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Capa, projeto gráfico e preparação


214, casa

Saber, verdade e gozo: leituras de O seminário, livro 17, de Jacques


Lacan Doris Rinaldi e Marcos Antonio Coutinho Jorge ( orgs.)
Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2002.

256p.; 16x23cm

ISBN: 85-87184-23-7

1. Psicanálise. 2. Saber. 3. Verdade. 4. Jacques Lacan. 5. Pesquisa.


I. Título. II. Série

coo 150.195
CDU 159.964.2

Ag radecemos a ajuda obtida do Instituto de Psicologia da


UERJ, da CAPES, da FAPERJ e dos secretários do Mestrado
em Pesquisa e Clínica em Psicanálise

Apoio

<(fj
C A P E S

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

Ili
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Rua Dias Ferreira, 214
22431-050 Rio de Janeiro RJ
Tel /í-ax (55 21) 2511-4082 / 2511-4764
Doris Rinaldi
Marco Antonio Coutinho Jorge
[organizadores]

Saber, verdade e gozo


leituras de O seminário, livro 17, de Jacques Lacan

il!
MESTRADO EM PESQUISA E
CLÍNICA EM PSICANÁLISE
INSTITUTO DE PSICOLOGIA - UERJ
facebok.com/lacanempdf
Sumário

Apresentação - Doris Rinaldi .............................................................. 7

Parte 1: Introdução a O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise


Discurso e liame social: apontamentos sobre
a teoria lacaniana dos quatro discursos ......................................... 1 7
Marco Antonio Coutinho Jorge

O "Avesso da Psicanálise" e a formação do psicanalista ................... 33


Luciano Elia

Parte II: Psicanálise e Universidade


Psicanálise e universidade e a instauração de discursividades ......................... 43
Sonia Alberti

O desejo do psicanalista no campo da saúde mental: problemas e


impasses da inserção da psicanálise em um hospital universitário ..... 5 3
Doris Rinaldi

Parte III: Psicanálise e Ciência


A aletosfera, lugar de objetos agalmáticos .......................... .......... 71
Filippo Olivieri

Lacan e o objeto a: uma articulação entre psicanálise e matemática ..... 77


Nelma de Mello Cabral

Parte IV: O lugar do Pai


O lugar do Pai .......................................................................... 95
Elisabeth Freitas
Acerca da lei e seu estatuto ....................................................... 1 O1
Cândida Regina Machado da Costa

Do mito social ao mito individual do neurótico ............................ 107


Ângela de Fátima Vieira Bueno

O mestre castrado .................................................................... 117


Denise Blanc

Parte V: Saber e verdade


A dialética hegeliana e o discurso de Lacan.
O paradigma do gozo discursivo ................................................. 125
Mareia Mcllo de Lima

"A impotência da verdade" e a homossexualidade ......................... 141


Ac yr Maya

Que lugar para o sujeito na escola? ............................................. 149


Maria Helena Coelho Martinho

O discurso do analista no processo de reabilitação:


uma proposta de trabalho .......................................................... 165
Andréia Pinto dos Santos

Debilidade mental: um transtorno em relação ao saber e à verdade ..... 173


Elisabeth da Rocha Miranda

Parte VI: O campo do gozo


Gozo e repetição: a diferença como eixo da subversão analítica ...... 191
Andréa de Abreu Souza

A depressão e seus tropeços nos arredores do gozo ....................... 205


Mara Viana de Castro

O desejo na velhice: notas sobre a relação entre verdade e gozo ..... 211
Julia Cristina Tosto Leite
Parte VII: Psicose e laço social
Desejo e psicose: uma breve introdução ...................................... 2 21
Maritza Magalhães Garcia

Algu mas considerações sobre S I e o laço social na psicose .............. 2 3 3


Ana Paula Corrêa Sartori

Ato e discurso no dispositivo analítico


com o autismo e a psicose infantil .............................................. 243
Kátia Wainstock Alves dos Santos

Sobre os autores ...................................................................... 25 3


Apresentação
O fim da década de 1960 ficou conhecido pelas grandes manifestações e revoltas
estudantis que, no Brasil e em outras partes do mundo, abalaram os pilares da
ordem social. A mais famosa foi, sem dúvida, a revolução estudantil de maio de
1 968, que pôs cm questão o sistema universitário e os valores tradicionais da
sociedade francesa. Um ano e meio mais tarde, em 26 de novembro de 1969, e
ainda sob o clima de contestação generalizada que tomara conta de Paris, Lacan
deu início a seu décimo sétimo seminário, intitulado O avesso da psicanálise 1 • Suas for­
mulações certamente foram marcadas pelas circunstâncias históricas que convul­
sionaram não só o meio intelectual e político francês, mas também o psicanalítico,
como o demonstra a inclusão, na publicação do seminário, do "Improviso de Vin­
ccnnes", realizado cm 3 de dezembro de 1969, na Universidade de Paris VIII, em
que Lacan, convidado, enfrentou as interpelações dos estudantes. Mesmo negando
( ou denegando) que o título do seminário fosse tributário de um momento cm
que certos lugares foram virados pelo avesso, o empenho de Lacan na construção de
uma teoria da discursividade como forma de abordar o laço social o levou a esbar­
rar nas questões do poder e da política, tão presentes naquele tempo.
A importância de O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, contudo, não deriva
somente de suas circunstâncias. Ela também provém do vigor do pensamento de
Lacan, ao apresentar, com a teoria dos quatro discursos2, uma concepção de laço social
extremamente singular e frutífera. Com ela, Lacan deu um passo adiante em seu
ensino, articulando o campo da linguagem, que desde o início fundamentara sua maneira
própria de abordar a psicanálise, ao campo do gozo. Como ele diz, "não há discurso
que não seja do gozo, ao menos quando dele se espera o trabalho da verdade'8. Foi
o reconhecimento dessa relação que fez com que Lacan, ao propor a retomada da
psicanálise pelo avesso, pudesse questionar o lugar da psicanálise na política.
A idéia deste livro surgiu das discussões realizadas no âmbito da disciplina
"TÓ picos especiais cm psicanálise", ministrada por mim no curso de Mestrado do

1
LACAN, Jacques. O seminário, lfrro 17: o arcsso da psicanálise ( 1969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1992.
1
N. do E. Os maternas dos discursos propostos por Lacan, aludidos cm quase todos os textos
do presente livro, podem ser encontrados ao lado da primeira orelha da capa.
1
LACAN, Jacques. O seminário, lfrro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit., p. 74.
Programa de Pós-Graduação cm Psicanálise do Instituto de Psicologia da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2000, que se constituiu na leitura
e discussão desse seminário. A partir das leituras do seminário e das múltiplas elaborações
que estas suscitaram nos alunos do curso, nasceu, da palavra de Mara Viana de Castro,
o desejo de produzir um livro que expressasse a riqueza das articulações ensejadas por
O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Acolhida pelo colegiado do Mestrado, a idéia se
expandiu para além dos limites da disciplina, englobando as contribuições dos demais
professores e alunos do Mestrado que, cm seus trabalhos de pesquisa, focalizam os
conceitos elaborados por Lacan nesse momento de seu percurso.
É importante destacar que este livro é o segundo produzido no âmbito desse
Programa de Pós-Graduação e que ele mantém o mesmo espírito do primeiro4 ,
buscando refletir o trabalho que ali se realiza e que privilegia, no ensino da psica­
nálise, a interseção entre teoria, clínica e pesquisa. Sua organização foi partilhada
com Marco Antonio Coutinho Jorge, em um trabalho afinado e cuidadoso de
leitura e revisão. Nosso objetivo é oferecer ao leitor o amplo quadro de possibili­
dades de articulação proporcionado pelo pensamento de Lacan em O seminário, livro
17: o avesso da psicanálise, não apenas para aqueles que militam no campo da psicanálise,
mas também para os que se interessam pela contribuição que esta pode trazer à
discussão das questões e impasses do mundo de hoje.

Os textos
Na primeira parte da coletânea, dois artigos apresentam O seminário, livro 17: o avesso
da psicanálise, ressaltando sua importância no conjunto da obra de Lacan e a origina­
lidade da teoria dos quatro discursos como modo de pensar o laço social. O papel
dos maternas é destacado pelo que atestam da preocupação de Lacan com a trans­
missão da psicanálise, visando a evitar que esta se perdesse no inefável da expe­
riência, sem recair, entretanto, no dogma religioso ou no saber universitário.
Tomando como referência a relação entre ciência e real, mantida "graças ao uso de
letrinhas"5, ele afirmou que o real, isto é, o que é completamente desprovido de
sentido, pode ser escrito não com palavras, mas com letras. Utilizando a ação combi­
natória dessas letras, o materna visa a possibilitar a transmissão, pela via da escrita, do

4
Ver ALBERT!, Sonia e ELIA, Luciano (org.). Clínica e pesquisacm psicanálise. Rio de Janeiro: Rios
Ambiciosos, 2000.
'LACAN, Jacques. "Conférences et entretiens dans lcs univcrsités nord-américaines'',Sa/icrt6/7.
Paris, Seuil, 1974.

8 Saber, verdade e gozo


que se produz na experiência analítica, ocupando na teoria wn lugar entre o simbólico e
0 real. Os maternas dos discursos - nos quais as letras S1 , S2 , $ e a se distribuem em
determinados lugares fixos - constituem o cerne das formulações do seminário,
no qual o discurso é concebido como a estrutura mínima necessária que articula
os campos do sujeito e do Outro.
Para Lacan, "o discurso é sem palavras", e essa é a primeira grande afirmação
de um seminário que expressa seu projeto de retomar a psicanálise freudiana pelo avesso e,
como tal, é o marco de uma virada em relação ao eixo central de todo o primeiro
ciclo de seu ensino, fundado na tese central de que "o inconsciente é estruturado
como uma linguagem". Sem recusar essa tese, Lacan deu ênfase a uma outra di­
mensão, o real, utilizando o conceito de objeto a. Sempre presente no campo da
linguagem no que a ele escapa, com a noção de discurso o objeto a ganhou opera­
tividade em sua articulação com o gozo. Uma série de reviravoltas se seguiriam a
essa, tendo sido rediscutidas categorias até então consideradas fundamentais para
pensar a experiência analítica, como Pai e Édipo, o que abriria caminho para os
desenvolvimentos dos seminários subseqüentes. As conseqüências desses desloca­
mentos sobre a formação do psicanalista são analisadas nessa primeira parte da
coletânea, visto que a experiência analítica sofre os efeitos desses passos cm seu
próprio percurso, redimensionando as relações entre verdade e saber.

