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CARLO GINZBURG

HISTORTA
NOTURNÁ
DECIFRAA{DO O SABÁ
rtt ríy;nx Tradução:
NILSON MOULIN TOUZADA

2s edição
2s reimpressã.a

PASÏA DÉ PROFESSORES
DATA:
Copyright @ 1989 by Giulio Einaudi Editore S.P.Â., Torino À mefiória de mea pai
À minhamde
Título original:
Storid nottnrfra
Una úcifrazione d.el vbbà

CaPa:
João Bapthta da Cotta Agziar
sobre O sabá das brua (1819-2O'),
de Francisco José Goya y Lucientes

Preparação:
Mário Vilela

Índices de nomes e lugates:


Maria lraê de Sotza

Revisão:
Carmen S. da Costa
Maria Anília Dahenter

Dados lnrcrnecioneis dc Crtalogação na PublicÂção (clP)


(Câmare Bt*ilcin do Livro, sr, Brxil)

Ginzburg, Carlo, 1939-


Histótio ooturnr : dccifrando o Sahí / Carlo Ginrburg ;
traduçilo Nilson Moulin huzada. - Sío Paulo: Componhia d*
Lcttd,1991.

Bibliografia.
tsBN 978-8r-7164-I7l-0

l. Fcitiçrrir - EuroPâ 2. MÂ8i - EuroPa J Srbá I Tí(ulo.

cDD-l 13.41094

Índic* peracetílogo sistemático:


l. Europa: Fcitiçrria c magie: Ocultismo 133.43094
2, Europi : Mâgir e f.itiçrid : Ocultismo 111.43094
J. Europe: SebÁ: Oculcismo I11.43094

2007

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA SCHìIíARCZ LTDÂ.


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sobre os coxos, não tomara como ponto de partida justamente a re-
forma do calendário com a qual Gregório XIII abreviara a dura-
ção do ano?a

2. Explicar um fenômeno documentado do Mediterrâneo às


Américas recorrendo a uma citação de Montaigne significa permitir-
se uma licença que arrisca desacreditar a qualidade do método
2 - ob-
serva, não sem validade, o antropólogo. Mas, se sua argumentação
OSSOS E PELES parece evidentemente inadequada, a pergunta que a provocara (por
que mitos e ritos centrados na coxeadura são recorrentes em culturas
tão diversasZ) é bem real. Buscar uma resposta satisfatôria a tal ques-
tão significa chocar-se de novo com uma série de dificuldades que,
no curso da pesquisa que estamos conduzindo, haviam perrnanecido
sem solução. De repente, temas já encontrados surgirão com nova luz.
1. Um antropólogo francês que está escrevendo uma grande
tetralogia sobre os mitos ameríndios percebe, após chegar quase à 3. O antropólogo que relevou a importância transcultural do
metade da obra, que incorreu num erro.r No volume precedente, coxear mítico e ritual não considerou oportuno recordar, em relação a
contara e analisara, entre inúmeros outros, um mito de certa popu- isso, o mito de Édipo. Contudo, se não foi o primeiro, por certo enfa-
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la tluJl
lação indigena da Amazônia (os terenas) omitindo, porém, um deta-
lhe, cuja importância lhe ocorre de repente. (O mito chegara até o
tizara a importância da alusão a um defeito no caminhar contida no
nome de Édipo (bem como no do avô dele, Labadaco, "o coxo").s
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IIJ I
antropólogo por intermédio de um filtro triplo, caòa vez menos indi-
reto; um etnógrafo alemão que escrevia em português; um intérprete
Uma profecia diz que o filho de Laio, rei de Tebas, matará o
próprio pai e casará com a mãe, Para afastar esse destino infausto,
tL lr local que falava português e terena; um informador indígena que só a criança é abandonada logo depois do nascimento; porém, antes lhe
lõ F -ll
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falavaterena.)2 Trata-se de um detalhe "minimo": em seguida aos furam os tornozelos. Daí o nome de Édipo, isto é, "pé inchado".e
Trata-se de uma explicação formulada desde a Antiguidade. Mas já
Í< ru ll sortilégios da mulher, o protagonista de um mito sobre a origem do

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Õ I' tabaco torna-se manco. O antropólogo dá-se conta de que a coxea-
dura aparece também num rito terena
então alguns não a consideraram suficiente. Por que fora agredido
dessa maneira um recém-nascido que não tinha condições de fugirT
f- ÉÉl - e não só ali mas também em
grande número de mitos e, sobretudo, ritos documentados nas Amé- O autor de um comentário ao Édipo rei de Sófocles supôs que o me-
:* tr 5t ricas, na China, na Europa continental, no Mediterrâneo. Todos es- nino tivesse sido ferido para que ninguém pensasse em adotá-Io.7 É
uma conjetura racionalista e, sem dúvida, estranha ao espirito do
tão ligados
- parece-lhe - à mudança da estação. Uma conexão mito. Ainda menos aceitável é a hipótese de que o detalhe incom-
transcultural que cobre uma área tão imensa não pode, evidente-
mente, restringir-se a causas explicativas particulares. Se não se quer preensivel dos pés mutilados seja um acréscimo posterior, sugerido
fazer remontar o rito da dança claudicante ao Paleolitico (o que, ob- pelo nome "Édipo".e
serva o antropôlogo, explicaria sua distribuição geográfica mas não'a Um nome singular, decerto; pouco adequado tanto a um herói
sobrevivência), é preciso procurar, pelo menos como hipótese, uma quanto a um deus. Foi associado ao de Melampo, "pé preto", adivi-
explicação de ordem estrutural.3 O antropólogo arrisca uma mes- nho e curandeiro da Tessália. Um mito contava que, logo depois de
- nascer, Melampo fora exposto num bosque; o sol lhe queimara os pés
mo tendo plena consciência da pobreza da documentação americana.
Se o problema colocado por esses ritos é o de abreviar (écourter) uma nus; daí o epíteto.e Nas figuras de Édipo e Melampo, viu-se uma
estação em benefício da outra, para acelerar sua passagem, a dança ligação com as divindades subterrâneas; nas deformaçõesqueoscarac-
terizam, alusões eufemísticas ao corpo negro e inchado do mais tipico
claudicante fornece uma correspondente
perfeito
- ou melhor, um diagrama dentre os animais ctônicos, a serpente. Essa última conjetura é evi-
do desequilíbrio pretendido. Montaigne, no ensaio famoso
-
200 201
dentemente absurda,r0 Mas é indubitável que Édipo e Melampo, além duas fases que corresponderiam, no caso de Edipo, aos pes perfurados
de ser ambos adivinhos, estão associados por um defeito nos pés pro- e à iníância transcorrida entre os pastores.rs Na Grécia, sÓ restavam
vocado pela exposição. Tais convergências, como veremos, não são traços débeis ou indiretos de costumes desse gênero.re Mas sua difu-
casuais.ll são em culturas muito diferentes deixou marcas indeléveis nas fábulas
Deixemos Melampo de lado e voltemos a Édipo. Seu nome e de magia. Nestas, decifrou-se uma estrutura Íecorrente: o herÓi, de-
sua função de instrumento inconsciente da desgraça dos pais foram
interpretados como residuos de um núcleo fabular em parte cance-
pois de ir ao reino dos mortos
- o correspondente mítico dos ritos de
iniciação volta à terra para casar com a rainha. Podemos supor
lado.l2 Foi identificado a um enredo elementar, tipico das fábulas má- -,
que na versão mais antiga do mito de Édipo (identificada, como foi
gicas: o herói, após ter resolvido com meios extraordinários uma ta-
dito, a uma fábula mágica) a ferida nos pés, a exposição, o período
refa diÍicil, casa com a princesa (às vezes, depois de ter assassinado passado à margem do mundo da polis nas alturas selvagens do Ci-
o velho rei). Na versão do mito que chegou até nós, a morte do rei, teron, a luta contra a esÍinge - depois atenuada na solução do enigma
Laio, precede a tarefa dificil: a solução do enigma proposto pela es-
finge.r3 Além disso, em vez de chegar a um reino estrangeiro, o herói - escandissem as etapas de uma viagem iniciática rumo ao além.e
Essa interpretação confirmaria, integrando-a e corrigindo-a, aquela jâ
abandonado retorna à própria casa
- o que implica o parricldio e o
incesto. Essa última variação, na qual hoje reconhecemos o núcleo
mencionada que vê em Ëdipo um herôi ctônico, associado a divin-
dades infernais como as erínias, ambíguas portadoras de prosperidade
essencialmente "edípico", constituiria um incesto tardio que, na e morte.2l Entre os epitetos aplicados às erínias, os nomes terminados
elaboração dos poetas trágicos, teria acabado por transformar proÍun- em -pous são particularmente freqüentes. Foi observado que Édipo,
damente o enredo fabular mais antigo.la nas Fenlcias de Euripides (vv. 1543-)), compara-se - depois de ter
A tentativa de distinguir estratos diversos no interior de um
mito é, quase inevitavelmente, conjetural. Todavia, convém subli-
ficado cego
- a um fantasma, a um morto.22 E a esfinge é, sem dú-
vida, um animal mortuário.B
nhar que "mais antigo" não significa nem "mais autêntico" (dado
que o mito é sempre assumido em bloco pela cultura que dele se apro- 4. Todavia, essas conjeturas não explicam a forma especial de
pria) nem "originário" (sendo a origem de um mito, por definição, mutilação infligida a Ëdipo antes de este ser exposto.2a Essa mutilação
inacessivel).ls Mas, se admitirmos que, como critério, uma distinção e indiretamente iluminada poÍ outÍa exegese que, à diíerença da pre-
entre os vários estratos seja possível, os pés mutilados de Édipo pa- cedente, considera o mito em sua totalidade, incluindo também o par-
recem pertencer ao núcleo da fábula e não âs sobreposições suces- ricidio e o incesto.x Ass.im, a história de Édipo é inserida num con-
sivas. Embora difundida em muitas culturas, a adivinhação da esfinge
iunto de mitos e sagas que cobrem uma área geográfica.vastissima:
(;'qual animal caminha com quatro patas de manhã, duas ao meio- da Europa ao Sudeste asiático, passando pelo norte da Africa, com
dia e três à noiteT"), apesar de referir-se ao homem de um modo prolongamentos que vão do mar Artico a Madagáscar.26 Esses mitos e
geral, adquiria um signiíicado particular no momento em que era sagas se baseiam numa estrutura fundamentalmente anâloga- Um rei
proposta a um indivíduo como Édipo, atrofiado nos pés e destinado a idoso é informado por um oráculo que certo iovem principe - do qual
apoiar-se num bastão de cego quando fosse velho.ló Mas no Edipo rei o soberano é (segundo o caso) pai, avÔ, tio, pai adotivo ou soSro -
de Sófocles a mutilação é evocada de íorma indireta; na revelação o matará para sucedê-lo. Para anular a proÍecia, o jovem é obrigado a
gradual da verdadeira identidade do protagonista, ela tem importância deixar a pátria; após várias provas, retorna, mata (de forma voluntária
marginal.tr Além de constituir uma escolha artística, talvez essa es- ou não) o velho rei e o sucede, de modo geral casando com a filha ou a
tratégia dramática lenta e envolvente fosse sugerida também pela difi- mulhêr desse último. Os mitos gregos que repetem no todo ou em
culdade de explicar um detalhe que, herdado da tradição mitica, já parte essa seqüência podem ser distribuídos em quaffo grupos' dois
então se tornara incompreensivel. dos quais distinguiveis em outros tantos subgrupos:
Foi levantada a hipótese de que esse detalhe guardasse os ecos
de um remoto rito iniciático, na base do qual o noviço era submetido I. I. parricídio uoluntdrio, embora em forma alenuada: Cronos
antes a feridas simbólicas e, depois, a um periodo de segregação (que castra Urano) e Zeus (que toma o poder ou castra Cronos);
-
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l. 2. parricídio inaoluntdrio: Ëdipo (que mata Laio), Teseu nheceram-se outrâs convergências entre o mito de Perseu e o de Té-
(que provoca o suicídio de Egeu), Telégono(que mata Ulisses); lefo: as mães segregadas para aíastar a mesma profecia, seduzidas (res-
lI. l. morte aoluntdria do tio: Jasão (que na versão original do pectivamente poÍ Zeus e Hércules), lançadas ao mar (numa arca fe'
mito matava Péleas), Egisto (que mata Atreu, irmão de seu pai, Ties- chada ou dentro de uma cesta).31 Os animais (abelhas, ursas, cabras)
tes), Télefo (que mata os irmãos da mãe, Augéia), os fiÌhos de Tiro e que cuidam do pequeno Zeus nas cavernas de Creta, subtraindo-o da
do tio dela, Sisifo (que matam Salmoneu, irmão de seu pai e pai de sua antropqfagia paterna, encontram um paralelo preciso na gazela que
mãe);21 amamenta Télefo, na cabra (aix) que nutre Egisto (Aighistos). E as'
IL 2. morte inuoluntdria do tio: Perseu (que mata Acrísio, às sim por diante.
vezes designado como irmão de seu pai, Proito);
lII. rnorte do auô: ainda Egisto (que mata Atreu, pai de sua 5. Contra tal pano de fundo de semelhanças, destaca-se uma
mãe, Pelopia) e ainda Perseu (que mata Acrísio, geralmente apresen- que, até agora, foi assinalada só de forma episódica e parcial: mais de
tado como pai de sua mãe, Dânae); metade dos protagonistas dessa série mltica são caÍacterizados por
IY . morte do futuro sogro: Pélope (que faz morrerEnômao, particularidades relacionadas a deambulações.32 Além de Édipo dos
pai de Hipodâmia) e, de novo, Zeus (que segundo outra versão, con- pés furados, encontramos Jasão, que, cumprindo a profecia, apre-
jetural, toma o poder de Cronos depois de se unir com a irmã Réia). senta-se com uma única sandália ao tio usurpador Péleas; Perseu, que
antes de combater a Górgona recebe de Hermes uma das sandálias
Como se vê, os mitos compreendidos nessa série (não exaus- deste; Télefo, que após matar os filhos do tio Aleo é ferido na perna

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tiva) são caracterizados por estrutura similar, que se articula numa
série de substituições
- ou melhor, de atenuaçÕes -, com base em
hipotética versão radical, a qual incluiria o parricídio voluntário e o
esquerda por Aquiles; Teseu, que sob uma rocha encontra, além da
espada, as sandálias douradas de Egeu que lhe permitirão, de volta à
pátria, ser reconhecido; Zeus, a quem o monstruoso Tifeu corta com
)'J)-, incesto voluntário com a mãe.2E De fato, a castração ou a perda do a foice os tendÕes das mãos e dos pés, ocultando-os numa caverna
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poder de divindades celestes (por definição, imortais), bem como as (onde serão depois reencontrados).13
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alternativas indicadas, podem ser consideradas variantes atenuadas do Portanto, deparamos com personagens marcadas por c) defor-
rtl parricidio voluntário. De maneira análoga, Édipo, que se une invo- mações ou feridas nos pés e nas pernas, á) um pé de sandália, c) um
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luntariamente a Jocasta; Télefo, que evita no último momento con-
sumar o matrimônio com Augéia; e Telégono, filho de Circe, que
par de sandálias. A primeira caracteristica, às vezes acompanhada ou
substituída por outros defeitos físicos (um olho sô, baixa estatura,
gÉ< desposa a madrinha PenéÌope (enquanto seu duplo, Telêmaco, filho gagueira), era particularmente Íreqüente entre os herôis gregos; a
de Penélope, casa com Circe), constituem versões cada vez mais observação jâ aparece em Tragodopódagra, breve drama parodistico
sK3 diluídas do incesto voluntário com a mãe.2e Portanto, esses mitos atribuido a Luciano de Samosata.3a Dentro em pouco, voltaremos à
parecem ligados por uma trama muito densa de semelhanças estrutu- segunda caracteristica. A última pareceria, à primeira vista, corres-
rais, às vezes reforçadas'por convergências de caráter mais especifico. ponder a uma situação normal em relação â qual mensurar os even-
Bastará dar alguns exemplos. Quando Édipo, jâ cego, dirige-se a Co- tuais desvios.
lona, é acolhido e protegido por Teseu, que recorda a infância, por Na realidade, o detalhe das sandálias tem, no mito de Teseu,
ambos passada no exilio. Mas também aqui a elaboração de Sófocles implicações mais complexas. O levantar a rocha, por meio do qual
apenas toca os elementos comuns aos dois mitos. Seus protagonistas Teseu se apropria das sandálias paternas, constitui verdadeiro rito de
nasceram da transgressão de um veto de gerar, absoluto no caso de iniciação, que assinala seu ingresso na idade adulta.35 Recorde-se que
Laio, temporário no caso de Egeu. Ambos, pâra combater a profecia também aos pés furados de Édipo atribui-se um significado iniciático.
fatal, foram expulsos da casa paterna. Os dois superaram com êxito o Mais adiante, verificar-se-á que o pé de sandália calçado por Jasão
encontro com monstros como a esfinge e o minotauro. Ambos sem e por Perseu tem o mesmo valor. As etapas da iniciação que for4m
queÍer provocaram a morte dos respectivos pais. Os dois prolongam reconhecidas na história de Édipo
na própria descendência masculina a maldição que os atingiu.s Reco-
- as feridas simbólicas, aressur-
gação num ambiente selvagem, a luta contfa os monstros
segre-

-
204 205
gem, de maneira mais ou menos modificada, também nos outros mi- também Aquiles, que cuida de Pátrocolo), pretendeu-se reconhecer
tos que compÕem a série. lineamentos citas.43 Em todo o caso, o verso de Alceu introduz uma
Em alguns deles, encontramos também a pÍova suprema, da nota surpreendente na imagem habitual de Aquiles, o mais tipico dos
qual no mito de Édipo restaram só traços imperceptiveis: a viagem heróis gregos.
pelo mundo dos mortos.3ó Nas sandálias e na espada deixadas por
Egeu sob a rocha, foi de fato reconhecido um tema de fábula: os ins- 7. A imersão de Aquiles no fogo foi associada a dois ritos: o
tÍumentos mágicos que permitem ao herói dirigir-se ao além. Dentre primeiro, descrito no hino homérico a Deméter (vv. 235-55); o se-
as provas que a tradição mítica atribui a Teseu, está também a viagem gundo, efetivamente praticado na ilha de Quios, no principio do sé-
ao Hades, para tentar trazer Perséfone, seqüestrada pelo deus dos culo XVII. Deméter, desejando tornar imortal o pequeno Demófon,
mortos, de volta à superfície.37 Jasão, após ter saido do rio Anauros várias vezes entregara o menino às chamas, ungindo-o com ambrosia,
calçandoapenas um pé de sandália, empreende a expedição até a Cól- alimento dos deuses; mas ante o medo da mãe restituíra cÍiança,
quida â procura do velocino de ouro, no curso da qual desce aos in- num acesso de raiva, à condição humana.a Já recordamos^ que, se-
fernos com o auxilio da maga Medéia.36 Perseu, que combate a mons- gundo o erudito Leone Allacci, os habitantes de Quios costumavam
truosa Gôrgona munido da sandália mâgica entregue por Hermes queimar as plantas dos pés das crianças nascidas entre o Natal e a
Epifania, para que não se tornassem kallikantzaroi
(o qual, por isso, era chamado "monocrepide", isto é, que está com - espiritos disíor-
mes que, no mesmo periodo do ano, costumavam deixar o mundo
uma só sandália), também é associado ao mundo subterrâneo.3e
subterrâneo paru vagaÍ pela terra.as Se aceitamos a hipótese de que
6. A triplice conexão entre criança íatal, particularidade ligada essas figuras do folclore grego sâo derivadas dos antigos centauros,
as analogias com Aquiles
à deambulação e mundo dos mortos encontra nitida confirmação na - filho de Tétis, deusa com características
em parte eqüinas, criado pelo centauro Quiron tornam-se Íacil-
figura de Aquiles. Um mito o apresenta como criança Íatal falhada: -
mente compreensíveis.{ Na tentativa de evitar um destino inÍeliz
Zeus decidira não unir-se a Tétis porque, segundo a profecia, o filho
que dela nascesse superaria o pai.e O epiteto que designava Tétis para as crianças de Quios, entrevemos a reinterpretação daquilo que
"pés de prata" recordava a mutilação provocada por Hefesto, o
- no passado devia ser um rito propiciatôrio, de caráter iniciático, des-
-
deus fabril de pés tortos, que lhe arremessara um martelo enquanto a tinado a prover de condição sobre-humana quem a ele se submetesse.
perseguia, tentando violentá-la.al Esse adensamento de anomalias li- Deformações ou desequilibrios no andar caracterízam, também aqui,
gadas ao caminhar prepara a mutilação provocada, logo depois do nas- seres (deuses, homens, espíritos) na fronteira entre o mundo dos
cimento, ao filho de Tétis, Aquiles, conhecido como o "pé veloz". mortoseodosvivos.
Os pais o tornaram invulnerável, ainda que parcialmente, imer-
gindo-o nas águas do Estige ou (segundo outra versão) no fogo: o cal- 8. A esta altura, não se pode considerar coincidência que Ja-
canhar queimado pelas chamas fora substituido pelo de um gigante são, como Aquiles, tenha sido educado pelo centauro Quíron. A equi-
hiperveloz.a2 valência simbólica entre pés inchados, disformes, queimados ou sim'
As conotaçÕes mortuárias sugeridas pela associação com o Es- plesmente descalços encontra grande número de confirmações fora do
tige, o rio do além, são confirmadas por outros testemunhos. Por trás circulo dos mitos em que nos movemos até agora.
No principio do século XIX, foi encontrada em Damasco uma
do herói Aquiles
- que uma tradição desconhecida por Homero pre-
tendia estivesse sepultado na ilha de Leuca (hoje ilha das Serpentes), estatueta de bronze, representando uma deusa nua que calçava um
em frente de Olbia, nas costas setentrionais do mar Negro único pé de sandália. Algumas décadas mais tarde, foi identificada a
-, de fato
identificou-se um Aquiles mais antigo, deus dos mortos. Olbia era uma deusa funerária, Afrodite Nêmesis; mas a presença de uma única
uma colônia grega em território habitado por citas. No final do sé- sandália em outros cultos ou mitos foi atribuída, como então era ine-
culo VII a.C., Alceu, numa poesia da qual permaneceu um único vitável, à mitologia solar.aT Essa singularidade iconogrâÍica foi depois
verso, chamava Aquiles "senhor dos citas". No rosto de Pátroclo esquecida. Voltou a emergir, em outro contexto e de maneira inde-
pendente, nos primeiros anos deste século. Em Roma, durante a cons-
ferido, que o pintor Sósia representou numa célebre taça (a obra inclui

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trução do túnel do Quirinal, descobriu-se uma estátua antiga, que lama"; mas então por que não teriam preferido andar descalços? Se-
figurava um jovem de altura pouco inferior à real. No museu do Pa- gundo Euripides, os filhos de Tésio seguiam um costume enraizado
lácio dos Conservadores, identificou-se uma cópia de qualidade bem entre os etôlios para tornar a perna mais ágil; Porém, já AristÓteles
mais ordinária, que Íemontaria â época dos Ahtoninos; nesse exem- objetou que, se assim fosse, o pé calçado deveria ser o esquerdo.sz
pÌo, o jovem traz no braço um porquinho (hoje removido por ser fruto Sérvio, em seu comentário a Virgílio, observou que nas batalhas se
de um acréscimo tardio; está presente, porém, em esculturas seme- entra com o pé esquerdo na frente; diversamente do direito, ele é pro-
lhantes). No primeiro caso, uma murta no.tronco de sustentação e, tegido pelo escudo e, por isso, pode dispensar o calçado' Macróbio,
no segundo, o porquinho (ambos consagrados a Deméter) levaram a ao discutir tais passagens (Salarn., V, 18), propÔs uma explicação
reconhecer no jovem um iniciando nos cultos de Elêusis. Mas, en- diferente, de caráter étnico: tanto os etólios descritos por Euripides
quanto na estátua descoberta perto do Quirinal o único pé conservado quanto os hernícios descendentes de Caeculus, o fundador de Pre-
(o direito) está nu, na cópia do Palácio dos Conservadores o iovem neste, eram de origem pelágia (a passagem de Tucídides sobre os pla-
tem um pé descaiço e o outro (o esquerdo) calçado com uma sandália teenses lhe era desconhecida). Na verdade' Plessipo e Tosseu, os Íi-
(figuras 16 e I7). Supõe-se que o cosrume de calçar um único pé lhos de Téstio, eram curetes e não etólios, à diíereriça de seu sobrinho
estivesse conectado a situações rituais nas quais, por meio de um con- e matador, Meleagro.s3 Mas é evidente que dúvidas, tentativas de
tato mais imediato com o solo, buscava-se atingir uma relação com as explicação racional ou atribuições a tradiçÕes remotas denunciam a
potências subterrâneas. A hipótese parecia conÍirmada por alguns incapacidade de decifrar um conteúdo mítico e ritual que, iá no sé-
testemunhos literários. Dido, prestes a matar-se por ter sido abando- culo V a.C., parecia incompreensível.
nada por Enéias, tira uma sandália ("unum exuta pedem aìnclis", Um ou mais conteúdos. Mas também a possibilidade de que em
o (a
ul
Aen. IY , 5I7); o mesmo faz Medéia, no ato de evocar a deusa Hé- todos esses casos se oculte um significado análogo não pode ser ex-
cate, ligada ao além-túmulo ("nuda pedem", Mel. VII, 182).48 É cluída a priori. Tentou-se explicar o monossandalisrno presumivel-
a ff.o verdade que Sérvio, comentando a passagem de Virgílio, propôs a mente ritual dos plateenses associando-o àquele, mitico, de Jasão;
:) U>
)í*) (,ìul hipótese de um gesto de magia simpática: amarrar e desamarrar a ambos parecem inspirados num modelo de comportamento efébico,
tL sandália para prender e libertar a vontade dos outros.ae Mas a série distante do dos soldados adultos, os hoplitas.sa Contudo, tal associa-
i.-t.! O completa faz pensar num contexto fúnebre. A iniciação era uma
{i. ção, embora convincente, limita-se a deslocar a solução das dificul-
J 0- morte ritual: na cena iniciática que aparece num afresco da uilla pom- dades; por que o efebo Jasão calçava só um pé de sandália (odireito)?ss
UI peana dos Mistérios, a figura de Dionisio tem o pé direito descalço Pode-se buscar uma resposta inserindo o fato numa série mais vasta,
c)
ú- (figura 1P).so que abrange personagens míticas caracterizadas não apenas por uma
r!
IF t-- Mas outros exemplos mediterrânicos de um único pé com san- única sandália mas também, de modo mais geral, por particularidades
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dália complicam o quadro. Tucídides conta (III, 22) que os habitantes ligadas à deambulação.56 As simetrias de Jasão e Filotete logo se evi-
de Platéia, no inverno de 428 a.C., Íizeram uma incursão contra os denciam.sT Após ter participado da expedição dos argonautas (dirigida
espartanos numa noite sem lua, tendo um único pé (o esquerdo) cal- por Jasão), Filotete aportara na ilha de Lemnos; aqui, enquanto se
çado. Num fragmento sobrevivenre do Meleagro de Eurípides são aproximava do altar (erguido por Jasão) da deusa Crise, havia sido
indicados os heróis reunidos para caçar o javali Calidônio; entre eles, picado no pé por uma serpente. Na tragédia homônima de SÓfocles,
está o filho de Téstio, com uma só sandália no pé direito.sl Virgilio Filotete conta que os companheiros, não conseguindo suportar o Íedor
(Aen. Yll,678 e seguintes) descreve CaecuÌus, mitico fundador de que emana de seu pé infecto, abandonaram:oo, oü melhor, deixa-
Preneste, à frente de uma coluna de homens armados que têm o pé ram-no "exposto", "como uma criança abandonada pela ama"
esquerdo nu (enquanto o direito está coberto por um calçado gros- (vv. 5.e 702-3), na ilha deseria de Lemnos. Ali desembarcam Ulisses e
seiro). A obscuridade dessas passagens é mais reforçada que atenuada Neoptólemo, o jovem filho de Aquiles, para, usando de astúcia, apo-
pelas glosas explicativas introduzidas pelos próprios autores ou por
seus comentadores antigos. Tucidides afirmou que os plateenses bus-
derar-se do arco de Filotete
- arco com o qual, segundo a profecia,
os gregos teriam condições de vencer a Suerra de TrÓia.. A situação
cavam, com aquele único calçado, "caminhar com mais segurança na de Filotete, no limite da vida e da morte, entre humanidade e ani-

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malidade, foi comparada â iniciação efébica de Neoptólemol a reinre-
nante, com o qual, às vezes, o herói tem relaçÕes de parentesco; a se-
gração na vida civil, por parte de um, e o alcance da condição adulta,
gregação preventiva, em locais fechados ou até consagrados, da mãe
por parte do outro.s Passemos a Jasão. Na quarta P/t ica (vv. l0B-16),
indicada na proÍecia (assim o nascimento, que ocorre a despeito de
Píndaro conta que, logo depois do nascimento, para subtrai-lo à vio-
tudo, é muitas vezes atribuido a um deus); a exposição oq a tentativa
lência do tio usurpador, os genitores fingiram pranteá-lo como morto;
de matar o recém-nascido, abandonado em lugares selvagens e inós-
e em seguida, às escondidas, confiaram-no ao centauro Quiron. Sain-
pitos; a intervenção pÍotetora de animais, de pastores ou de ambos,
do das águas do rio Anauros com o pé esquerdo nu, o efebo Jasão
que nutrem e educam a criança; o retorno à pátria, acompanhado de
deixa para trâs uma morte simulada, seguida por uma infância e uma
provas extraordinárias; o triunfo, a manifestação de um destino ad-
primeira juventude transcorridas num antro selvagem, com um ser
verso e, enfim, a morte, em alguns casos seguida pelo desapareci-
meio homem meio Íera. Como o pé ferido de Filotete, o pé de sandália
mento do cadáver do herói. Mitos como os de Édipo, Teseu e Télefo
calçado por Jasão alude à iniciação e, portanto, simbolicamente,
repetem em parte esse esquema.s Tais convergências podiam ser uti-
à morte.
lizadas para fins de propaganda. As analogias entre Télefo e Rômulo
Também Caeculus era um deus dos mortos: Tertuliano (adu.
foram acentuadas no período de amizade entre Roma e Pérgamo (sé-
nat. 2,1)) diz que os olhos daquele eÍam terríveis a ponto de arrancar
culos III-II a.C.).6 Plutarco escreveu que o relato das origens de Roma
os sentidos a quem o olhasse. A identificação desse deus a seu homô-
redigido por Fábio Pintor continha ecos de uma tragédia desaparecida
nimo, Caeculus fundador de Preneste, é certa.se Na Eneìda, os herni-
de Sófocles, Tiro; para Plutarco, esses ecos talvez se devessem à obra,
cios conduzidos por Caeculus têm a cabeça coberta por gorros amare-
também desaparecida, do historiador grego Diocles de Pepareto.
lados de pele de lobo, parecidos com o que usava, segundo a tradiçâo,
Nela, eram narradas as aventuras dos filhos de Tiro e do deus Posei-
Hades, o deus etrusco do além-túmulo.e A referência ao pé esquerdo
don, os gêmeos Neleu e Pélias; como Rômulo e Remo, haviam sido
descalço, a qual surge imediatamente, parece confirmar a represen-
confiados âs águas de um rio, até que uma cadela e uma jumenta os
tação de verdadeira legião de mortos, comparável ao exercìtus feralis
recolheram e criaram.66 Também o nascimento de Jesus, filho de uma
que Tácito evocará a propósito da tribo germânica dos hârios.ór Não
virgem, como haviam anunciado os profetas; a ira de Herodes contra
está excluida a possibilidade de que também o pé nu dos plateenses
o inÍante destinado a tornar-se rei dos iudeus; o massacre dos inocen-
descritos por Tucidides tivesse implicaçÕes análogas.
tes; a fuga para o Egito são eventos que se inserem num esquema nar-
rativo largamente difundido entre o altiplano iraniano e o Medi-
9. As lendas acerca da infância de Caeculus contam que ele era terrâneo.
um exposto, como Rômulo
- ou como Édipo. A primeira compara-
ção é inevitável: os mitos sobre Caeculus, filho de uma mulher fecun- 10. Vimos emergir três conjuntos constituídos por
dada por uma centelha do fogo doméstico e, por isso, chamado filho
de Vulcano, chefe de um bando de ladrões, fundador de uma cidade a) mitos sobre o íilho (ou sobrinho, ou neto, ou genro) fatal;
(Preneste), fazem dele um rival de Rômulo.ó2 A outra comparação, á) mitos e ritos de alguma forma ligados à deambulação;
por sua vez, pode parecer genérica. Não é assim. c) mitos e lendas sobre o nascimento do herói.
As lendas a respeito da infância de Caeculus, fundador de Pre- Embora sô possam ser sobrepostos em parte, esses contuntos
neste, lembram muito aquelas que circundam a infância de Ciro, estão unidos por densa rede de semelhanças, provavelmente causadas
Moisés, Rômulo, em certos aspectos a do próprio Jesus e de muitos pela existência de um fio condutor comum: a iniciação entendida
outros fundadores de cidades, impérios e religiÕes. As semelhanças como morte simbÓlica.ó7 Consideremos um exemplo. Da mesma
entre esses relatos Íoram analisadas muitas vezes, de pontos de vista forma com que Édipo "pé inchado" liberta Tebas da ameaça da es-
diversos, no geral não comunicantes: psicanalitico, mitolôgico, histó- finge, também Meleagro livra Cálidon da ameaça de um javali mons-
rico e, nos últimos tempos, narratológico.63 Dentre os elementos truoso. Assim como Jasão de uma só sandália e Télefo depois ferido
mais recorrentes nessas biografias, encontramos: a proÍecia sobre o numa perna, Meleagro leva a termo a profecia, matando os tios en-
nascimento, apresentada como uma desgraça para o soberano rei- quanto decorre a divisão dos despojos do iavali abatido. Para vingar os

210 211
irmãos mortos, Altéia, mãe de Meleagrol lança ao fogo um tição apa- mortos ou dos feiticeiros os brotos do trigo ou uma colheita abun-
gado ao qual a vida do filho estava ligada dgsde o nascimento inver- dante. Uma estrutura mitica, talvez nascida numa sociedade de caça-
tendo, poderíamos dizer, a imersão no fogo de Demófon e -Aquiles, dores, foi assumida (e parcialmente modificada) por sociedades muito
destinada a propiciar-lhes a imortalidade. Eurípides, Aristóteles e um diferentes, centradas no pastoreio ou na agricultura, Os elos dessa
comentador de Píndaro (Plth., IV, 7 j) concordam em afirmar que os transmissão cultural nos escapam. Mas talvez não seja irrelevante
etólios costumavam calçar uma única sandália. portanto, também o que Hércules, o principal protagonista desse ciclo de mitos na terra
jovem filho do rei dos etólios, Meleagro, entra na série dos heróis gtega, acabe sendo relacionado de várias íormas ao mundo cita. Se-
marcados por desequilíbrios ou deformações deambulatôrias. gundo um mito referido por Heródoto (IV, 8-10), Hércules, depois de
Nas lendas sobre a infância dos fundadores de impérios ou reli- aproveitar-se das novilhas de Gerião, foi parar na Cítia, então deserta,
giões, esses sinais surgem muito raramente.6 Mas não parece casual
uniu-se a uma divindade locaì meio mulher meio serpente e deu ori-
que da luta noturna junto ao rio Jaboc (Gênesis, 32, 2.3-33), travada gem aos citas. Seu mestre, o arqueiro Teutares (antes, Hércules an-
contra um ser inominado (Javé? Um anjoZ Um demônio?), Jacó saia davaarmado de arco e não de maça), às vezes é representado com rou-
mancando, com a articulação do fêmur deslocada e um nome novo: pas citas. A presença na China de um herói mítico ao qual eram
Israel.@ Quando lemos que os sequazes de Caeculus (e assim, por ex-
atribuídos trabalhos análogos aos de Hércules foi explicada, de ma-
tensão, o próprio Caeculus) caminhavam com um pé descalço, esse neira dúbia, recorrendo-se a uma mediação cita.Ts
detalhe aparentemente negligenciável adquire, à luz da configuração
que vimos delinear-se pouco a pouco, um destaque inesperado. Um
12. Também a recuperação das vacas de ificlo por parte de Me-
le # |
herôi com apenas um pé calçado e orhos fracos (como indica seu
nome' caeculus) pode ser considerado o correspondente atenuado de
Iampo (Od. XI, 287-98; XV , 22t e seguintes) foi associada aos mitos
centrados no roubo de gado do além.76 Melampo, feito prisioneiro por

l:lú5 nb -i um herói manco e cego: Ëdipo.to

11. Ciro, antes de apossar-se do reino, vivera conta Estrabão


ificlo, consegue escapar do desabamento da prisão percebendo, com o
ouvido afiado, o rumor dos cupins que comem as vigas do teto. Esse é

ldl -l * -
entre os bandidos (kardahes); Rômulo, que uma tradição comum
um dos muitos elementos de fábula que caracterizam a figura de Me-
l-r È I representa cercado por fora-da-lei e malfeitores (larrones), é descrito
lampo. Dele se dizia, por exemplo, que duas serpentes limpavam-lhe
as orelhas com a língua; deste modo, eÍa capaz de entender o idioma
x. o I porEutrôpio (I, 1, 2) como um ladrão de gado. Nessa convergência dos pássaros. A mesma aptidão possuia Tirésias, o vidente cego que,
r.rl í '- (uma das tantas) dos dois ciclos de lendas, viu-se uma prova da impor_
por ter assistido ao acasalamento de duas serpentes, foi transformado

