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ARTIGO:

A GENUÍNA INTERPRETAÇÃO DE ROMANOS 13

Kalil J. de Siqueira
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Introdução

Querendo ou não, a política desenvolve um papel fundamental na sociedade


desde as épocas mais remotas da civilização. Em essência, é necessário a
existência de pessoas, ou uma instituição composta de várias destas, que sejam
representantes do desejo e das necessidades da maioria da população em prol de
uma gestão dos recursos públicos que busque amenizar precariedades ou suprir
necessidades de um povo ou nação.

Entretanto, sabemos que a política como era idealizada nesses tempos mais
remotos da humanidade já não traduz o que genuinamente ocorre nos bastidores do
poder público político tão cobiçado nos nossos dias. Podemos testificar isto na
forma como ao longo dos anos as figuras políticas se tornaram praticamente
“ídolos”; na existência de ditaduras sanguinárias ao longo da história em nome
deste mesmo poder político; negação de direitos básicos à população local;
alienação e manipulação em massa; além de leis e decretos extremamente
absurdos, censores e criminosos por parte de uma classe que deveria,
teoricamente, lutar pelos interesses majoritários.

A igreja, sendo coluna e baluarte da Verdade, bem como a embaixada do


Reino de DEUS nesta terra, portanto, não pode se abster desta área tão importante.
Muito mais do que somente ocupar estes cargos públicos, a igreja tem o dever de
fiscalizar o trabalho dos que lá já estão, além de garantir a liberdade presente não
somente nas meras constituições humanas, mas garantir ainda mais a liberdade
contida na Sagrada Constituição que é a Bíblia, o verdadeiro pilar legal de uma
sociedade saudável.

Mas apesar desta compreensão óbvia do sacerdócio cristão, muitos


auto-proclamados “iluminados” da igreja atual alegam que o cristão não pode
discordar da opinião ou decisão de um político em “hipótese alguma”, mesmo que
este seja corrupto, ditador ou um malfeitor com maiores (e, na grande maioria das
vezes, declaradas) más intenções para o futuro. Segundo estes, de acordo com
Romanos 13:1-2, o cristão deve ser “totalmente e completamente submisso à
qualquer decisão ou pensamento de um político” a partir do simples momento em
que ele é eleito ou tem grande apoio popular.

Porém, há um velho, famoso e (pessoalmente) muito querido ditado da


teologia brasileira que diz: “texto, sem contexto, gera pretexto para heresias”. Deste
modo, o artigo busca elucidar o leitor, de forma objetiva, à genuína interpretação do
capítulo 13 (treze) de Romanos através do seu contexto; análise exegética e
hermenêutica; testemunhos bíblicos diretos e sistemáticos e a comparação destas
alegações com os mesmos; fatos históricos; e o raciocínio ético em cima de
situações e questões políticas do passado. Bons estudos!
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Análise Introdutória à Epístola aos Romanos

Antes de iniciarmos qualquer estudo, análise e aprofundamento em algum


versículo ou livro bíblico, é sempre bom estudar a respeito do que é aquele livro,
quem o escreveu, quando o escreveu, para quem o escreveu e o motivo pelo qual o
autor foi inspirado por DEUS a escrever aquele livro. Todos os livros da Bíblia
possuem ou todas as respostas à essas perguntas ou a maioria das respostas à
essas perguntas. Portanto, a carta ou epístola aos Romanos não tem como ser
diferente.

Esta carta foi escrita pelo apóstolo Paulo, aproximadamente entre os anos de
54 d.C. e 58 d.C. O apóstolo Paulo foi incumbido pelo SANTO ESPÍRITO a escrever
tal epístola aos irmãos da igreja de Roma (composta por judeus e gentios) enquanto
esteve pela terceira vez na cidade de Corinto, na Grécia, com os irmãos da igreja
que ali fundara e para quem também já havia escrito as cartas de I (primeira) e II
(segunda) aos Coríntios.

