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Etimologia

Escravidão na África: uma antiga forma de


exploração
• A escravidão esteve presente no continente africano muito antes do
início do comércio de escravos com europeus na costa atlântica.
• Desde por volta de 700 d.C., “prisioneiros capturados nas guerras
santas que expandiram o Islã da Arábia pelo norte da África e
através da região do Golfo Pérsico” eram vendidos e usados como
escravos. Durante os três impérios medievais do norte da África
(séculos X a XV), o comércio de escravos foi largamente praticado .
• Lovejoy[1] apresenta o conceito de modo de produção escravista (de
E. Terray) como fundamental para uma compreensão mais
completa do funcionamento político, econômico e social da África -
e também das colônias portuguesas nas Américas. Segundo sua
definição, o modo de produção baseado na escravidão é aquele em
que predominam a mão-de-obra escrava em setores essenciais da
economia; a condição de escravo no mais baixo nível da hierarquia
social; e a consolidação de uma infra-estrutura política e comercial
que garanta a manutenção desse tipo de exploração.
A escravização do negro pelo negro e a
herança de miséria e fome
• Muitas tribos rivais faziam prisioneiros em continente, muitas vezes ancoradas por
conflitos e vendiam-nos para árabes e dogmas e culturas nocivas e machistas dos
europeus. De fato, este foi um dos elementos povos locais, como a crença de que, ao manter
chaves responsável pela mercantilização dos relação com 100 virgens, um soropositivo
povos africanos. ficará curado de sua infecção, o que apenas
• Os povos mais frágeis eram capturados pelos propaga ainda mais a doença. Os problemas
chefes das tribos e trocados com os europeus do grande continente africano atualmente
por mercadorias. Basicamente os conflitos extrapolaram a barreira continental. Muitos
tribais na África alimentavam o tráfico, assim emigram para a Europa, onde são recebidos
como até hoje, conflitos internos aliados à com indiferença pelos europeus nativos,
corrupção de governantes locais, ainda são gerando sérios problemas culturais de
responsáveis por todo um contexto de miséria adaptação, tanto para os nativos quanto para
existente no continente africano. os africanos.
• Guerras civis entre forças revolucionárias e
governos corruptos na África, fizeram uma
quantidade enorme de vítimas, onde os mais
fracos são os que pagam com a própria
existência. A baixa industrialização do
continente e o conflito de interesses entre
liberais e a esquerda, protelam, atualmente,
uma solução econômica e social viável para o
povo africano.[2]
• Atualmente, epidemias de AIDS grassam no
A presença européia na costa
atlântica e o comércio de escravos
• As primeiras excursões portuguesas à África foram pacíficas (o marco da chegada foi a
construção da fortaleza de S. Jorge da Mina, em Gana, em 1482). Portugueses muitas vezes
se casavam com mulheres nativas e eram aceitos pelas lideranças locais. Já em meados da
década de 1470 os “portugueses tinham começado a comerciar nos golfos do Benin e
frequentar o delta do rio Níger e os rios que lhe ficavam logo a oeste”, negociando
principalmente escravos.
• Os investimentos na navegação da costa oeste da África foram inicialmente estimulados pela
crença de que a principal fonte de lucro seria a exploração de minas de ouro, expectativa que
não se realizou. Assim, consta que o comércio de escravos que se estabeleceu no Atlântico
entre 1450 e 1900 contabilizou a venda de cerca de 11.313.000 indivíduos.
• Em torno do comércio de escravos estabeleceu-se o comércio de outros produtos, tais como
marfim, tecido, tabaco, armas de fogo e peles . Os comerciantes usavam como moeda
pequenos objetos de cobre, manilhas e contas de vidro trazidos de Veneza. Mas a principal
fonte de riqueza obtida pelos europeus na África foi mesmo a mão-de-obra barata
demandada nas colônias americanas e que pareceu-lhes uma boa justificativa para os
investimentos em explorações marítimas que, especialmente os portugueses, vinham
fazendo desde o séc. XIV. Dessa forma, embora no séc. XV os escravos fossem vendidos em
Portugal e na Europa de maneira geral, foi com a exploração das colônias americanas que o
tráfico atingiu grandes proporções.