É# tância que as associações masculinas tinham assumido no altiplano


iraniano e no Lácio.7l Pode ser. De qualquer modo, trata-se de detalhe
ligado a um esquema narrativo difundido, como se depreende também
da referência de Eurípides (As fenlcias,32 e seguintes) ao furto dos
em mulher e assim permaneceu durante sete anos,
Tínhamos visto quais as analogias que ligavam Édipo "pé in-
chado" a Melampo "pé preto", As que uniam Melampo e Tirésias,
Tirésias e Édipo (três adivinhos) são igualmente evidentes. Numa
cavalos de Laio por parte de Édipo.rz Na biografia lendária do jovem cena famosa do Edipo zel de Sófocles, Édipo retrai-se horrorizado ao
herói, os roubos de gado efetuados junto de seus coetâneos consti- conhecer por intermédio de Tirésias a identidade, até então oculta,
tuiam uma etapa obrigatória, quase um rito de iniciação. Esses roubos daquele que com sua culpa atraira a peste sobre Tebas. O diálogo
reproduziam um antiquíssimo modelo mitico, amplamente documen- entre os dois é dominado por uma contraposição que esconde uma
tado no âmbito cultural indo-europeu : a viagem ao além para roubar o simetria sempre presente. De um lado, está o cego que sabe; do outro,
gado possuido por um ser monstruoso.T3
o culpado ignorante, destinado a sair das trevas metafóricas da igno-
Nesse mito, pretendeu-se ver a reelaboração das viagens extá_ rânciapara mergulhar naquelas, reais, da cegueira. O passo vacilante
ticas ao mundo dos mortos, realizadas pelos xamãs a fim de obter caça
com que Édipo (segundo a profecia de Tirésias) se dirigirá, exilado e
para a comunidade.Ta Havíamos chegado a uma conclusão semelhante
mendigo, apoiado num bastão, para terras estrangeiras relembra o
analisando as gestas noturnas dos burkudziiutìi ossetas. dos lobiso- próprio Tirésias, apoiado no bastão de vidente que lhe fora dado por
mens bálticos e dos benandanti friulanos, destinadas a arrancar dos
Atenas.77

212 213
Tirésias e, mais ainda, Melampo são os protótipos mlticos da- maveril que coincidia com o periódico Íetorno à terra das almas dos
queles iatromantes gregos mortos, ambiguos portadores de bem-estar e influências nocivas,
- curandeiros, adivinhos, magos, extáti-
que foram associados aos xamãs da Asia central e setentrio- aplacadas com oíertas de água e de cereais fervidos.ET Sabemos que em
cos
- Delos a dança da grou se desenrolava ao redor do templo de Apolo,
nal.7t Entre eles, encontramos personagens que de íato existiram mas
estão envoltas numa luz de lenda: PitágoÍas da coxa de ouro, Empé- o deus que estava ligado a Dioniso por uma relação muito estreita,
docles que some no Etna deixando um único sinal ora de simetriaora de antitese.ffi Justamente em Delos, por volta de
- uma sandália de
bronze, lançada do fundo da cratera.Te Detalhes aparentemente negli- 300 a.C., certo Karystios dedicou a Dioniso urna estela de mármore
genciáveis que de repente, tocados pela varinha mágica da compara- que representava uma grou dominada por um falo.6e
As ligaçÕes de Dioniso com a dança da grou são apenas hipo-
ção, fazem aflorar sua fisionornia secreta.e
téticas. Contudo, não parece arriscado conectar aos aspectos subterrâ-
neos e fúnebres da figura de Dioniso os tropeços ou os movimentos
13. Na Grécia, o desequilíbrio no caminhar estava associado de
maneira especial a uma divindade: Dioniso, cujo culto, segundo saltitantes. "A mesma coisa são Hades e Dioniso", dissera Herá-
Heródoto (II, 49), fora introduzido por Melampo.Er Dizia-se que Dio- clito.m
niso nascera da coxa de Zeus.82 No santuário de Delfos, venerava-se
14. Na China do século IV a.C., durante a época dos Reinos
um Dioniso Sphaleotas, "que faz vacilar". Um mito ilustrava esse
Combatentes, o filôsofo taoista Ko Hong descreveu num tratado, com
epíteto. A frota dos gregos, em viagem rumo a Tróia, aportaÍa por
grande minúcia, o chamado "passo de Yu": uma dança que consistia
engano na Mísia. No decurso de uma bataiha, Aquiles deparara com
em avançar ora com a esquerda ora com a direita, arrastando a outra
o soberano da região, Télefo. Dioniso, enraivecido porque na Misia
perna, de modo a imprimir ao corpo um andar saltitante. O mítico
não lhe haviam rendido homenagens suficientes, arranjara para que
herói do qual a dança conservava o nome, Yu, o Grande, ministro e
Télefo se enredasse numa vara de videira, tropeçasse, caisse; Aquiles
fundador de uma dinastia, era semiparalítico. A ele eram atribuidos
o ferira numa perna. O herói do calcanhar vulnerável, o herói da
poderes de tipo xamânico, como transfoÍmar-se em urso ou controlar
perna ferida, o deus que faz vacilar ou tropeçar; na fisionomia dos três
as inundações. Em algumas partes da China, existiam até há pouco
protagonistas do mito, vemos refratar-se, de formas diferentes, o
tempo mulheres xamãs que, tendo o rosto coberto por um lenço, dan-
mesmo traço simbólico. Conhecemos dele um equivalente ritual: o
çavam o passo de Yu até cair em transe.er Este, a princípio, fazia parte
askõliasmos, jogo (praticado nas festas em honra de Dioniso Leneu)
de uma dança animal (talvez ligada ao macaco), comparável àquelas,
que consiste em saltitar equilibrando-se num único pé.ar
igualmente assimétricas, que tomavam o nome de pássaros miticos de
Com o termo askõliazein, índìcava-se o costume das grous de
uma só patai o Pi-fang, gênio do fogo; o Chang-yang, gênio da chuva;
ficar em pé apoiadas numa única pata.sa ImplicaçÕes rituais não Íaha-
o faisão de rosto humano, em que se reconheceu uma espécie de cor-
vam nem mesmo nesse caso. (Jma "dança da grou" era praticada,
respondente simbólico de Yu.e2
à noite, em Delos e em Creta; Plutarco, no século II d.C., falou dela
Não sabemos se também a ar'tiga dança chinesa conhecida
como de uma prática ainda viva. Segundo a tradição, a dança, da qual
como "das grous brancas" tivesse tais características assimétricas.
participavam rapazes e moças, imitava o percurso sinuoso do labirinto
Uma lenda conta que a filha de Ho-lu, rei de Wu (514-495 a.C.),
de que Teseu, após matar o minotauro, salra graças às artes de
ofendida pelo pai (que lhe oferecera um peixe depois de ter comido a
Ariadne. Imaginou-se que o nome da dança sublinhasse a analogia
metade), suicidara-se. Ho-lu mandara enterrar a filha num túmulo a
entre os movimentos dos dançarinos individuais e o modo de cami-
que se tinha acesso por uma passagem subterrânea. No final da dança
nhar das grous.s Um rito desse gênero parece compativel com o que
das grous brancas, íizera entrar os dançarinos e o público na passagem
já se disse sobre o caráter iniciático dos empreendimentos de Teseu.
subterrânea e os enterrara vivos.e3 Também aqui, como no mito cre-
Que o labirinto simbolizasse o mundo dos mortos e que Ariadne, tense, á dança das grous está associada a um corredor subterrâneo e a
senhora do labirinto, fosse uma deusa funebre são conieturas mais
um sacrificio humano; talvez seja muito pouco para concluir que um
que prováveis.66 Em Atenas, o matrimônio de Dioniso e Ariadne era
fenômeno derive de outro tão distante, ou para postular uma gênese
celebrado todo ano no segundo dia das Antestérias, antiga festa pri-
21t
214
comum.ea Identidades isoladas podem ser fruto de coincidências. firmada também pelas conotações fúnebres das doze noites em que
Paralelismos múltiplos, baseados num isomorfismo profundo, colo- lobisomens e kollikantzaroi erram pelos campos e aldeias. Mas limi-
cam questões mais inquietantes. O passo de Yu foi associado às rou- târ-se a essa constatação não basta. Como é possível que mitos e ritos
pas bicolores, meio negras e meio vermelhas, vestidas pelos partici- semelhantes ressurjam com tanta insistência em âmbitos culturais tão
pantes da cerimônia com que se abria o ano novo, num período consa- heterogêneos da Grécia à ChinaT
grado aos espíritos dos mortos: a expulsão dos Doze Animais que -
simbolizavam os demônios e as doenças.es Em ambos os casos, o equi- 16. Haveria uma resposta pronta, ao alcance da mão. Na co-
líbrio deambuÌatório surge associado à comunicação com o mundo xeadura mítico-ritual, reconheceu-se um arquétipo: um símbolo ele-
dos mortos. Ora, também na Europa se acreditava que as almas dos mentar que faria parte do patrimônio psicológico inconsciente da
mortos circulassem no meio dos vivos, sobretudo entre o fim do ano humanidade.lo2 A conclusões similares também chegou outra tenta-
velho e o inicio do novo, durante as doze noites que iam do Natal à tiva de identificar, por meio da dispersão dos testemunhos etnográ-
Epifania.e6 Naquela altura, como se recordará, ocorriam as andanças ficos, um grupo restrito de fenômenos definíveis como universais cul-
dos hallìhantzaroi gregos e dos lobisomens livônios. Alguns eram turais. Por exemplo, o mito, documentado nos contextos mais varia-
guiados por um "grande KallìkantzoroJ" coxo; os outros, por um dos, do homem unilateral ou partido ao meio, provido de uma só
menino manco.et perna, um sóbraço, um só olho etc., seria um arquétipo, resultante
de uma propensão psicolôgica inconsciente de nossa espécie.r03 A esse
15. À primeira vista, as marcas do calendário que se eviden- pequeno cortejo arquetípico, alguém poderia acrescentar quem cal-
ciam nesses fenômenos chineses, gregos e bálticos trazem elementos çasse sô um pé de sandália ou saltasse sobre um único pé. É óbvio que
a f.avor da hipótese que nos parecem fundamentada de maneira uma proliÍeração semelhante anularia as ambições teóricas inerentes
-
plausív'el * de a coxeadura mítico-ritual ser um fenômeno transcul- à noção de arquétipo. Nascida para captar algumas constantes de
FpT tural relacionado à passagem das estações. Em alguns ritos do folclore
europeu, essa conexão parece clarissima: na marca brandembur-
guesa, por exemplo, quem assume o papel do inverno que está aca-
fundo da psique humana, essa noção parece ameaçada por duas ten-
dências opostas: fragmentar-se em unidades demasiado limitadas,
como ocorre nas propostas que acabamos de descrever; ou evaporar
bando finge mancar; na Macedônia, bandos de crianças celebram a em grandes categorias do tipo Grande Mãe, inspiradas por uma psico-
chegada de março lançando invectivas contra "fevereiro coxo".s logia etnocêntrica.rfr Em ambos os casos, ela pressupÕe a existência
Mas uma explicação desse gênero só pode ser aceita se isolamos um

frt\
de simbolos evidentes por si mesmo, universalmente difundidos
objeto (a coxeadura mitica e ritual) baseando-nos em características -
os arquétipos cujo significado seria compreensível de maneira
imediatas e, poÍtanto, superficiais.ee A busca de isomorfismos pro- intuitiva.
-,

'z iij
fundos levou-nos a alargat o quadro, associando Íenômenos aparente- Os pressupostos da pesquisa que estamos desenvolvendo são
mente diversos ligados pela reÍerência, real ou simbólica, ao desequi- bem diferentes. O objeto da investigação não está dado, mas deve ser
líbrio deambulatório: mancar, arrastar uma perna íerida, ter um cal- reconstruído recorrendo-se a afinidades formais; seu significado não é
canhar vulnerável, caminhar com um pé descalço, tropeçar, saltar transparente, mas deve ser decifrado por meio do exame do contexto,
num único pé. Essa redefinição das características formais do obieto a ou melhor, dos contextos pertinentes. Deve-se considerar que mé-
ser explicado tornou insustentável, na maior parte dos casos, a velha todos diferentes podem conduzir a resultados parcialmente similares
hipótese interpretativ a. Ligar à passagem sazonal o complexo de mitos (embora não igualmente evidentes). A pesquisa psicológica sobre o
analisado até aqui
absurdo.rm
- a começar pelo de Éaipo seria evidentemente
- suposto arquétipo da coxeadura trouxe à luz seu componente iniciá-
tico. A investigação antropológica sobre o homem partido ao meio
No desequilíbrio deambulatório que caracteriza divindades discutiu a possibilidade de que
como Hermes ou Dioniso, ou então heróis como Jasão ou Perseu, - numa área compreendida entre a
Asia continental, Bornéu e Canadá
deciframos o símbolo de uma passagem mais radical - esse suposto arquétipo ex-
- uma conexão,
permanente ou temporária, com o mundo dos mortos.tor Esta é con-
presse, de forma predominante, a mediação entre o mundo dos huma-
nos e o dos espíritos e deuses. No final, porém, essa hipótese inter-

216 217
não exclusivamente humana manter-se de pé depararemos com
pretativa foi afastada, com o argumento de que nem uma análise apro- - -,
um ser vivo, simétrico, bipede.rro A difusão transcultural dos mitos
fundada de casos particulares nem uma comparação mâis extensa te-
e ritos centrados na assimetria deambulatôria talvez tenha sua raiz
riam condições de fazer emergir uma interpretação unitária paÍa o psicológica nessa peÍcepção elementar, mínima, que a espécie hu-
complexo mítico-ritual centrado no homem dividido ao meio.los Um
arquétipo, em resumo, é um arquétipo: o que é identificado por via
mana tem de si mesma
- da própria imagem corpórea. Assim, o que
altera essa imagem, num plano literário ou metafôrico, parece parti-
quase intuitiva não pode ser submetido a análise mais aprofundada'
cularmente adequado a exprimir uma experiência além dos limites do
Na realidade, a comparação permite superar uma conclusão tão humano: a viagem ao mundo dos mortos, realizada em êxtase ou por
tautológica. Entre os ibos africanos, entfe os miwoks da Califórnia meio dos ritos de iniciação. Reconhecer o isomorfismo desses traços
e entre os bororos da Amazônia, aqueles que participam de um rito não significa interpretar de maneira uniforme um complexo tão diver-
com o corpo pintado meio a meio de preto e branco, no sentido lon- sificado de mitos e ritos. Mas significa propor a hipótese da existência
gitudinal, encarnam os esplritos. Em Bornéu setentrional, é um ho- de nexos previsiveis. Por exemplo, se lemos que Soslan, um dos he-
mem partido ao meio o herói cultural que, apÓs subir ao céu, descobre róis da epopéia osseta, dirige-se vivo ao além, podemos imaginar que
uma planta de arroz. Entre os iacutes siberianos fala-se de xamãs divi- seu corpo, agarrado ao nascer pelas tenazes do ferreiro dos nartos,
didos em dois.16 Ainda na sibéria, o herói de uma extraordinária tenha ficado invulnerável com uma malÍazeja exceção: o joelho (ou
fábula samoieda, morto quatro vezes por um misterioso antagonista, os quadris).rlr
é ressuscitado outras quatro vezes por um velho de uma sÔ perna,
uma sô mão e um sÓ olho, que conhece a via de acesso a um lugar 17. Com isso, a noção de arquétipo é reformulada de maneira
subterrâneo habitado por esqueletos e monstros silenciosos; ali, uma radical, por estaÍ solidamente apoíada no corpo.112 Para ser mais
velha devolve a vida aos Ínortos dormindo sobre seus ossos reduzidos exato, em sua auto-representação. Podemos apresentar a hipÓtese de
a cinzas.loT Portanto é clara a tendência do conjunto' Nela, cabe tam-
que essa auto-representação opere como um esquema, uma instância
bém um testemunho proveniente de uma tradição cultural muito mediadora de caráter formal, capaz de reelaborar experiências ligadas
mais próxima de nós: o românce arturiano. O homem com uma única a caracteristicas fisicas da espécie humana, traduzindo-as em configu-
perna de prata incrustada de ouro e pedras preciosas, na qual topa rações simbólicas potencialmente universais.lr3 Colocando o pro-
Gauvain - um dos dois protagonistas do Perceaal de chrétien de blema nesses termos, evitaremos o erro em que, como vimos, de
Troyes cai em silêncio no umbral de um castelo circundado por
-, modo geral caem os pesquisadores de arquétipos: isolar símbolos espe-
certo rio, no qual se encontram Pefsonagens que se acreditava tives- cificos mais ou menos difusos confundindo-os com "universais cul-
sem morrido havia muito tempo.rff Da AÍrica à Sibéria, passando turais". A investigação que levamos a cabo mostrou que o elemento
pela fie-de-France medieval, o homem dividido ao meio surge - universal não é representado pelas unidades singulares (os coxos, os
como os coxos, os calçados com umâ única sandália etc' - como uma homens divididos ao meio, os portadores de uma só sandália), mas
figura intermediária entfe o mundo dos vivos e o dos moÍtos ou dos pela série (por definição, aberta) que os inclui. Mais precisamente:
espíritos. Poderiamos dizer que uma constrição de ordem formal plas- não pela concretude do simbolo, mas pela atividade categorial que,
ma os matefiais culturais mais disparatados, colando-os a um número como veremos, reelabora de forma simbólica as experiências concre-
relativamente exíguo de padrÕes predeterminados' tas (corpóreas). Entre essas últimas, é preciso incluir também
De acordo com um mito sobre as origens da espécie humana grau zeÍoi
- ou
morte.rla
melhor, sobretudo a experiência corpórea de a
coletado na ilha de Ceram (Molucas), a pedra queria que os homens -
tivessem só um braço, uma perna e um olho e fossem imortais; a 18. A definição deve ser tomada ao pé da letra. A respeito da
bananeira, que tivessem dois braços, duas pernas e dois olhos efossem morte não se pode falar por experiência direta: se ela está presente,
capazes de procriar. Na disputa, a bananeira levou a melhor; mas a nôs não o estamos, e vice-versa.lls Mas durante milênios a viagem ao
peàra exigiu que os homens fossem submetidos à morte' O mito nos além alimentou mitos, poemas, êxtases, 1i1s5.ll6 Em torno desse
convida a reconhecer na simetria uma caÍacteristica dos seres vivos.rs tema, cristalizou-se uma forma narrativa difundida em todo o conti-
Se a ela acrescentarmos uma característica mais especlfica, embora
219
218
nente eurasiático, com ramificaçÕes nas Américas. De fato, foi de- Só nos resta aceitar o desafio, analisando uma fábula especifica:
monstrado que a estrutura fundamental das fábulas de magia, centra- a de Cinderela. Dadas as suas caracteristicas e sua extraordinária di-
trada nas peregrinaçÕes do herói, reelabora o tema da viagem (da Íusão (cf. mapa 4), a escolha era quase inevitável.l22
alma, do iniciando, do xamã) ao mundo dos mortos.lt? É o mesmo
núcleo mítico que encontramos nos cortejos extáticos que acompa- 21. Na versão européia mais Íemota, Cinderela, a enteada mal-
nham a deusa noturna; nas batalhas que se travaram em êxtase pela tratada, não pode ir ao baile porque a madrasta a impediu (proibição);
fertilidade; nos cortejos e nas batalhas rituais; nos mitos e ritos que recebe o vestido, os sapatos etc. (doação dos instrumentos mágicos
têm como eixo mancos, quem calça só um pé de sandália e homens pelo ajudante); dirige-se ao palácio (superação da proibição); foge,
partidos. Todos os caminhos percorridos para esclarecer a dimensão perdendo o sapato, que depois consegue, a pedido do príncipe, calçar
folclórica do sabá convergem num ponto: a viagem rumo ao mundo (tarefa difícil que conduz ao reconhecimento da heroína), enquanto as
dos mortos. meias-irmãs tentam inutilmente Íazer o mesmo (o Íalso herói mani-
festa pretensÕes infundadas); desmascara as meias-irmãs antagonis-
19. À primeira vista, parece ôbvio que existe uma semelhança tas; casa com o principe. O enredo, como se vê, repete o esquema que
entre as fábulas de magia e as confissões das mulheres e homens acu- foi identiÍicado nas íábulas mágicas. Uma de suas funções * a maÍca
sados de ser bruxas e feiticeiros. De modo geral, essa semelhança é impressa no corpo do herôi ou da heroina
- é facilmente reconhecí-
atribulda a um fenômeno de imitação consciente. Constrangidos pela vel no detalhe crucial do sapato perdido.r23 O monossandalismo de
tortura ou por pressões psicológicas dos juízes, os acusados teriam Cinderela é o sinal de quem foi ao reino dos mortos (o palácio do
reunido uma série de lugares-comuns recorrendo a fábulas aprendidas príncipe).r24
na infância, histórias ouvidas nas vigílias e ássim por diante. Tal hipó- Até aqui, consideramos Cinderela uma unidade compacta, ne-
o tese, plausível em alguns casos, não resiste quando as semelhanças se gligenciando as variantes, que são muito numerosas. Examinemos
(D referem a um nível profundo. Analisando mitos ou ritos ligados ao aquelas que se referem à figura do ajudante mágico, de quem a he-
estrato que depois confluiu no sabá, vimos emergir uma distinção roína obtém os objetos que lhe permitem dirigir-se à festa no palácio.

l
..J
) fundamental entre uma versão agonística (batalha contra feiticeiros, Na versão de Perrault, a ajudante é uma fada, madrinha de Cinderela.
:i mortos etc.) e uma versão não-agonística (grupos de mortos ambu- Com mais freqüência, as mesmas funçÕes são desempenhadas por
lantes). No interior de uma estÍutura comum, dicotomia análoga foi uma planta ou um animal
) identiíicada entre fábulas de magia que incluem a função "luta contra
- uma vaca, uma ovelha, uma cabra, um
{ touro, um peixe - que a heroína protege. Por esse motivo, é morto
I
G o antagonista" e fábulas de magia que a excluetn.tts gsrn dúvida, ou tem a morte determinada pela madrasta, Antes de morrer, confia à
t! seria insensato atribuir isomorfismos desse gênero a uma contamina- heroína os próprios ossos, pedindo-lhe para recolhê-los, enterrá-los e
F-
{ *Õ ção extemporânea e superficial. Entre as fábulas de magia e o núcleo aguá-los. Em alguns casos, os ossos transformam-se magicamente nos
T folclórico do sabá diabólico, entrevemos uma afinidade mais profunda. objetos presenteados; em outros, a heroína encontra os objetos no
Um deles pode iluminar o outroZ túmulo, sobre o qual às vezes cÍesceu uma árvore.l2s Em três versões,
o animal-aiudante
- uma ovelha ou um carneiro na Escôcia, uma
20. Hâ quase um século, as características universais da fábula vaca ou um peixe na india * ressuscita dos ossos e entrega à heroina
e de alguns mitos ricos em elementos fabulares (sendo o primeiro a os presentès mágico5.t2a
viagem para o além) Íoram associados à experiência igualmente uni- Mitos e ritos em que os ossos, encerrados nas peles, são usados
versal de desdobramento de corpo e psique induzida pelo sonho.rre para obter a ressurreição dos animais mortos foram identificados,
Tentou-se reformular essa tese um tanto simplista propóndo-se um como se recordará, num âmbito geográfico vastíssimo e heterogêneo.
termo médio entre sonho e fábula: o êxtase xamânico.r2o Até hoje, Este compreende grande parte da Europa (das ilhas britânicas aos Al-
porém, a similitude das Íábulas em todo o planeta permanece uma pes); grande parte da Asia (da faixa subártica da Lapônia ao estreito de
questão decisiva
- e não resolvida.r2r Essa questão repropõe de forma
exasperada o dilema contra o qual se chocou nossa pesquisa.
Bering, o Cáucaso, o altiplano iraniano); a América setentrional; a
ÁÍrica eQuatorial.t2r De modo geral, por causa da importância atri-
220 221
Mapa 4 (p.226)
Cinderela: versÕes em que o aju.
dante mágico (mãe, madrinha. ani
mal) ressurge após ter feito
recolhe r os próprios ossos. (O ma-
pâ tem um valor orientativo.)
buida à dissolução do cadáver, esse complexo de mitos e ritos está "bruxa de madeira de amieiro". Os abkhazes do Cáucaso dizem que,
quando Adagwa, o deus da floresta, percebe ter engolido um osso ao
relacionado ao costume
- encontrado numa ârea ainda mais vasta,
que inclui também o oceano Pacífico comer um animal selvagem, substitui-o com um pedaço de madeira.
- da dupla sepultura.t28 Mais Os lapões da península de Kola, para trocar os ossos que faltam na
especificamente, a coleta dos ossos liga-se ao tema lendário, sobretudo
eurasiático, da árvore mâgica que cresce no túmulo.l2e No conto de caça abatida, usam os do cão que os comeu. Os ainos, que habitam as
Cinderela, como vimos, os dois elementos (ossos e árvore mágica) se ilhas setentrionais do arquipélago japonês, contam que' se um urso
alternam. Versões que incluem a coleta dos ossos foram documen- come um homem, é obrigado pelo chefe dos ursos a ressuscitá-lo,
tadas na China, Vietnã, lndia, Rússia, Bulgária, Chipre, Sérvia, Dal- lambendo-lhe os ossos; mas, no caso de o urso ter comido o osso do
mácia, Sicilia, Sardenha, Provença, Bretanha, Lorena, Escócia, Fin- dedo minimo, deve substituí-lo por um ramo.l34 Nessa série, cultu-
lândia.te Uma distribuição tão ampla e varíada leva a excluiÍ a even- ralmente heterogênea mas morfologicamente coerente, estão inseri-
tualidade de que a presença do tema da coleta dos ossos no enredo da das as duas versÕes escocesas do conto de Cinderela, que incluem
íábula seja fruto de uma difusão ocasional.r3r É possível formular uma tanto a coleta dos ossos quanto a posterior ressurreição. Em ambas'
hipótese posterior: isto é, que a versão a incluir a ressurreição do o animal ressuscitado (trata-se, respectivamente, de uma ovelha e de
animal morto seja a mais completa, mesmo que sô se tenha conseÍ- um carneiro) manca; no primeiro caso, a heroÍna esqueceu de juntar
vado em três casos. os cascos; no segundo, falta uma das canelas posteriores'
Sem dúvida, trata-se de uma versão muito antiga. Por volta de A analogia com o cabrito de Thor é evidente.l3s Mas, como
meados do século XVIII, como dissemos, os xamãs lapóes (no 'aidi) vimos, a variante celta do animal que coxeia se insere num contexto
explicaram aos missionários dinamarqueses que era preciso recolher e mítico e ritual muito mais amplo. Isso permite generalizar a crença,
arrumar com o maior cuidado possivel os ossos dos animais a ser registrada no princípio do século XIII por Gervásio de Tilbury, se-
sacrificados; desse modo, Horagalles, o deus a quem se dirigia o sacri- gundo a qual o lobisomem que tivesse uma pata mutilada recuperava
19 fr r
fício, iria ressuscitá-los ainda mais fortes que antes. Em Horagalles, logo a forma humana,l36 Quem vai ao outro mundo ou de lá retorna

ls H -l como se lembrará, foi identificado um correspondente lapão de Thor, animal, homem ou mistura de ambos - fica marcado por uma
-assimetria
ld fr
iX rr I
I
o deus céltico-germânico que, numa Íamos a pá.gina do Edda, devolve
a vida a alguns caprinos mortos íazendo recolher seus ossos e gol-
no caminhar. A série que reconstruímos nos permite cap-
tar a equivalência simbólica entre a coxeadura do animal ressuscitado
lui
tÉ. ÍL o \l peando-os com o martelo mágico.r32 Mas um dos cabritos (continua a e a sucessiva perda do sapato por paÍte de Cinderela. Entre quem dá
I narração do Edda) manca de uma pata; Thor se dá conta disso e critica aiuda animal, fada-madrinha ou até mãe e quem o recebe, existe
| --.r I - -
os camponeses presentes, acusando-os de terem distraidamente que- uma homologia oculta.r3T Também Cinderela pode ser considerada
u, o
r.tJ í ..:
I
brado o osso da coxa do animal. Em várias lendas alpinas, dos Alpes (como Thor, são Germano, Oriente) uma ieencarnação da "senhora
ocidentais ao Tirol, retorna-se à mesma histôria (só muda o nome do dos animais".l38 Seus gestos de piedade para com os ossos (enterrá-
autor do prodigio). A ela podem ser associados, embora de maneira los, aguá-los) têm eÍeito análogo ao toque mágico do martelo de Thor
ERË mais indireta, mitos e ritos documentados em culturas muito dife- ou da vareta de Oriente. Numa versão do conto registrada em Spa-
rentes, os quais descrevem os expedientes usados para garantir a res- lato, que apresenta de forma atenuada o tema da ressurreição, a seme-
surreição mais ou menos perfeita de animais e seres humanos. No lhança é ainda maior: a filha menor toca com uma varinha o lenço que
âmbito semítico, a proibição de quebrar os ossos do cordeiro pascal reúne os ossos da mãe morta, devolvendo-lhe a voz.l3e
(Êxodo 12, 46), repetida a propósito do Cristo crucificado Qodo 19, A exaltação da pequenez do pé feminino, em torno da qual gira
36), sem dúvida está ligada a essas crenças.r33 Nurn contexto bem di- a tÍ^ma de Cinderela, foi associada ao hábito, caracteristico das classes
verso, na Lombardia do final do século XIV, os seguidores'de Oriente altas na China, de amarrar bem apertado, desde a primeira infância,
reintegravam (usando pedaços de sabugo) os ossos que faltavam aos os pés das mulheres. Trata-se de uma conjetura plausível.l{ Por
bois cuja carne haviam devorado durante banquetes noturnos. Numa outro lado, sabe-se que a mais antiga dentre as versÕes conhecidas
saga tirolesa, uma jovem, primeiro esquartejada e depois ressuscitada da fábula de Cinderela foi redigida por um erudito funcionário, Tuang
com um ramo de amieiro posto no lugar de uma costela, é chamada Ch'eng-Shih (800-863), que a ouvira de um de seus servos, originário

224 225
da China meridional. Juntando os ossos de um peixe milagroso,.morto no decurso da pesquisa: o menino coxo que conduz o grupo de lobi-
pela madrasta, a protagonista
- Sheh-Hsien - obtém um par de somens livônios, os animais ressuscitados por Oriente. Mas, se nesse
sandálias de ouro e um vestido de penas de alcione, com o qual vai â complexo de mitos e ritos começamos a introduzir algumas distinções
festa em que encontrará o rei. Foi observado que as sandálias, prova- geográficas, mesmo que apenas em linhas gerais, vemos surgir uma
velmente pouco difundidas entre as populaçÕes aborígenes da China contraposição. Temas como o homem dividido ou a coleta dos ossos
meridional, eram, ao contrário, um elemento típico do vestuário dos para consêguir a ressurreição dos animais mortos aparecem na Eurá-
xamãs. Imaginou-se que tanto o epiteto "bela como urn ser celes- sia, na América setentrional e na África continental. Por outro lado,
tial' ', aplicado à protagonista, quanto o vestido de plumas de alcíone a variante constituida do osso que Íalta substituído
usado por ela para a festa na gruta façam alusão a uma fábula de fundo
- eventualmente
por pedaços de madeira ou poÍ outros ossos
- parece, ttt Africa con-
xamânico
- a das donzelas-cisnes -, quase certamente originária da tinental, de todo ausente.ra6 Uma análise da distribuição de Cinderela
Asia setentrionalJar Essas cautelosas hipóteses parecem ainda mais leva às mesmas conclusÕes. As inúmeras variantes do conto cobrem
convincentes se associadas ao núcleo mágico que identificamos. É uma área compreendida entre as ilhas britânicas e a China, com signi-
certo que ficam fora desta análise as relações entre a heroina e a mãe, ficativo apêndice ao longo das costas meridionais do Mediterrâneo,
a madrasta, as meias-irmãs, o futuro esposo. Mas talvez se deva apli- no Egito e no Marrocos (Marrakesh); talvez atinjam a América seten-
car ao conto de Cinderela a hipótese que foi formulada a propósito trional; não tocam a África continental, onde as raríssimas exceções
do mito de Édipo: isto é, que a representação de tensões ligadas às são atribuiveis, com muita probabilidade, a contatos recentes com a
relações familiares tenha sido desenvolvida , iá, em épocas muito remo- cultura européia.la7 A exclusão da África continental também carac-
tas, no tronco narrativo de uma fábula de magia.ta2 A aproximação teriza outro fenômeno, do qual ainda não falamos: a escairulomancia,
não é totalmente injustificada, como mostram as semelhanças entre o ou seja, a adivinhação baseada na omoplata dos animais sacrificados
enredo de Cinderela e o de Pele de asflo.t43 Todas as duas protago- (sobretudo carneiros). Essa prática está Presente numa área delimi-
nistas são obrigadas a dedicar-se a trabalhos humildes e fatigantes; tada pelo estreito de Bering, a leste; pelas ilhas britânicas, a oeste;
a primeira, porque maltratada pela madrasta; a segunda, porque de- pela Africa setentrional, ao sul.r4
masiado amada pelo pai, que, importunando-a com exigências de Uma fábula (Cinderela), um mito (o osso que falta), um rito
{natrimônio, obriga-a a fugir de casa, disfarçada de animal. A afini- (a escapulomancia). Nesse último caso, imaginou-se uma proveniên-
dade da situação inicial dos dois contos pode tornar-se sobreposição cia centro-asiática, talvez mongólica.rae Para as outras duas circuns-
parcial: numa versão russa de Pele de asno, a heroína se despe do tâncias (a fábula de Cinderela e o mito do osso faltando), é provável
invôlucro animalesco que a envolve (nesse caso, uma pele de porco), também uma origem análoga, ou talvez mais setentrional. Mas a au-
vaí ao palácio do príncipe, onde esquece o'sapato etc.I{ Mas a situa- sência de penetração, na Africa continental, de traços culturais tâo
ção inicial de Pele de asno reproduz, de forma invertida, a de Édipo: difusos e tão intimamente ligados não pode dever-se ao acaso. Propo-
em vez de um filho que inadvertidamente casa com a mãe, há um pai mos associá-la à ausência, na própria Africa continental, de fenÔme-
que procura casar com a filha por vontade própria. Esse último tema nos xamânicos análogos aos encontrados na Eurásia e, sob formas
Íetorna, de modo atenuado, em outro enredo, morfologicamente co- mais atenuadas, na América setentrional. De fato, na Africa conti-
nexo tanto a Pele de dsno qúanto a Cinderela: o pai impõe às filhas nental encontramos íenÔmenos de possessão, não o êxtase seguido
uma comida para saber qual delas mais o ama (é o núcleo fabular de pela viagem da alma do xamã até o além. O xamã domina os espíritos;
Rei Lear).tas o possuido é presa dos espiritos, é dominado por eles.rs Por trás desse
contraste bem marcado, percebemos uma diferenciação cultural pre-
22. Do aleijão no pé de Édipo ao sapato de Cinderela: um iti- sumivelmente muito antiga.
nerário tortuoso e cheio de vaivéns, guiado por uma analogia formal.
Reconstruindo a aÍinidade profunda que liga entre si mitos e ritos 23. Embora presentes em áreas culturais que não conhecem
provenientes dos contextos mais diversos, conseguimos dar sentido a fenômenos xamânicos em sentido restrito, os mitos e ritos centrados
detalhes aparentemente inexplicáveis ou marginais que encontramos na coleta dos osses do animal morto parecem repetir o angustiante

