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O GÉNERO DA UTOPIA E O MODO DO UTOPISMO

JOSÉ EDUARDO REIS

UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS MONTES E ALTO DOURO

Observando as incisões no tempo da história a partir do tempo subjectivamente

vivido, registou Miguel Torga no seu Diário de 11 de Dezembro de 1987 a seguinte

nota de expectativa e desmistificação: " Perestroika. O que aí vem, se o espírito diz com

a letra! Se a palavra significa o reconhecimento da falência da mais planetária utopia do

nosso tempo: a redenção marxista. Se, de facto, a cega ideologia deu finalmente lugar

ao império do que Descartes um dia supôs ser um dom genérico da humanidade: o

comum bom senso. Bom senso que, de resto, em todos os tempos tem pago

paulatinamente as promessas demagógicas feitas pelas revoluções" (1511). Com a

lucidez desencantada de um cronista que acompanhou com vigilância crítica quase meio

século de infames tribulações e luminosos sucessos sem equivalência nem paralelo na

grande narrativa da história da humanidade, Torga dá aqui expressão ao compreensível

anátema finissecular lançado sobre a ideia de utopia - parcialmente identificada com o

totalitarismo político e veementemente exautorada como "cega ideologia"- ao mesmo

tempo que, em modalidade condicional, manifesta a esperança do retorno ao cartesiano

uso da razão, tomando-a quer como a mais adequada medida de bom senso na condução

da prática política, quer como último recurso humano no lançamento de uma era, à

escala planetária, de boa convivência social. Ou seja, para Torga a grande decepção que

teria constituído a experiência política e social utópica saída da revolução bolchevique

da segunda década do século XX, a qual, aliás, foi feita em nome de uma suposta razão

científica, decifradora das leis gerais dos fenómenos, e de uma infalível razão dialéctica,

iluminadora do processo civilizacional, teria desautorizado, na penúltima década deste


mesmo século, o sentido heurístico, se não mesmo abolido o valor de uso, da ideia de

utopia, doravante encarada como a mais funesta das humanas ilusões. E, no entanto,

apesar de toda a legítima suspeita que a priori a palavra utopia pode suscitar, a sua

enunciação, explícita ou implicitamente depreciativa, continua a ocorrer com a mesma

frequência com que também é exultante e positivamente referida, nem que seja para

designar a expectativa de uma ordem social governada pelo bom senso do uso da IV CONGRESSO
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razão... É que se há palavra, ideia, conceito ou pensamento cujo conteúdo é tão instável,

indeterminado, historicamente variável e semanticamente equívoco, quanto a sua

expressão é unívoca e etimologicamente bem definida, é esta aporia que designa um não

lugar físico que é um lugar investido por uma tripla e contraditória significação: (i)

avatar, na mais benigna das leituras, de uma vontade sublimatória do dado real e de uma

consciência prospectiva e antecipadora da necessidade histórica, (ii) constructo

fantasmagórico, no mais comum dos juízos, sem ancoragem na evidência implacável

das ͞leis da vida͟ e da natureza psicossocial humana e (iii) modelação social coerciva,

na pior das interpretações, de um desígnio político totalizante projectado com efeitos de

distorção sobre os limites e os requisitos práticos do mundo conhecido. Mas,

independentemente das suas inevitáveis ressonâncias axiológicas, a utopia é

reconhecida e é questionada, separadamente ou em conjunto, mediante uma das duas

seguintes modalidades de pensamento e, por consequência, de expressão linguística: ou

como figura de deslocação, portanto, metafórica e puramente imaginária, ou como

figura de contiguidade, portanto metonímica, e do domínio do possível.

Quer numa

quer noutra o desenho dos efeitos projectados à escala do social podem variar entre o

óptimo representado por imaginadas ilhas de governo ideal ou sonhados triunfos


técnicos e bio-tecnológicos e o péssimo de concentracionárias engenharias sociais ou de

angustiantes operações eugénicas antevistas a priori no plano imaginário da ficção e

experimentadas a posteriori no plano imanente da história. Ilustrar imaginariamente o

possível melhor (ou, negativa e inversamente, o pior) nas diferentes esferas da

existência (com ênfase na social) a partir da derrogação crítica, da eufemização ou da

alegorização do que é dado conhecer ou do que já é conhecido é, porventura, a função

da utopia literária, essa forma de escrita predominantemente narrativa, incoada pelo

humanista inglês Thomas More, desde que, em 1516, publicou em Lovaina uma obra

ficcional, refractária às classificações genológicas e formas literárias descritas nas

poéticas clássicas, e onde constava, no seu extenso título em língua latina, o neologismo

definidor, que nenhum léxico até então registara, de um não lugar homólogo a uma

sociedade tida por ideal.

As definições dessa nova forma literária não são porém consensuais nem quanto

ao seu escopo temático e estrutura formal, menos ainda quanto à sua genealogia.