A formação do psicanalista põe em jogo a transmissão da psicanálise, fundamen­


talmente pela experiência psicanalítica de cada sujeito, mas também por meio do
trabalho teórico, concebido como uma das dimensões de elaboração do saber do
inconsciente. Na construção dos maternas e na formalização dos discursos, Lacan
pretendeu fazer com que o discurso psicanalítico fossecapaz de ensinar, sem no entanto
confundir-se com o discurso universitário, fundado em um saber cwnulativo e acadêmico
no qual o sujeito, como produto, resume-se a "créditos". Nesse discurso, a função
de "autor" tem grande importância não por revelar os efeitos de sujeito presentes
em toda produção discursiva, mas como fonte de legitimação no campo intelectual.
A conferência de Michel Foucault "O que é um autor", realizada em fevereiro de
1969, na qual ele aborda a questão do "autor" e esboça wna teoria da discursividade,
provocou Lacan e deixou seus rastros nas articulações que este apresenta em O seminário,
livro 17: o alt'Sl'O da psicanálise, como se pode ver no artigo que inaugura a seção "Psicanálise
e Universidade".
Os dois artigos que compõem essa seção discutem o lugar da psicanálise na
universidade, cm que ela pede passagem, mas mantém seu lugar estrangeiro.
Distinguindo o ensino da psicanálise na universidade da formação do psicanalista
empreendida no âmbito das associações de psicanálise - baseada no tripé análise
pessoal, debate teórico e supervisão de casos clínicos--, põem-se em causa as relações
possíveis entre o discurso do analista, como laço social determinado pela prática da
análise, e o discurso universitário, que sustenta a transmissão de saber na universidade.
Como os analistas não o são 24 horas por dia e nem só do discurso universitário
vive a universidade, discutir o papel da psicanálise significa também pensar a circu­
lação do psicanalista pelos diversos discursos. Quando a universidade se abre ao
campo da assistência cm saúde mental (no caso de hospitais universitários), é
preciso levar cm conta a importância da presença da psicanálise sustentando o
desejo do analista - de um lado, por meio do discurso do analista, no tratamento ofe­
recido àqueles que procuram a instituição; do outro, circulando entre os demais
discursos nos laços sociais estabelecidos com profissionais oriundos de outros
campos do saber, no campo multidisciplinar da saúde mental. Ambos os artigos
chamam a atenção para a fecundidade do discurso da histérica, em que o sujeito dividido,
com suas paixões e seu desejo, interroga os significantes mestres para produzir
saber, aí incluídos os significantes mestres da psicanálise, em um permanente mo­
vimento de reinvenção.
Não foi por acaso que em Televisão6, poucos anos depois de O seminário, livro 17: o
avesso da psicanálise, Lacan aproximou os discursos da ciência e da histérica. Em ambos
há demanda de saber, embora haja entre eles uma diferença relativa à verdade:
enquanto a ciência nada quer saber da verdade como causa, como já havia sido
dito em "A ciência e a verdade'>7, no discurso da histérica é o objeto a, mais-de-gozar,
que se encontra no lugar da verdade, impulsionando o discurso. Ao operar o giro
de um quarto de volta sobre o discurso da histérica, o discurso do analista põe o objeto a na
posição de agente e, portanto, no lugar de causa que interroga o sujeito no lugar
de trabalho, impulsionado pelo saber no lugar da verdade. Contudo esse saber,
diferentemente do científico, é da ordem de um enigma e de um semidizer, pois a
"verdade, nunca se pode dizê-la a não ser pela metade'.i.
A seção intitulada "Psicanálise e Ciência" discute, no primeiro de seus artigos,
as relações entre os discursos da ciência e da histérica, focalizando o objeto a em
sua articulação com os objetos produzidos pela ciência -latusas-, que nos atraem

6
LA�AN, Jacques. Tcle1isão (1974). Rio de Janeiro: Jorge Zah�r Editor, 1993.
7
LACAN, Jacques. "A ciência e a verdade" (1965). Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1998.
8
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit., p. 34.

10 Saber, verdade e gozo


com seu brilho agalmático, criando a ilusão de que a relação sexual é possível. No
segundo, as funções do objeto a como motor da economia psíquica - causa de
desejo e mais-de-gozar - são decifradas por meio do aprofundamento do uso que
Lacan fez da matemática, com base na qual pretendeu elaborar "uma articulação
mais segura do que vem a ser o efeito do discurso"!. Nesse artigo, o objeto a como
causa de desejo é aproximado do conceito de número irracional e abordado como
resto, a partir da analogia entre a operação de fundação do sujeito e a divisão
aritmética, apresentada por Lacan cm "O seminário, livro 10: a angústia". Como
mais-de-gozar, tal como formulado cm O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, o objeto
a é visto como bônus de gozo na fundação do sujeito, a partir da analogia com a
seqüência de Fibonacci. A Íntima relação entre essas duas funções, cm que o mais·
de-gozar, como efeito da intervenção significante, evidencia a existência de uma
causa, a causa de desejo, é expressa na articulação entre a seqüência de Fibonacci e o
número áureo. Esses desenvolvimentos conduzem à formulação de que a função causa
de desejo do objeto a articula verdade e desejo, enquanto a função mais-de-gozar relaciona
saber e gozo, permitindo perceber um deslocamento no discurso lacaniano da fórmula
"O desejo do homem é o desejo do Outro" para a fórmula "O saber é o gozo do
Outro", apresentada inicialmente em "O seminário, livro 16, de um Outro ao
outro", e desenvolvida no seminário cm questão.
A perda de gozo na fundação do sujeito foi articulada por Lacan à função do
pai, ao retomar os mitos construídos por Freud: o pai da horda, Édipo e Moisés.
A passagem do mito à estrutura da linguagem, articulando a trilogia paterna aos
três registros - real, simbólico e imaginário - enodados pelo Nome-do-Pai, é
analisada nos artigos que compõem a seção "O lugar do Pai". Nela, são examinadas
duas dimensões essenciais: a da escrita e a do mito. Na primeira, o lugar do pai
como texto, a partir do vínculo estabelecido por Freud entre o pai e a escrita cm
"Moisés e o monoteísmo", e dos questionamentos feitos por Lacan no capítulo IX
de O avesso da psicanálise, intitulado "A feroz ignorância de Yahvé", dá ensejo a uma
série de interrogações sobre o estatuto da lei. Qual a relação entre a concepção
psicanalítica de lei, em sua relação com a função paterna, e a dimensão da escrita
à qual o povo judeu se curva, e que inaugurou a tradição ocidental do estatuto
jurídico da lei? Na segunda, o lugar do pai como mito remete à questão da verdade,
que só pode ser enunciada por um semidizer. Como enigma, ela tem a estrutura
de um mito, como afirmou Lacan desde "O mito individual do neurótico". A prc-

"lbid., p. 149.

A presentação 11
sença do pensamento de Lévi-Strauss, no qual o mito é analisado como ser lin­
güístico, evidencia-se na leitura lacaniana dos mitos freudianos de 'Totem e tabu" e
Édipo e na própria formulação dos maternas dos quatro discursos como estruturas
mínimas que organizam as relações entre o sujeito e o Outro. Todos sabemos o
quanto o materna lacaniano é tributário da noção de mitema, unidade mínima constitutiva
dos mitos, concebida como feixe de relações e cunhada por Lévi-Strauss na análise
da estrutura dos mitos. Ao retomar os mitos freudianos destacando a dimensão da
verdade, a pergunta crucial que - por seu caráter enigmático - instigou Lacan foi: o
que é um pai? Situada no centro da experiência analítica, essa pergunta é abordada
no último artigo dessa parte, que faz uma análise, a partir dos discursos, da função
paterna na histeria e na neurose obsessiva.
As relações entre saber e verdade, redimensionadas em O avesso da psicanálise, são
trabalhadas na seção que leva esse nome. Abrindo a série de artigos que a
compõem, a importância de Hegel no pensamento de Lacan se faz presente,
não sem mostrar a subversão operada pelo último nos conceitos do primeiro -
os filhos matam os pais! A leitura de Fenomenologia do espírito, em que Hegel tomou
o saber como objeto, serve de base para a discussão sobre o saber absoluto e a alienação
na relação dialética senhor-escravo. Essa dialética é abordada sob o prisma da
teoria do desejo, salientando-se as diferenças entre as fórmulas hegelianas e
lacanianas. Se a frase "Eu te amo, ainda que tu não o queiras" resume as questões
trazidas por Hegel na luta de puro prestígio entre duas consciências que esperam
reconhecimento, a expressão "Eu te desejo, ainda que não o saiba" traduz a
fórmula lacaniana ao tocar em algo inarticulável, real: o objeto a. A articulação
entre saber, verdade e gozotambém é examinada no âmbito dessa dialética: ao analisar
o discurso do mestre, Lacan demonstrou que, ao contrário do que pensara Hegel, é
o escravo quem detém a verdade do gozo.
No artigo seguinte, as concepções de verdade e saber, tal como apresentadas
em O avesso da psicanálise, são relacionadas ao tema da homossexualidade. Verdade e
saber não se recobrem, não em função da impotência do saber, mas sim por uma
impossibilidade situada pelo real. No centro dessa clivagem, está a impossibilidade
de inscrever a diferença sexual no inconsciente. O saber se situa no registro fálico
e se constitui como defesa em relação à verdade. Lacan, contudo, advertiu sobre
os perigos do excessivo amor à verdade, posto que a verdade não é o real: o real é
o impossível, e a verdade se interpõe entre nós e o real. Tais considerações são
importantes ao se analisar o discurso dominante sobre a homossexualidade, pela
via seja de sua rejeição (discurso médico), seja de sua exaltação (discurso gay), já
que ambas são da ordem de um saber que "ama a verdade". Esse é um alerta

