça. Tanto a linguagem como
em descrédito não só a si mesmo, mas tam­ o pensamento dessa ordem são ilustrados
bém todo o corpo cristão. em Efésios 4:27, em que Paulo explica que
Paulo nunca teve medo de incorrer em vingar a nós mesmos é “dar lugar ao diabo”.
oposição quando o dever ou a consciência Os que estão cheios de pensamentos de
o exigiam. No entanto, aconselha e exorta vingança dão oportunidade a que Satanás
aqui os cristãos à cautela e previdência, de inspire ira, ódio e amargura, quando deve­
modo a não ofender desnecessariamente e, ríam encorajar o crescimento do fruto do
assim, despertar hostilidade dos outros. Essa Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade
é a maneira de agir ditada não só pelo amor, (G1 5:22).
mas também pelo bom-senso. E impossí­ Algumas vezes, outras duas interpreta­
vel persuadir e antagonizar as pessoas ao ções desta passagem têm sido propostas.
mesmo tempo. Uma delas é: “Dai tempo ou espaço para
18. Quanto depender de vós. Literal­ que vossa própria raiva esfrie." A outra: “dai
mente, “com referência àquilo proceder de espaço para”, isto é, cedei à “ira de vosso
vós”, ou seja, “até aqui, desde que dependa adversário”. No entanto, nenhuma dessas
de vós”. A conexão com o versículo anterior interpretações se ajusta ao original grego
é evidente. Tanto quanto se refira ao cristão, nem ao contexto.
ele deve fazer tudo que puder para manter a Está escrito. Citação de Deuteronômio
paz. Mas há momentos em que a fidelidade 32:35; comparar com Hb 10:30. Em Deu­
ao princípio pode implicar incorrer no anta­ teronômio, esta declaração é um alerta ao
gonismo dos outros. Portanto, Paulo acres­ povo de Deus. Em Hebreus, é direcionada
centa a qualificação: “se possível”. O registro aos apóstatas. Mas, em Romanos, é usada
da própria vida de Paulo, que foi um conflito como um consolo ao povo de Deus, que é

686
ROMANOS 12:21

perseguido injustamente. Deus os vinga no Paulo: “e o Seniior te retribuirá”, ou seja,


devido tempo, pois “não fará Deus justiça as boas obras praticadas para teu inimigo.
aos Seus escolhidos, que a Ele clamam dia Da mesma íorma, no presente contexto, o
e noite?” (Lc 18:7; cf Dt 32:40-43; 2Ts 1:6- significado geral é resumido nas palavras:
10; Ap 6:9-11). “Não te deixes vencer do mal, mas vence o
Vingança. Do gr. ekdikêsis, “vindicação”, mal eom o bem” (Rm 12:21).
“retribuição”, “punição” (cf. At 7:24; 2Co 7:11; 21. Não te deixes vencer do mal.
lPe 2:14). A ideia de vingança pessoal deve A vingança é um sinal, não de força, mas
ser eliminada a partir da expressão usada de fraqueza. Sofre derrota quem permite que
aqui: a justiça vingadora é de Deus, pois Ele seu humor seja afetado e seus princípios cris­
impõe plena justiça a todas as partes. No dia tãos de amor e domínio próprio sejam aban­
da vingança de Deus, os ímpios receberão as donados. Mas quem controla o desejo de
inevitáveis consequências da própria esco­ vingança e faz do mal sofrido uma oportuni­
lha. Devido à vida de rebeldia, eles se puse­ dade para mostrar bondade obtém a vitória
ram tão fora da harmonia com Deus que Sua sobre si mesmo e sobre os poderes do mal.
própria presença lhes é um fogo devorador Essa atitude não é apenas mais nobre,
(2Ts 1:6-10; Ap 6:15-17). “A glória dAquele quanto mais eficaz. Com ela, pode-se
que é amor os destruirá” (DTN, 764). desarmar o inimigo (cf. Pv 15:1) e conquis­
20. Se o teu inimigo. Citação de tar outra pessoa. Assim, Deus não retribuiu
624

► Provérbios 25:21 e 22. aos pecadores a vingança que mereciam,


Brasas vivas. Ver com. de Pv 25:22. mas revelou amor e misericórdia. E a bon­
A bondade é a melhor vingança que o cristão dade, paciência e Ionganimidade de Deus
pode tomar contra um inimigo. Amontoar que leva as pessoas ao arrependimento
brasas vivas sobre a cabeça de um oponente (Rm 2:4). O cristão que é transformado à
significa um ato de amor, e não de maldade. imagem de Deus (Rm 12:2) mostra por sua
Isso está indicado, tanto pelo contexto do maneira de tratar os inimigos que seu cará­
AT como do NT. Provérbios 25:22 termina ter se torna mais e mais semelhante ao de
com estas palavras, não citadas aqui por Deus, que é amor (ljo 4:8).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1 - LA, 301; CRA, 58, 165; T2, 492; T3, 157; T6, 9 - T4, 325
CS, 22, 42, 67, 121, 505; 143, 239; T7, 75; 9, 10-T3, 361; T5, 171
CPPE, 301; DTN, 439; T9, 113 10-AA, 275; LA, 421, 423;
GC, 473; CBV, 130; 2-CS, 23; CPPE, 262; CBV, 489; MCH, 119;
MCH, 6; MJ, 244; CBV, 404; MCH, 153, PP, 133, T2, 162
PR, 65, 489; PP, 352; 318; Tl, 240, 285, 10, 11 -T2, 419; T5, 108, 178
San, 27; Te, 19, 62, 149, 479, 704; T4, 44, 56, 10- 13-T3, 224
191; TM, 161; TI, 126; 71, 82, 86, 174, 185, 11- AA, 351; LA, 23; GC,
T2, 65, 70, 381; T3, 63, 194, 301, 678; T3, 126, 123, 125; CE, 77; P], 51,
83, 162, 164; T5, 441, 163; T4, 645; T5, 542 346; CM, 159, 165, 269;
541; T6, 224 3 - T5, 289 Ev, 480, 654; FEC, 214,
1, 2-CRA, 446; CS, 49; 4, 5 - T4, 16 316; MCH, 104, 243;
FEC, 289, 351; Te, 8 - MCH, 195 MJ, 72; TM, 183;
108; TM, 448; TI, 694; 8-13-Tl, 692 Tl, 115, 317, 325;

687
13:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

T2, 255, 500, MJ, 278; CC, 97; 17- MCH, 330
673, 701; T3, 400; T2, 48 18- MCH, 52; San, 20;
T4, 191; T5, 276, 459; 13-LA, 445; CM, 29 Tl, 356
T6, 469; T7, 12, 196; 15- CBV, 143, 157; 19 - PE, 274
T9, 150; BS, 239 T3, 186 21 - CBV, 486
12-PJ, 172; MCLI, 18; 16- TM, 193; T4, 20

Capítulo 13
1 Obrigações devidas aos magistrados. 8 O amor é o cumprimento da lei. 11 Gida,
embriaguez e obras das trevas são incompatíveis com o evangelho.

1 Todo homem esteja sujeito às autoridades 8 A ninguém fiqueis devendo coisa algu­
superiores; porque não há autoridade que não ma, exceto o amor com que vos ameis uns aos
proeeda de Deus; e as autoridades que existem outros; pois quem ama o próximo tem cumpri­
foram por Ele instituídas. do a lei.
2 De modo que aquele que se opõe à autori­ 9 Pois isto: Não adulterarás, não matarás,
dade resiste à ordenação de Deus; e os que resis­ não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer
tem trarão sobre si mesmos condenação. outro mandamento, tudo nesta palavra se re­
3 Porque os magistrados não são para temor, sume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. 10 O amor não pratica o mal contra o pró­
Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem ximo; de sorte que o cumprimento da lei é o
e terás louvor dela, amor.
4 visto que a autoridade é ministro de Deus 11 E digo isto a vós outros que conheceis o
para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, tempo: já é hora de vos despertardes do sono; por­
teme; porque não é sem motivo que ela traz que a nossa salvação está, agora, mais perto do
► a espada; pois é ministro de Deus, vingador,
625

que quando no princípio cremos.


para castigar o que pratica o mal. 12 Vai alta a noite, e vem chegando o dia.
5 E necessário que lhe estejais sujeitos, não Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-
somente por causa do temor da punição, mas nos das armas da luz.
também por dever de consciência. 13 Andemos dignamente, como em pleno
6 Por esse motivo, também pagais tributos, dia, não em orgias e bebedices, não em im-
porque são ministros de Deus, atendendo, cons- pudicícias e dissoluções, não em contendas e
tantementc, a este serviço. ciúmes;
7 Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tri­ 14 mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo
buto, tributo; a quem imposto, imposto; a quem e nada disponhais para a carne no tocante às
respeito, respeito; a quem honra, honra. suas concupiscências.

1. Todo homem. Ou seja, cada pessoa Autoridades superiores. Literalmente,


(ver com. de Rm 2:9; cf. com. de SI 16:10). “aqueles que estão em posição de autoridade
Esteja sujeito. Do gr. hupotassõ, “sub­ sobre os outros”, significando “as autorida­
meter-se”, “estar em sujeição”, “obedecer”. des que se colocam acima” (ver lPe 2:13,

