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Cartas e
Retornos

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Copyright ©2021 Sammis Reachers

ISBN:  978-65-00-17828-9
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SUMÁRIO

Apresentação ........................................................................................... 08
Carta à Árvore ......................................................................................... 10
Carta ao Amigo ....................................................................................... 11
Carta à Biblioteca ................................................................................... 12
Carta à Bíblia ........................................................................................... 14
Carta aos Cães ......................................................................................... 16
Carta ao Café ........................................................................................... 17
Carta aos Carteiros ................................................................................ 19
Carta à Chuva ......................................................................................... 21
Carta à Cidade......................................................................................... 23
Carta à Cidade Engrandecida ............................................................ 24
Carta ao Cristo ........................................................................................ 26
Carta aos Estudantes ............................................................................. 27
Carta aos Fariseus .................................................................................. 28
Carta ao Farol .......................................................................................... 29
Carta aos Fliperamas ............................................................................. 31
Carta aos Gambás .................................................................................. 33
Carta aos Gatos ....................................................................................... 34
Carta à Guerra ........................................................................................ 36
Carta aos Idosos ...................................................................................... 38
Carta ao Infante ...................................................................................... 39
Carta à Linguagem ................................................................................ 40
Carta à Literatura ................................................................................... 41
Carta ao Livro .......................................................................................... 43
5
Carta ao Livro de Bolso ........................................................................ 44
Carta à Lusofonia ................................................................................... 45
Carta à Mata Atlântica ......................................................................... 47
Carta ao menininho langue da belonave Desespero .................. 48
Carta aos Missionários ......................................................................... 49
Carta aos Nautas..................................................................................... 51
Carta aos Ônibus .................................................................................... 52
Carta ao Pão ............................................................................................. 53
Carta aos Pedagogos.............................................................................. 54
Carta ao Perdão ...................................................................................... 55
Carta à Poesia .......................................................................................... 56
Carta aos Poetas ...................................................................................... 57
Carta aos Políticos .................................................................................. 58
Carta a este Portador............................................................................. 59
Carta à Praça ........................................................................................... 60
Carta aos Príncipes ................................................................................ 62
Carta à Rosa ............................................................................................. 64
Carta ao Sonho........................................................................................ 65
Carta aos Solitários ................................................................................ 67
Carta aos Suicidas .................................................................................. 68
Carta à Terra............................................................................................ 72
Carta ao Vento ........................................................................................ 73
Segunda Carta ao Vento ...................................................................... 74
Carta aos Antologistas .......................................................................... 76
Retorno à Alameda São Boaventura, 1071 .................................... 79
Retorno ao Morro do Areal ................................................................. 80
Retorno à Pedreira do Anaia............................................................... 82
Retorno a Porto das Caixas ................................................................. 84
6
Retorno ao Potenkin .............................................................................. 85
Retorno à praia de Itaipu ou ao monte Meru ............................... 86
Retorno ao Primeiro Livro ................................................................... 88
Retorno proseado à latrina da História ........................................... 90
Retorno ao Rio Alcântara..................................................................... 91
Retorno à sala de uma UPA em 2010.............................................. 93
Do Outro Lado Do Teu Medo Há Um Palácio .............................. 94
Soçobro ou a Circular (in)Finitude .................................................. 96
Propiciação à Topofilia......................................................................... 97
Tríptico Paulino ...................................................................................... 98
UNÍVOCOS............................................................................................... 99
Feérica ...................................................................................................... 100
Assentados no lugar santíssimo....................................................... 101
A Ilha de Deleuze ................................................................................. 102
Dutum Drama ....................................................................................... 104
A inocência do primeiro verso ........................................................ 105
A Siesta..................................................................................................... 106
Haiku ........................................................................................................ 107
Noturno em São Gonçalo .................................................................. 108
Introejetados .......................................................................................... 109
Sobre o Autor ......................................................................................... 110

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Apresentação
O seminal poeta curitibano Paulo Leminski é autor,
dentre outros, do livro Distraídos Venceremos. Tal título ou
expressão singular me veio à memória ao refletir sobre o
volume que o leitor agora tem em mãos: Foi sem perceber
ou dar-me conta, assim, distraidamente, que cheguei a este
meu décimo livro de poesias. A surpresa deve-se ao fato de
que sempre consegui maior prazer atuando como
antologista e editor do trabalho alheio do que focalizando
minha produção autoral, que correu como que por fora,
nesses pouco mais de vinte anos de atividade literária.
Neste Cartas e Retornos, o leitor perceberá que busquei
construir fundamentalmente um livro de adjetivações,
frutos – ou sementes? – de uma poesia onírico-descritiva,
arte/artesanato sequencial de definições poéticas sobre
temas ou objetos variados, os “destinatários” aos quais as
cartas fazem referência.
Nessa busca de comunicar a magnificação de cada
destinatário, não apenas imagens, mas, fazendo jus à
licença que pesa sobre os poetas, palavras precisaram ser
criadas, seja em neologismo, seja numa das muitas outras
formas de parto de palavras que nossa língua conhece e
experimenta. Um experimentalismo não de sabor insosso
como por vezes vemos sendo praticado, mas, sim, uma
8
prazerosa peregrinação em busca do surpreendente –
amparada em palavras e expressões que o suportem.
Desde muito jovem tomei para mim uma assertiva do
filósofo brasileiro Vilém Flusser: “A poesia aumenta o
campo do pensável”. Deste esforço de expandir
percepções, de aumentar as formas de bombear de um
coração com o sangue dos signos, jamais pude me libertar,
malgrado minhas humildes possibilidades criativas.
Às mais de cinquenta Cartas, diversas, como dito, em
tema ou objeto, seguem-se alguns Retornos: Poemas de
maior hermetismo, onde o jogo de luzes e sombras
(chiaroscuro) ganha maiores ares. O livro se conclui com
poemas outros, de variada temática e envergadura.
Que este humilde livro possa, com sua carga onírica e
algo perturbadora, balançar alegremente suas percepções
e empurrá-las, assim, como quem não quer nada, para a
expansão.

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Carta à Árvore

Torre transterna,
Transuterina
Verde malha de açambarcar
Estaca que a vida finca
Patamarizado playground,
Estação clorofila
Biopilar da paz

Terramáter véu
Usina alquímica
A nutrir o sistema-Terra

Obrigado eternamente obrigado


Por alimentar-nos
De proteção e pão
Por verdecer para que não
Ressecássemos
Nós vorazes algozes agradecemos
Por nos servir
De berço,
Púlpito
E esquife

Perdoa-nos a nós os desgalhados entes


Nós a raça kamikaze de sem plumas
E sem clorofila
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Carta ao Amigo

Câmara de ar
Meu terceiro braço
Anulação do espaço-tempo
Moedor de distâncias
Meu fiel devoto e
Santo maior de minha devoção
Ilha dos sãos prazeres
Âncora que desanca
Minha (in)sanidade
Cofre que se move
E arrota e gargalha
Conluio conclave conduto
Do que alcanço de sociabilidade

Meu amigo, minha habilidade

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Carta à Biblioteca

Hangar
Antropopeia

Sala de se estar
Lar dos abraços perenais
Casa de Deus quando de passagem

Sapiarquia
Vestido de vestígios
De Adão a este dia

Estratificada usina de desestratificar


O oceano das coisas

Baralho de cismas
Tarô triliardário
Cartório de máscaras
Mausoléu-berçário e
Fabulário e cais de tudo

“Dispensa das almas”,


Ordenha das almas
Casa de máquinas da alma

Avesso da caverna platônica,


Lócus de resistência:
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(Toda biblioteca é uma)
Trincheira

Abraçai toda a esperança


Vós que entrais

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Carta à Bíblia

Atlas ígneo
Sendero luminoso
Mapa do parakletos
Verdade desembainhada
Cortante pungente irmanante
Rasgo na cortina do templo

Talho no papiro do tempo


Ancoradouro civilizacional
Teotapeçaria
Adaga vara-caos
Final de todos os caminhos,
Farol, sinal, ultimato
Candelabro aceso pelo Sangue

Tomo central do ocidental


Cânon literário, hiero-herbário
Onde a vida pulsa

Legislação de tudo
Desfibrilador do mundo
Educandário
& escadaréu

Orquestra de virtuoses de pó
14
66 partituras em mãos
dum Espírito regente
régio & magistral

Cantil
De néctar
Ou benzetacil

Hebreia epopeia & farmacopeia


Estação fidelidade, livro de habitar

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Carta aos Cães

Um cão
Foi a melhor forma que as bem-aventuranças
Encontraram
Para compactar-se

Um cão é um felpudo festejo


Ente antitético de nossa derme morbidamente
despe(ta)lada
Primavera-de-chão contra nosso coração
E seu intermitente fúnebre cortejo

Amizade peluda e nua,


Crua e cristalina
Morfina legalizada,
Amorável em qualquer esquina
Do que é Brasil e quase o mundo

Um cão por ser assim tão melhor que nós


Desavergonhadamente
É uma forma besta e quadrúpede de sermos humilhados
E estarmos felizes por isso.

