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Direcção

FRANCISCO BETHENCOURT
KIRTI CHAUDHURI

História da
Expansão
Portuguesa
Volume 2

/
Do Indico ao Atlântico
( 1 5 7 0 - 1 6 9 7 )
DESIGN GRÁFICO
Fernando Rochinha Diogo
A u to re s
CAPA FRANCISCO BETHENCOURT t? FFUCH
A. Rochinha Diogo
r■
CAIO BOSCHI & USP
y KIRTI CHAUDHURI
SUPERVISÃO
DIOGO RAMADA CURTO
V o i
Joaquim Caetano
Antônio Camões Gouveia ALEXANDRA CURVELO
JOAQUIM ROMERO MAGALHÃES
REVISÃO TIPOGRÁFICA RAFAEL MOREIRA
Luís Milheiro A. J. R. RUSSELL-WOOD
Fotocompográfica, L.da ISABEL DOS GUIMARÃES SÁ
STUART SCHWARTZ
CARTOGRAFIA
Fernando Pardal

ÍNDICE
Helena Galante

COMPOSIÇÃO E FOTOM ECÂNICA


Fotocompográfica, L.* SBD-FFLCH-USP

© Temas e Debates e A utores


por licença editorial de Círculo de Leitores 245411
Impresso e encadernado em Dezembro de 1998
por Gráfica Estella, Navarra, Espanha
Edição n.° 3926
Depósito legal n.° NA-2353-1998
ISBN 972-759-134-5
4 Tern i Maks
A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO
BRASILEIRO
Joaquim Romero Magalhães

A DIVISÃO ADMINISTRATIVA mos dispositivos que todos os demais portugueses,


_______ DO BRASIL_______ segundo o que se encontrava fixado nas Ordenações
do Reino (Coelho e Magalhães, 1986). A justiça era
A construção do império atlântico, pela proxi­ exercida por juizes ordinários que se encontravam
midade de Lisboa e pela relativa facilidade de trans­ à frente das câmaras. Os capitães-donatários com o
portes, não exigiu a montagem no Brasil de um reforço do governador-geral seriam tidos como su­
dispositivo de governo delegado, como o que exis­ ficientes para dominar o espaço inicial, costeiro,
tia no Oriente. Apesar da nomeação do govema- dos estabelecimentos coloniais no Brasil.
dor-geral, o comando da administração manteve-se Em 1572, à morte em funções do govemador-
em Lisboa. As vilas e cidades que entretanto iam -geral Mem de Sá, toma a Coroa a decisão de divi­
sendo criadas eram administradas segundo o mode­ dir em duas a administração do Brasil. Um gover­
lo normal de poder local que vigorava no reino. nante seria nomeado para a Bahia, com jurisdição
CJs que viviam no Brasil estavam sujeitos aos mes- sobre as capitanias para norte de Porto Seguro; um
segundo governo para as restantes do Centro e Sul
Sermões do Padre A ntônio Vieira, Joam da Costa, até São Vicente teria sede no R io de Janeiro. Não
Lisboa, 1679 é nada de novo esta divisão dos territórios ultrama­
rinos em mais de um governo. O mesmo se deci­
dira então também fazer para as possessões do Índi­
co. A realeza tentava aumentar a capacidade de
9:
actuação dos governadores, diminuindo os imensos
espaços de que se deviam ocupar, e que mais gente
a pouco e pouco ia habitando. Tornava-se assim
SERMOENS d o
mais célere e eficaz a aplicação das medidas políti­
cas e das decisões administrativas, financeiras e mi­
Paraíba, in Gaspar Barléu, D e R erum per O ctennium in Brasilia [...), Amesterdão, 1647 (BN )

O governador-geral com poderes sobre o todo mais activa vida urbana, como Olinda — tida co­
litares necessárias à boa administração. Todavia,
P. ANTON IO VIF.IRA, do território continua instalado na Bahia. Apesar da mo uma pequena Lisboa. Também, antes da auto-
pouco durou esta «reforma». Depressa se regressou
unificação, e para superintender directamente nas nomização do Maranhão, a maior proximidade de
D A COMPANHIA DE IESü, aos governos territoriais com uma só cabeça. Em
capitanias do Sul, passa a ser nomeado um gover­ Olinda em relação à costa leste-oeste, para permitir
Pregador de Sua Alteza. 1578 o governo do Brasil recobrou a sua unidade —
nador subordinado, instalado no R io de Janeiro. mais eficazes respostas militares. Mas os capitães-
o que já antes ocorrera no Oriente.
P R I M E Y R A PAR T E >- Porventura preocupações militares levaram 2.
Em 1608 nova divisão intervém no governo, -donatários de Pernambuco não estavam pelos
J> B Z> I C AT> A desta feita separando-se mesmo as capitanias do Es­ ajustes em aceitar a residência do governador-geral,
retornar ao regime de governo-geral único. Garan­
pírito Santo para sul das restantes. Esta separação o que lhes diminuía poderes e afectava a autono­
tia-se a unidade de acção sob um só comando. Ao
A O P R IN C IP E , n s mesmo tempo avançava a inilitarização geral que
das capitanias de Baixo só durou até 1612. Também mia de que gozavam. E também interpunham ao
para o governo eclesiástico se autonomizam as ca­ rei as razões justificativas para que o supremo capi­
decorre da execução da lei das ordenanças de 1569
pitanias do Sul — R io de Janeiro — e depois as do tão se instalasse na Bahia, «cabeça de todo este Es­
e da lei dos capitães-mores de 1570 (Magalhães,
Nordeste — Olinda — relativamente à autoridade tado do Brasil» (Diálogos, 1956: I, 65).
1993). Legislação que náo se Hestinavã~ãpenas a Por­
do bispo da Bahia, ficando os territórios sob a au­ Assim se vai tacteando a definição do espaço
tugal mas que foi expressamente aplicada também
toridade de um administrador (Diálogos, 1956: 1, administrativo brasileiro. Em 1621, e constatada a
no Brasil (Mendonça, 1972: 145-178). C om a consti­
73). O mesmo propõe então, sem êxito, o padre impossibilidade de navegar do Norte do Brasil para
tuição desta milícia procurava-se alcançar uma de­
Antônio Vieira relativamente ao Maranhão (Vieira, a Bahia, é criado o Estado do Maranhão, a que fi­
fesa sustentada pelos próprios habitantes, sem d e ­
1970-1971: 298). cam a pertencer a Amazônia, o Grão-Pará e o Ma­
EM L IS B O A . pender do envio de exércitos nem da mobilização
O governo-geral com dificuldade se vai manter ranhão. Esta separação administrativa e política re­
NA Officina de Io AM DA CoSTA. no reino por parte de grandes, títulos e senhores
na Bahia ao começar o século xvti. Os governado­ sultou duradoura — 1621-1774. Foi imposta pelas
das terras. A instalação das ordenanças militares no
M. d c . LXXIX. res preferem instalar-se em Pernambuco, e várias condições físicas, por dificuldade e quase impossi­
Brasil não aconteceu sem dificuldades, para o que
Owrtui&j ot h c tn ç a í . & P rjviU grrR fal. são as ordens régias impondo-lhes que passassem à bilidade de assegurar a ligação marítima ao longo
foi necessário a Coroa passar a proceder depois à
Bahia onde devia continuar a ser a sua residência da costa para sul, 110 troço leste-oeste: a ligação do
nomeação de capitães-mores, profissionais de guer­
permanente. A que demoravam a chegar. Justifica­ Maranhão â Bahia passava por Lisboa (Vieira, 1970-
ra que durante os mandatos recebidos da Coroa fi­
ria essa preferência por Pernambuco a riqueza da T971: tomo 1, 298). Porque era fácil navegar em di­
cavam encarregues de tudo o que respeitasse à de­
terra e as melhores condições de um núcleo de recção a Lisboa. Assim, mais valia constituir dois
fesa (Magalhães, 1985: 20).

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O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

governos directamente responsáveis perante o rei. tar para a estruturação econômica do imenso espa­
Em 1680 a autonomização é completada com a ço que coubera a Portugal pela partilha de Torde­
criação de um bispado do Maranhão. A própria silhas. Em 1627 Frei Vicente do Salvador escreve a
Companhia de Jesus separa as províncias do Brasil primeira História do Brasil. E quase logo a abrir
das do Maranhão. ataca directo: «Da largura que a terra do Brasil tem
Salvador Correia de Sá pretende que se proceda para o sertão não trato, porque até agora não hou­
a uma nova divisão, em 1646. R io de Janeiro, São ve quem a andasse por negligência dos Portugue­
Vicente e o território até ao rio da Prata — onde se ses, que, sendo grandes conquistadores de terras,
constituiría uma nova capitania para si — deveríam não se aproveitam delas, mas contentam-se de as
ficar autonomizados da autoridade do govemador- andar arranhando ao longo do mar, com o os ca­
-geral na Bahia. O grande argumento vai ser o da ranguejos» (Salvador, 1975: liv. 1, cap. m , 59). Es­
maior facilidade de manobra em tempo de guerra ta murmuração do frade franciscano quanto à
com os Holandeses. Só pelo tempo de guerra, «negligência dos Portugueses que se não aprovei­
D. João IV concede a novidade (Boxer, 1973: 234). tavam nas terras do Brasil», relaciona-se muito es-
Em 1658 Salvador Correia de Sá ainda consegue a pecialmente com não haver uma continuada
criação dessa desejada Repartição do Sul, com po­ prospecção de metais preciosos. Porque só por
deres de governador e capitão-general. Mas sem a essa falta de persistência se entendia que ainda
autonomia completa que propusera. Em 1676 o não tivessem sido achados. Sendo as terras confi-
papa cria a nova diocese do R io de Janeiro, que nantes, não parecia concebível que os Castelha­
teria como limite meridional o rio da Prata (Al­ nos tivessem descoberto «tantas e tão ricas minas»
meida, 1957: 107). Ao mesmo tempo eram tam­ e Portugal continuasse sem as possuir (idem: liv. 1,
bém erigidas as dioceses de Pernambuco e do M a­ cap. v, 62-63).
ranhão. Revela-se vivo o confronto entre os que per­
Definição de um espaço administrativo que é sistem na admiração dos feitos e a descoberta de
também a de um espaço político que separa Portu­ minas pelos Castelhanos e os que sabem tirar parti­
gal de Castela, confrontando-se a oeste as posses­ do da riqueza agrícola que se está criando a partir
sões dos dois reinos. Fronteiras que continuavam a do litoral brasileiro. Seriam os Portugueses fracos
ser as que a linha de Tordesilhas definira. Sem que conquistadores, pois se contentavam em permane­ Arquitectura religiosa das Bandeiras: Capela de Santo Antônio, São Roque, Brasil
se pudesse saber em rigor por onde passava esse cer «nas fraldas do mar» a fazer açúcar — segundo
traçado. Mas os Portugueses actuavam como se a uns. Todavia, «as verdadeiras minas do Brasil são 1 parte, cap. xx, 65). D e 1574 terá sido a expedi­ com o uma que se compunha de «perto de du zen ­
norte a divisória fosse pela margem esquerda da foz açúcar e pau-brasil», que muito rendem — respon­ ção empreendida por Cristóvão de Barros, para tos brancos» — o que parece exagero. Outras en­
do Amazonas e a sul pela fachada norte do rio da dem outros (Diálogos, 1956: 1, 33). Ora o açúcar da- arredar os Tamoios da costa do R io de Janeiro tradas, talvez mais correntes, eram mistas, com o
Prata. Sem que se preocupassem demasiado com o va-se bem ao longo da costa, penetrando pelo ser­ (Magalhães, 1978: 23). Longas e difíceis expedi­ uma de 25 brancos, 60 selvagens pagãos e 30 es­
rigor da raia. A ignorância em relação às longitudes tão apenas dez léguas (idem: m, 155). ções. Algumas feitas um pouco ao acaso, com o a cravos cristãos, que andou pelo sertão das A lpa-
permitia uma conveniente indefinição. Que levava Em si mesmos, aquelas apreciações e aqueles comandada por Sebastião Fernandes Tourinho, riacas (Bahia) em 1590-1591 (Primeira visitação, 1935:
os mais ousados a avançar até onde pudessem. E os confrontos são incorrectos. C om efeito, os enge­ «que andou alguns meses á ventura, sem saber 94, 104, 107-108, 126, 168). Para o interior do Es­
mais ousados, e mais interessados, eram os Portu­ nhos estabeleciam-se próximo do litoral pela facili­ por onde caminhava». Busca sem destino certo, a pírito Santo foi Marcos de A zevedo em busca de
gueses. Que queriam aproximar-se das fabulosas ja ­ dade dos transportes e melhor defesa. Tais vanta­ que valeu saber muito bem medir a latitude pela esmeraldas, que «no princípio se tiveram por per­
zidas de prata que se encontravam localizadas no gens nisso verão os Holandeses, que «não as pode altura do Sol, pelo que a rede fluvial do rio feitas, mas depois se acharam faltas de muitas qua­
domínio castelhano. Que queriam lucrar com essa ultrapassar nem a natureza nem o engenho huma­ Grande ficou bem demarcada (Sousa, 1987: 1 parte, lidades que deviam ter para serem verdadeiras es­
proximidade que a organização do império caste­ no» (Nieuhof, 1942: 66). As buscas de pedras e de cap. xxxni, 81). meraldas» (Diálogos, 1956: 1, 72; M oreno, 1955:
lhano legalmente impedia. Já em 1586 há notícias metais preciosos nunca cessaram, em expedições Em 1592 conta um mameluco da Bahia que an­ 81-83).
de que o Amazonas pode permitir a ligação entre o em que as mais das vezes se misturava a prospecção dara dezasseis meses pelo sertão a fazer descer gen­ Outras entradas se faziam a partir do Nordeste,
Peru e a costa brasileira (Diálogos, 1956: I, 44). Mas mineira com a procura de índios para os escravizar. tio. Um natural de Bucelas por lá andou igualmen­ como a comandada por Francisco Barbosa da Silva
não teve seguimento essa possibilidade de se nave­ Vai-se isso evidenciar no movimento das entradas te dezoito meses. Ao interior de Porto Seguro vai pelo São Francisco em 1578 (Salvador, 1975: 189) ou
gar a prata por caminho mais curto do que o do para o interior, depois chamado das «bandeiras», uma expedição comandada por Antônio Dias aquela em que vai Martini de Sá e Salvador C o r­
Panamá. As fiscalizações e os interesses gue com que se organiza em especial com partida de São Adorno, em 1572, «à conquista do ouro». Outras reia de Sá ao Sergipe em 1618, em busca de prata
elas se ligavam já estavam montados nas Índias de Paulo de Piratininga e algum tanto do Pará (Corte­ expedições pelo interior baiano e pernambucano (Boxer, 1973: 53). Martini de Sá que já andara em
Castela, dispensando — e fazendo temer — as pas­ são, 1964). Mas também a partir de outras capita­ duraram um ano ou mais. As comandadas pelo ca­ 1596 pelo interior do R io de Janeiro em busca da
sagens pelo Brasil, pelos contrabandos que se lhe nias. pitão Antônio Dias Adorno foram de nove e três mítica serra de prata de Sabarabuçú (idem: 309).
poderíam seguir. C edo se organizam expedições para descobrir meses — à busca da serra das esmeraldas, uma delas A de que foi encarregue Manuel Rodrigues, de
e conhecer o interior, com especial atenção ao para o interior do Espírito Santo, outra para os 1625, decerto prenhe de expectativas. C om infor­
curso dos rios, cuja navegabilidade se tentava Ilhéus. D e Ilhéus também, parte Luís Alvares de
O RECONHECIMENTO DA aproveitar. D o Porto Seguro sai uma entrada para Espinha, que cativou muita gente (Salvador, 1975:
mações fornecidas mais tarde por este sertanejo, sai
em 1641 da Paraíba uma outra comandada pelo ho­
TERRA E OS RECURSOS o rio São Francisco com um Bastião Alvares, que liv. in, cap. 2o.0, 183). Domingos Fernandes, 0 To- landês Elias Herckmans. Conta, como era já nor­
_______ NATURAIS_______ por aí andou quatro anos, sem grandes resultados, macaúna, comandou várias expedições por quatro- mal para os portugueses, com a «perícia dos índios
pelos anos de 1570. M elhor sucedeu a João C oe­ -cinco ou seis meses — mas também uma que para descobrir os caminhos e com o trabalho de
O reconhecimento da costa fora feito nos pri­ lho de Sousa, que redigiu mesmo o roteiro dessas durou catorze meses a partir da Bahia. Havia-as abri-los» por entre a densa mata e os torrenciais
meiros anos de presença. Faltava o reconhecimento paragens. Porém, nem um nem outro atingiram bastante mais curtas, que pouco iam além de um cursos de água. Procurava, sabe-se, ouro e prata —
do interior e dos recursos com que se podería con­ as supostas serras de ouro e prata (Sousa, 1987: mês. Expedições que podiam levar muita gente, minas de prata que em 1637 outros holandeses te-

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O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

riam buscado em vão. Entrada pouco profunda de A ESCRAVIZAÇAO DOS imaginativa, pois repetia o que fora experimentado
apenas dois meses ao longo do rio de São Francisco ______ ABORÍGENES______ na ilha da Madeira.
(Barléu, 1974: 221-231). D e que resultou um mapa Nem por isso se abandonou a escravização dos'
elaborado por Georg Marcgraf (Zandvliet, in B oo- Um dos atractivos principais das entradas para o índios, até porque a compra de escravos africanos
gaart et alii, 1992: 304). interior residia na busca de gentios para os reduzir pressupunha capitais que só se encontravam nas ri­
O mesmo sentido de penetração para o interior à condição de escravos. A mais das vezes uma acto cas capitanias produtoras de açúcar — sobretudo
acontecia em São Paulo. Não poucos dos paulistas, ilegal, pois desde 1570 estava muito limitada a es- em Pernambuco e depois algum tanto na Bahia.
por razões de defesa contra os índios e de busca de cravização do aborígene (Prado Júnior, 1970: 35; E mesmo aí a utilização do índio continuou. Isto
meios para assegurarem a sobrevivência própria, Mauro, 1989: 1, 203). Havia que trazê-los até ao apesar das fortes restrições que os Jesuítas consegui­
iniciaram, ainda no decurso do século xvi, expedi­ litoral, onde a mão-de-obra fazia falta para os en­ ram introduzir nas leis e nas políticas régias, em
ções que partindo do planalto vão percorrer e re­ genhos de açúcar, para a lavra das canas e para as 1574. A escravização só passa a ser lícita quando re­
conhecer o Sul do continente. Movimento de bus­ fazendas que asseguravam os mantimentos. A mer­ sultando de guerra justa, quando já se encontravam
ca sempre para o interior. Tratava-se também de cadoria humana era bem paga. Aos assaltos às al­ condenados à morte ou se essa tivesse sido a condi­
procurar ouro, prata e esmeraldas. Q ue se suspeita­ deias próximas dos primeiros tempos vão os natu­ ção anterior. E as alfândegas aqui terão de intervir.
va existirem e que teimosamente se procuravam rais responder acolhendo-se ao interior e resistindo Era o que dizia a legislação, várias vezes reforçada.
(Magalhães, 1978: 14). N ão só. pela força aos que os querem capturar. O que tor- Porque a prática será muito mais complacente. Ha­
verá insistentes medidas legais contra a escraviza­
R um os das principais entradas e bandeiras do Brasil fapud Mauro, 1991) ção — 1587, 1605, 1611 (Mauro, 1991: 1, 203-205) — ,
sempre incumpridas ou torneadas pelos colonos.
Que continuarão a penetrar para o interior a fazer
escravos.
Com a legislação que tentou restringir a possi­
bilidade de escravizar os índios foi esta actividade
menor em boa parte do Brasil. Entretanto, prova­
ra-se que se tornava mais rentável a aquisição de
escravos africanos. Muito mais fáceis de obter.
Com lei ou sem lei, nem por isso desistiam os co­
lonos de escravizar índios. Procediam a operações
paramilitares de exploração dos sertões para, como
diziam, «fazer descer gentio». E esse forçar a descer
significava a escravização. Contra o estipulado em
lei, contra a actuação dos Jesuítas que se esforça­
vam por evitar o intenso desbaste na população
que das expedições resultavam. Pelas mortes que
assim ocorriam, pela desorganização dos grupos e
Gravura de Jean de Léry, Histoire d ’un voyage fait en pelas migrações que provocavam, pelas epidemias
terre du Brésil, La Rochelle, 1 5 7 8 (B N ) que directamente nesses contactos tinham os seus
focos de contaminação. Pela desestruturaçào nas
na cada vez mais difícil as capturas, exigindo mais sociedades indígenas que assim se promoveu (Wil­
tempo pelos sertões e mais gente nas expedições. liamson, 1992: 88).
E mais complexa a organização e as teias de rela­ Os Portugueses procuravam jogar com as ini­
ções que se estabelecem para as concretizar. Só em mizades profundas entre os grupos de indígenas,
casos de fome generalizada os indígenas se acolhem com o fito de aliar uns e escravizar outros. Nem
espontaneamente ao litoral. Foi assim em 1583, sempre a execução dessa estratégia era bem executa­
aquando de uma grave seca em Pernambuco: 4000 da. Assim, os amigos Tupiniquins, do litoral entre
ou 5000 índios terão descido do sertão «apertados São Vicente e o Nordeste, foram sendo dizimados,
pela fome». Vencida a dificuldade, retornaram ao «parte com doenças, parte com o maltratamento
interior os que puderam, «excepto os que ficaram dos Portugueses». Vazio que permitiu o muito
em casa dos brancos ou por sua, ou sem sua vonta­ mais indesejável contacto directo com os bravos e
de» (Cardim, 1980: 162). ferozes Aimorés. E mostrou a grande fragilidade
O problema central da mão-de-obra continua­ dos colonos, impossibilitados de se defenderem. Já
va por resolver. E a solução comummente aceite «a capitania de Porto Seguro está meio despovoada
passava pela utilização de escravos, «porque sem e a dos Ilhéus em grandíssimo aperto». Mesmo
eles não se podem sustentar na terra». Prosseguia, perto da Bahia «os homens buscam ilhas em que
porém, a fuga dos naturais: «Se estes índios não fo- fazer suas fazendas, porque não ousam estar na terra
rão tão fugitivos e mudáveis não tivera comparação firme». Assim escreve José de Anchieta em 1584
a riqueza do Brasil.» Por isso se vai tornar imperio­ (Anchieta, 1988: 316).
so importar escravos de Guiné, «mais seguros que Longa e conflitual relação a dos colonos com
os índios da terra porque nunca fogem nem têm os naturais. Que não pouco se traduz ainda por
para onde» (Gândavo, 1980: 11, 42-43). Saída pouco uma aproximação dos brancos aos costumes índios.

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O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

Nào poucos dos que se empenhavam nestas expe­ pitão-donatário Duarte C oelho propusera com o Em 1618 já a granjearia de terras e lavouras no
dições para o interior eram mamelucos, filhos de solução. Em 1584 estimam-se em perto de 2000 litoral açucareiro era feita apenas por escravos ne­
brancos e de gentias. Que falavam a língua, a quem os escravos de Guiné, em 1587 entre os 4000 e os gros de Guiné e de Angola (Diálogos, 1956: 1, 39).
os costumes nào afastavam. Bem pelo contrário. 5000. Por essa altura se diz que «os índios da terra Mas ainda havia troços por ocupar, como a capita­
Facilmente se deixavam contaminar pelo viver ín­ são já poucos» (Cardim, 1980: 162, 164; Sousa, nia dos Ilhéus, «capaz de se poder nela fazer muitos
dio. Com o se fossem índios. Havia-os que se fa­ 1987: 1 parte, cap. xvi, 58; Brito, 1931: 57; M ore­ engenhos de açúcar, o que impede haver efeito pe­
ziam tatuar para mostrarem a sua valentia. Gaspar no, 1955: 175; Barléu, 1974: 128). Em princípios do las muitas correrías que nela faz o gentio chamado
Nunes Barreto, natural da Bahia, lavrador, filho de século xvii a população de negros africanos no Aimoré». C om pequena diferença o mesmo ainda
senhor de engenho, «estando em Taparica se man­ Brasil devia orçar entre os 13 000 e os 15 000 sucedia em Porto Seguro (idem: 1, 71-72). N ão
dou riscar por um negro da terra na perna esquerda (Mauro, 1991: 1, 239). eram indígenas integráveis, pelo que a solução
da banda de fora da cintura até meia coxa, o qual Segundo Gaspar Barléu, de 1620 a 1623 saíram consistia em afastá-los, importando de África a
ele consentiu e mandou fazer em si sem nenhuma de Angola para Pernambuco 15 430 peças de es­ mão-de-obra necessária ao tipo de exploração açu-
má tençào gentílica (...) o qual riscado é que com cravos. N úm ero inseguro mas verosímil. Sem os careira adoptado.
um dente agudo de um bicho se fazem uns lavores negros não seria possível o fabrico de açúcar. Nos princípios do século xvn já se diz que
rasgados na carne os quais untam com o sumo de E para as minas americanas sairiam pelo fim dos «neste Brasil se há criado um novo Guiné com a
certa erva chamada erva-moura e uns pequenos pós anos de 1630 uns 15 000 escravos por ano — o grande multidão de escravos vindos dela que nele
de escoado e assim saram as ditas feridas e ficam os que parece exagero (Barléu, 1974: 42, 214). N o se acham». Já então em algumas capitanias «há mais
lavores como ferretes para sempre». Isto à imitação conjunto seriam necessários uns 4400 escravos deles que dos naturais da terra, e todos os hom ens
dos gentios, que o fazem para se mostrarem valen­ para Pernambuco, para a Bahia e R io de Janeiro que nele [Brasil] vivem tem metida quase toda sua
tes e desforçados (Primeira visitação, 1935: 99-100). 4000, para as índias de Castela e Antilhas 5000 e fazenda em semelhante mercadoria» (Diálogos,
O mameluco Lázaro da Cunha viveu cinco anos 1500 para Buenos Aires e rio da Prata (Boxer, 1956: ii, 101). Para um engenho funcionar bem de­
«ao modo gentílico despido e tingido, e fazendo e 1973: 238). A exposição final de M aurício de Nas­ via ter 50 peças de escravos e 15 a 20 juntas de bois
usando todas as cerimônias, usos, ritos, estilos, sau à W IÇ (West-Indische Com pagnie, Com pa­ (idem: m, 167).
e costumes». nhia das índias Ocidentais) indica a necessidade A economia assente no trabalho escravo tam­
Não menos a proximidade e o tempo de afasta­ de importação anual de 3000 escravos das costas bém continha riscos. Sarampo e bexigas expan­
mento em relação à família provocava pecados de de África para Pernambuco. Mas por mais que se dem-se com velocidade, fazendo grandíssimas ma­
carne: um mameluco «conversou camalmente as tragam, o fluxo aprovisionador não pode estan- tanças, «assim no gentio natural da terra co m o no
gentias e tinha mulheres muitas como costumam os car-se, pela elevada mortalidade: de 64 000 escra­ de Guiné, e no ano de 1616 e 1617 ficaram muitos
gentios e todos os exteriores de gentio guardou in­ vos importados morreram 1525 (Barléu, 1974: 333, homens neste Estado do Brasil de ricos pobres p e­
teiramente». O mesmo fazia Domingos Fernandes, 338). la grande mortandade que tiveram os escravos»
0 Tomacaúna, adoptando os usos e costumes dos Angolanos, in Antônio de Oliveira Cadomega, História D e escravos provenientes da Mina se diz serem (idem: 11, 125). Dos negros africanos os mais traba­
gentios. Pintava-se como eles, tomava mulheres Geral das Guerras Angolanas, 1 6 8 0 -1 6 8 2 ( A C L ) comercializados, «com largo lucro de espanhóis e lhadores e melhores para os trabalhos agrícolas se­
entre as gentias, ao modo gentio (idem: 108, 168). portugueses». São transportados para o Brasil e para riam os de Angola. Os de Guiné, Serra Leoa e C ab o
Frei Vicente do Salvador conta do exagero de um de África, a miscigenação que ocorre, não tem de as índias Ocidentais, «a fim de naquele trabalharem Verde eram preferidos para as tarefas domésticas,
capitão do Ceará que se metia «entre os índios nus, imediato as mesmas implicações nem alcança o principalmente no fabrico do açúcar, e nestas cava­ «mais polidos», com «mais gosto para a elegância e
nu e tinto da sua cor». E acrescenta, com uma mesmo grau de intensidade da que já ocorria entre rem as minas». A grande vantagem dos negros afri­ os enfeites, principalmente as mulheres» (Barléu,
ponta de ironia, que «parece não obrigar seu ofício portugueses e índios. Em 1584 assinala-se nos enge­ canos estava em serem «tolerantíssimos» ao trabalho 1974: i33>-
a tanto» (Salvador, 1975: liv. v, cap. 48.0, 419). nhos de Pernambuco «gente branca, índios da terra e de com pouca comida se contentarem. «Nascidos Nem por isso o índio era dispensável e o negro
Nào deixavam os índios de ser contaminados e negros de Guiné»; nos da Bahia «portugueses, ín­ para sofrerem a inclemência da natureza e miséria o substituía em tudo. Em especial pelo que tocava
pelos portugueses. E ver como os rituais religiosos dios da terra e negros de Guiné». Já em Ilhéus ape­ da servidão, por muito dinheiro são vendidos co­ à defesa «este Estado, tendo tantas léguas de costa e
dos grupos fugitivos à servidão imitam à sua ma­ nas se sabe de «índios da terra e portugueses». E o mo escravos» (idem: 64-65). de ilhas e de rios abertos, não se há-de defender,
neira os rituais católicos. Nesses grupos de religio­ mesmo no Espírito Santo (Anchieta, 1988: 326-138). Não corriam os senhores os mesmos riscos do nem pode, com fortalezas, nem com exércitos, se­
sidade sincrética reunidos em tomo de «santidades», Presença dos índios que se assinala nos territórios que com os índios, que sempre tentavam fugir? não com assaltos, com canoas, e principalmente
a influência do viver dos portugueses é evidente do Sul, onde nào há cultivo de cana-de-açúcar e Talvez os negros fossem mais vigiados, pois diz-se com índios e muitos índios; e esta guerra só a sa­
(Metcalf, 1995; Souza, 1994: 95-96). A proximidade onde uma população pobre nào dispõe de escra­ que aos brancos «cada dia se rebelam e andam sal- bem fazer os moradores que conquistaram isto, e
e intimidade com os índios contaminava sobretudo vos negros. Em São Paulo percebe-se bem, em teando pelos caminhos e se o não fazem pior é nào os que vêm de Portugal». Assim escreveu o
os brancos e seus descendentes. Em especial aque­ 1585, que ainda há «muita escravaria da terra». São com o medo dos ditos índios, que com um capitão padre Antônio Vieira referindo-se ao Maranhão.
les cujos horizontes vivenciais decorriam do Brasil Vicente, pelo contrário, por faltarem índios para português os buscam e os trazem presos a seus do­ Mas é aplicável a todo o território (Vieira, 1970-
natal, não do longínquo e desconhecido Portugal. os cultivos, se vai despovoando (Cardiin, 1980: nos» (Salvador, 1975: liv. iv, cap. 39.0, 285). Neste -1971: tomo 1, 403). U m novo Portugal, assim o diz
Mormente os que tinham por igual ascendência I73-I74)- caso os negros de Guiné são tidos como mais re­ Fernão Cardim. Uma nova Guiné, para Am brósio
nativa e portuguesa. Hibridismo de uma «dupla fei­ N o Nordeste, em Pernambuco, vão-se multi­ beldes que os de Angola. Tão rebeldes que se agru­ Fernandes Brandão. U m novo Brasil, afinal, para
ção étnico e cultural» (Cortesão, 1966: 1, 87-88). plicar os engenhos de açúcar: segundo Fernão pam e organizam em «um mocambo 011 magote de o padre Antônio Vieira, para quem os que vêm do
Cardim seriam sessenta e seis em 1584, enquanto negros de Guiné fugidos que estavam nos palmares reino são meros rendeiros, simples aproveitadores
Gabriel Soares de Sousa indica só 50 em 1587. do rio Itapucuru, quatro léguas do rio Real». Vão momentâneos, enquanto os que estão fixados no
A ENTRADA MACIÇA DE Em 1591 foram contados 63, e em 1612 uns 90. ser os índios a dar neles e a acabar «com aquela la­ Brasil são verdadeiramente donos da terra.
______ AFRICANOS_______ Em 1639 seriam 121, mas alguns estão parados ou droeira e colheita que ia em grande crescimento».

A entrada maciça de africanos vem alterar os


arruinados por falta de mão-de-obra devido à Muitos morreram, outros foram sendo vendidos no VISÕES DA TERRA
presença holandesa. Muitos, seguramente, o que caminho de retorno, poucos tomaram a seus do­
dados étnicos da ocupação do Brasil. Assente na es­ exige a importação de grande quantidade de nos». Acontecimentos de um quilombo de 1603 Com as expedições prospectoras e depredado-
trutura do trabalho escravo dos negros importados mão-de-obra africana. O que desde o início o ca­ (idem: liv. iv, cap. 4o.0, 288). ras vai-se conhecendo o Brasil. Terra e gentes. Sa-

34 35
O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

ber da terra e das gentes que se transmite pelas co­ colhê-la para seu remédio» (Gândavo, 1980: Prólo­ ficaram a dever a Anchieta. Embora o proselitismo
munidades que o usam. Os primeiros escritores go, 22). Propaganda de emigração que o leva a jesuíta esteja bem à tona, há que reconhecer que
que registaram a realidade de uma observação es­ escrever uma pequena e pouco detalhada informa­ desses escritos resulta um excelente conjunto de in­
forçaram-se por dar a conhecer a sua fertililidade, o ção, a suficiente para fazer passar o seu recado. Para formações sobre a terra e as suas gentes.
bom clima, as muitas e exóticas plantas, o seguro o que adopta o velho e provado esquema das coro- Excelente observador se revela também o padre
aproveitamento que havia a fazer. E os perigos que grafias: nome da terra, localização, extensão, se­ Femão Cardim, alentejano transplantado além-mar.
os indígenas representavam. Foi assim por volta de nhorio, actividades produtivas, população. A que Por volta de 1584 descreve o clima e terra do Bra­
1570 com Fero de Magalhães Gândavo, e com o vai acrescentar aquelas que lhe parece serem as sil, que é uma apresentação das «coisas notáveis»,
seu Tratado da terra do Brasil — e depois com Histó­ possibilidades que se abrem na nova terra. Por ob­ dos animais e das plantas que aí havia ou já se cul­
ria da Província Santa Cruz a que vulgarmente chama­ servação ou suspeita. E alguma coisa do gentio de­ tivavam. N o mesmo intento de apresentação cons­
mos Brasil (1576). Seguiu-se, cerca de 1583, Femão la, não deixando de destacar o canibalismo que tam os índios, seus costumes, adoração e cerimô­
Cardim, com os Tratados da terra e gente do Brasil; continuava a impressionar. nias. Também se lhe deve uma missiva relativa a
veio em 1587 Gabriel Soares de Sousa, com o Tra­ O seu propósito era o de fazer propaganda e uma longa viagem e missão jesuítica efectuadas de
tado descritivo do Brasil em 1587. N ão parece de atrair quantos quisessem para lá emigrar. Assim, lo­ 1583 a 1585. De grande interesse pela soma de infor­
aceitar que tivesse sido o acaso que levou a que go ao descrever a capitania de Itamaracá explicita: mações que transmite e não apenas sobre a vida re­
quase todos estes escritos tivessem ficado inéditos, «Há nesta capitania muitas e boas terras pera se po­ ligiosa e social.
embora não desconhecidos. Apesar da larga difusão voarem e fazerem nelas fazendas» (idem: 1, cap. 1, Femão Cardim tem, mais do que os outros
dos manuscritos corrente ao tempo, a impressão 25). Tipo de informação essencial para atrair os po­ escritores, sensibilidade para se extasiar perante a
significava uma publicidade acrescida, que as auto­ tenciais interessados à emigração. Na capitania do paisagem. Assim, na baía de Guanabara, vendo a
ridades talvez não estivessem interessadas em pro­ Espírito Santo se podem fazer algumas povoações fragosidade das serranias e rochedos espantosos es­
mover. Porque apontavam suspeitas de riquezas «e conseguir proveito das terras viçosas que por es­ creve: «Bem parece que a pintou Nosso Senhor, e
que convinha manter em segredo. Se bem que ta costa estão desertas» (idem: 1, cap. v ii , 38). E as­ assim é cousa formosíssima e a mais aprazível que
muito se buscasse o ouro sem que se encontrasse, sim por todo o Brasil se abrem possibilidades a há em todo to Brasil, nem lhe chega a vista do
nem por isso se desesperava. Mais valia segredar do quem nele se queira fixar. O panorama de Pêro de Mondego e Tejo» (Cardim, 1980: 170). Como rela­
que assoalhar uma existência de que havia fortes Magalhães Gândavo não é optimista, mas mostra ta o que vê para quem tem outros termos de com­
indícios? E que continuava a atrair aventureiros? com clareza o que se encontra em aberto para paração, esforça-se por os utilizar: o Mondego, o
Assim parece. quem se quiser arriscar à emigração. Prosa que teve Tejo e o Zêzere, a serra da Estrela, Entre Douro e
Gabriel Soares de Sousa escreve em 1587 o seu a boa sorte de ser impressa em 1576 — e ainda por Minho, as casas jesuíticas de Coimbra e Évora.
magnífico Tratado descritivo do Brasil em 1587 para cima com o patrocínio poético de Camões. Quer transmitir o que viu, embora lhe falte saber
convencer D. Cristóvão de Moura a patrocinar literário para conseguir fazer passar ao leitor a co­
uma expedição às cabeceiras do rio de São Francis­ munhão de sentimentos perante a paisagem.
co, em busca de ouro. Apoio que conseguiu, ten­
AS CARTAS DOS IESUÍTAS Nada do que havia no reino aí faltava, e muito
do sido nomeado capitão-mor e governador da Mas já de trás vinha uma outra via de divulga­ Gravura de A . Clouwet, C rônica da Com panhia de mais abundava naquilo que o reino não tinha.
conquista e descobrimento do rio de São Francis­ ção. Uma das formas da Companhia de Jesus se Jesus da Província do Brasil, Simão de Vasconcelos, A crer em Femão Cardim, a terra cresce e transfor-
co. Não sobreviveu e ficou-se a caminho da pros- manter informada do que os seus membros anda­ Lisboa, 1663 ma-se: «Em fim esta terra parece outro Portugal»
pecção. O ouro continuava escondido. Mas mes­ vam a fazer nas várias províncias consistia na redac­ (idem: 174).
m o Gabriel Soares de Sousa no seu escrito ção anual de uma carta que era enviada para R o ­ resultados da evangelização, sempre provisórios.
entendeu prudente esconder as informações de que ma, ao geral. Assim se registavam e passavam as O desânimo também emerge. _____ IEAN DE LÉRY______
dispunha — ou julgava dispor — sobre a abundân­ notícias consideradas importantes para o desenvol­ Os Jesuítas não se limitavam, porém, a apresen­
cia de metais preciosos (Sousa, 1987: 352). vimento do instituto, e se relatavam acontecimen­ tar as suas obras e feitos. Homens cultos, de forma­ Grande fortuna teve o escrito do frade cosmó-
O interior brasileiro não era um território que tos, de uma maneira geral edificantes. Quanto mais ção humanista, procuravam entender e explicar o grafo André Thevet, intitulado Les Singularitez de la
se ignorava ou que se não quisesse conhecer. Pelo exemplares, melhores as cartas. Escreveu-as no vi­ que viam e observavam. E assim escrevem sobre France Antarctique autrement nommée Amerique & de
contrário: os caranguejos de Frei Vicente do Salva­ vo do espanto pela novidade, Manuel da Nóbrega, plantas e animais, ou muito especialmente, sobre os plusicurs Terres & Isles decouvertes de nostre temps, saí­
dor avançavam bem para o interior. Desde a gran­ outros as redigiram, entre os quais José de Anchie­ índios. José de Anchieta vai mais longe. Escreve do em Paris, em 1557 (Thevet, 1997). Nascido no
de expedição pelo Sul do continente de Aleixo ta, com importantes observações não apenas sobre em 1584 um primeiro esboço de uma história do princípio do século em Angoulême, franciscano, ao
Garcia, em 1524, nunca houve descanso nesta ave­ o estado das almas mas das terras (Rodrigues, 1979: Brasil. Alinha governadores e bispos, conta dos ín­ serviço do rei de França como cosmógrafo, Thevet
riguação do que se escondia nas lonjuras america­ 249-296). As missivas cumpriram as funções edifi­ dios e das suas relações com os portugueses nos di­ percorre o Levante mediterrânico de que deixou
nas. Serras de cobre, de prata, de ouro, de cristal cantes a que se destinavam, tendo até havido tradu­ ferentes núcleos de colonização. Rascunha sobre a testemunho publicado. Mas sobretudo será dos pri­
vão aquecendo as imaginações. Mitos motivadores ções publicadas e largamente divulgadas (Pinto, in vinda dos primeiros jesuítas com Tomé de Sousa, meiros europeus a descrever o que viu e ouviu
das muitas entradas, de desbravamento do interior H G CB , 1973: 163). dos segundos com D. Duarte da Costa, e dos que contar no Brasil, onde esteve pouco mais de dois
(Magalhães, 1978: 14-55). Sem que isso tenha signi­ Tendo a Companhia de Jesus um como que adiante se lhes juntaram. Desenvolve a descrição meses, em 1555-1556. Ido na expedição de Nicolas
ficado a fundação de povoados. Porque a gente era sentimento de posse relativamente ao Brasil e às das ocupações e trabalhos da Companhia, dos seus de Villegagnon, pouco por ali se demora. Mesmo
pouca. suas gentes (Rodrigues, 1979: 249), o interesse dos colégios e provinciais. Passa depressa sobre as relí­ assim o suficiente para deixar algumas notícias de
C om o seu Tratado da terra do Brasil — e depois padres passava por que houvesse um pleno conhe­ quias que iam coleccionando, e demora-se um muito interesse sobre o novo continente. As Sin­
com História da Província Santa Cruz a que vulgar­ cimento do que por lá iam fazendo. O que nem pouco mais sobre os costumes dos Brasis. Q ue co­ gularidades que foram muito estimadas, pelo que o
mente chamamos Brasil — , Pêro de Magalhães Gân­ sempre garante o integral valor das informações. nhece bastante bem. E termina com um ataque aos relato foi reimpresso duas vezes no ano seguinte
davo procura dar a conhecer «em breves palavras a No entanto, transparecem notas do maior interesse, brancos e ao que fazem tiranizando os índios, o — 1558 — , merecendo pronta tradução em italia­
fertilidade e abundância da terra do Brasil para que naquelas em que a edificação das almas não implica que tem como resultado impedir as conversões. no — 1560 e 1584.
esta fama venha a notícia de muitas pessoas que nes­ distorções piedosas — como o número dos cate- Forte condenação (Anchieta, 1988: 309-342). Outras Contra André Thevet escreve Jean de Léry,
tes reinos vivem com pobreza, e não duvidem es­ cúmenos, sempre exagerado, ou os entusiásticos informações sobre a terra e sòbre os seus naturais se que pela mesma altura viveu no Brasil. Calvinista,

36
O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

vem de Genebra para o Forte de Coligny na baía miliares, diz da guerra e da hospitalidade, dos com ­ belas madeiras. M antimentos aí não faltavam, piniquins, que depressa se tornaram domésticos,
de Guanabara em 1556. Aí permanece até 1558. R e ­ portamentos na doença e perante a morte. Procura eram excelentes os açúcares — «tão bons como na «muito fiéis e verdadeiros» e que bem colaboraram
gressado a Genebra, tardará a publicar a sua Histoire saber alguma coisa da origem dos grupos Tupi- ilha da Madeira». Também não faltavam os ce­ com os Portugueses (idem: 1 parte, 87-88). N ão dei­
d’un voyage fait en terre du Brésil — 1578 — , a que nambás e Tupiniquins e da língua que falavam. reais, abundavam os metais e as pedras preciosas. xa ainda de brevemente caracterizar os Goitacases,
seis edições posteriores e tradução latina asseguram Com o era inevitável, demora-se sobre o canibalis­ 0 que não havia era investimento. E tornava-se os Papanases, os Tamoios, os Guaianases e os C ari-
difusão por toda a Europa. Obra de um pastor pro­ mo que considera como um ritual guerreiro e não urgente remediar a situação. Se o rei português jós, para melhor se entender as vicissitudes da his­
testante, irritado com as falsas ou apressadas infor­ como uma forma corrente de alimentação — mes­ não aplicasse cabedais, estrangeiros viríam substi­ tória das várias regiões do Brasil (idem: 1 parte, 95-
mações de Thevet, que procura rebater. D e As mo se admite que os íncolas consideram a carne tuir os Portugueses no Brasil (Sousa, 1987: 1 parte, -97, 109-110, 115, 119).
Singularidades diz Jean de Léry estarem inçadas de humana «maravilhosamente boa e delicada» (Léry, Proémio, 39-40). Alerta a Filipe II, em 1587. Ga­ A ordem de apresentação destes capítulos que
mentiras. O que, bem vistas as coisas, é polemica 1994: cap. xv, 366). E a mais completa observação briel Soares de Sousa não se limita, como Pêro de rompem com a estrita ordem do roteiro é ainda
religiosa e não propriamente levantada a propósito e divulgação do Brasil e dos seus naturais até en­ Magalhães Gândavo ou Fernão Cardim, a uma rá­ conscientemente geográfica — vindo aquando da
do que ambos puderam observar da terra e das tão impressa na Europa. A que as muitas gravuras pida visão da terra. Conhece bem, se não toda, localização primitiva desses grupos indígenas, se­
gentes do Brasil. ajudam. boa parte dela. Além disso, recolheu informações gundo o percurso pelas costas que escolhera para a
A Histoire d’un voyagefait en terre du Brésil resul­ sobre o que não viu. Escrita empenhada, com narrativa. C om tanto cuidado para que nada do
ta de uma apurada observação, de quem durante pormenores de real interesse para informar a alta que considera importante falte. Assim, quando se
algum tempo viveu empenhadamente esse ensaio ROTEIRO administração do reino. Se sobreleva aos anterio­ limita a assinalar os Tapuias no Sul, avisa que deles
de estabelecimento dos Franceses no Brasil. C om o res no que toca ao roteiro geral de toda a costa tratará a propósito da Bahia, porque «são todos uns
Léry diz, Thevet só por lá esteve dez semanas...
DE TODOS OS SINAIS que apresenta, é sobretudo original no que respei­ e têm quase uma vida e costumes» (idem: 1 parte,
Ainda por cima acamado. Léry não. Sempre atento, Cerca de 1586 um anônimo escreve o «Roteiro ta a uma cuidada informação da Bahia. Aí viveu, 122). Esses como que excursos servem para mostrar
encanta-se com a baía de Guanabara e descreve de todos os sinais, conhecimentos, fundos, baixos, aí tem as suas propriedades. Aí morreu quando como os danos passados ou presentes causados p e­
os homens e mulheres do Brasil, como descreve os alturas e derrotas que há na costa do Brasil, desd’o avançava para o «rio de São Francisco e depois los índios se devem às carências de defesa dos por­
seus alimentos, as aves e os animais selvagens ou Cabo de Santo Agostinho até o Estreito de Femão por ele até a lagoa Dourada, donde dizem que tugueses contra os seus violentos ataques. Fazem
os irritantes insectos. Sabe dos ritos religiosos e fa- de Magalhães». Documento de grande beleza pelas tem o seu nascimento» (Salvador, 1975: liv. iv, parte da informação e da sugestão de uma nova
cartas que o acompanham, o roteiro ficará todavia 264). Em busca do ouro. política que o roteiro em si contém.
Gravura de Jean de Léry, Histoire d’un voyage fait en inédito por uns séculos. Mostra-nos ele a visão que Interessa-se Gabriel Soares de Sousa não só pela Os índios são a primeira e principal dificuldade
terre du Brésil, La Rochelle, 1578 (B N ) se devia ter do mar para bem se localizarem os aci­ terra, sua história, geografia e enumeração de re­ com que ainda se defrontam os colonos portugue­
dentes da costa e assim se atingirem a bom salva­ cursos. Sabe ou compila dados sobre as árvores e ses no Brasil neste ano de 1587. C om poucas ex-
mento os portos desejados. A vila de Olinda em frutos comestíveis, sobre as plantas medicinais, as cepções, o retrato traçado e transmitido por G a­
Pernambuco, a cidade de Salvador da Bahia, a vila madeiras, as aves, os insectos, os mamíferos, os pei­ briel Soares de Sousa mostra a população branca —
de São Jorge dos Ilhéus, a vila do Espírito Santo, a xes, os batráquios, os répteis. Das gentes tem bom ou mestiça de brancos e índios — acuada a uns
cidade de São Sebastião do R io de Janeiro, e o conhecimento dos Tupinambás, de que apresenta poucos centros habitados, reduzida a uma vida
conjunto formado por São Vicente, Santo Amaro, um quadro bastante pormenorizado, o mais perfei­ quase impossível, fazendo frente a ferozes naturais
Nossa Senhora da Conceição e Santos a sul são os to até então. C om isto nos dá um muito completo que quando podem destroem engenhos e fazendas.
centros habitacionais que se veem registados (Ma­ relato de uma vida vivida a fazer avançar a coloni­ E com os Franceses ainda à espreita. Assim mesmo
tos, 1965: 312-178). Alguns engenhos, aldeias e figu­ zação no Brasil. Significativamente nada pormeno- em Pernambuco, apesar do desenvolvimento em
ração de capelas mostram ainda quão pouco se riza quanto ao que se suspeitava sobre esmeraldas, que a cultura açucareira se encontrava, já com 50
avançara numa verdadeira colonização no Brasil. ouro e prata. ou mais engenhos em laboração — 66 segundo
A toponímia que já enchia as costas não significava A descrição de 1587 revela que o reconheci­ Fernão Cardim, em 1584 (Cardim , 1980: 162).
ocupação efectiva. Se outros aglomerados relevan­ mento das costas do Brasil já estava à data bastante A Bahia parece estabilizada, com uma interessante
tes houvesse, os cuidados do roteirista obrigá-lo- avançado. Nela se exprime uma visão da terra de expansão da produção de açúcar — 36 engenhos
-iam a que os tivesse mencionado. grande rigor. Sendo traçada em forma de roteiro correntes e moentes — e de gado vacum. Ilhéus,
aí se indicam as latitudes e a caracterização dos Porto Seguro, Espírito Santo e São Tom é ou Pa­
acidentes costeiros identificadores com vista à na­ raíba eram capitanias quase perdidas, os engenhos
GABRIEL SOARES DE SOUSA vegação. Por isso «surgidouros e abrigadas» vêm destruídos, as populações fugidas. Também o R io
devidamente assinalados. Não se dispensava já a de Janeiro merece detença, para que «se veja com o
C om o «Roteiro de todos os sinais» as impres­ cartografia, que acompanhava o exemplar com des­ é capaz de se fazer mais conta dele do que se faz».
sões de atentos mas, por força, superficiais observa­ tino a ser visto por Filipe II. Cartas que não seriam Não só pela facilidade de defesa com o porque aí
dores serão deixadas para trás. Impõe-se agora a vi­ da autoria de Gabriel Soares de Sousa, pois que podiam entrar e ancorar «naus de todo o porte, as
são muito mais rica dos que constroem uma corrige algumas indicações que nelas erradamente quais podem estar neste rio seguras» (idem: 1 parte,
vivência muito directa do objecto que intentam figuravam (idem: parte 1, 43). 100-103).
apresentar. E que precisam que esse escrito seja A história do território e das capitanias surge Com o fundamento ao propósito revelado pelo
convincente para obter do poder real o apoio ne­ também, embora invocada para ilustrar o estado roteiro de Gabnel Soares de Sousa de mostrar «as
cessário a pretendidas expedições de prospecção em que se encontra a colonização. Não é o objecto giandes qualidades do Estado do Brasil», está um al-
de metais para o interior. Para mostrar a seriedade principal da descrição. Aparece para explicar o vitre para o governo proceder empenhadamente à
do seu propósito descreve Gabriel Soares de Sousa aproveitamento econôm ico da terra. O u o seu defesa militar — fortificando os portos — e à aplica­
o Brasil como um todo. E fa-lo com conhecimen­ atraso. M uito em especial, Gabriel Soares de Sousa ção de capitais como meio de assegurar a coloniza­
to do objecto. intercala breves referências aos gentios e suas rela­ ção de tão bela terra, «capaz para se edificar» nela
Extensão imensa «quase coda muito fértil, mui ções com os colonos. Assim os que mais resistiam um «grande império» (idem: 1 parte, 39). O que não
sadia, fresca e lavada de bons ares e regada de fres­ à presença portuguesa, Caetés e Aimorés (idem: tardou a acontecer, mesmo se não houve o investi­
cas e frias águas», com bons portos e produzindo 1 parte, 61-62, 78-80). Diferentes se revelam os T u ­ mento desejável nas condições de defesa.

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O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

FRANÇOIS PYRARD Portugal e não como nas índias Orientais» (idem: de conserva, para não fazer concorrência ao asiáti­ meses antes estava no Rio da Prata, terras da índia
________DE LAVAL________ 11, 228). co. Belas hortas cheias de boas hortaliças, alfaces, de Castela (idem: 419; Primeira visitação, 1935: 170).
A riqueza principal é o açúcar: «Não julgo que repolhos, melões, pepinos, rábanos (idem: 11, E muitos, muitos mais, alguns bem conhecidos de
Tendo passado à índia em 1602, o francês Fran­ haja lugar em todo o mundo onde se crie açúcar e 230-231). outras famas, como Manuel de Sousa Coutinho
çois Pyrard, natural de Lavai, descreve as suas an­ tanta abundância como ali. Não se fala em França (Magalhães, 1993: 578).
danças pelo Índico e pela Ásia. Tendo no regresso senão do açúcar da Madeira e da ilha de São T o ­ Está em montagem o império português do
de uma viagem atribulada tocado no Brasil, apro­ mé, mas este é uma bagatela em comparação com OS PORTUGUESES NOS Atlântico. Em 1618 já é muito intensa a circulação
veita para transmitir as suas observações. Não é de o do Brasil.» Aí já estavam em laboração cerca de IMPÉRIOS ATLÂNTICOS entre o Brasil, Angola e o Rio da Prata. «A Ango­
estranhar que reivindique para os Franceses a des­ 400 engenhos. Isto na costa entre Pernambuco e a la se mandam naus com muitas fazendas, que de lá
coberta do Brasil. Era ainda a nostalgia da frustrada Bahia (idem: 11, 228-229). Em 1610, ano das observações de François Py­ tornam carregadas de escravos, por que se comu­
França antárctica. A o contrário dos Portugueses que inicialmente rard na Bahia, já o império atlântico português se tam, deixando grande proveito aos que nisto ne-
A Bahia que François Pyrard vê e descreve é já com o Brasil se encantavam e nele encontravam encontrava bem visível. A articulação entre a goceiam.» «Do Rio da Prata costumam a navegar
uma cidade com o seu aparato urbano. Facilitando um como que paraíso terrestre (Holanda, 1992; África, o Brasil e as índias de Castela estava já es­ muitos peruleiros em caravelas, e caravelas de
a ligação entre a praia e o alto da cidade, um enge­ Souza, 1994: 32-48), o francês acha a terra muito truturada: «A coisa que os Portugueses fazem mais pouco porte, onde trazem soma grande de patacas
nhoso elevador chama a atenção do viajante. Cida­ má, incapaz de servir para habitação se não fosse o estimação no Brasil são os escravos da costa de de quatro e de oito reais, e assim prata lavrada e
de portuária, com os seus armazéns e com uma atractivo pelos rendimentos do açúcar e do pau- África e das índias orientais, porque não se atre­ por lavrar, em pinhas e em postas, ouro em pó e
«bela e grande rua, bem povoada de toda a sorte de -brasil. Não escapou ao seu olhar atento a distinção vem a fugir nem a escapar-se.» À o Brasil chega em grão, e outro lavrado em cadeias», que comu­
lojas de mesteres e artífices» (Pyrard, 1944: 11, 227). entre a agricultura do açúcar e do tabaco para ex­ com regularidade «carne de vaca salgada que vem tam pelo que lhes é necessário (Diálogos, 1956: m,
Cidade portuguesa com a sua sé, com colégio de portação e as culturas para sustentação. Estas forne­ do R io da Prata. E impossível ver carne mais gor­ 171-172). Pondo em perigo o exclusivo do domí­
jesuítas, com misericórdia, hospital, onde aquarte­ cem arroz, milho grosso e miúdo, raízes de man­ da, tenra, e mais saborosa que aquela; pois são nio castelhano na América, o que a Inquisição de
lam três companhias de infantaria e residência do dioca, batatas e outras. M ilho nào comiam os aqueles bois os mais belos e grandes do mundo; e Lima consegue contrariar desencadeando em 1635
vice-rei. C o m muitos conventos — franciscanos, homens, dando-o aos animais. Criam gado e aves. vêm do Peru. Faz-se grande tráfico dos seus cou­ violenta perseguição aos peruleiros portugueses.
bentos, carmelitas. Cidade portuguesa: «Os portu­ Há frutas com abundância, laranjas, limões, bana­ ros» (Pyrard, 1944: 11, 236). Nestes começos do E com isso afastar os homens de negócio que esta­
gueses governam-se no Brasil em tudo com o em nas, coco e gengibre verde. Este só pode ser levado século xvii estava também já montado o desvio vam instalados pelas índias de Castela. Portugueses
da prata castelhana para o Brasil. «Nunca vi terra e Castelhanos, embora sob a autoridade de um
João Teixeira A lb e m a z I, mapa da baía de Todos-os-Santos, in Diogo de Campos Moreno, Livro que Dá R ezão do onde a prata seja tão comum, com o o é nesta do mesmo monarca, nem por isso se esqueciam ve­
Estado do Brasil [...], cerca de Í 6 1 6 (BPM P) Brasil, e vem do R io da Prata.» E nisso insiste: lhos conflitos. E invejas comerciais (Cortesão,
«E este o país em que se vê mais prata que em 1966: 11, 91-92).
outro lugar em que eu tenha estado, e vem toda
do R io da Prata.» A moeda que circulava era cas­
telhana, os reales (idem: 11, 230-231). Anos mais tar­ A HISTÓRIA DO BRASIL
de o holandês Gaspar Barléu declara que «não é
possível o fabrico de açúcar sem o auxílio dos ne­ Com o tratado-roteiro de Gabriel Soares de
gros que de Angola e outros pontos de África se Sousa temiinam as primeiras descrições do Brasil.
transportam em grande número para o Brasil» Um século depois da descoberta as costas estavam
(Barléu, 1974: 42). O s nós estão dados. devidamente reconhecidas. O que faltava percorrer
N o essencial, encontra-se montada a rede de li­ e registar encontrava-se no interior e nào era de
gações intercontinentais que estrutura o império molde a atrair a atenção e os recursos de muita
atlântico. Escravos africanos, produtos agrícolas gente. Mas o crescimento da população de origem
brasileiros e metais da América castelhana. E com portuguesa e mestiça começa a fazer-se sentir.
isso a liberdade de circulação de pessoas que ener- Com isso a curiosidade de saber como tudo tinha
vam esta construção. Pouco atentas à soberania das começado. E a necessidade de legitimar uma pre­
Coroas peninsulares. O u até, da parte dos Portu­ sença e uma acção continuadas. E a história que faz
gueses, tirando partido da União Dinástica, apesar a sua grande entrada: em 1627 Frei Vicente do Sal­
das proibições impostas. vador com a História do Brasil; em 1651, Simào de
Um tal Heitor Mendes, cristão-velho e natural Vasconcelos com as Notícias antecedentes curiosas e
de Vouzela, é em 1591 mercador que «tem loja no necessárias das cousas do Brasil, completadas com a
R io de Janeiro». Estando na Bahia, ao tempo da Crônica da Companhia de Jesus.
visitação inquisitorial, denuncia a mulher e a famí­ Por sugestão de Manuel Severim de Faria o
lia dela, por se ter tomado a casar sendo ele vivo. franciscano Frei Vicente do Salvador põe por escri­
Acontece que saiu de Pernambuco para o rio São to aquilo que averiguou do passado da sua terra
Francisco, daí arribou às índias de Castela, donde brasílica até ao ano em que escreve de 1627. Não
passou a Sevilha, e daí a Portugal. De Portugal foi se trata de uma obra que se destaque por grandes
ao Espírito Santo, do Espírito Santo atravessou para novidades de construção. E, em geral, convencio­
Angola, e de Angola finalmente regressou a Per­ nal. Mas não é menor o autor, que sente como
nambuco. Durante cinco anos (Primeira visitação, brasileiro a história da sua terra. Como brasileiro.
1925: 309-311). Sinais inúmeros há desta mobilidade Quase logo a abrir vem a crítica aos reis de Portu­
pelo Brasil e índias de Castela, como um tal Antô­ gal, que nunca puseram o Brasil entre os títulos
nio Poderoso, natural de Lisboa, em 1591 estante na que usavam. Também nenhum monarca desde
Bahia, que diz ser «tratante pera o Perum». Poucos D. João III dele curou, «senão para colher as suas

40 41
O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

rendas e direitos». Acusação extensiva aos portu­ te. Em que nem todos saem bem tratados, numa vfc^rrrtrCudo.*« <Wnpynt
gueses que por lá andam, que «tudo pretendem le­ escrita fluente e cheia de graça, rara num tempo
morlff <o:.-£ o Rv Tm»>.|
var a Portugal». Mesmo os que já lá nasceram usam barroco. Frei Vicente interpõe-se entre o que con­ «Muwr\O-Koftv
a terra como usufrutuários, «só para a desfrutarem e ta e a sua própria narrativa, criando um notável Hollwçt Ri-
o R »C iu 6 fi íin.ii* .íojutc Awinkí.-ii.i* oKwvjulitiKuú c’uuu.
a deixarem destruída». Ninguém zelava ou tratava efeito de distanciação: «E darei fim a esta minha c<aten»Ri*v>ii. 4U^., fc<uk4mb
do bem comum. E pouco depois lá vem a famosa história, porque sou de sessenta e três anos e é já
comparação dos Portugueses com os caranguejos, tempo de tratar só da minha vida, e não das
que se contentam com arranhar ao longo do mar, alheias» (liv. v, cap. último, 422). Apresentando
mas que não buscam penetrar para o interior (Sal­ uma anedota, conclui: «Não deu o meirinho res­
vador, 1975: liv. 1, caps. 2.°-3.°, 57-60). Estava dado posta a isto, nem eu a dou, porque os leitores
o tom da obra. Difícil de manter. Q ue reaparece a dêem a que lhes parecer» (liv. 11, cap. 3.0, 147).
propósito das insuficientes buscas de metais precio­ Autor que sabe duvidar daquilo que conta e a que
sos (cap. 5.0). Ou da falta de gente na ilha de Santa não assistiu. Em tempos de sentenciosas verdades
Catarina «por ser de portugueses que não sabem esta forma directa e simples de narrar, sem querer
povoar nem aproveitar-se das terras que conquis­ forçar a mão aos leitores, transmite uma frescura
tam» (liv. iv, cap. 2.0, 218). Portugal continha-se popular às muitas informações que registou — co­
em menos de cem léguas enquanto o Brasil tinha piando de fontes escritas ou por ouvir dizer. Não
mais de mil: «E seria este um grande reino, tendo espalha a cultura literária que tinha para enfada-
gente, porque onde há abelhas há o mel.» N o caso mento do leitor, com o então quase todos faziam.
de ataque de inimigos, ao Brasil podia passar o rei N em tudo é bom na História. Mas resulta original.
português (liv. in, cap. 1, 145). N o que D. João IV E estimulante.
também pensou, e de outras vezes poderia ter Se Frei Vicente do Salvador inaugura a História
acontecido (Azevedo, 1918-1921: 1, 343). E aconte­ do Brasil da melhor maneira, a história eclesiástica
ceu, século e meio depois. também lhe deve a Crônica da Custódia do Brasil, de
Por contraste, e para valorizar a terra que tão 1618. Mas a mais relevante das crônicas da primitiva
pouco aproveitada estava, destaca a sua formidável assistência religiosa deve-se ao jesuíta Simão de
abundância em árvores silvestres, plantas medici­ Vasconcelos, autor da Crônica da Companhia de Je­
nais, mantimentos, animais e bichos, aves e coisas sus. Acabada em 1663, situa-se já em cheio no am­
várias. «E o Brasil mais abastado de mantimentos biente cultural barroco, procurando ornar-se com João Teixeira A lh em a z I, capitania do Espírito Santo da barra do rio Doce, in Diogo de Campos Moreno, Livro que D á
que quantas terras há no mundo, porque nele se alguma da retórica da época que não lhe retira de R ezão do Estado do Brasil (...], cerca de 1616 (BPM P)
dão os mantimentos de todas as outras» (Salvador, todo simplicidade e graça.
1975: liv. 1, cap. 8.°, 68). Sempre em confronto O Brasil a que Simão de Vasconcelos se reporta rios, levando as canoas às costas aquela distância estudou. De novo também os índios, que é preciso
com Portugal. «Senão pergunto eu: de Portugal lhe nas iniciais «Notícias antecedentes, curiosas e ne­ entreposta tornam a navegar corrente abaixo do conhecer nos seus costumes e modos de vida. Na
vem farinha de trigo? a da terra basta. Vinho? de cessárias das cousas do Brasil» respeita ao espaço outro; e esta é a volta com que abarcam estes dois crueldade do canibalismo ritual, nas relações fami­
açúcar se faz muito suave [...]. Azeite? faz-se de que resulta do Tratado de Tordesilhas, incerto grandes rios duas mil léguas de circuito» (idem: liv. liares. Mas é a terra e a sua bondade que Simão de
cocos de palmeira. Pano? faz-se de algodão...» quanto à concretização dos seus limites. Porque «os 1, § 27, vol. 1, 63). Estava justificada em letra de Vasconcelos se não cansa de louvar. Por exclusão
E por aí afora, que do melhor havia no Brasil (cap. compassos de uns andaram mais, e menos liberais forma a posição que melhor servia a política portu­ de partes, e trabalhando a erudição possível, há que
i i .°). Passa depois ao gentio e seus costumes, visão os de outros, ou de propósito ou levados das diver­ guesa sobre os limites do Brasil. Q ue faz convergir concluir que o Paraíso terreal pode ser situado no
rápida em que distingue mal os diferentes grupos sas arrumações das cartas geográficas, veio a ocasio­ estranhamente os inimigos irreconciliáveis que são Brasil — dessa ousadia a censura eclesiástica não
de que se compunha, embora os conhecesse bas­ nar-se nesta matéria variedade» (Vasconcelos, 1977: os Jesuítas e os bandeirantes paulistas. Não o escre­ gostou, e os temerários parágrafos foram retirados
tante bem, como se vê ao longo da História. Todos liv. 1, § 15, vol. 11, 57). Não se deixe, pois, o leitor veram estes. Andaram-no. Do que o padre Simão (Holanda, 1992: xxi, 363-365).
bárbaros. Uns mais que outros. enganar. Os mapas são instrumentos políticos, e o de Vasconcelos teve notícia por relações diárias que Escrita de um jesuíta, confunde naturalmente a
Convencional é o livro 11, onde sumariamente autor adverte para a necessidade de a eles estar bem leu (idem: liv. 1, § 32, vol. 1, 65). História do Brasil com a história do instituto a que
apresenta as capitanias e seu evoluir até à criação atento. Mapas e experiência que devem servir co­ Terra que o cronista não se cansará de elogiar pertence — no que se instala bem na linha marca­
do governo-geral. Depois a arrumação segue a dos mo base do reconhecimento do concreto. Assim, pela sua formosura. Os que primeiro a viram de da por José de Anchieta. Instituto que tinha inte­
governos: de Tomé de Sousa a Manuel Teles Bar­ aceita como boa a divisória pelo Amazonas e pelo «tudo disseram alguma cousa, que tudo não lhes riorizada a responsabilidade de evangelização do
reto (liv. 111), de Manuel Teles Barreto a Gaspar de Prata. «São como duas chaves de prata, ou de ouro, era possível» (idem: liv. 1, § 20, vol. 1, 60). Tudo foi Brasil. Q ue procura dominar desde a sua chegada,
Sousa (liv. iv), de Gaspar de Sousa a Diogo Luís de que fecham a terra do Brasil.» Isto muito embora a sendo descoberto pela atracção das enormes rique­ em 1549. E é com a vida do padre Manuel da N ó -
Oliveira (liv. v). Frei Vicente do Salvador tem al­ sul a linha de Tordesilhas passe pela baía de São zas escondidas. Preciosidade também o pau-brasil. brega e com os primeiros jesuítas vindos com T o ­
guns heróis: são os casos de D. Francisco de Sousa Matias, 170 léguas para além do rio da Prata (idem: A longa introdução geográfica antecede a história mé de Sousa que a Crônica propriamente se desen­
— conhecido como D. Francisco das Manhas — liv. 1, § 66, vol. 1, 77). D e passagem indicara que que quer contar. Mas é ela necessária «quanto às volve — embora se complete com as biografias de
por sua liberalidade e magnificência (liv. iv, cap. pelas serranias dos Andes seria a demarcação pelo aparências externas, que de força pede a história» Anchieta c de João de Almeida (Rodrigues, 1979:
23.°, 261) e de Matias de Albuquerque por sua va­ interior. Entrando em cheio no mito da ilha Brasil, (idem: liv. 1, § 67, vol. I, 77). Tradicionalmente a 283-288).
lentia e limpeza de mãos, «não aceitando coisa al­ escreve: «Contam os índios versados no sertão, que história queria erudição. Autores antigos. Referên­ Convencional obra de edificação e de apologé-
guma a alguém, nem tirando ofícios para dar a seus bem no meio dele são vistos darem-se as mãos es­ cias à mitologia greco-romana. Um pouco da tra­ tica, a demonstração dos feitos e da santidade de
criados». Sequer andava «em rede, como no Brasil tes dois rios, em uma alagoa famosa, ou lago pro­ dição judeo-cristã, pelo menos com o dilúvio uni­ Nóbrega e parceiros fica conseguida. Incluindo
se costuma, senão a cavalo ou em barcos» (liv. v, fundo, de águas que se ajuntam das vertentes das versal. A passagem por ali do apóstolo São Tomé. uma ou outra indicação de interesse. C om o se p o­
cap. último, 422). grandes serras do Chile e do Peru.» E ao entrar na O curso conimbricense de Filosofia. E tudo isso o dia esperar, pois a Companhia vivia num espaço
A História é uma crônica sem um herói deter­ especificação desta junção, conta que «com facili­ jesuíta dá ao leitor, nessa tentativa de conciliação concreto dificuldades não menos concretas. C o m a
minado, uma inesperada história do tempo presen­ dade os que navegam corrente acima de um destes imperiosa para quem não pode arrancar-se ao que morte de Nóbrega acaba a Crônica. Simão de Vas­
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O DOMÍNIO TERRITORIAL . A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

concelos criara a literatura de base para justificar nhum deles em cousa que não seja tocante à la­ de actuar contra a ocupação portuguesa; receios terra ser mais disposta para pastos de gado» (Diálo­
um apóstolo do Brasil. A servir de parceiro a voura» do açúcar. Faltam no Brasil «quintas, po­ pelo que podería resultar da presença frequente de gos, 1956: 1, 51). Grandes extensões, poucos ocupan­
Francisco Xavier, similar oriental do português. mares, tanques de água, grandes edifícios», porque franceses. Porque a população portuguesa tarda a tes. Toda esta fachada leste-oeste viria a ser subme­
Grandezas comparáveis, para maior glória da C o m ­ os não fazem (idem: 1, 39). Aspecto exterior que crescer e a ocupar os imensos espaços americanos. tida à ocupação holandesa, de cujo governo
panhia de Jesus (Vasconcelos, 1977: liv. iv, § 147, reflecte o grave excesso da monocultura açucarei- Pêro de Magalhães Gândavo, em 1576, ainda apela­ Maurício de Nassau foi encarregado em 1637. Re-
vol. 11, 209). ra para exportação, menos de um século depois de va para que se atraísse ao povoamento do Brasil velando a necessidade de mais atentos cuidados por
iniciada a colonização. Esse era já então «o princi­ «todos aqueles que nestes reinos vivem em pobre­ parte dos Portugueses.
A PRODUÇÃO BRASILEIRA pal nervo e substância da terra» (idem: m , 150). za» (Gândavo, 1980: fl. 5). Apesar de já ter aumen­ Não por acaso essas costas para além de Per­
Por isso «a maior parte da riqueza dos lavradores tado em população de origem europeia, africana e nambuco estiveram tantos anos por ocupar. Embo­
Entretanto a riqueza e as vicissitudes econô­ desta terra consiste em terem poucos ou muitos mameluca — ao mesmo tempo que perde índios — , ra em crescimento, era muito pouca a gente portu­
micas também passam a ser objecto de reflexão. escravos» (idem: vi, 315). Toda a riqueza se funda ainda era preciso promover a ida de colonos para o guesa que se instalara no Brasil. Além desta
E virão o Livro que Dá Rezão do Estado do Brasil «sobre tanto escravo e tanta cousa forçada». «Os Brasil. limitação demográfica de base, há a considerar que
— 1612 de D iogo de Campos M oreno e os Diálo­ bens dos vassalos deste Estado são engenhos, cana­ Com pertinácia os franceses continuavam a a navegação nesta costa se tornava tecnicamente di­
gos das Grandezas do Brasil (1618) de Ambrósio viais, roças ou sementeiras, gados, lenhas, escra­ tentar instalar-se no Brasil por esses visíveis vazios. fícil. Era complicado transitar por alturas do Ceará,
Fernandes Brandão. Anônimos ambos — embora vos, que são o fundamento em que se estriba esta Porém, como as perseguições por parte das autori­ e por isso a ocupação aí falhou uma primeira vez
não de todo impenetráveis a revelar a sua autoria potência.» Dos escravos tudo dependia (Moreno, dades portugueses não abrandassem, iam escolhen­ em 1603. Razões que vão pesando muito no inde-
(Moreno, 1955: 38-60). Outra documentação, me­ 1955: 111-112). do a costa para norte de Pernambuco, ainda por sejado atraso do «alargamento do perímetro brasi­
nos apurada, já informara os responsáveis políticos Sem os grandes atractivos da exploração da pra­ ocupar e defender. E onde, procurando aliar-se leiro» (Cortesão, 1969: 316) e adiando a sua poste­
sobre o que deveríam fazer para aproveitar os ta e do ouro, o Brasil agrícola crescia, embora len­ com os grupos indígenas que os acolhiam, conti­ rior colonização. E assim se percebe a facilidade
efeitos conjugados da produção brasileira e africa­ tamente. Seria preciso uma forte motivação para nuavam com as suas feitorias do trato do pau-brasil. com que os franceses conseguem instalar-se no
na (Brito, 1931). que a terra ganhasse um outro ritmo de crescimen­ Muito em especial se relacionavam com o gentio Brasil, agora no Norte. A partida não havia condi­
Havia que saber na crueza das enumerações to. Minas de ouro, prata e pedras preciosas conti­ potiguara. Que por sua vez atacava os portugueses ções de a isso os impedir.
qual o estado em que se encontrava o Brasil nos nuam sempre a buscar-se, e não poucas invenções provocando «grandes danos, queimando engenhos Os estabélecimentos franceses continuam a ser,
princípios do século xvn, na parte que fica de Por­ se lançam sobre supostas ou suspeitadas existências. e outras muitas fazendas, em que mataram muitos como sempre, simples feitorias para concretização
to Seguro para Norte. Q ue gentes, que armas, que Das operações montadas com mais determinação homens brancos e escravos» (Sousa, 1987: parte 1, do trato. O que lhes permitia manter com os indí­
rendas para a Fazenda real (Moreno, 1955: 8-9). será a que traz D . Francisco de Sousa em 1608. cap. xi, 52). genas uma relação em que não intervinha a tentati­
A exploração dos recursos da terra não seria ainda O ex-govemador-geral vinha agora com o capitão- A necessidade de eliminar a presença francesa va de os forçar a mudar de vida. Não havia o pro­
grande pelo que toca a produções naturais. Prefe- -general das capitanias do Sul — Espírito Santo, vai mostrar-se muito clara para o território da Pa­ pósito de os fazer trabalhar. Liberdade que se
rir-se-ia o que daí se conseguia com consumo ga­ R io de Janeiro e São Vicente — encarregado da raíba [do Norte]. O que será iniciado em 1587 com tomava atraente. Por contraste, mais difícil de acei­
rantido nos mercados europeus. Aclimatação e descoberta das minas de ouro. D e que achou vestí­ gente ida de Igaraçu — junto de Pernambuco — , tar se mostra a colonização portuguesa, com o tra­
exploração de uma periferia que tem em conta gios. Mas não houve depois quem se atrevesse a não só por ser o território mais próximo, mas por­ balho agrícola tomado compulsivo e a consequente
também os constrangimentos legais. As «verdadei­ explorá-los, talvez por ficarem longe donde se po­ que era o mais afectado pela irrequietude dos ín­ sedentarização.
ras minas do Brasil são açúcar e pau-brasil», diz-se diam prover de mantimentos (Diálogos, 1956: 1, dios acicatados pela presença francesa. Aí se fun­ Em 1594 associam-se Jacques RifFault e Charles
em 1609 (Mello, 1987: 129). O gengibre, trazido 73-74). Fosse pelo que fosse, não se mostraram os dou então a povoação de Filipeia de Nossa des Vaux para armar uma expedição de França ao
de São Tom é, deu-se muito bem na Bahia, «com achados merecedores de atenção. Uma vez mais. Senhora das Neves, Filipeia em homenagem a Fi­ Maranhão. Dos três navios que a compunham ape­
muita vantagem do que vem da índia, em grande­ Algum ouro de lavagem... E grandes esperanças. lipe II. Onde, mais uma vez, se cultiva a cana-de- nas um regressa com mercadorias. Perderam-se por
za e fineza». Todavia «por el-rei defender que o Nesses sonhos de ouro se deixaram embaír os ho­ -açúcar. Ainda um pobre núcleo habitacional em desconhecimento da ilha do Maranhão e dos seus
não tirem para fora» deixou de se cultivar. O utro landeses que também mais tarde enviaram expedi­ 1634, embora por lá houvesse já 18 engenhos e se acessos. Desde 1595 há alguma presença mercantil
tanto terá ocorrido com a pimenta. A população ções ao sertão de Pernambuco, convictos de que lá vissem alguns edifícios bonitos, construídos em de franceses de Dieppe e de La Rochelle ao longo
índia manteve a sua dieta alimentar, na base da fa­ achariam alguma coisa. Porém, a expectativa conti­ pedra (Barléu, 1974: 71-73). Terra fertilíssima, on­ da costa entre a ilha de Maranhão e o Amazonas.
rinha de mandioca. O s negros de Guiné usavam nuava gorada (Barléu, 1974: 49). de se lavram muitos e bons açúcares. A Paraíba Interessado na possibilidade de firmar uma presença
em especial comer os inhames — provenientes de Preocupação simultânea com os números e ocupava em 1618 a terceira posição em importân­ no novo continente, o rei de França Henrique IV
Cabo Verde e de São Tom é — que cresciam com as exactas localizações dos recursos. Por isso cia, a seguir a Pernambuco e à Bahia. Em 1612 já envia até lá um seu representante em 1604, Daniel
muito no Brasil (Sousa, 1987: 169). O s brancos o registo aberto e actuaíizável do Livro que Dá Re­ rendia 10 000 cruzados por ano de dízimos ao rei de La Touche de La Ravardière. Este explora o ca­
acabaram por se adaptar de tal maneira à mandio­ zão do Estado do Brasil — nas suas várias versões nos 12 engenhos de açúcar em laboração (Moreno, nal norte do Amazonas. La Ravardière será nomea­
ca que o próprio trigo, que bem se dava no Sul, — surgir acompanhado por mapas e por plantas 1955: 200). E mais de 12 000 cruzados em 1618 do lugar-tenente-general na América, desde o
acabou por ficar reduzido a um papel marginal, que mostram o avanço do reconhecimento pela (Diálogos, 1956: 1, 56). Joan N ieuhof considerará as Amazonas até a Trinidad, e vice-almirante das cos­
cultivado «para fazerem hóstias e alguns mimos» terra adentro: 22 cartas numa das versões, 18 nou­ terras da Paraíba «prodigiosamente férteis» (Nieu­ tas do Brasil. Todavia, faltando-lhe logo em segui­
(idem: 114). O s homens não curavam de o semear tra, nalgumas das quais poderá ter andado a mão hof, 1942: 56). da o apoio real, será junto de particulares que vai
«pela felicidade e bondade do mantimento da ter­ sabedora de João Teixeira Albernaz I (Moreno, Com dificuldades, com avanços e recuos vai-se conseguir o financiamento de uma expedição, de
ra a que chamam mandioca» (Anchieta. 1988: 329). 1955:71-105). assim alargando o aproveitamento do Brasil. Q ue cerca de 500 homens. Nela seguem frades capuchi­
D o reino continua contudo a vir farinha para a não dispensou o apoio régio no envio de homens nhos para a missionação. Começava a montar-se o
mesa dos ricos senhores de engenho (Diálogos, A FRANÇA EQUINOCIAL de armas aos colonos. N ovo avanço se dará em
1597, quando se construiu o forte Três Reis Magos,
projecto de uma França equinocial, afinal uma ten­
1956: VI, 317). tativa de reedição da França antárctica (Bonichon,
N o litoral nordestino, nos engenhos e fazen­ A nova construção portuguesa e castelhana da no Rio Grande [do Norte]. Colonização que ar­ 1992: 154-157). E por obra dos capuchinhos que a
das com que os senhores enriquecem, a m onocul­ economia do Atlântico causava naturais engulhos rancará aí com dificuldade, pois era «terra fraca, Europa conhecerá a fertilidade do Maranhão, um
tura instalara-se. C om o «fazem suas granjearias aos povos que eram forçados a manter-se fora dela. mais para gados e criações que para canaviais e ro­ dos melhores e mais férteis países «que se possam
com escravos de Guiné», que custam caros, «como Q ue dela querem igualmente aproveitar. ças». E pela primeira vez se sabe que «às vezes falta encontrar sob os céus». Pássaros, peixes, mariscos,
o de que vivem é somente do que granjeiam com Permaneciam os obstáculos de sempre: dificul­ nelas chuvas» (Moreno, 1955: 210). Em 1618 no en­ águas, milhos, mandioca, melões legumes variados,
tais escravos, não lhes sofre o ânimo ocupar a ne­ dade em pacificar os indígenas que não deixavam tanto já estava feito um engenho de açúcar, «por a animais de caça, algodão, tabaco, madeiras, pedras

