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1.

Introdução geral
TEMA 1: NOÇÕES BÁSICAS DE LÓGICA
1.1. Definição da lógica
1.2. O objecto e método da lógica
1.3. Importância da lógica
1.4. Divisão da lógica
1.5. Os princípios lógicos
1.6. O pensamento e o discurso
1.7. As três dimensões do discurso: sintaxe, semântica e pragmática
1.8. 1. O conceito e o termo
1.8.2. Formação e classificação dos conceitos
1.8.3. Classificação dos conceitos
1.9. Definição
1.9.1. tipos e regras de definição de conceitos

1.10. juízo e proposição

1.10.1. classificação dos juízos

1.10.2. classificação das proposições quanto a quantidade e qualidade

1.11. inferências

1.11.1. classificação das inferências: imediatas e mediatas

1.11.2. inferências imediatas por oposição das proposições

1.11.3 inferências imediatas por conversão das proposições

1.12. Raciocínio e Argumentação

1.12.1. classificação de Raciocínio: Dedutivo, Indutivo e Enalógico

1.12.2 classificação dos termos

1.12.3. classificação das premissas

1.12.4. Validade formal e validade material

1.12.5. as Falácias

1.12.6. Silogismo

1.12.7. Regras e figuras do silogismo

1.12.8. Tipos de silogismo

TEMA 2: FILOSOFIA AFRICANA

2.1. O que é a Filosofia Africana?

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2.2. As principais correntes da Filosofia Africana

2.2.1. Negritude;

2.2.2. Pan-Africanismo;

2.2.3. Etnofilosofia;

2.2.4. Filosofia da Libertação.

TEMA 3: CONVIVÊNCIA POLÍTICA ENTRE OS HOMENS

3.1. Definição da Política;

3.2. Ética e Política

3.3. O cidadão e a Política;

3.4. Política e Globalização;

3.5. O que é a Democracia;

3.5.1. Democracia e Cidadania;

3.5.2. Campos do exercício democrático;

3.5.3. Os riscos da Democracia;

3.6. o que é a violência?

3.6.1. Violência e Política;

3.6.2. Tipos de violência;

3.7. O que é a concórdia?

TEMA 4: A FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

4.1. Definição e compreensão da Filosofia da Educação;

4.2. Objecto, Objectivo e função da Filosofia da Educação;

4.3. Agentes da Educação: Família, Escola e Estado.

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1. Introdução Geral

Caro aluno, depois de termos discorrido a nossa reflexão sobre a iniciação ao acto
filosófico na classe anterior, agora é o momento de aprendermos a ordenar o nosso
pensamento; a reflectir sobre a realidade do africano; sobre a convivência política e
sobre os problemas da educação.

Por isso, para responder a essas exigências teremos ao nosso dispor quatro capítulos
a saber: Noções Básicas sobre a lógica; sobre a Filosofia Africana; sobre a convivência
política entre os homens e por último, sobre a Filosofia da Educação.

CAPÍTULO I – NOÇÕES BÁSICAS DE LÓGICA

1.1. Definição da Lógica

Lógica é uma palavra de origem grega (λοϒοσ=logos) que significa: discurso,


tratado, estudo, razão.

Como ciência, surge na Grécia Antiga por intermedio de Aristóteles, a partir do seu
livro “Ôrganon”, cuja sequencia corresponde a divisão do objecto da Lógica. Com
Aristóteles, destaca-se fundamentalmente a uma lógica da educação, de uma lógica
formal, ligada as leis do pensamento, oposta a uma lógica formal ou das coisas.

Como arte, a lógica ensina a fazer com ordem. Ensina o bem pensar ou proceder
com ordem.

A Lógica é o instrumento primário da pesquisa filosófica.

1.2. Objecto e Método do Estudo da Lógica

Todo o objecto da ciência abrange sempre dualidades, isto é, um formal e outro


material.

O objecto formal da lógica é o pensamento em geral, nas suas formas ou elementos


(Conceitos, Juízos e Raciocínios). Refere-se à matéria ou conteúdo, retirado de um
pensamento que tenha uma correspondência com o problema em causa, bem como o
próprio pensamento. Ex: a verdade ou ainda quando se pode descobrir que um
pensamento é verdadeiro ou falso.

O objecto formal diz respeito as relações mútuas desses elementos (conceitos, juízo
e raciocínio); relaciona-se as leis ou regras que permitem o exercício correcto do
pensamento para que se atinja sempre a verdade quando é preciso pensar os modos ou
procedimentos que permitem concluir um juízo ou um raciocínio. É o pensamento no
seu aspecto formal.

Quanto ao método, a lógica como parte da Filosofia, usa a dedução, a Indução e a


analogia para atingir os seus intentos. Esses métodos são puramente racionais.

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1.3. Importância da Lógica

Sendo o pensamento e o discurso o centro do interesse da lógica, procura estudar as


condições que estabelecem a validade de um raciocínio. Importa-lhe também o
ordenamento do pensamento e do uso correcto das regras formais; clarifica o
pensamento e ajuda a evitar erros de raciocínio (falácias)

A Lógica ajuda-nos a assumir uma posição crítica perante os problemas, as teorias e


os argumentos da filosofia.

A Lógica participa também na construção de novos campos técnicos e científicos,


tais como: a Informática, Cibernética, inteligência artificial, a robótica, etc.

1.4. Divisão da lógica

No estudo da Lógica, podemos perceber aquela de tipo Natural ou Lógica Natural


(é a lógica espontânea e inata, presente em todas as pessoas; é fruto da evolução da
mente; capta somente as verdades mais simples, os primeiros princípios e as conclusões
de que precisam só do domínio de raciocínio; percebe os problemas normais, mas não
chega a motivos de fundo, nem a solução dos porquês, carece da capacidade de refutar
os que lhe engana) e a de tipo científico ou lógica científica (é a lógica sistemática,
caracterizada pelo conjunto de normas, exige raciocínios para formular juízos. É fruto
de estudo e reflexão, presente somente nos que a estudam. Busca raciocínios mais
complexos, avalia-os e chega à conclusões mais difíceis. Prepara o intelecto para
responder os sofismas e os erros).

Por sua vez, a Lógia científica está repartida em duas fundamentais:

a) A Lógica Menor ou Formal – tem em vista a legitimidade do procedimento


(pensamento). Oferece-nos as técnicas do raciocínio para alcançar as verdades,
evitar os erros de julgamento e detectar as falsidades dos adversários.
b) A Lógica Maior ou Crítica (gnoseologia) – tem a ver com a veracidade das
conclusões; trata de conhecer “em que consiste a verdade”, quais os meios para
atingi-la, os critérios para distinguir uma conclusão verdadeira da falsa.
1.5. Os princípios Lógicos

O termo principio deriva do latim “principium”, quer dizer: começo, origem.

A Lógica formal fundamenta-se em “Princípios da Razão” ou seja, as leis do


pensamento correcto.

Os principais princípios lógicos são:

a) Princípio de Identidade – segundo este princípio, “uma coisa é o que é”; “uma
proposição é equivalente a si mesma” ou ainda “A é A”.
b) Princípio de Não – Contradição – “uma coisa pode ser e não ser ao mesmo
tempo, segundo uma mesma perspectiva”, “uma proposição não pode ser
verdadeira e falsa ao mesmo tempo”; ou ainda “A não pode ser A e não A”.

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c) Princípio do terceiro excluído ou meio excluído – “uma coisa deve ser, ou
então não, não há outra terceira possibilidade”; entre “A e não A não há terceiro
termo”.

N.B. Esses três princípios constituem-se como anteriores a qualquer raciocínio e é o


fundamento principal da possibilidade de todo o conhecimento humano.

A esses princípios fundamentais, acrescentou Leibniz, filósofo moderno (finais do


século XVII) o Princípio da Razão suficiente, segundo o qual: “todo o ser é inteligível
e tem a sua razão de ser”, “toda a ideia verdadeira deve ser suficientemente
fundamentada”.

Esses princípios possuem três características:

 São universais – se referem a todos os pensamentos sem excepção;


 São a priori – se apresentam a nossa consciência com evidência imediata e são
independentes da nossa experiência;
 São necessários – são inerentes aos pensamentos lógicos. Sem eles o
pensamento não teria significado.
1.6. O Pensamento e o Discurso

A linguagem é constitutivamente humana. O dom da palavra é privilégio supremo do


homem que, por meio da linguagem verbal, apreende e domina o mundo, dialoga com
os outros e consigo mesmo, partilha experiência e saberes, sentimentos e expectativas,
exerce influência sobre os seus pares e é, por ele, influenciado.

A língua é um sistema de signos que exprimem ideias.

O discurso é a manifestação concreta da língua e produz-se necessariamente num


contexto particular em que entram em linha a própria situação dos interlocutores, o
tempo e o espaço em que os enunciados são expressos, de tal forma que os linguistas
distinguem entre o significado ou significação da frase e o sentido do discurso.

A linguagem para além de ser instrumento de comunicação e de transmissão de


informação, a linguagem é condição essencial do pensamento, o meio em que o
pensamento se desenvolve e se exerce. Constituindo a língua, o homem constrói o
próprio pensamento e, simultaneamente, a capacidade de pensar. O pensamento só
existe na e pela linguagem. “aprendemos a pensar ao mesmo tempo que aprendemos a
falar” Jean Piaget); clarificamos o nosso pensamento quando somos capazes de traduzir
num discurso articulado e coerente, o que captamos da realidade, e queremos exprimir.
O pensamento toma forma através da sua verbalização e o esforço para dizer e dizer
adequadamente desenvolve as nossas capacidades de conhecimento e de compreensão e
a nossa competência linguística.

Assim, podemos concluir que não há pensamento sem linguagem porque o


pensamento opera-se e exprime-se numa linguagem; é na linguagem que o pensamento
toma forma. Pois a génese do pensamento e da linguagem está indissoluvelmente ligada.

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O próprio termo “discurso” (do latim: disc+cursus, que significa: o discorrer da razão)
traduz simultaneamente o processo do pensar e o seu resultado (o pensamento),
expresso num acto de comunicação linguística, isto é, no acto de enunciação daquilo
que a razão discorre ou raciocina.

Podemos assim dizer em síntese e de uma forma muito geral, que o discurso é a
manifestação do pensamento operado e expresso numa linguagem, sendo por isso, que
no discurso as dimensões linguísticas e lógico – racional são indissociáveis, pois o
discurso é processo de enunciação e manifestação da língua e, simultaneamente,
expressão do pensamento.

“A língua serve de veículo ao pensamento, (…). A palavra tem um poder


conceptuador: a palavra cria o conceito, da mesma maneira que o conceito convoca a
palavra. Uma actividade nova, uma ideia nova, uma nova realidade, requerem uma
denominação, mas é esta denominação que lhes confere existência”. (Cf. M. Yaguello,
Alice no País da linguagem, pag. 83).

1.7. As três dimensões do Discurso: Sintaxe, Semântica e Pragmática

A complexidade da linguagem não se reduz às regras lógicas, pois o discurso pode


ser analisado segundo diferentes perspectivas.

Pode ser analisado do ponto de vista da sua estrutura:

Se numa investigação no referimos unicamente na análise das relações entre


expressões, ou ainda, das relações entre os signos independentemente do que eles
designam, atribuímos essa investigação à sintaxe.

A sintaxe lógica é o estudo das relações entre expressões, abstraindo que do sentido,
quer dos objectivos designados, quer ainda do uso que os utentes podem fazer de tais
expressões. Trata da determinação das regras que permitem combinar os símbolos
elementos de modo a construir proposições correctas. Analisa o sistema apenas do
ponto de vista formal, abstraindo, de qualquer interpretação. A preocupação incide,
exclusivamente na validade formal dos raciocínios.