688
ROMANOS 13:3

cf. Lc 12:11; Tt 3:1). Ao longo desta seção, incorrer no mesmo descontentamento que
a palavra traduzida como “poder” (exou- começava a cair sobre os judeus. Teria tam­
sia) significa “autoridade”, isto é, o poder bém resultado na renúncia à proteção do
de governar ou mandar. Deve ser ciistin- Estado romano, que muitas vezes foi uma
guida de dynamis, também traduzida como bênção para os primeiros cristãos, como
“poder” (cf. Rm 1:16, 20; ICo 1:18), mas que Paulo pôde testificar a partir de sua própria
significa “força”, “poder [ou capacidade'] experiência (ver At 22:24-30). Além disso, a
para realizar”. rebeldia teria trazido vergonha sobre a igreja
Não há autoridade que não proceda cristã e sua mensagem de amor fraternal e
de Deus. Ou seja, nenhuma autoridade paz. Por isso, em outros textos, Paulo exorta
humana existe, a não ser pela permissão os crentes a orar por aqueles que exercem
de Deus e sob Seu controle. O AT afirma autoridade (lTm 2:1, 2) e a obedecer-lhes
que Deus ergue um e depõe outro (ver com. (Tt 3:1). Da mesma forma, Pedro ordena que
de Dn 4:17; cf. Dn 2:21; 4:25, 34, 35). os cristãos se sujeitem “a toda instituição
Por Ele instituídas. As palavras gregas humana por causa do Senhor” (lPe 2:13-17).
nos v. 1 e 2, traduzidas como “sujeito”, “ins­ 2. Que se opõe à autoridade. Literal­
tituídas”, “resistem” (primeira ocorrência) e mente, “se alinha contra a autoridade”, “entra
“ordenação” são todas construídas sobre a em ordem de batalha contra a autoridade”.
mesma raiz tassõ, “ordenar”, “organizar” ou Ordenação. Do gr. diatagê, literal mente,
“definir”. Isso dá uma força antitética à pas­ “o que é ordenado”, “o que está definido”. Há
sagem que não pode ser representada em outra ocorrência desta palavra no NT, em
nossa língua. Atos 7:53, em que é traduzida como “ministé­
Paulo não sugere nestes versículos que rio”. O que Paulo diz pode ser traduzido lite­
Deus sempre aprova a conduta dos gover­ ralmente como: “aquele que se coloca contra
nos civis nem indica que é dever do cris­ o que é divinamente ordenado”.
tão sempre se submeter a eles. Às vezes, as Condenação. Do gr. krima, “condena­
exigências do governo podem ser contrárias ção”, “juízo” (Rm 2:2; 5:16; 11:33). Paulo aqui
à lei de Deus e, sob essas circunstâncias, se refere à sentença proferida pelas autori­
o cristão deve antes “obedecer a Deus do dades do governo, como ministros de Deus
que aos homens” (At 4:19; 5:29). O raciocí­ neste mundo (Rm 13:4), sobre aqueles que
nio de Paulo é que o poder dominante dos resistem. Visto que desobedecer “aos poderes
governos humanos é confiado por Deus aos que existem” é resistir à ordenação de Deus,
homens, de acordo com Seus propósitos para a penalidade que as autoridades impõem
o bem-estar da humanidade. A manuten­ também representa o juízo e a ira de Deus
ção do poder ou a perda da autoridade está sobre o rebelde.
nas mãos de Deus. Portanto, o cristão deve 3. Não são para temor. Em geral, os
apoiar a autoridade. Não deve tomar nas governantes não devem ser temidos, a não
próprias mãos resistir ou depor “os poderes ser pelo que pratica o mal. Na realidade,
constituídos”. nem todos os governantes pertencem a essa
Essa instrução era muito necessária nos classe, pois muitos deles têm perseguido o
dias de Paulo, pois os judeus viviam num bem. Por exemplo, Nero, o imperador romano
clima turbulento, e revoltas já se desperta­ na época em que Paulo escreveu esta carta,
vam em várias partes do império romano. mais tarde, foi responsável pelo martírio do
Para os cristãos, a demonstração de seme­ apóstolo. No entanto, geralmente, é verdade
lhante espírito de insubmissão representaria que os virtuosos não têm nada a temer das

689
13:4 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

autoridades civis. Os governos, como tais, Temor da punição. Literalmente, “por


não são para temor pelos que praticam boas causa da ira”. Visto que as autoridades civis
obras. Ao contrário, existem para um pro­ existem por determinação divina, o cris­
pósito benéfico e, em geral, é vantagem ao tão deve obedecer, não só porque quer evi­
cristão submeter-se a suas exigências (ver tar a punição, mas porque é certo obedecer.
lTm 2:1, 2). A única exceção é quando a lei do Estado
Queres tu [...]? Do gr. thelõ, “desejar”, conflita com a lei de Deus.
“querer”. O cristão que não quer temer o 6. Pagais tributo. O contexto sugere
governo civil deve praticar o que é certo e, que este não é um mandamento, mas uma
por isso, será elogiado por sua boa conduta declaração de fato. Assim, a variante “pagais”
(cf. lPe 2:14, 15). é preferível a “pagai”. Evidentemente, os pri­
Dela. Literalmente, “a partir dela", signi­ meiros cristãos consideravam questão de
ficando “da autoridade governante”. princípio pagar impostos, talvez em obediên­
4. Visto que. Isto introduz o motivo da cia ao ensinamento de Cristo (Lc 20:20-25),
declaração anterior. Uma vez que o Estado que se reflete em Romanos 13:7. Apoiando,
existe como servo de Deus para um bom pro­ assim, o governo civil com seus tributos, os
pósito, o cristão não tem motivo para temer sua cristãos estavam reconhecendo que deviam
autoridade. Aqui, novamente, Paulo expressa obediência ao Estado, como ordenado por
uma verdade geral, não se demorando em qua­ Deus “tanto para castigo dos malfeitores
lificar sua declaração com exceções específicas. como para louvor dos que praticam o bem”
Autoridade. Referindo-se ao “poder”, (lPe 2:14).
“autoridade”, do v. 3. Ministros. Do gr. leitourgoi, “servos”,
Ministro. Do gr. diakonos, “servo” (Rm “funcionários públicos”, de que se origina a
15:8; 16:1). Diakonos também é a palavra palavra “liturgia”. Esta não é a mesma palavra
usada para descrever o cargo de diácono traduzida como “ministro" no v. 4 (ver com.
(lTm 3:8, 12). ali). As duas palavras são usadas para ser­
Para teu. Ou seja, “para tua vantagem”, viços seculares, mas este termo também é
“cm teu interesse”. aplicado especialmente ao ministério sacer­
Bem. Isto é, para promover o bem. Esta é dotal (cf. Rm 15:16; Hb 8:2). Pela utilização
a verdadeira razão para a existência do governo deste termo, Paulo pode estar enfatizando
civil, como servo e representante de Deus. a adequação e a necessidade de obediên­
A espada. Símbolo da autoridade do cia ao poder civil, revestindo-o com certa
governante para aplicar punição. sacralidade de caráter como “servos públi­
Vingador. Do gr. ekdikos, “vingador”. Há cos de Deus”.
apenas mais uma ocorrência desta palavra Atendendo, constantemente. Ou,
no NT, (ver lTs 4:6). Nos papiros gregos, o “com perseverança”, como a palavra é tra­
termo é geralmente utilizado para “um repre­ duzida em Romanos 12:12.
sentante legal”. A este serviço. Ou seja, o serviço de
Para castigar. Literalmente, “para a ira”. Deus descrito nos v. 3 e 4.
Como “ministro de Deus”, cabe ao estado 7. Portanto (ARC). Evidências textuais
aplicar a punição sobre os malfeitores (v. 2; apoiam (cf. p. xvi) a omissão desta palavra.
Rm 12:19). Alguns comentaristas consideram que este
5. Portanto (ARC). Refere-se aos qua­ versículo é a conclusão da argumentação de
tro versículos anteriores, em que Paulo apre­ Paulo sobre o dever dos cristãos de obede­
senta as razões para a obediência. cer ao Estado. Neste caso, entendem que

690
ROMANOS 13:9

“todos” se refere às autoridades. Outros, no e de espírito (cf. Rm 2:28, 29). Não se fala
entanto, interpretam este versículo como de cumprimento exterior, mas do amor sin­
uma afirmação do princípio geral, aplicável cero, que é o cumprimento da lei (Rm 13:10).
tanto à seção anterior como às seguintes. Os judeus foram lentos para crer e praticar
Nesse caso, “todos” refere-se a pessoas, e a essa verdade fundamental, apesar dos cla­
máxima de Paulo seria: “pagai a todos o que ros ensinamentos de Moisés sobre o assunto
lhes é devido”. (ver Lv 19:18, 34; Dt 6:5; 10:12). Eles trans­
Tributo. Do gr. phoros, “imposto”, “dever”. formaram a lei do amor de Deus num código
Nos papiros, encontra-se o sentido de “alu­ rígido de requisitos legais sem vida. Eles esta­
guel” (comparar com Lc 20:22). vam prontos a dar o dízimo, mesmo da hor­
Imposto. Do gr. telos (ver com. de telã, do endro e do cominho, mas passavam
Mt 17:25). por alto as questões mais importantes da lei:
Respeito. Do gr. phobos, significando a fé, a justiça, a misericórdia e o amor de
aqui o respeito com que cada autoridade deve Deus (Mt 23:23; Lc 11:42). Por isso, Jesus
ser considerada, não medo no sentido de procurou revelar mais uma vez o verdadeiro
temor ou terror (comparar com lPe 2:18; 3:2). propósito dos mandamentos do Pai. Ele
Honra. Comparar com lPe 2:17. Na épo­ ensinou que todos os mandamentos se resu­
ca de Paulo, para os judeus, os agentes do go­ mem no amor (Mt 22:37-40; Mc 12:29-34;
verno romano habilitados a coletar impostos Lc 10:27, 28), e que a marca distintiva de um
e taxas eram, no mínimo, objeto do ódio e discípulo obediente é o amor aos semelhan­
desprezo. Portanto, o conselho do apóstolo de tes (Jo 13:34, 35).
que os cristãos de Roma deviam não apenas Lei. Ver com. de Rm 2:12. Embora as
pagar tributo, mas também dar a devida hon­ referências a mandamentos específicos do
ra e o respeito a seus governantes estava em decálogo (Rm 13:9) indiquem que Paulo
contraste com o crescente sentimento de re­ tinha essa lei em mente, a ausência do
belião que agitava os judeus prestes a atrair artigo “a” no original, junto a “lei”, sugere
destruição sobre a própria nação (ver Josefo, que ele podia estar falando de “lei” como
Guerra dos Judeus, 11.13.4-7 [258-270]). um princípio. Assim como pecado é a deso­
8. A ninguém fiqueis devendo. O cris­ bediência à lei, ou “iniquidade” (ljo 3:4,
tão deve pagar tudo o que deve, mas há uma ARC; ver com. ali), da mesma forma, ao
dívida que não pode quitar plenamente: o contrário, o amor é, literalmente, “o cum­
amor para com os semelhantes. primento da lei” (Rm 13:10).
Ameis uns aos outros. O amor mútuo 9. Pois isto. Ou seja, os mandamen­
é uma obrigação infinita, visto que sempre tos que Paulo cita. Quem ama o próximo
há a oportunidade para fazer o bem. não vai roubá-lo nem tirar sua vida, nem
Ama o próximo. Literalmente, “ama o cobiçar seus bens; não vai dar falso teste­
outro”. munho a seu respeito ou cometer adultério
Tem cumprido. Ouem ama os seme­ com sua esposa.
lhantes cumpre a intenção e o propósito Falso testemunho (ARC). Evidências
da lei. Todos os mandamentos de Deus textuais (cf. p. xví) favorecem a omissão deste
estão fundamentados no princípio do amor mandamento. Ele pode ter sido acrescen­
(Mt 22:34-40; cf. Rm 13:9). Portanto, Sua tado por um copista para completar a lista
lei não pode ser perfeitamente obedecida por familiar da segunda tábua dos mandamen­
mera conformidade exterior à letra. A verda­
628

tos. No entanto, o fato de Paulo não fazer


deira obediência é uma questão de coração nenhuma tentativa de apresentar uma lista

