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Michael Oakeshott

Sobre a História
& Outros Ensaios
SOBRE A HISTÓRIA & OUTROS ENSAIOS

A Torre de Babel
nil mortalibus arduí est;
Caelum ípsum petimus stultitia.
HORÁCIO
I

ma boa história é como um


rio; às vezes ele pode ser rastreado até uma nascente nas colinas, mas
o que ele se torna reflete o cenário em meio ao qual flui. Há uma
história, e essa história é marcada pela aparição de novos incidentes
ou novos personagens; sua cor muda; é contada em novos idiomas;
pode concentrar-se em uma balada ou uma canção, apenas para ser
dispersada novamente, em formas narrativas mais prosaicas.
E uma boa história possui outra qualidade além da capacidade
de espelhar as mudanças das circunstâncias humanas. Ela é a ex­
pressão de alguma imutável dificuldade humana; como um lamen­
to dos Céus, composto para reconciliar um povo apaixonado com
um infortúnio contingente, expressar todas as infelicidades sofri­
das pela humanidade desde o início dos tempos.
Minha história é uma boa história. Sua nascente são as mon­
tanhas que pairam nas névoas de tempos passados; e não há ne-

Este ensaio não deve ser confundido com o escrito de mesmo nome original­
mente publicado no Cambridgejournal, Volume II, 1 948, e incluído em Rationalism
in Politics ( 1 962, 1 99 1 ) .

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nhuma parte do mundo onde alguma versão dessa história não
tenha sido contada. Ela é encontrada entre as histórias dos chi­
neses, dos caldeus, dos antigos hebreus, e entre os povos árabes e
eslavos, e os incas do Peru. Essa história foi contada em grego,
latim, celta, nas línguas teutônicas e nos idiomas daqueles que
por milênios moveram-se entre as ilhas do oceano Pacífico. Ela
ocupa-se com a terra e com os céus; � o�ho!Jlen� e_ �om � s
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deuses e em como eles s�.s�lactQP:a_E!__:ti��Ç9-�_()S outros. Ocupa-


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se com a conduta e os relacionamentos dos seres humanos; e


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COIP: p� r(ei ç ã_? �-- imp er f:j �ã o .


- ·· · -·- - · --·- · · - · · · - · · · ·

As aventuras de Fausto e as peripécias de Dom Juan são ver­


sões um tanto banais dessa história, nas quais o ouro e as garotas
são o centro das atenções. E a história está imbuída no trágico
drama que conhecemos como a lenda arturiana. Nessa lenda (caso
você se lembra) o que destruiu a Confraria dos Cavaleiros não
foi nada tão contingente quanto as infidelidades de Lancelote e
Guinevere. Artur ignora o fato, como o fez Carlos Magno em
situação similar, o que, muito convenientemente, remete ao com­
portamento bizarro de um ancestral de Metternich. Não; foi a
própria busca do Santo Graal, um prêmio que não era apenas
uma relíquia sagrada, mas também (infelizmente) uma cornucópia
vulgar; essa foi a causa de sua destruição. Contudo, a história
nos é mais familiar na versão que primeiro foi ouvida pelos anti­
gos hebreus, elaborada por Josefo e pelos instruídos autores do
Talmude, e que excitou a imaginação de alguns dos primeiros
patriarcas cristãos. Essa é a história da Torre de Babel, e é conta­
da dessa maneira.

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2

A decaída raça humana solta na terra logo encontrou-se em dificulda­


des. Em vez de desfrutar da companhia uns dos outros (como crianças
poéticas) em uma vida de perpétuo assombro ante as maravilhas do
mundo, alimentando-se de frutos, ou empenhando-se alegremente em
descobrir e cultivar as riquezas da terra, gratos pelo que podiam obter
dela, os seres humanos encheram-se de ilimitadas necessidades e de uma
urgência selvagem em satisfazê-las. Negligentes quanto à sua beleza, des­
denhosos de suas dádivas e convencidos de sua hostilidade, eles devasta­
ram o mundo, buscando apenas gratificar seus perversos. e insaciáveis
desejos. E suas relações com seus semelhantes seguiram o mesmo pa­
drão: elas eram movidas por ganância, inveja, medo e violência.
Em resposta a essa situação, Zeus encarregou Hermes de ensi­
nar a humanidade como lidar com as condições da mortalidade
com sabedoria: a astúcia de Prometeu já os tornara capazes de
explorar os recursos da terra, mas eles ainda tinham de aprender
como aceitar a rerum mortalia com elegância. Porém, o Deus de Israel,
um personagem um tanto diferente, sentia-se tão chocado com a

depravação humana que chegou a arrepender-se de ter "criado o


hómem na Terra", e estava decidido a começar tudo de novo. Seu
plano era "despejar uma inundação de águas sobre aTerra", para
destruir todas as coisas vivas, exceto exemplares representativos de
sua criação, e regenerar a raça humana a partir de uma família que,
por conta de sua virtude, deveria ser resgatada do dilúvio: a saber,
o viúvo Noé, seus três filhos Sem, Cam e Jafé, e suas esposas.
Noé e sua família, pela graça de Deus, sobreviveram às torrentes
que inundaram a Terra. "As janelas do céu foram fechadas, a chuva

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do céu foi contida", a terra tornou-se terra seca mais uma vez, e
Deus colocou um arco-íris no céu como sinal de que nunca mais
agiria tão drasticamente contra a depravação humana; e que, na
verdade, iria no futuro proteger a humanidade das piores calami­
dades naturais: um sinal que mais tarde seria confirmado em um
pacto com Abraão. Assim, Deus, a Natureza e o Homem foram
reconciliados por uma promessa, não de amor, mas de decência e
clemência. Noé viveu trezentos e cinqüenta anos após o dilúvio,
cultivando sossegadamente suas videiras e desfrutando da restau­
ração da mutabilidade no mundo - da época de plantio e colheita,
do verão e do inverno, do dia e da noite, do sol e da chuva.
Após sua morte, Sem tornou-se o cabeça da família. Era um
homem simples, e passou a ser, para as gerações futuras, o em­
blema de uma raça humana em paz com as forças da Natureza e
ansios�l),e m obedecer aos comandos de Deus - uma raça um tan­
to embotada, genuinamente agradecida por estar viva, mas sem
nostalgia pelo Jardim do Éden perdido e sem expe ctativas
paradisíacas; uma raça que, se houvesse mantido a .pia resolução
de observar sua parte no pacto, não daria a Deus trabalho algum,
mas (como Santo Agostinho conjeturou mais tarde) que poderia
muito bem tê-lo feito bocejar de tédio.
O destino de Jafé não é parte dessa história; e isso talvez não
seja algo insignificante. Pois a terra de Jafé é a Europa, cujos habi­
tantes, embora não sejam de forma alguma imunes a recair na de­
pravação antediluviana, reconciliaram-se com sua expulsão do Jar­
dim do Éden e passaram a encarar sua salvação eterna como um
assunto de Deus, não deles: os inventores do relacionamento civil,
uma paz um tanto precária entre eles que, apesar de "ultrapassar

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todo o entendimento", foi muito bem entendida por Hobbes e
Hegel, embora não seja algo fácil de ser mantido.
Mas Cam, ao contrário de seus irmãos, era um espritjort. Tempos
atrás, ele causara desgosto a seu pai por conta de várias escapadas
infames. Ele casara-se cedo, e dizia-se que fizera amor com sua
mulher enquanto estavam a bordo da Arca, o que, dadas as cir­
cunstâncias, Noé considerou uma conduta irresponsável. Além
disso, durante a viagem (se assim pode ser chamada), quando, na­
turalmente, as coisas estavam um tanto desorganizadas, ele havia
roubado uma herança de famí.lia, a saber, a peça de vestuário que
Deus dera a Adão em sua expulsão do Éden, e com a qual nosso
ancestral comum substituiu sua primeira vestimenta improvisada.
E, depois, mais por acaso do que de propósito, Cam divertiu-se ao
ver a nudez de seu pai quando Noé jazia nu e descoberto em sua
tenda. Os outros dois filhos tiveram a decência de desviar o olhar
naquela ocasião. Em resumo, Cam era a ovelha negra da família,
em todos os sentidos dessa expressão. Essas eram, · sem ·dúvida,
meras delinqüências pessoais, revelando apenas uma disposição li­
geiramente ímpia, ou mesmo apenas ousada. Mas Cam tornou-se
um homem de imperiosa ambição e energia, ativo enquanto Sem
encontrava-se de joelhos; e substituiu seu irmão mais velho como
administrador da fortuna da família.
Cam gerou Cush, e Cush gerou Nemrod, que é o personagem
central da história. Nemrod era o filho mimado que seu pai tivera
em idade avançada. Ele cresceu meio que como um delinqüente.
Faltava na escola, tornou-se líder de uma gangue ainda em tenra
idade, divertia-se por aí com garotas, dava pouca atenção às ora­
ções e era abertamente desrespeitoso em relação a Abraão ( ó filho