12 Saber, verdade e gozo


também para os analistas, para que não deixem "escorregar [... ] por entre os dedos
a impossibilidade do que se mantém como real"1 º. Dito de outro modo, não se
deve esquecer que o discurso do analista produz o discurso do mestre, já que S 1 ocupa 0

lugar da produção e, para que este não se cristalize comomais-de-gozar, é importante


que os analistas desconfiem do amor à verdade, levando a sério a impossibilidade
de sua posição, indicada por Freud ao se referir aos ofícios impossíveis.
Assim como psicanalisar, educar e governar foram consideradas profissões
impossíveis por Freud. Recorrendo às formulações de Lacan sobre o discursouniversitário
e do mestre, que operam predominantemente em instituições educacionais e de reabi­
litação, dois outros artigos indagam o lugar do sujeito nessas instituições. Partindo da
constatação de que é a ordem do saber que as rege, como a verdade do sujeito pode
"furar" essa ordem, burocratizada sob a égide do discurso universitário? Se não se pode
.
pedir que educadores e reabilitadores respondam do lugar de agente no discurso do
analista, é importante adverti-los do impossível de suas pretensões ao sustentarem os
lugares de agente nos discursos do mestre e do universitário. No caso das instituições de
reabilitação para pessoas portadoras de deficiência (PPDs), a presença do discurso do
analista se torna imprescindível, já que permite abordar o sujeito em sua singularidade
e cm sua falta-a-ser, e não pela falha do funcionamento psicofísico que lhe rotula.
A debilidade mental foi considerada uma forma de deficiência pelo saber
médico, seja por meio do conceito de retardo, associado à teoria da degeneres­
cência, seja como déficit intelectual. Como indicado no artigo que encerra essa
seção, Lacan recusou a concepção de déficit e conceituou a debilidade mental
corno um transtorno do sujeito em relação ao saber e a verdade. O que situa o sujeito em
relação à verdade e ao saber é o discurso, isto é, aquilo que funda cada realidade.
Quanto ao débil, a hipótese desenvolvida nesse artigo, a partir das formulações de
Lacan, é de que ele não está instalado em um discurso, mas antes permanece
flutuando entre dois discursos. Nesse caso, é impossível separar a relação com o
saber do lugar da verdade: o débil sempre ocupa esse lugar da verdade, e imagina­
riamente oferece seu corpo como resposta à castração materna. A verdade do
débil seria, então, efeito da maneira como se dá a holófrase (inexistência de intervalo
entre S 1 e S), apoiada na referência ao gozo em curto-circuito no próprio corpo,
que nega a castração na tentativa de tornar possível a relação sexual.
O campo do gozo, designado por Lacan como campo lacaniano, compõe a seção se­
guinte, na qual é trabalhada a importante guinada ocorrida em O seminário, livro 17: o
aves so da psicanálise,· por meio do privilégio concedido à articulação do gozo com a

'º Ibid., p. 165.


linguagem e, cm conscqucncia, com o saber e a verdade. Nessa articulação, o
objeto a ganha um nom estatuto---o de mais-de-gozar-, sendo apreendido como efeito do
discurso pelo que este engendra de perda de gozo sexual para o falante, no pro­
cesso que Freud destacou como sendo o da repetiç,io. No primeiro artigo dessa
seção, é analisada a relação entre o gozo e a repetição, na qual a diferença surge
como eixo da subversão analítica 11 • Os conceitos freudianos de repetição e pulsão de morte são
tomados como fundamento necessário às elaborações de Lacan, nas quais as relações
entre vida e morte, como operações de junção entre as formas de gozo e seus
acessos pela via do repetir, implicam um retorno que põe cm jogo as ordens do
saber e da verdade, articuladas no campo do desejo.
Os artigos seguintes enfatizam a clínica, abordando a depressão e a velhice, cate­
gorias que denunciam o modo pelo qual a sociedade ocidental contemporânea,
fundada no discurso do capitalista 12, trata as questões do desejo e do gozo. A depressão,
alçada pela psiquiatria moderna à posição de mal do século XX, e cada vez mais conso­
lidada neste novo século, é tratada com medicamentos de última geração, as cha­
madas "pílulas da felicidade". O consumo indiscriminado de antidepressivos, decor­
rente da "obrigação de ser feliz", responde ao imperativo supercgóico de gozo que
pauta o discurso do capitalista. Nesse discurso, analisado no primeiro dos artigos, o
laço do sujeito se estabelece diretamente com o objeto de consumo, na tentativa
de tamponar a falta que constitui o desejo. A qualquer sinal de tristeza, é oferecido
ao sujeito um objeto que vende a ilusão de que é possível sanar o mal-estar do
sujeito desejante cm sua divisão constitutiva.
De forma análoga, a abordagem da velhice na sociedade atual exclui a verdade
do sujeito na relação com o desejo, seja pelo viés negativo da fragilidade do corpo
que o afasta da esfera do gozo, seja pelo viés positivo que, baseado na lógica do
consumo, acredita ser possível adiar a morte. Tomando como "mote" a afirmação
de Lacan de que a verdade é "irmã do gozo interditado" 13, no segundo artigo é
feita uma crítica do discurso gerontológico, comandado pelo ideal da "boa velhice",
e ressaltada a importância da clínica psicanalítica, que permite recortar os efeitos
de gozo na relação com uma verdade que é sempre singular e propicia o reconhe­
cimento e a circulação do desejo.

11
Título ele uma elas partes de O seminário, /irra 17.- o arcsso da psicanálise.
12
Trata-sc de um quinto discurso, cujo materna foi apresentaelo por Lacan cm uma conferência
profcriela cm Milão cm maio de 1972. Cf. Lacanemltalie. Milão: La Salamandra, 1978.
11
LACAN, Jacques. O seminário, /i,-ro 17: o arcsso da psicanálise. Op. cit., p. 64.

14 Saber, \'erclade e gozo


A coletânea se encerra com a seção intitulada "Psicose e laço social", cujo pri­
meiro artigo aborda o tema do desejo na psicose. A discussão cm torno do conceito
de supcrcu e seu estatuto na psicose conduz a uma abordagem do conceito de gozo
cm sua formulação inicial, feita por Lacan cm O se minário, livro 7: a ética da psicanáhse 14. Em
seguida, é apresentada a reformulação realizada dez anos depois, cm O se minário, livro
J 7: o avesso da psicanálise, quando se delineou o campo do gozo como campo operatório
estruturado pelos discursos. A indagação que se impõe, a partir daí, diz respeito às
possibilidades de o psicótico se inserir no laço social por meio dos discursos, tendo
cm vista a foraclusão do significante do Nome-do-Pai, que, para Lacan, define a
psicose. É essa a questão abordada no segundo artigo, conforme a análise das
dificuldades e possibilidades de inserção do sujeito psicótico nos quatro discursos.
Em sua particularidade, o discurso do analista se apresenta como a via mais favorável
para que o psicótico possa se inserir no laço social.
Nessa direção, a escolha do artigo que encerra a coletânea não foi gratuita.
Com base na experiência clínica desenvolvida no Centro de Atenção Psicossocial
Infanto-juvcnil Pequeno Hans, demonstra-se, de um lado, que é possível instaurar
o dispositivo analítico cm uma iniciativa clínico-institucional sem proceder a adap­
tações; de outro, cm que medida esse dispositivo, tal como formulado no materna
do discurso do an alista, permite avançar na direção do tratamento do autismo e da
psicose infantil, estruturas clínicas que desafiam o psicanalista. A radicalidade dessa
experiência - na qual, pela precariedade dos efeitos de linguagem, o ato ganha
relevância - evidencia a importância da concepção de discurso trazida por Lacan cm
O se minário, livro 17: o avesso da psicanálise. Ao tornar possível a identificação da dimensão
do ato no significante, o aparelho do discurso permitiu o funcionamento do dispo­
sitivo analítico, revelando a capacidade da psicanálise de acolher o real, reconhe­
cendo o impossível que ele porta sem, contudo, recuar diante dele.

Rio de Janeiro, abril de 2002


Doris Rinaldi

14LACAN, Jacgues. O seminário, /irra 7: a ética da psicanálise (1959-60). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1998.
PARTE I

Introdução a O seminário, livro 17:


o avesso da psicanálise
--·-.;,J•W
...
Discurso e liame social: Biblioteca -

apontamentos sobre a teoria


lacaniana dos quatro discursos
Marco Antonio Coutinho Jorge

Surpreendente e inusitada, a lista dos quatro discursos introduzidos por Jacques Lacan
em O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise parece saída de urna das páginas de Jorge Luís
Borges, nas quais são enumerados, com toda naturalidade, um após o outro, corno se
constituíssem um conjunto inquestionavelmente coerente e harmônico, os seres
imaginários mais díspares: a an.6.sbena, o centauro, a hidra, a mandrágora... A lista de
Borges é, evidentemente, infinita, e ele mesmo nos adverte de que poderia incluir
coisas tão diversas quanto o príncipe Hamlet, o ponto e a Divindade!
Embora bastante limitada, se comparada a ela, a lista dos discursos lacanianos
causa semelhante estranheza: o mestre, a histérica, o psicanalista e o universitário!
De saída, surge a seguinte questão: o que significa a existência de discursos tão
heterogêneos entre si? É bom recordar que o próprio Lacan chama atenção para o
fato de que seus quatro discursos recobrem as (três) atividades mencionadas por
Freud como sendo, na verdade, profissões impossíveis', ou seja, lembra que esses
discursos se referem fundamentalmente a impossibilidades.
Em seu prefácio à obra Juventude desorientada, de August Aichhorn, escrito em 1925,
Freud afirma, pela primeira vez, que havia muito tempa que passara a considerar como
seu o chiste sobre os três oficias impossíveis: educar, curar e governar, ainda que, acrescenta,
tivesse se "empenhado sumamente na segunda dessas tarefas''2. Posteriormente, retorna
essa mesma argumentação naquele que seria um de seus últimos escritos, o ensaio "Análise
terminável e interminável", de 1937, ponderando que, quanto a essas três profissões - e
aí Freud não fala mais cm curar, porém em psicanalisar -, podemos, de antemão, estar

1
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1992, p. 158.
' FREUD, Sigmund. "Prólogo a August Aichhorn, Verwahrloste Jugend" (1925).Em: Obras completas,
vol. XIX. Buenos Aires: Amorrortu, 1996, p. 296.

