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Estática dos Fluidos – Hidrostática

O comportamento físico de uma partícula sólida pode ser representado e


entendido facilmente porque ele constitui uma entidade única de tamanho suficiente e
que podemos visualizar também o seu comportamento. Um sólido é uma substância
rígida que conserva sua forma contra forças tangenciais (cisalhantes) externas. A
extensão das mesmas observações torna-se mais complexas quando se trata com fluidos
já que estamos, com efeito, tratando com uma coleção de partículas "virtuais" que não
podem ser visualizadas. Já sabemos que um fluido sempre escoa quando forças
tangenciais lhe são aplicadas. Note que embora a tendência é imaginar os fluidos
principalmente como líquidos, os fluidos também descrevem o comportamento dos gases.
Neste capitulo nós analisaremos a classe dos problemas de mecânica dos fluidos aonde o
fluido esta em repouso ou num tipo de movimento que não provoca deslocamento
relativo entre as partículas de fluido adjacentes. Nestas situações, as tensões de
cisalhamento nas superfícies das partículas do fluido serão nulas e as únicas forcas que
atuarão nestas superfícies serão as provocadas pela pressão. O principal objetivo deste
capitulo é o estudo da pressão, de como ela varia no meio fluido e do efeito da pressão
sobre as superfícies imersas. A ausência da tensão de cisalhamento simplifica muito a
modelagem destes problemas e, como nós veremos, nos permite obter soluções
relativamente simples para muitos problemas da engenharia.

2.1 Equação Básica do Campo de Pressão

O equacionamento matemático nos fluidos em repouso é obtido pelo equilíbrio


das forças agindo sobre um elemento infinitesimal. Isolando um elemento de volume de
forma cúbica, definido no sistema cartesiano de coordenadas, obtêm-se a distribuição das
forças de pressão (forças de superfície), como mostrado na Fig. 2.1, e as forças de ação á
distância agindo (forças de campo, como a gravidade) sobre o elemento. Como o
elemento está em repouso, o somatório das forças de superfície e forças de campo é igual
a zero.

1
Existem, portanto, dois tipos genéricos de forças que podem ser aplicados a um
fluido: forças de campo e forças de superfície. A única força de campo que deve ser
considerada na maioria dos problemas de engenharia é a decorrente da gravidade. Em
algumas situações, forças decorrentes de campos elétricos ou magnéticos podem estar
presentes; elas não serão abordadas neste texto.

Figura 2.1 Diagrama de Forças de pressão atuando sobre um elemento de volume.

r
Para um elemento fluido diferencial, a força de campo dFB , é
r r r
dFB = gdm = gρdV 2.1
r
onde g é o vetor gravidade local, ρ é a massa especifica e dV é o volume do
elemento. Em coordenadas cartesianas, dV = dxdydz de modo que
r r r
dFB = gdm = ρgdxdydz 2.2

Em um fluido estático, as tensões de cisalhamento não podem estar presentes.


Portanto a única força superficial presente é a força de pressão. Está é uma grandeza de
campo, p = p (x,y,z); a pressão varia com a posição dentro do fluido. A força líquida de
pressão que resulta dessa variação pode ser avaliada somando-se as forças que atuam nas
seis faces do elemento fluido. Seguindo-se a notação da Fig. 2.1, pode-se escrever

2
r   ∂p    ∂p    ∂p 
dFS = p −  p + dx  dydzî + p −  p + dy  dxdzĵ + p −  p + dz  dxdyk̂ 2.3
  ∂x    ∂y    ∂z 

Simplificando, temos
r ∂p ∂p ∂p
dFS = − dxdydzî − dxdydzˆj − dxdydzk̂ 2.4
∂x ∂y ∂z
ou
r  ∂p ∂p ∂p 
dFS =  − î − ĵ − k̂ dzdxdy 2.5
 ∂x ∂y ∂z 
r r
Como o somatório das forças atuando sobre o fluído é zero, dFB + dFS = 0 , logo

 ∂p ∂p ∂p  r
 − î − ˆj − k̂ dzdxdy + ρgdxdydz = 0 2.6
 ∂x ∂y ∂z 

dividindo os dois lados da equação por dxdydz, temos

 ∂p ∂p ∂p  r
 − î − ˆj − k̂  + ρg = 0 2.7a
 ∂x ∂y ∂z 
ou
r
− ∇p + ρg = 0 2.7b

 ∂p ∂p ∂p 
onde gradp = ∇p =  î + ˆj + k̂ 
 ∂x ∂y ∂z 

A equação 2.7a (ou 2.7b) é conhecida como equação geral da estática dos fluidos.
Sua interpretação pode ser simplificada separando-se em suas componentes cartesianas.
Assim, obtêm-se três equações escalares, uma para cada componente, apresentadas nas
equações 2.8.

Os componentes da equação 2.6 são:

3
∂p ∂p ∂p
=0 =0 = −ρg 2.8
∂x ∂y ∂z

Estas equações (2.8) mostram que a pressão não é função de x ou y. Assim, nós não
detectamos qualquer variação no valor da pressão quando nos mudamos de um ponto
para outro situado no mesmo plano horizontal (qualquer plano paralelo ao piano x - y), ou
seja de acordo com a nomenclatura definida na Fig. 2.1, em um meio homogêneo a
pressão em um mesmo ponto é constante. Como p e apenas função de z, a última equação
da equação 2.8 pode ser reescrita como uma equação diferencial ordinária, ou seja,

dp
= −ρg 2.9
dz

Esta equação indica que o gradiente de pressão na direção vertical e negativa, ou


seja, a pressão decresce quando nós nos movemos para cima num fluido em repouso.
Note que nos não fizemos qualquer restrição sobre o peso especifico do fluido na
obtenção da equação. 2.9. Assim, esta é valida para os casos onde o fluido apresenta ρg
constante (por exemplo, os líquidos) e também para os casos onde o pelo específico do
fluido varia (por exemplo, o ar e outros gases). Note que e necessário especificar como a
peso especifico varia com z para que seja possível integrar a equação. 2.9.

2.1.1 Fluido Incompressível

A variação do peso especifico de um fluido é provocada pelas variações de sua


massa específica e da aceleração da gravidade. Isto ocorre porque a propriedade e igual
ao produto da massa específica do fluido pela aceleração da gravidade (γ = ρg). Como as
variações de g na maioria das aplicações da engenharia são desprezíveis, basta
analisarmos as possíveis variações da massa especifica. A variação da massa especifica
dos líquidos normalmente pode ser desprezada mesmo quando as distancias verticais
envolvidas são significativas. Neste caso, onde a hipótese de peso especifico constante é
adequada, a equação 2.9 pode ser integrada diretamente, ou seja,

4
p z

∫ dp = − ρg ∫ dz
p0 z0
2.10

para fornecer
p 2 − p1 = − γ (z 2 − z1 ) 2.11a

ou

p1 − p 2 = γ (z 2 − z1 ) 2.11b

onde p1 e p2 são as pressões nos planos com conta z1 e z2 (veja figura 2.2)

Figura 2.2 Notação para a variação de pressão num fluido em repouso e com
superfície livre.

A equação 2.11b pode ser escrita de outras formas

p1 − p 2 = γ (h ) 2.12a

ou

p1 = γ(h ) + p 2 2.12b

onde h é igual a distancia z2 – z1 (profundidade medida a partir do plano que apresenta


p2). A equação 2.12 mostra que a pressão num fluido incompressível em repouso varia
linearmente com a profundidade. Normalmente, este tipo de distribuição de pressão é
denominada hidrostática. Note que a pressão precisa aumentar com a profundidade para
que seja possível existir o equilíbrio.
Nos podemos observar na equação 2.12 que a diferença de pressão entre dois
pontos pode ser especificada pela distancia h, ou seja,

5
p − p2
h= 1 2.13
γ
Neste caso, a distancia h é denominada "carga" e é interpretada como a altura da
coluna de fluido com peso específico γ é necessária para provocar uma diferença de
pressão p1 -p2. Por exemplo, a diferença de pressão de 69 kPa pode ser especificada como
uma carga de 7,04 m de coluna d’água (γ =9,8 kN/m3)ou 519 mmdeHg (γ = 133 kN/m3).
Sempre existe uma superfície livre quando estamos trabalhando com líquidos (veja a Fig.
2.3) e é conveniente utilizar o valor da pressão nesta superfície como referenda. Assim, a
pressão de referenda, p0, corresponde a pressão que atua na superfície livre (usualmente é
igual a pressão atmosférica). Se nos fizermos p2 = p0 na equação 2.12b nós temos que a
pressão em qualquer profundidade h abaixo da superfície livre é dada por

p1 = γ (h ) + p 0 2.14

Figura 2.3 Equilíbrio de um fluido num recipiente de forma arbitrária

Exemplo:
2.1 A Fig. E.2.1 mostra o efeito da infiltração de água num tanque subterrâneo
de gasolina. Se a densidade da gasolina é 0,68, determine a pressão na interface
gasolina-água e no fundo do tanque.

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Figura E.2.1 Esquema de um tangue contendo água e gasolina.

Solução: A distribuição de pressão será hidrostática porque os dois fluidos estão


em repouso. Assim, a variação de pressão pode ser calculada com a equação 2.14

p1 = γ (h ) + p 0 2.14

Se p0 corresponde a pressão na superfície livre da gasolina, a pressão na interface


é
p1 = SGγ H 2 O h + p 0 E.2.1.1

p1 = 0,68 × 9800 × 5 + p 0 (em Pa) E.2.1.2

Se nós estivermos interessados na pressão relativa, temos que p0 =0 e


p1 = 33320 Pa ou 3,4 m de coluna d’água.
Nós podemos aplicar agora a mesma relação para determinar a pressão no fundo
do tanque, ou seja,

p 2 = γ H 2 O h + p1 E.2.1.3

p1 = 9800 × 1 + 33320 = 43120Pa ou 4,4 m de coluna d’água. E.2.1.4

Para transformar os resultados obtidos em pressões absolutas basta adicionar o


valor da pressão atmosférica local aos resultados. O item 2.4 apresenta uma discussão
adicional sobre a pressão relativa e a absoluta.

7
Exemplo:

2.2 Determine a pressão em um nível 2 de uma massa de água, situado a 5 m

abaixo da superfície, sabendo que na superfície (nível 1) age a pressão

atmosférica que, para efeitos deste exemplo, vale 100 kPa. Considere a massa

específica da água é constante e vale 1.000 kg/m3.

Solução A equação 2.14 também pode ser escrita da seguinte forma

p 2 = ρgh + p1 E.2.2.1

Aplicado os valores sugeridos,

p 2 = 1000 × 9,8 × 5 + 100.000 E.2.2.2

A pressão no nível 2 será de 149.000 Pa.

Exemplo:

2.3 Assuma que a área de um pé de uma pessoa de 80 kg é 25 cm x 6 cm.


Determine a pressão que a pessoa exerce no chão enquanto está em pé.