Apesar de Paulo ser o autor de Romanos, se nós analisarmos os relatos da


patrística, da reforma e vasculharmos em toda a história da teologia, não há
comprovação alguma de que o apóstolo Paulo ou o apóstolo Pedro (Simão Pedro
ou Simão Cefas, do aramaico “Kefah”) tenham fundado a igreja romana, como
também não há comprovação bíblica alguma disto, já que o próprio apóstolo Paulo
confessa não ter ido ou visitado a igreja daquela região, como se atesta em
Romanos 1:8-13. Acompanhe:

“Primeiramente dou graças ao meu Deus, por meio de Jesus Cristo, no tocante a
todos vós, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé. Deus, a quem sirvo em meu
espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço
menção de vós, pedindo sempre em minhas orações que nalgum tempo, pela vontade de
Deus, se me ofereça boa ocasião de ir ter convosco. Desejo ver-vos, para vos compartilhar
algum dom espiritual, a fim de que sejais fortalecidos; isto é, para que convosco eu seja
consolado pela fé mútua, assim vossa como minha. Não quero, porém, irmãos, que ignoreis
que muitas vezes me propus ir ter convosco (mas até agora tenho sido impedido), para colher
entre vós algum fruto, como também entre os demais gentios.” - Romanos 1:8-13 | João
Ferreira de Almeida Edição Contemporânea

As hipóteses são de que é possível que a igreja de Roma tenha se iniciado


com um grupo de irmãos judeus e prosélitos do judaísmo após os mesmos
testificarem os sinais e pregações no Dia de Pentecostes ao visitarem Jerusalém
(como atestamos no capítulo 2 (dois) de Atos), e que, ao voltarem para suas casas
em Roma, os mesmos se reuniam para cultuar como cristãos. Acompanhe:

“E todos pasmavam e se maravilhavam, perguntando uns aos outros: não são


galileus todos esses homens que estão falando? Então, como é que os ouvimos, cada um, na
nossa própria língua nativa? Partos, medos e elamitas e os que habitam na Mesopotâmia,
Judéia e Capadócia, Ponto e Ásia, Frígia e Panfília, Egito e regiões da Líbia perto de
Cirene, forasteiros romanos, tanto judeus como convertidos ao judaísmo, cretenses e árabes
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-- todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.” - Atos
dos Apóstolos 2:7-11 | João Ferreira de Almeida Edição Contemporânea

Isto pode ter ocorrido tanto por um propósito coletivo quanto pelo ministério
apostólico de Priscilla e Áquila, casal apostólico que pregava e cedia suas casas
(em Roma, em Corinto e depois em Éfeso) para os cultos das igrejas. Apesar de
todas essas propostas extremamente possíveis, não se sabe ao certo como
realmente foi fundada a igreja romana.

Dentro de Romanos encontramos muitos temas doutrinários sendo


abordados por Paulo, dos quais destacam-se, aqui, três: a salvação e a justificação
pela fé mediante a graça; a unidade entre judeus e gentios formando o Israel
genuíno de DEUS e a obrigação de ambos em obedecer as leis de DEUS; e o dever
e exemplo de testemunho do cristão em meio à sociedade. E é exatamente sobre o
terceiro tema que este artigo irá se propôr a focar.
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Exegese e Hermenêutica de Romanos 13

Agora que compreendemos as bases da Epístola aos Romanos, vamos à


exposição não somente dos 2 (dois) primeiros versículos tão utilizados pelo grupo
minoritário que abordamos na introdução do artigo, como por toda a perícope que
está alinhada com os mesmos 2 (dois) versículos. Acompanhe:

“Toda pessoa esteja sujeita às autoridades superiores, pois não há autoridade que
não venha de Deus. As autoridades que há foram ordenadas por Deus. Por isso, quem resiste
à autoridade resiste à ordenação de Deus, e os que resistem trarão sobre si mesmos a
condenação. Pois os governantes não devem ser temidos pelos que praticam coisas boas,
mas pelos que praticam coisas más. Queres não temer a autoridade? Faze o bem e terás
louvor dela. Pois ela é ministro de Deus para teu bem. Mas se fizeres o mal, teme, pois não
traz a espada sem motivo. Ela é ministro de Deus, agente da ira para castigar o que pratica
o mal. Portanto, é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do castigo,
mas também por causa da consciência. Por essa razão também pagais tributos, pois as
autoridades são ministros de Deus, sempre dedicadas a esse serviço. Portanto, dai a cada um
o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem
honra, honra.” - Romanos 13:1-7 | João Ferreira de Almeida Edição Contemporânea

Diante, portanto, da exposição da perícope, podemos perceber algumas


palavras-chave das quais devem ser analisadas à luz dos seus idiomas originais.
Essas palavras são: “sujeita”; “autoridades”; “ordenadas”; “resiste”; “governantes”;
“temer”; “ministro”; “consciência”; “tributos”; “imposto”; “honra”. Acompanhe a seguir
a análise exegética de cada palavra-chave aqui citada:

Sujeita | “Υποτάσσω” [hu-po-ta-sso] - se subordinar; obedecer; estar


debaixo de obediência, se pôr sob, subjugar-se-à; ser colocado à sujeição,
submeter-se-à.

