Você está na página 1de 22

Accelerat ing t he world's research.

03 IARA Simmel versao final


Marina Magalhães

Related papers Download a PDF Pack of t he best relat ed papers 

Passagens sobre o moderno na cidade de Georg Simmel


Felipe Ziot t i Narit a

Dedicado ao Oct ávio Ianni, in memoriam


Fábio Pinheiro

Simmel, t ranslat ion and advent ure


Cadernos de Tradução
GEORG SI M M EL SOBRE A M OD A – UM A AULA 1

Leopoldo Waizbort

Dout or em Sociologia e Professor do Depart am ent o de Sociologia - Universidade de São Paulo

waizbort @usp.br

RESUM O

O t ext o apresent a um a aula sobre a sociologia da m oda de Georg Sim m el. Nesse sent ido,

procura, de m odo didát ico, m ost rar as principais linhas de força da sociologia da m oda

sim m eliana, suas conexões m ais básicas com o pensam ent o de Sim m el em geral, alguns nexos

hist óricos que a inform am e, por fim , seus principais aport es.

Pa la vr a s- ch a ve : sociologia da m oda, m oda, Georg Sim m el, m oderno, diferenciação social,

individualism o.

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 1
É conhecida a afirm ação, segundo a qual em Baudelaire a experiência hist órica do

m oderno se am algam a com a experiência est ét ica do m oderno ( Haberm as, 1991, pp. 17 ss.) .

Essa am álgam a põe em dest aque o fat o hist órico significat ivo de que o problem a da

aut ofundam ent ação do m oderno form ulou- se inicialm ent e no âm bit o da est ét ica e m ais

precisam ent e na crít ica de art e – um a crít ica de art e na qual a m oda aparecia com o a pont a de

lança, a plat aform a m at erial e a form a fenom ênica por excelência do problem a que se queria

abordar.

Só a m oda revelava em t oda a linha o sent ido de at ualidade que brot ava dessa nascent e

concepção de m oderno. O present e não ganha sent ido na oposição ao passado, m as som ent e no

ent recruzam ent o do efêm ero e do et erno. Nada expõe t al ent recruzam ent o de m odo t ão enfát ico

com o o conhecido poem a “ A une passant e” ( Baudelaire, 1982, p. 101) .

La rue assourdissant e aut our de m oi hurlait .

Longue, m ince, en grand deuil, douleur m ej est euse,

Une fem m e passa, d’une m ain fast euse

Soulevant , balançant le fest on et l’ourlet ;

Agile et noble, avec sa j am be de st at ue.

Moi, j e buvais, crispé com m e un ext ravagant ,

Dans son oeil, ciel livide où germ e l’ouragan,

La douceur qui fascine et le plaisir qui t ue.

Un éclair... puis la nuit ! – Fugit ive beaut é

Dant le regard m ’a fait soudainem ent renaît re,

Ne t e verrai- j e plus que dans l’ét ernit é?

Ailleurs, bien loin d’ici! t rop t ard! j am ais peut - êt re!

Car j ’ignore où t u fuis, t u ne sais où j e vais,

O t oi que j ’eusse aim ée, ô t oi qui le savais!

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 2
Tudo o que foi clássico envelheceu, cada época cunha seu próprio classicism o, seus

parâm et ros não podem ser dados de ant em ão. 2 Port ant o, o que vale é precisam ent e um senso de

at ualidade, que est abelece seus parâm et ros ( ao invés de t om á- los de out ra época) e que é

conscient e de sua hist oricidade, vale dizer t ransit oriedade. Som ent e a m oda sint et iza, sim boliza e

concret iza à perfeição esses sent idos, e por essa razão Baudelaire soube elevá- la a elem ent o

fundant e da aut oconsciência do m oderno.

Cada obra de art e do pint or da vida m oderna é um inst ant âneo, est á presa ao m om ent o,

que lhe confere at ualidade, m as ao m esm o t em po com ele se esvai. Seu t eor est ét ico, por out ro

lado, garant e- lhe a et ernidade.

Seria possível – e para o sociólogo necessário – cont ra- argum ent ar que um a t al

reform ulação do conceit o de m oderno privilegiaria por dem ais a dim ensão est ét ica, da qual brot a,

e com isso t raria consigo m ales de origem , a saber, precisam ent e um cert o carát er rest rit ivo, e

com isso não responderia às quest ões m ais am plas do m oderno t out court –, sobret udo, àquelas

dim ensões que se afast am das experiências est ét icas; o conj unt o, am plo e com plexo, das

experiências do m oderno que não se deixariam reduzir, ou exprim ir, nos regist ros, nas

m odalidades e nas form as da experiência est ét ica. Ent ret ant o, se um m undo com plexo a

dim ensão est ét ica est á circunscrit a a um dom ínio funcional e/ ou percept ivo que se expande e

t ransform a, ela não obst ant e não se iguala ou reduz à t ot alidade. Seria possível, nesse sent ido,

alcançar um pont o de vist a da t ot alidade? Ou, para form ular problem as por out ro cam inho:

haveria dim ensões, ext ra- est ét icas ou supra- est ét icas, nas quais o m oderno se concret izaria?

Com ecem os pelo m esm o Baudelaire. Em um passo m uit o cit ado e conhecido, o poet a

cham ava a at enção para a denom inação do pint or da vida m oderna, ou m elhor, para as

denom inações possíveis: " Observat eur, flâneur, philosophe, appelez- le com m e vous voudrez;

( ...) il est le peint re de la circonst ance et de t out ce qu’elle suggère d’ét ernel” ( Baudelaire, 1982,

p. 550) . Para Baudelaire, im port a m enos se se t rat a de um observador, de um flâneur, de um

filósofo ou m esm o de um econom ist a. Por essa razão, t alvez sej a int eressant e e legít im o que o

sociólogo reivindique para si um a ent rada nesse rol. Não desem penharia ele, m elhor do que

t odos, esse papel?

Um bom encam inham ent o oferece Georg Sim m el. Em seus est udos, desde a década de 1890,

Sim m el revela um a afinidade surpreendent e com os problem as form ulados por Baudelaire nos

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 3
anos 50- 60. Esses est udos confluem no livro que Sim m el publica em 1900, int it ulado Philosophie

des Geldes. Ao final desse livro, ao t ent ar sint et izar alguns dos problem as abordados, Sim m el

converge seus esforços na análise da im agem de m undo que sint et izaria o m undo m oderno:

