Você está na página 1de 27

PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

1. Objetivos

Estabelecer os conceitos fundamentais da indução de tensão elétrica, de origem mocional,


em condutores. Apresentar alguns aspectos construtivos dos geradores de tensão. Deduzir
as equações da tensão induzida em bobinas. Avaliar o controle e o desempenho de
geradores de tensão alternada. Verificar a conversão eletromecânica de energia.

2. Motivação

As máquinas rotativas que utilizam a conversão eletromecânica de energia para gerar


tensão e fornecer energia elétrica produzem quase a totalidade da energia elétrica
consumida no planeta. Convertem a energia cinética em energia elétrica, em escalas de
potência que vão de dezenas de Volt-Ampere até centenas de MVA. A energia primária
pode vir da queda da água em uma represa ou da queima de combustível, da força dos
ventos ou das marés, ou de outros processos: não importa a fonte primária nem a escala de
potência, o princípio de funcionamento é o mesmo que será discutido neste texto.

3. Teoria
3.1 Resumo

• A tensão induzida-(3.2) é resultado do movimento relativo entre


condutores e campo de indução magnética. Fig.1; eq. (3) e (5).

• A forma de onda senoidal-(3.3) da variação da tensão induzida no


tempo é obtida com forma senoidal da variação do campo de indução
no espaço, ou seja, no entreferro do gerador. Fig. 3 e Fig. 4; eq. (8) e
(11).

• O número de pólos-(3.4) de um gerador define a proporção entre a


velocidade de rotação de seu eixo e a freqüência da tensão induzida
em suas bobinas. Fig. 6; eq. (16).

• O controle da tensão induzida-(3.5 e 3.10) é feito pela corrente de


excitação e pela velocidade de rotação, ou seja, pelo torque aplicado
ao eixo. Com o nível de excitação se controla o módulo da tensão.
Fig. 8; eq. (17). A velocidade é proporcional à freqüência da tensão
induzida.

2006 geradores página 1 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
• As fases de um gerador-(3.6) são construídas interligando-se
condutores do estator, adequadamente espaçados. Assim, cada fase
terá, ao menos uma bobina. Fig. 9 e 10; eq. (19) e (20).

• Os fasores das tensões-(3.7) têm o mesmo módulo e estão defasados


entre si de 2π/3 [rd]. Fig. 13; eq. 24.

O valor eficaz da tensão de fase é E = 4.44 fNφ max . As fases do


gerador podem ser ligadas em estrela ou em triângulo. Fig. 11.

• O circuito elétrico equivalente-(3.8) do gerador, em valores por fase,


é representado por uma fonte de força-eletromotriz, controlável pela
corrente de excitação, com uma impedância indutiva em série. Fig.
14.

• O ensaio em vazio e o ensaio em curto-circuito-(3.9) permitem


calcular a impedância do gerador e estabelecer a relação entre tensão
induzida e corrente de excitação. Fig. 15; eq. (27).

• A conversão eletromecânica de energia-(3.11) pode ser verificada no


torque desenvolvido pelo gerador, que é um torque resistente, ou
seja, contrário ao seu movimento.

3.2 Tensão induzida

A tensão elétrica pode ser induzida por variação do fluxo magnético [Wb] que atravessa
um contorno fechado ou pelo movimento de um condutor em relação a um campo de
r
indução magnética B [T].

O primeiro caso leva ao estudo dos transformadores, que tem como equação fundamental a
primeira equação de Maxwell:

r r d r r

C
E ⋅ d l = −
dt ∫S
B ⋅ dS [V] (1)

A segunda forma de indução produz uma força-eletromotriz denominada mocional, nome


que se deve ao fato de ser condição necessária a velocidade relativa diferente de zero. Nos
transformadores a força-eletromotriz é denominada variacional, pois resulta apenas da
variação temporal do fluxo magnético que atravessa a bobina, de acordo com a equação (1).

2006 geradores página 2 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

A diferença mais importante entre estes dois tipos de tensão induzida é a existência de
movimento relativo. Sem movimento não seria possível se estabelecer a conversão
eletromecânica de energia. Como você sabe, o trabalho mecânico é resultado do produto
escalar entre força e deslocamento, e o transformador, por não ter partes móveis, não pode
ser utilizado como conversor eletromecânico de energia.

Os geradores de tensão alternada são conversores eletromecânicos, projetados para produzir


uma forma de onda desejada de tensão elétrica mocional, em geral formas senoidais de
tensão. O princípio de funcionamento é obtido da relação de Lorentz:

r r r r
F = q( E + u × B) [N] (2)

r
onde u [m/s] é a velocidade relativa entre a carga elétrica q [C] e o campo densidade de
r
indução magnética B [T].

Note que nesta relação temos duas parcelas de força1 de origem eletromagnética: a força
r
eletrostática q E [N] , às vezes denominada força de Coulomb, e a parcela eletrodinâmica,
denominada força de Lorentz.

