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A lógica socioespacial da favela: padrões da informalidade

auto-organizada

Vânia Loureiroa , Valério Medeirosb e Rosália Guerreiroc


a
Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação em
Arquitetura e Urbanismo, Brasília, DF, Brasil. E-mail: vania.teles.loureiro@gmail.com
b
Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação em
Arquitetura e Urbanismo / Câmara dos Deputados, Detec, Brasília, DF, Brasil. E-mail:
medeiros.valerio@uol.com.br
c
Instituto Universitário de Lisboa, Departamento de Arquitectura e Urbanismo, Lisboa, Portugal. E-mail:
rosalia.guerreiro@iscte-iul.pt

Submetido em 02 de abril de 2019. Aceito em 30 de julho de 2019.

Resumo. O presente trabalho tem como objetivo principal analisar a


configuração da favela a partir de seus padrões socioespaciais, buscando
entender o fenômeno em sua escala global. Adota-se para o estudo a Sintaxe
Espacial enquanto abordagem teórica, metodológica e ferramental,
permitindo a leitura do objeto em sua complexidade espacial. São
comparados 120 assentamentos localizados ao redor do mundo, explorados
segundo um conjunto de 26 variáveis configuracionais (entre qualitativas e
quantitativas, geométricas e topológicas). Os resultados são, também,
balizados por amostra de 45 cidades portuguesas de origem medieval
(exemplares da cidade orgânica) e pela pesquisa de Medeiros (2013) para
44 cidades brasileiras (ilustrativas de estruturas urbanas contemporâneas).
Busca-se a existência de um padrão espacial na favela e entender em que
medida a favela reproduz padrões espaciais inerentes à cidade orgânica e
historicamente consolidados. A pesquisa sustenta-se na hipótese de que
existem padrões espaciais inerentes aos assentamentos auto-organizados, a
despeito de diferenças regionais, culturais e temporais. Os achados
corroboram a hipótese revelando que a favela se organiza dentro do sistema
maior que a recebe, partilhando lógicas comuns e transversais a várias
regiões do mundo. Reconhecem-se, ainda, padrões comuns aos que
estruturam cidades orgânicas portuguesas revelando processos semelhantes
de desenvolvimento.
Palavras-chave. favela, padrões socioespaciais, auto-organização, sintaxe
espacial.

Introdução Assume-se a leitura do espaço urbano


enquanto sistema - um todo espacialmente
Este trabalho visa entender a favela a partir
contínuo (Hillier e Hanson, 1984) em que a
da leitura do seu sistema socioespacial, por
compreensão assenta, com maior ênfase, em
meio da decodificação de sua configuração
sua sintaxe, isto é, na maneira como seus
espacial e de seu contexto urbano,
elementos são agregados e se relacionam.
interpretada em uma abordagem comparada.
Por ser um fenômeno urbano complexo, a Pretende-se partir da interpretação da favela
favela deve ser lida em seu todo e suas como algo em permanente desenvolvimento,
relações constituídas entre partes, o que rompendo com a tradição de perceber na sua
dialoga com a perspectiva sistêmica que espontaneidade um processo transitório
orienta o estudo. indesejado, pois tal como a cidade que a
abarca, esta não é um estado fixo, mas sim

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um espaço em constante adaptação. Esse estratégias para a cidade, principalmente


processo que se materializa ao longo do aquelas que, embasadas na Carta de Atenas,
tempo permite-lhe se ajustar segundo suas usam o “voo de pássaro” enquanto modo de
próprias regras e processos emergentes. observação, qualificação e desenho de
intervenção, tendendo a simplificar as
Enfatiza-se ainda como escopo do debate a
relações espaciais. Uma vez comprovado o
importância da releitura da cidade quanto à
sucesso do sistema complexo em estudo,
lógica instituída pelo planejamento urbano
pressuposto que se alinha à literatura sobre o
tradicional, onde o conceito de ordem tende a
tema (Salingaros, 2006; Holanda, 2002;
distanciar-se de soluções espaciais focadas na
Sobreira, 2002; Alexander, 1977), sedimenta-
complexidade orgânica (Batty e Longley,
se um caminho para a renovada leitura da
1994). Essencialmente reconhece-se a
cidade, mais próxima à sua dinâmica
incompreensão do espaço que é a favela
socioespacial real.
como o grande entrave para sua
consolidação, visto que definições e posturas A Sintaxe Espacial (ou Teoria da Lógica
sobre este objeto partem do princípio que sua Social do Espaço) é, dentro do aparato
geometria e sua configuração são teórico, metodológico e ferramental, a
inadequadas à cidade de hoje e, ao não serem abordagem principal desta pesquisa e
percebidas suas regras de organização, contém, em si, as ferramentas a partir das
interrompem seus processos de auto-cura quais se espera atingir os resultados da
(Salingaros, 2006). mesma. O aparato se justifica uma vez que a
base teórica se sustenta em princípios que
Por se acreditar que desconhecendo a
leem a cidade como um sistema espacial
configuração se nega uma parte essencial do
complexo onde suas relações permitem
conhecimento do espaço urbano, a
avaliar a dinâmica espaço-sociedade (Hillier
escrutinação do espaço da favela é relevante
e Hanson, 1984), premissa do estudo. A
para clarificar melhor esse tipo de dinâmica
opção pela Sintaxe Espacial para o exame da
urbana e respectivo padrão espacial. Assim,
favela está intimamente vinculada à demanda
tendo por base os aparatos conceituais,
por um modo de leitura que permitisse
metodológicos e ferramentais da Sintaxe
interpretar suas relações espaciais e seus
Espacial (Hillier e Hanson, 1984; Holanda,
impactos por meio de reconhecimento de
2002; Medeiros, 2013), pretende-se
padrões comuns, em diferentes contextos
responder às seguintes perguntas de pesquisa:
socioculturais. Não se nega à favela a sua
há um padrão espacial na favela? em que
peculiaridade cultural, sua identidade própria
medida a favela reproduz padrões espaciais
e específica de cada caso, seus fenótipos,
inerentes à cidade orgânica e historicamente
todavia no decorrer da pesquisa o interesse
consolidados?
revelou-se atrelado a uma busca pelas
Explora-se como hipótese a ideia de que a características de organização socioespacial
configuração da favela revela padrões comuns ou seu genótipo.
espaciais inerentes aos assentamentos auto-
Assim, o objetivo principal da pesquisa é
organização, atravessando contextos
estudar a configuração da favela de modo a
regionais, culturais e temporais distintos. A
entender suas regras gerais de organização e
espontaneidade inerente, frequentemente
reconhecer a sua implicação para a dinâmica
subvalorizada pela sua sintaxe de difícil
social existente. Para isso, o artigo se
apreensão, revela-se um processo urbano
estrutura em quatro partes, além desta
catalisador de qualidade espacial a partir do
introdução: “a forma da favela”, onde se
momento em que sua complexidade é
discute a importância do estudo da forma do
entendida e decodificada.
fenômeno para estudos urbanos;
Acredita-se que a informalidade urbana, aqui “metodologia”, onde se apresentam os
representada exclusivamente pela favela, detalhes sobre como a pesquisa comparativa
necessita ser observada com base em outra e exploratória foi desenvolvida; “a favela
lente que não a do planejamento oficial, enquanto cidade, ou parte dela”, item
deixando espaço para discussão além dos necessário à apresentação do estudo das 120
parâmetros de legalidade. Dá-se importância favelas e sua análise comparativa, inclusive
à leitura do fenômeno em si, enquanto ação em relação a estudos configuracionais
emergente, esperando que o conhecimento da anteriores sobre cidades brasileiras
sua complexidade permita repensar visões e (Medeiros, 2013); e por fim, “a favela