O homem ainda não sabemos o que é.


Um cão é uma esperança.

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Carta ao Café

Café aroma de lar


Ritual, despedida de quem vai,
Abraço a quem retorna
Coffea arábica, Coffea canephora,
Coffea liberica, Coffea dewevrei
E as raças secretas de café

Cremes, bolos, infusões


Drinks, balas, canapés
Reversa marihuana
De santos, céticos e sahibs

Aqueduto tônico odoropulsante


Odoropulsar:
Café cuspidor de estrelas,
Regurgitador de luzes
Festim fenomenológico
Reserva moral da literatura

Sol do leite, do creme, do rum


Sol para tantas pressurosas luas
Centro da galáxia

Inimigo do deus do sono Oneiros,


Adversário do deus de gelo Ymir
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Multilíngue deus de ébano & trópico
Licor laboral
Elixir de trevas luminosas
Rubro fruto de a noroeste
Do Eufrates e do Tigre
Último pomo a escapar do Paraíso
Antes de seu traslado
De volta ao seio de Deus

Orfeu negro, liquefeita


Cítara
Poema em estado tênsil
Combustível dos Napoleões
Comburente dos Quixotes

Aumente a pressão sanguínea


De nossas ideias,
Aqueça nossa tumultuosa
Solidão campestre ou citadina

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Carta aos Carteiros

Andarilho andaluz andamigo


Ponte móbil entre os entes
Constância assalariada constritora
Das distâncias
Arauto-mor da colmeia
Teu dia esse mapa de linhas a tracejar
Cartografias (senti)mentais

Mensageiro de afetos e dispensas,


Do deus cifrão e seu tridente-código-de-barras
Que exige ser pago

Carteiro amigo tão tanto do poeta


Obrigado

Há poesia em teu enfado, uma


Sombra lírica em teu suor que cai, proletário
Que viaja contido
Via aérea par avion ou por graça
De tuas canelas

De Beirute a Teerã, de Bangcoc a Beijin


Da Vilcabamba de Tupac Amaru
À Babilônia de Nabopalasar
De Santa Rita do Passa Quatro – SP a Cantagalo – RJ
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Obrigado por vir
Amigo que não se tarda, que passa e avança
Invisível em sua camisa amarelo berrante
Emissário premente, arauto de uma certeza:
A eletrônica não matou a esferográfica.

20
Carta à Chuva

Coração do ciclo
escada de Jacó
sagrado elo dos elos da atmosfera

maré vertical
megaérea foz

vivificadora dos que vivem


lânguida metralha

terapia de tudo
imperatriz perfuratriz
perfuumidificadora

poliárquica beijoqueira
reordenadora dos relevos
facilitadora dos aconchegos

debeladora das chamas da morte

apressadora dos desavisados


festim dos pueris, dos pu(e)rificados
de idade ou espírito

cascata multitudinária
catarse líquida
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não aparte de nós
sua presença transitiva
nem sobeje
sobre nossas ruas impermeabilizadas

22
Carta à Cidade

Cocanha e Temiscira,
Cidade do Sol e Civitas Dei,
Shangri-lá e El Dorado:
Utopia de todo dia
Cidade adiada que não haverá
Nas pavimentações e hierarquias do possível

Cidades não costumam entregar seu coração


E ele germina & decanta
Encapsulado e móbil, seu magro maior segredo
Solto pelas ruas como bêbado
Ou moleque ou um qualquer vadio

Defesa contra o horror da barbárie


Cidade, horror domesticado
Casa grande & senzala d’almas
Lavoura de gentes
Perfeito espaço pendular
Magna matriz do que é lugar e é não-lugar
Cidade, eterno outono humano.

23
Carta à Cidade Engrandecida

triturandário
labirintopia

indústria encapatória
Saloon dos Emancipados
grande cabeça-de-ponte-para-trás, retorno ao útero
caixa rotatória

jogo do fasto e do nefasto


skyline das mais altas
empáfias
veneno de rato pra finalizar os pequenos
marsupiais
chamados de empatia

ultraurbe
gestante duma gravidez de risco
cujo parto nunca acontece
mas todo dia quase

o dia todo um susto


saciado a pão e circo e cocaína

(r)efervescência, prostituição
do espaço em esmerada arquitetura

24
prostituição dos últimos,
teus pilares:
quebra sistêmica da cadeia fraternal
ilha fiscal
solidão arquitetada
fogo frio
heterotumba de LED
dos mortos-vivos
despátria púnica

25
Carta ao Cristo

Conquistador em andrajos
Pétala de Sangue
Amor embaraçoso
Azorrague de Deus e retardador do azorrague de Deus
Farta gordura de cordeiro
Que faz enfartar o inferno
Coágulo, pedra de tropeço, entupimento
Inter rupção do fluxo do coração
Da Morte

Equalizador
Logosfera
Deus que baixo habita

Companheiro de más companhias


Nota promissória contra o fracasso
Da História

Patada de trivela no peito de Satanás


Magra mão atravessada de quem nada escapa
Cosmokrator, fonte a jorrar, menor dos homens
Cordeiro que guarda o pastor, leão que costura os
dilacerados

Senhor dos Senhores – reverta nossa dispersão,


Para de reencontro a ti
26
Carta aos Estudantes

Você que da borda do ninho mira


O horizonte azul e baço
E testa as asas
Você a quem alimentamos
Com a esperança que retiramos
De nossos ossos

Não tenha medo do que lhe espera na curva futura mas


Principalmente
Não tenha medo do que esperamos de você,
Por favor não tenha medo do que esperamos;
É natural de nós, ver seu voo como prolongamento
Do nosso voo, de irmãos e pais, sociedade e espécie.
Não tenha rancor.
Utilize nossos conselhos como quem usa ferramentas
Para a construção de uma casa, a sua.
Ferramentas: Elas apenas lhe permitem poupar trabalho,
melhorá-lo.
Ao fim nada importam as ferramentas, importa a casa
Pois é nela que você habitará. Que seja a melhor.
Esta casa, teu futuro, é o que esperamos que seja: ampla e
boa
Pois feliz, pois habitada de realizações.

27
Carta aos Fariseus

aquele que bem mata a palavra


é soldado a mando de quem?
seu soldo, concretudes sem
batismo, qual seu sabor
no palato, qual seu peso
na sacola?

vós néscios sob quem


a frágil ponte fraqueja,
vós os assassinos de profetas poetas,
quem vos pariu assim, suicidas?