Solução: A pressão é definida como a força por unidade de área, onde a força é o peso da
pessoa W:
W = m.g = (80 kg) (9,8 m s-2) = 784 N E.2.3.1
e a área é a área da seção transversal na qual esta força é exercida:
Apé = área de uma elipse = π (0,25 m x 0,06 m)= 0,047 m2 E.2.3.2
Desde que a pessoa normalmente fica em pé sobre os dois pés, a área total é 2 Apé =
0,094 m2. Assim, a pressão exercida pela pessoa sobre o chão é

F 784 N
p= = = 8340 Nm − 2 = 8340 Pa E.2.3.3
A 0,094m 2

O fato da pressão ser constante num plano com mesma elevação é fundamental
para a operação de dispositivos hidráulicos como macacos, elevadores, prensas, controles

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de aviões e de maquinas pesadas. O aspecto básico do funcionamento destes dispositivos
e sistemas é discutido na seção 2.1.1.1, como o princípio de Pascal.

2.1.1.1 Princípio de Pascal

A pressão aplicada a um fluido dentro de um recipiente fechado é transmitida,

sem variação, a todas as partes do fluido, bem como às paredes do recipiente.

A explicação para o princípio de Pascal é simples. Caso houvesse uma diferença

de pressão, haveria forças resultantes no fluido, e como já discutimos anteriormente, o

fluido não estaria em repouso. As Figuras 2.4 e 2.5 ilustram este princípio.

Em um elevador hidráulico uma pequena força aplicada a uma pequena área de

um pistão é transformada em uma grande força aplicada em uma grande área de outro

pistão (veja Fig. 2.4).

Um pistão localizado num sistema fechado e repleto com um liquido (por


exemplo, óleo) é utilizado para variar a pressão no sistema e assim transmitir a forca F1,
para um segundo pistão (que apresenta uma força resultante F2). Como as pressões que
atuam nas faces dos pistões são iguais (a alteração do valor da pressão por variação de
elevação é desprezível neste tipo de dispositivo) segue que F2 = (A2/A1 )F,. A área do
pistão com diâmetro grande, A2, pode ser muito maior do que a do pistão com diâmetro
pequeno, A1, e, assim, podemos obter uma força muito grande a partir de uma pequena,
ou seja, uma força pequena aplicada no pistão com diâmetro pequeno pode ser
amplificada no pistão com diâmetro grande. A força aplicada no pistão com área A1, pode
ser gerada manualmente e transmitida através de algum dispositivo mecânico (tal como
no macaco) ou através de ar comprimido atuando diretamente na superfície do liquido
(como e realizado nos elevadores hidráulicos utilizados em postos de troca de óleo).

Desta forma, p1 = p 2 e

F1 F
= 2 2.15
A1 A 2

9
F1 A1
= 2.16
F2 A 2

Figura 2.4 Transmissão da pressão num fluido.

Figura 2.5 Outros exemplos de transmissão da pressão em um fluido.

10
Exemplo:

2.4 Um exemplo do Princípio de Pascal é visto no macaco hidráulico, pode ser


aplicado utilizando o esquema mostrado na Figura 2.4. Se uma F1 de 300 N é
aplicada a um pistão de 1 cm2 de área transversal, determine a força de ascensão
transmitida a um pistão de área transversal A2 igual a 100 cm2.

Solução De acordo com o Princípio de Pascal, a pressão p1 exercida na coluna da


esquerda de área 1 cm2 por meio de uma força de 300 N deve ser igual a pressão p2 que
aparece coluna da direita de área 100 cm2.
p1 = p 2 E.2.3.1

F1 F
= 2 2.15
A1 A 2

FA 300 × 100
F2 = 1 2 = E.2.3.2
A1 1
Assim,
F2 = 30.000 N E.2.3.3

2.1.1.2 Pressão arterial

A pressão arterial mantém o sangue circulando no organismo. Tem início com o


batimento do coração. A cada vez que bate, o coração joga o sangue pelos vasos
sangüíneos chamados artérias. As paredes dessas artérias são como bandas elásticas que
se esticam e relaxam a fim de manter o sangue circulando por todas as partes do
organismo. O resultado do batimento do coração é a propulsão de uma certa quantidade
de sangue (volume) através da artéria aorta. Quando este volume de sangue passa através
das artérias, elas se contraem como que se estivessem espremendo o sangue para que ele
vá para a frente. Esta pressão é necessária para que o sangue consiga chegar aos locais
mais distantes, como a ponta dos pés, por exemplo.

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A B
Figura 2.6 A - Visão da região anterior do coração, com parte do pericárdio removido.
Observa-se a musculatura ventricular, os átrios direito e esquerdo, a veia cava superior, a
crossa da aorta e a artéria pulmonar. B - Corte longitudinal do coração mostrando os
ventrículos direito e esquerdo (este com a musculatura mais espessa), os átrios direito e
esquerdo, as válvulas tricúspide, mitral, aórtica e pulmonar. Observa-se a representação
do fluxo sanguíneo (setas) desde a cava superior, átrio e ventrículo direitos e artéria
pulmonar, até as veias pulmonares, átrio e ventrículo esquerdos e aorta.

o que significam os números de uma medida de pressão arterial?

Significam uma medida de pressão calibrada em milímetros de mercúrio (mmHg).


O primeiro número, ou o de maior valor, é chamado de sistólico, e corresponde à pressão
da artéria no momento em que o sangue foi bombeado pelo coração. O segundo número,
ou o de menor valor é chamado de diastólico, e corresponde à pressão na mesma artéria,
no momento em que o coração está relaxado após uma contração. Não existe uma
combinação precisa de medidas para se dizer qual é a pressão normal, mas em termos
gerais, diz-se que o valor de 120/80 mmHg é o valor considerado ideal. Contudo,
medidas até 140 mmHg para a pressão sistólica, e 90 mmHg para a diastólica, podem ser
aceitas como normais. O local mais comum de verificação da pressão arterial é no braço,
usando como ponto de ausculta a artéria braquial. O equipamento usado é o

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esfigmomanômetro ou tensiômetro, vulgarmente chamado de manguito, e para auscultar
os batimentos, usa-se o estetoscópio.
Tabela 2.1 Tabela de valores médios normais de pressão arterial

Idade em anos Pressão arterial em mmHg


4 85/60
6 95/62
10 100/65
12 108/67
16 118/75
Adulto 120/80
Idoso 140-160/90-100

Exemplo:
2.5 A pressão sangüínea sistólica normal na circulação humana é de 120 mmHg.
Determine a altura equivalente de uma coluna de água.
Solução: Para determinar a pressão hidrostática exercida por uma coluna de mercúrio de
120 mm:

 kg m 
p = ρ Hg gh = 13.600 3 × 9,8 2 × 0,12m  = 16,000 N / m 2 = 16kPa E.2.5.1
 m s 
Queremos agora determinar a altura de uma coluna de água requerida para exercer a
mesma pressão que 120 mmHg:
 kg m 
16.000 N / m 2 = ρ H 2O gh = 1.000 3 × 9,8 2 × h  E.2.5.2
 m s 
Resolvendo para h, temos
h = 1,63 m H2O. E.2.5.3

2.1.2 Fluido Compressível

Nós normalmente modelamos os gases, tais como o oxigênio e nitrogênio, como


fluidos compressíveis porque suas massas especificas variam de modo significativo com
as alterações de pressão e temperatura. For este motivo, é necessário considerar a
possibilidade da variação do peso especifico do fluido antes de integrarmos a equação 2.9.

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Entretanto, como foi discutido no Cap. 1, o peso específico dos gases comuns são
pequenos em relação dos líquidos. For exemplo, o peso especifico do ar ao nível do mar a
15 °C é 1,2 x 101 N/m3 enquanto que o da água, nas mesmas condições, é 9,8 x 103 N/m3.
Analisando a equação 2.9 nos notamos que, nestes casos, o gradiente de pressão na
direção vertical é pequeno porque o peso específico dos gases é normalmente baixo.
Assim, a variação de pressão numa coluna de ar com centenas de metros de altura
apresenta um valor pequeno. Isto significa que nos podemos desprezar o efeito da
variação de elevação sobre a pressão no gás em tanques e tubulações que apresentam
dimensões verticais pequenas.
Para os casos em que a variação de altura e grande, da ordem de milhares de
metros, nós devemos considerar a variação do peso específico do fluido nos cálculos das
variações de pressão.
Como nós descrevemos no Cap. 1, a equação de estado para um gás ideal é
pV = nRT 2.17
onde p é a pressão absoluta, R é a constante do gás ideal e T e a temperatura absoluta.

pVol
R= 2.18
nT

Nas CNTP: p = 1 atm, T = 0 ºC , 1 mol tem 22,411 L.


Assim, R = 0,082 atmL/Kmol; e
R = 8,3144 J/Kmol

p = ρRT 2.19
pM
ρ= 2.20
RT
Na maioria dos problemas nesta disciplina iremos considerar R, como sendo:
R
R= 2.21
M
assim,
p
ρ= 2.22
RT

Este R para o ar será igual a 286,9 J/kgK.

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Combinando esta relação com a equação 2.9 obtemos

dp
= − ρg 2.9
dz
o que leva a
dp p
=− 2.23
dz RT

Separando as variáveis,
dp gdz
=− 2.24
p RT
podemos escrever também,
p2 z
2 gdz
dp
∫ p = − ∫ RT 2.25
p1 z1

A hipótese de aceleração da gravidade constante é bastante razoável porque ela


varia muito pouco com a elevação. O valor normalmente adotado para g, neste tipo de
procedimento, e o relativo à altitude média do intervalo considerado.
Antes de completarmos a integração da equação 2.25 é necessário especificar
como a temperatura varia com a elevação. For exemplo, se nós admitirmos que a
temperatura e constante igual a T0 no intervalo de integração (de z1 a z2), temos

p  g
ln 2  = − (z 2 − z1 ) 2.26a
 p1  RT
ou
 g
p
= exp− (z − z0 ) 2.26b
p0  RT 

Exemplo:
2.6 O Empire State Builing de Nova York, uma das construções mais altas do
mundo, apresenta altura aproximada de 381 m. Estime a relação entre as pressões
no topo e na base do edifício. Admita que a temperatura é uniforme e igual a 15
ºC. Compare este resultado com aquele que é obtido modelando o ar como
incompressível e com peso específico igual a 12,01 N/m3 (valor padrão americano
a 1 atm).

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Solução: Como não há variação da temperatura e considerando-se comportamento ideal
para o ar, podemos utilizar a equação 2.26.

 g
p
= exp− (z − z0 ) 2.26b
p0  RT 

Substituindo os dados apresentados no enunciado,


p
= exp−
9,8
(381 − 0) E.2.6.1
p0  286,9 × 288 

Assim, a relação solicitada é p/p0=0,956.

Considerando-se o ar como fluido incompressível, passamos a utilizar a equação

p 2 − p1 = − γ (z 2 − z1 ) 2.11a

pode ser escrita

p = p 0 − γ (z 2 − z1 ) E.2.6.2
Substituindo os dados do exemplo e considerando p0 = 1,013 x 105 Pa,
p = 101.300 − (12,01 × 381) = 96.724,19 E.2.6.3

p 96.724,19
= E.2.6.4
p0 101.300

Neste caso, a relação solicitada é p/p0=0,955.


