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MARIANE SUZZE PEREIRA

O SAMBA COMO EXPRESSÃO DIALÉTICA DE VALORES


NA SOCIABILIDADE BRASILEIRA NA DÉCADA DE 1970:
CONFORMISMO E RESISTÊNCIA

Londrina
2020
MARIANE SUZZE PEREIRA

O SAMBA COMO EXPRESSÃO DIALÉTICA DE VALORES


NA SOCIABILIDADE BRASILEIRA NA DÉCADA DE 1970:
CONFORMISMO E RESISTÊNCIA

Dissertação de mestrado apresentada ao


Programa de Pós Graduação em Serviço
Social e Política Social do Departamento de
Serviço Social da Universidade Estadual de
Londrina, como requisito à obtenção do título
de mestre em Serviço Social e Política Social.

Orientador: Profa. Dra. Olegna de Souza


Guedes

Londrina
2020
MARIANE SUZZE PEREIRA

O SAMBA COMO EXPRESSÃO DIALÉTICA DE VALORES NA


SOCIABILIDADE BRASILEIRA NA DÉCADA DE 1970:
CONFORMISMO E RESISTÊNCIA

Dissertação de mestrado apresentada ao


Programa de Pós Graduação em Serviço
Social e Política Social do Departamento de
Serviço Social da Universidade Estadual de
Londrina, como requisito à obtenção do título
de mestre em Serviço Social e Política Social.

BANCA EXAMINADORA

Orientadora Professora. Drª. Olegna de Souza Guedes


Universidade Estadual de Londrina – UEL

Professor Dr. Rozinaldo Antonio Miani (co-orientador)


Universidade Estadual de Londrina-UEL

Professora Drª. Andrea Pires Rocha (membro interno)


Universidade Estadual de Londrina- UEL

Professor Doutor Marcelo Braz Moraes dos Reis (membro externo)


Universidade Federal do Rio Grande do Norte- UFRN

Londrina, 30 de abril de 2020.


Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor, através do Programa de Geração
Automática do Sistema de Bibliotecas da UEL

Pereira, Mariane Suzze .


O SAMBA COMO EXPRESSÃO DIALÉTICA DE VALORES NA
SOCIABILIDADE BRASILEIRA NA DÉCADA DE 1970: : CONFORMISMO E
RESISTÊNCIA / Mariane Suzze Pereira. - Londrina, 2020.
231 f. : il.

Orientador: Olegna de Souza Guedes.


Coorientador: Rozinaldo Antonio Miani.
Dissertação (Mestrado em Serviço Social e Política Social) - Universidade
Estadual de Londrina, Centro de Estudos Sociais Aplicados, Programa de Pós-
Graduação em Serviço Social e Política Social, 2020.
Inclui bibliografia.

1. Conservadorismo - Tese. 2. Autocracia burguesa no Brasil - Tese. 3.


Samba na década de 1970 - Tese. I. de Souza Guedes, Olegna . II. Antonio Miani,
Rozinaldo. III. Universidade Estadual de Londrina. Centro de Estudos Sociais
Aplicados. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Política Social. IV.
Título.
CDU 36
Aos que foram de aço nos anos de chumbo!
AGRADECIMENTOS

As aulas da professora Olegna me trouxeram um ensinamento principal: o de


que “uma andorinha só não fazer verão1. E é por isso que faço questão de, neste
trabalho, agradecer a cada “andorinha” amiga que me presenteou com um pedaço de
seu tempo com contribuições que sem as quais não seria possível a conclusão desta
pesquisa. A construção do conhecimento no materialismo histórico dialético, além de se
pautar na realidade concreta, se pauta em um trabalho coletivo, donde nada é tão
somente meu, mas “nosso”.
Assim, meus agradecimentos vão primeiro àqueles que inspiraram o
fortalecimento deste sentimento de revolta frente ao culto do irracional, tão em voga
neste país, àqueles que me mostraram, a cada dia, que para que se possa
compreender essências é preciso olhar além do aparente: meus professores, desde
aqueles do ensino fundamental, passando pelo ensino médio até os professores da
graduação e pós graduação do Serviço Social. Agradeço a todos os professores que
me iluminaram os caminhos; em especial à Claudinha, Sandra Loureço, Kathiucia,
Daniela Emilena, Denise Fank, Jolinda, e Milene Secon. Agradeço também aos meus
companheiros de mestrado pela paciência e sensibilidade de estar presente em alguns
momentos difíceis e em outros festivos, em especial a Rosangela, Patrícia, Jenifer,
Paloma, Bruna Viana, Andreliane, Thiara e Daniel.
Agradeço a minha família, Maristela, Juliane e José Márcio (em memória), por
acreditar na minha capacidade intelectual de buscar nos livros as respostas e as
perguntas que desde a infância me atormentavam a mente; ao meu companheiro,
amigo e namorado Túlio Frigeri, que num exercício diário de aprendizagem, encarou as
minhas loucuras e entendeu que minha vida só faria sentido se eu estivesse na posição
de quem faz a crítica a esse mundo injusto; e a duas lindas, e maravilhosas amigas que
fiz no Serviço Social: Patrícia Dutra e Rosangela Andrean. A essas pessoas das quais
“A gente vai se amando, que também, sem um carinho, ninguém segura esse rojão”2.
Agradeço à minha querida orientadora, professora e amiga Olegna por estar ao
meu lado acendendo luzes das quais eu buscava pelo escuro. Tantas vezes suas
palavras expressaram aquilo que minha mente tateava sem saber muito bem traduzir
em palavras. E então a palavra orientar, significando direcionar, estimular, incentivar e
guiar, numa direção moral, intelectual e ética, fez para mim todo o sentido. Que “a
melodia das canções continue sempre a entoar com carinho o seu fazer”3.
Agradeço também aos professores da banca de qualificação e de avaliação,
por suas ricas contribuições: Professor e co-orientador Rozinaldo Miani; Professora
Andrea Pires Rocha; Professor Marcelo Braz; Professora Kathiúscia Coelho e
Professora Sandra Lourenço.
Agradeço pelas contribuições da pesquisadora do samba e amiga Juliana
Barbosa; do Professor e músico Luís Filipe de Lima e da professora e tia Aglaê Frigeri.
Agradeço imensamente pelas contribuições finais dos grandes amigos: Daiani, Daniela,

1
Aristóteles em Ética a Nicônaco, citado pela professora Olegna nas aulas de Ética.
2
Meu caro amigo- Chico Buarque, 1976.
3
Trecho do conto “Melodias e vínculos” de autoria da querida orientadora a Aqual agradeço.
Bruna Sato, Bruna Viana, Gilson, Juliane, Meire, Paloma, Patrícia e Túlio. Sem elas,
nada disso teria se completado.
Agradeço também aos que, querendo mostrar, orgulhosamente, seu caráter de
“cidadão de bem” demonstraram que por trás desse “mito” da hipocrisia, existe uma
sociabilidade que constrói e reproduz valores autoritários, e sem dúvida nenhuma,
compromissados com a classe burguesa. O que me causa um sentimento de pena,
pois maldito o homem que se distancia cada vez mais de sua própria consciência e
acredita fielmente que está sendo crítico quando, sendo ovelha em rebanho, se mistura
e é orientado pela raposa, que acredita ser este o salvador da pátria, como se fosse
enviado pelo próprio Deus para resolver todos os problemas que ele, junto a sua
classe, que não tenha dúvidas: é a classe trabalhadora, enfrenta, diante da exploração
e alienação na qual é submetido cotidianamente.
Agradeço aos brasileiros, que presentes na história desse país, foram
submetidos a situações monstruosas de torturas, ou foram mortos, mas que resistiram
em nome da luta por liberdade e por uma vida digna para a sociedade brasileira.
Agradeço aos artistas e mais especificamente aos músicos do samba, pela
força e resistência durante toda a história desde gênero, e que até hoje “não deixam o
samba morrer”. Agradeço ao trabalho como cantora e meus amigos da música, por de
mim nunca desistir e conseguir se fazer presente até quando imaginava-se que não
houvessem possibilidades dessa conciliação com o Serviço Social. Em especial aos
últimos meses desta pesquisa, quando o samba se fez mais presente também na
prática do canto, fazendo com que a construção destas reflexões fossem vivenciadas
no meu dia a dia, todo o momento. Agradeço às companheiras do meu grupo de samba
feminino Fruta Gogóia que ao meu lado me mostram diariamente a força das mulheres
no trabalho na música: Camila Taari, Cíntia Paula, Jéssica Rezende, Mariany
Figueiredo e Suyane Alves.
E por fim, agradeço a Professora Maria Lúcia Martinelli, quando do auto da sua
sabedoria e generosidade, me fez lembrar que fazer o que faz sentido em nossa vida é
nos distanciar dos processos de alienação e reificação. E assim, fica aqui registrado o
resultado da minha busca por sentido na vida: esta dissertação de mestrado.

Londrina, abril de 2020.


“Eu não nasci no samba
Mas o samba nasceu em mim”
Arlindo Cruz
PEREIRA, Mariane Suzze. O samba como expressão dialética de valores na
sociabilidade brasileira na década de 1970: conformismo e resistência. 2020. 231
f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social e Política Social) - Programa de Pós
Graduação em Serviço Social e Política Social, Universidade Estadual e Londrina,
Londrina, 2020.

RESUMO

A presente dissertação de mestrado foi construída a partir de pesquisa que tem


como temática central a cultura e a arte como campo de expressão valorativa de
uma dada sociabildiade, em um determinado contexto socio historico. Delimita-se
uma particularidade: a expressão estética musical denominada samba.
Compreende-se que pesquisas sobre as expressões no campo da estética
contribuem para análise de aspectos da realidade que permeiam as demandas
profissionais dos assistentes sociais. Dessa forma, delineia-se o objeto da pesquisa:
valores que aparecem nas letras das composições de samba no período da
autocracia burguesa no Brasil da década de 1970. Delimita-se este objeto aos
valores que revelem atitudes de conformismos e/ou resistências frente a ideais
propagados neste período. O objetivo geral é analisar o samba como tradução de
expressões do movimento de resistência e/ou conformismo frente a valores que
convergem para adesão ao projeto político da autocracia burguesa na década de
1970 no Brasil. E relacionado às particularidades do objeto, definiu-se três objetivos
específicos: evidenciar aspectos centrais do conservadorismo e que se reafirmam
como adesão à ordem burguesa; identificar valores sócio-históricos de uma década
de repressão política e cultural no Brasil que balizam reiterações do
conservadorismo; e evidenciar aspectos críticos e/ou que reforçam o
conservadorismo nas letras de samba no Brasil na década de 1970. Para o alcance
dos objetivos estruturou-se uma metodologia descritiva e qualitativa a partir de dois
procedimentos: análise bibliográfica e documental. Entre os resultados desta
pesquisa está a consideração de que o samba, com sua história marcada por
resistências, na década de 1970, tem em suas letras a tendência maior em
expressar valores críticos, mas também de forma dialética, em com menor
expressão, reproduz valores que são defendidos pelo pensamento conservador.

Palavras-chave: Samba. Autocracia Burguesa. Resistências. Conformismo.


PEREIRA, Mariane Suzze. Samba as a dialetic expression of values in brazilian
sociability in the 1970s: conformism and resistance. 2029. 231 p. Dissertation
(Master in Social Work and Social Policy) - Postgraduate Program in Social Work
and Social Policy, State University and Londrina, Londrina, 2020.

ABSTRACT

The present master's dissertation was built from research that has culture and art as
the central theme as a field of expression of a given sociability, in a given socio-
historical context. A particularity is delimited: the musical aesthetic expression called
samba. It is understood that research on expressions in the field of aesthetics
contributes to the analysis of aspects of reality that permeate the professional
demands of a social worker. In this way, the object of the research is delineated:
values that appear in the lyrics of samba compositions during the period of bourgeois
autocracy in Brazil in the 1970s. This object is delimited to values that reveal
attitudes of conformism and / or resistance to ideals propagated in this period. The
general objective is to analyze samba as a translation of expressions of the
resistance and / or conformism movement in the face of values that converge
towards adherence to the political project of the bourgeois autocracy in the 1970s in
Brazil, and related to the particularities of the object, three specific objectives were
defined: to highlight central aspects of conservatism and which are reaffirmed as
adherence to the bourgeois order; to identify socio-historical values of a decade of
political and cultural repression in Brazil that guide reiterations of conservatism; and
to highlight critical aspects and / or reinforcing conservatism in the samba lyrics in the
1970s. To achieve the objectives, a descriptive and qualitative methodology was
structured based on two procedures: bibliographic and documentary analysis. Among
the results of this research is the consideration that samba, with its history marked by
resistance, in the 1970s, has in its lyrics the greater tendency to express critical
values, but also in a dialectical way, in less expressive, reproduces values that are
defended by conservative thinking.

Keywords: Samba. Bourgeois autocracy. Resistances. Conformism.


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Gráfico 1 – Década de 1970 ....................................................................................160


Gráfico 2 – Ano de 1970 ..........................................................................................160
Gráfico 3 – Ano de 1971 ..........................................................................................160
Gráfico 4 – Ano de 1972 ..........................................................................................161
Gráfico 5 – Ano de 1973 ..........................................................................................161
Gráfico 6 – Ano de 1974 ..........................................................................................161
Gráfico 7 – Ano de 1975 ..........................................................................................161
Gráfico 8 – Ano de 1976 ..........................................................................................162
Gráfico 9 – Ano de 1977 ..........................................................................................162
Gráfico 10 – Ano de 1978 ........................................................................................162
Gráfico 11 – Ano de 1979 ........................................................................................163
Quadro 1 – Samba: Entre tendências críticas e/ou conservadoras..........................156
Quadro 2 – Letras com tema central sobre o samba e que não apresentam
tendências críticas e/ou conservadoras de forma sincrética ................................ ....158
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABEPSS Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social


ABI Associação Brasileira de Imprensa
AI-1 Ato Institucional número um
AI-2 Ato Institucional número dois
AI-3 Ato Institucional número três
AI-5 Ato Institucional número cinco
AI-13 Ato Institucional número treze
AI-14 Ato Institucional número quatorze
ARENA Aliança Renovadora Nacional
CIA Central Intelligence Agency
CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
CTG Comando Geral dos Trabalhadores
CPC Centro Popular de Cultura
CTI Comando dos Trabalhadores Intelectuais
DGN Doutrina de Segurança Nacional
DOI-CODI Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de
Defesa Interna
DOPS Delegacias de Ordem Política e Social
ESG Escola Superior de Guerra
FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
FUNARTE Fundação Nacional de Artes
MDB Movimento Democrático Brasileiro
MOBRAL Movimento Brasileiro de Alfabetização
MPB Música Popular Brasileira
OAB Ordem dos Advogados do Brasil
OBAN Operação Bandeirantes
PAEG Programa de Ação Econômica do Governo
PCB Partido Comunista Brasileiro
PDT Partido Democrático Trabalhista
PFL Partido da Frente Liberal
PIB Produto Interno Bruto
PP Partido Popular
PT Partido dos Trabalhadores
S.A. Sociedade Anônima
SNI Serviço Nacional de Informações
TFP Tradição, Família e Propriedade
UNE União Nacional dos Estudantes
UNESPAR Universidade Estadual do Paraná
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO............................................................................................14

CAPÍTULO 1 – EXPRESSÕES DO CONSERVADORISMO NO BRASIL


NA DÉCADA DE
1970............................................................................................................25
1.1 O CONSERVADORISMO CLÁSSICO .................................................................25
1.2 O CONSERVADORISMO MODERNO.................................................................39
1.3 O CONSERVADORISMO NO BRASIL.................................................................46

CAPÍTULO 2 – A DÉCADA DE 70: AFIRMAÇÃO DE VALORES


CONSERVADORES E/OU CRÍTICOS NO PERÍODO DA AUTOCRACIA
BURGUESA NO BRASIL...........................................................................69
2.1 ASPECTOS DO MOVIMENTO DO CAPITALISMO NOS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA
DA DÉCADA DE 1970: MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO E DA
CULTURA......................................................................................................75
2.2 ANOS PRECEDENTES AO GOLPE DE 1 DE ABRIL DE 1964: ALGUMAS MEDIAÇÕES
NECESSÁRIAS PARA ANÁLISE DA DÉCADA DE 1970..........................................87

2.3 MARCOS HISTÓRICOS DA AFIRMAÇÃO DA AUTOCRACIA BURGUESA NO


BRASIL..........................................................................................................90
2.4 O REGIME AUTOCRÁTICO: CARACTERÍSTICAS DE SUAS DIFERENTES

FASES...........................................................................................................95

2.5 A AUTOCRACIA BURGUESA E O MUNDO DA


CULTURA....................................................................................................118

CAPÍTULO 3 – O SAMBA NA DÉCADA DE 1970: EXPRESSÕES DE


UMA RELAÇÃO DIALÉTICA ENTRE A AFIRMAÇÃO E CRÍTICA DO
CONSERVADORISMO FUNCIONAL À AFIRMAÇÃO DA AUTOCRACIA
BURGUESA..............................................................................................133
3.1 SAMBA: A ESPECIFICIDADE DO GÊNERO MUSICAL, SUAS RAÍZES E MATRIZES
HISTÓRICO SOCIAIS.....................................................................................137
3.2 REFRAÇÕES DO SAMBA EM DIFERENTES PERÍODOS
HISTÓRICOS................................................................................................151

3.3 ASPECTOS DAS ESCOLAS DE SAMBA E OS SAMBAS ENREDOS.......................154


3.4 A BOSSA NOVA COMO UM SUBGÊNERO DO SAMBA......................................157
3.5 SAMBA NA DÉCADA DE 1970: MAIS RESISTÊNCIA DO QUE
CONFORMISMO...........................................................................................161

CONCLUSÃO...........................................................................................204

REFERÊNCIAS.........................................................................................210

APÊNDICES.............................................................................................222
APÊNDICE 1 - Quadro de Músicas brasileiras de destaque de1970 a
1979..........................................................................................................223
APÊNDICE 2 –Quadro de Sambas de destaque de 1970 a 1979...........229
14

INTRODUÇÃO

Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo
Nada de correr da raia
Nada de morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer
4
(Desesperar Jamais, Ivan Lins e Vitor Martins)

O Serviço Social, como área de conhecimento, vem acumulando ao longo dos


anos uma variedade de temáticas em suas pesquisas, as quais contribuem para a
formação e para o trabalho das e dos assistentes sociais. Seguindo um caminho não
muito frequente, a opção que ora se apresenta, se insere no âmbito da cultura e da
arte, e mais particularmente em um gênero da música popular brasileira: o samba.
Parte-se do pressuposto de que pesquisas sobre essas expressões contribuem para
a análise de aspectos da realidade que permeiam as demandas profissionais postas
para os assistentes sociais; são demandas que tem como uma de suas mediações o
campo valorativo.
A cultura como campo de pesquisa no Serviço Social se mostra como
possibilidade de apreensão de novas mediações no debate de seu trabalho, como
formulou Iamamoto:

Sendo a cultura (...) um jogo interno de conformismo e resistência, a


recuperação da questão nacional e da cultura nos permite romper o
caminho das visões deterministas e voluntaristas, apreender as
particularidades culturais que atravessam as classes sociais, resgatar o
potencial criador já contido na prática cotidiana das classes subalternas,
assim como fazer a crítica dos elementos conformistas, alienados e
alienantes que aí comparecem, introduzindo novas mediações no nosso
debate sobre a dimensão política da prática profissional: a questão da
mulher, a questão racial, das disparidades regionais entre outras, o que
supõe um estímulo e uma vocação à pesquisa (2004, p.130).

Um pesquisador, se aproximando a outros campos de saberes, se propõe a


desafios, como por exemplo,

Um número crescente de historiadores, não mais presos às cadeias


narrativas e às temáticas mais ou menos convencionais, lança-se, por
vezes até com sofreguidão, em busca de outros territórios a serem
mapeados. Ao tatearem caminhos pouco ou nada explorados, alargam as
margens do possível e valorizam novos objetos, o que nem de longe deve
desestimular a retomada de temas tornados clássicos (PARANHOS, 2005,
p.16).

4
Letra do samba “Desesperar jamais”, samba lançado em 1979 e composto por Ivan Lins e Vitor Martins.
15

Além de pesquisadora no Serviço Social, me situo nesta pesquisa em meu


lugar de fala como cantora que opta por cantar canções brasileiras, por
compreender que é através destas que as cantoras e cantores brasileiros melhor se
expressam culturalmente; comunicando-se com seus receptores, tendo seu trabalho
como resultado dialético de suas influências estrangeiras (colonizadores, imigrantes
e povos escravizados) e/ou tradicionais (indígenas). Além disso, importa informar
que o contexto no qual me insiro não é em si o espaço privilegiado do samba. Sou
uma mulher branca, nascida no interior do estado do Paraná e nunca fui a um desfile
de escola de samba. Mas, no encontro com músicos que também se envolvem entre
os caminhos do samba, compreendi o quanto este gênero pode ter de possibilidades
de resistência frente às investidas conservadoras da ordem da sociabilidade
burguesa, da qual nos estudos do Serviço Social obtive elementos para análise.
É nesta perspectiva que se efetiva aqui um diálogo entre a experiência vivida
no trabalho e formação musical, com a intenção de aproximações teóricas no âmbito
da estética como campo analítico capaz de subsidiar análises fundamentais sobre o
Serviço Social, sobretudo no campo da ética profissional. Ademais, parte-se do
interesse e das aproximações sobre o tema do conservadorismo, empreendidas
durante curso de especialização em Serviço Social e Intervenção Profissional, pela
Universidade Estadual do Paraná - UNESPAR, campus Apucarana, concluído em
fevereiro de 2018, cuja monografia foi: “Desafios profissionais frente a expressões
do conservadorismo no trabalho do assistente social na contemporaneidade”.
A motivação do encontro entre temáticas do campo da estética, a música, e
um dos aspectos fundamentais para consolidação do projeto ético político do
Serviço Social contemporâneo - o conservadorismo - se deu após a realização de
curso de história da música popular brasileira efetivada pelo Programa Funarte de
Capacitação Técnica, pela Fundação Nacional de Artes - FUNARTE, em agosto de
2018, ministrado na Universidade Estado de Londrina pelo professor Luís Filipe de
Lima, violinista, arranjador, compositor, jornalista, ator e diretor teatral, além de
grande referência para esta pesquisa como sujeito informante. Ao fim deste curso,
consolidou-se a intenção de aproximar o campo teórico referente à música brasileira
com as questões éticas que nos despertam para análise do conservadorismo e das
resistências a ele.
Esta pesquisa se volta à análise de composições
16

[...] da música, em seu enlace com a vida política e social brasileira, para
jogar alguma luz, por mais rala que seja, sobre questões que se mantêm
como um desafio àqueles que entrecruzam os caminhos da política e
cultura (PARANHOS, 2005, p.16).

Dentre estas questões, elege-se aqui a relação dialética entre


conservadorismo e resistência à sua defesa.
Destaca-se a contribuição da professora Maria Lúcia Martinelli, na Oficina
Regional Sul I da ABEPSS, ocorrida em agosto de 2019. A professora argumentou
sobre a necessidade de apreendermos outras mediações para o trabalho do
assistente social, como por exemplo: a arte. A professora também afirmou que “o
trabalho que não nos realiza, nos aliena”. Assim, optar por esta temática caminha
para minha realização, contribuindo na construção de resistência a expressões
conservadoras produzidas e reproduzidas no processo de alienação capitalista.
Resistência mais do que necessária na afirmação da ética profissional do Serviço
Social. É a partir desta perspectiva que se constrói o objeto desta pesquisa: valores
que aparecem nas letras das composições de samba no período da autocracia
burguesa no Brasil. Delimita-se esse objeto a valores que revelem atitudes de
conformismos e/ou resistências frente a ideais propagados neste período.
Refere-se aqui à década de 1970, por compreender que é neste período que
vivenciamos uma forte repressão e censura às expressões culturais no Brasil. Foi na
década de 1970 que as ressonâncias do AI55 evidenciaram o triunfo da coalizão
responsável pelo Golpe de 19646. Demarcou-se, portanto, este período como marco
histórico para a análise dos valores que se traduzem, incitador de curiosidade sobre
as expressões que tiveram a força de luta contra a repressão e violência cometida
pela autocracia burguesia. É, portanto, em nome de “Quem foi de aço nos de
chumbo” 7, que esta pesquisa se apresenta.

5
O Ato Institucional nº 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e
Silva, foi a expressão mais acabada da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978 e
produziu um elenco de ações arbitrárias de efeitos duradouros. Definiu o momento mais duro do regime, dando
poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal
considerados. (fonte: texto de Maria Celina D’Araujo no site
https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AI5)
6
Sobre o Golpe Militar de 1964 Fausto (1997) coloca que “O movimento de 31 de março de 1964 tinha sido
lançado aparentemente para livrar o país da corrupção e do comunismo e para restaurar a democracia, mas o
novo regime começou a mudar as instituições do país através de decretos, chamados de Atos Institucionais (AI).
Eles eram justificados como decorrência do exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções”.
(FAUSTO, 1997, p.465). Maiores informações sobre o Golpe de 1964 serão explicitadas no capítulo 1.
7
Trecho da letra do samba-enredo da escola de samba carioca Estação Primeira de Mangueira, campeã do
carnaval 2019, cujo enredo se apresentou os “heróis” que não estão nos principais livros de história do país,
aqueles que foram “apagados”, mas que durante tempos difíceis, tiveram força para lutar contra as opressões. A
referência a “quem foi de aço nos anos de chumbo” se dá naquelas pessoas que lutaram contra o regime e
sofreram os mandos e desmandos da autocracia burguesa erigida com o golpe de 1964.
17

Entre o momento de escolha do tema até a sistematização desse formato de


pesquisa, o Brasil passou por um processo eleitoral no qual o contexto de
insegurança econômica associado à crise do capitalismo a nível mundial foi
interpretado, sobretudo em campanhas políticas midiáticas, como fruto de desordem
moral e falta de austeridade em políticas de segurança que exigiriam, por exemplo,
medidas de armamento e controle, aos moldes de um regime político autoritário,
acreditando ser esta a solução para as inseguranças vividas no país. Campanhas
políticas baseadas em ideais conservadores e autoritários evidenciaram apreços a
um ditador que fora responsável pela tortura de presos políticos durante o sistema
autocrático burguês da década de 1970 no país. Esses elementos não perpassaram
apenas as campanhas do processo eleitoral, mas diante da vitória do candidato que
os afirmou, o Brasil reatualiza horrores da autocracia burguesa, também conhecida
como Ditadura civil e Militar e tendências a reafirmar velhos padrões conservadores
e autoritários. Fatos que reforçaram a importância de resistir teoricamente nas
temáticas referentes a momentos em que o Brasil já vivenciou e que se recolocam,
salvo suas particularidades contemporâneas, na ordem do dia.
Por isso, “Nada de Esquecer” é a frase que move esta pesquisa, diante do
estímulo a perda de memória sobre nossa história recente. Vivemos um tempo em
que se assiste às expressões de apologia à autocracia burguesa; e em que os já
conhecidos ataques cruéis às liberdades culturais são relativizados, tornando-se de
suma relevância as pesquisas que explicitam resistência e/ou conformismo à
repressão e censura às atividades culturais; dentre elas, as expressas através do
gênero musical brasileiro chamado samba.
Dessa forma, o campo dos valores apresenta-se como um debate teórico
necessário. Faz-se necessário reavivar a história e não deixar cair no esquecimento
páginas de sua memória. É exatamente em momentos de insegurança econômica e
de instabilidade que os regimes autocráticos se mostram como soluções para a
violência exacerbada, o desemprego e outras manifestações da chamada questão
social tão debatida no Serviço Social, e ancoram suas soluções em valores que
expressam a defesa do conservadorismo em suas diversas expressões.
A partir disso, evidencia-se a voz dos inconformados com as estratégias
violentas de cerceamento da capacidade criativa de expressão artística através da
música. Mas, também identificam-se as vozes dos que se afinam com a ordem
política autocrática como necessária à manutenção da moralidade burguesa
18

expressa, muitas vezes, na idealização da família, da igreja, da propriedade e da


tradição. Vislumbra-se um futuro esperançoso, como no conhecido samba, donde
“Apesar de você” (APESAR..., 1970)8, em que pese todos os métodos autoritários de
cerceamento de manifestação cultural e popular, “amanhã vai ser outro dia”.
Entende-se que é necessário empreender análises críticas em busca do
desvelamento dos determinantes que perpassam as composições, a fim de
compreender além do que se mostra em nível de aparência e descolado da
realidade histórica. Para possibilitar esta análise, considera-se que o samba é

[...] uma manifestação de conhecimento artístico sobre determinada


realidade objetiva, e de (auto) conhecimento daqueles que o produzem, e,
como constitutivas do movimento histórico no qual os homens estabelecem
determinadas relações entre si e se objetivam, “põem-se no mundo”
(NEVES, 2013, p.123).

A análise dos valores expressos nas letras do samba revelam aspectos da


sociabilidade brasileira que pode ser explicada a partir de vários aportes teóricos.
Elege-se, para esta pesquisa, a perspectiva do materialismo histórico dialético, na
qual a singularidade da moralidade brasileira em determinado contexto pode revelar-
se, entre outras particularidades, nas manifestações culturais e dentre essas, as
expressas nas letras de samba. São instâncias que tem em seu caráter universal a
construção de valores construídos na processualidade do ser social.
O samba, como produto brasileiro que resulta de um encontro (não sem
contradições) entre povos negros, indígenas e brancos, se configura como uma
expressão estética imbuída de elementos que tornam a compreensão de aspectos
da realidade possível. A cultura popular tem muito a dizer sobre o cotidiano da vida
da classe trabalhadora e seus valores. Segue-se que

O samba está ai, presente em nosso cotidiano, constituindo-se numa

8
Canção de Chico Buarque, gravada em 1970. Em seu próprio livro conta que “Os automóveis, aos milhares,
circulavam com adesivos ameaçadores para quem não estivesse afinado com o “Brasil Grande”: “Ame-o ou
deixe-o”, lia-se nos vidros dos carros, quando não coisa pior: “Ame-o ou morra”. Ninguém segura este país,
proclamava o mais sanguinário ditador da história brasileira, o general Garrastazu Medici, ouvido colado no
radinho de pilha, acompanhando os feitos da seleção tricampeã no México. A tudo isso Chico reagiu com Apesar
de Você- um samba, ele resume, “feito com os nervos mesmo, bem a cara de 1970”: A minha gente hoje anda
falando de lado e olhando pro chão. Vigorava a censura prévia, e o compositor, “meio de malcriação”, submeteu
a música, certo de que não passaria. Passou, e foi gravada num compacto, com Desalento do outro lado.
Começou a tocar no rádio, virou febre, por pouco não virou hino. Um mês depois do lançamento, já caminhando
para as 100 mil cópias vendidas, o samba foi proibido e o disco recolhido nas lojas. “O Exército fechou a fábrica,
no Alto da Boavista, no Rio”, lembra Manuel Barenbein, que trabalhava na gravadora. “Os discos que estavam
em estoquem foram quebrados, mas eles não sabiam que nós tínhamos a matriz.” O súbito veto, há quem
afirme, veio depois de uma notinha de jornal dizendo que Apesar de você era “uma homenagem ao presidente
Medici”. Quem é esse você?, quiseram saber de Chico num interrogatório, “É uma mulher muito mandona, muito
autoritária”, respondeu” ” (HOLLANDA 1989, p. 129- 130).
19

variação musical, nas danças, na ópera carnavalesca, na poesia. Produz a


festa, os costumes, o comportamento, a culinária, a gíria, a socialização de
conhecimentos, a sociabilidade- em suma, uma cultura do samba. Produz
atividade econômica e é produzido por ela, dialeticamente. Atua e atravessa
a vi da dos brasileiros- e não só dos cariocas- refundindo-se com outras
culturas, interagindo com a cultura visual do cinema e da TV. Existe objetiva
e concretamente na sociedade brasileira (LIMA, 2013, p. 95).

Se uma das referências fundamentais desta pesquisa é o samba, outra é o


conservadorismo que se expressa no Brasil no período da década de 1970. Para
análise do conservadorismo, foram selecionados autores dessa vertente teórica,
como Nisbet (1987); autores que discutem sobre esta temática no Serviço Social
Brasileiro como Escorsim Netto (2011) e Bonfim (2015) e, finalmente, autores que
fazem a crítica ao conservadorismo na tradição marxista, como Lukcás (1978),
sendo este último também expoente para análise sobre o que se denomina estética
nesta pesquisa.
Esclarece-se que esta pesquisa se concebe como de natureza qualitativa,
isso porque na pesquisa social, os dados qualitativos se configuram como a melhor
forma de análise da realidade observada e, portanto, das expressões artísticas e
culturais. A pesquisa qualitativa “Trabalha com o universo dos significados, dos
motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes” (MINAYO, 2015,
p.21).
Serão utilizadas as letras de composições de samba para identificar estes
elementos. Objetiva-se traçar uma metodologia que associe a interpretação da
realidade através da arte junto à ciência. Entende-se que

A poesia e a arte continuam a desvendar lógicas profundas e insuspeitadas


do inconsciente coletivo, da vida cotidiana e do destino humano. A ciência é
apenas uma forma de expressão dessa busca, não exclusiva, não
conclusiva, não definitiva (MINAYO, 2015, p. 9).

Sem prejuízo desta escolha, utiliza-se de análise quantitativa para ilustrar a


tendência conservadora e/ou crítica nas letras dos sambas do período analisado.
Com esses referenciais metodológicos, espera-se responder aos objetivos
da pesquisa. Seu objetivo geral é analisar o samba como tradução de expressões do
movimento de resistência e/ou conformismo a valores que convergem para adesão
ao projeto político da autocracia burguesa na década de 1970 no Brasil.
Relacionados às particularidades deste objeto, definiu-se três objetivos específicos:
identificar valores sócio-históricos de uma década de repressão política e cultural no
Brasil que balizaram reiterações do conservadorismo; evidenciar aspectos centrais
20

do conservadorismo e que se reafirmam como adesão à ordem burguesa; e por fim,


evidenciar aspectos críticos e/ou que reforçam o conservadorismo nas letras de
samba no Brasil na década de 1970.
Para responder a esses objetivos, estruturou-se a metodologia da pesquisa,
que é descritiva e qualitativa, a partir de dois procedimentos: análise bibliográfica e
documental. Para orientar o primeiro procedimento, elegeram-se as seguintes
categorias teóricas: aspectos centrais do conservadorismo e, dentre esses, a
banalização da democracia e afirmação do autoritarismo que se afirmam Brasil na
década de 1970; conformismo e/ou resistência à autocracia burguesa; expressão
estética de aspectos do movimento da realidade; o samba como uma das
expressões estéticas do Brasil e como uma tradução da moralidade.
Salienta-se que foi necessária aproximação analítica sobre a especificidade
do samba para orientar pesquisa exploratória e a escolha das letras de samba a
serem analisadas. Destaca-se, assim, num primeiro levantamento bibliográfico, o
livro organizado por pesquisador, assistente Social, e professor Dr. Marcelo Braz,
denominado “Samba, Cultura e Sociedade”, publicação que é resultado da
realização de curso de extensão nomeado “Samba e Questão social: de Noel Rosa
a Paulinho da Viola”, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A ideia central
deste livro é apresentar os estudos realizados com o curso de extensão, sobre o “[...]
modo pelo qual a “Questão Social” se expressa nas criações do samba,
determinando-as a partir das condições particulares nas quais se consolidam os
traços constitutivos de nossa formação social e cultural” (BRAZ, 2013, p.11).
A leitura dos artigos desta publicação foi fundamental para que fossem
delineados percursos iniciais desta pesquisa e também, para ratificar a sua
importância para os estudos, formação e trabalho em Serviço Social.
Neste último eixo, utilizou-se também outro procedimento metodológico para
a escolha dos sambas cujas letras seriam objeto de análise desta pesquisa. Tal
escolha se inicia com pesquisa exploratória, em fontes digitais e banco de teses, a
fim de encontrar referências e fontes bibliográficas que possibilitassem levantar os
sambas da época determinada. Essa pesquisa resultou na seleção de um livro que
mapeia as canções brasileiras, a cada ano, publicado em 2006, com o título de A
canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras vol. 2: 1958- 1985, dos
autores Severiano e Mello. Os autores apresentam um levantamento das músicas
que obtiveram destaque durante os anos de 1958 até 1985.
21

A escolha desta obra se deu baseada na explicação na introdução do livro


sobre os critérios que os autores utilizaram para o mapeamento musical que
apresentaram. Eles explicam que, nesse mapeamento:

[...] incluíram-se, basicamente, dois tipos de canções: as que obtiveram


sucesso ao serem lançadas- não importando sua qualidade ou permanência-
e as que não obtiveram sucesso imediato, mas, em razão de sua qualidade,
acabaram por merecer a consagração popular. Outra resolução adotada foi a
de restringir a escolha aos sucessos de âmbito nacional, ignorando-se os
exclusivamente regionais (SEVERIANO; MELLO, 2006, p.9).

Em seguida, os autores explicitam os procedimentos que se valeram para a


pesquisa e para a coleta: foram “[...] ouvidos depoimentos de dezenas de
personagens que participaram da história - cantores, músicos, compositores -,
transmitindo-se assim a informação diretamente dos autores e intérpretes das
canções aos leitores” (SEVERIANO; MELLO, 2006, p.10). Explicam, também, que,
complementaram as informações coletadas através de outros meios e explicitam
isso quando registram que

A complementação da pesquisa seria realizada em uma infinidade de livros,


jornais, revistas, consultados em coleções existentes na Biblioteca Nacional,
ou em centenas de recortes dos acervos dos autores e do Arquivo Almirante,
no MIS do Rio de Janeiro. Em vários desses periódicos encontram-se
publicadas as paradas de sucesso de consulta indispensável para a escolha
das composições. Também muito importante foi a cooperação de amigos que
acompanharam a realização deste volume como o crítico Tárik de Souza-
que, além de prestar valiosas informações e sugestões, colocou à disposição
dos autores seu alentado arquivo-, os jornalistas Carlos Alberto de Mattos e
Rodrigo Faour, o maestro Roberto Gnattali, os pesquisadores Paulo César de
Andrade e Abel Cardoso Júnior, o ex-dono da Informasom, Yarkoff Sarcovas,
que preparou os boletins das músicas mais executadas em rádio, e Roberto
Chalub, grande admirador da MPB, em cujos álbuns de recortes foram
recolhidos preciosos subsídios sobre a música popular brasileira nos anos
sessenta (SEVERIANO; MELLO, 2006, p.10).

Cabe mencionar que este livro elenca de forma mais ampla as músicas, não
estando mapeadas somente os sambas, nem apenas músicas brasileiras. Foi
necessário, portanto, um trabalho de seleção de quais canções seriam utilizadas
nesta pesquisa, ou seja, quais seriam as consideradas sambas.
Diante deste fato, foi necessário pesquisar sobre as características relativas
ao samba, para não correr o risco do equívoco quando da escolha de quais canções
seriam analisadas (risco que não se eliminou, devido à multiplicidade de
característica que o samba passou a ter ao longo de sua história). O procedimento
para tal pesquisa se deu de duas formas. Através de entrevistas informais com
profissionais da área da música, aqui considerados sujeitos informantes, nas quais,
22

buscou-se uma primeira aproximação às definições do gênero samba, o que


resultou na compreensão de que se trata de um gênero em constante construção e
produto de uma mistura de influências. A segunda forma foi revisão bibliográfica
sobre o gênero musical. Não foi uma tarefa fácil, levando-se em conta que com o
passar dos anos, o samba se modificou e teve suas ramificações e subdivisões
diversificadamente aumentadas de forma a dificultar uma descrição de suas
características de forma fechada, como explica Luiz Tatit (2004).
Além disso, é justamente na década de 1970 que é dado o

[...] agigantamento das escolas de samba- uma festa popular se


transformando em "ópera de rua"- começa a se tornar uma realidade que até
os sambistas mais tradicionais terão de aceitar. Acaba vencendo a resistência
de Candeia, Nei Lopes, Wilson Moreira e outros sambistas que, criando a
agremiação Quilombo, lutam para preservar as tradições. Com isso, o samba-
enredo vai se adaptando aos novos tempos. Só então, veteranos como
Nelson Cavaquinho e Cartola chegam ao disco, enquanto a geração pós-
bossa nova- Chico Buarque, Caetano Velho, Gilberto Gil- sobrevive à dos
festivais para criar obras definitivas, incluindo sambas. Compositor, Martinho
da Vila se vê transformado em cantor para espanto dele mesmo e torna-se o
primeiro intérprete, em muitos anos, a fazer sucesso com o samba. Clara
Nunes abandona o bolero e entra em cena com voz e carisma para ser uma
espécie de rainha, trono que com ela disputa Beth Carvalho, outra egressa
dos festivais. Pouco a pouco, outros sambistas de escola vão ganhar lugar no
disco, no rádio e até na TV. A censura, apenas insinuada até 1968, vitima o
teatro, os shows e, naturalmente, o samba (O GLOBO, 2016).

Após estes procedimentos, completou-se a primeira seleção das músicas


elencadas pelos autores Severiano e Mello (2006), que podem ser classificadas
como sambas e dentre estas, triou-se as que foram compostas durante a década de
1970. Foi possível, então, sistematizar um primeiro quadro (apêndice 1) contento as
canções brasileiras de destaque do período da década de 1970. A partir deste
quadro, e após aproximações analíticas sobre o samba, foram selecionadas as
canções que podem ser classificadas dentro do gênero. Construiu-se então um
segundo quadro (apêndice 2).
Adentrando ao segundo procedimento, para análise das letras dos sambas,
o recurso escolhido foi análise de conteúdo porque, como método de compreensão
crítica de comunicações, torna possível apurar “[...] conteúdo manifesto ou latente,
as significações explícitas ou ocultas” (CHIZZOTTI, 1991, p. 98). Este procedimento
analítico mostra-se o mais assertivo neste tipo de pesquisa, pois a “[...] técnica se
aplica à análise de textos escritos ou de qualquer comunicação (oral, visual, gestual)
reduzida a um texto ou documento” (CHIZZOTTI, 1991, p.98). Concebe-se, nesta
análise, que essas letras de samba revelam-se como documentos históricos que
23

expressam resistência e/ou conformismo ao ideário da autocracia burguesa vivida


no país na década de 1970 e que são mediações que expressam a dialética entre
conformismo e resistência a tal ideário.
A análise de conteúdo orientou-se, a priori, a partir da identificação de três
grandes tendências nas letras dos sambas: as que se aproximam de tendências
críticas, ou ao contrário, as que se aproximam de tendências conservadoras e,
finalmente, as que dialeticamente, apresentam ambas as duas tendências. Com
isso, não classificam-se essas letras como “críticas ou conservadoras”, busca-se
apenas mapear tais tendências. Neste mapeamento, observou-se que há letras
cujas temáticas, em sua maioria, voltam-se a expressões de afeto sem qualquer
alusão direta a valores que possam traduzir tais tendências. Além disso,
observaram-se letras cujas temáticas se voltavam para a própria história ou
elementos do samba. Essas letras não foram utilizadas nesta pesquisa. O
detalhamento desse mapeamento que resultou no universo da pesquisa está
descrito no capítulo três.
A pesquisa se estrutura na forma de três capítulos, sendo o primeiro
composto por uma análise de aspectos centrais do conservadorismo e suas
refrações na cultura brasileira. O segundo contempla as reflexões de aspectos sócio
históricos que se revelam como fundamentos para as criações artísticas. Referem-
se a determinações ideológicas, sociais, econômicas e políticas que constituem um
dos sustentáculos para a afirmação da autocracia burguesa da década de 1970, e,
dentre estes, a ênfase no ideário conservador veiculado no Brasil no período e,
concomitantemente, às críticas a tal ideário. É a partir dessas determinações que se
torna possível analisar os valores que convergem para a resistência e/ou o
conformismo à autocracia burguesa expressos nas letras de sambas. Contudo, haja
vista a necessária delimitação desses aspectos, a construção deste capítulo se deu
a partir dos eixos: a banalização da democracia e a ênfase no autoritarismo.
O terceiro capítulo versa sobre o samba como uma particular expressão
estética, uma das formas pelas quais se traduzem valores que orientam atitudes e
comportamentos na realidade brasileira na década de 1970. Referem-se aqui os
valores que se afinam ou não aos veiculados pela autocracia burguesa nesta
década. Os tópicos deste capítulo são: a estética como expressão do movimento da
realidade que tem como uma de suas mediações a produção e reprodução de
valores de uma dada sociabilidade e o samba: história, gênese e influências; a
24

relação entre valores e suas expressões no gênero samba; e o samba como


expressão de valores que revelam adesão ou crítica à sociabilidade burguesa.
Salienta-se que as análises das letras de samba construídas neste capítulo,
conforme o objeto testa pesquisa, centram-se nos sambas lançados na década de
1970.
25

1 EXPRESSÕES DO CONSERVADORISMO NO BRASIL NA DÉCADA DE


1970

Considera-se nesta pesquisa que uma das formas de adesão a valores


veiculados na autocracia burguesa assentam-se na vertente ideológica denominada
conservadorismo. Inicia-se então pela observação das expressões do
conservadorismo no Brasil na década de 1970, se fazendo, portanto, indispensável
levantar como este pensamento se origina na Europa para então sinalizar aspectos
de sua particularidade em solo brasileiro, sobretudo, em suas expressões na década
de 1970.
O capítulo se inicia com a análise do conservadorismo denominado
clássico9; no segundo momento, analisam-se aspectos do denominado
conservadorismo moderno; e finalmente, apresentam-se aproximações analíticas do
conservadorismo na construção histórica da cultura brasileira e suas particularidades
na década de 1970.

1.1 O CONSERVADORISMO CLÁSSICO

Partilha-se, antes de tudo, do pressuposto de que o conservadorismo não


pode ser avaliado como uma simples designação do ato de conservar tudo o que
nos é remetido como agradável ou benéfico. Escorsim Netto sinaliza para o perigo
da utilização simplista do termo conservadorismo, assentada num modo de pensar
que não ultrapassa a observação em nível de aparência, e que não permite ir além
do pensamento cotidiano. Não possuindo o potencial para explicar as determinações
reais de como esse pensamento se coloca na realidade, esta concepção "[...] acaba
por introduzir uma particular negação da história" (ESCORSIM NETTO, 2011, p.36).
História compreendida como espaço permeado de determinações, cuja ausência de
análise resulta, ou pode resultar, na impossibilidade de vislumbrar a totalidade do
pensamento conservador. A posição de negação da história indica a naturalização
dos sistemas de valores das sociedades, os tipificando como imutáveis e não mais
produtos dos homens em seus tempos históricos. Negar a história seria concluir que
os sistemas de valores são anteriores ao homem como ser histórico e, portanto, só

9
Alguns autores denominam de clássico e outros de romântico. Opta-se aqui por utilizar a primeira
denominação, haja vista que no Serviço Social, área de pesquisa em que se situa esta dissertação; uma das
publicações mais utilizadas para o debate desta temática, a de Escorsim Netto (2011), a utiliza.
26

compete ao homem a função de conservá-los e não refletir e idealizar modificações


sobre eles. A autora referenciada indica que esta concepção é utilizada por alguns
conservadores para alegar que o ato de conservar é inerente ao ser humano,
naturalizando-o e, consequentemente podando suas possibilidades de superação.
A respeito dessa observação sobre o conservadorismo, Escorssim Netto cita
Vicent, para argumentar que os conservadores "[...] concluíram que o
conservadorismo não é apenas uma doutrina política, mas, além disso, está
incrustado na essência da própria vida. Essa ideia torna a humanidade, enmasse,
conservadora" (VINCENT apud ESCORSIM NETTO, 2011, p.36). Logo, a
humanidade tendendo a ser conservadora por natureza que lhe é própria, imbuído
da intenção de conservar tudo que lhe é positivo, qualquer homem ou grupo que
desejar conservar valores que considera benéficos, pode fatalmente ser considerado
conservador. Do contrário, qualquer homem que deseja colocar em cheque o
sistema de valores não cumpre seu papel verdadeiramente humano, ou seja, aquele
que refuta os sistemas de valores dados não está agindo naturalmente, está
causando desordem ao que lhe é natural.
Antes de prosseguir, portanto, é necessário superar este viés simplista de
explicação do conservadorismo como um ato de preservação inato ao ser humano,
para assim compreendê-lo em suas determinações históricas. Sendo à vista disso,
“[...] o pensamento conservador é uma expressão cultural (obviamente complexa e
diferenciada, como veremos) particular de um tempo e um espaço sócio-histórico
muito precisos: o tempo e o espaço da configuração da sociedade burguesa”
(ESCORSIM NETTO, 2011, p.40 e 41).
O conservadorismo não é um pensamento que ultrapassa todos os tempos
sócio-históricos da humanidade, como se nascesse junto a ela e por consequência
perpetuasse seus valores eternamente. Ele nasce e se transforma com objetivos de
fundamentar e justificar estruturas de poder, antes feudais e em seguida,
capitalistas, portanto compreende-se o pensamento conservador como expressão
histórica própria e funcional à sociedade burguesa.
A gênese do pensamento conservador se dá na Europa, quando durante a
transição do sistema feudal para o capitalismo, surge a contestação dos novos
valores advindos com a cultura da modernidade e da nova estrutura de produção.
Erscorssim Netto (2011) menciona que boa parte dos analistas do conservadorismo
enxerga seu nascimento a partir da Revolução Francesa.
27

Neste contexto de profundas transformações na sociedade, o


conservadorismo aflora num movimento que se apresenta como resistência às
revoluções, no intento de preservar estruturas nas quais até então o mundo se
sustentava rigidamente. Assim,

Vinculado ao movimento de resistência frente às revoluções Burguesa e


Francesa, os conservadores românticos defendiam o retorno a um quadro
de valores, a formas de organização social e do trabalho típicas da
sociedade medieval; à revelia do próprio movimento histórico. Dentre os
princípios combatidos por eles estavam: o individualismo, o secularismo e o
igualitarismo (GUEDES, 2016, p.29).

Na interpretação e crítica dos conservadores, o individualismo centralizava a


posse da razão no homem, não mais condenado a viver eternamente nas mesmas
condições que encontrou ao nascer e julgava ser desígnio divino. Mais tarde os
marxistas também fazem a crítica ao individualismo, mas não no que este possibilita
de racionalidade para o homem, mas na sua capacidade de impedir a ampliação da
liberdade enquanto valor humano genérico, no qual nenhum homem será livre
enquanto o seu semelhante não o for.
Outra interpretação dos conservadores é que o secularismo10 seria
completamente destruidor a uma sociedade que tinha na Igreja Católica a sua maior
autoridade, colocando em xeque o poder desta perante todos. Tirar a Igreja do
âmbito das decisões públicas seria deixar a sociedade a mercê de homens
desorientados, isso porque eles eram necessariamente predestinados a agir de
acordo com a obediência a seu superior: Deus, que tinha na Igreja Católica sua
expressão terrena.
A cultura da modernidade e a valorização da racionalidade oportuniza a
consciência de que quando o homem atribui todo o poder da sua história e do
mundo em um ser superior, deixa de enxergar o que socialmente pode realizar para
o alcance de transformações. Para Marx, a "[...] religião é, cabalmente, o
reconhecimento do homem através de um mediador" (1975, p.24). Ao contrário, para
conservadores o homem não pode exercer seus papéis sem a mediação de um ser
superior, assim a religião (e não qualquer religião, mas a que possui o poder
naquele momento: o cristianismo) é extremamente necessária para mediar as
relações sociais.

10
Trata-se de um aspecto do iluminismo, donde a razão do homem e não mais a fé orienta as ações em
sociedade. Os aspectos da mudança da orientação na fé pela razão serão tratados nas páginas subsequentes.
28

Outro aspecto central da crítica dos conservadores clássicos refere-se ao


que denominavam de “princípio do igualitarismo”. Alegavam que se os homens se
entendessem como possuidores de direitos iguais se esqueceriam de que cada um
deve ocupar o lugar no mundo que lhe cabe de forma passiva e harmônica.
Defendiam que cabe aos homens se conformar em suas posições e não almejarem
transformações, pois isso também colocaria em xeque a ordem muito bem
estruturada e hierárquica de poder. Defendiam também que o sentimento de
igualitarismo é danoso à manutenção da ordem, se os homens se entendem como
possuidores dos mesmos direitos, não iriam se conformar com o que lhe é negado,
por exemplo.
Para os conservadores, esses princípios advindos com a cultura da
modernidade levariam a sociedade ao caos, daí o seu necessário combate. É a
partir dessa perspectiva que o conservadorismo nasce em oposição aos valores
advindos no conjunto das transformações na sociedade. Tratava-se de se opor a
princípio, a “[...] uma cultura cujos principais vetores guardavam um enorme
potencial de contradições com a ordem feudal” (ESCORSIM NETTO, 2011, p.41).
A cultura que se cita aqui é a cultura da Ilustração, que se conforma em “[...]
modificações que, molecularmente, vão corroendo as estruturas sociais enraizadas
na Europa desde o colapso da dominação romana (século V), estruturas que deram
corpo à feudalidade” (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 41). Os valores advindos com a
cultura da Ilustração colocavam em xeque a organização feudal fundada no poder
da Igreja Católica e da nobreza e da subserviência de seus servos e escravos.
Há no sistema feudal uma pirâmide estrutural fixa, com uma hierarquia
extremamente rígida, tendo no topo a Igreja católica, além de possuir um sistema de
valores com convicções fixas sobre o mundo. Essa estrutura é defendida pelos
conservadores como o único modo de sociabilidade com soluções claras e possíveis
para os problemas da sociedade. Desestruturar tudo isso seria deixar o mundo à
mercê de problemas sem solução, deixaria o homem sem orientação e o faria
individualista a ponto de não se importar com aqueles que por natureza lhe são
superiores. A sociedade moderna e a cultura da Ilustração ataca tal estrutura
inabalável, e para os conservadores, a sociedade estruturada de outra forma viraria
uma balbúrdia até levar ao fim da humanidade.
Com a cultura da Ilustração encaminham-se descobertas científicas, entre
elas, a de que a terra não é o centro do universo, contrapondo-se ao teocentrismo;
29

descobre-se que a terra se movimenta e que o mundo também está em constante


mudança. A sociedade agora demanda novas estruturas e novos valores, o passado
feudal não cabe mais ao novo mundo. O conservadorismo clássico almejou que a
roda da história girasse à esquerda, afinal para os pensadores defensores do
conservadorismo, a história não passava de uma eterna reincidência dos valores,
“[...] expressa não de uma maneira linear e cronológica, mas na persistência das
estruturas, comunidades, hábitos e preconceitos geração após geração” (NISBET,
1987, p.49), mera tradição e imitação eterna de tudo o que já havia sido definido e
estruturado quando Deus criou a humanidade. Por isso, a conclusão dos
conservadores da não necessidade em refletir sobre os valores naturais dos quais
todo homem nasce predestinado a ter, igualados aos instintos animais. O homem
deve obedecer e seguir sua sina; e diante dos mistérios, compreender que nem tudo
lhe é dado ao conhecimento, pois este é inferior ao ser superior que lhe criou e não
pode entender mais do que aquilo que lhe é transmitido, ele deve ser submisso. O
que justifica muito bem a reverência a autoridades que seriam escolhas divinas para
comandar a vida em sociedade. Também justifica a forma como este sistema de
poder se reproduz nas relações sociais no interior das famílias, em que a submissão
se materializa entre mulheres e filhos em relação ao homem.
Mas, a cultura da modernidade,
[...] com seus traços mais determinantes- racionalismo, autonomia
individual, humanismo, historicismo- e suas características mais marcantes-
secularização, dessacralização do mundo, valorização da experiência
controlável e universalizante -, não só expressa os aspectos ideais do
mundo que vem a ser construído pela burguesia revolucionária. Expressa
as condições sem as quais as próprias mutações técnico-produtivas seriam
inviáveis, uma vez que o desenvolvimento científico, sem o qual é
impensável o fenômeno industrializante, é resultado direto daquela cultura,
que rompe com as verdades transmitidas pela tradição, com a dominância
dos critérios religiosos (teológicos) para a condução da vida prática etc.
Sem as implicações desta cultura da Modernidade - por exemplo: a
constituição de um espaço público (com a refuncionalização da família e do
papel social da mulher); o privilégio da calculabilidade (com o
desenvolvimento de técnicas de manipulação e formalização impessoais) - ,
a industrialização e a urbanização seriam inconcebíveis (ESCORSIM
NETTO, 2011, p. 43).

Há de se ressaltar que a cultura da modernidade está intrinsecamente ligada


ao desenvolvimento de um novo modo de produção, o capitalismo, com suas novas
formas de perpetuação de poder nas mãos de poucos privilegiados. Sem essa
cultura, seria impossível processar-se esse novo modelo; compreensão que levaria
à mudança do pensamento dos conservadores.
30

Contraditoriamente, a cultura da modernidade se consolida com a


emergência do capitalismo e a capacidade dos homens de tomarem consciência,
através da valorização da razão e da história não mais como mera repetição da
tradição, podendo entender o seu lugar no mundo e por consequência sua
capacidade para modificá-lo; ou seja, não ser mais condenado a viver eternamente
sob os mandos da tradição nobre e da Igreja. Dentre outros fatos ideopolíticos, o
homem passa a ser o centro do universo e constata-se que a terra não é mais
imóvel por toda a eternidade e as mudanças passam a ser inevitáveis. Em
contrapartida com a rigidez sócio histórica anterior, o homem não se contenta mais
em apenas seguir regras e reproduzi-las para suas gerações futuras; as
transformações entram na ordem do dia.
Conclui-se assim, que os conservadores clássicos contestavam não
meramente o próprio capitalismo, mas sim a cultura que o permite desenvolver-se.
Um dos mais conhecidos autores desta vertente, Edmund Burke, constrói sua
argumentação criticando a Ilustração e desejando o desenvolvimento capitalista.
Segundo Escorsim

O alvo de Burke é a Ilustração: na Revolução, ele (corretamente, diga-se de


passagem) vê o magistério de Rousseau; uma palavra, Burke quer a
continuidade do desenvolvimento econômico capitalista sem a ruptura com
as instituições sociais pré-capitalistas (o privilégio da família, as
corporações, o protagonismo público-temporal da Igreja, a hierarquia social
cristalizada etc). E considera que a Revolução é a excrescência
desnecessária que efetiva essa ruptura. Sinteticamente, poder-se-ia afirmar
que Burke deseja o capitalismo sem a Modernidade (2011, p. 45).

O repúdio centrava-se nas transformações dos valores que se espalhavam,


alimentando as possibilidades de análises críticas, tomadas de consciência,
inclusive das classes mais pobres. A modernidade fazia ampliar a possibilidade da
consciência de classe, assim o alvo crítico da argumentação conservadora não era o
capitalismo em si, mas a cultura que o tornou possível, e que poderia trazer
aspectos que se somariam a determinantes que buscassem sua superação; uma
cultura que oportunizava ao homem observar o mundo de outras formas. Segundo
Mazzeo “[...] no bojo do processo de ascensão revolucionária da burguesia, surge o
espaço histórico para ampla participação e organização das massas populares”
(1989, p.109).
Diante das observações acima, aponta-se que o pensamento conservador
clássico teve uma função inicial: conservar o poderio e interesses dos que os
31

possuíam antes do desenvolvimento do capital: a Igreja e a nobreza, “[...] o


conservadorismo expressa os interesses dos privilegiados do Ancien Régime, a
nobreza fundiária e o alto clero” (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 46). Assim faz a
crítica ao capitalismo, não com vistas a superá-lo, mas para perpetuar o poder nas
mãos de quem o detinha no feudalismo. Dessa forma, compreende-se que o
conservadorismo clássico desejou conter a mudança que o desenvolvimento do
capitalismo provocava no centro de poder: da Igreja Católica e da nobreza para a
possibilidade de sua distribuição, inclusive entre as classes populares.
Para Nisbet, caracterizado por Escorsim Netto (2011) como “um conservador
que pensa o conservadorismo”, “O conservadorismo, enquanto uma filosofia social
definida surge como uma resposta direta à Revolução Francesa” (NISBET, 1981,
p.65). Segue-se essa argumentação do conservadorismo como resposta às
revoluções, reações sobre as negações das estruturas. A revolução Francesa, para
Nisbet, parece ser observada a partir da perspectiva de seu potencial de impactar as
estruturas de poder. Ainda que

[...] não foi somente contra a Revolução Francesa que os conservadores se


revoltaram. Foi mais fundamentalmente contra a perda do status que podia
ser observada por toda parte na Europa ocidental como consequência de
mudanças econômicas, secularização da moral e centralização política
(NISBET, 1981, p.65).

O conservadorismo clássico critica a cultura da modernidade de forma


abstrata; ou seja, destaca alguns de seus aspectos desconectando-os do processo
histórico que os originaram e da conexão dialética que os caracteriza. As
possibilidades de crescimento do gênero humano dadas por aspectos que
evidenciavam as contradições do capital são ignoradas, por exemplo, a
racionalidade, que torna possível observar e compreender a essência do capitalismo
e fazer a crítica à sociedade burguesa; podendo forjar formas de resistência, o que
não seria nem um pouco funcional ao emergente capitalismo.

Bonfim argumenta haver ricas possibilidades com a modernidade, mas que


estas se esvaem com a sua apropriação privada enquanto do lado oposto
aumentam as mazelas sofridas por um número enorme de trabalhadores. Nas
palavras da autora

[...] as contradições inerentes ao modo de produção capitalista e aquela


mais fundamental- a produção socializada e a apropriação privada- fará
com que a sociedade burguesa restrinja cada vez mais as mais ricas
32

possibilidades postas pela modernidade. Pela primeira vez na humanidade,


estão colocadas as condições para acabar, por exemplo, com a pobreza.
No entanto, o que se observa é um crescimento do número de
trabalhadores sem acesso aos bens e serviços produzidos coletivamente
(BONFIM, 2015, p.30).

O que a modernidade trás de ampliação da capacidade de desenvolvimento


dos homens, ampliação de liberdade, das riquezas, poderia ser a solução para
grande parte das mazelas humanas. Passam a ser vislumbradas condições para
que todos os homens possam viver dignamente, trabalhar um tempo necessário
para atender as necessidades e serem livres. Mas o que ocorre é que todo esse
desenvolvimento é apropriado de forma desigual, enquanto poucos homens no
mundo detém uma grande parte da riqueza socialmente produzida (a classe
burguesa), outra parte constituída pela maioria quantitativa dos homens (os
trabalhadores) fica com nada ou quase nada desta riqueza. A pobreza que anterior
ao desenvolvimento capitalista era um problema de escassez, passa a ser
diretamente relacionada à distribuição desigual das riquezas socialmente
produzidas.
Observada as características do nascimento do pensamento conservador,
alguns de seus argumentos contrapostos aos da modernidade são sistematizadas
por Escorsim Netto (2011) e serão destacadas (em itálico) a seguir.
O primeiro argumento é o de que só são legítimas a autoridade e a liberdade
fundadas na tradição, corroborando na valorização de tudo que é tradicional e num
repúdio ao que é novo, moderno, ou diferente do anterior. A autoridade tradicional,
ligada à família e à Igreja é a única insuspeita e possível de ser sustentada, pois é
esta que freia as transformações nas estruturas de poder, reiterando que quem
manda continuará sempre mandando. Assim, a liberdade que a cultura da
modernidade propõe não pode ultrapassar a tradição; já a autoridade não pode
deixar de vir da nobreza e/ou da Igreja.
O culto à autoridade permanece com o passar do conservadorismo clássico
para o moderno, só mudando o sujeito merecedor de ser a autoridade; e no Brasil,
como veremos adiante, será um valor central para as análises que serão construídas
nesta pesquisa.
O segundo argumento, que sequencia o primeiro, é o de que a liberdade
deve sempre ser uma liberdade restrita. Isso porque, segundo os conservadores, o
ser humano é naturalmente necessitário de ser governado por algo ou alguém que
33

lhe é superior, e caso sua liberdade fosse ampla e ele mesmo pudesse tomar suas
próprias decisões, o faria de forma desorientada. Nesse sentido, quem melhor para
restringir esta liberdade do que a Igreja Católica através dos valores cristãos? O
homem não poderia se guiar por valores que o libertassem da autoridade divina.
Com o passar da história, outros protagonistas irão ocupar o papel de quem irá
restringir a liberdade dos homens, mas os valores cristãos, pelo menos no Brasil,
continuarão presentes durante vários momentos, guardadas suas devidas
particularidades.
Uma das principais críticas dos conservadores era a equiparação entre
igualdade e liberdade. Para eles, ambas não possuem os mesmos objetivos, são
incompatíveis, pois os homens não são iguais naturalmente, cada um possui
características diferentes e tem um lugar diferente a ocupar na sociedade. Nas
palavras de Nisbet, “Não existe princípio mais básico na filosofia conservadora do
que o da incompatibilidade inerente e absoluta entre a liberdade e a igualdade. Esta
incompatibilidade provém dos objectivos contrários dos dois valores” (NISBET, 1987,
p.83). A diferença entre a liberdade e igualdade se dá em suma no fato de que

A finalidade permanente da liberdade é a protecção do indivíduo e da


propriedade da família - palavra usada no seu sentido mais lato, incluindo
tanto o imaterial como o material. O objectivo inerente da igualdade, por
outro lado, é a redistribuição ou nivelamento dos valores imateriais e
materiais duma comunidade, desigualmente distribuídos (NISBET, 1987,
p.83).