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de Sem), que, por aquela época, era o titular da família. Talvez
Nemrod, quando adolescente, possa ser identificado como o pri­
meiro dos Hell's Angels - turbulento e perturbador.
Quando Nemrod tornou-se adulto, seu pai deu-lhe a peça de vestu­
ário que seu mal-afamado avô Cam havia roubado da bagagem de
Noé na Arca. Esse foi, talvez, o cúmulo da insensatez paterna. A his­
tória mantém silêncio quanto à forma e cor dessa peça de vestuário,
mas costuma-se acreditar que possuía qualidades mágicas. De acordo
com a lenda, a peça tinha sido feita a mando de Deus por Enoc, o
primeiro costureiro na história do mundo. Por ocasião da morte de
Adão, foi devolvida a Enoc, que, então a deu a Matusalém; Matusalém
a deixou de herança para Noé, que a levou consigo para a Arca. Vestido
com essa peça de vestuário, Nemrod sentiu-se não apenas um ótimo
sujeito, mas acreditou que fosse invencível. Assim, Nemrod, o herdei­
ro da disposição libertín de seu avô Cam, o mimado filho de seu zeloso
pai Cush, tornou-se conhecido como um notável aventureiro, �­
ferê!:!Qª____
---·
a _ seus anciãos e a lei alguma além dele mesmo, e dotado do
-----.J2.______

carism� -�e � � Ele era admirado por sua audácia, e adquiriu um


-
considerável cortejo de aduladores e parasitas que, deslumbrados com
suas blasfêmias, se renderam à sua liderança.
Contudo, ele sentia-se inquieto. Apesar de achar-se invencível,
temia que alguma outra pessoa, mais poderosa que ele, surgisse e o
destruísse. Além disso, embora estivesse pronto para rejeitar as len­
das de seu povo como contos que velhas mulheres inventavam para
assustar crianças, estava ciente de que se acreditava haver um Deus
no céu, que poderia causar sua queda. Na verdade, ele sabia, ou
pelo menos ouvira falar, que anos atrás esse Deus não hesitara em
inundar a terra por conta da depravação de seus habitantes, e ele

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estava inclinado a desacreditar na história de que isso nunca acon­
teceria novamente.
Por sob suas bravatas, N,e mrod vivia nervoso. Dele era a clás­
sica dificuldade do líbertín, brilhantemente imaginada (na ver­
dade, experimentada) por Pascal. Ele não poderia persuadir-se
a anunciar que "Deus estava morto" , �u mesmo que Deus esta­
va desacreditado e, já que não representava mais perigo algum,
escondera-se no Peru. Mas, como era um homem enérgico, es­
tava determinado a lidar de maneira radical com essa insegu­
rança, que se tornara uma obsessão. Não era bom tentar lograr
ou intimidar a Deus, ou fiar-se na possibilidade de sua morte:
ele deveria ser destruído.
Com esse objetivo Nemrod reuniu seus seguidores, que, por aque­
la época, caracterizavam-se por seu número considerável, e não
por sua inteligência. E dirigiu-se a eles da seguinte maneira:

Estamos cercados de inimigos, e o mais ameaçador entre eles é


esse Deus com o qual Abraão aliou-se. Venham; vamos para o
interior e construir uma cidade onde poderemos fazer o que qui­
sermos com impunidade. E vamos chamar essa cidade de Babel: a
cidade da Liberdade. E para que nunca novamente sejamos
destruídos por um dilúvio dos céus, vamos construir uma Torre
tão alta que não submergirá ante qualquer inundação, tão forte
que resistirá a qualquer terremoto, tão incombustível que os raios
não poderão nos destruir. Vamos, no topo dessa Torre, construir
nossas formidáveis escoras, que sustentarão os céus de forma que
nunca caiam novamente sobre nós - pois, como sabemos, o céu é
uma grande lona aberta por Deus para afastar as águas que, de
outra forma, inundariam a terra. Na verdade, quando construir­
mos essa Torre, vamos subir ao céu, rompê-lo com machados e
drenar a água para um lugar onde ela não nos possa fazer mal.
Assim vingaremos· a morte de nossos ancestrais e ficaremos para
sempre a salvo da hostilidade de Deus e da Natureza.

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Para alguns de seus seguidores, a arrogância da proposta de
Nemrod era um tanto alarmante. Porém, após alguma hesitação e
olhadelas para os lados, eles a aplaudiram. Na verdade, já haviam
ido tão longe com ele que não estavam em posição de dar as costas
a nada que N emrod sugerisse.
A aventura teve início no dia seguinte. O local da cidade foi
tomado de alguns pastores vizinhos, um tosco muro foi construído
a seu redor, algumas choças foram erguidas, e, sem demora, Nemrod
e seus seguidores começaram a tarefa de construir a Torre. Não
demorou muito para que a empreitada absorvesse toda sua aten­
ção. Nesse esforço para subjugar Deus e a Natureza às ambições
humanas, eles haviam se deparado com o trabalho de uma vida, e
tornaram-se escravos de um ideal.
. Eles construíam com paixão e energia, negligenciando a tudo,
exceto à conquista daquilo de que haviam se incumbido. Se, ao
longo do trabalho, um homem caísse e morresse, eles não nota­
vam. Mas se os tijolos cedessem ou se algum empecilho surgisse,
formava-se um tumulto. Atrasos provocavam protestos, quem se
fingia de doente era punido, e férias eram proibidas. Ninguém
estava isento, ou desejava estar isento, dessa que era a maior das
aventuras da impiedade, e cujo arquiteto era o próprio Nemrod.
Todos entregaram-se à tarefa, os mais jovens sonhando com a se­
gurança que se seguiria à sua conquista, os não tão jovens meio
arrependidos do destino de consumirem-se na busca de algo de
que talvez não vivessem para desfrutar.
Enquanto isso, o tio-avô Abraão observava o que ocorria em
Babel e estava naturalmente horrorizado ante sua impiedade. Ele
rezou a Deus (que, até então, mal percebera o que ocorria) para

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que frustrasse os construtores da Torre. Na verdade, ele sugeriu
que isso poderia ser feito de modo mais conveniente, não por meio
de um segundo dilúvio, que engolfaria a humanidade, mas de for­
ma mais econômica, "confundindo" as línguas de Nemrod e seus
companheiros, de maneira que nenhum homem entre eles pudesse
entender o que qualquer outro falasse. Agindo de acordo, Deus
ordenou que os setenta anjos que cercavam seu trono descessem
sobre Babel e levassem esse desastre a seus habitantes. Assim eles
fizeram, deixando atrás de si um povo incapaz de perseguir qual­
quer empreendimento cooperativo. Eram dadas ordens que não
eram obedecidas por não serem entendidas; temperamentos tor­
naram-se animosos; a exasperação espalhou-se; e a frustração atin­
giu tal dimensão que as pessoas de Babel não mais eram capazes de
tolerar a presença umas das outras. Assim, não foi por meio de um
dilúvio, mas por uma inundação de palavras sem sentido que o
império de Nemrod foi destruído. Seu povo tagarela foi separado
e espalhado sobre a face da terra. Sua Torre tornou-se um memorial
em ruínas a uma ímpia aventura, e o nome de Babel, que original­
mente significara Cidade da Liberdade, adquiriu seu significado
histórico: Cidade da Confusão.

