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UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE – UNESC

CURSO PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO EM LÍNGUA E LITERATURA


COM ÊNFASE NOS GÊNEROS DO DISCURSO

MÁRCIA GABRIEL BECKER FABRIS

FORMAÇÃO DO LEITOR SOB O OLHAR DA LITERATURA

CRICIUMA, AGOSTO DE 2009.


MÁRCIA GABRIEL BECKER FABRIS

FORMAÇÃO DO LEITOR SOB O OLHAR DA LITERATURA

Monografia apresentada à diretoria de Pós-


Graduação da Universidade do Extremo Sul
Catarinense – UNESC – para obtenção do título de
especialista em Língua e Literatura com Ênfase nos
Gêneros do Discurso.
Orientador: Prof° Dr° Celdon Fritzen

CRICIUMA, AGOSTO DE 2009


Dedico esta monografia a todas as pessoas que me

apoiaram e incentivaram para a realização deste

trabalho. Aos meus familiares, meu esposo, minha

filha Isabela e principalmente a Deus que guia e

ilumina os meus passos.


Agradecimentos

Agradeço a Deus acima de tudo, por aqueles


momentos que senti vontade de desistir, mas
persisti e segui em frente.

Agradeço também ao meu orientador Celdon por


sempre se mostrar disposto a me atender
prontamente.
RESUMO

O trabalho a seguir apresentado pretende estudar a literatura como um dos


elementos principais para formação do leitor, de tal forma que ela emerge como
mediadora da interação do leitor com o mundo. Nessa perspectiva, o objetivo
principal é descrever de que modo a literatura pode ser um instrumento para ajudar
na formação do leitor e consequentemente para contribuir com o aumento do
letramento. Para dar conta desse objetivo a pesquisa contou como suporte uma
pesquisa bibliográfica. A partir do que foi estudado, a pesquisa revelou que a
literatura pode ser um instrumento para o desenvolvimento do pensamento humano.
O texto literário possibilita, ao leitor, conhecer diferentes formas de organizar o
pensamento, bem como, promover no leitor criticidade diante da realidade social.
Os tópicos aqui trabalhados revelaram em seu desdobramento o valor que a
literatura possui na formação do individuo, tornando-o sujeito ativo da sua história, e
capaz de refletir, pensar e obter conhecimento.
Palavras chave: letramento literário; dialogismo; formação de leitor.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................06

2 LETRAMENTO .....................................................................................................09

2.1 Índice de letramento e problemas verificados................................................13

3 SITUAÇÃO DO ENSINO DE LITERATIRA HOJE................................................19

3.1 Situações desejadas para o ensino da literatura ..........................................24

4 GÊNERO LITERÁRIO ..........................................................................................29

4.1 Discurso estético x discurso científico..........................................................29

4.2 A natureza dialógica e polifônica da linguagem literária..............................33

4.3 A arte como forma de compreensão da realidade ........................................38

5 CONCLUSÃO .......................................................................................................43

REFERÊNCIAS........................................................................................................46
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INTRODUÇÃO

Em decorrência do mundo alienado em que se vive hoje, a realidade

social precisa ser mostrada sob mecanismos que dissipem essa alienação. A

literatura pode desdobrar-se em mecanismos para não deixar mais com que o leitor

esteja numa situação passiva diante da realidade social que o cerca, mas sim, que

ele se torne um sujeito agente dessa situação e munido de razão, exija ação e

decisão para fazer valer seus direitos. Por isso, a literatura pode e deve não deixar o

leitor apenas como expectador da realidade, mas que seja levado a algo mais

produtivo do que mero expectador, que seja levado a pensar no curso da vida, e

incitado a formular novos pensamentos, novas idéias transformadoras da realidade

que o cerca.

Por isso é importante possibilitar ao indivíduo encontrar suas próprias

alternativas de solução para os problemas, ficando a cargo dele o estímulo de

mudar. O incentivo à reflexão, à análise crítica e aos questionamentos é condição

indispensável ao estabelecimento de um verdadeiro diálogo com o mundo, para

obter uma relação de entendimento em torno do que deve ser aprendido e do que

deve ser ensinado.

A partir do que foi exposto, pretende-se com este trabalho discutir como a

literatura pode ajudar a formar cidadãos com competência leitora que possam estar

inseridos como indivíduos comprometidos com a realidade social. Este estudo vai

nos ajudar a conhecer o que a literatura possui que faz dela um grande instrumento

para formar leitores, como também, identificar as características dos textos literários.

Para isso, conheceremos as especificidades que a linguagem literária apresenta no

campo da estética, enquanto linguagem dialógica e polifônica. A partir dessas


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especificidades, buscaremos entender como os textos literários são capazes de

envolver nossa imaginação e voltar a nossa atenção para esse processo de

compreensão do que está escrito nas entrelinhas de uma composição subjetiva, de

fazer relações de intertextualidade, de aprender a dialogar com o mundo e de utilizar

a linguagem para expressar experiências, idéias e sentimentos.

Contudo, para que o uso da literatura possa propiciar o bom

desenvolvimento da criatividade e conseqüentemente da imaginação, o texto literário

precisa de uma mediação bem fundamentada e competente. Acreditamos que isso

pode ajudar muito o leitor no desenvolvimento das suas capacidades cognitivas.

Desse modo, é necessário haver um comprometimento dos ramos de atividade que

estejam ligados direta ou indiretamente com a literatura, nesse caso, a escola, a

comunidade, as entidades governamentais, a fim de garantir o acesso à qualidade

estética da obra literária. Sendo a escola a entidade mais privilegiada a formar

leitores, far-se-á uma análise de que subsídios estão sendo levados em conta por

ela para se trabalhar a literatura, se os textos literários estão sendo abordados de

forma literária, se estão se oferecendo como recursos para dar a vivenciar a

experiência estética antes de tudo.

Como principais objetivos, o presente estudo procurou analisar a

importância da literatura para formação do leitor, perceber quais entraves existem

para o letramento literário no mundo atual, como também, discutir a natureza

dialógica e polifônica da linguagem e sua manifestação no discurso literário. E para

finalizar, discutir de que modo o contato com a arte feita com palavras (literatura)

propicia ao leitor deleite e a compreensão de mundo.

Por todas essas razões, lembrar Carlos Drummond de Andrade, Cecília

Meireles ou Mário Quintana só terá sentido pedagógico se for para continuar o


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trabalho de formar leitores competentes. Pensar e refletir são tarefas dolorosas para

o indivíduo, desse modo, a trajetória da sua existência na sociedade só terá sentido

se ele estiver preparado para resolver questões e questionar as verdades tidas

como absolutas que lhe são impostas.


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2 LETRAMENTO

Entender o processo de letramento não é uma tarefa fácil, pois tem sido

alvo de muitos estudos e questionamentos. Por isso, para iniciarmos essa discussão

é necessário entender o porquê do surgimento da palavra letramento, e num

segundo momento, saber que mudanças podem ocorrer na vida do indivíduo que

possui um bom nível de letramento.

Para Kleiman (1995), os estudos sobre o letramento surgiram em

resposta ao crescimento e desenvolvimento da escrita na sociedade desde o século

XVI, e esse crescimento contribuiu para a formação das identidades culturais, as

mudanças socioeconômicas nas grandes massas, o desenvolvimento das ciências,

a dominância e padronização de uma variante de linguagem, a emergência da

escola. Enfim, em resposta às mudanças políticas, sociais, econômicas e cognitivas

relacionadas ao uso expressivo da escrita nas sociedades tecnológicas.

A partir disso, os estudos sobre o letramento vêm colaborar para entender

em que condições o uso da escrita aparece em determinados grupos sociais. Seus

objetivos se espraiam a fim de saber quais efeitos do uso da leitura e escrita

permeiam as relações sociais, se o grau elevado de letramento facilita a inserção do

individuo no mundo social e tecnológico.

Diga-se que para melhor nos situarmos nesse campo, se faz necessário

compreender que o letramento tem início para o individuo antes mesmo de conhecer

o mundo pela palavra. Para compreendermos melhor essa questão consideremos a

afirmação de Paulo Freire (1988. p. 12),

A leitura do mundo precede a leitura da palavra e ainda o ato de aprender a


ler e a escrever deve começar a partir de uma compreensão muito
abrangente do ato de ler o mundo, coisa que os seres humanos fazem
antes de ler a palavra.
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Podemos pensar, então, que o indivíduo não é destituído de

conhecimento antes de conhecer o mundo pela palavra. A construção da nossa

identidade começa no momento em que nos percebemos pertencentes a este

mundo e, dessa forma, interagimos com o ambiente a nossa volta.

