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MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS

ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

Resumo. Estas Notas são uma sı́ntese do que de mais importante foi feito no
curso MAT 0225 - Funções Analı́ticas ministrado durante o primeiro semestre
de 2007 no Bacharelado em Matemática do IME-USP. Alguns dos detalhes da
exposição foram omitidos ou foram deixados como exercı́cio. Apêndices, Lista
de Exercı́cios e Bibliografia estão na página www.ime.usp.br/∼gomes/FA225.

1. O Corpo dos números complexos C


(1) Defina duas operações binárias em R2
(a) (Adição) (a1 , b1 ) + (a2 , b2 ) := (a1 + a2 , b1 + b2 )
(b) (Multiplicação) (a1 , b1 ).(a2 , b2 ) := (a1 a2 − b1 b2 , a1 b2 + b1 a2 )
(2) Mostra-se que R2 , com estas operações, tem uma estrutura de corpo
O conjunto R2 munido destas duas operações é chamado de corpo dos números
complexos e denotado por C. É usual identificar os números complexos da forma
(a, 0), com os números reais a ∈ R uma vez que esta identificação “preserva”a
adição e a multiplicação: (a1 , 0) + (a2 , 0) = (a1 + a2 , 0), (a1 , 0).(a2 , 0) = (a1 a2 , 0).
Denotando o número complexo (0, 1) por i, obtemos que i2 = −1. Podemos assim
representar um número complexo (a, b) por a+ib. Com estas notações, as operações
de adição e multiplicação e os inversos aditivo e multiplicativo, ficam na forma
(a1 + ib1 ) + (a2 + ib2 ) = (a1 + a2 ) + i(b1 + b2 )
(a1 + ib1 ).(a2 + ib2 ) = (a1 a2 − b1 b2 ) + i(a1 b2 + b1 a2 )
−(a + ib) = (−a) + i(−b)
a −b
(a + ib)−1 = ( 2 2
) + i( 2 )
a +b a + b2
esta última válida apenas quando a+ib 6= 0 := (0, 0) (o elemento neutro da adição).
Por outro lado, o neutro da multiplicação é 1 := (1, 0). Para z = a + ib ∈ C, temos:
z := a − ib (o conjugado de z)
p
|z| := a2 + b2 (a norma de z)
São válidas as seguintes propriedades para conjugados e normas de z, z1 , z2 ∈ C:
2
z1 + z2 = z1 + z2 , z = z, z.z = |z| , |z| = |−z| = |z|
 
z1 z1
= (z2 6= 0), |z1 .z2 | = |z1 | |z2 | , z1 .z2 = z1 .z2
z2 z2

z1 |z1 |
|z1 + z2 | ≤ |z1 | + |z2 | , ||z1 | − |z2 || ≤ |z1 − z2 | , =
z2 |z2 |
Para um número complexo z = a + ib, utilizamos ainda as notações: <(z) := a e
=(z) := b e as denominamos partes real e imaginária, respectivamente, de z ∈ C.
Observe ainda que valem as seguintes igualdades: <(z) = 21 (z+z) e =(z) = 2i
1
(z−z).
1
2 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

Podemos utilizar a representação polar de um número complexo z = a + ib ∈ C∗ :


basta escrever a = |z| cos(ϕ) e b = |z| sin(ϕ) onde ϕ é o ângulo orientado entre o
segmento de reta que une 0 = (0, 0) e z = a + ib = (a, b) no R2 e o eixo real

Com a representação polar, podemos reescrever o produto de números complexos:



 z = |z| (cos(ϕ) + i sin(ϕ))
=⇒ z.w = |z.w| (cos(ϕ + φ) + i sin(ϕ + φ))
w = |w| (cos(φ) + i sin(φ))

n
Em particular, se n ∈ N, obtemos a potência de z: z n = |z| (cos(nϕ) + i sin(nϕ)).
Com esta fórmula1 podemos determinar as raı́zes enésimas de um número complexo
a ∈ C. De fato, queremos resolver a equação z n = a. Pela fórmula acima, obtemos
 
p ϕ + 2kπ ϕ + 2kπ
zk := n |a| cos( ) + i sin( ) , k∈Z
n n
como soluções da equação z n = a. Claramente, o conjunto {z0 , . . . , zn−1 } contém
todas as soluções da equação dada. Estas soluções, são os vértices de um polı́gono
p
regular de n lados, inscrito em um cı́rculo do R2 de centro na origem e raio n |a|.
Observação 1.1. Dado um número complexo z ∈ C∗ , certamente existem infinitos
ângulos ϕ tais que z = |z| (cos(ϕ) + i sin(ϕ)). O conjunto de todos estes ângulos
será chamado de argumento de z e denotado por arg(z). Porém, é usual considerar
os ângulos variando apenas em [0, 2π). Deste modo, a cada número complexo z 6= 0
está associado um único ângulo ϕ ∈ [0, 2π) de modo que z = |z| (cos(ϕ) + i sin(ϕ)).
Este ângulo é o argumento principal de z e é denotado por θ(z). Podemos escrever


 0, y=0 & x>0



 π2 − arctan( xy ),


 y>0
θ(z) = θ(x + iy) =
π, y=0 & x<0








 3π x
2 − arctan( y ), y<0

(Observe que a função θ : C∗ −→ R é descontı́nua. Porém, se considerarmos a


/ R+ × {0}}, teremos uma função contı́nua2).
restrição θ|E0 , onde E0 := {z ∈ C; z ∈

1Que é válida também para n ∈ Z (verifique!).


2Veja a definição de função contı́nua na página 4.
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 3

2. Limites, Continuidade e a Topologia do conjunto C


Já vimos que a norma de um número complexo |z| satisfaz as propriedades:
(1) |z| = 0 ⇔ z = 0
(2) |λz| = |λ| |z|, ∀λ ∈ R
(3) |z + w| ≤ |z| + |w| , ∀z, w ∈ C
Munido da “distância” d : C × C −→ R+ dada por d(z, w) := |z − w|, o conjunto C
torna-se um espaço métrico, i.e., d é uma aplicação que satisfaz as propriedades:
(1) d(z, w) = 0 ⇔ z = w
(2) d(z, w) = d(w, z), ∀z, w ∈ C
(3) d(z, w) ≤ d(z, u) + d(u, w), ∀u, z, w ∈ C
Podemos então definir o disco de centro z0 ∈ C e raio r > 0 como sendo o conjunto
Dr (z0 ) := {z ∈ C; |z − z0 | < r}
Análogamente, o disco fechado de centro z0 ∈ C e raio r > 0, é definido por
Dr (z0 ) := {z ∈ C; |z − z0 | ≤ r}
Esta estrutura de espaço métrico que o conjunto C possui nos permitirá definir o
limite de uma seqüência contida em C. De fato, seja (zn )n∈N uma seqüência em C
Definição 2.1. Uma seqüência (zn )n∈N de números complexos, é dita convergente
para um número complexo z ∈ C se, dado um número real  > 0, é possı́vel encontrar
um n0 ∈ N tal que, |zn − z| <  para todo n ≥ n0 (escrevemos3 então lim zn = z).
n→∞
Em outras palavras, para todo n ≥ no , os pontos zn estão dentro do disco D (z).
Algumas propriedades seguem imediatamente da definição:
(1) O limite de uma seqüência, quando existe, é único.
(2) lim zn = z ⇔ lim <(zn ) = <(z) e lim =(zn ) = =(z)
n→∞ n→∞ n→∞
(3) Se lim zn = z e lim wn = w, então valem as relações:
n→∞ n→∞
(a) lim (zn ± wn ) = z ± w
n→∞
(b) lim (zn .wn ) = z.w
n→∞
zn z
(c) lim = (desde que wn 6= 0 e w 6= 0)
n→∞ wn w
(d) lim zn = z & lim |zn | = |z|
n→∞ n→∞

(4) Uma seqüência (zn )n∈N é limitada ⇔ ∃M ∈ R+ tal que |zn | ≤ M , ∀n ∈ N.
(a) Se lim zn = 0 e se (wn )n∈N é limitada, então lim zn .wn = 0
n→∞ n→∞
(b) Toda seqüência convergente é limitada (a recı́proca é falsa!)
Definição 2.2. Uma subseqüência de uma seqüência (zn )n∈N ⊂ C, é a mesma
seqüência (zn ) porém, com os ı́ndices n variando em um certo subconjunto infinito
Λ := {n1 < n2 < . . .} ⊂ N. Denotamos uma subseqüência de (zn )n∈N por (zni )i∈N .
Definição 2.3. Uma seqüência de números complexos (zn )n∈N é dita uma seqüência
de Cauchy, se dado  > 0, existe n0 ∈ N tal que |zn − zm | <  para todos n, m ≥ n0 .
Teorema 2.4. Valem as seguintes afirmações:
i) “Toda seqüência limitada de números complexos possui uma subseqüência
convergente” (Teorema de Bolzano-Weierstrass).
ii) “Uma seqüência de números complexos é convergente ⇔ ela for de Cauchy”.
3Algumas vezes escreveremos z −→ z. Denotamos uma seqüência em C por (z )
n n n∈N ⊂ C.
4 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

Definição 2.5. Dada uma seqüência (zn )n∈N ⊂ C, lim zn = ∞ ⇔ lim |zn | = ∞
n→∞ n→∞
Como C é um conjunto equipado com a métrica d(z, w) = |z − w|, podemos definir
as noções naturais da Topologia em C. De fato, se Ω ⊂ C, temos as definições:

• z ∈ Ω é um ponto interior de Ω se z ∈ Ω := {w ∈ C; ∃r > 0, Dr (w) ⊂ Ω}

• Ω é aberto em C ⇔ todo ponto de Ω é ponto interior de Ω

• Ω é fechado em C ⇔ C − Ω é aberto em C

• O fecho de Ω é o conjunto Ω := {z ∈ C; ∀r > 0, Dr (z) ∩ Ω 6= ∅}

• A fronteira de Ω é ∂Ω := {z ∈ C; ∀r > 0, Dr (z) ∩ Ω 6= ∅ e Dr (z) ∩ (C − Ω) 6= ∅}

• Ω ⊂ X é um aberto relativo de X ⇔ Ω = U ∩ X onde U é aberto de C.

Definição 2.6. Uma aplicação f : Ω ⊂ C −→ C é dita contı́nua em a ∈ Ω se,


dado  > 0, existe δ > 0 tal que z ∈ Dδ (a) ∩ Ω ⇒ f (z) ∈ D (f (a)). A aplicação
f : Ω ⊂ C −→ C é dita contı́nua se f é contı́nua em todo ponto a ∈ Ω.
Pode-se mostrar a equivalência das seguintes afirmações relativas a f : Ω ⊂ C −→ C
(1) f é contı́nua
(2) A ⊂ C aberto ⇒ f −1 (A) ⊂ Ω é aberto relativo de Ω
(3) ∀a ∈ Ω, ∀(zn )n∈N ⊂ Ω com lim zn = a, devemos ter lim f (zn ) = f (a).
n→∞ n→∞
Definição 2.7. Uma aplicação f : Ω ⊂ C −→ C é dita uniformemente contı́nua
se, dado  > 0, existe δ > 0 tal que: z, w ∈ Ω com |z − w| < δ ⇒ |f (z) − f (w)| < .
Definição 2.8. Um ponto a ∈ C é dito um ponto de acumulação de um conjunto
Ω ⊂ C se, dado um número real  > 0, temos que ∃z ∈ D (a) ∩ Ω tal que z 6= a.

“Limite da aplicação f : Ω ⊂ C −→ C em um ponto de acumulação a de Ω”:


lim f (z) = L ⇔ (∀ > 0, ∃δ > 0 tal que 0 < |z − a| < δ e z ∈ Ω ⇒ |f (z) − L| < )
z→a

Propriedades dos limites e das funções contı́nuas seguem agora imediatamente:


(1) O limite de uma função, quando existe, é único
(2) Sejam f, g : Ω ⊂ C −→ C tais que lim f (z) = L e lim g(z) = M , então:
z→a z→a
(a) lim (f ± g)(z) = L ± M
z→a
(b) lim (f g)(z) = LM
z→a
f (z) L
(c) lim = (se M 6= 0)
z→a g(z) M
(3) f, g : Ω ⊂ C −→ C contı́nuas em a ∈ Ω ⇒ f + g e f g contı́nuas em a
(4) f, g : Ω ⊂ C −→ C contı́nuas em a ∈ Ω ⇒ fg contı́nua em a (se 0 ∈
/ g(Ω))
Definição 2.9. Seja f : Ω ⊂ C −→ C e a ∈ C um ponto de acumulação de Ω:
(1) lim f (z) = ∞ ⇔ lim |f (z)| = ∞
z→a z→a
(2) lim f (z) = b ⇔ (∀ > 0, ∃r > 0, tal que |z| > r e z ∈ Ω ⇒ |f (z) − b| < )
z→∞
(neste caso, supomos que Ω não é limitado!)
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 5

Definição 2.10. Um subconjunto Ω ⊂ C é dito desconexo se Ω = A ∪ B onde


A e B são subconjuntos abertos relativos de Ω, disjuntos e não vazios de C. Um
subconjunto Ω ⊂ C é dito conexo se não é desconexo (mostre alguns exemplos!).
Proposição 2.11. Se um subconjunto conexo Ω ⊂ C pode ser expresso como uma
união Ω = U ∪ V de abertos disjuntos U e V de Ω , então U = ∅ ou V = ∅.
Proposição 2.12. Se Ω ⊂ C é um domı́nio4 e se z, w ∈ Ω são distintos, então
existe uma curva poligonal unindo z e w que está totalmente contida em Ω.
Demonstração. Fixe z ∈ Ω. Seja agora P (z) o conjunto formado pelos elementos
de Ω que podem ser unidos a z por uma poligonal contida em Ω. Mostre que este
conjunto é aberto e fechado em Ω e portanto, por conexidade, é igual a Ω 
Definição 2.13. Um subconjunto Ω ⊂ C é dito compacto ⇔ é fechado e limitado.
Equivalentemente: Se uma famı́lia de subconjuntos abertos de C, digamos {Uj }j∈J ,
é tal que Ω ⊂ ∪j∈J Uj , então existe um subconjunto finito de ı́ndices {j1 , . . . , jk } ⊂ J
tal que Ω ⊂ ∪kl=1 Ujl . Em outras palavras, toda cobertura de Ω por abertos admite
uma subcobertura finita. Outras caracterizações para compactos são possı́veis5.
Teorema 2.14. Seja Ω ⊂ C. As seguintes afirmações são equivalentes:
i) Ω é compacto
ii) Todo subconjunto infinito de Ω possui um ponto de acumulação
iii) Toda seqüência em Ω possui uma subseqüência convergente
Proposição 2.15. (Teorema de Cantor) Suponha que (Kn )n∈N é uma seqüência
de subconjuntos compactos não-vazios de C tais que K1 ⊃ K2 ⊃ K3 ⊃ . . .. Então
\∞
I := Kn 6= ∅
n=0

