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Breve introdução

à Filosofia Prática de Kant

Celso Candido

A liberdade e o fato da razão

Em primeiro lugar, a questão central que está associada à Filosofia


Prática de Kant é a da liberdade. Pois, a liberdade, no sentido em que Kant
trabalha o termo, é o que poderíamos dizer a "condição de possibilidade"
incontornável de toda ação moral humana e racional. Sem a liberdade não
seria possível uma prática moral. A liberdade é o princípio determinante
causal das ações ou eventos morais do mundo.

Quer dizer, a ação moral não pode existir sem um princípio causal que
determine, não propriamente as ações morais, mas antes que determine a
priori a "faculdade de desejar". Ou seja, a liberdade deve determinar a
vontade de agir conforme à razão.

1.1

Todos os fenômenos são determinados sempre um ou outro princípio de


causalidade. Não existe fenômeno ou ação no mundo que não tenha um
princípio de determinação causal que o cause. Logo, todos os fenômenos,
incluindo aí as ações, são, de alguma forma, determinadas por outros
fenômenos que lhes precedem no tempo. Ora, para que uma ação moral possa
existir é necessário um certo tipo de determinação causal que não é somente
uma causa: que Kant chama "sensível", ou material, ou ainda natural, ou seja,
todas aquelas leis causais que fazem parte do mundo empírico, material e
natural nos quais todos os seres estão, de alguma forma, imersos.

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Este outro tipo de determinação, ou lei causal, deve ser inteligível ou
supra-sensível. A moralidade é precisamente, por assim dizer, o lugar do
inteligível ou supra-sensível. Isto é, a moralidade é o lugar da liberdade, ou
também, a liberdade é o lugar da moralidade. Com efeito, a liberdade é causa
essenti da moralidade, e a moralidade é a causa cognoscendi da liberdade.
Isto é: sem a liberdade não existe moralidade e sem moralidade a liberdade
não pode ser conhecida - enquanto relativo ao fenômenos.

A moralidade não existe sem a liberdade porque, no caso de existir


ações sem liberdade, ou seja, causa supra-sensível ou inteligível, tais ações
seriam simplesmente determinadas pelas leis naturais causais, sensíveis,
materiais, as quais os animais não-racionais estão subordinados. Sem assim
fosse não seríamos senão meros animais simplesmente determinados pelos
desejos e necessidades materiais, em uma palavra, pelo puro "princípio do
prazer".

Ora, a condição humana é uma condição desde sempre moral, ou ainda


poderíamos dizer, é desde sempre racional. Sua condição como que exige a
priori uma moralidade. Do contrário, seríamos meros animais ou autômatos.

É preciso pois que nossas ações, ou mais precisamente, nossa faculdade


desejante que determina nossas ações no mundo, seja ou tenha um princípio
de determinação causal que seja uma lei causal inteligível, supra-sensível, ou
seja, a liberdade.

1.2

Como é possível, entretanto, esta liberdade, uma vez que o que


assistimos no mundo da vida é exatamente um não uso da liberdade?

Para Kant a liberdade é possível a partir da existência no espírito


humano daquilo que ele chama o "fato da razão". A demonstração deste fato
da razão deve ser condição suficiente para a demonstração da liberdade,
enquanto causa racional, inteligível, como "coisa em si" ou "fenômeno" não
determinado pelas leis da natureza. O fato da razão consiste simplesmente na

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possibilidade do agir moral racional. A possibilidade do agir moral pode ser
exemplificada da seguinte forma: quando, mesmo no caso do homem
perverso, se cogita agir moralmente.

Como no exemplo kantiano em que um homem é obrigado pelo seu


príncipe a mentir para ultrajar outro homem e, se não o fizer, será levado
pelo príncipe à morte. Mesmo que aquele homem venha a mentir, se, no
decurso de tempo de seus pensamentos, ele cogitar dizendo a si mesmo que
poderia não mentir, neste fato do cogito "poderia não mentir" percebe-se a
existência, por assim dizer, ou melhor a possibilidade do agir moral, do agir
livre. A cogitação neste caso é a prova de liberdade.

O Imperativo Categórico

É importante considerar a posição de princípio de Kant quanto à


questão ética política da igualdade. Do contrário, o princípio de personalidade
e de modo geral o princípio da "universalização da máxima" não teria sentido.
A máxima só pode ser universalizada quando o indivíduo pressupõe uma
igualdade genérica, universal, entre os seres humanos. É clara a identificação
de Kant com o igualitarismo de Rousseau.

Assim, o Imperativo Categórico é a lei moral fundamental manda que


nossa ação deve ser conforme a uma máxima que possa valer como lei
universal determinante absoluta de nossa vontade. Assim reza o Imperativo
Categórico:

"Age de tal forma que a máxima de determinação da tua ação possa


valer como lei universal da natureza".