28
Carta ao Farol

Sol da boa noite


Esperança terrajeira
Palácio liberto dessas libertinagens
Que são as realezas

Totem de turmalina
E óleo de baleia
Para a mater solidão

Ímã ao homem de exceção,


Perdição da sereia
Torre pontifex

Tubo alquímico, construto


De magia branca minimalista
Única habitação humana
Que comporta (com conforto
Para sua densidade d’asas)
Um poeta

Silenciário
Notário da oceanografia
Lança de condão e luminotecnia
Oceânico elucidário
Norteador noturno,
29
Soturno mosteiro
Dum-só-monge

Hiperlugar, canhão
De topofilia
Lua sem minguantes
E sem volteios

Mirante oceamar
Caracol teso sobre as vagas
Imóbil máquina de alar

Estaca-mar
Ou mor,
Poema de habitar.

30
Carta aos Fliperamas

Uma Monark contrapedal regulamentar


embotada embora bruta, era o veículo
vermelha como a alma dos homens

Apertar fichas todo dia


era a celebração do marasmo e seu escape
regulamentar

Fliperama
Coliseu dos contritos
inclusão dos foracluídos
(sub)urbano campo de fluição

A assunção de um norte,
uma herojornada
um vício

Forma oitentista, noventista


de placebo
cada ficha, uma cápsula de epicidade
a 50 centavos
e por 20 ou 30 minutos
um motivo simples
para viver

31
Conquistadores da Barbária
pistoleiros, lutadores de rua
pilotos em fuga, cavaleiros estelares

Capcom / Nanco / Psykio


Square / Sega / Sammy
SNK / Midway / Konami

Seu Altino / Galego / Djalma


Arsenal / Niterói Shopping / Rua São João
Moacir / Dona Zeza / Rua do Dalila ou naquele sito
na esquina principal dos unívocos caminhos que
importavam
aos molecotes dos doze aos dezoito, dos trinta ao sempre

“Não quero que você entre ali”,


a mãe dizia
como se estivesse dentro
do largo poder das mães
silenciar a atávica fome
de espada
que em cada menino
(e meninomem e meninancião)
dias solfeja
dias vocifera

32
Carta aos Gambás

Testemunha pacífica
de nossa culpa, nossa
máxima culpa

inimigo de nossos inimigos


inocência arquetípica
benfeitor a quem apunhalamos

herói ecossistêmico
gato barulhento demais para ser um gato,
perambulânguido escalador
noctívago mestiço de morcego e rato
a quem o populacho ora devora
ora detesta

guerrilheiro marsupial,
resistente que sobrevive
nas franjas do antropoterror

33
Carta aos Gatos

Máquina mesmero
elegância subterfugidia

Esfinge portátil, minguante lua móbil


agregado afoito arredio & malandreado

Príncipe mendigo
pacificador tátil
terapeuta de feltro

Ronronan, o Conquistador
licenciosidade poética
galáxia furtiva

Dubiamorosidade malemolente
cachorro-de-elfo,
cavalo-de-duende
e do próprio destino

Sonar de sofá, insuspeito espia


da selva atávica que não dorme
e se entredevora
fincado nos antropocentros
e sua infinitesimal periferia

34
Falso simbionte
da cruel bipolaridade sapien
ah!, ágil dorminhoco, quem dera
o Deus que alto habita
nos ferisse a placitude
com todo esse seu desplante

35
Carta à Guerra

Há mais de nós
Satanás tem um plano
E há sempre mais de nós
Para compor
A natureza morta da morte,
A derradeira aquarela
De sua tela estática em vertigo

Ápice da Queda
Ponto de partida da Inadequação
Posto de controle do Caos
Humana estação final

Deixai toda a esperança


Vós que a experimentais

Vinho de veias,
Manjar de vísceras ex
Postas pela metralha

Ouço seus flautistas


Em Maratona e Cajamarca,
No Somme e no Kursk
No olor das tulipas de gelo
De Stalingrado
36
Floresta proibida
Descarnada
Onde os menininhos vão,
Uma vez para sempre,
A acampar.

37
Carta aos Idosos

O dia é um processo doloroso


E uma dádiva

Langor, cansaço e memória


Sucedem-se na mesa de cartas

Este chá esta sopa


Este sopé de monte
Donde olhas a vida
Ossos sobremodo rúpteis
Alma sobre todas as coisas firme
Coa lembranças durante o longo rumorejar
Das esperas
Sorvendo os dias em goles pacíficos
Do nauta que vê o derradeiro porto
Crescer no horizonte

Biblioteca de abraçar
Perdoe nosso descaso,
Eixo da aldeia
Releve nosso desleixo
Rocha memorial, sol encanecido
Acumulado de efeitos
De toda a humana causa

38
Carta ao Infante

Criança, corolário das elucubrações de Deus


Reesperança
Morfema dos quais é feito o Reino dos Céus
Metalinguagem do ser
Lobotomia no niilismo dos dias
Tesouro da tribo
Núcleo dos núcleos de humanitude

Criança, Avenida Alvorada


Laguna tensa dos ritos peraltas
Acumulário do amor e seu riso e sua lágrima
Anátema, anima, aríete
De luz contra os muros

Criança, primavera da raça


Escudo e adaga e holocausto
Dardo comprimido
Alunauta de tudo
Álbum de cicatrizes
Teu é o Reino dos Céus
E a Terra e sua inquietude

39
Carta à Linguagem

40
Carta à Literatura

Torneira quebrada
no oceano dentro

canivete de Dâmocles
que areja enquanto paira
por sobre suas vítimas
e vingadores

soco civilizatório
bêbada que urina num prostíbulo
como quem forja uma flor

estatuária de ar
corrente de aço entre os homens
alicerce de bolso, jogo de amarelinha
quiche de pus croissant de sangue
feijoada de muitas dores mudas derramadas

egografia, fútil périplo,


orgasmo múltiplo
alucinada pero pálida
imitação da realidade,
deusa assunta e terror
donde se foge

41
nudez ensaiada
sanatório sideral dos tuberculosos
de Qorpo e d’alma
falsa apólice, nota proemissária
invencível armada:

todo seu caminho é um descaminho

42
Carta ao Livro

Esquizofrenia aristotélica
Logofrenia
Logofrenesi
Elucidário
Ossário papelopatético
Farelo prensado de madeira morta
Farelo de homens
Torre-árvore de Babel
Carruagem de sophia
Barc’asa de Caronte
Jangada fraterna
Pégaso de papel e tempo

Livro: Cenotáfio
spiritual memorabilia
Cismário portátil
Totem que farfalha
Cabala & quebra das cabalas
Transitividade indireta
Joaninha frágil da esperança
Coração da colmeia antrópica
Self-service canibalista
Salvo-conduto pelo quinto dos infernos
Forja à frio de esculpir amigos
43
Carta ao Livro de Bolso

Adolescido tomo
lanterna dos afogados
paraninfo da literatura
rancho da tropa, democrática
classe econômica
talismã, lítero muiraquitã iniciático

sustentáculo dos sebos, colecionário


de ceitils, centavos e xelins

ingresso de matinê
na nau de Stevenson, na floresta
de London
na faiscante Paris espachim e amante
dos Dumas

condensário das imensidões


de Moby Dick ao pai Quixote

dramas d’antanho em prosa e papel jornal


poemas seletos lidos com lenta pressa
enquanto sacoleja o bonde ou o busão

lâmpada de celulose que exulta


na cama de solteiro do quartinho dos fundos
tanto te devemos, fiador dos desamparados
bengala dos moços, livro de bolso
44
Carta à Lusofonia (e à Língua Portuguesa)

Nau Saudade
Sóror Encantamento
por mares nunca dantes navegados,
nos conquistastes: eis-nos,
varões e varoas assinalados,
vassalos teus, por ti soprados
ó bruma diaspórica e multitudinária

Lubrica nau, rubra e rotunda,


fremente e hiper étnica,
alonjada dos de sangue frio e caucasio-torpe
desnuda das frescuras de francos e teutões
de ingleses e mais vis quetais

Honramos teu
código circunvalioso
barroco, rococó, léxico de alumbrar
renitente emissária da cruz
derradeira vindima do Latim, flor
última do Lácio, inculta a despudorada
transcontinental oráculo camoniano,
sibila de um panteão de párias,
silabário da paixão, pacto
firmado sob o sangue dos morfemas