Autoridade | “Εξουσία” [e-xou-si-a] - privilégio de habilidades; força,


capacidade, competência ou destreza; influência delegada, poder.

Ordenados | “Τάσσω” [ta-sso] - verbo primário de organizar, fixar, dispôr;


adicionar, nomear, determinar, ordenar.

Resiste | “Αντιτάσσομαι” [an-ti-ta-so-mai] - se colocar contra, se opor de


forma violenta.

Governantes | “Αρχω” [ar-khos] - primeiro em título ou poder; juiz,


magistrado, príncipe.
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Temer | “Φόβος” [fo-bos] - ser alarmista, estar em pavor; ter medo


excessivo, terror.

Ministro | “Διάκονος” [di-a-ko-nos] - um servo, empregado, serviçal.

Consciência | “Συνείδησις” [su-nei-de-sis] - percepção moral;


entendimento.

Tributos | “Φόρος” [fo-ros] - taxação mediante declaração de bens de


alguém ou alguma propriedade.

Imposto | “Τέλος” [te-los] - determinação de estado obrigatório à


pagamento institucional.

Honra | “Τιμή” [ti-mei] - valor monetário ou valor de item precioso; honrar,


tornar precioso, dar valor a algo ou alguém.

Agora que temos todas as palavras-chave devidamente traduzidas e


compreendidas no grego original, podemos ler novamente a perícope de Romanos
13:1-7 e sintetizar da forma mais clara e objetiva possível (famoso “resumir em
miúdos”, como se diz popularmente) que aqui, o que o apóstolo Paulo realmente
está querendo dizer, é de que devemos obedecer às autoridades sem sermos
violentos e sem deixar de pagar nossos tributos, taxas e impostos pelo fato de que
esses governantes são nomeados por DEUS a nosso favor, como pessoas que nos
servem da justiça social e criminal. Portanto, se não quisermos nos apavorar deles,
basta não atacá-los e não deixar de pagar o que é devido de nossas vidas como
cidadãos. Fazer o contrário disso é ir contra a própria moral e ética cristã e dar o
péssimo testemunho de ser visto como um criminoso ou pervertido.

Esta interpretação através da exegese está tão correta, que ela é endossada
hermeneuticamente por todo o restante do capítulo 13 (treze) de Romanos, quando
o apóstolo Paulo faz um paralelo das atitudes da vida cristã com a vida pecaminosa
no mundo (a noite e o dia). Acompanhe:

“A noite é passada, e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas e


vistamo-nos das armas da luz. Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias e
bebedeiras, não em orgias e dissoluções, não em contendas e inveja. Antes, revesti-vos do
Senhor Jesus Cristo e não tenhais preocupação em como satisfazer os desejos da carne.” -
Romanos 13:12-14 | João Ferreira de Almeida Edição Contemporânea
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Desta forma, percebe-se que dentro da análise exegética e hermenêutica de


Romanos 13, em momento algum o apóstolo Paulo fala que não podemos discordar
da opinião de um político, fiscalizar sua gestão ou sermos contrários ao seu
mandato por culpa de corrupção, má administração ou opressão contra o povo,
assim como tão pouco diz que devemos aceitar tudo que eles nos mandam fazer.
Os textos se referem a não cometer crimes, não fraudar os impostos, não fazer
parte de motins (como faziam a seita judaica dos zelotes) e etc. Ou seja:
extremamente diferente das alegações deste seleto grupo de pessoas citadas na
introdução do artigo, o que nos leva a obviamente entender que, exegeticamente e
hermeneuticamente falando e analisando a passagem, a interpretação que citamos
deste pequeno grupo de pessoas é uma falsa interpretação totalmente
descontextualizada e arrancada (propositalmente ou não) de seu capítulo de forma
a dar base para um pretexto de isenção ou má fé no dever do cristão em fiscalizar a
política da qual está inserido.
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A Alegação e o Testemunho Bíblico