691
13:10 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

completa é indicado pelas palavras, “e se há Despertardes. Evidências textuais (cf.


qualquer outro mandamento”. A ordem dos p. xvi) apoiam a variante “acordarem” (NTLH).
mandamentos é diferente do original (Ex Sono. O preparo necessário para o
20:13-15), sendo o sétimo colocado antes do grande dia de Deus exige dos cristãos vigi­
sexto (a mesma disposição ocorre em Mc lância. Na parábola das dez virgens, as moças
10:19; Lc 18:20; Tg 2:11; a ordem regular é “foram todas tomadas de sono e adormece­
encontrada em Mt 19:18). Provavelmente, ram” (Mt 25:5; cf. lTs 5:6).
Paulo estivesse seguindo a ordem de um Salvação está [...] mais perto. Por
manuscrito da LXX. A ordem que segue é a “salvação”, Paulo se refere à vinda de
do Códice Vaticano, em Deuteronômio 5:17. Cristo em poder e glória, e tudo o que
Em Êxodo 20:13 a 15, o mesmo manuscrito ele já havia descrito como a ocorrer nesse
coloca o sétimo mandamento em primeiro evento: “a revelação dos filhos de Deus”
lugar na série dos cinco últimos, depois o (Rm 8:19), “a redenção do nosso corpo”
oitavo e em seguida, o sexto. (v. 23) e a libertação da natureza “do cati­
Tudo nesta palavra se resume. Do gr. veiro da corrupção, para a liberdade da gló­
anake-phalaioõ, “resu me”. ria dos filhos de Deus” (v. 21).
Amarás. Uma citação de Lv 19:18 (ver Cremos. Ou seja, inicialmente cremos.
com. a li). No grego, o tempo deste verbo aponta ao pas­
10. O amor não pratica. Ver com. de sado, quando se aceitou inicialmente a fé (cf.
ICo 13:4-6. At 19:2; ICo 3:5; 15:2). A constante expec­
Cumprimento. Do gr. plêrõma, 'cum­ tativa da vinda do Senhor foi a atitude de
primento”, "preenchimento” (v. 8). espírito que Cristo ordenou em suas repeti­
A lei. Literalmente, "lei” (ver com. do v. 8). das advertências (cf. Mt 24). Desde o prin­
11. Digo isto. Literalmente, “e isto”. cípio, essa expectativa foi qualificada pela
A expressão lembra a injunção anterior de cautela: “daquele dia e hora ninguém sabe”
nada dever além do amor, que é o resumo dos (Mt 24:36), e Paulo não havia se esquecido
deveres cristãos prescritos nos cap. 12 e 13. dessa precaução (ver lTs 5:1, 2; 2Ts 2:1, 2).
Como um motivo urgente para o cumpri­ No entanto, sua expectativa daquele grande
mento de seus deveres, Paulo apela para dia não estava menos viva (cf. lTs 4:15, 17;
o que sempre foi um dos incentivos mais ICo 15:51, 52). Outros escritores do NT com­
fortes para a vida cristã: a crença na pro­ partilhavam a mesma expectativa (ver IPe
ximidade da segunda vinda de Cristo (cf. 4:7; 2Pe 3; ljo 2:18; Ap 22:12, 20; cf. Ev, 695;
ICo 7:29; Hb 10:25, 37; iPe 4:7). AA, 265).
Tempo. Do gr. hairos. Este termo não se O fato de que o tempo tem se estendido
aplica ao tempo em geral, mas a um tempo mais do que o esperado não significa que
definido, medido, ou fixo, ou a um período a palavra de Deus falhou. Há um trabalho a
ou época críticos (ver com. de Mc 1:15; cf. ser feito, e há condições a serem cumpri­
ICo 7:29; Ap 1:3). Os crentes de Roma não das antes que Cristo possa vir (ver Ev, 694-
podiam deixar de estar cientes do momento 697). Entretanto, um contínuo e vital senso
crítico em que viviam. Assim, Paulo os exorta da brevidade do tempo e da iminência do
a repelir toda indiferença e indolência, dar retorno de Cristo é a motivação indispen­
fim à indulgência própria e a se revestirem sável para completar o trabalho necessário
“do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13:14). e atender as condições exigidas. Pois, con­
Já é hora. Do gr. hõra êdê, “a hora já é” tinua sendo verdade que, para os que dor­
(cf. Mt 24:44; 25:13). mem indiferentes, o dia do Senhor virá como

692
ROMANOS 13:14

ladrão de noite, e “de nenhum modo esca­ vivesse sempre na luz. Ele é filho do dia, não
parão” (lTs 5:3). da noite (lTs 5:5), e deve andar como filho da
12. Noite. Tendo comparado a atual con­ luz (Ef 5:8).
dição espiritual de seus leitores ao “sono”, Orgias. Do gr. kõmoi, “diversões”, “fes-
Paulo continua a figura, contrastando a vida tanças”, “farras” (cf. G1 5:21; lPe 4:3).
presente com a que está por vir, como a noite Impudicícias. Do gr. koitai, “devassi­
com o dia (cf. Hb 10:25). dão”, “imoralidade”.
Deixemos. Do gr. apotithêmi, “deixar Dissoluções. Do gr. aselgeiai, “sensua­
de lado”, “despojar-se”. Esta palavra é usada lidade”, “libertinagem”, “indecência” (cf.
várias vezes no NT para descrever o aban­ 2Co 12:21; G1 5:19). Os pecados dessa lista
dono de maus hábitos (cf. Ef 4:22, 25; Cl 3:8; prevaleciam entre os pagãos no tempo de
629

►Hb 12:1; Tg 1:21; lPe 2:1). Paulo (Rm 1:24-31), e não estavam limitados
Obras das trevas. Representadas aqui a eles (ver Rm 2:3; 21-24).
como a roupa que deve ser retirada. Em seu Contendas. Do gr. eris, “brigas”.
lugar, o cristão deve vestir a armadura da ver­ Ciúmes. Do gr. zelos, “inveja”.
dade e da justiça, para estar pronto para a luz 14. Revesti-vos. No v. 12, o cristão
do dia de Cristo, que está raiando. é exortado a se vestir “das armas da luz”.
Armas. Do gr. hopla (ver Jo 18:3; 2Co Então, Paulo representa o próprio Cristo co­
10:4). E traduzido por “instrumentos”, em mo sendo a armadura do cristão. A vida
Romanos 6:13 (comparar com a descrição da com a qual ele estava vestido devia ser con­
armadura do cristão, em Ef 6:11-18). tinuamente renovada na experiência de
Da luz. As “armas da luz” são assim crescimento diário em santidade (Ef 4:24;
designadas para contrastá-las com as “obras Cl 3:12-14). Cada novo passo nesse desen­
das trevas”. Os cristãos são chamados “das volvimento pode ser considerado um novo
trevas para a Sua maravilhosa luz” (lPe 2:9). revestir-se de Cristo, e o cristão que perse-
São os “filhos da luz” (lTs 5:5) que travam a vera nessa experiência transformadora imi­
batalha espiritual com as armas da luz. tará mais e mais perfeitamente a vida e o
13. Andemos. Ou seja, vivamos, caráter de Cristo, e o refletirá para o mundo
comportemo-nos. (ver 2Co 3:2, 3; Pj, 69; cf. G1 4:19).
Dignamente. Do gr. euschêmonõs, A carne. Ou seja, a natureza depravada
literalmente, “de boa maneira”, portanto, (Rm 8:1-13). Devem ser buscadas provisões
“graciosamente”, “decentemente”, “honra- para as necessidades do corpo, mas o cristão
damente”. A palavra é traduzida também não deve condescendcr com a satisfação de
como “decência” e “dignidade” (ICo 14:40; emoções e desejos profanos. A vida de luxo
lTs 4:12). e autossatisfação estimula os impulsos car­
Como em pleno dia. Os ímpios pro­ nais que o cristão deve mortificar (Rm 6:12,
curam esconder seus atos de violência e luxú- 13; 8:13). Portanto, Paulo adverte os cren­
ria na calada da noite (lTs 5:7; Ef 5:11, 12). tes a não alimentar os pensamentos com
Mas o cristão deve se comportar como se essas coisas.

NOTA ADICIONAL A ROMANOS 13

Alguns dos escritores do NT parecem falar da vinda de Cristo como um evento a ocorrer
imediatamente. Vários textos são citados como exemplos típicos desse pensamento (Rm 13:11,
12; ICo 7:29; Fp 4:5; lTs 4:15, 17; Hb 10:25; Tg 5:8, 9; lPe 4:7; IJo 2:18).

693
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Alguns se apressam em concluir que os escritores bíblicos estavam confusos ou, pelo
menos, que nada se pode conhecer quanto ao tempo da vinda de Cristo. Mas o assunto não
requer essa conclusão.
Certos fatos se destacam na discussão bíblica sobre o fim do mundo e a vinda de Cristo.
E, à luz dos mesmos, pode-se acreditar ser possível uma conclusão coerente acerca da ins­
piração das Escrituras e do segundo advento de Cristo. Esses fatos são os seguintes:
1. Os escritores bíblicos sempre falam da certeza do advento. Isso é verdade tanto no AT
y- quanto no NT. Qualquer leitor da Bíblia que tomar suas palavras em seu sentido mais evi­
630

dente concluirá que “o dia do Senhor virá” (2Pe 3:10, ARC).