Com base no que foi dito acima, podemos ter uma noção de como se

inicia o processo de letramento. Magda Soares (2003, p. 47) esclarece:

que como um adulto pode até ser analfabeto, contudo, pode ser letrado, ou
seja, ele não aprendeu a ler e escrever, todavia, utiliza a escrita para
escrever uma carta através de outro indivíduo alfabetizado, um escriba, por
exemplo, mas é necessário enfatizar que é o próprio analfabeto que dita o
seu texto, portanto, ele conhece os recursos necessários da língua para se
comunicar, mesmo que ele não tenha a habilidade da escrita. Este indivíduo
é analfabeto, não possui o método da decodificação dos signos, mas, ele
possui certo grau de letramento devido a sua experiência de vida em uma
sociedade que é atravessada pela escrita, logo, este é letrado, porém não
com plenitude.

Por isso, o letramento é um processo que se inicia antes mesmo do

individuo aprender a ler, supondo sua convivência com o universo da escrita.

Contudo, para aumentar o grau de letramento do individuo e para que ele

comece a dialogar com uma sociedade letrada, é necessário iniciar sua formação

com a alfabetização. Sendo assim, para Soares (2004, p. 90), “pode-se dizer que a

inserção no mundo da escrita se dá por meio da aquisição de uma tecnologia – a

isso se chama alfabetização.”

Nesse momento, é importante esclarecer que para alguns autores

existem distinções básicas entre esses dois processos de aprendizagem:

alfabetização e letramento. Tfouni (2002, p. 14-15) afirma:

que a alfabetização e letramento estão interligados, todavia por muitas vezes


estão sendo mal interpretados. Há duas formas de se interpretar a
alfabetização: ou como um processo que visa à aquisição individual de leitura
e escrita, ou como um processo de representação de objetos diversos. O mal
entendido que aparece na base da primeira perspectiva é que a
alfabetização tem um fim em si mesmo, e, portanto descrita como um método
apenas de aquisição das habilidades de leitura e escrita.
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A realidade do processo de alfabetização é outra. O aspecto principal e

que está sendo desconsiderado é a extensão e a amplitude que a continuação da

alfabetização pode fazer no educando, no que diz respeito às práticas sociais que

envolvem a leitura e a escrita. Pois, a apropriação pelo indivíduo das práticas para

escrever e se comunicar melhor permitirá sua melhor inserção nas práticas sociais.

A isso se deve a ajuda em primeira instância da alfabetização.

Por isso, ao pensar a alfabetização como uma tecnologia que não tem um

fim em si mesmo, Tfouni ( 2002, p. 15-16) destaca:

que de um ponto de vista sociointeracionista, a alfabetização, enquanto


processo individual, não se completa nunca, visto que a sociedade está em
contínuo processo de mudança, e a atualização individual para acompanhar
essas mudanças é constante.

Enquanto a alfabetização se ocupa da aquisição da leitura e escrita por

um indivíduo ou grupo, o letramento segundo Tfouni (1995) visa o aperfeiçoamento

da leitura e da escrita para acompanhar as evoluções sócio-culturais presentes hoje.

O aumento do letramento se torna essencial de tal maneira que a permanência do

individuo no mundo letrado se deve a sua capacidade de acompanhar esse

processo de evolução.

O letramento supera a alfabetização na medida em que corresponde à

prática constante e eficiente do uso da leitura e da escrita, como também por estar

sempre presente, em diferentes ambientes, dentro e fora da sala de aula. Portanto, a

familiaridade com o material cultural e com os textos escritos constitui

verdadeiramente a evidência da nossa participação em comunidades culturais,

políticas e é também um acesso à cultura que ainda não conhecemos.

Esclarecido como funcionam e a importância desses dois processos:

alfabetização e letramento, compreende-se, então, que são processos distintos,

contudo, indissociáveis. E para nos mantermos conectados a este mundo como


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agentes transformadores da nossa história, está aí a importância de darmos

seguimento à alfabetização com a prática constante do letramento. Visto isso, ao

praticarmos o uso da leitura e da escrita, automaticamente aumentaremos nosso

nível de letramento.

Com efeito, o sujeito inserido em uma sociedade permeada pela

linguagem escrita necessita conhecer e se relacionar com essa linguagem dentro de

uma instituição de ensino e com práticas de leitura e escrita no seu dia-dia, o que

propiciará a mediação do mundo e as relações a sua volta. Isto é, a vivência e a

experiência do dia-a-dia, somente, não desenvolverão nele um discurso objetivo, um

poder de raciocínio lógico, um poder de abstrair as idéias. Essas são as

características apontadas por quem vivencia no seu cotidiano as habilidades sociais

de leitura e escrita. Logo, se fazem necessários a formação escolar e o exercício

diário dessas práticas.

Sendo assim, a formação cultural e intelectual do indivíduo é um processo

lento que requer empenho. Sua permanência na escola é fundamental para adquirir

e aperfeiçoar a leitura do mundo pela palavra, como também sua participação social

nos diferentes segmentos da sociedade é importante para usufruir o material cultural

existente.

Portanto, possuir um bom nível de letramento representa uma conquista

para o indivíduo, uma vez que o encaminhará na construção de uma sociedade mais

participativa, na qual terá condições, como ser pensante, de conhecer melhor a

história da humanidade e de si mesmo, podendo se tornar agente transformador da

realidade e, principalmente, ler o mundo pelas entrelinhas.


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2.1 Índices de letramento e problemas verificados

No tópico anterior, tratamos dos significados da palavra letramento, da

importância que tem para nós ter um bom nível de letramento, como também das

diferenciações dela em relação à alfabetização, e principalmente da importância de

nos aperfeiçoarmos intelectualmente para nos inserirmos em uma sociedade que

requer cada vez mais profissionais competentes e letrados.

Para dar continuidade a essa questão, falaremos dos índices de

letramento. Veremos como está à média atual de pessoas que em suas práticas

sociais fazem uso do exercício efetivo e competente da tecnologia da leitura e da

escrita.

Em vista da falta de democracia e das desigualdades sociais presentes

hoje na sociedade, a educação está sendo uma das demandas mais proclamadas

pela comunidade mundial na esperança de um mundo melhor. Em termos de Brasil,

a educação de qualidade para todos é apontada como elemento fundamental para

mudança dessa sociedade desigual que revela individualismo, preconceito e

exclusão social, como também, promoveria o fortalecimento da democracia em

todos os segmentos.

Porém, apesar da educação ter tamanha importância, ela não está sendo

valorizada e tão pouco estão sendo investidos recursos a ponto de provocar

realmente uma mudança no processo educativo. Uma das faces que demonstra a

precariedade da educação brasileira diz respeito ao grau de letramento de sua

população.

Segundo o PISA (programa de Avaliação Internacional de Estudantes) o

Brasil piorou seu desempenho em leitura na última avaliação (2006). O exame,

considerado o mais importante do mundo em educação, é realizado pela


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Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a cada três

anos. Cerca de 400 mil alunos de 15 anos, de 57 países, fizeram a última prova.

Esse desempenho faz com que o País não consiga passar do nível um de

aprendizagem - numa escala que varia de 1 a 6, sendo 1 o pior - em nenhuma das

três áreas. Isso quer dizer que os alunos conseguem apenas localizar informações

explícitas e não são capazes de fazer comparações, estabelecer conexões ou

interpretar textos.

O exame de leitura da OCDE analisa não só a habilidade de ler e

escrever, mas também de interpretar textos, usar a escrita em situações cotidianas,

opinar. Por isso, o resultado da falta de leitura no cotidiano das pessoas acarreta

uma deficiência no trato de questões simples do dia-dia. A dificuldade em interpretar

trará para o individuo dificuldades de interagir com o ambiente social a sua volta.

Está aí um dos resultados do problema que o Brasil enfrenta: a precariedade na

educação e um país de poucos leitores.

É importante pensarmos no motivo que faz do Brasil um país com um dos

mais baixos índices no desempenho de habilidades simples que situações do

cotidiano requerem. Um dos motivos que deu ao Brasil um saldo negativo na

pesquisa mostra que o brasileiro lê pouco e com um baixo grau de competência na

interpretação.

Para ampliarmos a questão da avaliação sobre leitura, tomemos como

base pesquisas de mercado realizadas no Brasil. São pesquisas que tentam traçar o

perfil de leitores, e é importante ressaltar que são dados revelados no próprio país.

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com o Sindicato Nacional

dos Editores de Livros (Snel) elaboraram uma nova pesquisa para desenhar o perfil

de leitores que existe atualmente no Brasil e pretendem apontar, também, o número


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de obras lidas pelos brasileiros anualmente. O último índice apontado pela CBL,

divulgado em 2001, registrava a leitura anual de 1,8 livros per capita no país.