Se se analisa apenas as expressões e as significações, encontramo-nos no domínio


da Semântica. Ela preocupa-se unicamente com o estudo dos problemas postos pela
interpretação dos signos contidos na sintaxe, pondo-os em relação com um referente, a
realidade ou outros signos com idêntico ou diverso significado, da mesma ou doutro
tipo de linguagem.

Se por um lado, a sintaxe se ocupa das leis de formação e de transformação lógica, a


semântica trata da significação ou do valor de verdade e/ ou falsidade das proposições.

Porém, se num estudo nos referimos, somente àqueles que fala ou, em termos gerais,
aos utentes da linguagem atribuímos essa investigação à Pragmática – cujo objectivo é
descrever os usos que os interlocutores fazem das linguagens, tendo em vista a acção

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que exercem uns sobre os seus utilizadores, da adaptação das expressões simbólicas às
situações e aos contextos em que são enunciados. Do ponto de vista de uma análise
pragmática, o interesse transfere-se para a comunicação efectiva, para o acto que é
realizado quando se fala.

Em suma, a totalidade da ciência da linguagem, composta pelas três partes


mencionadas (Sintaxe, Semântica e Pragmática) forma a Semiótica.

1.8. O Conceito e o Termo

Chama-se Conceito a representação intelectual e abstracta dum objecto

Ex: homem, mesa.

A sua expressão externa ou verbal chama-se Termo (a palavra pronunciada).

1.8.1. Formação e classificação dos Conceitos

No estudo do conceito, temos de distinguir a Compreensão ou Conteúdo


(intenção) da Extensão ou volume (conotação)

a) Compreensão ou Conteúdo – é o número de constituintes ou propriedades


que o formam, isto é, o conjunto de qualidades que ele significa. É o
conjunto de conceitos mais gerais que estão incluídos num determinado
conceito.

Ex: Homem – ser – ser corpóreo - ser vivo – ser animal – ser racional…

b) Extensão ou volume – é o número de indivíduos aos quais ele se aplica. É o


conjunto de conceitos menos gerais ou de coisas concretas aos quais se pode
atribuir ao conceito em causa.

Ex: Homem – negro – mestiço – albino – branco – angolano – italiano…

1.8.1.1. Formação dos conceitos

Os conceitos são formados por cinco modos lógicos fundamentais:

a) Por análise – analisar significa dividir, separa ou decompor uma ideia em


partes.
b) Por síntese – sintetizar significa reunir, juntar, voltar a unir o que estava
separado.
c) Por comparação – significa confrontar dois ou mais objectos de modo a
determinar-lhes as semelhanças, diferenças ou relações.
d) Por abstracção – significa “pôr de parte”, separar as qualidades essenciais
dos objectos das suas qualidades acidentais.
e) Por generalização – estende-se a uma classe de objectos; aquilo que foi
observado num número restrito de indivíduos pertencentes a essa classe de
objectos.

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Ex: Observamos alguns homens a morrerem, generalizamos logo, que todos os
homens são mortais.

1.8.1.2. Classificação dos conceitos

Os conceitos estão classificados de seguinte modo:

a) Quanto à Compreensão, podem ser:


 Simples: quando não há pluralidade de notas, nem nelas se possa
resolver.
Ex: Ser.
 Complexos: se consta várias notas e nelas é resolúvel. Ex: homem,
exército, nação.
b) Quanto a natureza do que exprime, podem ser:
 Concretos: se se referem a um objecto com a sua forma e
determinação; designam objectos particulares. Ex: Casa
 Abstractos: os que designam qualidades de objectos ou reproduzem
uma qualidade separada do objecto. Ex: humanidade.
c) Quanto à extensão, podem ser:
 Singulares: se se aplica somente a um individuo. Ex: António, Ana,
Leidi
 Particulares: se se aplica a um par de um todo ou os que designam
uma parcela de um conjunto. Ex: alguns homens, certos animais.
 Universais ou gerais: se se aplica a todos os indivíduos de um
grupo. Ex: Automóvel, filósofo, planta.
d) Quanto às suas Relações mútuas, podem ser:
 Contraditórios: quando um exclui pura e simplesmente o outro,
sem que possa existir qualquer conceito intermédio. Ex: branco e não
branco, ser e não ser.
 Contrários: quando se opõem, mas entre eles podem existir
conceitos intermediários. Ou quando designam qualidades
incompatíveis. Ex: claro e escuro; alto e baixo; gordo e magro.
e) Quanto à Perfeição com que representam o objecto, podem ser:
 Claro: quando nos permite reconhecer o objecto com nitidez. Ex:
entre vários indivíduos no grupo consigo distinguir que está o
professor Walter.
 Obscuro: quando tal não acontece.
 Distinto: quando conhecemos todos os atributos que o compõem.
Quando nos fornece o conhecimento dos elementos do objecto em
causa.

N.B. uma ideia clara pode não ser distinta. Ex: um jardineiro tem a ideia clara
das flores que cultiva, mas não distinta como o botânico.

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Por outro lado, ainda podemos encontrar a classificação dos conceitos
dependentes e independentes:

 Dependentes: são os que designam objectos cuja existência


pressupõe a existência de outros objectos. Ex: aluno e Professor, Pai
e Filho…
 Independentes: são aqueles cuja existência é autónoma.
Ex: aldeia, homem, cão…
1.9. Definição

Definir conceito é circunscrever os seus limites de referencia, aumentando o mais


possível a sua compreensão e diminuindo a sua extensão.

1.9.1. Tipos e Regras de definição de conceitos


 Tipos de Definição:

Existem vários tipos de definição. Alguns dos mais referidos pelos especialistas
de lógica são:

a) Definição nominal ou de palavra – consiste em definir o sentido


duma palavra;
b) Definição Real – é aquela que exprime a natureza da própria coisa
(objecto) que a palavra representa; é a esta que nos referimos ao
falarmos correntemente da definição, pois pode ser essencial e
descritiva.
c) Definição extrínseca – caracteriza o objecto por relações externas que
nada nos dão a conhecer sobre a sua natureza;
d) Definição intrínseca – procura dar-nos a conhecer a natureza do
objecto.

Alguns lógicos distinguem, ainda um outro tipo de definição, distinto dos anteriores:
a definição de ideias, a qual exprime o conteúdo de um conceito que pode não
apresentar valor objectivo.

 Regras de definição de conceito:

Quanto as regras, convém referir que para definir algo, existem algumas normas
essenciais a observar:

a) A definição deve convir ao definido e apenas ao definido;


b) A definição deve ser reciproca – deve, pois, permutar de lugar se trair a
verdade;
c) Os termos da definição devem ser mais claros que o definido. Daqui surgem
outras regras, a saber:
 A definição deve incluir somente termos claros, distintos e rigorosos
ou que já tenham sido definidos;
 A definição não pode ser negativa;

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 A definição não deve ser breve;
d) A definição não pode conter termos a definir. Ex: a verdade é um acto de
dizer a verdade.
e) Não se pode definir tudo.
1.10. Juízos e Proposições

Juízo é a operação lógica pela qual o espírito afirma ou nega uma relação de
conveniência entre dois conceitos.

A proposição é a expressão verbal do juízo; é o enunciado do juízo.


Os elementos materiais do juízo são:
a) Sujeito – é o ser do qual se afirma ou se nega qualquer coisa;
b) Cópula – é o elemento de ligação entre o sujeito e o predicado, que
habitualmente é representado pelo verbo “Ser” explicito ou implícito;
c) Predicado ou atributo – aquilo do qual se afirma ou se nega dum sujeito.
Ex: Mimi é inteligente

Sujeito cópula predicado ou Atributo

1.10.1. Classificação dos juízos

Os juízos classificam-se de diferentes maneiras, consoante o ponto de vista em


que nos colocamos:

a) Quanto a compreensão do Sujeito ou matéria, os juízos podem ser:


 Analíticos – são aqueles cujo predicado faz parte da compreensão do
sujeito, ou quando afirmamos do sujeito um atributo que lhe é
essencial.

Estes juízos afirmam uma relação de identidade total ou parcial entre o sujeito e
o predicado. Ex: o homem é um animal racional.

 Sintéticos – são aqueles cujo atributo não faz parte da compreensão


do sujeito, isto é, o predicado exprime uma ideia acidental que vem
juntar a ideia do sujeito.

Por esta razão chamam-se também de juízos extensivos. Ex: o tempo está
chuvoso; Raúl é estudante.

Os juízos sintéticos quanto a maneira de as formular ou quanto a relação com a


experiencia dividem-se em:

 Sintéticos a priori – são anteriores e independentes da


experiencia, são formulados pela razão independentemente da
experiencia. Ex: a circunferência é redonda.
 Sintéticos a posteriori – são aqueles que dependem da
verificação experimental, isto é, são formulados através da
experiencia. Ex: o Leão mata; a comida é saborosa.

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b) Quanto à quantidade ou Extensão do sujeito, os juízos podem ser:
 Universais – são aqueles cujo sujeito é tomado em toda a sua
extensão, isto é, quando se aplica a todos os indivíduos da classe
considerada. Ex: todos os homens são mortais.
 Particulares – quando o sujeito é tomado somente em parte da sua
extensão. Ex: alguns homens são filósofos.
 Singulares – são aqueles cujo sujeito designa apenas um individuo.
Ex: Aristóteles é filósofo.

c) Quanto à qualidade ou forma do sujeito, podem ser:


 Afirmativos – quando o predicado convém ao sujeito. Ex: o homem
é mortal.
 Negativos: quando o predicado não convém ao sujeito. Ex: o dia não
é noite.
d) Quanto à Relação do sujeito, os juízos podem ser:
 Categóricos – quando a afirmação ou negação é absoluta e sem
reservas. Ex: vou passear.
 Hipotéticos – quando a afirmação ou negação é condicionada ou
disjuntiva. Por sua vez, os juízos hipotéticos podem ser:
 Condicionais – quando a hipótese reveste a forma de
proposição condicional. Ex: se estudo cuidadosamente,
aprovo com maior facilidade.
 Disjuntivos – quando a hipótese reveste a forma alternativa.
Ex: ou falo ou estou calado. Ou és surdo ou oiças mal.
e) Quanto à Modalidade do sujeito, os juízos podem ser:
 Apodíticos ou necessários – quando o predicado convém
necessariamente ao sujeito, ou seja, lhe é essencial. Ex: Deus é
perfeito.
 Assertórios ou contingentes – quando o predicado convém, mas não
necessariamente ao sujeito, quer dizer, lhe é acidental. Ex: A mesa é
redonda. O António é médico.
 Problemáticos ou Duvidosos – quando a afirmação ou negação
envolve uma simples probabilidade. Ex: amanhã choverá.
f) Quanto à Evidência do Sujeito, podem ser:
 Imediatos – quando a relação entre o sujeito e o predicado se
apreende sem intermediários, só pela análise dos termos que o
constituem. Ex: o todo é maior que a parte.
 Mediatos – quando para compreender a relação entre o sujeito e o
predicado necessitamos de intermediários. Ex: Deus existe.
g) Quanto ao conteúdo, os juízos podem ser:
 Juízos de realidade – quando enuncia o que é e exprime relação
entre factos verificados experimentalmente. Ex: o gato é animal.
 Juízos de valor – quando significam que as nossas acções valem e
estabelecem o que devem ser. Ex: faz sempre o bem.

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1.10.2. Classificação das proposições quanto à quantidade e qualidade.