Podemos interpretar a relação de Lorentz também pela existência de campos elétricos de


r
duas origens distintas: o campo eletrostático E [V/m] e o campo elétrico induzido pelo
movimento. Este campo induzido é o que produzirá a tensão, ou força-eletromotriz dos
geradores. De fato, para um condutor de L [m] podemos escrever a força-eletromotriz
induzida como:

L r r L r r r
e = ∫ E ⋅ dl = ∫ (u × B ) ⋅ dl [V] (3)
0 0

Neste ponto, já temos duas conseqüências importantes:

• “O melhor aproveitamento da indução se dá com a velocidade , o


condutor e o vetor de campo ortogonais entre si. Por exemplo, um
gerador cilíndrico tem condutores dispostos na direção axial,
movimento tangencial (rotação) e vetor de campo radial”.

1
Fique atento para os diferentes significados da palavra força no contexto do eletromagnetismo. Temos a
força (mecânica) medida em Newton; a força-eletromotriz medida em Volt e a força-magnetomotriz medida
em Ampere-espira.

2006 geradores página 3 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
• “A forma de onda da tensão induzida é exatamente a mesma forma de
onda do campo magnético observada pelo condutor, pois o movimento
relativo é uniforme”.

Na situação de melhor aproveitamento, Fig.1, a tensão induzida pode ser escrita como:

e = BLu [V] (4)

       
            
                                  

A expressão (4) pode ser reescrita para evidenciar a dependência da forma de onda de
tensão com a forma de onda do campo de indução magnética:

e(t) = LuB(t) [V] (5)

note que esta é uma equação de grandezas escalares (u, B são módulos) pois os vetores
estão na condição mais favorável, de ortogonalidade. Vemos, então, que nestas condições
e(t) senoidal será possível apenas se B(t) for senoidal.

Dois requisitos fundamentais do projeto de geradores de tensão alternada são: a produção


da forma senoidal de B e do valor eficaz desejado de tensão. O primeiro requisito deve ser
atendido pelo projeto do circuito magnético, ou de magnetização do gerador. Quanto ao
nível de tensão, vale lembrar que u e B são grandezas relativamente limitadas, ou de
pequena capacidade de variação: os materiais ferromagnéticos saturam com valores de
indução em torno de 1.8 [T]; em termos práticos, B é da ordem de grandeza de 1 [T] e u é
um número da ordem de 100 [m/s], definido pela freqüência desejada para a tensão

2006 geradores página 4 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
alternada. É o projeto do enrolamento do gerador, ou seja, de suas bobinas e das
interligações entre elas, que define a quantidade L [m] da expressão (5) e, portanto, define
os níveis de tensão disponíveis em um gerador.

Finalizando esta análise do princípio de funcionamento dos geradores, caberia mais uma
interpretação da força-eletromotriz mocional: é resultado da polarização de um meio
condutor que se movimenta em relação a um campo de indução magnética. A Fig. 2
representa este conceito. Cargas livres positivas são deslocadas pela força de Lorentz em
sentido oposto ao das cargas negativas, resultando na tensão de polarização e [V].

                  
           
 

Se o circuito se fechar pela chave K, haverá circulação de corrente induzida com densidade:
r r r
J = σ (u × B ) [A/m2] (6)

sendo σ [S] a condutividade do meio. Esta equação é obtida aplicando-se a relação


r r
constitutiva de meios J = σE ao campo elétrico induzido pelo movimento. Entretanto, a

expressão (3) nos mostra que existirá tensão induzida mesmo sem suporte de meio material,

simplesmente como um resultado matemático.

2006 geradores página 5 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

3.3 Forma de onda senoidal

Vamos, inicialmente, imaginar um condutor retilíneo disposto segundo a direção x,


movendo-se com velocidade constante na direção y e permanecendo imerso em um meio
magnetizado segundo a direção z. Os três vetores que orientam condutor, velocidade e
campo são ortogonais entre si, de maneira que a expressão (4) pode ser utilizada.

Imagine agora que o módulo do vetor densidade de indução magnética varie ao longo da
trajetória do condutor, ou seja, varie apenas com a coordenada y e de maneira senoidal:

π
B ( y ) = B max sen( y ) [T] (7)
∆p

a quantidade ∆ p [m] é denominada passo polar pois representa o tamanho de um pólo


magnético, ou melhor, o intervalo necessário para que B(y) mude o sinal. Sendo esta função
alternada, convencionamos chamar norte e sul as regiões que tenham B com sinais opostos,
por exemplo, B > 0 [T] é propriedade do pólo norte. A linha que separa as duas regiões
magnéticas é denominada linha neutra , caracterizando-se pela propriedade B = 0 [T]. A
Fig. 3 ilustra esta situação.

      
               
        

2006 geradores página 6 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

O condutor c1 está na posição y = ut [m] e, portanto, observa e medirá B como função


dependente do tempo, assim como a tensão nele induzida:

π
e1 (t ) = B max uL ⋅ sen( ut ) [V] (8)
∆p

Neste ponto, podemos estabelecer duas importantes conclusões:

• “O módulo e a freqüência da tensão induzida são proporcionais à


velocidade dos condutores”

• “Um sistema de tensões de mesmos módulos e freqüência, mas que


estejam defasadas no tempo, poderá ser obtido a partir da defasagem, no
espaço, entre condutores”.

