Você está na página 1de 124

Reforma Agrária Questão de Consciência

AVISO PRELIMINAR

“Reforma Agrária” e reforma agrária

De pouco tempo a esta parte, vem sendo cada vez mais freqüente entre nós, não só em
discursos e conferências, como em entrevistas, artigos, livros, relatórios oficiais e projetos de
lei, a expressão reforma agrária. Não é difícil, entretanto, notar que esta designação
genérica tem servido de rótulo a sugestões ou projetos muito diversos em seus objetivos e no
espírito que os anima.
Assim, pode-se falar de uma reforma agrária sadia, que constitua autêntico progresso,
em harmonia com nossa tradição cristã. Mas também se pode falar de uma reforma agrária
revolucionária, esquerdista e malsã, posta em desacordo com esta tradição. Este último tipo
de reforma agrária importa em golpear a fundo ou até em eliminar a propriedade privada. Por
isto mesmo ele deve ser tido como hostil também à família. Com efeito, como veremos,
propriedade e família são instituições correlatas e fundadas nos mesmos princípios.
Para evitar possíveis confusões, fica declarado que neste livro a reforma agrária
revolucionária, esquerdista e malsã é sempre mencionada com iniciais maiúsculas e entre
aspas: “Reforma Agrária”.
As críticas feitas à “Reforma Agrária” não se referem, pois, de modo algum, a medidas
que promovam um autêntico progresso da vida do campo ou da produção agropecuária; seria
essa uma reforma agrária sadia.

Parte I
Aspectos religiosos e sociais

Introdução

A crise brasileira e os problemas do campo

Nota-se, no momento, a concomitância de várias crises no Brasil: de produção, de


transporte, de finanças etc. Na realidade, estas crises se interpenetram em suas causas, em seu
processo e em seus efeitos, de maneira a constituírem globalmente uma só crise econômica e
financeira, que poderíamos resumidamente chamar a crise brasileira.
Como é natural, esta crise se insere em um quadro mais vasto, que não constitui objeto
imediato do presente estudo.
A necessidade de dar remédio a essa crise, que contrasta dolorosamente com o grande
surto de progresso por que passamos em tantos terrenos, tem suscitado nos mais variados ambientes
políticos, intelectuais e sociais, considerável número de estudos, comentários e projetos. De modo
especial, as atenções têm-se voltado para os problemas do campo, e um pouco por toda parte se fala
em reforma agrária.

Atmosfera de confusão no estudo da reforma agrária

A um observador, ainda que de perspicácia apenas mediana, não pode passar despercebida
a atmosfera de confusão em que vêm sendo tratados vários dos aspectos da atual crise brasileira. E
essa confusão parece chegar ao seu auge no que concerne à reforma agrária.
Sob este rótulo, as melhores e as piores sugestões, as mais sensatas como as mais
extravagantes, vêm sendo apresentadas com igual desembaraço e acolhidas com igual interesse.
Dir-se-ia mesmo que a atenção pública se volta de preferência para as soluções arrojadas e
espetaculares. As horas difíceis são habitualmente favoráveis aos inventores de panacéias.
Em meio a essa confusão, porém, há uma nota que merece atenção muito particular. É a
freqüência com que aflora um preconceito passional, que – segundo uma expressão colhida em má
escola – se poderia chamar um verdadeiro “complexo” contra o proprietário rural e contra o mesmo
direito de propriedade.
Com efeito, o papel da propriedade rural, grande e média, no conjunto da economia
nacional, é focalizado, cada vez mais freqüentemente, como o de um privilégio pessoal em oposição
permanente aos interesses dos trabalhadores e do País. De onde não se falar o mais das vezes de
uma e outra – e especialmente da primeira – senão para estudar ou propor meios de cerceá-las.
Origina-se assim, em muitos espíritos, o desejo mais ou menos consciente de aboli-las, mediante
pequena indenização, quiçá. E daí para o socialismo, por vezes até em suas formas mais
exacerbadas, não vai senão um passo, o passo fácil e rápido que se dá ao passar logicamente das
premissas para a conclusão.

Transformação ideológica profunda e despercebida

Os debates sobre a reforma agrária vão, desse modo, induzindo lenta e quase
despercebidamente muitas pessoas a aceitarem uma mentalidade esquerdista, ou a resvalarem
mesmo para a adoção explicita de programas socialistas e revolucionários que, há um ou dois anos
atrás, teriam rejeitado categoricamente.
Decorre daí o perigo de uma dupla calamidade, ideológica e prática.
Esta afirmação pode surpreender alguns leitores. Nada, entretanto, de mais verdadeiro.
Mostrá-lo-emos detidamente mais adiante1. De passagem, lembremos apenas haver o grande Papa
Pio XI escrito que socialismo e Catolicismo “são termos contraditórios”2. E o pranteado Pontífice
Pio XII escreveu, em mensagem ao “Katholikentag” de Viena, que a Igreja vê na luta contra o
socialismo, isto é, na “proteção do indivíduo e da família frente à corrente que ameaça arrastar a
uma socialização total em cujo fim se tornaria pavorosa realidade a imagem terrificante do Leviatã3,
um de seus maiores deveres na atual fase das controvérsias sociais. Assim, são as próprias bases
ideológicas da civilização cristã que vão fenecendo na alma brasileira à medida que o espírito
socialista avança.
O “complexo” contra o proprietário rural e o direito de propriedade tende forçosamente a
passar da ordem ideológica para a ordem prática. Estamos, pois, expostos ao risco de uma
legislação aprovada num ambiente de irreflexão e açodamento. A ocasião é propícia para que a
instituição da propriedade, em lugar de ser protegida e complementada com o necessário para a
plena realização de sua função social, seja de tal maneira golpeada e cerceada no que tem de
essencial, que decaia para um estado de anemia e de raquitismo irremediável. Isto será, por certo,
uma catástrofe para toda uma classe proba e operosa: a dos proprietários rurais. Mas constituirá
também uma catástrofe para a classe dos trabalhadores agrícolas e para toda a economia nacional,
de cuja conservação e progresso a propriedade privada é, pela ordem natural das coisas, fundamento
imprescindível.
Como adiante veremos 4, uma “Reforma Agrária” que levasse essas tendências a esses
princípios socialistas às suas conseqüências naturais e lógicas lançaria o Brasil no báratro de uma
das mais graves crises de consciência de sua história.

1
Cfr. Parte I, Título II, Capítulos II e III.
2
Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931. “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 14.
3
“Pio XII, Radiomensagem ao “Katholikentag” de Viena, de 14 de setembro de 1952 – “Discorsi e
Radiomessagi”, vol. XIV, pág. 314.
4
Parte I, Secção III.
2
Prevenir tal perigo não é, pois, lutar apenas pelos direitos de uma classe respeitável, mas
também favorecer os trabalhadores rurais, defender a civilização cristã e preservar o futuro
econômico e religioso do País.
Por esta razão, o direito e o dever de intervir neste problema não tocam somente aos
agricultores. Diretamente interessados, eles talvez até se sintam menos à vontade para o fazer do
que outros.

Os autores

Os autores deste trabalho não são agricultores e não dependem da lavoura para sua
subsistência. Isto confere às considerações que se seguem uma insuspeição que deve ser tomada em
conta pelo leitor. Move-os tão somente o desejo de contribuir, dentro de suas possibilidades, para
conservar o Brasil nas vias da civilização cristã.
Ligados entre si há muitos anos por relações de estudo e amizade, vêm eles acompanhando
desde os primórdios o movimento de opinião em favor da “Reforma Agrária”.
Apreensivos ante a perspectiva sempre mais próxima dessa tão profunda transformação
social e econômica, deliberaram conjugar seus esforços para a elaboração de um trabalho que
considerasse em seus vários aspectos a “Reforma Agrária”.
Toda a matéria contida na Parte I ficou a cargo dos Bispos de Campos e de Jacarezinho e
do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Da matéria econômica que constitui o principal conteúdo da
Parte II se incumbiu o economista Luiz Mendonça de Freitas.

Objetivos deste trabalho

Evidentemente, os autores não se propõem, só por si, a cortar o passo à campanha que ora
se faz contra o proprietário rural e contra o instituto da propriedade privada no campo. Não é isto
empreendimento proporcionado às forças de um mero trabalho intelectual.
O presente livro visa a ser apenas uma contribuição para este grande objetivo, destinada a
preparar, na medida de suas possibilidades, condições para uma sadia reação do bom-senso e da
consciência cristã.
Temos em mira alertar para o perigo da “Reforma Agrária” os setores da opinião
naturalmente mais indicados para entrar na liça, isto é, as elites do País, uma vez que, enquanto elas
não o fizerem, nada de útil se poderá esperar.

A quem ele se dirige

Este trabalho se dirige, pois, aos membros das profissões liberais, aos eclesiásticos, aos
políticos, aos militares, e notadamente aos agricultores, engenheiros agrônomos, economistas, bem
como, de modo geral, a todos os homens de cultura e de ação nos quais a Fé e o amor à nossa
civilização mantém vivaz a convicção da legitimidade e benemerência da propriedade privada, e aos
quais incumbe, a títulos diversos, a defesa dos fundamentos da nacionalidade.

Delimitação do presente trabalho

O tema de que trataremos é muito limitado. Não pretendemos fazer um estudo completo de
nossa história rural, nem de nossos problemas agrícolas presentes, e nem sequer oferecer um projeto
cabal de sadia reforma agrária. Desejamos simplesmente, convém repeti-lo, apontar o perigo que
corre, a pretexto de reforma agrária, o instituto básico da propriedade privada, e conclamar para a
ação contra tais riscos os elementos válidos.
A “Reforma Agrária”, se nos afigura medida tão contrária à ordem natural das coisas, que
os argumentos contra ela poderiam proporcionar matéria, não para um, mas para vários volumes.

3
Assim, não pretendemos dar neste livro um panorama global de todas as objeções que se
podem levantar fundadamente contra a “Reforma Agrária”.
Nossas considerações são formuladas do ponto de vista católico, que num país como o
nosso se pode pressupor aceito pela grande maioria dos leitores. A isto, como é claro, nos levam
nossas convicções. O conhecimento deste ponto interessa também aos não católicos, pois na ordem
concreta dos fatos, se a reação da consciência cristã não for a base da luta em favor da propriedade
privada, essa luta não terá viabilidade, nem superior sentido moral aos olhos do povo brasileiro.
Tratando o assunto sob esse ponto de vista, estamos certos de prestar um útil contributo
para a orientação não só dos católicos, como de modo geral de todas as mentalidades abertas à idéia
de que a Igreja tem uma palavra a dizer sobre o assunto, e cônscias de todo o alto significado que
essa palavra – intrinsecamente religiosa – tem no plano da história, da cultura e da vida do
Ocidente.
Pio XI indica nestas palavras o fundamento da intervenção dos Papas em matéria social, e o âmbito dessa
intervenção: “... julgar das questões sociais e econômicas é dever e direito da Nossa suprema autoridade (Cfr. “Rerum
Novarum”, §§ 24-25). Não foi, é certo, confiada à Igreja a missão de encaminhar os homens à conquista da felicidade
transitória e caduca, mas da eterna; antes “a Igreja crê não dever intrometer-se sem motivos nos negócios terrenos”
(Enc. “Ubi Arcano”). O que não pode é renunciar ao ofício, de que Deus A investiu, de interpor a sua autoridade, não
em assuntos técnicos, para os quais lhe faltam competência e meios, mas em tudo que se refere à moral. Dentro deste
campo, o depósito da verdade que Deus Nos confiou e o gravíssimo encargo de divulgar a lei moral, interpretá-la e urgir
o seu cumprimento oportuna e importunamente, sujeitam e subordinam ao Nosso juízo a ordem social e as mesmas
5
questões econômicas”

Algumas observações

Antes de passarmos ao corpo do trabalho, convém registrar algumas observações.


Na Parte I, falaremos habitualmente do agricultor, da agricultura e da propriedade agrícola.
Mas tudo que dissermos deles, no plano doutrinário, também se aplica exatamente ao criador, à
pecuária e à propriedade pecuária. É tão somente por brevidade de expressão que evitamos
mencionar sempre uns e outros.
Igualmente, todas as referencias feitas ao trabalhador agrícola valem para o trabalhador
braçal que serve nas atividades pecuárias.
Existe no Brasil um Partido Socialista, de expressão eleitoral aliás pequena. O presente
trabalho não o tem principalmente em vista. E isso porque sua importância concreta na investida
socialista atual é pequena. O socialismo como doutrina exerce sua mais perigosa influência através
dos elementos “socializantes” colocados nos mais diversos partidos políticos ou no âmago das
instituições que por natureza seriam anti-socialistas. A linguagem desses elementos é conservadora
na aparência; suas máximas é que são socialistas, e o efeito de sua argumentação prepara
habitualmente os espíritos para o socialismo. É para a ação desses elementos que, sobretudo,
queremos alertar nossos leitores.
Consentir em que o alvo deste trabalho se cingisse ao Partido Socialista Brasileiro – cujo
programa e cuja atuação comportam, de resto, todas as considerações aqui feitas a respeito do
socialismo como doutrina – seria diminuir as verdadeiras perspectivas do assunto.
Uma vez que a investida do espírito socialista, aqui apontada, se desenvolve num momento
em que a pressão internacional do comunismo chega a seu clímax e sua atuação em nosso País vai
num crescendo evidente, é lícito perguntar que relação há entre tal investida e os planos de
dominação mundial do marxismo.
Entre o socialismo e o comunismo não existe nenhuma distinção doutrinária essencial e
consistente. A palavra “socialismo”, de fato, é empregada às vezes para designar um conjunto de
tendências, e de aspirações de reforma, que, sem visarem a realizar inteiramente o programa
comunista, entretanto querem aplicá-lo gradualmente, e sem derramamento de sangue, neste ou
naquele setor da estrutura econômica e social. Neste sentido, o socialismo é uma preparação para o

5
Encíclica “Quadragesimo anno”, de 15 de maio de 1931. “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 17.
4
comunismo, uma realização paulatina deste. Voltaremos ao assunto6. Lembremos aqui, apenas, e
sumariamente, que tudo quanto debilita as instituições que o comunismo deseja suprimir é, em
última análise, uma contribuição para a vitória deste. E, pois, a “Reforma Agrária”, que lança em
estado agônico ou pré-agônico a propriedade rural e a elite social que nela se apoia, só pode
favorecer os desígnios dos comunistas.
As minorias organizadas lucram muito quando a confusão e a divisão se estabelecem nas
fileiras da maioria. O caos em que o problema da “Reforma Agrária” vai sendo tratado, as
dissensões a que cada vez mais esta última poderá ir dando ocasião, constituem precioso caldo de
cultura para as idéias comunistas.
A lei não tem um papel ilimitado na solução dos problemas sociais, quer da cidade, quer do
campo. Estes se resolvem sobretudo com o concurso da Religião e da moral, bem como de praxes e
costumes probos, nascidos da vida quotidiana. Assim, não é só pela lei, mas principalmente pela fé
cristã, pela moral, e por sábias medidas consuetudinárias, que se obterá a solução verdadeira de
nossos problemas do campo7 .
As crises sociais, se têm todas um aspecto ideológico muito importante, não se podem
reduzir, entretanto, a meros termos de doutrina. Esta verdade vale também para a “Reforma
Agrária” no Brasil.
Isto não obstante, é legítimo e necessário destacar – para analisá-los – os problemas
doutrinários do emaranhado de questões que, como outras crises sociais, também a “Reforma
Agrária” encerra.
Não é senão este o nosso objetivo.
Em princípio, a igualdade das glebas rurais pode referir-se à área, ou à capacidade de
produção. Quer a “Reforma Agrária” vise estabelecer uma, quer outra, não nos parece acertada.
Contudo, ela é particularmente inaceitável quando tem por objetivo a igualdade de área. Ora, é para
esta última forma de igualdade que tende grande parte dos projetos, como, por exemplo, o de
revisão agrária do Governo do Estado de São Paulo.
Precisamente em razão das brumas que envolvem o assunto, parece-nos importante
esclarecer que os autores do presente trabalho, combatendo embora a “Reforma Agrária”, não
contestam que há muito por fazer em nossa vida rural, quer em favor do trabalhador braçal, quer do
agricultor. Assim, repetimo-lo8 , se por reforma agrária se entende uma legislação que, sem
exorbitar das funções do Estado e sem atacar o princípio da propriedade privada, visa a
melhorar a situação do trabalhador rural e do agricultor, só aplausos lhe temos a dar. Não
nos opomos senão a uma reforma agrária de sentido igualitário e socializante, que altere nossa
estrutura agrária injustamente, de maneira a abalar o instituto da propriedade, no qual
vemos, como já dissemos, a base e a condição de toda economia sadia.
Embora escape ao âmbito restrito deste livro, querem os autores indicar alguns pontos que
poderiam enriquecer de conteúdo cristão um projeto de sadia reforma agrária9:
1. – Fixação, por lei, das condições muito excepcionais em que a desapropriação de
imóveis rurais, mediante justa indenização, pode ser feita.
2. – Crédito fácil para os proprietários de grandes áreas que as desejem colonizar. Crédito
fácil também para financiamento da compra de glebas.
3. – Crédito fácil para o equipamento das propriedades.
4. – Assistência técnica aos agricultores. Fomento da agricultura, sem dirigismo.
5. – Concessão de terras devolutas aos pequenos agricultores, sempre que por este meio
possam elas ser convenientemente exploradas.

6
Cfr. Parte I, Secção I, Título II.
7
Cfr. Proposição 7.
8
Cfr. “Aviso Preliminar”.
9
Cfr. D. Geraldo de Proença Sigaud, S.V.D., “Reforma Agrária” – in “Digesto Econômico”, São Paulo,
junho de 1953, págs. 32-38; reproduzido na revista “Verbum”, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro,
tomo X, fasc. 3, 1953.
5
6. – Fomento de formas de contrato de trabalho que possibilitem um aproveitamento
intenso da terra e ao mesmo tempo beneficiem o assalariado, permitindo-lhe uma
situação econômica mais favorável e a constituição paulatina de um patrimônio. Por
exemplo: a parceria, as empreitadas.
7. – Crédito especial para a melhoria das moradias dos colonos e medidas congêneres.
Excederia os limites deste trabalho analisar quais dessas medidas são praticáveis e
desejáveis na atual conjuntura. Foram elas lembradas a título meramente exemplificativo.
No que diz respeito mais particularmente à situação dos trabalhadores rurais, os objetivos
de uma sadia reforma agrária podem encontrar-se no discurso dirigido por Pio XII, em 11 de abril
de 1956, aos participantes do X Congresso da Confederação Nacional dos Cultivadores Diretos da
Itália 10.
O mesmo Pontífice condenara, em outra oportunidade, a opinião dos que desejam uma
estrutura agrária em que só haja pequenas propriedades, afirmando que, embora tenham estas um
papel importantíssimo na vida rural, o reconhecimento disto “não importa em negar a utilidade e
freqüentemente a necessidade de propriedades agrícolas mais vastas” 11.
Isto posto, o fomento criterioso da pequena propriedade – feitas as ressalvas relativas aos
direitos dos proprietários – e outras medidas favoráveis ao trabalhador braçal, enumeradas pelo
Papa, embora com vistas especialmente para a Itália, merecem toda a atenção dos estudiosos.
Diz Pio XII: “Não Nos compete definir as providências particulares que a sociedade deve adotar para cumprir
a obrigação de prestar auxílio à classe rural; não obstante, afigura-se-Nos que os objetivos colimados pela vossa
Confederação coincidem com os deveres da própria sociedade para convosco. Tais são, por exemplo: difundir a
propriedade agrícola e o seu desenvolvimento produtivo; colocar os agricultores não proprietários em condições de
salários, de contratos e de rendimento capazes de lhes favorecer a estabilidade nas terras por eles cultivadas e de lhes
facilitar a aquisição da plena propriedade (salvo sempre a consideração devida à produtividade, aos direitos dos
proprietários e, sobretudo, aos seus investimentos); incentivá-los, mediante auxílios concretos, a melhorar as culturas e
o patrimônio zootécnico, de modo que com isso se favoreça quer o seu rendimento, quer a prosperidade nacional;
promover, além disto, em favor deles, as formas de assistência e de seguros comuns aos demais trabalhadores (porém
administradas segundo as condições especiais do agricultor); facilitar a preparação técnica, especialmente dos jovens,
de acordo com os métodos racionais e modernos em contínuo progresso; e finalmente esforçar-se para que seja
removida essa diferença demasiado gritante entre o rendimento agrícola e o industrial, causadora do abandono dos
campos, com tanto dano para a economia num país como o vosso, fundado em boa parte na produção agrícola’. A estes
encargos da sociedade em proveito vosso juntem-se os que derivam das particulares condições de vossos campos, ainda
não suficientemente providos, aqui e acolá, de habitações, estradas, escolas, água encanada, energia elétrica,
ambulatórios médicos” 12.
Estas medidas, e outras congêneres, dão bem uma idéia do que poderia ser uma reforma
agrária justa, ou, segundo a expressão de Pio XII, “uma reforma agrária” feita “de modo feliz” 13.
É impossível transcrever este texto sem realçar tanto o ardente desejo de beneficiar o
trabalhador agrícola, quanto o admirável comedimento de linguagem que o caracterizam.
Enunciando um programa rural revestido de importantes aspectos técnicos, o Pontífice salienta que
se trata de assunto sobretudo temporal, e por isto suas palavras tomam um tom algum tanto
condicional: “afigura-se-Nos...” Quanto à pequena propriedade, ele não aconselha que seja imposta,
mas simplesmente “difundida”. No que diz respeito à tão desejável fixação do trabalhador ao solo,
louva que “as condições de salários, de contratos e de rendimento” a favoreçam, o que é bem
diverso de a imporem. E em seguida ainda ressalva o Papa a “consideração devida à produtividade,
aos direitos dos proprietários e, sobretudo, aos seus investimentos”. Belo exemplo da maternal
sabedoria da Igreja, para a qual os problemas econômico-sociais não se resolvem por um dirigismo

10
A . A . S., Vol. XLVIII, n. 6, págs. 278-279.
11
Discurso de 2 de julho de 1951, ao I Congresso Internacional Sobre os Problemas da Vida Rural –
“Discorsi e Radiomessaggi”, Vol. XIII, págs. 199-200.
12
Discurso de 11 de abril de 1956, aos participantes do X Congresso da Confederação Nacional dos
Cultivadores Diretos da Itália – A . A. S., Vol XLVIII, n. 6, págs. 278-279.
13
Discurso de 2 de julho de 1951, ao I Congresso Internacional Sobre os Problemas da Vida Rural –
“Discorsi e Radiomessaggi”, Vol. XIII, págs. 199-200.
6
legislativo ou administrativo autoritário que impõe soluções uniformes para todos os casos e
despido de contato com a realidade viva.

Secção I
A investida do socialismo contra a propriedade rural

Título I

A “Reforma Agrária” e nossa realidade rural

Capítulo I

Aspectos positivos de nossa realidade rural

Popularidade do fazendeiro na tradição brasileira

Até há bem pouco tempo, o fazendeiro era objeto da consideração e da estima indiscutida
de todas as camadas sociais do País. Sua figura, como ela se delineou nas primeiras décadas deste
século, é bem conhecida de todos.
Senhor de terras adquiridas pelo trabalho árduo e honrado ou por uma legítima sucessão
hereditária, não se contentava em tirar delas, preguiçosamente, o estrito necessário para sua
subsistência e a dos seus. Pelo contrário, movido por um nobre anseio de crescente bem-estar e
ascensão cultural, aspirava ele ao pleno aproveitamento da fonte de riqueza que tinha em mãos.
Para isto, franqueava suas terras largamente às famílias de trabalhadores braçais que, vindos de
todos os quadrantes do Brasil e das mais variadas regiões do mundo, procuravam no campo as
condições de uma existência honesta e segura. Dedicado de sol a sol à direção da faina rural, o
proprietário, associado assim aos trabalhadores braçais na tarefa de tirar do solo recursos de que um
e outros iam viver, era verdadeiramente o “pater”, o “patrão” de cujos bens e de cuja atuação todos
recebiam alimento, teto, roupa e meios de poupança, na medida da situação e da cooperação de cada
qual.
E, como as relações de trabalho, quando bem entendidas, não ficam só em seu âmbito mais
restrito, mas naturalmente criam compreensão, estima e mútuo apoio nas várias necessidades da
vida, a harmonia entre o fazendeiro e o colono criava, freqüentemente, o hábito de este se

7
aconselhar com aquele, recebendo proteção e amparo nos mais diversos assuntos; como, de outro
lado, gerava no trabalhador uma dedicação por vezes heróica a seu patrão. É este um dos mais
típicos e luminosos elementos de nossa tradição em matéria de relações de trabalho.
A nítida consciência, na opinião pública, dessa íntima e profunda conjugação de esforços e
de interesses, manteve-se por muito tempo em nosso País e, mercê de Deus, ainda em larga medida
existe. Era e é um dos melhores títulos do fazendeiro à estima geral.
A história de nossas velhas estirpes de proprietários rurais vem de muito antes da época
cujo quadro há pouco traçamos. É a história de uma ascensão. Nascida espontaneamente das
profundezas da ordem natural das coisas, a propriedade agrícola deu origem entre nós a uma elite
social que foi, de início, composta de desbravadores valentes e dinâmicos, a que sucederam
gerações de agricultores fixados em suas glebas e postos em luta constante com a natureza bravia do
sertão. Aos poucos, a rudeza da terra se foi atenuando, uma tradição agrícola sempre mais completa
foi estabelecendo os métodos de trabalho, os sistemas de plantio e a rotina judiciosa e eficiente das
atividades rurais. O agricultor ia, com isto, ficando menos absorvido pelas suas funções. Ao mesmo
tempo, as cidades se iam multiplicando e as comunicações com o Velho Mundo se iam tornando
mais seguras e rápidas. Firme na base econômica que seu trabalho e o de seus maiores lhe haviam
formado, o fazendeiro sentia em si a consciência de que a simples posse de um patrimônio não basta
para criar uma elite digna desse nome. Da tradição luso-brasileira, marcada a fundo pela influência
cristã, herdara ele valores de alma inestimáveis, que cumpria polir e acrescer no convívio com os
centros urbanos do Brasil e do exterior.
Daí o aparecimento do agricultor meio citadino, no espírito e nas maneiras. Morava ele de
bom grado, durante certa parte do ano, na cidade, e não raro freqüentava a Corte e viajava para a
Europa. Mas dedicava gostosamente a outra parte do ano à vida rural, no contato efetivo e natural
com os homens e as coisas do campo.
Sem perder suas raízes na terra, essa elite crescia assim, gradualmente, em instrução,
cultura e distinção de maneiras. Por esta forma ela se capacitava para – fiel embora a seu cunho
agrícola – fornecer à Nação grande número de intelectuais, de comerciantes, de industriais, de
estadistas, de homens e de damas de sociedade, que tanto valor e tanto realce deram à nossa vida
política, cultural e social.
Enquanto o fazendeiro, assim transformado, ampliava seu raio de ação em benefício do
País, por isto mesmo que não deixara de ser fazendeiro continuava contribuindo para nosso
progresso agrícola. A área plantada, o número de famílias vivendo do trabalho na lavoura, o volume
da produção e da exportação iam crescendo. E graças às riquezas assim acumuladas, firmava-se no
exterior o nosso crédito, e as importações, sem perturbarem nossa balança comercial, iam pari
passu avultando. Por esta forma o Brasil, outrora atrasado e sem recursos, se ia apetrechando e
adornando com todos os produtos do mundo civilizado.
A lavoura era, por esta forma, a base da prosperidade nacional. O impulso que ela deu ao
País se tornou notório ao mundo inteiro. Daí veio a reputação de terra da fartura que o Brasil
começou a ter já desde os fins do século XIX. Éramos, com os Estados Unidos e a Argentina, a
Canaã para a qual afluíam, cheias de esperança e de dinamismo, as multidões da Europa, do Oriente
Próximo e do Extremo Oriente.

O princípio básico da popularidade do fazendeiro era uma natural afinidade de


interesses

Na geral consideração de que então se cercava o agricultor – e com ele o criador, que sob
todos os aspectos lhe era igual – não se objetivava principalmente o magnata que, senhor de uma
fortuna estável e honrada, podia dispensar favores. Via-se nele, sobretudo, o proprietário legítimo e
benemérito que conscientemente, ao promover seu próprio bem-estar, favorecia, por uma profunda
e natural entrosagem de interesses, o bem-estar dos trabalhadores, o progresso do principal fator de
desenvolvimento de todos os setores econômicos do País, e a ascensão de nosso nível geral de
cultura e civilização.
8
Desgaste e renovação de quadros

Este entrosamento vivo entre o interesse do patrão e o do trabalhador, entre o progresso da


iniciativa privada e o de toda a Nação, era especialmente palpável pelo processo de conservação e
renovação da elite. Punha esta todo o empenho em se manter e em progredir, mas não obstava a que
em suas fileiras certos elementos, que se houvessem desgastado e corrompido, decaíssem,
desaparecendo rápida ou paulatinamente num merecido anonimato; nem a que elementos novos e
estuantes de vitalidade saíssem das fileiras do salariado para terem acesso à condição de
proprietários, pequenos, médios ou grandes. Com isto se lhes abria caminho para a promoção
cultural e social, mais acentuada, ou menos, que, com a ajuda do tempo, daí normalmente
decorreria. Esta possibilidade de acesso do trabalhador rural empreendedor e econômico à condição
de proprietário contribuiu, em larga medida, para preparar dois fatos dos mais marcantes em nossa
história econômica recente: o loteamento de zonas novas, feito tantas vezes por grandes
proprietários desbravadores, e paralelamente o fracionamento orgânico e espontâneo de grandes
propriedades em zonas já antigas e densamente povoadas, onde as conveniências do tipo de cultura
induziam a esta transformação.

Tradição e progresso

Nossa elite rural tradicional revelou, também neste ponto, um senso profundo das
realidades e prestou autêntico serviço ao País. Não aceitou a falsa antítese tradição-progresso. Não
quis constituir-se como casta hermeticamente fechada e ligada só ao passado. Porém não quis
tampouco renunciar à sua própria continuidade, ao seu espírito e às suas tradições.
E assim, se bem que a nossa melhor elite de plantadores e criadores fosse, de modo geral, a
continuação histórica das elites do passado, um processo natural legítimo vinha fazendo uma
decantação, deixando desaparecer o que perecera e substituindo por outros os elementos mortos.
Estes traziam em si as condições de vitalidade necessárias para dar origem a novas famílias
desejosas de se incorporarem na elite existente, e constituindo, pois, novas fontes de tradição
fecunda e dinâmica.

Cunho essencialmente familiar e hereditário

Mencionamos a família, a família cristã, evidentemente, oriunda do Sacramento do


Matrimônio, abençoada por Deus e reconhecida pelo Estado. Ela era o esteio de toda esta ordem de
coisas, o quadro em que o homem vivia, prosperava e acumulava riquezas espirituais e materiais, e
no qual, por fim, exalava o último suspiro implorando a misericórdia de Deus. Constituía a família
um verdadeiro escrínio em que o agricultor, ao morrer, deixava seus bens espirituais e materiais
para a posteridade.
A instituição da família funde em si, harmonicamente, a tradição e o progresso14.
14
O verdadeiro significado da tradição, a sua importância numa concepção cristã da vida, Pio XII os pôs em
relevo com palavras dirigidas à Nobreza e ao Patriciado Romano em 19 de janeiro de 1944. Citamo-las por causa da sua
oportunidade numa época em que o papel da tradição é tão pouco compreendido: “A tradição é coisa muito diferente do
simples apego a um passado desaparecido, é justamente o contrário de uma reação que desconfie de todo são progresso.
O próprio vocábulo, etimologicamente, é sinônimo de caminho e marcha para a frente; sinonímia, e não identidade.
Com efeito, enquanto o progresso indica somente o fato de caminhar para a frente, passo após passo, procurando com o
olhar um incerto porvir, a tradição indica também um caminho para a frente, mas um caminho contínuo, que se
desenvolve ao mesmo tempo tranqüilo e vivaz, de acordo com as leis da vida, escapando à angustiosa alternativa “si
jeunesse savait, si vieilesse pouvait”.
... por força da tradição, a juventude, iluminada e guiada pela experiência dos anciãos, avança com passo
mais seguro, e a velhice transmite e consigna confiantemente o arado a mãos mais vigorosas, que continuam o sulco já
iniciado. Como indica com seu nome, a tradição é um dom que passa de geração em geração; é a tocha que o corredor a
9
Pois nela é que o legado do passado não se estiola, mas é assumido pelas gerações novas
que o perpetuam e o acrescem com sua própria contribuição. Foi o cunho familiar dessa elite que
lhe assegurou a característica a um tempo tradicional e dinâmica.

Influência vivificadora e organizadora do pensamento cristão

Subjacente a esta ordem de coisas estava uma verdadeira “filosofia” cristã, vivificada por
toda uma tradição católica dez vezes secular, herdada da terra lusa. Dessa tradição não fizemos
senão esboçar aqui alguns grandiosos e harmônicos lineamentos:
1. – Legitimidade da propriedade privada. Dignidade natural e sobrenatural do
trabalhador. Harmonia fundamental entre os interesses deste e do proprietário rural.
2. – Harmonia fundamental entre os interesses do proprietário rural e do País.
3. – Propriedade hereditária, que não deve existir só com o seu titular, mas sobreviver na
família legítima, célula do organismo social dentro da qual e para a qual o homem
vive.
4. – Preponderância do fator família na estrutura social, e consequentemente harmonia
entre tradição e progresso.
5. – Juntamente com a continuidade da estrutura familiar através das gerações, existência
de um duplo processo, de decantação dos elementos desgastados e de assimilação
paulatina de elementos novos, aptos a se inserirem nos quadros da elite e a lhe
assimilarem o espírito.
Em outros termos, essa tradição comporta como pressupostos:
A legitimidade de uma diferença de classes no plano econômico e social;
A possibilidade de cada um ter uma existência digna e plenamente humana, nas condições
que lhe são próprias;
A necessidade, para o bem do País, de que, dessa diferenciação comedida e harmônica,
decorra uma cooperação íntima.
Em uma palavra, é nisto que se funda a paz social.
E foi nesta paz social que o Brasil alcançou, como já dissemos, a merecida reputação de
um dos países de maior fartura no mundo.

Capítulo II

Sombras no quadro

Claro é que a descrição feita no capítulo anterior corresponde tão somente as linhas gerais
do que foi por muito tempo, e em larga medida ainda é, nossa estrutura agrária. Ao longo dos anos e
condicionada por circunstâncias locais bastante numerosas, conheceu ela muitas variações. O que
não impede – e este é o ponto importante – que em suas grandes linhas, e sobretudo em seu espírito,
ela se tenha constituído assim.

Aspectos gerais harmônicos. Pormenores contraditórios

Não seria talvez necessário acrescentar que, sempre que se descreve uma estrutura em seu
espírito e em suas linhas gerais, existe o risco de se omitir ou subestimar o que nela está em
contradição com esse espírito ou essas linhas.

cada revezamento confia às mãos de outro, sem que a corrida pare ou arrefeça sua velocidade. Tradição e progresso
reciprocamente se completam com tanta harmonia que, assim como a tradição sem o progresso se contrariaria a si
mesma, assim também o progresso sem a tradição seria um empreendimento temerário, um salto no escuro”. –
(“Discorsi e Radiomessaggi”, vol. V, págs. 179-180).
10
Como vimos na Introdução15, não entra nos quadros deste trabalho dar toda uma visão
panorâmica de nosso passado agrícola, ou de nossa situação presente, mas mencionar apenas o
necessário para o estudo do problema muito circunscrito de que tratamos. É pois a título de mera
exemplificação que lembramos se ter a realidade, em vários lugares, afastado dos princípios em
medida maior ou menor.
Em certas regiões, a proteção do trabalhador rural contra o alcoolismo, o jogo, a
prostituição, a prática das uniões ilegítimas, foi insuficiente ou nula, e com isto ficaram
prejudicadas sua fibra moral, sua vida familiar, sua capacidade de trabalho e seu espírito de
poupança. Em casos não raros, poderiam ter sido dispensados ao homem do campo salários mais
elevados, habitações mais confortáveis e salubres, instrução adequada, e condições de vida mais
convenientes. A propaganda nociva, sob todos os pontos de vista, do espiritismo e das superstições
de toda ordem poderia ter sido obviada ou pelo menos contrabalançada. Em muitos lugares, uma
melhor assistência médica dos poderes públicos e da iniciativa privada poderia ter favorecido a
saúde do trabalhador rural. São, como dissemos, meros exemplos, que tanto poderiam ser tirados do
passado como do presente. Outros poderiam aduzir-se.
A decadência religiosa na vida do campo produziu devastações morais sensíveis, no
mundo dos trabalhadores rurais. Não raras vezes, para exemplificar, poderiam estes ter atenuado ou
remediado sua pobreza evitando a indolência, o esbanjamento inconsiderado com a aquisição de
objetos supérfluos, com os vícios do álcool e do jogo, que absorviam boa parte de seu já pequeno
salário.
Tais defeitos resultaram, em boa parte, de todo um estado de espírito, de que o agricultor
foi muitas e muitas vezes participante, porém do qual ele não era o foco. Esse estado de espírito
estava radicado tão profundamente em todo o corpo social, que dele participavam, via de regra, as
autoridades públicas e os próprios trabalhadores rurais.
Era ele uma conseqüência do liberalismo, que deixava cada homem entregue a si. Nem o
Estado nem o patrão deveriam transpor o círculo de ferro de suas funções específicas. Vivesse, pois,
cada qual como lhe aprouvesse. Assim, se pela indolência, pela inapetência de conforto e instrução,
alguém não queria progredir... pois que estacionasse. A ninguém seria lícito intervir em seus
direitos de micro-soberano de sua esfera privada, para lhe dar ordens ou sequer conselhos. De onde,
por vezes, nos próprios beneficiários certa reação de brio ofendido, diante de iniciativas que
tendiam a favorecê-los em nome da justiça ou da caridade.
A sede de prazeres, característica do neopaganismo, não poupou nenhuma classe social.
Assim, penetrou também entre os agricultores, criando neles, freqüentemente, a propensão a fazer
gastos suntuários no decurso de suas viagens ao exterior, a manter uma representação social por
demais onerosa nos grandes centros, a construir sedes de fazenda excessivamente luxuosas, a
comprar automóveis numerosos etc. Tudo isso acompanhado, por vezes, de gastos ainda maiores
com o jogo e com negócios arrojados.
Da mesma raiz nasce naturalmente a avareza no essencial, isto é, nos gastos para conservar
as terras, remunerar dignamente os trabalhadores e promover ativa e dedicadamente a melhoria
espiritual e material das condições de vida destes.
Os extremos se tocam. Com alguma freqüência, estes mesmos resultados nocivos são
produzidos, não pelas despesas excessivas, mas pelo exagerado desejo de acumular riquezas sobre
riquezas. Este desejo originou-se, por vezes, da infiltração da mentalidade capitalista – tomada aqui
em seu mau sentido uma palavra que também comporta um sentido bom – no campo. Abstraindo de
todos os demais aspectos da vida, o fazendeiro-“capitalista” só via como fim desta seu trabalho e
seu próprio enriquecimento, de onde considerar o empregado como máquina da qual se deve tirar o
máximo dando-lhe o mínimo. Casos houve em que seu anseio de auferir desde logo o maior lucro
levou-o a comprometer o futuro da propriedade, recusando à terra o trato devido.
Uma certa incapacidade dos agricultores para se organizarem e imporem aos poderes
públicos o respeito a seus direitos pode também ser considerada um defeito sensível de nosso meio

15
Cfr. Págs. X e Y
11
agrícola de então. Esse defeito tende, aliás, a diminuir em face das circunstâncias, menos
rapidamente embora do que fora de desejar.

As sombras do quadro e suas causas permanecem na realidade presente

Na medida em que ainda existe nossa velha e benemérita estrutura rural, com ela
sobrevivem as sombras do quadro, bem como as respectivas causas. Elas se agravaram pelo fato de
que alguns fenômenos nocivos, ainda muito incipientes ou quiçá inexistentes no começo do século,
tomaram de lá para cá um vulto inquietante. Mencionemos alguns.
Um deles – do qual, apesar de sua importância, pouco se fala – é a “desruralização” dos
proprietários agrícolas. Muitos deles, embora vivam no campo, tomam ali a mentalidade, as atitudes
e os hábitos citadinos exilados. Seu convívio com os trabalhadores é o menor possível. O casal e os
filhos vivem em função da cidade próxima, onde encontram as diversões que mais apreciam e
compreendem.
Agricultores há que habitam nas capitais, indo à fazenda com suas famílias somente nas
férias, que deixam transcorrer no convívio exclusivo com amigos que levam consigo, sem tomar um
contato vivo e pessoal com os trabalhadores rurais. Outros, por fim, passam anos sem fazer na sua
propriedade senão as rapidíssimas estadas indispensáveis para tomar algumas providências e dar
certas diretrizes.
Pensarão talvez vários desses agricultores que, dando com largueza assistência material a
seus colonos, cumprem cabalmente seu dever. Sua generosidade é de se louvar, porém não basta.
Sua situação de fazendeiros pede que eles dêem algo de mais valioso aos seus empregados, isto é,
façam o dom de si, de sua presença, de sua afabilidade, de seu convívio.
Não queremos dizer – insistimos – que seja esta a regra geral. Mas, em todo caso, os fatos
que descrevemos são bastante numerosos para que seja justo e indispensável analisá-los aqui.
A ausência do campo decorre de um estado de espírito que leva o homem a viver só para as
diversões, considerando monótona e insuportável a existência calma, digna, sem prazeres
excitantes, que ali se leva.
Essa vida, dedicada à agricultura e tão propícia à pratica da virtude, a Igreja a favorece
com empenho.
Pio XII, por exemplo, a elogia com estas palavras:
“Hoje, como no passado, o campo tem algo a dar, que ultrapassa o nível dos bens materiais: ele continua
sendo sempre uma das mais preciosas reservas de energias físicas e espirituais. Daí decorrem a estima e o interesse com
que a Igreja sempre considerou a agricultura “omnium artium... innocentissima”, como a chama Santo Agostinho (De
haeresibus, 46; P. L. 42, 37); daí a solicitude com que, particularmente hoje em dia, Ela se dirige à população rural, que,
em virtude de seu contato mais direito com o mistério da natureza, ou do isolamento maior imposto por seu próprio
trabalho, conservou em geral mais vivo sentimento religioso e assim “ficou até nossos dias a detentora da mais pura
tradição cristã” (Discurso de 11-IV-1956, aos Cultivadores Diretos)16 .
E o Santo Padre João XXIII, falando sobre o mesmo assunto, exclama:
“Amai a terra, mãe generosa e austera, que encerra em seu seio os tesouros da Providência! Amai-a porque,
especialmente em nossos dias, em que se difunde uma perigosa mentalidade que arma ciladas aos valores mais sagrados
do homem, encontrais nela o quadro sereno onde se desenvolverá vossa personalidade perfeita. Amai-a porque, ao
17
contato dela e por vosso nobre trabalho, vossa alma pode mais facilmente aperfeiçoar-se e elevar-se a Deus” .
Sempre mais, o proprietário vai sendo, no campo, o grande ausente. Com isto, vai ele
perdendo a consciência de sua missão de líder natural em suas terras, esquecido de que lhe compete
velar pelos seus trabalhadores, promovendo-lhes a melhoria das condições de existência. Como
evitar que a estes pareça, numa apreciação unilateral e portanto injusta – mas cujo lado errado eles
não alcançam facilmente – que o fazendeiro é elemento supérfluo na marcha dos trabalhos agrícolas
e portanto pode e deve ser visto apenas como um parasita a ser extirpado?

16
Carta de 18 de setembro de 1957, ao Emmo. Cardeal Siri, por ocasião da XXX Semana Social dos
Católicos da Itália - A.A.S., vol. XLIX, n. 14, págs. 831-832.
17
Discurso ao XIII Congresso da Confederação Nacional Italiana dos Cultivadores – “Osservatore Romano”,
edição hebdomadária em língua francesa, de 8 de maio de 1959.
12
De outro lado, se o agricultor não concorre com sua presença para estabelecer com seus
empregados contatos vivos, de alma a alma, embora condicionados às conveniências da hierarquia
social, como querer que estes lhe tenham estima e dedicação? Ora, não há vínculo de subordinação
que se mantenha duravelmente, sem gerar amargor e até revolta, se se fixa em termos meramente
funcionais e econômicos.
Como se vê, há nesta ausência sistemática de tantos proprietários uma ocasião para graves
omissões do dever, e para a criação, a longo prazo, de um clima pré-revolucionário entre os
trabalhadores.
Na Revolução Francesa, levantaram-se os camponeses de terras em que os senhores não
habitavam. Pelo contrário, os da heróica Vandéia lutaram por seus senhores, contra a Revolução: é
que esses residiam nas terras de que eram donos. Não haverá aí uma lição da história?
Não queremos dizer, com isto, que não haja diversas circunstâncias que tornem legítimo e
até mesmo necessário a certos proprietários não morar em sua fazenda. Também não dizemos que
todos nela devem permanecer o ano inteiro. Mas que, em regra geral, ali estejam pelo menos o
tempo necessário para terem com o trabalhador um contato vivo e autêntico, é o que nos parece
indispensável se quisermos evitar que entre uma classe e outra se estabeleça um “vácuo” altamente
propício à causa da revolução social.
Melhor se compreenderá talvez a utilidade deste convívio se se considerar que, segundo a
doutrina da Igreja, o patrão – e com ele sua esposa e filhos – tem uma responsabilidade pelos
trabalhadores. Com efeito, os empregados domésticos são, no lugar que lhes é próprio, um
complemento do lar: formam a chamada sociedade heril. Os trabalhadores agrícolas, embora menos
proximamente ligados ao lar do patrão, devem beneficiar-se desta atmosfera de família, inerente a
uma concepção cristã da propriedade.
Cumpre que os patrões lhes conheçam as necessidades, as atendam no limite do que for
justo, e ainda completem a ação da justiça com as larguezas da caridade. Ora, nada disto pode ser
feito devidamente se o fazendeiro e sua família estão sempre ausentes do campo.
O trato afável de grandes com pequenos, conservando-se embora cada qual na sua posição,
constitui preciosa tradição das verdadeiras elites no Ocidente cristão. Pio XII descreve este trato
exímio nos seguintes termos:
“... as relações entre classes e categorias desiguais devem permanecer governadas por uma proba e imparcial
justiça, e ser ao mesmo tempo animadas por respeito e afeição mútua que, embora sem suprimir a disparidade, lhe
diminuam as distâncias e temperem os contrastes. Nas famílias verdadeiramente cristãs, por acaso não vemos nós os
maiores dentre os patrícios e as patrícias, vigilantes e solícitos em conservar, para com seus empregados e para com
todos os que os cercam, um comportamento consentâneo por certo com sua posição, mas escoimado de presunção,
propenso à cortesia e benevolência nas palavras e modos que demonstram a nobreza dos corações; patrícios e patrícias
que vêem neles homens, irmãos, cristãos como eles, e a eles unidos em Cristo com os vínculos da caridade, daquela
caridade que mesmo nos palácios ancestrais conforta, sustém, ameniza e dulcifica a vida entre os grandes e os humildes,
18
máxime nas horas de dor e tristeza que nunca faltam aqui?” .
E, mais do que às necessidades materiais, devem os patrões atender às espirituais, valendo-
se de sua legítima influência para, pelo exemplo e pela palavra, inculcarem o amor de Deus e a
prática da virtude.
Assim, evitar para os trabalhadores as ocasiões de contrair vícios, de praticar más ações,
favorecer e até promover atos de piedade, facilitar a ação do Clero, aconselhando todos a que se
casem religiosamente, freqüentem os Sacramentos, façam batizar seus filhos e os instruam na
Religião, eis deveres que são específicos do patrão católico.
No tocante à ação do fazendeiro em favor da formação religiosa dos colonos, não negamos
que muitos procederam assim no passado e assim procedem no presente. Daí lhes vinha – e vem –
boa parte de sua popularidade. Mas como não lamentar que outros ajam de modo diverso? Se os
agricultores que atendem inteiramente a esses deveres e os que os negligenciam também

18
Alocução de 5 de janeiro de 1942, à Nobreza e ao Patriciado Romano – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol.
III, págs. 347-348.
13
inteiramente são raros, grande é o número dos que só em parte os cumprem. E essa negligência
parcial contribui para que, pouco a pouco, Jesus Cristo vá saindo da vida do campo.
De onde sai Cristo, com Ele sai a ordem. E de onde sai a ordem, ali entra a Revolução.
Di-lo sabiamente Pio XI: “... uma das causas principais do caos em que vivemos reside no fato de graves
atentados desferidos contra o culto do direito e o respeito à autoridade – e isto se produziu desde o dia em que o mundo
se recusou a ver em Deus, Criador e Senhor do mundo, a fonte do direito e da autoridade. Este mal também encontrará
seu remédio na paz cristã, que se confunde com a paz divina e por isto mesmo prescreve o respeito à ordem, à lei e à
19
autoridade” .

Capítulo III

“Reforma Agrária”, falsa solução para um problema inexistente

Consideração equilibrada das falhas e problemas de nossa vida rural

O consenso geral do País reconhecia até há bem pouco que estes e outros senões,
merecedores, sem dúvida, de remédios, alguns dos quais enérgicos e urgentes, não importavam em
negar as reais benemerências da classe dos agricultores e do instituto da propriedade rural, nem
justificariam uma medida como a reforma drástica da estrutura agrária, pela supressão das
propriedades média e grande e a transferência das respectivas terras para os trabalhadores.
Esta solução lhe pareceria, e a justo título, tão inadequada e tão injusta quanto a de alguém
que, à vista das lacunas freqüentes e graves que existem atualmente na vida do lar, resolvesse, não
reformar os homens e seus abusos, mas abolir a instituição da família ou enfraquecê-la.
Os princípios fundamentais da propriedade privada, como os da família, derivam da
própria natureza das coisas, e portanto de Deus, Autor da natureza20.
Construir uma sociedade com menosprezo desses princípios é o mesmo que construir um
edifício sem tomar em consideração as leis da Física.
Por isto mesmo, nas várias fases de infortúnio que teve de enfrentar – por exemplo, quando
da grave crise do café em 1929 – o agricultor infeliz, opresso, quase diríamos perseguido, continuou
cercado da estima e da consideração geral. A ninguém ocorreria ver nele a causa, mas sim a vítima
da crise por que o País passava. É que, mais ou menos explícitas, as verdades que há pouco
enunciamos, e em que se baseava o prestígio do agricultor, eram aceitas sem contradição.

O falseamento do problema

Esta visão ficou clara enquanto os princípios em que se funda a nossa estrutura agrícola
tradicional estavam conscientes e vivos no espírito de todos os brasileiros.
O declínio religioso de que já falamos, e que afetou as cidades e os campos, foi deixando
apagar-se gradualmente aqueles princípios. Poucos são, hoje em dia, entre nós os que os contestam.
Mas, à força de não ouvirem falar deles, vão-se esquecendo ora de um, ora de outro, e com isto a
firme estrutura ideológica antiga vai-se reduzindo à categoria de algumas convicções esparsas,
alguns hábitos mentais, algumas velhas simpatias. Ficou assim aberta a porta dos espíritos para
aceitar desprevenidamente princípios que contém em si, implícita ou explicitamente, a idéia de que
o interesse público é oposto ao interesse particular, e que, em conseqüência, o proprietário rural não
é um benemérito, mas um parasita. Descreveremos adiante o processo subtil dessa transformação.
A partir de uma visão assim transformada, não é difícil para o brasileiro médio tomar uma
atitude de antipatia em face de nossa atual estrutura agrária. Pode parecer-lhe muito plausível que

19
Encíclica “Ubi Arcano”, de 23 de dezembro de 1922 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 17.
20
Cfr. Título II, Capítulo II.
14
toda a crise atual decorra dessa estrutura. Fica configurado desse modo um problema rural
inexistente.
Para esse problema inexistente, parece inteiramente natural uma solução falsa: a reforma
igualitária da estrutura rural, isto é, a “Reforma Agrária”.
Essa solução merece a qualificação de falsa sob dois pontos de vista. Em primeiro lugar,
como é óbvio, porque imaginar em determinada situação concreta um problema inexistente é impor
uma solução falsa, a qual, por sua vez, criará problemas autênticos. Em segundo lugar qualificamos
de falsa essa solução porque ela é contrária, como veremos, aos princípios imutáveis de toda ordem
humana.

Título II

A “Reforma Agrária”, objetivo genuinamente socialista e


anticristão

Capítulo I

O socialismo, falseando o quadro da realidade brasileira, preconiza a


“Reforma Agrária”

Qual a ideologia que vai transformando as mentalidades a respeito do agricultor?