A pesquisa foi aplicada no final de 2007 tendo como título “Retratos da

leitura no Brasil”. Foram entrevistadas cinco mil pessoas em 311 municípios de

todas as regiões do país. Os dados obtidos são:

95 milhões de pessoas (55% da população) declararam ter lido ao menos um


livro nos três últimos meses. Se forem incluídas as pessoas que disseram ter
lido ao menos um livro no ano que passou, o total sobe para 100 milhões de
leitores. Já 45% dos entrevistados (ou 77 milhões) não leram nenhum livro
nos últimos três meses. Desse público, 47% são mulheres e 53%, homens.
(AMORIM, 2007, p. 13)

Um dado importante a ser observado é o resultado obtido por região do

Brasil e as localidades do centro e do interior. A região Sul é onde se concentra

maior número de leitores seguida da região Sudeste, Centro-oeste, Nordeste e

Norte. Ainda os leitores das grandes cidades possuem maior número de livros lidos

do que os habitantes das pequenas localidades. O índice de leitura varia conforme a

região do país revela a pesquisa. É o caso do Sul, onde foram apurados 5,5 livros

lidos por habitante/ano. Em seguida, vem a região Sudeste (4,9), o Centro-Oeste

(4,5), o Nordeste (4,2) o Norte (3,9). Os leitores lêem mais nas grandes cidades (5,2

livros por habitante/ano) do que nas pequenas localidades do interior (4,3 em

municípios com menos de 10 mil habitantes). Essa média sobe entre os que

possuem maior escolaridade. Entre aqueles que possuem formação superior, ela é

de 8,3 livros/ano. Esse número é de 4,5 livros para quem tem ensino médio

completo, 5 para quem cursou entre 5ª e 8ª série do ensino fundamental e 3,7 para

quem tem até a 4ª série.

Os autores da pesquisa se mostram satisfeitos com os resultados obtidos,

e afirmam que já é um grande avanço para o Brasil, mesmo que a passos lentos.

Contudo, se analisarmos esses resultados com os de países mais pobres que o


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Brasil, como, por exemplo, o Chile, veremos que ainda estamos muito atrás. Sem

contar que os resultados mais significativos da pesquisa pertencem ao grupo de

pessoas que possuem maior grau de escolaridade, ou seja, a qualidade da

educação e o acesso ao livro ainda não estão ao alcance de todos. Portanto, o

índice ainda permanecerá pequeno porque a maior parte da população ainda

pertence às classes menos favorecidas. É esse impasse que vive o Brasil

atualmente. Para mudar esse cenário, a educação precisa ser de qualidade e

acessível a todos.

As causas que levaram o Brasil a chegar nesse baixo nível nas pesquisas

se devem à ocorrência de vários fatores que combinados entre si colocam-no na

condição de país de não leitores. Vamos analisar abaixo alguns desses fatores

responsáveis pelo resultado obtido nas pesquisas. Eles se referem antes, porém, à

condição do homem moderno que especificamente ao caso brasileiro.

Hoje, em decorrência do corre-corre do dia-a-dia, dos vários

compromissos a serem cumpridos, da falta de tempo para parar e refletir. O homem

moderno está deixando de lado alguns hábitos importantes para ter uma vida

saudável. Isto se deve ao seu envolvimento pela indústria do entretenimento, pela

indústria da informação pronta e acabada e pelas novas tecnologias. Em virtude

disso, por ter grandes dificuldades de parar o fluxo incontido das suas ações, de

abrir mão do excesso de informação sobre sua mente; ele acaba por não realizar

atividades que lhe tragam deleite e conhecimento crítico.

Tudo isso que está acometendo a imagem do homem de hoje, segundo

Srbek (2003), é resultado de um “bombardeio incessante” de produtos e serviços

que sobrevêm cotidianamente nos nossos lares e nossas vidas. Os elementos

responsáveis por essa tendência, segundo ele, são as deficiências do processo


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sócio-educacional, a necessidade contínua da superação mercadológica, a

massificação da cultura, o consumismo, o avanço incessante das tecnologias de

comunicação etc. Como conseqüência disso, o homem está perdendo o controle

sobre a sua subjetividade, enquanto ser pensante.

Também como conseqüência desses novos tempos, a literatura está

perdendo seu caráter formador e sua importância social. Os livros literários estão

perdendo espaço para outras formas de comunicação que estão sendo praticadas

nas sociedades de hoje. A indústria do entretenimento e as novas formas de

linguagens estão desenvolvendo diferentes opções de lazer e atividade cultural e

desse modo deixando as leituras de bons autores como Machado de Assis,

Guimarães Rosa, entre outros, para o segundo plano.

Para Corrêa (2003), uma boa parte das crianças, adolescentes e jovens

de hoje não têm o hábito da leitura, a não ser que essa leitura seja cobrada pela

escola ou por familiares. Mas isso não quer dizer que eles não se interessem por

histórias, pois algumas das suas maiores diversões são passar um bom tempo na

frente da televisão, ou lendo textos na frente do computador, como também ir ao

cinema assistir um filme ou ir ao teatro.

Outro problema enfrentado pela literatura e que é apontado pelas

pesquisas é a dificuldade que as classes populares têm ao acesso à leitura literária.

Essas dificuldades apresentadas são de ordem socioeconômica, como, por

exemplo, o alto custo dos livros em geral, a dificuldade de acesso às bibliotecas

públicas e a dificuldade de circulação de obras em determinadas regiões, as quais

limitam, assim, os materiais de leitura. Aqui está uma das justificativas para a

população que vive longe dos centros urbanos terem baixo índice de leitura.
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O acesso aos bens culturais deve ser direito de todos, por isso, para

Paiva, “não pode ser admitido que haja supremacia entre um modo de leitura

privilegiado pelas classes dominantes em relação à que fazem as classes populares”

(2003, p. 120). Para ela, o direito à leitura literária também deve ser dado aos que

têm menos condições financeiras e suas leituras não devem ficar limitadas às

leituras do cotidiano – jornais, revistas, carnês, contas a pagar etc. O que está em

jogo e que precisa ser mudado é “a ausência da democratização do acesso aos

instrumentos do conhecimento, os bens culturais, aos lugares de acessar bens e

conhecimentos, como bibliotecas...” (Paiva, 2003, p.120). Democratizar o acesso a

esses instrumentos dará direito de todos terem acesso ao conhecimento e não se

restringirá a posição econômica ocupada pelo indivíduo.

Os problemas descritos acima refletem o cenário vivido pelos leitores nos

tempos atuais. Mas esse cenário pode ser mudado se for levado em consideração

pelas autoridades a mudança no processo educativo, como também o acesso ao

material cultural pelas classes desfavorecidas e afastadas dos meios urbanos. O uso

da literatura pode ser um meio de transformação da consciência individual e uma

forma de democratizar o saber.

A educação brasileira precisa de mais atenção por parte daqueles que

tem o poder de decisão nas mãos. Ela precisa estar ao alcance de todos,

apresentar um ensino de qualidade e, principalmente, dispor de recursos o suficiente

para investir em materiais didáticos e capacitação de professores.

Nesse ambiente que a sociedade brasileira apresenta, a inclusão social e

a conquista da plena cidadania passam necessariamente pela educação e a porta

de entrada é a aprendizagem efetiva da leitura e da escrita.


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3 SITUAÇÃO DO ENSINO DE LITERATURA HOJE.

No tópico anterior constatamos a partir de pesquisas que o Brasil possui

um índice muito alto de pessoas com baixo nível de letramento, conseqüentemente,

contatou-se que elas estão fazendo pouco ou nenhum uso do material escrito

disponível.

A partir disso, veremos como está hoje o ensino de literatura nas escolas,

veremos se houve mudança no seu ensino tradicional e se esse ensino está

promovendo o acesso ao livro e oportunizando o aumento do letramento do aluno-

leitor.

Alguns autores têm destacado em seus estudos que está havendo nas

escolas a escolarização errônea da literatura, em outras palavras, a prática com o

uso da linguagem e conteúdos de literatura em sala de aula já não está mais

atendendo às necessidades dos estudantes. Dessa forma, está se

descaracterizando o papel formador que a literatura tem para com a educação do

leitor.

É importante destacar, segundo Soares (2006), que todo conteúdo

ensinado na escola está sendo oferecido por ela de forma escolarizada, porque a

partir do momento que o conteúdo entra na escola, ele se modifica para atender às

necessidades do sistema escolar. Por isso, o uso da palavra ‘escolarizado’ não

descaracteriza a importância da escola, logo não pode ser criticada, porque isso

significaria negar a própria escola. Para Soares (2006. p. 25). “o que, sim, se pode

afirmar é que é preciso escolarizar adequadamente a literatura”.


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Esclarecido esse ponto, o processo de formação do leitor passa

primeiramente pela escola, ela é uma das responsáveis pela formação intelectual do

aluno. Sendo assim, é importante que a escola juntamente com seus professores

executem, durante a vida escolar do educando, um programa que corresponda às

exigências da sociedade para auxiliar no desenvolvimento das habilidades do leitor.

Entretanto, como acima tentávamos expor, alguns autores estão

registrando em seus artigos uma situação diferente a que seria desejável para o

ensino de literatura. Regina Zilberman (1988) trata desse assunto já há alguns anos,

para alertar sobre esse fato que não pode ser desconsiderado pela escola e pelos

profissionais da educação. Para ela, a escola, no moldes de hoje, reproduz

literalmente um ensino que se cristalizou na tradição, ensino esse que possui uma

metodologia pautada apenas nas antologias, e tem como instrumento mais utilizado

o livro didático, o que deixa muito a desejar quanto à educação literária.