17
seguros de que "chegaremos a resultados insatisfatórios" 3 • Desde já, contudo, note-se que
Lacan acrescentaria a elas uma quarta impossibilidade, o fazer desejai, relativa ao discurso
da histérica, posição discursiva que se distingue das outras três por não constituir uma
profissão. E também que indagaria se as demais posições discursivas são, de fato , profissões .. .
Sobre esses quatro discursos, Lacan observou algumas coisas frmdamcntais:
que todo liame social se sustenta neles ; que os "quadrípodcs" são um aparelho de
"quatro patas", com quatro posições , que definem quatro "discursos radicais"; que
foi O surgimento do discurso psicanalítico que permitiu que houvesse o destaca­
mento dos outros discursos ; que o discurso psicanalítico emerge a cada vez que há
a passagem de um discurso a outro, acrescentando que isso equivale a afirmar que
o amor é o signo de que trocamos de discurso.
Que estranho e insuspeitado mrmdo é esse que se abre, diante de nossos olhos,
com a teoria lacaniana dos discursos? É o mrmdo do materna lacaniano, da letra e do
algoritmo, que, como já se pôde frisar, traz para a teoria seu ponto de equilíbrio em
relação ao Lacan do "inconsciente estruturado como uma linguagem", que pode ser
considerado como o Lacan do poema. Como lllila gangorra, Lacan equilibrou seu
ensino entre estes dois pólos, o materna e o poema: um não anula o outro , mas antes
o complementa. Ambos são necessários e de nenhum deles se pode prescindir.
A segrmda questão que se apresenta - e que constitui uma bússola na qual buscamos
orientação - é esta : será que cada analista deve ter como tarefa a travessia do árduo
desfiladeiro imposto por essas duas montanhas, o materna e o poema?
Pronrmciada cm 1 969-70, no contexto imediatamente posterior aos eventos de maio
de 1 968 que sacudiram Paris, a teoria dos quatro discursos de Lacan comparece cm seu
ensino para tratar de uma forma original do liame social. 5 Por isso mesmo, não só a capa de
O seminário, livro 1 7 apresenta o líder estudantil Daniel Cohn-Bcndit desa.fiando com seu olhar
irônico um policial , como também se pode ler no interior do volume tanto uma entrevista
dada par Lacan nos degraus do Panteão - a Faculdade de Direito, onde dava seu seminário,
estava fechada - quanto uma palestra de improviso feita para os estudantes em Vinccnnes.
Há uma relação histórica entre o advento do materna no ensino de Lacan e a
criação do departamento de psicanálise de V incennes. Elisabeth Roudincsco acredita

1 FREUD, Sigmund. "Analisis tcrminablc e intcrminable". Em : Obras completas, vol . XXlll. Buenos
Aires: Amorrortu, 1996, p. 249.
4
LACAN, Jac9ucs. O seminário, /irra 17: O arcsso da psicanálisc. Op. cit. , p. 165 .
5 Houve 9ucm se perguntasse se Lacan não estaria com isso propondo a substituição da noção
de ideologia, tão cm voga na9uclc momento, pelo "fino mecanismo de 9uatro termos, 9uatro
letras, instalados cm 9uatro lugares" (GODIN, Jcan-Guy. Jacques Lacan: S, ruc de Lillc. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 991, p. 30).

18 Saber, verdade e gozo


que, embora em 1969 Lacan tivesse sustentado a incompatibilidade entre o discurso
universitário e a psicanálise, a conquista trazida pelo materna em 1974 foi o ele­
mento primordial para tornar compatíveis esses dois discursos.6 Alain Didier­
Weill, por sua vez, mostrou que o conflito entre os discursos universitário e psica­
nalítico era considerado salutar por Lacan, e que o conflito entre o discurso psica­
nalítico e o discurso do mestre se revela problemático para a psicanálise:
A chance de renovação do ensino induzida pela possível confrontação com o
real, enquanto suscitada pelo choque entre os dois discursos antipáticos (o ana­
lítico e o universitário), desaparece totalmente assim que se faz a reorganização
dos significantes da doutrina no contexto de um discurso único (o do mestre) ,
cujo princípio é a evacuação do real.7

A originalidade dessa teoria e o contexto sociopolítico no qual surge não impedem


que ela seja um verdadeiro corolário de fundamentais desenvolvimentos lacanianos
anteriores, já que trata do liame sodal enquanto cçscnciafmcnte limdado na linguagem: se o inconsciente
é estruturado como urna linguagem, como Lacan postulou desde 1953, o liame social
não deixa de sê-lo. Dito de outro modo, "a lógica do significante tanto ordena as relações
humanas quanto estrutura o inconsciente individual'ti. Assim, os discursos introduzidos
por Lacan correspondem às estruturas mínimas de todo e qualquer liame social, sempre
concebido como fundado exclusivamente na linguagem. Mais essencialmente ainda, os
discursos levam às últimas conseqüências a tese lacaniana de que o inconsciente é um saber. 9
O que representa para Lacan a definição de discurso como forma de liame social?
Este trabalho pretende também levantar subsídios para responder a essa questão e,
para tal, retoma de modo sucinto os principais desenvolvimentos feitos cm um ensaio
sobre a articulação entre a posição sexual e a posição discursiva do sujeita1 °, no qual
introduzimos urna intervenção sobre a fórmula dos discursos à qual pretendemos
aqui dar relevo. Lembre-se de que o termo liame se origina do latim ligamen e significa

6
ROUD INE SCO, E lisab eth & P LON, Michcl. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro : Jorge
Zahar Editor, 1 998, p. 503.
7
D ID IER-WE ILL, Alain. Inconsciente freudiano e transmissão da psicanálise. Rio de Janeiro : Jorge Zahar
Editor, 1 988, p. 1 27.
8
LÉRES, Guy. "Lectur e du discours capitalistc selon Lacan: um outil pour r épondr e au Malaise",
Essaim, n.3. Paris, Éres, 1 999, p. 9 1 .
9
Sobre a qual já n o s debruçamos de modo m ais extenso cm um trabalho anterior. Cf. JORGE ,
Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud a Ú!can, vol. 1: As bases conceituais. Rio de
Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2000, p. 65 .
'º JORGE , Marco Antonio Coutinho. "Sexo e discurso". Em: Sexo e discurso cm Freud e Lacan. Rio
de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1988.

Discurso e liame social 19


ligação, aquilo que prende uma coisa à outra ; já o termo sodal, de sodus, significa
companheiro, aquele que se associa com outro cm uma empresa .
Sendo um corolário refinado da lógica do significante, a teoria dos quatro
discursos requer a compreensão dessa lógica. Tratemos dela sucintamente. Antes
disso, porém, é pertinente relembrar o lugar bastante privilegiado que o próprio
Lacan outorgou aos maternas cm seu ensino.

Letras e maternas : o simbólico e o real


Todo o ensino de Lacan é pontuado pela criação de uma escrita formal de letras, as quais
denominou álgeb1a laamiana. As principais letras dessa escrita são : S1 , S2 , 1, a, A, S (!/...), �:
11

(... ] não creio vão ter chegado à escrita do a, do _g, do significante, do A e do <j>. Sua
escrita mesma constitui um suporte que vai além da fala, sem sair dos efeitos mesmos
da linguagem. Isto tem o valor de centrar o simbólico, com a condição de saber
servir-se disso, para quê? - para reter uma verdade côngrua, não a verdade que
pretende ser toda, mas a do semi-dizer, aquela que se verifica por se guardar de ir até
a confissão, que seria o pior, a verdade que se põe em guarda desde a causa do desejo. 1 2

A associação combinatória dessas letras veio a constituir o que Lacan denominou


materna da psicanálise, inventado simultaneamente ao nó borromeano e cunhado a
partir do mitema de Claude Lévi-Strauss e do termo grego mathema, que significa conhe­
cimento. Com a introdução dos maternas, a pretensão de Lacan foi não a de tudo
matematizar, crítica que ele pôde ouvir de um de seus interlocutores nos Estados
Unidos, mas sim a de "começar a isolar na psicanálise um mínimo matematizável'º.
Não seria muito arriscado avançar aqui que Lacan aproxima, de al gum modo, o
lugar ocupado pelo materna na teoria psicanalítica àquele que a fantasia ocupa na
estrutura psíquica, ou seja, um lugar entre o simbólico e o real.
Para Lacan, os maternas apresentam duas faces interligadas e dependentes da
relação problemática do simbólico com o real : se, por um lado, constituem um
ponto mínimo de ancoragem teórica, por outro, permitem uma pluralidade de
leituras. Nesse sentido, Lacan falou do "sem-número de leituras diferentes" que o s
maternas autorizam, "multiplicidade admissível desde que o falado continue preso

11
Por exemplo : LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 1: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 979, p. 63) e também O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise.
(Op. cit. , p. 1 2).
12
LACAN, Jacques. O seminário, lirro 20: mais, ainda (1 972 -3). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1 982, p. 1 26.
11
LACAN, Jacques. "Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines" ( 1 976),
Scilicc t, n. 6/7. Paris, Seuil, p. 27.