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O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

N o entanto, a ocupação do litoral vai demorar. holandeses, ingleses e franceses — que aí comercia­
Em 1637 ainda a população portuguesa do Ceará se vam. E que aí já tinham construído algumas defesas
restringia aos ocupantes do forte, â casa do gover­ militares (Capistrano, in Salvador, 1975: 321-329).
nador e a algumas, poucas e esparsas habitações O que foi feito a partir de 1623 sob o comando de
(Barléu, 1974: 68). O mesmo se diga do Pará. Ain­ Bento Maciel Parente.
da se não tinham descoberto recursos próprios e Cautelosas explorações quanto ao reconheci­
diferentes do que fazer engenhos e fazendas de mento do rio, em especial dos seus difíceis fundos,
mantimentos. Admiravam-se as madeiras, de que sondagens efectuadas por pilotos. C om penetração
muito haveria a esperar. E a fartura da pesca, co­ pelo Tapajós e pelo Tocantins. O reconhecimento
mendo o peixe-boi como sucedâneo da carne que e exploração da bacia do Amazonas avança ainda a
faltava. caminho do cabo do Norte, próximo da Guiana
Muríuiluur
A costa brasileira a sul da foz do Amazonas es­ onde ingleses e holandeses se encontravam já insta­
tava praticamente toda reconhecida, embora só lados. Donde foi preciso expulsá-los (Martinière, in
houvesse alguns pequenos precipitados de presença Mauro, 1991: 116-122). A partir de 1637 o cabo do
Pernambuco portuguesa a assinalar naquela imensidade. A neces­ Norte passa a constituir uma nova capitania, com
sidade de mulheres portuguesas nessas paragens era fronteira no Oyapoc (Soares, 1939: 102). Interessava
reconhecida, e os missionários jesuítas pediam ao que o Amazonas fosse uma grande via portuguesa
rei que as mandasse (Almeida, 1995a: 15). A popula­ por inteiro, não uma raia conflitual. Forçosamente
ção portuguesa existente no Brasil não dava para a mal defendida.
ocupação e valorização imediata do todo do terri­ Culmina esta fase do reconhecimento do Am a­
Mato Grouo tório. Mas já tornara muito difícil que outros nele zonas com a grande viagem até ao Peru de Pedro
* (1731) < se viessem instalar. Mesmo ao abrigo de um acordo
Hkt lloa Teixeira, de 1637 a 1639. Suscitou esta exploração o
La Paz
com a holandesa Companhia das índias Ocidentais, feito de dois franciscanos leigos com um aventurei­
Rwhrção em 1631, o regresso dos Franceses ao Maranhão será ro português — Francisco Fernandes — ,» que
efêmero. Uma breve presença dos Holandeses — acompanhados por seis soldados e dois índios re-
1641 — termina em matança. São Luís de Mara­ meiros, tinham descido de Quito até ao Gurupá,
Alto Peru
Ouro Preto nhão retorna aos Portugueses definitivamente em em 1636. O que despertou o interesse do governa­
fnnlo Santa
1642. Os índios ajudarão a esta reconquista. Mais dor português sobre a navegabilidade do Amazonas
uma vez, gorou-se o estabelecimento de franceses e sua ligação suspeitada com o Peru. Para bem pro­
Uio tieJaneiro no Brasil. Mais uma vez a presença francesa serviu ceder ao reconhecimento do trajecto, foi nomeado
São Ihvnlr para estimular os avanços colonizadores portugue­ o cartógrafo e militar Pedro Teixeira. Embarcados
ses. Foi assim com a França antárctica, foi assim em 47 canoas, partiram de Belém 70 soldados por­
Vicnman com a França equinocial. tugueses, 1200 índios remadores e flecheiros, que
com as mulheres fariam para cima de 2500 pes­
soas. Em 1637-1639 tratava-se de descobrir o gran­
O RECONHECIMENTO DO de rio até aos Andes. Para isso fazia parte da expe­
Cordoba NORTE E DO AMAZONAS dição o piloto Bento da Costa (Cortesão, 1969:
324-325). Foi expedição vagarosa, para bem se re­
IJmilnt tki llmnil rm K M A presença portuguesa vai tornar-se efectiva conhecerem os rios e marcarem todos os portos.
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também na costa norte do Brasil. E não apenas O piloto foi procedendo a observações e registos,
H a u l //«*#«*••>(MM- K M ) com efectivos militares. Em 1615 há alarme quando pelo que pôde ser elaborado um bom mapa do
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se constata que há holandeses e ingleses que com e­ trajecto da expedição. Carta hidrográfica que pa­
çam a tratar pelo Amazonas, onde se estabelecem. rece ter sido logo aprontada (Berredo, 1988:
Perigo a que o Conselho de Portugal em Madrid é § 687). Não ficou ainda por registar uma informa­
A expansão brasileira (apud Mauro, 1991) sensível. Parte uma expedição armada comandada ção sobre as amazonas, grandes guerreiras (Rojas,
por Francisco Caldeira Castelo Branco que em in Carvajal, Almesto e Rojas, 1986: 242). M ito
preciosas. Tudo isto e muito mais se podia aí en­ com um forte apoio de combatentes índios. Os 1616 firmará o Forte do Presépio, na margem sul da persistente: quase a terminar o século ainda o pa­
contrar (Abbeville, 1975: 158-163). portugueses avançam para o Maranhão e a 4 de em bocadu ra do Am azonas (C o rtesão , 1969: dre jesuíta João Felipe Bettendorf lhes dá morada
Os franceses vão escolher para seu estabeleci­ Novembro de 1615 a aventura francesa está termi­ 320-321). Nesse ponto estratégico para o domínio «entre montes e grandes serrarias» (Bettendorf,
mento inicial a ilha de Maranhão, aí fundando em nada. Não se quedam por aí os portugueses. O u ­ da imensa bacia fluvial é fundada depois a povoa- 1990: 57). Embora já duvide da sua existência. Ia-
1612 a cidade de São Luís em homenagem ao seu tros estrangeiros, holandeses e ingleses, faziam peri­ ção de Nossa Senhora de Belém (idem: 157-165). -se desvanecendo, mesmo entre os Jesuítas, a cul­
rei Luís XIII. Não vai ser feliz a instalação, que não gar a posse do Amazonas. Tropas comandadas por Daí, desse posto de observação de um dos braços tura greco-romana com o obrigatória referência.
progride com a rapidez esperada. O s capitais para Francisco Caldeira Castelo Branco rumam então ao da foz do grande rio, se podiam combater tratantes N os princípios do século xvm já as temíveis guer­
investir são escassos, não há na corte francesa von­ Pará, alargando a sua área de domínio até à boca e corsários. Em 1617 a Coroa deligencia para que reiras se tinham desvanecido do horizonte cultural
tade de afrontar claramente 0 hispânico Filipe III. sul do grande rio. A jornada de ida foi também de casais açorianos embarquem com destino ao Mara­ das crônicas, sendo o testemunho de 1639 tido co­
Também a resposta portuguesa não demora. Nesse reconhecimento da costa, feito pelo piloto Antônio nhão e ao Pará, tendo os primeiros chegado em mo «singeleza» (Berredo, 1988: § 731).
mesmo ano instala-se um forte no Ceará. E logo Vicente Cochada, que sondou os fundos e elabo­ 1620 (Almeida, 1995a: 14). Entretanto, conflitos in­ Observaram-se e distinguiram-se alguns dos ín­
em 1613 Jerónimo de Albuquerque, mameluco, pa­ rou roteiros (Capistrano, in Salvador, 1975: 321). ternos tinham dificultado o estabelecimento nestas dios com que foram contactando, «de muitas na­
rente próximo do capitão-donatário de Pernambu­ E assim se foram também coligindo informações paragens. Em que era prioritário sossegar os indíge­ ções e de diferentes costumes». Alguns muito beli­
co, encabeça a ofensiva para expulsar os franceses, sobre a navegabilidade (Salvador, 1975: 358). nas que o combatiam e expulsar os estrangeiros — cosos, e quase todos apreciadores de came humana.

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A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO
O DOMÍNIO TERRITORIAL

nem ainda as vêem ou demarcam», é crítica de Frei ram ser do domínio da Coroa de Castela. Com o
Foi a primeira grande expedição devidamente
Vicente do Salvador (liv. 1, cap. v, 63). Mas a busca que entram fatalmente em colisão com os Paulis­
preparada e executada nessas paragens. Simbolica­
do ouro não foi abandonada. Os Paulistas conti­ tas. Eram duas formações diferentes que se con­
mente, em nome do rei de Portugal, Pedro T ei­
nuavam a obter algum ouro de aluvião nas suas frontavam com os mesmos objectivos: a expansão
xeira tomou posse do extremo do território — na
entradas. O que era sabido. N o entanto, não se ti­ territorial e o domínio dos indígenas. Dois proces­
Aldeia do O u ro — na foz do Japurá, anos depois
nham encontrado jazidas que justificassem instala­ sos de expansão antagônicos: «Onde um vencesse
empurrado para a confluência do N apo e do
ções permanentes de mineração (Santiago, 1984: perdia o outro» (Cortesão, 1964: 273-282). Dá-se o
Aguarico, pelo que o domínio português ganhou
liv. 1, cap. ii, 18). Embora a busca dos metais pre­ choque das duas expansões, a paulista para oeste a
mais umas 150 léguas, ficando a extrema perto de
ciosos não deixasse de estar na mira dos que par­ jesuítica-hispano-guarani para leste (Ellis Junior,
1200 léguas da cidade de Belém do Pará (Azevedo,
tiam para os sertões, não era esse normalmente o 1934: 18).
1918-1921: tomo 1, 331; HGCB: 263; Reis, 1989: 61-
principal objectivo das expedições. Em especial vão os Paulistas tirar proveito da
-62; Berredo, 1988: §§ 660, 710-711). Sem se em­
A mão-de-obra índia é o grande motivo da co­ domesticação efectuada pelos padres. As reduções
baraçar com que quase todo o percurso ficasse pa­
biça. O planalto de Piratininga, não dando açúcar jesuíticas do Alto Uruguai e do Guairá passam a es­
ra além da linha de Tordesilhas. E justamente
em grande quantidade, ficava de fora da grande ri­ tar na sua mira, a partir de 1628 (Myriam Ellis, in
alarmando os Castelhanos que assim viam invadida
queza que crescia no Nordeste. Uma diferente H G C B , 1972-1973: 286). Parecia fácil assaltar aldeias
a sua parte da demarcação e ameaçado o isolamen­
agricultura seria o recurso apropriado. E nela a e capturar índios. E foi. O padre Ruiz de Montoya
to defensivo em que o Peru tinha conveniente­
produção de trigo passa a destacar-se. Por 1620 dá- figura como o odiado e odiento inimigo dos Pau­
mente vivido (Cortesão, 1969: 326). N em por isso
-se a viragem. O interesse pela cerealicultura passa listas — querendo mesmo arrasar São Paulo.
estava ainda reconhecido todo o espaço brasileiro.
a ser determinante. Cultura que persiste até ao de­ O contrário não é menos verdade. Em 1638 dirige-
O s acidentes naturais e a ferocidade dos índios
senvolvimento de Minas Gerais, que lhe desvia -se o jesuíta a Madrid para requerer autorização
obstava a um mais rápido domínio dos espaços
mão-de-obra. N o entanto, a cerealicultura não se para armar os índios com armas de fogo com que
(Berredo, 1988: § 733).
revela um elemento dinamizador da economia co­ se defendessem dos Paulistas. Ao mesmo tempo
Não apenas o espaço. Havia que conhecer e sa­
mo o açúcar estava a ser no litoral (Holanda, 1990: um outro inaciano consegue em Roma um breve
ber aproveitar os muitos recursos do Brasil: «Muitas
176-177). C om o não seria de contar para esse efeito papal condenando à excomunhão quantos escravi­
coisas há ainda, assim de frutos como de minerais
com as muitas marmeladas que de São Paulo se le­ zassem os indígenas.
por descobrir», com razão afirma ainda por 1618
vavam para todo o Brasil (Diálogos, 1956: 1, 74). A publicação do breve papal em Santos desen­
Brandónio — Ambrósio Fernandes Brandão (Diá­
Vai crescendo a população e em breve novos cadeou um motim violento contra os Jesuítas, em
logos, 1956: 1, 28).
núcleos se instalam no planalto. Estando os mora­ 1640. Quando isso se soube no R io de Janeiro a
dores de São Paulo apertados, procuram novas população também não poupou violências contra
Albert Eckhout, homem da tribo A k a n , óleo sobre tela,
pintado no Brasil, 1641 (N M D )
AS BANDEIRAS PAULISTAS áreas para «terem onde lavrar». Mais espaço para os padres, assaltando-lhes o colégio. Por intermé­
cultivar, mais necessidade de escravos. Assegurar dio de Salvador Correia de Sá chega-se a uma
Enquanto o litoral do Nordeste cresce, inicia-se
trabalho, sinal de prestígio social. O que nem sem­ composição que acalma a cidade. Não assim em
C om o produto espontâneo a assinalar, o cacau, in­ a grande aventura de desbravamento dos segredos
pre é bem acolhido pelo núcleo central de São São Paulo. A leitura do breve acendeu as iras da
finito por todo o rio. E bem assim tabaco, cravo, do interior. São seus agentes os Paulistas que a par­
Paulo, que se vê assim diminuído na sua jurisdição. população — eram eles os mais interessados na
salsaparrilha, arroz. Há indícios de ouro, de prata, tir do planalto dê Piratininga desde bem cedo par­
As bandeiras são uma iniciativa própria de uma so­ captura de índios — e o resultado foi a expulsão
de cobre e de outros metais. Impõem-se de ime­ tem a desbravar os sertões. De início tratava-se de
ciedade muito mesclada de brancos e índios. São dos Jesuítas da terra que haviam fundado. O mes­
diato aos observadores as árvores de grande porte, expedições guerreiras, com o propósito de escravi­
Paulo era como que uma república urbana luso- mo veio a acontecer de seguida em Santos (Boxer,
«árvores tão altas que sobem às nuvens», madeiras zar aborígenes e assim garantir a sobrevivência do
-tupi. Dispunha de uma larga autonomia organiza- 1973: 141-150).
de muitos aproveitamentos possíveis (Rojas, in pequeno núcleo urbano de São Paulo, necessitado
tiva, assente na instituição municipal, segundo o O conflito entre os Paulistas e os Jesuítas tinha
Carvajal, Almesto e Rojas, 1986: 246). Rende-se o de mão-de-obra. A o mesmo tempo afastavam-se os
modelo português (Cortesão, 1966: i, 180). Q ue lhe degenerado em ruptura completa. E em guerra. Se
narrador à majestade e ao esplendor do que viu. mais aguerridos dos grupos de indígenas inimigos.
permitia na prática fugir a muitos dos constrangi­ houve entre eles depois uma relativa paz, deveu-se
«Cada um destes rios é um reino muito povoado e Pode falar-se de bandeirismo defensivo. Mas em
mentos decorrentes da legislação régia e defender à estrondosa derrota que os indígenas de M ’Bororé
o rio grande inteiro maior do que o descoberto até seguida a penetração para o interior, em busca de
vigorosamente os seus próprios interesses. E um inflingiram a uma bandeira paulista em 1641. Arma­
agora em toda a América.» O Amazonas começa a escravos e de metais preciosos, vai passar a ser bem
dos constrangimentos que procuram ignorar é a dos pelos padres, esses índios não se deixaram apa­
instalar-se nas imaginações como rei dos outros rios mais ambiciosa e de raio mais amplo. Será, se assim
proibição de capturar indígenas. O que fazem, ape­ nhar facilmente e acabaram vitoriosos após uma se­
(idem: 242, 249), «supremo monarca de todos os se quiser, um bandeirismo ofensivo (Myriam Ellis,
sar das condenações de que são alvo, e não apenas mana de feroz combate (Boxer, 1973: 151; Vellinho,
rios» num dizer barroco mais tardio (Berredo, 1988: in HGCB: 1, 283-284).
por parte dos padres Jesuítas mas também do poder 1970: 31). As bandeiras teriam de procurar outras
§ 742). Inicia-se o fascínio pela Amazônia, fascínio Para suportar as expedições, constituíam-se so­
civil. paragens. Já não rendia a captura de índios nas re­
pelas maravilhas da luxuriante vegetação, pelas ex­ ciedades comerciais. N o regresso as presas eram
Naturalmente a expansão orienta-se para as ter­ duções que tinham recuado mais para o Sul.
travagâncias da Natureza: é o caso da confluência distribuídas pelos investidores, à proporção dos ca­
ras onde abundavam os índios, que eram as do ca­ Mas a expansão dos jesuítas espanhóis também
dos rios Negro e Solimões, a correrem lado a lado pitais empregues. O trabalho dos expedicionários
minho do Paraguai (Holanda, 1990: 187-188). C o ­ tomara a direcção do Amazonas, procurando alar­
durante mais de doze léguas sem que se misturem era remunerado em número de peças, segundo o
mo depois para o vale do Paraíba. N o Paraguai gar o seu território. O que os Portugueses não
as águas. Dois jesuítas acompanharão Pedro T eixei­ que constava dos contratos. Os escravos serviam
confrontam-se os interesses dos Paulistas e os dos podiam tolerar. Confrontam-se as duas forças. Os
ra no regresso de Quito a Belém, «para poderem para as lavouras dos que as tinham, ou para venda
jesuítas espanhóis que organizavam os índios em Paulistas destroem as reduções que lhes ficam
tomar e dar inteira notícia do rio das Amazonas, (Holanda, 1990: 182-183).
aldeias — as reduções. Aí os faziam viver e traba­ mais próximas, as do Guairá. E depois, tendo de
suas alturas, seus ares, seus moradores, suas terras». Captura de escravos. Quando «vão ao sertão é
lhar. Domesticavam-nos à sua maneira, e sobre ir mais longe buscar as suas presas, passam a ir
E saberem o que andavam a tramar os Portugueses a buscar índios forros, trazendo-os à força e com
eles tinham toda a autoridade. A isso chamavam mesmo muito longe. Nenhuma redução estava a
que a um tal empreendimento se lançavam (Bet­ enganos para se servirem deles e os venderem com
os Inacianos liberdade. E expandem-se os jesuítas salvo. Com o o que melhor conhecido e desbrava­
tendorf, 1990: tit. 2.0, cap. 2.0, 51-52). Q ue os Cas­ muito encargo de suas consciências. E é tanta a fo­
espanhóis na direcção do litoral brasileiro que do passa a estar 0 interior, em especial a bacia do
telhanos não aceitavam pudesse ser apenas motiva­ me que disto levam que, ainda que de caminho
procuram atingir a sul de Paranaguá, que conside­ Paraguai. Que era também a que mais facilmente
do pelo desejo de conhecer. achem mostras ou novas de minas, não as cavam
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ORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO B ^ g ^ A S lL F .I R O

até agora os cosmógrafos e se pinta nos mapas. pensar-se o trabalho escravo. N ão haveria indús­ ceu em 1630, sendo as tropas da W IC co^M triandadas
A multidão de nações de que são habitadas as ri­ trias, pois a transformação cabia à mãe-pátria. Além pelo coronel Diederick van W aerdenbuei_~ c h n u m a
beiras deste rio (...) nem eles o sabem contar se­ de fornecedoras de matérias-primas, as colônias se­ frota de que era almirante Hendrick C< ~>rnelissen
não por admirações». Admiração por um feito riam uma plataforma para a pregação calvinista. Isto Lonck. Bastou um breve combate para c = z ju e o c u ­
que o jesuíta não consegue esconder, «exemplo nas vésperas da Trégua dos D oze Anos — 1621. passem Olinda, a principal praça portu^ ^ ^ uesa e m
verdadeiramente grande de constância e valor, se U m outro autor, Jan Andries M oerbeeck, publicou Pernambuco.
o não deslustrara tanto a causa». Esta expedição mais tarde um panfleto sobre as vantagens da con­ A W IC — no Brasil conhecida por B o lsa —
«verdadeiramente foi uma das mais notáveis que quista da Bahia ou de Pernambuco — 1623. Seria tinha como alvo principal a destruição d — mo no ­
até hoje se têm feito no mundo». Porém, muito conveniente avançar de imediato com a tentativa pólio hispânico no Atlântico. Um a das f c - uas fa ç a ­
se afligia o jesuíta pelo exemplo que entusiasmava de estabelecimento no Brasil. nhas consistiu em tentar — e às vezes c o n — s e g u i r —
os homens do Pará (Vieira, 1970-1971: 393-397). Tal com o na Ásia e segundo o modelo experi­ a captura dos comboios que traziam para a P e n ín ­
Q u e o queriam imitar. O que sucedeu. E logo de mentado com a V O C para o Oriente, o principal sula a prata americana. Mas talvez as cidad ^ s p o r tu ­
seguida. instrumento de actuação seria uma companhia meio guesas do Brasil fossem mais fáceis de con e ~-i uistar d o
As expedições não pararam, antes se intensifica­ pública, meio privada, a W IC (West-Indische Com - que o império castelhano. A luta dos H ^ ^ D la n d ese s
ram. E por outras bandas. D o longínquo Tocantins pagnie), criada para o efeito em 1621. A colônia po­ pelo Brasil é um simples embora s ig n ific = a tiv o as­
tinham por volta de 1669 chegado ao Cametá «os dia ter escravos, e seria uma bela atracção para o po­ pecto de um conflito muito mais amplo, um con­
sobejos de umas duas aldeias de sua nação, que vo miúdo dos Países Baixos que quisesse emigrar. flito mundial, que acompanha e acaso c^==aracteriza
pouco dantes tinham levado de suas terras, à viva Depois de bem informados sobre a terra e as uma mudança estrutural na economia m u ^ ^ id ia l e u ­
força, os Paulistas de S. Paulo» (Bettendorf, 1990: suas produções, os 19 dirigentes da W IC — os ropéia, cujo centro se desloca do M editeri---- â n e o p a ­
liv. 5.0, cap. 5.0, 259). E para levar de vencida os ín­ «Heeren XIX» — decidiram avançar para o estabe­ ra Amesterdão (Braudel, 1979: tomo 3,-------145-146).
á e Bencvides, gravura do séc. x i x dios da Bahia, o governador Alexandre de Sousa lecimento da companhia no Brasil. Esta decisão fa­ Os Holandeses tinham planos para asse zntar u m a
Freire entrega aos Paulistas uma guerra justa deci­ zia parte da tentativa de abrir uma nova frente de colônia americana e conheciam a terra-------- u m es­
dida em 1669 (Varnhagen, 1956: tomo m, 231). guerra contra o império dos Habsburgos. Mas era pião que trabalhava para o rei informou ^ a n t e c i p a ­
0 com as riquezas mineiras das O bandeirismo tornara-se modo de vida para al­ também uma decisão política de nova expansão ul­ damente Madrid sobre o local exacto em — <que se ia
guns. Por vezes em locais bem longínquos do pla­ tramarina, com o objectivo de se apropriarem de efectuar o ataque a Pernambuco em 1630---- O p r o ­
$ sai de São Paulo uma expedi- nalto de Piratininga, com o ocorre com o mestre- todo o trato atlântico. Grande ambição, grande de­ gresso da cartografia holandesa neste períoc— l o to rn a ­
andada por um valente soldado, -d e-cam po Pascoal Pais de Araújo, que pelo sígnio. Desígnio verdadeiramente importante para ra bastante rigoroso o conhecimento do / a tlâ n tico ,
avares. Talvez com o apoio do Tocantins apresa em 1674 índios guarajus. Nas ca­ a construção de um império coerente: África e suas costas e rotas de navegação (Z an c^ H v liet, in
passar ao Peru e abrir uma via beceiras deste rio se esperava encontrar, além do Brasil funcionam em complementaridade (Boogaart Boogaart et aliiy 1992: 274-276). O s Holan <Jeses até
a peruana que tanta falta fazia a mais, «riquíssimas minas» que a tradição aí abonava. et alii, 1992: 105). tinham informação exacta sobre os rcndim *»_entos de
m foi, trata-se de um acto de Dessas expedições registava o necessário em rotei­ Para a concretização do plano, a primeira esco­ engenhos de Pernambuco, Itamaracá e Pai----a íb a fo r ­
soberania política» (Cortesão, ros, que de alguns outros chefes de expedições vi­ lha militar da W IC caiu sobre Salvador da Bahia, necidos pelo judeu José Israel da Costa.
123; Cortesão, 1964: 151). Diri- ríam a ser conhecidos. Despertando o apetite de fa­ capital política da colônia portuguesa. Defendida Não que haja uma relação directa d c = » s ju d e u s
rtes dos Andes, em percurso de çanhas pelos sertões (Berredo, 1988: §§ 1200, 1202; pelos residentes, a conquista da cidade aconteceu «portugueses» com a conquista e estabel^ ^ ^ cim en to
ís, que lhes tomou um ano e Varnhagen, 1956: tomo m, 227). Em 1690 de novo particularmente pela acção do almirante Piet Pie- do Brasil holandês. Mas os judeus seriam de u m a
pram o Alto R io Grande ou se encontra uma tropa de paulistas a mando do go­ terszoon Heyn, que da frota bombardeou a fortale­ grande utilidade, porque conheciam os t = ratos, as
Madeira. Exploraram as serras, vernador da Bahia a «acabar com o gentio que in­ za e incendiou os navios portugueses no porto, an­ mercadorias e a língua da terra. E tinham paren tes
Santa Cruz de la Sierra e das festava os currais da banda do Ceará». Desses, o tes do desembarque das tropas e do assalto â próximos ou conhecidos e parceiros em P<— z^ rtugal e
prata bolivianas. No que não sargento-mor e dois dos homens pareciam «uns ín­ cidade. Mal comandados, os sitiados fugiram (Bo­ no império português. Juntos os capitais 1— lu m a n o s
Cortesão, 1966: 1, 193; 11, 127). dios, ou quando muito uns mamelucos» (Betten­ xer, 1973: 66). Era em 1624. Em Portugal houve de judeus e de holandeses, as coisas to riz= » a v a m -se
obrindo «novos sertões e novas dorf, 1990: liv. 8 °, cap. i i .°, 517). Serão estes deste­ grande emoção quando se soube da notícia. Com o mais fáceis.
risidade de terras». Onde gasta- midos aventureiros que definirão as fronteiras resposta toda a aristocracia se ofereceu para lutar Alguns judeus participaram na invasão . S obre­
Ihegados aos 19o de latitude sul, interiores do Brasil. Q ue desbravarão e darão a co­ pelo recobro da praça. Aconteceu em 1625, com tudo porque eram úteis aos holandeses por causa da
vegam-no durante onze meses, nhecer a terra e as gentes. Q ue ampliarão o territó­ uma armada comandada por D. Fradique de Tole­ língua. Depois, entre um terço e metade ^ ^ d o s c iv is
onde iam», envenena 0 padre rio e farão recuar o merediano (EUis Junior, 1934), do, um almirante castelhano, sendo o comando que foram para o Brasil eram judeus. U n s 1450 a*
lastima que não tivessem leva- muito para além de um limite quase duzentos anos militar do português D. Manuel de Meneses. A de­ estavam ainda em 1644 (Israel, 1992: 165). Is **4as n e m
a com rigor registarem os ca- antes definido em Tordesilhas por feliz palpite de signada «jornada dos vassalos» foi um êxito. a decisão de criar a W IC , nem a da conqu=m ista tê m
eira, 1970-1971: 395-396). Per­ D .João II. N em por isso os Holandeses desistiram. As alguma coisa a ver com os judeus de A m e s « * :e r d ã o : a
de fluvial do Mamoré-Madeira constantes expedições do almirante Piet Heyn, luta global dos Holandeses contra o im péri— p o r tu ­
onas. Estão no Gurupá já em
as e 1200 índios que saíram de
OS HOLANDESES E O BRASIL principalmente na Bahia, em 1627, destruindo na­ guês foi uma decisão política dos estad<---- >s gerais
vios e tomando mercadorias constituiram uma apoiado pelo stadhouder e executado p e l o ^ s co rp o s
1 59 paulistas e algum gentio. Entretanto, a unidade da colônia encontrava-se grande humilhação para os Portugueses. Tratava-se militares para isso organizados. Tratava-se de u m
1 (Cortesão, 1966: 11, 132, 209, ameaçada. Há muito que o Brasil atraía os Holan­ de ataques contra estabelecimentos permanentes. plano mundial, de que a conquista do L ^ S ra sil era
dís meses puseram neste gran­ deses. Por 1608 um refugiado flamengo de Antuér­ Talvez afectando com mais graves consequências o apenas uma parte (Boxer, 1977: 129-151) M am bém
am ao interior da América», pia que vivia em Amesterdão, Willem Usselinx, prestígio real do que as dificuldades financeiras re­ queriam a da África. Os Holandeses sabian---- 1 p e rfei-
ar Antônio Vieira, o figadal defendeu que os Holandeses deviam tentar o assen­ sultantes da captura da frota castelhana na baía de tamente que era impossível sustentar o Bras^m 1 sem os
o. Andaram por onde ainda tamento na América do Sul, não apenas para o co­ Matanzas em Cuba, em 1628 (idem: 80). C om os escravos negros daí provenientes (Boxer, I9 -J R 8 : 1-58).
ado, nem portugueses, nem mércio, mas sobretudo para a colonização. As prin­ lucros que assim ia obtendo, a W IC estava em N o Nordeste brasileiro os Holandeses 1----e a lm e n -
io descobertas terras têm, sem cipais culturas a desenvolver seriam a do açúcar e a condições para recomeçar. Prepara-se a próxima te nunca actuaram como colonizadores, m — =ns c o m o
latitude da que lhe mediram do tabaco. Soinar-se-ia o gado e o sal. Devia dis- expedição para conquistar o Brasil. O que aconte­ mercadores, não dominando a produção ( Jfiraud el,

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o DOMÍNIO TERRITORIAL
. A CONSTRUÇÃO DO ESPA

ic;^ » 79: ui, 197). Não conseguiram interiorizar que a geiras. Sobretudo, eram de temer quando pairavam ropa sem notícia da nova terra — do país que con­ quase oito anos do seu governo no I
sc= 3 cie d a d e luso-brasileira nos trópicos se encontrava notícias de que se aproximava alguma armada his­ siderou o «mais belo do mundo» (Mello, 1987: — Janeiro de 1637-Maio de 1644. Ess
já. bem estruturada. E que dificilmente suportava pânica.
146). E dos seus feitos, por certo que também não. memória do governante é acompanh;
n »— na diferente organização. Dos holandeses que O governador e capitão-general-de-terra-e-mar Por isso faz escrever em latim a história do tempo tos cuidados que a enriquecem e
c.c >mpraram os engenhos confiscados na guerra, do Brasil neerlandês contratado pela W IC , o conde do seu governo no Recife, por encomenda a Gas­ Apresenta uma notável cartografia el
p c---- >ncos souberam depois aproveitá-los. N ão perce­ João Maurício de Nassau-Siegen — 1637-1644 — , par van Baerle — latinizado em Caspar Barlasus e período, esclarecedora para o conheci
b e ^ ram que tudo assentava sobre uma antiga e esta- principal organizador da colônia, era homem de depois aportuguesado em Gaspar Barléu. Por isso ra. E esclarecedora do cuidado dos nc
bL lizada relação patriarcal, em que a autoridade do vistas largas, interessado em instalar um bom go­ também, fez-se acompanhar pelos pintores Frans O autor não deixa também de dar m
ser n hor de engenho se exercia sobre o com plexo da verno. Mas os representantes da W IC tinham ac- Jansz Post e Albert Eckhout e pelo gravador Za- ções sobre o que então foi sendo viste
O asa Grande. Com plexo que se baseia na servidão tuações desastrosas. E havia que contar com a anti­ charias Wagner para que registassem o que viam. descrevendo e dando pormenores da
e que «pela multidão dos trabalhadores, constituem patia com que seriam recebidas quaisquer medidas E do naturalista G eorg Marcgraf para observar ani­ recursos e da vida na colônia. Para al
v ir ~ rdadeiras aldeias» (Barléu, 1974: 71). que fossem contra o que dantes se fazia. Essa per­ heróicos e das manifestações de grane
mais e plantas do Brasil holandês. E de Joannes de
Viviam os abastados proprietários nas Casas manente irritação ajudou a dificultar as relações no Laet. Também de gente sabedora para desenhar nagem principal, o cenário não resu
G — randes, unidades complexas que não se ficavam novo Brasil holandês. Em especial mantendo a hos­ mapas. E de outros, como o médico W illem Pies. Porque tem o cuidado de situar os ao
pi~ Ha vida em comum de um grupo numeroso de tilidade dos senhores de engenho ao novo poder Gravuras, desenhos, pinturas, descrições literárias, para elucidar a narrativa. Seja no Bra
p i ~ - ssoas. Tratava-se de uma espécie de família alar­ político — o primeiro poder político externo que estudos científicos. A imagem do Nordeste brasi­ ou na Europa. Como bom holandês, 1
g a - da, ao mesmo tempo forma de organização de directamente sentiam. leiro na Europa passa a ser outra desde então (Pin­ nào deixa de quantificar gastos, aprest
tr^ ^ abalho e centro de vida social e de prática religio­ Protestantes e católicos não eram compreensí­ to, in H G C B , 1972-1973: 167-168). Os homens da vas para o que se ganhou e para o q
sa __ Caracterizava-se pelo patriarcalismo, pela mo- veis numa mesma mundividência religiosa: isto corte do governador de João Maurício de Nassau Para isso lança mão e incorpora no s
n i---- >cultura, pela servidão (Freyre, 1957). Relações apesar de as instruções secretas para a conquista de deram forma visível ao Brasil neerlandês (Zandv- formações várias, descrições, relatóri<
cc^ » n flitu ais e de violência, mas também de amor. Pernambuco, datadas de Middelburg, aos 18 de liet, in Boogaart et alii, 1992: 306). E realçaram o leitores dos Países Baixos terão ficad
1ST — o s campos as crianças filhas dos senhores brinca­ Agosto de 1629, os Heeren X IX reconhecerem a papel do governador, que com essa propaganda se com algum pormenor o quadro em <
v a. m com cs filhos dos escravos, alguns seus meios- liberdade de consciência para os habitantes das no­ tinha preocupado (Boxer, 1961: 211-214). Mais tarde rolara a actuâção de um grande cornai
- i * — mãos. Todos aprendiam a doutrina cristã com o vas possessões. Não havia com o tirar os portugue­ se lhes juntará a História de Joan Nieuhof, que no ao mesmo tempo que notável adminis
m e smo padre capelão. Tecem-se laços que não são ses e os por eles evangelizados das capelas e igrejas Brasil viveu de 1640 a 1649, e que de visu também mem de cultura.
r e «— iutíveis ao aspecto exterior e cruel da escravatu­ barrocas, de forte apelo a um culto sensual. O ca­ descreverá a terra e feitos militares, em livro só pu­ Ressalta que Maurício de Nassau
ra ---- Por isso, os Portugueses «sabem fazer trabalhar tolicismo peninsular e sul-americano em tudo se blicado em 1682 (Nieuhof, 1942). dições de comando para a guerra e d<
os seus negros melhor do que os nossos», escreve opunha â frieza do protestantismo calvinista. «Pre­ A História de Gaspar Barléu destina-se a enalte­ para a paz. A sua chegada os aflitos h
u r M i holandês (Mello, 1987: 134). E o padre Antônio ferem as velharias retumbantes às novidades, e an­ cer os feitos de Maurício de Nassau durante os tavam confinados quase só às praias <
V i eira acrescenta: «Porque eles nunca tiveram in- tes querem uma religião esplendorosa e ornada que
dú*— stria para tratar negros, nem lavouras ou enge- uma menos brilhante e vistosa.» A relativa tolerân­ Engenho de açúcar, in José Mariano C. Veloso, O Fazendeiro do Brazil, Lisboa, 1798
n h ^ « o s de açúcar e que sem os lavradores portugue- cia religiosa de uma parte dos holandeses opunha-
s e s = nenhuma utilidade podiam tirar daquela terra» -se a instransigência dos católicos portugueses co­
(IV 1ello, 1987: 135). Tinham já os Portugueses dois mo um todo. Para mais no R ecife chocados pela
séc ~.ulos de experiência — a contar com a inicial possibilidade de os judeus praticarem o seu culto li­
c o -lonização da Madeira. Raros holandeses conse- vremente, em sinagogas (idem: 248). Em resumo, os
g u _iram adaptar-se, mesmo quando adquiriram fa­ portugueses «odiavam os costumes, a língua, as leis,
z e * idas confiscadas e se quiseram tornar senhores de a religião dos holandeses, sem haver esperança de
en = a z enho. O s senhores de engenho portugueses medrar entre uns e outros uma paz sólida». Só o
c o :^«astituem o grupo que detém o poder local que terror os conteria, na abalizada opinião de Maurí­
se exprime e age através do município. Ligavam-se cio de Nassau (Barléu, 1974: 307).
p o ^ = r aí, mas também e sobretudo através da miseri- Os Holandeses não percebem o profundo con­
có:^™-dia, com os artesãos. Viviam quase livres da au­ flito de valores entre os dois povos e duas culturas,
to r ----idade régia. Eram poucos. muito para além de singelos efeitos materiais. Por
Os Holandeses quiseram substituí-los, pouco isso Sigismundt von Schkoppe exclama espantado,
faz — -endo para os manter como aliados. C o m fracos em 1646, «abrasando-se em furor e ira: Q ue seja
res ultados. Se alguns deles colaboraram, a maior possível que os moços de Pernambuco, que criei
par: te afastou-se para os seus engenhos e fazendas. com minha manteiga e meu queijo, me façam tão
Q i 3 em pôde fugiu para a parte do Brasil que se cruel guerra!» (Santiago, 1984: liv. m, cap. xni, 431).
nu ntinha governada por portugueses. N ão se rela- Esta população rural do Nordeste brasileiro tinha
c io navam com os conquistadores com o amigos que uma mundividência e comportamentos incompatí­
tiv€=^f,:ssem vindo para ficar em definitivo. Sentiam-se veis com o reconhecimento de autoridade aos sóli­
agr~ edidos nas suas crenças e hábitos. E não suporta­ dos burgueses-mercadores dos Países Baixos.
va 1 i _=ii receber ordens dos invasores (Barléu, 1974:
70, 160-162; Santiago, 1984: liv. 1, cap. xxv, 157).
Q r » — aisquer imposições se tornam ainda mais gravo- O BRASIL VISTO PELOS
sas quando o município de Olinda foi extinto, em ______ HOLANDESES_____
163 7 (Mello, 1987: 61-69). P ° r isso os potenciais
c o i — ispiradores e rebeldes não faltavam, mesmo se O conde João Maurício de Nassau não quer
e x t ^ p rio riza va m acatamento às autoridades estran­ deixar os seus conterrâneos e outros leitores da Eu­

52
O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

o inimigo «não era senhor de vir buscar faxina reira no Brasil tornara imprescindível o aprovisio- O FIM DO BRASIL freguesias de Pernambuco. Levantou-se também a
nem água para beber, porque, saindo de suas trin­ namento em escravos africanos. A mão-de-obra es­ Paraíba — os mais dos homens pelejavam com
cheiras o assaltavam e matavam» (Santiago, 1984: crava faltava-lhesj e o projecto de em simultâneo
HOLANDÊS E A UNIDADE dardos e chuços, que de outras armas não dispu­
liv. 1, cap. vi, 39). Pequenas unidades de guerrilha, conquistarem a África e a América impõe-se aos DO TERRITÓRIO nham.
de 20 a 30 homens «andavam metidos pelos matos, Holandeses. Depois de um severo desastre em 1625, BRASILEIRO Começa então em 1645 uma desgastante guerri­
padecendo muitos trabalhos, e dali saíam como sal­ conseguiram em 1637 conquistar a Fortaleza de São lha destruindo as fazendas a ferro e fogo. Incêndios
teadores, e davam nas casas, e fazendas que os h o ­ Jorge da Mina (idem: 55-56). Fora este o principal Conseguida a trégua com os Portugueses de­ de lavouras, de engenhos, de canaviais e roubo de
landeses tinham por o campo, e sertão, e os rouba­ posto de resgate de ouro que os Portugueses ti­ pois da aclamação de D. João IV, procura a W IC gado tornam difíceis aos Holandeses a subsistência
vam e matavam» (Calado, 1987: liv. 1, vol. 1, 126). nham tido na África — onde se trocava ouro, mar­ minorar as. despesas militares a que fora obrigada. e a defesa. Era-lhes quase impossível ripostar perse­
Vai o conde de Nassau impor por novas e alarga­ fim e ébano por «objectos vilíssimos» como ferra­ Desmobiliza parte dos 4843 efectivos de que então guindo os rebeldes pelos matos. Estes conheciam
das conquistas uma acrescida segurança militar. mentas, corais, espelhos e tesouras (idem: 62). Perda dispunha no Brasil (Barléu, 1974: 245; Mello, 1987: bem o terreno que pisavam: «Amanheciam em
Ocupa Ilhéus para sul, estende o seu domínio ao de monta para os Portugueses, numa região que 167). Enquanto isto, tentam os Portugueses retomar uma parte e anoiteciam dali a seis ou sete léguas»
Ceará a norte — anteriormente haviam os H olan ­ também era essencial para o abastecimento de es­ São Tom é, em 1642. C om êxito. N o Maranhão — (Santiago, 1984: liv. 1, cap. x x i i , 138). Aliás os H o ­
deses conquistado a Paraíba e o R io Grande [do cravos. Daqui, «com largo lucro de espanhóis e que à traição tinham tomado — , «às mãos lavadas» landeses tinham apostado numa expansão comercial
Norte]. Contando com o apoio dos indígenas, portugueses são transportados daquelas costas para os Holandeses são vítimas de sangrenta vingança e não agrícola, pelo que se haviam instalado e per­
com quem quer escambar os produtos naturais o Brasil e para as índias Ocidentais, a fim de na­ (Bettendorf, 1990: liv. 11, 60; Calado, 1987: liv. 11, manecido agarrados aos núcleos urbanos (M ello,
que compensem as despesas militares. Mais uma quele trabalharem principalmente no fabrico do vol. 1, 179). Segue-se a revolta do Ceará, também 1987: 122). Valia-lhes a qualidade das fortificações e
vez, tudo passava «pelo desígnio de conciliar, no açúcar, e nestas cavarem as minas» (idem: 64-65). marcada por cruel matança — em que os índios ti­ do annamento e o auxílio dos índios, que lhes
território inimigo, maior número de índios para a Sem negros de Guiné, Serra Leoa, Cabo Verde e veram boa parte (Mello, 1987: 203). A sorte come­ eram «grandes afeiçoados» e «inimigos nossos», es­
Companhia» (Barléu, 1974: 68). A o mesmo tem po Angola perecería o Brasil holandês. Por isso que­ çava a mudar. E o termo do governo de Maurício creve um cronista. (Santiago, 1984: liv. in, cap. m ,
avança na colonização pois que tinha real talento rem os Holandeses estabelecer relações em África de Nassau, em 1644, contribuiu não pouco para o 372). Sequelas da escravização que definiu o início
empreendedor. O Brasil neerlandês, e não apenas para lhes facilitar a aquisição de escravos (idem: 134). enfraquecimento do Brasil neerlandês (Nieuhof, da vida na colônia. Q ue os Holandeses quiseram
as costas de Pernambuco, concretiza-se apenas e O que vai ser feito. C om bons resultados. Entre 1942: 104). corrigir não escravizando os naturais, excepto os
só a partir 1637. C om dificuldade, que os Pernam­ 1636 e 1645 a W IC vendeu no Brasil pelo menos Apesar das instruções de Lisboa — a quem a que viessem do Maranhão ou fossem vendidos pe­
bucanos não davam tréguas, embora tivessem sido 23 263 escravos (Israel, 1992: 163). guerra de Pernambuco não interessava por razões los Tapuias (Nieuhof, 1942: 308).
serenados. Aproveitando as tréguas que se seguem à acla­ diplomáticas que tinham a ver com o equilíbrio de Da parte dos revoltosos faltava quase tudo. Em
Constantemente apareciam «saqueadores e in­ mação de D. João IV. Maurício de Nassau decide forças e o decorrer da guerra na Europa — organi­ especial não houve auxílio directo do reino, em b o­
cendiários por toda a parte*. C om a consequente em 1641 o assalto a São Tom é e a Luanda. São zam os moradores forças militares para combater os ra tivesse sido forte o empenhamento pessoal do
míngua de mantimentos (idem: 69). A Bahia con ti­ Paulo de Luanda caiu às mãos do almirante Corne- holandeses, a «facção da liberdade», em 1645 (San­ governador-geral Antônio Teles da Silva e do mes-
nuava a escapar, tendo conseguido resistir a um lis Jol em 1641. E logo a seguir foi a vez da ilha de tiago, 1984: liv. 11, cap. v, 199). «Liberdade divina», tre-de-campo general Francisco Barreto de M en e­
forte ataque em 1638. E da Bahia continuavam a São Tom é, tomando a fortaleza guarnecida por numa tonalidade antiprotestante que não pode pôr- ses, destacado para o comando das tropas. O rei
sair os portugueses, com negros e índios a saltear as brancos, negros e mestiços. D e nada servirá um so­ -se de lado: a guerra «tem por fim a honra de continuava a não manifestar o seu apoio directo
fazendas e a queimar os canaviais, nessa desgastante corro enviado da Bahia. Logo Maurício de Nassau Deus, o aumento da religião católica romana, o aos insurrectos (Santiago, 1984: liv. m, cap. v iu ,
«guerra volante». Com o que conseguiam m uito reclama a anexação de Angola ao seu território de serviço do rei e conservar todas as liberdades e 399-401), firme na intenção de negociar a presença
incomodar os conquistadores. Pretendia-se que os Pernambuco. C om toda a razão. Só assim faria sen­ prerrogativas» (Mello, 1987: 239-240). Essa crucial holandesa. C om o inflamado empenho do padre
«holandeses não tivessem açúcar que carregar nas tido, pela necessidade de escravos e pela proximi­ diferença religiosa que os Holandeses bem sentiam Antônio Vieira (Azevedo, 1918-1921: 1, 103-108, 146-
suas frotas, nem esperanças de tirarem do Brasil dade geográfica e facilidade de comunicações. Não que os afastavam dos altivos senhores nordestinos: -148, 155-158; Prestage, 1928: 228; Boxer, 1961: 249,
proveito algum» (Santiago, 1984: liv. 1, 137). O que foi a proposta acolhida pelos Heeren X IX , directo­ «Os Portugueses não pretendiam tanto provar a 269-272).
não foi um êxito completo. r s da Companhia, mais ciosos de governo e de di­ lealdade devida a seu rei quanto recuperar a liber­ A repressão exercida pelos Holandeses sobre os
Adoptam os Holandeses para o Brasil 0 com ér­ videndos do que percebendo o que eram as impo­ dade de consciência.» Há a separá-los «a diferença que aparentemente nisso se não metiam, com o os
cio livre. Monopólio da Companhia ficava a ser sições da realidade geopolítica e econômica do da religião, de língua e de costumes que os nossos frades, não ajudava a tornar simpáticos os conquis­
apenas o dos escravos, das armas e do pau-brasil domínio do Atlântico (Barléu, 1974: 214-215). quiseram introduzir», reconhece um cronista ho­ tadores. E ia-se alvoraçando o povo (Mello, 1987:
(Barléu, 1974: 93). Era uma reedição dos princípios Também faltaram a Maurício de Nassau os landês (Nieuhof, 1942: 125, 326). Não só. Há que 239). Os lucros da W IC baixavam (Israel, 1992:
da colonização portuguesa. Com esperança de lu­ meios para assaltar Buenos Aires. Pretendia por aí contar com o endividamento que amarrava os Per­ 168-170). Os Holandeses começam a perder terras
cros que compensassem as despesas militares. Mas controlar o acesso ao Peru, e obter a prata. E tam­ nambucanos aos Holandeses e com a baixa do pre­ anteriormente conquistadas, deixando-se confinar
não era fácil recompor o tecido produtivo. Pensa- bém «poderia chamar a si o tráfico dos negros de ço do açúcar em Amesterdão (Mello, 1995: 129). ao Recife onde a defesa ainda lhes era possível, so­
-se atrair colonos holandeses, o que esbarra na c o ­ que têm os Peruanos necessidade, quando impedi­ Vai organizar-se o levantamento de Pernambu­ bretudo pelo mar. Não já o contra-ataque. E m
lonização portuguesa anterior. As terras boas na da a importação deles pelo Panamá e Nova Espa­ co com tropas comandadas por gente da terra ou lá 1648, a reconquista de Angola pelas tropas de Sal­
costa há muito tinham dono. Quanto às do inte­ nha». Tanto mais fácil e proveitoso, quando a W IC fixada: o opulento senhor de engenho — embora vador Correia de Sá retira-lhes o abastecimento de
rior, careciam de transportes, o que encarecia os dispunha do domínio de Angola (Barléu, 1974: de baixíssima condição original — João Fernandes escravos de que necessitavam para que a colônia
gêneros. Mesmo assim, esperava-se em lucros dos 251). A necessidade de socorrer São Tomé em 1642, Vieira, o sargento-mor André Vidal de Negreiros, fosse proveitosa. A relação entre Angola e o Brasil
décimos dos açúcares 221 500 florins, em 1638: de entretanto retomada pelos Portugueses, impediu a o índio governador e capitão-m or dos índios era sentida como essencial para a sobrevivência de
Pernambuco 148 500, de Itamaracá 19 000 e da Pa­ tentativa. D. Antônio Filipe Camarão — cavaleiro de Cristo Portugal: «sem aquele entreposto [Luanda] o Brasil
raíba 54000 florins. Isto num total de 280900 flo­ Maurício de Nassau apresenta, através do seu desde 1635 (Coelho, 1981: 273) — e o negro «go­ não lograria sobreviver, e tampouco Portugal sem
rins de impostos sobre a produção agrícola (Barléu, cronista, uma visão global dos interesses da C om ­ vernador dos mulatos e crioulos e de todos os pre­ o Brasil». Dito de outra maneira, «sem os negros
1974: 106). Contas um pouco por alto, pois nesse panhia no Atlântico e faz as propostas que viabili­ tos» Henrique Dias — também cavaleiro de Cristo, não há Pernambuco, e sem Angola não há negros»
ano a falta de mão-de-obra paralizara ou arruinara zariam uma nova construção imperial. Não foi valente capitão, que em combate perdeu um braço (Azevedo, 1918-1921: 1, 147). C om as batalhas dos
46 dos 166 engenhos anteriormente existentes atendido. O que prenuncia grandes dificuldades (Coelho, 1981: 310). Entre outros. índios e negros Guararapes (1648 e 1649) ficaram os Holandeses re­
(idem: 128). para a manutenção do domínio do Nordeste brasi­ especialmente úteis como práticos do sertão e va­ duzidos a pouco mais que à cidade do R ecife e ao
Tal como fora organizada, a produção açuca- leiro. lentes soldados. Organizam-se milícias em todas as auxílio marítimo que lhes pudesse chegar. A fom e

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O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

porcelana e sedas da China, roupas e anil de Cam­ ja solução, na imensidade dos espaços, teria tam­
baia e Bengala, pedraria do Balagate e Bisnaga e bém de exigir respostas espaciais. Foi o caso da
Ceilão; por maneira que é necessário que se ajun- crise de 1670, provocada em parte pela côncorrên-
tem todas estas cousas de todas estas partes para as cia da produção açucareira das Antilhas (Godinho,
naus que vêm para o reino poderem vir carregadas, í 978: 431). Em que a falta de metais preciosos se
e se se não ajuntassem não viriam». C om muito sentiu duramente.
menos trabalho enviava o Brasil imensa quantidade
de açúcar e ainda algodões e madeiras (Diálogos,
1956: ui, 154). D e mais elevado valor do que o co­ A FRONTEIRA A SUL E A
mércio português no Oriente. Embora os rendi­ COLÔNIA DO SACRAMENTO
mentos directos para a Fazenda régia sejam meno­
res (Godinho, 1978: 65-70). Para captar a prata americana que pelo rio da
Algumas interdições que se destinavam a prote­ Prata chegava ao Brasil, entendeu finalmente
ger o mercado oriental foram sendo levantadas. D. Pedro II alargar à fachada norte do estuário do
O gengibre, que até 1641 não podia ser vendido em Prata a presença permanente de portugueses. Não
seco, passou a poder ser exportado, assim como o só para saque de prata. Abundava aí à solta o gado
anil, em 1642. O que depois ainda foi objecto de vacum bravio, de que se podiam preparar bons
benefícios fiscais (Álmeida, 1995b: 64-65). O mes­ couros para exportar para a Europa.
mo ocorreu com a canela, de que se plantam árvo­ Projecto várias vezes formulado, como que
res na Bahia, como se experimenta a adaptar a cul­ uma evidência geográfico-económica em que final­
tura da pimenta (Varnhagen, 1956: 1, 261). O que mente se assentava. Nisso pensara antes Maurício
mostra como perdia relevo o império oriental em de Nassau. Também já Salvador Correia de Sá em
beneficio do Brasil. O s interesses específicos do 1643 propusera a conquista de Buenos Aires e o
império atlântico passavam a tomar na política eco­ ataque ao Paraguai com o auxílio dos Paulistas —
nômica a posição central que correspondia às ne­ para o efeito autorizados a uma pequena caçada aos
cessidades reais. Também no Maranhão se começa índios. E sob comando de um paulista a eleger de
a explorar o açúcar, com bons resultados. Arranque entre os seus. Dali se podería tirar «muito proveito
lento. Em 1643 para fazer um engenho «mais cor­ em carnes para 0 sustento dos presídios do Brasil, e
rente e rendoso» é necessário aumentar-lhe os es­ em courama». Além disso. Ficava «a estrada aberta
cravos, os bois e outras coisas. (Bettendorf, 1990: até Potosí com facilidade» (Norton, 1943: 18).
liv. 11, 68). E nisso insistiría ainda o padre Antônio Vieira, es­
Uma vez construído em pleno o império por­ quecendo o seu jesuítico horror aos Paulistas (apud
tuguês do Atlântico e secundarizado o asiático, Álmeida, 1957: 99-100). Sem efeitos imediatos. Por
maior seria o peso relativo do rendimento do Brasil falta de meios militares, não por se considerar uma
nos ingressos do todo imperial português. E por is­ proposta errada. Porque por contrabando não fal­
Vista de O linda e Pernambuco, in Jean Commelin, H istoire de la vie et actes mémorables de Frederic H enry de so as dificuldades comerciais que se sentiam no tam as notícias de venda de negros em troca de
Nassau, Amesterdão, Jansson, 1652 (B N ) Brasil repercutiam fortemente neste conjunto polí­ prata (Mauro, 1991: 1, 236).
tica e economicamente articulado. Dificuldades cu- Acabada a Guerra da Restauração as vantagens
aperta. A criação em Portugal da Companhia Geral A RECUPERAÇÃO DA
do Com ércio do Brasil, com a concessão do mo­ ECONOMIA BRASILEIRA A esquerda: produção de cana-de-açúcar, séc. x v u (apud M auro, 1991). À direita: mineração de ouro, séc. xvn t (apud
nopólio da importação dos principais gêneros con­ Mauro, 1991)
tribuiu também para a defesa militar do comércio Pelos finais da década de sessenta seriam já
brasileiro, dando mais força econômica, aumentado muitos os engenhos de açúcar recuperados: «De
os rendimentos dos habitantes da colônia e permi­ Pernambuco até Paraíba há cento e cinquenta en­
tindo-lhes alimentar uma novo ânimo libertador genhos»; «da Bahia até o R io de Janeiro há mais de
(Boxer, 1973: 303). duzentos.» Tudo isto daria um rendimento estima­
Em 1654 os Holandeses mesmo sendo ainda do de 6 milhões de cruzados (Santiago, 1984: liv.
«osso duro de se roer», entregam o Recife (Rau, 1, cap. 11, 18). Entretanto, teria aumentado a pro­
1954: 5-17). O imenso território do Brasil retomava dução de algodão e a de tabaco. Esta última espe­
a sua feição de colônia exclusivamente portuguesa. cialmente importante, pois o fumo era mercadoria
Por vontade exclusiva dos moradores de Pernam­ essencial para a compra de escravos em África e
buco que sem visível razão então respeitaram e se para aí também se negociar com holandeses e in­
submeteram sem grandes diferenças ao poder real gleses (Prado Júnior, 1970: 39; Cannabrava, in
português — embora outras soluções alternativas H G C B : 211).
tivessem sido pensadas (Mello, 1995: 279-283). T er­ O comércio brasileiro é considerado com o ten­
minara o Brasil neerlandês. A presença do outro, do vantagens, relativamente à Ásia. Para as naus da
do inimigo, do herege, foi um contributo decisivo índia «virem carregadas de fazendas» se «desentra­
para a construção da unidade brasileira. Para o que nha todo esse Oriente com se ajuntar a pimenta do
pouco trabalharam aqui e então as forças do Portu­ Malabar, a canela de Ceilão, cravo de Maluco,
gal europeu. massa e noz-moscada da Banda, almiscre, benjoim,

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O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

comerciais dessa região conflitual entre Portugal e Vai o governador de Buenos Aires D. José
Castela redefinem-se. A fronteira desde sempre de­ Garro tomar a iniciativa de atacar a colônia de
sejada pelos portugueses passava pelo rio da Prata imediato. Reúne um exército de tropas espanholas,
— ou mesmo mais a sul. E a prata parecia também a que junta cerca de 3000 índios guaranis. A forta­
prestes a aparecer no Brasil Meridional, interessan­ leza ainda inacabada é cercada e os seus ocupantes
do governantes e aventureiros — o mito das minas impedidos de aproveitar os campos em redor,
de Sabarabuçu estava bem vivo. Também por esta «queimando os pastos e afugentando o gado».
extensão do território meridional se interessam os Houve fome e doenças nas tropas (idem: 149-150).
poderosos. O visconde de Asseca, descendente de Dado o ataque, muitos foram os portugueses mor­
Salvador Correia de Sá, obtém a concessão de uma tos e prisioneiros. Quando a notícia chega a Lis­
nova capitania confinante com o rio da Prata, em boa é exigida uma satisfação ao monarca vizinho e
1676. E pretende iniciar a colonização daqueles o exército português é aumentado nas fronteiras, o
vastos espaços. Mas será a Coroa que nisso inter­ que significava uma clara intenção bélica na Penín­
vém, organizando a ocupação. sula. Ficava ameaçada a paz. E ficava mesmo.
Caberá a D. Manuel Lobo, governador do R io O que a corte castelhana percebe. Procura então
de Janeiro, passar ao rio da Prata e proceder à nova evitar a guerra, recorrendo a negociações. Que
instalação, segundo regimento régio de 1678. Trata­ conduzem à assinatura em 1681 de um tratado pro­
va-se de construir uma fortaleza na ilha de São G a­ visional. Voltam as tropas portuguesas a ser envia­
briel e outra defronte, na terra firme. Ficariam livres das ao Sacramento, embora pelo tratado devendo
de direitos a prata, o ouro e os mantimentos. Argu­ ficar confinadas à fortaleza. E volta a reunir-se uma
mentava-se ainda e sempre com a validade dos limi­ conferência em Elvas/Badajoz para derimir as
tes traçados pelo Tratado de Tordesilhas, pelos quais questões fronteiriças repostas por mais esta reaplica-
se queria que o rio da Prata ficasse para Portugal. ção do Tratado de Tordesilhas. E volta a meter-se
Apresentavam-se e discutiam-se as distâncias à linha a autoridade papal nesta questão, agora com um
de partilha usando velhos e novos mapas, sempre vi­ papel arbitrai.
ciados a contento das partes. A nova colônia inco­ Ilegal e com guardas montadas para o evitar, o
modaria deveras a próxima e fronteira Buenos Aires, comércio sempre se vai fazendo. Em 1684 já se en­
pelo inevitável contrabando da prata que se seguiría contram no R io de Janeiro «muitas moedas peque­
e pela extensão do domínio português a uma região nas de Buenos Aires». Os moradores de Buenos
muito abundante de gado. E, não menos, a aproxi­ Aires nisso estavam interessados, não cumprindo as
mação portuguesa às reduções da Companhia de Je­ determinações do governador. Ao que parece os
sus e a tentação que representava a captura de ín­ próprios governadores dos dois lados faziam os seus
dios. Os Paulistas continuavam a assustar. negócios às escondidas. Em 1689 um barco prove­
Chegado em princípios de 1680 ao rio da Prata, niente da colônia trouxera ao R io de Janeiro mais
D. Manuel Lobo deu início ao novo estabeleci­ de 100 000 cruzados em patacas e barras de prata. Salva e go m il em prata lavrada, Lisboa, cerca de 1 6 8 0 -1 7 2 0 (M S R )
mento na terra firme, defronte à ilha de São G a­ E mais vinha (idem: 234-235). Colonos lá se insta­
briel. Foi-lhe dado o nome de colônia do Sacra­ lam, deles índios, deles açorianos, para aproveitar a ra a mais lavoura, com a vizinhança de Buenos A i­ baco, que bem se desenvolve. Mas que não assu­
mento (Almeida, 1957: 114-117). O comércio de terra, já que o comércio seria de presumir que se res» (idem: 259). Era o avanço para o R io Grande mirão a importância que tinham em climas mais
Buenos Aires com o Brasil não erá* coisa nova. mantivesse irregular, como contrabando que era. [do Sul] que se perfilava, por terras então ainda es­ propícios (Prado Júnior, 1970: 69). Aparecem, es­
Sempre os moradores, não poucos deles portugue­ A neutralidade portuguesa na guerra entre a França cassamente transitadas (Vellinho, 1970: m ). T en­ pontâneos, o cacau e o cravo, a baunilha e outras
ses, se aproveitaram da relativa proximidade do e a Espanha facilitará o crescimento da colônia tando preencher um vazio na desejável continuida­ drogas. Não há dificuldade em cultivar o milho e a
Rio de Janeiro para importarem escravos e roupa (1689-1697). Executará essa nova política coloniza- de de ocupação do território pelos Portugueses. mandioca para garantir a subsistência.
de Portugal e exportarem prata, couros, sebos e dora o comandante D. Francisco Naper de Lencas- E aproveitando a folga que deixava o com o que Também a norte vai agudizar-se a conflituali-
frutos da terra. Comércio sempre muito condicio­ tre. Em 1692 já aí habitariam cerca de 1000 pessoas, abcesso de fixação da colônia do Sacramento, po­ dade entre os poderes políticos civis e os religio­
nado, que era uma das razões de ser da cidade por- tendo a povoação umas 100 casas. Prospera a in­ voadores de São Paulo instalam-se no que vai ser a sos. Queriam os Jesuítas o exclusivo do «trato espi­
tenha (Lafuente Machain, 1931: 93-m; Canabrava, dústria e o comércio dos couros. O governador in­ principal região produtora de gado do Brasil (Prado ritual dos índios, e de toda a gentilidade do Estado
1984:130-138). Mas que continha o enorme risco de siste energicamente para que o rei envie casais para Júnior, 1970: 95). do Maranhão». Pelas contas deles, pelos serviços
permitir a saca da prata do Potosí e a introdução povoar a região, em especial do Minho. Terão ido violentos a que os sujeitavam os colonos, teriam
do comércio de estrangeiros (Almeida, 1957: 131). alguns da Madeira (Almeida, 1995a: 27). A FRONTEIRA A NORTE morrido «perto de dois milhões de índios forros».
Causou perturbações em Madrid a instalação Vencendo dificuldades frequentes senão cons­ Os gritos de «morra» do Maranhão dirigidos aos
portuguesa no Prata. Objecto imediato de protes­ tantes, a colônia conseguira firmar-se. Embora a Para sul a expansão portuguesa procurava atin­ «urubus da Companhia de Jesus» em 1653 eram na­
tos diplomáticos e desencadeadora do preparativo precariedade da posição do estabelecimento se gir a prata americana em mãos de castelhanos e be­ turalmente a resposta violenta contra os que à sua
de acções annadas. Mas Portugal persistia, enviando mantenha. Não havia ainda suporte colonizador na neficiar com a exportação de couros. Para norte o maneira queriam proteger os indígenas (Bettendorf,
homens, ferramentas e sementes para que 0 estabe­ sua retaguarda (idem: 229-253). Mas já nisso se pen­ interesse dos colonos vai orientar-se para a possível 1990: liv. 11, cap. v ii , 72). E que os padres tinham
lecimento se organizasse e expandisse. Resolver a sava. Para sul de Santa Catarina começa a conhe- exploração de drogas exóticas que poderiam ser um projecto global, que nào admitia diferentes ju ­
questão com recurso ao Tratado de Tordesilhas cer-se a terra e a estimar-se a possibilidade do seu objecto de procura na Europa. Além das madeiras, risdições: «O espiritual sem o temporal dos índios
continuava a mostrar-se impossível. Cartógrafos e aproveitamento agrícola. Inumerável gado andava cuja rentabilidade de exploração se evidenciava não bastava para fazer fruto em suas almas e dilatar
cosmógrafos, teólogos e diplomatas não conse­ pela região onde se destacava a lagoa dos Patos, fi­ desde logo como uma expectativa segura (Almeida, a missão.» Por isso se vão esforçar para conseguir
guiam traçar com rigor a linha de separação entre xando-se povoadores em 1688 na Laguna, «terra 1981: 103). Mantém-se a atracção dos colonizadores «ambos os governos, assim temporal como espiri­
os dois domínios. muito fértil e abundante de pescados e carnes e pa­ pelo açúcar, de que se fazem engenhos, e pelo ta­ tual dos índios». Contra o que há motins públicos