A escola privilegiou, esses anos todos, uma metodologia de ensino

tradicional pautada pela História Literária, considerando ser ela indispensável ao

conhecimento dos alunos, deixando de lado a elaboração de um conceito próprio e

diferenciado que atendesse melhor às mudanças sócio-culturais da atualidade.

Nesse aspecto, a escola não levou em conta o fato de que é indispensável ao

educando ter acesso às novas tecnologias de ensino, a outras formas de ver a

literatura, principalmente contemplar as obras contemporâneas, porque a sociedade

já não se apresenta mais nos padrões anteriores, pois as necessidades são outras.

Por causa desse ensino tradicional, a literatura, hoje, já não é mais vista como uma

linguagem privilegiada e distinta, ela está perdendo espaço para chamada cultura

de massa e para cultura da informação.


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Em relação ao ensino de literatura na grade do ensino médio, segundo

Zilberman (1988), ele está limitado às exigências do vestibular e tendo apenas isso

como objetivo. Mais um motivo que explica talvez porque o ensino hoje esteja

voltado para as escolas literárias seus principais autores e obras.

Cereja (2005, p. 56) também declara em seu livro essa reprodução no

ensino de literatura. Para ele:

o vínculo existente entre o programa escolar e o programa do exame de


vestibular é direto. Este é, assim, quase sempre determinante das escolhas
constantes no programa escolar, principalmente nas escolas da rede
particular, em que há uma forte expectativa de toda comunidade (família,
alunos, professores, direção) quanto à aprovação dos alunos nas
universidades mais renomadas, que são geralmente as públicas.

A ausência de uma metodologia eficaz aliada à dependência do ensino

de literatura ao vestibular faz com que a dimensão da memorização das

características, datas, resumos de obras seja privilegiada em detrimento do debate

e da discussão dos textos literários. Isso caracteriza, então, o fracasso da educação

literária principalmente sobre o aspecto da formação do leitor.

Outro fator determinante para escolarização errônea da literatura

apontada por Zilberman (1988) é a forma como estão sendo trabalhados os gêneros

literários no ensino fundamental. Eles têm aparecido por meio de trechos de obras

de bons autores nos livros didáticos e são usados como pretexto para ensinar

gramática. Dessa forma, ela acredita que esse ensino reduz a literatura apenas ao

ensino gramatical.

Também nessa mesma linha de pensamento estão voltados alguns dos

estudos de Magda Soares (2006). Para ela é certamente nessa instância que a

escolarização da literatura é mais intensa, pois a seleção prévia desses pequenos

trechos das obras literárias torna o ensino da literatura ainda mais inadequado.
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Completando o que foi dito acima, a autora esclarece como tem aparecido o gênero

poema nos livros didáticos:

o gênero poema quase sempre aparece de forma descaracterizada no livro


didático: ou se insiste apenas em seus aspectos formais - conceito de
estrofe, verso, rima, ou, o que é mais freqüente, se usa o poema para fins
ortográficos ou gramaticais. (SOARES, 2006, p. 26).

Nota-se, portanto, que prevalece entre os autores citados que o trabalho

com a literatura em sala de aula aparece na maioria das vezes atrelado às

atividades ou exercícios oferecidos pelos livros didáticos e essas atividades são

usadas como pretexto para levar os alunos a discutirem conteúdos gramaticais. E o

que se percebe é que o ensino de literatura não mudou, e que da forma como era,

se reproduz ainda hoje.

No campo dos textos, não é sem razão que gêneros como a crônica,

textos contemporâneos como o jornalístico, tenham sido contemplado para o uso do

professor nas aulas de leitura. Isso é afirmado por Cosson (2006, P. 21), ”aliás,

como se registra nos livros didáticos, os textos literários ou considerados como tais

estão cada vez mais restritos às atividades de leitura extra-classe ou atividades

especiais de leitura”. Essa é uma das alternativas que os profissionais da área

usam para tentar vencer a dificuldade que os alunos têm em se interessar pela

leitura. A justificativa que eles encontram para explicar o uso desses textos,

segundo Cosson, é que o mundo das letras está perdendo espaço para o mundo da

imagem, da voz, do virtual e esses novos produtos culturais se fazem cada vez mais

presentes na vida das pessoas do que a escrita, por isso, não há por que insistir na

leitura de textos literários.

E para piorar ainda mais a situação da literatura temos a importância que

é dada à cultura de massa, à cultura do entretenimento. Está havendo um aumento

excessivo de informações que chegam rapidamente pelos meios de comunicação,


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informações essas que são consumidas rapidamente pelos indivíduos. Um exemplo

disso são os comerciais televisivos que trazem diversos assuntos acoplados em

uma mesma edição e o telespectador terá que treinar seu olhar para não deixar

nada despercebido da sua compreensão. Atentos a esse fato, as editoras

começaram a investir em publicações que supram a demanda de um público

diversificado que consome as informações prontas e acabadas.

Na concepção de Chiaretto (2003), a despreocupação com a publicação

desses livros de literatura está desvirtuando a idéia de letramento literário e está se

imprimindo um novo tipo de letramento, o letramento funcional. Tal é a importância

dessa questão que em seus estudos está sendo abordado: o problema do

descomprometimento das editoras com a formação de leitores. Seu interesse por

esses estudos fez constatar que tais livros estão sendo apresentados em formatos

diversificados e com uma leitura rápida e dinâmica, uma leitura de entretenimento

que está suprindo uma concepção mercadológica e consumista.

Para ressaltar o que foi dito acima e destacar a importância da arte, nas

palavras de Chiaretto (2003, p.239):

Foi e é interessante se observar a difusão da arte literária de


vanguarda, da literatura moderna, assim como é desalentador vê-la
mergulhada nos ditames da sociedade industrial, perdendo o teor
crítico em vista da necessidade de responder positivamente às
políticas comerciais das grandes editoras. No lugar da crítica e dos
questionamentos, exalta-se a literatura de entretenimento, que
aparece na publicidade como de indispensável leitura. Mascara-se
assim o funcionamento ideológico da literatura no momento em que
esta é colocada no mesmo nível dos brinquedos de elite, que exigem
tempo para brincar e dinheiro para serem consumidos, algo distante
dos comuns. Fundam-se dessa forma leituras com o fim de arrancar
o homem de seu interior, distanciando-o da consciência de sua
experiência vital e social em vista do comodismo e do
descompromisso: ler vai se tornando, cada vez mais, surfar.

Está aí um dos motivos que fazem os alunos preferirem os livros que

contém uma linguagem fácil e dinâmica à leitura literária. E para concluir essa

etapa, Cosson (2006, p. 23) faz uma crítica ao descaso que se está tendo com a
24

literatura e em poucas palavras tenta reconstruir o que foi se perdendo com o

tempo. Seria assim dizer, uma forma de (re) significar a importância da literatura:

em qualquer que seja das situações acima descritas, estamos adiante da


falência do ensino de literatura. Seja em nome da ordem, da liberdade ou do
prazer, o certo é que a literatura não está sendo ensinada para garantir a
função essencial de construir e reconstruir a palavra que nos humaniza. Em
primeiro lugar porque falta um objeto próprio de ensino. Os que se prendem
aos programas curriculares escritos a partir da história da literatura precisam
vencer uma noção conteudística do ensino para compreender que, mais que
um conhecimento literário, o que se pode trazer ao aluno é uma experiência
de leitura a ser compartilhada. No entanto, para aqueles que creditam que
basta a leitura de qualquer texto convém perceber que essa experiência
poderá e deverá ser ampliada com informações específicas do campo
literário e até fora dele.

Esse é o atual quadro, segundo pesquisadores do ensino de literatura

nas escolas. Veremos no próximo tópico como deveria ser o ensino de literatura, ou

seja, qual seria situação desejável para se ensinar e aprender literatura e,

principalmente, saber quais são os benefícios que o contato com a literatura pode

fazer para formação do leitor e, conseqüentemente, para o aumento do letramento.

3.1 Situações desejadas para o ensino de literatura.

Vimos no tópico anterior as dificuldades que a literatura está enfrentando

na atualidade. Seja pela falta de formação do professor, pela falha na estrutura da

escola ou pelo bombardeio incessante da cultura de massa, o ensino da literatura

está tomando um rumo que pode ser decisivo para sua exclusão dos currículos

escolares. Para mudar essa situação, o ensino de literatura precisa ser visto como

elemento fundamental para promover o letramento e burlar as dificuldades que

encontra pelo caminho. Dessa forma, para que não ocorra a falência da literatura no

currículo escolar é preciso levar em consideração algumas mudanças no seu ensino.

Como foi trabalhado no outro tópico, a escolarização da literatura é inevitável porque


25

faz parte do processo escolar, não obstante, podemos trabalhar de forma adequada

essa escolarização, e dessa forma garantir a boa formação do leitor.