Como explicar um processo de transformação tão profundo, na opinião pública nacional?


Qual o nome, qual o conteúdo dessa ideologia que se vai lentamente insinuando nos
espíritos, enquanto se vão evolando, sob a ação do olvido, as convicções antigas?
Importa sobremaneira responder a essas perguntas, para compreender o sentido profundo
dessa transformação e os fins últimos a que ela conduz.
Trata-se de uma ideologia que se implantou gradualmente em alguns pequenos círculos
“avançados”. Favorecida por uma profunda disposição de nosso ambiente, ela se vem infiltrando
paralelamente nos mais variados meios políticos, sociais, técnicos, e até religiosos. Essa infiltração
se opera através de um processo curioso que adiante descreveremos21.
É o socialismo em marcha, nas múltiplas variantes: o socialismo ateu e radical, o
socialismo laico e “moderado”, e o socialismo dito “católico”. Com efeito, a mentalidade socialista
e igualitária tem várias vezes tentado colorir-se de católica, com não pequena confusão dos
espíritos22.

21
Cfr. Título III, Capítulo I.
22
Cfr. D. Antônio de Castro Mayer, “Carta Pastoral sobre problemas do apostolado moderno” – “Boa
Imprensa Ltda.”, Campos 1953 – No capítulo III deste título trataremos mais detidamente deste ponto.
15
Para se ter certeza de que é o alastramento do socialismo que impele os espíritos à
“Reforma Agrária”, torna-se necessário fazer uma rápida exposição da doutrina socialista, de sua
concepção do universo, da moral, da sociedade, da economia e do Estado. Tornar-se-á assim claro
que a “Reforma Agrária” se ajusta ao socialismo com a exatidão com que, num raciocínio bem
feito, a conclusão se ajusta às premissas.
Essa exposição será objeto do próximo capítulo.

Capítulo II

A doutrina socialista é incompatível com a propriedade e a família

A doutrina socialista

O socialismo, considerado como doutrina que abrange todos os campos mencionados no


capítulo anterior, pode resumir-se sucintamente em alguns itens principais:
No universo não há senão matéria. Deus, a alma, a vida futura são quimeras.
Em conseqüência, é estritamente justo que todos os homens procurem, com o auxílio da
Ciência, a felicidade completa nesta vida. Enquanto não se conseguir este objetivo, é necessário
proporcionar a cada qual o maior número possível de prazeres, e evitar quanto possível todo esforço
ou sofrimento.
Todas as desigualdades, sejam elas de fortuna, de prestígio, de cultura, ou quaisquer outras,
são injustas em si mesmas. Em conseqüência, é injusta a desigualdade entre as propriedades
grandes, médias e pequenas, e sobretudo injusto é o regime do salariado, em que um empregador,
alegando o direito de propriedade, explora o trabalhador rural, exigindo para si parte do produto do
trabalho, que deveria ser inteiramente deste.
No atual estágio da evolução humana, já é possível abolir a propriedade, a hierarquia social
e a família (esta última é uma evidente fonte de desigualdades), e reconhecer que o Estado é o único
titular de todos os direitos. Ao Estado, dirigido pelos operários e camponeses, competirá manter a
igualdade plena entre os homens.
Esta será a forma mais evoluída da vida social em nossos dias.
Tudo evolui constantemente no universo. A propriedade privada é uma forma econômica e
social superada e que vai arrastando a uma crise, e por fim a um colapso, os países que a ela se
aferram. Além de injusta em si mesma, a propriedade é, pois, inimiga do interesse público.
No futuro, acrescentam certos socialistas, a evolução do universo e do homem será tal, que
nem sequer subsistirá o Estado. Será a anarquia 23, que esses utopistas concebem como possível sem
desordem nem confusão.
É supérfluo mostrar quanto esta doutrina diverge da nossa tradição católica. Limitamo-nos
a aduzir, no capítulo III deste título, declarações de vários Papas sobre o socialismo.
Importa aqui acentuar que, aplicada aos problemas do campo, tal doutrina não pode deixar
de ter como conseqüência a idéia de que o proprietário é um ocupante injusto de terras que
deveriam ser distribuídas entre todos. A existência de propriedades desiguais é contrária à evolução
da humanidade no presente estágio e provoca terríveis crises. É e não poderia deixar de ser uma
causa muito importante da crise atual.
O Estado deve, pois, partilhar as terras. Uma indenização inteiramente proporcionada ao
valor delas será impossível. Se estiver a seu alcance, será talvez de boa política que o poder público
dê aos atuais proprietários uma pequena compensação. Mas, a rigor, nem a isto estaria obrigado,
pois o direito de propriedade é um mito nocivo aos Estados e às sociedades, que a evolução vai
varrendo. Cumpre, portanto, que essa indenização seja tão pequena quanto estrategicamente
possível.
23
No sentido etimológico: “an” = sem, não; “arxé” = governo.
16
Nesta concepção igualitária, sempre que uma elite se forma é, ipso facto, defraudadora da
maioria. Maioria e elite minoritária são forças necessariamente em luta. É o mito pagão da luta de
classes, tantas vezes condenada pelos Papas e cujo desfecho é o esmagamento do escol pela massa,
o triunfo da quantidade sobre a qualidade e a ruína de todos na escravidão do Estado-patrão.
O sistema socialista é, assim, o oposto da idéia tradicional e cristã de uma conjugação
natural de interesses entre a propriedade, o trabalho e o Estado. Na concepção nova, o proprietário
passa, automaticamente, de benemérito a parasita. Voltaremos mais adiante ao estudo comparativo
entre o socialismo e a doutrina católica.
Mas, dirá um igualitário ingênuo, pela própria natureza das coisas a tendência socialista
não acarretará, senão por pouco tempo, a abolição da desigualdade das terras. Com efeito, divididas
assim as glebas, essa desigualdade tão iníqua e nociva logo reaparecerá. Uns trabalharão mais, por
exemplo, e comprarão as glebas de outros menos saudáveis ou menos esforçados. Acresce que o
filho único herdará mais do que aquele que tiver dez irmãos. Como manter então essa igualdade
sonhada?
A esta questão raras vezes desce o homem da rua, tão atarefado e opresso em nossos dias.
E a habilidade dos demagogos cuidadosamente a evita, pois obrigaria a respostas prematuras para
nosso ambiente “atrasado”...
Mas a conseqüência da partilha compulsória das terras é clara. Ou se dá ao Estado um
poder totalitário para reprimir a prosperidade dos mais capazes e dos mais esforçados, ou o regime
estritamente igualitário não existirá. Ademais, ou se suprime não só a herança mas também a
família, ou os pais estarão continuamente tentados a acumular bens clandestinos para favorecerem
seus filhos. O grande, o único, o verdadeiro proprietário e senhor será o Estado. Os agricultores
serão meros posseiros cujos quinhões ele redistribuirá, de tempos em tempos, para manter a
igualdade.
Em holocausto à utopia igualitária será, pois, necessário imolar as instituições mais
naturais e santas... e isto com enorme prejuízo para o próprio trabalhador. Bem razão tinha Pio XI
ao observar que “a destruição do domínio particular reverteria, não em vantagem, mas em ruína da
classe operária”24.

O direito de propriedade nasce da natureza do homem

Na raiz da oposição entre a tese socialista contrária à propriedade privada, e a tese católica
favorável a esta última, há uma diferença de concepção a respeito da natureza humana.
Para o socialismo, o homem não é senão uma peça da imensa engrenagem que é o Estado.
A doutrina católica o vê com outros olhos.
Todo ser vivo é dotado por Deus de um conjunto de necessidades, de órgãos e de aptidões
que estão postos entre si numa íntima e natural correlação. Isto é, os órgãos e as aptidões de cada
ser se destinam diretamente a atender às necessidades dele.
O homem se distingue dos outros seres visíveis por ter uma alma espiritual dotada de
inteligência e vontade. Pelo princípio de correlação que acabamos de enunciar, a inteligência serve
ao homem para conhecer suas necessidades e saber como satisfazê-las. E a vontade lhe serve para
querer e fazer o necessário para si. Está, pois, na natureza humana conhecer e escolher o que lhe
convém.
Ora, estas faculdades não seriam úteis ao homem se ele não pudesse estabelecer um nexo
entre si e aquilo de que precisa. De que adiantaria, por exemplo, ao habitante do litoral saber que no
mar há peixes, como estes são pescados, ter vontade firme de enfrentar as ondas e efetuar a pesca,
se não lhe fosse lícito formar um nexo com o peixe pescado, de forma a poder trazê-lo à terra e
dispor dele, com exclusão de qualquer outra pessoa, para sua nutrição? Esse nexo se chama, no
caso, apropriação. O pescador se torna proprietário do peixe. Este direito de propriedade resulta

24
Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 18.
17
para ele – para qualquer pessoa, pois – da sua natureza de ser inteligente e livre. E Deus criou os
seres úteis aos homens, para que estes se servissem deles habitualmente por apropriação.
Se é lícito ao homem apropriar-se desse modo dos bens que existem, sem dono, na
natureza, e consumi-los, pelo mesmo motivo lhe é permitido apropriar-se destes bens, já não para os
consumir, mas para fazer deles instrumentos de trabalho. Assim aquele que se apropria de um
peixe, não para o comer, mas para usá-lo como isca. Esta verdade é ainda mais fácil de perceber
quando alguém toma um objeto inapropriado e sem utilidade, um sílex, por exemplo, e, afiando-o,
lhe confere uma utilidade que não tinha. Pois esta utilidade nova do sílex é produto do trabalho, e
todo homem, por ser naturalmente dono de si, é dono de seu trabalho e do fruto que este produz.
Mas o homem vê que suas necessidades se renovam. Sua natureza, capaz de apreender e
recear o perigo de um suprimento instável, desejosa por si mesma de estabilidade, pede que ele
disponha de meios para se garantir contra as incertezas do futuro. É pois lícito que ele, além de ser
dono de bens e de meios de produção, acumule pela poupança o produto de seu trabalho,
prevenindo assim o futuro. E, sendo o caso, se torne também dono da fonte de produção. A
apropriação de reservas móveis e de bens imóveis assim se justifica inteiramente.
Notemos, antes de passar adiante, que o fundamento do direito de propriedade, em seus
vários aspectos, está, pois, na natureza racional e livre do homem.

“Reforma Agrária” e família

Referimo-nos de passagem à colisão em perspectiva entre a “Reforma Agrária” e a família.


O assunto merece ser um pouco mais analisado.
Na aparência, com efeito, nada de comum existe entre estes dois temas, “Reforma Agrária”
e família. Se considerarmos a grande cópia de material até aqui publicado pró ou contra a “Reforma
Agrária” (pelo menos na medida em que nos tem sido possível conhecê-la), nada encontraremos
que aponte um nexo entre um e outro.
Contudo, o problema das relações entre a “Reforma Agrária” e a instituição da família se
impõe. De fato, desde os primórdios da História a família e a propriedade privada existem. E não se
trata apenas, entre uma e outra instituição, de uma coexistência fria e fortuita, mas de uma simbiose
íntima que vem durando ininterruptamente até nossos dias. Esta simbiose indica, já à primeira vista,
uma afinidade profunda ligando a propriedade privada e a família. Esta afinidade não resultará de
um nexo natural indissolúvel entre ambas? Se assim é, que conseqüências acarretará para a família
o golpe que a “Reforma Agrária” se propõe desferir contra o instituto da propriedade privada?
Para uma alma genuinamente cristã, e impregnada, pois, dos sentimentos de amor e
veneração que a instituição da família merece, tal pergunta não pode deixar de interessar.
Como o direito de apropriar-se, a natureza humana gera outrossim o direito de constituir
família.
Não é difícil mostrar a correlação entre a propriedade e a família. Com efeito, os gastos
com a manutenção do lar e a educação condigna dos filhos tocam, naturalmente, ao seu chefe.
Assim constitui-se em favor daquela, sobre o trabalho deste, um direito natural mais próximo e mais
grave do que os eventuais direitos da sociedade. Tal direito tem por objeto não só o que o homem
ganha, mas também o que ele acumula. Porque o lar acarreta para seu chefe encargos maiores do
que os do solteiro, e porque esses encargos dizem respeito a uma sociedade naturalmente estável,
como é a família, os argumentos que justificam o direito de propriedade tomam tal força, quando
considerados em função dela, que, enquanto trabalhar, acumular e prosperar pode ser não raro para
um indivíduo isolado mais um direito do que um dever, para o chefe de família é, em geral, antes
um dever do que um direito. Reciprocamente, quando o homem está em situação de ganhar o
necessário para a manutenção condigna de mais de uma pessoa, ele tende, salvos casos de vocação
especial, a constituir um lar. Sua condição de proprietário de recursos maiores do que sua

18
necessidade leva-o à condição de chefe de família. Propriedade e família são, pois, instituições
conexas e, mais do que isso, conaturais.
Aliás, considerando-se em função da natureza do homem as relações que ele tem com sua
esposa e seus filhos, vê-se facilmente que estas repousam sobre um princípio afim com aquele pelo
qual, em virtude de sua natureza, o homem tende a ser proprietário. De fato, entre esposo e esposa
estabelece-se como que uma apropriação mútua, que se estende aos filhos, carne de sua carne e
sangue do seu sangue.
A relação entre a propriedade e a família ressalta com clareza ainda maior quando
comparamos a situação que uma e outra criam para o homem e a situação deste no regime socialista
ou comunista, em que nenhuma delas existe.
A natureza do homem leva-o a estabelecer nexos mais diretos com certas coisas, e relações
mais próximas com certas pessoas. Ser proprietário, ter família, são situações que lhe dão uma justa
sensação de plenitude de personalidade. Viver como átomo isolado, sem família nem bens, em uma
multidão de pessoas estranhas, lhe dá uma sensação de vazio, de anonimato e isolamento que é para
ele profundamente antinatural.
É fácil perceber assim a conexão íntima existente, no que há de mais profundo na alma
humana, entre o direito que o homem tem de apropriar-se de bens e o direito que tem de constituir
família. Entre esta e a propriedade há, diríamos, uma comunidade de raiz e uma reversibilidade. A
Igreja é tutora, por missão divina, do direito de propriedade, bem como da família. No exercício
dessa missão, Ela protege implicitamente valores inestimáveis, isto é, direitos essenciais da alma
humana e a dignidade que para o homem decorre de sua condição de ser espiritual e de cristão.
O socialismo, pelo contrário, inspirador da “Reforma Agrária”, nega na raiz o princípio de
que o homem, ser espiritual, inteligente e livre, é senhor de si, de suas potências, do seu trabalho.
Para ele, tudo isto pertence à coletividade. Por isto mesmo, nega logicamente também a família.
Obtida eventualmente a imensa vitória da abolição da propriedade rural grande e média por
meio da “Reforma Agrária”, o socialismo, robustecido com esta conquista, não se atirará contra o
direito de herança? E, no dia em que também vencer aí, quem terá forças para impedir que ele
ataque diretamente a própria existência do instituto da família?
A “Reforma Agrária” abre, portanto, as vias para a decadência e depois para a ruína da
família. Ela procede de uma ideologia que nega a própria raiz doutrinária desta última. Eis aí um
nexo entre “Reforma Agrária” e família.
Pondo-o em evidência, não queremos afirmar que seja essa a intenção de todos os
propugnadores da “Reforma Agrária”, ou mesmo da maioria deles. Mas quem deita
inadvertidamente o machado à raiz de uma árvore, não pode esperar que ela não caia só porque, ao
dar o golpe, não tinha intenção de derrubá-la...

Capítulo III

Conseqüente incompatibilidade do socialismo com a doutrina da Igreja

Mostraram os dois últimos capítulos que o socialismo é incompatível com a doutrina


católica, quer por sua concepção do universo e do homem, quer ainda porque atinge duas
instituições que são pilares da civilização cristã, isto é, a propriedade e a família.
Pelo simples fato de ser infenso à propriedade e à família, o socialismo seria inconciliável
com a doutrina católica ainda mesmo que não contivesse uma concepção errônea do universo e do
homem. Fato que desde logo ressalta, e ao qual, pela importância que tem, voltaremos neste
capítulo.
Se tal é a incompatibilidade entre o socialismo e a Religião Católica, perguntará talvez
algum leitor, como explicar que os Papas tenham falado muito contra o comunismo, e nada, ou
quase nada, sobre o socialismo?

19
Engano. Os textos pontifícios contra este último são muito numerosos.
Antes de transcrever alguns deles cumpre, todavia, fazer uma distinção entre os diversos
sentidos que vem tomando a palavra “socialismo”.
Tem ela hoje em dia aplicações muito variadas, que vão do rubro carregado do “socialismo
marxista” até o róseo muito diluído, quase branco, do “socialismo cristão” ou “socialismo católico”.
E não é raro encontrarmos reivindicando o rótulo socialista para as suas idéias, quer comunistas
declarados, quer esquerdistas bem menos radicais, quer enfim burgueses sem tendências políticas
ou sociais definidas, mas de índole tranqüila e de sensibilidade humanitária e naturalista algum
tanto colorida de influência cristã.
A toda esta gama de pessoas, a afirmação de que o socialismo é condenado pela Igreja
pode causar espécie. Dedicamos, pois, um capítulo à elucidação das dúvidas que eventualmente se
podem a tal respeito apresentar.

Textos pontifícios esclarecedores

O socialismo começou a tomar uma importância particular durante o pontificado de Pio IX


(1846-1878). Começamos pois com um texto deste Papa.

“Transtorno absoluto de toda a ordem humana”


“... tão pouco desconheceis, Veneráveis Irmãos, que os principais autores desta intriga tão abominável não se
propõem outra coisa senão impelir os povos, agitados já por toda classe de ventos de perversidade, ao transtorno
absoluto de toda a ordem humana das coisas, e entregá-los aos criminosos sistemas do novo socialismo e
25
comunismo” .
Leão XIII, seu sucessor (1878-1903), se tornou imortal pela sabedoria com que tratou da
questão social, e pela afeição paterna que manifestou ao operariado, então em grande parte sujeito a
uma imerecida pobreza. Chegou-se a dizer que o grande Papa lançara as bases do assim chamado
socialismo cristão. Erro flagrante: nos documentos de Leão XIII o socialismo é objeto de
condenações incisivas, graves, freqüentes. Vejamos algumas:

“Monstro horrendo”
“... o “comunismo”, o “socialismo”, o “niilismo”, monstros horrendos que são a vergonha da sociedade e que
26
ameaçam ser-lhe a morte” .

“Ruína de todas as instituições”


“... suprimi o temor de Deus e o respeito devido às suas leis; deixai cair em descrédito a autoridade dos
príncipes; daí livre curso e incentivo à mania das revoluções; largai a brida às paixões populares, quebrai todo freio,
salvo o dos castigos, e pela força das coisas ireis ter a uma subversão universal e à ruína de todas as instituições: tal é,
em verdade, o escopo provado, explícito, que demandam com seus esforços muitas associações comunistas e
socialistas” 27 .

“Seita destruidora da sociedade civil”


“... esta seita de homens que, debaixo de nomes diversos e quase bárbaros se chamam socialistas, comunistas
ou niilistas, e que, espalhados sobre toda a superfície da terra, e estreitamente ligados entre si por um pacto de
iniquidade, já não procuram um abrigo nas trevas dos conciliábulos secretos, mas caminham ousadamente à luz do dia,
e se esforçam por levar a cabo o desígnio, que têm formado de há muito, de destruir os alicerces da sociedade civil. É a

25
Pio IX, Encíclica “Noscitis et Nobiscum”, de 8 de dezembro de 1849 – “Colección Completa de
Encíclicas Pontifícias”, Editorial Poblet, Buenos Aires, pág. 121.
26
Leão XIII, Encíclica “Diuturnum Illud”, de 29 de junho de 1881 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
16.
27
Leão XIII, Encíclica “Humanum Genus”, de 20 de abril de 1884 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
págs. 20-21.

20
eles, certamente, que se referem as Sagradas Letras quando dizem: “Eles mancham a carne, desprezam o poder e
28
blasfemam da majestade” (Jud. 8)” .

Seita pestífera
“... todos sabem com que gravidade de linguagem, com que firmeza e constância o Nosso glorioso
Predecessor Pio IX, de saudosa memória, combateu, quer nas suas Alocuções, quer nas suas Encíclicas dirigidas aos
Bispos de todo o mundo, tanto os esforços iníquos das seitas, como nomeadamente a peste do socialismo, que já
irrompia dos seus antros”29 .

Seita demolidora
“... os socialistas e outras seitas sediciosas que trabalham há tanto tempo para arrasar o Estado até aos seus
alicerces” 30.

“Seita abominável”
“É necessário, ..., que trabalheis para que os filhos da Igreja Católica não ousem, seja debaixo de que pretexto
31
for, filiar -se na seita abominável (do socialismo), nem favorecê-la” .

Inimigo da sociedade e da Religião


“... temos necessidade de corações audaciosos e de forças unidas, numa época em que a messe de dores que
se desenvolve diante de nossos olhos é demasiado vasta, e em que se vão acumulando sobre nossas cabeças formidáveis
perigos de perturbações ruinosas, em razão principalmente do poder crescente do socialismo. Esses socialistas
insinuam-se habilmente no coração da sociedade. Nas trevas das suas reuniões secretas e à luz do dia, pela palavra e
pela pena, impelem a multidão à revolta; rejeitam a doutrina da Igreja, negligenciam os deveres, só exaltam os direitos,
e solicitam as multidões de desgraçados, de dia para dia mais numerosos, que, por causa das dificuldades da vida, se
deixam prender a teorias enganosas e são arrastados mais facilmente para o erro. Trata-se ao mesmo tempo da
32
sociedade e da Religião. Todos os bons cidadãos devem ter a peito salvaguardar uma e outra com honra” .

Perigo para os bens materiais, a moral e a Religião


“... era do Nosso dever advertir publicamente os católicos dos graves erros que se ocultam sob as teorias do
socialismo, e do grande perigo que daí resulta, não somente para os bens exteriores da vida, mas também para a
33
integridade dos costumes e para a Religião” .

“Germe funesto”
“... a Igreja do Deus vivo, que é “a coluna e o sustentáculo da verdade” (1 Tim. 3,15), ensina as doutrinas e
princípios cuja verdade consiste em assegurar inteiramente a salvação e tranqüilidade da sociedade e desarraigar
34
completamente o germe funesto do socialismo” .

Serpente perigosa
Os comunistas, os socialistas e os niilistas são uma “peste mortal que se introduz como a serpente por entre
35
as articulações mais íntimas dos membros da sociedade humana, e a coloca num perigo extremo” .

Negação das leis humanas e divinas


Os socialistas, os comunistas e os niilistas “nada deixam intacto ou inteiro do que foi sabiamente estabelecido
pelas leis divinas e humanas para a segurança e honra da vida”36 .

28
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, págs. 3-4.
29
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 7.
30
Leão XIII, Encíclica “Libertas Praestantissimum”, de 20 de junho de 1888 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 16.
31
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 14.
32
Leão XIII, Encíclica “Graves de Communi”, de 18 de janeiro de 1901 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
págs. 15-16.
33
Idem, pág. 4.
34
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 7.
35
Idem, pág. 3.
36
Idem, pág. 4.
21
O socialismo diverge diametralmente da Religião Católica
“... ainda que os socialistas, abusando do próprio Evangelho, a fim de enganarem mais facilmente os espíritos
incautos, tenham adotado o costume de o torcerem em proveito da sua opinião, entretanto a divergência entre as suas
doutrinas depravadas e a puríssima doutrina de Cristo é tamanha, que maior não podia ser. Pois “que pode haver de
comum entre a justiça e a iniquidade? Ou que união entre a luz e as trevas?” (2 Cor. 6, 14)”37.
Estes textos não deixam margem a dúvida, quanto à oposição entre a doutrina socialista,
vista em seus princípios filosóficos, sociais, econômicos etc., e a doutrina da Igreja. Eles constituem
a condenação da doutrina socialista considerada em toda a sua extensão38 .
Mas, de Leão XIII a nossos dias a palavra “socialismo” se foi estendendo paulatinamente,
de maneira a abranger sistemas que aceitam algo de afim com o socialismo que chamaríamos pleno,
mas, sem embargo, são distintos dele por algum lado.
Há, por exemplo, escolas socialistas que procuram confinar-se no campo social e
econômico, abstraindo de quaisquer pressupostos religiosos ou filosóficos. Estas escolas cogitam só
dos problemas de produção e de consumo, afetando dar a seus adeptos a maior liberdade de opinião
quanto ao mais. Na realidade, entretanto, também este socialismo é incompatível com a doutrina
católica. É que, aparentando não tomar posição filosófica ou religiosa, ele se mostra, no fundo,
materialista, pois quer organizar a sociedade e a economia como se no mundo só houvesse matéria,
e só os problemas da matéria tivessem importância.
Há ainda outras escolas, que também se intitulam socialistas, mas que diferem do
socialismo, como este se apresentava ao tempo de Pio IX e de Leão XIII, em dois aspectos:
1. – quanto aos objetivos, não visam a uma socialização completa de todos os campos da
existência humana, mas apenas de alguns deles, às vezes até bem poucos;
2. – quanto aos métodos, não desejam transformações sociais bruscas nem violentas, mas
graduais e pacíficas.
Estas escolas ou correntes – em confronto com o socialismo radical e pleno, o socialismo
marxista por exemplo – têm aspecto evidentemente atenuado. Entretanto, também elas (entre as
quais sobreleva a de Henry George, que pleiteia a socialização da terra e a conservação da iniciativa
privada nos outros setores da economia) são inconciliáveis com a doutrina católica.
As reformas propostas por esses matizes socialistas – umas mais moderadas, outras menos
– visam, senão à abolição total da iniciativa privada e da propriedade particular, pelo menos à
limitação de uma e de outra em medida incompatível com a natureza do homem 39.
Igual censura se pode fazer à variante socialista com caráter distributista e rótulo cristão,
que considera a sociedade como o fim do homem. Conforme essa escola, toda produção que
excedesse das necessidades de cada família, em lugar de formar o patrimônio familiar iria para a
coletividade. Como se vê, para este sistema a família, considerada como unidade de produção, visa
só à subsistência: erro que a impede de amealhar, pois o superávit dessa produção é patrimônio da
sociedade: este sistema socializa a produção.
De modo geral, os socialistas ditos católicos ou cristãos aceitam a dissociação entre os
fundamentos filosóficos do socialismo e os seus aspectos econômicos e sociais. Rejeitam aqueles, e
admitem estes pelo menos em alguma medida. E, fiados em que a vitória de um socialismo
moderado não acarrete perseguições para a Religião, anelam pelo advento de uma ordem de coisas
socialista e cristã. Pelo que anteriormente dissemos, os erros deste sistema já ficaram apontados 40.
Para corroborar os católicos na rejeição das escolas socialistas “moderadas”, “cristãs” ou
“católicas”, a Encíclica “Quadragésimo Anno” foi de grande valia. Nela enuncia Pio XI, com toda a
clareza, o problema decorrente da pluralidade de sentidos que depois de Leão XIII a palavra
“socialismo” foi tomando.

37
Idem, pág. 8.
38
Cfr. Resumo no Capítulo II deste Título.
39
Cfr. Título II, Capítulo II.
40
Idem.
22
A bifurcação do socialismo
Historiando a evolução do termo “socialismo”, escreve o Papa: “Não menos profunda que a da economia, foi,
desde o tempo de Leão XIII, a evolução do socialismo, contra o qual principalmente terçou armas o Nosso Predecessor.
Então podia ele dizer-se uno, pois defendia uma doutrina bem definida e reduzida a sistema; depois dividiu-se em duas
facções principais, de tendências pela maior parte contrárias, e irreconciliáveis entre si, conservando, porém, ambas o
princípio fundamental do socialismo primitivo, contrário à Fé cristã” 41.

O comunismo
“Uma das facções seguiu uma evolução paralela à da economia capitalista, que antes descrevemos, e
precipitou-se no comunismo, que ensina duas coisas e as procura realizar, não oculta ou solapadamente, mas à luz do
dia, francamente e por todos os meios, ainda os mais violentos: guerra de classes sem tréguas nem quartel e completa
destruição da propriedade particular” 42.

O socialismo moderado
Depois de várias considerações sobre o comunismo, o Pontífice prossegue, falando da facção moderada do
socialismo: “Mais moderada é a outra facção, que conservou o nome de socialismo: porque não só professa abster-se da
violência, mas abranda e limita de algum modo, embora não as suprima de todo, a luta de classes e a extinção da
propriedade particular. Dir-se-ia que o socialismo, aterrado com as conseqüências que o comunismo deduziu de seus
próprios princípios, tende para as verdades que a tradição cristã sempre solenemente ensinou, e delas em certa maneira
se aproxima: porquanto é inegável que as suas reivindicações concordam, às vezes, muitíssimo com as reclamações dos
católicos que trabalham na reforma social.
Com efeito, a luta de classes, quando livre de inimizades e ódio mútuo, transforma-se pouco a pouco numa
concorrência honesta, fundada no amor da justiça, que, se bem não seja aquela bem-aventurada paz social por que todos
suspiramos, pode e deve ser o princípio da mútua colaboração. Do mesmo modo, a guerra à propriedade particular,
afrouxando pouco a pouco, chega a limitar-se, a ponto de já não agredir a posse do necessário à produção dos bens, mas
aquele despotismo social que a propriedade contra todo o direito se arrogou. E, de fato, tal poder não pertence ao
simples proprietário, mas à autoridade pública. Por este caminho podem os princípios deste socialismo mitigado vir
pouco a pouco a coincidir com os votos e reclamações dos que procuram reformar a sociedade segundo os princípios
cristãos. Estes com razão pretendem que certos gêneros de bens sejam reservados ao Estado, quando o poderio que
trazem consigo é tal que, sem perigo do mesmo Estado, não pode deixar-se em mãos dos particulares.
Tão justos desejos e reivindicações em nada se opõem à verdade cristã, e muito menos são exclusivos do
43
socialismo. Por isso, quem só por eles luta não tem razão para se declarar socialista” .

Falsa conciliação
“Mas não se vá julgar que os partidos socialistas, não filiados ainda ao comunismo, professem já todos
teórica e praticamente esta moderação. Em geral, não renegam a luta de classes nem a abolição da propriedade, apenas
as mitigam. Ora, se os falsos princípios assim se mitigam e obliteram, pergunta-se, ou melhor, perguntam alguns sem
razão, se não será bem que também os princípios católicos se mitiguem e moderem, para sair ao encontro do socialismo
e congraçar-se com ele a meio caminho. Não falta quem se deixe levar da esperança de atrair por este modo os
socialistas. Esperança vã! Quem quer ser apóstolo entre os socialistas é preciso que professe franca e lealmente toda a
verdade cristã, e que de nenhum modo feche os olhos ao erro. Esforcem-se antes, se querem ser verdadeiros arautos do
Evangelho, por mostrar aos socialistas que as suas reclamações, na parte que tem de justas, se defendem muito mais
44
vigorosamente com os princípios da fé e se promovem muito mais eficazmente com as forças da caridade” .

Uma quimera: o batismo do socialismo


“E se o socialismo estiver tão moderado no tocante à luta de classes e à propriedade particular, que já não
mereça nisto a mínima censura? Terá renunciado por isso à sua natureza essencialmente anticristã? Eis uma dúvida, que
a muitos traz suspensos. Muitíssimos católicos, convencidos de que os princípios cristãos não podem jamais abandonar-
se nem obliterar-se, volvem os olhos para esta Santa Sé e suplicam instantemente que definamos se este socialismo
repudiou de tal maneira as suas falsas doutrinas, que já se possa abraçar e quase batizar, sem prejuízo de nenhum
princípio cristão. Para lhes respondermos, como pede a Nossa paterna solicitude, declaramos: O socialismo, quer se
considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como “ação”, se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de
se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica, pois
concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã.
Com efeito, segundo a doutrina cristã, o homem sociável por natureza é colocado nesta terra para que,
vivendo em sociedade e sob a autoridade ordenada por Deus (Rom. 13,1), cultive e desenvolva plenamente todas as

41
Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs. 40-41.
42
Idem, pág. 41.
43
Idem, págs. 41-42.
44
Idem, págs. 42-43.
23
suas faculdades, para louvor e glória do Criador, e pelo fiel cumprimento dos deveres de sua profissão ou vocação,
qualquer que ela seja, granjeie a felicidade temporal e eterna. Ora, o socialismo, ignorando por completo ou
desprezando este fim sublime dos indivíduos e da sociedade, opina que o consórcio humano foi instituído só para a
vantagem material que oferece. E, na verdade, do fato de o trabalho convenientemente organizado ser muito mais
produtivo que os esforços isolados, os socialistas concluem que a atividade econômica deve necessariamente revestir
uma forma social. Desta necessidade segue-se, segundo eles, que os homens, no que respeita à produção, são obrigados
a entregar-se e sujeitar-se completamente à sociedade. Mas estimam tanto os bens materiais que servem à comodidade
da vida, que afirmam deverem pospor-se e mesmo sacrificar-se quaisquer outros bens superiores, e em particular a
liberdade, às exigências de uma produção ativíssima. Esta perda da dignidade humana, inevitável no sistema da
produção “socializada”, julgam-na bem compensada com a abundância dos bens que, produzidos socialmente, serão
distribuídos pelos indivíduos, e estes poderão livremente aplicar a uma vida mais cômoda e faustosa. Em conseqüência,
a sociedade sonhada pelo socialismo não pode existir nem conceber-se sem violências manifestas; por outra parte, goza
de uma liberdade não menos falsa, pois carece de verdadeira autoridade social; esta não pode fundar-se nos interesses
45
materiais, mas provém somente de Deus, criador e fim último de todas as coisas (Enc. Diuturnum)” .

Socialismo católico, uma contradição


“E se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram,
funda-se contudo numa concepção da sociedade humana diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica.
Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e
verdadeiro socialista”46 .

Conseqüência
A conseqüência não poderia ser mais clara. Mesmo o socialismo moderadíssimo, e ainda
que procure ostentar o rótulo católico, é incompatível com a doutrina da Igreja.
Esta conseqüência apresenta um real alcance prático no tocante à “Reforma Agrária”. É
possível, com efeito, que ao longo dos obstáculos que esta venha a encontrar em seu caminho
alguns projetos apareçam mais “moderados”, mais cautelosos, em uma palavra menos alarmantes
para o fazendeiro, se bem que atentatórios, de um ou de outro modo, ao direito de propriedade. Se
não houver em nosso ambiente muita clareza de princípios acerca das múltiplas modalidades do
socialismo, e do que há de condenável também no socialismo “moderado”, poderá facilmente
suceder que algumas sugestões de cunho diluidamente socialista sejam aceitas como inócuas e até
conciliatórias.

Titulo III

Como a campanha pela “Reforma Agrária” encontra eco num


povo que não é socialista

Capítulo I

A propaganda socialista sub-reptícia

A “Reforma Agrária”, típica revolução social e religiosa

As crises ideológicas e institucionais tendem por natureza a se alastrarem para todos os


terrenos, entre os quais o do vocabulário. Elas exercem uma pressão sobre certas palavras, que vão
assim perdendo sua clareza e admitindo sentidos cada vez mais vastos e imprecisos. Foi o que
aconteceu, por exemplo, com o termo “revolução”. O que significa ele hoje em dia? Pode-se dizer
que a “Reforma Agrária” é uma revolução?

45
Idem, págs. 43-44.
46
Idem, pág. 44.
24
A palavra “revolução” designa muitas vezes uma ação apoiada na força e destinada a
impor aos poderes públicos, ou a uma categoria numerosa de pessoas, ou enfim a todo um povo, a
aceitação de uma violação qualquer de direitos. A deposição de um chefe de Estado é, neste sentido,
uma revolução. Como o é também o ato de um governo que, apoiado pela força, amplia suas
atribuições além dos limites estatuídos por lei. Em ambas as hipóteses, a circunstância de ocorrer,
ou não, derramamento de sangue é apenas acessória: a revolução arquetípica é cruenta, mas pode
haver revoluções incruentas de caráter muito mais profundamente revolucionário do que ela.
Uma lei votada e sancionada pelos poderes competentes pode chamar-se revolucionária na
acepção apontada? Se tal lei atenta contra instituições como, por exemplo, a propriedade ou a
família, que resultam da própria ordem natural criada por Deus 47 e se fundam no Decálogo, então se
deve dizer que é revolucionária: ela é um ato revolucionário do homem contra Deus.
Neste sentido, a lei que implantasse a “Reforma Agrária” constituiria uma revolução.
Revolução de índole social e econômica, porque a “Reforma Agrária” visa a alterar a estrutura da
sociedade e da economia. Revolução de cunho religioso, porque a alteração projetada é em si
mesma contrária à lei de Deus e ao ensinamento da Igreja.
Ora, como é bem sabido, as revoluções tem como que intuições ou instintos políticos
finíssimos, que as levam a dizer ou calar o que lhes convém, lhes inspiram a escolha de slogans
adequados, e de fórmulas hábeis para irem revelando por etapas os seus desígnios.
É o que se nota nesta fase incipiente de agitação em prol da “Reforma Agrária”.
A “Reforma Agrária” encontra diante de si um primeiro problema tático: se as doutrinas
socialistas fossem enunciadas explícita e concatenadamente, como um sistema ideológico, e se
sempre se dissesse que são socialistas, elas não seriam aceitas pela maioria dos brasileiros.

Propaganda eficiente

Por isto mesmo, o único modo que há para as disseminar consiste em velá-las ou diluí-las
sob um palavreado impreciso, que insinue sem afirmar. E ainda assim, insinuando uma ou outra tese
socialista, cumpre evitar que seja posta em relação com as demais de maneira a se perceber que
constituem um só bloco doutrinário firme e coeso.
Esta tática tem sido usada também por outras correntes, como a dos modernistas, acerca dos quais observou
com perspicácia o Papa São Pio X: “Com astuciosíssimo engano, costumam apresentar suas doutrinas, não coordenadas
e juntas em um todo, mas dispersas e como que separadas umas das outras, a fim de serem tidas por duvidosas e
48
incertas, ao passo que de fato estão firmes e constantes” .
A primeira precaução desse método consiste em silenciar quanto possível sobre as
benemerências da agricultura para com o trabalhador rural e o País.
Preparado o terreno, começa então a ofensiva. Realça-se que o homem do campo vive em
condições infra-humanas. Em lugar de tratar o assunto com os matizes que ele comporta, apontando
as zonas e as lavouras em que tal se dá, e as em que não se dá, simplifica-se e generaliza-se dando a
entender que isto ocorre por toda parte.
Daí se passa para a procura de soluções.
Evidentemente, o problema posto assim em abstrato pede uma solução também em
abstrato, isto é, a promulgação de uma lei que de um só golpe atenda às situações mais diversas na
prática. Os discursos, as conferências, os artigos de revistas e jornais se multiplicam. A ocasião é
boa para estadear dotes oratórios e literários, exibir erudição e fazer política. E assim o assunto,
sempre tratado nas nuvens, começa a ferver.
Há uma categoria de espíritos que essa atmosfera atrai e põe em realce: são principalmente
os “filósofos”, quase diríamos os poetas, da agricultura e das questões sociais, que vivem nas
cidades e tomam uma e outras como tema para literatura. Naturalmente sensíveis ao aplauso e
ávidos de propaganda, são propensos às fórmulas fáceis, novas e sensacionais que lhes podem valer

47
Cfr. Título II, Capítulo II.
48
Encíclica “Pascendi Dominici Gregis”, de 8 de setembro de 1907 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
5.
25
a admiração de certo público viciado em só apreciar o que é novo, extravagante e fácil de entender.
E assim vão tendendo cada vez mais para as reformas drásticas e simplistas. O trabalhador ganha
pouco? O remédio é obrigar o patrão a pagar-lhe mais. Pois o meio mais simplista de remediar a
situação de quem não tem, é tirar de quem tem. O proprietário não tem renda suficiente para dela se
deduzirem salários melhores: terras ele as tem; pois então dividam-se as terras. E assim por diante.
Outros espíritos tendem a se afastar desses ambientes. São os homens afeitos ao concreto,
de inteligência matizada e objetiva, que não procuram soluções brilhantes mas sérias, que sabem
que nem tudo se resolve com leis, e estão persuadidos de que as soluções imediatas raramente são
as melhores. Estes, conservadores – no bom sentido do termo – à força de serem sensatos, e
estimando o progresso real e não as aventuras, dificilmente atraem a atenção e nada de espetacular
têm a dizer a multidões intoxicadas de sensacionalismo. Seus projetos de reforma, criteriosos,
sérios, a serem realizados por etapas, não falam à imaginação.
O ambiente está preparado para tudo, assim, sem freios nem contrapesos, e por ele
perpassam como relâmpagos algumas palavras que, por força das circunstâncias peculiares, se
revestem de uma extraordinária riqueza sugestiva.
Não se trata de analisar aqui estas palavras em seu sentido próprio, legítimo e bem
conhecido, mas nos imponderáveis que trazem consigo na atual situação.
Ouvimo-las e as lemos com freqüência crescente.
O vocábulo “evolução”, por exemplo, insinua que todo o passado é necessariamente menos
bom que o presente, e que o presente é menos bom que o futuro. Daí decorre uma tendência a
rejeitar todas as tradições como coisa morta, e a pensar que tudo que existe deve ser mudado e que,
portanto, não há, pela natureza das coisas, princípios nem instituições indestrutíveis até o fim do
mundo. A propriedade privada fica, dessa maneira, atirada ao campo viscoso das discussões,
considerando-se pelo menos tão natural que ela viva, como pereça.
A palavra “social”, legítima em si, também tem sua magia. Ela insinua, soprada pela
demagogia, que os interesses coletivos, em oposição necessária e crônica aos interesses privados,
devem estar sempre procurando como cercear e algemar estes.
Um “problema” é, nestes ambientes, algo de viscoso e decorativo como um traje novo ou
uma jóia. Cada qual se prende a um “problema” para resolvê-lo. E cada “problema” serve de
“hobby” para certo número de afeiçoados. Feliz de quem descobre um “problema” novo e cria um
círculo de “aficionados” para lhe degustar a análise e as possíveis soluções. Assim se vai originando
o hábito de não ver em todo o corpo social senão uma imensa contextura de problemas. Os espíritos
acabam, desta forma, desesperando das soluções comedidas e correntes, e procurando espetaculares
soluções de base, que por uma reforma completa resolvam tudo. Quem sabe se o comunismo, que
conseguiu pôr um foguete na lua, resolve todos estes problemas. Comunismo... a palavra arranha. É
quase um palavrão. Mas um socialismozinho macio não seria útil?
“Feudalismo” e “latifúndio” são expressões freqüentemente tomadas em sentido
pejorativo, das quais mais detidamente nos ocupamos na pág. ..... [Proposição 8, n. 9].
Os exemplos poderiam multiplicar-se ao infinito. Mencionemos só mais um. É o emprego
conjugado das palavras “democracia” e “justiça social”. Democracia soa, para certos ouvidos, como
igualdade absoluta. Justiça social passaria a ser, em conseqüência, tal democracia aplicada no
terreno social e econômico. Logo, a justiça social, a essa luz, só se realiza plenamente na igualdade
econômica e social completa, que é, como ensina Leão XIII, o objetivo do socialismo:
O socialismo “quer que no Estado o poder pertença ao povo, de tal modo que, sendo suprimidas as classes
sociais e os cidadãos tornados iguais, se caminhe para a igualdade das fortunas. Por isso, também, quer que o direito de
propriedade seja abolido, e que todas as riquezas que pertencem a particulares, mesmo os instrumentos de produção,
sejam consideradas bens comuns” 49.
O próprio destas e de outra fórmulas consiste em que quem as emprega inocula por vezes o
vírus do socialismo nas pessoas que as ouvem. E estas, por sua vez, não percebem que sua
mentalidade se está tornando socialista.

49
Encíclica “Graves de Communi”, de 18 de janeiro de 1901 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 6.
26
Não há muito, falou-se da “ação subliminar” no cinema. Esta ação decorreria de se
projetarem na tela, por instantes, algumas palavras – um slogan, por exemplo – e isto tão
rapidamente que o público nem tivesse tempo de as perceber conscientemente. Entretanto,
subconscientemente este lhes perceberia o sentido, que assim produziria sobre ele um efeito
profundo e inadvertido.
Não sabemos se a “ação subliminar” no cinema existe realmente. Mas que há um processo
“subliminar” de propaganda socialista, é certo.
Os exemplos acima não importam em negar que as palavras justiça social, evolução,
problema e outras tenham um significado bom. Nem tampouco em contestar a necessidade de
pesquisar os problemas que existem e dedicar-se a fundo à solução deles.
Afirmamos, isto sim, que no ambiente caótico em que vivemos tudo isto facilmente se
transforma em veneno ou caricatura.
Em um clima tão falseado, não é difícil ir gradualmente levando todos a estudarem os
problemas reais ou imaginários em função da solução simplista que é sacrificar por sistema o
proprietário, suposto um nababo, ao trabalhador e ao Estado, sempre indigentes. O direito de
propriedade é o grande inimigo de um e de outro. Se esse direito não existisse, todos se tornariam
ricos!
E assim, por uma “ação subliminar” resultante de um conjunto de influências ambientais,
de palavras esparsas de valor mágico, contendo opiniões veladas, se vai aos poucos ficando
socialista.
Como se vê bem, é mais do que uma doutrina que se difunde. É uma mentalidade que se
forma. E essa mentalidade é terreno fértil para a semeadura de todos os germes socialistas.
A infeliz cobaia desse método não percebe que foi ardilosamente objeto de uma “lavagem
de cérebro” e que ficou socialista, e até militante do socialismo, sem saber o que é o socialismo.
Quando se quer formar essa mentalidade em um católico emocionável e ignorante da
doutrina social dos Papas, é todo um palavreado muito legítimo que se emprega, infelizmente
falseado. Assim, sob pretexto de provar que a Igreja não é contra o progresso, cria-se uma visão
ingênua do presente e do futuro, marcada pelo otimismo evolucionista, e uma verdadeira
idiossincrasia contra a tradição. Sob pretexto de modernidade e amor ao progresso, transige-se com
costumes imprudentes e até censuráveis, que solapam a família. Sob pretexto de justiça social, cria-
se a idéia de que a Igreja é mestra e paladina da mais radical igualdade. Enfim, sob o pretexto de
legítima proteção aos pobres e aos pequeninos forma-se um estado de espírito rancorosamente
hostil a toda e qualquer hierarquia, seja ela política, econômica, social ou até religiosa50 . Em suma,
as palavras, em si excelentes e contendo um significado ótimo, podem continuar a ser as da doutrina
católica mas são pronunciadas com o hálito pestífero do socialismo.
Leão XIII apontou claramente esse perigo: “... os socialistas, abusando do próprio Evangelho, a fim de
51
enganarem mais facilmente os espíritos incautos, adotaram o costume de o torcerem em proveito de sua opinião” .
Essa tática socialista produziu lamentáveis efeitos, não só pelas tentativas absurdas de criar um socialismo
católico, mas pelo aparecimento de toda uma categoria de católicos imbuídos de modernismo e, “pelas suas mesmas
doutrinas, formados numa escola de desprezo a toda autoridade e todo freio” 52
Decorreu daí um modernismo socialista assim descrito por Pio XI: “Quantos, com efeito, admitem a doutrina
católica sobre a autoridade civil e o dever de lhe obedecer, sobre o direito de propriedade, os direitos e deveres dos
operários da agricultura e da indústria, as relações dos Estados, as relações entre operários e patrões, entre os poderes
religioso e civil, os direitos da Santa Sé e do Pontífice Romano, os privilégios dos Bispos, enfim a respeito dos direitos
de Cristo Criador, Redentor e Senhor, sobre todos os homens e sobre todos os povos? E estes mesmos, nos seus
discursos, nos seus escritos e no conjunto de sua vida, agem exatamente como se os ensinamentos e as ordens
promulgados tão reiteradamente pelos Soberanos Pontífices, com especialidade por Leão XIII, Pio X e Bento XV,

50
Cfr. D. Antônio de Castro Mayer, “Carta Pastoral sobre os problemas do apostolado moderno”- “Boa
Imprensa Ltda.”, Campos, 1953.
51
Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 8.
52
Encíclica “Pascendi Dominici Gregis”, de 8 de setembro de 1907 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
5.
27
tivessem perdido seu primitivo valor ou não devessem ser tomados em consideração. Este fato revela uma espécie de
53
modernismo moral, jurídico e social, que condenamos tão formalmente quanto o modernismo dogmático” .
Esses processos são costumeiros nas revoluções. Eles lhes dão o necessário impulso, mas
ao mesmo tempo semeiam o caos. O caos, por sua vez, é aproveitado pelas revoluções.
Em nosso caso concreto, o caos se nota pela leitura dos discursos, das entrevistas, dos
projetos de lei que se têm publicado sobre a “Reforma Agrária”. Vistos em seu conjunto, ao mesmo
tempo se parecem tanto uns com outros, e tanto se diferenciam entre si nos mais diversos aspectos,
que dão a impressão de um emaranhado talvez inextricável. É necessária muita atenção para
perceber que há método nesse caos, isto é, que, em medidas e formas diferentes, é a doutrina
socialista que inspira essa luta. Ora, este caos tem um efeito psicológico altamente nocivo para os
defensores do bom-senso, e muito vantajoso para a demagogia. Um fato recente nos permite pôr em
relevo este ponto.
Como se sabe, nas vésperas da conferência de cúpula programada para o mês de maio
deste ano, em Paris, declarações de Nikita Kruchev fizeram esperar que a tensão criada pelo
incidente do avião norte-americano U-2 se dissipasse. Entretanto, o ditador soviético causou
surpresa, melhor diríamos pasmo, ao tomar uma atitude tão espetacularmente agressiva, que a
conferência nem chegou a se reunir.
Os círculos diplomáticos se esgotaram em conjecturas, umas mais plausíveis e outras
menos, para descobrir as intenções do ministro-ator. Quando as discussões pela imprensa iam
acesas, um psicólogo inglês, William Sargente, publicou no “Times” de Londres uma explicação. O
conhecido cientista russo Pavlov provou por experiências com cães que, quando se dão a esses
animais instruções sucessivas e contraditórias, eles se angustiam e acabam perdendo a “vontade”.
Ora, diz Sargent, fato análogo se produz com os homens. Impondo à política internacional
sucessivas e contraditórias mudanças de rumo, e fazendo os povos do Ocidente oscilarem
constantemente, angustiados, entre perspectivas de paz e de hecatombe atômica, Kruchev
desmantela o próprio nervo da resistência do adversário, que é a vontade de lutar e de sobreviver.
Não é o caso de nos pronunciarmos aqui sobre as posições doutrinárias de Sargent e de
Pavlov, nem de saber se esse efeito de opinião foi o único visado por Kruchev. O fato é que há
muito de bom-senso na observação do psicólogo inglês, e que, pelo menos colateralmente, este
efeito foi previsto... e alcançado.
Ora, é lícito perguntar se o instinto demagógico, de si mesmo tão fino, tão sutil, não se
compraz em desnortear e debilitar a vontade do adversário dentro desse caos de propostas diversas
de “Reforma Agrária”, que percorrem toda a gama que vai do “moderado” ao terrificante. Isto
obtido, o adversário se interrogará desnorteado e exausto: não será preferível ceder algo para não
perder tudo? No dia em que este problema tiver impressionado grandes setores da opinião, estará
criado o clima para se darem os primeiros passos nas vias da socialização da lavoura.
Depois disto, parar-se-á talvez um pouco. O agricultor ingênuo, entre tristonho e
tranqüilizado, respirará.
Mas o imenso movimento ideológico e temperamental que vai impelindo o mundo
moderno para a igualdade completa numa sociedade sem classes, não pode contentar-se com tão
pouco, porque tudo que é forte e impetuoso não se detém, não pode deter-se espontaneamente a
meio caminho. Ou se lhe erguem barreiras firmes, em nome dos princípios básicos da civilização
cristã, ou de si a avalancha do igualitarismo chegará aos últimos extremos. E a “Reforma Agrária”
socializará inteiramente o campo, à espera do dia em que se socializem o comércio e a indústria.
Assim, pois, ao cabo de algum tempo, a investida recomeçará. E já então será muito mais
difícil conte-la. É possível conter a pedra que oscila no alto do morro. Mas quem conterá o alude
que rola volumoso e rápido à meia encosta?
Tendo em vista o bem da civilização cristã e do Brasil, cumpre considerar, pois, que este
sistema de progressos graduais do socialismo rural, e de destruição paulatina e implacável do

53
Encíclica “Ubi Arcano”, de 23 de dezembro de 1922 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs. 25-26.
28
instituto da propriedade privada, facilitados por uma cega política de concessões, é o perigo que
mais se deve recear.