Durante anos, Israel viveu uma cultura e um governo muito diferente (e até
melhor) do que outras nações ao redor. Enquanto todas as nações tinham um rei e
este era escolhido para legislar toda e qualquer situação possível, Israel tinha como
Rei o próprio SENHOR, como ele havia estabelecido. Desta forma, o SENHOR
levantava profetas, juízes e sacerdotes para julgar as causas do povo de acordo
com a Torá (Pentateuco) que havia sido a revelação escrita dada até aquele
presente momento. Este período é conhecido como o “Período dos Juízes” em
Israel, marcado pelos inúmeros locais onde se reuniam esses profetas, juízes e
sacerdotes para julgamento correto, genuíno e bíblico das causas da nação. Esses
locais, de acordo com o hebraico, eram conhecidos como “Beit Din” e tem sua base
em Deuteronômio. Acompanhe:

“Beit Din” | “‫[ ”בית דין‬bei-ti-din] - casa do julgamento; tribunal, julgamento


próprio e específico do judaísmo de acordo com a legislação bíblica.

“Constituirás juízes e oficiais em todas as cidades que o Senhor, o teu Deus, te der
entre as tuas tribos, para que julguem o povo com reto juízo.” - Deuteronômio 16:18 | João
Ferreira de Almeida Edição Contemporânea

“Quando alguma causa te for difícil demais para julgar, tal como: homicídio,
demanda, lesão física ou outras questões de litígio em tuas cidades, então te levantarás e
subirás ao lugar que o Senhor, o teu Deus, escolher. Virás aos sacerdotes levitas e ao juiz que
houver nesses dias e os consultarás; e eles te anunciarão a sentença do julgamento. Farás
segundo a sentença que anunciarem no lugar que o Senhor houver escolhido e cuidarás de
fazer conforme tudo o que te ensinarem. Conforme a sentença da lei que te ensinarem e o
juízo que te disserem, farás. Da sentença que te anunciarem não te desviarás, nem para a
direita nem para a esquerda. O homem que proceder soberbamente, não dando ouvidos nem
ao sacerdote que está ali para servir ao Senhor, o teu Deus, nem ao juiz, o tal homem será
morto. Assim eliminarás o mal de Israel, a fim de que todo o povo o ouça e tema, e nunca
mais se ensoberbeça.” - Deuteronômio 17:8-13 | João Ferreira de Almeida Edição
Contemporânea

Apesar destes claros mandamentos de DEUS para aquele período e apesar


deste plano governamental de Israel funcionar muito bem desde aquela época, o
povo de Israel decidiu não seguir mais com esse planejamento e quiseram se
assemelhar às nações ao redor, conforme atestamos nos livros do profeta Samuel.
Após esta mudança drástica na nação hebraica, não houveram mais os famosos
“Beit Din”, sendo portanto Samuel o último dos juízes conforme o antigo trato. A
partir daquele momento, a figura do rei e de seus príncipes é que ficariam
encarregados deste serviço do julgamento, assim como era costume em outros
povos. Apesar do SENHOR não ter visto isso com bons olhos, por sua misericórdia
e graça DEUS selou uma aliança com o povo mesmo assim e deu sinal para que
Samuel prosseguisse com o pedido do povo. Acompanhe:
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“Tendo Samuel envelhecido, constituiu a seus filhos por juízes sobre Israel; Seus
filhos, porém, não andaram nos caminhos dele; antes se inclinaram à avareza, aceitaram
subornos e perverteram o juízo. Então as autoridades de Israel se congregaram e vieram ter
com Samuel, a Ramá. Disseram-lhe: estás velho, e teus filhos não andam nos teus caminhos;
constitui-nos, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações; E
o Senhor lhe disse: ouve a voz do povo em tudo o que te dizem, pois não rejeitaram a ti, mas
a mim, para eu não reinar sobre eles.” - 1 Samuel 8:1;3-5;7 | João Ferreira de Almeida
Edição Contemporânea

Sabemos que apesar de toda a bondade de DEUS, Israel naquele período


era um povo extremamente teimoso e de “dura-cerviz”. Dos inúmeros reis que foram
se levantando (tanto em Israel quanto em Judá), muitos e muitos foram bons reis e
extremamente tementes ao SENHOR, como também muitos e muitos foram
péssimos reis e levaram o povo à desobediência; à idolatria; e à práticas
pecaminosas cada vez mais abomináveis, das quais culminaram nos dois grandes
cativeiros da nação que encontramos no Antigo Testamento: o cativeiro assírio para
Israel (reino do norte) e o cativeiro babilônico para Judá (reino do sul).