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enquanto processo urbano”, seção dedicada à A questão espacial aqui é levantada como a
discutir a relação da amostra com cidades principal diferenciadora da favela para os
portuguesas, no intuito de aproximar a favela outros tipos de informalidade e isso vai ao
ao processo de formação de estruturas encontro do que a pesquisa pretende abordar
orgânicas. Finalizando este artigo, são – o papel diferenciado da favela por se tratar
apresentadas as considerações finais e a de um fenômeno de desenvolvimento
revisão de bibliografia. espontâneo.
Cardoso (2016) elabora a ideia de que os
A forma da favela
tipos de assentamentos informais devem ser
A questão essencial, nesta pesquisa, é o diferenciados pois suas realidades espaciais
espaço construído. É relevante, argumenta- trazem questões distintas no que toca a
se, reconhecer na favela um fenômeno modos de intervenção. Os tipos
produzido por um conjunto de ações historicamente percebidos como distintos são
individuais que resultam numa composição as favelas, os cortiços e os loteamentos:
espacial usualmente classificada como apenas os primeiros serão tratados nesta
orgânica ou espontânea, cuja geometria se pesquisa, por sua auto-organização já
associa à irregularidade e não à regularidade. elaborada. Tal como a imagem apresenta
Parece não haver aqui um planejamento (Figura 1), espaços de geometrias
global, isto é, de cima para baixo (“top- formalizadas foram excluídos da
down”), mas sim um resultado emergente, de investigação, pelo reconhecimento prévio de
baixo para cima (“bottom-up”), dissociado da que seus processos se revelam amplamente
produção legal da cidade (o que resulta no distintos em quesito de organização
caráter informal), vinculado a processos de socioespacial (Salingaros, 2006; Sobreira,
auto-organização. 2002).

Figura 1. Recortes de duas áreas distintas do Complexo da Maré, Rio de Janeiro: a imagem da direita
integra o objeto de estudo, por sua clara auto-organização, enquanto a da esquerda não, em razão da
lógica imposta ou pré-concebida (fonte: Google Satélite).

Espaços deste tipo são frequentemente parece essencial promover um melhor


destinados à invisibilidade nos mapas oficiais entendimento da relação espaço/sociedade
de cidades ao redor do mundo, bem como que constitui a favela, enquanto fenômeno
inviabilizados em seus programas de espacial e entidade constituinte das manchas
melhoramentos urbanos, devido a sua urbanas contemporâneas. Assume-se que a
“inadequação” à lei, tornando-se meras favela deve ser reconhecida e categorizada,
entidades a corrigir ou, tantas vezes, eliminar também, por suas especificidades
(Rolnik, 2015). Devido a essa postura de morfológicas e configuracionais,
reconhecimento apenas para retirá-lo ou acompanhando assim o entendimento que se
corrigi-lo – que ainda permanece arraigada vem a fazer da cidade como um todo.
ao senso comum urbanístico, numa herança
Do ponto de vista das relações e dos
de programas nacionais e internacionais
processos de formalização dos espaços,
acompanhados do slogan Cities without
considera-se a favela como um processo
slums – cidades sem favelas (Rolnik, 2015) –
espontâneo e dinâmico. Os loteamentos
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ilegais, por outro lado, não integram essa termos de modos de planejamento, mas uma
lógica e por isso seus espaços têm uma tendência geral para o desenvolvimento
formalidade espacial elevada (Holanda, urbano espontâneo. Não é intenção falar de
2002) ao ponto das dinâmicas socioespaciais cidade planejada versus cidade espontânea,
serem distintas. mas de espectros ou escalas de ação
diferenciadas. Discutir favelas enquanto
A favela é entendida como assentamento
entidades auto-organizadas implica abordar
auto-organizado e espontâneo que se
espaços cuja gênese pressupõe ações
reproduz baseado em uma economia da
descentralizadas desde o primeiro momento.
proximidade às oportunidades (Abramo,
2007). Nela a ordem global se define pela Acontece que a favela é tendencialmente
ação individual de cada elemento nas suas vista como desorganizada ou sem ordem,
interações locais, a partir de algum tipo de mas aparenta ter, à luz da complexidade e
complexidade sistemática (Johnson, 2003), devido ao seu traçado orgânico, uma ordem
como emaranhado mais profundo da cidade implícita ou uma geometria subentendida –
fractal. Isto aparenta significar que apesar de hidden geometry – (Hillier, 1999 apud Jiang,
todas as problemáticas associadas, o espaço 2009), assim como também o sistema
se reproduz de modo dinâmico e diverso, e complexo maior que a abarca, a cidade.
isso deve-se à capacidade de auto-
Existem estudos que enquadram a favela
organização. Esta se reconhece como
nesse contexto da cidade enquanto sistema
representativa do fenômeno favela num
complexo, como os de Sobreira (2002),
contexto de complexidade urbana. Cabe
Karimi e Parham (2012) e Parham (2012)
esclarecer que outros meios de produção dos
que observam a sua complexidade a partir da
espaços da pobreza, constituídos por uma
decodificação das regras espaciais internas
formalização espacial previamente imposta,
ou configuracionais, dentro do contexto
são frequentemente pontuados em
urbano. Salingaros (2005; 2006; 2010)
contraponto, mas não integraram a amostra
discute a complexidade urbanística da favela
estudada.
e seu sucesso configuracional em oposição
A tradição científica, baseada na acepção aos planos idealísticos que podem ou não ter
“ordenadora” e “racional”, é falha na efeitos positivos no espaço. O curioso nesta
compreensão da realidade complexa (Morin, perspectiva que desenrola regras de
1990), condenando espaços como a favela a organização do espaço é que se criam fortes
uma erradicação utópica motivada por uma argumentos para crer que a ação individual
repulsa à “desordem”. Enfatiza-se a de cada agente, coordenada por um sentido
importância da releitura da cidade quanto à de interação com o outro – de negociação,
lógica instituída pelo planejamento, onde o parece trazer resultados mais bem sucedidos
conceito de ordem tende a distanciar-se de para a cidade que a ação organizadora de um
soluções espaciais focadas na complexidade planejamento de “cima-para-baixo”.
orgânica (Batty e Longley, 1994). Com isso,
De qualquer modo, a leitura sistêmica do
a pesquisa fundeia-se numa perspectiva que
espaço, do ponto de vista configuracional e
acredita na existência de uma teoria urbana
de sua complexidade, parece ser uma
onde o urbanismo é informado pela
abordagem timidamente explorada no âmbito
Sociologia, para um completo entendimento
da informalidade urbana, tendo em conta seu
da dinâmica urbana (Wirth, 1938; Hillier e
amplo espectro em outros contextos urbanos
Hanson, 1984).
(Hillier e Hanson, 1984; Batty e Longley,
Vários autores corroboram que a ordem que 1994; Jiang, 2009; Salingaros, 2010;
rege como as estruturas urbanas se organizam Guerreiro, 2010; Portugali, 2012; Liu e Jiang,
não é explicado por uma ordem pura, 2012). A favela, enquanto espaço
euclidiana ou explícita, mas uma ordem autoconstruído e auto-organizado, parece
complexa expressa em processos conhecidos conformar-se em sua elevada complexidade,
como auto-organização, adaptação, e merece ser estudada, não enquanto espaço
autossemelhança e leis de escala (Batty e estranho à cidade, mas parte de processos
Longley, 1994; Bettencourt Et Al., 2013; urbanos orgânicos. Entende-se o espaço
Jiang, 2009; Hillier E Hanson, 1984; Hillier, construído intimamente conectado com os
2016; Salingaros, 1998). O argumento agentes sociais que o habitam (e o
importa para a pesquisa no sentido em que constroem), focando a pesquisa na convicção
não se pretende discutir uma dualidade em de que o espaço é invariavelmente produto e
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causa das dinâmicas sociais, por isso se busca metricamente mais curtos, embora com
a leitura da auto-organização em sua várias mudanças de direção (Medeiros,
configuração. 2013).
Esta leitura das implicações da configuração
Procedimentos Metodológicos
no movimento ressalta a importância da visão
Neste trabalho define-se em que medida a do espaço como um sistema de percursos
compreensão da complexidade, por meio da possíveis, e da capacidade humana de
Sintaxe Espacial, pode contribuir para o apreender melhor o espaço pelas suas
melhor conhecimento do sistema espacial da relações topológicas do que pelas métricas. O
favela, identificando tendências, padrões ou resultado expõe espaços mais acessíveis que
distinções em uma amostra comparada que são potencialmente mais atravessados ou
busca, acima de tudo, a caracterização do espaços mais profundos ou segregados, onde
fenômeno socioespacial. A pesquisa tem por seu movimento é reduzido. Ou seja, padrões
objetivo estudar as relações espaciais de movimento, enquanto emblemas das
intrínsecas do sistema socioespacial da dinâmicas urbanas, relacionam-se
favela, partindo de uma perspectiva intimamente com o entendimento da
configuracional e de uma abordagem topologia do espaço e é esse conhecimento
comparativa. Por isso, buscam-se padrões que está implícito na leitura configuracional
espaciais que se mostrem recorrentes na que se fará a partir da Sintaxe e que permite a
conformação destes sistemas que sejam leitura da dinâmica espacial da favela.
apontados como potenciais produtores de
Para Batty e Longley (1994), como citado
urbanidade.
anteriormente, o entendimento de padrões
urbanos passa pela leitura de
Aspectos conceituais
autossemelhança e hierarquias, quesitos só
A Sintaxe Espacial, abordagem teórica, possíveis de perceber conforme uma
metodológica e ferramental que embasa a observação que permita identificar
pesquisa, busca ressignificar a relação entre recorrências ou regularidades. Para a Sintaxe
cidade física e cidade social, juntando ambas Espacial, de modo geral, a relação entre
as camadas em um único sistema de análise, macroestrutura e estrutura de relações locais
“pois ao entender o nível complexo dos é o palco primordial para a compreensão
padrões espaciais constituintes da cidade daquilo que possam ser relações recorrentes
entendem-se os possíveis antecedentes ou padrões espaciais comuns (Hillier e
sociais bem como as consequências da Hanson, 1984; Hillier 2016; Medeiros, 2013).
forma, e com isso [é possível] captar sinais
da cidade social na cidade física” (Hillier e Segundo Hillier e Vaughan (2007), as
Vaughan, 2007). medidas resultantes da Teoria da Sintaxe
Espacial representam, acima de tudo,
Entende-se que o espaço construído está interpretações formais para a noção de
intimamente conectado aos agentes sociais integração espacial e segregação. A
que o constroem e o habitam, conformando- abordagem oferece uma escala mensurável
se como produto e causa das dinâmicas entre segregação e integração, permitindo
sociais. A favela, na condição de objeto de comparação de diferentes formas espaciais
investigação autoconstruído e auto- em diferentes culturas, colocando como
organizado, é compreendida em seu grau de fundamento primordial da leitura o
complexidade avaliado a partir de sua reconhecimento e o estudo das relações
arquitetura, isto é, conjunto de forma (cheio) dentro da lógica socioespacial (Hillier e
e espaço (vazio), aqui interpretada na escala Vaughan, 2007). Ao se amparar
urbana. matematicamente na teoria dos grafos, cuja
A importância da configuração espacial para interpretação passa pela representação dos
o movimento prende-se ainda com a elementos do sistema conectados entre si e na
percepção de que tendencialmente o leitura dos diferentes tipos de resultado que
indivíduo guia-se pelos caminhos isso pode ter para o desempenho dos espaços,
topologicamente mais curtos e diretos (com a Sintaxe Espacial atesta a importância da
menor número de mudanças de direção relação de proximidade e acessibilidade
necessárias para chegar a determinado lugar como primordiais ao seu desenvolvimento.
que é seu objetivo) do que aqueles