Um a análise m ais det ida do conceit o de fixidez e alt eração m ost ra um a dupla oposição

no m odo com o ele se efet iva. Se vem os o m undo a part ir de sua subst ância, chegam os

facilm ent e à idéia de um hen kai pan [ o um e o t odo; o uno e a t ot alidade] , de um ser

inalt erável, que m ediant e a exclusão de t odo aum ent o ou dim inuição confere às coisas o

carát er de um a fixidez absolut a. Se por out ro lado se observa a conform ação dessa subst ância,

ent ão a fixidez é absolut am ent e superada nessa configuração, um a form a se t ransform a

incessant em ent e em out ra e o m undo oferece o espet áculo de um perpet uum m obile. I st o é o

duplo aspect o da exist ência, cosm ológico, freqüent em ent e int erpret ado em seu carát er

m et afísico. Ent ret ant o, no int erior de um a em piria sit uada profundam ent e, a oposição ent re

fixidez e m ovim ent o se dist ribui de out ro m odo. Se nós considerarm os a im agem de m undo,

t al com o ela se oferece im ediat am ent e, consideram os precisam ent e cert as form as, que

persist em ao longo de um t em po, enquant o os elem ent os reais, que as com põem , encont ram -

se em m ovim ent o cont ínuo. ( ...) Por conseguint e a própria realidade est á aqui em fluxo

infat igável, e enquant o nós, em virt ude de um a por assim dizer falt a de acuidade visual, não

som os capazes de const at ar esse fluxo, as form as e const elações dos m ovim ent os se

consolidam no fenôm eno de um obj et o duradouro ( Sim m el, 1991, pp. 711- 712) .

Tem os aqui um a apresent ação do que Sim m el, em out ro cont ext o, denom inou

“ inst ant âneos sub species aet ernit at is” : configurações m om ent âneas de um com plexo de

m ovim ent os, que por assim dizer se congelam na form a – m esm o que aqui o t erm o

'm om ent âneas' possa significar t em poralm ent e m ais do que supom os de início. A análise das

form as é pois um a análise de inst ant âneos paralisados, em suspensão, de um processo que é

capt ado em um cert o m om ent o e no qual a t arefa do invest igador é perceber o m ovim ent o que

est á por det rás da fixidez. E, em m esm a m edida, é preciso perceber a fixidez que est á por det rás

do m ovim ent o. Trat a- se de um processo com plexo e de m ão- dupla. Por isso, sua t arefa requer

“ acuidade visual” , “ percepção para o det alhe” , “ sensibilidade” .

Se as form as são crist alizações de processos e, port ant o, de m ovim ent os, t em os aqui um a

chave para lerm os a sociologia sim m eliana. Se ela se pret ende um a invest igação acerca das

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 4
form as de socialização, invest iga as m odalidades em que a socialização, que se dá at ravés de

int erações, acaba por se crist alizar. A t arefa da sociologia é, port ant o, não apenas analisar as

form as enquant o t ais com o, por det rás delas, perceber com o elas são result ados e configurações

hist óricas ( port ant o m om ent âneas, m esm o que de longa ou longuíssim a duração) de processos

que, por det rás delas, cont inuam em ação e m ovim ent o. É isso que faz com que o conceit o de

int eração ocupe a posição- chave na sociologia sim m eliana, pois ele é a " ferram ent a" que

desvenda por ent re as form as os m ovim ent os que nelas confluem e dos quais elas são result ados.

Que em virt ude de um alcance visual insuficient e não percebam os o m ovim ent o que est á por

det rás das form as, só m ost ra a im port ância do m icroscópio e do t elescópio, essas invenções

m odernas que t ornam o que est á dist ant e próxim o. Por isso Sim m el, na Soziologie ( m as não só

lá) , ut iliza a analogia com esses dois inst rum ent os em passagens- chave.

Out ro pont o im port ant e no passo cit ado é que ele apont a, em bora rapidam ent e, para a

relação que Sim m el busca est abelecer ent re m et afísica e em piria, a realidade hist órica. Esse é um

problem a que Sim m el j am ais deixou de cont em plar. Aqui o m et afísico e o em pírico aparecem

com o pólos do dualism o da exist ência: ou t udo é fixo, ou t udo flui; ou m ovim ent o, ou fixidez, em

função da perspect iva adot ada. Mas Sim m el est á com prom et ido com um a pluralidade de

perspect ivas, com cam inhos diferent es, e não com exclusividades. Há duas " im agens de m undo"

relat ivas a essas duas perspect ivas: um a delas, relat iva à fixidez, à lei et erna e im ut ável, ao

int em poral; a out ra, ao m ovim ent o, ao efêm ero, à realidade hist órico- concret a. O m oderno se

caract eriza e se const it ui j ust am ent e no ent recruzam ent o dessas duas im agens de m undo. Foi

ist o que Baudelaire t am bém percebeu ao afirm ar que " La m odernit é, c'est le t ransit oire, le fugit if,

le cont ingent , la m oit ié de l'art , dont l'aut re m oit ié est l'et ernel et l'im m uable” ( Baudelaire, 1982,

p. 553) . 3

Na verdade, Sim m el elabora um a escat ologia que com preende o m undo com o duração e

não- duração, com o fixidez e m ovim ent o Est e é o dualism o radical que habit a o m undo. ( Sim m el,

1991, pp. 712- 714) . 4

Baudelaire, por seu lado, havia afirm ado o m esm o: “ la dualit é de l’art est une

conséquence fat ale de la dualit é de l’hom m e” ( Baudelaire, 1982, p. 550) . Nesse sent ido,

encont ram os em Sim m el o m esm o que vim os em Baudelaire. No caso de Sim m el, com o disse,

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 5
t udo isso ganha corpo no âm bit o de um a filosofia do dinheiro.

É, port ant o, no cont ext o daquela escat ologia que o dinheiro aparece em sua plena

significação: ele é o sím bolo, por excelência, dessa dim ensão m óvel e m aleável do m undo, dessa

im agem de m undo que diz respeit o ao m ovim ent o, que ele exprim e à perfeição:

Seguram ent e não há nenhum sím bolo m ais claro para o carát er de absolut o m ovim ent o do

m undo do que o dinheiro. ( ...) O dinheiro não é senão o suport e de um m ovim ent o, no qual

precisam ent e t udo o que não é m ovim ent o é com plet am ent e diluído, ele é por assim dizer

act us purus ( Sim m el, 1991, p. 714) .