58 59
O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

«na câmara, na praça e por toda a parte» (Vieira, mesma maneira interpretadas. Bem podia bradar o Reinstalados, nem por isso os Jesuítas passa­
1970-1971: 1, 321). Porque na Amazônia, de parcos povo que «não havia escravos, porque os padres ram a ter um diferente comportamento. O que
recursos, o negro é caro. E para muitas actividades não queriam» (idem: liv. iv, cap. xm, 218). Era qua­ lhes valeu outra expulsão, em 1683. Na origem, a
— por exemplo o transporte em canoas — o es­
A
T E R se assim. mesma irritação de sempre que a população e as
sencial é o índio (Prado Júnior, 1970: 70). D E Em 1661, aproveitando o descontentamento demais ordens religiosas sentiam em relação à au­
O s Jesuítas prosseguiam na determinação de G R AMMAT I CA provocado pela revelação de uma carta do padre toridade dos Jesuítas sobre os índios (Vieira,
impedir o injusto cativeiro dos índios e de os arru­ Antônio Vieira ao rei — em que o fogoso jesuíta 1970-1971: ui, 505). E lá torna a ser posto em causa
DA LÍ NGUA BRASÍ LI CA
marem em aldeias que prenunciavam utópicas ci­ dava informações sobre o governo, município e o governo temporal que exercem. Os «três esta­
dades de Deus. D e que iam vendo algumas concre­ DA NAÇAM missionários do Maranhão — estala um alvoroço dos», eclesiástico, nobreza e povo, determinam a
tizações. U m pequeno núcleo com suas laranjeiras popular em São Luís do Maranhão. As autoridades saída dos padres do Maranhão. Lançavam-nos fora
e flores logo «arremedava um paraisozinho»... Para
alcançar esse propósito impunha-se o isolamento
K I R I R I não atalham ao motim, com o qual seriam mesmo
coniventes. Bom momento para os moradores
do temporal, e do espiritual. Embarcam-nos para
Pernambuco. Desta vez a repressão será séria (Bet­
C O & W T O S T zJ prenderem e depois expulsarem os padres, pois es­ tendorf, 1990: liv. v ii , caps, i-iv e xi-xm , 357-306,
relativamente às autoridades civis. O que se tradu­
zia numa abertura de hostilidades por parte destas. PcloP .L U IS V IN C E N C IO M A M IA N I; tes «governavam os índios e não lh’os concediam 382 e 401-410). Propõem-se alguns dos padres soli­
Os índios, com o sempre, fugiam da proximidade DaCompanhfadeJ E S U , Miífionario conforme a seu gosto, para lhe servirem à sua von­ citar ao rei autorização para abandonar o Mara­
nas A Ideas da dita Nação.
dos brancos e do trabalho escravo. Aos brancos tade». Procuram os do Maranhão que se levantem nhão. Outros terão considerado visivelmente hi­
«por nenhum modo queriam servir» (Bettendorf, também os do Pará. E em seguida os do Gurupá. pócrita tal diligência — ou demasiadamente
1990: liv. 11, cap. x, 80-82). Acusação lhes é feita de O que acontece, pois em toda a parte a questão insincera para ser verosímil. Não seguiu avante
que as expedições ãs terras desconhecidas da Amazô­ central dos índios se punha da mesma maneira (idem: liv. vn, cap. x ii , 405-406). Sempre o pro­
nia «se reduzia a um claro conhecimento de seus (idem: liv. iv, caps, ii-vn, 164-191; Azevedo, 1918- blema dos escravos e a necessidade que os mora­
igarapés para serem [05 índios] assaltados com maior -1921: 1, 338-342, 393-404). Mesmo com a vinda de dores invocavam que deles havia para os trabalhos.
facilidade» (idem: liv. m, cap. 11, 91). «Em espaço de L I S B O A , novo governador e novo capitão-mor do Pará, em E sempre a dificuldade de comunidades civis dota­
quarenta anos se mataram e destruíram por esta costa n a Officinadc M IG U E L D E S L A N D E S , 1662, demora o retorno ao statu quo ante. Em 1663 das de fortes poderes municipais como as de São
ImpreílordeSuaMag. Anno dc 1699. nova lei retira aos religiosos o governo temporal
e sertões mais de dois milhões de índios, e mais de Paulo ou do Estado do Maranhão em lidarem
tttUt MIttrtféU dos índios. São agora as câmaras as encarregadas com os Jesuítas. Cuja autoridade resulta ainda
Catecismo da Língua Brasílica, do padre Antônio dessa administração, havendo em cada aldeia um acrescida em 1688, pois recebem a nomeação de
Araújo, Lisboa, 1618 capitão encarregue dessa tarefa (Bettendorf, 1990: comissários do Santo Oficio no Estado do Mara­
Arte de Gramática da Língua Brasílica da N ação
liv. iv, cap. xv, 222). Os colonos tinham ganho. nhão (idem: liv. vi, cap. xxi, 442).
Kiriri, do padre Luis Vicencio M amiani, Lisboa, 1 6 9 9 E é a sua representação política que assume esse Contudo, as outras ordens religiosas querem
grande poder sobre os índios. Sentem-se então os também parte das missões do Estado do Maranhão.
quinhentas povoações como grandes cidades», em­ padres como «criados dos capitães das aldeias, os O rei determina, em 1693, uma partilha. A sul do
pola o padre Antônio Vieira. Só em 1655 tinham si­ quais dispunham dos índios sem se lhes darem de­ Amazonas manter-se-ia a Companhia de Jesus.
do cativados no Amazonas 2000 (Vieira, 1987: 1, les». Porque tinham perdido a competência legal A norte haveria uma distribuição por Francisca-
VAS £ L E C T I O K I S para proceder à repartição dos índios (idem: livs. v e nos, Carmelitas e Mercedários (idem: liv. ix, cap. 1,
449). Contra as leis que os declaravam livres.
v ii , caps, xi e 1, 281 e 360). 543). A maior parte permanecia nos Jesuítas. Difi-
«íS Argumentação jesuítica já conhecida e larga­
< mente divulgada muitos anos antes, a partir do es­
tabelecimento de São Paulo. Posição ideológica e Capela paulista de São Miguel, segunda metade do séc. x v u
pragmática de que os Jesuítas não desistem. Consi ­
& deravam indispensável deter o poder temporal so­
bre os indígenas. E enviam ao reino o padre Antô­
55
ui nio Vieira, em 1655, que se terá valido da estima de
D. João IV, obtendo o que os padres queriam. Era
uma boa perspectiva, dominar o Norte do Brasil.
Co Ainda querem mais. E avançam para o Ceará —
H que mais tarde será destacado do Maranhão passan­
O t*i do para o Brasil.
u
Nem por essa maior pressão dos Jesuítas deixa
y t/im N W O M í u v o d ja de haver expedições para capturar indígenas. Mas
agora a licitude da escravização devia ser analisada e
aprovada caso a caso por um jesuíta que acompa­
ErcmipícirÕ bíra
X Micoa tiara xercruru,
Pecmcceruri pira
nharia as tropas. Com o antes das expedições de­
viam estas ser aprovadas pelas ordens religiosas. Se­
ria «legítima causa de guerra entre os índios» aquela
Cecc Cceroc ipíra que eles «costumavam ter por tal, quando dão
Oipcà Ymoãopuru. guerra uns aos outros». Também com o escravos se
mantinham aqueles que já eram escravos há gera­
ções (Bettendorf, 1990: liv. m, cap. vi, 108-109).
O que era tido e sentido como pouco pelos colo­
nizadores. E dava lugar a diferenças, pois nem sem­
pre justiça ou injustiça de uma guerra eram da

60 61
/
O DOMÍNIO TERRITORIAL A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO BRASILEIRO

cil para os Inacianos aceitar esta mistura com os O RECONHECIMENTO quistas da coroa de Portugal, começando na Aldeia
frades. Porém, não havia como recusá-la. _____ DA AMAZÔNIA_____ do Ouro, em Cambebas, até a residência do G uru-
C om conflitos e momentos de acalmia ia pá ou Tapará, incluindo de mais todo o rio do T a ­
prosseguindo o crescimento do Grão-Pará. Em Q uer aos colonos quer aos Jesuítas se deve em pajós com suas serrinhas e sertões» (Bettendorf,
1673, o novo governador Pero César de M eneses boa parte o conhecimento da bacia amazônica. Nas 1990: liv. iv, cap. 1, 159-160). Era a fixação do limi­
traz o encargo de assentar uma fábrica de anil. expedições para o interior a capturar indígenas, ou te oeste do Brasil, conforme fora determinado pri­
Um «anileiro» orientará a escolha da terra e do buscando-os para os fazer «descer» e arrumar nas meiro pela grande expedição de Pedro Teixeira em
moinho. Viriam 50 escravos de Angola para o aldeias, vai-se dominando o espaço e as gentes que 1637-1639.
trabalho. Todavia a semente rendeu mal, não pu­ o ocupam. Aprendem-se línguas e costumes, do­ A busca do cravo também terá incentivado a
deram represar-se as águas para o engenho pela minam-se os acidentes físicos, regista-se com rigor este devassar dos sertões. O s «cravistas» a tudo se
natureza do terreno escolhido. Era bom. Mas deu o que se vai apurando. arriscavam «para levar o cravo de onde quer que
pouco. Segunda tentativa de fazer anil não resul­ As chamadas tropas de resgate, entradas para fa­ esteja» (idem: liv. v, cap. x, 279). As expedições
tou melhor, também por má localização (idem: zer descer o gentio, atrevem-se a penetrar bem pa­ das tropas de resgate chegam a convergir aciden­
liv. v, cap. xiii, 292, 296). Mantinha-se a produ ­ ra o interior. Tropa e missionários avançam até ao talmente com as bandeiras dos Paulistas. Em 1662
ção em volta do açúcar, do tabaco, das madeiras, rio Negro — 1657 e 1658 — e ao Soliinões — o sargento-mor do Pará, Antônio Arnau, um na­
dos couros. Não seria de grande monta o resulta­ 1669. Percorrendo terras e águas que depois de Pe­ tural de Évora, sai para uma estada prevista de três
do da feitura de sal que os Jesuítas empreendem, dro Teixeira não tinham tornado a ser devassadas. anos nos sertões. Nela encontra paulistas que pelo
em 1676. Ganham cada vez mais relevo o cacau e Mas aquele capitão não fora a resgatar escravos e rio Madeira tinham vindo sair ao Gurupá, não
o cravo espontâneos, que muitos procuram em estes que agora partiram trouxeram em segunda longe de Belém (Bettendorf, 1990: liv. iv, cap. xi,
contínuas viagens pelos sertões. N o vale do rio tentativa mais de 900 cabeças (Bettendorf, 1990: 205). Era o desbravamento do interior brasileiro,
Madeira: «há muitos cacaueiros por ele, os quais liv. v, cap. ix, 221). que os dois núcleos urbanos mais periféricos exe­
dão o melhor cacau que há em o Estado todo, Expedições que se queriam devidamente regis­ cutavam. Quase que pelos seus próprios meios.
por ser o mais doce e mais grosso que 0 das o u ­ tadas. «Muito desejávamos trazer astrolábio para Pouco se mexiam os governadores, limitando-se a
tras partes» (idem: liv. vi, caps. 11, x e xiv, 305- notar com certeza as alturas deste rio», escreve do administrar o Grão-Pará e o Maranhão. Apenas
-306, 341 e 355). Nessa apanha também colaboram Tocantins o padre Antônio Vieira, em 1654. Não o dois deles se arriscaram, e não muito, até ao G u ­
os índios. achando, «governámos a esmo pelo Sol, e este bas­ rupá. Só em 1695 Antônio de Albuquerque C o e ­
Importância que desperta cobiças. Em 1682 o ta, com conhecimento dos ventos, para saber a que lho de Carvalho chegou até ao rio Negro (idem:
governador Francisco de Sá mostra-se empenhado rumo pouco mais ou menos navegamos. Ficarão as liv. iv, cap. xiv, 221).
em «pôr o estanque de todos os gêneros, princi­ averiguações mais exactas para os que depois de As repetidas entradas começam a suscitar a ne­
> palmente cravo e cacau em todo o Estado do M a ­ nós vierem» (Vieira, 1970-1971: 1, 358). O que veio cessidade de fixações permanentes de colonizado­
ranhão». Em contrapartida seria garantido o apro- a acontecer em 1658 numa entrada que durou oito res. Em 1669 trata-se de aproveitar a confluência
> visionamento em negros de Angola. H o u v e meses, tendo sido andadas mais de 500 léguas. do rio Negro com o rio Solimões. A três léguas vai
desconfiança para com os estanqueiros, que se sus­ Dessa expedição resultou ficar «arrumado o rio erguer-se uma fortificação marcando a presença
> peitou que não fossem capazes de fornecer os es­ com suas alturas, diligência que até agora se não portuguesa. Chamou-se-lhe São José do R io N e ­
cravos prometidos (idem: liv. vi, cap. xin, 347). havia feito, e acharam pelo Sol que tinham chega­ gro. Daí irradiará o povoamento de mais este ser­
> O governador-geral do Estado do Maranhão aca­ do a mais de seis graus da banda do Sul, que é tão (Reis, 1989: 69-70). C om o em 1676 chegarão a
bou por impor um estanco comercial entregue a pouco mais ou menos à altura de Paraíba» (idem: 1, Belém do Pará 50 casais, 234 pessoas no todo, pro­
uma companhia privilegiada. O que vem a dar em 358, 533). Alimentando ainda algumas esperanças de venientes do Faial, freguesia das Feteiras, daí expul­
>
motim aberto, em 1684. Com a depqsição do go­ descoberta de ouro e outras preciosidades. Num sas pela entrada em actividade de um vulcão. C o m
vernador-geral, do capitão-mor da cidade de São igarapé do Tocantins se descobrem em 1669 pedri- elas se fundou a povoação de São Vicente (Berre­
>
Luís e com a expulsão dos padres da Companhia nhas de cores e «belas pedras de cristal à flor da ter­ do, 1988: §§ 1207-1208).
de Jesus (Varnhagen, 1956: 111, 249-252). N ão era ra» (Bettendorf, 1990: liv. v, cap. iv, 256). Obser­ Não apenas para o interior da Amazônia ou pa­
i vando a terra, procurando nela o proveito possível ra o Pará seguem as tropas a desbravar novos espa­
fácil aos representantes do rei ir contra a liberdade
de governo municipal que se instalara nestas distan­ era o feito das entradas com que se foi explorando ços. Por volta de 1676 envia o governador ao «des­
) a imensa floresta. N o rio-mar das Amazonas, a ilha cobrimento do rio Parauassú, entre o Maranhão e
tes paragens. O reconhecimento e acatamento pa­
cífico da soberania portuguesa passava por uma de Marajó é um «confuso e intrincado labirinto de o Ceará». Dessa expedição, que durou meses, o ir­
) rios e bosques espessos» (Vieira, 1970-1971: 1, 535). mão jesuíta Antônio Ribeiro «tinha feito um mapa
grande autonomia no governo local. Tal com o
acontecia em São Paulo. 0 que também implica Q ue depressa se constata ser boa para criação de dos rios e terras em que tinha entrado». Andaram
) gado vacum, não tanto para lavouras porque boa pelas faldas da serra de Ibiapaba. Mas não houve
que as relações privadas sejam determinantes de
não poucas das actuações públicas (Pinto, 1980: Frei Antônio de Jesus, Nossa Senhora dos Prazeres, parte é terra seca, ou pantanosa (Berredo, 1988: «mais proveito que o descobrimento do rio e suas
> 44-45). Que só por coincidência serão as que inte­ primeira metade do séc. x v u , Igreja de Santana do Paraíba, § 1002). Descobrindo, observando, registando em terras com aquelas com que vão confinar». T am ­
ressam ao monarca em Lisboa. São Paulo mapas. Confrontando as informações, para ver se bém aqui valeram os conhecimentos indígenas
A autonomia seria muito especialmente sentida coincidiam com as medições dos cosmógrafos e o (Bettendorf, 1990: liv. vi, cap. iv, 314). E mais hão-
em São Paulo, em que os bandeirantes se consti­ mandados por Domingos Jorge Velho foi preciso que se pintava nas cartas (Vieira, 1970-1971: 1, 397). -de valer quando se decidir abrir uma rota terrestre
tuem também em tropa de choque de que se va­ tempo para o conseguir. O que só veio a ocorrer Informações que vão sendo devidamente guar­ que permita a ligação do Maranhão à Bahia. Por
lem as outras capitanias quando em dificuldades. em 1697. Tropas cujos comportamentos por vezes dadas. Conta o padre João Felipe Bettendorf que o mar era ela bem custosa.
Eles os que são contratados para acções militares es­ se tomavam um perigo para as populações por cn- padre Antônio Vieira lhe mostrou em Belém, na Das tropas e das missões se aproveita a realeza
pecialmente arriscadas. Seja contra os Holandeses, de passavam ou onde se instalavam, não mais pací­ casa dos Jesuítas, um mapa do grande rio das Ama­ para que o território fique bem delimitado. Em
seja para aniquilar o grande quilombo dos Palma­ ficos que os que perseguiam (Varnhagen, 1956: ill, zonas. Geografia imaginária (Azevedo, 1918-1921: 1, 1681 a região do cabo do Norte — cuja capitania
res, para o que se fazem contratar em 1687. C o - 258-259, 261). 287)? Esse Amazonas «corre pelo distrito das con­ fora criada em 1639 (Rodrigues, 1979: 33) — e a da

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O DOMÍNIO TERRITORIAL

Guiana Francesa foram exploradas pelo padre Aluí- FINALMENTE Q O U RO


sio Conrado Pfeil, «bom matemático e versado em
pintura». Debuxou «todos os sítios com os rios, Em 1655, em busca de uma saída para as aflições
AS INCURSÕES NO ESPAÇO
montes e terras do cabo do Norte, para depois sair
com um mapa que oferecesse a Sua Majestade».
financeiras da guerra, D. João IV manda passar ao
Pará dois mineiros «com toda a ferramenta necessária AFRICANO
O que foi feito. Era um «grande mapa, novo e be­ para se examinar o rendimento dos minerais» que se
lo, do grande rio das Amazonas». Nele o rei veria encontrassem. A expedição foi organizada por André
Joaquim Romero Magalhães
«as terras e rios que tinha, desde o Pará até ao cabo Vidal de Negreiros, um dos heróis da guerra de Per­
do Norte, pela costa, sita aquém do rio de Vicente nambuco, ao tempo governador do Maranhão. Diri­
Pinzon, e pelo rio das Amazonas arriba até onde giu-se às terras dos Pacajás, no interior, e esperava-se
chega o distrito destas conquistas do Estado do que alguma coisa de concreto se alcançasse num pra­
Maranhão» (Bettendorf, 1990: livs. v i - v ii , caps, xii - zo de seis meses (idem: liv. m, cap. iv, 97-98). Traba­ _______M ARROCOS______ deserto habitadas de animais mui feros». E seguem
-xi, 345, 402). lhos baldados. Uma vez mais. Em 1678 e por ordem mais informações sobre o porto e a barra, e o co­
Para o cabo do Norte, para além do braço es­ régia uma outra expedição avança pelo rio Tocantins O último grande susto provocado nas praças mércio que nele se faz (Mendonça, 1904: liv. 1, 39).
querdo da foz do Amazonas, são enviados missio­ «em descobrimento de ouro». Também sem resulta­ portuguesas de Marrocos foi o cerco a Mazagão Revelação inesperada de roteirista, num livro de
nários jesuítas em 1688. Em Tabarapixy e na ilha de do (idem: liv. vi, cap. xin, 321). em 1562. Uma mobilização geral do reino provo­ polêmica política onde tais informações não seriam
Camunixary — esta a i° 8’ norte — iniciam o seu Em 1683 a sorte pareceu melhor. Uma tropa de cou um sobressalto geral que conseguiu evitar a necessárias. Mas Jerónimo de^ Mendonça leu Leão
múnus. C om pouca sorte para os que se instalaram resgate «descobriu duas minas de ouro e prata, uma derrota, e impedir o abandono dessa praça, que já Africano e a sua Descrição da Africa, conheceu a ter­
na ilha. Os seus ataques às «beberronias e amance- no rio Urubu, outra no Jutumã». Analisado o mi­ se encontrava planeado (Farinha, 1970: 30-31). ra, procurou infonnar-se junto dos que lá tinham
bamentos» dos índios e aos seus ritos gentílicos, es­ nério — em pedra o do Urubu — em parte pedra O abandono das praças fortes do Sul da costa adân- estado.
se pôr em causa de uma natureza que os padres e em parte de lavagem o de Jutumã. As expectati­ tica marroquina, e depois das demais que represen­ Muito interessante é a descrição de Fez com o
consideravam depravada provoca os Tapuias que os vas pareciam confirmadas. As dificuldades sobrevie­ tavam sobretudo encargos financeiros, fora uma intuito esclarecedor de informar sobre as tristes
matam. Mortos, assados, comidos. A vingança que ram quanto à fundição, que não se sabia fazer necessidade da Fazenda régia. Mas sem dúvida que condições de vida que levavam os cativos nessa ci­
depois veio não foi menos cruel (idem: liv. v ii , (idem: livs. vii e vm , caps, x v e vi, 321 e 496). assim se fragilizara o domínio das que restavam e se dade. Cidade ^«opulenta e nobre», composta de
caps, xvni-xix, 432-435). Entretanto, vão ser os persistentes paulistas a ter pretendia manter, de Ceuta e de Tânger, depois Fez-o-Velho e de Fez-o-Novo, murada e «cheia
Em 1697 os franceses instalados na Caiena des­ êxito nesse achamento da grande riqueza aurífera também Mazagão. Onde ainda se sustentavam tro­ de casas e infinita gente». Terra de boas constru­
cem para sul a tomar a Fortaleza de Santo Antônio do Brasil. Posto que muitos no Brasil já não acre­ pas em permanência. Não se esperava já, em tem­ ções e de intensa actividade artesanal — «há nela
de Macapá no cabo do Norte e ainda arrasam a ditassem nessa «esperança das minas» (Vieira, 1970- pos de D. João III, reconquistar o imenso território trezentos e tantos moinhos e pisões». Com uma ju ­
fortaleza do Paru. Argumentam que estão em terras -1971: 677). O s Paulistas, familiarizados com os marroquino. As atenções iam para os equilíbrios fi­ diaria, junto da cidade mas dela isolada por muros
pertencentes ao rei de França. Isto não havendo achamentos de pequenos depósitos de ouro de la­ nanceiros necessários ao grande império ultramari­ «não mui altos» com cerca de 1000 vizinhos. Neste
guerra declarada a Portugal. O rei cristianíssimo in­ vagem (Leme, 1980: 31-57), penetram pelas vias do no na sua globalidade. Todavia, D . Sebastião logo cenário penaram muitos portugueses feitos cativos
vocava que nada tinha a ver com o Tratado de interior já anteriormente descobertas. Fernão Dias em seguida retoma a ideia antiga da conquista em Alcácer Quibir (idem: liv. 11, 111-117). Nem isso
Tordesilhas, e que a sua possessão ia até ao Amazo­ Pais, Manuel Borba Gato, Antônio Rodrigues de além-mar. Para isso reúne um grande exército, parece ter aguçado a curiosidade dos Portugueses
nas. Já muito antes se sabia da atracção por estas Arzão, Bartolomeu Bueno de Siqueira e muitos com que passa em 1578 a Marrocos. Com grande por Marrocos. Menos teria ainda apetecido, depois
paragens (Cortesão, 1966: 11, 117-118). Agora dá-se o outros vão encontrando e fixando arraiais de ex­ pompa e bastante irresponsabilicjide. O intento é da Restauração, quando Ceuta ficou por Espanha e
inesperado avanço expansionista nessa direcção — ploração donde algum ouro começa a ser rentavel- seguido pelo reino. A empresa parecia fácil. O en­ mais tarde Tânger se foi no bragal de D. Catarina
porque é disso que se trata. Situação que não du­ mente explorado. Antônio Dias de Oliveira funda­ tusiasmo do rei contagiara muita gente. Mais difícil de Bragança. Marrocos era passado, e um passado
rou. Poucos meses depois a tropa francesa é forçada rá o arraial de Minas Gerais de Ouro Preto em foi depois aceitar o desastre a que conduziu uma que desembocara em dura frustração. Embora pas­
a capitular, e entrega as fortalezas que ocupara 1697. Ouro. Finalmente. Quase dois séculos depois desastrada campanha, mal . organizada e pior co­ sado ainda considerado honroso, e por isso talvez a
(Bettendorf, 1990: liv. ix, cap. viu, 623-628; Berre­ da chegada de Pedro Alvares Cabral. C om o ouro mandada. primeira edição impressa da Crônica da Tomada de
do, 1988: §§ 1368-1387). A França não passava as inicia-se uma profunda transformação na ocupação Alcácer Quibir e os seus muitos prisioneiros Ceuta de Gomes Eanes de Zurara, saia em Lisboa,
suas possessões aquém do Oyapoc (Varnhagen, da terra brasileira. O ouro passa a centrar as activi- vieram dar a conhecer Marrocos como até então em 1644. Porque prestigiava as casas de grandes e
1956: ui, 245-248). As terras do Norte, que ficavam dades econômicas e as atenções das autoridades. não ocorrera. Muitos tinham sido os moradores nas fidalgos que nela tinham tomado parte? Com o his­
a constituir a capitania do Macapá, passavam a fazer A extracção do metal em Minas Gerais exige a sua praças-fortes de África, muitos aí tinham passado a tória para servir os áulicos que bem precisavam que
parte do território brasileiro do Maranhão. A norte articulação ao litoral marítimo, ao R io de Janeiro, prestar-lhes socorros. Agora muitos os que lá fica­ se lhes perdoasse a cobardia de 1580?
como a sul e com o a oeste a expansão do Brasil fo­ porto para a saída de tão estimado produto. E a ram, muitos os que lá penaram anos. Muitos os Com os cativeiros que se seguiram â jornada de
ra além da demarcação de Tordesilhas. Apesar de o construção de um novo equilíbrio espacial. Num que se deslocaram a resgatar prisioneiros. Passando África muitos teriam ficado a conhecer bem a re­
tratado de 1494 se encontrar em vigor e de ser in­ território que por vontade dos seus moradores e a conhecer as cidades onde os Mouros tinham con­ gião. Muitos mais se lhes seguiríam, não já por
vocado quando necessário. Nem sempre com as dos missionários se fora alargando para oeste, para finado os seus prisioneiros, enquanto aguardavam o efeito de grandes batalhas, mas por força do cati­
melhores razões. sul e para norte. pagamento dos resgates. Boa parte desse conheci ­ veiro a que a guerra de corso os iria submeter.
mento vai ficar registado numa obra famosa, a Jor­
nada de Ajnca de Jerónimo Mendonça.
Livro polêmico, que no entanto procura infor­ OS PIRATAS DE SALÉ
mar com rigor da realidade geográfica observada.
Veja-se Larache, «porto de mar que tem uma pe­ Muitos vão ser os que em fins do século xvi e
quena povoação, está situado em trinta e quatro ao longo do século xvn sofrem a triste sorte do ca­
graus d’altura da nossa parte do Norte, na costa de tiveiro. E que assim ficam a conhecer a terra e
Berbéria, quinze léguas do estreito de Gibraltar, gentes de Marrocos. Porque sobre a Península se
pouco mais ou menos, correndo a sudoeste no mar abate a acção dos corsários marroquinos, em que as
Oceano, e quatro abaixo de Arzila, as quais são de presas humanas eram as mais estimadas. Toda a

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RITMOS E DESTINOS DE EMIGRAÇÃO
)
) deste do Brasil e em Angola, e dos Ingleses no gol­ 1570-1697 testemunhou uma redução do número

)
RITMOS E DESTINOS fo Pérsico. Tais depredações e ataques constituíam
uma declaração implícita de que as reivindicações
de locais para onde os Portugueses podiam emigrar
com vista a uma instalação definitiva.
portuguesas de «domínio e senhorio dos mares» Em Portugal ainda persistiam muitos dos facto-
) DE EMIGRAÇÃO com base na noção de mare clausum, com as suas
raízes em antecedentes históricos, argumentos jurí­
res de incitamento à emigração que se verifica­
vam anteriormente: anos de chuvas torrenciais e
) A. J. R. Russell-Wood dicos e na lei canônica, sustentadas por decretos grandes inundações, uma crônica falta de produ­
papais, não eram aceites e iam ser substituídas pelo tos alimentares, fome e surtos de peste tanto nas
) mare liberum (Serrão, 1977-1990: iv, 157-159). Ormuz áreas rurais com o nas urbanas. O desemprego ru­
caiu nas mãos dos Persas em 1622, com o apoio dos ral era enorme. Nas áreas urbanas desabrochava
> Britânicos. Os árabes de Omã capturaram Mascate um problema de criminalidade (idem: iv, 72-76, 85,
O fluxo e o refluxo da migração portuguesa, bem ses ultramarinos portugueses. O Tratado de Haia (1650), expulsaram os Portugueses de muitas cida- 94-95, 336-337, 342-348, 352). Tal como anterior­
) como as políticas e práticas reguladoras da coloniza­ (1661) terminou oficialmente com as confrontações des-estados (Pate, Pemba, Zanzibar, Melinde) a mente, os incentivos à emigração incluíam os pa­
ção no período de 1570 a 1697, devem ser encarados luso-holandesas. Era este o contexto para um reali- norte do cabo Delgado, e tomaram Mombaça em drões de herança favoráveis aos primogênitos, as
no contexto das relações portuguesas com outras nhamento dos interesses da Coroa e para uma mu­ 1698. Os Holandeses expulsaram os Portugueses de pequenas propriedades de reduzida produtividade e
) potências europeias. Esse contexto foi o do domínio dança das sortes políticas e econômicas em diferen­ São Jorge da Mina (1638), de Malaca (1641) e de as grandes famílias com poucas perspectivas para os
espanhol de 1580 a 1640, quando Portugal foi gover­ tes esferas da actividade global portuguesa. Ceilão (1658). Em 1663, Cochim e as outras praças filhos mais novos (Boxer, 1969a: 53, 56). A Inquisi­
) nado pelos Habsburgos. Portugal perdeu o controlo De 1580 a 1690, o ultramar português viu-se sob portuguesas (Coulão, Cranganor, Cananor) da cos­ ção adoptava linhas cada vez mais duras e Portugal
sobre a sua política externa e foi vítima das conse­ o fogo dos rivais europeus e dos líderes indígenas. ta do Malabar já se encontravam nas mãos dos H o­ continental não estava imune às hostilidades, uma
) quências das decisões da política externa espanhola. Os mais devastadores foram os Holandeses, da In­ landeses. As principais ilhas das Especiarias (Tidore, vez que se verificavam ataques de mouros e turcos
O território nacional tornou-se num palco em que donésia ao Brasil. A partir das décadas de 1580 e Amboína e Ternate) foram perdidas para os Holan­ a áreas costeiras do Algarve, com o subsequente
) se desenrolaram as rivalidades anglo-espanholas. 1590, os corsários ingleses atacaram os portos brasi­ deses em 1605 e recuperadas parcialmente, mas transporte de cativos para Argel e resgates exorbi­
A independência não trouxe consigo qualquer alí­ leiros e molestaram os entrepostos e navios das car­ Portugal, em 1662, retirou as suas tropas das M olu- tantes. A todos estes factores veio adicionar-se um
) vio, pois a paz entre a Espanha e as Províncias U ni­ reiras do Brasil e da índia, mas a principal investida cas. O ano de 1639 yíu a expulsão dos Portugueses novo componente, o político, ou seja, as realidades
das, só ocorreu em 1668-1669. As companhias mer­ dos Ingleses foi na África Oriental e no golfo Pérsi­ do Japão. Apesar de se terem verificado casos em e consequências da união com a Espanha, que le­
) cantes holandesas (Companhia das índias Orientais, co. Para além de as rotas marítimas se encontrarem que os Portugueses repeliram os ataques (como vou a um recrutamento forçado de homens para
1602, e Companhia das índias Ocidentais, 1621) fo­ sob constante ameaça por parte de intrusos — H o­ aconteceu em Goa e Chaul em 1571, em M oçam­ combaterem na Catalunha, Flandres, Rossilhão e
) ram devastadoras para as práticas comerciais portu­ landeses, Ingleses e Franceses — também as colô­ bique em 1607 e 1608, e em Macau em 1622) e ou­
guesas no Ultramar e para as colônias. A Guerra dos nias portuguesas se viram cercadas, atacadas e por tros em que recuperaram perdas anteriores (Ango­ José Pinhão de M atos, Vista de Lisboa com D espedida •
) Trinta Anos (1618-1648) viu os Holandeses e os In­ vezes ocupadas por europeus, como no caso dos la, Benguela, Brasil, São Tom é e Príncipe), não de D. João III a S. Francisco X avier, óleo sobre tela,
gleses a trabalharem em uníssono contra os interes­ Franceses no Maranhão, dos Holandeses no N or­ podemos deixar de concluir que o período de segundo quartel do séc. x v m ( M N A A )
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POPULAÇÃO E SOCIEDADE RITMOS E DESTINOS DE EMIGRAÇÃO

Itália, à cooptação das mulheres para o esforço de ficas em Portugal. A Espanha esperava, muito em sil. Os outros portos eram importantes em termos co resistentes construídos para satisfazer a procura,
guerra e à requisição de cereais, gado e vestuário. particular através do duque de Olivares, que as tro­ de bens e destinos específicos, mas tinham pouca o uso de madeiras verdes na construção dos navios,
As comunidades aldeães mergulharam no caos e as pas portuguesas contribuíssem para o esforço de ou nenhuma relevância como pontos de partida reparações negligentes e um excessivo número de
economias rurais foram destruídas. As medidas de guerra espanhol na Europa, e além disso virou-se para os emigrantes. Com o exemplo, podemos citar soldados e passageiros. Entre 1580 e 1612, saíram de
austeridade, extorsão e aboletamento obrigatório para Portugal para contribuições no que se referia dois casos: Aveiro, famoso pelas suas frotas de pesca Portugal 186 navios com destino à índia. Destes,
de tropas causaram ressentimentos contra os Caste­ aos custos militares e de mão-de-obra destinados à nas águas da Terra Nova e pelo comércio com a 100 regressaram em segurança, 29 ficaram na índia,
lhanos e conduziram a levantamentos. Para os so­ preservação da índia portuguesa e do Brasil. D o Galiza e a baía de Biscaia, e Tavira, pelo seu co­ 35 naufragaram (1580-1610), quatro foram captura­
cialmente proeminentes e/ou politicamente acti- ponto de vista demográfico, o facto de se tratar de mércio com Marrocos e com os portos andaluzes dos e quatro queimados (1586-1602) (Souza, 1930-
vos, tais pressões devem ter feito com que a homens capazes, ou de criminosos e vadios, é me­ (Serrão, 1977-1990: iv, 244, 378). -1956: 1, 54-59). No século xvii as partidas atrasadas
residência contínua em Portugal se tornasse insu­ nos importante do que o facto deles serem exclusi­ As rotas permaneceram em grande parte inalte­ da índia, as despesas e as perdas de vidas resultantes
portável. Independentemente do seu estatuto, pou­ vamente machos levando não só ao esgotamento radas desde o período anterior. Um dos desenvol­ do invernar nos portos indianos continuavam a ser
cos portugueses podiam aceitar a perda da hege­ geral de certas áreas como também ao despovoa- vimentos foi, por volta de 1660, a emergência do maldição da carreira da índia (Assentos: 11, 185-186).
monia com serenidade, o que para alguns pode ter mento parcial de um gênero específico. Daí resul­ R io de Janeiro como porto importante, reflectida Para finalizar, enquanto no século xvi os navios da
sido um dos principais factores nas suas decisões de tou que, em muitas zonas, se tenha verificado uma por uma maior incidência de navios de Portugal e carreira da índia transportavam fortes guarnições e
emigração (Correia, 1948-1958: 1, 182-183). Tais pro­ maioria feminina, que no princípio do século xvii das linhas atlânticas que para aí se dirigiam, bem marinheiros e soldados, no fim desse século e no
blemas não foram, de modo nenhum, resolvidos pode ter sido tão alta como 2:1 (Correia, 1948-1958: como para outros portos do Sul do Brasil. C om a século xvii verificaram-se problemas para arranjar
pela Restauração, uma vez que esta trouxe consigo 11, 268). Olivares também ordenou o recrutamento expulsão dos Franceses, São Luís do Maranhão tor­ equipagens para os navios e para encontrar pessoas
quase três décadas de sacrifícios e de campanhas nos Açores e na Madeira com embarque directo nou-se num porto de destino para emigrantes de para o serviço militar. Esta situação manteve-se de­
militares até ao tratado final de paz com a Espanha. para a Corunha. Esta perda da força de trabalho Portugal. A presença holandesa no Nordeste do pois da Restauração, quando Portugal ainda tinha
Uma ordem real (1648) referia-se ao «recrutamento masculina em Portugal e nalgumas ilhas atlânticas, a Brasil (1630-1654) e em águas asiáticas era dissuasora de proteger a integridade dos seus territórios. Esta
extraordinário» para defesa da fronteira do Alentejo favor das campanhas europeias e do serviço no Ul­ para as rotas de navegação. O bloqueio dos Holan­ falta de mão-de-obra teve mais impacte na Ásia
[Collecção Chronologica (1657-1674): 6-8]. A popula­ tramar, não só prejudicou as economias rurais co­ deses a Goa na década de 1640 levou ao desvio de portuguesa do que na América portuguesa.
ção foi forçada a sujeitar-se a impostos especiais pa­ mo provocou um desequilíbrio de gêneros, com navios da carreira da índia para portos mais a norte, Em Portugal, a emigração continuou a ter um
ra sustentar os custos das campanhas. Houve perdas reflexos nas taxas nupciais e de nascimentos. tal como Chaul, Baçaim e Bombaim, com a conse­ impacte nacional, mas com a predominância de
de vidas, destruição de campos cultivados e de pro­ Continuou a verificar-se um constante êxodo de quente transferência de pessoas e de bens para Goa certas regiões. Tal facto é ilustrado pelos números
priedades, deslocação de populações e abandono de pessoas — tanto laicas como eclesiásticas — de e para os outros destinos finais na índia. Para além de distribuição, por lugar de origem, dos portugue­
culturas. As hostilidades afectaram todas as regiões Portugal para outros países europeus. O s esforços dos destinos na costa oeste da índia, os navios tam­ ses residentes em Salvador em finais do século x vii .
fronteiriças, em especial no Alentejo, Beiras e M i­ oficiais para deter esse fluxo foram infrutíferos. bém saíam de Lisboa directamente para Ceilào e A carência de fontes faz com que se trate de uma
nho. Esta atmosfera de contendas e insegurança O s principais culpados foram os capitães dos na­ Malaca. Este facto baseava-se na experiência adqui­ amostragem mais selectiva do que ao acaso, e por­
persistiu até 1668, data a partir da qual a situação vios que saíam dos portos portugueses para desti­ rida, pois era frequente que os navios que atracas­ tanto sem grande significado estatístico, mas os da­
começou a normalizar. As restantes décadas desse nos como a Itália e a França. Por volta de 1660, sem nos portos indianos não prosseguissem a via­ dos são reveladores. Para os anos entre 1685 e 1699,
século assistiram a um crescimento positivo. Entre o assunto era suficientemente grave para merecer gem mais para leste (Souza, 1930-1956: 1, 28, 60; dos 1684 residentes, os lugares de origem eram os
1570 e 1697, para muitos portugueses, a combina­ uma lei que proibia as pessoas de saírem de Por­ Assentos: m, 32-33). seguintes: Entre Douro e Minho, 798; Estremadu-
ção de desastres naturais, de perturbações provo­ tugal sem uma autorização real prévia e sem um A modificação das relações políticas de um Por­ ra, 428; Beira, 137; Trás-os-Montes, 32; Alentejo,
cadas pela guerra, de serviço militar forçado, de passaporte emitido pela Coroa, e proibindo tam­ tugal unido à Espanha com as outras potências ma­ 29; Algarve, 8. Predominam as províncias do Nor­
perseguição religiosa dos judeus, de perda da so­ bém o envio de dinheiros de Portugal para esses rítimas europeias teve consequência para a seguran­ te. O Alentejo e o Algarve estavam sub-represen-
berania e de desequilíbrio entre a população emigrantes. O s castigos para os transgressores in­ ça dos que embarcavam em Portugal com destino à tados, o que reflectia mais uma menor reserva
masculina e feminina pode ter sido um incentivo cluíam a perda da cidadania, a confiscação de África, Brasil e Ásia. As rotas e os navios com po­ demográfica de onde pudessem ser extraídos
para um fluxo de emigração. honras e dignidades, e a inelegibilidade para pen­ tenciais emigrantes garantiam agora ainda menos emigrantes potenciais do que uma falta de inclina­
O grupo dos emigrantes potenciais modificou-se sões, tenças ou rendas. segurança do que anteriormente. Aos perigos dos ção para a emigração por parte dos habitantes ao
tanto numericamente como em composição. O sé­ N o interior de Portugal, Lisboa continuou a ventos e das correntes adicionavam-se as ameaças sul do Tejo. Uma pequena amostragem dos emi­
culo xvi testemunhou um lento mas perceptível exercer a maior força centrípeta. Os dados quanti­ humanas às vidas e bens. Os corsários franceses e grantes portugueses que haviam conseguido atingir
aumento da população metropolitana, para cerca tativos esporádicos não fazem distinção entre futu­ britânicos desafiavam os navios portugueses no uma certa proeminência comercial em Salvador,
de 1,2 milhões de pessoas em 1580. Veríssimo Ser- ros emigrantes residentes de Lisboa e aqueles para Atlântico e as actividades britânicas no golfo Pérsi­ no período de 1600-1680, confirma a predominân­
rão sugere que esse número pode ter aumentado quem a capital era apenas um ponto de passagem co eram altamente destruidoras para os Portugue­ cia de emigrantes do Douro e do Minho, que
entre 100 000 e 200 000 em 1640 (Serrão, 1977- no caminho para o Brasil ou para a Ásia. Entre os ses. As depredações dos Holandeses, nomeadamen­ compõem cerca de 50 % dessas «histórias de êxito»
-1990: iv, 142, 267, 274-275; 1975: 213-303). Para maiores portos de Portugal (Lisboa, Porto, Setúbal te pela Companhia das índias Orientais, cujos fins (Flory e Smith, 1978: 575). Apesar de ser menos
1690, postula que a população do Portugal metro­ e Aveiro), Lisboa era o local proeminente de em­ confessadamente comerciais eram apoiados pelo importante no número geral de emigrantes, uma
politano deveria ser de cerca de 1,5 milhões. Para barque dos emigrantes, e quase exclusivamente dos poder de fogo, ameaçavam a passagem em seguran­ província menos povoada como a de Trás-os-
além de uma contínua corrente migratória, este re­ que se destinavam ao Estado da índia. O s navios ça da rota do Cabo. Para além disso, as constrições -Montes sentiu mais severamente o impacte de
duzido aumento da população pode ser atribuído saídos do Porto eram, por sua vez, relevantes no financeiras limitavam o fretamento de navios. Mui­ uma tal emigração do que as regiões mais povoa­
ao constante recurso aos homens para cumprirem transporte de emigrantes para o Brasil. As referên­ tas das embarcações que faziam a rota do Cabo das. As autoridades de Moncorvo referiram-se es-
o serviço militar fora de Portugal, ao não regres­ cias ao porto de Setúbal como ponto de partida eram deficientes e precisavam de reparações que as pecificamente à crise provocada pelos transmonta-
so desses soldados, à morte durante recontros em para destinos atlânticos são mais esporádicas. As es­ punham fora de serviço. Um relatório de 1597 re­ nos que saíam de Portugal (Serrão, 1977-1990: iv,
solo português ou em resultado de ferimentos, e a cassas estatísticas de emigração revelam uma predo­ sumia as três principais causas para a perda de na­ 76). Entre as cidades de origem dos residentes em
necessidade de manutenção de guarnições portugue­ minância, pelo menos no caso do Brasil, de emi­ vios, especiaimente dos que faziam a viagem de re­ Salvador no período 1685-1699. Lisboa, Porto e
sas no Ultramar. As estimativas por alto contam-nos grantes das províncias do Norte de Portugal, o que gresso: tripulações inadequadas e sem habilitações, Viana do Castelo eram as mais frequentemente ci­
apenas uma parte da história e têm menos interes­ não é de surpreender se tivermos em conta o co­ excesso de carga com fretes privados e atraso nas tadas. Entre Douro e Minho era a província de
ses do que as mudanças na composição da popula­ mércio activo entre Viana do Castelo, Caminha e partidas. Os factores contribuintes eram o sistema origem do maior número desses residentes. Com a
ção. A guerra teve severas consequências demográ­ Vila do Conde com as ilhas atlânticas e com o Bra­ de contratos, navios excessivamente grandes e pou­ excepção de Entre Douro e Minho, o maior nú-

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RITMOS E DESTINOS DE EMIGRAÇÃO
POPULAÇÃO E SOCIEDADE

mero de residentes indicava as ilhas atlânticas com o tura exaltando os méritos do Brasil e removendo o mais ou menos legal eram programados para coin­ mensão do movimento de povos no mundo portu­
local de origem. Só a ilha Terceira contribuía com véu da ignorância e das incertezas. Incluía os Trata­ cidirem com os ventos e correntes prevalecentes, guês. O Brasil também nos fornece o exemplo clás­
cerca de um terço, mais do que todo o arquipélago dos da Terra e da Gente do Brasil, do jesuíta Femão pelo que não é de surpreender que os movimentos sico de uma segunda onda de emigração para lá dos
da Madeira, que era equivalente aos totais com bi­ Cardim, os Diálogos das Grandezas do Brasil (1618), das pessoas seguissem os mesmos padrões. Um portos de desembarque. O período de 1570-1697 tes­
nados dos provenientes de São Miguel, Faial e atribuído a Ambrósio Fernandes Brandão, e a Rela­ relatório de 1625 referia o facto de em qualquer temunhou um aumento da migração interna para o
Graciosa. (Ott, 1955-1957: 1, 49; 11, 77-89)- Isto con­ ção Sumária das Coisas do Maranhão (1624), de Simão momento, entre Novembro e M aio, se poderem extremo norte (Amazonas, Maranhão e Pará) e para
firma outras fontes que indicam uma mais elevada Estácio da Silveira, que louvavam as belezas e mé­ encontrar cerca de 500 portugueses em Macáçar. o extremo sul (Rio Grande do Sul e zona a sul de
incidência de emigração para o Brasil a partir das ritos do Brasil. Nenhum potencial emigrante em Serviam-se de Macáçar como entreposto para a São Paulo, até ao rio da Prata).
ilhas atlânticas do que no período anterior a 1570. Portugal ou nas ilhas atlânticas podia deixar de ter troca de bens da China, índia, Timor, Molucas e Há indicações de mudança no perfil da emigra­
Enquanto o Nordeste de Portugal e, em menor consciência da promessa de terras gratuitas, de Bornéu (Boxer, 1967a: 3). No Brasil, já no século ção entre 1570 e 1697. Enquanto a nobreza conti­
grau, também Trás-os-Montes são aceites com o acesso às ocupações manuais e das oportunidades x v ii , os bandeirantes — um termo geralmente as­ nuava com uma forte representação nos navios que
principais locais de origem da emigração para o para uma ascensão tanto social como financeira. sociado a São Paulo mas igualmente aplicável aos viajavam para a índia, os poucos dados disponíveis
Brasil, é menos claro se essa conclusão também se Que o Brasil era uma terra de oportunidades não só habitantes de Pernambuco e da Bahia — iniciaram sugerem que as alterações na composição dessa
poderá aplicar, sem mais investigações, ao Estado para os que tinham uma especialização profissional extensas viagens por terra e por rotas fluviais, che­ representação nobre já ocorriam no período de
da índia (Subrahmanyam, 1993: 218). Quanto à como também para os empresários era demonstrado gando a locais tão longínquos como o rio da Prata, 1581-1604. Apesar de se terem verificado poucas al­
Madeira e Açores, os Portugueses foram vítimas pelo facto de 89 % dos mais importantes mercadores a sul, os Andes, a oeste, e o Amazonas e os seus terações no número de nobres da categoria fidalgo-
do seu próprio êxito na colonização das ilhas, residentes em Salvador nas décadas de 1600-1680 se­ afluentes, a norte. Apesar de não se encaixarem na -cavaleiro, a mais numerosa, e moço-fidalgo, a se­
iniciada na primeira metade do século xv, êxito rem de origem portuguesa (Flory e Smith, 1978: rubrica da emigração, essas jornadas podiam durar gunda mais numerosa, o número de fidalgos que
que levou a um excesso de população e a pres­ 575). A natureza das interligações do mundo atlânti­ dois ou três anos e representavam uma outra di­ partiram para a índia durante o reinado de Filipe II
sões sobre terras e recursos limitados. No princí­ co português era tal que os marinheiros deverão ter
pio do século xvii houve também emigração para espalhado notícias sobre a riqueza do Brasil. Em Mapa e planta de Goa, in Philippus Baldaeus, N aauw keurige Befchryvinge van Malabar en C horom andel [...],
o Brasil a partir de São Tomé, num possível re­ Portugal, poucas terão sido as aldeias que não teste­ Amestcrdão, 1672 (B N )
flexo das incertezas provocadas pela revolta de munharam a partida de um vizinho ou familiar para
pessoas de ascendência africana na década de o Brasil e cujos filhos nativos não tenham escrito ou
1590, que levou à destruição de engenhos de açú­ enviado notícias. A tristeza provocada pela morte de
car, mas é provável que a causa mais imediata um familiar no Brasil deverá ter sido temperada por
fosse o medo aos ataques dos Holandeses (Serrão, um testamento que testemunhava o que a Terra da
1977-1990: iv, 234-236). Vera Cruz oferecia aos emigrantes dispostos a traba­
Enquanto o Estado da índia foi o principal desti­ lhar. Um dos traços comuns a todos os emigrantes é
no para os portugueses que saíam de Portugal du­ a sua tendência para desculparem aspectos menos
rante o século xvi, quer ao serviço da Coroa quer atraentes da terra escolhida. N o caso do Brasil, esses
como empreendedores em busca de lucros rápidos aspectos dependiam da região e incluíam os ataques
ou como emigrantes de bona fide, no século xvn dos ameríndios, os insectos venenosos, a falta de
esse destino passou a ser o Brasil. A mudança não produtos alimentares europeus e a por vezes ilusória
se deu do dia para a noite. Para muitos emigrantes disponibilidade de terras ilimitadas.
potenciais de finais do século xvi e princípios do A emigração de Portugal para a Madeira e Aço­
século xvn, a índia e Ceilâo exerciam uma consi­ res não conservou os mesmos níveis de intensidade
derável atracçào. A presença portuguesa fora esta­ do período anterior. O arquipélago de Cabo Ver­
belecida, as instituições portuguesas'haviam sido de, bem como São Tom é e Príncipe, não eram
introduzidas e as grandes cidades, como Goa, Ba- atraentes para os emigrantes portugueses. Neste úl­
çaim, Chaul, Damão, Cochim, Columbo e São timo, o clima e a ameaça dos corsários ingleses e
Tomé de Meliapor exibiam muitas das característi­ holandeses eram elementos dissuasórios mais do
cas a que os Portugueses estavam acostumados. Ha­ que suficientes. Por algumas das mesmas razões, a
via aí um potencial para um avanço social e finan­ que era preciso acrescentar os conflitos internos
ceiro, uma disponibilidade de servos e um acesso entre indígenas, Angola também nào conseguia
sexual âs mulheres indígenas por parte dos homens atrair emigrantes portugueses de bonafide. Em An­
portugueses (Correia, 1948-1958: m, 3-7). Porém, gola e São Tomé, os lucros que podiam ser conse­
com o avanço do século xvii, o Brasil começou a guidos com o comércio de escravos constituíam
exercer uma maior atracção. Foram muitos os fac- uma atracçào para os empreendedores ou oportu­
tores que contribuíram para essa mudança: acesso nistas, mas os instrumentos de colonização eram os
fácil e mais seguro, maior segurança, melhores degredados (Serrão, 1977-1990: v, 280, 285, 289).
perspectivas de instalação, maior potencial de di­ No caso do arquipélago de Cabo Verde verificou-
versidade ocupacional, centros urbanos em cresci­ -se uma ampla migração entre as ilhas e, assistiu-se,
mento, com as concomitantes oportunidades, e, logo em 1685, a uma corrente migratória para fora
acima de tudo, a emergência de uma indústria do das mesmas (Carreira, 1983).
açúcar que recuperara depois da ocupação holan­ Verificou-se também uma migração intraconti-
desa e que não só oferecia oportunidades por si só, nental. O sistema das monções contribuiu para um
como gerava ilimitadas hipóteses de ocupação nas fenômeno intra-asiático, em particular a recoloca-
indústrias correlacionadas e no indispensável traba­ çào sazonal de pessoas por curtos períodos de tem­
lho dos artífices. No século xvii existia uma litera­ po. As campanhas navais, a pirataria e o comércio

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE RITMOS E DESTINOS DE EMIGRAÇÃO

foi muito menor do que até aí. O declínio mais mas faziam parte das comitivas dos vice-reis — ou amigos, entre a classe dos fidalgos. Por outro la­ Europa, em número suficiente para contribuírem
vertiginoso verificou-se nos fidalgos-escudeiros, apesar de, antes de 1750, só um governador-geral do, as famílias nobres consideravam que o facto de, para um grupo social identificável em que ambos
com uma média de três por ano para este período ou vice-rei ter sido acompanhado pela sua esposa durante a viagem, servirem de guardiãs ou de cha­ os membros do casal nasceram em Portugal, essa
e nenhum durante vários anos (Serrão, 1977-1990: europeia quando ocupou o cargo em Goa (Boxer, perons para órfãs fidalgas ou para órfãs do rei era um não era, contudo, a regra geral. Fortalezas portu­
iv, 162-163, 310). Apesar de poder tratar-se de uma 1969a: 130) — , essas unidades familiares, na sua acto de caridade cristã. A Coroa desencorajava for­ guesas como a de Mascate raramente viam uma
característica peculiar da era filipina, também pode grande maioria, eram atraídas para a índia pelas temente a viagem de mulheres não acompanhadas. mulher portuguesa em residência permanente e
reflectir uma mudança nos pontos de vista de cer­ perspectivas de avanço social ou financeiro. Entre a Há um grupo que merece alguns comentários es­ numa data tão tardia como 1636 existia apenas uma
tos sectores da nobreza, que já não procuravam aristocracia metropoíitana tivemos os casos de D o­ peciais por fazer parte integrante da política da C o ­ única mulher branca em Macau (Boxer, 1969a:
com a mesma avidez anterior os postos administra­ na Maria Coutinho e Antônio de Sá Pereira, que roa para a colonização portuguesa na Ásia. Tratava- 129). Esta carência de mulheres brancas também se
tivos ou os comandos militares do Estado da índia. embarcaram para Goa em 1579, e de D. Francisco -se das órfãs do rei, provenientes de diversas classes aplicava à África Ocidental. No Brasil continuou a
E pouco claro se a lacuna que daí resultou foi de Melo e Dona Ângela Cardoso, que chegaram à sociais. Por iniciativa de D. João III, tinham sido verificar-se a anterior predominância dos homens
preenchida por fidalgos-cavaleiros ou fidalgos- índia em 1594 (Correia, 1948-1958: 11, 293, 445-446). fundados «recolhimentos» para raparigas órfãs nas sobre as mulheres, como emigrantes. Contudo,
-escudeiros. Q ue se verificou um vácuo de lideran­ Houve maridos e esposas incluídos na categoria de principais cidades portuguesas, raparigas que foram proporcionalmente, eram mais as mulheres que
ça na índia é um facto implícito numa carta (1588) «nobres» que emigraram para a índia como casais e posteriormente enviadas para o Estado da índia ao emigravam para o Brasil do que para o Estado da
do rei para o seu representante em Goa, na qual o deram início a novas famílias, enquanto outros emi­ íongo de todo o século xvi e também, pelo menos, índia, e esta proporcionalidade aumentou no de­
monarca atribuía o falhanço das armadas portugue­ grantes nobres foram já acompanhados pelos filhos. até ao terceiro quartel do século xvii. Era muito curso dos séculos xvi e x vii . Todavia, esses núme­
sas em águas asiáticas a capitães demasiado novos, As oportunidades comerciais também foram um estí­ raro que o número de órfãs enviadas fosse de mais ros não eram suficientemente significativos para re-
com falta de treino militar ou de experiência prévia mulo para a emigração de famílias. Em 1582, embar­ de 30 por ano. A norma anual era de cerca de dez sultarem num aumento natural apreciável — em
anterior à sua chegada à índia, que nem sempre caram para a índia D. João da Gama e a sua esposa e houve anos (1597) em que não se verificaram en­ qualquer parte do Ultramar português — , de uma
obedeciam aos superiores e que não mereciam o Dona Joana de Baroche. Depois de servir como ca- vios. Há insinuações de deficiências na selecção de população directamente descendente de portu­
respeito dos subordinados. A questão era suficien­ pitão-mor de Cochim, instalou-se aí com a família e tais mulheres, cuja idade mais avançada ou falta de gueses, de ambos os lados, durante mais de três
temente grave para dar origem a outra carta, em fez comércio, com navios próprios, entre o golfo dotes físicos militavam contra a possibilidade de vi­ gerações.
1591, dando instruções ao vice-rei para que os «fi- Pérsico e o Extremo Oriente (idem: 11, 306). A exis­ rem a arranjar esposos (idem: 11, 14, 21-22, 61-72; iv, Devemos fazer uma breve referência à passagem
dalgos-mancebos» não fossem nomeados para o co­ tência de precedentes foi também um dos factores 48-54; Boxer, 1969a: 129-130). de rapazes nnlito jovens para a índia. A presença, a
mando de navios a não ser que possuíssem quatro envolvidos nesta emigração. O facto de o capitão O principal incentivo para a emigração dessas e bordo dos navios da carreira da índia, de rapazes
ou cinco anos de experiência de campanha na Ásia. João Rodrigues Camelo, a sua esposa, Dona Francis- de outras mulheres solteiras era o casamento. A ca­ adolescentes e até de pré-adolescentes já fora nota­
Isto implica que o que levava os jovens nobres a ca da Maia, e as três filhas do casal terem decidido rência de noivos apropriados em Portugal é em da, bem como a sua presença na índia em contex­
embarcar para a índia era mais o espírito de aven­ emigrar de Portugal para Ceilão, em 1615, é atribuído parte atribuída ao desequilíbrio de gêneros, provo­ tos militares e como combatentes. A presença de
tura do que o desejo de prestar um serviço à Coroa à anterior emigração de numerosos membros da no­ cado pelos tempos turbulentos e pelo escoamento rapazes jovens a bordo dos navios prosseguiu, mas
(Correia, 1948-1958: 11, 272-274). Podem ser postas bre' família Maia, que se tinham estabelecido naquela de homens para as campanhas. As dificuldades para agora em resposta a um novo tipo de procura.
quatro hipóteses: a de que certas camadas da no­ ilha (idem: 111, 197-198). a obtenção de um parceiro também poderiam re­ Com a instituição do catolicismo na índia verifi­
breza fugiam aos serviços militares e administrati­ Apesar de as hostilidades e a prevalência dos cor­ sultar da ausência de dote. Na índia, um acordo de cou-se uma crescente procura de rapazes para os
vos no Ultramar, a de que o facto pode ser atribuí­ sários no Atlântico poder ter prejudicado a emigra­ cooperação entre a Coroa, o senado da Câmara e o coros dos locais de adoração. Para além disso, os fi­
do a um desencantamento com o serviço sob um ção de unidades familiares da Madeira e dos Açores vice-rei fornecia alojamento e um dote a essas mu­ dalgos que tanto impressionaram os comentadores
monarca espanhol, a de que representava uma mais para o Brasil, o seu fluxo aumentou depois da Res­ lheres. Germano Correia põe a hipótese de 8000 contemporâneos portugueses e estrangeiros —
vasta e significativa tendência de afastamento do tauração. E importante destacar que o aumento no mulheres terem desembarcado na Ásia portuguesa especialmente em Goa — , pela sua extravagância
serviço público a favor dos interesses pessoais e dos número de tais unidades familiares — tanto para a durante o século xvi (Correia, 1948-1958: 11, 19), no vestuário e métodos de transporte, reuniam à
lucros representados pelo comércio ou, para finali­ índia como para o Brasil — estava em relação com mas o número é provavelmente exagerado. Em sua volta comitivas de servos que incluíam pajens.
zar, a de que os nobres, quer pertencessem ao ser­ um período anterior, pelo que não deve levar à 1650, o senado de Goa escreveu uma carta de de­ Muitos eram indígenas, outros de descendência lu-
viço real quer ao sector privado, encaravam o Bra­ impressão errônea de que a maior parte da emigra­ sespero ao rei, queixando-se da situação ruinosa do so-oriental, mas, para os nobres que podiam supor­
sil como garantindo mais segurança e oferecendo ção era formada por algo mais do que homens sol­ Estado da índia e de Goa. Os conseíheiros afirma­ tar o preço da passagem, ter um pajem nascido em
um maior potencial para o avanço e para as recom­ teiros. Para Salvador, os resultados de uma amostra­ vam que, enquanto anteriormente as mulheres Portugal era um símbolo de prestígio. Apesar de os
pensas financeiras pessoais. gem, claramente reduzida e selectiva para o período emigravam «para povoarem este estado hoje vemos fidalgos serem os principais empregadores desses ra­
Uma segunda modificação reflecte uma alteração de 1600-1680, indicam que 90 % dos mercadores re­ o contrarário» (Assentos: ill, 521). pazes, era frequente que os soídados casados, e até
paradigmática na avassaladora e virtualmente exclu­ sidentes de origem portuguesa (94 % dos quais nasci­ Se havia um constante mas pequeno fluxo de solteiros, também tivessem pajens. Quer por oposi­
siva predominância masculina de épocas anteriores dos em Portugal ou nas ilhas atlânticas) se casaram mulheres respeitáveis para a índia durante o final ção a uma tal ostentação, por desaprovar o esbanja­
para padrões de emigração mais diversificados. com mulheres nascidas na Bahia (Flory e Smith, do século xvi e até cerca de 1680, para quem se en­ mento de riquezas ou por preocupação para com
O facto coincidiu com uma maior proporção de í 978: 576-577), dados que provavelmente também contravam noivos ou que entravam em conventos, uma potencial fonte de abusos físicos e morais, o
emigrantes de bona fide entre as pessoas (que in­ podem ser aplicados ao perfil geral da emigração. havia também uma perene falta de mulheres bran­ certo é que Filipe I, em 1595, ordenou à Casa da
cluíam os emigrantes e as recolocações temporárias) Na sua maioria, as mulheres solteiras viajavam cas tanto na África Ocidental como na Oriental. índia que contivesse uma taí emigração e regula­
que saíam de Portugal. Verificou-se, tanto para a para o Brasil ou para a índia na companhia de fa­ Para remediar a falta de mulheres brancas na capi­ mentasse esta prática dos Portugueses na índia,
Ásia como para o Brasil, uma maior incidência da miliares ou sob a tutela de uma família. O caso de tania de Sofala, o rei ordenou (1679-1680) que as «que trazem mais para aparato e fausto que por te­
emigração em grupos familiares. Isto aplicava-se Maria Correia da Silva, uma viúva que chegou a mulheres de Lisboa e de outras cidades que se en­ rem deles necessidade para seu serviço». Á partir
não apenas às famílias judaicas, já com uma tradi­ Goa, por volta de 1593, acompanhada por duas fi­ contrassem nas cadeias ou que se mostrassem in­ daí, nenhum soldado, solteiro, podia ter um pajem
ção de emigração familiar, mas também às cristãs. lhas, foi uma excepção (Correia, 1948-1958: 11, convenientes para a moral e ordem pública fossem português. Abriam-se excepções para os fidalgos-
Na Ásia, os principais destinos dessas famílias eram 456-457). As famílias nobres que se mudavam para enviadas para Sofala (Serrão, 1977-1990: v, 290). -escudeiros não casados, para os capitães de fortale­
Goa, bem como a Província do Norte e Ceilão a índia tinham frequentemente mulheres solteiras E importante não generalizar, com base em dados zas e capitães das viagens, a quem eram permitidos
enquanto este permaneceu em mãos portuguesas. (donzelas fidalgas) de posição social semelhante sob limitados, no que se refere à emigração feminina apenas dois pajens portugueses, bem como aos ca­
Essas unidades familiares abrangiam todo o espectro a sua tutela temporária, para quem procuravam es­ para o Estado da índia. Enquanto Goa e Cochim pitães de armada em serviço activo. Os cidadãos do
social, desde os plebeus aos nobres. Enquanto algu­ posos, frequentemente com a ajuda de familiares contavam com mulheres portuguesas, nascidas na Estado da índia só podiam ter um pajem portu-