O próximo argumento é o de que a democracia é perigosa e destrutiva,


desqualificando e a expondo como uma forma de governo capaz de oprimir a
minoria dos homens. Entregar a soberania de poder ao povo seria impor decisões
da maioria, comprimindo a minoria, e sabe-se que, minoria (relativa à quantidade) é
formada pela classe dominante. Com o argumento da periculosidade da democracia,
tem-se um dos fundamentos para justificar sistemas de governo autocráticos. É em
troca de defender a minoria (em quantidade, a classe dominante) que os privilégios
desses não serão retirados e a luta da maioria classe trabalhadora será travestida
de luta por privilégios. Diferente dos conservadores clássicos, mais adiante se verá
que os modernos defendem a democracia, porém compreendem que esta deve ser
restrita a um povo capaz de conduzi-la de forma asséptica de conteúdo ideológico,
encobrindo a luta de classes proveniente da sociedade capitalista, fundamentados
num abstrato propósito de “bem comum”.
34

O quarto argumento conservador é o de que a laicização é deletéria, pois é


necessário que quem exerça o poder compreenda que este poder lhe é delegado
por um ser superior. Para os conservadores clássicos, o homem precisa sempre ter
uma autoridade o comandando, e no caso deste ser livre, terá que acreditar que
existe uma autoridade superior divina representada na terra pela Igreja Católica,
portanto tirar-lhe o poder seria descrer do poder de Deus.
Outro argumento é o de que a razão é destrutiva e inepta para organizar a
vida social, contrapondo à ideia de que o que deve guiar um povo deve ser os seus
sentimentos, o seu coração, pois a razão seria selvagem e destrutiva. O apelo aos
sentimentos, nesta reflexão conservadora, revela-se como uma apologia ao
irracional, como formas de agir pré-concebidas, lugar aonde a razão ainda não
chegou.
O último argumento conservador citado pela autora é o de que a
desigualdade é necessária e natural, naturalizando a superioridade de uma classe
sobre a outra, não explicitamente compreendidos como membros de uma classe,
mas como indivíduos que nascem com seus destinos traçados por Deus e que tem
sua liberdade limitada ao um “livre arbítrio” de escolher entre opções circunscritas de
um modo de sociabilidade. Justifica-se a necessidade de um povo compreender que
cada um tem o seu lugar e obrigação no mundo, e que só se alcançará a felicidade
através de sua satisfação e obediência. Os conservadores ainda argumentam que é
uma “ficção monstruosa” a ideia de que a desigualdade social pode ser superada.
Sendo a desigualdade natural e necessária para a harmonização da sociedade, o
desejo pela superação da desigualdade não pode ser visto de outra forma, a não ser
como anormalidade.
Também se torna coerente a centralidade que é dada à família pelo
pensamento conservador, que concebe “[...] como a base moral da sociedade, lócus
precisamente de inculcação da tradição" (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 66). É o
principal espaço socializador onde o homem entra em contato com os preconceitos
herdados tradicionalmente e os reproduz, aprendendo a não questioná-los. Além
disso

A valorização da família, constante em todos os conservadores, está


também conectada a um traço distintivo do pensamento conservador: a
defesa da constituição de grupos intermediários, capazes de - junto com
família - mediar a relação entre os indivíduos e a sociedade. Tais grupos-
associações, corporações à moda do Ancien Régime- são, igualmente, a
única garantia para assegurar a harmonia orgânica da sociedade, provendo
35

vínculos de solidariedade e coibindo as tendências sociais dispersivas


(ESCORSIM NETTO, 2011, p. 66-67).

O fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários contribui, na


interpretação dos conservadores, para garantir harmonia entre os homens de uma
sociedade, conformando as contradições e reprimindo as inclinações para
desobediência à ordem posta.
Como parte da argumentação conservadora, não há como deixar de
mencionar a defesa do preconceito como forma dada por tradição de padrões de
ação dos homens perante situações do cotidiano. Os principais conservadores já
explicavam o preconceito, "[...] para Burke, o preconceito é um resumo, na mente
individual, da autoridade e da sabedoria contidas na tradição” (NISBET, 1978, p.58).
Se a autoridade na tradição é um valor defendido pelos conservadores, nada mais
lógico do que as formas de perpetuá-la também o fossem, e é assim com o
preconceito.
Assim, o preconceito simplifica, nas ações cotidianas, as formas de ser dos
homens. Essa constatação fica ilustrada em situações no âmbito do senso comum
(por excelência, reprodutor do pensamento conservador), quando há a justificação
dos comportamentos preconceituosos destinados, por exemplo, à aceitação e
tolerância a relacionamentos entre casais homoafetivos, quando, nesse quesito
aparecem discursos alegando que "sempre foi assim", ou “meus pais ou meus avós
me ensinaram assim”, ou ainda que “a Igreja diz que é pecado”, dificultando as
possibilidades éticas de reflexões e construções de novas formas de compreender
as relações afetivas e alterações nos comportamentos. O preconceito oportuniza
que a autoridade e a tradição perpetuem em detrimento da reflexão crítica; antes
com relação à estrutura feudal e depois reproduzindo o modo de ser da
sociabilidade burguesa, cercando suas possibilidades de crítica e busca pela sua
superação.
Sendo assim, a defesa do preconceito como resposta necessária frente à
tendência à racionalização advinda com o iluminismo é nitidamente conservadora. O
preconceito continua até hoje ligado ao irracionalismo e quando é discutido,
acontece de forma genérica, donde seu fundamento não é percebido de maneira
completa. O preconceito é, no âmbito do senso comum, associado apenas a
manifestações violentas frente a um fato com o qual não se concorda; mas antes
disso, ele é uma maneira de pensar e agir que se aproveita da não reflexão para
36

consolidar as relações da sociabilidade burguesa como formas do ponto mais alto do


desenvolvimento humano.
O preconceito, pautando-se em Heller (2000) é irracional, é o não
conhecimento, a não reflexão, é a reprodução fiel e inquestionável da tradição, é a
reprodução de valores sem reflexão, causando a falsa aparência de facilitação e,
mais que isso, proteção dos homens perante os problemas passados pela
sociedade. Agnes Heller (2000) caracteriza o preconceito como um padrão particular
de juízo provisório de valor anterior à reflexão acerca de dada aparência e não a
ultrapassa. Só é superado com a reflexão ética enquanto práxis, enquanto
construção de novos valores, e essa reflexão ocorre quando o homem é capaz e
pode exercer sua racionalidade de forma livre. Entretanto, não podemos deixar de
mencionar que, mesmo o pensamento conservador clássico se transformando em
moderno, o preconceito, que agora convive em ambiente relativamente favorável à
racionalidade, permanece; ele serve como entrave para as reflexões éticas na
perspectiva da práxis de transformação.
O preconceito propicia que, por exemplo, a sociedade não olhe para a
população que mora nas favelas de forma a desvendar os determinantes daquele
modo de viver. Ao contrário disso, o faz utilizando conceitos pré-concebidos e
difundidos através da mídia, discursos tradicionais passados de gerações a
gerações. Outro exemplo também se dá na violência contra as mulheres. É muito
mais cômodo que a sociedade considere as mulheres que sofrem violência
doméstica como “mulheres que gostam de apanhar” do que procure fazer
mediações entre os diversos fatores que determinam a existência daquela violência.
O preconceito tem, portanto um caráter estrutural dentro do sistema capitalista.
A razão foi um dos principais inimigos do preconceito no conservadorismo
clássico. Na defesa da tradição como padrão de modos de viver, valores e
comportamentos, observa-se que está nela toda a autoridade e sabedoria, e é quase
um pecado fazer frente a essa sabedoria e autoridade. Sobre autoridade e poder,
Nisbet considera que

Tanto a liberdade como a autoridade eram aspectos inevitáveis de uma


cadeia de grupos e associações que ia do indivíduo à família, à paróquia, à
Igreja, ao Estado e por fim a Deus. Este entendimento de autoridade como
uma cadeia de hierarquias desempenhou um papel muito importante na
perspectiva conservadora da sociedade (1987, p. 67- 68).
37

Ou seja, a autoridade perpassa pela família, Igreja e Estado. A autoridade


está no homem que justifica sua violência para com seus filhos e esposa dizendo
que é o pai e, portanto, é quem manda na casa; está na Igreja, quando alguém
questiona o que o padre falou e a resposta é de que existem mistérios que não
devemos compreender, apenas obedecer e aceitar.
Para os conservadores clássicos, o principal problema advindo com a cultura
da modernidade era tirar a autoridade da família, do rei, da igreja e a transportá-la
diretamente para cada homem individualmente. Era tornar os homens livres para se
relacionar entre eles, sem uma mediação hierárquica autoritária. "O problema da
liberdade, insistia Burke, é inseparável de um triângulo de autoridade que envolva o
indivíduo e o Estado, mas também os grupos intermédios em relação a estas duas
entidades" (NISBET, 1987, p.66).
Os conservadores defendiam estes grupos, entendiam que possuíam o
encargo de reiterar e reproduzir na sociedade a valorização da autoridade fundada
na tradição. Conforme Nisbet, “[...] a importância dada pelos conservadores a grupos
como a família, a igreja e a comunidade local é, na prática, a importância também
dada às várias funções sociais que existem necessariamente nestes grupos" (1987,
p.87).
Em síntese, para os conservadores, a modernidade enfraquecia o controle
que era exercido através da autoridade fundada na tradição da nobreza e da igreja e
a “liberdade” que o restante da população tinha em seguir essas tradições. Ainda
com o mesmo autor, de acordo com "[...] Burke e outros conservadores, a história
moderna podia ser vista corretamente como um enfraquecimento controlado da
síntese feudo-medieval de autoridade e liberdade" (NISBET, 1987, p.67).
De uma forma ou de outra, os argumentos construídos pelos principais
expoentes do conservadorismo idealizavam e defendiam que o poder não fosse
fragmentado entre todos, mas sim centralizado em algum pequeno grupo. Em
síntese, a trajetória do pensamento conservador desde o

[...] período clássico-que cobre da Revolução Francesa (1789) à Primeira


Guerra Mundial (1914)-, como importante e complexa vertente ídeo-político-
cultural, avançou da recusa da ordem social construída pela burguesia
revolucionária para uma atitude de defesa da ordem burguesa consolidada
(mas ameaçada pelo movimento operário revolucionário) (ESCORSIM
NETTO, 2011, p. 69).
38

É em nome da defesa da ordem estabelecida, que os conservadores se


desagradam com as transformações, aprovam a ordem, tudo devendo ficar em seu
devido lugar, e fazem de tudo para que não haja contestação, as revoluções ao
longo de sua história sempre foram seus maiores pesadelos, da revolução burguesa
até a proletária.
Mas o sonho clássico dos primeiros conservadores de impedir a revolução
burguesa não se perpetuou por muito tempo; ficou cada vez mais evidente que seu
objetivo de retorno ao feudalismo se tornara inatingível. Então, diante da
irreversibilidade da revolução burguesa, haja vista a dominação capitalista, a
burguesia que havia se tornado a própria classe dominante, não é mais a
protagonista da revolução, não quer mais transformações, pois já alcançou a
transformação que pretendia. O papel revolucionário da burguesia muda
completamente de direção, e o conteúdo do pensamento conservador muda de
defensor da manutenção das estruturas fixas feudais para mantenedor da ordem
que lhe garante estabilidade no poder. Dessa forma, “[...] o protagonismo
revolucionário da burguesia cede lugar a um desempenho defensivo, voltado para a
manutenção das instituições sociais que criou” (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 46).
Nesta etapa histórica, o pensamento conservador altera a sua interpretação
sobre a centralidade do poder, agora não mais restrito à Igreja e à nobreza, mas na
burguesia. O novo sistema de produção, o capitalismo, deve ser colocado como o
mais avançado e, portanto, inabalável, deverá ser defendido como o melhor no
quesito humanidade, não existindo mais alternativas para superá-lo. Assim,

O capitalismo e sua classe dirigente cumpriram um papel histórico


revolucionário, foram alavancas que impulsionaram a humanidade para
além do feudalismo e do absolutismo. Há tempos, contudo, passaram, o
capitalismo e a burguesia, a cumprir a função de entraves à busca humana
por liberdade e igualdade reais (não apenas jurídico-formais) e pela
sobrevivência com dignidade para todos (TRINDADE, 2011, p.18).

Dado o triunfo da revolução burguesa, o papel da burguesia revolucionária se


cumpre, e agora a classe no poder não é mais alvo da crítica conservadora, ela é a
própria classe no poder, aquela que deve ser defendida. A crítica à liberdade e ao
ideário de igualdade (postas pela revolução francesa), aspectos fundantes da crítica
dos conservadores, torna-se inviável. Ao contrário, igualdade formal e liberdade
individual passam a associar-se à defesa da propriedade privada. Abre-se via à
outra expressão conservadora que será tratada no item a seguir.
39

1.2 O CONSERVADORISMO MODERNO

No bojo da cultura moderna que se dá com a consolidação do


desenvolvimento capitalista de produção, e que só ocorre com o desenvolver do
papel revolucionário da burguesia, apresenta-se a possibilidade de consciência da
nova classe que se formara: o proletariado. Dessa forma, do mesmo modo que foi
fundamental para o seu triunfo, a cultura da modernidade "[...] deixa então de ser
funcional à burguesia tornada classe dominante; expressão de sua vocação
revolucionária deve agora ser redimensionada para servir aos interesses da defesa
do (seu) status quo" (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 46-47).
Enquanto apenas viável ao desenvolvimento burguês, a cultura da
modernidade é defendida pela classe burguesa que, assim, apresenta interesses,
que em sua aparência, são distintos daqueles que os conservadores rechaçavam.
Quando essa cultura passa a representar riscos à nova estrutura, ela precisa ser
contida e apenas existir em seus aspectos funcionais à manutenção da ordem de
classes. A expressão do caráter revolucionário da burguesia deve mudar então sua
direção, pois este caráter não pode aparecer também na classe proletária. Tal fato
revela-se como uma das mediações da mudança do papel histórico da burguesia: de
revolucionária para conservadora.
Mas não há mais como retornar aos valores consagrados anteriormente à
valorização da racionalidade. No pós 184811, a racionalidade, quando funcional à
burguesia, torna-se essencial para o desenvolvimento capitalista. O mundo mudou,
e com ele, os valores também mudaram, agora não há como não valorizar a razão; a
ciência torna-se a ordem do dia. Assiste-se à transformação do conservadorismo
clássico para o que se convém adjetivar como moderno, referindo-se não mais ao
conservadorismo que deseja o regresso ao Ancien Regime, ao contrário, ele passa a
ser o porta voz da ordem capitalista. Em vez de rechaçar a ciência, esta passa a ser
justificativa para a preservação das estruturas de poder, agora não mais calcadas na

11
Refere-se a uma série de revoltas populares na Europa no ano de 1848, à chamada Primavera dos Povos.
Segundo Netto, “1848, numa palavra, explicita, em nível histórico-universal, a ruptura do bloco histórico que
derruiu a ordem feudal: trouxe à consciência social o ineliminável antagonismo entre capital e trabalho, burguesia
e proletariado. (NETTO, 1998, p. XIX) e “no plano prático-político, a revolução de 1848 tem um significado
inequívoco: trouxe à cena sócio-política uma classe que, a partir daqueles confrontos, pode acender à
consciência dos seus interesses específicos- viabilizou a emergência de um projeto sócio-político autônomo,
próprio, do proletariado; mais exatamente: propiciou a auto-percepção classista do proletariado” (NETTO, 1998,
p.XX).
40

tradição, na nobreza e na religião, mas na divisão de duas grandes classes:


burguesia e proletariado. Segundo Lukács apud Mazzeo,

Esse processo de decadência do pensamento revolucionário da burguesia,


se acentuará a partir das revoluções de 1830 e, fundamentalmente, das
revoluções de 1848, quando [...] o combate ofensivo a burguesia contra as
sobrevivências do feudalismo está então acabado: sucede-lhe a defensiva
contra o proletariado ascendente (1989, p. 99-100).

Neste contexto, torna-se essencial que as interpretações sobre a sociedade,


possíveis graças à categoria da racionalidade, se voltem para a defesa da
perspectiva de uma sociedade que seria a mais evoluída na história da humanidade,
com a razão centrada no homem. E é nesta perspectiva que, para esta nova
expressão do conservadorismo: "A ciência das relações humanas deveria ser o
grande princípio organizador da sociedade que substituiria o cristianismo tradicional"
(NISBET, 1981, p.72). Não mais se reconhece a religião como organizativa da
sociedade; a ênfase passa a recair sobre a ciência.
Defende-se, então que, caso essa ciência se atente para desvendar as
contradições não terá a mesma credibilidade. A cultura da modernidade deve
possuir agora uma “[...] refuncionalização que terá por objetivo eliminar ou
neutralizar os conteúdos subversivos da cultura moderna, especialmente aqueles
vinculados à sua dimensão emancipadora" (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 47).
Assim, os conteúdos que possibilitariam a ampliação da liberdade humana devem
ser asfixiados e o que permanecerá é a naturalização da estrutura do capital como
ápice de desenvolvimento; assim tudo o que havia anterior ao sistema do capital é
então considerado primitivo. Diante disso, não há como os conservadores mais se
dedicarem à busca pelo retorno aos baluartes das estruturas econômicas anteriores,
agora classificadas como arcaicas.
Quanto à nova estrutura, a do capital, essa sim é considerada natural à vida
humana, as mazelas passam a ser creditadas a essência humana. Quem nunca
ouviu nas conversas do cotidiano que “o homem é um ser egoísta e ambicioso”? se
referindo à famosa advertência de Thomas Hobbes (1979): “O homem é o lobo do
Homem”.12 Como se transpassasse diretamente características de concentração de

12
“A partir de observações empíricas e premissas metafísicas, Hobbes destaca atributos que considera como
constitutivos do homem (estado de natureza) e como determinantes sob suas ações. Eles seriam portadores de
desejos e capacidades de conquistas iguais e tal igualdade seria um problema de difícil solução; porque os
homens empenham-se em realizar, cada qual, suas possibilidades, movidos pelo “desejo do poder” em todos os
aspectos; ou seja, buscam o poder acima de qualquer possibilidade de torná-los capazes de convivência
pacífica. Essa é, na concepção hobbesiana, “uma tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto
41

riquezas do capitalismo para o próprio homem; como se não fosse próprio do capital
a concentração de riquezas, mas atributo do homem querer sempre ter mais, a
qualquer custo. Não suficiente o homem se tornar um objeto, o capitalismo se torna
um modelo de homem a ser copiado por todos os outros. Qualifica-se o homem
como um ser egoísta, mas tributa-se tal fato à falta de caráter que advém de sua
construção biológica humana.
Compreende-se assim que o pensamento conservador torna-se o
pensamento que fundamenta a ordem burguesa de classes, não é mais contrário ao
desenvolvimento burguês, agora seu antagonismo se dá a qualquer revolução
(eliminando-se a burguesa, já consolidada como ordem final da humanidade). Isso
fica evidente ao se recorrer que sobre as obras dos conservadores,

[...] que trabalham nas condições pós-48, com a evidência da inviabilidade


da restauração, o conservadorismo passa a expressar o repúdio a qualquer
revolução - ou seja, o pensamento conservador passa a se definir
explicitamente contrarrevolucionário (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 49).

O pensamento conservador passa a repudiar o potencial revolucionário que


o racionalismo possibilitou na nova classe que se formara: a classe trabalhadora,
convertendo-se “[...] em subsidiário da defesa burguesa contra o novo protagonista
revolucionário, o proletariado" (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 50).
Desta forma, em face da irreversibilidade da sociedade burguesa e frente à
possibilidade real de resistência da classe trabalhadora que, vivenciando a
dominação burguesa, tomava consciência de sua sujeição; o conservadorismo, que
anteriormente apresentava críticas à moralidade burguesa, sob a idealização do
retorno a padrões valorativos medievais, muda sua direção e função. A cultura da
Ilustração, que se caracterizava possibilitadora de críticas ao capital, não tem mais
serventia à velha burguesia revolucionária. A partir deste momento
A burguesia dominante, pressionada pelo movimento operário e socialista,
precisa abrir mão da cultura progressista (ilustrada) e da preocupação em
conhecer efetiva e verazmente a sociedade, substituindo-as por
construções ideológicas racionalizadoras e legitimadoras de seu domínio. À
grandeza ideológica da Ilustração, com suas ilusões heroicas, sucede a
apologia mistificadora do presente, com a decadência ideológica
(ESCORSIM NETTO, 2011, p. 48).

Situa-se este momento histórico, na qual a ascendência racional dá lugar à

desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte” (HOBBES, 1979, p.61). Instáveis, os homens
sempre procuram novas conquistas sem qualquer expectativa de consolar-se em um espírito satisfeito; movidos
por paixões vinculadas às conquistas como glória, fama e poder. Interpreta que esses atributos os levam ceder à
própria liberdade, de forma igualitária e individual (“cada um, com cada um”) para um soberano; em troca da
segurança que lhes é vital” (GUEDES, 2018, p.93).
42

decadência. A engrenagem que faz mover a construção do conhecimento humano é


travada, pois com ela desvendar-se-ia as reais intenções da burguesia
revolucionária quando se pôs a luta contra as opressões da era medieval. Diante
deste contexto histórico, o pensamento conservador passa de

[...] contestador dos valores capitalistas, na medida em que rechaçava a


cultura da Ilustração, da Modernidade, para, após se render à
irreversibilidade do desenvolvimento capitalista, toma a perspectiva
contrarrevolucionária, com objetivos de preservar a ordem estabelecida
burguesa (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 69).

O conservadorismo, neste contexto, precisa se apresentar legítimo no


campo intelectual, pois no mundo moderno tem-se um novo objeto valorativo que é a
ciência, sobrepondo-se à valorização inquestionável dos dogmas religiosos. O
campo que analisa as questões humanas dentro da ciência é a sociologia e, não é
por acaso, que Escorsim Netto (2011) relaciona a gênese da sociologia com o
pensamento conservador moderno, pois

Nesta passagem, desaparecem do pensamento conservador as demandas


restauradoras e o próprio componente anticapitalista se converte numa
conceptualização de caráter científico. A atenção dos conservadores se
voltará para a construção de um corpo de conhecimentos que, favorecendo
a gestão da ordem burguesa (mesmo que, para esta funcionar, haja que
promover reformas dentro da ordem), permita controlar e regular suas crises
e, assim, superar a ameaça revolucionária. Esses dois fenômenos- crise
social e revolução- polarizam todo o pensamento conservador pós-48: estão
na raiz da ciência social que é filha direta do conservadorismo pós-48, a
sociologia (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 52).

A função passa a ser a de estruturar um caráter científico para justificar a


nova ordem, é como um golpe último argumentativo que diz "está comprovado na
ciência", e, portanto já é fato dado. Assim,

Ao receber a chancela da “ciência social”, valores da tradição conservadora


são elevados a conceitos. Ideias conservadoras clássicas acerca das
relações entre indivíduo, Estado e sociedade, passam a receber o anteparo
da solidariedade orgânica, da harmonia e da coesão social (SOUZA, 2015,
p.5).

O conservadorismo agora no âmbito da ciência tem seus valores promovidos


a conceitos e estes são justificados através da “comprovação” por experiência
científica. A sociologia passa a ser fundamentadora do conservadorismo, Para
Souza,
A Sociologia como disciplina e “ciência” específica passa a vocalizar certas
aspirações conservadoras clássicas, principalmente aquelas em defesa das
instituições estabelecidas. Opera essa vocalização por meio de "métodos
científicos" que esvaziam a produção de conhecimento sobre a sociedade
43

de suas mediações econômicas e política (2015, p. 5).

As instituições agora são defendidas não como diretamente advindas de um


poder divino, mas como formas de manter a sociedade em perfeita harmonia, donde
a luta de classes passa a ser ignorada, em nome da coesão, da ordem e do
progresso. Com essas observações, uma das principais expressões do
conservadorismo moderno se apresenta: o positivismo. Como vertente conservadora
científica, “O positivismo impulsionou o sistema de ideias conservador, ao mesmo
tempo em que o modificou, pois estabeleceu sua reconciliação com a sociedade
capitalista consolidada e sua institucionalidade” (SOUZA, 2015, p.5). O positivismo
concilia as ideias conservadoras à ordem burguesa.
Já em sua origem, "[...] o positivismo se vincula, na origem europeia, à
preocupação com a preservação da ordem" (OLIVEIRA, 1989 p.26). Além disso,
esta vertente "[...] estimulou a entrada dos militares na política ao conciliar o caráter
científico da sua formação com uma visão da política enquanto ciência" (OLIVEIRA,
1989, p.26). O que expõe, por exemplo, a estrita ligação entre o conjunto de valores
dos militares e o conservadorismo moderno, mais especificamente o positivismo, o
que se explicita nas perspectivas teóricas utilizadas pelos militares com a Doutrina
de Segurança Nacional e Escola Superior de guerra no Brasil, que mais adiante será
comentada.
Entre os grandes pensadores positivistas estão Comte e Durkheim. Na
perspectiva inaugurada pela vertente positivista, ou seja, uma ciência que se volta à
funcionalidade da sociedade burguesa assiste-se derivações que se afirmam como
bases científicas para análise da sociedade, a exemplo, do funcionalismo e do
pragmatismo.
Neste sentido, "É possível verificar que o pensamento de Saint Simon e
Auguste Comte estabelecem que a ordem é a harmonia social" (GONDIM,
BEZERRA; COSTA, 2018, p.4). A valorização dos vínculos familiares e comunitários
contribui para a harmonização social, assim como no conservadorismo clássico,
encobrindo a luta de classes e reprimindo as propensões à resistência. São esses
grupos os espaços privilegiados onde se realizam exemplos de solidariedade entre
os homens, na busca pelo bem comum. O comunitarismo impera como crítica ao
comunismo. Ganha tônus a idealização dos pequenos grupos, da solidariedade e da
caridade, e a idealização de padrões de comportamento vinculados ao bem com o
contraponto das perspectivas críticas ao senso moral burguês. Tem como núcleo:
44

tradição, família e propriedade. Assim, idealiza-se o que é fazer o que é do bem.


Pequenos grupos são idealizados como espaços de solidariedade e caridade
naturais; como reprodutores de padrões de comportamentos vinculados ao bem
comum.
A diferença aqui, na busca pela ordem, com relação ao conservadorismo
clássico, é que os argumentos não são mais contrários à razão,

O positivismo busca a harmonia e a ordem social a partir da razão,


entendendo que: a fisiologia social deve estudar o homem nas suas
relações sociais, que o conhecimento é estático e dinâmico (ordem e
progresso) e, portanto, tem a função de manter a harmonia social e
promover o desenvolvimento capitalista, sendo a indústria a máxima
expansão da ciência e da tecnologia (GONDIM; BEZERRA; COSTA, 2018,
p.4).

A razão é utilizada para a busca pela a idealizada harmonia social e o


desenvolvimento econômico. É esta a razão aceita, não a razão que faz a crítica às
contradições próprias do capitalismo pretendendo sua superação. É aceita a crítica
pela via das reformas, donde se busca um “capitalismo humanizado”, encobrindo
que o que se pretende é amenizar a potência da vivência das desigualdades para a
luta de classes.
Os militares, e no geral, "Os conservadores modernos, munidos com esse
conceito, reclamam-se como prudentes defensores do presente democrático
(burguês) contra as "perigosas e violentas utopias" (fascismo e comunismo)"
(SOUZA, 2015, p.7). Para combater esse suposto perigo, busca-se pela ordem
interpretada como neutra, desideologizada. E nesse combate, postula-se pelo bem
comum como um contraponto à luta de classes. O horror à revolução é o que move
os conservadores modernos.
Ao contrário do que se possa imaginar, o conservadorismo moderno também
dá grande valor aos preconceitos, que "[...] são tomados como sistemas de valores
acumulados." (SOUZA, 2015, p.16). Continuam sendo padrões de comportamento
dados ao homem frente a situações do seu cotidiano, para que ele saiba reagir a
situações pontuais sem questionar os valores que sustentam a ordem burguesa.
Uma das derivações do positivismo é o pragmatismo. Segundo Guerra “[...]
trata-se de uma perspectiva teórica em que assiste-se à supressão das mediações
teóricas e ideopolíticas, própria da apreensão da realidade na imediaticidade do
cotidiano” (GUERRA, 2013, p. 14). Ou seja, é uma perspectiva em que a
apropriação da realidade não se dá através de suas múltiplas mediações, mas a
45

partir de seu fenômeno visto em nível da aparência; trata-se de um método de


compreensão da realidade que encobre suas determinações econômicas, políticas e
outras.
O pragmatismo considera a aparência simples como o real, tornando tudo
aquilo que é observado de imediato como natural e pré-concebido; o que
impossibilita a apreensão das determinações do fenômeno. Ainda Segundo Guerra,

[...] o pragmatismo, como o modo de ser da imediaticidade do mundo


burguês e de sua representação ideal, tomada a partir da experiência, opera
com tamanha sutileza que temos dificuldade de perceber que ele é apenas
o modo de “apreensão da aparência” do real e não o modo de ser do
próprio real. Ele opera em um nível da práxis, cuja inserção e apreensão
imediata da realidade passa a ser a atitude prática do homem comum no
cotidiano. A atitude pragmática e o pensamento no cotidiano se naturalizam
e são naturalizados pela racionalidade tipicamente burguesa (2013, p.44).

Nessa atitude pragmática, em que a utilidade é um dos parâmetros para a


verdade, características centrais do conservadorismo moderno convertem para a
justificação, em nível científico. O conservadorismo assim, ganha a credibilidade
científica: não é mais doutrina que se sustenta em premissas metafísicas; é ciência,
é algo que pode ser “comprovado”.
O conservador moderno, além de dar centralidade ao cientificismo, apregoa
sobre o que considera que falta no mundo: harmonia, ou amor. Assim, não são
necessárias lutas entre as classes, o que é necessário é que o homem faça sua
“revolução interna”, pois só mudando suas posições individuais é que alcançará a
paz e por consequência emanará paz a todos seus semelhantes. Não é mais o bom
cristão, mas o bom homem, que não deixa de reproduzir seus valores cristãos, o
famoso “cidadão de bem”, aquele que faz o seu papel e deixa que seus superiores
façam o dele. A laicização, para os conservadores modernos não é tão criticada,
pois também faz parte do ideal de neutralidade.
Para o conservador moderno não existem classes, todos fazem parte da
mesma sociedade e por consequência os interesses são os mesmos e convergem
para a busca pelo bem comum. A partir da tão sonhada “revolução interna”, as
mudanças no âmbito político e econômico seriam apenas consequências.
Para os que defendem o pensamento conservador, a luta política chega a
soar como ofensiva, relacionada à violência, à destruição da paz, como se o
problema fosse a reação da classe oprimida, e não a opressão cometida pela classe
46

que detém o poder, pois “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém
diz violentas as margens que o comprimem” (BRECHET, 2019).13
Autores que são expoentes do conservadorismo moderno continuam a
postular por uma paz que não existe, uma harmonia calcada no silêncio dos
oprimidos; esses não podem rebelar-se, pois isto seria desarmonizar o mundo.
Assim, é possível mantermos a harmonia, a ordem e o progresso, calcados no
silêncio dos inconformados.
O argumento sobre a naturalidade da desigualdade dos conservadores
clássicos permanece para os modernos, pois justifica as desigualdades que
continuam existindo. De novo, fundada no alcance do "bem comum", todos
compreenderam seu lugar no mundo e assim perpetuaram a harmonia da vida em
sociedade. Sob a moldagem do conservadorismo moderno o que se evidencia é a
construção de um aporte teórico para sustentar argumentos em defesa da
sociabilidade burguesa. O conservadorismo pós 1948, nas palavras de Escorsim
Netto,

[...] assumiu uma perspectiva especialmente contrarrevolucionária,


oferecendo alternativas reformistas para preservar a ordem estabelecida e,
incorporando, em sua tendência predominante, a racionalidade
instrumental-positivista, mobilizou-se para elaborar a representação teórica-
metodológica da sociedade burguesa (2011, 69).

No Brasil, as duas expressões do conservadorismo, clássico e moderno, se


entrecruzam para afirmação de uma sociedade fundada nos grandes latifúndios, nas
relações desiguais de gênero e etnia, associados ao poder político em detrimento da
garantia de direitos fundamentais da classe trabalhadora e das minorias que nela
subsistem. Estes aspectos serão tratados no tópico a seguir.

1.3 O CONSERVADORISMO NO BRASIL

O pensamento conservador tem sua gênese e transformação na Europa,


mas, no esforço de permanecer fiel ao método marxiano, entende-se que é
necessário fazer as mediações entre universalidade, particularidade e singularidade,
não sendo possível, portanto, recortar o pensamento conservador europeu e colar
na realidade brasileira sem avaliar os determinantes que aqui se fizeram. Assim,

13
Poema de Bertolt Brechet. Disponível em: <https://drive.google.com/file/d/1h9SGZ6kea_Fc-
bDJSYQHoXKj1eCL29et/view>. Acesso em: 18 set. 2019.
47

justifica-se a relevância de observar como este pensamento se expressa no Brasil,


através das particularidades de nossa história, de como foi e é dada a constituição
da sociabilidade e da moralidade brasileira.
Para Bonfim (2015) algumas das principais particularidades que farão
diferença na construção de valores brasileiros são: o sistema de colonialismo, a
escravização; o grande latifúndio; a maciça e potente presença da Igreja Católica; a
idealização da miscigenação de três raças14: indígena, africana e europeia, sob a
real submissão da cultura15 dos africanos e dos índios em contrapartida da
supervalorização da cultura advinda da Europa; a não separação do público e do
privado; e as conhecidas conciliações realizadas pelo alto, sem a participação das
camadas populares, especialmente no que tange ao processo de transição para o
sistema capitalista. É necessário para compreender os valores brasileiros que se
levante a base material, e "[...] a base material do desenvolvimento do Brasil, no
período colonial, era constituída pela economia agrária, baseada no latifúndio e no
escravismo" (BONFIM, 2015, p.55); o que se configura como determinante material
na construção da moralidade brasileira e nos possibilita compreender como esta se
constrói e se reproduz nas relações sociais brasileiras, não deixando de
compreender que elementos de resistência também fazem parte desta construção,
pois a compreende-se como dialética.
Nesta pesquisa, parte-se da perspectiva “[...] da moral como construção
histórica, associada à dinâmica objetiva da vida dos homens, e, por isso, de
natureza mutável" (BONFIM, 2015, p. XIII). A moral como construção de um povo,
resultando de que existem várias “morais” e não apenas aquela moral eurocêntrica.
Sendo assim,

[...] por moral entendemos um conjunto de normas e regras destinadas a


regular as relações dos indivíduos numa comunidade social dada, o seu
significado, função e validade não podem deixar de variar historicamente
nas diferentes sociedades (VASQUEZ, 2000, p.1).

A construção da moralidade é determinada por aspectos históricos,


materiais e dialéticos. O que de fato existe no Brasil: o colonialismo, a escravidão, a
mistura das três “raças”, a forte presença da igreja católica, o grande latifúndio, bem

14
O conceito raça é aqui compreendido “sob a perspectiva da totalidade social, se faz premente e necessária no
âmbito dos estudos e reflexões acerca do racismo nas sociedades contemporâneas” (CFESS, 2016, p.8). Ou
ainda considera-se que raça "É uma relação social, o que significa dizer que a raça se manifesta em atos
concretos ocorridos no interior de uma estrutural social marcada por conflitos e antagonismos" (ALMEIDA, 2018,
p.40).
15
Por cultura compreende-se o conjunto de elementos que compõem os modos de viver de cada povo.
48

como as expressões de resistência, dentre elas, expressões artísticas a exemplo do


próprio samba, são elementos brasileiros que fundam a moralidade brasileira e que
nos colocam em frente a um dado: apesar de determinantes econômicos, a moral
também é dialética e não pode ser mecanicamente um simples resultado do que o
capital determina. Mas isso não exclui o fato do indispensável levantamento histórico
dos determinantes econômicos, sociais e políticos que no Brasil forjaram suas
particularidades, que inicia-se no “descobrimento” e vai determinar a construção do
conjunto de valores reproduzidos nas relações sociais no Brasil.
Em “mito fundador”16, Chaui (2001) considera que a descoberta de um Brasil
"terra abençoada por Deus" “descoberto pelos Portugueses, trás elementos para
compreendermos um país que foi "fundado" por elementos como a sagração da
natureza, que se pauta no Brasil como o Paraíso reencontrado pelos portugueses
recheado de belezas naturais e sem riscos de catástrofes naturais. Uma terra
disputada entre Deus e o Diabo, ou a disputa do Bem contra o Mal; da sagração da
história como história teológica ou providencialista, repetição do tradicional até
chegar ao Juízo Final, ou o Fim da História, que resulta em descolar o brasileiro do
lugar de sujeito da história, como contrapartida interpreta o colonizador como o
agente que efetuará a história que já está definida nos escritos bíblicos; e a
sagração do governante, que assim como o Rei, recebe de Deus o dom natural de
governar os seus inferiores, produzindo a imagem de um poder transcendente e a
reprodução autoritária do mando e obediência ou dos favores. Assim, constitui-se
um país no qual a natureza é uma dádiva divina, a história é conservação através da
repetição, e os governantes são designados por Deus e naturalmente possuem a
missão para mandar e seus súditos obedecerem. A sagração da fundação do Brasil
indica que “[...] se Deus abençoou essa terra tão grandemente, é porque lhe reserva
um destino grande.” (CHAUI, 2001). Esse grande destino seria o próprio
desenvolvimento capitalista que chega com o colonizador europeu em terras
brasileiras.
O processo de colonização se inicia com a expansão europeia, "[...] no bojo
da crise de desagregação do modo de produção feudal" (MAZZEO, 1989, p.25), e
caminha no sentido da expansão marítimo-comercial, quando
No bojo dessa crise de transição de um modo de produção para outro, onde

16
“Um mito fundador é aquele que não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens,
novos valores e ideias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si
mesmo” (CHAUI, 2001, p.9). Depois de fundado, não há transformações, apenas repetição, conservação.
49

as relações sociais começam a tornar-se mais complexas, engendram-se as


condições histórico-particulares de Portugal que, de certa forma, materializa
e expressa esta primeira fase do processo de "passagem", na medida em
que se torna o primeiro Estado nacional europeu, ao final do século XIV,
criando as condições objetivas para o surgimento de um poder político
centralizado, que irá subsidiar a expansão marítimo-comercial lusitana dos
séculos XV e XVI, propiciando a criação do que será conhecido como
"sistema colonial" (MAZZEO, 1989, p.25).

É dessa forma que,


No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos
trópicos toma aspecto de uma vasta empresa comercial [...] destinada a
explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do
comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical de
que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos
fundamentais, tanto no social como no econômico, da formação e evolução
histórica dos trópicos americanos [...]. Com tais elementos articulados numa
organização puramente produtora, mercantil, constituir-se-á a colônia
brasileira (PRADO JR. apud MAZZEO, 1989, p.54).

Ao contrário de outros países americanos, donde a colonização aconteceu


com objetivos de povoamento, o Brasil se torna uma “colônia de exploração”,
através da entrega das terras pela Coroa portuguesa para os colonizadores 17, que
se apossaram das terras brasileiras como se estas fossem “terras de ninguém” (já
que os povos que aqui já habitavam eram, para eles, mais próximos a animais do
que seres humanos com outros modos de viver), em vez de desconsiderarem que já
havia uma construção de sociabilidade com valores e princípios, idiomas e religiões
próprias. Isso se explica pelo fato de que, “[...] nas colônias tropicais o objetivo da
ocupação estava essencialmente vinculado aos objetivos mercantis que marcam o
início da expansão ultramarina na Europa” (BONFIM, 2015, p.54).
O colonizador não se interessava em encontrar na terra colonizada uma
nova cultura a ser por ele incorporada e assim construir coletivamente novos
valores, valores genuinamente brasileiros como síntese do encontro com a
diversidade cultural entre os povos originários indígenas, e ainda mais, quem dirá da
cultura africana (de um povo que é trazido logo depois e considerado objeto). O
interesse dos colonizadores era unicamente tirar proveito dos recursos naturais e
humanos a título de alcance de objetivos econômicos e de manutenção de seu
poder. Este fato marcou profundamente as relações sociais brasileiras, deixando se
expressar a concepção de tirar proveito das “terras de ninguém”, que permanece
17
As terras brasileiras eram doadas ou vendidas pela Coroa, pois, segundo Chaui “determinada pela doação,
pelo arrendamento ou pela compra das terras da Coroa, que, não dispondo de recursos para enfrentar sozinha a
tarefa colonizadora, deixo-a nas mãos dos particulares, que, embora sob o mando legal do monarca e sob o
monopólio econômico da metrópole, dirigiam senhorialmente seus domínios e dividiam a autoridade
administrativa com o estamento burocrático” (2001, p.90-91).
50

visualizada nas mais diversas formas de corrupção (BONFIM, 2015, p. 54). Existe
então a relação deste elemento com a não “separação do público e do privado”,
quando os donos do Brasil utilizam dos bens públicos para benefício privado, mas
também outro elemento constrói esta separação. Trata-se de que a sociedade
colonial era “[...] inteiramente vertical ou hierárquica, a divisão social fundamental
entre senhores e escravos é sobredeterminada pela horizontalidade intra-estamental
e pela verticalidade interestamental, formando uma rede intricada de relações”
(CHAUI, 2001, p.84). Assim,

[...] as relações sociais se realizam sob a forma do mando-obediência e do


favor, tornando indiscernível o público e o privado, estruturalmente já
confundidos porque a doação, o arrendamento e a compra de terras da
Coroa garante aos proprietários privilégios senhoriais com que agem no
plano público ou administrativo (CHAUI, 2001, p.84).

Obter poder no Brasil era possuir terras e uma parte do poder da Coroa
portuguesa, reproduzindo a relação de favor e mando que estes donos de terras já
vivenciavam nas relações com a Coroa. Assim é que a não separação do público do
privado tem um de seus elementos fundantes a forma como foram doadas as terras
aos portugueses que se tornariam os grandes latifundiários.
O poder dos proprietários das terras se reproduz no poder dos governantes,
segundo Chaui,
[...] a forma mesma de realização da política e de organização do aparelho
do Estado em que os governantes e parlamentares "reinam", ou, para usar
a expressão de Faoro, são "donos do poder", mantendo com os cidadãos
relações pessoais de favor, clientela e tutela, e praticam a corrupção sobre
os fundos públicos (2001, p.91).

E quem são esses donos do poder? Os donos das terras, que no Brasil não
são poucas, e que utilizaram e ainda utilizam delas para concentrar riquezas e
poder: o grande latifúndio.
O modo de produção particularizado escravista no Brasil "[...] aparece como
uma formação (social) particular de universalidade capitalista" (MAZZEO, 1989,
p.74). Para Mazzeo,

[...] não podemos explicar as colônias americanas sem nos remetermos ao


próprio processo de reposição do capital, encarnado na expansão europeia
do século XVI, entendendo-se assim essa expansão como o momento
crucial que o nascente modo de produção capitalista encontra para ampliar
suas condições de existência (1989, p.75).

A formação social colonial é uma particularidade histórica brasileira, dada


pela expansão capitalista mercantilista europeia, na qual a missão dos povos
51

civilizados era de levar à sua civilização (desenvolvimento capitalista) até os povos


considerados por eles primitivos, originando, além do processo de colonialismo, a
escravização. Segundo Almeida, "[...] foi esse movimento de levar a civilização para
onde ela não existia que redundou em um processo de destruição e morte, de
espoliação e aviltamento, feito em nome da razão e a que se denominou de
colonialismo" (2018, p.21).
Ao chegarem em terras brasileiras, os portugueses descobriram não só o
“novo mundo”, mas que já existiam aqui incontáveis povos originários com suas
formas de sociabilidade diferentes da burguesa em ascensão. Essa parte de nossa
história é difícil de ser analisada, é como se tivessem sido apagados, dando a
impressão de que nossa história se inicia só após chegarem os primeiros europeus,
como se tudo que é anterior não importasse para configuração de nossa
sociabilidade. Resulta que o que configura como próprio aos povos originários
geralmente é considerado primitivo, como um povo bárbaro que não se enquadrava
às normas de vida da sociedade europeia e cristã. Ilustra isso o orgulho que as
famílias brasileiras têm até hoje em resgatar suas raízes europeias, mas com
relação às possíveis raízes (porque não registradas) de procedência indígena,
pouca história se narra, a não ser daquelas que identificam o povo indígena como
um animal que precisava ser domado e civilizado, como, por exemplo, a conhecida
história popular: “minha bisavó era índia e foi pega no laço”. Mas o povo indígena
também resistiu e resiste, e no próprio samba aparecem elementos de sua cultura.
O que o Europeu expressa ao “descobrir” o “novo mundo” está nas cartas e
diários de bordo. Considera-o como novo e diferente, segundo Chaui,

Ele é novo porque é o retorno à perfeição da origem, à primavera do


mundo, ou à "novação do mundo", oposta à velhice outonal ou à decadência
do velho mundo. E é outro porque é originário, anterior à queda do homem.
Donde a descrição da gente nova como inocente e simples, pronta para ser
evangelizada (2001, p.62).

As populações originárias no Brasil, a partir do olhar do colonizador,


precisavam ser por ele “salvas”, no sentido da conversão cristã e burguesa. Sobre
isso, segundo Jacob Gorender,

Com o descobrimento do ano de 1500 e a subsequente colonização,


puseram-se, uma diante da outra, duas formações sociais heterogêneas: a
dos conquistadores europeus e a das tribos autóctones. Os primeiros
procediam da sociedade feudal ibero-lusitana, pioneira do mercantilismo e
uma das mais avançadas do Ocidente europeu na época; ao passo que os
ocupantes presentes no território a ser conquistado constituíam uma
52

sociedade tribal e comunista primitiva, com um modo de vida nômade,


inferior aos adventícios no que se refere ao estádio do desenvolvimento das
forças produtivas (2010, p.83).

Portanto, na interpretação dos colonizadores, eram povos que precisavam


de um “impulso” para se desenvolverem. A colonização se deu como “conquista” de
novos territórios, pautada na ideia de que haviam povos “não evoluídos” que
precisavam ser submetidos, a qualquer custo e contra sua própria vontade às
mudanças que os moldassem aos modos da sociabilidade burguesa; empreitada
extremamente necessária à conquista do capitalismo em novos territórios. No Brasil,
com essa missão, a população indígena foi massacrada ou catequizada, e os
resistentes até hoje sofrem no dia a dia as marcas da não aceitação e o estigma de
seu modo de existir reproduzidos na cultura hegemônica.
Quando se define que o homem branco (europeu) é o símbolo de
civilização? Foi com o iluminismo, momento em que, como já citado, houve avanços
na valorização da racionalidade do homem, e também "Surge então a distinção
filosófico-antropológica entre civilizado e selvagem, que no século seguinte daria
lugar para o dístico civilizado e primitivo" (ALMEIDA, 2018, p.20-21). Civilização que
será levada até outros povos com as “variações menos evoluídas”. Nas palavras de
Almeida, "[...] civilização que, no século seguinte, seria levada para outros lugares
do mundo, para os primitivos, para aqueles que ainda não conheciam os benefícios
da liberdade, da igualdade, do Estado de direito e do mercado." (2018, p.21). Como
se fosse uma ação benevolente do povo branco apresentando as “maravilhas” de
seu modo de existir, o problema é que neste combo de desenvolvimento, também
levam suas principais mazelas.
Foi assim que se justificou a submissão de outros povos ao homem branco
europeu. Segundo Almeida, "[...] a classificação de seres humanos serviria, mais do
que para o conhecimento filosófico, como uma das tecnologias do colonialismo
europeu para a destruição de povos nas Américas, da África, da Ásia e da Oceania"
(2018, p.22). Compreende-se que
[...] as colônias, zonas de fronteira, "terras de ninguém", são a imagem da
desordem e da loucura. Não somente porque lhes falte algo parecido com o
Estado, mas, sobretudo, porque lhes falta a razão materializada na imagem
do homem europeu (ALMEIDA, 2018, p.93).

A ordem neste momento era de um mundo hierarquicamente dividido, onde


alguns povos são superiores a outros; aquela desigualdade natural que no
53

conservadorismo clássico é visto enquanto desígnio divino e no conservadorismo


moderno enquanto fundamento para harmonização da sociedade.
Tanto o Brasil Natureza, como o Brasil colônia de exploração da expansão
capitalista demandam e justificam o trabalho escravo. No primeiro, a escravização é
justificada através do direito natural no âmbito do qual se preconiza a ideia de Deus
como legislador supremo com uma ordem natural jurídica criada por ele mesmo,
[...] ordenando hierarquicamente os seres segundo sua perfeição e seu grau
de poder, e determinando as obrigações de mando e obediência entre
esses graus, em que o superior naturalmente comanda e subordina o
interior, o qual também naturalmente lhe deve obediência (CHAUI, 2001,
p.63-64).

A livre escolha do homem, também através do direito natural objetivo, se dá


quando este é

[...] dotado de razão e vontade, possui naturalmente o sentimento do bem e


do bem, do certo e do errado, do justo e do injusto, e que tal sentimento é o
direito natural, fundamento da sociabilidade natural, pois o homem é, por
Natureza, um ser social (CHAUI, 2001, p.62).

Sendo possível, observar dois elementos da argumentação conservadora: a


desigualdade como natural e a ideia de que todo homem deve se conformar em
estar em seu lugar, pois o próprio Deus ali o colocou; e a formulação de que os
homens não são produtos históricos, mas repetem aquilo que Deus inculcou em
suas mentes, então aquele homem que não obedece às regras do bem, não estaria
agindo naturalmente como ser humano. Sabendo o negro que existem povos
superiores a ele e sabendo o que é certo e errado, justifica-se a sua submissão ao
homem branco.
Seguindo essa lógica, o Índio estava em estado de inocência, aquele mesmo
do primeiro homem e da primeira mulher criados por Deus, pois estava no Paraíso,
e, portanto, ainda não possuía a capacidade de decidir entre o bem e o mal, por isso
Deus designa um mandante para conduzi-lo a essa ordem natural. "Assim, em
conformidade com as teorias do direito natural objetivo e subjetivo, a subordinação e
o cativeiro dos índios serão considerados obra espontânea da Natureza" (CHAUI,
2001, p.64); e como no direito natural subjetivo "[...] alguém é sujeito de direito
quando está na plena posse da vontade, da razão e dos bens necessários à vida-
seu corpo, suas propriedades móveis e imóveis e sua liberdade" (CHAUI, 2001,
p.64), ao conhecer o índio e avaliá-lo sobre as lentes de conhecimento europeias,
"[...] considerando-se o estado selvagem (ou de brutos que não exercem a razão),
54

os índios não podem ser tidos como sujeitos de direito e, como tais, são escravos
naturais" (CHAUI, 2001, p.64).
Mas os Índios fugiam para suas terras, ou "Ao que tudo indica, os índios
decidiram usar a livre faculdade da vontade e recusar a servidão voluntária. Será
preciso que a Natureza ofereça nova solução" (CHAUI, 2001, p.65). De qualquer
forma o trabalho escravo era necessário para explorar o “novo mundo”, "Passa-se,
então, a afirmar a natural indisposição do índio para a lavoura e a natural afeição do
negro para ela" (CHAUI, 2001, p.65). Dessa forma, justifica-se a escravidão do povo
africano, pois "Afirmava-se que nas guerras entre tribos africanas e nas guerras
entre africanos e europeus os vencidos eram naturalmente escravos e poder-se-ia
dispor deles segundo a vontade de seus senhores" (CHAUI, 2001, p.66). Assim é
que se obtinha força de trabalho para os intentos da expansão capitalista, além de
que "A naturalização da escravidão africana (por afeição à lavoura e por direito
natural dos vencedores), evidentemente, ocultava o principal, isto é, que o tráfico
negreiro ‘abria um novo e importante setor do comércio colonial’." (CHAUI, 2001,
p.66).
Para Mazzeo, outros fatores determinaram a incorporação do trabalho
escravo nas colônias
[...] e do próprio caráter que assume a escravidão, num momento histórico
em que, fundamentalmente na Europa ocidental, o processo de acumulação
engendrava a separação dos trabalhadores de suas condições objetivas e
subjetivas de produção (1989, p.77).

São esses fatores: a expansão do consumo na Europa e o necessário


crescimento da produção, resultando no “[...] aspecto fundamental que determina a
introdução do trabalho escravo nas colônias americanas, isto é, a necessidade
objetiva da produção ampliada de mercadorias para os centros consumidores
europeus" (MAZZEO, 1989, p.81).
No bojo do contexto de conquista de novas terras pelo colonizador e a
exigência de um desenvolvimento nos moldes capitalistas, o Brasil, que além dos
povos originários já vivendo na contramão do desenvolvimento capitalista, recebia
assim, pelos navios negreiros, povos africanos escravizados que traziam distintos
modos de viver contraditórios ao europeu, requerendo, portanto, que fossem
controlados. Dessa forma, a Igreja (também possuidora de poder e propriedade) se
une ao Estado para domesticar o povo descontrolado que viva de acordo com suas
55

tradições e não se importavam em “evoluir” norteados pelo exemplo da Europa18.


Era preciso que esses povos aceitassem, a qualquer custo, a superioridade europeia
como a melhor forma de se viver em sociedade, a Igreja se empenhou em
catequizá-los. Assim,

Estado e Igreja compunham um todo orgânico, sendo que o papel dessa


instituição não se limitava em transformar negros e índios em "bons
cristãos". Além do "controle das almas" no cotidiano da vida na colônia,
essa tinha sob sua responsabilidade a educação das pessoas. Esses dois
braços da Igreja possibilitaram a disseminação dos valores cristãos e, ao
mesmo tempo, a necessidade de obediência a Deus e ao Estado (BONFIM,
2015, p.56-57).

A transformação dos povos incultos em “brancos”, ou seja, a incorporação


da cultura europeia como o topo da humanidade, incluía a conversão ao
cristianismo, assim, Igreja e Estado desejando o controle desses povos, o fizeram
“por bem ou por mal”, ensinando a obedecer a seus superiores: Deus e o Estado.
Mas é necessário dizer que a via do “por mal” acontece porque todo esse processo
não ocorre sem resistências, sem que os negros e indígenas reagissem defendendo
seus costumes e valores. Houve resistência, sangrenta, aliás, e “Isso se deu, em
grande medida, em virtude da diversidade cultural e, especialmente, religiosa da
maioria da população - constituída por negros e índios” (BONFIM, 2015, p. 57).
O mundo da cultura, que por si só é múltiplo e diverso, pois congrega os
modos de vida distintos, ao se chocar com tentativas de controle, produz
exatamente a “desordem” da qual se buscava regular. Como coloca Almeida, autora
que analisa as lutas do povo negro,
Na dinâmica colonial, a imposição dos padrões civilizatórios eurocêntricos
pelos grupos dominantes não foi impingida sem que houvesse resistência
dos grupos dominados. Muito pelo contrário, a memória da Diáspora Negra
não só traz a marca da escravidão, como também das lutas de negação
desse padrão de sociabilidade (2014, p.141).

Do contrário, não estaria esta pesquisa buscando compreender os caminhos


do samba que por si só se configura como resistência de aspectos culturais de um
povo que foi escravizado e trazido à força para um país de dimensões continentais.
A escravidão, além de destinar o povo negro a uma vida desumana, lhes dificultou
ao máximo a reprodução de seus valores, cultura e padrões de sociabilidade. É por
isso que a presença negra no Brasil diz muito sobre o samba, o que se mostrará em
suas letras que expressam o modo de viver e de resistir das classes populares; e

18
Até hoje as tribos indígenas são alvos dos intentos de evangelização por parte dos integrantes das igrejas.
56

mais do que isso, expressa a própria história brasileira.


Dentre as expressões culturais populares brasileiras, o samba tem sua
história marcada por perseguições tanto do Estado, em ações policiais, como da
Igreja em suas argumentações de que seriam expressões amorais e não dignas de
um povo que, na busca pela civilização, deveria se ater a valores cristãos. De
formas diversas, se denuncia através do gênero musical samba as marcas de um
país colonizado e de um povo escravizado que resistiu à violência da submissão
cultural. O samba, como a cultura do povo negro, se apresenta: “Eu sou o samba, a
voz do morro sou eu mesmo sim, senhor; e vou mostrar ao mundo que tenho valor”
19
, como a voz de um povo marcado por processos de dominação, mas que persiste
em se expressar, dentre outras formas, através da música.
Seguindo neste caminho, a história do Brasil se constrói dialeticamente entre
violências e resistências, na relação entre índios, africanos e europeus. Mas isso
não ocorre de forma igualitária entre as três, inviabilizando a tese de que houve no
Brasil a mistura das três raças como se estivessem no mesmo patamar de
respeitabilidade de suas culturas, o mito da democracia racial. Para Bonfim,

Não há dúvida de que a contribuição do negro e do índio para a formação


brasileira vai muito além do fornecimento de mão de obra durante um longo
período da nossa colonização. Mas não podemos ignorar o fato de que a
riqueza de suas culturas, tradições e valores foi, em grande medida,
corrompida pelas condições impostas a esses no processo de constituição
da sociedade brasileira, ou seja, a população negra e indígena prestava a
um único objetivo: servir como mão de obra, no processo de exploração da
colônia, o máximo e mais simples esforço físico (2015, p. 59).

A história da mistura das três raças, ou no título de um famoso samba “o


canto das três raças”20, se dá dialeticamente pela dupla contradição entre submissão
à cultura europeia e resistência dos elementos africanos e indígenas. Para o olhar
do colonizador era meramente para o trabalho físico que o povo indígena e negro
servia, não cabia a eles participarem do processo de construção de uma cultura
brasileira, mas aceitar (amigavelmente ou não) a cultura do povo superior a eles: a
europeia. O conjunto de valores e elementos próprios dessas culturas subordinadas
não foi assim reconhecido; pelo contrário, na maioria das vezes suas culturas foram
demonizadas e consideradas primitivas, com seus costumes comparados à de

19
Samba de Zé Kéti que fez parte da trilha sonora do filme “Rio, quarenta Graus”, de Nélson Pereira dos Santos.
Foi uma das músicas mais cantadas no carnaval de 1956. Informação Disponível em: <http://qualdelas.com.br/a-
voz-do-morro-2/>. Acesso em: 10 set. 2019.
20
Samba de Mauro César Duarte e Paulo César Pinheiro, imortalizado pela voz de Clara Nunes e uma das letras
analisadas nesta pesquisa, do ano de 1976.
57

animais, até pela própria Igreja católica que pregava os valores cristãos europeus
como os mais dignos de serem considerados civilizados. A influência cultural negra
será aceita pelo dominador na construção da identidade nacional quando
reproduzida sutilmente, o mais “embranquecida” possível, ou seja, quanto mais
incorporasse elementos europeus, principalmente quando fosse possível mascarar
as denúncias sob a sociedade burguesa. Ainda assim, a cultura negra resiste e se
expressa na década de 1970, por exemplo, no samba de carnaval “Festa para um
Rei Negro (pega no ganzê)”, de autoria de Zuzuca- Adil de Paula. O autor nos faz o
seguinte convite:

Nos anais da nossa História/ Vamos relembrar/ Personagens de outrora/


Que iremos recordar/ Sua vida, sua glória/ Seu passado imortal/ Que
beleza/ A nobreza do tempo colonial/ O lê lê, ô lá lá/ Pega no ganzê/ Pega
no ganzá/ Hoje tem festa na aldeia/ Quem quiser pode chegar/ Tem reisado
a noite inteira/ E fogueira pra queimar/ Nosso rei veio de longe/ Pra poder
nos visitar/ Que beleza/ A nobreza que visita o gongá (FESTA..., 1971).

No conjunto da cultura africana, estão as suas religiões, que assim como o


samba, estiveram inferiorizadas perante a cultura dominante, a ponto de serem
colocadas como “fora da lei” (NASCIMENTO, 1978). Assim,

[...] todas as características relacionadas ao negro e ao índio- costumes,


tradições, ritos, valores, religião, etc.- eram vistos de forma depreciativa e se
perpetuarão por longos períodos da nossa história e, considerando a
centralidade dessa questão na constituição desde país, não seria absurdo
concluir que muitos desses preconceitos se preservam até os dias atuais
(BONFIM, 2015, p. 59 e 60).

Preconceitos, que como vimos anteriormente, se expressam na reprodução


mecânica do tradicional, sem mediações críticas. Não é por acaso que os modos de
agir e a cultura indígena e africana tendem a ser identificados estritamente através
de seus fenômenos aparentes, sem as necessárias mediações críticas; reiterando
que a cultura europeia é a mais sensata no quesito do desenvolvimento humano.
Segundo Almeida (2018), o racismo, o preconceito e a discriminação racial
são relações sociais antagônicas. São, portanto, contrários à construção de uma
práxis e servem de sustentáculo ideológico conservador para um sistema de
dominação. Mas entendendo o racismo como estrutural, compreende-se que ele não
se nutre apenas de irracionalismos, e não sendo meramente reprodução de
preconceitos, é uma forma de racionalidade (ALMEIDA, 2018), contrária à ontologia
do ser social que direciona a razão a processos de transformação através da práxis.
58

É possível observar a forma como expressões do pensamento conservador


clássico e o moderno subsidiam o racismo, através da perpetuação dos
preconceitos, no primeiro marcado pela irracionalidade e no segundo pela
racionalidade funcional à perpetuação da burguesia no poder. O racismo é um tipo
de racionalidade estrutural ao capitalismo e não contrário a ele, pois neste sistema
existe a hierarquização valorativa de uma cultura ou um povo sobre o outro, sendo,
portanto, o racismo "parte da ordem social" (ALMEIDA, 2018, p.36).
Com as mudanças no capitalismo a nível mundial, impõem-se, também,
transformações no Brasil. Outra particularidade levantada pelos autores estudados é
a forma como essas transformações ocorrem, o que será chamado, nesta pesquisa,
de “revoluções pelo alto”, pois não havendo participação das classes dominadas,
não cabe a ideia de “conciliação”. Para Mazzeo (1989), o fato do trabalho “livre” não
ainda existir no Brasil colonial, não exclui a consideração de que o país estava
inserido num desenvolvimento capitalista, pois o trabalho escravo foi parte das
estratégias capitalistas de expansão territorial. Dessa forma, a transformação
brasileira não foi de um sistema feudal para um sistema capitalista, mas de um
sistema colonial, que para existir congrega elementos anteriores ao capitalismo
(trabalho escravo, por exemplo), em busca da realização de interesses
expansionistas, e que, na fase posterior, passa a demandar novos elementos
estruturais.
Sobre o processo de desenvolvimento do capitalismo no Brasil, Mazzeo
(1989) o classifica de início, de tipo “prussiano colonial” por se assemelhar com os
casos de "via prussiana" alemã e russo, mas ao mesmo tempo estar inserido neste
processo com a particularidade de ser uma colônia. Na sequência de sua
argumentação, o autor conclui que o que melhor designa o processo brasileiro é a
via do "bonopartismo-colonial", devido às semelhanças com o bonopartismo
europeu, através do primeiro e segundo reinado, sendo que este será um "[...]
aspecto do fundamento autocrático dominante, engendrado ontologicamente pela
formação histórico-particular do Brasil" (MAZZEO, 1989, p.129). Ao classificar o tipo
de “revolução” burguesa brasileira, o autor atenta para as origens da autocracia
burguesa no país.
Nos casos clássicos europeus (França e Inglaterra), a burguesia toma seu
lugar de protagonista e toma o poder, antes privilégio da nobreza e clero, através de
um confronto direto. No Brasil, os grandes (e poucos) proprietários de terras
59

tornaram-se a classe burguesa por pressão internacional de se colocarem em tal


contexto econômico, sem que para isso precisassem confrontar uma nobreza feudal,
pois constituíam a própria “nobreza brasileira”. Assim, se tornam capitalistas,
desejando entrar na lógica da acumulação de riquezas e da independência perante
a metrópole portuguesa. Dessa forma, “a partir dessas condições- riqueza, poder,
autoridade, tradição, orgulho de sangue e de família - o grande proprietário se
aristocratizou, formando uma classe à parte e privilegiada” (BONFIM, 2015, p. 62).
Mas no Brasil, mesmo com uma revolução burguesa semelhante à via
prussiana, não resulta uma burguesia nacional autônoma; a qual continua se
submetendo à metrópole, reproduzindo sua qualidade de colônia. Ocorre que,

[...] se na “via prussiana” o processo conciliador ainda leva sua burguesia à


autonomia nacional e ao progresso econômico de molde “capitalista
verdadeiro”, na “via prussiano-colonial”, ao contrário, a interioridade
escravista direciona para a subsunção de sua burguesia aos pólos centrais
do capitalismo e para a consolidação de uma economia que se conforma
como subsidiária à grande produção industrial, enquanto “elo débil” do
modo de produção capitalista em seu conjunto anatômico (MAZZEO, 1989,
p.121).

No sistema de valores que sustenta essa “revolução pelo alto” está presente
a forma como o conservadorismo se impôs no Brasil. Não havendo uma classe
revolucionária e sendo a transformação para o sistema capitalista moderno feita
diretamente por aqueles que já possuíam o poder e desejavam sua perpetuação,
através da conciliação entre as classes no poder da colônia e da metrópole, o
liberalismo e as ideias iluministas são aqui incorporados de forma adaptada. Tratou-
se de um capitalismo que só se desejou no âmbito lucrativamente econômico,
deixando de lado os elementos possibilitadores revolucionários da cultura moderna
que, em contexto europeu, foi responsável pela revolução burguesa. Assim,

[...] a “modernização” do Brasil, com relação ao contexto mundial do


capitalismo, é realizada com o objetivo de manutenção dos fundamentos
coloniais de sua organização produtiva, na medida em que a burguesia
agroexportadora articula-se com a burguesia industrial britânica.
Diferentemente dos processos bonopartistas clássicos, há, no processo
brasileiro, não só a conciliação com a estrutura produtiva colonial, mas
também uma conciliação onde a burguesia brasileira cede seu poder
econômico para manter o poder político que, diga-se de passagem, terá sua
autonomia nos limites impostos pelas potências industriais europeias, agora
em processo acelerado rumo ao imperialismo, de cuja cadeia o Brasil será
um dos elos débeis (MAZZEO, 1989, p.128).
60

Ou seja, ao deixarem de ser colônia portuguesa e desejando a continuação


de seu status de donos do poder, a burguesia nacional aceita se submeter
economicamente à burguesia britânica. Sendo assim, o chamado

[...] bonopartismo-colonial aparece, desse modo, como o elemento de


consolidação política de uma sociedade extremamente autocrática,
comandada por uma burguesia débil e subordinada aos pólos centrais do
capitalismo, para a qual a sociedade civil restringe-se aos que detêm o
poder econômico, e as massas trabalhadoras constituem a ameaça
constante aos seus interesses de classe. Será o articulador de uma política
de Estado manipuladora e alijadora das massas populares, enfim, a
encarnação e a gênese da autocracia burguesa no Brasil (MAZZEO, 1989,
p.129).

O liberalismo, tendo um caráter contraditório que é direcionado a partir de


seu momento histórico (MAZZEO, 1989); localizado em sua historicidade concreta
no caso brasileiro, se apresenta como conservador e conformista, e é por isso que
com ele convivem normalmente sistemas produtivos como a escravidão.
O liberalismo, até mesmo na Europa, segundo Mazzeo (1989) foi
revolucionário somente "[...] quando a burguesia tem de pôr abaixo os entraves
feudais que restam para sua plena ascensão" (MAZZEO, 1989, p.112).21 Passada
esse fase, ele foi

[...] refreador do processo revolucionário e torna-se conservador, quando


esses entraves são eliminados através de reformas "pelo alto" e pactos com
a antiga nobreza, que transfigura-se em "burguesia titulada" ou, ainda, com
a tomada do poder e a eliminação do que lhe ameaça o poder (MAZZEO,
1989, p.112).