É por essa razão que Sim m el define o dinheiro com o obj et o de sua filosofia, pois falar do

dinheiro é falar de t udo o que se m ovim ent a, quando o m oderno é j ust am ent e m obilidade. Dado

o seu carát er sim bólico exem plar, o dinheiro perm it e a Sim m el, at ravés do singular, caract erizar

o universal: um m odo est ét ico de proceder que ele indica no " Prefácio" de Philosophie des Geldes

( p. 714) : t rat a- se da idéia de que podem os, a part ir de um problem a part icular e circunscrit o, ir

alargando progressivam ent e o seu âm bit o, at é chegarm os ao t odo. Responderíam os, assim , do

pont o de vist a da t ot alidade, que evoquei m ais acim a? Vej am os, com o Sim m el form ula o

problem a e o encam inha:

A unidade dest as invest igações não repousa, port ant o, em um a asserção sobre um

cont eúdo singular do conhecim ent o e suas dem onst rações obt idas gradualm ent e, m as sim

na possibilidade, a ser dem onst rada, de encont rar em cada singularidade da vida a

t ot alidade de seu sent ido. A im ensa vant agem da art e frent e à filosofia é que ela se propõe

a cada vez um problem a singular, claram ent e circunscrit o: um hom em , um a paisagem , um a

at m osfera; e ent ão t odo alargam ent o de um deles a um universal, t odo acréscim o de

grandes t raços do sent im ent o do m undo pode ser sent ido com o um enriquecim ent o, dádiva,

com o que um a graça im erecida. Em com paração, a filosofia, cuj o problem a é a t ot alidade

da exist ência, cost um a rest ringir a grandeza dest a últ im a em com paração consigo m esm a e

oferecer m enos do que ela parece est ar obrigada a dar. Aqui se t ent a, inversam ent e, t om ar

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 6
o problem a, de m odo lim it ado, e esm iuçá- lo, a fim de fazer j ust iça a ele m ediant e seu

alargam ent o e acréscim o rum o à t ot alidade e ao m ais universal ( Sim m el, 1991, pp.12- 13) . 5

Port ant o, no singular, podem os cont em plar o universal, assim com o na m oda, ou m esm o

naquelas gravuras de m oda que Baudelaire glosava em seu t ext o, podem os decifrar o t odo: o

m undo m oderno, a vida m oderna, os hom ens m odernos.

Ent ret ant o, ao m esm o t em po em que o dinheiro é o sím bolo do m ovim ent o, ele é t am bém

o sím bolo da fixidez. I sso significa, ent ão, que ele é capaz de conj ugar em si as duas im agens de

m undo esboçadas por Sim m el m ais acim a, baseadas na m obilidade e na fixidez. Pois, na m edida

em que se deixa t rocar pelas coisas as m ais variadas, e m esm o por t odas as coisas, ele se m ost ra

com o algo que perm anece fixo e im ut ável diant e da infinidade das coisas que circulam sem

cessar ao seu redor:

Se por um lado o dinheiro é, enquant o singularidade palpável, a coisa m ais fluida do m undo

prát ico ext erior, ele é por out ro, de acordo com seu cont eúdo, a coisa m ais est ável. O

dinheiro perm anece com o pont o de indiferença e equilíbrio ent re t odos os seus cont eúdos e

seu sent ido ideal é, com o o da lei, dar a sua m edida a t odas as coisas, sem se m edir a si

m esm o em relação a elas. ( ...) Ele exprim e a relação que há ent re os bens econôm icos e

perm anece est ável face à corrent e desses bens ( ...) ( Sim m el, 1991, pp. 714- 715) .

Esse é o carát er duplo do dinheiro que caract eriza o est ilo de vida m oderno. Ele exprim e

as duas im agens de m undo que Sim m el percebe no m oderno e que o caract erizam . Ao fazê- lo,

Sim m el cum pria um a nova et apa no program a da revolução baudelairiana do conceit o de

m oderno. Sim m el t ransport a e explora o diagnóst ico e a const rução de Baudelaire para um

regist ro hist órico, social e psicológico que expande a experiência est ét ica de base de Baudelaire.

É com o se Sim m el, apropriando- se da com preensão baudelairiana do am álgam a de experiência

est ét ica e experiência hist órica, a form ulasse sobre novas bases.

Nesse caso, é im port ant e ainda dest acar com o o fenôm eno da am bivalência ganha um

papel cent ral, com o um at ribut o e qualificat ivo genuína e caract erist icam ent e m oderno: m oderno

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 7
e am bivalência confundem - se e revelam - se no carát er duplo do dinheiro. 6

Assim , com o Baudelaire, é o m oderno que Sim m el pret ende analisar na Philosophie des

Geldes, e t odos os desenvolvim ent os e t endências, fenôm enos e configurações do m oderno

deixam - se reduzir, em últ im a inst ância, às duas im agens de m undo que ele delineia ao final de

seu livro: aquela represent ada pelo m ovim ent o e aquela represent ada pela fixidez.

Com o sabem os, Baudelaire, em suas elucubrações, acerca do pint or da vida m oderna,

afirm a que cada passado experim ent ava seu próprio present e e seu próprio sent ido de

cont em poraneidade, e sua art e foi ent ão m oderna. “ I l y a eu une m odernit é pour chaque peint re

ancien” ( Baudelaire, 1982, p. 553) . Com o essa m odernidade é m últ ipla e renova- se

inint errupt am ent e, Baudelaire afirm a que a m odernidade é o t ransit ório e cont ingent e. Essa

m odernidade fugidia cont rapõe- se, port ant o, não a um passado propriam ent e det erm inado, m as

ao et erno, ao que não é t ransit ório, fugidio e cont ingent e. Mas o et erno é o out ro do m oderno. A

escat ologia sim m eliana é lit eralm ent e a m esm a.

Com o vim os há pouco, a análise sim m eliana pret ende inspirar- se em um m odelo est ét ico,

e Sim m el busca apreender a época e as im agens de m undo que lhe são correlat as at ravés do

exem plo e do sím bolo. Por essa razão, o dinheiro é considerado o sím bolo do m oderno, porque

nele as duas im agens de m undo convergem do m odo m ais perfeit o. O aparecim ent o do fenôm eno

da m oda, em Baudelaire, devia- se ao fat o de a m oda brot ar da confluência de experiência

est ét ica e experiência hist órica, isso é, ser o fenôm eno que encarna essa fusão.

Em um est udo de 1905, Philosophie der Mode, Sim m el part e de um a ant ropologia

fundant e, nom eadam ent e da assunção de que o ser hum ano é um ser dualist a ( t al com o

Baudelaire) . Esse dualism o que perpassa a exist ência hum ana pode ser percebido m enos em sua

fundam ent ação últ im a, inescrut ável, do que j ust am ent e em suas form as fenom ênicas e

ext eriores. Um a das form as fenom ênicas desse dualism o revela- se, na “ hist ória da sociedade” , na

lut a e nos aj ust es ent re as t endências sociais e individuais de fusão do indivíduo com o grupo e

de elevação do indivíduo diant e do grupo, ou sej a, na lut a pelas t endências part icularisant es e

universalisant es, diferença e ident idade. 7

Já desde seus prim eiros escrit os Sim m el cham ara a at enção para a quest ão da

diferenciação social ( Sim m el, 1989) . Em um a sociedade cada vez m ais diferenciada, a m oda

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 8
pode, evident em ent e, desem penhar um papel funcional, no qual conj uga o diferenciado e ao

m esm o t em po o favorece. Em um a sociedade com o a sociedade m oderna, diz Sim m el, m oda

oferece um “ m om ent o de hom ogeneidade” de grande im port ância, que cont rabalança as

t endências desagregadoras da diferenciação.

Diferenciação, para Sim m el, concret iza- se em duas dim ensões, sincrônica e diacrônica;

aquilo que se diferencia, diferencia- se no regist ro da sim ult aneidade e no regist ro da sucessão.