2. Os escritores bíblicos falam sobre o assunto tão dominados pela grandeza, glória e natu­
reza culminante do evento para cada pessoa e para toda a criação que muitas vezes referem-se
a isso como se fosse o único grande evento por vir. A luz resplandecente do dia de Deus
parece excluir tudo mais dos olhos e da mente do profeta. O leitor tem a nítida impressão
de que o escritor inspirado considera tudo o que precede o advento como sendo de menor
importância, um prólogo para o grande clímax “para o qual se move toda a criação”. Na ver­
dade, muitas vezes, ele pode sentir como se o grande dia estivesse exatamente à sua frente.
Essa vivida apresentação do segundo advento começou com Enoque, “o sétimo depois
de Adão”, que declarou aos ímpios em sua época: “Eis que veio o Senhor entre suas santas
miríades, para exercer juízo contra todos” (Jd 14, 15). Não há nada no contexto para suge­
rir que Enoque entendesse que a vinda do Senhor ocorrería vários milhares de anos mais
tarde. Na verdade, ele pode até não ter sabido disso. Foi-lhe revelado que o Senhor viria cm
juízo, nada mais importava.
3. Os escritores bíblicos enfatizam que o dia do Senhor virá repentinamente, de forma
inesperada. As afirmações de Cristo são a melhor exposição disso. Ele disse: “Portanto,
vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor” (Mt 24:42). “Acautelai-vos por
vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com
as consequências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para que
aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço. Pois há de sobrevir a todos
os que vivem sobre a face de toda a Terra. Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que pos­
sais escapar de todas estas coisas que têm de suceder e estar em pé na presença do Filho
do Homem” (Lc 21:34-36).
Paulo ecoa as palavras do Senhor: “O Dia do Senhor vem como ladrão de noite” (lTs 5:2).
Pedro escreve de maneira semelhante: “Virá [...] como ladrão, o Dia do Senhor” (2Pe 3:10).
Foi esse fato da brevidade e da imprevisibilidade da segunda vinda, juntamente com
a certeza do evento que deu à pregação do advento a ênfase de iminência, pelo menos
potencial mente.
O Senhor não considerou apropriado revelar o “dia e hora” (Mt 24:36) de Sua vinda e pediu
a Seus seguidores constante vigilância para que aquele dia não viesse sobre eles como “ladrão”.
Diante disso, que mais se deve esperar, senão que os escritores do NT escrevessem sobre o
advento com o tom de iminência? Isso não traz nenhuma sombra sobre sua inspiração. Por
revelação, e por instrução direta de Cristo, eles sabiam que Ele virá outra vez, que Sua vinda
será precedida por tempos tumultuados, que será repentina e inesperada, e que eles e aque­
les a quem ministravam deveriam estar em constante vigilância. Mas não lhes foi revelado o
“dia e hora”. Assim, com essa única limitação sobre a revelação, eles apresentaram aos cren­
tes a exortação constante e o alerta sobre o dia do Senhor.

694
ROMANOS

Fica evidente que, pelo plano de Deus, os profetas não deveríam ter conhecimento acerca
de datas objetivas para a segunda vinda de Cristo. O Senhor, antes da ascensão, silenciou
os questionamentos dos discípulos quanto ao momento de suas ações futuras, declarando:
“Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela Sua exclusiva auto­
ridade” (At 1:7).
4. Os autores bíblicos não escreveram simplesmente para seu tempo ou para deter­
minada congregação à qual uma carta, por exemplo, seria destinada. Se assim fosse, a
relevância das Escrituras teria terminado com a geração que recebeu as mensagens dos
autores guiados por Deus. Em vez disso, eles escreveram, sob inspiração e, sem dúvida,
às vezes, sem estar conscientes disso, a todas as gerações, até que o Senhor retorne.
E verdade que algumas coisas que eles escreveram, sobre a circuncisão por exemplo, tive­
ram relevância para a geração deles, enquanto outras partes, ao contrário, têm cada vez
mais relevância conforme o clímax da história terrestre se aproxima.
O fato de os escritores bíblicos terem escrito para exortação, advertência e instrução a -<£
todos os que viverem até o segundo advento, lança mais luz sobre a questão das declarações
do NT que refletem imediatismo. E verdade que as mensagens, vistas no contexto histórico,
são dirigidas a um grupo particular vivendo naquele momento. A maior parte do material
das Escrituras é colocada em um contexto histórico de determinadas pessoas e determina­
dos contextos passados.
Mas, apesar de uma declaração ser feita a determinados crentes, ela pode se aplicar tanto
a eles quanto a seus descendentes espirituais. Quando Cristo enumerou aos discípulos cer­
tos eventos-chave que precederíam Sua vinda e que servem como sinais do acontecimento,
Ele cobriu um período de cerca de dois milênios. Quando começou a falar da queda de
Jerusalém, Ele disse: “Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o pro­
feta Daniel, no lugar santo...” (Mt 24:15). O pronome “vós” refere-se aos discípulos, a quem
Ele estava falando em nível imediato. Mas Ele continua discutindo a “grande tribulação”,
da qual Daniel falou em termos de profecia, a qual cobriría até o século 18, e segue com
a exortação: “Então, se alguém vos disser...” (v. 23). Então, pode-se dizer que, nesse ponto,
Cristo estava alertando os doze discípulos quanto a enganos ameaçadores. Mas todo o con­
texto leva a entender que Ele falava também, e ainda mais especificamente, a Seus segui­
dores que viveriam do século 18 em diante.
Assim, as Escrituras falam à congregação imediata no tempo do escritor, mas em cer­
tos textos elas se referem também, e talvez mais particularmente, a uma geração posterior.
Essa compreensão nos protege contra conclusões apressadas sobre a inspiração do escritor
quando ele fala dos eventos futuros.
Parece evidente que, imediatamente após a ascensão, “os irmãos”, inclusive os apósto­
los, pensaram que Cristo podería voltar em seus dias. “Então, se tornou corrente entre os
irmãos o dito de que aquele discípulo [João] não morrería” (Jo 21:23), mas que viveria para
ver a volta do Senhor (cf. At 1:6, 7).
No entanto, há evidências no NT de que Deus deu luz aos autores inspirados quanto
ao tempo que transcorrería até a segunda vinda de Cristo. Em sua primeira carta aos
Tessalonicenses, Paulo escreveu sobre o advento e disse: “nós, os vivos, os que ficarmos até
à vinda do Senhor” (lTs 4:15). Mas Paulo desejava que os tessalonicenses concluíssem que
o dia do Senhor estava à vista deles? Evidentemente, alguns concluíram assim, e na sua
segunda carta ele voltou ao assunto: “Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso Senhor

695
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Jesus Cristo e à nossa reunião com Ele, nós vos exortamos a que não vos demovais da vossa
mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por
epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o Dia do Senhor” (2Ts 2:1, 2).
Em seguida, ele passa a descrever acontecimentos que devem ocorrer antes do advento
(v. 3-12). Um fato importante seria certa “apostasia” (v. 3). Mas tal “apostasia”, Paulo explica
em outro texto, se daria sobretudo depois de sua morte (At 20:28-30; 2Tm 4:6-8). Tendo
delineado para eles alguns acontecimentos que precederíam o advento, ele os exorta à fir­
meza e constância (2Ts 2:15-17).
Em sua cela da morte, Paulo escreveu a seu filho espiritual Timóteo: “E o que de minha
parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e tam­
bém idôneos para instruir a outros” (2Tm 2:2). E claro que Paulo estava instruindo Timóteo
de que haveria algum tempo pela frente antes que Cristo viesse.
Parece, portanto, que quando usou “nós” (lTs 4:15), Paulo não estava se incluindo, mas
falando daqueles cristãos que estariam vivos nos últimos dias. O “nós” indicaria que ele per­
tencia à congregação ininterrupta de fiéis ao longo dos séculos.
Pedro escreveu: “Ora, o fim de todas as coisas está próximo; sede, portanto, criteriosos
e sóbrios a bem das vossas orações” (lPe 4:7). Será que essas palavras se aplicam à congre­
gação imediata a quem ele escreveu? A resposta parece ser negativa, pois ele diz em sua
segunda epístola, escrita não se sabe quanto tempo após a primeira: “Para que vos recor­
deis das palavras cjue, anteriormente, foram ditas pelos santos profetas, bem como do man­
damento do Senhor e Salvador, ensinado pelos vossos apóstolos, tendo em conta, antes de
632

► tudo, que, nos últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo
as próprias paixões e dizendo: Onde está a promessa da Sua vinda? Porque, desde que os
pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação” (2Pe 3:2-4).
E mais razoável supor que essas palavras de Pedro sugerem que ele estava ansioso por algum
evento futuro que produziría certo tipo de escarnecedores.
Ao discutir a segunda vinda, Pedro convida os crentes a se recordarem “das palavras que,
anteriormente, foram ditas pelos santos profetas”. Antes, nessa mesma epístola, ele declarou:
“Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como
a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça
em vosso coração” (2Pe 1:19). Fica claro que Pedro ensinou que algum período de tempo
devia transcorrer antes do segundo advento. Os crentes deviam seguir a luz profética “até
que o dia clareie”. Semelhantemente, Paulo declarou aos Tessalonicenses: “Irmãos, relativa­
mente aos tempos e às épocas, não há necessidade de que eu vos escreva; pois vós mesmos
estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite. Quando
andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm
as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão. Mas vós, irmãos,
não estais em trevas, para que esse Dia como ladrão vos apanhe de surpresa” (lTs 5:1-4).
Esse apelo dos apóstolos aos escritos dos profetas repercute as palavras de Cristo a respeito
do que “o profeta Daniel” havia escrito dos eventos futuros: “quem lê, entenda” (Mt 24:15).
5. Nesse cenário de exortação aos fiéis para guiar os passos pela luz da profecia, deve-se
reconhecer que a Bíblia contém certas profecias sobre a vinda do Senhor, as quais tratam
de grandes períodos de tempo e que permitem saber quando o advento estaria “próximo, às
portas” (Mt 24:33). Trata-se particularmente dos livros de Daniel e do Apocalipse. Na sabe­
doria de Deus, na melhor das hipóteses, esses livros foram pouco entendidos nos primeiros

696
ROMANOS

séculos da era cristã. De fato, algumas das profecias de Daniel deveríam ser “encerradas
e seladas até ao tempo do fim” (Dn 12:9). Em grande parte, elas eram destinadas para o
tempo do fim, quando seriam compreendidas.
Hoje a luz brilha das páginas de Daniel e do livro do Apocalipse. Suas profecias de tempo
permitem conhecer, de uma forma que não era possível antes, “os tempos e as épocas” pro­
féticos (lTs 5:1). Decorridos os grandes períodos proféticos, as profecias apocalípticas per­
mitem concluir que o fim de todas as coisas, de fato, está próximo. Com a convicção dessas
profecias cumpridas, tendo chegado o tempo do fim, é que se pode justificar a proclama­
ção com a certeza da mensagem sobre a proximidade do dia de Deus.

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

1 -PP, 719; T5, 712 10- GC, 467; MDC, 18 T8, 18


7 - T4, 93 11 - Ev, 219; T5, 88, 162, 14 - CES 95, 107;
8 - LA, 393; CM, 257; 707; T8, 252 CPPE, 103;
Tl, 220; T2, 435; 11- 14-CS, 579 FEC, 290, 465;
T5, 181 12- CM, 231; T5, 382; TM, 171; BS, 49

Capítulo 14
3 Os crentes não devem desprezar nem condenar uns aos outros. 13 Devem cuidar
para não servir de escândalo. 15 O apóstolo mostra que a atitude
de condenar é errada por diversas razões.