As orientações curriculares têm destacado em seus desenvolvimentos

uma deficiência no trato com a leitura em sala de aula, segundo o documento, “a

prática escolar em relação à leitura literária tem sido a de desconsiderar a leitura

propriamente dita e privilegiar atividades de metaleitura” (2006 p.70), ou seja,

privilegia-se o estudo do texto, a história literária, características de estilo, etc.,

deixando em segundo plano a leitura do texto literário, substituindo-a até mesmo por

textos mais fáceis, com a justificativa de que são mais simples na linguagem e na

compreensão. Este tipo de atividade entedia o aluno, pois o coloca numa situação

de mero espectador da atividade, e ele acaba por não se interessar pela leitura

literária. Em vista dessa deficiência com a leitura, o aprendizado fica prejudicado. É

preciso encontrar uma maneira de tornar essa atividade significativa, tirar o aluno

dessa situação de passividade e fazer com que ele encontre sentido na leitura que

está fazendo.

Para ampliarmos a discussão desse assunto tomemos como base a

seguinte citação:

A leitura do texto literário é, pois, um acontecimento que provoca reações,


estímulos, experiências múltiplas e variadas, dependendo da história de cada
indivíduo. Não só a leitura resulta em interações diferentes para cada um,
como cada um poderá interagir de modo diferente com a obra em outro
momento de leitura do mesmo texto. Isso fica muito evidente quando
assistimos a um filme ou a uma peça de teatro, por exemplo, pois assim que
saímos da sala em geral perguntamos ao acompanhante: “E aí, gostou?”. É
comum termos opiniões de imediato diferentes, ou termos nos detido em
aspectos às vezes ignorados pelo outro. É da troca de impressões, de
comentários partilhados, que vamos descobrindo muitos outros elementos da
obra; às vezes, nesse diálogo mudamos de opinião, descobrimos uma outra
dimensão que não havia ficado visível num primeiro momento. (Brasil, 2006.
p.67).

Para um uso eficiente da leitura literária o professor precisa oportunizar,

em primeiro lugar, uma leitura individual para que o aluno se familiarize com o texto

e comece fazer suas primeiras inferências. E, num segundo momento oferecer


26

condições de partilha pelos colegas para verificar se eles tiveram a mesma opinião,

as mesmas impressões. Ou seja, oportunizar, também, a oralidade, a troca de

experiências nas leituras que acabaram de fazer. A palavra compartilhada humaniza

as relações, motiva os leitores a buscar novas leituras para fazer novas inferências.

Tudo isso pode ser possibilitado pela leitura literária, é isso que a faz diferente das

outras leituras, é isso também que a faz atraente e instigadora. Não só as leituras,

mas as obras literárias como um todo podem trazer ao leitor essa experiência

estética. Quanto mais prazer estético surgir mais frutuoso será a leitura literária.

Quanto à escolha do que ler, o professor precisa não apenas inserir as

obras canônicas, mas, também, contemplar em suas aulas de leitura as obras

contemporâneas que possuam valor estético. Dessa forma, o letramento literário do

aluno se desenvolverá a partir de herança cultural que o cânone apresenta, como

também, da diversidade da língua e da cultura presentes na contemporaneidade.

ao selecionar um texto, o professor não deve desprezar o cânone, pois é


nele que encontrará a herança cultural de sua comunidade. Também não
pode se apoiar apenas na contemporaneidade de textos, mas sim em sua
atualidade. É assim que tem lugar na escola o novo e o velho, o trivial e o
estético, o simples e o complexo e toda a miríade de textos que faz a leitura
literária uma atividade de prazer e conhecimento singulares. (COSSON 2006,
p.35-36).

De acordo com Pacheco (2004), o trabalho com a literatura é muito mais

do que transmitir conteúdos e apenas usar o texto como pretexto, mas sim, explorá-

lo nas suas múltiplas possibilidades de compreender a realidade e de produzir

conhecimento através da arte da linguagem, dialógica por natureza. A arte, o

conhecimento que se dá por seu intermédio, só tem valor se leva o outro em

consideração. Ainda que essa arte seja manifestação do eu e para ele esteja

voltado, o outro é um elemento intrínseco indispensável nessa manifestação.

Pacheco afirma, ainda, que o professor de Literatura precisa trabalhar de forma

criativa com a linguagem e a prática da expressão livre. Outra forma de escolarizar


27

corretamente a literatura é saber como trabalhar a poesia em sala de aula. Quando

ela é trabalhada de forma a privilegiar a verdadeira escolarização da literatura, o

professor abre diversos universos e leva o aluno a essa viagem fantástica que o fará

entender melhor a realidade que o cerca e refletir sobre os valores e ideologias

impostos pela sociedade. Sendo assim, a língua passa a assumir de verdade sua

condição de produção do conhecimento, e não apenas como meio de formas

abstratas e sonoras.

a não exploração das potencialidades da linguagem poética, que fazem do


leitor um co-autor no desvendamento dos sentidos, presentes no equilíbrio
entre idéias, imagens e musicalidade, é que impede a percepção da
experiência poética na leitura produtiva. A exploração dos efeitos de sentido
produzidos pelos recursos fonológicos, sintáticos, semânticos, na leitura e na
releitura de poemas poderá abrir aos leitores caminhos para novas investidas
poéticas, para muito além desse universo limitado – temporal e
espacialmente – de formação. (BRASIL, 2006. P.74).

O que o professor deve priorizar é o conhecimento que pode ser gerado

pela leitura literária e deixar parcialmente a cargo dos alunos a seleção dos livros de

literatura, pois dessa forma gerará neles um incentivo a mais para descobrir o gosto

pela leitura. Soares (2006, P. 28) diz que “uma seleção limitada de autores e obras

resulta em uma escolarização inadequada, sobretudo porque se forma o conceito de

que a Literatura é apenas certos autores e certas obras”. Por isso, outros conteúdos

não devem ficar de fora dessa seleção, como bem declaram as orientações

curriculares: “pensamos que se deve privilegiar como conteúdo de base no ensino

médio a Literatura brasileira, porém não só com obras da tradição literária, mas

incluindo outras, contemporâneas significativas”. (BRASIL, 2006, p. 73).

Para atender todas essas mudanças em vista da melhoria da educação

literária nas escolas, o professor precisa adequar sua formação e se aperfeiçoar

para atender às novas exigências que as novas teorias estão promovendo. Por isso,

é importante o professor estar sempre em busca de conhecimento literário e ser ele


28

próprio um leitor crítico e estabelecer suas próprias hipóteses de leitura para

abranger todas as sugestões vindas de seus alunos na leitura. O professor, como

mediador, pode instigar seus alunos com o conhecimento e a experiência que tem a

serem leitores competentes.

A escola, assim como o professor, também tem um papel fundamental na

construção de um ambiente propício ao desenvolvimento da leitura. Ela precisa

transformar seu espaço para abraçar o acesso e a troca de livros. O espaço precisa

ser ampliado e o acervo ser recheado de obras completas, como também, promover

atividades estimulantes de leitura. Isso permitirá aos alunos momentos de prazer

dentro da escola e principalmente de aprendizado. Será uma parceria bem sucedida

entre professor e escola.

As bibliotecas escolares têm papel fundamental no sucesso desse trabalho


de iniciação literária e de formação do gosto. É preciso que existam, que
tenham acervos significativos, que estejam disponíveis para todos, que o
acesso ao livro seja direto, que as técnicas biblioteconômicas de catalogação
e armazenagem dos livros sejam adequadas a leitores em formação e sejam
a eles explicadas, quando necessário. (RANGEL, 2003, p. 143 - 144).

Com efeito, podemos pensar em letramento literário como estado ou

condição de quem se apropria da linguagem literária e com ela possa fazer ligação

entre o mundo ficcional e o mundo real, construindo para si uma teia de significados

que possa suprir os vazios encontrados na sua própria subjetividade.

Finalizando, letramento literário é, portanto, desenvolvimento da

imaginação para além do que está escrito. Tenta-se, desse modo, voltar o

pensamento do leitor para experiência estética e seu olhar para as relações

pertinentes na sociedade, relações essas referentes aos poderes constituídos e

relações afetivas. Procura-se, com isso, fazê-lo compreender o quão é importante o

papel da literatura na obtenção da consciência crítica.


29

4 GÊNERO LITERÁRIO

4.1 Linguagem literária x Linguagem cotidiana

Quando praticamos o ato de ler obtemos o entendimento do que lemos a

partir da compreensão que fizemos. Por isso, essa leitura precisa ser bem feita e de

alguma forma bem treinada. Como teremos um bom aprendizado se não fizemos

uma boa leitura, se não refletimos sobre ela? Pensando dessa forma, a

compreensão pode ser considerada como o fator que relaciona os aspectos

relevantes do mundo a nossa volta. Será no processo de leitura que o nosso

aprendizado será efetivado de forma a acrescentar algo mais ao que já possuímos

em nossas mentes. O aprendizado pode ser considerado, também, como a

modificação do que já sabemos como conseqüência de nossas interações com o

mundo que nos rodeia. Aprendemos a ler através da leitura, acrescentando sentidos

e aprimorando nossos saberes. Para Cosson (2006, p. 27), “ao ler, estou abrindo

uma porta entre meu mundo e o mundo do outro”.