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE RITMOS E DESTINOS DE EMIGRAÇÃO

guês. Os fidalgos com cargos nas capitanias de Goa, Os seus destinos eram europeus, em particular
Ormuz, Sofala, Malaca, Diu, Chaul e Damão po­ para a França, Holanda, Itália, Alemanha e Londres
diam ser acompanhados por quatro. Os vedores da (Azevedo, 1989: 372.-375, 387-412, 418-428), mas
real Fazenda, os desembargadores e o secretário de também para o Ultramar, onde participaram e con­
Estado para a índia estavam limitados a dois (Cor­ tribuíram para o fortalecimento da já existente rede
reia, 1948-1958: 11, 270-272). comercial global dos cristãos-novos. O seu êxodo
Para além da migração espontânea, a Coroa pro­ de Portugal representou um prejuízo demográfico,
movia o que pode ser mais ou menos descrito co­ mas também, o que foi igualmente importante, sig­
mo uma política de emigração promotora da colo­ nificou a retirada da economia portuguesa de muita
nização. Por razões estratégicas, os primeiros riqueza e de conhecimentos financeiros, e constitui
Habsburgos promoveram a emigração familiar para uma perda para a comunidade intelectual e escolar.
o Brasil com promessas de terras gratuitas. Todavia, Sob este último ponto de vista, os cristãos-novos
muito frequentemente, esses esquemas não chega­ juntaram-se ao grupo dos escolares que pretende­
ram a ser postos em prática e os incentivos não ram fugir à Inquisição ou que foram procurar me­
eram suficientes para atrair muita gente. Em 1633 lhores condições de trabalho nas universidades da
foi despachado um contigente de mineiros para Flandres, Itália, França e Espanha. Apesar do padre
Moçambique, para investigarem relatórios sobre fa­ Antônio Vieira, S.J., aconselhar um abrandamento
bulosas minas de ouro no interior, e em 1635 o vi­ da perseguição aos cristãos-novos em Portugal, na
ce-rei sugeriu ao rei que enviasse 200 casais de ar­ esperança de induzir o regresso dos que já haviam
tífices portugueses, complementados por mulheres fugido, a sua opinião não prevaleceu. Em 1678, a
pobres, para colonização de Rios de Cuama. C o n ­ suspensão da Inquisição deu algumas breves espe­
tudo, tal nunca chegou a acontecer. Nas décadas ranças aos cristãos-novos, mas essas esperanças ter­
de 1660 e 1670 foi mais uma vez mencionado o minaram quando do reaparecimento da instituição,
tema de uma emigração patrocinada, com destino em 1681, e com o aumento do seu poder. Os
a Moçambique. Em 1677 partiram de Lisboa qua­ sentimentos anti-semitas populares e a linha dura
tro navios, que segundo se afirma transportavam adoptada por D . Pedro II acabaram com a possi­
mais de 2000 homens (incluindo soldados), mulhe­ bilidade de contenção dessa hemorragia de pes­
res e crianças, que chegaram a Moçambique em soas e talentos.
1678. Todavia, em meados de 1680, só 78 almas ti­ A índia e o Brasil, e este último especialmente
nham chegado aos rios (Axelson, 1964: 99-114, no século xvii, durante a ocupação holandesa, fo­
148-154). ram os destinos preferidos por esses cristãos-novos
Continuou a verificar-se uma emigração coerci- (Azevedo, 1989: 431-440). Em ambos os casos, veri­ Casal indo-português à noite, in Jan H u y gen van Linschotcn, Itinerarium ofte Schipvaert naer O ost ofte Portugaels
va. Em Portugal, o clima político e social exercia ficou-se frequentemente um segundo movimento Indien, Amesterdão, 1614 (B N )
uma poderosa pressão para a emigração dos cris- migratório. N o Brasil, apesar do Santo Oficio não
tãos-novos. Um endurecimento das políticas de Fi­ estar formalmente estabelecido, ocorreram «visita­ guições oficiais e de ordens de expulsão nos séculos gredadas para Angola ou Cabo Verde e os homens
lipe II e Filipe III para com os cristãos-novos, o ções» tanto na Bahia (1591-1593, 1618-1619) como xvi e xvii . Alguns caíram nas malhas da Inquisição fariam serviço nas galés. Houve severas punições
aumento dos sentimentos anti-semitas por parte da em Pernambuco, Itamaracá e Paraíba (1593-1595), por alegações de magia e cartomancia. Filipe I para as pessoas que cedessem ou alugassem casas aos
população e a constante vigilância do Santo Oficio que incitaram alguns cristãos-novos a mudarem-se (1592) decidiu que os que não saíssem do reino se­ ciganos. As ciganas sem licenças para usarem o tra­
provocaram uma fuga clandestina dos cristãos- para áreas onde existissem menos probabilidades de riam sentenciados à morte, mas esta medida draco­ jo, ou linguagem, ou geringonça, receberam or­
-novos a uma escala tão maciça que levou a um al­ virem a ser o foco de uma tão indesejável atenção niana nunca foi implementada. Alguns, nào mui­ dens de expulsão para «limpar a terra» [idem (1648-
vará real (1605) proibindo esse êxodo, excepto para (Wiznitzer, 1966: 10-35). Na índia portuguesa, a tos, obtiveram autorização para ficar. Outros -1656): 11, 26-27, 50].
os que tivessem pago uma contribuição para in­ criação (1560) da Inquisição em Goa levou os ju ­ demonstraram uma extraordinária capacidade de A mesma sorte tiveram os vadios, que foram ví­
demnizar a Coroa pela perda de rendimentos por deus e os cristãos-novos a saírem da cidade e a mu­ sobrevivência e permaneceram em Portugal. O u ­ timas de «limpezas» periódicas nas áreas rurais e ur­
confiscação e para invalidação de dívidas anteriores. darem-se para locais, ainda dentro do Estado da ín­ tros, ainda, tiveram menos sorte. Antes de 1640, os banas, sendo metidos na cadeia. Aqueles cujo único
Esta perseguição continuou durante os reinados de dia, em que a intromissão do Santo Oficio fosse decretos reais ordenavam que fossem presos, con­ crime era a vagabundagem podiam ser sentenciados
D. João IV, D. Afonso VI e D. Pedro II (Azevedo, menos provável, ou até para fora do controlo por­ denados às galés [Collecção Chronologica (1633-1640): ao exílio em Mazagão. Os vadios culpados de cri­
1989: 162-165, 236-330). O sentimento prevalecente tuguês, cidades sob o domínio holandês ou britâni­ 191, 193-194I ou pura e simplesmente enviados para mes mais sérios eram despachados para Angola ou
pode ser avaliado pela linguagem dos decretos emi­ co, onde a liberdade de religião estava garantida. o Ultramar de um modo arbitrário e sem apelo. Es­ Brasil. Ao contrário do que acontecia com os filhos
tidos por D. Pedro, onde encontramos referências O tratado de 1661 entre Portugal e a Inglaterra in­ ta política radical prosseguiu depois da Restaura­ e filhas dos romanis, os vadios eram encarados co­
como «sejam exterminados os cristãos novos con­ clui a cedência de Bombaim à Inglaterra, como ção. D. João IV comentou que as Ordenações do mo potencial material para colonização ou apro­
fessos» [Collecção Chronologica (1657-1674): 191]. dote da princesa portuguesa. A implementação do Reino, leis e provisões através das quais «se procu­ priados para serviço nas guarnições [idem (1657-
O sentimento anti-semita popular ecoou em alvarás tratado foi adiada, mas em 1668, uma vez detentora rou extinguir este nome e modo de gente vadia de -1674): 129, 226].
e leis de 1671 proibindo os judeus de exercerem da posse, a Coroa inglesa transferiu Bombaim para Ciganos», o chicote, degredos e galés, não haviam Os degredados também faziam parte de todas as
cargos públicos, de serem eleitos para lugares nas a Companhia Inglesa das índias Orientais. Os cris­ obtido êxito. A intensidade do seu aborrecimento frotas, uma vez que eram encarados como força de
corporações, de ocuparem postos na magistratura e tãos-novos — muitos dos quais eram artífices ou pode ser avaliada pela linguagem de um alvará: trabalho para as guarnições portuguesas 11a Ásia,
no tesouro, posições elevadas na hierarquia eclesiásti­ estavam envolvidos no comércio — abandonaram «Querendo eu desterrar de todo o modo de vida e África e América, mas também — em particular no
ca ou cadeiras na Universidade de Coimbra. Os ad­ os territórios portugueses e mudaram-se para Bom­ memória desta gente vadia.» Ordenou (alvarás de caso da África e América — contribuíram para o
vogados cristãos-novos não podiam argumentar casos baim (Assentos: 280-288). 1647 e 1649) que todos os ciganos fisicamente capa­ povoamento português como potenciais colonos.
nos tribunais reais e os médicos nào podiam praticar Um outro grupo étnico, o dos ciganos, foi tam­ zes fossem presos, levados para Lisboa e embarca­ Em 1648, os degredados do Limoeiro, de Lisboa,
em Portugal (idem: 191-192). bém alvo dos ressentimentos populares, das perse­ dos para serviço no Ultramar. As ciganas seriam de­ foram enviados para o Maranhão para suprirem a
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falta de homens capazes durante o levantamento modificação nos locais de destino dos exilados, 1618, o autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil nyam sugeriu valores mais baixos para a rota do
contra os holandeses, e para aí ficarem como colo­ que deixaram de ir para o Estado da índia e pas­ comentava que o sonho dos agricultores do Brasil Cabo. De acordo com a perspectiva portuguesa, as
nos se a revolta tivesse êxito [Collecção Chronologica, saram a ser enviados para os territórios portugue­ era terminar os seus dias em Portugal, um senti­ partidas foram as seguintes: 1571-1610, 56 049; 1611-
(1648-1656): 11]. A expulsão dos Holandeses abriu ses nas costas atlânticas. mento expresso por Frei Vicente do Salvador, mas -1660, 32 546; 1661-1700, 11 289. Não existem esti­
novas áreas para potencial colonização, em particu­ Se a migração de civis pela rota do Cabo sofreu poucos saíram da sua terra adoptiva para regressa­ mativas sobre o número de portugueses que se des­
lar no Pará, Maranhão e Ceará, pelo que nas déca­ com a ameaça representada pelos Ingleses e Holan­ rem às origens (Mello, 1966: i.° diálogo). A emi­ locaram por terra para a Pérsia e para a índia. Em
das de 1660 e 1670 a Coroa se virou para os degre­ deses, esses mesmos medos eram também compar­ gração inversa era constituída essencialmente por geral, é aceite que a partir de 1560 se verificou uma
dados para cumprirem este papel de colonizadores tilhados pelos que, de outro modo, poderiam ser dois gmpos potenciais. O primeiro incluía os ho­ mudança de destino, do Estado da índia para o
e soldados. O regedor da Justiça, em Lisboa, rece­ recrutados para o serviço militar no ultramar. No mens jovens que os territórios ultramarinos portu­ Brasil (Godinho, 1978: 9; Subrahmanyam, 1993:
beu ordens (1661) para sentenciar ao exílio no Ma­ século x v i i , os Portugueses tiveram de enfrentar o gueses enviavam de volta para a Europa, para estu­ 218-219).
ranhão todas as pessoas merecedoras desse castigo desafio de se verem envolvidos em hostilidades, darem. Sob este aspecto, a ausência de uma A emigração durante o período de 1570 a 1697
[idem (1657-1674): 73]. Logo que a conquista deu por vezes simultâneas e em múltiplos teatros: Mar­ universidade no Brasil colonial levava os pais, an­ foi crucial para o estabelecimento das fundações da
lugar à colonização, o Maranhão e o Pará torna­ rocos, Brasil, África, Malabar, Ceilão, Coromandel, siosos pela melhoria dos seus filhos, a enviá-los para sociedade portuguesa no ultramar. Não só houve
ram-se nos locais preferidos para o envio de degre­ Bengala, Insulíndia e Molucas. Ainda mais do que Coimbra, em especial para prosseguirem estudos de mais portugueses a abandonar o país natal como o
dados como colonizadores [idem (1648-1656): 67; antes, a Coroa recorreu aos presos, arrebanhando teologia, leis canônicas e artes. Alguns voltavam ao perfil da emigração revelou um maior interesse pe­
(1657-1674): 125). Em 1662, o rei ordenou que fosse todos os homens válidos e comutando as sentenças Brasil como administradores ou magistrados ao ser­ la emigração como pré-condição necessária para a
feita uma lista dos presos no Limoeiro de Lisboa, aos criminosos dispostos a prestar serviço em regi­ viço da Coroa, mas a tentação de permanecer em colonização. O maior número de mulheres em ida­
para ver quem, «sem prejuízo da mesma justiça» mentos prestes a serem enviados para o ultramar. Portugal para fazer carreira na Igreja ou no Estado de de procriação, em idade de casar e de raparigas
podia ser exilado para Cabo Verde e Cacheu, e pa­ N o século xvii, o número médio de pessoas a era frequentemente irresistível. Há uma certa ironia pré-adolescentes que saiu do país é um dos indica­
ra acompanhar Antônio Galvão, que se preparava bordo de um navio da carreira da índia era de 112 quanto ao segundo grupo. Numa altura em que se dores deste novo padrão de emigração. Apesar de
para partir para ir ocupar o seu posto de governa­ marinheiros e 250 soldados, mas alguns navios verificava um pronunciado aumento da emigração ainda se encontrarem em minoria, a proporção de
dor de Cabo Verde. Ém 1673, D. Pedro ordenou chegavam a transportar 800 soldados (Souza, feminina — quer de mulheres casadas, donzelas, mulheres entre as pessoas que saíam de Portugal re­
que as pessoas sentenciadas ao exílio na índia, mas 1930-1956: 1, 54). O século x v i i focou a sua aten­ órfas do rei ou até de mulheres da noite, arrepen­ vela um aumento em relação ao período anterior.
para as quais não existia transporte, fossem enviadas ção na defesa do Brasil: foram construídas novas didas ou não tanto — para a índia, Brasil e África, Na emigração para a índia, Ceilão e Brasil verifi­
para Angola [idem (1657-1674): 80, 227]. As ordens fortificações, reforçadas algumas das já existentes também se verificava uma migração inversa sob a cou-se também um aumento do número de casais
reais de 1667, 1675 e 1680 enviaram degredados pa­ e os soldados passaram a ser passageiros habituais forma de mulheres solteiras — frequentemente em e de famílias já constituídas. Isto não pretende ne­
ra São Tomé, Cabo Verde e Angola, respectiva­ das caravelas com destino às guarnições do N or­ idade casadoira e quase sempre descendentes de gar a presença de homens solteiros, que eram reco­
mente, a fim de remediarem a falta de homens te, Nordeste e R io de Janeiro. Também conti­ portugueses, que se mudavam da índia e do Brasil locados temporariamente em vez de emigrarem, ou
portugueses válidos. Alguns foram especificamente nuaram a ser enviados soldados para as guarnições para Portugal com a finalidade específica de toma­ de oportunistas esperançados num enriquecimento
enviados para servirem como soldados (em particu­ de Ceuta, Tânger e Mazagão, em Marrocos, até rem o véu. Em 1588, a filha única da nobre viúva imediato e num rápido regresso a Portugal. N ’ Os
lar para Angola), enquanto outros escolhidos por ao momento em que ficaram reduzidas apenas a Dona Joana, que trazia consigo, de Cochim para Lusíadas, Camões captou a sensação de excitação e
causa das suas capacidades como artífices [idem: 135, Mazagão. Portugal, uma filha de oito anos, para que mãe e de aventura da primeira metade do século xvi. Para
182; (1675-1680): 21, 73]. Foi também o caso da for­ Para o Brasil, os estudos preliminares fornecem filha pudessem recolher a um convento «e acabar o o poeta imortal, os Portugueses tinham sido «só
taleza de Cacheu, cuja guarnição se encontrava en­ alguns dados para uma análise sectorial, por ocupa­ restante da sua vida em serviço de Deus», foi víti­ conduzidos de árduas esperanças» (Os Lusíadas: v,
fraquecida e onde os pedreiros e ferreiros tinham ção, de tais emigrantes. Se os incentivos aos colo­ ma do naufrágio, ao largo da costa do Natal, do 66), haviam procurado novas rotas e novas terras,
uma grande procura (idem: 131). Este castigo só po­ nos tivessem a fomia de sesmarias e terras gratuitas, navio São Tomé (Santos, 1989. 11, 119-120; parte 11, ultrapassando os obstáculos físicos, e as superstições
dia ser aplicado a pessoas com mais de quinze anos as pessoas com capacidades ligadas às industrias ex- liv. h i , cap. u i) . Isto representou não só o depaupe­ e medos nascidos dos mitos. Os perigos e imprevis­
(idem: 34). Marrocos e a índia continuaram a ser tractivas e os artífices capacitados para trabalharem ramento das potenciais esposas portuguesas, limi­ tos permaneceram inalienáveis dos empreendimen­
locais de exílio. O facto de as pessoas serem exi­ com pedras e metais preciosos reagiam às histórias a tando a procriação da população portuguesa, como tos ultramarinos, mas em 1570 já existiam cidades
ladas para a índia ou para o Maranhão dependia respeito de montanhas de prata e ouro, e de depó­ também a repatriação das somas por vezes conside­ de acordo com os modelos portugueses tanto na
das circunstâncias imediatas ou da partida imi­ sitos de esmeraldas e outras pedras preciosas. As ráveis de que essas mulheres necessitavam para en­ Ásia como no Brasil, o potencial para o cultivo de
nente de uma frota. Em 1669, 1672 e 1673, D. Pe­ promessas reais de recompensas aos que alcanças­ frentarem os custos impostos pela admissão num terras nos trópicos e sub-trópicos começava a ser
dro ordenou ao conde regedor da Justiça para sem o êxito, bem como as feitas pelos governado­ convento. compreendido e as redes comerciais encontravam-
sentenciar ao exílio para a índia, tão expedita­ res que lançavam expedições, invariavelmente sem O número de emigrantes é um verdadeiro enig­ -se estabelecidas. O Brasil emergia como uma al­
mente quanto possível, todas as pessoas merece­ resultados, davam uma legitimidade fugaz aos rela­ ma. Godinho sugeriu uma emigração líquida de ternativa viável à índia portuguesa. Ao longo do
doras desse castigo, e que as sentenças das pessoas tos, não confirmados, da descoberta de metais e Portugal com uma média anual de 5000 a 6000 último terço do século xvi e durante todo o sé­
já condenadas ao exílio no Brasil ou outros terri­ pedras preciosas (Cardozo, 1944 e 1946). Tais artífi­ pessoas para os anos de 1580-1640, diminuindo para culo x v i i , a mudança nos padrões de emigração
tórios no ultramar fossem comutadas em exílio ces reagiam com a «febre do ouro» a boatos bem 2500 a 3000 para o período de 1640-1700. Basean­ reflectiu um cada vez maior compromisso com a
para a índia. Esta ordem repetiu-se em 30 de Ja­ propagados mas sem qualquer espécie de mérito. do-se nos números de Bentley Duncan, Subrahma- fixação.
neiro de 1670, mas em 19 de Maio desse mesmo Depressa se tomou evidente que o Brasil ganhara
ano ordenou que todas essas pessoas fossem sen­ uma merecida fama como meta para os artífices,
tenciadas ao exílio para o Maranhão e que as sen­ que viam potencial para a prática das suas activida-
tenças dos exilados para a índia fossem comutadas des tanto no estabelecimento de novas cidades co­
para o Maranhão (idem: 171, 181, 182, 203, 232). mo no crescimento demográfico e comercial dos
Em 1677 os degredados também foram enviados núcleos já estabelecidos. O resultado foi um au­
para os rios de Sofala. N o século x v i i , a necessi­ mento da emigração, de homens com capacidades
dade de segurança militar nas possessões ultrama­ profissionais e vocacionais (Ott, 1995: 1, 46-47;
rinas que ainda restavam, aliada ao reconheci­ Russell-Wood, 1969: 183-184).
mento de que era desejável uma implantação de Para finalizar, devemos fazer uma referência ao
colônias em África e no Brasil, originou uma pouco estudado tema da migração inversa. Em

124
POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

pequena presença portuguesa mesmo depois da sua


p o l ít ic a s d e f i x a ç a o cedência à Inglaterra, em 1661. Mazagão cumpria
uma função militar sob um governador militar, ofi­

E INTEGRAÇÃO ciais e soldados, mas possuía também uma comuni­


dade civil portuguesa composta por clérigos e mis­
sionários, pelas viúvas e crianças dos que haviam
A. J. R. Russell-Wood morrido na guerra e por artífices, bem como por
pessoas das mais variadas nacionalidades europeias
(Farinha, 1970; Serrão, 1977-1990: v, 278-279).
Continuou a ser um lugar onde a nobreza podia
ganhar as suas esporas. Os acordos vagos e as cons­
________FIXAÇÃO________ meiro lugar, mas em todas as mais do mundo». To­ tantes mudanças nas relações com os líderes mou­
davia, depois das depredações holandesas, deteriora­ ros seus vizinhos, a par com o irregular forneci­
De acordo com Luís de Figueiredo Falcão, em ra-se ao ponto de «que quase parece estar extinto» mento de provisões vindas de Portugal, fez com
1607 0 Estado da índia compreendia 12 cidades e 13 (Assentos: m, does. 123, 137, 180). que as possessões portuguesas em Marrocos fossem
vilas com fortalezas e bastiões (Falcão, 1859; Souza, Em Portugal, o impacte negativo das perdas para pouco atraentes para outros colonos que não esti­
1930-1956: 1, 635-636). N o Atlântico, os Portugueses os Holandeses e os Ingleses durante o século xvii vessem envolvidos no comércio, ligados ao gover­
contavam numerosas ilhas, bem como as fortalezas foi principalmente sentido em termos de liberdade no, soldados ou seus dependentes.
e entrepostos comerciais do continente africano, de comércio e controlo de pontos-chave, cuja im­ N o século xv, as ilhas de Cabo Verde testemu­
com Angola, Benguela e o Brasil a constituírem as portância estratégica era fundamentalmente comer­ nharam um impulso migratório inicial, com a re­
maiores possessões territoriais contíguas. A o lon­ cial e, em menor grau, em termos militares. Proe- sultante colonização pelos Portugueses. Eles, e os
go dos 90 anos seguintes, as áreas para potencial minência comercial não era sinônimo de densidade seus sucessores, alcançaram um certo grau de ri­
fixação ficaram depauperadas. Em 1697, Moçambi­ de colonização por uma população nascida na Eu­ queza e foram honrados pelo infante D. Fernando
que era a única capitania portuguesa no Sudeste de ropa ou descendente de europeus, pelo que algu­ e por D. Manuel. Todavia, esta onda migratória
África. Para além de Goa, que em 1683 escapou mas perdas tinham pouco impacte na fixação. não se manteve e a falta crônica de mulheres bran­
miraculosamente à captura, de Salsete e Bardez, os Noutros casos, a perda ou deslocação era substan­ cas levou a um alvará real, de 1620, em que se or­
Portugueses detinham a Província do Norte, a es­ cial, como por exemplo no caso das 900 famílias denava o envio para Cabo Verde, e não para o
treita faixa entre Bombaim e Damão, com Chaul, residentes em Columbo por altura do cerco dos Brasil, das mulheres condenadas ao exílio. Havia
Baçaim, Diu, e a feitoria de Surrate. Na China, Holandeses, em 1656. Na índia, no século xvii, a também uma considerável disparidade entre os pa­
exerciam direitos extraterritoriais em Macau e go­ insegurança e a incerteza — e por vezes, como no drões de colonização das diferentes ilhas. Santiago
zavam de direitos de suserania sobre Timor, no to­ caso dos cristãos-novos, as perseguições religiosas era a mais intensamente colonizada por naturais de
do ou em parte, bem como sobre Flores e Solor, — levaram algumas famílias portuguesas a abando­ Portugal, Fogo era um pouco menos e as restantes
no arquipélago de Sunda. Para além disso, pos­ narem as instalações portuguesas e a mudarem-se ilhas muito menos. Porém, mesmo nas duas pri­
suíam numerosos fortes, entrepostos comerciais, para as incipientes instalações francesas na costa do meiras, e em termos de colonização urbana, verifi-
baluartes e tanadarias. Na região atlântica, as coisas Coromandel, para as inglesas de Bengala ou até pa­ cavam-se grandes diferenças entre Ribeira Grande,
corriam melhor para os Portugueses. Os Holande­ ra Ceilão, sob controlo dos Holandeses (Correia, Praia, ou São Filipe, e as áreas rurais. Em 1^82, uma
ses haviam sido expulsos de Angola (1648) e do 1948-1958: 1, 77). Numericamente e em termos de estimativa calculava que a população de Santiago Tânger (em cima) e Ceuta (em baixo), in Georg Braun
Brasil (1654). Os registos de 1697 revelavam que o conhecimentos tecnológicos, uma outra grande era de 13 408 almas — um número muito conser­ e Francisco Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum,
Brasil, Angola e Benguela permanec-iam sob con­ perda de colonos foi a do grupo de cristãos-novos vador — e que a do Fogo era de 2300. (H G C V : Colônia, 1572
trolo português, tal como São Tomé e Príncipe, as que se instalaram no Brasil holandês e depois se 133, 148, 228-233). U m século mais tarde, as ilhas
ilhas de Cabo Verde, o arquipélago da Madeira, os mudaram após a sua recaptura pelos Portugueses, continuavam subpovoadas. Demograficamente, a As décadas de 1580 e 1590 foram tumultuosas pa­
Açores e as ilhas ao largo da costa do Brasil. Ceuta em 1654. Vejamos, de um modo breve, quais as maioria dos seus habitantes era de descendência ra São Tomé. Em 1585, um violento incêndio des­
ficara do lado de Espanha, depois da Restauração, áreas de instalação dos Portugueses. africana, para além de uma população mulata mui­ truiu uma grande parte da cidade e em 1590 verifi­
enquanto Tânger e Bombaim foram entregues à Portugal prosseguiu com o seu interesse em to em evidência. A diversificação da economia cou-se uma revolta de negros no sertão. Em 1595,
Inglaterra, como dote do casamento de D. Catarina África. A desastrosa derrota em Alcácer Quibir não agrícola, incluindo a cana-de-açúcar, teve um re­ os descendentes de angolanos (os atigolarcs), sob a
com D. Carlos II, em 1661, ficando Mazagão como significou o fim de uma presença portuguesa em duzido êxito que não foi suficiente para estimular liderança de um tal Amador, queimaram edifícios
o único enclave português em Marrocos. Marrocos. Arzila teve uma história cheia de altos e os potenciais colonizadores que, por um lado, ti­ da cidade e destruíram 60 engenhos de açúcar. Em
O custo de preservação do império era muito ele­ baixos. Foi perdida em 1550 e reconquistada por nham de enfrentar a imprevisibilidade, a irregulari­ 1598 e 1600, os Holandeses destruíram mais enge­
vado em temios de vidas, perdas de navios, destrui­ D. Sebastião em 1577, para Filipe II a entregar de dade e falta de chuvas (Agosto-Outubro), e por nhos. Arranjar homens para uma guarnição era um
ção de fortes, interrupção e perda de comércio, bem novo aos Mouros em 1589. A presença portuguesa outro, a estação seca (Dezembro-Junho). A perda problema constante. As ameaças de ataques holan­
como de despesas com as guerras em múltiplas fren­ ficou reduzida às praças de Ceuta e Tânger e ao de culturas, a falta de alimentos e a fome eram deses e a sua conquista de São Tom é e Príncipe,
tes, tanto contra exércitos europeus como indígenas. presídio de Mazagão. A colonização era secundária acontecimentos frequentes. Economicamente, o em 1641, levou colonos a mudarem-se para o Bra­
Na índia, o vice-rei virou-se para as ordens religiosas em relação à importância estratégica dessas posi­ arquipélago estava em grande parte dependente de sil. Em 1693, os angolares queimaram engenhos e
e para a Misericórdia para arranjar empréstimos. Em ções. Tânger e Ceuta constituíam escudos defensi­ Cacheu e Bissau, cujas economias se baseavam no tentaram saquear a cidade (Castelo-Branco, 1971:
1654, D. Vasco de Mascarennas comentava no C on­ vos contra ataques ao Sul de Portugal, protegiam o comércio de escravos e que não constituíam locais 154). O período de 1570-1670 assistiu ao desenvol­
selho de Estado, com nostalgia, que «naqueles felizes comércio luso-marroquino e controlavam o tráfico de fixação. O único sector rentável da economia vimento de um poderoso comércio de exportação
tempos em que a índia gozava destas, e doutras pros- no estreito de Gibraltar. A mais populosa era Tân­ de Cabo Verde era o comércio de escravos, e a sua de açúcar e algodão, a uma agricultura diversificada
peridades, era senhora, era obedecida, era respeitada, ger, cuja população europeia — para Já da compo­ posição estratégica fez do arquipélago um ponto e a um lucrativo comércio de escravos, mas em
era temida, e o nome português tão aplaudido que nente portuguesa — era multinacional, poliglota e importante para o comércio entre o Brasil e a Áfri­ 1673 a situação já se deteriorara de tal modo que foi
não só entre as nações da Europa, se lhe dava o pri­ de diferentes religiões. Continuou a existir aí uma ca (HGCV: 4-14). feita uma tentativa para incentivar a economia,

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

transformando as ilhas nuina área de comércio li­ de daqueles sobas que estavam em paz com os Por­
vre. As duas ilhas de São Tom é e Príncipe experi­ tugueses. Desde finais da década de 1590 até ao
mentavam uma constante falta de colonizadores, o princípio da de 1620, os Portugueses desencadea­
que levou D. Pedro, em finais do século xvn, a ram prolongadas guerras contra sobas rebeldes, pe­
despachar para aí os degredados para estabelecer netraram no interior, ergueram fortes em Massan-
uma presença portuguesa. gano, Cambambe e Lumbo e pacificaram a região
N o continente africano, apesar da presença de em volta de Luanda. Porém, já no reinado de
entrepostos comerciais e de guarnições, a investida D. Pedro e até mais tarde, alguns sobas continua­
dos interesses portugueses focava-se em Angola. ram a recusar-se a obedecer e os Portugueses foram
O estabelecimento de Luanda (1576) e o controlo forçados a acomodar outros e a negociar o relacio­
de Muxima, Cambambe, Quincunguela e Massan- namento (Cadomega, 1972). Para além disso, An­
gano por Paulo Dias de Novais (1585) criou uma gola passou a ser objecto de ataques holandeses a
testa-de-ponte portuguesa. Filipe II promoveu a partir da década de 1620. A conquista holandesa
conquista dessa potencialmente valiosa adição ao (1643-1648) foi tão destruidora que levou à perda de
império ultramarino português. Angola oferecia vidas portuguesas e à fuga de portugueses para o
oportunidades excepcionais: extensas terras com sertão. Acontecimentos internos deste tipo não
solos férteis, ricas em vida selvagem, com minas de eram favoráveis a uma colonização extensiva. O u ­ Luanda, in O. Dapper, Description de l’Afrique, Amesterdão, 1686
prata, chumbo e outros metais, e com uma popula­ tros factores contra a colonização eram a inadequa­
ção indígena que podia ser aproveitada para o tra­ ção da região costeira para a agricultura, uma taxa cil de quebrar (Birmingham, 1966: 30-47; Dias, expropriação e redistribuição, bem como a distri­
balho. Todavia, foram vários os obstáculos que im­ de mortalidade extremamente elevada entre os sol­ Í934)- buição de novas terras às pessoas apropriadas. O fa­
pediram a realização desse potencial. O primeiro dados portugueses — calcula-se que morreram Luanda e Benguela eram os dois núcleos da co­ lhanço na melhoria dessas terras num período de
era interno e dizia respeito aos sobas rebeldes que, 2000 na campanha de 1574-1594— , por causa da lonização portuguesa. Em ambos os casos, o princi­ cinco anos resultaria em confiscação. A disponibili­
durante os anos de 1590-1690, forçaram os sucessi­ malária, as consequências nefastas do impacte do pal interesse era o comércio com o Brasil. N o que dade de terras era um problema nas áreas urbanas,
vos governadores portugueses a levarem a cabo de­ comércio de escravos e a fraca qualidade dos colo­ se refere a Angola, podemos avaliar a medida das muito especial'mente em Luanda. As concessões
moradas guerras de atrito e a participarem em in­ nos, que incluíam degredados. Ao estabelecer pre­ expectativas e prioridades portuguesas por intermé­ iniciais haviam sido tão generosas que alguns colo­
findáveis negociações, tentando chegar a acordos sídios no interior e no vale do Cuanza, Novais deu dio do Regimento entregue a Tristão da Cunha em nos não só construíram casa para a sua residência,
que pudessem servir de base para uma relação de o tom para a prioridade da expansão militar, um 1666, por ocasião da sua nomeação para governa­ como também outras para aluguer. O resultado era
cooperação viável e que preservassem a boa vonta- precedente de «conquista» que se demonstrou difí- dor e capitão-geral do reino de Angola [Collecção uma falta de lotes para os colonos que chegaram
Chronologica (1657-1674): 110-117]. O documento fo­ mais tarde. A Coroa ordenou o desenvolvimento
Hha de São Tomé, in Petrus Bertius, P. Bertii tubularum ge jhicarum contractarum, Amesterdão, cena de 1600 (BPM P) cava três áreas: militar, espiritual e comercial. de tais lotes num prazo de três anos, sob pena de
A Coroa preocupava-se com o estabelecimento de confiscação. Nesse documento há uma ausência
uma eficiente burocracia fiscal e judicial, mas a notável: não continha quaisquer incentivos à emi­
prontidão militar era o mais importante: fortifica­ gração para Angola e à colonização. Ali, como
ções, pessoal e munições, e defesa tanto contra os noutros pontos da África continental, havia muito
inimigos internos como contra os intrusos euro­ pouca correlação entre o grau de interesse da C o ­
peus. As preocupações espirituais da Coroa diziam roa e a colonização actual, medida em número de
respeito ao falhanço das conversões iniciais e à au­ colonos. Por volta de 1675, os Portugueses haviam
sência da subsequente catequização e instrução reli­ já dominado toda a oposição indígena até 220 qui­
giosa. As tentativas europeias para a imposição de lômetros para leste de Luanda, tinham consolidado
uma divisão entre o reino do Congo e o reino de a sua posição no vale inferior do Cuanza, fundado
Angola, datando dos tempos de Paulo Dias de N o­ um presídio em Pungo Andongo, muito no inte­
vais, não tinham sido bem aceites pelos governan­ rior, estabelecido contactos comerciais até 500 qui­
tes indígenas. Tristão da Cunha recebeu instruções lômetros para leste de Luanda e haviam-se expan­
para «trazer à minha obediência todos os Sobas, por dido para o Sul, para Benguela. Nos finais do
meios brandes e suaves, e sem rigor». Os interesses século, é provável que a população composta pelos
comerciais reais dirigiam-se para a confirmação da portugueses e pelos seus descendentes mestiços não
existência e extensão de depósitos de prata e outros totalizasse mais de 4000 almas, no máximo, com a
minerais, nomeadamente de cobre, em Benguela, componente portuguesa em clara minoria (Whee­
bem como de depósitos de sais, e para o encoraja­ ler e Pélissier, 1978: 32-40).
mento dos Portugueses a explorarem o potencial Na África Oriental, em 1600, os interesses dos
da região, desenvolvendo o algodão e o açúcar e Portugueses focavam-se em Sofala, Moçambique e
regulamentando o comércio marítimo. A Coroa Mombaça, cada uma com a sua própria fortaleza.
era sensível à natureza dilaceradora do comércio Moçambique constituía a base para a colonização
de escravos, proibindo especificamente os brancos portuguesa do Sudeste da África. O facto de não
de penetrarem no sertão e de participarem nos ter sucumbido aos cercos holandeses (1604, 1607,
mercados de escravos. O documento tinha nume­ 1608) foi crítico para a futura colonização portu­
rosas cláusulas relacionadas com a fixação. O rei guesa (Axelson, 1964: 15-29). Os sonhos de obter
procurava remediar as situações em que terras en­ acesso aos recursos minerais do interior e a mira­
tregues a colonizadores portugueses não haviam si­ gem de conquista do reino do Monomotapa leva­
do cultivadas ou desenvolvidas, ordenando a sua ram a expedições militares que falharam. Amostras

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

de minério de prata de Chicôva estimularam as es­ encorajamentos especiais aos ferreiros e aos que povoadas de todas as da índia, por haver nela mui­
peranças portuguesas, que no entanto não se con­ trabalhavam na indústria da construção e na agri­ tos, e principais Fidalgos com rendas»), Chaul («rica
cretizaram (Axelson, 1964: 55-60). Tal facto não cultura. Foram incluídas oito mulheres «arrependi­ e formosa»), Goa («fresca e muito rica Ilha de Goa,
impediu a Coroa de se lançar em planos entusiásti­ das». A expedição, que talvez contasse com cerca cabeça de todo este Estado»). Na costa do Malabar,
cos (1635 e 1677) para o envio de mineiros, artífices de 2000 pessoas, estava bem organizada, mas pouco Cananor, Cranganor e Coulão não tiveram direito
e camponeses para se estabelecerem na África se sabe sobre o destino dos colonos depois da sua a adjectivos descritivos, mas não faltaram louvores
Oriental. Houve alguma colonização portuguesa chegada. Em meados de 1680, 28 homens casados, para Cochim («cabeça de todas, a formosa cida­
no vale do rio Zambeze, mas em números muito 29 mulheres e 21 crianças chegaram a Rios, mas de...»). As populações portuguesas de Negapatão e
limitados e de certeza não da maneira imaginada cerca de um quarto de cada um desses grupos aca­ São Tom é de Meliapor são notadas en passant, mas
pela Coroa. De facto, houve poucos imigrantes pa­ bou por morrer e não se verificaram novos nasci­ Malaca ganhou a estima de Couto: «A muito cele­
ra a África Oriental, e foram ainda muito menos os mentos. Por volta de 1680, o total da população brada e nomeada cidade de Malaca, trono e cabeça
que conseguiram chegar até aos pequenos povoa­ branca de Rios era de cerca de 50 pessoas. As com­ de todo o reino Maluco.» Macau é descrita em ter­
dos do Zambeze (Quelimane, Sena e Tete). A ex­ pensações pelas enormes despesas foram mínimas. mos brilhantes como sendo o lugar «em que está
periência sublinhava o facto de a colonização ter O s únicos que ficaram a ganhar foram as «mulheres fundada a melhor, e a mais próspera coluna que os
mais probabilidades de êxito quando era deixada à arrependidas», que regressaram à sua antiga profis­ Portugueses têm em todo o Oriente, e que já está
iniciativa individual do que quando era promovida Pedro Barreto de Resende, ilha de Moçambique, in Antônio são com todo o à-vontade. Durante o resto do sé­ feita bispado». Couto faz a distinção entre fortalezas
pela Coroa. Os portugueses solteiros que criaram as Bocarro, Livro das Plantas de tôdas as fortalezas [...], culo, Moçambique e os R ios experimentaram (Sofala, Moçambique, Mombaça, Mascate, Diu, as
suas próprias propriedades ou casaram com herdei­ 1635 (B P A D E ) uma falta de colonos portugueses e até uma dimi­ que se encontravam sob a jurisdição de Damão e
ras locais, tomando-se beneficiários do sistema de nuição da população branca, em grande parte atri­ Baçaim, Goa, Onor, Barcelor, Mangalor, Cananor,
prazos, tiveram muito mais êxito (Boxer, 1969: de da região, sobre a qualidade e extensão dos de­ buída a surtos de varíola e sarampo. Estes factores, Cranganor, Coulão, Cochim , Colum bo e Manar),
138-139). Em finais da década de 1670 e princípios pósitos minerais e sobre a alegada incapacidade da a par com a insegurança geral, com as revoltas e as e fortes como os de Sena e Tete (Couto, 1788: D é­
de 1680, D. Pedro ordenou o envio de seis homens terra para suportar um tão repentino afluxo de co­ guerras constantes ao longo do século x v ii , tanto cada X: v ii ). E para o Livro em que se contem toda a
e 50 casais de presos, cujas sentenças haviam sido lonos. O mais prejudicial foi a ausência de um re­ com europeus como com os governantes muçul­ Fazenda & Real Patrimônio dos Reinos de Portugal,
comutadas, para povoarem os Rios. Procurou tam­ latório confirmando a existência de ouro em manos e os reis indígenas, fizeram do Estado da índia e Ilhas adjacentes e outras particularidades (1607),
bém compensar a virtual ausência de mulheres quantidades que compensassem e a falta de certe­ índia uma alternativa mais atraente para os portu­ de Luís de Figueiredo Falcão, que nos viramos para
brancas ordenando que as que se encontravam nas zas quanto às minas de prata. Em 1637, o Conse­ gueses que queriam emigrar (Axelson. 1964: 97, uma lista pormenorizada das 50 fortalezas e baluar­
cadeias portuguesas ou causassem perturbações pú­ lho de Portugal cancelou o plano. O falhanço des­ 131, 146-154)- tes com guarnição, desde a África Oriental até So-
blicas fossem enviadas para a capitania de Sofala te plano pôs a nu a competitiva procura, entre as Perdeu-se uma oportunidade para remediar a lor, que faziam parte do orçamento do Estado da
(Collecção Chronologica (1675-1680): 32, 59, 73; Axel­ diferentes partes do império português, dos escas­ falta de interesse dos Portugueses em instalarem-se índia. Uma relação de 1619 refere 54 fortalezas, for­
son: 1961]. sos recursos humanos. Em 1633 foi decidido dar no Sudeste da África por intermédio do incitamen­ tes, castelos, baluartes e tanadarias no Estado da ín­
A África Oriental foi objecto de uma proposta preferência ao equipamento dos navios com desti­ to à emigração e colonização pelos Indianos. Para dia (Falcão, 1859; Souza, 1930: 1, 5-6; 11, 631-634).
que, se tivesse sido implementada, podería ter dado no a Pernambuco. U m dos factores com maior os Indianos, aquele não era um território virgem. Em 12 de Novembro de 1619, quando Femão de
bases sólidas à colonização portuguesa no Sudeste peso na decisão de abortar o plano foi a oposição Havia um grande número de canarins envolvidos Albuquerque prestou juramento com o capitão-mor
da África (Axelson, 1964: 97-114). Já em 1631 ti­ do vice-rei de Goa, que disse que, se existiam sol­ no comércio com Moçambique e com os Rios. e governador do Estado da índia 11a paróquia de
nham sido feitas sugestões para a colonização da re­ dados e colonos à disposição, então seria melhor Na parte final do século x v ii , instalaram-se no Pangim, aceitou o cargo e as fortalezas de Moçam­
gião do Zambeze. Relatórios de 1633 a respeito de que os enviassem para a índia, que passava por Zambeze como comerciantes e agricultores. Prova­ bique, Mombaça, Ormuz, Mascate, Soar, Diu, Da*-
depósitos de ouro, prata, ferro, cobre e até chum­ uma diminuição do com ércio e sofria mais hostili­ velmente, em termos físicos e culturais, ter-se-iam mão e as tanadarias sob a sua jurisdição, Baçaim e
bo deram um novo impulso à ideia. Havia uma dades por parte das nações europeias do que o Su­ adaptado à colonização com mais facilidade do que as respectivas tanadarias e fortes de Manorá e serra
promessa de maiores riquezas para Portugal do que deste da África. os recém-chegados portugueses. de Asserim da sua jurisdição, Chaul e o forte do
as que a Coroa espanhola conseguira nas índias — Contudo, em 1673, o vice-rei recomendou o pa­ As colônias de portugueses no Sudeste da África Morro a ela anexa, Onor, Barcelor, Mangalor, C a ­
o que despertou imediatamente o fantasma da in­ trocínio da emigração e colonização da África constituíam as posições avançadas mais ocidentais, nanor, Cranganor, a fortaleza e cidade de Cochim ,
tervenção estrangeira. O resultado foi um bem Oriental. Preocupava-se com a vulnerabilidade da posições essas que incluíam a entidade administrati­ Coulão, Columbo, Gale e respectivas tanadarias,
concebido programa de 23 pontos para a coloniza­ região aos ataques, com as defesas inadequadas e va conhecida por Estado da índia e se estendiam Manar, Jafanapatão, Malaca e Solor. Para além dis­
ção de Rios de Cuama, para a exploração de depó­ guarnições insuficientes, e com o potencial, não para leste, até Macau e à Indonésia. No século xvi so, havia a fortaleza e cidade de Goa, bem como
sitos minerais e para o comércio livre. A segurança aproveitado, da exploração de prata, ouro, cobre, e em grande parte do século x v ii , o Estado da índia outros fortes e tanadarias (Assentos: 1, 86-88).
deveria ser garantida com a construção de fortes ferro e mercúrio em R ios de Cuama. A recomen­ foi o coração do império ultramarino português, e Temos a sorte de existirem dois registos con­
que mantivessem os intrusos europeus à distancia e dação recebeu o apoio do Conselho Ultramarino. podemos traçar o perfil dos povoados portugueses temporâneos, ambos ricos em pormenores descri­
com uma presença militar. As propostas iniciais Em 1677, 0 regente D. Pedro decidiu enviar 600 aí existentes. Os povoamentos no Estado da índia tivos e iconográficos, datando respectivamente de
eram de envio de 200 soldados e 200 casais, com homens da infantaria e 50 casais — de preferência eram fundamentalmente urbanos e tinham caracte­ 1635 e j639? das cidades, fortalezas e povoações do
preferência para artífices ou pessoas com prática de com filhos e esposas em idade de procriarem — rísticas claramente militares e comerciais. Em 1580, Estado da índia. O primeiro é o Livro das Plantas
agricultura. As futuras armadas levariam mulheres para a ilha de Moçambique e para os Rios de Cua­ o historiador e soldado Diogo do Couto fazia a lis­ de todas as fortalezas, cidades e povoações do Estado da
de Portugal, incluindo órfãs. Também deveria ser ma. A resposta foi calorosa. Para os soldados, a pí­ tagem, com evidente orgulho, das principais cida­ índia Oriental, do guarda-mor da Torre do T o m ­
enviado pessoal médico, de preferência casado. lula era adoçada com a possibilidade de poderem des, fortalezas e fortes desde a «Etiópia» às «Ilhas, fi­ bo e cronista da índia, Antônio Bocarro, cujo
Propunham-se negociações diplomáticas com os levar as esposas e de serem libertos antecipadamen­ lhas de todo o Oceano Oriental». Utilizava uma manuscrito data de 1635, ilustrado por Pedro Bar­
reis vizinhos, a fim de se garantir a paz, que era um te após seis anos de serviço militar. Aos civis ofere­ grande variedade de adjectivos para a sua caracteri­ reto de Resende, e constitui um indispensável
pré-requisito para uma colonização com êxito. ciam-se subvenções especiais para os casais, subsí­ zação das cidades: Diu («formosa cidade de Diu, de compêndio de informações (Bocarro, 1937-1940).
Problemas logísticos impediram a imediata imple­ dios extra para os filhos, provisões para a viagem, quem podemos dizer que, em Fortaleza e majesta­ O segundo é a Descrição da Fortaleza de Sofala, e
mentação do plano. Faltavam voluntários, princi­ garantia de terras em locais saudáveis, terras que de pode competir com todas as da Europa»), Da- das mais das índias com uma Relação das Religiões to­
palmente para as posições de liderança. Surgiram poderíam ser transmitidas aos herdeiros, a oferta, mão («muito forte e formosa»), Baçaim («famosa»; das, que há no mesmo Estado, pelo cosmógrafo-mor
relatórios desencorajantes a respeito da insalubrida- aos artífices, de ferramentas e materiais, bem como «é esta cidade de Baçaim das melhores e mais bem Antônio de Mariz Carneiro (Carneiro, 1990).

130 131
)
1
POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO F. INTEGRAÇÃO

sas de madeira e colmo mesmo dentro das áreas de espalhadas ao longo das costas dos oceanos e mares, se virtual de uma componente rural, excepto em
povoamento português. desde a África Oriental até à China. Moçambique, na Província do Norte, e no Ceilão,
Na maior parte dos casos, os Portugueses estabe­ Não obstante ambas ostentarem as indeléveis não tinha equivalente no Brasil ou nas ilhas atlânti­
>
leciam-se em locais onde já existia uma cidade ou marcas da identidade e dos costumes portugueses, cas, onde se verificava um maior equilíbrio entre o
uma aldeia indígena. Contudo, fosse no Zambeze o padrão de povoamento do Estado da índia dife­ desenvolvimento agrícola sob controlo português e
ou até em Cochim, o que era sempre patente era ria, sob muitos pontos de vista, do padrão aplicado o lento crescimento de cidades, vilas e aldeias. Fi­
um certo sentido de comunidade. Havia uma linha ao Brasil. Enquanto Ormuz, Goa, Malaca e Macau nalmente, a natureza totalmente diferente do po­
de demarcação, tanto territorial como de compo­ eram pontos de articulação tanto para bens como voamento indígena na índia e na América, antes da
sição social, entre a comunidade portuguesa e a para trocas humanas, no mundo atlântico a primei­ chegada dos Portugueses, contribuiu decisivamente >
comunidade indígena. Nalguns casos, a cidade ou ra função era executada por Lisboa, Açores, Ma­ para um desenvolvimento histórico diferente. No
povoação indígena ficava a certa distância — à dis­ deira, Cabo Verde e ilhas do golfo do Benim. Em Estado da índia existia já uma tradição urbana bem
tância de uma bala de canhão — , pelo que a sua termos humanos, não havia outra contraparte que desenvolvida (com as excepções de Macau e Naga­
presença era discreta para os portugueses, mas estes não a de São Tom é como ponto intermédio no sáqui) e os Portugueses estabeleceram as suas cida­
Pedro Barreto de Resende, Macau, in Antônio Bocarro, raramente estabeleciam um núcleo urbano na au­ comércio de escravos para o Brasil. Por outro lado, des numa contiguidade com as cidades nativas. As­
Livro das Plantas de todas as fortalezas [...], 1635 sência de uma comunidade indígena já existente. as características predominantemente militares e sim, existia uma Cochim indígena e uma Cochim
(B P A D E ) Até Nagasáqui, cujo desenvolvimento pode ser mercantis do Estado da índia não estavam tão em portuguesa. Em Moçambique havia o núcleo urba­

I
P
atribuído à iniciativa dos Jesuítas, foi precedida por evidência no Brasil. Eram muito poucas as cidades no português, com uma povoação moura a algu­
Apesar de incompleto (faltam Cranganor, C o ­ uma aldeia. Macau, uma criação portuguesa, foi — tal como no caso de Salvador — que possuíam mas léguas de distância. A ausência de uma tradição
chim, Coulão e Manar), as 48 folhas fornecem de­ uma das poucas excepções. muralhas. As fortificações, sob a forma de fortes, urbana entre os povos pré-colombianos na região
senhos coloridos e aguarelas de praças desde Sofala As disparidades entre os povoamentos portugue­ em geral para defesa de uma baía ou porto, eram da América povoada pelos Portugueses impediu a
a Macau e Solor, mas o texto deriva do de Bocar­ ses estão presentes no relato do jesuíta Alessandro habituais, mas em nenhum lado do Brasil se atingia criação de núcleos urbanos que não fossem unica­
ro e as ilustrações foram baseadas nas de Resende. Valignano, que percorreu a Ásia entre 1575 e 1578, a escala defensiva das cidades do Estado da índia. mente portugueses. O período de 1570 a 1697 tes­
Contudo, não se trata de casos isolados, uma vez visitando os colégios e missões jesuítas. Anotou que Por outro lado, em termos humanos, medidos pelo temunhou a eçlosão de povoados através de todo o m
que a iconografia das praças do Estado da índia São Tomé de Meliapor contava cerca de 200 casas. número de soldados, o Brasil também não dava a mundo atlândcò português e a elevação de vilas ao f
era vulgar (Silveira, 1956). Achou Malaca muito reduzida, com umas meras 78 sensação de ser uma colónia-guarnição. Em tercei­ estatuto de cidades. Uma tal urbanização era cen­ IV
E imediatamente aparente a diversidade de pa­
drões de fixação, embora dentro de uma ampla ru­
casas de portugueses, e muito longe da sua anterior
riqueza, apesar de uma contínua presença comer­
ro lugar, a forte natureza urbana do povoamento
português no Estado da índia, com a exclusão qua­
tral para a política portuguesa de fixação. Em ter­
mos muito amplos, a Coroa encarava as cidades e ■P)
brica de povoamento urbano. Na sua maior parte,
esses núcleos eram defendidos por fortes e por mu­
cial como «Have de todas aquellas partes dei Sul y
escala...» de todas as riquezas da índia. Descreveu São Salvador da Bahia, gravura do séc. xvii 1
ralhas. A serra de Asserim confiava apenas na sua as mas como «minas» e ficou muito mal impressio­
posição. Maim tinha uma torre redonda, mas a al­ nado com as casas de madeira cobertas de rama­ 1
deia e as igrejas não possuíam defesas. Até os po­ gens. O ano de 1578 encontrou-o em Macau, que
voamentos situados em ilhas (Moçambique, M om - caracterizou como sendo já uma pequena cidade,
baça, Mascate, Diu e Goa) possuíam fortes defesas. com 200 casas de portugueses. Descreveu Cochim
Porém, a norma era uma fortaleza, quadrada ou
rectangular, ou até irregular, como no caso de M o­
como uma «ciudad noble», segunda apenas em
relação a Goa, e ficou impressionado com a
!
çambique. Era dentro da fortaleza que ficavam os quantidade de mercadorias e de belos edifícios,
aposentos do capitão e as acomodações para a guar­ bem como com o colégio, cujos estudantes, al­
nição, mas também houve casos em que existiu guns dos quais oriundos do Japão, aprendiam la­
uma igreja e residências civis — caracterizadas pelas tim, português e espanhol (Valignano, 1954: 25*,
paredes caiadas de branco e pela cobertura de telhas 26*, 30*, 37*, 178*). N o seu auge (c. 1635), Macau
— no interior das fortalezas. Por vezes existiam contava cerca de 850 portugueses e respectivos fi­ >
núcleos de colonos em tomo da fortaleza, tal como lhos, para além dos cristãos chineses (Bocarro,
acontecia em Moçambique. Em 1558 iniciou-se a 1937-1940). »
construção da grande fortaleza de São Sebastião, Apesar de os portugueses terem sofrido graves
que ficou terminada na viragem do século. A M o­ perdas entre 1570 e 1697, foi preciso algum tempo »
çambique de 1600 é um bom exemplo deste tipo para que a noção da realidade ficasse a par com a
de povoamento urbano, com a velha fortaleza mu­ percepção do Estado da índia como sendo um lu­
ralhada, três igrejas, a Santa Casa da Misericórdia, gar onde podiam ser feitas fortunas e obtidas hon­
um mosteiro dominicano e uma povoação portu­ rarias. O dia do reconhecimento chegou a meio do »
guesa de cerca de 2000 pessoas. Todavia, a norma século. Em 1650, o senado da Câmara de Goa es­
era a de que o pessoal não militar ficasse fora da creveu ao rei lamentando a perda de Mascate, co­
fortaleza, tal como as igrejas e outros edifícios. Em mentando a inadequação dos fortes para a protec­
Diu e Damão, os edifícios ficavam no exterior do ção de Goa, a ausência de muralhas defensivas e a
forte propriamente dito mas dentro de muralhas falta de homens válidos para a protegerem de ata­
defensivas. Uma das características destes povoados ques. Os funcionários eleitos (vereadores) receavam »
eram as casas dispostas em conjunto, ou seja, várias a «total ruína» do Estado «que caminha de corrida à
casas com as traseiras viradas para os jardins. Nem sua última destruição» (Assentos: m, 519-521). Para
todas as habitações estavam em conformidade com além das cidades e das aldeias, existiam feitorias e
o modelo de paredes caiadas e telhas. Existiam ca­ pequenos povoados com comunidades portuguesas

132
J POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

as vilas como instrumentos para a concretização das jas, incluindo a majestosa Catedral do Bom Jesus, e os Portugueses, de terras do Brasil até aí inacessí­ Goitacás, cujas terras e clima demonstrariam ser os
) metas metropolitanas de estabilização de uma po­ os paços arquiepiscopais. A Rua Direita excitou-o veis por causa da presença de povos índios hostis ideais para a criação de gado. Mais para o interior,
pulação potencialmente fluida, fornecendo uma com a sua elegância, riqueza e qualidades cosmo­ ou por causa da sua distância dos principais núcleos no planalto de Piratininga, havia o núcleo frontei­
\ matriz em que prevaleciam a governação e a or­ politas. Ficou impressionado com o colégio jesuíta urbanos, que continuavam a situar-se em partes riço de São Paulo com uma população crescente,
dem, como instrumentos para o controlo e a enge- e com os sumptuosos palácios e outros edifícios muito específicas do litoral. Os precursores desse que também se transformou numa área de lança­
\ nharia social e como encarnação dos valores e privados de Goa. A cidade iria ser ainda mais em­ impulso para novas regiões foram os «bandeirantes» mento para a posterior colonização para lá do lito­
princípios associados aos Portugueses. Em termos belezada durante o vice-reinado do conde de Li­ paulistas, estimulados pela procura de índios para ral (Prado, 1963: 29-48). Na esteira da pacificação
\ mais práticos, as cidades e as vilas eram os embaixa- nhares (1629-1635). Os palácios dos vice-reis e da escravizar e pela busca de metais e pedras preciosas. dos índios do Brasil verificou-se a criação de novas
* dores materiais e os porta-estandartes das realiza- Inquisição foram reconstruídos, as fortalezas e defe­ Esse impulso deveu-se também aos Jesuítas, à pro­ capitanias, a distribuição de sesmarias a colonos e o
\ ções portuguesas. sas melhoradas, aos três hospitais já existentes foi cura de almas, em particular no extremo norte e estabelecimento de vilas (São Luís, 1615; Belém,
As cidades mais importantes desempenhavam adicionado o Recolhimento de São Lázaro, e cons­ para o estabelecimento de missões, e aos criadores 1616; Paraíba, Paranaguá, c. 1646-1649; Fortaleza,
Y frequentemente múltiplas funções: eram centros de truída, por um custo de 80 000 xerafins, a compri­ de gado, que se afastaram da costa em busca de ter­ 1699), a nomeação de funcionários da Coroa e a
* governo, empórios comerciais, estabelecimentos da ponte de 3026 metros que estabeleceu a ligação renos de pastagem para os seus animais. Os princi­ criação dos governos municipais. Foi precisamente
Y militares e centros religiosos. Estes múltiplos papéis entre Pangim e Ribandar. Lavai foi menos entu­ pais obstáculos eram humanos, em particular alguns no fim do período que estamos a discutir, no prin­
9 e a marca firme das instituições portuguesas foram siástico na sua descrição de Salvador, observando a povos ameríndios, e físicos. Os colonos avançavam cípio da década de 1690, que os Paulistas fizeram a
Y comentados pelo viajante francês François Pyrard sua natureza dicotômica, com actividades comer­ logo que era conseguido um certo grau de pacifi­ descoberta, na região do R io das Velhas — que na
9 de Lavai, nas suas descrições de Goa e de Salvador, ciais na base da escarpa e casas bem construídas ao cação. Este avanço dirigia-se para o Norte a partir correspondência oficial passou a ser designada por
Y que visitou em 1608 durante quatro meses e em longo de uma bonita rua. Referiu-se à parte supe­ da Bahia para Sergipe, e também para o Norte a «Minas de São Paulo» — , de ouro de aluvião em
9 1610 durante dois meses, respectivamente. O Hos- rior da cidade, rodeada por muralhas, como sendo partir de Pernambuco. A década de 1580 assistiu a quantidades compensatórias. O facto teve um gran­
. pitai Real de Goa, administrado pelos Jesuítas, qua- bem construída e notou a presença de um colégio um esforço concertado e sustentado, que acabou de impacte na emigração de Portugal e das ilhas
/ se o deixou lírico: gabou-lhe a aparência exterior jesuíta e de um mosteiro franciscano, um benediti­ por ter êxito, para a supressão dos povos indígenas atlânticas, bem como na deslocação de pessoas da
palaciana, com pórticos e galerias, o interior com no e um carmelita. Assinalou o hospital e a Santa e para tornar Paraíba, e as suas terras férteis, apro­ zona do litoral, o que, no fim, acabou por levar à
) uma magnífica escadaria, belas camas e duas capelas Casa da Misericórdia, foi expansivo nos seus lou­ priadas para a colonização. Na década de 1590 fo­ colonização do planalto central do Brasil. O reco­
luxuosamente decoradas. Não admira que Laval o vores à sé e ficou aliviado com a ausência da In­ ram também essas as considerações que levaram os nhecimento tácito da importância do Brasil tomou
y considerasse como o melhor do mundo. As quatro quisição (Lavai, 1619: 11, 1-3, 26). Tais cidades do Portugueses a ganhar o controlo sobre Sergipe. uma forma invulgar. Referimo-nos ao decreto de
prisões, malcheirosas e sujas, apesar de (como sa- império contavam com as instituições, tanto espiri­ O princípio do século xvii viu a abertura aos colo­ 1658 nomeando D iogo Gomes Carneiro com o
) lienta Lavai) não serem tão más como Cochim, fa­ tuais como laicas, tanto privadas como públicas, a nos portugueses do R io Grande do Norte, do «cronista da América», mais tarde referido como
ziam um grande contraste com o hospital. Lavai que os Portugueses estavam acostumados na me­ Ceará e do Maranhão, mas este último só depois «cronista do Estado do Brasil» [Collecção Chronologi-
j comentou as fortalezas em Bardez e as oito fortale­ trópole. da expulsão dos Franceses. Tal facto abriu o cami­ ca (1657-1674): 20, 87].
zas da ilha de Goa, incluindo o sumptuoso palácio Neste período, e em termos de fixação no nho do Pará, do delta do Amazonas e do vale do Tal como acontecera nos séculos x v e xvi, quan­
\ do vice-rei. Louvou o magnífico porto, a Ribeira mundo ultramarino português, o acontecimento mesmo rio aos colonizadores. N o século xvii hou­ do os reis portugueses haviam procurado colonizar
Grande e esplanadas, e comentou a localização do mais interessante ocorreu no Brasil. Os finais do ve também um movimento para o interior da re­ regiões estrategicamente sensíveis na fronteira com
) mosteiro franciscano e das numerosas e belas igre­ século xvi e o século x v ii viram a abertura, para gião costeira do R io de Janeiro para Campos de Espanha, a política da Coroa sob os Habsburgos
também foi a de promover a colonização do Brasil.
As finalidades eram múltiplas: defesa contra outros
interesses europeus, o povoamento de regiões que
haviam sido abertas, o aumento — e aceleração, se
tal fosse possível — do crescimento da população
de descendência europeia e o fornecimento de in­
centivos para colonização e cultivo da terra. Foi
encorajada a instalação de unidades familiares e a
Coroa garantiu sesmarias aos colonos que preten­
diam cultivar a terra, com as concomitantes obriga­
ções, que incluíam a residência, o pagamento de
impostos e a proibição de venda das propriedades
durante um período de três anos. Estas iniciativas
não se limitaram ao Norte. Na década de 1640,
Salvador Correia de Sá, governadpr do R io de Ja­
neiro, já propusera, por razões econômicas e estra­
tégicas, a ocupação portuguesa da região do R io da
Prata. Na década de 1650 verificou-se a instalação
de colonos em Curitiba, Paranaguá e São Francisco
do Sul. U m dos factores decisivos para os planos de
colonização portuguesa foi a bula papal (Romanus
pontifex) de 1676, autorizando a extensão da pro­
víncia eclesiástica do R io de Janeiro desde Espírito

João Teixeira Albernaz /, ltamaracá (à direita) e Pernambuco


(à esquerda), in Diogo de Campos Moreno, Livro que
Dá R ezão do Estado do Brasil [...], Í 6 Í 6 (BP M P)

134 135
POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

Santo até à margem norte do rio da Prata. Em, com mulheres das classes superiores, viúvas e filhas A IO M B A Z A tecção às viúvas e seus filhos foi reforçado por um
1678, por razões principalmente militares e econô­ de brâmanes, prática que continuou a ter o apoio alvará real de 9 de Março de 1675, que incluía as
micas, D. Pedro ordenou ao governador do R io de régio, a iniciativa da Coroa tomou a forma de uma duas normas seguintes: a de que a morte de um dos
Janeiro que construísse um forte na margem norte promoção activa do casamento de mulheres portu­ esposos não privava o esposo sobrevivente da mer­
do estuário, na ilha de São Gabriel, ordem que o guesas por intermédio da concessão de dotes que cê nupcial e a de que não se podia exigir a uma ór­
governador não cumpriu à letra, escolhendo a pe­ lhes permitissem casar com portugueses da índia. Já fã que renunciasse ao cargo que lhe fora garantido
nínsula por detrás da ilha, que era militarmente fizemos referência à emigração — apoiada pela como dote por causa da sua incapacidade para en­
vulnerável. O governador deveria ser acompanha­ Coroa — das órfãs do rei, que foram enviadas tan­ contrar um marido e procriar. Era garantido às viú­
do por 262 colonos, excluindo os escravos e índios, to para a índia como também, mas em muito me­ vas e aos seus filhos que continuariam a receber
por um ouvidor-geral e por soldados e oficiais. As nor grau, para a África Oriental. Na índia, essas protecção contra a pobreza por intermédio dos fa­
instruções reais visavam, de um modo claro, uma órfãs começavam por ser alojadas em casas parti­ vores reais. Em 1681, o rei reafirmou a sua protec­
presença militar e benefícios econômicos e comer­ culares, sob a custódia de filiais da Santa Casa da ção às viúvas e órfãos de pessoas mortas ao serviço
ciais. Q ue o monarca pretendia de facto estabelecer Misericórdia, das quais a mais activa era a de Goa. da Coroa e indeferiu os cancelamentos, pela Rela­
uma colônia é confirmado por uma cláusula conce­ A primeira década do século xvii viu Goa assumir a ção de Goa, de alguns provimentos feitos por vice-
dendo terras e isentando as mesmas de impostos, liderança no estabelecimento de um recolhimento -reis e governadores (idem: rv, 54-58). Na índia, a
durante um período de três anos, para encorajar o (Nossa Senhora da Serra), para abrigar essas órfãs e política de fixação da Coroa baseava-se no casa­
estabelecimento de pessoas na colônia do Sacra­ outras mulheres solteiras. Tratou-se de um esforço mento entre pessoas nascidas em Portugal ou de as­
mento. Em 1680 foi construído um forte, que os de colaboração da Coroa (fundos para transporte e cendência portuguesa. Isto não só era visto como
Espanhóis destruíram nesse mesmo ano. Regressou manutenção), das misericórdias, senado da Câmara uma necessidade demográfica, como a Coroa tam­
às mãos dos Portugueses em 1683, mas a colônia (despesas de alojamento e alimentação), e vice-reis bém deverá ter estado consciente da conveniência
não foi ao encontro das expectativas régias em ter­ e governadores (dotes). Para o êxito de um tal pro­ da preservação de um sentido português de identi­
mos de instalação de população (Alden, 1968: 66- grama foi vital a concessão, por vice-reis e gover­ Mombaça, in Georg Braun e Francisco Hogcnberg, dade e de valores.
-72; Serrão, 1977-1990: v, 304-305). nadores, de dotes que eram em geral sob a forma Civitates O rbis Terrarum , Colônia, 1572 Os problemas que surgem para uma análise de­
Os Portugueses foram-se estabelecendo para lá do comando de uma fortaleza ou feitoria, ou de mográfica do'Império ultramarino português no
do litoral, o que, com o tempo, deu origem a nú­ um cargo ou oficio e de dinheiro. As nomeações tou cada vez mais os donativos em dinheiro, mas período de 1570-1697 são pouco diferentes dos da
cleos de colonização. Todavia, esta fixação não ti­ feitas por vice-reis ou governadores estavam sujei­ em compensação, desde a morte, em 1656, de época anterior. Há poucos problemas no que se re­
nha características que merecessem a designação de tas à confirmação real. Entre as órfãs do rei encon­ D. Rodrigo da Silveira, conde de Sarzedas, que fo­ fere à Madeira e aos Açores: no final do século
fronteira em movimento. Eram arquipélagos de travam-se tanto mulheres nobres como plebeias, e ra adoptado o expediente de distribuir dois ofícios xvn, a Madeira contava cerca de 50 000 habitantes
colonização, isolados uns dos outros por enormes a posição social da mulher frequentemente deter­ a cada órfã, de acordo com o princípio de que os e os Açores cerca de 90 000 (Godinho, 1978:
expansões territoriais. Nos séculos xvi e xvn, a minou a natureza do dote. Em 1694, o rei clarifi­ rendimentos do segundo compensavam a perda da 14-15). A qualidade e a quantidade dos dados, bem
fronteira do Brasil era uma fronteira aberta, se é cou um alvará de 1583 em que se confirmava a au­ doação monetária (mercê). A resposta fora positiva e como as disparidades entre locais e para períodos
que existia na realidade e não passava apenas de um toridade dos vice-reis para concederem dotes a muitos soldados tinham abraçado entusiasticamente específicos, estão sujeitas a uma certa generalização
estado de espírito. Por essa altura já eram notórias raparigas órfãs «conforme a qualidade das suas pes­ o sagrado matrimônio. Em 1665, o vice-rei alertou e imprecisão. O problema é ainda mais complicado
algumas das características dos futuros padrões de soas». Só as «órfãs de maior posição» eram elegíveis o rei para o facto de não existirem ofícios suficien­ com a imprecisão dos relatórios. Para o Estado da
colonização do Brasil: um grande desequilíbrio de­ para dotes como as capitanias de Chaul, Baçaim, tes para distribuição. A falta de ofícios e cargos índia nem sempre é claro se os dados se referem
mográfico, favorecendo o litoral e a zona interior Mombaça, Goa e outros postos importantes (Cor­ criou uma lista de espera de «recolhidas» prontas apenas à população nascida em Portugal, se in­
imediata; mesmo no litoral, as principais concen­ reia, 1948-1958: iv, 43-46, 53, 58-59). para o casamento mas para quem não existia dote. cluem os descendentes de portugueses, ou os indí­
trações verificavam-se nalgumas regiões específicas, Enquanto o alvará de 24 de Novembro de 1583 O vice-rei pediu ao rei a resolução do problema genas convertidos ao cristianismo, ou se abarcam
tal como a Várzea de Pernambuco, Recôncavo da especificara que só as órfãs do rei provenientes de (Correia, 1948-1958: iv, 52-54). toda a gente, independentemente de filiações reli­
Bahia e Baixada Fluminense. Era com alguma jus­ Portugal eram elegíveis para tais cargos e ofícios, A Coroa ampliou o seu escudo de protecção às giosas, grupos étnicos ou lugares de nascimento.
tificação que o cronista Frei Vicente do Salvador, uma subsequente ordem régia, de 25 de Fevereiro viúvas e órfãos de pessoas mortas ao serviço do rei. Para a África Oriental, Axelson diz-nos que os
do princípio do século xvii, comparava os Portu­ de 1595, ampliara a elegibilidade a esses dotes tam­ A intenção tinha duas finalidades: no caso das viú­ portugueses aí instalados no princípio do século
gueses aos caranguejos, tal era a sua afinidade com bém a órfãs de descendência portuguesa nascidas na vas nupciáveis, tratava-se de promover o seu casa­ xvii seriam, no máximo, cerca de 400. Para mea­
a faixa costeira. Ásia, filhas de fidalgos e de cidadãos proeminentes. mento; no caso das que não tinham hipóteses, ou dos do século diz-nos que o número de casas por­
Os incentivos da Coroa para a colonização da N o Recolhimento de Nossa Senhora da Serra en­ não desejavam voltar a casar, tratava-se de as prote­ tuguesas era de 30 para Sena e de 40 para Tete
América portuguesa não incluíam — o que não contravam-se filhas de fidalgos e cavaleiros que ha­ ger, e aos filhos, da desonra e destituição. Podemos (Axelson, 1964: 14, 137). De acordo com Bocarro,
deixa de ser surpreendente — provisões especiais viam morrido ao serviço do rei, que agora passa­ ilustrar essa beneficiência régia com dois exemplos. mesmo para as principais áreas de fixação portu­
para promover o aumento natural da população vam a poder receber tais dotes. Esta mudança de Em 1616 verificou-se a confirmação real de uma guesa na índia, os números dos portugueses e cris­
portuguesa no ultramar por intermédio de uma política, permitindo aos vice-reis que promovessem tença de 300 patacas a Dona Isabel de Sá, viúva de tãos locais («pretos cristãos») e casados (sem inclu­
atenção particular aos principais instrumentos desse o casamento de mulheres de origem portuguesa Femão da Silva de Meneses, que morrera ao servi­ são dos homens da Igreja) demonstram claramente
crescimento natural, ou seja, as mulheres nascidas nascidas na índia, fazia parte das instruções a ço do rei nas campanhas em tomo de Baçaim, de o estatuto de minoria demográfica dos portugue­
em Portugal. Foi na índia que as políticas régias, D. Francisco da Gama, em 1597, «sendo pessoas de modo a permitir-lhe criar os quatro filhos e aliviar- ses, tal como podemos verificar pela sua análise
sem paralelo em qualquer outro lado, promoveram qualidade e tão desemparadas que não tenhão ou­ -lhe a pobreza. Depois da morte do marido, em para 1635 (de que excluí as estimativas para os es­
os casamentos e concederam uma protecção excep­ tro remédio» (Correia, 1948-1958: 11, 455; iv, 57-58). 1616, a viúva do capitão João Rodriguez Camelo cravos e «pessoas de serviço», bem como os nú­
cional às mulheres portuguesas ou de ascendência Os dotes haviam tomado a forma de uma doa­ mudou-se da sua residência em Ceilão para Goa, meros referentes aos soldados transitórios): cidade
portuguesa. Enquanto no século xvi a base da polí­ ção em dinheiro e da concessão de um oficio. Nos onde colocou três filhas no Recolhimento de Nos­ de Goa: 3000 fogos, incluindo 800 fogos de casa­
tica de casamentos de Afonso de Albuquerque, em dias gloriosos do Estado da índia, os vice-reis con­ sa Senhora da Serra. Para o seu sustento foram dos portugueses, 2500 «casados pretos cristãos, ca-
Goa, Cochim e noutros pontos, fora a promoção cediam 1000 xerafins a cada noiva, para além de concedidos mais 200 xerafins, para além dos 800 narins e de outras nações da índia»; Baçaim: 400
da fixação, concedendo incentivos aos soldados um cargo público ou a capitania de uma fortaleza. «de ordinária», à Misericórdia (idem: m, 197-199, portugueses «brancos», 600 pretos cristãos; C o ­
portugueses, incluindo os nobres, para se casarem A diminuição dos recursos financeiros impossibili- 205). O compromisso da Coroa em conceder pro­ chim: 300 portugueses «brancos», 200 pretos cris-