As proposições classificam-se da mesma forma que os juízos. Nisto atenderemos


somente quanto à quantidade e qualidade.

a) Quanto a quantidade do sujeito, as proposições podem ser:


 Universais – quando o sujeito é tomado universalmente, ou seja, em
toda a sua extensão. Ex: Todo A é B.
 Particulares – quando é considerado apenas uma parte da extensão
do sujeito.
O carácter de particular é indicado pelas palavras: algum, nem todos,
muitos, certos, poucos, há…
Ex: alguns hábitos são úteis.
 Singulares – quando o sujeito é apenas um indivíduo. Ex: Celmira é
optimista.
b) Quanto à qualidade, podem ser:
 Afirmativas – quando o predicado convém ao sujeito. Ex: os actos
morais são livres.
 Negativas – quando o predicado não convém ao sujeito. Ex: nenhum
crime é louvável.

N.B. a combinação da qualidade com a quantidade nas proposições dão lugar a quantro
classes de juízos, representadas pelas seguintes letras:

 Universais Afirmativos (A)


 Universais Negativos (E)
 Particulares Afirmativos (I)
 Particulares Negativos (O)
1.11. Inferências

Chama-se inferência a oposição ou acto pelo qual de um antecedente qualquer


concluímos um consequente necessariamente ligado a ele, ou seja, é o acto de tirar
conclusões que estejam implicitamente contidas nas proposições já admitidas.

Ex: todos angolanos são negros


Ora, Marcos é angolano Proposições já admitidas
Logo, Marcos é negro – inferência
1.11.1. Classificação das inferências

As inferências podem ser Imediatas e Mediatas.

Inferências Imediatas – consistem em tirar directamente uma nova proposição a


partir duma proposição dada e apenas com os termos que constituem. Estas inferências
compõem-se de duas proposições (onde um serve como ponto de partida e outro como
ponto de chegada) e de dois termos (que podem ser termos maior e menor).

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As inferências imediatas revestem-se de dois aspectos:
 A oposição das Proposições
 A Conversão das Proposições

Inferências Mediatas – exigem mais do que dois termos, normalmente três, servindo
um de termo médio; e mais do que uma proposição, geralmente duas.

As inferências mediatas podem:

 Por Indução
 Por Dedução
 Por Analogia
1.11.2. Inferências imediatas por Oposição das Proposições

A relação de duas proposições com o mesmo sujeito e predicado, mas diferentes em


quantidade ou qualidade, chama-se oposição das proposições. E dividem-se em quatro
categorias:

a) Contraditórias – são duas proposições que diferem ao mesmo tempo pela


quantidade e qualidade.
Ex: todos os homens são justos (A)
Alguns homens são justos (O)
Ou
Nenhum homem é justo (E)
Alguns homens são justos (I)
Regra: não podem ser, nem verdadeiras, nem falsas, ao mesmo tempo; se uma é
verdadeira a outra é falsa.
b) Contrárias – são duas proposições universais que diferem pela qualidade.
Ex: todos os homens são bons (A)
Nenhum homem é bom (E)
Regra: duas proposições contrárias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo,
mas podem er falsas ao mesmo tempo.
c) Sub-contrárias – são duas proposições particulares que diferem pela qualidade.
Ex: alguns homens são justos (I)
Alguns homens não são justos (O)
Regra: duas proposições sub-contrárias podem ser verdadeiras ao mesmo tempo,
mas não podem ser falsas ao mesmo tempo.
d) Subalternas – são duas proposições que diferem entre si pela quantidade.
Ex: Todos os homens são justos (A)
Alguns homens são justos (I)
Ou
Nenhum homem é justo (E)
Alguns homens não são justos (O)
Regra: se a universal é verdadeira, a particular é verdadeira; se a particular é
falsa, a universal é falsa.

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Contrárias
A E

Subalternas Contraditórias Subalternas

I O
Sub-Contrárias
1.11.3. Inferências imediatas por Conversão das Proposições

A conversão das Proposições consiste em transpor os termos (sujeito e predicado) de


uma proposição sem modificar a qualidade. Ou é passar o sujeito para o lugar do
predicado e o predicado para o lugar do sujeito.

Ex: nenhum círculo é quadrado


Nenhum quadrado é círculo
Regra geral: a qualidade da proposição que resulta da conversão, não muda. A
quantidade pode mudar (se for conversão por acidente) ou não (se for simples).
A conversão da proposição pode ser:

a) Conversão simples: consiste em mudar apenas a posição do sujeito e do


predicado. Convertem-se deste modo as proposições Particulares
Afirmativas (I) e as Universais Negativas (E), porque os seus sujeitos e
predicados têm igual extensão.
Ex: nenhum metal é gás (E)
Nenhum gás é metal.
- Algum metal é sólido (I)
Algum sólido é metal

b) Conversão por limitação ou Acidente: aplica-se às Proposições Universais


Afirmativas (A), que depois de convertidas, ficam reduzidas a Proposições
Particulares Afirmativas.
Ex: Todos os homens são seres (A)
Alguns seres são homens (I)
Também pode converte-se simplesmente, caso as Proposições a converter
sejam recíprocas ou definição.
Ex: o homem é um animal racional
O animal racional é homem.

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c) Conversão por Negação: as Proposições Particulares Negativas (O) não
podem ser convertidas simplesmente (conversão simples) porque o sujeito
tomando o lugar do predicado ficaria com uma extensão maior. Para tal,
recorre-se a um artifício para as converter por uma forma indirecta, o qual
consiste em transformar primeiramente a proposição a converter numa
Afirmativa Particular (I) que lhe seja equivalente – Consegue-se isto tirando
a negação da cópula e passando-a para o predicado e, depois converter por
Conversão simples a proposição obtida:
Ex: Alguns homens não são sábios
(Alguns homens são não sábios)
Alguns não sábios são homens.

d) Conversão por contraposição: consiste em juntar uma negação ao sujeito e


outra ao predicado simples. Pode aplicar-se as Universais Afirmativas (A) e
as Particulares Negativas (O)
Ex: Todo o homem é mortal
(Todo o não homem é não mortal)
Todo o não mortal é não homem

Alguns homens não são sábios


(Alguns homens não são não sábios)
Alguns não sábios não são não homens

Como há duas negativas equivale a uma afirmação: alguns não sábios são homens.

1.12. Raciocínio e Argumentação

Raciocínio é a operação lógica pela qual a inteligência parte de duas ou mais


relações conhecidas, afirmadas ou negadas, para concluir uma nova relação, que estava
implicitamente. Ou ainda, é a operação lógica mediante a qual de dois ou mais juízos
dados se tira um novo juízo.

Ex: Todo o homem é mortal Premissas ou


Anderson é homem antecedentes
Logo, Anderson é mortal – conclusão ou consequente

A expressão verbal do raciocínio é chamada “argumento” ou “argumentação”

1.12.1. Classificação do raciocínio

Podemos distinguir três modos fundamentais do raciocínio: Dedução, Indução e


Analogia.

 Dedução – é a operação lógica que procede do geral para o particular.


Ex: os estudantes são educados
Ngueve é estudante
Logo, Ngueve é educada.

15
 Indução – é a operação lógica que procede do particular para o geral.
Apoia-se, geralmente na verificação experimental.
Ex: o calor dilata o ferro, o cobre, o bronze, o chumbo.
Logo, o calor dilata os metais.
 Analogia – trata-se de uma comparação de objectos de duas espécies
diferentes do qual se infere certas semelhanças a partir de outras
semelhanças.

A inteligência conclui ao particular do particular.

Ex: Manuel apresenta sintomas de doença semelhantes aos de João,


Logo, terá a mesma doença.
Ou
O Primeiro-Ministro é semelhante ao treinador,
Ora, o treinador dispõe de grande autoridade sobre a equipa de futebol
Logo, o Primeiro-Ministro também deve dispor de grande autoridade
sobre os membros do seu governo.
1.12.2. Classificação dos Termos

Na formação do Raciocínio, temos também a considerar a classificação dos


termos, que são expressões verbais do conceito que entram em cada juízo e, portanto, os
elementos de cada proposição.

 Termo Maior (T) – que tem maior extensão e é o predicado da conclusão.


 Termo Menor (t) – que tem menor extensão e é o sujeito da conclusão;
 Termo Médio (M) – a extensão é intermediária entre a do (T) e a do (t);
Ex: O angolano é estudioso
(T)
Ora, Kinito é angolano
(t) (M)
Logo, Kinito é estudioso
1.12.3. Classificação das Premissas
As Proposições que entram no silogismo, chamadas Premissas e conclusões
classificam-se de maneira seguinte:
 Premissa Maior – onde entra o T e o M
 Premissa Menor – onde constam os t e M
 Conclusão – que contém o t (como sujeito) e o T (como predicado).
Ex: o angolano é honesto (Premissa Maior)
Ora, João é angolano (Premissa Menor)
Logo, João é honesto (conclusão)

N.B. as premissas são também chamadas de antecedentes; e a conclusão de


consequente.

16
1.12.4. Validade Formal e Validade Material

Existe em matéria do raciocínio, a distinção entre a validade formal e a validade


material. Esta avalia-se no confronto entre o que é afirmado ou negado sobre o sujeito
lógico (do juízo) e a realidade. Há raciocínios correctos sem que as premissas sejam
verdadeiras, daí que a dedução correcta (formalmente válido) não seja garantia da
veracidade de uma conclusão. A conformidade com as regras lógicas é uma condição
necessária, mas não suficiente para garantir que se extingam conhecimentos válidos. É
preciso ainda que se parta de premissas verdadeiras.

Reparemos agora o seguinte exemplo:

Se os leões são mamíferos

E os gatos são mamíferos

Então, os leões são gatos.

Neste caso, a conclusão é materialmente falsa, porque o raciocínio é logicamente


incorrecto. Embora as premissas sejam verdadeiras, o raciocínio viola algumas regras
fundamentais da dedução silogística.

1.12.5. As Falácias

Chama-se falácias aos erros do raciocínio que surgem na consequência da não


observação das regras de inferência. Este nome é dado a todo e qualquer modo
incorrecto ou erro de raciocínio.

Pode ser de dois tipos:


a) A falácia involuntária, chamada Paralogismo;
b) A falácia intencional ou voluntária, designa sofisma

Aristóteles distingue dois tipos de falácias ou sofismas: as que provêm da linguagem


e as que não provêm da linguagem. Vejamos as principais:

a) Falácias provenientes da linguagem ou sofismas de palavras:


Baseiam-se na identidade aparente de certas palavras e estão antes da matéria do
argumento. Estas decorrem das limitações da linguagem corrente. E podem ser:
 Equívoco ou ambiguidade – há um equivoco sempre que um termo
muda de sentido ou de propriedade no decurso de um raciocínio.

Ex: o que eu sou, tu não és

Ora, eu sou homem

Logo, tu não és homem.

17
O termo “ser” muda de acepção: passa de particular na primeira proposição,
a universal.

 Confusão entre sentido composto e sentido dividido – acontece


quando empregamos um termo tomado no seu sentido composto numa
proposição e no seu sentido dividido noutras proposições. Ou seja,
quando atribuímos o mesmo valor ao todo que tem as partes
consideradas isoladamente e vice-versa.
Ex: Os apóstolos de Cristo foram doze.
Ora, S. Pedro e S. Paulo foram apóstolos de Cristo.
Logo, S. Pedro e S. Paulo foram doze apóstolos de Cristo.

O termo “apóstolos” tomou-se no sentido composto e dividido numa e noutra


proposição.

 Anfibologia – neste sofisma emprega-se uma frase com dois sentidos.


Ex: O avarento tem o seu coração dentro do seu cofre.
Ora, quem tem o coração dentro de um cofre está morto.
Logo, o avarento está morto.

A frase “o avarento tem o coração dentro de um cofre”, tomou-se em dois sentidos.

 Metáfora – consiste em tomar a figura pela realidade.


