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“O MELHOR EQUIPAMENTO” PODE SER ALGO MUITO RELATIVO EM SE

TRATANDO DE PISTOLAS E REVÓLVERES

Herick Gretschischkin
Gestão em Segurança Privada EaD 9ºT

Discutir sobre “o melhor equipamento” é, certamente, um tema controverso.


Ainda mais quando a temática adota, de forma tão abrangfente, a discussão sobre dois calibres
de arma de fogo de porte de uso de uso permitido, como os calibres nominais .38 SPL (ou
Special) e o .380 ACP (Automatic Colt Pistol).
Os revólveres no calibre .38 SPL são armas muito comuns no Brasil (se não
for o calibre mais popular, inclusive). Seus exemplares possuem tambores com capacidade
para alojarem de 05 (cinco) a 08 (oito) cartuchos. São armas de repetição, raiadas, com
alimentação manual, com carregamento por retrocarga e de ação dupla.
Já as pistolas no calibre .380 Auto (ou ACP), além de armas muito
populares, apresentam certo diferencial na capacidade de tiros, pois, em se tratando de armas
de porte, raiadas e semiautomáticas, sua alimentação é feita por carregadores, o que permite a
seu usuário uma capacidade combativa maior, antes de que necessite realizar a primeira
recarga, pois, geralmente, permitem acondicionar mais que 10 (dez) munições,
tranquilamente.
Trazer à baila a discussão referente a stopping power1 comparando ambos
os calibres seria leviano, uma vez que o poder de parada real e concreto depende de uma série
de aspectos que devem ser considerados na análise, como ponto de impacto no alvo, tipo de
munição e de projétil empregados, sua qualidade de fabricação e de armazenamento antes do
emprego, cumprimento do cano, perícia do atirador, etc.
Contudo, para termos um ponto interessante na discussão, vamos
acrescentar uma tabela comparativa de ambos os calibres.

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Stopping power, ou poder de parada, ou poder de freamento, representa o poder que um calibre de arma de fogo
possui para pôr fora de combate um oponente atingido com um único disparo com determinado calibre.
TABELA 01: Comparação balística

De forma bastante simples, com os dados obtidos pela Companhia Brasileira


de Cartuchos – CBC, ao analisar as munições por ela fabricadas, temos os resultados
balísticos da Tabela 01, que demonstram algumas diferenças entre as munições dos calibres
.38 SPL e .380 AUTO.
Observa-se uma diferença considerável no quesito “peso do projétil” . No
calibre .38 SPL, o projétil tem peso de 158 (cento e cinquenta e oito) grains2, enquanto no
calibre .380 AUTO, 95 (noventa e cinco) grains. Isso se reflete na capacidade do operador da
arma de fogo de portar seu armamento, portar as munições sobressalentes e, também, no
conforto do próprio operador em realizar ambos.
Sem considerar os aspectos relacionados às dimensões, por óbvio, munições
mais leves permitem ao operador carregar consigo uma quantidade maior de unidades por
exigirem menor esforço físico e oferecem resultado balístico diferente, pois, um projétil mais
leve, apesar de viajar a uma velocidade maior após ser lançado pelo cano (algo que também
pode ser visto na tabela comparativa), é mais suscetível a oscilações decorrentes de fatores
externos, como chuva e vento, por exemplo. Mas, tais oscilações merecem ser
desconsideradas na discussão versando sobre o emprego de munição na segurança privada,
tendo em vista que sua utilização será, muito provavelmente, para confrontos urbanos, ou
seja, a distâncias inferiores a 50 (cinquenta) metros.
Ainda realizando uma comparação – simples – entre os dois calibres,
podemos ver que a CBC alcançou a medida de 310 (trezentos e dez) Joules como resultado de
transmissão de energia da munição no calibre .38 SPL ao alvo, enquanto o calibre .380 Auto
alcançou 259 (duzentos e cinquenta e nove) Joules. Portanto, o projétil expansivo de ponta
oca teve melhor transmissão de energia ao alvo no calibre .38 SPL do que no calibre .380
Auto. Isso pode se refletir na capacidade de neutralizar o oponente no confronto armado, pois,

2
O grain é uma unidade de medida de massa equivalente a um sétimo do milésimo (1/7000) da libra, que
equivale a 64,79891 miligramas (aproximadamente 0,0648 gramas).
em tese, ao receber um projétil decorrente de um disparo de arma de fogo que proporciona
maior percepção de transmissão de energia, temos maiores chances de incapacitar o oponente,
sem levar em consideração outros aspectos mencionados anteriormente, como área atingida,
compleição física do alvo, etc.
Outra questão importante a ser colocada em pauta é a confiabilidade. A
grosso modo, quando do acionamento do gatilho do revólver, caso o disparo venha a não
ocorrer com sucesso por falha de ignição, basta que o operador realize novo acionamento de
gatilho, fazendo nova rotação do tambor , permitindo que outra munição seja alocada diante
do cano e do sistema de percussão. Além disso, as chances de panes nos revólveres por falha
na limpeza e na manutenção são bastante reduzidas se comparados às pistolas. No caso das
pistolas, estas são muito mais suscetíveis a panes decorrentes de falta de manutenção e/ou
limpeza e, em ocorrendo pane de ignição, o operador deve estar atento a seu armamento, para
rapidamente promover a ciclagem do ferrolho, ejetando a munição que “negou fogo”,
carregando novamente a arma com outra munição advinda do corpo do carregador. No
entanto, a velocidade de solução deste tipo de pane sempre será maior na pistola do que no
revólver.
A arma de fogo, como equipamento para emprego no trabalho de segurança,
requer que seu operador esteja familiarizado ao seu uso. Isso se refletirá no tempo-resposta de
sua utilização, na qualidade dos disparos, no tempo de recarga. Asseverar que um ou outro
tipo de arma e calibre é melhor ou pior com base em critérios teóricos e técnicos é deixar de
considerar o mais importante desse sistema, que é o próprio operador. Contudo, se tivermos
que escolher por um ou por outro tipo de armamento e calibre, certamente a pistola no calibre
.380 ACP seria escolhida, pela possibilidade de manter o operador em combater por mais
tempo antes da recarga, haja vista o carregador comportar mais munições do que o tambor do
revólver.

Referências:

BEDRAN, Paulo. A história do calibre 38 Special. Infoarmas, 19/01/2020. Disponível em: <
https://infoarmas.com.br/a-historia-do-calibre-38-
special/#:~:text=%C3%89%20considerado%20um%20dos%20calibres,de%20cargas%2C%2
0proj%C3%A9teis%20e%20cartuchos.>. Acesso em: 27 set. 2021.
INFORMATIVO TÉCNICO Nº 32 – Munições e Cartuchos para uso policial. CBC, 2019.
Disponível em: <https://www.cbc.com.br/wp-content/uploads/2019/07/IT-32_2019-
Impress%C3%A3o.pdf> . Acesso em: 27 set. 2021.

SILVEIRA, Lucas. .380 x .38, Qual a melhor escolha?. Instituto Defesa,


29/04/2014.<https://defesa.org/dwp/380-x-38-qual-a-melhor-escolha/>. Acesso em: 27 set.
2021.

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