226 227
itinerário interior por meio do qual o xamã reconhece a prÔpria voca- de engano, bem-sucedida só na aparência. Prometeu divide em duas
ção: a experiência de ser feito em pedaços, de contemplar o prÓprio partes o grande boi destinado ao sacÍificio: a carne e as miudezas,
esqueleto, de renascer para uma nova vida.rsr Em âmbito eurasiático, destinadas aos homens, e os ossos, destinados a arder no altar Para os
essa seqüência inclui um elemento ulterior, com fisionomia clata- deuses. Zeus, ao ver apresentados os ossos envoltos em toicinho ape-
mente (ainda que não exclusivamente) xamânica: o retorno do além, titoso, Íinge cair na armadilha. A disputa prossegue com o episÓdio
expresso pelo osso ausente ou pelo sapato perdido. É um traço dos do fogo, que Prometeu rouba patadar aos homens; com a vingança de
contatos que os gregos, com a mediação dos citas, tiveram com as Zeus, que à terra manda Pandora, presente belíssimo e nefasto; en-
culturas da Ásia central. A enigmâtica reÍerência de Alceu a Aquiles fim, com a punição de Prometeu, acorrentado a uma roçha do Cáu-
"senhor dos citas" deve ser vista dessa perspectiva.ts2 Outro exem- caso, vítima da águia que lhe devora o figado (sÓ Hércules, autorizado
plo nos é proposto mais uma vez, junto com a associação de escapu- por Zeus, o libertará desse tormento)' ls8
lomancia e de ressurreição dos ossos, por outro mito: o de Pélope.rs3 A possibilidade de que a divisão sacrifical proposta a Zeus por
Pélope fora morto por Tântalo, seu pai, que o fizera em peda- Prometeu derive historicamente dos ritos lapões, siberianos ou cauca-
ços, colocaÍapaÍa ferver num caldeirão e o ofeÍecera como comida
o sianos, em que os ossos dos animais mortos eram oferecidos aos deu-
aos deuses, a fim de testar a onisciência deles. Sô Deméter caira na ses para que thes devolvessem a vida, foi sugerida há muito tempo'lse
armadilha e comera uma espádua do rapaz. O corpo de Pélope fora Para torná-la mais plausível, soma-se a1ota- a demonstração das rela-
recomposto e devolvido à vida; porém, o ombro Íora substituído por ções entre os mitos gregos aceÍca de Prometeu e aqueles, sobretudo
um pedaço de marfim. É obvia a analogia com os mitos e ritos eura- georgianos, acerca de Amirani, Para dar base a isso, como dissemos,
siáticos em que o osso ausente é substituído por pedaços de madeira foi postulada uma série de contatos, anterior ao segundo milênio a'C',
ou (mais raramente) por outros ossos.ls entre populações falantes de línguas indo-européias e populações fa-
Em honra de Pélope, todo ano era sacrificado um carneiro ne- lantes de linguas caucásicas.rm Mas esses contatos hipotéticos muito
gro, segundo um complicado ritual. O rito se desenvolvia em Olím- provavelmente Íoram reativados num período bem mais prÓximo a
pia, por ocasião da corrida dos carros. Aliás, outro mito dizia que nós. Copiosa documentação arqueológica mostra que' entre os sé-
9ii
U)
uj Pélope conseguira desposar Hipodâmia derrotando o pai dela, Enô- culos VII e IV a.C., os citas penetraram na Transcaucásia - na
ú
60 o mao, durante uma corrida de carros em que provocou a morte deste. Geórgia ocidental e central, na região habitada pelos abkhazes e na-
)t a8'6) Como se recordará, a morte do futuro sogro, prevista por um oÍáculo, quela onde ainda hoie estão instalados os ossetas de lÍngua iraniana.16r

i? uluILo sugerira inserir também Pélope na série dos correspondentes atenua-


dos de Édipo. Só aparentemente sua íigura está privada das anomalias
Se a comparação das lendas sobre o herói Amirani (difundidas justa-
mente nessas zonas) com o ciclo de Prometeu fosse estendida ao mito
ú deambulatórias que caracterizam outros heróis fatais, como Édipo, que tem por eixo a instituição do sacrificio cruento, o enredo cultural
\ïì &"
l< ruJ Jasão ou Perseu.tss De fato, existe uma situação mítica em que a falta de populações caucasianas, citas e gregas talvez resultasse ainda mais
;o
r
1
l4
\04 do osso da espádua implica coxear: quando a vítima da mutilação é estreito e a originalidade da reelaboração grega se mostraria ainda
\uJJt- a
4. -
\Eí2 t-:
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um quadrúpede. Entre Pélope e o carneiro sacrificado em Olimpia em mais signific atív a.t62
Contudo, alguma coisa transpira também do relato de Hesíodo.
2ço- o
sua honra, há uma nitida relação de equilíbrio.rs6
De modo geral, considera-se evidente que a disputa entre Prometeu e
24. Os gregos conheciam dois mitos semelhantes: o de Tântalo Zeus descrita na Teogonia se reÍíta ao ritual grego do sacriflcio san-
eo deLicáon, Em ambos, um homem oferece sub-repticiamente aos grento. Mas a correspondência entre mito e prática ritual está longe
deuses a carne do próprio filho, pura ou misturada a carnes de ani- de ser perfeita. Hesiodo contrapõe ossos e carne, sem mencionar as
mais; em ambos, os deuses descobrem o engano e devolvem à vida a vísceras (splancbna), que tinham parte importante no sacrifício.163
vítima humana esquartejada. Tanto homens e deuses comensais Além disso, o gesto de Prometeu, que coloca "carne e miúdos [aa-
quanto a antropofagia evocam, por contraste, outro mito: a institui- katal ricos de gordura [...] numa pele" depois de tê-los escondido
ção do sacrificio cruento por parte de Prometeu.ls? Também aqui, ''no ventre do boi",r& não possui equivalente no ritual do sacrifício
como narra aTeogonia de Hesiodo (vv. J35-61), existe uma tentativa pelo menos, não no grego. Porém, se assumimos como termo de
-
228 ))o
comparação o sacrificio cita, vemos desenhar-se uma convergência homens), reconhecemos os vestígios dos usos sacrificais dos nômades
inesperada. Os citas, conta Heródoto (IV, 61), "embutem todas as da Asia central, embora inseridos num contexto bem diverso. Reeia-
carnes na barriga" do boi (ou de qualquer outro animal); depois, boração anâloga talvez esteja presente também nas posições (conver-
tendo sido misturadas à água, são postas para ferver.lG Ë outra prova gentes, em ceftos aspectos) daqueles que se opunham ao sacriÍício
da enorme contigüidade cultural entÍe os citas e os pastores nômades tradicional, recusando o primeiro elemento (a carne) ou o segundo
da Ásia central. Aliás, também os buriatos costumam cozinhar os (o cozimento).
animais envoltos na própria pele, depois de tê-la enchido de água e A confluência das duas posições se explica, por um lado, com a
166
pedras incandescentes. presença documentada de Orfeu nos rituais dionisiacos; por outro,
Dois textos muito diversos: o de Hesíodo narra, em chave mí- com a posição de relevo atribuida a Dioniso nos chamados livros ór-
tica, a instituição do rito sacrifical grego; o de Heródoto descreve, ficos. Jamais existiu uma seita órfica; em vez disso, houve, desde o
numa perspectiva que hoje chamaríamos etnogtàÍica, o rito sacrifical fim do século VI a.C., uma série de poemas pseudo-epigráficos, es-
praticado por uma população estrangeira e, além disso, nômade. No critos por personagens diversas (dentre as quais, segundo parece, o
segundo, da mesma forma que no primeiro, o sacrifício grego está próprio Pitágoras) que se ocultavam sob o nome e a autoridade de
continuamente presente como tefmo, ora consciente ora incons- Orfeu.rTt Nurn desses poemas, contava-se um mito que conhecemos
ciente, de confronto. Herôdoto escolhe, no leque das vitimas possi- principalmente graças aos testemunhos tardios de autores cristãos,
veis, a que lhe parecia mais óbvia
- o boi -, exatamente para dar
maior-relevância à singularidade das práticas citas.ró7 Mas a técnica
tanto gregos (Clemente de Alexandria) quanto latinos (Firmico Ma-
terno, Arnóbio). O tema do mito era o assassinato de Dioniso criança
usada pelos citas para manipular as carnes das vítimas não pode ser (às vezes identificado aZagreu, o mítico caçador cretense) pelas mãos
atribuída a uma projeção de Heródoto, visto que no âmbito sacrifical dos titãs. Com seus rostos cobertos de gesso, os titãs matam Dio-
grego não se encontra nada parecido.ró8 Por outÍo lado, as finalidades niso após distrai-lo com piorras, dados, um espelho e outros brinque-
naÍrativas de Hesíodo não atenuam (nem explicam) a convergência dos; depois, cortam-no em pedaços, fervem-no num caldeirão e as-
exata com a descrição de Heródoto.r6e A conclusão é inevitável. A sam-no num espeto, até serem fulminados por Zeus. Algumas ver-
tradição que chegará até Hesíodo conservava a memória do sacriflcio sões acrescentam que Dioniso foi devorado pelos titãs. Outras, que
cita; porém, inserida numa reelaboração mítica destinada a ilustrar, ressuscita
por meio da disputa entre Prometeu e Zeus, a decisiva novidade do
- do coração, o qual fora arrancado aos carnifices por Ate-
na, ou então dos membros, que haviam sido recompostos por Demê-
sacrificio grego. ter ou Réia.172
Ao esquartejamento, seguido pela imersão num caldeirão de
25, O sacrificio sangrento estabelecia uma separação nítida e água Íervente, recorre a maga Medéia para rejuvenescer Jasão e matar
irreversível entre homens e deuses, de um lado, e entre homens e com uma cilada o tio dele, o usurpador Péleas.l73 Esquartejamento,
animais, de outro. Numa e noutra vertente, a religião da cidade, que fervura, recomposição dos membros e ressurreição sucedem-se, como
tinha no sacriílcio o prôprio centro, íoi obrigada a enfrentar dupla se recordará, na história de Pélope; à imersão no fogo, como meio
contestação, representada pelas formas de religiosidade radical que para assegurar a uma criança a imortalidade, haviam sido submetidos,
eram defendidas, respectivamente, pelos segiridores de Pitágoras e sem êxito, Demófon e Aquiles. As semelhanças entre esses mitos e
pelos de Dioniso. Os primeiros condenavam de forma menos ou aquele sobre a morte de Dioniso foram associadas a um elemento
mais decidida
-
- a alimentação com carne, vista como obstáculo no
caminho de uma perfeição que deveria aproximar dos deuses os ho-
comum, de caráter iniciático.l7a Objetou-se que tal interpretação ne-
gligencia as conotaçÕes sacrificais de um mito que contém (como jâ
mens. Os segundos tendiam a abolir a distância entre homens e ani- notava um problema pseudo-aristotélico) referência explícita ao sacri-
mais recorrendo ao ritual sanguinário da homofagia, em que os ani- fício grego tradicional, do qual inverte a seqüência. De faro, Dioniso
mais eram despedaçados e devorados ainda crus
- quase vivos.l7o No
mito de fundação do sacrifício cruento, equivalente a uma opção em
é primeiro fervido e depois assado, enquanto no sacrificio se comia
antes as vísceras da vítima assadas no espeto e, depois, as carnes co-
favor da carne cozida (Prometeu é também aquele que dá o fogo aos zidas.rTs Mas as duas interpretações não são necessariamente incom-

230 231
pativeis: no caso de Dioniso, o sacriÍício sangrento podia muito bem da morte de Dioniso: Rito (ou Ritos) de inicìaçdo (Telelë, Teletai)'t&
simbolizar uma trajetória iniciática, pois era seguido de uma ressur- Acerca desse mito, não se pode colocar em dúvida a presençâ de um
reição, Em algumas versões do mito, como dissemos, o renascer era núcleo iniciático.r8t Ao iniciado, os sequazes de Pitágoras ou de Dio-
alcançado subtraindo o coração da vitima; em outras, recompondo- niso propunham modelos de ascese individual, decerto muito diferen-
lhe os membros.lT6 Nesse último caso, a alusão à coleta e recompo- tes mas tendo em comum a recusa da dimensão apenas pública da
sição dos ossos está implícita, visto que no mito o cadáver de Dioniso religião da cidade. No período helenístico, o interesse por essas for-
não é apenas desmembrado mas também cozido duas vezes e (em mas de experiência religiosa, bem como o impulso a reinterpretá-las
certas versÕes) até devorado.rTT em sentido aleSórico, acentuou-se. Plutârco escreveu que o mito do
Que o mito órfico de Dioniso reelaborasse, na seqüência mor- assassínio de Dioniso pelos titãs ' 'se refere I ria ] ao renascimento [els
te-esquartejamento-fervura-assado-recomposição dos ossos* ten Patinghenesianl" , à renovação interior.182 Em resumo, o mito e.o
ressurreição, mitos e rituais eurasiáticos é só uma hipótese; ou me- eventual rito a ele ligado ofereciam aos seguidores de Dioniso a possi-
lhor, a soma de várias hipóteses. Sabemos, porém, que um santuário bilidade de identificar-se com a morte e o renascimento de seu deus.
de Dioniso existia desde o Íinal do século VI a.C. em Olbia, a colônia Imaginou-se que esse complexo mítico-ritual íizesse eco à ini-
grega situada às margens do mar Negro, junto ao território habitado ciação xamânica - fenÔmeno com o qual os greSos puderam entrar
pelos citas, Heródoto conta (IV, 78-80) uma história que ilustra bem em contato em Olbia e, de modo mais geral' em suas relações com os
as atrações e repulsas provocadas por essa contigüidade geogrâÍica e citas.rs3 ReÍorça uma hipótese semelhante a possibilidade de qge o
cultural. Silas, rei de uma tribo de citas nômades mas nascido de mãe mito do renascimento de Dioniso reelaborasse o ritual eurasiático da
de língua grega, costumava desaparecer por longos periodos, nos coleta dos ossos. Claro, tratava-se de relações dificeis. O desprezo dos
ew
Cn aì
quais adotava às escondidas os trajes dos gregos e seus cultos. Em súditos de silas, o rei que tentara iniclar-se nos mistérios de Dioniso,
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J
-t certo ponto, quis ser iniciado nos mistérios de Dioniso. Quando os certamente nascia de uma atitude de intolerância cita em relação aos
()tu(!) citas, avisados por um informante, viram o próprio rei caminhar pelas costumes estrangeiros (outros exemplos são conhecidos)'tal 41n-
õb E. I
ruas de Olbia, misturado aos seguidores de Dioniso Baqueios possui-
dos pelo deus, indignaram-se e revoltaram-se contra ele: "é absurdo,
disso, a frase de condenação citada por HerÓdoto - "é absurdo, di-
zem, imaginar um deus que empurra os homens à loucura" - dà a
J& dizem, imaginar um deus que empurra os homens à loucura".r78 O medida da distância entre o êxtase xamânico (que os citas provavel-
I culto que fascinara Silas não nos é de todo desconhecido. Entre os mente conheciam) e a possessão dionisíaca.ls Mas uma figura como
u. --
UJ Ít testemunhos arqueológicos encontrados tanto na área do santuário de Aristeu de Proconeso permite entender que fenômenos de hibridismo
Dioniso em Olbia quanto nas zonas circunstantes, há numerosas religioso greco-cita eram, não obstante tudo, possiveis.lsó
EK *o tabuÌetas retangulares de osso polidas, ora de um ora de dois lados, Era mais comum que tais figuras xamânicas proviessem de re-
com as dimensÕes de uma palma de mão humana, mais ou menos, giões remotas, como a teffa dos hiperbÓreos' ou semi-selvagens,
Às uezes, são acompanhadas de inscrições. Numa das tabuletas, que como a Trâcia. Contudo, justamente o caso de OrÍeu, o cantor trácio
remonta ao século V a.C., é possivel ler: "Vida morte vida que conhecia a linguagem dos animais e o caminho que conduz ao
Verdade I A
- - I

- - [dois sinais em forma de ziguezague] - I Dio lniso] além-túmulo, mostra de que modo figuras e temas xamânicos assu-
Órficos".l?e É presumivel que um objeto desse gênero tivesse fun- miam, uma vez transplantados para o solo grego, fisionomia comple-
-
ção ritual. Qual função, precisamente, não sabemos; mas não parece tamente diversa.tsT No tempo cle Platão, sacerdotes itinerantes e vi-
demasiado arriscado supor uma relação com o mito órfico de Dioniso, dentes batiam à porta dos ricos difundindo livros atribuídos a Orfeu,
o deus assassinado e depois renascido dos próprios ossos coletados e nos quais se explicava como deviam sef praticados os sacrifícios. Num
recompostos. âmbito tradicionalmente delegado à tradição oral - tradição, além do
mais, confiada à casta sacerdotal -, irrompia a escrita.rs
26. O problema pseudo-aristotélico em que é discutida a ques-
tão da precedência do cozido ou do assado no sacrificio menciona tam- 27. Osmovimentos e as seitas religioso-ÍilosÓficas surgidos du-
bém o título do poema, atribuído a Orfeu, no qual se contava o mito rante o século VI propunham a seus adeptos modelos de ascese ou

)?) z))
exaltaçeo mistica, conforme os casos. A importância nova assumida que os mitos sobre os nove Dev (um dos quais é manco) são revelados
por um deus antigo como Dioniso, em estreito contato com o mundo por xamãs em estado de transe, somos induzidos a pensar que o co-
ultraterreno, contradizia o recusar a morte expÍesso pelos deuses ho- xear tenha, nas mitologias das populações caucásicas, importância e
méricos. Talvez essa profunda transformação fosse também solicitada significado que não são diferentes dos reconstruídos até aqui.re3 Se in-
pelo encontro com culturas nas quais existia uma figura de mediador cluirmos a coxeadura nas séries mais amplas das assimetrias deambu-
profissional com o além.l6e Mas as marcas de tais contatos são poucas iatórias, descobriremos que nela cabe também Amirani. A lenda re-
e fugidias. Na civilização grega, a presença de elementos xamânicos gistrada entre os esvanes diz que, logo após o roubo do fogo, o herói
reelaborados deverá ser buscada em fenômenos pouco visiveis; dentre foi engolido por um dragão, o qual desaparece sob a terra; Amirani
eles, a assimetria deambulatória no mito e no ritual. É significativo consegue escapar das visceras do dragão; após várias aventuras, cho-
que essa assimetria marque os protagonistas dos mitos gregos centra- ca-se contra uma águia que, em troca de doze casais de bois e uma
dos na instituição do sacrifício sangrento
- ou em sua recusa, for-
mulada, desde pontos de vista opostos, em nome de um deus "que
quantidade correspondente de pão, aceita conduzi-lo voando até a
superfície. A âguia alça vôo em espiral, comendo carne e pão ao fim
vacila" (Dioniso Sphaleotas) ou de um filósofo-mago ao qual a tra- de cada circulo. Quando faltam dois círculos para o final, Amirani
dição atribuía uma coxa de ouro (Pitágoras).1e0 percebe que as provisões acabaram. Então, "corta um pedaço da pró-
Mas Prometeu, aquele que segundo o mito instituiu o sacrificio pria carne e o coloca no bico da âguia. Ela o considera muito mais
cruento, não vacila, não possui uma coxa de ouro nem é coxo. É saboroso que os precedentes e chega à terra sem parar mais. Amirani
verdade. Porém, precisa-se notar que entre Hefesto, o deus ferreiro desce, e a âguía lhe dá um pedaço da asa, dizendo-lhe para esfregá-lo
de pés tortos, e Prometeu, deus do íogo, existem relações tão estreitas na ferida. Esta sara imediatamenls".re4 Sobre a automutilação de
que chegam a roçâr o intercâmbio. Alguém supôs que HeÍesto se Amirani, a lenda caucasiana não dá outros detalhes. Para outras in-
tenha instalado no Olimpo suplantando Prometeu (mas foi formulada formações, devemos recorrer a uma Íábula mantuana, registrad,a hâ
também a hipótese inversa).pt A assimetria deambulatória de He- menos de vinte anoy Sbadilon.tes
festo poderia ter explicitado um traço apagado ou latente na figura de Sbadilon é um trabalhador rural que gira pelo mundo com a en-
PrometeuT A favor dessa hipótese (capciosa, à primeira vista), pode- xada às costas, junto com dois companheiros. Após várias aventuras,
se agregar uma associação imprevisivel, vão parar numa região em que a princesa foi seqüestrada. Num prado,
Uma lenda, coletada há meio século entre os esvanes do Cáu- vêem uma lápide: Sbadilon a levanta com dois dedos, avista um
caso, apfesenta uma versão parcialmente anômala das gestas de Ami- grande buraco, penetra nele por uma corda. Chegando ao lugar sub-
rani (que, como já foi dito, apresentâm notáveis aÍinidades com as de terrâneo, mata cinco magos com golpes de enxada e encontra a prin-
Prometeu). Em dado momento, Amirani fica sem fogo. Descobre que cesa, a qual, em sinal de gratidão, promete casar com ele. Com a
os únicos a possuí-lo, no raio de muitas milhas, são uma familia de ajuda dos dois companheiros, Sbadilon faz que ela suba; mas, assim
demônios subterrâneos, os Dev: nove irmãos, um dos quais é coxo. que tenta sair também, os amigos cortam a corda e vão embora com a
Amirani entra na casa deles, bate em todos menos no manco, apro- princesa. "O pobre Sbadilon, quando se viu lá no fundo, abriu outra
pria-se do fogo e vai embora. A raridade dos coxos na mitologia cau- porta, e então apareceu uma águia: 'Oh, Giovanni, que você anda
cásica sugeriu um conÍronto com o mito em que Prometeu rouba o fazendo por aqui?t. Sbadilon lhe conta que salvara a princesa e per-
fogo da forja de Hefesto, o deus claudicante. Uma convergência tão gunta: 'Como fazemos para subirT'. A águia responde: 'Escute, se
precisa e concreta
- já foi dito - contrasta com o nivel de abstração
que, de modo geral, catacteriza as relaçÕes entre o ciclo caucasiano de
você tiver carne, eu o levo para cima'. 'É claro que tenho! Você gosta
de carne de mago?' 'Gosto', disse a ave. Então, Sbadilon pôs às cos-
Amirani e o grego de Prometeu. Portanto: a) a coxeadura dds duas tas dois ou três magos e,montou na garupa da águia. 'Quando eu
vitimas do furto deve-se, sem dúvida, a um empréstimo; á) a direção disser que quero um pedaço de carne, você vai-me dando.' Assim
do empréstimo foi, inevitavelmente, da Grécia para o Cáucaso.re2 foram, na base do 'quero um pedaço de carne, quero um pedaço de
Ambas as conclusões parecem discutiveis. Ao saber que o pro- carne'. Mas, quando estavam para chegar no alto, já não havia mais
tagonista de um mito georgiano é um xamã com as pernas tortas ou nem sombra dos magos. Então Sbadilon, quando ela Ilhe disse] 'Que-

l2ç
234
ro um pedaço de carne', em vez de responder, por exemplo, 'Aca- que Amirani possui alguns traços xamânicos.m Em Prometeu - um
bou', cortou um pedaço do próprio calcanhar. Assim, conseguiram deus que age como mediador entre Zeus e os homens - ' esses traços
vencer a subida. Já no alto, Sbadilon disse: 'Deus meu, Quanto me foram quase cancelados. Mas convém sublinhar: no Prometeu que
queima este pé!'. E então, a águia falou: 'Quieto, pois tenho uma conhecemos.
garraÍinha especial que faz crescer os calcanhares'. E de fato esvaziou Havíamos partido da simetria entre o episôdio da lenda cauca-
siana em que Amirani se apropria do fogo sem tocar um fio de cabelo
- são contos, né2! - todo o conteúdo da garrafinha sobre o lugar em
que faltava um pedaço, e o calcanhar voltou a crescer. Depois se des- do Dev coxo e o mito em que Prometeu rouba o fogo do claudicante
pediram, ele e a águia. [...] " reó Hefesto. Na verdade, trata-se de uma simetria dupla, que envolve não
sô as vitimas mas também os autores do furto: uns e outros aparecem
28. "E é mesmo história, né7!": são realmente fábulas, como ligados por uma relação que chela a ser especular.mr Simplificando,
diz a narradora de Cesole, na região de Mântua, por instantes distan- poderiamos dizer que são quatro variantes da mesma personagem'
ciando-se do evento prodigioso que está contando.reT Não se pode agrupadas duas a duas. Três delas caracterizam-se por uma assimetria
saber que, quarenta anos antes, outro narrador contou o mesmo pro- deambulatória diferente: joelho com rótula de lobo (Amirani), coxea-
dígio, quase com as mesmas palavras, a milhares de quilômetros de dura (Dev), pernas tortas (Hefesto). No que concerne a Prometeu,
distância, nas montanhas do Cáucaso, repetindo um esquema talvez devemos limitar-nos às conjeturas. Mas hoie é evidente que os man-
mais que milenar. Mas, exatamente porque são fábulas, narrações re- cos, e de modo mais geral as personagens caracterizadas por assime-
gidas por uma lógica peculiar mas férrea, podemos integrar a lacuna, trias deambulatórias, não podem ser considerados um dado superficial
constituida pela imprecisa mutilação de Amirani, com o calcanhar e, por isso, atribuivel com segurança a um empréstimo'202
cortado de Sbadilon.
CI (i) A considerável semelhança entre os dois episôdios é ainda mais 29. Investigando as raízes folclóricas do sabá, vimos aÍlorar
à t t"Ll
surpreendente por não implicar a mediação de Prometeu. A existên- uma série de testemunhos em que se falava de homens e mulheres que
a o cia de um mito em que Prometeu, após penetrar na terra, volta à viviam em êxtase experiências semelhantes às dos xamãs siberianos:
:] Q
*t ç) superficie na garupa de uma águia, saciando-lhe a fome com o prôprio o vôo mágico e as tÍansformações em animais. Excetuando os casos da
() TU calcanhar, ë, a priori, improvável, dado que no cicÌo grego a àguia Lapônia e da Hungria, nos quais o nexo cultural e étnico com a Asia
X tr
c tem sempre função negativa (enquanto no caucasiano ocorre exata- central era ôbvio, podiam ser aventadas duas suposições, para explicar

mente o contrário).re8 A série de contadores e contadoras de fábulas por que esses fenômenos estavam presentes no territÓrio europeu' A
_t
\luJ que por várias geraçÕes repetiram entre o Cáucaso e a planície pa- primeira eÍa que a ligação teria sido estabelecida Por uma população
t o4 dana, em inúmeras linguas, a mesma histôria
- ou melhor, o mesmo culturalmente afim
- excluindo a língua - com nômades das estepes
LU
Ë episódio inserido em inúmeras histórias diíerentes ignorou o mito como os citas, com quem primeiro os gregos (a partir do século
k U) -
de Prometeu; se dele tomou conhecimento, não o levou em conside- VII a.C.) e depois os celtas (desde o século IV a.C.) haviam entre-
ã ü ração. Mas, se trocarmos o plano da identidade pelo do isomorfismo, tecido relaçÕes comerciais nas margens do mar Negro. A segunda era
as conclusÕes mudam. É muito provâvel (não dizemos que seja certo) que os contatos com os citas teriam Íeativado, tanto nos gregos como
que Prometeu tenha sido marcado por uma assimetria deambulatória, nos celtas, elementos culturais latentes mas sedimentados durante
a qual por mera casualidade não aparece nos testemunhos que chega- longo tempo
- séculos, talvez milênios. Diversamente da outrat essa
ram até nôs. Em vez de trm calcanhar cortado, Prometeu poderia ter hipótese está apoiada num vazio documental. O que nos leva a repre-
tido os pés tortos como os de HeÍesto. Ou, então, um joelho com uma sentá-la, sob forma de postulado (enquanto tal, não demonstrável),
rôtula de lobo como a de Amirani, que serve para rompeÍ uma torre é a dificuldade de tazer remontar aos contatos com os citas (contatos
de cristal, na qual jaz um gigante morto.ls Também os calcanhares que, tudo considerado, eram circunscritos) a surpreendente dissemi-
cortados de Amirani e de Sbadilon são, como é óbvio, o sinal de quem nação, no continente europeu, de traços xamânicos, depois can liz '
realizou a viagem subterrânea ao mundo dos mortos (ao qual, no dos à íorça paÍa o estereótipo do sabá. A hipótese de uma contiSüi-
conto mantuano, se tem acesso erguendo uma lápide). Foi observado dade prolongada, anterior ao segundo milênio a.C., numa zona talvez

)1Á /J/
situada entre o mar Negro e o mar Cáspio, de populações falantes de próprios lugares de culto e suas próprias cerimônias; animais e vege-
linguas indo-européias e populaçÕes falantes de línguas caucasianas tais são classificados, conforme os casos, como mos (por exemplo,
substituiu aquela, em voga há certo tempo, de uma ou mais invasÕes o ganso ou a bétula) oo Por (por exemplo, o urso ou o lariço). Mos e
de cavaleiros xamânicos provenientes da Á,sia central.m3 Em ambos por constituem dois conjuntos exogâmicos: só se pode casar com os
os casos, trata-se de conjeturas. membros do outro grupo. O mito também fala de um casal de heróis
Pelo contrário, está documentado de forma bem diversa o es- irmãos que se relacionam a esse sistema dual.20s
trato subterrâneo de mitologia eurasiática unitária emerso da análise Nas margens do Mediterrâneo, conta-se (Ovidio, Fastos, 2, 361
de mitos e ritos centrados na assimetria deambulatória. Poderíamos e seguintes) uma história similar. Ali, os dois irmãos, Rômulo e
prosseguir a pesquisa concentrando-nos na Europa medieval, para Remo, são os protagonistas. Segundo o rito, sacrificam-se aÌgumas
mostrar como a pata de ganso da mítica rainha Pédauque, o pé de di- cabras ao deus Fauno. Enquanto os sacerdotes preparam as oferendas
mensÕes despropositadas de "Berta do Pé Grande" (uma variante de sacrificais, espetadas em varas de salgueiro, Rômulo e Remo tiram a
Perchta), o pé de pato ou asno da rainha de Sabá (um Édipo ao con- roupa e competem com outros jovens. De repente, um pastor dá o
trário, que propÕe enigmas a Salomão), a perna de osso da baba-iaga alarme: bandidos estão carregando os vitelos. Sem tempo de pegar as
russa etc. teriarn sido substituídos pela pata de ganso, pelo casco armas, os moços lançam-se a uma perseguição. Remo volta com o
eqüino ou pela coxeadura do diabo (figura L8).204 As múltiplas varian- butim, tira dos espetos as carnes que cozinham e as come, dividindo o
tes de um detalhe apârentemente marginal contêm uma história de alimento com os Íábios: "É claro que estas cabem ao vencedor". Rô-
milênios. mulo chega desiludido, vê os ossos roidos (ossaque nuda) e começa a
rir, amargurando-se pela vitória de Remo e dos fábios e pela derrota
30. Guiados por esse detalhe, mais uma vez deparamos, ao de seus quintilios, Em memória daquele distante evento, todos os
longo de uma via transversal, com a figura da deusa noturna ressus- anos, em 1J de fevereiro, celebrava-se em Roma a Lupercália: luperci
citadora de animais (parte 2, capítulos I e 2). Um percurso igual- Quinctiales e lupercì Fabiani competiam correndo nus em volta do
mente periférico nos permitirá ver, numa perspectiva diferente, fenô- Palatino.
menos como as batalhas noturnas e as mascaradas rituais (parte 2, Algumas lendas sobre a mais antiga história de Roma faÌam de
capítulos 3 e 4). Até agora, analisamos um traço mítico e ritu.al em um sacrificio interrompido por certa batalha. São ainda mais estreitas
contextos extremamente heterogêneos, mostrando que à persistência as analogias entre o relato de Ovídio e o mito de Caco, o bandido.
da forma correspondia substancial constância do significado. Agora, Caco rouba um rebanho de bois; Hércules os encontra, elimina Caco
examinemos a situação oposta, em que a uma.forma quase idêntica e institui um culto perto do Altar Principal, confiando a celebração
correspondem conteúdos diversos. Por que a Íorma se manteve? do sacrifício aos representantes de duas famílias nobres, os Potitio
Os vogules-ostiacos, hoje instalados na Sibéria ocidental, até o e os Pinário; Pinário chega atrasado, quando as oferendas já foram
ano 200 ocupavam vasta zona em torno de Perm, na vertente oposta comidas, e e excluído, junto com seus descendentes, do exercício do
dos Urais. Um mito narra que, há muito tempo, alguns caçadores que culto.M Mas tudo isso não esclarece as analogias, na verdade descon-
voltavam do mato preparavam-se para comer. De repente, viram certantes, entre o mito dos vogules-ostíacos e aquele, registradoquase
aproximar-se um grupo hostil. Parte dos caçadores fugiu, agarrando a 2 mil anos antes, acerca da origem da Lupercdlia.mT Parece muito
carne, que. ainda estava crua. Os outros permaneceram e começaram improvável que os dois relatos sobre a refeiçâo interrompida pela che-
a cozinhar a carne nos caldeirÕes; mas, antes que ficasse cozida, ti- gada dos ladrÕes de gado sejam resultado de uma convergência inde-
veram de enfrentar um ataque de inimigos, do qual saíram com o pendente. Restam duas hipóteses, a derivação de um modelo comum
nariz quebrado. Os descendentes dos comedores de carne crua, cha- ou o empréstimo.m Ambas implicam que esse esquema narrativo se
mados rnos-chum, ou seja, os homens parecidos com os deuses, são tenha mantido quase intato durante um periodo enorme
- séculos e
reputados como inteligentes, bem-educados, bons; os descendentes séculos, talvez milênios. A análise dos respectivos contextos deveria
dos comedores de carne pouco cozida, conhecidos como por-chunt, permitir-nos entender como isso teria sido possível. De um lado, há
são considerados estúpidos, grosseiros, maus. Cada grupo tem seus uma área, a qual podemos identificar à Asia central, em que a) são

238 )14
conhecidos muitos casos de dupla monarquia ou duplo poder; á) cos- cam uma solução. Mesmo se fosse possível demonstrar que as socie-
tuma-se classificar as relações de parentesco segundo duas grandes dades dualistas se difundiram a partir de um ponto preciso da Asia
categorias, identificadas respectivamente com o "osso" (a linha pa- central (é um exemplo ficticio), os motivos de sua distribuição e per-
terna) e a "carne" (a linha materna); c) é freqüente o sistema matri- sistência permaneceriam inexplicados. Aqui, penetram as considera-
monial da troca generahzada, que implica, como escolha preferencial, ções de ordem estrutural, que concernem à existência
potencial' e não
o matrimônio de primos cruzados matrilineares (o filho da irmã casa atual, das sociedades dualistas. A fisionomia dicotÔmica dessas socie-
com a filha do irmão).D Por outro lado, o Lácio, onde a está presente dades (foi dito) é o resultado da reciprocidade, de uma relação comple-
sob a forma de vestigios, enquanto b e c estão completamente ausen- mentar que implica troca de mulheres, prestações econômicas, ceri-
tes.2to Nos dois mitos, classes exogâmicas e contraposìção carne/ mônias funerárias ou de outro tipo. A troca' por sua vez' surge da
ossos são circunstâncias separadas: no dos vogules-ostiacos, só enco- formulação de uma série de oposiçÕes. E a capacidade de exprimir em
tramos a primeira; naquele referido por Ovidio, apenas a segunda. forma de sistemas de oposição as relações biolôgicas é a caracteristica
Naturalmente, seria absurdo ver nessa disiunção a prova de que tam- específica daquilo que chamamos cultura.2l3
bém no Lácio teria existido, em época pré-histórica, um sistema ba- Como se vê, as características elementares das sociedades dua-
seado em classes exogâmicas. É mais provável que os dois mitos inter- listas impuseram reÍlexões de caráter muito geral, Mas nessa direção
pretassem os elementos dualistas presentes, em medida muito diversa, ainda se pode caminhar bom trecho de estrada.
nas duas sociedades. Do mesmo modo, no Velho Testamento a hosti-
Iidade entre os dois gêmeos, Esaú e Jacó, antecipa e justifica aquela 32. Tradicionalmente, as Íases mais antigas da história humana
entre os respectivos descendentes, idumeus e israelitas. Também são separadas segundo a matéria dos utensílios utilizados: pedra (las-
nesse caso, a supremacia de Jac6 é acompanhada por uma renúncia cada ou polida), ferro, bronze. Trata-se de uma classificação conven-

affi I
alimentar: a sopa de lentilhas cedida a Esaú em troca da primoge-
nirura (Cênesìs 25 , 29-34).
cional, baseada em elementos externos. Observou-se, porém, que o
uso de utensílios, embora decisivo, não é especificamente humano.
a
=(l õ
)(/)-, I

31. Grande número de sociedades dualistas foi identificado na


Embora em medida muito limitada, é partilhado por outras espécies
animais. Contudo, só a espécie humana tem o costume de coletar,
@l
ü
-l r-ri Asia, nas Americas, na Austrália (na Âfrica são muito mais raras). produzir, acumular ou destruir (conforme o caso) obietos que pos-
õts-l
I

Dentre as caracteristicas que compartilham, encontramos vários ele- suem uma única função: a de significar - oferendas aos deuses ou aos
EI mentos que surgem tambem no mito fundador dos vogules-ostíacos: mortos, objetos funerários enterrados nas tumbas, reliquias, obras de
-r0- I
presença de metades exogâmicas, unidas por trocas não só matrimo- arte ou curiosidades naturais conservadas em museus ou coleções.
rt o I
niais mas também econômicas ou cerimoniais; descendência muitas Diversamente das coisas, tais obfetos portadores de significado, ou
üí-: vezes matrilinear; posição de relevo atribuida, na mitologia, a um semióforos (como Íoram definidos)' têm a prerrogativa de pÔr em
K
è{Lô
E Ë casal de irmãos ou gêmeos; em muitos casos, divisões do poder entre comunicação com o visível o invisível, ou seja, eventos ou pessoas
dois chefes, com funções diferentes; classificação dos seres e das coisas distantes no espaço ou no tempo, ou até seres situados fora de ambos
ultra-
em duplas contrapostas; jogos ou corridas nos quais se exprime a re-
lação entre metades exogâmicas, relação que é, ao mesmo tempo, de
- mortos, antepassados, divindades. De resto, a capacidade de
passar o âmbito da experiência sensivel imediata é o traço que carac-
rivalidade e de solidariedade.2tr A dispersão de sociedades com carac- teriza alinguagem e, de modo mais geral, a cultura humana.2l4
teristicas tão semelhantes foi interpretada de modos diversos; os de- No desenvolvimento intelectual do ser humano, essa elabora-
fensores da tese histórica tendem para a difusão a partir de um ponto ção começa na primeira infância, durante o processo de construção

determinado; os adeptos da tese estrutural postulam a ação indepen- de um mundo de objetos, e continua na atividade de formação simbó-
dente de uma tendência humana inata. Por esses motivos, conside- lica.2ls Poderíamos ser tentados a propor mais uma vez a velha tese de
rou-se a origem das sociedades dualistas um caso crucial para discutir que a ontogênese recapitula a íilogênese, isto é, o individuo repetiria
a relação entre história e estrutura.2l2 Reencontramos o tema que em seu crescimento as etapas percorridas pela espécie humana. A
permeia toda esta pesquisa. Mas os resultados jà alcançados nos indi- observação do presente permitiria então captar um passado que, de