45
berçário de crioulos e pidgins*

marinhagem, malandragem, madrigal


prosódia de abraçar

ônibus, autocarro, machimbombo, toca-toca, otocarro,


microlete**
veículo de 250 milhões de almas, sob cujo conjunto
jamais o sol se põe

* Crioulo é uma língua natural que se distingue das restantes


devido a três características: o seu processo de formação, a sua
relação com uma língua de prestígio e algumas particularidades
gramaticais. Uma língua crioula deriva sempre de um pidgin, que
por sua vez não é uma língua natural, mas apenas um sistema
de comunicação rudimentar, alinhavado por pessoas que falam
línguas diferentes e que precisam se comunicar.
**Designação dos ônibus respectivamente em Brasil, Portugal,
Angola/Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau/São Tomé e
Príncipe, e Timor Leste.
46
Carta à Mata Atlântica

Princesa Desmazelo
Iracema violada

tua theoflora
e hierofauna
tisnadas pela
urbanidade

continente submerso pelo maremoto antrópico,


retalho
de verdes ilhotas e abrolhos
semeada entre favelas e torres de concreto
profetizando contra o homem
e sua condição
inclua-nos os pelo teu sangue enricados
no meio de tua cadeia trófica,
devora-nos
nas patas das onças, no mastigar
das jaguatiricas
a nós que com requintes
há cinco séculos
a devoramos

47
Carta ao menininho langue da belonave Desespero

Melancolia
Não tenho palavras para você, para mim
Não sei por onde relatar
Espasmo físsil
Na coluna da rua,
O menino maluco filho de Lia
Que tem ataques de fúria e um dia
A trocará por livros, assim de repente
Que o mundo é de repente

Refém capital do estranhamento


Emaranhado de incertezas e ainda umoutra fúria
Gulliver da beira do rio Alcântara
Afogado pelo ar dos sistemas
Ferro oxidado, aço falho
Arroio triste
Transbordado por graça de Deus

A aventura se cria nos estalar de dedos,


Não espere ocasião que a ocasião é você
Mas certos punhais nunca terminam de atravessar
Você descobrirá
E, vendido, lhes fará poemas

48
Carta aos Missionários

Você a esperança
Em pés de barro
Você ave de barro
Você asa de barro
Você construto de barro
Como nós, e de quem
Esperamos tanto
Perdoa-nos

Heroicizamos sua vida e cegos achamos


Que o carbono de sua carne
É na verdade aço
Mas você chora e sangra como cada um de nós
Só que com mais frequência
E estamos longe, longe demais e
Alheios demais
Para chorar contigo
Perdoa-nos

A cada carta que se arrebenta


Contra nossa indiferença, e-mails
Não abertos, o abraço que lhe negamos;
Nossa avareza, deusa lar de que não nos livramos,

49
Que nos impede de irmos, segurarmos a corda,
intercedermos,
Sequer lembrarmo-nos de que um dia um de nós foi
enviado:
Perdoa-nos; ore por nós, ó irmão de mais lágrimas,
Deite-as por nós, os miseráveis do Reino, braço mirrado
De Cristo: pois sequer sabemos de quantas curas
carecemos.
E corações ardentes, que de milagres temos fome, de
milagres
Tem fome o mundo que nos espera e morre
Enquanto em paz nos deitamos e levantamos, em o nome
do Senhor.

Que o Senhor nos perdoe através de teu perdão, meu


irmão.

50
Carta aos Nautas

Degustador dos abismos


Violador de trancas
Prole perdida do Mar Oceano
Ávida por sua herança

Circunvassalos das marés


Singradores, sangradores, sangrias

Odisseus e Colombos,
Ícaros d’água e d’estempero

Horda diaspórica
De mamíferos rastreadores de estrelas
Que buscam um norte
Para dele perder-se

Coitados? Audazes? Intercisos


Os abismados da condição humana
Defenestrados da aldeia que
Fogem da dor do mundo levando
Toda a dor do mundo consigo

E um sorriso
Que navegar é preciso

51
Carta aos Ônibus

Lenta espaçonave
Pesca de arrasto
Traineira mil portos
Mil pontos

Espelho d’alma da cidade


Geringonça de chacoalhar psiquês
Divã que traga e escarra pneumas

Tarifado suor quente e frio


Incansável provedor de paisagens
Ponte equalizadora de classes e cores

Mal humorado deus modal


Abelha de lata, zangão
De vidro temperado

Salvação, ligadura,
Agulha cega que entretece os Brasis
Sucateado, castrado anjo diesel
ESPERAI POR NÓS

52
Carta ao Pão

Alimento elemental
desejado das gentes
dínamo das multidões
elo da civilização

casa de comer
pacto da vida
pomo trágico
fruta de sal
incenso odorofágico
bastão de vivificar
ciência arcana
sol tostado que na mesa brilha
lua de farinha das sarjetas
granada/lâmpada de trigo
franco universal receptáculo

moeda da mobilidade
congregador empático,
humana prova dos nove:
em sua repartição
está a vida e a morte
a vala entre os que no Juízo
herdarão paz, dos que herdarão
famélico desespero
53
Carta aos Pedagogos

A você, doador de sangue.


Que acredita nos pequenos inícios.
E se esmera nos processos, e vê ao longe
E no agora a colheita.
E vê perenidade na intermitência.

Você, alma grávida:


Beija-flor levando água
Para apagar o incêndio
Que na floresta dos homens grassa;
Salmão contra a corredeira,
Remando movido duma pulsão
Maior que seu pequeno corpo, urdida chama,
Flama & frêmito da expansão que o Conhecimento
- Este agridoce tutor - exige daqueles
Que o portam não na tumba cerebral,
Mas na cardíaca fornalha.

Guardião do Palácio de Tudo,


Cidadão matricial, apaziguador das gerações:
Nós te celebramos.

54
Carta ao Perdão

Ideia parturiente
primavera para sempre
presente raro

Cristoterapia
panaceia dos mundos
flecha de ressuscitar

Arte de partir gaiolas


testada contra as muralhas

Riso mudo
inconsútil abraço concentrado
gesto canoro, alado, pacificanário
constritor da morte
construtor da vida

Paralelepípedo de luz
atiçado contra a cabeça da serpente

Perdão, flor-fortuna
que enriquece e perfuma
a quem o despende

55
Carta à Poesia

A Poesia é o opiáceo da Língua.

Mirante e porão – e lugar central


Escada sem degraus, cômodo
Sem paredes

A poesia é um esfoliante natural


Para os corações empedernidos

Ela, a Poesia
Dá notícia
Da ludicidade do Divino.

Seu rebento, o poema


É memória e resiliência
De uma arte totêmica:
Versejar é maquinar ignições.

56
Carta aos Poetas

Voe.

Gramática abaixo
Na parte mais do chão
Da ferradura dos cavalos prensado

A excretar seu azeite


Tênue e narcótico

Embriague as almas, portador da viuvez:


Con-vença o homem de pedra
A comprar seu vinho falso

Exponha a porcelana da casa


Vamos Maria Madalena Filho
Pródigo arremedo de Cristo, seu
Dedo mindinho de tudo
Vamos seu vil vórtice de humanidades, escreva!
Poeme-se!

Poetar é fundar países (e trair a Grécia pela Pérsia


E chorar e não arrepender-se e esfaquear-se)

Vamos, liberdade sem recursos, escreva:


Incendeie no oceano a sua nau.