Existem, é claro, outras versões da história. Segundo contadores


de histórias muçulmanos, ela começa com Nemrod e seus compa­
nheiros libertinos tão exasperados com a pia pregação de Abraão
que o jogaram em uma fornalha. Mas quando ele emergiu ileso,
seus algozes ficaram assombrados e consideraram o fato um sinal
de que o Deus de Abraão era hostil e perigosamente poderoso. E
Nemrod, em um surto de arrogância que foi além de qualquer

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coisa que até então perpetrara, declarou que ele próprio subiria
aos céus e se livraria do Deus de Abraão antes que o pior aconte­
cesse. Esse sábio ancião disse-lhe que o espaço entre o céu e a terra
era muito grande, de forma que Nemrod ordenou a seus compa­
nheiros que erguessem uma Torre extremamente alta para cobrir a
distância. Eles trabalharam por três anos. Porém, embora N emrod
subisse nela todos os dias na esperança de conseguir lançar seu
ataque contra Deus, o céu visto do topo nunca parecia estar consi­
deravelmente mais próximo. Pressionados pelas exigências irracio­
nais de Nemrod, os construtores ficaram cada vez mais negligen­
tes, e a Torre ruiu. Frustrado, Nemrod procurou outro meio de
chegar a Deus. Ele mandou fazer uma grande caixa de madeira e
em seus quatro cantos colocou cordas, as quais prendeu nos bicos
de quatro pássaros gigantes chamados rocas. Eles o carregaram,
sentado em sua caixa, até o céu. Porém, ao aproximarem-se dos
portões do paraíso, a caixa foi sacudida por uma rajada de vento, e
Nemrod caiu no topo de uma montanha. Frustrado pela segunda
vez, retomou o projeto de construir uma Torre, mas sem muita
convicção. A impetuosidade dos construtores foi, novamente, sua
destruição: a Torre desabou, enterrando Nemrod em suas ruínas.
E esse foi o fim de um visionário que degenerou em um reconhe­
cido excêntrico, objeto de piadas.
E há uma versão caldéia da história na qual Nemrod aparece
como um antigo rei babilônio que, tomado pela insensatez, con­
duziu seu povo em um ataque contra os céus, apenas para ser frus­
trado por um redemoinho que os varreu da face da terra. Mas os
antigos hebreus, que eram incansáveis em aperfeiçoar esse tema,
tinham outra versão mais sombria da história. Nesse relato, Nemrod

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era representado como um personagem tão Jarouche que até seus
seguidores recuaram ante suas impiedades. Abandonado por seus
súditos, decidiu desferir sozinho seu ataque contra Deus. Cons­
truiu, então, um arco de dimensões extraordinárias e inusitado
poder, e com ele lançou uma flecha para o céu, tendo Deus como
alvo. A flecha caiu na terra gotejando sangue. Mas Nemrod não
sobreviveu a seu triunfo. Ele caiu no chão, e, enquanto lá jazia,
muito fraco para mover-se, um enxame de formigas o devorou.
O tema dessa história é, pois, o ataque titânico contra os ceus. Em
sua versão mais antiga, o céu é a morada de um· Deus um tanto
severo, interessado apenas no bem e no mal, e sem nenhuma dispo­
sição para fazer alianças com aqueles que, nem sempre destituídos
de boas intenções, tinham dificuldades em evitar as costumeiras ne­
gligências de uma vida humana. E da remonta ao dilúvio, a ocasião
na qual Deus demonstrou tanto sua impaciência para com a depra­
vação humana quanto seu comando sobre as forças destrutivas da
natureza. Assim, aqueles que se rebelam contra tal Deus são pessoas
que não vêem o motivo pelo qual suas delinqüências deveriam ser
levadas tão a sério, e que desejam apenas evitar as conseqüências da
depravação. Elas buscam libertação de um potentado em cujas pro­
messas não mais põem fé. A história preocupa-se em evitar um reino
de terror real ou imaginário, e com a conquista de uma segurança
absoluta em relação aos poderes hostis de Deus e da Natureza. Se,
como Nietzsche, elas pudessem se convencer de que esse terrível
Deus já estava morto, deixariam (é verdade) de se sentir ameaçadas.
Contudo, elas apenas poderiam estar certas da segurança que busca­
vam se tivessem a garantia de sua morte, o que caberia a um assassi­
no bem-sucedido. Nemrod é colocado nesse papel de um assassino

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heróico. Não há plano algum de dominar o céu, que (na maioria das
versões da história) não é mais do que um reservatório de enormes
proporções, onde as águas são mantidas apenas por uma precária
comporta controlada por Deus; o objetivo é apenas destruir esse
reservatório, bem como seu proprietário.
Entretanto, mesmo em épocas antigas, a história de Babel con­
tinha outros significados; mais profundos e, ao mesmo tempo, mais
triviais. Ela apontava para além de Noé e do Dilúvio, para aquele
primeiro, quase que inadvertido, excesso, e a 2erda que ele acarre­
tou. É uma expressão deformada daquele nostálgico anseio de ser
resgatado do exílio e de retornar ao Paraíso Perdido: uma perda
que o registro mostra ter sido ocasionada não por um rebelde Adão,
mas por sua decente decisão de ficar ao lado de sua imprudente
esposa, que havia caído na conversa de um esperto vendedor de
enciclopédias para efetuar uma aquisição de conhecimento que
estava além de sua posição e de seus recursos. Pois, em algumas
dessas histórias que giram em torno de Nemrod, o sonho de des­
frutar uma vez mais da paz e plenitude do legendário Jardim mu­
rado foi transformado em um plano monstruoso de atacar o pró­
prio céu. Nemrod não é um ladrãozinho como Prometeu; ele é o
líder de umaFevolução/cósmica cujo esforço não apenas está fada­
do ao fracasso, mas que acarreta a destruição de todas as virtudes
e consolos da víta temporalís, uma destruição da qual a "confusão de
línguas" é o emblema. Mas, é claro, o esplendor simbólico desse
conto não se compara com o relato do breve encontro entre Deus
e o homem que constitui a misteriosa história de Caim. 1

1 Ruth Mellinkoff, The Mark oJ Cain.

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Tempos depois, Dante identificou Nemrod como um ser hu­
mano deformado, um gigante que, por vaidade, entrou em guer­
ra contra os céus e, como conseqüência disso, confundiu as con­
versas da humanidade. Ele é encontrado no nono círculo do In­
ferno, um idiota tagarela eternamente soprando uma trombeta: O
anima co nfusa. No poema de Ariosto, Nemrod apropriadamente
aparece como o ancestral do falastrão Rodomonte, o mais terrí­
vel de t o dos os s arrac enos e herdeiro de sua roupa da
invencibilidade (aqui descrita como uma pele de dragão), cuja
falta (ele a deixou, descuidadamente, pendurada na tumba de
Isabela) caus ari a sua queda em s eu e n c ontro final c o m
Bradamente. E , é claro, o Nemrod que chegou até nós é um po­
deroso caçador, mas, caracteristicamente (nas palavras de
Montaigne ) amava apenas a caça, e não o ato de caçar. De um
,

modo mais prosaico, Babel tem sido um conto banal de despo­


tismo benevolente: Nemrod é o primeiro auto-intitulado Rei­
Redentor, cuja autoridade jazia em atiçar medos e ressentimen­
tos de seus súditos. E Hegd, ê claro, volta ao começo. Ele reco­
nhece a história hebréia do Dilúvio como um rompimento entre
o Homem, Deus e a Natureza, que foi reparado apenas para
voltar a ocorrer no conto de Nemrod. E ele compara essa histó­
ria do excesso hebreu com a história grega de Deucalião e Pirra.
Nela, até mesmo o não muito exigente Zeus fica por fim exaspe­
rado com a voracidade da raça humana e resolve destruir a hu­
manidade com um Dilúvio. Mas Deucalião (um filho de Prome­
teu) e Pirra, marido e mulher, por conta de sua virtude inco­
mum, são salvos em um barco. E a raça regenerada, que Zeus,
então, lhes permite gerar após o Dilúvio, desfruta de uma era

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dourada de harmonia, que não foi interrompida pela ambição
vulgar de um Nemrod; uma harmonia que gradualmente se eva­
porou, mas que, antes de evaporar-se, foi, talvez, capturada na
lenda de Diana, aquela complacente garota cujo único desejo
era, nas palavras de Chaucer,

Caminhar nos bosques selvagens.