Evident em ent e, a m oda é o exem plo por excelência de um a dessas form as, da diferenciação ao

longo do t em po. Mas, ao m esm o t em po, ela t am bém dá not ícia da diferenciação sincrônica, que

se m anifest a na m ult iplicidade de est ilos que convivem em um m esm o t em po. Aqui, t rat a- se, ao

que parece, de um a reform ulação de um insight de Niet zsche, que havia cham ado a at enção, em

chave crít ica, para o caos dos est ilos sim ult âneos na época do hist orism o arquit et ônico

( Niet zsche, 1988, pp. 159 e 163) . Sim m el desenvolveu o t em a da sim ult aneidade dos est ilos, de

sort e que a m oda, com o t alvez nenhum out ro fenôm eno, concret iza a dupla dim ensão do

processo de diferenciação que perpassa a sociedade ( Sim m el, 1991, p. 639) .

Nesse cont ext o, o fenôm eno da im it ação desem penha um papel de dest aque. Ela opera

um a espécie de “ passagem da vida do grupo na vida individual” , facult ando ao indivíduo

assim ilar- se em m eio ao grupo, com o part e dele, com o um “ recipient e de cont eúdos sociais” . O

princípio de im it ação represent a assim um lado do dualism o, cuj a out ra face é dada pela

diferenciação individual, pela negação do im it ar – o invent ar. A im it ação é “ um a das direções

básicas de nossa essência” e possibilit a a “ fusão do singular na universalidade” , ou sej a, “ enfat iza

em m eio à m udança aquilo que perm anece” . Mas se fizerm os o cont rário e, em m eio ao que

perm anece, enfat izam os a m udança, o que aflora são as t endências individualizant es, que

procuram a diferenciação do indivíduo ant e o grupo, a em ersão do singular em m eio à

universalidade.

A m oda est á t ot alm ent e inscrit a nesse nexo que t em por base o dualism o da exist ência

hum ana. Na m edida em que ela é im it ação, ela responde à necessidade de inserção no grupo,

incluindo o singular no âm bit o colet ivo. A im it ação fornece um disposit ivo que dilui o singular no

t odo; oferece um a m odalidade de ident idade colet iva. Mas, por out ro lado, enquant o invenção e

criação, a m oda t am bém opera a t endência à diferenciação, de elevação do singular face ao

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 9
universal. A m oda, port ant o, t ant o liga com o separa, aproxim a com o afast a, t orna dist int o e

indist int o.

Um a das m odalidades desse m ovim ent o de dist inção é que, para Sim m el, a m oda é
8
sem pre um a m oda de “ classe” : as cam adas m ais elevadas diferenciam - se das m ais baixas e

deixam um a det erm inada m oda no exat o m om ent o, em que est a passa a ser ut ilizada por

aqueles que lhe são inferiores. Essa ut ilização rom pe um a m arcação sim bólica de lim it es, o que

faz com que as classes elevadas busquem um a nova m oda, com a qual se diferenciam

novam ent e da m assa, e assim por diant e. Adem ais, esse processo repet e- se no int erior m esm o

das classes, criando ident idades e diferenças nas diversas cam adas da classe. Há, no dizer de

Sim m el, um a “ caçada im it at iva” que vem das classes inferiores e um a “ fuga rum o ao novo” que

vem das classes superiores. Esse m ovim ent o é ainda m ais acent uado pela difusão da econom ia

m onet ária, que im prim e um a aceleração a esse processo de dupla face. I sso porque os obj et os da

m oda são, o m ais das vezes, acessíveis por m eio da posse de dinheiro, o que perm it e que o

obj et o de dist inção sej a adquirido m ais facilm ent e por out ros, ext eriores ao círculo dos dist int os.

E, nesse sent ido, o dinheiro rom pe front eiras.

A dinâm ica social que Sim m el enxerga no nexo de m oda e classe j oga o peso da

t ransform ação nas classes m édias. As m assas inferiores m ovem - se com lent idão, as classes m ais

elevadas são por princípio conservadoras, pois m ovim ent o significaria a perda de sua posição

privilegiada: o que elas alm ej am é que t udo perm aneça com o est á. “ A verdadeira variabilidade da

vida hist órica est á, port ant o, na classe m édia” : aquela classe que quer t om ar a diant eira dos

m ovim ent os sociais e cult urais e que possui um a velocidade própria, e com o alm ej a o

m ovim ent o, é afim da m oda.

Além disso, há um a dim ensão sociopsicológica que revela essa afinidade: “ Classes e indivíduos

que buscam um a m udança const ant e, j á que j ust am ent e a velocidade de seu desenvolvim ent o

lhes garant e a prim azia face aos out ros, reencont ram na m oda a velocidade de seus próprios

m ovim ent os aním icos” . Com o a vida na cidade grande e m oderna é, sobret udo, essa vida nervosa

e at ribulada, m ovim ent ada e incessant e, a m oda encont ra um cont ext o sociohist órico e cult ural

que lhe é afim .

A m ult iplicidade de percepções e de im pressões que a vida da cidade grande inflige ao

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 10
hom em m oderno encont ra reverberação na m oda, que revela assim seu carát er de m ecanism o e

t endência social funcional: é coerent e com a m ult iplicidade e com a rapidez das alt erações,

propicia inclusão e exclusão, garant e int im idade e publicidade, efet iva proxim idade e reserva,

inst it ui individualidade e colet ividade.

Em sínt ese, a m oda conj uga a “ t endência à equiparação social” com a “ t endência à

dist inção individual” . Se considerada hist oricam ent e, a m oda perm it e vislum brar as m aneiras

com o essas t endências se desdobram e se realizam .

A m oda possui, port ant o, um carát er duplo, um a “ dupla função” : ela inclui em um círculo

de iguais e ao m esm o t em po apart a, aproxim a e afast a, e essa dualidade é a condição m esm a de

sua realização. Onde e quando essa dupla função deixa de exist ir, a m oda perde suas condições

de exist ência: quando deixa de responder à necessidade de int egração e à necessidade de

segregação, o processo da m oda paralisa. Sim m el ilust ra esse fenôm eno com dois exem plos

hist óricos: quando em 1390, em Florença, a m oda deixou de exist ir porque não havia duas

pessoas que se vest issem igualm ent e – e falt ava, port ant o, o m om ent o da int egração – e

quando, em Veneza, t oda a nobreza passou a se vest ir, por razões polít icas, indist int am ent e de
9
pret o –, falt ando ent ão o m om ent o da segregação e dist inção.

A insignificância de qualquer um pode ser at enuada pela m oda, na m edida em que oferece

um m ecanism o de individualização- socialização que cria pert ença a um grupo. Quando um a

individualidade não t em forças suficient es para firm ar- se por si só, a pert ença ao grupo funciona

com o m ecanism o não apenas de socialização, m as de individualização m esm a.