Autores há que problematizam a ideia da existência de um arquétipo ou modeloIV CONGRESSO


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canónico da utopia vinculada à descrição minuciosa da organização de uma sociedade

desejável. Assim, por exemplo, numa entrevista recente inserida num dossier

organizado pelo Magazine Littéraire relativo ao tema da utopia, Alberto Manguel, o

autor de Uma História da Leitura e do Dicionário dos Lugares Imaginários, atribuiu a

origem daquilo que ele designa por "tradição literária utópica" (20) a três narrativas

fundadoras, e que seriam, além da de Thomas More, o Robinson Crusoe de Daniel

Defoe e as Gulliver's Travels de Jonathan Swift. O que, a nosso ver, Manguel propõe

com essa tripla genealogia é alargar a noção poética-retórica da utopia a outros discretos

modos literários, nomeadamente à "robinsonada" e à sátira, se não mesmo de conferir

uma qualidade sincrética àquele género, de maneira a que os seus limites fabulares não
se confinem apenas aos de uma narrativa politicamente sobredeterminado pela temática

político-social.

O mesmo procedimento de relativização dos parâmetros genológicos da utopia

como arquétipo narrativo fundado pela obra epónima de Thomas More, isto é como

enunciação de uma crítica social e representação de uma alternativa sociedade ideal, foi

seguido também recentemente por John Carey, responsável editor pelo Faber Book of

Utopias. No estudo introdutório que acompanha esse volume, Carey justifica a sua

proposta antológica a partir de um ponto de vista muito pessoal da concepção da utopia,

entendendo-a não tanto como género específico subordinado a códigos definidos de

composição temática, mas antes como um termo genérico descritor de representações

positivas ou irónicas idealizantes, sejam elas modalidades de organização social, lugares

mítico-nostálgicos ou estados de ânimo subjectivos. Se, para John Carey, é possível,

sem quebrar o fio da coerência ilustrativa, justapor heteroclitamente fragmentos de, por

exemplo, A República de Platão, dos Essais de Montaigne ou de A new View of Society

de Robert Owen, a passagens de poemas como o Paradise Lost de John Milton, The

Loto-Eaters de Alfred Tennyson ou Sayling to Byzantium de W.B. Yeats, é porque o

seu critério antológico deriva de uma noção plural da textualização da utopia, não

redutível ao campo exclusivo da ficção literária e aos três modelos narrativos

estabelecidos por Manguel, e, portanto, compreendendo também quer textos de índole

doutrinal-programática, quer outros de determinação mais indefinida, enunciadores de

difusas cambiantes do "wishful thinking". No entanto, Carey mitiga a elasticidade quase

solipsista do seu critério de antologista de textos utópicos / veículos de "expressão do IV CONGRESSO


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desejo" e anti- utópicos / veículos de "expressão do medo", (Carey: xi), mediante a clara

identificação e inventariação dos temas ou "tópicos" que, com maior ou menor ênfase,

lhes dão corpo: a eugenia, o papel da família, o crime e a sua punição, a natureza, a
razão, a justiça e os papéis sociais atribuídos aos géneros sexuais. O levant amento das

estruturas figurativas (temas, tópicos, motivos, topos, isotopias, consoante a

terminologia da perspectiva teórica adoptada) mais recursivamente utilizadas nos textos

ficcionais utópicos é, aliás, um procedimento comum adoptado na estrita determinação

genológica desse tipo de material narrativo para distingui- lo quer de outras

representações textuais de lugares imaginários, quer de textos programáticos de escopo

político- filosófico. É, no entanto, curioso notar que as mais recentes antologias sobre a

temática da utopia, como a que acabámos de referir de John Carey, publicada em 1998,

ou The Utopia Reader, editada no ano seguinte por Gregoy Clayes e Lyman Tower

Sargent, ou ainda L'Utopie, organizada por Frédéric Rouvillois, publicada em 1998,

justapõem diacronicamente, mediante um enfoque mais ou menos alargado do conceito

de sociedade ideal, exempla ficcionais- literários e político-filosóficos doutrinais

utópicos numa mesma unidade sequencial expositiva, como que a testemunhar,

independentemente da divergência das suas diferentes e correspondentes propostas

antológicas, a persistência da dupla e sempre aberta problemática do cânone e do

hibridismo do género literário em discussão. De entre as antologias recentemente

publicadas refira-se ainda a que veio a lume no ano de 1999 sob a responsabilidade de

Catriona Kelly e que constitui um exemplo de utilização livre, ou de deriva legítima no

uso da ampla polissemia do conceito de utopia, para sob ele reunir, numa perspectiva

sincrónica, uma selecta de textos ensaísticos e de manifestos estéticos não

exclusivamente literários de autores provenientes das mais diferenciadas áreas artísticas

do modernismo russo. Neste caso, o critério utilizado foi o de recorrer no plural ao

termo utopia, desinvestindo-o do seu prosaico valor de representação de modelo de

sociedade desejável, para nele se compreender o sentido radicalmente original e

inovador de posições estéticas assumidas num determinado contexto histórico-cultural


revolucionário.