Entretanto, nascida no rio do tempo, essa história de Babel e


Nemrod, ao chegar à nossa época, tem sido contada em um idioma
um tanto diferente. As novas características da história têm, é claro,
seu contraponto nas versões mais antigas; a mudança é em relação à
ênfase. Ela ainda pode ser reconhecida como a mesma história, ain­
da que o mis-en-sce'ne seja diferente, e ainda que as banalidades da
modernidade qnalifiquem o heroísmo da antiga impiedade.
��
3

Nessa versão da história, as cortinas sobem mostrando Babel, uma


cidade atribulada pelo alvoroço de obter e gastar. Uma grande varie­
dade de empreendimentos está em andamento; há uma interminável
proliferação de necessidades� satisfações. Seus habitantes são co­
nhecidos por sua volubilidade. A atmosfera geral é de uma vulgari­
dade moderada. A arte degenerou em entretenimento, e os entrete­
nimentos não costumam ser refinados. Os babelianos não têm vícios
espetaculares, nem virtudes heróicas. São facilmente seduzidos pelas
novidades; se tivessem o dom da introspecção de Madame de Sévigné,
também exclamariam: "Meus Deus, como amo a moda!" Eles são

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ensimesmados e auto- �ndulgeftes. É, de fato, uma Cidade da Liber­

dade: o lar de toda§____ imagináveis.
Ainda assim, um estranho que se aproximasse de seus habitantes
poderia tê-los considerado um povo difícil. Há uma tendência ao
descontentamento, à falta de objetivos e à ausência de autodisciplina.
As virtudes estóicas e marciais estão particularmente ausentes de
seu caráter. Eles formam um povo indócil em vez de indiferente; e
ressentem-se do governo, não como um povo selvagem e apaixona­
do poderia se ressentir, mas como crianças mimadas. Na verdade,
a ordem que existe entre eles tem sido há tanto tempo mantida por
subornos que agora esse é o único tipo de controle que podem
tolerar. Em resumo, Babel é uma civitas cupiditatis, e seus habitantes,
embora não sejam excessivamente ricos, formam um povo devota­
do à riqueza. Sob um certo ponto de vista, essa história de Babel
versa sobre o merecido castigo para a cobiça.
Eles são governados por um jovem duque, Nemrod, que recen­
temente herdou o legado e a autoridade do pai. Em muitos aspec­
tos, ele é um típico babeliano. A família ducal na qual fora criado
era quase que uma réplica da cidade. Desde a infância, suas neces­
sidades mais casuais eram atendidas, e suas exigências mais capri­
chosas eram satisfeitas. E a deferência a seus desejos, que na infân­
cia recebera dos pais e tutores, naturalmente esperava receber do
povo, agora que se tornara o seu duque. Contudo, uma vez que as
expectativas do povo eram similares às dele própri� (a saber, a
pronta satisfação de todas as suas necessidades), e uma vez que elas
eram ilimitadas, o duque e o povo encontraram-se em direções um
tanto diferentes. Pode-se dizer que essa situação jazia em estado
potencial em Babel desde o tempo do primeiro duque, Cam; con-

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tudo, a ascensão de um novo governante a fez vir à tona. E Nemrod,
impaciente ante a frustração que a situação prometia, empenhou­
se em resolver o conflito.
Nos eventos que se seguiram é difícil dizer exatamente que pa­
pel desempenhou a determinação do duque de organizar as ativi­
dades de seu povo, de forma que contribuíssem para a satisfação
de suas próprias necessidades ilimitadas, e que papel desempenhou
a cobiça dos babelianos. Sem dúvida, tanto o duque quanto o povo
acreditavam que faziam algo de bom, e pode até ser que o duque
pensasse que seu povo se tornaria mais governável se ele aparentas­
se formar uma aliança benevolente com a população. Mas o certo
é que esses eventos não poderiam ter ocorrido se não fossem algu­
mas importan��J2.ªrtilhada� ta��elo duque quan­
_
__

. �'?. _P_C>E s_e_l1 _P�Y�'. ...


Pode-se dizer que os babelianos, assim como o Papa Bórgia
Alexandre IV, acreditavam, até certo��m praticamente tudo.
Mas sua disposição pragmática estava ancorada naquilo que, na falta
de uma palavra melhor, poderia ser chamado de crenças religiosas.
Nessas crenças, Deus não aparecia como o governante dos habitan­
tes da terra, satisfeito quando eles se comportavam bem e implacável
com a maldade, mas como o dono de uma propriedade situada aci­
ma dos t:éus. Era uma propriedade de riqueza inimaginável, que se
supunha conter tudo o que era desejável em ilimitada profusão. O
sol brilhava durante o dia e as noites eram tão macias quanto veludo,
sempre iluminadas pela lua cheia. Era um mundo sem inverno. As
árvores sempre tinham frutos; e em meio a essa propriedade serpen­
teava um rio de vinho. Tudo o que se poderia pedir era instantanea­
mente fornecido, sem qualquer limite.

M I C H A E L Ü A K E S H OTT
Entendia-se que o dono dessa miraculosa propriedade tinha uma
boa disposição para com os habitantes da terra; na verdade, ele era
reconhecido como a derradeira fonte de suas satisfações e prazeres,
os quais eram, direta ou indiretamente, produtos de sua propriedade
celestial. Ele era conhecido como alguém que tinha rompantes de
caprichosa generosidade, quando jogava do céu, amarrado em uma
corda, um cesto de figos ou romãs, dos quais afortunados passantes
poderiam se servir. Mas ele também era conhecido por ter uma dis­
posição um tanto mesquinha, doando prazeres aos seres humanos
de forma miserável, instigando seus apetites, mas nunca os satisfa­
zendo. Em resumo, a terra era reconhecida como uma parte do uni­
verso distintamente inferior, uma região de escassez, e seus habitan­
tes eram o que os teólogos chamam de "desprivilegiados". Assim, o
Deus dos babelianos era conhecido como um benfeitor pão-duro,
criador de todos os seus prazeres, mas também de suas privações. E
uma vez que, como crianças mimadas que eram, não podiam enten­
der por que deveriam ser convocados para sofrer privações, senti�_-:: .
se mais ressentidos pelo�lh�_g;i. negadQJ:fo que grat��-1º ..9..�- .

_.,.;::.;.-

lhes era dado_!.. Essas crenças, compartilhadas pelo duque assim como
pelo povo, eram o solo no qual Nemrod plantou uma semente que
floresceria como uma revolução no modo de vida babeliano.
No aniversário de sua sucessão ao ducado, Nemrod realizou
uma cerimônia oficial durante a qual fez um longo discurso. Ele
começou elogiando seu povo pela engenhosidade com a qual in­
ventava novas necessidades e seu desembaraço em satisfazê-las. A
moderada riqueza que envolvia suas vidas era obras deles, sem qual­
quer auxílio. Mas ele também estava ciente das privações que sofri­
am, e prosseguiu compadecendo-se deles por suas frustrações. Exi-

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T RO S E N S A I O S
biu-se como homem de ilimitada generosidade, mas, infelizmente,
de recursos restritos. Na verdade, seu cérebro lhes era de mais valia
do que sua riqueza. E continuou, para mostrar-se como um ho­
mem de grandes idéias:

Não vou insultá-los [disse eleJ sugerindo que vocês superem


suas privações engajando-se em qualquer um desses expedientes
gnósticos, tais como a manufatura de chips de silício. Nem
tampouco sugiro que vocês (e aqui ele rapidamente se corrigiu),
que nós devêssemos nos distrair construindo algo tão irrelevante
quanto a Represa do Dnieper. Deixemos isso para os outros.
Sua dignidade de babelianos exige um reconhecimento mais ra­
dical. Pois, quem é o verdadeiro criador de sua frustração? Quem
é esse que tem os meios para pôr fim à sua privação, para dar­
lhes uma ilimitada profusão de satisfações, e não o faz? Não é
esse mesquinho Deus que maliciosamente retém o que poderia
dar sem que nada perdesse com isso? Vocês não merecem mais
do que recebem? Não somos nós as vítimas inocentes de uma
conspiração cósmica? Ou, se não isso, somos ao menos vítimas
de uma criminosa injustiça distributiva?