Nesse último contexto do cativeiro babilônico, sabemos que quando Judá


voltou para a sua terra, muitos rabinos começaram a praticar uma forma de culto,
interpretação das Escrituras e prática da vida judaica extremamente e totalmente
incorretas, pecaminosas e anti-bíblicas, baseando-se em uma suposta “tradição
bíblica oral” que nunca existiu antes do período do cativeiro e não se tem evidências
das mesmas “tradições” antes do período meso-exílio (durante) e pós-exílio (após).
Com essa soberba toda, esses rabinos mais “influentes” não só desejaram como
realmente voltaram com um tribunal judaico, alegando sem evidências de que o
período dos juízes não havia terminado e instituindo uma cópia do senado
greco-romano conhecida como “Sinédrio” (“Sanhedrin”), onde alegavam ter ordem
supostamente “Divina” para julgarem casos segundo as tradições dos “grandes
rabinos”.

Assim como tudo que não se baseia nas Sagradas Escrituras e decide viver
por intermédio de tradições (sejam elas religiosas ou seculares), o Sinédrio era uma
farsa. Ali se tomavam decisões totalmente injustas, parciais, ideológicas e
preconceituosas, com base no achismo de “rabinos” que condenavam um homem
por adultério, e depois se vangloriavam de noitadas em prostíbulos e bebedeiras.
Acompanhe logo abaixo, em algumas citações talmúdicas, como era a “santa” vida
dos “santos rabinos” que compunham esse Sinédrio:

“Mas isto não é contado por fontes externas: disseram que o Rabi Elazar ben
Durdaya era tão promíscuo que não houve uma prostituta no mundo que ele não fez
sexo. Uma vez, ele ouviu dizer que havia uma prostituta em uma das cidades
portuárias que cobrava uma bolsa cheia de denários como pagamento. Ele tomou
uma bolsa cheia de denários e atravessou os sete mares para chegar até a mulher;
Elazar ben Durdaya disse: certamente este assunto não depende de ninguém além
de mim mesmo. Então colocou sua cabeça entre seus joelhos e chorou
amargamente até que sua alma deixou seu corpo. Uma Voz Divina emergiu e disse:
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Rabi Elazar ben Durdaya está destinado à vida no Mundo Vindouro; Os


arrependidos não só são aceitos, como também são chamados de Rabi! Pois a
Força Divina se referiu a Elazar ben Durdaya como Rabi Elazar ben Durdaya.” -
Talmud Avodah Zarah 17a

“Rabi Ilai diz: se uma pessoa perceber que sua vontade de fazer o mal está
ganhando controle sobre ele e este não consegue superar isto, então ele deve ir a
um lugar em que não é conhecido. Ele deve se vestir de preto e amarrar sua cabeça
com turbante preto, como se estivesse de luto. Talvez essas mudanças o
influenciem a não pecar. Porém se nada disso ajudar, ele deve ao menos fazer o
que o seu coração deseja de forma escondida para não profanar o nome dos Céus
em público.” - Talmud Mo’ed Katan 17a

“Aquele que furta ou rouba, assim como aquele que faz sexo com uma bela
mulher casada tomada como prisioneira de guerra, e todas as outras más atitudes
como essa, se são praticadas por um gentio a outro gentio ou de um gentio a um
judeu, isso é proibido; mas se um judeu fizer qualquer uma destas coisas a um
gentio, é permitido? A Guemará responde: ora, como as escrituras queriam tanto
dizer que um judeu pode ser permitido de fazer isso com um gentio, elas primeiro
dizem que um gentio fazer isso a um judeu é proibido!” - Talmud Sanhedrin 57a

“Com respeito a assassinatos, se um gentio matar um gentio ou matar um


judeu, ele é culpado. Mas se um judeu matar um gentio, ele é isento de qualquer
culpa.” - Talmud Sanhedrin 57a