Perspectiva diferente e metodologicamente mais delimitada em relação aos

exemplos das antologias antes referidas foi a escolhida por Raymond Trousson e Vita

Fortunati, os editores responsáveis pelo Dictionary of Literary Utopias, publicado no IV CONGRESSO


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final de 2000, ao restringirem a sua monumental compilação a textos ficcionais

definidos por um critério formalista, critério esse que, nos seus traços gerais, já havia

sido formulado por Trousson no seu estudo clássico Voyages aux Pays de Nulle Part. Aí

esclarece que a utopia ocorre sempre que: "no quadro de uma narrativa (o que exclui os

tratados políticos) se encontra descrita uma comunidade (o que exclui a robinsonada)

organizada segundo certos princípios políticos, económicos, morais, corrigindo a

complexidade da existência social (o que exc lui a idade de ouro e a arcádia), seja ela

apresentada como ideal a realizar (utopia construtiva) ou como previsão de um inferno

(anti- utopia moderna), esteja situada num espaço real, imaginário ou ainda no tempo,

seja enfim descrita no termo de uma viagem imaginária verosímil ou não." (28).

Apesar de todas estas diferenças de critério, o que, todavia, parece ser comum e

consensual entre os antologistas, "lexicógrafos" e estudiosos da utopia literária ou

programática é considerarem sob a mesma categoria textos ficcionais e concepções

político doutrinais que têm por objecto (literal ou irónico) quer a óptima quer a péssima

representação / concepção da organização de uma comunidade social humana.

Chegados a este ponto convém precisar duas ideias em relação à utopia literária.

A primeira é que mau grado a menor complexidade diegética, em relação sobretudo às

modernas formas de ficção, deste tipo de textos caracterizados por circunscreverem o

seu objecto temático a uma finalidade mais ou menos alegórica ou didáctica de

exposição de um modelo alternativo e aperfeiçoado de sociedade, não deixam eles, na

sua variável qualidade literária, de serem reconhecidos, como esclarece Peter Ruppertt,
pelos seus efeitos performativos em três discretos mas interdependentes planos: (i)

cognitivo, pela distensão heurística que operam dos limites familiares do conhecimento

do mundo; (ii) terapêutico, pela resolução imagética em mediarem e superarem

contradições sociais e culturais; (iii) prospectivo, pela antecipação ou previsão que neles

se representa de possíveis desenvolvimentos materias. (15-17). A segunda é que toda a

narrativa susceptível de ser definida como pertencendo ao género literário da utopia,

identificável, portanto, segundo unidades temáticas ou traços semânticos constituintes

de uma ficção social idealizada, espelha necessariamente um jogo dialéctico que faz

intervir quer no plano da trama quer no do discurso valores simbólicos ou complexos de

ideias contrários, isto é, coloca em posição de antagonismo mais ou menos dramatizado,

os valores ou ideias que são dominantes numa dada formação social, e que configuram IV CONGRESSO
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o que Karl Mannheim designa por uma ideologia, e os valores ou ideias alternativos que

visam derrogar aqueles, e que configuram, na explicação do sociólogo alemão, uma

utopia.

ii

Mas a enumeração das características dominantes da utopia, representada agora

na sua dúplice e simultânea acepção como forma literária e programa ideológico de

modelação social, pode resumir-se à seguinte proposta feita por James Ho lstun ao

estudar as relações entre a expressão política-retórica dos projectos constitucionais

puritanos ingleses do século XVII, de índole utópica, e a sua tradução prática social.

Aos pontos referidos por Holstun que nos parecem mais importantes, fazemos intercalar

os nossos próprios comentários.

"1. A visão da utopia é bifocal. " (8)

(Quer isto dizer que é simultaneamente literária e não- literária.)


"2. A utopia nasce ex libris e não ab nihilo.͟ (8)

(A sua origem como projecto de sociedade emana da escrita/leitura de um texto/livro - o

que lembra, a nosso ver, os pressupostos da doutrina mística da Cabala que atribui a

Criação do mundo à escrita do Livro de Deus e às infinitas combinações Deus e às infinitas

combinações co.)

"3. A utopia é o lugar de uma dialéctica Texto/Prática.͟ (8)

(O texto inspira uma prática social, que, por sua vez, inspira novos textos/ códigos

escritos de conduta e de acção utópicos. A este propósito vale a pena referir que muitos dos

primeiros exploradores do continente sul e norte americano, a começar por Vasco de

Quiroga, humanista espanhol que em 1535 dá início a um processo de administração das

populações índias da Nova Espanha, e Sir Humfrey Gilbert, o líder da primeira expedição

colonial inglesa realizada em 1583, inspiraram-se na Utopia de More para arregimentarem

as populações nativas e organizarem administrativamente os colonatos do novo continente)

(Kumar 71)

"5. A utopia é algo que se exerce sobre os outros." (8)

(O modelo social é imposto sobre o outro, quer ele queira ou não, por efeito de um

acto, pessoal ou colectivo, de vontade legisladora.)

