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EMOÇÕES

Myriam Monteiro
Ninguém precisa dizer que os sen mentos dão cor à vida, ou que
em momentos de estresse eles podem perturbá-lo, ou mesmo salvá-
lo (Hebb, 1980).

Mais do que qualquer outra criatura, expressamos medo, raiva,


tristeza, alegria e amor, e esses estados psicológicos em geral geram
reações sicas.

Nervosos diante de um encontro importante, sen mos o


estômago embrulhar. Ansiosos quando falamos em público,
vamos constantemente ao banheiro. Brigando com um membro
da família, sofremos dores de cabeça avassaladoras.
Todos podemos lembrar de momentos nos quais fomos
dominados pelas emoções. Eu guardo a lembrança de um dia
em que fui a uma gigantesca loja de departamentos para
revelar um filme com Peter, meu filho mais velho, quando ele
nha 2 anos. Eu estava com ele ao meu lado enquanto
entregava o filme e preenchia o papel para a revelação,
quando um passante falou: “É melhor ter cuidado com esse
menino ou irá perdê-lo.” Alguns segundos depois, após deixar
o filme, eu me virei e Peter não estava mais ao meu lado. Com
uma leve ansiedade, olhei ao redor, até uma extremidade do
corredor onde eu estava. Não o vi. Um pouco mais ansioso,
procurei do outro lado. Ele não estava lá também. Nessa
hora, já com o coração acelerado, circulei pelos corredores
vizinhos.
Nada de Peter. À medida que a ansiedade se transformava
em pânico, comecei a correr pelos corredores da loja. Ele não
estava em lugar nenhum que eu conseguisse ver. Apreensivo
com o meu estado, o gerente usou o sistema de som da loja
para comunicar o desaparecimento de uma criança. Pouco
depois, passei pelo mesmo cliente que então me disse cheio
de desprezo: “Eu lhe disse que você ia perdê- lo!” Já cogitando
um sequestro (os desconhecidos adoravam aquela bela
criança), percebi a possibilidade de minha negligência ter-me
feito perder aquilo que amava acima de todas as coisas, e —
pesadelo dos pesadelos — que eu teria de voltar para casa e
olhar no rosto de minha mulher sem o nosso filho.
Mas, ao passar novamente pelo serviço de
informação ao cliente, lá estava ele: alguém o
encontrara! Em um instante, saí de um pesadelo
diretamente para o êxtase. Abracei fortemente
meu filho, com lágrimas nos olhos, e, sen ndo-
me incapaz de sequer agra- decer, saí da loja,
cheio de alegria.
Qual é a origem dessas emoções?

Por que as sentimos?

De que são feitas?

As emoções são respostas adaptativas de nosso corpo.

Elas existem não para nos proporcionar experiências importantes, mas


para permitir a nossa sobrevivência.

Quando enfrentamos desafios, as emoções põem nossa atenção em foco


e energizam nossas ações. O coração acelera. Apressamos o passo.

Todos os nossos sen dos entram em alerta. Ao receber boas no cias


inesperadamente, nossos olhos podem se encher de lágrimas. Levantamos
nossas mãos em triunfo. Sen mo-nos exuberantes e cheios de confiança.
Quando o estresse persiste, porém, ele pode prejudicar seriamente nossa
saúde.
O QUE É UMA EMOÇÃO?

As emoções são multidimensionais. Existem como fenômenos


subjetivos, biológicos, sociais e com um propósito (Izard, 1993).

• Em parte, as emoções são sentimentos subjetivos, pois nos fazem


sentir de determinado modo, tal como zangados (com raiva) ou
alegres.

• As emoções são também reações biológicas, respostas


mobilizadoras de energias que preparam o corpo para adaptar-se
às situações que enfrentamos, sejam elas quais forem.
O QUE É UMA EMOÇÃO?
• As emoções são também agentes de um propósito, assim como a
fome tem um propósito.

 A raiva, por exemplo, cria um desejo motivacional de fazer


aquilo que, não fosse ela, poderíamos não fazer, tal como
combater um inimigo ou protestar contra uma injustiça.