Demonstração. Para cada n ∈ N, escolha zn ∈ Kn . Portanto (zn )n∈N é uma


seqüência no compacto K1 . Pelo Teorema 2.14 acima, (zn )n∈N possui então uma
subseqüência convergente para z∗ ∈ K1 . Afirmamos que z∗ ∈ I. De fato, fixe i ≥ 1.
Se z∗ ∈ C − Ki , então, como Ki é fechado, existe um disco D (z∗ ) contido em
C − Ki . Como Km está contido em Ki para todo m ≥ i e como zm ∈ Km , podemos
inferir que nenhum termo zm com m ≥ i se encontra dentro do disco D (z∗ ). Mas
isto contradiz a definição de z∗ que é um limite de elementos da seqüência (zn )n∈N .
Como i ≥ 1 foi tomado arbitráriamente, temos a validade do resultado 
Proposição 2.16. Se f : Ω ⊂ C −→ C é contı́nua e A ⊂ Ω, então são válidas
(1) A conexo ⇒ f (A) conexo
(2) A compacto ⇒ f (A) compacto
(3) A compacto ⇒ f |A : A −→ C é uniformemente contı́nua
Demonstração. Provaremos apenas iii). Fixe  > 0. Se f |A não é uniformemente
contı́nua, para um dado n ∈ N∗ , existe um par de pontos zn , wn ∈ A tais que
|zn − wn | < 1/n e |f (zn ) − f (wn )| ≥ . Como A é compacto, podemos tomar uma
subseqüência convergente znk −→ z0 e concluir que wnk −→ z0 . A continuidade de
f nos mostra que |f (znk ) − f (wnk )| −→ 0 e assim temos uma contradição 
4Isto é, Ω é aberto e conexo.
5Veja N. Bourbaki, General Topology, Springer-Verlag, 1990.
6 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

3. Séries de números complexos


O papel desempenhado pelas séries6 de números complexos na Teoria das Funções
de uma Variável Complexa é fundamental. Vamos mostrar os principais resultados.
P∞
Definição 3.1. Seja (zn )n∈N ⊂ CPuma seqüência. Dizemos que a série n=0 zn

converge para s ∈ C, e escrevemos n=0 zn = s, se lim (z0 + z1 + . . .+ zn ) = s ∈ C.
n→∞
P∞ n P∞ 1
Exemplo 3.2. Se |z| < 1, a série n=0 z converge e n=0 z n = 1−z .
P∞
Exemplo 3.3. Se n=0 zn converge, então lim zn = 0.
n→∞
P∞ n
Exemplo 3.4. A série n=0 (−1) não converge (e portanto é dita divergente).

Uma questão importante é encontrar um critério para saber se uma série converge:

P
Teorema 3.5. Uma série zn é convergente ⇔ dado  > 0, ∃ n0 ∈ N tal que
n=0

m
X
|zn + zn+1 + . . . + zm | = zj < , ∀m > n ≥ n0
j=n

Demonstração. Defina sn := z1 + . . . + zn e verifique que sm − sn−1 = zn + . . . + zm .


O resultado7 segue agora imediatamente do Teorema 2.4 item ii) 

P ∞
P
Definição 3.6. Uma série zn é absolutamente convergente se |zn | converge.
n=0 n=0

P
Exemplo 3.7. Se zn é absolutamente convergente, então é convergente.
n=0

P (−1)n+1
Exemplo 3.8. n é convergente mas não é absolutamente convergente.
n=1

Definição 3.9. Seja (an )n∈N uma seqüência em R. Defina lim sup an e lim inf an :
lim inf an := lim [inf {an , an+1 , . . .}]
n→∞

lim sup an := lim [sup {an , an+1 , . . .}]


n→∞

Exemplo 3.10. Seja an := [1 + (−1)n ]. Então, lim sup an = 2 e lim inf an = 0 .


Exemplo 3.11. No exemplo anterior, @ lim an .
n→∞

Exemplo 3.12. lim an = r ∈ R ⇐⇒ lim sup an = lim inf an = lim an = r.


n→∞ n→∞

Exemplo 3.13. Se (sn )n∈N e (tn )n∈N são seqüências de reais tais que sn ≤ tn ,
para todo n ∈ N. Então, lim sup sn ≤ lim sup tn e lim inf sn ≤ lim inf tn .
Observação 3.14. Tome seqüência (an )n∈N em R. Seja E o conjunto dos limites
de todas as subseqüências convergentes de (an )n∈N (incluindo os casos ∞ ou −∞).
Pode-se mostrar que lim sup an = sup E e que lim inf an = inf E.
6Em particular, pelas séries de potências.
7Este teorema é conhecido como “critério de Cauchy”.
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 7

P∞
Proposição 3.15. (Critério da p raiz) Seja n=0 zn uma série em C. Defina
α ∈ R+ ∪ {∞} por α := lim sup n |zn |. Então α satisfaz as seguintes propriedades:
i) Se α < 1, então a série é absolutamente convergente.
ii) Se α > 1, então a série é divergente.
Demonstração. Suponha que α < 1. Fixe β ∈ R tal que α < β <p 1. Pela definição
de α, existe natural n0 ≥ 1 tal que, para todo n ≥ n0 temos que n |zn | < β. Logo,
n
X
sn := |zj | < |z0 | + . . . + |zn0 −1 | + β n0 + . . . + β n
j=0
0 −1
nX
= |zj | + β n0 (1 + . . . + β n−n0 )
j=0
0 −1
nX ∞
X
< |zj | + β n0 βj
j=0 j=0
0 −1
nX
β n0
= |zj | + <∞
j=0
1−β

Assim, a seqüência de números reais (sn )n∈N


P∞é estritamente crescente e limitada
superiormente, portanto converge e a série n=0 zn é absolutamente convergente.
Suponha agora que α >p1. Fixe β ∈ R tal que 1 < β < α. Pela definição de α, existe
uma subseqüência de ( n |zn |)n∈N que converge para α. Assim, existe uma seqüência
estritamente crescente de números naturais (n1 , n2 , . . .) tais que
P∞|znk | > β nk para
nk
todo k ≥ 1. Como limk→∞ β = ∞, pelo Exemplo 3.3 a série n=0 zn diverge 
Observação 3.16. Em geral, nada se pode afirmar
P∞ no caso em que α = 1. Por
exemplo, se zn := 1 para todo n ∈ P N, a série n=0 zn diverge e α = 1. Mas, se

zn := 1/n2 para todo n ∈ N, a série n=0 zn converge e também temos α = 1.
P∞
Corolário 3.17. (Critério da razão) Seja n=0 zn uma série em C∗ . Então:
i) Se lim sup |z|zn+1
n|
|
< 1, a série é absolutamente convergente.
|zn+1 |
ii) Se lim inf zn > 1, a série é divergente.
Demonstração. A prova segue do Teorema anterior e das seguintes desigualdades:
|zn+1 | p p |zn+1 |
lim inf ≤ lim inf n |zn | ≤ lim sup n |zn | ≤ lim sup 
|zn | |zn |
Observação 3.18. Podemos provar as desigualdades
p utilizadas no Corolário 3.17.
Vamos mostrar, por exemplo, que lim sup n |zn | ≤ lim sup (|zn+1 | / |zn |). De fato,
se a desigualdade fosse falsa, existiria um número real c que satisfaz a desigualdade
|zn+1 | p
lim sup < c < lim sup n |zn |
|zn |
Da primeira desigualdade segue que ∃n0 ∈ N tal que n > n0 ⇒ |zn+1 | / |zn | < c.
Multiplicando as desigualdades |zn0 +1 | / |zn0 | < c, . . . , |zn | / |zn−1 | < c temos, para
todo n > n0 , que |zn | / |zn0 | < cn−n√0 . Fazendo k := |zn0 | /cn0 concluı́mos p que
n > n0 ⇒ |zn | < kcn . Como limn→∞ n k = 1, segue-se então que lim sup n |zn | ≤ c
e chegamos a uma contradição.
8 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

4. Seqüências e séries de funções


Seja (fn )n∈N uma seqüência de funções fn : Ω ⊂ C −→ C e também f : Ω −→ C.
Definição 4.1. Dizemos que a seqüência (fn )n∈N converge para f , se vale o seguinte
lim fn (z) = f (z), ∀z ∈ Ω
n→∞

e escrevemos fn −→ f . A seqüência (fn )n∈N converge uniformemente8 para f se:


∀ > 0, ∃n0 ∈ N tal que n ≥ n0 ⇒ ∀z ∈ Ω, |fn (z) − f (z)| < 
Exemplo 4.2. Considere fn (z) := z n , com z ∈ D1 (0) e n ≥ 1. Então fn −→ 0.
Exemplo 4.3. No exemplo anterior a convergência não é uniforme.
u
Exemplo 4.4. Suponha que fn −→ f . Se cada fn é contı́nua, então f é contı́nua.
De fato, fixe z0 ∈ Ω e  > 0. Queremos encontrar um δ > 0 tal que |f (z) − f (z0 )| < 
quando |z − z0 | < δ. Existe uma função fn tal que |f (z) − fn (z)| < /3 para todo
z ∈ Ω. Como fn é contı́nua, existe δ > 0 tal que |fn (z0 ) − fn (z)| < /3 quando
|z − z0 | < δ. Sendo assim, quando |z − z0 | < δ devemos ter a seguinte desigualdade
|f (z0 ) − f (z)| ≤ |f (z0 ) − fn (z0 )| + |fn (z0 ) − fn (z)| + |fn (z) − f (z)| < 
P∞
Definição 4.5. Dizemos que a série fn converge para f se (f0 + . . . + fn ) −→ f
n=0

Teorema 4.6. (Teste M de Weierstrass) Suponha que fn : Ω −→ C é uma


seqüência de funções. Suponha que existe uma seqüência de números reais
P∞positivos
(Mn )n∈N tais que |fn (z)| ≤ P Mn para todo z ∈ Ω. Suponha ainda que n=0 Mn é

convergente. Então, a série n=0 fn converge uniformemente em Ω.
Demonstração. Seja un (z) := f1 (z) + . . . + fn (z). Então, para todos n > m temos
Xn
|un (z) − um (z)| = |fm+1 (z) + . . . + fn (z)| ≤ Mk , ∀z ∈ Ω
k=m+1
P∞
Como n=0 Mn converge, para cada z ∈ Ω temos que (un (z))n∈N é uma seqüência
de Cauchy em C. Logo, existe um número ξ(z) ∈ C tal que limn→∞ un (z) = ξ(z) e
portanto temos uma função ξ : Ω −→ C para a qual un −→ ξ. Afirmamos que esta
convergência é uniforme. De fato, dado  > 0 existe n0 ∈ N tal que ∀n ≥ n0 temos
X ∞
Mk < 
k=n+1

∞ ∞ ∞
P
9
P P
e assim temos |ξ(z) − un (z)| = fk (z) ≤ |fk (z)| ≤ Mk <  

k=n+1 k=n+1 k=n+1
P∞
Exemplo 4.7. Seja 0 < r < 1 e Ω := {z ∈ C; |z| ≤ r}. Então, n=0 z n converge
n n
uniformemente em P∞Ω. nDe fato, para todo z ∈ Ω temos |z | ≤ r . Temos ainda
aPconvergência n=0 r = 1/(1 − r). Portanto, pelo Teste M de Weierstrass,
∞ n
n=0 z converge uniformemente em Ω.

P n cos(3n) n
Exercı́cio 4.8. Mostre: 1+5n z converge uniformemente em Dr (0) (r < 1).
n=1

8E escrevemos f −→u
n f
9Para todos z ∈ Ω e para todo n ≥ n .
0
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 9

Definição 4.9. Seja


P∞z0 ∈ C. Uma série de potências em torno de z0 é uma série
de funções do tipo n=0 an (z − z0 )n onde (an )n∈N é uma seqüência em C.
P∞
Teorema 4.10. Para uma dada série de potências n=0 an (z − z0 )n , definimos
1
ρ := 1/n
∈ R+ ∪ {∞}
lim sup |an |
onde convencionamos que 1/0 = ∞ e 1/∞ = 0. O valor ρ possui as propriedades
i) A série é absolutamente convergente em {z ∈ C; |z − z0 | < ρ}.
ii) A série é divergente em {z ∈ C; |z − z0 | > ρ}.
iii) Se 0 < r < ρ, a série converge uniformemente em {z ∈ C; |z − z0 | ≤ r}

Demonstração. Suponha que a série converge para um certo z = z1 6= z0 . Então,


devemos ter que an (z1 − z0 )n −→ 0. Assim, existe um número real M tal que
|an (z1 − z0 )n | ≤ M para todo n ∈ N. Como |z1 − z0 | = 6 0, podemos escrever:
n
z − z0 n

n n z − z0

(4.1) |an (z − z0 ) | = |an (z1 − z0 ) | ≤M
z 1 − z0 z1 − z0
P∞
Este cálculo nos mostra que a série n=0 |an (z − z0 )n | é majorada pela série

z − z0 n

X
M
z1 − z0

n=0

e esta série é convergente para |(z − z0 )/(z1 − z0 )| < 1. Sendo assim, a série
P ∞ n
n=0 an (z − z0 ) converge absolutamente P∞ para todo z tal que |z − z0 | < |z1 − z0 |.
Defina agora
P∞ ρ := sup {|z 1 − z 0 | ; n=0 a n (z1 − z0 )n converge}. Se ρ = 0, então
n
a série n=0 an (z − z0 ) só converge para z = z0 . Supondo 0 < ρ ≤ ∞, dado
0
P∞ z no disco |zn − z0 | < ρ, a definição0 de ρ nos mostra que existe z1 ∈ C tal
qualquer
que n=0 an (zP 1 − z0 ) converge e tal que |z − z0 | < |z1 − z0 |. Pelas considerações

acima, a série n=0 an (z −z0 )n converge absolutamente para z = z 0 e também para
todo z no disco |z − z0 | < ρ. Por outro lado, a própria definição de ρ nos mostra
que a série diverge para |z − z0 | > ρ. Considere
agora
disco |z − z0 | ≤ r < ρ.
um
Seja z1 tal que r < |z1 − z0 | < ρ. Logo, zz−z
r
0
≤ z1 −z0 =: c < 1 e de (4.1), temos