Adem ais, a m oda oferece um a espécie de invólucro à preservação de um a m aior liberdade

int erior: “ Ela oferece aos hom ens um esquem a que lhes perm it e docum ent ar de m odo inequívoco

seu vínculo com o universal, sua obediência às norm as, que sua época, sua posição social e seu

círculo m ais rest rit o lhes im põem . E com isso ele adquire a liberdade ( ...) de poder se concent rar

cada vez m ais em sua int erioridade e naquilo que lhe é m ais essencial” . Port ant o, a m oda é um

disposit ivo que possibilit a a form ação de um a individualidade int ensa at é m esm o quando at ua na

direção da subm issão do singular ao colet ivo, da im ersão do indivíduo na m assa, do hom em na

m ult idão. I sso perm it e- nos perceber o quant o a análise de Sim m el é nuançada e acom panha o

m ovim ent o de seu obj et o ( Waizbort , 2000) .

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 11
Além disso, a dinâm ica da m oda opera aqui em correlação às dinâm icas dos grupos. “ A

essência da m oda consist e no fat o de que sem pre apenas um a part e do grupo a ut iliza, enquant o
10
a t ot alidade est á apenas em vias de ut ilizá- la” . Moda é processo. E nesse m ovim ent o a m oda

configura um a relação dupla t am bém no que diz respeit o à invej a e à aprovação: ao indivíduo, a

m oda propicia a invej a ( ele quer se dist inguir) , m as ao colet ivo ela propicia a aprovação ( som os

t odos sim ilares) . Por out ras palavras, a m oda propicia t ant o a obediência a um a norm a social

com o a diferenciação individual.

Com essa m esm a dinâm ica fica t am bém caract erizado o t raço t ípico do fenôm eno que

engendra um processo sem fim de im it ação- aproxim ação e divergência- afast am ent o. Aqui se

revela a dim ensão t em poral da m oda, que enfat iza o hoj e frent e ao ont em e ao am anhã: “ esse

j ogo ent re a t endência à difusão geral e o aniquilam ent o de seu sent ido, que essa difusão im plica,

dá à m oda o encant o peculiar dos lim it es, o encant o do com eço e do fim sim ult âneos, o encant o

da novidade e sim ult aneam ent e da t ransit oriedade. ( ...) Ela est á sem pre no lim iar de passado e

fut uro e nos dá por isso um sent im ent o do present e t ão fort e” .

Esse m esm o sent im ent o de at ualidade, com o vim os, im pregnava a gênese hist órica do

conceit o do m oderno em Baudelaire, na int egração de m oda e m oderno. Moda e m oderno

encont ram - se nas form as m odernas de vida, no m oderno est ilo de vida: o hom em m oderno

necessit a de im pressões sem pre novas, e a m udança da m oda fornece um a m odalidade ót im a

para t ant o. “ Quant o m ais nervosa é um a época, m ais rapidam ent e m udam as suas m odas” , diz

Sim m el. Com isso, a m oda t orna- se deposit ária dos elem ent os m ais efêm eros, fugazes e

t ransit órios da vida: ela evidencia a passagem rápida do present e para o passado, enfat izando o

present e e a m udança que o caract eriza.

É algo essencial na m oda o fat o de que ela põe t odas as individualidades sobre um

denom inador com um , e de t al m odo, que ela j am ais abarca o ser hum ano com o um t odo, pois

perm anece sendo sem pre algo que lhe é ext erior ( ...) : pois a form a de t ransform ação que a

m oda lhe oferece é sob t odas as circunst âncias um a oposição face à const ância do sent im ent o

do eu; e precisam ent e em função dessa oposição esse sent im ent o t orna- se conscient e de sua

duração relat iva – apenas em função dessa duração a t ransform ação daqueles cont eúdos pode

se m ost rar de fat o com o t ransform ação e desenvolver o seu encant o.

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 12
Not e- se com o t em os aqui um a variação das form ulações de Baudelaire: o efêm ero, o

fugidio e o t ransit ório, cuj a out ra face é o et erno e im ut ável. Sim m el desenvolve de fat o a

com preensão de Baudelaire, pois afirm a ainda que “ cada m oda ent ra em cena com o se quisesse

viver et ernam ent e” .

Adem ais, com o há sem pre um a m oda em ação, a m oda m esm a perm anece, enquant o as

m odas variadas vêm e vão. Com isso, ela ganha um a aparência de im ort alidade: “ O fat o de que a

m udança m esm a não m uda dá àqueles obj et os em que a m udança se consum a um brilho

psicológico de duração” .

Não há dúvidas, port ant o, de que o t rat am ent o dado por Sim m el ao problem a da m oda

est á em fina sint onia com Baudelaire, e que em am bos a m oda ocupa um lugar absolut am ent e

cent ral na figuração do m oderno.

A cort esã, dest acada por Baudelaire ( 1982, pp. 563 ss.) , t am bém aparece em Sim m el

com o um a figura na qual a m oda desem penha um papel especial, m as j ust am ent e – quase se

poderia dizer, em direção opost a às form ulações de Som bart , anos depois ( 1992) – por ser um a

figuração do est ranho: com o um a “ form a de vida desenraizada” , ela é especialm ent e propícia a

criar m oda: “ a exist ência de pária que a sociedade lhe at ribui cria nela um ódio abert o ou lat ent e

cont ra t udo o que j á est á legalizado” , de sort e que ela se t orna um a espécie de port adora do

novo – ant ecipando, t am bém sob cert os aspect os, a prost it ut a de Benj am in ( 1991, pp. 612 ss.) –

, que est á sem pre em busca de um a m oda nova t ransm ut ando o ódio ao que exist e, à sociedade

que a condena em um a form a est ét ica peculiar.

A dinâm ica da m oda revela t am bém a dinâm ica dos pat am ares sociais do sent im ent o de

vergonha e de pudor. Det erm inado t raj ar que o indivíduo isolado sent iria em baraço em ut ilizar

em um a sit uação m ais privada, t orna- se norm alizado ao adquirir um “ carát er de um a ação de

m assa” : na m edida em que a lei da m oda dit a um a det erm inada liberdade no t raj ar, o pat am ar

de vergonha se desloca acom panhando essa t ransform ação – um t em a que a sociologia eliasiana

viria explorar e desenvolver ao final do século XX. Sim m el vê aqui “ um dos fenôm enos m ais

peculiares da psicologia social” , adiant ando t am bém os est udos a respeit o da psicossociologia das

m assas. Por out ro lado, a sociologia dos sent im ent os t am bém encont ra aport e na m oda no que

diz respeit o ao sent im ent o de invej a, que m encionei ant eriorm ent e. “ Com o indivíduo, invej am os o

que est á na m oda; com o gênero, o aprovam os” . Há, port ant o, um duplo enraizam ent o dos

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 13
sent im ent os, que são puram ent e individuais som ent e ao prim eiro olhar.