1 Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, 8 Porque, se vivemos, para 0 Senhor vivemos;
para discutir opiniões. se morremos, para o Senhor morremos. Quer,
2 Um crê que de tudo pode comer, mas o pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor.
débil come legumes; 9 Foi precisamente para esse fim que Cristo
3 quem come não despreze o que não come; morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto
e o que não come não julgue o que come, por­ de mortos como de vivos.
que Deus o acolheu. 10 Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu,
3 !' 4 Quem és tu que julgas 0 servo alheio? Para por que desprezas 0 teu? Pois todos comparece­
o seu próprio senhor está em pc ou cai; mas estará remos perante 0 tribunal de Deus.
em pé, porque 0 Senhor é poderoso para o suster. 1 1 Como está escrito: Por Minha vida, diz o
5 Um faz diferença entre dia e dia; outro julga Senhor, diante de Mim se dobrará todo joelho,
iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem e toda língua dará louvores a Deus.
definida em sua própria mente. 12 Assim, pois, cada um de nós dará contas
6 Quem distingue entre dia e dia para o de si mesmo a Deus.
Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, 13 Não nos julguemos mais uns aos outros;
porque dá graças a Deus; e quem não come para pelo contrário, tomai o propósito de não pordes
o Senhor não come e dá graças a Deus. tropeço ou escândalo ao vosso irmão.
7 Porque nenhum de nós vive para si mesmo, 14 Eu sei e estou persuadido, no Senhor
nem morre para si. Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma

697
14:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

impura, salvo para aquele que assim a conside­ 20 Não destruas a obra de Deus por causa
ra; para esse é impura. da comida. Todas as coisas, na verdade, são lim­
15 Se, por causa de comida, o teu irmão se pas, mas é mau para o homem o comer com
entristece, já não andas segundo o amor frater­ escândalo.
nal. Por causa da tua comida, não faças perecer 21 E bom não comer carne, nem beber
aquele a favor de quem Cristo morreu. vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que
16 Não seja, pois, vituperado o vosso bem. teu irmão venha a tropeçar ou se ofender ou se
17 Porque o reino de Deus não é comida nem enfraquecer.
bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito 22 A fé que tens, tem-na para ti mesmo pe­
Santo. rante Deus. Bem-aventurado é aquele que não
18 Aquele que deste modo serve a Cristo é se condena naquilo que aprova.
agradável a Deus e aprovado pelos homens. 23 Mas aquele que tem dúvidas é condena­
19Assim, pois, seguimos as coisas da paz e tam­ do se comer, porque o que faz não provém de fé;
bém as da edificação de uns para com os outros. e tudo o que não provém de fé é pecado.

1. Acolhei. Do gr. proslambanõ, “tomar dessas três distinções. Isso se torna evidente
a si mesmo”. Os que são “débeis na fé”, no quando se estuda este capítulo à luz de cer­
entanto, devem ser recebidos na comunhão tos problemas religiosos e afins que perturba­
cristã como irmãos, porque Cristo assim os vam alguns dos cristãos do primeiro século.
recebeu e acolheu (Rm 15:7). Paulo menciona diversos problemas
Débil na fé. Ou seja, aquele que tem que podem causar mal-entendidos entre
compreensão limitada dos princípios da jus­ os irmãos, como alimentação (v. 2) e obser­
tiça. Ele está ansioso para ser salvo e está vância de dias (v. 5, 6). Em 1 Coríntios 8,
disposto a fazer tudo o que crê que lhe é o problema do irmão amadurecido versus o
exigido. Mas, na imaturidade de sua expe­ débil, no que se refere à alimentação, tam­
riência cristã (ver Hb 5:11-6:2) e, provavel­ bém é mencionado. A epístola aos Coríntios
mente, também como resultado da antiga foi escrita menos de um ano antes da carta
educação e crença, ele tenta tornar certa sua aos Romanos. Parece razoável concluir que,
salvação pela observância de regras e regula­ em 1 Coríntios 8 e Romanos 14, Paulo
mentos que, na realidade, não lhe são obri­ esteja lidando com o mesmo problema. Em
634

gatórios. Para ele, essas normas assumem Coríntios, o problema é identificado como a ◄
grande importância. Ele as considera obriga­ ingestão de alimentos sacrificados aos ído­
tórias para a salvação e se sente angustiado e los. De acordo com os antigos costumes, os
confuso quando vê outros cristãos, especial- sacerdotes pagãos praticavam um extenso
mente aqueles que parecem ser mais expe­ comércio dos sacrifícios de animais ofere­
rientes, não compartilharem de suas idéias. cidos aos ídolos. Paulo disse aos conver­
As declarações de Paulo em Romanos sos, tanto do judaísmo como do paganismo,
14 foram interpretadas de várias maneiras, em Corinto que, na medida em que os ído­
e têm sido usadas por alguns: (1) para depre­ los não eram nada, também nada havia de
ciar a alimentação vegetariana, (2) para abo­ errado, em si, em comer alimentos dedi­
lir a distinção entre carnes limpas e imundas cados a eles. No entanto, ele explica que,
e (3) para remover toda distinção entre dias, devido à experiência prévia, treinamento e
abolindo, assim, o sábado do sétimo dia. No diferenças de discernimento espiritual, nem
entanto, Paulo não está fazendo nenhuma todos tinham esse “conhecimento” e podiam

698
ROMANOS 14:1

não sentir a consciência livre para consumir do antigo código (At 21:20-27). Em face das
esses alimentos (ver com. de ICo 8). Assim, circunstâncias, parecia melhor que as práti­
Paulo exortou os que não tinham problemas cas da lei cerimonial judaica desaparecessem
quanto a esses alimentos a que não colocas­ gradualmente, conforme a mente e a cons­
sem uma pedra de tropeço no caminho de ciência fossem iluminadas. Assim, era inevi­
um irmão mediante o consumo dos mesmos tável que entre os cristãos judeus surgissem
(Rm 14:13). Sua admoestação, portanto, está dúvidas sobre a conveniência de observar
em harmonia com a decisão do concilio de certos “dias” e feriados judeus, em conexão
Jerusalém e, sem dúvida, lança luz sobre pelo com suas festas anuais (ver Lv 23:1-44; ver
menos uma das razões pelas quais o concilio com. de Cl 2:14 -17).
tomou essa posição sobre o assunto (ver com. Diante desses fatos, torna-se evidente
de At 15). Por receio de escandalizar outros, que Paulo, em Romanos 14, não depre­
alguns cristãos se abstinham de alimentos cia a alimentação de “legumes” (vegetais),
cárneos, o que significa que sua alimenta­ nem rejeita a milenar distinção bíblica
ção era restrita a “legumes”, isto é, vegetais entre carnes limpas e imundas, nem exclui
(cf. Rm 14:2). o sábado do sétimo dia da lei moral (ver
Paulo não trata de alimentos prejudi­ com. de Rm 3:31). Portanto, quem alega
ciais à saúde. Ele não afirma que o cris­ isso enxerga nos argumentos de Paulo algo
tão amadurecido na fé pode comer qualquer que ele não defende.
coisa, independentemente do efeito sobre De fato, Paulo não ensina nem mesmo
seu bem- estar físico. Ele já havia deixado sugere a abolição do sábado do sétimo dia.
claro (Rm 12:1) que o verdadeiro crente fará Isso tem sido reconhecido por comentaris­
com que seu corpo seja conservado santo e tas como Jamieson, Fausset e Brown, em seu
agradável a Deus como um sacrifício vivo. comentário sobre Romanos 14:5 e 6: “A partir
Aquele que é maduro na fé considera um ato desta passagem sobre a observância de dias,
de adoração espiritual o manter a boa saúde Alford infelizmente conclui que essa lingua­
(Rm 12:1; ICo 10:31). gem não poderia ter sido usada se a lei do
Outro fato que lança luz sobre a questão é sábado estivesse em vigor sob o evangelho,
que, à primeira vista, muitos cristãos judeus sob qualquer forma. Certamente não poderia,
compreendiam apenas vagamente que a lei se o sábado fosse meramente um dos dias das
cerimonial tinha sido cumprida em Cristo festividades judaicas; mas não é apropriado
(ver com. de Cl 2:14-16) e que, a partir de considerar assim apenas porque era obser­
então, já não era obrigatória. Na verdade, vado sob o regime mosaico. E, certamente,
os primeiros cristãos não foram chamados a considerando que o sábado era mais antigo
cessar abruptamente a participação nas fes­ que o judaísmo; que, mesmo sob o judaísmo,
tas judaicas anuais, nem a repudiar de uma era consagrado entre as santidades eternas do
só vez todos os rituais cerimoniais. Os judeus decálogo, proferidas, como não foi nenhuma
deveriam observar sete sábados cerimo­ outra parte do judaísmo, entre os terrores
niais anuais. O próprio Paulo participou de do Sinai; e que o próprio Legislador disse,
uma série de festas depois de sua conversão quando esteve na Terra: ‘O Filho do homem
(At 18:21; etc.). Embora houvesse ensinado é senhor também do sábado' (Mc 2:28) — será
que a circuncisão não era nada (ICo 7:19), difícil demonstrar que o apóstolo queria dizer
ele providenciou para que Timóteo fosse cir- que devia ser classificado por seus leitores
cuncidado (At 16:3) e concordou em cumprir entre aqueles dias festivos judaicos que desa­
um voto de acordo com as determinações pareceríam, e que só os 'débeis' poderíam