57
Carta aos Políticos

Verboonose,
Vírus que nos discursos se propaga

Coletor de dados do aterro sanitário humano,


Dúplice baioneta BIC
Mais (des)precioso dos males-paridos
Ou bacia onde se lavam os porcos

Caterva, lavoura das boas intenções


Zelador que pastoreia alcateias

Humorista ríspido, animador de velórios


Gigolô das plebes, sangria no erário

Impassível manequim onde


A morte e o inferno experimentam
Todas as máscaras

58
Carta a este Portador

Eterno clandestino
em seu próprio navio

Executor da Ópera Estranheza


com seu mudo naipe de vozes & metais

Você a impossibilidade
de adequação
à pressão
para que se me adeque

Você perna de fugir quebrada


pedaço de grito
liberto & recapturado
na abóbada da noite

Você corvo tropical,


que daria um olho para ver
o que vê o bem-te-vi

Você, leitor de Poesia

59
Carta à Praça

Acontecedouro
Marco urbano, campo de insurgência
Do matagal

Lugar de apoio
De outros tantos tão lugares

Amortecedouro
Do fluxo antrópico
Canino, felino

Depositário de efígies
Historial da micro-história

Educandário da paz vadia


Grande taba destapada
Das aldeias de paralelepípedo e asfalto

Lugar-cratera em meio aos não-lugares

Civilizado maldito depósito humano

Toda urbe é um acidentado, um corpo maculado


De mil ranhuras, fraturas, lacerações
- Praça, esparadrapo estético
Encobrindo da urbe as cicatrizes -
60
Topofrenagem,
Ilha d’oceanos secos que não sangram

Área de praticagem
Do futebol com o ansiado ou inesperado filho
Do primeiro beijo do jogo de damas do primeiro
Trago num cachimbo de crack
E noutros tombos da liberdade

61
Carta aos Príncipes

Você, (e)levado sobre os homens


Você r/luminar sobre o píncaro
Centro de toda suspeição
Eia, aqui
Olhe para baixo
Onde sua luz baça não chega
A queda foi feita para você que elevou-se
O voo célere, a tepidez malevolente do fundo

Quanto aos príncipes,


Só pode haver um
E Ele não está aqui

Mamon o dinheiro
Por tudo responde
Quem se lhe opõe?
Dele emprestam favores e humores
Os príncipes

A multidão, insânia bovinizada, celebra os reis


Mas algo neles, em sua arqueologia ou DNA
Cicia em uivos, uivos que anseiam
Eclodir como um vírus:
“Morte aos reis,
Morte aos reis,
62
Morte aos reis”

O anarquista, forma final de a multidão


Reencontrar sua voz primal, profetiza:
“Aos reis seu tributo,
Aos reis seu tributo:
Morte, morte, morte aos reis.”

Tolstoi e Berdyaev e Ellul


Como se Enoque, Moisés e Elias, observam
A fila de príncipes d’ante a guilhotina
Tênue sombra da lâmina dita Eternidade

Todo príncipe humano é igualmente


Príncipe da rebelião humana
Sobre eles mira, Senhor
Sobre eles a visita primeira
Da Tua ira

63
Carta à Rosa

Sou um seu amante de 42 anos, curtido em fel


pela alacridade das palavras quando em multidão.
Por cavalheirismo e bom-senso
deixe-me então principiar com um dos meus
poemas primeiros, de antes dos vinte:

Só lembrei das rosas


só olhei de lembrar
Só restou uma rosa
só restou uma espada
só restou um homem
pra morrer

Definitiva das flores, definidora


flor de um homem lembrar antes de morrer
gema de veludo, signifivária
biometametáfora
coração exposto

64
Carta ao Sonho

cirrocumulus, stratocumulus, cumulonimbus


amplo baralho etéreo & alucinoterápico
de todos os naipes de nuvens

choupana das mil e uma portas


lasso palácio cabalista

dínamo reativo-criativo
válvula de escape
do que há de Deus em nós

fio desencapado
oráculo em fronhas
centrífuga de sombras
holofote furta-cor

Biga de Apolo,
Carruagem de Cinderela
Desembestado carroção de Oneiros
ladeira abaixo,
adentro
ao insituável centro
do picadeiro
para bailar la bamba
ou um tango ou fandango
65
enquanto o pesadelo (de linearidade?)
do dia
não se inicia

66
Carta aos Solitários

No silencioso campo, na
Urbe em balbúrdia
A solidão é a mesma
Para os homens que não couberam
Nas algemas
A quem um infeliz eufemismo
Chama de livres.

Infelicidade
Palavra irmã e quântica
Com sua presença/ausência
Fremente

Nós somos os homens e as mulheres mais antigos da Terra,


Nós o Adão, a caminhada
No magnífico Jardim que,
E este é nosso segredo e tugida cabala,
Sabemos que não cessou
E é só nosso, em todo lugar que o evoquemos.

Estejamos firmes. Somos o primeiro pomo de Gaia


E os seus últimos; somos os invisíveis,
A secreta esperança da multidão.

67
Carta aos Suicidas

Eu e você somos um.


Menina que queria ser homem, eu e você somos um
Nesta fome que nos mói, sede lenta que nos arrebenta,
Sonho de aniquilação, que não vemos donde vem
Mas que parece vir lá do dentro
Isso que não queremos mas que tudo em nós diz para
querermos

Nosso crime descoberto, nosso corpo vil, nossa perfeita,


matemática
Inadequação que a tudo se encaixa
Sim, não poderemos olhar nos olhos deles amanhã,
Pois sequer suportamos nosso vil olhar no espelho!
Eu e você somos um, olhar desesperado
Tudo que queremos é a morte, tesouro sem fim

Mas nosso tesouro foi pilhado, apresado por um


Que morreu como gostaríamos
Mas estranhamente escolheu voltar, pois ele podia
Dar-se ao luxo:
Voltou para que, como eu você somos um, fôssemos um
com ele
Voltou da morte para dizer que não precisamos dela
Não nos importa conhecê-la, ela é apenas vil,

68
E não é fim, mas alçapão: escada para baixo, para
Outra maior forma de morte, nem lenta: eterna
Nem dolorosa: esculpida num bloco de dor

Uma figura um nazareno maltrapilho lotado de amor


desconcertante
Fez como um caminhão de flores que capota, rodopia
E cai de pé e de volta, espalhando toda a carga de flores
pelo caminho
Pelas nossas cabisbaixas cabeças que se levantam
Espantadas de alguém que diz estranhezas tais:
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e
eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei
de mim, que sou manso e humilde de coração, e
encontrareis descanso para as vossas almas.” (Mateus
11.28,29)
“Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda
que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em
mim, nunca morrerá.” (João 11:25,26)
“Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas
ovelhas.” João 10:11
“Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá
fome, e quem crê em mim nunca terá sede.” (João 6:35)

Mensageiro e Ele próprio uma carta viva a nós


endereçada

69
A todos os viventes remetida, mas como que
especialmente
Para nós os últimos, pois somos da criação e da dor
Aqueles mais habilitados a saboreá-la, a compreendê-la
– A ela esta carta viva doadora de Amor e doadora de
Sentido –
E a dela nos apropriarmos para alimentar esse nosso
desejo de morrer
Até que ele se cale e finde, exploda tendo seu estômago
negativo
Entupido com as palavras de Vida do bom Jesus,
O que nos entendeu, o que nos amou, o que pagou pelo
que não poderíamos.
Jesus que anseia nossa companhia, meu Deus!, logo a
nossa,
Nós os insuportáveis, nós que não nos suportamos, que
nos fechamos
No quarto, ele nos chama para fora, ele realiza uma festa
Meu Deus, uma festa!,
E não é como as festas que vemos das pessoas excelentes,
Ele realiza uma festa para todas as pessoas, até as últimas
pessoas
Não há preconceito em seus olhos nem traição em seus
atos
Ele ama a todas as pessoas e nos convida a amarmos com
ele,
70
A sermos o amor dele andando por aí, convidando para a
festa,
Encontrando os outros trancados nos quartos, nos
corações,
Encontrando-os e dizendo eu lhe entendo, encontrando-
os
Para lhes enxugar as lágrimas de solitários e dizer:
Eu e você somos um. E há um outro, maior do que nós
Que é um conosco. E vamos morar com Ele.

