Você está na página 1de 3

A morte do cardeal

Era o ano de 348 no calendário bajulatense, cujo início se deu na descoberta do vasto
território de tão belo reino, hoje uma grande nação autônoma, depois posso discorrer mais
sobre o conturbado processo de achamento e posse desta nação que é na atualidade uma
das grandes potencias mundiais, tanto por sua riqueza material quanto por sua cultura.
Naquela já longínqua data ocorreu um fato que marcou em definitivo a história do país. Foi o
ano da morte do Arquiduque e Cardeal Mor Mustacheano. No dia 23, do mês de borévis,
ocorreu a morte daquele que foi um dos maiores vultos da política e religião bajulatense.
Relatarei agora parte de sua biografia e os fatos próximos ao seu falecimento. Já
idoso, o nobre cardeal, senhor de muitas posses desde moço, só se viu em situação
embaraçosa perto de seu óbito. Vindo de uma nobre família oriunda da região de
Mocorândia, ingressou na vida acadêmica e seguiu a carreira eclesiástica, comprou posto
por posto da carreira, até chegar à lista tríplice para eleição de cardeal do culto oficial
bajulatense, o Babaísmo Universal. Após a nomeação dada pelo imperador da época,
conseguida graças à indicação de seu padrinho, o já então Cardeal Boiolanino, assumiu a
Catedral de Mocorândia. Naquele estágio, já conde e alto sacerdote oficial, foi relativamente
fácil aproximar-se da junta militar que governou a nação em seu berço como república,
república constitucional, só que apenas na teoria, como é de bom tom para com o estamento
bestializado e força motriz da sociedade chamado povo pobre. Com sua grande esperteza o
cardeal, já depois de ter herdado vastas terras, não só conseguiu amealhar ainda mais
latifúndios, como também manter seus títulos nobiliárquicos, progredindo até chegar ao
status de duque, mesmo com alguma oposição da massa do povo contra a manutenção de
tais títulos depois do rolar da cabeça do último imperador.
Seu golpe de mestre e afirmação inconteste de suas habilidades políticas veio com
sua manobra para conseguir indicação da já dita junta militar para nomeação não de um
novo imperador, palavra que causava ojeriza ao povo, mas sim de um novo e revolucionário
tipo de líder: o rei!
Ah, agora sim esta terra deixaria de ser um lugarzinho provinciano e tornar-se-ia uma
grandiosa e moderna nação. Teria um rei!
Bem, é certo que o povo não entendia da maneira correta os diferenciais entre um
imperador e um rei, que são claros para qualquer cidadão esclarecido, mas o que importa?
Teriam um novo regente, e talvez este fosse menos severo na aplicação da lei do que a
junta castrense em vigor, afinal muita gente não entedia como seus parceiros de truco ou
aquela vizinha que despertava a libido da vizinhança desapareciam sem deixar sinal, assim,
de um dia para o outro. Bem, a verdade é que oito de cem partes da população
simplesmente desapareceu. “Mas deve haver uma razão”, pensaram muitos, e a vida, ah, a
vida continua, pois ainda sobrou muita gente.
Voltemos ao ilustre cardeal. Bem, o primeiro ponto já havia sido vencido, convencer a
junta. O ápice da estratégia viria de um ato impensável antes de seu sucesso. O cardeal
confabulou com seus partidários o ligamento de seus pares ao partido majoritário e ele, o
cardeal, seria apenas o suplente do novo regente. Como nosso homem santo era bom! Daí
a enxurrada de lágrimas que sua morte causou. Deixou de trançar uma encarniça luta
partidária pela nova coroa, sim o rei usaria uma coroa, para dar ao povo uma grandiosa
demonstração de sapiência, a unidade em detrimento da desavença, aquele sim seria um
líder sábio. Ali tínhamos nosso nobre em alto grau hierárquico, tanto na corte quanto no
clero, senhor de muita gente e agora a meio pé do trono. Sim pois, inexplicavelmente, o rei
adoecia, mesmo com perfeita história de saúde. O antigo presidente do partido auxiliar da
extinta junta padeceu de estranha enfermidade, doença tão rara que ninguém soube