"6. A utopia é uma fábrica para a produção disciplinar de subjectividades.͟ (8)

(O seu bem intencionado e positivo alcance pragmático tem em vista educar e

regenerar a consciência cívica e ética dos indivíduos cidadãos.)IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA


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"7. A utopia é uma defesa marginal da razão contra a centralidade dos hábitos."(9)

(Edificada segundo princípios racionais, ela constitui-se à margem e em conflito

com os programas secularizados de acção política-social que, devido à rotina das suas

práticas, tendem a estiolar em fórmulas ideológicas inadequadas às exigências das novas

realidades humanas.)
"8. O isolamento da utopia não significa uma retirada, mas uma preparação insular

para uma expansão racional. " (9)

(Os programas sociais utópicos, tais como foram congeminados por Robert Owen

e outras mentes utópicas - os "falanstérios" do amor, por exemplo, propostos por Charles

Fourier - procuraram ser levados à prática em pequenas comunidades com a intenção

experimental e pedagógica de se constituirem em exemplos de convivência humana

generalizáveis a todo o globo.)

"9. A teoria da história da utopia não é regressiva e nostálgica, mas progressiva e

profética." (9)

(Holstun acentua a vertente milenarista do pensamento utópico - estudada

filosoficamente, por exemplo por Ernst Bloch, mas também por Martin Buber - como

antevisão de uma forma social radicalmente nova e organizada à medida das possibilidades

racionais do homem, por oposição à vertente mítico-edénica - explicitada do ponto de vista

da fenomenologia das religiões por Mircea Eliade - traduzida na irracional aspiração do

homem em retornar à pura condição edénica, isto é ao estado de inocência natural e de

pura liberdade anteriores ao cometimento de uma falta cósmica e ao aparecimento da lei

reguladora e moduladora do estado social.)

Mas há ainda a referir o outro polo estruturador da investigação abundantemente

produzida sobre a utopia, as vozes representativas do paradigma aberto e multidisciplinar,

mencionando a existência de trabalhos que fundamentam o alargamento das suas pesquisas

a partir de um princípio de explicação geral (uma função, uma propensão, um modo

utópicos).

Utopismo (utopianism; utopisme) é o termo substantivo geral definidor do

conteúdo dessa forma de pensamento que está na origem e permeia as diversas formas de

acção social e de expressão cultural, e entre estas últimas, a da utopia como paradigma
literário. Neste sentido, a originalidade suprema de Thomas More não foi tanto a de

instituir um subgénero literário caracterizado ou definido por dois distintos níveisIV CONGRESSO
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discursivos, envolvendo nas palavras de Peter Ruppert "a desfamiliarização histórica ou

real de um tempo e lugar ʹ degradado por disparidades, desperdício, exploração, repressão

ʹ [ e ] a invenção de um não- lugar ou de um não tempo imaginários em que se cancelam ou

pelo menos se reduzem estas contradições" (7); o grande contributo do humanista inglês

foi, por assim dizer, o de dar forma nominal, no contexto da história das ideias ocidentais e

da sua diversificada criação literária, a uma propensão sublimatória com uma muito

provável inscrição no modo de ser, conhecer e agir humanos, propensão que, de modo

muito sintético e sem descurar as implicações filosóficas relacionadas com a teoria

idealista do conhecimento, consiste na reiterada e consciente idealização das condições

históricas da vida material. O neologismo utopia inventado por Thomas More opera,

portanto, quer no plano genológico quer no plano teórico-doutrinal, como um signo cuja

substância da expressão (para parafrasear a terminologia utilizada pelo linguista Hjelmslev

na definição do seu modelo de estrutura de uma língua natural) surge recortada da contínua

vontade humana em alinhar a representação consciente do mundo com um (projecto de

sociedade) ideal, que, mercê de factores históricos, culturais e doutrinários, varia na

delimitação e definição da sua substância de conteúdo positivo. Por outras palavras, a

formação histórica e culturalmente bem determinada, associada à época moderna do

Renascimento e do Humanismo Europeu, do signo utopia (não-lugar), não só contribuiu

para dar forma lexical à referida propensão sublimatória das condições históricas da vida

material, como, por sinédoque, passou a nomear uma variá vel e ampla diversidade de

significados de valor instável, até mesmo contraditório entre si. Tal instabilidade semântica

resulta, em grande medida, de o valor e o sentido da projecção de uma sociedade ideal

estarem condicionados por determinações estruturais de vária ordem, desde a erosão


histórica-temporal à obsolescência ideológica. Eis a razão por que muitos dos motivos

temáticos das utopias (literárias ou programáticas) clássicas, nomeadamente os que dizem

respeito à rígida ordenação da vida colectiva e ao fechamento autárquico das sociedade

nelas representadas ou concebidas, podem ser contemporaneamente lidos como sendo antiutópicos;
por isso é importante reconhecer que as utopias não podem ser lidas como

reificações imagéticas de ideais intemporais, mas sim como projecções acerca de formas

conjunturais de organização e relacionamento social consideradas como alternativamente

mais perfeitas do que aquelas que são dadas e conhecidas no plano relativo do tempo