699
14:2 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

imaginar que estava em vigor, fraqueza que Julgue. A censura é muitas vezes uma
aqueles que tinham mais luz deveríam tole­ característica daqueles cuja experiência reli­
rar, só por amor.” giosa se fundamenta em grande parte no
Em Romanos 14:1 a 15:14, Paulo exorta cumprimento de exigências exteriores. As
os cristãos amadurecidos a levar em conta duas partes estão erradas; ambas revelam
► os problemas de seus irmãos débeis. Em orgulho espiritual, em vez de amor cristão.
Romanos 12 e 13, ele mostra que a fonte da Deus o acolheu. Ou seja, o irmão ama­
unidade e da paz na igreja é o genuíno amor durecido, que não tem critérios em comer de
cristão. Esse mesmo amor e respeito mútuos tudo (v. 2). A argumentação de Paulo é que o
assegurarão harmonia contínua entre o corpo crente que se abstém não deve condenar, por
de crentes, a despeito das opiniões divergen­ sua liberdade, aquele a quem Deus aceitou
tes e das restrições em matéria de religião. e recebeu em Sua igreja nessa liberdade (ver
Discutir opiniões. Ou, “disputas sobre ICo 10:29; G1 5:13). Se Deus perdoou peca­
opiniões”. Os crentes “débeis” são bem-vin­ dos desse crente e o aceitou como Seu filho,
dos à comunhão, mas não com a finalidade e uma vez que sua vida, em outros aspectos,
de criar controvérsias. Os irmãos amadure­ revela a presença do Espírito Santo, toda essa
cidos não são chamados a resolver ou julgar crítica está fora de lugar.
os critérios de quem seria débil na fé. Acolheu. Do gr. proslambanõ, “tomar a si
2. Crê. Ou, “tem fé” (ver com. de Rm mesmo”. Esta é a palavra traduzida por “aco­
3:3). O raciocínio de Paulo é que a fé man­ lher”, no v. 1.0 cristão deve “acolher” seu
tida por um lhe permite comer coisas que a irmão, assim como Deus o acolheu (Rm 15:7).
fé mantida por outro não lhe permite. 4. Tu que julgas. Paulo se dirige ao irmão
Legumes. Do gr. lachana, “vegetais” débil, uma vez que “julgas” corresponde ao
(ver com. do v. 1). Paulo não discute a conve­ “julgue” do v. 3.
niência de comer certos alimentos ou abster- Servo alheio. Ou, “servo de outro”,
se deles, mas ordena paciência e tolerância neste caso, de Deus ou de Cristo, depen­
nesses assuntos. “O reino de Deus não é dendo se “Deus” ou “Senhor” é aceito como
comida nem bebida, mas justiça, e paz, e o sujeito da última parte do versículo (cf.
alegria no Espírito Santo” (v. 17). O amadu­ v. 8, 9). A palavra grega usada aqui para
recido na fé vai “[seguirj as coisas da paz” “servo” (oiketês) é rara no NT, ocorrendo pou­
(v. 19) e vai tomar cuidado para que, por cas vezes (Lc 16:13; At 10:7; lPe 2:18). Ela
seus costumes de comer, beber ou qualquer dá o sentido de um “empregado doméstico”,
outra prática pessoal, não destrua a obra de diferente de um escravo comum, pois man­
Deus (v. 20) e aqueles pelos quais Cristo tém uma conexão mais estreita com a famí­
morreu (v. 15). lia. O crente “débil” (Rm 14:1) condena um
3. Despreze. Do gr. exouthenev, literal­ dos servos de Deus, alguém que é respon­
mente, “jogar fora como não sendo nada”, sável diante de Deus, e não diante do con­
portanto, “olhar para baixo”, “tratar com servo que o critica.
desprezo”. Os que tinham mais fé, natural­ Está em pé. Alguns entendem que
mente, seriam inclinados a olhar com des­ isto significa firmeza moral e espiritual (cf.
dém sobre a estreiteza dos “débeis na fé” ICo 16:13; Fp 1:27); outros, que significa
(v. 1), no que diz respeito aos alimentos. Isso, absolvição ou aprovação aos olhos de Deus
naturalmente, revelaria que a fé dos supos­ (cf. SI 1:5).
tamente amadurecidos ainda era deficiente, Cai. Em contraste com “está em pé”.
pois a pura fé atua pelo amor (G1 5:6). Alguns consideram esta uma falha moral e

700
ROMANOS 14:6

espiritual (cf. Rm 11:11, 22); outros, como recebeu. Entre os seguidores de Cristo não
condenação ou desaprovação no juízo. deve haver força nem compulsão. E o espí­
Os dois termos são utilizados no primeiro rito de amor e tolerância que deve prevale­
desses dois sentidos, em 1 Coríntios 10:12: cer. Os amadurecidos na fé devem “suportar
“Aquele [...] que pensa estar em pé veja que as debilidades dos fracos” (Rm 15:1), assim
não caia.” como Cristo tomou sobre Si as fraquezas de
Suster. Literalmente, “fazer ficar em pé”. todos. Não há espaço para a crítica daque­
Apesar das críticas de seu irmão censurador, les cujos pontos de vista e práticas podem
o crente que, pela fé, exerce sua liberdade ser diferentes, ou desprezo para com os que
cristã nos assuntos em questão será fortale­ ainda são “crianças” (Hb 5:13).
cido e apoiado por seu Mestre. Aquele cuja Opinião bem definida. Ou, “plena­
fé é “fraca” (v. 1) pode até temer que o irmão mente convencido” (ver com. de Rm 4:21).
?§► amadurecido esteja em grande perigo por Paulo não sugere que os cristãos não discutam
não compartilhar seus critérios. Mas Paulo assuntos sobre os quais pode haver discor­
sugere que, qualquer que seja o perigo, o dância. Ao contrário, ele insiste que os cren­
Mestre, que chamou o servo para a liber­ tes cheguem a conclusões claras e definidas.
dade (G1 5:13), tem poder para preservá-lo Mas, ao mesmo tempo, devem fazê-lo com
dos perigos que a liberdade envolve, peri­ amor por aqueles de opiniões diferentes. Não
gos esses que o irmão “débil” (v. 1) procura se deve privar a ninguém da liberdade de ter a
evitar por outros meios. Alguns, entretanto, própria posição quanto ao dever pessoal (com­
interpretam que esta frase se refere à absol­ parar com DTN, 550; Ed, 17).
vição no juízo. 6. Quem distingue. As quatro ocor­
Deus (ARC). Evidências textuais (cf. rências da palavra neste versículo são do
p. xvi) apoiam a variante “o Senhor” ou “o gr. 'phroneõ, que aqui significa “observar”,
Mestre”, mantendo a ideia do mestre e seu “estimar”. O termo é também traduzido por
servo, introduzida na primeira parte deste “mente”, “pôr as afeições sobre” (Fp 3:19;
versículo. Cl 3:2).
5. Julga. Do gr. krinõ, “julgar”, “avaliar”, Para o Senhor. O motivo de ambas
“aprovar”. Paulo discute então a observân­ as partes é o mesmo, seja na observância,
cia de dias especiais, outra causa de discór­ seja na negligência de um dia, no uso ou
dia e confusão entre os crentes (ver com. do na abstinência de alimentos. O irmão mais
v. 1; comparar com questão semelhante nas amadurecido dá graças a Deus por “todas
igrejas da Galácia [G1 4:10, 11] e de Colossos as coisas” (v. 2) e participa de seu alimento
[Cl 2:16, 17]). para a glória de Deus (cf. lCo 10:31). Seu
Os crentes cuja fé os capacita a aban­ irmão débil dá graças a Deus por aquilo que
donar imediatamente todos os feriados ceri­ come, e para a glória de Deus, abstém-se de
moniais não devem desprezar os outros cuja alimentos que possam ter sido sacrificados
fé é menos experiente. Nem, por sua vez, aos ídolos (ver com. de Rm 14:1).
estes últimos podem criticar os que lhes pare­ Não faz (ACF). Evidências textuais
cem liberais. Cada crente é responsável por (cf. p. xvi) apoiam a omissão da frase:
si diante de Deus (Rm 14:10-12). E o que “o que não faz caso do dia para o Senhor o
Deus espera de cada um de Seus servos é não faz”, o que fazem a maioria das versões.
que “esteja inteiramente convicto em sua pró­ O significado fica inalterado, pois a frase
pria mente” e siga conscientemente as repete, de forma negativa, o pensamento da
próprias convicções, de acordo com a luz que frase anterior.

701
14:7 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

7. Vive para si. Paulo expande então De mortos como de vivos. A inversão
como uma regra geral da vida o pensamento da ordem habitual destas palavras talvez seja
sugerido pela frase “para o Senhor”, no v. 6. devida à ordem das palavras sobre Cristo, na
Não é só na questão dos alimentos e dos primeira parte da frase. Mesmo na morte, o
dias especiais que o cristão faz tudo “para cristão pertence a Cristo, porque, quando
o Senhor”. E seu ohjetivo não viver “para si morre, adormece “em Jesus” (lTs 4:14; cf.
mesmo”, para o próprio prazer e de acordo Ap 14:13). “Os mortos em Cristo ressuscita­
com os próprios desejos, mas “para o Senhor”, rão” e, então, “estaremos para sempre com o
para Sua glória e de acordo com Sua von­ Senhor” (lTs 4:16, 17). Nem mesmo os que
tade (ver 2Co 5:14, 15). Toda a vida cristã rejeitam a Cristo podem escapar da res­
pertence ao Senhor (Rm 14:8) e, no devido ponsabilidade perante Ele pela morte. Pois
tempo, o cristão dará conta de si mesmo a todos os mortos ressuscitarão, seja “para a
Deus (v. 12). Portanto, o cristão deve viver ressurreição da vida”, seja “para a ressur­
como alguém que vai “[comparecer] perante reição do juízo” (Jo 5:29; cf. Ap 20:12, 13).
o tribunal de Deus” (v. 10). Naquele dia, “cada um de nós dará contas
As palavras deste versículo têm sido mui­ de si mesmo a Deus” (Rm 14:12).
tas vezes aplicadas à influência que as pes­ Este versículo é usado por alguns para
soas exercem sobre seus semelhantes. Deve defender que a alma é imortal e que a
ser lembrado, porém, que este não é o sen­ morte só transfere o crente de uma esfera
tido principal, como o contexto deixa evi­ de serviço consciente para outra. A inter­
dente. Paulo enfatiza o pensamento de que pretação éstá fora de sintonia com o res­
tudo o que o cristão faz, ele o faz com refe­ tante das Escrituras. A questão da natureza
rência ao Senhor. da alma deve ser determinada com base em
8. Somos do Senhor. Ou seja, perten- outras passagens que tratam da condição
► cemos a Cristo, pois Ele é o “Senhor tanto de da alma na morte, assunto que Paulo não
mortos como de vivos” (v. 9). Os débeis e os trata aqui (ver Jó 14:21; Ec 9:5; Jo 11:11).
amadurecidos na fé, igualmente na vida ou 10. Por que julgas [...]? A primeira
na morte, são responsáveis perante o Senhor, parte deste versículo tem ênfase no grego:
pois são propriedade adquirida para Ele (At “Mas tu, por que julgas teu irmão?” Ou, “por
20:28; ICo 6:20; Ef 1:14). Que direito alguém que tu desprezas teu irmão?” O que julga o
tem de julgar quem pertence a Cristo? irmão é o que “come legumes”, e o que des­
9. Para esse fim. Ou seja, a fim de que preza é o que conscientemente acredita que
Cristo Se torne Senhor de mortos e dos vivos. “pode comer de todas as coisas” (v. 2).
Ressurgiu (ACF). Evidências textuais Todos compareceremos. No texto
(cf. p. xvi) apoiam a variante “morreu e grego, a palavra “todos” está enfatizada.
reviveu”. Mediante Sua morte, Cristo Todos, débeis e experientes, estarão diante
adquiriu um povo. Mediante Sua ressur­ do tribunal divino. Considerando que todos
reição, Ele liberta os que comprou (ver os crentes são igualmente súditos e ser­
com. de Rm 4:25). Depois de Sua morte e vos de Deus, e que todos devem compare­
ressurreição, Cristo foi entronizado à des­ cer perante o mesmo tribunal, eles não têm
tra do Pai, e o domínio universal Lhe foi o direito de julgar uns aos outros. Esse jul­
entregue (ver Mc 14:62; 16:19; Ef 1:20-22; gamento usurpa uma prerrogativa de Deus
Fp 2:8-11; Hb 1:3). (Rm 14:10; cf. 2Co 5:10).
Para ser Senhor. Do gr. knrieuõ, “gover­ De Cristo (ARC). Evidências textuais
nar”, “tornar-se senhor de”. (cf. p. xvi) apoiam a variante “de Deus”.