Ex: Os olhos daquela mulher eram como diamantes que brilhavam na
noite
Ora, os diamantes são duros e inanimados,
Logo, os seus olhos eram duros e inanimados.
b) Falácias não provenientes da linguagem ou sofismas lógicos:
Consistem mais no abuso de ideias e residem quer na forma quer na matéria do
raciocínio. Eis algumas das mais frequentes:
 Falácia por acidente – consiste em tomar como essência o que não
passa como acidente e em tornar como defeito permanente aquilo que
não passa de uma falta passageira.
Ex: Aquele que não come nem bebe morrerá cedo,
Ora, aquele que dorme não come nem bebe,
Logo, aquele que dorme morrerá cedo.
 Falácia por ignorância do assunto – acontece quando se desvia a questão
do seu verdadeiro ponto, ou por ignorância ou de propósito. Podemos
distinguir duas formas distintas:
 Discutir o que não está em questão. É o caso do político que
interrogado sobre um ponto preciso da sua actuação, prefere
introduzir um assunto secundário, desviando assim a atenção do
principal: faz notar por exemplo, que “sempre se bateu contra a
ditadura, pela conquista da liberdade e pela justiça social”.

18
 Recorrer a argumentos que provam demais, acabando, neste caso,
por provar o contrário do que se pretendeu ou por provar o que
está fora de causa. Ora, como é voz corrente, “quem procura
provar demasiado, acaba por não provar nada”.
 Falácias dobre a causa – podem assumir quatro formas principais:
 Tomar como causa o que não é senão um efeito.
Ex: o aluno que justifica não ter estudado porque obteve uma má
classificação, quando o que se passou foi o contrário: não ter estudado é
que foi causa e não efeito de ter obtido uma má classificação.
 Tomar como causa o que não é senão um antecedente.
Ex: é o caso da atribuição de fome, guerras e outras calamidades à
oposição de um cometa.
 Tomar como causa o que não é senão uma condição.
Ex: podemos ser levados a pensar que a água é para o peixe a causa da
sua existência. Não é. Constitui somente a sua condição, tal como o
oxigénio não é a causa, mas a condição da existência de seres humanos.
 Tomar como causa o que não é senão uma parte apenas, de uma causa
mais complexa.
Ex: pretender que a invasão do Iraque pela América foi perpetrada
apenas para defender os direitos humanos e extinguir as bombas
atómicas ou de destruição de massa, omitindo as razões económicas mais
profundas que se pretendem com a produção e exploração do petróleo
naquela região.
 Falácias de principio – consiste em tomar como prova o que é preciso
demonstrar ou em resolver a uma pergunta com o que já está contido na
pergunta.
Ex: Deus existe porque é a Bíblia que o afirma e eu sei que isso é verdade
porque foi Deus, afinal, quem a escreveu.

O argumento assume como certo aquilo que é suposto tentar provar.

Podemos ainda referir o circulo vicioso ou dialelo, que consiste numa dupla ou
tripla petição de princípio.

Outro ex: Este polícia passou-me uma multa porque não gosta de mim. E a prova
de não gostar de mim é ter-me passado uma multa.

1.12.6. O silogismo

Podemos definir o silogismo como um raciocínio constituído por três proposições, de tal
modo que, expressas as duas primeiras, designadas premissas, se segue necessariamente
a terceira, chama conclusão.

Ou seja, é a argumentação pela qual de um antecedente (premissas) que liga dois termos
pela terceira se tira uma consequente (conclusão) que liga estes dois termos entre si.

19
Ex: Todo o homem é imortal------premissa
Aristóteles é homem----premissa
Logo, Aristóteles é imortal ------- conclusão

1.12.7. Regras e figuras do silogismo

a) Regras do silogismo
 Um silogismo deve ter três e apenas três termos (maior, menor e médio);
 Nenhum termo deve ser mais extenso na conclusão do que nas premissas;
 A conclusão não pode conter o termo médio;
 O termo médio deve ser tomado pelo menos uma vez em toda sua extensão, isto
é, de um modo universal;
 De duas premissas negativas nada se pode concluir;
 Duas premissas afirmativas não podem produzir uma conclusão negativa;
 A conclusão segue sempre a parte mais débil (fraca), particular ou negativa;
 Nada se conclui de duas premissas particulares.

b) Figuras do silogismo

As figuras do silogismo são quatro. Dependem do lugar que o M (Termo médio) ocupa
(sujeito ou predicado) nas premissas:

1ª figura: O M (termo médio) é o sujeito na premissa maior e predicado na premissa


menor: Sub – Prae

Ex: Todo o homem é mortal,

Ora, Sócrates é homem,

Logo, Sócrates é mortal

Regra: A premissa menor tem se ser afirmativa e a maior, universal.

2ª figura: O M (termo médio) é predicado nas duas premissas: Prae – Prae

Ex: Todo o homem é racional,

O elefante não é racional,

Logo, o elefante não é homem.

Regra: uma das premissas tem de ser negativa e a maior universal.

3ª figura: O M (termo médio) é sujeito nas duas premissas: Sub-Sub

Ex: os lundenses são angolanos,

Os lundenses são homens,

20
Logo, alguns homens são angolanos.

Regra: A premissa menor tem de ser afirmativa; uma das premissas tem de ser
universal; e a conclusão tem de ser particular.

4ª figura: O M (termo médio) é predicado na premissa maior e sujeito na menor: Prae-


Sub

Ex: os espanhóis são seres vivos,

Os seres vivos são mortais

Logo, alguns mortais são espanhóis.

Obs: não tem regra.

1.12.8. Tipos de Silogismo


Quanto a tipologia, os silogismos podem ser:
1) Categóricos – estes podem dividir-se em dois tipos distintos:
a) Os Regulares (que constam de três termos e três proposições)
b) Os Irregulares (que constam de mais ou menos três proposições). Por sua
vez, estes subdividem-se em Entimema, Epiquirema, Polissilogismo e
Sorites.
2) Hipotéticos – estes podem ser: condicionais, disjuntivos, conjuntivos e
Dilemas.

Silogismos Categóricos Irregulares:

a) Entimema – é um silogismo em que uma das premissas, ou até as duas, está


subentendida, geralmente a maior. É, pois, um silogismo incompleto.

Ex: Todas as estrelas têm luz própria;

Logo, a lua não é estrela – Falta a menor (a lua não tem luz própria).

Ou

Ex: Eu penso

Logo, eu existo – Falta a maior (o que pensa existe).

b) Epiquirema – é o silogismo no qual uma ou duas premissas são acompanhada


das suas provas.

Ex: Todo o B é C porque é D,

Todo o A é B porque é Z,

Logo, todo o A é C

21
c) Polissilogismo – é o silogismo constituído por dois ou mais silogismos, de tal
forma que a conclusão do primeiro seja uma premissa maior ou menor do
segundo e assim sucessivamente.
Ex: O angolano é negro,
Ora, o benguelense é angolano,
Logo, o benguelense é negro – conclusão
Ora, os lobitangas são benguelenses
Logo, os lobitangas são negros.

N.B. Esse exemplo é constituído por cinco proposições, cujas três primeiras, chamam-se
Prossilogismo e as duas últimas, Epissilogismos.

d) Sorites – é o princípio silogístico composto pelo menos de quatro proposições


encadeados (ligados) de maneiras que o atributo da primeira seja o sujeito da
segunda, o da segunda, o sujeito da terceira, até a última proposição na qual
estão reunidos o primeiro sujeito e o último predicado (atributo).
Ex: Quem trabalha ocupa-se,
Quem se ocupa despreocupa-se,
A despreocupação dá alegria,
A alegria dá saúde,
Logo, o trabalho dá saúde.

Silogismo Hipotéticos

a) Condicional – a premissa maior é uma proposição condicional, dividida em


duas partes: a condição e o condicionante.
Existem dois modos válidos do condicional, onde um é positivo e outro é
negativo.
 No modo positivo ou modus ponens (modo de pôr), afirma-se a condição
na premissa menor, seguindo-se a afirmação do condicionamento na
conclusão.
Ex: Se António frequenta o liceu, é estudante,
Ora, António frequenta o liceu,
Logo, António é estudante.
 No modo negativo ou modus tollens (modo de tirar), nega-se o
condicionado na premissa menor, negando-se, ao mesmo tempo, a
condição na conclusão.
Ex: Se António frequenta o liceu, é estudante,
Ora, António não é estudante,
Logo, António não frequenta o liceu.
b) Disjuntivo – é aquele em que uma ou várias premissas exprimem uma
proposição disjuntiva. Coloca, pois uma alternativa de tal maneira que a
afirmação de um dos termos contraditórios implica necessariamente a negação
do outro, e reciprocamente.
Possui também dois modos: Positivo e Negativo.

22
 No modo positivo, a proposição menor é negativa e a conclusão
afirmativa.
Ex: Este livro deve ser de português, filosofia, história ou geografia.
Ora, não é de português, nem história, nem de geografia,
Logo, é de filosofia.
 No modo negativo, a proposição menor é afirmativa e a conclusão
negativa.
Ex: este livro deve ser de português, filosofia, história ou geografia,
Ora, é de filosofia,
Logo, não é de português, nem história, nem de geografia.
c) Conjuntivo – é aquele em que a premissa maior é conjuntiva.
Ex: a Bimba não lê e passeia,
Ora, ela passeia,
Logo, ela não lê.
d) Dilema – é o silogismo de forma disjuntiva em que na premissa maior se
estabelece uma alternativa, levando cada uma das suas partes à mesma
conclusão.
Ex: Dilema de Aristóteles:
“Se é preciso filosofar, é necessário filosofar.
Se não é preciso, necessitamos ainda de filosofar,
Logo, de qualquer maneira, é preciso filosofar.”
Ex: Dilema dos que teimam em casar:
“Se vos casais, a vossa mulher será bela ou não (feia),
Se é bela, tereis ciúmes,
Se não bela, não tereis amor,
Logo, de qualquer modo, não deveis casar.”

TEMA 2: FILOSOFIA AFRICANA

Introdução

Os problemas aqui tratados referem-se tanto a alguma filosofia que se faz em


África, como a aspectos do “desenvolvimento” económico, aqui entendido no sentido
mais lato. Como bem observou Fabien Eboussi Boulaga, dos Camarões, “o
subdesenvolvimento tecnológico resulta evidentemente de um subdesenvolvimento no
plano do conhecimento racional e científico”

Antes de abordar o núcleo das ideias expostas mais adiante, é indispensável referir
algumas questões preliminares de terminologia que são parte integrante da metodologia
da análise. Em primeiro lugar a terminologia dita racialista empregue por inúmeros
autores que tratam dos problemas africanos merece uma curta apreciação. Entre as
questões preliminares que se levantam a este propósito é a de saber porque é que se fala
tão frequentemente de “filosofia negro-africana” e não, quando muito, de “filosofia
africana”?

23
Com efeito, esta linguagem era compreensível na fase inicial da luta pela
independência contra o colonialismo anterior ou posterior à 2ª guerra mundial. Hoje,
porém, mais de 50 anos depois das independências e com mutações substanciais no
tecido social em muitas regiões africanas, certos conceitos têm uma ressonância algo
insólita. Por exemplo, na maioria dos países africanos podemos encontrar nos nossos
dias – e não apenas na África do Sul pós-apartheid - cidadãos de origem asiática ou
europeia que não sendo “negros”, não são menos cidadãos nem menos africanos por
isso. Em contrapartida, também sabemos que há milhares de jovens negros nascidos na
Europa, cidadãos de países desse continente e que estão, porventura, mais identificados
com os problemas da da União Europeia que os afectam directamente do que com os
problemas africanos de que só têm uma ideia por vezes vaga. Neste último caso, se se
tratar, suponhamos, de um homem (ou mulher) que exerce a profissão de filósofo, será
que devemos classificá-lo(a) como um filósofo “negro-europeu” e não como um
filósofo europeu (que por acaso é negro)?