No Brasil, o liberalismo é incorporado já na sua face conservadora e


reacionária. É que, nos casos clássicos de desenvolvimento do capitalismo, a
burguesia precisou da força do povo "[...] para levar a cabo sua tarefa de sepultar o
velho feudalismo" (MAZZEO, 1989, p.113); enquanto nos casos de tipo prussiano ou
os parecidos com este, como no caso Alemão,

[...] o processo conciliatório pôde excluir as massas, já que não houve a


revolução e, dessa forma, a noção de Estado aparece, não como a
representação do poder popular, mas como a representação de um espírito
comum - wolksgeist- "imanente" à "nação" alemã (MAZZEO, 1989, p.113).

O que explica a particularidade da não participação popular nas


transformações brasileiras. Os ideais revolucionários, que poderiam advir com a
21
Mas é necessário deixar claro que a compreensão do caráter revolucionário que o liberalismo pode ter não
exclui a consciência de seus limites, pois "Como diz Lênin, a democracia burguesa está encerrada nos limites
estreitos do capitalismo e, dessa forma, é sempre uma democracia para a minoria, para as classes possuidoras"
(MAZZEO, 1989, p.112).
61

Ilustração, não cabiam aos interesses do grande latifúndio escravista brasileiro. A


grande maioria da população do Brasil era formada por índios e negros, povos com
culturas diversas e por vezes antagônicas à cultura europeia. É por isso que, a
burguesia industrial se adiantava na função de transformadores para que não se
colocassem riscos de que as mesmas ocorressem nos moldes das grandes
revoluções. Ocorre a conciliação dos interesses da burguesia nacional com a
internacional, antes que as massas se revoltem e mostrem seu poder.22 Há no Brasil,
uma burguesia já desde seu nascimento conservadora e reacionária que não
necessita ser antes revolucionária, combina-se o liberalismo a um conservadorismo
que rechaçava a cultura da modernidade.
Transformações revolucionárias "[...] para a burguesia colonial brasileira
seria o fim da estrutura latifundiária e escravista e o fim do seu poderio político e
econômico no Brasil" (MAZZEO, 1989, p.99). Por isso que, no Brasil, "[...] a nível
político, a liberté, egalité e fraternité dos revolucionários franceses e norte-
americanos, a noção de sociedade civil burguesa, será restrita aos que possuem
terras, escravos e dinheiro" (MAZZEO, 1989, p.120). Ou seja, um liberalismo apenas
para comerciar e produzir em setores da agricultura; liberdade, igualdade e
fraternidade só para os possuidores de terras, escravos e dinheiro, resultando-se na
"[...] concretude da estrutura produtiva que desmente, na prática, os princípios
liberal-revolucionários" (MAZZEO, 1989, p.120). O que se traduz na máxima do
“Brasil liberal na economia e conservador nos costumes”23; ou ainda quando Roberto
Schwarz trata do liberalismo à brasileira com a máxima “as ideias fora do lugar”24.
No Brasil o desejo era ter o capitalismo permanecendo com valores
conservadores. Bonfim cita Fernandes sobre isso:

[...] a consciência conservadora prevaleceu, porque ela reunia os principais


trunfos das estruturas de poder: a "velha" e a "nova" oligarquias coincidem,
em seus propósitos de "desenvolvimento com segurança", com setores
ascendentes das classes médias e os "parceiros estrangeiros.”

22
Não foi por acaso que se alastra um verdadeiro pavor ao exemplo revolucionário haitiano, que demonstra
como exemplo que “participação popular, no processo revolucionário, encurta o espaço de privilégios e de
mando político” (MAZZEO, 1989, p121); além da lição ter demonstrado “que quando generalizadas nas massas
oprimidas, as ideais revolucionárias podem representar sentença de morte aos exploradores” (MAZZEO, 1989,
p.121). O medo com relação ao exemplo haitiano assolava a aristocracia brasileira, já que, assim como no Haiti,
a maioria da população era formada por povos negros africanos, que através de suas culturas construíram lutas
coletivas e se apresentaram como sujeitos revolucionários, causando na burguesia brasileira um verdadeiro
"terror às massas populares e o pesadelo constante da revolta dos negros, o medo do Haiti" (MAZZEO, 1989,
p.121).
23
Vale lembrar a fala de um candidato à presidência do país nas eleições de 2018, que ilustra bem um Brasil
que há tempos se afirma como “liberal na economia e conservador nos costumes”.
24
Informações postas em parecer de avaliação da banca desta dissertação pelo professor Marcelo Braz, 2020.
62

(FERNANDES apud BONFIM, 2015, p. 75).

O desenvolvimento com segurança concilia a reprodução do capital, o


abafamento da luta de classes e a subordinação do que é genuinamente brasileiro
ao que vem de fora.
Colonizadores e depois burguesia nacional adaptam o ideário da
modernidade com vistas a perpetuarem seu poder, transformando, do ponto de vista
formal, o trabalho escravo em “livre”, donde um povo antes escravizado se torna
“livre”, ou seja, é submetido a novas formas de exploração pautadas na grande
desigualdade. No processo da necessária abolição do trabalho escravo, novas
formas de racismo e de sistemas de dominação emergem.
As grandes transformações no Brasil também eram criticadas pelos
conservadores, mas pretendiam as vantagens que o sistema capitalista lhes
proporcionaria,
Não por acaso é emblemático o lema "ordem e progresso" 25 para
caracterizar a dinâmica do desenvolvimento do capitalismo no Brasil, ou
seja, a transição para um novo modo de produção deveria se dar sem
romper com as estruturas de poder do regime anterior (escravismo) e,
nesse sentido, era necessário combater todas as formas de manifestações
populares (BONFIM, 2015, p. 72).

Dessa forma foi possível perpetuar sistemas de dominação como o racismo,


a cultura do favor, a não participação popular nas decisões políticas. Ocorre que
“Sem os perigos de uma revolução, sem rupturas, tomava-se o passado dos tempos
coloniais, conciliando-o com as novas formas político-organizativas que o Brasil irá
necessitar, após sua emancipação política” (MAZZEO, 1989, p.100-101).
O Brasil deixa de ser colônia e tem sua independência sem que para isso as
classes populares tenham tido um protagonismo de luta e, portanto as estruturas de
poder continuam quase que intactas. Em suma, "[...] a Independência do Brasil foi
resultado de um processo de conflitos de interesses entre classes dominantes
nacionais e os objetivos da metrópole, onde permaneceu a essência das relações
sociais no Brasil" (BONFIM, 2015, p.65). Ocorre a perpetuação do poder, aqui no
Brasil não da Igreja e da nobreza, mas da Igreja e dos poucos proprietários das
vastas terras que na prática detinham o poder que um rei tinha na Europa em seus
feudos, com a diferença que aqui havia, no limite, a subordinação aos interesses

25
O lema do progresso e do desenvolvimento, combinado à ordem, e a obediência e o culto à autoridade,
sempre aparecem na história brasileira, aspecto que vai se destacar no período da autocracia burguesa pós
golpe de 1964.
63

antes da Coroa portuguesa e depois da Inglaterra.


Observa-se que não há impedimento na existência do liberalismo com o
racismo. Isso porque, o liberalismo defende uma liberdade que é meramente formal,
donde todos os indivíduos são iguais perante as leis, mas que as condições para
que exerçam essa liberdade estão na estrutura econômica capitalista, desigual por
essência e que sustenta o sistema de dominação na qual homens antes escravos
passam a avolumar a grande parte da população que fica à margem das riquezas
socialmente produzidas (historicamente produzidas por eles mesmos).
No intuito de modernizar o país, a burguesia brasileira deseja a importação
dos novos sistemas de valores europeus, mas que isso não atrapalhasse seus
interesses de manter seu poder. Para isso

A tentativa de modernizar o país não se expressava somente através da


incorporação enviesada do ideário liberal. Observava-se uma necessidade
de introduzir no Brasil costumes europeus que se evidenciavam nas mais
variadas formas: na arquitetura, nas vestimentas, na aquisição de refinadas
louças, porcelanas, cristais, etc. Os hábitos também deveriam se "civilizar",
ou seja, tornarem-se o mais próximo possível dos europeus, ainda mais em
se tratando de uma sociedade já bastante miscigenada, sendo que duas
das raças em questão eram consideradas bárbaras (BONFIM, 2015, p. 69).

Desejava-se o que vinha da Europa, menos a capacidade crítica,


consciência de classe e por consequência poder de luta que lá se desenvolvia; aqui
as estruturas de poder travavam as tentativas de resistência, que eram combatidas
de diversas formas, inclusive violentas. Além disso, o pensamento conservador
também conseguiu reproduzir seus valores através da construção de consensos,
fazendo com que a população (até de negros e indígenas) incorporasse e
naturalizasse os valores hegemônicos europeus. Segundo Mazzeo,

[...] a cultura europeia não apresentava-se como um corpo estranho ao


conjunto da formação social colonial brasileira. Ao contrário, ia sendo
assimilada não só pelos portugueses, herdeiros históricos imediatos dessa
cultura, mas também pelos negros africanos e pelos índios, na medida em
que a cultura universal passa a ser o novo referencial (ainda que,
inicialmente, sob o signo de um sincretismo) para esses grupos étnicos que
têm sua estrutura cultural desagregada (1989, p.103).

Isto posto, a moralidade que se impõe como hegemônica no Brasil


caracteriza-se, sobretudo, por um conjunto de valores liberais e conservadores
(especialmente os veiculados pelo cristianismo da Igreja Católica). São valores que
chegam ao Brasil junto com a colonização europeia e a cultura eurocêntrica como
um todo. Contudo, não aniquilam resquícios da cultura indígena e africana
64

(praticamente destruídas e destituídas pelo processo de colonização). E essa


destruição ocorre pela imagem benéfica do colonizador, como exemplo no que
ocorre no romance Iracema, de José de Alencar (1962)26, a morte e a destruição da
cultura indígena se faz de forma romanceada e tem a contrapartida da vitória e o
heroísmo do guerreiro branco europeu.
O conjunto de valores de uma sociedade influi sobre a configuração do
Estado brasileiro. Mazzeo argumenta que esta configuração irá incorporar dois
aspectos, elementos ideológicos referentes às formações de desenvolvimento
capitalista tardio e referentes à particularidade escravista e latifundiária (MAZZEO,
1989, p.91-992). É por isso que o Estado brasileiro se configura como

Um aparelho estatal de onde se despregue a violência e o favor deletério,


para manter intacta sua estrutura fundamental, com as massas populares
(escravos e homens “livres”) fora do cenário político sempre. Uma estrutura,
enfim, que permita até golpes e contragolpes constantes entre as facções
dominantes sem alterações, no entanto, de seu aspecto basilar (MAZZEO,
1989, p.123).

Dessa forma, valores como autoridade e tradição, tão caros já entre os


primeiros conservadores na Europa, intimamente relacionados com a Igreja e a
família, no Brasil também se fazem sólidos, sendo “[...] possível afirmar que as
relações autoritárias fazem parte da constituição do nosso país” (BONFIM, 2015, p.
58). O que é evidenciado no período de colonização e nas “conciliações pelo alto”,
mas que permanece ao longo de nossa história. Ou ainda, segundo Chaui,

Conservando as marcas da sociedade colonial escravista, ou aquilo que


alguns estudiosos designam como "cultura senhorial", a sociedade brasileira
é marcada pela estrutura hierárquica do espaço social que determina a
forma de uma sociedade fortemente verticalizada em todos os seus
aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas
como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece
(2001, p. 89).

Além disso, a sociedade brasileira também expressa suas relações de


dominação através do paternalismo e da “ideologia do favor”,

[...] a sociedade escravista brasileira não consubstanciava-se apenas nas


práticas costumeiras, que fique claro, de coerção violenta. Essa era comum
aos escravos, cuja situação era impossível esconder. Havia, como o lado
reverso da coerção violenta, uma forma dissimulada (manipulatória) e por
isso mais terrível de coação, expressa no “paternalismo”, e na “ideologia do
favor”, como chamou Schwarz (MAZZEO, 1989, p.121-122).

26
O romance Iracema de José de Alencar foi utilizado nesta pesquisa como forma de ilustrar a idealização da
imagem do colonizador que impõe sua cultura sobre o povo indígena e por isso é traduzido como um herói.
65

Após a abolição da escravidão, as relações de mando e desmando e de


autoritarismo se revestem de novas expressões, e isso se dá com a ideologia do
favor. Segundo Mazzeo,

[...] a “ideologia do favor” aparece como um instrumento de dominação, só


que num patamar mais elevado, isto é, o da diluição social, junto aos
elementos livres e “semilivres” que a própria estrutura escravista ia criando.
É para esses homens “livres” que o “favor” funcionava com o que
poderíamos chamar de simulacro, uma relação que se estabelecia como
caricatura do universalismo burguês, entre eles e os pertencentes à “classe
dominante” (1989, p.22).

Ou o culto à cultura do dominador ou a violência, os homens passam a ser


“livres”, não são mais objetos de seu dono, mas devem abaixar suas cabeças e
aceitar a dominação, do contrário, recebem um tratamento um tanto quanto violento
para que se calem. O lugar do negro, no senso comum, tende a ser associado à
necessidade de tutela ou de repreensão, reproduzindo a ideia de que precisa ser
“ajudado”.
Diante dessas considerações, observa-se o quanto o processo de
desenvolvimento no Brasil foi favorável para proliferação e reprodução de valores
conservadores de manutenção da ordem, da coesão social, com vistas à
manutenção no capital, segundo Bonfim,

Pudemos observar como as respostas dadas às demandas sócio-históricas


no processo de desenvolvimento do Brasil geraram valores adequados à
manutenção das estruturas de poder no país, dando à moralidade brasileira
uma essência conservadora (2015, p. 94).

Dessa forma, ocorre adaptação dos valores conservadores para garantir que
o poder continue nas mãos dos que já o detinham antes do desenvolvimento
capitalista,

[...] compreendemos o "conservadorismo à brasileira", ou seja, ele deve ser


entendido a partir das particularidades da nossa formação, considerando,
especialmente, a dinâmica da passagem de uma sociedade escravista, de
caráter mercantil, à outra de natureza capitalista. O que estamos afirmando
é que, se no processo de colonização os valores dominantes na sociedade
advinham da dinâmica da exploração, do saque e do butim da colônia, na
transição ao capitalismo o que se observa é refuncionalização desses
valores com o objetivo de garantir os interesses da burguesia nacional
(BONFIM, 2015, p. 94).

Em meio a uma revolução burguesa realizada “pelo alto”27, destaca-se que o

27
“Na análise de Caio Prado Júnior, a conciliação “pelo alto” ocorre em grande medida pelo fato de os
movimentos populares brasileiros do século XIX se caracterizarem por um “subversivíssimo esporádico e
elementar”, nos termos gramascianos”; e “De acordo com Coutinho (1990), é possível fazermos uma analogia
66

conservadorismo chamado de clássico encontrou no Brasil um solo fértil para sua


efetivação. Os valores aqui reproduzidos se mostram resultado de uma
transformação que manteve, por bem ou por mal, as estruturas de poder que
colocavam os povos indígenas e africanos escravizados sob autoridade da cultura
eurocêntrica. A classe burguesa brasileira não possui um caráter revolucionário, ela
simplesmente troca o seu lugar de poder para outro com praticamente as mesmas
vantagens.
Alguns exemplos de valores conservadores são citados por Bonfim para
demonstrar como aparecem na realidade brasileira,

No que se refere aos dois dos principais valores da argumentação


conservadora- a legitimidade da tradição e a desigualdade necessária e
natural-, podemos dizer que ambos estão fortemente presentes nas
relações sociais do nosso país, podendo ser verificados especialmente nas
relações entre os detentores de poder- proprietários de terra e dos meios de
produção, na sua maioria "brancos" e descendentes da antiga aristocracia-
e a grande parte da população- trabalhadores mestiços, fruto das "antigas"
relações de exploração: escravidão negra índia e o trabalho imigrante
(BONFIM, 2015, p. 94-95).

Culto ao tradicional e estrutura social na qual cada um possui o seu lugar e


deve comprimir o seu papel são fundamentados na obediência à autoridade. Além
disso,

Outra característica do conservadorismo clássico que se apresenta de


forma acentuada na nossa cultura é aquela referente aos perigos da
democracia. Vimos como as tentativas de participar dos processos
decisórios neste país têm sido permanentemente combatidas com
repressão (BONFIM, 2015, p. 95).

A dificuldade dos brasileiros em participar da vida política do país e das


transformações, fundada na tese da banalização da democracia, se dá também com
relação aos movimentos sociais, que são criminalizados e encarados como
problemas morais,

Além dessa limitada participação (direta) nos processos políticos,


observamos também uma constante criminalização dos movimentos sociais.
A liberdade de manifestação, elemento fundamental na democracia, é, no
Brasil, constantemente restringida e reprimida, possibilitando, assim, a
garantia da ordem (social) e o progresso (de poucos) (BONFIM, 2015, p.
96).

A liberdade individual, defendida por ideólogos do conservadorismo clássico,

entre o conceito de “revolução passiva” elaborado por Gramasci e as reflexões de Caio Prado sobre a “questão
nacional” no Brasil. Tal conceito possui semelhanças com a “via prussiana”, mas dá destaque para a questão
agrária e a constituição do Estado Nacional” (BONFIM, 2019, p.75).
67

no Brasil é associada à subordinação aos que “[...] conduzem a sociedade (teoria da


autoridade). No Brasil, esse tipo de dependência pode ser verificado especialmente
nas práticas clientelistas e paternalistas" (BONFIM, 2015, p.96). Devido à
característica humana natural que os conservadores acreditam existir, de que em
frente às dificuldades e problemas da sociedade, os homens não conseguem tomar
decisões autônomas, é necessário que sempre exista uma autoridade superior
capaz disto.
Outro ponto importante a ser percebido na construção da sociabilidade
brasileira é que aqui o Estado apresentou, e ainda apresenta muitas resistências em
se tornar um Estado laico; a religião é muito forte em praticamente todos os âmbitos
e em diversas proporções. Segundo Bonfim, “Isso pode ser verificado tanto no peso
dos valores cristãos na sociedade brasileira quanto na atual presença, no congresso
Nacional, de partidos políticos ligados a religiões” (2015, p. 96).
A presença da religião não colide com um Estado capitalista, pelo contrário,
contribui para sua manutenção quando cria consensos na sociedade, quando
moraliza a vida social mistificando as relações de classe. Marx já argumenta em
“Questão Judaica” que a emancipação da sociedade de toda religião não a torna
humanamente emancipada, só tira a religião do âmbito estatal, mas ela continua a
influenciar nas decisões através do conjunto de valores que são disseminados e que
atravessam as decisões dos representantes políticos. Mas mesmo que a laicização
do Estado não leve à emancipação humana, com um Estado religioso a distância
pra isso é aumentada grandemente (MARX, 1975).
O conservadorismo também se expressa no campo da cultura e das
manifestações artísticas. Tudo aquilo que era de expressão artística das classes
populares era relacionado com algo ultrapassado, primitivo, pois era na Europa que
se desenvolvia o que havia de melhor na arte; não qualquer uma, mas uma arte
justificadora da ordem posta, uma arte que prega a harmonia da estrutura social,
harmonia entre as classes, uma arte que não possibilita realizar as mediações das
determinações dos fenômenos e contribui assim para a mera reprodução dos
valores burgueses.
Entre as considerações realizadas, é possível compreender, para dar
continuidade à construção deste trabalho em busca de respostas e novas questões
em torno de como o conservadorismo tem se expressado no Brasil, está a de que a
sociabilidade brasileira possui traços do conservadorismo clássico europeu, mas
68

também incorpora elementos do conservadorismo moderno, e no período da década


de 1970 as duas vertentes vão se conciliar, destacando-se expressões como o culto
à autoridade e a banalização da democracia. Os valores conservadores são
reproduzidos na sociabilidade burguesa brasileira, carregadas de suas
particularidades, e vão ser traduzidas no cotidiano da vida da classe trabalhadora e
em suas diversas formas de expressões culturais e artísticas. Bonfim argumenta
que,

Por todas essas características que afirmamos que a moral brasileira se


constitui predominantemente por valores conservadores. Esses podem ser
evidenciados nas mais diferentes ações: na naturalização, moralização e
criminalização da "questão social", nas mais diferentes formas de
desigualdades- racial, econômica, social e de gênero; na dificuldade em
garantir a realização da dimensão pública, especialmente no que se refere
às políticas sociais; na persistência da lógica do favor; e na sua expressão
mais cotidiana: “o jeitinho brasileiro" (2015, p. 96-97).

Assim, conformam-se as condições históricas observadas que dão origens à


autocracia burguesa no Brasil, e, na outra ponta populações que ou aceitam através
na manipulação e incorporação da cultura do dominador, ou através da violência que
lhes é reservada. As relações autoritárias no Brasil vão ser reproduzidas com o
passar de nossa história nas relações de trabalho, relações com o Estado e na
sociedade, mas será no contexto de governos ditatoriais que esse caráter autoritário
será extrapolado, e especificamente no período de análise desta pesquisa: durante a
vigência da autocracia burguesa emergida com o golpe de abril de 1964.
Destacam-se alguns valores que esse contexto traduz: apologia à mistura
das raças - perspectiva da coesão social sem análise da dominação que ela oculta;
valorização de aspectos culturais europeus em detrimento de valores advindos do
sincretismo que caracteriza nossa cultura; patriarcado; patrimonialismo; nepotismo;
clientelismo (o bom patrão); afirmação de consensos pela força, apologia ao
autoritarismo. Tais valores estão entre os reproduzidos no ideário da direção política
que se impõe no Brasil, na década de 1970. Daqui em diante serão apresentados
aspectos socio-históricos desta década de vigência da autocracia burguesa no
Brasil, para que no capítulo seguinte, possamos refletir sobre a temática central
dessa pesquisa.
69

2 A DÉCADA DE 1970: AFIRMAÇÃO DE VALORES CONSERVADORES E/OU


CRÍTICOS NO PERÍODO DA AUTOCRACIA BURGUESA NO BRASIL

Inicia-se com um levantamento das determinações ideológicas, sociais,


econômicas e políticas que se revelam como um dos sustentáculos para as criações
artísticas e que se expressam nas composições das letras de samba do período da
década de 1970. Na sequência, realizam-se reflexões acerca do ideário conservador
veiculado no Brasil neste período, e também, observam-se as perspectivas de
resistências a tal ideário. Assim, torna-se possível compreender as expressões que
condizem e/ou criticam os valores veiculados no período da dominação da
autocracia burguesa no país e que são expressos nas letras de sambas do período,
convergindo para a sua resistência e/ou seu conformismo. Para organizar esse
levantamento, foram levantados dois eixos analíticos: a banalização da democracia
e a ênfase no autoritarismo.
Depois de levantados os fundamentos do pensamento conservador na
Europa em suas vertentes clássica e moderna, e exposto como este pensamento se
particularizou no Brasil, é necessário que se faça alguns apontamentos de como, a
partir das marcas da constituição da sociabilidade brasileira e a moralidade que o
sustenta, o conservadorismo se reatualiza e se reproduz no período de vigência da
autocracia burguesa brasileira pós golpe de 1964.
Relevante para a análise da imposição da autocracia burguesa no Brasil, na
década de 1970, é a ênfase em uma das expressões fundamentais do
conservadorismo moderno: o positivismo. É nele que se encontram as bases para a
construção do que se conhece como Doutrina de Segurança Nacional, conjunto de
conhecimentos que embasam a intervenção militar e a dominação da autocracia
burguesa no Brasil antes, durante e posterior ao golpe de 1964. Aspecto que se
observa na formação da identidade militar brasileira. Segundo Oliveira, "[...] o
positivismo forneceu os elementos centrais de uma identidade política e de uma
concepção acerca do país de uma geração militar privilegiada no interior do Estado."
(1989 p.22).
O culto à ordem burguesa sem contestações é forte no meio dos militares,
justificado pela defesa da ordem. Segundo Dias, "O filósofo francês Augusto Comte,
70

ao enfatizar a ordem como base para a expansão das possibilidades humanas de


crescimento, propunha uma nova organização social pautada na objetividade
científica" (2017, p.1). É a ordem explicada e justificada cientificamente através do
positivismo.
Foi dessa forma que o governo autocrático brasileiro trabalhou para o
desenvolvimento do país junto à lógica da segurança nacional, impondo uma ordem
inquestionável. Assim, "Durante toda a vigência da autocracia burguesa, os
governos militares perseguiram a combinação do crescimento econômico com
estabilidade política mediante a impostura da "ordem" e do "progresso" como
slogans da propaganda oficial“ (DIAS, 2017, p.7). Mas qual desenvolvimento se
busca? Desenvolvimento para quem? O desenvolvimento buscado pelo governo
autocrático era a concretização dos interesses do grande capital, mais
especificamente o norte americano.
Expoentes do conservadorismo modernos elogiam o desenvolvimento
econômico, independente das condições de vida da população. O samba
Positivismo, de Noel Rosa em parceria com Orestes Barbosa, de 1933,
ironicamente, expressa uma visão de mundo calcada no amor “por princípio”, na
“ordem por base”, e no progresso “por fim.” Dessa forma a autocracia burguesa
busca desfraldar o progresso enaltecido pelo positivismo, de forma a perpetuar a
ordem burguesa calando a voz dos inconformados com as contradições sociais.
Mas é preciso voltar às particularidades brasileiras que dão cor ao
conservadorismo durante o período da autocracia e o principal elemento de
destaque é o autoritarismo. Não autoritarismo como fenômeno que se apresenta
momentaneamente com relação a abusos anormais das classes dirigentes, mas
como elemento fundante da sociedade burguesa e das particularidades brasileiras.
Considera-se, portanto que a “[...] sociedade brasileira que é autoritária e que dela
provem as diversas manifestações do autoritarismo político” (CHAUI, 2001, p.90).
Sociedade brasileira que já é formada por relações capitalistas e marcada por um
processo de colonização como estratégia de expansão, constituído por relações
desiguais, dominadoras e, portanto autoritárias.
Para Florestan Fernandes, o autoritarismo é estrutural na sociedade
burguesa. Isso pois,

[...] a democracia típica da sociedade capitalista é uma democracia


burguesa, ou seja, uma democracia na qual a representação se faz tendo
71

como base o regime eleitoral, os partidos, o parlamentarismo e o Estado


constitucional. A ela é inerente forte desigualdade econômica, social e
cultural com alta monopolização do poder pelas classes possuidoras
dominantes e por suas elites. A liberdade e a igualdade são meramente
formais, o que exige, na teoria e na prática, que o elemento autoritário seja
intrinsecamente um componente estrutural e dinâmico da preservação, do
fortalecimento e da expansão do "sistema democrático capitalista" (1979,
p.7).

Assim como o preconceito e o racismo, o autoritarismo é um elemento


estrutural ao sistema capitalista e não mero "erro" ou “excesso” do sistema a ser
superado. Sua superação só virá efetivamente com a superação do sistema desigual
capitalista que necessita de estruturas desiguais de poder e dominação. Mas é
urgente que se coloque em evidência que aceitar que os rumos do país sejam
tomados de acordo com decisões autoritárias só aumentará ainda mais as
desigualdades.
Com o positivismo, a defesa da ordem coloca a carga de soluções na
autoridade na ciência, na razão. Segundo Fernandes (1979)

[...] a ciência política fecha-se dentro do universo burguês e introduz o


elemento autoritário na substância mesma do “raciocínio científico”. Ou tal
defesa da ordem não se funda na ideia de que a autoridade da “ciência”
confere um caráter racional definitivo e eterno ao modelo de democracia
que resultou no capitalismo? (1979, p.11).

De qualquer forma, existe o culto a autoridade, que se dá na ciência. Assim


como o racismo é uma racionalidade, o autoritarismo também o é.
Além da característica da sociedade burguesa brasileira de ser autoritária, a
sociedade pós golpe de 1964 pode ser classificada como autocrática. Autocrática
por ser o oposto de Democrática. Acrescenta-se o adjetivo “burguesa”, pois é
claramente um modelo de governo voltado aos interesses desta classe.
É por isso que os autores referenciados chamam de autocracia burguesa o
que outros chamam de Ditadura, o que se explica, pois,

Na conjuntura política do governo Goulart, a iniciativa e o protagonismo das


"classes produtoras" foram essenciais: tiveram papel central no golpe do 1°
de abril de 1964- e se o regime dele derivado foi uma ditadura que se valeu
do poder militar, este serviu aos interesses do grande capital: as Forças
Armadas foram instrumentalizadas para instaurar o que Florestan
Fernandes caracterizou como autocracia burguesa (NETTO, 2014, p.51).

Ocorre que o regime instaurado como golpe de 1964 se configurou como


uma clara estratégia de classe em benefício da classe capitalista. Segundo Netto, "o
golpismo militar operou vigorosamente desde 1961; todavia, foi a conspirata
72

patrocinada pelo grande empresariado e pelo latifúndio que lhe ofereceu as


condições necessárias para o seu êxito político." (2014, p.51). Assim, o uso do termo
"autocracia burguesa" expressa uma ditadura operada pelas Forças Armadas-
militar, mas patrocinada pelo capital e na busca de seus interesses.
Para Florestan Fernandes, na democracia burguesa, valores liberais são
incorporados de forma meramente formal “[...] o que exige, na teoria e na prática,
que o elemento autoritário seja intrinsecamente um componente estrutural e
dinâmico da preservação, do fortalecimento e da expansão do “sistema democrático
capitalista” (FERNANDES, 1979, p.7). No capitalismo, as relações sempre são de
uma forma ou de outra, autoritárias, de acordo com os interesses das classes
dominantes, nas palavras do autor, “a sociedade de classes é irrigada por relações
autoritárias, em todos os níveis de organização, funcionamento e transformação”
(1979, p.12). E são nas relações sociais e nos valores reproduzidos, que o
autoritarismo aparece,

Do micro ao macro, a sociedade capitalista contém toda uma rede de


relações autoritárias, normalmente incorporadas às instituições, estruturas,
ideologias e processos sociais, e potencialmente aptas a oscilar em função
de alterações do contexto (ou, mesmo, de conjunturas adversas), tendendo
a exacerbar-se como uma forma de autodefesa dos interesses econômicos,
sociais e políticos das classes possuidoras e dominantes (ao nível
institucional e ao nível global) (FERNANDES, 1979, p. 13).

A democracia em si não é contrária aos interesses do capitalista, mas sua


defesa (não como fim último, mas como espaço de disputa de poder) possibilita que
as decisões tomadas incorporem demandas da classe trabalhadora e de alguma
forma lhe proporcione voz, e “se todos participam efetivamente da gestão do Estado,
o capitalismo não pode mais se manter" (LÊNIN apud FERNANDES, p.105).
São nos países latino americanos que este caráter autoritário vai aparecer
de forma contundente com as chamadas contra-revoluções preventivas de meados
das décadas de 1950, 1960 e 1970. Ocorre que os países latino-americanos “[...]
não conseguiram conciliar desenvolvimento capitalista autônomo com uma ordem
social competitiva relativamente equilibrada e um Estado democrático”
(FERNANDES, 1979, p.39). A desigualdade que assola esses países causa a
“desordem” que a classe dominadora não deseja e que atrapalha o alcance de seus
interesses. Então

Mesmo nos países onde o crescimento urbano-comercial e industrial foi


mais longe, as populações pobres, além de muito numerosas, dispersavam
73

a miséria tanto no campo quanto na cidade. As burguesias nativas detinham


o controle da sociedade política. Contudo, eram burguesias relativamente
fracas (com referência aos centros dinâmicos do capitalismo mundial) e
incapazes de dinamizar as funções básicas da dominação burguesa (o que
as concentrava naquelas funções diretamente vinculadas a seus próprios
interesses particularistas, de autopreservação e autoprivilegiamento direto
ou indireto, como a “defesa da ordem” e a consolidação do capitalismo
privado de duas faces; ou, em outras palavras, o que absorvia nas “funções
nacionais” diretamente vinculadas aos interesses das classes possuidoras e
ao exercício de sua dominação, mesmo que isso acarretasse o monopólio
do poder político estatal por segmentos muito reduzidos da sociedade
global) (FERNANDES, 1979, p.39-40).

O contexto histórico é a base material para o tipo de Estado burguês


autocrático, que é “[...] nascido do contexto de uma contra-revolução política, para
garantir a “modernização”, a incorporação e a industrialização maciça, pelo menos
em um certo período de tempo deve funcionar como o instrumento político de uma
ditadura de classe aberta.” (FERNANDES, 1979, p.70). Assim, compreende-se que
o Estado autocrático burguês é uma estratégia de contenção da população perante
a grande desigualdade que assolava os países da América Latina e que os
colocavam com potencial revolucionário, pois se identificam com as teorias
revolucionárias, com o comunismo, exigindo então a “contra-revolução preventiva”
(NETTO, 1996).
Com relação aos traços que a sociedade autoritária brasileira se apresenta,
Chaui descreve que são: a interioridade como natural e diferenças como desvios do
normal; permitindo a “[...] naturalização de todas as formas visíveis e invisíveis de
violência, pois estas não são percebidas como tais” (2001, p.90); leis abstratas, que
não parecem surtir efeito de justiça para as camadas populares assim como produz
para os grandes, a lei como um privilégio, “[...] as leis são necessariamente
abstratas e aparecem como inócuas, inúteis ou incompreensíveis, feitas para ser
transgredidas e não para ser cumpridas nem, muito menos, transformadas” (CHAUI,
2001, p.90); a “indistinção entre o público e o privado”; os conflitos e, as
contradições aparecem como “[...] sinônimo de perigo, crise, desordem e a eles se
oferece como resposta única a repressão policial e militar, para as camadas
populares, e o desprezo condescendente, para os opositores em geral” (CHAUI,
2001, p.92). Além disso,

[...] nossa sociedade tem o fascínio pelos signos de prestígio e de poder,


como se depreende do uso de títulos honoríficos sem qualquer relação com
a possível pertinência de sua atribuição (o caso mais corrente sendo o uso
de “doutor” quando, na relação social, o outro se sente ou é visto como
superior e “doutor” é o substituto imaginário para antigos títulos de nobreza),
74

ou da manutenção de criadagem doméstica, cujo número indica aumento


(ou diminuição) de prestígio e de status, ou, ainda, como se nota na grande
valorização dos diplomas que credenciam atividades não-manuais e no
consequente desprezo pelo trabalho manual, como se vê no enorme
descaso pelo salário mínimo, nas trapaças no cumprimento dos
insignificantes direitos trabalhistas existentes e na culpabilização dos
desempregados pelo desemprego, repetindo indefinidamente o padrão de
comportamento e de ação que operava, desde a Colônia, para a
desclassificação dos homens livres pobres (CHAUI, 2001, p.92).

No Brasil a desigualdade “[...] não é percebida como forma dissimulada de


apartheid social ou como socialmente inaceitável, mas é considerada natural e
normal” (CHAUI, 2001, p.93). Este é um aspecto já observado no conservadorismo
clássico. Na autocracia burguesa de 1964, o que se acentua é o

[...] imaginário autoritário, isto é, da ordem (que na verdade nada mais é do


que o ocultamento dos conflitos entre poderes regionais e poder central, e
ocultamento dos conflitos gerados pela divisão social das classes sociais), e
do imaginário providencialista, isto é, o progresso (CHAUI, 2001, p.93).

Na política, as relações reproduzem o “mito fundador” quando na “[...]


sagração do governante; a política se oculta sob a capa da representação teológica,
oscilando entre a sacralização e a adoração do bom governante e na satanização e
a execração do mau governante” (CHAUI, 2001, p.94). Assim,

A identificação do Estado com o Executivo, a desconfiança em face do


Legislativo (cujas atribuições e funções não estão claras para ninguém, e
cuja venalidade escandaliza, levando a difundir-se a ideia de que seria
melhor não o ter) e o medo despertado pelo poder Judiciário (por ser a
seara exclusiva dos letrados ou doutores, secreto e incompreensível),
somados ao autoritarismo social e ao imaginário teológico-político, instigam
o desejo permanente de um Estado “forte” para a “salvação nacional”.
(CHAUI, 2001, p.94).

O que Guedes (2019)28 denomina de projeção salvítica ou seja, a imagem


de um “salvador da pátria” na figura do governante executivo, o presidente, por
exemplo, que vai ser o responsável por estabelecer a tão almejada “ordem”.
Conforme a sagração do governante, o dirigente representa não as classes
populares, mas o dominador, aquele que é o líder autoritário ou benevolente, e “Isso
é reforçado pelo fato de que a classe dirigente instalada no aparato estatal percebe
a sociedade como inimiga e perigosa, e procura bloquear as iniciativas dos
movimentos sociais, sindicais e populares” (CHAUI, 2001, p.94).
A partir deste movimento histórico de reafirmação do Estado autocrático no
Brasil, torna-se possível entender alguns dos determinantes que levaram o Brasil a

28
Informação verbal na Palestra proferida no CRESS. Seccional de Londrina em maio de 2019.
75

ingressar num regime autocrático, anos anteriores à década de 1970 (1964 a 1969).
O período se caracteriza como

[...] um processo global e unitário- uma unidade de diversidades, diferenças,


tensões, contradições e antagonismos. Nele se imbricam, engrenam e
colidem vetores econômicos, sociais, políticos (e geopolíticos), culturais e
ideológicos que configuram um sentido predominante derivado da
imposição, por mecanismos basicamente coercitivos, de uma estratégia de
classe (implicando alianças e dissensões) (NETTO, 1996, p. 15-16).

Para Netto (1996), este processo se dá na relação entre tais vetores e


resulta numa estratégia da classe capitalista objetivando controlar as reações da
classe trabalhadora frente à contraditória ordem capitalista, frente à chamada
“questão social”. Observar estes fatores é fundamental para compreensão deste
processo. Tratou-se de uma estratégia que adquire peculiaridades em sua
materialização nos diferentes países que estão entre os expoentes do capitalismo
central e os considerados “subdesenvolvidos”, e que, na América Latina requer,
entre outros fatores, o fortalecimento de regimes políticos autocráticos construídos
sob o total cerceamento de movimentos democráticos e que primam pela luta de
direitos inscritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), da qual
esses países são signatários.
Por compreender que o regime autocrático brasileiro durante a década de
1970 é uma estratégia de classe, um regime que privilegia os interesses do capital
norte americano e a burguesia nacional, apreende-se que valores conservadores
expressos na realidade brasileira serviram como sustentáculos para o erguimento e
sustentação do regime que através dela se instaura.

2.1 ASPECTOS DO MOVIMENTO DO CAPITALISMO NOS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA NA

DÉCADA DE 1970: MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO E DA CULTURA

O capitalismo se constrói e reconstrói dando respostas às suas próprias


crises para assim subsistir, configurando-se em diferentes fases, cada qual com
suas próprias particularidades quanto às formas de organização do modo de
produção que incidem em diferentes estratégias de controle da classe trabalhadora.
Compreende-se que

O que distingue as macrofases do capitalismo, associadas aos distintos


ritmos de acumulação e exploração, são - do ponto de vista econômico - as
76

transformações nos métodos de produção (as novas tecnologias), nas


formas de apropriação (diferentes modos de intervenção do Estado na
economia, por exemplo), nos mecanismos de exploração e nas
consequentes formas de organização e resistência dos trabalhadores
(HAESBART; PORTO GONÇALVES, 2006, p.32).

Em meados da década de 1970 assiste-se mundialmente, guardadas as


diferenças entre os países de capitalismo central e os considerados
“subdesenvolvidos”, a decadência do fordismo, constitutivo da fase monopolista. O
fordismo se configura como modelo de organização da produção com grande
lucratividade, com produção em massa e grande desenvolvimento tecnológico, mas
é neste período que se começa a experimentar problemas, como por exemplo, nos
investimentos de capital fixo de larga escala em longo prazo, impedindo uma maior
flexibilidade, além de ter que enfrentar a ampla rigidez nos contratos de trabalho
(HARVEY, 1992). Registram-se problemas nos compromissos que o Estado havia
firmado no provimento de políticas sociais e no âmbito de direitos trabalhistas, isso
nos países onde verifica-se o Estado de Bem Estar Social.
A classe trabalhadora, no modelo de produção fordista nos países
capitalistas centrais, se encontrava com salários relativamente bons, favorável
capacidade de negociação com o patronato e usufruto de políticas públicas que lhe
garantia mínimos sociais, além de direitos trabalhistas compatíveis com a
manutenção da condição de vida do trabalhador. Nestas circunstâncias, possuía
certa possibilidade para firmar acordos e conseguia se organizar e lutar por
melhorias em suas condições de vida, o que começa a ameaçar o alcance dos
interesses de aumento de lucratividade e de manutenção de poder das empresas
capitalistas. Um dos resultados desse processo foi uma onda de greves e
problemas trabalhistas no mundo todo (HARVEY, 1992), confirmando a grande
capacidade de organização da classe trabalhadora, que naquele momento
encontrava um terreno fértil para a luta por seus interesses.
A acumulação flexível, que surge do esgotamento dos anos gloriosos do
capitalismo na Europa, com a crise de 1971, se inicia com a crise do petróleo e da
necessidade de se mudar o modo de produção, exige agora um trabalhador
polivalente e não mais um trabalhador especializado.
A questão econômica exige a mudança de modelos de produção que acaba
por enfraquecer a organização dos trabalhadores, pela via da precarização das
condições de trabalho. Na acumulação flexível há uma precarização dos trabalhos e
77

flexibilização nos contratos. Soma-se a isso, uma nova fase de expansão capitalista
caracterizada por investimentos e controle da relação entre produção e trabalho em
países emergentes, ou seja, países nos quais o modo de produção fordista
associado ao Estado de Bem Estar ainda não se consolidara. Ocorre o que o autor
chama de uma "[...] convergência entre sistemas de trabalho ‘terceiro mundistas’ e
capitalistas avançados" (HARVEY, 1992, p.145). Isso porque,

[...] a subcontratação organizada abre oportunidades para a formação de


pequenos negócios e, em alguns casos, permite que sistemas mais antigos
de trabalho doméstico, artesanal, familiar (patriarcal) e paternalista
("padrinhos", "patronos" e até estruturas semelhantes à máfia) revivam e
floresçam, mas agora como peças centrais, e não apêndices do sistema
produtivo (HARVEY, 1992, p.145).

São formas de trabalho que no Brasil ainda se observam com bastante


força, apesar dos esforços no sentido da “modernização”. Trata-se, entretanto de
uma modernização com vistas a meros interesses capitalista e que mantém valores
que associam a manutenção do poder de uma determinada classe em detrimento da
outra. Ou seja, uma modernização conservadora.
O grande capital converge sua dominação para os países da América Latina
onde esses trabalhos persistem por mais tempo devido ao desenvolvimento burguês
tardio, ocorre uma nova colonização. Além disso, o Estado, nesses países de
capitalismo “não avançado”, passa a fortalecer cada vez mais os investimentos do
capital internacional, enfraquecendo ainda mais a segurança no trabalho e o
tornando cada vez mais precário; expulsando as populações do campo e indígenas
de suas terras; privatizando empresas governamentais e favorecendo o agronegócio
em detrimento das organizações familiares de produção agrícola. Para Harvey,

O processo de proletarização, por exemplo, envolve um conjunto de


coerções e apropriações de capacidades, relações sociais, conhecimentos,
hábitos de pensamento e crenças pré-capitalistas da parte dos que são
proletarizados. Estruturas de parentesco, organizações familiares e
domésticas, relações de gênero e autoridade (incluindo as exercidas por
meio da religião e de suas instituições)- tudo isso tem seu papel a
desemprenhar (2005, p. 122).

Observa-se que o resultado da utilização dessas modalidades, arcaicas do


ponto de vista dos “países desenvolvidos”, torna-se de grande serventia, pois
colaboram, acima de tudo, para enfraquecer a organização da classe trabalhadora
que começava a ter trabalhos assegurados pelos contratos nas empresas fordistas.
Nas palavras de Harvey, “[...] uma das grandes vantagens do uso dessas formas
78

antigas de processo de trabalho e de produção pequeno-capitalista é o solapamento


da organização da classe trabalhadora e a transformação da base objetiva da luta
de classes” (1992, p.145).
Diante disso, torna-se necessário a modificação da superestrutura, do
Estado como centro de poder, que mostra cada vez mais seu caráter de classe. São
nestes momentos que se tornam claros os interesses de qual classe o Estado
administra. Segundo Fernandes,

[...] a internacionalização das forças produtivas e das formas comerciais e


financeiras do capitalismo exigem novos requisitos políticos para a
existência e a sobrevivência da empresa capitalista, bem como uma nova
forma de intervenção do estado na área econômica (o complexo industrial-
militar e os subsídios ou várias medidas direta ou indiretamente econômicas
indicam o caráter dessa transformação). O que quer dizer: tecno-estruturas
que surgem dentro do Estado por imposição da evolução do capitalismo e
que se traduzem pela ampliação e intensificação do elemento autoritário
intrínseco ao Estado burguês, mesmo que ele continue a mostrar-se como
democrático (isto é, não assuma uma feição típica do Estado de exceção)
(1979, p. 33).

Este contexto gerador de inseguranças clama por soluções que possam


estabelecer a ordem e a sensação de segurança29, e neste momento é que cabem
muito bem as intenções dos militares de intervir para manter a segurança e
impulsionar o desenvolvimento do país que defendem. Ao mesmo tempo, a classe
trabalhadora não fica imóvel em obediência às ordens desta tendência do capital.
Segue-se que

Enquanto o projeto desenvolvimentista era considerado pelos Estados


Unidos como um dos meios principais para a sua expansão, as classes
populares do continente reforçavam significativamente a sua organização e
a sua consciência, colocando-se a necessidade de ascender ao poder
político e forjando elas mesmas as suas representações de classe. O
crescimento da classe operária, intensificado pela industrialização
substitutiva de importações e acelerado depois da Segunda Guerra Mundial,
inseriu no cenário sócio-político do continente renovadas e poderosas
forças sociais, cuja presença marcou aspectos importantes do
desenvolvimento latino-americano dos últimos anos (CASTRO, 1984,
p.140).

O desenvolvimento do capital relaciona-se intimamente à forma como o


Estado intervém nos processos sociais e econômicos, além de mudanças nos
padrões de sociabilidade e em consequência na reprodução de valores, o que se
traduz, por exemplo, nas formas de expressão dos homens em sociedade através
das elaborações estéticas.

29
Segurança na perspectiva da autocracia com relação à manutenção segura do sistema capitalista de proteção,
perante ao que consideravam “perigoso comunista”.
79

Segundo Barroco, a década de 1960, que antecede o período de análise


dessa pesquisa (década de 1970) é um momento de potencialidade ao
favorecimento de questionamentos da vida cotidiana e dos valores e tradições
(2003). Diante dessa eminente potencialidade, a reação do grande capital se volta
para podar essa potencialidade questionadora. Este é um período considerado
revolucionário, “[...] especialmente por sua potencialidade de ruptura ideológica com
instituições, papéis sociais e princípios historicamente vinculados à moralização dos
costumes: a família, o papel "feminino", a tradição” (BARROCO, 2003, p.100).
Crescia neste momento, por exemplo, a consciência de gênero,
questionava-se os papéis da mulher na sociedade e questionavam-se as formas
convencionais de sociabilidade. Ocorre que "Os "anos rebeldes" expressam uma
recusa radical em face das normas, valores e formas de ser mais caras ao
conservadorismo moral: o poder, a autoridade, o dogma, a hierarquia, a ordem, a
tradição" (BARROCO, 2003, p.101). Ainda segundo Barroco, a década de 1960 é

[...] também um momento de explicitação de conflitos éticos, que ocorrem


em situações de questionamento de valores morais, no âmbito da vida
cotidiana. Por gerar uma atitude crítica são potencializadores de um
enfrentamento crítico das contradições sociais, permitindo a superação dos
juízos provisórios típicos do moralismo e contribuindo para a articulação
entre a moral e as demais esferas da vida social, entre a singularidade e o
humano-genérico (2003, p.102).

Questiona-se a ordem e as injustiças, contribuindo para o movimento da


mediação entre universalidade, singularidade, e particularidade. Atenta-se para a
função da particularidade nas expressões artísticas, pois estas são objeto desta
pesquisa. Ocorre que,

A função mediadora da particularidade que opera na singularidade e na


universalidade constitui um ponto médio, um ponto que capta a
transitoriedade dos extremos e desvela o reflexo estético, a reprodução da
vida material e suas contradições na obra de arte (XAVIER; CARRIERI,
2014, p.598).

Veremos mais adiante como isso acontece nas expressões estéticas nas
composições de samba neste período de efervescência crítica. Segundo Barroco,
nos

[...] anos 60/70, o Terceiro Mundo se destaca como um espaço


potencialmente gerador de manifestações político-revolucionárias. Na
América Latina são determinadas, por um lado, pela crise mundial do
padrão de acumulação capitalista que vinha se operando desde a Segunda
Guerra Mundial e se explicita claramente nos anos 60; por outro, pela
política econômica desenvolvimentista, que a partir da década de 50 amplia
80

as bases de implementação do capitalismo monopolista, agravando as


contradições e desigualdades sociais e acirrando as lutas sociais (2003,
p.104).

O Brasil também se torna alvo de intervenção norte americana justamente


por se configurar como um centro de resistência no que tange às lutas populares
que vinham ocorrendo na América Latina no período, mostrando-se como “[...] uma
trajetória marcada por lutas populares de libertação nacional e de resistência em
face do imperialismo" (BARROCO, 2003, p.104).
A resposta a este processo não é senão a eclosão de golpes preventivos, na
busca pela manutenção do sistema capitalista e pela legitimação cultural do padrão
norte americano, contrapondo-se a tudo que se vinculasse de alguma forma ao
socialismo ou comunismo. Ocorre que

As estratégias políticas para o seu enfrentamento vinculam-se à política


intervencionista norte-americana do pós-guerra, que viabiliza consecutivos
golpes militares e a repressão aos movimentos populares. Assim, a América
Latina é também um dos alvos prioritários da política imperialista norte-
americana, que articula sua intervenção socioeconômica a estratégias de
controle ídeo-cultural, tendo em vista sua legitimação como país capitalista
desenvolvido e a deslegitimação do comunismo e do ideário socialista
(BARROCO, 2003, p. 105).

A América no Norte se projeta para dominar economicamente também


através do mundo da cultura, segundo Castro "[...] o pan-americanismo oficial não é
mais que uma estratégia dos Estados Unidos para ganhar hegemonia no continente"
(CASTRO, 1984, p.127). É dessa forma que se busca o poder, uma

[...] ampla estratégia com a qual os países desenvolvidos- e especialmente


os Estados Unidos- procuravam criar as condições (políticas,
administrativas e culturais) mais propícias para integrar e dinamizar o
desenvolvimento do capitalismo e o mercado latino-americano sob a sua
hegemonia financeira (CASTRO, 1984, p.129-130).

Apesar da grande efervescência política e cultural, o Brasil continua sendo


alvo oportuno da expansão imperialista por possuir elementos historicamente
construídos (citados acima) favoráveis a sua intervenção. Assim, o capital
monopolista

[...] desaba na periferia e realiza-se dentro dela como uma realidade interna
(embora sob uma conjugação de evoluções que vão simultaneamente de
“fora para dentro” e de “dentro para fora”). Para atingir esse objetivo
analítico, a América Latina contém um terreno de trabalho ideal. De um
lado, porque aí a revolução anticolonial foi amplamente reprimida e
controlada por interesses conservadores particularistas: a Independência, a
emergência do Estado nacional e a eclosão do mercado capitalista moderno
não destroem as estruturas econômicas, sociais e de poder de origens
81

coloniais, mas se adaptam a elas (FERNANDES, 1979, p.38).

É dessa forma que, nas palavras de Florestan Fernandes.

O antigo Estado democrático se dilacera e vê-se confrontado com a


realidade econômica imposta pelo capitalismo monopolista, que o força a
absorver novas tecno-estruturas em que a dominação burocrática e vertical
se impõem como uma única evolução possível (1979, p. 35).

A solução possível é a conversão de um governo de perspectivas


democráticas para um regime autocrático. Solução que, segundo Fernandes (1979),
coloca o capitalismo em sua fase mais poderosa. Durante o período de vigência da
autocracia burguesa,

Nunca o capitalismo foi tão poderoso, nunca a denominação de classe


burguesa, o poder político burguês e o Estado burguês foram, a um tempo,
tão flexíveis e tão autoritários: se irradiam mais, por toda a sociedade, e vão
ao fundo da consciência individual e coletiva, do comportamento e da
imaginação do indivíduo isolado e da massa (FERNANDES, 1979, p.47).

O golpe de 1964 marca a entrada na fase de consolidação do modelo


autocrático burguês brasileiro sustentado num projeto de modernização
conservadora, fundamentada na Doutrina de Segurança Nacional, que segundo
Bueno, "[...] exercerá a função ideológica que irá fundamentar toda a sociabilidade
conservadora no Brasil" (2014, p.63).
Em 1948 foi criada no Brasil, a Escola Superior de Guerra (ESG),
absorvendo de fontes conservadoras diversas. Nas palavras de Oliveira, “[...] valia-
se também de outras ideologias conservadoras presentes na sociedade brasileira e
nas Forças Armadas como a visão republicana positivista" (2010, p.141). A criação
da ESG se dá com o intuito de formar militares e civis para assumir cargos de
governo e coordenar o país com vistas ao seu desenvolvimento econômico e o
fortalecimento da segurança interna. Para que se compreenda a importância desta
Escola, cabe observar que "A partir de 1964, a ESG assume papel estratégico no
governo, sendo possível identificar de forma mais explícita a presença de sua
Doutrina na política de Estado" (GONÇALVES, 2011, p.3).
A ESG propôs a Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento, que
"[...] foi grande direcionadora das políticas e ações dos governos militares"
(GONÇALVES, 2011, p.1). Segundo Ferreira,

Trata-se de um conjunto de construções teóricas que visava a orientar a


política norte-americana e de seus aliados frente à disputa no contexto de
um mundo bipolar. Seu objetivo era difundir a ideia da caracterização da
82

União Soviética como uma ameaça à "segurança nacional", conceito de


extrema ambiguidade, que abrange, desde a proteção da integridade
territorial, a expansão do capitalismo, até mesmo a defesa do
americanwayoflife (2012, p.24).

O conjunto ideológico que trata essa doutrina favoreceu o desenvolvimento


capitalista brasileiro dependente e dessa forma, a vigência da autocracia burguesa
no Brasil fica assegurada. É “Em nome do anticomunismo, a Doutrina de Segurança
Nacional, com sua ênfase na segurança interna, leva inexoravelmente ao abuso do
poder, a prisões arbitrárias, à tortura e à supressão de toda liberdade de expressão”
(ALVEZ, 1984, p.27).
A Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento atesta para o nível de
organização das forças armadas na orquestração de sua intervenção no Estado,
justificada pela necessidade de reestabelecer a ordem social, asseverar a segurança
nacional e pela necessidade de desenvolvimento do país, mascarando o real
objetivo de manutenção dos níveis de lucratividade do capital.
Pela DSN, o Estado autocrático pretende obter a legitimação popular por
vias do desenvolvimento econômico do país aliado à segurança; em suma, "[...] a
ditadura brasileira adotou o binômio segurança e desenvolvimento" (FERNANDES,
2009, p.851). De forma que viabiliza-se a dominação burguesa amenizando a
reação da classe trabalhadora. Para Alvez,

O slogan governamental “segurança com desenvolvimento” associa o


desenvolvimento capitalista associado-dependente à defesa da segurança
interna contra o “inimigo interno”. Por sua vez, esta ênfase na constante
ameaça à nação por parte de “inimigos internos” ocultos e desconhecidos
produz, no seio da população, um clima de suspeita; medo e divisão que
permite ao regime levar a cabo campanhas repressivas que de outro modo
não seriam toleradas. Dessa maneira, a dissensão e os antagonismos de
classe podem ser controlados pelo terror. Trata-se por isso mesmo de uma
ideologia de dominação de classe. (1984, p. 27).

Os militares empenhavam-se para propagar a ideia de que o povo brasileiro


não era capaz de viver democraticamente, por isso resolveram intervir a fim de
normalizar a situação e educar o povo “inculto” para que pudessem então viver em
uma democracia livre, asséptica e desideologizada, encobrindo assim,
principalmente a sociedade de classes, tendo como contraponto que a sociedade
deveria buscar o “bem comum”. Mas quem decidia o que era o “bem comum” era
uma pequena parcela privilegiada por possuir a tal superioridade cultural. Segundo
Giannasi, “A tese foi a de que a democracia poderia servir para os países, cuja
organização social se lhe seja semelhante, mas nunca as nações subdesenvolvidas
83

e dependentes da América Latina, que careciam de um governo forte, de pulso


firme" (2011, p.147).

Dessa forma, "[...] a Doutrina enfatizava a urgente necessidade de o Brasil


se desenvolver economicamente, com a finalidade de poder enfrentar os desafios
sociais e materiais da guerra subversiva, além do alívio que ocorreria com relação às
tensões sociais" (GIANNASI, 2011, p.206). E isso era feito com a "[...] concepção do
militar como elite privilegiada para a participação política" (OLIVEIRA, 1989 p.26), os
militares eram a "[...] elite cientificamente preparada, visto que a política é
conhecimento científico" (OLIVEIRA, 1989 p.26). Por isso deveriam intervir para
provocar o desenvolvimento necessário. O que demonstra o aspecto positivista de
neutralidade, como se as decisões políticas não se embasem em ideologias e
estivessem neutras em tomar partido. Mas basta olhar para os resultados da
organização dos governos militares para ver ao lado de quais interesses
trabalhavam.
Assim, justificou-se um golpe de Estado que pretendia defender o país do
“perigo comunista”, com a desculpa do combate à corrupção. Quando Marx
escreveu no “Dezoito Brumário de Luís Bonaparte” que "Hegel observa em uma de
suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do
mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a
primeira vez como tragédia, a segunda como farsa" (MARX, 2000, p.6), acertou e
muito, pelo menos na realidade brasileira.
Quando no Brasil é consolidado o golpe e afirma-se um Estado autocrático,
isto não ocorre isolado do restante do mundo, pois existe neste mesmo período a
tendência para a emergência de uma série de golpes em âmbito mundial. E o pano
de fundo do qual se fala: o contexto econômico mundial se dava no declínio do
modelo de produção fordista, quando há modificação dos padrões de produção e de
circulação, se reproduzindo também nos outros âmbitos da vida social. Neste
sentido, o Estado também precisa se adaptar aos novos padrões e modificar sua
intervenção, de modo a ser funcional à nova ordem.
É neste período que se assiste uma onda de expansão dos movimentos
sociais no mundo todo, demandando do grande capital uma reação, e

[...] movendo-se na moldura de uma substancial alteração na divisão


internacional capitalista do trabalho, patrocinaram, especialmente no curso
dos anos sessenta, uma contra-revolução preventiva em escala planetária
84

(com rebatimentos principais no chamado Terceiro Mundo, onde se


desenvolviam, diversamente, amplos movimentos de libertação nacional e
social (NETTO, 1996, p.16).

Os golpes de Estado em todo o mundo e a emergência de sistemas


autocráticos se davam, portanto, objetivando a prevenção das forças que poderiam
se tornar ameaças revolucionárias e que emergiam dos movimentos de libertação
em ascensão. Assim, os objetivos dessa prevenção eram

Adequar os padrões de desenvolvimento nacionais e de grupos de países


ao novo quadro do inter-relacionamento econômico capitalista, marcado por
um ritmo e uma profundidade maiores da internacionalização do capital;
golpear e imobilizar os protagonistas sociopolíticos habilitados a resistir a
esta reinserção mais subalterna no sistema capitalista; e, enfim, dinamizar
em todos os quadrantes as tendências que podiam ser catalisadas contra a
revolução e o socialismo (NETTO, 1996, p.16).

O que José Paulo Netto chama de “contra-revolução preventiva” tem como


uma de suas estratégias as perspectivas conservadoras, gestadas para inviabilizar
que o poder se dissolva e chegue às mãos da classe trabalhadora. Todos os
esforços eram no sentido de igualar os processos de produção a nível mundial,
anular os movimentos de resistência e consequentemente eliminar as ameaças
revolucionárias. A “contra-revolução preventiva” se coloca para frear as
possibilidades revolucionárias que desapontavam mundialmente, a ameaça
comunista era bastante real para exigir um movimento contrarrevolucionário e
conservador. Segundo Fernandes, no Brasil

Nunca chegou a existir uma situação pré-revolucionária tipicamente fundada


na rebelião antiburguesa das classes assalariadas e destituídas. No
entanto, a situação existente era potencialmente pré-revolucionária, devido
ao grau de desagregação, de desarticulação e de desorientação da própria
dominação burguesa, exposta ininterruptamente, da segunda década do
século à “revolução institucional de 1964”, a um constante processo de
erosão intestina (2006, p. 374-375).

O “perigo comunista” que sondava, não só o Brasil, mas o mundo requisitava


modelos de governo fortes. Segundo os militares, o avanço comunista era iminente,
o que exigia sua presença constante no cenário político, reforçada pela percepção
da sociedade civil, que de fato, as Forças Armadas eram os únicos defensores da
ordem e da segurança nacional (OLIVEIRA, 2010, p.136).
Dessa forma, no Brasil, “O movimento de 31 de março de 1964 tinha sido
lançado, aparentemente, para livrar o país da corrupção e do comunismo e para
restaurar a democracia” (FAUSTO, 2012, p.257). Democracia porque “[...] embora o
85

poder real se deslocasse para outras esferas e os princípios básicos da democracia


fossem violados, o regime quase nunca assumiu expressamente sua feição
autoritária.” (FAUSTO, 2012, p.257). Os discursos eram de defesa do país contra o
comunismo, sob a moldura de uma democracia abstrata, na qual as liberdades
políticas eram cada vez mais restringidas. Com o golpe, "[...] sobressai um traço
dominante: o desejo de retorno às instituições democráticas, repetido
indefinidamente, parece corresponder mais a um rito oficial do que a uma intenção
verdadeira" (COMBLIN, 1980, p.160).
Os militares chamam de Revolução um movimento que pretendia ser contra-
revolucionário, na medida em que pretende manter a ordem e reforçar as rédeas do
poder, que estava em caminhos de se dissolver, caso aquelas forças democráticas
continuassem se desenvolvendo. Acreditava-se que estava salvando o país da
desordem e da insegurança, e defendendo a democracia abstrata. Ainda segundo
Comblin, "[...] a maioria das pessoas que dele participavam estavam convencidas de
que estavam "salvando" a democracia. Graças a elas, a tradição "democrática"
brasileira via-se confirmada e reforçada" (1980, p.159). Deixando de lado que na
história brasileira a democracia nunca havia sido uma tradição, em contraposição
dos processos autoritários que sempre estiveram presentes em nossa realidade.
Os resultados da “contra-revolução preventiva” foram satisfatórios e o
alcance de seus objetivos, segundo Netto, ficaram evidentes na segunda metade da
década de 1960, e podem ser classificados em

[...] afirmação de um padrão de desenvolvimento econômico associado


subalternamente aos interesses imperialistas, com uma nova integração,
mais dependente, ao sistema capitalista; a articulação de estruturas
políticas garantidoras da exclusão de protagonistas comprometidos com
projetos nacional-populares e democráticos; e um discurso oficinal (bem
como uma prática policial-militar) zoologicamente anticomunista (NETTO,
1996, p.17).

Embora entende-se nesta pesquisa a importância da universalidade do


movimento do capital, que no período, exigia do mundo modificações para seu
triunfo, importa expor que “[...] a significação do golpe de abril, sem menosprezo da
contextualidade internacional da contra-revolução preventiva, deve ser buscada na
particularidade histórica” (NETTO, 1996, p.17). É por esse motivo que a
compreensão do desenvolvimento da sociabilidade brasileira, de sua moralidade, e
das expressões conservadoras que aqui se fizeram presentes, é imprescindível de
ser buscada, para se compreender como se deu o êxito de uma autocracia no Brasil
86

e a afirmação dos valores que a sustenta.


Assim sendo, são três os fenômenos ocorridos no Brasil, citados por Netto
(1996), que foram resultados das particularidades histórico-culturais, sociais e
econômicas que desenham a particularidade brasileira. O primeiro deles é o de que

[...] o desenvolvimento capitalista operava-se sem desvencilhar-se de


formas econômico-sociais que a experiência histórica tinha demonstrado
que lhes eram adversas; mais exatamente, o desenvolvimento capitalista
redimensionava tais formas (por exemplo, o latifúndio), não as liquidava:
refuncionalizava-as e as integrava em sua dinâmica (NETTO, 1996, p.18).

No Brasil o desenvolvimento burguês não precisou quebrar com as


estruturas anteriores, o que houve foi um arranjo dos interesses dos grandes
latifundiários, que tinham por objetivo entrar no mercado mundial sem abrir mão de
seus privilégios de classe no poder. Ocorre que “No Brasil, o desenvolvimento
capitalista não se operou contra o “atraso”, mas mediante a sua contínua reposição
em patamares mais complexos, funcionais e integrados” (NETTO, 1996, p.18). O
Brasil opera uma modernização que se conserva nas estruturas anteriores. Assim,
verifica-se que, para resguardar as estruturas de poder, o desenvolvimento do
capitalismo no Brasil buscou diminuir as possibilidades de crítica que pudessem
nascer junto à cultura da modernidade, que é anexa ao desenvolvimento capitalista
clássico na Europa. No Brasil os conservadores clássicos europeus conseguiriam
ser plenos na realização de seus propósitos de tirar proveito dos avanços advindos
com o capitalismo sem o reconhecimento da cultura da modernidade e
racionalidade. Além disso, "[...] no Brasil há uma longa tradição de autoritarismo,
presente desde os tempos coloniais e que, perpassando os diversos regimes de
governo, culminou com o golpe de 1964" (GIANNASI, 2011, p.144).
Diante de limitações de vantagens, advindas com a cultura da modernidade;
para que esta cultura não atingisse todas as classes e para que as massas não
resistissem às diversas formas de opressão, decorre no segundo fenômeno citado
pelo autor, referente a

[...] exclusão das forças populares dos processos de decisão política: foi
próprio da formação social brasileira que os segmentos e franjas mais
lúcidos das classes dominantes sempre encontrassem meios e modos de
impedir ou travar a incidência das forças comprometidas com as classes
subalternas nos processos e centros políticos decisórios (NETTO, 1996,
p.18).

