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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE

CAMPINAS | FACULDADE DE
TECNOLOGIA - FT

RESENHA CRÍTICA: TECNOLOGIA E SOCIEDADE – DRAGÕES DE GARAGEM #217

Prof. Gerusa de Cássia Salado


Realizado pelos discentes
Sara Namie Doy Storani, 256852
Gabriel Pedro Paião, 238080
Daniel Chagas Campanharo, 256716
João Víthor da Silva Barbosa, 247206
Luiz Gustavo Esperidião de São José, 256801.
Universidade Estadual de Campinas | Faculdade de Tecnologia

O podcast em áudio traz uma discussão entre pessoas que tentam entender, justificar e desmistificar
alguns pensamentos comuns sobre a relação entre a tecnologia e a sociedade, dentro do mundo em que
vivemos. O podcast tem a duração de aproximadamente 103 minutos, dos quais os primeiros 80 minutos são
os principais, com participação do convidado Yurij Castelfranchi, que discorre e desenvolve o tema abordado,
por meio de vários exemplos que vão da Grécia Antiga até os dias atuais.
Diante do cenário atual de constante atualização e criação de tecnologias, é muito comum o pensamento
de como esses projetos inovadores impactam a vida da população em geral, já que as últimas décadas tiveram
uma grande mudança em relação às tecnologias e a geração de hoje desfruta de coisas que não eram
imaginadas a um tempo atrás, como televisão, vídeo game, celular, entre outros. Mas, não sendo somente isso,
o objetivo da discussão no podcast é identificar o que de fato é considerado tecnologia, o que é sociedade e
como é a relação entre os dois conceitos, buscando alguns recursos e exemplos da história para ajudar nessa
definição.
Conforme o filósofo Aristóteles, o homem é considerado um ser racional que vive na pólis. Todavia,
esta não é construída por homens, uma vez que quando eles chegaram nela, ela já estava estratificada e pronta.
Logo, quem modifica o homem é a sociedade, e não o inverso. Mas, afinal, o que é sociedade?
Sociedade é um agrupamento de pessoas que vivem em um determinado lugar e tempo, seguindo
normas iguais e compartilhando as mesmas culturas. Nesta instância, pode-se resumir que ela é uma relação
de interação entre pessoas e coisas que garanta a ocorrência de um fato social. No entanto, alguns antropólogos
dizem que tal estrutura não existe e a sociedade é um mero ideal político idealizado pelos homens. Este
pensamento advém do grande retrocesso dos estudos da sociologia, que começaram após a Revolução
Francesa.
Nesse nível, e comparando com o cenário atual, a tecnologia sempre incentivou à evolução sociológica,
desde sua formação, com influência da Revolução Francesa. Nessa via, isso ocorre porque, conforme o
professor Yurij Castelfranchi, a tecnologia é um pedaço do grupo social, e está adepta, como todos os grupos,
às mudanças em sua estrutura. Logo, não podemos considerar que ela seja um aparelho de grande estudo e
vinculada totalmente a ciência e indústria, como a cultura capitalista nos obriga a enxergar, e sim, como um
objeto social que sofre mutação e interage com os membros sociais. Sendo assim, o surgimento da tecnologia
ocorre quando os indivíduos têm em mente alcançar um objetivo e usam de ferramentas para atingi-lo. Dessa
forma, nem todas as vezes ela depende da ciência para que seja efetiva. Sendo assim, os remédios naturais são
exemplo claro disso, pois, sem ciência e estudo em cima deles, eles conseguiram ser efetivos em suas
demandas.
No entanto, a ideia de não dependência entre a ciência e tecnologia intriga muitos especialistas, a vista
que, infelizmente, por ambição ao capital, muitos acabam criando certas tecnologias que não são comprovadas
e nem eficazes, trazendo danos no futuro para o consumidor. Baseado nisso, então, percebe-se que a tecnologia
não funciona conforme nossa vontade, e sim por influência de interesses políticos.
Além disso, a tecnologia é um meio que cristaliza a nossa relação com certos objetos. Diante disso,
como o filósofo Heráclito menciona, a sociedade está em constante movimento, mudando sempre suas
relações. No entanto, a tecnologia, mesmo sendo parte dela, não se encaixa nesse parâmetro, à medida que ela
é criada para uma finalidade única e só muda quando as relações mudam e fazem uma inovação nela. A
bicicleta, por exemplo, é uma tecnologia que antes foi criada para diversão. Todavia, com o renascimento
urbano europeu, a burguesia mudou esse cenário, pois tinha um lema de vida vinculado ao trabalho, e, o suor
é o principal parâmetro para condizer que um serviço está sendo bem feito. Dessa forma, vinculado com essa
ideia, eles transformaram a bicicleta como um meio de transporte, pois ali eles se esforçaram para chegar em
seu objetivo, diferente do trem, na época.
Outrossim, como citado em tópicos acima, a tecnologia funciona de acordo com relações de poder e
interesses capitalistas. Posto isso, a máquina de vapor automotiva, por exemplo, foi inventada para que os
grandes senhores não usassem os sapatos ao irem à igreja. Nesse contexto, a sujeira nos pés representava
impureza e pecado, o que transfere um pensamento preconceituoso comparando o trabalho à falta de Deus.