Para ilustrar a última conclusão, considere um segundo condutor, c 2 , em tudo semelhante


r r
ao primeiro e se movimentando com a mesma velocidade u = u ⋅ y [m/s], mas adiantado de
∆ c [m] em relação ao primeiro, de maneira que sua posição seja y = ut + ∆ c [m]. Então,

π
e 2 (t ) = Bmax uL ⋅ sen{ (ut + ∆ c )} [V] (9)
∆p

expressão que nos mostra que a defasagem espacial entre condutores resulta em defasagem
temporal entre tensões induzidas. Poderíamos, desde já, projetar uma situação na qual se
produzissem tensões trifásicas simétricas e equilibradas, ou seja, de mesma freqüência,
mesmo módulo e com a mesma defasagem entre duas tensões quaisquer. Precisaríamos de,
ao menos, três condutores, não é? A defasagem simétrica seria obtida impondo-se distância
2
entre condutores de ∆ c = ∆ p [m], resultando em defasagem, no tempo, de 2π/3 [rd].
3

Um sistema de translação, teórico como este que analisamos, nos ajuda a compreender o
processo de indução de força-eletromotiz mocional. Porém, exigiria para sua
implementação um meio magnetizado de extensão indefinida. Os geradores são
equipamentos eletromecânicos de rotação, com geometria cilíndrica que permite manter,
indefinidamente, o movimento relativo entre condutores e campo de indução magnética.

2006 geradores página 7 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
Temos apenas que adaptar as equações (7), (8) e (9) para o novo sistema de coordenadas,
tendo em vista a Fig. 4:

                           
     
       

• Preservamos a condição favorável de ortogonalidade com o seguinte arranjo: os


r r
condutores estão dispostos segundo a direção z, de maneira que dl = dl ⋅ z [m];
r r
o movimento de rotação resulta em velocidade tangencial u = uθ [m/s]; o
r r r r r
circuito de magnetização produz B = Br [T]. Assim, e = (u × B ) ⋅ dl [V] será
um número positivo quando sua polaridade apontar para dentro da página,
r r
conforme marcado na Fig. 4; a densidade de corrente induzida será J = J ⋅ z
[A/m2].

• O vetor densidade de indução magnética é radial. Seu módulo varia


senoidalmente ao longo do entreferro, devido à geometria do rotor que tem
pólos salientes. O valor medido por um observador que esteja no estator
dependerá da posição do próprio observador, marcada como θ [rd], e também
da posição do rotor, marcada como α [rd]. Então, a equação (7) se transforma
em

r r
B (θ , α ) = Bmax sen(θ − α ) ⋅ r [T] (10)

2006 geradores página 8 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
Façamos uma verificação: com o rotor em α = 0 [rd] a distribuição de indução
magnética no entreferro será B (θ ) = Bmax sen(θ ) [T]; os condutores e não


medirão nenhuma indução magnética pois se localizam, respectivamente, em


θ = 0 [rd] e em θ = π [rd]. Os condutores e medirão a indução máxima,
 

pois se localizam em θ = π / 2 [rd] e θ = 3π / 2 [rd]. A rigor, o condutor


r


medirá a indução máxima com sinal negativo, contrário ao sentido do versor r ,


pois se localiza na região do pólo sul. O condutor se localiza na região do


pólo norte, ao passo que e estão na linha (B = 0 [T]) que demarca os




limites dos pólos norte e sul. Se o rotor se movimentar toda a distribuição


B (θ , α ) se movimenta, incluindo-se, é claro, os pólos norte e sul. Faça um
desenho para α = π / 2 [rd] e determine a indução magnética nos condutores.

• Se o rotor se movimentar em movimento circular uniforme de velocidade Ω


[rd/s], sua posição será marcada por α = Ωt [rd]. Então, as equações (8) e (9) se
transformam em (foi adotado um valor de raio médio rm [m] ):

e1 (t ) = − B max Ωrm L ⋅ sen(Ωt )

π
e 2 ( t ) = B max Ωrm L ⋅ sen ( − Ωt )
2

e 3 (t ) = B max Ωrm L ⋅ sen(Ωt )

π
e 4 (t ) = − B max Ωrm L ⋅ sen( − Ωt ) [V] (11)
2

que são as tensões induzidas nos condutores da Fig. 4. Note que o movimento
relativo existe se o rotor girar em sentido horário e os condutores permanecerem
estacionados, ou se imaginarmos o rotor estacionário e os condutores se
r r
movendo com velocidade periférica u = −Ωrmθ [m/s], ou seja, no sentido anti-
horário. É o movimento dos condutores que devemos considerar para aplicação
de (3).

A Fig. 5 é uma representação retificada da interação entre condutor e campo no entreferro


π 1
do gerador, no instante t = ⋅ [s]. Confira a polaridade das tensões induzidas neste
4 Ω
instante. Nesta figura, Ω e u representam, é claro, o mesmo movimento relativo entre
condutores e campo.

2006 geradores página 9 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

B (θ , t )
       
  
              
            
        

De maneira semelhante ao sistema de translação, confirmamos também no caso rotativo


que a defasagem espacial de condutores produz defasagem temporal entre as tensões
induzidas e que o módulo e a freqüência das tensões induzidas são proporcionais à
velocidade, neste caso velocidade angular.