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Falar de segregação, nesse contexto, é falar completo, núcleo antigo (para o caso de
de movimento e das propriedades que o cidades portuguesas) e núcleo de integração.
espaço urbano pode ter, de modo a propiciar Após as análises, o processamento e a
ou dificultar as relações de fluxos entre suas interpretação de dados foram procedidos
partes. Espaços com acessos mais fáceis e recorrendo-se às bases da literatura e dos
diretos são espaços centrais, mais percorridos conceitos principais da pesquisa de modo
e estruturantes para a lógica global da cidade. extrair as respostas para as inquietações
Estes dois tipos de movimento, o movimento iniciais.
para algum lugar (relação de centralidade) e
No que diz respeito à análise configuracional
o movimento através de algum lugar (relação
propriamente dita, de acordo com a Sintaxe
de hierarquia) são estruturantes para o
Espacial, é necessário cumprir um conjunto
conhecimento do funcionamento urbano
de etapas metodológicas que se estruturaram
(Hillier e Hanson, 1984; Hillier e Vaughan,
nas ferramentas de pesquisa: (1) elaboração
2007) e têm relação direta com a lógica da
de uma base cartográfica adequada e
segregação socioespacial. Espaços
consistente que permita (2) a modelagem das
segregados, cujos assentamentos se
representações, (3) seu processamento
posicionam sem relação direta com a cidade
analítico e (4) o estabelecimento das
envolvente, aparentemente, consolidam-se
correlações e interpretações necessárias para
com mais dificuldade. Assim, a lógica da
chegar aos resultados da pesquisa.
segregação e centralidade apresenta-se de
grande impacto, também, para a interpretação A seleção e elaboração de uma base
de diferentes níveis de desenvolvimento cartográfica consistente e adequada é o
socioespacial. procedimento inicial e aquele que mais
fortemente condiciona os resultados. Da sua
Aspectos metodológicos qualidade depende o sucesso e a pertinência
da análise como um todo. No caso do objeto
Quanto aos aspectos metodológicos, foram
de estudo, a favela, pela dificuldade de bases
desenvolvidos em três momentos essenciais:
sistematizadas em diferentes contextos
1) revisão de literatura e conceituação teórica
urbanos que permitissem o estudo amplo e
da pesquisa, 2) coleta de dados para a base
comparativo, adotou-se a imagem de satélite
analítica e produção das bases cartográficas,
(Google Earth©) como suporte inicial. Ao
e por fim 3) a interpretação dos resultados e
definir o recorte da amostra foi necessário
sua confrontação com os propósitos da
incluir como critério para a seleção a
pesquisa.
qualidade da imagem, garantindo assim que
Definida a amostra, foram executadas as esta teria informações suficientes e resolução
análises, com base em mapas axiais e de para identificar o sistema de barreiras e
segmentos (Loureiro, 2017), a partir dos permeabilidades, necessários à representação.
quais foram verificadas, entre categorias Após a definição das cidades a estudar
qualitativas e quantitativas, 26 variáveis, para (especificado na amostra), foi o critério
120 casos de estudo. A análise da visual aquele necessário para a escolha dos
configuração espacial da favela se assentamentos, a partir do reconhecimento de
complementou por duas fases de sua adequação às informações mínimas
comparação; primeiro com os dados necessárias.
consolidados para os padrões das a) cidades
A base cartográfica resultante da pesquisa é
brasileiras (Medeiros,2013) e segundo, com a
georreferenciada e os mapas foram
b) cidade orgânica portuguesa, a partir de
desenhados por meio da ferramenta de
uma amostra de 45 cidades, produto de
geoprocessamento QGis©. A ação permitiu
projeto de pesquisa de iniciação científica a
uma conexão direta com o software de
respeito de estruturas lusófonas (Medeiros,
processamento dos mapas, Depthmap©, por
2016).
meio de seu plugin Space Syntax Toolkit©.
Explorados os mapas axiais e de segmentos, Assim, mapas, medições e processamentos
as bases de dados foram escrutinadas de foram sistematizados em uma ferramenta
acordo com mesmo conjunto de variáveis, e apenas (Figura 2).
recortadas em três focos distintos: sistema