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

tãos; Chaul: 200 casados portugueses, 50 «pretos autoridade, fossem elas conhecidas por imperado­ duas questões fundamentais: quais os passos que os culturas não só tinham tabus religiosos com o tam­
cristãos da terra» dentro das muralhas e 500 «ho­ res, sultões, reis, chefes ou «homens grandes». Os Portugueses deram para se integrarem em socieda­ bém severas sanções sociais contra as mulheres que
mens casados pretos entre cristãos e gentios»; Da- Portugueses encontravam-se expostos a comporta­ des não europeias e que políticas e práticas utiliza­ casassem no exterior das mesmas. A ausência virtual
mão: 400 casados («entre portugueses e seus filhos, mentos e práticas que consideravam chocantes ou ram para integrarem não-europeus na sociedade ul­ de mulatos — não obstante a presença de fortes
e alguns pretos cristãos»); Jafanapatão: 120 portu­ bizarros, como o canibalismo ou a sodomia ritual. tramarina portuguesa? portugueses como o de São Jorge da Mina e de
gueses e seus descendentes, 200 pretos cristãos; Não podiam fugir à realidade diária — embora os Durante a procura de exemplos para a primeira Axem — , na Guiné Inferior foi notada num do­
Coulão: 60 portugueses «entre casados e solteiros», navios transportassem vinhos e azeite de Portugal questão irei examinar quatro contextos em que se cumento de 1572 e atribuída ao facto de as compa­
100 homens da terra, casados e solteiros; Diu: 59 para África, Ásia e América — , de que a experiên­ verificou uma tal integração, e que são os seguin­ nheiras negras cometerem abortos ou infanticídios,
casados portugueses, 100 casados pretos cristãos; cia ultramarina era de acomodação e adaptação. tes: o biológico, o psicológico, a terra e o comér­ enquanto tais inibições não se encontravam presen­
Cananor: 40 portugueses, casados e solteiros, e O termo «integração» ganhou uma complexida­ cio. Não fazia parte das políticas portuguesas, nem tes na Guiné Superior (MMA: m, 90). Na índia, a
mais 30 «casados filhos da terra pretos»; Cranganor: de que desvirtua a sua etimologia latina, integrate, se verificou um esforço colectivo sustentado por conversão ao cristianismo não significava um enfra­
40 casados portugueses, 60 casados locais; Colum- significando «tornar completo ou introduzir uma parte dos Portugueses, para se integrarem nas so­ quecimento da consciência de casta, mas eram
bo: 350 casados portugueses e seus descendentes, parte no todo». Usado na psicologia, na economia ciedades ou culturas não europeias. De facto, os muitos os brâmanes da elite que não permitiam
2000 «pretos chingalas e doutras nações»; Malaca: e no direito, é na sociologia e nas ciências políticas esforços da Igreja e do Estado dedicavam-se a ate­ que as filhas casassem com portugueses.
250 portugueses. Macau poderá ter contado cerca — apesar das ambiguidades — que o termo ganha nuar e até, se possível, a eliminar, todas as tendên­ Quanto aos casamentos com mulheres africanas
de 850 casados portugueses e seus descendentes, o significado de um indivíduo ou grupo a tomar-se cias que pudessem levar vassalos portugueses a afas­ ou de descendência africana, quer em África quer
num total de cerca de 1000 pessoas no final do sé­ parte de uma colectividade social muito mais am­ tarem-se do aprisco português. Este problema nas ilhas atlânticas ou no Brasil, a Coroa não os
culo. Subrahmanyam analisou estes dados para pro­ pla. Está por definir a maneira como se determina existia principalmente no Estado da índia, onde as encorajava. Na África continental, São T o m é
duzir os seguintes agregados de casados para a Ásia que a integração se realizou, mas, para que se veri­ tentações eram grandes, uma vez que os reis e sul­ e Príncipe e arquipélago de Cabo Verde, a não
portuguesa em 1635: 4903 casados «brancos» e 7435 fiquem progressos nesse sentido, é necessário que tões hostis à causa portuguesa ofereciam lucrativas manifestação de uma política concreta era um re­
casados «pretos». (Bocarro, 1637-1640; Subrahma­ haja uma interacção entre indivíduos ou pequenos recompensas aos portugueses dispostos a entrar para conhecimento tácito da inevitabilidade de tais
nyam, 1993: 219-22). Dadas as vicissitudes da índia grupos esforçando-se para alcançarem um certo o seu serviço. Os frades, sacerdotes, capitães e go­ uniões, quer fossem ou não santificadas pela Igreja,
portuguesa entre 1630 e 1669, a sugestão feita por grau de coesão que possa reflectir-se na identifica­ vernadores estavam constantemente atentos aos isto porque o que se sobrepunha nas mentes dos
Charles Boxer de que um número de 1500 portu­ ção do grupo e nos valores partilhados. E claro que portugueses que pudessem não só esquecer o cato­ reis portugueses era a colonização e não a santidade
gueses brancos de Sofala a Macau em 1669 (deduzi­ grupos diferentes podem ter pontos de vista diver­ licismo como cometer apostasia. Todavia, os reis (Boxer, 1963: 11-15). Porém, no que se refere ao
do de uma referência do vice-rei nesse mesmo gentes sobre o que constitui uma «integração» e até portugueses eram suficientemente pragmáticos para Brasil, a Coroa foi mais vigorosa no desencoraja-
ano) é exageradamente baixo, mas não por muito, que ponto a mesma é desejável. A integração pode reconhecer que a implementação da política da mento de casamentos entre portugueses e mulheres
pode não estar assim tão longe da verdade (Boxer, ser atingida graças a uma mutualidade de interesses Coroa era impossível sem uma acomodação junto de descendência africana, fossem elas escravas ou
1969a: 129). Porém, sem tomarmos em conta as fa­ ou pode envolver um certo grau de coerção (Goul — senão até uma integração — das culturas anfi­ mulheres livres. A correspondência oficial está
lhas estatísticas, não há dúvidas de que o Brasil e Kolb, 1965: 656-657; Grawitz, 1991: 225; Kuper e triãs indígenas, apesar de a Coroa insistir que essa repleta de admoestações a respeito da grande im o­
substituira o Estado da índia como principal ponto Kuper, 1985: 401). Historicamente, é fácil apontar integração deveria ser feita nos termos desejados ralidade prevalecente nas relações sexuais entre
de fixação de uma população portuguesa. Em 1570, para as provas de integração se esta for vista como pelos Portugueses e não nos indígenas. portugueses e mulheres negras escravas e livres.
as estimativas dão, para o Brasil, uma população de querendo dizer, impor ou inserir a nossa presença Os casamentos interculturais colocaram a Coroa O desencorajamento tomou formas activas, tal co­
20 760, que aumentou para 29 400 cerca do ano de num ambiente estranho. N o caso dos Portugueses, perante um sério dilema. As políticas da Coroa por­ mo a recusa de cargos públicos a um homem casa­
1585. N o fim do século x v ii , os brancos totalizavam - tai é evidenciado pelas cidades, igrejas católicas, tuguesa preferiam que os portugueses casassem com do com uma mulher de descendência africana. O s
cerca de 100 000, ou seja, um terço do total da po­ fortalezas, ranchos, plantações e introdução da flora mulheres portuguesas. Mas a realidade era outra. colonos também impuseram as suas próprias san­
pulação assimilada nas áreas colonizadas do Brasil e fauna europeias. À face mais negra da integração N o império ultramarino português, as mulheres ções e recusavam a esses homens a elegibilidade pa­
(Johnson, 1984: 279; Marcílio, 1984: 47). é a da introdução de doenças europeias, devastado­ não eram em número suficiente para satisfazer a ra a entrada na Santa Casa da Misericórdia e nas
ras para os ameríndios. Em resumo, havia muitas procura. Se o libido lusitano tinha de ser satisfeito, Ordens Terceiras. O ponto de vista oficial era o de
______ i n t e g r a ç ã o "_____ provas de que os Portugueses estavam para ficar. se o casamento tinha a influência estabilizadora que que os descendentes mulatos dessas uniões não
Os porcos europeus que corriam pelas ruas de um a Coroa pretendia e se era necessário afastar os por­ constituíam os elementos mais desejáveis para a fi­
Enquanto as comemorações dos 500 anos da povoado do Recôncavo da Bahia eram um teste­ tugueses das suas amantes não europeias, tal como xação portuguesa.
histórica viagem de Cristóvão Colom bo se refe­ munho tão válido como a declaração de intenção o desejavam os representantes da Igreja que luta­ Em contraste com esta política de discriminação
rem a um período de contacto ou de «encuentro» de construir uma fortaleza na Zambésia, as ordens vam contra a imoralidade, isto para não falar da contra os portugueses que casassem com mulheres
entre os Europeus e os povos indígenas das Caraí- régias, os decretos dos vice-reis e as constituições proliferação de descendentes ilegítimos, e se se pre­ de descendência africana, a Coroa portuguesa não
bas e do continente americano, os Portugueses arquiepiscopais. Aqui, a minha finalidade é olhar tendia uma procriação que era essencial para a se opunha às uniões com mulheres ameríndias.
experimentaram, não um, mas toda uma série de para a dimensão humana da integração e como tal obtenção de futuros soldados e colonos, então era O caso mais manifesto de uniões sexuais euro-
«encontros» ao longo de mais de um século e nos a mesma exemplifica a diversidade e imprevisibili- óbvio que a Coroa teria de encorajar os casamentos -ameríndias verificou-se na zona central a sul do
quatro cantos do mundo. Em resumo, para os Por­ dade da condição humana, enquanto sublinha a na­ interculturais. Brasil e deu origem aos Paulistas. Quando da pene­
tugueses, esses encontros faziam parte de um pro­ tureza dinâmica da integração. As decisões indivi­ A política portuguesa de casamentos entre euro­ tração portuguesa para norte, para o Maranhão e
cesso dinâmico e auto-renovador. Em finais do sé­ duais chocavam-se frequentemente com as políticas peus e mulheres não europeias foi inconsistente. Pará, os colonos levaram mulheres índias como
culo xvii já haviam entrado em contacto com as oficiais, tanto civis como religiosas. O processo de Entraram em jogo factores raciais e religiosos. As concubinas. Tais uniões podiam ser perigosas para
principais religiões do mundo, tanto de revelação integração também podia reflectir a natureza das mulheres envolvidas eram predominantemente a saúde dessas mulheres, uma vez que as ameríndias
como não-revelação, bem como com todos os cul­ culturas e sociedades indígenas anfitriãs, bem como muçulmanas, budistas e hindus, ou provinham de não tinha protecções contra a varíola, sarampo e
tos, incluindo as crenças animistas, fetichistas e de o grau em que estas permitiam, se opunham ou uma gama de cultos e religiões que os Europeus outras doenças europeias. As autoridades eclesiásti­
adoração dos antepassados. Na África, Ásia e Amé­ eram indiferentes à integração portuguesa. O tem­ consideravam como pagãs e idólatras. Eram ame­ cas não tomaram posição contra tais uniões, a não
rica, os vice-reis e governadores lidavam diaria­ po e o espaço também foram factores contribuintes ríndias, africanas e asiáticas. As suas culturas varia­ ser que estas envolvessem coerção ou abusos e a li­
mente com uma vasta gama de políticas — impé­ e circunstâncias conducentes ou não a uma inte­ vam enormemente, da China ao Japão e da África gação não houvesse sido escolhida de livre vontade
rios, cidades-estado, federações de povoações e gração, e estavam em constante mutação. A inte­ à América, e cada uma dessas culturas tinha um es­ peía nativa ameríndia.
tribos — e com uma ampla variedade de figuras de gração era um processo com dois sentidos. Existem paço e um papel próprio para as mulheres. Muitas Quanto aos casamentos entre portugueses e mu-

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

lheres indianas, os desencorajamentos que se pos­ vessem esses casamentos, (idem: iv, 463-464). Em cente advogado para a sua causa, o qual os reis pro­
sam ter verificado foram provavelmente mais da 1650, o rei escreveu ao vice-rei, ao arcebispo de curavam havia tanto tempo. Em 1684, o seu alvará
parte dos orientais do que da Coroa portuguesa ou Goa e ao senado da Câmara dando instruções para de vice-rei dirigia-se às castas mais preeminentes de
das autoridades eclesiásticas. A política de casamen­ que se reunissem e discutissem esses casamentos. Goa, Bardez, Salsete e da Província do Norte. R e­
tos promovida por Afonso de Albuquerque ba­ N o que se referia ao rei, as candidatas ideais eram velava uma aguda sensibilidade e compreensão para
seou-se na premissa da conveniência de fixar os as filhas de brâmanes ou de ricos chardós. Os vice- com a aflitiva posição das mulheres que, tendo fi­
soldados, transformando-os em colonos úteis e es­ -reis e os governadores foram exortados a aborda­ cado viúvas pela morte do marido, num casamento
táveis por intermédio de casamentos com mulheres rem os pais a respeito de tais uniões. C om o é evi­ combinado pelas famílias, se sentiam agora livres
indianas da casta brâmane. Algumas eram viúvas, dente, os arcebispos e os vice-reis foram dilatórios para praticar o seu cristianismo e se mostravam re­
outras tinham casamentos infelizes ou estavam se­ a esse respeito. Uma ordem real de 10 de Março de lutantes em passar por um segundo casamento.
paradas dos maridos, e outras eram virgens. A re- 1672 já transmitia uma maior sensação de urgência. Tratadas como párias pelas outras mulheres hindus,
cém-criada classe social dos casados obteve privilé­ Exprimia o desejo de D. Pedro de «honrar e favo­ impedidas de gozar a alegria dos filhos e demasiado
gios e isenções especiais (Correia, 1948-1958: 1, recer aos naturais da índia, e de fazer o mesmo aos tímidas para frequentarem a igreja abertamente,
4.09-420, 440-446). Os casamentos inter-raciais, na portugueses que casarem com as filhas de brâmanes eram descritas pelo vice-rei como levando uma vi­
índia, não parecem ter constituído uma grande e doutras castas nobres». O que estava em jogo não da de «perpétua desconsolação e tristeza». Ordenou
preocupação para os Habsburgos. Em Dezembro era uma súbita explosão de entusiasmo pelos con­ que qualquer mulher («as mulheres da terra de
de 1641, logo depois da Restauração o senado de tactos interculturais mais íntimos, mas sim uma du­ qualquer casta que sejão»), de qualquer casta, podia
Goa escreveu a D. João IV propondo que os brâ- ra realidade; se não se verificasse um aumento na­ casar com um português. Um familiar que tentasse
manes e outras pessoas ricas de Goa, Salsete e re­ tural da população luso-indiana, as repercussões negar-lhes esse direito veria os seus bens confisca­
giões adjacentes fossem incitadas a casar as filhas demográficas, financeiras e militares significariam a dos pelo tesoureiro-real, bem como a perda de
com os portugueses «para se virem a povoar aque­ ruína para a pátria-mãe (idem: 1, 454-458). Foram honra e preeminência nas gancarias. Os padres das
las partes de gente branca». Em Março de 1664, o prometidas mercês e honras aos portugueses que paróquias receberam instruções para promover e
rei enviou a primeira de uma verdadeira torrente casassem com brâmanes e chardinas. abençoar tais uniões. Os noivos receberíam cargos,
de cartas aos vice-reis, emitiu alvarás e incluiu Foi apenas na pessoa de Francisco de Távora, ofícios da república e postos militares. Apesar de o
cláusulas nas suas instruções para que eles promo­ conde de Alvor, que a Coroa encontrou o convin­ crescimento da população e a defesa serem preocu­
pações fundamentais, o vice-rei também via nessas
São Jorge da Mina, in Pierre Vander A a, La Galerie Agréable du M onde [...], Leida, 1729? uniões uma forte afirmação de uma presença cristã
e a total extinção daquilo que referia como «os res-
saibos do gentilismo» (idem: 1, 459-462). Desconhe­
ce-se até que ponto a reacção poderá ter sido boa.
Tais uniões santificadas não diminuíam a explora­
ção sexual das escravas domésticas por parte dos
Portugueses.
N o caso das mulheres chineses e japonesas, os
Portugueses parecem ter casado e conseguido rela­ Albert Eckhout, mulher africana, óleo sobre papel, pintado
ções estáveis. Bocarro referiu-se ao número dos no Brasil, 1644 (N M D )
portugueses, no Japão, que haviam casado com
mulheres japonesas, e Peter Mundy, o agente co­ do rei de Ormuz se casou (1614) com um fidalgo
mercial da Companhia Inglesa das índias Orientais português, ela e o filho, ambos cristãos, foram am­
que visitou Macau em fins de 1637, comentou que plamente recompensados pelo Estado: a mãe rece­
lhe haviam dito que em Macau só existia uma mu­ beu a fortaleza de Ormuz como dote e uma tença
lher nascida em Portugal, e que as esposas dos por­ de 1000 xerafins, e o filho a Ordem de Cristo e o
tugueses eram chinesas, por vezes viúvas de um forte de Baçaim (Correia, 1948-1958: 1, 421-424).
primeiro casamento, também com um português Em tais casos, os noivos eram frequentemente ca­
(Boxer, 1933: 40, 64). pitães de fortalezas ou tinham variáveis graus de
As mulheres provinham de todas as posições so­ nobreza.
ciais. Muitos dos comentários negativos diziam res­ Houve também mulheres portuguesas que casa­
peito às bailadeiras hindus, às escravas da África e ram com indígenas de elevado estatuto, tais como
do Brasil, ou às prostitutas dos bordéis ou casas de dignitários de Estado, príncipes e reis orientais.
chá do Japão, cuja clientela deverá ter sido com­ A mais notável foi talvez a óifa do rei, Dona Fran-
posta principalmente por marinheiros. Foi dada cisca de Vasconcelos, que embarcou para a índia
menos projecção àqueles casamentos em que a mu­ com dezoito anos, na frota de 1584. Órfã de pai e
lher provinha de uma posição social claramente su­ mãe, era sobrinha de Matias Leite Pereira, que a
perior à do marido, tal como foi o caso 11a índia. acompanhou durante a viagem. Casou com o rei
O século xvn fomece-nos muitos exemplos destes, das Maldivas. O filho dela, Filipe, herdou o trono.
de que damos amostras representativas: verificaram- Quando da morte deste, foi a filha Inês que lhe su­
-se casamentos em que as noivas eram uma sobri­ cedeu no trono, apesar de ser casada com um fidal­
nha do rei de Ampaza, uma princesa cingalesa, a go português, que foi feito príncipe. Em 1589, ou­
irmã do rei de Ormuz e a neta do sultão Mialexá, tra órfa do rei casou com um príncipe cingalês, e
herdeira do reino de Bijapur. Quando outra irmã em 1597 ou 1598, a órfa do rei, Dona Ana, casou

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POPULAÇAO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

identificavam-se mais com a índia, Ceilão, Angola nascido em Portugal era algo de inerente ao termo
ou Brasil do que com Portugal continental. Em «reinol», pelo que os reinóis exibiam a circunstân­
1642, o governador-geral da Batávia observou que cia do nascimento como se fosse um distintivo de
a maior parte dos portugueses via a Ásia como sen­ honra. Pyrard de Lavai deixou-nos uma perspectiva
do a sua pátria (Boxer, 1969a: 120). Todavia, con­ diferente, afirmando que em Goa os «reinóis» eram
vém salientar, antes de partirmos do princípio de objecto de troça por terem acabado de sair do bar­
que o corolário inevitável de uma tal transferência co e serem inexperientes nas maneiras do mundo.
de afectos de um local para outro seria uma dimi­ Essa troça só terminava com o amadurecimento
nuição da lealdade ao rei, ao cristianismo e ao or­ conseguido depois de um ano passado na índia, e o
gulho de ser português, que nem sempre assim foi. termo passava a referir os que viessem na armada
Um caso notável foi o do mercador e aventureiro do ano seguinte (Lavai, 1619: 11, 8). Mais tarde,
Francisco Vieira de Figueiredo. Uma carta que es­ quando a presença dos nascidos em Portugal se tor­
creveu perto do fim da sua vida revela o seu infle­ nou menos frequente, também o termo «reinol»
xível compromisso para com Portugal, mesmo ape­ passou a ser tomado como uma marca de distinção.
sar de residir na Ásia durante cerca de quarenta O termo «filhos da terra» tinha duas conotações:
anos, de ter casado com uma não-europeia (a sua em primeiro lugar referia-se aos que se gabavam de
segunda mulher era macaense) e de estar integrado uma impecável ascendência portuguesa mas não
nas redes comerciais da Ásia. Em 1662 escreveu ao haviam nascido em Portugal, e em segundo lugar
vice-rei e disse de si próprio: «Mas o zelo de Cris­ referia-se às pessoas nascidas no Ultramar mas que,
R ua Direita de Goa, in Jan Huygen van Linschoten, Itinerarium ofte Schipvaert naer Oost ofte Portugaels Indien, tão e de um bom Português me faz fazer esta.» apesar de terem sido criadas num meio social e cul­
Amesterdao, 1614 (BN) O vice-rei referiu-se a Figueiredo como sendo «um tural português, não eram de ascendência exclusi­
muito fiel vassalo de vossa Majestade» (Boxer, vamente portuguesa e contavam não-europeus en­
com o príncipe real de Pemba. Esses casamentos ameríndios e os seus interesses. Apesar de terem si­ 1967b: 2,34-3 5,73,77). tre os pais ou antepassados (em geral do lado
foram também com indígenas que já se haviam do criados por mães ameríndias e serem versados Seria de esperar que as pessoas nascidas de pais materno). O jesuíta Valignano observou que na ín­
convertido ao cristianismo ou que o fizeram pelo nos costumes e línguas ameríndias, respondiam aos portugueses mas não em Portugal, bem como as de dia se verificava uma gradação baseada nas circuns­
casamento. O príncipe muçulmano do Abadaxão, pedidos régios de assistência e eram susceptíveis às descendência portuguesa, tivessem menos senti­ tâncias do nascimento: em primeiro lugar estavam
que se converteu ao cristianismo e tomou o nome ofertas de mercês e outras honrarias. mentos de lealdade para com o rei e o país. Contu­ os reinóis; em segundo, as poucas pessoas nascidas
de D. Aieixo de Meneses, escolheu uma fidalga A integração está ligada à questão da identifica­ do, a sociedade portuguesa no Ultramar estava lon­ 11a índia mas com uma impecável ascendência por­
portuguesa para esposa (idem: 1, 424-432). ção do eu e do grupo. Muitos portugueses, depois ge de ser homogênea. Uma das clivagens era a que tuguesa dos dois lados; em terceiro, vinham os cas­
Tais casamentos interculturais eram criticados de tantos anos a viverem no império ultramarino, se verificava entre «reinóis» e «filhos da terra». Ter tiços, filhos de pais europeus e mães indígenas; em
com base no facto de os parceiros femininos de­
sempenharem um papel mais forte, pelo que era
mais provável que os maridos portugueses fossem
assimilados pelas culturas indígenas do que o opos­
to. Na índia levantou-se, em mais de uma ocasião,
o espectro da traição por parte dessas mulheres. Tal
pode ter ocorrido em casos individuais, mas não
era a norma. Houve casos de lançados e de renega­
dos que se assimilaram tão completamente às cultu­
ras indígenas que renunciaram à sociedade portu­
guesa, à identidade portuguesa e ao catolicismo. Os
seus descendentes, de uma ou mais mulheres, ti­
nham mais probabilidades de crescerem com o
membros da cultura anfitriã da mãe do que no
mundo português. O caso mais notório de identi­
dade colectiva foi o dos paulistas do planalto de Pi-
ratininga, no Brasil. Frutos de relações sexuais en­
tre homens europeus e mulheres ameríndias, eram
louvados pela sua habilidade como sertanejos, pelo
conhecimento das línguas índias e pelas capacidades
de luta. Estavam frequentemente em conflito com
as políticas da Coroa, não ligavam aos governado­
res e atacavam as aldeias jesuítas. Todavia, também
eram conhecidos pela escravização ilegal de ame­
ríndios, e em mais de uma ocasião traíram os povos

Cena rural na região de Goa (à esquerda), canarins e


lascarins (à direita), in Jan Huygen van Linschoten,
Itinerarium ofte Schipvaert naer O ost ofte Portugaels
Indien, Amesterdão, 1614 (BN)

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

quarto, os mestiços e em último lugar os indígenas de impostos a que até os muçulmanos estavam su­ crioulas e participavam na política local. Quanto tal como eram encarnadas pelos chefes locais.
indianos. Todavia, as conotações desses termos fo- jeitos. O facto de nunca ter visitado Portugal e de mais êxito alcançassem mais provável era a assimi­ Também envolvia indivíduos portugueses. No
ram-se modificando. Na índia do século x v ii , «cas­ viver num ambiente exclusivamente muçulmano lação e mais reduzidas as hipóteses de despertarem princípio do século xvii , a Coroa portuguesa con­
tiço» aplicava-se aos portugueses nascidos na Asia não foi suficiente para abalar a sua fé como cristã antagonismos. Era menos provável que os plebeus cedeu terras e camponeses sujeitos a tributos às
mas de descendência portuguesa pura, enquanto nem a lealdade para com os Portugueses e as suas portugueses experimentassem uma mobilidade eco­ missões jesuítas e dominicanas no Zambeze, como
«mestiços» se referia a quem quer que fosse que ti­ causas (Maclagan, 1990: 181-189). nômica e a sua assimilação marital era com as ne­ meio para financiarem as suas actividades. Estes
vesse sangue europeu, mesmo que muito pouco Uma muito diferente perspectiva de integração, gras, as mulatas e as índias. Havia uma maior inci­ eram os prazos eclesiásticos. Enquanto a Coroa
(Boxer, 1963: 62-63). Também era este o caso do também relacionada com o tema da identidade, diz dência de colonos transitórios entre os plebeus portuguesa concedia «prazos» a indivíduos — tanto
Brasil, onde aplicavam toda uma variedade de ter­ respeito à integração dos Portugueses nas comuni­ portugueses, enquanto as elites tinham mais possi­ seculares como padres dominicanos — , nas ilhas
mos (mameluco, caboclo) para designar os descen­ dades ultramarinas europeias. Os meus dois exem­ bilidades de se transformarem em colonos definiti­ Querimba, não se mostrava disposta a ceder, tam­
dentes de casais euro-ameríndios. Tal como acon­ plos foram tirados da índia britânica e francesa e da vos (Bonacich, 1973). Ambos os grupos se acultura- bém a indivíduos, uma tal jurisdição sobre a África
tecia com as designações «mulato», «pardo» e América espanhola. N o primeiro, trata-se de famí­ ram linguisticamente, o que facilitou o processo de Central. Assim, quando em 1629 o Monomotapa
muitas outras, usadas para designar os descendentes lias portuguesas que, por medo, ou vítimas dos ata­ assimilação. concedeu à Coroa portuguesa a soberania sobre o
de ligações euro-africanas, esses termos traziam ques e depredações dos Ingleses e Holandeses, op­ Buenos Aires tinha um ambiente mais acolhedor seu reino, foram a Coroa e os seus representantes
consigo todo um espectro de nuances que podia ir taram por abandonar povoamentos portugueses, para os imigrantes portugueses do que as outras ci­ que exerceram a autoridade e não indivíduos.
desde o opróbrio até à aceitação. A consciência do como os de Columbo, Baçaim ou Chaul. Em vez dades da América espanhola. Não só não eram per­ Contudo, os custos das campanhas e a falta de
«outro» baseada no lugar de nascimento encontrou de se mudarem para Goa ou para outras comunida­ seguidos religiosamente, nem incomodados pela efectivos forçaram a Coroa a depender cada vez
uma expressão muito viva nas cartas escritas, na dé­ des portuguesas na índia, de regressarem a Portugal comunidade mercantil anfitriã, como também não mais dos indivíduos e dos seus exércitos privados.
cada de 1690, por um estudante brasileiro em ou de se deslocarem para o Brasil, optaram por tinham de sofrer o antagonismo revelado pelos pais Os poderosos senhores da guerra utilizaram as suas
Coimbra, e que foram dirigidas ao pai, que se en­ permanecer na índia. Havia menor propensão para crioulos de outros locais, que se opunham forte­ forças para expandirem o domínio português, en­
contrava na Bahia. Reflectiam a consciência de ter se deslocarem para áreas controladas pela Compa­ mente ao casamento das filhas com imigrantes por­ quanto preparavam os seus próprios ninhos apode­
nascido no Brasil, o esprit de corps existente entre os nhia Holandesa das índias Orientais do que para os tugueses. Em Buenos Aires, as diferenças entre os rando-se de terras na Carangalândia, mas a Coroa
estudantes nascidos no Brasil e o orgulho experi­ povoamentos que os Franceses e Ingleses estabele­ espanhóis e os crioulos eram tais que distraíam as recusou-se a conceder-lhes títulos de terras. Po­
mentado quando um deles se distinguia nos exa­ ciam naquela época. Era mais provável que os do atenções sobre os recém-chegados portugueses, e rém, no vale do'Zambeze, o controlo exercido pe­
mes, o que deu origem ao seguinte comentário Sul do Malabar se mudassem para Calcutá e Bom ­ estes, no seu papel de minoria intermediária, tive­ los portugueses e pelos afro-portugueses sobre as
(1698): «Se os filhos do Brasil não excedem os de baim e os do Coromandel ou Ceilão se dirigissem ram a possibilidade de se instalar num vazio para terras tongas foi reconhecido pela Coroa por inter­
Portugal, ao menos os igualam» (Russell-Wood, aos postos franceses de Pondichéri, Misore e Chan- mais tarde, com pouca oposição, realizarem a tran­ médio da concessão de títulos de terras. À finalida­
1973: 30» 34-35)* dernagor (Correia, 1948-1958: 1, 77-84). Terá isto sição da posição de intermediários para posições de era fazer com que a região se tornasse atraente
Os descendentes de casamentos interculturais resultado numa assimilação da identidade colectiva dominantes na sociedade portenha (Saguier, 1985: para os colonos portugueses. Já em 1646 o rei or­
podiam encontrar-se em posições altamente ambí­ portuguesa, ou pelo contrário, no reforço da rei­ 467-491). A comunidade portuguesa em Buenos denara ao vice-rei, em Goa, que dividisse igual­
guas no que se referia à auto-identificação, fosse es­ vindicação da identidade portuguesa, embora num Aires fornece-nos um caso a estudar de assimilação, mente as terras de Rios de Cuama pelos homens
ta por local de nascimento, paternidade, religião ou ambiente cultural predominantemente inglês ou aculturação e integração, nesta circunstância como casados. Foi assim que se criaram propriedades com
nacionalidade. Este potencial para as lealdades divi­ francês? E uma pergunta que continua sem res­ estrangeiros, numa comunidade fora da Europa títulos de posse garantidos por três vidas, após o
didas era ainda mais exacerbado quando essas pes­ posta. mas sujeita à jurisdição de uma potência europeia. que revertiam para a Coroa. A formação dos prazos
soas serviam não apenas como intermediários cul­ Os emigrantes portugueses para cidades da Amé­ A África Oriental permitiu um caso único de in­ representava um processo contínuo, através do qual
turais mas também como intermediários políticos e rica espanhola dão-nos uma perspectiva diferente tegração que envolveu a propriedade da terra e não só os portugueses, como também os colonos
diplomáticos entre os portugueses e os não-portu- quanto aos problemas da integração, assimilação e uma integração jurisdicionaí e social dos Portugue­ mestiços e índios, obtinham o estatuto de chefes
gueses. U m desses casos foi o da notável Juliana identidade nacional. Nos séculos xvi e x vii , Vera ses na zona inferior do vale do Zambeze. A gênese políticos com autoridade sobre os povos africanos
Dias da Costa (c. 1658-1734), residente na corte mo- Cruz, Cartagena, Lima e Buenos Aires contavam daquilo que, no século x v iii , era designado por (Lobato, 1962: 97-116; Newitt, 1969; 1973: 48-69;
gol, em Deli, no último quartel do século xvii e com comunidades portuguesas de imigrantes, inva­ «prazos» mas que já datava do século xvi, parece es­ 1995: 217-224; Boxer, 1963: 48-50).
princípios do século xviii . Nascera em Agra, filha riavelmente envolvidas no comércio (Cross, 1978; tar na influência adquirida por alguns portugueses Há uma dimensão social nos prazos que consti­
de Agostinho Dias da Costa, um médico português Canabrava, 1984), mas Buenos Aires era o único na sociedade africana. Esse facto foi facilitado pelo tui um exemplo único de integração. A Coroa es­
ao serviço do príncipe mogol Muazzan Bahadur refúgio onde estavam livres de perseguições reli­ costume dos chefes carangas, em nome do M ono- tipulara que fossem garantidas propriedades às mu­
Shah e de uma mulher escrava de uma begume de giosas. Muitos comerciantes portugueses haviam motapa, concederem condições especiais a estran­ lheres brancas, nascidas de pais portugueses, com a
Agra. C om o tal, Juliana era mestiça. Casou-se fugido para Buenos Aires para escaparem à Inquisi­ geiros para manterem a ordem entre os contingen­ condição de se casarem com portugueses brancos.
muito jovem , mas o marido desapareceu dos regis­ ção em Portugal ou às investigações inquisitórias tes estrangeiros e para mediarem as disputas entre Para além disso, também estipulara que esses prazos
tos e Juliana estava só quando entrou ao serviço da que ocorriam no Brasil. As composições sociais e as estes e os africanos. Nesta gênese, um segundo ele­ só podiam ser transmitidos pelo lado feminino,
esposa de Aurangzeb, tendo-lhe sido confiada a atitudes das sociedades anfitriãs espanholas eram di­ mento derivou da ocupação do Baixo Zambeze sempre com a condição de que a herdeira se casasse
educação de vários príncipes. Quando da morte de ferentes. Por exemplo, enquanto em Lima, Vera por Francisco Barreto e pela sua força expedicioná­ com um branco. Estes condicionamentos falharam.
Aurangzeb, em 1707, Dona Juliana apoiou a causa Cruz ou Cartagena os crioulos eram brancos e se ria (1569-1575). Um dos resultados dos termos do Havia falta de homens portugueses e os disponíveis
de Bahadur Shah numa muito contestada sucessão, consideravam como espanhóis, em Buenos Aires os acordo de paz com o Monomotapa foi que, no pareciam não agradar a tais mulheres. O resultado
e foram-lhe concedidas grandes honrarias quando o crioulos reconheciam-se como mestiços e manti­ princípio do século x vii , os capitães portugueses de foi que muitas das mulheres, detentoras de prazos,
mesmo subiu ao trono. Durante as conversações nham-se separados tanto dos espanhóis como dos Sena e Tete exerciam as funções dos antigos chefes casaram com mulatos ou com indo-portugueses de
entre os Mogóis e os Portugueses, Juliana exerceu índios. Em 1643 existiam entre 108 e 144 chefes de tongas, com total jurisdição sobre as terras, recolha Goa. Se a natureza da instituição dos prazos tinha
consideráveis influências a favor das propostas por­ família portugueses em Buenos Aires. Na sua de tributos e distribuição de mulheres e de saques origens africanas, tendo sido mais tarde incorporada
tuguesas e pode ter desempenhado um papel na maioria, eram colonos. Não obstante manter os depois de campanhas com êxito. Em resumo, a num contrato legal português, e africanização das
criação de um clima em que os Portugueses e os seus interesses comerciais, a elite também investia criação deste sistema de governo reflectia uma so­ detentoras dos mesmos — as ricas mulatas muzun-
Luso-Indianos não só eram bem recebidos na corte na terra e atingia um alto grau de assimilação eco­ lução africana para uma situação, também africana, gas — e a sua incorporação de portugueses e india­
como ocuparam posições importantes no império nômica. Assimilavam-se socialmente por intermé­ que envolvia valores e instituições africanas: a terra, nos, representa um caso excepcional de integração
mogol. Influenciou Aurangzeb a isentar os cristãos dio de casamento com mulheres espanholas e a «riqueza em pessoas», a jurisdição e a autoridade, intercultural.

144 145
POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS DE FIXAÇÃO E INTEGRAÇÃO

lor monetário, ganhavam um grande significado


cultural por causa da sua novidade e da origem es­
trangeira. Com o cada uma das partes impunha di­
ferentes critérios na avaliação do objecto a ser tro­
cado e como os benefícios eram mútuos, não se
punha a questão da exploração. Só mais tarde, no
caso dos ameríndios e com a transição da permuta
para a escravidão, houve uma modificação dessas
relações (Marchant, 1942; Couto, 1995: 281-284).
Para os Portugueses, a integração com os sistemas
de comércio indígenas não foi relevante nem na
África Central, nem na Ocidental, nem na América
do Sul.
Isto contrastava com o comércio na África
Oriental e na Ásia, onde já existiam portos estabe­
lecidos, infra-estruturas, instituições, sofisticados
mecanismos para o comércio oceânico e interoceâ-
nico, bem como dinâmicas comunidades mercan­
tis. A acomodação e integração eram essenciais para
os portugueses que desejavam atingir o êxito co­
mercial. Sob esse aspecto, foram ajudados pela
composição multinacional, multicultural e poliglota
de tais comunidades mercantis. Os Portugueses
eram apenas mais um entre os muitos grupos de
mercadores de diversas nacionalidades, religiões,
alianças políticas, etnias e línguas. A própria diver­
sidade desses mercadores levou a uma abordagem
diferente daquilo que era considerado «o outro», e
a participação dos estrangeiros era tolerada desde
que não violasse os códigos comerciais não escritos
e as práticas dos mercadores indígenas. Em Malaca,
Albert Eckhout, regulo africano, retratado no Brasil, óleo Goa e Cochim existiam mercadores nativos cuja ri­
sobre papel, 1644 (BJC) queza e experiência do oceano Índico e do comér­
cio asiático não podiam ser igualadas pelos Portu­
A confiança, a reputação e a adaptação são es­ gueses. O seu prestígio e recursos eram tais que,
senciais para o êxito do comércio. Os Portugueses em tempos de crise, até o próprio vice-rei portu­
tiveram sorte com o facto de os povos das costas da guês não se sentia diminuído quando lhes pedia
África Ocidental e da América do Sul banhadas pe­ empréstimos. Até certo ponto, os mercadores por­
las águas do Atlântico não terem tradições oceâni­ tugueses do Estado da índia operavam por consen­
cas nem serem comunidades mercantis dependentes timento tácito e eram colocados em posições de
do mar para sobreviver. Assim, os Portugueses não dependência dos indígenas. Em termos práticos,
interferiram em padrões de comércio marítimo já tudo isto pode ser resumido pela palavra «acesso»:
estabelecidos. Na África Central e Ocidental esti­ acesso a fornecedores, a redes de distribuição, a re­
veram largamente dependentes de intermediários des de mercadores, a homens de finança e a pessoas
indígenas para o fornecimento de bens africanos e com as necessárias capacidades linguísticas. Os Por­
de escravos e para a distribuição das importações. tugueses tinham de trabalhar dentro do sistema se
Pode dizer-se mais ou menos o mesmo para a re­ pretendiam ter acesso a capital ou navios. As re­
gião que se viria a tornar a Terra da Santa Cruz, compensas financeiras eram grandes para os que
onde não existia um comércio com bases marítimas conseguiam atingir esse grau de confiança.
antes da chegada dos Portugueses. Nos primeiros Viremo-nos agora para a segunda questão, ou
anos, para acesso ao pau-brasil e ao seu forneci­ seja: quais foram as políticas e as práticas utilizadas
mento, os Portugueses dependeram do trabalho pelos Portugueses para integrarem os povos indíge­
dos indígenas. Neste período, as relações com os nas num estilo de vida português? Enquanto a de­
povos indígenas não transcenderam o nível das cisão relativa ao grau de integração dos Portugueses
permutas tanto em África como na América do nas sociedades e costumes não europeus dependia
Sul. predominantemente do indivíduo, os esforços para
Era apenas para os Europeus que os objectos re­ a integiação de não-europeus nas sociedades ultra­
cebidos tinham um valor monetário. Para os Afri­ marinas portuguesas e para lhes inculcar os valores
canos, os objectos que recebiam em troca, que para portugueses eram caracterizados por iniciativas co-
os Europeus eram meras bugigangas de pouco va­ lectivas ou corporativas. Aqui, vamos limitar-nos Albert Eckhout, índia tapuia, óleo sobre tela, 1644 (N M D )

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147
POPULAÇÃO E SOCIEDADE POLÍTICAS d e f i x a ç a o e i n t e g r a ç ã o

dos quais pagaram o preço final por essa sua fé. dores de pérolas de Paravá, no Sul da índia, a dos nada que se comparasse com as que se verificaram
Tais conversões transcendem o espiritual. Os mis­ ameríndios do Brasil, a dos africanos antes do em­ posteriormente, em particular entre 1614 e 1622, al­
sionários não só eram violentos na condenação do barque para o Brasil ou as verificadas no Japão. tura em que pelo menos 434 missionários morre­
que encaravam como sendo práticas idólatras, co­ Apesar de os números envolvidos (algo especulati­ ram ou foram mortos, e em que se verificaram tor­
mo também condenavam costumes que considera­ vos) para o Estado da índia — considerado desde turas que conduziram a apostasias em massa, em
vam desviantes e bárbaros. A sua intenção não era Moçambique ao Japão — serem de um 1,2 mi­ particular depois de 1626. Em 1630, as torturas e as
apenas a de afastar os povos nativos dos seus deuses lhões, há provas de retrocessos tanto em termos re­ apostasias em massa tinham virtualmente acabado
ou divindades, mas também inculcar-lhes códigos ligiosos como de potencial integração, a não ser com a comunidade cristã em Kiushu, apesar de te­
de comportamento e de valores que se encontras­ que se verificasse a presença constante e forte de rem sobrevivido, em pequeno número, algumas
sem mais perto dos Portugueses. A sodomia, o ca­ uma autoridade secular portuguesa e de uma força comunidades criptocristãs através de todo o Japão
nibalismo, a poligamia e a adoração de ídolos eram coerciva capazes de reforçar a dimensão espiritual. (Boxer, 1967a: 308-397).
absolutamente proibidos. A coerção ocorreu apesar dos apelos contra o uso O Brasil também forneceu exemplos de utiliza­
Sempre que possível, a intenção inicial dos mis­ da força ou das ameaças da força. Um dos casos ção da religião como instrumento de integração,
sionários era a de obter acesso ao mais alto nível de exemplares é o de Goa. A destruição dos templos mas o contexto era totalmente diferente do exis­
governo. O precedente do sucesso inicial no C on­ hindus e as conversões em massa do século xvi tente na índia, China, Japão ou Indonésia. Os po­
go, apesar de não ter correspondido inteiramente às correram bem para o cristianismo. Surgiu uma vos indígenas eram não sedentários, não urbanos,
expectativas, não foi esquecido por missionários alargada população católica indígena em Goa e nos não estavam unidos por uma única língua ou cul­
posteriores. Não era invulgar descobrirem-se sacer­ territórios vizinhos. Os Jesuítas, entusiasticamente tura e não tinham laços familiares ou uma liderança
dotes católicos residentes, ou semi-residentes, nas apoiados por D. Miguel de Noronha, conde de Li­ comum.
cortes da índia, ou exercendo considerável influên­ nhares, que assumiu o vice-reinado em 1629, con­ Por outro lado, as pessoas deslocadas eram de
cia como embaixadores e intermediários entre os tribuíram para a congregação de gentios importan­ descendência africana mas pertenciam a uma gran­
Portugueses e os líderes locais. Apesar de a conver­ tes em Salsete e para os baptismos em massa. Em de variedade de grupos linguísticos e políticos, ti­
são de um rei representar o maior dos prêmios, 1653 foram baptizados mais de 1500 brâmanes numa nham costumes e crenças diferentes, e na sua gran­
sempre acompanhado pela esperança de que o só ocasião, «com não menos espanto dos Portugue- de maioria eram homens e escravos. Desse modo,
facto tivesse reflexos positivos no resto da classe zes, que julgavam a cousa por impossível, que dos no Brasil, os missionários não lutavam contra re­
governante, os missionários já encaravam as suas gentios da terra firme, que nunca tal imaginaram». ligiões de revelação associadas ao poder, â autori­
actividades como um êxito se conseguissem autori­ Em 1646, as câmaras de Salsete, Bardez e ilhas de dade, à hierarquização e a códigos de comporta­
zação para pregar os Evangelhos sem obstruções. Goa queixaram-se ao vice-rei, D. Filipe de Masca- mento prescritos. Todavia, foi no Brasil que os
Na sua maior parte, as autoridades civis portugue­ renhas, dizendo que essa conversão havia sido tão Portugueses experimentaram o seu maior falhanço
sas davam um grande apoio às iniciativas dos mis­ coerciva que a maior parte deles, subsequentemen­ e o seu maior triunfo no que diz respeito à conver­
sionários. Os assuntos religiosos raramente estavam te, haviam fugido e voltado ao hinduísmo. Com o são de não-europeus e ao uso da religião como ins­
livres de dimensões seculares, tal como o atestam as tantos gentios haviam sido «gentios de trato gros­ trumento para a integração de não-europeus no
invulgares circunstâncias que rodearam a aparente so», o caos que se seguira fora altamente prejudicial seu estilo de vida e modos de comportamento.
resolução do rei de Cochim em converter-se ao para o tesouro real. As câmaras chamaram a aten­ O falhanço — a longo prazo — refere-se à falta de
cristianismo. Em 1636, o vice-rei, em Goa, foi in­ ção do vice-rei para o facto do continuado poder durabilidade da conversão dos nativos americanos,
formado por um padre católico, residente na corte absoluto dos Jesuítas ser tal, e com uma tão grande que não os das aldeias dos missionários, e à limitada
real, de que o rei e dois príncipes (o quarto e o influência sobre os vice-reis, arcebispos e magistra­ extensão da sua integração no mundo de língua
quinto filhos) desejavam abraçar o cristianismo. dos, que quando os indígenas caíam no desagrado portuguesa. O entusiasmo mútuo inicial parece ter
O rei propusera que o herdeiro do trono e dois da Companhia não tinham recurso contra perse­ dado lugar à desilusão mútua, com os ameríndios a
outros, que se opunham a uma tal conversão, fos­ guições ou prisões, e que chegavam a ser enviados serem altamente selectivos no que aceitavam do
sem mortos em segredo. No dia do baptismo do para as galés, pelo que pediam ao vice-rei que in- catolicismo, e os jesuítas a insistirem no seu desejo
rei e dos príncipes, o rei propôs que ele, e os dois terviesse para aliviar esta opressão (Assentos: m, de eliminarem o canibalismo, o casamento entre
príncipes, se casassem com mulheres portuguesas, e 475-476). Com o veículo para a integração social, a primos, a poligamia e a guerra, tudo questões cen­
que duas princesas suas sobrinhas, já convertidas ao religião era mais eficiente nas comunidades que se trais do modo de vida e da visão do mundo dos
cristianismo, casassem por sua vez com dois fidal­ encontravam em regiões sobre as quais os Portu­ ameríndios. Em termos estritamente demográficos,
gos portugueses escolhidos pelo vice-rei. Não obs­ gueses tinham uma maior presença administrativa e os missionários católicos tiveram menos impacte
Mártires do Japão, óleo sobre tela, séc. xvii, Igreja de Jesus, tante esta proposta ter caído em orelhas incrédulas que permitia um reforço cultural. nos ameríndios do que os Paulistas com as suas
Roma entre os membros do Conselho do Estado de Goa, Em nenhum outro lado os missionários, e o res­ «entradas». Uma estimativa coloca em 300 000
por causa da feroz oposição ao cristianismo que o pectivo rebanho, pagaram um preço tão elevado o número de ameríndios capturados pelas bandeiras
ao exame da religião e da língua como instrumen­ rei demonstrara anteriormente e porque não con­ pela sua fé como no Japão. Em 1614, ano em que o durante o século xvii (Simonsen, 1962: 214), mas,
tos para a integração de não-europeus. seguiam entender quais seriam os verdadeiros mo­ imperador Ieyasu ordenou a expulsão de todos os para sermos justos, temos de salientar que os Pau­
O esforço mais intensivo e multicontinental foi tivos para uma tão extraordinária mudança, os con­ missionários do Japão, encerrou as igrejas e proibiu listas estavam em grande superioridade numérica
o da evangelização dos povos nativos. O assunto já selheiros decidiram que o valor propagandístico de a prática do cristianismo, o número de convertidos em relação aos missionários e que, comparativa­
foi tratado com mais profundidade noutra ocasião, uma tal conversão e o seu impacte noutros poten­ no Japão era de cerca de 300 000 para uma popula­ mente, os poucos missionários fizeram milagres
mas é tão fundamental para o ethos português e pa­ tados eram tais que recomendaram ao vice-rei que ção total de 20 milhões em todo o império. Os graças aos seus esforços incansáveis. Em compara­
ra os esforços para arrastar não-europeus e não- não se opusesse àquela oportunidade (Assentos: 11, convertidos espalhavam-se desde o extremo norte ção, os índios das 28 aldeias administradas pela
-cristãos para o redil português que também tem 103-105). ao extremo sul do país, mas concentravam-se prin­ Companhia de Jesus, no Maranhão e no Grão-Pará,
de ser referido aqui. Foram escritos inúmeros volu­ Em termos de integração cultural, é uma questão cipalmente no nordeste de Kiushu. Já se tinham eram 11 000 em 1696. A estes poderemos acrescentar
mes sobre os missionários portugueses que levaram discutível saber até que ponto tiveram êxito, a lon­ verificado perseguições anteriores, tal como as de mais 15 450 das missões jesuítas no Centro e no Sul
os Evangelhos para Africa, Ásia e América, muitos go prazo, conversões em massa como a dos pesca­ Hideyoshi, em 1587-1597, bem como martírios, mas do Brasil, pelo que os números redondos, na vira-

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O DOMÍNIO TERRITORIAL

gem para o século xviii , dos índios sob tutelagem nativos americanos ao negar-lhes um instrumento
jesuíta era de cerca de 26 500. Existiam mais 26
missões administradas por franciscanos, bem como
essencial para a assimilação e para o funcionamento
num mundo português. No Brasil, as línguas afri­
COMUNIDADES ÉTNICAS
um pequeno número doutras, dos mercedários e canas foram mantidas vivas em resultado da cons­ A. J. R. Russell-Wood
dos carmelitas, para as quais não dispomos de ele­ tante renovação provocada pelo comércio de escra­
mentos. Os dados sobre o ritmo de declínio da po­ vos, mas o português era a única língua oficial,
pulação indígena, calculada em 2,431 milhões em usada na vida pública e por pessoas de origem afri­
1500, não permitem a avaliação da proporção de cana que se limitaram a acrescentá-la às outras lín­
ameríndios convertidos ao cristianismo (Hemming, guas que já dominavam. Foi também o caso em
1978: 97-118, 487-501; Boxer, 1969a: 290-291; Aze­ Africa. A diversidade de línguas africanas era tal Os Portugueses continuavam a ser uma minoria beze, o termo «tonga» referia-se a qualquer grupo
vedo, 1930: 228-230: Leite, 1938-1950: iv, 138-140). que o português se tornou na língua franca para o demográfica através de todo o império ultramarino conquistado ou tributário, e não a um grupo étni­
Em comparação, os africanos baptizados — mes­ comércio, não só entre portugueses e africanos co­ português. A maioria era constituída por africanos, co (Isaacman, 1972: 4). Os Portugueses confundiam
mo que em massa — antes do embarque para o mo também entre os próprios africanos. Até os asiáticos e ameríndios. N o entanto, classificações ou simplesmente trocavam diferenças linguísticas e
Brasil, bem como pelos seus proprietários no Bra­ Bantos que se uniram aos Holandeses entre 1641 e tão amplas como estas escondem as diversidades re­ tribais quando se referiam aos povos ameríndios
sil, que muito frequentemente não cumpriam a 1648 continuaram a utilizar o português em vez de ligiosas, raciais, culturais, nacionais e linguísticas e no caso dos africanos serviam-se de classificações
obrigação legal de instruir os escravos no catolicis­ tentarem aprender os rudimentos da língua holan­ que caracterizavam as comunidades étnicas do im­ («nações») que tinham pouco a ver com as origens
mo, tornaram-se funcionais na língua portuguesa, desa, que constituía um desafio mais complicado. pério ultramarino português. Para começar, procu­ tribais ou as etnias das pessoas transportadas para o
eram parte integrante da vida urbana da colônia e Na Ásia, no século x v ii , os governantes muçulma­ remos uma definição para o termo «étnicas». Os Brasil. Também é preciso destacar que os não-
essenciais para a economia da América portuguesa. nos de Macáçar e o rei de Candia, em Ceilão, fala­ membros de uma comunidade «étnica» partilham -europeus — quer em África quer na Ásia — que
De facto, seria difícil identificar uma qualquer face­ vam e escreviam o português fluentemente (Boxer, uma descendência comum (real ou apercebida), ca­ se convertiam ao cristianismo ou eram descenden­
ta da existência colonial diária em que não estives­ 1969a: 125-126). O conhecimento da língua falada racterísticas culturais relevantes (incluindo as lin­ tes de convertidos, se identificavam (e eram identi­
sem envolvidas pessoas de descendência africana. não estava limitado às elites. O português e algu­ guísticas), traços somáticos, atitudes, valores e com ­ ficados pelos outros) como um grupo étnico com
Tal como teremos oportunidade de examinar mais mas formas do seu crioulo também eram falados portamentos. As pessoas nascem membros de uma base na religião e não na raça, língua ou descen­
tarde, as crenças religiosas tão profundamente en­ por povos asiáticos com as origens mais diversas — comunidade étnica, não se lhe juntam. Os mem­ dência comum. Apesar de o termo «étnico» ser fre­
raizadas nas sociedades africanas iriam manifestar- incluindo escravos — e o português era uma das bros de uma comunidade étnica estão frequente­ quentemente aplicado a não-europeus, os Holan­
-se — com não menos fervor — no seu entusiás­ línguas comerciais no oceano Indico e em pontos mente relacionados uns com os outros por inter­ deses, no Brasil e na Batávia, ou os colonos
tico abraço ao cristianismo. Os Africanos tinham mais para o Oriente. médio de laços de sangue, reais ou fictícios. O fàcto franceses no Maranhão constituíam grupos tão «ét­
uma participação total nas cerimônias da Igreja A inadmissibilidade de línguas africanas ou ame­ de os membros de tais comunidades se identifica­ nicos» (no sentido mais amplo da palavra) como os
Católica no Brasil, tanto individual como colecti- ríndias nos documentos oficiais não estava em rem a si próprios como pertencentes à mesma, em seus vizinhos não europeus e não cristãos. C om o
vamente, e não há qualquer indício de um enfra­ questão. Todavia, na índia, os tratados de paz assi­ oposição aos «outros», e de os outros identificarem seu fluxo e refluxo de povos, resultantes de migra­
quecimento dessa ligação ao catolicismo. Todavia, nados entre o vice-rei e os embaixadores represen­ esse grupo como sendo distinto são factores da ções voluntárias ou de movimentos populacionais
o leitor deve recordar-se que um tal compromisso tando reis indígenas tinham textos em português e maior importância. A noção de uma descendência forçados, como no caso dos judeus e das pessoas de
para com o catolicismo não significa necessaria­ canarês (Assentos: 536-541), e os contratos eram es­ comum encontra-se no cerne de uma comunidade descendência africana, e com o seu âmbito global,
mente a renúncia à adoração dos deuses e espíritos critos em línguas indígenas. Contudo, um líder co­ ou grupo étnico. Têm-se verificado grandes deba­ o império português constitui um campo fértil para
africanos. Enquanto a prática paralela de outras mo o rajá Sinha II (1629-1687), rei de Candia, exi­ tes sobre se a descendência comum ou a partilha de o estudo das comunidades étnicas.
formas de adoração era inaceitável para os frades e gia que as comunicações oficiais entre ele e os uma cultura e de uma consciência de pertença são O foco deste capítulo serão os povos indígenas da
sacerdotes europeus, as pessoas de descendência Holandeses fossem em português e não na língua ou não mais importantes como características defi­ Africa, Ásia e América com quem os Portugueses in­
africana não parecem ter-se deixado perturbar pela dos Flamengos. Em 1684, um alvará do vice-rei in­ nidoras. Ambas as definições são aplicáveis às co­ teragiam numa base diária, e também aqueles sobre
mesma. N o século xvii já o sincreçijmo religioso citava os padres e os professores a promoverem a munidades étnicas do império português, mas a os quais os Portugueses exerciam jurisdição. Um le­
era evidente. língua portuguesa nas suas aulas e a ensinarem por última tem a vantagem de possuir uma maior flexi­ vantamento sumário demonstrará a diversidade reli­
Os esforços de conversão dos missionários leva­ intermédio do português. Por outro lado, espera­ bilidade e adaptabilidade a novas situações, para giosa, racial e linguística no interior de uma grande
ram-nos a dominar as línguas asiáticas, africanas e va-se que a comunidade não escolar dominasse um além de possuir uma qualidade dinâmica que não variedade de políticas e descreverá os grupos étnicos.
americanas. Os nativos eram frequentemente utili­ português funcional num espaço de três anos. Para se encontra na primeira definição, bastante mais rí­ Os ameríndios, descritos em termos arrebatados
zados como catequistas, mas foram feitas muito aumentar os incentivos verificou-se a proibição das gida. Por isso mesmo, aumenta o potencial para o por Pêro Vaz de Caminha na sua carta de 1 de
poucas tentativas para ensinar o português aos não- «línguas da terra» nos contratos, que a partir desse estudo das relações entre comunidades étnicas (Ku- Maio de 1500 dirigida a D. Manuel, falavam «tu­
-europeus ou para usar o português como meio de momento deveríam ser em português (Correia, per e Kuper, 1985: 267-269). No império português pi», um termo genérico que compreendia sete gru­
instrução, excepto no caso das escolas sob a égide 1948-1958: 1, 459-462). A força centrípeta exercida existiram muitos exemplos de «comunidades étni­ pos linguísticos distintos, dos quais o tupi-guarani
da Companhia de Jesus e de outras ordens religio­ pela linguagem — fosse ela escrita ou falada, ou até cas» neste sentido «situacional», bem como de (que, por si só, incorporava 40 linguagens) era o
sas. Nas aldeias missionárias do Brasil, o uso da nas suas versões crioulas — era de particular im­ contactos e relações intergrupos que constituíram mais espalhado. Foi com os povos de expressão tu­
chamada «língua geral» — uma forma simplificada portância para a integração dos não-europeus no importantes estímulos para a criação de uma pi-guarani que os Portugueses tiveram mais con­
do tupi — , e não do português, pôs em perigo os âmbito da influência portuguesa. consciência dos traços partilhados e do sentido de tactos no litoral brasileiro, desde o Amazonas ao
pertença que caracterizam uma comunidade étnica. rio da Prata. Os registos coloniais dividiam esses
Devemos notar que o termo «étnico» era tão povos em subgrupos, que incluíam Tupiniquins,
aplicável às comunidades dentro de Portugal conti­ Tupinainbás, Tememinós, Carijós, Tamoios, Tupi-
nental como às comunidades ultramarinas, uma vez nás, Amoipiras, Caetés, Potiguaras e Tabajaras. Tais
que os cristãos-novos e os ciganos também consti­ povos eram semi-sedentários, vivendo em aldeias
tuíam grupos étnicos. Todavia, também devemos compostas por entre quatro e oito malocas, ou «ca­
salientar que um grupo que os Portugueses identi­ sas compridas» comunais, com a autoridade investi­
ficavam como sendo etnicamente distinto ou ho­ da num chefe reconhecido pelas suas capacidades
mogêneo, talvez na realidade não o fosse: no Zam ­ guerreiras e oratórias. Os xamãs (pagés) detinham

150 151
POPULAÇÃO E SOCIEDADE COMUNIDADES ÉTNICAS

um grande poder, frequentemente medido pelo descreviam os ameríndios por intermédio de ter­
seu êxito em provocarem a chuva para as culturas, mos tão gerais como «peças do gentio da terra»,
base de uma economia de subsistência complemen­ «negro da terra» ou, mais tarde, «gentio de cabelo
tada pela caça e recolecção. A guerra era central corredio» ou até «gente parda» (Monteiro, 1988:
para tais sociedades, levando a um sempre mutável 114). O termo «índio» referia-se aos indígenas das
mosaico de alianças e antagonismos, e tinha uma aldeias missionárias. Numa tentativa para classifica­
grande importância ritual e cerimonial no que se rem os ameríndios, os Portugueses confundiram ou
referia à aquisição de prisioneiros, ao subsequente registaram mal, na sua escrita, os sons que pensa­
sacrifício e canibalismo rituais, para além de refor­ vam ter ouvido, para além de terem confundido os
çar a autoridade do chefe e o prestígio da tribo. grupos culturais com os linguísticos (Schwartz,
Para os Portugueses, tratou-se de uma infelicidade 1985: 32-35, 55-56). A complexidade da organização
que as regiões costeiras do Brasil fossem habitadas social ameríndia, a sua cosmologia e visões do
pelos Tupinambás, que eram soberbos guerreiros mundo continuaram fechadas para os europeus.
(Fernandes, 1963). Quando se afastaram da costa, os A África Ocidental e Central era o lar de uma
Portugueses encontraram grupos de expressão não infinita variedade de grupos étnicos, mas a África a
tupi que haviam sido empurrados para o interior sul do Sara era uma região em que o modo de vida
pelas migrações tupis. Os Portugueses referiam-nos dos povos foi relativamente semelhante durante um
como «tapuias», mas de facto incluíam vários gru­ longo período, pelo que podiam ser caracterizados
pos linguísticos, tal como o gé e o carirí. Os indí­ com o possuindo uma «cultura política pan-
genas que os Portugueses conheciam por Aimorés -africana», partilhando «certos princípios culturais
(Botocudos) — o que em tupi significa «pessoas de organização» (Kopytoff, 1987: 3, 10, 15, 16, 35).
malvadas» — mas que se designavam a si mesmos As etnicidades podiam estar centradas em entida­
por uma variedade de nomes tribais, incluindo des políticas, na religião, na aldeia ou na língua,
Guerém-Guerém e Carirí, que não praticavam a mas eram susceptíveis de mudança. A pluralidade,
agricultura e eram nômadas, foram incluídos no a diversidade e a mudança caracterizavam os siste­
grande grupo dos Aimorés e deixaram nos Portu­ mas africanos de govemação e as instituições políti­
gueses uma duradoira impressão de guerreiros for­ cas: emergiam dinastias e os impérios consolida­
midáveis e fugidios (Hemming, 1978: 93-94). Em vam-se e dissipavam-se devido a clivagens internas.
São Paulo no século x v i i , os documentos legais As crenças religiosas não se limitavam a abranger Juramento do fogo (à esquerda) e baile (à direita), in Antônio de Oliveira Cadornega, História Geral das Guerras
Angolanas, 1680-1682 (A C L )
Zacharias Wagner, aldeia tupinambá, aguarela, séc. x v ii (K K D )
desde o Islão a religiões animistas e feiticistas. Uma do seu rei (Mani Congo) que os Portugueses tive­
simples tradição ancestral podia ser transformada ram os maiores contactos com um reino africano.
por sociedades diferentes e em diferentes regiões A sul do Congo ficava o mais recente reino Mbun-
por intermédio de um processo descrito por «dinâ­ du de Ndongo, governado pelo N ’Gola, cuja capi­
mica da inovação». As aldeias encontravam-se no tal, na altura da chegada dos Portugueses, era Ca-
centro do tecido econômico e social africano. Jan basa. Menos diversificado, em termos de povos
Vansina (1990: 19-21, 193-195) notou que a identida­ Mbundu, do que o Congo, o modo de vida na
de com base na aldeia podia sobrepor-se â identida­ Angola de 1600 tinha características comuns: o tra­
de étnica. Contudo, a deslocação de povos devida às balho do ferro, a tecelagem de panos, a sacralidade
forças humanas e naturais era altamente dilaceradora, da realeza e o gosto pelo comércio. Durante o sé­
criando mais uma possibilidade de constituição, re­ culo xvi verificaram-se grandes migrações para An­
forma e reconstituição. A língua também era um gola e o estabelecimento do reino de Caçanje. Nos
marco de referência para a etnicidade, mas qualquer anos de 1560, os Jagas, povos nômadas, invadiram
grupo étnico podia incluir uma multiplicidade de Angola. Ao longo de um período mais prolongado,
grupos linguísticos. Em resumo, a etnicidade era de 1500 a 1700, também se verificaram migrações
uma componente de auto-identidade e de identida­ de povos Ovimbundos para Angola, povos que es­
de, mas era fluida e as pessoas poderíam ser conside­ tabeleceram reinos (Wheeler e Pélissier, 1978: 6-10,
radas como pertencendo a mais de um grupo étnico. 19-27). Apesar de um início prometedor no Con­
A partilha de factores e valores culturais comuns, go, as relações dos Portugueses com esse reino
sem deixar de manter uma grande diversidade, era iriam deteriorar-se e levar à guerra aberta, pelo que
uma característica dos povos de Angola, de expres­ os Portugueses começaram a referir-se a Angola
são predominantemente banta, que constituíam como uma «conquista», tão exacerbadas eram as
cerca de 90 tribos no interior de oito grandes gru­ hostilidades com os governantes locais.
pos etnolinguísticos que hoje vivem em zonas do A leste do cabo da Boa Esperança, os Portugue­
país que são diferentes e ecologicamente distintas. ses ficaram expostos a uma maior diversidade de
Entre 1300 e 1600 verificaram-se grandes migrações comunidades étnicas, cujos critérios de auto-
dos Bantos para Angola. O primeiro reino banto -identificação diferiam frequentemente daqueles
foi o do Congo, fundado no século xiv, que tinha que os Portugueses lhes aplicavam. Já nos séculos
a capital em Mbanza Congo. Foi por intermédio xv e xvi, na África Ocidental e Central, os Portu-

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE COMUNIDADES ÉTNICAS

gueses haviam revelado consciência das distinções do mundo por parte dos povos com que contacta­ Gurusava e a iniciar uma conquista e expansão. Por velmente desde o tempo do desembarque de Vasco
físicas entre os povos, mesmo quando pertenciam à vam. Se tivéssemos de escolher um único factor de volta de 1480 o rei caranga governava desde Tete da Gama, em 1498, e iria mudar ainda mais entre
mesma filiação religiosa, categoria racial e aliança importância, fundamental tanto para a costa suaíli até à boca do Zambeze e no princípio do século 1570 e 1697. O império mogol era a força domi­
política, mas tinham tendência a reduzirem a di­ como para Nagasáqui ou as Molucas, esse factor se­ x vi constituía a mais poderosa figura na África do nante na índia dos séculos xvi e xvii. Em 1530 já
versidade dessas comunidades em amplas (e fre­ ria a religião, que se sobrepunha a agrupamentos Sul e Central, sendo conhecido pelo nome de M o­ Bahadur suprimira os Estados muçulmanos inde­
quentemente muito subjectivas) categorias baseadas políticos, raciais, étnicos e linguísticos. nomotapa. Nas áreas periféricas, delegava a sua au­ pendentes e controlava a maior parte do Norte da
precisamente na religião, raça e alianças políticas. A África Oriental caracterizava-se pela diversida­ toridade governamental nos chefes provinciais, mas índia. Akbar (1556-1605), depois de consolidar a sua
Os muçulmanos eram facilmente identificáveis por de étnica e cultural. N o Zambeze, os povos agri­ era ele próprio quem governava a área central, di­ posição no Penjabe, começou a expandir o impé­
causa da sua religião, e as atitudes dos Portugueses cultores estabeleceram chefias independentes na re­ vidida em unidades distribuídas por familiares de li­ rio, que na altura da sua morte incluía territórios
para com eles haviam sido modeladas por cinco sé­ gião de Tete, isto antes de serem conquistados nhagem paterna, que por sua vez nomeavam os desde Ahmednagar, no Decão, para o norte até
culos de convivência com mouros e com pessoas pelos Carangas, que fundaram o reino do Mono­ chefes locais e distritais. Os chefes indígenas tongas Cabul e Caxemira. Todavia, foi Aurangzeb (1658-
de origem mourisca. Porém, os aderentes do bu­ motapa. A sul de Tete, também no Zambeze, vi­ e senas governavam na região que ia desde a con­ -1707) quem conquistou os sultanatos do Decão e
dismo e do hinduísmo já não eram tão fáceis de viam os Tongas, cujo território estava dividido em fluência do Luena ao oceano Índico. A autoridade criou um império que ia do Hindu Kush até à cos­
distinguir e tendiam a ser descritos colecdvamente chefias antes da chegada dos Europeus. Essas che­ do Monomotapa era reforçada por um exército ta de Coromandel. Goa situava-se no reino de Bi-
como «gentios». Na índia e no Ceilão, indepen­ fias eram governadas por um mambo (chefe), assisti­ poderoso e pela adoração dos antepassados, intima­ japur, no Decão. As populações hindus que se ha­
dentemente do facto de serem budistas ou hindus, do por um conselho de anciães e por um grupo mente associados ao Monomotapa reinante. «As viam arrastado sob a opressão dos seus senhores
os povos locais eram frequentemente designados dos homens mais importantes da aldeia. Entre Sena fraquezas estruturais inerentes à maneira de ser do talvez tenham sido melhor tratadas sob os Mogóis,
por «negros» ou «pretos». Os Chineses e os Japone­ e a foz do Zambeze viviam os Senas e povos afins, Mutapa» (para utilizar as palavras de Mudenge, em especial Akbar, que adoptou uma política de
ses eram identificados pelo seu lugar de origem, com uma organização politicamente semelhante à 1988: 279), as pressões centrífugas internas e as re­ conciliação e tinha hindus nos seus serviços civis e
sem caracterizações raciais ou religiosas. U m tal dos Tongas. Em ambas as margens do Zambeze beliões levaram ao reassumir da independência pe­ nos exércitos. Aurangzeb abandonou estas políticas
minimalismo revela que os Portugueses não esta­ existiam pequenos chefes, mas nenhum sistema de los chefes locais e ao declínio do Estado caranga e práticas: os hindus foram proibidos de exercer
vam conscientes das complexas relações e interliga­ Estado com grandes dimensões. Foi para essa re­ (idem: 37-284). Os séculos xvi e xvii assistiram ao cargos públicos, os seus templos e escolas foram
ções entre esses factores, aos quais poderia ser gião que os Carangas se deslocaram, antes do sécu­ aparecimento de novas atitudes diplomáticas — em destruídos e os sikhs do Punjabe foram persegui­
acrescentada a língua, nem das sofisticadas visões lo xiv, com o seu rei a estabelecer a capital em particular dos Malavis — com um similar padrão dos. O século xvii testemunhou a emergência da­
de expansionismo, consolidação e declínio (Isaac- queles que vi riam a ser os dois poderosos grupos
Moçambicanos e etíopes, in Jan Huygen van Linschoien, Itinerarium ofte Schipvaert naer O ost ofte Portugaels Indien, man, 1972: 3-18). Este período altamente perturba­ hindus, os maratas e os sikhs. Em Goa, os maratas
A mcsterdão, 1614 (BN) do levou os Portugueses a confrontações directas constituíam um grupo importante, que, depois da
com os povos africanos. conversão e como chardós, desafiaram a proemi-
A guerra e o comércio puseram os portugueses nência social dos brâmanes (Souza, 1994: 40). A sul
da África Oriental em contacto com comunidades de Goa existiam rajás hindus independentes, mas o
árabes. O s Portugueses competiam com os merca­ grande império hindu de Vijaianagar já caíra em
dores árabes nas feiras comerciais (Luanza, Bocuto 1565. Devemos destacar que, tal como existiam po­
e Massapa) do Zambeze e enfrentavam sultões mu­ pulações hindus em Estados controlados por mu­
çulmanos hostis nas cidades portuárias. N o princí­ çulmanos, também existiam comunidades de mer­
pio do século x vii, as principais ameaças para os cadores muçulmanos nos Estados hindus. Em
Portugueses na África Oriental eram nas costas de Ceilão, o reino budista cingalês testemunhara a in­
Mombaça e Melinde. No primeiro caso, tratou-se vasão por hindus tâmiles, que introduziram um no­
do resultado directo dos esforços portugueses para vo grupo étnico e uma nova língua e religião. Os
controlarem o comércio árabe, exigindo aos navios Tâmiles haviam estabelecido um reino no Norte
árabes que possuíssem passaportes, o que prejudicou da península e colonizado a costa nordeste. Por seu
gravemente o comércio triangular entre o golfo Pér­ lado, os muçulmanos eram proeminentes no co­
sico, a África Oriental e a índia. Outra imposição mércio. Foi assim que os Portugueses, na índia e
foi a de que todos os navios que importavam bens no Ceilão dos séculos xvi e x v ii , depararam com
pagassem taxas alfandegárias em Mombaça. Este uma diversidade de religiões e grupos étnicos.
período inflamado terminou com a conquista de Os reinos da península malaia revelavam uma
Mombaça pelos Árabes, em 1698. grande variedade de influências estranhas. Malaca
Para além dos povos indígenas africanos e das co­ fora um sultanato islâmico desde o século xiv e
munidades árabes, um outro grupo étnico era o dos contava com uma caleidoscópica variedade de co­
indianos, não apenas nas cidades costeiras mas tam­ munidades, baseadas principalmente no comércio e
bém em Rios de Cuama. Na sua Etiópia Oriental no seu papel como grande empório comercial.
(Évora, 1608), baseada em mais de uma década passa­ A Indonésia tivera laços comerciais com a China e
da no Sudeste de África (1586-1597), o dominicano laços culturais com a índia, com a fundação de Es­
João dos Santos referiu-se à existência de 800 cristãos tados sob a influência cultural hindu e budista. Al­
no Sena, dos quais 50 eram portugueses e os restantes gumas comunidades compartilhavam o Himayana
«índios e caffes da terra», e a 600 cristãos no Tete, do budismo com influência do hindu. Em Samatra,
dos quais 40 eram portugueses e os outros «índios e no século xiii, o hinduísmo havia sido ultrapassado
caíres» (Santos, 1989: parte 1, liv. 11. cap. viu). pelo Islão e os sultanatos islâmicos detinham uma
Foi na índia que se verificou a maior divisão re­ grande importância política e comercial. A influên­
ligiosa entre muçulmanos e hindus. Por volta de cia islâmica chegava tão longe como os sultanatos
1570, a paisagem política modificara-se considera­ de Ternate e Tidore (Boxer, 1953: 186-189).