Outro ponto importante a se observar na Fig.5 é que o gráfico B(θ) se move no sentido
θ > 0 com velocidade constante Ω [rd/s]. A equação (10) pode ser escrita, em módulo,
como

B (θ , t ) = Bmax sen(θ − Ωt ) [T] (12)

que é a equação de uma onda que se propaga com amplitude constante, ou seja, sem
atenuação, no sentido de θ positivo. Na teoria das máquinas elétrica, a expressão (12) é
denominada campo girante de induções.

3.4 Influência do número de pólos

O passo polar, nas máquinas rotativas, é medido em ângulo: no exemplo que analisamos
temos ∆ p = π [rd], pois o gerador tem 2 pólos e dizemos que cada pólo tem o “tamanho” π

2006 geradores página 10 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
[rd]. Comparando (8) e (10) vemos que π / ∆ p = 1 . Em um gerador com 4 pólos teríamos
∆ p = π /2 [rd], ou seja, cada um dos pólos “mediria” π/2 [rd].

Nos geradores com 4 pólos, a expressão (10) se modifica para

B (θ , α ) = Bmax sen{2(θ − α )} [T] (13)

pois temos π / ∆ p = 2 .

O movimento do rotor produz o campo girante de induções com 4 pólos. A expressão (12)
modifica-se para

B (θ , t ) = B max sen(2θ − 2Ωt ) [T] (14)

A multiplicidade de pólos tem efeito direto na freqüência das tensões induzidas. Vemos em
(14) que a freqüência angular da tensão induzida será o dobro da velocidade angular do
rotor. Utilizando a letra minúscula para diferenciar as duas grandezas, temos:

       

Quanto à defasagem entre as tensões induzidas, podemos ver em (14) que haverá a mesma
proporção dupla, ou seja, o condutor , localizado em θ = 0 [rd], e o condutor ,


localizado em θ = π [rd], observam exatamente o mesmo campo magnético em qualquer


instante de tempo, Fig. 6. É como se a “volta magnética” inteira ocorresse com apenas meia
“volta geométrica”. Mais precisamente: em qualquer instante de tempo, o período da
distribuição B(θ) se reduziu à metade.

2006 geradores página 11 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

    
                               
          

Vemos em (15) que um gerador com 4 pólos deve girar com velocidade [rd], que     

corresponde a 1800 rotações por minuto, para gerar tensão na freqüência 60 [Hz]. Um
gerador com 2 pólos deveria girar a 3600 [rpm].

É fácil estabelecer a proporção entre as grandezas elétricas ω [rd/s] e f [Hz] e as grandezas


mecânicas  

ções/s]. Como você sabe, os pólos magnéticos sempre existem


        

aos pares, então, denominando p como número de pares de pólos temos:

ω = pΩ
f = pn (16)

A escolha do número de pólos de um gerador é uma das etapas de seu projeto e depende de
diversos fatores. Há casos em que se impõe um limite para a velocidade: máquinas de
grande porte não devem girar em altas rotações, pois os esforços mecânicos seriam muito
intensos. Por exemplo, os hidrogeradores da usina de Itaipu produzem tensão em 60 [Hz]
girando a 90 [r.p.m]. Quantos pólos?

2006 geradores página 12 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

3.5 Circuito magnético e controle da tensão induzida

A expressão (10) mostra que a distribuição da densidade de indução magnética no


entreferro não é uniforme. Na verdade, planejamos isso para obter tensão induzida com
forma de onda senoidal. Em termos de mapa de campo, há uma concentração de linhas de
força, ou linhas de campo, em torno do eixo direto por ser esta região a que tem menor
comprimento de entreferro, ou seja, oferece a menor relutância na passagem do fluxo
magnético.

O eixo em quadratura, que está separado do eixo direto por ∆θ = π/2 [rd] nas distribuições
com dois pólos, marca os limites das regiões de pólos norte (B > 0 [T]) e sul (B < 0 [T]).
Sendo a função B(θ) contínua, temos no eixo em quadratura B = 0 [T].

Então, do eixo direto ao eixo em quadratura, o módulo de B varia do valor B max a 0 [T]
senoidalmente. A Fig. 7 mostra, por meio do mapa de campo, esta situação. Lembre-se que
Wb
a unidade de B é Tesla ou 2 , portanto, é representado como uma densidade de linhas. Os
m
mapas de campo são desenhados para representar a mesma quantidade de fluxo magnético
entre quaisquer duas linhas de força vizinhas.

B (θ )
                           
         
        


    
         
                 
  
     

2006 geradores página 13 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
A concentração de fluxo magnético em torno do eixo direto é obtida pela variação do
entreferro, uma vez que se tem uma única bobina de excitação: menor o entreferro, maior a
quantidade de fluxo magnético e maior a densidade de linhas de força. As máquinas com
este tipo de geometria são denominadas geradores com pólos salientes.

É possível obter-se distribuição senoidal da densidade de indução mesmo que o entreferro


seja uniforme, constante. Isto ocorre nos geradores com pólos lisos, nos quais o rotor é um
cilindro ferromagnético. Para tanto, deverá haver mais de uma bobina de excitação;
distribuindo-se as bobinas no rotor de maneira que as suas forças-magnetomotrizes se
concentrem no eixo direto. Neste caso, também ilustrado pela Fig. 7, o conceito aqui é:
mais força-magnetomotriz atuando na região, maior a quantidade de fluxo magnético que
passa por essa região.