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Figura 2. Imagem representativa da estratégia de desenho de base cartográfica a partir de imagem de


satélite, no software QGIS (fonte: autores sobre imagem aérea do Google Earth, 2017).

A partir da base cartográfica consolidada, a restante cidade representada (para se evitar o


etapa seguinte compreendeu a modelagem do efeito de borda, conforme apontam Hillier e
espaço urbano conforme diferentes tipos de Hanson, 1984). No entanto, devido à
representação (mapas axial e de segmentos), especificidade da amostra, verificou-se que a
selecionados de acordo com os interesses de lógica interna da favela seria melhor
pesquisa. A análise destes mapas resultou em analisada caso essas conexões inexistissem
um conjunto de variáveis configuracionais na representação linear. Tal informação foi
(quadro 1) que puderam ser interpretadas essencial para a construção das modelagens,
tanto do ponto de vista visual (por meio das uma vez que no decorrer dos resultados,
cores dos mapas) quanto numérico. muitas favelas mantiveram seus eixos
externos como os mais destacados na análise.
O mapa axial resulta da representação linear
A leitura da favela resultou mais refinada
da rede de caminhos – malha viária traçada a
precisamente no quesito de suas relações ao
partir do menor número possível das maiores
exterior, por ficar mais claro quando sua
retas (Hillier e Hanson, 1984) contemplando
força organizacional se localizava nos seus
os acessos diretos através da trama urbana
limites, portanto conectada à estrutura urbana
(Medeiros, 2013) – e, quanto lido na variável
envolvente.
integração, ilustra o potencial de geração de
movimento de cada via (Figura 3). O mapa
Amostra
de segmentos é obtido a partir do mapa axial.
Entretanto, neste caso, os eixos são A investigação está baseada numa amostra
fracionados sempre que houver um que se estrutura em dois momentos de
cruzamento, tornando-se uma unidade comparação: um contemporâneo e outro
independente. Trata-se de uma derivação do diacrônico. O primeiro consiste na leitura da
mapa axial, pois pondera variações angulares favela contemporânea, a partir de um
mínimas de modo a interpretá-las como conjunto de recortes exploratórios para a
continuação de um mesmo caminho (e não interpretação dos padrões espaciais da favela.
uma mudança de direção como no mapa O segundo compreende o confronto do
axial). desempenho configuracional da favela com o
de cidades orgânicas portuguesas, por meio
A considerar que a Sintaxe Espacial é uma
do desempenho de seus traçados hoje e de
abordagem sistêmica ao estudo dos espaços,
seus núcleos antigos.
é natural que a representação de subsistemas
urbanos seja feita com sua costura com a

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Quadro 1. Variáveis da análise (fonte: autores).

O primeiro momento da análise foi contemporâneo da favela, a partir da sua


construído numa aproximação ao panorama presença em grandes cidades ao redor do

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mundo. Foram selecionados 120 exploração de suas dinâmicas atuais numa


assentamentos para representação axial e de perspectiva diacrônica, desconstruindo a
segmentos. Procurou-se distribuir a amostra ideia de fenômeno simplesmente produto da
exploratória entre os três continentes que realidade contemporânea. Para tanto foram
resultaram do recorte socioeconômico e usadas, no processo comparativo, 45 cidades
demográfico, de modo a ser possível um portuguesas cujos traçados orgânicos de seus
enquadramento dos resultados segundo a núcleos antigos permitem a relação entre o
região do mundo. traçado da favela e aquele que é um claro
exemplar do padrão orgânico para as cidades
A amostra final resultou em 39 favelas em
ao longo da história. A amostra, também
cidades da América Latina (Buenos Aires,
exploratória para as cidades portuguesas, é
Argentina; Belém, Belo Horizonte, Brasília,
oriunda da base de Medeiros (2016) sendo
Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Rio de
constituída por cidades de pequeno, médio e
Janeiro, Salvador e São Paulo, Brasil; Cali e
grande porte (Faro; Montemor-o-Novo;
Medelín na Colômbia; Guayaquil, Equador;
Caldas da Rainha; Mourão; Sabugal; Beja;
Port-au-Prince, Haiti; Cidade de Guatemala,
Caminha; Coruche; Mirandela; Barcelos;
Guatemala; Cidade de México, México;
Covilhã; Fronteira; Moura; Bragança;
Arequipa e Lima, Peru; Santo Domingo,
Castelo Branco; Benavente; Silves;
República Dominicana; e Caracas,
Aljubarrota; Soure; Trancoso; Montemor-o-
Venezuela), 43 na Ásia (Kabul, Afeganistão;
Velho; Penela; Loulé; Abrantes; Ourique;
Daca, Bangladesh; Mandalay e Rangun,
Alenquer; Samora Correia; Monção; Portel;
Birmânia; Pequim e Xangai, China; Cebu
Cabeço de Vide; Ericeira; Garvão; Porto de
City e Manila, Filipinas; Ahmedabad,
Mós; Amarante; Óbidos; Panóias; Arruda dos
Bangalore, Chennai, Delhi, Hyderabad e
Vinhos; Monforte; Monsanto; Arganil;
Mumbai, Índia; Jacarta, Indonésia; Teerão,
Mértola; Marialva; Idanha-a-Velha; Melgaço
Irão; Beirute, Líbano; Johor Bahru e Penang
e Castro Laboreiro).
Island, Malásia; Karachi, Paquistão;
Banguecoque e Phuket, Tailândia; Istambul,
A favela na cidade
Turquia; Hanoi e Ho Chi Minh, Vietnã;
Sanaa, Iêmen) e 38 na África (Cidade do Os resultados obtidos e a respectiva seleção
Cabo e Joanesburgo, África do Sul; Luanda, apresentada procuram, primeiramente,
Angola; Douala e Yaounde, Camerões; identificar a existência de um padrão para as
Abidjã, Costa do Marfim; Cairo, Egito; favelas integrantes da amostra. Para
Bissau, Guiné-Bissau; Monróvia, Libéria; comparação, os dados são confrontados com
Antanativo, Madagáscar; Casablanca e medidas oriundas de Medeiros (2013), o que
Marraquexe, Marrocos; Beira e Maputo, permite traçar um panorama em relação às 44
Moçambique; Lagos, Nigéria; Mombaça e cidades brasileiras investigadas pelo autor.
Nairóbi, Quênia; Kinshasa, Congo; Dacar, Além disso, as médias são destacadas,
Senegal; Mogadishu, Somália; Kampala, quando adequado, com o intuito de verificar
Uganda; e Lusaka, Zâmbia). Para todos os a diversidade de cenários da seleção de
contextos foram analisados o sistema assentamentos.
completo e o núcleo de integração, segundo As regras de organização da favela resultam
as variáveis apresentadas. Os dados extraídos em espaços menos claros para o observador,
nesta fase da análise foram balizados pela o que se relaciona à fractalidade, propriedade
pesquisa de Medeiros (2013) para cidades em que as estruturas que compõem um objeto
brasileiras, a partir da qual valores médios de se mantêm semelhantes em diferentes
variáveis comuns foram enquadrados de escalas. As relações fragmentadas da favela
modo a ser possível confrontar os achados são identificadas em todos os níveis, desde os
em relação à amostra de favelas. mais locais aos mais globais (Sobreira, 2002)
Num segundo momento de análise, a favela (Figura 3). Isto se relaciona intimamente com
foi confrontada com a produção orgânica da padrões produzidos pela auto-organização,
cidade com o intuito de desenvolver a conforme discutido ao longo do trabalho.