A crise de Portugal
• A escravização de populações africanas começou a perder fôlego quando, no início
do XIX, ingleses e franceses abandonam o tráfico e começam a pressão para sua
extinção. Nessa mesma época, em 1755, Portugal foi abalado por um terremoto e
começou a perder o controle do tráfico. Na tentativa de reverter a situação, em
1761 foram editadas leis que obrigavam os navios a fazer escala em Lisboa ou em
uma alfândega em Luanda. Mas até 1769 apenas quatro navios haviam seguido as
novas leis. O que levou à construção de presídios, para abrigar os desobedientes.
• No continente africano a submissão das populações também já não era tão
simples como no passado. Povos do interior começaram a organizar ataques com
armas obtidas no comércio realizado no litoral do Atlântico. Tentou-se inclusive,
embora sem sucesso, constituir uma cavalaria em Angola.
• Pouco a pouco a escravatura foi sendo abolida. No entanto, foi também no século
XVIII que Portugal tomou a dianteira na abolição da escravatura. Foi no Reinado de
D. José I, a 12 de Fevereiro de 1761, pelo Marquês de Pombal, que se aboliu a
escravatura no Reino/Metrópole e na Índia.
• Até quando os ingleses passaram a afundar os navios negreiros que cruzavam o
Atlântico, as fazendas que produziam café no sudeste do Brasil ainda usavam mão-
de-obra escrava proveniente da África ou descendente de escravos africanos
• Lovejoy chama a atenção para o caráter de relação de dependência inerente à escravidão. O
indivíduo na situação de escravo ficava numa situação em que não tinha autonomia alguma, e
dependia do seu senhor para suas necessidades mais fundamentais, como no caso de mulheres
que se tornavam concubinas.
• Desde muito antes da chegada dos portugueses a Gana, a escravidão articulada com a expansão
do Islã sempre esteve calcada em interesses sexuais. Os árabes vendiam os homens e ficavam
com as mulheres, que eram absorvidas pelas comunidades e, conforme incorporavam valores das
sociedades de seus senhores, ganhavam maior liberdade. Os filhos eram assimilados pela
sociedade muçulmana. Além disso, as mulheres faziam quase todo o trabalho agrícola.
• A preferência dos traficantes africanos por cativos do sexo feminino foi um fator decisivo para
que, no início de seus negócios nessa área, os europeus comprassem muito mais homens do que
mulheres. Outro fator importante foi a constatação de que os homens eram mais resistentes às
péssimas condições de salubridade a que eram submetidos nas longas viagens de travessia do
oceano Atlântico em navios negreiros. Também por isso, as populações de escravos, tanto na
África como nas Américas, não tinham como se sustentar por meio da reprodução biológica , o
que gerava uma constante substituição dos escravos por novas levas e girava a máquina dos
negócios dos traficantes. Dessa forma, “o trabalho escravo estava diretamente relacionado à
consolidação da infra-estrutura comercial que era necessária para a exportação de escravos”.
• O investimento europeu em guerras geradoras de escravos modificou profundamente a África e
também as Américas. Cidades atacavam outras cidades, escravizando a população. Lovejoy faz
uma descrição pormenorizada de diversos casos de escravidão
Os reflexos nas sociedades
• As medidas protecionistas adotadas por Portugal afastaram os negociantes
brasileiros para outros portos menos controlados, e a exclusão do intermédio
português no tráfico então foi conquistada. Em 1840 cessa o tráfico através de
Luanda, e brasileiros tocam as últimas décadas de comércio escravo.
• Ao sul de Luanda deságua o Rio Kwanza, que vem do interior do continente. Esse
rio foi de fundamental importância na penetração portuguesa, além de servir de
corredor para a comercialização de mercadorias de regiões interioranas como
Lunda, Kassanje, Malanje, Lubolo, Matamba, Ambaca, Cazembo e outras. Às
margens desse rio, tradicionalmente, se organizavam os sobados, agrupamentos
de famílias que respeitavam o chefe de linhagem, que por sua vez prestava
obediência ao soba, líder escolhido por conselheiros.