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE COMUNIDADES ÉTNICAS

For causa do domínio muçulmano sobre as rotas ções, em segredo, a Adil Shah, na época em que
comerciais entre a África Oriental, o mar Verme­ Bijapur se encontrava sob ataque do Mogol, em
lho, e o golfo Pérsico, e os portos da costa oriental 1632 — e aproveitando-se de rivalidades internas
da índia e toda a zona para oriente, até Malaca, era para defenderem os seus interesses. Sob o disfarce
com as comunidades de mercadores muçulmanos, de uma política de amizade e acomodação, os Por­
nos portos de Moçambique e Malaca, que os Por­ tugueses trabalhavam clandestinamente para minar
tugueses tinham contactos mais frequentes, em es­ o poder dos Mogóis. O período de 1570-1697 viu
pecial no Malabar e Guzarate. Para leste de Malaca, os Portugueses envolvidos numa constante activi-
as suas funções comerciais foram partilhadas por dade diplomática.
uma variedade de nacionalidades e por súbditos de Os povos indígenas encaravam a intervenção dos
diferentes Estados e reinos, incluindo chineses. As Europeus como uma oportunidade para se íiberta-
restrições de casta limitavam a participação hindu rem da opressão. A tirania sentida pelos hindus de
no comércio de águas profundas, mas em Goa e Goa sob as mãos dos governantes islâmicos levou-
mais para o sul os Portugueses interagiam com co­ -os a apoiarem as iniciativas portuguesas, que cul­
munidades locais de mercadores hindus e de cam­ minaram com a conquista da cidade, em 1510. Mais
poneses envolvidos na produção agrícola, que eram tarde, nas ilhas das Especiarias, os povos locais vira-
exclusivamente hindus. ram-se para os Holandeses para que estes os liber­
A África, a Ásia e a América partilhavam de uma tassem da opressão dos capitães portugueses. Em
característica comum, que era a diversidade das co­ ambos os casos, grupos de indígenas inadvertida-
munidades étnicas e de entidades políticas, não mente favoreceram as intenções dos Portugueses e
apenas em grande escala como também em micror- Holandeses, respectivamente. No caso de Goa, já
regiões. Os líderes de tais organizações, fossem eles os Portugueses tinham apreciado as divisões entre
chefes tribais do Brasil, reis ou «homens grandes» hindus e maometanos e seguido uma política ba­
da África Ocidental ou Central, sultões, imperado­ seada na oposição dos dois grupos (Souza, 1994:
res, rajás e reis da Ásia, tinham as suas próprias 23-48).
agendas políticas. Os Portugueses foram assíduos na A política de «dividir para reinar», quer fosse
obtenção de aberturas diplomáticas e de acordos ou praticada por povos indígenas, quer por europeus,
tratados com esses líderes. Cada uma das partes era susceptível de trazer maus resultados. Foi a
procurava vantagens comparáveis, fossem elas polí­ consciência desta vulnerabilidade que em 1637 le­
ticas, comerciais ou militares, o que resultava fre­ vou o Conselho do Estado de Goa a tratar com
quentemente na manipulação dos Portugueses por tanto cuidado umas cartas do capitão-geral de Cei­
parte de líderes locais em busca de vantagens do­ lão que transmitia uma estranha proposta das rai­
mésticas, políticas e estratégicas. nhas de Candia. Pretendiam mudar-se para territó­
O exemplo clássico é-nos fornecido pelas rela­ rios sob o domínio português para ficarem sob a
ções dos Mogóis com os Europeus, e as relações protecção do rei de Portugal. Uma das rainhas era
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destes com outros grupos nativos. A corte mogol a viúva do falecido rei. A mais jovem era a esposa
era não apenas sofisticada mas também extraordina­ do rei que se encontrava no poder e que, segundo
riamente cosmopolita, com a presença regular de ela afirmava, a maltratava. Em troca prometiam
ingleses, holandeses e portugueses, e com os Jesuí­ servir-se dos seus contactos e familiares para colo­
tas frequentemente em residência permanente. Isto carem ao serviço dos Portugueses os recursos hu­
m gm m

não impediu Akbar e os seus sucessores de atirarem manos que tinham à sua disposição. O capitão-geral
as potências europeias umas contra as outras a favor mostrava-se céptico e caracterizava a proposta co­
das agendas domésticas e imperiais dos Mogóis. mo sendo uma «resolução de mulheres apaixona­
A anexação de Guzarate (1573) por Akbar deixou as das». O Conselho concordou com a sua apreciação
posições comerciais portuguesas e os seus povoados da situação, concluindo que a proposta poderia tra­
numa situação extremamente vulnerável. A con­ zer mais problemas do que vantagens, e ser um
cessão feita por Jahangir aos Ingleses, permitindo- truque do rei para avaliar a natureza da resposta
-lhes instalar um entreposto comercial no Surrate e portuguesa. Havia uma concordância quanto ao
a sua recusa em honrar o tratado de 1615 para ex­ facto de as relações harmoniosas existentes entre
pulsão dos Ingleses faziam parte de uma política de Portugal e Candia não deverem ser prejudicadas,
aproximação à Inglaterra, a fim de utilizar o seu em especial porque o Estado da índia não dispu­
poder naval para refrear as actividades dos Portu­ nha, naquele momento, das forças necessárias para
gueses. Os imperadores mogóis incitaram os outros se envolver numa guerra. Tudo dependia da possí­
reis a oporem-se aos Portugueses. Os Portugueses vel reacção do rei. O inquisidor pensava que a
pagaram-lhes na mesma moeda, estabelecendo rela­ reacção real seria insignificante, e advogava que
ções com governantes hostis aos imperadores mo­ lhes dessem refúgio para que fossem convertidas,
góis — como fizeram quando entregaram muni- mas os outros temiam uma guerra. O Conselho
não desejava alienar as mulheres porque, se a guer­
A tomada de Ugulim pelos Mogóis (1632), iluminura ra rebentasse, poderíam vir a ser úteis. A decisão fi­
mogol, cerca de 1634 (R L IV C ) nal foi a de manter as duas mulheres interessadas,

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE COMUNIDADES ÉTNICAS

ver que forças iriam chegar da Europa, investigar se Neste caso, tanto os Caetés como os Tupinambás
se trataria de um subterfúgio e contactar as duas foram esmagados por Mem de Sá e aniquilados nos
mulheres clandestinamente, expressando interesse anos de 1580. Mais para sul, em Ilhéus e Porto Se­
(,Assentos: n, 175-177). guro, os Tupiniquins pensaram que os Portugueses
Uma parte essencial das políticas portuguesas era poderiam ser seus aliados contra os inimigos Tupi­
a exploração dos partidarismos já existentes e a rea­ nambás, e só muito tarde compreenderam a loucu­
lização de alianças selectivas com os líderes indíge­ ra dessa colaboração. Revoltaram-se e também fo­
nas. Todavia, ao fazê-lo, os Portugueses podiam fi­ ram aniquilados por Mem de Sá. Para sul de
car vulneráveis à manipulação por astutos líderes Espírito Santo, os Tupis estavam envolvidos em
locais. Em lado nenhum foi esta prática mais pre- guerras internas. Os Portugueses estimularam essas
valecente e está mais documentada do que no Esta­ rivalidades mas os resultados foram contraprodu­
do da índia, mas — num exercício de história centes. Os Vaitacás e os Tupiniquins aliaram-se
compensatória — servir-me-ei do Brasil como caso contra os Portugueses, o que terminou com a sua
exemplar de tais políticas e práticas. As políticas previsível eliminação. Nos anos 70-90 do século
portuguesas para com os nativos americanos eram xvi, os franceses de Paraíba comerciavam pau-
temperadas pelos desafios que os Portugueses en­ -brasil, forçando os Portugueses a intervirem com
frentavam da parte de outros povos europeus, ini­ o apoio de índios. Na década de 1590, as políticas
cialmente pelos comerciantes franceses interessados portuguesas para o desenvolvimento do território
no pau-brasil e mais tarde pelos corsários. Tinham- entre Salvador e o Recife enfrentaram o desafio de
-se verificado consequências prejudiciais para as re­ cerca de 25 000 índios, prontos a lutar para defen­
lações entre os Portugueses e os nativos. Uma delas derem os mercadores franceses, a quem tinham
dizia respeito ao fornecimento de armas de fogo permitido não só comerciar como construir uma
aos nativos em reconhecimento das suas cedências fortificação defensiva (Leite, 1938-1950: vni, 405;
aos Franceses ou como compensação pelo seu tra­ Johnson e Silva, 1992: 173-175). Os tupinambás do
balho. As leis portuguesas proibiam terminante- Maranhão receberam bem a presença francesa no
mente — sob pena de morte — a venda de armas começo do século x vii , em particular depois de ve­
ofensivas aos «infiéis», o que era considerado como rem os Franceses a fazer a guerra a outras tribos da
incluindo os «gentios» (populações indígenas ame­ foz do Amazonas. Não só se aliaram aos Franceses
ricanas). Um a cláusula do regimento (1588) de contra os Portugueses como também persuadiram
Francisco Geraldes referia-se à proibição total de os primeiros a ajudarem-nos na sua própria agenda
fornecim ento aos «gentios das ditas partes do política, lançando um ataque contra os inimigos
Brazil, de artilharia, arcabuzes, espingardas, pól­ tradicionais dos Tupinam bás, os Cam arapins
vora, nem munições pera elas, bestas, lanças, es­ (Hemming, 1978: 74-75, 82-92, 205-206).
padas, punhais, facas d’Alemanha nem de outras As invasões do Nordeste do Brasil pelos Holan­
semelhantes, nem manchis nem foices de cabo de deses forçaram os Portugueses a reconhecer que
pau...». Apesar de alguns portugueses poderem uma política de supressão ou pacificação dos povos
ter infringido este édito, como também foi o ca­ nativos americanos podia ter efeitos indesejáveis,
so em África, eram impotentes, tanto em África não só por os alienar ao ponto de se colocarem ao
com o no Brasil, para evitarem a venda ou troca lado do inimigo, como também por privarem os
de armas ofensivas com os povos nativos, armas Portugueses de uma fonte de mão-de-obra adicio­
que mais tarde foram utilizadas contra si (Trorn- nal capaz de complementar as suas próprias forças.
ton, 1992: 112-125; Gray, 1971; R IH G B , 1906: Na Bahia, os Capaobas (uma tribo potiguara) apro­
vol. 67, parte 1, p. 229). veitaram a tomada de Salvador pelos Holandeses
Um dos efeitos secundários dessas rivalidades co­ (1624) para se revoltarem. Foram mais tarde aniqui­
merciais era a luta entre europeus para consegui­ lados pelos Portugueses, que também utilizaram
rem alianças com os povos nativos americanos e as os inimigos tradicionais dos Potiguaras, os Tabaja­
tentativas de manipulação das rivalidades europeias ras. No Maranhão, os Tabajaras juntaram-se aos
levadas a cabo pelos índios para fins tribais. Os anos Portugueses contra os Holandeses. N o Ceará, os
de 1560 a 1570 viram tribos índias a aliarem-se aos Holandeses também tiveram de enfrentar a hostili­
Portugueses contra outras tribos. Em Pernambuco, dade dos índios. A «Guerra da Liberdade Divina»
os Tabajaras alinharam com os Portugueses contra (1645-1648) forçou os índios a escolherem lados, o
os seus vizinhos índios. A norte do rio de São que foi dramático. Enquanto o chefe potiguar, que
Francisco, os Caetés aliaram-se com os Franceses os Portugueses conheciam por Antônio Filipe Ca­
contra os seus inimigos tradicionais, os Tupinambás marão, bem como alguns tapuias, se aliaram aos
e os Portugueses. Tal como aconteceu frequente­ Portugueses, outros chefes potiguaras e tapuias alia-
mente, quem acabou por perder foram os índios. ram-se aos Holandeses. N o fim, os índios que aca­
baram por perder foram os que lutaram ao lado dos
Portugueses oferecendo presentes ao xá Jahan em Agra, Holandeses (Hemming, 1978: 283-311; Mello, 1954).
depois da tomada de Ügulim, iluminura mogol, cerca de Se a complexidade das negociações diplomáticas
1650 ( R L W C ) e as tensões das alianças oportunistas por vezes en-

159
POPULAÇÃO E SOCIEDADE COMUNIDADES ÉTNICAS

americanos um certo grau de protecção contra a No império português, o que fez com que os ainda, esse pessoal não dispunha das capacidades
exploração comercial. Deveríam ser criadas feiras índios americanos fossem um caso único como necessárias nem do conhecimento das línguas e
onde os índios pudessem vender os seus produtos e grupo foi o facto de a sua religião não ser uma costumes indígenas. A decisão tomada por Afonso
comprar o que precisassem. Todavia, o regimento ameaça para o catolicismo, as suas políticas não de­ de Albuquerque, seguida pelos seus sucessores, foi
também declarava que o governador deveria domi­ safiarem a hegemonia portuguesa, o comércio ou a de não romper as tradições locais na colecta de
nar as tribos rebeldes (RIH GB, 1906: vol. 67, par­ trocas de bens existentes não representarem uma impostos, uso da terra, direito consuetudinário e
te 1, pp. 220-236). A lei de 1609 proclamava que concorrência para as aspirações comerciais portu­ administração das aldeias na ilha de Goa, bem co­
todos os índios eram «pessoas livres», que o seu tra­ guesas, e também — apesar de algumas tribos se­ mo em Salsete e Bardez. Aí, tal como em Malaca e
balho deveria ser voluntário e compensado, e que rem compostas por soberbos guerreiros que causa­ Ceilão, a colecta de impostos, a aplicação da justiça
as pessoas que os tentassem escravizar seriam puni­ vam pesada mortalidade entre os Portugueses no indígena e a administração local foram confiadas a
das. [Collecção Chronologica (1603-1612): 271-273, caso de conflitos limitados — porque os Portugueses não-portugueses e até a não-cristàos. Em Goa, as
309-312]. Porém, pouco depois (1611), a Coroa vol­ detinham a superioridade militar. A política portu­ leis existentes antes da chegada dos Portugueses fo­
tou a reiterar as condições em que a guerra contra guesa para com os grupos étnicos nunca reflectiu ram codificadas (pelo menos as que despertaram o
os nativos americanos se justificava. U m alvará de tantas ambiguidades e objectivos em conflito como interesse da administração portuguesa) no Foral dos
1647 garantia aos índios do Maranhão a liberdade no caso dos povos americanos indígenas. A influên­ usos e costumes dos gancares e lavradores desta Ilha de
total e proibia a sua captura, o que provocou uma cia dos colonos portugueses na legislação real refe­ Goa e destas outras suas anexas (1526). Foi assim que
violenta reacção negativa por parte dos colonos rente a um determinado grupo étnico, o dos índios as práticas indígenas a respeito das leis consuetudi-
[idem (1640-1647): 335], pelo que foi rapidamente americanos, também não teve paralelo em todo o nárias e a colecta dos direitos alfandegários e im­
seguida por uma provisão régia especificando as império português. Essa legislação era dominada por postos, bem como os respectivos administradores,
condições em que os índios podiam ser feitos cati­ seis temas, três dos quais reflectiam uma posição coexistiram com a administração portuguesa. Na
vos: por obstrução à pregação dos Evangelhos, por proteccionista: a responsabilidade moral que a C o­ índia, os Portugueses respeitaram a jurisdição dos
falha na defesa das vidas e propriedades dos Portu­ roa sentia pelos nativos americanos, o desejo real de magistrados hindus e muçulmanos. O reconheci­
gueses, por alianças e assistência aos inimigos de os «civilizar» em termos morais, comporcamentais e mento da lei indígena não se limitou à índia. Em
Portugal, por roubo em terra ou no mar, por dete­ religiosos e a responsabilidade de se lhes conceder Moçambique fõram respeitadas as práticas legais in­
rem os viajantes e impedirem o movimento das protecção contra abusos por parte dos colonos. Três dígenas e as respectivas sanções. Em Macau, o regi­
pessoas para os campos e quintas, por não paga­ outros reflectiam pragmatismo e compromisso: acei­ mento dos ouvidores (1587) especificava que o ou­
mento de tributos, por recusa a responder à cha­ tação da pacificação pela força, autorização das «en­ vidor não deveria interferir na jurisdição que o
Albert Eckhout, mulher tupi, óleo sobre tela, 1643 (N M D ) mada para o serviço real, incluindo o serviço mili­ tradas», que na realidade mal conseguiam ocultar mandarim do distrito de Macau exercia sobre as
tar e por canibalismo com os Portugueses como uma verdadeira razia para captura de escravos, e a questões internas da comunidade chinesa. O ouvi­
sinaram duras lições aos Portugueses a respeito da vítimas. O rei também decidiu que os critérios so­ subversão dos critérios até aí prevalecentes que re­ dor também não podia atender a casos em que os
diversidade dos povos com quem entravam em bre o que era uma «guerra justa» continuavam em gulamentavam as «guerras justas». No fim, as consi­ acusados fossem chineses, uma vez que a jurisdição
contacto, isto nào se reflectiu de um modo subs­ vigor. As «entradas» dos civis, acompanhados por derações morais e as políticas proteccionistas eram sobre os mesmos fora cedida às autoridades chine­
tancial na compilação das leis portuguesas — si­ missionários, foram autorizadas [idem (1648-1656): sacrificadas às conveniências, mas isso não toma essa sas. As frequentemente tensas relações com o vice-
multaneamente codificadas e extravagantes — co­ 292-293]. Foram feitas clarificações e modificações, legislação menos notável. Esse tipo de protecção não -rei, em Cantão, a par com a natureza dos direitos
nhecidas por Ordenações Filipinas (1603). Estas tal como em 1667, quando se estabeleceram os ter­ se aplicava — nem o processo legislativo foi tão tor­ extraterritoriais concedidos aos Portugueses e a
ordenações revelam muito pouco quanto às atitu­ mos para a manutenção de índios no cativeiro e tuoso — no que se referia aos africanos escravizados grande população chinesa, também requeriam me­
des e práticas portuguesas para com os grupos étni­ aproveitamento do seu trabalho. O governador do em África ou que haviam sido transportados para o didas especiais. Foi estipulado um acordo, segundo
cos. Para isso, temos de nos virar para a superabun- Maranhão, Antônio de Albuquerque Coelho de Brasil para serem escravos. Ao contrário da Espanha o qual a comunidade étnica chinesa ficaria sob ju ­
dância de alvarás com força de lei, ordens reais e Carvalho, decretou (3 de Agosto de 1667) que a e da França, não obstante o número de escravos risdição de administradores chineses e sujeitos ao
correspondência, bem como os éditos do Conselho ordem real fosse cumprida. A sua jurisdição supe­ africanos nos territórios portugueses exceder grande­ código de leis chinesas (Diffie e Winius, 1977: 331-
Ultramarino que regulavam as relações dos portu­ rior dava-lhe autoridade para cancelar as decisões mente os das outras colônias europeias, Portugal não -334; Souza, 1994: 57-86; Hespanha, 1994-1995:
gueses com os não-europeus. do juiz ordinário quanto à distribuição dos índios, compilou um código da escravatura. Nào havia 39-45)-
O maior volume — mas não codificado — de para resolver queixas dos colonos e para tomar me­ condenação, por parte da Igreja ou do Estado, da As autoridades portuguesas aceitaram a responsa­
legislação respeitando às relações e práticas portu­ didas, se necessário, para garantir o cumprimento instituição da escravatura, apesar de a sua prática ser bilidade pelo bem-estar das comunidades étnicas de
guesas com um grupo étnico do vasto império das suas decisões [idem (1657-1674): 128-129]. A lei ampla e não se limitar à África ou à América. Para cristãos convertidos vivendo em territórios sob a
português diz respeito aos nativos americanos. No de 1680, que concedia terras aos índios como «pri­ os grupos étnicos do Estado da índia também não jurisdição de governantes não católicos. Um «Me­
século xvi, os debates teológicos e filosóficos leva­ mários e naturais senhores delas», incitou os colo­ foi promulgado nenhum corpo de legislação compa­ morial» de 1643, enviado aos representantes do rei
ram à ordem de D. Sebastião (1570) proibindo a es­ nos do Maranhão à revolta (1684), liderados por rável ao destinado aos ameríndios. de Cochim, esboçava condições para o comporta­
cravidão de ameríndios excepto sob a cláusula de Manoel Beckman e Jorge Sampaio. O regimento A enormidade da tarefa de administração das co­ mento para com a comunidade cristã, entre as
«guerra justa», os constantes ataques contra os Por­ de 1686 foi uma tentativa final para estabelecer um munidades étnicas sob jurisdição portuguesa levou quais se incluíam: o rei não deveria beneficiar, por
tugueses, ou contra outros índios para finalidades equilíbrio entre a necessidade de mão-de-obra por à devolução de responsabilidades aos líderes indíge­ intermédio de herança, da morte dos cristãos; não
canibalescas. Contudo, os protestos dos colonos le­ parte dos colonos e a protecção dos ameríndios nas, bem como à aquiescência portuguesa para com devia ser exigido aos cristãos que fizessem paga­
varam à sua revogação. Em 1574, os resgates foram contra a exploração. Em 1693, todas as ordens reli­ a continuação dos costumes tradicionais. O contro­ mento em dinheiro por ocasião do casamento dos
novamente autorizados com a condição de que os giosas passaram a gozar de direitos iguais e o terri­ lo de Goa, Malaca, Ceilão e Macau — para referir filhos; os cristãos não deveríam ser perseguidos
índios escravizados fossem registados. A política fi- tório missionário do Maranhão foi dividido entre apenas quatro centros de importância fundamental nem os seus bens confiscados; os cristãos deveríam
lipina ficou expressa no regimento (1588) entregue as ordens e a Companhia de Jesus. Todavia, o rei — trouxe consigo a responsabilidade pela adminis­ estar isentos de prestar juramento «a modo gentíli-
a Francisco Geraldes como govemador-geral do salientou que a jurisdição temporal dos missioná­ tração de populações indígenas, que, numerica­ co»; não lhes deveria ser exigido que levassem ofe­
Brasil. Incluía cláusulas para a pacificação forçada rios sobre os índios não os isentava inteiramente da mente, excediam em muito os portugueses. Não só rendas aos pagodes por ocasião dos festivais gentíli-
dos povos índios hostis aos Portugueses, enquanto jurisdição civil, na pessoa dos governadores e ma­ Portugal não dispunha de pessoal suficiente para cos; finalmente, não lhes deveria ser exigido que
ao mesmo tempo procurava garantir aos nativos gistrados (Kiemen, 1954; Malheiro, 1976: 2.a parte). administrar tais populações como, mais importante rapassem as cabeças por morte da realeza, uma vez

160 161
POPULAÇÃO E SOCIEDADE COMUNIDADES ÉTNICAS

que isso também não era exigido aos judeus e aos tal comunidade judaica e aos seus locais de culto, tios, aos recém-convertidos ao cristianismo e até
mouros. O «Memorial» também insistia na restitui­ mas faltavam-lhe bases para insistir junto do rei pa­ aos cristãos de longa data. Apesar de concordar
ção, restauração e substituição de estátuas e cruzes ra que abolisse as sinagogas. O vice-rei era alta­ com a importância do pedido e com as razões para
profanadas em 1642 por ordem do pataré, ou rege- mente sensível aos problemas entre o rei e os Por­ proibir a presença de cristãos nas celebrações, o vi­
dor-mor (Assentos: 11, 379-380, 430-440). Tecnica­ tugueses causados por desacordos nos preços da ce-rei objectou, salientando que se tratava de um
mente, também era esse o caso de Macau, onde a pimenta, mas autorizou o bispo de Cochim a falar rito muito antigo e que não constituía qualquer
maioria da população era composta por chineses com o rei, numa linguagem diplomática e circuns­ ofensa para os princípios do cristianismo. O conde
cristãos, os jurubaças, e por outros povos indígenas pecta, para o persuadir a «escusar judiarias» (Lavai, de Óbidos também afirmou que, naquele momen­
cristãos (Bocarro, 1937-1940). Não me foi possível 1619: parte 1, cap. 28; Assentos: 11, 159-160). to, os Portugueses tinham muitos inimigos no con­
esclarecer se, depois da perseguição aos cristãos no Quando os grupos étnicos indígenas constituíam tinente e que a guerra de Canará se arrastava. Não
Japão, as comunidades da diáspora cristã japonesa uma ameaça, real ou suposta, para as crenças, valo­ desejava tomar qualquer iniciativa que incitasse ou­
— tal como no Sião, Camboja e Arracão (que se res ou costumes dos Portugueses, as autoridades tros ao antagonismo contra os Portugueses. Pediu
situava entre as actuais Myanmar e Bengala) — fo­ procuravam eliminar ou atenuar essa mesma amea­ que aquela informação fosse transmitida ao inquisi­
ram objecto de uma intervenção portuguesa (Bo­ ça. As autoridades do Estado da índia tinham muita dor-geral e prometeu levar o assunto à atenção do
xer, 1993: 43, nota 48). consciência da vulnerabilidade dos grupos étnicos rei. Se o clima político melhorasse, então o Conse­
Uma outra comunidade étnica religiosa, também convertidos ao cristianismo, que podiam facilmente lho poderia rever o assunto. Foi o que aconteceu
em Cochim, deu origem a uma reacção diferente sucumbir às pressões dos seus pares ou das maiorias, em 1654, tendo chegado à mesma decisão pelas
por parte das autoridades portuguesas de Goa. Py- regressando à «gentilidade». Na ilha de Goa, os ca­ mesmas razões (Assentos: m, 261-262, 563-564).
rard de Lavai notou a presença, em Cochim de C i­ samentos entre não-cristãos eram encarados como As pessoas de descendência africana constituíam
ma, a cidade indígena, de uma grande e rica comu­ sendo potencialmente perniciosos, «escandalosos e o grupo étnico com quem os Portugueses tinham
nidade judaica, uma entre as muitas comunidades contra a lei natural». As objecções não eram contra mais interacção. Isto verificou-se na África O ci­
de diferentes crenças religiosas que viviam em har­ a instituição do casamento, mas sim contra os ritos dental, Central e Oriental, mas a mais prolongada e
monia e com liberdade de culto. Era do conheci­ e práticas que acompanhavam tais cerimônias hin­ intensa interacção entre Portugueses e Africanos
mento geral que o rei de Cochim permitia no seu dus e contra a possibilidade de os cristãos poderem não ocorreu em Africa, mas sim com os africanos da
reino as sinagogas dos «judeus brancos e pretos». ser influenciados pela sua exposição às mesmas. O as­ diáspora, particularmente com os transportados co­
Em 1636, o facto foi sujeito a debate no Conselho sunto fora discutido no I Concilio Provincial, em Angolana, in Antônio de Oliveira Cadornega, História mo escravos para além das costas de África, para as
de Estado, em Goa. O Conselho opunha-se a uma Goa, que fizera recomendações ao rei, mas sem qual­ Geral das Guerras Angolanas, 1 6 8 0 -1 6 8 2 (A C L ) ilhas atlânticas, para a índia e muito especialmente
para o Brasil, bem como com os seus descendentes.
Templo hindu e mesquita, in Jan Huygen van Unschoten, Itinerarium ofte Schipvaert naer O ost ofte Portugaels quer efeito. O III Concilio Provincial também con­ Para as pessoas de descendência tanto africana co­
Indien, Amesterdão, 1614 (BN) denou os «ritos diabólicos e invenções dos seus mo europeia, esses relacionamentos ocorreram
falsos deuses, e outras cerimônias gentílicas...». principalmente em continentes de que nenhum
O Conselho de Estado apoiava uma simples troca dos grupos era indígena. Um tal relacionamento
de votos sem ritos ou cerimônias e recomendava caracterizava-se pela reciprocidade e pelas trocas
que nenhum sacerdote brâmane estivesse presente mútuas, mas também por um desequilíbrio, com­
porque essa presença resultaria inevitavelmente em ponente inevitável das sociedades esclavagistas, on­
«cerimônias gentílicas». Em 1636, o Conselho pe­ de a dominação e a subordinação eram inalie­
gou no assunto no que respeitava a Goa e territó­ náveis. ^
rios adjacentes. Uma provisão do vice-rei proibira Na África Ocidental e Central, os contactos en­
os «infiéis seus vassalos» das zonas a norte de leva­ tre os Portugueses e os Africanos tiveram um âm­
rem a cabo tais ritos e o Conselho votou que essa bito restrito, limitando-se a iniciativas comerciais,
mesma provisão fosse aplicada a todas as terras sob religiosas e políticas por parte dos Portugueses,
jurisdição portuguesa (Assentos: ii , 159-161). bem como a contactos sexuais com as mulheres
Todavia, mesmo numa questão tão sensível co­ africanas. Não só o comércio de escravos pertur­
mo a protecção da comunidade cristã indígena das bou o que poderia ter sido um relacionamento
influências estranhas, ainda havia espaço para o mais igualitário como os Portugueses não conse­
pragmatismo e compromisso. A cerimônia thirta, guiram compreender as complexidades e as diversi-
conhecida pelos Portugueses como «lavagem», fora dades de formas de governo africanas, as suas insti­
celebrada anualmente, em Agosto, pelos hindus de tuições e os grupos religiosos e étnicos. Mesmo em
Naroá, na ilha de Goa, e precedera, de longe, a Angola, onde os Portugueses se esforçaram por es­
chegada dos Portugueses à índia. Com a sua che­ tabelecer uma colônia, o potencial para o êxito es­
gada, passara a realizar-se no continente. Os princi­ tava limitado pela hostilidade indígena, pelas doen­
pais beneficiários dos três dias de celebrações eram ças e por uma notável falta de entusiasmo dos
os comerciantes mouros, que montavam uma feira. próprios portugueses para se instalarem, em núme­
Os gentios moradores na cidade de Goa tinham si­ ro significativo, nos centros urbanos, e ainda me­
do autorizados a participar. Em 1652, a participação nos no sertão ou longe da costa. O resultado foi
de gentios ou cristãos da ilha havia sido proibida, o um fraco potencial para uma interacção signifi­
que provocou as queixas dos governantes do conti­ cativa com os povos indígenas e uma virtual ausên­
nente. N o ano seguinte, agindo de acordo com as cia de oportunidade para a compreensão mútua e
instruções do inquisidor-geral, o inquisidor pediu para o intercâmbio cultural.
que voltasse a ser imposta essa proibição aos gen­ São Tomé, Príncipe e Cabo Verde ofereciam

163
POPULAÇÃO E SOCIEDADE COMUNIDADES ÉTNICAS

maiores oportunidades para uma mais ampla inte- e 11a procissão dos namban-jin, ou bárbaros do Sul, condições dos escravos e da relação entre estes e libertos, existiam também grupos étnicos, separados
racção entre os Portugueses e as pessoas de descen­ para o dáimio. Os artistas japoneses revelaram uma os seus proprietários (mas não sobre a escravatura pela religião (a católica, e, embora clandestinamen­
dência africana, muitas delas originárias do conti­ subtil compreensão das distinções sociais nas suas como instituição), com a publicação das Constitui­ te, também a islâmica e as práticas e crenças tri­
nente. O facto de essas ilhas serem anteriormente representações de pessoas de origem africana e de ções primeiras do arccbispado da Bahia (Titton, 1973). bais), pela língua, pela filiação tribal, pelo lugar de
desabitadas permitiu aos Portugueses desempenhar europeus. Mesmo aí, não se fazia qualquer referência a uma origem e pelo tom da pele (negro, pardo, mulato,
o papel de «primeiros a chegar» e estabelecer um Foi no Brasil que os Europeus e os Africanos — prática que fora rapidamente aceite no Portugal etc.). Existiam também grupos — os dos quilom­
contexto econômico e social anterior à chegada tanto uns como outros estrangeiros à terra — tive­ do século xv, ou seja, a emancipação através do bos — em que a sua identidade como escravos fu­
dos negros do continente africano. Nas ilhas de ram uma relação mais profunda, no contexto da instrumento legal da carta de alforria garantida por gidos se sobrepunha a todas as outras distinções.
Cabo Verde, a presença portuguesa precedeu a im­ própria instituição da escravatura. um proprietário, ou pelos herdeiros ou executores, O processo de escravidão, os padrões do respec­
portação dos africanos, para aí levados como escra­ Uma estimativa para o período de 1570-1600 após a sua morte. As cartas de alforria podiam ser tivo comércio, a venda no Brasil e a subsequente
vos. Surgiu uma sociedade em que as pessoas de coloca o número de escravos importados entre ou não ser condicionais. Enquanto os registos no­ dispersão eram não só destrutivos em termos de
origem portuguesa ou seus descendentes consti­ 80 000 e 100 000, enquanto para o século xvn tariais do Brasil colonial permitem uma análise sis­ coesão familiar como constituíam um desafio à
tuíam a elite social e econômica, enquanto os es­ esse volume pode ter-se aproximado dos 2 mi­ temática para o século x v iii , a qualidade e a quan­ preservação das alianças tribais, tão fortes nas socie­
cravos eram os oprimidos e os sem-voz. Contudo, lhões (Conrad, 1986: 26-29). As privações físicas tidade dos documentos existentes para o período dades africanas. E discutível se essas alianças consti­
em meados do século xvi já existia um significativo dos futuros escravos iniciavam-se em África e a anterior a 1697 só permite generalizações. Todavia, tuíam uma identidade ou se, na verdade, na África
sector de pessoas que haviam adquirido a libertação viagem do interior para a costa era fatal para é evidente que aspectos como a natureza do instru­ pré-colonial já existia o conceito que agora encara­
da escravidão (forros) ou haviam nascido livres. muitos deles. Outros morriam nos barracões on­ mento legal, as razões para a concessão da alforria, mos como sendo de identidade. As designações
Uma outra divisão na comunidade africana pode de eram amontoados ou durante a viagem para o os agentes da liberdade, a auto-aquisição por parte identificadoras dos escravos no Brasil eram uma
ter tido como base a pigmentação da pele, em tons Brasil, que constituía uma experiência psicologi­ do escravo, o pagamento a um proprietário para a mistura de portos de origem, termos genéricos ou
mais claros ou mais escuros. Em Cabo Verde veri­ camente traumatizante e fisicamente esgotante. libertação de uma escrava concubina ou do filho específicos para denominar áreas geográficas, políti­
ficaram-se conflitos sociais e o aparecimento de Alguns já transportavam doenças antes de chega­ biológico de um branco livre e o potencial para cas, ou grupos étnicos reconhecíveis. Os mercado­
grupos de escravos fugitivos (H G C V 133-177). São rem ao Brasil, enquanto outros sucumbiam ao negociação entre um escravo e o seu proprietário, res de escravos e os registos nas alfândegas criaram
Tom é foi também um dos lugares onde os Portu­ sarampo, gripe, varíola e a uma grande variedade que se encontravam presentes no Portugal do sécu­ uma classificação que podia combinar um ou mais
gueses já tinham, anteriomiente, experimentado as de doenças respiratórias, como a pneumonia, isto lo xvi, também existiam no Brasil do século xvn grupos étnicos 'sób uma única designação genérica
revoltas contra as suas políticas e práticas por parte para nem sequer referir as excessivas exigências (Saunders, 1982; 138-141; Schwartz, 1974: nota 7), (Congo), ou aplicar erroneamente uma designação
das pessoas de descendência africana. Em 1574, os físicas (Curtin, 1968: 190-216). Trabalhavam fun­ isto apesar de contextos econômicos e sociais mui­ geográfica (como o porto de Cabinda) a um grupo
angolares rebelaram-se, queimando engenhos de damentalmente nas plantações de açúcar, na agri­ to diferentes e de uma população escrava com ­ étnico, ou ampliar a estreita designação de «Nagô»
açúcar e atacando a cidade, situação que voltou a cultura, nos serviços domésticos e com o carrega­ posta exclusivamente por pessoas de descendência de modo a abarcar todos os povos de expressão io-
repetir-se na década de 90. Em 1595, foram quei­ dores. africana. ruba. Também nunca existiu o grupo étnico co­
madas igrejas e destruídas plantações de açúcar, re­ N o Brasil não houve um código para a escrava­ Esta descrição da alforria demonstra que, longe nhecido por «Mina». O termo designava os embar­
volta que terminou com um líder negro, Amador, tura, não obstante em nenhum outro lugar fora de de existir uma distinção clara entre a escravidão e a cados em São Jorge da Mina. Existiam alguns
a declarar-se rei (M M A, 1952: m, 521-523 e n.° 151 e África se poderem encontrar tantos africanos nem liberdade, esta era indistinta ou com tonalidades grupos etnolinguísticos como os Bacongos (de ex­
ss.; Castelo-Branco, 1971: 153-154). uma tão grande preponderância demográfica de es­ subtis, uma vez que a liberdade existia como ins­ pressão quicongo), Mbundos (de expressão quim-
O Estado da índia e o Brasil constituíam regiões cravos negros. As Ordenações Filipinas (1603) não re- trumento legal e como realidade física, mas podia bundo, que no Brasil eram conhecidos por Cabun-
em que tanto os Portugueses como os Africanos flectiam a realidade da escravatura no Brasil nem estar sujeita a um certo número de condicionalis- dás), Ovimbundos e Nganguelas, cujas origens
eram «os outros». N o oceano Indico e no Atlânti­ estabeleciam linhas de conduta no que se refere aos mos, facto que sublinha uma mais ampla heteroge- étnicas verdadeiras se encontravam ocultas por de­
co, os Africanos faziam parte da tripulação dos na­ direitos dos escravos e às relações entre eles e os neidade e um esbater de linhas no interior da po­ trás do nome do porto de embarque. Designações
vios, e em ambos os casos os Portugueses foram os seus amos. Foi apenas em 1707 que surgiram as pri­ pulação africana da colônia. Para além de uma amplas como as de «Mina» eram aplicadas a di­
principais transportadores de pessoas de descendên­ meiras manifestações eclesiásticas a respeito das grosseira separação entre os grupos de escravos e de ferentes regiões e a povos diferentes em épocas dife-
cia africana para fora do continente africano. O co­
mércio de escravos na África Oriental já foi estuda­
do (Alpers, 1967; Harris, 1971) tal como a presença
africana no Estado da índia (Pescatello, 1977: 26-48;
Chauhan, 1995; Pinto, 1992). Pyrard de Lavai regis­
tou a presença em Goa de «negras da Guiné», vin­
das de Moçambique e de outros pontos de África,
por quem os Portugeses se sentiam mais atraídos
do que pelas muito bonitas jovens indígenas, de
pele mais clara. Durante a sua permanência em
Macau, em 1637, Peter Mundy observou o «jogo
de alcanzias», em que os cavaleiros portugueses
eram auxiliados pelos seus escravos «negros ou ca-
fres» (Lavai, 1619: parte 2, cap. iv; Boxer, 1993: 65).
Biombos de Kano Domi e de outros artistas japo­
neses representam escravos africanos a bordo dos
grandes navios negros que chegavam a Nagasáqui,

Zacharias Wagner, negros dançando no Brasil


(à esquerda) e dança tarairu (à direita), aguarelas,
séc. xvn, (KKD)

164 165
POPULAÇÃO E SOCIEDADE COMUNIDADES ÉTNICAS

rentes. Era muito raro que essas designações reflec- des era dedicada à veneração de Nossa Senhora das em África ou de descendência africana não se
tissem mudanças resultantes das migrações e do Rosário, associada à Ordem Dominicana, que limitavam ao Brasil, mas em nenhum outro lado a
diásporas intra-africanas, fomes, alterações nas já existia em Lisboa antes de 1494. Organizou no­ sua proliferação foi tão grande como na América
alianças e sortes políticas, ou novas fontes de escra­ vas filiais em Portugal e no Ultramar, mais especi­ portuguesa. O estabelecimento de Luanda (1575)
vos e rotas do respectivo comércio. No Brasil, as ficamente em São Tom é (1526) e no Funchal, no encorajou o seu aparecimento em Angola, mas as
designações eram utilizadas por vendedores e com­ século xvi (Saunders, 1982: 151-52: M M A : 1, 331, irmandades eram poucas tanto aí como em M o­
pradores de escravos como «marcas comerciais» ou 376, 391, 472-474, 500-501). Há uma referência je ­ çambique. N o seu livro Etiópia Oriental (Évora,
«etiquetas» que ambas as partes entendiam como suíta, de 1552, a uma irmandade do Rosário de 1608) o frade dominicano João dos Santos referiu-
descrevendo atributos físicos, qualidades morais e Pernambuco (Cartas Jesuítas: 123). Em 1589, dois -se a filiais do Rosário (cuja veneração não se limi­
características culturais e comportamentais. Em re­ jesuítas fundaram irmandades de escravos negros tava a pessoas de descendência africana), em Sena,
sumo, enquanto, por um lado, podem ter-se verifi­ nas plantações de açúcar de Pernambuco com o Cochim («que ali serviram muitos anos os malaba-
cado casos em que os povos africanos se serviam objectivo expresso de melhorar a instrução espiri­ res cristãos com muita veneração e devoção...») e
desses termos para se descreverem a si mesmos, é tual (Leite, 1938-1950: 11, 324). Sem dúvida que em Ceilão (Santos, 1989: parte 2, liv. 2, caps, vm ,
muito mais provável que os mesmos fossem aplica­ também existiam outras irmandades de negros, x). No princípio do século xviii existiam também
dos por outros africanos ou por europeus, o que mas o seu tempo de vida foi curto e os registos ramificações da Irmandade de Nossa Senhora do
os torna em reflexões subjectivas e frequentemen­ desapareceram. Rosário na ilha de Santiago, Cabo Verde, e no
te incorretas de distinções étnicas antropologica- Foi apenas em finais do século xvii que parece Príncipe, no golfo da Guiné (Santa Maria, 1707-
mente precisas. A elasticidade ou arbitrariedade de ter surgido um clima conducente â criação de ir­ -1723: vol. 10, liv. 5, títs. 4, 5, 16, 17).
tais identificações (nações) «étnicas», e o reconheci­ mandades por iniciativa das pessoas de descendên­ Os povos indígenas marcavam uma grande pre­
mento de que podiam ser criados novos grupos ét­ cia africana. Foram organizadas filiais da Irmandade sença em todas as cidades e povoados portugueses
nicos, exigem que os historiadores ou etnógrafos as do Rosário no R io de Janeiro (c. 1639, mas que só do Ultramar, mas nenhum grupo étnico estava tão
encarem com uma grande circunspecção. foi aprovada alguns 30 anos depois) em Belém integrado na vida demográfica, social, religiosa, se­
Depois desta advertência, podemos afirmar que a (Compromisso, 1682) e também em Salvador, nas pa­ xual e econômica dos centros urbanos como as
África Ocidental foi predominante no fornecimen­ róquias da Sé e de Nossa Senhora da Conceição da pessoas de descendência africana — tanto escravos
to de escravos para a Bahia e para o Nordeste. Praia (Carneiro, 1964: 88; Costa, 1958), isto apesar como libertos — do Brasil. Os factores demográfi­
O termo África Ocidental designava a região que de, de acordo com o frade Agostinho de Santa cos e culturais, bem como a natureza da instituição
vai do Senegal aos Camarões dos nossos dias, bem Maria, terem sido precedidas por uma filial em da escravatura na América portuguesa, fizeram com
como as ilhas de Cabo Verde e São Tomé e Prín­ Santo Antônio (Santa Maria, 1707-1723: vol. 9, que o papel e funções de um escravo doméstico
cipe, dentro da qual a área mais importante era o liv. 1, tít. 29). Os estatutos de 1685 da filial da cate­ fossem muito diferentes, por exemplo, no R io de
golfo do Benim e os portos de comércio de escra­ dral não incluíam qualquer cláusula quanto à etnia Janeiro e em Goa. As pessoas de origem africana
vos incluídos naquilo a que os Portugueses se refe­ dos membros, mas para nós tem um particular in­ — tanto escravos como libertos — estavam fisica­
riam, de um modo impreciso, por Costa da Mina. teresse saber que a filial da irmandade na paróquia mente integrados no$ aglomerados urbanos do Bra­
Entre os numerosos grupos étnicos predominantes da Nossa Senhora da Conceição foi fundada (1685) sil, mas os chamados «índios mansos» já não se en­
no Brasil colonial encontravam-se os Iorubas (Na- em grande parte por escravos de Angola e pelos contravam tão integrados, nem sequer em São
gô na Bahia e no Rio de Janeiro) e os Gegés (do seus descendentes. Nos estatutos (1686), o corpo Paulo, Belém ou São Luís. N o Estado da índia ve­
Daomé). Os documentos contemporâneos atri­ dirigente identificava-se a si mesmo como incluin­ rificaram-se vários factores — que variavam de re­
buíam aos escravos dessa vasta região geográfica as do «Angolas» e «crioulos» (Russell-Wood, 1992: vi gião — que militavam contra a total integração de
seguintes «nações»: gentio da Guiné, Nagô, Gegé, apêndice). A Irmandade de Santo Antônio de Ca- um qualquer grupo étnico. Entre esses factores en­
Cabo Verde, Calabar, Cacheu, Mána, Haússa, Ar- tegerona, fundada em 1699, em Salvador, admitia contravam-se a superioridade demográfica indíge­
da, Tapa, Mandiga, Camarão, Benim, entre outras. toda a gente, independentemente do estatuto legal na, fortes e inultrapassáveis tradições culturais e po­
A denominada África Ocidental Central incluía a ou sexo, e conservava no seu corpo de dirigentes líticas, um rígido sistema de castas, a divisão por
região do Gabão dos nossos dias até ao Sul de An­ (mesa) uma representação étnica igual de angolanos linhas religiosas (budismo, islamismo, hinduísmo) e
gola. Os escravos daí provenientes eram identifica­ e crioulos (Cardozo, 1947: 24-30). Em 1707-1723 uma linha de demarcação entre os convertidos ao
dos nas alfândegas e noutros registos do Brasil pelas existiam seis irmandades de negros e cinco de mu­ cristianismo e os não-convertidos.
suas regiões e pelas seguintes «nações» atribuídas: Nossa Senhora da Conceição, barro policromado, 1598, latos na capital do Brasil (Santa Maria, 1707-1723: A diversidade (racial, religiosa e territorial) do
Congo, Cabinda, Monjolo, Anjico, Luanda, Ango­ Igreja de Itapurica, São Paulo vol. 9, liv. 1). império foi assinalada por Antônio Bocarro, no­
la, Benguela, Caçanje, Quiçama, Ganguelas, São São exemplos importantes da iniciativa corpora­ meado (em 1631) pelo vice-rei para guarda-mor da
Tomé, Ilha do Príncipe, Rebolo e outras. Surgiam grupos de escravos fugidos sugerir uma predomi­ tiva e da autoconfiança demonstrada por pessoas de Torre do Tombo do Estado da índia, cuja própria
também ocasionais escravos provenientes da África nância de angolanos, a verdade é que as concentra­ descendência africana. Apesar de os cargos de te­ genealogia de cristão-novo talvez o tenha tornado
Oriental. ções de escravos fugitivos do Brasil exibiam uma soureiro e escrivão estarem reservados aos brancos, sensível à diversidade étnica. O seu Livro das Plantas
Enquanto os dados para os grupos étnicos dos enorme variedade de origens «étnicas». Numa carta a direcção encontrava-se exclusivamente na mão de todas as fortalezas, cidades e povoaçoes do Estado da
descendentes de africanos são ricos para os sé­ de 1648, o soldado negro Henrique Dias, que se de pessoas eleitas pelos membros africanos. Tais ir­ índia Oriental (1635) é uma fonte indispensável para
culos xviii e xix, o período de 1570 a 1697 forne- distinguiu contra os Holandeses, descreveu os sol­ mandades realizavam celebrações públicas e prati­ o esclarecimento dos graus de integração física nos
ce-nos, na sua maioria, apenas designações gerais dados sob o seu comando como sendo principal­ cavam — dependendo dos seus meios financeiros ambientes urbanos de portugueses e não portugue­
simplistas, algumas das quais constam acima, e mente «Angolanos» e crioulos, com alguns «Minas» — a filantropia social sob a forma de assistência aos ses. Em Goa, para além dos Portugueses, Bocarro
pouco mais do que isso. O facto de o termo «mo­ e «Ardas» (Kent, 1965: 164-166). doentes e até ajudando escravos a adquirirem a car­ assinalou a presença de escravos, na sua maioria
cambo», usado para designar um grupo de escravos Uma outra fonte reveladora do modo como as ta de alforria. Para os seus membros era de grande «cafres e de outras nações da índia», «casados pretos
fugitivos, derivar provavelmente de uma palavra pessoas de descendência africana se descreviam a importância terem a garantia de um funeral cristão, cristãos» canarins, bem como de mercadores e artí­
ambundo, mukambo, e de uso posterior (no século si mesmas durante o período inicial são os estatu­ bem como as missas pelas almas dos falecidos (Rus­ fices não cristãos (gentios), constituídos principal­
xviii) da designação «quilombo» para esses mesmos tos das irmandades. A mais antiga dessas irmanda- sell-Wood, 1974). As irmandades de pessoas nasci­ mente por canarins e guzarates (Bocarro, 1937-

166 167
POPULAÇÃO E SOCIEDADE

em 1527 (Mathew e Ahmad, 1990: v, xvm-xix,


xxx-xxxn; Lavai, 1619: parte 1, cap. 28). A frase C o ­
chim de Cima também designava o bairro judeu
GRUPOS SOCIAIS
(Azevedo, 1989: 231). Em Malaca existia uma zona A. J. R. Russell-Wood
especificamente portuguesa, isolada dos bairros in­
dígenas. Sofala e Moçambique fornecem-nos um
modelo diferente, nomeadamente com a demarca­
ção entre a comunidade portuguesa, que podia in­
cluir não-portugueses mas cristãos, e uma comuni­
dade não portuguesa e não cristã. Junto à fortaleza O período de 1570 a 1697 foi turbulento para a násticas puseram à prova as lealdades de alguns por­
de Sofala encontrava-se a «povoação dos moradores mãe-pátria e para o império. A imposição do do­ tugueses, os holandeses do Brasil constituíram uma
cristãos», que incluía portugueses, mestiços e «gente mínio dos Habsburgos, a restauração da indepen­ ameaça de um tipo diferente.
da terra», tal como assinalou o dominicano João dência, a mudança dinástica com o advento da Ca­ Com a conquista do Maranhão (Novembro de
dos Santos. Todavia, também indicou que â distân­ sa de Bragança e os prolongados conflitos no 1641), os Holandeses ocuparam metade das 14 ca­
cia de dois tiros de espingarda existia a «povoação território nacional até à assinatura de um tratado de pitanias do Brasil. João Maurício de Nassau-
de mouros» (Santos, 1989: parte 1, liv. 1, cap. 2; paz com a Espanha, em 1668, foram muito per­ -Siegen seguiu uma política social cujo objectivo
Bocarro, 1937-1940: iv, vol. 2, parte 1, p. 9; Axel- turbadores. N o ultramar, foram anos de constan­ era persuadir os Portugueses a passarem para o seu
son, 1964: 3). Em Mombaça, a cidade portuguesa tes ameaças, múltiplos conflitos em numerosas lado. Essa finalidade falhou. As pródigas celebra­
jazia entre a fortaleza e a cidade árabe (Axelson, frentes simultâneas, desafios por parte de outras po­ ções da ascensão de D. João IV ao poder não con­
1964: 11-12). Na índia, as filiações religiosas consti­ tências europeias e frequentes hostilidades com os venceram os Portugueses, nem tão-pouco a inicia­
tuíam frequentemente a linha de demarcação. governantes indígenas. O comércio foi perturbado tiva de João Maurício de convocar uma assembléia
Chaul contava com «portugueses casados» e «pretos tanto em Portugal como fora dele, a liderança foi de representantes eleita pelos moradores portugue­
cristãos da terra», com os seus escravos, todos capa­ posta à prova e faltavam os necessários requisitos ses para defesa ^dos seus pontos de vista. A interac­
zes de pegar em armas e vivendo no interior da humanos e financeiros. O território nacional foi in­ ção física entre ôs dois grupos era limitada e as di­
fortaleza. Nos arrabaldes, mas ao alcance da artilha­ vadido, no ultramar verificou-se a prolongada ocu­ ferenças de religão, costumes e valores eram tais
ria, havia uma comunidade de «casados pretos», pação holandesa do Brasil, bem como a perda, para que constituíam barreiras intransponíveis. As ligações
tanto cristãos como gentios. Cananor oferecia uma outras potências europeias e para governantes indí­ que existiram no Nordeste do Brasil no «tempo dos
variante: os casados viviam tanto dentro como fora genas, de áreas anteriormente ocupadas pelos Por­ flamengos» foi mais entre os Holandeses e as mulhe­
das muralhas defensivas, tal como acontecia com os tugueses. Em resumo, a situação tinha um grande res de origem africana ou ameríndia do que com as
«filhos da terra pretos», para fins militares, e à dis­ potencial para a desmoralização, para a dilaceração mulheres portuguesas. Apesar de se terem verificado
tância de um tiro de artilharia havia um «bazar» do tecido social, para a destruição insidiosa de ob- casos em que holandeses se casaram com portugue­
Albert Eckhout, índia tarairu dormindo, sanguínea e g iz com mercadores mouros do Malabar. Para além jectivos colectivos por parte de iniciativas indivi­ sas, não se conhece nenhum exemplo em que um
sobre papel, cerca de 1644 (BJC) dos que viviam na fortaleza não existia outra comu­ duais egoístas e para a desilusão no que se refere ao português tomasse uma holandesa para sua noiva. Os
nidade cristã «porque os naires raramente se conver­ rei e ao país. Holandeses não conseguiram ultrapassar o antagonis­
-1940: tomo iv, vol. 2, parte 1, pp. 222-223). tem e os mouros por nenhum modo» (Bocarro, A perspectiva de um monarca espanhol era divi- mo que muitos portugueses sentiam por eles. Nunca
Cochim dá-nos um panorama diferente, uma vez I937-I94°: rv, vol. 2, parte 1, pp. 197-199, 323-325). sionista, muito em particular entre a nobreza por­ se verificou uma integração ou assimilação, e manti­
que a cidade, que já existia antes da chegada dos Enquanto os Portugueses no Estado da índia se tuguesa. O desafio feito a Filipe II de Espanha, veram-se duas sociedades paralelas (Boxer, 1957: 104-
portugueses, abrigava a residência real, um templo viam confrontados com distinções entre diferentes candidato ao trono português, por D. Antônio, -105, 118-119, 12.4-135, 127, 130).
e um povoado indígena em volta do templo e do grupos étnicos e comunidades, tais distinções foram prior do Crato, foi limitado e de curta duração. Em vez de mergulhar no desespero e na desmora­
porto. Porém, depois da construção da fortaleza agrupadas e reduzidas por causa da enonne impor­ No ultramar, com excepção dos Açores e Cabo lização, devido à falta de munições, mão-de-obra e
portuguesa (1505), surgiu outro povoado, marcada- tância dada ao facto de serem ou não cristãos. No Verde, onde cada um tinha os seus apoiantes e se fundos, a resolução dos portugueses no ultramar pa­
mente português, com igrejas e templos, que se es­ Brasil, a assunção tácita (por vezes de mérito ques­ verificaram facciosismos e até violência, as preten­ rece ter endurecido face à adversidade. A reacção
tabeleceu a alguma distância da Cochim indígena. tionável) de que as pessoas de descendência africana sões de D. Antônio tiveram muito pouco peso. contra o domínio dos Habsburgos, a restauração da
A cidade velha, que se encontrava a cerca de légua e os ameríndios das aldeias, bem como aqueles que O comandante da Fortaleza de São Filipe, em An­ monarquia, os êxitos contra os Holandeses em An­
e meia do mar, era referida nos documentos portu­ se aventuravam nas cidades, eram cristãos, abriu o gra, aguentou durante um ano antes de se render, gola e no Brasil e o Tratado de Paz de 1668 trouxe­
gueses como Cochim de Cima, mas foi a nova que caminho para os portugueses virem a categorizar e altura em que o forte passou a ser chamado São ram consigo notáveis manifestações de coragem e
conseguiu atingir o estatuto de cidade portuguesa, classificar esses africanos ou ameríndios de acordo João Baptista. As novas da restauração foram rece­ resistência independentemente da posição social
com direitos e privilégios garantidos por D. João III com diferenças étnicas reais ou apercebidas. bidas em Macau «com grandes demonstrações e — , tal como aconteceu nos cercos de Damão e C o-
festas de alegria» (Assentos: n, 398-399; Boxer, 1993: lumbo, e na resistência aos europeus e indígenas em
95_I99)- Essa reacção de alegria foi partilhada pelas muitos outros lados. Referindo-se à índia portugue­
comunidades portuguesas no ultramar, com duas sa do século x vii , mas igualmente aplicável à África e
excepções, as dos comandantes das praças de Ceuta ao Brasil, o historiador Jaime Cortesão salientou esta
e Tânger, cuja dependência da Andaluzia para as «comunidade natural, com a consciência dos seus in­
provisões os levou a manterem-se leais a Filipe IV teresses colectivos» (Peres, 1932: parte 3).
de Espanha. Tânger reconheceu o novo rei em Não obstante muitos portugueses poderem ter
1643. Ceuta foi mais tarde cedida à Espanha, e na verdade partilhado dessa consciência dos interes­
Tânger à Inglaterra (1661) (Serrão, 1977-1990: v, ses colectivos, as desigualdades de nascimento e de
93-95). Se a integridade do território nacional, a ocupação, capacidades, educação e recursos levaram
nobreza a manobrar para ocupar posições, as ten­ â presença, no império português, de grupos sociais
sões entre a Espanha e Portugal e as sucessões di­ diferenciados uns dos outros por estatutos desi-

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE GRUPOS SOCIAIS

guais. É claro que os grupos étnicos e os grupos so­ dem», as viagens eram agora vendidas a pessoas de entrar ou sair do arraial durante 23 dias, criando
ciais se interpenetram, mas irei centrar-me nos gru­ menor qualidade, do que resultava um défice de li­ perturbações e deixando bem claro que queriam a
pos sociais portugueses. derança que era particularmente preocupante por substituição do capitão-mor (idem: 11, 52; m, 214).
A liderança, tanto militar como administrativa, causa das ameaças holandesas, que podiam desco­ Em Baçaim, a situação ficou tão descontrolada que
era um sinônimo de nobreza. Em Portugal verifi­ brir que o capitão-mor estava ausente de Macau, chegou a ser referida oficialmente como um «mo­
cava-se uma cada vez maior divagem dentro da na sua viagem, e pediam um capitão residente (As­ tim». A versão dos fidalgos residentes era a de que
nobreza, entre os que haviam herdado os títulos e sentos: 1, 205-206). Em 1636, ao analisar se deveria o capitão Rui Dias da Cunha os tinha ofendido
os que tinham conseguido o estatudo de nobres ao ter um castelão em vez de um capitão na fortaleza e que excedera a lei. Alegadamente, ordenara que
serviço do rei. Por causa da sua maior experiência, de Mascate, o Conselho de Estado reconheceu que um fidalgo fosse levado de rastos para a prisão
os interesses destes últimos estendiam-se para lá dos a perspectiva de conseguir riquezas era um incita­ e amarrara outro. As partes ofendidas protestaram:
estritos papéis militares e administrativos, tão fre­ mento que ainda levava fidalgos e nobres a aceita­ «Não é possível que tanta nobreza padeça afrontas
quentemente preenchidos por vice-reis e governa­ rem as capitanias das fortalezas por períodos de três e vexações tão vituperadas.» A versão de Dias da
dores, para abraçarem questões importantes, de na­ anos. Os conselheiros reconheceram que não havia Cunha era muito diferente. Pusera em vigor uma
tureza social e econômica. Antes de 1570, os justificação para o auto-enriquecimento por inter­ proibição do vice-rei quanto ao corte e comércio
membros desta nobreza sentiram-se mais atraídos médio dos serviços prestados à Coroa. Porém, na de madeiras. Os denominados fidalgos haviam
para a India do que para o Brasil. No século x v ii , sua conclusão, o vice-rei defendia o status quo, di­ transgredido essa proibição, chegando até a cons­
apesar de continuar a ser esse o caso, a América zendo que se a capitania de Mascate fosse abolida truir barcos. Além disso, tinham abusado do povo
portuguesa já contava com a sua própria nobreza e «não havería com que remunerar os homens, nem com ameaças para que alinhasse com os infractores
com famílias de elevado estatuto social. O s vice- que quisessem passar â índia» (idem: 11, 41-46). Por e para que fechasse, à força, as portas da câmara
-reis da índia provinham da mais alta nobreza. Tal­ outras palavras, os nobres não consideravam o en­ municipal. Não obstante o Conselho do Estado em
vez devido ao facto de, antes do século x v iii , o tí­ volvimento no comércio como sendo inapropriado Goa, ter ordenado uma devassa e afirmado que a
tulo de vice-rei não ser regularmente concedido ao para o seu estatuto, e essas práticas não eram con­ ocorrência seria investigada na residência de Cunha,
principal representante da Coroa no Brasil, ou por­ denadas a não ser que resultassem no desequilíbrio a sua reacção foi de apoio ao capitão. Os cabeças
que as perspectivas de reconhecimento pelos servi­ e na negligência ao serviço do rei em troca de ga­ do motim receberam ordens para saírem de Baçaim
ços prestados no Estado da índia eram maiores, nhos pessoais. O viajante francês Tavernier comen­ (1642) e foram distribuídos por Bombaim, Trapor,
poucos govemadores-gerais do Brasil emularam a tou a enorme clientela ao dispor do vice-rei da índia Caranja e outros locais, para além de serem puni­
distinção social e a opulência dos seus iguais em e a grande riqueza dos capitães de Moçambique, dos (idem, 1953: 11, 387-392).
Goa (Serrão, 1977-1990: v, 358-359). Ormuz, Mascate, Ceilão e Malaca (Tavernier, 1889: Apesar de os nobres se distinguirein, em qual­
A classe nobre contribuiu decisivamente para a liv. 1, cap. 13). quer parte do império, pelo porte, vestuário e
defesa e sobrevivência do Estado da índia e foi de João Maurício de Nassau, séc. x v ii (Rijksmuseum) Na verdade, houve exemplos extremos de que equipamento, em lado nenhum a sua presença era
importância crítica no processo de tomada de deci­ era esse o caso. Em 1597, o senado de Goa pediu tão manifesta como nas cidades da índia. Para os
sões por parte do Conselho do Estado da índia e sem paralelo, não apenas para conseguirem os favo­ ao rei a nomeação de «um vice-rei que venha mais visitantes estrangeiros na índia — o holandês Lins-
de outros órgãos. Era para essa classe que o vice-rei res reais mas também para acumularem fortunas a merecer que a enriquecer» (Souza, 1930-1956: choten e o francês Pyrard de Lavai — nobreza era
se virava em tempos de crise. Existia uma mentali­ envolvendo-se no comércio, emitindo cartas de 1, 7). Havia proibições estritas impedindo os gover­ sinônimo de ostentação e extravagância. As mulhe­
dade do tipo «enviem um fidalgo» para resolver to­ crédito e levando a cabo outras transacções finan­ nadores e os funcionários superiores do Brasil de se res de qualidade eram transportadas em palanquins
dos os problemas. Em 1623, ao enfrentar uma situa­ ceiras semelhantes, ou emprestando dinheiro a ju ­ envolverem no comércio [Collecção Chronologica, seguidos por pajens e por mulheres escravas com
ção potencialmente turbulenta em M acau, o ros sem violarem o seu estatuto de fidalguia. Tais (1657-1674): 225 (27/2/1673)], mas em lado nenhum trajos de seda. Na índia portuguesa, nenhum fidal­
vice-rei de Goa nomeou D. Francisco de Mascare- oportunidades não se limitavam ao Estado da índia, havia um tão grande potencial para abusos como go respeitável saía de casa sem um cavalo bem ajae-
nhas para primeiro capitão-geral, «por ser fidalgo uma vez que no Brasil também se verificaram casos na Ásia. Esse potencial para os abusos era partícu­ zado e sem um séquito, em geral fortemente arma­
tão feito e de tanta autoridade» (Boxer, 1937). Em de capacidade de empreendimento, como exempli­ larmente prevalecente entre os capitães das fortale­ do. Em Novembro de 1672, em Damão, o abade
1654, em Goa, quando foram comunicados movi­ ficou Antônio Teles da Silva. Na verdade, algumas zas, cujo afastamento de Goa atenuava o grau de Carré ficou mais de uma hora à espera de um dos
mentos de natureza potencialmente guerreira, no casas nobres de Portugal poderíam ter passado por escrutínio a que podiam ser sujeitos. Sobre o capi­ mais ricos fidalgos portugueses da cidade. Chegou
continente, a reacção imediata foi enviar um fidal­ situações financeiras ainda mais graves se não fosse tão-geral de São Tom é de Meliapor, dizia-se, em num palanquim «com uma escolta de escravos, ar­
go a Salsete para investigar as actividades dos vizi­ a infusão de fundos vindos do Ultramar (Rau, 1959: 1646, que eram tão grandes as suas actividades co­ mados com mosquetes, lanças e uma espécie de ar-
nhos mouros (Assentos: m, 301-302). Esta expectati­ 1-25). Um «Memorial» de 1635, do senado da Câ­ merciais com os Holandeses que «mais parecera fei­ cabuzes tão grandes e volumosos que as suas balas
va do papel positivo atribuído à nobreza não se mara de Macau para o vice-rei, elogiava os méritos tor seu deles, que capitão-geral de sua Majestade». deveríam pesar pelo menos duas libras» (Lavai,
limitava aos vice-reis. Em 1623, o Conselho de Es­ da viagem ao Japão como parte do sistema de be­ Tais abusos tinham potencial para incitar conflitos 1619: parte 2, caps. 4, 5; Carré, 1947-1948: 1, 172).
tado de Goa discutiu uma declaração em nome do nefícios. Essa viagem era concedida aos nobres que o que era frequente numa comunidade multinacio­ Nas cerimônias oficiais, a ostentação não tinha li­
senado da Câmara de Damão, dizendo que, para haviam servido o monarca com distinção no Esta­ nal de mercadores locais, podendo até provocar re­ mites. A feliz coincidência da chegada de um novo
bem da sua defesa, era essencial enviar um «fidalgo do da índia, promovendo a causa portuguesa na taliações militares ou a retirada dos privilégios co­ vice-rei (D. Francisco da Gama), que era bisneto
de importância» como capitão porque até ali «os guerra e na paz, «e com a qual Vossa Majestade merciais, prejudicando a continuação de uma de Vasco da Gama, e dela se verificar no ano do
capitães daquela cidade se ocupavam em seus tratos provia os fidalgos ilustres que na índia o serviam, presença portuguesa e pondo em perigo a vida centenário da viagem de Vasco da Gama levou a
e interesses e deles só tratavam» (idem: 1, 162). pessoas idôneas pera a paz, e pera a guerra». O se­ dos súbditos portugueses (Assentos: 11, 41-46; m, que, em Goa, no dia de Natal de 1597, se realizas­
O serviço real era uma obrigação dos nobres nado observou que os nobres estavam sempre 107-108). sem cerimônias com uma magnicência sem parale­
«vassalos» e os primogênitos desempenhavam pa­ prontos para servirem o rei em qualquer momento A airogância e a convicção de que se encontra­ lo e que o retrato de Vasco da Gama fosse coloca­
péis de liderança na administração e defesa do im­ e que o Estado da índia permanecia seguro en­ vam acima da lei ou isentos da jurisdição dos fun­ do na Câmara. D iogo do C ou to com entou a
pério. Para os filhos segundos, o serviço real no U l ­ quanto prevalecia a prática de conceder essa via­ cionários locais da Coroa levou alguns fidalgos a presença de capitães, fidalgos e cidadãos que exi­
tramar oferecia muitos motivos de interesse. Foi gem apenas aos nobres distintos. As autoridades serem forças prejudiciais e a traírem a confiança biam colares de ouro, medalhas, plumas, pontas de
para estes, muito em especial, que o período de municipais lamentavam-se por já não ser esse o ca­ que neles havia sido depositada. Em 1636, um gru­ ricas pedrarias e montavam cavalos luxuosamente
1570 a 1697 apresentou uma gama de oportunidades so: «Como o tempo veio a perverter esta boa or­ po de fidalgos em Ceilão proibiu toda a gente de ajaezados (Couto, 1788: Década XII, cap. 15).