240 241
outra maneira, seria inatingível. No gesto da criança de dezoito meses mortos e vivos.22l Uma afirmação de dimensÕes tão gerais poderá pa-
que (talvez) reviva as reaçÕes suscitadas pela ausência ou pelo retorno recer imprudente. Mas a pesquisa acerca dos fenômenos extáticos em
da mãe jogando longe um carretel com um fio enrolado, para recu- âmbito europeu conduziu-nos às mesmissimas conclusões. Sob as
perá-lo alegremente logo a seguir, identificou-se um modelo de repe- descriçÕes das batalhas travadas em êxtase ou em sonho por benan'
tição simbólica do passado, controlada e não coagida. Mas é licito dantì, barkudztiutri, lobisomens, tdlto s, kres niki, rn azzerì, havíamos
buscar na psicologia infantil as raizes do simbolismo mitico-ritualT2ró entrevisto uma afinidade subterrânea entre essas pefsonaSens e seus
Admitamos que a criança use o carretel como a um semióforo; adversários. De um lado, vivos assimilados aos mortos atravessam o
que o carretel designe a mãe, seja a mã.e. Um exemplo bastará para êxtase; de outro, conforme os casos, mortos' feiticeiros, outros com-
ilustrar as potencialidades e os limites da analogia entre indivíduo e ponentes do mesmo grupo iniciático. Entre os possíveis equivaientes
espécie. O costume de reunir os ossos dos animais mortos para Íazê.- rituais dessas batalhas extáticas, havíamos recordado as Lupercálias -
los ressuscitar é certamente muito antigo, como dá a entender a dis- festa que acontecia num período do ano consagrado aos mortos' pre-
tribuição geográfica (Eurásia, Africa, Américas) dos testemunhos via uma corrida entre doìs grupos iniciáticos homólogos e tinha o fim
mlticos e rituais. Vamos supor a) uma espécie animal que â) obtenha explicito de promover Íertilidade.222 HomÓlogos mas não simétricos,
boa parte dos próprios meios de subsistência por meio da morte de como nos recorda o relato do sacrificio interrompido que nos Fastos
c) outras espécies animais, /) vertebradas, e) encontráveis em quan- de Ovídio ilustra a origem das Lupercálias. Os alimentos menos ape-
tidade não ilimitada. Existem grandes possibilidades de que essa es- titosos ou impossíveis de comer - carne crua ou ossos, segundo o
pécie acabe, rnais cedo ou mais tarde, utilizando como semióforos os seres hierarquicamente superiores: entre os vogu-
caso
- cabemaosaos
mos-chum, isto é, aos homens semelhantes aos deu-
ossos dos animais mortos.2lT Porém, é preciso que às condições já les-ostíacos,
recordadas se acrescente outra, decisiva: a espécie em questão já deve ses; no Làcio, a Rômulo, o futuro rei que, apÓs a morte, foi imortali-
dispor daquelas capacidades simbôlicas que atribuimos de maneira zado com o nome Quirino.2r Já observamos que também JacÓ, o Íu-
exclusiva à espécie Homo sapiens. Com isso, o circulo se fecha. Por turo eleito de Deus, renuncia à prôpria sopa de lentilhas; e que o
definição, a origem está vedada a nós.2lE sacrificio de Prometeu destina a caÍne e as vísceras aos homens, os
De resto, não é menos certo que um rito do gênero fosse prati- ossos aos deuses.
cado (como se chegou a supor) no Paleolitico.2le Mas, quem quer que
fossem os caçadores que recolheram pela primeira vez os ossos de um 34. Definimos animais e mortos como "duas expressôes da
animal morto a fim de ressuscitá-lo, o sentido de seu gesto parece alteridade". Também aqui, a fórmula um tanto apressada remete a
claro: estabelecer comunicação entre o visível e o invisivel, o mundo resultados já alcançados. Não há necessidade de insistir na conotação
da experiência senslvel dominado pela escassez e o mundo além do fúnebre de divindades semibestiais, como Richella, ou cercadas de
horizonte, povoado de animais. A perpetuação da espécie após a animais, como Oriente - longinquas herdeiras da antiqúíssima "se-
morte do indivíduo singular (da presa individual) provava a eficácia do nhora dos animais". As sequazes de Diana, Perchta, Holda percor-
rito mágico centrado na coleta dos ossos. Todo animal que surgia no riam os céus na gaÍupa de bestas que não foram identificadas com
horizonte era um animal ressuscitado. Dai a identificação profunda precisão; os benandanti, durante suas catalepsias, faziam sair do corpo
entre animais e mortos: duas expressões da alteridade. O além foi exânime o espírito, sob a forma de rato ou borboleta; os tdltos assu'
aàtes de tudo, literalmente, o outro lugar.2m A morte pode ser consi- miam as aparências de garanhÕes ou touros; os lobisomens, de lobos;
derada um caso particular de ausência. bruxas e feiticeiros dirigiam-se ao sabâ trepados na Sarupa de bodes ou
transformados em gatos, lobos, lebres; os participantes dos ritos das
33. Essas considerações (inevitavelmente mais mitopoéticas calendaS Se mascaravam de CervOS Ou bezerras; os xamãs vestiam-se
que mitológicas) lançam luzes sobre a distribuiçâo e a persistência das de plumas a fim de prepafar-se para suas viagens extáticas; o herói das
sociedades dualistas. Na relação entre iniciados e não-iniciados, ou fábulas de magia dirigia-se, em cavalgaduras de todos os tipos, rumo a

melhor, em todas as situações em que a sociedade se divide em dois reinos misteriosos e remotos - ou simplesmente, como em certo
grupos, foi reconhecida a expressão da oposição suprema, aquelaentre conto siberiano! montava num tronco de árvore abatido e transfor-

242 243
mava-se em urso, entrando no mundo dos mortos.22a Metamorfoses, 36. No Islendigabók ("Livro dos islandeses"), escrito por Ari,
cavalgadas, êxtases seguidos por saídas da alma e sob a forma de ani- o Sábio, por volta de 1130, conta-se que o legislador Thorgeir decidiu
mais são vias diversas que conduzem a uma única meta. Entre ani- converter-se ao cristianismo, com todos os seus compatriotas, apÓs
mais e almas, animais e mortos, animais e além existe uma conexão iazer um dia e uma noite, sem pronunciar palavra' coberto por um
Vol-
profunda.2a manto
- Sesto no qual se reconheceu um ritual xamânico.zze
tamos a encontrá-lo, junto a muitos outros traços do mesmo gênero,
3). Em seu poema Argondutìca (cerca de 250 a.C.), Apolônio nas sagas compostas na Islândia entre o século XII e o XIV.2s No
Ródio descreve o desembarque dos companheiros de Jasão numa praia Hóoardar Saga, por exemplo, um Suerreiro que Íaz parte de um grupo
da Côlquida chamada Circéia. Ali, crescem tamargueiras e salgueiros de homens especialistas em artes mágicas é atingido, pouco antes da
em abundância. No alto das árvores, estão pendurados cadáveres. batalha, por súbita sonblência, que o obriSa a deitar-se no chão e
Ainda hoje, explica Apolônio, quando morre um homem os habi- cobrir a cabeça com o manto. No mesmo instante, um dos inimigos
tantes da Cólquida penduram-no numa árvore fora da cidade, envolto começa a agitar-se no sono e a respirar forte. Entre as almas dos dois
numa pele de boi não-trabalhada; as mulheres, ao contrârio, são guerreiros, caidos em transe, desenvolve-se um direlo que termina
enterradas. No Cáucaso (onde estava situada a antiga Cólquida), e de com a vitória do primeiro.23r O tema do duelo de xamãs, Seralmente
modo especial entre os ossetas, tais práticas funerárias ainda estavam transíormados em animais, é sem dúvida lapãç'ztz Na LapÔnia, po-
em uso atê há poucas décadas. Alguns viajantes do século XVIII as rém, procura-se o êxtase batendo de maneira incessante no tambor
registraram, já em vias de desaparecimento, entre os iacutes da Âsia xamânico, em vez de, como na Islândia, recorrendo a uma concen-
cen tral .226 tração interior protegida por um pano ou uma pele'233 Em outras
O costume de sepultar os mortos colocando-os numa plata- regiões árticas, combinavam-se as duas técnicas. Em 19 de janeiro de
forma elevada ou pendurando-os nas árvores está presente em área 1565, o mercador inglês Richard Johnson, que em suas explorações
vastissima, que compreende grande parte da Asia central e setentrio- chegara até os samoiedas além do Círculo Polar, assistiu nas margens
0 ol nal e da ÃÍrtca.z11 Mas envolver ou costurar os mortos (machos) em do rio Peõora a um rito mágico. Algum tempo depois, descreveu-o
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c/l peles de animal constitui costume muito mais específico. É evidente o num relatôrio: com um martelo, o mago (xamã) batia num grande
),J H-l
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paralelo com o rito eurasiático de ressurreição, baseado na coleta dos
ossos envoltos nos couros dos animais mortos. Esse paralelo permite
tambor semelhante a uma peneira, emitindo gritos selvagens' o rosto
inteiramente coberto por um pano cheio de ossos e dentes de animais;
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decifrar um detalhe que de outra forma seria incompreensível e que de repente, perdeu os sentidos e ficou algum tempo imÓvel, como
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UJ surge num grupo de lendas caucasianas. Entre os ossetas, conta-se morto; depois, recuperou-se, prescreveu o sacrificio e começou a
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que Soslan consegue penetrar numa cidade fazendo-se ocultar na pele
de um boi, abatido com esse propósito, e fingindo estar morto. Esse
último detalhe talvez seja uma atenuação. Nas variantes circassianas
cantar,234 Cobrir o rosto, cair em letargia, realizar açÕes inspiradas:
é a mesma seqüência que encontramos nas sagas islandesas, Por que
d esconder o rostoT
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UJ
da mesma lenda, Soslan é vítima de violento desprezo, como se esti- Na Islândia (como nas ilhas da Frisia setentrional), os que nas-
2 ,ã.
tiCI vesse realmente morto: "Ei, bruxo das pernas tortas, os vermes ciam com o pelico eram considerados pessoas dotadas de segunda vi-
: dançam em cima de vocêI". Soslan
- o qual ficou com os joelhos são.23s Eram os únicos capazes de ver as batalhas que, segundo as
vulneráveis depois que, em criança, fracassou uma tentativa de garan- sagas islandesas, se travavam "em espirito" pela fiilgia, a alma ex-
tir-lhe a imortalidade terna que abandonava o corpo sob a forma de animal invisivel.ró À
- é de fato um mago, uma espécie de xamã,
alguém capaz de ir vivo ao além e de lá retornar. Por isso, pode res- noção de fulgia ligava-se aquela, em certos aspectos paralela, de ha-
suscitar da pele de boi em que foi enrolado.228 mingja, Íorça vital, termo talvez derivado de um mais anligo, harn-
Mas não é suficiente a analogia com o rito baseado na coleta dos gengja (capacidade de transíormar-se em animal), e, seia como for,
ossos. Para decidir o significado dessa pele de animal, devemos servir- relacionado a bamr, irlvólucro, no duplo sentido de forma da alma,
nos de uma estÍatégia mais indireta e envolvente, similar à que foi geralmente animal lobo, touro, urso, águia e de invÓlucro que
utilizada a propósito dos coxos. - -,
circunda o feto, ou seja, a placenta.BT Chamavam-se Berserkit,isto é,

244 245
"bainha de urso", os guerreiros que (contam as sagas) de tempos a Assim, em culturas díspares, não só os invólucros animalescos,
tempos eram atingidos por acessos de fúria bestial.m Esse enredo de mas também, de modo mais geral, o que envolve, encerra, cobre apa-
signiÍicados não está muito distante da crença difundida entre os sa- recem de algum modo ligados à morte. Isso foi demonstrado, no plano
moiedas segundo a qual quem nasce vestido (isto é, envolto numa lingüistico, partindo do nome de Kalypso, a deusa amada por Ulisses;
membrana) se torna xamã (ou seja, capaz de assumir outra pele, "aquela que cobre", "a que vela".24 Podemos associá-la à mulher
transformando-se em animal). !e misteriosa que o rei dinamarquês Hadingus (e Saxo Grammaticus
Estâmo-nos movendo num âmbito vastíssimo mas, do ponto de quem conta) vê acocorada iunto ao fogo, com um feixe de cicutas
vista cultural, relativamente homogêneo: as regiões do extremo Nor- frescas; quando'Hadingus lhe pergunta, surpreso, onde haviam sido
te, da Islândia à Sibéria. Como se recordará, porém, a crença nas vir-
tudes xamânicas dos nascidos com o pelico tem difusão muito mais
colhidas
- é inverno -, a mulher o envolve no próprio manto (pro-
prìo obaolutum amiculo), levando-o vivo para debaixo da terra, ao
ampla. Na Rússia, eles se transformam em lobisomens; no Friul, em mundo dos mortos.2le (Nâo é preciso dizer que Hadingus coxeia e,
benandanti; na Dalmácia, em hresniki. Nas regiões meridionais da ainda por cima, tem um anel costurado numa perna. ) N Também fora
Suécia, uma mulher grávida que pisa, nua, a bolsa amniótica de um do âmbito indo-europeu, encontramos o mesmo nexo, testemunhado
potro evita as dores do parto mas dá à luz um lobisomem ou (se a pela relação entre o húngaro rejt (esconder) e o antigo hungaro rüt;
criança for mulher) uma rnara, isto é, um ser capaz de assumir outra ròt, rÌijt (perder os sentidos, cair em êxtase); os regòs eram grupos de
forma, animal ou humana.2{ Essas figuras, que graças ao êxtase têm jovens (de dois ou três a vinte ou trinta) que, durante os doze dias
acesso temporário ao mundo dos mortos, parecem confirmar o para- entre o Natal e a Epifania, andavam pelas aldeias fazendo barulho,
lelismo, sugerido em 1J78 pelo médico francês Laurent Joubert, entre distribuindo noticias do além, relatando os desejos dos mortos.Ãl
membrana amniôtica e sudário.2al OutÍa confirmação é dada pelo vinculo quase universal entre más-
Cobrir o rosto dos mortos parece, e não é, um gesto natural. caras e espíritos dos mortos. O latim laura designa ambos; na lda-
O caso de Sócrates, Pompeu, César, que cobrem o rosto antes de de Média, laraatus é quem usa máscara ou é possuido por demô-
morrer, foi associado (talvez de modo um tanto simplista) à necessi- nios. Masca, termo que foi usado já no édito de Rotari (643 d.C.) e
dade de simbolicamente sepaÍar do sagrado o profano.2a2 Velados, depois passou a integrar os dialetos da Itália setentrional, significa
pois assimilados aos mortos, seguiam aqueles que, segundo o antigo bruxa.a2
costume itálico dito aer sacrun, (primavera sacra), eram mandados
para fundar uma colônia, cumprindo um voto feito no nascimento 37. Nos mitos e ritos que se referem à morte, retorna de ma-
deles, vinte anos antes.243 No antigo direito islandês, quem não cum- neira insistente a idéia de voltar à vida, de renascer. Termos como
pria o dever de cobrir o rosto de um morto com um pano era espan- envolver ou esconder exprimem com metáforas uterinas o anula-
cado pelo grupo.2n Na mitologi^ grega, bem como na germânica, mento. No fundo da série que vimos emergir pouco a pouco
- seres
fala-se de gorros de couro ou pêlo, de elmos ou mantos que asseguÍam envoltos no pelico, enrolados num manto, costurados numa pele de
a quem os utiliza Hades, Perseu, Odin-Wotan a invisibilidade
- -
própria dos espíritos.26 Vemos aflorar duas séries de equivalências
boi, mascarados etc.
-, reencontramos, como no caso da coxeadura,
uma experiência primária de caráter corpóreo.
simbólicas: a) bolsa amniôtica ou pelico / pele de animal / manto ou E provável que essa característica potencialmente transcultural,
gorro que cobre o rosto; á) benandanti ou kresnikì / lobisomens / porque Íundamentalmente humana, não seja estranha à extraordiná-
xamãs / mortos. "Hás de vir comigo, pois tens uma de minhas coi- ria comunicabilidade dessa familia de mitos e ritos. Mesmo assim,
sas' ' , havia intimado ' 'certa coisa invisível, [. . .] a qual tinha parecença uma conclusão do gênero logo suscita uma dificuÌdade. No âmbito do
com homem ' ' , surgindo ' 'em sonho ' ' ao benandante Battista Modu - inconsciente individual, pode-se imaginar que experiências muito pre-
co. "Umade minhas coisas" eraa" camiseta" dentro da qual Battis- coces ou até pré-natais tenham (por uma espécie de intprìnling brolÓ'
ta nascera e que este trazia em volta do pescoço.2aó O pelico é objeto gico) uma posição priviiegiada.ãl Se estendermos tal hipótese aos mi-
tos e rituais, depararemos com o que parece ser uma encruzilhada: ou
que pertence ao mundo dos mortos
- ou àquele dos não-nascidos,2at
Ob,ieto ambiguo, liminar, que caracteriza personagens liminares. negar a mitos e ritos a caracteristica de fenômenos sociais, ou postular

246 ./,4 /
mava-se em uÍso, entrando no mundo dos mortos.22a Metamorfoses, 36. No Istendigabók ("Livro dos islandeses"), escrito por Ari,
cavalgadas, êxtases seguidos por saídas da alma e sob a forma de ani- o Sábio, por volta de 1130, conta-se que o legislador Thorgeir decidiu
mais são vias diversas que conduzem a uma única meta. Entre ani- converter-se ao cristianismo, com todos os seus compatriotas, apÓs
mais e almas, animais e mortos, animais e além existe uma conexão jazer um dia e uma noite, sem pronunciar palavra, coberto por um
xamânico.z2e Vol-
proíunda.2ã manto
- gesto no qual se reconheceu um ritual
tamos a encontrá-lo, junto a muitos outros traços do mesmo gênero,
35. Em seu poema Argondutica (cerca de 2)0 a.C.), ApoÌônio nas sagas compostas na Islândia entre o século XII e o XIV.2m No
Ródio descreve o desembarque dos companheiros de Jasão numa praia Hdaardar Saga, por exemplo, um guerreiro que fazpatte de um grupo
da Cólquida chamada Circéia. Ali, crescem tamargueiras e salgueiros de homens especialistas em artes mágicas é atingido, pouco antes da
em abundância. No alto das árvores, estão pendurados cadáveres. batalha, por súbita sonblência, que o obriga a deitar-se no chão e
Ainda hoje, explica Apolônio, quando morre um homem os habi- cobrir a cabeça com o manto. No mesmo instante, um dos inimigos
tantes da Côlquida penduram-no numa árvore fora da cidade, envolto começa a agitar-se no sono e a respirar forte. Entre as almas dos dois
numa pele de boi não-trabalhada; as mulheres, ao contrário, são guerreiros, caidos em transe, desenvolve-se um direlo que termina
enterradas. No Cáucaso (onde estava situada a Cólquida), e de com a vitória do primeiro.23r O tema do duelo de xamãs' Seralmente
^ítiga ainda estavam
modo especial entre os ossetas, tais práticas funerárias transformados em animais, é sem dúvida lapao'ztt Na LapÔnia, po-
em uso até há poucas décadas. Alguns viajantes do século XVIII as rém, procura-se o êxtase batendo de maneira incessante no tambor
registraram, já em vias de desaparecimento, entre os iacutes da Ásia xamânico, em vez de, como na Islândia, recorrendo a uma concen-
central.226 tração interior protegida por um pano ou uma pele'233 Em outras
O costume de sepultar os mortos colocando-os numa plata- regiÕes árticas, combinavam-se as duas técnicas. Em 19 de janeiro de
forma elevada ou pendurando-os nas árvores está presente em área 15ó5, o mercador inglês Richard Johnson, que em suas exploraçÕes
vastíssima, que compreende grande parte da Asia central e setentrio- chegara até os samoiedas além do Circulo Polar, assistiu nas margens
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utl nal e da [1siça.zzt Mas envolver ou costurar os mortos (machos) em do rio Peòora a um rito mágico. Âlgum tempo depois, descreveu-o
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de repente, perdeu os sentidos e ficou algum tempo imÓvel, como
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da mesma lenda, Soslan é vítima de violento desprezo, como se esti-
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< vesse realmente morto: "Ei, bruxo das pernas tortas, os vermes ciam com o pelico eram considerados pessoas dotadas de segunda vi-
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dançam em cima de você1". Soslan são.23s Eram os únicos capazes de ver as batalhas que, segundo as
- o qual ficou com os joelhos
vulneráveis depois que, em criança, fracassou uma tentativa de garan- sagas islandesas, se travavam "em espirito" pela fYlgia, a alma ex-
tir-lhe a imortalidade
- é de fato um mago, uma espécie de xamã, ,"inu qu. abandonava o corpo sob a Íorma de animal invisível.Dó À
alguém capaz de ir vivo ao além e de lá retornar. Por isso, pode res- noção de fylgia ligava-se aquela, em certos aspectos paralela, de ha-
suscitar da pele de boi em que foi enrolado.228 mìngja, Íorça vital, termo talvez derivado de um mais antigo, ham'
Mas não é suficiente a analogia com o rito baseado na coleta dos gengja (capacidade de transÍormar-se em animal), e, seia como for,
ossos. Para decidir o significado dessa pele de animal, devemos servir- relacionado a bamr, idvólucro, no duplo sentido de forma da alma,
nos de uma estratégia mais indireta e envolvente, similar à que foi
utilizada a propósito dos coxos.
geralmente animal
- lobo, touro, urso' águia -, e de invólucro que
circunda o feto, ou seja, a placenta.aT Chamavam-se Berserkh, isto é,

244 245
"bainha de urso", os guerreiros que (contam as sagas) de tempos a Assim, em culturas dispares, não só os invólucros animalescos,
tempos eram atingidos por acessos de fúria bestial.m Esse enredo de mas também, de modo mais geral, o que envolve, encerra, cobre apa-
significados não está muito distante da crença diÍundida entre os sa- recem de algum modo ligados à morte. Isso foi demonstrado, no plano
moiedas segundo a qual quem nasce vestido (isto é, envolto numa lingüístico, partindo do nome de Kalypso, a deusa amad,a por Ulisses:
membrana) se torna xamã (ou seja, capaz de assumir outra pele, "aquela que cobre", "a que vela".2{ Podemos associá-la à mulher
transformando-se em animal). ãe misteriosa que o rei dinamarquês Hadingus (é Saxo Grammaticus
Estamo-nos movendo num âmbito vastíssimo mas, do ponto de quem conta) vê acocorada junto ao fogo, com um feixe de cicutas
vista cultural, relativamente homogêneo: as regiÕes do extremo Nor- frescas; quando'Hadingus lhe pergunta, surpreso, onde haviam sido
te, da Islândia à Sibéria. Como se recordará, porém, a crença nas vir-
tudes xamânicas dos nascidos com o pelico tem difusão muito mais
colhidas
- é inverno -, a mulher o envolve no próprio manto (pro-
prio obuolutum amìculo), levando-o vivo para debaixo da terra, ao
ampla. Na Rússia, eles se transformam em lobisomens; no Friul, em mundo dos mortos.2rs (Não é preciso dizer que Hadingus coxeia e,
benandanti; na Dalmácia, em kresnikl. Nas regiões meridionais da ainda por cima, tem um anel costurado numa perna.)H Também fora
Suécia, uma mulher grávida que pisa, nua, a bolsa amniótica de um do âmbito indo-europeu, encontramos o mesmo nexo, testemunhado
potro evita as dores do parto mas dá â luz um lobisomem ou (se a pela relação entre o húngaro rejt (esconder) e o antigo hungaro rüt;
criança for mulher) lma nrara, isto é, um ser capaz de assumir outra r(it, rdjt (perder os sentidos, cair em êxtase); os regôs eram grupos de
forma, animal ou humana.2@ Essas figuras, que graças ao êxtase têm jovens (de dois ou três a vinte ou trinta) que, durante os doze dias
acesso temporário ao mundo dos mortos, parecem conÍirmar o para- entre o Natal e a Epifania, andavam pelas aldeias fazendo barulho,
lelismo, sugerido em 1)78 pelo médico francês Laurent Joubert, entre distribuindo noticias do além, relatando os deseios dos mortos.ãr
membrana amniótica e sudário.2al Outra confirmação é dada pelo vinculo quase universal entre más-
Cobrir o rosto dos mortos parece, e não é, um gesto natural. caras e espiritos dos mortos. O latim laura desìgna ambos; na Ida-
O caso de Sócrates, Pompeu, César, que cobrem o rosto antes de de Média, lantatas é quem usa máscara ou é possuido por demÔ-
morrer, foi associado (talvez de rnodo um tanto simplista) à necessi- nios. Mosca, termo que foi usado já no édito de Rotari (643 d.C.) e
dade de simbolicamente separar do sagrado o profano.2a2 Velados, depois passou a integrar os dialetos da ltália setentrional, significa
pois assimilados aos mortos, seguiam aqueles que, segundo o antigo bruxa.r2
costume itálico dito uer sacrunt (primavera sacra), eram mandados
para fundar uma colônia, cumprindo um voto feito no nascimento 37. Nos mitos e ritos que se referem à morte, retorna de ma-
deles, vinte anos antes.243 No antigo direito islandês, quem não cum- neira insistente a idéia de voltar à vida, de renascer. Termos como
pria o dever de cobrir o rosto de um morto com um pano era espan- envolver ou esconder exprimem com metáíoras uterinas o anula-
cado pelo grupo.2{ Na mitologi^ grega, bem como na germânica, mento. No fundo da série que vimos emergir pouco â pouco
fala-se de gorros de couro ou pêlo, de elmos ou mantos que asseguÍam
- seres
envoltos no pelico, enrolados num manto, costurados numa pele de
a quem os utiliza Hades, Perseu, Odin-Wotan a invisibilidade boi, mascarados etc.
- -
própria dos espiritos.2s Vemos aflorar duas séries de equivalências
-, reencontramos, como no caso da coxeadura
uma experiência primária de caráter corpóreo.
simbôlicas: a) bolsa amniôtica ou pelico / pele de animal / manto ou E provável que essa caracteristica potencialmente transculturai,
gorro que cobre o rosto; á) benandaníi ou kresniki / lobisomens / porque íundamentalmente humana, não seja estranha à extraordiná-
xamãs / mortos. "Hás de vir comigo, pois tens uma de minhas coi- ria comunicabilidade dessa familia de mitos e ritos. Mesmo assim,
sas", havia intimado ' 'certa coisa invisível, [. ..] a qual tinha parecença uma conclusão do gênero logo suscita uma dificuldade. No âmbito do
com homem ' ' , surgindo ' 'em sonho ' ' ao benandalrle Battista Modu - inconsciente individual, pode-se imaginar que experiências muito pre-
co. "Umade minhas coisas" eraa" camiseta" dentro da qual Battis- coces ou até pré-natais tenham (por uma espécie de ìmprìnting bioló'
ta nascera e que este trazia em volta do pescoço.2aó O pelico é objeto gico) uma posição privilegiada.43 Se estendermos tai hipótese aos mi-
tos e rituais, depararemos com o que parece ser uma encruzilhada: ou
que pertence ao mundo dos mortos
- ou àquele dos não-nascidos.2at
Ob,ieto ambíguo, liminar, que caracteriza personagens liminares. negaÍ a mitos e ritos a caracteristica de fenômenos sociais, ou postular

246 247
a existência de um inconsciente coletivo.e Mas os resultados atin- sempre muito pouco.rNa falta de prova contrária, sÓ resta postular,
gidos até aqui permitem evitar essa dupla armadilha. Os isomorfismos por trás dos fenômenos de convergência cultural que investigamos,
míticos e rituais de que haviamos partido remetem, como vimos, a um entrelaçamento de morfologia e histÓria * reformulação, ou va-
uma série de trocas, de contatos, de filiações entre culturas diversas. riante, do antigo contraste entre aquilo que existe por natureza e

Essas relações históricas constituem condição necessária para que se aquilo que existe por convenção.
verifiquem fenômenos isomorfos, mas não são suficientes para que
se difundam e se conservem. Difusão e conservação dependem também
de elementos de caráter formal que asseguram a compacidade dos mi-
tos e ritos. As reelaborações a que estão submetidos de tempos a tem-
pos ilustram claramente esse enredo de história e morfologia. A in-
ventividade dos atores sociais que entrevemos por trás de seqüências
de variantes como coxos-portadores de uma única sandália-seres
que saltam num pé só etc. encontra limites bem precisos na forma
interna do mito ou do rito. Sua transmissão é, como a das estruturas
profundas da linguagem, inconsciente que isso implique a
- mas sem
ou o rito transmitidos
presença de um inconsciente coletivo. O mito
por meio de mecanismos históricos contêm implicitamente as regras
formais de sua própria reelaboração.õs Dentre as categorias incons-
cientes que regulam a atividade simbólica, a metáÍora tem posição de
primeiro plano. De tipo metafórico são as relações entre assimetrias
deambulatórias e retorno do além, entre morreÍ e ser envolto e, tam-
bém, entre as variantes singulares das duas séries: coxos-portadores
de uma única sandália-seres que saltam...; pelico-pele-manto-
OP' I

z&
u)o
máscara... Ora, a metáfora possui, entre as íiguras de retôrica, posição
especial, que explica o mal-estar manifestado em relação a ela por
-ì tí)
1S todas as poéticas racionalistas. Assimilando fenômenos pertencentes
a esferas de experiência e a códigos diferentes,
^
melâÍoÍa (que por de-

iú 'â finição é reversívei) subverte o


o
mundo ordenado e hierarquizado da
razão. Podemos considerá-la equivalente, em nível retórico, do
\;! .:_ ï,Cl principio simetrizante que constitui na esfera da lógica normal uma


t-- '6
4.i
E
irrupção da lógica do sistema inconsciente. Dessa prevalência da me-
tâÍora, nasce o tão íntimo parentesco de sonho e mito, poesia e mito}6
4- A documentação que acumulamos prova, superando qualquer
Eo- Õ
dúvida razoâvel, a existência de uma subterrânea unidade mitológica
eurasiática, fruto de relaçÕes culturais sedimentares durante milê-
. 4.
nios. E inevitável que perguntemos se e até que ponto as formas in-
ternas que identiÍicamos são capazes de gerar ritos e mitos isomorfos
também no interior de culturas historicamente não conectadas. Infe-
lizmente, essa última condição (a ausência de qualquer forma de co-
nexão histórica entre as duas culturas) é, por definição, não demons-
úâvel.É1 Acerca da história humana sabemos e havemos de saber

248 249

I
teses sobre relaçôes entre populâções Íalantes de linguas urálicas e indo-européias' Em (50) Vide acima, p. 180 (trata-se, naturâlmente, de conclusão provisória, que
perspectiva não muito diÍerente, cí. P. Aalto, "The tripartite ideology and the 'Kale- poderia ser desmentida por pesquisas ulteriores).
vala' ", inStudìes in Finno-[Jgric lingaislics in horor of Alo Raun, otg, por D. Sinor, (Jl) Cí.o agudo ensaio de Drobin, "lndogermanische Religion und Kultur?"
Bloomington (lndiana), 1977, pp. 9'21. cit., que Íemete às teorias de J. Schleicher sobÍe a árvore Senealógica a elaboração
(48) Cf, Bongard-Levin e Grantovskij, De la Scythie d I'lnde cit., que reíor- conceitual na qual se baseiam, entre outrasr as pesquisas de G. Dumézil (mencio-
mulam de modo diÍerente e menos aventuroso (vide pp. l2-4) uma tese formulada nadas na p. 3).
no inicio do sêculo por Bâl Gangâdhar Tilak. Além de empenhar-se intensamente na (t2) CÍ. os estudos de B. Collinder citados acima, nota 47.
luta pela independência nacional indiana (para uma biograíia apologética, cf. D. V. (t3) Cf.C.Renfrew,I'Earopadellaprcistorìa,trad.it.,Bari, l987,pp'109ss.;
A thalye, The lile ol Lohamanya Tilaft, Poona, 1921), Tilak escreveu dois livros em que id., "The Great Tradition versus the Great Divide: archaeology as anthropoloSyT",
a) antecipou em dois milênios (até 4J00 a.C.) a data comumente aceita para a compo- in American Journal of Archaeologlt, 84 (1980), pp. 287-98, especialmente p. 293.
sição dos Veda, baseando-se em reíerências astronômicas neles contidos; á) sustentou Essas páginas, com argumentos sutis, serão preferiveis a rompantes de impaciência um
que os antiSos árias provinham de uma zona situada nas proximidades do Circulo Polar tanto sumáÍia, como o adietivo "sem sentido" (meaningless) referido ao conceito de
Ártico, onde haviam habitado no periodo interglacial (Tbe Arctic home in lhe Vedas, "difusão" (Approaches to social anthropology, Cambridge (Mass.), 1984, p' 1f4).
being also a new kel lo lhe interpletolion ofmany Vedic tetts and legends,Poona ()4) A esse respeito, vide as lúcidas observaçÕes de C, Lévi'Strauss, "Le dé-
e Bombaim, 1903, precedido de Orion, or researches into tbe anti7uìty o/ the Vedas, doublement de la reprêsentation dans les arts de I'Asie et de I'Amériqu e' ' , in Anthro'
1893, que não li). Hipótese anâloga já íora formulada, de maneira mais vaga, por J. pologie st/acttrole cit., pp.269-94, especialmente p.284 "même si les reconslruc-
Rh!s, Lectures on tbe oligin o/ growth of religion . . . , Londres, 1898, que reelaborava a tions les plas ambitìeuses de l'école diffusioniste étaient aérifiées, il t atrait enco/e ufl
outra, bem mais mirabolante, de W. F. Warren (Paradise found. The cradle of tbe problèmeessentielqaìsepoterdit,etquìnerelèuepasdeI'histoire.Poarquoìut tlail
human race d! lhe North Pole, Londres, 188J, vârias vezes reeditado), segundo a qual cuburel, efiPrunté ou diffusé à lrauers une longue période hislorique, s'esl ìl manlenu
as regiões polares na beatiíica era interglacial teriam sido o berço de todo o gênero iúact? Car ld stdbilité fl'ert pos moìns mltsleriease qae le changement. 1,,,1 Des
humano. WaÍren tentava conciliar, contra Darwin, o Antigo Testamento è a ciência connexions extefies peuueflt expliquer la transmission; mais seules des connexions
- de modo especial, as pesquisas botânicas (inspiradas nas de O. Heer) que colocavam ìnternes peuaefil rendre compte de la persistance. Il y a lò deux ordres de problèmes
nas regiÕes árticas o lugar de origem de todas as plantas existentes no globo teÍÍestre. entièlement diffërenls, et s'atlacher à l'un ne préjuge en rien de Ia solalion quì doit
As intervenções sobre a questão se prolongaram por vários anosr como mostra o livreto êtle opportée à l'autre ", Sobre a questão enfrentada por Lévi'Strauss no ensaio citado
(baseado no de Tilak) de G. Biedenkapp, Der Nordpol als Vòlkerheimat, Jena, 1906. (as analogias entre a arte chinesa arcaica e a da costa americana norte-ocidental), inter-
Mais tarde, a teoria da origem boreal dos indo-europeus foi retomada em ambientes vieram depois, justamente numa peÍspectiva difusionista, Badner, "The protruding
nazistas. Recentemente, foi relançada por J. Haudry, Les Indo-Européens,Paris,1981, tongue" cit,, e Heine-Geldern, "A note on relations" cit. Esse último refere-se a
l9 pp. 119-21 (que cita Tilak), sobre o qual vide o severo julgamento de B. Sargent, uma comunicação inédita de Lévi-Strauss no 299 Congresso dos Americanistas (1949),

ls "Penser
- et mal penser - les Indo-Européens", in Annales E. S. C., 37 (1982),
pp. 669-81, especialmente p. 67J. Em todo o caso, é bem antiga a idéia de que a origem
ao passo que, estranhamente, não cita "Le dédoublement" (publicado em 1944-5).