• De maneira geral, os sobas serviram como instrumentos de dominação e controle
das sociedades africanas pelos europeus. Durante o período colonial, o soba se
transformou num vassalo do colonizador, sob a ameaça de receber em seu
povoado uma “expedição punitiva”, ou seja, saque e escravização. Em troca da
obediência tinha maior acesso a mercadorias, o que teoricamente aumentava seu
poder local. Na outra face da moeda, nota-se que no séc. XIX, os portugueses
dependiam totalmente da lealdade de sobas influentes.
A transformação da escravidão na
África
• Como se viu, no início do séc. XIX havia forte pressão para que o tráfico de escravos africanos promovido por
europeus fosse extinto . Esse movimento, ao contrário do que se poderia esperar, não extinguiu a escravidão no
continente africano, mas fez nascer o modo de produção escravista dentro da própria África. Diferente, como
não poderia deixar de ser, daquele praticado nas colônias americanas, o modo de produção escravista na África
foi incorporado de muitas maneiras. Foram introduzidas plantations (principalmente na savana setentrional),
além do trabalho em minas na chamada Costa do Ouro (que contava com um estado centralizado capaz de
continuar coagindo indivíduos à escravidão).
• Ocorre que não havia na África como controlar todo aquele contingente de indivíduos escravizados sem a ajuda
dos europeus. Muitos fugiam ou se revoltavam encorajados pela retórica abolicionista de missionários e
reformadores – figuras que se tornavam cada vez mais comuns. “A imposição do colonialismo extinguiu a
escravidão como um modo de produção e marcou a completa integração da África na órbita do capitalismo”.
• Não se deve incorrer no erro, no entanto, de acreditar que um sistema tão arraigado ao longo de séculos na
cultura africana pudesse ser simplesmente abandonado e esquecido de um momento para o outro. O que se
deu, a princípio, foi a transição do tráfico de escravos para o comércio “legítimo” – um processo repleto de
problemas e de implicações. A persistência da prática no Daomé (antigo reino africano localizado na região em
que hoje está o Benin) é um exemplo ilustrativo. Apoiado pelo rico e influente traficante de escravos brasileiro
Francisco Félix de Souza(Chacha), ocorreu ali um golpe de estado. Em 1818 chegou ao fim o curto e polêmico
reinado de Adandozan. Quem assumiu o comando, Guezô, permaneceu no poder por quarenta anos, nos quais
incentivou o novo comércio, superando a “crise de adaptação” com sucesso.
• Assim como no golfo de Biafra, em Daomé o comércio de escravos e o de azeite de dendê (principal mercadoria
do comércio legítimo) se expandiu até a década de 1860. Mas a partir de 1840 o declínio do tráfico já se
mostrava iminente.
O legado da escravidão
• A venda de indivíduos na condição de escravos organizada por europeus uniu a África e as
Américas, da mesma maneira que a escravidão havia atraído povos africanos para a órbita
islâmica .
• Em termos demográficos, o Brasil foi redesenhado nos três séculos de tráfico de escravos. É
claro que a escravidão deixou um legado de inúmeros problemas. O preconceito racial, o
desdém pelo estudo da história africana, e até mesmo o desprezo pelo trabalho por aqueles
que estão no topo da pirâmide econômica.
• Estimulada por novos “preceitos da ciência”, como o darwinismo social, a discriminação racial
se acentuou no XIX e mais de um século após a abolição da escravatura, a maior parte das
escolas particulares do país ainda têm mais brancos do que negros. São os brancos que
alcançam os melhores postos de trabalho e os salários mais elevados. E para agravar a
situação, a população negra do Brasil experimentou um processo de assimilação. A
miscigenação, que se verificou desde o tempo colonial (e não ocorreu nas regiões americanas
colonizadas por ingleses, franceses e espanhóis) se tornou uma forma de ascensão social e
inibiu movimentos de afirmação de um povo que sempre foi majoritário no país – e nunca
alcançou o poder.