As massas populares no Brasil tiveram poucas chances de se colocarem


87

como protagonistas das transformações; tudo que aqui ocorreu foi por imposição de
uma cultura superior, a europeia, que se colocou como mais evoluída em detrimento
de qualquer outra cultura que aqui já existisse com os povos originários, ou que
tivesse sido trazida com os negros escravizados. Dessa forma, a maior parte da
população sempre ficou à margem das decisões públicas, e quando movia esforços
para participar, era calada por mecanismos dos mais diversos, por vezes violentos
ou na produção de consensos através da reprodução de valores burgueses muitas
vezes avessos aos valores dos povos originários e dos povos escravizados.
E por último o fenômeno citado, que é também produto dos primeiros, tem
relação ao “[...] específico desempenho do Estado na sociedade brasileira- trata-se
da sua particular relação com as agências da sociedade civil” (NETTO, 1996, p.19).
Refere-se a um “Estado que historicamente serviu de eficiente instrumento contra a
emersão, na sociedade civil, de agências portadoras de vontades coletivas e
projetos societários alternativos” (NETTO, 1996, p.19). Além da histórica não
participação das massas, o Estado sempre interviu não oportunizando uma relação
democrática com a sociedade e podando as tentativas das realizações de vontades
coletivas e projetos alternativos ao projeto burguês, sempre forjando estratégias de
contra ataque quando emergiam os intentos democráticos.

2.2 ANOS PRECEDENTES AO GOLPE DE 1 DE ABRIL DE 1964: ALGUMAS MEDIAÇÕES


NECESSÁRIAS PARA ANÁLISE DA DÉCADA DE 1970

Foi durante os anos de 1960 que, seguindo a tendência mundial de


fortalecimento dos movimentos populares, ocorrem mudanças significativas com
relação a algumas das históricas características brasileiras. Segundo Netto,

Por força de um processo cumulativo que vinha dos meados da década


anterior- e a que, obviamente, não são alheios os eventos econômicos e
políticos ocorrentes na cena internacional-, cria-se uma conjuntura que põe
a possibilidade objetiva de promover uma significativa inflexão na sociedade
brasileira, alterando e revertendo aquelas linhas de força (1996, p.20).

É neste contexto que emergem as forças políticas democráticas na cena


política brasileira,

Acumulando reservas desde o governo constitucional de Vargas, o campo


democrático e popular articulava uma importante ação unitária no terreno
sindical, politizando-o rapidamente, e colocava em questão- sob a nem
sempre inequívoca bandeira das reformas de base- o eixo sobre o qual
88

deslizara até então a história da sociedade brasileira: o capitalismo sem re


formas e a exclusão das massas nos níveis de decisão (NETTO, 1966,
p.21-22).

Assim, abrem-se vias ao questionamento da histórica não participação


popular nas decisões públicas no Brasil. A ameaça do perigo da distribuição do
poder estava na ordem do dia, o que solicitava estratégias de reação. Embora se
tratasse de uma emersão que não questionava diretamente a ordem do capital, “Não
fora o golpe, é bastante provável que seus desdobramentos originassem um
reordenamento político-social capaz de engendrar uma situação pré-revolucionária”
(NETTO, 1996, p.22). Essas forças, apesar de não diretamente revolucionárias,
questionavam a ordem e se apresentavam com real possibilidade de se tornarem
revolucionárias. De qualquer forma, as forças democráticas que se desenvolviam no
Brasil

[...] punham a possibilidade concreta de o processo das lutas sociais alçar-


se a um patamar tal que, por força da nova dinâmica econômico-social e
política desencadeada, um novo bloco de forças político-sociais poderia
engendrar-se e soldar-se, assumindo e redimensionando o Estado na
construção de uma nova hegemonia e na implementação de políticas
democráticas e populares nos planos econômico e social (NETTO, 1996, p.
23).

Como na história do Brasil, a participação popular política sempre foi podada


pelas forças conservadoras, a modificação neste âmbito se apresentava como
grande viabilizadora de conquistas.
Diante disso, a burguesia nacional ou encarava os riscos que a democracia
poderia causar ou aceitava a filiação subalterna aos interesses imperialistas. O
centro do poder no Brasil se enfrentava novamente com o histórico problema se de
enquadrar e se subordinar ao capital mundial ou ceder e distribuir seu poder com as
classes populares. Preferiram a primeira alternativa, e assim continuamos sendo
uma colônia de exploração. Diante das forças democráticas, “O desfecho de abril foi
a solução política que a força impôs: a força bateu o campo da democracia,
estabelecendo um pacto contra-revolucionário” (NETTO, 1996, p.25).
Mesmo lidando com as vantagens do desenvolvimento que ocorrem com um
processo democrático, frente ao risco de dissolução do poder entre as massas, a
opção tomada pela burguesia nacional se deu no “campo da antidemocracia”
(NETTO, 1996, p.26). Dessa forma,

[...] as dimensões principais do sistema autocrático que se ergue a partir do


golpe de 1964 são as que transcendem a pura reiteração (com maior ou
89

menor ênfase) dos traços consagrados na formação brasileira - são


exatamente as que determinam os traços que caracterizam a novidade do
que se constituiu precisamente em centro articulador e meio coesionador da
autocracia burguesa, o seu Estado (NETTO, 1996, p.27).

Trata-se aqui do papel fundamental que o Estado toma na coesão e


harmonização da sociedade estruturada sobre a base das formas do capital em sua
fase dos monopólios. Netto (1996) chama a autocracia burguesa de “modelo” que
sustenta tal fase.
Dessa forma, atrasam-se as mudanças políticas que ocorriam no Brasil,
inviabilizando a ação da força popular que se formara. Conclui-se que “[...] o
movimento cívico-militar de abril foi inequivocamente reacionário - resgatou
precisamente as piores tradições da sociedade brasileira” (NETTO, 1996, p.25). O
golpe de 1964 marcou um movimento de extrema preservação do que de mais
conservador havia na sociedade brasileira.
O Estado brasileiro se compactua com os países imperialistas para garantir
um modelo de produção padronizado de acordo com as modificações dos novos
moldes de produção capitalista e, com isso, retrocede nos avanços em relação à
ruptura com a tradicional não participação política das massas. Segundo Netto,

O Estado que se estrutura depois do golpe de abril expressa o rearranjo


político das forças socioeconômicas a que interessam a manutenção e a
continuidade daquele padrão, aprofundadas a heteronomia e a exclusão.
Tal Estado concretiza o pacto contra-revolucionário exatamente para
assegurar o esquema de acumulação que garante a prossecução de tal
padrão, mas, isto é crucial, readequando-o às novas condições internas e
externas que emolduravam, de uma parte, o próprio patamar a que ele
chegara e, de outra, o contexto internacional do sistema capitalista, que se
modificava acentuadamente no curso da transição dos anos cinquenta ao
sessenta (1996, p.27).

O poder, em vez de fragmentado e ao início de se partilhar nas mãos da


classe trabalhadora, se concentra novamente nas mãos de poucos que submetem
suas decisões aos interesses maiores dos países imperialistas. Assim,

[...] o pacto contra-revolucionário refrata-se na divisão do poder: este é


concentrado nas mãos de uma burocracia civil e militar que serve aos
interesses consorciados dos monopólios imperialistas e nativos, integrando
o latifúndio e deslocando a camada burguesa industrial que condensava a
burguesia nacional. O resultante é um Estado que estrutura um sistema de
poder muito definido, onde confluem os monopólios imperialistas e a
oligarquia financeira nativa (NETTO, 1996, p.30).

O Estado brasileiro prepara o terreno para que o capital internacional


aproveite das “terras de ninguém” assim como fizeram os europeus em tempos de
90

colonização. O propósito era “[...] operar para a criação, no espaço nacional, das
condições ótimas, nas circunstâncias brasileiras, para a consolidação do processo
de concentração e centralização de capital que vinha se efetivando desde antes”
(NETTO, 1996, p.30).
O autor estudado analisa e define que ocorre no Brasil o que pode ser
caracterizado como “modernização conservadora” (NETTO, 1996, p.31), pois se
trata de um período em que se revestem de novas as características já tradicionais
da sociabilidade brasileira, em busca do desenvolvimento e da modernização; faz o
que sempre fez: adequar a realidade brasileira aos padrões externos para alcançar
as vantagens capitalistas.
Realiza-se a integração dos interesses imperialistas com os da burguesia
nacional (logicamente o primeiro sempre antes do segundo), mas que faz com que
para o restante da população, às classes subalternas, não reste nenhuma opção a
não ser a sujeição a este novo modelo político, já que as tentativas de resistência
voltam (ou continuam) a ser combatidas, violentamente, somado à estratégia de
consenso através da disseminação de valores burgueses e conservadores.
Apesar disso, tudo acontece com o discurso de que o Brasil estava
evoluindo, à custa da diminuição dos espaços democráticos e do antagonismo
daqueles que não aceitavam as medidas do Estado autoritário. “O ufanismo da
ditadura expresso no slogan “ame-o ou deixe-o” incute em muitos corações e
mentes que o Brasil seria o país do futuro” (PAULA, 2016, p.208). É através de
discursos desta natureza que o Estado autocrático comete suas maiores atrocidades
contra os que apresentam críticas ao modelo por ele imposto, propagando a
ideologia de que eles não amariam o país e que por isso deveriam deixá-lo.

2.3 MARCOS HISTÓRICOS DA AFIRMAÇÃO DA AUTOCRACIA BURGUESA NO BRASIL

Memória de um tempo onde lutar


Por seu direito
É um defeito que mata

Memória de um tempo sem memória - Gonzaguinha 30

A seguir objetiva-se contextualizar o ciclo da autocracia burguesa a partir


30
Trecho de letra da música “Memória para um tempo sem memória”, composta por Gonzaguinha em 1980 no
LP De Volta ao Começo.
91

dos sete militares que presidiram o Brasil desde o período que antecede o golpe de
abril de 1964, até 1985, quando se configuram condições históricas favoráveis a
reabertura democrática.
O governo de João Goulart, ou Jango, como foi conhecido (1961 a 1964), foi
marcado por um período de grandes crises econômicas e políticas. Jango foi
acusado de tentativa de implantação de um regime comunista, explica-se, pois “[...]
político experimente e sério, mesmo sem compartilhar de qualquer projeto socialista,
era um reformista dedicado a avanços sociais, tinha fortes compromissos com os
trabalhadores e com a democracia” (NETTO, 2014, p.32).
Ocorre que o Brasil está inserido num contexto mundialmente polarizado
entre capitalismo e comunismo, onde o segundo se encontrava em um período de
notoriedade. No bojo deste processo, países da América Latina se expressavam em
movimentos de libertação nacional. Então, a política externa norte-americana em
escalada mundial, ligada ao “mundo livre”, "[...] passou a operar uma
contrarrevolução preventiva, de modo a impedir a constituição de quaisquer
alternativas à pax americana, sobretudo se tais alternativas apontassem para vias
socialistas" (NETTO, 2014, p.35). Foi neste contexto que os Estados Unidos
financiou o golpe de 1964 no Brasil, assim como golpes em outros países da
América Latina, em defesa do “mundo livre”, da “democracia” compreendida como
privilégio do sistema capitalista. Trata-se da

[...] democracia forte – da democracia tida como capaz de “livrar-se de seus


inimigos”- funda-se no credo de que fora do capitalismo do Estado
parlamentar e do liberalismo não existe qualquer humanidade. Só o inimigo.
Portanto, a partir dessa realidade, que é pedagógica, ideológica e política,
estamos dentro da órbita do pensamento conservador (para pensar como
Manheim, um estilo de pensamento centralizado estaticamente na
reprodução da ordem, na defesa dos interesses das classes dominantes –
um deslocamento no eixo da consciência burguesa na era do conflito com
as opções socialistas) (FERNANDES, 1979, p.27-28).

Neste sentido não foram pequenos os esforços estadunidenses para a


desqualificação de Jango, "[...] visto por Washington como "não confiável" e
"infiltrado" por comunistas" (NETTO, 2014, p.38). A CIA investiu na corrupção do
movimento sindical e campanhas em “defesa da democracia” que, sob seu olhar,
estava ameaçada. Os determinantes se somaram à crise econômica enfrentada no
período.
O quadro de crise citado se refere ao período quando esgota-se a “[...] fase
expansiva da industrialização brasileira que se iniciara no imediato segundo pós-
92

guerra" (NETTO, 2014, p.40-41); que

[...] derivara da dinâmica interna, endógena, da economia brasileira, mas


não era uma simples crise cíclica própria do sistema capitalista: era uma
crise estrutural do capitalismo brasileiro que exigia uma reestruturação geral
dos mecanismos e instituições necessários a um novo padrão de
acumulação (NETTO, 2014, p.41).

Para solucionar tal crise, instituições políticas e sociais brasileiras eram


colocadas em questão, “[...] não se resolveria no plano estritamente econômico, mas
na imbricação de alternativas econômicas com transformações políticas" (NETTO,
2014, p.41). A forma que Jango encontrou para enfrentá-la, garantindo as
instituições democráticas, foi as chamadas reformas de base (reforma agrária,
tributária e fiscal, bancária e reforma urbana), mas "[...] a crise, para ser superada
numa direção nacionalista e democrática, supunha medidas econômicas acopladas
a mudanças institucionais profundas" (NETTO, 2014, p.42); e Jango não tinha
condições políticas necessárias para levar o seu projeto reformista adiante.
Neste período, as forças progressistas acumularam vitórias, houve o
aumento do movimento operário e sindical, além de organizações coordenadas da
ação dos trabalhadores no Comando Geral dos Trabalhadores - CGT, há a
organização dos movimentos do campo, as Ligas camponesas, a ampliação
organizada de outros sujeitos sociais coletivos como estudantes universitários, a
criação do CPC - Centro Popular de Cultura em 1961. Ocorre que, segundo Netto,

[...] o número de greves começou a avultar, e não só em defesa de


interesses estritamente econômicos, mas com evidente dimensão política, a
fim de influir nas decisões governamentais (para horror de um empresariado
cujo elitismo rasteiro, em face das conhecidas sintonias de Jango com o
movimento sindical, passou a acusá-lo de pretender uma "república
sindicalista"): foram 105 greves em 1961, 128 em 1962 e 149 em 1963, em
algumas categorias com caráter nacional (2014, p.45-46).

Era um período em que "[...] os limites de uma democracia restrita estavam


sendo forçados, para abrir o passo a uma democracia de participação ampliada"
(NETTO, 2014, p.48). Jango "[...] defendia uma proposta de reformas de viés
nacionalista e democrático, procurando uma via menos elitista e concentradora para
o desenvolvimento do capitalismo no país" (NETTO, 2014, p.48). E não é de se
estranhar que "[...] era exatamente esta via nacionalista e democratizante que as
forças da direita e do conservadorismo extremado temiam" (NETTO, 2014, p.48).
Do lado oposto, "[...] ao contrário das forças democráticas, que se moviam à
luz do dia e se apresentavam abertamente à sociedade, a direita e o extremo
93

conservadorismo operavam em dois planos: o da legalidade e o da conspiração"


(NETTO, 2014, p.49). É assim que "[...] entra em cena a reacionaríssima Sociedade
Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (mais conhecida como
TFP), criada em 1960 pelo católico ultramontano Plínio Corrêa de Oliveira" (NETTO,
2014, p.49); o Instituto Brasileiro de Ação Democrática – IBAD orientada pela CIA; o
IPES - instituto de Pesquisas e Estudos Sociais como um centro intelectual que na
mente da elite tinha a missão de “[...] travar o processo de "comunização" (leia-se:
democratização) do país e propor alternativas econômicas e políticas ao governo
Jango e, com este objetivo, reuniu tecnocratas e intelectuais" (NETTO, 2014, p.50);
além disso, há também a participação da Igreja Católica. Segundo Chaui

[...] a derrubada do governo de Jango Goulart é preparada nas ruas com o


movimento “Tradição, família e propriedade” para significar que as
esquerdas são responsáveis pela desagregação da nacionalidade cujos
valores – a tradição, a família e a propriedade privada - devem ser
defendidos a ferro e fogo (2001, p. 41).

A imprensa também entra em cena com um papel importante nas


campanhas de desestabilização do governo Jango, com a criação da "Rede da
Democracia" em outubro de 1963, formada pelo jornal e Rádio Tupi, O globo e Rádio
Globo, Jornal do Brasil e Rádio Jornal do Brasil, João Calmon, Roberto Marinho e
Nascimento Brito; uma cadeia de radiodifusão de audiência nacional em uma ampla
cruzada política e ideológica contra Jango. A importância dos meios de comunicação
se dá na influência que possuem de reproduzir os valores da classe possuidora para
a classet trabalhadora, que se identifica com os interesses dos dominadores e se
conforma com as condições de desigualdade, naturalizando-as. Segundo
Fernandes,
[...] quando se atribui aos meios de comunicação em massa e à sua
influência alienadora o estado de conformismo, apatia e compromisso com
a ordem conta-se apenas uma parte da verdade. Há uma solidariedade
política em jogo, pois os setores intermediários e uma ampla parte da classe
baixa estão profundamente penetrados por uma situação de interesses de
classes e de valores sociais que os identificam à classe privilegiada (1979,
p.27).

Os discursos moralistas da direita sustentaram que o governo era corrupto e


que havia um processo de “comunização do Brasil”, necessitando a defesa da
democracia contra o “perigo vermelho” que ameaçava “[...] "subverter" a sociedade
brasileira e seus "valores cristãos e ocidentais" (que, naturalmente, incluíam, além
da religião e da família, a santíssima propriedade privada)" (NETTO, 2014, p.62).
94

Então, "[...] se havia em andamento uma "guerra revolucionária", era preciso


responder a ela mobilizando a "opinião pública" e as "forças vivas da nação""
(NETTO, 2014, p.63). Foi assim que “[...] criou-se uma atmosfera psicossocial de
confronto e de caos: a "corrupção" e a "subversão" estariam tomando conta do Brasil
e as "forças vivas na nação" já não podiam "suportar um presidente desacreditado"”
(NETTO, 2014, p.63).
O ano de 1963 foi decisivo, com fraturas políticas no campo democrático e
contradições do governo Jango, além da perda de sustentação no plano militar e a
oposição dos meios de comunicação do empresariado e dos latifundiários; há uma
conspiração civil-militar com a ameaça de quebra da hierarquia na corporação
militar. Jango continuou tomando posições que colidiam com os interesses norte-
americanos e da burguesia nacional, sendo criticado por "[...] seu afastamento do
"mundo livre"” (NETTO, 2014, p.55). Foi assim que, "[...] para não trair seus
compromissos com os trabalhadores, entrou em 1964 girando à esquerda. Mas a
sorte do seu projeto já estava decidida" (NETTO, 2014, p.62).
O grau de intensidade das lutas sociais, as greves e a ativa inserção dos
trabalhadores na cena política foram mostrados como evidências da comunização
do país pelo governo Jango à opinião pública. Foi após um comício, em março de
1964, quando Jango discursou criticando o caráter restrito da democracia vigente e
afirmou sobre a necessidade de revisão constitucional e as reformas para um
desenvolvimento econômico “[...] sem privilégios para as minorias e para os
monopólios nacionais e internacionais” (NETTO, 2014, p.65) que a situação se
agravou.
O discurso resultou no pedido do seu impeachment, e foi então que os
conspiradores civis e militares ultimaram os preparativos para o golpe: ativaram o
anticomunismo em larga escala, buscaram respaldo da massa entre a pequena
burguesia urbana, apoio dos veículos de comunicação social, organizações
financiadas pelo empresariado e pela CIA, que desencadearam nas Marchas da
Família com Deus pela Liberdade.
Na conspiração militar - o chefe do Estado-Maior do Exército (general
Castelo Branco) através de Circular Reservada de 20 de março articulava-se com os
seus pares e os governadores, mas também sabia que teria peso a defesa da
legalidade e por isso precisava de um fato novo que precipitasse a adesão do
grosso ao golpe. O estopim foi a revolta dos Marinheiros, quando se reuniram em
95

um número de 2 mil na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. O


ministro ordenou a prisão dos organizadores, mas estes tiveram apoio dos fuzileiros
navais que foram encarregados para fazer suas prisões. Abre-se então uma crise no
almirantado. Nesta situação, Jango não escondeu o seu apoio aos marinheiros. A
revolta evidenciou o argumento da Quebra da hierarquia e da indisciplina, também
sinal da comunização do Brasil. Assim, a cúpula golpista, tomou a decisão, com o
conhecimento da embaixada norte-america de desfechar o golpe na primeira
semana de abril, mais precisamente no dia primeiro do mês, que ironicamente é
conhecido como o dia da mentira.
Jango permanece em sua posição e denuncia a campanha financiada
antidemocrática por agências nacionais e estrangeiras e pede aos sargentos e
suboficiais que defendam a legalidade, pedido que não resultou em respostas
positiva. Em 31 de março o comandante do II Exército, Amaury Kruel, lhe fez uma
proposta:

[...] para garanti-lo no governo: que o presidente rompesse com a esquerda,


demitisse ministros "radicais" e colocasse o CGT na ilegalidade. Jango
bateu o telefone após replicar: General, eu não abandono os meus amigos.
Se essas são as suas condições [para apoiar o governo, mantendo-se na
legalidade], eu não as examino. Prefiro ficar com as minhas origens. O
senhor que fique com as suas convicções. Ponha as tropas na rua e traia
abertamente (NETTO, 2014, p.68).

O ministro da guerra, sabendo das tropas nas ruas, também condicionou seu
apoio àquela mesma proposta. Então a Casa Militar do presidente fica sem
comando, incapaz de mobilizar a oficialidade legalista e sem lhe dar ordens para
qualquer resistência. Jango percebe que os altos mandos militares só impediriam o
golpe se ele aceitasse "[...] romper com o movimento sindical, intervir nos sindicatos
e na UNE e reprimir os comunistas. Ao fim da noite, voou para Porto Alegre, onde
Brizola (juntamente com o general Ladário Telles) se dispunha a resistir" (NETTO,
2014, p.68). Em 2 de abril o presidente estava em território nacional, não renunciou,
mas seu cargo foi declarado em vacância mesmo assim. Após ser perseguido,
Jango se exilou no Uruguai, onde ficou até sua morte precoce e suspeita em 1976.

2.4 O REGIME AUTORITÁRIO: CARACTERÍSTICAS DE SUAS DIFERENTES FASES

Durante um curto período de treze dias, a presidência foi ocupada por


96

Ranieri Mazzilli até que os militares constituíssem o novo presidente. O golpe,


autointitulado revolução redentora e salvadora, já na sequência mostrou a que veio
instaurando o arbítrio e a violência (NETTO, 2014). A sequência de fatos explicita:
governadores depostos; políticos de oposição presos; presos também líderes
sindicais, estudantis e dirigentes de organizações nacionalistas e populares, além de
serem submetidos a tratamentos vexatórios; operação limpeza do movimento
sindical; assassinatos; refugiados pelas fronteiras do sul e em embaixadas
estrangeiras; invasão de domicílios, escritórios e consultórios; expurgo nas Forças
Armadas e em organismos estatais e autarquias; e ataques e assaltos policiais a
bibliotecas (NETTO, 2014).
O Estado autocrático institucionalizou suas ações através de Atos
Institucionais, que “[...] eram justificados como decorrência do exercício do Poder
Constituinte, inerente a todas as revoluções” (FAUSTO, 1997, p.465),
materializavam-se neles as ideologias postas na Doutrina de Segurança Nacional e
Desenvolvimento, que fundamentava, segundo Bueno, “[...] a forma que deveria
estabelecer a relação entre Estado e sociedade civil no Brasil, num contexto de
fortalecimento da dominação/coerção em detrimento do consenso” (BUENO, 2014,
p.59). Foi através da força institucionalizada nos Atos que o Estado autocrático
camuflava os problemas sociais. Segundo Dias, "[...] as sucessivas imposições da
ordem, por meio dos Atos Institucionais, acomodaram as instituições políticas e os
problemas econômicos foram maquiados” (DIAS, 2017, p.8).
Imediatamente após o golpe 1964 foi promulgado o Ato Institucional de
número 1(AI-1) que estabeleceu a votação indireta do Congresso Nacional para a
eleição do novo presidente da República, e a 15 de abril de 1964, o general
Humberto de Alencar Castelo Branco foi eleito, comprometendo-se a entregar o
cargo no início de 1966, "[...] ao meu sucessor legitimamente eleito pelo povo em
eleições livres" (NETTO, 2014, p.72); como se sabe, não foi bem o que aconteceu.
O governo de Castelo Branco, formado pelo grupo chamado castelista,
segundo Fausto,

[...] tinha, no plano político, o objetivo de instituir uma “democracia


restringida” depois de realizar as cirurgias previstas no AI-1; no plano da
economia, visava reformar o sistema econômico capitalista, modernizando-o
como um fim em si mesmo e como forma de conter a ameaça comunista.
Para atingir esses propósitos, era necessário enfrentar a caótica situação
econômico-financeira que vinha dos últimos meses do governo Goulart;
controlar a massa trabalhadora do campo e da cidade; promover uma
97

reforma do aparelho do Estado (1997, p. 470).

O que não destituiu o fato de que o governo Castelo Branco deixava claro o
caráter de classe de seu governo antidemocrático e antinacional. (NETTO, 2014,
p.89). Foram realizadas as reformas, houve a implantação do PAEG (Programa de
Ação Econômica do Governo), que se constituía em uma “[...] combinação do corte
de despesas e aumento de arrecadação que reduziu o déficit público anual de 4,2%
do PIB em 1963 para 3,2% em 1964, e 1,6% em 1965” (FAUSTO, 1997, p.473).
Como resultado, “A forte inflação de 1964 tendeu a ceder gradativamente, e o PIB
voltou a crescer, a partir de 1966” (FAUSTO, 1977, p. 472). Sucesso que não se deu
apenas pela competência técnica, mas facilitado pelo regime ditador que assegurava
a ação dos ministros (FAUSTO, 1997, p.473). De nada adiantaria um programa de
estabilização econômica caso não existisse uma política autoritária que controlasse
a reação popular frente às dificuldades enfrentadas. Em suma, “[...] com o PAEG - o
governo Castelo Branco revela sem sombra de dúvidas o seu caráter de classe"
(NETTO, 2014, p.91).
Foi já durante o governo Castelo Branco que foi instaurado o mecanismo
dos Inquéritos Policial-Militares, realizando uma operação limpeza, atingindo

[...] arbitrariamente sindicalistas, políticos, editores, artistas, professores,


estudantes, servidores públicos, religiosos, militares democratas e legalistas
e impuseram situações vexatórias inclusive a políticos que, então, não
questionavam a nova ordem (como o ex-presidente Juscelino Kubitschek)
(NETTO, 2014, p.90).

Instala-se também o Serviço Nacional de Informações (SNI), e é


demonstrada a subordinação da política externa a interesses que não os dos
brasileiros. Foram criadas as Delegacias de Ordem Política e Social (DOPS). Em
números claros,

O homem de proa da "revolução", que viera para "defender a democracia" e


empenhada por ela a sua palavra, cancelou eleições diretas para a
presidência da República e os governos estaduais, fechou o Congresso
Nacional, aplicou 3.747 atos punitivos (em média, 3 por dia!), demitiu cerca
de 3.000 servidores públicos (civis e militares) e, entre 1965 e 1966, baixou
3 atos constitucionais, 36 atos complementares, 312 decretos-lei e 19.259
decretos. Como se vê, um exemplo de democrata... (NETTO, 2014, p.105).

Para com a classe trabalhadora, a intervenção foi de uma política de arrocho


salarial, e para assegurar esta política, em primeiro de junho de 1964 foi promulgada
a lei de greve ou lei antigreve, na qual “[...] a greve só seria considerada legal pelo
governo em dois casos: quando os empregadores atrasassem o pagamento ou
98

quando não pagassem salários conforme decisão judicial” (NETTO, 2014, p.94).
Além disso, há também em 1966 a criação do Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço (FGTS), extinguindo a estabilidade do trabalhador.
Mas a resistência acontece e a reação entra em cena. Segundo Netto, a

[...] opinião pública dava inequívocos sinais de descontentamento em


relação ao regime de abril, como uma pesquisa realizada no estado da
Guanabara - então unidade da Federação de extrema importância política-
pela empresa Marplan já o demonstrara: indagados se aprovavam a política
do governo, 63% dos entrevistados responderam não, 19% responderam
sim e 18% se abstiveram de opinar (2014, p.98).

Enquanto "Castelo Branco e os homens da "Sorbonne" estiveram


empenhados, até então, em preservar as formalidades que adornavam a ditadura
com aparências de compromissos democráticos" (NETTO, 2014, p.98); o grupo
chamado “linha dura” se empenhava em contrariá-los, acreditavam que havia muita
tolerância para com os adversários, pregando que deveria ser implantado “[...] um
regime autoritário com controle militar estrito do sistema de decisões para levar mais
longe a luta contra o comunismo e a corrupção” (FAUSTO, 1997, p.474). Mas como
já observado, o regime autoritário nunca deixou de acontecer, o que ocorre é que
neste período o caráter autoritário é cada vez mais exacerbado, direcionado pela
necessidade do capital.
A oposição vinha se articulando e mostrava-se visível uma possível derrota
do regime. Como resposta, Castelo Branco baixa o AI-2 e o AI-3, que
respectivamente endureceram o processo eleitoral para presidência, determinando o
fim das eleições diretas, e fortalecem o poder do presidente, além de extinguir os
partidos políticos, com o objetivo de enrijecer a política e neutralizar a oposição
(FAUSTO, 1997).
Assim, "Enquanto agia por meio de atos autoritários, o Chefe de Governo
reiterava sua fé na democracia" (VIEIRA, 1985, p.193). Observa-se que "Castelo
Branco glorificava o desenvolvimento e a democracia" (VIEIRA, 1985, p.194). Ao fim
de seu governo, pretendia uma “[...] uma nova Constituição que incorporasse o
conteúdo dos vários atos institucionais, procurando conferir legitimidade e
perdurabilidade a esses instrumentos do arbítrio" (NETTO, 2014, p.104). Também
houve atos complementares e o principal deles foi o de 20 de novembro de 1965
que estabelece as condições para a criação de partidos, que faz nascer dois
partidos que existiram até 1979, o partido da Aliança Renovadora Nacional/ARENA
99

(identificado como o partido da ditadura) e o Movimento Democrático Brasileiro/MDB


(reunindo o heterogêneo bloco dos opositores) (NETTO, 2014, p.100).
Mas o grupo castelista afasta-se de cena quando o próximo “eleito” para
presidente foi Artur da Costa e Silva (1967 a 1969), que “[...] concentrava as
esperanças da linha-dura e dos nacionalistas autoritários das Forças Armadas”
(FAUSTO, 1997, p.476). Mas efetivamente o governo de Costa e Silva não se
realizou como instrumento da linha-dura, pois era um momento em que a oposição
se rearticulava. Costa e Silva sofreu pressões da sociedade, o obrigando a
estabelecer “[...] pontes com a oposição moderada e tratou de ouvir os discordantes
(FAUSTO, 1997, p.477).
Como nos outros governos militares, em linhas gerais, o desenvolvimento
aparece como destaque. Segundo Vieira, "O universo ideológico de Costa e Silva
abrangia, entre outros temas, formulações relativas à política externa e ao
desenvolvimento" (1985, p.195).
Mas esse foi um período em que, além da oposição se articular e se
confrontar com o governo, as mobilizações populares ganharam notoriedade,
Segundo Fausto,

[...] 1968 não foi um ano qualquer. Em vários países, os jovens se


rebelaram, embalados pelo sonho de um mundo novo. Nos Estados Unidos,
houve grandes manifestações contra a Guerra do Vietnã; na França, a luta
inicial pela transformação do sistema educativo assumiu tal amplitude que
chegou a ameaçar o governo De Gaulle. Buscava-se revolucionar todas as
áreas do comportamento, em busca da liberação sexual e da afirmação da
mulher. As formas políticas tradicionais eram vistas como velharias e
esperava-se colocar “a imaginação no poder”. Esse clima, que no Brasil
teve efeitos visíveis no plano da cultura em geral e da arte, especialmente
da música popular, deu também impulso à mobilização social. Era um árduo
caminho colocar “a imaginação no poder”, em um país submetido a uma
ditadura militar (1997, p.477).

A população se mobilizou contra a violência que ocorria e uma onda de


greves acometia a realidade brasileira. Foi neste período que nasce a Frente Ampla
como resistência e oposição ao regime ditatorial. Segundo Netto,

A incapacidade da ditadura, já no início do governo Costa e Silva, para


deter e reverter a erosão do seu bloco de sustentação tornou-se evidente
com aquele que pode ser considerado o fato político mais importante do ano
de 1967: a constituição da Frente Ampla- iniciativa que a ditadura tratou de
ilegalizar em abril do ano seguinte, mas que demonstrou cabalmente que o
regime ditatorial estava perdendo rapidamente suportes sociopolíticos
importantes para qualquer projeto de legitimação; a Frente Ampla
demonstrou mais: demonstrou que estava em curso um processo de
rearticulação da oposição (2014, p.110).
100

Assim, os acontecimentos encaminhavam “[...] a linha-dura na sua certeza


de que a revolução estava se perdendo e era preciso criar novos instrumentos para
acabar com os subversivos” (FAUSTO, 1997, p.479). Em treze de dezembro de
1968 é baixado o nefasto AI-5 enterrando “[...] quaisquer aparências "democráticas"
que ainda adornavam o regime de abril" (NETTO, 2014, p.106). Foi o momento em
que saímos de uma autocracia restrita, que disseminando em sua defesa à
perspectiva democrática, se transforma em uma política tirânica, sendo, portanto o
AI-5 o marco desta transição, a entrada nos “anos de chumbo”. Segundo Netto

O que fora, até então, uma ditadura reacionária, que conservava um


discurso coalhado de alusões à democracia e uma prática política no bojo
da qual ainda cabiam algumas mediações de corte democrático-
parlamentar, converte-se num regime político de nítidas características
fascistas (1996, p.38).

O Estado autocrático continua na sua busca pela modernização


conservadora, mas cada vez mais diminuindo as vias de conciliação e consenso ou
racionalização, passando mesmo a atuar via terrorismo. Para Netto, é este o ponto
máximo de realização do modelo autocrático burguês “[...] o terrorismo de Estado é
a contraface política da ‘racionalização’, da ‘modernização conservadora’ conduzida
ao clímax na economia e visível na consolidação do ‘modelo’” (NETTO, 1996, p. 39-
40). E embora tenhamos considerado a colocação de Florestan Fernandes sobre o
elemento autoritário estar presente na democracia burguesa, como “[...] componente
estrutural e dinâmico da preservação da preservação, do fortalecimento e da
expansão do “sistema democrático capitalista”” (1979, p.7), não há dúvidas de que
com a vigência da autocracia, este elemento consegue se exacerbar ainda mais.
O AI-5 teve validade até o ano de 1979, e foi através dele que “Estabeleceu-
se na prática a censura aos meios de comunicação; a tortura passou a fazer parte
integrante dos métodos de governo” (FAUSTO, 1997, p.480). Essencialmente o que
o AI-5 demonstrou foi a incapacidade do regime de “[...] ceder a pressões sociais e
de se reformar. Pelo contrário, seguia cada vez mais o curso de uma ditadura brutal
(FAUSTO, 1997, p.480). Explicitava-se que a perspectiva democrática não passava
de meramente formal, uma democracia liberal donde “[...] a ela é inerente forte
desigualdade econômica, social e cultural com uma alta monopolização do poder
pelas classes possuidoras dominantes e por suas elites” (FERNANDES, 1979, p.7),
que o movimento de 1964 se propôs a defender.
Entre outros Atos Institucionais, vale destacar o conteúdo do AI-13 que cria
101

“[...] a pena de banimento do território nacional, aplicável a todo brasileiro que ‘se
tornar inconveniente, nocivo ou perigoso à segurança nacional’” (FAUSTO, 1997,
p.481); e do AI-14 que estabelece “[...] a pena de morte para os casos de ‘guerra
externa, psicológica adversa, ou revolucionária ou subversiva’” (FAUSTO, 1997,
p.481). Esta última nunca foi “[...] aplicada formalmente, preferindo-se a ela as
execuções sumárias ou no correr de torturas, apresentadas como resultantes de
choques entre subversivos e as forças da ordem ou como desaparecimentos
misteriosos” (FAUSTO, 1997, p.481).
O Estado autocrático diante dos movimentos que ganhavam as ruas e
contestavam a solução dos problemas sociais, necessitou tomar medidas drásticas
para conter a “desordem”, para neutralizar as resistências democráticas através do
terrorismo as fazendo recuar cada vez mais e diminuindo quantitativamente. Assim,
“[...] a sistemática do terrorismo de Estado conduziu as forças democráticas a uma
residual política de resistência e compeliu o movimento democrático e popular a uma
atividade que não pode ser denotada senão pelo termo molecular” (NETTO, 1996,
p.40). Aponta-se ainda que foi em 1969 que

[...] surgiu em São Paulo a Operação Bandeirantes (Oban), vinculada ao II


Exército, cujo raio de ação se concentrou no eixo São Paulo- Rio. A Oban
deu lugar aos DOI-CODI, siglas do Destacamento de Operações e
Informações e do Centro de Operações de Defesa Interna. OS DOI-CODI
se estenderam a vários Estados e foram os principais centros de tortura do
regime militar (FAUSTO, 2012, p.266).

Como se sabe, foram nos porões dos DOI-CODI que o Estado autocrático
cometeu os seus piores crimes contra aqueles que, de imediato, sem direito à sua
investigação, lhe pareciam “inimigos”.
O presidente Costa e Silva adoece em 1969, mas não foi o seu vice que o
sucedeu, a cúpula militar desejava um governante mais severo com a relação com a
oposição e as resistências. Assim, após o breve governo dos ministros Lira Tavares,
Augusto Rademaker e Márcio de Sousa e Melo (FAUSTO, 1997), a cúpula “elegeu”
o sexto presidente: Emílio Garrastazu Médici (1969 a 1974), que estava no grupo
linha-dura, declarou-se (como sempre faziam) defensor da democracia, mas que iria
precisar preparar o país para vivê-la, ele

Aludiu à democracia, à justiça social, às reformas, ao desenvolvimento,


dedicando-se ainda ao exame da situação dos trabalhadores. Acima de
tudo, porém, defendeu o Ato Institucional n.°5. Acerca da democracia,
cuidou de esclarecer que "esperava entregar o País em pleno regime
102

democrático", ao fim de seu governo. Mas um tanto confusamente, ao


mesmo tempo admitia sua incredulidade na plena democracia, apesar de
combater em prol do regime democrático (VIEIRA, 1985, p.197).

As propagandas expunham o presidente Médici como um símbolo de


homem simples, segundo Netto,

Foram anos em que a mistificação propagandística do regime ditatorial


tentou travestir a imagem da ditadura e edulcorar a realidade brasileira:
mediante uma publicidade em larga escala, Garrastazu Médici foi
apresentado a uma população impedida de qualquer participação social
significativa como um homem simples, apreciador de futebol e empenhado
em promover o "desenvolvimento" com "segurança"- como chefe de Estado
comprometido em assegurar a condição do Brasil como "uma ilha de paz"
num mundo revolto (2014, p. 141).

Aqui novamente é possível observar elementos do “mito fundador” se


expressando quanto ao Brasil possuidor como o país onde há a promessa da paz,
pois aqui não possuímos tragédias naturais nem guerras, e habita nesta terra um
povo ordeiro (mesmo que para isso tenha que ser torturado, morto ou exilado).
Mas o governo Médici não se limitou apenas a perspectiva repressiva, agiu
também na neutralização das reivindicações das classes populares. Assim “[...]
distinguiu claramente entre um setor significativo, mas minoritário da sociedade,
adversário do regime, e a massa da população que vivia um dia-a-dia de alguma
esperança nesses anos de prosperidade econômica” (FAUSTO, 1997, p.484). A
resultante foi a diminuição ao nível mais baixo da oposição, “[...] como resultado das
condições econômicas favoráveis, da repressão e, em menor escala, da campanha
pelo voto nulo” (FAUSTO, 1997, p.484). Sobre o governo de Médici, segundo Netto,
"Os anos em que esteve à cabeça do Executivo federal foram os anos de esplendor
do Estado de segurança nacional- vale dizer: os anos do apogeu do terrorismo como
política de Estado" (2014, p.141).
Houve nesse momento um avanço na indústria de telecomunicações,

Por essa época, beneficiada pelo apoio do governo, de quem se


transformou em porta-voz, a TV Globo, expandiu-se até se tornar rede
nacional e alcançar praticamente o controle do setor. A propaganda
governamental passou a ter um canal de expressão como nunca existira na
história do país. A promoção do “Brasil grande potência” produziu
resultados no imaginário da população. Foi a época em que muitos
brasileiros idosos, de classe média, lamentavam não ter condições
biológicas para viver até o novo milênio, quando o Brasil se equipararia ao
Japão (FAUSTO, 2012, p.268).

Foi quando se deu o lançamento da marchinha “Pra Frente Brasil” junto a


vitória brasileira na copa do mundo de 1970, letra na qual é difundida a ideia de um
103

Brasil de todos, unidos “pra frente”, seguido sempre da repetição de “salve a


seleção!”. Entramos no período considerado o “Milagre brasileiro” com duração entre
1969 a 1973, nos quais os problemas sociais ou de distribuição não importaram,
mas sim o fato de a economia e o futebol brasileiro estar no auge. O “Milagre” foi,
segundo Giannasi, o período

[...] que se o Brasil mais cresceu e se desenvolveu do ponto de vista


econômico, há de se recordar as palavras do próprio general-presidente
Emílio Garrastazu Médici, "a economia ia bem, mas o povo vivia mal". Era
uma situação decorrente das características do modelo econômico seguido,
fruto do conluio entre os tecnocratas e os militares no poder e no comando
da Escola Superior de Guerra. O motivo pelo qual o general-presidente
assim se manifestou não é conhecido, se era ou não um ato falho. Mas a
verdade é que ele falou, e depois nada fez para que o povo pudesse viver
menos mal (2011, p.42).

Muita gente trabalhava para o alcance do tal desenvolvimento, mas


ganhava-se menos, com muito menos garantias sociais e menos direitos. 31 O
milagre de meados das décadas de 1960 e 1970 não foi capaz de proporcionar
melhores condições de vida para a população através de políticas sociais, houve
uma “[...] desproporção entre o avanço econômico e o retardamento ou mesmo o
abandono dos programas sociais pelo Estado” (FAUSTO, 2012, p.269). Dessa forma
a fama brasileira mundial ficou “[...] por uma posição relativamente destacada pelo
seu potencial industrial e por indicadores muito baixos de saúde, educação,
habitação, que medem a qualidade de vida de um povo” (FAUSTO, 2012, p.269).
Tudo o que fugia a lógica do consumo, ficava à margem do “milagre”. Fato que
ilustra bem como os militares se apegaram na defesa do desenvolvimento
econômico em detrimento das políticas sociais como educação, saúde, habitação,
entre outras, como se estas não fossem requisitos também para um
desenvolvimento; mas como se sabe a autocracia burguesa pós golpe de 1964 é
claramente um regime autocrático de classe, que busca o desenvolvimento
econômico capitalista. A ênfase dada ao desenvolvimento (grudado à segurança
nacional) é sinal de que os valores fundamentadores são conservadores, dada a
busca para manter as estruturas de poder da forma como estão de forma perversa.
Neste período,

31
Há de se lembrar do discurso do atual presidente da república (2019) quando declarou, ainda em campanha
eleitoral, sua opinião com relação ao retrocesso de direitos trabalhistas advindos com as reformas, que “o
trabalhador terá de escolher entre mais direito e menos emprego, ou menos direito e mais emprego”.
Informações viabilizadas por reportagens e expressamente no site Infomoney. Disponível em:
<https://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/7589379/bolsonaro-diz-no-jn-que-trabalhador-tera-de-
escolher-entre-direitos-e-emprego> Acessado em 15 de jul. de 2019.
104

A política social desde 1964 reduziu-se a uma série de decisões setoriais,


sobretudo na Educação, na Saúde Pública, na Habitação Popular, na
Previdência e na Assistência Social, servindo em geral para desmobilizar as
camadas carentes da sociedade (VIEIRA, 1985, p.226-227).

Ocorre que este processo que resulta no “milagre”

[...] teve objetivos e causas bastante definidos, sujeitos e beneficiários


nitidamente identificados e também um enorme contingente de prejudicados
suficientemente conhecidos-precisamente o grosso da população brasileira
(NETTO, 2014, p.147).

Deixando claro que "[...] os anos do "milagre" comprovaram, com


transparência cristalina, que o regime de abril atendia aos interesses dos grandes
proprietários e dos grupos monopolistas" (NETTO, 2014, p.155).
Não por acaso o Brasil ficou entre uma das dez maiores economias
mundiais (NETTO, 2014), o que resultou no fato de que "[...] o emprego tenha
crescido, entre 1968-1973, a uma taxa média anual de 4,3% (no mesmo período, o
crescimento demográfico anual brasileiro era estimado em 2,9%)" (NETTO, 2014,
p.151), e o regime trabalhou muito bem essa sua vantagem perante a opinião
pública de massa. A população, que diante de padrões de vida sub-humanos pensa
no hoje, vive o hoje, pois é no hoje que precisa sobreviver, tem seus planos de
médio e longo prazo sempre postergados; motivo que faz este quadro do país
parecer ótimo visto superficialmente. Foi neste período que a autocracia alcançou

[...] resultados verdadeiramente exitosos, explorados com eficácia por uma


publicidade governamental que, em escala jamais vista na história do país,
proclamava que "Ninguém segura este país" (num clima de euforia
manipulado a partir de 1970, quando a imagem de Garrastazu Médici e seu
governo incorporou-se ao entusiasmo popular pela conquista do
tricampeonato mundial de futebol) - a mesma publicidade que, para os
descontentes, ordenava: "Brasil, ame-o ou deixe-o" (NETTO, 2014, p.151).

Na busca pela legitimação que o Estado autocrático tanto ansiou, entraram


em cena os discursos do grande desenvolvimento econômico em seus melhores
anos, em contrapartida da tragédia no âmbito social. Foi esse “[...] o tempo do
crescimento acelerado, batizado então de “milagre brasileiro” e posto como
organizador de um consenso passivo” (NETTO, 1996, p.40). O milagre, somado à
repressão, foi capaz de mascarar os problemas enfrentados no país. O governo
Médici assim se realizou entre o Milagre econômico e a violenta repressão em
combate aos opositores, pois "[...] a concretização do "modelo econômico", expressa
no "milagre", teve como condição política necessária o terrorismo de Estado"
105

(NETTO, 2014, p.160).


Foi assim que "[...] os anos de chumbo aniquilaram e/ou imobilizaram, no
primeiro terço dos anos 1970, as forças políticas que vinham atuando na oposição,
legal e clandestina, desde 1964" (NETTO, 2014, p.165). Observa-se também o papel
da censura neste processo. Segundo Netto,

A censura aos meios de comunicação fazia a sua parte para garantir a


"segurança" sem a qual, segundo a ideologia de segurança nacional, não
haveria o "desenvolvimento". E, no âmbito da comunicação social, os anos
de chumbo trouxeram uma modificação essencial, que jogou muito
favoravelmente para o regime: a consolidação da televisão como veículo
privilegiado (2014, p. 165).

A censura, como se verá adiante, foi responsável por cercear a reprodução


de composições de samba que apontassem algum descontentamento sobre o
regime e/ou sobre as condições de vida da população. Além disso, foi exatamente
no período do “[...] milagre que incorporou-se a indústria cultural.” (NETTO, 2014,
p.165), o que apresenta uma nova configuração nas produções artísticas.
Após o fim do governo Médici, o escolhido pelas forças armadas para ocupar
o cargo foi Ernesto Geisel (1974 a 1979), que tinha ligações com o grupo castelista e
desejava iniciar o momento de abertura política, segundo ele de forma “[...] lenta,
gradual e segura” (FAUSTO, 2012, p.270).
Esta foi uma quadra complexa do ciclo ditatorial, pois é neste período que

[...] esgota-se o "milagre econômico", reduz-se fortemente a legitimação do


terrorismo do Estado com o adensamento da resistência democrática,
aparecem tensões e fraturas no bloco de apoio ao regime e registra-se a
reinserção da classe operária na cena política (NETTO, 2014, p.177).

Além disso, a conjuntura internacional também se torna desfavorável à


condução do "modelo econômico" (NETTO, 2014). Mas, embora a presidência de
Geisel tenha representado alguma vantagem para o grupo castelista, ele também
sofre pressões advindas da linha-dura, por isso Geisel desejou que tudo ficasse sob
seu controle e que a abertura política acontecesse na forma de

[...] uma indefinida democracia conservadora, evitando que a oposição


chegasse muito cedo ao poder. Assim, a abertura foi lenta, gradual e
insegura, pois a linha dura se manteve como uma contínua ameaça de
retrocesso até o fim do governo Figueiredo (FAUSTO, 2012, p.270-271).

Segundo Netto, "Geisel explicita e implementa um projeto de


"institucionalização" da ditadura no sentido de instaurar uma "democracia forte",
incorporando seletivamente algumas bandeiras da resistência democrática" (2014,
106

p.177). Incorporação que fez devido às condições para a resistência que


começavam a reaparecer. Não foi por acaso que o governo de Geisel resolveu
promover a liberalização do regime; as pressões populares se fortaleciam nesse
momento, sendo que

[...] em 1973 a oposição começara a dar claros sinais de vida independente;


o confronto entre a Igreja Católica e o Estado era também muito
desgastante para o governo. A equipe de transição de Geisel tratou de
estabelecer pontes com a Igreja a partir de um ponto comum de
entendimento - a luta contra a tortura (FAUSTO, 2012, p.271).

Mas o que foi crucial à necessidade da distensão foram as “[...] relações


entre as Forças Armadas e o poder. O poder fora tomado pelos órgãos de
repressão, produzindo reflexos negativos na hierarquia das Forças Armadas”
(FAUSTO, 1997, p.490). Diante disso, era preciso tomar atitudes no sentido de

[...] restaurar a hierarquia, tornava-se necessário neutralizar a linha-dura,


abrandar a repressão e, ordenadamente, promover a “volta dos militares
aos quartéis”. Por outro lado, lembremos que a “democracia relativa” era
uma meta buscada pelo grupo castelista desde 1964 (FAUSTO, 1997,
p.490).

Foi assim que “No curso de 1975, Geisel combinou medidas liberalizantes
com medidas repressivas” (FAUSTO, 1997, p.491), ou, segundo Netto, na "[...]
continuidade com o governo Garrastazu Médici e a introdução de mudanças
políticas" (NETTO, 2014, p.177). As intervenções repressivas não acabavam,
“Continuava também a prática da tortura, acrescida do recurso ao
“desaparecimento” de pessoas mortas pela repressão” (FAUSTO, 1997, p.491).
A continuidade se deu no trato com os “[...] subversivos, mas acreditava que
o terrorismo de Estado levaria, na visão de Geisel, o regime a um beco sem saída"
(NETTO, 2014, p.178). Por isso "Saliente-se que o general não questionava a
"necessidade" da repressão; mas compreendia a permanência e o próprio futuro
desta ordem" (NETT0, 2014, p.178). Ele acreditava que deveria continuar com a
repressão, mas com mais cautela, por isso "[...] decidiu-se a promover- justamente
para a preservação do regime- outros mecanismos de sustentação política" (NETTO,
2014, p.178). Sua linha de intervenção se dava em dois planos: o forte controle da
máquina repressiva no sentido de discipliná-la, e busca pela legitimidade através do
partido ARENA (NETTO, 2014).
Geisel acreditava que a vitória nas eleições legislativas era incontestável,
por isso assegurou um mínimo de condições para a realização de eleições livres e
107

foi assim que

Pela primeira vez desde dezembro de 1968, a oposição pôde denunciar ao


país, abertamente, nos meios de comunicação e nos espaços públicos, a
política econômica da ditadura (o arrocho salarial, a concentração da renda,
a desnacionalização da economia), o caráter antidemocrático do regime, a
necessidade de extinguir o AI-5 e a urgência de estabelecer um Estado de
Direito Democrático, com o respeito aos direitos humanos (NETTO, 2014,
p.180).

O que obteve resultados surpreendentes. Segundo Netto,

A eleição de 1974 configurou a primeira grande derrota do regime ditatorial:


ela se revestiu de um caráter plebiscitário (votar na ARENA era votar a favor
da ditadura, votar no MDB era votar contra a ditadura) e nela ecoaram
nitidamente os efeitos da campanha do anticandidato Ulysses- o medo
estava sendo superado (2014, p. 180).

Essa vitória causou numa

Implicação institucional muito importante: no Congresso Nacional, a ARENA


perdeu a maioria de dois terços, que permitiria ao Executivo reformar a
Constituição vigente a seu bel-prazer; agora, a oposição poderia bloquear
projetos de alteração da ordem político-jurídica- se quisesse fazê-lo, Geisel
teria que apelar a expedientes de arbítrio (e, como se verá, ele não hesitou
em valer-se desse recurso) (NETTO, 2014, p.180).

O que deixa claro que Geisel não pretendia acabar com a repressão, mas
sim tê-la sob o seu maior controle. Segundo Netto,
[...] a repressão à "subversão" não tinha em Geisel um adversário; ela
constituía mesmo um requisito para o seu projeto de distensão- aniquilar os
grupos e partidos que punham radicalmente em questão o regime era uma
condição para a nova "institucionalidade" que ele pretendia erguer, na
direção de uma "democracia forte" (2014, p.181).

O que mudava era que Geisel desejava a distensão com um “[...] aparelho
repressivo limitado, disciplinado, subordinado ao poder central, prestando inteira
conta da sua atividade e, sobretudo, que não funcionasse como único e/ou principal
suporte do regime" (NETTO, 2014, p.181).
Em entrevista, o pesquisador Matias Spektor32 divulgou um documento
descoberto, disponível desde 2015 na internet33, no qual a cúpula do regime militar
se reúne para tomar decisões sobre a continuação ou não das execuções de
“subversivos perigosos”, e Geisel comenta sobre a gravidade e os aspectos
potencialmente prejudiciais desta política, dizendo que queria refletir antes de tomar

32
Entrevista no programa “Conversa com Bial”, com o pesquisador Matias Spektor em maio de 2018. Disponível
em <https://globoplay.globo.com/v/6738728/>. Acesso em: 29 nov. 2019.
33
Documento disponível em <https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-
76ve11p2/d99?platform=hootsuite>. Acesso em: 29 nov. 2019.
108

uma decisão. Dois dias depois decidiu que a política de repressão deveria continuar
sob determinadas condições, tomando cuidado para garantir que apenas
subversivos perigosos fossem executados. Dentre as condições estava que a CIA
deveria consultar o general Figueiredo (SNI) que deverá aprovar as execuções.
Dessa forma, Geisel tenta chamar pra si a autoridade de decidir, objetivando
controlar os setores de segurança. Portanto, as medidas que toma são pra restaurar
a autoridade da presidência da república sob o sistema de repressão.
A oposição se rearticulava e um fato ocorrido de grande repercussão foi a
morte do jornalista Vladimir Herzog da TV Cultura, que compareceu ao DOI-CODI
para responder às suspeitas de relações com o PCB e de lá não saiu com vida,
acompanhado da explicação tosca de que havia cometido suicídio por
enforcamento, que era um costume por parte dos torturadores. A morte desse
jornalista teve grande repercussão no país e no exterior, e causou mobilizações da
classe média e da Igreja Católica. A viúva de Herzog, Clarice, é referenciada na
música “O bêbado e a equilibrista” de João Bosco e Aldir Blanc em 1979, no trecho
“choram Marias e Clarices, no solo no Brasil”, samba lançado no período em que se
inicia a redemocratização, como símbolo de esperança por parte da classe de
artistas frente às atrocidades cometidas pela autocracia burguesa.
Com o grande risco de derrotas nas próximas eleições, passando a se
configurar como uma preocupação para o regime, então foi promulgada a Lei
Falcão, que limita a forma como os candidatos deveriam se apresentar nos meios de
comunicação (televisão e rádio) (FAUSTO, 1997). Dessa forma são restringidas as
possibilidades de vitória da oposição e além desta lei, foram tomadas uma série de
medidas, como o “pacote de abril” que estende as restrições da Lei Falcão para os
âmbitos federal e municipal e cria os “senadores biônicos”. Tudo isso dificultou a
vitória da oposição (FAUSTO, 1997, p.493).
Embora esse fosse o contexto com relação às eleições, o governo passou a
abrir espaços de diálogo com o MDB, com a ABI (Associação Brasileira de
Imprensa) e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Foi seguindo essa
lógica que

Em outubro de 1978, o Congresso aprovou a emenda constitucional n º11,


que entrou em vigor a 1º de janeiro de 1979. Seu objetivo principal foi
revogar o AI-5, incorporado à Constituição. A partir dessa data, o Executivo
já não poderia declarar o Congresso em recesso, cassar mandatos, demitir
ou aposentar funcionários a seu critério, privar cidadãos de seus direitos
políticos. O direito de requerer habeas corpus foi também restaurado em
109

sua plenitude. Ao mesmo tempo, a emenda nº 11 criou ao lado da figura já


existente do estado de sítio as chamadas “salvaguardas”, pelas quais o
Poder Executivo poderia decretar o estado de emergência e medidas de
emergência. As últimas poderiam ser tomadas para restabelecer a ordem
pública e a paz social em locais determinados, atingidos por calamidades ou
graves perturbações (FAUSTO, 1997, p.494).

A ampliação democrática acontece de forma restrita, pois

Criou-se a partir de 1979 uma situação em que os cidadãos podiam voltar a


manifestar-se com relativa liberdade e em que os controles à imprensa
haviam desaparecido. A oposição tinha também campo de manobra, mas
não podia lograr seu objetivo lógico de chegar ao poder (FAUSTO, 1997,
p.494).

Na esfera econômica foi lançado o “II Plano Nacional de Desenvolvimento”


que “[...] buscava completar o processo de substituição de importações instalado há
décadas no país, mudando o seu conteúdo” (FAUSTO, 1997, p.495). O plano tinha
clara preocupação com a questão das energias: “[...] propunha-se o avanço na
pesquisa de petróleo, o programa nuclear, a substituição parcial da gasolina pelo
álcool, a construção de hidrelétricas, cujo exemplo mais expressivo foi a de Itaipu”
(FAUSTO, 1997, p.495).
Em 1974 continuou-se agindo com objetivos de crescimento econômico,
ainda era bem “[...] forte a crença nos círculos dirigentes de que o Brasil era um país
predestinado a crescer” (FAUSTO, 1997, p.495). Somou-se ao fato de que com a
distensão política não era mais viável uma política econômica de orientação
recessiva (FAUSTO, 1997). Os incentivos foram direcionados à produção de bens
de capital de empresas privadas, mas foi também esse um período de grande
crescimento das empresas estatais.
Era um momento de grande tensão, pois havia repressão, mas também
muita agitação. Observa-se sobre isso o reaparecimento do movimento operário (a
exemplo do eixo combativo na indústria automobilística do ABC paulista), a
proliferação dos movimentos sociais no campo, com a Confederação Nacional dos
Trabalhadores Agrícolas, aumento dos sindicatos rurais, lideranças na Igreja
Católica através da Comissão Pastoral da Terra; além da presença de sindicatos de
outras categorias como médicos, sanitaristas, entre outras (FAUSTO, 1977).
Neste cenário, chega-se ao sétimo e último presidente militar brasileiro, João
Figueiredo (1979 a 1985), temporada onde se dá uma maior abertura democrática.
Segundo Fausto,

O período Figueiredo combinou dois traços que muita gente considerava de


110

convivência impossível: a ampliação da abertura e o aprofundamento da


crise econômica. Pensava-se que as dificuldades econômicas estimulariam
conflitos e reivindicações sociais, levando à imposição de novos controles
autoritários por parte do governo (1997, p.501).

A repressão ficava cada vez menos viável naquele contexto, assim “[...] a
abertura seguiu seu curso, em meio a um quadro econômico muito desfavorável. A
opção autoritária se desgastara mesmo nos círculos do poder, embora restassem
ainda os minoritários e perigosos ‘bolsões radicais’” (FAUSTO, 1997, p.501). Dessa
forma, prossegue-se a abertura política iniciada no governo anterior, mas ainda sob
um clima perturbado pela ação da linha-dura.
Entre avanços e retrocessos para a oposição, aprova-se a lei de anistia, que
segundo Fausto, representou a tirada da oposição de uma de suas principais
bandeiras. Ocorre que

A lei de anistia aprovada pelo Congresso continha, entretanto, restrições e


fazia uma importante concessão à linha-dura. Ao anistiar “crimes de
qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por
motivação política”, a lei abrangia também os responsáveis pela prática da
tortura. De qualquer forma, possibilitou a volta dos exilados políticos e foi
um passo importante na ampliação das liberdades públicas (FAUSTO,
1997, 504).

É nesse período que verificam-se problemas mundiais no âmbito econômico,


com

Um segundo choque do petróleo, com a consequente elevação de preços,


agravou o problema do balanço de pagamentos. As taxas internacionais de
juros continuaram subindo, complicando ainda mais a situação. A obtenção
de novos empréstimos era cada vez mais difícil e os prazos para
pagamento se estreitavam (FAUSTO, 1997, p.502).

Outro aspecto relevante deste período é a promulgação da nova lei orgânica


dos partidos políticos34 abrindo-se a possibilidade de fundar novos partidos. Surge o
Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Democrático Trabalhista (PDT), e o
Partido Popular (PP) (FAUSTO, 1997, p.507); além disso, havia duas vertentes
principais sindicalistas, uma próxima ao PT que defendia na linha reivindicatória
agressiva, e outra que defendia a limitação da ação dos sindicatos para não
prejudicar a abertura política (FAUSTO, 1997).
O âmbito político estava permeado por inseguranças, que possibilitavam a
oposição ao governo. Ainda havia medidas para impedi-la, como restrições nas

34
Em 1979 aprova-se no Congresso Nacional a “nova Lei Orgânica dos Partidos Políticos (Lei n. 6.767, de 20 de
novembro de 1979) - com esta legislação, suprimia-se efetivamente o bipartidarismo imposto desde o final de
1965 e se instaurava a possibilidade de construir um sistema multipartidário” (NETTO, 2014, p.221).
111

eleições35, porém mesmo assim o debate no âmbito político sobre o pleito eleitoral
ocorreu. Assim é que inicia-se uma cruzada na defesa das Diretas Já.
O deputado federal Dante de Oliveira propõem a emenda para tornar direta
a eleição presidencial do sucessor de Figueiredo, com possibilidade de aprovação
improvável. Mas ocorre que “[...] os partidos da oposição uniram-se para transformar
a luta pelas diretas numa campanha de massas - a campanha pelas “Diretas já”"
(NETTO, 2014, p.239). Aos poucos a proposta do deputado Dante de Oliveira foi
crescendo. Segundo Netto,

A campanha começa com um modesto comício em Goiânia/GO, em junho


de 1983, que juntou pouco mais de 5 mil pessoas. A pouco e pouco,
inicialmente sob o silêncio manipulado dos grandes meios de comunicação-
aqui, mais uma vez, o papel da Rede Globo foi emblemático -, a campanha
empolgou o grosso da sociedade brasileira: ela configurou, já no segundo
semestre, o que alguns observadores consideraram a maior mobilização
cívica do Brasil no século XX, com comícios e manifestações de ruas
reunindo centenas e centenas de milhares de pessoas (2014, p. 240).

O movimento "[...] envolvia praticamente, numa agitação policlassista, todas


as forças da sociedade civil (a OAB, a Igreja, a ABI, os sindicatos, a UNE e, ao fim,
entidades empresariais), todos os partidos e suas lideranças" (NETTO, 2014, p.240).
Em suma,

A campanha criou no país, num momento em que organizações populares


se fortaleciam e conquistavam novos espaços de intervenção e em que os
trabalhadores continuavam a demonstrar a sua combatividade, uma
vibrante e imensa corrente de opinião que isolou complemente os poucos
segmentos que se atreviam a contestar a legitimidade da demanda (entre
os quais, naturalmente, encontrava-se o núcleo duro do regime) (NETTO,
2014, p.240).

A situação chegou a tal ponto que nem a imprensa dominante deixou de


publicá-la. Segundo Netto

O movimento pelas "Diretas Já" galvanizou a tal ponto a massa da


população, chegando a envolver de desportistas ao "mundo da cultura", que
até mesmo a imprensa mais comprometida com a ditadura (inclusive O
Globo) acabou por ter que repercuti-la em suas páginas (NETTO, 2014,
p.240).

Resultou que "[...] em janeiro de 1984, nenhuma voz com um mínimo de

35
Como exemplo “a criação do voto vinculado, pelo qual o eleitor era forçado a escolher candidatos de um
mesmo partido em todos os níveis de representação, de vereador a governador. O voto em candidatos de
partidos diferentes seria considerado nulo. A medida visava a favorecer o PDS que era mais forte no âmbito
municipal. Esperava-se que o voto no PDS para vereador puxasse o voto no partido para os outros níveis”
(FAUSTO, 1997, p.508).
112

credibilidade expressava, no interior da sociedade civil, qualquer crítica aberta ao


movimento das "Diretas Já"" (NETTO, 2014, p.240).
Frente a essa situação, duas providências foram tomadas por Figueiredo:
impôs novamente o "estado de emergência" em Brasília e em dez municípios de
Goiás e envia ao Congresso Nacional, no dia 16 de abril, uma proposta de emenda
constitucional para restabelecer as eleições diretas, antes que esta seja uma
conquista popular (reaparece o risco de quebrar as tradicionais “conciliações pelo
alto”).
Havia também tensões no “condomínio militar”, que se davam entre duas
principais posições:

[...] entre os segmentos que supunham que o uso da força travaria a erosão
do regime e aqueles que percebiam a necessidade de evitar que o
esgotamento do regime derivasse numa desmoralização das Forças
Armadas (NETTO, 2014, p.238).

Há uma insatisfação generalizada e descrédito da política econômica, além


de sinais de deterioração da base político-parlamentar, motivos que levaram "[...] ao
longo de 1983 e especialmente de 1984, à acentuação do desgaste e do isolamento
do regime ditatorial" (NETTO, 2014, p.238). Por fim,

A pressão do movimento democrático ganhou uma dinâmica imparável a


partir de uma demanda que galvanizou a massa da população
(fundamentalmente da população urbana, majoritária): a demanda pelas
eleições diretas para a presidência da República (NETTO, 2014, p.239).

A proposta das eleições diretas seria votada dia 25 de abril o que mostrava a
disposição para postergar a agonia do regime, ao mesmo tempo admitia que o
regime estava na defensiva. A capital transformou-se numa praça de guerra, mas

[...] ao assumir a possibilidade de eleições diretas em 1988, Figueiredo


procurava reduzir a pressão que a campanha pelas "Diretas Já" produzia
nos setores vacilantes do PDS- estes poderiam justificar-se de algum modo
para votar contra a emenda Dante de Oliveira escorando-se na proposta de
Figueiredo (que foi posteriormente retirada) (NETTO, 2014, p.241).