Íd
IX
da civilização deva localiiar-se no Norte, ou seia, que indianos e gregos (numa versão
inicial, só os gregos) tivessem herdado seu patrimônio cultural de um povo extrema- 2. OSSOSEPEIES(pp. 200-49)
ILU mente civilizado que em tempos remotissimos teria habitado a Asia central ou seten-
trional. Sobre as íormulaçÕes setecentistas (F. Bailly, C. Dupuis etc.), cf . C. Dionisotti, (1) Cf. C. Lévi-Strauss, Du miel aux cerdres ("Mythologiques, II"), Paris'
J "Preistoria del pastore errante", ìn Appunti sui moderni, Bolonha, 1988, pp. l)7-71 . 1966, pp. 395 ss. (trad. it.: Dal rniele alle ceneri, Milão, 1982, pp. 501 ss.).
{ Bailly, porsua vez(cí. Histoire de l'ostronomie ancienne..., Paris, 177J, pp. 321 ss.); (2) CÍ. H. Baldus, "Lendas dos indios tereno", in Reuista do Museu Paulista,
E utilizava para íins diversos a imponente documentação reunida por O. Rudbeck (állaz- n.s., IV (19)0), pp. 217 ss., especialmente 220-1 (trad. alemã in id', Die Jaguar-
TU
F tica,Upsala, 1679-1702,4 vols.) para provâr que a Atlântida estava localizada na Suê- zuilli*ge, Kassel, l9)8, pp. 132-5); Lévi-Strauss, Il crudo e il cotto cit., pp. 139-40.
cia, ou melhor, em Upsala (cí. J. Svenbro, "L'idéologie 'gothisante' et I'Atlaílìca G) Id. Dal miele cít., p. 50ó, que retoma quase literalmente umâ passagem
ã d'Oloí Rudbeck", in Quaderni di Sroria, 11, 1980, pp. l2l-56). Um eco de Rudbeck escrita vinte anos antes (vide acima, nota 54).
reaparece em Rh!s, Lectures cít. , p. 637 . Toda a discussão pode ser considerada uma (4) Cf. Michel de Montaigne, Essais, org. por A. Thibaudet, Paris, l9J0'
ramificação daquela sobre a Atlântida: cf. P. Vidal-Naquet, "L'Atlantide et les na- pp. 1l50ss. (III, l1: "Des boyteux").
tions' ', in Raprésentatiots de I'origine ,''Cahiers CRLH-CIRAOI ", 4 (1987), pp. 9-28. (5) Cf. C. Lévi-Strauss, "La structuÍe des mythes", in Anlhropologie slfuc-
(49) CÍ. Charachdizé, Promethée cit., pp. J23 ss. ; na p. 140, nota l, observa-se tarale cit., pp, 227-55, especialmente p. 216 (em que se supõe que o mesmo elemento
que tal hipótese é reforçada pelas pesquisas lingüisticas de T. Gamkrelidze e V. Ivanov tÍanspaÍeça também no nome de Laio, "maneta"; mas vide adiante). Para outras
(1984). Note-se que V. Brdndal levantara a hipótese da existência de uma "encruzi- intervenções de Lévi-strauss sobÍe o mesmo tema, também em relação a mitos do tipo
lhada mundial", para onde teriam aÍluído elementos culturais e lingüisticos da Asia "Percival", cf. "Elogio dell'antropologia" (19t9)' in Anltopologia stratturale due
central e do Egeu, depois diíundidos entre as populações ugro-íinicas e os povos da cit., pp. )6 ss.; "Le Graai en Amériques (1973-74)", in Paroles dotnées cit.' pp.
Europa setentrional e central ("Mots'scythes"' cit,, p. 22). 129 ss.; por último, em registro quase paradoxal, La uasaia gelosa, trad, it., Turim,

340 341
1987, pp. 180 ss. O primeiro dos ensaios citados ("La structure des mythes") teve
De um Comparetti antecipadoÍ de Propp, fala C. Ossola na introdução a E_ Tesauro,
repercussão duradoura
- mas â interpretação do mito de Édipo comd tentativa de Edipo, Pâdua, 1987, pp. 13 -4.
resolver a contradição entre autoctonia e geÍação sexual Íoi unanimemente rechaçada. (13) Às uezes, Édipo é representado enquanto mata a esíinge: cí. Hôfer, .,Oidi-
Sobre as diÍiculdades deambulatórias dos labdacidas iá insistira, em ôtica diferente, pus"cit., col.71) ss. Em ensaio contraditório mas rico de sugestões ("Thesphinx"
M. Delcourt, Oedipe ou la légende dr conquérant, Liège, 1944, pp. 16 ss. (lembrado cit.), L. Edmunds sustentou que a esfinge constitui um acréscimo posterior
por Lévi-Strauss); vide também C. Robert, Oidipus I, Berlim, 191t, p. J9. Cf., mais - mos-
trando, na realidade, que nela se fundem o monstro derrotado pelo herói e a rainha
Íecentemente, J.-P. Vernant, "Le tyran boiteux: d'Oedipe à Périandre" (1981), agora prometida como esposa (a qual, nas fábulas do tipo ' 'Turandot' ' , propõe adivinhações
in J.-P. Vernant e P. Vidal-Naqvet, Oedipe et tes ttltbeti Paris, 1988, pp. J4-8ó; aos pÍetendentes).
M. Bettini, "Edipolo zoppo", ínEdipo. Il leatro greco e la cuhura earopea, Roma, (14) Cí. V. J. Propp, "Edipo alla luce del folklore" (1944), na coletânea homô-
1986, pp. 21J ss. nima, trad. it., Turim, 1975, pp.8) ss. (mas vide, no mesmo sentido, Comparetti,
(6) Sobre essa etimologia existe amplo acordo: cÍ. O. Hôfer, "Oidipus", in W.
Edipo cit., e Nilsson, "Der Oidipusmythos" cir.). Aqui, deixo de lado a parte mais
H. Roscher, Ausfilhrlìches Lezikon der griechischen und riimìschen Mflhologie,lll, frágii do ensaio de Propp, ou seja, a tentativa, fortemente influenciada por Frazer,
l, Hildesheim, 1965 (reimpressão da edição de f897-1902), col. 700-46, especialmente de associar ao tema do parricídio supostos costumes antiqüíssimos que teriam regulado
740-t. O mesmo vale para Labdaco = "coxo". A etimoiogia de Laio ("maneta") a sucessão ao tfono.
sugerida duvidosamente por Lévi-Strauss é, ao contrário, inaceitável: Hôíer ("Oidi- (1r) Essas distinções são ignoradas pela perspectiva rigorosamente sincrônica
pus" cit., col.742) associa "Laio" ("público") a um dos sobrenomes de Hades, de C. Lévi-Strauss, que considera todas as versões de um mito no mesmo plano, recu-
"Agesilao" ("aquele que reúne muita gente"). sando a priori toda tentativa de distinguir uma versão "authenlique ou priÌnitiue"
(7) Ibid., col.74l-2. (Anthtopologie stracturale cit., p. 240).
(8) CÍ. pelo contÍário, nesse sentido, L. Edmunds, "The cults and legends oÍ (16) No primeiro ponto insiste com acuidade J.-P. Vernant, "Ambiguità e
Oedipus", in Haruard Stúdies ifl Classical Pbilology, St (1981), pp. 221-18, espe- rovesciamento. Sulla struttura enigmatica dell'Edipo re" , in I .-P . Vernant e P. Vidal-
cialmente p. 233. Naquet,Mitoetragedianell'anticaGrecia,rrad,. it.,Turim, 1976,pp.100-1; cí.tam-
(9) Cí. D. Comparetti, Edipo e Ia mitologia compaìota, Pisa, 18ó7, pp. 81-2, bém Edmunds, "The sphinx" cit., pp. 18-9. Adivinhações análogas às da esíinge são
que observa que Êdipo e Melampo são heróis que têm em comum a inteligência. Del- muito difundidas: cf. A. Aarne, Vergleicbende Ràtselforschtngen, II, Helsinque, 1919
court, Oedipe cit., pp. 166-7, considera a analogia entÍe os dois nomes "bem obs- ("FF Communications n9 27"), pp. I ss.
cura". Edmunds, "The cults" cit., pp. 210-1, lulga inverossimeis as duas etimolo- (17) Cf. Vernant, "Ambiguità" cit., p. l0l. Vide também P. G. Maxwell-
gias, mas não aprofunda a questão. Sobre Melampo, cÍ. Wilamowitz-Moellendorff, Stuart, "Ìnterpretations oÍ the name Oedipus ", in Maia, 2T (197 5), pp. 17 - 43.
"lsyllos von Epidauros" cit., pp. 177 ss., nota 33; K. Hannell , Megarische Studìen, (18) CÍ. Propp, "Edipo" cit., pp. 103-4, que recusâ as teses de C. Robert,
Lund, 1914, pp. 101-); Nilsson, Geschicbte cit., p. 613, nota 2; J. Schwartz, Pserdo' segundo as quais os pês furados de Édipo teriam sido inventados para explicar o reco-
Hesiodeia, Leyden, l9ó0, pp. 369-77 e )46; J. Lóffler, Die Melampodie, Meisenheim nhecimento.
am Glan, 1963, pp.30 ss.; P. Walcot, "Cattle raiding, heroic tradition and ritual; the (19) Cf. Brelich, Paides e Parthenoi cit., sobre o qual vide, além de Calame,
Greek evidence" , in History of Religions, 18 (1979), pp. 326-t1, especialmente pp. "Philologie et anthropologie structurale" cit., a recensão muito critica de C, Sour-
142-). vinou-Inwood in Tbe Journal of Hetlenìc Studies, XCI (f971), pp. 172-8. No geral,
(10) Cf. P, Kretschmer, Die griecbischen Vaseninschri/ten..., Gütersloh, cf. L. Gernet, Anthropologìe de la Grèce cit., pp. 188-90 e passim.
1894, p. 191, nota l; id., "Oidipus und Melampus",inGlotta, XII (1923), pp. t9-ó1, (20) Valho-me de V. J. Propp, Ás ratzes histórìcas das fabulas de magia, para
seguido de HôÍer, "Oidipus" cit., col. 741 ss.i de opinião contÍária, L. R. Farnell, complementar as conclusões (estranhamente deixadas em estado embrionário) do en-
Greekherocütsandideasof immortaliq,Oxford, 1921,p.312,nota. Â interpretação saio, publicado dois anos antes, sobre Édipo. Como é sabido, em sua pesquisa Propp
ctônice de Édipo fora sugerida por C. Robert. baseou-se num grupo de contos russos, extraidos da coletânea de Aíanassiev; mas tanto
(11) F. Wehrli, "Oidipus", inMuseum Helueticum,14(19J7), p. 112, sugere a documentação adotada para interpretá-las quanto as conclusões a que chegou tinham
um confronto entre Ëdipo, enquanto solucionador de enijmas, e a disputa entre os dois pretensÕes muito mais amplas, até universais.
adivinhos, Calcante e Mopso, descrite no poema perdido Melampolia. Observe'se que (21) Segundo A. L. Brown, ''Eumenides in Greek tragedy' ', ín The Classical
ambos os nomes (Melam-pous, Oidi-pout) aludem a um único pé. Assimetria anâloga
Quarterl1t,34(1984), pp. 2ó0 ss., especialmente pp. 276 ss., as eumênides do Édipo em
parece decorrer de epltetos como arglropeza (do pd de prata) reíerido a Tétis (vide Colonanãoseriam nem identificáveis com as erínias nem associadas ao mundo subter-
adiante, nota 4l). Sobre o conÍronto entre Ëdipo e Melampo, vide Bettini, "Edipo lo râneo.
zoppo" cit., p. 231 (que parte de um problema parcialmente similar ao que é colocado (22) Cf.. Edmunds, "The cults and the legend" cit., pp. 229 ss.
nestas páginas, chegando, contudo, a conclusões diversas). (23) CÍ. Delcourt, Oedipe cit., pp. i08-9 e 119 ss., que remete a L. IVtalten,
(12) O primeiro a notâ-lo foi Comparetti, EdiPo cït., pp. ól ss., não lembrado "Das Pferd im Totenglauben" , ín Jahrbacb des Deutscben Archiiologischen lnsti-
por M. P. Nilsson, "Der Oidipusmythos", in Opuscula telecta cit.,l, pp. 315'q8 tuts,XXIX (1914), pp. 179-25r.
(como observa L. Edmunds, "The sphinx in the oedipus legend", in Oedipas: a folk- (24) Isso é sublinhado também por Edmunds, "The sphinx" cit., p. 22, mas
lore casebooh, org. por L. Edmunds e A. Dundes, Nova York e Londres, 1981' p. 149) que, como veremos, propõe uma solução substancialmente diíerente.

342 J4J
teses sobre relaçÕes entÍe populaçÕes íalantes de linguas urálicas e indo-européias. Em (50) Vide acima, p. 180 (trata-se, naturalmente, de conclusão provisória, que
perspectiva neo muito diferente, cí. P. Aalto, "The tripartite ideology and the 'Kale' poderia ser desmentida por pesquisas ulteriores)'
vala' ", in Studies ìn Finno-Ugrìc linguislics in honor of Alo Raun, org' por D. Sinor, (Jl) Cf.o agudo ensaio de Drobin, "Indogermanische Religion und Kultur?"
Bloomington (lndiana), 1977, pp. 9-21. cit., que remete Às teorias de ]. Schleicher sobre a árvore genealÓgica a elaboração
(48) Cf. Bongard-Levin e Grantovskii, De la Scythie ò I'lnde cit., que reíor- conceitual na qual se baseiam, entre outras) as pesquisas de G. Dumézil (mencio-
mulam de modo diíerente e menos aventuroso (vide pp. l2-4) uma tese formulada nadas na p. 3).
no inicio do sêculo por Bâl Gangâdhar Tilak. Além de empenhar-se intensamente na (52) Cf. os estudos de B. Collinder citados acima, nota 47.
luta pela independência nacionaÌ indiana (para uma biograÍia apologética, cÍ. D. V. (t3) Cf. C. Renfrew,I'Ezropa dellaprektoria,tÍa.d. it., Bari, 1987, pp' 109ss';
Athalye, The lì/e of Lokamanya Tilok, Poona, 1921), Tilak escreveu dois livros em que id., "The Great Tradition versus the Great Divide: archaeology as anthropology?",
a) antecipou em dois milênios (até 4500 a.C.) a data comumente aceita para a compo- io American Jourtol of Archaeology, 84 (1980), pp. 287-98, especialmente p' 293.
sição dos Veda,\aseando-se em referências astronômicas neles contidos; á) sustentou Essas páginas, com aÍgumentos sutis, serão preferíveis a rompantes de impaciência um
que os antigos árias provinham de uma zona situada nas proximidades do Circulo Polar ranto sumária, como o adjetivo "sem sentido" (meaningless) referido ao conceito de
Ártico, onde haviam habitado no periodo interglacial (The Arctic home in tbe Vedas, "difusão" (Approaches to social anthropologlt, Cambridge (Mass'), 1984, p. 114)'
being also o neu kelt lo the interpretation oímdn! Vedic texls and legends,Poona (J4) A esse respeito, vide as lúcidas observações de C. Lévi'Strâuss, "Le dé'
e Bombaim, 1903, precedido de Orion, or researches hlo the antiquitlt o/ the Vedas, doublement de la représentation dans les arts de I'Asie et de I'Amérique" , in Anthro-
1893, que não li). Hipótese análoga já fora íormulada, de maneira mais vaga, por J. pologie struclarale ciÌ., pp.269-94, especialmente p.284:. "même si les recoastruc'
Rh9s, Leclulet on the origin ofgroulb ofreligion..., Londres, 1898, que reelaborava a tìons les plus ambilieuses de l'école diffusionisle élaient uérifées, il 1t aurail eflcole rtl
outra, bem mais mirabolante, de W. F. Warren (Paradìse foand. The cradle of the problème essentìel qri se poseraìt, et qui fle relèue pas de l'hisíoire' Pourquoi ut tltil
human race ar lhe No.,th Pole , Londres, 1885, várias vezes reeditado), segundo a qual calturel, empluttté oa diffusë à tlaaels urre longue période hislorique, s'est ìl mantenu
as regiÕes polares na beatiíica era interglacial teriam sido o berço de todo o gênero intact? Car la slabilité rr'est Po! moins mysteriease que le cbangement. Í...1 Des
humano. Warren tentava conciliar, contra Darwin, o Antigo Testamento e a ciência connexions e*ternet peuaefll expliquer la transmissìon; mais seales des connexions
- de modo especjaÌ, as pesquisas botânicas (inspiradas nas de O. Heer) que colocavam ìníernes Peuaeflt rendre compte de la persistance. Il 1 a là deux ordres de p/oblèmes
nas regiòes árticas o Ìugar de origem de todas as plantas existentes no globo terÍestre. entièrement dffircrrts, el s'attacbel à I'un ne préiuge en rien de la solulìon qui doit
As intervençóes sobre a questão se prolongaram por vários anos! como mostÍa o livreto être apporlée ò l'autre ". Sobre a questão enfrentada por Lévi-Strauss no ensaio citado
(baseado no de Tilak) de G. Biedenkapp, Der llordpol als Vôlherheimat,lena, 1906. (as analogias entre â arte chinesa arcaica e a da costa americana norte-ocidental), inter-
Mais tarde, a teoria da origem boreal dos indo-europeus foi retomada em ambientes vieram depois, iustamente numa peÍspectiva difusionista, Badner, "The protruding
a nazistas. Recentemente, íoi relançada por J. Haudry, Les Indo-Européens,Paris,1981,
pp. 119-21 (que cita Tilak), sobre o qual vide o seveÍo iulgamento de B. Sargent,
tongue" cit., e Heine-Geldern, "A note on relations" cit. Esse último refere-se a
l.U uma comunicação inédita de Lévi-Strauss no 299 Congresso dos Americanistas (1949),
ff
o "Penser
- et mal penser - les Indo-Européens", in Annales E. S. C., 37 (1982), âo passo que, estranhamente, não cita "Le dédoublement" (publicado em L944-5).
q) pp. 669-81, especialmente p. ó75. Em todo o caso, é bem antiga a idéia de que a origem
(Í) da civilização deva localiiar-se no Norte, ou seia, que indianos e greSos (numa versão
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tÀ inicial, só os gregos) tivessem herdado seu patrimônio cultural de um povo extrema- 2. OSSOSEPEIËS(dp. 200-49)
C) mente civilizado que em tempos remotíssimos teria habitado a Asia central ou seten-
v. trional. Sobreas formulaçÕes setecentistas (F. Bailly, C. Dupuis etc.), cÍ, C. Dionisotti, (1) Cf. C. Lévi-Strauss, Du mìel oo" ,"odr",, ("Mythologiques' II"), Paris,
o-
"Preistoria del pastore errante", in Appuntì sui modenri, Bolonha, 1988, pp.157-77. 1966, pp. 395 ss. (trad. it. : Dal lle cen eri, Mílão, 1982, pp. 50 I ss.).
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TU
o Bailly, por sua vez (cf. Hìstoire de l'astronomie axcienne..., Paris, 1775, pp. 321 ss.), (2) Cf. H. Baldus, "Lendas dos indios tereno", in Reuista do Maseu Paulista,
utilizavâ para fins diversos a imponente documentação reunida por O. Rudbeck (állaz- n.s., IV (1950), pp. 217 ss., especialmente 220-1 (trad. alemã in id., Die Jaguar'
É tica,Upsala, 1679-1702,4 vols.) para pÍovaÍ que a Atlântida estava localizada na Sué- zuillinge, Kassel, 1958, pp. 132"5); Lévi-Strauss, Il crudo e ìl cotto cit.' pp. 139-40.
a cia, ou melhor, em Upsala (cÍ. J. Svenbro, "L'idéologie'gothisante' eÌl'Atlaúica G) ld. Dal miele cit., p. )06, que retoma quase literalmente uma passagem
[' d'Olof Rudbeck " , in Quoderni di Storia, I I , 1980, pp. l2l -)6). Um eco de Rudbeck escrita vinte anos antes (vide acima, nota 54).
reaparece em Rhfs, Lectures cit., p. 637. Toda a discussão pode ser considerada uma (4) Cf. Michel de Montaigne, Essais, org, por A. Thibaudet, Paris, 1950,
ramificação daquela sobre a Atlântida: cí. P. Vidal-Naquet, "L'Atlantide et les na- pp. l150 ss. (III, l1: "Des boyteux").
tions" , in Représertations de I'origine, "Cahiers CRLH-CIRAOI ", 4 (1987), pp. 9-28. (t) Cí. C. Lévi-Strauss, "La structuredes mythes", in Anthropologie slrlc'
(49) Cf. Charachdizé, Promethée cit., pp. 321 ss. ; na p. 340, nota 1, observa-se turale cit., pp.227-)5, especialmente p. 23ó (em que se supõe que o mesmo elemento
que tal hipótese é reíorçada pelas pesquisas lingüisticas de T. Gamkrelidze e V. Ivanov transpareça também no nome de Laio, "maneta"; mas vide adiante). Para outras
(1984). Note-se que V. Bry'ndal levantâra a hipótese da existència de uma "encruzi- intervenções de Lêvi-strauss sobre o mesmo tema, também em relação a mitos do tipo
lhada mundial", para onde teriam afluído elementos culturais e lingüisticos da Asia "Percival", cf. "Elogio dell'antropologia" (1959), in Anrìopologit slrutturale dae
central e do Egeu, depois diíundidos entÍe as populações ugro-fínicas e os povos da cit., pp. 56 ss.; "Le Graal en Amériques (1971-74)", in Paroles données cit.' pp.
Europa setentrional e central (''Mots 'scythes' " cit., p. 22). 129 ss.; pgr último, em registro quase paradoxal, It uasaia gelosa, trad. it., Turim,

)40 341
(25) Para o que segue, cf. o esplêndido ensaio de S. Luria, ,,Ton soa huìon (29) Uma versão romena do mito de Ëdipo termina com um incesto íalhado,
phrixon (Die Oidipussage und Verwandtes)", in ,Roccolta dì scriuì ìn onore diFelìce como no caso de Télefo e sua mãe (cf. Vernant, "Le tyran boiteux" cit., pp. 79-86).
Ramoriro, Milão, 1927, pp. 289-)14 (mas a importância crucial do tema do enfant latal De TéleÍo como Édipo "enfraquecido" fala Bettini, "Edipo lo zoppo" cit., p. 219.
iâ íora captada por Comparetti , Edipo cit.). Sobre Luria, cí. A. Momiglìano, Terzo (30) Cf. A. Green, "Thésée et Oedipe. Une interprétation psychoanalytique
conlributo alla storio degli studi classìci e del mondo antìco,II, Roma, 1966, pp. 797 ss. de .la Théseide' ' , in Il mito greco cit. , pp. 137-89 (mas as conclusões são gratuitas).
Embora citado com frequência, o texto de Luria teve repercussão bem limitada (cÍ. (31) CÍ. J. Schmidt, in Roscher, Aasfiirliches Lexihon cit., V, col. 27J.
Edmunds, "The sphinx" cit., pp. 22-3); estâ orientado por uma perspectiva rigorosa- (12) Cf. O. Gruppe, Griechìsche Mlthologia und Religionsgeschichte, MunL
mente morfológica, em vários aspectos análoga que, 1906, pp.1fi2-1 e nota 4. Os casos negativos são aqueles de Cronos; de Telégono;
- inclusive no tipo de notação forma-
lizada
- àquela adotada por V. Propp na Morfologia da fdbula publicada um ano de- de Egisto; dos Íilhos inominados de Tiro e Sisifo. Note-se, porém, que o deus latino
pois, após longa gesração (vide a introdução, datada de l) de iulho de 1927). Também Saturno, identificado com Cronos, é muitas vezes representado com uma perna de
Luria, como Propp, tenta demonstrar, inspirando-se em Goethe, a íorma ou até mesmo madeira: E. Panofsky, F. Saxl e R. KÌibansky (Salunr and meloachofu, Londres, l9ó4,
a redação originária (Uríorn, Urredohtion) do mito, atrìbuindo-a a uma fase anriqüis- pp.206-7 trad. it.: Turim, 1983) supõem, sem apÍesentar provas, que se trate de
sima (urzeir) da histôria da humanidade. Mas o recurso à etnologia, à histôria das detalhe derivado de imprecisas Íontes orientais, nas quais teria aflorado uma lem-
religiÕes e â psicanálise é excluido de antemão; segundo Luria, a única via imune de brança inconsciente da castração de Cronos. Mas talvez não seia irrelevante o fato de
circulos viciosos é a oferecida por cateSorias internas histórico-miticas. Nessa decla- esse último ser descrito por Luciano (Salurnalia, T) como a um velho soÍrendo de gota
ração, percebe-se um eco do formalismo (a "pura literalidade") e talvez ainda a pre- Qpodagros). Dos filhos de Tiro e de Sísifo não se sabe nada. De Telégono, pouquíssimo.
sença de Husserl, mediada por seu aluno Gustav spet, na cultura russa daqueles anos: Sobre Pélope, vide adinte, p. 228. A uma hipertroÍia das extremidades (e portanto, em
cf. P. Steiner, Russìan Formalism,Ithaca (N. Y.), 1984, p. 18, e E. Holenstein, ,,Ja- última análise, a uma anomalia deambulatória) parece aludir também o pontapé com o
kobson and Husserl: a contribution to the genealogy oí structuralism", in The Hu- qual Altaimene, assassino involuntário do própriogai, mata a irmã Apemosyne, vio'
mof, Cotttext, T (1975), pp. 62-3. Observe-se que, de maneira independente, tam- lentada por Hermes (Apolodoro, A bìblioteca ,II, 2, l; vide acima, nota 28).
bém J.-P. Vernanr íalou, a propôsito da inrerpÍetação íreudiana de Édipo rei, de .,cir- (31) Cf. Apolodoro, A biblioteca,I,6, 3; mas vide também Hesíodo, Teogonia,
culo vicioso": cÍ. "Edipo senza complexo", in Vernant e Vidal-Naquet, Miro e ba- vv. 820ss. (talvez uma antiga interpolação). Trata-se de reelaborações de mitos hititas
gedia cit., pp. 65-6. No ensaio sobre Édipo (1944) (publicado num clima politico e (em que, porém, o deus é privado do coração e dos olhos) e hurritas: cÍ. W. Porzig,
cultural bem diíerente), Propp baseou-se nas pesquisas de Luria, o qual citou, de ma- "Illuiankas und Typhon", in Kleinasiatischen Forscbanger, I (1930), pp. 379-86;
neira curiosamente incompleta (cf. "Êdipo" cit., p. 9l): ,.Luria já notou que no fol- P. Meriggi, "l miti di Kumarpi, il Kronos currico", in Athenaeam,3l (1953),

o (í)
tu
clore as proíecias se realizam sempre", Írase que remete implicitamente a "Ton sou
huion" cit., p.290, Outro ensaio de Luria, ,'La casa nel bosco", mencionado in
pp. l0l-57; F. Vian, "Le mythe de Thypée et le problème de ses origines orientales",
inÊ,\éntentsolienlauzdansIareligìongrecqueanciente,org.poÍF.Vian,Paris, l9ó0,
g) tr
Õ
"Edipo" cit., p. l3ó, nota 42, é discurido in Le rodici st.oiche cit., pp. 8T-8. pp. 17-17; vide também a intervenção de C. Brillante in Edipo. Il lealro greco cir.,
(26) Ct. Luria, " Tou s ou hu ì on " cit., p. 292. A difu são dos temas edipianos na pp. 2ll-2. A série na qual é aqui inserida a mutilação de Zeus responde, se não eÍro,
J a) oceania foi sustentada por w. A . Lessa, Tales from lJlìthi atoll; a comparatiue sttdlt in às questões propostas por M. Delcourt, Héphaislos ou Ia légende du magicien,Peris,
C) ti,.t oceonìc folhlore, Berkeley e Los Angeles, t961, pp. 49-Jl e 172-214 (vide oedipus; 1957 , pp. 122 ss. e 1ló.
X () a/olklore casebook cit., pp. 56 ss.); vide também as obleções de R. E. Mitchell, ,.The (14) Para essa última observação, cÍ. A. Brelich, GIì eroi grecì, Roma, 1958,
trl
ç1:. oedipus myth and complex in oceania with special reíerence to Truk", ìn Asìan pp.243-8 e 287-90. Com um anacronismo superficial, a coxeadura de Édipo Íoi inter-
_l 0- Folhlore Studies,2T (1968), pp. l3l-4). Observe-se que no miro analisado por W. A. pretada como um "iigno vitimário" (Girard, II capro espìatoria cit., pp.47,54 etc.).
g tU
Lessa falta o tema da proÍecia realizada. O fato de que no âmbito cultural indo-europeu, como destaca J. Bremmer ("Medon,
u. Cl
,l (27) Trata-se de uma complemenrâção do mito, referido de forma incompleta the case of the bodily blemished king", in Perenútas. Studi iÌt onore di Angelo Bre-
UJ F-ì (em razão de uma Ìacuna na tradição manuscrita) por Higino (Fabulae, org. por H. lìch,Roma,1980, pp. 61-76),o rei devesseestar imune às imperfeiçÕes fisicas repropõe
k U)
k Rose, Ludguni Batavorum, 1963, n9 LX, p. 47; vrde também Roscher, Auslübrlìcbes
J.
o significado de mitos centrados na situação opbsta. A atribuição a Luciano da Trago-
a $ o Lexikon cit., IV, col. 962). dopodagra é rechaçada por P. Maass, in Deulsche Lileralarzeilung, 1909, col. 2272-6;
(28) Analogias isoladas entre este ou aquele miro compreendido na sêrie e o hoje, prevalece a tese contrária, já Íormulada por G. Setti, "La Tragodopodagra di
mito de Édipo iá haviam sido sugeridas por Luria (cf. comparetti , Edipo cit., p.75: Luciano", in Riuista dì Filologia, XXXVIII (1910), pp, lól-200. Observe-se que,
Édipo e Télefo), ou independentemente dele, seguindo as indicaçÕes de c. Robert: em analogia com os outros mitos do grupo, poderiamos esperar por um Telégono clau-
cí Delcourt, oedipe cìt.,p. 8i (Édipo e Zeus); F. Dirlmeier, It mito di Edipo, trad. it., dicante; ao contrário, na lista da Tragodopodagro encontrâmos Odisseu (vv. 262 ss.)
Gênova, 1987, pp. l5 ss. (Édipo e Zeus, Édipo e Cronos, Édipo e Telégono). Também atingido no pé por um aguilhão de arraia. Segundo A. Roemer, "Zur Kritik und
o mito de catreu, rei de creta Exegese von Homer etc. ", ìn Abbandlungen der Philosophisch-philologischet Klasse
- morro, como queria a profecia, pelo próprio filho,
Altaimene (Apolodoro, A biblioteca, rll, 2, r; Diôdoros sícuro, Bibrìoteca histórica, der Kõniglicben Balteriscben Akademie der Wissentcbaflen,22 (1905), p. 619, nota l,
v,t9'1-4)-,foi associadoaodeËdipo(cf.c.Robert, DiegrìechischeHerdensage,l, em outro mito Odisseu morria golpeado no pé por uma flecha de Telégono; mas vide
Berlim, 1920, pp. 371'2) e ao de Teseu (cí. c. sourvinou-Inwood, Tbeseas as son and A. Hartmann, Unlersucbungen über dìe fugen uom Tod des Odlsseus, Munique.
slepson, Londres, 1979, pp.l4 ss.). Sobre o mito de Meleagro, vide adiante. 1917, pp. 161-2. Pelos motivos que serão expostos, não ceuse espanto que Odisseu.

344 345
aquele que se diriSe ao umbÍal do Hades para evocar os moÍtos, tenha uma cicatriz (4t) Cf. W. R. Halliday, ,,Noteon rhe Homeric hymn to Demeter, 2?)9 ff.,,,
na perna (cf. Odisséia, XIX, 186 ss.). in Tbe Classical Reuieu, 2j (l9ll), pp. g-ll; Dumézil, Le problème des Cenraares
(35) Essa interpretaçâo não contradiz o elemento pré-luridico identiÍicado nas cit., pp. l8J-ó; C.-M. Edsman, Ignis diuinus,Lund, 1949, pp. 224-9.
sandálias de Teseu por E. Cassin, Le semblable et le dffirent, Paris, 1987, pp. 298 ss' (4ó) A hipotese Íormulada por Lawson (vide acima, p. 160) é âceira,
(que remete a L. Gernet). Sobre as implicaçôes iniciâticas do ciclo de Teseu, cf. Jean' entre
outros, F,or Dumézil, Le problème des Centaures cit., p. )3, e por Gernet. Anthro-
mafte, Couroi et Courèles cit., pp. 227 ss., que se utiliza também de P. Saintyves pologie cit., p. 170. convém recordar que o termo kenrauror talvez seja
de origem cita,
[É. Nourryl, Les contes de Perrauü et les récits parallèles (retomado por Propp, le e que o mito dos centauÍos talvez reelaborasse a imagem dos nômades a
cavalo prove-
rodici sÍoriche cit., p. 96 e passim). "Por que o iniciando claudica? Por que os noviços nientes das estepes da Ásia central: cf. J. Knobloch, "Der Name.der Kentauren"
são'ferrados'2", indaga M. Riemschneideri mas a simplista identiíicação do pé a
in serta Indogermanica. Festschrift für Günrer Neumann zrm 60. Gebtttsrag, org'.
"uma expressão vetada da Íecundidade" conduziu-a a conclusÕes absurdas (cí. Miti por J. Tischler, Innsbruck, 1982, pp. 129-31.
pagaú e mìli aistiani, trad. it., Milão, 1971, pp. 99 ss.). (47) CÍ. L. Mercklin, Apbrodite Nemesìs mit der Sandale, Dorpart, 1g54, que
(16) Sobre Télefo e Pélope, vide adiante. Sobre a esÍinge como animal mortuá- escapou a H. Usenser, "Kallone", in Rheinisches Museum,XXIII (l36g), pp. 362_1.
rio, cÍ. Delcourt,Oedìpe cit., pp. l09ss. sobre a polaridade eÍótico-funerária implicita no símbolo da sandália única, superÍiciais
(37) CÍ. Gruppe, Grìechiscbe Mytholosie cit., p. )8). anotações de S. Eitrem, Hetmes und die Toten, Christiania, 1909, pp. 44-);
sobre o
(3S) CÍ. ibid., pp. 1312-3, sobretudo nota 4, e, de rnodo geral, os estudos sobre nexo Perséfone-Afrodite cÍ. Z'ntz, persepbone cit., pp. 174-i. Mas, sobre toda
a
aqueles que tem sô um pé calçado, citados mais adiante, nota 48. questão, vide o belo ensaio de w. Fauth, "Aphrodites pantofíel und die sandale
der
(39) CÍ. J. H. Croon, "The mask oÍ the underworld'daemon. Some remarks Hekate ", in Graz Beitrôge, l2-3 (L9g-6), pp. 193-211.
on the PeÍseus-Gorgon story", in Journal of Hellenic Sttdìet,7t (lgtt), pp. 9 ss', (48) A esse respeito, cf. w. Amelung, "Di arcune sculture antióhe e di un rito
que desenvolve uma indicação de F. Altheim, in Arcbìu lür Religionsuissenscba/t, del culto delle divinitâ soterranee", in Dissertazioni delta pontìfcia Accademia Ro-
XXVII ( 1929), pp. 3i ss. A propósito de Mercúrio ''monocrépida " (uma única sandá- mana di Archeologia, s. II, IX (1907), pp, ll)-JJ, ainda hoie fundamental; cf. W.
lia), cf. K. Schauenburg, Perseus in det Kunst des Allerlums, Bonn, l9ó0, p' 13; Helbig, Fübrer durcb die òffentlichen Sammlungen hlassischer Altertümer in Rom,
S. Reinach, Catalogue illuslré du Musée des Antiquilés Nationales at Cbtlteaa de II' Tübingen, 19óó, pp. 318-9. o ensaio de Amelung deve ser complementado com
ginl-Germah-en-La1e,lI, Paris, 1921, p. 168 (estatueta galo-romana encontrada em Gruppe, Griecbische Mythologie cit., pp. 1332-S,sobretudo nota 4 (publicado um ano
5t. Séverin, Nièvre). antes). contudo, corrija-se a identificação, pÍoposta por Amelung, da chamada ..supli-
(40) Cí. B. K. Braswell, ''Mythological innovation in the llìad" , in The Clas' cante Barberini" a Dido; trata-se de calisto, como demonstrou, excluindo o monos-
sical Qurterllt, n.s., XXI (1971), p. 23. Segundo outra proÍecia (Hesiodo, Teogonia, sandalismo, J. N. Svoronos ("Explication de la suppliante Barberini", in
Joarnal
894-8), o íilho de Métis e de Zeus teria tirado a autoridade do pai; por isso, Zeus Internationald'Archéologieet Numismatiqae,xyl,lgl4, pp. zii-7g). À inrerpreta-
engoliu Métis. ção ctônica proposta por Amelung (mas que não conseguira explicar.o detalhe da san-
(41) O mito é referido num comentâÍio à Alexatdra de LicóÍron (v. l7J): cf' dâlia única) aderiu w. Deonna, "Essai sur la genèse des monstres dans I'art", in
U. Pestalozza, Retigione medìterranea, Milão, 1970 (reedição), p. 9ó, nota 10, A ana- Reuue des É,tades Grecques, 28 (191)), pp. 288 ss.; id., ,,Monokrépides',, ín Reuue
logia com o calcanhar de Aquiles (e com outros mitos, a respeito dos quais voltaremos de l'Histoire des Religions, 112 (1935), pp. 50-72 (versão ampliada do ensaio prece-
a Íalar) é sublinhada por V. Pisani, "Ellênokeltikai" cit.' pp. 145-8, que a considera dente), em polêmica com a nota superíicial de J. Brunel, ,,Jason monokrépis,' ìn
"não inteiramente clara ". Rerue Archéologique,ll(1934), pp. 34 ss.; vide também o. weinrich, in Archiu
(42) Cf. Dumêzil, Le problème des Centaures cit., p 185, nota l; vide também für
Religionsuissenscba/t, XXilI (l9T), p. 70; W. Kroll,,,Unum exuta.pedem _ ein
Cassin,Ie semblable cit., pp. l0l-2, nota J7. volkskundlichesSeitensprung", inGlotta,XXV (1937), pp. ll2-g, inicialmente Íavo_
(41) Cí. B. Bravo, "Une lettre sur plomb de Berezan. Colonisation et modes rável à interpretação de Amelung, depois contrário. outras informações no comentário
de contact dans le Pont", in Dialogues d'Histoire Atciente, I (1974)' pp. lll-87' de A. S. Pease ao quarto livro da Eneida (Cambridge, Mass., l93J), pp. 432-3. Obser-
especialmente pp. 136'7 (sobre o verso de Alceu). No geral, cÍ. H. Hommel, "Der vações importantes in A. Brelich, "Les monosandales,,, in La Nouuelle Cüo, Vil-IX
Gott Achilleus", Sitztngsberichle der Heidelberger Akademie der Wissenscbalten, (1955-7), pp. 469-84; vide também P. Vidal-Naquet e p. Lévèque, ,,Epaminondas
1980, l; complementações in id., Sebasmata,l, Tubingen, l98l' p. 209; G. Ferrari pythagoricien ou le problème tactique de la droite et de la gauche ' ' ìn Le chasseur noir
,
Pinney, "Achilles lord oí Scythia" , in Anciett 6reek art and icotographl, Madison, cit., pp. 95 ss., especialmente pp. 101-2 e I 1J ss. uma sintese da questão, com ulteriores
1981, pp. 127-46. As caractefisticas mortuárias de Aquiles iá haviam sido brilhante- indicações bibliográíicas, in L. Edmunds, "Thucydides on monosandalísm (3.22.2)"
,
mente captadas, em base puramente etimolôgica, por P. Kretschmer, "Mythische in Sttdies presented to Sterling Dou on bis eigbtieth birthdal, Durban (N. C.), 19g4,
Namen. l: Achill", in Glotta,IV (l9ll), pp. l0r-8. pp,71-) (mas o ensaio é, no plano interpretativo, inconcludente). Sobre o monossanda-
(44) CÍ. Jeanmaire, Couroi et Coarètes cit., pp. 297 ss.; id., Dioniso, trad' it" lismo no Oriente Próximo, cÍ. Cassin, Ie.re mblabte cit., pp. 67 ss. e 294 ss.
Turim, 1972, pp. l8J-ó; The Homeric bymn to Demeler, or8. por N' J' Richardson' (49) Cí. Seraìi Grammatici quiferuntur in Vergilii carmìna commentariirecen-
Oxíord, 1974, pp.231 ss. Observe-se que ApolÔnio Ródio (Argotlatica,IV, 8ó8 ss')' steruflt G. Tbìlo et H. Hagen,II, rec. G. Thilo, Leipzig, 1884, p. 183, retomado por
narra o mesmo mito colocando Aquiles no lugar de DemÓfon, Tétis no lugar de Demé" Frazer (The golden botgh,Ill: Taboo and the perils of the soul, Londres, 1911,
ter, Peleu no lugar da mãe de DemóÍon. pp. 3ll ss.), a quem, todavia, escapou o ensaio de Amelung.