Este Imperativo Categórico deve respeitar sem contradição três


princípios fundamentais:

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- o da racionalidade - que implica em oferecer razões para as
ações

- o da autonomia - que pressupõe que sejamos capazes de agir


independentemente de coerções materiais ou exteriores.

- o da personalidade - que manda tomar os outros como fins em si


mesmos e não como meios de nossa felicidade.

De que maneira, afinal de contas, podemos transitar da teoria moral


katiana à prática moral tal como aquela teoria é pressuposta?

Tal é a questão que a típica deve esclarecer. A lei moral só pode ser
esclarecida pela faculdade do entendimento. O tipo é uma experiência mental
do entendimento que concebe um mundo possível a partir de uma
determinada máxima. E é o próprio entendimento então que por sua vez
julga a validade da máxima.

Sabemos que a lei moral fundamental manda que nossa ação deva ser
conforme a uma máxima que possa valer como lei universal. Na típica
devemos pensar uma máxima que deva valer como "lei natural", ou seja, deve
ser necessária, absolutamente necessária a conexão causal da máxima com a
ação moral, de modo que a máxima determina como se fosse uma lei natural
a nossa vontade.

Quais são, então, os procedimentos que a típica nos oferece para


encarar a questão acima suscitada?

Devemos construir passo a passo um "método" através da faculdade do


entendimento que nos permitirá julgar se uma máxima pode ou não ser
erigida como se fosse uma lei da natureza determinante "absoluta" da nossa
vontade.

O "método" consiste no seguinte procedimento: dada uma máxima,


construir uma Contrapartida Tipificada Universalizada da mesma, a CTU. Em

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seguida, devemos nos perguntar se este é um mundo possível e, no caso de o
ser, se desejaríamos viver em tal mundo de modo que a máxima fosse uma
verdadeira lei natural. Junto a estes procedimentos devemos cuidar também
para que a vontade não caia em auto-contradição. Para que a vontade não
entre em auto-contradição é necessário observar os princípios fundamentais
da autonomia, da racionalidade e da personalidade. Se a máxima ou a CTU
violar um destes princípios a vontade entra em contradição consigo mesma e
invalida a máxima como lei universal de determinação da vontade.

O método da Contrapartida Tipificada Universal

Este método implica construir uma experiência mental na qual devemos


nos perguntar dada uma determinada máxima:

1. "Devo..."

2. CTU - "Todos devem..."

Em seguida deve-se perguntar sobre a validade desta máxima universal:

3. É possível um mundo assim?

4. Quero viver em um mundo assim?

Em seguida, perguntar-se se há contradição da vontade ou não, na


medida em que os três princípios fundamentais – autonomia, racionalidade e
personalidade – não entram em contradição com a máxima universalizada.

Estudamos alguns exemplos

1. Dada a máxima: "Devo seguir sempre o líder."

2. CTU: "Todos sempre devem seguir o líder."

3. É possível um mundo assim? - Sim.

4. Quero viver em um mundo assim? Eis a pergunta que deve ser


respondida. – A resposta aqui é “não”, pois aqui a vontade é auto-
contraditória, pois conduz a irracionalidade. A racionalidade implica em que

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sejamos capazes de oferecer razões para nossas ações. Tal máxima também
viola o princípio da autonomia que pressupõe que sejamos capazes de agir
independentemente de coerções materiais ou exteriores.

Seja outro exemplo:

1. Dada a máxima: "Trabalharei somente quando isto me for vantajoso


financeiramente."

2. CTU - "Todos trabalharão somente quando isto lhes for vantajoso


financeiramente.

3. É possível conceber um mundo assim? - Sim.

4. Quero viver em um mundo assim? - Não. Aqui mais uma vez não se
pode querer viver num mundo assim, pois é violado o princípio da
personalidade, que manda que tomemos os outros como fins em si mesmos e
não como meios. No caso todas as pessoas implicadas no trabalho seriam
usados como meios da própria felicidade.

Sobretudo a lei moral deve distinguir-se do princípio do amor-próprio e


da felicidade privada. Ela é anterior, é primeior ao amor e a felicidade de si.

Tomamos um outro exemplo ainda.

1. Dada a máxima: "Devo cumprir a palavra dada."

2. CTU - "Todos devem cumprir a palavra dada."

3. É possível um mundo assim? - Sim.

4. Quero viver em um mundo assim? - Sim.

Não há auto-contradição da vontade aqui, como nos casos precedentes.


Posso seguramente viver em tal mundo, na medida em que nele, serão
respeitados a autonomia, a personalidade e a racionalidade de todos.

Logo, tal máxima, poderia ser convertida em uma lei universal, como
se fosse uma lei natural.