• E as emoções são fenômenos sociais. Quando emocionados,


emitimos sinais faciais, posturais e vocais reconhecíveis que
comunicam aos outros a qualidade e a intensidade da nossa
emoção (p. ex., movimentos das sobrancelhas, o tom da voz).
O QUE É UMA EMOÇÃO?
O QUE É UMA EMOÇÃO?

“As emoções são fenômenos expressivos e


proposi vos, de curta duração, que
envolvem estados de sen mento e
a vação, e nos auxiliam na adaptação às
oportunidades e aos desafios que
enfrentamos durante eventos importantes
da vida.”
O QUE É UMA EMOÇÃO?

No caso do medo, o evento provocador poderia ser representado por


encostas íngremes de esqui, ao passo que a reação inclui
sen mentos, excitação corporal, desejos direcionados para uma
meta e comunicações não-verbais bastante objetivas.

Assim, o esquiador ameaçado sente-se apavorado (aspecto


sen mento), “com o coração a mil” (aspecto excitação corporal), com
um desejo forte de autoproteção (aspecto propositivo) e apresenta os
olhos tensos e os cantos da boca repuxados (aspecto expressivo).
Esses elementos sincronizados e mutuamente apoiados cons tuem
um padrão de rea vidade a um perigo ambiental: a emoção medo.
Os diferentes aspectos da experiência se complementam e se
coordenam uns com os outros (Averill, 1990; LeDoux, 1989). Por exemplo,
o que as pessoas sentem está relacionado com os movimentos de seus
músculos faciais.

Quando você vê ou cheira um alimento estragado, por exemplo, seu


modo de sen r e seu modo de franzir o nariz e recolher o lábio superior
coordenam-se como um sistema coerente de expressão e sentimentos
(Rosenberg & Ekman, 1994).

Assim também, o modo como você movimenta o rosto coordena-se com


a sua rea vidade fisiológica, de modo que baixar o cenho e apertar os
lábios com força coincide com o aumento da freqüência cardíaca e a
elevação da temperatura epidérmica (Davidson et al., 1990).
O QUE É UMA EMOÇÃO?
“Emoção” é a palavra usada pelos psicólogos para dar nome a esse processo
coordenado e sincronizado.
A tristeza é uma reação emocional a um evento significa vo da vida,
como separação ou fracasso.

Tomando como exemplo a emoção de angús a/tristeza, o


sen mento aversivo influi na letargia corporal, no sen do de
propósito para reverter o fato da separação e na expressão facial
distintiva de tristeza, ocorrendo juntamente com eles.

 Portanto, as emoções são sistemas sincronizados que coordenam


sen mento, a vação, propósito e expressão, de modo a nos preparar
para que nos adaptemos com êxito às circunstâncias da vida.
Relação entre Emoção e Mo vação

As emoções relacionam-se com a mo vação de dois modos. Em primeiro


lugar, as emoções são um po de mo vo. Assim como todos os outros
mo vos (p. ex., necessidades, cognições), as emoções dão energia ao
comportamento e o dirigem.

A raiva, por exemplo, mobiliza recursos subje vos, fisiológicos,


hormonais e musculares (ou seja, dá energia ao comportamento) para se
a ngir uma determinada meta ou propósito (ou seja, dirige o
comportamento), tal como vencer um obstáculo ou corrigir uma injustiça.

Alguns estudiosos agumentam que as emoções cons tuem o sistema


mo vacional primário (Tomkins, 1962, 1963, 1984; Izard, 1991).
Relação entre Emoção e Mo vação
Durante toda a história centenária da psicologia, os impulsos
(drivers) fisiológicos (fome, sede, sono, sexo e dor) foram
considerados mo vadores primários (Hull, 1943, 1952).

A privação de ar nos fornece um exemplo. Todavia, Silvan Tomkins,


pesquisador da emoção, chamou esse raciocínio, de “erro radical”
(Tomkins, 1970).