346 347
(t0) Cí. L. Curtius, Die Wsndmalereì Pompeiis, Darmstadt, 1960 (reimpressão moria dì Raffaela Garosi,Roma,1976, pp. 177-95, sublinha o estado de sono profundo,
da edição de 1929), p. JJ6, retomado por Brelich, "Les monosandales" cit. Oportu- "como de quem tenha chegado ao Hades" (v. 861), em que mergulha periodicamente
namente, L. Edmunds (''Thucydides" cit., p, 72, nota 14) lembra que também o pro- Filoctetes, a quem compara a um ''mago " * mas remetendo (p. 18), nota 2) a estudos
taSonista de Gaerra e paz,PieÍÍe Bezuchov, durante a cerimônia de iniciação na maço- específicos sobre o xamanismo.
naria deve tiÍar um sapato.
(59) A identidade é negada por Wissowa (vide o verbete "Caeculus" in Ro-
(tl) CÍ. Eurìpidis tragoediae, oÍ8. Por A. Nauck, III, Leipzig, l9L2' n9 514. scher, Ausfübilicbes Lexihon cit.,I, col. 844). Por outro lado, cÍ. W. F. Ono, "Rõ-
Sobre a morte dos Íilhos de Téstio, cí. Ovídio, Met. Ylll, pp. 434 ss. mische'Sondergótter' ", in Rheinìsches Museum, ó4 (1909), pp. 45)-4, e, sobretudo,
$2) Cf . Arístolelis qui ferebanlur librorum Íragmentis, coligido por V. Rose, A. Brelich, Tre aariazìoni romane sul tema delle orìgini, Roma [19JJ], pp. 9-47, espe-
Leipzig,1886, n9 74. cialmente pp. 34 ss. Outras indicaçÕes in A. Alfõldi, Die Strakrur des uoretrasàiscben
(Jl) Não se trata de detalhe secundário: o mito de Meleagro está centrado ius- Rômerstaatet, Heidelberg, I974, pp. 184-5 e passim; id., Rõmische Fflbgeschichte,
tamente no contraste entre ligaçÕes horizontais (mãe-irmãos) e ligações verticais .Heidelberg, 1916, p.2), em que a relação entre Caeculus e Vulcano (o etrusco Vel-
(mãe-filho), expresso pela contraposição curetes/etólios' Brunel, "Jason monokré- chanos) é considerada prova da prolongada dominação dos etruscos sobre Roma, Vide
pis" cit., recorda um comentário em Pindaro (Pít' lV,7)) em que, a propósito de agora o rico estudo de J. N. Bremmer e N. M. Horsfall, Roman mflb cit., pp. 49-ó2
"têm todos uma única sandália, por causa de seu caráteÍ (mas que não examina o monossandalismo de Caeculus).
Jasão, citam-se os etólios, que '

belicoso". CÍ. também R. Goossens, "Les Étoliens chaussés d'un seul pied", in Re- (60) "Hanc [Caeculum] legio late comìtatur agrestìs Í...1 I Non illis omnìbus
aue Belge de Pbilologie et d'Histoìre,14 (193t), pp.849-54, que lembra a passagem de arma/ Nec clipei cartusae tonant; pafi maxima glaades/ liaenlis plambi spargit, pars
Tucídides sobre os plateenses, o qual Brunel deixou escapar. Se li bem, o monossanda- spicula gestal/ bina mana, fulaosqae lupì de pelle galeros/ tegmen habent capiti; aes-
lismo não aparece nos sarcóÍagos Íomanos que repÍesentam o mito de Meleagro (além tigia nuda sìnistrl/ instiíaere pedìs, crudus tegil dltera pero." CL K, Meuli, "Al-
de G. Koch, Dìe mlthologischen Sarkopbage,Yl:. Meleager, Berlim, 1975 , cf . G ' Dal- trômischer Maskenbrauch", in Gesammelte Scbriften cit., pp, 269-70, que, porêm,
trop, Die Kafudonische Jagd in der Antihe, Hamburgo e Berlim, 1968). insiste apenas no caráter pÍimitivo do grupo conduzido por Caeculus. O galerus cores-
(t4) Cí. Vidal-Naquet e Lévêque, "Epaminondas pythaSoricien" cit., pp. pondía à kaneê grega. Sobre o chapéu de Hades, vide acim t, p. 147 .

116-7, que remete, sobre Jasão, a "Le chasseur noir et I'origine de l'éphébie athê- (61) Vide acima, p. 177-8.
nienne", in Le chasseur noir cit., pp. L54'5. Segundo Edmunds, "Thucydides" cit', (62) A respeito disso tudo, vide A. Brelich, Tre uariazioni cit. A identidade
o monossandalismo dos plateenses e o dos hérnicos constituem casos separados. entre Caeculus e o bandido Cacus foi repetidamente discutida: bibliografia in J. P.
(tt) CÍ. Plndaro, Píticas, IV, 97. Smill, Cacus and Marsyas in Etrusco-Roman legend, Princeton (N. J.), 1982, p. )3,
(J6) Essa Íormulação (não limitada ao âmbito grego) iá íora sugerida por Brelich, nota 98 (que expressa um parecer negativo).
"Les monosandales" cit., junto com um esboço, não tão convincente, de solução (as (61) CÍ., antes de mais nada, O. Rank, Il mito dello nascita dell'eroe, trad. it.,
personagens com uma única iandália representariam o cosmos em face do caos). Numa Milão, 1987 (a primeira edição surgiu em 1909; reeditâdo várias vezes com âcrésci-
perspectiva menos ÍigoÍosa, vide Deonna, "Monokrépides" cit., especialmente p. ó9. mos); lorde Raglan, Tbe bero . A sludy in troditìon, myth and drama, Londres, 1916i
O convite de Brelich para uma comparação mais ampla é reProposto por Vidal'Naquet G. Binder, Dìe Austelzung des Kônìgskindes . Kyros und Romulus , Meisenheim am
e Lévêque, in Le chasseur noir cit., p. 102, nota 31. Paralelos celtas, ligados mais ou Glan, l9ó4 (sobre Caeculus, pp. 30-1). Acerca dos dois primeiros estudos, independen-
menos diretamente à passagem a uma dimensão ultrateÍÍena, são citados por P. Mac tes um do outro, vide o agudo ensaio de A. Taylor, ',lThe biographical pattern in tra-
Cana, "The topos of the single sandal in Irish tradition" , in Celtìca, l0 (1973), ditional narrative", in Journal of tbe Folhlore lzstitute, I (19ó4), pp. 114-29, que
pp. 160-6 (com uma bibliografia adicional). Agradeço a Enrica Melossi a indicação' introduz na discussão também a Mo{ologìa dafdbula de Propp (mas iSnoÍa, poÍ èxem-
(J7) Sobre as relações entre Filoctetes, Télefo (mais dados acima) e Jasão, cí. plo, o ensaio de Luria citado). Ao contrário, muito superficial é D. Skeels, "The
Gruppe, Griecbiscbe Mlthologie cit., p. 635; L. Radermaiher, "Z,sr Philoktetsage", psychological patterns underlying the morphologies of Propp and Dundes ' ', in Soutb-
ín Mélanges H. Grégoire,I, Paris, 1949, pp. J0l-9; C. Kerényi, Gli dei e gli eroì dello ern FolÈlore Quorter\, 1l (L967), pp, 244-6L A este respeito, vide agora J. Bremmer
Grecìa , trad. it., II, Milão, 1963, p. 320. Analisando textos e documentos do Oriente e N. M. Horsíall, Romat mlth cit., pp. 27-30.
Próximo, E. Cassin demonstrou o estreito vlnculo entre coxeadura e monossandalismo (ó4) Isso iá era notado por Luciano, que lembrava a esse respeito a história de
(cí. Le semblable cit.., pp. 1ó ss., J0 ss. e 294 ss.), sublinhando as ligações com uma
que Ciro íora criado por uma adela (Sobre os sacriflcios, )). Vide também, mais am-
noção mais geral de assimetria (vide sobretudo p. 84). Para uma conclusão análoga, vide
plamente, Cl, Eliano, Vaia bistoia,II, 42. Sobre o nexo Édipo*Moisés, vejam-se as
acima pp. 218-9. Outras implicações simbólicas da pegada ou do pé são assinaladas por
conjetu ras de S. Levin, ' 'Jocasta and Moses' mother Jochebe d' ' , in Teiresiar, supl. 2
W. Speyer, ' 'Die SegenskraÍt des 'gôttlichen ' Fusses' ', in Romanitas et Cbislianitas.
(1979), pp. 49-61.no geral, cf. M, Astour, Hellenosemìtica, Leiden, 1965, pp, 152-9 e
Studio laìto Henico Wosziak.. . oblata, Amstetdã e Londres, 1971, pp. 293-309.
220-4.
(JB) Sigo aqui o belo ensaio de P. Vidal-Naquet, "Il 'Filottete'di Sofocle e
(65) Cf. I. Kertész, "Der Telephos-Mythos und der Telephos-Fries", in Oi-
I'efebia" (in Vernant e Vidal-Naquet, Mìto e íragedìa cit., pp. 14r-69), em parte
complementando-o com outros estudos do mesmo autoÍ citados acima, nota 48. M.
kumeae, I (f982), pp. 203-15, especialmente pp. 208-9.

Massenzio, "Anomalie dell4 persona, segregazione e ettitudini magiche. Appunti per (66) CÍ. Apolodoro, A biblioteca,I,9,8; Binder, Die Aussetzuttg cit., pp.
una lettura del'Filottete'di Soíocle", in Magia, Stadi di storia delle religioni it me- 78 ss., baseado em C. Trieber, "Die Romulussage", in Rbeiniscbes Museam,4!

348 349
(1888), pp. 569-82 (e cf. Momigliano, Terzo contributo ciÌ., p. 62). Vide também di Storia delle Religioni, XXXVII (1966), pp. 6l ss. (seguido por
D. Briquel, ..Trois
Pauly-Wissowa , Real Encylopiidie cit., verbete ' 'Romulus ' ' , col. 1090. études sur Romulus", in Recáarches sur res rerigìons de r'antiquiu
,rorri)or,' or[. po,
(67) Sobre as inÍâncias da realeza como modelo mltico para os eÍebos, cí. R. Bloch, Genebra, 1980, p. 289).
Jean-
maire, Couroi et Courëtes cit., pp. 371 ss. (ao qual remete p. Vidal-Naquet, ..ll (72) O detalhe, que volta também em Nicolau de Damasco,
alude implicita_
'Filottete' " cit., p. 1)7). Sobre o nexo entre a inÍância de Édipo e os miros a respeito mente à odisséia, xr,2B7 ss. (sobre a qual vide adiante); cf. w. pôtscher, ,.ór.
oi-
da inÍância do herói, cÍ. Propp, "Edipo" cit., pp. 104-) e ll6. Sobre as analogias entre dipus-Gestalt ", ìn Eranos, T l (197 3), pp. 23 -5. Assim, a perplexidade
maniíestada por
a histôria de Ciro e a de Kypselos (por sua vez, relacionada à de Édipo: cf. Vernant, J. Rudhart, "Oedipe er les chevaux" , in Museum Helueticum,40 (l9Sl), pp. l31 9,
"Le tyran boiteux" cit.), cí. lVehrli, "Oidipus" cit., pp. ll3-4, que levanra como parece fora de propósito.
hipótese ou a anterioridade da primeira ou a dependência de ambas em relação a um (73) Ct. Gernet, Anthropologie cit., pp. lJ4-71, sobre a expedição norurna
de
modelo precedente. Dôlon no campo grego (canto x da Ilíada); rnas deverão ser tomadas em
consideração
(68) Um controle sobre as Íontes, extremamente dispersas, talvez possa inte- as observações de A. Schnapp-Gourbeillon, Lions, hëros, masques, paris,
llgl, pp.
grar as rápidas referências a deíeitos (lsicos in Rank, 1/ milo cïr., p. 99, e Bínder, Dìe ll2ss.Vide,também,H.J.Rose...Chthoniancartle'., inNumen.l(1914), pV.1-27;
Aussetzarg cit., p. l). Esse último observa que nos mitos as crianças eram expostas c. Gallini, "Animali e al di râ", in stúi e Mareriari di storia aeile netigío)i', xxx
com mais freqüência do que na realidade; quanto a isso, vide agora W. V. Harris, (1959)' pp. 6) ss., especialmenre p. 8l; B. Lincoln, "The Indo-European
ãttle-raiding
"The theoretical possibility oÍ extensive infanticide in the Graeco-Roman world", in myth", ín Hìstor1 of Retìgions,16(1g76),pp.42-65; Walcot, ..Cattle raiding,,
cir.;
Classìcal Qaartefu , 32 (1982), pp. 114-6, com bibliografia adicional. B. Bravo, "sulan", ìn Annari delto scuora Normare superiore di pisa,,.classe di
(69) Discussão superÍicial in S. Sas, Der Hìnhetde als Symbol, Zurique. 1964, lettere ecc. ", ru, 10 (1980), pp. 954-8; F. Bader, .,Rhapsodies homêriques
et irlandai-
pp. Il7-20. Sobre as implicaçÕes íolclóricas do episódio, cÍ. E. Meyer, Die Israeliten ses ", in Recbercbes sur les relìgìons cit., pp. 9-g3.
und ìhre Nachbarstiimma, Halle a. S., 1906, pp. 51 ss. No mesmo sentido, vide H. (74) Cf . Burkert, ''Heracles and the master oÍ animals' ' cit. pp.
, 7g ss.
Gunkel, " Jakob " , in Preussiscbe Jahrbücber, 1 76 ( 1 9 19), pp. 3 39 ss., especialmente p (7,) cÍ' o' Maenchen'Helfen, "Heracles in china", in Archiu
orientarnt,
349; íd., Das Màrchen im Allen Testament, Tubingen, 1921, pp.66 ss., o qual cita 7 (1935),pp.29-34.
uma fábula da Bósnia sobre um homem que luta durante três horas contra um vampiro, (76) CÍ. Burkert, "Heracles" cit., pp. g6-7.
atê o cento do galo, voltando doente para casa. As implicaçÕes etiolôgicas (proibição de QT Cf . Édipo rei, vv . 300-462. Sobre o bastão de Tirésias, cÍ. Kerênyi, Gti dei
'comeÍ o nervo ciático: Gênese 32, 3l) sublinhadas por Gunkel não podem exaurir o cit., II, p. 102.
sentido do conto..Sobre o coníroÍtto com I Reis 18, 26 (dança claudicante dos,profetas (78) Sobre Melampo, cf. Nilsson, Geschichte cit., pp. 6l) ss.
Sobre a possibi-
de Baal), cf. W. O. E. Oesterley, Tbe sacred dance. A studl in comparatiae lolklore, lidade de Íalar de um xamanismo grego, cÍ. Meuli, "scythica"
cit. E. R. Dodds,
Nova York, 1923, pp. 113,4. Outros estudos destacam a complexa esrratificação do I Greci e I'irrazionale cit., pp. lJ9 ss. Mais cauteroso, w. Burkert, ..GOES. Zum
texto: cÍ., por exemplo, F. van Trigt, "La signiÍication de la lutte de Jacob près du griechischen Schamanismus", ín Rheinisches Maseum,lOj (1962), pp.
ló_JJ; id.,
Yabboq... ", ìn Oudtestamentitche Sttdieí, XII ( 19r8), pp. 280-109. Uma bibliograÍia 14/eisbeit cit., pp. l2J ss. e passim. Nitidamente cÍirico, Bremmer,
Tbe eorly Greeh
adicional in R. Martin-Achard, "Un exégète devanr Genèse j2, 21-13", kr Anallse concept cit. Assumindo posições intermediárias, afins com as de Burkert,
esrá I. p.
slructurale et erégèse bibliqte, Neuchâtel, 1971, pp. 4l-62. Ë signiÍicativo que no couliano, Espçrienze dell'estasi dall'Ellenismo al Medioeuo, trad. it.. Bari. 19g6,
mesmo volume (pp. 27-r9), R. Barthes sem dificuldades encontÍe no relato bíblico Fp. 19 ss. Vale a pena lembrar aqui que o Ëdipo de Lévi-strauss foi definido como um
as categorias de Propp. Agradeço a SteÍano Levi Della Torre, que me antecipou al- '' xamã claudicante " por G. Steiner ( A/t er Ba b e t, O x[or d, 197 J, p. 29).
gumas de suas reÍlexões sobre Jacó. (79) CÍ. Diógenes Laércio, Vidas dosftaso/or, VIII, il, e VIII, ó9. A inter-
(70) Sérvio (Commentoili cit., p. 181) remete o nome de Caeculus âs condições pretação delineada aqui desenvorve aquela sugerida, a propôsito
de pirágoras, por w.
de seu nascimento("qaia ocalis minoribus faìt: quÃm rem freqtenter efficit famus"). Burkert(cÍ. Weisbeit cit., p. 134, que supõe um nexo com o mito de Dioniso rer nas-
Sobre a conexão estrutural entre herói cego (Orazio Coclite) e herôi mutilado na mão cido da coxa de Zeus, sobre o qual vide adiante, nota g2); id., ,,Das proômium
des
(Muzio Scevola), cf., de publicação mais recenre, G. Dumézil "'Le borgne' and 'le Parmenides und die Katabasis des pythagoras", in phronesis, XIV (1969), pp.
l-30,
manchot': the state of the problem" , ïn Mlh in Indo-European Anliquity, org. por no qual se demonstra que as íeridas na coxa, íreqüentemente associadas â
Grande Màe
G. J. Larson, Berkeley, L974, pp. 17-28, Sobre a relação entre Caeculus e Coclite (que frígio'anatólica, tinham, como o desmembramento simbólico dos xamâs, um valor
ini.
tinha uma estátua no Volcanal, o santuário de Vulcano), cÍ. Brelich, Tre oaiazionì ciático' sobre os componentes xamânicos na figura de Empédocles, cí. as opiniões
con-
cit., pp. 34 ss. Que eu saiba, nunca se sugeriu uma aproximação entre Caeculus e trastantes de Dodds, I Greci cit., pp. 182 ss., e C. H. Kahn, .,Religion and natural
philosophie in Empedocles'doctrine of the soul", in Archiu
Édipo. für Gescbichte der philo-
(71) CÍ. A. Alíõldi, "Kiinigsweihe und Mãnnerbund bei den Achâmeniden", sopbie,42 (7960), pp. 30-J . Ver também Co ulíano, Esperienze cìt.. pp. 26_7 .
in Heimal tnd Humanitiit, Festscblift für Karl Meuli zum 60. Geburstag, Basiléia, (80) M. Bloch, "Pour une histoire comparé des sociétés européennes,,, in
l9Jl, pp. 1l-ó (que remete aos estudos sobre os Mììnnerbiinde de O. Hôfler, L. Weiser- Mélonges bistoriques,I, Paris, 196i, p.22, assemelhava e comparação a uma ..vari,
Aall etc., sobre os quais vide acima, p. J16, nota 2), seguido por Binder, Die Aus- nha de rabdomante' ' .
selzung cit.; vide também Bremmer, "The'suodales"'cit., pp. 144-6 e passim; ou- (81) Nesse ponto, valho-me principalmente da documentaçâo coletada,
em
tras indicações úteis in A. Napoli, ' 'I rapporti tra Bruzi e Lucani' ' , in Stdi e Materìali perspectiva diferente, por M. Detienne, Dionìso a cielo aperto, trad. it., Bari, 19g7,

350 3)l
pp. 63-81 . Vide também J. -P. Vernant, ' 'Le Dionysos masqué des Baccbanles d'Euri' (93) Cf. Granet, Daxses cít.,I,pp.22l-2.
pide", in I'Homme,XXY (198J), pp. 31-J8.
(94) Heine-Geldern, "Das Tocharerproblem" cit., p. 252, reapresentou de
(82) Cí. Burkert, Wekheìt cit., p. 134, nota245, em que se levanta a hipôtese
modo mais sério uma hipótese difusionista que Íora superÍicialmente formulada por
de um significado iniciático, análogo à coxa de ouro de PitágoÍas. A interpretação é
E. A. Armstrong, "The crane dance in East and West", ín Atliguil1,17 (194i),
reiterada ín id., Greeh religìon cìt., p. 165. Nas Dionisíacas (IX, vv. 18-22), Nonos
pp. 7l-6. Recentemente, Lévi-Strauss, para explicar algumas analogias entre mitos
interpreta o nome Dionltsos como "Zeus coxo", observando que no dialeto de Sira-
gregos (o de Midas, por exemplo) e lendas iaponesas, sugeriu a eventualidade de uma
clsa nlsos significa ' 'coxo' ' (agradeço a Gabriel Sala a indicação).
gênese comum na Asia central.
(8j) Cf. K. Latte, "Askoliasmos", in Hermes,8, (1957), pp. 185-91 (utili-
zado também por M. Detienne). Cí. também W. Deonna, Un diuertissemenl de table
(9r) Cí. Granet, Donses cìt.,I, 126, nota I, e Kalternmark, "Ling-Pao" cit.'
"à cloche-pìed ", Bruxelas, 1959, pp. 28-9 e J6'9. p, 578;sobre a cerimônia dos Doze Animais, veracima' p. 180'
(84) Cf. Latte, "Askoliasmos" cit., pp. 38t-6 (que cita Eliano, De natura ani (96) Cí. J. G. Frazer, The golden bougb,lX: The scapegoat, Nova York,
malium,3,11). 193), pp. 324 ss. (com bibliografia), o qual adere à teoria que vè nos doze dias um
(8)) Refere-se a essa hipótese H. Diels, "Das Labyrinth", ín Festgabe aon periodo intercalaÍ entÍe ano lunar e ano solar. A. Van Gennep, Mantel de lolhlote
fratçais contemporaia, I, VII, 1: Clcle des Douze
jours, Paris, l9Í8, pp. 2856 ss.,
Facbgenossen xnd Freanden A. ton Hanack zum siebzìgsten Geburtslag.,,, Tubin-
gen, 1921, pp. 6l-72, especialmente p. 67, nota 2. Vide também U. Wilamowitz- especialmente pp.286l-2, discute as várias interpretações, considerando unilaterais
Moellendorff, Griecbiscbe Verskuns!, BerÌim, 1921, p. 29, seguido por K. Friis Johan- aquelas centradas no elemento fúnebre, pois incapazes de explicar o caráteÍ festivo (em
sen, Tbésée et la danse ò Délos , Kdbenhavn, 1945, p. 12; P. Bruneau, Recbercbes sar vez de triste) do ciclo dos doze dias. Uma avaliação tão superÍicial - que parece ignorar
les caltes de Délos, Paris, 1970, pp. 29 ss., especialmente p. 11. Cí. também H. von de modo deliberado as características contrâditôrias geralmente atribuldas aos mortos,
Petrikovits, ' 'Troiaritt und Geranostan z' ' , in Beitriige zur àheren europìiischen Kul- ao mesmo tempo portadores de fertilidade e de desSraça - talvez se explique pela
targescbicbte, Festscbrift für Rudolf Egger,I, Klagenfurt, 1952, pp. 12ó-43. Muito desconfiança (usuál em Van Gennep) quanto à noção de ambivalência.
material, reunido com escasso rigor, in H. Lucas, Der Tanz der Kraniche, Emsdetten, (97) Ver acima, pp. 145 e 159-60. A analogia entre os dois íenômenos não havia
1971. Pouco convincente a interpretação abrangente de M. Detienne, "La grue et escapado a B. Schmidt, Das Volksleben der Neugriecben and das helleniscbe ALer-
la labyrinthe", ín Mélanges de I'École Françaìse de Rome, Antiquité,95 (1983), pp. thum,l, Leipzig, 1871, p. 154, nota 1.
541-53. (98) Vide os dados acumulados desordenadamente por'F. Sokoliòek, "Der

effi
4É.
(86) Cf. D. C. Fox, "Labyrinth und Totenreich", in Paìdeama, I (1940),
pp. 381-94. Muito material, sobretudo iconográíico, in H. Kern, I"abìinli, Milão,
Hinkende in brauchtÍtmlichen Spiel", in Festgabe für Otto HiiÍlü zum 65. Geburls-
lag, II, Viena, 1968, pp. 421-12. Qurro material in R. Stumpfl, Kultspiele der Ger-
@o
fa
1981. monen als Ursprung des mittelalterlicben Dramas, Berlim, 193ó, pp. 32J ss., que de-
(87) Cí. Jeanmaire, Dioniso cit., pp. 46-J4; Bremmer, Tbe earl Greeh cit., pende bastante das pesquisas de O. Hôfler. Cí. também D. Strómbâck, "Cult remnants
JA
()tu pp. 108-23; Burkert, Greek religìon cit., pp. 217-40. in Icelandic dramatic dances", in.Aru,4 (1948), pp. 139-40 (dança do cavalo manco,

ób (88) Sobre a presença de Dioniso no santuário de Delfos e, de modo geral, sobre


as relações entre as duas divindades, cf. Jeanmaire, Dìoriso cit., pp. 187-98.
(89) Cí. Lucas, Der Tanz cit.,p. 6 e gravura 1.
documentada entre o final do século XVII e o princlpio do século XVIII).
(99) Poder-se-ia dizer que o erro de Lévi-Strauss ao Íormular o problema da
JL coxeadura mítica e ritual tenha sido, paradoxalmente, o de inspirar-se mais em Frazer
(90) Cf. I presocraticì, org. por A. Pasquinelli, Turim, 1958, pp. 189-90; vide que em si mesmo.
t: Jeanmaire, Dioniso cit,, pp. 46-54. Sobre o tropeçar como pressâgio de morte na cul- (100) A interpÍetação de Édipo como "deus anual" (Jabresgoll), formulada
trr s tura escandinava, cÍ. B. Almqvist, "The death Íorebodings oí saint OláÍr, king of por C. Robert, Íoi prontamente refutada por Nilsson, "Der Oidipusmythos" cit.

EK kô
Norway, and Rôgnvaldr Brúsason, earl of Orkney'' , in Béaloideas , 42-4 (1914-6), pp. (101) É signifiçativo que a categoria dos ritos de passagem tenha sido desco-
l-40(deficiente). De modo totalmente independente, C. Lévi-Strauss vê no ato de tro- berta por R. Hertz graças à análise dos ritos de sepultura.
peçar o símbolo de urn defeito de comunicação ("Mythe et oubli", in Le regard (102) Cf.Sas,DerHinàendealsSlmbolcit.(inspiradoexplicitamentenapsico-
éloignée cit., pp. 25 3 ss., especialmente p. 259). logia analitica de Jung). De um ponto de vista análogo, mas independente, T. Giani
(91) CÍ. M. Granet, "Remarques sur le Taoìsme ancien", in Asia Major,2 Gallino, Laferita e ìl re. GIi archetipi femminili della cultura mascbile, Milão, 198ó,
(1925), pp. 146-51; id., Danses e! légetdes de la Chine atciente, Paris, 192ó, II, pp.37-46, associa à coxeadura mlstica as menstruações, com arSumentação mais que
pp.466 ss. e J49 ss.; M. Kaltenmark, "Ling-Pao: note sur un teÍme du Taoìsme discutível (vide, por exemplo, p. 43).
ancien", in Mélanges publiés por I'Iastitttt des Haates É,tudes Cbinoisar, II, Paris, (103) CÍ. R. Needham, "Unilateral Íigures", in Reconnaissonces, Toronto,
l9ó0, pp. )59-88, especialmente pp. 572-); id., "Les danses sacrées en Chine", in
1980, pp. 17-40, que desenvolve consideÍações expostas in Prìmordial choracters,
Les danses sacrées, Paris, 1963, p. 444; IV. Eberhard, Tbe local cultures of soutb and
Charlottesville, 1978 (nas pp. 45-ó, uma tentativa não muito convincente de circuns-
easl Chìna,21 ed. revista, Leiden, 1968, pp. 72-80, especialmente pp. 74-). Sobre o
crever as divergências parciais a respeito da impostação de Jung).
hábito de cobrir o rosto durante o rito xamânico, cí. acima, pp. 245 ss.
(104) CÍ. E. Neumann, Die grose Multer, Zurique, 195ó. Uma crítica à base
(92) CÍ. Granet, Danses cit., II, pp. 550, nota 1,5J2 ss. e J7J-6; Eberhard,
empírica dessa noção in P. Y. Ucko, Anthropomor/ìc fìgurìnes of predyuilic Eglpl
The local cultures cit.,p.74.
and neolithic Crete, , . , Londres, 1968.

352
353
(lOt) Cf. Needham, Reconnaissance.rcit., pp. 34ss.
(lll) Cf. Dumézil, Storìe degli Sciti cir.. p. 94. O correspondenre de Soslan
(106) Ibid. Dentre os estudos citados por Needham, li: D. Zahan, .,Colors and entre os circassianos
body-painting in black AÍrica: the problem oí the ,hall man , ,' . in Diogene.r, 90 (1971), - uma espécie de xamã, capaz de todo tipo de transíormação -
é definido sarcasticamente como ''mago das pernas tortas " (ibid., p. 271).
pp. 100-19; A. Szabó, "Der halbe Mensch und der biblische SündenÍall", in pai- (l12) Pode-se recordar que Benjamin, numa carta a Scholem de 5 de agosto
deama,2 (1941-3), pp. 9)- 100; A. E. Jensen, . ,Die mythische Vorstellung voó halben de 1917, disse que deseiava "enÍrentar com os instrumentos da magia branca" a psi-
Menschen", ivi, j (19J0-4), pp.2l-43. Os dois primeiros sâo superÍiciais; o segundo cologia de Jung, à qual considerava "uma verdadeira diabrura" (W. Benjamin e
e o terceiro, deíormados por uma metaÍlsica eurocêntrica. outro material in D.
J. Ray, G.Scholem, Teologio e utopia. Carteggio 1933-1940, trad. it., Turim, 1987. p.2)2).
Eskimo mashs, 1967, pp.16 e 187-8. (113) Uteis elementos de reflexão sobre tudo isso in J. Fédry, "L'expérience
(107) Cf. A. Castrén, Nordische Reisen und Forscbungen, trad. alemã, IV, du corps comme structuÍe du langage. Essai sur la langue sàr (Tchad)", ìn L'Homme,
SãoPetersburgo, 18J7, pp. 157-ó4(Needhamociraporintermédio deG.Hatt, Asìaric XVI (1976), pp. 6i-107. No geral, cf. G. R. Cardona, I sei latì del mondo, Bari, 198J.
influences in Ameicaalolklore,Klbenhavn, 1949, pp.87-9). Está longe de ser ex- (l14) Cf. R. Jakobson, "Segno zero", ìn Uniuersali lìnguistìci, org. por F.
cluida a possibilidade de que em determinadas culturas a imagem do homem unilateral Ravazzoli, Milão, 1979, pp. 85-95.
possa teÍ um si8nificado diíerente. Mas uma interpretação psicanalltica como aquela (11)) Recordem-se os estupendos versos de Lucrécio, De rerum natura, Ill.
proposta por J. Galinier ("L'homme sans pied. Métaphores de la castration et imagi- vv. 810 ss.
naire en Mésoamérique" ,in L'Homme, XXIV, 1984, pp. 4l-)8) dá pouco relevo, por (116) Sobre o nexo entre fábula e o tema épico da viagem do herôi ao alêm-
exemplo, ao {ato de que para uma população mexicana como os otomis aqueles que se túmulo, cí. L. Radermacher, Das Jetseits ìm Mlthos der Hellenen, Boon, 1903,
privam temporariamente de uma perna, antes de transformar-se em mulher e alçar vôo pp. 28-9, nota 2, e passim, e sobretudo K. Meuli, Odyssee Lnd Argonattiha. Utler-
em forma de pássaros (pp. 4J-6), são justamente os xamãs. srcbrngen zur griechischen &gengeschichte und zum Epos, l92l (reimpressão em
(108) Cí. C. Foulon, "Un personnage mysrérieux du roman de Perceual le Utrecht, 1974), especialmente pp. 22-3, qu.e gÍaças a A. Heusler ("Altnordische
Gallois:l'eschacier dans la seconde partie du Perceual", in The legend of Artbur ìn Dichtung und Prosa von jung Sigurd", in Sìtzuttgsberichtè der Preutsis.chen Aha-
lhe Middle Ages. Studìes presented to A. H. Diuerres, org. poÍ P. B. Grout et alii, demie der Wissenschaften, "phil.-hist. Klasse". i919, I, p. 1ó3) alcança indireta-
Cambridge, 1981, pp. óó-75, que combate eficazmente a conietura de R. S. Loomis, mente o ensaio de F. von der Leyen citado adiante, nota 119. Sobre a relação entre
Arlhurian lradition and Chrétien de Troles, Nova York, 1949, pp.441-7, segundo o fábula de magia e mito, vide, além das reÍerências de Propp, Mor/ologia cit., pp. 96,
qual escbacier (homem com umâ perna só) seria um mal-entendido, introduzido por 106-7, as iluminadoras reflexÕes de W. Beniamin, "ll narratore. Considerazioni sull'
Chrétien ou por sua Íonte, de um originário eschaqrier (tabuleiro). Na realidade, esse opera di Nicola Leskov ", in A ngelu s n o uu s, trad. it., Turim, 1962, pp. b 3 - 4.
últimotermoconstituiuma lectiofacilior.comoindicaasuapresença(queLoomisinter- (ll7) A hipôtese, Íormulada por Propp in Morlologia cit., pp. ll2-J, de uma
preta de modo diíerente) em três manuscritos de Perceual le Gallois. A conjetura de conexão histôrica entre estfutura do conto de magia e crenças nas peregrinaçÕes da
Loomis é seguida por Riemschneider, Mìti pagani cit., pp. 34-J. Observe-se que o alma até o alêm Íoi desenvolvida in Le radici storìche delle lìabe dì magia cit., acen'
homem de uma só perna ê um mote celta: cÍ. S. M. Finn, "The escbacier in Chré- tuando as relações com o contexto ritual. Essa mudança de perspectiva talvez deva ser
tien's Perceval in the light of medieval art ", ìn The Modert Language Reuieu, XLYII atribuída pelo menos em parte ao clima politico em que o livro surgiu. Em todo o caso,
(19)2),pp.52-5;P. MacCana, Branuen,Cardifí, 19J8,p0.39ss.;J. LeGoff, Il mera- as duas obras, embora tão diversas, desde a origem Íaziam parte de um proieto unitário,
uiglioso cit., p. 12ó, nota 73. H. Wagner, "Studies in the origins oí early civilisation", como se veriÍica também nas observaçÕes Íetrospectivas em apêndice a Morfologia
inZeitschrìlt/ttr Celtische Philologìe, l1 (1970), p.26, nota 32. propõe decifràr a della f;aba (que inicialmente devia intitular-se Morfologia della faba di magia) cit.,
batalha aérea entre os deuses e os disformes Fo morìans , descrita no poema Mag Tured, pp. 208-10. A propósito de Propp, cÍ. R. Breymayer, "Vladimir Jakovleviò Propp
tendo por base um mito samoieda (referido por T. Lehtisalo) em que o touro do norte, (189t-1970), Leben, Wirken und Bedeutsamkeit", in Lìnguìstica Biblica,l)'6 (abrìl
o qual traz a chuva, luta entre as nuvens contra os demônios que tem uma sô mão, uma de 1972),pp.36-17; I. Levin, "Vladimir Propp: an evaluation on his seventieth birth-
só perna, um só olho, os quais tÍazem a seca (a esse respeito, vide a fábula samoieda day",in Jourulof tbe Folclorelnstitule,4(1967).pp. 12-49; A. Liberman. introd.
mencionada acima, nota 107). As implicações xamânicas do homem com a perna de a V. Propp, Theorl and history of folhlore, Minneapolis, 1984. A presença de temas
nrata são sublinhadas com acuidade por C. Corradi Musi, "Sciamanesimo ugrofin- iniciáticos em algumas íábulas, amplamente discutida nas Radicì Jloriche, iâ f.ora' pro'
nico" cit., p, 60, Sobre o tema da viagem ao outro mundo no romance arturiano, posta como hipótese (numa perspectiva jnfluenciada poÍ uma mitologia solar iá então
vide acima, pp. lll-ó. fora de moda) por P. Saintyves [Ë. Nourry], Les conles de Perratlt et les récits paral-
(109) Completamente desviante a aproximação proposta por Â. Szabó (.,Der lèles...,París, 1921, pp. XX,2$ ss. (Pequeno Polegar), 374 ss. (Barba Azul) etc.
halbe Mensch" cit., p. 97) do mito contado por Platão no Banguete, em que o amor é Propp, que leu e citou esse livro, aparentemente ignorou aquele muito mais importante
descrito como a reuniíicação de dois individuos corrados ao meio. de H. Siuts, Jenseitsmoliue in Deutschen Volksmàrchen, Leipzig, 1911, que desen-
(110) Daí as amblguas reações suscitadas enrre os humanos poÍ outras espécies volvia de maneira original algumas referências dÉ Von der Leyden, "Zur Entstehung
des Mârchens' ' cit.
capazes de se mânter em posição ereta, como macacos e ursos. A importância crucial
(l18) CÍ. Ptopp, Morfologia cìt., pp. 107-10, em que não se exclui a possibi-
da posição eÍeta na evolução da espécie humana foi ilustrada por Leroi-Gourhan, Le
gesle et la parole. Tecbnìque et langage, Paris, 1964. lidade (obviamente, não demonstrável) de que os dois tipos fossem no inicio historica-
mente diferentes.