Capítulo II

Ambiente já receptivo para a propaganda socialista

Receptividade

Descrever métodos eficientes de propaganda não basta para lhes explicar o sucesso. É
preciso, ainda, mostrar a adequação desses métodos ao ambiente em que são empregados.
O ambiente brasileiro está, de há muito, receptivo para os processos de propaganda
socialista que acabamos de descrever.

Causas dessa receptividade

As doutrinas e as tendências que, em fins do século XVIII, deram origem à Revolução


Francesa afirmavam uma igualdade natural absoluta entre os homens. Em nome desse princípio, a
Revolução introduziu a igualdade no campo político, proclamando na França a república, que ela
considerava a única forma de governo consentânea com o “dogma” da igualdade.
Implantando a igualdade política, a Revolução Francesa deixou intactas as desigualdades
econômicas, bem como as desigualdades sociais que destas decorrem. Paralelamente com a
expansão universal dos princípios revolucionários, um problema de fundo se delineou assim, ao
longo de todo o século XIX, mais claro para alguns espíritos, menos claro para outros. Sobretudo as
almas fortemente impregnadas de sentimentalismo romântico e filantrópico se mostravam
impressionadas com ele. Esse problema poderia formular-se assim: se a igualdade natural entre os
homens deve acarretar a igualdade política, por que não há de conduzir também à igualdade
econômica e social?
Esta interrogação foi tomando consistência paulatinamente num ambiente marcado pelas
mais diversas influências ideológicas e por questões sociais que se iam tornando pungentes.
Havendo membros da grande família espiritual dos sentimentais românticos nos mais
variados setores da opinião, o problema da igualdade foi assumindo em cada setor um colorido
próprio. Nos meios conservadores, tomou o aspecto de uma aspiração profunda e confusa, que não
ousava explicitar-se por efeito da pressão do ambiente, mas que criava uma simpatia para com o
socialismo, paradoxalmente coexistentes com o repúdio algum tanto assustado que este provocava
nos mesmos meios.
Em muitos católicos românticos e sentimentais, qualquer que fosse sua categoria social, o
mesmo fenômeno de simpatia e repúdio se produziu. A ignorância da doutrina da Igreja no tocante
à igualdade fundamental e às legítimas desigualdades entre os homens; a triste situação do
operariado urbano, provocada pela industrialização incipiente; os impulsos legítimos do espírito de
justiça e de caridade, de mistura com as vibrações do sentimentalismo romântico, levaram muitos
católicos a simpatizarem com o socialismo. Este lhes causava, entretanto, apreensão pelo seu
aspecto revolucionário e pelo conflito que criava com o senso das proporções e da hierarquia que
existe em todo coração católico.
Se estes anseios de igualdade absoluta tiveram como fruto mais genuíno e característico,
no século passado, o aparecimento do socialismo pré-marxista e marxista, o seu efeito foi muito
além, pois produziram eles um imenso epifenômeno que vem ganhando em intensidade até nossos
dias.
Consiste ele em uma predisposição para o socialismo, de imensas parcelas da opinião
pública nos próprios setores declaradamente não socialistas.

29
Essa predisposição explica a receptividade da sociedade burguesa contemporânea para os
métodos de propaganda velada empregados pelos socialistas.

Receptividade e repulsa em relação à “Reforma Agrária”

Assim, no momento em que a “Reforma Agrária” se apresenta diante da opinião pública,


ao mesmo tempo que seu radicalismo provoca repulsa nesta, um certo pendor igualitário pode
paralisar muitos do que devem lutar contra ela.

Conclusão

As considerações feitas nestes três Títulos da Secção I conduzem a algumas conclusões


essenciais, que importa resumir.
A mentalidade tão arraigadamente católica de nosso País vem sendo minada, de modo
paulatino e despercebido, por uma doutrina que ela repudiaria se a visse em seu conjunto e em seus
princípios últimos. É o socialismo.
Servido pela finura de instinto político próprio às revoluções, o socialismo vem, de há
muito, operando essa transformação de alma por processos sagazes e eficientes.
Ele visa, no momento, a conduzir o Brasil à aceitação de uma transformação social e
econômica incruenta, mas autenticamente revolucionária, que é a “Reforma Agrária”.
A implantação desta criará um estado de tensão entre o País, que é católico, e a legislação,
que será inspirada por princípios opostos aos da civilização cristã. Daí uma crise religiosa, e
sobretudo uma grave questão de consciência.
Cumpre que o nosso povo reaja contra o perigo, não só rejeitando o socialismo explícito,
mas também muitas opiniões que dão à mentalidade de bom número de brasileiros um cunho
socialista, sem que eles o saibam.

Observação relativa à revisão agrária

Tem-se usado a expressão revisão agrária para designar uma “Reforma Agrária” moderada.
O projeto de lei n.o 154 de 1960, do governo do Estado de São Paulo, por exemplo, se intitula de
revisão agrária nesse sentido.
“Reforma Agrária” moderada e revisão agrária eqüivalem a uma socialização moderada da
vida do campo. O socialismo, ainda que moderado, não pode ser aceito pela consciência católica,
conforme ensinou Pio XI54 . O que dizemos da “Reforma Agrária” abrange, pois, a revisão agrária.

Secção II

Opiniões socializantes que preparam o ambiente para a


“Reforma Agrária”: exposição e análise

Observações preliminares

Objetivo da Secção II

54
Cfr. Título II, Capítulo III.
30
A Secção II desta Parte tem por fim considerar, não mais o sistema de idéias socialista,
mas as mais importantes dentre as opiniões que preparam o ambiente – até mesmo em círculos que
se reputam conservadores e anti-socialistas – para uma certa receptividade em relação a reformas
socializantes de nossa organização social e econômica, e portanto também para a “Reforma
Agrária”.
O sistema socialista, já analisado na Secção anterior, é abordado agora em plano apenas
secundário, e a dois títulos diversos:
1. – Dado que várias dessas opiniões, nascidas em geral do laicismo, do sentimentalismo,
do filantropismo e do positivismo jurídico, sem serem exclusivas do socialismo, se
encontram também nele, as refutações feitas aqui atingirão acidentalmente alguns
aspectos do sistema socialista, radical ou moderado.
2. – Para refutar algumas das opiniões impugnadas nesta Secção II, usaremos como
argumento o simples fato de que elas são tipicamente socialistas. A eficácia do
argumento resulta de ser provado, em capítulo anterior55 , a incompatibilidade entre o
socialismo e a doutrina católica.

Confronto de proposições

Ao enunciar cada uma dessas opiniões, confrontamo-la com a proposição oposta, inspirada
na doutrina católica. Tal confrontação nos parece o meio mais eficiente para acentuar o contraste
entre as convicções tradicionais e cristãs do povo brasileiro, e o espírito socialista ou socializante
que vem soprando sobre ele.
Não se visa pois, aqui, principalmente a esclarecer pessoas que já tomaram posição firme
no assunto, nem a fornecer uma noção deste a quem o ignore inteiramente. O objetivo do confronto
consiste em dar, a muitos leitores que consciente ou subconscientemente ainda hesitam, a sensação
viva da transformação ideológica que neles se passa sem que, absorvidos pelas mil ocupações da
vida cotidiana, a tenham notado.

Comentários

Acompanhamos em geral as proposições de comentários tão sintéticos quanto possível.


Esses comentários não tratam de toda a matéria contida nas proposições, mas apenas de um ou
outro ponto mais relevante.

Textos pontifícios

Em seguida aos comentários, citamos com freqüência textos hauridos no imenso e rico
acervo dos documentos pontifícios: Encíclicas, Cartas Apostólicas, Alocuções etc.
O desejo de não ampliar excessivamente as dimensões do trabalho priva-nos de publicar
maior número de textos alusivos às matérias aqui tratadas. Escolhemos de preferência aqueles que
afirmam os grandes princípios básicos em torno dos quais gira toda a controvérsia referente à
“Reforma Agrária”. Também nos empenhamos em documentar com ensinamentos pontifícios
alguns pontos talvez não capitais, mas a cujo respeito nos parece haver muita confusão na opinião
pública.
As proposições são apresentadas concatenadamente, de sorte que as posteriores são de
algum modo prejulgadas, pelo menos no que têm de mais essencial, pelas soluções dadas às
anteriores. É natural, pois, que à medida em que as proposições se sucedem, as citações de Papas se
vão tornando mais raras. Como o capítulo IV versa matéria algum tanto diferente, comporta textos
pontifícios especiais, que, por isso, a partir da pág. ..... voltam a ser mais numerosos.

55
Secção I, Título II, Capítulo III.
31
As epígrafes que precedem os textos visam a realçar nestes algum aspecto, relacionando-o
ao mesmo tempo com o tema versado na respectiva proposição ou comentário.

Divisão e concatenação das proposições

Dividimos as proposições em cinco capítulos.


O primeiro versa sobre questões relacionadas mais diretamente com a legitimidade do
instituto da propriedade privada, da família, das desigualdades sociais e econômicas, do salariado
etc., em face da moral e da doutrina social da Igreja.
O segundo capítulo trata, em suas várias proposições, de outro problema. Uma estrutura
agropecuária pode ser, em seus próprios princípios constitutivos, contrária às conveniências da
produção. Analisados a esta luz os princípios constitutivos de nossa estrutura presente, pode-se
mostrar que são bons.
O terceiro capítulo cuida de matéria afim, mas diversa. Ele abstrai dos princípios
constitutivos, para só considerar os fatos concretos. Nas proposições impugnadas, apresenta os
vários traços do quadro de nossa realidade agropecuária, deformado pelos prismas socialistas. Nas
proposições afirmadas, vem descrito o quadro objetivo dessa mesma realidade.
Um e outro quadro abrem horizonte para a Parte II, pois ambos se ordenam principalmente
em função do problema da produção: na ordem concreta dos fatos, a lavoura e a pecuária estão
produzindo o necessário para a prosperidade e o progresso do País? A atual estrutura agropecuária é
a grande culpada pela crise brasileira?
A demonstração cabal de que o quadro descrito nas proposições afirmadas é verdadeiro, e
de que o das proposições impugnadas é falso, se encontra na Parte II.
Este capítulo terceiro dá, pois, o nexo entre os aspectos religiosos e sociais da “Reforma
Agrária” (Parte I) e seus aspectos econômicos (Parte II).
Em seguida, no capítulo quarto, estuda-se o problema: deve a opinião católica pronunciar-
se sobre a “Reforma Agrária”?
Os assuntos tratados são agora algum tanto diversos.
Lidos os capítulos anteriores, o espírito se volta com interesse particular para o problema,
já rapidamente abordado na Introdução, da congruência de uma intervenção da Igreja nos assuntos
atinentes à “Reforma Agrária” 56. E, nos flancos deste problema, ganham vulto as questões relativas
à oportunidade dessa interferência, quer do ponto de vista da Igreja, quer do País. Essas questões de
oportunidade podem resumir-se assim:
1. – que conseqüências terá sobre a opinião pública o fato de se patentear, na atual fase de
proselitismo em prol da “Reforma Agrária”, a incompatibilidade entre esta e a doutrina
católica?
2. – quais as conseqüências que a promulgação da “Reforma Agrária” traria para a vida
religiosa do Brasil? Delineia-se aqui a questão de consciência57.
Enunciadas todas as proposições, pareceu conveniente resumi-las num quadro sintético, o
qual constitui o Capítulo V.

Capítulo I

A atual estrutura rural brasileira é em si mesma contrária aos princípios da


justiça?

Introdução

56
Proposição 31.
57
Cfr. Secção III.
32
Impugnada Afirmada
A “Reforma Agrária”, que visa dividir A “Reforma Agrária”, que visa
as propriedades grandes e médias, de forma que dividir as propriedades grandes e médias, de
no Brasil só existam propriedades pequenas, é forma que no Brasil só existam propriedades
intrinsecamente uma admirável medida de pequenas, é gravemente injusta em si mesma.
justiça. Com efeito, a existência de propriedades de
Com efeito, a existência de propriedades tamanhos desiguais é intrinsecamente justa
agrícolas de tamanhos desiguais é em si mesma porque:
injusta porque:

Proposição 1

Impugnada Afirmada
A razão mostra que os homens são Todos os homens ativos e probos têm
todos iguais por natureza. Não é, pois, justo que igual direito à vida, à integridade física, à
uns tenham muita terra, outros pouca, e outros, fruição de condições de existência suficientes,
enfim, nenhuma. dignas e estáveis.
Mas é justo que os mais capazes, mais
ativos, mais econômicos tenham, além deste
mínimo, o que produzirem graças a suas
superiores possibilidades.
Daí decorre legitimamente a
diferenciação das propriedades em grandes,
médias e pequenas, e quiçá a existência de
uma classe condignamente remunerada, mas
sem terras.

Comentário

Negar os princípios contidos na proposição afirmada importa em declarar inerente ao


homem a condição de escravo.
Com efeito, se o homem é dono de seu ser, é dono de seu trabalho. Se é dono de seu
trabalho, é dono do fruto de seu trabalho. E como a capacidade de trabalhar, quer do ponto de vista
da quantidade, quer da qualidade, varia de homem para homem, a desigualdade daí decorre
necessariamente. Essa desigualdade tem aliás limites, como se verá abaixo.
Se o homem não é dono de seu ser, é escravo. É a essa igualdade de escravo que o
socialismo nos conduz. Afirma-o Leão XIII: o socialismo leva a “uma odiosa e insuportável
servidão para todos os cidadãos” 58.
Poder-se-ia objetar que o ideal último dos comunistas não é a igualdade completa, uma vez
que vigora na URSS o princípio de que se deve exigir de cada um segundo sua capacidade, e dar a
cada qual segundo sua necessidade. Ao Estado cumpre regular soberanamente a aplicação desse
princípio. Mas esta aplicação tem sido feita de maneira que os chefes têm outro passadio que não os
operários. Estes não podem, por exemplo, abastecer-se nos armazéns reservados aos funcionários
do Kremlin, nem sentar-se à mesa dos engenheiros.

58
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
11.
33
Este argumento comporta uma ressalva preliminar: é muito difícil saber com inteira certeza
o que se passa na URSS. E mesmo que determinado fato tenha sido demonstrado como verídico em
um ano qualquer, já não se pode dá-lo como certo no ano seguinte.
Sem dar, pois, estes fatos como incontestes, pode-se admitir que, sob vários aspectos, o
regime existente na URSS não tem realizado a igualdade completa.
Deve-se isto, provavelmente, em parte a abusos dos detentores do poder, mas em boa parte
a outra causa. Com efeito, ao contrário do que imagina o grande público, o regime concretamente
existente na URSS não constitui a aplicação total dos princípios marxistas. A URSS vive numa
etapa de transição para a instauração do marxismo integral. E, em conseqüência, muito do que ali
ocorre deve ser tido como concessão inevitável a uma tradição de desigualdade mais do que
milenar, que só por etapas pode ir sendo abolida.
Assim, do fato de subsistirem atualmente algumas desigualdades no regime vigente na
URSS, nada se pode concluir contra o caráter estritamente igualitário do marxismo, considerado
este em seus fins últimos.
Aliás, o simples fato de que, mesmo hoje em dia, tudo quanto o trabalhador intelectual ou
manual produz se destina à coletividade, que regula segundo seu inteiro critério a distribuição desta
produção, sujeita o homem à condição de peça anônima e sem direitos dentro do mecanismo social.
E onde existe a ausência de direitos para todos, todos são radicalmente iguais.
* * *
A proposição impugnada é unilateral, e daí conduz a conseqüências falsas.
Por natureza, os homens todos em um sentido são iguais, mas em outro sentido são
desiguais.
Iguais, eles o são porque criaturas de Deus, dotadas de corpo e alma, e remidas por Jesus
Cristo. Assim, pela dignidade comum a todos, têm igual direito a tudo quanto à condição humana é
próprio: vida, saúde, trabalho, Religião, família, desenvolvimento intelectual etc. Uma organização
econômica e social justa e cristã repousa, destarte, sobre um traço fundamental da verdadeira
igualdade.
Mas, além dessa igualdade essencial, há entre os homens desigualdades acidentais postas
por Deus: de virtude, de inteligência, de saúde, de capacidade de trabalho, e muitas outras. Toda
estrutura econômica e social orgânica e viva tem de estar em harmonia com a ordem natural das
coisas. Essa desigualdade natural há de se refletir nela, portanto. Tal reflexo consiste em que, desde
que todos tenham o justo e condigno, os bem dotados pela natureza possam, por seu trabalho
honesto e sua economia, adquirir mais.
A igualdade e a desigualdade se compensam e se completam assim, desempenhando papéis
diversos mas harmônicos na ordenação de uma sociedade justa e cristã.
Esta regra constitui, aliás, um dos traços mais admiráveis da ordem universal. Todas as
criaturas de Deus têm o que lhes compete conforme sua própria natureza, e nisto são tratadas por
Ele segundo a mesma norma. Mas, além disto o Senhor dá muitíssimo a umas, muito a outras, e a
outras, enfim, apenas o adequado. Essas desigualdades formam uma imensa hierarquia, em que
cada degrau é como uma nota musical a compor uma grande sinfonia que canta a glória divina.
Uma sociedade e uma economia estritamente igualitárias seriam, portanto, antinaturais.
Vistas a esta luz, as desigualdades representam uma condição de boa ordem geral, e
redundam, pois, em vantagem para todo o corpo social, isto é, para os grandes como para os
pequenos.
Esta escala hierárquica está nos planos da Providência como meio para promover o
progresso espiritual e material da humanidade pelo estímulo aos melhores e mais capazes. O
igualitarismo traz consigo a inércia, a estagnação e, portanto, a decadência, pois que tudo quanto é
vivo, se não progride, se deteriora e morre.
Por esta forma se explica a parábola dos talentos59. A cada qual Deus dá em medida
diversa e de cada um exige rendimento proporcionado.

59
Mt. 25, 14-30.
34
Textos Pontifícios

Caráter socialista da tese impugnada


“Os socialistas não cessam, como todos sabemos, de proclamar a igualdade de todos os homens segundo a
60
sua natureza” .

A igualdade de condições é impossível


“Quaisquer que sejam as vicissitudes pelas quais as formas de governo são chamadas a passar, haverá sempre
entre os cidadãos essas desigualdades de condições, sem as quais uma sociedade não pode existir nem conceber-se”61 .

A igualdade sonhada pelos socialistas é antinatural


“O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é
impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os
socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos. Foi ela, realmente, que estabeleceu entre os homens
diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade, de saúde, de força:
diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das condições. Esta desigualdade, por outro
lado, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos; porque a vida social requer um organismo
muito variado e funções muito diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções é,
62
principalmente, a diferença de suas respectivas condições” .

Da desigualdade das pessoas decorre a desigualdade de bens


“A Igreja, que reconhece... que existe a desigualdade entre os homens, naturalmente diferentes nas forças do
corpo e do espírito, e que esta desigualdade também existe na propriedade dos bens, determina que o direito de
63
propriedade, ou domínio, que vem da própria natureza, fique intacto e inviolável para cada um” .

O universo, a Igreja e a sociedade civil refletem o amor de Deus a uma orgânica desigualdade
“Aquele que criou e governa todas as coisas regulou com a sua sabedoria providencial que as ínfimas coisas
ajudadas pelas medianas, e estas pelas superiores, consigam todas o seu fim.
Por isso, assim como no Céu quis que os coros dos Anjos fossem distintos e subordinados uns aos outros, e
na Igreja instituiu graus nas ordens e diversidade de ministérios de tal forma que nem todos fossem apóstolos, nem
todos doutores, nem todos pastores (1 Cor. 12, 27); assim estabeleceu que haveria na sociedade civil várias ordens
diferentes em dignidade, em direitos e em poder, a fim de que a sociedade fosse, como a Igreja, um só corpo,
compreendendo um grande número de membros, uns mais nobres que os outros, mas todos reciprocamente necessários
e preocupados com o bem comum” 64.

Nada repugna tanto à razão quanto uma igualdade matemática


“... se considerarmos que todos os homens são da mesma raça e da mesma natureza e que devem todos atingir
o mesmo fim último, e se olharmos aos deveres e aos direitos que decorrem dessa comunidade de origem e de destino,
não é duvidoso que eles sejam iguais. Mas, como nem todos eles têm os mesmos recursos de inteligência, e como
diferem uns dos outros, seja pelas faculdades do espírito, seja pelas energias físicas; como, enfim, existem entre eles mil
distinções de costumes, de gostos, de caracteres, nada repugna tanto à razão como pretender reduzi-los todos à mesma
65
medida e introduzir nas instituições da vida civil uma igualdade rigorosa e matemática” .

A Igreja condena a igualdade de direitos e deveres

60
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 8.
61
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
25.
62
Idem, pág. 13.
63
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 12.
64
Idem, pág. 9.
65
Leão XIII, Encíclica “Humanum Genus”, de 20 de abril de 1884 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
20.
35
Leão XIII condenou os que “pregam a igualdade absoluta de todos os homens no que diz respeito aos direitos
66
e deveres” , e qualificou de errônea e naturalista a tese de que “os homens são, todos, iguais em direitos, e sob todos os
pontos de vista são de igual condição” 67.
Pio XI, por sua vez, reafirmou o mesmo princípio: “Não é verdade que na sociedade civil todos tenhamos
direitos iguais, e que não exista hierarquia legítima” 68.
69
Citaremos adiante textos de Pio XII e João XXIII no mesmo sentido .

Igualdade e desigualdade nos planos da Providência


“... segundo as doutrinas do Evangelho, a igualdade dos homens consiste em que todos, dotados da mesma
natureza, são chamados à mesma e eminente dignidade de filhos de Deus, e que, tendo todos o mesmo fim, cada um
será julgado pela mesma lei e receberá o castigo ou a recompensa que merecer. Entretanto, a desigualdade de direitos e
de poder provém do próprio Autor da natureza, “de quem toda a paternidade tira o nome, no céu e na terra”. (Ef. 3,
70
15)” .

A Igreja quer que na sociedade haja classes desiguais


“A igualdade que a Igreja proclama conserva intactas as distinções das várias classes sociais, evidentemente
requeridas pela natureza” 71 .

No que existe entre os homens uma justa igualdade


“A vida temporal, posto que boa e desejável, não é o fim para que fomos criados; mas é a via e o meio para
aperfeiçoar, com o conhecimento da verdade e com a prática do bem, a vida do espírito. O espírito é o que tem em si
impressa a semelhança divina, e no qual reside aquele principado em virtude do qual foi dado ao homem o direito de
dominar as criaturas inferiores e de fazer servir à sua utilidade toda a terra e todo o mar: “Enchei a terra e tornai-a a vós
sujeita, dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra”
(Gn. 1, 28). Nisto todos os homens são iguais, e não há diferença alguma entre ricos e pobres, patrões e criados,
monarcas e súditos, “porque é o mesmo o Senhor de todos” (Rom. 10, 12)” 72.

A Igreja ama todas as classes e a harmoniosa desigualdade entre elas


“... os Pontífices Romanos tiveram sempre um igual empenho em proteger e melhorar a sorte dos humildes,
como em proteger e elevar as condições das classes superiores. Eles são, com efeito, os continuadores da missão de
Jesus Cristo, não somente na ordem religiosa, mas também na ordem social. E Jesus Cristo, se quis passar sua vida
privada na obscuridade de uma habitação humilde e ser tido por filho de um artesão; se, na sua vida pública, comprazia-
se em viver no meio do povo, fazendo-lhe o bem de todas as maneiras, entretanto quis nascer de raça real, escolhendo
por mãe a Maria, e por pai nutrício a José, ambos filhos eleitos da raça de Davi. Ontem, na festa de seus esponsais,
podíamos repetir com a Igreja as belas palavras: “Maria se nos manifesta fulgurante, nascida de uma raça real”.
Por isso, a Igreja, pregando aos homens que eles são todos filhos do mesmo Pai celeste, reconhece como uma
condição providencial da sociedade humana a distinção das classes; por essa razão Ela ensina que apenas o respeito
recíproco dos direitos e dos deveres, e a caridade mútua darão o segredo do justo equilíbrio, do bem-estar honesto, da
verdadeira paz e da prosperidade dos povos.
Quanto a Nós, também, deplorando as agitações que perturbam a sociedade civil, mais de uma vez voltamos
o Nosso olhar para as classes mais humildes que são mais perfidamente assediadas pelas seitas perversas: e Nós lhes
oferecemos os desvelos maternais da Igreja. Mais de uma vez nós o declaramos: o remédio para esses males não será
jamais a igualdade subversiva das ordens sociais, mas esta fraternidade que, sem prejudicar em nada a dignidade da
73
posição social, une os corações de todos nos mesmos laços do amor cristão” .

66
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 4.
67
Leão XIII, Encíclica “Humanum Genus”, de 20 de abril de 1884 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
17.
68
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
17.
69
Cfr. Textos Pontifícios da Proposição 2.
70
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 8.
71
Leão XIII, Encíclica “Parvenu”, de 19 de março de 1902 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 16.
72
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs.
28 e 29.
73
Leão XIII, Alocução de 24 de janeiro de 1903 ao Patriciado e à Nobreza Romana – “Bonne Presse”, Paris,
tomo VII, págs. 169-170.
36
O igualitarismo coletivista é nocivo ao operário
“... a conversão da propriedade particular em propriedade coletiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria
outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e
roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu patrimônio e
melhorarem a sua situação”74 .

Defender a propriedade é amar o povo


“... a teoria socialista da propriedade coletiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles
mesmos a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado
e perturbando a tranqüilidade pública. Fique, pois, bem assente que o primeiro fundamento a estabelecer para todos
75
aqueles que querem sinceramente o bem do povo é a inviolabilidade da propriedade particular” .

A igualdade socialista: igualdade na miséria e nudez


“Assim, substituindo a providência paterna pela providência do Estado, os socialistas vão contra a justiça
natural e quebram os laços da família.
Mas, além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas conseqüências: a perturbação em
todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as
invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e,
como conseqüência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a
76
igualdade na nudez, na indigência e na miséria” .

Proposição 2
Impugnada Afirmada
Este princípio da igualdade também é Esta desigualdade proporcionada e
ensinado pelo Evangelho, que nos manda amar o harmônica, que a ninguém deixa na
próximo como a nós mesmos 77. indigência, mas permite aos mais capazes e
Quem ama o próximo como a si mesmo operosos ocupar uma situação melhor, é a
não pode querer mais riqueza para si do que para aplicação lógica do princípio do Evangelho, de
o próximo. que devemos amar o próximo como a nós
mesmos.
Este princípio nos obriga a amar
todos os homens porque nos são próximos. E,
pois, ele nos preceitua particular amor para
com os mais próximos. Ora, para cada
homem, o mais próximo é ele próprio e sua
família.
Assim, é razoável que, sem recusar
aos outros justiça nem caridade, cada um se
beneficie a si e aos seus, em medida muito
mais larga, com o produto de seu trabalho.

Comentário

1.– Todos os homens nos são próximos


Todos os homens nos são próximos, ensina o Evangelho78. Com efeito, fomos todos
criados à imagem e semelhança de Deus, e remidos por Jesus Cristo. Assim, a todos devemos
fraterno amor.

74
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
6.
75
Idem, pág. 12.
76
Idem, págs. 11 e 12.
77
Marc. 12,31.
78
Lc. 10, 29-37.
37
2.– Mas há graus nessa proximidade
Mas a experiência mais comezinha nos ensina que nas relações humanas a proximidade
tem graus. Segundo é bem evidente, o ente mais próximo para cada homem é ele mesmo. Vem
depois sua família, que é como o prolongamento de seu próprio ser, a carne de sua carne e o sangue
de seu sangue. E sucessivamente, como em círculos concêntricos cada vez mais largos, vêm as
pessoas com quem o homem tem relações de proximidade particulares: os amigos, os alunos, os
empregados, os compatriotas, os companheiros de trabalho ou de estudo etc. Por fim, como última
periferia, vêm os que nos são desconhecidos, que formam a grande sociedade humana.
3.– Por isso há graus no amor do próximo
A essa gradação de proximidades corresponde uma gradação de amor ao próximo. Pois, se
amamos o próximo porque próximo, é claro que devemos amar mais os que nos são mais próximos.
Se devemos a todos o mesmo amor, não o devemos a todos em medida igual79.
Amando todos os homens, devemos desejar que todos tenham os bens de alma e de corpo
que correspondem à natureza humana 80. Mas devemos querer em abundância ainda maior esses
bens para os que nos são mais próximos, isto é, nós mesmos, nossas famílias etc.
É este o ensinamento unânime dos Papas e dos moralistas católicos.
4.– Logo, a desigualdade de propriedades é legítima
Em conseqüência, é falsa a proposição impugnada.
Estas considerações tornam fácil perceber que, em boa medida, a oposição entre
Catolicismo e socialismo está em que aquele afirma a legitimidade de uma gradação no amor ao
próximo, e este a nega.
5.- A posição orgânica do homem na sociedade cristã
Uma sociedade cristã é como que uma imensa rede de amor ao próximo que tem por
imediato objeto a família e os círculos vizinhos, e por aí se irradia a todo o corpo social.
É pois do íntimo dos homens que jorra a vida dos grupos e da sociedade. Vida tão intensa
que é, de algum modo, mais ela do que o Estado a grande força propulsora de um país ou de uma
civilização.
Aliás, esta gradação no amor ao próximo é bem o que corresponde à natural tendência da
alma humana, que não se satisfaz com um mero amor genérico à humanidade, mas pede
imperiosamente seres concretos, com quem tenha relações diretas e a quem se dedique de modo
pessoal.
Por isso, se se nega que devemos amar mais os mais próximos, as relações de proximidade
perdem todo o alcance e significação, praticamente desaparecem. É bem o modo por que o
socialismo e o comunismo concebem o amor ao próximo – em sua linguagem laica ou atéia,
simples solidariedade humana – igual para todos.
6.- Situação anorgânica do homem nas massas socializadas
Daí a formação de imensas massas sem contextura interna, o isolamento trágico e glacial
do indivíduo na multidão, e a inteira ausência de vida de alma na sociedade humana, bem como a
sujeição desta a um organismo com o qual ela não tem relações vitais, mas apenas mecânicas: o
Estado, alheio à multidão e dirigido por técnicos sem contato vivo com a realidade.
7.- Povo e massa
Na sociedade cristã se constitui um organismo vivo, diferenciado em órgãos hierárquicos e
profundamente solidários entre si: é o povo. No regime socialista forma-se a massa.
A diferença entre povo e massa foi admiravelmente descrita por Pio XII, de saudosa
memória, em documento adiante citado 81.

79
Cfr. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, IIa. IIae., q. 26.
80
Cfr. Comentário à Proposição 1.
81
Cfr. Textos Pontifícios desta Proposição.
38
O igualitarismo socialista e a “Reforma Agrária” não passam de aspectos da grande vaga
de socialização que varre o Ocidente. O erguer diques a essa vaga não deve ser visto como um mero
trabalho de preservação de elites, meritório em si. Esta tarefa tem seu sentido pleno no desígnio de
assegurar para o povo todo, como sociedade – compreendendo famílias e grupos de vários níveis
orgânicos e diferenciados – o caráter de povo. Seu objetivo é impedir a trágica transformação do
povo em massa inerte, anorgânica e escrava.
* * *
Aludimos de passagem ao laicismo ou ateísmo socialista. O tema merece uma palavra de
elucidação.
Segundo a doutrina católica, todos os homens são irmãos, pois foram criados por Deus e
remidos por Jesus Cristo, e a pátria não é senão uma família de famílias. Compreende-se todo o
calor de afeto fraterno que daí promana, na família primeiramente, mas gradativamente também em
todas as relações humanas, e em toda a humanidade. É uma imensa efusão de amor, graduado por
certo e como que hierarquizados, mas que atinge de fato todos os homens com uma plenitude
esplêndida, toda fundada – é importante notar – no amor de Deus.
Segundo a doutrina socialista, não há Deus, ou pelo menos ignora-se sua existência, pois
deseja-se construir todo o edifício social e econômico à margem de concepções religiosas: isto é,
precisamente como se Deus não existisse. O que resta então como fundamento para o amor entre os
homens? As relações humanas passam a ser um gélido e inóspito consórcio de interesses...
Os adeptos de tal doutrina não têm direito, pois, a manejar o argumento do amor ao
próximo.

Textos Pontifícios

O amor ao próximo ensinado por Jesus Cristo é o oposto da utopia igualitária do socialismo
“Certamente, Jesus nos amou com um amor imenso, infinito, e veio à terra sofrer e morrer, a fim de que,
reunidos em redor dele na justiça e no amor, animados dos mesmos sentimentos de mútua caridade, todos os homens
vivam na paz e na felicidade. Mas para a realização desta felicidade temporal e eterna Ele impôs, com autoridade
soberana, a condição de se fazer parte de seu rebanho, de se aceitar sua doutrina, de se praticar a virtude e de se deixar
ensinar e guiar por Pedro e seus Sucessores. Ademais, se Jesus foi bom para os transviados e os pecadores, não
respeitou suas convicções errôneas, por sinceras que parecessem; amou-os a todos para os instruir, converter e salvar.
Se chamou junto de Si, para os consolar, os aflitos e os sofredores, não foi para lhes pregar o anseio de uma
igualdade quimérica. Se levantou os humildes, não foi para lhes inspirar sentimentos de uma dignidade
independente e rebelde à obediência. Se seu coração transbordava de mansidão pelas almas de boa vontade, soube
igualmente armar-Se de uma santa indignação contra os profanadores da casa de Deus, contra os miseráveis que
escandalizam os pequenos, contra as autoridades que acabrunham o povo sob a carga de pesados fardos, sem aliviá-la
sequer com o dedo. Foi tão forte quão doce; repreendeu, ameaçou, castigou, sabendo e nos ensinando que, muitas vezes,
o temor é o começo da sabedoria, e que, às vezes, convém cortar um membro para salvar o corpo. Enfim, não anunciou
para a sociedade futura o reinado de uma felicidade ideal, de onde o sofrimento fosse banido; mas, por lições e
exemplos, traçou o caminho da felicidade possível na terra e da felicidade perfeita no Céu: a estrada real da cruz. Estes
são ensinamentos que seria errado aplicar somente à vida individual em vista da salvação eterna; são ensinamentos
eminentemente sociais, e nos mostram em Nosso Senhor Jesus Cristo outra coisa que não um humanitarismo sem
consistência e sem autoridade” 82 .

Amor ao próximo entre grandes e pequenos


“Os humildes, de seu lado, se alegrarão com a prosperidade das pessoas de posição mais elevada, e esperarão
o seu apoio com confiança, como, numa mesma família, os mais jovens repousam sobre a proteção e a assistência dos
83
mais velhos” .

O amor a si mesmo e à família é harmônico com o amor à pátria e ao gênero humano

82
São Pio X, Carta Apostólica “Notre Charge Apostolique”, de 25 de agosto de 1910 – “Editora Vozes
Ltda.”, Petrópolis, págs. 25 e 26.
83 º
Bento XV, Encíclica “Ad Beatissimi”, de 1 de novembro de 1914 – “Les Enseignements Pontificaux – La
Paix intérieure des Nations – par les moines de Solesmes” – Desclée & Cie., pág. 288.
39
A Igreja “é igualmente alheia a todos os extremos do erro como de quaisquer exageros de partidos ou
sistemas que lhes sejam aderentes; atém-se sempre ao equilíbrio da verdade e da justiça; reivindica-o em teoria, aplica-o
e promove-o na prática conciliando direitos e deveres de uns com os outros isto é, a autoridade com a liberdade, a
dignidade do indivíduo com a do Estado, a personalidade humana do súdito com a representação divina no superior, e
pois a devida dependência e o amor ordenado de si próprio, da família e da pátria, com o amor de outras famílias e de
84
outros povos, fundado no amor de Deus, Pai de todos, primeiro princípio e último fim” .

A diversidade das classes não obsta à justiça e ao amor entre os homens


“... toda a economia das verdades religiosas, de que a Igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e
reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, primeiro que todos os outros, os
85
que derivam da justiça” .

Fraternidade cristã e hierarquia social


“Num povo digno de tal nome, todas as desigualdades que derivam, não do arbítrio, mas da própria natureza
das coisas, desigualdades de cultura, de haveres, de posição social – sem prejuízo, bem entendido, da justiça e da
caridade mútua – não são absolutamente um obstáculo à existência e ao predomínio de um autêntico espírito de
comunidade e fraternidade. Pois, pelo contrário, longe de lesar de qualquer modo a igualdade civil, lhe conferem o seu
significado legítimo, isto é, cada um, em face do Estado, tem o direito de viver honradamente a própria vida pessoal, no
lugar e nas condições em que os desígnios e disposições da Providência o colocaram”86 .

As desigualdades individuais e sociais, fonte de beleza e harmonia


“A concórdia que se procura entre os povos deve ser promovida cada vez mais entre as classes sociais. Se
isto não se verifica, podem em conseqüência resultar ódios e dissensões, como já estamos presenciando; daí nascerão
perturbações, revoluções e por vezes massacres, bem como a diminuição progressiva da riqueza e as crises que afetam a
economia pública e privada. Leão XIII, Nosso Predecessor, já observava com justeza: “Deus quis na comunidade
humana uma diferença de classes, mas ao mesmo tempo certa equanimidade proveniente da colaboração
amistosa”(Carta “Permoti Nos”). De fato, “assim como no corpo humano os diversos membros se ajustam entre si e
determinam essas relações harmoniosas a que chamamos simetria, da mesma forma a natureza exige que na sociedade
as classes se integrem umas às outras e por sua colaboração mútua realizem um justo equilíbrio. Cada uma delas tem
necessidade da outra; o capital não existe sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital. Sua harmonia produz a beleza
e a ordem”(Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”). Quem ousa, pois, negar a diversidade de classes sociais contradiz
a ordem mesma da natureza. E também os que se opõem a esta colaboração amistosa e necessária entre as classes
buscam, sem dúvida, perturbar e dividir a sociedade, para o maior dano do bem público e privado. De resto, eis o que
afirmava Nosso Predecessor de imortal memória, Pio XII: “Num povo digno de tal nome, todas as desigualdades que
derivam não do arbítrio, mas da própria natureza das coisas, desigualdades de cultura, de haveres, de posição social –
sem prejuízo, bem entendido, da justiça e da caridade mútua – não são absolutamente um obstáculo à existência e ao
predomínio de um autêntico espírito de comunidade e fraternidade” (Radio mensagem de Natal de 1944). É verdade
que toda classe e toda categoria de cidadãos pode defender os próprios direitos, desde que o faça na legalidade e sem
violência, no respeito dos direitos alheios, tão invioláveis quanto os seus. Todos são irmãos; é, pois, necessário que
todas as questões se resolvam amigavelmente, com caridade fraterna e mútua” 87.

É numa desigualdade orgânica que floresce a fraternidade cristã


“... é preciso que vos sintais verdadeiramente irmãos. Não se trata de uma simples alegoria: sois
verdadeiramente filhos de Deus e portanto verdadeiros irmãos.
Pois bem, os irmãos não nascem nem permanecem todos iguais: uns são fortes, outros débeis; uns
inteligentes, outros incapazes; talvez algum seja anormal, e também pode acontecer que se torne indigno. É pois
inevitável uma certa desigualdade material, intelectual, moral, numa mesma família. Porém, do mesmo modo que nada
– nem as contingências, nem o uso do livre arbítrio – poderá destruir a paternidade e a maternidade, assim também deve
manter-se intangível e operante, nos limites do justo e do possível, a fraternidade entre os filhos de um mesmo pai e de
uma mesma mãe.
Aplicai isto à vossa paróquia, que Nós desejaríamos ver transformada numa verdadeira e grande família.
Pretender a igualdade absoluta de todos seria o mesmo que pretender dar idênticas funções a membros diversos do

84
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
18.
85
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs.
14 e 15.
86
Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1944 – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. VI, págs. 239-240.
87
João XXIII, Encíclica “Ad Petri Cathedram”, de 29 de junho de 1959 – AAS, vol. LI, n. 10, págs. 505-
506.
40
mesmo organismo. Isto posto, é necessário tornar operante vossa fraternidade, porque somente se vos amardes uns aos
88
outros, os homens reconhecerão que sois uma paróquia cristãmente renovada” .

As desigualdades são condição da organicidade social


“... do mesmo modo que a perfeita constituição do corpo humano resulta da união e do conjunto dos
membros, que não têm as mesmas forças nem as mesmas funções, mas cuja feliz associação e concurso harmonioso dão
a todo o organismo a sua beleza plástica, a sua força e a sua aptidão para prestar os serviços necessários, assim também,
no seio da sociedade humana, acha-se uma variedade quase infinita de partes dessemelhantes. Se elas fossem todas
iguais entre si, e livres cada uma por sua conta de agir a seu talante, nada seria mais disforme do que tal sociedade. Pelo
contrário, se, por uma sábia hierarquia dos merecimentos, dos gostos, das aptidões, cada uma delas concorre para o bem
89
geral, vedes erguer-se diante de vós a imagem de uma sociedade bem ordenada e conforme à natureza” .

A sociedade como um organismo vivo, ou como máquina sujeita ao Estado – Povo e massa
“O Estado não contém em si e não reúne mecanicamente num dado território uma aglomeração amorfa de
indivíduos. Ele é, e na realidade deve ser, a unidade orgânica e organizadora de um verdadeiro povo.
Povo e multidão amorfa, ou, como se costuma dizer “massa”, são dois conceitos diversos. O povo vive e se
move por vida própria; a massa é de si inerte, e não pode ser movida senão por fora. O povo vive da plenitude da vida
dos homens que o compõem, cada um dos quais – em seu próprio posto e a seu próprio modo – é uma pessoa consciente
das próprias responsabilidades e das próprias convicções. A massa, ao invés, espera o impulso de fora, fácil joguete nas
mãos de quem quer que desfrute seus instintos ou impressões, pronta a seguir, vez por vez, hoje esta, amanhã aquela
bandeira. Da exuberância de vida de um verdadeiro povo a vida se difunde, abundante, rica, no Estado e em todos os
seus órgãos, infundindo-lhes com vigor incessantemente renovado a consciência da própria responsabilidade, o
verdadeiro senso do bem comum. Da força elementar da massa, habilmente manejada e utilizada, o Estado pode
também servir-se: nas mãos ambiciosas de um só ou de vários que as tendências egoísticas tenham agrupado
artificialmente, o mesmo Estado pode, com o apoio da massa, reduzida a não mais que uma simples máquina, impor seu
arbítrio à parte melhor do verdadeiro povo: em conseqüência, o interesse comum fica gravemente e por largo tempo
atingido e a ferida é bem freqüentemente de cura difícil” 90.

O amor ao próximo, tema cristão que o socialismo sabe explorar


“O comunismo manifestou-se no começo tal qual era em toda a sua perversidade, mas logo percebeu que
assim afastava de si os povos; mudou então de tática, e procura ardilosamente atrair as multidões, ocultando os próprios
intuitos atrás de idéias em si boas e atraentes.
Destarte, vendo o desejo comum de paz, os chefes do comunismo fingem ser os mais zelosos fautores e
propagandistas do movi mento pela paz mundial; mas ao mesmo tempo excitam os homens para a luta de classes, que
faz correr rios de sangue, e, pressentindo falta de garantia interna de paz, recorrem a armamentos sem limites. Assim,
sob denominações várias, que nem sequer fazem alusão ao comunismo, fundam associações e periódicos que, na
verdade, servem só para fazer penetrar suas idéias em meios que de outra forma lhes seriam menos acessíveis; procuram
até infiltrar-se insidiosamente em associações católicas e religiosas. Assim, em alguns lugares, mantendo-se firmes
em seus perversos princípios, convidam os católicos a colaborar com eles no chamado campo humanitário e
caritativo, propondo por vezes coisas em tudo até conformes ao espírito cristão e à doutrina da Igreja. Em outras
partes, sua hipocrisia vai ao ponto de fazer acreditar que o comunismo, em países de maior fé ou de maior
cultura, tomará feição mais branda, não impedirá o culto religioso e respeitará a liberdade de consciência. Mais.
Alguns há que, referindo-se a certas mudanças introduzidas recentemente na legislação soviética, daí concluem
que o comunismo está prestes a abandonar o seu programa de luta contra Deus.
Velai, Veneráveis Irmãos, por que se não deixem iludir os fiéis. Intrinsecamente mau é o comunismo, e não
se pode admitir, em campo algum, a colaboração recíproca, por parte de quem quer que pretenda salvar a civilização
91
cristã” .
Estas palavras de Pio XI foram escritas a respeito do comunismo. A experiência mostra que o socialismo, a
seu modo embora, também procede assim.

O zelo do católico pelo preceito do amor ao próximo não o pode levar ao socialismo
“Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo
bom católico e verdadeiro socialista” 92.

88
Pio XII, Discurso de 4 de junho de 1953, a um grupo de fiéis da Paróquia da Marsciano, Perusa – “Discorsi
e Radiomessaggi”, vol. XV, pág. 195.
89
Leão XIII, Encíclica “Humanum Genus”, de 20 de abril de 1884 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
20.
90
Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1944 – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. VI, págs. 238-239.
91
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs.
29-30.
41
O católico deve reagir contra a socialização
“Se os sinais dos tempos não enganam, na segunda fase das controvérsias sociais, em que já entramos, têm
precedência (com relação à questão operária, que dominou a primeira fase) outras questões e problemas. Citemos aqui
dois deles:
A superação da luta de classes por uma recíproca e orgânica ordenação entre o empregador e o empregado.
Pois a luta de classes nunca poderá ser um objetivo da ética social católica. A Igreja sabe que é sempre responsável por
todas as classes e camadas do povo.
Ademais, a proteção do indivíduo e da família, frente à corrente que ameaça arrastar a uma socialização total,
em cujo fim se tornaria pavorosa realidade a imagem terrificante do “Leviatan”. A Igreja travará esta luta até o extremo,
93
pois aqui se trata de valores supremos: a dignidade do homem e a salvação da alma” .

Lamentável desvio de certos católicos


“Atribuindo a todo o povo a tarefa própria, se bem que parcial, de ordenar a economia futura, estamos muito
longe de admitir que esse encargo deva ser confiado ao Estado como tal. Entretanto, ao observar o andamento de certos
congressos, mesmo católicos, em matérias econômicas e sociais, pode-se notar uma tendência sempre crescente para
invocar a intervenção do Estado, de modo que se tem por vezes como que a impressão de que esse é o único expediente
imaginável. Ora, sem dúvida alguma, segundo a doutrina social da Igreja, o Estado tem seu papel próprio na ordenação
da vida social. Para desempenhar esse papel, deve mesmo ser forte e ter autoridade. Mas os que o invocam
continuamente e lançam sobre ele toda a responsabilidade o conduzem à ruína e fazem mesmo o jogo de certos
poderosos grupos interessados. A conclusão é que dessa forma toda responsabilidade pessoal nas coisas públicas vem a
cessar, e que se alguém fala dos deveres ou das negligências do Estado, refere-se aos deveres ou faltas de grupos
anônimos, entre os quais, naturalmente, não cogita de contar-se a si próprio”94.

Caráter laicista do socialismo


“... o socialismo, ignorando por completo ou desprezando este fim sublime dos indivíduos e da sociedade,
95
opina que o consórcio humano foi instituído só pela vantagem material que oferece” .

Sem Deus, o convívio humano decai e se degrada


“... porque muitos desprezam e repelem completamente a autoridade suprema e eterna de Deus – que ordena
ou que proíbe – a consciência do dever cristão tem, em conseqüência, enfraquecido, a fé definha nas almas ou
completamente se extingue; e daí resulta que as próprias bases do consórcio humano se deslocam e arruinam
miseravelmente” 96 .

Proposição 3

Impugnada Afirmada
Ademais, quem ama seriamente o Desde que um homem tenha o que é
próximo deve condoer-se com o sofrimento dele. necessário à subsistência e a prosperidade
Ora, a existência de desigualdades faz sua e de sua família, e receba a justa
sofrer legitimamente os que têm menos. remuneração de seu trabalho, não tem direito
Logo, os que têm mais devem dividir a deplorar que outras pessoas ou famílias
com eles o que possuem, até chegar a uma possuam mais.
igualdade que seja fonte de alegria e concórdia Se o deplorar, peca por orgulho e por
geral. inveja.
92
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda., Petrópolis, pág.
44.
93
Pio XII, Radiomensagem ao “Katholikentag” de Viena, de 14 de setembro de 1952 – “Discorsi e
Radiomessaggi”, vol. XIV, pág. 314.
94
Pio XII, Discurso de 7 de março de 1957 ao VII Congresso da União Cristã dos Chefes de Empresas e
Dirigentes da Itália – UCID – “Discorsi e Radiomessaggi”, n. XIX, pág. 30.
95
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
43.
96
Pio XI, Encíclica “Ingravescentibus Malis”, de 29 de setembro de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 4.
42
Por orgulho, não aceitando a vontade
de Deus, que criou homens de capacidade
física e intelectual desigual, dando assim
origem à desigualdade de bens.
Por inveja, ao sentir-se triste ou
revoltado ante o fato de alguém possuir
legitimamente maiores bens, de qualquer
natureza que estes sejam.
O amor ao próximo preceitua, a
quem tem menos, que se alegre porque outro
tem mais.
E que aceite suas próprias condições
alegremente, se são justas e condignas.

Comentário

Poder-se-ia fazer uma objeção ao princípio contido na proposição afirmada. Se todos


devessem contentar-se com o que têm, desde que lhes baste, ninguém teria direito a elevar-se no
corpo social. O Evangelho conduziria então a um odioso regime de castas? Ou a uma vergonhosa
estagnação dos homens de capacidade relevante, nascidos em condições humildes? Ficaria o País
privado de aproveitar esses valores? É fácil responder.
1 – Legítima ascensão individual

Tender a uma melhoria é inerente a tudo quanto tem vida. A primeira ascensão a que cada
um deve tender é a espiritual e intelectual. Assim, à medida que o homem vive, deve ir crescendo
em virtude e inteligência. Ao mesmo tempo, nasce nele um desejo reto de introduzir mais decoro e
bem-estar em sua existência. Pelo trabalho, consegue os meios econômicos para esse fim. E, com a
elevação de seu nível pessoal, e do ambiente em que vive, sua consideração social também cresce.
Vezes há em que o homem, à procura de meios de subsistência, encontra abertas as vias de
acesso à fortuna. É sua situação material que melhora. Mas ele deve sentir o desejo de se pôr à
altura da situação granjeada, elevando-se, e aos seus, em virtude e cultura, que lhes servirão de base
mais preciosa e respeitável que o simples fato material da posse do ouro.
Em agir assim, não vai inveja, pois não há pesar pelo que os outros têm. Nem vai orgulho,
porque o homem não quer mais do que lhe cabe. Ele vai merecendo mais, e nesta medida vai tendo
mais. Ou, se vai tendo mais, vai cuidando de se pôr à altura do que tem.
2 – Ascensão legítima de famílias e classes

Na história, tal movimento ascensional é lento, profundo, fecundo. Em geral, ele se


transmite de pai para filho, e assim vão subindo as famílias.
Esse movimento habitualmente não anima apenas esta ou aquela família, mas toda uma
classe social. Muito legitimamente, as classes – mesmo as mais humildes – podem, pois, tender a
subir.
Já que deve haver várias classes num corpo social normalmente constituído 97, esta
ascensão, dir-se-á, importaria na extinção das inferiores, que, à medida que subissem, se
confundiriam com as superiores. Tal conseqüência não é de se recear numa sadia ascensão das
camadas sociais. O nivelamento por cima é tão impossível quanto o nivelamento por baixo.
Esse movimento ascensional de classes inteiras consiste, via de regra, em que cada qual em
sua classe e cada classe no país progrida num movimento único que leve para a frente todas as
classes. Assim, o teor de valor moral, de cultura popular de boa lei, de gosto, de capacidade técnica

97
Cfr. Proposição 2.
43
deve crescer ao longo das gerações de pequenos proprietários, como tem crescido magnificamente,
por exemplo, nos camponeses europeus, das invasões bárbaras a nossos dias. Mas correspondentes
qualidades, no mesmo movimento ascensional, se deverão ir intensificando também nas demais
classes sociais. A sociedade, como um corpo vivo, progredirá assim proporcionadamente, ao
impulso de uma só força de crescimento.
3 – Ascensão individual e classes sociais

Não poderá então uma pessoa subir de classe social?