histórico. IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA


9

O neologismo utopia contribuiu, portanto, para que a partir dele se tivesse

gerado um vasto campo semântico, o utopismo, pontuado na sua determinação

conceptual por diferentes termos cognatos e outros termos designadores de lugares e

tempos idealmente imaginados. Como auxiliares de compreensão do utopismo, o qual

pode ser genericamente definido como modo ideal de efabular ou sonhar racionalmente

uma condição social e existencial perfeita ou perfectível, têm sido propostos glossários

terminológicos formados a partir do radical latinizado de origem grega topos (lugar) e

inventários classificadores, mais ou menos fundamentados em etimologias e

investigações histórica- literárias eruditas, para caracterizar diferentes representações

ficcionais- imaginárias, mas também histórica-reais, de formações e situações sociais

modeladas a partir de uma sobredeterminada ou totalizante concepção doutrinal. Tais

glossários e classificações têm sido inseridos para clarificar formas discretas do

utopismo em estudos com os mais diferenciados objectivos, como, por exemplo, em

Between Dystopia and Utopia, de Constantinos Doxiadis, (87-88) obra orientada na

perspectiva da teoria do espaço arquitectónico e urbanístico, ou nas introduções,

respectivamente, à compilação bibliográfica British and American Utopian Literature,


1516-1985, do professor de ciência política Lyman Tower Sargent , e do já mencionado

Dictionary of Literary Utopias, organizado pelos literatos Raymond Trousson e Vita

Fortunati, ou ainda na exegese política-historiográfica Utopia and Ideal Society: a Study

of English Utopian Writing 1516-1700 de J.C Davis. Esses lexemas reflectem a

contiguidade e, sobretudo, a polarização de ideias contrárias mas dialecticamente

interdependentes sobre o "modo utópico" - para utilizar uma expressão, sinónima do

utopismo, do sociólogo Krishan Kumar (124) -, isto é jogam com o valor semântico

positivo (eutopia, entopia), ou depreciativo (cacotopia, distopia) dos prefixos, com o

significado dos termos compostos (sátira utópica, utopia crítica) e com a específica

determinação conceptual da constelação de espaços ideais (cocanha, arcádia,

comunidade de perfeição moral, milénio, etc.)

Não vamos aqui fazer a revisão do "estado da arte utópica" e da concomitante

definição e determinação das suas possíveis concreções literárias e programáticas, mas

continuar a sondar as intersecções entre a utopia como género literário e o modo do

utopismo como uma perene vontade de "sonhar" "um mundo melhor", para utilizar

expressões do filósofo alemão Ernst Bloch, talvez o pensador que mais sistemática e IV CONGRESSO
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minuciosamente analisou os fundamentos ontológicos, os mecanismos gnosiológicos e

os efeitos histórico-culturais do utopismo, nomeadamente nas suas obras capitais o

Espírito da Utopia e o Princípio Esperança (1955-59). À parte a constatação aporética

de o termo cognato e derivado (utopismo) designar - na expressão de Raymond Ruyer -

um persistente "exercício mental sobre os possíveis laterais" (Rouvillois 15) e, por isso,

uma realidade anterior e hipertrófica relativamente ao termo radical que lhe deu origem

(utopia), há que reiterar que o célebre livro de Thomas More desempenha , uma função

axial e um papel de sedimentação na história dessa perene volição em sonhar um mundo

melhor. Disso mesmo nos dá exemplarmente conta o catálogo publicado pela New York
Public Library , versão em língua inglesa do seu homólogo em língua francesa

publicado pela Bibliothèque nationale de France, para documentar bibliograficamente a

exposição The Search for the Ideal Society in the Western World / La quête de la

société idéale en Occident que ambas as instituições culturais promoveram, primeiro em

Paris durante a Primavera princípio de Verão de 2000, depois em Nova York no Outono

de 2000, início do primeiro mês do milénio de 2001. Num portal com acesso a uma

profusão de atalhos temáticos que esteve disponível na página electrónica da New York

Public Library (www.nypl.org) durante o período em que ali se manteve a exposição

podia-se ler o duplo objectivo que norteou a sua concepção, a saber, demonstrar que o

conjunto vasto de respostas dadas na procura e definição da natureza da "sociedade

ideal organizada para garantir a felicidade dos seus membros tem sido um elemento

primordial ao longo de toda a história documentada", e reconstituir o modo "como

mulheres e homens, no espaço de vários milhares de anos da cultura do Ocidente,

imaginaram, figuraram, descreveram e criaram novas versões de sociedades ideais [...]

inseparáveis das histórias dos povos, culturas e períodos em que foram geradas." Nas

primeiras páginas do excelente catálogo que documentou o evento, e justamente com o

propósito de ilustrar a função axial da Utopia de More na história da procura dessa

sociedade ideal, foi colocada a imagem da sua primeira edição latina de 1516, entre a

reprodução de um cartaz editado em 1918 pela União Central das Sociedades do

Consumidor de Todas as Rússias, com a exortação "Mulheres, vão às cooperativas",

ilustrado por duas figuras femininas de gerações e papéis sociais diferentes mas

evocando uma situação de b em-estar social e de abundância material, e um manuscrito

de 1445 de uma história alemã da Bíblia em que se representa Adão e Eva no acto de IV CONGRESSO
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violação do interdito divino de provarem do fruto proibido que levaria ao fim do Paraíso

e ao princípio da sua interminável busca e recuperação.