Então em 25 de abril na Câmara dos Deputados a emenda obteve 298 votos


e precisava de 320 para ser aprovada (NETTO, 2014, p.241). A derrota

[...] caiu sobre o país como um balde de água fria: do entusiasmo com um
movimento tão empolgante, as massas que dele participaram retiraram o
saldo do desalento- a esmagadora maioria, dezenas de milhões de
brasileiros, amargou aquela noite de abril (NETTO, 2014, p.241).

Dessa forma, um pacto elitista é firmado, chamado de compromisso com a


113

nação. Isso, pois, “A campanha pelas ‘Diretas Já’ catalisava, ao explicitar a


reivindicação de profundas mudanças políticas, as exigências de transformação que
afetassem a organização econômica e social do Brasil” (NETTO, 2014, p.241-242).
O resultado da votação de 25 de abril de 1984 mostrava que era viável a
frente democrática derrotar o candidato presidencial do regime e a crise do regime
se mostrava irreversível. Em dezembro a frente liberal constitui o Partido da Frente
Liberal/PFL. E foi dessa forma que

A oligarquia financeira, a grande burguesia urbana e rural, o latifúndio


integrado a ela e os gestores dos interesses imperialistas a que todos
aqueles estratos estavam associados lavavam as mãos por 20 anos de
superexploração dos trabalhadores, transferência de renda para os
monopólios, de alienação de riquezas nacionais, de concentração de renda,
propriedade e poder, de obscurantismo e de crimes hediondos- e, da noite
para o dia, tornaram-se democratas... (NETTO, 2014, p.244).

Mas "[...] o desalento de sobreveio na noite de 25 de abril daria lugar- como


veremos- a novas grandes manifestações cívicas" (NETTO, 2014, p.245). E tornou-
se necessário na conciliação que assegurasse anistia para os militares e
ocorressem negociações entre esses e a Frente Liberal, lembrando que "[...]
representantes das classes dominantes, nenhum deles poderia defender ou suportar
uma democracia de participação ampliada, uma democracia de massas" (NETTO,
2014, p.245-246). Ocorre que "[...] um acordo com os dissidentes, democratas da
undécima hora, tendia, à partida, a excluir a convocação de uma Assembleia
Nacional Constituinte livre, soberana e exclusiva" (NETTO, 2014, p.246).
O custo do fim da intervenção militar seria a inexistência de seus
julgamentos, ou qualquer revanchismo sobre a atuação das Forças Armadas, ou
seja, o custo da adesão dos dissidentes abria a possibilidade de uma travagem no
processo de democratização.
Dessa forma o compromisso da Aliança Democrática era um "[...]
compromisso "pelo alto", um pacto elitista que poderia derivar numa transição
truncada à democracia" (NETTO, 2014, p.247). Ocorre a reprodução da histórica
não participação popular nas decisões políticas. Nas palavras de Netto, a tendência
era “[...] repetir, mais uma vez, uma tara da nossa história: apontava-se para a
supressão de um regime político, que a massa do povo recusava, através da
conciliação com aqueles que foram responsáveis por ele” (NETTO, 2014, p.248).
Mas compromissos pareciam impor-se necessariamente pela conjuntura. O
compromisso com a Nação ou a solução conciliadora, "pelo alto" resultava num
114

preço. Para Netto, "[...] o preço da conciliação dependeria da correlação de forças


que se estabelecesse a partir de agora na direção do processo de democratização"
(NETTO, 2014, p.248).
A campanha de Tancredo Neves não foi com muitas promessas, evitando
questões embaraçosas com aliados da Aliança Democrática. Declarou aos
banqueiros que a dívida externa não seria paga com a fome do povo brasileiro, mas
também esclareceu que não admitiria "revanchismos". Dessa forma, segundo
Fausto, “[...] por caminhos complicados e utilizando-se do sistema eleitoral imposto
pelo regime autoritário, a oposição chegava ao poder” (1997, p.512).
Mas “Com a eleição de Tancredo Neves, a transição para o regime
democrático não terminou e estaria sujeita ainda a imprevistos” definitiva (FAUSTO,
1997, p.514). Tancredo Neves fica doente e é internado antes de sua posse, sendo
seu vice, José Sarney que assumiu a presidência, situação provisória que, por conta
da morte de Tancredo, se torna definitiva (FAUSTO, 1997, p.514). No governo de
José Sarney foi promulgada a Constituição Federal de 1988, um marco histórico
para a restauração democrática. Apesar disso, segundo Fernandes,

Não se trata de um "retorno à democracia", que nunca existiu, nem de uma


tentativa de abrir o caminho para uma "experiência democrática" autêntica.
O que as classes burguesas procuram é algo muito diverso. Elas pretendem
criar condições normais para o funcionamento e o crescimento pacíficos da
ordem social competitiva, que se achava estabelecida antes de 1964 e foi
convulsionada em seus fundamentos ideais, e revitalizada, em seus
fundamentos econômicos, sociais e políticos, pelo desenvolvimento
econômico acelerado e pela contra-revolução preventiva (2006, p. 421).

Dessa forma, é possível compreender que entre os principais traços da


autocracia burguesa citados por Fausto (1997), está a explicação da designação de
“regime militar” pelo fato do comando ser tomado pelas Forças Armadas; e o fato de
que estes não agiam de forma unificada, dividindo-se em grupos chamados de
castelistas, linha-dura, e nacionalistas, tendo seu poder e apelo à opinião pública
variados (FAUSTO, 1997, p.512).
A democracia nunca deixou de ser anunciada, embora as medidas
autocráticas efetivavam-se de forma contundente. Os discursos eram de defesa da
democracia, como se esta fosse a finalidade maior e as medidas repressivas eram
tomadas sob a justificativa de que seriam o preço a ser pago. Era contraditoriamente
à custa da eliminação dos espaços democráticos que os militares defendiam a
democracia, tratava-se para eles apenas de um momento de transição, pois, por ser
115

a elite cultural, saberiam como colocar o país em ordem para se reestabelecer a


democracia.
Para Netto, existem “[...] dois componentes fundamentais que percorrem o
processo global da ditadura” (1996, p.43). O primeiro deles é o vetor que coesiona a
tutela militar na conformação do Estado ditatorial, o referencial político-ideológico da
doutrina de segurança nacional (NETTO, 1996, p.43). Referencial que

Concretizando-se em formas precisas de ordenamento da economia e do


poder político, impregnando as instituições estatais, a doutrina se inscreve
na lógica imanente do Estado criado pela, para e na autocracia burguesa. A
implicação é cristalina: este Estado é incompatível com um processo
substantivo de democratização (NETTO, 1996, p.43).

O segundo componente citado pelo autor é o de que “[...] ao largo de todo o


ciclo autocrático burguês, no campo da oposição democrática a hegemonia nunca
escapou das mãos de correntes burguesas” (NETTO, 1996, p.43). Pouco existia de
oposição que pudessem se colocar no âmbito revolucionário com “[...] propostas
social e politicamente viáveis aptas a transcender os quadros da ordem burguesa”
(NETTO, 1996, p.44). Esta oposição existiu, mas foi obrigada a se isolar no âmbito
da cultura, sem colocar em cheque as estruturas da ordem da nova fase do capital,
como uma cultura descolada da base material, uma cultura abstraída das condições
reais de vida da sociedade. A oposição ao regime que se hegemoniza está no
âmbito das correntes burguesas liberais.
Dessa forma, conseguimos vislumbrar o ciclo autocrático burguês brasileiro
e suas resistências. O regime se processou de forma a reforçar a histórica não
participação das massas nas decisões públicas e a valorização do autoritarismo e
banalização da democracia. No Brasil, o questionamento crítico sobre a ordem ficou
cerceado aos meios intelectuais, sem poder se relacionar e incidir sobre as questões
do “mundo do trabalho”.
Diante do levantamento das principais características dos diferentes
governos, apesar da forte repressão, tentou-se ao máximo reproduzir consensos
entre a população. Contudo, não sendo capaz e diante das manifestações da
oposição, o regime firmou suas ações no campo da repressão; em alguns momentos
mais intensos que outros, a depender da correlação de forças que se estabelecia
durante esse período. O Estado autocrático buscou a legitimação através da
reprodução de valores que o sustentassem, mas sem conquistar a hegemonia, teve
de lançar mão de outras estratégias de controle da ordem social.
116

De qualquer forma, o que se evidencia durante a autocracia burguesa foi,


em essência, a segurança nacional colada ao desenvolvimento, uma dependente da
outra, como dois elementos indissociáveis:

A segurança de um país impõe o desenvolvimento de recursos produtivos, a


industrialização e uma efetiva utilização dos recursos naturais, uma extensa
rede de transportes e comunicações para integrar o território, assim como o
treinamento de força de trabalho especializada (ALVEZ, 1984, p.48).

Observa-se que o Brasil, se mostrava potencial a grandes contestações à


sociabilidade burguesa, por ser um país considerado “subdesenvolvido” e que então,
para os militares, era alvo do “perigo comunista”, por isso que, para eles, o
desenvolvimento econômico diminuiria essas possibilidades. Segundo Alvez,

O manual da ESG define como meta do desenvolvimento econômico a


conquista de completa integração e completa segurança nacional, em
especial considerando-se que um país subdesenvolvido é particularmente
vulnerável à estratégia indireta do inimigo comunista. Uma estratégia
contra-ofensiva possível consiste, assim, em promover rápida arrancada do
desenvolvimento econômico, para obter o apoio da população (1984, p. 48).

Assim, não é pela prestação de serviços que incidem diretamente sobre a


qualidade de vida da população, mas na transformação da população em meros
consumidores, um desenvolvimento individualista, cada vez mais distante da busca
pela liberdade do humano genérico, destinada a todos, e donde o aceso às riquezas
socialmente produzidas não seja privilégio de poucos.
E não nos esquecemos de observar que o desenvolvimento no Brasil foi
buscado sempre subordinado à dominação norte americana, era um
desenvolvimento dependente. Para Vieira,

A ampliação do capitalismo no Brasil representa aqui o cerne do


desenvolvimento. E o Movimento de 1964 abriu totalmente este processo
aos monopólios internacionais. Isto quer dizer que as carências do mercado
interno se colocaram em segundo plano, preponderando os interesses do
mercado externo (1985, p.211).

O desenvolvimento com segurança, que “[...] implica a necessidade de


controlar o meio político e social, de modo a garantir um clima atraente para o
investimento multinacional” (ALVEZ, 1984, p.51); e principalmente que

O desenvolvimento econômico não está voltado para as necessidades


fundamentais, e a política de desenvolvimento não se preocupa muito com
o estabelecimento de prioridades para a rápida melhoria dos padrões de
vida da maioria da população. Os programas de educação, segundo a ESG,
devem ocupar-se sobretudo com o treinamento de técnicos que participarão
do processo de crescimento econômico e industrialização. Outros
117

programas voltados para necessidades básicas, como habitação de baixo


custo, saúde pública e educação primária, são considerados menos
prioritários. Em última instância, o modelo econômico destina-se a aumentar
o potencial do Brasil como potência mundial. Para tais metas primordiais e
relevantíssimas, segundo enfatiza o manual da ESG, pode ser necessário o
sacrifício de sucessivas gerações (ALVEZ, 1984, p.51).

Diante das reflexões acima sistematizadas, é possível observar que uma das
vertentes do conservadorismo reproduzida durante a vigência da autocracia
burguesa brasileira é o positivismo, a busca pela ordem e progresso, lema da
bandeira nacional36. Os conservadores modernos elogiam o desenvolvimento
econômico, independente de como vive a população.

As questões envolvendo a estabilidade política e o desenvolvimento


econômico, associadas às premissas "ordem" e "progresso"- conforme os
lemas do positivismo de Auguste Comte-foram vistas como uma associação
que tem sido estudada por funções de causalidade e efeito, nas quais, as
instituições são moldadas para equilibrar as fricções entre diferentes setores
da sociedade que divergem em seus interesses. Pode-se demonstrar que,
para além dos pactos de consensos realizados para possibilitar o
desenvolvimento econômico de uma esfera social muito restrita a dinâmica
entre as classes é a principal razão dos desequilíbrios que mobilizam a
política (DIAS, 2017, p.12).

Observa-se que, no período da década de 1970, o conservadorismo se faz


presente vigorosamente em sua vertente moderna, donde os esforços de
modernização do país, com vistas a manter a ordem e a busca pelo progresso, com
ênfase na expressão positivista, na busca pelo desenvolvimento de forma asséptica,
importando padrões culturais norte-americanos e deixando ainda mais de lado
conteúdos da cultura popular brasileira. Também observa-se o matiz clássico do
conservadorismo quanto à permanência de valores como tradição, moralidade,
família, e com a sagração da história, da natureza e do governante.
Entre os elementos da realidade concreta do período que aparecem como
conservadores estão ações como o movimento TFP (Tradição, Família e
Propriedade) e o movimento MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Não
é a toa que

[...] a derrubada do governo de João Goulart é preparada nas ruas com o


movimento “Tradição, família e propriedade” para significar que as
esquerdas são responsáveis pela desagregação da nacionalidade cujos

36
Cabe observar que enquanto “desde a Revolução Francesa, as bandeiras revolucionárias tendem a ser
tricolores e são insígnias das lutas políticas por liberdade, igualdade e fraternidade. A bandeira brasileira é
quadricolor e não exprime o político, não narra a história do país. É um símbolo da Natureza. É o Brasil-jardim, o
Brasil-paraíso” (CHAUI, 2001, p.62). A idealização do país como abençoado por Deus, com todos os quesitos
para se tornar grande, pois possui uma natureza grandiosa, não é acometido por catástrofes naturais e tem
como identidade nacional as características da mistura de três raças, através de uma “democracia racial”.
118

valores- a tradição, a família e a propriedade privada- devem ser definidos a


ferro e fogo (CHAUI, 2001, p.41).

Cabe observar também a reprodução do que Chauí chama de


“verdeamarelismo”, “[...] elaborado no curso dos anos pela classe dominante
brasileira como imagem celebrativa do “país essencialmente agrário””( 2001, p.32); e
que vai reproduzir, embora haja esforços para à industrialização e urbanização, com
outra função: a de vitalizar e reforçar a valorização do nacionalismo chamado de
espontâneo e alienado (CHAUI, 2001). Além disso, a razão mais forte para a
retomada do “verdeamarelismo” foi “[...] a ideologia geopolítica do Brasil Potência
2000, cujo expositor mais importante foi o general Golbery do Couto e Silva”
(CHAUI, 2001, p.41). Ou seja, juntam-se dois motivos: a perpetuação de valores
conservadores com o horizonte do desenvolvimento capitalista que também é
considerado aqui como expressão do conservadorismo, no que tange a perpetuação
da ordem deste sistema.
Será neste contexto que as composições de samba vão expressar
dialeticamente valores que aderem e/ou criticam os padrões valorativos
conservadores. Contudo, antes de entrar nesta análise que é objeto central desta
dissertação, cabe ainda abordar alguns aspectos da relação entre a autocracia
burguesa e o mundo da cultura no período.

2.5 AUTOCRACIA BURGUESA E O MUNDO DA CULTURA

Este sub-item objetiva contribuir para a compressão da relação entre


expressões culturais e a autocracia burguesa imposta no Brasil durante a década de
1970. Entende-se que é de grande relevância para a análise dos valores contidos
nas letras de samba do período, pois são determinantes dessas expressões
culturais, no que tange às manifestações nas composições de valores relacionados
com o caráter de conformismo e/ou no campo crítico.
Leva-se em conta que a realidade concreta do período da autocracia
burguesa em vigência na década de 1970 marca profundamente a produção cultural
e artística. Segundo Coutinho, "Sob muitos e fundamentais aspectos, o golpe de
1964 - a nova situação que ele instaurou no País- marcou um divisor de águas
também na esfera da vida cultural" (2013, p.53).
O Brasil neste período está adentrando a fase do capitalismo dos
119

monopólios, impulsionado pelo regime militar, o que “[...] trouxe alterações


importantes na esfera da superestrutura, tanto no Estado em sentido restrito quanto
no conjunto dos organismos da sociedade civil; e isso não poderia deixar de ter
consequências no terreno da produção cultural” (COUTINHO, 2013, p.53).
Anterior ao golpe, o mundo da cultura vinha se mostrando como um
importante ator, "[...] a transição dos anos 1950 aos 1960 assinala um momento de
renovação e de mobilização do "mundo da cultura", de que um indicador foi a
criação em 1963, do Comando dos Trabalhadores Intelectuais/CTI" (NETTO, 2014,
p.46). A CTI foi, inclusive, alvo de repressão após o golpe.
O movimento de transformações também era presente no campo político.
Segundo Netto,

Toda essa efervescência política expressava um fenômeno novo: a


diversificação e a articulação de agências que, na sociedade civil brasileira,
expressavam os interesses e as aspirações das classes exploradas e das
camadas subalternas- e era possibilitada e estimulada não apenas pelas
transformações econômicas ocorrentes desde meados dos anos 1950: o
efetivo clima de democracia política que se ampliara a partir de meados
daquela década propiciava este florescer associativo (2014, p.46-47).

Apresentava-se em cena a voz das classes populares que, como observado


historicamente sempre teve dificuldade de apresentar-se. Ocorre que "A novidade da
transição dos anos 1950/1960 era que a voz de protagonistas subalternos
encontrava canais de expressão e começava a fazer-se ouvida" (NETTO, 2014,
p.47).
Foi diante dessas transformações que a elite necessita de estratégias de
contenção. Para Netto (1966), a autocracia burguesa desenvolveu vários
procedimentos objetivando controlar a vida cultural no país. Nas palavras do autor,

A autocracia burguesa foi arquitetando, na curva histórica da sua


emergência, consolidação e crise, um relacionamento com o “mundo da
cultura”37 tanto mais progressivamente positivo (isto é: provido de conteúdos
direcionados para a criação de um bloco cultural funcional ao seu projeto
“modernizador”) quanto mais se estruturou o Estado próprio a ela (NETTO,
1996, p.44-45).

Faz parte desse projeto, mascarar dinâmicas societárias marcadas pela

37
José Paulo Netto expõe, em nota de rodapé do livro aqui utilizado, os motivos de valer-se da expressão
“mundo da cultura, por ser divulgada, especialmente entre os marxistas italianos para diferenciar este do “mundo
do trabalho”. O “mundo da cultura” é assim caracterizado como espaço do “contraditório, rico e diversificado
complexo de manifestações, representações e criações ideais que se constitui nas sociedades capitalistas
contemporâneas, envolvendo a elaboração estética, a pesquisa científica, a reflexão sobre o ser social e a
construção de concepções de mundo” (NETTO, 1996, p.44).
120

exclusão de direitos fundamentais negados no país, sobretudo durante a autocracia


burguesa. Quando, ao contrário, a política cultural supõe a “[...] erradicação do
analfabetismo, o combate à miséria e à exploração, o acesso a meios de
comunicação livres de censura, padrões de participação social efetiva etc”
(PEREIRA apud NETTO, 1996, p.45). Ou seja, elas denunciam a necessidade de
solução de outros problemas que não são prioridades na autocracia burguesa; e
quando o são, consolidam-se sobre o controle do autoritarismo.
Se a cultura tem essa possibilidade crítica, quando atrelada aos interesses
da autocracia burguesa, ou seja, quando manipulada, tem o sentido de podar as
possiblidades plurais de expressões, pois age definindo os padrões os quais devem
ser seguidos. Ainda assim, para Netto,

[...] a dinâmica do “mundo da cultura” tem como ineliminável força motriz


endógena o confronto livre de posições, concepções e tendências, a tensão
entre manifestações e expressões anímicas e intelectuais distintas. A vida
cultural só é pensável e concebível enquanto diferenciação, oposição e
contradição- processo perene, que encontra resoluções mais ou menos
parciais e aproximativas no envolver da prática social (2014, p. 47).

Na sociedade de classes, a cultura tem um valor instrumental, ela tem uma


projeção e, portanto deve servir para o desenvolvimento do capital. Assim, já de
início se mostra os parâmetros nos quais devem ser executadas as produções no
campo da cultura e da estética, contrários à sua essência já contraditória e múltipla.
Esta projeção funcional aos interesses do capitalismo é mediada pelo Estado, que
não produz cultura, mas proporciona as bases para que ela seja produzida e
reproduzida. Nas palavras de Netto:

[...] a produção cultural está deslocada da sociedade política, sendo


prerrogativa pertinente de protagonistas que se movem no espaço da
sociedade civil. Só indiretamente a intervenção projetada do Estado, pela
mediação da política cultural, pode incidir na produção da cultura, ao criar
(ou não), difundir e generalizar condições que concorrem subsidiariamente
na produção cultural (condições materiais: infra-estrutura, equipamentos,
alocação e recursos etc.; condições ideais: estímulo e/ou repressão de
modelos, movimentos, tendências, etc.) (1996, p.46).

Outro argumento do autor refere-se à relação da política cultural com a


educacional e com o sistema de comunicação social. Nessa relação, a autocracia
burguesa retoma algumas das principais características da formação social brasileira
a fim de consolidar a sua ordem, num movimento de conservação e transformação.
E o que conserva é o que de mais tradicional e conservador que o Brasil obtinha em
121

sua sociabilidade, por ser funcional a manutenção do modelo, “[...] certas


características culturais presentes de há muito na formação social brasileira,
características essas que podem ser suficientemente sintetizadas na tara elitista que
de longe persegue a vida cultural no Brasil” (NETTO, 1996, p.49).
Dentre essas características ressalta-se a valorização da cultura europeia
sempre colocada num patamar de superioridade frente às dos povos originários
brasileiros ou pertencentes aos africanos escravizados e trazidos ao Brasil no
período colonial. Tal valorização é retomada no período da autocracia burguesa. Era
preciso demostrar, ao menos no plano ideal, que a realidade brasileira poderia ser
compatível com a modernização inspirada de fora.
Nesta perspectiva, situa-se nesse período, a reprodução do viés elitista, no
âmbito da cultura com a “modernização conservadora” (NETTO, 1996). Não são a
toa os esforços de ostentar o “milagre brasileiro” como sinal de que o país estava se
modernizando e assim servia-lhe bem uma cultura distanciada de suas raízes, mais
uma vez, posta como primitiva ou selvagem.
Segundo Chaui,

A ditadura, desde o golpe de Estado de 1964, deu a si mesma três tarefas:


a integração nacional (a consolidação da nação contra sua fragmentação e
dispersão em interesses regionais), a segurança nacional (contra o inimigo
interno e externo, isto é, a ação repressiva do Estado na luta de classes) e o
desenvolvimento nacional (nos moldes das nações democráticas ocidentais
cristãs, isto é, capitalistas) (2001, p. 41).

As ideias foram difundidas através da educação, segundo Chaui,

A difusão dessas ideias foi feita nas escolas com a disciplina de educação
moral e cívica, na televisão com programas como “Amaral Neto, o repórter”
e os da Televisão Educativa, e pelo rádio por meio da “Hora do Brasil” e do
Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), encarregado, de um lado,
de assegurar mão-de-obra qualificada para o novo mercado de trabalho e,
de outro, de destruir o Método Paulo Freire de alfabetização (2001, p.41-
42).

Dentre as estratégias políticas viabilizadas pela autocracia burguesa,


segundo Netto (1996) está a intervenção sob duas frentes: A frente chamada
“negativa”, na repressão das vertentes que apontassem para superação da
chamada tara elitista, e, ao mesmo tempo, a face “positiva” caracterizada pelo
estímulo às vertentes que colaboravam para conservação desse viés elitista que ela
procurava imprimir. Eram estratégias necessárias para conter as correntes culturais
em efervescência no período anterior ao golpe militar. Essas correntes tinham
122

legitimidade popular e vinculavam-se aos interesses mais progressistas em relação


à democracia e que sinalizavam reformas estruturais necessárias ao país. Diante
delas, "[...] a autocracia burguesa tinha de desfechar uma ação dominantemente
repressiva- era ineliminável o antagonismo entre esta parcela do "mundo da cultura"
e a ordem sociopolítica dos monopólios" (NETTO, 1996, p.51). Os militares sabiam
da magnitude das tendências críticas no mundo da cultura, e sabiam que estas
podiam colocar em cheque seu projeto, por isso vislumbram a necessidade de agir
de forma forte, por vezes violenta, com vistas a controlar e até eliminar tais
tendências.
Dentre as expressões deste controle está a proposição de uma cultura
neutra, que está entre as tendências que já se explicitavam no final da década de
5038.

O regime autocrático burguês jogou forte nessas tendências, inclusive


vitalizando os vínculos da dependência cultural (e, nesse sentido, a política
educacional foi um instrumento privilegiado), de forma a promover, no
primeiro plano da vida cultural, e ao máximo, vertentes intelectuais
assépticas no nível do debate político-social (NETTO, 1996, p.52).

Contudo, dado o caráter multidiversificado do mundo da cultura e sua


dinâmica que expressa tensões e contradições, ainda que as estratégias do Estado
autocrático tenham sido muitas vezes violentas, sempre houve resistência por parte
das vertentes afinadas com as perspectivas democráticas, com a cultura popular e
as vertentes críticas. É neste espaço que explicitam-se as composições de samba
críticos aos ideários autocráticos e conservadores impostos no Brasil no período da
década de 1970. Na tentativa de calar a voz dos inconformados, essa mesma voz se
fazia ecoar pelo país nas mais diversas estratégias de resistência. Nas palavras de
Netto,

O regime autocrático burguês nunca teve condições de promover a plena


evicção das oposições no terreno cultural: aí sempre restaram espaços,
mais ou menos restritos, para bolsões de oposição e crítica - que entravam
em rota de choque aberto com o Estado todas as vezes em que buscavam
mediações com organizações políticas democráticas e populares (1996, p.
53).

Em suma, não há como deixar de mencionar que a autocracia teve sim


eficiência e habilidade, que não deve ser reduzido só a repressão e controle do
“mundo da cultura”. Diante da resistência, a reação da autocracia burguesa foi no
38
Para Netto, desde os anos de 1950 faziam-se presentes, na cultura brasileira, tendências intelectuais
assépticas ou tecnoburocratizantes.
123

sentido de trancafiar as vertentes críticas num âmbito do qual não podiam se


associar às classes populares, com a intenção de divorciar o “mundo da cultura”
com o “mundo do trabalho”. O “mundo da cultura” ficaria no âmbito meramente
intelectual, como se fossem elaborações abstratas, distanciadas da realidade
cotidiana. A autocracia tolerava as tendências culturais "radicais" e "contestadoras",
mas estas deviam ficar restritas ao “[...] estreito universo da subjetividade reificada
ou no plano abstrato das construções lógico-formais” (NETTO, 1996, p.53). A
oposição fica apenas no plano teórico, como se possível separá-lo das mediações
práticas. Seria como dizer que as contestações críticas são apenas produtos do
campo teórico, só são críticas enquanto estão na teoria, mas que na prática do
cotidiano, de nada valem, pois não são funcionais para manter a ordem para o
desenvolvimento capitalista. Fato que se reflete até hoje no âmbito das
universidades e locais de reflexões teóricas, quando tudo que não é rentável acaba
por ser considerado mera elaboração teórica que nada se “encaixa” na realidade. No
campo da música não é diferente, só são valorizadas as produções que alcançam
lucros exorbitantes e sucesso midiático, composições que tendem a não colocar em
questão os padrões morais da sociabilidade burguesa brasileira do período.
Observa-se, como constatado anteriormente, que a política cultural
autocrática se realizou temperando suas intervenções com o objetivo de controlar o
“mundo da cultura”, especificando-os em dois objetivos específicos: de [...] “travar e
reverter os vetores críticos, democráticos e nacional-populares operantes e/ou
emergentes na cultura brasileira” (NETTO, 1996, p.71); e o de “[...] animar e
promover a emersão de tendências culturais compatíveis com a sua projeção
histórico-social” (NETTO, 1996, p.71).
Outro aspecto salientado pelo autor é a presença da Doutrina de Segurança
Nacional na concepção de política cultural da autocracia. Nela entende-se a cultura
como a “[...] argamassa psicossocial que deve ser controlada pelo Estado” (NETTO,
1996, p.71). Decorre-se a concepção de cultura como mediação de integração social
que deve ser promovida pelo Estado, com vistas a promover a ordem social, “Trata-
se, portanto, de uma concepção que implica uma política cultural de cariz
basicamente manipulador” (NETTO, 1996, p.71).
Assim é que, desde o golpe, o Estado autocrático empreendeu

[...] um desenho geral de política cultural - que, também é supérfluo aduzir,


engrenava-se com o esboço estratégico de integração (nacional e “social”)
124

que jaz no seu marco ideológico (daí a adequação daquele desenho à


específica política de comunicação social que o regime implementaria)
(NETTO, 1996, p.71).

Este período demarca o fato de que de início, a hegemonia crítica que


existia no mundo da cultura não foi totalmente atingida pela autocracia burguesa,
que permaneceu intocada durante um período de tempo, trata-se de

[...] um lapso temporal em cuja moldura se insere um fenômeno


aparentemente paradoxal: à instauração da dominação autocrático-
burguesa não corresponde, para desespero dos sociologismos de qualquer
matiz, um avanço do conservadorismo e/ou reacionarismo no “mundo da
cultura”. Ao contrário: neste momento inicial do regime autocrático burguês,
o que se verifica é a afirmação de uma tendencial hegemonia cultural- é
certo que prenhe de problemas- dos setores democráticos e progressistas
(NETTO, 1996, p.72-73).

Ao contrário do que possa se esperar, no momento inicial do golpe, o


conservadorismo não se reforça no âmbito da cultura, mesmo com as pressões
contrárias autoritárias. O que se verifica é a continuação da hegemonia que se
consolidava anteriormente. Este fenômeno se explica, segundo Netto, a partir de
três componentes. O primeiro deles é o “[...] avanço, desde a década de cinquenta,
das tendências que, no seio da cultura brasileira, direcionavam-se para a superação
da já referida tara elitista” (NETTO, 1996, p.73); que nos anos 1960, estavam
procurando formas de se articular com “[...] forças e movimentos sociais do arco
democrático e popular” (NETTO, 1996, p.73). Ocorre que, essas tendências,

[...] polarizavam o que havia de mais dinâmico nos centros decisivos da


cultura brasileira, imantando as chamadas ciências sociais, a poesia, o
teatro, o cinema, a ficção, o ensaísmo. Ademais, chegaram a estruturar
formas de mobilização sintonizadas com instâncias organizativas do
movimento popular (NETTO, 1996, p.73).

O segundo componente citado pelo autor é com relação ao “[...] raio de


abrangência sociopolítica” (NETTO, 1996, p.73) que se demonstrava em dois
sentidos. Com relação aos atores que envolvia diretamente e que

[...] inseriam-se fundamentalmente na pequena burguesia urbana, eram


basicamente estudantes, professores, artistas, técnicos e profissionais
liberais jovens. A presença efetiva de protagonistas operários e/ou
camponeses era muito tênue e débil, podendo mesmo considerar-se
desprezível (NETTO, 1996, p.74).

E com relação ao público receptor, a incidência mediata, aonde se chega a


produção cultural, a abrangência era restrita a uma pequena parte de população
brasileira. O que significa que
125

[...] para uma sociedade com as dimensões da brasileira, a sua abrangência


era parca: além do circuito letrado da pequena burguesia (onde se
situavam, praticamente, os seus produtores), só residualmente se chegava
a diminutas e determinadas franjas de trabalhadores, notadamente nos
centros urbanos (NETTO, 1996, p.74).

Finalmente, o terceiro componente está nas “[...] próprias condições do


golpe e da consolidação inicial do domínio da coalização vencedora em abril”
(NETTO, 1996, p.74). O que a frente no poder no momento do golpe priorizava
atacar era, segundo Netto, o “[...] movimento operário e sindical e das organizações
políticas e sociais a ele vinculadas e democráticas: a repressão que se seguiu ao 1º
de abril concentrou-se naquelas forças que poderiam contrapor-se diretamente à
nova ordem” (1996, p.74). Após uma fase intensa e breve de repressão no mundo
da cultura, a autocracia burguesa voltou-se para restringir (a censura com papel
central) a difusão cultural para além do circuito letrado. A intervenção na cultura se
torna residual, pois

[...] as tarefas de enquadramento do “mundo do trabalho” exigiam a


concentração das suas energias; segundo, porque aspirava a ampliar seus
suportes sociopolíticos buscando neutralizar os segmentos pequeno-
burgueses de oposição sem o recurso da repressão; terceiro, porque tinha
conhecimento da abrangência efetiva das tendências democráticas e
progressistas do/no “mundo da cultura”; e, enfim, porque pretendia ganhar
alguma legitimidade em face dos segmentos mais “tradicionais” deste
“mundo” e, para tanto, uma postura terrorista generalizada e de largo porte
seria contraproducente. E ainda - dado não desprezível - porque contava,
no seu projeto “modernizador”, com um esboço de política de comunicação
social que tenderia a contrarrestar, na “cultura de massas”, as incidências
das vertentes democráticas e progressistas operantes na “alta cultura”
(NETTO, 1996, p.74-75).

Desta maneira, a autocracia, primeiro golpeou os segmentos críticos no


“mundo da cultura” de forma rápida e intensa, para romper suas ligações políticas e
organizacionais com forças e movimentos populares democráticos; depois
desenvolveu uma estratégia de contenção perante eles. O campo da cultura fica
enclausurado em si mesmo, só poderia sobreviver se não se relacionasse com a
realidade social. O que causou um “[...] traumatismo para o “mundo da cultura”, mas
não derivou numa ruptura com o seu desenvolvimento anterior - antes, saturou-o e o
potenciou (ao contrário do que se passou noutras esferas societárias)” (NETTO,
1996, p.77).
Mas as tentativas autocráticas de ter hegemonia no campo da cultura não
resultavam positivamente e não é à toa que:
126

Um balanço do que se produziu e divulgou no circuito cultural significativo


brasileiro, neste período, revela a extrema riqueza, a intensa polêmica, a
enorme criatividade e, simultaneamente, a atenção dada à realidade do país
e do mundo (NETTO, 1996, p.77).

Nesta pesquisa, este dado pode ser observado no âmbito das composições
de sambas de destaque do período. Netto já assinala sobre a música brasileira que,

Manifestação privilegiada de todo este processo é a dimensão- estética e


cultural- que a música popular adquire: desenvolvendo as conquistas
temáticas e técnicas dos anos cinquenta, na composição e na interpretação,
ela recebe o aporte da alta cultura (Vinícius de Moraes, por exemplo) e de
uma geração intelectual moldada pelo clima crítico do pré-64 (Gilberto Gil,
Chico Buarque, Caetano Veloso) (NETTO, 1996, p.78).

A única frente de reação do regime até então (antes de organizar sua


intervenção “positiva”) com relação ao “mundo da cultura”, foi a “[...] pressão
censória, nomeadamente anticultural” (NETTO, 1996, p.79). Ocorre que o golpe
parece, em vez de eliminar, ter aguçado as manifestações críticas no campo
artístico. Assim, fala-se que este foi “[...] o tempo no campo das artes, em que
floresce o acúmulo crítico que vinha do pré-64, temperado pelo traumatismo do
golpe” (NETTO, 1996, p.78).
Neste movimento de renovação e transformação, da chamada
“modernização conservadora” de que argumenta o autor estudado, e que expressa
as transformações culturais brasileiras do período da autocracia burguesa, resulta-
se, segundo o autor, em três tendências nas quais se traduzem as expressões
estéticas do período.
A primeira delas é a que converge para matriz irracionalista. Ocorre que

[...] a impermeabilidade da realidade sociopolítica aos influxos das


demandas expressas pela manifestação cultural começa a dar lugar a um
sentimento de impotência nos protagonistas culturais; se à razão da cultura
não equivale a razão da sociedade - como parece mostrar a marcha da
ditadura -, é porque ambas as razões são ineptas (NETTO, 1996, p.80).

Quando revela-se a incapacidade de incidir sobre a realidade social, os


protagonista do “mundo da cultura” se envolvem em produções cada vez mais
distantes da realidade concreta, cada vez mais distanciadas de sua base material. A
inserção deste veio irracionalista é um processo e foi se configurando conforme se
esclarecia a incapacidade da crítica cultural de derrotar a autocracia.
Esta tendência é a responsável por colocar em questão a hegemonia até
então existente com relação às perspectivas democráticas progressistas e críticas. O
que não significa que acabam as críticas sobre aquela sociedade, apenas mudam as
127

perspectivas para isso. A forma como a contracultura faz a crítica é diferente da


fundada nas categorias clássicas críticas. Segundo Netto, ela

[...] expressou abstrata e alienadamente - e, não poucas vezes, com um


componente de irrefutável mistificação e oportunismo - uma atitude de
repulsa diante do processo de “modernização”; mas com traço escapista,
que jamais logrou desbordar as fronteiras do individualismo e do protesto de
nítido cariz romântico-subjetivo e que, apesar disso, não podia ser inteira e
abertamente tolerada pela ditadura (1996, p.83-84).

Trata-se da emergência de uma tendência alternativa às críticas embasadas


nos componentes clássicos críticos, somada ao terrorismo dedicado a essas. O
autor situa nesta tendência, o tropicalismo. Considera que o que o movimento

[...] segregava é redimensionado numa postura de absolutização reificada


da subjetividade, num niilismo em que o desespero alia-se à capitulação
diante das constrições que a ditadura põe à criação intelectual. Os eixos da
dinâmica cultural democrática e progressista - o racionalismo, o historicismo
e o humanismo - são substituídos (como anacrônicos, superados e carentes
de capacidade para dar conta da “situação”) pelo arbítrio de uma volição
individual que só encontra na existência, dos indivíduos e da sociedade, o
caos e o fragmento sem sentido (NETTO, 1996, p.83).

Era uma crítica individualista, distanciada das questões mais abrangentes da


realidade social. Mesmo assim, essa vertente conservava um elemento de
continuidade com o período anterior, que se dá na “[...] postura crítica de estratos
intelectuais rebeldes - postura que, é verdade, a pouco e pouco se foi diluindo no
irracionalismo que evoluía para o misticismo, operando-se o processo de
neutralização perseguido pelo projeto ditatorial” (NETTO, 1996, p.84). Embora a
crítica esvaziada fosse característica da contracultura, a autocracia não podia deixar
de reprimi-la, devido ao conteúdo conservador e moralista do regime, apoiado nas
piores tradições brasileiras; mas com a evolução do irracionalismo, a autocracia
acaba o aproveitando no alcance de suas intenções de neutralização da cultura.
De qualquer forma, não há como negar que ainda existe a contestação da
ordem também no movimento do tropicalismo, mesmo que este não seja fundado na
crítica da estrutura econômica como base para a sociabilidade brasileira. O
tropicalismo também é defendido por alguns autores, por ser

[...] um importante movimento estético da Música Popular Brasileira,


deflagrado em 1968, que necessita ser problematizado para além do
escopo das discussões pertinentes ao campo da música a fim de que se
compreenda melhor a sua dimensão social no sentido de contribuir,
indiretamente, para o estabelecimento de um debate acerca de identidades,
indústria cultural, cultura brasileira, além de assuntos pertinentes às
discussões sobre sexualidade e relações de gênero (NOLETO, 2014).
128

Miguel Wisnik argumenta que

O tropicalismo promove um abalo sísmico no chão que parecia sustentar o


terrado da MPB, com vista para o pacto populista e para as harmonias
sofisticadas, arranco-a do círculo do bom gosto que a fazia recusar como
inferiores ou equivocadas as demais manifestações da música comercial, e
filtrar a cultura brasileira através de um halo estético-político idealizante,
falsamente “acima” do mercado e das condições de classe (WISNIK, 2005,
p.31).

Uma segunda tendência observada no período é a do promocialismo de


investimentos do Estado “[...] numa ampla reinterpretação da herança cultural
brasileira, capaz de erguer uma contra face à evicção das tendências histórico-
críticas do cenário cultural” (NETTO, 1996, p.85). Para Netto,

[...] tratava-se de buscar, na herança cultural, um veio (ou veios) cujas


características justificassem, de algum modo, a evicção das vertentes
críticas e nacional-populares e, especialmente, uma tradição que
legitimasse um curso alternativo para o desenvolvimento cultural (NETTO,
1996, p.85).

Dessa forma, no sentido da reiteração e desqualificação histórica de


aspectos culturais brasileiros para reafirmar a defesa daquilo que vinha de fora “[...]
se instaurou uma revisão do passado tendente a desqualificar as raízes críticas e
nacional-populares em proveito de um radicalismo abstrato ou de vertentes estético-
culturais que eludiam a questão central do realismo artístico” (NETTO, 1996, p.85).
O Estado autocrático promove as perspectivas do aspecto da herança cultural
brasileira que caminham no sentido de oposição às vertentes críticas.
A terceira tendência é a corrente racionalista, que casa-se ao conjunto
ideológico da Doutrina de Segurança Nacional e que converge para afirmar
investimentos em correntes culturais apartadas do “mundo do trabalho”, esvaziadas,
neutras ou desideologizadas, permeadas por componentes do pensamento
conservador e "[...] dará forte contribuição à cruzada "desideologizante" que marca o
período e que é tolerada pelo regime autocrático burguês" (NETTO, 1996, p.86).
O que importa ressaltar é como a corrente racionalista, com vínculos na
corrente positivista, mesmo que não se identifique especificamente como tal, posta
na Doutrina de Segurança Nacional, também pode ser observada no mundo da
cultura, nas perspectivas neutras, afastadas da tomada de partido diante da
realidade brasileira do período. Desataca-se que uma corrente inédita no Brasil
emerge, o pensamento estruturalista. A nova corrente racionalista, ao contrário do
irracionalismo vinculado ao conservadorismo clássico, se vincula ao
129

conservadorismo moderno, como o positivismo, como uma cultura neutra. Nas


palavras de Netto,

Esta corrente não se identifica sumariamente com o racionalismo tradicional


do pensamento positivista (ainda que seus vínculos com ele sejam
substantivos); este, nas suas formulações convencionais e sob novas
roupagens- de que são amostras significativas as abordagens sistêmicas do
processo social e das instituições-, vai ser redinamizado a partir do vazio:
com fundas raízes na cultura brasileira pelo menos desde a década de
cinquenta, o pensamento tecnocrático, asséptico, encontra enorme estímulo
sob a autocracia burguesa, não somente como indução planejada, mas
também pela própria natureza “modernizante” do projeto conduzido pela
coalização vencedora em abril (1996, p.87).

O pensamento estruturalista é uma típica manifestação do neopositivismo e

[...] cabe assinalar que ele constituiu o eixo do que de mais atuante
subsistiu no âmbito acadêmico, dos anos do vazio cultural à emersão clara
da crise da autocracia burguesa que, por sua vez, rebateu com intensidade
no marco global da cultura brasileira (NETTO, 1996, p.87).

Foi o estruturalismo que “[...] contribuiu eficazmente no Brasil para


neutralizar os vetores críticos (e crítico-dialéticos) do ‘mundo da cultura’” (NETTO,
1996, p.88), com seu papel de desideologizante; e fez isso por conta de suas “[...]
características neopositivistas de anti-historicismo, formalismo e epistemologismo”
(NETTO, 1996, p.88).
Este novo período da vida cultural brasileira, o período em que as correntes
críticas são minimizadas e outras vertentes funcionais à ordem burguesa são
encorajadas, vai até o ano de 1975. Alceu Amoroso Lima caracterizou a primeira
fase (de 1974 a 1975) como vazio cultural, que representa no âmbito cultural a
mudança de uma ditadura reacionária para militar-fascista (NETTO, 1996, p.83).
Durante o Vazio, a autocracia alcança seu grande feito na esfera cultural: “[...] a
liquidação das linhas de desenvolvimento a que o campo democrático devia a sua
hegemonia” (NETTO, 1996, p.83). Tudo que vinha se acumulando de crítico até o
momento saía agora de cena “[...] e, com ele, não só a frente intelectual de combate
e resistência à ditadura, mas e isto é o significativo, o que de mais vivo, criativo e
polêmico existia na cultura brasileira" (NETTO, 1996, p.83). O Vazio cultural ocorre
em conformidade com o “milagre brasileiro”. Nas palavras de Netto,

O vazio- simétrico ao “milagre” que o “modelo econômico” opera - não é


apenas o silêncio compulsório dos segmentos democráticos e progressistas
no “mundo da cultura”: é, simultaneamente, ao lado da sistemática terrorista
que então nele se implanta, um duplo movimento - de uma parte, o
momento em que as correntes irracionalistas existentes na cultura brasileira
130

adquirem enorme ponderação e, de outra, o esforço iniciado pela autocracia


burguesa para redirecionar amplamente o desenvolvimento cultural do país
(1996, p.83).

O período do vazio se mostra como o início da face positiva da intervenção


do Estado autocrático, quando este “[...] joga no redirecionamento do
desenvolvimento cultural, precisamente na ótica constitutiva do Estado de segurança
nacional” (NETTO, 1996, p.84). E foi este o período onde se buscou a valorização
de padrões culturais que não dariam espaço para críticas,

Assim é o período do vazio cultural assinala uma reinterpretação da


herança cultural que conduz tanto à legitimação do irracionalismo da
contracultura e do vanguardismo asséptico como à proposição de “modelos”
de excelência artístico-literária- num andamento em que se deram as mãos
os filhos desesperados do AI-5 e os representantes mais antigos do
pensamento de raiz tecnocrática que alimentava certas vanguardas
poéticas (NETTO, 1996, p.85).

Cabe destacar, na medida em que nesta pesquisa objetiva-se evidenciar as


resistências culturais e artísticas nas composições de samba, que também houve,
no período do vazio, resistências, e que estas ficaram à mercê de destaque
histórico. Trata-se da perspectiva cultural que fica marginalizada, mas que
encontrava brechas para persistirem. Nas palavras de Netto:

Há que contabilizar, no seu panorama, a resistência- decerto marginal- que


pôde ser exercitada, nos estreitos limites de então, por uns poucos
intelectuais e artistas que souberam encontrar e explorar os raros espaços
que a ditadura deixava em aberto (1996, p.89).

Seguem-se os resultados que a autocracia obteve com sua empreitada de


controle da vida cultural brasileira, “[...] na globalidade dos resultados a que chegara
a autocracia com a consolidação do Estado militar-fascista” (NETTO, 1996, p.90).
Resultados que foram,

[...] no plano político, a erradicação das atividades significativas da oposição


clandestinizada, o enquadramento do “mundo do trabalho” e a contenção da
oposição legal em marcos estritamente parlamentares (estes mesmos
esvaziados); no plano social, a incorporação de largos segmentos das
camadas médias urbanas ao seu projeto de “modernização conservadora”;
no plano da economia, a sua obra- “o milagre”- revelava-se inteira (NETTO,
1996, p.90).

Este conjunto de resultados colocou as “[...] condições para nos anos 1972-
1973, a ditadura avançasse no promocionalismo emergente no vazio para uma
política cultural que deslocava a dimensão repressiva e colocava em evidência a
intencionalidade "construtiva"” (NETTO, 1996, p.90). Esse fato deu credibilidade
131

para a autocracia e fez com que ela conseguisse colocar em prática o seu viés
positivo com a formulação e implementação de ações no campo da cultura que
ultrapassam a repressão.
Dessa forma “[...] a partir de 1969-1970 abria-se um período novo no
processo cultural brasileiro, que haveria de prolongar-se até por volta de 1974-1975”
(NETTO, 1996, p.90). Este momento tem como características centrais e marcantes,
onde se darão “[...] tanto a liquidação da hegemonia exercida pelos segmentos
democráticos e progressistas entre os desdobramentos imediatos do golpe de abril e
o AI-5 quanto a emersão da política cultural “positiva” do Estado autocrático
burguês” (NETTO, 1996, p.90). Com o AI-5, institui-se a censura, o que diminuiu as
possibilidades de expressão cultural e artística.
Foi assim, que através da face militar-fascista, a autocracia consegue
preparar o terreno para eliminação ou redução das contestações, e pela sua outra
face, colocar em prática seu projeto cultural, no qual utiliza da cultura como fator de
coesão e harmonização da sociedade. Para a DSN, já exposta como principal
sustentáculo do regime autocrático, o Estado deve controlar, orientar e viajar todos
os setores (vida política, cultural, econômico e ideológica), por compreender que a
segurança é função a ser executada em toda parte da sociedade; assim a
intervenção no âmbito cultural colaboraria com a harmonização das contradições e
harmonização entre as classes.
Importante destacar que esses argumentos servem para deixar claro o
quanto a autocracia no Brasil serviu de sustentação para o estágio do capital dos
monopólios e que não serviu, ao contrário disso, como impedimento para as
liberdades individuais. Muito pelo contrário, a liberdade que poda não é a liberdade
individualista, a liberdade burguesa, esta é legitimada. A autocracia burguesa no
Brasil diminuiu as possibilidades de ampliação da liberdade humana e par a
expressão cultural e artística. Mesmo assim, não a impossibilitou, pois devido ao seu
caráter diversificado, as perspectivas democráticas e críticas encontraram
estratégias de se colocarem, mesmo em meio a ataques, por vezes violentos.
Conclui-se assim, que a forma como a autocracia burguesa se consolidou no
Brasil incidiu fortemente nas expressões culturais críticas ou que se alinhavam às
tendências democráticas e progressistas, o que vai incidir em determinações
objetivas e subjetivas para as composições de samba que se destacaram neste
cenário.
132

Numa dialética permeada de contradições da vida social brasileira durante a


década de 1970, o movimento de transformação e renovação, de “modernização
conservadora” não ficaria distante de incidir também nas expressões artísticas e
culturais.
133

3 O SAMBA NA DÉCADA DE 1970: EXPRESSÕES DE UMA RELAÇÃO


DIALÉTICA ENTRE A AFIRMAÇÃO E CRÍTICA DO CONSERVADORISMO
FUNCIONAL À AFIRMAÇÃO DA AUTOCRACIA BURGUESA

Sou é a madeira
Trabalho é besteira, o negócio é sambar
Que samba é ciência e com consciência
Só ter paciência que eu chego até lá...

Nó na Madeira- João Nogueira e Eugênio Monteiro39

Como sinalizado nos capítulos anteriores, defende-se nesta dissertação que


a afirmação de valores que se fundam no conservadorismo, tanto em sua expressão
clássica, como em suas vertentes modernas, é funcional à afirmação da autocracia
burguesa, que tem, no Brasil, nos anos de 1970, a sua fase mais contundente.
Sinalizou-se, também, que o “mundo da cultura” se revela como um campo para
afirmação de mecanismos de adesão e/ou de resistência frente aos ideários
propagados durante este período.
O samba, como produto cultural genuinamente brasileiro, permeado por
questões éticas, étnicas e raciais, de gênero e de classe, revela-se como forma
privilegiada de expressão artística que refrata aspectos da relação entre
universalidade e singularidade, de uma dada realidade social. Situa-se, portanto,
como particularidade socio-histórica e, como tal, pode expressar aspectos da crítica
à ordem social e a busca pela afirmação de valores afins à ampliação do gênero
humano, ou, no oposto, podem reafirmar e justificar sistemas reificadores de poder e
opressores.
Ao analisar o samba nesta dimensão, a presente pesquisa se situa no
campo da estética. E, neste vasto campo, centra-se na particularidade de um gênero
específico da música popular brasileira: o samba. Como uma produção artística, o
samba pode refletir sobre

[...] as relações da vida material e suas contradições, operando como


chancela do capital na esfera da superestrutura ou desvelando

39
Samba “Nó na madeira” composto por João Nogueira e Eugênio Monteiro em 1975, uma das letras analisadas
nesta pesquisa.
134

possibilidades de resistência e de transformação, a partir de uma produção


que tenha um efetivo retorno sobre a base, as relações efetivamente
materiais nas quais as contradições têm origem (XAVIER; CARRIERI, 2014,
p.591).

As expressões artísticas não são aqui compreendidas frutos de dons


naturais com os quais nascem alguns seres humanos predestinados a se expressar
de forma sensível perante o que vivem no mundo; mas são determinadas por fatores
econômicos, sociais e culturais que incidem sobre suas produções.
Nesta perspectiva, considera-se que a expressão estética se encontra no
nível da superestrutura do capitalismo. Segundo Xavier e Carrieri,

Assim como o trabalho, a ciência e todas as atividades sociais, a arte é um


produto do desenvolvimento social constituinte da superestrutura, sendo
não apenas reflexo da realidade (portanto, dos modos de produção), mas
também da tomada de consciência a respeito das contradições da vida
social (2014, p.593).

Apoiado em Lukács, os autores afirmam que a “[...] estética, como a própria


produção artística, tem sua imanência do real, no concreto, nas contradições da
própria vida. É representativa do estágio de desenvolvimento da produção
capitalista, bem como do trabalho” (XAVIER; CARRIERI, 2014, p.594).
Ela é, portanto, uma construção do homem vivendo em sociedade, em suas
determinadas condições, que podem ou não serem transformadas. Nesta pesquisa
situa-se a expressão de valores de uma dada sociabilidade: a burguesa com suas
particularidades brasileiras.
É também parte desta argumentação que a peculiaridade da expressão
estética se dá em seu ponto principal na tríade dialética: universalidade,
particularidade e singularidade, estando este ponto principal situado na
particularidade. Segundo Lukács,

O conhecimento científico ou a criação artística (bem como a recepção


estética da realidade, como na experiência do belo natural) se diferenciam
no curso do longo desenvolvimento da humanidade, tanto nos limites
extremos como nas fases intermediárias (1978, p.159).

Dessa forma, encontra-se o reflexo estético como expressão dialética que se


dá na relação entre universalidade, particularidade e singularidade e a função central
se dá na categoria da particularidade:

A função mediadora da particularidade que opera na singularidade e na


universalidade constitui um ponto médio, um ponto que capta a
transitoriedade dos extremos e desvela o reflexo estético, a reprodução da
vida material e suas contradições na obra de arte (XAVIER; CARRIERI,
135

2014, p.598).

Assim, a realidade concreta se reflete na criação artística e o reflexo desta


realidade, segundo Lukács está em constante movimento de um extremo a outro
(universalidade e singularidade), tendo na particularidade seu ponto médio. É
justamente neste movimento que deve-se observar a peculiaridade da estética.
Segundo Lukács,

De fato, enquanto no conhecimento teórico, este movimento de dupla


direção vai realmente de um extremo a outro, tendo o têrmo intermediário, a
particularidade, uma função mediadora em ambos os casos, no reflexo
estético o têrmo intermediário torna-se literalmente o ponto do meio, o ponto
de recolhimento para o qual os movimentos convergem (1978, p.161).

Ocorre que, na teoria do reflexo estético, este movimento é contínuo entre


as categorias, “[...] existe um movimento da particularidade à universalidade (e vice-
versa), bem como da particularidade à singularidade (e ainda vice-versa), e em
ambos os casos o movimento para a particularidade é conclusivo" (LUKÁCS, 1978,
p.161). A categoria da particularidade, que é um termo médio, se torna o campo
central, assim "[...] o termo médio se fixa como ponto central dos movimentos"
(LUKÁCS, 1978, p.167).
Dessa forma, inferem-se algumas considerações. A primeira delas é a de
que a realidade objetiva se reflete na estética, ou seja, não existe uma arte
abstratamente desligada da realidade da vida dos homens que a produzem,
portanto, conclui-se que as expressões estéticas não devem ser pensadas
descoladas da realidade concreta que a levaram a existir. A segunda consideração é
no sentido da importância da categoria da particularidade como campo central de
movimento entre singularidade e universalidade, e como o gênero samba se coloca
neste movimento. Assim, compreende-se a importância da expressão estética em
seu processo, que vai hora ou outra pender para o campo da singularidade ou
universalidade, mas que seu campo final será novamente o da particularidade. E por
fim, que a consciência do lugar de mundo que o artista ocupa o encaminha para a
elevação ao nível de universalidade.
Segundo Coutinho,

[...] quanto mais um artista se vincular à totalidade das contradições do seu


povo e de sua nação, quanto mais se tornar (como diria Machado) "homem
de seu tempo e de seu país", tanto mais lhe será possível elevar-se àquele
nível de particularidade - de universalidade concreta - sem a qual não existe
grande arte (2013, p.51).
136

A exemplo, cita-se o samba composto em plena vigência da autocracia por


João Nogueira e Paulo César Pinheiro, gravado por Clara Nunes, intitulado “E lá vou
eu”, o qual exalta a resistência da voz do povo conhecedor de sua própria realidade
concreta e que tem no samba uma das expressões dessa resistência:

E lá vou eu/ Melhor que mereço/ Pagando a bom preço/ A evolução/ Ai, se
não fosse o violão/ E o jeito de fazer samba/ Do tempo que quem fazia/
Corria do camburão/ Hoje não corre não/ Hoje o samba é decente/ E
ninguém agüenta, oh, gente/ A força de um samba não/ Pois que faz samba
fala/ E quem fala, atenção!/ Força nenhuma cala/ A voz da multidão/ E
cantar inda vai ser bom/ Quando o samba primeiro/ Não for prisioneiro/
Desse desespero/ E resignação/ E lá vai minha voz/ Espalhando então/ O
meu samba guerreiro/ Fiel mensageiro/ Da população (E LÁ VOU..., 1974).

O samba é dessa forma compreendido como uma expressão cultural própria


de um povo que exprime suas condições sociais, políticas, econômicas e culturais,
mas que não está livre das influências de uma “elite” que o tempo todo lhe impõe
padrões culturais; na década de 1970 isso ocorrerá de formas “positivas” e/ou
“negativas” (NETTO, 1996). A exemplo desta imposição ressalta-se a Cultura de
Massas no Brasil. Chauí chama a atenção para a particularidade de “[...] situações
nas quais práticas populares se relacionam com as expressões dos meios de
Massa, aproximando-se ou distanciando-se delas, incorporando-as com
modificações ou recusando-as" (1986, p.28).
Para a autora, é fundamental nesse processo, a forma como são
administrados os meios de comunicação, de forma a privilegiar empresas privadas
que fazem o controle ideológico. Mas a própria existência da Cultura Popular
evidencia que existem divisões sociais e permite que diferenciem-se as diversas
formas de manifestações culturais numa mesma sociedade (CHAUI, 1986).
Outro aspecto ressaltado pela a autora é que a noção de Massa tem como
contraponto sócio-político a de elite, tendendo

[...] a reduzir o social a duas camadas, a "baixa", formada pelo agregado


amorfo de indivíduos anônimos - a "massa"-, e a "alta", formada por
indivíduos que se distinguem dos demais pelas capacidades
extraordinárias- a "elite", os melhores e maiores (CHAUI, 1986, p.28-29).

Também se destaca a estrutura da comunicação de massa fundada no


pressuposto de que tudo pode ser “mostrável ou “dizível”, “[...] desde que
estabelecidos critérios autorizando quem pode mostrar e dizer e quem pode ver e
ouvir" (CHAUI, 1986, p.31). É assim que verifica-se que a seara da Cultura Popular,
137

suas ações e representações "[...] se inserem num contexto de reformulação e de


resistência à disciplina e à vigilância" (CHAUI, 1986, p.33).
A autora referenciada compreende a cultura popular não como algo fechado,
mas como o oposto da cultura erudita, ou ainda diferente da cultura de massas.
Diante dessa perspectiva, "Enfatizaremos a dimensão cultural popular como prática
local e temporalmente determinada, como atividade dispersa no interior da cultura
dominante, como mescla de conformismo e resistência" (CHAUI, 1986, p.43), e
como essa “mescla de conformismo e resistência” se reproduzirá no samba. A
cultura popular no Brasil, seguindo a argumentação de Chaui como

[...] um conjunto disperso de práticas, representações e formas de


consciência que possuem lógica própria (o jogo interno do conformismo, do
inconformismo e da resistência), distinguindo-se da cultura dominante
exatamente por essa lógica de práticas, representações e formas de
consciência (1986, p.25).

A partir destas reflexões, consideramos que o samba, de forma geral está


inserido no que é chamado de música popular, donde configura-se "[...] todo o
campo musical que escapa da chamada música erudita" (CHAUI, 1986, p.10);
também diferenciada da música de massa, incorporada pela indústria cultural.
Outro aspecto fundamental é a análise que defende que "[...] todo produto
estético incorpora os seus pressupostos- a sua gênese histórico-nacional como
momento ineliminável de sua estrutura especificamente artística" (COUTINHO,
2013, p.51). O samba é expressão característica de um povo específico: o povo
brasileiro, marcado pela história nos capítulos anteriores mencionada, com suas
particularidades.

3.1 SAMBA: A ESPECIFICIDADE DO GÊNERO MUSICAL, SUAS RAÍZES E SUAS MATRIZES


HISTÓRICOS SOCIAIS

A música é a língua materna de Deus


Foi isso que nem católicos nem protestantes entenderam:
Que Nha Africa os deuses dançam
E todos cometeram o mesmo erro:
Proibiram os tambores
Na verdade, se não nos deixassem tocar os batuques
Nós, os pretos, faríamos do corpo um tambor
Ou, mais grave ainda
Percutiríamos com os pés sobre a superfície da Terra
E, assim, abrir-se-iam brechas no mundo inteiro
138

40
Sombras da Água- de Mia Couto

O poema acima explicita a capacidade contestatória que a expressão


cultural popular41 do povo negro, frente à hegemonia da cultura europeia
considerada “universal”, pode possuir. Nessa perspectiva entende-se o samba como
uma expressão dessa cultura popular, que se desenvolve no cenário da colonização,
embora receba influências diversas, quando nos foi imposta uma cultura “universal”.
Mas isso não ocorre de forma simples, há uma complexidade dialética entre
“conformismos e resistências” na cultura brasileira e que vai se expressar no samba.
Quando se está dialogando sobre a música popular brasileira, é necessário
entender que não é possível misturar todos os gêneros e dissolver suas
particularidades. Nesta direção e a respeito do samba, Lima explica:

Ao procurarmos entender o samba, torna-se fundamental conhecer sua


história. Se o legado cultural africano foi o ponto de partida, a forma como
ele nos chegou - no Brasil e no Rio de Janeiro - é parte significativa do
processo de surgimento do samba e da conformação do que estou
chamando de cultura do samba para dar uma dimensão maior aos sujeitos
e processos decorrentes da constituição e desenvolvimento de um gênero
musical que não deve ser circunscrito apenas nestes termos (2013, p. 105).

O samba congrega três elementos étnicos: o sopro do índio; os instrumentos


harmônicos europeus e a percussão africana42. Mas, o elemento que une é africano:
é a potência contestatória e de resistir artisticamente, quando traduz a história de um
povo, algumas vezes de forma festiva: “Batuque é um privilégio/ Ninguém aprende
samba no colégio/ Sambar é chorar de alegria/ É sorrir de nostalgia dentro da
melodia”43, ao mesmo tempo que traduz as condições de vida, permeadas por
contradições.
O samba, embora sob condições materiais adversas e condições subjetivas
carregadas de dores e histórias de repressão em sua existência, encontra brechas e
continua sendo uma expressão crítica, uma forma de dar voz a um povo.
Segundo Abdias do Nascimento,

40
Trecho do poema "Sombras da Água" de Mia Couto.
41
“Cultura popular” é aquela donde há a tomada de consciência da realidade concreta vivenciada no país, é para
Ferreira Gullar, "a tomada de consciência da realidade brasileira" (GULLAR, 2010, p.23). Quando se está falando
em “cultura popular”, “acentua-se a necessidade de por a cultura a serviço do povo, isto é, dos interesses
efetivos do país" (GULLAR, 2010, p.20), tornando explícito a existência de uma cultura que não popular, e assim,
contrária aos interesses populares, enquanto cultura elitizada, no extremo, explicita-se o caráter de classe da
cultura. Segundo Gullar, "O que define a cultura popular, no sentido que apreciamos aqui, é a consciência de que
a cultura tanto pode ser instrumento de conservação como de transformação social" (GULLAR, 2010, p.21)
42
Anotações de palestra no SESC cadeião em Londrina-PR, no dia 29 de novembro de 2019: “Café com que?
Cultura e literatura nas tramas do samba”, com Juliana Barbosa, Renato Forin e Valdir Grandini.
43
Composição de samba de Noel Rosa e Vadico de 1933.
139

A sociedade dominante no Brasil praticamente destruiu as populações


indígenas que um dia foram majoritárias no país; essa mesma sociedade
está às vésperas de completar o esmagamento dos descendentes
africanos. As técnicas usadas têm sido diversas, conforme as
circunstâncias, variando desde o mero uso das armas, às manipulações
indiretas e sutis que uma hora se chama assimilação, outra hora
aculturação ou miscigenação; outras vezes é o apelo à unidade nacional, à
ação civilizadora, etc.,etc., etc (1978, p.107).

Ocorre que, apesar de o samba, só ser reconhecido quando se aproxima da


cultura europeia, pois enquanto apenas expressão dos modos de vida dos povos
marcados pela dominação colonial e escravista, ele é desprezado, não se pode
desmerecer a resistência dos elementos dessa cultura que até os dias atuais
consegue expressar o cotidiano das classes populares, mesmo tendo incorporado
valores do dominador.
A princípio, elegeu-se partilhar da análise de Tatit, donde samba, em sua
gênese

[...] constituía, na verdade, uma forma de canção instável e flexível -


fundada nas entonações e expressões da fala cotidiana - cujas
propriedades melódicas oscilavam entre dois gêneros, estes sim
consideravelmente estáveis e bem definidos: de um lado, a “canção
romântica” acima descrita, que conservava os parâmetros tradicionais das
serestas e das modinhas, e de outro, a marchinha descendente de “Ó Abre-
Alas” e do repertório típico das revistas, que garantia uma sonoridade mais
europeizada para o carnaval da classe média carioca. Em outras palavras,
“samba” passou a definir uma espécie de núcleo por excelência da canção
brasileira que se prestava a um tratamento musical ora acelerado e
concentrado em refrão (em direção à marchinha), ora desacelerado (em
direção à seresta), mas sempre mantendo uma integração entre melodia e
letra bem mais próxima da linguagem oral do que da regularidade rítmica ou
métrica dos gêneros tradicionais. A elasticidade do gênero era notória
(2004, p.148).

Na análise de Tatit, a palavra samba, em sua gênese

[...] congregava sonoridade e significados africanos, práticas corporais


(batuque e umbigada) dos ritos negros dos séculos anteriores, ambientes
rural e urbano, gêneros como choro e maxixe e, ao mesmo tempo, libertava a
canção da métrica tradicional, cedendo espaço à voz que fala com seus
acentos imprevisíveis, orientados apenas pelas curvas entoativas típicas da
linguagem coloquial. O descompromisso com o tempo forte do compasso
permitiu ao samba dos anos 1930 incorporar os improvisos de versos à
estrutura da composição, o que contribuiu para distinguir de uma vez por
todas “letras” de “poema”, sobretudo quando este último se filiava a uma
tradição escrita (2004, p.147).