• Atualmente, numa iniciativa que visa à redução das distorções históricas, estão sendo
estabelecidas cotas para garantir o acesso de todos à educação, à saúde e ao trabalho. São de
se ressaltar também a lei 9394, segundo a qual “O ensino da História do Brasil levará em
conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro,
especialmente das matrizes indígena, africana e européia”, e a lei 10.639, sancionada em
2003 e ainda não implementada, que inclui no currículo oficial dos estabelecimentos de
ensino básico das redes pública e privada o estudo obrigatório de História e Cultura Afro-
brasileira. Mas não é nossa intenção, nesse momento, aprofundar essas questões.
• Na África, o resultado do sistema escravagista foi devastador. Comunidades que antes
conviviam pacificamente se militarizaram e travaram guerras infindáveis. Enquanto durou a
escravidão, os escravos, assim “produzidos”, eram vendidos em feiras e exportados. Depois,
os antagonismos étnicos entre os capturados e os captores se acentuaram, de forma que
mesmo após a retirada dos últimos colonizadores, já no final do séc. XX, as guerras
continuaram ocorrendo.
• Houve mais interferências externas. O empresário inglês Cecil Rhodes, por exemplo,
investiu largamente em mineração, e fundou o estado da Rhodésia, depois dividido em
Rhodésia do sul e Rhodésia do norte, hoje Zâmbia e Zimbábue. Queria formar um império
inglês… Mais tarde, o problema foi agravado, e generalizado, pelo fato de a África ter sido
dividida em países artificiais, forjados pela régua dos burocratas da Organização das Nações
Unidas (ONU) após a Segunda Guerra Mundial. Sem levar em conta a cultura local, a ONU
subjugou ao tacão de líderes não reconhecidos como tal, povos com hábitos, idiomas e
economias diversas.
• Outras circunstâncias contribuíram para que a África chegasse ao século XXI como o
continente mais pobre, injusto e desigual do planeta. Uma delas foi a introdução de
mercadorias estrangeiras, ainda no tempo colonial, que provocou a ruína do sistema de
produção local. Em Angola o sistema do sobado entrou em decadência com a implantação
de plantations. Outros centros comerciais próximos ao Rio Kwanza, como o Dongo,
passaram a comercializar borracha, cera, café, amendoim e outros produtos demandados
pelos europeus – em detrimento da produção de bens de subsistência essenciais para a
população.
• O resultado dessa história milenar de exploração e injustiça são as guerras civis e a extrema
pobreza em que o continente chafurda até os dias atuais
Conclusão
• A escravatura foi determinante na conformação das sociedades brasileira e africana. Na África, a
exploração da mão-de-obra escrava, primeiro pelos árabes e depois pelos europeus, provocou uma
desestruturação de enormes proporções, que ainda não foi superada. Guerras, doenças e pobreza
devastam, até os dias atuais, grande parte do continente, cujas riquezas naturais seguem sendo
escoadas para os cofres de povos já exageradamente ricos. No Brasil, criou uma situação social injusta,
em que as oportunidades ao alcance dos afro-descententes são sempre menores, e menos
interessantes, do que as oferecidas aos euro-descendentes e aos originários da Ásia.
• Em algum momento a história terá de corrigir seus desvios. Ao longo dos tempos a lógica econômica
determinou que houvesse sempre dominadores e dominados, exploradores e explorados, livres e
cativos – de maneira explícita ou não. Nesse movimento, os povos africanos perderam sua cultura, sua
liberdade, suas riquezas. A história mostra que há pontos de inflexão, em que as transformações se
mostram inevitáveis, e ocorrem em processos pacíficos ou por revoluções. No entanto, como afirmou o
economista Celso Furtado, "… as observações que vimos de fazer referem-se a simples hipóteses
escolhidas em um campo aberto de possibilidades históricas. Por exemplo: é possível que se prolongue
por muito tempo a fase de estagnação…" (FURTADO, Celso. Formação Econômica da América Latina. 2a
ed. Rio de Janeiro: Lia, 1970 p. 365)