Nessa parte do discurso Nemrod teve de ser cuidadoso, porque


poderia facilmente perder a simpatia de sua audiência ao cair em
uma desbragada blasfêmia. Os babelianos eram, em muitos sentidos,
um povo despretensioso, que não estava habituado a ter sua dignida­
de invocada. Além disso, os homens comuns podem reclamar de sua
sina, mas demoram para impugnar seus Deuses, mesmo que eles os
tenham dotado de um caráter infame. Outros povos já foram incita­
dos antes a se ressentirem de sua exclusão do que tem sido chamado
de "um lugar ao sol'', mas o descontentamento humano geralmente
se concentra na falta daquilo de que outros parecem estar desfrutan­
do, e não em satisfações totalmente imaginárias. Porém, tendo pre-

M I C H A E L Ô A K E S H OTT

266
parado sua audiência para algo inusitado, Nemrod prosseguiu, con­
fiando-lhes uma secreta ambição, que, disse ele, era seu mais caro
desejo al cançar em ben eficio de seu povo. Confiou-lhes também o
plano para alcançá-la, que urdira com o auxílio de seu leal vizir.
A ambição era nada mais nada menos do que forçar a abertura
dos portões do paraíso, desalojando aquela miserável deidade de
sua propriedade e apropriando-se dela para que todos os
babelianos pudessem desfrutar da ilimitada profusão do paraíso.
O plano consistia em construir uma Torre em direção ao céu, da
qual o ataque contra o paraíso seria lançado. O discurso termi­
nou com uma exortação que deu ao projeto as cores de uma
guerra santa e lucrativa.
Quando Felipe, o pai de Alexandre, o Grande, anunciava uma
extraordinária aventura, diz-se que seu criado costumava adverti­
lo: "Felipe, lembre-se de que você é mortal", o que, é claro, não
significava nada tão banal quanto: "Lembre-se de que você morre­
rá:' Contudo, nessa ocasião, Nemrod não recebeu tal advertênóa.
Ainda assim, havia muitas coisas no caráter dos babelianos que
não os disporia a engajarem-se em um empreendimento tão extra­
vagante. Eles sempre preferiram chegar em vez de viajar, e, natural­
mente, teriam preferido que outros se incumbissem disso, para que
pudessem aparecer no final e desfrutar dos resultados. Eles parti­
lhavam da faustiana preferência pela mágica, mas sempre viram
Aladim como um rapaz afortunado que tirara a sorte grande, um
tipo de boa fortuna que não era para ser procurada por todo um
povo. Na verdade, é impossível imaginar qualquer povo alimen­
tando seriamente um projeto desses, a menos que tivesse sido ins­
tigado a fazê-lo por algum hábil visionário, ou que sua adesão ao

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T RO S E N S A I O S
\ pi:�i�to abr�1:1dasse_p�pletQ_a_s_�nsação de que é bom demais
! Eªr<l � e 1: \Te l."ªªcl�, bem como _;i �1:1SE��;i c!�-�-�cl_ev_ eria ser um e!!l­
_
__

/ �ste. Mas, seja como for, quando o sol se pôs, uma profunda
mudança ocorreu com o povo de Babel. Alguns diriam que a cobi­
ça derrotara a indolência e o bom senso; outros, que eles tinham,
enfim, encontrado um propósito na vida para acomodar seus ca­
prichos, e elevaram-se ao status de sacerdotes de um ideal.
Os babelianos, pois, não eram um povo que poderia ter-se dei­
xado enlevar, ainda que brevemente, pela gloriosa visão de tratores
retumbando na vermelhidão do pôr-do-sol, todas as mágoas dis­
solvidas no turvo êxtase da camaradagem devotada à condução de
uma incandescente revolução tecnológica voltada ou para seu pró­
prio bem, ou para suas perspectivas de opulência. Eles eram capa­
zes de ter inveja e ressentimento; mas o que os unia era uma pro­
funda sensação de serem igualmente "privados": era-lhes permiti­
do ter desejos, mas lhes era negada sua imediata satisfaÇ ão. O que
eles poderiam buscar, e que agora lhes era oferecido, era uma "al­
ternativa" às suas circunstâncias imediatamente reconhecíveis (que
não pedia por nenhuma mudança de disposição neles próprios) é
que era tão radical que até mesmo eles não poderiam esperar alcançá­
la da noite para o dia, ou sem algum esforço.

As obras da Torre começaram sem demora. Uma área de vários


hectares no meio da cidade foi aberta. Imediatamente, as conseqüênci­
as do empreendimento começaram a se mostrar. Uma pequena parte
da área era ocupada por uma loja de chocolates e tabaco, e, quan-

M I C H A E L ÜAKES HOTT

268
do as escavadoras chegaram para tirá-la do caminho, seu idoso propri­
etário foi à prefeitura protestar e pedir uma compensação. Ele era ho­
mem de atitude; ignorou o conselho que a garota do guichê lhe deu
para que apresentasse sua queixa por escrito e insistiu para ver o secre­
tário da Câmara Municipal. O �ecretário admitiu que a situação era
sem precedentes, e lamentou que não tivesse o poder de impedir a
demolição, mas prometeu levar o assunto ao Conselho administrativo.
Outros prejudicados pelo antinomiano entusiasmo com o qual o novo
"propósito social" dos babelianos foi recebido recorreram à Suprema
Corte; suas queixas, porém, receberam uma resposta seca. Em um ce­
lebrado julgamento, um distinto juiz (chamado lorde Wensleydale)
declarou que, quando grandes obras eram iniciadas com a intenção de
aumentar a prosperidade de todos, _'.l �<?nveniência privada deveria sub­
_
_

meter-se ao(!?_��- c� E essa confirmação da soberania da utilítas


�pôs um fim na história civil de Babel.
É possível que, se os habitantes da cidade houvessem sido capazes
de prever o que seu engajamento traria, talvez o tivessem iniciado
com menos entusiasmo. Mas, é claro, esses desdobramentos reve­
laram-se apenas de forma lenta. Assim como no começo de uma
guerra o padrão de vida muda de forma devagar, também em Babel
as condições desse empreendimento de invadir e capturar o paraí�
so apenas gradualmente tornaram-se evidentes. Na verdade, pas­
sou-se algo em torno de doze meses antes que os babelianos come­
çassem a reconhecer claramente que estavam engajados em um
empreendimento que exigia a total mobilização de seus recursos.
A Cidade da Liberdade estava se tornando uma comunidade, e
seus habitantes estavam a caminho de adquirir uma nova identida­
de comunal no lugar de suas antig�ndividuali�a�:.���_!int�.=_

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T RO S E N S A I O S
Mas se essa identidade era a de Buscadores do Paraíso, ou a de
meros Construtores de Torres, isso não foi esclarecido.
O primeiro ano, ou pouco mais, foi um período no qual o entu­
siasmo pelo projeto adquiriu muitas formas diferentes. A adminis­
tração municipal tomou a dianteira. Novos selos postais foram
lançados mostrando uma torre, mais ou menos como a peça do
tabuleiro de xadrez. E não levou muito tempo para que novas
moedas fossem cunhadas, com uma torre de um lado e N emrod,
com uma torre em miniatura em sua mão, no outro. Depois disso,
a obsessão começou a tomar conta de todos. Pessoa alguma, muito
menos os babelianos, podia sentir-se seriamente engajada sem que
o engajamento fosse traduzido em coisas como fazer brinquedos e
show-busíness. Torres de plástico ocuparam o lugar dos gnomos de
plástico nos jardins suburbanos. O design dos brinquedos infantis
foi invadido por motivos de torres. Decalques de torres eram ven­
didos para os pára-brisas dos carros, e adesivos com slogans como
T - para o para1so do povo " , e "N ao
"Avante, iorre " , ou "C onstruçao ,
-
Espere pelo que Você Quer" para os vidros das janelas de trás. Os
bolos de gengibre que as crianças costumavam levar para a escola
eram assados em forma de torres. E pratos como Bife à la Tour e
Consommé Touraíne apareceram nos menus dos restaurantes. As pe­
ças dos trousseaux das noivas tinham uma torre bordada nos locais
apropriados. E, é claro, "torre", como substantivo (e também como
verbo), foi dotado de um óbvio significado secundário. Turita tor­
nou-se um nome popular para garotas, e Tar para meninos.
Tais frivolidades, contudo, gradualmente saíram de cena. Um a
um, os compromissos e ocupações estranhos ao empreendimento
desapareceram, e as atividades dos babelianos começaram a se con-

M I C H A E L ÜAKESHOTT

270
trair ao redor de um único centro. Sua proverbial alegria deu lugar
a um tipo de seriedade espúria.
As crianças de Babel nunca desfrutaram por muito tempo da
educação escolar: a vida começava cedo e voltava-se para a satisfa­
ção de necessidades que não exigiam muito aprendizado. A univer­
sidade era um tributo à cultura dos tempos antigos (Babel não
havia nascido na barbárie), mas o aprendizado era buscado apenas
por alguns poucos. E havia uma escola de arte dirigida por um
artista de distinção, que emigrara de Paris. Porém, sob inspiração
do novo ' � , tudo isso rapidamente revelou-se para
os planejadores como sendo a construção de uma "sistema educa­
cional" projetado para transmitir (conforme descreveu um famoso
relatório) "as habilidades e versatilidade exigidas pelo atual com­
promisso do povo de Babel". Uma nova disciplina chamada Tec­
nologia da Torre (abreviada para TT) foi introduzida, uma forma­
ção em Estudos da Torre foi adicionada ao currículo da universi­
dade, e a Escola de Arte foi convertida em Escola de Desenho
Industrial. Mas esses eram apenas os primeiros passos de uma trans­
formação que não deixaria nada no lugar.
Um povo dedicado à conquista de um chamado "padrão de
vida" perpetuamente em elevação não é mais que um pálido refle­
xo da devoção dos babelianos à sati sfação total, não em prestações,
mas como recompensa final. Aqueles que não trabalhavam na Tor­
re dedicavam-se a cuidar dos que trabalhavam. A coleta de rações
tomou o lugar das compras. A distinção entre rico e pobre deixou
de existir; todos estavam igualmente empobrecidos. E, no fim, o
único uso que restava para o dinheiro era apostar nas casas lotéricas
qual seria a conquista dos construtores no dia seguinte, e ganhar