20 Saber, verdade e gozo


à sua álgebra" 14 , não sem se antecipar à possível crítica de que eles contradiriam
sua reiterada afirmação da impossibilidade de uma metalinguagem. Lacan delimitou
igualmente o alcance das letras em sua relação com o real que elas tentam cernir:
"A formalização matemática é nosso fim, nosso ideal. Por quê? Porque só ela é
materna, quer dizer, capaz de transmitir integralmente". 1 5
O materna lacaniano, por tanto, visa a possibilitar a transmissão integral de, ao
menos, um mínimo daquilo que se decanta da experiência psicanalítica, pois "é da
noção de um saber que se transmite, que se transmite integralmente, que se produ­
ziu no saber essa peneiragem graças à qual um discurso que se chama de científico se
constituiu". 16 Nesse sentido, a introdução dos maternas tem corno objetivo uma
escrita que funcione corno um ponto para o qual converge uma grande pluralidade
de achados da experiência analítica. O materna está relacionado com a grave questão
da transmissibilidade da psicanálise e possui função decisiva quanto ao futuro dessa
disciplina. Trata daquilo que, da experiência freudiana, poderia ser "ensinável a todo
mundo, isto é, científico, dado que a ciência tr ilhou sua via par tindo desse postulado'n.
É de se ressaltar que em seu derradeiro seminário, r ealizado em Caracas em
1980, Lacan fez questão de enfatizar a impor tância que ele próprio atribuía a seus
maternas, afirmando que acreditava se situar "melhor que Freud no real interessado
no que diz respeito ao inconsciente" e que seus maternas "procedem de que o
simbólico seja o lugar do Outro, mas que não haja Outro do Outro'� 8 .
Aliás, quando fora aos Estados Unidos em novembro de 1975 fazer uma série
de conferências em universidades, Lacan encontrara uma excelente oportunidade
para discorrer, com surpreendente simplicidade, sobre pontos privileg iados de
sua teoria. Ali, diante de um público novo e altamente indagador, abordou, entre
outras coisas, a importância que atribuía aos maternas da psicanálise:
Até o presente, tudo o que se produziu como ciência é não verbal. Naturalmente,
é evidente que a linguagem é utilizada para ensinar as ciências, mas as fórmulas
científicas são sempre expressas por meio de letrinhas. E = mv 2 , como relação
entre a massa e a aceleração da velocidade, não pode ser explicada na linguagem
a não ser por intermédio de longos desvios. [... ] A ciência é o que se mantém,
em sua relação com o real, graças ao uso de letrinhas. 19

14
LACAN, Jacques. "Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano"
( 1 960). Em : Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p. 830.
1 5 LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Op. cit., p. 1 6 1 .
16
Ibid . , p. 1 93.
17
LACAN, Jacques. Televisão ( 1 974) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 993, p. 67.
18
LACAN, Jacques. "Séminaire de Caracas". Em: Almanach de la di.ssoulrion. Paris, Navarin, 1 986, p. 86.
19
LACAN, Jacques. "Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines". Op. cit., p. 26.

Discurso e liame social 21


M ais adiante, quanto a essa relação entre o real e as letras :
nos pensamos que apenas a ciência tem a ver com o real . Mas o real, tal como
falamos dele, é completamente desprovido de sentido. Podemos ficar satisfeitos ,
estar seguros de que tratamos de algo real somente quando ele não tem mais
qualquer sentido que seja. Ele não tem sentido porque não é com palavras que
escrevemos o real. É com letrinhas . 20

E cm "Lc malcntcndu", seminário realizado antes de partir para Caracas, cm


1 O de junho de 1 980, fizera uma espécie de voto que cabe igualmente rel embrar
aqui, pois nos interessa diretamente:
Esses latino-americanos, como se diz, que nunca me viram, à diferença daqueles que
estão aqui, nem me ouviram de viva voz, bem, isso não lhes impede de ser lacano.
Parece que, antes disso, isso os ajuda. Lá eu me transmiti pelo escrito e parece que
tenho descendentes. Em todo caso, eles o crêem. É certo que é o futuro. E ir ver isso
me interessa. Interessa-me ver o que se passa quando minha pessoa não esmaga aquilo
que ensino. Talvez justamente meu materna ganhe com isso.2 1

O materna implica, desse modo, a possibilidade de transmissão pelo escrito e


independe d a fala daquele que transmite . Além disso, é preciso ressaltar igualmente
que a tentativa de trazer para a psicanálise um mínimo de formalização matêmica
que apresente um alcance para sua transmissibilidade parte da premissa de que "a
possibilidade da psicanálise se atém ao discurso da ciência'm, mas não se dá, para
Lacan, sem a apreensão do fato de que "a psicanálise não é uma ciência, não é uma
ciência exata"2 3 .

O sujeito e o significante
Como dissemos, a teoria dos quatro discursos supõe, para seu entendimento, com­
preensão prévia da lógica do significante estabelecida por seu ensino, pois as letras que
compõem os discursos são o fruto dessa lógica: S 1 , S 2 , $, a. Tais letras são aquelas que
compõem a "relação fundamental de um significante com um outro significante", da
qual "resulta a emergência disso que chamamos sujeito - em virtude do significante
que, no caso, funciona como representando esse sujeito junto a um outro significante'14 :

'º Ibid . , p. 29.


" LACAN, Jacques. "Le malentcndu", Ornicar?, n . 2 2 / 2 3 . Paris, Lyse, 1 980, p. 1 1 .
22
LACAN, Jacques. O seminário, lirro 20: mais, ainda . Op. cit. , p. 1 1 9.
21
LACAN, Jacques. "Ouvcrture de la section clinique" (1 977),0rnirar?n. 9. Paris, Lyse, 1 977, p. 1 4.
• LACAN, Jacques. O seminário, li ro 1 7: o aresso da psicanálise. Op. cit. , p. 1 1 .
2 r
s. -r ,.
%

Embora seja efeito do significante, o sujeito não pode ser representado inte­
g ralmente por ele ; por isso , surge barrado, dividido, sem unidade possível, abso ­
lutamente heterogêneo ao indivíduo que significa precisamente o indiviso, aquele
q u e não se divide. Lacan postula que a hipótese com a qual ele entra no inconsciente
é a de que "o indivíduo que é afetado pelo inconsciente é o mesmo que constitui o
q ue chamo de sujeito de um significante'>25 •
Foi justo no estabelecimento dessa distinção fundamental que Lacan se empe­
nhou ao longo de todo um ano de seus seminários iniciais : na distinção entre o cu,
cuja W1idadc provém do registro do imaginário e da alienação daí decorrente, e o
sujeito, representado no campo do simbólico como dividido , cindido, lugar do con­
flito e da impossibilidade de obter qualquer Wlidadc. O eu não é o sujeito e
26

ambos são, de fato, absolutamente heterogêneos, pois o cu (corpo próprio) se


forma a partir da matriz imaginária produzida no estádio do espelho como um
verdadeiro rechaço da pulsão (corpo espedaçado).
O cu é essencialmente imagem corporal, ao passo que o sujeito é efeito do
simbólico, do Outro, da linguagem. O sujeito é "o que desliza cm uma cadeia de
significantes, quer ele tenha ou não consciência de que significante ele é efcito''7 •
É passível de ser representado sim, mas sempre parcialmente, entre dois significan­
tes . Por essa razão, Lacan indica a ambigüidade que está cm jogo nessa represen­
tação formulando que o sujeito ao mesmo tempo cm que é representado , tam­
bém não é representado. O sujeito "não é jamais senão pontual e evanescente, pois
ele só é sujeito por um significante, e para um outro significantc'f8 • Como precisa
Miller, o sujeito é "um sujeito sem substância. Não é uma alma , não é um cu, não
é uma forma e não é uma natureza humana: é precisamente o que desmente toda
natu reza humana e todo esforço por conceituar uma semelhante naturcza".29

25 LACAN, Jac9ues. O seminário, livro 20: m ais, ainda. Op. cit., p. 1 94.
26
LA CAN , Jac9ues. O seminário, lfrro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1 954-5),
es pecialmente a s eção "Para al ém do imaginário, o s imbólico ou do pe9ueno ao grande Outro"
(Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 985 , p. 2 1 9-342).
7
2 LACAN, Jac9ues. O seminário, lirro 20: m ais, ainda. Op. cit. , p. 68.
2
' [hid. , p. ] 95.
29
MILLER, Jac9ucs -Alain. "Las rcspuestas dei real". Em : Aspectos dei ma/estar en la cultura. Buenos
Aires : Manantial , 1 987, p. 1 1 .