Destaca-se o fato de que o samba se identifica muito com as expressões do


cotidiano. Para o mesmo autor:

“Samba” constituía, na verdade, uma forma de canção instável e flexível-


fundada nas entonações e expressões da fala cotidiana- cujas propriedades
140

melódicas oscilavam entre dois gêneros, estes sim consideravelmente


estáveis e bem definidos: de um lado, a “canção romântica” acima descrita,
que conservava os parâmetros tradicionais das serestas e das modinhas, e
de outro, a marchinha descendente de “Ó Abre-Alas” e do repertório típico
das revistas, que garantia uma sonoridade mais europeizada para o
carnaval da classe média carioca. Em outras palavras, “samba” passou a
definir uma espécie de núcleo por excelência da canção brasileira que se
prestava a um tratamento musical ora acelerado e concentrado em refrão
(em direção à marchinha), ora desacelerado (em direção à seresta), mas
sempre mantendo uma integração entre melodia e letra bem mais próxima
da linguagem oral do que da regularidade rítmica ou métrica dos gêneros
tradicionais. A elasticidade do gênero era notória (TATIT, 2004, p.148).

Partilha-se, também da análise de autores que consideram que, com o


passar dos anos, outras influências se fizeram presente nas composições dos
sambas. Neste sentido, fez-se necessária uma maior aproximação sobre a temática
durante a realização de pesquisa para compreender como se deu e se dá essa
transformação. Essa visão do samba como um gênero em construção está em
sintonia com a consideração do samba como processo histórico. Por isso se dá a
importância, antes de tudo, de “[...] explicá-lo enquanto fenômeno social, de situá-lo
em sua dimensão histórico-processual” (NEVES, 2013, p.123). Ou seja, o samba
“Se transformou (e continua se transformando) até atingir a forma como o
conhecemos hoje: um estilo particular de música popular urbana” (NEVES, 2013,
p.123).
Em levantamento bibliográfico sobre a história do samba: suas principais
influências e a forma como ele se transforma historicamente; se compreende o
gênero musical como uma das expressões históricas culturais de um povo,
permeado por novas influências e dialeticamente construído.
A palavra Samba possui diversos significados. Barboza, em sua pesquisa,
encontrou significados como "[...] “agradar, encantar, orar, rezar" (em quimbundo),
além de "honrar, reverenciar" (em quicongo), línguas dos povos bantos, também
chamados angola-conguenses" (2013, p.13), o que indica a relação com outra
expressão cultural africana: a religião. Para Neves, a palavra está presente em
vários países da América Latina, e a “[...] etimologia mais aceita hoje entre os
estudiosos do assunto é a que a vincula ao vocábulo de raiz multilinguística
(quimbundo) semba, que significaria "rejeitar" ou "separar", remetendo ao
141

movimento físico característico da "umbigada"44 (2013, p.132), o que aproxima o


samba a outras expressões artísticas africanas: suas danças.
Os autores estudados argumentam que a construção da cultura no Brasil se
dá a partir dos determinantes sociais da forma como foi constituída a sociedade
brasileira, situada como colônia de exploração escravista, donde as intenções de
expansão capitalista em sua fase mercantilista.
No Brasil, o que existia até então culturalmente, era dispersamente as
culturas de várias tribos indígenas espalhadas por todo o extenso território brasileiro.
Segundo Coutinho, “[...] não existia uma significativa cultura autóctone anterior à
colonização que pudesse aparecer como o “nacional” em oposição ao “universal”, ou
o “autêntico” em contraste com o “alienígena”” (2013, p.35). Isso resulta no fato de
que a cultura europeia que penetra no Brasil com o processo de colonização não
encontra grandes obstáculos, sendo que "O fato de que os pressupostos da nossa
formação econômico-social estivessem situados no exterior teve uma importante
consequência para a questão cultural" (COUTINHO, 2013, p.35). Ocorre que

[...] nossa pré-história como nação - os pressupostos de que somos


resultado - não residem da vida das tribos indígenas que habitavam o
território brasileiro antes da chegada de Cabral: situam-se no contraditório
processo de acumulação primitiva do capital, que tinha seu centro dinâmico
na Europa Ocidental (COUTINHO, 2013, p.33).

Mas, em nota de rodapé, o autor faz questão de evidenciar que “[...] a cultura
indígena e, em particular, a cultura negra desempenham um papel decisivo na
formação de nossa fisionomia cultural especificamente brasileira” (COUTINHO,
2013, p.35), mesmo que isso ocorra

[...] no quadro de uma amálgama com as matrizes europeias (basta pensar,


por exemplo, no processo ocorrido na música popular). Quanto resistiram
contra essa amálgama, independentemente do valor moral dessa
resistência, as culturas índia e negra transformaram-se em folclore ou na
expressão de grupos marginais (COUTINHO, 2013, p.35-36).

O que observaremos mais adiante com relação à transformação do samba é


que, quando passa do status de música folclórica à música popular registrada e
autoral, adquire a condição de música de grupos marginalizados, chegando até a
sofrer repressão policial.

44
"A umbigada (ou batuque, designação portuguesa que passou com o tempo a se referir aos festejos dos
negros de modo geral), por sua vez, é um gesto em torno do qual se organizam diversas danças provenientes da
África" (NEVES, 2013, p.132).
142

Mas, graças à capacidade do povo negro de, com seus batuques, abrirem
“brechas no mundo”, em meio a um processo de escravização, suas expressões
culturais vão se localizar no que pode ser considerado uma contra hegemonia em
relação à cultura europeia, processo que resultará na construção da música popular
brasileira.
O resultado desta história é que a cultura nacional brasileira é constituída em
uma mescla de elementos de culturas diversas; aqui o universal não entra
diretamente em conflito com o nacional. Entre sistemas de dominação, inclusive
cultural (um exemplo seria a catequização dos indígenas e africanos pelos padres
jesuítas) e resistências, na música, Tinhorão considera que durante os primeiros
séculos de colonização,

[...] os únicos tipos de música ouvidos no Brasil seriam os cantos das


danças rituais dos indígenas, acompanhados por instrumentos de sopro
(flautas de várias espécies, trombetas, apitos) e por maracás e bate-pés; os
batuques dos africanos (na maioria das vezes também rituais, e à base de
percussão de tambores, atabaques e marimbas, e ainda de palmas,
xequerés e ganzás) e, finalmente, as canções dos europeus colonizadores
(1986, p.7-8).

Observa-se uma grande quantidade de tipos de músicas, embora o autor


citado tenha dito que eram os “únicos tipos de música”. Prossegue-se que os
elementos acima citados chegam num momento que se misturam e caminham no
sentido de resultar numa música que pudesse ser caracterizada como
verdadeiramente brasileira. Segundo Tinhorão,

Para que pudesse surgir um gênero de música reconhecível como brasileira


e popular, seria preciso que a interinfluência de tais elementos musicais
chegasse ao ponto de produzir uma resultante, e, principalmente, que se
formasse nas cidades um novo público com uma expectativa cultural
passível de provocar o aparecimento de alguém capaz de promover essa
síntese (1986, p.8).

A mistura desses elementos já se dá na dupla “conformismo e resistência” e


nesta perspectiva, a cultura brasileira vai se construir pautada na mistura das “três
raças”, como no samba o “canto das três raças”45. Mas é preciso deixar claro que
nesta pesquisa se compreende a chamada democracia racial como um mito, pois o
que ocorre é uma relação de poder entre as culturas, que ao mesmo tempo em que
se misturam, se contrapõem, dialeticamente, tal como afirmam os compositores no
título do samba acima aludido, e durante a letra fazerem referência ao “índio
45
Samba de autoria de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, popularmente conhecido pela interpretação de
Clara Nunes, lançado em 1976.
143

guerreiro, foi pro cativeiro e de lá cantou”; ao negro que “entoou o canto de revolta
pelos ares, no quilombo dos palmares, onde se refugiou”; além de referenciar ao
“todo povo dessa terra” que “de guerra em paz, de paz em guerra/ quando pode
cantar, canta de dor” (CANTO..., 1976). A última estrofe une as “três raças” em uma
única categoria, a de trabalhador, quando: “E ecoa noite e dia: é ensurdecedor/ Ai,
mas que agonia/ O canto do trabalhador/ Esse canto que devia ser um canto de
alegria/ Soa apenas como um soluçar de dor” (CANTO..., 1976).
Samba, portanto, já nasce, assim como posteriormente vai se transformar,
na mistura dos elementos africanos, indígenas e europeus, com um princípio que
será o elemento estruturador: a síncopa.46 Curiosamente, este elemento, a síncopa,
característica definidora da música popular brasileira, é definida por muitos autores
como “[...] uma ocorrência percebida como desvio na ordem normal do discurso
musical” (SANDRONI, 2001, p.20), donde a acentuação rítmica se dá no
contraponto da acentuação considerada dentro da “ordem normal”. Esta definição,
se estendida para a cultura popular, como um todo, demonstrará o aspecto contra
hegemônico esta cultura representa.
Ainda sobre a síncopa, segundo Sodré

[...] é a ausência no compasso da marcação de um tempo (fraco) que, no


entanto, repercute noutro mais forte. A missing-beat pode ser o missing-link
explicativo do poder mobilizador da música negra nas Américas. De fato,
tanto no jazz quanto no samba, atua de modo especial a síncopa, incitando
o ouvinte a preencher o tempo vazio com a marcação corporal - palmas,
meneios, balanços, dança. É o corpo que também falta - no apelo da
síncopa. Sua força maginética, compulsiva mesmo, vem do impulso
(provocado pelo vazio rítmico) de se completar a ausência do tempo com a
dinâmica do movimento no espaço (1998, p.11).

No samba, “O corpo exigido pela síncopa do samba é aquele mesmo que a


escravatura provocava violentar e reprimir culturalmente na História brasileira: o
corpo do negro” (SODRÉ, 1998, p.11). E com a transformação do samba, "O
percurso da síncopa é indicativo do caminho de resistência do negro à sua
assimilação cultural" (SODRÉ, 1998, p.33).
O elemento proveniente das expressões musicais africanas será o elemento
unificador destas influências e é por este motivo que a presença do negro no
ambiente da música popular brasileira é ressaltada. É dessa forma que observa-se a
confluência de elementos de duas grandes nações africanas escravizadas: os

46
Anotações de palestra no SESC cadeião em Londrina-PR, no dia 29 de novembro de 2019: “Café com que?
Cultura e literatura nas tramas do samba”, com Juliana Barbosa, Renato Forin e Valdir Grandini.
144

bantos e os iorubas, com suas heranças culturais, entre elas as religiosas,


gastronômicas e musicais. Segundo Barboza,

A cultura brasileira e, logicamente, a rica música que se faz e consome no


país estruturam-se a partir de duas básicas matrizes africanas, provenientes
das civilizações conguesa e iorubana. A primeira sustenta a espinha dorsal
dessa música, que tem no samba sua face mais exposta. A segunda molda,
principalmente, a música religiosa afro-brasileira e os estilos dela
decorrentes (2013, p.9).

Os negros escravizados trazidos ao Brasil advinham de duas grandes


nações africanas: os bantos e os iorubas. Existia uma distância econômica, social e
cultural entre as duas grandes nações que as colocavam determinantes
diferenciados. Os negros iorubas que tinham conseguido sua liberdade um pouco
antes e haviam tido a oportunidade de “[...] se deslocar de Salvador para a Corte
quase duas décadas antes da promulgação da Lei Áurea, quando os demais ainda
eram escravos, já os colocam em singular superioridade social" (BARBOZA, 2013,
p.25-26). Ao chegarem ao Rio de Janeiro, se fixaram na região do porto e faziam
parte de uma elite econômica e social dentro do povo negro. Os Iorubas foram
responsáveis pelo fortalecimento da “[...] comunidade negra cada vez mais presente
nos festejos populares, conquistando espaços com dificuldade, mas cada vez mais
influentes, principalmente no carnaval" (LIMA, 2013, p.97). O choro, outro exemplo
de música brasileira, a mais importante música instrumental do país, nasce neste
meio.
Os negros bantos, com a abolição e a decadência da monocultura do café
no Vale do Paraíba, se descolam para o Rio de Janeiro e se localizavam nos
subúrbios. Eram negros de formação totalmente rural, "Entre as bananeiras dos
terreiros, nas noites de lua, dançavam o jongo e o caxambu, naquele tempo ainda
danças ungidas de caráter religioso" (BARBOZA, 2013, p.26).
Enquanto na região do porto, os negros que haviam vindo antes ao Rio de
Janeiro tinham uma condição econômica remediada, para os bantos a situação era
bem diferente. Os primeiros expressavam-se musicalmente tendo acesso a estudos
formais de música e a instrumentos melódicos como o violão, enquanto que os
segundos para se manifestarem musicalmente, tinham apenas os instrumentos de
percussão que eles mesmos produziam. Resulta de que

O samba se constrói, sobretudo no início de sua história, sobre uma


estrutura rítmica e melódica bastante simples, possibilitando a participação
de todos os presentes, pelo menos no bater das palmas. O choro, desde
145

seu aparecimento, exige e exibe alta sofisticação musical na execução. Já o


primeiro nome do choro de quem se tem notícia, o flautista Joaquim Antônio
da Silva Calado, ainda no século XIX, tinha aprimorada formação musical e
cercava-se de instrumentistas igualmente qualificados (MATOS, 1982,
p.26).

É no encontro entre as expressões culturais dessas duas grandes nações


africanas que, no Rio de Janeiro, vai se gestar o samba. Segundo Barboza,

A abolição e a decadência da cultura do café, no Vale do Paraíba, jogaram


no Rio de Janeiro levas numerosas de negros bantos, que aqui encontraram
os gagôs-baianos. Esse outro grupo de negros, urbanos e de classe média,
dominava a Praça Onze. Anos antes haviam organizado os ranchos
carnavalescos. Consequentemente, formava-se a nossa amálgama da
negritude, com resultados ritmo-musicas fundamentais para a formação da
nossa gente, cada vez mais miscigenada (2013, p.16).

Segundo Neves, o samba surge na fase do capital em formação e expansão


competitiva, que “[...] compreende o período de consolidação da economia urbano-
comercial e a primeira fase de transição industrial importante estendendo-se
aproximadamente do último quartel do século XIX até a década de 1950" (NEVES,
2013, p.125). É neste período que o gênero vai se popularizar; um período de "[...]
transformações acentuadas em diversos aspectos. Tratava-se de mudanças de peso
no que toca à vida cotidiana, no campo da cultura, a condições socioeconômicas"
(NEVES, 2013, p.125).
O samba a ser analisado nesta pesquisa é o particular à década de 1970, ou
seja, o moderno samba urbano carioca, que segundo Neves é “[...] resultado da
coalescência entre duas tradições: a música rural-folclórica espalhada pelo território
brasileiro (com destaque para o samba rural) e as danças nacionais urbanas" (2013,
p.130). O que coloca mais um sentido sobre a junção das expressões das duas
nações que se encontravam uma no ambiente rural e outra urbana. Esta expressão
cultural e artística, portanto, resulta da

[...] migração de população rural negra - escrava, liberta ou livre - para o Rio
de Janeiro, levando consigo sua música (destacando-se aqui o samba
"baiano", ou samba de umbigada), migração que parece ter se intensificado
a partir de 1870; o desabrochar na capital - que remonta à vinda da família
real portuguesa em 1808, mas se acelera sobremaneira também a partir de
1870 -, de características socioeconômico-culturais peculiares a um grande
centro urbano capitalista, e, com isso, a evolução de danças
caracteristicamente urbanas (as "danças nacionais"), no caso com o
desenvolvimento da dança do maxixe, que substitui o lundu no papel de
dança nacional, sendo posteriormente substituído pelo samba (NEVES,
2013, p.131).
146

As expressões musicais dos ex-escravos e suas expressões religiosas se


misturavam. Quando o samba começa a atingir um público diferente, além daquele
nas favelas e morros, "[...] alguns representantes desse novo público, que por
qualquer razão haviam visto na zona rural exibições de jongo, relacionavam-no
imediatamente ao samba das macumbas" (BARBOZA, 2013, p.17). E de uma forma
ou de outra tinham razão, pois a relação do samba com a expressão religiosa
daquele grupo africano era clara, tanto é que em meio aos estudiosos do tema,
compreende-se o samba como o filho profano da umbanda (BARBOZA, 2013). Isso,
porque após os cultos religiosos, as mesmas melodias cantadas nos ritos, eram
utilizadas com letras profanas para entretenimento do mesmo grupo (BARBOZA,
2013).
Dentre os espaços importantes para o nascimento do samba estão as
casas das tias baianas, sendo a casa da tia Ciata47 a mais conhecida delas,
demonstrando a importância da liderança feminina na construção deste espaço,
embora saibamos que o samba se tornou um espaço majoritariamente masculino.
As responsáveis pelo encontro dos elementos que resultaram no samba foram as
tias que "[...] nas festas particulares, festeiras afro-brasileiras comandavam
conversas, comidas, cultos, música e dança que atravessavam dias" (LIMA, 2013,
p.108).
Ainda que seja de suma importância as lideranças femininas no processo de
nascimento do samba, algumas das letras continuaram a expressar valores
machistas e que reafirmam o patriarcado. Isso pode ser observado nas letras da
década de 1970, como exemplo, no samba de Martinho da Vila: “Você não passa de
uma mulher”, a começar pelo título que já chama atenção para este elemento. A
letra do samba diz:

Olha a moça inteligente,/ Que tem no batente o trabalho mental/ QI elevado


e pós-graduada/ Psicanalizada, intelectual/ Vive à procura de um mito/ Pois
não se adapta a um tipo qualquer/ Já fiz seu retrato, apesar do estudo/ Você
não passa de uma mulher (viu, mulher?)/ Você não passa de uma mulher
(ah, mulher)/ Menina-moça também é mulher (ah, mulher)/ Pra ficar comigo
tem que ser mulher (tem, mulher)/ Fazer meu almoço e também meu café
(só mulher)/ Não há nada melhor do que uma mulher (tem, mulher?)/ Você
não passa de uma mulher (ah, mulher) (VOCÊ NÃO..., 1976).

47
Hilária Batista de Almeida, conhecida como tia Ciata, "Sua liderança junto à comunidade afro-brasileira era
comprovada pelo número e pela variedade de pessoas que frequentavam sua casa. Lá iam baianos, africanos,
negros cariocas, brancos, profissionais como estivadores, funcionários públicos, policiais, músicos, intelectuais e
políticos importantes" (LIMA, 2013, p.108).
147

Considera-se aqui, importante, sinalizar alguns aspectos da história do


samba que são fundamentais para o objeto desta pesquisa, a começar pelo registro
de seus marcos iniciais, como gênero musical. O samba conhecido como o primeiro
da história, por ser o primeiro a ser gravado, foi “Pelo telefone”, registrado por
Donga, porém seus versos foram retirados durante as reuniões da casa da Tia
Ciata, o que resultou numa boa confusão com Sinhô e os outros frequentadores. A
polêmica é designada por Neves como a materialização no plano singular/particular
de um fenômeno que ocorria, então em nível universal: "[...] o choque entre o rural e
o urbano, entre o folclórico e o popular, entre a música de autor desconhecido e a
exigência de autoria, entre o amadorismo e a profissionalização do músico" (NEVES,
2013, p.140). Ou de forma mais geral

[...] choque entre o Brasil colonial com predominância, no plano interno, de


relações "pré-capitalistas" e o Brasil propriamente capitalista - choque do
qual decorre o samba urbano carioca e em relação ao qual este aparece, no
plano espiritual, como uma das possíveis consequências ou respostas
(NEVES, 2013, p.140).

É então, no processo de modernização capitalista que nasce o samba


urbano carioca, "[...] como criação de parcela das classes subalternas ou da classe
trabalhadora carioca em um momento preciso de sua conformação" (NEVES, 2013,
p.141).
Como o Brasil se transformava, a cultura e a música popular também sofria
grandes transformações. O samba passa a ser gravado e

Por volta do fim da segunda década do século XX, o movimento das


"escolas de samba" libertou o batuque dos guetos onde vivia, sob a
designação de samba. A letra sagrada se tornou profana e, depois, com o
aprimoramento do texto literário, esse samba, que era tocado e cantado
apenas nos terreiros dos cultos religiosos, foi transformado na música
urbana de lazer da sociedade global. O disco, o rádio, o teatro e o cinema
transformaram a antiga dança africana, como ocorre com tudo o que cai no
gosto das elites, em patrimônio das classes dominantes, de modo a chegar
a ser um verdadeiro índice emblemático da identidade e da cidadania.
Samba passou a ser sinônimo de Brasil, uma visão musical, lúdica e
sociológica que desde então tem acompanhado toda a nossa trajetória
existencial (BARBOZA, 2013, p.14).

Foi através do carnaval que o samba encontrou espaço para se transformar


em expressão cultural popular que atingisse não mais somente os grupos de ex-
escravos, que passariam a usá-lo como instrumento de inserção social na sociedade
carioca branca. Segundo Lima,

[...] é a partir do final da década de 1920, com o surgimento das escolas de


148

samba, que a música fundamentalmente produzida pela camada da


população afro-brasileira começa a ganhar mais visibilidade e passa a não
se confundir com outros ritmos denominados genericamente de samba. Dali
em diante, de forma singular, se fazia conhecer o samba (2013, p.110).

Assim como as marchas, o samba é reconhecido com a “[...]


necessidade de um ritmo para a desordem do carnaval” (TINHORÃO, 1986, p.119).
Foi com o carnaval então que a popularização do samba se deu.
O samba passa a ser considerado o maior símbolo da imagem nacional
brasileira, e isso não foi à toa, pois "[...] o surgimento de uma nação brasileira esteve
organicamente articulado ao - e foi fortemente determinado pelo - surgimento do
Estado brasileiro moderno e demandou a criação ou invenção de identidades
nacionais para se estabilizar" (NEVES, 2013, p.130), o samba foi transformado em
identidade nacional como parte desta função. Mas essa trajetória até o
reconhecimento do samba como música símbolo nacional teve seus caminhos
marcados pela repressão e violência.
É no samba que o povo negro consegue reforçar seus padrões valorativos,
frente a uma sociedade que os colocavam à margem econômica, política e cultural.
Neste espaço é desde seu nascimento, como resistência, origina-se o samba,
mesmo que tenha incorporado elementos que vão expressar tendências de
conformismo. Isso pode ser explicado pela dinâmica contraditória da sociedade e até
como estratégia de sobrevivência, assim como aconteceu em suas religiões que se
conduziram com a tendência para o sincretismo. Isso pois,

Diante deste quadro e da experiência das lutas do passado, à população


negra, portadores de handicaps negativizados, não restava muitas saídas:
ou a marginalidade social, econômica, política e, ademais, jurídica, ou a
tentativa negociada de penetração na sociedade branca hierarquizada para
abrir caminhos e driblar sua condição marginal (LIMA, 2013, p.97).

O povo negro, recentemente liberto da escravização, para ser parte da


sociedade brasileira, buscava essa inserção, adaptando ou combinando seus
padrões culturais aos padrões dos brancos oriundos da sociedade europeia. No Rio
de Janeiro foi assim, o samba nasce nas mentes e corações da população vivendo à
margem da sociedade burguesa branca com seus desejos de fazerem parte desta
sociedade. Não que o povo negro fosse submisso, mas teve que fazer alguns
“acordos” (claro que com uma relação de poder pesando muito mais ao benefício do
dominador). É por este motivo que "O samba pode ser considerado um dos
instrumentos de penetração do afro-brasileiro na sociedade branca" (LIMA, 2013,
149

p.111). Através dos anseios de adentrar a sociedade branca, o negro consegue


incluir sua cultura na construção da própria cultura brasileira, e isso ocorre na
música, na culinária, na religião, e até no idioma.
Através do carnaval, o negro produzindo samba, vai fixar o seu lugar,
conquistar territórios. Era preciso “[...] todo o esforço na conquista de territórios
interacionais, na penetração espacial" (LIMA, 2013, p.114-115), e fizeram isso
através das escolas de samba de carnaval. Ainda segundo Lima, "[...] a visibilidade
positiva como afro-brasileiros, como uma representação afro-brasileira de grupo,
somente ocorreu com as escolas de samba" (2013, p.115).
Dessa forma o samba continua se transformando. Segundo Barboza, “[...]
com esse status continuou evoluindo, já agora integrado como símbolo nacional.
Virou samba-canção, samba-choro, samba de breque, samba-exaltação, bossa-
nova” (2013, p.15).
Nos morros e favelas, a desigualdade continuava nítida, também se
apresentava no âmbito cultural e nesta transformação que a música popular e o
samba tiveram. Segundo Barboza,

[...] entre os afrodescendentes, que continuaram na maioria alijados nas


favelas, a evolução foi mais lenta. O samba versado, o samba de terreiro, a
batucada, o partido alto, o samba-enredo e o pagode, todos com riquíssima
coreografia, continuaram, praticamente à base só da percussão, com
mínimas concessões às orquestrações medólico-harmônicas (violão e
cavaquinho) e, na medida do possível, conservando, na dança, a umbigada
ancestral (2013, p.15).

O que demonstra o quanto os determinantes sociais e econômicos de cada


grupo continuaram se apresentando neste processo. O samba agora também está
presente em outros espaços sociais, além daqueles no qual foi gestado. Mas as
classes dominantes cooptam também a expressão cultural, a riqueza cultural
produzida por um povo negro pobre e colonizado, que para chegar até um patamar
de certa valorização, passou por um caminho bem difícil.
Compreende-se elemento de resistência que a cultura africana apresenta
frente às determinações que se encontrou e se encontra.

Esse fato é um dos fenômenos mais surpreendentes da cultura humana,


considerada a situação de inferioridade sócio-político-econômica a que os
chamados países imperialistas sempre submeteram os filhos da África
(BARBOZA, 2013, p.35).
150

Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola, reconhecido sambista,


faz essa reflexão quando "[...] cheio de perplexidade, olhou para o alto, para os
barracos da favela onde morava e perguntou: ‘habitada por gente simples e tão
pobre/ que só tem o sol que a todos cobre/como podes, Mangueira, cantar?’”
(BARBOZA, 2013, p.36).

3.2 REFRAÇÕES DO SAMBA EM DIFERENTES PERÍODOS HISTÓRICOS

Assim como uma particularidade expressa um movimento da realidade


social e que historicamente gesta, em continuidades e rupturas, novos elementos; o
samba também vai adquirindo novas roupagens.
Partilha-se, também da análise de autores que consideram que, com o
passar dos anos, outras influências se fizeram presente nas composições dos
sambas. Essa visão do samba como um gênero em construção está em sintonia
com a consideração do samba como processo histórico. Por isso se dá a
importância, antes de tudo, de “[...] explicá-lo enquanto fenômeno social, de situá-lo
em sua dimensão histórico-processual” (NEVES, 2013, p.123).
O samba vai ganhando novos espaços, segundo Matos,

Além da oficialização dos desfiles carnavalescos em 1932, a difusão da


música popular pelo rádio a partir da mesma época e a expansão da
indústria fonográfica contribuíram para introduzir o samba na pauta do
consumo cultural das classes mais abastadas (1982, p.44).

Um marco na história do samba é a figura do malandro. Segundo Matos, a


cultura malandra esta presente há tempos nas ruas do Rio de Janeiro, e ingressou
no samba nos anos 20 (1982, p.13). O malandro é um “[...] personagem do texto,
sujeito/objeto de inúmeras letras do samba urbano, particularmente na cidade do Rio
de Janeiro” (MATOS, 1982, p.13) e esteve presente nas temáticas dos sambas nas
décadas de 30, 40 e 50 (MATOS, 1982, p.13). O malandro incialmente era exaltado
nas letras.
No ano de 1937,

[...] quando o Estado Novo, instituindo a ideologia do culto ao trabalho e


uma política simultaneamente paternalista e repressiva em relação à cultura
popular, vem modificar as regras do jogo e o panorama da produção poética
151

do samba (MATOS, 1982, p.13).

Este marco revela um período em que o malandro começa a ser notado de


outra forma. Agora ele é representado de forma pejorativa e nas letras de samba
aparecem situações onde ele sofre um processo de regeneração.
Passa-se então a incentivar “[...] os compositores a louvar os méritos e
recompensas do trabalhador, ao mesmo tempo em que interditam e censuram os
casos e façanhas do malandro” (MATOS, 1982, p.14). Agora o malandro é aquele
que “Aposentou a navalha/ Tem mulher e filho e tralha e tal/ Dizem as más línguas
que ele até trabalha/ Mora lá longe e chacoalha / Num trem da Central”
(HOMENAGEM..., 1978); sua imagem é do homem trabalhador e seguidor das
normas morais.
O malandro então continua um personagem importante nas composições de
samba,

[...] legendário e prestigiado, espécie de anti-herói que povoara as


composições da década de 30, é substituído e continuado na de 40 pela
figura do “malandro regenerado”, sempre às voltas com a polícia, falante,
problemático, defensivo, dizendo-se trabalhador honesto, mas sempre
carregando os estigmas e emblemas da malandragem (MATOS, 1982,
p.14).

O mesmo compositor acima citado, Chico Buarque, sintetiza a posição do


malandro, quando este deixa de ser exaltado, mas continua sendo figura central nas
composições, em que “Malandro quando morre/ Vira samba” (MALANDRO, 1965).
Dois compositores estudados por Matos: Geraldo Pereira e Wilson Batista
possuem um

[...] painel muito variado de tendências, estilos, visões de mundo. Por isso,
tanto é possível encontrar em seus sambas um tipo de discurso sentimento
e lacrimejante, como realista e sarcástico; um malandro cínico ao lado de
um bem comportado trabalhador; idealismo e ceticismo; a crítica da
sociedade estabelecida e o elogio da ordem e do progresso (1982, p.18).

Em 1941, observa-se outro marco nesta história, sendo promulgada a Lei de


Contravenções Penais, donde a chamada vadiagem se torna uma contravenção.
Sem muita explicação do que poderia ser considerado como vadiagem, acaba por
permitir a interferência policial nas reuniões onde ocorriam os sambas, pois era com
essa argumentação que a força policial agia, levavam os instrumentos dos
sambistas e muitos deles eram presos. Nas palavras de Gennari,

[...] não muito depois da abolição da escravatura, foi sancionada a Lei da


152

Vadiagem (1941), que considerava ociosidade como crime e permitia a


prisão de pessoas que andassem nas ruas sem documentos. Isso afetava
diretamente os homens negros que estavam desempregados, muitas vezes
sem teto e sem nenhuma possibilidade de serem contratados devido ao
forte preconceito racial da época (2016).

Porém, antes da promulgação da Lei de Contravenções Penais, a vadiagem


e a mendicância já estão presentes nas legislações. Em 1830, aparecem como
crime no Código Criminal do Império “quando se voltava justamente para o controle
dos negros e pobres que estavam nas ruas em meio do processo de urbanização do
país, criminalizando-os, levando-os para instituições semelhantes a prisões fora da
capital do império”48. Em 1890, ainda com referência às informações da professora
Andréa Rocha em parecer de avaliação,

[...] a vadiagem e mendicância se mantém como crimes, no entanto o


primeiro Código Penal da República avança em elementos criminalizatórios
voltados a pessoas negras, tornando a capoeira um crime, como também
elementos da cultura negra. Essas categorias criminais irão se manter até
1940, quando ficarão de fora do Código penal. Mas na Lei de
Contravenções Penais – LCP de1941, a criminalização da vadiagem e da
mendicância continuaram presentes, valendo a ressalva de que somente
em 2009 extraiu-se a mendicância, no entanto, por incrível que pareça, a
vadiagem ainda persiste (ROCHA, 2020).

Esta repressão policial novamente explicita o caráter racista do Estado que


enxerga as manifestações culturais do povo negro, que tem a tendência em
contradizer e denunciar os sistemas de dominação, como “foras da lei”. A Lei acaba
por localizar o samba, por exemplo, dentre outras manifestações, uma contravenção
dos costumes. Um exemplo de resposta à repressão ao que foi enquadrado como
“vadiagem”, está em “Não vadeia Clementina”, lançada no disco Forças de Natureza
de Clara Nunes em 197749:

Energia nuclear/ O homem subiu à lua/ É o que se ouve falar/ Mas a fome
continua/ É o progresso, tia Clementina/ Trouxe tanta confusão/ Um litro de
gasolina/ Por cem gramas de feijão/ Não vadeia Clementina/ Fui feita pra
vadiar/ Não vadeia, Clementina/ Fui feita pra vadiar, eu vou…/ Vou vadiar,
vou vadiar, vou vadiar, eu vou/ Vou vadiar, vou vadiar, vou vadiar, eu vou/
Cadê o cantar dos passarinhos/ Ar puro não encontro mais não/ É o preço
que o progresso/ Paga com a poluição/ O homem é civilizado/ A sociedade
é que faz sua imagem/ Mas tem muito diplomado/ Que é pior do que
selvagem (NÃO VADEIA..., 1977).

48
Informações da professora Andréa Pires Rocha em parecer de avaliação desta dissertação, 2020.
49
O samba foi lançado em ano que compõe o período de análise desta pesquisa, mas não está entre a listagem,
pois não é citado pelos autores do livro utilizado. Porém a letra do samba ilustra bem o momento histórico do
samba sendo criminalizado enquadrado como “vadiagem”.
153

A letra compara o desenvolvimento do país e do mundo, a não atenção para


as questões do âmbito social e ambiental. Assim, recebendo o conselho “Não
vadeia, Clementina”, esclarece “Fui feita pra vadiar”, como se fosse o samba feito
para contestar, feito para questionar a ordem.
Na dialética entre Conformismo e Resistência, ao adentrar na década de
década de 1950, ainda sob a vigência do controle da “vadiagem”, o tema do
malandro vai deixando de ter tanto destaque. Isso se observa com a influência
ideológica da classe burguesa presente nas classes populares. Primeiro isso
acontece na compreensão do malandro como uma figura “fora da ordem”, mesmo
que seja exaltado, e depois este começa a perder sua valorização, passando então
a ser criticado.
Existe um conflito entre os sambistas pautado na questão de que iriam (ou
não) se submeter aos ditames do mercado de gravações. Fazer isso poderia
identificá-los como integrados àquela sociedade, do contrário continuavam
marginalizados. De qualquer forma, optar pela integração não os tiravam totalmente
do espaço de marginalizados; apenas encobria esse sistema de dominação quando
incorporam ideologicamente os valores do dominador. Segundo Matos,

Na verdade é como se diversas respostas se apresentassem para uma


questão fundamental colocada diante do sujeito proletário: integrar-se ou
marginalizar-se? Respeitar as regras da sociedade estabelecida ou
permanecer à sua margem? Trabalhador ou malandro? Pai de família ou
boêmio inveterado? OU até, ambos? (1982, p.21).

Ocorre que o samba dá voz a essa “vida malandra” ou “fora da ordem”,


mesmo que incorporando valores da classe burguesa, na medida em que relata o
cotidiano da vida da população que vive à margem das vantagens da
“modernização” do país. E quando o “malandro morre” e vira samba, as
composições valem-se da ironia e da contradição da realidade social onde vivem.
Interessante é o fato de que

[...] o samba-malandro, nas décadas de 30 e 40, parece ter sido o único


gênero que, embora de maneira ambivalente e dissimulada, talvez mesmo
inconsciente, se opõe à política simultaneamente paternalista e controladora
imposta pelo Estado Novo à cultura proletária e popular. Num certo sentido,
o sambista malandro é o único que continua a promover, sob o Estado
Novo, a importância da liberdade de criação popular e da identidade cultural
dos grupos negro-proletários (MATOS, 1982, p.48).

Portanto é o samba malandro aquele que faz a crítica direta ou indireta de


um sistema político, naquele momento também autocrático, escancarando que a
154

face paternalista e controladora do Estado coloca para a Cultura Popular imposições


que lhe cerceia a liberdade de expressão artística.
Singular é a figura de Noel Rosa, compositor de samba da década de
193050,

Há quem o veja como um símbolo do boêmio inveterado, sempre a flanar


por cabarés, bordéis, bares e biroscas; para outros, porém, essa máscara
de hedonismo era tão somente o refúgio de um malandro tímido, avesso à
hipocrisia e apenas fiel à filosofia que o auxiliou a ser indiferente e cético
diante da sociedade e da própria espécie humana. Associando-se na
música a jovens grupos da classe média e a sambistas humildes dos
morros cariocas, sua obra foi vista por uns como uma estilização branca do
samba popular (equiparável, segundo José Ramos Tinhorão, à aparição da
bossa-nova na zona Sul do Rio de Janeiro ao final dos anos de 1950),
enquanto outros a julgam uma perfeita expressão do sincretismo cultural
que surge do contato entre o morro e a cidade na primeira metade do
século 20 (LEITÃO, 2009, p.9).

Em 1930, outro fenômeno: o surgimento das primeiras escolas de samba.


Segundo Barboza, as escolas de samba

[...] se originaram nos estratos sociais mais pobres e eram formadas de uma
população relativamente marginalizada, composta de indivíduos sem
profissão definida ou migrantes de áreas rurais que aqui ocupavam as
posições sociais mais humildes (2013, p.113).

Com as escolas de samba, originados nas classes populares, surgem os


sambas enredos de carnaval que vão trazer em suas temáticas, muitas vezes, a
visão da realidade concreta vivenciada por essas classes. É sobre elas que
discorremos no item a seguir.

3.3 ASPECTOS DAS ESCOLAS DE SAMBA E OS SAMBAS ENREDOS

Neste âmbito das escolas de samba estão figuras como Cartola51, o


fundador da Mangueira e compositor de “[...] sambas tão lindos que o “Brasil oficial”
começou a enxergar o talento daqueles negros da favela, e que eles podiam bem
ultrapassar a classificação de folclore” (BARBOZA, 2013, p.99). Cartola, não admitia
misturar música e política, "[...] fazia samba de protesto sem querer, até mesmo sem
50
Noel de Medeiros Rosa não nasceu nas favelas do Rio de Janeiro, em 1910, mas “Ainda que o polêmico José
Ramos Tinhorão o descreva como “branco, filho da cidade e sem ligações com os sambistas negros e mestiços
semianalfabetos das camadas mais baixas”, é precoce a identificação de Noel com os mais humildes e
marginalizados. Seu desconforto nos ambientes ditos mais refinados da classe média, que os amigos do Bando
de Tangarás estavam habituados a frequentar, logo se tornaria patente. Almirante, o líder do conjunto, é um dos
primeiros a constatar que o parceiro se sentia bem melhor em uma tendinha do Morro dos Macacos ou em um
botequim do Ponto de Cem Réis que nas festas ou reuniões cheias de pompa e circunstância das famílias
tijucanas” (LEITÃO, 2009, p.80).
51
Agenor de Oliveira nasceu em 1908, e aos 11 anos foi com a família para a Mangueira.
155

parecer, só contava a verdade” (BARBOZA, 2013, p.139). Assim, Cartola "[...]


aprendera e registrara em letra de forma, verdades essenciais que a faculdade não
soubera ensinar" (BARBOZA, 2013, p.139).
A amizade entre Cartola e Noel Rosa é emblemática52, na medida em que
demonstra essa síntese das culturas de um negro, sem formação escolar do morro e
de um branco com acesso à educação formal. As composições do primeiro parecem
incorporar valores reproduzidos na cultura elitista muito mais que as do segundo,
que buscava incorporar o cotidiano das classes populares cariocas. As composições
de Noel traziam de forma mais clara as questões políticas e sociais, enquanto que
Cartola fazia isso de forma orgânica, sem ter como intenção direta e “[...] com talento
invulgar, burilou essa música a ponto de torná-la palatável aos refinados ouvidos da
sociedade brasileira como um todo” (BARBOZA, 2013, p.139). Um exemplo é em “O
mundo é um moinho”, quando expressa “Ouça-me bem, amor/ Preste atenção, o
mundo é um moinho/ Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos/ Vai reduzir as ilusões
a pó” (O MUNDO..., 1976). O trecho trás a referência de uma sociedade que, como
um moinho, tritura os sonhos humanos os transformando em meras peças de um
sistema de acumulação de lucros. Embora essa não seja a intenção direta do
compositor, apresentar esta realidade concreta faz de sua música uma expressão
imbuída de significado ideológico, Cartola está demonstrando sua compressão do
mundo que vivencia cotidianamente.
Outra importante figura nesta história é Paulo Benjamin de Oliveira,
conhecido como Paulo da Portela53, "[...] um descendente dos bantos de Angola e do
Congo, que aprendeu com os Iorubás do Daomé a não baixar a cabeça para
ninguém" (BARBOZA, 2013, p.100). Paulo da Portela leva essa característica até os
sambistas da periferia, desejava que fossem respeitados,

Paulo Benjamin de Oliveira, ao chegar a Madureira, tornou-se líder do lugar


exatamente por "cheirar" a Cidade Nova, cheirar com os negros chiques da
Pequena África, frequentadores da casa da Tia Ciata: era elegante, fino,
preparado, completamente urbano, num lugar onde a "ruralidade" imperava,
Madureira era "a roça" (BARBOZA, 2013, p.100-101).

52
Anotações de palestra no SESC cadeião em Londrina-PR, no dia 29 de novembro de 2019: “Café com que?
Cultura e literatura nas tramas do samba”, com Juliana Barbosa, Renato Forin e Valdir Grandini.
53
Nasceu em 1901, “no centro do Rio de Janeiro e ainda muito jovem foi transferido para Madureira, lá ganhou
fama de competência e liderança, com o codinome de Paulo da Portela” (BARBOZA, 2013, p.99).
156

Paulo provinha daquele grupo de negros que possuía uma condição social e
econômica um pouco mais favorável e que também havia incorporado elementos
culturais dos brancos. Segundo Barboza,

Paulo da Portela quis levar para Madureira os valores que assimilara no


grupo social em que fora criado, na Gamboa, Pedra do Sal, rua Senador
Pompeu, na Pequena África. Para aquele local, os negros baianos
transladaram o seu universo religioso nagô, nascido no Golfo do Benin e
alimentado na Bahia. Mas adotaram, desde o tempo em que eram escravos
urbanos em Salvador, o universo social dos senhores brancos, porque
universo social de escravo não existia, escravo era coisa. Adotaram o
comportamento da sociedade dominante, e com tanto talento cedo
conseguiram comprar as alforrias e mudaram para o Rio de Janeiro (2013,
p.102).

Foi deste contexto que Paulo da Portela aparece e tenta conciliar a cultura
popular da população mais pobre com valores que adquiriu em meio à sociedade
branca e conservadora.
Barboza faz uma diferenciação dos períodos das escolas de samba por
fases. Dentre essas fases, o relevante para esta pesquisa está na chamada “Fase
de Interação” (1954/1970), na qual

A presença de profissionais de artes plásticas e cênicas nos barracões


integra o mundo do samba ao mundo social, aproxima os intelectuais dos
barracões, mas simultaneamente, provoca enorme valorização do visual,
em detrimento do samba. Os enredos sofisticam-se, o samba-enredo para
descrevê-los, cresce tanto que passa a se chamar “lençol”. A presença do
carnavalesco, da classe média e o fortalecimento dos patronos (os
bicheiros) provoca a perda de poder dos afrodescendentes, que continuam
sendo a grande força apenas nas alas técnicas (bateria, passistas e
baianas) (2013, p.21).

E entre os anos 1971 e 1983, está a fase chamada de “Fase da Escola de


Samba S.A” (BARBOZA, 2013, p.22), na qual

As escolas de samba transformaram-se em empresas, a partir da introdução


do ingresso pago nos ensaios, imprescindível à construção das sedes e à
crescente necessidade de mais recursos para investimento no visual. Inicia-
se a profissionalização do carnavalesco, é uma fase de enredos “abstratos
(BARBOZA, 2013, p.22).

A parcela popular que historicamente perde espaço permanece perdendo


também nas escolas de samba. É "A partir da Fase da Escola de Samba S.A., tanto
quem inventou o samba, as escolas e o desfile, quanto seus herdeiros, foram
ficando excluídos" (BARBOZA, 2013, p.57).
No mundo do samba entre o final da década de 1950 e o começo da década
de 1970, a ênfase é dada aos sambas-enredo de escolas de samba,
157

O período 1958/1972 assistiu ainda ao final da canção carnavalesca


tradicional. Com as gravadoras se desinteressando por este tipo de música,
à medida que aumentavam os custos da produção fonográfica, a marchinha
e o samba de carnaval praticamente desapareceram durante os anos
sessenta, substituídos pelo samba-enredo das escolas de samba
(SEVERIANO; MELLO, 2006, p.17).

Um fenômeno ocorre nas escolas de samba: apesar das mudanças em seus


desfiles,

[...] as chamadas alas técnicas- harmonia, bateria, baianas, crianças- ou


postos técnicos- mestre-sala e porta-bandeira, passistas, puxadores-,
aqueles que asseguram a pontuação alta e a vitória ou a derrota no desfile?
Esses continuam ocupados pelos baluartes ou por elementos de cuja
cultura o samba faz parte, gente que o traz na cultura, na pele e no coração.
Esses representam a alma da escola (BARBOZA, 2013, p.24).

Ocorre que a separação de trabalho intelectual e trabalho “braçal” se


reproduz também no trabalho nas escolas de samba, chamada por Barboza como
“microcosmos da sociedade”, pois “[...] espelha a mesma pirâmide que, se durante
anos se invertia no carnaval, hoje voltou ao formato natural, brancos comandam,
negros trabalham" (BARBOZA, 2013, p.24)54.
O samba afinado às questões vivenciadas na realidade social do povo das
favelas e morros cariocas permanecia, e os sambas-enredos de carnaval são um
claro exemplo de música produzira por este próprio povo, que tinha como principal
tema, a própria história do samba e seus determinantes, como por exemplo, a saga
do povo negro escravizado. E não são poucos: durante a década de 1970 destacam-
se “Festa para um rei negro (pega no ganzê), de Zuzuca- Adil de Paula; “Lapa em
três tempos”, de Ari do Cavaco e Rubens; “Alô, Alô, Taí Carmem Miranda” de Wilson
Diabo, Heitor Rocha e Maneco; “Iluayê (terra da vida)”, de Cabana e Norival Reis;
“Mangueira, minha madrinha querida (Tengo-tengo)”, de Zuzuca; “Boi da cara preta”,
também de Zuzuca; “A festa do divino” de Tatu, Nozinho e Campo; “O mundo melhor
de Pixinguinha”, de Evaldo Gouveia, Jair Amorim e Velha; “Macunaíma” de Norival
reis e David Correira; “Salve a Mocidade”, de Luís Reis; “Sonhar com rei dá leão”, de
Neguinho da Beija-flor; e “Ai que vontade”, de Beto Sem Braço e Dão. Esses são os
samba-enredos identificados como de destaque na fonte utilizada nesta pesquisa. A
maioria das letras tem sua temática na história do povo negro, suas expressões
religiosas, e a história do próprio samba, com exceção para “Alô, Alô, Taí Carmem

54
O “hoje” ao qual a autora se refere trata-se da fase atual das escolas de samba, que ela chama de “Frase do
Sambódromo ou das Grandes Sociedades do Samba”, datada de 1984 até dias atuais. A autora escreveu este
livro em 2013.
158

Miranda” de Wilson Diabo, Heitor Rocha e Maneco, que manifesta o fato da cantora,
fazendo sucesso internacional tenha, levado para todo mundo o samba. A letra diz:
“Uma pequena notável/ Cantou muito samba/ É motivo de carnaval/ Pandeiro,
camisa listrada/ Tornou a baiana internacional”(ALÔ, ALÔ..., 1972).
Mesmo que a letra deste samba enredo não se relacione a história do povo
negro, mas sim de uma intérprete branca que fora conhecida mundialmente, não
deixa de conter elementos de afirmação do próprio samba. A letra traduz como o
samba se torna símbolo nacional brasileiro reconhecido no mundo todo.

3.4 A BOSSA NOVA COMO UM SUBGÊNERO DO SAMBA

Na década de 1950, no interior do desenvolvimentismo e da afirmação sócio


cultural dos países capitalistas sob a América Latina, um dos subgêneros que se
configura é a Bossa Nova. Existe polêmica com relação a consideração da bossa-
nova como samba. Mas diante das diversas e divergentes posições, na perspectiva
desta pesquisa, que compreende o samba como expressão artística musical e
dialética, com toda a complexidade da relação entre “conformismos e resistências”,
opta-se por inserir a bossa-nova como um subgênero do samba. Esta opção funda-
se, também, na influência da formação no curso de História da Música Popular
Brasileira realizado pela FUNART em 2018, na qual esta foi claramente a
perspectiva do professor, confirmada em contatos posteriores, com o mesmo, a
respeito do tema.
Também cabe a reflexão de que a Bossa Nova, que mistura o samba com o
jazz, congrega dois gêneros que possuem origem africana, pois segundo Barboza,

No tumultuado acender do século XXI, tudo isso poderia dizer do rock e os


assemelhados blues, reggae, rap, funk, rumba, tango, samba, jazz e outros
menos votados. Todos esses gêneros não vieram da Europa, mas da
América. Ou melhor, das Américas negras, como as denominou o
antropólogo francês Roger Bastide. A rigor, são músicas negras no ritmo,
que é a carne da música, mas são negras no corpo e, também, na alma
(2013, p.34-35).

Ocorre que "[...] tanto o jazz quanto o samba encontram a sua especificidade
musical na sincopação" (SODRÉ, 1998, p.26). Mas este era um momento em que o
que estava em voga era a importação da cultura de fora e por isso o jazz parece ser
a solução para uma música que tivesse algo de brasilidade, mas com “um pé” nos
Estados Unidos. Era este o momento em que "A preferência da zona sul recaía
159

sobre a produção importada, tanto cultural como comercial. Para materialização


desse anseio, no que diz respeito à MPB, o canal perfeito foi a voz e o violão de
João Gilberto" (BARBOZA, 2013, p.66). O músico é conhecido como o precursor da
Bossa Nova que, segundo músicos, revolucionou a música brasileira, sintetizando o
samba em sua batida de violão, o pontapé inicial foi o lançamento da música “Chega
de saudade”55.
Segundo Wisnik,

A bossa nova (começo dos anos 60): como é sabido de sobra, reprocessa a
batida do samba e a harmonia das canções com influxos do jazz e da
música impressionista, torna as letras mais concentradas e dá um calafrio
camerístico na tradição do canto em dó-de-peito; em suma, precipita sobre
o mercado uma síntese em adensamento das linhas da canção de massa
em vigor no Brasil, da canção erudita internacional do jazz, e cria um novo
padrão de produção técnica, de uso da voz e do violão (João Gilberto),
tendo como cor local o desenvolvimento juscelinista, e instrumentando toda
uma geração surgida na década de 60 (2005, p.31).

É dessa forma que nasce um subgênero do samba que vai misturar


elementos do samba, evidenciando uma aparência importada, que no final das
contas era importada também de povos negros, os negros norte-americanos, que
assim como no Brasil, são descendentes de africanos escravizados.
Tinhorão considera que “[...] o aparecimento da bossa nova na música
urbana do Rio de Janeiro marca o afastamento definitivo do samba de suas fontes
populares” (1986, p.230). Com uma pesquisa sobre a história deste gênero,
considera-se que este é um elemento real do começo deste processo, mas que vai
se transformar dialeticamente, principalmente durante a vigência da autocracia
burguesa erigida com o golpe de 1964.
Durante o curso de canto popular no Festival de Música de Londrina, em
2019, na apresentação sobre a história do canto brasileiro, a professora de Andrea
dos Guimarães relatou que os jovens da classe média carioca, percursores da bossa
nova foram se distanciando da ideia de que deviam evidenciar suas letras sobre as
belezas do Rio de Janeiro e começaram a perceber a importância de se voltarem
para a realidade vivenciada no país, inclusive o cotidiano nas periferias. 56
Foi a partir de 1964, com o golpe que também atinge o mundo da cultura,
que a bossa nova começa a demonstrar suas intenções de buscar suas origens

55
“Chega de saudade” foi composta por Vinícius de Moraes e Tom Jobim no final da década de 1950, foi
gravada por diversos artistas, mas ficou realmente conhecida na voz de João Gilberto em 1958, sendo
conhecido, portanto, como o marco inicial da Bossa Nova.
56
Anotações de aula no Curso de Canto Popular do 39º Festival Internacional de Música de Londrina em 2019.
160

populares: as origens do samba. O show Opinião é um claro exemplo dessa bossa


nova contestatória, ou a chamada “canção de protesto”. O show estreou em
dezembro de 1964, no pós golpe, portanto, importa dizer que é um show que
contesta o regime imposto, não se configurando como aquela bossa nova
simplesmente elitista que não toca nos assuntos políticos e sociais do país. O
compositor Zé Keti 57, que participou do show opinião junto com a cantora Nara Leão
e o músico João do Vale, compôs a música que batizou o show: “Opinião”, que
apresenta-se como uma canção que representa a aproximação da Bossa Nova a
suas raízes populares58, quando manifesta: “Podem me prender/ Podem me bater/
Podem, até deixar-me sem comer/ Que eu não mudo de opinião/ Daqui do morro/ Eu
não saio, não” (OPINIÃO..., 1964). A música, não sem motivos, foi censurada pelo
regime militar.
Nara Leão, mulher, branca, pertencente a classe média carioca, quando se
aproxima das canções de protesto começa a ser ameaçada, ao que cabe muito bem
ao trecho do samba já citado: “Fale de mim quem quiser falar/ Aqui eu não pago
aluguel/ Se eu morrer amanhã, seu doutor/ Estou pertinho do céu” (OPINIÃO...,
1964). Ao ouvir a interpretação da cantora, explicita-se sua posição com relação à
aproximação das raízes da música que escolhe produzir, às raízes populares, do
lugar onde não paga aluguel e está “perto do céu”.
Entre o final da década de 1950 e o começo de 1970, assim como no
restante dos outros âmbitos da vida social, inclusive no mundo da cultura, como
observamos acima, houve mudanças também na música popular brasileira.
Segundo Severiano e Mello,

O período 1958/1972 assistiu ainda ao final da canção carnavalesca


tradicional. Com as gravadoras se desinteressando por este tipo de música,
à medida que aumentavam os custos da produção fonográfica, a marchinha
e o samba de carnaval praticamente desapareceram durante os anos
sessenta, substituídos pelo samba-enredo das escolas de samba (2006,
p.17).

De acordo com informações no site "amigosdavilamariana", as ramificações


do samba dos anos 70 podem ser agrupadas em “[...] samba de raiz, samba de
partido alto, samba de breque, samba sincopado, maxixe, samba-rock, samba
57
Zé Kéti, batizado como José Flores de Jesus nasceu no Rio de Janeiro em 1921. Compôs sambas conhecidos
como “A voz do morro”, “Opinião”, “Acender as velas” e foi parceiro de “Diz que fui por aí”. (THOMPSON, 2020).
Disponível em <http://www.mpbnet.com.br/musicos/ze.keti/>. Acesso em 28 de jan. de 2020.
58
Essa é uma interpretação da própria autora desta dissertação que se configura como uma interpretação
artística de canto, mas que pode se diferenciar da intenção da canção que retrata a vida da população nas
favelas e morros cariocas, como apontou o professor Marcelo Braz em seu parecer de avaliação de dissertação.
161

enredo, bossa nova, samba exaltação, afro samba, samba de morro, samba de roda
e samba canção” (AMIGOS DA VILA MARIANA, 2018).
E foi assim, diante de suas transformações, que o samba foi transitando
entre caminhos de conformismo e resistência. Segundo Wisnik, “Sobre o batuque
coletivo do samba foi se desenhando o melos individual do sambista que canta com
malícia e altivez a sua condição de cidadão precário, entre a “orgia” e o trabalho,
numa dialética da ordem e da desordem” (2005, p.29).
Apesar do samba, só ser reconhecido pelas classes dominantes quando se
aproxima da cultura europeia59, pois enquanto apenas expressão dos modos de vida
dos povos marcados pela dominação colonial e escravista, ele é desprezado;
observa-se a resistência dos elementos dessa cultura que até os dias atuais
consegue expressar o cotidiano das classes populares, mesmo tendo incorporado e
reproduzir valores conservadores, haja vista a dialética contraditória entre
conformismos e resistências.

3.5 SAMBA NA DÉCADA DE 1970: MAIS RESISTÊNCIA DO QUE CONFORMISMO

Conforme explicado nos procedimentos metodológicos, foi construído um


mapeamento das tendências críticas ou conservadoras para uma primeira
aproximação às expressões dessa dialética nas letras de samba dos anos de 1970.
O mapeamento se expressa no quadro abaixo:

59
E como apontou o professor Marcelo Braz em seu parecer de avaliação, só podemos falar em samba quando
se deu a aproximação da cultura africana resistente com algumas expressões da música europeia, 2020.
162

Quadro 01 – Samba: Entre tendências críticas e/ou conservadoras

Períodos Tendências críticas Tendências Conservadoras Tendências Críticas e


Conservadoras

1970  Apesar de você  Coqueiro verde  Madalena

1971  Construção  Desacato  Boêmio Demodê


 Cotidiano  Independência ou  Você Abusou
 Festa para um morte
Rei Negro- Pega
no Ganzé

1972  Oração de mãe  Você não entende  Boêmio 72


menininha nada60
 Partido Alto
 Bala com Bala
 Das duzentas
pra lá
 Ilu Ayê- terra da
vida

1973  Eu bebo sim  Ninguém tasca;

1974  Abre alas  Disritmia  Canta, canta, minha


 Acorda Amor gente
 E lá vou eu
 Errare Humanum
 Menino Deus

1975  De frente pro  Charlie Bronw


crime  Fato consumado
 Modinha para  Além do horizonte
Gabriela
 Vai levando
 Argumento
 Macunaíma
 Mestre sala dos
mares
 Nó da madeira

1976  Gota D’água  Você não passa de  Nem ouro, nem prata
 Juventude uma mulher
Transviada  Xica da Silva
 O que será?
 Canto das três
raças
 Meu caro amigo
 Mulheres de
Atenas
 O mundo é um
moinho

60
Esta letra gerou bastante dúvida. Destaca-se a rotina de uma esposa que cumpre seus papéis submissos a
seu marido, mas o personagem expressa “Eu quero é ir-me embora” e essa frase fez emergir uma dúvida se ele
está se referindo à crítica a rotina extenuante do trabalho e da sociabilidade burguesa ou se o seu “ir embora” é
direcionado à vida de casado. Até o momento da conclusão da dissertação, optou-se por caracterizá-la com
tendências conservadoras, por acreditar que se trata de um homem desabafando seu descontentamento com
sua companheira, que apesar de lhe servir, parece lhe causar tédio, colocando a mulher numa condição de mera
realizadora de suas vontades, sem ela própria ter as suas.
163

 Pecado Capital
 Mineira

1977  Barra pesada  Menina dos


 Saco de Feijão cabelos longos
 Oi, compadre
 Morte de um
poeta

1978  Homenagem ao  O amor não é


malandro brinquedo
 Sampa  Assobiar e Chupar
 Guerreira cana
 Querelas do  Mundo Bom
Brasil

1979  O bêbado e a
equilibrista
 Senhora
Liberdade
 Desesperar
jamais
 Pega eu

Fonte: o próprio autor

Observa-se uma grande quantidade de sambas lançados durante o período


da autocracia burguesa nos quais as temáticas, a princípio, se relacionam com
temas românticos ou que não expressem suas posições ideológicas ou políticas; ou
então, que traduzam um sentimento de conformismo e esperança de que “a vida vai
melhorar”, basta viver em harmonia, sem lutas. Segundo Fiuza, em

[...] 1975, enquanto a repressão estava a todo vapor, o fundo sonoro era
feito pelo "sambão-jóia" de Benito de Paula e seu amigo "Charlie Brown"; do
"Pôxa", de Gilson de Souza; e de Agepê (1942-1995) e seu "Moro onde não
mora ninguém". Outro grande sucesso foi o samba de Martinho da Vila,
"Canta, canta minha gente", que dizia: " Deixa a tristeza pra lá/ Canta forte,
canta alto/ Que a vida vai melhorar" (2001, p.106).

A seguir, construiu-se outro quadro dos sambas que não compõem o objeto
desta pesquisa. Ou seja, não foi possível analisar quais tendências eram as
predominantes em suas letras: críticas e/ou conservadoras. Faz parte desse quadro
dois grandes grupos. Um primeiro é composto por sambas cujas letras voltam-se a
temas que giram em torno do próprio samba e que em tal centralidade não revelam
tendências críticas ou conservadoras ou apresentam tais tendências de forma
sincrética. O segundo grupo deste quadro compõe os sambas cujas letras voltam-se
a subjetividade dos compositores, de tal forma que dificultam a análise das
164

tendências valorativas de uma dada sociabilidade. Um exemplo são os que giram


em torno de expressões de afetos vivenciados em relações pessoais.

Quadro 2 - Letras com tema central sobre o samba e que não apresentam tendências críticas e/ou
conservadoras de forma sincrética

Períodos Tema central: Samba Não serão utilizados

1970  Foi um Rio que passou em  É de lei


minha vida  Tudo se transformou
 Meu laiá, raiá  Vou deitar e rolar

1971  Ê, baiana  Tarde em Itapoã


 Lapa em três tempos  Mudei de ideia
 A tonga da mironga do cabuletê

1972  Alô, Alô, taí, Carmem Miranda  Águas de março


 Alô, fevereiro  Fio Maravilha
 Esperanças Perdidas  Acontece
 Mangueira, minha madrinha  Besta é tu
 A dança da solidão
 Regra três

1973  Estácio, Holly, Estácio  Naquela mesa


 Folhas Secas  Quando eu me chamar saudade
 Retalhos de Cetim
 Orgulho de um sambista
 Porta Aberta
 Tristeza, pé no chão

1974  Boi da cara preta  Conto de Areia


 A festa do divino  Quantas lágrimas
 O mundo melhor de Pixinguinha  Os alquimistas estão chegando
 Alvorecer
 Disfarça e chora
 Silêncio da madrugada
 Samba da volta
 Se não for amor
 Toró de lágrimas

1975  Estrela de Madureira  O mar serenou


 Kid Cavaquinho  Beleza que é você mulher
 Salve a Mocidade  Filho da véia
 Mil e oitocentas colinas
 Moro onde não mora ninguém
 Mulher brasileira
 Na beira do mar
 Sem açúcar
 Turbilhão

1976  Meninos da Mangueira  As rosas não falam


165

 Não deixe o samba morrer  Acreditar


 Sonhar com rei, dá leão  Incompatibilidade de gênios
 O surdo  Moça criança
 A paz que nasceu em mim
 Peito Vazio
 Vai ficar na saudade
1977  Flor de Lis
 Conto até dez
 Ilha de Maré
 Liberdade
1978  Ai, que vontade
 Proposta amorosa
 Sufoco
 Todo menino é um rei
1979  Meu Drama
 Sonho meu
 Vou festejar
 Barrigudo
 Coisinha do pai
 Na linha do mar
 Tô voltando
 Vazio

Fonte: o próprio autor

Apesar da não utilização desses sambas na análise desta pesquisa,


compreende-se que suas letras podem expressar uma resistência cultural, pois,
como mencionado, a persistência da síncopa no gênero musical é um elemento de
resistência da cultura negra perante as transformações que sofre durante sua
história, elemento que também se apresenta em outros gêneros. Para exemplificar
esse fato, citam-se as reflexões sobre o samba tradicional carioca, outras vertentes
do gênero possuem a característica de que Sodré argumenta:

No samba tradicional carioca, a frequente louvação (por muitos considerada


alienante) de aspectos da vida no morro pode ser entendida como a
referência a um dispositivo simbólico capaz de minar o sistema de valor da
cultura dominante (1998, p.64-65).

Explica-se isso, pois "O samba, como o mito negro, nos conta sempre uma
história" (SODRÉ, 1998, p.61). E a forma como essa história é contata tem
centralidade, pois "[...] o modo como se conta tem primazia, rege os conteúdos
narrados" (SODRÉ, 1998, p.61).
Não se afirma que apenas o fato da persistência da síncopa signifique que o
samba reproduz apenas valores críticos; mas a existência deste elemento de
resistência pode evidenciar uma cultura contra hegemônica, que por si só, indica
novas formas de sociabilidade e a construção de uma moralidade diferenciada
166

daquela sustentadora da ordem burguesa e no momento da autocracia,


sustentadora de seu regime autoritário.
Com os dados organizados nas tabelas acima, foram construídos gráficos
para evidenciar aspectos de suas letras que revelam tendências críticas,
conservadoras ou com ambas as tendências que aparecem de forma sincrética:

1- Gráfico 1: Década de 1970 (1970 – 1979)

Fonte: o próprio autor

E posteriormente, nos seguintes gráficos, observa-se como esta relação se dá


a cada ano:

2- Gráfico 2: Ano de 1970

Fonte: o próprio autor

3- Gráfico 3: Ano de 1971


167

Fonte: o próprio autor

4- Gráfico 4: Ano de 1972

Fonte: o próprio autor

5- Gráfico 5: Ano de 1973

Fonte: o próprio autor

6- Gráfico 6: Ano de 1974

Fonte: o próprio autor

7- Gráfico 7: Ano de 1975


168

Fonte: o próprio autor

8- Gráfico 8: Ano de 1976

Fonte: o próprio autor

9- Gráfico 9: Ano de 1977

Fonte: o próprio autor

10- Gráfico 10: Ano de 1978

Fonte: o próprio autor


169

11- Gráfico 11: Ano de 1979

Fonte: o próprio autor

Após o mapeamento dessas tendências, elegeram-se alguns eixos de


análise para identificar valores que aparecem nas letras de samba da década de
1970 que podem revelar, na dialética entre conformismo e resistência, maior
proximidade de uma ou outra dentre tais tendências. São as seguintes: Ênfase em
diversas formas de luta e resistência à ordem vigente; Formas diversas de denúncia
da realidade social; afirmação de um tripé central no ideário conservador: Tradição,
Família e Propriedade, ou crítica a esta relação; Expressões que tendem a convergir
para apologia à necessária harmonia social; Ênfase na laicização em expressões
diversas de religiosidade ou afirmação rígida da tradição judaico cristã; Afirmação de
preconceitos de classe, gênero ou raça ou, ao contrário o reconhecimento de
valores e/ou crítica a tais preconceitos.
A partir destes eixos, elegeu-se, em cada ano, letras de samba que as
evidenciam, lembrando-se que tais eixos se entrecruzam porque expressam
mediações de uma mesma realidade, ainda assim, optou-se por organizar a
pesquisa a partir de cada um deles.
O primeiro eixo que orientou a análise de conteúdo das letras do samba
refere-se à ênfase em formas diversas de luta e resistência à ordem vigente. É a
partir dela que é analisada a letra do samba lançado em 1975, de autoria de João
Bosco e Aldir Blanc, dois compositores que não possuem origem nas favelas
cariocas, mas que buscam expressar criticamente a realidade que observam: “O
mestre-sala dos mares”. Contando a história da revolta de João Cândido, marinheiro
que liderou a luta contra as penas de chibatadas, os compositores tiveram a letra
censurada, pois tratava-se de uma história contada por outro viés que não aquele
dos meios formais. Segundo Barboza a censura da década de 1970 proibiu “[...] que
se acoplasse ao nome de João Cândido o título de "almirante", que teve de ser
170

substituído por "navegante", com a desculpa racista: Na Marinha não existe


almirante negro!” (2013, p.87).
Depois de censurada, os compositores mudam a letra do samba com a
substituição do título de almirante para navegante, não deixando de ressaltar João
Candido com um dos personagens de destaque em escolas de samba, o Mestre-
sala: “Há muito tempo nas águas da Guanabara/ O dragão no mar reapareceu/ Na
figura de um bravo feiticeiro/ A quem a história não esqueceu/ Conhecido como
navegante negro/ Tinha a dignidade de um mestre-sala” (O MESTRE..., 1975).
A letra também exalta as lutas do marinheiro que “[...] ousou questionar os
regulamentos da Marinha” (BARBOZA, 2013, p.79). As condições de trabalho dos
marinheiros não acompanhavam a evolução tecnológica e moderna, o que resultou
na conhecida Revolta da Chibata, nome que indica a motivação da contestação
sobre a penalidade de chibatadas que esses trabalhadores recebiam. A luta liderada
por João Candido tocava em um componente do racismo estrutural, assim

Ao lutar pela extinção de uma pena infame - castigar marinheiros com


chibatadas, como se faziam aos escravos - João Cândido quis apenas
restabelecer a dignidade sem a qual todos os regimes políticos e todas as
organizações econômicas nada mais são que palavras, mentiras, ruídos,
nada (BARBOZA, 2013, p.86).