1 −z0

|an (z − z0 )n | < M cn
P∞
Portanto, pelo Teste M de Weierstrass, conclui-se que a série n=0 an (z − z0 )n
converge uniformemente no disco |z − z0 | ≤ r < ρ. Falta apenas mostrar que
1
ρ = R := 1/n
lim sup |an |
Mas isto segue
P∞do Critério da Raiz (Proposição 3.15). De fato, este critério nos diz
que a série n=0 an (z − z0 )n converge absolutamente se vale a desigualdade abaixo
p p
lim sup n an (z − z0 )n = |z − z0 | lim sup n |an | < 1
e isto é equivalente a |z − z0 | < R. Por outro lado, se vale a desigualdade contrária
p p
lim sup n an (z − z0 )n = |z − z0 | lim sup n |an | > 1
P∞
e que é equivalente a |z − z0 | > R, a série n=0 an (z − z0 )n é divergente 
10 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

Observação
P∞ 4.11. O valor ρ do Teorema 4.10 é chamado de raio de convergência
da série n=0 an (z −P z0 )n e o disco {z ∈ C; |z − z0 | < ρ} é chamado de disco de

convergência da série n=0 an (z −z0 )n . O Teorema 4.10 nada nos diz a respeito da
convergência da série na fronteira do seu disco de convergência. De fato, considere
∞ ∞ ∞
X 1 n X 1 n X
2
z , z e zn
n=1
n n=1
n n=0

A primeira destas séries tem raio de convergência ρ = 1 e converge uniformemente


também em |z| = 1. O segundo exemplo também tem raio de convergência ρ = 1
mas não converge para z = 1, porém converge para z = −1. O terceiro exemplo
tem raio de convergência ρ = 1 e não converge para nenhum z ∈ C com |z| = 1
(mostre cada uma destas afirmações).
Observação 4.12. A demonstração
P∞ do Teorema 4.10 deixa claro o seguinte fato:
Se a série de potências n=0 an (z − z0 )n converge em um ponto z1 ∈ C, então esta
série é ainda absolutamente convergente para todo z ∈ C tal que |z − z0 | < |z1 − z0 |.
P∞ n
Exemplo 4.13. Considere a série de potências n=0 zn! . Mostraremos que esta
série tem raio de convergência ρ = ∞. De fato, temos primeiramente a igualdade
(n!)2 = (1.n)(2(n − 1)) . . . (n.1)
Observamos agora que cada um dos n termos deste produto é maior ou igual a n:
k(n − k + 1) − n = (k − 1)(n − k) ≥ 0,
∀k = 1, 2, . . . , n
√ n q
1
Logo, (n!)2 ≥ nn e portanto n! ≥ ( n) que por sua vez implica n n! ≤ √1 . Daı́
n
r
√ n 1
lim n an = lim =0
n→∞ n→∞ n!
Teorema 4.14. Considere duas séries de potências convergentes no disco DR (z0 )

X ∞
X
f (z) := an (z − z0 )n e g(z) := bn (z − z0 )n
n=0 n=0

Suponha que existe uma seqüência de números complexos (wk )n∈N de modo que
lim wk = z0 , 0 < |wk − z0 | < R e f (wk ) = g(wk ) ∀k ∈ N
k→∞

Então, devemos ter que f (z) = g(z) para todo z ∈ DR (z0 ).

Demonstração. Como f e g são contı́nuas em z0 (verifique!), devemos ter que


lim f (wk ) = a0 e lim g(wk ) = b0
k→∞ k→∞

e assim, a0 = b0 . Agora, como f (wk ) = g(wk ) para todo k ∈ N, devemos ter que
(wk − z0 ) {a1 + a2 (wk − z0 ) + . . .} = (wk − z0 ) {b1 + b2 (wk − z0 ) + . . .}
para todo k ∈ N. Por outro lado, wk − z0 6= 0 e wk → z0 e assim a1 = b1 .
Indutivamente, chegaremos a conclusão que an = bn ∀n e portanto que f = g 
Observação 4.15. O resultado acima é conhecido como o Teorema da Identidade.
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 11

5. Funções C-diferenciáveis
De agora em diante, as funções serão sempre definidas em domı́nios de C.
Definição 5.1. Uma função f : Ω −→ C é dita C-diferenciável em z0 ∈ Ω se
f (z) − f (z0 ) f (z0 + ξ) − f (z0 )
∃ f 0 (z0 ) := lim = lim
z→z0 z − z0 ξ→0 ξ
Alternativamente, podemos dizer que uma função f : Ω −→ C é C-diferenciável no
ponto z0 ∈ Ω se existe um número complexo f 0 (z0 ) de modo que vale a igualdade
f (z) = f (z0 ) + f 0 (z0 )(z − z0 ) + Ef (z)
para todo z ∈ Ω, onde Ef : Ω −→ C é uma função que satisfaz a seguinte condição
|Ef (z)|
lim =0
|z − z0 |
z→z0

Claramente, se f : Ω −→ C é C-diferenciável em z0 , então f é contı́nua em z0 .


Além disso, se f : Ω −→ C e g : Ω −→ C são C-diferenciáveis em z0 ∈ Ω, então cf
(com c ∈ C), f ± g, f g e f /g (desde que g(z0 ) 6= 0) também o são e ainda valem
(cf )0 (z0 ) = cf 0 (z0 )
(f ± g)0 (z0 ) = f 0 (z0 ) ± g 0 (z0 )
(f g)0 (z0 ) = f 0 (z0 )g(z0 ) + f (z0 )g 0 (z0 )
f f 0 (z0 )g(z0 ) − f (z0 )g 0 (z0 )
( )0 (z0 ) =
g (g(z0 ))2
Uma função f : Ω −→ C é dita C-diferenciável se o é em todo ponto z0 ∈ Ω. Uma
função f : C −→ C que é C-diferenciável é chamada de função inteira.
Exemplo 5.2. f : C −→ C dada por f (z) := z n+1 , onde n ∈ N, é inteira e ainda
f 0 (z) = (n + 1)z n , ∀z ∈ C
Se n < 0 é inteiro, então g(z) := z é C-diferenciável em C∗ e ainda g 0 (z) = nz n−1 .
n

Exemplo 5.3. f : C −→ C dada por f (z) := z, não é C-diferenciável em z0 ∈ C:


f (z0 + ξ) − f (z0 ) ξ
f 0 (0) = lim = lim
ξ→0 ξ ξ→0 ξ

e este último limite não existe pois, se α ∈ R∗ , então lim α


= 1 e limiα
= −1.
α→0 α α→0 iα

Observação 5.4. Suponha que f, g : Ω −→ C sejam funções diferenciáveis em z0 ,


g 0 (z0 ) 6= 0 e que f (z0 ) = g(z0 ) = 0. Então, vale a seguinte regra de L’Hospital :
f (z) f 0 (z0 )
lim = 0
z→z0 g(z) g (z0 )
De fato, em virtude da definição de função C-diferenciável, temos as igualdades
f (z) = f (z0 ) + f 0 (z0 )(z − z0 ) + Ef (z)
g(z) = g(z0 ) + g 0 (z0 )(z − z0 ) + Eg (z)
e portanto, como f (z0 ) = g(z0 ) = 0 e lim Ef (z)/(z −z0 ) = lim Eg (z)/(z −z0 ) = 0
z→z0 z→z0
0 0
f (z) f (z0 )(z − z0 ) + Ef (z) f (z0 )
lim = lim = 0
z→z0 g(z) z→z0 g 0 (z0 )(z − z0 ) + Eg (z) g (z0 )
12 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

Observação 5.5. Suponha que f : Ω −→ C é C-diferenciável em z0 ∈ Ω, que


f (Ω) ⊂ Ω0 e que g : Ω0 −→ C é C-diferenciável em f (z0 ) ∈ Ω0 . Então, a composta
g ◦ f é C-diferenciável em z0 e ainda vale seguinte igualdade (Regra da cadeia)
0
(g ◦ f ) (z0 ) = g 0 (f (z0 ))f 0 (z0 )
Seja f : Ω −→ C. Suponha z = x + iy ∈ Ω. Defina u : Ω −→ R e v : Ω −→ R

 u(x, y) := <(f (z)) = 21 (f (z) + f (z))

1
v(x, y) := =(f (z)) = 2i (f (z) − f (z))

Assim, para qualquer função a valores complexos f : Ω −→ C, temos que f = u+iv.


Teorema 5.6. Se f = u + iv é C-diferenciável em z0 = x0 + iy0 ∈ Ω, então temos
i) Existem as derivadas parciais ux (x0 , y0 ), uy (x0 , y0 ), vx (x0 , y0 ) e vy (x0 , y0 )
ii) Valem as seguintes igualdades (as equações de Cauchy-Riemann)

 ux (x0 , y0 ) = vy (x0 , y0 )

uy (x0 , y0 ) = −vx (x0 , y0 )


Demonstração. Como f é C-diferenciável em z0 = x0 + iy0 , podemos escrever


f (z0 + ξ) − f (z0 )
f 0 (z0 ) = lim ∈C
ξ
ξ→0

Não importa de que maneira ξ → 0. Assim, escolhemos ξ ∈ R e obtemos que


u(x0 + ξ, y0 ) − u(x0 , y0 ) v(x0 + ξ, y0 ) − v(x0 , y0 )
f 0 (z0 ) = lim + i lim ∈C
ξ→0 ξ ξ→0 ξ
Similarmente, se escolhermos iξ → 0 com ξ ∈ R, vamos obter a igualdade
v(x0 , y0 + ξ) − v(x0 , y0 ) u(x0 , y0 + ξ) − u(x0 , y0 )
f 0 (z0 ) = lim − i lim ∈C
ξ→0 ξ ξ→0 ξ
Assim, i) é imediata e igualando as duas expressões de f 0 (z0 ), segue ii) 
Observação 5.7. Dada f = u+iv, usaremos com freqüência as seguintes notações10
∂f ∂f
:= ux + ivx e := uy + ivy
∂x ∂y
e assim, a seguinte igualdade é equivalente às equações de Cauchy-Riemann:
∂f ∂f
= −i
∂x ∂y
Proposição 5.8. Seja f : Ω −→ C uma função que satisfaz as seguintes condições:
i) ∂f ∂f
∂x e ∂y existem e são contı́nuas em Ω
∂f
ii) Vale a igualdade ∂x = −i ∂f
∂y em Ω
Então, f : Ω −→ C é uma função C-diferenciável.
Demonstração. A hipótese i) nos garante que f é diferenciável como função de duas
variáveis reais. Da hipótese ii), segue que o Jacobiano de f é da forma dfz (w) = cw,
onde c := ux − iuy . O resultado agora decorre da definição de diferenciabilidade 

10E vamos chama-las derivadas parciais de f .


MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 13

Observação 5.9. Neste momento, fica evidente uma relação entre a noção usual
de diferenciabilidade de uma aplicação definida em um aberto do R2 e o conceito
de função C-diferenciável: Uma função f : Ω −→ C, considerada como função da
variável complexa z = x + iy, será C-diferenciável no ponto z0 = x0 + iy0 , se e só
se, a função f , considerada como uma aplicação de duas variáveis reais (x, y), for
diferenciável no ponto (x0 , y0 ) e ainda ∂f ∂f
∂x (x0 , y0 ) = −i ∂y (x0 , y0 ).

Exercı́cio 5.10. (Derivada da função inversa) Sejam Ω, Ω0 ⊂ C domı́nios do


plano complexo e f : Ω −→ Ω0 uma aplicação bijetora com inversa g : Ω0 −→ Ω.
Então, se f é C-diferenciável em z0 ∈ Ω e f 0 (z0 ) 6= 0, temos que g é C-diferenciável
em f (z0 ) e ainda vale a igualdade g 0 (f (z0 )) = 1/f 0 (z0 ).
Exemplo 5.11. (A função exponencial) Seja f : C −→ C dada pela expressão
f (z) := ex (cos(y) + i sin(y)), z = x + iy ∈ C
Para esta função, u(x, y) = e cos(y) e ainda v(x, y) = ex sin(y). Logo, existem as
x

derivadas parciais ∂f ∂f ∂f ∂f
∂x e ∂y , são contı́nuas e ainda ∂x = −i ∂y . Portanto f é inteira.
Observe que, pelo Teorema 5.6, f 0 (z) = ∂f z
∂x (z) = f (z). Denotaremos f (z) por e .
z z −1 −z
Verifique que f (z) = e é uma função periódica de perı́odo 2πi e que (e ) = e .
Exemplo 5.12. (As funções trigonométricas) Definimos as seguintes funções
eiz + e−iz eiz − e−iz
cos(z) := e sin(z) :=
2 2i
para todo z ∈ C. Claramente, estas funções são inteiras e ainda valem as igualdades
0 0
(cos(z)) = − sin(z) e (sin(z)) = cos(z)
Devemos ainda observar que, se na Proposição 5.8 a função f for contı́nua, podemos
suprimir a condição de continuidade das derivadas parciais. Mais precisamente:
Teorema 5.13. (Teorema de Looman-Menchoff ) Seja f : Ω −→ C contı́nua e
tal que possua derivadas parciais ∂f /∂x e ∂f /∂y em todo ponto. Suponha ainda que
valem as equações de Cauchy-Riemann para f em Ω. Então, f é C-diferenciável11.
Exercı́cio 5.14. Mostre que a seguinte função f : C −→ C não é inteira
−4

 e−z z 6= 0
f (z) :=
0 z=0

embora as equações de Cauchy-Riemann sejam válidas em todo ponto.