Segundo Tomkins, a perda de ar provoca uma reação emocional


forte — de medo ou de terror. É esse terror que fornece a mo vação
para agir. Assim, é o terror, e não a privação de ar ou a ameaça à
homeostase corporal a fonte causal e imediata do comportamento
motivado de conseguir ar. Tire fora a emoção e você estará re rando
a mo vação.
Relação entre Emoção e Mo vação

Em segundo lugar, as emoções servem como um sistema de


leitura (readout) permanente para indicar se a adaptação
pessoal está indo bem ou não. A alegria, por exemplo, revela
inclusão social e o progresso em direção às nossas metas,
enquanto a angús a revela exclusão social e fracasso.

A emoção também fornece uma leitura do status em que se


encontram os estados mo vacionais da pessoa, que estão em
con nua mudança, e sua condição de adaptação pessoal
(Buck, 1988).
Relação entre Emoção e Mo vação

As emoções posi vas (interesse, alegria) refletem o


envolvimento e a sa sfação de nossos estados
mo vacionais, enquanto as emoções nega vas (culpa,
repulsa) refletem o abandono e a frustração de nossas
mo vações.

As emoções posi vas também refletem o êxito de nossa


adaptação a circunstâncias que enfrentamos, enquanto as
emoções nega vas refletem o fracasso da nossa
adaptação.
O que causa uma Emoção?
Nesta análise causal entram em jogo muitos pontos de
vista, inclusive biológicos, psicoevolutivos, cognitivos,
desenvolvimentais, psicanalíticos, sociais, sociológicos,
culturais e antropológicos.

Apesar dessa diversidade, a compreensão do que causa


uma emoção alinha-se em torno de uma polêmica central:
biologia versus cognição. Essencialmente, essa polêmica
pergunta se as emoções são fenômenos primariamente
biológicos ou primariamente cognitivos.
Emoção: Excitação, Comportamento e Cognição

Existem controvérsias a respeito da interação entre fisiologia,


expressões e experiência nas emoções.

A primeira, um debate do tipo “o ovo ou a galinha”, é antiga: a


resposta fisiológica precede ou sucede a experiência emocional?
(Primeiro eu percebo meu coração acelerar e meu passo mais
rápido e, só depois, sinto ansiedade? Ou a sensação do medo vem
primeiro, o que leva meu coração e minhas pernas a responder?)

A segunda controvérsia está relacionada à interface entre


pensamento e sentimento: será que a cognição sempre precede a
emoção? (Eu pensei sobre a ameaça de sequestro antes de reagir
emocionalmente?)
Teorias Históricas da Emoção

Segundo o senso comum, choramos por estar tristes, xingamos


por estar zangados, trememos por estar com medo. Primeiro vem
a consciência de nós mesmos, e então observamos as respostas
fisiológicas.

Para o psicólogo pioneiro William James (1884), esse senso


comum sobre a emoção estava incorreto. De acordo com James,
“Nós nos sentimos tristes porque choramos, zangados porque
brigamos e assustados porque trememos” (1890, p. 1066).
Quais são os componentes de uma emoção?

“Talvez você se lembre de alguma vez em que seu carro derrapou


no asfalto escorregadio. Nesse momento, você apertou o freio e
readquiriu o controle do veículo. Logo após, você se deu conta do
perigo por que passou, percebeu seu coração disparado e, então,
tremendo de medo, sen u-se inundado pela emoção. Seu
sen mento de medo seguiu sua resposta corporal. A ideia de
James, também proposta pelo fisiologista dinamarquês Carl Lange,
é chamada de teoria de James-Lange. Primeiro vem uma resposta
fisiológica dis nta, depois (por observarmos essa resposta) vem a
emoção.”
Teorias Históricas da Emoção

TEORIA DE JAMES-LANGE

Teoria de James-Lange da emoção.


(a) De acordo com a visão do senso
comum da emoção, uma
experiência – como ver um urso
pardo – pode produzir uma emoção
e, em seguida, uma resposta
corporal. (b) De acordo com a teoria
de James-Lange, a percepção
corporal vem antes de a pessoa
sentir a emoção. Por exemplo,
quando um urso lhe ameaça, você
começa a suar, sente seu coração
batendo e corre (se possível). Essas
respostas produ- zem em você a
emoção do medo.
Teorias Históricas da Emoção

A teoria de James-Lange foi considerada implausível pelo fisiologista Walter


Cannon.

