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CURSO : FORMAÇÃO DE PROFESSORES

PROFESSORA: RENATA DOS SANTO SOARES


MÓDULO: DÍDATICA DE EDUCAÇÃO INFANTIL

O QUE É ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO?

Alfabetização e letramento não tem o mesmo significado, trata-se de dois processos


diferentes que ocorrem de forma indissociável e interdependente. Alfabetizar é tornar o
indivíduo capaz de ler e escrever; quando faz uso social da leitura e da escrita torna-se letrado.
Um indivíduo pode ser alfabetizado e não ser letrado, saber ler e escrever, porém não
cultivar nem exercer práticas de leitura e de escrita, não ler livros, jornais, revistas, ou se
incapaz de interpretar um texto lido, tendo dificuldades para escrever uma carta ou mesmo um
telegrama, este sujeito é considerado alfabetizado e não letrado.
O ato de “letrar” implica utilizar a leitura e a escrita de modo diferente da simples ação
de ler e escrever como ocorre na codificação e decodificação, pois representa o uso da leitura
e da escrita em distintos contextos sociais, fazendo uso de diversos portadores de textos:
Por mais que as atividades de alfabetização e letramento se diferem tanto em relação
às operações cognitivas quanto em relação às ações sistemáticas de ensino e aprendizagem,
devem desenvolver-se de forma integrada.
Caso sejam desenvolvidas de forma dissociada, a criança certamente terá uma visão
parcial e consequentemente distorcida do mundo da escrita. Alfabetização e letramento são
uma aditiva e não uma alternativa, reconhecendo-se, assim, que ambos os processos devem
ter presença na educação infantil: O letramento será a base, já que leitura e escrita são
essenciais meios de comunicação e interação, enquanto a alfabetização deve ser vista pelo
sujeito como instrumento para envolver-se nas práticas e usos da língua escrita.
Assim, a história lida pode desencadear em várias atividades de escrita, como também
provocar certa curiosidade que leve à criança em busca de informações em outras fontes, as
frases ou palavras da história podem vir a ser objeto de atividades de alfabetização.
O essencial é que crianças estejam imersas em um contexto letrado e que sejam
aproveitadas de maneira planejadas e sistemáticas oportunizando-as para continuidade aos
processos de alfabetização e letramento.
É preciso reconhecer que o acesso inicial a língua escrita não se reduz ao processo de
aprender a ler e escrever no sentido de grafar e decodificar palavras, o letramento possui um
caráter abrangente como nos mostra uma matéria na Revista Amai Educando (8/2009:9).
Esse fato demonstra a importância do papel social da escola em inserir, desde bem
cedo, as crianças no universo das práticas letradas, para que se apropriem da leitura e da
escrita a partir da participação em práticas sociais de leitura e escrita.
Percebemos assim, a importância do “letramento” para o processo de alfabetização, de
se alfabetizar numa perspectiva de letramento, ou seja, de se alfabetizar letrando.

A ALFABETIZAÇÃO E O LETRAMENTO NO AMBIENTE ESCOLAR

Mesmo singelas atividades presentes de modo significativo na educação infantil,


consideradas de cunho lúdico como a repetição de parlendas, a brincadeira com frases e
versos, trava-línguas, cantigas de roda, memorização de poemas, são considerados
importantes passos em direção à alfabetização.
Curiosamente atividades bastante comuns na educação infantil como os rabiscos,
desenhos, jogos e brincadeiras de faz-de-conta não são consideradas atividades de
alfabetização, quando na verdade representam a fase inicial da aprendizagem da língua escrita,
constituindo segundo Vygotsky (1984), a pré-história da linguagem escrita, ocasião em que a
criança atribui aos rabiscos, desenhos ou objetos a função de signos.
Neles o indivíduo está descobrindo sistemas de representação precursores e
facilitadores da compreensão do sistema de representação do que é a língua escrita.
Essa fase considerada a pré-história da escrita, explica por que a criança pequena supõe
estar escrevendo quando está desenhando, fazendo rabiscos ou produzindo garatujas.
Este evento representa sua tentativa de imitar a escrita cursiva dos adultos, o que já
representa um avanço em seu processo de alfabetização, um reconhecimento arbitrário da
escrita. É o primeiro nível, entre os níveis por que passam as crianças em seu processo de
conceitualização do sistema alfabético, identificados tão claramente por Emília Ferreiro e Ana
Teberosky (2001), descritos nos chamados níveis icônicos:

- ESCRITA PRÉ-SILÁBICA – Utiliza letras para escrever e realiza escritas diversas; há a


preocupação com quantidade mínima de letras e variação de caracteres; acredita que coisas grandes
são escritas com muitas letras e coisas pequenas com poucas letras; a leitura é global.
- ESCRITA SILÁBICA – A criança pressupõe que a escrita representa a fala. É a fase que se
inicia o processo de fonetização. Cada sílaba é representada por uma letra com ou sem conotação
sonora.
- ESCRITA SILÁBICO- ALFABÉTICA – A criança apresenta uma escrita algumas vezes com
sílabas completas e outras incompletas.
- ESCRITA ALFABÉTICA – Este é o último estágio da evolução da escrita, a criança já escreve
alfabeticamente não necessariamente ortograficamente, silábico, silábico-alfabético e alfabético.
Como comprovam inúmeras pesquisas e observações em instituições de educação
infantil, os sujeitos de 4 e 5 anos com raras exceções evoluem rapidamente em direção ao nível
alfabético se são orientadas e incentivadas através de propostas apropriadas e de natureza
lúdica. (VYGOTSKY 1984).
Aprender por meio da brincadeira é uma premissa da Educação Infantil. De acordo com
o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998, p.27).
“Na brincadeira, os sinais, os gestos, os objetos, os espaços valem e significam outra
coisa daquilo que aparenta ser, através do brincar, a criança tem em suas mãos a possibilidade
de lidar estabelecer relações com os outros e com ela mesma”.
A brincadeira constitui como importante fonte de desenvolvimento e aprendizagem,
possibilitando a criança adquirir conhecimentos e habilidades no âmbito da linguagem, da
cognição, dos valores e da sociabilidade. “Através do brinquedo o sujeito aprende a agir numa
esfera cognitivista, sendo livre para determinar suas próprias ações”.
A brincadeira estimula a curiosidade e a autoconfiança, proporcionando
desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da concentração e da atenção. (VYGOTSKY
apud KISHIMOTO, 1997, p.51)
Pensando na relação entre o lúdico e a alfabetização, Zorzi (2003) enfatiza correlação
entre consciência fonológica e progresso na aprendizagem da leitura e da escrita.
Logo, jogos voltados para o desenvolvimento da consciência fonológicos uma vez
realizados sistematicamente na Educação Infantil, criam condições propicias e inclusive
necessárias para a apropriação do sistema alfabético de forma lúdica e prazerosa para a
criança.

ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Os professores da Educação Infantil devem valorizar os movimentos, os gestos e a


expressividade facial porque constituem um sistema de comunicação e estabelecem as bases
para o desenvolvimento da linguagem, porque é através do movimento que ela explora seu
corpo, que ela entra em interação com outras crianças e assim seu o ambiente a qual está
inserida. Segundo LIMA (2002:80):
“O movimento está presente na relação como os objetos: dirigir-se ou distanciar- se
deles, alcançá-los, manipula-los, transformá-los. Ele está presente nas relações com as outras
crianças, nas brincadeiras e nos conflitos, nas relações com os adultos, conhecidos e
estranhos.”
Por isso, o currículo deve ter muita música, movimento, dança e atividades lúdicas ativas
e brincadeiras. A maioria das crianças também se beneficiará do aprendizado de alguns sinais
(dos sistemas de linguagem de sinais), mesmo que tenham audição normal, pois esses sinais
enriquecem suas habilidades de comunicação, autoconfiança e linguagem falada.
Ferreira (2004) contribui salientando que o brincar é uma ação social não separada do
mundo real. Embora envolva situações imaginárias, como costumamos chamar de faz de conta.
Professores voltados à educação infantil devem nutrir a escuta e a fala das crianças, porque
são instrumentos importantes de dar sentido ao mundo.
A capacidade de expressão oral ajuda os Indivíduos a se tornarem parte de uma
comunidade e de uma cultura, enquanto as palavras e estruturas da linguagem falada são
blocos básicos de construção da capacidade de ler e escrever. Segundo Freire (2002, p.83),
somente o diálogo, que resulta um pensar crítico, é capaz, também, de gerá-lo.
Sem ele não há comunicação e sem esta não há educação. É fundamental que o
desenhar esteja no centro do currículo dos primeiros anos, devemos dar às crianças todas as
oportunidades para utilizarem essa forma de comunicação.
O seu interesse por uma ampla gama de sinais, símbolos, logos e figuras deve ser
estimulados de todas as maneiras possíveis. Geralmente, as salas de aula já possuem
inúmeros materiais necessários para a realização de atividades lúdicas, previamente
planejadas com intuito de desenvolver as habilidades necessárias. Podemos criar vários
cantinhos interessantes em sala de aula para estimular a descoberta, a leitura e a futura escrita.
Por um lado, esta proposta leva o sujeito, a se identificar com a materialidade do texto
escrito: conhecer o objeto dos livros ou revistas, descobrir que as marcas na página, sequências
de letras, escondem significados que textos são para ler da esquerda para direita e cima para
baixo, que os livros têm autor, ilustrador, editor, capa etc.
Por outro, a leitura de histórias é uma atividade que enriquece o vocabulário da criança
e proporcionando o desenvolvimento de habilidades de compreensão de textos escritos, de
interferência, de avaliação e de estabelecimentos de relações entre fatos. Tais habilidades
serão transferidas posteriormente para a leitura independente, quando o indivíduo se torna apto
a realizá-la.
Soares (2009), afirma que na educação infantil deve estar presente tanto atividades de
introdução da criança ao sistema alfabético e suas convenções alfabetização, quanto às
práticas de uso social da leitura e da escrita – letramento.
Enfim, são várias propostas que podem ser aproveitadas para que as crianças percebam
a função da escrita para fins diversos e a utilizem em práticas de interação social.