Mesmo assim, pela forte influência que eles tinham em cima do povo leigo,
era quase um “pecado” contestar a autoridade de qualquer “sábio” do Sinédrio; tanto
que daquele período até os dias de hoje, ir contra o Sinédrio é uma afronta dentro
do judaísmo. Mas, apesar dessa autoridade máxima que o Sinédrio tinha na
jurisdição de Israel quanto à vida político-religiosa dos judeus, quando os mesmos
se juntaram para ordenar aos apóstolos que não pregassem mais sobre JESUS,
além de os açoitarem e os prenderem, a reação dos apóstolos foi de completa e
total discordância. Acompanhe:

“Levantando-se o sumo sacerdote e todos os que estavam com ele, da seita dos
saduceus, encheram-se de inveja. Mandaram prender os apóstolos e os lançaram na prisão
pública; E, tendo-os trazido, apresentaram-nos ao Sinédrio. E o sumo sacerdote os
interrogou: não vos demos ordens expressas que não ensinásseis nesse nome? Contudo,
enchestes Jerusalém dessa vossa doutrina e quereis nos culpar pelo sangue desse homem.
Responderam Pedro e os apóstolos: mais importa obedecer a Deus do que aos homens! O
Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, suspendendo-o no madeiro.
Deus, com a sua destra, o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e
perdão dos pecados. Nós somos testemunhas dessas palavras, nós e também o Espírito Santo,
que Deus deu àqueles que lhe obedecem. Ouvindo eles isto, enfureceram-se e queriam
matá-los.” - Atos dos Apóstolos 5:17-18;27-33 | João Ferreira de Almeida Edição
Contemporânea
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Apliquemos, portanto, os princípios exegéticos e hermenêuticos de Romanos


13 à esta passagem de Atos dos Apóstolos: os apóstolos cumpriam todos os seus
deveres para com o pagamento de taxas e impostos, além de viverem uma vida
totalmente longe de toda perversão e iniquidade. Portanto, em nada devendo eles
como cidadãos e como cristãos, os mesmos discordaram e se opuseram às ordens
do Sinédrio (autoridade máxima aos judeus naquele período dentro da jurisdição da
Galiléia e da Judéia) com toda a autoridade e liberdade bíblica. Porém, se
analisarmos do ponto de vista das pessoas que citamos na introdução do artigo, de
suas alegações descontextualizadas e de sua falsa interpretação de Romanos 13,
temos grandes problemas e conflitos, que são: ou o apóstolo Paulo ou os outros
apóstolos falaram e/ou fizeram errado; contradição de falas ou atitudes dentro da
Bíblia; dúvidas em cima do Texto Sagrado ao invés de certezas; e negação das
factuais e empíricas infalibilidade e inerrância bíblica.

Desta forma, fica claro como que a alegação/interpretação falsa em cima de


Romanos 13 também não se sustenta dentro da análise comparativa com outras
perícopes, passagens, testemunhos sistemáticos e fatos categóricos da Bíblia.
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O Perigo Social, Físico e Espiritual da Descontextualização

Sempre que surgem novas heresias, falsas alegações e falsas interpretações


bíblicas, muitos são os que se dispõem a refutá-las. Porém, existe uma ala na igreja
sempre cheia dos famosos “isentões” (como os conhecemos no dito popular), cujo
grupo não é necessariamente composto de pessoas que concordam com essas
heresias, falsas alegações e falsas interpretações bíblicas (apesar de muitos entre
este grupo aceitarem as heresias também), porém esta famosa turma do “deixa
disso” sempre alega que “não devemos refutar”, “não devemos debater” entre outras
alegações que distorcem a fé e, muitas vezes, distorcem até mesmo os atributos
essenciais e genuínos de DEUS.

Heresias, falsas alegações, descontextualizações, falsas interpretações


bíblicas e tantos outros erros praticados por sectários, ainda que dentro da nossa fé,
não são coisas que atacam apenas no âmbito religioso; tais atos podem culminar
em impactos assustadores até mesmo em escala nacional e internacional, a ponto
de manchar e envergonhar o Reino de DEUS em uma proporção enorme. Tomemos
como exemplo o período da Segunda Guerra Mundial: a Alemanha era um país
governado por uma política populista e de esquerda, com altos teores de fanatismo
e segregação racial. É óbvio que um “governo” que mandou estatizar todas as
empresas do país; que diziam aos comerciantes e empreendedores o que eles
deviam ou não fazer; que declarava ódio ao capitalismo e à economia de mercado
(livre-mercado); além de tomar o dinheiro do estabelecimento ou empresa para o
partido nazista para “gerir a riqueza da classe trabalhadora” não iria funcionar, como
nunca funcionou até os dias de hoje.