Certamente sim. Em todas as classes nascem por vezes indivíduos de um valor que – em
medida maior ou menor – supera o da média. Eles têm uma justa e sensata noção de sua capacidade,
noção esta muito diversa das ilusões que algum fátuo forme sobre si mesmo. Eles estão em seu
direito, desejando elevar-se. Não os move o orgulho, pois querem o que merecem – porque sentem
em si o latejar de sua própria capacidade – e não o que não merecem. Não os move a inveja, desde
que não querem lesar nem despojar ninguém. A virtude que leva o homem a aspirar às honras no
convívio social se chama, na saborosa expressão de São Tomás de Aquino, “magnanimidade”, isto
é, grandeza de alma 98. O desejo de ascensão social participa dessa virtude.
Essas ascensões sociais que elevarão alguns às camadas mais próximas, e outros às
culminâncias do corpo social, devem encontrar permeáveis as classes superiores, para as quais esses
elementos novos são outras tantas células vivas, a substituir as que se desgastam.
4 – Depuração das elites

Com efeito, se em cada camada social a estabilidade é um bem, deve haver nela, além da
porta por onde se entra, aquela por onde se sai.
Os indivíduos ou as famílias que degeneram merecem cair, e via de regra caem.
Como o corpo humano, que se conserva o mesmo ao longo da vida, mas adquire e perde
continuamente parcelas insignificantes de seus elementos, assim as várias camadas do corpo social
devem ser estáveis ao longo do tempo e das gerações, mas sempre assimilando e eliminando
paulatinamente alguns elementos.
5 – Estabilidade e mutabilidade das elites

Quando essa incorporação ou esse desgaste se tornam por demais freqüentes, ou por
demais raros, é sinal de que há algo de enfermiço no corpo social. Com efeito, normalmente os
homens de valor relevante existem e devem subir; e se não sobem, alguma coisa errada os impede
de fazê-lo. Mas, de outro lado, são exceções e, pois, não devem ser demais os que sobem. Se são
muitos, é sinal de que está havendo algo que permite a ascensão de elementos sem mérito.
Reciprocamente, o desgaste paulatino da elite é um fenômeno inevitável, e se ele deixa
completamente de se dar, há nisto uma anomalia. De fato, ficam mantidos em situação de imerecido
relevo elementos que já não se encontram à altura de sua missão. Se, pelo contrário, da elite se
desprendem em grande número pessoas ou famílias, é isto sinal certo de irregularidade, pois, ou
essa decadência é merecida, ou não. Se o é, a deterioração da elite assumiu proporção excessiva e
alarmante. Se não o é, muitos de seus elementos válidos estão sendo injustamente prejudicados e
toda a estrutura da classe é assim abalada.
Estes princípios se referem muito mais às épocas normais da história, que às épocas de
cataclismos e convulsões.
6 – Conclusões

Aplicando tais princípios ao regime agrário, pode-se afirmar que é muito desejável, e não
deve ser raro, o acesso do assalariado à condição de pequeno proprietário e, em alguma medida, o

98
São Tomás de Aquino, Suma Teológica, IIa., IIae.q. 129.
44
acesso do proprietário pequeno à condição de médio, e do médio à de grande proprietário. Quanto à
ascensão do grande proprietário, cumpre ponderar que o aumento da propriedade grande pode
prestar serviços consideráveis em certas ocasiões. Mas deve ser exceção. Como também deve ser
possível o acesso de assalariados de real valor à condição de grandes proprietários: hipótese que não
pertence ao domínio da quimera, pois mais de uma vez o “Rei do Café” no Brasil tem sido um
antigo assalariado e, em escala menor, muitos outros fatos congêneres ocorreram. Por exemplo, o de
um grande usineiro de Campos, que se comprazia em declarar que havia começado a sua existência
como vendedor de balas.
* * *
Em nosso País tem acontecido não raras vezes que proprietários médios e grandes,
acumulando proventos e economias, em lugar de adquirirem glebas vizinhas para aumentar suas
propriedades, preferem aplicar suas disponibilidades na aquisição de terras distantes, em zonas
incultas e quase inabitadas. Tornam-se, por este modo, donos de áreas grandes e, por vezes,
imensas. Desde que as somas assim aplicadas não resultem de uma retribuição insuficiente de seus
trabalhadores, ninguém pode ver nisto um fenômeno censurável. Muito pelo contrário, é índice de
legítima pujança e garantia de progresso, tanto mais quanto é óbvia a particular eficiência da grande
propriedade na faina do desbravamento do “hinterland”.

Textos Pontifícios

Leão XIII descreve o desejo intemperante de melhorar a própria condição


“... lamentamos que uma chaga verdadeiramente profunda tenha ferido o corpo social desde quando se
começou a descurar os deveres e as virtudes que formam o ornamento da vida simples e comum... Os operários se
afastam do seu próprio mister, fogem do labor e, descontentes com a sua sorte, levantam o olhar a metas demasiado
altas, e aspiram a uma inconsiderada repartição dos bens”99 .

O legítimo desejo de ascensão, e o apego aos bens da terra


“... os pobres, procurando por sua vez, de acordo com as leis da caridade e da justiça, o necessário, e até
melhores condições de vida, devem sempre permanecer também “pobres de espírito” (Mt. 5, 3), tendo os bens
espirituais em maior apreço que os bens e gozos terrenos. Tenham em mente que não se conseguirá jamais fazer
desaparecer do mundo as misérias, dores e atribulações, a que também estão sujeitos aqueles que na aparência se
mostram mais afortunados. É necessária, pois, para todos, a paciência, a paciência cristã que dirige o coração para as
100
promessas divinas de uma eterna felicidade” .

O desejo de melhores condições de vida, e a felicidade terrena


“... o homem, mesmo no estado de inocência, não era destinado a viver na ociosidade, mas, ao que a vontade
teria abraçado livremente como exercício agradável, a necessidade lhe acrescentou, depois do pecado, o sentimento da
dor e o impôs como uma expiação: “A terra será maldita por tua causa; é pelo trabalho que dela tirarás com que
alimentar-te todos os dias da vida” (Gn. 3, 17). O mesmo se dá com todas as outras calamidades que caíram sobre o
homem: neste mundo estas calamidades não terão fim nem tréguas, porque os funestos frutos do pecado são amargos,
acres, acerbos, e acompanham necessariamente o homem até ao derradeiro suspiro. Sim, a dor e o sofrimento são o
apanágio da humanidade, e os homens poderão ensaiar tudo, tudo tentar para os banir; mas não o conseguirão nunca,
por mais recursos que empreguem e por maiores forças que para isso desenvolvam. Se há quem, atribuindo-se o poder
de faze-lo, prometa ao pobre uma vida isenta de sofrimentos e de trabalhos, toda de repouso e de perpétuos gozos,
certamente engana o povo e lhe prepara laços, onde se ocultam, para o futuro, calamidades mais terríveis que as do
101
presente” .

O trabalhador manual não deve envergonhar-se de permanecer em sua condição

99
Leão XIII, Encíclica “Laetitiae Sanctae”, de 8 de setembro de 1893 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 5.
100
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
págs. 23-24.
101
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs.
13-14.
45
“O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objeto de
102
vergonha, faz honra ao homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida” .

Descrevendo a ascensão lenta dos povos sob o influxo da Igreja, São Pio X assim se exprime:
“A Igreja, com pregar a Cristo crucificado, escândalo e loucura aos olhos do mundo (1 Cor. 1, 23), tornou-se
a primeira instituidora e fautora da civilização, cujos bens se derramaram por onde quer que a pregação dos Apóstolos
se tenha feito ouvir, conservando e apurando os elementos bons das antigas civilizações pagãs, arrancando à barbárie e
adestrando à vida civil as novas gentes, que se rejuvenesciam amparadas ao seu seio maternal, imprimindo em toda a
sociedade, se bem que a passos lentos, mas com traços seguros e sempre progressivos, aquele caráter tão realçado, que
retém universalmente até o dia de hoje. A civilização do mundo é civilização cristã; tanto mais verdadeira, duradoura,
próvida em frutos preciosos, quanto mais lidimamente cristã for; tanto mais vai decaindo, com dano imenso do bem-
estar da sociedade, quanto mais se subtrair à idéia cristã. Tanto é assim, que a força intrínseca das coisas constitui, de
fato, a Igreja guardiã e paladina da civilização cristã; fato este reconhecido e aclamado por outros séculos da história,
que foi também o fundamento inquebrantável das legislações civis” 103.

Proposição 4

Impugnada Afirmada
O Evangelho recomenda o desapego O Evangelho recomenda o desapego
dos bens da terra 104. Assim, uma sociedade dos bens da terra. Esse desapego não significa
verdadeiramente cristã deve condenar o uso de que o homem deve evitar o uso deles, mas
tudo quanto seja supérfluo para a subsistência. apenas que o deve usar com superioridade e
Jóias, rendas, sedas e veludos caríssimos, força de alma, bem como com temperança
habitações desnecessariamente espaçosas e cristã, em lugar de se deixar escravizar por
cheias de adornos, comida rebuscada, vinhos eles.
preciosos, vida social cerimoniosa e complicada, Quando o homem não procede assim,
tudo isto é oposto à simplicidade evangélica. e faz mau uso desses bens, o mal não está nos
Jesus Cristo desejou para seus fiéis um teor de bens, mas nele. Assim, por exemplo, o mal do
existência simples e igualitário. ébrio está em si mesmo e não no vinho
A este ideal conduz o regime da precioso com que se embriaga. Tanto é, que
pequena propriedade. muitos são os que bebem vinhos da melhor
Pelo contrário, as propriedades média e qualidade e deles não abusam. O mesmo se
grande conduzem forçosamente aos excessos pode dizer dos outros bens. A música, por
acima apontados. exemplo, tem sofrido muitas deformações
abomináveis nas épocas de decadência. Não é
o caso, por isso, de renunciar a ela sob
pretexto de que corrompe. Cumpre fazer boa
música, e da melhor, e usá-la para o bem.
No universo, tudo foi admiravelmente
disposto por Deus, e nada há que não tenha
sua razão de ser. Seria inconcebível que o
ouro, as pedrarias, a matéria-prima dos
tecidos preciosos etc., abrissem exceção à
regra. Eles existem por desígnio da bondade
divina para um justo deleite dos sentidos,
tanto quanto um belo panorama, o ar puro, as
flores etc. E além disso são meios para
adornar e elevar a existência quotidiana dos
homens, aprimorá-los na cultura, e faze-los

102
Idem, pág. xxx.
103
São Pio X, Encíclica “Il Fermo Proposito”, de 11 de junho de 1905 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 6.
104
Cfr. Luc. 14, 33.
46
conhecer a grandeza, a sabedoria e o amor de
Deus.
Foi neste espírito que a Igreja sempre
utilizou todos estes bens para o que ela tem de
mais sagrado, que é o culto divino. O que não
teria feito, de modo algum, se se transgredisse
com isto a vontade de seu Fundador.
E em todos os tempos ela estimulou os
indivíduos, as famílias, as instituições e as
nações a que, com a mesma temperança, lhe
seguissem o exemplo, adornando e
dignificando assim, para a grandeza espiritual
e o bem material dos homens, os ambientes da
vida doméstica ou da vida pública.
É por isto que lhe tem sido muito
propriamente dado o título de benemérita da
cultura, da arte e da civilização.
Uma das vantagens de uma
harmoniosa desigualdade de bens está
precisamente em permitir nas classes mais
altas um florescimento particularmente
esplêndido das artes, da cultura, da cortesia
etc., que delas promana depois para todo o
corpo social.

Comentário

1 – “Complexo” de “simplismo”

Como se explica que a proposição impugnada encontre acolhida junto a tantas pessoas
respeitáveis por seu bom procedimento?
Sempre que, em determinada situação, se forma uma classe social rica e corrompida, ela se
serve da riqueza para satisfazer sua depravação. O homem depravado, com efeito, de tudo pode
fazer ocasião ou instrumento para o mal. O selvagem de certas tribos, por exemplo, mata ou rouba
porque é pobre. Entre os civilizados há quem roube porque a riqueza lhe dá impunidade.
Nasce, pois, das classes ricas e corruptas um luxo excessivo e até extravagante, em que os
produtos mais quintessenciados da natureza ou da indústria humana são reunidos sem o menor
apreço para com os verdadeiros bens da alma, e com o único intuito de saciar a sede inesgotável de
deleites dos potentados do momento, nobres, burgueses de boa estirpe ou “parvenus”, demagogos
plebeus que se alçaram ao cume da riqueza e do poder etc. Este abuso se torna tanto mais odioso
quanto coincide às vezes com a existência de uma classe reduzida a uma injusta indigência. Daí o
fato de, para muitos, a palavra “luxo” vir sempre conjugada com a idéia de depravação e excessiva
concentração de fortunas.
Por motivos bem compreensíveis, entre os quais uma justa indignação se alia não raro à
inveja e à revolta, tão fáceis de germinar em nosso ambiente igualitário, forma-se em sentido
contrário uma reação de “complexo” de “simplismo”.
2 – “Simplismo” e espírito protestante

É curioso notar que a tese impugnada é muito velha e tem ressaibos de protestantismo.
Reações assim já se deram em outras épocas. Seitas protestantes houve que, como réplica à
justa pompa das cerimônias litúrgicas da Igreja Católica, e à vida pessoal indebitamente regalada de
47
certos Prelados, instituíram um culto sem arte, sem esplendor, nem expressão de alma. Para dar
outro exemplo, as campanhas de total abstenção de álcool, de inspiração protestante, procedem da
idéia de que o mal está no álcool, e não na fraqueza do ébrio. Ora, Jesus Cristo instituiu o vinho
como matéria da Transubstanciação. A Escritura afirma que, tomado com moderação, ele “alegra o
coração do justo”105 . E há bebidas alcoólicas que foram inventadas ou são produzidas por Ordens
Religiosas. O mesmo pode dizer-se de outros bens.
3 – A Igreja, protetora da civilização contra o “simplismo”

Não haverá certo otimismo ingênuo na posição da Igreja?


Ela não ignora a fraqueza humana. Mas também não a exagera. E, sobretudo, confia na
graça para tornar o homem verdadeiramente temperante.
Segundo ela ensina, as magnificências da natureza e da arte, bem utilizadas pelo homem
temperante, constituem meios de elevá-lo a Deus. Sem dúvida foram utilizadas neste sentido pelas
muitas pessoas que viveram em meio a objetos do mais requintado luxo, e hoje estão na glória dos
altares: Papas, Reis, Cardeais, Príncipes, nobres e outros grandes da terra.
Se o homem devesse afastar-se de tudo quanto para uma alma equilibrada constitui ocasião
remota, e não próxima, de pecado – não só os bens aprazíveis da arte ou da indústria, mas até os
belos panoramas, que remotamente podem induzir à dissipação, e as regiões cuja fartura é capaz de
levar indiretamente à preguiça – seria a morte da cultura e da civilização.
4 – Santidade não é “simplismo”

Mas, dirá alguém, a Igreja não recomenda a penitência e o abandono dos bens da terra?
Não foram muitos os Santos que, para se santificarem, deixaram todas estas coisas?
Por certo, a Igreja tem recomendado aos homens a abstenção, a título de penitência, de
bens deste mundo. A necessidade de penitência não resulta de qualquer mal existente nesses bens,
porém do desregramento da natureza humana em conseqüência do pecado original e dos pecados
atuais. A abstenção de bens terrenos serve para dominar as paixões desordenadas, e manter o
homem nas vias da temperança. Além deste efeito medicinal, a penitência tem, outrossim, a
finalidade de expiar ante a justiça de Deus as faltas cometidas por quem a pratica, ou pelo próximo.
E, neste sentido, é ela também indispensável à vida cristã.
Muitos são os caminhos que levam ao Céu. Alguns são excepcionais e impressionam
muito: o do abandono de todas as riquezas, por exemplo. Outros são para a maioria, e impressionam
menos: o do bom uso das riquezas é um deles. Mas tanto uns quanto outros conduzem a Deus, e
foram trilhados por Santos.
Um exemplo tirado de outro campo esclarecerá o assunto. São Paulo afirma a
superioridade do celibato sobre o casamento106. A Igreja favorece e glorifica de todos os modos a
castidade perfeita. Para mantê-la, organiza Ordens e Congregações de ambos os sexos. Ela a exige
dos seus ministros. Em nossos dias, Pio XII escreveu uma Encíclica especial para declarar mais
uma fez que o celibato é superior ao estado matrimonial 107, e nela louvou os fiéis que, desejosos de
se consagrarem à Ação Católica, quisessem manter-se celibatários para melhor servir à Igreja108.
Deu exemplo disto, entre outros, Contardo Ferrini, professor universitário do século passado,
beatificado por Pio XI.
Entretanto, essa é uma via excepcional, para poucos. A imensa maioria fará a vontade de
Deus por meio do Sacramento do Matrimônio, assumindo os encargos santos e respeitáveis da vida
de família. E por esta forma muitos têm chegado aos altares.
É óbvio, porém, que entre celibato e casamento não há contradição.

105
Eccli. 31, 36.
106
I Cor. 7, 25-35.
107
Pio XII, Encíclica “Sacra Virginitas”.
108
Cfr. Textos Pontifícios desta Proposição.
48
Assim também entre o abandono completo das riquezas, na vida do claustro, e o uso
virtuoso delas no mundo, não há contradição. Como também não há contradição entre a penitência
que todo católico deve praticar, e o progresso da civilização, que traz consigo o uso de bens
espirituais e materiais sempre mais excelentes e abundantes.
5 – Luxo proporcionado em todas as classes

Uma última observação: é sobre a palavra “luxo”. Tem ela dois matizes em nosso idioma,
um dos quais pejorativo, afim com o conceito de luxuria. Mas a palavra comporta também um
sentido honesto, que aqui salientamos.
O luxo reto consiste na abundância e no primor, subordinados às leis da moral e da
estética, dos bens convenientes à existência. O luxo é, portanto, mais do que a posse estrita do
suficiente. Um quadro de mestre, por exemplo, não é necessário, mas convém a uma existência
aprazível.
Em que medida pode o homem ter, além do necessário, o conveniente? Na medida em que
sua situação patrimonial o permita, e desde que o acúmulo, em suas mãos, de bens simplesmente
convenientes não coexista com a miséria dos outros. Pois neste caso, observando as exigências do
decoro, da justiça e da caridade, deve dar largamente do que é seu.
Mas se alguém luxa na medida do que pode, e sem faltar a seus deveres em relação ao
próximo, seu luxo não pode ser considerado como contrário aos direitos da sociedade nem de
terceiros.
Os bens que tornam a vida particularmente aprazível e decorosa, e que são considerados de
luxo, não devem ser privilégio de uma classe social. Neste sentido da palavra, deve o luxo existir
também entre os proprietários médios e pequenos, e entre os assalariados. Um luxo proporcionado e
autêntico, bem se entende. Não o das quinquilharias efêmeras e custosas com que uma pessoa se
permite passar durante uns dias por pertencente a uma classe superior à sua. Mas o luxo pelo qual
um homem põe em realce a sua própria dignidade e a de sua classe, e mostra quanto se ufana de
pertencer a esta, por modesta que seja. É este um dos mais belos aspectos do ideal de soerguimento
da classe dos trabalhadores rurais. Exemplo das possibilidades desse soerguimento é o luxo popular
dos camponeses de certas regiões da Europa, dotados de mobílias de carvalho lavrado, de tecidos de
veludo, de jóias de ouro, tudo em autêntico e saboroso gosto camponês.
Como alcançar este ideal, nas atuais condições econômicas, marcadas pela produção em
série de artigos efêmeros? É este um problema que cabe aos especialistas resolver. O princípio de
que deve haver um luxo popular autêntico corresponde a uma necessidade da natureza humana, que
importa lembrar aqui, e que de um modo ou de outro precisa ser tomada em consideração.
6. – Luxo famíliar

O luxo reto deve ser uma situação própria a toda a família, e não só ao indivíduo. Ele
comporta, pois, algo de continuidade familiar através das gerações, e resulta em parte da
transmissão de pai a filho – quanto possível em todas as classes sociais – de objetos duráveis e
decorosos. É este um dos mais eficientes elementos para a formação de uma tradição familiar, e
cumpre não privar a civilização das preciosas vantagens daí decorrentes.

7 – Conclusão

A desigualdade das propriedades rurais proporciona um meio para que os grandes e médios
proprietários disponham da largueza necessária a fim de organizar, para o incremento da civilização
cristã, dentro pois das vias da virtude, um teor de vida particularmente decoroso e dignificante.

49
8 – Críticas inevitáveis à doutrina da Igreja

A posição equilibrada da doutrina católica, igualmente distante de um “simplismo” de


sabor protestante, oposto à civilização, e de um amoralismo sensual no uso dos bens terrenos, tem
suscitado em todos os tempos a risota sarcástica e incompreensiva do anticlericalismo.
Os “simplistas” a acusam de pactuar com a sensualidade do mundo, aprovando o luxo, o
uso das iguarias e dos vinhos.
Os mundanos a acusam de não tolerar as fraquezas dos homens, e tornar assim a vida
impossível.
Não há meio de evitar essa dupla censura da impiedade. Disse a esse respeito Nosso
Senhor que veio João Batista no jejum e na penitência, e disseram: “ele tem demônio”. O Filho do
Homem, porque come e bebe, é chamado glutão 109.
* * *
Mas, dirá alguém, a parábola de Lázaro e do mau rico110 não prova precisamente que a
opulência leva à perdição?
Esse texto evangélico é frisante para mostrar como absolutamente não é todo homem
opulento que se condena, mas apenas o que é mau. A parábola nos mostra o rico mau no inferno.
Lázaro, o pobre bom, vai para o seio de Abrãao. Ora, quem era Abraão? Segundo diz a Escritura,
era um homem que viveu na opulência 111. O bom pobre repousando junto ao bom rico: eis a
imagem tocante da paz social.

Textos Pontifícios

O bom e o mau uso dos objetos preciosos segundo a doutrina católica


“Não seria pois justo julgá-la (a saber: a profissão de ourives) em si mesma inútil, ou mesmo nociva, e ver
nela uma injúria à pobreza, quase um desafio lançado aos que não podem ter parte nisso. Sem dúvida, neste campo mais
que em outros, é fácil o abuso. Muito freqüentemente, não obstante os limites que a reta consciência fixa para o uso das
riquezas, vêem-se alguns a fazerem alarde de um luxo provocante, carecedor de qualquer significado razoável e
destinado somente à satisfação de uma vaidade que ignora e, por isto mesmo, insulta os sofrimentos e as necessidades
dos pobres. Mas seria de outra parte injusto condenar a produção e o uso de objetos preciosos, sempre que eles
correspondam a um fim honesto e conforme aos preceitos da lei moral. Tudo quanto contribui para o esplendor da
vida social, tudo quanto lhe ressalta os aspectos jubilosos ou solenes, tudo quanto faz resplandecer nas coisas
materiais a perenidade e a nobreza do espírito, merece ser respeitado e apreciado”112.

Trajes ostentatórios: um mal. O brilho dos trajes: um bem


“Se de um lado cumpre condenar a ostentação vã, de outro é inteiramente normal que o homem se preocupe
em realçar, pelo brilho exterior dos trajes, as circunstâncias extraordinárias da vida e em testemunhar por esse meio seus
sentimentos de alegria, de altivez e mesmo de tristeza” 113.

Também a existência tipicamente popular deve ter vida e esplendor


“É precisamente aqui que o folclore adquire o seu verdadeiro significado. Numa sociedade que ignora as
tradições mais sadias e fecundas, ele se esforça por conservar uma continuidade viva, não imposta de fora, mas nascida
na alma profunda das gerações, que reconhecem nessas tradições a expressão das próprias aspirações, crenças, desejos e
lamentações, as recordações gloriosas do passado e as esperanças do porvir. Os recursos íntimos de um povo se
traduzem com completa naturalidade no conjunto de seus costumes, narrações, lendas, jogos e desfiles, onde se

109
Mat. 11, 18-19.
110
Luc. 16, 19-33.
111
Gen. 13,2.
112
Pio XII, Discurso de 9 de novembro de 1953, ao IV Congresso Nacional da Confederação Italiana de
Ourives, Joalheiros e Afins – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XV, pág. 462.
113
Pio XII, Discurso de 10 de setembro de 1954, ao VI Congresso Internacional dos Mestres Alfaiates –
“Discorsi e Radiomessaggi”, vol XVI, pág. 131.
50
desenvolvem o esplendor dos trajes e a originalidade dos grupos e figuras. As almas que ficaram em contato
permanente com as duras exigências da vida possuem amiúde um senso artístico instintivo que de uma matéria simples
chega a obter magníficos resultados. Nestas festas populares, onde o folclore de boa lei tem o lugar que lhe é devido,
114
cada um goza do patrimônio comum, e aí se enriquece mais ainda se consente em dar sua contribuição” .

O luxo exagerado e corrupto, causa de lutas sociais


“... o que Nós vemos em geral é, que, enquanto por um lado não se tem nenhum comedimento em acumular
riquezas, por outro lado falta aquela resignação de outrora em suportar o incômodo de que a pobreza e a miséria
costumam fazer-se acompanhar; e, enquanto entre os proletários e os ricos já existe aquela luta encarniçada que
dissemos, para ainda mais aguçar a aversão dos indigentes junta-se esse luxo imoderado de muitos, unido a uma
115
impudente dissolução” .

A Igreja louva a castidade perfeita até para os leigos


“A castidade perfeita é a matéria de um dos três votos constitutivos do estado religioso (cfr. CIC, can. 487) e
é exigida para os clérigos da Igreja latina admitidos às Ordens Maiores (cfr. CIC, can. 132 § 1) e também para os
membros dos Institutos Seculares (cfr. Const. Apost. “Provida Mater”, art. III, § 2; AAS XXXIX, 1947, pág. 121). Mas
é igualmente praticada por grande número de simples leigos: homens e mulheres há que, sem viverem em estado
público de perfeição, fizeram entretanto o propósito ou mesmo o voto privado de se absterem completamente do
matrimônio e dos prazeres da carne, para mais livremente servirem ao próximo, e mais fácil e intimamente se unirem a
Deus.
Dirigimo-Nos com o coração paterno a todos e a cada um destes diletíssimos filhos e filhas que de algum
modo consagraram a Deus corpo e alma, e os exortamos vivamente a confirmarem sua santa resolução e a pô-la em
prática com diligência” 116.

Proposição 5

Impugnada Afirmada
A “Reforma Agrária” privará por certo A justiça não consiste só em que todos
muitas pessoas da vida regalada que desfrutam. tenham condições de vida condignas, mas
Mas, sujeitando-as a condições de existência também em que, asseguradas estas condições
suportáveis para todos, nenhum prejuízo real para todos, tenham mais os que por seu
trará para elas, e, portanto, não será injusta. trabalho ou por outra via legítima, como a
herança, adquirirem mais.

Comentário

Não se pode permitir, em termos de doutrina católica, que a desigualdade entre os homens
chegue a ponto de estarem uns em imerecida pobreza porque outros, movidos pela ganância e sede
de luxo, lhes negam o necessário para se manterem – bem como a suas famílias – com seu salário,
em nível suficiente e digno. Esta injustiça leva a uma desigualdade desproporcionada, e constitui
um dos quatro pecados que bradam ao Céu e clamam a Deus por vingança.
Este princípio é fácil de admitir.
Quando uma situação de imerecida pobreza ocorre, qual o dever dos que têm mais do que
o necessário? Di-lo Leão XIII:
“Ninguém certamente é obrigado a aliviar o próximo privando-se do seu necessário ou do de sua família;
nem mesmo a nada suprimir do que as conveniências ou a decência impõem à sua pessoa: “Ninguém, com efeito, deve
viver de um modo que não convenha ao seu estado” (São Tomás, Suma Teológica, IIa. II ae., q.32, a. 6, c.). mas, desde
que haja suficientemente satisfeito à necessidade e ao decoro, é um dever lançar o supérfluo no seio dos pobres: “Do
supérfluo dai esmolas” (Luc. 11, 41). É um dever, não de estrita justiça, exceto nos casos de extrema necessidade, mas

114
Pio XII, Discurso à Reunião dos “Estados Gerais do Folclore”, de 19 de julho de 1953 – “Discorsi e
Radiomessaggi”, vol. XV, pág. 220.
115
Bento XV, Carta Apostólica “Sacra Propediem”, de 6 de janeiro de 1921 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 19.
116
Pio XII, Encíclica “Sacra Virginitas”, de 25 de março de 1954 – AAS, vol XLVI, n. 5, pág. 163.
51
de caridade cristã; um dever, por conseqüência, cujo cumprimento não se pode conseguir pelas vias da justiça humana.
117
Mas, acima dos juízos do homem e das leis, há a lei e o juízo de Jesus Cristo, nosso Deus” .
É claro que, nos casos em que se trate de um dever de justiça, à lei toca – observada a
prudência que lhe deve ser sempre inerente – obrigar ao cumprimento desse dever.
Mas daí a achar que, sempre que uma pessoa tem vida farta, nenhum mal há em que a lei
lhe tire algo em favor dos que têm menos – e isto sem sequer distinguir se os que têm menos
também têm, ou não, o bastante – é realmente negar pela raiz o direito de propriedade, em
holocausto ao mais radical igualitarismo.
Isto posto, privar um homem ou uma família do que legitimamente lhe pertence, da
situação patrimonial correspondente a seu nível de educação, e aos hábitos que em conseqüência
adquiriu, é gravíssima injustiça. E isso ainda que a pessoa assim espoliada não venha a morrer de
fome em sua nova posição.
* * *
Aliás, nesta como em quase todas as proposições impugnadas seguintes, se nota, explícito
ou implícito, o princípio totalitário, comum aos nazistas, socialistas e comunistas, de que o Estado
pode tudo e, portanto, está ao seu alcance abolir ou modificar a seu talante o direito de propriedade.
Esta posição é condenada pela Igreja, que considera certos direitos – a propriedade, a
família etc. – como anteriores e superiores ao Estado.

Textos Pontifícios

Ultra-ricos e multidão de pobres


Referindo-se, não à agricultura em particular, mas à economia contemporânea em geral, Pio XI disse: “Hoje,
porém à vista do clamoroso contraste entre o pequeno número dos ultra-ricos e a multidão inumerável dos pobres, não
há homem prudente que não reconheça os gravíssimos inconvenientes da atual repartição da riqueza” 118.
Aprovar que haja classes desiguais, grandes e pequenos, patrões e empregados, fortunas grandes médias e
pequenas, e enfim pessoas ou famílias que vivam digna e suficientemente de salário, não é aprovar a coexistência de
“ultra-ricos” e indigentes.

Já diminuíram em alguns lugares as exageradas diferenças de classe


“Deve-se reconhecer como sinal auspicioso a diminuição verificada, desde há algum tempo e em certos
lugares, na tensão entre as classes sociais. Já o afirmava Nosso Predecessor imediato em discurso aos católicos alemães:
“A terrível catástrofe que se abateu sobre vós com a última guerra terá comportado ao menos uma vantagem: ela
permitiu que muitos ambientes se libertassem dos preconceitos e da preocupação excessiva com as vantagens pessoais,
e que assim diminuísse a aspereza da luta de classes e os homens se aproximassem uns dos outros. A desgraça comum
º
é mestra dura, mas benfazeja” (Radio-Mensagem ao 73 Congresso dos Católicos Alemães, 1949).
Com efeito, o afastamento entre as classes sociais é menor, pois estas não se limitam mais aos dois blocos em
que se opunham capital e trabalho. Agora já são mais variadas e abertas a todos. O trabalho e o talento permitem subir
os degraus da escala social.
No que concerne mais diretamente ao mundo do trabalho, é consolador constatar as melhorias recentes
introduzidas nas próprias condições do trabalho e o fato de que não se pensa mais somente nas vantagens econômicas
119
dos operários, mas também em lhes proporcionar um gênero de vida mais elevado e mais digno” .

As desigualdades sociais devem ser harmônicas


Leão XIII refere-se aos “...direitos e deveres, pelo jogo harmonioso dos quais as duas classes de cidadãos, a
120
que dispõe do capital e a que dispõe do trabalho, devem manter o acordo entre si” .

117
Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 18.
118
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
25.
119
João XXIII, Encíclica “Ad Petri Cathedram”, de 29 de junho de 1959 – AAS, vol. LI, n. 10, págs. 506-
507.
120
Leão XIII, Encíclica “Graves de Communi”, de 18 de janeiro de 1901 – Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 4.
52
Os pobres, vítimas principais da demagogia
“...os pobres são as maiores vítimas dos embusteiros, que exploram sua miserável condição, para lhes
despertar inveja contra os ricos e excitá-los a tomar para si, pela força, aquilo que lhes parece injustamente recusado
pela fortuna” 121.

Defender os pobres, sem açular o ódio às classes superiores


A proposição impugnada ressuma inveja contra as classes superiores, e a este título é particularmente
censurável:
“...os escritores católicos, ao defender a causa dos proletários e dos pobres, devem abster-se de palavras e
frases que poderiam inspirar ao povo a aversão pelas classes superiores da sociedade. Não se fale, pois, de reivindicação
e de justiça, quando se trate de simples caridade, ... Recordem que Jesus Cristo quis reunir todos os homens pelos laços
122
do amor mútuo, que é a perfeição da justiça e inclui a obrigação de trabalhar para o bem recíproco” .

Proposição 6

Impugnada Afirmada
O regime do salariado é em si mesmo O regime do salariado respeita os
injusto e contrário à dignidade humana. O direitos do legítimo proprietário e do
normal é que o homem, por natureza livre e igual trabalhador. É, pois, justo em si. Ele se
a todos os outros homens, não tenha patrões e se aperfeiçoa muitas vezes com o regime da
beneficie de todo o fruto de seu labor. Viver de parceria agrícola.
salário, na dependência de outrem, é aviltante. Não é aviltante ter patrão. O homem
Ceder uma parte do produto de seu trabalho ao humilde aceita, de bom grado até, a
dono de uma terra que Deus fez para todos é autoridade de seus superiores. Tal é a vontade
odioso. de Deus, e São Paulo mandou que se lhes
Cada qual deve ser proprietário da gleba prestasse obediência123.
que cultiva. Se não se dividirem logo as terras, Quanto à participação nos lucros, na
aplique-se pelo menos ao campo o princípio da gestão e na propriedade, é muito desejável nos
participação dos trabalhadores nos lucros, na casos, mais ou menos freqüentes ou raros,
gestão e na propriedade da empresa. conforme os tempos e os lugares, em que for
viável. Por isto a lei a pode favorecer, nunca
porém impor.

Comentário

1 – Direito do homem ao fruto de seu trabalho

Vimos a legitimidade do direito de propriedade, segundo a doutrina da Igreja124. O homem


tem direito absoluto sobre o que resulta de sua atividade, e, pois, sobre o que ganhar, economizar e
acumular. Neste sentido, disse-o de modo muito expressivo Leão XIII, o capital não é “senão o
salário transformado”125. O trabalho, no entanto, não é a única fonte da propriedade. O homem tem
igualmente o direito de se apropriar dos bens móveis ou imóveis que não têm dono.

121
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
págs. 31-32.
122
São Pio X, Motu Próprio sobre a Ação Popular Católica, de 18 de dezembro de 1903 – “Editora Vozes
Ltda.”, Petrópolis, item XIX.
123
Tit. 2, 9.
124
Secção I, Título II, Capítulo II.
125
Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 6.
53
2 – Dar trabalho é fazer um benefício

Admitida, assim, a legitimidade do instituto da propriedade privada, que decorre da


natureza, e portanto de Deus, Autor do universo, é fácil ver que o proprietário, quando aceita
outrem para trabalhar em sua terra, lhe presta um benefício. E se paga o trabalho justa e
condignamente, procede de modo reto.
Os comunistas e socialistas consideram injusto que o empregado não fique com todo o
fruto de seu trabalho, isto é, com toda a colheita. Na lógica de seu sistema, que nega a propriedade,
têm razão. Mas como a propriedade é legítima, cai por terra tudo quanto se conclui com base na
injustiça desta.
3 – Legitimidade do regime do salariado

O regime do salariado é, pois, justo em si.


O fato de ser esse regime justo em tese não significa que não possa haver injustiças
concretas em sua aplicação. Por isto que todo homem tem o direito de constituir família e de mantê-
la com seu trabalho, o salário, além de ser proporcional a este, deve ser suficiente para tanto. É o
salário familiar e mínimo definido por Pio XI 126.
4 – A lei não pode impor o regime de participação

Quanto à participação dos trabalhadores rurais nos lucros, na gestão e na propriedade da


empresa, oferecerá vantagens em alguns casos, e também inconvenientes reais em outros. A lei não
pode, pois, impor esta forma. Aliás, como poderia o Estado, sem indenização, ou mesmo com ela,
decretar a participação de terceiros em bens que não lhe pertencem? E como poderia impor ao
proprietário uma sociedade em que o operário participa dos lucros da empresa, mas ao mesmo
tempo não se deve nem se pode querer que este – cuja situação econômica habitualmente não
comporta – participe dos riscos e prejuízos?127

Textos Pontifícios

A propriedade privada é essencial ao bem comum


“... a própria natureza exige a repartição dos bens em domínios particulares, precisamente a fim de poderem
128
as coisas criadas servir ao bem comum de modo ordenado e constante .

A propriedade privada resulta da mesma natureza


“A propriedade particular, já Nós o dissemos mais acima, é de direito natural para o homem: o exercício
deste direito é coisa não só permitida, sobretudo a quem vive em sociedade, mas ainda absolutamente necessária” 129.

O direito do trabalhador ao salário dá origem à propriedade privada


“... como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte
lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que lhe pertencerá como coisa própria. Porque,
se ele põe à disposição de outrem suas forças e sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para
conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida; e espera do seu trabalho, não só o direito
ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso a usar deste como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas,

126
Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs. 28 e
seguintes.
127
Sobre a participação dos empregados nos lucros, na gestão e na propriedade da empresa, o ponto de vista
católico foi explanado em excelentes artigos do Prof. José de Azeredo Santos, no mensário de cultura “Catolicismo”)
(no. 17, de maio de 1952; no. 46, de outubro de 1954; e no. 47, de novembro de 1954).
128
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
24.
129
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
17.
54
chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo,
torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será
propriedade do artífice com o mesmo título que a remuneração de seu trabalho. Mas, quem não vê que é precisamente
130
nisso que consiste o direito de propriedade mobiliária e imobiliária?” .

O homem pode tornar-se legitimamente proprietário das coisas sem dono


“Títulos de aquisição do domínio são a ocupação de coisas sem dono...
De fato, não faz injustiça a ninguém, por mais que alguns digam o contrário, quem se apodera de uma coisa
131
abandonada ou sem dono” .

O homem pode legitimamente tornar-se proprietário da terra


“O homem abrange pela sua inteligência uma infinidade de objetos, e às coisas presentes acrescenta e prende
as coisas futuras; além disso, é senhor das suas ações; também, sob a direção da lei eterna e sob o governo universal da
Providência Divina, ele é, de algum modo, para si a sua lei e sua providência. É por isso que tem o direito de escolher as
coisas que julgar mais aptas, não só para prover ao presente, mas ainda ao futuro. De onde se segue que deve ter sob o
seu domínio não só os produtos da terra, mas ainda a própria terra, que, pela sua fecundidade, ele vê estar destinada a
ser a sua fornecedora no futuro. As necessidades do homem repetem-se perpetuamente: satisfeitas hoje, renascem
amanhã com novas exigências. Foi preciso, portanto, para que ele pudesse realizar o seu direito em todo o tempo, que a
natureza pusesse à sua disposição um elemento estável e permanente, capaz de lhe fornecer, perpetuamente os meios.
132
Ora, esse elemento só podia ser a terra, com os seus recursos sempre fecundos” .

Um erro: afirmar que todo o fruto do trabalho pertence ao trabalhador


“Erram certamente os que não receiam enunciar este princípio, que tanto vale o trabalho e tanto deve ser a
paga, quanto é o valor do que se produz; e que por isso na locação do próprio trabalho tem o operário direito de exigir
133
para ele tudo o que produzir” .

É justo que o proprietário ganhe mais – e que os operários possam economizar


“O proprietário dos meios de produção, seja ele qual for – proprietário particular, associação de operários ou
fundação – deve, sempre dentro dos limites do direito público da economia, ficar senhor de suas decisões econômicas. É
evidente que seu rendimento é mais elevado que o de seus colaboradores. Mas resulta que a prosperidade material de
todos os membros do povo, que é o fim da economia social, lhe impõe, a ele mais que aos outros, a obrigação de
contribuir pela poupança para o aumento do capital nacional. Como é necessário, de outra parte, não perder de vista que
é vantajoso ao mais alto ponto para uma sã economia social que este aumento do capital provenha de fontes tão
numerosas quanto possível, por conseqüência é muito desejável que os operários possam, também eles, com o fruto de
sua poupança, participar na constituição do capital nacional” 134.

O regime do salariado é conforme à justiça


“... os que dizem ser de sua natureza injusto o contrato de trabalho, e pretendem substituí-lo por um contrato
de sociedade, dizem um absurdo e caluniam malignamente o Nosso Predecessor que, na Encíclica “Rerum Novarum”,
não só admite a legitimidade do salário, mas procura regulá-lo segundo as leis da justiça”135.

O salário deve bastar para manter o operário


“Façam... o patrão e o operário todas as convenções que lhes aprouver, cheguem inclusive a acordar na cifra
do salário: acima da sua livre vontade está uma lei de justiça natural, mais elevada e mais antiga, a saber, que o salário
não deve ser insuficiente para assegurar a subsistência do operário sóbrio e honrado”136

130
Idem, págs. 5-6.
131
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
págs. 21-22.
132
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
7.
133
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
27.
134
Pio XII, Discurso de 7 de maio de 1949, à IX Conferência da União Internacional das Associações
Patronais Católicas – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XI, págs. 63-64.
135
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
27.
136
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
32.
55
O salário do pai de família deve bastar para a manutenção da esposa e filhos
“... na sociedade civil as condições econômicas e sociais estejam ordenadas por tal forma, que todo pai de
família possa merecer e ganhar o necessário ao sustento próprio, da mulher e dos filhos, e conforme as diversas
137
condições sociais e locais” .

A justiça não exige a participação dos operários nos lucros e na propriedade da empresa
“Não se estaria tampouco na verdade querendo afirmar que toda empresa particular é por natureza uma
sociedade, na qual as relações entre os participantes sejam determinadas pelas regras da justiça distributiva, de sorte que
todos indistintamente – proprietários ou não dos meios de produção – teriam direito à sua parte na propriedade ou pelo
menos nos lucros da empresa. Tal concepção parte da hipótese de que toda empresa entra por natureza na esfera do
direito público. Hipótese inexata: quer seja a empresa constituída sob forma de fundação ou de associação de todos os
operários como co-proprietários, quer seja propriedade privada de um indivíduo que firma com todos os seus operários
138
um contrato de trabalho, num caso como no outro, ela depende da ordem jurídica privada da vida econômica” .

A justiça não exige a participação do operário na propriedade e na gestão da empresa


“Por isso a doutrina social católica se pronuncia, entre outras questões, tão conscientemente pelo direito de
propriedade individual. Aqui estão também os motivos profundos por que os Papas das Encíclicas sociais, e Nós
mesmo, Nos recusamos a deduzir, quer direta, quer indiretamente, da natureza do contrato de trabalho o direito de co-
propriedade do operário no capital da empresa e, consequentemente, seu direito de co-direção. Importava negar tal
direito, pois por trás dele se enuncia um problema maior. O direito do indivíduo e da família à propriedade é uma
conseqüência imediata da essência da pessoa, um direito da dignidade pessoal, um direito onerado, é verdade, por
139
deveres sociais; não é porém exclusivamente uma função social” .
“Igual perigo se apresenta também quando se exige que os assalariados de uma empresa tenham direito de
co-gerência econômica, nomeadamente quando o exercício deste direito depende, de fato, direta ou indiretamente, de
organizações dirigidas por entidades alheias à empresa. Ora, nem a natureza do contrato de trabalho, nem a natureza da
140
empresa, comportam necessariamente, por si mesmas, direito semelhante” .

O socialismo quer tirar aos proprietários a responsabilidade pela empresa


“Há já dezenas de anos que na maior parte desses países (os velhos países de indústria), e muitas vezes sob a
influência decisiva do movimento social católico, se formou uma política social caracterizada pela evolução progressiva
do direito do trabalho e, correlativamente, pela sujeição do proprietário privado, possuidor de meios de produção, a
obrigações jurídicas em favor do operário.
Quem quiser levar mais avante a política social nesta mesma direção tropeça num limite, isto é, depara-se
com o perigo de que a classe operária caia por sua vez nos erros do capital, os quais consistiam em subtrair,
principalmente nas grandes empresas, a disposição dos meios de produção à responsabilidade pessoal do proprietário
privado (indivíduo ou sociedade) para a colocar sob a responsabilidade de formas anônimas coletivas.
Uma mentalidade socialista acomodar-se-ia muito bem a semelhante situação. Mas esta não deixa de causar
real inquietação a quem sabe da importância fundamental do direito de propriedade privada para favorecer iniciativas e
141
fixar responsabilidades em matéria econômica” .

Cuidado com os erros relativos à reforma de estrutura das empresas


A participação dos trabalhadores nos lucros, na propriedade e na gestão da empresa conduz normalmente a
uma reforma na estrutura desta. Pio XII acautela os fiéis contra as tendências erradas, freqüentes nesta matéria: “Fala-se
hoje muito de uma reforma na estrutura da empresa, e aqueles que a promovem pensam em primeiro lugar em
modificações jurídicas entre quantos dela são membros, sejam eles empreendedores, ou dependentes incorporados na
empresa em virtude do contrato de trabalho.
À Nossa consideração não podiam, entretanto, escapar as tendências que em tais movimentos se infiltram, as
quais não aplicam – como se apregoa – as incontestáveis normas do direito natural às mudadas condições do tempo,
mas simplesmente as excluem. Por esta razão nas Nossas alocuções de 7 de maio de 1949 à União Internacional das

137
Pio XI, Encíclica “Casti Connubii”, de 31 de dezembro de 1930 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
53.
138
Pio XII, Discurso de 7 de maio de 1949 à IX Conferência da União Internacional das Associações
Patronais Católicas – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XI, pág. 63.
139
Pio XII, Radiomensagem ao “Katholikentag” de Viena, de 14 de setembro de 1952 – “Discorsi e
Radiomessaggi”, vol. XIV, pág. 314.
140
Pio XII, Discurso de 3 de junho de 1950 aos membros do Congresso Internacional de Estudos Sociais e da
Associação Internacional Social Cristã – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XII, pág. 101.
141
Pio XII, Discurso de 3 de junho de 1950, aos membros do Congresso Internacional de Estudos Sociais e
da Associação Internacional Social Cristã – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XII, págs. 100-101.
56
Associações Patronais Católicas e de 3 de junho de 1950 ao Congresso Internacional de Estudos Sociais Nos mostramos
opostos àquelas tendências, não, verdadeiramente, para favorecer os interesses materiais de um grupo de preferência a
outro, mas para assegurar a sinceridade e a tranqüilidade de consciência a todos aqueles a quem estes problemas se
142
referem” .

Cumpre manter a responsabilidade privada, na empresa


As reformas na estrutura da empresa podem conduzir à abolição da responsabilidade privada: erro grave
contra o qual Pio XII premune os fiéis: “Nem poderíamos ignorar as alterações com que se desfiguravam as palavras de
alta sabedoria de Nosso Glorioso Predecessor Pio XI, atribuindo o peso e a importância do programa social da Igreja,
em nosso tempo, a uma observação de todo acessória acerca das eventuais modificações jurídicas nas relações entre os
trabalhadores, sujeitos do contrato de trabalho, e a outra parte contratante; e, pelo contrário, passando mais ou menos
em silêncio a parte principal da Encíclica “Quadragesimo Anno”, que contém na realidade aquele programa, isto é, a
idéia da ordem corporativa profissional de toda a economia. Quem se dispõe a tratar de problemas relativos à reforma
da estrutura da empresa sem levar em conta que toda empresa particular está, por sua finalidade, estreitamente ligada ao
conjunto da economia nacional, corre o risco de lançar premissas errôneas e falsas, com prejuízo para a inteira ordem
econômica e social. Eis porque no próprio discurso de 3 de junho de 1950 esforçamo-Nos por colocar em sua justa luz o
pensamento e a doutrina de Nosso Predecessor, a quem nada era mais alheio do que qualquer incentivo para prosseguir
no caminho que conduz às formas de uma responsabilidade anônima coletiva” 143.

Proposição 7

Impugnada Afirmada
A alguns parece que a supressão de As desigualdades de que resulta que a
todas as desigualdades seria justa, mas é utópica. alguns faltem as condições normais de
A estes a coerência pediria que reconhecessem existência em vantagem de outros a que
que a lei deve tender para esse objetivo, da sobrem os bens, jamais serão inteiramente
mesma maneira como a Medicina tende a abolir abolidas. Mas a lei deve visar a aboli-las,
todas as doenças embora seja certo que nunca o como a Medicina em relação às doenças.
conseguirá. Pois das desigualdades se deve dizer Quanto às desigualdades que existem
o mesmo que das doenças: quanto menos, sem prejuízo do direito de todos a normais
melhor. condições de vida, devem ser reconhecidas
A “Reforma Agrária”, se não alcançar por legítimas, e até protegidas por lei.
igualdade completa, deve pelo menos abolir em Estes princípios se aplicam
todo o Brasil as grandes propriedades e as exatamente, não só à propriedade media, mas
médias, admitindo apenas as pequenas. também à grande propriedade, que em si
Particularmente a grande propriedade mesma, dentro dos princípios aqui expostos,
insulta o senso da igualdade natural dos homens nada tem de injusto.
e, pois, constitui um odioso privilégio. Por isto
deve ela ser drástica e imediatamente abolida.

Comentário

1 – O Estado, mantenedor do equilíbrio social

Pode parecer espantoso afirmar-se que a hierarquia social, mantida nos devidos limites,
deve ser protegida pela lei. Os fortes, embora sejam habitualmente minoria, não se defendem bem
por si mesmos contra os fracos?

142
Pio XII, Discurso de 31 de janeiro de 1952, ao Conselho Nacional da União Cristã dos Chefes de Empresa
e Dirigentes, da Itália – UCID – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XIII, pág. 463.
143
Pio XII, discurso de 31 de janeiro de 1952, ao Conselho Nacional da União Cristã dos Chefes de Empresa
e Dirigentes, da Itália – UCID – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XIII, pág. 466.

57
Sim. Mas nem sempre os mais educados, mais nobres ou mais ricos são os mais fortes.
Situações há em que a multidão infrene ou super-organizada oprime as classes dirigentes. O
sindicalismo norte-americano inspira a vários políticos dos Estados Unidos receios neste sentido.
Em casos tais, cumpre ao Estado intervir no interesse da justiça e do equilíbrio orgânico da
sociedade.
Em outras situações, os mais fracos são a maioria. Então deverá a lei assumir a defesa dos
direitos destes. Aliás, o fomento da participação nos lucros144 e do acesso do trabalhador à condição
de proprietário145 está nesta linha.
Em suma, a ação do Estado deve ser orientada, como dissemos, para a manutenção do
equilíbrio e da concórdia entre as classes, e não para a participação em uma luta de extermínio de
uma contra outra.
2 – Equilíbrio orgânico

Mas, dirá alguém, parece até risível falar-se em equilíbrio numa sociedade em que há
desigualdades. O equilíbrio dos pratos de uma balança não se dá somente quando ambos estão em
nível igual?
A resposta é simples. O mal do socialismo está em grande parte em ser materialista, e em
considerar os assuntos atinentes à sociedade humana com os critérios que servem para as coisas
materiais. O equilíbrio entre as classes sociais não é o que pode reinar, por exemplo, entre duas
pedras de igual peso, mas o que deve existir entre os membros de um organismo vivo. O modelo
para a sociedade humana não é a balança, mas o organismo, constituído de membros diferentes em
forma, função e importância, mas harmônicos entre si. Ou melhor ainda, o equilíbrio entre as três
potências da alma, inteligência, vontade e sensibilidade. E este não é de nenhum modo um
equilíbrio de igualdade, mas sim de proporcionalidade.
3 – Fomento da grande propriedade

Quanto à grande propriedade, pode em determinadas circunstâncias prestar ao País – e já


os tem prestado – serviços que estão fora do alcance da média e da pequena. É isto tão notório, que
dispensa uma demonstração, a qual não caberia, aliás, nos quadros estritos deste trabalho. Assim,
além de justa em si, a grande propriedade também pode ser útil ao interesse nacional.
Em tese, podem-se conceber, pois, situações em que ela deva ser, não só apoiada, mas até
fomentada.
4 – Ação subsidiária do Estado

Já que se falou em intervenção do Estado, cumpre formular aqui um princípio sem o qual
não pode ser compreendida a sua posição segundo a doutrina católica. É o princípio da
subsidiariedade, ou da função supletiva: a família só faz pelo indivíduo o que este não pode fazer
por si só; o Município, por sua vez, só faz pela família o que esta não pode fazer por si mesma. E
assim o Estado em relação ao Município. É uma escala em que cada grau é subsidiário de outro. Em
lugar de fazer tudo por seus próprios meios, o Estado deve respeitar cuidadosamente a esfera de
ação da família, das associações profissionais e da Igreja.