Com efeito, o que é que tem a ver o conceito fantasista e vazio de “raça” com as
ideias e competências dos indivíduos? É evidente que estas classificações têm pouco
sentido, uma vez que o denominador comum não é, como seria lógico, a nacionalidade,
profissão ou competência, mas a “raça”, o que parece estranho e incongruente. Em
Portugal, como noutros países europeus, não há “portugueses negros” mas, à luz da
Constituição, simplesmente “portugueses”, mesmo se pode haver por vezes quem lhe
acrescente um adjectivo inútil ou porventura mal intencionado, o que é sempre
redundante ou mesmo estúpido. Os termos racialistas (não necessariamente “racistas”
na sua intencionalidade, é certo) são no mínimo pleonasmos com pouco sentido, a
menos que a expressão “negro africano”, para além de ser uma maneira de se exprimir
rotineira, obsoleta e involuntariamente mal pensada, assuma o propósito inconfessável
de dar à “raça” um lugar que se sobrepõe a qualquer outro conteúdo significante.

Nessa eventualidade estamos, no fundo, perante uma concepção racista da história


contra a qual os próprios africanos, afro-americanos e asiáticos tanto lutaram, rejeitando
com veemência - e a justo título - as teorias erradas de Gobineau e as teses odiosas do
regime do Apartheid, entre outros. A persistência deste vocabulário corresponde, aliás, a
visões da ciência há muito ultrapassadas e, no plano epistemológico, a um beco sem
saída, especialmente porque o conceito de “raça” porventura acriticamente
“normalizado” na sua origem já remota, especialmente no século XIX, não tem nem
nunca teve, qualquer valor científico ou sentido pela simples razão que a moderna
ciência (a biologia em particular) já demonstrou amplamente que, na espécie humana,
não há “raças” distintas mas apenas uma “raça humana” a par de outras raças do reino
animal .

Não se trata aqui de uma retórica irenista, mas de uma afirmação comprovada …
Por seu turno, expressões como “negro-africano” encerram uma informação duvidosa
que somente reproduz preconceitos de determinado período da história mas que são, nos
nossos dias, relíquias do passado, nomeadamente do período colonial, durante o qual a
utilização da palavra “raça” demonstrava ignorância ou servia como alibi para justificar

24
a opressão em nome de uma pretendida “superioridade” da civilização europeia, do
domínio do colonizado pelo colonizador, ao mesmo tempo que justificava a “boa
consciência civilizadora” deste último com a utilização de termos como “primitivo” por
exemplo6… Kwame Nkrumah já tinha chamado a atenção para o facto do colonialismo
não ter retido a lição do Renascimento do século XVI, segundo o qual “não podia haver
um credo, nem moral, nem ordem social válidos universalmente”.

Pelo contrário assumiu-se como portador da verdadeira civilização e negou aos


colonizados uma identidade e civilização próprias, os quais passaram a ter a partir do
fim do século XIX uma identidade por empréstimo. Assim o colonialismo praticou um
discurso unívoco cujos resultados contradisseram a sua retórica civilizadora, aliás muito
diferente da que tinha iniciado o diálogo de igual para igual com os reinos angolanos
(especialmente o Reino do Congo) nos séculos XVI-XVIII. Durante a luta pela
independência e logo a seguir, os africanos rejeitaram verbalmente (mas infelizmente
nem sempre na prática) essas ideias injustas em nome da reivindicação correcta de que
“um homem é um homem” seja qual for a cor da sua pele. Como Lévi-Strauss tinha
afirmado há muito, “as diferenças que separam os homens são apenas superficiais, os
homens são sempre homens”.

Foi essa a luta de Franz Fanon, de Kwame Nkrumah, de Julius Nyerere, de Aimé
Césaire, de Léopold Senghor e de tantos outros. Mesmo expressões como “negritude”
tiveram sentido em nome de uma revolta cultural legítima onde já não entra o
sentimento de “superioridade/inferioridade”, mas sim o de uma justificada “igualdade”
entre homens que partilham a mesma biologia e capacidades, sendo as diferenças
(tecnológicas, científicas) sempre temporárias e dependentes apenas de factores
circunstanciais que o desenvolvimento societal (nas suas várias vertentes, política,
económica, técnica e social) pode alterar10. Por outro lado, julgo útil distinguir aqui,
provisoriamente para efeitos práticos desta exposição, entre a ideia de Filosofia
Africana (sem aspas) tal como foi utilizada no título da obra de Placide Tempels,
Philosophie Bantoue e em muitos outros autores, e “Filosofia Africana” (digamos com
aspas).

Julgo, no entanto, que a primeira (sem aspas), apesar de ter passado à linguagem de
uso corrente, deveria ser utilizada com cautela, somente para caracterizar o conjunto (no
sentido matemático) de filósofos africanos que trabalham com objectivos mais ou
menos semelhantes no campo da filosofia (quer dizer em torno da reflexão filosófica
quer tenham ou não a África como sujeito). No entanto não deixa de ser útil reparar que
as expressões de Filosofia Africana e, mais ainda, de Filosofia negro-africana, actuam
como se os filósofos não existissem individualmente ou fossem um grupo “compacto”
indiferenciado, todos pensando da mesma maneira, traduzindo uma realidade
“colectiva” única, indiferenciados uns dos outros porque todos “africanos” e todos
“negros”, submetidos a um contexto rigorosamente o mesmo, nenhum deles tendo
individualidade própria seja qual for a região donde são oriundos, as diferenças das suas
sociedades, as características ou idiossincrasias individuais. Ora as instituições não

25
pensam, são pensadas. E são-no precisamente pelos homens, ainda que pertencentes a
grupos ou comunidades.

2.1. O que é a Filosofia Africana?

Em consequência da tese de Hegel, é de notar que um grupo de indivíduos defendia


a existência da filosofia africana. Entre eles figuram nomes como: Placide Tempels,
Alex Kagame, Léolpold Sedar Senghor e um grupo de sacerdotes negros que teve
intervenções oportunas, enérgicas e eficazes, provando que o africano é capaz de pensar
e produzir um discurso filosófico. Estas reacções marcaram um verdadeiro despertar
filosófico negro – africano; uma tomada de consciência acompanhada de reflexões,
análises e elaboração teórica de normas para o pensamento e a acção do homem
africano, confrontando-os com as categorias da filosofia ocidental.

2.2. As principais correntes da Filosofia Africana


2.2.1. A Negritude

A “Negritude” é um movimento cultural com um alcance filosófico e


implicações políticas, que enfrentou o ocidentalismo com a sua antropologia triunfalista.

A Negritude surgiu fora do continente africano, fruto dos esforços da


comunidade negra radicada em França. A família promotora deste projecto era formada
por membros de profissões liberais, estudantes, eclesiásticos, intelectuais e políticos. Os
seus primeiros sinaissurgiram na primeira década dos anos 20; tiveram uma audiência
restrita e contaram com o apoio de alguns órgãos internacionais. Tiveram como lema:
“Romper a cadeia para marchar e para evoluir”

Mas os promotores e fundadores, propriamente ditos, do projecto negritude, são


os membros do grupo “L´etudiant Noir” liderado por três nomes célebres: Aimé
Césaire (Antilhano) – que lançou o termo “Negritude”, o Léon Damas (guinês) e o
senegalês Léopold Sédar Senghor, todos eles expoentes da literatura de expressão
negro-francesa.

Apoiaram também esta iniciativa as correntes independentistas, assimilacionistas


e os partidos comunistas francês e russo.

Num trabalho conjunto, os três escritores redefiniram o termo em três conceitos:


Identidade (consiste em o negro assumir plenamente a sua condição), Fidelidade
(atitude que repousa sobre a legislação do homem negro à terra – mãe) e Solidariedade
(sentimento que liga secretamente todos os irmãos negros).

Estas considerações provocaram muitas reacções positivas e chegou a


influenciar as reflexões filosóficas, teológicas, históricas e políticas no e sobre o
continente africano aderindo, assim, o projecto. Foi sobretudo com actuação dos
filósofos que este ambicioso projecto adquiriu um impulso e um rosto filosófico
transcendendo perspectivas seguidas por outros na leitura das ideias e nas actividades do
movimento.

26
A negritude protagoniza uma filosofia e não, apenas, uma revolta cultural, um
simples regresso sentimental às fontes ou um instrumento de propaganda para a
exaltação da cultura negra com e afirmação da sua originalidade.

Esta doutrina surge com objectivos próprios, assumindo um desafio cultural para
frisar a identidade negro – africana e um protesto vivo contra a postura colonial, lutando
pela emancipação do povo. Defende da arte negra e a coerência da visão do mundo que
tem o homem negro.

A filosofia da negritude surge como um verdadeiro tratado sobre a cultura negra,


com implicações filosóficas, antropológicas, politicas e religiosas bem evidentes. E,
ainda, como a afirmação da identidade continental, concebida como uma forma de
autodefesa colectiva, condição de sobrevivência face à desintegração de que o povo
negro era vítima.

Noutros moldes, pode ser encarada também como um manifesto cultural e


político mobilizado que transformou a identidade sociocultural dos povos negros num
projecto de emancipação e de renascimento. Lutou contra o eurocentrismo, o racismo,
preconceitos, a incompreensão e a arrogância das potências coloniais. Permitiu
consolidar as consciências dos povos e mobilizá-las para as lutas anticoloniais e
libertadoras. Rejeitou (e ainda rejeita) a assimilação e a alienação, abalou o paradigma
cultural ocidental até então considerado como critério único e universal para qualquer
leitura.

Limitação da negritude no tempo actual

Percorridos anos a negritude, em todos os cantos perdeu o terreno e a sua


influência, pois as novidades registadas no continente africano obrigam também a
mudança de discurso. Os problemas e as situações são outras. A realidade também é
outra. Por isso, a negritude, hoje, tem sido alvo de críticas; é o caso do sociólogo e
teólogo camaronês Jean Marc Ela, quando afirma “a negritude tende a transformar a
África numa vasta reserva para os etnólogos cuja preocupação seria preservar o passado
para que nada mude”1.

Se é verdade que os ideais defendidos pela negritude no século passado


perderam a sua consistência e actualidade, seria, todavia, lógico reconhecer o contributo
que deu no sentido de revolucionar o pensamento africano e promover os seus valores
culturais, enfrentando as correntes eurocêntricas que dominaram então o mundo da
razão.

2.1.1. O Pan-africanismo

Assim como a Negritude, o Pan-africanismo nasceu fora de África entre os


intelectuais negros. Um desses intelectuais foi Sylvester Williams (advogado de

1
Cf. MATUMONA, Muanamosi. A Reconstrução de África na era da Modernidade, Ensino de uma
Epistemologia e Pedagogia da Filosofia Africana, Ed. SEDIPU, Uíje, 2004, p.41

27
Trindad no Caraibe), que em 1900 organizou a primeira conferencia, com o objectivo de
criar um movimento de solidariedade às populações negras das colónias2.

O pan-africanismo, embora, cronologicamente, tenha sido a primeira no campo


da política, nos primeiros anos de século XX, como filosofia, revelou-se mais tarde, isto
é, depois da afirmação total e resplandecente da negritude.

Como corrente filosófica, com uma característica política, ganhou terreno depois
do lançamento do movimento da negritude.

A ideia surgiu como uma manifestação da solidariedade fraterna entre os


africanos e povos de descendência africana.

O projecto encerra os “slogans” do nacionalismo africano e aparece como o


mais importante de todos os fenómenos políticos do século XX, que revelou mais
maturidade e capacidade para derrubar o bastão do imperialismo. Firmou-se como
expressão de um verdadeiro nacionalismo africano que provocou um equilíbrio
político3.