Exercı́cio 5.15. Suponha que f : Ω −→ C é uma função C-diferenciável.
i) Mostre que se f 0 (z) = 0 para todo z ∈ Ω, então f é constante.
ii) Mostre que se <(f ) ou =(f ) é constante em Ω, então f também o é.
Solução. Seja f = u + iv uma função C-diferenciável tal que f 0 (z) = 0 para todo
z ∈ Ω. Então, usando as equações de Cauchy-Riemann, temos que ux = uy = 0
e também vx = vy = 0 em Ω. Assim, pela Observação 5.9, df = 0. Como Ω é
um domı́nio, segue que f é constante. Isto mostra o item i). Para o item ii), se
u = <(f ) (ou v = =(f )) é constante em Ω, então das equações de Cauchy-Riemann
resulta que ux = uy = vx = vy = 0 e portanto, pelo item i), f é constante 
11Uma demonstração está em: R. Narashimhan, Complex analysis in one variable, Birkhäuser.
14 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES


an (z − z0 )n com ρ > 0. Então
P
Teorema 5.16. Seja uma série de potências
n=0

X
f : Dρ (z0 ) −→ C, f (z) := an (z − z0 )n
n=0

é uma função C-diferenciável e ainda a derivada f 0 (z) é representada pela série



X
0
f (z) = nan (z − z0 )n−1
n=1
P∞
Demonstração. ComeçaremosPobservando que a série n=1 nan (z − z0 )n−1 tem o

mesmo raio de convergência n=0 an (z − z0 )n pois valem as seguintes igualdades
1 1 1
1/n
= √ 1/n
=ρ= 1/n
lim sup |nan | lim sup n |an |
n
lim sup |an |

uma
P∞ vez que limn→∞
n
n = 1P e assim, temos que a série de potências dada por
n ∞
n=0 nan (z − z0 ) = (z − P z0 ) n=1 nan (z − z0 )n−1 tem raio de convergência ρ.

Denotaremos então g(z) := n=1 nan (z − z0 )n−1 . Basta então mostrar que f 0 = g.
De fato12, para qualquer z ∈ Dρ (0), existe 0 < r < ρ tal que z ∈ Dr (0) ⊂ Dρ (0) e
(∞ ∞
) ∞

f (z + ξ) − f (z) 1 X X X
an (z + ξ)n − an z n − nan z n−1

− g(z) =

ξ ξ
n=0 n=0 n=1



(z + ξ)n − z n
X  
= an − nz n−1


n=1
ξ
∞ (n−1 )
X X
= an (z + ξ)k z n−k−1 − nz n−1


n=1 k=0
∞ (n−1 )
X X 
z n−k−1 (z + ξ)k − z k

= an


n=1 k=0

(n−1
)
X X n−k−1
(z + ξ)k − z k

≤ |an | |z|
n=1 k=0

(n−1 )
X X
n−k−1 k−1
≤ |an | r kr |ξ|
n=1 k=0
∞ ∞
X n(n − 1) n−2 |ξ| X
n(n − 1)an rn−2

≤ |ξ| |an | r =
n=2
2 2 n=2

(estamos supondo também que z + ξ ∈ Dr (0) e daı́ segue a segunda desigualdade).


A última soma é convergente (verifique!). Denotando esta soma por M , segue que
f (z + ξ) − f (z)
f 0 (z) = lim = g(z) 
ξ→0 ξ
f (n) (z0 )
Corolário 5.17. f é infinitamente C-diferenciável e an = n! , ∀n ∈ N.

12Podemos supor z = 0.
0
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 15

6. As funções exponencial e logaritmo


O Teorema 5.16 e o Exemplo 4.13, nos mostram que a função g dada pela série

X zn
g(z) := , z∈C
n=0
n!

é inteira e ainda que g 0 (z) = g(z) para todo z ∈ C. Mas a função exponencial
f (z) = ez (ver o Exemplo 5.11) também é inteira e ainda f 0 (z) = f (z) para todo
z ∈ C. Afirmamos que f = g. De fato, defina F : C −→ C por F (z) := g(z)f (−z).
Daı́, F 0 (z) = 0 para todo z ∈ C. Pelo Exercı́cio resolvido 5.15, F é constante.
Como F (0) = 1, segue que 1 = g(z)f (−z) = g(z)e−z e então que g(z) = ez ∀ z ∈ C.

Proposição 6.1. Valem as seguintes propriedades para a aplicação exponencial ez


i) ez+w = ez ew para todos z, w ∈ C
ii) ez é periódica de perı́odo 2πi
iii) (ez )0 = ez para todo z ∈ C
iv) ez 6= 0 para todo z ∈ C
v) Dado z ∈ C∗ , existe w ∈ C tal que ew = z

Demonstração. Demonstraremos apenas o item v). Sejam z = r(cos(θ) + i sin(θ))


e w = u + iv tais que ew = z. Assim, |z| = r = eu e ainda v = θ + 2kπ. Sendo
assim, os possı́veis valores de w são da forma w = ln(|z|) + (θ + 2kπ)i 
g
/ R+ × {0}} −−−−−→ C∗ por
Podemos definir a seguinte função E0 := {z ∈ C; z ∈
g(w) := ln(|w|) + iθ(w)
onde θ(w) é o argumento principal de w definido na Observação 1.1. Pelo que
acabamos de ver, eg(w) = w. Observamos ainda que a imagem de g é a faixa
R × (0, 2π) e também que se z ∈ R × (0, 2π), então ez ∈ E0 . É fácilmente verificável
que se z ∈ R × (0, 2π), então g(ez ) = z. Portanto, g & ez são inversas uma da outra
g ez
E0 −−−−−−→ R × (0, 2π) e R × (0, 2π) −−−−−−→ E0

Como ez é C-diferenciável, segue do Exercı́cio 5.10 que g é C-diferenciável e que


g 0 (w) = 1/w. A função g é chamada de ramo principal do Logaritmo 13. Denotamos
g(z) = log(z)

13Veja o Apêndice 2.
16 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

7. Integrais curvilı́neas
Seja F (t) := U (t) + iV (t) uma função contı́nua de variável real definida em um
intervalo [a, b] com valores em C. Definimos a integral de F em [a, b] pela expressão
Z b Z b Z b
F (t)dt := U (t)dt + i V (t)dt
a a a
Valem as seguintes propriedades da integral de funções de [a, b] a valores em C:
Rb Rb
i) <( a F (t)dt) = a <(F (t))dt
Rb Rb
ii) =( a F (t)dt) = a =(F (t))dt
Rb Rb Rb
iii) a {F (t) + G(t)} dt = a F (t)dt + a G(t)dt
Rb Rb
iv) a cF (t)dt = c a F (t)dt, para todo c ∈ C
R b Rb
v) a F (t)dt ≤ a |F (t)| dt

Definição 7.1. Seja Ω ⊂ C um domı́nio, γ : [a, b] −→ C uma curva de classe C 1


cuja imagem está contida em Ω e f : Ω −→ C uma função contı́nua. Definimos a
integral de f sobre a curva γ (ou integral curvilı́nea de f ) através da igualdade
Z Z b
f (z)dz := f (γ(t))γ 0 (t)dt
γ a

Podemos estender esta definição. Dada uma curva γ : [a, b] −→ C de classe C 1 por
partes, i.e., existe uma partição a = a0 < . . . < an−1 < an = b de [a, b] tal que
γk := γ|[ak ,ak+1 ] é de classe C 1 para k = 0, . . . , n − 1, defina a integral de f sobre γ:
Z n−1
XZ
f (z)dz := f (z)dz
γ k=0 γk
R
A seguinte lista de propriedades para as integrais γ f (z)dz é de fácil verificação
R R R
vi) γ {cf (z) + g(z)} dz = c γ f (z)dz + γ g(z)dz, ∀c ∈ C

vii) Se existe M ∈ R+ tal que |f (z)| ≤ M para todo z na imagem de γ, então


Z

f (z)dz ≤ M L(γ)

γ

onde L(γ) representa o comprimento da curva γ.

viii) Se ϕ : [a, b] −→ [c, d] é de classe C 1 , bijetora e crescente, então


Z Z
f (z)dz = f (z)dz
γ γ◦ϕ

ix) Se ϕ : [a, b] −→ [c, d] é de classe C 1 , bijetora e decrescente, então


Z Z
f (z)dz = − f (z)dz
γ γ◦ϕ

x) Se existe uma função C-diferenciável F : Ω −→ C tal que F 0 = f , então14


Z
f (z)dz = F (γ(b)) − F (γ(a))
γ

14Tal função F é dita uma primitiva de f .


MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 17

Sejam agora γ1 : [a, b] −→ C e γ2 : [c, d] −→ C duas curvas15 tais que γ1 (b) = γ2 (c)
e considere a curva γ : [0, 1] −→ C, chamada de justaposição de γ1 e γ2 , e dada por

 γ1 (2(b − a)t + a); t ∈ [0, 1/2]
γ(t) :=
γ2 (2(d − c)t + 2c − d); t ∈ [1/2, 1]

Denotamos a curva γ por γ1 +γ2 e não é difı́cil verificar que vale a seguinte igualdade
Z Z Z
f (z)dz = f (z)dz + f (z)dz
γ1 +γ2 γ1 γ2
desde que a imagem de γ1 e de γ2 estejam contidas no domı́nio Ω de f . Por outro
lado, dada γ : [a, b] −→ C, denotamos por −γ a curva definida em [a,b] e dada por
−γ(t) := γ(a + b − t). Pelo item ix) listado acima, temos a seguinte igualdade
Z Z
f (z)dz = − f (z)dz
−γ γ

Teorema 7.2. (Cauchy para retângulos) Se f : Ω ⊂ C −→ C é uma função


C-diferenciável no domı́nio Ω e R ⊂ Ω um retângulo fechado, então vale a igualdade
Z
C := f (z)dz = 0
∂R

Demonstração. Decomponha o retângulo R em quatro subretângulos fechados16.

Denote por Ij , j=1,2,3,4, as integrais sobre a fronteira de cada um dos subretângulos.


Devido à orientação de cada curva, vale a seguinte igualdade C = I1 + I2 + I3 + I4 .
Portanto, temos |C| ≤ |I1 |+. . .+|I4 | e assim |Ij1 | ≥ 14 |C| para algum j1 ∈ {1, 2, 3, 4}.
Continuando este processo, obtemos uma seqüência de subretângulos Rjn tais que17
Z Z
1 1 Z 1
f (z)dz ≥ |C| , f (z)dz ≥ f (z)dz ≥ 2 |C| , ...

4 4 ∂Rj 4

∂Rj ∂Rj
1 2 1

Denote o diâmetro e o perı́metro do retângulo original R por d e l, respectivamente.


Portanto, os diâmetros e os perı́metros dos Rjn são 2−n d e 2−n l, respectivamente.
Usando agora o Teorema de Cantor (Proposição 2.15), obtemos um z∗ ∈ ∩n≥1 Rjn .
Como f é C-diferenciável em z∗ , dado  > 0, ∀z em uma vizinhança de z∗ temos
(7.1) |f (z) − {f (z∗ ) + (z − z∗ )f 0 (z∗ )}| <  |z − z∗ |
É fácil ver que vale a seguinte igualdade ∂Rj f (z∗ ) + (z − z∗ )f 0 (z∗ )dz = 0. Assim
R
n
Z Z
f (z)dz = {f (z) − (f (z∗ ) + (z − z∗ )f 0 (z∗ ))} dz
∂Rjn ∂Rjn
R
1
Portanto, devido a (7.1), temos ∂Rj f (z)dz ≤ 4n dl. Assim, |C| ≤ dl 

n

15A palavra curva vai sempre representar uma curva de classe C 1 por partes.
16Todas as fronteiras de cada retângulo estão orientadas positivamente (anti-horário).
17A seqüência é tal que R ⊃ R ⊃ R ⊃ . . ..
j1 j2 j3
18 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

8. Aplicações do Teorema de Cauchy


Lema 8.1. Seja f : Ω −→ C contı́nua. Suponha que a ∈ Ω é tal que f |Ω−{a} é
C-diferenciável. Então, para qualquer retângulo fechado R ⊂ Ω devemos ter que
Z
f (z)dz = 0
∂R

Demonstração. Se a ∈
/ R, o resultado segue do Teorema 7.2 aplicado à f |Ω−{a} .
Suponha agora que a ∈ R. Dado um inteiro positivo n, considere a subdivisão do
retângulo R em n2 subretângulos congruentes (Rkl ) conforme mostrado na figura18.

Usando as propriedades conhecidas para as integrais curvilı́neas, podemos concluir


Z n X
X n Z
(8.1) f (z)dz = f (z)dz
∂R k=1 l=1 ∂Rkl
R
Se a ∈ / Rkl , então devemos ter ∂Rkl f (z)dz = 0 pelo Teorema de Cauchy para
retângulos. Por outro lado, se a ∈ Rkl , então devemos ter a seguinte estimativa
Z
ML
(8.2) f (z)dz ≤

∂Rkl n
onde M é o valor máximo de |f | sobre o compacto R e L é o comprimento de ∂R.
O ponto a está no máximo em 4 subretângulos. Assim, de (8.1) e (8.2) obtemos
Z
4M L
f (z)dz ≤

∂R n
R
Fazendo n −→ ∞, vamos deduzir que ∂R f (z)dz = 0 

Lema 8.2. Seja R um retângulo fechado de C e a ∈R. Então, vale a igualdade
Z
1
dz = 2πi
∂R z − a

Demonstração. Seja t ∈ [0, 1]. Então, deve existir um único real positivo c(t) tal
que γ(t) := a + c(t)e2πit ∈ ∂R. Assim, γ é uma reparametrização de ∂R e portanto
Z Z 1
1 1 d
dz = 2πit dt
(a + c(t)e2πit )dt
γ z − a 0 c(t)e
Z 1 0 Z 1
c (t)
= dt + 2πi dt
0 c(t) 0
c(1)
= ln( ) + 2πi
c(0)
E como c(0) = c(1), segue que o valor da integral é 2πi 
18No caso n = 4. Todos os retângulos tem fronteiras orientadas positivamente.
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 19

Teorema 8.3. (Fórmula de Cauchy para o retângulo) Seja f : Ω −→ C uma



função C-diferenciável e R um retângulo fechado contido em Ω. Então, ∀a ∈R vale
Z
1 f (z)
f (a) = dz
2πi ∂R z − a

Demonstração. Considere a seguinte função g : Ω −→ C dada pela expressão


 f (z)−f (a)
 z−a z ∈ Ω − {a}
g(z) :=
 0
f (a) z=a
Então g é contı́nua e g|Ω−{a} é C-diferenciável. Logo, pelo Lema 8.1, temos que
Z
0 = g(z)dz
Z∂R Z
f (z) 1
= dz − f (a) dz
z − a z − a
Z∂R ∂R
f (z)
= dz − 2πif (a) 
∂R z −a
Definição 8.4. Dizemos que f : Ω −→ C é holomorfa19 em Ω se, para cada z0 ∈ Ω,

an (z − z0 )n , convergente em Dρ (z0 ) (ρ > 0), tal que
P
existe série de potências
n=0

X
f (z) = an (z − z0 )n , ∀z ∈ Dρ (z0 ) ∩ Ω
n=0

Teorema 8.5. f : Ω −→ C é C-diferenciável ⇐⇒ f : Ω −→ C é holomorfa.