Num ensaio inserido nesse catálogo com o título Utopian tradition: themes and

variantions, Lymon Tower Sargent faz uma notável síntese dessa tradição que é

simultaneamente um desenvolvimento historicamente documentado ou uma legenda

expandida do significado da ilustração acima descrita. No essencial, o autor distingue

entre as "utopias concebidas sem esforço humano" e as "utopias concebidas mediante

esforço humano" (8-10), identificando as primeiras com as idades de ouro, arcádias,

ilhas afortunadas, paraísos terreais e certas modalidades do milenarismo, isto é visões

mítico-religiosas que no essencial reflectem uma arquetípica nostalgia do paraíso, e as

segundas com a vontade humana em controlar o seu próprio destino terreno mediante

projecções imaginárias progressivamente orientadas para a criação de modelos de

sociedade tidos por ideais, entre os quais a República de Platão ocupa uma posição de

destaque pioneiro. A exposição de que Sargent foi um dos comissários desenvolveu-se

em torno deste quadro básico de referência segundo a seguinte ordem cronológica: (i)

fontes antigas, bíblicas e medievais; (ii) sobre outros mundos - a expansão da

imaginação utópica, de Tomas More ao Iluminismo; (iii) utopia na história - da era das

revoluções ao dealbar do século vinte; (iv) sonhos e pesadelos - utopia e anti-utopia no

século vinte.

Com base na investigação a que procedemos sobre a temática da utopia (Reis)

diríamos que ela nos surge como sendo indissociável do espírito humano e da sua

essencial natureza volitiva. Daí a importância que, em nossa opinião, se deva conferir à

teoria idealista do conhecimento na elucidação deste postulado. Depois, que a

configuração e materialização desse espírito, adentro dos limites da cultura ocidental,

está organicamente associada aos fundamentos doutrinais - religiosos, antropológicos,

filosóficos, literários - dessa cultura, o que é dizer que está gravado na sua matriz

clássica humanista, e, sobretudo, na sua matriz judaica-cristã. Grosso modo, poder-se-á


dizer que na primeira das duas matrizes está temática e discursivamente decalcado sob a

forma de dois registos: um primeiro de conceptualização racional- filosófica,

fundamentalmente impregnado de platonismo (e.g. A República de Platão; a Óptima

República de T. More), visando a forma ideal de governo político e de organização

social da cidade (poder-se- ia falar aqui, adentro do espírito geral da utopia, daIV CONGRESSO
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constituição do paradigma utópico-cosmopolita), e um segundo registo de representação

estético- literária de lugares ou tempos idílicos de felicidade plena (e.g. a Idade de Ouro,

os Campos Elísios, as Ilhas Afortunadas, etc.), evocador tanto da arquetípica nostalgia

pelo paraíso como da unidade ontológica, original ou final, redonda e perfeita -

(paradigma eutópico-pastoral).

iii

Na matriz judaica-cristã está também o espírito da

utopia temática e discursivamente gravado na sua dupla vertente - pastoral e

cosmopolita - mas requalificado de um sentido sacral e profético, isto é, investido de um

valor de verdade transcendente, modelado por uma convicção apologética fideísta e

orientado por um princípio de razão teleológica, valor, convicção e princípio associados

à totalitária codificação e explicação verbal do mundo, com a sua piedosa, literal e

escolástica leitura do conteúdo do Livro de Deus. Neste caso, o espírito da utopia, por

via da fé doutrinal, e não deixando de reproduzir o sentido essencial dos dois

paradigmas acima mencionados, manifesta-se, no que concerne à modalidade eutópicapastoral, de


diferentes formas: (i) desde logo reproduzindo a mesma intenção evocadora

do lugar feliz-eutópico veiculada pela tradição imagético- literária clássica, porém

redefinindo-o segundo os traços sagrados da imagem do paraíso bíblico, i.e do Éden; (ii)

depois, conferindo à representação literária desse lugar ideal uma real, embora

indeterminada, localização na ordem geográfica terrestre, lugar feito objecto de uma


descrição material que realça a sua humana inacessibilidade e que magnetiza a sua

demanda - imaginária ou real - pelo espírito e pela vontade do homem medieval e pósmedieval
europeu (e.g. Mandeville's Travels; mas também a motivação forte da

primeira viagem de Colombo às Índias ocidentais); (iii) finalmente, elevando esse