O PAPEL DO PROFESSOR NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Entendemos a mediação pedagógica como condição maior do trabalho docente,


inclusive dos profissionais que atuam na educação infantil. Requer que o professor dote sua
prática pedagógica de intencionalidade, no sentido de ter como referência o produto de sua
ação perante as crianças para que os objetivos traçados sejam alcançados.
Desta forma cabe ao professor ampliar e qualificar o que foi iniciado pelas crianças,
fazendo intervenções sempre que necessário para garantir que elas se apropriem das
capacidades humanas proporcionadas naquele momento da história.
No planejamento das atividades, é importante que o educador defina alguns objetivos
para que atinja suas metas no processo de ensino- aprendizagem, para isso se faz necessário
seguir algumas orientações, como exemplo:
* Favorecer a aquisição de habilidades que permitam à criança analisar de forma crítica o
mundo que a cerca, para que seja capaz de enfrentar novos problemas e conviver com os
outros de forma cooperativa;
* Atender necessidades psicossociais, possibilitando a ampliação de suas experiências, com
base nas próprias vivências e situações concretas do cotidiano.
* Desenvolver e explorar, de forma interdisciplinar, todas as áreas do conhecimento;
* Ampliar o vocabulário e desenvolver a linguagem, sob o enfoque descritivo e narrativo;
* Incentivar a curiosidade, o entusiasmo, a imaginação, a representação gráfica. (Revista Amae
Educando 8/2009, p 9).
Portanto, a escola é um espaço propicio para estimular o letramento na educação
infantil, porém o trabalho deve ser direcionado em um ambiente facilitador, estimulante e
atraente, assim desenvolverá o prazer de frequentar a escola e, consequentemente estará
criando futuros leitores.
partir deste estudo que a alfabetização pode e deve ser introduzida na Educação
infantil, desde que ela seja inserida adequadamente quanto à faixa etária dos nossos alunos.
Acreditamos que uma prática pedagógica que propicie o desenvolvimento de atividades
significativas pode contribuir muito para que nossos alunos desenvolvam conhecimentos sobre
o sistema de escrita desde a Educação Infantil.
Porém é necessário ter clareza para não fazer uso de uma pratica pedagógica voltada
para conteúdos segmentados e fragmentados, com sujeitos cumprindo tarefas e passando a
maior parte do tempo sentada dentro de uma sala de aula fazendo atividades como cópia de
letras, silaba e palavras.
Devemos proporcionar aos nossos alunos na Educação Infantil, uma pratica pedagógica
que vise o desenvolvimento integral das crianças com o trabalho voltado às atividades lúdicas,
aprendizagens significativas capazes de promover o aprimoramento das habilidades
necessárias à construção do conhecimento a fim de que possamos garantir que nossas
crianças se desenvolvam, construam e adquiram conhecimento e se tornem autônomas e
cooperativas.

REFERÊNCIAS
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CARRETEIRO, Mario. Construtivismo e Educação. Porto Alegre: Artmed, 1997.
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FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido 4ª. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003
FREIRE, Paulo Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo:
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FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo:
Paz e Terra, 2003.
LIMA, Souza Elvira. Brincar Para quê? São Paulo: Inter Alia Comunicação e Cultura, 2009.
LIMA, Souza Elvira. Conhecendo a Criança Pequena. São Paulo: Inter Alia Comunicação e
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MOLLICA, Maria Cecília. Letramento e Inclusão Social. São Paulo: Contexto, 2007. MOYLES,
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ZORZI, J. L. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: Questões clínicas e
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