Os ideais do pan-africanismo levaram a criação da OUA (Organização da


Unidade Africana) em 1963. Foi o ponto mais saliente da afirmação do pan-africanismo,
confirmando, assim o seu sucesso.

A sua perspectiva englobava a federação dos países regionais autónomos e o seu


enquadramento num conjunto de Estados Unidos de África. Na sua essência, o pan-
africanismo, por outro lado, expressa a vocação revolucionária e socialista do continente
africano, com um objectivo preciso: Dependência ou autonomia.

Nesta caminhada do movimento pan-africanista, é justo avançar nomes como:


Dubois e Garvey, pertencentes a elite dos intelectuais norte-americanos de origem
africana.

Dubois, defensor do nacionalismo racional, tem sido apontado como o pai do


pan-africanismo. Apostou na acção a centrais sindicais, reivindicando a liberdade, a
igualdade racial na sociedade americana de modo passivo. Expôs ideias do pan-
africanismo, concebidas numa óptica. Postulava o culto da originalidade da cultura do
povo negro, a referência aos povos africanos como um todo e a sua contribuição para o
avanço da humanidade.

Já para Garvey, diferente de Dubois, engajou-se na religião a partir das massas


negras mais desorientadas e desfavorecidas, defendia, no seu movimento “garveyismo”
a imperiosa necessidade de os negros se unirem e evoluírem na sua própria raça, fortes e
saudáveis. Este foi o princípio ideológico central de garveyismo. O seu slogan era
“África para os africanos em África e fora”.

2.2.2. Etnofilosofia
2
CF. KIALA, Luzizila. Apontamentos de História Universal Contemporânea, ESCED/Uíje, 2009, p.315
3
MATUMONA, Muanamosi. Op. Cit. P.47

28
Para definirmos claramente a expressão “etnofilosofia” vamos analisar os termos
que a compõem e derivam do grego: o termo ethonos tem o sentido de “raça, tribo,
nação ou povo”; como sabemos, filosofia significa “amor ao saber, ao conhecimento”;
assim, a palavra etnofilosofia refere-se ao estudo do saber, do conhecimento, das
diferentes raças, dos diferentes povos, da sua visão do mundo. O termo foi depois
associado a uma concepção de tendência filosófica sobre uma raça, ou um grupo étnico,
quanto as suas tradições, rituais, línguas de origem africana, mitos e crenças; ou seja,
dentro da raça negra, alguns estudiosos estudaram apenas uma etnia numa determinada,
uma união ao proletariado branco, alinhando nas fileiras dos revolucionários na luta
contra os imperialistas.

É assim que o comunismo participou na luta anti-imperialista em África. Isto fez


com que o processo de ensino-educação passasse a ser considerado sob o ângulo
marxista. Os líderes africanos influenciados pelo comunismo marxista fizeram deste
como movimento de apoio à sua luta pela libertação. A África acreditava que o
socialismo era capaz de alcançar a libertação, as independências, a unidade, a igualdade
e a fraternidade. Nesta época, os sonhos eram vários: desenvolvimento rápido, extensão
dos serviços sociais e o aumento da produção. Assim, o socialismo foi escolhido como
caminho para o progresso, que melhoraria a vida do povo com um programa de
adequado, isto implicava a nacionalização de meios de produção, da terra, de fontes e o
emprego de meios suficientes para a satisfação das necessidades do povo africano que
até então estava sobre a égide dos capitalistas.

As tarefas da Filosofia Africana

Se no principio a Filosofia africana lutou para traçar linhas capazes de levar os


estados africanos às independências, actualmente os desafios são outros. Uma das suas
tarefas, hoje, é criar a unidade e harmonia recompondo o que foi adulterado pelo
colonialismo e pela má gestão dos governos. Isto associa-se ao progresso da
reconstrução do progresso e do desenvolvimento, que não, apenas, uma emancipação,
mas sim, uma reabilitação, um reencontro da própria dignidade do homem africano, que
leva o nível da sua civilização.

Outra tarefa é encorajar e disciplinar a responsabilidade e a dignidade do


africano, devendo ainda saber discernir, dialogar com textos filosóficos de várias
correntes e escolas e saber situá-los no espaço e no tempo. O pensamento africano deve
propor ideias que sirvam para organizar forças que permitirão à sociedade africana
assimilar os elementos da cultura ocidental e transformá-los para que se insiram
devidamente na personalidade africana.

É assim que se vai forjar um novo cidadão, sério, honesto, decidido e preparado
para melhor servir o continente e a humanidade.

Em suma, no contexto actual, a filosofia africana é chamada a reflectir


seriamente sobre a situação concreta dos povos africanos, propondo linhas para a sua

29
solução, que consistirá na reconstrução do continente, que permitirá ao mesmo registar
um franco progresso e desenvolvimento.

CAPÍTULO III – CONVIVÊNCIA POLÍTICA ENTRE OS HOMENS

3.1. definição da política

Etimologicamente, a palavra “política” vem da palavra “polis” (na língua grega),


a qual significa “cidade ou estado”. A política envolve tudo o que diz respeito à vida da
cidade, aos problemas públicos da sociedade4.

De modo muito geral pode dizer-se que a política é a arte de organizar a


sociedade. Portanto, é tudo referente à organização da sociedade em função do homem
todo e de todos os homens.

Mais concretamente, política é o conjunto de princípios, leis, instituições e


acções referentes à organização, vida e administração da sociedade (a nível local,
regional, nacional e internacional), ao bem comum, ao exercício do poder, aos direitos e
deveres dos cidadãos, às relações entre si e com a autoridade (e vice-versa), de modo
que tudo concorra da melhor maneira para o bem do homem.

A politica é, por tudo isso e simultaneamente, filosofia, arte, governo, acção ou


“práxis”5

Importância da política

A política é sempre importante, porque importantes são sempre os problemas do


homem e da sociedade.

Em primeiro lugar, a política serve para ajudar as pessoas e as sociedades a


viverem organizadas e a procurar o bem comum, o bem de todos. De forma geral, ela é
importante para resolver os problemas da população, para promover e desenvolver da
melhor maneira a vida do povo, organizando os diferentes trabalhos e garantindo
salários justos, precavendo os povos contra as desgraças da natureza, trabalhando pela
paz, etc.

3.2. Ética e Política

Ética e política mantêm uma relação muito estreita.

Se a ética, é a parte da filosofia que estuda as normas que regulam os costumes


humanos enquanto tais. É a ciência da moral que se preocupa como devem ser os actos
humanos (bons ou maus, justos ou injustos, rectos ou não rectos, obrigatórios ou
proibidos). Por política entende-se aqui o modo de organizar e dirigir a convivência
humana para que nela se dê cumprimento aos direitos naturais e inalienáveis das
pessoas, e tudo com vista ao bem comum.

4
Cf. O Cristão e a política, CEAST…
5

30
A problemática ética e política, é um dos temas muito antigo. Todos os filósofos
o têm tratado e a maioria chegou à conclusão de que o comportamento politico não se
pode desligar da ética. Por outras palavras, a politica não é uma espécie de «terra de
ninguém», em que se poderiam dar comportamentos que, na vida de relação
interpessoal, se qualificam justamente de antiéticos: a mentira, a fraude, a calúnia,
suborno, a corrupção, etc. como, por outra parte, a política é assunto de todos – é gestão
comum do bem comum -, a todos nos interessa saber quais são os principais temas
éticos que aparecem neste campo.

Em suma, é preciso não perder de vista que sem critérios racionais, o indivíduo e
a sociedade desorientam-se e vão parar a becos sem saída. Sem a ética o homem (como
ser político) e o mundo tornam-se desumanos.

3.3. o cidadão e a política

Toda a gente tem direito e dever de participar na política: no apoio ou na


oposição, nas diversas situações políticas, independentemente das diferenças de classe,
raça, tribo, sexo e religião.

Quais são os níveis e modos concretos do cidadão participar na vida política?

2. Através do voto – participando nas eleições políticas, livres e secreto. Neste


processo o cidadão escolhe o candidato, o partido e o programa político para
governar o país (por um tempo determinado);
3. Manifestando a sua simpatia e solidariedade por um grupo, movimento ou
partido até chegar a filiar-se nele.
4. Integrar-se como militante nas associações, sindicatos e partidos, exercendo
política partidária (inclusive assumindo responsabilidades no partido e no
governo).
5. Manifestando, legal, cívica e activamente a sua inconformidade com uma lei ou
decisão injusta através de manifestações de protestos: greves, boicotes,
desobediência civil (não violência activa).

Há muitas pessoas que pensam que a única maneira de participar politicamente é


através do voto, por altura de eleições, ou através da filiação em partidos.

Esta é uma forma organizada e necessária num país. Mas não a única e nem
sempre a melhor para todos,

O voto é um direito e um dever de todos, mas não a forma exclusiva e nem


sequer a mais importante, já que só se exerce de tempos a tempos e a vida deve ser uma
participação constante.

31
É a nível de bairro, de escola, de empresa, de aldeia, de cidade, de município, de
região, de nação e do mundo que se deve participar, conforme a própria capacidade e
preparação.

Em suma, é no plano político que se desenham as grandes linhas de


responsabilidade no processo de evolução do mundo e se tornam as decisões centrais
que determinam as opções concretas dos homens, seja nas suas incidências imediatas,
seja na sua repercussão sobre as gerações futuras.

Ninguém pode manter-se alheio em aspecto tao decisivo da vida como este nem
se fechar num conformismo superficial e ineficaz. É preciso conhecer os centros de
decisão e neles participar.

3.4. Política e globalização.

Falar de política, é obviamente falar de organização das sociedades, organização


que, ao longo dos tempos tomou diferentes formas; estas formas foram sendo alteradas
conforme a ideologia política num determinado tempo e lugar as circunstancias das
pessoas vivendo nestes respectivos tempos e lugares.

O conceito de globalização surgiu na década dos oitenta, substituindo outros


conceitos como internacionalização. Com ele se tenta classificar o fenómeno natural da
evolução das sociedades que passou, desde o início da humanidade, por várias etapas:
aldeias, tribos, cidades-estado, países, continentes e, actualmente uma grande aldeia
“global”.

Na organização das sociedades foram surgindo vários modelos, que resultaram


da adaptação de várias formas encontradas ao longo do tempo em comunidades mais
pequenas. Actualmente, quase todas as sociedades têm nas suas estruturas de
funcionamento político um ou vários partidos políticos. Podemos definir um partido
político como um grupo de pessoas, com uma convicção ideológica comum ou afim,
que se propõe realizar na sociedade a sua proposta política e, para isso procura alcançar
o poder e o governo de um país. Para um partido político poder conquistar os eleitores
apresenta sempre um programa político, em que estão contidos os objectivos a curto,
médio e longo prazo, numa situação concreta, contendo medidas e propostas de acção
que são apresentadas como uma melhoria de condição de vida dos cidadãos. Ora, o que
vulgarmente é designado por globalização assenta no facto de que, crescentemente tudo
o que se passa na vida das populações passa-se em larga escala. Ou seja, dada a
democratização do acesso à informação, à tecnologia, qualquer acontecimento num
determinado local do mundo tem repercussões quase imediatas a escala mundial. Tal
facto teve diversas consequências em cadeia, muito discutidas pelos pensadores
contemporâneos, inclusive quanto a alteração do tipo de sociedade.