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Figura 3. Estrutura orgânica e fragmentada de trechos das favelas Vila Barragem (Belo Horizonte, à
esquerda), e do Vidigal (Rio de Janeiro, à direita) (fone: autores).

Este nível de complexidade, entretanto, não é cidade. Nesse sentido, o desafio de sua
inovador na favela. Salingaros (2005; 2006; estrutura espacial parece repousar na maneira
2010) a reconhece como parte integrante do de articulação com o entorno imediato, na
processo diacrônico da cidade, onde o transição entre ser um sistema endógeno
resultado é a chamada cidade orgânica. Para (ilhado, uma espécie de gueto), ou exógeno
o autor, na linha de tempo dos assentamentos (que se comunica com o que está à volta).
urbanos, o desenho moderno é aquele que
A favela é uma estrutura mais compacta que
mais simplifica o espaço, distanciando-se
aquela em que se insere, o que se associa à
progressivamente do conceito de construção
necessidade de maximização da ocupação do
adaptável às necessidades humanas.
solo. Em termos de compacidade, existem em
Assim, embora pejorativamente assumida média 6.540 eixos por km2 nas favelas para
como ausente de planejamento, como critica 199 eixos por km2 nas cidades brasileiras
Medeiros (2013), a favela é valorizada pela investigadas por Medeiros (2013). Também
sua gênese auto-organizada, contrastante com se identificou que favelas localizadas em uma
o espaço planejado, aquele legal e cuja ordem mancha urbana contínua apresentam-se mais
explícita (Guerreiro, 2010) não permite o compactas devido ao condicionamento em
mesmo grau de adaptação (Salingaros, 1998). áreas reduzidas. Os achados apontaram ainda
que existem estágios distintos de
A favela é um excerto da estrutura urbana e
consolidação destes assentamentos: favelas
seu tamanho resulta do processo de
aparentemente consolidadas têm níveis
consolidação sobre o território a partir dos
menores de compacidade da rede de
agentes de contingenciamento e restrição de
caminhos. Em favelas menos consolidadas,
ocupação. Ao lê-la, a partir de suas relações
opostamente, a rede de caminhos contorna
espaciais complexas, é possível detectar em
quase todas as edificações, pois o processo de
que medida o espaço se afasta ou aproxima
formação da quadra ainda não se deu
da cidade a que pertence, buscando sua
(Figuras 4 e 5).
leitura pelas mesmas óticas que leem a

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Figura 4. Mapa de segmentos de favela de grandes dimensões – Vila Barragem, Belo Horizonte (variável
NAIN) (fonte: autores).

Figura 5. Mapa de segmentos de favela de pequenas dimensões (eixos passando entre a maioria dos
edifícios) – Musseque 1, Luanda (variável NAIN) (fonte: autores).

No que diz respeito ao “tamanho das ruas” ou tamanhos mínimos, menores à medida que a
“tamanho das faces das quadras”, a dimensão favela diminui de tamanho e se aproxima do
dos eixos e segmentos pode contribuir para a espaço urbano contínuo.
interpretação. Em ambos os casos, são
A baixa relação entre número de segmentos
substancialmente curtos na favela: média
para número de eixos (valor médio de 2,98)
aproximada de 31m e 9m, respectivamente,
reforça a organicidade da estrutura espacial
em oposição aos valores da amostra urbana,
desses assentamentos, sendo menor que o
com 283m e 72m. A feição é produto de um
valor das cidades brasileiras (3,21 segundo
processo de consolidação territorial
Medeiros, 2017), já reconhecidas por sua
geralmente orgânico, baseado numa estrutura
colcha de retalhos. Favelas localizadas em
fundiária heterogênea e fragmentada. As ruas
cidades africanas têm maiores valores de
têm dimensões reduzidas e os quarteirões
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segmentos por eixo, aparentemente a rua não atravessamento dos eixos pelos espaços, o
está conformada por edifícios contíguos, mas que justifica o desempenho (figura 6).
sim por construções soltas, permitindo maior

Figura 6. Mapa de segmentos de favela na África do Sul – Phola Park, África do Sul (variável NAIN)
(fonte: autores).

No que diz respeito ao relevo, observa-se a A modelagem dos resultados aponta que o
tendência de as favelas estarem implantadas relevo condiciona a acessibilidade da favela.
em sítios pouco acentuados. Assentamentos implantados em sítios menos
Aproximadamente 78% dos assentamentos acentuados têm maiores valores médios de
ocupam áreas que, a despeito de alguma conectividade, enquanto para cenários muito
sensibilidade ambiental (várzeas, mangues, acentuados ou acentuados (sem distinção
baixadas, etc.), são terrenos de pouco declive, expressiva), a medida cai. O desempenho
situação que contraria o imaginário comum geral das medidas de integração HH Rn,
da favela/morro (Figura 7). Predominam os NAIN e NACH repete a tendência: quanto
casos de favelas situadas no meio da mancha mais acentuado, menor o valor de
urbana contínua ou próximos a elementos acessibilidade potencial do sistema quanto à
hídricos como rios ou lagos, quando dentro existência de linhas centralizadoras dos
da mancha urbana. fluxos e distribuição das opções de caminhos;
quanto mais plano, mais elevado (Figura 8).
No entanto, verificou-se que a topografia
apesar de seu papel essencial não condiciona
a dinâmica de modo drástico, ela vai
intensificar algumas propriedades, deixando,
no entanto, o papel primordial para
características configuracionais. A oscilação
de valores não é expressiva a ponto de
corroborar com a ideia de que a organicidade
só se faz presente em contextos com elevado
declive.

Figura 7. Associação de variáveis: topografia e


área da favela (fonte: autores).

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Figura 8. Associação de variáveis: topografia, integração global (Rn HH), escolha angular normalizada
(NACH), integração angular normalizada (NAIN) conectividade e conectividade angular (CONN) (fonte:
autores).

Em relação às questões de percepção, simultaneamente produto do tamanho e do


também se verifica um padrão recorrente modo de articulação entrepartes, o que se
quanto à topografia. Quanto mais acentuado associa à fragmentação. A favela, apesar de
o sítio, mais são comprometidas a relações seu imaginário labiríntico, parece guardar
globais e locais, extraídas das medidas de melhores relações entrepartes, o que é
inteligibilidade e sinergia (Figura 9). possivelmente associado a uma clara
Entretanto, apesar do aspecto, o desempenho hierarquia composta pelas vias principais de
de percepção é, ainda assim, melhor do que acesso - núcleo de integração, e os caminhos
para os sistemas urbanos do país mais sinuosos e locais que integram o
(inteligibilidade média de 25% na favela para restante do sistema. Parece, nas favelas, ser
15% nas cidades analisadas por Medeiros, mais fácil de identificar os papeis de cada
2013; sinergia de 55% para 36%, parte e suas relações, devido a sua
respectivamente), o que parece organicidade.