Dignidade que, apesar de não tocar diretamente na questão estrutural do


modo de produção capitalista, tocava em um de seus fundamentos estruturais: o
racismo.
Além de contar a história de João Cândido, a letra do samba refere-se no
geral às “lutas inglórias”. Segue-se: “Glórias a todas as lutas inglórias/ Que através
da nossa história/ Não esquecemos jamais/ Salve o navegante negro/ Que tem por
monumento/ As pedras pisadas do cais” (O MESTRE..., 1975). Afirmando a
importância dessas lutas para a história do país. Embora censurada, a letra continua
contendo fortes tendências críticas, pois continua evidenciando uma história contada
a partir de uma perspectiva mais crítica.
Não há como deixar de apontar um sutil detalhe machista e racista no uso
do termo “mulatas”, já que hoje sabe-se que o termo se refere pejorativamente a
mulher negra que era forçada a desempenhar um papel sexual na sociedade
escravista colonial. O trecho analisado é o seguinte: “Glória aos piratas, às mulatas,
às sereias” (O MESTRE..., 1975).
171

Optou-se, nesta pesquisa, em observar que as tendências que as


composições têm de expressar valores críticos e/ou conservadores ocorrem de
forma dialética. A composição acima contém a tendência crítica, apesar de usar o
termo “mulata”. Cabe observar que a composição é de 1975, donde o debate racial
ainda não tinha alcançado patamares onde se encontra hoje.
A ênfase nas lutas inglórias aparece também em outro samba de 1976:
“Canto das Três Raças”, da dupla de compositores Mauro Duarte e Paulo César
Pinheiro. Ao contrário da apologia conservadora ao mito da democracia racial, a
letra explicita:

Ninguém ouviu/ Um soluçar de dor/ No canto do Brasil/ Um lamento triste/


Sempre ecoou/ Desde que o índio guerreiro/ Foi pro cativeiro/ E de lá
cantou/ Negro entoou/ Um canto de revolta pelos ares/ No Quilombo dos
Palmares/ Onde se refugiou/ Fora a luta dos Inconfidentes/ Pela quebra das
correntes/ Nada adiantou/ E de guerra em paz/ De paz em guerra/ Todo o
povo dessa terra/ Quando pode cantar/ Canta de dor/ E ecoa noite e dia/ É
ensurdecedor/ Ai, mas que agonia/ O canto do trabalhador/ Esse canto que
devia/ Ser um canto de alegria/ Soa apenas/ Como um soluçar de dor (
CANTO..., 1976).

Além de trazer à memória o sofrimento do povo negro escravizado no


período da colonização, estendido à contemporaneidade, revela a denúncia do
sofrimento do trabalhador brasileiro, tal como se observa na conclusão: “Todo povo
desta terra, quando pode cantar, canta de dor” (O CANTO..., 1976).
Destacam-se também neste eixo muitas das composições de Chico Buarque
de Hollanda. Tal fato deve-se a vários fatores, dentre eles o volume da obra do
compositor, e as suas artimanhas para driblar a censura das composições no
período da autocracia burguesa da década de 1970, facilitadas, talvez por sua
condição socioeconômica. Nos anos analisados, dentre as letras de sambas do
compositor, seis delas fazem a crítica à centralidade do poder, algumas diretamente
ao regime militar e seus presidentes.
É relevante dizer que esse compositor é um homem branco, nascido em
1944 no Rio de Janeiro, filho do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda
e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim, de classe média alta; não há como negar
que seu lugar no mundo é de um privilégio comparado aos compositores moradores
de comunidades e favelas cariocas. Ao afrontar o regime, o que poderia lhe ocorrer
era no máximo o que de fato ocorreu, o exílio. Mas, que bom que neste lugar de
privilégio, o compositor foi capaz de questionar a ordem e não se unir ao que, por
tendência, sua classe faria. Por esse motivo, o fato de sua origem e história não se
172

remeter ao popular, não desqualifica toda sua obra e a contestação que reproduziu
durante os duros anos da autocracia burguesa no Brasil e na América Latina. 61
Já no início da década, sobressai o destaque entre suas composições no
samba “Apesar de você”. A canção foi lançada num momento de pós promulgação
do AI-5, quando a censura ocorria de forma institucionalizada. Mas Chico Buarque
conseguiu passar pelos censores e a lançou, sendo apenas posteriormente
percebida a mensagem que realmente desejava manifestar. O “você” do samba
refere-se ao presidente Médici, e “minha gente” se refere à classe de músicos, que
com “Todo esse amor reprimido/ Esse grito contido/ Esse samba no escuro”
(APESAR..., 1970), vislumbrava chegar o momento em que veria acabar o seu
sofrimento. O recado ao presidente Médici e à censura foi o de que iria chegar o dia
em que não precisariam conceder a licença para que os artistas pudessem se
expressar: “você vai se amargar, vendo o dia raiar, sem lhe pedir licença”
(APESAR..., 1970). E neste futuro esperançoso como então o presidente e todos
seus companheiros militares iriam se “se explicar, vendo o céu clarear, de repente,
impunimente? Como vai abafar nosso coro a cantar na sua frente?” (APESAR...,
1970). O coro das vozes dos inconformados já aparecia idealizado no início da
década.
A relação que se faz das composições que criticam o regime autocrático
com a crítica e resistência ao conservadorismo é a de que nessas composições são
questionados valores conservadores tais como a centralidade do poder, o poder
autoritário, e a defesa da ordem social sobre o aumento das desigualdades.
Em “Vai levando”, Chico aponta para a persistência diante da situação:
“Mesmo com o nada feito/ Com a sala escura/ Com um nó no peito/ Com a cara
dura/ Não tem mais jeito/ A gente não tem cura” (VAI LEVANDO..., 1975). A canção
também traduz o desespero de uma mulher que fora abandonada.
O uso do lugar “sala escura”, parece referir-se à sala de tortura dos porões
do regime autocrático. Também em “Gota d’água” o compositor parece explorar as
sensações de alguém esgotado fisicamente por uma sistemática tortura:

Já lhe dei meu corpo, minha alegria/ Já estanquei meu sangue quando
fervia/ Olha a voz que me resta/ Olha a veia que salta/ Olha a gota que falta
pro desfecho da festa/ Por favor/ Deixe em paz meu coração/ Que ele é um
61
Em 2019, Chico Buarque se tornou o primeiro músico a receber o Prêmio Camões, premiação dada na
literatura portuguesa. Então o atual presidente Jair Messias Bolsonaro, a ilustração do conservadorismo
brasileiro do atual momento e defensor de um dos principais torturadores da autocracia burguesa erigida com o
golpe de 1964, se recusou a assinar o diploma de premiação.
173

pote até aqui de mágoa/ E qualquer desatenção, faça não/ Pode ser a gota
d'água (GOTA..., 1976)

E alenta para a “voz que me resta” daqueles que se colocam contra as


atrocidades do regime militar.
Na letra de “Acorda amor”, a história contada pelo compositor se dá numa
situação de apreensão sob o risco de uma futura prisão que em um determinado
momento da história se torna realidade. A frase “Chame o ladrão”, situa a escolha do
compositor ao se colocar do lado dos contraditores, em um momento no qual a
defesa da ordem era fundamental. Há a defesa da propriedade privada centrada da
propriedade individual, mesmo assim o personagem da história clama por chamar o
ladrão, aquele que toma para si a propriedade. Em outra canção que não é samba,
mas que cabe mencionar, o autor também situa essa sua escolha ao lado dos
contraventores:

Minha história é esse nome que ainda hoje carrego comigo/ Quando vou bar
em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo/ Os ladrões e as amantes, meus
colegas de copo e de cruz/ Me conhecem só pelo meu nome de Menino
Jesus (MINHA..., 1974).

O compositor coloca lado a lado os colegas de copo e de cruz, os ladrões e


as amantes ao menino Jesus. A escola de samba Estação Primeira de Mangueira
desfilou em 2020 com o samba enredo “A verdade vos fará livre”. A letra do samba
relembra a origem pobre e trabalhadora de Cristo, assim levam até a avenida seu
protesto contra as atrocidades contra o povo da comunidade, também afirmando a
sua posição ao lado de uma classe: “Seu nome é, Jesus da gente” (A VERDADE...,
2020).
Outra forma de resistência à ordem vigente é a denuncia, em plena
autocracia burguesa, que aparece na letra do samba “Das duzentas pra lá” de João
Nogueira. O compositor faz uma contestação à apropriação das riquezas e fontes
naturais brasileiras por países que submetem o Brasil a seu monopólio econômico; o
que ocorre desde a colonização e permanece até a contemporaneidade. O
personagem popular da história manifesta:

Obrigado seu Doutor pelo acontecimento/ Vai ter peixe camarão/ Lagosta
que só Deus dá/ Pego bem a sua ideia/ Peixe é bom pro pensamento/ E a
partir desse momento/ Meu povo vai pensar/ Esse mar é meu/ Leva seu
barco pra lá desse mar (DAS DUZENTAS..., 1972).
174

A manifestação de que “meu povo vai pensar” e “esse mar é meu” reforça
que aquele povo assume as rédeas de sua história demonstrando sua capacidade
pra tomar suas próprias decisões, sem precisar de uma “tutela” que o faça, ou de um
líder autoritário que saiba tomar as decisões por este povo. A história do samba
também expressa essa defesa, quando, desprovidos de formação clássica musical,
os moradores das comunidades, morros e favelas, produzem a música
organicamente vinculada às suas condições de vida; como expressa Cartola na
canção “Sala de Recepção”, já citada, não apontada na listagem utilizada nesta
pesquisa, mas que foi lançada no mesmo período de análise. A canção afirma sobre
um lugar (comunidade da Mangueira) onde uma gente “tão simples e pobre/ que só
tem o sol que a todos cobre” (SALA..., 1976), pode cantar.
Ivan Lins e Vitor Martins também fazem parte de compositores de destaque
neste eixo analítico. Em 1974 lançam “Abre Alas”. A letra inicia com uma situação
ideal de liberdade cultural e artística: “abre alas pra minha folia/ já está chegando a
hora/ abre Alas pra minha bandeira/ já está chegando a hora” (ABRE..., 1974); mas
parece ir esmorecendo na medida em que se lembra das condições reais, e
aconselha:

Apare os teus sonhos que a vida tem dono/ E ela vem te cobrar/ A vida não
era assim, não era assim/ Não corra o risco de ficar alegre/ pra nunca
chorar/ A gente não era assim, não era assim/ Encoste essa porta que a
nossa conversa não pode vazar/ A vida não era assim, não era assim/
Bandeira arriada, folia guardada/ pra não se usar (ABRE..., 1974).

A conversa não poderia vazar alude ao risco da intervenção militar. Era


então o momento de arriar as bandeiras levantadas.
Um segundo eixo, que é utilizado para análise dos sambas, é denominado
de formas diversas de denúncia da realidade social. Ele se expressa no samba de
Paulinho da Viola, em “Pecado Capital”, no qual o compositor faz a crítica a
comportamentos que, empiricamente, são observáveis na sociabilidade burguesa
que constrói valores associados à defesa da acumulação de capital. Ele apresenta
contrapontos a esta dinâmica ao evidenciar o vazio existencial humano, que tem no
“poder de compra” o horizonte de uma vida com qualidade. E faz o alerta que “a
grandeza se desfaz, quando a solidão é mais, alguém já falou” (PECADO..., 1976).
Também faz a crítica ao individualismo que esta sociabilidade reproduz: “Mas é
preciso viver/ E viver não é brincadeira não/ Quando o jeito é se virar/ Cada um trata
de si/ Irmão desconhece irmão/ E aí dinheiro na mão é vendaval/ Dinheiro na mão é
175

solução/ E solidão” (PECADO..., 1976). O mesmo dinheiro na mão que,


aparentemente, soluciona problemas, causa o sentimento de solidão pelo significado
individualista do consumo, do ter acima do ser.
A autocracia burguesa, durante a década de 1970, buscou camuflar suas
contradições sociais sob a propaganda de um país que não parava de evoluir e,
além da censura sobre as expressões artísticas que denunciavam os determinantes
por trás desta realidade, buscava ilustrar isso com as vitórias no esporte do
conhecido como o país do futebol. As letras de sambas ora denunciam, ora
reproduziam a necessária euforia associada ao “Brasil campeão”.
A composição “De frente pro crime” de João Bosco e Aldir Blanc, outros dois
compositores importantíssimos no quesito de crítica durante o período, relata a
história vivenciada no país, quando diante da grande desigualdade social, da
repressão e violência, ao passo que o que evidenciava-se no país era “a foto de um
gol”:

Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez de rosto a foto de um gol/ Em vez


de reza uma praga de alguém/ E um silêncio servindo de amém/ O bar mais
perto depressa lotou/ Malandro junto com trabalhador/ Um homem subiu na
mesa do bar/ E fez discurso pra vereador/ Veio o camelô vender anel/
Cordão, perfume barato/ Baiana vai fazer pastel/ E um bom churrasco de
gato/ Quatro horas da manhã baixou/ Um santo na porta-bandeira/ E a
moçada resolveu parar/ E então.../ Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez
de rosto a foto de um gol/ Em vez de reza uma praga de alguém/ E um
silêncio servindo de amém/ Sem pressa foi cada um pro seu lado/
Pensando numa mulher ou num time/ olhei o corpo no chão e fechei/ minha
janela de frente pro crime (DE FRENTE..., 1975).

Sobre essa composição, Fiuza comenta que

A letra tem um viés jornalístico, descrevendo a indiferença ante a mais um


crime na periferia: “Tá lá o corpo estendido no chão/ em vez de um rosto
uma foto de um gol/ em vez de reza uma praga de alguém/ e um silêncio
servindo de amém.” A impressão é que a dupla está, realmente, prostrada
numa janela observando a situação. Tem um cenário típico de periferia: bar,
camelô, churrasco de gato, pastel, escola de samba, religião afro-brasileira
(baixou o santo). Não há como não se reportar aos bairros mais pobres.
Nestas cenas de assassinato, certamente, os transeuntes buscam logo
saber se é um conhecido, se não for, é apenas mais um. É uma imagem
recorrente: um morto, um jornal cobrindo-o (com a foto de um gol) e talvez
no outro dia sua foto saia no jornal para vender mais exemplares. Ao morto,
em vez de uma reza, uma praga de alguém. Vencida a curiosidade, tudo
volta ao normal e já se pensa numa mulher ou num time. Explanação do
óbvio, mas ajuda a refletir sobre o cotidiano do homem da periferia
abordado pela dupla, como bem observa o narrador antes de fechar sua
janela de frente pro crime (2001, p.143).

O futebol foi neste período uma temática bem explorada para camuflar as
atrocidades do regime. Uma composição de samba neste sentido que não entrou na
176

listagem utilizada nesta pesquisa, mas que cabe mencionar é o grande sucesso de
Luiz Américo “Camisa Dez” de 1973. Entre outras canções nesta mesma toada
estão a marcha “Pra frente Brasil”, de Miguel Gustavo em 1970 e “Eu te amo meu
Brasil” no mesmo ano, da dupla Dom & Ravel, as duas relacionam o campeonato de
futebol com o chamado “milagre brasileiro”. Assim

A propaganda oficial passou a martelar o tempo todo slogans como “Este é


um país que vai pra frente”, e “Ninguém segura este país”. Para completar,
o regime, cheio de si, proclamou aos quatro ventos o lema que resumia seu
ufanismo arrogante: “Brasil, ame-o ou deixe-o” (MARTINS, 2015, p.116).

Para não fugir do gênero musical que é foco desta pesquisa, lembra-se que
o compositor e cantor Benito da Paula também menciona o futebol em seu samba
“Assobiar e Chupar Cana”, no trecho “A taça do mundo é nossa, Com brasileiro não
há quem possa” (ASSOBIAR..., 197). A citação é de uma marcha lançada na década
de 195862.
Há de se mencionar, contudo, que não se considera o esporte, ou o futebol,
um mero instrumento de mascaramento das contradições. Atenta-se à existência e
ao protagonismo, no período de vigência da autocracia burguesa da década de
1970, do movimento “democracia corintiana” que Chaui observa: “Se há no futebol,
como vimos, aspectos que o tornam apropriável pelo verde-amarelismo, há nele
também aspectos que o fazem, tacitamente, contestador do verde-amarelo” (1989,
p.102). E foi exatamente no período da autocracia burguesa que segundo a autora

[...] uma pesquisa feita [...] nas principais cidades do país sobre o
desempenho nacional e internacional do futebol, considerado insatisfatório,
revelou o seguinte resultado: 90% dos entrevistados atribuíram o mau
desempenho à militarização do futebol, ao lado de os treinadores oficiais
serem capitães e coronéis do Exército e da Marinha e submeterem os
jogadores, no dizer de um entrevistado, “à disciplina do quartel” (CHAUI,
1989, p.103).

Isso se explica, nas reflexões da autora pelo fato do esporte ter intrínseca
relação com o popular, sendo compreendido como

[...] arte, perícia, habilidade, engenho (uma espécie de métis, no sentido


grego do termo, isto é, inteligência prática e astuta que sabe agarrar o
tempo oportuno porque dotada de rapidez e de golpe de vista), capacidades
que são próprias dos jogadores; mas, ao mesmo tempo, é visto como
conjunto de conhecimentos que todos possuem, jogadores e torcedores.
Dessa maneira, entre o gramado e as galerias se estabelece uma relação
de assimetria (os torcedores não possuem a métis, própria dos jogadores),

62
Marcha composta por Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Victor Dag em 1958 nas
comemorações da vitória na Copa do mundo na Suécia.
177

mas que não se converte em relação de hierarquia (porque todos possuem


igualmente o mesmo saber)” (CHAUI, 1989, p.102-103).

Foi assim que também no futebol, a resistência ao regime surge:

Contra a militarização patriótica do futebol insurgiram-se os jogadores do


clube mais popular do Estado de São Paulo- O Cortinthians Paulista-
criando a democracia corinthiana: os jogadores passaram a interferir nos
treinamentos (contestando os “´técnicos”, quando necessário), recusaram a
chamada “concentração” (recolhimento das equipes ao isolamento absoluto
durante as épocas de campeonatos), elegeram representantes para discutir
e negociar seus interesses com a direção do clube e sobretudo promoveram
eleições diretas da nova diretoria, com voto de todos os associados
(CHAUI, 1989, p.103).

Os próprios jogadores executavam a contestação no micro espaço social


que vivenciavam. Na forma como participava dos campeonatos de futebol o time
consegue comunicar-se como um exemplo de resistência ao restante da sociedade.
Foi assim que “Ao vencer um campeonato estadual e um nacional, a democracia
corinthiana tornou-se um dos símbolos da reivindicação e luta contra a ditadura no
país” (CHAUI, 1989, p.103-104).
Compreende-se que ao lado do “conformismo”, o regime utiliza-se do futebol
e dos investimentos neste para mascarar a desigualdade vivenciada no país, mas,
dialeticamente, num movimento de resistência que ocorre dentro dos clubes se
forjava uma contra hegemonia, um modo de organização contrário ao autoritarismo
militar que lhes era imposto.
Este elemento também aparece no samba “Meu caro amigo”, de Chico
Buarque, quando relata a história de um brasileiro que deseja dar notícias do país
para seu amigo exilado. O primeiro conta que a situação está complicada, mas que
“Aqui na terra tão jogando futebol/ Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll/ Uns
dias chove, noutros dias bate o sol/ Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui
tá preta”63 (MEU CARO..., 1976).
O que se pretende ressaltar no trecho acima é que o compositor brinca com
a repercussão do futebol, do samba, do choro e do rock’n’roll com a demonstração
de que o “ninguém segura esse país” divulgado pelo regime durante o chamado
“milagre econômico”, no fundo se dava encobrindo as “piruetas pra cavar o ganha-
pão” que a população precisava dar no seu dia-a-dia. Mas, os mesmos futebol,
samba, choro e rock’n roll também manifestam a resistência cultural e popular do

63
Hoje se sabe que o uso da expressão “a coisa aqui tá preta” expressa uma concepção racista quando
relaciona a cor preta com uma situação ruim, mas durante a composição está ainda não era uma consciência
presente.
178

que o brasileiro tem feito. A canção faz a denúncia das condições de vida do
trabalhador brasileiro, que necessitava de “muita mutreta pra driblar a situação”
(MEU CARO, 1976).
Outro elemento a ser observado é que a canção é como uma carta, pois
segundo o personagem que a escreve, o “correio andou arisco”, por isso ele se
propõe a: “tentar lhe remeter, notícias frescas nesse disco”. Uma alusão e denúncia
sobre censura nas composições.
Durante a década de 1970, como já explicitado, a cultura foi fortemente
reprimida, além de ser determinada por condições que o regime militar impôs a
levando a transformações. Segundo Napolitano, com o

Ato Institucional n°5, instrumento legal promulgado em fins de 1968 que


aprofundou o caráter repressivo do Regime Militar brasileiro implantado
quatro anos antes, houve um corte abrupto das experiências musicais
ocorridas no Brasil ao longo dos anos 60 (2002, p.1).

Com o AI-5 o rumo da música popular brasileira se direciona, por um lado


pelo crescimento de vertentes de apologia ou “neutras” sobre a sociedade brasileira
e de outro para o fortalecimento crítico (embora este respondido com violência pelo
regime, que o pressiona a sua diminuição). E assim,

Na medida em que boa parte da vida musical brasileira, naquela década,


estava lastreada num intenso debate político-ideológico, o recrudescimento
da repressão e a censura prévia interferiram de maneira dramática e
decisiva na produção e no consumo de canções (NAPOLITANO, 2002, p.1).

Entre as letras que expressam ou denunciam de diversas formas a realidade


social, está também o samba “Eu bebo sim” de Luís Antônio e João Violão, que
exprime uma indignação frente ao julgamento moral no uso do álcool. Para o
personagem cantado no samba, “tem gente quem não bebe e tá morrendo”; tem
muita gente morrendo, de fome, nas mãos da violência policial, ou em torturas nos
porões do regime autocrático. Não é exceção a alusão ao consumo do álcool como
um elemento presente nas composições de samba. Este consumo aparece com
frequência associado à estratégia de sobrevivência da classe trabalhadora frente às
condições péssimas de vida da qual são expostos diariamente.
Outra forma de denúncia da realidade social é a que aprece nas
composições que relacionam o cotidiano de vida da classe trabalhadora, moradora
das favelas e comunidades cariocas não como problemas resultados de falta de
179

caráter, mas determinados pelas condições materiais e imateriais que vivenciam; o


samba “O que será?” de Chico Buarque de 1976, questiona:

O que será, que será?/ Que vive nas ideias desses amantes/ Que cantam
os poetas mais delirantes/ Que juram os profetas embriagados/ Que está na
romaria dos mutilados/ Que está na fantasia dos infelizes/ Que está no dia a
dia das meretrizes/ No plano dos bandidos dos desvalidos/ Em todos os
sentidos.../ Será, que será?/ O que não tem decência nem nunca terá/ O
que não tem censura nem nunca terá/ O que não faz sentido.../ O que será,
que será?/ Que todos os avisos não vão evitar/ Por que todos os risos vão
desafiar/ Por que todos os sinos irão repicar/ Por que todos os hinos irão
consagrar/ E todos os meninos vão desembestar/ E todos os destinos irão
se encontrar/ E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá/ Olhando aquele
inferno vai abençoar/ O que não tem governo nem nunca terá/ O que não
tem vergonha nem nunca terá/ O que não tem juízo (O QUE..., 1976).

As perguntas apresentadas pelo compositor partem da perspectiva de um


questionamento maior: “o que será” que acontecerá quando se ultrapassar a barreira
do aparente e adentrar ao campo da compreensão da essência em suas múltiplas
determinações. E explicita, entre suas respostas: “mesmo o Padre Eterno que nunca
foi lá, olhando aquele inferno vai abençoar” (O QUE..., 1976). Aquele que observa as
múltiplas determinações da realidade, a compreende, para além dos preconceitos
sustentadores da ordem posta, mesmo que seja um símbolo da moralidade cristã,
como por exemplo, um padre.
É possível estabelecer uma relação do desfecho deste samba com o final
da obra de Ariano Suassuna, “O alto da compadecida”. No diálogo de Nossa
Senhora com o João Grilo, quando este conta suas condições em vida, é absorvido
de suas malandrezas. O personagem do filme, quando confessa que sua vida é
uma mentira e por isso merece mesmo ir ao inferno, tem o argumento da Santa: “A
mentira era pra sua sobrevivência, pois era explorado. A esperteza é a coragem do
pobre, A esperteza era a única arma que você dispunha contra os maus patrões” (O
AUTO..., 2000). João Grilo agradece, mas reconhece: “não vivi como um santo”.
Ainda assim a Santa prossegue e volta-se a seu filho advogando pela causa de João
Grilo, mesmo que este já tenha se auto-declarado culpado:

João foi um de nós, meu filho, e teve que suportar as maiores dificuldades
de uma terra seca e pobre como a nossa. Pelejou pela vida desde menino,
passou sem sentir pela infância, acostumou-se a pouco pão e muito suor.
Na seca, colhia macambira, bebia o sumo do xique xique, passava fome, e
quando não podia mais rezava, quando a reza não dava jeito, ele se
juntaram a um grupo de retirantes que ia tentar sobreviver no litoral.
Humilhado, derrotado, cheio de saudade. E logo que tinha notícia da chuva,
pegava o caminho de volta, animava-se de novo, como se a esperança
fosse uma planta que crescesse com a chuva. E quando revia sua terra,
dava graças a Deus por ser um sertanejo pobre, mas corajoso e cheio de fé
180

(O AUTO..., 2000).

A Santa elencou os determinantes sociais, econômicos e culturais de João


Grilo e assim tira de sua responsabilidade a culpa pelas situações de violência que
vivenciou.
Ao contrário desta tendência em retratar aspectos da realidade social,
aspectos conservadores presentes nas letras do samba enfatizam a alegria do
samba como forma de amenizar possíveis dificuldades cotidianas. É o que vemos,
por exemplo, em “Canta, canta minha gente” de Martinho da Vila, letra que à
primeira vista parece apenas expressar valores de conformismo, mas que traz, de
fato, uma relação dialética. Ao passo que manifesta “Canta, canta minha gente,
deixa a tristeza pra lá. Canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar” (CANTA...,
1974), manifestando que é preciso certa aceitação, que só nos resta “cantar” pra
“vida melhorar”; conclui: “Só não dá pra cantar mesmo, é vendo o sol nascer
quadrado” (CANTA..., 1974).
Outro elemento que esta canção demonstra é a tendência do samba de
cantar temas de tristeza ou sofrimento os transformando em comemorações. O
samba pode ou não estar em conformidade com um valor conformista de que é
preciso deixar a tristeza de lado e cantar, dependendo também do que se
compreenderá como de cantar, como trabalho na música, ou sobre o significado da
própria arte: como práxis de transformação ou como mera reprodução do instituído.
Ainda na esteira da denúncia da realidade social, o samba “Barra pesada -
melo da baixada” de Dicró e José Paulo, lançado em 1977, conta a história de um
bairro onde “até ladrão tem medo de ir”, dado o nível de naturalização da violência
vivenciada por conta das estratégias de sobrevivência dos moradores. A letra
expressa

E na semana passada veja o que me aconteceu/ O dente do cara doeu ele


mandou arrancar o meu/ O vizinho que foi receber o auxílio a natalidade/
Chegou um malandro e tomou dizendo que era o pai de verdade/ No lugar
onde moro até ladrão tem medo de ir/ Eta lugar perigoso, igual aquele eu
nunca vi (BARRA..., 1977).

De forma cômica, o compositor acaba por alertar e denunciar que as


condições de vida da população de sua comunidade não estão nada favoráveis para
seus moradores. Por sua vez, outro alerta é o samba “saco de feijão”, de Francisco
Felisberto de Sant’ana, de 1977, questiona a acumulação de riquezas e o poder
181

aquisitivo que resta à classe trabalhadora. Quando o saco de feijão passa a custar
muito mais:

No tempo dos "derréis" e do vintém/ Se vivia muito bem, sem haver


reclamação/ Eu ia no armazém do seu Manoel com um tostão/ Trazia um
quilo de feijão/ Depois que inventaram o tal cruzeiro/ Eu trago um
embrulhinho na mão/ E deixo um saco de dinheiro/ Ai, ai, meu Deus
(SACO..., 1977).

Em meio à tendência crítica deste samba, aparece também um aspecto do


conservadorismo clássico, do qual o horizonte não é o futuro, mas a idealização do
passado como tempo onde realmente as coisas eram boas: “Naquele tempo era
melhor...” (SACO..., 1977). A canção faz crítica à acumulação capitalista, à
transformação do cidadão em consumidor, mas de forma idealista, assim como
faziam os conservadores clássicos que olhavam para o passado vislumbrando o
mundo que desejavam, abominando as transformações. É como se o problema
fosse a “modernização” em si, junto as suas próprias transformações, e não suas
finalidades: a acumulação de riquezas a uma classe possuidora, contraposta ao
aumento da desigualdade social e das mazelas vivenciadas pela classe
trabalhadora.
Já o samba lançado em 1979, “Pega eu” de Criolo Doido, um dos
compositores de Bezerra da Silva, conta um aspecto da realidade social da vida de
uma dada comunidade. A miséria era tanta, que até o ladrão se compadeceu com a
situação e se entregou:

Eu não tenho nada de luxo que possa agradar o ladrão/ só uma cadeira
quebrada, um jornal que é meu colchão/ eu tenho uma panela de barro, e
dois tijolos como um fogão/ O ladrão ficou maluco de ver tanta miséria em
cima de um cristão/ E saiu gritando pela rua pega eu que eu sou ladrão/
(PEGA..., 1979).

A letra demonstra o momento em que o “ladrão” se dá conta de que está “do


mesmo lado” que o morador da casa que pretendia assaltar, expressa-se uma
tomada de consciência de classe frente a observação da realidade vivenciada.
Novamente, ao entrar em contato com as determinações daquela realidade, o
personagem ladrão, assim como “até o Padre eterno vai abençoar” (O QUE, 1976),
perdoa e dispensa sua vítima.
182

Ainda nesse eixo, formas diversas de denúncias da realidade social,


encontram-se outras composições de Chico Buarque como, por exemplo:
Construção (1971), Partido Alto (1972) e Homenagem ao Malandro (1978).
Em “Construção”, Chico Buarque conta a triste história de um trabalhador,
com detalhes sobre seu dia a dia e o sentimento de desilusão que este tem frente
sua condição, que o leva ao extremo cometimento do suicídio como solução. Há
assim, a denúncia do adoecimento mental do trabalhador.
Em 1955, o jornal O Globo lança a campanha “Operário Padrão”, que

[...] tinha como principal objetivo colocar sob os holofotes a figura do


operário. Exaltar a trajetória daqueles que venceram no trabalho pela
disciplina, dedicação e competência. A proposta não era premiar o melhor e
sim escolher um funcionário que representasse a empresa de forma
exemplar. Um trabalhador que tivesse a admiração dos colegas e o
reconhecimento da empresa (TARTAGLIA, 2020).

O prêmio, instituído durante o período da autocracia burguesa, em um de


seus pilares ideológicos, reforça a ideia meritória do “trabalhador que faz por
merecer”. Aquele que não o fez, não conquista um lugar de respeito, gerando o
sentimento de culpa e que tem como uma de suas consequências o seu
adoecimento mental.
Nesta mesma toada está outra composição de Chico Buarque: “Cotidiano”
que expressa o cotidiano de um casal no qual o homem e a mulher cumprem seus
papeis socialmente determinados, e assim vão vivendo, repetindo as mesmas
tarefas domésticas: “Todo dia ela faz tudo sempre igual/ Me sacode às seis horas da
manhã...” (COTIDIANO..., 1971), traduzindo um cotidiano pragmático que freia a
reflexão transformadora enquanto práxis.
Também tem destaque uma composição que traduz as condições de vida de
um trabalhador da arte do morro: “Morte de um poeta”, composta em 1977 por
Totonho e Paulo Resende. Relata-se a história:

Silêncio/ Morreu um poeta no morro/ Num velho barraco sem forro/ Tem
cheiro de choro no ar/ Mas choro que tem bandolim e viola/ Pois ele falou lá
na escola/ que o samba não pode parar/ por isso meu povo no seu
desalento/ começa a cantar samba lento/ que é jeito da gente rezar/ E dizer
que a dor doeu/ que o poeta adormeceu/ como um pássaro cantor/ quando
vem no entardecer/ acho que nem é morrer/ silêncio/ mais um cavaquinho
vadio/ ficou sem acordes, vazio/ deixado num canto de um bar/ mas dizem
poeta que morre é semente/ de samba que vem de repente/ e nasce se a
gente cantar” (MORTE..., 1977).
183

Diante das condições precárias de vida, a morte é celebrada e ao mesmo


tempo lamentada através da música, pois a intenção do defunto era a de que “o
samba não podia parar”. O samba aparece como uma reza e como forma de
eternizar a história do próprio compositor, pois “poeta que morre é semente”.
Ainda nesse eixo, situa-se o samba “Bala com Bala” de João Bosco e Aldir
Blanc de 1972. É uma composição em que se apresenta um expectador em frente a
um filme, momento em que se esquece sua “velha fuga em todo instante” e quanto
lhe “custa dar a outra face”.

A sala cala e o jornal prepara quem está na sala/ Com pipoca e com bala e
o urubu sai voando, manso/ O tempo corre e o suor escorre, vem alguém de
porre/ Há um corre-corre, e o mocinho chegando, dando./ Eu esqueço
sempre nesta hora (linda, loura)/ Minha velha fuga em todo impasse;/ Eu
esqueço sempre nesta hora (linda loura)/ Quanto me custa dar a outra face./
O tapa estala no balacobaco e é bala com bala/ E fala com fala e o galã se
espalhando, dando./ No rala-rala quando acaba a bala é faca com faca/ É
rapa com rapa e eu me realizando, bambo./ Quando a luz acende é uma
tristeza (trapo, presa),/ Minha coragem muda em cansaço./ Toda fita em
série que se preza (dizem, reza)/ Acaba sempre no melhor pedaço (BALA...,
1972).

Segundo Fiuza, nessa canção,

O personagem do "filme de mocinho" e o espectador se confundem, até


mesmo pela velocidade desta canção que, antes de se chamar Bala com
bala, era descrita por João Bosco como "um tiroteio", daí o título. A canção
aponta a passividade do consumidor ante aos meios de comunicação de
massa (2001, p.145).

No entanto, apesar da passividade há a tendência da identificação com o


herói do personagem da canção, pois aquele vivencia no seu dia-a-dia situações
parecidas com o do mocinho. Nas palavras de Fiuza:

Apesar da passividade (a sala cala), o espectador tenderia a se ver no


herói, canalizando assim suas amarguras e revoltas do dia-a-dia, a velha
fuga em todo impasse. Além disso, este envolvimento na história também o
realiza e o confunde com o mocinho: "minha coragem muda em cansaço"
(2001, p.146).

A intenção é demonstrar a passividade que a indústria cultural, a televisão


principalmente, faz com que o expectador observe a realidade social por ele mesmo
vivida, de tão próxima dele o faz se confundir com o personagem do “filme”, porém o
coloca apático, sem reação frente ao que tem acontecido.
Outra forma de crítica que não é diretamente a denúncia da realidade social,
mas uma crítica ao próprio movimento cultural refere-se às composições com letras
que fazem a crítica à própria condição da cultura relegada à uma pequena parte de
184

compositores mais intelectualizados. Em “Você Abusou”, Antonio Carlos Marques e


Jocafi, com um letra despretensiosa sobre questões afetivas é finalizada em uma
frase que traduz essa crítica: “Se o quadradismos dos meus versos/ Vai de encontro
aos intelectos que não usam/ O coração como expressão” (VOCÊ ABUSOU...,
1971). A Expressão “quadradismo” refere-se à tendência tradicional rítmica do
samba, contraposto a novas tendências de fazer samba advindos nos âmbitos
intelectuais da classe média carioca. Além disso, os compositores afirmam que
temas, considerados meramente “afetivos” e caracterizados alheios à realidade
social, podem expressar valores contrários aos que “não usam o coração como
expressão” (VOCÊ ABUSOU..., 1971). É preciso enfatizar que, nesta pesquisa
optou-se por selecionar as canções que expressam os valores conservadores e/ou
críticos de forma direta, o que não quer dizer que diferentes olhares com outras
perspectivas encontrariam nas outras letras, traduções desses valores.
O terceiro eixo para análise das letras de samba refere-se à ênfase na
relação Tradição, Família e Propriedade, ou a sua crítica. O primeiro samba
destacado para a análise a partir deste eixo é “Argumento”, de 1975 com autoria de
Paulinho da Viola. Este samba apresenta uma concepção de “tradição” diferente da
veiculada pela concepção conservadora. Expressando nesta composição, sua
aceitação da transformação do samba, tão criticada por seus contemporâneos,
Paulinho da Viola se recusa à descaracterização do samba como forma de
expressão popular (COUTINHO, 2011, p.165), feita por parte de seus companheiros
no momento, expressando seu descontentamento com as influências diversas que o
samba passa a ter.
Diferente deste posicionamento do compositor, a tradição no pensamento
conservador se dá numa relação de repetição linear das estruturas e preconceitos
de geração a geração, perpetuando a ordem instituída. No conservadorismo
clássico, como salientado, isso ocorre na repetição dos valores rígidos da Igreja
Católica e da Monarquia. No conservadorismo moderno, ocorre a reprodução de
valores de harmonização social da qual os homens necessitam para que a
sociedade permaneça "em ordem". Ao contrário, a concepção de tradição que se
expressa na composição de Paulinho da Viola revela-se uma unidade dialética,
como uma transformação que não se dá por mera assimilação do passado, mas
reconstrói elementos desse passado com aspectos novos que o ultrapassam; o que
se traduz da seguinte forma, no samba de Paulinho da Viola: “Sem preconceito/ Ou
185

mania de passado/ Sem querer ficar do lado/ De quem não quer navegar/ Faça
como um velho marinheiro/ Que durante o nevoeiro/ Leva o barco devagar”
(ARGUMENTO..., 1975).
O marinheiro levando o barco devagar durante o nevoeiro representa as
mulheres e homens que atentos criticamente às mediações do concreto, vão se
reconstruindo e assim reconstruindo seus valores. Trata-se aqui de um
posicionamento contrário ao que se expressa entre expoentes do conservadorismo
clássico que fazem apologia ao passado sem reconhecer as transformações do
próprio movimento histórico, ou do conservadorismo moderno que desconsideram
as grandes transformações, defendendo somente aquelas que servem de
sustentação para a ordem posta: a do capitalismo.
O quarto eixo que orientou análise das letras de samba é referente à ênfase
na laicização em expressões diversas de religiosidade ou a afirmação rígida da
tradição judaico cristã.
Dentre as composições analisadas, observam-se as que se referem à
elementos de expressões de diversas religiosidades e também as que centram-se
na afirmação da tradição judaico cristã. Não é uma regra que as primeiras estejam
vinculadas a aspectos críticos enquanto que as segundas a aspectos
conservadores. Contudo, considera-se que as referências a expressões religiosas
que não se filiam a esta tradição e, que, expressam diversas formas de religiosidade
podem sim sinalizar para o respeito à diversidade religiosa frente à afirmação da
religião imposta.
Sinaliza-se, nesta direção uma das canções de Chico Buarque, “Partido
Alto”, na qual o personagem principal da história questiona o destino traçado por
Deus para ele e a responsabilidade deste seu destino, quando: “Diz que deu, diz que
dá, diz que Deus dará/ Não vou duvidar, ô nega/ E se Deus não dá/ Como é que vai
ficar, ô nega? (...) Deus é um cara gozador, adora brincadeira” (PARTIDO..., 1972).
No senso comum assiste-se à tradicional associação de conquistas às bênçãos
divinas, mas os insucessos são tributados à responsabilidade humana. Esta canção
traz a tona, de forma indireta, a responsabilidade sobre a história humana, ao
mesmo tempo em que chama atenção para a religiosidade em seu aspecto
alienante.
Em “Festa para um rei negro - pega no ganzé”, samba já citado, aparecem
outras formas de religiosidade que questionam a hegemonia da tradição judaico
186

cristã, quando se faz a solicitação para relembrarmos a nossa história e a nobreza


do tempo colonial, mas não pela visão de qualquer rei, mas de um Rei que é negro:
“Hoje tem festa na aldeia/ Quem quiser pode chegar/ Tem reisado a noite inteira/ E
fogueira pra queimar/ Nosso rei veio de longe/ Pra poder nos visitar/ Que beleza/ A
nobreza que visita o gongá” (FESTA..., 1971). Observa-se que esta letra traduz,
além da afirmação de religião de matriz africana, o protagonismo do povo negro
construindo sua história.
Em outras canções também aparecem elementos da religiosidade africana,
como por exemplo, em “Oração de mãe menininha”, de Dorival Caymmi, lançada em
1972. Nela, o compositor faz a seguinte saudação: “a Oxum mais bonita, hein/ Tá no
Gantois/ Olorum quem mandou essa filha de Oxum/ Tomar conta da gente e de tudo
cuidar/ Olorum quem mandou eô, ora iê iê ô” (ORAÇÃO..., 1972).
Em “Errare Humanum”, de Jorge Bem, de 1974, também aparecem
elementos religiosos que por ser contrários à rigidez católica, possibilitam sua crítica.
A própria tradução para o português do título “Errar é humano” já transfere a
responsabilidade dos rumos da história ao próprio homem, pois se errar é humano,
acertar também seria. Assim, o destino não é mera reprodução de obra divina, como
consideravam os conservadores clássicos, influenciadores da construção da
moralidade brasileira e de valores que sustentaram a estruturação do regime
autocrático na década de 1970. A canção de Jorge Bem manifesta um
questionamento sobre a história contada pela própria igreja católica, pois “não
sermos os primeiros seres terrestres” é adverso à tese da criação de Adão e Eva no
paraíso. Segue a letra:

Tem uns dias/ Que eu acordo/ Pensando e querendo saber/ De onde vem/
O nosso impulso/ De sondar o espaço/ A começar pelas sombras sobre as
estrelas-las-las-las/ E de pensar que eram os deuses astronautas/ E que se
pode voar sozinho até as estrelas-las-las/ Ou antes dos tempos conhecidos/
Conhecidos/ Vieram os deuses de outras galáxias-xias-xias/ Ou de um
planeta de possibilidades impossíveis/ E de pensar que não somos os
primeiros seres terrestres/ Pois nós herdamos uma herança cósmica/ Errare
humanum est/ Errare humanum est (ERRARE..., 1974).

No samba “Menino Deus”, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, lançado


em 1974, os compositores associam duas festas com conotações distintas: o Natal e
o Carnaval, uma religiosa e uma profana. A relação se dá pelo fato das duas festas
aparecem na mesma canção não como contraditórias, mas como expressões de
uma mesma sociedade que “faz o carnaval” com a notícia do nascimento de Cristo.
187

A crítica também aparece nas frases seguintes, com atenção para o uso dos termos
“até” e “pareceu”: “A paz amanheceu sobre o país/ E o povo até pensou que já era
feliz/ Mas foi porque/ Pra todo mundo pareceu/ Que o Menino Deus nasceu”
(MENINO..., 1974).
A alusão ao fato do povo “até” pensar que era já era feliz manifesta o
contraste com uma realidade de mazelas que vivenciavam na década de 1970;
aquele era um momento de respiro diante das dificuldades, o nascimento do menino
Deus enchia de sentido suas vidas, que no cotidiano parecia lhes fugir. Mas não é
porque a Igreja diz que é natal, que o mundo para e as coisas se colocam no lugar
como um passe de mágica, e a harmonia se dá, assim como defendiam os
conservadores clássicos, sendo Deus, e por consequência a igreja, o centro do
universo. O responsável por fazer a harmonia imperar seria um ser superior,
enquanto que aos “homens desordeiros por natureza”, era necessário ter alguém ou
alguma instituição que lhes forçasse a preservar a ordem necessária. Neste sentido,
a família e os pequenos grupos comunitários tem uma função essencial de núcleo
da ordem e harmonia.
Em “Modinha para Gabriela” de Dorival Caymmi, de 1975, Gabriela vem ao
mundo sem estar marcada com nada, sem pouco se importar com quem lhe batizou:

Quando eu vim pra esse mundo/ Eu não atinava em nada/ Hoje eu sou
Gabriela/ Gabriela he! meus camaradas/ Eu nasci assim, eu cresci assim/
Eu sou mesmo assim/ Vou ser sempre assim/ Gabriela, sempre Gabriela/
Quem me batizou, quem me iluminou/ Pouco me importou, e assim que eu
sou/ Gabriela, sempre Gabriela/ Eu sou sempre igual, não desejo mal/ Amo
o natural, etecetera e tal/ Gabriela, sempre Gabriela (MODINHA..., 1975).

A imagem de Gabriela é contrária aquela da mulher virtuosa e submissa ao


seu marido, a mulher da família tradicional cristã. Ela é uma mulher que não se
importa com quem lhe batiza ou lhe impõe padrões sociais a cumprir. Gabriela
questiona à ordem de gênero que lhe é imposta. O samba do baiano foi gravado por
uma mulher, também baiana, Gal Costa, que segundo Noleto, foi a “única presença
feminina que atuou no Tropicalismo desde sua gênese até sua provável dissolução”
(2014, p.64). O Tropicalismo, assim como a Bossa Nova, tão criticado por Tinhorão,
fazia uma crítica à moralidade, apesar de revelar fragilidades em relação a seus
fundamentos no materialismo histórico dialético.
Com relação à referência direta a valores cristãos, Roberto Carlos e Erasmo
Carlos lançam “Além do Horizonte” em 1975, gravado originalmente em ritmo de
188

samba. Trata-se de uma canção na qual se apresenta o paraíso prometido, aquele


que Chaui (2001) relata em “Brasil: mito fundador e sociedade autoritária”; o Brasil
da visão dos colonizadores. É a história já dada, não há o que fazer para modificá-la.
A solução é buscar a harmonia social, sem lutas, sem contradições, para que um dia
do futuro, encontremos o paraíso, um “lugar bonito pra viver em paz, onde eu possa
encontrar a natureza, alegria e felicidade com certeza” (ALÉM..., 1975). Assim,
revela-se a afirmação da tradição judaico cristã e aspectos de conformismo à ordem
vigente.
Já em outros dois sambas: “Nem ouro, nem prata” de 1976, composto por
Rui Maurity e José Jorge, e “Guerreira” de 1978, composta por João Nogueira e
Paulo César Pinheiro, há a presença de elementos provenientes de religiões com
raízes africanas. Na segunda, é feita uma homenagem à cantora Clara Nunes64, é
ela a

A tal mineira/ Filha de Angola, de Ketu e Nagô/ Não sou de brincadeira/


Canto pelos sete cantos/ Não temo quebrantos/ Porque eu sou guerreira/
Dentro do samba eu nasci/ Me criei, me converti/ E ninguém vai tombar a
minha bandeira (GUERREIRA..., 1978).

O samba refere-se ao sincretismo religioso do qual as religiões africanas


tiveram que se valer para sua sobrevivência, resultando no que se tornou a
Umbanda:

Salve o Nosso Senhor Jesus Cristo!/ Epa Babá, Oxalá!/ Salve São Jorge
Guerreiro, Ogum!/ Ogunhê, meu Pai!/ Salve Santa Bárbara!/ Eparrei, minha
mãe Iansã!/ Salve São Pedro!/ Kaô Kabesilê, Xangô!/ Salve São Sebastião!
Okê Arô, Oxóssi!/ Salve Nossa Senhora da Conceição!/ Odofiabá, Iemanjá!/
Salve Nossa Senhora da Glória!/ Ora yeyê ô, Oxum!/ Salve Nossa Senhora
de Santana, Nanã Burukê!/ Saluba Bobó!/ Salve São Lázaro!/ Atotô,
Obaluaê!/ Salve São Bartolomeu!/ Arrobobô, Oxumaré! (GUERREIRA...,
1978).

E exalta a opção por sua religião ao lado de um povo também considerado


contraventor, por exemplo, o “povo da rua”, os saldando junto aos pretos velhos,
entidades da Umbanda: “Salve o povo da rua!/ Salve as crianças!/ Salve os preto
velhos!/ Pai Antônio, Pai Joaquim de Angola, Vovó Maria Conga!/ Saravá!/ E salve o
Rei Nagô!” (GUERREIRA..., 1978).
A dupla João Nogueira e Paulo César Pinheiro também homenageia Clara
Nunes em “Mineira”, lançada em 1976, fazendo a mesma exaltação à elementos

64
Clara Nunes nasceu Minas Gerais e “foi a primeira brasileira a ultrapassar a cifra de cem mil discos vendidos,
quebrando um velho tabu reverenciado pelas gravadoras” (SEVERIANO; MELO, 2015, p.182).
189

culturais africanos: “Clara/ Abre o pano do passado/ Tira a preta do cerrado/ Pôe
reio congo no conga/ Anda, canta um samba verdadeiro/ Faz o que mandou o
mineiro/ Oh! Mineira” (MINEIRA..., 1976). Aparece neste trecho referência a outra
obra musical, do ano de 1939 de Ary Barroso: “Aquarela do Brasil”.
O quinto eixo orientador para as análises das letras se refere à ênfase a
expressões que tendem a convergir para apologia à necessária harmonia social.
Segundo Napolitano, é neste período que são impregnadas as canções da MPB de
valores que expressavam a busca pela modernidade e pela justiça, mesmo que para
isso a justiça ficasse cada vez mais restrita, segundo o mesmo autor

[...] as imagens de "modernidade", "liberdade", "justiça social" e as


ideologias socialmente emancipatórias como um todo, impregnaram as
canções de MPB, sobretudo na fase mais autoritária do Regime Militar,
situada entre 1969 e 1975 (NAPOLITANO, 2002, p.3).

Dentre as composições do início da década, está, por exemplo,


“Independência ou morte”, composta em 1971 por Zé Di. Apresenta-se a exaltação
das figuras consideradas os “símbolos da nação” como a princesa Leopoldina e
Dom Pedro. Também relata a contribuição da Maçonaria e de como o príncipe que
se fez imperador “Num gesto de coragem e de amor”, deixando de mencionar que
tudo não passou de mais uma histórica “conciliação pelo alto” para atender aos
interesses das classes possuidoras. O compositor coloca: “Independência ou Morte/
Bom Pedro primeiro bradou/ E o sonho dos brasileiros se concretizou”
(INDEPENDÊNCIA..., 1971), ou seja, a decisão de um monarca coloca a
concretização do sonho dos brasileiros, só esquece de dizer de quais brasileiros
está falando. Também há, neste samba, a referência ao chamado “milagre
brasileiro”, à potência econômica que o Brasil mostrava ter se tornado, camuflando o
abismo social que teve por consequência. O samba reverencia o Brasil gigante: “Oh,
meu Brasil segue avante/ Olha o futuro que lhe espera/ Ninguém segura esse
gigante/ Raiou-se o sol de primavera” (INDEPENDÊNCIA..., 1971). Só resta ao
Brasil, “gigante pela própria natureza” seguir aos rumos do desenvolvimento
meramente econômico.
Adelino Moreira compôs “Boêmio Demodê” em 1971 e “Boêmio 72” em
1972. Os dois sambas referem-se à transformação de um homem boêmio. Em
“Boêmio demodê”, o personagem principal pretende mudar de vida e se enquadrar
aos novos padrões modernos de sociabilidade,
190

Minha seresta/ Não terá pinga na rua/ Não terá luar nem lua/ E nem lampião
de gás/ Porque a lua/ Nesses tempos agitados/ Já não é dos namorados/
Romantismo não tem mais/ Minha seresta/ Nesta era espacial/ Vai se tornar
imortal/ Na voz daquele ou daquela/ Minha seresta/ Vai ganhar placa de
bronze/ Pois nem mesmo apolo onze/ É mais moderno que ela (BOÊMIO...,
1971).

Em “Boêmio 72”, aparece um boêmio que é diferente daquele imaginado. O


Boêmio 72 se assemelha com a figura do “malandro regenerado”:

Que as sete sai pro batente/ E noite vem pro jantar/ Não deixo meu trabalho
pra depois/ Sou boêmio setenta e dois/ Quem quiser pode imitar/ Não faço
apologia ao botequim/ E só bebo umas e outras/ Quando a coisa está pra
mim/ Mudei e mudei para melhor/ Não é qualquer ré menor/ Das cordas de
uma viola/ Que me faz perder a trilha/ Que me faz mudar o rumo/ Viola e
amor/ Eu tenho em casa pra consumo/ Resumo/ Agora minha transa é
diferente/ Tenho amor e muita paz/ Podes crer sou muito gente/ Mas o
mesmo visionário/ Somando estrelas na mão/ Sempre na minha com aquela
curtição/ Morou/ Bom mesmo, é ser boêmio como sou (BOÊMIO..., 1972).

É o boêmio, ou o malandro que não fica mais “à toa”, trabalha, segue a


rotina que lhe é imposta. O boêmio ou o malandro desses tempos desejava “entrar
nos eixos”, não queria ser relacionado ao contraventor, e neste ponto se vê a
diferença entre esse tipo de composição com tendências conservadoras em relação
à tendência crítica das composições de Chico Buarque, nas quais os personagens
se identificam com os contraventores e não com os regenerados “cidadãos de bem”.
Em “Charlie Brown”, samba composto em 1975, Benito de Paula,
contribuindo também para apologias à necessária harmonia social, expõe as
“belezas” do país através de um amigo que conta a outro que não é brasileiro:

Eh! Meu amigo Charlie/ Eh! Meu amigo/ Charlie Brown, Charlie Brown/ Se
você quiser/ Vou lhe mostrar/ A nossa São Paulo/ Terra da garoa/ Se você
quiser/ Vou lhe mostrar/ Bahia de Caetano/ Nossa gente boa/ Se você
quiser/ Vou lhe mostrar/ A lebre mais bonita/ Do Imperial/ Se você quiser
Vou lhe mostrar/ Meu Rio de Janeiro/ E nosso carnaval/ Charlie! Eh! Meu
amigo Charlie/ Eh! Meu amigo/ Charlie Brown, Charlie Brown/ Eh! Meu
amigo Charlie/ Eh! Meu amigo/ Charlie Brown, Charlie Brown/ Se você
quiser/ Vou lhe mostrar/ Vinícius de Moraes/ E o som de Jorge Ben/ Se
você quiser/ Vou lhe mostrar/ Torcida do Flamengo/ Coisa igual não tem/
Se você quiser/ Vou lhe mostrar/ Luiz Gonzaga/ Rei do meu baião/ Se você
quiser/ Vou lhe mostrar/ Brasil de ponta a ponta/ Do meu coração/ Oh Oh
Charlie!/ Eh! Meu amigo Charlie/ Eh! Meu amigo/ Charlie Brown, Charlie
Brown/ Eh! Meu amigo Charlie/ Eh! Meu amigo Charlie Brown, Charlie
Brown/ Se você quiser/ Vou lhe mostrar/ Vinícius de Moraes/ E o som de
Jorge Ben/ Se você quiser/ Vou lhe mostrar/ Torcida do Flamengo/ Coisa
igual não tem/ Se você quiser/ Vou lhe mostrar/ Luiz Gonzaga/ Rei do meu
baião/ Se você quiser/ Vou lhe mostrar/ Brasil de ponta a ponta/ Do meu
coração/ Oh Charlie!/ Eh! Meu amigo Charlie (CHARLIE..., 1975).

A letra do samba exalta o que considera as maravilhas do país, deixando de


lado que se passava por um momento de grande desigualdade social, além das
191

atrocidades que eram cometidas pelo regime militar. Não está se criticando
composições de exaltação do país, mas o que não há como negar é que esta
composição converge para a valorização da harmonia social.
Em “Fato consumado” também lançado em 1975, aparece o conformismo na
conhecida máxima: “Contra fatos não há argumentos”. O autor traduz tal valor na
frase: “No fundo, eu julgo o mundo um fato consumado e vou embora” (FATO...,
1975). O que tem de aspecto conservador nesta composição é o fato do compositor
confirmar um mundo que já está dado e não há como questioná-lo. É o fim da
história proclamado pelos conservadores modernos, ou o providencialismo do qual
resta-nos viver o que está dado, pois haverá um momento que alcançaremos a vida
eterna no paraíso prometido.
Em “Mundo Bom” de Agepê e Canário, samba composto em 1978, há a
manifestação dialética de um mundo que gira,se transforma: “Gira mundo vai
girando/ Roda mundo vai rodar/ Roda gira, gira a roda/ Me leva pra qualquer lugar/
No eixo do meu dia a dia/ Te deixo me fazer cantar/ Tem gente que não entende/
Que a vida é feita/ De açúcar e sal/ De chuva e sol” (MUNDO..., 1978).
Mas o compositor acaba concluindo que o “mundo é bom” e que “vai ficar
tudo bem”, o que resulta na exaltação à atitude conformista. Há sim a compreensão
da transformação, mas há também a compreensão de que no final das contas o
mundo é bom e tudo vai se resolver de forma pacífica.
O sexto eixo refere-se à afirmação de preconceitos de classe, gênero ou
etnia, ou, ao contrário, o reconhecimento de valores e críticas a tais preconceitos.
Observa-se que há em parte das letras de sambas analisados, algumas que se
colocam na perspectiva do reconhecimento da importância de diferentes etnias,
sobretudo com referência aos negros e indígenas e, em alguns casos, até
valorização da população nortista e nordestina que também são alvos de
preconceitos em nosso país.
No samba enredo da Portela de 1972, “Ilu Ayê- terra da vida”, de
composição de Cabana e Norival Reis, aparecem elementos de afirmação da cultura
africana como forma de resistência ao processo de escravização sofrido durante a
colonização brasileira:

Ilu Ayê, Ilu Ayê Odara/ Negro dançava na Nação Nagô/ Depois chorou
lamento de senzala/ Tão longe estava de sua Ilu Ayê/ Tempo passou ôô/ E
no terreirão da Casa Grande/ Negro diz tudo que pode dizer/ É samba, é
batuque, é reza/ É dança, é ladainha/ Negro joga capoeira/ E faz louvação à
192

rainha (ILUAYÊ..., 1972).

Segundo Sodré, o samba permanece trazendo temas de afirmação da


cultura negra, pois

Sendo um discurso tático de resistência no interior do campo ideológico do


modo de produção dominante - perpassado por ambiguidades, avanços e
recuos, característicos de todo discurso dessa ordem - o samba é ao
mesmo tempo um movimento de continuidade e afirmação de valores
culturais negros (1998, p.56).

Em “Querelas do Brasil”, de 1978, os compositores Maurício Tapajós e Aldir


Blanc nos convidam a conhecer o que é de fato a cultura brasileira, mencionando os
indígenas e os moradores do sertão. Fazem a crítica a tendência de incorporação de
padrões culturais que se distanciam da cultura local o que converge para que, de
fato, não seja possível conhecer o Brasil:

O Brazil não conhece o Brasil/ O Brasil nunca foi ao Brazil/ Tapir, jabuti
Iliana, alamanda, alialaúde/ Piau, ururau, akiataúde/ Piá, carioca,
porecramecrã/ Jobimakarore Jobim-açu/ Uô-uô-uô-uô/ Pererê, câmara,
tororó, olerê/ Piriri, ratatá, karatê, olará!/ O Brazil não merece o Brasil/ O
Brazil tá matando o Brasil/ Jerebasaci/ Caandrades cunhãs, ariranharanha/
Sertões, Guimarães, bachianaságuas/ Imarionaíma, arirariboia/ Na aura das
mãos de Jobim-açu/ Uô-uô-uô-uô/ Jereerê, sarará, cururu, olerê/ Blá-blá-
blá, bafafá, sururu, olará/ Do Brasil, S.O.S. ao Brazil/ Tinhorão, urutu, sucuri
olerê/ Ujobim, sabiá, bem-te-vi olará/ Cabuçu, Cordovil, Cachambi olerê/
Madureira, Olaria ibangu olará/ Cascadura, Águasanta, Acari olerê/
Ipanema inovaiguaçu olará/ Araguaia e Tucuruí/ Cantagalo, ABC, Japeri/
Cabo frio xingú sabará/ Florianópolis piabetá/ Araceli no espirito santo/ E o
aézio em jacarépaguá/ Os inamps o jari a central/ Instituto medico legal
(QUERELAS..., 1978).

Já em outras letras, aparecem aspectos de valores conservadores que


reforçam os padrões burgueses de família, de gênero, etnia e religião.
O primeiro deles é o samba “Menina dos cabelos longos”, lançado em 1977
por Agepê e Canário. Isso, pois, é reproduzido neste samba preconceitos que no
Brasil são reproduzidos contra os nordestinos e nortistas, na frase “Eu sei que no
Nordeste tem cabra da peste/ No Norte tem faca de corte e calor/ Mas vou levar
cheio de bala/ Um trezoitão na mala e um ventilador” (MENINA..., 1977). Ao afirmar
que é preciso temer os nordestinos por serem “cabras da peste” generaliza-se um
comportamento moldado pelas condições materiais e subjetivas que esses sujeitos
vivenciam. O mesmo ocorre quando se afirma que no norte tem faca de corte e que
é preciso enfrentá-la com “trezoitão”, pois além de generalizar um comportamento,
indica uma resposta letal com uma arma de fogo; há a incitação à violência contra
esses povos. O nordeste é idealizado como espaço preso ao passado com
193

mudanças que ameaçavam privilégios, como o lugar do artesanato; lugar da política


do apadrinhamento. Os nordestinos são identificados como figuras da violência e
agressividade (ALBUQUERQUE, 2007). Reproduzir esses preconceitos coloca essa
letra de samba nas listas dos que possuem tendências conservadoras.
Outro exemplo dessas letras é de “Xica da Silva” de Jorge Bem, lançada em
1976. Apresentam-se tendências conservadoras, pois, Xica da Silva é apresentada
como mulata que encanta e com isso supera a senzala: “A negra/ de escrava à
amante” (XICA, 1976). Assim, são reproduzidos valores e costumes de uma
sociedade de mando e dominação quando:

A negra/ A imperatriz do Tijuco/ A dona de Diamantina/ Morava com a sua


corte/ Cercada de belas mucamas/ Num castelo na Chácara da Palha/ De
arquitetura sólida e requintada/ Onde tinha até um lago artificial/ E uma
luxuosa galera/ Que seu amor, João Fernandes, o tratador/ Mandou fazer
só pra ela (XICA..., 1976).

A letra do samba não é uma expressão sobre o protagonismo de Xica da


Silva junto ao negro, mas elogia o lugar que ela ocupa numa sociedade de brancos.
O samba é polêmico como história, mas a letra possui elementos de
conservadorismo.
Um exemplo é o samba “coqueiro verde” de Roberto Carlos e Erasmo
Carlos, de 1970. Nele, manifesta-se a tendência à reprodução de masculinidade
tóxica, traduz a afirmação de preconceitos de gênero na frase “Como diz Leila Diniz/
O homem tem que ser durão/ Se ela não chegar agora/ Não precisa chegar”
(COQUEIRO..., 1970), além de traduzir valores que afirmam a posse das mulheres,
da ordem patriarcal. O mesmo ocorre na canção despretensiosa de Ivan Lins e
Monteiro de Souza: “Madalena”, de 1970, na qual aparece a frase “o que é meu não
se divide”, traduzindo o caráter de propriedade que é relegado às mulheres nesta
sociabilidade. Há nessas letras a tradução de um valor conservador que se expressa
no sistema patriarcal de gênero no qual o poder é exercido pelos homens sob as
mulheres, pautado na valorização da família como base moral da sociedade com
padrões sociais de comportamento a serem cumpridos pelas mulheres e também
pelos homens.
Outro samba que expressa essa relação patriarcal é “Desacato” de Antonio
Carlos e Jocafi, de 1971, quando o personagem da história contada no samba,
afirma “Vou entregar você”. Na frase citada, o personagem refere-se à mulher
interlocutora que não deixa de ser a sua companheira, como se fosse também um
194

item de sua propriedade a ser devolvido. O mesmo ocorre em “Ninguém tasca” de


Martinho da Vila e João Quadrado:

Vou dar bolacha/ em quem mexer com a minha nega/ Já dei colher demais
agora chega/ Há dez mulheres para cada um/ no Rio de Janeiro/ A nega é
minha/ ninguém tasca eu vi primeiro/ Oi a nega é minha/ ninguém tasca eu
vi primeiro/ Quando eu andava naquela/ pindaíba que fazia gosto/ não havia
nem um matusquela/ querendo olhar pro seu rosto/ Hoje ela anda bonita/ e
vive no meu barracão/ 1 2 3 fica assim de gavião/ Oi o meu barraco fica
assim de gavião/ 1 2 3 fica assim de gavião/ Oi o meu barraco fica assim de
gavião (NINGUÉM..., 1973).