A relação de m oda e econom ia aparece na necessidade crescent e de art igos barat os. O

art igo de m oda t ende a convert er- se em art igo barat o, pois precisa ser acessível aos m enos

abonados; para que possa se difundir, e precisa ser acessível ao rit m o acelerado de subst it uição

das m odas nas cam adas m ais elevadas, que não podem invest ir dem ais em algo que vai durar

t ão pouco. “ Aqui se origina um círculo peculiar: quant o m ais rapidam ent e a m oda m uda, m ais

barat os precisam ser as coisas; e quant o m ais barat as são as coisas, m ais rápida a m udança da

m oda” . Em linhas gerais, Sim m el ent ende que a dinâm ica da m oda favorece um processo de

racionalização da produção, de ordenação do m ercado e, port ant o, de regulação da econom ia.

I sso apont a para um a sint onia e sincronia da m oda com a produção indust rial. Com efeit o,

a m oda m oderna, no ent ender de Sim m el, est á cada vez m ais ent ranhada na lógica da econom ia.

Não se t rat a m ais, com o ant eriorm ent e, de um art igo qualquer que se t orna m oda: hoj e, ele j á é

produzido t endo em vist a t ornar- se m oda. I sso significa um a cadeia produt iva específica que

ret rocede at é a criação do art igo com vist as a t ornar- se m oda; um planej am ent o cíclico que

responde pela t em poralidade específica de vida e de m ort e de cada m oda; com o a especialização

com t rabalhadores dedicados exclusivam ent e a invent ar m oda e, a seguir, produzi- la ( em sent ido

am plo: não são apenas a produção e a circulação m at erial, m as t am bém as sim bólicas) . I sso

revela o carát er abst rat o da m oda, no qual ela um a vez m ais conflui com o dinheiro. Tal carát er

abst rat o “ revela- se na indiferença da m oda com o form a ant e a qualquer significado de seus

cont eúdos part iculares – e em sua t ransform ação cada vez m ais decisiva a um a form ação
11
econôm ica socialm ent e produt iva” . E em seu carát er abst rat o a m oda se enlaça ao dinheiro.

Adem ais, vem os aqui t am bém com o a m oda sit ua- se em m eio ao problem a das form as e

cont eúdos. Ela é um a form a, indiferent e ao cont eúdo, que pode assum ir os m ais variados e sem

m ais delongas. Ou sej a, a m oda pode ser o que for, pois perm anece com o m oda enquant o um a

form a. Assim , a hist ória da m oda revela- se usualm ent e com o um a sucessão de cont eúdos,

enquant o a sociologia da m oda escrut ina- a enquant o form a, ou sej a, com o um processo social.

A proxim idade de form a e abst ração indica porque a m oda t ant o foi vist a sob o signo da

reificação. A form a abst rat a da m oda aproxim a- a da form a m ercadoria, t am bém ela um a form a

abst rat a. Na sociologia sim m eliana, am bas confluem na indiferença, e aqui, um a vez m ais, at am -

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 14
12
se m oda e dinheiro ( Waizborg, 2000; Lohm ann, 1991) .

É em sua dim ensão de cont eúdo que a m oda apresent a a t endência de ret om ar suas

form as ant eriores, ou sej a, de cit ar- se a si m esm a. A part ir do m om ent o em que um a m oda

ant iga caiu no esquecim ent o, ela j á est á pront a para ser revivida: pois se no passado ela causou

encant o, porque não haveria de causá- lo novam ent e? Se sua eficácia j á se com provou, porque

não repet i- la? Encant ou- se, porque não haveria de não encant ar novam ent e? Sim m el explica a

repet ição – um a invenção que é im it ação – segundo o princípio da econom ia de forças, que

t om ou do darwinism o social de sua época. De t odo m odo, para além dessa explicação –

at ingim os um a finalidade com m enor dispêndio de energia –, a idéia de que t em os um a invenção

( um a nova m oda) que é im it ação ( de um a m oda do passado) põe em evidência a m em ória social,

em um a época na qual prevalece o esquecim ent o. O excesso de im pressões e percepções que

acossa o hom em m oderno, por um lado, e a prevalência da econom ia m onet ária, na qual a

m em ória dilui- se no dinheiro que não deixa rast os, por out ro, convergem em um a m em ória

enfraquecida e em um a sociedade do esquecim ent o.

Adem ais, esse fenôm eno t oca t am bém um encant o peculiar da m oda, no ent ender de

Sim m el, que é a relação que ela est abelece ent re um a difusão t ão am pla e um envelhecim ent o

t ão rápido. Quant o m ais rapidam ent e envelhece, m as pront a est á para ser invent ada novam ent e.

Se volt arm os um a vez m ais ao observador, filósofo e flâneur de Baudelaire, podem os nos

pergunt ar se um a de suas denom inações possíveis não é o “ est ranho” ; m ais ainda, se não seria o

“ est ranho” a realização m ais perfeit a daquilo que Baudelaire pret endia indicar. Não seria

precisam ent e a est ranheza que lhe facult aria observar o m oderno?

Sabem os que proxim idade e dist ância não são algo absolut o e int em poral, m as sim algo

relat ivo e hist órico ( Sim m el, 1991, p. 662; Waizbort , 2000) . 13 Sim m el procura indicar que, com o

desenvolvim ent o de m eios que levam à dim inuição das dist âncias ext eriores ( t ais com o os m eios

m odernos de t ransport e) , ocorre concom it ant em ent e um aum ent o das dist âncias int eriores. As

relações do hom em m oderno parecem se dist anciar crescent em ent e dos círculos m ais próxim os e

se aproxim ar dos m ais dist ant es. Por isso, ele é, cada vez m ais, um est ranho ( Sim m el, 1991, pp.

285- 291; 1992, pp. 764- 771) . I sso t am bém t em a ver com a difusão de um a econom ia

m onet ária; “ o dinheiro socializa os hom ens com o est ranhos” ( Böhringer, 1984, p. 182) .

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 15
Nos processos de dist anciam ent o e aproxim ação é possível perceber o papel duplo do

dinheiro. Por um lado, enquant o inst ância m ediadora da t roca, ele é um elem ent o que cria

dist ância; por out ro, na m edida em que, com o equivalent e universal, facilit a a t roca, ele é um

elem ent o que aproxim a coisas inicialm ent e dist ant es; com sua circulação e linguagem universais,

reduz drast icam ent e as dist âncias do m undo.

Assim com o a m obilidade é caract eríst ica do dinheiro e de t udo o que com ele se

com unica, t am bém o est ranho é caract erizado pela m obilidade. Tal m obilidade facult a ao

est ranho a conhecida sínt ese de proxim idade e dist ância, que segundo Sim m el o caract eriza.

A unidade de proxim idade e dist ância, que t oda relação ent re hom ens cont ém , result a

aqui em um a const elação, que pode assim ser form ulada do m odo m ais curt o: a dist ância no

int erior das relações significa que o próxim o est á dist ant e, m as o “ ser est ranho/ est rangeiro”
14
significa que o dist ant e est á próxim o ( Sim m el, 1992, p. 765) .