(não)- lugar-(ideal) à condição de símbolo para significar espiritualmente o termo final

de místicas peregrinações ou alquímicas transformações da alma. Quanto à modalidade

cosmopolita, o espírito da utopia judeo-cristianizado, digamos assim, para além da sua

dimensão puramente simbólica (o termo complementar do paraíso simbólico), justapõe

ao projecto racionalista clássico de organização imanente da polis ideal, a esperança

final e profetizada de uma intervenção transcendente (a descida da Jerusalém Celeste),

visando a cosmopolitização do mundo inteiro (e.g. os projectos teocráticosconstitucionais relacionados


com a ideia de quinto império). Neste último caso poderse-á falar, adento desta matriz e como que
dinamizando o paradigma utópicocosmopolita, da constituição do paradigma utópico-profético-
cosmopolita ou utópico-IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE
LITERATURA COMPARADA 13

milenarista. Deste modo, os principais e cruciais vectores da matriz judaica-cristã da

cultura ocidental marcados pelo espírito da utopia são dois, a recapitular: um primeiro

vector relativo tanto à evocação literária do lugar perfeito criado por Deus na terra como

à narração da demanda do paraíso bíblico e dos seus avatares literários, traduções e

ramificações de relatos de viagem a continentes desconhecidos (e.g. Mandeville's

Travels), a ilhas misteriosas (e.g A Viagem de S. Brandão), a reinos míticos (reino do

Prestes João), tudo sítios identificados como o lugar melhor outro, de sublimação

espiritual ou de habitação material; um segundo vector relativo à profecia do milénio,

com a sua inerente promessa-esperança de um final feliz, divinamente redimido ou

materialmente concluído, para a história humana, final este inaugurado pelo empenho

triunfante de uma entidade messiânica: (i) de um herói divinamente inspirado (a cabeça

do quinto império); (ii) de um conjunto carismático de indivíduos (a vanguarda dos


santos); (iii) de uma classe social providencial (e.g. o proletariado de Marx); (iv) de

uma nação eleita. Assim, o vector profético do espírito da utopia - de origem

predominantemente semita -, associado que está à valorização benigna da ideia de

futuro, foi, não só claramente constituinte da noção laica e moderna de progresso, como

se afirmou, com impressionante intensidade até aos dias de hoje, quer (I) como operador

de esperança de várias circunstâncias históricas, quer (II) como operador hermenêutico

de vários domínios do conhecimento, a relembrar: (I) (i) no consolo psicológico e

espiritual às misérias e carências do presente histórico (e.g. a apocalíptica judaica e o

milenarismo cristão); (I) (ii) na justificação ou afirmação de uma identidade nacional

magnificada pelo seu papel providencial (e.g a nação messiânica - o Portugal da

Apologia das Coisas Profetizadas de Vieira; a Commonwealth inglesa no Areopagitica

de Milton); (I) (iii) no incitamento ao exercício quer de uma acção guerreira heróica e

colectivamente mobilizadora, quer de uma acção política e radicalmente transformadora

(e.g. os programas teocráticos dos colonizadores puritanos da América do Norte, os

programas laicos dos socialismos utópico e 'científico'); (II) (i) na determinação das leis

gerais da evolução da história que apontam para a consumação apoteótica do processo

cósmico (e.g. Joachim de Fiore e a sua teoria teológica dos três estados; Teilhard de

Chardin e a sua teoria paleontológica e biológica em direcção ao ponto ómega); (II) (ii)

na revelação da natureza e na evolução do conhecimento científico (e.g., a New Atlantis

de Francis Bacon; (II) (iii) na literatura épica-simbólica de teor messiânico (e.g. oIV CONGRESSO
INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 14

poema Jerusalem, the Emanation of the Giant Albion; de William Blake, o poema

Mensagem de Fernando Pessoa).

A terceira conclusão que desejamos salientar é que da autonomia, sobreposição, cruzamento

e intersecção destes paradigmas do utopismo - o utópico-cosmopolita (estável, de feição

clássica), o utópico-milenarista (dinâmico, de feição profética) e o eutópico-pastoral (este


último na sua versão mítico-religiosa, ou na sua versão místico-secular) - matizados, quer

pela fonte clássica helénica- latina, quer pela judaico-cristã, ou pelas duas em conjunto,

derivam discretas variedades discursivo-literárias, representativas de uma condição

existencial ideal, e que se distribuem fundamentalmente entre duas motivações ou registos

temáticos maiores: um primeiro de incidência política-sociológica (as condições de vida

colectiva são aqui tidas como determinantes na orientação da conduta pessoal), e um

segundo de pendor axiológico-espiritual (as condições de vida social são supervenientes em

relação ao caminho de perfectibilidade do ser individual). No primeiro caso identificamos

claramente, além de projectos ou programas políticos de transformação social o género

literário da utopia tout court., este último com a sua dupla face de Janus, com a sua

dialéctica temática-discursiva de crítica a valores ideológicos que se querem negar e de

enunciação de valores utópicos que se querem afirmar. Falaríamos aqui, respectivamente, da

constituição do paradigma utópico-sociológico-programático e utópico-narrativo- literário.