Demonstração. O Teorema 5.16 mostrou a implicação ⇐. Para mostrar a recı́proca,


◦ ◦
considere a ∈ Ω. Escolha um retângulo R ⊂ Ω com a ∈R e r > 0 tal que Dr (a) ⊂R.
Observamos que se w ∈ Dr (a) devemos ter necessáriamente, pelo Teorema 8.3, que
Z
1 f (z)
f (w) = dz
2πi ∂R z − w
 −1
w−a
Z
1 1
= f (z) 1− dz
2πi ∂R z−a z−a
∞  n
1 X w−a
Z
1
= f (z) dz
2πi ∂R z − a n=0 z − a
∞  Z 
X 1 f (z)
= n+1
dz (w − a)n
n=0
2πi ∂R (z − a)

onde usamos que se w ∈ P Dr (a) e z ∈ ∂R, então |w − a| ≤ θ |z − a| com θ ∈ (0, 1), e



assim a série geométrica n=0 ( w−a n
z−a ) converge uniformemente e portanto podemos
integrar termo a termo. Conseqüentemente, f tem um desenvolvimento em série
de potências no disco Dr (a) e então, como a ∈ Ω é arbitrário, f é holomorfa 

19Ou analı́tica. O Teorema da identidade (4.14), mostra que a definição a seguir é boa.
20 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

Teorema 8.6. Se f : Ω −→ C é C-diferenciável, dado a ∈ Ω, existem as derivadas


f 0 (a), f 00 (a), f 000 (a), . . . f (n) (a), . . .
para todo n ∈ N∗ . Em outras palavras, f é infinitamente C-diferenciável.
Demonstração. Teorema 5.16, Corolário 5.17 e Teorema 8.5 
Teorema 8.7. (O Teorema de Morera) Seja f : Ω −→ C uma função contı́nua
e suponha que para todo retângulo fechado R contido em Ω tenhamos a igualdade
Z
f (z)dz = 0
∂R
R
Então, f possui uma primitiva em Ω, f é holomorfa e também γ f (z)dz = 0 para
toda curva fechada e diferenciável por partes cuja imagem está contida em Ω.
Demonstração. É suficiente provar o Teorema quando Ω for um disco aberto Dr (a).
Sejam z = x + iy ∈ Dr (a), o retângulo e as poligonais Γz e γz que unem a e z como:

R
Definimos F : Ω −→ C pela expressão F (z) := γz f (z)dz. Seja h ∈ R pequeno o
suficiente para que z + ih ∈ Dr (a). Assim, podemos calcular a derivada parcial
R y+h
∂F F (z + ih) − F (z) y
f (x + it)dt
(z) = lim = i lim = if (z)
∂y h→0 h h→0 h
onde na última igualdade usamos a Regra de L’Hospital. Por outro lado, as curvas
γz e Γz formam a fronteira do retângulo. Uma aplicação do Teorema 7.2 nos mostra
Z Z
(8.3) f (z)dz = f (z)dz
γz Γz

Tomando h ∈ R pequeno o suficiente para que z + h ∈ Dr (a), podemos escrever


R x+h
∂F F (z + h) − F (z) f (t + iy)dt
(z) = lim = lim x = f (z)
∂x h→0 h h→0 h
onde na penúltima igualdade usamos (8.1) e na última usamos novamente L’Hospital.
Desta forma, existem e são contı́nuas, as derivadas parciais ∂F/∂x, ∂F/∂y e ainda
∂F ∂F
(z) = f (z) = −i (z), ∀z ∈ Ω
∂x ∂y
Assim, pela Proposição 5.8, F é holomorfa. Do Teorema 5.6 segue que F 0 = f .
Finalmente, do Teorema 8.6 segue que f é holomorfa 
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 21

Teorema 8.8. (Princı́pio da continuação analı́tica) Sejam f : Ω −→ C e


g : Ω −→ C holomorfas. Suponha que existe uma seqüência (zk )k∈N em Ω tal que:
i) zk −−−→ z 0 ∈ Ω e z 0 6= zk para todo k ∈ N
ii) f (zk ) = g(zk ) para todo k ∈ N
Então, temos necessáriamente que f (z) = g(z) para todo z ∈ Ω.

Demonstração. Pelo Teorema da Identidade (Teorema 4.14), as séries de Taylor de


f e de g em torno de z 0 coincidem. Seja M o conjunto dos pontos de z ∈ Ω nos
quais as séries de Taylor em torno de z de f e de g coincidem. Dito de outra forma,
n o
M := z ∈ Ω; f (n) (z) = g (n) (z), ∀n ∈ N

Como z 0 ∈ M, M 6= ∅. As derivadas f (n) e g (n) são contı́nuas para cada n, assim


M é fechado em Ω. Por outro lado, se ξ ∈ M, existe r > 0 tal que f = g sobre
Dr (ξ). Logo, para z ∈ Dr (ξ) devemos ter f = g em uma vizinhança de z e portanto
z ∈ M, ou seja, M também é aberto. Da conexidade de Ω, segue que M = Ω 
Teorema 8.9. Seja f : Ω −→ C uma função holomorfa. Considere o conjunto
Zf := {z ∈ Ω; f (z) = 0}
Se f não é idênticamente nula, então Zf é um subconjunto discreto20 de Ω.

Demonstração. Como f é contı́nua, Zf é fechado. Seja a ∈ Zf e considere o


desenvolvimento de f em série de potências ao redor de a, válido em algum disco

X
cn (z − a)n , ∀z ∈ Dr (a) ⊂ Ω
n=0

Temos então, c0 = f (a) = 0. Como f não é idênticamente nula, existe21 n > 0 tal
que cn 6= 0. Seja k o menor inteiro positivo tal que ck 6= 0. Podemos então escrever

X
f (z) = (z − a)k cn (z − a)n−k = (z − a)k g(z)
n=k

Assim, g(a) = ck 6= 0 e portanto existe uma vizinhança V ⊂ Dr (a) tal que g(z) 6= 0
para todo z ∈ V . Logo, a é isolado uma vez que Zf ∩ V = {a} 
Corolário 8.10. Sejam f, g : Ω −→ C holomorfas. Suponha que o conjunto
{z ∈ Ω; f (z) = g(z)}
tem um ponto de acumulação em Ω. Então, f = g.

Demonstração. Basta aplicar o Teorema anterior à função F := f − g 


Exercı́cio 8.11. Mostre que não existe função analı́tica f : D2 (0) −→ C tal que
1 1
f ( ) = (−1)n ∀n = 1, 2, 3, . . .
n n

20Ou seja, dado a ∈ Z , existe r > 0 tal que D (a) ∩ Z = {a}.


f r f
21Pelo Teorema anterior.
22 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

9. O Princı́pio do máximo
Lema 9.1. Seja I um aberto de R e φ : I −→ R uma função de classe C 2 . Suponha
que exista t0 ∈ I tal que φ(t) ≤ φ(t0 ) para todo t ∈ I. Então devemos ter φ00 (t0 ) ≤ 0.
Demonstração. φ00 (t0 ) = lim 1
2 {φ(t0 + h) + φ(t0 − h) − 2φ(t0 )} ≤ 0 
h→0 h

Lema 9.2. Seja Ω um aberto em R2 e seja u : Ω −→ R de classe C 2 . Suponha que


exista (x0 , y0 ) ∈ Ω tal que u(x, y) ≤ u(x0 , y0 ) para todo (x, y) ∈ Ω. Temos então
∂2u ∂2u
∆u(x0 , y0 ) := (x, y) + (x, y) ≤ 0
∂x2 ∂y 2
∂2u ∂2u
Demonstração. Pelo Lema 9.1, ∂x2 (x0 , y0 ) ≤0e ∂y 2 (x0 , y0 ) ≤0

Existe ainda uma generalização do Lema acima (que provavelmente não usaremos)
Lema 9.3. Seja Ω um aberto de Rn e u : Ω −→ R de classe C 2 . Suponha que
existe x0 ∈ Ω tal que u(x) ≤ u(x0 ) para todo x ∈ Ω. Então, ∀(c1 , . . . , cn ) ∈ Rn vale
n
X ∂2u
(x0 )ci cj ≤ 0
i,j=1
∂xi ∂xj

Demonstração. Seja x0 = (x01 , . . . , x0n ). Seja φ : (−, ) −→ R definida em uma


vizinhança de 0 em R e dada por φ(t) := u(x01 + tc1 , . . . , x0n + tcn ). Pela hipótese,
esta função tem um máximo em t = 0. Assim, pelo Lema 9.1 devemos ter que
n
X ∂2u
φ00 (0) = (x0 )ci cj ≤ 0 
i,j=1
∂xi ∂xj

Teorema 9.4. (Forma fraca do princı́pio do máximo) Seja Ω ⊂ C aberto e


seja u : Ω −→ R de classe C 2 . Suponha que ∆u(z) ≥ 0 para todo z ∈ Ω. Então,
para todo subconjunto U ⊂ Ω aberto e relativamente compacto22, devemos ter que
(9.1) u(z) ≤ sup u(w) ∀z ∈ U
w∈∂U

Demonstração. Primeiro supomos que ∆u(z) > 0 para todo z ∈ Ω. Assim, seja

z0 ∈ U tal que u(z0 ) = sup u(w); w ∈ U
Se (9.1) não é válida, z0 não está em ∂U e portanto z0 ∈ U com u(w) ≤ u(z0 ) para
todo w ∈ U . Pelo Lema 9.2, devemos ter ∆u(z0 ) ≤ 0: contradição. Assim (9.1) é
válida se ∆u > 0 em Ω. Suponha agora que ∆u ≥ 0 sobre Ω. Seja  > 0 e defina
2
u (z) := u(z) +  |z| onde z ∈ Ω. Então ∆u = ∆u + 4 > 0 em Ω. Assim, temos
u (z) ≤ sup u (w) ∀z ∈ U
w∈∂U

Fazendo  −→ 0, obtemos (9.1) 


Definição 9.5. Seja f : Ω −→ C e suponha que f possui derivadas parciais. Defina:
   
∂f 1 ∂f ∂f ∂f 1 ∂f ∂f
(a) := (a) − i (a) (a) := (a) + i (a)
∂z 2 ∂x ∂y ∂ z̄ 2 ∂x ∂y

22Isto é: o fecho de U em Ω é compacto.


MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 23

Definição 9.6. Seja Ω ⊂ C aberto e seja u : Ω −→ R de classe C 2 . O operador


u 7→ ∆u é chamado de Laplaciano. Considerando os operadores ∂/∂z e ∂/∂ z̄ temos,
1 ∂2u
∆c u =∆u onde ∆c u :=
4 ∂z∂ z̄
O operador u 7→ ∆c u é chamado de Laplaciano complexo.
Proposição 9.7. Seja f : Ω −→ C uma função holomorfa. Então, se U ⊂ Ω é
relativamente compacto, devemos ter que |f (z)| ≤ sup |f (w)| para todo z ∈ U .
w∈∂U

Demonstração. Como f é holomorfa ∂f /∂ z̄ = 0. Definindo u(z) := f (z)f (z), temos


∂f ∂ f¯ 2
∆u = 4∆c u = 4 · = 4 |f 0 (z)| ≥ 0
∂z ∂ z̄
2
Como u(z) = |f (z)| , o resultado segue imediatamente do Teorema 9.4 
Corolário 9.8. (Teorema do módulo máximo) Seja f : Ω −→ C holomorfa.
Suponha que exista z0 ∈ Ω tal que |f (z)| ≤ |f (z0 )| para todo z em uma vizinhança
de z0 . Nestas condições, a função f : Ω −→ C é constante.
Teorema 9.9. (Teorema da aplicação aberta) Seja f : Ω −→ C uma função
holomorfa não-constante. Então, se U ⊂ Ω é aberto, temos f (U ) ⊂ C aberto23.
Demonstração. Seja a ∈ U . Substituindo f por f − f (a), podemos supor que
f (a) = 0. Considere um disco Dr (a) tal que Dr (a) ⊂ U . Podemos ainda supor que
f (z) 6= 0 para todo z ∈ Dr (a) − {a} pelo Teorema 8.9. Defina então o seguinte
número real δ := inf {|f (z)| ; z ∈ C, |z − a| = r}. Então δ > 0. Considere agora
w ∈ C tal que w ∈ / f (U ). Afirmamos que |w| ≥ δ/2. De fato, defina φ : U −→ C
1
φ(z) :=
f (z) − w
Então, φ é uma função holomorfa. Assim, pela Proposição anterior, devemos ter
1 1
(9.2) = |φ(a)| ≤ sup |φ(z)| =
|w| |z−a|=r inf |f (z) − w|
|z−a|=r

Agora se |w| < δ, então temos |f (z) − w| ≥ |f (z)| − |w| ≥ δ − |w| para todos z ∈ U
tais que |z − a| = r. Desta forma, pela desigualdade (9.2), se |w| < δ, devemos ter
1 1

|w| δ − |w|
e então |w| ≥ 12 δ. Assim, dado w ∈
/ f (U ), ou temos |w| ≥ δ ou temos |w| ≥ 12 δ.
1
Logo, Dδ/2 (0) = w ∈ C; |w| < 2 δ ⊂ f (U ) e f (U ) é vizinhança de 0 = f (a) 
Observação 9.10. O Teorema do módulo máximo é também uma conseqüência
do Teorema da aplicação aberta. De fato, seja f : Ω −→ C holomorfa. Suponha
que exista z0 ∈ Ω tal que |f (z0 )| ≥ |f (z)| para todo z ∈ U , onde U ⊂ Ω é um
aberto contendo z0 . Esta hipótese implica que f (z0 ) está na fronteira de f (U ).
Logo, f (z0 ) não é um ponto interior de f (U ). Portanto, f (U ) não é aberto. Segue
do Teorema da aplicação aberta que f é constante.