Dis curso e liame social 23


Pode-se dizer que a lógica lacaniana do significante é inteiramente baseada na con­
cepção primordial de Ferdinand de Saussure segundo a qual "na língua só há diferenças",
a.firmação cujo efeito é uma concepção do significante necessariamente binária: S e S 2 •
O próprio Lacan invoca essa máxima saussureana e dela faz a base de sua concepção
1

binária do significante: "o significante, em si mesmo, não é nada de definível senão como
uma diferença para com um outro significante"30 . Se é a diferença o que constitui a
passibilidade de que haja definição, é preciso ao menos dois significantes para que esta surja.
Quais são esses significantes entre os quais o sujeito surge , de maneira pontual
e evanescente, como dividido?
- S 1 , um significante que apresenta o poder de marca fundadora, de signi.irantemcstre,
poder que permite a Lacan destacar a homofonia existente, em francês , entre maftre
[mestre, senhor] e m 'être [me ser]. 3 1 S 1 não é exatamente apenas wn significante , mas sim
um enx�e, essaim, de significantes que constituem uma referência singular para o
sujeito. Embora S 1 seja igualmente parte do saber (S) do Outro (o que é o mesmo que
dizer que S 1 é parte do tesouro dos significantes) , ele consiste em uma região do Outro
muito privilegiada para todo sujeito. Embora qualquer significante seja capaz de vir na
posição de significante mestre, quando isso se produz , ele passa a ser como um selo ,
uma marca fundadora e originária. Sobre S 1 , diz Lacan : "S 1 deve ser visto como
interveniente . Ele intervém em uma bateria significante que não temos direito algum ,
jamais , de considerar dispersa, de considerar que já não integra a rede do que se chama
um saber"32 • Tal intervenção de S 1 no campo já constituído dos outros significantes ,
uma vez que eles já se articulam entre si como tais, faz com que surja $.
- S 2 , outro significante, que representa a ''bateria dos significantes'83 (S 2 , S 3 , S "... ) ,
o conjunto - faltoso, é preciso sublinhar - dos significantes do campo d o Outro, o saber
do Outro. S 2 é o conjunto faltoso dos significantes do campo do Outro e designa todos os
outros significantes que não possuem valor de S 1 para o sujeito. O nome da falta de S2
foi escrito por Lacan como S (.f..), o significante da falta de ao menos um significante no
campo do Outro, o significante da falta de inscrição da diferença sexual. S (.f..) é a
matriz da estrutura psíquica e constitui o núcleo real do inconsciente, homólogo ao
objeto da pulsão e do desejo, a: S (!/;.) é o furo real do simbólico, assim como a é o furo
real do imaginário. Quanto a isso , Lacan salienta que o prindpio de prazer se funda na
coalescência de a com o S (!/;.), acrescentando que a cisão, o descolamento entre a,
como imaginário, e A , como simbólico, é feita pela psicanálise, mas não pela psicologia.

'º LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Op. cit. , p. 1 94.
" LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o arcsso da psicanálise. Op. cit . , p.· 1 44.
32
Ibid. , p. 1 1 .
33 Jbid.

Saber, verdade e gozo


Dessa operação de representação significante - e, portanto, simbólica - do
3
sujeito, "surge alguma coisa definida como uma perda" 4 , cai um resto evasivo ao
simb ólico e pertencente ao real, o objeto a, mais-de-go:zar. O objeto a é o objeto causa
do desejo. Posteriormente, em "O seminário, livro 2 2 : R.S.I.", Lacan o situa na
região central do nó borromeano, o que permite que se entenda que o objeto a
comparece nos três registros, como real, simbólico e imaginário, sendo sua face
real - de objeto faltoso e, logo, de causa do desejo - aquela que sempre predomina
sobre as outras. Ela esburaca tanto a face imaginária quanto a face simbólica do
objeto a, e é aquela que Freud nomeou como das Ding, a Coisa.
Diana Rabinovich observa que o discurso concebido por Lacan como produto
da articulação significante "é um discurso sem palavras, que como tal gera palavras;
é um discurso sem sentido, que gera a própria proliferação do sentido"35 • São
essas quatro letras da relação fundamental do sujeito com o significante que constituirão
os elementos dos quatro discursos, letras que serão dispostas em quatro lugares distintos:
a verdade, o agente, o outro, a produção.
Em uma passagem da lição de 9 de janeiro de 1 973 de O seminário, livro 20, ao
tocar na questão da referência, Lacan precisa a relação entre significante e discurso:
"O significante como tal não se refere a nada, a não ser que se refira a um discurso,
quer dizer, a um modo de funcionamento, a uma utilização da linguagem como
liame"36 - um liame entre aqueles que falam, logo, um liame social. Cabe salientar,
com Gérard Wajcman, que em Lacan o que especifica a noção de discurso é o fato
de ela visar a inscrever aquilo que funda a palavra em seus efeitos. Assim, quando
tomamos a palavra, tomamos lugar, língua e poder.37

O discurso articula o sujeito e o outro


O que é , para Lacan, um discurso? Não havendo para o sujeito falante nenhuma
realidade pré-discursiva, o discurso é definido como "o que funda e define cada
realidade"38 • Tendo sua inscrição no mundo humano - seu lugar na ordem simbólica
- produzida muito antes de seu próprio nascimento como ser vivo e organismo
biológico, o sujeito falante se inscreve em uma realidade discursiva preexistente,
a partir dos significantes do campo do Outro.

14 lbid. ,
p. 1 3.
11
RA BIN OVICH, Diana S. "O psicanalista entre o mestre e o pedagogo", Dizer, n . 4. Rio de
Janeiro : Escola Lacaniana de Psicanálise, 199 1 , p. 8.
16
LACAN, Jac9u es. O seminário, livro 20: mais, ainda. Op. cit., p. 43.
11 WAJCMAN, Gérard. Lc maitre et l'hystérique. Paris: Navarin, 1 982, p. 1 4.
1
' LACAN, Jac9ues. O seminário, /irra 20: mais, ainda. Op. cit. , p. 45 .

D iscurso e liame social 25


Se Georges Bataille pôde dizer que "o animal está no mundo como a água na
água" 39 , em uma fórmula poética que ressalta a absoluta homogeneização, para o
animal, do indivíduo biológico com a natureza, o mesmo não poderia ser dito cm
relação ao sujeito falante, pois entre este e o mundo há um verdadeiro abismo intrans­
ponível - a linguagem. Como uma série de telas de Edward Hopper parecem que­
rer revelar, entre o sujeito e o mundo - entre simbólico e real - há uma fronteira
intransponível, e a esse lugar fronteiriço só se pode aceder por meio da travessia da
fantasia. 40 Nessa fronteira entre simbólico e real, a realidade, feita de fantasia, deixa de ter
sentido, sendo por isso o lugar ao qual a análise deve conduzir o psicanalista.
É por meio da linguagem que o sujeito falante tem acesso ao mundo, seu
encontro com o mundo está para sempre mediatizado pela linguagem. A cada vez
que o sujeito quer tocar o mundo , este como que se afasta e o sujeito se vê de novo
às voltas exclusivamente com a linguagem. Lacan falou do í-mundo para designar
precisamente esse mundo inacessível para o sujeito e para sempre perdido no real
impossível de ser simbolizado. O mundo humano é simbólico, ao passo que o
mundo real é i-mundo.
Os maternas dos discursos consistem na disposição ordenada das letras - S 1 ,
S 2 , $, a - em lugares fixos: verdade, agente, outro, produção.Tais lugares são escritos
por Lacan por meio de dois binômios interligados por uma seta:
agente -----. outro

verdade produção

Quanto aos lugares, Guy Léres pondera que quatro lugares são o mínimo necessário
e suficiente para estabelecer o liame social, e isso do seguinte modo : o lugar do agente
determina, por seu dito, a ação ; o lugar do outro, que, movido por esse dito, é necessário
à execução ; o lugar do produto, resultado simultaneamente do dito do primeiro e do
trabalho do segundo. E quanto ao quarto lugar, o da verdade, diz Léres: "Para que esse
dito primeiro seja levado em conta por aquele que vai operá-lo, é preciso que ele possa
considerá-lo como não enganador". Por isso, "a verdade é o quarto lugar necessário para
ordenar a função da fala" 41 • Nesse sentido, os lugares dos discursos são fixos porque todo
e qualquer discurso é sempre movido por uma verdade, sua mola propulsara, sobre a qual
está assentado um agente, que se dirige a um outro a fim de obter deste urna produção.

1 9 BATAILLE, Georges. Théorie de la religion. Paris: Gallimard, 1 973, p. 3 2 .


' º JORGE, Marco Antonio Coutinho. "Edward Hoppcr e a travessia d a fantasia". Em :
FONTENELE, Laeria & BRITO, Mariza (org.). Enigmas do sintoma: desejo, gozo e fantasia. Fortaleza:
Imprensa Universitária da UFC, 2002 .
LÉRES, Guy, "Lecturc du discours capitalistc sclon Lacan: un outil pour répondrc au Malaise".
41

Op. cit. , p. 90.

Saber, verdade e gozo


Sublinho que cada discurso inclui nele mesmo um único sujeito, o que mostra que
a intersubjetividade é eliminada , de saída, na teoria lacaniana dos discursos como
liames sociais: embora Lacan tenha falado de relação intersubjetiva no início de
seu ensino - certamente como um passo necessário em seu percurso no sentido
de reconstituir o lugar do psicanalista na direção do tratamento -, não existe
rela ção intersubjetiva, assim como não existe relação sexual.
Todo discurso, no entanto, implica intrinsecamente a referência ao Outro. Se
Lacan define os discursos como formas particulares por meio das quais são esta­
belecidos liames sociais, é porque todo discurso é uma articulação entre sujeito e Outro,
protótipo de todo liame social. Desse modo, podemos fazer uma intervenção na
fórmula dos discursos que distinga radicalmente dois campos diversos, do sujeito
e do Outro, distinção essa que, embora esteja implícita no materna, permite, ao
ser explicitada, que se depreendam alguns elementos importantes.
Com essa intervenção, podemos escrever a fórmula dos discursos com seus
lugares evidenciando que todo discurso é, por um lado, uma tentativa de estabelecer
uma ligação entre o campo do sujeito e o campo do Outro, e, por outro, a confir­
mação de que um impossível radical vigora entre sujeito e Outro. Dissequemos,
assim, a estrutura que está em jogo nas fórmulas dos discursos:

SUJEITO OUTRO
agente � outro

verdade produção

Consideraremos tal intervenção na fórmula dos discursos apenas a explicitação


de algo que está nelas embutido, pois em diversas passagens a divisão desses dois
campos fica evidenciada por Lacan, por exemplo, ao mencionar, na estrutura do
discurso do senhor (ou mestre), que S 1 é "a função de si gnificante sobre a qual se
apóia a essência do senhor", enquanto que S é "o campo próprio do escravo"4 •
2

Que essa estrutura de dois binômios articulados como dois campos diversos, do sujeito
2

e do Outro, pode ser legitimamente considerada como a base da estrutura dos discursos é
algo depreendido também quando vemos a outra maneira pela qual Lacan escreve suas
fórmulas dos discursos. Ela situa espacialmente a estrutura dos discursos como dois campos
diversos, li dos um ao outro exclusivamente pela seta que parte do agente para o outro43 :
ga

42
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (Op. cit. , p. 1 8) . Não proliferaremos
exemplos quanto a isso, para não sermos exaustivos, mas sublinhamos que exemplos como o
aqui mencionado são inúmeros.
3 Cf. LACAN, Jacques. "Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines"
4

(Op. cit . , p. 63) e Tclc1isão (Op. cit . , p. 29; 40) e também WAJCMAN, Gérard. le maitre et
l 'hystériquc (Op. cit. , p. 1 6) .