A escolha entre gerador com pólos lisos ou salientes é uma das etapas de projeto,
dependendo de diversos fatores. Um dos fatores é a velocidade de rotação do eixo: em altas
rotações, para máquinas de grande porte, os geradores de rotor cilíndrico são mais
recomendados por produzirem menor esforço mecânico no eixo. Os de pólos salientes têm
concentração de massa nos pólos, aumentando a força centrífuga.

Finalmente, devemos observar que a corrente de excitação, que circula nas bobinas do
rotor, determina o estado de magnetização dos geradores: a amplitude B max é função
crescente de i exc . A relação é não-linear, devido à saturação do material ferromagnético,
como mostra a Fig. 8.

      
   
    
         
                   
  

A amplitude da tensão induzida nos condutores, conforme (11), é

E cmax = Bmax L(Ω ⋅ rm ) [V] (17)

2006 geradores página 14 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
a velocidade Ω é definida pela freqüência desejada, portanto, o controle do nível de tensão
é feito pela corrente de excitação. Estes são os dois tipos de controle de um gerador de
tensão alternada: o controle de freqüência, que atua na velocidade do eixo; e o controle de
tensão, que atua na corrente de excitação.

Existem geradores nos quais se utilizam imãs permanentes em substituição à bobina de


excitação. Nestas máquinas não há controle de tensão.

3.6 Tensão induzida em bobinas: fases de um gerador

Nas análises feitas até aqui, consideramos os condutores separadamente para investigar a
amplitude, a freqüência e a forma de onda da tensão induzida. Vamos agora interligá-los
para formar as bobinas do estator e para que a corrente elétrica induzida possa circular.

Considerando a situação da Fig. 4, podemos obter duas bobinas ligando em série - e




 - . A Fig. 9 representa a primeira bobina e as polaridades das tensões induzidas em




seus condutores, durante o intervalo 0 < Ωt < π / 2 [rd].

Estas duas bobinas terão a mesma amplitude de tensão induzida:

E max = 2 Bmax ΩLrm [V] (18)

pois temos, de acordo com (11), e1 (t ) = −e 3 (t ) e e 2 (t ) = −e 4 (t ) . Note que estas são as


“melhores” bobinas possíveis, ou seja, as que produzem a máxima tensão. Isso se deve ao
fato de existir entre as tensões em cada lado da bobina a defasagem de π [rd]. Verifique,
com ajuda da expressão (11), que a interligação de com também produziria uma


bobina, porém a amplitude da tensão nela induzida seria menor que o valor dado em (20).

2006 geradores página 15 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

                        
  
             


Com estas duas bobinas configuramos um gerador difásico elementar, que apresenta as
duas tensões de fase :

e13 (t ) = E max sen(−Ωt )


π [V] (19)
e 24 (t ) = E max sen( − Ωt )
2

Através dos seus 4 terminais, poderíamos alimentar impedâncias elétricas como se fossem
dois geradores independentes; ou com as suas duas bobinas interligadas por um ponto
comum, formar um sistema difásico de tensões.

Um gerador trifásico elementar é obtido de maneira semelhante: 6 condutores,


simetricamente espaçados por π/3 [rd], e interligados para formar 3 bobinas. A interligação
deve ser feita para se obter a maior amplitude possível de tensão na bobina, ou seja, em
configuração com 2 pólos devemos interligar condutores diametralmente opostos. A Fig. 10
mostra um corte transversal do gerador trifásico, no qual as ranhuras estão identificadas por
letras. As suas três bobinas são A-A’, B-B’ e C-C’, com as três tensões de fase:

2006 geradores página 16 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
e AA" (t ) = E max sen(−Ωt )

e BB ' (t ) = E max sen( − Ωt ) [V] (20)
3

e CC ' (t ) = E max sen( − Ωt )
3

     

          
        
 

As interligações usuais para as bobinas de um gerador trifásico são duas: a ligação estrela,
também chamada ligação Y; e ligação triângulo, também chamada ligação delta ( ∆). A
Fig. 11 representa as ligações.

Como você sabe, nos circuitos elétricos trifásicos são definidas tensões de linha e tensões
de fase; e também correntes de linha e correntes de fase. A palavra linha deve ser
entendida como o fio que liga o gerador à carga elétrica, conforme a Fig. 11. Assim,

• “Na ligação estrela, a corrente de linha é a mesma que circula nas


fases do gerador. A tensão de linha vale V Linha = 3 ⋅ V Fase ”

• “Na ligação delta, a tensão de linha é a mesma induzida nas fases do


gerador. A corrente de cada linha se divide entre duas fases do
gerador, de acordo com I linha = 3 ⋅ I Fase ”

2006 geradores página 17 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

Para verificar a relação entre tensões, calcule a partir de (20) a tensão


v AB (t ) = e AA' (t ) − e BB ' (t ) . Confirme que sua amplitude é V ABmax = 3 ⋅ E max .