Uma delas é a homogeneização das culturas próprias de muitas populações que


muitos pensam de estar em risco, já que a divulgação a nível mundial de hábitos, marcas
leva a sua adopção quase generalizada. Assim, alguns pensam na aculturação de muitos

32
povos, enquanto outros pensam em termos de novas identidades locais e novas
identidades globais, sendo que as primeiras manterão as suas características. Por outro
lado, o contacto com qualquer parte do mundo é agora acessível a muitas mais pessoas
com as novas tecnologias de informação (telemóveis e computadores). Com efeito,
muito do que está acontecer no mundo pode ser visto e sabido em tempo real, seja quase
no mesmo momento em que está acontecer tal conduz a uma grande quantidade de
informação e de conhecimento em circulação, mas, por outro lado, a vida corre hoje a
uma velocidade que também não deixa muito tempo as pessoas para refletirem sobre a
informação a que têm acesso.

3.5. o que é a Democracia?

A palavra portuguesa «democracia» vem de dois vocábulos gregos: 2δξμοσ”


(demos), que signica «povo»; e “κρατοσ” (cratos), que quer dizer «poder».

Literalmente, democracia significa poder do povo ou poder popular. Isto é, o


poder deliberatório e decional está nas mãos do povo. Esta pode ser directa ou
representativa.

O grande risco da democracia é a “Anarquia”

Princípios fundamentais da Democracia

A democracia como um dos sistemas políticos fundamenta-se nos seguintes


princípios:

1. Pluralismo – exige liberdade de opinião, de expressão; imprensa livre e o seu


contrário é monolitismo;
2. Participação – exige que todos (povo) participem na vida política e em todos os
campos;
3. Representação – Assembleia nacional ou parlamento;
4. Alternância – na democracia não existe cargos vitalícios;
5. Separação dos poderes;
6. Eleições – ver quem deve eleger e quem deve ser eleito.

Tipos de democracia

Existe sempre um ideal de vida democrática, uma sociedade onde os homens vivam
em liberdade, igualdade e fraternidade; uma sociedade onde o poder de governar esteja
nas mãos dos cidadãos; uma sociedade onde se respeitem os direitos humanos e a
dignidade das pessoas.

Sucedeu eu alguns Estados e governos insistiram mais nalguns aspectos da


democracia e esqueceram outros. Por exemplo, alguns Estados insistiram mais na
igualdade das pessoas e descuidaram a liberdade e a fraternidade. Outros, insistiram na
liberdade das pessoas e abandonaram outros aspectos. Por isso é que existem diferentes
tipos de democracias. Mas as mais acentuadas são as de tipo Liberal e Popular.

33
a) Democracia Liberal – é aquela que se fundamenta na liberdade individual
como o valor mais importante da vida. Insiste na defesa e prática dos direitos
individuais e dos direitos cívicos, sobretudo a competência e concorrência
económica com espírito de lucro e o direito à propriedade privada. Este tipo de
democracia é base das chamadas sociedades capitalistas. Levado ao extremo,
este tipo de organização social pode privilegiar uma classe, uma elite no poder
ou um partido governante e chegar a manifestar-se como ditadura de direito.
b) Democracia Popular – são as chamadas “socialistas” ou “comunistas”, cujo
Estado e governo insiste na igualdade dos cidadãos. Estão organizadas
hierarquicamente através de um poder central que governa tudo e todos
(centralismo democrático). Muitas delas, ao privilegiar a classe dirigente, os
funcionários do governo ou os seus líderes, desembocaram em ditaduras de
esquerda ou ditaduras do partido.

3.5.1. Democracia e Cidadania

Se por um lado a democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo, por
outro a cidadania é a condição ou qualidade de um membro de estado ou de uma nação
em pleno gozo dos seus direitos políticos, cívicos e deveres para com esse estado ou
essa nação.

Na antiguidade clássica, chamava-se cidadão a pessoa que pertencia a uma


cidade e gozava do direito de cidadania; habitante da cidade. Porque o espaço por
excelência onde o cidadão podia exercer a cidadania era a cidade; pois é essencialmente,
na cidade que se exercem aqueles direitos e deveres.

Nas sociedades modernas, o conceito de cidadania surge a partir da ideia de que


os indivíduos são membros da comunidade política e, como tal, têm capacidades, em
termos legais, para participar no exercício do poder político através dos procedimentos
eleitorais. Essa capacidade formal aparece quando os indivíduos são sujeitos.

No campo da filosofia, a cultura é definida como o conjunto de manifestações


humanas que divergem da natureza. Na definição consensual cultura, é o conjunto de
características que distinguem uma sociedade da outra partindo dos padrões
comportamentais, crenças, valores morais e materiais, diversas actividades no campo
das artes, literatura, música e todo um conjunto de conhecimentos técnicos e científicos.

A relação que existe entre democracia e cultura, reside pelo facto de que a
cultura no texto da filosofia retrata um conjunto de respostas para melhor satisfazer as
necessidades e os desejos humanos. É nesse aspecto que é possível associar a esfera de
acção da política de modo muito singular a democracia. Se entendermos a cultura como
conjunto de valores, a democracia não deixa de ser mais um valor criado pelo ser
humano, cabendo naturalmente aos cidadãos valorizarem a sua ligação à sociedade.

Nas linhas anteriores deste texto, se descreveu a democracia como um regime


que garante a estabilidade dos cidadãos desde que bem aplicada, segundo os seus

34
próprios princípios. Mas, também, isso depende grandemente d a mentalidade e do
desenvolvimento cultural dos cidadãos: a forma como podem encarar a democracia na
sua vida social, económico, cultural, política e como preserva os princípios
democráticos de boa convivência.

A vida política compartilhada numa nação na via da democracia pode englobar


uma grande variedade de significados. Isto é, quando ensinamos hábitos democráticos a
crianças, a jovens e até mesmo adultos estamos a criar um compromisso compartilhado
com certas formas sociais, cuja soma poderemos dar o nome de cultura política, foi
através das diversas culturas e das diversas formas de ligação entre cultura e política que
o homem foi evoluindo e aprendendo a viver.

Não é possível uma democracia autentica numa sociedade em que a maioria


absoluta dos seus habitantes é analfabeta e ignorante. Decididamente uma pessoa
ignorante está limitada do ponto de vista da convivência política, onde se pretende
iguais oportunidades para todos, porque mal conhece os próprios direitos enquanto
pessoa e enquanto cidadão; não conhecer sequer as leis que o protegem e, por isso, não
pode defender-se da arbitrariedade e dos abusos dos políticos. A ignorância deixa o
homem vulnerável e indefeso e, tantas vezes os políticos aproveitam-se disto para
manipular as populações segundo as suas ideias e seus interesses.

3.5.4. Os riscos da democracia

Em qualquer sociedade democrática, o governo deve estar ao serviço da


colectividade, a sua acção deve ser a de promover o bem comum dos cidadãos. Se o
poder não for exercido em beneficio dos cidadãos, então a democracia torna-se vazia,
torna-se um exercício de demagogia.

Demagogia é uma palavra herdada do grego que se pode definir como uma
forma de actuação política que visa agradar as populações, mas com mero intuito de
alcançar o poder. Portanto, a demagogia é dos riscos que a democracia enfrenta.

Outros riscos da democracia é o analfabetismo (participação de pessoas iletradas


em processos eleitorais); a apatia ou a indiferença na participação das pessoas no
processo democrático; a alienação.

Em algumas democracias, verifica-se que sendo o povo o dono do direito de


escolher a maneira como esse poder deve se exercido, não toma parte nas decisões mais
importantes, como na aprovação de algumas leis, que muitas vezes contrasta e viola não
só o modo de vida do próprio povo, como também os direitos fundamentais e a sua
liberdade.

A esse respeito, diz Kant «o que um povo não pode decidir a seu respeito
também o não pode decidir o legislador em relação ao povo»

Na democracia, os eleitos não devem tornar-se donos e exclusivos do poder de


decisão. Pois, o poder existe não, em função dos governantes, mas dos governados; não

35
em função dos interesses partidários ou de determinadas clientelas, mas de todo povo,
particularmente do povo mais desfavorecido; não ao serviço de alguns, mas do bem
comum de todos.

Por esta razão, João Paulo II, diz que uma democracia sem valores converte-se
facilmente, num totalitarismo aberto ou dissimulado.

3.6. Conceito de Violência

O termo violência deriva do latim “violentia” – significa aplicação de força,


vigor, contra qualquer coisa ou ente.

A violência é o uso excessivo de força, além do necessário ou esperado. Um


comportamento que causa danos a outra pessoa, ser vivo ou objecto. Invade a
autonomia, integridade física ou psicológica e mesmo a vido de outro.

As expressões violência e força, não significam necessariamente a mesma coisa.


Por força entende-se, em sua acepção, a energia ou “firmeza” de algo, enquanto a
violência caracteriza-se pela acção corrupta, impaciente e baseada na ira, que não
convence ou busca convencer o outro, simplesmente o agride.

Ou seja, violência não se define apenas pela presença da força. Na natureza há


forças naturais, mas a violência não é a força em si, ou em acção, mas sim o uso da
força. “Por isso dizemos que a força em si não é violência, mas sim, apenas a força
usada pelo homem.

Existe violência explícita quando há ruptura de normas ou moral sociais


estabelecidas a esse respeito: não é um conceito absoluto, variando entre sociedades.
Por exemplo, rituais de iniciação podem ser encaradas como violentos pela sociedade
ocidental, mas não pelas sociedades que o praticam.

Em termos antropológicos – filosóficos, violência é tratar seres racionais,


sujeitos de direitos, seres livres, como sendo coisas. A violência é exatamente o limite
da racionalidade, como sua destruição, como destituição dos humanos de sua condição
de dignidade, transformando-os em coisas ou reduzíveis a tal.

3.6.1. violência e política

A violência é inerente ao estado, pois existe em sua génese e na sua manutenção.


O Estado, supostamente, exerce o monopólio do uso da força e da violência, em muitso
casos. No entanto, mais do que praticá-la, julga-se que uma democracia deve limitar ao
máximo a prática das violências e exercer cada vez mais a sua função reguladora. Sabe-
se que o Estado para além de ter a função reguladora da vida social, é também o
responsável “sine qua non” pelas forças de repreensão social, pela política e pela justiça
institucional.

A violência política pode traduzir-se em formas como a propaganda, ou seja, a


manipulação da informação divulgada a uma população, em determinadas populações,

36
em determinadas circunstâncias (de modo a provocar-lhe uma determinada ideologia ou
um determinado comportamento), até formas de agressão muito violentas, como tortura,
o terrorismo e a guerra. Podemos dar como exemplo de propaganda a forma que o
regime nazi manipulou a população alemã de modo a levá-la a aceitar o regime por
medo e criando a ideia de superioridade rácica.

3.6.2. tipos de violências

Entre os vários tipos de violência, merecem destaque os seguintes:

a) Violência física – é o uso da força com o objectivo de ferir, deixando ou não


marcas evidentes.

São comuns agressões com diversos objectos e queimaduras. A violência física pode
ser agravada quando o agressor está sob o efeito do álcool ou quando possui uma
embriagues patológica ou um transtorno explosivo.

b) Violência psicológica – ou agressão emocional, tao ou mais prejudicial que a


física, é caracterizada pela rejeição, depreciação, discriminação, humilhação,
desrespeito e punições exageradas.

É uma violência que não deixa marcas corporais visíveis, mas emocionalmente
provoca cicatrizes para toda a vida.

Existem várias formas de violência psicológica, como a mobilização emocional da


vítima para satisfazer a necessidade de atenção, carinho e de importância, ou como a
agressão dissimulada, em que o agressor tenta fazer com que a vítima se sinta inferior,
dependente e culpada.