precisar, nem os vizires das nações amigas souberam definir um diagnóstico unanime.
O que seria do mundo para os agora tristonhos cidadãos do conhecido por Reino da
Alegria? Onde poderiam arrimar seus ombros cansados, quem lhes serviria de esteio
quando viessem as crises?
Passado o luto, eis que surgiu fulgurante uma nova imagem para luzir aos olhos de
seus servos. Eis que surgiu o vulto majestoso do agora novíssimo regente. Ele, o grande
político, o grande homem santo, o então Rei e Cardeal Mor Mustacheano.
Sua figura sóbria e imponente apareceu aos olhos sedentos do povo como solução
instantânea para sua sede por um senhor. Como se simplesmente não houvesse existido
antes, como se nunca tivesse se mostrado ao público, o rei era como um farol para uma nau
à deriva.
“Sou um novo sol” pensou o cardeal. Reinou com júbilo até começarem as crises. De
um instante para o outro deixou de ser a luz para tornar-se alcatrão. Sem aviso passou a
representar a antítese de progresso e segurança para o povo.
“Que inconveniente é o comportamento volúvel dessa gente” veio em sua mente. Mas
era tarde. Surpreendido por um golpe (não era o único mestre) foi deposto, e só não perdeu
a cabeça por ainda gozar de grande influência sobre o clero. Seus meninos souberam
salvaguardar a integridade de seu mestre e ele foi reconduzido a seu antigo feudo,
Mocorândia. Só que por pouco tempo, mesmo enfraquecido o cardeal ainda era forte perto
de outros, então resolveu partir para a conquista de um escalão mais baixo. Acostumado
com o poder de um déspota, após cristalizar seu domínio em sua terra natal, mirou seu
aparelho de dominação no distante Ducado Tucujús, uma das terras mais setentrionais do
reino. Seu nanico novo reinado nas terras do sol implacável é tema para um volume todo à
parte.
Aproximemo-nos de seu fim. Muito doente, o arquiduque e cardeal não conseguiu
mais reunir forças para manter resistência contra seus desafetos no Ducado Tucujús, teve
que partir de volta ao local de seu nascimento. Uma inesperada união entre seus
concorrentes acabou ensinando ao velho mestre, ao termo de sua existência, que a unidade
verdadeiramente pode criar um empecilho em quem acreditava ser ela apenas um jogo de
cena. De volta e carcomido por uma praga tão sui generis e mais virulenta que a que vitimou
seu antigo pseudo aliado, o primeiro rei, não resistiu ao desgosto de deixar os palcos da vida
pública e, ao cair da cortina, preferiu o ostracismo à aparecer como coadjuvante perante a
plateia de seus hipnotizados servos. Em seus últimos instantes de ar, suspirou seu
testamento, que causou aflição em seus pupilos e que ao ser lido revelava todo o desprezo
que o nobre sentia pela rude plebe. Foi consensual a decisão de não tornar público o
polêmico trecho, o povo não merecia tal desilusão.
Às quatro horas da tarde seguiu seu cortejo pelas ruas da capital do Ducado, em um
carro aberto cercado por uma guarda de belos, robustos e vistosamente trajados noviços,
armados com o “espigão”, espécie de alabarda, símbolo da guarda eclesiástica. Em frente à
catedral onde oficiou como cardeal seu corpo foi colocado na posição vertical, com a face
voltada ao povo, para que todos pudessem prestar suas homenagens. Milhares de flores
cobriram seus pés, até chegar aos joelhos. Às cinco horas ingressou na catedral, onde os
oficiantes retiram suas joias e as substituíram por bijuterias, colocaram seu corpo
embalsamado sobre uma laje de alabastro ricamente decorada com entalhes motivados por
esportes de tiro e por cenários bucólicos (o cardeal detestava a vida no campo). Por fim,
assentaram uma cúpula de cristal e uma placa dourada, mas de metal ordinário, cuja
transcrição segue abaixo:

“Aqui jaz os restos mortais daquele que em vida foi o mais aguerrido paladino da
justiça, da unidade e do bem estar do povo, homem que devotou de toda a alma sua vida ao
mais humilde cidadão desta bem aventurada terra chamada Bajulateu Brasilis”.