71
Carta à Terra

Viúva azul
mãe inumerável
máscula mater

cornucópia de beijos telúricos, talmúdicos,


bíblicos

minha amante incomensurável e polígama


colença de chãos, completude
dos caminhos

estranha perfumada
rocha que respira
e no infinito paira

teus dedos são espigas


teu sangue tua carne teu abraço e
lágrimas, tudo em você nos alimenta

e você, geocárdio
parece canta parece valseia
enquanto o devoramos

sofre como sofre a bigorna


que vibra calma sob os golpes do martelo
martelo a quem vencerá
72
Carta ao Vento

Ar veloz
Trançador contumaz
Raio invisível que uiva
No arbusto e na ravina
E na torre
Tão-farta-de-ti
Força deambulante trans-superficial
Cuja passagem
É sempre um recarregar-me

Se não posso conhecer sequer


O interflúvio que me limita,
O encadeado de colinas e gentes,
Conhecerei o mundo? Tu o podes, vento
Mestre viajor
Dunamis nascida
No pairar de Deus

Ventos do orbe terrarum, ventai


Passai por nós pecadores
Agora e na hora da nossa morte
E além

73
Segunda Carta ao Vento

Príncipe dos Vândalos


E Visigodos
Cartilagem móbil da atmosfera

Rompe fronteiras, (in)


dócil forma de Deus acarear &
Acariciar
Desopressor supremo,
Estranha forma
Não-biológica de a VIDA
Discursar

Estrondo e cicio, navalha


De recosturar as almas combalidas

Rebelde escravo solar,


Quilombola dos climas
Deus bifronte, pastor e lobo das nuvens
Impontual incansável semeador-segador

Vento, lavanderia das dores


Motor das ondas, quieta
Metralha de apoio ao exército das marés

Informe cajado da Natura que a tudo tange


74
E vezes tonteia
Arauto, nêmesis de anunciar
Que a Natureza vencerá

75
Carta aos Antologistas

Deus é o códice e a logosfera


Donde todo verbo emana:
A você, pequeno livro de DNA,
Cabe adentrar as bibliocatedrais,
Abrir os outros livros em sua fonte,
Esposar em luz a profusão de periódicos,
Os homens e(m) suas memórias;
Mergulhe, vá!, polígamo pária,
No Oceano de Papel do qual
Você é o mais propício nauta;
Execute seu trabalho
Como compilador.

Revista-se de anonimato
Para celebrar os Nomes luminosos;
Você é o cobrador de impostos
Da sabedoria humana,
E o seu mais fiel e abnegado tributário.

Sua psicanálise é clara:


Sofre da pulsão de abarcar.
Sua sociologia é a mais chã e nua:
Todo antologista é um civilizador,
Um amigo dileto do Homem.

76
“Não há limites para o fazer livros”,
E você, muar cargueiro de Gutemberg,
Entendeu exato que, logo,
Não há força que lhe impeça.
O muito estudo, enfado da carne
Que a muitos bem-intencionados
Amolece, você pisoteia
Com as botas de seu pragmatismo,
Pois mortificar a carne
É a sua ascese.

Da Literatura o filantropo & remendador


De tropos e de trapos
Sua inamissível missão é afundar a
Mão no caldeirão das Palavras
Para saciar os sempre nascentes
Necessitados e a profusão
Dos sofomendicantes.

Nunca se envergonhe de sua milícia


E labor: se outros, príncipes e reis
Construíram incandescentes palácios
E ebúrneas torres, você foi eleito
Para construir pontes:
É nauta e é também pontífice.
77
Fraterno elo da humana corrente.
E guardião da despensa das almas,
A biblioteca. Você este acumulado,
Você o portador das chamas
Que ardem em tinta, o coletivo velocino:
Trabalha e confia.

78
Retorno à Alameda São Boaventura, 1071

O abraço do obreiro na porta da congregação


Aquela sensação oceânica de casa
Fui enredado pela paz que combati
Refundado em ágape, da fugacidade do frágil
desp(ed)ido

Âncora para meu caos fez-se a Tua palavra,


E cais contra meus naufrágios

79
Retorno ao morro do Areal

Éramos eu e Flávio
Aos dez anos apagando
Incêndios nas matas
A mata que era nossa, miseráveis
Joões-sem-terra, néscios sabíamos
De certeza atávica
Que era a nós mesmos que salvávamos
Os meninos-preás

Sufocamentos, contato
Inocente/homérico
Com o terror e sua turbidez
Pés queimados por pepitas de fogo,
Brasa. Faces enrubescidas
A chance de morrer era tão grande
E nossas mães uma tão tanta distância
Ensurdecidos de sede
- Onde estavam os homens, que isso era trabalho deles! –
Éramos o moreno Juba e o doirado Lula,
A Armação Ilimitada, e os G. I. Joe’s, Transformers
E Thundercats – éramos deuses imortais
Sami Maluco e Flávio Sarará,
Frágeis como bonequinhos Playmobil
Emissários sem patente do Doador de Eternidade.
80
Aos dez anos (é possível ter apenas dez anos?!)
Estávamos homens,
Desavisadamente.

De dentro das chamas, aquela morte bailarina,


Nem havia quem dissesse:
“Vocês não podem”.

81
Retorno à Pedreira do Anaia

As cargas de dinamite deram de si ao cosmo,


Cumpriram seu sem-sentido booombaico
Mesmo rangendo seu roar ruído,
Não me suicidei, não rachei meu coração-marmelo.
A solidão
Ao caos trouxe estabilidade
Sonhos mapeados não se cumpriram, mas
Os sonhos inconscientes ganharam a terra,
Tomaram ar

Pedalo a bicicleta,
Pedalo todos os dias,
Um refugiado jovem demais
Para ter descoberto que não há
Lugar
Sequer uma estrebaria
Onde dar parto à minha dor

Mas a descoberta se aproxima, ajeita os vestidos


Sua monocórdia múltipla máscara

Locupleto minha sanha de fliperamas,


Fotografia e a embriaguez da Grande
Literatura Universal
Que nunca me salvará:
82
Aguardo em (o)pus
O advento de Cristo

83
Retorno a Porto das Caixas

Sou um escritor,
Um escandalizado pela palavra
E eles querem que eu seja claro e fluídico
E lhes traga paz

Sou um escritor,
Um amputado lá no útero
E eles esperam que eu corra,
Corra para apontar-lhes o caminho

Sou um escritor,
Um pretenso mestre do entalhe a frio em papel
Que entalha as dúvidas antes que elas me empalem,
crucifiquem
E eles, os fiéis da fome, esperam que eu lhes traga os pães
frescos das respostas

Sou um escritor,
Um capturado-enquanto-fugia
Pelo frio lá fora
E eles, ternos,
Esperam que eu os aqueça

Os não-escandalizados, os não-mutilados, os que não


duvidam:
Eles, os que escaparam do frio.
84
Retorno ao Potenkin

há uma oceanografia dos sonhos,


uma ciência de rascunhos
que se encapela nas colinas
- em pétalas encouraçada -
e observa o abismo afixado
cem voracidades abaixo

e, como um poeta, saca


seu coração e dispara.

atingida pelo próprio disparo,


evola-se
em seu blindado de ventos.

85
Retorno à praia de Itaipu ou ao monte Meru

Os desertos enganam,
Mas só no mar está
A paz que nada interrompe

A fluição que vocifera


Em ritmados uivos, silvos
Laivos
Da noite primordial.

Do caos fundamental
Transemerge o mar:
Torre deitada em seu abraço de encastelar.

Kraken, Caribde, meu tio Geraldo Xereta


Ausências que a praia transtraz, à maneira
De Rosa, Guimarães,
Conchas desfeitas,
Calcário sobre crostas oceânicas de basalto
Infância de meus sobrinhos,
Após a minha
E Abraão e Caim e Adão

O planeta feito de água de seres


Feitos de água
Esgoelando-se por solidez.
86
Cada homem é a coleção de seus processos

Daquele pico
Pode-se esculpir as estrelas
E que são os aglomerados de galáxias,
Senão matéria escura desbastada
Até adquirir forma?
Células-tronco primeiras
De Jeová, esculpidas pelo sopro
Do Espírito que tudo navega?