Figura 9. Associação de variáveis: topografia com conectividade, sinergia e inteligibilidade (fonte:


autores).

Identificou-se que, em geral, as médias de Por exemplo, a média de integração HH para


acessibilidade topológica são mais elevadas as favelas (0,84) é superior à das cidades
nas favelas do que nas cidades brasileiras. brasileiras (0,764). Acredita-se que o
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desempenho é resultado, por um lado, do produzindo o contingenciamento já citado.


padrão em colcha de retalhos do sistema De qualquer maneira, independentemente da
urbano no país (Medeiros, 2013) e, por outro, localização geográfica, observa-se que (2)
da existência nas favelas de relações globais- sítios muito acentuados e acentuados atingem
locais mais privilegiadas que nas cidades. valores de acessibilidade mais baixos, o que
Isto significa que apesar dos problemas reforça a atuação do relevo sobre o tipo de
inerentes a estas estruturas espaciais, há uma rede urbana que se estabelece sobre o
auto-organização que expressa um espaço território, de modo que estruturas mais planas
cujas relações de centralidade e hierarquia tendem a ser mais acessíveis, enquanto mais
são bem definidas e, aparentemente, positivas inclinadas têm uma queda na permeabilidade.
para a acessibilidade potencial. O relevo afeta a forma e a posição do núcleo
de integração e estrutura tendências de
A hierarquia espacial na favela parece ser
organização na amostra como um todo, sem
mais acentuada do que na amostra de cidades
distinção de região. Os núcleos em roda
brasileiras, o que se vincula ao caráter
deformada apenas foram identificados em
endógeno desses assentamentos, resultando
sítios de relevo pouco acentuado, enquanto
num espaço urbano que se relaciona até certa
lineares e mistos se distribuem nas três
medida com a envolvente, mas que repele o
categorias de topografia. Por outro lado,
visitante de se permitir a caminhar.
núcleos de integração internos existem
As medidas de acessibilidade topológica predominantemente em estruturas em relevo
apontam duas tendências interdependentes muito acentuado, a reforçar que nestes casos
(Figura 10): (1) os assentamentos latino- a favela assume um papel quase autônomo
americanos da amostra são, de modo geral, como um sistema independente. Ao não se
os de pior desempenho, predominando no costurar com seu entorno imediato, o papel
quadrante inferior do gráfico. O resultado articulador do(s) eixo(s) de acesso à favela é
parece ser produto da existência, nesse grupo reduzido, pois a estrutura parece assumir uma
de cidades, de um número maior de contextos vida independente, reforçando seu caráter
em que a favela se situa em morros, endógeno.

Figura 10. Dispersão de pontos, segundo classificação da UNESCO ou topografia, para associação entre:
(a) conectividade e integração Rn HH (linha superior, à esquerda), (b) conectividade e NAIN, (linha
superior, à direita); (c) conectividade angular e NAIN (linha inferior, à esquerda); e (d) NACH e NAIN
(linha inferior à direita). A localização geográfica compreende as categorias América Latina (LAT - azul),
Ásia (ASIA - vermelho) e África (AFR - verde). A topografia está classificada entre pouco acentuada
(azul), acentuada (vermelho) e muito acentuada (verde) (fonte: autores).

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Portanto, a depender da maneira de imediato, a resultar num cenário de transição


articulação da favela com seu entorno mais suave entre o fora e o dentro.
imediato, a característica afetará a disposição
Ao que parece, a estrutura espacial da favela
do núcleo de integração, a resultar em um
experimenta, num tempo relativamente curto
sistema mais fechado, com núcleo de
desde sua implantação, um processo de
integração interno, ou aberto, com núcleo de
transformação espacial que nas cidades levou
integração periférico. No primeiro caso a
décadas ou séculos para acontecer. Em
favela se conforma como um sistema que se
contextos de restrição de ocupação, as regras
isola da cidade. No segundo, parece haver
de organização espacial se processam de
uma transição mais suave entre a cidade e a
maneira dinâmica e podem ser encontradas
favela, de modo que um núcleo periférico
em diversos estágios de desenvolvimento. A
implica a existência de espaço com elevado
auto-organização e a emergência da favela
potencial agregador nas fronteiras do sistema,
fornecem pistas para o quanto o espaço se
resultando num mais intenso contato entre a
transforma progressivamente, sem agentes de
dinâmica da favela e a dinâmica do exterior.
cima para baixo ou de planejamento global,
Favelas com núcleos internos são aquelas
de modo a garantir melhores relações globais
que compõem sistemas em geral menos
e locais que assegurem a vida na
acessíveis, o que reforça o caráter isolado.
comunidade.
Quando misto ou periférico (o que aponta
para uma transição entre um núcleo interno e
Favela enquanto processo urbano
externo), as medidas aumentam
consideravelmente em relação ao primeiro A segunda parte da discussão contempla a
cenário. análise da amostra diante de 45 cidades
portuguesas de origem medieval, em que se
Após a comparação produzida, é possível distingue aquilo que é a mancha urbana das
alcançar uma síntese. A favela assume um cidades atualmente, observando suas
padrão espacial que, em relação ao sistema peculiaridades como sistema completo, e
urbano, é: (a) compacto e adensado, devido à aquilo que corresponde ao núcleo mais antigo
necessidade de maximização do uso do solo, do sistema. A diferenciação é importante
principalmente quando localizados na uma vez que a maioria das cidades tem
mancha urbana contínua (b) apresenta ruas atravessado processos de desenvolvimento
curtas e quarteirões irregulares; (c) o que urbano comuns à sua contemporaneidade, e
resulta numa significativa fragmentação e por isso apresentam padrões de crescimento
descontinuidade, (d) cujo principal efeito diferenciados daquele original, comumente
para a percepção é o caráter labiríntico. A associado à malha da cidade medieval. Outra
despeito dessas características e de uma (e) razão importante é a possibilidade de
hierarquia espacial mais acentuada (os polos comparação direta com a favela em termos
mínimo e máximo de integração são mais de escala: os centros antigos parecem
distantes, o que tende a reforçar a segregação preservar-se os padrões mais orgânicos e
espacial), o (f) desempenho topológico é densos da malha em áreas que se aproximam
melhor do que nas cidades brasileiras, o que bastante daquelas presentes na amostra de
aponta para necessidade de (g) compreender favelas e, por isso, serão o foco principal da
com precisão as relações que existem na comparação com a favela.
favela e que poderiam ser adotadas para
refinar o desempenho configuracional nas Parte-se da aparente proximidade entre a
cidades do país. forma complexa e irregular da cidade
orgânica e da favela. Nos dois cenários,
Por outro lado, a questão topográfica é depreende-se a capacidade de igualmente
essencial para a compreensão do desempenho produzir espaços de trabalho, habitação e
destes assentamentos. Quanto mais lazer, numa multiplicidade recorrente que
acentuado o relevo, maior a fragmentação, o enquadram tais assentamentos como
caráter labiríntico e a formação de uma “cidade”, dada uma certa completude de
estrutura voltada para dentro (caráter atividades.
endógeno) – a favela estará apartada da
estrutura urbana. Por outro lado, em relevos Jacques (2006) argumenta sobre o espaço da
pouco acentuados, maior a tendência de favela como beneficiador espaço da cidade
articulação entre a favela e o entorno como um todo, quer pela sua resiliência
associada a um urbanismo do jeitinho, quer