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Sendo assim, inventaram a tecnologia automotiva que levava os senhores até a igreja, sem que eles sujassem
seus pés com o único propósito de mostrar a superioridade atrelada a classe social.
Ademais, outros exemplos que culminam nessa mesma ideia é a medicação capaz de curar o câncer.
Infelizmente, a indústria farmacêutica não se interessa nesta pesquisa e, por isso, não permite que ela seja
efetivada. Isso ocorre porque uma pessoa que tem essa doença acaba gastando muito dinheiro em
medicamentos, e, se uma suposta cura fosse descoberta, a indústria perderia esse capital. Então, pode-se
afirmar, vendo esse exemplo, que as relações de poder também têm um grande papel na tecnologia.
Para mais, essa relação de poder gera um grande preconceito entre a população. Diante disso, a criação
da pílula abortiva foi um exemplo bem denotado, pois, como os grandes poderosos eram brancos, eles tinham
um certo receio, baseado na ideia do evolucionismo social da seleção natural, de que por meio dessa tese
biológica os negros, considerados seres manchados do pecado, pudessem progredir e aumentar sua “pólis”,
até que a raça branca seja totalmente exterminada. Então, para que isso não se efetivasse, uma tecnologia
elitista que se centrava na criação de pílulas abortivas foi criada e dada para as mulheres negras tomarem. Essa
cultura se perpetuou por muitos tempos, e, mais tarde, aprimorado no ideal de Malthus, ao qual dizia que a
população crescia em progressão geométrica, enquanto os alimentos em progressão aritmética, por isso
deveria controlar a taxa de fecundidade para não faltar alimentos no futuro, foi usada como meio de diminuir
a densidade demográfica, passando a ser utilizada por brancos e negros. Porém, os Estados Unidos, país
capitalista, comparou essa tese com a eugenia de Hitler, e liberou a comercialização da pílula só para conter
distúrbios hormonais. Logo, é viável dizer que a tecnologia é uma ferramenta atrelada a padrões de interesse
e nem sempre está ligada a nossos desejos.
Todavia, por consequência do capitalismo, algumas tecnologias devem trabalhar a nosso favor. O
Youtube, por exemplo, é um canal que filtra dados de pesquisa e seleciona quais parâmetros mais pesquisamos
e compara com nossos desejos e estilo pessoal. Dessa forma, para não permitir a nossa evasão da rede, só
distribui conteúdos compatíveis e quase idênticos com os pesquisados.
Infelizmente, por consequência da ganância pelo capital, a tecnologia também traz vários danos para a
sociedade. Conforme o documentário “obsolescência programada”, do Youtube, as novas tecnologias são
criadas já com tempo de validade estimado. Isso gera uma grande quantidade de lixo para ser dispensado,
aumentando os problemas ambientais. Desse modo, é evidente que ela depende de interesses, e não têm como
mudá-los, pois, embasando no exemplo, se pararmos com a obsolescência, logo a economia local cai. Então,
é necessário aceitar que a tecnologia também é parte de nós. Logo, é necessário insistir nelas, não desistir,
pois ela é uma ferramenta de auxílio e resistir às suas inovações.
Logo de início já é possível perceber que o assunto do episódio seria abordado de forma profunda e
reflexiva, mostrando abandonar os conceitos e considerações que já compõem o senso comum sobre o tópico.
Desmistifica-se por exemplo as frases de efeito e as considerações superficiais, que de tanto disseminadas as
pessoas replicam sem ao menos analisar coerência, e contrariamente, a equipe opta por construir um raciocínio
pautado numa análise própria e um tanto diferente do comum, se não oposta. Talvez pela heterogeneidade dos
participantes e pela formação/experiência extremamente diversificada do Yurij, tendo transitado desde a parte
mais complexa e teórica da física até história e sociologia, o resultado da reunião foi bastante original e
inovador.
Sempre que vamos iniciar a discussão sobre certo assunto, é crucial fazer um panorama sobre o que é
ele. No episódio 217 não foi diferente, o orientador começa dizendo que ao invés de entender a sociedade
como um conjunto de pessoas, ele a tem como a persistência das relações entre pessoas, coisas e animais.
Dentro deste mesmo emaranhado tem-se também a tecnologia, que nada mais seria do que a manifestação da
própria sociedade quanto a alguns de seus fatores. Esta conceituação, que inclusive vai de encontro com a
teoria da sociologia para Max Weber, faz total sentido para quem identifica que a sociedade, tecnologia e
outros conceitos amplos como tais, não seria algo simples a ponto de termos uma definição objetiva e pontual.
Visto que nós mesmo, parte da sociedade, não conseguimos definir factualmente como é isto em que vivemos
e sabemos que existe.