                               
            
     

Finalmente, vejamos que a tensão induzida nas bobinas de um gerador pode ser obtida da
Lei de Faraday, ou da equação (1), exatamente como no caso dos transformadores. Para
isso, precisamos calcular o fluxo concatenado com uma bobina e derivá-lo em relação ao
tempo. Tomemos como exemplo a bobina AA’ que tem os seus extremos nas posições θ =
0 [rd] e θ = π [rd]:

• A bobina é plana, e sobre seu plano se apóia uma calha cilíndrica de altura L
[m] que é a profundidade do desenho, como mostra a Fig. 12.

• O plano da bobina e a calha cilíndrica formam uma superfície fechada, de


maneira que o fluxo magnético que atravessa a bobina é o mesmo que
r
atravessa a calha (não há fluxo pelas “tampas”, pois B é um vetor radial).
r
• A vantagem de se calcular o fluxo na calha cilíndrica é que B é normal a
r r
essa superfície, resultando em B ⋅ dS = B ⋅ dS [Wb]

• Então o fluxo que atravessa a bobina, de acordo com a orientação da


0
superfície cilíndrica é, φ AA ' (α ) =
−π
∫B max sen(θ − α ) Lrm dθ [Wb], pois o

elemento de área cilíndrica é dS = Lrm dθ [m2], e a integração deve ser feita


no sentido positivo de θ.

2006 geradores página 18 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

           
                        
       
              

O fluxo concatenado com qualquer bobina do estator depende da posição α [rd] do rotor,
pois o mapa de campo está “fixado” ao rotor. Com o rotor em movimento, o fluxo
concatenado dependerá do tempo:

0
φ AA ' (t ) = ∫ B max Lrm sen(θ − Ωt ) ⋅ dθ
−π

φ AA ' (t ) = −2 Bmax Lrm cos(Ωt ) = −φ max cos(Ωt ) (22)


dφ AA'
e AA ' (t ) = − = 2 B max ΩLrm sen(−Ωt )
dt

O resultado é o mesmo das expressões anteriores, mas devemos lembrar que tratamos de
uma força-eletromotriz de natureza mocional: a variação do fluxo magnético concatenado
com a bobina se deve ao movimento do rotor.

Podemos verificar a lei de Lenz: no instante inicial, t = 0 [s], representado na Fig. 4, vemos
que a bobina A-A’ concatena o seu máximo fluxo magnético, porém com sinal negativo,
em desacordo com a orientação dada à bobina. O movimento do rotor provocará, portanto,
um aumento do fluxo concatenado. A tensão é induzida na bobina para reagir a esse
aumento de fluxo. Será uma tensão que cresce negativamente, como mostra (22). Em outras
palavras, a corrente induzida circulará no sentido A’-A para impedir a variação do fluxo
magnético concatenado.

Note, ainda, que a escolha da “melhor bobina possível” aparece agora nos extremos de
integração de (22). A bobina que produz a maior amplitude de tensão induzida é

2006 geradores página 19 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
denominada bobina de passo pleno, pois tem exatamente o mesmo “tamanho” de um pólo
∆ p = π [rd]. Bobinas menores têm o passo encurtado e, por serem menores que o pólo,
concatenam menor quantidade de fluxo magnético, reduzindo a amplitude da tensão
induzida.

3.7 Representação geométrica e fasorial dos fluxos e das


tensões

O fluxo magnético que atravessa as bobinas do gerador pode ser calculado como sendo o
fluxo de um vetor girante através da superfície plana das bobinas. É um procedimento
bastante simples que resume os resultados das deduções anteriores:

• A distribuição senoidal e girante de indução magnética no entreferro do


gerador pode ser representada por um vetor de módulo B max [T] que gira
com velocidade angular Ω [rd/s].

• O valor instantâneo do campo magnético medido em um ponto P, situado na


posição θ P [rd] é obtido com a projeção (produto escalar) deste vetor na
direção do vetor raio em P. Com isso recuperamos a função (12), se
considerarmos que a posição inicial do vetor girante é θ = π/2 [rd]. Verifique
para os pontos da Fig.13 quais seriam as funções B (t ) . Por exemplo, se
θ P = 0 [rd], ponto A, temos que o ângulo entre o vetor girante e o raio até A
π π
vale ( + Ωt ) , portanto, a projeção do vetor será B (0, t ) = Bmax cos( + Ωt )
2 2
o mesmo valor que se obtém com (12).

• O fluxo concatenado com uma bobina será obtido pela projeção do vetor
girante na direção normal ao plano da bobina, o que significa executar o
r r
produto escalar B ⋅ dS em cada bobina. Assim, por simples inspeção,
podemos escrever:

φ AA ' (t ) = φ max cos(π − ωt ) [Wb]



φ BB ' (t ) = φ max cos(π − ωt + ) [Wb]
3

φCC ' (t ) = φ max cos(π − ωt + ) [Wb] (23)
3

2006 geradores página 20 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

com a freqüência angular ω = pΩ [rd/s], para o caso mais geral de gerador com 2p pólos. O
valor φ max é obtido com o vetor girante na posição normal à superfície da bobina,
resultando φ max = Bmax S = B max L(2rm ) [Wb], como em (22).