Note que a diferença entre os dois resultados obtidos é pequena. As analises
utilizando tanto o modelo de fluido compressível como os de fluido incompressível
fornecem resultados praticamente iguais porque a diferença de pressão entre o topo e a

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base do edifício é pequena (isto implica que a variação da massa específica do fluido
também é pequena).
Veja que a variação de pressão entre o topo e a base deste edifício bastante alto é
menor do que 5%. Este resultado mostra que não é necessária uma grande diferença de
pressão para suportar uma coluna de ar com 381 m de altura. Isto também corrobora à
afirmação anterior que as variações de pressão no ar, e em outros gases, provocada pela
variação de elevação são muito pequenas mesmo que as distancias envolvidas sejam da
ordem de centenas de metros. A partir destes resultados nós podemos concluir que a
diferença entre as pressões no topo e na base de tubulações de transporte de gás, ou dos
sistemas de armazenamento de gases, são desprezíveis porque as distancias verticais
envolvidas são pequenas.

2.3 Atmosfera Padrão

Uma aplicação importante da equação 2.25 é o calculo da variação da pressão na


atmosfera terrestre. Nós gostaríamos de contar com medidas da pressão numa grande
faixa de altitudes e para condições ambientais especificas (temperatura e pressão de
referencia), mas, infelizmente, este tipo de informação normalmente não é disponível.
Assim, uma atmosfera padrão foi desenvolvida para ser utilizada no projeto de aviões,
mísseis e espaçonaves e também para comparar o comportamento destes equipamentos
numa condição padrão. O conceito de atmosfera padrão foi desenvolvido na década de 20
e desde então muitas organizações nacionais e internacionais tem desenvolvido este
padrão. A atmosfera padrão atual é baseada no documento publicado em 1962 e revisado
em 1976, que definem a atmosfera padrão americana. Esta atmosfera é uma representação
ideal da atmosfera terrestre e foi avaliada numa latitude media e numa condição
ambiental media anual da atmosfera terrestre. A Tab. 2.2 apresenta algumas propriedades
importantes da atmosfera padrão relativos ao nível do mar e a Fig. 2.7 mostra o perfil de
temperatura adotado na atmosfera padrão. Note que a temperatura decresce com a
altitude na região próxima a superfície da Terra (troposfera), fica aproximadamente
constante na estratosfera e diminui na próxima camada.
A variação de temperatura na atmosfera padrão e representada por uma série de
segmentos lineares. Assim, torna-se possível integrar a equação 2.25 para obter a

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variação de pressão correspondente. Por exemplo, na troposfera (a região que se estende
ate uma altura de aproximadamente igual a 11 km), a distribuição de temperatura e dada
por

T = Ta − βz 2.27
onde Ta é temperatura no nível do mar (z = 0) e β e a taxa de decaimento da temperatura.
Nesta região, nós encontramos que β é igual a 0,00650 K/m. Aplicando a equação 2.27 na
equação 2.25, temos

g / Rβ
 βz 
p = p a 1 −  2.28
 Ta

onde pa é a pressão absoluta em z = 0. Com pa, Ta e g obtidos na Tab. 2.2 e com R =


286,9 J/kg K, a variação de pressão na troposfera pode ser determinada com a equação.
2.28. Este cálculo mostra que a temperatura na interface troposfera-estratosfera e igual a -
56,5 °C e a pressão absoluta e 23 kPa. É interessante ressaltar que os jatos comerciais
modernos voam nesta região.

Tabela 2.2 Propriedades da Atmosfera Padrão Americana no Nível do Mar.

Temperatura, T 288,15 K (15°C)


Pressão, p 11,33 kPa (abs)
Massa específica, ρ 1,225 kg/m3
Peso específico, γ 12,014 N/m3
Viscosidade, µ 1,789 x 10-5 N s/m2

Na troposfera:

T = Ta + βz 2.28

Ta é a temperara ao nível do mar

β é a taxa de decaimento da temperatura(neste caso o valor de β será negativo),

β = - 0,0065 k/m

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Figura 2.7 Variação da temperatura com a altitude na atmosfera padrão americana.

Lembrando que :
P z
dp gdz
∫P p = − z∫ RT 2.25
0 0

E aplicando equação de variação da temperatura, temos


P z
dp g dz
∫P p = − R ∫ (T
z0 a − βz )
2.29
0

Dedução:
Da tabela de Integral (coleção Schaum, pág. 60)
g

p T βR z dz 1
=  ∫ = − ln (az + b ) 2.30
p 0  T0  z 0 az + b a

assim, a = β e b = To , logo

19
p
dp g
∫ =− ln (az + b ) 2.31
p0 p Ra

Recompondo,
p g
ln =− ln (β z + T0 ]zz 2.32
p0 Rβ 0

p g  βz + T0 
ln =− ln  2.33
p0 Rβ  βz 0 + T 

p g T
ln =− ln  2.34
p0 Rβ  T0 

log a M n = n log a M 2.35

g

p T  βR
=  2.36
p0  T0 

Exemplo
2.7 A potência máxima produzida por um motor de combustão interna cai com a
altitude porque a massa específica do ar e, por conseguinte, sua vazão em massa,
decrescem. Um caminhão sai de Denver (elevação 5.280 ft) num dia em que a
temperatura local e a pressão barométrica são 80 °F e 24,8 polegadas de mercúrio,
respectivamente. Ele viaja por Vail Pass (elevação 10.600 ft) onde a temperatura é
62 °F. Determine a pressão barométrica local em Vail Pass e a variação percentual
da massa específica, a temperatura for considerada uma função linear da altitude.

20
Solução
Dados:
Denver Vail Pass
0,3048m
z 0 = 5.280ft × = 1.609,34m z = 3.230,88 m
1ft
5 
T0 =  (80 − 32) + 273,15 = 299,82K T = 289,82 K
 9 
0,0254m 1,013 × 105Pa
p 0 = 24,8inHg × × = 83.961,71Pa p=?
1in 0,76mHg
ρ − ρ0
× 100 = ?
ρ0
Sendo:
R = 286,9 J/kgK;
g = 9,81 m/s2;e
Considerando fluido estático, que o ar comporta-se como gás ideal e que a
temperatura varia linearmente com a altitude ( T = T0 + β(z − z 0 ) ), podemos utilizar a
equação 2.36.
g

p T  βR
=  2.36
p0  T0 

O primeiro passo é calcular o valor de β:

β=
T − T0
=
(289,82 − 299,82)K = −0,00617K / m E.2.7.1
z − z 0 (3.230,88 − 1.609,34)m
Substituindo os dados apresentados na equação 2.36:
9,81

p  289,82  (− 0,00617× 286,5)
=  E.2.7.2
p 0  299,82 
p
= (0,967 )5,55 = 0,830 E.2.7.3
p0

p = 0,830 × p 0 = 0,83 × 83.961,71Pa = 69.688,22Pa E.2.7.4

21
ρ − ρ0
A variação percentual é dada por × 100 = ? , como para gás ideal, ρ é dada
ρ0
pela equação 2.22
p
ρ= 2.22
RT
podemos escrever,
p p  p 
− 0    p T
RT RT0   0,830 
=  T − 1 =  × 0 − 1 =  − 1 = −0,14 ou 14% E.2.7.5
p0  p0   p0 T   0,967 
RT0 T 
 0 

2.4 Medições de Pressão

A pressão é uma característica muito importante do campo de escoamento. Assim,


não é surpresa que numerosos dispositivos e técnicas foram desenvolvidas e são
utilizados para sua medição. Como foi apontado rapidamente no Cap. 1 (item 1.5.4), a
pressão num ponto do sistema fluido pode ser designada em termos absolutos ou relativos.
As pressões absolutas são medidas em relação ao vácuo perfeito (pressão absoluta nula)
enquanto que a pressão relativa e medida em relação a pressão atmosférica local. Deste
modo, a pressão relativa nula corresponde a uma pressão igual a pressão atmosférica
local. As pressões absolutas são sempre positivas mas as pressões relativas podem ser
tanto positivas (pressão maior do que a atmosférica local) quanto negativas (pressão
menor do que a atmosférica local). Uma pressão negativa é também referida como vácuo.
For exemplo, a pressão de 70 kPa (abs) pode ser expressa como -31,33 kPa (relativa), se
a pressão atmosférica local é 101,33 kPa, ou com um vácuo de 31,33 kPa. O conceito de
pressão absoluta e relativa esta ilustrado graficamente na Fig. 2.8 para as duas pressões
representadas pelos pontos 1 e 2.
Devido às características discutidas no parágrafo anterior, torna-se necessário
especificar tanto a unidade da pressão quanto o referencial utilizado na sua medida.
Como descrevemos na Item 1.5.4, a pressão é uma forca por unidade de área. Assim, as
unidades usuais dos sistemas britânicos são a lbf/ft2 (psf) ou a lbf/in2 (psi) e no SI a
unidade é o N/m2. Esta combinação e denominada Pascal e é abreviada por Pa (1 N/m2 =

22
1 Pa). A pressão também pode ser especificada pela altura de uma coluna de liquido
(veja a Item 2.1.1). Nestes casos, a pressão deve ser indicada pela altura da coluna (em
metros, milimetros etc) e pela especificação do líquido da coluna (água mercúrio etc). Por
exemplo, a pressão atmosférica padrão pode ser expressa como 760 mm Hg (abs). A
maioria das pressões utilizadas nesta apostila são relativas e nós indicaremos apenas os
casos onde as pressões são absolutas. Por exemplo, 100 kPa será uma pressão relativa
enquanto que 100 kPa (abs) se refere a uma pressão absoluta. Note que as diferenças de
pressão são independentes do referencial e, deste modo, não é necessário fazer qualquer
indicação.

Figura 2.8 Representação gráfica das pressões relativa e absoluta.

A medição da pressão atmosférica é normalmente realizada com o barômetro de


mercúrio. A Fig. 2.9 mostra o esboço de um barômetro de mercúrio simples. Este
dispositivo é constituído por um tubo de vidro com uma extremidade fechada e a outra
(aberta) imersa num recipiente que contém mercúrio. Inicialmente, o tubo estava repleto
com mercúrio e então foi virado de ponta cabeça (com a extremidade aberta lacrada) e
inserido no recipiente de mercúrio. O equilíbrio da coluna de mercúrio ocorre quando o
peso da coluna mais a forca provocada pela pressão de vapor do mercúrio (que se
desenvolve no espaço acima da coluna) é igual à força devida a pressão atmosférica.
Assim,
Patm = γh + Pvapor 2.37

23
onde γ é o peso específico do mercúrio.

Figura 2.8 Barômetro de mercúrio.

A contribuição da pressão de vapor, na maioria dos casos, pode ser desprezada


porque é muito pequena (a. pressão de vapor do mercúrio a 20 °C e igual a 0,16 Pa).
Nestas condições, nós temos que patm ≡ γ h. É normal especificar a pressão atmosférica
em função da altura de uma coluna de mercúrio. É interessante notar que a pressão
atmosférica padrão (101,33 kPa) corresponde a uma coluna de mercúrio com 0,76 m de
altura e a uma coluna de água com aproximadamente 10,36 in de altura. A invenção do
barômetro de mercúrio ocorreu no Sec. XVII (em torno de 1644) e é atribuída a
Evangelista Torricelli.
Exemplo:
2.8 A água de um lago localizado numa região montanhosa apresenta
temperatura média igual a 10 ºC e a profundidade máxima do lago é 40 m. Se a
pressão barométrica local é igual a 598 mm Hg, determine a pressão absoluta na
região mais profunda do lago.