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T ROS E N S A I O S

271
-

ou perder somas inteiramente nocionais. Onde havia apenas um


·
-
-
·
·
-
·

assunto sobre o qual falar, a imaginação e a língua tornaram-se


--
-
-
··
-
-
-
·- --- - - · - · -- --- - ·· · · - - - - - - - - - - - ----- - - -- - - - ---·------·

empobrecidas. Jornais degeneraram antes que fossem substituídos


por boletins oficiais três vezes ao dia, relatando os progressos da
Torre, e, estranhamente, sua difusão tornou-se conhecida como
mídia. I��a conduta er�!!��l_?��cida ape��or sua relaç ãc:: co�
_
&�pre :�� ��_t;fÁ;p-alavras "b-��' e "mau", "justiça" e "injus­
i;
_
tiça" adquiriram sentidos restritos, apropriados às circunstâncias:
a cada um deles era afixa40 o adjetivo "social". E então surgiu
entre os babelianos uma interimsethik, para igualar-se ao caráter e ao
propósito evanescente da atual maneira de vida.
À medida que a obsessão dominava, ninguém duvidava do motivo
pelo qual estava vivo. Crises de identidade não estavam mais na moda;
"alienação" era uma palavra do passado; o índice de suicídios caiu
para zero. Mas algumas novas doenças apareceram. Em uma delas,
que os doutores chamaram de melancholia turita, os pacientes, após
exibirem uma série de sintomas tais como "ver torres" ou acreditar
que estavam sendo violados ou devorados por torres, geralmente
terminavam acreditando que eles próprios tinham sido transforma­
dos em torres - um verdadeiro Turmerlebnis. Na verdade, além da
torre, os únicos projetos de construção realizados naquela época
eram os de hospitais psiquiátricos e clínicas para tratar da prolifera­
ção das ansiedades que o empreendimento havia gerado.
Era de-se- esperar que esse novo "estilo de vida", como isso passou a
ser chamado, devesse encontrar alguma resistência. Foi satirizado pe­
los humoristas; os pios pregaram contra ele; pais à moda antiga zom­
bavam dele quando seus filhos voltavam da escola com a cabeça cheia
pela última extravagância; e ainda havia a companhia de pessoas entre

M I C H A E L Ü A K ES H OT T

272
quem um jovem que fora condecorado com a Medalha da Torre (da
quarta classe) ficaria envergonhado de mostrar sua condecoração. Mas
esse ceticismo foi combatido com uma maciça propaganda. As liturgias
das cerimônias religiosas foram revisadas, e uma NovaTeologia surgiu,
disseminada em panfletos escritos por pessoas que vieram a ser conhe­
cidas como os Bispos Pró-Torre, e que pregavam a doutrina do Deus
Avarento. .(!:té mesmo a antiga história de Babel foi reescri�g��-q_l1�_()
.E_as sado gucks�_se.r_ª-_C:9�C>ª'1:CÍS?_�?_ �__{'.��-���_:
Enquanto isso, as obras prosseguiam a passo acelerado. As fun­
dações tinham sido construídas com cuidado, e somente depois de
os materiais terem sido submetidos a rigorosos testes. Arquitetos
com plantas ficavam ao lado de pedreiros e ajudantes de obra, e
supervisores inspecionavam o lugar de cada pedra. A Torre era dia­
riamente visitada por Nemrod, que, ocasionalmente, colocava um
tijolo cerimonial. Independentemente da enormidade do empre­
endimento, não havia nenhuma negligência ou descuido na manei­
ra como era realizado. E o cuidado e a preocupação iam muito
além das técnicas e materiais usados na construção da Torre. Na
verdade, a própria extravagância da empreitada parecia exigir que
ela fosse dotada de um inusitado grau de autoconsciência. Contu- 1

do, o que essa autoconsciência evocava não eram reflexões projeta­


das para acomodar o esforço exigido pelo empreendimento ao
ímpeto dos nativos de agarrar e desfrutar de benefícios imediatos,
mas uma�uase q� e insaciável sobre os sentimentos e
atitudes que' isso gerava. Por exemplo, antes mesmo que a Torre
começasse a ser erguida, teve início uma pesquisa para avaliar sua
qualidade cênica por meio de um teste semântico-diferencial bipolar,
e os resultados dessa pesquisa foram, é claro, qt;antificados. E toda

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T RO S E N S A I O S
uma indústria emergiu, preocupada com �pesquisas" de opi_i:i_ião,
de motivos, de esperanças e de medos dos habitantes da cidade.
Babel tornou-se uma cidade de enquetes e questionários, c;onduzi­
dos, em sua maior parte, por crianças de escola enviadas para co­
lher essas informações dos transeuntes. O fato, por exemplo, de
que quarenta e três por cento das garotas com idades entre dezes­
seis e dezoito anos preferirem ajudantes de obras em vez de pe­
dreiros foi considerado tão significativo que eram publicadas vari­
ações semanais desse número. Assim, o propósito social dos
babelianos estava sob um contínuo e não_:g::i!:i co escrutínio._Até o
menos entusiástico dos cidadãos dificilmente poderia queixar-se
de que o projeto não estava sendo "bem pesquisado".
A Torre propriamente dita consistia em uma estrutura quadrada,
cujo interior era composto de urna escada espiral com plataformas
periódicas e flanqueada por urna larga rampa que ascendia continua­
mente, ampla o suficiente p �ra acomodar o movimento dos veículos
de guerra que seriam usados no ataque final ao paraíso. Muito se
havia pensado quanto ao projeto desses equipamentos militares, e
arsenais tinham sido construídos para produzi-los e guardá-los. Nin­
guém sabia que resistência a invasão iria encontrar. Conjeturava-se
que Deus fosse bem senil, precisando apenas ser privado de sua au­
toridade, despejado de sua residência e enviado para viver em algum
exílio apropriado. Mas esperava-se que o estado de espírito de seus
servidores fosse hostil, e seus recursos consideráveis. O paraíso não
cairia com uma escaramuça, e a política adotada era a de que os
invasores deveriam estar preparados para toda emergência que se
pudesse imaginar. Enquanto os construtores estavam trabalhando
na Torre, as tropas de assalto submetiam-se a treinamento intensivo.

M I C H A E L Ü A K E S H OTT

2 74
Os anos se passaram. À medida que a Torre crescia, a sombra que
ela lançava sobre a cidade aumentava. Depois dos primeiros meses
de entusiasmo, o ritmo do trabalho acomodou-se em um passo menos
excitante, e o trabalho tornou-se um empreendimento profissional. E
ao longo do tempo surgiram pessoas que transferiram suas obses­
sões para a Torre. Elas desejavam demolir o trabalho que havia sido
feito para dar início à construção de uma Torre mais bem planejada.
Havia, então, o perigo de que seu propósito pudesse ser esquecido, e
que Babel se tornasse uma cidade de trabalhadores braçais, que sim­
plesmente respondiam a uma disposição adquirida de colocar uma
pedra em cima da outra. Na verdade, há uma versão da história que
tem esse fim pouco dramático, com os babelianos degenerando-se
em uma nação de idiotas construtores de torres.
Contudo, a aventura a que Nemrod dera início recebia ameaças
de uma outra direção. Seria justo dizer que os habitantes de Babel
nunca tiveram nenhuma idéia exata da propriedade celestial que
estavam se preparando para invadir, e os teólogos, em sua maior
parte, mantinham silêncio sobre o assunto, preferindo discorrer
sobre a maldade de seu miserável proprietário e a justiça de sua
planejada expropriação. Assim, os babelianos haviam se lançado à
tarefa como um povo com muitas necessidades, e pensavam no para­
íso como um lugar onde essas necessidade seriam instantaneamente ·

satisfeitas. Mas sua devoção à tarefa os transformou em um povo


com uma única necessidade - obter o paraíso. Porém, à medida !
que a Torre crescia, grupos de estudo eram formados e se reuniam
para ouvir os insíghts que revelariam o que deveria ser esperado. É
verdade que esses encontros tornaram-se pouco mais que compe­
tições para imaginar novas necessidades e suas satisfações, mas,