702
ROMANOS 14:14

A redação “de Cristo” pode ter vindo da pas­ amadurecidos na fé, por amor, terão consi­
sagem paralela (2Co 5:10). Deus, o Pai, vai deração pelos sentimentos e pela consciência
julgar o mundo por meio de Cristo (cf. Rm de seus irmãos débeis, e terão cuidado para
2:16; cf. At 17:31). evitar ofendê-los ou confundi-los. Embora
11. Está escrito. Citação de Isaías seja verdade que, em matéria de consciên­
45:23, com algumas variações em relação cia, ninguém é responsável perante o outro,
ao hebraico. todos os cristãos são responsáveis pelo bem-
Todo joelho. Estas palavras enfatizam estar mútuo. Apesar de o cristão ser livre
o caráter universal do juízo final. para abandonar todos os critérios legalistas
Dará louvores. Do gr. exomologeõ, “reco­ do passado, o amor ao próximo lhe proíbe de
nhecer”, “louvar”. Este último significado é usar essa liberdade, se isso puder prejudicar
comum na LXX (ver lCr 29:13). Em Lucas um irmão “débil na fé” (Rm 14:1).
10:21, a palavra é traduzida como “graças”. 14. Eu sei. Paulo expressa a própria con­
No entanto, o significado alternativo “con­ vicção pessoal, esclarecida pelo Espírito,
fessar” ou “reconhecer” também é possível sobre a liberdade do cristão e o direito de
(cf. Tg 5:16: “confessai [...] os vossos peca­ rejeitar certos critérios que outros alimentam
dos”). Ambos os significados podem ser ade­ (cf. ICo 8:4). Por essa afirmação enfática,
quados ao contexto de Romanos 14:11. Na ele mostra que a consideração pelos débeis
citação original de Isaías, o juramento de (Rm 14:1) deve se basear em amor e não no
homenagem expresso pela palavra “jurar” (cf. reconhecimento de que esses critérios são
Js 23:7; 2Cr 15:14; Is 19:18) assinala a apre­ justificáveis.
sentação de todos ao Senhor e o reconheci­ No Senhor Jesus. A convicção de Paulo
mento solene de Sua soberania. brota de demorada comunhão com Cristo e
12. Assim. A ordem das palavras deste da iluminação do Espírito (comparar com
versículo, no grego, atribui ênfase à res­ Rm 9:1).
ponsabilidade de cada crente: “Assim, pois, Nenhuma coisa. Isto é, neste contexto,
cada um de nós de si mesmo dará contas os alimentos de que Paulo tratou (ver com.
a Deus.” do v. 1). A expressão “nenhuma coisa” não
Contas. Do gr. logos (ver com. de Rm 9:28). deve ser entendida em sentido absoluto.
Em questões de consciência, cada um é pes­ Frequentemente, as palavras transmitem
soalmente responsável diante de Deus. mais de um sentido, portanto, a definição
13. Não nos julguemos. Esta é a particular, em cada caso, deve ser determi­
segunda razão pela qual os crentes não nada pelo contexto. Por exemplo, quando
devem criticar uns aos outros. Paulo dá essa Paulo disse: “todas as coisas me são líci­
razão com um trocadilho. Nesta frase, ele tas” (ICo 6:12), sua declaração, se isolada
usa a palavra “julgar” no sentido de “deci­ do contexto, seria a declaração de um liber­
dir”, “determinar” (ver lCo 2:2; 2Co 2:1; tino. O contexto, que é de uma advertência
Tt 3:12). Se é que deve haver algum julga­ contra a imoralidade, proíbe imediatamente
mento, que não seja a crítica dos outros, mas essa dedução (ver com. ali). Da mesma
a determinação de não provocar a queda de forma, em Êxodo 16:4, a expressão “diaria­
um irmão. A primeira razão de Paulo para mente” pode ser interpretada no sentido de
não julgar é que as pessoas são responsáveis, todos os dias da semana. No entanto, o con­
não a si mesmas, mas a Deus, que é senhor texto mostra que o sábado estava excluído.
e juiz. A segunda razão é sua regra, repetida De si mesma. Os alimentos dos quais
muitas vezes, do amor cristão. Os crentes o “débil” (v. 1) se abstém de comer, mas que o

703
14:15 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

irmão amadurecido aceita, não são os tipos Andas. Ou, vives, comportas (cf. com.

639
de alimentos que são impuros em sua pró­ de Rm 13:13). 4

pria natureza, mas devem sua mancha aos Não [...] segundo o amor. Literalmente,
escrúpulos da consciência (ver com. do “não de acordo com o amor” (comparar com
v. 23). Paulo não dissipa todas as distinções Rm 13).
entre alimentos. A interpretação deve ser Não faças perecer. Seja o que for que
limitada aos alimentos específicos em dis­ influencie alguém a violar a consciência, isso
cussão e ao problema específico com o qual pode resultar na destruição de sua fé. A cons­
o apóstolo lida, ou seja, o tratamento simpá­ ciência, uma vez violada, fica enfraquecida.
tico daqueles cuja consciência parcial mente Uma violação pode levar a outra até que a
iluminada impede que façam uso de deter­ fé seja destruída. Portanto, o cristão que,
minados alimentos. por condescendência egoísta, mesmo sobre
Impura. Do gr. koinos, literalmente, algo que considera perfeitamente adequado,
“comum”. Este termo era usado para descre­ exerce influência tão destruidora, é culpado
ver as coisas que, apesar de “comuns” para o da perda de uma pessoa pela qual Cristo mor­
mundo, eram proibidas aos judeus (ver com. reu (cf. ICo 8).
de Mc 7:2). Por causa da tua comida. Literalmente,
Para esse fim é impura. A impureza “por tua comida” (ver com. de Mc 7:19).
não se encontra na natureza dos alimentos, Cristo morreu. Ele deu a vida para
mas na visão que o crente tem deles. O cris­ salvar os débeis (v. 1), e seus irmãos não
tão “débil” (v. 1) crê que não deve comer ali­ devem destruí-los por questão de indul­
mentos oferecidos aos ídolos, por exemplo, e gência sobre certos alimentos. Em com­
faz com que seja uma questão de consciên­ paração com o que Cristo fez, o sacrifício
cia a abstinência desses alimentos. Enquanto pedido é insignificante. Ele deu Sua vida.
mantém essa convicção, tal prática seria um Certamente, os cristãos amadurecidos na
erro para ele. Ele pode estar errado, pelo jul­ fé estarão dispostos a renunciar ao prazer
gamento de outro ponto de vista, mas não de alguma comida ou bebida favorita em
seria adequado que ele agisse em violação favor dos débeis.
do que ele conscientemente supõe que Deus 16. Seja [...] vituperado. Do gr.
requeira (v. 23). blasphêmeõ, “blasfemar” (ver Rm 3:8;
15. Mas (ARC). Ou, “pois”, aparente­ ICo 10:30). Os amadurecidos não devem
mente ligando este versículo ao argumento permitir que o uso egoísta da liberdade
anterior. dê ocasião para que os “débeis na fé”
Comida. Do gr. brõma, termo gerai para (Rm 14:1) condenem algo que para eles é
“alimento”. uma coisa boa. Devem cuidar de não dar
Entristece. O irmão débil é ofendido e motivos para que outros os censurem pelos
tem a consciência perturbada ao ver os cren­ danos que sua conduta pessoal tenha pro­
tes mais experientes entregando-se ao que vocado a algum irmão muito criterioso (ver
ele considera pecaminoso. Essa dor pode com. de ICo 8:7-13).
resultar em destruição, pois ele pode se afas­ Vosso bem. Isto provavelmente se refere
tar da fé, o que estaria associado a práti­ à fé dos mais experientes, que têm mais
cas que considera pecaminosas, ou pode ser conhecimento e liberdade (ver lCo 8:9-11;
levado pelo exemplo dos amadurecidos a con­ 10:30).
cordar com atitudes que lhe parecem peca­ 17. O reino de Deus. Esta expres­
minosas (ver lCo 8:10-12). são, isolada, pode se referir tanto ao futuro

704
ROMANOS 14:21

reino da glória (cf. ICo 6:9, 10) como ao pre­ crítica” (ver uso do termo em ICo 11:19;
sente reino da graça (ver com. de Mt 4:17; 2Co 10:18; 2Tm 2:15).
Mt 5:2, 3). Obviamente, este último é o sig­ 19. Seguimos. O versículo diz, literal­
nificado pretendido aqui. A essência do reino mente: “Então, busquemos as coisas da paz
de Deus não está em coisas exteriores, mas e as coisas que nos edifiquem mutuamente”
na graça interior da vida espiritual. (cf. lTs 5:11; ver também ICo 14:26).
Comida nem bebida. Ou, “comer e 20. Destruas. Do gr. kataluõ, literal­
beber”. Estas questões são insignificantes, mente, “derrubar”. A palavra é usada para
quando comparadas com o que, na verdade, descrever a demolição de algo que foi cons­
constitui o reino de Deus. Presumivelmente, truído. Portanto, dá-se sequência aqui à
o cristão cuja fé é amadurecida estará ciente figura iniciada com o termo “edificação”, lite­
da natureza espiritual do reino de Deus. ral mente, “construção”, no v. 19. Pela mera