Solução: A pressão na água,em qualquer profundidade h é dada por uma pequena


adaptação da equação 2.14
p = p o + γh E.2.8.1
onde po é a pressão na superfície do lago.

24
Para conhecer a pressão absoluta , po , será a pressão barométrica do local.
Deste modo,

( )
p o = γ Hg h = 133kN / m 3 (0,598m ) = 79,5kN / m 2 E.2.8.2

( )
O peso específico da água a 10º.C pode ser obtido γ H 2 O = 9,804kN / m 3

Assim,

( )
p = 79,5kN / m 2 + 9,804kN / m 3 (40m ) = 472kPa (abs ) E.2.83

Este exemplo bastante simples mostra que é necessário estar atento as unidades
utilizadas nos cálculos de pressão, ou seja, utilize sempre unidades consistentes e tome
cuidado para não misturar cargas (m) com pressões (Pa).

2.5 Manometria

Uma técnica padrão para a medição da pressão envolve a utilização de colunas de


líquido verticais ou inclinadas. Os dispositivos para a medida da pressão baseados nesta
técnica são denominados manômetros. O barômetro de mercúrio é um exemplo deste tipo
de manômetro, mas existem muitas outras configurações que foram desenvolvidas em são
função da aplicação. Os três tipos usuais de manômetros são o tubo piezométrico, o
manômetro em U e o com tubo inclinado.

2.5.1 Tubo Piezométrico

O tipo mais simples de manômetro consiste num tubo vertical aberto no topo e
conectado ao recipiente no qual desejamos conhecer a pressão (veja a Fig. 2.9). Note que
a equação 2.14 é aplicável porque a coluna de líquido esta em equilíbrio. Assim,

p = p 0 + γh E.2.8.1

25
Figura 2.9 Tubo piezométrico

Esta equação fornece a pressão provocada por qualquer coluna de fluido


homogêneo em função da pressão de referenda p0 e da distância vertical entre os planos
que apresentam e p e p0. Lembre que a pressão aumenta quando nós nos movimentamos
para baixo numa coluna de fluido em equilíbrio e decrescerá se nos movimentarmos para
cima. A aplicação desta equação ao tubo piezométrico da Fig. 2.9 indica que a pressão pA
pode ser determinada a partir de h1 através da relação

p A = γ1h1 2.38

onde h1 é o peso especifico do líquido do recipiente. Note que nós igualamos a pressão p0
a zero (o tubo e aberto no topo) e isto implica que estamos lidando com pressões relativas.
A altura h1 deve ser medida a partir do menisco da superfície superior ate o ponto (1).
Como o ponto (1) e o A do recipiente apresentam a mesma elevação, temos que pA = p1.
Apesar do tubo piezométrico ser muito simples e precise ele apresenta muitas
desvantagens. Ele e apropriado nos casos onde a pressão no recipiente e maior que a
pressão atmosférica (se não ocorreria a sucção do ar para o interior do recipiente) e não
muito grande para que a altura da coluna seja razoável. Note que só e possível utilizar
este dispositivo se o fluido do recipiente for um liquido.

26
2.5.2 Manômetro com o Tubo em U

Um outro tipo de manômetro, o com tubo em U, foi desenvolvido para superar as


dificuldades apontadas previamente. A Fig. 2.10 apresenta um esbofo deste tipo de
manômetro e, normalmente, o fluido que se encontra no tubo do manômetro é
denominado fluido manométrico.

Figura 2.10 Manômetro com tubo em U simples.

Para determinar a pressão pA em função das alturas das várias colunas, nós
aplicaremos a equação 2.14 nos vários trechos preenchidos com o mesmo fluido. A
pressão no ponto A e no ponto (1) são iguais e a pressão no ponto (2) é igual à soma de p1
com γ1h1. A pressão no ponto (2) é igual à pressão no ponto (3) porque as elevações são
iguais. Note que nós não saltamos diretamente do ponto (1) para o ponto de mesma
elevação do outro tubo porque existem dois fluidos diferentes na região limitada pelos
planos horizontais que passam por estes pontos. Como conhecemos a pressão no ponto
(3), nós vamos nos mover para a superfície livre da coluna onde a pressão relativa é nula.
Quando nós nos movemos verticalmente para cima à pressão cai de um valor γ2 h2. Estes
vários passos podem ser resumidos em

p A + γ1h1 − γ 2 h 2 = 0 2.39

e a pressão pA pode ser escrita em função das alturas das colunas de seguinte modo:

p A = γ 2 h 2 − γ1h1 2.40

27
A maior vantagem do manômetro com tubo em U é que o fluido manométrico pode ser
diferente do fluido no recipiente aonde a pressão deve ser determinada. Por exemplo, o
fluido do recipiente da Fig. 2.10 pode ser tanto um gás quanto um líquido. Se o recipiente
contém um gás, a contribuição da coluna de gás, γ1h1, normalmente pode ser desprezada
de modo que pA ≅ p2. Nestes casos, a Eq. 2.40 toma a seguinte forma

pA = γ 2h 2 2.41

Note que a altura da coluna (carga), h2, é determinada unicamente pelo peso específico do
fluido manométrico (γ2) para uma dada pressão. Assim, nós podemos utilizar um fluido
manométrico pesado, tal como mercúrio, para obter uma coluna com altura razoável
quando a pressão pA é alta. De outro lado, nós podemos utilizar um fluido mais leve, tal
como a água, de modo a obter uma coluna de líquido com uma altura adequada se a
pressão pA é baixa.

Exemplo:

2.9 Um tanque fechado esboçado na Figura abaixo contém ar comprimido e um


óleo que apresenta densidade 0,9. O fluido manométrico utilizado no
manômetro em U conectado ao tanque é mercúrio (SG = 13,6). Se h1 = 914
mm, h2 = 152 mm e h3 =229, determine a leitura no manômetro localizado
no topo do tanque.
Solução: Seguindo o procedimento geral utilizado nesta seção, nós iniciaremos a análise
na interface ar-óleo no tanque e prosseguiremos até a interface fluido manométrico-ar
atmosférico onde a pressão relativa é nula. A pressão no ponto (1) e

p1 = p ar ⋅comprimido + γ óleo (h1 + h 2 ) E.2.9.1

Esta pressão é igual à pressão no ponto (2) porque os dois pontos apresentam a mesma
elevação e estão localizados num trecho de tubo ocupado pelo mesmo fluido homogêneo
e que esta em equilíbrio. A pressão no ponto (2) e igual à pressão na interface fluido
manométrico-ar atmosférico mais a provocada pela coluna com altura h3. Se nós

28
admitirmos que a pressão relativa é nula nesta interface, (note que estamos trabalhando
com pressões relativas)

Figura E.2.9.1 Tanque com ar comprimido.

p ar ⋅comprimido + γ óleo (h1 + h 2 ) − γ Hg h 3 = 0 E.2.9.2

ou

( )
p ar ⋅comprimido + (SG óleo )γ H 2 O (h1 + h 2 ) − SG Hg γ H 2 O h 3 = 0 E.2.9.3

Aplicando os valores fornecidos no enunciado do exemplo,

p ar ⋅comprimido = 1,6 × 9.800 × 0,229 − 0,9 × 9.800 × (0,914 − 0,152) = 2,11 × 10 4 Pa E.2.9.4

Como o peso específico do ar é muito menor que o peso especifico do óleo, a pressão
medida no manômetro localizado no topo do tanque é muito próxima da pressão na
interface ar comprimido-óleo. Deste modo,

p ar ⋅comprimido = 21,1 ⋅ kPa E.2.9.5

29
O manômetro com tubo em U também é muito utilizado para medir a diferença de
pressões em sistemas fluidos. Considere o manômetro conectado entre os recipientes A e
B da Fig. 2.11.

Figura 2.11 Manômetro diferencial em U.

A diferença entre as pressões em A e B pode ser determinada utilizando o mesmo


procedimento utilizado na solução do exemplo anterior. Deste modo, se a pressão em A é
pA (que e igual p1,), a pressão em (2) é igual a pA mais o aumento de pressão provocado
pela coluna de fluido do recipiente A (γl h1). A pressão em (2) é igual à pressão em (3). Já
a pressão em (4) e igual a p3 menos a pressão exercida pela coluna com altura h2. De
modo análogo, a pressão em (5) é igual a p4 menos γ3 h3. Finalmente, p5 = pB porque estes
pontos apresentam a mesma elevação. Resumindo,
p A + γ1h1 − γ 2 h 2 − γ 3 h 3 = p B 2.42
e a diferença de pressão é dada por
p A − p B = γ 2 h 2 + γ 3 h 3 − γ1h1 2.43
Analisando o problema de um outra forma, teríamos:
1. Listando as equações
p A = p1 2.44
p 2 = p1 + γ1h1 2.45
p 2 = p3 2.46

p3 = p 4 + γ 2 h 2 2.47

p 4 = p 5 + γ 3h 3 2.48

30
p5 = p B 2.49
2. Arrumando as equações
p 2 = p A + γ1h1 (-1) 2.50
p2 = p4 + γ 2h 2 2.51
p 4 = p B + γ 3h 3 2.52
3. Adequando o sistema de equações a diferença pA-pB, para isto multiplica-se a
equação 2.50 por -1 e somando as equações temos,
− p 2 = − p A − γ1h1 2.53
p2 = p4 + γ 2h 2 2.51
p 4 = p B + γ 3h 3 2.52

0 = −p A + p B − γ1h1 + γ 2 h 2 + γ 3 h 3 2.54
rearrajando,

p A − p B = γ 2 h 2 + γ 3 h 3 − γ1h1 2.43

Normalmente, os efeitos da tensão superficial nas várias interfaces do fluido


manométrico não são considerados. Note que, os efeitos da capilaridade se cancelam
(admitindo que as tensões superficiais e os diâmetros dos tubos de cada menisco são
iguais) no manômetro com tubo em U simples e que nós podemos tornar o efeito do
bombeamento capilar desprezível se utilizarmos tubos com diâmetro grande (em torno de
12 mm, ou maiores). Os dois fluidos manométricos mais utilizados são a água e o
mercúrio. Estes dois fluidos formam um menisco bem definido (é uma característica
importante para os fluidos manométricos) e apresentam propriedades bem conhecidas. É
claro que o fluido manométrico precisa ser imiscível nos fluidos que estão em contato
com ele. E interessante ressaltar que nós devemos tomar um cuidado especial com a
temperatura nas medições precisas porque os pesos específicos dos fluidos variam com a
temperatura.

31
Exemplo:

2.10 A água escoa através dos tubos A e B. Óleo, com densidade relativa 0,8,
encontra-se na parte superior do tubo em U invertido. O mercúrio encontra-
se no fundo das curvas do manômetro. Determine a diferença de pressão,
PA-PB, em unidades de Pa.

Figura E.2.10.1 Manômetro tipo tubo em U invertido.


Solução:
Transformando os valores de polegadas para metros, temos:
0,0254m
d1 = 10′′ × = 0,254m
1′′
d2 = 3” = 0,0762 m
d3 = 4” = 0,1016 m
d4 = 5” = 0,127 m
d5 = 8” = 0,2032 m

Figura E.2.10.2 Definição dos pontos de interface entre os líquidos.