Textos Pontifícios

Normalmente, deve o Estado proteger de modo especial os pobres

144
Cfr. Proposição 6.
145
Cfr. Proposição 3.
58
“A classe rica faz das suas riquezas uma espécie de baluarte e tem menos necessidade da tutela pública. A
classe indigente, ao contrário, sem riquezas que a ponham a coberto das injustiças, conta principalmente com a proteção
do Estado. Que o Estado se faça, pois, sob um particularíssimo título, a providência dos trabalhadores, que em geral
146
pertencem à classe pobre” .

Compete ao Estado preservar ricos e pobres das lutas sociais


“Intervenha... a autoridade do Estado e, reprimindo os agitadores, preserve os bons operários do perigo da
sedução e os legítimos patrões de serem despojados do que é seu” 147.

O igualitarismo sopra a revolta da multidão contra os que têm posses


“Desfeito... ou afrouxado aquele duplo vínculo de coesão de todo o corpo social, a saber, a união dos
membros entre si pela caridade mútua, e dos membros com a cabeça pelo acatamento à autoridade, quem se admirará
com razão, Veneráveis Irmãos, de que atualmente a sociedade humana se apresente como que dividida em duas grandes
facções que lutam entre si impiedosamente e sem tréguas?
Defrontando-se com os que a sorte ou a atividade própria dotaram de bens de fortuna, estão os proletários e
operários, abrasados pelo ódio porque, participando da mesma natureza, não gozam entretanto da mesma condição.
Naturalmente, enfatuados como estão pelos embustes dos agitadores, a cujo influxo costumam submeter-se
inteiramente, quem será capaz de persuadi-los de que, nem por serem iguais em natureza, devem os homens ocupar o
mesmo posto na vida social; mas que, salvo circunstâncias adversas, cada um terá o lugar que conseguiu por sua
conduta? Assim, pois, os pobres que lutam contra os ricos como se estes houvessem usurpado bens alheios, agem não
somente contra a justiça e a caridade, mas também contra a razão; principalmente tendo em vista que podem, se
quiserem, com honrada perseverança no trabalho, melhorar a própria fortuna. É desnecessário declarar quais e quantos
prejuízos acarreta esta rivalidade de classes, tanto aos indivíduos em particular, como à sociedade em geral. Todos
estamos vendo e deplorando as freqüentes greves, em que costuma ficar repentinamente paralisado o curso da vida
pública e social, até nas funções de mais imprescindível necessidade; e, igualmente, essas ameaçadoras revoltas e
148
tumultos em que, com freqüência, se chega ao emprego das armas e ao derramamento de sangue” .

Interesse dos empregados: usar de justiça e caridade para com os empregadores


“Lembrem-se também os empregados das obrigações de caridade e de justiça para com os empregadores, e
fiquem certos de que dessa maneira melhor ainda defenderão os próprios interesses” 149.

Ricos e pobres são filhos de Deus


“... é necessário afastar da democracia cristã outra acusação: a de que ela consagra os seus cuidados de tal
modo aos interesses das classes inferiores, que parece pôr de lado as classes superiores, que não são menos úteis para a
conservação e melhoramento da sociedade. Este perigo está prevenido na lei cristã da caridade, de que falamos acima.
Esta abre os seus braços para acolher todos os homens, qualquer que seja a sua condição, como filhos de uma só e
mesma família, criados pelo mesmo Pai benigníssimo, resgatados pelo mesmo Salvador e chamados à mesma herança
150
eterna” .

Principalíssimo dever do Estado: defender a propriedade contra o igualitarismo


“É dever principalíssimo dos governos assegurar a propriedade particular por meio de leis sábias. Hoje
especialmente, no meio de tamanho ardor de cobiças desenfreadas, é preciso que o povo se conserve no seu dever;
porque, se a justiça lhe concede o direito de empregar os meios de melhorar a sua sorte, nem a justiça nem o bem
público consentem que se danifique alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob pretexto de não
151
se sabe que igualdade” .

Elogio do princípio da função supletiva

146
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
27.
147
Idem, pág. 28.
148 º
Bento XV, Encíclica “Ad Beatissimi”, de 1 de novembro de 1914 – “Les Enseignements Pontificaux – La
Paix Intérieure des Nations – par les moines de Solesmes”- Desclée & Cie., págs. 286-287.
149
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
28.
150
Leão XIII, Encíclica “Graves de Communi”, de 18 de janeiro de 1901 - “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 8.
151
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs.
27-28.
59
“... assim como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles podem efetuar com a própria iniciativa e indústria,
para o confiar à coletividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades
menores e inferiores podiam conseguir, é uma injustiça, um grave dano e perturbação da boa ordem social. O fim
natural da sociedade e da sua ação é coadjuvar os seus membros, e não destruí-los nem absorvê-los.
Deixe, pois, a autoridade pública ao cuidado de associações inferiores aqueles negócios de menor
importância, que a absorveriam demasiado; poderá então desempenhar mais livre, enérgica e eficazmente o que só a ela
compete, porque só ela o pode fazer: dirigir, vigiar, urgir e reprimir, conforme os casos e a necessidade requeiram.
Persuadam-se todos os que governam de que quanto mais perfeita ordem hierárquica reinar entre as várias agremiações,
segundo este princípio da função “supletiva” dos poderes públicos, tanto maior influência e autoridade terão estes, tanto
152
mais feliz e lisonjeiro o estado da nação” .

Família, dignidade humana e função supletiva


“Paz social – Esta encontra uma base firme no respeito mútuo e recíproco da dignidade pessoal do homem. O
Filho de Deus Se fez homem e sua Redenção não diz respeito somente à coletividade, mas também ao homem
individual: “ele amou-me, e entregou-Se a Si mesmo por mim”, como diz São Paulo aos gálatas (Gal. 2,20). E se Deus
amou a tal ponto o homem, isto significa que este Lhe pertence e que a pessoa humana deve absolutamente ser
respeitada. Tal o ensinamento da Igreja, que, para a solução das questões sociais, fixou sempre o olhar sobre a pessoa
humana e ensinou que as instituições e as coisas – os bens, a economia, o Estado – existem principalmente para o
homem, e não o homem para elas. As perturbações que abalam a paz interior das nações têm sua origem precipuamente
no fato de que o homem tem sido tratado, de modo quase exclusivo, como um instrumento, uma mercadoria, uma
desprezível peça de uma grande máquina, uma simples unidade de produção. Somente quando se tomar como base de
apreciação do homem e de sua atividade a sua dignidade de pessoa é que se poderão apaziguar os conflitos sociais e as
divergências, muitas vezes profundas, que reinam, por exemplo, entre os empregadores e os operários. Poder-se-á
sobretudo garantir à instituição familiar as condições de vida, de trabalho e assistência adequadas a permitir-lhe
desincumbir-se melhor de sua função de célula da sociedade e de primeira comunidade instituída pelo próprio Deus
para o desenvolvimento da pessoa humana” 153.

Função do Estado: absorver, não; proteger, sim


“Qual é... a verdadeira noção de Estado, senão a de um organismo moral fundado sobre a ordem moral do
mundo? Ele não é uma onipotência opressiva de toda autonomia legítima. Sua função, sua magnífica função é, pelo
contrário, favorecer, auxiliar, promover a íntima coalizão, a cooperação ativa no sentido de uma unidade mais elevada
de membros que, ao mesmo tempo que respeitam sua subordinação ao fim do Estado, provêm do melhor modo ao bem
de toda a comunidade, precisamente na medida em que conservam e desenvolvem seu caráter particular e natural. Nem
o indivíduo, nem a família devem ser absorvidos pelo Estado. Cada um conserva e deve conservar a própria liberdade
de movimentos, desde que ela não crie o risco de causar prejuízo ao bem comum. Ademais, há certos direitos e
liberdades dos indivíduos – de cada indivíduo – ou da família, que o Estado deve proteger sempre e não pode violar
nem sacrificar a um pretenso bem comum. Referimo-nos, para não citar mais que alguns exemplos, ao direito à honra e
à boa reputação, ao direito e à liberdade de venerar o verdadeiro Deus, ao direito originário dos pais sobre os filhos e
sobre sua educação” 154.

O Estado não deve atentar contra a propriedade privada


“Os socialistas, para curar este mal (a opressão dos proletários por um pequeno número de ricos), instigam
nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser
suprimida, que os bens de um indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para
os Municípios ou para o Estado. Mediante esta trasladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das
comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes.
Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em
prática. Outrossim, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e
155
tender para a subversão completa do edifício social” .

152
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,págs.
31-32.
153
João XXIII, Radiomensagem de Natal de 1959 – AAS, vol. LII, n. 1, págs. 28-29.
154
Pio XII, Discurso ao Congresso Internacional das Ciências Administrativas, de 5 de agosto de 1950 –
“Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XII, pág. 160.
155
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
5.
60
Proposição 8
Impugnada Afirmada
À vista do exposto na proposição Nas condições concretas do Brasil,
anterior, deveria a lei fixar um limite de área, nada há que justifique essa limitação de áreas.
que nenhuma propriedade rural poderia exceder. Nas zonas em que a grande e a média
Esse limite legal seria diverso para cada propriedade são desaconselháveis, vão elas
zona, cada gênero de cultura etc. desaparecendo organicamente, e não seria,
Talvez se pudesse conferir aos pois, cabível nem prudente uma intervenção
Municípios o direito de proceder à fixação das do legislador.
áreas máximas das propriedades rurais nos Ademais, sendo a Nação o maior dos
respectivos territórios. latifundiários, seria justo – e aliás muito
Ou então esse máximo poderia ser conforme ao interesse público – que ela só
fixado pelos diversos Estados da Federação, que, impusesse a partilha de glebas de particulares
por meio de tributos sobre a terra, muito pesados, nas hipóteses em que a distribuição de suas
e proporcionais à extensão da mesma, próprias terras não resolvesse o problema.
possivelmente conjugados com um forte imposto A fixação de uma área máxima para
de renda, obrigariam à fragmentação das cada zona e cada gênero de cultura é tarefa
propriedades até o limite de área desejado. impraticável em nosso imenso território, e
supõe, ademais, um estudo longo e sereno,
inexeqüível na atmosfera demagógica em que
a “Reforma Agrária” vem sendo pleiteada.
Do ponto de vista econômico, uma
propriedade rural se reputa demasiadamente
grande, não simplesmente quando é muito
extensa, mas quando sua extensão prejudica o
conjunto da produção agrícola de uma região
ou de um país. Assim, a propriedade imensa
de uma zona subpovoada pode não ser
excessivamente grande. Pelo contrário, uma
propriedade muito menor próxima à cidade
pode ser grande demais.
Confiar esta fixação de áreas
máximas aos poderes municipais seria, em
muitos casos, permitir que a politicagem local,
sob pretexto de “Reforma Agrária”, se
entregasse aos piores abusos.
Conferir aos diversos Estados a
possibilidade de impor o fraccionamento das
terras pela pressão de tributos incidentes
sobre elas, agravados pelo imposto da renda, é
dar-lhes meios para, com aparências de
legalidade, golpear a fundo o Direito natural,
base da propriedade, como de toda a ordem
jurídica.

Comentário

1 – Direitos adquiridos

Todo país civilizado repousa sobre uma ordem jurídica. E toda ordem jurídica repousa por
sua vez sobre certos princípios básicos. Um destes é o da intangibilidade dos direitos adquiridos.
61
Se os proprietários têm direitos adquiridos, a lei não os pode suprimir sumariamente. Aliás,
é o que dispõe a Constituição Federal156 .
A fixação de um limite máximo de área para as propriedades rurais, além do qual se tira ao
dono o que é seu, não pode ser meio normal de resolver os problemas em um país civilizado.
2 – Onipotência do Estado

Como vimos157 , a propriedade privada resulta da ordem natural das coisas. Em


conseqüência, o Estado não a pode abolir. Afirmar o contrário é adotar o totalitarismo, tão do gosto
de socialistas, comunistas e nazistas.
3 – O Estado, árbitro da vida econômica e social

Atribuir ao poder público o direito de alterar a seu talante – em função de um princípio de


igualdade abstrato e falso – as áreas das propriedades rurais é sujeitar toda a economia ao Estado.
4 – O direito de lançar impostos

Evidentemente, o Estado tem o direito de lançar impostos para atender ao exercício de suas
funções. Mas esse direito não pode transformar-se em meio para tirar de uns e dar a outros, com
fundamento no princípio de que todas as desigualdades são injustas.
5 – O meio não importa

Se o Estado cogitasse de fazer um confisco puro e simples, a iliceidade do fato seria


patente. Mas, feito este confisco sob a forma de impostos, parece a muitos que tal iliceidade é
menor, ou até que não existe. Alguns espíritos têm encarado dessa forma, por exemplo, o recente
projeto de revisão agrária do governo paulista.158 .
6 – Remediar, melhor do que destruir

Como demonstramos na Parte II159, o bem comum, na atual situação do País,


absolutamente não exige a abolição da grande ou da média propriedade. Se estas não estivessem
cumprindo seu dever, a função do Estado não consistiria, aliás, em aboli-las desde logo, mas em
tentar primeiramente socorrer o agricultor para que este lhes levantasse o nível de produtividade. E,
se fosse em certos casos necessário o loteamento, deveria o Estado favorecer os proprietários que
espontaneamente o fizessem, em lugar de o impor a todos. Seria, numa e noutra hipótese, o
exercício da função subsidiária do Estado160. Pelo contrário, há manifesto abuso deste em atacar
desde logo o direito de propriedade sem esgotar todos os meios para chegar a uma solução menos
violenta.
7 – Ressalva

Não somos contrários a que os mais ricos paguem impostos proporcionalmente maiores.
Não concordamos, apenas, com a idéia de transformar o imposto em meio de espoliação.
8 – Prejuízos injustos

Se a tributação deve dentro de alguns anos forçar a fragmentação das propriedades


grandes, e quiçá das médias, e os lotes daí resultantes forem vendidos a particulares, a simples

156 º
Art. 141, § 3 .
157
Secção I, Título II, Capítulo II.
158
Cfr. Parte II, Capítulo II.
159
Capítulo III.
160
Cfr. Comentário à Proposição 7.
62
perspectiva da afluência de grande quantidade de terras ao mercado de imóveis já será de molde a
determinar uma terrível baixa de preços com o que se acarretarão aos agricultores danos graves e
injustos.
Se estas terras deverem ser vendidas, não a particulares, mas ao Estado, para que este as
doe ou revenda a largo prazo, como pagará ele os gastos imensos daí decorrentes? É bem de ver que
será forçado a impor preços injustamente baixos aos atuais proprietários, ou pagar com títulos
necessariamente desvalorizados.
9 – “Latifúndio” – “feudalismo”

Por fim, um comentário de outra ordem. A campanha em favor da divisão compulsória das
propriedades rurais explora num sentido demagógico duas palavras a que se soube comunicar certo
“magnetismo” propagandístico: “latifúndio” e “feudal”. O grande proprietário seria um ogre pelo
simples fato de ser “latifundiário”, senhor “feudal”.
O emprego pejorativo destes termos é velho recurso da propaganda comunista. Ele reflete,
no que diz respeito a “feudal”, o estado de espírito muito freqüente em certos ambientes, no século
passado, segundo o qual tudo quanto era medieval deveria, ipso facto, ser tido por bárbaro, cruel,
desumano. A cultura histórica mais recente destroçou este preconceito.
Quanto a “latifúndio”, só a mentalidade igualitária poderia ligar a esse vocábulo um
sentido intrinsecamente mau: se a única forma de justiça está na igualdade econômica, quanto maior
o latifúndio, tanto maior a injustiça.
Mas um espírito de formação cristã evidentemente não pode ver as coisas assim161 .
10 – O Estado, latifundiário máximo

Os que declamam contra o caráter “latifundiário” e “feudal” de certas grandes propriedades


rurais se esquecem de dizer, em geral, que o Estado é, mais do que ninguém, um grande, um
grandíssimo latifundiário162 .
A estrada Belém-Brasília abre possibilidades imensas para a utilização de boa parte da área
desocupada do território nacional. Convém lembrá-lo para pôr em relevo a atual aproveitabilidade
dos latifúndios estatais.

Textos Pontifícios

Não se pode abolir a propriedade particular com impostos excessivos


“... a propriedade particular não seja esgotada por um excesso de encargos e de impostos. Não é das leis
humanas, mas da natureza, que emana o direito da propriedade individual; a autoridade pública não o pode pois abolir;
o que ela pode é regular-lhe o uso e conciliá-lo com o bem comum. É por isso que ela obra contra justiça e contra a
163
humanidade quando, sob o nome de impostos, sobrecarrega desmedidamente os bens dos particulares” .

O imposto não pode servir de instrumento para o intervencionismo


“Não resta dúvida acerca do dever de cada cidadão de suportar uma parte das despesas públicas. Mas o
Estado, de seu lado, enquanto encarregado de proteger e promover o bem comum dos cidadãos, tem a obrigação de
repartir entre estes unicamente os gastos necessários, e proporcionais aos seus recursos. Portanto, o imposto não pode,
jamais, tornar-se para os poderes públicos um meio cômodo de saldar o déficit provocado por uma administração
164
imprevidente, ou de favorecer uma indústria ou um ramo de comércio à custa de outros igualmente úteis” .

O totalitarismo invasor, uma tentação para o Estado; a obediência ao princípio supletivo, um dever

161
Cfr. Proposição 1.
162
Sobre este assunto, ver na Parte II, Capítulo IV, dados do Censo Agrícola de 1950.
163
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs.
33-34.
164
Pio XII, Discurso de 2 de outubro de 1956, aos membros do X Congresso da Associação Fiscal
Internacional –“Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XVIII, págs. 508-509.
63
“A fidelidade dos governantes a este ideal de proteger a liberdade do cidadão e servir ao bem comum será,
além do mais, sua melhor salvaguarda contra a dupla tentação que os espreita ante a amplidão crescente de sua tarefa:
tentação de fraqueza, que os faria abdicar sob a pressão conjugada dos homens e dos acontecimentos; tentação inversa
de estatismo, pela qual os poderes públicos se substituiriam indevidamente às livres iniciativas privadas para reger de
maneira imediata a economia social e outros ramos da atividade humana. Ora, se não se pode hoje negar ao Estado um
direito que lhe recusava o liberalismo, não é menos verdade que sua tarefa não é, em princípio, assumir diretamente as
funções econômicas, culturais e sociais que dependem de outras competências; ela consiste antes em assegurar a real
independência de sua autoridade de maneira a poder conceder a tudo o que representa um poder efetivo e valioso no
país uma parte justa de responsabilidade sem perigo para a sua própria missão de coordenar e de orientar todos os
165
esforços para um fim comum superior” .

Economia normalmente sujeita ao Estado: inversão da ordem das coisas


“Não há dúvida que a Igreja também – dentro de certos limites justos – admite a estatização e julga “que se
pode legitimamente reservar aos poderes públicos certas categorias de bens, os que apresentam um tal poderio que
não seria possível, sem pôr em perigo o bem comum, abandoná-los às mãos dos particulares” (Encíclica
“Quadragesimo Anno” – A.A.S., v. XXIII, 1931, pág. 214). Mas fazer desta estatização como que a regra normal da
organização pública da economia seria subverter a ordem das coisas. A missão do direito público é com efeito servir o
direito privado, e não absorve-lo. A economia – aliás, como qualquer outro ramo da atividade humana – não é por
natureza uma instituição de Estado; ela é, ao invés, o produto vivo da livre iniciativa dos indivíduos e de seus grupos
livremente constituídos”166.

A desigualdade das propriedades é útil e até necessária


Elogiando a classe dos pequenos proprietários na Itália, Pio XII advertiu que “isto não resulta em negar a
167
utilidade e freqüentemente a necessidade de propriedades agrícolas mais vastas” .

165
Pio XII, Carta de 14 de julho de 1954, à 41ª Semana Social da França – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol.
XVI, págs. 465-466.
166
Pio XII, Discruso de 7 de maio de 1949, à IX Conferência da União Internacional das Associações
Patronais Católicas – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XI, pág. 63.
167
Pio XII, Discurso de 2 de julho de 1951, ao Congresso Internacional sobre os Problemas da Vida Rural –
“Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XIII, págs. 199-200.
64
Proposição 9
Impugnada Afirmada
Sendo um direito o acesso do É justo que, num regime social
trabalhador à propriedade rural, a divisão equilibrado, possam os trabalhadores rurais,
compulsória das terras deve ser aplaudida. em larga medida, tornar-se proprietários de
Essa divisão trará como conseqüência a terras.
supressão do regime do salariado. Pois todos os Sendo indispensáveis a um regime
trabalhadores serão proprietários, e naturalmente justo e equilibrado, em países como o Brasil,
preferirão lavrar suas próprias terras, em vez de também a grande e a média propriedade, é
lavrar terra alheia. necessário que o acesso do trabalhador à
condição de proprietário não se opere em
escala tal, que as propriedades desse tipo – e
especialmente as médias – sejam raras, ou de
todo inexistentes.
Além disto, é utópico pensar que o
acesso do homem do campo à situação de
proprietário se de geralmente em proporções
tais, que sua terra possa absorver toda a
capacidade de trabalho dele, e dar-lhe, bem
como aos seus, todo o sustento. Muitos
pequenos proprietários precisarão ser ao
mesmo tempo assalariados, para
aproveitarem suas horas disponíveis e
obterem o necessário para sua condigna
subsistência.
Por fim, cumpre lembrar que, nas
condições concretas da vida terrena, não só
haverá sempre pessoas que, sem terem
qualquer propriedade, precisarão viver
exclusivamente de seu trabalho, como outras
que necessitarão da caridade para subsistir.
É uma glória da civilização cristã
tornar tais situações tão pouco freqüentes
quanto possível. E é uma glória da Igreja o
afirmar em sua doutrina a sublime dignidade
da condição de pobre, resignar o pobre à sua
situação, e atrair em favor dos indigentes os
tesouros da caridade cristã.

Comentário

1 – “Em países como o Brasil”

Estas palavras, na proposição afirmada, traduzem uma ressalva. Pode haver países onde
situações de desequilíbrio entre a população e o território, a indústria e agricultura etc., exijam uma
formulação mais matizada destes princípios. No presente trabalho, todo feito com vistas à realidade
brasileira, não é o caso de entrar na análise desses matizes. Basta afirmar o princípio, que, nesta
formulação simples, é válido para as situações normais, ou mesmo de algum ponto de vista
supranormais, como as do Brasil, com a superabundância de terras.

65
2 – “Summum jus, summa injuria”

O homem tende, num impulso natural justo e legítimo, à estabilidade e à abastança. E


como a condição de proprietário é aquela que lhe assegura melhor uma e outra coisa, é razoável que
o trabalhador tenda legitimamente a se tornar proprietário.
Uma organização social ou econômica que impedisse a realização desse desejo seria
injusta.
Daí entretanto não se deduzem as conseqüências extremas da proposição errada. A
proposição certa estabelece os “conformes” desse princípio, que não pode ser alegado contra o bem
comum nem contra outros direitos também legítimos: contra, por exemplo, o dos proprietários
grandes ou médios que a justo título possuem suas terras, e que não podem ser delas espoliados sem
mais nem menos. “Summum jus, summa injuria”, diz o sábio brocardo jurídico: convém lembrá-lo
em relação a quaisquer direitos, inclusive o dos trabalhadores.
3 – Pressuposto errado

Ademais, a proposição impugnada supõe que, para operar o acesso do trabalhador à


propriedade da terra, é necessário tomá-la a outros. Dada a imensa extensão de terras devolutas de
que o País dispõe, este pressuposto é flagrantemente falso.
4 – Propriedade cumulativa

Não é exato que o acesso do empregado rural à condição de proprietário importe, em


princípio e necessariamente, em uma partilha de terras particulares, ainda que se faça abstração da
existência das devolutas.
Tempo houve em que vigorou no Ocidente cristão uma forma de propriedade cumulativa,
de que a enfiteuse é um resquício. Comportava ela a existência conjunta da grande e da média ou
pequena propriedade sobre um mesmo imóvel. Excede os limites deste trabalho analisar se tal
sistema pode ser revivido nas condições morais, sociais, econômicas e políticas de nossos dias.
Entretanto, lembrando essa forma, cuja liceidade moral é incontestável, provamos que o acesso à
propriedade rural não se faz necessariamente dividindo as terras.
5 – Outras formas de acesso à condição de proprietário

Se bem que a tendência mais natural do trabalhador agrícola consista em ter acesso à
propriedade da terra, pode ele tornar-se proprietário de outros bens, satisfazendo assim seu legítimo
anseio de estabilidade e largueza. Por exemplo, pode acumular economias, comprar imóveis
urbanos maiores ou menores, ações, títulos etc. Para que tal se dê, será da maior conveniência que a
sociedade e o Estado facilitem aplicação segura e rendosa dessas economias.
Não é, pois, só dividindo terras que o trabalhador rural pode tornar-se proprietário.
6 – Não-proprietários e indigentes

Quanto à parte final da proposição certa, cumpre acentuar a diferença entre o assalariado e
o indigente.
O primeiro deve encontrar em seu trabalho os meios para uma subsistência suficiente e
decorosa, sua e dos seus, e para amealhar economias. Desde que o seu salário seja justo e baste a
este objetivo, não é injusta a situação do assalariado, ainda que não chegue a ser proprietário de
nenhum imóvel. Ademais, não precisa ele da caridade. O que se lhe deve por seu trabalho lhe basta.
O indigente é o que não tem trabalho ou não tira deste o suficiente para viver, o que tanto
se pode dar por culpa própria (ócio, vícios, despesas exageradas etc.), quanto sem ela (desemprego,
doenças, crises etc.). Precisa da caridade.

66
Textos Pontifícios

É desejável o acesso do trabalhador ativo à condição de proprietário


“... estimule-se a industriosa atividade do povo com a perspectiva da sua participação na propriedade do
168
solo” .

É justo que o operário forme seu pecúlio


169
“... que os proletários, trabalhando e vivendo com parcimônia, adquiram o seu modesto pecúlio” .

É deplorável que a esperança do acesso à terra seja negada a muitíssimos operários


Pio XI lamenta a existência de um “ingente exército dos jornaleiros relegado à ínfima condição e sem a
mínima esperança de se verem jamais senhores de um pedaço de terra” 170.

A largueza do salário deve favorecer a formação do patrimônio do operário


“É... necessário empregar energicamente todos os esforços, para que, ao menos de futuro, as riquezas
granjeadas se acumulem em justa proporção nas mãos dos ricos, e, com suficiente largueza, se distribuam pelos
operários; não para que estes se dêem ao ócio, - já que o homem nasceu para trabalhar como a ave para voar, - mas para
que, vivendo com parcimônia, aumentem, com a economia, os seus haveres, e, administrando com prudência o
patrimônio aumentado, possam mais fácil e seguramente prover aos encargos de sua família; e, livres assim de uma
condição precária e incerta qual é a dos proletários, não só possam fazer frente a todas as eventualidades durante a vida,
171
mas deixem ainda por morte alguma coisa aos que lhes sobrevivem” .
“O operário que receber um salário suficiente para ocorrer com desafogo às suas necessidades e às da sua
família, e for avisado, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser parcimonioso e obrará
de forma que, com prudentes economias, vá juntando um pequeno pecúlio, que lhe permita chegar um dia a adquirir um
modesto patrimônio. Já vimos que a presente questão não podia receber solução verdadeiramente eficaz, se se não
começasse por estabelecer como princípio fundamental a inviolabilidade da propriedade particular. Importa, pois, que
as leis favoreçam o espírito de propriedade, o reanimem e desenvolvam, tanto quanto possível, entre as massas
172
populares” .

168
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
33.
169
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 - “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
26.
170
Idem, pág. 25.
171
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – Coleccion Completa de Encíclicas
Pontifícias, “Editorial Poblet”, de Buenos Aires, pág. 1285.
172
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs.
32-33.
67
Proposição 10
Impugnada Afirmada
A divisão compulsória das terras, para A divisão compulsória das terras, sem
só deixar subsistir pequenas propriedades, em justa causa nem justa indenização, constitui a
que cada trabalhador viva da respectiva gleba, e afirmação de que a propriedade privada está
não haja mais patrões nem assalariados, não inteiramente à mercê da lei. Se o Estado pode
importa na abolição da propriedade privada. Pelo abolir hoje a propriedade grande ou média,
contrário, multiplica indefinidamente o número poderá também abolir amanhã a propriedade
de proprietários. pequena.
É, pois, o mesmo princípio da
propriedade privada que fica exposto à mais
completa destruição diante de qualquer onda
de demagogia.
Segundo a doutrina católica, o regime
da propriedade privada não pode ser extinto
pelo Estado. O socialismo e o comunismo, em
que se inspira visivelmente a proposição
impugnada, afirmam o contrário.
Aliás, o regime agrário que
comportasse apenas pequenas propriedades, e
abolição do salariado, redundaria
praticamente em autêntico socialismo.

Comentário

1 – Defensoras naturais da pequena propriedade

Segundo o sistema socialista ou comunista, baseado no falso e venenoso dogma da luta de


classes, a grande e a média propriedades são inimigas naturais da propriedade pequena. Conforme a
doutrina católica, numa sociedade verdadeiramente orgânica as primeiras são aliadas naturais desta
última. Com efeito, elas constituem um contrapeso harmônico à ação tantas vezes invasora do
Estado. Contra esta ação, e em defesa do princípio da propriedade privada, os grandes e os médios
proprietários, mais influentes, mais independentes, poderão atuar com maior eficácia do que os
proprietários pequenos.
2 – Massa pulverizada e inerme

Imaginemos uma contextura econômica e social formada de milhões de pequenos


proprietários. Para o conhecimento dos progressos da agricultura, para a iniciativa de novos
plantios, para a obtenção de maquinaria aperfeiçoada, para a solução de problemas de crédito, de
adubação e de irrigação, serão eles obrigados a recorrer sob mil formas ao Estado. Este será por
vezes a União, ou um Estado federado, entidades frias e distantes em face das quais o pequeno
proprietário se sente como um grão de areia anônimo e inerme. Ou será o Município,
principalmente o Município de roça, entregue tantas vezes à politicagem local, apaixonada,
vingativa e minuciosa. Na escala municipal, o proprietário pequeno não é mais um anônimo, mas,
ao contrário, se sente fiscalizado, espionado, jungido aos microtiranos de aldeia, tanto mais temíveis
quanto mais próximos. Ele será, em suma, um servo do Estado e da politicagem, incapaz de
subsistir sem o apoio daquele e a influência desta.

68
3 – Kolkhozes

Mas, dirá alguém, os pequenos proprietários organizados em poderosas federações terão


meios de se defenderem contra a ação invasora do Estado.
Objeção ingênua. Na realidade, será o Estado que dirigirá estas federações, e, através delas,
todas as pequenas propriedades. Os socialistas, que pretendem pela “Reforma Agrária” chegar a um
regime igualitário, terão assim logrado o seu objetivo. A agricultura brasileira não passará de uma
imensa conjunção de kolkhozes.
4 – Abolição do salariado e dirigismo

Ademais, o regime assim idealizado importará necessariamente em um férreo dirigismo.


Imagine-se um proprietário de pequena área rural. Com seu falecimento, esta passará para seus
filhos. Se ela então se dividir e, mais tarde, por ocasião da morte dos herdeiros, ainda se subdividir,
teremos uma pulverização da propriedade em minifúndios ridículos. Repetido o fenômeno em larga
escala, o regime não poderá continuar por essa forma. Deve-se, pois, supor que a propriedade se
transmitirá de outra maneira. Como? Em favor do primogênito? Não é possível que a mentalidade
igualitária dominante no socialismo tenda a essa restauração de pequenos morgadios. Qualquer que
seja a solução dada ao assunto, a pequena propriedade, suficiente, por sua própria definição, para
uma só família, não bastará para todos os filhos dos proprietários, com as famílias que, por sua vez,
constituírem. E que fazer do excedente demográfico, já que o salariado não existirá? Ficará
sobrando uma quantidade imensa de braços, que permanecerão inaproveitados. O remédio
socialista, a esta altura, já se delineia: gigantescos institutos, com instalações magníficas e vasta
burocracia, destinados a redistribuir por áreas ainda incultas – enquanto houver – ou por centros
urbanos diversos, os “rebanhos” humanos, submissos, dóceis e melancólicos, que o regime dos
kolkhozes terá feito sobrar.

Proposição 11

Impugnada Afirmada
Em certos casos, como os de grandes O direito do proprietário legítimo
latifúndios, ou de zonas com população tem como fundamento último a ordem natural
extremamente pobre, a lei poderia simplesmente das coisas, a qual é anterior e superior ao
ordenar a partilha das terras, deixando ao Estado.
expropriado o necessário para sua modesta Este não o pode, pois, suprimir, a não
subsistência. ser quando o bem comum o exija. E, ainda
Talvez se lhe pudesse dar, além disto, assim, mediante indenização justa e imediata.
uma pequena indenização, na medida em que o Caso a desapropriação em larga
permitisse o interesse do povo. escala fosse indispensável ao bem comum, e o
A desapropriação seria especialmente Estado não pudesse indenizar os proprietários
justa quando o proprietário não cultivasse condignamente, compreender-se-ia em
convenientemente sua terra, o que lhe tiraria o princípio que essa indenização fosse inferior
direito de se considerar dono dela. ao valor real do imóvel desapropriado. Nessa
hipótese ainda, a indenização deveria ser, não
a menor, mas a maior possível.
Como mostraremos na Parte II, essa
hipótese não ocorre, aliás, no Brasil.

Comentário

Uma certa antipatia para com o princípio da indenização ao dono de terras expropriado se
nota em muitos projetos de “Reforma Agrária”. Enquanto a legislação vigente no País oferece todas
69
as garantias de defesa ao titular do domínio em caso de desapropriação, tais projetos descuidam
visivelmente do assunto. É uma lamentável prova de antipatia ou até hostilidade para com o
princípio da propriedade privada. É pela mesma razão que outros propugnadores da “Reforma
Agrária” só cuidam da indenização aos proprietários para encontrar artifícios e pretextos que a
reduzam ao mínimo.
* * *
A proposição impugnada simplifica a solução do problema das zonas pobres: dividir seria
resolver tudo.
Embora em algumas destas a partilha de terras possa ser útil, é importante lembrar que há
outras em que ela de nada adianta. Quando a terra é pobre, o remédio por excelência consiste em
empregar – em toda a medida do possível – os meios técnicos para sanar essa pobreza.
* * *
Em princípio o proprietário tem o direito de não cultivar suas terras. Entretanto, este direito
cessa quando daí decorre grave dano para o bem comum. Cessa, dizemos, o direito de não cultivar.
Não cessa, porém, o direito de propriedade. Por isto, o Estado pode ordenar – na hipótese citada –
que o proprietário cultive suas terras. Deve auxiliá-lo com conselhos, facilidades de crédito, etc.,
para que o faça. Pode lançar sobre o imóvel impostos que – sem qualquer intuito confiscatório –
compensem o prejuízo que o bem comum sofre com a inércia do proprietário. Como último recurso,
o Estado pode desapropriar as terras. Mas esta desapropriação, feita segundo as normas da justiça, é
muito diversa de um confisco puro e simples, ou velado sob as aparências de uma expropriação a
baixo preço.

Textos Pontifícios

Casos em que o Estado pode intervir na redistribuição das terras


“... mesmo em condições normais, as Associações Cristãs sabem que não se pode tratar de erigir em princípio
estável da ordem social simples acerto ou acordo entre as duas partes – empregadores e empregados – ainda quando
ditado pelo mais puro espírito de equidade. Com efeito, aquele princípio falharia a partir do momento em que o acordo,
em contradição com seu próprio sentido, abandonasse a estrada da justiça e se transformasse ou numa opressão, ou num
desfrutamento ilícito do trabalhador, ou então viesse a fazer, por exemplo, daquilo que hoje se chama nacionalização ou
socialização da empresa e democratização da economia, uma arma de combate e de luta contra o empregador privado
enquanto tal.
As Associações Cristãs concordam com a socialização somente nos casos em que se apresenta realmente
como exigida pelo bem comum, o que eqüivale a dizer, como único meio verdadeiramente eficaz para remediar um
abuso ou evitar um desperdício das forças produtivas do país, e para assegurar a ordenação orgânica destas mesmas
forças e dirigi-las em proveito dos interesses econômicos da nação, isto é, tendo como objetivo que a economia
nacional, em seu desenvolvimento regular e pacífico, abra o caminho à prosperidade material de todo o povo,
prosperidade tal que constitua ao mesmo tempo um fundamento sadio também para a vida cultural e religiosa. Em todo
caso, reconhecem em seguida que a socialização implica na obrigação de indenização adequada, isto é, calculada
segundo o que nas circunstâncias concretas é justo e equânime para todos os interessados.
Quanto à democratização da economia, é ela ameaçada não só pelo monopólio, isto é, pelo despotismo
econômico de uma aglutinação anônima de capital privado, mas também pela força preponderante de multidões
organizadas e prontas para usar seu poderio em prejuízo da justiça e dos direitos de outrem”173.

O direito de propriedade não se perde pelo abuso


“É alheio à verdade dizer que se extingue ou se perde o direito de propriedade com o não uso ou abuso
174
dele” .

O direito de propriedade é distinto de seu uso

173
Pio XII, Discurso às Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos, de 11 de março de 1945 – “Discorsi
e Radiomessaggi”, vol. VII, págs. 8-9.
174
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.’, Petrópolis, pág.
19.
70
“... a fim de pôr termo às controvérsias que acerca do domínio e deveres a ele inerentes começam a agitar-se,
note-se em primeiro lugar o fundamento assente por Leão XIII, de que o direito de propriedade é distinto de seu uso
(Enc. Rerum Novarum, § 35). Com efeito, a chamada justiça comutativa obriga a conservar inviolável a divisão dos
bens e a não invadir o direito alheio, excedendo os limites do próprio domínio; mas que os proprietários não usem do
que é seu, senão honestamente, é da alçada não da justiça, mas de outras virtudes, cujo cumprimento “não pode urgir-se
175
por vias jurídicas” (Cfr. Enc. Rerum Novarum) .

Proposição 12

Impugnada Afirmada
O justo valor de um imóvel rural, para Entre os fatores a serem considerados
efeito de desapropriação, é representado pelo na avaliação do que o proprietário terá
custo histórico. Este se constitui pelo preço de aplicado em sua fazenda, é preciso incluir não
aquisição do imóvel, somado à importância só o capital representado pelo preço de
aplicada em benfeitorias, ao valor de todos os aquisição, pelas benfeitorias, pelos impostos
tributos pagos desde a aquisição, e aos juros pagos etc., mas também o trabalho: este
razoáveis sobre o montante dessa quantia global. último, em concreto, quase não pode ser
Desde que a indenização corresponda avaliado devidamente, em muitas situações.
ao custo histórico, o proprietário será Mas, ainda que se tomassem em conta
reembolsado de tudo quanto tiver posto na na desapropriação todos estes fatores, não
fazenda, e mais os juros. Considerada em si serviriam eles de critério suficiente para o
mesma, a valorização da terra é devida, não ao cômputo da justa indenização. Com efeito,
que o proprietário tiver posto lá, mas ao circunstâncias múltiplas podem conferir ao
progresso geral da sociedade. Essa valorização imóvel um valor superior ao que se
pertencerá, pois, de direito, não ao proprietário, estabelecesse com base naqueles fatores. Por
mas à sociedade, ou seja, ao Estado. tudo isso, o justo preço da desapropriação
deve ser normalmente o valor de venda da
terra, incluída neste a valorização.
O princípio do custo histórico é, pois,
injusto. Acresce que, em conseqüência da
inflação, a indenização fixada com base nele
poderá ser irrisória.

Comentário

1 – Ressaibo de igualitarismo

A proposição impugnada tem um ressaibo de igualitarismo. Ela revela uma antipatia contra
a perspectiva de alguém, que já é proprietário, se enriquecer ainda mais. E esta antipatia é agravada
pelo fato de que tal enriquecimento não resultaria só de trabalho do beneficiário: cair-lhe-ia nas
mãos, sem mais, como se fora uma herança ou um tesouro encontrado na terra. O complexo contra a
herança 176 aparece aqui com outro aspecto.
2 – Valorização por fato fortuito

Ora, segundo a ordem estabelecida pela Providência, há muitas circunstâncias em que um


imóvel rural cresce legitimamente de valor sem esforço de seu proprietário, e com pleno direito para
este de se beneficiar inteiramente de tal valorização. Como reciprocamente há circunstâncias em
que, independente de culpa do proprietário, um imóvel rural pode depreciar-se sem que caiba a este
qualquer direito a indenização.
175
Idem, pág. 18.
176
Cfr. Proposição 15
71
Assim, a introdução do plantio do café no Brasil, por Melo Palheta, acarretou a valorização
de muitas terras, mesmo incultas, pelo simples fato de poderem servir para a nova cultura. A quem
compete o direito a essa valorização? Ao Estado, que nada fizera para isto, e que ele também, aliás,
lucraria enormemente com a implantação da cafeicultura? A Palheta, cuja ação digna de aplauso
nenhuma proporção podia ter com a imensa, a incalculável fortuna que lhe adviria na hipótese, um
tanto infantil, de ele se beneficiar com todas estas valorizações?
É óbvio que, dando-se na terra o fenômeno da valorização, é ao proprietário que ele deve
beneficiar.
Do mesmo modo, quando na terra se opera uma desvalorização (terremoto, inundação, rio
que muda de curso, erosão etc.), é ao proprietário, e só a ele, que cabe suportá-la. Assim como
“resperit domino”, segundo o Direito Romano, assim também “res fructificat domino”, conforme
afirma o mesmo Direito.
3 – Valorização por fato do Estado ou da sociedade

Estas considerações se aplicam também aos casos em que uma obra pública, uma rodovia
por exemplo, valoriza as terras marginais ou próximas. Ou quando um grande estabelecimento
particular, instalando-se num imóvel, produz nas cercanias o mesmo efeito. É um fato fortuito bom,
cuja vantagem pertence legitimamente aos proprietários das terras sobre as quais ele se reflete.
Isto não impede que, na primeira hipótese, o Estado cobre dos beneficiários uma taxa de
melhoria. Mas esta deve ter o caráter e o vulto de uma contribuição para o bem comum, e
especialmente de uma proporcionada participação nos gastos com obra tão vantajosa. Nunca pode
ter o sentido e a proporção de uma restituição da valorização ocorrida.
4 – Valorização por progresso coletivo

Pode dar-se que a valorização de um imóvel rural decorra, não tanto de uma obra
determinada, mas de todo um progresso multiforme e coeso do corpo social inteiro. Assim,
consideradas em seu conjunto, as terras do Estado de São Paulo vêm tendo uma valorização que
resulta do progresso de toda a economia paulista.
Ora, poder-se-ia argumentar, tal progresso tem como causa geral e profunda o trabalho de
todos os habitantes do Estado. Esse trabalho vem beneficiar o proprietário da terra sem justa causa,
máxime quando esta é inculta. Em conseqüência, a valorização deve ser do Estado, encarnação da
comunidade operosa, e não do proprietário, sobretudo quando este é inativo.
Estas alegações contrariam o princípio de senso comum, consagrado pelo Direito Romano
na já citada máxima: “res fructificat domino”, a qual preside a todo o assunto.
A não aplicar tal máxima, cai-se em erro manifesto. Ampliando a tese de que a valorização
de um imóvel rural pertence sempre ao Estado, facilmente perceberíamos o que ela tem de absurdo.
Pois, se o proprietário rural deve devolver toda a vantagem que lhe vem de sua pertencença a certa
região, então o mesmo devem fazer todos os outros que, a qualquer título, do Estado se beneficiam:
industriais favorecidos com barreiras alfandegárias, populações inteiras espiritualmente
enriquecidas pela simples ação de presença de grandes instituições culturais etc., etc.
Sem esquecer que muitos desses benefícios nem sequer são suscetíveis de uma adequada
avaliação econômica, cumpre salientar que essa concepção estabelece uma dissociação monstruosa
entre o Estado e os particulares. Os interesses destes nada teriam de comum com os daquele. Ser-
lhes-iam até contrários. O Estado seria indiferente ao interesse dos indivíduos. Só trabalharia para
si. E cobraria avidamente, até o último ceitil, o bem que aos indivíduos acidentalmente fizesse.
Ora, a verdade é o contrário. O Estado tem por fim o bem comum. E o bem comum está
numa indissociável conexão com o bem de todos os particulares. Quando, pois, o Estado beneficia a
estes, cumpre seu dever. O mesmo que se diz do Estado, diga-se também da sociedade.
E a valorização de todas as terras de uma região, beneficiando individualmente cada
proprietário, de fato é também uma vantagem para o bem comum.

72
5 – O bem particular e o bem comum

Uma rápida noção do bem comum facilitará a compreensão deste ponto.


O bem comum de um corpo vivo consiste em que cada órgão funcione retamente e todos
cooperem para o bem-estar geral do corpo.
O bem comum assim entendido exige que cada órgão:
a) – receba do corpo todo o necessário para subsistir e trabalhar normalmente;
b) – preste ao corpo o serviço específico, inerente à natureza e fins peculiares de dito
órgão.
Daí decorre, por analogia, que as pessoas, as famílias e as classes sociais, desiguais entre si
como os órgãos do corpo, têm direito a receber da sociedade e do Estado o apoio proporcionado, de
que carecem para subsistir e agir; e devem, por sua vez, atuar em benefício da sociedade e do
Estado na medida do necessário e de acordo com a situação respectiva.
Esta formulação afirma o princípio da reciprocidade de serviços entre o Estado ou a
sociedade e as pessoas, famílias ou classes. Mas também inclui o princípio da desigualdade
proporcional de vantagens e ônus. Os que são maiores dentro da sociedade ou do Estado são os que
dela ou dele mais recebem e por ela ou ele mais devem fazer. Mas, por sua vez, porque são os
esteios principais do Estado ou da sociedade, devem ser por esta e por aquele particularmente
honrados e protegidos. É uma exigência do instinto de conservação. Assim, por exemplo, a
sobrevivência de uma família benemérita, ou de um patrimônio particularmente fecundo, deve ser
vista pelo Estado ou pela sociedade com um desvelo que vá além da dedicação adequada aos
assuntos congêneres correntes. Durante a guerra, deve-se proteger, na medida do possível, a
existência de todos os cidadãos. Entretanto, a vida do chefe de Estado, dos ministros, dos generais,
que são o esteio da resistência, deve merecer uma proteção toda especial. Em outros termos, há
interesses particulares legítimos que representam um papel funcional de primeira grandeza para o
bem comum. É este o caso dos proprietários, já que a propriedade é uma das bases da família, da
sociedade, do Estado e da civilização.
Em suma, o bem comum na sociedade, no Estado, como no corpo vivo, embora não seja o
conjunto dos bens particulares, existe em função destes bens, cuja conservação, interação
harmoniosa e desenvolvimento propicia.
6 – Os direitos dos indigentes

Mas, dirá alguém, segundo esta concepção a sociedade e o Estado deveriam interessar-se
somente pelos grandes, ou quando muito pelos médios. Pouco ou nenhum interesse deveriam ter
pelos pequenos. Se o fim do Estado e da sociedade é o bem comum, por que haveriam eles de
cuidar, por exemplo, dos indigentes?
A questão, apresentada assim, realmente deixa ver que, quando a sociedade e o Estado
cuidam do indigente, atendem próxima e principalmente ao bem deste. Mas o bem comum visa ao
bem de todos os membros da sociedade e do Estado. Como o bem comum do organismo inclui o de
todas as células. E assim como o corpo todo é solidário para a preservação de qualquer célula, e se
move para proteger as mais necessitadas, o Estado e a sociedade devem ter um empenho efetivo em
proporcionar a cada membro as condições normais de existência e aperfeiçoamento.
Se o bem comum pede que o Estado e a sociedade dêem mais aos mais necessitados, pede
também que eles apoiem proporcionalmente os que, a títulos diversos, podem ser tidos como esteios
da sociedade e do Estado.
7 – Aplicação dos princípios

Justo é, pois, que os proprietários rurais se beneficiem com a valorização que decorre do
progresso social. Este é o ensinamento tradicional da Igreja, que consagra o princípio de que a
valorização da terra pertence sempre ao proprietário, e deve normalmente ser computada ao
quantum da indenização em caso de desapropriação.
73
Proposição 13

Impugnada Afirmada
Não adianta argumentar com a Deus fez a mata virgem para que o
possibilidade de distribuição de terras devolutas homem a desbravasse. A luta com a natureza
para evitar a partilha dos imóveis que já têm selvagem é cheia de glória, e é porque assim
dono. pensaram nossos maiores, que o Brasil existe.
Com o melhor conceito que o Essa luta não é pois “desumana”
trabalhador de hoje faz de si, não se sujeita ele à senão num sentido falso e edulcorado do
luta desumana e perigosa com a mata virgem e a termo.
natureza selvagem da maioria das terras
devolutas.

Comentário

A que efeitos conduzirá a mentalidade descrita na proposição impugnada?


O espírito socialista habituou muitos empregados rurais – e pessoas de outras classes – a
um ideal de vida em que o trabalho é pouco, o ganho apenas suficiente, as garantias razoáveis: nada
de grandes esperanças, nem de grandes riscos.
A pessoa intoxicada por esse espírito subestima os antepassados, que tanto lutaram, tantos
infortúnios e tão grandes êxitos conheceram. Julga-se superior.
Nesta marcha, de superioridade em superioridade, chegar-se-á à nulidade total.
A concepção cristã da missão dos trabalhadores não leva a este comodismo, mas, pelo
contrário, a uma atitude cheia de ânimo e fortaleza, inspirada no divino exemplo de Jesus Cristo:
“Se a missão que eles devem cumprir nas minas, nas fábricas, nas oficinas, em toda parte onde se
trabalha, exige por vezes grandes sacrifícios, lembrem-se de que o Salvador do mundo deu
exemplo, não só de trabalho, mas também de sacrifício” 177.
***
A proposição impugnada tem um que de anacrônico. Em várias regiões bastante remotas
do “hinterland” brasileiro, pode-se hoje manter um contato de grande utilidade, pelo rádio e pelo
avião, com as zonas já ocupadas do País. De outro lado, em vários casos é possível o emprego de
processos agrícolas mecanizados, que suavizam consideravelmente a luta do trabalhador braçal com
a natureza bravia.

177
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
35.
74
Proposição 14
Impugnada Afirmada
Já que o trabalhador tem um direito Em princípio, é isto verdade. Esses
sagrado e inalienável a habitação saudável e são direitos do trabalhador esforçado,
condigna, a nutrição farta, a número limitado de morigerado e econômico.
horas de trabalho, a um mínimo razoável de Mas há situações e épocas históricas
diversão, a tratamento médico em caso de em que o bem comum e seu bem próprio
moléstia e acidente, e a segurança no trabalho, exigem do operário a renúncia a esses direitos,
não é lícito sujeitá-lo à vida na selva. em escala maior ou menor. Quando as
necessidades da vida impõem às famílias e aos
povos que emigrem e desbravem outras zonas,
deve o trabalhador suportar animoso essas
renúncias, de que tão magníficos exemplos
nos deram, no período de desbravamento, os
missionários e os bandeirantes. Aliás, bom
número dos atuais fazendeiros aceitaram
estas dificuldades para si e para os seus.

Comentário

Estados de espírito como o que transparece na proposição impugnada resultam de um


grande erro. Tem-se falado demais aos homens, desde a Revolução Francesa, de seus direitos.
Poucos lhes falam de seus deveres. Hipertrofiar a noção dos direitos e subestimar a do dever é um
dos fatores mais ativos de dissolução social.
Acerca deste assunto, sabiamente disse o Papa São Pio X: “A questão social estará bem
perto de ser resolvida quando uns e outros, menos exigentes a respeito de seus direitos recíprocos,
cumprirem mais exatamente seus deveres” 178.