640
Na verdade, o conhecimento dessa ver­ questão de comida, os cristãos não podem «
dade vital é parte do “bem” mencionado no lutar contra Deus, derrubando e destruindo
v. 16. Certamente, então, esse conhecimento 0 que Ele construiu.
deverá impedi-lo de lutar contra o irmão débil A obra de Deus. Comparar com ICo 3:9;
ou de destruí-lo com questões irrelevantes. Ef 2:10.
Justiça. Ou seja, uma forma justa Comida. Do gr. brõma, alimentos em
de viver, agir corretamente (cf. Rm 6:19; geral.
Ef 4:24). Limpas. Ver v. 14; cf. ICo 10:23.
Paz. Inclui não só a reconciliação com Com escândalo. Isto pode se refe­
Deus (Rm 5:1), mas também a harmonia rir tanto ao irmão amadurecido que, apro­
e o amor na igreja (cf. Rm 14:19; Ef 4:3; veitando-se da própria liberdade, ofende o
Cl 3:14, 15). “débil”, ou ao “débil” (v. 1) que, pelo exemplo
Alegria no Espírito Santo. Esta é a do amadurecido, é encorajado a comer o que
condição dos que “vivem no Espírito” (Gl 5:25; sua consciência não permite (ver ICo 8:10).
cf. Rm 15:13; Gl 5:22; lTs 1:6). Os amadureci­ A maioria dos comentaristas prefere a pri­
dos na fé entendem que o reino de Deus con­ meira interpretação. Se isso estiver correto,
siste em graças espirituais como estas, e não Paulo estaria dizendo que “é errado a pes­
em coisas materiais como comida e bebida. soa ser uma pedra de tropeço para os outros
Assim, no que diz respeito à liberdade cristã por causa do que come”.
no comer e beber, eles preferem restringir a 21. E bom. O cristão amadurecido deve
própria liberdade a permitir que o exercício estar disposto a abrir mão de sua liberdade
dela destrua a paz da igreja (Rm 14:13). Não nessas questões relativamente insignifican­
querem que o irmão débil seja levado a fazer tes, em vez de ofender o irmão débil (cf.
o que, para ele, seria injusto (v. 14), ou que ICo 8:13).
tire dele a alegria no Espírito por ofender a Carne. Do gr. krea, “alimentos cár-
própria consciência (v. 15). neos”. A palavra ocorre somente aqui e em
18. Deste modo. Evidências textuais 1 Coríntios 8:13. Em Romanos 14:15 e 20, é
(cf. p. xvi) apoiam a tradução “nisto” (ARC). usada brõma, termo para alimentos em geral.
O crente que age com amor conquista a boa Vinho. Evidentemente, a carne e o
vontade de seu irmão, em lugar de colocar vinho eram os principais objetos de escân­
uma pedra de tropeço em seu caminho. dalos religiosos para os “débeis”, provavel­
Aprovado. Do gr. dokimos, “testado”, mente porque era usados pelos pagãos nos
“capaz de resistir ao teste da inspeção e da sacrifícios aos ídolos.

705
14:22 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

Nem fazer qualquer outra coisa. (v. 1) o “débil”, mas deve ser mantida entre
As palavras “qualquer outra coisa”, embora si mesmo e Deus.
supridas, estão implícitas no texto grego. Bem-aventurado. Do gr. makarios (ver
Paulo acrescenta esta advertência geral com. de Mt 5:3). Esta é a felicidade de
para esclarecer qualquer atividade que, uma consciência clara e confiante.
embora legítima em si mesma, possa per­ Aprova. Do gr. dokimazõ (ver com. de
turbar ou confundir o crente que ainda não Rm 12:2).
está convencido de que tais ações sejam 23. Tem dúvidas. Ou, “debate dentro
divinamente permitidas. O cristão que pla­ de si mesmo”. Isto se compara à pessoa de
neja determinada atitude deve perguntar coração dividido (Tg 1:6; cf. Mt 21:21; Mc
não só se tal coisa é correta, mas também 11:23; Rm 4:20).
se isso afetará ou não o próximo. E condenado. Do gr. katakrinõ, “conde­
Tropeçar. Do gr. proskoptõ, “bater con­ nar”. Aquele que come, apesar das dúvidas
tra”, “tropeçar”, “ir contra”, metaforicamente, de sua consciência, é condenado.
“ofender-se”. Fé. Aqui, referindo-se à convicção do
Ofender. Evidências textuais (cf. p. xvi) certo e errado, resultando na determina­
apoiam a omissão da frase “ou se ofender ção de fazer o que acredita ser a vontade de
ou se enfraquecer”. No entanto, essas idéias Deus. Paulo afirma aqui que, se o cristão não
estão implícitas em “tropeçar”. age por convicção pessoal de que o que faz
Se enfraquecer. Literalmente, “ser é certo, mas, em vez disso, segue o juízo de
fraco”, o que significa que o crente mais outros, sua ação é pecaminosa. Não se deve
experiente deve cuidar em todos os assun­ violar a própria consciência. Mas ela pode
tos sobre os quais a consciência dc seu irmão requerer treinamento. Pode sinalizar que
débil possa ser afetada. certas coisas sejam erradas, quando dc fato
22. Tens tu fé? (ARC). Evidências tex­ podem não ser. Assim, até que seja conven­
tuais (cf. p. xvi) apoiam a variante: “A fé que cido pela Palavra e pelo Espírito de Deus de
tens” (ARA). O pronome “tu” é enfático no que determinada atitude é boa, o crente não
grego. “Fé”, neste contexto, é fé para “comer deve seguir a consciência por si só. Não deve
de todas as coisas” (v. 2). fazer dos outros o critério para sua conduta;
Tem-na para ti mesmo. Esta fé não deve deve ir às Escrituras e aprender por si mesmo
ser exercida abertamente para escandalizar seu dever sobre o assunto (ver T2, 119-124).

COMENTÁRIOS DE ELLEN G. WHITE

4 - MDC, 57 242; T7, 50, 296 PE, 70; T5, 593


5 - DTN, 550 10 - CBV, 166 17 -TM, 422, 497;
7-CPPE, 33; FEC, 191, 12- DTN, 550; T4, 654; T2, 319
206; OE, 396; MCH, T5, 399 19 - DTN, 356; T6, 460
212; PR, 94; CC, 120; 13- CBV, 166; TI, 420; 23 - GC 436; MJ, 198;
T4, 72, 339, 493, 562; T2, 87, 552; T5, 352 T5, 437
T5, 386, 565; T6, 236, 16 - CPPE, 257; Ev, 680;

706
ROM ANOS 15:1

Capítulo 15
I Os experientes devem apoiar os débeis. 2 Não se pode agradar a si mesmo, 3 pois
Cristo não fez assim; 7 mas acolher uns aos outros, como o fez Cristo tanto
a judeus 8, 9 como a gentios. 15 Paulo explica por que escreveu
como o fez 28 e promete vê-los, 30 solicitando suas orações.

1 Ora, nós que somos fortes elevemos supor­ 14 E certo estou, meus irmãos, sim, eu
tar as debilidades dos fracos e não agradar-nos mesmo, a vosso respeito, de que estais possuí­
a nós mesmos. dos de bondade, cheios dc todo o conhecimen­
2 Portanto, cada um de nós agrade ao próxi­ to, aptos para vos admoestardes uns aos outros.
mo no que é bom para edificação. 15 Entretanto, vos escrevi em parte mais ou-
3 Porque também Cristo não Se agradou a Si sadamente, como para vos trazer isto de novo à
mesmo; antes, como está escrito: As injúrias dos memória, por causa da graça que me foi outor­
que te ultrajavam caíram sobre mim. gada por Deus,
4 Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para 16 para que eu seja ministro de Cristo Jesus
o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela pa­ entre os gentios, no sagrado encargo de anun­
ciência c pela consolação das Escrituras, tenha­ ciar o evangelho de Deus, de modo que a ofer­
mos esperança. ta deles seja aceitável, uma vez santificada pelo
5 Ora, o Deus da paciência e da consolação Espírito Santo.
vos conceda o mesmo sentir de uns para com os 17 Tenho, pois, motivo de gloriar-me em
outros, segundo Cristo Jesus, Cristo Jesus nas coisas concernentes a Deus.
6 para que concordemente e a uma voz glo- 18 Porque não ousarei discorrer sobre coisa
rifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por
Cristo. meu intermédio, para conduzir os gentios à obe­
7 Portanto, acolhei-vos uns aos outros, como diência, por palavra e por obras,
também Cristo nos acolheu para a glória de Deus. 19 por força de sinais e prodígios, pelo
8 Digo, pois, que Cristo foi constituído mi­ poder do Espírito Santo; de maneira que, desde
nistro da circuncisão, em prol da verdade de Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico,
Deus, para confirmar as promessas feitas aos tenho divulgado o evangelho de Cristo,
nossos pais; 20 esforçando-me, deste modo, por pregar
9 e para que os gentios glorifiquem a Deus o evangelho, não onde Cristo já fora anuncia­
por causa da Sua misericórdia, como está escri­ do, para não edificar sobre fundamento alheio;
to: Por isso, eu Tc glorificarei entre os gentios c 21 antes, como está escrito: Hão de vê-Lo
cantarei louvores ao Teu nome. aqueles que não tiveram notícia dEle, e com-
10 E também diz: Alegrai-vos, ó gentios, com preendê-Lo os que nada tinham ouvido a Seu
o seu povo. respeito.
11 E ainda: Louvai ao Senhor, vós todos os 22 Essa foi a razão por que também, muitas
gentios, e todos os povos O louvem. vezes, me senti impedido de visitar-vos.
12 Também Isaías diz: Haverá a raiz de Jessé, 23 Mas, agora, não tendo já campo de ativi­
Aquele que Se levanta para governar os gentios; dade nestas regiões e desejando há muito
nEle os gentios esperarão. visitar-vos,
13 E o Deus da esperança vos encha de todo 24 penso em fazê-lo quando em viagem para
o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos a Espanha, pois espero que, de passagem, estarei
de esperança no poder do Espírito Santo. convosco c que para lá seja por vós encaminhado,

707
15:1 COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA

depois de haver primeiro desfrutado um pouco a 29 E bem sei que, ao visitar-vos, irei na ple­
vossa companhia. nitude da bênção de Cristo.
25 Mas, agora, estou de partida para 30 Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor
Jerusalém, a serviço dos santos. Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que
26 Porque aprouve à Macedônia e à Acaia le­ luteis juntamente comigo nas orações a Deus a
vantar uma coleta em benefício dos pobres den­ meu favor,
tre os santos que vivem em Jerusalém. 31 para que eu me veja livre dos rebeldes
27 Isto lhes pareceu bem, e mesmo lhes são que vivem na Judeia, e que este meu serviço em
devedores; porque, se os gentios têm sido partici­ Jerusalém seja bem aceito pelos santos;
pantes dos valores espirituais dos judeus, devem 32 a fim de que, ao visitar-vos, pela vontade
também servi-los com bens materiais. de Deus, chegue à vossa presença com alegria e
28 Tendo, pois, concluído isto e havendo- possa recrear-me convosco.
lhes consignado este fruto, passando por vós, irei 33 E o Deus da paz seja com todos vós.
à Espanha. Amém!

1. Nós, que somos fortes. Literalmente, os mais experientes devem agradar os débeis
“mas os fortes”. A palavra traduzida como por concordar com suas opiniões e práticas,
“fortes” significa “poder” ou “poderoso”, e nem condescender com o que eles acham
descreve os espiritualmente amadurecidos. que seja bom.
Esses crentes estão