    
    
                
             
        

Derivando (23), de acordo com a lei de Lenz, obtemos as tensões trifásicas do gerador, com
as bobinas equilibradas, ou seja, de mesmo número de espiras N:

e AA" (t ) = Nωφ max sen(−ωt )



e BB ' (t ) = Nωφ max sen( − ωt ) [V] (24)
3

e CC ' (t ) = Nωφ max sen( − ωt )
3

o mesmo resultado de (20). Em notação fasorial temos:

2006 geradores página 21 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

•        
   
                       

)
φ = φ max ∠ϕ [Wb]

Para o exemplo analisado, as fases (temporais) dos fluxos concatenados com as bobinas
são: ϕ AA' = π [rd]; ϕ BB ' = −π / 3 [rd] e ϕ CC ' = π / 3 [rd].

•                             

)
E = E max ∠δ [V]

para o exemplo analisado, as fases (temporais) das tensões induzidas são: δ AA' = π / 2 [rd];
δ BB ' = −5π / 6 [rd] e δ CC ' = −π / 6 [rd].

O diagrama de fasores representando fluxos concatenados e tensões induzidas está na Fig.


13. Note que os valores instantâneos de (23) e (24) podem ser obtidos pela projeção dos
fasores na direção do eixo de referência de fase2.

Finalmente, podemos calcular o valor eficaz das tensões induzidas nas fases do gerador
E = E max / 2 . Substituindo ω por 2πf em (24), temos:

E = 4.44 fNφmax [V] (25)

Nesta expressão vemos, mais uma vez, que o valor eficaz da tensão induzida depende (em
f) da velocidade de rotação do gerador e do nível de magnetização (em φ max ).

3.8 Circuito elétrico equivalente

Interligando-se adequadamente as bobinas tem-se um sistema trifásico de tensões


simétricas (mesma defasagem) e equilibradas (mesmo módulo). A Fig. 14 representa tal

2
A palavra “fase” é utilizada tanto para se referir a um conjunto de bobinas do gerador quanto para o
argumento de uma função senoidal

2006 geradores página 22 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
sistema: com três geradores independentes ligados em Y, cada um equivalente a uma fase
do gerador original, e alimentando uma impedância trifásica igualmente simétrica,
equilibrada e ligada em Y.

Nestas condições de simetria e equilíbrio, podemos analisar um circuito monofásico


denominado circuito equivalente por fase. As grandezas trifásicas são depois recuperadas.

      
         
      
    

A impedância por fase do gerador tem característica indutiva. Na maior parte das análises,
o componente real da impedância é desprezado, resultando na reatância síncrona como
sendo a impedância interna do gerador. O seu símbolo é X S .

Como em todo gerador, o valor da impedância interna pode ser calculado dividindo-se a
tensão em vazio pela corrente de curto-circuito. Entretanto, sabemos que a tensão em vazio
é resultado da força-eletromotriz induzida nos condutores do estator, a qual depende da
corrente de excitação. Da mesma forma, com o gerador em curto-circuito, aumentando-se a
corrente de excitação aumenta a corrente de curto-circuito. Então:

E0
XS = iexc = cte
[Ω] (27)
I CC

A notação utilizada significa que os valores de tensão em vazio e de corrente de curto-


circuito devem ser tomados com a mesma corrente de excitação. Todos os valores de (27)
são valores de fase, às vezes se diz que a “unidade” de X S é       

2006 geradores página 23 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

Outro cuidado que devemos ter na determinação da reatância síncrona é com a freqüência
da tensão induzida (25). Na maior parte das análises, nos referimos a uma reatância
calculada para as condições nominais do gerador: tensão nominal e freqüência nominal.

3.9 Ensaio em vazio e ensaio em curto-circuito

Estes dois ensaios permitem obter características do circuito magnético e calcular a


impedância interna do gerador. Devido às condições de simetria e equilíbrio, as medidas
podem ser feitas em apenas uma das fases do gerador.

No ensaio em vazio determina-se a curva característica de saturação em vazio, ou seja, o


gráfico ( E 0 × I exc ). A máquina é posta a girar com velocidade constante, medindo-se os
valores eficazes da corrente de excitação e da tensão induzida. Note, na Fig. 15, o efeito da
saturação do material ferromagnético e a influência da velocidade de rotação do gerador.

          

    
           
     
 

No ensaio em curto-circuito, a máquina é posta a girar com velocidade constante, medindo-


se os valores eficazes da corrente de excitação e da corrente de curto-circuito. Com isso,
podemos construir a curva característica de curto-circuito, ou seja, o gráfico ( I CC × I exc ).
Note, na Fig. 15, que a característica é linear e independente da freqüência. Por quê?

2006 geradores página 24 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________
A reatância síncrona pode ser calculada com os resultados desses ensaios. As duas curvas
características são desenhadas em um mesmo gráfico. As linhas tracejadas da Fig. 16
representam a seqüência de leitura e cálculo: E 0 → I exc → I CC → X S .