De qualquer forma, antes que o partido nazista começasse a perder o


prestígio que tinha entre as massas, Hitler e seus aliados trataram, como todos os
populistas, de jogar a culpa em todos aqueles que não se coadunavam com seus
ideais. Esta era e foi a chance perfeita para realizar perseguições, extermínios e
genocídios em massa de judeus, ciganos, negros, protestantes, católicos ou
qualquer outro grupo étnico-religioso que não fosse a favor da “devolução da
nobreza à raça ariana” ou que representasse algum perigo para o regime ditatorial
hitleriano, bastando até mesmo a pessoa simplestemente querer trabalhar e ter seu
próprio sustento sem a fiscalização do “reich”.

Os absurdos chegaram a tal ponto que em 1935, Hitler propôs e decretou as


famosas “Leis de Nuremberg”, constituídas da “Lei de Cidadania do Reich” e da “Lei
de Proteção do Sangue e da Honra Alemã”. Qualquer cidadão que, mesmo que
nunca houvesse professado fé judaica, tivesse mais de um familiar com
ascendência judia; fosse casado(a) com um judeu ou judia; ou tivesse “nariz e
orelhas avantajados”, este perderia todos os seus bens ao serem confiscados pelo
estado alemão, além de também perderem sua cidadania, serem privados de
direitos básicos e serem levados à trabalhos forçados, experiências médicas
perturbadoras, torturas e até mesmo estupros nos campos de concentração. Caso
você por algum motivo religioso (ou meramente tendo bom senso suficiente)
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discordasse das atrocidades, também era arrastado e levado secretamente para os


mesmos campos.

Com todo esse cenário de horror instaurado na Alemanha, o plano


infelizmente veio a dar certo por um bom tempo. Muitos cidadãos alemães
começaram a ter uma boa renda e passaram a estabilizar suas economias… mas
não foi porque o problema eram os judeus não: entregar seus vizinhos, maridos,
esposas, filhos(as), amigos e colegas judeus ou meramente anti-nazistas se tornou
um negócio altamente rentável com a instauração dos decretos das Leis de
Nuremberg.

Todo esse horror que nem é possível a nós imaginarmos de tão deprimente
não acaba aí. Imagine você, caro leitor deste artigo, quantos e quantos “iluminados”
e “isentões”, dentro da própria igreja, não entregaram seus próximos à polícia
nazista naquela época usando a mesma alegação descontextualizada e mal
interpretada de Romanos 13:1-2. Pergunte a um desses que amam
descontextualizar esses versículos (para justificar sua total falta de bondade e
benignidade ou sua idolatria a políticos) se eles acham que sua “visão” da Bíblia se
aplicaria naquela época… talvez você se surpreenda (de uma forma bem ruim) com
a resposta, enquanto estes apenas continuam a darem frutos de iniquidade e
heresia, já que sua “interpretação” de Romanos 13:1-2 vai contra a plenitude e
sentido que o próprio JESUS deu à lei:

“Respondeu-lhe Jesus: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a
tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo,
semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos
dependem toda a Lei e os Profetas.” - Mateus 22:37-40 | João Ferreira de Almeida Edição
Contemporânea
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Conclusão

Através deste artigo, pode-se claramente perceber que ao analisarmos


contextualmente e atentamente o capítulo 13 (treze) de Romanos, em nenhum
momento vemos o apóstolo Paulo falar de algum tipo de passividade para com erros
e/ou má gestão de autoridades militares, políticas ou jurídicas. Também é bem
esclarecido o fato de como esta descontextualização e esta falsa interpretação por
parte de algumas pessoas vai contra todo o restante do testemunho bíblico, além de
não fazer sentido algum do ponto de vista racional e ético da nossa fé e nem do
ponto de vista histórico e social em que vivemos.

A grande maioria das pessoas que espalham essa descontextualização e


falsa interpretação buscam, na realidade, alguma forma de se isentar da fiscalização
que todo cristão deve fazer dentro da política e/ou agir de má fé de forma a
defender seu ídolo político, sua ideologia e, em casos mais extremos, seu doentio
ativismo político dentro de um estilo de vida quase que “dependente” de militância e
discussões sócio-filosóficas em cima de teorias, cujas quais em sua maioria
esmagadora não possuem evidências e nem comprovações de estarem corretas.