178
São Pio X, Carta Apostólica “Notre Charge Apostolique”, de 25 de agôsto de 1910 – “Editora Vozes
Ltda.”, Petrópolis, pág. 26.
75
Proposição 15
Impugnada Afirmada
O nivelamento das condições sociais e Em virtude da ordem natural das
econômicas no campo deve ser feito coisas, a família cria um direito da esposa e
especialmente por meio de fortes impostos sobre dos filhos aos frutos do trabalho do marido e
a herança. do pai. E isto tanto é verdade em relação aos
Esta última é, com efeito, das frutos morais – honra, consideração,
instituições que mais a fundo ferem a igualdade influência – quanto aos frutos materiais, isto
natural entre os homens. é, as coisas úteis ao corpo.
Uma pessoa ser rica desde o berço, sem Quem nasce, pois, de um casal
mérito nem trabalho próprio, por mero capricho particularmente dotado pela Providência com
da sorte, com todas as facilidades para se instruir bens espirituais ou materiais fica muito
e para acumular riquezas ainda maiores, é uma legitimamente favorecido desde o berço, mais
vantagem que contrasta de modo doloroso com o do que outros nascidos de pais com
desamparo em que nascem imerecidamente predicados comuns. Essa desigualdade
outros. primeira é justa, porquanto Deus, supremo
O princípio da igualdade de pontos de Senhor de todos os bens, dá a cada qual o que
partida na vida corresponde a uma elementar e quer. “A natureza benigna e a bênção de Deus
evidente exigência da justiça. à humanidade iluminam e protegem os
berços, beijam-nos, porém não os nivelam”,
escreveu Pio XII179 .
Ademais, se tirássemos aos homens o
direito de deixar seus bens à esposa e aos
filhos, eliminaríamos um dos mais vivos
estímulos ao trabalho. E isto seria muito
contrário ao bem comum.

Comentário

A proposição impugnada é tão corrente, e a proposição verdadeira em certos ambientes


choca tanto, que convém mencionar ainda em abono desta última o Doutor máximo da Igreja, São
Tomás de Aquino. Diz ele: “É de lei natural que os pais acumulem bens para os filhos, e que estes
sejam herdeiros de seus pais” 180.

Textos Pontifícios

O socialismo, inimigo da herança


Os socialistas, comunistas e niilistas “combatem o direito de propriedade, sancionado pela lei natural; e, por
um atentado monstruoso, enquanto afetam tomar interesse pelas necessidades de todos os homens pretendem satisfazer
todos os seus desejos, trabalham por arrebatar e pôr em comum todo o que tem sido adquirido ou por título de legítima
herança, ou pelo trabalho de espírito e das mãos, ou pela economia”181.

Inviolabilidade do direito de herança


“... devem sempre permanecer intactos o direito natural de propriedade e o que tem o proprietário de legar os
182
seus bens” .

179
Cfr. Textos Pontifícios desta Proposição, epígrafe “Desigualdades de berço são desejadas por Deus”.
180
São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Supp, q. 67, a . 1.
181
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 4.
182
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
20.
76
É falso que só se adquiram bens legitimamente pelo trabalho
“O Apóstolo não ensina, nem podia ensinar, que o trabalho é o único título para receber o sustento ou
perceber rendimentos”183.

A instituição da família acarreta a hereditariedade dos bens


“A natureza não impõe somente ao pai de família o dever sagrado de alimentar e sustentar seus filhos; vai
mais longe. Como os filhos refletem a fisionomia de seu pai e são uma espécie de prolongamento da sua pessoa, a
natureza inspira-lhe o cuidado do seu futuro e a criação dum patrimônio que os ajude a defender-se, na perigosa jornada
da vida, contra todas as surpresas da má fortuna. Mas, esse patrimônio poderá ele criá-lo sem a aquisição e a posse de
bens permanentes e produtivos que possa transmitir-lhes por via de herança?”184.

A hereditariedade, fato natural


“Desta grande e misteriosa coisa que é a hereditariedade – quer dizer, o passar através de uma estirpe,
perpetuando-se de geração em geração, de um rico acervo de bens materiais e espirituais; a continuidade de um mesmo
tipo físico e moral, conservando-se de pai para filho; a tradição que une através dos séculos os membros de uma mesma
família – desta hereditariedade, dizemos, se pode sem dúvida entrever a verdadeira natureza sob o aspecto material.
Mas pode-se também, e deve-se considerar esta realidade de tão grande importância, na plenitude de sua verdade
humana e sobrenatural.
Não se negará certamente o fato de um substrato material à transmissão dos caracteres hereditários; para
estranhar isto, precisaríamos esquecer a união íntima de nossa alma com nosso corpo, e em quão larga medida as nossas
mesmas atividades mais espirituais dependem de nosso temperamento físico. Por isso a moral cristã não deixa de
lembrar aos pais as grandes responsabilidades que lhes cabem a esse respeito.
Mas o que mais vale é a hereditariedade espiritual, transmitida não tanto por esses misteriosos liames da
geração material, quanto com a ação permanente daquele ambiente privilegiado que constitui a família, com a lenta e
profunda formação das almas, na atmosfera de um lar rico de altas tradições intelectuais, morais e sobretudo cristãs,
com a mútua influência entre aqueles que moram em uma mesma casa, influência essa cujos benéficos efeitos se
prolongam muito além dos anos da infância e da juventude, até o fim de uma longa vida, naquelas almas eleitas que
sabem fundir em si mesmas os tesouros de uma preciosa hereditariedade, com o contributo de suas próprias qualidades
e experiências.
Tal é o patrimônio, mais do que todos precioso, que, iluminado por firme fé, vivificado por forte e fiel prática
da vida cristã em todas as suas exigências, elevará, aprimorará e enriquecerá as almas de vossos filhos” 185.

Desigualdades de berço – são desejadas por Deus


“As desigualdades sociais, inclusive as que são ligadas ao nascimento, são inevitáveis; a natureza benigna e a
bênção de Deus à humanidade, iluminam e protegem os berços, beijam-nos, porém não os nivelam. Atendei mesmo
para as sociedades mais inexoravelmente niveladas. Nenhum artifício jamais logrou ser bastante eficaz a ponto de fazer
com que o filho de um grande chefe, de um grande condutor de multidões, permanecesse em tudo no mesmo estado que
um obscuro cidadão perdido no povo. Mas se tais disparidades inelutáveis podem, quando vistas de maneira pagã,
parecer como uma inflexível conseqüência do conflito das forças sociais e da supremacia conseguida por uns sobre os
outros segundo as leis cegas que se supõem reger a atividade humana, e consumar o triunfo de alguns, assim como o
sacrifício de outros; pelo contrário, tais desigualdades não podem ser consideradas por uma mente cristãmente instruída
e educada, senão como disposição desejada por Deus pelas mesmas razões que explicam as desigualdades no interior da
família, e portanto com o fim de unir mais os homens entre eles, na viagem da vida presente para a pátria do céu,
ajudando-se uns aos outros, da mesma forma que um pai ajuda a mãe e os filhos.
Se esta concepção paterna da superioridade social, por vezes, em virtude do ímpeto das paixões humanas,
arrastou os ânimos a desvios nas relações de pessoas de categoria mais elevada, com as de condição mais humilde, a
história da humanidade decaída não se surpreende com isto. Tais desvios não bastam para diminuir ou ofuscar a verdade
fundamental de que para os cristãos as desigualdades sociais se fundem numa grande família humana”186.

183
Idem. Pág. 24.
184
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
10.
185
Pio XII, Discurso de 5 de janeiro de 1941, ao Patriciado e à Nobreza Romana – “Discorsi e
Radiomessaggi”, vol. II, pág. 364.
186
Pio XII, Discurso de 5 de janeiro de 1942, ao Patriciado e à Nobreza Romana – “Discorsi e
Radiomessaggi”, vol. III, pág. 347.
77
A propriedade rural e a herança
“Entre todos os bens que podem ser objeto de propriedade privada nenhum é mais conforme à natureza,
segundo o ensinamento da “Rerum Novarum”, do que a terra, a gleba, em que a família habita, e de cujos frutos tira
inteiramente, ou ao menos em parte, o necessário para viver. E é de acordo com o espírito da “Rerum Novarum” afirmar
que, via de regra, só a estabilidade que se radica na própria gleba faz da família a célula vital mais perfeita e fecunda da
187
sociedade, reunindo admiravelmente com sua progressiva coesão as gerações presentes e futuras” .

O direito de herança, estímulo da produção


“... o homem é assim feito: o pensamento de que trabalha em terreno que é seu redobra o seu ardor e a sua
aplicação. Chega a pôr todo o seu amor numa terra que ele mesmo cultivou, que lhe promete a si e aos seus não só o
estritamente necessário, mas ainda uma certa abastança. Não há quem não descubra sem esforço os efeitos desta
duplicação da atividade sobre a fecundidade da terra e sobre a riqueza das nações” 188.

Proposição 16
Impugnada Afirmada
Ademais, a hereditariedade das fortunas A família, como tudo que vive, tende
dá origem à formação de oligarquias que tendem a se perpetuar. E a continuidade da família,
a fazer retroagir a sociedade para um estágio pela própria natureza das coisas, tende a se
aristocrático, intrinsecamente injusto e estender tão longamente quanto possível
definitivamente superado pelo progresso através das gerações.
democrático. Daí decorre normalmente a formação
de elites que têm, além do que cada indivíduo
é capaz de adquirir, algo que só a família lhe
pode dar: a tradição.
O papel da tradição, desde que saiba
conservar-se viva e não mumificada, é imenso
na existência de um povo.
As elites não merecem a designação
pejorativa de oligarquia, uma vez que deixem
campo a que subam organicamente as
famílias que a isso façam jus, e também
organicamente declinem as que não estão
mais em condições de ocupar uma situação de
relevo.
Esta influência da família na
estrutura social é compatível com qualquer
regime, monárquico, aristocrático ou
democrático.

Comentário

A proposição impugnada deixa ver um ressaibo de evolucionismo. Não é exato que as


formas de governo – monarquia, aristocracia e democracia – sejam como os degraus de uma
evolução que atualmente tem a democracia como termo.
Cada um desses regimes é bom para certas circunstâncias, e é normal e justo que não se
considere o mundo inteiro obrigado a aceitar um só deles, qualificados os outros de obsoletos.

187 º º
Pio XII, Discurso de 1 de junho de 1941, por ocasião do 50 aniversário da Encíclica “Rerum Novarum” –
Discorsi e Radiomessaggi”, vol. III, pág. 116.
188
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
33.
78
Textos Pontifícios

Função das elites nas democracias novas e sem passado social


“Mostramos no ano passado, nesta mesma ocasião, como também nas democracias de recente data, e que não
têm atrás de si qualquer vestígio de um passado feudal, foi-se formando, pela própria força das coisas, uma espécie de
nova nobreza ou aristocracia. É a comunidade das famílias que, por tradição, põem todas as suas energias a serviço
do Estado, de seu governo, da administração, e sobre cuja fidelidade ele pode contar a qualquer momento.
Vossa missão está, pois, muito longe de ser negativa; ela supõe em vós muita aplicação, muito trabalho,
muita abnegação, e, sobretudo, muito amor. Não obstante a rápida evolução dos tempos, vossa missão não perdeu seu
valor e não atingiu o seu termo. O que ela também pede de vós, e que deve ser a característica de vossa educação
tradicional e familiar, é o fino sentimento e a vontade de não vos prevalecerdes de vossa condição, - privilégio hoje em
dia muitas vezes grave e austero – senão para servir.
Caminhai, pois, com coragem e com humilde altivez rumo ao futuro, queridos filhos e filhas. Vossa função
social, nova na forma, é substancialmente a mesma, como nos vossos tempos passados de maior esplendor.
Se, por vezes, ela vos parecer difícil, árdua, e mesmo talvez não isenta de desilusões, não esqueçais que a
Divina Providência, tendo-vos confiado esta missão, vos dispensará ao mesmo tempo as forças e os socorros
189
necessários para cumpri-la dignamente” .

Elites e tradição, em uma democracia verdadeira


“Já em outra ocasião falamos das condições necessárias para que um povo seja maduro para uma sã
democracia. Mas quem o pode conduzir e elevar a esta maturidade? Sem dúvida, poderia a Igreja dar muitos
ensinamentos a tal respeito, extraídos dos tesouros de sua experiência e de sua própria ação civilizadora. Mas vossa
presença Nos sugere uma particular observação. Segundo o testemunho da história, onde reina uma verdadeira
democracia a vida do povo está como que impregnada de sãs tradições, que é ilícito abater. Representantes destas
tradições são, antes de tudo, as classes dirigentes, ou seja, os grupos de homens e de mulheres, ou as associações, que
dão, como se costuma dizer, o tom na aldeia e na cidade, na região e no país inteiro.
Daqui, em todos os povos civilizados, a existência e o influxo de instituições eminentemente aristocráticas,
190
no sentido mais alto da palavra, como são algumas academias de larga e bem merecida fama” .

As elites tradicionais, fator de sadio progresso


“A sociedade humana não é porventura, ou pelo menos não deveria ser, semelhante a uma máquina bem
ordenada, cujas peças concorrem todas para um funcionamento harmônico do conjunto? Cada um tem sua função, cada
um deve aplicar-se para um melhor progresso do organismo social, cujo aperfeiçoamento deve procurar, de acordo com
as suas forças e próprias virtudes, se tem verdadeiro amor ao próximo e razoavelmente tende para o bem e proveito de
todos.
Ora, que parte vos foi confiada de maneira especial, queridos filhos e filhas? Qual missão vos foi
particularmente atribuída? Precisamente aquela de facilitar este desenvolvimento normal; aquilo que na máquina presta
e executa o regulador, o volante, o reostato, que participam da atividade comum e recebem a parte que lhes cabe da
força motriz para assegurar o movimento de regime do aparelho. Em outros termos, Patriciado e Nobreza, vós
representais e continuais a tradição” 191.

A Igreja aceita qualquer das três formas de governo


A Igreja “aprova todos os diversos sistemas políticos, contanto que respeitem a Religião e a moral cristã”192.

189
Pio XII, Discurso de 8 de janeiro de 1947, ao Patriciado e à Nobreza Romana – “Discorsi e
Radiomessaggi”, vol. VIII, págs. 370-371.
190
Pio XII, Discurso de 16 de janeiro de 1946, ao Patriciado e à Nobreza Romana – “Discorsi e
Radiomessaggi”, vol. VII, pág. 340.
191
Pio XII, Discurso de 19 de janeiro de 1944, ao Patriciado e à Nobreza Romana – “Discorsi e
Radiomessaggi”, vol. V, pág. 178.
192
Leão XIII, Encíclica “Sapientiae Christianae”, de 10 de janeiro de 1890 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 19.
79
A tradição não é fossilização, mas vida
“Foi justamente observado que uma das características dos romanos, como que um segredo da grandeza
permanente da Cidade Eterna, é o respeito às tradições. Não que esse respeito signifique a fossilização em formas
ultrapassadas pelos tempos; mas antes a conservação em vida daquilo que os séculos demonstraram ser bom e fecundo.
Desse modo a tradição não impede absolutamente em nada o justo e feliz progresso, mas é ao mesmo tempo um
poderoso estímulo para perseverar no caminho seguro; um freio ao espírito aventureiro, propenso a abraçar sem
discernimento qualquer novidade que seja; e também, como se costuma dizer, o sinal de alarma contra os declínios”193.

Proposição 17

Impugnada Afirmada
Por sua vez, a formação de oligarquias A formação de verdadeiras elites
dá origem a uma atmosfera e a uma cultura familiares e tradicionais dá origem a uma
marcadas por preconceitos de classe, etiquetas e sociedade constituída de níveis culturais e
fórmulas incompatíveis com a igualdade e o econômicos diversos. A existência dessa
espírito dos tempos atuais. diferença de níveis influencia naturalmente os
usos e costumes. A sociedade se assemelha
assim a um corpo com órgãos diversos, dos
quais a cabeça é constituída pelas mais altas
elites tradicionais.
Se algo há hoje de oposto a essa justa
ordem de coisas, merece chamar-se de defeito
dos tempos atuais. Não devemos adaptar a
sociedade aos defeitos dos tempos, mas
corrigir os defeitos para que não deformem a
sociedade.
Por isto recomendou Pio XII que as
crianças de hoje fossem educadas num
espírito hierárquico 194.

Comentário

Ainda nesta proposição errada, o ressaibo evolucionista é patente. O supremo critério de


julgamento consiste em estar de acordo com “o espírito dos tempos atuais”.
E qual é este “espírito”? É o que se desprende de tudo quanto há de mais recente. O que é
mais novo é por isto mesmo melhor.
A igualdade sendo a nota dominante dos tempos atuais, é boa por isto mesmo que atual...
* * *
A diferença entre a proposição impugnada e a proposição afirmada resulta, em boa parte,
de que a primeira, que é igualitária, vê em toda e qualquer elite uma oligarquia, constituída em
detrimento do corpo social; enquanto a segunda considera que, se há oligarquias, há também elites
verdadeiras, que são a cabeça do corpo social…
Em outros termos, a proposição impugnada se inspira no princípio marxista da luta de
classes, enquanto a proposição afirmada encontra base na doutrina católica da harmonia entre elas.

Textos Pontifícios

193
Pio XII, Discurso de 28 de fevereiro de 1957, aos alunos do Liceu “Ennio Quirino Visconti”, de Roma –
“Discursi e Radiomessaggi”, vol. XVIII, pág. 803.
194
Cfr. Textos Pontifícios desta Proposição.
80
A hierarquia social é desejada pela Igreja
“Mostramos como a sã prosperidade deve ser reconstruída de conformidade com os verdadeiros princípios de
sadio corporativismo, que respeite a devida hierarquia social”195.

Nada de mais sagrado do que a defesa da propriedade e da hierarquia social


“Importa... que nada lhe seja (à democracia cristã) mais sagrado do que a justiça que prescreve a manutenção
integral do direito de propriedade e de posse; que defende a distinção de classes que, sem contradição, são próprias de
um Estado bem constituído” 196.

A classe alta não é em si oligarquia inimiga, mas elite amiga


“O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a
natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma
aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque, assim como no corpo
humano os membros, apesar de sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um
todo exatamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes estão
destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm
imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital. A concórdia traz
197
consigo a ordem e a beleza; ao contrário, dum conflito perpétuo só podem resultar confusão e lutas selvagens” .

As pessoas de menor posição social ou fortuna devem acatar a hierarquia social


“Os que ocupam situações inferiores quanto à posição social e à fortuna devem convencer-se bem de que a
diversidade de classes na sociedade vem da própria natureza, e de que se deve procurá-la, em última análise, na vontade
de Deus: “porque ela criou os grandes e os pequenos” (Sap. 6, 8), para o maior bem dos indivíduos e da sociedade.
Essas pessoas humildes devem compenetrar-se desta verdade: qualquer que seja a melhora que obtenham para a sua
situação, tanto pelos seus esforços pessoais como com o concurso dos homens de bem, sempre lhes ficará, como aos
demais homens, uma pesada herança de sofrimentos. Se tiverem essa visão exata da realidade, não se esgotarão em
esforços inúteis para se elevarem a um nível superior às suas capacidades, e suportarão os males inevitáveis com a
resignação e a coragem que a esperança de bens eternos dá”198.

O espírito cristão é contrário à luta de classes


“... o espírito cristão traz consigo a submissão, por consciência, à autoridade legítima, e o respeito dos
direitos de quem quer que seja; e esta disposição de ânimo é o meio mais eficaz para cercear, dessarte, toda desordem,
as violências, as injustiças, as sedições, o ódio entre as diversas classes sociais, que são os principais móveis e,
199
conjuntamente, as armas do socialismo” .

A luta de classes, objetivo do comunismo


“Insistindo sobre o aspecto dialético do seu materialismo, os comunistas pretendem que o conflito, que leva o
mundo para a síntese final, pode ser acelerado pelos homens. Esforçam-se, assim, por tornar mais pungentes os
antagonismos que surgem entre as diversas classes da sociedade; e a luta de classes, com seus ódios e destruições, toma
aspecto de cruzada em prol do progresso da humanidade”200.

É necessário fomentar nos jovens o espírito de hierarquia


“Desenvolvei nas almas das crianças e dos jovens o espírito hierárquico, que não recusa a cada idade seu
devido desenvolvimento, a fim de dissipar, tanto quanto possível, esta atmosfera de independência e de excessiva
liberdade que em nossos dias respira a juventude, e que a levaria a repelir toda autoridade e todo freio; procurai, ao
mesmo tempo, suscitar e formar o senso da responsabilidade e relembrando que a liberdade não é o único entre todos os
valores humanos, ainda que seja contado entre os primeiros, mas que tem seus limites intrínsecos nas normas

195
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
17.
196
Leão XIII, Encíclica “Graves de Communi”, de 18 de janeiro de 1901 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
págs. 6-7.
197
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
14.
198
Bento XV, Carta “Soliti Nos”, de 11 de março de 1920, ao Bispo de Bérgamo – “Les Enseignements
Pontificaux – La Paix Intérieure des Nations – par les moines de Solesmes” – Desclée & Cia, págs. 293-294.
199
Leão XIII, Encíclica “Auspicato Concessum”, de 17 de setembro de 1882 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 13.
200
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
7.
81
incontestáveis da honestidade, e extrínsecos nos direitos correlativos dos demais, tanto de cada um em particular quanto
201
da sociedade tomada em seu conjunto” .

Proposição 18
Impugnada Afirmada
A família é uma instituição legítima. A família é uma sociedade legítima.
Mas só é compatível com o progresso na medida Mas isto é dizer pouco. Pois também uma
em que não dá origem a nenhum privilégio, sociedade de colecionadores de cachimbos ou
nenhuma preeminência social, nenhuma de asas de borboleta, que tanto pode existir
vantagem econômica imerecida, como seja, a quanto não existir, é legítima.
herança e os auxílios para início de carreira. A família é necessária, pois sem ela a
O homem, com efeito, deve vencer sociedade jamais teria existido, e
exclusivamente pelo seu merecimento pessoal, e desapareceria imediatamente se a família
não pela família a que pertence. desaparecesse.
Querida por Deus, elevada a uma
dignidade supereminente pelo Sacramento do
Matrimônio, ela é a célula da sociedade e a
base do Estado.
Como vimos, por sua própria
natureza, a família dá origem a vantagens
morais, culturais e econômicas para os filhos.
E essas vantagens, antecedentes
muitas vezes ao nascimento (Napoleão disse
que a educação de uma criança começa cem
anos antes de ela nascer), não dependem,
como tais, de mérito pessoal, mas do simples
fato da consangüinidade.
Se a isto se chama privilégio, é preciso
reconhecer então que há privilégios justos e
até santos, que importa proteger, em lugar de
destruir.
Pio XII, como já lembramos202,
declarou que Deus protege os berços, porém
não os nivela.
Uma família que não desse aos filhos
uma participação na formação religiosa e
moral, na cultura e na abundância de seus
pais, seria um simulacro, pior ainda, uma
caricatura de família.

Comentário

A proposição impugnada poder-se-ia resumir assim: a família é uma instituição legítima,


mas só tem direito de existir se não tiver a menor influência no que quer que seja.
Mais valeria dizer claramente: ela não deve existir.
* * *

201
Pio XII, Radiomensagem de 6 de outubro de 1948, ao Congresso Interamericano de Educação Católica, de
La Paz – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. X, pág. 247.
202
Cfr. Proposição 15.
82
Mas, abolida ou mutilada a propriedade particular, inexistente a família, ou pelo menos
privada de toda influência na situação de seus membros, qual o apoio destes, máxime no campo
econômico? O Estado, evidentemente. O Estado frio, distante, anônimo, representado por institutos
e sistemas de previdência inteiramente sujeitos a ele.
* * *
Objetar-se-á, quanto às vantagens proporcionadas pela família a seus membros, que elas
têm o inconveniente de conservar, por vezes, em situações eminentes gerações sucessivas de
pessoas incapazes de arcar com as responsabilidades econômicas e sociais daí decorrentes. Na
realidade, em grande número de casos, a ordem natural das coisas eliminará, como já dissemos,
pelo empobrecimento e pela decadência, os elementos incapazes ou inidôneos. Em certas
circunstâncias, entretanto, a situação anormal pode realmente durar. Mas isto não é argumento para
a abolição da influência natural de uma instituição como a família. Da mesma forma que os abusos
sempre possíveis – e, em certas épocas, não raros – do pátrio poder não poderiam justificar que este
fosse reduzido a um âmbito inferior ao natural. Querer uma ordem de coisas em que os abusos
sejam impossíveis é utopia socialista.
* * *
Falamos da família. A confusão de idéias de nossos dias pede que se esclareça que a
família, instituição santíssima, se baseia, não em uma união qualquer, porém no Sacramento do
Matrimônio.
A proposição afirmada se refere a um tipo de família que não conferisse a seus filhos
nenhum “privilégio”, como sendo uma caricatura de família.
Tal caricatura, sugerida pela proposição impugnada, corresponde ao que na URSS se
chama família.
Dizendo que ali existe o amor livre, não se deve imaginar que ficam abertas as portas para
uma libidinagem absolutamente sem freios. O regime comunista supõe uma espécie de “ascese”,
para que o indivíduo possa dedicar-se plenamente aos interesses da produção e da coletividade.
Embora a dissolução do casamento seja sumamente fácil, de fato está no interesse coletivo que ela
seja feita com certa parcimônia.
Como se vê, trata-se, em última análise, de uma união que não merece verdadeiramente a
designação de casamento, e que dá origem a relações que também não chegam a constituir
propriamente uma família. Compreende-se que, de tal união, não possa decorrer para os filhos
qualquer privilégio.

Textos Pontifícios

Dignidade sobrenatural do matrimônio cristão


“... o matrimônio não foi instituído nem restaurado pelos homens, mas por Deus; não foi pelos homens, mas
pelo restaurador da mesma natureza, Cristo Nosso Senhor, que o matrimônio foi resguardado por lei, confirmado e
203
elevado” .
“A Igreja... nos ensina que o casamento, respeitável em tudo (Heb. 13,4), instituído pelo próprio Deus no
princípio do mundo para a propagação e conservação do gênero humano, e por Ele decretado indissolúvel, foi feito mais
indissolúvel e mais santo ainda por Cristo, que lhe conferiu a dignidade de Sacramento, e dele fez a figura da sua união
204
com a Igreja” .

Sem a família e a propriedade privada não há segurança


“A segurança! A aspiração mais viva dos homens de hoje! Eles a pedem à sociedade e às suas leis. Mas os
pretensos realistas deste século demonstraram que não estavam em condições de proporcioná-la, precisamente porque
querem substituir-se ao Criador e fazer-se árbitros da ordem da criação.

203
Pio XI, Encíclica “Casti Connubii”, de 31 de dezembro de 1930 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
5.
204
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, págs. 10-11.
83
A religião, e a realidade do passado, ensinam, pelo contrário, que as estruturas sociais, como o casamento e a
família, a comunidade e as corporações profissionais, a união social na propriedade pessoal, são células essenciais que
asseguram a liberdade do homem, e... com isto, seu papel na história. Elas são, pois, intangíveis e sua substância não
205
pode ser submetida a revisão arbitrária” .

Sem propriedade privada não há segurança nem civilização


“Estas reflexões (relativas à tendência de regular as relações entre os homens unicamente na base do direito
público) valem acima de tudo nas questões de direito privado relativas à propriedade. Este é o ponto central, o foco ao
redor do qual, por força das coisas, gravitam os vossos trabalhos. O reconhecimento deste direito está seguro ou
desmorona com o reconhecimento dos direitos e dos deveres imprescritíveis, inseparavelmente inerentes à
personalidade livre, recebida de Deus. Somente quem recusa ao homem esta dignidade de pessoa livre pode admitir a
possibilidade de substituir o direito de propriedade privada (e, consequentemente, a propriedade privada em si mesma)
por não se sabe que sistema de seguros ou garantias legais de direito público. Oxalá não pudéssemos ver surgir o dia em
que, neste ponto, uma fratura definitiva viesse a separar os povos! De difícil que já é, tornar-se-ia radicalmente
impossível o trabalho de unificação do direito privado. Com o mesmo golpe, uma das vigas-mestras que sustentaram
durante tantos séculos o edifício de nossa civilização e de nossa unidade ocidental cederia e, de modo análogo às dos
206
tempos antigos, ficaria soterrada sob as ruínas acumuladas por sua queda” .

Proposição 19

Impugnada Afirmada
Todas estas medidas visando à Não há socialismo cristão, ou
igualdade entre os homens bem merecem socialismo católico. Pois todo socialismo é
intitular-se um sábio e prudente socialismo necessariamente materialista. Por isto, Pio XI
cristão, que conduzirá o mundo à sociedade ideal condenou a expressão “socialismo católico”,
e sem classes, segundo o espírito do Evangelho. dizendo que socialismo e Catolicismo “são
termos contraditórios”207.
E Pio XII ensinou que a luta contra o
socialismo é um dos maiores deveres da Igreja
na atual fase das controvérsias sociais208.
Quanto à sociedade sem classes, é
ideal neopagão, e não católico.

Comentário

Para muitos espíritos, superficiais ou mal informados, desde que o regime socialista ou
comunista não proíba o culto divino, a Igreja nada terá contra ele.
Enganam-se. Ainda que um governo socialista ou comunista construísse templos
esplêndidos, fizesse ao Clero dotações magníficas e desse ao culto toda a liberdade, a Igreja o
combateria. Pois jamais poderá ela pactuar, ainda que pelo silêncio, com o ideal socialista e
comunista da sociedade sem classes.

205
Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1956 – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. XVIII, pág. 734.
206
Pio XII, Discurso de 20 de maio de 1948, no Instituto Internacional para a Unificação do Direito Privado
– “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. X, pág. 92.
207
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
44.
208
Textos Pontifícios da Proposição 2, epígrafe “O católico deve reagir contra a socialização”.
84
Capítulo II

Em princípio, a atual estrutura rural brasileira prejudica a produção


agropecuária?

Como já tivemos ocasião de dizer209 , há críticas das mais fundadas a fazer à “Reforma
Agrária” que escapam, entretanto, em larga medida, ao âmbito especial deste livro. Outros, com a
devida competência e sagacidade, já as têm feito, e por certo ainda as farão. Cingir-nos-emos a
apresentar aqui, sobre o assunto, os comentários que caibam do ponto de vista da doutrina católica.

Introdução

Impugnada Afirmada
Deixando as considerações que Deixando as considerações que
mostram quanto é injusta a atual desigualdade da mostram quanto é justa a atual divisão de
vida rural brasileira e quanto seria justa a partilha nosso território em propriedades grandes,
das terras, e passando para o âmbito do interesse médias e pequenas, e passando para o âmbito
nacional, cumpre afirmar que a “Reforma do interesse nacional, cumpre afirmar que a
Agrária” seria altamente conveniente para o País, “Reforma Agrária” seria ruinosa para o País,
porque: porque:

Proposição 20

Impugnada Afirmada
Elimina a complexidade inútil do atual Elimina as grandes e médias
sistema, constituindo uma imensa rede de propriedades, indispensáveis tanto quanto as
propriedades iguais ou equivalentes. pequenas em um país de território imenso e
culturas tão variadas como o nosso.

Comentário

A mentalidade socialista é propensa à padronização e à simplificação. Ora, o ideal do


regime agrário não é ser simples, mas ser eficiente. Aliás, as coisas que dizem respeito ao homem e
à sociedade humana, como a tudo que é vivo, em geral não são simples. Pelo contrário, são muito
complexas.
Num país constituído por todo um conjunto de regiões muito diversificadas, tudo quanto
ostente a nota do padronizado e simplificado ao extremo, é ruinoso.
Dado que cada um dos três tipos de propriedade – pequena, média e grande – tem sua
razão de ser, e que todos são justos, não se compreende por que privar o Brasil de se beneficiar dos
três.

209
Cfr. Introdução.
85
Proposição 21

Impugnada Afirmada
As propriedades pequenas serão As propriedades pequenas, entregues
apoiadas pelo Estado, que as poderá encaminhar a si mesmas, cairão necessariamente na
todas pelas vias de um planejamento agrícola dependência do Estado, o que conduzirá ao
fecundo, bem diverso do caos rural em que nos pior dos regimes agrários, que é o coletivismo.
encontramos.

Comentário

Observações análogas à do comentário anterior. A “Reforma Agrária”, inspirada pelo


socialismo e infensa ao princípio da subsidiariedade 210, é centralizadora e põe tudo sob a ação do
Estado.
Ora, na medida em que este exorbita de suas funções próprias e passa por cima do
mencionado princípio, para dirigir toda a vida social, merece a célebre censura: “o bem que faz é
mal feito, o mal que faz é bem feito”.
Por isso, a Inglaterra, a Alemanha, a Austrália fizeram ou estão fazendo reverter à
iniciativa privada numerosas empresas de todo gênero, que fracassaram sob a direção do Estado.
Os progressistas igualitários do Brasil, habituados a seguir a penúltima moda que é o
socialismo, pensam pelo contrário em colocar toda a agricultura em mãos do Estado: o futuro que a
aguarda nessa hipótese apresenta sérios riscos de se parecer com a presente situação do Lloyd
Brasileiro ou da E. F. Central do Brasil...
O Estado com o monopólio dos assuntos do campo, reduzindo o pequeno proprietário à
função de mero “robot” agrícola, sem capacidade para pensar sobre os problemas de sua gleba e
lhes dar quaisquer soluções pessoais, eis bem o totalitarismo, contrário à liberdade de opinião e
iniciativa no que estas têm de legítimo. O Estado, senhor da técnica, sabe tudo. O indivíduo obedece
e executa211 .

Proposição 22

Impugnada Afirmada
Mantendo obrigatoriamente pequenas as Mantendo obrigatoriamente
propriedades, dará o Estado aos trabalhadores pequenas as propriedades rurais, o Estado
rurais muito maior estímulo na produção, porque tirará aos trabalhadores mais capazes
tudo quanto produzirem será seu. estímulo para produzirem o mais possível em
vantagem própria e dos filhos.

Comentário

O desejo de melhorar de nível e condições de vida é em geral suscitado e mantido nos


degraus mais baixos da hierarquia social pelo exemplo das categorias superiores. Há erro em supor

210
Cfr. Comentário à Proposição 7, item 4.
211
Recente despacho telegráfico da agência “United Press” (in “O Estado de São Paulo”, de 3 de junho de
1960) divulga a seguinte crítica de Mons. Eduardo Boza Masvidal, Arcebispo Auxiliar de Havana, contra o dirigismo
do governo Fidel Castro: procede este em relação ao indivíduo “como se a cabeça do ser humano não servisse senão
para carregar um chapéu”.
A proposição impugnada faz-nos pensar nisto.
86
que o conforto e o brilho da existência dos mais ricos ou abastados redunde exclusivamente em
proveito destes.
Presenciando o desenrolar de uma vida mais atraente, procuram as classes modestas
melhorar a sua própria existência.
Esta função das camadas mais tradicionais, cultas e ricas é tanto mais importante quanto é
certo que a lei do mínimo esforço leva, às vezes, massas inteiras a se conformarem durante séculos
com um modo de viver subumano. Entre nós mesmos, um obstáculo não pequeno para o
levantamento do teor de existência do trabalhador rural é a inapetência que este revela, com certa
freqüência, de abandonar a vida pobre ou até miserável a que está habituado.
* * *
Aliás, em tais hipóteses o mero exemplo dos mais abastados é, por vezes, insuficiente. O
conforto e, segundo o caso, mesmo o luxo do fazendeiro, por exemplo, freqüentemente deixa inerte
o trabalhador. Cabe então às classes elevadas um dever ainda maior: o de agir pessoalmente sobre o
homem do campo para o soerguer. Como faze-lo? A questão é muito vasta, e escapa aos limites
deste livro. Em princípio, lembramos apenas que cumpre habituá-lo por etapas a um teor de vida
melhor, se bem que sempre muito rural.
Este importante assunto fica indicado à atenção dos competentes na matéria.
* * *
De qualquer forma, a este comentário interessa sobretudo mostrar que a existência de uma
elite é indispensável para o progresso do povo.

Proposição 23

Impugnada Afirmada
Dará assim o Estado bem-estar e fartura Em lugar de impelir os braços
a zonas empobrecidas ou superpovoadas. excedentes das zonas pobres ou
superpovoadas para o desbravamento
indispensável e urgente de nosso “hinterland”,
atraí-los-á assim o Estado para a estagnação e
o ócio próprio dos regimes socialistas e
igualitários, em zonas já habitadas.
Em suma, longe de criar novas fontes
de riqueza, dividirá igualitariamente a
miséria.

Comentário

Um comentário à margem do assunto, mas que não deixa de ser prudente e atual.
Há povos de pressão demográfica excessiva, que se acumulam em zonas pequenas e
sonham com as vastidões desocupadas do Brasil.
Que dirão eles, sabendo que não aproveitamos na medida do possível estas vastidões, e
pelo contrário nos atiramos aos riscos de uma imensa transformação social para dividir o solo já
desbravado e plantado, no qual inutilmente nos acumulamos?

Proposição 24

87
Impugnada Afirmada
A “Reforma Agrária” está em A “Reforma Agrária” está em
conformidade com as Encíclicas sociais, que, desacordo com as Encíclicas sociais, que, se
todas, manifestam uma particular complacência recomendam com particular complacência a
com a pequena propriedade, recomendando que pequena propriedade, não visam de nenhum
ela seja fomentada quanto possível. modo a um regime em que só haja
propriedades pequenas.

Comentário

Fomentar quanto possível algo, não é querer que só exista isto.


Quantas coisas devem ser fomentadas o mais possível, segundo as diretrizes da Igreja:
- as vocações sacerdotais, o que não quer dizer que todos os homens devam ser
Sacerdotes;
- as vocações religiosas, o que não quer dizer que todas as pessoas de ambos os sexos
devam entrar para os conventos;
- o ensino universitário sério e cristão, o que não quer dizer que não deva haver escolas
primárias e médias.
Mil outros exemplos deste gênero poderiam ser mencionados.
É nestes termos que a Igreja, desejosa do equilíbrio social e do bem-estar de todas as
classes, recomenda que a pequena propriedade desempenhe na estrutura agrária todo o grande papel
que lhe cabe. Essa recomendação é sempre oportuna porque, se não houver empenho especial em
manter a pequena propriedade, fraca por natureza, facilmente poderá ela desaparecer, em certas
circunstâncias, absorvida pela propriedade media e grande, ou pulverizada pelas sucessões
hereditárias que acarretam impostos pesados e partilha igual entre os filhos.
* * *
Convém lembrar aqui que o zelo da Igreja pela pequena propriedade tem também outra
causa. Sendo, como já se viu212, natural aos homens a condição de proprietário, não pode ela deixar
de desejar que – dentro do possível – o maior número deles efetivamente possua algo.
Assim, todo o empenho da Igreja em fomentar a pequena propriedade não resulta de modo
algum de argumentos que impliquem em hostilidade, nem em simples antipatia, à propriedade
media ou grande.
Se, pois, certos projetos de lei, como por exemplo a revisão agrária proposta pelo
Governador Carvalho Pinto, tivessem apenas o objetivo de difundir a pequena propriedade, sem
combater a grande, seriam dignos de encômio. Pena é que ultrapassem esse objetivo, inspirados
pela tendência de reduzir exageradamente as desigualdades de nossa estrutura rural.

Capítulo III

De fato, a atual estrutura rural brasileira está cumprindo a sua missão?

As proposições impugnadas deste Capítulo III apresentam em sua formulação corrente, e


por assim dizer popular, alguns argumentos em favor da “Reforma Agrária” baseados em
informações errôneas sobre a situação agropecuária brasileira.
Essas informações são amplamente refutadas na Parte II213. Assim, dispensamo-nos de
antecipar aqui tal refutação.

212
Secção I, Título II, Capítulo II.
213
Cfr. Introdução, epígrafe “As teses essenciais desta Parte II”.
88
Os comentários contidos neste capítulo têm um caráter meramente subsidiário da
exposição que naquela Parte vem feita.
Pela natureza mesma do assunto, essas proposições não comportam textos pontifícios.

Proposição 25

Impugnada Afirmada
É possível que, numa situação normal, a Se a “Reforma Agrária” fosse o único
“Reforma Agrária” não fosse justa. meio para preservar da ruína o bem comum,
Estamos, porém, em condições certamente ela se legitimaria com isto. Os
excepcionais, em que, ou se imolam à salvação direitos dos particulares não podem
pública os direitos dos grandes e médios prevalecer contra o direito à vida da
proprietários, redistribuindo as terras, ou o País sociedade ou do Estado.
soçobra. Porém, como ela é, não só
Nestas circunstâncias, como o bem desnecessária, mas altamente nociva aos
comum vale mais do que o bem particular, a interesses nacionais214 , não deve ser
“Reforma Agrária” se torna justa. implantada.
As condições excepcionais em que nos
encontramos podem, em traços gerais, resumir-
se como consta das proposições seguintes.

Proposição 26

Impugnada Afirmada
A atual carestia de víveres é um A atual crise brasileira é um
escândalo. Num País em que tudo favorece a escândalo. Num País em que tudo deveria
vida rural, e onde jamais se pensou que pudesse favorecer a vida rural, circunstâncias de toda
haver miséria, esta se manifesta hoje aos olhos ordem nos conduziram ao presente estado de
de todos. carestia.
Ora, onde há carestia há insuficiência de Entretanto, nossa produção agrícola
produção. Qual o motivo desta? vai num crescendo.
As terras sobram. A causa deste A causa é alheia à lavoura, e não está,
escândalo só pode estar na estrutura agrária pois, no atual regime agrário, nem nos
atual, ou na classe dos agricultores, ou nesta e agricultores.
naquela. Em conseqüência, uma redistribuição
Sem uma fundamental redistribuição de de terras de nada adiantaria, e só poderia
terras, pois, esta situação não se resolverá. trazer caos e desordem.

Comentário

Quanto a toda a matéria tratada na proposição acima, reportamo-nos à Parte II.


* * *

214
Cfr. Parte II.
89
Mais particularmente quanto à legitimidade da desapropriação das terras incultas ou mal
cultivadas, alguns esclarecimentos são indispensáveis:
1. – O conceito de “terra inculta” nem sempre é idêntico ao da “terra inaproveitada”. Em
muitas situações o agricultor ou criador é obrigado a ter uma área em descanso, ou sem
utilização imediata, para um mais inteligente aproveitamento da propriedade. Não é,
pois, qualquer “terra inculta” que pode ser objeto de justa repressão legal.
2. – Não raro, o inaproveitamento ou sub-aproveitamento da terra decorre de
circunstâncias alheias à vontade do proprietário: falta de crédito para compra de
equipamentos agrícolas, política de preços desalentadora para o plantio do produto
mais adequado a certas zonas etc. Neste caso, a justiça manda que, em lugar de
desapropriar a terra, se auxilie o agricultor a utilizá-la.
3. – Só nos casos em que o agricultor não aproveita suas terras por desídia ou inépcia
patente podem elas ser desapropriadas, sempre por justo preço. Ainda assim, será
necessário que a incultura dessas terras seja nociva ao bem comum. Neste caso, deverá
o poder público intimar o proprietário a que proceda ao cultivo, oferecendo-lhe
eventualmente os recursos necessários. Só depois de uma recusa daquele, pode o
Estado proceder à desapropriação mediante justo preço.

* * *

Que há uma crise brasileira, e que esta constitui algo de penoso é notório.
No que diz respeito à inteira ausência de culpa da lavoura por essa crise, veja-se a Parte II.

Proposição 27

Impugnada Afirmada
Acresce que a propriedade tem uma A agricultura tem concorrido de
função social. A agricultura, que é nossa modo muito relevante para o incremento dos
principal fonte de riqueza, deveria render o outros setores da economia nacional. Com
bastante para manter o Estado com largueza. efeito, graças às exportações e ao sistema
Pelo contrário, o Brasil vive pobre e cambial, o Brasil tem realizado um relevante
endividado. Quer dizer que a agricultura não esforço de capitalização pela transferência de
cumpre sua missão. Urge, pois, sujeitá-la a uma rendimentos das atividades rurais para as
reforma de base. atividades urbanas; e ao mesmo tempo se tem
beneficiado de um substancial e constante
volume de receitas de divisas estrangeiras
indispensáveis à aquisição do equipamento
necessário para a industrialização do País e o
aparelhamento de suas atividades básicas em
matéria de energia e transportes.

Comentário

Confira-se a Parte II, especialmente o capítulo IX

90
Proposição 28
Impugnada Afirmada
As condições de vida dos trabalhadores Em um país como o nosso, de terras e
rurais são hoje em dia infra-humanas. O único culturas tão diversas, e em que as condições
meio de as aliviar é distribuir as terras entre eles, concretas da existência do lavrador são tão
de sorte que o produto de seu trabalho fique todo variadas, os meios para melhorar com a
para eles, em lugar de se desviar na maior parte necessária presteza estas últimas devem
para os patrões. também ser diversos.
A “Reforma Agrária” é, pois, justa e Em alguns lugares caberá a formação
necessária. – por processos moralmente lícitos, convém
ressalvar – de pequenas propriedades. Em
outros será aconselhável temperar o salariado
com a parceria. Em outros ainda, será
preferível aumentar simplesmente os salários.
A imposição da partilha das terras
como solução geral é medida anorgânica,
violenta e contraproducente. Ela acarretará
em muitos casos a transferência de bens para
mãos que, sem direção superior, serão
incapazes de cultivá-los e de lhes aproveitar os
frutos.
O desfecho desta carência de direção
será a economia totalmente planificada e
dirigida pelo Estado, diante do qual o
pequeno proprietário inerme ficará
exatamente como na URSS um membro de
kolkhoze.

Comentário

Confira-se a Proposição 22.


Ainda nas zonas em que sem a partilha não for possível aliviar a situação do homem do
campo, ela não será “o único meio”, como pretende a proposição impugnada.
Com efeito, mesmo que partilhássemos as terras, as condições de existência sub-humanas
de certos trabalhadores braçais não variariam. Há no Brasil muitos pequenos proprietários que
levam em sua gleba uma vida infra-humana, não tanto por pobreza quanto por doença, por
indolência e inapetência.
Os problemas econômicos não são, via de regra, meramente econômicos. Eles só se
resolvem inteiramente com o concurso de uma boa formação moral.
* * *
Ademais, se a capacidade de produção das terras é suficiente para manter os trabalhadores,
não se vê por que uma melhora nas condições de salário e de parceria não bastaria para aliviá-los.
Este seria, em todo caso, um remédio mais fácil, mais rápido, e sem os riscos patentes dessa imensa
aventura que é a “Reforma Agrária”. E se a capacidade de produção das terras não é suficiente, para
que dividi-las, quando temos nosso “hinterland”, e a estrada Belém-Brasília parece clamar por
quem habite suas margens incultas?
* * *
Estariam, aliás, todos os nossos trabalhadores agrícolas aparelhados para receberem essas
terras e aproveitarem-nas desde logo convenientemente? Não se trata apenas aqui de aptidão
pessoal, mas de apetrechamento técnico etc.
* * *

91
A propósito do aproveitamento das terras ainda incultas, marginais da estrada Belém-
Brasília e de outras vias de comunicação existentes ou a serem abertas, há um princípio básico, que
importa notar. Dado que a condição natural do homem é ser proprietário, não basta que o poder
público, sistematicamente, arrende as terras devolutas. O arrendamento é, de si, uma situação
legítima mas instável: compreende-se que ele exista, não porém que se generalize a ponto de
substituir a propriedade e, pois, a estabilidade que a natureza humana pede. Talvez fosse o caso de
estudar, a propósito deste problema, uma judiciosa atualização da enfiteuse. Fazemos esta
observação com vistas à experiência de arrendamento de terras que se vem realizando no novo
Distrito Federal, e que será analisada na Parte II, Capítulo II.

Proposição 29

Impugnada Afirmada
É possível que, na execução de tão vasta A divisão das terras não remediaria
reforma, sofram acidentalmente os proprietários convenientemente a situação lamentável e
alguns abusos. Mas estes são menos de temer do sub-humana em que vivem muitos
215
que a permanência do grande abuso consistente trabalhadores rurais .
em que uns passem fome e outros vivam na Daria, além disto, lugar a um grande
abundância, quando não em luxo insolente. abuso contra os médios e grandes
proprietários, privados de seus bens sem
vantagem alguma para o País: antes com
grave dano para este216.
De outro lado, ela atribuiria esses
bens a proprietários novos que, em muitos
caos, se mostrariam incapazes de fazer um
uso acertado deles217.
Por fim, essa partilha deixaria
intactas as terras devolutas; ou só as cederia a
título de arrendamento, o que seria, nas
condições atuais, outro abuso.
Em suma, a “Reforma Agrária” é o
abuso dos abusos.

Comentário

Evidentemente, toda grande reforma acarreta abusos acidentais inevitáveis. Quando ela é
necessária e justa, o receio desses abusos só pode deter os egoístas e os pusilânimes.
Não é, porém, neste terreno que se situa a questão. A “Reforma Agrária” é em si mesma
um abuso muito maior do que o que ela visa remediar.

215
Cfr. Proposição 22.
216
Cfr. Proposição 20.
217
Cfr. Proposição 23.
92
Proposição 30

Impugnada Afirmada
Afirma-se que a “Reforma Agrária” Se hoje se admite que ao poder
levará à socialização total. Cumpre não exagerar. público compete decretar arbitrariamente a
A aplicação dos princípios socialistas à abolição da propriedade rural média e
agricultura não importa em que eles sejam grande, é lógico que amanhã ele se sinta no
estendidos à indústria, ao comércio ou aos direito de abolir todas as outras formas de
imóveis urbanos. propriedade, no campo como nas cidades,
Um país pode, perfeitamente, estar quer seja imobiliária, industrial ou comercial.
coletivizado no campo e ter a iniciativa privada Uma coisa convida, aliás, à outra,
florescente nas cidades. pois o regime exclusivo de pequenas
propriedades sujeita virtualmente todas ao
Estado218 . Munido ele desse poderio político e
econômico imenso, ficarão automaticamente à
sua mercê os patrimônios urbanos industriais,
comerciais e imobiliários.

Comentário

O assunto desta proposição não é tratado na Parte II. Inserimo-la aqui pela afinidade que
tem com as anteriores. Uma observação a respeito dela basta.
Talvez haja comerciantes e industriais desavisados que pleiteiem a “Reforma Agrária”,
sem perceber que abrem mão do princípio da propriedade privada, base de sua prosperidade.
Se não o amor à justiça, pelo menos o instinto de defesa de seus próprios interesses deveria
levá-los a maior circunspecção.

Capítulo IV

Deve a opinião católica pronunciar-se sobre a “Reforma Agrária”

O pronunciamento de um ou mais Bispos nunca envolve a Igreja toda, nem sequer todo o
Episcopado de um país. Cada Bispo fala por si. E depende só e diretamente do Papa, Vigário de
Jesus Cristo.
Assim, embora dois dos autores deste trabalho estejam revestidos do caráter episcopal, ele
não envolve outra responsabilidade que não a dos que o escreveram.
Não obstante, é compreensível que algum leitor pergunte se, sendo religiosa a esfera da
Igreja, é legítimo que Bispos ou católicos leigos tomem a doutrina católica como critério para
analisar a “Reforma Agrária”, que é em si matéria econômica e social.
Ademais, também é compreensível que eclesiásticos ou fiéis, lendo este trabalho, se
perguntem se do ponto de vista da Igreja é ele oportuno nas atuais circunstâncias.
É para atender às perguntas de uns e outros que escrevemos este capítulo.

218
Cfr. Proposição 10.
93
Proposição 31

Impugnada Afirmada
A “Reforma Agrária” é assunto A Igreja Católica é a depositária, a
econômico e social. Ela não interfere com a mestra e a defensora da lei de Deus. Cabe-lhe,
Religião. pois, ensinar quais os atos humanos
A Igreja nada tem a dizer, pois, a conformes ao Decálogo, e quais os que lhe são
respeito. contrários.
Há um mandamento que diz: “Não
roubarás”. Compete à Igreja declarar se a
“Reforma Agrária” é, ou não, contrária a esse
mandamento.

Comentário

Admite-se comumente que nossa civilização é cristã. Considera-se mesmo que seu mais
belo florão é o título de cristã.
Ora, que é uma civilização cristã senão aquela em que todas as esferas da vida pública e
privada, os costumes, as instituições, a cultura, a arte, a economia, a política e as leis recebem o
influxo do Evangelho? Nestas condições, não é possível afirmar que a Igreja não tem influência
moral alguma a exercer sobre a economia brasileira.
Nos tempos já remotos em que o laicismo positivista imperava no Brasil, havia a tendência
a isolar a Religião da vida. Hoje essa tendência já desapareceu quase por completo.
* * *
Muitos há que supõem que a questão social tem por única ou principal causa a pobreza do
operariado. De tal sorte que, se se resolvessem os problemas materiais deste, as relações entre as
classes voltariam rapidamente à normalidade, sem qualquer interferência da Igreja.
Esta tese, professada por não poucos proprietários, tem um ressaibo de materialismo e, pela
preponderância que concede à economia, não pode deixar de ser vista com simpatia por socialistas e
comunistas. A doutrina católica lhe é frontalmente contrária.
* * *
Considerada em suas últimas conseqüências, a proposição impugnada nega à Igreja
qualquer ação na vida dos povos e das civilizações.