23E f é dita uma aplicação aberta.


24 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

10. O Teorema de Cauchy para o disco


Definição 10.1. Seja f : Ω −→ C holomorfa. Uma função holomorfa F : Ω −→ C
é dita uma primitiva de f em ΩPse F 0 = f . Duas primitivas de f diferem por uma

constante. Suponha que f (z) = n=0 an (z − z0 )n em um disco Dr (z0 ) ⊂ Ω. Então

X an
F (z) := (z − z0 )n+1 , z ∈ Dr (z0 )
n=0
n + 1
é uma primitiva de f em Dr (z0 ) (verifique!).
Teorema 10.2. (Cauchy para discos) Seja f : Dr (z0 ) ⊂ C −→ C holomorfa.
Então, f possui uma primitiva em Dr (z0 ) (admitimos aqui o caso em que r = ∞).
Demonstração. Já sabemos que f tem uma primitiva dentro de algum disco Ds (z0 )
contido em Dr (z0 ). Defina r0 := sup {s; 0 < s < r, f tem primitiva em Ds (z0 )}.
Afirmamos que f tem uma primitiva em Dr0 (z0 ). De fato, tome s < r0 e considere
uma primitiva G de f em Ds (z0 ). Defina Fs := G − G(z0 ). Se s < s0 < r0 , então
Fs0 é uma primitiva de f em Ds (z0 ) e portanto Fs0 − Fs é constante em Ds (z0 ).
Desde que Fs (z0 ) = 0 = Fs0 (z0 ), temos que Fs0 |Ds (z0 ) = Fs . Definimos então uma
primitiva F de f em Dr0 (z0 ) através da seguinte regra: dado s < r0 , F |Ds (z0 ) := Fs .
Afirmamos agora que r0 = r. De fato, suponha que r0 < r. Para cada w ∈ C com
|w − z0 | = r0 , escolha um disco Dw centrado em w e sobre o qual f tem uma
primitiva que denotamos por Gw . Escolha um ponto aw ∈ Dw ∩ Dr0 (z0 ). Tome
uma primitiva F de f em Dr0 (z0 ). Adicionando, se necessário, uma constante a
Gw , podemos supor que Gw (aw ) = F (aw ). Então F = Gw sobre Dw ∩Dr0 (z0 ), uma
vez que esta interseção é conexa e F − Gw é constante sobre ela. Temos também
que se Dw ∩ Dw0 6= ∅, então Gw = Gw0 sobre Dw ∩ Dw0 (verifique!). Defina agora
 
[
V := Dr0 (z0 ) ∪  Dw 
|w−z0 |=r0

Definimos uma primitiva H de f em V pela regra: H|Dr0 (z0 ) := F e H|Dw := Gw .


Daı́ existe s tal que r0 < s < r e Ds (z0 ) ⊂ V e isto contradiz a definição de r0 
Teorema 10.3. Seja f : Dr (z0 ) ⊂ C −→ C holomorfa. Então, para qualquer curva
γ fechada, de classe C 1 por partes e contida em Dr (z0 ), temos a seguinte igualdade
Z
f (z)dz = 0
γ

Demonstração. Segue do Teorema anterior e do item x) do §7 


Corolário 10.4. (Fórmula de Cauchy para o disco) Seja f : Ω −→ C uma
função holomorfa, z0 ∈ Ω e r > 0 tal que Dr (z0 ) ⊂ Ω. Então, para todo w ∈ Dr (z0 )
Z
1 f (z)
f (w) = dz
2πi γ z − w
onde γ : [0, 1] −→ C é a circunferência γ(t) := z0 + re2πit . Além disso, temos
Z
(n) n! f (z)
f (w) = dz, ∀w ∈ Dr (z0 )
2πi γ (z − w)n+1
Demonstração. Análoga a dos Teoremas 8.3 e 8.5. Use ainda o Corolário 5.17 
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 25

Corolário 10.5. (Desigualdades de Cauchy) Considere uma função holomorfa


f : Dr (z0 ) ⊂ C −→ C, 0 < r0 < r e M (r0 ) := sup {|f (z)| ; |z − z0 | = r0 }. Então:
n!M (r )
(n) 0
f (z0 ) ≤ , ∀n ∈ N

(r0 )n
Demonstração. Considere a curva γ(t) = z0 + r0 e2πit , t ∈ [0, 1]. Pelo Corolário 10.4
Z

(n)
n! f (z)
f (z0 ) = dz

2πi γ (z − z0 ) n+1
Z 1
n! d
f (z0 + r0 e2πit )(r0 e2πit )−n−1 (z0 + r0 e2πit )dt

=
2πi 0 dt
Z 1
n!
f (z0 + r0 e2πit )e−2πnit dt

=
(r0 )n 0
Z 1
n! f (z0 + r0 e2πit ) dt

≤ n
(r0 ) 0
n!M (r0 )
≤ 
(r0 )n
Teorema 10.6. (Liouville) Se f : C −→ C é inteira e limitada, f é constante.
Demonstração. Seja M (r) = sup {|f (z)| ; |z| = r}. Como f é limitada, segue que
existe M > 0 tal que M (r) ≤ M para todo r > 0. Assim, pelo Corolário anterior
(n) n!M (r) M

f (0) ≤ ≤ n, ∀n ∈ N
rn r

Fixando então n ≥ 1 e fazendo r −→ ∞, obtemos f (n) (0) = 0 para todo n > 0.
P∞ (n)
Como f (z) = n=0 f n!(0) z n , segue que f (z) = c0 

Corolário 10.7. (Teorema fundamental da Álgebra) Todo polinômio P ∈ C[z]


de grau n ≥ 1, tem uma raiz complexa (ou seja, existe z ∈ C tal que P (z) = 0).
Demonstração. Se P (z) = an z n + . . . + a1 + a0 é um polinômio de grau n ≥ 1,
n
an−1 a0
|P (z)| = |z| an + + ... + n
 z z 
n |an−1 | + . . . + |a0 |
≥ |z| |an | −
|z|
desde que tenhamos |z| = r ≥ 1. Assim, para r suficientemente grande, temos que
|an | n 1 2 2
|P (z)| ≥ r ∴ ≤ ≤
2 |P (z)| |an | rn |an |
Se ∀z ∈ C vale P (z) 6= 0, a função 1/P é inteira e limitada ∴ constante: absurdo 
Observação 10.8. Observe que pelo Teorema da aplicação aberta, P (C) é aberto
em C. Por outro lado, o conjunto P (C) também é fechado em C. De fato, supondo
que wn = P (zn ) e wn → w ∈ C, temos que zn é necessáriamente uma seqüência
limitada em C uma vez que |P (z)| −→ ∞ quando |z| −→ ∞. Tomando agora
uma subseqüência convergente znk −→ z ∈ C, temos wnk −→ P (z) = w. Assim,
obtemos uma nova demonstração do Teorema fundamental da Álgebra: P (C) não
é vazio, é aberto e fechado em C e daı́, por conexidade, P (C) = C.
26 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

11. Singularidades
Dados z0 ∈ C e r > 0, vamos denotar por Dr∗ (z0 ) o conjunto Dr (z0 ) − {z0 }.
Definição 11.1. f : Ω −→ C tem uma singularidade isolada em z0 ∈ C − Ω se
∃r > 0 tal que f é definida e holomorfa em Dr∗ (z0 ) ⊂ Ω. Assim, temos 3 alternativas:
i) Se existe g : Dr (z0 ) ⊂ C −→ C holomorfa e ainda com g|Dr∗ (z0 ) = f |Dr∗ (z0 ) ,
o ponto z0 é chamado de singularidade removı́vel da função f
ii) Se limz→z0 |f (z)| = ∞, o ponto z0 é chamado de pólo da função f
iii) Se não vale i) e nem ii), z0 é chamado de singularidade essencial de f
Exemplo 11.2. A função f (z) := sin(z)
z , definida em C − {0}, tem no ponto z0 = 0
uma singularidade isolada. Esta singularidade é removı́vel. De fato, temos que
z3 z5 z7
sin(z) = z −
+ − + ..., ∀z ∈ C
3! 5! 7!
Assim, dividindo ambos os membros desta igualdade por z ∈ C∗ , obtemos que
sin(z) z2 z4
=1− + + ..., ∀z ∈ C∗
z 3! 5!
z2 z4
Note agora que a série g(z) := 1 − 3! + 5! + . . . define uma função inteira.
Exemplo 11.3. f : C∗ −→ C dada por f (z) := z1 , tem um pólo em z0 = 0.
Exemplo 11.4. f : C∗ −→ C dada por f (z) := e1/z , tem no ponto z0 = 0 uma
singularidade essencial. De fato, isto segue da não-existência do limite lim e1/z .
z→0

Teorema 11.5. Suponha que f : Ω −→ C possui uma singularidade isolada em z0 .


Então, são equivalentes as seguintes afirmações:
i) f tem uma singularidade removı́vel em z0
ii) f admite uma extensão contı́nua em uma vizinhança de z0
iii) f é limitada em uma vizinhança de z0
iv) lim (z − z0 )f (z) = 0
z→z0

Demonstração. Assuma que z0 = 0. As implicações i) ⇒ ii) ⇒ iii) ⇒ iv) são


triviais. Para mostrar que iv) ⇒ i), introduzimos funções g, h : Ω −→ C dadas por

 zf (z) z 6= 0
g(z) := h(z) := zg(z)
0 z=0

Por hipótese, g é contı́nua em z = 0. Assim sendo, a identidade h(z) = h(0) + zg(z)


nos mostra que h é C-diferenciável em z = 0 e com h0 (0) = g(0) = 0. Como para
algum r > 0 a função f é holomorfa em Dr∗ (0), temos que h é holomorfa em Dr (0).
Portanto, a função h possui um desenvolvimento em série de potências em z0 = 0
h(z) = a0 + a1 z + a2 z 2 + a3 z 3 + . . .
Uma vez que h(0) = 0 e h0 (0) = 0, podemos escrever
h(z) = z 2 (a2 + a3 z + a4 z 2 + . . .)
Mas para todo z 6= 0, temos a seguinte igualdade h(z) = z 2 f (z). Então, a função
F : Dr (0) −→ C dada por F (z) := a2 + a3 z + . . . é a extensão holomorfa de f 
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 27

Observação 11.6. Suponha que f : Ω −→ C é uma função analı́tica não-constante.


Suponha também que z0 ∈ Ω é tal que f (z0 ) = 0. Então, a prova do Teorema 8.9
nos mostra que existem m ∈ N∗ e g : Ω −→ C analı́tica tais que g(z0 ) 6= 0 e também
f (z) = (z − z0 )m g(z), ∀z ∈ Ω
O ponto z0 é então chamado de zero de ordem m de f .
Teorema 11.7. Seja f : Ω −→ C analı́tica em Ω − {z0 } e com f (z) 6= 0 para todo
z ∈ Ω − {z0 }. Suponha que z0 é um pólo de f . Então, existem uma função analı́tica
g : Ω −→ C que satisfaz g(z) 6= 0 para todo z ∈ Ω e um número m ∈ N∗ tais que
g(z)
f (z) = , ∀z ∈ Ω − {z0 }
(z − z0 )m

Demonstração. Pela hipótese e pelo Teorema 11.5, a função 1/f (z) definida em
Ω − {z0 } tem uma singularidade removı́vel em z0 . De fato, basta definir a função
 1
 f (z) z ∈ Ω − {z0 }
h(z) :=
0 z = z0

que é analı́tica em Ω. Por outro lado, como h(z0 ) = 0, segue da Observação 11.6
que existem m ∈ N∗ e uma g1 : Ω −→ C analı́tica com g1 (z0 ) 6= 0 tais que
h(z) = (z − z0 )m g1 (z), ∀z ∈ Ω
Notando agora que g1 (z) 6= 0 para todo z ∈ Ω e fazendo g(z) := 1/g1 (z), temos que
g(z)
f (z) = , ∀z ∈ Ω − {z0 } 
(z − z0 )m
Observação 11.8. No Teorema acima, z0 é dito um pólo de ordem m de f . Uma
vez que g é analı́tica em Ω, existe um disco Dr (z0 ) ⊂ Ω no qual temos representação
1
a0 + a1 (z − z0 ) + a2 (z − z0 )2 + . . .

f (z) = m
(z − z0 )
a0 a1 am−1
= + + ... + + am + am+1 (z − z0 ) + . . .
(z − z0 )m (z − z0 )m−1 (z − z0 )
a0 am−1
com a0 6= 0. A soma (z−z0 )m + ... + (z−z0 ) é dita a parte singular de f em z0 .

Corolário 11.9. Se z0 é uma singularidade isolada de f : Ω −→ C, então z0 é um


pólo de ordem m de f se, e sómente se, o limite abaixo for finito e diferente de zero
lim (z − z0 )m f (z)
z→z0

Exemplo 11.10. Considere a função f : C − {0, i} −→ C dada pela expressão


1
f (z) :=
z(z − i)3
O ponto z0 = i é um pólo de ordem 3 de f e z0 = 0 é um pólo de ordem 1 de f .
z
Exemplo 11.11. f : C∗ −→ C dada por f (z) := ze3 , tem um pólo de ordem 3 em
2
z = 0 e vale a igualdade f (z) = z13 + z12 + 2!z
1 1
+ 3! z
+ 4! + z5! + . . . para todo z ∈ C∗ .
28 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

12. Série de Laurent


O anel {z ∈ C; 0 ≤ r < |z − z0 | < R ≤ ∞} será denotado por r < |z − z0 | < R.
A circunferência γ(t) := a+re2πit com t ∈ [0, 1] e r > 0, é denotada por |z − a| = r.