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T RO S E N S A I O S

275
mesmo assim, eles contribuíram para proteger os babelianos da
frustração final de entrar no paraíso e descobrir que não tinham
necessidades a satisfazer.
E os procedimentos um tanto extravagantes dessas aulas para
adultos tiveram seu contraponto. Os jovens, preparando-se para o
que começavam a esperar que não fosse uma vida de labuta, con­
trolada pelo que era chamado de "orçamento de força de traba­
lho", mas uma vida de realizações, formaram fraternidades - gru­
pos que entrariam juntos no paraíso, no rastro dos exércitos inva­
sores, e explorariam sua prometida profusão. Eles estavam cansa­
dos de todas essas conversas sobre Tecnologia da Torre, estavam
cansados de ouvirem falar dos engenhosos experimentos realiza­
dos por um perspicaz babeliano para produzir a perfeita camada
de tijolos mediante um processo de condicionamento psicológico.
Eles desejavam apenas sonhar com o futuro. Assim, era natural
para esses jovens, que e ao contrário dos mais velhos) não iriam
entrar no paraíso cambaleantes, exaustos pelo esforço, formar seus
próprios grupos, camaradagens para ensaiar a vida que viria - li­
vres de considerações sobre possibilidades e indiferentes às condi­
ções de probabilidade. Essas fraternidades representavam, talvez,
o último vestígio de despreocupada diversão nas ansiosas circuns­
tâncias de . v ida dos babelianos.
Mas, enquanto todos esses preparativos eram feitos, a coragem
dos habitantes da cidade foi duramente testada. Materiais de cons­
trução começaram a escassear. O suprimento de argila para tijolos
estava se exaurindo e as pedreiras haviam sido exploradas a tal ponto
que agora pouco tinham a oferecer. Sob essas circunstâncias, os
babelianos, conduzidos pelo próprio Nemrod, estavam determi-

M I C H A E L Ü A K ES H OTT
nados a jogar suas últimas cartas. Começando com o palácio ducal,
os prédios da cidade foram demolidos para fornecer materiais para
a Torre, e, antes que muitos meses se houvessem passado, Babel
tornou-se um lugar de barracas e acampamentos, de habitantes de
cavernas e de moradores de buracos no chão.
Entretanto, agora pensava-se que, seja o que for que pudesse acon­
tecer, a Torre logo estaria terminada. Seu topo há muito estava fora
do campo de visão dos espectadores no solo, e os construtores ti­
nham de subir por muitas horas para chegar a seu local de trabalho.
Agora havia lugar apenas para alguns poucos trabalharem. O índice
de desemprego naturalmente aumentou, e Babel estava rapidamente
se tornando uma cidade de desocupados. Como uma civilização que
se vendera às máquinas, todos eram sustentados, mas apenas alguns
poucos privilegiados tinham trabalho. Contudo, os boletins eram
otimistas; a confiança cresceu, e os últimos críticos e céticos que
· restaram haviam sido silenciados. Naquela primavera, os fazendei­
ros não semearam trigo algum, na crença de que antes da época da
colheita estariam no paraíso, banqueteando-se com o que não lhes
custaria trabalho algum. O osso ainda com carne que os babelianos
costumavam roer com gosto havia sido jogado no rio do tempo, e
agora eles tentavam agarrar seu reflexo ampliado.
Naqueles dias, Nemrod, com freqüência acompanhado de seu
vizir, costumava escalar a Torre de manhã, antes que o sol nascesse,
e passava o dia inteiro no topo, retornando apenas ao cair da noite.
Muitas vezes ele tinha o ar de um general planejando a batalha que
logo travaria. Olhava para cima e ao redor, como se procurasse por
pontos de apoio para seus homens na aveludada superfície do céu.
Em outras ocasiões, os trabalhadores o viam perdido em pensa-

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T RO S E N S A I O S

277
mentas, ensimesmado, esquecido de tudo que o cercava. Ouviam­
no falar consigo mesmo, em palavras que não entendiam. Ele pare­
cia entrar em transe, os olhos abertos, mas sem enxergar. O duque
estava longe de ser o personagem Jarouche das outras versões da
história, pronto para lançar uma flecha em Deus caso ele estivesse
a seu alcance, ou o personagem infinitamente versátil de sua juven­
tude. Na verdade, tornara-se uma pesso a um tanto triste e
introspectiva, mais dócil do que era no passado e, talvez, começan­
do a ficar apreensivo em relação a um futuro que agora parecia tão
próximo. Os trabalhadores acostumaram-se com isso, e, além de
pensar que talvez ele estivesse ficando um pouco doente da cabeça,
e de esperar que esse não fosse o caso, não prestavam muita aten­
ção nele: a cobiça dos prazeres do paraíso transformara-se, parti­
cularmente no caso dos pedreiros, no projeto de construir uma
Torre. Algumas vezes, quando chegava a hora do almoço e Nemrod
parecia estar mais absorto do que de hábito, eles o lembravam de
abrir seu pacote de sanduíches, mas não podiam esconder de si
mesmos o fato de que o duque havia mudado. E o mesmo valia
para os babelianos em geral. Os anos consumidos por esse único,
supremo projeto, nos quais não houve nenhuma satisfação ou opor­
tunidade temporária (tais como uma colheita anual ou o início da
temporada de pesca) de quebrar a monotonia, tiveram seu peso no
estresse emocional que sobreveio. E eles suportavam isso movidos
apenas por uma distante e precária visão de pilhagens ilimitadas.
A confiança na�obrez:_ de um empreendimento longo e difícil
pode durar muito para sustentar a sua realização, e pode até mes­
mo tornar seu colapso suportável. Na verdade, uma ilusão de no­
breza pode ser suficiente. Contudo, aqueles que investiram todas

M I C H A E L Ü A K E S H OT T
as suas energias e esperanças em uma �reitada marcada pela.
depra�ão estão amarrados a seu sucesso, e são capazes de adqui-
. 1 -t:.. Í:' .
nr um o b scuro auto desprezo que -q�a- sua ie, primeiro em
.

seus semelhantes, depois em si mesmos. E após seu longo esforço,


uma vaga desconfiança desse tipo começou a infiltrar-se no estado
de espírito dos babelianos. Emocionalmente exaustos e unidos no
pavor do fracasso, um grande número deles, agora praticamente
desempregados e com tempo de sobra para bate-papos sem fim,
começou a achar difkil de acreditar que ninguém revelaria sua exaus­
tão com alguma conduta fatalmente danosa.
Que tal empreendimento devesse gerar parasitas era algo de se
esperar - os babelianos nunca foram notáveis por serem empreende­
dores. Mas o que agora os perturbava era a suspeita de que poderiam
existir algumas pessoas que estivessem se preparando para roubar
seus companheiros quando o tempo de desfrutar do paraíso chegas­
se, mesmo que o fizessem apenas comprando alguma vantagem dos
funcionários cuja tarefa seria organizar a ascensão final aos céus. Ou,
pior, surgiu a suspeita de que todos poderiam ser logrados por um
embuste planejado para o benefício de outros que não eles mesmos.
Ou seriam eles, talvez, as crédulas vítimas de uma ilusão? Quem foi
que disse que toda essa conversa sobre paraíso não era mais do que
uma dose de ópio para manter as massas sossegadas?
Para o habitante comum de Babel, Nemrod era, agora, uma figura
obscura. Ele era visto apenas em suas visitas diárias à Torre. Durante
anos eles se identificaram com o empreendimento e com o duque,
seu autor. Não estavam dispostos a duvidar de sua sabedoria ou
competência, mas o falatório sobre aqueles que trabalhavam no topo
os levou a refletir. O que ele fazia lá o dia inteiro? Com quem falava