Considerando a leitura como um processo que visa à construção da

consciência individual, a leitura literária pode ser usada como forma de interação

com o mundo, como um modo de dialogar com as relações que mantemos com o

mundo, já que, ao fim, essa consciência se realiza no coletivo.

Pensando dessa forma, os textos literários são materiais por excelência

para o desenvolvimento das potencialidades da leitura, pois são dotados de uma

linguagem própria, carregados de significados, que darão suporte à mediação do

homem com o mundo. Conforme Pacheco (2004, p. 210),

A literatura, em suas lacunas, possibilita o momento de parar o fluxo


incontido das ações cotidianas para refletir e redirecioná-las. A leitura literária
30

permite preencher os vazios do texto ao mesmo tempo em que preenche os


vazios da própria subjetividade.

Percebe-se, então, que a literatura possui um tipo de linguagem diferente

da que habitualmente utilizamos: é uma linguagem que a partir de uma experiência

estética pode nos ajudar a refletir e nos posicionar diante de nossas ações

cotidianas.

Partindo desse pressuposto, o objetivo desse tópico é verificar as

diferenciações que existem entre as leituras feitas com textos literários das leituras

feitas com textos do cotidiano. E, sob essa ótica, encontrar os elementos que

caracterizam a leitura literária e que a tornam diferente das outras leituras.

O primeiro passo para desvendar os segredos da leitura literária é

considerá-la como arte, porém arte feita com palavras que podem desenvolver a

nossa imaginação que nos faz compreender o que não está explícito no texto. A

literatura pertence à esfera da estética, ou seja, ela está associada aos sentidos, à

construção de significados através dos sentidos (Pacheco, 2004). Quando fazemos

a leitura de um texto literário, damos margem a nossa imaginação, ela toma forma,

tamanho, cor e se torna uma teia de significados. Essa teia de significados, obtidos

através dos objetos imaginários, uma vez posta na nossa mente, afasta-nos da

realidade, do natural e limitado, e assume um corpo ilimitado, fora da realidade, mas,

ao fim, nos repõe na realidade. Ao lermos, nossos pensamentos fluem e se

expandem para além do que se está lendo, dessa forma, conquistamos novos

saberes e fazemos o preenchimento dos vazios presentes na leitura literária. Com

isso, obtemos um aprendizado significativo, ou seja, o texto faz sentido para nós.

Essa é uma das sensações que podemos ter com o uso da literatura. Por isso é

importante conhecermos os mecanismos que fazem da leitura literária uma leitura

interessante e instigadora.
31

Para uma melhor compreensão desse assunto trataremos das leituras

feitas no cotidiano, como leituras funcionais. As leituras feitas com as obras

didáticas, por exemplo, diferentemente das leituras feitas com obras literárias,

segundo Azevedo (2004), apresentam uma linguagem muito semelhante entre si,

pois elas têm como propósito unicamente informar. O objetivo que se pretende com

essa linguagem é fazer com que os leitores cheguem às mesmas conclusões e

interpretações, não suscitando dessa leitura a abertura para outras possibilidades de

sentido, sendo desnecessário, também, recorrer a outros discursos para

complementar a leitura. Esse tipo de leitura não provoca no leitor novas inferências,

não instiga seus pensamentos.

As leituras feitas no cotidiano vão pelo mesmo caminho. O que leva tais

leituras a serem destituídas de reflexões é o formato em que estão sendo

apresentadas, que exige uma atitude rápida e dinâmica e, dessa forma, muitas

vezes a leitura cumpre apenas a função de entretenimento fugaz ou de

informatividade.

Diferente da leitura funcional, o texto literário possui especificidades

próprias que o caracterizam como uma leitura enriquecedora. O texto literário não

possui uma linguagem cristalizada, fechada em si, que o torna possuidor de um

único objetivo. Também não é constituído de idéias absolutas e inquestionáveis,

mas possui, sim, uma abertura para outras vozes o leitor pode dialogar com essas

idéias e delas suscitar outras mais. Por isso, esse tipo de texto não contém uma

idéia central em torno da qual gira todo discurso literário. O texto literário segundo

Bragatto (1995 p. 15-16):

não pode ser excessivamente detalhado, conter predominantemente idéias


de caráter absoluto, apresentando-se, então ao leitor com a obra
definitivamente pronta e acabada. Se assim fosse, não permitiria que o leitor,
ao dialogar com o texto, produzisse reflexões comparações,
32

questionamentos, vôos imaginativos, efetuasse descobertas e até


alimentasse dúvidas e incertezas.

Outra característica da obra literária apontada por Bragatto (1995) se

define como “obra aberta”. Para entender essa expressão, consideremos o texto

literário como enredado por fios soltos fazendo com que a leitura apresente

aberturas, admitindo, dessa forma, uma pluralidade de hipóteses que possibilitará ao

leitor tirar suas próprias conclusões, fazendo-o parte também da construção do

fechamento das idéias, ao preencher os vazios encontrados no texto.

Com efeito, para respaldar a idéia de obra aberta, a linguagem literária

como arte apresenta nas obras literárias características próprias, com marcas de

abertura tanto no seu conteúdo como na sua forma. Por isso, cabe-nos destacar três

propriedades da linguagem literária:

* É uma linguagem que não se reporta apenas a fatos ou situações,


transmitindo-os.
* Além de comunicativa, é uma linguagem expressiva, justamente
porque criativa, ou seja, carregada de potencial estético...
* Para ser expressiva e comunicativa, a linguagem literária apóia-se,
fundamentalmente, na conotação, isto é, no linguajar figurado, na
sua plurissignificação. É nessa última característica da linguagem
literária que o fazer literário intensifica suas marcas de “obra aberta”.
(BRAGATTO, 1995, p.18-19).

De uma maneira simples e sintética e de acordo com que estamos

apresentando como características dos textos literários, consideremos outro ponto a

favor da literatura que a diferencia das outras leituras e que a tornam indispensável

à formação do leitor. Esse tipo de texto utiliza com maestria em sua ficção a

contradição e a multiplicidade de facetas que porventura possam estar presentes na

realidade de hoje. São estórias cheias de mistérios com personagens que

apresentam tipos diferentes e com comportamentos ambíguos. A literatura tem esse

poder de fazer o inverso, de mudar a estória e levá-la a um patamar fora dos

padrões de ética e da realidade do leitor. Esse recurso possibilita ao leitor o seu

amadurecimento intelectual, pois o faz caminhar por ambientes e situações com os


33

quais ele poderá não estar habituado. Faz, também, com que ele perceba e entenda

os diversos tipos de relações existentes na sociedade de hoje. Essa característica

torna os textos de literatura tão originais e significativos, pois estão propensos a

abordar preconceitos e tabus de forma mais descomprometida.

Portanto, ao terminar a leitura de um texto literário, a impressão que

temos é que essa leitura ainda não acabou, pois ela continua presente dentro de

nós. A leitura literária deixa nossos pensamentos envoltos de vários outros

pensamentos, constrói em nossa mente um emaranhado de novos significados.

Encantados com a leitura que fizemos estabelecem-se, assim, uma ligação de

identificação nossa com o texto.

Tratar a linguagem literária como obra de arte é reconhecer nela o seu

valor expressivo e estético. Podemos encontrar nas aberturas de um romance, por

exemplo, a resposta para os conflitos existente na nossa própria subjetividade. Ou

seja, a leitura literária pode propiciar o preenchimento dos vazios presentes na vida

cotidiana.

Feitas as distinções entre o texto literário e o texto funcional, abordaremos

no próximo tópico, com o respaldo da teoria bakhtniana, a natureza dialógica e

polifônica da linguagem e, particularmente, a literária. Discutiremos esses conceitos

para tentar entender como uma obra literária pode ser dialógica e também ter a

abertura para outras vozes (polifonia).

4.2 A natureza dialógica e polifônica da linguagem literária

A linguagem usa como suporte enunciados e discursos para comunicar.

Graças a ela, o homem modela seus pensamentos, seus sentimentos, suas


34

emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, é um instrumento pelo qual o

homem influência e é influenciado. Por isso, a linguagem não pode ser desvinculada

de seu contexto, visto que os processos que a constituem são histórico-sociais. A

linguagem não é neutra, tampouco é natural, ela é simbólica e, portanto, é revestida

de muitas interpretações. Contudo, as palavras por si só não significam, não têm

sentido: seus sentidos derivam dos enunciados das formações discursivas em que

se inscrevem. As palavras mudam de sentido de acordo com as posições daqueles

que as empregam. Os enunciados são constituídos dentro de determinadas

formações discursivas, eles se utilizam de princípios e conceitos presentes na

formação social em que estão inseridos e dessa forma, dialogam com outras

formações sociais (Orlandi, 2000).