Textos Pontifícios

Pio IX condenou a proposição impugnada


Proposição condenada: “A Igreja nada deve ordenar que restrinja as consciências dos fiéis, com respeito ao
219
uso das coisas temporais” .

A questão social é principalmente moral e religiosa


“Alguns professam a opinião, assaz vulgarizada, de que a “questão social” como se diz, é somente
“econômica”; ao contrário, porém, a verdade é que ela é principalmente moral e religiosa, e, por este mesmo motivo,
deve ser sobretudo resolvida em conformidade com as leis da moral e da religião 220.

219
Pio IX, Encíclica “Quanta Cura”, de 8 de dezembro de 1864 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 8.
220
Leão XIII, Encíclica “Graves de Communi”, de 18 de janeiro de 1901 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 10.
94
A questão social é, no seu sentido mais profundo, uma questão religiosa
“A questão social, diletos filhos, é sem dúvida também uma questão econômica, mas é muito mais uma
questão que diz respeito à regulação ordenada do consórcio humano, e, no seu mais profundo sentido, uma questão
221
moral e portanto religiosa” .
A “Reforma Agrária” sendo por vários títulos um dos aspectos da questão social, aplica-se-lhe
adequadamente este ensinamento.

A “Reforma Agrária” enquanto questão moral está na alçada da Igreja


São Pio X afirmou que a Religião é a “regra suprema e soberana senhora quando se trata dos direitos do
homem e dos seus deveres” 222.

Sem a Igreja os problemas sociais não têm solução


A Igreja é “a única que pode trazer verdadeira luz tanto no campo social, como em qualquer outro campo”223.
A questão social “é de tal natureza que, a não se apelar para a Religião e para a Igreja, é impossível
encontrar-se-lhe uma solução eficaz”224.

A solução dos problemas materiais do operariado não basta para resolver a questão social
“Admita-se, ... que seja concedido um duplo salário àqueles que alugam o seu trabalho; admita-se que a
duração desse trabalho seja reduzida; admita-se mesmo que o preço dos alimentos seja favorável: entretanto, se o
operário escutar essas doutrinas que ouve expor de ordinário, se seguir esses exemplos que o convidam a libertar-se de
todo o respeito para com a Vontade Divina e adotar costumes depravados, necessariamente sucederá que se esgotem os
seus bens e o fruto dos seus labores. A dura experiência mostra quanto é angustiosa e miserável a vida da maior parte
dos operários que, apesar de receberem salário bastante elevado em troca de poucas horas de trabalho, se entregam à
corrupção dos costumes, desligando-se por completo da disciplina da Religião”225.
“Por toda parte, faz-se hoje apelo aos valores morais e espirituais; e com razão, porque o mal que há de ser
combatido é, antes de tudo, considerado, em sua primeira fonte, mal de natureza espiritual, e dessa fonte é que nascem,
por lógica diabólica, todas as monstruosidades do comunismo. Ora, entre os valores morais e religiosos tem
incontestavelmente preeminência a Igreja Católica. Logo, exige o próprio bem da humanidade que se não ponham
obstáculos à sua atuação.
Se de outra forma se proceder, e, ao mesmo tempo, se pretenda alcançar essa finalidade com meios
puramente econômicos e políticos, cai-se na trama de perigoso erro. E, quando se exclui a Religião da escola, da
educação, da vida pública, e se põem em ridículo os representantes do Cristianismo e seus ritos sagrados, porventura
não se fomenta o materialismo de onde tira a sua origem o comunismo? Nem a força, ainda a mais bem organizada,
nem os ideais da terra, sejam embora os maiores e os mais nobres, podem dominar um movimento que tem por base
226
precisamente a demasiada estima dos bens terrenos” .

A insubstituível eficácia da Igreja na luta contra o socialismo


“... para afastar esta peste do socialismo, a Igreja possui uma força como nunca tiveram nem as leis humanas,
nem as repressões dos magistrados, nem as armas dos soldados” 227.
Pio XI afirmou que é “a fé cristã que assegura as bases do direito e da justiça social”, e que é “o espírito de
fraternidade e caridade inculcado pelo Evangelho, o único que pode garantir uma sincera colaboração entre as
228
classes” .

221 º
Pio XII, Discurso de 12 de setembro de 1948, por ocasião do 80 aniversário da Juventude Italiana da
Ação Católica – “Discorsi e Radiomessaggi”, Vol. X, pág. 210.
222
São Pio X, Encíclica “Vehementer Nos”, de 11 de fevereiro de 1906 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 6.
223
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
21.
224
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
12.
225
Leão XIII, Encíclica “Graves de Communi”, de 18 de janeiro de 1901 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 10.
226
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
págs. 38-39.
227
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 14.
228
Pio XI, Encíclica “Com Singolare Compiacenza”, de 18 de janeiro de 1939 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 15.
95
“Não haveria socialismo nem comunismo, se os que governaram os povos não houvessem desprezado os
229
ensinamentos e maternais conselhos da Igreja” .

A Igreja deve promover a civilização cristã


São Pio X afirmou que a Igreja deve “restaurar em Cristo não só o que concerne propriamente à missão
divina da Igreja, qual é a de guiar as almas a Deus, mas também o que deflui desta missão divina, que é, como foi dito,
230
a civilização cristã” .

A Igreja, Mestra e fundamento da vida das nações e dos povos


“A obra imortal do Deus de Misericórdia, a Igreja, se bem que em si e por sua natureza tenha por fim a
salvação das almas e a felicidade eterna, é entretanto, na própria esfera das coisas humanas, a fonte de tantas e tais
vantagens, que as não poderia proporcionar mais numerosas e maiores mesmo quando tivesse sido fundada sobretudo e
diretamente em mira a assegurar a felicidade desta vida. Com efeito, onde quer que a Igreja tenha penetrado,
imediatamente tem mudado a face das coisas e impregnado os costumes públicos não somente de virtudes até então
desconhecidas, mas ainda de uma civilização toda nova. Todos os povos que a têm acolhido se distinguiram pela
231
doçura, pela equidade e pela glória dos empreendimentos” .
“A Religião Cristã soube velar e prover tão completamente a tudo que é útil aos homens que vivem em
sociedade, que parece, na frase de Santo Agostinho, nada mais ter podido fazer para tornar a vida agradável e feliz,
ainda que não tivesse tido outro intuito que o de proporcionar e aumentar as vantagens e os bens desta vida mortal”232

Proposição 32

Impugnada Afirmada
Cumpre à Igreja apoiar a “Reforma A Igreja não pode calar-se ante a
Agrária”, sob pena de se expor aos maiores injustiça e menos ainda fazer-se paladina
riscos. Com efeito, se as classes dirigentes não desta, quaisquer que sejam as conseqüências
tomarem a iniciativa pacífica dessas daí decorrentes.
transformações, as classes oprimidas as levarão a Ela pode e deve agir contra os abusos
cabo pela revolução. E será mil vezes pior. da estrutura agrária atual, sem contudo
De outra parte, se a Igreja não levantar condenar suas linhas-mestras, que são boas.
essa bandeira, parecerá solidária com os abusos Às classes dirigentes compete orientar
do regime agrário atual e atrairá contra si o furor o País e não ceder frente aos demagogos.
da massas. Com isso, haverá apostasias, Os trabalhadores rurais brasileiros
perseguições e calamidades sem conta. não são, aliás, chacais sedentos de sangue, dos
À Igreja compete, em vez de enfrentar quais é necessário recear tudo.
as situações, adaptar-se a elas para as influenciar.

Comentário

Algumas considerações de menor relevo sobre a proposição impugnada.


A Igreja não é “classe dirigente” porque ela não é classe. Por sua natureza e sua missão,
abrange em si todas as classes.
O Clero, sim, pode ser chamado uma classe. Mas sua posição é, enquanto tal, muito
peculiar. Pois se o Clero, como as outras classes, forma um meio bem definido, e pela dignidade de
sua missão se situa nas esferas dirigentes, deve entretanto conviver intimamente com todas as

229
Pio XI, Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 de março de 1937 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
págs. 20-21.
230
São Pio X, Encíclica “Il Fermo Proposito”, de 11 de junho de 1905 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 7.
231 º
Leão XIII, Encíclica “Immortale Dei”, de 1 de novembro de 1885 – “Editora Vozes Ltda”., Petrópolis,
pág. 3.
232
Leão XIII, Encíclica “Arcanum Divinae Sapientiae”, de 10 de fevereiro de 1880 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 4.
96
classes. À mesa do grande como do pequeno, é natural que ele se sente, ocupando sempre o mesmo
lugar: de ministro e representante de Jesus Cristo.
Isso lhe facilita a sublime missão de pregar e promover a paz entre as diversas camadas
sociais. Aquela paz que Santo Agostinho definiu muito bem como sendo, não uma tranqüilidade
qualquer, mas a tranqüilidade da ordem233 .
* * *
Essa missão, o Clero deve desempenhá-la, não para evitar o “furor das massas”, mas para
seguir a Jesus Cristo, Príncipe da Paz. E isto ainda que no cumprimento dela seja necessário
enfrentar a sanha feroz da demagogia.
Haverá quiçá em tal caso “apostasias, perseguições e calamidades”. Esta perspectiva não
amedronta o bom Sacerdote, ciente de que em meio a elas a Igreja nasceu e como uma árvore
frondosa cobriu toda a terra.

Textos Pontifícios

Erro condenado por São Pio X: a Igreja deve adaptar-se à vida civil para a influenciar
Proposição modernista: “Deve mudar-se a atitude da autoridade eclesiástica nas questões políticas e sociais,
de tal sorte que não se intrometa nas disposições civis, mas procure amoldar-se a elas, para penetrá-las do seu
234
espírito” .

Proposição 33

Impugnada Afirmada
O papel da Igreja é ser a favor dos A Igreja não é contra os capitalistas,
pobres contra os capitalistas. Ela deve, pois, nem contra o capitalismo em si. Ela é tão
apoiar a atual campanha pela “Reforma somente contra os abusos deste e contra os
Agrária”. maus capitalistas.
Já ficou demonstrado que a
“Reforma Agrária”, além de injusta, é nociva
ao País todo, aos pobres como aos ricos. O
amor aos pobres não leva, pois, a abraçar tal
“Reforma”.

Comentário

A palavra “pobreza” pede um esclarecimento. Cumpre distinguir entre os que são


absolutamente pobres, isto é, os que, empregados ou desempregados, vivem em condição sub-
humana; e os relativamente pobres, isto é, os que vivem em condições suficientes e dignas, mas
constituem a parte menos abastada da população.
A pobreza dos primeiros constitui uma situação da qual a Igreja se condói maternalmente,
e que ela faz o possível para eliminar ou, pelo menos, mitigar. Pode-se dizer que o êxito nesta tarefa
é até uma glória especificamente sua, pois não pode ser alcançado sem o concurso inapreciável da
caridade cristã. Aos pobres deste gênero a Igreja ama como um tesouro que lhe foi particularmente
confiado por Jesus Cristo, ama-os como a mãe extremosa ama o filho doente, junto ao qual
representa a título especial a Providência de Deus.
A Igreja, pois, é a favor dos pobres. É isto para ela um ponto de honra.

233
Cfr. XIX “De Civ. Dei”, c. 13.
234
São Pio X, Encíclica “Pascendi Dominici Gregis”, de 8 de setembro de 1907 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 42.
97
Mas uma coisa é ser pura e simplesmente a favor dos pobres, outra é ser a favor deles
contra os ricos, os poderosos ou os nobres. Se é disto que se trata, cumpre distinguir: contra os maus
ricos, que oprimem os pobres, contra os governos que os acabrunham com impostos e confiscam
toda a propriedade particular em favor do Estado, sim. Para estes valem as palavras de Jesus Cristo:
“Mais fácil é um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos
Céus” 235, e as do Livro da Sabedoria: “Os poderosos serão poderosamente atormentados”236. Mas
contrária aos nobres, aos ricos ou aos potentados bons, que cumprem retamente sua alta missão, a
Igreja não é. Antes, ela os apoia maternalmente e os cerca do prestígio e da consideração que fazem
jus.
Uma comparação esclarecerá o assunto. Assim como a Igreja é pelos pobres, é também
pelos órfãos e pelas viúvas, pelos anciãos e pelos doentes. Quer isto dizer que ela é contra quem não
for viúva nem órfão, quem for moço ou sadio? Evidentemente não. Só será contra quem perseguir
os órfãos e viúvas, quem oprimir os velhos ou os doentes.
Do mesmo modo, ela não é contra os que não são pobres, mas contra os que perseguem os
pobres ou lhes negam o que de direito lhes pertence.
Em suma, como foi dito 237, a Igreja é a favor de uma sociedade com classes
harmonicamente hierarquizadas e ligadas umas às outras pelo amor de Jesus Cristo.
Seu desvelo materno se estende também aos relativamente pobres, mas a título algum tanto
diverso. Ama-os como filhos, e especialmente como filhos pequeninos, que entretanto precisam
menos de seu apoio.
* * *
Mas, assim como é justo que a mãe ame os filhos doentes e pequenos, porque tais, justo é
que ame os filhos robustos e bem sucedidos, regozijando-se e dando graças a Deus pelo êxito
destes. Em conseqüência, a Igreja se rejubila maternalmente com a prosperidade dos seus filhos da
classe média e alta, e os convida a retribuírem este amor por uma atitude justa e generosa em
relação aos necessitados.

Textos da Sagrada Escritura

Sobre o dever que incumbe à Igreja, de falar contra o abuso do poder ou da fortuna,
importa citar aqui mais alguns textos da Sagrada Escritura:

O Evangelho contra os maus ricos


“Ai de vós que sois ricos, porque tendes a vossa consolação. Ai de vós que estais fartos, porque vireis a ter
fome”238.

Contra as pessoas apegadas aos bens da terra


“Eia, ricos, chorai agora, gemei desesperadamente, por causa das misérias que sobre vós advirão. Vossas
riquezas apodreceram e vossos vestidos foram destruídos pela traça. Enferrujou-se o ouro e a prata de vossa
propriedade; sua ferrugem servirá de testemunha contra vós, e como fogo devorará as vossas carnes. Acumulastes
239
contra vós tesouros de ira, para os últimos dias...” .

O livro da Sabedoria condena os que abusam do poder


“Prestai atenção, vós que dirigis as multidões e que vos comprazeis do número das nações, porque o poder
vos foi dado por Deus e a força pelo Altíssimo que examinará as vossas obras e perscrutará os vossos pensamentos...
Porque o julgamento dos que governam será muito severo.... Deus, efetivamente, não excetuará pessoa alguma, nem
terá atenção com as grandezas de ninguém, pois Ele criou o pequeno e o grande e tem, igual cuidado por todos; mas os
240
poderosos serão poderosamente atormentados” .

235
Mt. 19, 24.
236
Sab. 6, 7.
237
Cfr. Proposição 2.
238
Luc. 6, 24-25.
239
Tgo. 5, 1-3.
240
Sab. 6, 2 ss.
98
Textos Pontifícios

A Igreja não quer a luta mas a concórdia entre as classes


“... o Nosso Predecessor de feliz memória na sua Encíclica se referia principalmente àquele sistema em que
ordinariamente uns contribuem com o capital e outros com o trabalho para o comum exercício da economia, qual ele
próprio a definiu na frase lapidar: “Nada vale o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital” (Enc. Rerum
Novarum, § 28).
Foi esta espécie de economia que Leão XIII procurou com todas as veras regular segundo as normas da
justiça; de onde se segue que de per si não é condenável. E realmente, de sua natureza, não é viciosa: só viola a reta
ordem, quando o capital escraviza os operários ou a classe proletária para que os negócios e todo o regime econômico
estejam nas suas mãos e revertam em vantagem própria, sem se importar com a dignidade humana dos operários, com a
241
função social da economia e com a própria justiça social e o bem comum” .

A Igreja censura os que acendem a luta dos pobres contra os ricos


“Trabalhariam pessimamente pelo bem do operário – convençam-se disto – os que, ostentando a pretensão de
melhorar-lhe as condições de existência, não lhe dessem a mão senão para a conquista dos bens frágeis e perecíveis
desta terra, negligenciassem esclarece-lo sobre seus deveres à luz dos princípios da doutrina cristã, e chegassem mesmo
ao ponto de excitar sempre mais sua animosidade contra os ricos, entregando-se a essas declamações amargas e
violentas por meio das quais nossos adversários impelem as massas para a subversão da sociedade.
Para afastar perigo tão grave, será necessária, Venerável Irmão, vossa inteira vigilância. Prodigalizando
vossos conselhos – como já o tendes feito – aos que visam diretamente melhorar a condição do operário, vós lhes
pedireis que evitem as intemperanças de linguagem que caracterizam os socialistas, e penetrem profundamente de
espírito cristão toda a sua ação, quer tenda a realizar, quer a propagar tão nobre programa. Se este espírito cristão faltar,
sem falar no mal incalculável que esta ação acarretaria, certamente dela não resultaria benefício algum. Seja-Nos lícito
esperar que todos sejam dóceis às vossas instruções; se alguém se mostrar obstinado, removei-o sem hesitação do cargo
que lhe estiver confiado” 242.

A Igreja não é contrária ao capitalismo em si


“Todo espírito reto deve reconhecer que o regime econômico do capitalismo industrial contribuiu para tornar
possível, e até estimular o progresso do rendimento agrícola; que ele permitiu, em inúmeras regiões do mundo, elevar a
um nível superior a vida física e espiritual da população do campo. Não é, pois, o regime em si mesmo que se deve
acusar, mas o perigo que ele faria correr caso sua influência viesse alterar o caráter específico da vida rural,
assimilando-a à vida dos centros urbanos e industriais, fazendo do “campo”, tal como é entendido aqui, uma simples
extensão ou anexo da “cidade”.
Essa prática, e a teoria que a apoia, é falsa e nociva”243.

A Igreja não é contra os ricos: é licito enriquecer-se


“Nem é vedado aos que se empregam na produção, aumentar justa e devidamente a sua fortuna; antes, a
Igreja ensina que é justo que quem serve a sociedade e lhe aumenta os bens, se enriqueça também desses mesmos bens
conforme a sua condição, contanto que o faça com o respeito devido à lei de Deus e salvos os direitos do próximo, e os
244
bens se empreguem segundo os princípios da fé e da reta razão” .

A Igreja não é contra os poderosos, mas contra os que abusam do poder


“Se os chefes de Estado se deixarem arrastar a uma dominação injusta, se pecarem por abuso de poder ou por
orgulho, se não proverem ao bem do povo, saibam que um dia terão de dar contas a Deus, e essas contas serão tanto

241
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs.
37-38.
242
Bento XV, Carta “Soliti Nos”, de 11 de março de 1920, a Mons. Marelli, Bispo de Bergamo, “Bonne
Presse”, Paris, Tomo II, págs. 127-128.
243 º
Pio XII, Discurso de 2 de julho de 1951, ao 1 Congresso Internacional sobre os Problemas da Vida Rural
– “Discorsi e Radiomessaggi”, Vol. XIII, págs. 199-200.
244
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
51.
99
mais severas quanto mais santa for a função que eles exercem e mais elevado o grau de dignidade de que estiverem
245
investidos” .

Proposição 34

Impugnada Afirmada
Embora haja alguma injustiça na Se a Igreja exige condições de
“Reforma Agrária”, a Igreja não é procuradora existência dignas e suficientes para os pobres,
dos capitalistas e latifundiários. e afirma o direito de os ricos serem ricos, não
Haveria para ela inconveniente em o o faz por cálculos oportunistas, nem por
ser, pois se tornaria odiosa às classes menos preferência por uma classe qualquer.
favorecidas e perderia assim muitas almas. Ela lembra um princípio ensinado
por Jesus Cristo, a cuja observância se devem
conformar igualmente indivíduos, famílias,
grupos sociais e o próprio Estado.
E, se ela não deve lutar por uma
classe, deve fazê-lo por qualquer dos
princípios cuja salvaguarda seu Divino
Fundador lhe entregou.

Comentário

A idéia de que a Igreja possa entrar em luta parece incompatível com a missão de paz que
Jesus Cristo lhe confiou. Contudo, não é assim. O verdadeiro responsável por uma guerra, disse
Montesquieu, não é quem a declara, senão quem a torna necessária 246.
Jesus Cristo é o Príncipe da Paz. Mas se alguém toma a iniciativa de perturbar a paz, sofre
a repulsa d’Ele, porque ninguém invade o Reino sem que, imediatamente, o Rei lhe mova guerra.
E foi por isto que Jesus Cristo, sem deixar de ser o Príncipe da Paz, declarou guerra ao erro
e ao mal, dizendo: “Não vim trazer a paz, mas o gládio”247.
Já dissemos 248 que Santo Agostinho definiu a verdadeira paz: “tranqüilidade da ordem”249.
A paz da consciência, por exemplo, é a tranqüilidade de uma consciência em ordem. Desta paz,
Nosso Senhor é o Príncipe.
Mas há uma tranqüilidade resultante da desordem, da coabitação indolente e cínica do bem
com o mal. É uma falsa paz, a paz dos pântanos. E desta Jesus Cristo é o inimigo invencível e
glorioso, cognominado Leão de Judá pela Escritura 250.
Exatamente o mesmo se deve dizer da Igreja, Corpo Místico de Cristo.
* * *
Ademais, se a Igreja tem por missão pregar a concórdia entre as classes, cabe-lhe ensinar a
cada uma seus deveres, e não silenciar sobre os de uma delas a fim de conquistá-la para si,
desinteressando-se da outra.
Tal procedimento desleal deixaria aberto o campo para a demagogia socialista, da qual as
forças católicas passariam a ser caudatárias, e não atrairia para a Igreja os pequenos, que essa
manobra visaria conquistar.

245
Leão XIII, Encíclica “Immortale Dei”, de 1 º de novembro de 1885 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 6.
246
Montesquieu, “L’esprit des Lois”, liv. 10, Cap. 2 – “Editions Garnier”, 1922, tomo I, pags. 133-134.
247
Mt. 10, 34.
248
Cfr. Comentário à Proposição 32.
249
XIX de Civ. Dei, c. 13.
250
Apoc. 5, 5.
100
Textos Pontifícios

Os deveres não são só para os grandes


251
“... pregai ousadamente os deveres aos grandes e aos pequenos” .

A Igreja prega a ricos e pobres seus deveres respectivos


A Igreja “... impõe como rigoroso dever aos ricos dar o supérfluo aos pobres e ameaça-os com o juízo de
Deus que os condenará aos suplícios eternos, se não acudirem às necessidades dos indigentes. Enfim, alenta e consola o
coração dos pobres, quer apresentando-lhes o exemplo de Jesus Cristo que, “sendo rico, quis fazer-Se pobre por nós”(2
Cor. 8, 9), quer lembrando-lhes as suas palavras, pelas quais declara felizes os pobres e ordena-lhes que esperem as
recompensas da felicidade eterna.
Quem não verá, na verdade, que é este o melhor meio de apaziguar a antiga questão entre os pobres e os
ricos? Porque, a própria evidência das coisas e dos fatos bem o demonstra, desprezado ou rejeitado este meio, terá de
acontecer necessariamente uma de duas coisas: ou a maior parte do gênero humano será reduzida à ignominiosa
condição de escravos, como o foi por muito tempo entre os pagãos, ou a sociedade será agitada por perturbações
252
contínuas e desolada pelos roubos e assassínios, como muito recentemente ainda tivemos o desgosto de ver” .

A Igreja deve e só ela pode promover a paz social


Só a Igreja pode “operar a reaproximação de todas as classes de cidadãos e unir os povos todos pelos mesmos
sentimentos de uma profunda benevolência” 253.

Progride-se lutando, e não calando


“... esta covardia dos cristãos merece ainda maior censura, porque desfazer acusações caluniosas e refutar
opiniões falsas, com pouco trabalho se conseguiria o mais das vezes e, com algum trabalho mais, conseguir-se-ia
sempre. Em último caso, não há ninguém, absolutamente ninguém, que não possa fazer uso e mostra da fortaleza que
tão própria é de cristãos e que só com assomar basta, não raras vezes, para derrotar os inimigos com todos os seus
intentos. Acresce que os cristãos nasceram para o combate, e quanto mais bravo ele for, mais certa será com o auxílio
254
de Deus a vitória: “Tende confiança, Eu venci o mundo”(Jo. 16, 33)” .

Contra o socialismo, resistência forte


“Parecem, ... ignorar ou não ter na devida conta os gravíssimos e funestos perigos deste socialismo os que
não tratam de lhe resistir forte e energicamente, como pede a gravidade das circunstâncias” 255.

Não venceremos nosso adversário atrelando-nos a ele


“Chamamos fé firme a uma fé absoluta, sem reservas nem reticências, a uma fé que não hesita diante das
últimas conseqüências da verdade, que não recua diante de suas mais rigorosas aplicações. Não vos deixeis enganar,
como tantos outros, depois de mil experiências desastrosas, pela ilusão de conquistar o adversário à força de
256
caminhardes atrelados a ele e de vos modelardes por ele” .

Não é por silêncios astutos que se ganham os socialistas


“Quem quer ser apóstolo entre os socialistas, é preciso que professe franca e lealmente toda a verdade cristã,
e que de nenhum modo feche os olhos ao erro”257.

Não é aliando-se aos maus que se os conquista

251
S. Pio X, Carta Apostólica “Notre Charge Apostolique”, de 25 de agosto de 1910 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 26.
252
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 13.
253
Pio XI, Encíclica “Ubi Arcano”, de 23 de dezembro de 1922 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 18.
254
Leão XIII, Encíclica “Sapientiae Christianae”, de 10 de janeiro de 1890 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, págs. 11-12.
255
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
45.
256
Pio XII, Discurso de 12 de setembro de 1947, à União Internacional das Ligas Femininas Católicas,
“Discorsi e Radiomessaggi”, Vol. IX, pág. 228.
257
Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno”, de 15 de maio de 1931 – “Editora Vozes Ltda.”, págs. 42-43.
101
“Desgraçadamente, nem todos os trabalhadores católicos estão convencidos desta força divina que têm a seu
favor, e por sua tibieza e timidez não se aplicam à salvação de tantos de seus irmãos. Infelizmente, junto a alguns, é
mantido um doloroso equívoco, como escrevíamos a Nossos filhos de Veneza, em agosto de 1956: “e o perigo está em
que penetre nos espíritos o axioma capcioso segundo o qual, para realizar a justiça social, para socorrer os infelizes e
todas as categorias e para impor respeito das leis fiscais, é necessário de modo absoluto associar-se aos negadores de
Deus e opressores das liberdades humanas e até submeter-se ao seu capricho. O que é falso nas premissas e
tristemente funesto nas aplicações”(Advertências e exortações ao Clero e ao laicato de Veneza)”258.

Proposição 35

Impugnada Afirmada
Não valia a pena levantar essa celeuma. É falso que a Igreja se tenha
A Igreja sempre se conservou à margem das conservado sempre à margem de lutas e
lutas e dos tumultos, o que lhe tem dado bons tumultos. Se assim tivesse procedido, teria
resultados. traído sua missão de Igreja militante.
Ela compreende, com efeito, que, em Jesus Cristo não fugiu aos tumultos e
vez de irritar a opinião pública e combate-la, é à luta, mas os enfrentou a ponto de ser
melhor fechar os olhos a seus erros e docemente crucificado. É o exemplo que a Igreja segue.
dirigi-la. É falso que cumpra não irritar jamais
a opinião pública. No interesse do próprio
povo, é preciso enfrentá-la por vezes.
É, aliás, também falso imaginar que a
opinião pública nacional está toda a favor da
“Reforma Agrária”.

Comentário

O exemplo de Jesus Cristo não é consoante com a proposição impugnada. Pelo contrário.
Ele disse ao povo judaico tudo quanto devia. Notando que seus ouvintes se irritavam, não Se calou.
“Docemente dirigir”... eufemismo que neste caso significa “viver comodamente, sem
amolações”.
Não. O Evangelho não é escola de covardia 259 .

Textos Pontifícios

A Igreja, no cumprimento de sua missão, suscitará sempre ódios


“Quanto mais a Igreja emprega o seu zelo no bem moral e material dos povos, tanto é maior o ódio que lhe
votam esses filhos das trevas que por todos os meios tentam ofuscar-lhe a divina beleza, e entravar-lhe a obra vital e
260
redentora. De quantos sofismas lançam mão, de quantas calúnias!” .

A combatividade, um dever da Igreja Militante


“... negar-se a combater por Jesus Cristo é combater contra Ele, e o mesmo Senhor protesta que renegará nos
Céus perante seu Pai dos que não o tiverem confessado perante os homens na terra (Lc. 9, 26)”261.

Leão XIII censura os que não querem combater por Jesus Cristo

258
João XXIII, Discurso de 1 º de maio de 1959, às Associações Cristãs de trabalhadores Italianos – AAS.,
Vol. LI, n. 7, pág. 358.
259
Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, “Em Defesa da Ação Católica”, Editora “Ave Maria”, S. Paulo, 1943, págs.
283 ss.
260
Leão XIII, Encíclica “Parvenu”, de 19 de março de 1902 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 18.
261
Leão XIII, Encíclica “Sapientiae Christianae”, de 10 de janeiro de 1890 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 30.
102
“Há efetivamente quem pense que não convém resistir de frente à iniquidade quando poderosa e dominante,
com medo, dizem, de que a oposição assanhe ainda mais os inimigos. Os homens que assim falam, não se sabe se são a
favor da Igreja ou contra ela. Por um lado afirmam que professam a doutrina católica; mas ao mesmo tempo quereriam
que a Igreja deixasse livre curso a certas teorias que dela discordam. Lamentam o decaimento da fé e a corrupção dos
costumes, mas não tratam de aplicar-lhe remédio, se é que com sua excessiva indulgência, ou com perniciosa
262
dissimulação, não agravam muitas vezes o mal” .

Recuar ou calar-se diante do inimigo: covardia


“Recuar diante do inimigo, ou calar-se, quando de toda parte se ergue tanto alarido contra a verdade, é
263
próprio de homem covarde ou de quem vacila no fundamento de sua crença” .

Recuar ou calar-se ante os maus: estímulo ao mal


264
“... nada tanto afoita a audácia dos maus, como a pusilanimidade dos bons” .
“... os que seguem a prudência da carne e fingem ignorar que todo cristão deve ser um bom soldado de
Cristo, os que pretendem prêmios de vencedores com uma vida mole e sem combate, esses tais não só não atalham o
passo aos maus, mas antes vão-lhes aplanando o caminho” 265.

Pio XI adverte contra a indolência e a timidez dos bons


“... a indolência e a timidez dos bons que se abstém de toda resistência, ou resistem com moleza, donde
266
provém, nos adversários da Igreja, novo acréscimo de pretensões e de audácia” .

A combatividade pela causa de Cristo, tradição do Papado


“Nossos predecessores, ..., querendo prover à felicidade dos povos, empreenderam lutas de todo gênero,
suportaram rudes fadigas e nunca hesitaram em se expor a ásperas dificuldades; de olhos fitos no céu, não abaixaram a
fronte ante as ameaças dos maus, nem cometeram a baixeza de se deixaram desviar do seu dever, fosse pelas lisonjas,
fosse pelas promessas” 267.

O bom católico não foge à perseguição


“A Igreja sabe que contra ela não hão-de prevalecer as portas do inferno; mas tampouco ignora que no
mundo sobrevirão vicissitudes, que seus apóstolos andarão quais cordeiros no meio de lobos, que seus seguidores serão
sempre o alvo dos ódios e escárnios, como o foi seu Divino Fundador” 268.
“Que disse Ele (Nosso Senhor)... aos seus discípulos, enviando-os à espalharem o tesouro de sua doutrina a
todos os povos? Ninguém o ignora: “Sereis perseguidos de cidade em cidade, sereis odiados e vilipendiados pelo meu
nome, sereis arrastados aos tribunais e condenados ao suplício”. E, querendo encorajá-los à prova, apresentou-Se
como exemplo: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro que a vós, Me odiou a Mim” (Jo. 15, 18)”269.

262
Idem, págs. 22-23.
263
Idem, pág. 11.
264
Idem, pág. 11.
265
Idem, pág. 23.
266
Pio XI, Encíclica “Quas Primas”, de 11 de fevereiro de 1925 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 18.
267
Leão XIII, Encíclica “Inscrutabili Dei Consilio”, de 21 de abril de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 7.
268
São Pio X, Encíclica “Il Fermo Proposito”, de 11 de junho de 1905 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 7.
269
Leão XIII, Encíclica “Parvenu”, de 19 de março de 1902 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 6.
103
Proposição 36

Impugnada Afirmada
A história ensina que, depois dos Está na missão da Igreja opor-se a
grandes transbordamentos, a ordem natural das toda forma de erro ou de mal, e não só à que
coisas se reconstitui por si, com os corretivos de for de efeitos muito duráveis.
que tinha necessidade. Isso, por exemplo, se deu É aliás bem certo que tudo volta por
na França depois do Terror. É, aliás, o que está fim à ordem natural? Sem Jesus Cristo não há
na própria força reta da natureza. Já o diziam os ordem verdadeira. E é possível que uma
romanos: “Afastarás a natureza com o tridente, civilização que O abandonou se conserve
mas ela por fim voltará”- “naturam expelles assim, obstinada à graça, até o fim dos
furca, tamem usque recurret” 270. Uma reação séculos.
violenta da Igreja provocaria grande Pactuar com a Revolução é fomentar
derramamento de sangue e até sacrilégios, para as paixões desordenadas de que ela nasce. Não
não evitar nada. É melhor, então, não reagir; é assim, nem calando-se sobre a verdade e o
entrar num regime de concessões e orientar a erro, que se guia o povo para o bem.
Revolução de maneira que se verifique o menor É preciso contar com o auxílio divino
número possível de abalos. e afirmar animosamente a verdade. Daí só
podem decorrer conseqüências boas: a vitória,
ou o martírio.

Comentário

O próprio exemplo da Revolução Francesa mostra o contrário do que diz a proposição


impugnada. Seus erros não encontraram, nem na França nem no resto da Europa, reação suficiente.
Desarmada a vigilância geral depois de cessado o Terror, esses erros se generalizaram pelo mundo,
em meio à indolência benévola da imensa maioria.
Preparava-se assim remotamente o terreno para a disseminação universal do
comunismo271 .
Tanto é verdade que as borrascas da História não são sempre efêmeras e de importância
relativamente pequena.
* * *
Adaptar-se aos maus meios, para os orientar, e isto a ponto de assimilar o mal ou colaborar
com ele, importa bem no erro condenado por Pio IX no “Syllabus” 272.
Não raras vezes, não é só o temor que o inspira, mas também uma simpatia, consciente ou
não, com o próprio mal.

270
Horácio, “Epistolas” - 1, 10, 24.
271
Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, “Revolução e Contra-Revolução”- “Boa Imprensa Ltda.”, Campos, págs.
48 e ss.
272
Cfr. Textos Pontifícios da Proposição 37.
104
Proposição 37

Impugnada Afirmada
Ainda que censurável e injusta, a A Igreja foi criada para guiar o
“Reforma Agrária” está no espírito do tempo e espírito dos tempos e não para se deixar guiar
virá mesmo: é inútil opor-lhe qualquer reação. por ele.
Ela é, talvez, um castigo de Deus para a Conseguirá ela dirigi-lo na atual
impiedade das classes dirigentes. Não é justo conjuntura universal? Para Deus nada é
exigir que o Clero, que não mereceu a cólera impossível, e se a fé move montanhas, pode
divina, se sacrifique tentando impedir sua também mover o espírito do tempo.
realização. Não lutar contra uma lei injusta, e
censurar que contra ela se volte o zelo
sacerdotal, porque ela talvez seja um castigo
divino, é o mesmo que não combater uma
epidemia porque esta talvez seja castigo de
Deus, e achar que o Clero não se deve expor
ao contágio porque não cometeu os pecados
que deram origem ao castigo.

Comentário

A atitude da Igreja, diante do espírito de uma época determinada, não pode ser a de
sistemático recuo. Se esse espírito é de Jesus Cristo, deve incentivá-lo de todos os modos. Se é mau,
deve opor-se a ele, também de todos os modos. Se ele tem algo de bom e algo de ruim, a Igreja deve
aceitar o que é bom e combater o que é ruim.
Na proposição impugnada, há uma aceitação resignada de tudo quanto é novo,
“resignação” que muitas vezes deixa entrever um amor sistemático da novidade pela novidade.
***
Afirmar que a “Reforma Agrária” pode ser um castigo para as classes dirigentes, como se
não o fosse também para todo o País, inclusive os trabalhadores, é cair no erro dos socialistas, que
vêem na propriedade privada uma vantagem exclusiva dos proprietários, e não de todo o corpo
social.

Textos Pontifícios

A Igreja não transige com os erros de nenhuma época


Pio IX condenou a seguinte proposição: “O Pontífice Romano pode e deve conciliar-se e transigir com o
273
progresso, com o liberalismo e com a civilização moderna” .

... nem constitui entrave à civilização

273
Pio IX, “Syllabus”, de 8 de dezembro de 1864, Proposição 80 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis.
105
Pio IX condenou os que afirmam que o Clero é “inimigo do progresso da ciência e da civilização”274.

Esta intransigência não tolhe a eficácia de sua ação


Proposição condenada: “A Igreja mostra-se incapaz de defender eficazmente a moral evangélica, porque
275
adere obstinadamente a doutrinas imutáveis, que não podem conciliar-se com o progresso moderno” .

Não é no “espírito do tempo” mas na filosofia do Evangelho que se baseia a civilização católica
“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da
sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e
todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de
dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos príncipes e à proteção legítima dos
magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa
de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória
subiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá
corromper ou obscurecer.
Se a Europa cristã domou as nações bárbaras e as fez passar da ferocidade para a mansidão, da superstição
para a verdade; se repeliu vitoriosamente as invasões muçulmanas, se guardou a supremacia da civilização, e se, em
tudo que faz honra à humanidade, constantemente e em toda parte se mostrou guia e mestra; se brindou os povos com a
verdadeira liberdade sob diversas formas; se sapientissimamente fundou uma multidão de obras para o alívio das
misérias; é fora de toda dúvida que ela é grandemente devedora à Religião, sob cuja inspiração e com cujo auxílio
276
empreendeu e realizou tão grandes coisas” .

O amor da novidade pela novidade


277
“O amor de novidades basta por si só para explicar toda a sorte de erros” .

Proposição 38

Impugnada Afirmada
A partilha das terras será talvez injusta A teoria da soberania popular que
segundo os princípios jurídicos atuais. Porém, se coloca o povo acima da lei de Deus é
o povo soberano, por seus representantes condenada.
legítimos eleitos, prescrever tal partilha, este Pode em determinada forma de
simples fato a tornará justa. Pois justo é o que for governo a escolha dos detentores da
conforme à lei. autoridade pública ser feita pelo povo. Mas
Por isto mesmo, aprovada legalmente a esses detentores não têm o direito de violar a
expropriação, não haverá questão moral ou lei de Deus.
religiosa que daí possa surgir. A propriedade, como a família,
resulta da lei natural e da lei divina. O Estado
não a instituiu nem a pode suprimir. Não tem,
pois, o direito de tirar o que é de uns e dar a
outros.

Comentário

A proposição errada, subjacente a grande número de trabalhos a favor da “Reforma


Agrária”, põe à luz o caráter totalitário desta última. O povo é soberano na força do termo, isto é,

274
Pio IX, Encíclica “Quanta Cura”, de 8 de dezembro de 1864 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 8.
275
São Pio X, Decreto “Lamentabili”, de 3 de julho de 1907, Proposição 63 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis.
276 º
Leão XIII, Encíclica “Immortale Dei”, de 1 de novembro de 1885 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 15.
277
São Pio X, Encíclica “Pascendi Dominici Gregis”, de 8 de setembro de 1907 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 46.
106
senhor absoluto, precisamente como um sultão, um cacique ou outros chefes congêneres o eram em
relação a seus desditosos súditos, em monarquias pagãs. Um ato da vontade popular pode, pois,
privar amanhã inúmeras pessoas de propriedades honestamente adquiridas, exatamente como um
ato de vontade de um sultão podia, de um momento para outro, incorporar ao erário público os bens
de qualquer infeliz. É onde conduz o socialismo, quer o nazista, de camisa parda, quer o marxista,
de bandeira vermelha.
Segundo a doutrina católica, o poder do soberano – seja este uma pessoa ou um grupo,
receba ele sua investidura por via de hereditariedade ou por via eletiva – é sempre circunscrito. O
soberano deve obedecer à lei de Deus, e respeitar escrupulosamente a família, a propriedade, todos
os direitos que o homem tem por ser homem e que o Estado não lhe pode tirar. As leis que
extravasem deste limite são nulas, em princípio.
E é em virtude do sábio princípio da limitação natural dos poderes do Estado que a
“Reforma Agrária” deve ser tida por contrária à lei de Deus.

Textos Pontifícios

Onipotência de Deus, e não do Estado


“Se se quiser determinar a fonte do poder no Estado, a Igreja ensina, com razão, que cumpre buscá-la em
Deus”278.

“Todo poder vem de Deus”


“... o poder público só pode vir de Deus. Só Deus, com efeito, é o verdadeiro soberano e Senhor das coisas;
todas, quaisquer que sejam, devem necessariamente ser-Lhe sujeitas e obedecer-Lhe; de tal sorte que todo aquele que
tem o direito de mandar não recebe esse direito senão de Deus, Chefe supremo de todos. “Todo poder vem de
279
Deus”(Rom. 13, 1)” .

Em Deus, e não no povo, está a fonte do poder


“... bom número de nossos contemporâneos, seguindo as pegadas daqueles que, no século derradeiro, se
outorgaram o título de filósofos, pretendem que todo poder vem do povo; que, por conseqüência, a autoridade não
pertence como própria aos que a exercem, mas sim a título de mandato popular, e sob a reserva de que a vontade do
povo pode sempre retirar aos seus mandatários o poder que lhes delegou. É nisto que os católicos se separam desses
novos mestres; vão buscar em Deus o direito de mandar, e daí o fazem derivar como da sua fonte natural e do seu
princípio necessário.
Todavia, importa aqui notar que, se se trata de designar os que devem governar a coisa pública, em certos
casos esta designação poderá ser deixada à escolha e às preferências do grande número, sem que a doutrina católica
oponha a isso o menor obstáculo. Essa escolha, com efeito, determina a pessoa do soberano, mas não confere os direitos
da soberania; não é a autoridade que é constituída, decide-se apenas por quem deverá ela ser exercida. Não se trata,
tampouco, dos diferentes regimes políticos; nada impede que a Igreja aprove o governo de um só ou de muitos, contanto
que esse governo seja justo e aplicado ao bem comum. Por isso, reserva feita dos direitos adquiridos, não é vedado aos
280
povos dar-se tal forma política que melhor se adapte ou ao seu gênio próprio ou às suas tradições e costumes” .

A fonte de todos os direitos não está na multidão nem no Estado


Leão XIII condenou a seguinte afirmação: “Todo poder está no povo livre; os que exercem o mando só são
detentores pelo mandato ou pela concessão do povo, de tal sorte que, se a vontade popular mandar, há que destituir de
sua autoridade os chefes do Estado, mesmo contra a vontade deles. A fonte de todos os direitos e de todas as funções
civis reside quer na multidão, quer no poder que rege o Estado, mas quando este foi constituído de acordo com os novos
281
princípios” .

278
Leão XIII, Encíclica “Diuturnum Illud”, de 29 de junho de 1881 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
6.
279
Leão XIII, Encíclica “Immortale Dei”, de 1 º de novembro de 1885 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 5.
280
Leão XIII, Encíclica “Diuturnum Ilud”, de 29 de junho de 1881 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, págs.
5-6.
281
Leão XIII, Encíclica “Humanum Genus”, de 20 de abril de 1884 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág.
17.
107
Onipotência do Estado: princípio anticristão
Pio IX condenou a seguinte afirmação: “O Estado, sendo a origem e fonte de todos os direitos, goza de um
direito que não é circunscrito por limite algum” 282.

Uma norma legislativa do Estado não basta por si só para criar um direito
“O simples fato de ser declarado pelo poder legislativo como norma obrigatória no Estado, tomado
exclusivamente e por si só, não basta para criar um verdadeiro direito. O “critério do simples fato” vale apenas para
Aquele que é o autor e a regra soberana de todo direito: Deus. Aplicá-lo ao legislador humano indistinta e
definitivamente, como se sua lei fosse a norma suprema do direito, é o erro do positivismo jurídico no sentido próprio e
técnico da palavra; erro que está na base do absolutismo de Estado que eqüivale a uma deificação do próprio Estado”283.

Sã democracia – o contrário de onipotência do Estado


“Uma sã democracia, fundamentada sobre os princípios imutáveis da lei natural e das verdades reveladas,
será decididamente contrária àquela corrupção que atribui à legislação do Estado um poder sem freios nem limites, e
que faz também do regime democrático, não obstante as contrárias mas vãs aparências, um puro e simples sistema de
284
absolutismo” .

Princípio anticristão: a opinião pública está acima da lei de Deus


“... alguns, pondo de lado os santíssimos e certíssimos princípios da razão, ousam dizer que “a vontade do
povo, manifestada na chamada opinião pública ou por outro modo, é a suprema lei, livre de todo direito divino ou
285
humano” .

A origem do poder público não está na multidão


286
“... a origem do poder público deve atribuir-se a Deus e não á multidão” .

Princípio anticristão: o capricho da multidão pode tudo


Leão XIII condenou o racionalismo, segundo cujas doutrinas “... a autoridade pública foi declarada como
não tirando de Deus nem o seu princípio, nem a majestade, nem a força de mandar, mas como provindo da multidão,
que, reputando-se livre de toda a sanção divina, julgou que devia submissão apenas às leis que ela mesma fizesse,
consoante o seu capricho” 287.

Soberania popular, mito demagógico


“... tudo o que há de autoridade entre os homens procede de Deus, como de uma fonte augusta e suprema.
Quanto à soberania do povo, que, sem levar em nenhuma conta a Deus, se diz residir por direito natural no povo, se ela
é eminentemente própria para lisonjear e inflamar uma multidão de paixões, não assenta em nenhum fundamento sólido
288
e não pode ter força bastante para garantir a segurança pública e a manutenção tranqüila da ordem” .

282
Pio IX, “Sylabus”, de 8 de dezembro de 1864; Proposição 39 – “Editora vozes Ltda.”, Petrópolis.
283
Pio XII, Discurso de 13 de novembro de 1949, para a inauguração do novo Ano Judiciário da Sagrada
Rota Romana – “Discorsi e Radiomessaggi”, Vol. XI, pág. 271.
284
Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1944 – “Discorsi e Radiomessaggi”, Vol. VI, pág. 243.
285
Pio IX, Encíclica “Quanta Cura”, de 8 de dezembro de 1864 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 6.
286
Leão XIII, Encíclica “Immortale Dei”, de 1 º de novembro de 1885 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 22.
287
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 6.
288 º
Leão XIII, Encíclica “Immortale Dei”, de 1 de novembro de 1885 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
pág. 19.
108
Capítulo V

Quadro sintético das proposições impugnadas e afirmadas


Impugnadas Afirmadas
O atual regime agrário do Brasil se O atual regime agrário do Brasil se
caracteriza: caracteriza:
a ) pela coexistência de propriedades a ) pela coexistência de propriedades
rurais grandes, médias e pequenas; rurais grandes, médias e pequenas;
b ) pela vigência do salariado, em que o b ) pela existência de uma imensa
trabalhador braçal, sob as ordens do proprietário, reserva de terras úteis e ainda incultas,
cultiva terras que não são suas, e não se beneficia suscetíveis de irem sendo apropriadas
senão de uma pequena parte do produto delas. gradualmente pelos particulares;
c ) pelo regime do salariado, sistema
justo e honesto em si, conjugado com
vantagem, em muitos casos, com o da
parceria. Esse regime, desde que realizado
segundo os princípios sociais católicos, é capaz
de assegurar aos assalariados subsistência
suficiente e digna, como a experiência
demonstra.
Este regime é injusto, retrógrado e Estas características são justas e
contrário ao interesse nacional. correspondem à ordem natural das coisas;
A lei pode e deve, pois, substitui-lo por resultam da aplicação de princípios perenes às
outro, justo, moderno e conforme aos interesses circunstâncias concretas do Brasil atual, e por
do País. isso, são, de um lado, sadiamente tradicionais,
e de outro genuinamente modernas.
Elas são conformes ao interesse
nacional. Não se pode acusar a estrutura
agrária atual – vista em suas linhas gerais e
básicas – como responsável pelas dificuldades
econômicas e financeiras do País, pela carestia
da vida e pela condição sub-humana de
muitos trabalhadores agrícolas. Esses fatos
têm outras causas, que não a estrutura
1 . - É necessário que se proceda à agrária atual.
partilha das propriedades em todo o território
nacional. 1 . – Conservando essas
2 . – O regime do salariado rural será características que constituem as grandes
abolido. O trabalhador braçal será proprietário da linhas gerais de nosso regime agrário, não
gleba que cultiva. Assim, ficará livre da negamos que em alguns aspectos esse regime
autoridade do atual patrão, e poderá beneficiar-se pode e deve ser urgentemente melhorado,
integralmente do produto da terra. para obedecer aos ditames da justiça e
3 . – A lei pode e deve empreender satisfazer às exigências do bem comum.
desde logo a partilha das propriedades. Tal Assim, por exemplo, lugares há em que as
partilha, medida de humanidade que será o 13 de condições de vida do homem do campo estão a
maio dos trabalhadores do campo, deverá ser clamar por uma grande melhoria. Em várias
feita, preferivelmente, de uma só vez e sem zonas, é conveniente substituir propriedades
indenização aos proprietários. grandes por outras médias, ou até pequenas,
4 . – Se porém, no juízo das pessoas facilitando-se deste modo o acesso do
entendidas, o ambiente brasileiro não se mostrar trabalhador à condição de proprietário.
bastante evoluído para apoiar com vigor passo 2 . – A lei pode e deve favorecer, com
109
tão grande, será urgente prepará-lo para a toda a diligência e por todos os meios ao seu
“Reforma Agrária” por uma intensa propaganda, alcance, uma e outra dessas transformações.
bem como por impostos progressivos e outras Mas cumpre ao legislador tomar em
medidas graduais que tendam para a abolição das consideração que nem tudo depende da lei, na
desigualdades na estrutura rural. consecução destes objetivos. Em muito boa
5 . – Para apressar essa transformação, medida, o fracionamento das propriedades se
talvez seja hábil também atenuar a oposição dos vai fazendo espontaneamente nos lugares
proprietários atuais: onde ele se mostra necessário. Quanto à
a ) sugerindo medidas que pareçam melhoria das condições do trabalhador
atingir só as terras incultas; agrícola, não pode ela ser levada a cabo
b ) prometendo-lhes uma pequena integralmente sem a formação
indenização; necessariamente paulatina de todo um clima
c ) fazendo-os recear que, se opuserem psicológico na vida rural, para a qual é mister
agora resistência à divisão das terras mediante recorrer à ação da Igreja e das grandes forças
indenização, tenham de aceitá-la mais tarde pela sociais do País.
força, e sem indenização alguma. 3 . – O fato de tais transformações
serem urgentes não importa em que sejam
empreendidas sem o necessário estudo, e com
uma precipitação contraproducente.
4 . – Sobretudo, cumpre que a lei não
viole direitos adquiridos, cujo respeito é uma
das bases de toda a ordem legal nos países
civilizados. Por exemplo, pode e deve o Estado
conceder terras devolutas, das quais é
proprietário, a trabalhadores rurais. Mas não
pode decretar a transferência de propriedades
particulares para as mãos de terceiros, a não
ser que se demonstre haver para isto, em uma
ou outra zona, justa e grave causa, fundada
no bem comum. Ainda assim, é mister que
cada proprietário possa fazer valer em juízo
os seus direitos. E a desapropriação só será
justa se for feita mediante indenização
exatamente igual ao valor da propriedade.
5 . – Defendendo com todos os meios
lícitos a terra de que é dono, o agricultor,
além de merecer o respeito devido a todo
homem que se bate pelo legítimo interesse seu
e de sua família, ainda presta ao Brasil o
serviço de lutar por um alto princípio da
moral cristã, que é o da propriedade privada,
expresso no Decálogo, e de conservar as bases
da ordem jurídica e da civilização em nosso
País. Com efeito, se se atribui ao Estado a
faculdade de dispor a seu talante de todos os
direitos, de violar impunemente a lei de Deus
e a ordem natural das coisas, então é o
totalitarismo vermelho ou pardo, pouco
importa, que se erige como base da vida do
País. E o brasileiro passará a ser tão escravo
do Estado quanto o é diante do cacique o mais
desprotegido dos silvícolas.
110
Comentário

Este quadro sintético põe em evidência sumariamente as teses e os argumentos de grande


número de partidários e adversários da “Reforma Agrária”.
O contraste entre as proposições impugnadas e as afirmadas reflete a oposição entre a
mentalidade pré-socialista ou socialista, e a cristã.
Para a pessoa picada pela mosca do igualitarismo, com efeito, toda desigualdade é
injusta, contrária ao espírito de caridade evangélica, retrógrada e nociva ao interesse público. Ela
confia inteiramente na ação da lei. Bastará decretar a “Reforma Agrária”, impondo a igual partilha
das terras, para abrir um caminho ao longo do qual todos os problemas do campo se resolverão.
Para o socialista:
1 . – Essas opiniões igualitárias são verdadeiras;
2 . – O Estado é o guia onisciente e onipotente que levará certamente a bom termo tudo
quanto for necessário para que o País se beneficie da grande panacéia da “Reforma Agrária”.
3 . – Quanto às terras devolutas, a mentalidade socialista não se ocupa delas de bom grado,
quando se trata da “Reforma Agrária”. Místico a seu modo, o socialista, declarado ou larvado,
consciente ou não, deseja a solução do problema agrário apenas na medida em que possa ser
alcançada por intermédio da igual partilha das terras, pois esta constitui o ideal supremo de sua
alma igualitária. A transferência de terras devolutas para o particular pode concorrer para resolver a
questão agrária. Mas repugna ao socialismo, que procura a passagem das terras do particular para o
Estado. Além disto, nos quadros do presente regime rural, ainda que as glebas concedidas sejam
iguais, em breve se terá introduzido entre elas a desigualdade.
4 . – Enquanto evolucionista, ele considera, via de regra pelo menos, que o passado é
inferior ao presente, e este o é em relação ao futuro. Tudo deve mudar constantemente, e essa
mudança é sempre para melhor. A propriedade privada e a família são para ele instituições mutáveis
e perecíveis como tudo que é humano. Assim, é normal que se transformem e desapareçam com
vistas a aumentar cada vez mais a igualdade entre os homens, ponto de mira supremo da evolução
em sua etapa atual.
Segundo a doutrina católica:
1 . – A ordem natural das coisas, instituída por Deus no universo, se bem que comporte
muitos elementos mutáveis, se baseia em princípios imutáveis. Há pois instituições que, firmadas
inteiramente nos princípios perenes que regem a natureza do homem e a moralidade dos atos
humanos, jamais poderão ser legitimamente abolidas. Estas instituições podem variar em aspectos
secundários. Mas em seus aspectos essenciais não mudarão jamais. É o caso, por exemplo, da
família e da propriedade, fundadas no Decálogo, que contém os princípios básicos e imutáveis da
ordem humana. No 6º e no 9 º mandamentos está escrito, respectivamente, “Não pecarás contra a
castidade” e “Não desejarás a mulher do próximo”: são a base da família santificada por Jesus
Cristo, de modo todo particular, pela instituição do Sacramento do Matrimônio. O 7º mandamento
reza: “Não roubarás”, e o 10º , “Não cobiçarás as coisas alheias”. São a base da propriedade. Se,
pois, há abusos na propriedade, como na família, é preciso reformá-los; não porém eliminar, por
retrógradas, essas instituições.
2 . – Havendo terras incultas do Estado cuja doação a trabalhadores é capaz de atenuar o
problema agrário, não se compreende como possa ele não distribuir o que lhe sobra, e ao mesmo
tempo lançar mão do que pertence legitimamente aos particulares. É realmente, segundo antiga
expressão, fazer cumprimento com chapéu alheio.
3 . – Ademais, Deus não organizou o universo segundo o princípio da igualdade completa,
mas antes o dispôs em uma bem ponderada e harmoniosa hierarquia de seres, de atributos, de

111
movimentos etc. É o que se vê em toda a criação. Uma estrutura econômica e social ferreamente
igualitária é, pois, antinatural.
4 . – As questões econômicas e sociais, como todas as outras, não comportam panacéias.
Elas se resolvem principalmente pela formação religiosa e moral de um povo, por seus costumes,
por suas instituições sociais e econômicas. A lei pode concorrer em boa medida para o mesmo fim.
Mas sem a cooperação de tais fatores, ela nada alcançará.
5 . – Uma lei igual para um país vasto como o nosso, raras vezes é útil. As diferenças
regionais são imensas, e é preciso tomá-las em conta, o que é o oposto da padronização socialista.
6 . – O Estado não é onipotente nem onisciente. Sem dúvida lhe cabe grande parte na
direção de um povo. Mas sua ação, que é falível como tudo quanto é humano, em toda a medida do
possível deve ser supletiva.
Em resumo, é na diversidade desses pressupostos que se explica a oposição entre as teses
igualitárias e reformistas, e a doutrina católica.