354
355
(ttS) Ë uma rese de E. B. Tylor, reapresenrada com o apoio de farta documen- (l2J) Assumindo como Âmostra significativa, embora desequilibrada, as ver-
tação por Von der Leyen, "Zur Entstehung des Mârchens" cit. (publicado ïn Archia sÕes da íábula de Cinderela analisadas por Cox (distinguindo-as daquelas tipologica-
/ür das Studiam der Neueren Spracben uld Literatal,113 (1903), pp. 249-69; ll4 mente afins), resulta que, de um total de 319, aquelas que spÍesentam o tema da coleta
(1904), pp. L-24;rr5 (190t), pp. 1-21e271-89; l1ó(1906), pp. t-24 e 289-J00). Nesse dos ossos do aludante constituem ceÍca de um vigésimo (dezesseis)'
ensaio, bem como numa precedente versão muito mais breve (,,Traum und Mãr- (126) Cí. J.'G. Campbell, Popalar tales of the West Highlands, Edimburgo'
chen", in Der Lotse,1901, pp. 382 ss., que não li), o autor menciona Ifltelp/etaçao 1862, II, pp. 286 ss.; K. Blind, "A fresh Scottisch ashpitel and glass shoe tale", in
dos sonhos de Freud, com o qual manteve uma coÍrespondência: cf.^Tbe complete Archaeological Reuieu,III (1839), pp.24'7; "Arian folk'lore", in The Calcutta Re'
letlers of Sigmund Fread to Wìlbelm Fliess, org. por J. Moussaieff Masson, Harvard uieu,Ll(1870), pp. l19-21 (resume uma versão muito mais longa, publicada in The
(Mass.), 1985, pp. 444-6 (carta de 4 de julho de 1901). A tese de Von der Leyen, Bombay Gazetle, à qual não tive acesso; observa que em outra versão a veca, por râzões
incitada por idéias expressas por E. Rohde (Psyche, Berlim, l89l) e antes ainda por religiosas, fora substituída pelo peixe; destaca a antlogia com a fábula publicada por
L. Laistner (Ddt Riitsel del Sphitx,2 v., Berlim,1889), em parte baseia-se sobre mate- Campbell). A. B. Rooth (The Cinderetla clcle cit., p. J7) aÍirma que da India a versão
rial discutido também neste livro, â começaÍ pela saga do rei Guntram (sobre o qual em que aparecil. a v^ca passou à Indochina. Trata-se de conietura não demonstrada:
vide acima, p. ll9). A interpretação é muitas vezes redutiva: a imagem da alma como nas veÍsões indochinesas, como nas chinesas, vaca, pássaro e peixe (esse último surge
rato, por exemplo, é levada ("Zur Entstehung" cir., 1904, p. 6) para a etimologia na veÍsão mais antiga) se alternam: cf. W. Eberhard , Tlpen chinesicher Volhsmiirchen
da palavra "músculo" (de mus, rato). ("FF Communications", n9 120), Helsinque, 1937, pp. 52-4t A' Waley, "The Chi-
(120) Cí. R. Mathieu, "Le songe de Zhao Jianzi. Étude sur les rêves d'ascen- nese Cinderella story", in Folk'lore,58 (1947), pp. 226'18; Nai-Tung Ting' The
sion cêleste et les rêves d'esprits dans la chine ancienne", in Asiatische studien Cìnderella ctcle in China ard Indo'China ("FF Communications", n9 2Il), Helsin-
Éndes Asiatiquas, XXXVII (1981), pp. ll9-38.
- que, 1974, pp. 47 ss.
(121) Como Propp, Morlologia cit., pp. 23-4. (127) A bibliografia é muito ampla. Aos estudos acima citados (pp. 310"1' nota
(L22) Para um apanhado bibliográíico, cf . o verbete , .Cinderella ' ', in Enzlklo_ 78) acrescentar A. Friedrich, "Die Forschung über das frühzeitiliche'Jâgertum", in
piidie des Màrc hens cit. , lII, col. 19-57 (org. por R . Wehse). ponto de partida indispen_ Paideama,2(1941't),pp.20'41; id., "Knochen und Skelett in der Vorstellungswelt
sável continua a ser M. R. cox, cinderella. Three-hutdred ond forty-fue uarianrs, Nordasiens", in Wienet Beitrítge zur Kulttrgescbichle und Litguistià, t (1943)'
Londres, 1893 (com introdução de A. Lang), a ser complemenrada com A. B. Rooth, pp. 189-247: H. Nachtigall, "Die kulturhistorische Wurzel des Schamanenskelet-
The cinderelo cycle, Lrnd, 1951. Muito útil a coletânea cinderella: a casebooh, tieruns", in Zeitschrift filr Etbnologie, TT (L9t2), pp. 188-97; GiSnoux, "'Corps
org. por A. Dundes, Nova York, 1982: vide, antes de mais nada, o Íesumo carto- osseux"'cit. Sobre a América setentrional, cí. uma referência de Hertz, "Contri-
gráÍico de A. B. Rooth, "Tradition areas in Eurasia" (pp. 129-47), e a bibliograÍia bution" cit., p. 79. Friedrich, "Die Forschung" cit., p. 28, cita dois estudos sobre

e Ífl
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comentada de A. Taylor, "The study of cinderella cycle", pp. llJ-2g. Entre as con-
tribuiçÕes parriculares, cf. E. cosquin, "Le'cendrillon'masculin", in Reaue des
documentação africana, que permaneceram inacessiveis para mim.
(128) Cí. Hertz, Contribution cit. O nexo com o tema da coleta dos ossos é
@ü Traditions Populaires, xxXIII (1918), pp. 193-202; D. Kleinmann, "cendrillon et assinaladopor C. Lévi-Strauss, "L'art de déchifÍer les symboles", in Diogène, n9 5
f,Lr,
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I

son pied", in Cohiers de Littérature Orale,4 (1978), pp, i6-gg; B. Herrnstein Smith, (1954), pp. 128-lt (a propósito do livro de Rooth).
ú,.1 i
"Narrative versions, narrative theories", ín Criticat Inqairy, T (19g0), pp. 213_36. (12, CÍ. V. Propp, "L'albero magico sulla tomba. A proposito dell'origine
OUJI
N i!, ll (123) Cí. Propp, Morfologio cit., pp. 3l ss. A marca corresponde à função delle fiabe di magia" (1934), in Edìpo alla luce del folklore cit,, pp. l-39, que se refere
lrl t-) -l I n9 XVII (p. 57).
também à presença desse tema em Cinderela.
K.il (130) Para a China, cf. Waley, "The Chinese Cinderella story" cit. As indi-
r cL. ll
Au o ll
(124) com extraordinária acuidade, H. usener associou cinderela à Afrodite
escolhida por Paris, sublinhando as caracteristicas mortuárias das duas íiguras (..Kal-
cações que seguem, extraidas de Cox, Cinderello cit., foram controladas. Vietnã:

E
tr! {
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'-.'
lone" cit., pp. J62-3). O. Gruppe, seguindo a pista indicada por Usener, incluiu Cin_
A. Landes, Contes et légendes onnamites, Saigon, 1886, n9 XXII, pp. J2'7; G. Du'
moutier, "Contes populaires Tonkinois. Une Cendrillon annamite", in Archiaio per

k n rl
I
derela na série que abrange Perseu, Jasão etc. (Griechiscbe Mlrhologie cit., p. 1332,
lo Studio delle Tradizioni Popolari, XII (1893), pp. l8ó-91 (a história se passa no tempo
nota 4). No mesmosentído, cÍ. também R. Eisler, weilenmantel atd Himmelszelt,
do último rei Hung, século IV a.C.); India (Celcutá): "Aryan Íolk-lore" cit'; Rússia:
I, Munique, 1910, p. 16ó, nota 3. De quanto eu saiba, os esrudos posteriores sobre A. N.Afanassiev,Antiche/ìaberusse,tÍa.d. it., Turim, 1953, pp.)lJ'7("Miudinha
cinderela ignoraram essâ sugestão interpretativa
- com umâ única possivel exceção.
Num belÍssimo ensaio, Freud recoriheceu em cordélia e em cinderela duas encarna-
relaxada"); Sërvia: Serbian folhlore, org. por W. Denton, Londres, 1874, pp. 19-66;
V. Karafich, Serbian folk-toler, Beilim, 18J4, n9 XXXII; Sicília: G. Pitrê, Fiabe, no'
ções da deusa da morte, tendo afinidades com Aírodite funerária (..I1 motivo della uelle e racconti popolori siciliani, I, Palermo, 1870, pp. 16ó'7; Sardenha (Nuoro):
scelta degli scrigni", ín Opere, VII, trad. it., Turim, 19g2, pp.207_lg). Um eco
P. E. Guarnerio, "Primo saggio di novelle popolari sarde", in Arcbìoio Pel lo Sludio
indireto da pâgina de usener tarvez tenha chegado a Freud gÍaças aos verbetes do
delle Tradizioni Popolari,II (1881), pp. 1l-4; Provença (Mentone): J. B. Andrews,
dicionário mitológico de Roscher (mas trata-se de conietura que ainda deve ser verifi-
Contes ligures, Paris,1892, pp. l-7; Bretanha: P. Sébillot, Contes populaires de la
cada). Em carra a Ferenczi de 7 de lulho de l9ll, Freud reíeriu-se às implicações
Haute-Brelagne, I, Paris, 1880, pp. 15-22, mas em que a sepultura não é acompanhada
autobiográficas do próprio ensaio (ibid., p. 20); Anna, a predileta, era a terceira ailha
da coleta dos ossos; cf., ao contrário, ibid., "La petite brebiette blanche", pp. J3l'2;
- aquela que no mito ou na íábula anuncia a morte). Lorena: E. Cosquin, Conlet Populailes de Lorroire,l, pp.246'7 (aqui, íalta o episódio

356 357
do sapatinho perdido); Escócia (Glasgow): Blind, "A fresh Scottish ashpitel" cit.; (l18) Cf. Lévi-Strauss,,4 nthropologie structurale cir., p. 250.
(West Highlands):Campbell,Popalartales cit. Vide também Saintyves, Les contes cit., (l19) cf. cox, Cinderella cit., pp. 416 ss. Também a vaca dos chiÍres de
ouro
pp.142-)1. da lábula sarda pede â heroina que seus ossos sejam enrolados num lenço (Guarnerro,
(lll) Por meio de uma argumentação diíerente, A. B. Rooth (Tbe Cìnderella "Primosaggio" cit., p. jl).
clcle cit.) chega a conclusões análogas. Ela distingue dois enredos: r{ ) a madrasta faz as (140) É sugerido por p. p. Bourboulis, in cindereila ; a cas ebookcit., pp.
99 ss.
crianças passar Íome, sendo elas alimentadas às escondidas por um animal ajudante; (141) A esserespeito, cÍ. waley, "The chinese cindereila" cit. Numa
versao
quando este é morto, as crianças reúnem seus ossos! queimam-nos, colocam as cinzas chinesa (século VIII d.c.) da Íábula das moças-cisnes, apresenrada pero próprio
waley,
num vaso no qual nasce uma planta que as alimenta (numa versão alternativa, as inspira-se o ensaio (que destaca intensâmente os traços xamânicos) de A.
T. Hatto,
crianças encontram objetos preciosos nas vÍsceras do animal); B) um obieto perdido e "The swan-maiden: a folk-tale of north-Eurasian origin?", in Essalts cít., pp. 267-97.
encontrado por acaso (no geral, uma pantufa) põe o herói na pista da heroina. O enredo A descoberta da semelhança entre a versão buriata e a versão chinesa dessa fábula
Á8, que corÍesponde ao conto de Cinderela, é anterior às duas tramas separadas (esse remonta a U. Harva (Holmberg), Les leprésentations cit., pp. 31g-9.
ponto não é bem entendido por A. Dundes, introdução a Cinderella: a casebooh cit.). (142) vide acima, p. 202. Para uma análise limitada aos elementos edipianos
Convém sublinhar que essa cronologia relativa, reconstruida por via morfológica, não da fábula de cinderela, vide o ensaio, muito superficial, de D. pace, "Lévi-sìrauss
coincide com a cronologia absoluta dos testemunhos: a mais antiga versão de B (a his- and the analysis of folktales", in cinderella; o casebook cit., pp. 246ig (a
referência
tôria, refeÍida por Estrabâo, da águia que voa de Naucrátis a MênÍis, lançando no colo a Lévi-Strauss é inteiramenre abusiva).
do iovem rei a pantuía da cortesã Ródope) precede em cerca de oitocentos anos a mais (143) correspondem, respectivamente, aos números J10 A e Jl0 B da
classifi-
antiga versão de Á8, redigida par Tuang Ch'eng-Shih (800-t3). Esse texto chinès, cação de Aarne-Thompson (cf. S. Thompson, The types of tbe
folhtate, Helsinque,
associado à fábula de Cinderela coligida pelo folclorista japonês K . M inakata ( 19l I ), íoi l95l). Sua aÍinidade tipológica iá fora assinalada por Cox, Cinderàlla cít.
traduzido pela primeira vez numa lingua ocidental por R. D. Jameson, que neSou (144) sobrea veÍsão russa, coretada por Afanassiev, de pere de aszo,
cf. w. S.
claramenteas implicações rituais do tema da coleta dos ossos ("Cinderella in China", Ralston, ' 'Cinderella ' ' , in Cinderella: a casebooh , pp. 44-5
.

in Tbree lectures on Chínesefolklore,Pequim (Beiiing) í1932'i., pp.4)-8), especial- (14t) Cf. A. Dundes, "'To love my father all,: a psychoanalytic study of the
mente p. ó1, nota). Para um Íesumo cartográfico dos vários motivos, cí. Rooth, "Tra- Íolktale source of King Lear' ' , in Cinderella; a casebook cit. , pp. 2 30 ss.
dition areas in Eurasia" cit. (especialmente p. 137, série o, mapas A e B). (146) Cf. Paproth, Studien cít., pp.2l ss. (na p. 1ó, nota 57, refuta
com o
(132) Vide acima, p. 134-5. exemplo fá citado sobre os ainos a afirmativa de Schmidt, "Der 'Herr der Tiere' " cit
(133) Cf. J. Henninger, "Zum Verbot des Knochenzerbrechens bei den Semi- sègundo o qual o motivo do osso ausente não se encontraria na Asia oriental ou no.,.l
ten", in Studi orientalistici ìn onore dì Giorgìo Leui Della Vida, Roma, 19t6, I, oriental).
pp. 448-18, retomado e ampliado in id., ''Neuere Forschungen" cit. (147) Cf., além de Rooth, ,.Tradition areas" cir,, p. 137, série o, mapas A e B;
(l14) Cf. em primeiro lugar, sobre os costumes siberianos, V. Propp, "L'al- Bascom, "Cinderella in Africa", inCinderella: a casebooh cit., pp. 14g_6g; D. paul.
bero magico" cit. (utilizado também por Bertolotti, "Le ossa" cit.), e U. Harva me, "cendrillon en Afrique", critique,37 (19s0), pp, 2g8-302. A definição de cìnde-
(Holmberg), Les reptusentations cìt., pp. 298-307, Ver também Mannhardt, Ger- rela como fábula exclusivamente indo-européia, proposta por propp (,.L'albero magi-
maniscbe Mltlhen cit., p. )8, que associa o mito de Thor a uma saga do Vorarlberg; co" cit., p. 36), deve ser corrigida tendo por base os ensaios acima citados. c. Levi-
Rôhrich, "Le monde surnaturel" cit., pp. 25 ss., textos n9 13 (Alpe de la Vallée), strauss ("L'art de déchiÍfer" cit.) criticou Rooth por este não ter incÌuido as versÕes
n9s 14-) (Tirol); Dirr, "Der kaukasische Wild- und Jagdgou" cit., p. 140; K. Meuli, norte-americanas (nas quais cinderela é um homem); porém, coníorme o esquema
"Griechische OpÍerbrâuche" , in Gesammelte Schrìlten cit., p. 23t, nota ); Paproth, elaborado por Lévi-strauss ( Á al bropologìe strucrurale cit. , pp. 2 ) 0 - I eras não incluem
),
Sladìen cìt., p. 16 (sobre os ainos). De pouca ajuda é R. Bilz, "Tiertôter-Skrupu- o tema do sapatinho.
lantismus. Betrachungen über das Tier als Entelechial-Doppelgãnger des Menschen", (148) Cf. R. Andree, "scapulimantia,,, in Boas anniuersary uolume, Nova
ìn Jahrbuch für Pslcbologie und Psychoterapie, 3 (l9JJ), pp. 226-44. York, 190ó, pp. 141-65; mais material no verbete ,,scapulimantie" in Handutirter-
(135) Foi assinalada por Campbell, Popalar tales cit.; mais recentemente. Íoì buch des deutschen Aberglaubens cit., VIII, Berlim e Leipzig, 1936-7, col. 125-40:
retomada por L. Schmidt, "Der'Herr der Tiere' in einigen Sagenlandschaften Eu- ver também R. Needham, introdução a A. M. Hocart, Kings and councillots, chí-
ropas und Eurasiens", in Anthropos,4T (1952). p. )22. Ct. S. Thompson, Mory'- cago, 1970 (f9 ed.: 1916), pp. LXXffi ss. Uma referência indireta à importância atri-
index offolk literature, Copenhague, (195) ss.; E 32 ("Resuscirated eaten animal"); buida pelos judeus à costela na divisão da comida sacrifical está in Gênese 4g, 22.
E 32, ) ("Dismembered pigs come alive again if only bones are preserved"); E ll (149) Cf . Andree, ''Scapulimantia' ' cit.
("Resuscitation with missing member"). (1J0) Nessa distinção insistiu eíicazmente L. de Heusch, "possession et cha-
(l16) Cf. Gervásio de Tilbury, "Otia imperiali^", in Scliptoles rerum Bruns- manisme", in Pourquoi l'épouser7 et aatres essais. paús, 1971, pp. 226-44; mais
uicensitm, org. por G. G. Leibniz, I, Hannover, 1707, p. 1003. tarde, reformulou-a acentuando, de maneira nem sempre convincente, a continuidade
(137) Em algumas versões balcânicas, os ossos miraculosos sâo os da mãe da entre os dois fenômenos ("La folie des dieux et la raison des hommes", in ibid.,
heroína, morta pelas irmãs e devorada (num caso. apôs ter sido transÍormada em vaca): pp.2$-85). A maior dificuldade, para quem eocontra nítida distinção, ou até contra-
cf. Cox, Cinderella cir., n9s }L, )3, t4 e 124. O rema surge também na Grécia: cf. posição, entre xamanismo e possessão, é constituida pela fase do transe dÍamático (que,
M. Xanthakou, Cendrìllon et les soeurs cannìbales, Paris, 1988 (muito fraco). na sessão xamânica, acompanha o trânse cataléptico), durante o qual o xamã representa

3)8 3)9
animais diversos, perdendo âpaÍentemente a pÍÓpria identidade para assumir outrâ (cí' in Mnemosyne,26, L973, pp, 62-3' não parecem muito convincentes)' Não parece
Lot-Falck, "Le chamanisme" cit', p. 8; vide também Eliade, Sbamanlsz cit', pp' 85, prevista uma discussão sobre a disputa entre Prometeu e Zeus a propôsito da insti-
93, 99 etc.). Note-se que nos Íenômenos analisados antes - benandanti, tdhos etc' - tuição do sacrificio (tema quase de todo ausente do livro de charachidzé). Sobre a
o tfanse dramático está inteiramente ausente; poftanto' neÍn sequeÍ se propõe uma difusãoda lendade Amirani, cI. Promérhéecit.' pp. 14-ó.
contigüidade com íormas de possessão (163) Cí. Vernant, "À p.4), nota; vide também
la table des hommes" cit.,
(151) Para o nexo com o xamanismo, vide Friedrich, "Knochen" cit', pp' uma referência de J. Rudhardt, ' 'Les mythes Srecs relatiÍs â I 'instau ration du sacriÍice:
207 ss.;Nachtigall, "Die kulturhistorische" cit ;K Jettmar' "Megalithsystem und les rôles corrélatifs de Prométhée et de son fils Deucalion", ín Musetm Helulicam,
Jagdritual bei den Dard-Vôlkern " , ïn Tribus ,9 (1960), pp. 121'14;Giçnoux'
'' 'Corps 27 (1970), p. t, nota 13.
osseux"' cit. Mais cauieloso, Eliade, Shananism cit.' pp' 160-5 Tambêm Meuli, (ló4) Hesíodo, Teogonìa, vv. 538-9.
Die Baumbestattuttg cìt., pp. 1112-3, fala, a propósito de Pélope, de "nexo tipolô- (1ó5) Heródoto, As histótias Sobre Herôdoto lV, t9-62' cí. F. Hartog, "Le
gico" com o xamanismo. boeuf
,autocuiseur'et les boissons d'Arès", in Detienne e Vernant, I^o cuisinç cit.,
(lJ2) Sobre as implicações locais do culto de Aquiles na ilha de Leuca, cÍ' pp.25l-69.
M. Rostovzev, Sfulben ud der Bosporus,l, Berlim, 1931' p. 4 (mas que pensava na (166) Cf. K. Neumann, Die Hellenen ìm Sklthenlonde, I, Berlim' 188J'
cültura tÍácia), pp.263-4, que cita uma longa passagem do relato de viagem publicado em meados
(153) Cí. Burkert, Homo necans cit., pp. 80-5. do século XVIII por J. G. Gmelin. A importância do livro de Neumann não se exaure
(154) Sobre a difusão desses temas, vide os ótimos ensaios de L. Schmidt, "Pe- na tese da origem mongólica dos citas, que se pode aceitar ou rechaçar (como o faz
lopsunddieHaselhexe",inlzos,l(1951),pp.67ss.;id.,"Der'HerrderTiere"' implicitamente, a propósito de outra passaSem' Dumézil, Légendes cit'' pp' 16l-2)'
cit., pp. 509-18. Mais genérica, a reíerência de Burkert, Homo necans cit" p' 85' Os elos culturais indicados por Neumann fazem dele um antecipadoÍ de Meuli (que
(f JJ) Vide acima, P. 204'5. apaÍentemente o utilizou muito pouco)
(15ó) Burkert, Horno necans cit., p. 84, reíere-se à "estranha" conexão entre (167) Cf. Hartog, "LeboeuÍ" cit', p' 264.
Fólope e o carneiro degolado em sua honra. (168) Para alguns confrontos culinários, cÍ. o comentário de M' L' West à Ïeo-
(1J7) Sobre Tântalo e Licáon, cí. Burkert, Homo necans cit', p' 7) ss" que gonia, Oxford, 1978, p. 119.
menciona a hipótese de um influxo reciproco entre os dois mitos (sobre seu parentesco, (169) Em outra vertente, Hartog, "Le boeuf" cit., pp. 262'3: "Sans doute
cí. o texto antetioÍ de H. D. Muller, Mltbologìe der griechìschet Sümile,I, Gõnin- Prométbée recoalfe-t-il les chairs et les entrailles lourdes de g"tiste da aentle dt
gen, 1857, pp. 110 ss.). A respeito das conotações sacrificais da antropofagia de Licáon, boet{, mais il s'ogit d'une action de tromperie: dotner à la pdll efl lait la meìlleur un
cÍ. Detienne, Dioniso cit., pp. lJ9-ó0, nota 38. aspect immungeable 1,,,1". Na mesma linha interpretativa, mas com algumas laudas
Õ (ltS) Cí. J.-P. Vernant, "À la table des hommes' Mythe de fondation du mais, também se move vernant: "Décriuant les modalités dt sacrifce cbez les sclt-
ã
(!> sacrifice chez Hésiode' ' , in Detienne e Vernant, La cuisine cit. , pp ' i7 -132. thes, Hérodote ?rous hppofle des informatìons qui, plus ercore peul-êtfe que tul ler
(159) Essa linha de pesquisa íoi iniciada por A. Thomsen, "Der Trug des Pro' moeurs de ce peaple, noxs éclairent sar l'imagìnaire grec concefrtafrte lo gastér {..,1"
-,
*l metheus" cit. (reelaboração de um ensaio publicado em dinamarquês em 1907). De' (ibid., p.9l).
(")
corrências importantes no ensaio de Meuli "Griechische Opferbrãuche" , in Ge' (170) A esse respeito, sigo a introdução de J.-P. Vernant a M. Detienne,
X sammelte schrì/ten cit., pp. 907-lo2l. outras indicações in A. Seppilli, AIla icetca "I giardini di Adone" (1972), asoftin Mìto e societò ci,t., pp' 115'72, especialmente
UJ
del !enso perduto, Palermo, 1986, pp. 61 ss. Ao contrário, parece mais discutivel a pp. 166-9 .

*J tentativa feita por Meuli (com repercussÕes in Burkert, Homo necons cit.) de proietar (171) Sobre tudo isso, cf. M. L. West, Tla Orphic poems, OxÍord' 1983'
g na Pré-história o rito da coleta dos ossos: vide adiante, nota 219. Para outras ôbieções a pp.l-26.
ú. Meuli, cÍ. Detienne (acima, p. 29); P. Vidal-Naquet' "Caccia e sacri{icio nell'Ores- (172) CÍ. Jeanmaire, Dioniso cit., pp. 371-89; M. Detienne, "Il Dioniso orfico
UJ
tea",ìnMilo e tragedìa cit., p. 124; G. S. Kirk, "Some methodological pitÍalls in the e il bollito arrosto", in Dioniso cit.' pp. i23-64; West, The Orpbic Poems cil''
k study of ancient Greek sacrilice (in particular)" , in Le sacifice dans I'antiquìté, org. pp. 140-7), no qual, entre outras coisas, se sustenta (pp. ló4-ó) que constitui uma
2 por J. Rudhardt e O. Reverdin, Genebra, 1980, pp. 41 ss. irrupção neoplatônica tardia o tema da origem do gênero humano a partir dos.titãs
(160) Cí. Charuchidzë,Prométbée cit., pp. 333 ss assassinos. Segundo Detienne, Dìoniso cit., pp. 141 ss., pelo contráÍio' isso é parte
(161) CÍ. M. N. Pogrebova, "Les Scythes en Transcaucasie", in Dialogues integrante do mito órfico.
d' Histoire An ciena e, l0 (1984), pp. 269'84' (171) Cf. os testemunhos apresentados por A.-F. Laurens, "L'enfant entre
(162) G. Charachidzé an:uncia(Prométbée cir., p' J3J, nota 3)um ensaio - de l'épée et le chaudron. Contribution à une lecture iconographique", in Dialogues
quanto eu saiba, ainda não publicado - em que uma pâssagem dos poemas árgo- d'Hìstoire Ancienne, l0(1984), pp.20J-52, espccialmente pp. 228 ss.
ndatica de Apolônio Ródio (IV, 463-81) será interpretada à luz dos mitos georgianos (174) Cf. Jeanmaire, Dioniso cit., pp, 38Í ss., que menciona também Demôíon
e ritos abkhazes sobÍe o tema do desmembramento (as sugestões interpretativas de e Aquiles. Sobre Pélias como duplo de Pélope, cf. Gruppe, Gdecbivhe Myhologie
M. Delcourt, "Le part^Be du corps royal", in Studi e Materiali dì Storia delle Reli- cit., I, p. 14J. Sobre o confronto entre Pélope e Dioniso criança, cf. Gernet, Anlhro-
gioni,!4,1961,pp.1-25,eH. s. Versnel, "A noteon the maschalismosof ApsyÍtos" pologie cit.,pp.75-6.

360 361
(l7J) sobre esse ponto está centrada a interpretação de Detienne, "Il Dioniso
(194) Ibid., pp. 2jr.Z..
orfico" (cf. especialmente p. ll9).Sobre a questâo de um modo geral, vide também
(19t) cf. ventisettefabe
raccohe ner Mantouano, org. poÍ G. Barozzi, Milão,
Burkert, Homo necans cit., p. 237, nota29.
1976, pp. 466'73 (narradora: Alda pezzini ottoni, que nas pp.
(17ó) Essa última versão, transmitida por Firodemo de Gadara e por Diôdoros. 463i narra a história
de sua vida). Agradeço a Maurizio Bertolotti t.r-rn. indi."do,
foi negligenciada propositalmente por M. Detienne [,,II Dioniso orÍico" cit., p. 1441. no interior desse belo
volume, a Íábula.de Sbadilon.
Vide, contudo, Jeanmaire, Dioniso cit., p. l8l.
(196) Ibid., p. 473 (corigi um descuido material na rÍanscrição).
(177) De passagem, podemos lembrar que O. Rudbeck (sobre o qual vide acima,
p. 340, nota 48) associou às ressurreições do bode por obra de Thor a de Dioniso por (197) Ibid.' p. 4ó9; vide G. Barozzi, "Esperienze di un ricercatore
di fiabe"
in ibid., p. 22 (que usa uma rranscrição ligeiramente diferente).
obra de Deméter, numa lista de mitos hiperbóreos difundidos enrre ourras populaçÕes:
(198) Cf. Charachidzé, promérhée cit,, especialmente o resumo p.
cÍ. Atlantica cit., II, p. 10. na 2g7; no
ciclo caucasiano, muitas vezes se encontra não uma águia mas um
(178) Cí. Jeanmaire, Dionìso cit., pp. 87-9; HartoS, Le miroir cir., pp. g1 ss. cão alado. pode-se
notarque os trabalhos de sbadilon são, como os de Amirani, baseados
(179) CÍ. West, The Orphic poems cit., pp. 17-9; id...,The Orphics of Ot- exclusivamente
na força física. Prometeu, ' 'aquele que prevê' ' possui caracteristicas
bia ' ' , in Zeitschri/t /rtr Papyrologie und Epìgrap bih , $ ( 1982), pp. l7-29, que analisa , bem diferentes.
(199) Ibid.' pp. 13-4 (em que se destaca, acerradamenre, a nuance
três tabuletas. No recto da primeira (a discutida acima), lê-se: ,.bios iniciática do
- tbanalos - episódio)' Também Ambri, o gigante nem morto nem vivo. tem
uma perna inerte
bios
- alèrheia - A - fdois sinais em Íorma de ziguezague] - Dionisos-orphikoì"; (pp. i0 ss.).
nas pp' 21-2, é justiÍicada a leitura das duas úhimas letras da palawa orphikoi. No recto
(200) Ibid., pp.4G.7.
dasegunda: "eirenò
- polemos - alètheia - pseudos - Dlo [nisos] - [um sinal em (201) Aqui, toca-se um traço mitico proíundo (a ser associado
formadeziguezaguel- A" (Paz ao isomoríismo
- gueÍra - verdade - engano - Dioniso -- A). entre os dois bandos que lutam nas batalhas extáricas pela fertilidade:
vide acima,
No lecto da terceira; "Dio[nisosl
- alèlbeia - 1...]ia - pstchè - Á (Dioniso - p. 243.
verdade
- 7 - alma - A). West Íaz notar que quem redigiu a primeira tabuleta (202) Aocontrário, charachidzê, promërbée cit., p.269. A anomalia
esíorçou-se por escrever os três teÍmos bios * lhanatos * bìos na mesma linha, sem deambu-
latória de Prometeu loi intuída (mas fundamentada de modo mais que
corte, oridentemente pâÍa destacar que se tratava de uma única seqüência. A relação discutível) por
C. A. P. Ruck, Mushrooms and pbilosophers, ín R. G. Wasson et alii, persephoìe,s
entre essa seqüêncie ternáÍiâ e as cópias contrapostas pelas duas tabuletas não é clara.
qaes!,New Havene Londres, 198ó, pd. lJ1-77, tendo por base
(180) CÍ. Detienne, "Il Dionisoorfico" cit., p. 131 e nota 3J. Aristófanes, pdrroror,
1553-64. Na p, 174, são identificadas as caracteÍisticas xamânicas da
(181) Detienne (ibid., p. 139) tem opinião contrária. coxeadura no
âmbito grego.
(182) Plutarco, De esu carnium, I, p.996.
(203) Imaginou-se que a essa última hipótese não fosse estranha
(183) Cf. West, The Orpbic poems cit., pp. 143-J0. Por essa linha interpre- a atmosfera
político-ideológica dos anos 40 e J0, na qual Íoi formulada. À primeira
tative se encaminhara Jeanmaire, Diottiso cit.; vide também a recensão de Gernet, hipôtese reÍere-
se também S. Piggott, na introdução a E. D. phillips, The roltal bordes.
Anlhropologie cit., p.89, que sublinha a presença de elementos xamânicos na figura Nomad
peoples ofthe steppes,LoÍtdres, l9óJ, recordando os elementos pastorais
de Dioniso. presentes nas
mais antigas sagas celtas.
(184) CÍ. Dumézil, Storie deg'li Sciti cit., pp. 348-)4.
(204) Sobre a áaba-jaga, cf. propp, Le radici storìche cit., pp. j23-9.
(lSJ) Sobre essa distinção, além dos ensaios de L. de Heusch citados acima Asoutras
Íiguras fundiram-se na tradição folclórica: cf. Lebeuf, "conjectures sur la
(nota lJ0), vide, mais especificamente, Dodds, I Grecì cit., p. 177; Couliano, fupe- Reine pe-
dauque"' inHistoire de I'Académie Roltale des Inscriprions et Belles-Lettre.ç, XXffi
rienze cit., pp. lJ-7; H. Jeanmaire intui a importância da recusa dos súditos de Silas (f 7J6), pp. 227-iJ; K. Simrock, Bertba die Spinnerin, Frankfurt
(Dioniso cit., p. 98), mâs não aprofunda a questão do xamanismo cita. Também as a. M., lg)3; W.
Hertz, "Die Râtsel der Kônigin von saba", in zeirscbrift für deutsches Altertbtm,
páginas de F. Hartog sobre o episódio de Silas (Ia miroìr cir., pp. 82-102) estão viciadas
XXVU (1883), pp. l-33, especialmente pp.2)-4: no geral, A. Chastel, ,,La légende
pela falta de discussão da interpretação de Heródoto, IV, 73-t, dada por Meuli (vide
delareinedeSaba", reeditadocom adendos ïnFables,formes,fgures,paris, l9]g, I,
acima, p. 331,nota4),
pp. i3 ss. (a exata referência a Édipo está mp.79). Sobre a persistência
(18ó) Videacima, p. 189-90. do tema em
âmbito folclórico, cf. c. e D. Abry, ' 'Des parques aux fées er autres êtres sauvages. . . ' '
(187) Dequantoeu saiba, o primeiro a associar à viâgem aos infernos de OrÍeu ,
in Le Monde Alpin e Rhodanien, r0 (L9g2), p. 2)g. Note-se que nos texros medievais
o êxtase dos xamãs (lapões, nesse caso) foi Rudbeck: cf. Atlantica cit., III, p. 414. franceses Berthe aux grands pieds (identificada com a mãe de carlos Magno)
(188) Cf. Burkert, Greek religion cit., p.296, que fala de "revolução". tem dois
pés disÍormes; oos Reali dì Francìa (v,l), apenas um. Esse último
(189) Desenvolvo uma indicação contida em bela página de L. Gernet (Anthro- detalhe deriva de
Íonte desconhecida, certamenre mais próxima da tradição folclórica (de acordo com
pologie cit., pp. ó8-9). Para um quadro geral, cÍ. Burkert, Greeh religion cit., pp.
P. Rajna, Ricercbe irrtono di Reatì di Francia, Bolonha, 1972, pp.23g-9, que, porém,
290 ss. Sempre precioso é Dodds,Tbe Greeh atd tbe irratìonal cit. põe em dúvida, erradamente, a associação Berthe-perchta). Vide também verbete
(190) Cí. acima, p.214-). o
"Fuss" in Handuiirterbuch des deutscben Abergraubens,III, Berlim e Leipzig,
(l9l) Sobre tudo isso, cf. Charachidzé, Prométhcecit., pp. 218-40. 1930-1, col. 2D-6.
(192) Ibid., pp. Za9 ss. (20t) Cf. J. Haekel, "Idolkult und Dualsystem bei den Ugriern (zum problem
(193) Ibid., pp.260-9. Mas vide também o herói osseta Soslan (acima, p. 219). des eurasiatischen Totemismus)", in Arcbia für Viilherkande,l (1946), pp. %-163,