Lema 12.1. Sejam 0 ≤ r1 < r2 ≤ ∞. Considere o anel Ω dado por r1 < |z| < r2 .
Seja f : Ω −→ C uma função holomorfa. Escolha r > 0 tal que r1 < r < r2 . Então
Z
f (z)dz
|z|=r

é independente da escolha de r.

Demonstração. Seja g : Ω −→ C (holomorfa) dada por g(z) := zf (z). Temos então


Z Z 1 Z 1
f (z)dz = 2πi f (re2πit )re2πit dt = 2πi g(re2πit )dt ∴
|z|=r 0 0
Z Z 1 Z 1
d 1 d
f (z)dz = 2πi g 0 (re2πit )e2πit dt = g(re2πit )dt = 0 
dr |z|=r 0 r 0 dt

Lema 12.2. Considere o anel Ω dado por r1 < |z| < r2 . Escolha a ∈ Ω tal que
r1 < s1 < |a| < s2 < r2 . Seja também f : Ω −→ C holomorfa. Temos então que
Z Z
1 f (z) 1 f (z)
f (a) = dz − dz
2πi |z|=s2 z − a 2πi |z|=s1 z − a

Demonstração. Considere a função (holomorfa) g : Ω −→ C dada pela expressão


 f (z)−f (a)
 z−a z ∈ Ω − {a}
g(z) :=
 0
f (a) z=a
Pelo lema anterior, temos a seguinte igualdade
Z Z
g(z)dz = g(z)dz
|z|=s2 |z|=s1

Por outro lado, pelo Teorema 10.3 e pelo Corolário 10.4 temos que

Z  2πi |a| < s
1
dz =
|z|=s z − a 
0 |a| > s
Usando agora a definição da função g, obtemos imediatamente o resultado 
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 29

Definição 12.3. Suponha que (zn )n∈Z seja uma seqüência de números complexos
indexada pelo conjunto dos números inteiros Z. Dizemos então que a série infinita

X
zn
n=−∞
P∞ P∞
é (absolutamente) convergente se ambas as séries n=0 zn e n=1 z−n são também
(absolutamente) convergentes. Nesta situação temos, por definição, a igualdade

X ∞
X ∞
X
zn := z−n + zn
n=−∞ n=1 n=0

Análogamente, suponha que (un )n∈Z é uma seqüência de funções un : Ω −→ C


indexada pelo conjunto dos números inteiros Z. Dizemos então que a série infinita

X
un
n=−∞
P∞ P∞
é (uniformemente) convergente se ambas as séries n=0 un e n=1 u−n são também
(uniformemente) convergentes. Nesta situação temos, por definição, a igualdade

X ∞
X ∞
X
un := u−n + un
n=−∞ n=1 n=0

Teorema 12.4. Seja f : Ω −→ C uma função analı́tica no anel r < |z − z0 | < R.


Então, é válido um desenvolvimento em série para a função f que é dado por

X
f (z) = an (z − z0 )n ∀z ∈ C, r < |z − z0 | < R
n=−∞

onde a convergência é absoluta no anel e uniforme sobre subconjuntos compactos


do anel. Além disso, os coeficientes an ∈ C, com n ∈ Z, são dados pela expressão
Z
1 f (z)
(12.1) an = dz
2πi γ (z − z0 )n+1
e onde γ : [0, 1] −→ C é uma circunferência γ(t) := z0 + se2πit com r < s < R.

O desenvolvimento em série acima é chamado de série de Laurent para o anel.

Demonstração. Suponha z0 = 0. Tome reais s1 , s2 tais que r < s1 < |z| < s2 < R.
Tome real s > 0 tal que r < s < R e defina an pela expressão (12.1). Pelo Lema
12.1, an não depende de s. Sejam agora |w| < s2 , |z| = s2 , |w0 | > s1 e |z 0 | = s1 ∴
∞ ∞
1 X wn 1 X z 0m
= 0 0
= −
z − w n=0 z n+1 z −w m=0
w0m+1

Como ambas as séries são uniformemente convergentes, temos as igualdades


∞ −1
f (z 0 )
Z Z
1 f (z) X 1 0
X
dz = an w n
0 0
dz = − an w0n
2πi |z|=s2 z − w n=0
2πi |z 0 |=s z − w
1 n=−∞
P∞ n
Pelo Lema 12.2, obtemos que f (w) = n=−∞ an w . Prove o restante 
30 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

Corolário 12.5. Seja z0 uma singularidade isolada de uma função holomorfa


f
Ω := {z ∈ C; 0 < |z − z0 | < R} −−−−−−→ C
P∞
Seja f (z) = −∞ an (z − z0 )n a série de Laurent da função f no anel Ω. Então
i) z0 é uma singularidade removı́vel de f ⇔ an = 0 para todo n ≤ −1
ii) z0 é um pólo de ordem m de f ⇔ a−m 6= 0 e an = 0 ∀n ≤ −(m + 1)
iii) z0 é uma singularidade essencial de f ⇔ an 6= 0 para infinitos n < 0
Exemplo 12.6. Considere a função f : C∗ −→ C dada por f (z) := 1/z. Vamos
determinar a série de Laurent de f no anel 1 < |z − i| < ∞. Para tanto, note que
  ∞ −1
1 1 1 1 X 1 X
= 1 = = in+1 (z − i)n
z z − i 1 − i(z−i) z − i n=0 in (z − i)n n=−∞

1
Exemplo 12.7. Análogamente, a série de f (z) = 2−3z+z 2 no anel 1 < |z| < 2 é
1 1 1 1 z z2
2
= ... − 2 − − − − − ...
2 − 3z + z z z 2 4 8
Exemplo 12.8. A seguinte decomposição é válida no anel 0 < |z − 1| < ∞:

sin(πz) X (−1)n+1 π 2n+1 (z − 1)2n−2
3
=
(z − 1) n=0
(2n + 1)!
π π3 π 5 (z − 1)2
= − 2
+ − + ...
(z − 1) 3 5!
Exemplo 12.9. f : C∗ −→ C dada por f (z) := e1/z tem uma singularidade
essencial em z0 = 0. De fato, a série de Laurent de f no anel 0 < |z| < ∞ é

X 1/n!
ez = +1
n=1
zn

Teorema 12.10. (Casorati-Weierstrass) Seja Ω ⊂ C um domı́nio e a ∈ Ω. Seja


também f : Ω − {a} −→ C holomorfa. As seguintes afirmações são equivalentes:
i) O ponto a é uma singularidade essencial de f
ii) Dada uma vizinhança V ⊂ Ω de a, f (V − {a}) é denso24 em C
iii) Existe uma seqüência (zn )n∈N em Ω − {a} com as seguintes propriedades
1) lim zn = a
n→∞
2) A seqüência (f (zn ))n∈N não possui limite em C ∪ {∞}

Demonstração. As implicações ii) ⇒ iii) ⇒ i) são triviais. Provaremos i) ⇒ ii)


por absurdo. De fato, assuma que existe uma vizinhança V ⊂ Ω de a tal que
f (V − {a}) não é denso em C. Portanto, existe um disco Dr (c) com r > 0 e
Dr (c) ∩ f (V − {a}) = ∅, ou seja, |f (z) − c| ≥ r para todo z ∈ V − {a}. A função
g(z) := 1/(f (z)−c) é então holomorfa em V −{a} e também limitada por 1/r e assim
possui uma singularidade removı́vel em a. Se segue então que f (z) = c + 1/g(z)
possui uma singularidade removı́vel em a no caso em que limz→a g(z) 6= 0 e um
pólo no caso em que limz→a g(z) = 0. Em qualquer caso, temos contradição 

24Ou seja, f (V − {a}) = C.


MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 31

13. O ı́ndice de uma curva fechada


Definição 13.1. Seja γ : [a, b] −→ C uma curva fechada e de classe C 1 por partes
e seja z ∈ γ ∗ := C − {γ(t); t ∈ [a, b]}. O ı́ndice de γ com respeito a z é a integral
Z
1 1
n(γ, z) := dξ
2πi γ ξ − z
Lema 13.2. n(γ, z) ∈ Z para todo z ∈ γ ∗ .
Demonstração. Considere a função g : [a, b] −→ C dada pela expressão
Z t
γ 0 (s)
g(t) := ds
a γ(s) − z
Esta função é contı́nua, satisfaz g(a) = 0 e g(b) = n(γ, z)2πi = 2kπi. De fato,
g 0 (t) = γ 0 (t)/(γ(t) − z) (exceto em um número finito de pontos). Defina agora
h : [a, b] −→ C por h(t) := (γ(t) − z)e−g(t) . Temos que h0 (t) = 0 (exceto em um
número finito de pontos). Da continuidade de g segue que h é constante em [a, b].
Em particular, h(a) = h(b). Mas γ(a) = γ(b) e assim temos que n(γ, z) ∈ Z pois:
h(b) h(a)
e−g(b) = = = e−g(a) = e0 = 1 
γ(b) − z γ(a) − z
Lema 13.3. Se γ : [a, b] −→ C é uma curva fechada e de classe C 1 por partes,
i) n(γ, z) é constante quando z varia em uma componente conexa de γ ∗
ii) n(γ, z) = 0 quando z está na componente conexa ilimitada de γ ∗
Demonstração. Pode-se mostrar que a função z ∈ γ ∗ 7−→ n(γ, z) ∈ C é holomorfa
(ver Lista de exercı́cios) e ainda que sua derivada é dada pela seguinte fórmula
Z
0 1 1
n (γ, z) = dξ
2πi γ (ξ − z)2
Temos agora que f : C − {z} −→ C dada por f (z) := (ξ − z)−2 é holomorfa e
tem uma primitiva dada por F (ξ) = −(ξ − z)−1 . Se z ∈ γ ∗ , então γ é uma curva
fechada em C − {z}. Logo, para todo z ∈ γ ∗ temos
Z
0 1 1 1
n (γ, z) = 2
dξ = {F (γ(b)) − F (γ(a))} = 0
2πi γ (ξ − z) 2πi
Isto mostra o item i). Para mostrar o item ii), escolha um número real r > 0 tal
que o conjunto compacto {γ(t); t ∈ [a, b]} está contido no disco Dr (0). Assim, o
conjunto C − Dr (0) é um subconjunto conexo de γ ∗ e portanto está contido em
uma componente conexa C de γ ∗ . A componente C é a única componente conexa
ilimitada de γ ∗ pois todas as outras são subconjuntos de Dr (0). O ponto z0 := 2r
está em C e como a função f (ξ) := (ξ − z0 )−1 é holomorfa em em Dr (0), segue que
Z
1 1
n(γ, z0 ) = dξ = 0
2πi γ ξ − z0
Use agora o item i) para concluir  (O item i) também segue do Teorema 9.9)
Lema 13.4. Seja γ : [a, b] −→ C uma curva simples, fechada e de classe C 1 por
partes. Então, n(γ, z) = ±1 para todo z na componente conexa limitada25 C de γ ∗ .
25Assumimos aqui o Teorema da curva de Jordan: Seja γ : [a, b] −→ C uma curva contı́nua,
simples e fechada. Então γ ∗ tem duas componentes conexas uma limitada e outra não-limitada.
Além disso, a fronteira comum de cada uma destas componentes é γ([a, b]).
32 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

14. Versão homotópica do Teorema de Cauchy


Definição 14.1. Seja A ⊂ C. Duas curvas γ0 , γ1 : [a, b] −→ A contı́nuas são ditas
homotópicas em A se existe uma aplicação contı́nua H : [a, b] × [0, 1] −→ A tal que
H(t, 0) = γ0 (t) e H(t, 1) = γ1 (t) para todo t ∈ [a, b]. Suponha γ0 (a) = γ1 (a) = p
e que γ0 (b) = γ1 (b) = q, então dizemos que γ0 e γ1 são homotópicas com extremos
fixos em A se H(0, s) = p e H(1, s) = q para todo s ∈ [0, 1] e denotamos γ0 ∼ γ1 .

Definição 14.2. Um subconjunto A ⊂ C é dito simplesmente conexo se é conexo


e se toda curva fechada γ : [a, b] −→ A satisfaz γ ∼ c para uma curva constante c.

Proposição 14.3. Seja f : Ω −→ C holomorfa e seja também R ⊂ R2 o retângulo


R = [a, b] × [0, 1]. Dada uma aplicação contı́nua H : R −→ Ω, temos a igualdade
Z
f (z)dz = 0
H|∂R

Demonstração. Seja n um número natural e subdivida R em uma união de n2


retângulos (Ri )1≤i≤n2 com lados paralelos aos eixos coordenados. Como H(R) é
compacto26, temos um certo n suficientemente grande tal que para cada 1 ≤ i ≤ n2
existe disco aberto Di com H(Ri ) ⊂ Di ⊂ Ω. Use agora o Teorema 10.2 
Corolário 14.4. (Cauchy homotópico) Seja f : Ω −→ C holomorfa. Sejam
também γ0 , γ1 : [a, b] −→ Ω curvas diferenciáveis por partes e homotópicas27. Então
Z Z
f (z)dz = f (z)dz
γ0 γ1
R
Em particular, se Ω é simplesmente conexo e γ : [a, b] → Ω é fechada, γ
f (z)dz = 0.

26Vamos usar aqui a existência do número de Lebesgue para um compacto.


27Com extremos fixos.
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 33

15. Resı́duos
Definição 15.1. Suponha que zj ∈ C seja uma singularidade isolada de uma
função holomorfa f : Ω − {zj } −→ C. Escolha r > 0 tal que Dr∗ (zj ) ⊂ Ω. Podemos
portanto considerar a série de Laurent de f com respeito ao anel 0 < |z − zj | < r

X
f (z) = ajn (z − zj )n , 0 < |z − zj | < r
n=−∞

Definimos o resı́duo de f em zj como sendo o coeficiente aj−1 . Notação: Res(f, zj ).