Onde a mulher aparece novamente como propriedade do homem. Já foi


observada a questão do machismo estar presente no samba, apesar de seu
nascimento ser intrinsecamente ligado à liderança feminina das tias baianas. Não é
incomum que muitas composições de samba reproduzam valores machistas, isso
não é privilégio do gênero, pois está intrínseco na sociabilidade burguesa brasileira e
como estrutural a ela, na música é reflexo dessa mesma realidade.
Também em “Disritmia”, de Martinho, lançada em 1974, expressa-se este
aspecto quando na frase: “Vem logo! Vem curar teu nego/ Que chegou de porre lá
da boemia!”(DISRITMIA..., 1974), cantada repetidamente, é dada a ordem para a
esposa que espera o marido chegar de sua diversão, evidenciando o papel de cada
um dentro do padrão da família tradicional burguesa, branca e cristã.
Esses aspectos se evidenciam, também, no samba “O amor não é
brinquedo” de 1978, de Martinho da Vila e Candeia, quando uma mulher precisa se
adaptar à vida de “seu homem”, tirando-a de sua posição de protagonista de sua
própria vida:

Tens que chorar o meu choro/ Sorrir no meu riso/ Sonhar no meu sonho/
Versar nos meus versos/ Cantar no meu coro/ Na minha tristeza tens que
ser tristonho/ Há de estar brincando, que também vou ficar brincadeira/ Não
choro o teu choro/ Não sonho o teu sonho/ Não verso os seus versos/ Nem
marco bobeira (O AMOR..., 1978).

Martinho da Vila também compôs, em 1976, “Você não passa de uma


mulher”, o título já causa espanto. Infelizmente o espanto não para por aí, pois trata-
se de um samba permeado de elementos de afirmação conservadora nos quais a
mulher é vista como, apesar de tudo, “apenas uma mulher”.

Mulher preguiçosa, mulher tão dengosa, mulher/ Você não passa de uma
mulher (ah, mulher)/ Mulher tão bacana e cheia de grana, mulher/ Você não
passa de uma mulher (ah, mulher)/ Você não passa de uma mulher (ah,
mulher)/ Você não passa de uma mulher/ Olha que moça bonita/ Olhando
pra moça mimosa e faceira/ Olhar dispersivo, anquinhas maneiras/ Um
195

prato feitinho pra garfo e colher/ Eu lhe entendo, menina/ Buscando o


carinho de um modo qualquer/ Porém lhe afirmo, que apesar de tudo/ Você
não passa de uma mulher (ah, mulher)/ Você não passa de uma mulher/
Olha a moça inteligente/ Que tem no batente o trabalho mental/ QI elevado
e pós-graduada/ Psicanalizada, intelectual/ Vive à procura de um mito/ Pois
não se adapta a um tipo qualquer/Já fiz seu retrato, apesar do estudo/ Você
não passa de uma mulher (viu, mulher?)/ Você não passa de uma mulher
(ah, mulher)/ Menina-moça também é mulher (ah, mulher)/ Pra ficar comigo
tem que ser mulher (tem, mulher)/ Fazer meu almoço e também meu café
(só mulher)/ Não há nada melhor do que uma mulher (tem, mulher?)/ Você
não passa de uma mulher (ah, mulher) (VOCÊ..., 1976).

Mas Martinho da Vila não pode ser lembrado apenas por suas composições
machistas e que reproduzem valores de sustentação da sociedade patriarcal. É um
homem negro e tem sua história marcada por este seu lugar de fala.
Martinho da Vila foi batizado como de Martinho José Ferreira, filho de pais
lavradores, nasceu no interior do Rio de Janeiro em 1938, mas em busca por
melhores condições de vida, sua família se muda para a capital. O único filho
homem da família significava pra sua mãe a possibilidade de “[...] escalar todos os
degraus da pirâmide social, da base ao topo” (BARBOZA, 2013, p.122). Assim,

[...] criado no subúrbio carioca, se interessa pelo samba e passa a compor


para a escola Aprendizes da Boca do Mato entre 1958 e 1974.
Paralelamente, trabalha como contador e datilógrafo, funções que
desempenha no Exército entre 1956 e 1969 (ENCICLOPÉDIA ITAÚ
CULTURAL, 2019).

As composições de Martinho tem grande relevância para as pautas do


movimento negro. Ocorre que

[...] depois de uma turnê em Angola em 1972, desperta seu interesse pelas
ligações históricas entre as culturas africanas e afro-brasileiras, engajando-
se na luta pela afirmação da identidade negra e defesa da igualdade racial,
temas constantes em suas canções e em livros de sua autoria,
como Kizombas, Festas e Andanças (1992), Ópera Negra (2001), Memórias
Póstumas de Tereza de Jesus (2002) (ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL,
2019).

Anterior à década de 1970, Martinho estava entre os compositores que se


dedicavam à cultura popular comprometida com temas relacionados à defesa
populares e democráticas,

Na passagem dos anos 1960 para os 1970, compositores e intérpretes


como Carlos Lyra, Nara Leão e Geraldo Vandré, ligados de alguma
maneira ao movimento estudantil e a grupos de esquerda, voltam a
atenção para a cultura popular do Brasil, contribuindo para o retorno do
samba do morro ao centro das atenções. Esse movimento traz à cena
artistas "esquecidos", como Cartola, Nelson Cavaquinho e Dona Ivone Lara,
além de Clementina de Jesus, que é lançada como cantora nos anos 1960.
Como a maioria desses músicos, Martinho da Vila tem seu nome projetado
196

como compositor de uma escola de samba (ENCICLOPÉDIA ITAÚ


CULTURAL, 2019).

Martinho compôs, por exemplo, o samba "Pequeno Burguês", “[...] uma


irônica crítica social à difícil situação de um esforçado pai de família suburbano que,
após uma dura jornada de trabalho, segue para uma faculdade particular em que
frequenta um dispendioso curso noturno de graduação” (ENCICLOPÉDIA ITAÚ
CULTURAL, 2019). A letra do samba revela

Felicidade, passei no vestibular/ Mas a faculdade é particular/Particular, ela


é particular/ Particular, ela é particular/ Livros tão caros tanta taxa pra pagar/
Meu dinheiro muito raro/ Alguém teve que emprestar/ O meu dinheiro,
alguém teve que emprestar/ O meu dinheiro, alguém teve que emprestar/
Morei no subúrbio, andei de trem atrasado/ Do trabalho ia pra aula, sem/
Jantar e bem cansado/ Mas lá em casa à meia-noite tinha/ Sempre a me
esperar/ Um punhado de problemas e criança pra criar/ Para criar, só
criança pra criar/ Para criar, só criança pra criar/ Mas felizmente eu
consegui me formar/ Mas da minha formatura, não cheguei participar/ Faltou
dinheiro pra beca e também pro meu anel/ Nem o diretor careca entregou o
meu papel/ O meu papel, meu canudo de papel/ O meu papel, meu canudo
de papel/ E depois de tantos anos/ Só decepções, desenganos/ Dizem que
sou um burguês/ Muito privilegiado/ Mas burgueses são vocês/ Eu não
passo de um pobre-coitado/ E quem quiser ser como eu/ Vai ter é que penar
um bocado. (PEQUENO..., 1969)

Observa-se que nestes aspectos

A crítica política e social é recorrente na obra de Martinho da Vila e


geralmente está relacionada com os temas da discriminação racial, da
afirmação da cultura negra e das más condições de vida dos habitantes das
favelas e das periferias das grandes cidades. Em Assim Não Zambi (1979),
ele denuncia a situação dos afro-descendentes brasileiros, sujeitos à
miséria e à repressão injusta da polícia. Meu Homem, gravada por Beth
Carvalho em 1988, tematiza a luta de Nelson Mandela contra o apartheid,
regime oficial de segregação racial que vigora na África do Sul até o início
dos anos 1990. O desejo de eliminação do apartheid retorna em "Kizomba,
Festa da Raça" (1988), cujos autores são Jonas, Rodolpho e Luis Carlos da
Vila, samba-enredo que exalta a luta dos negros pela liberdade. (ITAÚ
CULTURAL, 2019)

No entanto

A agenda política de Martinho da Vila não o impede de dedicar-se à


composição de canções românticas como "Disritmia" (1974), "Você Não
Passa de uma Mulher" (1975) e "Ex-Amor" (1981), cujo lirismo é acentuado
pelo seu estilo vocal suave e intimista (ITAÚ CULTURAL, 2019).

É justamente no quesito canções românticas que o compositor deixa se


expressar suas perspectivas machistas e que reforçam a sociedade patriarcal.
Observá-lo revela que o fato do samba possui raízes altamente críticas com relação
ao povo negro e sua histórica resistência, ele também pode revelar tendências
197

conservadoras quando não questiona os papeis sociais relegados às mulheres na


sociabilidade burguesa e cristã.
Assim, em “Oi, Compadre” Martinho também expressa sua compreensão e
visão de mundo:

Oi, compadre/ Mete o dedo na viola/ Canta samba dos quilombos/


Quilombeta e quilombola/ Meu compadre, Mete o dedo na viola/ Já tem
mente alienada/ E nego pisando na bola/ Oi, compadre/ Vascaíno não se
engana/ Temos que ser mais fiéis/ Do que a fiel corintiana/ Ôh, compadre/
Mete o dedo na viola/ Calangueia no quilombo/ Canta samba na escola/
Brasileiro tá cansado/ De cocada e mariola/ Abre o olho, meu compadre/
Porque tem remandiola/ Atrás de um som inocente/ Tem um fraque, uma
cartola, eu já disse (OI..., 1977).

Em “Nem ouro, nem prata” de Rui Maurity e José Jorge, já citada acima,
além do aspecto da afirmação de elementos de religião afro-brasileira, trás também
a afirmação:

Sou brasileira, faceira, mestiça mulata/ Não tem ouro, nem prata/ O samba
que sangra do meu coração/ Tua menina de cor/ Pedaço de bom carinho/
Entrei no teu passo/ Malandra não sou/Como a tal conceição/ Chega de
tanto exaltar essa tal de saudade/ Meu caboclo moreno, mulato, amuleto do
nosso brasil/ Olha, meu preto bonito/ Te quero, prometo/ Te gosto pra
sempre/ Do samba-canção ao primeiro apito/ Do ano dois mil (NEM
OURO..., 1976).

Já na perspectiva crítica à reprodução de valores que se associam a


afirmação do patriarcado, destacada a composição de Chico Buarque, “Mulheres de
Atenas”. O compositor tece uma critica a moralidade vigente comparando-a a da
antiga Grécia em que a mulher era restrita à esfera do lar, sem inclusive, serem
reconhecidas com cidadãs. São as mulheres de Atenas que “Quando amadas, se
perfumam/ Se banham com leite, se arrumam/ Suas melenas/ Quando fustigadas
não choram/ Se ajoelham, pedem, imploram/ Mais duras penas/ Cadenas”
(MULHERES..., 1976).
Ao apresenta-las, de forma irônica, o compositor recomenda:
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas/ Sofrem pros seus
maridos, poder e força de Atenas/ Quando eles embarcam, soldados/ Elas
tecem longos bordados/ Mil quarentenas/ E quando eles voltam sedentos/
Querem arrancar violentos/ Carícias plenas/ Obscenas/ Mirem-se no
exemplo daquelas mulheres de Atenas/ Despem-se pros maridos, bravos/
guerreiros de Atenas/ Quando eles se entopem de vinho/ Costumam buscar
o carinho/ De outras falenas/ Mas no fim da noite, aos pedaços/ Quase
sempre voltam pros braços/ De suas pequenas/ Helenas/ Mirem-se no
exemplo daquelas mulheres de Atenas/ Geram pros seus maridos os novos
filhos de Atenas/ Elas não têm gosto ou vontade/ Nem defeito nem
qualidade/ Têm medo apenas/ Não têm sonhos, só têm presságios/ O seu
homem, mares, naufrágios/ Lindas sirenas/ Morenas/ Mirem-se no exemplo
198

daquelas mulheres de Atenas/ Temem por seus maridos, heróis e amantes


de Atenas/ As jovens viúvas marcadas/ E as gestantes abandonadas/ Não
fazem cenas/ Vestem-se de negro, se encolhem/ Se conformam e se
recolhem/ Às suas novenas/ Serenas/ Mirem-se no exemplo daquelas
mulheres de Atenas/ Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas
(MULHERES..., 1976).

Em “Juventude transviada” composta em 1976 por Luiz Melodia, há a


tradução da rotina da mulher nesta sociabilidade burguesa, machista, racista e
patriarcal:

Lava roupa todo dia, que agonia/ Na quebrada da soleira, que chovia/ Até
sonhar de madrugada, uma moça sem mancada/ Uma mulher não deve
vacilar/ Eu entendo a juventude transviada/ E o auxílio luxuoso de um
pandeiro/ Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada/ Uma mulher
não deve vacilar/ Cada cara representa uma mentira/ Nascimento, vida e
morte, quem diria/ Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada/
Uma mulher não deve vacilar/ Hoje pode transformar/ E o que diria a
juventude/ Um dia você vai chorar/ Vejo clara as fantasias/ Lava roupa todo
dia, que agonia/ Na quebrada da soleira, que chovia/ Até sonhar de
madrugada, uma moça sem mancada/ Uma mulher não deve vacilar/ Até
sonhar de madrugada, uma moça sem mancada/ Uma mulher não deve
vacilar (JUVENTUDE..., 1976).

A tradução dessa rotina acaba por fazer a crítica da ordem posta às


mulheres, e afirma que uma mulher “não pode vacilar”. Há a afirmação de
preconceitos de gênero, há a defesa da hierarquia, da autoridade do homem e da
submissão da mulher, além da defesa do fim da história, como impossibilidade de
transformação.
Em “você não entende nada” lançada em 1972 por Caetano Veloso,
expressa-se a rotina de uma família tradicional nos moldes do padrão burguês, no
qual a mulher está lá disposta a satisfazer as necessidades do homem e pronta a
fazer o que ele desejar:

Quando eu chego em casa nada me consola/ Você está sempre aflita/


Lágrimas nos olhos, de cortar cebola/ Você é tão bonita/ Você traz a coca-
cola eu tomo/ Você bota a mesa, eu como, eu como/ Eu como, eu como, eu
como/ Você não está entendendo/ Quase nada do que eu digo/ Eu quero ir-
me embora/ Eu quero é dar o fora/ E quero que você venha comigo/ E
quero que você venha comigo/ Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não
aguento/ Você está tão curtida/ Eu quero tocar fogo neste apartamento/
Você não acredita/ Traz meu café com Suita eu tomo/ Bota a sobremesa eu
como, eu como/ Eu como, eu como, eu como/ Você tem que saber que eu
quero correr mundo/ Correr perigo/ Eu quero é ir-me embora/ Eu quero dar
o fora/ E quero que você venha comigo/ E quero que você venha comigo/ E
quero que você venha comigo/ E quero que você venha comigo/ E quero
que você venha comigo (VOCÊ..., 1972).

Caetano Veloso é criticado por Tinhorão, um dos autores que se destaca


como referência na análise da história da música popular brasileira e do samba. Em
199

sua crítica férrea a Caetano, Tinhorão aponta que o compositor baiano tinha
características de autoconfiança exacerbadas e por isso “ia evidenciar sempre um
individualismo muito exacerbado, o que por sua vez explicaria sua incompatibilidade
com a participação política e sua aversão às ideologias e interpretações dialético-
materialistas da História” (1986, p.256).
A crítica social feita pelo compositor não se dá pautada no materialismo
histórico dialético, porém abala as estruturas e valores sociais da ordem instituída.
Portanto, não há como dizer que nas letras de Caetano não seja possível identificar
tendências críticas, mesmo que estas não estejam fundamentadas no materialismo
histórico dialético. Não há como negar que o movimento do tropicalismo contradizia
a moralidade burguesa brasileira daquele período com as suas diversas formas de
contestação.
Em 1975, a escola de samba Portela apresenta seu samba-enredo chamado
Macunaíma. Macunaíma é a personagem da obra de Mario de Andrade, o “herói
sem nenhum caráter”. O fato do samba colocar em evidência a história de um anti
herói, faz uma crítica a realidade social, pois uma nação que não tem um herói,
cultua o anti herói.

Portela apresenta/ Do folclore tradições/ Milagres do sertão à mata virgem/


Assombrada com mil tentações/ Cy, a rainha mãe do mato, oi/ Macunaíma
fascinou/ Ao luar se fez poema/ Mas ao filho encarnado/ Toda maldição
legou/ Macunaíma índio branco catimbeiro/ Negro sonso feiticeiro/ Mata a
cobra e dá um nó/ Cy, em forma de estrela/ À Macunaíma dá/ Um talismã
que ele perde e sai a vagar/ Canta o uirapuru e encanta/ Liberta a mágoa do
seu triste coração/ Negrinho do pastoreio foi a sua salvação/ E derrotando o
gigante/Era uma vez Piaiman/ Macunaíma volta com a muiraquitã/
Marupiara na luta e no amor/ Quando sua pedra para sempre o monstro
levou/ O nosso herói assim cantou/ Vou-me embora, vou-me embora/ Eu
aqui volto mais não/ Vou morar no infinito/ E virar constelação
(MACUNAÍMA..., 1975).

Há sambas nos quais todos os eixos que elegemos para análise aparecem,
de forma mais ou menos explícita, contudo, elegeu-se, aqui, um desses sambas;
para exemplificar a riqueza de aspectos que se revelam na análise de conteúdo
dessas letras de samba. O samba-choro de Caetano Veloso, lançado em 1978,
“Sampa” provoca uma reflexão acerca do preconceito. Defendido pelos
conservadores como necessário para orientar adequadamente o comportamento
humano para que este tenha parâmetros para agir frente à realidade social e não
busque e execute estratégias de transformação, o preconceito é denunciado neste
200

samba-choro como um entrave para que os seres humanos não encarem a


realidade social em seu movimento e sua vitalidade.
O compositor expressa a reação frente ao diferente, mostrando a dificuldade
do “começo”, do primeiro contato com o diferente ou o novo, no qual o homem
“afasta o que não conhece”, mas que após isso aprende a conviver com aquela
realidade:

Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto/ Chamei de mau


gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto/ É que Narciso acha feio o que não
é espelho/ E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho/ Nada do
que não era antes quando não somos mutantes/ E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço/ E quem vem de outro sonho feliz de cidade/
Aprende depressa a chamar-te de realidade/ Porque és o avesso do avesso
do avesso do avesso (SAMPA..., 1978).

Em outro trecho da canção, o compositor faz a crítica ao desenvolvimento


industrial que a cidade de São Paulo estava destinada em contraste com a
desigualdade social vivenciada pelo seu povo:

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas/ Da força da grana que ergue/
e destrói coisas belas/ Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas/ Eu
vejo surgir teus poetas de campos, espaços/ Tuas oficinas de florestas, teus
deuses da chuva/ Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba/ Mas
possível novo quilombo de Zumbi/ E os Novos Baianos passeiam na tua
garoa/ E novos baianos te podem curtir numa boa (SAMPA..., 1978).

Traduz sua visão sobre a força do capitalismo que ergue e desenvolve o


país, porém também destrói coisas belas, inclusive seu próprio povo. E, ainda, faz
referência ao livro Panamérica de José Agrippino de Paula, no qual o autor crítica o
moralismo conservador que assolava o país naquele momento que foi um dos
sustentáculos para a emergência do golpe que resultasse em um regime
governamental autocrático, com intenções de “devolver a ordem” que imaginava-se
fazer necessária para resolver os problemas do país.
Por fim, apresenta o samba como resistência, como um “novo quilombo de
Zumbi”, no qual é possível superar a destruição do capital. Interpretando que os
escravos podem ser considerados, no momento da colonização, como integrantes
da classe trabalhadora, com seu trabalho escravo, Zumbi dos Palmares é o
personagem que representa a resistência desta classe. A organização política é
necessária para a superação da dominação da classe trabalhadora e distribuição
entre todos da riqueza socialmente produzida. Neste sentido que se vislumbra no
quilombo dos palmares, liderado por Zumbi, esta organização, já que neste
201

momento os trabalhadores eram os escravos. E Zumbi recusava a resignação. Ao


analisar esta metáfora à necessária resistência, lembra-se aqui da célebre
advertência de Marx: é necessário recusar as ilusões e a resignação.

A pressão deve ainda torna-se mais premente pelo fato de se despertar a


consciência dela e a ignomínia tem ainda de tornar-se mais ignominiosa pelo
fato de ser trazida à luz pública [...] e estas condições petrificadas têm de ser
compelidas à dança, fazendo-as ouvir o canto da sua própria melodia. A
nação deve aprender a se aterrar por causa de si mesma, de modo a ganhar
coragem (2006, p. 148).

Os ímpetos à revolução devem ser efetivados por uma classe que seja
capaz de “[...] despertar em si e nas massas, um momento de entusiasmo em que se
associe e misture com a sociedade em liberdade, se identifique com ela e seja
sentida e reconhecida como a representante geral da referida sociedade” (MARX,
2006, 154).

Só em nome dos interesses gerais da sociedade é que uma classe particular


pode reivindicar a supremacia geral [...] Uma esfera particular terá de olhar-se
como crime notório de toda a sociedade, a fim de que a libertação de
semelhante esfera surja como auto- libertação geral (MARX, 2006, p. 154).

A última frase da letra da música também expressa uma mensagem dúbia.


Onde “novos baianos” deixam de estranhar a cidade, passam a conviver com ela do
jeito que é, ou passam alienadamente sem prestar atenção naquela situação. A
paradoxal possibilidade de não se incomodar mais com aquela realidade e deixar de
fazer o enfretamento que deve ser feito. A crítica de Tinhorão sobre o movimento da
tropicália apresenta esse elemento, a questão do tropicalismo não fazer a crítica
materialista e histórica à realidade brasileira daquele período.
Torna-se, também, fundamental destacar a particularidade do ano de 1979.
Trata-se de um ano em estamos sob o declínio vigência da autocracia. Evidenciam-
se nas letras do samba a ansiedade que também perpassava a vida dos brasileiros
e dos artistas do período. As letras revelam a ansiedade pela democratização, “O
bêbado e o equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, é o mais claro exemplo; mas
também podemos observar canções como: “Senhora liberdade” de Wilson Moreira e
Nei Lopes e “Desesperar Jamais” de Ivan Lins e Vitor Martins.
O país via-se em processo de reabertura política, com a volta de artistas
exilados. Observa-se uma temática voltada à esperança na abertura política,
esperança para os artistas, que agora passam a ter novamente a liberdade de
202

criação. Mesmo assim, é uma “esperança equilibrista” que ainda vive sob o julgo da
decisão do poder político que experienciava uma incipiente transição, traduzindo
aquele momento de insegurança.
O samba “O bêbado e a equilibrista” foi um dos grandes destaques do ano.
Seus compositores traduzem sentimentos de esperança da classe artística com
relação à reabertura política, foi “uma notável composição de João Bosco e Aldir
Blanc, que focaliza uma promessa de abertura democrática, na ocasião, cercada de
incertezas” (SEVERIANO; MELLO, 2015, p.283-284).
Outra canção que faz referência ao desejo dos brasileiros pela tão sonhada
liberdade é “Senhora liberdade” de Wilson Moreira e Nei Lopes, também do mesmo
ano:

Abre as asas sobre mim/ Oh senhora liberdade/ Eu fui condenado /Sem


merecimento/ Por um sentimento/ Por Uma paixão/ Violenta emoção/ Pois
amar foi meu delito/ Mas foi um sonho tão bonito/ Hoje estou no fim/
Senhora liberdade abre as asas sobre mim/ Não vou passar por inocente/
Mas já sofri terrivelmente/ Por caridade, oh liberdade abre as asas sobre
mim (SENHORA..., 1979).

No samba “desesperar jamais” deste mesmo ano de 1979, composto por


Ivan Lins e Vitor Martins, apresenta-se outra lembrança que traduz este sentimento
de esperança que se vivenciava no período no país. A canção faz uma análise de
que tivemos perdas e danos e “muito que chorar”, mas que agora (o momento da
transição) não era o momento para se desesperar. Além disso, a canção alerta para
o risco do esquecimento da história vivida, ela trás um futuro esperançoso que não
deixa de olhar para o passado “Nada de esquecer”, advertência tão necessária em
nossos dias, em momentos onde há o esforço em fazer esta história se apagar de
nossa memória. Segue a letra do samba:

Desesperar jamais/ Aprendemos muito nesses anos/ Afinal de contas não/


tem cabimento/ Entregar o jogo no primeiro tempo/ Nada de correr da raia/
Nada de morrer na praia/ Nada! Nada! Nada de esquecer/ No balanço de
perdas e danos/ Já tivemos muitos desenganos/ Já tivemos muito que/
chorar/ Mas agora, acho que chegou a hora/ De fazer valer o dito popular/
Desesperar jamais/ Cutucou por baixo, o de cima cai/ Desesperar jamais/
Cutucou com jeito, não levanta mais (DESESPERAR..., 1979).

Observando os gráficos expostos nas páginas 161 a 164, nota-se que o


gráfico 10 aponta para a tendência crítica nas letras de samba neste período, dado
que não foi identificada nenhuma letra com tendência conservadora neste ano na
listagem utilizada nesta pesquisa, considera-se que o período expressa, em suas
203

letras de samba, a valorização das vertentes críticas, que contra argumentam o


pensamento conservador. O momento de esperanças no processo de
redemocratização é traduzido nas expressões artísticas, e neste sentido nas
tendências críticas das letras de samba. Observa-se, portanto, que as letras de
samba de destaque do período, de acordo com a fonte utilizada, traduzem aspectos
de resistência e/ou conformismo, de forma dialética, assim como a própria realidade
social e o próprio sistema de valores, perante a situação do país e de sua
população.
204

CONCLUSÃO

O desenvolvimento desta pesquisa se deu meio a um contexto histórico


permeado de incertezas que de alguma forma foram direcionadores de seus rumos.
O pleito eleitoral que elegeu Jair Messias Bolsonaro, em 2018, como presidente é o
primeiro deles. O atual presidente do Brasil não escondeu durante sua campanha,
muito menos após eleito, suas opções pautadas em valores extremamente
conservadores, que foi possível observar através do estudo do conservadorismo em
seus vários matizes.
Outro aspecto que este governo apresenta é sua clara adesão aos
interesses da classe burguesa. Sabe-se que o Estado atende aos interesses da
burguesia nacional e norte americana, no bojo do processo do imperialismo, porém
também é sabido que em governos por vezes comprometidos com as pautas sociais
e com o processo democrático, abrem-se as possibilidades da ampliação de suas
demandas. No geral, são governos de partidos de esquerda que possibilitam a
incorporação das demandas populares nas decisões políticas do país, mesmo que
para esses governos cabem às devidas críticas.
Mas o momento atual é o contrário, o poder executivo atual, se não
cerceado pelos outros poderes, causaria muito mais prejuízos do que vem
produzindo. Os tempos são sombrios, morrem ativistas de direitos humanos, meio
ambiente e outros movimentos. Como esta pesquisa se dedica a aqueles que "foram
de aço nos anos de chumbo" durante a vigência da autocracia burguesa da década
de 1970; não há como se esquecer que na contemporaneidade também existem
muitos que ainda lutam, resistem e morrem pela defesa das populações
empobrecidas deste país. Lembremos Marielle Franco, mulher, negra, moradora de
favela carioca, foi professora e ocupou um cargo público de vereadora do Rio de
Janeiro. Mas não vinha agradando aos poderosos, pois defendia pautas até então
deixadas de lado e que estremecem as estruturas conservadoras que sustentam a
manutenção do poder; sua presença no Estado expressava que este espaço era
tomado por outra classe que não aquela que sempre esteve: a classe pobre, preta,
além do não menos importante fato de ser uma mulher lésbica. Como se sabe,
Marielle foi assassinada em 14 de março de 2018, junto de seu motorista Anderson
Gomes. Até hoje, o crime não foi desvendado, no entanto tudo indica que quem a
205

matou e quem a mandou matar, tinha interesses políticos que se concretizavam com
a sua morte. Marielle, assim como durante sua vida resistiu; renasceu e resiste nas
vozes que diariamente lutam por causas sociais. Assim como Marielle, o samba
resiste!
O relatado acima tem um motivo que se apresenta no fato de o atual
presidente expressar sua inquestionável reverência aos militares que tomaram o
poder com o golpe de 1964, o presidente inclusive tornou público que apoia a
tortura. Além disso, não demonstra atenção pelo desvendamento do assassino de
Marielle Franco.
O golpe de 1964 significou um duro retrocesso ao que o Brasil vinha
acumulando de avanços democráticos e progressistas e não foi diferente com a
eleição e posse de Jair Messias Bolsonaro. Além disso, o golpe no mundo da cultura
também vem sendo dado, assim como no período da autocracia burguesa da
década de 1970.
Após o golpe de 1964, o “mundo da cultura” foi atingido e seus protagonistas
começam a ter cerceadas suas possibilidades de liberdade de criação. Mas como se
viu nesta pesquisa, com o samba isso se tornou um pouco mais difícil, os aspectos
críticos que o gênero acumulou desde sua origem que já se configurou como
resistência, dificultou o processo de cerceamento de sua manifestação.
Voltando-se ao tema central desta pesquisa e ao seu objeto: valores que se
expressam nas letras de samba da década de 1970; cabem algumas considerações:
Observa-se através da caracterização de cada letra e da construção dos
gráficos que de um modo geral as letras apresentaram maiores tendências críticas
do que conservadoras, embora isso ocorra de forma dialética e na mesma letra, ao
mesmo tempo, as tendências podem se misturar. Observa-se ainda que há um
destaque no ano de 1979, quando só aparecem letras de sambas de tendências
críticas, em sua grande maioria relatando o sentimento de esperança e insegura
vivenciado no período de redemocratização política.
Conclui-se também que após revisão bibliográfica e análises das letras, a
expressão artística se apresenta como reflexo estético da realidade e nela vão se
apresentar múltiplos determinantes. É nesse sentido que a história do samba pode
ser contada através da história do Samba e os elementos valorativos reproduzidos.
Desde o seu surgimento, o gênero samba é símbolo de resistência cultural e
política. O povo negro escravizado e o povo indígena massacrado pelo processo de
206

colonização resistiram através de diversas formas, mas uma delas foi e continua
sendo através do samba.
O samba passou por transformações que nos explicitam que em alguns
momentos suas tendências críticas se apresentavam mais que suas tendências
conservadoras.
Compreende-se que o conservadorismo é o sistema de valores que nasce
na sociabilidade que se funda no modo de produção capitalista, ou seja, sua
reprodução não está restrita ao âmbito individual das escolhas de valores a serem
reproduzidos por mulheres e homens. Mesmo em populações que vivenciam
situações cotidianas de violência e privação de direitos, o conservadorismo é
reproduzido, porque é uma das mediações dessa sociabilidade burguesa. Contudo,
como os valores são históricos, a possibilidade da crítica é o convite à construção de
novos valores, avessos a essa sociabilidade.
É a partir desse movimento que esta pesquisa volta-se ao samba. Apesar
de ter sua gênese vinculada à resistência do preto e pobre do Rio de Janeiro é parte
de um movimento histórico. A classe média carioca descobre as riquezas do gênero
e também quer participar. Seus aspectos iniciais ganham novos contornos, e
escampam aos propósitos da resistência; ainda que alguns compositores advindos
das classes médias, no período analisado, tiveram a ousadia de expressar suas
posições e visões de mundo que não podem ser consideradas meramente alienadas
e alienantes perante a realidade brasileira. Um exemplo dessa criticidade no samba
são as composições de Chico Buarque de Holanda.
Como nesse movimento histórico, elegeu-se nessa pesquisa a análise das
letras de samba em um determinado período: a década de 1970; conforme Netto
apontou, neste período a autocracia interviu sob duas frentes no “mundo da cultura”:
a negativa e a positiva. Na primeira delas, apresentou sua face terrorista, reprimiu,
torturou e tentou ao máximo calar a voz dos protagonistas do mundo da cultura,
inclusive a classe artística, e mais especificamente os músicos do samba.
Com relação à frente positiva, tentou promover ao máximo as vertentes
ideológicas que reproduzissem as marcas históricas do Brasil e incentivou a
proliferação das vertentes que se diziam neutras, assépticas, sem interesse pelas
questões da sociedade.
É nesta última vertente que observamos as composições de samba com
temas que revelavam sua despreocupação com a situação vivenciada pela
207

sociedade. Mas novamente, não está aqui se culpando os compositores, mas


buscando compreender que o samba, apesar de sua histórica determinação e
justamente por ela, incorpora elementos que também caminham para o conformismo
e aceitação do instituído.
Considera-se que do início do processo de mestrado até o momento, a
busca incessante por fontes, reflexões, e produções musicais do período foi
essencial para a conclusão da pesquisa.
Além disso, o trabalho como cantora, que conciliei junto ao mestrado, ao
contrário do que poderia causar de obstáculo para a construção desta pesquisa, se
mostrou de importante contribuição para a aproximação ao universo do samba e da
música. É por isso que compreendo o meu trabalho como cantora como um trabalho
que apesar de estar inserido na divisão social e técnica do trabalho e estar
permeado pelas contradições que qualquer outro trabalhador vivencia, se envolve
em caminhos estéticos que tendem a caminhar para o universal, no sentido de uma
práxis transformadora, principalmente por se dedicar aos gêneros nacionais, em
especial o samba.
O samba nunca foi neutro, já nasce comprometido com uma classe, e assim
vai caminhar entre avanços e retrocessos. Isso mostra-se diante das tendências que
as letras analisadas apresentam. Excluindo aquelas que optou-se por não utilizar
para as análises pois não expressavam diretamente os valores conservadores e/ou
críticos, o restante das letras deixou evidente que a tendência crítica e de resistência
tem maior frequência.
Outra grande consideração a ser feita é que trilhar pelos caminhos da
história do conservadorismo, de como este se reproduziu no Brasil; na compreensão
do processo do golpe e vigência da autocracia burguesa do Brasil e os sistemas
ideológicos que a sustentou; a história e transformação do samba, possibilitaram
que novas mediações fossem realizadas, o que irá contribuir para o conhecimento
da realidade e das formas de resistência da população que é atendida por
assistentes sociais e as demandas que são postas à profissão. Neste sentido é que
essa pesquisa revela-se como importantíssima para a formação e o trabalho em
serviço social.
Observam-se as composições de samba de destaque do período desta
pesquisa, assim como da própria história do samba, que suas letras expressando o
cotidiano da vida das classes populares, conseguem atravessar as estratégias de
208

censura e, de forma dialética e em níveis diversos, expressar conteúdos críticos à


sociabilidade burguesa.
E neste “ritmo” de compreender como as elites tem se empenhado em
cercear as expressões humanas contra hegemônicas, ilustro com uma experiência
pessoal:
Numa dessas manhãs de sábado eu estava em um parque da cidade me
exercitando numa corrida. Ao fim da corrida, quando parei para me alongar, vejo um
homem, aparentava ter em torno de 40 anos de idade. Ele fazia movimentos e sons
dos mais diversos, sem vergonha de que os olhos ao seu redor lhe julgassem. "Que
louco!"; foi esse o comentário que uma senhora de clara aparência de uma cidadã
de classe média veio me dirigir; e eu imediatamente, sem muito refletir, lhe respondi
"ou nós é que somos!". Então a ouvi comentando com o seu companheiro de que o
homem devia estar sob efeito de drogas. “Doidinho", concluíram mais uma vez.
Fiquei com aquela imagem em meu pensamento, acredito que seja pela
identificação que senti com o rapaz, quando ao estar se expressando, sem travas ou
padrões, foi rotulado de "louco". É assim que desde a infância me senti quando
manifestava opiniões e gostos um pouco diferentes do padrão "normal". E foi assim
que me tornei uma mulher insegura, amedrontada diante do juízo de valor da
sociedade e pomada em minhas mil possibilidades de ser humano. Aquele homem
estava usando e abusando da realidade: a diversidade humana. Pois bem, não
troquei conversa direta ele. Mas, o que me fez escrever essa história foi que
exatamente sete dias depois, estava eu lá novamente fazendo a minha corrida, e
novamente me alongando, quando avistei o mesmo homem.
Dessa vez não tinha um casal o julgando, tinham duas crianças que
brincavam entre elas, sem nem reparar a presença "diferenciada" daquele homem.
Dessa vez, ele cantava uma canção com elementos de religiões africanas, isso eu
percebi de longe por conta de algumas palavras que expressava. Ao terminar meu
alongamento, comecei a pegar a direção para ir embora, quando passei em frente a
esse homem, que neste momento deu um suspiro e mudou de canção. Então
começou a cantar: "Pai, afasta de mim esse cálice, Pai...".
Este canto me fez voltar, sentar e ficar um tempo o observando e ouvindo
aquela canção que dizia tanto sobre o que venho estudando. E não satisfeito com a
surpresa que me causou, este homem continuou parodiando a canção de Gilberto
209

Gil e Chico Buarque construindo novos significados e colocando mais de si próprio


na letra.
Sai de lá com a compreensão de como a realidade muitas vezes se mostra
em nossa frente e amarrados que estamos em padrões acadêmicos de estudos, não
a enxergamos; e de como o meu lugar de existência no mundo poderia contribuir
para este estudo, que para acontecer, demandou duas habilidades: sensibilidade e
esforço no exercício da pesquisa. Parei alguns minutos do meu dia para refletir
sobre como corpos que se expressam, opinam e se colocam como oposição, que
alguma forma desestabilizam a "ordem", são estigmatizados, são taxados como
"loucos", e para eles o que sobra é a sua desqualificação. Este é o lugar do samba,
donde expressão artística que pressiona o padrão de cultura hegemônico quando
conta a história de um povo marcado pela dominação de classe, raça e gênero, pelo
olhar desse próprio povo, feito por ele mesmo. Como reflexo estético da realidade,
espelha a vida desse povo, pelo olhar dele próprio.
Dessa forma que, sempre que eu tomar consciência de que estou sendo
envolvida pelo processo de reificação do capital, me apegarei à arte.
210

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222

APÊNDICES
223

APÊNDICE 1
Quadro de Músicas brasileiras de destaque de 1970 a 1979:
1970 Apesar de Você- Chico Buarque de Hollanda;
Azul da Cor do Mar- Tim Maia;
Bandeira Branca- Max Nunes e Laércio Alves;
Foi um Rio que Passou em Minha Vida- Paulinho da Viola;
Gente Humilde- Garoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque de Hollanda;
Jesus Cristo- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Madalena- Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza;
Menina- Paulinho Nogueira;
Pra Frente Brasil- Miguel Gustavo;
Procurando Tu- Antônio Barros e J. Luna;
O amor é meu país- Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza;
Assim na Terra como no céu- Roberto Menescal e Paulinho Tapajós;
BR-3- Antônio Adolfo e Tibério Gaspar;
O cabeção- Roberto Correia e Sílvio Son;
Cento e Vinte, Cento e Cinquenta, Duzentos Quilômetros por hora- Roberto Carlos
e Erasmo Carlos;
Coqueiro Verde- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
É de Lei- Baden Powell e Paulo César Pinheiro;
Eu amo você- Cassiano e Sílvio Rochael;
Eu te amo meu Brasil- Dom (Eustáquio Gomes de Farias);
Hotel das Estrelas- Jards Macalé e Duda Machado;
Irmãos Coragem- Nonato Buzar e Paulinho Tapajós;
London, London- Caetano Veloso;
Meu Laiá-Raiá- Martinho da Vila;
Meu pequeno cachoeiro- Raul Sampaio;
Paixão de um Homem- Waldick Soriano;
Pra você- Sílvio César;
Primavera- Cassiano e Sílvio Rochael;
Primeiro Clarim (marcha-rancho/carnaval), Klecius Caldas e Rutinaldo;
Quero voltar pra Bahia- Paulo Diniz;
Se eu pudesse conversar com Deus- Nelson Ned;
Teletema- Antônio Adolfo e Tibério Gaspar;
Tudo se transformou- Paulinho da viola;
Universo no teu corpo- Taiguara;
Vai ser assim- Martinha;
Verão vermelho- Nonato Buzar;
Vista a Roupa meu bem- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Vou deitar e rolar- Baden Powell e Paulo César Pinheiro;
1971 Como dois e dois- Caetano Veloso;
Construção- Chico Buarque de Holanda;
Cotidiano- Chico Buarque de Holanda;
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Detalhes- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Festa para um Rei Negro (Pega no ganzê) (samba-enredo/carnaval)- Zuzuca- Adil de
Paula;
Tarde em Itapoã- Toquinho e Vinícius de Moraes;
Você Abusou- Antônio Carlos e Jocafi;
Amada Amante- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Amanda- Taiguara;
Balada n7 (Mané Garrincha)- Alberto Luís;
Bloco da Solidão (marcha-rancho/carnaval)- Evaldo Gouveia e Jair Amorim;
Boêmio Demodê- Adelino Moreira;
O Cafona- Marcos vale e Paulo Sérgio Vale;
De noite na cama- Caetano Veloso;
De tanto amor- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Desacato- Antônio Carlos e Jocafi;
Deus lhe pague- Chico Buarque;
Ê Baiana- Fabrício Silva, Baianinho, Ênio Santos Ribeiro e Miguel Pancrácio;
Impossível acreditar que perdi você- Márcio Greyck e Cobel;
Independência ou Morte- Zé Di;
Lapa em três tempos- samba-enredo/carnaval- Ari do Cavaco e Rubens;
Menina da Ladeira- João Só;
224

Minha gente amiga- Ronnie Von e Antônio Pedro Costa;


Mudei de Ideia- Antônio Carlos e Jocafi;
Pra começo de Assunto (Lá-lá-lá-lá-lá)- Elizabeth;
Quem mandou você errar- Cláudia Barroso;
Salve, Salve Brasileiro Eduardo Araújo e Marcos Durães;
A Tonga da Mironga do Cabuletê- Toquinho e Vinícius de Moraes;
Traumas- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Valsinha- Chico Buarque de Hollanda e Vinícius de Moraes;
Você- Tim Maia;
Você Mudou demais- Dik Júnior.
1972 Acabou chorare- Moraes Moreira e Luiz Galvão;
Águas de Março- Antônio Carlos Jobim;
Casa no Campo- Zé Rodrix e Tavito;
Chuva, suor e Cerveja- Caetano Veloso;
Eu quero é botar meu bloco na rua- Sério Sampaio;
Expresso 2222- Gilberto Gil;
Fio Maravilha- Jorge Ben;
Mucuripe- Fagner e Belchior;
Nada será como antes- Milton Nascimento e Ronaldo Bastos;
Oração de mãe menininha- Dorival Caymmi;
Partido Alto- Chico Buarque de Hollanda;
Pérola Negra- Luiz Melodia;
Preta Pretinha- Moraes Moreira e Luiz Galvão;
Vapor Barato- JardsMacalé e Waly Salomão;
Acontece- Cartola;
Agora eu sei- Edson Roberto e Helena dos Santos;
Alô, Alô, Taí Carmen Miranda (samba-enredo/carnaval), Wilson Diabo, Heitor Rocha e
Maneco;
Alô Fevereiro- Sidney Miller;
Atrás da Porta- Chico Buarque e Francis Hime;
Bala com Bala- João Bosco e Aldir Blanc;
Balada de Louco- Arnaldo Baptista e Rita Lee;
Besta é tu- Pepeu Gomes, Luiz Galvão e Moraes Moreira;
Boêmio 72- Adelino Moreira;
Cais- Milton Nascimento e Ronaldo Bastos;
Casa e Comida- Rossini Pinto;
Como vai você Antônio Marcos;
A dança da Solidão- Paulinho da Viola;
Das duzentas pra lá- João Nogueira;
Esperança perdida- Adeilton Alves e Délcio Carvalho;
Eu não sou cachorro não- Waldick Soriano;
Ilu Ayê (terra da vida)- Samba-enredo/carnaval- Cabana e Norival Reis;
Mangueira, Minha madrinha querida (Tengo-tengo)- samba-enredo/carnaval- Zuzuca;
Mon Amour, meu bem, ma femme- Cleide de Lima;
A montanha- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Oração de um jovem triste- Alberto Luís;
Oriente- Gilberto Gil;
Por amor- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Por Deus eu juro- Cláudia Barroso;
Quando as crianças saírem de férias- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Regra três- Toquinho e Vinícius de Moraes;
Você não entende nada- Caetano Veloso;
Vou tirar você desse lugar- Odair José.
1973 Estácio Holy Estácio- Luiz Melodia;
Folhas secas- Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito;
Gostava tanto de você- Edson Trindade;
Ouro de tolo- Raul Seixas;
Retalhos de Cetim- Benito Di Paula;
Só quero um Xodó- Dominguinhos e Anastácia;
Viagem- João de Aquino e Paulo César Pinheiro;
Uma vida só (pare de tomar a pílula)- Odair José e Ana Maria;
O vira- João Ricardo e Luli;
Cavalo Ferro- Fagner e Ricardo Bezerra;
A cigana- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Cristo, quem é você?- Odair José e Silva Santos;
A desconhecida- Fernando Mendes e Banana- José Alves Filho;
Drama- Caetano Veloso;
225

Esse cara- Caetano Veloso;


Eu bebo sim- Luís Antônio e João Violão;
Eu, você e a praça- Odair José;
O homem de Nazaré- Cláudio Fontana;
Matita Perê- Antônio Carlos Jobim e Paulo César Pinheiro;
Metamorfose ambulante- Raul Seixas;
Mosca na Sopa- Raul Seixas;
Não tenho culpa de ser triste- Nelson Ned;
Naquela Mesa- Sérgio Bittencourt;
Ninguém tasca (samba/carnaval)- Marinho da Muda e João Quadrado;
Nunca mais, nunca mais- Evaldo Braga e César Saraiva da Silva;
Orgulho de um sambista- Gilson de Souza;
Porta aberta- Luís Ayrão;
A proposta- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Quando eu me chamar saudade- Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito;
Réu Confesso- Tim Maia;
Rosa de Hiroshima- Gerson Conrad e Vinícius de Moraes;
Sangue Latino- João Ricardo e Paulo Mendonça;
Sorria, sorria- Evaldo Braga e Carmen Lúcia;
Tristeza pé no chão- Mamão (Armando Fernandes);
1974 Abre Alas- Ivan Lins e Vitor Martins;
Conto da areia- Romildo S.Bastos e Toninho (Antônio Carlos Nascimento Pinto);
Feelings- Maurício Alberto Kaiserman;
Gita- Raul Seixas e Paulo Coelho;
Maracatu Atômico- Jorge Mautner e Nelson Jacobina;
Na Rua, na chuva, na Fazenda (casinha de sapê)- Hyldon;
Quantas lágrimas- Manacéia;
Acorda Amor- Julinho de Adelaide (pseudônimo de Chico Buarque de Hollanda);
Os alquimistas estão chegando os alquimistas- Jorge Ben;
Alvorecer- Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara;
Boi da Cara preta (samba/carnaval) Zuzuca;
Cadê você- Odair José;
Canta, canta minha gente- Martilho na Vila;
Como vovó já dizia- Raul Seixas;
Disfarça e chora- Cartola e Dalmo Castelo;
Disritmia- Martinho da Vila;
E lá vou eu- João Nogueira e Paulo César Pinheiro;
Errare Humanum est- Jorge Ben;
Eu quero apenas- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Eu quero apenas carinho- José Augusto, Miguel, Marcelo e Salim;
A festa do divino (samba-enredo/carnaval)- Tatu, Nozinho e Campo;
Manhãs de setembro - Vanusa e Mário Campanha;
Menino Deus- Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro;
O mundo melhor de Pixinguinha (samba-enredo/carnaval)- Evaldo Gouveia, Jair Amorim
e Velha;
No silêncio da madrugada- Luis Ayrão;
A noite mais linda do mundo- Odair José;
Porque te amo- Celso Ricardi e José Roberto;
O portão- Roberto Carlos;
Samba da volta- Toquinho e Vinícius de Moraes;
Se não for amor- Benito Di Paula;
Toró de lágrimas- Antônio Carlos, Jocafi e Zé do Maranhão;
O trem das sete- Raul Seixas;
1975 Beijo partido- Toninho Horta (Antônio Maurício Horta de Melo);
De frente pro crime- João Bosco e Aldir Blanc;
Dois pra lá, dois pra cá- João Bosco e Aldir Blanc;
Fé Cega, Faca amolada- Milton Nascimento e Ronaldo Bastos;
O mar serenou- Candeia;
Moça- Wando;
Modinha para Gabriela- Dorival Caymmi;
Ponta de Areia- Milton Nascimento e Fernando Brant;
Conversando no bar (saudade dos aviões da Panair)- Milton Nascimento e Fernando
Brant;
Severina Xique Xique- Genival Lacerda e João Gonçalves;
Além do horizonte- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Amor com amor se paga- Luis Wanderley e Katia;
Argumento- Paulinho da Viola;
226

Beleza que é você mulher- Benito Di Paula;


Bilu Tetéia- Mauro Celso;
Charlie Brown- Benito Di Paula;
Deixe meu marido em paz- Cláudia Barroso;
As dores do mundo- Hyldon;
Estrela de Madureira- Assis Pimentel e Cardoso;
Fato consumado- Djavan;
Filhos da Véia- Luís Américo e Braguinha;
Foi tudo culpa do amor- Diana;
Kid Cavaquinho- João Bosco e Aldir Blanc;
Macunaíma (samba-enredo/carnaval)- Norival Reis e David Correia;
O mestre-sala dos mares- João Bosco e Aldir Blanc;
Mil e Oitocentas Colinas- Gracia do Salgueiro;
Moro onde não mora ninguém- Agepê e Canário;
Mulher brasileira- Benito Di Paula;
Na beira do mar- Gracia do Salgueiro;
Na sombra de uma árvore- Hyldon;
Nó na madeira- João Nogueira e Eugênio Monteiro;
Ovelha Negra- Rita Lee;
Paralelas- Belchior;
Refazenda- Gilberto Gil;
Salve a Mocidade (samba/carnaval)- Luís Reis;
Sem açúcar- Chico Buarque de Hollanda;
Tango pra Teresa- Evaldo Gouveia e Jair Amorim;
Turbilhão- Toquinho e Mutinho;
Vai levando- Caetano Veloso e Chico Buarque;
1976 Como nossos pais- Belchior;
Gota d'água- Chico Buarque;
Juventude Transviada- Luiz Melodia;
A Lua e Eu- Cassiano e Paulo Zdanowski;
Os meninos da Mangueira- Rildo Hora e Sérgio Cabral;
Mineira- João Nogueira e Paulo César Pinheiro;
Não deixe o samba morrer- Edson e Aloísio;
Nem ouro nem prata- Rui Maurity e José Jorge;
Olhos nos olhos- Chico Buarque de Hollanda;
Pavão Misterioso- Ednardo;
O que será- Chico Buarque;
As rosas não falam- Cartola;
A Palo Seco- Belchior;
Acreditar- Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho;
Apenas um rapaz latino americano- Belchior;
Canto das três raças- Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro;
Eu nasci há dez mil anos atrás- Raul Seixas e Paulo Coelho;
Ilegal, Imoral ou engorda- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Incompatibilidade de gênios- João Bosco e Aldir Blanc;
Meu caro amigo- Chico Buarque e Francis Hime;
Meu mundo e nada mais- Guilherme Arantes;
Moça Bonita- Evaldo Gouveia e Jair Amorim;
Moça criança- Agepê e Canário;
Mulheres de Atenas- Chico Buarque de Hollanda;
O mundo é um moinho- Cartola;
Nuvem passageira- Hermes de Aquino;
A paz que nasceu pra mim- Jorge Veloso e Andó (Antônio Scarpellini);
Pecado capital- Paulinho da Viola;
Peito Vazio- Cartola e Élton Medeiros;
O progresso- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Promessa ao Gantois- Mateus e Dadinho;
O rancho da goiabada- João Bosco e Aldir Blanc;
Serafim e seus filhos- Rui Maurity e José Jorge;
Os seus botões- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Sonhar com rei dá leão (samba-enredo/carnaval)- Neguinho da Beija-flor;
O surdo- Totonho e Paulinho Resende;
Vai ficar na Saudade- Benito Di Paula;
Velha Roupa Colorida- Belchior;
Você não passa de uma mulher- Martinho da Vila;
Xica da Silva- Jorge Bem;
1977 Amigo- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
227

Barra Pesada- Melô da Baixada- Dicró e José Paulo;


Começaria tudo outra vez- Luiz Gonzaga Júnior;
Flor de Lis- Djavan;
Jura Secreta- Sueli Costa e Abel Silva;
Maluco Beleza- Raul Seixas e Cláudio Roberto;
Pombo Correio- Dodô, Osmar e Moraes Moreira;
Romaria- Renato Teixeira;
Saco de Feijão- Chico Santana (Francisco Felisberto de Sant'Anna);
Somos todos iguais nesta noite- Ivan Lins e Vitor Martins;
Sonhos- Peninha;
Arrombou a festa- Rita Lee e Paulo Coelho;
Carro de Boi- Maurício Tajapós e Cacaso;
Cavalgada- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Coleção- Cassiano e Paulo Zdanowski;
Conto Até Dez- Luiz Ayrão;
Coração Selvagem- Belchior;
Desencontro de Primavera- Hermes de Aquino;
O que em que a Terra Parou- Raul Seixas e Cláudio Roberto;
Falando sério- Maurício Duboc e Carlos Colla;
Filho único- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Foi assim- Paulo André e Rui Barata;
Ilha de Maré- Valmir Lima e Lupa;
Liberdade- Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho;
Maninha- Chico Buarque;
Menina dos Cabelos Longos- Agepê e Canário;
Meu Velho Pai- Léo Canhoto;
Morte de um Poeta- Totonho e Paulo Resende;
Oi, Compadre- Martinho da Vila;
Perdido na Noite- Agnaldo Timóteo;
Perdoa- Paulinho da Viola;
Refavela- Gilberto Gil;
Sorte Tem quem acredita nela- Mário Marcos e Maxcilliano;
Tigresa- Caetano Veloso;
Tranquei a vida- Ronnie Von e Tony Osanha

1978 Café da manhã- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;


Cálice- Chico Buarque e Gilberto Gil;
Dancin'Days- Nelson Mota e Rubens Queiroz;
Folhetim- Chico Buarque;
Força Estranha- Caetano Veloso;
Homenagem ao malandro- Chico Buarque de Hollanda;
João e Maria- Sivuca e Chico Buarque de Hollanda;
Maria, Maria- Milton Nascimento e Fernando Brant;
Não existe pecado ao sul do equador- Chico Buarque e Rui Guerra;
Outra vez- Isolda;
Sampa- Caetano Veloso;
Terra- Caetano Veloso;
Ai que vontade (samba/carnaval)- Beto Sem Braço e Dão;
Os amantes- Sidney Conceição, Lourenço e Augusto César;
O amor não é brinquedo- Martinho da Vila e Candeia;
Amor perfeito- Vicente Dias;
Aprenda a amar- Valter D'Ávila Filho e Cláudia Teles;
Assobiar e Chupar Cana- Benito Di Paula;
Bandeira do Divino- Ivan Lins e Vitor Martins;
Eu pecador- Agnaldo Timóteo;
Gosto de maçã- Wando;
Guerreira- João Nogueira e Paulo César Pinheiro;
Lady Laura- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Mais uma vez- Mariozinho Rocha, Renato Correia e Paulo Sérgio Vale;
O meu amor- Chico Buarque de Hollanda;
Meu primeiro amor- José Augusto, Miguel e Paulo Coelho;
Mundo bom- Agepê e Canário;
A noite vai chegar- Paulinho Camargo;
Perigosa- Rita Lee, Roberto Carvalho e Nelson Mota;
A primeira vez- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Proposta amorosa- Monarco;
Que pena- Peninha e Roberto Livi;
228

Quem dá mais- Beto Suryan;


Querelas do Brasil- Maurício Tapajós e Aldir Blanc;
Sandra Rosa Madalena, a cigana- Roberto Livi e Miguel Cidras;
Sossego- Tim Maia;
Sufoco- Chico da Silva e Antônio José;
Teresinha- Chico Buarque;
Todo menino é um rei- Nelson Rufino e Zé Luís;
Trocando em miúdos- Chico Buarque e Francis Hime;
1979 Amor, meu grande amor- Ângela Ro Ro e Ana Terra;
O bêbado e a equilibrista- João Bosco e Aldir Blanc;
Bye, Bye, Brasil- Roberto Menescal e Chico Buarque de Hollanda;
Começar de novo- Ivan Lins e Vitor Martins;
Explode Coração (não dá mais pra segurar)- Luiz Gonzaga Júnior;
Senhora Liberdade- Wilson Moreira e Nei Lopes;
Meu Drama (senhora tentação)- Silas de Oliveira e J. Ilarindo;
Realce- Gilberto Gil;
Sonho meu- Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho;
Super-homem- A canção- Gilberto Gil;
Vou festejar- Jorge Aragão- Dida e Neoci;
Álibi- Djavan;
Até parece que foi sonho- Fábio, Paulo Sérgio Vale e Diogo;
O barrigudo- Dicró e Elias do Parque;
Beleza Pura- Caetano Veloso;
Casinha Branca- Gilson e Joran;
Coisinha do pai- Jorge Aragão e Luís Carlos;
Desabafo- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Descaminhos- Joanna e Sarah Benchimol;
Desesperar Jamais- Ivan Lins e Vitor Martins;
Emoções- Wando;
Fique mais um pouco- Rosana e Paulo Coelho;
Lembranças- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Linha de Passe- João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio;
Lua de São Jorge- Caetano Veloso;
Medo de avião- Belchior;
Meu querido, meu velho, meu amigo- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Na linha do Mar- Paulinho da Viola;
Na paz do seu sorriso- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Pai- Fábio Junior;
Pega eu- Crioulo doido;
Preto que satisfaz- Luiz Gonzaga Júnior;
Revelação- Clodô e Clésio;
Rua Ramalhete- Tavito e Nei Azambuja;
Sob medida- Chico Buarque;
Tô Voltando- Maurício Tajapós e Paulo César Pinheiro;
Toda menina baiana- Gilberto Gil;
Vazio- Nelson Rufino.
229

APÊNDICE 2
Quadro de Sambas de destaque de 1970 a 1979:
1970 Apesar de você- Chico Buarque de Holanda;
Foi um rio que passou em minha vida- Paulinho da Viola;
Madalena- Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza;
Coqueiro Verde- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
É de Lei- Baden Powell e Paulo César Pinheiro
Meu Laiá-Raiá- Martinho da Vila;
Tudo se transformou- Paulinho da Viola;
Vou deitar e rolar- Baden Powell e Paulo César Pinheiro;
1971 Construção- Chico Buarque do Hollanda;
Cotidiano- Chico Buarque do Hollanda;
Festa para um Rei Negro (Pega no Ganzê) (samba-enredo/carnaval) Zuzuca- Adil de
Paula;
Tarde em Itapoã- Toquinho e Vinícius de Moraes;
Você abusou- Antonio Carlos Marques Porto e Jocafi(José Carlos Figueiredo);
Boêmio Demodê- Adelino Moreira;
Desacato- Antonio Carlos e Jocafi;
Ê Baiana- Fabrício Silva, Baianinho, Ênio Santos Ribeiro e Miguel Pancrácio;
Independência ou morte - Zé Di;
Lapa em Três Tempos (samba-enredo/carnaval)- Ari do Cavaco e Rubens;
Mudei de ideia- Antonio Carlos e Jocafi;
A Tonga da Mironga do Cabuletê- Toquinho e Vinícius de Moraes;
1972 Águas de Março- Antônio Carlos Jobim;
Fio Maravilha- Jorge Ben;
Oração de mãe menininha- Dorival Caymmi;
Partido Alto- Chico Buarque de Hollanda;
Acontece- Cartola;
Alô, Alô, Taí Carmen Miranda (samba-enredo/carnaval), Wilson Diabo, Heitor Rocha e
Maneco;
Alô Fevereiro- Sidney Miller;
Bala com Bala- João Bosco e Aldir Blanc;
Besta é tu- Pepeu Gomes, Luiz Galvão e Moraes Moreira;
Boêmio 72- Adelino Moreira;
A dança da Solidão- Paulinho da Viola;
Das duzentas pra lá- João Nogueira;
Esperanças perdidas- Adeilton Alves e Délcio Carvalho;
IluAyê (terra da vida)- Samba-enredo/carnaval- Cabana e Norival Reis;
Mangueira, Minha madrinha querida (Tengo-tengo)- samba-enredo/carnaval- Zuzuca;
Regra três- Toquinho e Vinícius de Moraes;
Você não entende nada- Caetano Veloso;
1973 Estácio Holy Estácio- Luiz Melodia;
Folhas secas- Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito;
Retalhos de Cetim- Benito Di Paula;
Eu bebo sim- Luís Antônio e João Violão;
Naquela Mesa- Sérgio Bittencourt;
Ninguém tasca (samba/carnaval)- Marinho da Muda e João Quadrado;
Orgulho de um sambista- Gilson de Souza;
Porta aberta- Luís Ayrão;
Quando eu me chamar saudade- Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito;
Tristeza pé no chão- Mamão (Armando Fernandes);
1974 Abre Alas- Ivan Lins e Vitor Martins;
Conto da areia- Romildo S. Bastos e Toninho (Antônio Carlos Nascimento Pinto);
Maracatu Atômico- Jorge Mautner e Nelson Jacobina;
Quantas lágrimas- Manacéia;
Acorda Amor- Julinho de Adelaide (pseudônimo de Chico Buarque de Hollanda);
Os alquimistas estão chegando os alquimistas- Jorge Ben;
Alvorecer- Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara;
Boi da Cara preta (samba/carnaval) Zuzuca;
Canta, canta minha gente- Martinho na Vila;
Disfarça e chora- Cartola e Dalmo Castelo;
Disritmia- Martinho da Vila;
E lá vou eu- João Nogueira e Paulo César Pinheiro;
Errare Humanum est- Jorge Ben;
230

A festa do divino (samba-enredo/carnaval)- Tatu, Nozinho e Campo;


Menino Deus- Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro;
O mundo melhor de Pixinguinha (samba-enredo/carnaval)- Evaldo Gouveia, Jair Amorim e
Velha;
No silêncio da madrugada- Luis Ayrão;
Samba da volta- Toquinho e Vinícius de Moraes;
Se não for amor- Benito Di Paula;
Toró de lágrimas- Antônio Carlos, Jocafi e Zé do Maranhão;
1975 De frente pro crime- João Bosco e Aldir Blanc;
O mar serenou- Candeia;
Modinha para Gabriela- Dorival Caymmi;
Além do horizonte- Roberto Carlos e Erasmo Carlos;
Argumento- Paulinho da Viola;
Beleza que é você mulher- Benito Di Paula;
Charlie Brown- Benito Di Paula;
Estrela de Madureira- Assis Pimentel e Cardoso;
Fato consumado- Djavan;
Filhos da Véia- Luís Américo e Braguinha;
Kid Cavaquinho- João Bosco e Aldir Blanc;
Macunaíma (samba-enredo/carnaval)- Norival Reis e David Correia;
O mestre-sala dos mares- João Bosco e Aldir Blanc;
Mil e Oitocentas Colinas- Gracia do Salgueiro;
Moro onde não mora ninguém- Agepê e Canário;
Mulher brasileira- Benito Di Paula;
Na beira do mar- Gracia do Salgueiro;
Nó na madeira- João Nogueira e Eugênio Monteiro;
Salve a Mocidade (samba/carnaval)- Luís Reis;
Sem açúcar- Chico Buarque de Hollanda;
Turbilhão- Toquinho e Mutinho;
Vai levando- Caetano Veloso e Chico Buarque de Hollanda.
1976 Gota d'água- Chico Buarque de Hollanda;
Juventude Transviada- Luiz Melodia;
Os meninos da Mangueira- Rildo Hora e Sérgio Cabral;
Mineira- João Nogueira e Paulo César Pinheiro;
Não deixe o samba morrer- Edson e Aloísio;
Nem ouro nem prata- Rui Maurity e José Jorge;
O que será- Chico Buarque de Hollanda;
As rosas não falam- Cartola;
Acreditar- Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho;
Canto das três raças- Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro;
Incompatibilidade de gênios- João Bosco e Aldir Blanc;
Meu caro amigo- Chico Buarque de Hollanda e Francis Hime;
Moça criança- Agepê e Canário;
Mulheres de Atenas- Chico Buarque de Hollanda;
O mundo é um moinho- Cartola;
A paz que nasceu pra mim- Jorge Veloso e Andó (Antônio Scarpellini);
Pecado capital- Paulinho da Viola;
Peito Vazio- Cartola e Élton Medeiros;
Sonhar com rei dá leão (samba-enredo/carnaval)- Neguinho da Beija-flor;
O surdo- Totonho e Paulinho Resende;
Vai ficar na Saudade- Benito Di Paula;
Você não passa de uma mulher- Martinho da Vila;
Xica da Silva- Jorge Bem;
1977 Barra Pesada- Melô da Baixada- Dicró e José Paulo;
Flor de Lis- Djavan;
Saco de Feijão- Chico Santana (Francisco Felisberto de Sant'Anna);
Conto Até Dez- Luiz Ayrão;
Ilha de Maré- Valmir Lima e Lupa
Liberdade- Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho
Menina dos Cabelos Longos- Agepê e Canário;
Morte de um Poeta- Totonho e Paulo Resende
Oi, Compadre- Martinho da Vila;
Perdoa- Paulinho da Viola
Refavela- Gilberto Gil
1978 Homenagem ao malandro- Chico Buarque de Hollanda;
Sampa- Caetano Veloso;
Ai que vontade (samba/carnaval)- Beto Sem Braço e Dão;
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O amor não é brinquedo- Martinho da Vila e Candeia;


Assobiar e Chupar Cana- Benito Di Paula;
Guerreira- João Nogueira e Paulo César Pinheiro;
Mundo bom- Agepê e Canário;
Proposta amorosa- Monarco;
Querelas do Brasil- Maurício Tapajós e Aldir Blanc;
Sufoco- Chico da Silva e Antônio José;
Todo menino é um rei- Nelson Rufino e Zé Luís;
1979 O bêbado e a equilibrista- João Bosco e Aldir Blanc;
Senhora Liberdade- Wilson Moreira e Nei Lopes;
Meu Drama (senhora tentação)- Silas de Oliveira e J. Ilarindo;
Sonho meu- Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho;
Vou festejar- Jorge Aragão- Dida e Neoci;
O barrigudo- Dicró e Elias do Parque;
Coisinha do pai- Jorge Aragão e Luís Carlos;
Desesperar Jamais- Ivan Lins e Vitor Martins;
Na linha do Mar- Paulinho da Viola;
Pega eu- Crioulo doido (compositor de Bezerra da Silva);
Tô Voltando- Maurício Tajapós e Paulo César Pinheiro;
Vazio- Nelson Rufino.

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