E qual haveria de ser o am bient e m ais nat ural e propício para o est ranho, senão a cidade

grande e m oderna? É na cidade grande e m oderna que a m obilidade, que Sim m el ent ende com o

at ribut o fundam ent al do est ranho, se realiza do m odo m ais acabado, e seu sím bolo m ais perfeit o

é o dinheiro. Se, com o j á se disse, a cidade grande e m oderna socializa os hom ens com o

est ranhos, é t am bém para lhes perm it ir um a m obilidade e um a est ranheza ent re si, sem o que

eles pereceriam , sufocados pela const ância e host ilidade dos choques e cont at os ext eriores, em

m eio à m assa e à m ult idão.

Parece- m e claro, ent ão, que o observador, flâneur, filósofo ou sociólogo que é capaz de

dest ilar o et erno no efêm ero é, ant es de t udo, um est ranho.

Mas a própria m oda t am bém possui um elem ent o de est ranheza, t am bém ela é

“ est ranha” , dado que freqüent em ent e é algo dist ant e que est á próxim o: a m oda vem de fora, é

im port ada e j ust am ent e isso a faz valiosa e desej ada. Sim m el lem brou- se do profet a Sofonias

que, ao falar do dia de I ahweh em Judá, afirm ava: “ Acont ecerá que, no dia do sacrifício de

I ahweh, visit arei os príncipes, os filhos do rei, e os que se vest em com roupas est rangeiras.

Visit arei, naquele dia, t odos os que salt am o Degrau, t odos os que enchem a casa de seu senhor
15
com violência e com fraude” .

O t recho revela, com o se vê, o valor dado às roupas est rangeiras com o sím bolo de

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 16
dist inção pelas cam adas m ais elevadas daquela sociedade. O fat o de a m oda vir de fora cria um a

form a m uit o part icular de socialização, caract erizada pelo fat o com um de que t odos aqueles que

a adot am referem - se a um pont o com um que est á sit uado fora – m uit as vezes, em Paris, Milão,

Nova I orque – ou em Londres, Ant uérpia, Am st erdã.

Surpreendent e é ainda o fat o de Sim m el t er ant ecipado o problem a da ant im oda ( König, 1985,

pp. 298- 311; Davis, 1992, pp. 159- 188) . Pois a negação é, ela m esm a, o m esm o fenôm eno,

apenas com sinal invert ido. Na expressão saborosa de Sim m el, a ant im oda é com o um a

“ associação dos oposit ores da associação” . No rol das ant ecipações supreendent es, é preciso

ainda assinalar com o Sim m el percebeu a dinâm ica da m oda evidenciada, m uit os anos depois, por

Herbert Blum er: com o o m ecanism o por excelência, na sociedade m oderna, de seleção colet iva.

Em um a sociedade alt am ent e com plexa e diferenciada, a m oda opera um m ecanism o de seleção

fundam ent al, que auxilia a sociedade, os grupos e os indivíduos a reduzir com plexidade ( Blum er,

1969; Espósit o, 2004) .

Por fim , seria preciso lem brar ( m as apenas lem brar, dada a quest ão ser bem conhecida) a

dist inção das form as de individualism o quant it at ivo e qualit at ivo que est ão profundam ent e

ent ranhadas no fenôm eno da m oda ( Sim m el, 2007 e 2005, pp. 577- 591) . Com o nenhum out ro

fenôm eno social, ela é capaz de art icular e sint et izar essas duas t endências, o individualism o da

igualdade no regist ro da im it ação, o individualism o da diferença no regist ro da invenção. Se

Sim m el concluía seu célebre t ext o sobre “ As grandes cidades e a vida do espírit o” com o

problem a da sínt ese m oderna e cont em porânea das duas form as de individualism o, a m oda,

com o elem ent o de sínt ese, parece assum ir um a posição de im port ância absolut am ent e cent ral na

com preensão do m oderno e de suas cont radições e idiossincrasias. “ Para a vida m oderna, com

sua fragm ent ação individualist a, esse m om ent o de hom ogeneidade da m oda é especialm ent e

significat ivo” .

Talvez sej a essa a razão que t orne a sociologia da m oda a m ais im port ant e de t odas as

sociologias, deixando há m uit o para t rás as especialidades que reivindicaram algum a

cent ralidade: as sociologias do t rabalho, da educação, do desenvolvim ent o, das relações raciais,

das classes, da indúst ria, do consum o, do capit al, do capit alism o, da religião, do direit o, da

j uvent ude, do risco, das cat ást rofes, das inst it uições, da com unicação, da cidade, do cam po, do

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 17
conflit o, da violência, e t ant as out ras m ais que os sociólogos queiram porvent ura invent ar.

N OTAS

1 Est e t ext o reproduz a aula sobre Sim m el em m eu curso de Sociologia da Moda, m inist rado na

Universidade de São Paulo.

2. Ant ecedent es desse problem a em Querelle des anciens et m odernes do séc. XVI I I ; ver

Haberm as ( 1991, p. 17) .

3. Não vou desenvolver aqui a relação com Baudelaire – a cidade com o locus do m oderno, et c. –

porque esse é um t em a repet ido à exaust ão ( em bora nem sem pre além do que j á se t ornou

senso com um ) . Ver Frisby ( 1984, pp. 9- 79) ; Frisby ( 1986, caps. 1 e 2) ; Jauss ( 1974, esp. cap.

1) ; Gum brecht , verbet e “ Modern. Modernit ät , Moderne” ( 1975, v. 4, pp. 93- 131) .

4. Aqui t am bém se vê claram ent e a sua proxim idade e sua cont em poraneidade a Bergson.

5. Mais à frent e, na m esm a obra, pode- se ler: “ A consideração est ét ica – que enquant o m era

função é possível frent e a qualquer obj et o, e é apenas especialm ent e fácil face ao 'belo' – ( ...) ”

( p. 441) .

6. Por isso, é im port ant e t er sem pre em m ent e que, quando se fala em “ papel duplo” ou “ carát er

duplo” , est á se cham ando a at enção para as relações am bíguas que est ão em j ogo no fenôm eno.

Sobre a relação ent re am bigüidade e m oderno em geral, ver Baum an ( 1995) . Sobre o “ papel

duplo do dinheiro” , ver Waizbort ( 2000, cap. “ Est ilo de vida” ) . Sobre o “ papel duplo do dinheiro”

com o um a chave de leit ura da Philosophie des Geldes, ver Flot ow ( 1995) . Sobre a am bivalência,

ver Nedelm ann ( 1992, pp. 36- 47) .

7. Todas as passagens de Sim m el, cit adas a seguir, provêm de seu t ext o Philosophie der Mode

( 1905) , que com algum as alt erações foi republicado com o “ Die Mode” em sua colet ânea de

ensaios int it ulada Philosophische Kult ur ( 1911) . Em bora Sim m el t enha ainda escrit o out ros curt os

t ext os sobre m oda, essas duas versões de um m esm o t ext o são sua cont ribuição cent ral para o

problem a. As cit ações provêm das seguint es edições: Sim m el ( 1995, pp. 7- 37) e Sim m el ( 1996,

pp. 186- 218) .