Teorema 15.2. Sejam z1 , . . . , zk singularidades isoladas de uma função holomorfa
f : Ω − {z1 , . . . , zk } −−−→ C. Suponha que γ : [a, b] −→ Ω é uma curva28 fechada,
homotópica a uma constante e cuja imagem está em Ω − {z1 , . . . , zk }. Então temos
Z k
1 X
f (z)dz = n(γ, zj )Res(f, zj )
2πi γ j=1

Demonstração. Seja gj a parte singular29 de f em zj para cada j ∈ {1, . . . , k}. A


função F := f − g1 − . . . − gk é holomorfa em Ω. Logo, pela versão homotópica do
Teorema de Cauchy (Corolário 14.4) temos a seguinte igualdade
Z Xk Z
f (z)dz = gj (z)dz
γ j=1 γ

−1
k Z !
X X
= ajn n
(z − zj ) dz
j=1 n=−∞ γ

k
X
= 2πi.aj−1 n(γ, zj )
j=1
k
X
= 2πi.Res(f, zj )n(γ, zj )
j=1

pois a convergência é uniforme em γ([a, b]) e (z − zj )n tem primitiva se n 6= −1 


Corolário 15.3. (Fórmula de Cauchy) Seja f : Ω −→ C uma função holomorfa
e γ : [a, b] −→ Ω uma curva fechada homotópica a uma constante. Então temos
Z
1 f (z)
n(γ, a)f (a) = dz, ∀a ∈ Ω − γ([a, b])
2πi γ z − a
Demonstração. A função g : Ω − {a} −→ C dada por g(z) := f (z)/(z − a) é
holomorfa e temos ainda a igualdade Res(g, a) = f (a). O resultado é imediato 
Corolário 15.4. Seja Ω um domı́nio simplesmente conexo e f : Ω −→ C uma
função holomorfa. Se γ : [a, b] −→ C é uma curva fechada, simples orientada
positivamente e z ∈ C é um ponto que está na componente limitada de γ ∗ , temos
Z
1 f (ξ)
f (z) = dξ
2πi γ ξ − z
28As curvas deste parágrafo são sempre diferenciáveis por partes.

29Ou seja, g :=
j
P
−1
ajn (z − zj )n .
n=−∞
34 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

R∞ 1
RR 1
Exemplo 15.5. Considere a integral −∞ x2 +1
dx = lim 2 dz. Como
R→∞ −R z +1
1 1
f (z) := =
z2 + 1 (z − 1)(z + i)
é uma função holomorfa que possui pólos simples nos pontos z = ±i, considere a
curva CR composta pela semi-circunferência com raio R > 1 e o segmento [−R, R]

que contém o pólo z = i onde o resı́duo é 1/2i. Aplicamos agora o Teorema 15.2
Z R Z
1 1 1
(15.1) 2+1
dz + 2+1
dz = 2πi. = π
−R z CR z 2i
2
Por outro lado, temos a desigualdade |f (z)| ≤ 1/(|z| − 1). Desta forma obtemos
Z
1 πR

2
dz ≤ 2

CR z + 1 R −1
1
R
e então lim CR z2 +1 dz = 0. Passando a equação (15.1) ao limite R −→ ∞ temos
R→∞
Z ∞
1
2
dx = π
−∞ x + 1
R 2π 1
Exemplo 15.6. Podemos calcular a integral 0 cos(θ)−2 dθ usando a substituição
z + z −1
cos(θ) = , z = eiθ
2
Logo, dz = ieiθ dθ = izdθ e a integral pode ser calculada usando o Teorema 15.2
Z 2π Z
1 1 1
dθ = z+z −1
dz
0 cos(θ) − 2 |z|=1 ( 2 − 2) iz
Z
2 1
= 2
dz
i |z|=1 z − 4z + 1
Z
2 1
= √ √ dz
i |z|=1 (z − 2 − 3)(z − 2 + 3)
2 1
= 2πi √
i −2 3
−2π
= √
3
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 35

16. Equivalência conforme


O corpo dos números complexos C tem uma estrutura de R-espaço vetorial e de
C-espaço vetorial. Uma aplicação T : C −→ C é dita C-linear se é da forma abaixo
z ∈ C 7−→ λz ∈ C
onde λ é uma constante complexa. Uma aplicação T : C −→ C é dita R-linear se
(16.1) T (z) = T (1)x + T (i)y = λz + µz̄, ∀ z = x + iy ∈ C
onde as constantes λ e µ são dadas por λ := (T (1)−iT (i))/2 e µ := (T (1)+iT (i))/2.
Portanto, uma aplicação R-linear T : C −→ C é C-linear quando T (i) = iT (1) e
neste caso, T (z) = T (1)z. Podemos identificar C com M2×1 (R) através da aplicação
 
x
z = x + iy ∈ C ,→ ∈ M2×1 (R)
y

Podemos usar a identificação acima e observar ainda que a toda matriz real 2 × 2
 
a b
A= ∈ M2×2 (R)
c d

está correspondida uma aplicação R-linear T : C −→ C dada pela expressão abaixo


      
x T a b x ax + by
∈ C p−−−−−−−→ = ∈C
y c d y cx + dy
 
a b
Proposição 16.1. São equivalentes as afirmações sobre A = ∈ M2×2 (R)
c d
i) A aplicação R-linear T : C −→ C induzida por A é C-linear
ii) Temos c = −b e d = a e portanto T (z) = (a + ic)z para todo z ∈ C
Proposição 16.2. As seguintes afirmações sobre f : Ω −→ C são equivalentes
i) f é C-diferenciável em z ∈ Ω
ii) f é diferenciável z ∈ Ω e dfz : C −→ C é C-linear
iii) f é diferenciável em z ∈ Ω e valem as equações de Cauchy-Riemann em z

Dados z, w ∈ C∗ , o ângulo entre z e w é o (único) ^(z, w) := ϕ ∈ [0, π] tal que30


hz, wi
cos(ϕ) =
|z| |w|
Definição 16.3. T : C −→ C que é R-linear e injetora31 preserva ângulos se
|z| |w| hT (z), T (w)i = |T (z)| |T (w)| hz, wi , ∀z, w ∈ C
Esta terminologia é justificada pelo fato de que se z, w ∈ C∗ , então devemos ter

hT (z), T (w)i hz, wi


=
|T (z)| |T (w)| |z| |w|

Em outras palavras, devemos ter ^(T (z), T (w)) = ^(z, w) para todos z, w ∈ C∗ .
30Aqui h , i denota o produto escalar usual do R2 .
31E conseqüentemente bijetora.
36 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

Lema 16.4. Seja T : C −→ C uma aplicação R-linear injetora. São equivalentes


i) T preserva ângulos
ii) ∃a ∈ C∗ tal que T (z) = az, ∀ z ∈ C ou T (z) = az̄, ∀ z ∈ C
iii) Existe s > 0 tal que hT (z), T (w)i = s hz, wi para todos z, w ∈ C
Demonstração. Para mostrar que i) ⇒ ii) defina a := T (1) ∈ C∗ e b := a−1 T (i) ∴
2
0 = hi, 1i = hT (i), T (1)i = hab, ai = |a| <(b) =⇒ <(b) = 0
Sendo assim, b = ir para algum r ∈ R. Portanto, escrevendo z = x + iy, temos que
T (z) = T (1)x + T (i)y = a(x + iry)
2
e conseqüentemente hT (1), T (z)i = ha, a(x + iry)i = |a| x. Logo, ∀z = x + iy ∈ C
2
|x + iy| |a| x = |1| |z| hT (1), T (z)i = |T (1)| |T (z)| h1, zi = |a| |a(x + iry)| x
e portanto, |x + iry| = |x + iy| para todo z com x 6= 0 e isto implica que r = ±1 ∴
T (z) = a(x ± iy) ⇐⇒ T (z) = az ou T (z) = az̄
2
Para mostrar que ii) ⇒ iii), basta tomar s := |a| . A outra implicação é trivial 
Definição 16.5. Seja f : Ω ⊂ R2 −→ C diferenciável. Dizemos que f preserva
ângulos em c ∈ Ω ⇐⇒ dfc : C −→ C é uma aplicação R-linear que preserva ângulos.
Dizemos ainda que f preserva ângulos se f preserva ângulos em todo ponto de Ω.
Proposição 16.6. Valem as seguintes afirmações relativas a uma f : Ω −→ C
i) Se f é holomorfa e f 0 (z) 6= 0 para todo z ∈ Ω, f preserva ângulos
ii) Se f é anti-holomorfa32 e f¯0 (z) 6= 0 para todo z ∈ Ω, f preserva ângulos
Além disso, se f : Ω −→ C é uma aplicação de classe C 1 que preserva ângulos, f
é holomorfa com f 0 (z) 6= 0 ∀z ∈ Ω, ou f é anti-holomorfa com f¯0 (z) 6= 0 ∀z ∈ Ω.
Demonstração. Para mostrar i), note que dado z ∈ Ω temos33 que f é diferenciável
em z e que dfz (w) = f 0 (z)w para todo w ∈ C. Use agora o Lema 16.4. Para
mostrar ii), note também que dado z ∈ Ω temos que f¯ é diferenciável em z e que
dfz (w) = f¯0 (z)w para todo w ∈ C. Agora use novamente o Lema 16.4. Para
mostrar a última afirmação, note que dado z ∈ Ω temos dfz : C −→ C dada por34
∂f ∂f
dfz (w) = (z)w + (z)w
∂z ∂ z̄
∂f ∂f ∂f ∂f
Como dfz preserva ângulos, ∂ z̄ (z) =0e ∂z (z) 6= 0 ou ∂z (z) =0e ∂ z̄ (z) 6= 0. Logo
∂f ∂f
∂z (z) − ∂ z̄ (z)
z ∈ Ω 7−→ ∂f ∂f
∈C
∂z (z) + ∂ z̄ (z)
é uma aplicação bem-definida, contı́nua e toma sómente os valores −1 ou 1. Pela
conexidade de Ω, esta aplicação é constante. Logo, podemos afirmar o seguinte:
∂f ∂f ∂f ∂f
(z) = 0 e (z) 6= 0, ∀z ∈ Ω ou (z) = 0 e (z) 6= 0, ∀z ∈ Ω
∂ z̄ ∂z ∂z ∂ z̄
O resultado agora segue da Proposição 16.2 

32Isto significa que f¯ : Ω −→ C dada por f¯(z) := f (z) é holomorfa.


33Pela Proposição 5.8 e Observação 5.9.
34Use a equação (16.1) para a aplicação R-linear T := df e os operadores da Definição 9.5.
z
MAT 0225 - FUNÇÕES ANALÍTICAS 37

Observação 16.7. Dada uma aplicação diferenciável f : Ω −→ C, considere as


curvas diferenciáveis γ1 , γ2 : (−, ) −→ Ω que passam por c ∈ Ω, ou seja, γi (0) = c.
Suponha que f é holomorfa com f 0 (z) 6= 0, sendo assim, f preserva ângulos. Então
^((f ◦ γ1 )0 , (f ◦ γ2 )0 ) = ^(γ10 , γ20 )

Exemplo 16.8. Seja f : C∗ −→ C∗ a função holomorfa dada por f (z) := z 2 .


Como f 0 (z) = 2z 6= 0 para todo z ∈ C∗ , f preserva ângulos pela Proposição 16.6.

Exemplo 16.9. A função f : D1 (0) −→ {w ∈ C, <(w) > 0} dada por f (z) := 1−z 1+z
preserva ângulos pois f é holomorfa e f 0 (z) = − (1+z)
2
2 6= 0 para todo z ∈ D1 (0).
38 ANDRÉ DE OLIVEIRA GOMES

Definição 16.10. Uma aplicação f : Ω −→ Ω0 entre dois domı́nios do plano


complexo C é dita conforme se é bijetora, holomorfa e também se f −1 é holomorfa.
Nestas condições, os domı́nios Ω e Ω0 são ditos conformemente equivalentes.
Lema 16.11. f : Ω −→ Ω0 bijetora e holomorfa ⇒ f −1 : Ω0 −→ Ω holomorfa.
Demonstração. Pelo Teorema 9.9, f é uma aplicação aberta e portanto f −1 é
contı́nua. Pelo Exercı́cio 5.10, f −1 : Ω0 −→ Ω é holomorfa no conjunto Ω0 − D
onde D := {w ∈ Ω0 ; w = f (z) e f 0 (z) = 0}. Mas, pelo Teorema 8.9, D é discreto e
pelo Teorema 11.5, seus elementos são singularidades removı́veis de f −1 

Existem duas questões principais envolvendo aplicações conformes. São elas:


(1) Quando dois domı́nios do plano complexo são conformemente equivalentes?
(2) Se o forem, quais são as aplicações que realizam a equivalência conforme?

Teorema 16.12. Se f : C −→ Ω ⊂ C é aplicação conforme, então f é da forma


f (z) = az + b, a ∈ C∗ , b ∈ C
Ou seja, f é um polinômio de grau 1. Em particular, f (C) = C.
Demonstração. Como f é uma aplicação inteira, segue que temos desenvolvimento

X
f (z) = an z n , ∀z ∈ C
n=0
Considere agora a função g : C∗ −→ C dada por g(z) := f (1/z). Temos então que

X an
g(z) = n
, ∀z ∈ C∗
n=0
z
Temos então duas possibilidades: 0 é uma singularidade essencial de g ou 0 é um
pólo de g. A primeira possibilidade não ocorre. De fato, podemos usar o Teorema
de Casorati-Weierstrass (Teorema 12.10), e concluir que g(D1 (0)) e g(C − D1 (0))
tem uma interseção não-vazia, contrariando a injetividade da função f . Portanto 0
é um pólo de ordem m > 0 de g. Conseqüentemente, f é um polinômio de grau m:
f (z) = a0 +a1 z+. . .+am z m com am 6= 0. Se m > 1, então f é um polinômio de grau
m > 1 e portanto, f tem pelo menos duas raı́zes distintas ou f (z) = am (z − z0 )m
para algum z0 ∈ C. Em qualquer caso, f deixa de ser injetora. Assim, m = 1 
Teorema 16.13. Seja f : D1 (0) −→ D1 (0) uma aplicação conforme. Então,
 
z−a
f (z) = eiθ
āz − 1
onde θ é um número real no intervalo [0, 2π] e a ∈ D1 (0) é tal que f (a) = 0.
Demonstração. Use os exercı́cios 3 e 62 da Lista 
Teorema 16.14. (Riemann) Suponha que D ( C é um domı́nio simplesmente
conexo do plano complexo. Então existe uma aplicação conforme f : D −→ D1 (0).
Além disso, fixando z0 ∈ D, podemos escolher a aplicação f de modo que f (z0 ) = 0.
Demonstração. Narashimran pág. 143 
Instituto de Matemática e Estatı́stica da Universidade de São Paulo
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