32
Começando-se no ponto A e aplicando-se a equação 2.14 entre os pontos
sucessivos ao longo do manômetro, obtêm-se:

p C = p A + γ H 2 O d1 E.2.10.1

p C = p D + γ Hg d 2 E.2.10.2

p E = p D + γ Óleo d 3 E.2.10.3

p E = p F + γ Hg d 4 E.2.10.4

p F = p B + γ H 2Od5 E.2.10.5

Adequando o sistema de equações a diferença pA-pB, para isto multiplica-se as equações


E.2.10.1 e E.2.10.3 por -1 e somando as equações temos,
− p C = −p A − γ H 2 O d1 E.2.10.6

p C = p D + γ Hg d 2 E.2.10.2

− p E = −p D − γ Óleo d 3 E.2.10.3

p E = p F + γ Hg d 4 E.2.10.7

pF = pB + γH 2 O d5 E.2.10.5

PA − PB = − γ H 2 O d1 + γ Hg d 2 − γ Óleod 3 + γ Hg d 4 + γ H 2 O d 5 E.2.10.8

rearranjando:

PA − PB = γ H O (d 5 − d1 ) + γ Hg (d 2 + d 4 ) − γ Óleo d 3
2

Substituindo os valores numéricos;

PA − PB = 9.800(,2032 − 0,254) + (13,6 × 9.800)(0,0762 + 0,127 ) − (0,8 × 9.800) × 0,1016


E.2.10.9
PA − PB = −497,84 + 27.082,5 − 796,54

PA-PB=-25.788,12 Pa E.2.10.10

33
2.5.3 Manômetro com Tubo inclinado

O manômetro esboçado na Figura 2.12 é freqüentemente utilizado para medir


pequenas variações de pressão. Uma perna do manômetro é inclinada de um ângulo θ e a
leitura diferencial l2 é medida ao longo do tubo inclinado. Nestas condições, a diferença
de pressão pA-pB é dada por,

Figura 2.12 Manômetro com tubo inclinado.

p A + γ1h1 − γ 2 l 2senθ − γ 3 h 3 = p B 2.55


ou
p A − p B = γ 2 l 2 senθ + γ 3 h 3 − γ1h1 2.56

Note que a distancia vertical entre os pontos (1) e (2) e l2senθ. Assim, para ângulos
relativamente pequenos, a leitura diferencial ao longo do tubo inclinado pode ser feita
mesmo que o diferencial de pressão seja pequeno. O manômetro do tubo inclinado é
sempre utilizado para medir pequenas diferenças de pressão em sistemas que contendo
gases. Nestes casos,
p A − p B = γ 2 l 2 senθ 2.57
ou
p − pB
l2 = A 2.58
γ 2 senθ

34
porque as contribuições das colunas de gás podem ser desprezadas. A equação 2.58
mostra que a leitura diferencial, l2, do manômetro de tubo inclinado e 1/senθ vezes maior
do que aquela do manômetro com tubo em U. Lembre que sen θ → 0 quando θ → 0.

2.6 Dispositivos Mecânicos e Elétricos para a Medição de Pressão

Apesar dos manômetros com coluna de líquidos serem muitos utilizados, eles não
são adequados para medir pressões muita altas ou pressões que variam rapidamente com
o tempo e, além disso, a medida da pressão com estes dispositivos envolvem a medição
do comprimento de uma ou mais colunas de líquido. Apesar desta operação não
apresentar dificuldade, ela pode consumir um tempo significativo. Para solucionar alguns
destes problemas, numerosos outros tipos de medidores de pressão foram desenvolvidos.
A maioria deles é baseada no princípio de que todas as estruturas elásticas deformam
quando submetidas a uma pressão diferencial e que esta deformação pode ser relacionada
com o valor da pressão. Provavelmente, o dispositivo mais comum deste tipo e o
manômetro de Bourdon (veja a Fig. 2.13a). O elemento mecânico essencial neste
manômetro é o tubo elástico curvado (tubo de Bourdon) que está conectado a fonte de
pressão (Fig. 2.13A). O tubo curvado tende a ficar reto quando a pressão interna, no tubo,
aumenta. Apesar da deformação ser pequena, ela pode ser transformada num movimento
de um ponteiro localizado num mostrador. Como o movimento do ponteiro está
relacionado com a diferença entre a pressão interna do tubo e a do meio externo (pressão
atmosférica), a pressão indicada nestes dispositivos é relativa. O manômetro de Bourdon
precisa ser calibrado para que ele indique o valor da pressão em psi ou em pascal.
Lembre que uma leitura nula neste manômetro indica que a pressão medida é igual à
pressão atmosférica. Este tipo de manômetro pode ser utilizado tanto para medir pressões
negativas (vácuo) bem como pressões positivas.
O barômetro aneróide é um tipo de manômetro mecânico que é utilizado para
medir a pressão atmosférica. Como a pressão atmosférica é especificada como uma
pressão absoluta, o medidor de Bourbon não é indicado para este tipo de medição. O
barômetro aneróide contém um elemento elástico localizado num recipiente evacuado de
modo que a pressão interna no elemento é praticamente nula. Quando a pressão

35
atmosférica externa muda, o elemento deflete e altera a posição de um elemento
indicador (por exemplo, um ponteiro). Do mesmo modo que no manômetro de Bourdon,
o indicador pode ser calibrado para fornecer a pressão atmosférica diretamente em
milímetros de mercúrio.

Figura 2.13 (a) Manometros de Bourdon para várias faixas de pressão, (b)
Componentes do manômetro de Borbon – Esquerda: Tubo de Bourdon com formato em
“C” – Direita Tubo de Bourdon “mola de torção” utilizado para pedir pressões altas.

Existem muitas aplicações onde é necessário medir a pressão com um dispositivo


que converta o sinal de pressão numa saída elétrica. Um exemplo deste tipo de aplicação
é o acompanhamento contínuo da pressão, ao longo do tempo, num processo. Este tipo de
dispositivo é denominado transdutor de pressão. Existem muitos tipos de transdutores de
pressão e um deles é aquele onde o tubo de Bourdon está conectado a um transformador
linear diferencial variável (veja a Fig. 2.14). Note que o núcleo deste transformador esta
conectado a extremidade livre do tudo de Bourdon. Assim, a deformação do tubo de
Bourdon, provocada pela pressão, move a bobina e então obtemos uma tensão entre os
terminais de saída do transformador. A relação entre a tensão de saída e a pressão é linear
e os valores da tensão podem ser armazenados num oscilógrafo ou digitalizados para
armazenamento e processamento num computador.
Uma desvantagem do transdutor de pressão que utiliza o tubo de Bourdon como
sensor elástico é que a sua utilização esta limitada às aplicações onde à pressão é estável
ou que não apresente variações bruscas ao longo do tempo. O motivo para esta restrição,
ou seja, a incapacidade de acompanhar os transitórios rápidos, é a inércia relativamente
grande do tubo de Bourdon. O transdutor de pressão que utiliza um diafragma fino e

36
elástico como elemento sensor foi desenvolvido para superar esta dificuldade. Neste
transdutor, quando o valor da pressão altera, o diafragma deflete e esta deflexão é
convertida num sinal elétrico. Um modo de realizar esta conversão e instalar um
extensometro ("strain gage") na superfície do diafragma que não esta em contato com o
fluido ou num elemento solidário ao diafragma. Existem transdutores muito sensíveis
(conseguem detectar pequenas tensões induzidas pela deformação do diafragma) e que
fornecem uma tensão de saída proporcional à pressão.

Figura 2.14 Transdutor de pressão que combina um transformador linear


diferencial variável com um tubo de Bourdon.

Este tipo de transdutor pode ser utilizado para medir, com boa precisão, pressões
pequenas ou grandes e tanto pressões estáticas quanto variáveis. For exemplo, o
transdutor com extensometro do tipo mostrado na Fig. 2.15 é utilizado para medir a
pressão no sangue em artérias (que são pequenas e variam periodicamente com uma
freqüência próxima de 1 Hz). Nestas aplicações, o transdutor é normalmente conectado a
artéria por meio de um tubo de diâmetro pequeno (cateter) e que está preenchido com um
liquido fisiológico.

37
Figura 2.15. (a) Dois tipos de transdutores de pressão com extensômetros
utilizados para medir pressões fisiológicas. Os domos de plástico são preenchidos com
um fluido e conectados aos vasos de sangue através de uma agulha ou catéter. (b)
Diagrama do transdutor P23XL com o domo removido. A deflexão do diafragma,
provocada pelo diferencial de pressão, é medida com um eixo de silício aonde está
instalado um extensômetro e o circuito ponte associado.

Os transdutores com extensometro podem ser projetados para apresentar boa


resposta em frequencia (ate 10 kHz), mas o seu comportamento deteriora nas freqüências
mais alias porque o diafragma precisa ser mais rígido para alcançar uma resposta em

38
freqüência mais alta. Uma alternativa para o sensor de diafragma e a utilização de um
cristal piezelétrico como elemento elástico e sensor. Quando aplicamos uma pressão num
cristal piezelétrico, nós o deformamos e, como resultado, uma tensão elétrica,
diretamente relacionada à pressão aplicada, é desenvolvida. Este tipo de transdutor pode
ser utilizado para medir tanto pressões muito altas (até 6900 bar) quanto baixas e podem
ser utilizados nos casos onde as taxas de variação da pressão são alias.

2.7 Sistemas Hidráulicos

Os sistemas hidráulicos caracterizam-se por pressões muito elevadas. Como


consequência destas, as variações de pressão hidrostática podem ser frequentemente
desprezadas. Os freios hidráulicos de automóveis desenvolvem pressões de até 10 MPa
(l .500 psi); os sistemas de atuação hidráulica de aviões e máquinas são muitas vezes
projetados para pressões de até 30 MPa (4.500 psi) e os macacos hidráulicos usam
pressões de até 70 MPa (10.000 psi). Há equipamentos de testes de laboratórios, para fins
especiais, comercialmente disponíveis para emprego em pressões de até l.000 MPa
(150.000 psi).
Embora os líquidos sejam em geral considerados incompressíveis a pressões
comuns, as mudanças em massa específica podem ser apreciáveis a pressões elevadas. Os
módulos de compressibilidade dos fluidos hidráulicos também podem variar
acentuadamente a pressões elevadas. Nos problemas que envolvem escoamento não-
permanente, tanto a compressibilidade do fluido quanto a elasticidade da estrutura de
fronteira devem ser consideradas. A análise de problemas como ruído e vibração em
sistemas hidráulicos, atuadores e amortecedores torna-se rapidamente complexa e situa-se
além do escopo desta apostila.

2.7.1.Forças hidrostáticas sobre superfícies submersas

Uma vez que já determinamos a maneira pela qual a pressão varia num fluido
estático, podemos examinar a força que atua sobre uma superfície submersa num líquido.
A fim de determiná-la inteiramente, devemos especificar:
1. A magnitude da força.

39
2. O sentido da força.
3. A linha de ação da resultante
Consideraremos superfícies submersas planas.