Tendo em vista que a linguagem se materializa no contexto social que é

empregada e que a torna simbólica, vamos compreender melhor como ela se

caracteriza nas formações discursivas e a partir daí entender melhor como os textos

literários usam da linguagem para dialogar com o leitor e com o mundo. Para nos

ajudar nessa tarefa, vamos conhecer alguns conceitos sobre as formações

ideológicas e discursivas.

Segundo Fiorin (2000), para entender a formação ideológica, essa deve

ser compreendida como a visão de mundo de uma determinada classe social, isto é,

consiste num conjunto de representações, de idéias que revelam a compreensão

que uma determinada classe tem do mundo. Como não existem idéias fora dos

quadros da linguagem, compreendida como um instrumento de comunicação verbal

ou não-verbal, esta visão de mundo não poderia existir desvinculada da linguagem.

Por isso, a cada formação ideológica corresponde uma formação discursiva, que é

um conjunto de temas e figuras que materializam uma determinada visão de mundo.


35

Essa formação discursiva é adquirida por cada um dos membros de uma sociedade

no decorrer do processo de aprendizagem lingüística. É com essa formação

discursiva adquirida que o homem constrói seus discursos, e reage lingüisticamente

aos acontecimentos. Assim, como a formação ideológica impõe o que pensar, uma

formação discursiva determina o que dizer. Portanto, a visão de mundo e a

elaboração dos enunciados do individuo serão determinados pela formação social

em que ele se insere. Com bem destaca Bakhtin (apud Fiorin 2006, p.31-32), “a

circulação das vozes numa formação social está submetida ao poder. Não há

neutralidade no jogo das vozes”.

Dando entrada a teoria de Bakhtin, vamos verificar sua procedência na

linguagem literária, e conceituar o que é enunciação. Na teoria de Bakhtin (1992), a

enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados,

pois sua natureza é social. A enunciação não existe fora de um contexto sócio-

ideológico, em que cada locutor tem uma direção social bem definida, pensada e

dirigida a um contexto social também definido. Portanto, a enunciação deriva de

alguém e se designa a alguém. Toda enunciação requer uma resposta, uma reação.

Então, num processo de comunicação todo enunciado é dependente de

outro enunciado. Em outras palavras, a palavra minha sempre se constituirá a partir

da palavra do outro, uma vez que somos socialmente organizados, pertencemos a

uma sociedade que evoluiu superando os antigos discursos e colocando outros no

lugar, tudo sempre dentro de uma ação dialógica. Portanto, o dialogismo é a

construção de sentidos entre dois ou mais enunciados.

Para uma melhor compreensão, vamos simplificar um pouco mais: um

indivíduo que sustenta uma posição, uma determinada idéia, mantém sua posição a

partir de um ponto de vista que já está cristalizado no ambiente social em que ele
36

está inserido. O contexto social contribui muito porque fez afirmar ainda mais seu

ponto de vista. Tomemos como exemplo dois discursos com ideais distintos. Uma

determinada formação social prega o trabalho incessante como forma de conquistar

bens e fortunas e conseqüentemente a liberdade financeira. Em contraposição,

temos outro discurso que sustenta que ir pelo caminho do enriquecimento é

prejudicial ao crescimento espiritual do indivíduo. Esta formação social recusa as

fortunas com o motivo de que não traz vida plena e paz espiritual e prega a

humildade e a fraternidade entre as pessoas. Temos aí o discurso religioso em

oposição ao discurso capitalista, ou seja, um se constituiu como resposta ao outro.

A partir do que foi exposto, vamos pensar de que maneira a linguagem

literária é dialógica por natureza. A leitura de um texto literário apresenta um

determinado enunciado que uma vez lido construirá sentidos no leitor, essa leitura

entrará em contato com o que o leitor já possui como valores, crenças e visão de

mundo e com eles manterá um diálogo que direcionará o leitor a interpretar o que o

texto literário quer informar. Será a troca de novos significados que o leitor estará

fazendo com o próprio texto.

O autor ao escrever coloca na construção de seus textos os sentidos que

foi absorvendo do mundo, das relações que estavam no contexto social a sua volta,

e com esse material o leitor irá dialogar e construir seus próprios entendimentos

dentro da sua formação social. O leitor poderá interagir e refletir com as idéias, os

valores, os pensamentos e a ideologia que dominava na época em que o texto foi

escrito. Será com suas relações sociais e pessoas que o leitor manterá uma ligação

de sentido.

As idéias de um autor, à medida que ele as expressa por meio dos livros,

deixam de ser do próprio autor e passam a pertencer ao leitor. E ao interpretá-las, o


37

leitor acrescenta cores e formas próprias em sua mente, ou seja, acrescenta cadeias

de pensamentos e experiências emocionais próprias no processo de leitura e

interpretação.

O texto literário apresenta também em seu enredo um contexto social em

que se defrontam muitas vozes sociais. Dessa forma, ele manifestará diferentes

pontos de vista sobre um dado objeto, portanto, o texto literário contém também

elementos que o caracterizam como polifônico. A imagem da sociedade, dos tipos

de relações nela mantidas e do ambiente sócio-cultural é percebido através da

narração das vozes das personagens, do enredo que o autor apresenta. A descrição

do tempo e o espaço e dos tipos humanos, também dão idéia dos moldes nos quais

a sociedade se apresentava numa determinada época. Há uma verdadeira

multiplicidade de sentidos que autores constroem em seus enunciados. Com isso,

os leitores confrontam-se com o que se mostra e esconde, e ficam desafiados a

descobrir o que está por detrás dessas questões, dessa cultura já afastada pelo

tempo, que em parte pode ser verdadeiro ou falso, a partir da compreensão dos

processos de interpretação e sentido.

Com efeito, percebe-se que o texto literário não é constituído de idéias

absolutas e inquestionáveis. Assim como foi abordado no tópico anterior, há na obra

literária uma abertura para outras vozes, é dessa forma que o texto literário se torna

polifônico e dialógico. O leitor pode dialogar com essas vozes, o que lhe permitirá

vivenciar situações éticas, estéticas e sociopolíticas diferentemente de outros

gêneros do discurso.
38

4.3 A arte como forma de compreensão da realidade

Hoje, devido ao avanço da sociedade industrial e a evolução cada vez

mais exacerbada das novas tecnologias, a arte está modificando seu papel. O

objetivo dela que até então tinha como função contemplar o belo estético está

mudando, está se extraindo da arte nos tempos atuais uma maneira nova de

compreender o mundo para que possamos nos colocar frente a ele como seres

transformadores da nossa própria história.

A literatura que é vista como uma obra de arte pode conduzir o leitor a

caminhar dentro de si mesmo e desenvolver a reflexão crítica. Ela pode nos ajudar a

reconstruir nossa jornada intelectual, para que possamos repensar e reciclar nossas

posturas intelectuais e mudar em nós a maneira como vemos o mundo e as nossas

relações.

Assim como temos visto em muitos artigos científicos, pesquisas e

reportagens, o ser humano está deixando de lado sua capacidade de pensar, de

refletir e mudar suas ações no cotidiano. Isso porque o tempo é curto e os

compromissos são muitos. Por isso, é necessário entender que se o contexto foi se

modificando em decorrência das transformações sociais, é inevitável que os

costumes e atividades tidas como habituais também sofressem transformações. A

prática de leitura foi uma das atividades que sofreu com as mudanças no contexto

social atual, ela está sendo substituída pela maioria das pessoas pelos meios de

comunicação de massa que se adaptam melhor ao estilo de vida de hoje. O gosto

pela leitura e conhecimento gerado por ela tão necessários à formação do ser

humano foram se perdendo com o tempo.


39

O foco desse tópico está em encontrar na literatura sua correspondência

com a realidade e a partir dela tornar possível tratar com atenção e inteligência

alguns pontos importantes e complexos da cultura que está em processo de

transformação, como também, buscar na arte, feita com palavras, a possibilidade de

compreensão das questões complexas presentes na sociedade de hoje.

Viver sob pressão, correndo atrás do tempo perdido, faz com que as

coisas importantes passem despercebidas do nosso olhar. A literatura pode nos

ajudar a perceber esse erro, ela direciona nosso olhar e com a ajuda dela nos

voltarmos para o que não tínhamos visto antes, para compreensão daquilo que um

olhar distraído não pôde ver. De que forma? Nesse caso, educando nossa

sensibilidade, educando nosso olhar, pois um olhar diferente, mais atencioso, pode

nos ajudar a ter uma percepção melhor dos acontecimentos ao nosso redor. O

mundo pode ser visto diferentemente com a ajuda da literatura, ver o mundo pelos

olhos dela significa enxergar as coisas sob outro prisma.

Para dar significado ao que foi dito acima, vamos ver o que dizem os

autores dos reais significados que podemos encontrar na arte. Lancri (2002, p. 20-

21) defende que:

a arte nos faz entender certos aspectos que a ciência não pode fazer. Isto é,
a educação dos sentidos e da percepção amplia nosso conhecimento de
mundo, o que vem reforçar a idéia de que a arte é uma forma de
conhecimento que nos capacita a um entendimento mais complexo...