A atitude de oposição e aversão também é um caso de violência psicológica, em que


o agressor toma certas atitudes com o intuito de provocar ou menosprezar a vítima. As
ameaças de mortes também são um caso de violência psicológica.

c) Violência verbal – não é uma forma de violência psicológica. A violência


verbal normalmente é utilizada para importunar e incomodar a vida das outras
pessoas.
Pode ser feita através do silencio, que muitas vezes é muito mais violento que os
métodos utilizados habitualmente, como as ofensas morais (insultos),
depreciações e os questionários infundáveis.
d) Violência sexual – violência na qual o agressor abusa do poder que tem sobre a
vítima para obter gratificação sexual, sem seu consentimento.
A violência sexual acaba por englobar o medo, a vergonha e a culpa sentidos
pela vítima, mesmo naquelas que acabam por denunciar o agressor, por essa
razão, a ocorrência destes crimes tende a ser ocultada.
e) Negligencia – é o acto de omissão do responsável pela criança/idoso/outra
(pessoa dependente de outrem) em proporcionar as necessidades básicas,
necessárias para a sua sobrevivência, para o seu desenvolvimento.

37
Os danos causados pela negligencia podem ser permanentes e graves.

3.7. o que é a concórdia

A palavra concórdia deriva do latim “concordia” e significa união de vontades


de que resulta harmonia e paz. Tem sentido oposto a palavra discórdia que, derivando
do latim “discordio”, significa em termos gerais desavença, desordem, luta.

A definição de concórdia é simples, no seu sentido, mas muito difícil de pôr em


prática em qualquer sociedade humana, visto que, onde se encontra dois seres humanos
podem desde logo existir duas opiniões divergentes, e tal dá origem a discórdia, num
sentido manifesto que pode levar a um conflito.

Por seu lado, a palavra paz, que deriva do latim “pace”, pode ser definida como
sinonimo de concórdia, já que o seu significado se estende desde tranquilidade e
serenidade até estado de um país que não está em guerra.

Ora, é exactamente este último sentido que nos interessa analisar, o sentido da
concórdia em absentia belli (ausência de violência ou guerra), num país ou entres
países. Com efeito, alcançar a concórdia e a paz sempre foi objectivo da humanidade,
embora, como podemos testemunhar, tal ainda não tenha sido conseguido a nível
mundial.

Muitos foram os pensadores e filósofos que se debruçaram sobre este tema, nas
suas obras, de que podemos dar exemplo. Aliás a filosofia ela própria foi dada como
solução para alcançar a paz, como já prescrevia Epicuro, filosofo grego do século IV
a.C. muitos pensadores deixaram nas suas obras a reflexão de que a paz e a concórdia
apenas podiam ser estabelecidas através de relações de justiça, sendo uma sociedade
democrática a melhor garantia de que não sejam conduzidas ao poder forças que
advogam a violência como meio para se atingir quaisquer fins.

CAPÍTULO IV – A FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

5.1. Definição e compreensão da filosofia da educação

A filosofia da educação é um ramo do pensamento que se dedica à reflexão sobre os


processos educativos, à analise dos sistemas educativos, sistematização de métodos
didácticos, entre diversas outras temáticas relacionadas com a pedagogia.

Como se pode notar, a filosofia não pretende explicar a realidade, mas compreendê-
la. E a compreensão supõe a busca do sentido das coisas e da vida. Todas as áreas do
saber são susceptíveis a uma reflexão filosófica porque todas têm a própria filosofia
como questionamento do próprio conteúdo. É inevitável entre os problemas propostos
pelo existir humano, estejam os que referem à educação. Portanto, como se sabe, cabe
ao filósofo acompanhar de forma reflexiva e crítica a acção pedagógica, de modo que
promova a passagem de uma educação assistemática (guiada pelo senso comum) para
uma educação sistemática.

38
A filosofia da educação a partir da análise do contexto vivido, indaga a partir do ser
humano que se quer formar, sobre os valores emergentes que se contrapõe a outros já
candentes, e sobre os pressupostos dos conhecimentos utilizados. Portanto, a filosofia da
educação tem como fins questionar os objectivos educacionais; os valores que orientam
o país; os currículos, as técnicas do ensino, os métodos de ensino assim como todo o
processo de ensino-aprendizagem.

A palavra educar, do ponto de vista etimológico, deriva do latim “educer” cujo


sentido está associado a palavra conduzir, e também a extrair, no sentido de dentro para
fora.

Assim, num sentido geral, podemos dizer que por educação entende-se como
conjunto dos cuidados a ter com um ser humano, uma criança, desde a infância.

Por isso, Kant diz que “o homem não pode tornar-se um verdadeiro homem não pela
educação; ele é aquilo que a educação faz dele”.

5.2. Objecto, Objectivo e função da Filosofia da Educação

Como todas outras ciências, também a filosofia da educação tem seu objecto, seu
objectivo e sua função específica.

O objecto da filosofia da educação pode ser analisado do ponto de vista material e


também do ponto de vista formal. Do ponto de vista material, a filosofia da educação se
ocupa da educação; mas do ponto de vista formal é a reflexão sobre os problemas
educativos. Ela procura atingir a essência dos problemas da educação. Filosofar sobre a
educação pressupõe um método apropriado para analisar o que a educação é e para
reflectir sobre as instituições educativas, a pedagogia, a autoridade, o rigor, os valores e
a finalidade da educação.

A filosofia da educação preocupa-se com o processo de ensino-aprendizagem dentro


dum determinado contexto. Por isso, a educação se desenvolve no tempo e é resultado
do tempo.

Um dos seus objectivos principais é ser capaz de conferir aos conteúdos da ética
uma moral dos valores e da responsabilidade que premeiam a prática pedagógica e a
formação de sujeitos activos, participantes e conscientes na construção da sua própria
identidade individual e colectiva.

Umas das funções da filosofia da educação é análise e clarificação do conceito de


educação como direito de todos, como investimento, como caminho do
desenvolvimento, como preparação da vida.

Mas o seu escopo principal é a compreensão das relações entre o fenómeno


educativo e o funcionamento da sociedade.

39
Ela promove uma reflexão crítica sobre alguns dos principais temas e problemas
educacionais, observados a partir de uma perspectiva filosófica. A filosofia da educação
procura reflectir algumas questões fundamentais: o que é a educação? Que tipo de
sociedade se pretende educar?

A função da filosofia da educação não é explicar a realidade educacional, mas


compreende-la.

No dizer de F. Morandi, a filosofia da educação tem como função examinar a


concepção de humanidade que orienta a acção pedagógica, para que não se eduque a
partir da noção abstracta e atemporal do educando ou do ser humano em si. Também
não há como definir objectivos educacionais se não tivermos clareza dos valores que
orientam a acção educativa.

Além das análises antropológicas, axiológicas e epistemológicas, a filosofia tem a


função de interdisciplinaridade, pois estabelece a ligação entre as diversas ciências e
técnicas que auxiliam a pedagogia. Ao manter sempre presente o questionamento sobre
o que é a educação, a filosofia procura evitar que ela se torne dogmática ou se
transforme em adestramento.

5.3. Agentes da educação: Família, Escola e Estado

A lei de base do sistema de educação sublinha: “a educação cria um processo que


visa preparar o individuo para as exigências da vida política, económica e social do país
e que se desenvolve na convivência humana, no circulo familiar, nas relações de
trabalho, nas instituições de ensino e de investigação cientifico-técnica, nos órgãos de
comunicação social, nas organizações comunitárias, nas organizações filantrópicas e
religiosas e através de manifestações culturais e gimno - desportivas”.

Nada depende tanto dos outros como o homem: antes, durante e depois do
nascimento. O homem, sendo um animal social por natureza, só em sociedade se pode
desenvolver como homem. Por isso, os educadores que rodeiam o educando têm uma
importância incalculável no processo educativo. No entanto, o ambiente propriamente
educativo não é o de super - protecção nem do abandono; de severidade e nem de
facilidade; de excesso nem de falta de autoridade.

a) A família

A família é, sem dúvidas, o agente mais importante na educação aos valores morais
em quase todas as sociedades. É a primeira escola da difusão do amor. É ela que
influencia em primeiro lugar e particularmente as crianças. Isto é, constitui o lugar
privilegiado de aprendizagem e fomento das relações de cooperação entre os homens de
diferentes sociedades e culturas.

Se a família é a essência da sociedade, assim conforme é a família, assim é a


sociedade. É uma pena que muitas famílias se encontram desavindas, falta de diálogo.
Sabemos que onde há diálogo a educação é passada de forma passiva e deficiente.

40
b) Escola

A escola como lugar de humanização mediante a assimilação e crítica da cultura


deve, antes de mais nada, ser uma instituição por excelência rigorosa nos seus princípios
de formas a conferir-lhe dignidade. Os estudos devem suscitar nos jovens certas
perguntas fundamentais da existência, tais como: que posso conhecer? Como devo agir?
Que me é permitido esperar? A escola não pode apenas preocupar-se com inculcar
conteúdos, deve também preocupar-se, sobretudo, a despertar e libertar o aluno das
várias situações que podem conduzi-lo a erros fatais. A escola deve ser o celeiro da
difusão de virtudes. É ali onde a criança aprende a disciplina, a ser culto, a ser prudente
e atingir o auge da moralização. Ela tem uma grande tarefa diante da diluição e da perda
dos valores, das verdadeiras regras e das normas sociais.

c) O Estado

O Estado tem a grave incumbência de arquitetar e velar as políticas educativas num


determinado país; pois, é ele que determina o tipo de homem que ele quer para a sua
sociedade. Na qualidade de promotor de bem comum, isto é, do bem dos cidadãos
enquanto organizados, o Estado também é por direito agente da educação. Tem o direito
e dever de promover a educação dos cidadãos.

João Paulo II, fazendo menção do dever educativo do Estado para com os cidadãos,
diz que, é principal responsabilidade do Estado em providenciar para que todos os
cidadãos possam alcançar uma justa participação na cultura e sejam preparados para
exercer devidamente os deveres e os direitos cívicos. Por isso, deve defender o direito
das crianças a uma adequada educação escolar, velar pela competência dos professores
e pela eficácia dos estudos, atender a saúde dos alunos e, em geral, promover todo o
trabalho escolar, tendo em consideração o dever da subsidiariedade.

Em suma, outra realidade que os educadores devem ter hoje muito presente é a
acção dos grupos em que os educandos estão inseridos: com a sua moral, juízos de
valores e ideais modelam de um modo quase absorvente a personalidade dos membros.
Influencia da cultura e do ambiente juntamente com o ambiente familiar e a acção dos
grupos, os educadores têm de contar com o ambiente social ou cultural dominante com
factor determinante na formação do educando. Por ambiente social ou cultura cultural
entendemos o conjunto de esquemas de comportamento, ideais e valores de que
participa um certo grupo social que vive num determinado meio e lhe é transmitido,
sobretudo, pela comunicação social, pela convivência, pela escola, um certo gama de
costumes, ritos, usos e crenças.

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Bibliografia Geral

1. GRÁCIO, Rui Alexandre e GIRÃO, José Manuel, Razões em jogo –


Introdução à Filosofia 11ª ano, 4ªed, Texto ed., Lisboa, 2002;
2. ALVES, F., AREDES, J., CARVALHO, J., Pensar e ser – Introdução à
Filosofia 11ªano, 4ª ed.,Texto ed., Lisboa, 1997;
3. MUANZA, M. Teresa, Manual Didáctico de Filosofia, Luanda, 2012;
4. LAU, Rafael Lando e KAPARAKATE, Pacheco, Filosofia, 12ªClasse, Texto
editora, Luanda, 2006;
5. MATUMONA, Muanamosi, A Reconstrução de África na era da
modernidade. Ensino de uma Epistemologia e Pedagogia da Filosofia
africana, Ed. SEDIPU, Uije, 2004;
6. O cristão e a política, CEAST, Luanda, 1991;
7. www.abrapia.org.br/homenage/.

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