2.7.1.1 Forças hidrostática sobre uma superfície plana submersa

A Fig. 2.16 mostra uma superfície plana submersa em cuja face superior
desejamos determinar a força hidrostática resultante. As coordenadas foram escolhidas de
modo que a superfície situa-se no plano xy.
Uma vez que não pode haver tensões de cisalhamento num fluido em repouso, a
força hidrostática sobre qualquer elemento da superfície deve ser normal a esta. A força
r
de pressão atuando sobre um elemento da face superior, dA = dxdyk̂ , é dada por
r r
dF = − pdA 2.59

Figura 2.16 Superfície plana submersa.

r
O sentido positivo do vetor dA é o da normal à área, traçada para fora.; o sinal
r
negativo na equação 2.59 indica que a força, dF , atua contra a superfície num sentido

40
r
contrário ao de dA . A força resultante atuando na superfície é encontrada somando-se as
contribuições infinitesimais em toda a área. Assim,

r r
FR = ∫ − pdA 2.60

A fim de avaliar a integral da 2.60, tanto a pressão, p, quanto o elemento de área,


r
dA , devem ser expressos em termos das mesmas variáveis. A relação básica entre
pressão e altura para um fluido estático pode ser escrita como

dp
= ρg 2.61
dh

onde h é positivo quando medido para baixo a partir da superfície livre do líquido. Então,
se a pressão na superfície livre (h = 0) for p0, poderemos integrar a relação entre pressão e
altura para obter uma expressão para a pressão, p, em qualquer profundidade, h. Então,
visto que ρ = constante,

h
p = p 0 + ∫0 ρgh = p 0 + ρgh 2.62

Como as superfícies estão submersas, podemos escrever,

p = ρgh 2.63

Esta expressão para p pode então ser levada à equação 2.60. A geometria da
superfície está expressa em termos de x e y, como a profundidade, h, pode sê-lo em
termos de y, isto é, h = y sen θ, a equação pode ser integrada para a determinação da
força resultante. Assim, com os dados já apresentados pode-se calcular a magnitude da
força.
O ponto de aplicação da força resultante deve ser tal que o seu momento em
relação a qualquer eixo seja igual ao momento da força distribuída em relação ao mesmo

41
eixo. Se o vetor posição de uma origem arbitrária de um sistema de coordenadas ao ponto
r
de aplicação da resultante for denominado r ′ , segue-se que

r r r r
r ′ × FR = ∫ r ′ × pdA 2.64

r r r
Referindo-nos a Fig. 2.16, veremos que r ′ = î x ′ + ˆjy′ , r = î x + ˆjy e dA = dAk̂ .
r
Uma vez que a força resultante, FR , atua contra a superfície (num sentido oposto ao de
r r
dA ), então FR = − FR k̂ . Substituindo na equação 2.64, obtemos

(îx′ + ĵy′)× −FR k̂ = ∫ (îx + ˆjy)× pdAk̂ 2.65

Avaliando o produto vetorial, temos

R R ∫ (
ˆjx′F − î y′F = ˆjxp − îyp dA ) 2.66

Esta é uma equação vetorial: assim, separando os componentes

y′FR = ∫ ypdA 2.67a


e
x ′FR = ∫ xpdA 2.67b
onde x' e y' são as coordenadas do ponto de aplicação da resultante. Note que as equações
2.60 e 2.64 podem ser usadas para determinar a magnitude da resultante e o seu ponto
de aplicação em qualquer superfície plana submersa. Elas não requerem que a massa
específica seja constante ou que a superfície livre do líquido esteja sob pressão
atmosférica.
As equações 2.60 e 2.67 são expressões matemáticas de princípios básicos
familiares, de cursos anteriores de física e estática:
1. A resultante é a soma de forças infinitesimais (equação 2.60).
2. O momento da resultante em relação a qualquer eixo é igual ao momento das
forças distribuídas em relação ao mesmo eixo (equações 2.67).

Ao avaliar a força hidrostática atuante sobre uma superfície plana submersa,


utilizamos notação vetorial a fim de enfatizar que forças e momentos são quantidades

42
vetoriais. Uma vez que todos os elementos da força são paralelos, o emprego de vetores
não é essencial. Resumindo:

1. A magnitude da força resultante é dada por


r
FR = FR = ∫ pdA 2.68

2. A direção da força resultante é normal à superfície.

3. Para uma superfície no plano xy, a linha de ação da força resultante passa
pelo ponto x´, y´(o centro de pressão), onde

x ′FR = ∫ xpdA e y′FR = ∫ ypdA 2.67

2.7.1.2 Obtenção das Equações da Força de Pressão e do seu Ponto de


Aplicação sobre uma superfície plana submersa

Considere uma superfície plana submersa livre à pressão atmosfera. Usando a


notação da Fig. 3.5 (a) mostre que a força hidrostática agindo na face superior de
qualquer superfície plana é igual à pressão no seu centro de gravidade multiplicada pela
área da superfície e (b) deduza expressões para as coordenadas do centro de pressão em
termos dos parâmetros geométricos da superfície.
Solução:
Uma superfície plana submersa conforme mostrado, com centro de gravidade da
área xc, yc. A superfície livre está à pressão ambiente (pressão manométrica nula).
Mostraremos que FR = pCA e determinaremos expressões para as coordenadas
do centro de pressão.

Sabendo que:
r
FR = FR = ∫ pdA 2.68

Para fluido incompressível, sendo h = 0, p = p0, temos:

43
p = p 0 + ρgh 2.69

FR é então:

FR = ∫ pdA = ∫ (p 0 + ρgh )dA = ∫ (p 0 + ρgysenθ)dA 2.70


A A A

FR = p 0 ∫ dA + ρgsenΘ ∫ ydA = p 0 A + ρgsenθ ∫ ydA 2.71


A A A

A integral é o momento de 1ª ordem (momento de primeira ordem da área) em


relação ao eixo x. Deste modo podemos escrever

∫ ydA = y c A 2.72
A

Onde: yc é a coordenada do centro de gravidade da área.

Logo,

FR = p 0 + γsenθy c A = (p 0 + ρgh c )A = p c A 2.73

Onde:
pc é a pressão atuante no líquido no centro de gravidade de A. Este resultado é
válido para qualquer pressão, p0, na superfície livre. Quando p0 é a pressão atmosférica
(pressão manométrica nula) e atua em ambos os lados da superfície, ela não contribui
para a força hidrostática líquida, podendo ser cancelada.
hc é a distância vertical entre a superfície livre do fluido e o centróide da área.
No que a força resultante, FR, não é função de θ, mas FR = FR (γ, A, hc).
Para acharmos expressões para as coordenadas do centro de pressão,
reconhecemos que o momento resultante em relação a qualquer eixo deve ser igual ao

44
momento da força distribuída em relação ao mesmo eixo. Tomando os momento em
relação ao eixo dos x, temos

y′FR = ∫ ypdA 2.67a


A

Apesar de nossa intuição sugerir que a força resultante deveria passar através do
centróide da área este não é o caso.

Substituindo: FR = ρgsenθyc A; p = ρgh, e h = ysenθ

y′ρgsenθy c A = ∫ yρghdA = ∫ yρgysenθdA = ρgsenθ ∫ y 2dA 2.74


A A A

Assim,

y′y c A = ∫ y 2dA 2.75


A

2
∫ y dA
A
y′ = 2.76
yc A

Reconhecendo que:

2
∫ y dA = I x é momento de inércia da área em relação ao eixo x, concluímos que
A

Ix
y′ = 2.77
yc A

Do teorema dos eixos paralelos, I x = I xc + Ayc2 onde Ix é momento de inércia da


área em relação ao eixo x que passa pelo centro de gravidade,

45
I xc
y′ = + yc 2.78
ycA

x´ pode ser determinada de modo análogo, ou seja, tomando-se os momentos


em relação ao eixo y, temos

x ′FR = ∫ xpdA 2.67b


A

Substituindo: FR = ρgsenθyc A; p = ρgh, e h = ysenθ , resulta em

x ′yρgsenθy c A = ∫ xρghdA = ∫ xρgysenθdA = ρgsenθ ∫ xydA 2.79


A A A

Reconhecendo que ∫ xydA = I xy é o produto de inércia da área, obtemos


A

I xy
x′ = 2.80
ycA

Do teorema dos eixos paralelos, I xy = I xyc + Ax c y c onde Ix é momento de inércia

da área em relação ao eixo x que passa pelo centro de gravidade,

I xyc
x′ = + xc 2.81
yc A
Todas estas coordenas podem ser melhor compreendidas através de uma breve
observação na Fig. 17.

46
Figura 17 Força hidrostática numa superfície plana, inclinada e com formato
arbitrário.

As coordenadas do centróide e os momentos de inércia para algumas figuras


geométricas usuais são apresentados a seguir:

a b

47
c d

e
Figura 2.18 Propriedades geométricas de algumas figuras.

Portanto, deste pondo do texto, podemos tanto resolver problemas através da


aplicação da integral na forma apresentada no Item 2.7.1.1 ou através das figuras
geométricas apresentadas na Fig. 2.18 sendo incorporadas às equações desenvolvidas no
Item 2.7.2.2. Os dois exemplos a seguir, ilustram estes procedimentos.
Exemplo:
2.11 A superfície inclinada mostrada, articulada ao longo de A, tem 5 m de
r
largura..Determine a Força resultante FR , da água sobre ela.

Figura E.2.11 Superfície plana submersa com área retangular.

48
r
Solução: A fim de determinar FR ,devemos especificar:
a)sua magnitude;
b)seu sentido e;
c)sua linha de ação.
Equações básicas:
r r dp
FR = − ∫ pdA = ρg E.2.11.1
dh
Considere a comporta, articulada em A, no plano xy,com coordenadas conforme
mostrado.
r r dp
FR = − ∫ pdA = − ∫ pwdyk̂ E.2.11.2
dh A
sendo:
r
(dA = wdyk̂ ) E.2.11.3

Agora necessitamos de p como função de y a fim de executar a integração.


Da relação básica, entre pressão e altura,
dp
= ρg E.2.11.4
dh
logo
dp = ρgdh E.2.11.5
e
p h
∫ dp = ∫ ρgdh E.2.11.6
pa 0

Supondo ρ = constante,
p = p a + ρgh E.2.11.7

O que dá p = p(h). Precisamos de p = p(y)


Do diagrama,
h = D + sen 30° E.2.11.8
onde D = 2m

49
Uma vez que estamos interessados na força resultante da água sobre a
comporta,desprezamos pa e obtemos
p = ρg(D + ysen30°) E.2.11.9
Note que a face inferior da comporta está exposta á atmosfera e sujeita também a
pa.Assim,
r r L
FR = − ∫ pdA = − ∫ ρg (D + ysen30°)wdyk̂ E.2.11.10
A 0
L
r  y2  r  L2 
FR = ρgw D y + sen 30° k = −ρgw DL + sen30° k̂ E.2.11.11
 2   2 
0

r kg m  16m 2 1  Ns 2
FR = 999 x9,81 x 5m 2mx 4m + x  k̂ E.2.11.12
m3 s2  2 2  kg.m

r
FR = −588k̂kN E.2.11.13
r
A força atua no sentido z negativo, FR
r
Para achar a linha de ação da resultante, FR ,reconhecemos que aquela deve ser
tal que o momento da resultante em relação a qualquer eixo deve ser igual ao momento
da força distribuída em relação ao mesmo eixo.Considerando os momentos em relação ao
eixo dos x passando pelo ponto A(0,0,0),obtemos
FR y ′ = ∫ ypdA E.2.11.14
A
Então

1 1 L ρgw  DL2 L3 
y′ = ∫ ypdA = ∫ ypwdy =  + sen30° E.2.11.15
FR A FR 0 FR  2 3 

kg m 5m  2mx16m 2 64m 3 1  N.s 2


= 999 x 9,81 x  + X  E.2.11.16
m3 s 2 5,88x10 5 N  2 3 2  kg.m

y′ = 2,22m E.2.11.17

50
Este exemplo ilustra o procedimento empregado para determinar a força
r
resultante, FR , equivalente a uma força distribuída numa superfície plana submersa.
Exemplo:
2.12 A Figura E.2.11.1 mostra o esboço de uma comporta inclinada que está
localizada num grande reservatório de água (γ = 9,80 kN/m3). A comporta está
montada num eixo que corre ao longo do diâmetro horizontal da comporta. Se o
eixo está localizado a 10 m da superfície livre, determine: (a) o módulo e o ponto
de aplicação da força resultante na comporta, e (b) o momento que deve ser
aplicado no eixo para abrir a comporta.