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Direcionando mais para a tecnologia, o grupo destaca a confusão que este conceito pode causar,
resultando às vezes em um uso até mesmo incoerente. Algo que fica bastante claro no dia a dia, em que pessoas
se referem a smartphones, internet, vacinas e métodos, tudo isso como tecnologia. Como poderia este conceito
abrigar diversas coisas diferentes que podem não ter semelhança nenhuma? Para esse entendimento, o assunto
foi sobre como se dão os processos na tecnologia.
O primeiro ponto que vem à cabeça é sobre um possível protocolo ou cartilha esmiuçando exatamente
cada uma das etapas para criação de novas tecnologias, caso assim fosse realidade teríamos para cada
problema uma solução tecnológica em pouco intervalo de tempo, logo nenhum problema persistiria em nossa
sociedade. Mas logo o podcast falou exatamente sobre isso, o fato de não existir um padrão, até mesmo
defendendo o oposto do que geralmente pensamos.
Pode-se dizer que a parte principal, causa um sentimento misturado de surpresa, descoberta e coerência.
Ainda que a maioria da população acredite que diversas tecnologias vieram e, com seus efeitos, transformaram
a sociedade significantemente. Yurij foca bastante em explicar porque ele e suas companheiras acreditam que
o processo é exatamente inverso. Usando o exemplo da internet, que todos acreditam ter revolucionado nossas
relações, ele diz que fatores na relação da sociedade fez uma transformação nela mesma para que criasse a
internet, neste caso em específico foi o desejo do governo estadunidense de guardar dados sem que pudessem
ser destruídos fisicamente. O raciocínio levantado faz sentido se analisarmos alguns exemplos, como o fato
de a lente já ter sido criada pela sociedade e só após algum tempo uma aplicação ter sido encontrada. No
entanto, o oposto parece também parece ocorrer consideravelmente, por exemplo o motor a combustão
certamente transformou nosso dia a dia e relações, antes mesmo que nós, como sociedade, nos transformamos
para receber esta tecnologia.
Adiante, o podcast chegou a analisar a relação entre tecnologia e alguns fatores da sociedade,
primeiramente a ciência. É comum encontrar pessoas que acreditam na ciência apenas como um meio para
culminar no desenvolvimento de patentes, produtos e soluções. Desta forma, há uma confusão conceitual e
pessoas geralmente pensam em ciência como aquilo que vai gerar alguma tecnologia, pensamento que os
participantes tentam contrariar explicando que a ciência está além da ânsia pelo dinheiro e por si só ela já é
compensadora.
É de fundamental importância este tipo de abordagem, pois o instrumentalismo e tecnicismo somam
grande espaço na sociedade, em especial entre as pessoas de menor conhecimento. Atitudes baseadas
exclusivamente em tais conceitos desconsideram significantemente a importância de aspectos subjetivos,
como cultura, conhecimento por si próprio e determinadas pesquisas. O perigo destas características se
manifesta da pior forma em um governo no qual o líder tem tais considerações, por exemplo. Sendo assim
muitas coisas que tem sim valor, mas talvez não seja tão comercial pelo menos a princípio, defasam toda a
sociedade, agora sujeita a carência de aspectos fundamentais, porém renegados.
Retrocedendo para a questão da tecnologia depender da sociedade mais do que o oposto. A partir da
indagação da Natália sobre a questão da aceitação social, Yurij deixa claro que não acredita nisso, e sim no
oposto, ou seja, certa tecnologia já nasce configurada com tudo aquilo que a sociedade busca, renega, acredita
e etc. Foi dado um exemplo do motor a vapor que fora projetado cerca de mil e quinhentos anos antes de ser
utilizado, mas naquele contexto no qual escravos eram destinados a fazer tarefas exaustivas e consideradas
impuras, não faria sentido acoplar um motor nos grandiosos portões, afinal esta era uma função da classe mais
inferior. Com isso evidencia a manifestação pura dos três fatores dos quais a tecnologia depende: relações de
poder, moral e economia. Dentro desses fatores muitas tecnologias foram criadas para compactuar com os
mesmos, assim como muitas outras estão escondidas pelo mesmo motivo.
Ainda que muitas preocupações ganharam espaço durante o decorrer do podcast, uma porção de
esperança também se faz presente quando percebemos que apesar de todas as situações e histórias
compartilhadas sobre aspectos talvez negativos que permeiam ou permearam a sociedade, logo também a
tecnologia. Esta mesma sociedade, conforme transformações, tem o poder de mudar aquilo que anteriormente