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T RO S E N S A I O S

279
quando parecia falar consigo mesmo? Já estaria ele se comunicando
com os anjos do paraíso? E se assim fosse, o que isso pressagiava? E,
ao sentarem-se nas habitações estilo caverna que passaram a ocupar,
a semente de uma vaga dúvida foi plantada em suas mentes. Alguns,
à espreita de malformuladas suspeitas, iriam acordar cedo pela ma­
nhã para ver o duque entrar na Torre; outros iriam esperar sua saída
no fim da tarde, aliviados quando ele aparecia e sentindo-se tranqüi­
lizados quando ele lhes desejava um educado "boa noite".
Contudo, vagas suspeitas que não foram decisivamente dispersas
estão propensas a crescer e a tomar formas mais precisas. As pessoas
olhavam-se umas às outras pelo canto dos olhos, envergonhadas de
expressar o que estava em suas mentes. Mas começaram os acenos
com a cabeça, e então teve início o falatório. Seria possível que
Nemrod, o duque no qual tanto confiavam, já estivesse mantendo
conversações (das quais eles foram excluídos) com os anjos no para­
íso, e que estivesse planejando enganá-los? Seria possível que estives­
se fazendo arranjos para esgueirar-se para o paraíso, deixando-os
para trás? A que mais atribuir sua recente conduta? E toda a descon­
fiança nativa de um povo cujas emoções mais profundas (seja o que
fosse que eles tivessem previsto para satisfazê-las) eram a cobiça e o
ressentimento emergiu para confirmar a dúvida que tinham em rela­
ção a seu líder. A suspeita, inseparável do excesso, floresceu.
Entretanto, pouco poderiam fazer para frustrá-lo caso fosse isso
que Nemrod estivesse de fato planejando. Uma delegação esperou
por ele. Aparentemente para perguntar sobre as últimas informa­
ções, mas, na verdade, para fazê-lo falar, de forma que, inadverti­
damente, se revelasse. O resultado, porém, foi inconclusivo. Tudo
o que poderiam fazer era contar suas suspeitas aos construtores

M I C H A E L Ü A K ES H OT T
agora no topo, dizer-lhes para ficarem de olhos abertos, relatarem
qualquer nova circunstância desfavorável e observarem os movi­
mentos do duque.
As coisas continuaram assim por algumas semanas. E então, numa
noite, os auto-intitulados observadores ficaram primeiro desconcer­
tados, depois profundamente perturbados quando o duque não apa­
receu na saída da Torre à hora esperada. Era uma noite de fim de
junho. Fraternidades de adolescentes (reunidas ao pé da Torre) ale­
gremente ensaiavam sua. entrada no paraíso; desocupados postavam­
se no que antes foram esquinas de ruas. Toda a normal e silenciosa
vida noturna estava em andamento. A entrada da Subdivisão dos
Pedreiros (que se manteve em pé, em concessão aos hábitos vulga­
res) estava cheia de bebedores desfrutando da última cerveja (as cer­
vejarias haviam sido fechadas). Arremessadores de dardos marcavam
o placar com giz. Mães preparavam seus filhos para dormir. Em
dúvida quanto ao que fazer, os observadores esperaram em sua.s po­
sições, até que não puderam mais conter sua apreensão. Um grito, e
o alarme foi dado. O rumo dos acontecimentos recentes não deixou
ninguém em dúvida quanto ao que estava acontecendo e à urgência
da situação. Era como se uma trombeta tivesse soado.
Pessoas acorreram de todos os cantos da cidade, tomadas pelo
pânico de pensar que estavam prestes a ser privadas daquilo que se
consumiram para obter. O lema"Não Espere pelo que Você Quer"
havia penetrado fundo em suas consciências. Houve um rápido
conselho de guerra: os pouco coerentes relatos do que estava acon­
tecendo foram levados pela brisa; apelos para agir não eram neces­
sários. Embora nada houvesse sido planejado ou ensaiado, todos
sabiam o que fazer. Em um segundo, a entrada da Torre estava

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T RO S E N S A I O S
cheia de homens, mulheres e crianças correndo. Espremendo-se
pelas escadas, liderada pelos mais ágeis, toda população de Babel
a

correu para arrancar a recompensa de sua labuta das mãos do ho­


mem que - agora estavam convencidos - nesse exato momento se
esgueirava para dentro do paraíso sem eles, após ter feito um acor­
do pessoal com seu proprietário.
Não se deve pensar que não havia entre eles alguns que estives­
sem um pouco envergonhados ante essa selvagem exibição de sus­
peita, que ainda poderia se mostrar infundada. Mas eles se tran­
qüilizaram pensando que, se quando alcançassern o topo da Torre,
se deparassem com um grave e meditativo duque preparando-se,
um pouco mais tarde do que o habitual, para descer à noite, pode­
riam transformar sua fúria ern urna demonstração de confiança em
Nemrod, colocando sorrisos em seus rostos em vez dos esgares de
hostilidade, e fingindo que haviam subido para homenageá-lo.
Contudo, se tais pensamentos passaram pela cabeça de alguns, não
detiveram a corrida para cima da multidão agora silenciosa que
guardava o fôlego apenas para a subida.
A primeira onda maciça exauriu-se. O número dos que subiam
encolheu. Os mais velhos ficaram para trás; os jovens assumiram a
frente. Mas não havia ninguém que não continuasse subindo, como
se sua salvação dependesse disso. A Torre era agora tão alta que a
vanguarda dos que subiam não alcançaria o topo antes que o mais
lento dos babelianos tivesse posto o pé no primeiro degrau da
escada. Na verdade, os líderes ainda não estavam na metade do
caminho quando toda a população de Babel já se encontrava den­
tro, e a Torre havia se tornado algo como as margens que contêm a
inundação de um rio. Alguns, com vertigem por causa da subida

MICHAEL ÜAKESHOTT
em espiral, caíram e foram pisoteados; _ outros, ao pararerri para
recobrar o fôlego nas aberturas das janelas, foram esmagados con­
tra a parede. E a confusão aumentou quando as formações milita­
res que estiveram treinando para liderar o ataque chegaram atrasa­
das (pois seu acampamento ficava nos arredores da cidade) e ten­
taram ultrapassar a desorganizada massa de pessoas que subiam.
A subida estreitava-se à medida que avançava, e, quando os que
estavam na frente começaram a alcançar o topo, uma enorme pressão
formara-se dentro da Torre. Ela oscilou-como se houvesse sido atingi­
da por um furacão. E, quando o estrondo da multidão que chegava
atingiu os ouvidos de Nemrod, o chão em que ele pisava estremeceu e
as pedras que os pedreiros assentavam escorregaram de seus lugares.
Então, com a infinita lentidão com que os espectadores do des­
lizamento de terra de uma montanha distante vêem o chão come­
çar a se mover, mal acreditando em seus olhos, o topo da Torre
cedeu. Não houve muito barulho. Era como um homem cansado
caindo no sono ainda em pé, primeiro balançando-se um pouco,
depois dobrando os joelhos e, finahnente, caindo .de cara no chão,
com um quase inaudível suspiro de · alívio.
Mas o colapso do topo impôs-se sobre a Torre abaixo. Logo
toda a estrutura tornou-se uma feroz cascata de pedras que caíam;
corpos mutilados �m sua superfície submergiram em suas
profundezas. O colapso continuou noite adentro e ergueu uma
enorme nuvem de poeira. Ninguém teve a oportunidade de retro­
ceder; escapar dos destroços era impossível. Não restaram sobrevi­
ventes (nem mesmo um garoto aleijado que não pôde alcançar o
flautista de Hamelin) para se perguntarem se a suspeita que levara
ao desastre era, no fim das contas, fantasiosa ou não; ninguém para

S O B R E A H I S T Ó R I A & Ü U T RO S E N S A I O S
1 considerar se essa calamidade não era inerente ao projeto. O que
havia sido projetado como uma escada para o paraíso tornara-se a
tumba de um povo inteiro, que não pereceu em uma confusão de
línguas, mas que fora vítima de uma ilusão e confundido pela des-
1 confiança que persegue aqueles que se engajam em façanhas titânicas.
E, quando amanheceuJ o que antes fora a cidade de Babel era uma
silenciosa paisagem lunar, na qual nada se movia.

Ao redor da decadência
Daqueles destroços colossais, infinitos e nus
A solitária e plana areia se estende ao longe.

Muitos séculos depois, quando o local onde se erguera a cidade,


há muito residência de lagartos e recoberta de uma desértica vege­
tação rasteira, tornou-se objeto de curiosidade arqueológica, um
escavador deparou-se com uma pedra gasta pelo tempo e encon­
trou uma inscrição: uma daquelas patéticas mensagens que às ve­
zes nos saúdam do passado. Evidentemente isso tinha sido com­
posto e gravado por um poeta babeliano que vivera nos primeiros
anos da obsessão da cidade pela ilimitada abundância do paraíso.
Não previa coisa alguma; não era uma premonição do desastre,
mas um comentário perdido do próprio engajamento. Ao ser deci­
frado, nele lia-se:

Aqueles que nos campos elíseos morariam


Nada logram além de estender as fronteiras do inferno.

M I C H A E L Ô A K E S H OTT

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