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POPULAÇAO E SOCIEDADE GRUPOS SOCIAIS

Enquanto no caso do Estado da índia se poderia recompensado com a ascensão social e com a aqui­
dizer que a ostentação não era uma auto-indulgên- sição de uma plantação, e os seus descendentes,
cia mas sim uma parte essencial das necessidades di­ que «despiram a pele velha como cobra», casaram
plomáticas, isto se Portugal pretendia igualar os po­ com descendentes de famílias nobres (Mello, 1966:
tentados locais no que se referia à exibição de diálogos 1 e 3). Stuart Schwartz observou que no
riqueza, já não se poderia dizer o mesmo a respeito século xvii existiam três estratos de famílias de
do Brasil. A questão preocupava a Coroa, que via plantadores em Salvador: os que já lá estavam no
as dimensões negativas de uma tal ostentação, tal princípio, ou seja, nas décadas de 1550 e 1560, os
com o o consumo de recursos financeiros que po­ que chegaram na de 1580, quando a indústria se es­
deríam ser utilizados para estimular o crescimento tabeleceu, e os que vieram durante o período críti­
comercial, o que beneficiaria os cofres reais, e o co, entre 1620 e 1660. Para se ser um senhor de
exacerbar das tensões já latentes entre os diversos engenho era preciso capital, pelo que era frequente
sectores da sociedade ultramarina. Foram emitidas que os proprietários de engenho e plantadores pro­
«pragmáticas» para refrear as extravagâncias mani­ viessem de famílias de nobreza menor que haviam
festadas por intermédio dos trajos, do uso das sedas recebido terras na Bahia e Pernambuco. A designa­
e de coches e palanquins dourados. ção «lavrador de cana» teve muitas conotações em
A América portuguesa não era tão atraente co­ diferentes períodos, mas no século xvii abraçava
mo a índia para as pessoas de nascimento nobre, várias categorias de plantadores, entre os quais o
mas no Brasil — para além dos imigrantes de nobre grupo mais poderoso, cujos interesses coincidiam
nascimento idos de Portugal — acabou por surgir com os dos senhores de engenho, era o daqueles
uma nobreza baseada na terra, que gozava de um que plantavam cana (mas não tinham capital ou in­ Trabalho de escravos num engenlw de açúcar no Brasil, in George Marcgraf, Historia Naturalis Brasiliae [...],
estilo de vida senhorial. Na verdade, não há refe­ clinação para possuírem um engenho) e que pos­ Amesterdão, 1648
rência a nobres no esquema dos colonos portugue­ suíam as suas próprias terras (Schwartz, 1973: 147-
ses contido nos Diálogos das Grandezas do Brasil -197; 1985: 264-312). Uma plantação não era apenas trativas das vilas ou cidades, em que provavelmente tivadores do «ouro branco» (Calmón, 1958). Foi es­
(1618), que reduz os colonos brasileiros a cinco um centro da actividade comercial relacionada com possuía um solar. ta aristocracia proprietária de terras que dominou a
grupos: marinheiros, mercadores, artífices e mecâ­ os campos de cana, com as máquinas de esmaga- Apesar de as dinastias de rancheiros criadores de vida social e administrativa das principais cidades
nicos, supervisores e assalariados ao serviço de ou­ mento e as caldeiras de cobre, mas sim uma peque­ gado, como os Guedes de Brito, da Casa da Ponte, costeiras do Brasil do século x vii , servindo nos se­
tros e agricultores. O autor deixou passar o facto na comunidade cuja população era composta pre­ e os Dias d’Avila, da Casa da Torre (fundada por nados da Câmara, como priores das Ordens Ter­
de os membros da classe de plantadores proprietá­ dominantemente por escravos negros, mas que um fidalgo da pequena nobreza, Garcia d’Avila, ceiras de São Francisco, de São Domingos ou das
rios de engenhos, senhores de engenho, e planta­ podiam contar com um capelão residente e com que estivera na frota de Tomé de Sousa), gozarem Carmelitas, e ainda como provedores da Santa Casa
dores com menos recursos, que não possuíam en­ artífices e capatazes de origem ou descendência de imenso prestígio social e possuírem vastas ex­ da Misericórdia. Tais instituições reforçavam as li­
genhos, conhecidos por lavradores de cana, portuguesa. O senhor de engenho era o governan­ tensões de terras no interior do Nordeste do Brasil gações dentro e entre as principais famílias da colô­
incluírem na verdade pessoas de origem nobre, te absoluto dessa comunidade, e a sua influência e e de terem uma influência que se estendia à vida nia e forneciam, por sua vez, um apoio institucio­
bem como outras de origens mais humildes e algu­ riqueza permitiam-lhe desempenhar um papel pre­ urbana, a verdade era que a maior parte dos fazen­ nal a essas mesmas famílias (Russell-Wood, 1968:
mas até com cadastro criminal. O trabalho duro era dominante nas vidas sociais, comerciais e adminis­ deiros não gozava de um prestígio igual ao dos cul­ 48-49, 118; Schwartz, 1985: 266-267).
Tanto em São Paulo como em Salvador, em Goa
ou Cochim, o século xvii testemunhou a presença
ÍO t de famílias importantes e facilmente identificáveis
que dominavam a vida social das suas comunida­
des por intermédio da riqueza e dos serviços públi­
cos que prestavam. Calcula-se que em São Paulo,
no século xvii só as famílias Camargo e Arzão con­
tavam, cada uma delas, com cerca de 60 membros
na Ordem Terceira de São Francisco, com a família
Bueno não muito para trás, com 50 membros. Em
Salvador, as principais famílias incluíam os Argolo,
Moniz Barreto, Bulcão, Silva Pimentel, Cavalcanti e
Albuquerque, Dias d’Avila e Guedes de Brito. Com
muitos casamentos entre si, constituíam o mais pode­
roso grupo de pressão na política do Brasil colonial
desse período (Schwartz, 1985: 265-267; Russell-
-Wood, 1989: 63-66, 73-74). Os seus contemporâ­
neos em Cochim eram os Vaz Freire, Freitas de
Macedo, Costa Travassos, Pinho da Costa, Simões

Á esquerda: nobre português na India, in Jan Huygen van


Linschoten, Icinerarium ofte Schipvaert naer O ost ofte
Portugaels Indien, Amesterdão, 1614 (BN ). À direita:
Zacharias Wagner, engenho de cana-de-açúcar em
Pernambuco, aguarela, see. XVII (K K D )

172

.
POPULAÇÃO E SOCIEDADE GRUPOS SOCIAIS

Leitão, Costa Rapozo, Valdoviezo e Tavares da tinham existido belas casas com dois ou três anda­ los de nobreza. Isto aplicou-se aos senhores de en­ listas deveríam ser «efectivos» (Assentos: m, 185).
Gama (Correia, 1948-1958: 1, 3). res (casas «nobres e formosas de dois ou três sobra­ genho do Brasil, cujas influências na corte, pressões Dado o inadequado apoio real e a liderança fre­
O conceito de morador era parte integrante da dos»), habitadas pelos portugueses casados e pelas sobre os govemadores-gerais e importância na so­ quentemente questionável, os soldados eram muitas
lei portuguesa (Ordenações Manuelinas: liv. 2, tít. 21; suas famílias, na altura em que escreveu existiam ciedade e economia colonial nunca chegaram para vezes indisciplinados e mal mantidos (idem: 1,
Código Philippino, 1870: liv. 2, tít. 56). O «vizinho» apenas 59 casados, os quais, apesar da sua pobreza, obterem os galardões reais e o reconhecimento que 517-518).
(ou morador) era um termo aplicado a uma pessoa conseguiam ter um escravo cada um. Em contraste, tanto ambicionavam. Até os Paulistas, famosos pelo Este fraco estado de preparação e baixa moral dos
em relação a uma cidade, vila ou lugar. Esta rela­ Baçaim contava 400 brancos casados, 11a sua maio­ seu desrespeito pela autoridade e transgressores da soldados portugueses no Estado da índia podia, em
ção podia tomar as seguintes formas: lugar de nas­ ria fidalgos, que constituíam uma comunidade flo­ lei portuguesa e dos éditos governamentais, podiam parte, ser atribuído aos métodos de recrutamento
cimento ou, no caso de um cidadão português ou rescente. Em Moçambique existiam cerca de 70 ser amansados pela perspectiva de uma mercê real mas também às deficiências do sistema. A principal
estrangeiro, por intermédio do casamento com casados, «todos gente de armas», que viviam no ex­ ou do reconhecimento da Coroa. C om a criação deficiência era a imprevisibilidade do pagamento.
uma «mulher da terra» com a intenção de ali residir terior da fortaleza, cada um dos quais com cerca de das milícias e das companhias auxiliares verificou-se Os capitães dos fortes eram muitas vezes forçados a
e aí ter as suas posses. Todavia, se se mudasse para 15 a 20 cafres. Esta pequena comunidade de casados uma chuva de petições de postos honoríficos. Esta pagar a alimentação dos soldados do seu próprio
regressar mais tarde, só readquiria o seu estatuto de vivia em «casas de pedra e cal mui boas com largos mania dos privilégios também se revelou a nível bolso porque o tesouro real falhava ao pagamento
«vizinho» após quatro anos de domicílio; a necessi­ quintais de muitas árvores». Contudo, as suas con- corporativo: houve petições de vilas a solicitarem o dos salários (idem: 1, 5). Um relatório de 1636 reco­
dade de residência durante um mínimo de quatro trapartes em Sena, no Zambeze, viviam em casas estatuto de cidades; de senados que procuravam a nhecia que a prática, prevalecente nos primeiros
anos também se aplicava a um homem casado que, cujas paredes eram de «taipa, cobertas de palha» concessão de privilégios, semelhantes aos dos seus tempos, de os fidalgos darem mesa aos soldados
acompanhado pela família, se mudasse para uma vi­ (Bocarro, 1937-1940: iv, vol. 11, parte 1, pp. 9, 20, equivalentes no Porto (de preferência), em Lisboa durante os meses de Inverno deixara de ser usada
la ou cidade diferente por possuir «alguma dignida­ 105, 115, 176-177)- ou em Évora; irmandades em busca de privilégios por causa do declínio das oportunidades comer­
de», ou seja, ser detentor de um cargo real ou ser­ A sociedade ultramarina portuguesa tinha ainda que as distinguissem das restantes; queixas pela ciais! Para os soldados que tinham a sorte de pos­
vir no conselho municipal. Com o eram colonos, uma maior consciência da posição social e da hie­ quebra do protocolo na distribuição de lugares nu­ suir familiares ou amigos nas fortalezas fronteiriças,
essas pessoas eram elegíveis para certos favores reais rarquia do que a metropolitana. Ao nível indivi­ ma procissão ou na disposição dos lugares numa a única esperança era poderem passar aí o Inverno.
e gozavam de prerrogativas negadas aos habitantes dual, os contemporâneos comentavam o modo co­ cerimônia religiosa ou civil. Esta hierarquização da Em Goa, a sua precária existência prosseguia nas
transitórios. Enquanto nas ilhas atlânticas e no Bra­ mo as pessoas que embarcavam como plebeus sociedade pelos privilégios e nascimento era reco­ tabernas e eram frequentadores assíduos da distri­
sil os termos «vizinho» ou «morador» (chefe de fa­ assumiam ares de nobreza quando chegavam à nhecida na lei portuguesa: a jurisdição de um juiz buição de sopa feita pelas ordens religiosas (Souza,
mília) se encontravam mais divulgados, os seus América ou Ásia. O anonimato e a distância prote- podia depender do seu grau de antiguidade e da 1930-1956: 1,19). Em 1636, o Conselho do Estado
equivalentes na índia (embora não correspondes­ giam-nos contra a possibilidade de serem desmas­ posição social do acusado. As sentenças também es­ reconheceu que a sorte dos soldados na índia do
sem aos mesmos critérios estreitos) eram as pessoas carados. O viajante francês Jean-Baptiste Taver­ tavam condicionadas pelos estatutos sociais do acu­ século xvn era negra: fome, miséria, falta de roupas
designadas por casados — soldados portugueses ca­ nier comentou este auto-enobrecimento na índia: sado e da vítima. Os nobres estavam imunes a cer­ e um custo de vida cada vez mais elevado. A solu­
sados com portuguesas, mas também mestiços nas­ «Logo que passam o cabo da Boa Esperança, os tas formas de castigo. Em Macau, o capitão-geral ção proposta foi: que os soldados fossem alimenta­
cidos na índia, filhos de portugueses e de mulheres portugueses que vão para a índia transformam-se não tinha jurisdição legal sobre os fidalgos. Para dos pela Coroa durante os seis meses do ano em
indianas — , que constituíam a coluna vertebral da imediatamente em fidalgos ou cavaleiros, e acres­ que a sentença fosse decidida pelas autoridades que não andavam em campanhas, e que essas des­
sociedade portuguesa do Estado da índia. Serviam centam um D om aos seus simples nomes de Pe­ competentes os autos de culpa, envolvendo fidal­ pesas fossem suportadas pela renda do tabaco (idem:
(e na maior parte dos casos dominavam) nos sena­ dro ou Jerónimo por que eram conhecidos quan­ gos, tinham de ser enviados para Goa (Assentos: 1, 11, 30-41). A situação financeira no Estado da índia
dos da Câmara e encontravam-se à disposição da do embarcaram» (Tavernier, 1889: liv. 1, cap. 13). 205 n). não melhorou ao ponto de poderem subsistir com
Coroa para confrontos militares. Em tempos de U m hipotético carpinteiro João da Silva transfor­ Se a carreira militar, em especial na Ásia, era a os salários normais ou com os favores dos nobres.
crise, era para os casados que um vice-rei se virava mava-se em João da Silva de Paraguaçú e a pri­ escolha preferida de muitos nobres e fidalgos, os As oportunidades comerciais — o recurso tradicio­
para formar uma companhia (.Assentos: m , 349). meira coisa que fez quando chegou ao Brasil foi não-nobres tinham muito menos incentivos para nal dos soldados — foram modificadas pelas depre­
Todavia, tal não implicava aquiescência. Em 1619, comprar um escravo. Este auto-enobrecimento era entrarem ao serviço do rei como soldados. A histó­ dações dos Holandeses e dos Ingleses, mas os sol­
os casados de Jafanapatão enfrentaram dificuldades facilitado pelas oportunidades, inexistentes em Por­ ria militar do Estado da índia no século xvii é um dados continuaram a negociar especiarias e gemas.
com o vice-rei e com o capitão local, tendo sido tugal. Quando Da Cunha notou que os «fidalgos» exemplo de extraordinária coragem e resistência, A anulação, pela Coroa, das suas responsabilidades
ameaçados com castigos (idem: 1, 60). Muitos dos de Baçaim agiam como «gente desalmada, quasi to­ dado o inadequado e frequentemente não existente financeiras não pode ter melhor exemplo que o de
casados ganhavam bem a vida, principalmente no dos degradados», estava a reconhecer tacitamente fornecimento de abastecimentos, munições, artilha­ Macau, onde em 1635, as fortificações, muralhas,
comércio. Outros atingiram uma verdadeira rique­ que, no Estado da índia (e também no Brasil), era ria, pólvora e projécteis. Foi apenas em 1630 que se munições e guarnição de 150 homens eram finan­
za, tinham um estilo de vida luxuoso em residên­ possível que os degredados servissem no senado da deram os primeiros passos para a organização de ciadas por uma taxa sobre as exportações para o Ja­
cias elegantes e possuíam um séquito de servos e Câmara de Macau, e até no do Brasil, nos primei­ um exército permanente na índia, com recruta­ pão (o «caldeirão», anterior a 1639). Um relato de
escravos que os serviam e acompanhavam nas ruas, ros dias (Boxer, 1965). Pessoas de antecedentes dú­ mento para a formação de um regimento (terço) Marco d’Avalo, de 1638, comentava que cada sol­
numa demonstração de extravagância. Os estran­ bios detinham cargos públicos no Brasil e, apesar de 2500 homens e de um batalhão de 5000 para dado recebia seis cruzados por mês, «com os quais
geiros notaram que essa ostentação era tanto das de os casos de enriquecimento rápido terem sido defesa do Estado da índia contra os ataques dos pode viver honradamente» (Bocarro, 1937-1940;
mulheres como dos homens de Goa. Quer vives­ muito menos do que os relatos nos querem fazer Mogóis (Souza, 1930-1956: 1,18). Em 1634, o vice- Boxer, 1993: 85).
sem num paraíso dos tolos ou tivessem realmente crer, o Brasil e o Estado da índia não deixaram -rei declarou que eram necessários 7192 soldados e Foram muitos os que abandonaram o serviço
recursos que os podiam proteger dos apertos finan­ de ser terras dc oportunidades para os mais ha­ bombardeiros para a defesa do Estado da índia, nú­ real. Alguns desertaram para Bengala e outras «ter­
ceiros, tão evidentes nalgumas partes do Estado da bilidosos e mais dispostos a trabalhar. Os portu­ mero que não incluía os marinheiros. Os números ras dos infiéis». Outros foram trabalhar nos navios
índia, a qualidade das mesas e dos trajos, a sua vida gueses do ultramar eram altamente sensíveis aos ideais para a guarnição de alguns presídios eram os pimenteiros (Assentos: 11, 30-41). A vida religiosa
elegante e o número de servos dos portugueses não insultos, reais ou imaginários, que dissessem res­ seguintes: Malaca, 300; Macau, 200; Jafanapatão, também constituiu um refúgio. Na índia este facto
deixaram de impressionar o viajante italiano Ge- peito ao seu estatuto social, e procuravam activa- 200; Baticalá, 100; Moçambique, 300; Mascate, tornou-se altamente controverso num tempo em
melli Caren (Boxer, 1969: 148). mente os privilégios e mercês concedidos pela 700; Diu, 200 (Souza, 1930-1956: ui, 625), mas es­ que os fortes portugueses estavam sob o ataque
Todavia, nem todos os casados tinham um estilo Coroa. tas metas nunca foram atingidas. Em 1651, o C on ­ tanto dos europeus como dos indígenas. Em 1629,
de vida tão opulento. Ao escrever no princípio do Sob esse aspecto, a Coroa portuguesa sabia o selho do Estado admitiu esse facto ao afirmar que a o novo vice-rei da índia descobriu que apenas nes­
século xvii Bocarro assinalou o declínio de Diu. que fazia, preferindo manter os seus súbditos num prática de ter «praças fantásticas» tinha de acabar e se ano, 120 soldados se tinham recolhido nas co­
Enquanto no passado, no interior da fortaleza, estado de expectativa em vez de lhes entregar títu­ que todos os soldados cujos nomes apareciam nas munidades monásticas e que mais 300 pretendiam

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE GRUPOS SOCIAIS

fazer o mesmo em 1630, o que acabou por se veri­ Goa, em 1644, revelou apenas 64 marinheiros e muitos administradores superiores da Coroa no Ul­ notou que a prosperidade da cidade se reflectia na
ficar, apesar das suas ordens em contrário (idem: 1, grumetes de convés na capitania, muitos dos quais tramar quando afirmou que a razão da presença dos construção e reconstrução das igrejas pelas ordens
517-518). Esta prática de troca da espada pelo hábito estavam doentes. Em 1635 morreram cerca de 100 frades era a sua saída para o campo como missioná­ religiosas e pelos Jesuítas (Dampier, 1703: 51-52).
era tão prevalecente que, em 1634 e também em apenas em Goa. Os homens do mar eram especial­ rios e não a construção de grandiosos mosteiros, Não só se verificavam ressentimentos contra as es­
1635, o rei ordenou ao vice-rei que tomasse medi­ mente vulneráveis às doenças, fome e morte quan­ residências de «religiosos ociosos» (Assentos: 1, molas que essas comunidades extraíam da populaça
das jpara lhe pôr fim porque a segurança do Estado do as frotas invernavam em Goa ou Mormugão 517-518). Podería ter acrescentado que as dissidên­ como também porque os frades nascidos no Brasil
da índia estava em perigo. Um elemento particu­ (Assentos: 11, 38, 49, 479; m, 34). cias dentro das comunidades religiosas e as disputas raras vezes eram promovidos aos escalões mais ele­
larmente preocupante era o facto de os soldados, A controvérsia a respeito dos soldados que fa­ intercomunidades religiosas consumiam muito do vados das comunidades monásticas ou, na realida­
enviados para a índia à custa do rei, desertarem lo­ ziam votos monásticos, sublinhava a omnipresen­ seu tempo e do tempo do Conselho. O senado da de, da hierarquia eclesiástica em geral.
go após a chegada. Porém, ao insistir que esses ça das ordens monásticas e da Companhia de Je­ Câmara ressentia-se dos fardos financeiros impostos O problema, na índia, era complicado pelos fra­
candidatos à vida religiosa fossem interrogados para sus através de todo o mundo português. Por à população para a construção de mosteiros, bem des estrangeiros, apesar das ordens reais que proi­
se saber se eram motivados pelo «spirito, ou neces­ volta da década de 1630, os Franciscanos, D om i­ como do facto de as comunidades monásticas tam­ biam a sua presença e dos éditos dos vice-reis or­
sidade», o monarca estava, tacitamente, a reconhe­ nicanos, Carmelitas e Jesuítas encontravam-se em bém estarem dependentes das esmolas dessa mesma denando a sua expulsão (Assentos: 11, 184-185, 189).
cer o problema (idem, 1953: 11, 30-41). todas as cidades e em muitas vilas do Brasil, para população para se manterem. Eram muitos os que Um provincial recusou-se a obedecer a essa ordem
N o Brasil, a situação não era muito melhor. além das missões. Numericamente, a presença diziam que as comunidades religiosas tinham gran­ a não ser que a mesma fosse confirmada pelo seu
A ausência de um exército permanente lançava to­ missionária era menos visível na África Central e des riquezas em dinheiro, em espécie e em pro­ geral (idem: 1, 517-518).
do o fardo sobre as ordenanças. O Regimento das or­ Ocidental. Os Dominicanos estavam bem repre­ priedades. Tal era sem dúvida verdade para a maior Uma tal proibição podería ganhar dimensões po­
denanças (1570) e subsequente Provisão das ordenanças sentados na África Oriental, com mosteiros e ca­ parte das ordens, não obstante as suas afirmações de líticas. Quatro padres teatinos que haviam partido
(1574) delegava muita da responsabilidade nos capi- sas religiosas instalados em Moçambique e Rios pobreza ou miséria. Por seu lado, os Jesuítas não de Roma para Goa em 1639, e que detinham um
tães-mores das cidades e vilas, que deveríam alistar de Cuama e através da índia, em Ceilão, Jafana- negavam os recursos de que dispunham, mas sa­ registo de actividades impecável e haviam começa­
homens válidos cujos nomes seriam registados pelo patão, Malaca e Indonésia. Havia também uma lientavam as grandes despesas em que incorriam. do a construir o seu próprio hospício, tiveram or­
escrivão municipal. A finalidade era a obtenção de forte presença jesuíta em Moçambique e a socie­ A posição privilegiada das ordens religiosas, isen­ dem de expulsão em 1644, em parte por serem na­
companhias de 250 homens cada, mas algumas só dade era onmipresente através da Ásia, tanto sob tando-as de taxas e impostos, representava uma turais do reino .de Nápoles e portanto súbditos da
tinham 100. As pessoas de determinadas profissões a forma de colégios como de missões. O s Francis­ grande perda de rendimentos para o Estado e mu­ Coroa de Castelâ, pelo que constituíam um poten­
estavam isentas; tabeliães, escrivães, juizes dos ór­ canos tinham mosteiros nas fortalezas do Norte e nicipalidades. Para além disso, os donativos em di­ cial perigo para a segurança (idem: m, 471-472,
fãos e todos os funcionários da justiça e do tesouro. do Sul (Cochim, Coulão), Ceilão e Jafanapatão, nheiro a essas instituições retiravam da circulação 480-481).
O número e qualidade das armas que cada mora­ na costa do Coromandel (idem: li, 34-35). Basean­ fundos que poderíam servir para estimular o co­ Quer por indolência, como alegava o vice-rei da
dor deveria fornecer eram calculados de acordo do-se em Bocarro, Subrahmanyam chegou aos se­ mércio. Durante o período de 1570-1697, quando o índia na sua correspondência ao rei, quer por causa
com os meios de que cada um dispunham. De guintes dados^ quanto à distribuição dos homens Estado português tinha grande necessidade de di­ do seu excessivo número, era um facto que se veri­
grande interesse social era a cláusula que estabelecia do hábito na Ásia, em 1635: franciscanos, 423; capu­ nheiro e pedia às cidades e aos indivíduos que con­ ficavam constantes dissensões dentro e entre as or­
que as pessoas de qualidade que não possuíssem chinhos, 182; agostinhos, 302; dominicanos, 256; je ­ tribuíssem para os custos da defesa, a proeminência dens religiosas do império português. No Brasil, os
meios para comprar um cavalo não precisavam de suítas, 650-660 (Subrahmanyam, 1993: 222-223). Na e número dos homens da Igreja provocava ressen­ conflitos entre as ordens nas cidades eram constan­
se juntar à populaça, uma vez que seriam formadas índia, a presença das ordens religiosas provocou timentos. tes por causa do acesso aos terrenos. As ordens reli­
companhias especiais para elas (Johnson e Silva, consideráveis debates da parte dos reis, do Conse­ Esses sentimentos estavam assentes em bases fir­ giosas eram acusadas de abrigar criminosos, escra­
1992: vi, 377-378). O número de tais soldados e o lho Ultramarino, do vice-rei, governadores e sena­ mes. Em Goa, em 1636, o inquisidor Antônio de vos fugidos e pessoas com dívidas, não obstante as
seu grau de preparação reflectiam a composição do da Câmara. Em questão encontrava-se a quali­ Faria Machado argumentava que existia uma ne­ ordens régias proibirem essas práticas. Os religiosos
demográfica e riqueza das respectivas cidades, vilas dade da vocação e a sugestão de que isso resultava cessidade de homens fisicamente aptos para o tra­ da índia eram célebres por não obedecerem aos
ou capitanias, mas o facto dessas pessoas não serem mais do desespero e oportunismo do que de uma balho missionário no Estado da índia e para prestar seus próprios superiores. As controvérsias giravam
soldados regulares garantia que tinham capacidades verdadeira vocação. Existia também a crença, gran­ auxílio espiritual às populações portuguesas. Citou frequentemente em volta da legitimidade de um
definidas, o que nem sempre era o caso dos solda­ demente difundida, de que o grande número de um agregado de 1070 frades para o Estado da índia preíado. Em 1623-1624, Macau foi agitado por ten­
dos do Estado da índia, que para viverem, depen­ sacerdotes regulares e seculares era desproporciona­ (400 franciscanos, 160 capuchinhos, 220 agostinhos, sões internas, que culminaram com o mosteiro do­
diam da Coroa ou dos nobres. O facto da presença do em relação às dimensões do rebanho que minis­ 250 dominicanos, 40 carmelitas descalços). Para o minicano a ser bombardeado pela artilharia. Em
portuguesa em ambos os continentes estar igual­ travam. Em 1636, na reunião do Conselho do Esta­ Japão, China e outras regiões punha esse número 1623, o frade dominicano Antônio do Rosário fora
mente ameaçada durante esse período forçou a do para discutir o recrutamento de soldados pelas em 660, provavelmente composto em grande parte nomeado governador interino do bispado da C hi­
Coroa a encetar passos para a defesa, que incluí­ ordens religiosas, dois inquisidores e o bispo de por jesuítas (Assentos: 11, 31-32). Em 1630, todas as na, nomeação que fora aprovada por D. Francisco
ram a construção e uma maior ênfase no recruta­ Cochim (governador do arcebispado de Goa) de­ ordens possuíam mosteiros nas principais cidades da de Mascarenhas, primeiro capitão-geral de Macau,
mento e na responsabilidade. Contudo, no Brasil, fenderam com garra a necessidade de manter uma índia e Malaca, e até as fortalezas da Chaul e Da­ e tinha o apoio das três ordens mendicantes de
tal como no Estado da índia, a defesa do império Igreja forte e militante. Uma das propostas apre­ mão contavam com quatro mosteiros cada uma. Macau. Todavia, os Jesuítas recusaram-se a reco­
dependia em grande parte de não-europeus, não sentadas fora a de acabar com essa prática de recru­ Em Diu, todas as ordens religiosas tinham mos­ nhecê-lo e nomearam unilateralmente um dos seus,
apenas por causa da falta de europeus, mas tam­ tamento de soldados através do envio de mais fra­ teiros, com excepção dos Agostinhos (idem: 1, no que tiveram o apoio da Câmara. A questão foi
bém, como em Moçambique e Angola, por causa des de Portugal (Assentos: 11, 30-41). Apesar de os 517-518). Em 1644, de acordo com o Conselho Ul­ finalmente decidida a favor de Frei Rosário pelas
das doenças tropicais e subtropicais que diminuíam reis portugueses terem consciência das responsabili­ tramarino de Lisboa, só em Goa existiam 16 mos­ autoridades civis em Goa (idem: 1, 204-207: Boxer,
ainda mais uma já inadequada base de recrutamen­ dades e benefícios inerentes ao Padroado real, tam­ teiros, um convento e dois seminários. Os Carme­ 1948: 97). Em 1625, o vice-rei informou o rei que
to: negros e ameríndios na América, negros e mu­ bém se apercebiam da diminuição da reserva de litas Descalços tinham dois mosteiros (idem: m, os Carmelitas Descalços haviam estabelecido uma
latos em Angola, lascarins, canarins e «pretos» na homens válidos que poderíam vir a estar disponí­ 471-472). Em 1697 era também êssa a situação no casa em Goa, confiantes de que receberíam a apro­
índia, mercenários japoneses em Malaca e na Ásia veis para o serviço do rei, bem como as enormes Brasil, onde todas as cidades e muitas vilas conta­ vação real. Os Franciscanos ficaram irritados com o
Oriental. exigências financeiras sobre o Estado e as comuni­ vam com mosteiros de Franciscanos, Dominicanos, facto de os Carmelitas desejarem chamar «Madre
Apesar de os marinheiros serem caracterizados dades locais, que eram inerentes aos grandes pro­ Carmelitas e Beneditinos, isto para além do colégio de Deus» à sua casa, uma vez que os Franciscanos
como «a alma e nervo da armada», levavam uma gramas de construção iniciados por certas ordens da Companhia de Jesus. Em 1699, o aventureiro já tinham uma casa com a mesma designação. O rei
existência muito precária. U m inventário feito em religiosas. O vice-rei de Goa falou em nome de britânico William Dampier passou por Salvador e proibiu (1626) a sua construção com base no facto

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE GRUPOS SOCIAIS

de «não estar a índia em estado de sustentar tantos uin elemento perturbador, em especial nas fron­
mosteiros» e ordenou que fosse desmantelada. teiras da jurisdição efectiva de vigários-gerais ou
A ordem real que proibia a construção de qualquer bispos.
mosteiro no Estado da índia foi repetida em 1633. O século xvii viu nascer um novo grupo social
Contudo, em 1642, a Câmara de Goa queixou-se no império português: as freiras. As noviças eram
de a Ordem estar mais uma vez a tentar estabelecer admitidas, prestavam os seus votos de véu branco,
uma casa religiosa em Goa, mesmo contra a hostili­ para mais tarde prestarem os votos finais, de véu
dade de todas as outras ordens (idem: 11, 35-36, 364- preto. Os conventos também admitiam as «educan-
-366, 414). Em 1645 foi a vez dos Dominicanos em das», jovens que podiam ter apenas seis anos e que
Goa. Uma facção afirmava que tinham uma paten­ eram colocadas sob a tutela da instituição. Nem to­
te do geral para elevarem a Congregação de São das essas donzelas prestavam os votos finais, mas
Domingos, na índia, ao nível de «província», e ha­ houve outras que preferiram professar de véu pre­
viam seleccionado um entre eles para ser o provin­ to, não obstante a vigorosa oposição paternal. Exis­
cial. Era uma acção que desafiava a autoridade do tia uma forte tradição portuguesa para a tomada de
vigário-geral, que mostrou uma patente dos seus votos sagrados tanto pelos homens como pelas mu­
superiores confirmando a sua nomeação, e cuja au­ lheres. Durante os seus tempos de vida e nos testa­
toridade e posição foi confirmada pelo Conselho mentos, os pais, familiares e amigos doavam verbas
do Estado, que rejeitou as afirmações dos frades generosas para «tomar estado», uma expressão apli­
(idem: m, 95-97). A comunidade agostiniana em cável ao casamento secular e aos votos nas ordens
Goa foi abalada por dissidências nas décadas de religiosas. N o século xvii foram fundados os se­
1630, 1640 e 1650. Chegaram aos ouvidos reais rela­ guintes conventos no ultramar: Santa Mónica
tórios constantes sobre desacordos entre frades, (1606, Agostinhas), em Goa; Convento das Reli­
priores e provinciais. As perturbações entre os giosas Descalças Capuchas Franciscanas (1633), em
agostinhos de Goa, cujos frades haviam deposto o Macau, e Convento do Desterro das Claristas
seu próprio provincial, foram tão graves que Frei (1677), em Salvador. Dois casos estudados esclare­
Alexandre de Noronha foi enviado de Lisboa, co­ cem alguns aspectos do papel das mulheres portu­
mo provincial, com o encargo específico de forçar guesas no império: valores, hierarquização social,
à obediência do rebanho indisciplinado e de casti­ práticas para com as não portuguesas, bem como a
gar os frades que se haviam revoltado contra os força e a inconsistência das atitudes para com essas
seus prelados. A sua morte, em circunstâncias sus­ instituições e as suas ocupantes. Fachada da Igreja de São Paulo, Diu
peitas, foi atribuída aos frades que haviam sido A agitação e os apoios a favor de um convento
cúmplices. O prior e os definidores fugiram, com de Santa Clara em Goa despertaram paixões e anta­ vem podia ser admitida com uma idade inferior o senado de Goa escrevera ao rei a propósito do
medo dos seus colegas, deixando a Ordem sem li­ gonismos, que em 1607 foram abafados pela deci­ àquela em que podia professar. Mais tarde, foram fervor e devoção das mulheres de Goa, notando
derança. Alguns frades foram excomungados, ou­ são do arcebispo Frei Aleixo de Meneses, que, na impostos limtes quanto ao número de criadas. que muitas jovens preferiam o casamento com
tros foram admoestados, e o rei e o vice-rei tive­ sua capacidade de vice-rei, proibiu a construção de O vice-rei e o arcebispo tinham de aprovar todas Cristo ao casamento com um homem (idem: 11,
ram de se envolver no assunto, que só foi resolvido um segundo convento na índia. O Convento de as novas candidatas. Uma carta régia de 1628 auto­ 9-10; v, 683).
cerca de três anos mais tarde, em 1650 (idem: m, Santa Mónica deveu a sua criação ao dinamismo e rizava 100 freiras. O calibre social da comunidade N o princípio da década de 1620 houve acusações
112-116, 150-166). Tais dissidências não aconteciam à autoridade, política e religiosa, do arcebispo, bem pode ser julgado por intermédio da extraordinaria­ referindo que o critério de escolha das mulheres, que
apenas dentro das fileiras das ordejis, uma vez que como ao apoio de proeminentes sectores da comu­ mente rica Dona Catarina de Lima, viúva de um deveriam ser filhas de fidalgos ou cavaleiros, não es­
era frequente que os prelados se recusassem a cum­ nidade goesa e do senado da Câmara, que, em militar que morrera ao serviço do rei, tal como tava a ser respeitado, e que o convento aceitara fi­
prir o que o vice-rei ordenava (idem: 1, 517-518). 1597, numa carta ao rei, reiterara os pedidos ante­ acontecera com os filhos, e que no princípio do sé­ lhas de artífices (oficiais mecânicos) e de cristãos-
O monarca, os seus representantes e até as auto­ riores para uma tal fundação. No seu estudo sobre culo xvii entrou para o convento com as três filhas. -novos, bem como filhas ilegítimas. O ano de 1632
ridades municipais também não se encontravam as «redes de poder» no império português, Francis­ Ela e a filha Dona Antónia de Vasconcelos toma­ foi crítico: houve acusações de que as ordens reais
junto do clero secular, um alívio capaz de mitigar co Bethencourt referiu como o convento foi um ram votos como freiras professas (Correia, 1948- quanto ao número de freiras não tinham sido res­
o seu ressentimento para com as ordens religiosas. foco de conflitos entre as autoridades eclesiásticas e -1958: v, 675-676). No começo da década de 1630 a peitadas, que filhas de «gente preta da terra» haviam
Por todo o mundo ultramarino português, apesar seculares, bem como entre as diferentes ordens re­ comunidade conventual contava com três irmãs de sido admitidas e que, enquanto as mulheres ricas
de poderem ter existido alguns santos homens en­ ligiosas e os Jesuítas, e também como o rei e a Câ­ uma das mais ricas famílias de Cochim, descenden­ eram admitidas, as viúvas e as filhas de nobres em­
tre o clero secular, existiam muitos cuja conduta mara se mostraram menos cooperantes quando as tes de Antônio Rodrigues e Maria Vieira. E claro pobrecidos não o eram. Também se disse que o
nada tinha a ver com os votos feitos. Para o rei, ramificações financeiras e as ramificações demográ­ que os recursos financeiros não eram problema pa­ convento excedera, em muito, o número de pro­
que pagava as suas ordinárias pelas pregações e ficas se tomaram evidentes, mas a minha finalidade ra muitas das viúvas que entraram para o convento priedades e rendas estipuladas pela Coroa. Verifi­
confissões, o excessivo número desses sacerdotes é analisar as freiras como grupo social. O convento e que poderiam ter decidido, conscientemente, que cou-se uma explosão de ressentimentos acumula­
era preocupante (idem: 1, 517-518). No Brasil, o cle­ foi criado com os seguintes objectivos: «evitar a não se casariam outra vez. Porém, é intrigante que dos perante as riquezas doadas ao convento por
ro secular era conhecido pelo seu laxismo, em par­ devassidão das mulheres do Estado da índia» e «dar o número de donzelas fosse superior ao de viúvas. intermédio de legados, donativos e dotes, e devido
ticular nas paróquias mais afastadas que se encon­ estado» às filhas de «pessoas nobres» que não se pu­ Entre a nobreza e as classes superiores havia muita â correspondente retirada da circulação de mulhe­
travam fora do alcance de uma jurisdição efectiva dessem casar e corressem riscos. Fundado por 20 gente com acesso a riquezas, pelo que, presumivel­ res que poderiam casar-se ou voltar a casar, contri­
por parte do bispo (arcebispo a partir de 1676) de pessoas, em 1613 tinha 114 ocupantes, das quais ape­ mente, tinham todas as probabilidades de virem a buindo para o aumento da população portuguesa.
Salvador e dos bispos do Rio de Janeiro e Pernam­ nas 47 eram professas do coro e véu preto. Em casar. Ter-se-ào decidido contra o casamento devi­ Também havia uma grande apreensão quanto â
buco. O clero secular era famoso pela sua vida 1620 existiam 80 freiras de véu preto, para além das do ao facto de os homens existentes não serem sa­ possibilidade de as riquezas disponíveis acabarem
amoral e imoral — mantinha concubinas, levava noviças e servas. Em 1623 e 1624 o rei impôs o má­ tisfatórios ou porque o seu compromisso para com por cair nas mãos das ordens religiosas. Em 1632, o
preços ultrajantes pelos seus serviços e constituía ximo de 50 religiosas e estipulou que nenhuma jo - a fé as levou a entrar para o convento? Em 1607 já senado notificou o vice-rei a respeito do problema

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GRUPOS SOCIAIS
POPULAÇÃO E SOCIEDADE

das mulheres — viúvas e donzelas — de idade ca- para religiosas de véu preto, no local da Ermida de
sadoira e grande riqueza, que entravam no conven­ Nossa Senhora do Desterro [Collecção Chronologica,
to, negando ao comércio o estímulo da sua riqueza 1856 (1657-1674): 98]. Durante mais de cinquenta
e contribuindo para o despovoamento da comuni­ anos, o Desterro foi o único convento de Salvador,
dade portuguesa em Goa (idem: n, 11-12). praticamente reservado às elites da Bahia. Os pesa­
Numa refutação, o agostinho Frei Diogo de dos encargos financeiros para a sua manutenção
Santa Ana afirmou que a maioria das mulheres ha­ excluíam efectivamente a participação de outras
via entrado com o dote mínimo prescrito, que o mulheres que não as ricas. Por isso, não é de sur­
convento recolhera 11 órfãs nobres sem dote, que preender que predominassem as filhas dos senhores
os números não haviam excedido os 100 e que os de engenho e dos mercadores ricos. A capacidade
limites reais sobre as propriedades e rendas tinham inicial de 50 lugares era inadequada e havia cons­
sido respeitados. Quanto à composição social da tantes pressões para novas admissões. Para além da
comunidade conventual, punha em destaque filhas disciplina conventual, dos rituais diários estritos, do
de vice-reis, governadores e nobres tanto de Por­ jejum e da abstinência, as mulheres dessa comuni­
tugal como de todas as partes do Estado da índia. dade tinham oportunidades que lhes estavam veda­
Rejeitava a noção de que as candidatas tivessem si­ das no mundo secular: recebiam educação, apren­
do aceites apenas pela sua riqueza sem correspon­ diam a ler e escrever, tinham a possibilidade de
derem aos padrões de «qualidade». Quanto às «pre­ adquirir e praticar capacidades musicais (vocais e
tas da terra», concordava que a comunidade de instrumentais) e até de participarem em aconteci­
professas incluía quatro mulheres brâmanes e recor­ mentos teatrais. Aprendiam a coser, a bordar e a
dava aos detractores do convento que aquela «é a cozinhar. Constituíam uma comunidade muito
casta mais nobre que há entre os naturais deste unida no interior das paredes conventuais, e muito pro­
Oriente». vavelmente CQjiheciam-se bem umas às outras,
Claramente desagradado, o monarca reafirmou porque provinham do pequeno grupo de famílias
as suas ordens anteriores sobre o número de freiras que constituíam a elite da Bahia. Tal como aconte­
(100) e criadas (120), bem como um limite de 8000 cia com os seus familiares do mundo secular, eram
cruzados de renda e de 1000 pardaus de dote por os escravos quem tratava das suas necessidades físi­
cada freira (em comparação, o convento das Capu- cas e tinham-nos para uso pessoal (Soeiro, 1974).
chas, em Macau, admitiu 14 mulheres de Macau Se os dedicados ao serviço de Deus eram proe­
com um dote de 6000 pardaus), e ordenou que se minentes no império, a adoração de Máinon não
libertassem de todos os bens de raiz no prazo de era menos fervente e difundida. Apesar das aten­
um ano. Em Goa, 1635 foi um ano turbulento, ções se terem focado quase sempre no comércio da
com opiniões em conflito, disputas entre facções Coroa via cabo da Boa Esperança, investigações
civis e eclesiásticas e com a intervenção do vice- mais recentes também demonstraram a importância
-rei. O resultado foi a cedência de todos os bens do comércio interasiático. Na Ásia, o século xvii
do convento à Coroa, bem como a sua integração testemunhou a eclosão de um grupo, já presente
no Padroado real. Uma série de acontecimentos no século anterior. Tratava-se dos mercadores pri­
miraculosos não acabou com posteriores criticismos vados cujas actividades comerciais se desenrolavam
quanto ao número e qualidade das freiras, excesso apenas na Ásia. Os historiadores revelaram a exis­
de riquezas e acusações de que contribuíam para o tência de vários livros de registo desses comercian­
declínio do Estado da índia. Apesar de, na altura, tes aventureiros (Boxer, 1959: 90-139; Axelson,
essas acusações não terem fundamento, a trajectória 1964: 129, 132-134, 136; Matos e Rau, 1956). Não é
do convento durante o resto do século foi seme­ o caso no que se refere a Francisco Vieira de Fi­
lhante à do Estado da índia: o número de freiras gueiredo, que amplamente exemplifica as caracte­
declinou (67 em 1670, 55 em 1690), apesar de a rísticas desta força social emergente que tinha or­
acumulação de dotes lhes ter permitido evitar um gulho no seu individualismo (Boxer, 1967).
desastre financeiro. Antes do fim do século, para Navegou para a índia em 1622-1623 como soldado,
além da honra de ter sido o primeiro convento do mas uma década depois já comerciava na costa do
império português, teve também a honra de ter a Coromandel. Ao longo dos trinta e cinco anos se­
primeira história publicada (Santa Maria, 1699). guintes construiu um império comercial no Sudes­
Entre 1607 e 1834, 0 convento contribuiu com 494 te da Ásia. Com a sua base em Macáçar, mantinha
freiras professas de véu preto para Goa (Bethen- uma vigorosa rede de comércio com o arquipélago
court, 1994). de Sunda, Molucas, China, Filipinas, Samatra, Gu-
N o Brasil, o primeiro convento foi fundado em zarate, Coromandel e Indonésia. Vieira ilustra um
Salvador, em 1677, por instigação dos principais ci­ dos aspectos desses mercadores privados, cujos in­
dadãos e do senado da Câmara, que conseguiram teresses mercantis os levaram a comerciar com não-
finalmente convencer a Coroa a aprovar (1665) a -nacionais, não-correligionários e com gentes de
fundação de um convento da Ordem Franciscana outras raças, etnias e crenças. N o caso de Vieira, os
seus laços comerciais incluíam os espanhóis de
Mosteiro de São Bento, Olinda Manila, os jesuítas de Macau, os muçulmanos de Ma-

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180
POPULAÇÃO E SOCIEDADE GRUPOS SOCIAIS

cáçar, os Holandeses, Chineses, Indonésios e Ingle­ exportação, a diversidade de bens para exportação riador contemporâneo Sebastião da Rocha Pita: indústria de construção, extremamente apreciados
ses, bem como os mercadores de Guzarate. Cheio e a procura de importações da Europa transforma­ «... de humilde e pobre fortuna, chegou a ter cabe­ devido à crescente urbanização. Após uns meros 35
de recursos, combinava o comércio com a diplo­ ram as cidades portuárias em Mecas para os que ti­ dal opulento, adquirido pela sua indústria, e con­ anos de existência, em 1600 já o R io de Janeiro
macia, servindo de enviado ou emissário para os nham capacidade de empreendimento ou capitais servado com a sua parcimônia, minimamente rigo­ contava com um largo espectro de artífices, não
governantes indígenas e de intermediário entre para investir. Em finais do século xvi já existiam rosa no sustento e trato da sua pessoa. Tudo que apenas no ramo da construção mas também serra-
bs Portugueses e pessoas como o rei de Macáçar. comunidades mercantis residentes nos principais possuía (excepto duas moradas de casas, e poucos dores, oleiros, caiadores e carvoeiros, para além de
Existiam comunidades mercantis portuguesas es­ portos do Brasil. Salvador e R ecife conservavam a mais currais de gado) tinha a razão de juro, sendo alfaiates, sapateiros e tecelões (Serrão, 1965: 1,
palhadas por toda a Ásia, tanto dentro como fora sua proeminência, o R io de Janeiro estabelecera-se já tantos os caídos que nem ele próprio sabia o 190-193). Os artífices das áreas urbanas juntavam-se
do Estado da índia. Cochim era um importante como um empório mercantil para o comércio com computo do seu cabedal...» (Pita, 1880: liv. x, § 17). em corporações a fim de garantirem os padrões
entreposto para os portugueses que comerciavam as capitanias do Norte bem como com o rio da A prosperidade de tais indivíduos era assegurada profissionais por intermédio de exames, bem como
com a China, Bengala, Manila e Tutucorim. Po­ Prata e Angola. No século x v ii , a esse grupo de ci­ pela procura dos seus serviços numa colônia que a uniformidade dos preços dos seus serviços, cor­
rém, se existia uma comunidade impulsionada pelo dades juntaram-se as cada vez mais proeminentes não dispõe de qualquer organização bancária até ao porações que estavam registadas nos senados das
comércio, então essa comunidade era Macau, be­ Belém, São Luís e Santos. Em 1618, o autor anôni­ século xix. Tanto eles como os mercadores mais câmaras. Na Bahia o reconhecimento da coesão
neficiária das hostilidades entre a China e o Japão e mo dos Diálogos das Grandezas do Brasil referia-se à proeminentes, diversificaram as suas actividades desses grupos surgiu em 1641, quando os artífices
da proibição de comércio directo entre os nacio­ colônia como sendo um cruzamento das estradas através da aquisição de terras, sem no entanto dei­ de Salvador foram convidados para elegerem 12
nais dos dois países. As fortunas de Macau depen­ do mundo. Apesar de ainda serem necessárias mui­ xarem as actividades mercantis. Os dados disponí­ «mesteres», cada um dos quais representando uma
diam do Japão (até 1639), de Manila, das ilhas de tas investigações a respeito dessas comunidades, há veis para Salvador revelam que, no decurso da se­ arte ou grupo de artes, e que por sua vez elegeríam
Sunda e de Macáçar. Para além do mais, com a ex- um facto evidente: a existência de uma hierarqui­ gunda metade do século x vii, os homens de um «juiz do povo» para representar os seus interes­
cepção da viagem ao Japão, os mercadores de Ma­ zação dentro do grupo que, em termos muito am­ negócios e mercadores mais importantes (em es­ ses no senado da Câmara (Boxer, 1965: 73-77, 104-
cau comerciavam livremente. Macau era um bispa­ plos, se podia designar por mercantil. O mais proe­ pecial mercadores-plantadores) foram admitidos, -105, 179-182; Ruy, 1953: 173-185; Flexor, 1974). Em
do (1578), que obteve o estatuto de cidade (1586) minente sector da comunidade era composto pelos e ocuparam cargos na Santa Casa da Misericórdia Salvador, no último quartel do século x v ii , houve
com privilégios semelhantes aos de Évora, pelo que «mercadores de sobrado», grandes empresários que e nas Ordens Terceiras, que foram nomeados pa­ exemplos de artífices imigrantes portugueses — um
os portugueses que aí residiam ganharam uma re­ estavam envolvidos no com ércio transatlântico ra postos superiores das milícias e que serviram latoeiro, um albardeiro e um pedreiro — que fo­
putação de arrogância. Em 1624, o vice-rei caracte­ (tanto para a Europa como para a África) e na con­ no senado da Câmara (Flory e Smith, 1978: ram verdadeiras «histórias de sucesso» em termos fi­
rizou os moradores como «costumados a não obe­ centração dos bens de várias regiões contíguas nos 578-591). nanceiros. Todavia, o êxito financeiro nào era
decer mais que ao que eles aprovam» (Assentos: 1, portos de carga, bem como na distribuição dos ar­ Em 1699, William Dampier (Dampier, 1703) as­ acompanhado pelo reconhecimento social. As limi­
205). Para além dos 850 portugueses casados assi­ tigos recebidos da Europa e de África. Éstes actua- sinalou a presença de lojistas retalhistas «mercadores tações sociais colocavam barreiras no grau de mo­
nalados por Bocarro em 1635, este referiu tam­ vam em nome próprio e, também, como agentes de loja», alguns dos quais atingiram uma considerá­ bilidade social que era permitido aos envolvidos no
bém uma população móvel de cerca de 150 mari­ de casas mercantis de Portugal, de que recebiam vel riqueza, bem como de merceeiros e tabemei- comércio a retalho, para quem o critério era o das
nheiros, pilotos e mestres, alguns dos quais comissões. Algumas das suas actividades estendiam- ros, não tão prósperos. Havia também uma grande vendas às claras, e para os associados aos «ofícios
haviam ficado extremamente ricos devido ao co ­ -se ao sector financeiro, investindo em embarca­ população transitória de pessoas ligadas ao comér­ mecânicos» (Russell-Wood, 1981: 118-119; 1969).
mércio, mas que nunca viajavam para G oa com ções ou emprestando dinheiro a juros. Apesar de cio: agentes comerciais «comissários» e vendedores Os cristãos-novos continuaram a ser proemi­
medo de serem presos, bem como de «muitos alguns deles negociarem bens asiáticos, em geral li­ ambulantes. Enquanto estes se envolviam no co­ nentes nas colônias ultramarinas portuguesas, apesar
mercadores solteiros muito ricos» que também mitavam-se aos parâmetros do oceano Atlântico. mércio em pequena escala e eram numerosos e das restrições. Estudiosos como I. S. Révah e Fré­
nunca iam a Goa pela mesma razão. Peter Mundy Com o tal, não tinham acesso à espantosa variedade ubíquos, é de notar que — mesmo na cidade de déric Mauro comentaram o vital e importante pa­
comentou a riqueza dessa comunidade, as esposas de bens, ao aparentemente infinito número de Salvador — o número de «mercadores de sobrado» pel desempenhado pelos cristãos-novos enquanto
ricamente vestidas e cobertas de jóias e os séquitos combinações de redes comerciais e à dimensão in­ e «mercadores de loja» era pequeno em relação à membros da classe mercantil tanto na metrópole
de escravos negros e de escravas chinesas. Uma ou­ ternacional e cosmopolita que caracterizava as co­ população em geral. Uma amostragem para o pe­ como no Ultramar (Révah, 1956: 29; Mauro, 1970:
tra indicação da riqueza dessa comunidade mercan­ munidades mercantis da Ásia, face às quais os Por­ ríodo de 1600-1680 revela que cerca de 89 % desses 24). Na verdade, nos empórios comerciais da E u ­
til é o facto de, na década de 1630, a cidade supor­ tugueses permaneceram, até certo ponto, como «mercadores de sobrado» ou «mercadores de loja» ropa do princípio do século x vii , «português» e
tar quatro mosteiros. Quando o Convento das aspirantes e intrusos. eram portugueses de nascimento (Mello, 1966: diá­ «cristão-novo» eram virtualmente sinônimos, e no
Claristas foi fundado, em 1633, por dez freiras leva­ H ouve também indivíduos conhecidos por logo 3; Flory e Smith, 1978: 573-575). mundo luso-brasileiro também o termo «homem
das de Manila, bastaram dois meses para serem re­ «homens de negócios», um termo genérico que se Existiam também os artífices. N o Estado da ín­ de negócios» era quase intermutável com «cristão-
colhidos mais de 15 000 duros como donativos para aplicava às pessoas envolvidas principalmente em dia, Pyrard de Lavai observou que era extrema­ -novo» (Smith, 1974: 233-334). Na sua defesa contra
a nova instituição. Foi com razão que, o italiano, dois tipos de actividades empresariais, nenhuma das mente raro encontrar (quando se encontravam) a acusação anônima de que prestara mais atenção
Marco d’Avalo comentou no seu relato de 1638: quais era necessariamente exclusiva da outra. artífices portugueses dedicados aos «ofícios mecâni­ aos judeus e aos baneanes do que aos soldados por­
«Parece-me que Macau pode justamente ser consi­ O termo «homem de negócios» referia-se aos mer­ cos». Tanto os Portugueses como os mestiços enca­ tugueses («homens de guerra»), D. Miguel de N o ­
derada a melhor, a mais forte e a mais rendosa das cadores envolvidos fundamentalmente no comér­ ravam esses trabalhos como inferiores ao seu esta­ ronha, conde de Linhares e vice-rei da índia, equi-
possessões portuguesas nas índias» (Boxer, 1993: 66, cio por grosso, quase sempre no sector das impor­ tuto, pelo que tais actividades eram executadas parou os judeus aos homens de negócios na sua
83, 89). Todavia, em 1645 já esse comércio dimi­ tações e exportações, que mantinham o inventário pelos povos indígenas. Estes abrangiam desde os resposta, afirmando que se limitara a cumprir as or­
nuira. Em 1650 faziam-se referências à «pobreza e num armazém, não possuíam lojas e não vendiam a pobres marceneiros e carpinteiros até aos ricos joa­ dens do rei para que «favorecesse muito os homens
miséria» dos seus habitantes (Assentos: m, 83-86, retalho. A designação também se podia «aplicar aos lheiros, engastadores, ourives e outros artífices in­ de negócio» (Assentos: 11, 26). A componente inter­
138), e de 1660 a 1750 Macau e a sua comunidade banqueiros mercantis (contratadores) (Smith, 1974: dígenas, cujas magníficas lojas na Rua Direita de nacional das comunidades mercantis de cristãos-
mercantil estiveram sob a constante pressão das au­ 235) ou a pessoas envolvidas nas finanças, empres­ Goa excitaram o interesse de Pyrard de Lavai (La­ -novos foi posta em destaque por Boyajian e há
toridades chinesas de Cantão. tando dinheiro a altas taxas de juro a mercadores e vai, 1619: parte 11, caps. 3 e 4). Este facto fazia um numerosos estudos respeitantes ao Brasil onde en­
O século xvii assistiu à emergência do comércio a outros sectores da comunidade. U m deles foi contraste directo com o Brasil, onde existia uma contramos exemplos de mercadores cristãos-novos
atlântico e ao desenvolvimento do Brasil como João de Matos de Aguiar, um natural de Ponte de florescente comunidade de artífices. Pessoas como de Pernambuco que, nos anos de 1590, eram tam­
principal concorrente às atenções da Coroa portu­ Lima que emigrou para o Brasil e se tornou no ferreiros, carpinteiros, pedreiros e fabricantes de bém lavradores de cana. Através do Brasil existia
guesa, que até aí se focara principalmente no Esta­ magnata de Salvador no século x v ii . O modo co­ caldeiras tinham uma grande procura por parte das também uma florescente série de comunidades
do da índia. Não obstante o açúcar ser a principal mo adquiriu a sua fortuna foi descrito pelo histo­ plantações de açúcar, tal como os especialistas da mercantis de origem judaica envolvidas no comér-

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE GRUPOS SOCIAIS

À esquerda: Macau, in Antônio de M ariz Carneiro,


Descrição da Fortaleza de Sofala [...], 1639 (BN).
MACAO À direita: Pedro Barreto de Resende, D iu, in Antônio
Bocarro, Livro das Plantas de todas as fortalezas [...],
1 6 3 5 (BP AD E)

posto por 4000 ou 5000 escravos (Isaacman, 1972:


18). N o século xvii , esses exércitos de escravos não
eram dirigidos contra os Portugueses; pelo contrá­
rio, faziam parte do impulso expansionista dos
«prazeros» contra Sena-Tonga e outros chefes a
norte do Zambeze. Todavia, o que provocava um
vazio de poder, que os detentores dos prazos se
apressaram a ocupar, era a falta de uma estrutura
de Estado e não o acesso às armas de fogo, difíceis de
arranjar e de questionável mérito técnico. Ironica­
mente, nos finais do século x vii , o que levou ao
declínio das principais famílias de «prazeros» foi a
sua propensão para se guerrearem uns aos outros
(Isaacman, 1972: 17-23, 172-174).
Os fazendeiros do Brasil e os «prazeros» do vale
do Zambeze eram pessoas de fronteira, tal como
acontecia com os que se dedicavam à exploração
mineira. Apesar dás potenciais riquezas subterrâneas
cio ultramarino e doméstico (Boyajian, 1993; Sal­ cais lhes cediam. Sob este aspecto, Macau encon- das sesmarias de terras para lá das regiões de planta­ que jaziam nos territórios controlados pelos Portu­
vador, 1978; Johnson e Silva, 1992: 475-476). trava-se num dos extremos, uma vez que não ções de açúcar, ou que pura e simplesmente se gueses ou naqueles em que gozavam de um certo
O estabelecimento da Inquisição em Goa e a po­ existiam culturas dentro dos limites urbanos, en­ tinham apropriado das terras sem o benefício de tí­ grau de suserania, é notável que as pessoas envolvi­
tencial liberdade de expressão religiosa permitida quanto a Província do Norte e Ceilão, onde os tulos de propriedade ou aprovações. Essas terras das nas indústrias extractivas não fizessem parte do
pela presença holandesa no Nordeste brasileiro agricultores receberam cartas de aforamento, se en­ encontravam-se frequentemente fora do alcance da fluxo migratório nem constituíssem um grupo so­
incitaram os cristãos-novos a escolher o Brasil contravam no outro extremo (Correia, 1948-1958: 1, administração da Coroa ou das imposições judi­ cial no império ultramarino português do sécu­
com o lugar de refúgio, em vez da índia portugue­ 308-310). Na África Oriental também existiam agri­ ciais. Alguns desses colonos organizaram pequenos lo xvii . Na década de 1660, o pedido de Figueiredo
sa. Os regimentos que exortavam os governadores cultores, muitos deles residentes na ilha de M o­ exércitos de capangas, formados por nativos ameri­ para que lhe enviassem mineiros para examinarem
a manterem-se vigilantes no reforço das proibições çambique, mas com propriedades no continente. canos ou por pessoas de descendência africana, go­ os minérios de Timor a fim de verificarem se exis­
contra a instalação de colônias de cristãos-novos no Quando da morte dos portugueses, as viúvas — vernando despoticamente as populações no interior tia ouro, prata ou ligas foi ignorado e até ao fim
Brasil, a não ser que possuíssem autorização real, frequentemente mestiças — herdavam fazendas, e até para lá da área de que afirmavam serem legíti­ desse século verificou-se uma notável falta de êxito
foram grandemente ineficientes, tal como as ordens palmares e escravos em «terra firme» (Santos, 1989: mos proprietários, envolvendo-se na extorsão arbi­ em todo o lado, mesmo em África, por parte dos
que impediam os cristãos-novos de servirem nos parte 1, liv. 3, cap. 3). N o Brasil, a agricultura em trária de tributos ou trabalho, fazendo justiça pelas portugueses envolvidos na extracção de minérios,
conselhos municipais ou em ordens religiosas. Po­ pequenas parcelas era uma fonte de subsistência pa­ suas próprias mãos e pondo em prática castigos sá­ apesar das iniciativas de Salvador Correia de Sá e
rém, as investigações sobre a comunidade mercantil ra imigrantes e colonos que não dispunham de ca­ dicos ou desumanos. Tais homens mostravam-se dos governadores do Brasil. No coração desse pro­
de Salvador no século xvn revelam que de 179 pital para adquirirem mais do que alguns escravos. indiferentes para com ordens reais, súplicas ou le­ blema estava a escassez de mineiros profissionais
mercadores activos no período de 1620-1690 a Apesar de no R io de Janeiro de 1600 estarem pro­ gislação. As suas bases econômicas eram as manadas portugueses (Boxer, 1952: 13-14, 37-39, 191-195, 295-
maioria era identificada como sendo de cristãos- vavelmente a funcionar três engenhos, para além postas a pastar livremente, por vezes compostas por -302; Axelson, 1964: 59-60, 62, 99, m). Apesar de
-velhos. Só 81 (45 %), eram cristãos-novos. Tal co­ do cultivo da cana havia também culturas de arroz milhares de cabeças de gado. ter sido descoberto ouro de aluvião em certas par­
mo os seus equivalentes cristãos-velhos, compraram e de árvores de fruto, bem como o corte de pau- No Zambeze, os detentores dos prazos pos­ tes do Brasil, era em pequenas quantidades. No
engenhos, adquiriram propriedades, e os seus des­ -brasil. O autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil suíam uma autoridade não menos absoluta. Numa Brasil do século xvii , o impulso para descobrir es­
cendentes até se casaram com membros das princi­ comentou que esses agricultores nem sonhavam carta de 1667, o jesuíta Manuel Barreto comparava- meraldas, prata e ouro está associado ao grupo ét­
pais famílias da Bahia colonial, mas esses mercado­ em envolver-se eles próprios no trabalho braçal -os a potentados alemães com jurisdição absoluta nico e social identificado como paulistas, composto
res e homens de negócios cristãos-novos estavam (Serrão, 1965: 1, 145-146, 187-188: Mello 1966: diálo­ sobre tudo, afirmando que tinham um poder e ju ­ geralmente, no planalto de Piratininga, por descen­
impedidos de converter a sua riqueza no prestígio go 1). E provável que até o mais humilde colono risdição iguais aos dos «fumos Kaffir» (Newitt, 1995: dentes de colonos portugueses e mulheres amerín­
social gozado pelos seus colegas cristãos-velhos português fosse mais um empresário agrícola do 224). Beneficiários de uma mudança do poder dos dias, e que produziu figuras lendárias como Antô­
(Flory e Smith, 1978: 585-587). que um cultivador, uma vez que os trabalhos ma­ líderes indígenas africanos para pessoas de origem nio Raposo Tavares e Fernão Dias Pais.
Os Portugeses não perderam de vista as suas nuais duros eram entregues aos escravos. ou descendência não africana, os detentores dos Os territórios ultramarinos portugueses conta­
raízes rurais. Os planos das cidades e defesas do Es­ Foi a terra e o domínio sobre as populações in­ prazos eram, para além disso, beneficiários dos mo­ vam com grupos de pessoas que, por razões cultu­
tado da índia feitos por Antônio Bocarro, Pedro dígenas ou escravas que deram origem ao apareci­ delos africanos de reforço da sua autoridade. Um rais, raciais ou outras, eram excluídas de uma
Barreto de Resende e Antônio de Mariz Carneiro mento, em duas partes diferentes do império, a exemplo pode ser o da adopção da prática africana completa participação no império, tais como cris­
indicam culturas agrícolas no interior das muralhas grupos de poderosos proprietários de terras que de aumento da riqueza por intermédio de uma for­ tãos-novos, ciganos e pessoas de descendência afri­
defensivas e das fortalezas. Eram os soldados quem exerciam uma autoridade absoluta sobre as pessoas ma de clientelismo o que os tornava ainda mais cana. Existiam também aqueles que preferiam viver
tratava dessas culturas. Existiam também extensas dentro da sua jurisdição. Um dos grupos era no poderosos e respeitados (Axelson, 1964: 194-195). fora do império: mercenários e soldados tão fartos
culturas fora de muros e em áreas contíguas, de­ Brasil, o dos chamados «poderosos do sertão», co­ Exerciam a força bruta por intermédio de um de comandos incompetentes que desertavam para
pendendo das terras que os rajás ou os príncipes lo­ lonos a quem, no século xvi, tinham sido concedi- exército privado, ou achikunda, normalmente com- Bengala e Pegu (Correia, 1948-1958: 11, 272-273), os

184 185
POPULAÇÃO E SOCIEDADE I GRUPOS SOCIAIS

gêneros estão a provocar uma revisão de tais con­ sos — um certo grau de segurança financeira de­
ceitos. pois da viúvez. Em São Paulo do século x v ii , os
O período de 1570 a 1697 fornece-nos elemen­ dotes eram por vezes tão substanciais que a noiva
tos claros sobre as mulheres nos seus papéis tradi­ levava para o casamento a maioria das terras, gado,
cionais e também como forças dinâmicas e inova­ utensílios e até os escravos índios. Os dotes conce­
doras. U m reflexo do primeiro caso foi o aumento didos à noiva e ao noivo eram frequentemente vi­
dos recolhimentos sob administração das ordens re­ tais para o êxito do casamento e para a capacidade
ligiosas e da Santa Casa da Misericórdia. A criação de criar e sustentar uma família. Significavam, tam­
de tais locais de reclusão para as mulheres respon­ bém, que algumas noivas casavam com homens
deu às exigências — neste caso masculinas — da que, em termos financeiros, se encontravam numa
sociedade. Constituíam uma maneira de afastar de situação inferior à delas apesar de poderem gozar
casa e de limitar os movimentos a uma mulher se­ de um melhor estatuto social (Nazzari, 1991: 15-39).
xualmente «caprichosa», eram um «depósito» para Enquanto a morte de um esposo podia colocar
uma mulher casada enquanto o marido viajava, um grandes riquezas à disposição de algumas viúvas,
refúgio para filhas que haviam sido violadas ou não permitindo-lhes a opção de não voltarem a casar-se
tinham possibilidades de vir a casar, um lugar segu­ apesar das pressões sociais para que o fizessem, para
ro para as jovens que se aproximavam da idade ca- muitas outras essa morte significava limitações fi­
sadoira e para quem ainda não fora encontrado um nanceiras, hipotecas sobre propriedades, insistentes
esposo apropriado, e serviam de reclusão para as pressões dos credores, pobreza e destituição (Rus­
mulheres das grandes famílias que não dispunham sell-Wood, 1977: 22-25).
de um dote suficiente para as casar sem perda de Na índia, as pressões para que voltassem a casar
estatuto social. O Recolhimento de Nossa Senhora eram muito fortes e constituíam uma política social
Engenho de açúcar, in P. Vander A a, La Galerie Agréable du M onde [...], Leida, 1729? da Serra, que estava sempre cheio e era administra­ da Coroa portuguesa. As viúvas ricas de nascimen­
do pela Misericórdia de Goa, abrigava órfãs do rei to ou de ascendência portuguesa eram altamente
que cometiam apostasia, os que se viravam para a a ausência das mulheres naquelas ocasiões em que e também, contra pagamento, as esposas de fidalgos susceptíveis a essas pressões, e partia-se do princípio
pirataria, bem como aqueles membros da comuni­ eram convidados para uma casa, e contribuíram pa­ e cavaleiros ausentes ao serviço do rei. Em Goa tácito de que voltariam a casar. Houve numerosos
dade mercantil de Macau que consideravam a cida­ ra a noção de religiosidade das mulheres, cobertas existia também o Recolhimento de Santa Maria Ma­ exemplos, na índia, de viúvas nobres que obtive­
de como um refúgio seguro contra os funcionários com pesados véus e frequentando as missas. Eram dalena, para portuguesas e para luso-descendentes ram a concessão de viagens à China, capitanias de
judiciais de Goa e livre de intrusões inquisitoriais, caracterizadas como incultas, ignorantes, melancó­ arrependidas. Em Salvador, só em 1700 foi estabe­ fortalezas e mercês nupciais de aforamento de po-
porque a presença chinesa fornecia garantias contra licas, passivas e — para as casadas — subordinadas lecido o primeiro recolhimento, sob administração voações, passagens fluviais, pescarias e cargos públi­
a mais remota possibilidade de um auto-de-fé num às exigências e desejos do marido. Os viajantes fan­ da Misericórdia (Correia, 1948-1958: iv, 43-44, 51; cos com a intenção específica de lhes permitir, a
território sob soberania chinesa. Os degredados tasiavam sobre a acessibilidade sexual de tais seres, Russell-Wood, 1981: 253-265). elas ou a descendentes femininas, voltarem a casar-
continuaram a ser utilizados como instrumentos misteriosos e ocultos. Os homens portugueses eram Enquanto a imagem tradicional e estereotipada -se, ou para permitir às viúvas que sustentassem fa­
para a colonização e defesa das guarnições de An­ descritos como autocratas no seu papel de maridos da mulher como ser passivo era expressa, para o ca­ mílias que, com muita frequência, tinham mais de
gola, ilhas de São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, e severos como pais. Esses viajantes também não so do Brasil, por contemporâneos como Gabriel seis filhos (Correia, 1948-1958: 11, 244, 248-250, 253-
bem como de todo o Estado da índia. N o sécu­ deixaram de notar a duplicidade dos padrões invo­ Soares de Sousa (Sousa, 1940: 284), são muitos os -254, 263, 275, 283, 288-290, 458-460; ni, 347; IV,
lo xvii , a Coroa prosseguiu com uma prática que cados para as alianças extramaritais ou pré-maritais. exemplos, tanto no Brasil como na índia, que tes­ 44). No Brasil, a responsabilidade pelos dotes nup­
fora iniciada durante a era das capitanias do Brasil e Os juizes olhavam para o outro lado naqueles casos temunham uma dimensão muito diferente da passi­ ciais e provisões testamentárias era assumida pelo
que se mantivera depois do estabelecimento de um em que um marido ciumento assassinava uma es­ vidade e isolamento. O estatuto econômico e social indivíduo ou pela sua família. As viúvas não eram
governo da Coroa, e continuou a enviar degreda­ posa adúltera. Não foi tomada em conta a cruelda­ de uma mulher, tal como o tempo e o lugar, ti­ objecto de tanta largueza, que se dirigia mais às
dos para o Brasil. Todavia, essa prática deu precisa­ de frequentemente demonstrada por esses maridos nham uma importância considerável sobre o papel familiares femininas solteiras e tomava a forma de di­
mente os mesmos resultados que já dera um século para com as esposas, nem o facto de os homens es­ que ela poderia desempenhar. Era mais provável nheiro e propriedades, mas também de cargos públi­
antes, fossem quais fossem os locais do Brasil, ou tarem frequentemente ausentes por longos perío­ que uma mulher próxima das elites se conformasse cos, como o de procurador dos índios ou funcioná­
seja, uma mobilidade sem controlo e muitas per­ dos, por se encontrarem envolvidos em campanhas com o estereótipo, ao passo que no caso da esposa rio da Relação de Salvador. Houve também casos de
turbações. As ordens limitando a presença dessas militares, no comércio ou na exploração, nem o de um artífice se esperava que esta contribuísse pa­ testamenteiros que favoreceram o lado feminino da
pessoas a capitanias específicas foram ineficazes e a domínio paternal que forçava as filhas a casamentos ra a casa, tendo mais probabilidades de se mover de família e que chegaram até a restringir a herança às
abertura de novas áreas, em particular no Mara­ contra a sua vontade, com maridos substancialmen­ uma maneira independente no exterior da mesma e suas descendentes femininas (Russell-Wood, 1977:
nhão e no Pará, foi feita por presos cujas sentenças te mais velhos do que as jovens noivas. Maria Bea­ de arranjar amizades ou conhecimentos num mais 14-15, 28-29). Não obstante, muito provavelmente,
eram comutadas com a condição de se apresenta­ triz Nizza da Silva notou que o concubinato e a amplo espectro social do que a sua equivalente da não lhes faltarem pretendentes e de terem amplas
rem como «voluntários» para pioneiros da coloni­ bigamia eram frequentes, e que uma mulher casada elite. Ambas enfrentavam uma dura realidade, a de oportunidades para voltarem a casar, há provas, na
zação. também tinha de enfrentar a posição da Igreja, que que a disparidade entre as idades da noiva e do índia e no Brasil, que sugerem que algumas viúvas
Por fim, viramo-nos para as mulheres portu­ a forçava a ser obediente ao marido. Não é de sur­ noivo, a frequência das campanhas militares na ín­ escolheram voluntariamente não o fazer. Neste caso,
guesas como grupo social do império ultramarino preender que muitas mulheres brasileiras, ao con­ dia e nas hostilidades com os nativos americanos no não estavam a conformar-se com os esperados pa­
português, mulheres que em geral são retratadas templarem a hipótese de casamento, recorressem à Brasil, a par com a exposição às doenças, levavam drões de comportamento.
como levando uma vida de reclusão física e social, feitiçaria para garantir a felicidade, e que as já casa­ inevitavelmente a uma grande incidência de viúvas. Há amplos registos, tanto na índia como no
bem como de estagnação intelectual. Uma afirma­ das mandassem vir de Portugal loções e poções pa­ Tendo em conta a prevalência deste tipo de climas Brasil, que testemunham a assunção de responsabi­
ção muito publicitada era a de que as mulheres ra acalmarem um marido violento ou abusivo sociais e políticos, os dotes, que podiam ser essen­ lidades exclusivas por parte de uma viúva, não ape­
portuguesas só saíam de casa em três ocasiões: para (Johnson e Silva, 1882: 428-441). Até recentemente, ciais para atrair um esposo, também podiam repre­ nas na educação dos filhos mas também na gestão
serem baptizadas, para se casarem e para serem en­ a historiografia refiectiu estes estereótipos, mas a sentar — desde que fossem tomadas precauções de imóveis, empresas comerciais e propriedades
terradas. Os viajantes não portugueses comentaram nova ênfase dada à história social e ao estudo dos contra as depredações de homens pouco escrupulo­ herdadas de um marido falecido. Na índia, nos fi-

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POPULAÇÃO E SOCIEDADE

nais do século xvi e no século x vii , entre uma se- casos, as mulheres foram vulneráveis às interferên­ BIBLIOGRAFIA
lecção de actividades de gestão levadas a cabo por cias dos homens e viram-se envolvidas em disputas
mulheres encontravam-se as seguintes: arrecadação legais por causa de concessões de terras (sesmarias), C adornega , Antônio de Oliveira de
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administrativos encorajaram alguns aspirantes e que comerciavam com Ceilão, Bengala, Malaca, A zev ed o , João Lúcio de ' 479 -
usurpadores, forçando essas mulheres a entrarem Macau e Ormuz (Correia, 1948-1958: v, 629-633). 1930 — Os J e s u ít a s n o G r ã o - P a r á . S u a s m is s õ e s e a c o lo n iz a ç ã o , 1947 — «The Lay Brotherhoods o f Colonial Bahia», C a t h o l i c H i s ­
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padrões, foi excepcionalmente notável a acção da encontrei nenhum caso, para esse período, de uma dução do código iluminado 149 da Biblioteca Nacional, nota in­
B ethencourt , Francisco
nobre luso-descendente Dona Inês de Miranda, mulher que fosse proprietária de embarcações. No 1994 — «Os conventos femininos no império português: o caso trodutória e legendas de Pedro Dias, Lisboa, Fundação Oriente.
conhecida por «Senhora de Baçaim». Com o viúva, entanto, existiam mulheres que eram consignadoras do Convento de Santa Mónica em Goa», in A d a s d o C o n g r e s s o C arneiro , Edison
levava a vida de uma baronesa feudal, vivia num e consignatárias de bens embarcados de e para o I n t e m a r í o n a l «O R o s t o F e m i n i n o d a E x p a n s ã o P o r tu g u e s a » , Lisboa, 1964 — l u t d in o s e crioulos, E s t u d o s so b r e 0 N e g r o n o B r a s il, Rio de
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palácio fortificado e os seus bens incluíam barcos Brasil. No Brasil também não se verificaram aque­ C arré , Abbé %,
B irmingham , David
de pesca e uma fabrica de aguardente de palmeira. las ocasiões em que, durante os cercos de Goa, Ca- 1966 — T r a d e a n d C o n f l i c t i n A n g o la : T h e M b u n d u a n d th e ir N e i g h ­ 1947- 1948 — T h e T ra v els o f th e A b b é C a r r é , i n I n d ia a n d th e N e a r
Administrava aldeias da ilha, ordenava a sua defesa nanor, Diu, Chaul e Ceilão, ou por causa de cam­ b o u r s u n d e r t h e I n f lu e n c e o f t h e P o r tu g u e s e , 1 4 8 3 - 1 7 9 0 , Oxford, O x­ E a s t , 1 6 7 2 to 1 6 7 4 , traduzido por Lady Fawcett, 3 vols., Londres,

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190 191
ESPAÇOS
ECONÔMICOS

C f. legenda da pág. 2 5 5
O COMÉRCIO ASIÁTICO

0 COMÉRCIO ASIÁTICO Especiarias pela V O C , os Ingleses se viraram para a


índia e para os têxteis indianos para compensarem a
Q uadro I. Estim ativa d o con su m o eu ro peu de
m ercadorias asiáticas (c. 1620)
perda dos mercados indonésios. A expansão do co­
Kirti Chaudhuri mércio inglês dos têxteis de algodão nos anos de M UN VOC
1620 foi construída para um mercado que havia sido
Pimenta 6 000 000 lb 7 000 000 pd.
desenvolvido pelos Portugueses. Apesar de nos falta­ Garófàno 450000 - 490000 -
rem informações estatísticas exactas, existem algu­ Maça 150000 - 180000 -
mas estimativas contemporâneas sobre o consumo Noz-moscada 400000 - 450000 -
total europeu de pimenta, especiarias finas, indigo e Anil 350000 - -
O comércio marítimo entre a Europa e o ocea­ mo inicialmente se receou, e depois das primeiras Seda persa 1000000 -
sedas em bruto. Em 1620, o escritor e especialista em bruto
no Indico era a espinha dorsal do império ultrama­ décadas de esforços feitos para bloquear a rota do econômico inglês, Thomas Mun, fez uma estimati­
rino português nos séculos xvi e x v i i . Foi impor­ mar Vermelho, o fluxo de especiarias, pimenta, va das importações europeias de produtos asiáticos. [A p u d Steensgaard, 1973.)
tante não só por causa das suas dimensões e valor têxteis de algodão indianos, matérias corantes co­ Os números de Mun foram complementados por
total, ambos de modo nenhum negligenciáveis pe­ mo o indigo e toda uma gama de outros artigos fontes holandesas e constam no Quadro I, tal como forneceram as bases para as conclusões que se se­
los padrões contemporâneos, mas também porque continuou a chegar aos mercados intermediários de foram resumidos por Steensgaard. guem. Durante a década de 1581-1590, partiram de
fornecia os recursos econômicos para sustentar to­ Jedda, Cairo, Alexandria, Alepo e Beirute, sem A destruição de um grande número de registos Lisboa para a Ásia 59 navios com uma tonelagem
do um programa de participação do rei nos assun­ quaisquer grandes intervenções da Coroa ou dos durante o terramoto de 1755, e do consequente in­ combinada de 55 420, enquanto regressaram a casa
tos financeiros do reino. O comércio entre diferen­ mercadores portugueses (Steensgaard, 1973: 154). cêndio da Casa da índia, toma difícil reconstruir 42 navios da frota da Ásia com uma tonelagem to­
tes pontos do oceano Índico levado a cabo pelos Com a ajuda de recentes investigações históri­ um quadro satisfatório do volume exacto e do va­ tal de 39 290. Quando os números das partidas de
funcionários do Estado da índia e por mercadores cas não nos é difícil perceber os motivos que leva­ lor do comércio da carreira. N o princípio do sécu­ Lisboa são comparados com os dados sobre as che­
casados privados excedia muitas vezes o comércio ram a uma coexistência do comércio português via lo xvii houve escritores portugueses que consulta­ gadas aos vários portos asiáticos, toma-se evidente
directo indo-português. Porém, os benefícios re­ rota do Cabo com o tráfico do Médio Oriente ram os referidos registos e que nos deixaram que se verificava uma alta taxa de naufrágios tanto
tirados das importações anuais da carreira da índia através do mar Vermelho e do golfo Pérsico. Os algumas descrições e estimativas sobre esse comér­ na viagem de ida como no regresso. A década com
permitiam ao rei, e ao tesouro real, justificarem o mercadores europeus que financiaram e organiza­ cio. Contudo, graças à sobrevivência, até aos nos­ maior número de saídas de Lisboa teve lugar entre
envolvimento oficial no processo das descobertas. ram a distribuição das importações portuguesas no sos dias, de dados sobre a navegação, é agora possí­ 1601 e 1610, com a partida de 71 navios para a Ásia,
Para além disso, o sistema de patrocínio real na co­ último quartel do século xvi foram incapazes de vel compilar estatísticas relativamente precisas sobre mas com o número das chegadas reduzido a apenas
brança alfandegária, a venda de bens pertencentes expandir as suas actividades para além de um certo o número total anual de navios que partiram de 28. Tratou-se do período em que a ameaça naval
à Coroa e a atribuição de concessões comerciais a ponto e a Coroa nunca conseguiu que fossem atin­ Lisboa e voltaram a casa. Esses números servem, dos Holandeses e Ingleses se tomou mais grave, le­
mercadores e a membros da nobreza faziam parte gidos os níveis operacionais especificados nos con­ pelo menos, para nos mostrar o modo como o vo­ vando a que o Estado da índia necessitasse de re­
de um processo político que se estendia desde Por­ tratos concedidos aos mercadores privados para a lume total de navegação e a tonelagem a ela asso­ forços. Houve um grande número de navios de li­
tugal, à Espanha, França e até Inglaterra. E claro gestão do comércio da carreira. O mercado euro­ ciada podem ter variado de década para década. Os nha que permaneceu no oceano Índico para
que os produtos orientais trazidos pela frota portu­ peu era maior do que a capacidade organizacional números coligidos e analisados por Vitorino Maga­ fornecer uma melhor protecção contra as Com pa­
guesa da índia via cabo da Boa Esperança também tanto da Coroa portuguesa como das corporações lhães Godinho, Niels Steensgaard e mais recente­ nhias norte-europeias. Durante a segunda metade
satisfaziam um padrão de exigências de consumo e ligadas ao comércio com o Oriente. A situação mente por T. Bentley Duncan (ver Quadro II), do século x v i i , os números referentes à navegação
de níveis de vida que passariam por importantes modificou-se na primeira metade do século x v ii
modificações no decurso dos séculos xvii e xvm. quando os Holandeses apareceram no oceano Índi­
De acordo com as palavras de Fernand Braudel: «Le co. E duvidoso que a importância da rota do Cabo
Q u ad ro II. M ovim ento m arítim o entre Portugal e a Á sia (1497-1700)
commerce des épices sera encore le premier de pudesse ter aumentado de um modo tão dramático
tous les trafics mondiaux au xvn.e, j^ n ’est pas au Partidas de Lisboa Chegadas à Ásia Partidas da Ásia Chegadas a Lisboa
se não tivesse sido a organização, por parte dos
xvni.e siècle» (Braudel, 1966: 1, 500). Em 1580, Norte-Europeus, das companhias de capital por ac­ número número
navios (tonelagem)
número
navios (tonelagem)
número
Ano navios (tonelagem) navios (tonelagem) de pessoas
quando da ascensão de Filipe II ao trono de Portu­ de pessoas de pessoas de pessoas
ções e respectiva gestão das mesmas. E ainda mais
gal, o comércio luso-asiático tinha atingido o auge problemático saber qual seria a diferença relativa na I 64O 849 290 120 2 170 60
1497-1500 17 2665 1 360 10 3
do desenvolvimento tanto no oceano Índico como composição e valor do comércio directo português 1501-1510 «SI 42 775 .8365 «35 38695 16476 88 26085 8655 73 21115 7518
na Europa. Na estrutura desse comércio existiam em comparação com os rendimentos das Compa­ 1511-1520 96 38690 15 791 *7 35830 13864 60 26060 7818 59 25760 7 590
determinadas características particulares que foram nhias das índias Orientais. Não há dúvidas de que a 1521-1530 81 37720 17064 67 32 290 14 588 55 28520 8556 53 27020 8 106
I53*-I540 80 44 660 20910 42 6l0 19637 61 39 ««o 11 733 57 36410 10 416
analisadas por Niels Steensgaard e comparadas com principal concorrência entre os Europeus durante 76
34100 15232 10 065
1541-1550 68 40800 16 515 56 58 34 550 51 30 550 9 430
o sistema estabelecido pelas Companhias das índias as suas tentativas para garantirem uma parcela do 1551-1560 58 39 600 16944 46 32 500 «5 331 47 33650 10 370 35 15 750 8414
Orientais holandesa e inglesa. O estabelecimento comércio oriental teve lugar em três categorias de 1561-1570 50 37030 18652 46 32580 17 844 45 36150 14480 40 31150 11 5 9 4
do Estado da índia, conclui, foi uma revolução, bens, ou seja, as especiarias, o indigo e as sedas em 1571-1580 50 42900 »575 48 4O8OO 19 691 4i 38250 15300 39 3 5 150 14 038
1581-1590 55 420 23285 42 87O 20 850 5» 48450 18080 4i 39 190 15 945
mas apenas no sentido de ter sido mais organizado bruto. Um artigo que raramente é citado pelos es­ 59 45
25863 40 16 590 22 25000 11190
1591-1600 43 49 200 26550 39 42 540 45 350
e mais vasto, para além de concretizado de uma pecialistas econômicos contemporâneos são os têx­ 1601-1610 7» 77190 33 195 45 49 540 17 559 36 43 390 ■ 73s« 28 32 290 14 876
maneira mais determinada no interior dos limites teis indianos de algodão, comércio em que os Por­ 1611-1620 66 60990 27 100 47 44060 23 106 3i 40350 16 140 28 35 550 13645
de uma estrutura muito maior que continuou a tugueses se especializaram no oceano Índico, e que 1621-1630 60 48 000 is r - s 39 31 410 17448 28 14150 9670 19 15 050 6 087
1631-1640 20020 7885 28 15770 21 «3 7 «o 5484 15 9 910 4 606
funcionar sem alterações radicais. A participação a carreira da índia também começou a importar nas 33
28 14 280
7115
7Ó41 16 030 6 412 12030 4823
1641-1650 22 840 11 928 3i 14
portuguesa no comércio do oceano Índico não primeiras décadas do século xvii. Nos anos de 1670 e 1651-1660 35 14 320 9470 35 18 990 9174 16 7 979 3188 16 8 120 3385
conduziu a quaisquer inovações fundamentais nem 1680, os têxteis de algodão ultrapassaram a pimenta 1661-1670 21 8635 4865 «4 5635 2633 «4 6070 2 428 13 4 820 1 708
alterou as reíações tradicionais entre mercadores e e as especiarias, e tomaram-se no bem mais rentá­ 1671-1680 *5 11 700 5720 29 13 900 6387 22 10730 4191 21 9 680 3 405
1681-1690 19 11650 5825 11 650 5147 16 9 300 3710 15 8 600 3179
governantes, entre protectores e protegidos. O co­ vel e procurado por toda a Europa. No entanto 19
13700 8950
1691-1700 14900 7630 21 >580 14 3580 13 7 550 1997
mércio da carreira da índia não conseguiu desviar também há provas de que, quando a Companhia 1497-1700 1149 721705 330 354 960 598390 292227 781 537115 193 937 666 441695 164 012
o comércio transcontinental euro-asiático, tal co­ Inglesa das índias Orientais foi afastada das ilhas das [A p u d Duncan, 1986.)