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pelo reconhecimento da sua importância na também se relaciona ao tipo de localização


identidade urbana brasileira. A capacidade e mais comum para os assentamentos: plano
possibilidade de adaptação do espaço de em posições contíguas à mancha urbana. Ao
moradia à produção de renda (o puxadinho contrário dos outros sistemas analisados, a
para uma birosca e a laje para vender ou favela materializa um espaço de
alugar) é incompatível com a legalidade da oportunidade na cidade, um lugar de acesso a
cidade formal (Jacques, 2006) e claramente oportunidades inexistentes na cidade oficial
mais vantajosa que a tendência à envolvente, assim a densidade em muito se
homogeneização da periferia habitacional. associa a essa intensidade de ocupação que
advém do movimento inicial, a busca pelo
A dinâmica acima lembra muito da cidade
habitar urbano.
dita tradicional (em termos europeus ou
mesmo coloniais), cujo comércio acontece Ao se falar de otimização das relações
frequentemente no piso térreo e a moradia no espaciais em formas auto-organizadas, a
superior, e apenas as ruas menos favela parece levar essa capacidade até ao
movimentadas se destinam só a habitação. extremo, transformando aquilo que seria o
Medeiros (2013) relembra que ao longo da espaço médio do quarteirão em distância
história sempre se lidou com os dois suficiente para um ou dois edifícios.
processos em paralelo, aquele que aqui
A favela, apesar de uma proporção
reconhecemos como organicidade e auto-
relativamente baixa de segmentos por eixo
organização espontânea (que permeia toda a
(2,98), o que reforça a inexistência de uma
história da cidade tradicional e parece chegar
estrutura com conexões que atravessem o
à favela de hoje), e aquele da formalização
sistema com frequência, revela melhores
do espaço, imposto por um planejamento
proporções do que a cidade portuguesa ou os
prévio e regulador.
seus núcleos antigos (2,22 e 2,45 segmentos
Com este percurso de análise para as 45 por eixo, respectivamente), indicando uma
cidades portuguesas integrantes da amostra, maior continuidade dos traçados, do que seria
seus núcleos antigos e núcleos de integração, de esperar.
e tendo confrontado todas as informações
Dois fatores se destacam a partir desse
com aquelas referentes ao que a Sintaxe
achado: por um lado a topografia como fator
Espacial tem apontado como potencial para o
essencial da cidade portuguesa e de sua
espaço da favela, foi possível desenhar um
tradição de adaptação ao território, por outro
conjunto de ideias que aproximam ou
a densidade da rede de caminhos. Apesar de
afastam esses fenômenos urbanos.
exploratória na seleção de casos e no modo
Centros antigos da amostra de cidades de representação, a amostra demonstra que a
portuguesas têm, em média, áreas muito favela se caracteriza muito mais pela
próximas àquelas da favela (0,21km2 e 0,14 organicidade e sinuosidade de suas estruturas
km2, respectivamente, em oposição à média do que pela existência de becos ou caminhos
das cidades, de 5,34 km2), assim como seu sem saída, situação que contraria o seu
espectro de valores máximos e mínimos. A respectivo imaginário.
favela tem, em média, dimensões
A favela intensifica o padrão orgânico em
aproximadas ao que seria o núcleo mais
suas relações espaciais, mas parece se
antigo da cidade orgânica portuguesa.
desvincular, em parte, da sinuosidade da
No entanto, favelas são substancialmente estrutura, o que estará ligado ao fato de, na
mais densas do que estes núcleos (6539,5 amostra, não ser tão frequente casos de
linhas/km2 para 776,4). Os valores de topografia acentuada, bem como a
compacidade para favelas são muito otimização do espaço não permitir a
superiores, revelando espaços de dimensões formação de becos ou quadras largas, mas
mais reduzidas e adensadas apesar das uma rede de caminhos que, ainda que
mesmas áreas de ocupação, o que pode estar precária, estende-se a todo o sistema.
relacionado com a ausência – nos casos mais
Para a média de conectividade e
compactos – de conformação do quarteirão
conectividade angular, a favela apresenta
ou com a sua extrema diversidade de
valores médios mais altos (3,68 e 2,67) que
tamanhos.
os valores para cidades portuguesas (2,95 e
O grau de compacidade da favela, em 2,33) e para os seus núcleos antigos (3,64 e
comparação àquele da cidade orgânica, 2,58). À medida que se observa a alternância
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de valores de acordo com as categorias de favelas e 46,25 e 44,46 para cidades


área do sistema analisado, a situação inverte- portuguesas e núcleos, respectivamente),
se: sistemas da amostra de núcleos portanto com maior distância entre seus
portugueses aumentam sua conectividade extremos, revelando maiores níveis de
média (4,26 para o conjunto de núcleos segregação interna, possivelmente por
categorizados como maiores) e a favela tende concentrar a integração em um conjunto
a decrescer (3,84 para o conjunto de favelas menor de linhas. (2) Mas, ao olharmos para
pequenas e 3,10 para as muito grandes). Esta os valores normalizados por ponderação
situação indica que a consolidação ao longo angular e de escala, NAIN, medida que
do tempo desses traçados orgânicos permite a pressupõe a comparação sem distorções pela
costura das partes de uma forma que a escala, vemos que existe uma prevalência de
conectividade naturalmente se desenvolve. Já valores mais altos nos sistemas favela (0,94),
na favela, há a questão dos sistemas muito seguidos por núcleos antigos em relação às
pequenos cuja realidade espacial se parece cidades (0,90 e 0,83 respectivamente). Isto
distinguir da dos sistemas maiores. O apresenta que de algum modo a estruturação
processo de consolidação em situações das relações de centralidade são mais fortes
emergenciais, em curtos espaços de tempo, na favela do que seriam nos núcleos antigos,
como a favela, resulta em sistemas menos e que talvez a favela guarde em seu caráter
conectados – em média – devido, primeiro, emergencial sinais de uma organização
ao seu carácter endógeno e segundo, a sua global clara, possivelmente devido ao próprio
diversidade de cenários internos – à medida estágio de desenvolvimento, onde poucos
que aumenta, sua relação de espaços mais eixos possam ser responsáveis por captar
conectados se polariza, enquanto toda a integração do sistema. Em última
característica de sua complexidade. Ainda instância, o estágio atual das favelas parece
assim, devido à predominância de sistemas dar sinalizações de que o espaço é
pequenos, podemos assumir que a favela é estruturado e segue uma organização,
em média mais conectada que a cidade produzindo de alguma maneira padrões mais
orgânica portuguesa e menos que a cidade regulares que os dos centros antigos, ainda
brasileira (cf. Medeiros 2013), o que parece que mais segregados.
indicar algum grau regularidade nesse grupo
Observando medidas de ponderação angular
de favelas menores que sinaliza a
para a Escolha (NACH), que permite
possibilidade dos padrões de auto-
observar padrões potenciais de hierarquia,
organização não serem tão profusos quanto
verifica-se a existência de uma estrutura
se pensaria.
organizacional principal ou global (Hillier,
Quanto a medidas de potencial de 2016; Hillier et al., 2012) que permeia a
centralidade, valores de integração (HH Rn) favela, tal como a cidade. A medida enaltece
revelam-se mais baixas para cidades a continuidade de caminhos no sentido de
portuguesas (0,71) e seus núcleos (0,79), identificar o padrão de deslocamento
assim como para as cidades brasileiras (0,76), potencialmente mais comum, as vias mais
sendo a amostra de favelas aquela com escolhidas. O resultado revela que, apesar de
valores mais expressivos em termos de aparentemente profusa, sua organização é
centralidade (1,06 para integração). A estruturada e distribuída; existe um equilíbrio
medida aponta que efetivamente a favela entre vias locais e mais estruturantes que se
tende a apresentar eixos mais estruturantes distribui na favela. Ponderado o tamanho dos
ligando o sistema como um todo, apesar da sistemas em termos de quantidade de linhas,
densidade e profusão aparentes de seu é possível reconhecer que o padrão interno e
sistema. O aspecto parece estar relacionado local permaneça mais segregado, no entanto
ao tamanho dos sistemas, por um lado, e à a semelhança entre sistemas de favelas e
polarização de valores, por outro. núcleos mantém-se reveladora de
Observando-se valores normalizados para as organização interna (Figura 11). Importa
medidas (HH Rn Base 100 e NAIN) mostrar como uma regra que se aplica a
identificam-se nuances de comportamento espaços urbanos consolidados (hierarquia
distintos que valem pelo aprofundamento da viária e estrutura global de caminhos, NACH,
centralidade na favela: (1) a integração global e capacidade de geração de movimento e
para a base 100 (Medeiros, 2013) revela que centralidade, HH+CH) se expressa tão
ao ponderar polaridades, a favela continua a comumente na favela, revelando em sua
ser o sistema de menor valor (41,19 para auto-organização a capacidade de
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desenvolvimento, estruturação em si e com