3.10 Características de desempenho: controle de tensão e de


freqüência

A regulação de tensão é definida e medida com o mesmo procedimento utilizado nos


transformadores. Mas, nos geradores é possível ajustar a força-eletromotriz por meio da
corrente de excitação, e, dentro de certos limites, corrigir a tensão de saída. Vejamos um
exemplo de cálculo para um gerador trifásico com as seguintes características nominais:
ligação Y, 60 [HZ], 230 [V], 4 polos, reatância síncrona 20 [Ω]. Alimenta uma carga
trifásica resistiva, ligada em estrela, com tensão de linha aplicada de 200 [V]. Nestas
condições, a carga consome potência ativa total de 2000 [W] e a corrente de excitação do
gerador está ajustada em 0.8 [A]. Na Fig. 16 está a solução gráfica para o problema:

                          
        
  

A equação do gerador é:
) ) )
E 0 = Va + jX S I a [V] (28)
)
Adotando-se a fase da tensão de armadura3 Va como referência resulta:
) 200
E0 = ∠0 + j 20 ⋅ (5.77∠0) = 163.25∠45 o [V].
3

163.25 ⋅ 3 − 200 86
A regulação do gerador nesta condição de carga é ℜ = = = 43%
200 200
3
A palavra “armadura” é utilizada para designar o circuito de potência das máquinas elétricas. Em outra
parte, tem-se o circuito de “excitação”, ou “campo”, que se refere ao controle do gerador.

2006 geradores página 25 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

Ajustando a corrente de excitação, podemos elevar a tensão na carga a 230 [V]. A corrente
de armadura aumentará proporcionalmente à tensão de armadura, pois a impedância de
carga é constante, então:

) 230
E0 = ∠0 + j 20 ⋅ (2.3 × 5.77∠0) = 296.78∠63 o [V]
3

A curva de saturação em vazio nos forneceria a corrente de excitação necessária. Se o


circuito magnético do gerador não saturasse, a força-eletromotriz induzida seria
296.78
proporcional à corrente de excitação, resultando em I exc = 0.8 × = 1.45 [A].
163.25

Portanto, o controle da corrente de excitação, ou da excitatriz, permite controlar o nível de


tensão na carga.

O torque, ou conjugado, necessário para se alimentar a carga pode ser calculado pelo
princípio de conservação da energia (ou da potência ativa): desprezando-se a resistência
elétrica das bobinas e o atrito no movimento de rotação, o gerador pode ser considerado um
conversor eletromecânico de rendimento 100%. Então,

C ⋅ Ω = Pmecãnica = Pelétrica = 3Va I a cos ϕ [W] (29)

O gerador tem 4 pólos e gera tensão em 60 [Hz], então Ω = 60π [rd/s]. Com a tensão de
carga em 200 [V] devemos aplicar no eixo do gerador torque de 2.65 [N.m]. Elevando-se a
tensão para 230 [V], aumenta a potência dissipada na carga e o torque necessário será 14
[N.m].

Se aumentássemos a corrente de excitação sem alterar o torque, o sistema eletromecânico


buscaria um ponto de equilíbrio diminuindo a velocidade, na tentativa de não aumentar a
tensão. A equação (29) determina o ponto de equilíbrio entre o motor, que aplica torque ao
eixo, e o gerador, que fornece potência à carga. Não seria possível aumentar a potência
ativa de saída sem aumentar a potência ativa de entrada.

3.11 Conversão eletromecânica de energia

A equação (29) pode ser entendida pelo princípio da ação e reação: ao fornecer potência
ativa à carga (elétrica), o gerador reage com torque negativo, contrário ao sentido de
rotação, caracterizando-se assim como um receptor de energia mecânica (uma carga
mecânica). É necessário, portanto, aplicar um torque externo que anule essa reação e
mantenha a velocidade constante.

2006 geradores página 26 de 27


PEA 2211 – Introdução à Eletromecânica e à Automação

GERADORES DE TENSÃO ALTERNADA


___________________________________________________

A conversão eletromecânica de energia se dá exatamente por esse mecanismo de reação, e


de acordo com a equação:

C reação ⋅ Ω + 3Va I a cos ϕ = 0 [W] (30)

O termo mecânico, por representar energia que entra no conversor, é negativo. Quando a
conversão de energia se dá no sentido elétrico-mecânico, como no caso dos motores
elétricos, o termo mecânico é positivo e a reação vem pela tensão induzida no sentido
contrário ao fluxo da corrente elétrica (força contra-eletromotriz induzida).

A Fig. 2 pode ser utilizada para explicar este fenômeno: ao se fechar a chave K, haverá
circulação de corrente elétrica. A força de Lorentz (2) em um fio percorrido por corrente
elétrica é:

r r r
F = i (dl × B ) [N] (31)

que aplicada a um gerador produz força resistente, ou seja, contrária ao movimento.

Portanto, a expressão (30) representa uma média das forças, ou torques de reação que
aparecem em todos os condutores do estator de um gerador, quando ele está “em carga”, ou
seja, fornecendo potência. Um caso curioso, no qual esta média é nula, é o de se alimentar
uma carga puramente reativa, seja capacitiva ou indutiva. Sem a parte real da impedância
não há fluxo de potência ativa e, portanto, o torque deve ser nulo. Resolva o exercício
)
apresentado tomando I a = 5.77∠ − 90 o [A], e compare os resultados: a regulação deve
aumentar, pois carga indutiva desmagnetiza o gerador, e o gerador se mantém girando a
velocidade constante sem a necessidade de se aplicar torque, pois adotamos um modelo
ideal, sem perdas elétricas (resistência das bobinas é nula) e sem perdas mecânica (o
movimento pode se manter por inércia, pois o atrito é nulo).

2006 geradores página 27 de 27