194 195
ESPAÇOS ECONÔMICOS O COMÉRCIO ASIÁTICO

mostram um sério declínio em relação aos níveis Q u ad ro III. P im e n ta bens que transportavam era relativamente pequena contrato semelhante entre o monarca e dois merca­
anteriores e a média anual de partidas e chegadas quando comparada com a relação entre a tonela­ dores portugueses, Fernão Lopes e Diogo de Bar­
correspondeu a não mais de metade dos números Data Carregada Descarregada Quebra Líquida gem possível e a carga efectuada nos navios holan­ reira, para a importação de 1000 quintais de gengi­
para o período de 1600-1650. na índia em Lisboa durante a (deduzida a
viagem quebra
deses e ingleses. N o entanto, todas as provas indi­ bre e 400 quintais de noz-moscada. As urgentes
As informações sobre a composição exacta das suplementar cam que as naus da carreira da índia sofriam de um necessidades financeiras do tesouro de Portugal for­
cargas dos navios não estão completas, mas temos em Lisboa) excesso de carga crônico e que transportavam uma çaram a Coroa, em 1580, à concessão do contrato
uma ideia geral a respeito da natureza dos bens e grande quantidade de bens privados. da pimenta, com termos altamente favoráveis, ao
podem ser feitos alguns cálculos mais pormenoriza­ i S87 10378 9 72 2 6.3 9 479 O carácter institucional do comércio da carrei­ grupo de mercadores liderado por Milanese Rovel­
1588 22963 21 819 4.9 21273
dos no que toca às importações de pimenta-negra. 1589 26750 24 840 24 219 ra entre Portugal e as índias sofreu algumas mu­ lasco. Ficou estipulado que os contratantes envia­
7>I
Os principais artigos de exportação eram a prata, 1590 23 682 22 720 4 22 151 danças com a sybida de D. Sebastião ao trono. Foi riam para a índia,a soma anual de 1,265 milhões de
vários tipos de metais, canhões e armamento, bem 1591 nada durante o seu reinado que começou a ser instituído xerafins para a compra de 30 000 quintais de pi­
como uma variada miscelânea de artigos europeus, 1592 9 939 9 610 3.3 93 70
o sistema de contratos privados para gestão das im­ menta, dos quais metade pertenceríam à Coroa.
1593 4 994 4825 3.3 4 705
incluindo têxteis. N o regresso, a carga era compos­ 6 516 6293 6137 portações e da distribuição da pimenta. Em 1562- Em teoria, a Coroa alienara uma das suas mais pro­
1594 3.4
ta por pimenta-negra, gengibre, canela, cravinho, 1595 17611 16 912 3.9 16 489 -1563, durante o período da regência, quando o veitosas prerrogativas sobre o comércio da índia,
noz-moscada, macis, gomas aromáticas e resinas, 1596 2714 2 642 2,6 2 575 monarca era ainda de menor idade, foram assinados mas na realidade os contratantes não conseguiram
têxteis de algodão, indigo e sedas em bruto. Os 1597 16 927 is 887 6 15490
contratos com alguns mercadores cujos nomes não aproveitar todo o potencial do contrato da pimen­
1598 789s 76 10 3.6 7607
números de Magalhães Godinho para as importa­ nada constam nos registos (Godinho, 1982-1983: m, 63). ta. Em 1586, Filipe II assinou um novo contrato
1599
ções de pimenta durante os anos de 1587 a 1598 re­ Cerca de 1576, quando o jovem soberano começou com a sociedade de Rovellasco, que incluía a par­
velam que Lisboa recebeu uma média de 11 000 [A p u d Godinho 1981-1983: m, 75.] a preparar-se para a sua fatal invasão militar a Mar­ ticipação financeira das firmas alemãs Fuggers e
quintais (565 400 kg) (ver Quadro III). Estas quanti­ rocos, foi iniciado um outro período de comércio Welsers, bem como Giraldo Paris, um nobre de
dades são consideravelmente mais pequenas do que correctos, o comério da carreira portuguesa sofreu, por contrato, e a «trazida da pimenta» foi entregue Limburgo que operava a partir de Madrid, e Joseph
as importadas durante a primeira metade do sécu­ sem dúvida, uma certa contracção em finais do sé­ a um grupo de cinco mercadores composto por Façara (Godinho, 1981-1983: m, 64-65). Apesar des­
lo xvi. Por exemplo, durante os dois anos de 1547- culo xvi. Contudo, em 1607, o secretário de Esta­ Diogo de Castro, Giovanni Battista Rovellasco, Já- tes contratos copj consórcios privados de mercado­
-1548, os números referentes à importação de pi­ do Figueiredo Falcão estimou uma entrada anual como de Bardez, Konrad R ott e a Welser. D. Se­ res europeus revélarem uma certa profundidade nas
menta foram, respectivamente, de 36 412 e 23 827 de pimenta na ordem dos 20 000 quintais, número bastião foi morto na Batalha de Alcácer Quibir, em técnicas comerciais da gestão portuguesa da pi­
quintais. Aparentemente, o envolvimento portu­ provavelmente exagerado. Para o período de 1611 a 1578, mas o sistema de contratos foi renovado sob o menta-negra, são também indicadores da disposi­
guês no comércio da pimenta estabilizou por volta 1626, Magalhães Godinho fez uma estimativa de seu sucessor, D. Henrique. Konrad Rott, muito ção da comunidade financeira internacional para
de 20 000 quintais nos anos de 1570 e 1580, após o importações totais de 164 269 quintais, ou seja, em particular, estava envolvido numa dupla opera­ subscrever alguns dos riscos associados às finanças
que começou a declinar. Um funcionário portu­ uma média anual de um pouco mais de 10 000 ção. Era o principal comprador de especiarias públicas dos Habsburgos. O sistema de contratos
guês calculou que, em 1585, os Achemeses exporta­ quintais (Godinho, 1981-1983: m, 75-76). Este nú­ orientais na Casa da índia enquanto, ao mesmo privados na gestão da carreira não deu os resultados
vam 40-50 000 quintais de pimenta para Jedda, no mero é também confirmado por Gomes Solis no tempo, era um dos banqueiros responsáveis pela esperados sob a forma de um aumento do forneci­
mar Vermelho, número semelhante ao indicado, seu Discurso en razon de la compariia oriental (162.1). aquisição da pimenta nas índias. Na altura em que mento de bens orientais a Lisboa, e o contrato de
em 1601, pelo mercador inglês Sanderson para as E evidente que apesar da grande tonelagem das a «trazida da pimenta» estava a ser transformada 1586 trouxe ainda menos benefícios à Coroa do
importações do Cairo. Se estes números estiverem naus e galeões portugueses, a quantidade real de num monopólio privado, era também assinado um que o anterior. Todavia, o sistema de contratos

Estrutura do comércio entre os entrepostos no oceano Índico antes de 1500 (apud Chaudhuri, 1985) Estrutura do comércio, importância relativa dos entrepostos no oceano Indico depois de 1600 (apud Chaudhuri, 1985)

196
ESPAÇOS ECONÔMICOS O COMÉRCIO ASIÁTICO

no tutte le cose preziose che noi conosciamo: la viajante francês François Pyrard de Lavai chamou a
spezierie, parte delle quali fanno in quella costa, atenção para o facto dos rendimentos das colônias
come il pepe e la cannella e ’izensero; 1’altre vi so­ portuguesas nas índias serem insuficientes para pa­
no portate, come le noci moscade e il macis, che gar os custos da administração e as despesas milita­
vengono pure di terra ferma, e i grofani che ven­ res. Quando D. João Coutinho, conde do R edon ­
gono dal Malucco» (Sassetti, 1970: 217-219). Este do, chegou a Goa e recebeu o cargo de vice-rei
brilhante quadro da riqueza do comércio português das mãos de Jerónimo de Azevedo, descobriu que
nas índias reflectia uma certa parte de verdade, em­ o tesouro do Estado se debatia com uma grave falta
bora no terceiro quartel do século xvi já os recur­ de fundos e que o capitão-mor da armada, Louren-
sos do Estado da índia se encontrassem cada vez ço Pires de Carvalho, não podia partir para C o ­
mais sob pressão. Os dados referentes à navegação chim para ir buscar uma carga de pimenta porque
compilados por Duncan revelam que a carreira da não era possível pagar os salários aos tripulantes e
índia sofreu grandes perdas no mar durante a pri­ oficiais da esquadra por falta de dinheiro (Bocarro,
meira metade do século x v i i . Os efeitos econômi­ 1876: 11, cap. L x x x v i, 754-755). O historiador Antô­
cos dos naufrágios devidos a tempestades, excesso nio Bocarro, que mencionou o episódio acima e
de carga ou má navegação foram ainda aumentados que era o conservador dos registos oficiais de Goa,
pela captura de navios portugueses pelos Holande­ assinalou também que os lucros do comércio por­
ses e Ingleses, e pela necessidade de deslocar um tuguês de têxteis e indigo de Cambaia haviam de­
grande número de navios armados para a protecção clinado, e que pensava que a diminuição do valor
de Goa, Cochim, Malaca e Macau. A continuação do comércio levaria inevitavelmente ao declínio
da guerra nas índias e o declínio do número de na­ dos rendimentos da alfândega do Estado da índia
vios que regressavam a Lisboa afectaram não apenas (idem, 1992: 1, 280). Os números dos rendimentos
as finanças da Coroa de Portugal como também a da alfândega de Goa constantes no Livro [...] de
prosperidade do Estado da índia no oceano Índico. Luís de Figueiredo Falcão revelam que, entre 1600
Logo em 1589, antes do aparecimento dos Ho­ e 1634, esses mesmos rendimentos haviam passado
landeses e Ingleses no oceano Índico, foi referido, de 226 666 xerafins para apenas 130 000. A diferen­
em Lisboa, que o vice-rei de Goa era incapaz de ça entre os rendimentos e as despesas, tão evidente
satisfazer as necessidades defensivas do império ape­ no caso de Goa, era também uma característica do
Vista de Lisboa, gravura francesa, séc. xvn nas com base nas suas fontes regulares de rendi­ comércio e finanças de outras colônias portuguesas
mento (Disney, 1978: 50). Vinte anos mais tarde, o na Ásia. Com as excepções de Macau, Baçaim, D a-
serviu, no mínimo, como fonte imediata de di­ do Doutor Luís Pereira do Conselho de minha fa­
nheiro a pronto para o tesouro hispano-português, zenda e de João de Teive contador-mor dos contos Feitorias da Companhia Inglesa das índias Orientais e de outras nações europeias situadas no oceano Índico nos sees, X V II
dinheiro esse que era urgentemente necessário para e por escrivão Jácome de Oliveira provedor deles. e x v i 11 fapud Chaudhuri, 1985)
financiar as operações navais de Filipe II contra a E feita a dita reformação ma enviareis com brevi­
Inglaterra e a Holanda. A organização da viagem dade para que havendo-a visto mande o que for
anual às índias e a descarga dos navios que faziam a servido, para prevenir a descarga das naus antes que
viagem de regresso eram geridas por duas institui­ cheguem» (Luz, 1952: 50). A gestão do comércio
ções diferentes de Lisboa, a Casa da índia e o Ar­ asiático pelo Conselho das Finanças, em Lisboa,
mazém da índia. A primeira cobrava^as taxas alfan­ permaneceu praticamente inalterada até 1628, altura
degárias e outras, que eram aplicadas ao comércio em que foram introduzidas novas e importantes
privado, para além de supervisionar os rendimentos medidas, como veremos mais adiante.
das vendas da pimenta e dos contratos pertencentes A variedade, valor e esplendor do comércio
ao rei. A Casa da índia era também responsável pe­ oriental levado a cabo pela Coroa portuguesa e pe­
la carga e descarga dos navios, pela lista de tripu­ los mercadores privados de Lisboa foi descrita em ™a r \ j Luhore
lantes e pagamento aos mesmos, e pela inspecção pormenor por uma testemunha italiana e por ou­ ImpériòMogol
Amai Formosa
IM P ,
geral de bens e artigos de contrabando. Por seu la­ tros que passaram muitos anos no Oriente portu­
do, o Armazém da índia ocupava-se da construção, guês. Eis uma passagem da carta de Filippo Sassetti, Iémen v Ahmadabad
íKasimbazar
Dacca
reparação e renovação dos navios, bem como da de 10 de Outubro de 1578, dirigida ao correspon­ O i Broach Filipinas
gestão dos armazéns. Entre 1598 e 1602, as adminis­ dente florentino Baccio Valori, de Lisboa: «E per Manüci:
trações do Armazém e da Casa da índia foram questo vengono qui navili infiniti: trecento per
completamente reformadas de acordo com instru­ volta di quella Danismarca, o d’Osterland, d’Olan- IM atirhiüi
ções do Conselho Real, em Madrid. Mais tarde foi da e tutta Fiandra, d’Inghilterra e tutta la costa di
Calccut •
levado a cabo um inquérito oficial, o que conduziu Bretagna e di Fiancia,... II traffico de’ portoghesi è Cochim P>
Anjengo
ao afastamento de um certo número de funcioná­ al Capoverde e quelle isole quivi vicino; piu bassi Colombo
rios corruptos. Em Setembro de 1605 ainda pode alia Mina di San Giorgio e tutta questa costa d’A-
ler-se no regimento de D. Estêvão de Faro: «Por­ frica... Di lã dal Capo Buonasperanza fanno scala a
que sou informado dos abusos que na Casa da ín­ Monzambique e poi se vanno in India; e di quivi, ' --Banfhrm asin ^ M acáçar s

dia se hão produzido com o tempo, reformá-la-eis, cioè dalla prima costa d’India, dove è Calecut e 1500 km
por ser assim mui necessário, e da mesma maneira Goa, vanno a Malacca... Del Monzambique porta-
reformareis os Armazéns para o que Vos ajudareis no in India schiavi e molto avorio; e d’India reca-

198 199
m
ESPAÇOS ECONÔMICOS O COMÉRCIO ASIÁTICO

sa na costa do Malabar foi descrita pelo mercador síria, Cochim também abrigava uma pequena co­
italiano Filippo Sassetti, que chegou a Cochim em munidade de mercadores judeus que se encontra­
finais de 1583. Numa carta dirigida a Francisco de vam instalados no porto desde o século xiv. A pro­
Médicis, grão-duque da Toscana, Sassetti comentou ximidade de Cochim às florestas de teca do
(1584): «I portoghesi tengono mold loughi in questa Malabar permitia que os Portugueses construíssem
costa del mare, dove hanno certe fortezze fatte anti- grandes navios no rio. Tratava-se, também, do últi­
camente e con molte d’esse una popolazione; dove mo porto de escala para as carracas que regressavam
vivono le lor genri non senza moíto pericolo di an- a Portugal e que aí carregavam a pimenta. Contu­
dare in preda de’naturali ad ogni loro voglia, stando do, a partir da segunda década do século x v i i , os
di tutto poco provended e con male guardie» (Sas­ ataques holandeses à navegação portuguesa torna­
setti, 1970: 390). Durante o século x v i i , os Portugue­ ram essa operação demasiado arriscada. A pimenta
ses mantiveram uma feitoria em Calecut e a princi­ passou a ser levada para Goa em pequenas embar­
pal função do seu agente era a emissão de cartazes cações locais, sendo depois transferida para as naus.
para os navios pertencentes ao porto. O Estado da Não obstante Bocarro ter lamentado as condições
índia não comprava a pimenta directamente a Cale­ comerciais de Cochim na sua descrição das colô­
cut, mas existia aí uma pequena comunidade de nias portuguesas, o local era ainda suficientemente
mercadores privados portugueses, com uma igreja importante para um grande número de mercadores
jesuíta e dois sacerdotes católicos. privados que levavam a cabo um lucrativo comér­
O verdadeiro centro do comércio português da cio com portos de Guzarate, Coromandel, mar
pimenta era Cochim, que também constituía o Vermelho e índias Orientais. E possível que o ale­
maior aliado político do Estado da íridia no Ma­ gado declínio de Cochim tivesse sido deliberada-
labar. Tratava-se de uma cidade movimentada e mente promovido pelos mercadores casados portu­
densamente povoada, com um certo número de gueses a fim 4e conseguirem valiosas concessões
belas casas, assinaladas pelo vice-rei, o conde de Li­ comerciais da paite do vice-rei, em Goa, e do mo­
nhares, em 1631. Para além da sua substancial popu­ narca, em Madrid. Em 1616, Filipe escrevera para
lação cristã pertencente às denominações católica e Goa dizendo que fora informado que a cidade de

Principais exportações regionais do oceano Índico antes de 1750 (apud Chaudhuri, 1985)

Palmeiras, gravura do séc. x v u

mão e Moçambique, a maior parte dos centros sistema de trocas econômicas de que os funcioná­
portugueses sofriam de dificuldades financeiras, en­ rios e mercadores portugueses haviam conseguido
quanto Malaca, que fora outrora a espinha dorsal obter uma parcela importante desde o começo do
do comércio lusitano no oceano Índico, se trans­ século xvi e que continuou a funcionar durante o
formara num compromisso financeiro. A forte de­ século x v i i , embora com perturbações cada vez [Mailnnu (tti nj]
terminação do Conselho Real, em Madrid, e do mais frequentes. As actividades portuguesas dis­
vice-rei, em Goa, de impedirem as companhias co­ tribuíam-se por três áreas geográficas principais.
merciais norte-europeias de conseguirem uma par­ A primeira, a oeste, era composta pelo Malabar,
cela do comércio oriental foi uma decisão política Concão e Guzarate, a que se juntaram o golfq Pér­
que não teve em conta os custos e benefícios fi­ sico, o mar Vermelho e a costa oriental de África.
nanceiros. O enérgico vice-rei Azevedo, que ini­ A leste, Coromandel, Bengala, Arracão, o estreito de
ciara um período de guerra activa contra os Ingle­ Malaca e as ilhas das Especiarias formavam outro cír­
ses e os Holandeses sem conseguir contê-los, foi culo marítimo. Finalmente, Macau, Nagasáqui e a
enviado de volta a casa em desgraça, como um pri­ colônia espanhola de Manila completavam o triân­
sioneiro acorrentado. O caso do infeliz funcioná­ gulo. O comércio com a Europa e com o Novo
rio, que serviu de exemplo, estava em contradição Mundo por intermédio da rota Manila-Acapulco
directa com o facto do seu sucessor dispor de pou­ constituiu a superstrutura de uma crescente econo­
cos fundos para a manutenção da guerra naval. mia mundial que examinaremos posteriormente.
O comércio da carreira anual entre Portugal e Com o a pimenta-negra era o principal artigo na car­
o oceano Índico foi canalizado através de dois dos ga da carreira comercial, os Portugueses haviam ten­
principais portos da índia, Goa e Cochim. O co­ tado instalar no Malabar e em Concão uma ampla
mércio europeu directo, como já mencionámos, rede de feitorias comerciais apoiadas por fortalezas e
era apenas a parte visível de um muito mais vasto por uma poderosa força naval. A presença portugue-

200 201
ESPAÇOS ECONÔMICOS O COM ÉRCIO ASIÁTICO

Cochim, que no passado fora extremamente opu­ constituía uma importante arma naval e política -Baptiste Tavernier deixou-nos uma descrição por­ se dizia que sofria de lepra, doara o palácio às Car­
lenta, estava a esvaziar-se da sua população. Um do Estado da índia. Ricos mercadores portugue­ menorizada tanto da grandeza da arquitectura melitas. Quanto ao comércio de Goa, de acordo
ano antes, D. Diogo Coutinho, o capitão de C o ­ ses como Manuel Morais Supico ou Francisco portuguesa em Goa nos anos de 1650 como das ini­ com Tavernier, tanto os soldados como os gover­
chim de Baixo, a cidade sob controlo dos Portu­ Vieira de Figueiredo desempenharam um papel- ciativas comerciais da nobreza da cidade mas, numa nadores e capitães haviam enriquecido com a parte
gueses, escrevera ao rei afirmando que Cochim -chave na manutenção da vida comercial de Goa deferência para com a história, foi obrigado a des­ que lhes cabia nas viagens comerciais ao Japão, Fi­
chorava a falta da sua velha nobreza e de residentes e de outras colônias durante um período em que crever estas últimas no pretérito. Tavernier foi lipinas, Molucas e China. Só o vice-rei não comer­
portugueses. N o passado fora a segunda cidade do o próprio Estado da índia enfrentava obstáculos apresentar os seus respeitos ao inquisidor-geral do ciava ou, se o fazia, era em nome de outra pessoa
Estado da índia e o declínio de Cochim não ajuda­ críticos. Figueiredo, muito em particular, foi um Santo Ofício em Goa. Era protestante, mas era qualquer. «Na altura, os portugueses eram todos ri­
ra Goa, antes pelo contrário, levara à diminuição notável exemplo da capacidade de empreendi­ também um rico mercador que gozava da protec­ cos», concluiu Tavernier. «Os nobres eram-no gra­
do seu estatuto político. Agora que a carreira anual mento dos Portugueses no mundo comercial da ção do rei de França, do imperador mogol e da ças aos cargos governamentais e outros, e os mer­
da índia partia de Goa em vez de Cochim, a Casa Ásia de meados do século xvii. Iniciou a sua car­ Corte de Golconda, pelo que nem o vice-rei nem cadores devido ao comércio de que gozavam antes
da Alfândega não tinha rendimentos suficientes reira comercial em Macáçar, onde o governante a Inquisição consideraram prudente confrontá-lo de aparecerem os ingleses e holandeses para lhes
nem sequer para pagar as despesas das instituições muçulmano encorajava as actividades tanto de com a sua religião, em particular porque Tavernier puxarem o tapete de baixo dos pés» (Tavernier,
da Igreja. Havia sempre uma certa dose de confli­ mercadores europeus como asiáticos para contra­ tomara a precaução de deixar para trás a sua versão 1925: ii, 155,163).
tos entre as necessidades financeiras do Estado da balançar a presença holandesa. Figueiredo, para protestante da Bíblia antes de entrar em Goa. Pas­ E certo que o comércio de Goa experimentou
índia, o vice-rei de Goa e os interesses comerciais além de desenvolver negócios que cobriam os sou por uma grande muralha, duas galerias e várias transtornos nos anos de 1630, em resultado das ac­
dos ricos mercadores casados de Cochim porque, principais ramos do comércio português no ocea­ antecâmaras antes de entrar na sala onde o inquisi­ ções navais holandesas, mas há provas de que os
sob a administração do príncipe local, os casados no Índico, também desempenhava outras activi­ dor-geral se encontrava sentado a uma grande mesa mercadores privados portugueses encontraram ma­
pagavam menos taxas alfandegárias do que as exigi­ dades como as de emissário político e comercial coberta por um tecido verde importado de Ingla­ neiras de reduzir os efeitos do bloqueio e até de
das pelos administradores de Cochim de Baixo. não só do vice-rei de Goa como do sultão de terra. Numa câmara lateral, oculta por uma cortina, comerciarem com os funcionários inimigos na sua
Graças à sua agitação, os mercadores privados por­ Macáçar e do ministro da Corte de Golconda, o encontravam-se doze outros clérigos que aguarda­ capacidade de pessoas privadas. Para todos os euro­
tugueses de Cochim conseguiram uma concessão emir Jumla (Boxer, 1967). vam o convite para serem apresentados a Taver­ peus, uma das atracções de uma carreira comercial
extraordinária: nada menos do que o direito de en­ A riqueza urbana de Goa, claramente visível nier. Três dias mais tarde, Tavernier foi convidado no oceano Índico era a perspectiva de conseguir
viarem todos os anos um navio armado directa- nos palácios construídos pelos mercadores portu­ pelo inquisidor-geral para uma recepção num mag­ fortuna por intermédio do comércio entre portos.
mente para Lisboa, carregado apenas com bens pri­ gueses e pelas instituições da Igreja, tinha a sua ori­ nífico palácio pertencente às Carmelitas Descalças. Se o Conselho Real em Lisboa e Madrid tinha fre­
vados. Em resultado deste contrato, Cochim era o gem não tanto nos produtos da terra (como era o A soberba casa onde o jantar foi servido, acompa­ quentes dificuldades para controlar os seus funcio­
único porto português no oceano Índico que parti­ caso das cidades mogóis e indianas, em gera»), mas nhado por música, fora originalmente construída nários nas índias e para tomar mais rentável o co­
lhava com a Coroa o comércio directo entre a Eu­ principalmente nos lucros de um comércio maríti­ por um nobre de Goa cujos pai e avô haviam feito mércio na índia, também as Companhias das índias
ropa e a Ásia (Subrahmanyam, 1990: 223, 226). mo e nas correspondentes taxas alfandegárias. Jean- fortuna no comércio. Como nào tivera herdeiros e Orientais inglesa e holandesa enfrentavam o mes-
Se o papel econômico de Cochim era o de
porto tributário, Goa encontrava-se no centro de
uma rede que incluía o Altântico, o oceano Índico
e franjas do Pacífico. As actividades comerciais
eram a principal fonte de rendimentos e riqueza
para um grande número de pessoas, incluindo o vi­
ce-rei, os principais fidalgos e os vulgares casados
residentes na cidade. De acordo com Bocarro, o
comércio inter-regional centrado em Goa atingia,
no seu tempo, os 2,850 milhões dp^xerafins, um
número considerado como sendo quinze vezes
maior do que o do comércio entre Lisboa e Goa
(Disney, 1978: 24). O comércio marítimo de Goa
incluía todas as principais redes do oceano Índico.
Para além de um activo comércio costeiro com os
portos do Malabar, Concão e Guzarate, realizavam-
-se viagens regulares ao mar Vermelho, África
Oriental, Malaca e Extremo Oriente. Por causa da
existência de muitas comunidades de corsários in­
dependentes no Malabar e em Cutch, o comércio
costeiro era organizado com base num certo nú­
mero de comboios sazonais. Os navios portugue­
ses mais pequenos e as embarcações locais per­
tencentes a mercadores indianos eram escoltados
por galeões armados, e a Frota Naval do N orte

À esquerda: mapa do Ceilão, in Philippus Baldaeus,


Naauwkeurige Befchryvinge van Malabar en
Choromandel, Amesterdão, 1612 (BN ). À direita: vista
de So/ala, in Georg Braun e Francisco Hogenberg,
Civitates Orbis Terrarum, Colônia, 1572

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ESPAÇOS ECONOMICOS O COMÉRCIO ASIÁTICO

mo problema. Não obstante ambas as Companhias reunidos em sociedade com os grandes mercadores dições do fornecimento na Ásia do que a falhas na
tentarem, na primeira metade do século, restringir indígenas. E claro que também existiam mercado­ D I S C V R S O S organização e financiamento do comércio da car­
as transacções comerciais privadas dos seus servido- res canarins em Goa e Cochim, que comerciavam reira. Enquanto as questões marítimas hispano-
. res na Ásia, essas práticas eram vulgares. A perícia com lugares tão distantes como Manila a partir dos SOBRE LOS COMÉRCIOS -portuguesas fossem dominadas pelas considerações
portuguesa para o comércio nos mercados locais de enclaves portugueses. Tavernier referiu que os fun­ DE L A S D O S ÍN D IA S , DONDE da guerra contra os Holandeses e contra a V O C , os
Guzarate, Coromandel, Bengala e no mar do Sul cionários espanhóis nas Filipinas se serviam muitas fc tratan matérias importantes de Efta- resultados comerciais da carreira eram de impor­
da China forneceu uma valiosa fonte de conheci­ vezes dos homens de negócios canarins como do, y Guerra. tância crítica para ambas as partes. Depois da Tré­
mentos e de contactos aos representantes norte- compradores, e que esses homens eram extrema­ gua dos Doze Anos (1609), foram feitas propostas
-europeus das Companhias, mesmo quando essas mente ricos (Tavernier, 1925: 1, 157). DIRIGIDO A L A S A C R A para a abertura do comércio directo português na
nações se encontravam, tecnicamente, em lados A energia e capacidade de empreendimento Europa aos mercadores privados de todas as nacio­
y Católica AAagcfladdcl R e j don Felipe
opostos. De qualquer modo, o oceano Indico era dos mercadores casados através do oceano Índico, nalidades e para um abaixamento das taxas. Apesar
Quarto nuejlro fenor. dessas sugestões não terem recebido uma resposta
uma área de operações muito vasta e os diferentes mesmo num período de declínio e de crise políti­
padrões de ventos sazonais garantiam que a progra­ ca, podem ser explicadas pelo facto dessa gente não oficial favorável, constituíram um sintoma de mu­
A V T O R D V A R T E GOM EZ, dança da ideologia econômica que governara o co­
mação das viagens europeias nem sempre coincidia ter outro sítio para onde ir e de se encontrarem
com o tráfico entre os portos locais. Nem sequer a natural dela Ciudad de Lisboa. mércio do mundo ibérico durante mais de um sé­
decididos a manterem-se na Ásia marítima em de­
V O C , com todos os seus grandes recursos navais, fesa dos seus interesses econômicos, ao contrário culo. A ideia de que a Espanha e Portugal podiam
conseguiu controlar todas as rotas marítimas em dos Holandeses e Ingleses, que regressavam a casa tentar seguir os métodos comerciais ingleses e ho­
que os mercadores portugueses de Goa, Cochim , depois de uma carreira nas índias, desde que conse­ landeses, com as suas companhias por acções, paira­
Cambaia, Mascate e Malaca — para dar apenas al­ guissem sobreviver aos rigores do clima e às doen­ ra no ar durante bastante tempo antes de ser discu­
guns exemplos — , estavam envolvidos. Numa data ças tropicais. A tenacidade dos mercadores privados tida a sério no Conselho Real, nos anos de 1620.
tão tardia como 1637, quando o bloqueio holandês e dos cidadãos portugueses no que se refere à ma­ Tanto Sir Anthony Sherley como Duarte Gomes
a Goa e a outros portos portugueses no oceano In­ nutenção do estatuto e dos privilégios locais era Solis, o mercador cristão-novo, tinham advogado a
dico Ocidental se tornara num problema grave, a uma característica nacional que se reflectia também criação de uma Companhia Portuguesa das índias
frota portuguesa da canela do Ceilão, escoltada por nas actividades dos vice-reis, capitães e outros fun­ Orientais à maneira dos Holandeses. Todavia, os
galeotas e pinaças, conseguiu ancorar em segurança cionários. A falta de capital, os magros recursos fi­ verdadeiros promotores da ideia de uma compa­
no porto de Baticalá, tal como assinalou no seu nhia por acções eram D. Jorge de Mascarenhas e o
diário o viajante inglês Peter Mundy. A carga trazi­
nanceiros, a falta de mão-de-obra europeia e até a
corrupção moral não impediam os líderes portu­
Ano M.DC. XXII. seu conselheiro, o sacerdote jesuíta de Goa, padre
da do Ceilão incluía, para além da canela, escultu­ gueses no Oriente de desenvolverem uma guerra Belchior de Seixas (Disney, 1978: 74). D. Jorge ti­
ras em marfim, cristal, produtos feitos de bambu e global contra os Norte-Europeus, ou de tentarem Discursos sobre los comércios de las dos índias [...], nha o apoio do Conselho de Portugal, que reco­
elefantes. apoiar o comércio da carreira na medida das suas dc Duarte Gomes Solis, 1622 mendara que, nc caso do estabelecimento de uma
A viagem de Goa a Moçambique iniciava-se capacidades. O vice-rei Azevedo, que acabou por companhia, deveria ser ele o presidente. Isto
com o aparecimento dos ventos noroeste do Inverno cair em desgraça, conseguiu dinheiro dando como As estatísticas disponíveis revelam que, entre aconteceu num período em que Olivares pensava
e os navios regressavam no começo das monções de garantia o seu próprio ouro e prata, a fim de obter 1612 e 1623, a exportação de pimenta de Goa para num grande projecto para minar o poderio marí­
sudoeste. O comércio com a África Oriental basea­ fundos para a frota da pimenta. Outro vice-rei, o Lisboa declinou consideravelmente, atingindo ape­ timo holandês no Báltico, no Brasil e no oceano
va-se na troca de têxteis de algodão indianos, annas conde de Linhares, vendeu os direitos que a sua nas metade do nível do último quartel do século Índico por meio de uma série de companhias or­
e alimentos, por escravos africanos, ouro, marfim e mulher detinha sobre a fortaleza de Sofala e contri­ anterior. As dificuldades experimentadas pelos gru­ ganizadas. No fim, a Companhia Portuguesa da
madeira de ébano. A queda de Ormuz, em 1622, buiu com 22 500 xerafins para a expedição a Mom­ pos privados de mercadores de pimenta de Lisboa índia Oriental foi a única instituição que emergiu
privou os mercadores de Goa de um dos seus mais baça. Num ataque de desespero, o governador para conseguirem comprar e enviar as quantidades desses ambiciosos planos e o próprio Olivares
lucrativos ramos de comércio, mas o seu lugar foi queixou-se para Lisboa dizendo que o seu crédito de pimenta estipuladas reflectiram-se, de um modo acabou por desistir da ideia de fazer a guerra aos
parcialmente ocupado por Mascate, em Om ã, ape­ pessoal nem sequer valia 100 cruzados, e que os dramático, nas falências de R ott e Rovellasco. Holandeses por outros meios que não o envolvi­
sar de Mascate ter caído na mão dos Árabes em seus próprios recursos estavam tão reduzidos que A partir do começo do século xvn, a Coroa foi mento directo da Coroa espanhola. Também os
1650. O comércio português no Golfo incluía um era obrigado a usar camisas puídas. Quando voltou forçada a retomar nas suas mãos os embarques di­ interesses comerciais privados europeus não se
certo número de bens valiosos, sendo a importação a Lisboa, Linhares era ainda um homem rico, mas rectos bem como a venda da pimenta da índia. En­ mostraram dispostos a fazer investimentos de capi­
de bons cavalos um dos mais famosos. Em 1620, o seu pedido para que o governo de Goa recebesse tre 1600 e 1620, o mercado consumidor da Europa tal no comércio português da pimenta. Os dois
uma esquadra inglesa a caminho de Jask capturou o instruções financeiras precisas ficou sem resposta. estava afogado em pimenta devido às grandes únicos investidores individuais da Companhia fo­
navio português Nossa Senhora das Mercês, coman­ Parte das culpas pelas limitações financeiras do Es­ importações feitas pelas Companhias das índias ram o arcebispo de Lisboa, D. Afonso Furtado de
dado por Francisco Miranda. O navio transportava tado da índia pode ser atribuída ao desvio de fun­ Orientais inglesa e holandesa, pelo que estas se vi­ Mendonça, e o governador de Abrantes, D. Antô­
uma carga mista de frutos secos, tâmaras e 42 cava­ dos por funcionários de nível inferior, tal como o ram forçadas a aceitar níveis de preços — e de lu­ nio de Almeida. Ou os mercadores privados que
los de raça. Quando o capitão inglês, Andrew Shil­ vedor da fazenda geral, em Goa. De facto, o conde cros — , muito mais baixos, inferiores aos dos Ve- comerciavam por conta própria entre Lisboa e Goa
ling, propôs que a presa portuguesa fosse utilizada da Vidigueira informou as autoridades de Lisboa nezianos e Portugueses do século anterior. As estavam já bem servidos de agentes comissionistas e
como navio incendiário, a sua tripulação protestou que as despesas do Estado poderiam ser geridas fa­ dificuldades encontradas para uma eficiente comer­ de sócios, em Portugal ou noutros pontos da Euro­
contra «a perda de tantos e tão bons cavalos». cilmente se todos os rendimentos provenientes das cialização e distribuição da pimenta nos mercados pa, ou então tinham muito pouca confiança na via­
O fornecimento de marfim, um material muito várias partes do Estado da índia chegassem ao te­ nacionais da Holanda e da Inglaterra significavam bilidade de uma instituição comercial apoiada pelo
apreciado para o fabrico de joalharia, e de bons ca­ souro. As consequências da falta de rendimentos do que eram necessários muito maiores esforços para a governo.
valos para os príncipes indianos, dava aos mercado­ governo não se confinavam apenas à gestão do im­ fazer chegar a centros de consumo como a Europa De qualquer medo, em 27 de Agosto de 1628,
res portugueses uma oportunidade para entrarem pério marítimo português nas índias, mas esten­ do Leste, o Báltico e o Mediterrâneo. Todavia, o a Companhia Portuguesa da índia Oriental recebeu
nos mercados de consumo indianos do Decão e de diam-se também à Europa sob a forma de uma re­ êxito na importação de pimenta da Indonésia pelas uma carta real que assinalava a sua constituição for­
Guzarate. Nos portos mais importantes, como os dução no volume e valor do comércio da carreira, duas Companhias demonstrou a Lisboa e a Madrid mal e definia poderes e privilégios. A Companhia
de Cambaia e Surrate, o comércio português no em particular nos carregamentos de pimenta da ín­ que o problema da diminuição do nível das impor­ Portuguesa da índia Oriental iria ser dirigida à ma­
oceano Indico utilizava frequentemente capitais dia Ocidental. tações portuguesas talvez se devesse menos às con­ neira das suas congêneres norte-europeias, por uma

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W w * ESPAÇOS ECONÔMICOS O COMÉRCIO ASIÁTICO

administração composta por um presidente e seis os forçar a fazerem-no, com a excepção do presi­ capitais, pelo menos uma vez por ano, antes dos ços de custo e de venda, considerando o tempo
outros membros. Os poderes da administração dente, que estava proibido de investir o seu próprio fornecimentos de pimenta estarem prontos a ser necessário para a viagem de ida e volta (18 meses,
estavam directamente dependentes do Conselho do dinheiro. O capital da companhia surgiu principal­ enviados para Portugal. A fim de garantir a pimen­ no mínimo), os altos custos de transporte e as des­
Comércio, em Madrid, e eram independentes do mente sob a forma de uma contribuição nominal ta desde o momento da sua colheita até à sua che­ pesas nos portos. Para a Companhia, as perdas du­
Conselho de Estado e de outros funcionários em por parte da Coroa, no valor de 1 500 000 cruza­ gada ao porto de embarque, era necessário dinhei­ rante o transporte constituíam mais um problema,
Portugal. O presidente era, é claro, D. Jorge Mas- dos, garantidos pelas receitas da pimenta, taxas al­ ro, sob a forma de garantias de contratos e como a acrescentar à escassez de capitais e aos baixos pre­
carenhas. Entre os restantes membros contavam-se fandegárias e fretes das naus da carreira da índia capital de trabalho. A questão foi frequentemente ços da pimenta na Europa. Das cinco naus que saí­
nomes como os de Leonardo Fróis, Garcia de M e­ previstas para o ano de 1628. Todavia, o capital mencionada na correspondência dos vice-reis, e a ram de Portugal antes de 1633, uma foi uma perda
lo, Antônio Rodrigues da Mata, Francisco Dias realizado em Janeiro de 1633 era apenas de própria administração de Goa salientou, em 1630, total e duas outras sofreram grandes prejuízos. Em
Mendes de Brito e Diogo Rodrigues de Lisboa. 1 040 000 cruzados. Em Goa, a gestão da Compa­ que seriam necessários pelo menos 60 000 cruzados 1632, a Companhia nem sequer conseguiu enviar
O sexto membro, a ser escolhido pelas câmaras, nhia Portuguesa da índia Oriental foi confiada a por ano em adiantamentos de capital. N o ano de qualquer navio à índia. Os motivos que levaram a
nunca chegou a ser nomeado. Na sua formação, a uma administração local composta por um certo 1629-1630 houve dinheiro suficiente para a compra Companhia Portuguesa da índia Oriental a negli­
directoria da Companhia Portuguesa da índia número de distintos mercadores privados locais de pimenta. Contudo, para os carregamentos do genciar o desenvolvimento do mercado europeu
Oriental era altamente sugestiva da combinação dos com fortes ligações oficiais. Entre eles contavam- ano seguinte, os fundos tiveram de ser pedidos em­ para outros produtos indianos, mais rentáveis, tais
interesses comerciais, influências políticas e fanatis­ -se Manuel de Morais Supico, concessionário das prestados no mercado de capitais local para a com­ como os têxteis de algodão, a seda em bruto, o in­
mo religioso que caracterizavam a vida pública ibé­ viagens Goa-Nagasáqui para os anos de 1629-1632, pra de 5000 quintais de pimenta. Foi calculado, pa­ digo e o salitre, constituem um verdadeiro misté­
rica. Leonardo Fróis, por exemplo, era um velho e Francisco Tinoco de Carvalho, um grande ex­ ra o período de 1629 a 1633, que a média anual de rio. O potencial para todos esses produtos era bem
fidalgo da «casa dei rey», com uma vista muito fra­ portador de produtos asiáticos para a Europa, com capitais enviados de Lisboa para a conta da C om ­ conhecido tanto em Goa como em Lisboa porque
ca e negócios substanciais, duas razões que, em negócios em Lisboa, Sevilha e Madrid. Outro panhia em Goa foi de 72 000 cruzados. Podemos os mercadores privados já haviam importado gran­
1630, o levaram a abandonar os seus deveres na membro dessa administração, Fernão Rodrigues fazer a comparação com os 152 000 cruzados dos des quantidades de têxteis indianos para a Europa.
Companhia. Garcia de Melo tinha sido vedor da de Eivas, era provavelmente da família de um dos anos de 1580-1584, e com os 96 000 cruzados anuais Logo na primeira metade do século xvii, a C om ­
Fazenda em Cochim, de 1605 a 1610, ano em que directores da Companhia em Lisboa, um cristão- do período de 18 anos que precedeu a formação da panhia Inglesa das índias Orientais, muito em par­
haviam surgido ordens para a sua prisão e envio -novo de apelido Eivas. O conde de Linhares, vi­ Companhia. Estes números reflectiram-se invaria­ ticular, descobrira um grande e potencialmente
para Lisboa sob a acusação de irregularidades nos ce-rei da índia, usou termos algo exagerados para velmente em mais baixos níveis de exportações de lucrativo mercado europeu para os algodões do
carregamentos de pimenta da carreira anual da índia. descrever Fernão Jorge da Silveira como sendo pimenta para Lisboa sob a gestão da Companhia. Norte da índia, mercado esse que explorou em
A sua influência política junto do vice-rei conseguiu- um homem de baixo nascimento, para além de Em média, foram despachados cerca de 10 000 força nos anos de 1670 e 1680. Enquanto 80 % das
-Ihe a transferência para Ormuz. Mais tarde, acabou judeu. A nomeação desses homens para directores quintais de pimenta, mas só parte dessa quantidade exportações, para Lisboa, da Companhia portu­
por vir a ser tesoureiro-geral de Goa. Quando re­ da nova Companhia não garantiu o seu êxito eco­ conseguiu chegar a Lisboa devido à incidência dos guesa consistiam em pimenta, a restante parcela do
gressou a Portugal conseguira não só escapar a to­ nômico. O problema foi bem demonstrado pelo naufrágios, à detenção de navios na Ásia e à perda comércio era composta por artigos como o indi­
das as tentativas dos seus inimigos para o marcarem vice-rei, que forçou a Companhia a fazer-lhe um de peso do produto em trânsito. Figueiredo Falcão go, conchas de caurim, arroz, salitre e madeiras
como funcionário corrupto, como também alcan­ empréstimo da prata que lhe fora enviada em 1629 calculara que nos anos de 1590 se receberiam preciosas. O indigo era o corante azul preferido
çara a distinção de ser reconhecido, por Olivares e para ser usada na frota da pimenta do Malabar, 20 000 quintais de pimenta em Lisboa, e que esse através de toda a Asia e era também muito utiliza­
pelo Conselho Real, como um especialista em as­ mesmo apesar do facto do capital comercial da re­ número, depois de 1620, seria de 20 000 a 24 000 do pelos fabricantes de tapetes e de têxteis de al­
suntos indianos. Os restantes directores da Compa­ ferida Companhia estar protegido por garantias quintais por ano. Descontando uma certa dose de godão do Médio Oriente. Os produtores europeus
nhia provinham de importantes famílias comerciais oficiais. A Companhia deparou com a oposição da exagero nas suas estimativas, ainda podemos assu­ de têxteis começaram também a utilizar o indigo a
com vastas ligações de negócios e substanciais re­ Câmara de Goa quando propôs o envio de dois mir, com base em números colaterais, que na se­ partir do século xvi, a par com o campeche. Tal
cursos em capitais. Francisco Dias Mendes de Brito navios de 300 toneladas para o mar da China, para gunda e terceira décadas do século xvii os carrega­ como os outros europeus, os Portugueses adqui­
era filho de um financeiro que subscrevera emprés­ participarem no ainda rentável comércio sino- mentos da pimenta da índia portuguesa seriam, em riam a maior parte dos seus fornecimentos em
timos governamentais. Tratava-se de um cavaleiro -japonês. Os laços comerciais com a China, argu­ média, de cerca de 18 000 quintais. Se analisarmos Guzarate e no mercado grossista de Biana, perto
da Ordem de Cristo, mas era aparentado, pelo ca­ mentou a Câmara, constituíam o suporte da eco­ estes números, tanto de exportações como de im­ de Agra, e o indigo dava bons lucros em Portugal.
samento, com Duarte Gomes Solis, mercador no nomia goesa, sem os quais o Estado da índia portações, sob a perspectiva de Lisboa, não há As conchas de caurim provinham das ilhas Maldi-
oceano Índico, que era sem dúvida um cristão- ficaria sem recursos, pelo que incentivar uma qualquer dúvida de que a Companhia Portuguesa vas, no oceano Índico, e eram uma moeda indis­
-novo. Segundo todas as probabilidades, Mendes concorrência ainda maior num dos ramos de co­ da índia Oriental foi uma organização comercial pensável para o comércio na África Ocidental,
de Brito também descendia de uma antiga família mércio restantes, baseado no triângulo Malaca- falhada. Para além da redução dos embarques de tendo também alguma procura em Bengala e no
de cristãos-novos. A ortodoxia religiosa de Diogo -Manila-Macau, seria privar os mercadores e casa­ pimenta para Portugal, as duas outras fontes de Sudeste da Ásia. O salitre, que no século xvi co­
Rodrigues de Lisboa era tão suspeita que acabou dos locais do seu sustento. problemas financeiros para a Companhia eram a meçava a faltar na Europa, constituía um material
por ser preso em 1632, pela Inquisição de Lisboa, E óbvio que a Companhia Portuguesa da índia pequena margem de lucros na venda do produto de guerra estratégico, uma vez que se tratava de
sob uma acusação de seguir costumes judaicos. Oriental foi fundada não para participar no comér­ em Lisboa e o número de desastrosas perdas de na­ um ingrediente essencial para o fabrico da pólvo­
E óbvio que a riqueza e a influência política de cio entre portos do oceano Índico, mas sim para vios durante a viagem de regresso a casa. Em 1634, ra. Uma maior utilização da artilharia, tanto em
Diogo de Lisboa lhe garantiram a absolvição, e dez gerir eficientemente a carreira comercial entre Lis­ a Coroa queixou-se, dizendo que os preços de cus­ terra como no mar, nas guerras europeias do sécu­
anos depois estava a administrar, em nome da C o ­ boa e Goa, então em declínio. A partir da sua bre­ to da pimenta em Cochim estavam a subir, en­ lo xvii, significava um enorme aumento na procu­
roa, as propriedades apreendidas ao marquês de ve história de actividades comerciais com pouco quanto os preços de venda em Lisboa permane­ ra da pólvora, que também era utilizada para salvas
Porto Seguro. êxito, é aparente que essa organização corporativa ciam baixos. A carga de pimenta da nau Santíssimo cerimoniais, pelo que o salitre, para além de ser
O envolvimento de mercadores originários de não estava melhor protegida contra as contradições Sacramento que chegou a Portugal em 1630, custou uma carga com algum valor, podia servir de balas-
famílias de cristãos-novos na Companhia Portu­ estruturais que flagelavam o Estado da índia no seu 16 532 mil-réis e foi vendida por 40 148 mil-réis, tro para os navios. As importações portuguesas de
guesa da índia Oriental confirma a impressão de duplo papel de administrador político e de merca­ dando um lucro bruto de 143 %. No ano seguinte, ébano de Moçambique entravam 11a categoria dos
que o grupo tinha actividades no comércio do dor transcontinental, do que haviam estado os anti­ a carga de pimenta da Bom Jesus do Monte Calvário produtos de luxo. Essa madeira rara era utilizada
oceano Indico. Contudo, nenhum dos directores gos contratos da pimenta ou os funcionários da produziu um lucro de 153 % quando da venda em para o fabrico, na Europa, de mobiliário de alta
contribuiu com capital para a recém-fundada Coroa. Uma dessas contradições era a necessidade Lisboa. E bem sabido que o comércio com a índia qualidade, com incrustações de marfim e de ma­
Companhia apesar de muitas tentativas oficiais para de fornecimento antecipado de uma vasta soma de requeria uma muito maior diferença entre os pre­ drepérola.

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ESPAÇOS ECONÔMICOS O COMÉRCIO ASIÁTICO

A fundação da Companhia Portuguesa da índia índia, aliviaram Goa da ameaça naval inglesa e per­ as perdas sofridas pelos mercadores de Macau, na com o Japão era provavelmente o mais importante
Oriental e a sua eventual liquidação em 1633 são mitiram-lhe concentrar-se no perigo holandês. China, foram avaliadas em 245 navios. O valor dos no mundo econômico político e social da índia
uma prova formal, se é que precisamos de alguma, O bloqueio de Goa e de Cochim pela frota da bens transportados em 59 desses 245 navios era de portuguesa. Durante o último quartel do sécu­
de que as infra-estruturas políticas e financeiras de V O C sujeitou a carreira de Lisboa a grandes per­ 17 milhões de xerafins (Souza, 1986: 172, citando lo xvi, os mercadores portugueses, os capitães de
Portugal e da Espanha não eram apropriadas para o turbações, pelo que nos anos de 1640 o forneci­ Santa Maria, 1699: 344-345.) navios e outros aventureiros haviam avançado gra­
tipo de capitalismo comercial que caracterizava mento de pimenta por conta da Coroa e de merca­ Seria insensato dar muita importância à preci­ dualmente, a partir de Malaca, na direcção da Chi­
Amesterdão e também Londres, embora em menor dores privados se tornou muito irregular, uma vez são destes valores, que reflectem uma maneira con­ na e do Japão, pelo que a Cidade do Santo Nome
grau, na primeira metade do século x v ii . Não havia que eram poucas as naus que partiam da índia. Em temporânea de pôr em destaque a magnitude das de Deus, ou Macau, assumiu o estatuto e funções
falta de capitais privados, tanto indígenas como 1642, depois da ascensão de D. João IV e da separa­ dificuldades econômicas sofridas pelos mercadores de uma verdadeira colônia portuguesa. A adminis­
não-ibéricos, investidos no comércio colonial do ção da Espanha, foi feita uma tentativa para abrir o casados portugueses em Macau e noutros pontos tração municipal de Macau, as actividades dos mis­
oceano Índico e do N ovo Mundo. Muito em par­ comércio da índia aos negociantes vulgares. Os do Extremo Oriente. Contudo, ao mesmo tempo, sionários 11a cidade e a conduta do comércio marí­
ticular, os ricos empresários cristãos-novos com mercadores privados podiam enviar os seus pró­ a dimensão das alegadas perdas serve para nos indi­ timo eram objecto de regulamentações e do
grandes capitais mostravam-se activos na reexporta- prios navios à índia e podiam carregar pimenta na car até que ponto o comércio português se tornara controlo português. O principal instrumento real
ção e distribuição de produtos coloniais, no co­ carreira da índia, mas a Casa da índia continuava a numa parte importante dos sistemas econômicos do de controlo sobre o comércio do Extremo Oriente,
mércio de diamantes da índia e de corais do Medi­ ter o direito de comprar a pimenta a um preço oceano Índico. Enquanto na secção ocidental desse e das funções civis de Macau era cargo do capitào-
terrâneo, isto para além de fazerem empréstimos oficial. mar o controlo exercido pelo Estado da índia so­ -mor da viagem da China e Japão. O direito de
aos governos ibéricos. O reencaminhamento das Fontes históricas contemporâneas fornecem bre o comércio com o Médio Oriente, a África concessão anual da viagem pertencia ao vice-rei de
importações de prata americana através de Londres, amplas provas de que os problemas enfrentados pe­ Oriental e o Ceilão tomava a forma de concessões Goa e o concessionário detinha o direito político
de acordo com um novo tratado com a Inglaterra la Coroa, pela Companhia Portuguesa da índia comerciais cedidas ou vendidas a vários detentores de representar a Coroa em questões de navegação,
(1630), deveria ter dado uma nova oportunidade a Oriental e pela subsequente gestão oficial do co­ de cargos e a mercadores casados, esse mesmo con­ comércio e administração na região a leste de Ma­
Madrid e a Lisboa para o alargamento das ligações mércio da carreira não foram devidos às condições trolo era muito mais fraco na baía de Bengala. laca. O capitão-mor da viagem Goa-Malaca-Ma-
comerciais com o mar do Norte. Porém, em Lis­ de fornecimento no lado asiático mas sim à incapa­ O Estado da índia reclamava e impunha o direito cau-Nagasáqui encontrava-se numa posição que
boa, a natureza pública da oposição política à cidade, em Portugal, para se conseguirem capitais de garantir uma concessão comercial entre a colô­ lhe permitia obtçr grandes ganhos da sua conces­
Companhia Portuguesa da índia Oriental e aos suficientes e uma melhor defesa contra o poderio nia portuguesa de São Tom é e Malaca, e o deten­ são, que se tornou uma valiosa fonte de apoios para
seus privilégios era um elemento de dissuasão sufi­ marítimo holandês. Em 1622, quando Ormuz foi tor dessa concessão monopolista enviava um navio a Coroa e para o vice-rei da índia. Antes da unifi­
ciente para que os mercadores privados não acredi­ perdida para os Ingleses e para os Persas, um relató­ anual ao grande porto comercial do Sudeste da cação com a Espanha, os candidatos à concessão da
tassem no seu êxito e um grande obstáculo aos in­ rio holandês calculava que o valor dos investimen­ Ásia. Tratava-se de uma rota próspera e rentável viagem eram quase exclusivamente membros da
vestimentos privados. Essa questão tornou-se bem tos portugueses, tanto da Coroa como privados, no tanto para os mercadores asiáticos como para os nobreza portuguesa. Entre 1580 e 1620, o número
clara com a prisão de Diogo Rodrigues de Lisboa comércio entre portos do oceano Índico, era de portugueses, pelo que o navio anual enviado a Ma­ de candidatos com êxito aumentou significativa­
pelo Santo Ofício, depois de investigações a vários 65 milhões de xerafins. Para além deste comércio laca era uma enorme embarcação de 1000 ou mais mente, a par com a exigência de que a nomeação
outros cristãos-novos. Lisboa manteve as suas afir­ inter-regional, o tráfico via cabo da Boa Esperança toneladas. Em 1602 uma esquadra conjunta anglo- se tomasse hereditária. Como o peso da guerra na­
mações de inocência mesmo sob severas torturas valia muitos milhões de xerafins (Souza, 1986: 171). -holandesa capturou a nau São Tomé no estreito de val com a V O C aumentou nas primeiras décadas
no potro e a Inquisição foi incapaz de o condenar Se existia uma grande dose de exagero na estimati­ Malaca. O volume e valor da carga espantaram os do século xvii , os rendimentos derivados da venda
a algo mais grave do que ao repúdio público, num va holandesa do valor do comércio português com captores, que precisaram de quatro dias para des­ do comércio de Macau e do Japão, bem como as
auto-de-fé, das práticas judaicas. Lisboa era um o oceano Índico, isso devia-se ao facto de os fun­ carregar o navio, de onde retiraram 900 fardos de taxas alfandegárias pagas ao vedor da Fazenda, em
proeminente director da Companhia Portuguesa da cionários locais da V O C estarem ansiosos por con­ algodão, 40 arcas de artigos valiosos e uma enorme Goa, foram destinados às despesas com a defesa. Na
índia Oriental bem conhecido pelas suas activida- seguirem suplementos suficientes em navios, capi­ quantidade de produtos alimentares (Subrahma- segunda e terceira décadas do século surgiram duas
des comerciais e pela participação em projectos fi­ tais e homens da Europa para fortalecerem a sua nyam, 1990: 162). O comércio privado português novas práticas relacionadas com a venda da conces­
nanceiros do governo. Se ele e outros mercadores posição na Ásia. Em meados do século x v ii , à me­ de têxteis de algodão indianos feito a partir de Pu- são da viagem Macau-Japão. A primeira foi o cos­
cristãos-novos da capital portuguesa podiam ser tão dida que a V O C intensificava a sua guerra naval licat e Negapatão tomara-se numa actividade espe­ tume de nomear a rainha e o Mosteiro da Encarna­
facilmente sujeitos a despóticos actos de violência contra o Estado da índia, os mercadçres portugue­ cializada, tal como foi reconhecido até pelos pró­ ção, em Madrid, como receptores dos rendimentos
por parte de fanáticos religiosos então era fácil de ses locais, tanto na costa oriental da índia como na prios agentes da V O C . Os têxteis eram trocados da concessão, que era leiloada em Goa, e a segunda
ver, para a comunidade internacional de mercado­ ocidental, bem como através do Sudeste da Ásia e por pimenta e pelas especiarias mais finas das Mo- foi a possibilidade dos mercadores privados portu­
res, que Lisboa e Madrid constituíam lugares pou­ do mar do Sul da China, enfrentaram cada vez lucas, e os lucros da sua venda regressavam também gueses da índia poderem participar nesse leilão.
co seguros para negócios permanentes. Em 1632, o mais problemas, tais como a diminuição dos mer­ sob a forma de lingotes de metais preciosos. O pa­ O capitão-mor concessionário tinha a liberdade de
governador de Portugal, D. Antônio de Ataíde, es­ cados, a crescente concorrência e a captura pura e pel econômico desempenhado pela baía de Bengala vender a concessão, mas se se decidisse a aprovei­
creveu para Madrid dizendo que as contas da simples dos seus navios por inimigos europeus e no comércio do arquipélago indonésio constituía, tá-la pessoalmente era sua obrigação equipar o na­
Companhia Portuguesa da índia Oriental, enviadas asiáticos. A queda de Mascate, em 1650, seguida para os mercadores privados portugueses, um dos vio ou fornecer as adequadas garantias para alu­
ao monarca, eram tão confusas que não faziam sen­ pelo saque a Diu, em 1688, levado a cabo pelas for­ poucos ramos de comércio que lhes estava aberto guer do navio da Coroa. O capitão-mor gozava
tido nem permitiam extrair quaisquer informações ças Yarubi de Omã, deram início a uma mútua no oceano Índico, apesar do Estado da índia tentar, de vastos poderes na área a leste de Malaca: tinha
sobre a situação comercial da Companhia. N o fim campanha naval entre os portugueses e os árabes até nisso, extrair rendimentos alfandegários à nave­ o direito de entrar em negociações políticas e di­
desse ano, tendo em vista a incapacidade da C om ­ marítimos, campanha que prosseguiu até ao século gação local. plomáticas com as autoridades asiáticas em nome
panhia para arranjar capitais para a viagem da época seguinte. A queda de Uguíim em 1633 e a ocupa­ Depois da monopolização do comércio da ín­ da Coroa portuguesa, detinha poderes de vida e
seguinte e também o seu mau desempenho no pas­ ção pelos Mogóis do principal porco comercial de dia Ocidental, a área de comércio que gozava de de morte sobre a tripulação do navio e era oficial­
sado, Ataíde aconselhou a Coroa de que a gestão Bengala foram outros tantos golpes dramáticos na toda a atenção do Conselho da índia, em Lisboa, e mente o dirigente máximo da cidade de Macau
da carreira deveria ser devolvida ao Conselho do prosperidade do Estado da índia na baía de Benga­ do Estado da índia, em Goa, era o que se desen­ até 1623, ano em que o cargo de governador foi
Tesouro, em Portugal. O conselho foi aceite e a li­ la. As perdas sofridas pelos mercadores portugueses volvia com o Extremo Oriente por intermédio da separado do de capitão-mor. Para além disso, era
quidação da Companhia foi oficialmente confirma­ locais durante os anos de 1629-1636 foram calcula­ viagem anual entre Goa, Malaca e o porto japonês também o recebedor (até 1589) das propriedades
da em 12 de Abril de 1633. O Tratado Cottington das em 155 navios com uma carga no valor de 7,5 de Nagasáqui. Depois da carreira comercial com dos cidadãos falecidos e ausentes (Souza, 1986:
de 1630 e as Tréguas Anglo-Portuguesas de 1633, na milhões de xerafins. Para o período de 1601 a 1683, Lisboa e da viagem a Moçambique, o comércio 19-20).
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ESPAÇOS ECONÔMICOS O COMÉRCIO ASIÁTICO

A mecânica da venda da viagem entre Macau e via encarregado, posto que nesse tempo tinham
Nagasáqui lança uma luz fascinante tanto sobre os grandemente crescido os interesses delas, com que
pormenores dos acordos comerciais como sobre o também os casados de Macau estavam mui adianta­
sistema entrosado de relações sociais e de tensões dos em riquezas, pelos grossos cabedais que traziam
que caracterizavam a sociedade de expatriados por­ dos japÕes, uns para beneficiarem por comissões, e
tugueses na índia. A primeira tentativa do Estado outros a responder, e juntamente por começarem a
da índia para separar a administração de Macau da fazer algumas viagens da China para Manila, ainda
gestão da viagem ao Japão foi feita em 1615. Tal que mui sub-repticias, a respeito de as impedir a
como Antônio Bocarro registou na sua história: cidade com grandes penas, pelo dano em que lhe
«Francisco Lopes Carrasco veio do reino provido resultavam, como se conheceu bem depois que as
por parte de Sua Majestade de ouvidor e capitão de mandou sua Majestade fazer por sua conta» (Bocar­
guerra da cidade de Macau, para que o vice-rei ro, 1876: 11, cap. c l x x i , 696).
d’este Estado lhe consignasse os ordenados que ha­ Podemos ter uma ideia do valor das viagens
via de haver com os tais cargos, como lhe parecesse concessionadas ao Japão a partir do facto de, du­
conveniente, porque havia de ser isento de capitão rante o leilão que teve lugar em Goa, em 1617,
da viagem do Japão, que era o que até este tempo Macedo de Carvalho ter pago 48 000 xerafins pelas
era também capitão da cidade» (Bocarro, 1876: três viagens ao Japão. Mais tarde, o senado de Ma­
cap. cxv, 512-513). Carrasco era um fidalgo, mas cau argumentou que a relação entre o preço de
também um homem de sangue misto, e a sua inefi­ compra da concessão e os lucros líquidos da via­
ciência em Macau mereceu numerosas queixas. Pa­ gem ao Japão era da ordem de 1:5. Quando esse
ra além disso, o capitão-mor da viagem ao Japão contrato expirou, o novo concessionário foi o já
recusou-se a reconhecer a sua autoridade, pelo que referido mercador de Macau, Lopo Sarmento de
teve de ser chamado de volta (Boxer, i960: 88-89.) Carvalho, que pagou 68 000 xerafins (1620), di­
O velho sistema da viagem ao Japão prosseguiu du­ nheiro que foi enviado à rainha espanhola, para o
rante os sete anos seguintes e as políticas da sua seu projectado convento em Madrid. Aparente­
gestão entraram numa nova fase. Em 1616, Richard mente, Carvalho fizera muitos inimigos em Macau
Cocks, o agente da Companhia Inglesa das índias e estes começaram a enviar petições ao vice-rei di­
Orientais no Japão, assinalou no seu diário que o zendo que não lhe deveria ser permitido continuar
Grande Navio de Amacon não iria a Nagasáqui como capitão-mor com base no facto de as contas
nesse ano porque fora arrestado pelos credores do e lucros referentes à viagem ao Japão terem sido
concessionário (Cocks, 1883: 1, 175). O facto foi falsificadas para impedir o Estado de receber os de­
confirmado pelo sacerdote jesuíta Francisco Pires, vidos impostos alfandegários. Em 1622, as forças
que acrescentou que a viagem ao Japão voltou a portuguesas em Macau derrotaram uma frota con­
ser leiloada e passou para as mãos do mercador pri­ junta anglo-holandesa numa sensacional batalha na­
vado Lopo Sarmento de Carvalho. A história da fa­ val. Porém, depois da vitória, os inimigos de Car­
mília de Carvalho e a sua subsequente carreira co­ valho negaram-lhe as duas restantes viagens ao
mo mercador e cidadão de Macau foram um Japão com o argumento de que a municipalidade
exemplo típico das vidas dos portugueses que con­ de Macau necessitava delas para conseguir fundos
seguiram alcançar êxito na índia. .Nasceu em Bra­ para a defesa contra futuros ataques holandeses e
gança, na província de Trás-os-Montes, e foi para a ingleses. Em Novembro, quando o caso estava a Kano N a izen , pormenor de biombo com barco português, Japão, arte namban, período Momoyama, 1 5 9 3 -1 6 0 0 (M N A A )
índia em 1607, como soldado. Durante as guerras ser apresentado ao vice-rei da índia, Carvalho par­
de 1613 distinguiu-se na campanha de Baçaim e tiu para Goa. O senado de Macau requereu que o Extremo Oriente do século xvn como o ponto Médio Oriente e o Extremo Oriente. Estes factos
acabou por se instalar em Macau onde casou com Lopo Sarmento de Carvalho não pudesse regressar de encontro de um mundo de prata barata com econômicos eram tão bem conhecidos que, em
uma rapariga portuguesa. Em 1617, quando Carva­ à cidade porque a sua presença era uma fonte de um mundo de ouro caro. O comércio português 1636, um agente da Companhia Inglesa das índias
lho foi ao Japão como capitão-mor do Grande Na­ lutas entre facções. D. Francisco da Gama, conde entre Macau, Nagasáqui, Manila e Goa ia buscar as Orientais que fora a Macau por causa do bloqueio
vio, a esquadra holandesa, em Hirado, tentou cap­ da Vidigueira e vice-rei da índia, ouviu os argu­ suas razões de ser a dois factores principais. Por um holandês ao estreito de Malaca e para carregar al­
turar a embarcação tanto na viagem de ida como mentos de ambas as partes e decidiu-se por um lado, o mercado japonês para as sedas chinesas era gum cobre pertencente à coroa portuguesa comen­
na de volta, falhando por pouco. Apesar do Bugio compromisso. D. Francisco de Mascarenhas foi no­ impulsionado por uma procura baseada em razões tou que os Chineses procuravam a prata — em
de Nagasáqui ter proibido a interferência holandesa meado governador independente de Macau, no sociais, uma vez que a corte japonesa e a classe dos particular os reais espanhóis — , com tanta ansieda­
com o Navio Negro de Macau, pois era esse o no­ comando de uma guarnição regular e pago pela ci­ samurais, como um todo, preferiam usar sedas de de que seria mais fácil separarem-se do seu próprio
me que os japoneses davam à nau portuguesa, o al­ dade. As suas funções civis e militares ficavam se­ alta qualidade nas ocasiões cerimoniais. Por outro sangue do que das posses em prata (Foster, 1911:
mirante holandês disparou tanta artilharia de bordo paradas dos privilégios e deveres do capitão-mor da lado, as especulações financeiras envolvendo as di­ 229). Inicialmente, o grosso da seda chinesa impor­
do seu navio que o inglês Richard Cocks registou viagem ao Japão. Foi pennitido a Lopo Sarmento ferentes relações de preços entre o ouro e a prata tada pelo Japão através de Macau era-o sob a forma
que a cidade de Hirado estremecia com o estronde que cumprisse os restantes termos da sua concessão que se verificavam na China, Japão e Filipinas, que de seda em bruto, posteriormente transformada em
dos disparos. Essa foi uma época próspera para os da viagem a Nagasáqui, mas também foi dito que recebiam muita prata do Novo Mundo, davam aos fio e em tecidos no próprio Japão. Durante o sécu­
cidadãos de Macau e para o concessionário da via­ «não havia de ter nenhuma jurisdição nem lugar mercadores do oceano Índico a possibilidade de