as restantes partes da cidade.

Figura 11. Mapa de segmentos de favela (à esquerda) e cidade portuguesa (à direita) (variável NAIN)
(fonte: autores).

Em relação às centralidades morfológicas, os Por fim, a favela apresenta características de


núcleos integradores nas cidades portuguesas percepção dos espaços semelhantes àquela
se estruturam principalmente em forma de dos núcleos antigos. Avaliados os níveis de
roda deformada e reproduzem apenas sinergia, a favela apresenta valores
categorias de centralidade associadas à boa semelhantes, ainda que superiores (55% para
estrutura urbana (Hillier e Hanson,1984; favelas, 49% para cidades portuguesas e 53%
Holanda, 2002; Medeiros, 2013) inexistindo para núcleos), o que aponta à semelhança de
vestígios de estruturas voltadas para dentro, suas gêneses e aproximados níveis de
como na favela. hierarquização do ponto de vista do
utilizador. Níveis de inteligibilidade são, no
A topografia parece ter um papel
entanto, um pouco menores, reforçando a
preponderante em questões como o tamanho
organicidade intensa do sistema (25% para
do núcleo antigo, no entanto em todas as
favelas, 23% e 53% para cidade portuguesa e
categorias topográficas se distribuem
núcleos antigos).
diferentes modelos de núcleo integrador,
confirmando que a estruturação da cidade Reitera-se, mais uma vez, a aproximação da
orgânica não piora com a topografia, mas se favela com o padrão espacial da auto-
usa dela para se auto-organizar e consolidar. organização de sistemas urbanos, visto aqui
Ao mesmo tempo, tal como na favela, foi segundo a cidade portuguesa.
possível perceber ligeiras quedas no
desempenho topológico do sistema à medida Considerações finais
que a topografia se acentua, natural à A pesquisa procurou, amparada pela Teoria
organicidade dos sistemas por sua da Lógica Social do Espaço ou Sintaxe
impossibilidade de moldar a rede de Espacial, investigar a configuração da favela
caminhos livremente no território. de modo a entender suas regras gerais de
A inexistência de núcleos integradores organização e reconhecer a sua implicação
periféricos na cidade portuguesa é para a dinâmica social existente.
sintomática do estágio em desenvolvimento A partir de estudo de caso composto por (a)
da favela e, principalmente, de sua condição 120 favelas distribuídos em 3 continentes
natural enquanto parte da cidade e não (América Latina, África e Ásia), (b) 44
sistema independente. Isto indica que, apesar cidades brasileiras exploradas por Medeiros
da sensação de gueto e da guetificação de que (2013) e (c) 45 cidades portuguesas de
é alvo, sua estrutura busca, em seus origem medieval (Medeiros, 2016),
processos de auto-organização, algum modo pretendeu-se responder a duas questões de
de conexão com a cidade, estabelecendo pesquisa: (1) há um padrão espacial na
interdependências ao mesmo tempo em que favela? (2) em que medida a favela reproduz
se organiza internamente pela geração padrões espaciais inerentes à cidade orgânica
frequente de núcleos mistos. e historicamente consolidados?
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Os achados conduzem ao enquadramento, em respeito de espaços urbanos em


dois sentidos: a favela (1) é um espaço desenvolvimento, pois os achados obtidos
urbano segregado, cuja espacialidade ora em revelam como processos auto-organizados se
desenvolvimento ora consolidada revela um consolidam ao longo do tempo e
padrão de ocupação menos conectado e mais desenvolvem padrões espaciais mais fluidos,
intrincado, quando observado em relação a acessíveis e apreensíveis.
outras estruturas urbanas e, (2) ao mesmo
Acredita-se que neste tipo de informalidade –
tempo reproduz quase todos os atributos
a auto-organizada – podem-se pressupor
comuns à conformação de espaços urbanos
potenciais níveis de urbanidade, relacionados
de qualidade e encontrados também nas
a uma ordem implícita que permite que o
cidades de gênese orgânica estudadas: forte
espaço se configure de forma a bem
centralidade, bom potencial de hierarquia,
responder às necessidades dos seus
relações ora internas e locais (geração de
utilizadores, ainda que se voltando apenas
comunidade) ora externas se relacionando à
para eles. Da feição resulta o sentido de
envolvente, quando possível, e acima de tudo
comunidade que se reconhece na favela e
assumindo uma estrutura que permite um
também a noção de espaço-cidade, gerador
fluxo contínuo em suas partes, apesar da
inclusive de identidade, por vezes tão forte
profundidade e profusão da sua geometria
que transborda para a cidade em forma de
mais local. A favela manifesta-se enquanto
Samba e Carnaval (Jacques, 2006).
cidade sim, e dela é possível retirar lições a

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Tradução do título, resumo e palavras-chave


The socio-spatial logic of favela: patterns of self-organized informality
Abstract. The present work analyzes the configuration of the favela from its socio-spatial patterns,
seeking to understand the phenomenon in its global scale. It adopts the Social Logic of Space (Space
Syntax) as theoretical, methodological and technical approach, allowing the reading of the object in its
spatial complexity. A total of 120 settlements located around the world are compared, using a set of 26
configurational variables (between qualitative and quantitative, geometric and topological). The results
are also compared to a sample of 45 Portuguese cities of medieval origin (exemplars of the organic city)
and to Medeiros’s research on 44 Brazilian cities (2013) (illustrative of contemporary urban structures).
The following research questions are considered: is there a spatial pattern for favelas? And to what extent
the favela reproduces spatial patterns inherent to the organic and historically consolidated city? The
research is based on the hypothesis that the favela configuration reveals spatial patterns derived from its
self-organizing practices, which are responsible for successful urban dynamics. The findings reveal that
the favela is organized within the larger system that receives it, sharing a common and transversal logic
in the various regions of the world, despite its varied cultural contexts. There were also found common
patterns in organic cities and favelas, revealing similar processes of development.
Keywords. favela, socio-spatial patterns, self-organization, space syntax.

Editor responsável pela submissão: Vinicius M. Netto.

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