Como a distância vertical entre o centróide e a superfície livre d’água é 10 m,


temos,

FR = p c A = γh c A = (9.800 × 10x 4π) = 1,23 × 10 6 N = 1,23MN E.2.12.1

51
Nós podemos utilizar as equações 2.78 e 2.81 para localizar o ponto de aplicação
da força resultante (centro de pressão).
I xc
y′ = + yc 2.78
yc A

I xyc
x′ = + xc 2.81
yc A
Para o sistema de coordenadas mostrado, x’ = 0 porque a superfície da comporta é
simétrica e o centro de pressão precisa estar localizado ao longo da linha A-A. Note que a
Figura 2.18 fornece

πR 4 π2 4
I xc = = = 12,57m 4 E.2.12.2
4 4
e como yc é mostrado na Fig. E.2.12.1b e é dado por
hc 10
yc = = = 11,55m E.2.12.3
sen 60° sen 60°
Como A = 4π =12,57 m2, temos,

12,57
y′ = + 11,55 = 0,0866 + 11,55 = 11,6m E.2.12.4
11,55 × 12,57
A distância entre o eixo da comporta e o centro de pressão (ao longo da comporta)
é
y′ − y c = 0,0866m E.2.12.5
Nós podemos concluir que a força que atua sobre a comporta apresenta módulo
igual a 1,23 MN, atua num ponto localizado a 0,0866 m abaixo da linha do eixo e
pertencente linha A-A. Lembre que a força é perpendicular a superfície da comporta.
(b) O momento necessário para abrir a comporta pode ser obtido com o diagrama
de corpo livre mostrado na Fig. E.2.12.1c onde W é o peso da comporta e Ox e Oy são as
reações horizontal e vertical do eixo da comporta. Nós podemos agora somar os
momentos em torno do eixo da comporta
∑ Mc = 0 E.2.12.6
Deste modo,

52
( )
M = FR (y ′ − y c ) = 1,23 × 10 6 (0,0866)1,07 × 10 5 N ⋅ m E.2.12.7

2.7.2 Prisma as pressões

Nós apresentaremos, nesta seção, o desenvolvimento de uma interpretação gráfica


da força desenvolvida por um fluido numa superfície plana. Considere a distribuição de
pressão ao longo de uma parede vertical de um tanque com largura b e que contém um
líquido que apresenta peso específico γ. Nós podemos representar a variação de pressão
do modo mostrado na Fig. 2.19a porque a pressão varia linearmente com a profundidade.
Note que a pressão relativa é nula na superfície livre do líquido, igual a γ h na superfície
inferior do líquido e que a pressão média ocorre num plano com profundidade h/2. Assim,
a força resultante que atua na área retangular A = bh é uma interpretação gráfica da força
desenvolvida por um fluido em uma superfície plana.
Considere a distribuição de pressão ao longo de uma parede vertical de um tanque
com largura b e que contém um líquido que apresenta peso específico γ.

h
FR = p med A = ρg A 2.82
2

Figura 2.19 Prisma de pressões para uma superfície retangular plana.

53
Este resultado é igual ao obtido pela equação 2.73. A distribuição de pressão
mostrada na Fig. 2.19a é adequada para toda a superfície vertical e, então, nós podemos
representar tridimensionalmente a distribuição de pressão do modo mostrado na Fig.
2.19b. A base deste "volume" no espaço pressão - área é a superfície plana que estamos
analisando e a altura em cada ponto é dada pela pressão. Este "volume" é denominado
prisma das pressões e é claro que o módulo da forca resultante que atua na superfície
vertical é igual ao volume deste prisma. Assim, a força resultante para o prisma mostrado
na Fig. 2.19b é

1 h
FR = volume = p med A = ρgh (bh ) = ρg  A 2.83
2 2

onde bh é a base da superfície retangular vertical.

A linha de ação da força resultante precisa passar pelo centróide do prisma das
pressões. O centróide do prisma mostrado na Fig. 2.19b está localizado no eixo vertical
de simetria da superfície vertical e dista h/3 da base (porque o centróide de um triângulo
está localizado a h/3 de sua base). Note que este resultado está consistente com aqueles
obtidos com as equações 2.78 e 2.81.
A mesma abordagem gráfica pode ser utilizada nos casos onde a superfície plana
está totalmente submersa (veja a Fig. 2.20). Nestes casos, a seção transversal do prisma
das pressões é um trapézio. Entretanto, o módulo da força resultante que atua sobre a
superfície ainda é igual ao volume do prisma das pressões e sua linha de ação passa pelo
centróide do volume. A Fig. 2.20b mostra que o módulo da força resultante pode ser
obtido decompondo o prisma das pressões em duas partes (ABDE e BCD). Deste modo,

FR = F1 + F2 2.84

54
Figura 2.20 Representação gráfica das forças hidrostáticas que atuam numa
superfície retangular.

e este componentes podem ser determinados facilmente. A localização da linha de ação


de FR pode ser determinada a partir da soma de seus momentos em relação a algum eixo
conveniente. Por exemplo, se utilizarmos o eixo que passa através de A temos,

FR y A = F1y1 + F2 y 2 2.85

Se utilizarmos o eixo que passa através de A, temos,


y1 = (AE)/2 (altura do centróide do retângulo)
y2 = (AE)/3 (altura do centróide do triângulo)

O prisma das pressões também pode ser desenvolvido para superfícies planas
inclinadas e, geralmente, a seção transversal do prisma será um trapézio (veja a Fig. 2.21).
Apesar de ser conveniente medir as distâncias ao longo da superfície inclinada, a pressão
que atua na superfície é função da distância vertical entre o ponto que está sendo
analisado e a superfície livre do fluido.
A utilização do prisma das pressões para determinar a força em superfícies planas
submersas é conveniente se a superfície é retangular de modo que o volume e o centróide
do prisma possam ser determinados facilmente. Entretanto, quando o formato da
superfície não é retangular, a determinação do volume e a localização do centróide são

55
realizadas por integração. Nestes casos, é mais conveniente utilizar as equações
desenvolvidas na seção anterior que são adequadas para superfícies planas de qualquer
formato.

Figura 2.21 Variação de pressão ao longo de uma superfície plana e inclinada.

O efeito da pressão atmosférica na superfície submersa ainda não foi considerado


e nós podemos perguntar de que modo esta pressão influencia a força resultante. Nós
consideraremos novamente a distribuição de pressão numa parede vertical plana como
aquela mostrada na Fig. 2.22a. Note que a pressão relativa varia de zero, na superfície
livre do fluido, até γ h no fundo do tanque. Se nós atribuirmos o valor zero para a pressão
na superfície livre do fluido nós estamos utilizando o valor da pressão atmosférica como
referencial e, deste modo, nós estamos calculando as forças resultantes com pressões
relativas. Se nós desejarmos incluir a pressão atmosférica, a nova distribuição de pressão
é a mostrada na Fig. 2.22b. Nós notamos que, neste caso, a resultante da força que atua
no lado da parede em contato com o fluido é uma superposição da resultante da
distribuição de pressão hidrostática com a da pressão atmosférica (patm A, onde A é a área
da superfície). Entretanto, se nós vamos incluir o efeito da pressão atmosférica no lado da
superfície que está em contato com o fluido nós também devemos considerá-la no outro
lado (admitindo que o outro lado da superfície esteja exposto a atmosfera). Note que a
pressão atmosférica produz na superfície que não está em contato com o fluido uma força
de mesmo módulo e direção da força resultante devida à pressão atmosférica no lado que
está em contato com o fluido e que os sentidos destas forças são opostos (veja a Fig. 2.1).

56
Assim, nós concluímos que a força resultante com que o fluido atua na superfície é
devida apenas à pressão relativa - a pressão atmosférica não contribui para esta resultante.
De fato, se a pressão na superfície do líquido for diferente da atmosférica (como o que
ocorre num tanque fechado e pressurizado), a força resultante que atua numa área
submersa A será igual a superposição da força devida a distribuição hidrostática com psA,
onde ps é a pressão relativa na superfície do líquido (nós admitimos que o outro lado da
superfície está exposto a atmosfera)

Figura 2.22 Efeito da pressão atmosférica sobre a força resultante que atua numa
superfície plana vertical.

Exemplo:
2.13 A figura abaixo mostra o esboço de um tanque pressurizado que contém
óleo (SG = 0,9) e que apresenta uma placa de inspeção quadrada com 0,6 m de
lado. Qual é o módulo e localização da linha de ação da FR que a tua na placa
quando a pressão relativa no topo do tanque é igual a 50 kPa. Admita que o
tanque esta exposto a atmosfera.
Solução: A figura E2.13.1b mostra a distribuição de pressão na superfície da placa. A
pressão num dado ponto da placa é composta por uma parcela devida a pressão do ar
comprimido na superfície do óleo, ps, e outra devida a presença do óleo (que varia

57
linearmente com a profundidade). Nós vamos considerar que a força resultante na placa
com área, A, é composta pelas forças F1 e F2.

Figura E.13.1 Esboço de um tanque pressurizado.

[( )( )]
F1 = (p s + γh1 )A = 50 × 10 3 + 0,9 × 9,81 × 10 3 × 2 (0,36) = 24,4 × 10 3 N E.2.13.1
e

 h − h1 
F 2 = γ 2
 2 

(
A =  0,9 × 9,81 × 10 

)
3  0,6 (0,36) = 0,95 × 10 3 N
 2 
 

E.2.13.2

O módulo da força resultante, FR, é

FR = F1 + F2 = 25,4 × 10 3 N = 25,4kN E.2.13.3

58
A localização vertical do ponto de aplicação de FR pode ser obtida somando os
momentos em relação ao eixo que passa através do ponto O. Assim,
FR y 0 = F1 (0,3) + F2 (0,2) E.2.13.4

ou

y0 =
[(24,4 ×103 )(0,3)]+ [(0,95 ×103 )(0,2)] = 0,296m E.2.13.5
25,4 × 103
A força resultante atua num ponto situado a 0,296 m acima da borda inferior da
placa e no eixo vertical de simetria da placa.
Note que a pressão do ar comprimido utilizado neste exemplo é relativa. O valor
da pressão atmosférica não afeta a força resultante (tanto o módulo quanto direção e
sentido) porque ela atua nos dois lados da placa e seus efeitos são cancelados.