Venha poder palraz,


Derrube Meru no oceano,
Dissolva os entes e seus ícones
Na recriação.

87
Retorno ao Primeiro Livro

Não havia guitarras nas árvores


Quando fomos
A Liverpool

Havia dito, que havia

Vimos
(e jogamos contra,
3 na linha e 1 no gol)
Times
De futebol descalço
Como
Em nossa terra de santos*

Lágrimas, Ingrid, Viação Peixoto, Cidade a Rádio Rock

Lobo construindo seu espaço vital, lebensraum, lebre


fugindo do tempo no tempo e pelo tempo
Sendo vezes polida vezes
Dilacerada
Branca lebre depressiva
Roendo pornografia impressa
Vazio somando ao vazio
E o nada manco dentro

88
Atônito ao solfejo primacial das sensações destonificadas,
bordas
Quilométricas do miseroverbalizável

E eu era um rapaz tão bonito

*Trecho de meu primeiro livro, São Gonçalo de Todos os Santos


(1999), publicado aos 20 anos.
89
Retorno proseado à latrina da História

Stálin matou [Ossip] Mandelstam e


tantos outros;
Franco matou [Federico] García Lorca.
Pinochet desejou mas temeu matar [Pablo] Neruda;
Nixon desejou mas temeu matar [Allen] Ginsberg.
No Brasil, a Ditadura quase matou
[Alex] Polari, mas ele também tentou
matá-la, ele por isso duas vezes poeta.

Veredito da história?
Uma cultura que mata seus poetas está
em vias de suicidar-se.

O assassinato de um poeta é como um


involuntário pedido de socorro.

90
Retorno ao Rio Alcântara

No fundo do meu quintal corre um rio


Que desliza escorreito com voz de sibila
Onde vejo passar o destino circular dos homens
O tempo longo, médio e curto de Braudel
As eras geológicas, as flores do cambriano
Grandes do tamanho de minha casa
Os ciclos menstruais da vizinha feia,
Suas explosões e paz ou os silêncios de sua
fúria

No fundo de meu coração corre um rio


A passos lentos, vejo passarem formas
Frágeis, Heráclitos sorumbáticos
E revelações inconclusas sobre as quais
Tento o salto transcendental - mas não
Consigo sair de mim, deslogar
Pois não possuo o Tempo que tudo
Revela e (de)compõe: outrossim,
Sou do Tempo uma posse, um Heráclito
(Vejo passar os livros que Borges
Não escreveu, livros que gosto de imaginar
Quando quedo triste olhando o rio
E que de toda forma jazem escritos
Em algum lugar de Deus)
91
No fundo da íris de Deus corre um rio
Intransponível, de sufocante caudal
Do qual este poema, as flores cambrianas
Extintas do tamanho de casas e os homens
Algemados à sua liberdade circular
De probabilidades previstas e os livros
Que Borges iria escrever mas morreu e
Que jazem escritos em algum outro lugar de Deus
(pois dentro de Deus as coisas transitam,
Irrequietas ricocheteiam livres do Tempo circular)
E o Universo holográfico platônico celebrante e
Pânico são espelhos,
Reles espelhos deslizantes.

92
Retorno à sala de uma UPA em 2010

Conheci um homem
Que foi dilapidado até que Deus
E a poesia
Foram tudo o que lhe restou.

Além disso não logrou


Ir Satanás.

E ele, este homem


Agora enlouquecido,
Andava nu pelas ruas
Tomado d’ora obscura, d’ora luminosa
Embriaguez
E ria da derrota de Satanás,
Ria inebriado da derrota
De Satanás.

93
Do Outro Lado Do Teu Medo Há Um Palácio

Do outro lado do teu medo há um palácio


guardado por arautos transidos em armaduras de grafeno
que empunham a mais altiva das bandeiras
onde tua “A Experiência Capital” luz timbrada

do outro lado do teu medo há um trono


de jasmim e memórias de lágrimas extintas
no centro do palácio, aeródromo sem check-in
que dá acesso direto ao terceiro céu

do outro lado do teu medo, muralhas


após há um ápice, pontiagudo platô
donde é possível contemplar, descarnada
e finda, tua ígnea saga de arromba-portas

do outro lado do teu medo, logo


ali, centímetros além de tua prematura
derrocada, há um jardim imorredouro
erigido em âmbar gris pelo Rei dos reis

do outro lado do teu medo, sete véus


d’além d’Avenida dos Procrastinados
ruas de honradez rebrilham sob o sol invicto
que lança sombras no ossário das desculpas

94
do outro lado do teu medo, enfim
há um princípio que a tudo dilacera, renovo
que além do precipício vocifera
e, em urros contra a tua covardia, aguarda.

95
Soçobro ou a Circular (in)Finitude

Poesia é a ida do mito ao logos


e o retorno daquele que, soçobrado,
ao mito torna, com o que sobrou, se sobrou

(ou: um acossar o círculo, ‘té que se rompa)

96
Propiciação à Topofilia

“... espaços proibidos a forças adversas, espaços amados.”


Bachelard

espaços abertos
desertos
verdes semi-verdes
pelo vento municiados:

paraísos do possível

Éden desfeito ressonando fragmentário


ruído de fundo à espera no espaço
de quem lhe vibre à frequência:
um herdeiro para lugarizá-lo

97
Tríptico Paulino

Só em Fé
eu sei

Só em Esperança
eu posso

Só em Amor
alcanço
alcançarei

98
UNÍVOCOS

Um poema de minha juventude, lá pelos 20, 21 anos, que


estava “perdido”, e que serve de marco para minha frágil
incursão pela poesia experimental.

Fui-lhe muito longe no dentro


mesmei-me naquela coisa

Ficamos unos, uni-munidos


de nós, tornados o mesmo mito
locupletado de signos
de sem-vergonhices linguísticas.

Nessa liberdade hiperlaica


tentei-me a ti
e consegui-nos

Falei-me:
-Agora cavalgamo-nos felizes:
sei que se me plantar
vou colher vocêu

99
Feérica

A fé não atenta
contra a razão.

Pelo contrário:
A verdadeira fé
usa a razão
como um cavalo.

Num jogo de
senhor e servo?
Não, mas num jogo
de centauro.

100
Assentados no lugar santíssimo

Jovens deuses filhos de Deus


(ou não sabeis que sois deuses?)
de nossa eleição municiados
solares em nosso apogeu
um epíteto cinzelamos
para nossa terrária glória:

“Antropoceno”.

Sim, Era dos Homens. E entanto,


de selvas e esgotos e jaulas
e panelas, panelas bastantes
para tapar a luz do sol
algo que esmagamos
e esmagamos
e esmagamos
uma herboanimália decantada em blasfêmias
ousa ciciar, como se influenciados pelo demônio,
que nos compete em glória:

“Antropoterror
antropoterror
antropoterror...”

101
A Ilha de Deleuze

I
Devoro a lua,
a lua devora-me:
quedamo-nos
ilhas,
fomes.

II
Deserta(da) Ilha,
refundação da Realidade:
re-realidade,
ilha transprimal

III
De antropoflorescer
quasimpossível, pedregoso,
pedral:
rocha, rock, roca:
Ilha das Rocas,
Distância.

IV
Ovo Cósmico da anti-
candura, sequestro
de Ganimedes,
102
Graal de chão:
não-Adão, Noé,
fato e mito e pai & status
da (re)fundação do Humano.

V
Ilha:
Supressão.

VI
Meu coração, mimodrama d'ilha,
pergaminho de sagas:
compartilho tua fome,
- Inadequação.

VII
Ilha: face oculta
da lua, ilha.
Asa de água, quilha.
Ilha, quilha do homem:
Espada.

Ilha-deserta-ilha:

Espada-de-filosofar.