E a partir do momento que tomamos consciência que temos de educar

nosso olhar para o que passa despercebido da nossa visão, nos damos conta da

vida agitada que levávamos. Ernest (1983, p.20) compreende “a arte como

necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo”.

Aprofundando um pouco mais, o olhar educado se mostra apto a

enxergar o que todos podem ver, mas não conseguem em virtude dos velhos
40

hábitos, do medo ou até mesmo do comodismo. E dessa forma acabamos perdendo

aquele olhar de admiração das coisas novas, aquele olhar surpreso tal qual o olhar

infantil: espontâneo e curioso.

Com efeito, a literatura se destaca das outras formas do saber por dar a

oportunidade de reacendermos a busca pela compreensão dos processos

ideológicos presentes em nossas mentes. Somente quando nos voltamos com

atenção sobre as coisas, sem fazer pré-julgamentos ou classificações, deixando

elas serem o que são, é que o real deixa de ser superficial e se mostra em toda sua

complexidade.

A literatura pode proporcionar nos seus diversos gêneros um mergulho

no nosso processo de formação e resgatar dele um emaranhado de reflexões a

partir da palavra elaborada poeticamente e artisticamente. Tomemos como exemplo

as leituras de textos poéticos que por serem elaborados a partir de vivências geram

em nós certo fascínio, pois naquele determinado momento foi ao encontro das

nossas necessidades e angústias, como um complemento do que estamos vivendo

e sentindo. E dessa forma nos voltamos para o mundo interior, questionando nossas

motivações e reações, como uma busca de nós mesmos.

Com efeito, além disso, entende-se que a leitura deste gênero literário

constitui-se uma atividade saudável e prazerosa, e a partir de uma leitura crítica,

confrontando com outros textos literários, o leitor estará entrando em contato com o

funcionamento da própria língua, com os sentidos expressos em seus discursos, e

que circulam ao seu redor.

No tópico anterior, foi demonstrado que a linguagem literária é por

natureza dialógica, ou seja, ela dialoga com os valores e crenças do leitor, com

outros textos, experiências e culturas. Isso significa que temos um instrumento


41

poderosíssimo nas mãos capaz de ser um canal de comunicação nosso com o meio

que nos cerca. Portanto, temos a língua, elaborada poeticamente, que assumiu de

verdade sua condição de produção do conhecimento. A Literatura possui uma

condição artística inesgotável que permite que todos os potenciais expressivos,

imaginários e fictícios sejam explorados, possibilitando outras formas de experiência

com a realidade. O conceito de experiência fica ainda mais claro quando reportado

por Nunes (1996, p. 3):

[...] da adesão a esse “mundo de papel”, quando retornamos ao real,


nossa experiência, ampliada e renovada pela experiência da obra, à luz do
que nos revelou, possibilita redescobri-lo, sentindo-o e pensando-o de
maneira diferente e nova. A ilusão, a mentira, o fingimento da ficção aclara o
real ao desligar-se dele, transfigurando-o; e aclara-o já pelo insight que em
nós provocou.

Ampliando um pouco mais, vamos esclarecer o ponto que coloca a arte

como forma de produção de conhecimento. Para Freitas (2006), a arte está

superando a visão simplista que havia sobre ela, que era de oportunizar apenas um

efeito do belo estético aos leitores. Por outro lado, por considerarmos a literatura

uma arte ela assume um caráter formador em sua essência, pois ela se vale de

muitas características que a tornam muito mais importante do que um simples

objeto de prazer e distração. Ela pode ser usada como um meio de nos levar ao

conhecimento. Como? Educando nossa visão de mundo pela percepção dos

sentidos. E esse conhecimento tão almejado por nós não está mais restrito apenas

às ciências. Isso significa que as duas podem caminhar juntas. A ciência é um meio

de conhecer o mundo pela razão e a arte, mais propriamente a literatura, poder ser

um meio de conhecer o mundo pela sensibilidade. Portanto para Freitas (2006, p. 3)

“a arte e ciência são faces do conhecimento, que complementam-se e ajustam-se

perante o desejo de compreender o mundo”.


42

Os textos literários podem ser interpretados de diversas formas por

diversas pessoas em diversos momentos, isso depende da bagagem cultural do

receptor, do sentimento vivido naquele momento. Assim existirá um misto de

possibilidades: uns irão gostar outros não, tudo dependerá do momento e do

sentimento envolvido. A literatura tem o poder de transpor o conceito de belo e

revelar conteúdos singulares em suas obras. Por isso, nem sempre ela será a oferta

imediata de um sentimento agradável, pois ela pode querer debater em seus textos

conteúdos discriminatórios e conflitos intimistas. Dessa forma, ela poderá ser bela

ou não aos nossos olhos, depende de quem a lê, e como a lê. Temos muitos

exemplos em nossa literatura de textos riquíssimos na sua forma e poesia, contudo,

com um conteúdo nada convencional, longe dos padrões ditados pela sociedade. E

com certeza haverá leitores que apreciaram esse tipo de texto.

Portanto, podemos compreender o mundo que nos rodeia pelos olhos da

literatura, mas para isso precisamos dar uma chance a ela de revelar seu poder de

se relacionar com o real. Através das experiências obtidas, ela gerará conhecimento

e nos fornecerá uma conexão com a realidade. Seu objetivo não é se limitar a uma

visão parcial e incompleta de realidade, mas sim que tudo possa ser mostrado de

forma clara e objetiva para que possamos nos posicionar como seres críticos e nos

descobrir capazes de mudar nossa trajetória de vida.


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5 CONCLUSÃO

Com o tempo as sociedades se tornaram cada vez mais complexas, as

habilidades com a leitura e a escrita viraram, então, peça chave para acompanhar as

evoluções e fazer parte desse mundo letrado. Com isso, percebeu-se que quanto

mais letrado o indivíduo for, mais preparado para enfrentar essa sociedade ele vai

estar. Dessa forma, a finalidade desse trabalho foi demonstrar que o aumento das

habilidades da leitura e da escrita está intimamente ligado com a formação do leitor.

E a formação do leitor precisa ser muito bem assistida. Aqui entra a arte feita com

palavras, mais propriamente a literatura que com suas propriedades formadoras

darão ao leitor mais bagagem intelectual.

Com base nos tópicos descritos, nesse trabalho contatou-se que a

literatura pode ser sim um instrumento para levar o indivíduo a aprimorar sua

formação de leitor. A literatura possui características essenciais como, por exemplo,

a linguagem dialógica e polifônica, a linguagem comunicativa e criativa, carregada

também de um grande valor estético para promover o letramento. Por essas razões,

de fato não há outro tipo de texto tão enriquecedor e completo para formação do

leitor quanto o texto literário.

Partindo das afirmações acima, estamos dando um novo passo para

melhorar a formação do leitor descobrindo uma nova forma de pensar, de explicar o

mundo e de orientar a nossa história. A literatura se utiliza de palavras para

materializar o que temos de mais fantasioso em nossas mentes. Visto que o

desenvolvimento da nossa imaginação pode ser favorecido por ela, estimularemos

cada vez mais a nossa consciência para a produção do conhecimento.


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Com efeito, a leitura literária é uma atividade prazerosa e instigadora, pois

faz com que esse momento seja uma forma privilegiada de aprendizagem. É como

se tivéssemos marcado um encontro com nós mesmos, pois ao ler conhecemos um

pouco mais de nós e descobrimos quais são os nossos limites, até onde podemos

chegar e concluímos que podemos ir cada vez mais além. A leitura literária é mais

do que uma simples atividade, pois ela pode proporcionar experiências

enriquecedoras.

A literatura representa para o individuo um estimulo para trabalhar suas

potencialidades e suas capacidades cognitivas, dessa forma, estaremos

privilegiando a verdadeira formação do leitor que abrirá diversos caminhos para

entender melhor o sistema que aí está e refletir criticamente sobre os valores e

ideologias vigentes.

Para concluir, entende-se que, para definir uma maneira nova que vise à

transformação da consciência do individuo, três agentes são fundamentais: o leitor,

a literatura e o conhecimento que juntos produzem. Desse modo, esse novo

conceito focalizará melhores condições para produção de conhecimento, pois o

individuo será capaz de olhar criticamente para o mundo e com ele manterá uma

ação dialógica. O texto literário tem o poder de absorver certos aspectos da

experiência humana. Nesse sentido, a literatura exerce um papel relevante para

aprimorar a formação do leitor e a desbravar os poderes ocultos nos textos, dirigindo

o saber construído para outros usos, a fim de perceber seus próprios poderes de

domínio da palavra.

Finalizando, educar pela literatura é, portanto, pensar o mundo e

desenvolver a imaginação com um novo olhar. Tenta-se, desse modo, voltar o

pensamento do leitor para o meio estético dos textos literários e seu olhar para as
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relações pertinentes na sociedade, relações essas referentes aos poderes

constituídos e relações afetivas. Procura-se, com isso, fazê-lo compreender o quão

é importante o papel da literatura na obtenção da consciência crítica.


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