Dis curso e liame social 27


agente _______. outro

i
verdade
l
produção

Além disso, cabe sublinhar, na direção de nossa argumentaç ão, que a posição
da seta central entre os dois binômios é situada por Lacan indiferentem ente, seja
entre os dois binômios como um todo, seja entre os numeradores de cada binômio.
Tal posicionamento indif crente da seta central fala precisamente a favor dessa
distinção, implícita nos discursos, de dois campos distintos , do suj eito e do Outro.
Assim, no irucio d e o semmano, l'1vro 17 e uma uruca vez em o semmano, l'1vro 20 , a
I I O O
44 I O I 45 O O

seta surge na posição mediana entre os dois binômios, ao passo que em muitas
outras passagens aparece escrita entre os n umeradores dos dois binômios.
Apliquemos agora essa intervenção que distingue dois campos diversos, do
sujeito e do Outro, nos binômios dos quatro discursos:
MESTRE HISTÉRICA

Sujeito Outro Sujeito Outro


1
s, 1 s2 $ 1 s,
� �
% s2

PSICANALISTA UNIVERSITÁRIO

Sujeito Outro Sujeito Outro

1 f, s2 1
� �
s2 s, s, $

Marquemos igualmente que, entre os diferentes lugares, Lacan privilegia o lugar


do agente como sendo a dominante de cada discurso. É ela que dá o tom do discurso, que
revela sua tônica essencial e que chama atenção de modo incisivo a cada vez que o
sujeito toma a palavra. A dominante é o lugar de onde se ordena o discurso ; mais que
isso, Lacan sublinha que ela é aquilo que constitui a própria denominação de cada discurso.
É interessante observar que Lacan introduz essa categoria da dominante dis­
cursiva ao tratar do objeto a no lugar de agente do discurso do psicanalista. A posição
do psicanalista "é feita substancialmente do objeto a, na medida cm que esse objeto
a designa precisamente o que, dos efeitos do discurso, se apresenta como o mais

44
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 1 2 .
45 LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda.
Op. cit., p. 1 2 3. Ressalte-se que a publicação
desse seminário se deu cm 1 975 , logo, quando Lacan ainda estava vivo.

28 Saber, verdade e gozo


opaco, há muitíssimo tempo desconhecido, e, no entanto, essencial''46 . O analista
se oferece "como idêntico ao objeto a", isto é, como "isso que se apresenta ao
sujeito como causa do desejo"47 . É dessa posição de a que a regra da associação
livre é acionada pelo psicanalista para que o analisando produza os S 1 de sua história.
Se no discurso do mestre a dominante é S 1 , relacionada por Lacan com a lei, no
discurso da histérica, a dominante, $, é o sintoma, pois é "cm tomo do sintoma que se
situa e se ordena tudo o que é do discurso da histérica' • No discurso do universitário,
118

por sua vez, trata-se do saber, S2 , vindo no lugar da ordem, do mandamento do mestre.

Os quatro discursos . . .
Seguindo as próprias indicações de Lacan, considero fecundo tomarmos o discurso
do psicanalista como o ponto de referência principal para estabelecer a leitura dos
demais discursos . A partir da descoberta de Freud, o discurso do psicanalista veio
não só introduzir uma nova forma de liame social, como também permitir que os
outros discursos pudessem ser isolados como tais. O primeiro ponto a se destacar é
que o discurso do psicanalista tem como dominante o avesso do discurso do mestre,
e esse constitui um dos aspectos centrais de O seminário, livro 17 e dá a ele seu título.
O que mais chama atenção no discurso do mestre é S 1 , o significante mestre que
o mestre faz agir sobre o outro, tomado enquanto saber, para conseguir uma produção
determinada de mais-de-gozar. O campo do sujeito do mestre é regido pelo falo,
um dos nomes de S 1 , e recalca sua barra. Já o campo do Outro do mestre está
preenchido pelo saber e pelo objeto mais-de-gozar que esse saber produz.
O mestre tem a posição própria àquele que usa a linguagem, e por isso o
materna do discurso do mestre é considerado como o "ponto de partida'119 do
qual, fazendo um "quarto de giro", obtêm-se os outros três discursos. Ele é o materna
da entrada mesma do sujeito na linguagem: a linguagem é efeito do discurso do mestre
e sua estrutura é a mesma desse discurso. Como observou Wajcman , nele as letras têm
o mesmo valor que os lugares . so No discurso do mestre, S 1 no lugar do agente evidencia
que, por meio do poder imperativo do significante, a entrada do sujeito na ordem
simbólica depende do acionamento de um significante mestre: "O significante mestre
determina a castração", diz Lacan, que ainda acrescenta : "O dito primeiro decreta,
leg ifera, sentencia, é oráculo, confere ao outro real sua obscura autoridade'1; 1 •
46 LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 40.
47 lbid. , p. 99.
48 Ibid. , p. 4 1 .
4 9 lbid. , p. 1 2 .
so w
AJCMAN, Gérard. Lc maitre et l'hystérique. Op. cit. , p. 1 7.
Si
LACAN, Jacques. "Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano".
Em: Escritos. Op. cit. , p. 8 2 2 .

Dis curso e lia


me social 29
O discurso do mestre é o discurso no qual se evidencia precisamente o funcio­
namento da sugestão - S 1 � �2 - por meio da qual opera a hipnose, abandonada por
Freud ao criar a psicanálise. E nesse sentido que o discurso do mestre é o avesso da
psicanálise, que opera pela transferência - cujo piv ô é o sujeito suposto saber -, e se
opõe à sugestão, que opera por meio do saber e oblitera a transferência. Pois se o
inconsciente é um saber e a transferência, a atualização da realidade do inconsciente,
a transferência é, essencialmente, transferência do saber inconsciente. Operando pelo saber,
a sugestão impede a transferência do saber inconsciente.
Já o psicanalista age a partir do avesso da mestria constituída por todo uso da
linguagem e tem como dominante discursiva o objeto a. Sendo a a dominante
discursiva, o que domina o discurso do psicanalista não é a linguagem , mas o
silêncio, que, para Lacan, "corresponde ao semblante de dejeto',s2 •
Ao passo que o mestre se dirige ao outro tomado como saber (saber do Outro),
o psicanalista se dirige ao outro de uma forma radicalmente nova na cultura:
tomando-o como sujeito falante, capaz de produzir os significantes primordiais
fundadores de sua própria história. Nesse sentido, uma das características funda­
mentais do discurso do psicanalista é a de que ele é o único discurso que considera o outro
como sujeito, de maneira oposta, portanto, ao discurso do universitário, que considera
o outro como objeto a ser dominado pelo saber universitário.
Tomando o outro como sujeito falante, o discurso do psicanalista leva o sujeito a
bem-dizer o próprio sintoma e a atravessar sua fantasia, ambas operações que se
acham inscritas nesse discurso : $ � S 1 e a � S. O analista só é analista por ser
objeto para seu analisando, como sujeito, atravessar a fantasia. Por isso, pode-se ler
igualmente no discurso do psicanalista o desejo do psiaJIJalista, definido por Lacan como o
desejo de obter a diferença absoluta - entenda-se, a posição radical do sujeito barrado.
Um quarto de giro dextrógiro no discurso do mestre produz o discurso da histérica,
que traz à baila , no campo do sujeito, a barra que fora recalcada pelo mestre, assim
como o objeto a, causa do desejo, no lugar da verdade. No campo do Outro da histérica,
o falo e o saber fazem com que, para ela, esse Outro pareça sem furo, sem brecha.
A histérica toma o outro como S 1 , como mestre, e é a ele que dirige sua demanda
insatisfeita de cura do sintoma. No lugar da dominante do discurso da histérica, o $
tem valor de sintoma que pede decifração e, para tal, ela se dirige ao mestre, S 1 •
Ao longo da história, o contínuo deslocamento da histeria em torno de determinadas
constelações do saber está relacionado ao fato de que "a histérica quer um mestre", ela se
dirige a um S 1 • Ela, no entanto, frisa Lacan, "quer um mestre sobre o qual ela reine e ele
,
não governe' s3 • Assim como na Idade Média a histérica, orbitando em torno do saber

5
2
1ACAN, Jaa:iues. "Conférences et cntrctiens dans des universités nord-améric:aines". Op. cit., p. 63.
13 LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 1 22.

30 Saber, verdade e gozo


religioso e dos mestres que o entronizavam, foi considerada como feiticeira e queimada
na fogueira, com o advento da psiquiatria ela passou a orbitar em torno do médico e seu
destino passou a ser o encerramento no asilo. Padre e psiquiatra ocuparam para a histérica
. A resposta dada pelo mestre como produção de saber perpetua a histérica
0 lugar de S 1
54

nesse lugar de insatisfação e, logo, de invectiva em relação ao mestre.