2.8 Principio de Arquimedes

Uma das histórias mais conhecidas sobre os trabalhos do grande filósofo,


matemático e físico Arquimedes viveu no século III a.C., na cidade de Siracusa, uma
colônia grega situada na Sicília (Sul da Itália). Refere-se à genial solução dada por ele ao
"problema da coroa do Rei Hieron".

O rei havia prometido aos deuses, que protegeram em


suas conquistas, uma coroa de ouro. Entregou, então,
certo peso de ouro a um ourives para que este
confeccionasse a coroa. Quando o ourives entregou a
encomenda, com o peso igual ao do ouro que Hieron
havia fornecido, foi levantada a acusação de que ele
teria substituído certa porção de ouro por prata.
Arquimedes foi encarregado, pelo rei, de investigar se
esta acusação era, de fato, verdadeira.

Conta-se, que ao tomar banho (em um banheiro


público) observando a elevação da água a medida que

59
mergulhava seu corpo , percebeu poderia resolver o problema. Entusiasmado, saiu
correndo para casa, atravessando as ruas completamente despido e gritando a palavra
grega que se tornou famosa: "Eureka! Eureka!" (isto é: "Achei! Achei").

E realmente Arquimedes conseguiu resolver o problema da seguinte maneira:

1º - Mergulhou em um recipiente completamente cheio d'água uma massa de ouro puro,


igual à massa da coroa, e recolheu à água que transbordou.

2º - Retomando o recipiente cheio d'água, mergulhou nele uma massa de prata pura,
também igual da coroa, recolhendo a água que transbordou. Como a densidade da prata é
menor do que a do ouro, é fácil perceber que o volume de água recolhido, nesta operação,
era menor que a anterior.

3º - Finalmente, mergulhou no recipiente cheio d'água a coroa em questão, constatou que


o volume de água recolhido tinha um valor intermediário entre aqueles recolhidos na 1º e
na 2º operação. Ficou, assim, evidenciado que a coroa não era realmente de ouro puro.
Comparando os três volumes de água recolhidos. Arquimedes conseguiu, até mesmo,
calcular a quantidade de ouro que o ourives substituiu por prata.

2.81 O que é Empuxo

Quando mergulhamos um corpo qualquer em


um líquido, verificamos que este exerce,
sobre o corpo uma força de sustentação, isto
é uma força dirigida para cima, que tende a
impedir que o corpo afunde no líquido. Você
já deve ter percebido a existência desta força
ao tentar mergulhar, na água um pedaço de
madeira, por exemplo. É também esta força que faz com que uma pedra pareça mais leve
quando imersa na água ou em outro líquido qualquer.

60
Esta força vertical, dirigida para cima, é denominada empuxo do líquido sobre o
corpo mergulhado.

2.8.2 Porque aparece o empuxo

Consideramos um corpo mergulhado em um


líquido qualquer. Como já sabemos, o líquido exercerá
forças de pressão em toda a superfície do corpo em
contato com este líquido. Como a pressão aumenta
com a profundidade, as forças exercidas pelo líquido,
na parte inferior do corpo, são maiores do que as
forças exercidas na parte superior. A resultante destas
forças, portanto, deverá ser dirigida para cima. É esta
resultante que representa o empuxo que atua no corpo, tendendo a impedir que ele afunde
no líquido.

Observe, então que a causa do empuxo é o fato de a pressão aumentar com a


profundidade. Se as pressões nas partes superiores e inferior do corpo fossem iguais às
forças de pressão seriam nulas e não existiria o empuxo sobre o corpo.

Realizando experiências cuidadosas, descobriu uma maneira de calcular o


empuxo que atua em corpos mergulhados em líquidos. Suas conclusões foram expressas
através de um princípio, denominado Princípio de Arquimedes, cujo enunciado é o
seguinte: "todo corpo mergulhado em um líquido recebe um empuxo vertical, para cima,
igual ao peso do líquido deslocado pelo corpo". Observe que este princípio nos mostra
como calcular o valor do empuxo, isto é,

O valor do empuxo, que atua em um corpo mergulhado em um líquido, é igual


ao peso do líquido deslocado pelo corpo.

O empuxo que atua em um corpo é tanto maior quanto maior for a quantidade de
líquido deslocado (Fig. 2.23).

61
Figura 2.23 Relação entre empuxo e forças superficiais.

2.8.3 Condições para um corpo flutuar em um líquido

Se um corpo está totalmente mergulhado em


um líquido, seu peso é igual ao empuxo que
ele está recebendo (E=P). Neste caso, será
nula a resultante destas forças e o corpo
ficará em repouso na posição em que foi
abandonado. É isto que acontece com um submarino submerso, em repouso, a uma certa
profundidade.

O valor do empuxo é menor do que o peso do corpo (E<P).


Neste caso, a resultante destas forças estará dirigida para
baixo e o corpo afundará, até atingir o fundo do recipiente.

62
É isto o que acontece quando, por exemplo, abandonarmos uma pedra dentro d'água.

O valor do empuxo é maior do que o peso do corpo (E>P).


Neste caso, a resultante destas forças estará dirigida para
cima e o corpo sobe no interior do líquido. É isto o que
acontece quando, por exemplo, abandonarmos uma bloco
de madeira no interior de um líquido. O bloco de madeira
ira submergir até que a resultante das forças se iguale, ou
seja (E=P), assim, nesta posição é que o corpo flutuará, em
equilíbrio.

Destas considerações podemos


concluir que, quando uma navio está
flutuando, em equilíbrio, na água, ele está
recebendo um empuxo cujo valor é igual
ao seu próprio peso, isto é, o peso do navio
está sendo equilibrado pelo empuxo que

ele recebe da água.

2.8.4 O empuxo e a massa específica


Consideremos um corpo sólido cilíndrico circular de área da base A e altura h
totalmente imerso num fluido em equilíbrio (Fig. 2.24), cuja densidade é ρ.

Por simetria, vemos que as forças sobre a superfície lateral do cilindro se


equilibram de duas a duas [pressões (p, p) ou (p', p') na Fig. 2.24]. Entretanto, a pressão
p2 exercida pelo fluido sobre a base inferior é maior do que a pressão p1 sobre a base
superior.

63
Figura 2.24 Principio de Arquimedes

Pela equação,
p 2 − p1 = ρgh 2.86
Logo, a resultante das forças superficiais exercidas pelo fluido sobre o cilindro será uma
força vertical E = Ek dirigida para cima, com
E = p 2 A − p1 A = ρVg = mg 2.87
onde V = hA é o volume do cilindro e m = ρ V é a massa de fluido deslocada pelo
cilindro.
Por conseguinte, a força E, que se chama empuxo é dada por:
E = mgk̂ = − Pf 2.88
onde Pf é o peso da porção de fluido deslocada.
Suponhamos que o corpo sólido imerso fosse totalmente substituído pelo fluido.
O volume de fluido que ele deslocou estaria em equilíbrio com o resto do fluido. Logo, a
resultante das forças superficiais que atuam sobre a superfície S desse volume tem de ser
igual e contrária a resultante das forças volumétricas que atuam sobre ele, ou seja, ao
peso da porção de fluido deslocada. As pressões superficiais não se alteram se
imaginarmos a superfície S "solidificada". Logo, a resultante das forças superficiais sobre
o sólido é igual e contrária ao peso da porção de fluido deslocada.

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Este raciocínio mostra que o resultado não depende da forma do sólido imerso,
que havíamos tomado como sendo um cilindro.
Como, para o fluido substituído, E e Pf que se equilibram, estão aplicados no
centro de gravidade C da porção de fluido substituída (Fig. 2.25, (a)), concluímos que o
empuxo E sobre o sólido esta aplicado no ponto C (Fig. 2.25 (b)), que se chama centro de
empuxo.

Figura 2.25 Esboço do equilíbrio de forças em um corpo submerso.

Além do empuxo (resultante das forças superficiais), atua sobre o sólido, como
força volumétrica, o peso P, aplicado no centro de gravidade G do sólido. Se a densidade
média do sólido é menor que a do liquido, ele não pode ficar totalmente imerso, porque
isto daria |E| > |P|; ele ficará então flutuando, com o empuxo devido a porção imersa
equilibrando o peso do sólido. Obtivemos assim o enunciado geral do Principio de
Arquimedes:
Um corpo total ou parcialmente imerso num fluido recebe do fluido um empuxo
igual e contrário ao peso da porção de fluido deslocada é aplicado no centro de gravidade
da mesma.

Exemplo
2.14 Uma baleia pesa 5,4 x 105 N. Determine o empuxo requerido para suportar
a baleia no seu "habitat" natural, o oceano, quando ela está completamente
submersa. Assuma que a densidade da água do mar é 1030 kg m-3 e que a

65
densidade da baleia ρbaleia é aproximadamente igual a densidade da água (ρ água =
1000 kg m-3)
Solução:
O volume da baleia pode ser determinado por
P
m = ρ.V = E.2.14.1
g
Resolvendo para .V , temos
Pbaleia
Vbaleia = E.2.14.2
ρ baleia ⋅ g
substituindo os valores,

5,4 × 10 5 N
Vbaleia = = 55,1m 3 E.2.14.3
( )(
1000kg / m 3 9,8m / s 2 )
A baleia desloca 55,1 m3 de água quando submersa. Portanto, o empuxo E, que é igual ao
peso da água deslocada, é dado por
E = Págua ⋅do ⋅ mar = ρ água ⋅do⋅mar ⋅ g ⋅ Vbaleia E.2.14.4

( )( )( )
E = 1030kg / m 3 9,8m / s 2 55,1m 3 = 5,6 × 10 5 N E.2.14.5

Exemplo:

2.15 Numa atração circense, pergunta-se para estimar o número de moedas


submersas num grande reservatório de água. Suponha que um reservatório de 1
litro estava cheio de moedas de massas m = 0,5 kg, tal que 0,5 litro de água fora
deslocada. Determine o número de moedas no reservatório, assumindo a
densidade da moeda como 8,9 g cm-3
Solução:
Dado que a massa da moeda é m = 0,5 g e a densidade é ρ = 8,9 g cm-3, o volume de uma
única moeda é

66
m moeda
Vmoeda = E.2.15.1
ρ moeda
substituindo os valores

5 × 10 − 4 kg
Vmoeda = = 5,62 × 10 − 8 m 3 E.2.15.2
8.900kg / m 3
O número de moedas é assim dado por

Vdeslocado 5 × 10 − 4 m 3
N moedas = = = 8896 ⋅ moedas .
Vmoeda 5,62 × 10 − 8 m 3

2.8.5 Equilíbrio dos corpos flutuantes:


Na posição de equilíbrio, não só a resultante de E (empuxo) e P (peso do corpo)
tem de ser nula, mas também o torque resultante, o que exige que o centro de empuxo C e
o centro de gravidade G do corpo estejam sobre a mesma vertical.

Figura 2.26 — Posição de equilíbrio

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