362
363
(212) Cí. J' Needham' introdução a Hocart, Kings cir" pp' LXXXIV-
especialmente pp. 123 ss., citado em parte também por A. Alfóldi, Die Struktur cit.,
LXXXVIII. A tese estrutural foi Íormulada com exemplar clareza por Hocart (pp'
pp.746-7,,unto a um ensaio de B. Munkácsi (que não li).
262-89).
(206) CÍ.Alfôldi, Die Struhtur cit., pp. 141-ó; vide o comentário anterior de
(211) Aqui, Íaço uma paráfrase sub-reptlcia de uma página muito densa de
G. Frazer aos Fostos, Londres, 1929,11, p. 16). Vide também J. Hubaux, "Com- A
J. C. Lévi-strauss (Les structures cit', p. 175), em candente discussãocom Frazer'
ment Furius Camillus s'empara de Véius' ' , ia Académìe Rolale de Belgiqae. Billetin pp ' t 39-40). Note-se que
conclusão ecoa em texto bem mais recente (L'.homm e nu cit.,
de la Classe de Lettres etc.,5e s., 38 (1952), pp.610-22; e, do mesmo a:utoÍ, Rortte
Hocartjásublinharaqueainteraçãoexplicaadicotomiasocial,enãovice-versa(Klzgs
et Véies,Paris, 1958, pp. 221 ss., especialmente pp. 279 ss.
cit.,pp.289-90).InParolesdonnéescit,,Lévi-Strausssintetizouadiscussãosobreos
(207) O primeiro a associá-los íoi A. Al{ôldi (Die Strukttr cit" pp. 141-6).
,ist"masdualistas(pp,262-7)referindo-seao..pensamento|áestruturalistadeHo-
Nesse livro singulgr (dedicado a K. Meuli e a M. Rostovzev, Alfôldi reelabora, e mais cart" (p. 263). ..Colle-
vezes justapÕe, pesquisas realizadas num período de cinqüenta anos. Sugestões muito (214) Em relação ao precedente, ver o belissimo ensaio de K. Pomian,
penetrantes se misturam a idéias envelhecidas e insustentáveis (como, por exemplo,
zione ", ìn En c ic Io p edia Einaudi, 3, Turim' L97 I' pp' )J0' 64'
o nexo entre ideologia tripartida e sociedades matriarcais, ideologia bipartida e socie- (21t)Cí.J.Piaget,Laconstrucíiondutéelchezl'enfanl,Neuchâtel'1910'
dades patriarcais). Vide a resenha, muito áspera, de A. Momigliano, que, pelo contrá- pp.3óss.;íd.,La/ormationdusltmbolechezl'enfant,Neuchâtel,1945'Umaposslvel
rio, deÍinira como "espÌêndido estudo" uma versão preliminar (cÍ. Sesto contlìbilto convergência entre tais resultados e a perspectivâ psicanalltica emerSe, se
não me en'
alla storia degli studi classicì e II, pp. 682-5, a propósito
del mondo ontico, Roma, 1980,
grno, J". densíssimas páginas de Freud intituladas A negaçdo (192J), nas quais se lê'
deDieshuÈtúiQuartocoÌrrributo..,, Roma, l9ó9, pp.629-11, apropÓsitodeA.Al- .n,r. oo,.", coisas: "O originário eu-prazer quer ["'] introietar em si todo o bem'
f.oldí, Dìe lrojanischen Urabnen der Rômer, Basiléia, l9)7)'
reieitar de si todo o mal. O que é mal, o que é eskanho âo eu' o que se encontra
no
(208) Alfôldi, Die Struktar cit. , p. 146, fala um tanto vagamenÌe de ' 'analogias ["'l como condição para o
exterior, de início é para ele idêntico. [...] Reconhece-se
institucionais" que emergiriam do confronto entre os dois mitos; trata'se, evidente- instaurar-se da prova de realidade o fato de que tenham sido perdidos obietos
que algum
mente, de uma alusão ao tema da monarquia dual (pp. lJ1-62). Mais adiante' identiíica dia haviam levado a uma satisfação real" (cito da tradução publicada in II Corpo' I'
no mundo indo-iraniano um possÍvel ponto de contato entÍe estepes eurasiáticas e 1965,pp'l-4).ApropÓsitodessetexto,verJ.Hyppolite,..Commentoparlatosulla
Mediterrâneo (p. 161), ao passo que não íala dos citas; com mais freqüência, evoca V"rreinaog di Freud", in J. Lacan, Scrittì, trad' it', Turim' 1974' II' pp' 885-93'
implicitamente a hipótese de uma gênese cÕmum, a qual explicaria as semelhanças (21ó) o menino era um sobrinho de Freud: cÍ. "Al di là del principio del pia-
entre as sociedades da Ásia central e â antiga sociedade romana. Tal hipótese parece cere", in Opere,lX,tr6d' it', Turim, 1977, pp. 200-3' em que o episódio é apresen-
remeter às migrações, também elas hipotéticas, que teriam ocorrido do Oriente para o gesto se ori'
tado como exemplo da coação a Íepetir uma situação desagradável. Que o
Ocidente antes do primeiro milênio a.C. (cf. acima, p. 334, nota 6). Observe-se que ginassedeuma..pulsãodeapropriaçãoquesetornaindependentedofatodearecof-
effi
zÉ.
Alfctldi, mesmo remetendo genericamente a Le cru et le cuìt de Lévi-Straussr parece
ignorar as discussÕes dos etnólogos sobre os sistemas dualistas' Vide as observaçÕes
ãaçaoe- si ser agiadável ou não" era, segundo Freud, uma hipÓtese menos
provável'
E. De Martino desenvolveu-a propondo implicitamente uma releitura da noção de
@o criticas de J. Poucet, "Un héritage eurasien dans la Rome préétrusque2", ìn L'Anlì- , .perda
da presença ' ' formulada em Il mondo magico (cf . Fuore sitnbolo aalore, Mi'
qaité Classìque,44 (1975), pp. 645-51, e R. Werner, ïn Gymnasiam, 83 (1976),
*t
,J u)
III pp. 228-)8.
lão,1962, pp.20'2).
(217)AdistinçãoeÍÚecoi./setemió/orospÍopostaporPomianécertamente
-.( tL (209) Sobre a troca generalizada, cÍ. Lévi-Strauss, Les structtles élémentaires válida no plano conceitual, mas não exclui a existência de casos intermediários -
;.ri p sobretudo numa fase anterior à produção de obietos que têm como único escopo o
de
àe la parenlé, Paris, 1949, pp.486-7 e passim; sobre a contraposição entre "ossos"
n
.-
,l e "carne", observada na india, Tibete, China, Mongólia e Sibéria, cl.. p9. 459-502. signiíicar.
<1 ul
;c) Imaginou-se que entre esses palses tivessem existido no passado Íortes ligaçÕes cultu-
rais (ibid., pp. 462-r. É possivel que elas se estendessem rnuito mais rumo ao ocidente,
(218)[J.Potocki],Essairurl,bistoireuniaerselleetrecherchessurcalledela
sarmatie,varsóvia, u89, p. 89: "oinsì te pìlole qui sonde à des grandes
profondeurs et
ËÉ visto que entre os ossetas distinguem-se parentescos "do mesmo osso" (/ stae&) e jusqa'à brasse, n'en conclud poit l gu'il a trouuë le fond,
-*$ parentescos "do mesmo sangue" (ju tug): cÍ. Vernadsky, "The Eurasian nomads"
aoit sa cordefiler la dernière
maìs qn'il ne doil point espérer de I'atteindre" .
cit., p. 405, mas que não explica o signiÍicado desses termos. Pode-se recordar que (219)AprudênciadeA.Leroi-Gourhan,Lesrelìgionsdelapré.histoire'Patis,
também uma prática como a escapulimancia, que atribui aos ossos um significado cul- l5 ss., tem Íepercussões, num plano mais especlfico, em L' R' Binford'
1976,pp.
tural preciso, é particularmente difundida na Ásia central (vide acima, nota 148). Tal- Bones. Ancientmenandmodert mlhs,Nova York, 1981, PP. 3J ss, (sobre a dificul'
vez o graceio de R. Needham, "if scapulimancl, ub! flot perscriptiue alliance?" , que dade de demonstrai a intervenção humana nos montes de ossos
quebrados de animais
supõe também no segundo caso uma difusão histórica (introd. a A. M. Hocatt, Kings que remontÂm ao Paleolltico). No geral, ver H.-G. Bandi, "Zur Frage eines Bâren-
cit., p. LXXXV) seja menos paradoxal do que parece. áder Opferkultes im ausgehenden AltFalâolithikum der alpinen Zonen' ' , it Helaelia
(210) Sobre a ausência de exogamia no Lâcio, contra a opinião expressa por Antiqua (FestschriÍt Emil Vogt), Zurique, 19ó6' pp. f -8'
AlÍôldi, ver Momigliano, Sesto coÌtllibuto cit., p.684. (220) ,, Aninals came from oael hoizon ' Thel belonged Ìhete and here,
immorral. 'he
An aaimal's btood flowed like buman blood,
(2ll) CÍ. Lévi-Strauss, Les struclures cit., pp. 87-8, que retomo quase ao pé Likeuis,e ,be! u)ele rnoilal and
but its species uat undliÌtg and eacb lion uas Lion, each ot uas Ox ' This mLlbe lbe
da letra. -

364 365
./ìrsl eistential dualìsm -- uas reflected in the treatment of anìmals. Tbel uere sub- (229) CÍ. J. Hnefill Aóalsteinsson, Under tbe cloah. Tbe acceptonce of Chris-
jected andworshipped, bred andsacrìJìced." (J. Berger, Aboat loohiag, Nova York, tianillt in Iceland,.., Upsala, 1978, pp. g0-l2| (só a segunda versito do Islendigabóh
1980, pp. 4-); segue-se uma passagem sobre a ambivalência demonstrada pelos campo- íoi conservada). A hipótese, discutida por J. Lindow (Ethnologia kandinauica, L979,
neses em relação aos animais). pp. 178-9)' segundo a qual a meditação sob o manto nâo teria passado de uma
encenação
(22I) CÍ. Lévi-Strauss, "Le Père Nôel supplicié" cit.; vide acima. p. 326. édificilmente controlável; em todo caso não nega a interpretação exposta acima.
nota 11. (230) Cf. H. R. Ellis (depois Ellis Davidson), The road to Hel, Cambridge,
(222) Vide acima, p. j2r. 1943'p.126;P.Buchholz, scbamaústiquezrtgeinderartisrãndìschen(Jeberlie/erung,
(22)) Ct. G. Dumézil, b relìgione romana cit., pp. 224 ss. Insustentâvel a Bamberg, 1968; H. R. Ellis Davidson, "Hostile magic in the Iceland sagas", in The
interpretação de R. Schiüing, "Romulus l'élu et Rémus [e réprouvé", in Reuae des witcbfgure,org. por V. Newall, Londres, 197j, pp. 20-41.
É,tudes Latines,33 (19ó0), pp. 182-99, segundo o. qual o comporramento de Remo (231) Cf. Ellis Davidson, "Hostile magic" cir., p. j2; D. Stròmbáck, ..The
constituiria um sacrilégio que, nas intenções de Ovidio, o colocaÍia em má situação, concept oí the soul in the Nordic tradition", tn Aru,lL (197J), pp. )-22, que remete
iustificando sua morte. a seu fundamental estudo Seìd (1935); Hnefill Aòalsteínsson, [Jnder the cloah cit.,
(22A) CÍ, L. Delaby, "Mourir pour vivre avec les ours", in "L'ours, I'autre pp. ll9-21 ,
de I'homme", É,tades Mongoles, ll (1980), pp.17-45, especialmente pp. 28 ss. (232) Vide acima, pp. ló1-3.
(2D) Cf. as observaçÕes de Propp, Le radici storicbe cit., pp. 11 ss. e 120 ss. (2)i) Cf. EllisDavidson, "Hostile magic" cit., p. 37, que remere a E. Holt-
OutÍo material é apresentado, numa perspectiva de história religiosa comparada, por ved, "Eskimoshamanism", instudìes ifl shamanism cit., pl 26.
Gallinì, Animalì e al di lò cit. (234) CÍ. R. Hakluyt, The principat nauigations, uologes, traffques atd dis:
(226) CÍ. M. Marconi, "Usi funerari nella Colchide Circea", ïn Rendiconti coueries ofthe Englisb nation..., I, Londres, 1t99, pp. 28?-r. A passa8em, assinalada
por T. Lehtisalo (Entuurf einer Mytbologie cit., pp. lt7-8), é comentada porJ. Balázs,
del R. Istittto Lombardo di Scìenze e Lettele, LXXXVI (L942-r, pp. 309 ss. À UiUtlo-
grafia citada acrescentar J. Jankó, in E. de Zichy, Volages ar Caucase et en Asìe "Ueber die Ekstase des ungarischen Schamanen", in Glaabensuelt cit., pp. 70 ss.
centrale, Budapeste, 1897, I, pp. 72-), sobre o costume dos ossetas de pendurar os (215) Cí. M. Bartels, "lslàndischer Brauch und Volksglaube in Bezug auf die
homens mortos costurados em couros de boi ou de búÍalo. Sobre os iacutes, cí. J.-P. Nachkommens chaÍt' ' , ïn Zeitschrìft für Etbnologie, 32 ( 1900), pp. 70- l .
Roux, fu mort chez les petples altaïques anciens et médiéoaut, Paris, 1963, p. 118. (236) CÍ.Boyer, Le.monde cit., pp. 19 ss. Ainda úteis M. Rieger, ,,Ueber den
Em sua discussão com V. I. Abaev (cÍ. nota 228), G. Dumézil comente também a nordischen Fylgienglauben", in Zeitschrift für Deursches Altertum and Deutsche
passâ8em de Apolônio Ródio, mas sem teÍ em conta esses estudos (Storie degli Sciti, Lilteratar,42 (1898), pp. 217-90i w. Henzen, IJeber die Tràtume ìn der altnordischen
cit., p.274). kgalitteratar, Leipzig, 1890, pp. 34 ss. Outra bibliografia in E. Mundal, Ftlgjemotioa
(227) CÍ. H. Nachtigall, ''Die erhôhte Bestattung in Nord- und Hochasien' ', i norrdn liileratur, Oslo, 1974. Sobre as sagas de um modo geral, vide a útil resenha
Anthropos,4S (1953), pp. 44-70; vide também Propp, Le radici storiche cit., pp. 363-9; de J. L. Byock, "Saga íorm, oral Prehistory, and the Icelandic social context", in
Meuli,Die Baumbestattunf cit.;Roux, Lamort cit.,pp. l3Tss.Umaapresentaçãodos New üterary Historl , XYI ( 1984), pp. I5)-71 . A fi'lgia como antecedente histórico da
"segunda visão", refere-se W.-8. Peuckert, "Der zweire Leib", in Niederdeusche
dados alricanos está in P. M. Küsters, "Das Grab der Afrikaner", in Anthropos,
16- 17 (1921-2), pp. 927 -13.
zeitschrift fiir volkskude, 16 (l%8), pp. 174-97, criticando a perspectiva exclusiva-
(228) Cf. V. L Abaev, "Le cheval de Troie. Parallèles Caucasiens", in Anna- mente psicológica de K. Schmëing: vide, desse último, ,,,Zweites Gesicht, und
'Zweiter Leib"', ivi, f9 (1941), pp. 8J-7 (ao passo que não li Das Zweìte Gesichr
les E. S. C,, 18 (1963), pp. 1041 ss., que enfatiza o elemento xamânico; Dumêzil,
in Niederdettscbland , Leipziç, 1917).
Storie degli Scl/i cit., pp.268-77, que o nega. (Uma nova intervenção de Dumézil,
"Encore la peau de boeuí", in La courtisane cit., pp. L)9-46, toca um ponto margi- (217) CÍ. Belmont, Les signes cit., pp. t2 ss., e G. Chiesa Isnardi, ..ll lupo
nal.) O ritual de ressurreição baseado na coleta dos ossos, ignorado por ambos os estu- mannaro come superuomo'' , in Il superuomo, oÍg, por E. Zolla, III, Florença, 1973,
diosos, de um lado dâ plena razão a Abaev e, de outro, põe em relevo a importância PP. 13 ss., que dependem de De Vries, Altgermanische Religioasgeschichre cit.,
pp.222 ss. (mas vide, publicado anteriormenre, E. Mogk, Germaniscbe Mltthotogie,
da passagem de Apolônio Rôdio (III, 200-9) iâ lembrada por Dumézil. Mais genêrica
é a menção de Abaev aos disíarces animalescos dos caçadores eurasiáticos (sobre a di-
Leipzig, 1907, pp. 42- 3). Y ìde agora Boyer, Le m o nde cit., pp. 39 ss.
fusão desses disfarces paÍa âlém do estreito de Bering desde o Paleolltico, cí. B. Anell, (23S)'Cf. Güntert, [Jeber alrisltindische cít.; Dumézil, Heur et malheur dt
"Animal hunting disguises among the North American Indians", in l-appoaìca, org. grenìer cit.
por A. Furumark et alii, Lund, l9ó4, pp. l-14). Que o costume descrito por Apolônio (219) Cf. Lehtisalo, Entutrfcit., p. 114. Também enrre os cunas do Panamá,
tivesse como fim a ressurreição do deÍunto já Íora sublinhado por S. Ferri, "Kirke I (kurAit, "cabelo"): cí. C. Se-
os nele (videntes) são aqueles que nascem com o pelico
KirkeIIKirkelII. Mitologia lessicale o psicologia 'medievale'?", in Letteratare com- veri, "The invisible peth. Ritual Íepresentation oí suÍfering in Cuna traditional
pa/dte, ploblemi e metodo. Studi in onore di Ettore Paratore, I, Bolonha, 1981, thought", in RES, Antbropology and Aesthetics,14 (outono de 1987), p. 71.
pp. r7-66, especialmente p. ó0; vide também id., "Problemi e documenti aÍcheolo- (240) Cf. C.-H. Tilhagen, "The conception of the nightmare in Sweden",
gici II (XI). Stele daunie
- una nuova Íigurazione di Erinni", in Accademìa dei ün- in Hamaüora. Essays in literatrre folklore
- - bibliography honoring Arcber Tallor
cei. Rendicontidella Classe di Scienze Moralì, s. VIil (1971), fasc. J-6, pp. 341 ss. on his seuentieth birthdal, org. por W. D. Hand e G. O. Arlt, Locust Valley (N. y.),

366 367
:a
ir

I
I Volksbtaucb der
1960, pp. 316-29; vide também Jakobson-Szeftel, "The Vseslav Epos" cit., p. 61, I
I (2tl) Cf' Balázs, "UeberdieEkstase" cit'' pp' 5ó ss'; Viski'
,1

1J ss. Sobre a possibilidade de ter acesso nesse


âmbito a um estrâto
nota J0. j
'I
{Jngarn cit., pp.
(241) A passagem é citada no início do livro de N. Belmont (Les sigtes cít., "'-
f.eiinao-.urop.u, vide, no 8eral, Güntert, Kallpso cit" pp' 44-J4'
p. 19), que, contudo, não se detém sobre esse ponto. Uma reíerência à analogia entre
I
'l ''- lziil Lr. ivr.uri, "Ãltriimischer Maskenbrauch" cit'' p' 2ó8
(e' de modo-8e-
ral, "Die deutschen Masken"' in Gesammeile Schriften cit" I' pp' ó9 ss" e "Schw-
cueiros e sudário está in W. Deonna, "Les thèmes symboliques de la légende de Pero
und Maskenbrâuche", I, pp. U7 ss.); F. Altheim, Teno Malet, Gies-
et de Micon", in Latomus, 15 (1956), p. 495. eizlr Masken
l
(242) CÍ. S. Reinach, "Le voile de I'oblation", in Ciltes, mytbes cìt., l, sen.19ll,pp.48'61;P'Toschi,Leoriginidelredtloitoliano'Turim'197ó'pp'L69'72;
le origini
pp. 298 ss. No geral, vide H. Freier, Caput uelare, TUbingen, 1963. ,ot'r, , hbmasca,L' Lazzerini, "Arlechino' le mosche' le streghe e
^orìì
Jel teatro popolare", ìn Studì Mediolatini e Volgari, xxv (1977)' pp' 141-4 (mas
(241) Cf. J. Heurgon, "Le Ver sacram romaìn de 277", in lztomus, 15
todo o Pp' 93-ltJ, é riqulssimo de pistas e indicações)' Nesse contexto' também
(1956), pp.117"58. "Perductos in adultam aeratem uelabatt atque ita extrafnes saos "nr"io,
se pode inserir, prouauel.ent., o capuz do
bando de Arlequim sobre o qual cÍ' Schmin''
exigebant ", lê-se numa passagem de Verrio Flacco reÍerida por Festo: cÍ. Ferri, ,,Kir- '
iìnu;oo" cit., ip. 226'7. As teses ãe um nexo obriSatório entre mascaradas e organi'
ke I" cit., p. J9 (mas o apelo ao oríismo parece gratuito). .,Masks and moieties as a culture
(244) Cf. Bartels, "Islãndscher Brauch" cit., pp. 70-l; J. Hoops, ',Das Ver- ,lço'., au"rirt", e refutada pof A. Kroeber e c. Holt,
(1920), pp. 4!2-60;
hüllen des Haupts bei Toten, ein algelsâchsisch-nordischer Brauch", in htgliscbe ;;;;i._,,, in Jountat of rhe Rolat Anrhropological Instìtute, t0 luz
(duplamente significativa, â
mas uma convergência significaiiva de tais ienômenos
Studien , 54 (1920), pp. 19-23. Nesse caso' ê preciso dar razão' no
das considerações íeitas acima) paÍece inegável'
(24r) Cí. Delcourt, Hépbaìstos cir., pp. 128-9, que desenvolve uma indicação ti/.
essenciel, a Schmidt (ibid., pp. 553 ss')
de H. Güntert, "Der arische Weltkônig und Heiland" (que não li). Sobre pilleus, (2;l) cÍ. I. Matte Blanio, L'inconscio catne insiemi infniti (197J), trad. it.,
galeras etc. e suas implicações, cí. K. Meuli, "Altromischer Maskenbrauch", in íeito por J'-P' Ver'
Turim. 1981. p. 201. Essa obra responde indiretamente ao pedido, ..o ins.
Gesammelte schriften cit., II, pp. 268-70.lJma referência â importância desses temas ..aos lingüistas, aos lô8icos' aos matemáticos'', de fornecer ao mitólo8o
nant
em relação ao nascimento com o pelico estâ in Belmont, Les signes cit., p. l9t. Con- que não seia aquela bingria
trumento que lhe falta: o *ãd"lo estrutural de uma lôgica
troverso é o caso de Telésforo, a pequena figura encapuzada, talvez de origem celta, ("Ragioni delmito"'in
dosim-ou-não.deumalôgicadiferentedalôgica dológos"
muitas vezes representado iunto a Asclépio: sobre as várias interpretações (demônio pesquisas de Matte Blanco
Mito e societd cit., p. 250). Uma tentativa de aplicaçào das
fálico ou Íunerário, gênio protetor do sono), cí. W. Deonna, De Télesphore au "mohe
foifeitaporB.Bucher,..Ensemblesinfinisethistoire-mythe'lnconscientstructuralet
bourru " . Dìeuz, génies et démons encapacbonnés , Bruxelas, l9J j. (1981)' pp' O trecho de
inconscient psychoanalytique", in L'Homme, XXI
(246) Cf. I benandanti cít., p.226.
vernanr citado acima é colocado em epígraÍe no ensaio de J. Derrida,
'-26' "chôra", in
(247) "No mundo terreno não é possível reter-me, pois vivo tão bem entre os Poikilia cít., pp. 26i'9ó.
o U)
UJ mortos quanto entre os não-nascidos", lê-se sobre o túmulo de paul Klee (é uma (2t4) Cí. Lévi-Strauss, La uasaia cit', pp' ló9 ss'
(y pâssagem dos seus Didrios)-. cí. F. Klee, Vita e opera di paul Klee, trad. it,, Turim, (25t) Cí. id.,L'bomme t r cit', pp 58I-2: "s'il s'agit d'uae tpplicatio" Parti'
@ O I97I, p.82. Reíere-se ao além como "reino dos mortos e dos embriões" G. Luling o" Peut conceuoir qu'il
3 a culière d'un procédé loul à la loit fondametlal el orchaïque'
J a (Die Wiederentdechung des Propheten Mubammad, Erlangen, 19g1, pp. 297 ss.), que, se soìt perpé)ué, non pol I'obserualion conscienle des règles' mais pdr coúormitme
O ïJl analisando o significado simbólico do manto de Maomé, também comparado ao pelico, inconscientòul'e,'llucta.Íemytiqueintui'iuemeatperçued'aprésde'modèle'Lnlë-
X TL
ti,l o
chega por vias diversas a conclusÕes semelhantes às formuladas aqui (agradeço calo- les mêmes condiriozr" (substitui poétique
por mYlhìque)' Lëvi-
rieures élahorës dans
íL rosamente a D. Metzler ter-me indicado essas páginas). um conÍronto com o êxtase StraussestáíalandodeumadificuldadelevantadaporF.deSaussureemrelaçãoà
J ÍL xamânico é proposto explicitamente por J. R. porter, .,Muhammad's journey to própria teoria sobre a imPortância dos anagramâs na poesia rntiSa: a Íalta
de teste-
g ul
LJ
Heaven", ín Ntmeni XXI (1974), pp. ó4-80. munhos explicitos de teôricos ou Poetas sobre ieu uso'
& (248) Cí. Güntert, Kallpso cit. (douto e inteligentíssimo livro). (25ó) Segundo Matte Blanco, L'inconscio cit" pp' 44'5 e passim' no sistema
ul F 4 (249) CÍ. Saxo Grammaticus, Gesta Danorum, org. poÍ L. Olrik e H. Raeder, inconsciente a8e um pÍinclpio na base do qual todrs as relações
são tratades como
lk

@
CL
ã
(: I, Haúniae, 1931, p. 30 0, 8, 14); sobre a possível derivação dessa página de modelos
noruegueses ou islandeses, ibid., pp. XXIV-XXV (vide o comentârio anterior de p. E.
simétricas: porexemplo, o
tal princlpìo
pai
é
gera o íilho;
aplicado
portanto,
sempre em
o Íilho
medida
gera o
limitadai
pai' Na observaçtro
"o prìíclpio de
cllnica, todavia,
po,,tos e, como dcido' dìssolue todt lógica
Muller, Hauniae, 18J8, pp. 6t.6). A presença de temas odinicos na descrição do além, simelri| desaparecè 2m certos "m
Polente
junto a recordações de autores latinos (de virgilio a Marciano capela), é sublinhada ao alcance da mllo, islo ë, no teíitório em qae é 'plicodo O
resto da eslrúura lógict
poderia set
por P. Herrmann, Die Heldensagen des Saxo Grammatictts,II, Leipzig, 1922, pp. perrnanecet po.ldm, intacto" (p. 62, o itálico eslâ no texto; a observaçlo
(mas Bucher propÕe Íalar de
102-3; no mesmo sentido, vide Dumézil , Dt mjtrhe at loman cit., p. 107, nota l. estendida aomito). A análise ào -odo de ser simétrico
As implicações xamânicas da viagem subterrânea de Hadingus foram reconhecidas por ..rtendêncie simetrizante": ..Ensembles" cit., p. 2l) permite descrever' cmbora em
Á. Closs, "Die Religion des Semmonenstammes", in Wiener Beitriìge zur Kttltur- termos necessaÍiamente inadequados, o funcionamento do sistema
inconsciente. sobre
gescbichte und Linguistih,IY (1936), p. 667 . a metáfora, cí. R' Jakobson (..Due aspetti del linguaSgio e due tipi di ríasia',, in hggi
(250) Cf. Saxo Grammatìcus, Gesta Donorum cit., I, 37: ver Riemschneider, di liagaislica genenlc cit., pp- 22'4J), que reencontÍa e contÍaposiçIo !ntre pólo meta'
trmbém nos sonhosi Íemetendo .
Miti pagani cit., p. 47 (mas a inteÍpreração de coniunto é insustenrável). Íóricã e pôlo iretonlmico (.úr"ngendo a sinédoque)

36tì 369
Freud (p.44). Na lrrlerprehçAo dos sonbos Freud cita em ceÍto momento (tÍad. ir.,
(8) Nesse ponto insiste, com Íazão, p. paravy, ..Faire croire.
p. 119) o exemplo de um escritor que, pensando durante o estado semiconsciente em euelques hypo-
thèses de recherche basées sur l'étude des procès de sorcellerie en Dauphini au XVc
corrigir uma pessagem claudicante de um texto seu, vê e si prôprio no ato de aplainar
siècle", inFaire croire,Roma, 1981, p. 124..
um pedaço de madeira. Lévi-strauss discute essa página, observando: "a metáÍora con.
(9) Dadosbibliográficosnoverbete"Albizzeschi,Bernardinodegrì",inDizio-
siste numa operação regressiva executada pelo pensamento selvagem, que anuta mo-
nario biografico degli ìtaliani (org. por R. Manse[i). Dentre as publicações recentes,
mentaneemente as sinédoques por meio das quais opera o pensamento domesticado"
vide especialmente Bernardino predicatore nella socìetò del suo rempo (,:convegni del
(La oasaia cit., p. 177, que
- como bem notou o próprio Lévi-Strauss - retoma a Centro di studi sulla spiritualità medievale' ,, XVI), Todi, 197ó.
conclusão de Q cra e o cozido tl9ó4ì). A convergência com a passagem de Matte
(10) Cf. Lazzetìni, "Arlecchino" cit., p. 100 (trata-se da tradução larina da
Blanco citada acima me parece digna de nota. cumpre recordar o ensaio de B. Bucher
transcrição de um ouvinte, o paduano Daniele de purziliis). A expressão ',andare in
publicado em L'Homme ("Ensembles" cit.). Nele, as teorias de Matte Blanco são
corso", corsear, iá se encontra in Boccaccio (Decatneron, iornada VIII, novela p): cÍ.
apresentadas como uma via para superar a rigida contraposição, Íormulada por Lêvi-
Bonomo, Caccia cit., pp. 59 ss.
strauss, entte o inconsciente expresso no pensamento mitico e o inconsciente indivi-
(11) CÍ. são Bernardino de Siena, Ie prediche uolgari, predìcazione lel j425 in
dual da psicanálise.
(2)7) Poderiam ter ocorrido contatos no Paleolitico que neo tenham deixado Siena,org. porC. Cannarozzìo.f..m.,I, Florença, 19j8, pp. 1, j e55-66.
(12) CÍ. B. de Gaiffier, "Le mémoire d'André Biglia sur la prédication de Saint
vestlSios documentais, como observou várias vezes C. Lévi-Strauss, quando se propu-
Bernardin de Sienne", in Aflalecta Bollandiana, Llll (L%5), pp. 308-J8. Que o inter-
seÍam questÕes do gênero: cf. , por exempl o, Paroles données cit. , p. l 14. As respostas
roSatório de Bernardino tenha ocorrido em L427 e não em 1426 foí demonstrado de
negativas da história (c[. Le dédoublemet t cit., p, 273 ,,5ì t'bistoire, sollicitée sans
modo convincente por E. Longpré, "S. Bernardin de Sienne et le nom de Jésus",
ltêue(elq!'ilfaatsollìciteld'abord), répondnon...")nãopodemiamaisserabsolutas.
ìn Archiaum Franciscanum Hìstoricum, XXVIü (193r), pp. 460 ss. Mas todo o en-
saio é importante: cÍ. ibid., pp.443-76; XXIX (1936), pp. 142.68 e 441-77; XXX
(l%7), pp. 170-92. Ê verdade que, tendo por base o depoimento prestado por Leonardo
CONCLUSÃO (pp.2)l-6)) Benvogiienti num dos processos de canonização de Bernardino, foi proposto antecipar
esseeventopafaoanoprecedente(1426): cf. D. Pacetti, "LapredicazionediSan Bernar-
(l) Cf. N. S. Troubeckoi, L'Europa e l'umanità, trad. it., Turim, 1982. dino in Toscana...", in Arcbìuum Franciscantm Historicum, XXXIII (1940),
(2) Videacima, pp. 133, 177-9epassim. pp.299-300, e, com mais decisão, C. Piana, "l processi di canonizzazione...", ivi,
(3) CÍ. M. Bonnet, "Traditions orales des vallées vaudoises du Piemont", in XLIV (19t1), pp. 197-8, notas 3 e 4, e p. 420, nota 2; no mesmo sentido, vide agora a
Reuue des Traditions Populaires, XXVil (1912), pp. 219-21; J. Jalla, Légendes et deficiente Enciclopedia Bernardinìana,IV, L'Aquila, 198), p. XVIII (org. por M.
lraditions populaires des uallées uaudoises,2S ed. aumentada, Torre Pellice, 1926, Bertagna). Mas Benvoglienti (que falava, em 1448, de eventos ocorridos vinte anos
pp. 38-9, em queo zangâo(galabroun)êchamadomarc, "bruxa" (ambos os textos me antes) disse simplesmente ter assistido aos sermÕes romanos de 1426 (conhecidos tam-
Íoram indicados e transmitidos por Daniele Tron, a quem agradeço efusivamente). bém poroutra via: cf. Longpré, "S. Bernardin" cit., 193), p. 460). As razÕes adotadas
SobreGuntram, vide acima, p. l19, Um conÍronto com fedômenos xamânicos aflora por Longpré para situar em 1421 em vez de em 1426 o interrogatório de Bernardino não
várias vezes in R. Christinger e W. Bourgeaud, Mythologie de la Suissc aacieate, são postas em xeque pelo testemunho de Benvoglienti, pois a referência nelas contida a
Genebra, l9ó3t no prefácio, E. Lot-Falck sublinha (p. ll) que a Suiça constitui verda- "algumas bruxas" (nonnullas sortilegas) levadas â Íogueira por Bernardino em Roma
deira encruzilhada entre várias civilizaçÕes. e Perúgia refere-se certamente, ao menos no primeiro caso (a referência a Perugia não é
(4) Tratava-se da variedade depois denominada, por antonomásia, Pastearella verificâvel), a 1427: vide adiante, nota lJ.
peslis mcdieaalit: cÍ. Le Roy Ladurie, "Un concept: I'unification microbienne" cit., (11) Cf. Longpré, "S. Bernardin" cit., 193ó, pp. 148-9, nota 6: Bernardino
pp. 10 ss. preSou em São Pedro durante oitenta dias.
(J) CÍ. Giorgetta, "Un Pestalozzi" cit. (14) Cf. sâo Bernardino de Siena, Le predicbe uolgari, org. por P. Bargellini,
(ó) CÍ. id.. "Documenti sull'lnquisizione a Morbegno nella prima metá del Roma, 193ó, pp. 784 ss. (o volume reproduz o texto dos sermões sienenses do verão
secolo XV", in Bollettino della Società Stoica Valrellizesa, XXXIU (1980), pp. J9- de 1427 segundo a edição de L. Banchi, f884). A importância dessa e de outras passa"
81, especialmente pp. 8l ss.: as duas mulheres, "malleficiatrices et in fde de/fcien- gens do mesmo sermão {oi destacada por M iccoli, " La storia religiosa " cit. , pp. 814-1 .
les,..", teriamconíessadoespontanermente"adiabolofotc scdactas el longo lerrrpore (1t) Cf. S. Infessura, Diarìo della città dì Roma, org. poÍ O. Tommasini,
in herclica prauilate erlititte ebdiabolicis statìonibus et telaiciìs obediuisse una ctm Roma, 1890, p. 2), em que o acontecimento é datado em 8 de julho (talvez deva ser
cerla malierum qaontitate eundo coram quadam appellata.domina ludi, qui demot est, corrigido para 28 de iulho) de L424. O manuscrito no qual Murarori baseou sua edição
et cum ea ceÌlis noclrríis horis conaersalionem babuisse el ii eiss societale perse- do Diario indica outra data,28 de iunho; mas naqueles dias, coníorme notou E. LonS-
aeÌaÍsc, noanulla commilendo que mail/estam sdpiunt heresìn, que pro presenti non pré("S. Bernardin" cit.,193J, pp.4ó0-1, nota )), Bernardino esrava em Siena.
veniunt publicanda [... ] " (o destaque é meu). Mas a reÍerência ao ano de 1424 também tem grande probabilidade de ser Íruto de um
(7) CÍ. Montmenta concilioram gcteraliam saeculi decimi quinti, Concilium
Basileease,III, l, Vindobonae, 1886, p. 483. Vide tambêm J. Gill, t/ concilio di Fi-
descuido cronolôgico
- um dos tantos que permeiam o Diario (cÍ" O. Tommasini,
"ll diario di Stefano Iníessura...", tn Archiuio della Societd Romana di Stoia Patria,
Ìenze, tÍ^d. it., Florença, 1967, pp. 377 -8. XI, 1888, pp. 541 ss.). A bruxa Finicella pode de íato ser identiÍicada com uma das duas

370 J/I

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