Inspirado pelo texto de Gilles Deleuze, “Causas e Razões das


Ilhas Desertas”.
103
Dutum Drama

O frêmito que as águas refletem,


O cruduro de verbalizar

A escuridão que cai


De um cosmo embaciado

Estacas no coração do efêmero,


Tateando fixá-lo
Estacas de inenarrabilidade
Cronoparasitária

Filosofemas quebrados
Construções de sentido

Des com gra ça das

Dédalos no bornal, capitais simbólicos


De Bordieu,

O zeitgeist me obsedia, eu sou (a) fala dum possesso


Ando pelas ruas multitudinárias em busca de iluminação,
Um fio, um insight, chego a fechar os olhos
Mas fecho os olhos para nada

104
A inocência do primeiro verso

Da noite-conflagração
Que ao homem
Lhe escurece o dentro
Ouvi o chamado da verbosfera.
De pronto, réu do desaviso,
Respondi com um uivo impúbere.

Achei que escaparia impune.

105
A Siesta

“É uma alegria para mim ouvir soar o relógio: Eu vejo que


passou mais uma hora de minha vida, eu acredito que
estou um pouco mais perto de ver Deus.” - Teresa de Ávila

Tive um sonho esta tarde. Meus sonhos da siesta,


do após o almoço, são sempre tristes, materialistas,
renitentes lembranças exageradas de problemas
nos quais desejo não pensar.
Mas esse foi diferente:
Eu assistia, num desses cemitérios de subúrbio,
a um funeral, o meu próprio.
Seguia avançando com o féretro, uma mãe chorando &
duas dúzias de pessoas cansadas do dia, e tudo era paz
e algum tédio, mas ao chegar à sepultura
choquei-me com o que li escrito em minha lápide:

“Lançado para além da muralha.”

Foi a coisa mais magnífica e perfeita que já li


na morte ou na vida,
o sonho de maior completude que já pude.

106
Haiku

Outonos se sucedem.
No peito arde a ilha
Vista e não conquistada.

107
Noturno em São Gonçalo

A solidão decompõe densidades.


Milita para reabilitar os pássaros.

108
Introejetados

109
Sobre o autor
Nascido em 1978 em Niterói, mas desde sempre morador de São
Gonçalo, ambos municípios fluminenses, Sammis Reachers é poeta,
escritor, antologista e editor. Autor de dez livros de poesia e três de
contos/crônicas, organizador de mais de quarenta antologias e
professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-versa.

Como autor, publicou:

POESIA
• São Gonçalo de Todos os Santos (1999).
• Uma Abertura na Noite (2006).
• A Blindagem Azul (2007).
• CONTÉM: ARMAS PESADAS (2012).
• Poemas da Guerra de Inverno (2012, 2014, 2021).
• Deus Amanhecer (2013).
• PULSÁTIL – Poemas canhestros & prosas ambidestras (2014).
• GRÃNADAS (2015).
• Poemas de Amor em Trânsito (2018).
• Cartas & Retornos (2021).

CONTOS / CRÔNICAS
• O Pequeno Livro dos Mortos (2015).
• RODORISOS – Histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários
(2017, 2021).
• Renato Cascão & Sammy Maluco – Uma dupla do balacobaco
(2021).

110
Organizou as seguintes antologias:
(Quase todas essas obras podem ser lidas online ou baixadas
GRATUITAMENTE – Confira os links ao final desta listagem.)

• 3 Irmãos Antologia (2006 - Poemas de Gióia Júnior, Joanyr de


Oliveira e J.T.Parreira).
• Sabedoria: Breve Manual do Usuário (2008 - antologia de frases).
• Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa (2008).
• Águas Vivas Volume 1 (2009 – antologia reunindo textos de
poetas evangélicos contemporâneos).
• Antologia de Poesia Missionária Volume 1 (2010).
• Águas Vivas volume 2 (2011).
• Breve Antologia da Poesia Cristã Universal (2012).
• A Poesia do Natal Antologia (2012).
• Águas Vivas Volume 3 (2013).
• Antologia de Poesia Missionária Volume 2 (2013).
• Teatro Missionário – Peças Teatrais e Jograis sobre Missões e
Evangelização para Igrejas Evangélicas (2013 – em colaboração
com Vilma Aparecida de Oliveira Pires).
• Revista Humorejo – Humor Gráfico Evangélico (2014 - charges,
cartuns, caricaturas e HQ’s).
• Segunda Guerra Mundial – Uma Antologia Poética (2014).
• Águas Vivas Volume 4 (2015).
• Hinário Hinos Missionários (2016).
• Águas Vivas Volume 5 (2017).
• A Educação em 365 Frases (2017).
• Amor, Esperança e Fé – Uma Antologia de Citações (2017).
• Antologia de Poesia Missionária Volume 3 (2017).

111
• COLEÇÃO 200 FRASES (Antologias de frases. Aqui há livros
GRATUITOS [Reformadores, Paz] e livros PAGOS, estes
comercializados na Amazon). Volumes já publicados
(2017/2018/2020): AMOR – ESPERANÇA – FÉ – AMIZADE –
SAINDO DA ZONA DE CONFORTO – REFORMADORES – ARTE –
COMO UPAR A SUA VIDA – POLÍTICA – LITERATURA – PAZ –
SABEDORIA CHINESA – BÍBLIA.
• Dinâmicas Missionárias - Dinâmicas e quebra-gelos para
promover a visão missionária em sua igreja, grupo e família
(2018).
• Frases UP! 250 Frases para motivar e iluminar o seu dia (2018).
• COLEÇÃO 100 FRASES: C. S. Lewis, Liev Tolstoi e Martin Luther
King Jr. (2018); Blaise Pascal, G. K. Chesterton, Agostinho de
Hipona e As 100 Mais Belas Frases sobre o Perdão (2020); Albert
Schweitzer (2021).
• Árvore – Uma Antologia Poética (2018).
• O Livro e o Prazer da Leitura em 400 Citações (Amazon, 2018).
• Poesia em 500 Citações (2018).
• Páginas de Ouro da Oração (2019).
• Sermões Missionários – Centenas de esboços de sermões sobre
Evangelização e Missões (2019).
• Ilustrações Missionárias – 777 Ilustrações sobre mordomia cristã
e as obras de evangelização e missões (2020).
• Ao Anjo da Igreja, Declama: Poemas aos Pastores de Deus (2020).
• Poesia Evangélica em Literatura de Cordel – Uma antologia
(2020).
• Na Mesa Entre Irmãos – Receitas culinárias para uso em eventos
missionários (2020).
• 365 Frases de Martinho Lutero + As 95 Teses (2020).

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• Celebrando as Escrituras - Uma coletânea de recursos para
vivermos e celebrarmos a Bíblia Sagrada (2020).
• A Cadeia Alcoólica – Frases, Poemas e Reflexões sobre o alcoolismo
(2021).
• Combatendo o Estresse em 150 Citações (2021).
• Pequeno Compêndio de Poemas Luminosos (2021).
• 300 Frases para o Dia da Batalha (Amazon, 2021).
• COLEÇÃO O QUE É em 100 CITAÇÕES (pequenos e-books
comercializados na Amazon). Volumes já publicados (2021): O
Que É HUMOR em 100 Citações, O Que É MÚSICA em 100
Citações, O Que São GATOS em 100 Citações.

Mantém mais de 10 blogs, incluindo os blogs literários (onde você


encontrará os links para o download gratuito da grande maioria
dos livros aqui listados):

• Poesia Evangélica – www.poesiaevanglica.blogspot.com


• O Poema Sem Fim (pessoal) –
www.opoemasemfim.blogspot.com
• Mar Ocidental – www.marocidental.blogspot.com
• Revista Amplitude (Revista Cristã de Literatura e Artes) –
www.revistaamplitude.blogspot.com
Poderá ler outros textos do autor em:
• Recanto das Letras –
www.recantodasletras.com.br/autores/reachers
• Jornal Daki – www.jornaldaki.com.br/blog/categories/sammis-
reachers
• Alguns livros à venda na Amazon:
www.amazon.com.br/s?k=sammis+re

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