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 18
8. Para Sim m el, “ classe” é um operador de est rat ificação e m orfologia social, de sort e que pede

aj ust e ao “ est ilo de vida” . Descuidar de seu carát er de operador ou, por out ra, ler lit eralm ent e

dem ais a form ulação de Sim m el é o que lim it a a com preensão de Diana Crane a esse respeit o.

Ver Crane ( 2006, pp. 92- 93, 103, 123, 129) .

9. Os exem plos valem m enos por sua precisão hist órica do que por sua capacidade elucidat iva.

10. Um dos t ext os m ais im port ant es da sociologia da m oda post erior a Sim m el, a saber, o de

Blum er, que enfat izou esse aspect o, e t eve dificuldade j ust am ent e para perceber o quant o

Sim m el o havia, ant eriorm ent e, enfat izado. Ver Blum er ( 1969, pp. 275- 291) .

11. Ou sej a, art icula- se com a discussão em preendida por Sim m el na Philosophie des Geldes.

12. Em Waizbort , caps. “ Dinheiro” e “ Est ilo de vida” .

13. Em Waizbort , cap. “ Pant eísm o est ét ico” .

14. E ainda: “ proporciona ao est ranho/ est rangeiro o carát er especifico da m obilidade. Nessa

m obilidade, na m edida em que ela se realiza no int erior de um grupo delim it ado, vive aquela

sínt ese de proxim idade e dist ância que const it ui a posição form al do est ranho/ est rangeiro: pois o

que é pura e sim plesm ent e m óvel ent ra ocasionalm ent e em cont at o com cada elem ent o singular,

m as não é com nenhum deles organicam ent e ligado at ravés da fixidez do parent esco, do local e

da profissão” ( idem , pp. 765- 766) .

15. Sofonias, I , 8.

REFERÊN CI AS

BAUDELAI RE, C. ( 1982) . Oeuvres com plèt es. Paris, Seuil.

_____. ( 1985) . As flores do m al. ( Tradução, I nt rodução e Not as: I van Junqueira) . Coleção Poesia

de t odos os t em pos. 6 ed. Rio de Janeiro, Edit ora Nova Front eira.

BAUMAN, Z. ( 1995) . Moderne und Am bivalenz. Das Ende der Eindeut igkeit . Frankfurt / M. S.

Ficher.

BENJAMI N, W. ( 1991) . Gesam m elt e Schrift en. Frankfurt / M, Suhrkam p, v. V.

BÖHRI NGER, H. ( 1984) . “ Die 'Philosophie des Geldes' als äst het ische Theorie. St ichwort e zur

Akt ualit ät Georg Sim m els für die m oderne bildende Kunst ” . I n: DAHME, H. J. e RAMMSTEDT, O.

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 19
( orgs.) Georg Sim m el und die Moderne. Neue int erpret at ionen und Mat erialen. Frankfurt .M,

Suhrkam p.

BLUMER, H. ( 1969) . Fashion: From Class Different iat ion t o Collect ive Select ion. The Sociological

Quart erly, v. 10, n. 2.

CRANE, Diana ( 2006) . A m oda e seu papel social. Classe, gênero e seu papel social. São Paulo,

Senac.

DAVI S, F. ( 1992) . Fashion, Cult ure and I dent it y. Chicago et c., Chicago Universit y Press.

ESPOSI TO, E. ( 2004) . Die Verbindlichkeit des Vorübergehenden: Paradoxien der Mode.

Frankfurt / M, Suhrkam p.

FRI SBY, D. ( 1984) . “ Georg Sim m el Theorie der Moderne” . I n: DAHME, H. J. e RAMMSTEDT, O.

( orgs.) Georg Sim m el und die Moderne. Neue int erpret at ionen und Mat eralen. Frankfurt / M.,

Suhrkam p.

_____. ( 1986) . Fragm ent s of Modernit y: Georg Sim m el – Siegfried Kracauer – Walt er Benj am in.

Oxford, Polit y Press.

FLOTOW, P. V. ( 1995) . Die Doppelrolle des Geldes. Georg Sim m els Philosophie des Geldes.

Frankfurt / M, Suhrkam p.

GUMBRECHT, H. U. ( 1975) . “ Modern Modernit ät ” . I n: Brunner, O.; Conze, W. e Koselleck, R.

( orgs) Geschicht liche Grundbegriffe. St ut t gard, v. 4.

HABERMAS, J. ( 1991) . Der philosophische Diskurs der Moderne. 3 ed., Frankfurt / M, Suhrkam p.

JAUSS, H. R. ( 1974) . Lit erat urges chicht e als Procokat ion. 4 ed., Frankfurt / M, Suhrkam p.

KÖNI G, R. ( 1985) . Menschheit auf dem Laufst eg. Die Mode im Zivilisat ions prozess. München, C.

Hanser.

LOHMANN, G. ( 1991) I ndifferenz und Gesellschaft . Frankfurt / M, Suhrkam p.

Nedelm ann, B. ( 1992) . Am bivalenz als Vergesellschaft endes Prinzip. Sim m el Newslet t ers, v. 2, n.

1, sum m er.

NI ETZSCHE, Friedrich ( 1988) . Säm t liche Werke. München, DTV/ de Gruyt er, v. 1.

SI MMEL, Georg ( 1989) . Aufsät ze 1887 bis 1890. Über soziale Differenzierung. Die Problem e der

Geschicht sphilosophie ( 1892) . Gesam t ausgabe Bd. 2. Frankfurt / M, Suhrkam p.

_____. ( 1991) . Philosophie des Geldes. Gesam t ausgabe Bd 6. 2 ed., Frankfurt , Suhrkam p.

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 20
_____. ( 1992) . Soziologie. Unt ersuchungen über die Form en der Vergesellschaft ung.

Gesam t ausgabe Bd. 11. Frankfurt / M, Suhrkam p.

_____. ( 1995) . Philosophie der Mode. Die Religion. Kant und Goet he, Schopennhauer und

Niet zsche. Gesam t ausgabe, Bd. 10. Frankfurt / M, Suhrkam p.

_____. ( 1996) . Haupt problem e der Philosophie Philosophische Kult ur. Gesam t ausgabe. Bd. 14.

Frankfurt / M, Suhrkam p.

_____. ( 2005) . As grandes cidades e a vida do espírit o. Mana, v. 11, n. 2.

_____. ( 2007) . Quest ões fundam ent ais de sociologia. Rio de Janeiro, Zahar.

SOMBART, W. ( 1992) . Liebe, Luxus und Kapit alism us. Berlin, Wagenbach.

WAI ZBORT, L. ( 2000) . As avent uras de Georg Sim m el. São Paulo, Edit ora 34.

IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte – São Paulo - v.1 n. 1 abr./ago. 2008. 21

Você também pode gostar