Mais uma vez nos deparamos com mais um erro resultante da ingenuidade,
da preguiça e da teimosia da igreja contemporânea. Um período da igreja que
infelizmente não consegue compreender conceitos básicos e comprovados da
inerrância e infalibilidade bíblica e nem consegue compreender o raciocínio óbvio de
que se as Sagradas Escrituras são inspiradas pelo ESPÍRITO SANTO (DEUS),
então as respostas e interpretações à qualquer passagem das Escrituras só podem
ser encontradas nas próprias Escrituras ou em DEUS.

A Bíblia não se molda ao seu padrão de vida, sua ideologia e nem aos seus
gostos peculiares, mas pelo contrário: você deve se moldar à ela. Portanto,
nenhuma passagem da Bíblia é de particular interpretação, conforme já atestado e
declarado pelo apóstolo Pedro (II Pedro 1:20-21), sendo apenas algo testificado
neste breve estudo.
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Referências

Bíblia João Ferreira de Almeida Edição Contemporânea - JOÃO FERREIRA DE


ALMEIDA | Editora Vida <http://www.editoravida.com.br/novo/>

Bíblia João Ferreira de Almeida Corrigida e Fiel - JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA |


Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil <https://biblias.com.br/>

Carta de Paulo aos Romanos - DANIEL CONEGERO | Estilo Adoração


<https://estiloadoracao.com/carta-de-paulo-aos-romanos/>

Strong's Exhaustive Concordance of the Bible - DR. JAMES STRONG | Thomas Nelson
Publishers <https://www.thomasnelson.com/>

BibleHub Interlinear - BIBLEHUB <https://biblehub.com/>

O SANHEDRIN: a Suprema Corte do Povo Judeu - MORASHÁ | Instituto Morashá de


Cultura<http://www.morasha.com.br/leis-costumes-e-tradicoes/o-sanhedrin-a-suprema-corte-
do-povo-judeu.html>

Talmude Babilônico de Avodah Zara (“Talmud Bavli Avodah Zarah”) - WILLIAM


DAVIDSON | Sefaria <https://www.sefaria.org/Avodah_Zarah?lang=bi>

Talmude Babilônico de Moed Katan (“Talmud Bavli Mo’ed Katan”) - WILLIAM


DAVIDSON | Sefaria <https://www.sefaria.org/Moed_Katan?lang=bi>

Talmude Babilônico de Sanhedrin (“Talmud Bavli Sanhedrin”) - WILLIAM DAVIDSON


| Sefaria <https://www.sefaria.org/Sanhedrin?lang=bi>

“My Struggle” (tradução em inglês do original “Mein Kampf”) - JAMES MURPHY |


Project Gutenberg Australia <http://gutenberg.net.au/ebooks02/0200601h.html>

'No room for the alien, no use for the wastrel' - GEORGE SYLVESTER VIERECK | The
Guardian <https://www.theguardian.com/theguardian/2007/sep/17/greatinterviews1>

1920: Lançado o programa do partido de Hitler - HEINZ DYLONG | Deutsche Welle


<https://www.dw.com/pt-br/1920-lan%C3%A7ado-o-programa-do-partido-de-hitler/a-44595
3>

Afinal, os nazistas eram capitalistas, socialistas ou “terceira via”? - CHRIS CALTON |


Mises Brasil <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2797>

Exemplos de Legislação Anti-Semita: 1933-1939 - ENCICLOPÉDIA DO HOLOCAUSTO


| United States Holocaust Memorial Museum
<https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/examples-of-antisemitic-legislation-19
331939?parent=pt-br%2F11475>
15

As Leis de Nuremberg - ENCICLOPÉDIA DO HOLOCAUSTO | United States Holocaust


Memorial Museum <https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/nuremberg-laws>

As Leis Raciais de Nuremberg - ENCICLOPÉDIA DO HOLOCAUSTO | United States


Holocaust Memorial Museum
<https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/the-nuremberg-race-laws>

Como eram Descobertas as Crianças Escondidas - ENCICLOPÉDIA DO HOLOCAUSTO


| United States Holocaust Memorial Museum
<https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/hidden-children-discovered>

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