Textos Pontifícios

Resumindo o pensamento social de Leão XIII, São Pio X formulou algumas proposições em seu “Motu
Proprio” sobre a Ação Popular Católica. Delas destacamos as seguintes, que ilustram de modo magnífico o quadro
sintético das proposições afirmadas:
I – A sociedade humana, tal qual Deus a estabeleceu, é formada de elementos desiguais, como desiguais são
os membros do corpo humano; torná-los todos iguais é impossível; resultaria disso a própria destruição da sociedade
humana. (Encíclica Quod Apostolici Muneris).
II – A igualdade dos diversos membros sociais consiste somente no fato de todos os homens terem a sua
origem em Deus Criador; foram resgatados por Jesus Cristo e devem, segundo a regra exata dos seus méritos, ser
julgados por Deus e por Ele recompensados ou punidos. (Encíclica Quod Apostolici Muneris).
III – Disto resulta que, segundo a ordem estabelecida por Deus, deve haver na sociedade príncipes e vassalos,
patrões e proletários, ricos e pobres, sábios e ignorantes, nobres e plebeus, os quais todos, unidos por um laço comum
de amor, se ajudam mutuamente para alcançarem o seu fim último no Céu e o seu bem-estar moral e material na terra.
(Encíclica Quod Apostolici Muneris).
IV – O homem tem sobre os bens da terra, não somente o simples uso, como os brutos, mas também o direito
de propriedade, tanto a respeito das coisas que se consomem com o uso, como das que o uso não consome. (Encíclica
Rerum Novarum).
V – A propriedade particular, fruto do trabalho ou da indústria, de cessão ou de doação, é um direito
indiscutível na natureza, e cada um pode dispor dele a seu arbítrio. (Encíclica Rerum Novarum).
VI- Para resolver a desarmonia entre os ricos e os proletários é preciso distinguir a justiça da caridade. Só há
direito de reivindicação, quando a justiça for lesada. (Encíclica Rerum Novarum).
VII – O proletário e o operário têm as seguintes obrigações de justiça: fornecer por inteiro e fielmente todo o
trabalho contratado livremente e segundo a equidade; não lesar os bens nem ofender as pessoas dos patrões; abster-se de
atos violentos na defesa dos seus direitos e não transformar as reivindicações em motins. (Encíclica Rerum Novarum).
VIII – Os capitalistas e os patrões têm as seguintes obrigações de justiça: pagar o justo salário aos operários;
não causar prejuízo às suas justas economias, nem por violências, nem por fraudes, nem por usuras evidentes ou
dissimuladas; dar-lhes liberdade de cumprir os deveres religiosos; não os expor às seduções corruptoras e aos perigos do
escândalo; não os desviar do espírito de família e do amor da economia; não lhes impor trabalhos desproporcionados às
suas forças ou pouco convenientes para a idade ou para o sexo. (Encíclica Rerum Novarum).
IX – Os ricos e os que possuem têm obrigação de caridade de socorrer os pobres e indigentes, segundo o
preceito evangélico. Este preceito obriga tão gravemente que dele serão exigidas contas de maneira especial no dia do
Juízo, como disse o próprio Jesus Cristo (Mt. 25). (Encíclica Rerum Novarum).
X – Os pobres, por conseqüência, não se devem envergonhar da indigência, nem desprezar a caridade dos
ricos, olhando para Jesus Redentor, que, podendo nascer entre as riquezas, Se fez pobre para enobrecer a pobreza e
enriquece-la de méritos incomparáveis para o Céu. (Encíclica Rerum Novarum).
XI – Para a solução da questão operária muito podem contribuir os capitalistas e os operários com
instituições destinadas a socorrer as necessidades e a aproximar e reunir as duas classes. Tais as sociedades de socorros
mútuos e de seguros particulares, os patronatos para crianças e, sobretudo, as corporações de artes e ofícios. (Encíclica
Rerum Novarum).
XII – A este fim visa especialmente a ação popular cristã ou democracia cristã, com as suas obras múltiplas e
variadas. Mas esta democracia cristã deve ser compreendida no sentido já fixado pela autoridade, o qual está muito
afastado do sentido da democracia social, e tem por base os princípios da fé e da moral católica e sobretudo o princípio

112
de não prejudicar de maneira nenhuma o direito inviolável da propriedade particular. (Encíclica Graves de Communi)
289
“ .

Secção III
A Questão de Consciência

Qual o alcance, para a vida religiosa do povo brasileiro, da implantação de uma “Reforma
Agrária”?
À primeira vista, pareceria ao mesmo tempo muito grande e muito pequeno.
Muito grande, pois uma lei do Estado que violasse tão frontalmente o 7 º mandamento
constituiria um pecado mortal coletivo, capaz de atrair sobre o País não só as punições temporais e
de que dentro em pouco falaremos 290, como também e principalmente uma retração das graças de
Deus. Essa retração teria efeito nocivo sobre toda a vida religiosa do Brasil.
Ao mesmo tempo, o alcance de uma “Reforma Agrária” poderia parecer de algum modo
bastante pequeno. As igrejas permaneceriam abertas, o culto divino não seria impedido, o Clero
teria sempre franqueadas diante de si todas as suas atuais possibilidades de ação, as organizações
católicas continuariam a vicejar como agora. Dentro em breve, ninguém mais pensaria no pecado
coletivo. A Santa Igreja poderia, pois, trabalhar numa sociedade igualitária nova com o mesmo
êxito com que trabalha nos quadros sociais atualmente vigentes.
Em suma, a “Reforma Agrária” teria uma influência bem pequena na vida religiosa da
Nação.
É esta a versão, em termos brasileiros, do sonho da coexistência pacífica entre a Igreja e o
regime socialista.
A impressão de primeira vista, que acabamos de enunciar, não resiste ao menor exame.
Com efeito, esse sonho é impossível por várias razões, das quais mencionaremos algumas.
Sendo da missão da Igreja velar por que os indivíduos, as famílias e os Estados observem a
lei de Deus, toda a sua influência sobre as almas tenderá necessariamente a eliminar o regime
socialista, seja ele radical ou “moderado”.
A sede de igualdade, que devora em nossa época tantos espíritos, constitui uma paixão
desordenada e tem algo de veemente e radical. Ela não se sentirá saciada senão quando tiver levado
os erros do igualitarismo coletivista às últimas conseqüências. Neste sentido, ela é totalitária.
Em princípio, as concessões que se fazem às paixões desordenadas não lhes diminuem o
ímpeto. Pelo contrário, o alimentam. É por isto que se vê que o igualitarismo, ao qual tantas
concessões vêm sendo feitas há muito mais de um século, se mostra hoje mais desabrido e dinâmico
do que nunca.
A implantação de uma “Reforma Agrária” daria novo e terrível incremento à paixão
igualitária, que tenderia sempre mais impetuosamente ao que, como já vimos 291 constitui seu termo
último: a abolição da família e da Igreja.
Na justificação que demos292 da propriedade privada e da família, ficou patente que uma e
outra se baseiam no fato de o homem ter uma alma espiritual dotada de inteligência e vontade. Em
uma sociedade sem propriedade individual ou sem família, a alma humana fica como que em estado
de violência. A inteligência tende a se embotar, e a vontade a se desfibrar. O homem de muita
personalidade é, no regime socialista, como um automóvel que anda pelas ruas contra a mão. O
socialismo só se realiza inteiramente com “robots”. E o homem “robot” é o fruto típico e lógico do

289
São Pio X, Motu Proprio sobre a Ação Popular Católica, de 18 de dezembro de 1903 – “Editora Vozes
Ltda.”, Petrópolis, págs. 22-24.
290
Cfr. “Considerações Finais”.
291
Secção I, Título II, Capítulo II.
292
Idem.
113
ambiente socialista, da educação socialista, das instituições socialistas, e de todo o sistema socialista
de vida.
Por esta forma, o socialismo tende a produzir no homem um efeito diametralmente oposto
ao da Igreja. A graça divina, da qual esta é dispensadora, muito longe de amesquinhar a natureza
humana a ponto de a reduzir a um autômato, tem por efeito próprio elevá-la e santificá-la. Nada
mais diferente de um “robot” do que um mártir que derrama seu sangue no Coliseu, um cruzado que
luta pela libertação do Santo Sepulcro, um missionário que desbrava as selvas para conquistar almas
para Jesus Cristo, ou uma vítima expiatória que oferece sua vida em holocausto voluntário e
sublime, pela salvação dos ímpios e dos pecadores.
Todo regime socialista, ainda que reconheça à Igreja plena liberdade para existir e agir,
solapa a fundo a obra desta por isto mesmo que forma “robots”. Como a Igreja solapa a fundo o
regime socialista por isto mesmo que forma católicos. Ora, esta tensão profunda, necessária,
inevitável, é bem exatamente o contrário da coexistência pacífica.
Favorecer a “Reforma Agrária” é violar o 1 º mandamento
Para todo católico se delineia, em virtude destas razões, a seguinte verdade: favorecer a
“Reforma Agrária”, aprovar ou aplicar uma lei que a implante entre nós, constitui, em tese, violação
do 1º mandamento do Decálogo.
É fácil ver, a esta luz, que a “Reforma Agrária” não é só uma questão econômica, mas
importa em uma questão de consciência.
E a revisão agrária?
A expressão “revisão agrária” vem sendo empregada nos últimos meses para indicar uma
“Reforma Agrária” menos radical. Neste sentido, foi escolhida para designar o recente projeto de lei
no. 154/60 do governo do Estado de São Paulo.
A “Reforma Agrária” menos radical, ou revisão agrária, é contrária à doutrina católica?
Sendo a “Reforma Agrária” a introdução do socialismo na estrutura agropecuária, deve-se
dizer de suas várias modalidades mais ou menos radicais, o mesmo que se diz 293 dos vários matizes
do socialismo: dissentem fundamentalmente, em medidas diversas embora, da doutrina católica.
Questão de consciência por antonomásia
O que ficou dito concerne ao 1 º mandamento. Entretanto, não é só ele que a “Reforma
Agrária” atingiria. Há ainda, e mais diretamente atingido, também o 7º mandamento, e a questão de
consciência daí decorrente é bem mais delicada e importante, pelo número incalculável de pessoas
que ela envolverá eventualmente. E, por assim dizer, no tocante à “Reforma Agrária”, a questão de
consciência por antonomásia.
Vimos que a lei do Estado que mutila ou suprime o direito de propriedade é contrária a lei
de Deus.
Este fato cria um problema que é inútil não considerar de frente. O problema é o seguinte:
a ) Não há quem ignore que a Igreja, com fundamento em princípios santíssimos, sempre
ensinou aos povos o dever da obediência às autoridades legítimas, e em determinadas circunstâncias
até às ilegítimas; sempre empenhou seus esforços por que todos os fiéis cumprissem esse dever, e
jamais recusou ao poder público sua cooperação para a manutenção da ordem na sociedade. Ela
reivindica para si este título de glória: o de ser a coluna de toda ordem temporal perfeita; e com
freqüência os chefes das nações, fazendo até mesmo, por vezes, abstração de seu caráter divino, têm
timbrado em Lhe reconhecer a benemerência neste campo.
Vários dos documentos pontifícios citados no presente trabalho põem em evidência a
posição da Igreja a este respeito.
b ) Entretanto, quando a lei do Estado é certamente contrária à lei de Deus, a quem deve o
fiel obedecer? Ao Estado? A Deus?

293
Cfr. Secção I, Título II, Capítulo III.
114
Qual, nesta matéria, a doutrina dos Vigários de Jesus Cristo? Leiamos alguns textos dos
Papas mais recentes, que são o eco fiel e imutável de um ensinamento que vem de São Pedro 294 até
nossos dias:

Desobedecer à lei civil é desobedecer ao próprio Deus


“Inculcai ao povo cristão a obediência e sujeição devidas aos príncipes e poderes constituídos, ensinando,
conforme doutrinava o Apóstolo (Rom. 12, 1-2), que todo poder vem de Deus e que os que não obedecem ao poder
constituído resistem à ordem de Deus e se condenam a si próprios; e igualmente o preceito de obedecer a esse poder não
295
pode ser violado impunemente por ninguém, a não ser que seja ordenado algo contra a lei de Deus e da Igreja” .

Única razão válida para desobedecer


“Existe uma única razão válida para recusar a obediência: é o caso de um preceito manifestante contrário ao
direito natural ou divino, pois onde quer que se tratasse de infringir ou a lei natural ou a vontade de Deus, o
mandamento e a execução seriam igualmente criminosos. Se, pois, nos achássemos reduzidos à alternativa de violar ou
as ordens de Deus ou as dos governantes, forçoso seria o preceito de Jesus Cristo que quer que “se dê a César o que é
de César e a Deus o que é de Deus” (Mt. 22, 21), e, a exemplo dos Apóstolos, deveríamos responder: “Devemos
obedecer a Deus antes que aos homens” (At. 5, 29). E não seria justo acusar os que assim agem de desconhecerem o
dever da submissão; porquanto os príncipes cuja vontade está em oposição com a vontade e as leis de Deus excedem
nisso os limites do seu poder e subvertem a ordem da justiça; desde então sua autoridade perde a força, pois onde não há
296
mais justiça também não há mais autoridade” .
297
“... se as leis dos homens alguma coisa mandarem contra a eterna lei de Deus, o justo é não obedecer” .

Obedecer à lei civil por amor de Deus – não porém quando ela é contra Cristo
A esse respeito o Papa Gregório XVI, na Encíclica “Mirari Vos”298 faz suas as seguintes palavras de Santo
Agostinho: “Os soldados cristãos serviram fielmente aos imperadores infiéis, mas, quando se tratava da causa de Cristo,
outro imperador não reconheceram que o dos Céus. Distinguiam o Senhor eterno do senhor temporal; e não obstante,
299
pelo primeiro obedeciam ao segundo” .

Não é lícito desobedecer a Deus para obedecer aos homens


“Se a vontade dos legisladores e dos príncipes sancionar ou ordenar alguma coisa que esteja em oposição
com a lei divina ou natural, a dignidade e o dever do nome cristão, assim como o preceito apostólico, prescrevem que
300
devemos “obedecer a Deus antes que aos homens”(At. 5, 29)” .
301
Sobre o mesmo assunto, Leão XIII corrobora, na Encíclica “Rerum Novarum” esta afirmação de São
302
Tomás de Aquino: “uma lei não merece obediência, senão enquanto é conforme à reta razão e à lei eterna de Deus” .
“Seria crime negar obediência a Deus para dá-la aos homens; seria delito infringir as leis de Jesus Cristo para
obedecer aos magistrados, ou violar os direitos da Igreja sob pretexto de guardar as leis de ordem civil. “Importa
obedecer mais a Deus do que aos homens” (At. 5, 29). Esta resposta que outrora costumavam dar Pedro e os mais
Apóstolos aos magistrados, quando lhes ordenavam coisas ilícitas, cumpre repeti-la todos os dias, muito resolutamente,
em circunstâncias iguais. Não há melhor cidadão, quer na paz, quer na guerra, do que o cristão que o é deveras; mas por
isso mesmo que o é, deve estar resolvido a sofrer tudo e a mesma morte, antes do que desertar a causa de Deus e da
303
Igreja” .

Falta de patriotismo: obedecer às leis contrárias a Deus

294
Atos 5, 29.
295
Pio IX, “Qui Pluribus”, de 9 de novembro de 1846 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 13.
296
Leão XIII, Encíclica “Diuturnum Illud”, de 29 de junho de 1881 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis,
págs. 10-11.
297
Leão XIII, Encíclica “Sapientiae Christianae”, de 10 de janeiro de 1890 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 9.
298
De 15 de agosto de 1832 – “Editora Vozes Ltda.”, Petrópolis, pág. 13.
299
In PS. 124, n. 7.
300
Leão XIII, Encíclica “Quod Apostolici Muneris”, de 28 de dezembro de 1878 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, pág. 10.
301
De 15 de maio de 1891 – “Editora Vozes Ltda.”, pág. 36.
302
Suma Teológica, I a. II ae., q. 9 , a . 3, ad 2.
303
Leão XIII, Encíclica “Sapientiae Christianae”, de 10 de janeiro de 1890 – “Editora Vozes Ltda.”,
Petrópolis, págs. 7-8.
115
“... se as leis do Estado se puserem em aberta contradição com a de Deus, se forem injuriosas para a Igreja ou
contrárias aos deveres religiosos, se violarem no Sumo Pontífice a autoridade de Jesus Cristo, então resistir é obrigação,
e obedecer seria um crime, e crime até contra a pátria, porque pecar contra a Religião é fazer mal ao próprio Estado” 304.
Importando a “Reforma Agrária” numa transferência forçada de imóveis, de seus legítimos
proprietários para terceiros, feita sem motivo justo – sem indenização, mediante indenização
insuficiente, ou mesmo com indenização suficiente – constituirá uma clara violação do 7º
mandamento da lei de Deus. Isto posto, em numerosos casos concretos ela apresentará dolorosos
problemas de consciência a muitos brasileiros.
Com efeito, os moralistas católicos unanimemente qualificam de roubo essa ação. Portanto,
em princípio, e salvo circunstâncias concretas eventualmente ligadas a determinadas situações, o
católico não terá direito de receber tais terras. E, recebendo-as, terá de renunciar a elas305. Pois a
ninguém é lícito aceitar o que não pertence a quem vende ou doa; nem ficar na posse de coisa que
sabe pertencer legitimamente a outrem.
Este dever obriga a tal ponto, que um católico que aceitasse tais terras não poderia receber
a absolvição sem ter feito a devida restituição, ou pelo menos sem o propósito de a fazer logo que
possível. Se, depois da absolvição, retardar a restituição por negligência ou apego ao bem alheio,
pecará novamente.
Mencionamos só uma hipótese. Mas os mesmos princípios se aplicam, mutatis mutandis,
às situações análogas.
Desses problemas, tampouco o confessor, qualquer que seja sua bondade e sua compaixão,
poderia fazer abstração. Pois o confessor e o moralista bem sabem que não lhes toca transigir com
direitos de terceiros, isto é, dos proprietários lesados, e que a injustiça que autorizassem ou
deixassem subsistir recairia sobre seus ombros ante o tribunal de Deus, com a conseqüente
obrigação de reparar o dano causado.
* * *
A fim de evitar qualquer dúvida, julgamos conveniente repetir que a partilha de terras
perderia seu caráter revolucionário e injusto, se se demonstrasse que a atual estrutura agrária
nacional é responsável por uma situação econômica tão grave, que a coisa pública está ameaçada de
ruína; e que só com a reforma dessa estrutura, feita sem detrimento das normas da justiça, é possível
remediar o mal. Pois o direito de sobrevivência da sociedade tem, neste ponto, precedência sobre o
direito dos proprietários médios e grandes.
A Parte II põe em evidência que não há provas de que nossa estrutura agrária seja
responsável pela presente crise econômica, nem de que esta possa ser resolvida pela “Reforma
Agrária”. Há até provas do contrário.
Não cabe pois no caso a distinção conhecida: em tese a “Reforma Agrária” seria um mal;
na hipótese concreta, não.
O direito de propriedade é sagrado. A propriedade privada é uma instituição essencial ao
bem comum. Sem provas claras, positivas, certas, não se pode violar esse direito, nem interferir
nessa instituição.
Mas, objetará talvez alguém, o caráter imoral da “Reforma Agrária” repousa sobre duplo
fundamento:
a ) doutrinário: ao Estado, em princípio, não é lícito apropriar-se do que é de particulares,
sem razão suficiente e indenização adequada. Só as circunstâncias especialíssimas em que a
salvação do bem comum exija podem constituir razão suficiente para uma desapropriação sem
indenização adequada.
b ) concreto: ora, destas circunstâncias algumas são inexistentes e de outras não há provas.
Quanto à primeira razão, a Igreja é mestra. Mas a segunda parece de alçada do Estado. Pois
a ele e só a ele compete dizer em que condições concretas está o País. À Igreja, a quaisquer grupos
sociais, aos particulares, cabe acreditar no Estado.

304
Idem, págs. 8-9.
305
Cfr. Suma Teológica, II a . II ae, q. 66, a. 8, ad 3.
116
Esse argumento seria muito certo, por sua vez, se pudessem admitir dois pressupostos:
a ) o Estado nunca se engana;
b ) o Estado nunca engana a outrem.
O Estado infalível em sua esfera e indefectivelmente veraz poderia exigir que o tratassem
assim. E neste caso teríamos mais uma vez chegado ao totalitarismo: o ditador (indivíduo ou
multidão) que nunca erra e nunca engana tem evidentemente o direito de pronunciar a última
palavra sobre a moralidade de seus próprios atos.
No passado, houve mais de um conflito entre a Igreja e soberanos, porque estes
acabrunhavam o povo com tributos excessivos. A Igreja ouviu o clamor da multidão faminta, e
intercedeu eficazmente por ela. É um dos seus muitos títulos de glória, no capítulo de suas relações
com o poder temporal.
Se um soberano se tivesse recusado a atende-la dizendo que ao Estado, e não à Igreja nem
ao povo, caberia saber se os impostos eram exagerados ou não, deveria a Igreja ter acolhido
comodamente esta alegação, deixando o povo entregue à fome?
Hoje não são mais reis, mas em geral repúblicas que ela tem em sua presença. Do
momento em que alguma destas intentar operar uma espoliação em proporções tais como quiçá
nunca um rei praticou, isto é, se procurar apropriar-se da generalidade das terras de um país, e os
gemidos dos espoliados subirem até a Igreja, deverá esta agir de outra maneira?
A esta pergunta, qualquer consciência cristã responderá pela negativa.
Se se concedesse, para argumentar, que na atual situação brasileira é necessária uma
redistribuição de terras de maneira a abolir as propriedades grandes e médias, e que o poder público
não tem recursos para pagar as indenizações respectivas, a redistribuição deveria ter o caráter de
medida excepcionalíssima, e a este título transitória.
Dizemos “transitória” no sentido de que não deveria ser mantido no Brasil, decorrente da
“Reforma Agrária”, um regime crônico e perpétuo só de pequenas propriedades, mas que logo que
possível deveriam os particulares ser reintegrados em seu direito natural de dispor de seus bens,
acumulá-los e, pois, reconstituir uma justa e proporcionada desigualdade.
É curioso que muito se fala de dar o grande passo que seria a “Reforma Agrária”. Mas o
preconceito socialista que impera neste assunto parece tão grande, que poucos se lembram deste
outro problema que desde já deveria ser em certa medida previsto: feita a “Reforma Agrária”, como
sair dela?
No fundo, o que muitos almejam não é uma medida de emergência, mas um ideal social
fixo e estável: o ideal socialista.

“Odiai o erro; amai os que erram”


“Odiai o erro; amai os que erram”, é máxima atribuída a Santo Agostinho. Premunindo o
leitor contra a “Reforma Agrária”, não têm os autores a menor animadversão pessoal em relação a
quem quer que seja.
Desligados de qualquer compromisso político, também não tiveram em vista tomar atitude
em face dos problemas político-partidários do momento. Não cogitam de situação nem de oposição.
Têm seus olhos postos apenas na Igreja e no Brasil.
Folgam os autores em reconhecer que entre os propugnadores mais notórios da “Reforma
Agrária” há muitos homens de uma reputação profissional excelente, pertencentes a um meio
distinto, e notáveis pela probidade com que se conduzem na vida de família, na gestão de seus
negócios, ou dos cargos públicos que eventualmente ocupem ou tenham ocupado.
Qualificar a “Reforma Agrária” por eles almejada de violação do 7º mandamento não
importa em negar esses predicados. Como dizer que a eutanásia infringe o 5º mandamento não
implica em negar que os que propugnam essa medida possam ser homens de trato pacífico e afetivo,
de costumes ordeiros e tranqüilos, dos quais não é de se recear, nem de longe, que maltratem ou
firam as pessoas com quem têm contato corrente na vida quotidiana.

117
A quem interessa a questão de consciência?
A questão de consciência de que tratamos interessa, no momento, antes de tudo, aos que,
por sua autoridade em razão de cargo oficial, ou de sua influência sobre a opinião pública, podem
cooperar para a adoção ou rejeição da “Reforma Agrária”. E isto ainda que não se trate de católicos.
Com efeito, o legislador criterioso – ou quem, a qualquer título, influi sobre a elaboração
das leis – deve ter em vista as condições concretas de toda ordem, não só políticas, sociais e
econômicas, como também ideológicas, do país para o qual legisla. E isto quer aprove ou censure
essas circunstâncias ideológicas, quer lhes seja indiferente. Um católico, por exemplo, que
legislasse para um Estado maometano não poderia ser alheio à circunstância de que toda a
população teria mentalidade, tradições, costumes, marcados pelo espírito do islamismo.
Reciprocamente, qualquer que seja a opinião de um legislador brasileiro sobre a civilização cristã,
baseada nos princípios da liberdade do homem para o bem, da família e da propriedade privada,
deverá ele tomar em conta que nosso povo é católico, e que, pois, sua atitude em face da lei será
inspirada pelos ditames morais da Igreja, corroborados concretamente pela ação profunda de nossa
tradição cristã. Nenhum legislador pátrio pode ser indiferente, portanto, aos problemas de
consciência graves e generalizados que criaria para o brasileiro a lei da “Reforma Agrária”, ainda
que sob a forma, algum tanto mitigada, de uma revisão agrária. A não ter presente esta
consideração, melhor seria que a lei contivesse um artigo dispondo que fica proibido ao nosso povo
ser católico.
Nestes termos, a “Reforma Agrária” prepararia todas as condições para uma questão
religiosa. Pois, sempre que da lei do Estado se originam circunstâncias nas quais a prática da
Religião se torna sobremaneira difícil para grande número de pessoas, é à Igreja que se fere no
cumprimento de sua missão.
O católico, iluminado pela fé, deve atribuir ao assunto um interesse ainda maior, quer
enquanto brasileiro, quer enquanto fiel. Enquanto brasileiro porque, sabendo que a civilização cristã
é a condição fundamental da ordem temporal perfeita – dizem-no todos os Papas – deve querer para
seu País esse benefício inestimável.
E, pois, tudo quanto abale ou perturbe a consciência cristã do Brasil deve-se afigurar a ele
como altamente nocivo ao bem comum.
Como fiel, o católico – que o seja realmente, e não apenas de boca – crê firmemente que
lhe cumpre obedecer ao Decálogo, e deve reconhecer a maior importância ao confronto de sua
conduta, em todos os assuntos, o da “Reforma Agrária’ inclusive, com as normas infinitamente
sábias e amorosas que Deus lhe traçou.
Se tal obrigação existe para qualquer fiel, a fortiori ela se refere aos que, por razão do
ofício que exercem na sociedade temporal – jornalistas, oradores, pais, mestres etc. – têm o encargo
de formar e orientar pessoas, concorrendo assim para imprimir rumo a toda a opinião pública.
Portanto, para todos os brasileiros importa conhecer a doutrina da Igreja sobre a
moralidade dos atos relacionados com a “Reforma Agrária”.

Vários aspectos da questão de consciência


Expondo a doutrina católica sobre o assunto, fazemo-lo com o anelo muito cordial de
esclarecer nesse particular todos os brasileiros.
A forma sucinta e quase diríamos esquemática da exposição corresponde ao desejo de
tratar a matéria com toda a clareza possível.
Como vimos, a eventual implantação da “Reforma Agrária” importaria em uma lesão do
direito de propriedade. Este fato criaria um problema de consciência não só para os que fossem
responsáveis por tal lesão, mas ainda para os que dela se beneficiassem. Beneficiários da lei seriam
os que recebessem do Estado, por doação ou compra, mediante preço justo ou não, terras
ilicitamente subtraídas aos seus legítimos donos. Seriam também beneficiários os que comprassem,
por valor inferior ao real, as terras vendidas pelos legítimos proprietários que se achassem
impossibilitados de as conservar por motivo de uma taxação injusta.

118
Exporemos os princípios que regem a matéria, sem considerar, em suas peculiaridades, os
casos concretos que eventualmente comportem alguma solução mais matizada. Deles tratará a
casuística.
Consideraremos, preliminarmente, os princípios comuns que se relacionam mais
proximamente com o assunto deste trabalho, tendo em vista as várias modalidades de “Reforma
Agrária”, inclusive a revisão agrária.
De si, contribuir, por ação ou omissão, para uma medida que fere gravemente a Igreja no
exercício da missão que lhe foi confiada por Nosso Senhor Jesus Cristo, constitui pecado mortal. É
o caso da “Reforma Agrária”. Quem concorre para a aprovação ou aplicação de uma lei criando
condições econômico-sociais que deformam as almas, suscita obstáculos à ação da Igreja que
consiste em formá-las. Acresce que se alguém, além de favorecer em sua atuação a “Reforma
Agrária”, aplicando, por exemplo, a lei que a tenha implantado, também faz apologia dela,
baseando-se em princípios falsos (como o da igualdade absoluta entre os homens) atenta igualmente
contra o 1º mandamento, porque se opões ao Magistério eclesiástico.
Uma pessoa que haja praticado uma dessas ações terá necessidade, para voltar à graça de
Deus e à prática dos Sacramentos, de apresentar as disposições requeridas para a absolvição dos
pecadores: a ) pesar sincero pelo pecado cometido; b ) firme propósito de não recair; c ) caso o
pecado tenha sido público, disposição de o reparar publicamente. Essa reparação, para os que
tenham sustentado doutrina contrária à da Igreja, deve consistir, via de regra, em professar
notoriamente os princípios opostos aos que sustentou. Sem a disposição séria de cumprir tal
obrigação, o pecador não estará em condições de receber absolvição.
É compreensível. Quem prejudicou o próximo, ensinando doutrina contrária à da Igreja,
deve ter a disposição séria de reparar o mal que fez, afirmando a doutrina verdadeira. É um
princípio de justiça, e uma prova de honestidade intelectual e de sinceridade no arrependimento.
Quanto à responsabilidade dos homens públicos no tocante à “Reforma Agrária”, é
oportuno lembrar que nenhuma conveniência pessoal, nenhuma razão de amizade ou de disciplina
partidária poderia justificar que um deputado ou senador votasse a favor de uma lei visando
implantá-la. Em princípio, um representante do poder executivo ou do poder judiciário também não
poderia aplicar essa lei injusta, pois dessa forma se acumpliciaria com o mal. Este último princípio,
embora comporte exceções em sua aplicação concreta306 pode dar lugar a muitas e dolorosas
questões de consciência, como é fácil de ver-se.
Tais questões ainda seriam suscitadas, em muito maior número, no que diz respeito ao 7º
mandamento. Dado que em princípio constitui pecado grave o fato de alguém se apoderar de um
imóvel alheio, que situação de consciência seria criada pela “Reforma Agrária”, não só para aqueles
que se encontrem nas categorias acima enumeradas, mas ainda para os compradores ou cessionários
das terras injustamente expropriadas?
Uns e outros deveriam apresentar as condições já acima especificadas, para recobrar a
graça de Deus e voltar à prática dos Sacramentos. Entretanto, as violações do 7º mandamento têm
isto de peculiar que quem as praticou fica na obrigação de restituir o que subtraiu a terceiro, e de
ressarcir-lhe os danos causados.
“Res clamat ad dominum”, “res fructificat domino”, “nemo ex re aliena iniuste locupletari
potest”- “a coisa clama por seu senhor”, “a coisa frutifica em benefício de seu senhor”, “ninguém
pode se locupletar injustamente com coisa alheia” – são axiomas multisseculares que servem de
base para as regras de restituição de coisas injustamente detidas, axiomas aliás fundados no próprio
Direito Natural.
Abstração feita da “Reforma Agrária”, todos reconhecem que essas normas são básicas na
vida dos povos civilizados, quer nas relações entre indivíduos, quer nas do Estado com estes, quer
dos indivíduos com o Estado, quer por fim dos Estados entre si. Se, por exemplo, o Estado tivesse o
direito de se apoderar arbitrariamente do que é dos particulares, sem indenização, ter-se-ia chegado

306
Cfr., p. ex., Pio XII, Discurso de 6 de novembro de 1949 aos juristas católicos citado nos Textos
Pontifícios desta Secção.
119
ao mais negro totalitarismo. Se os indivíduos pudessem reter o que tirassem do Estado ou de outros
particulares, a ordem civil se desagregaria.
Excetuada a hipótese – que a Parte II prova não ocorrer no Brasil – de estar uma estrutura
agrária comprometendo de modo gravíssimo o bem comum, a “Reforma Agrária” não se pode
aprovar. E, portanto, não se compreende como uma lei que a implantasse poderia dispensar
daquelas normas fundamentais da Moral cristã e de toda a ordem civil.
Em conseqüência, e considerado o problema em princípio, o Estado, bem como os que
concorressem de modo decisivo para implantar a lei da “Reforma Agrária”, ou a pusessem em
prática, deveriam indenizar os legítimos proprietários pelo prejuízo que lhes infligissem.
Quanto àqueles a quem, em virtude da “Reforma Agrária”, fossem oferecidas, por cessão
ou venda, as terras pertencentes a terceiros, poderiam eles aceitá-las? Em princípio, não. E, pois,
tendo-as aceito, deveriam restituí-las: a ninguém é lícito aceitar ou conservar em seu poder bens
alheios sem consentimento do dono.
E no caso de partilha de terras forçada mediante pressão tributária? O proprietário premido
por impostos insustentáveis teria diante de si dois caminhos: ou entregar parte de suas terras ao
Estado, ou vende-las a particulares.
Na primeira hipótese, o Estado seria moralmente obrigado, não só a revogar a lei
espoliadora, como a restituir as terras que assim houvesse recebido. Caso o proprietário preferisse a
venda a terceiros para evitar as conseqüências da lei, o Estado continuaria responsável pelos danos
que houvesse assim infligido. Quanto às pessoas que comprassem terras nestas condições, estariam
na obrigação de não abusar da situação crítica do proprietário, impondo-lhe um preço vil.
* * *
Como se vê, um sem número de casos de consciência complexos, dolorosos, por vezes até
cruciantes, surgiria assim em nosso País, no qual já hoje a freqüência dos Sacramentos é tantas
vezes obstada pelas práticas ilícitas tendentes à limitação da natalidade e por outros pecados
infelizmente correntes na vida moderna.
A imposição de uma lei anticatólica a um país católico nos arrastaria assim a um mare
magnum de problemas que faria da “Reforma Agrária”, ainda que sob a modalidade de mera revisão
agrária, ponto de partida para uma grave convulsão da consciência cristã do Brasil.
Toda lei injusta é de si um convite, não só a cometer o pecado, mas a permanecer nele.
Quanto maior o número de pessoas a que a lei diz respeito, e quanto mais grave o pecado a que
convida, tanto mais nociva ela é sob o ponto de vista da consciência.
Uma lei que convida à prática do pecado e à permanência nele, faz tudo quanto está em si
para criar uma questão religiosa. Tratando-se de uma lei de efeitos tão profundos e alcance tão
generalizado, como seria a da “Reforma Agrária”, tudo leva a recear que ela venha a ser
lamentavelmente eficaz nesse sentido.

Perspectivas de uma questão religiosa


Vivemos em uma época conturbada, e os fermentos da crise em que o mundo se encontra
trabalham de modo muito ativo no País. Uma das garantias mais seguras de que o Brasil supere uma
crise universal tão difícil está em nossa tradicional fidelidade aos princípios da civilização cristã.
Uma “Reforma Agrária” teria, de si, o efeito de abalar os próprios fundamentos da civilização cristã
entre nós. Ademais, iria criar no Brasil um gênero de questão que todos os estadistas e homens de
pensamento reputam particularmente delicada, isto é, uma questão religiosa.
Ora, tudo isto para quê? Para, com manifesta violação do preceito divino que diz “não
roubarás”, impor ao Brasil uma reforma que, na ordem prática das coisas, não resolveria qualquer
problema, agravaria muitos dos que existem, e criaria problemas novos.

Textos Pontifícios

120
Procedimento dos juizes católicos em face de leis injustas
“Os contrastes irredutíveis entre o elevado conceito do homem e do direito segundo os princípios cristãos que
procuramos expor brevemente, e o positivismo jurídico, podem ser na vida profissional fontes de amargura íntima. Bem
sabemos, diletos filhos, como não raramente na alma do jurista católico que deseje ter fé no conceito cristão do direito,
surgem conflitos de consciência, particularmente quando ele se acha no caso de dever aplicar uma lei que a sua própria
consciência condena como injusta. Graças a Deus, vosso dever é aqui notavelmente aliviado pelo fato de que na Itália o
divórcio (causa de tantas angústias interiores também para o magistrado que deve executar a lei) não tem direito de
cidadania. Em verdade, porém, desde o fim do século XVIII multiplicaram-se os casos – especialmente nas regiões
onde recrudescia a perseguição contra a Igreja – em que os magistrados católicos vieram a achar-se diante do
angustioso problema da aplicação de leis injustas. Por isto aproveitamos a ocasião desta vossa reunião ao redor de Nós,
para iluminar a consciência dos juristas católicos mediante o enunciado de algumas normas fundamentais.
1 – Para toda sentença vale o princípio de que o juiz não pode pura e simplesmente repelir de si a
responsabilidade da sua decisão, para faze-la recair por inteiro sobre a lei e os seus autores. Estes últimos são
certamente os principais responsáveis pelos efeitos da própria lei. Mas o juiz que com sua sentença a aplica ao caso
particular é co-causador e portanto co-responsável daqueles efeitos.
2 – O juiz não pode nunca com sua decisão obrigar alguém a qualquer ato intrinsecamente imoral, o que
eqüivale a dizer contrário por natureza à lei de Deus ou da Igreja.
3 – Ele não pode, em caso algum, reconhecer e aprovar expressamente a lei injusta (que, de resto, não
constituiria nunca o fundamento de um juízo válido em consciência e diante de Deus). Por isto não pode ele pronunciar
uma sentença penal que eqüivalha a tal aprovação. Sua responsabilidade seria ainda mais grave se sua sentença
provocasse escândalo público.
4 – Todavia, nem toda aplicação de uma lei injusta eqüivale a reconhecê-la ou a aprová-la. Neste caso o juiz
pode – quiçá por vezes deve – deixar que a lei injusta siga o seu curso, sempre que seja esse o único meio de impedir
um mal muito maior. Pode ele infligir uma pena à transgressão de uma lei iníqua, se essa pena for de tal natureza que a
pessoa visada esteja razoavelmente disposta a suportá-la, a fim de evitar aquele mal ou assegurar um bem de muito
maior importância, e se o juiz sabe ou pode prudentemente supor que tal sanção será, por motivos superiores, aceita de
boa vontade pelo transgressor.
... Naturalmente, quanto mais grave por suas conseqüências é a sentença judicial, tanto mais importante e
geral deve ser também o bem a tutelar ou o dano a evitar. Há casos, porém, em que a idéia da compensação mediante a
obtenção de bens superiores ou o afastamento de males maiores não pode ter aplicação, como na condenação à
morte” 307.

307
Pio XII, Discurso de 6 de novembro de 1949 ao I Congresso Nacional da União dos Juristas Católicos
Italianos – “Discorsi e Radiomessaggi”, v. XI, págs. 264-265.
121
Considerações Finais

As pessoas recebem na eternidade o prêmio ou o castigo merecido por seus atos. Por isto,
Deus às vezes concede a felicidade terrena ao ímpio, recompensando-o aqui por algum bem
praticado e reservando a punição para depois da morte. De outro lado, não é raro que o justo pague
neste mundo, com sofrimentos diversos, algum mal que tenha feito, e seu prêmio lhe seja dado
principalmente na outra vida. Pode, pois, acontecer aqui que o bom seja por vezes infeliz, e o ímpio,
feliz.
Em relação aos Estados, faz ver Santo Agostinho, a situação é outra. Também eles estão
sujeitos à justiça de Deus. Mas como no Céu e no inferno não haverá nações, cumpre que estas
sejam premiadas ou punidas já neste mundo. De onde ser a nação virtuosa normalmente feliz; e a
pecadora, infeliz.
Desejamos, pois, preservar nosso amado Brasil de dolorosas perspectivas afastando-o da
“Reforma Agrária”, contrária à lei de Deus. Exprimimos o desejo de que todos os brasileiros, e
mais particularmente todos os católicos, usem para tal os meios legais a seu alcance.
No momento em que a classe dos agricultores, há tanto tempo dividida e lesada, se
encontra a sós frente a um risco inegável, é sem interesses pessoais de qualquer ordem, mas
movidos pelo desejo de defender seus direitos, porque fundados no Decálogo e no bem comum, que
publicamos este trabalho.
Como católicos, desejamos aqui externar quanto apreço nos merece a agricultura, tão
respeitável em si, tão propícia à prática da virtude e à salvação das almas.
Como brasileiros, com prazer aproveitamos esta ocasião para dizer aos agricultores quanto
reconhecimento lhes temos, por todo o bem que nosso País lhes deve.
Tudo isto nos põe à vontade para lhes apresentar algumas ponderações.
* * *
A desigualdade social e econômica é em si mesma legítima e necessária. Mas, hoje mais
do que nunca, ela só se faz aceitar de bom grado quando a elite une a um verdadeiro senso de
hierarquia de valores, um cuidado extremo em reconhecer os direitos dos que lhe são subordinados.
Empenhem-se pois nossos agricultores, por iniciativa própria, e sem parecerem arrastados
a isto pela demagogia revolucionária, em preparar seriamente o soerguimento das condições de vida
dos trabalhadores rurais. Para tanto, sejam ciosos de lhes pagar sempre o salário justo, familiar e
não inferior a um mínimo razoável. Sejam propensos a admitir outras medidas com o mesmo fim,
quando couberem, como a parceria, ou a difusão da pequena propriedade pelo sistema de
loteamentos, que já se pratica, e outras análogas. Procurem criar nos seus empregados apreço
sempre maior pela poupança, pelo asseio e pelo bom-gosto no lar.
Não ignoramos, aliás, que tal programa não depende só da classe dos agricultores, já tão
onerada, mas de todo um conjunto de circunstâncias, entre as quais a compreensão do próprio
trabalhador.
No conceber o progresso deste último, cumpre, como já dissemos 308, incutir nele o desejo
não só de bem-estar como de prosperidade, embora não o transformando em citadino nem em
burguês. Ademais, um sadio regionalismo deve velar por que se conserve e até se aprimore para o
homem do campo todo o ambiente peculiar à sua respectiva zona.

308
Cfr. Proposição 22.
122
Conselhos, aspirações vagas, palavras, dirá talvez alguém. Por que não traçar um programa
concreto, fundar uma obra, fazer enfim algo de palpável?
A cada qual sua tarefa. Não somos agricultores, mas homens de estudo. Cientes de quanto
pode em qualquer assunto a fixação de princípios básicos claros e verdadeiros, conjugamo-nos para
de todo o coração dar ao problema o contributo que de homens de estudo, modestos embora, se
pode esperar. Pertence aos agricultores o campo das realizações.
Mas um ponto há, que em geral se ressalta insuficientemente, e que deve servir de fecho a
esta Parte I. A questão agrária ora agitada no Brasil é um aspecto da questão social. E esta, segundo
ensinam os Papas, não é principalmente uma questão econômica, mas moral309. Onde os homens
são maus, nada pode ser bom. E a questão moral, todo bom católico o sabe, é essencialmente
religiosa. A chamada moral leiga e sem Deus nada pode.
Uma verdadeira formação religiosa deve, pois, ser o meio primordial de se resolver a
questão agrária. E neste sentido cabe ao proprietário um grande papel.
Deve ele favorecer quanto possa o culto católico e a instrução religiosa na fazenda, para
crianças e para adultos. Ademais, evitando ser em sua propriedade os perpétuos ausentes, devem ele
e os seus dar o exemplo aos empregados, freqüentando os Sacramentos, presidindo às orações em
comum e ministrando instrução catequética quando não houver Sacerdote que o faça. Seus trajes e
os dos membros de sua família sejam compostos e recatados. Façam quanto puderem para
regularizar as uniões ilegítimas. Reprimam o alcoolismo e o jogo, favoreçam as boas diversões.
Consagrem ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria seu lar e a fazenda toda,
convidando os trabalhadores a que repitam a consagração em suas respectivas casas.
Essas e outras medidas poderão assegurar o Reinado de Jesus Cristo no campo. E onde
Jesus Cristo entra, cessam as divisões, as lutas de classe, as injustiças e os vícios.
Nesta via, cônscio de seu direito, atue e lute intensamente o agricultor para defender o que
é seu. Faça-o por amor à justiça e à civilização cristã.
O homem que luta por seus direitos merece respeito. O que luta por princípios e ideais
verdadeiros merece, mais do que isto, admiração.
Que Nossa Senhora, que de seu trono sagrado de Aparecida rege todo o Brasil, conceda a
este trabalho a graça de contribuir para o bem com vistas ao qual foi escrito: a concórdia das classes
numa sábia e harmoniosa hierarquia, em que sejam respeitados os direitos proporcionados dos
grandes e dos pequenos, segundo a lei de Deus. Em suma, a paz verdadeira, que é a tranqüilidade da
ordem 310 ou, em termos mais altos, a paz de Cristo no Reino de Cristo.

309
Cfr. Textos Pontifícios da Proposição 31.
310
Cfr. Santo Agostinho, XIX “De Civ. Dei”, c. 13.
123
Sumário

REFORMA AGRÁRIA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA..........................................................................1


P ARTE I ..........................................................................................................................................................1
ASPECTOS RELIGIOSOS E SOCIAIS ................................................................................................................... 1
Introdução ................................................................................................................................................1
S ECÇÃO I........................................................................................................................................................7
A INVESTIDA DO SOCIALISMO CONTRA A PROPRIEDADE RURAL .....................................................................7
Título I ......................................................................................................................................................7
A “Reforma Agrária” e nossa realidade rural......................................................................................... 7
Capítulo I..............................................................................................................................................................7
Aspectos positivos de nossa realidade rural..........................................................................................................7
Capítulo II...........................................................................................................................................................10
Sombras no quadro .............................................................................................................................................10
Capítulo III ......................................................................................................................................................... 14
“Reforma Agrária”, falsa solução para um problema inexistente ....................................................................... 14
Título II................................................................................................................................................... 15
A “Reforma Agrária”, objetivo genuinamente socialista e anticristão..................................................15
Capítulo I............................................................................................................................................................ 15
O socialismo, falseando o quadro da realidade brasileira, preconiza a “Reforma Agrária”................................ 15
Capítulo II...........................................................................................................................................................16
A doutrina socialista é incompatível com a propriedade e a família................................................................... 16
Capítulo III ......................................................................................................................................................... 19
Conseqüente incompatibilidade do socialismo com a doutrina da Igreja............................................................ 19
Titulo III..................................................................................................................................................24
Como a campanha pela “Reforma Agrária” encontra eco num povo que não é socialista................... 24
Capítulo I............................................................................................................................................................ 24
A propaganda socialista sub-reptícia .................................................................................................................. 24
Capítulo II...........................................................................................................................................................29
Ambiente já receptivo para a propaganda socialista ...........................................................................................29
Conclusão ...........................................................................................................................................................30
Secção II ................................................................................................................................................. 30
Opiniões socializantes que preparam o ambiente para a “Reforma Agrária”: exposição e análise.....30
Observações preliminares................................................................................................................................... 30
Capítulo I............................................................................................................................................................ 32
A atual estrutura rural brasileira é em si mesma contrária aos princípios da justiça? .........................................32
Capítulo II...........................................................................................................................................................85
Em princípio, a atual estrutura rural brasileira prejudica a produção agropecuária?........................................... 85
Capítulo III ......................................................................................................................................................... 88
De fato, a atual estrutura rural brasileira está cumprindo a sua missão? ............................................................. 88
Capítulo IV......................................................................................................................................................... 93
Deve a opinião católica pronunciar-se sobre a “Reforma Agrária” .................................................................... 93
Capítulo V.........................................................................................................................................................109
Quadro sintético das proposições impugnadas e afirmadas ..............................................................................109
S ECÇÃO III................................................................................................................................................. 113
A QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA ....................................................................................................................113
Considerações Finais ........................................................................................................................................122
Sumário................................................................................................................................................. 124

124