Cannon (1927) afirmou que as respostas corporais não seriam distintas o


suficiente para evocar diferentes emoções.

A aceleração do coração será um sinal de medo, raiva ou amor?

Além disso, alterações na frequência cardíaca, na transpiração e na temperatura


corporal parecem ser muito lentas para deflagrar emoções súbitas.

A mente responde rapidamente à experiência, enquanto o corpo é muito mais


lento, precisando de pelo menos 1 ou 2 segundos para reagir. Por exemplo, você
pode se sentir constrangido antes de corar.
Teorias Históricas da Emoção

Cannon e, mais tarde, outro fisiologista, Philip Bard (1934),


concluíram que a resposta fisiológica e nossas experiências
emocionais ocorrem ao mesmo tempo: o estimulo que deflagra
a emoção é encaminhado simultaneamente para o córtex
cerebral, causando a consciência subjetiva da emoção, e para o
sistema nervoso simpático, causando a excitação corporal.

A teoria de Cannon-Bard implica afirmar que o coração


começa a disparar quando começamos a sentir o medo; um não
causa o outro. Nossa resposta fisiológica e a emoção vivenciada
são duas coisas separadas.
Teorias Históricas da Emoção

TEORIA DE CANNON-BARD

Teoria de Cannon-Bard da
emoção. De acordo com essa
teoria, a emoção e as reações
físicas acontecem in-
dependentemente, mas
mesmo tempo. Por exemplo,
quando um urso lhe ameaça, ao
você simultaneamente sente
medo, começa a suar, sente seu
coração pulsando e corre (se
possível).
Teorias Históricas da Emoção
Se as nossas respostas corporais e nossas experiências emocionais ocorrem simultaneamente e
uma não afeta a outra, como Cannon e Bard acreditavam, então as pessoas que sofrem lesões
na medula espinhal não devem notar a diferença em sua experiência da emoção após a lesão.

Mas existem diferenças, de acordo com um estudo de 25 soldados da Segunda Guerra Mundial
(Hohmann, 1966).

Aqueles com lesões na coluna lombar, que perderam a sensação apenas nas pernas, relataram
pouca mudança na intensidade de suas emoções.

Os que sofreram lesões na coluna cervical, que não sentiam nada abaixo do pescoço, relataram
mudanças. Algumas reações eram muito menos intensas do que antes das lesões.

A raiva, segundo confessou um homem com lesão na coluna cervical, “simplesmente não tem o
calor que costumava ter. É um tipo de raiva mental”.

Outras emoções, expressadas principalmente nas áreas do corpo acima do pescoço, eram
sentidas mais intensamente.

Esses homens relataram aumento nos choros, nódulos na garganta e engasgos quando diziam
adeus, oravam ou assistiam a um filme tocante. Nossas respostas corporais alimentam
ininterruptamente as nossas emoções vivenciadas
Teorias Históricas da Emoção

Stanley Schachter e Jerome Singer (1962) propuseram uma terceira teoria: a


de que nossa fisiologia e cognição — percepções, memórias e interpretações
— juntas criam a emoção.

Em sua teoria dos dois fatores, as emoções têm portanto dois componentes:
excitação física e o rótulo cognitivo.

Como James e Lange, Schachter e Singer presumiram que a experiência da


emoção cresce a partir da consciência da resposta corporal.

Assim como Cannon e Bard, Schachter e Singer também sustentavam que as


emoções eram fisiologicamente semelhantes. Assim, a partir dessa
perspeciva, uma experiência emocional exige uma interpretação consciente
da excitação.
Teorias Históricas da Emoção

TEORIA DOS DOIS FATORES DE SCHACHTER-SINGER

Teoria dos dois fatores de Schachter-Singer. De acordo com essa teoria, uma pessoa
experimenta mudanças fisiológicas e aplica um rótulo cognitivo para explicá-las. Por
exemplo, quando um urso lhe ameaça, você começa a suar, sente seu coração
pulsando e corre (se possível). Você, então, rotula essas ações corporais como
respostas ao urso. Como resultado, você sabe que está experimentando medo.
Teorias Históricas da Emoção

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