No segundo caso, configura-se, seja de forma eminentemente espiritual ʹ perspectiva

doutrinal-religiosa ʹ, seja de forma essencialmente ontológica ʹ perspectiva místicaexistencial -, o que


designámos genericamente, e tomando de empréstimo a própria distinção

mencionada na Utopia de More, por eutopia ou género literário eutópico. Esta eutopia, que

genericamente representa uma condição ʹ original ou final ʹ ôntica perfeita e feliz, tocada

quer pela matriz clássica quer pela matriz judaica-cristã quer por ambas, ou manifestando-se

de modo simplesmente laica, pode então assumir uma tripla configuração discursiva: (i) seja

sob um registo evocativo de um locus amœnus imaginário onde reina a harmonia total,

representação nostálgica por uma condição de vida perfeita acabada; (ii) seja sob a forma

religiosa de uma condição espiritual readquirida ou, (iii) seja ainda sob a variante entópica -

para utilizarmos o termo do arquitecto Doxiadis, coincidente com o lugar material existente

- de um bom retiro pastoral, lugar de refúgio providenciado pela natureza para a prática da

perfectibilidade e da vivência da felicidade humanamente Neste último caso poder-se-ía


falar, adentro do espírito da utopia, da constituição do paradigma entópico-pastoralIV CONGRESSO
INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 15

Última conclusão. A reificação do espírito da utopia, desde a sua modalidade mais

humanamente espontânea - do "sonho acordado", na expressão de Ernst Bloch, - à sua

modalidade mais literária ou racionalmente pensada, é indissociável da dimensão

ontologicamente vital do tempo: do tempo passado (com a nostalgia do paraíso), do tempo

futuro (com a esperança no milénio ou na certeza fideísta ou científica de um fim apoteótico

da história), do tempo presente (com a proposta de um modelo de vida alternativo a um

infausto contexto histórico). Todavia, o tempo que mais convém à aporia da utopia (aqui

tomada no sentido do não-lugar, suporte imprescindível, como muito bem referiu o filósofo

italiano Agamben (84)

iv

de todos os lugares, é o tempo da aporia de que participamos, o

tempo de que também somos feitos e em que também estamos, o tempo que não é percebido

pela nossa consciência, o tempo do eu profundo, o que não cabe em categorias e é

irredutível à razão lógica, o tempo do eterno presente, simplesmente cronológico e eterno -

(falaríamos aqui, a propósito desta manifestação, a mais inefável e incompreensível do

espírito da utopia, da sua qualidade utópica acrónica) -; ou, nas palavras de Ernst Bloch, (I-

287-316) a aporia do pulsar intemporal dentro do próprio fluxo do tempo, "o obscuro do

instante vivido" consubstancial ao nó górdio da existência; ou nas palavras e no estilo mais

socraticamente solto do "profeta" utopista Agostinho da Silva, a aporia do não tempo do

tempo, o instante cronológico e eterno depositário do "ideal dos ideais", o "de tudo fazer

presente, presente só" para assim regressarmos "à nossa natureza fundamental de ser sem

compreendermos, de existir tranquilamente sem sujeito nem objecto, de nos instalarmos

sossegados no presente" (68); ou seja, de aspirarmos a praticar o "ensejo gratuito da

aventura", segundo a lição contida no verso de Torga de que "viver é ser no tempo
intemporal" (1631).

Fazendo uso da tese de Roman Jakobson que declara que a actividade linguística-discursiva
desenvolves e predominantemente segundo duas linhas semânticas, a saber, ou mediante um processo
de selecção

entre unidades linguísticas semelhantes (processo paradigmático, de que deriva o modo discursivo

metafórico) ou de contiguidade/combinação entre as unidades linguísticas seleccionadas (processo

sintagmático, de que deriva o modo metonímico), Louis Marin considerou que as duas principais

operações semânticas presentes nos textos utópicos envolvem a "projecção metafórica" e a deslocação

metonímica". Segundo ele, "o poder crítico da utopia deriva, por um lado da projecção (metafórica) da

realidade existente para um "algures" que não pode estar situado no tempo histórico ou no espaço

geográfico; e, por outro, da deslocação (metonímica), isto é, de uma acentuada variação no interior da

realidade que exprime. (Marin; 71)

ii

Convém esclarecer que para Mannheim a determinação do conceito de utopia legitima-se e valida-se

somente na medida em que ele traduza efeitos performativos: no seu entender, o emprego do termo
utopia

é apropriado para caracterizar uma função política, mas não para definir uma forma de expressão
estéticoliterária.

ii

Convém esclarecer que para Mannheim a determinação do conceito de utopia legitima -se e IV
CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 16

valida-se somente na medida em que ele traduza efeitos performativos: no seu entender, o emprego do

termo utopia é apropriado para caracterizar uma função política, mas não para definir uma forma de

expressão estético-literária.
iii

Utilizamos o termo eutopia para designar, de acordo com a terminologia proposta pelo próprio Thomas

More, o lugar feliz

iv

Escreve Agamben: "o ter lugar das coisas não tem lugar no mundo. A utopia é a própria topicidade das

coisas."

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