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poderia ser abominável. Transformando exatamente no oposto, ou simplesmente condicionar a sociedade para
gerar novos frutos positivos.
O podcast, ao explicar e exemplificar os conceitos de tecnologia e sociedade, é direcionado aos ouvintes
que tenham interesse em aprender e discutir sobre o impacto que as relações da sociedade causam no mundo
e como a tecnologia sempre esteve presente em todo momento histórico da humanidade, como a comunidade
acadêmica. Visto que os locutores utilizam um vocabulário de compreensão clara e explicando os termos
técnicos empregados.
As opiniões pessoais sobre o tema não contribuem para o desenvolvimento informativo e educativo do
podcast. O propósito de aprendizagem da discussão seria mais efetivo se os ouvintes tirassem suas próprias
conclusões sem a influência do pensamento dos locutores. Além disso, a mudança repentina do assunto
utilizado para a explicação do tema possibilita a má compreensão por parte do público. É necessária uma
conclusão para os exemplos principais sem a interrupção dos demais participantes.
O grupo conhecido como Dragões de Garagem foi formado em 2012 com o intuito de popularizar a
ciência de forma natural e descontraída por meio de podcasts. Com isso, levavam convidados para discutir e
divulgar cientificamente diversos temas de forma que incentivasse o público ouvinte a elaborar um
pensamento crítico e aprender conceitos existentes dentro do mundo da ciência. Atualmente, com mais
engajamento e outras formas de entretenimento, têm canal no Youtube e também fazem tirinhas que se
relacionam a diversos assuntos científicos. No episódio 217, em específico, participam da discussão os
seguintes colaboradores:
Marina Monteiro, bacharela em Física, mestre em ciências atmosféricas, analista de dados e estatísticas,
além de programadora com ênfase no uso da lógica Fuzzy.
Marina Tomás, bacharela em Engenharia Física e mestre em Sociologia pela Universidade Federal de
Minas Gerais, procura entender a relação entre tecnologia e sociedade, assim como o tema deste episódio.
Natália Aguiar, mestre e doutoranda de Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, se
interessa pelo estudo das humanidades, principalmente das desigualdades, social e política.
Tupá Guerra, mestre em História pela Universidade de Brasília, além de PhD em História pela
Universidade de Birmingham. É especialista em história antiga e história das religiões.
Além dos participantes do grupo, é convidado o professor Yurij Castelfranchi para abordar sobre o tema
“Tecnologia e Sociedade”. Yurij é professor de sociologia na Universidade Federal de Minas Gerais e busca
relacionar a sociologia com outros assuntos interdisciplinares, já que estudou anteriormente conceitos de física
e comunicação.

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