Um quarto de giro no discurso da histérica produz o discurso do psicanalista. Freud
elaborou uma outra posição discursiva para fazer face à demanda, feita pela histérica, de
um mestre que produza saber. Ele não respondeu a partir da posição do mestre, ou seja,
daquele que sabe, mas sim da posição de não-saber própria ao psicanalista, isto é, da posição
de objeto causa do desejo, a, que aciona o sujeito a dizer o que ele próprio sabe, sem saber
que sabe. O saber que interessa ao psicanalista é o saber articulado à verdade.
A passagem do discurso da histérica para o discurso do psicanalista é onde se pade
situar, nas fórmulas dos discursos, o que Lacan nomeou corno opasse-passe do analisando ao
analista, posto que é no discurso da histérica que Lacan situa todo analisando. O valor do
discurso da histérica não padcria ser mais ressaltado por Lacan que ao afirmar que "é com o
discurso da histérica que se desenha o discurso do psic:analista'ss . O campo do sujeito do
psicanalista, que reúne o saber verdadeiro e o objeto a, está desabitado pelo sujeito, para que,
no campo do Outro, o sujeito passa advir e produzir os seus significantes unários.
Um quarto de giro no discurso do psicanalista produz o discurso do universitário.
O discurso do universitário tem corno dominante o saber que é acionado sobre o
outro considerado corno um objeto, a partir do qual se produzirá um sujeito bem
pensante, um sujeito conforme o saber que o produziu. O campo do sujeito do
universitário está desabitado pelo sujeito e preenchido pela articulação significante
do saber sustentado pelo falo, o que faz com que ele pareça um sujeito sem furo.
O discurso universitário é o mais propício aos desvios cm relação ao discurso
psicanalítico, pois é o discurso que permite a psicologiz.ação da psicanálise. Como explicar
de outro modo que grande parte dos desvios realizados pelos psicanalistas pós-freudianos
em relação a Freud tenha decorrido precisamente do fato de que eles passaram a conduzir
as análises a partir do discurso do universitário? O que surpreende é que esse discurso se
caracteriza muito especialmente por objeti.icarooutroapartirdosaberc, nesse sentido, a utilização
psicologizante da teoria psicanalítica incorre sempre no discurso do universitário. No
lugar do outro, onde o psicanalista situa o sujeito, o universitário situa o objeto.
Mais que isso, os protocolos de formação do psicanalista foram criados, a
par tir de um momento bem precoce da história da psicanálise, na esfera do discurso
uni ver sitário. Corno corolário de sua ampla renovação da clínica psicanalítica,
lacan pro duziu um questionamento radical dos protocolos de formação vigentes

54
CHAUVELOT, Diane. L'hystérie vous saluc bien! Sexe ct violence dans l 'inconscient. Paris: Denoel, 1 995 .
s;
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 1 88 .

Discurso e 1 ·
1am e social 31
na IPA e introduziu elementos na formação do analista que v isam a sustentar o
vigor do discurso psicanalítico no âmbito da formação analítica , abolindo toda a
burocratização decorrente do predomínio do discurso univcrsitário. 56
Deve-se mencionar ainda que cu e outros autores pudemos aproximar, de
maneira impressionante, o discurso universitário da estrutura da neurose obsessiva,
devido ao apagamento do sujeito barrado em prol do saber e do falo.

. . . e um quinto discurso (e mais um sexto?)


Em uma conferência pron un ciada cm Milão em 12 de maio de 1 972, Lacan
apresentou, uma única vez, a fórmula de wn quinto discurso, o dis curso do capitalista 57
- considerado como o discurso do mestre moderno -, escrita por meio de uma
única inversão, no binômio do sujeito do mestre, entre as letras S1 e $. Mas cabe a
pergun�: que estatuto deve ser atribwdo a esse quinto di scurso, uma vez que os
quatro discursos constituem uma estrutura discursiva articulada e coerentc? 58
Trata-se de um discurso que, ao contrário dos outros quatro, não faz liame social .
Sonia Alberti retomou as referências explícitas de Lacan ao discurso do capitalista,
para ressaltar que nele o sujeito se crê agente e não se dá conta de que "age somente
a partir dos significantes mestres"59 , e também que a posição diferente das setas
revela que não há relação entre agente e outro, logo, não há laço social . O discurso
do capitalista seria, então, uma versão do discurso do mestre que não faz laço social.
Em Televisão, Lacan chamara atenção para o fato de que o discurso da ciência e o
discurso da histérica possuem quase a mesma estrutura, o que explicaria o erro freudiano
de sugerir que o inconsciente encontraria no futuro da ciência uma explicação.60 Lacan
aventa assim a possibilidade de existência de um sexto discurso, o da ciência, do qual
não fornece a fórmula, mas sobre o qual insinua a proximidade com o discurso da
histérica. Tal proximidade deve provir da produção de saber sobre o real que a ciência
visa a obter, assim como a histérica visa a produzir saber sobre o objeto causa do desejo.
Já o psicanalista se furta a essa tentativa de dominação pelo saber, ao entronizar o
objeto a como agente de seu discurso.

56
JORGE, Marco Antonio Coutinho. "Lacan e a estrutura da formação d o psicanalista".
Seminário inédito.
57
Embora tenha mencionado o discurso do capitalista, sem atribuir-lhe uma fórmula própria,
já em O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. (Op. cit. , p. 1 03.)
58
LÉRES, Guy. "Lecture du discours capitaliste selon Lacan. Um outil pour répondre au
Malaisc.". Op. cit. , p. 89.
59
ALBERT!, Sonia. "Psicanilise: a última flor da medicina". Em: ALBERT[, S. e ELIA, L. Clínica
e pesquisa em psicanálise. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos , 2000, p. 46.
60
LACAN, Jacques. Tele visão. Op. cit. , p. 40.

32 Saber, verdade e gozo


--- DIUIIUteca ---
O "Avesso da Psicanálise" e a
form ação do psicanalista

Luciano Elia

Em qualquer tendência doutrinária do movimento psicanalítico, a formação do


psicanalista tem, por força do próprio campo de experiência a que ela se refere -
a Psicanálise -, peculiaridades que a diferenciam das formações profissionais e
acadêmicas cm geral, enfim, de intelectuais ou especialistas. Como seria impróprio
e inoportuno deter -me cm cada uma delas no âmbito deste ar tigo, que integra
uma coletânea sobre o O seminário, livro 1 7: O avesso da psicanálise1 , de Jacques Lacan,
destacarei apenas uma das muitas peculiaridades da formação do psicanalista, a
fim de ar ticulá-la com esse também peculiaríssimo seminário.
Dizer, desse seminário, que ele e peculiar já e uma forma de introduzir a questão
da especificidade da formação do psicanalista. Dado que essa formação não apenas
não é possível fora do campo da experiência psicanalítica como tambcm o leito
principal de seu curso a própria experiência psicanalítica do psicanalista cm forma­
e
ção, ocorre que o saber a ser construído, a ser formado, tem sua base, sua matcria­
prima, no saber do inconsciente. Isso impede que o futuro psicanalista aprenda
psicanálise simplesmente de forma teórica, livresca, intelectualista ou acadêmica.
Por outro lado, o trabalho teórico, como uma das dimensões da elaboração do
saber do inconsciente, torna -se uma exigência permanente, suplementar, e não um
trabalho de menor importância, objeto de um nefasto desprezo decorrente de uma
suposta supremacia do "experiencial", que o reduz ao plano intuitivo, do talento
desprovido de saber, do afeto, da paixão, ou seja, da ignorância. O inconsciente faz
objeção à dualidade, muito corriqueira nos idcários do senso comum, entre o
"in telectual" e o "afetivo", e afeta os dois, ressignificando-os, rcdefmindo-os, redimen­
sionando-os, a tal ponto que nada mais resta dessa oposição depois que o inconsciente,
admitido, modificou o sujeito que admitiu ser por ele trabalhado.

1
LACAN, Jacques. O seminário, /irra 17: o arcsso da psican.ílisc ( 1969.,:70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1992.

33
Pois bem. Propomos a idéia de que o próprio ensino de Lacan estrutura-se de
modo análogo ao da experiência psicanalítica do inconsciente, com a peculiaridade
suplementar de ir além dos efeitos do inconsciente, ou seja, levando o saber além
do trabalho do inconsciente. Além de admitir a afecção e o trabalho do inconsciente
cm sua própria formação, Lacan tomou a si também a tarefa, incalculavclmcnte
mais árdua, de estabelecer uma nova leitura da obra freudiana, de criar uma nova
Escola de Psicanálise, reinventa�do-a, para que ela resgatasse seu rigor e lugar no
mundo, cm um movimento repleto de conseqüências incontor náveis. Seu ensino,
que basicamente tomou duas formas, a de um Seminário, ou seja, um discurso oral­
mente sustentado, e a de Escritos, é, de ponta a ponta, marcado pelas incidências do
inconsciente, e pelo ultrapassamento do próprio inconsciente. Homologamcntc,
a formação do psicanalista é marcada por saltos, por descontinuidades, definidas
por momentos cruciais, privilegiados e difíceis, nos quais o entendimento se vê
iluminado por grandes clarões que são efeitos do trabalho de análise, mas também
de crises, em que o entendimento se vê obscurecido por um véu impenetrável.
Como comecei por afirmar, qualquer que seja a corrente da psicanálise cm
que se situe o analista em formação, tais efeitos se produzem, desde que o analista
não cesse de ser afetado pelo campo de incidência do inconsciente no modo como
concebe e realiza sua formação. Mas, se a formação é lacaniana, tais marcos e
saltos incluem a transferência com o texto lacaniano, escrito ou falado por ele e,
no segundo caso, estabelecido como texto por um outro. E, havendo tal transfe­
rência, em grupos de leitura e estudos, seminários ou cartéis, a tomada de O semi­
nário, livro /7está destinada a ser, quase sempre, um momento crucial. Por quê? Este
artigo é uma tentativa de responder a essa pergunta.
Como se sabe, Lacan inicia seu ensino pela retomada da primazia da relação
do sujeito com a fala e com a linguagem, a função da primeira no campo da segunda,
de modo a retificar os rumos que a Psicanálise pós-freudiana vinha tomando, e
que não se trata aqui de mapear. A sua tese principal, nesse período - tese que,
aliás, ele nunca recusou - é a de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem.
Os dez primeiros seminários de Lacan constituem uma longa elaboração das
conseqüências teóricas, clínicas, éticas e metodológicas dessa tese central, e, alter­
nadamente, tomam as questões do significante e as questões do sujeito como seu
eixo primotdial, tendo os de número ímpar ( 1 , 3, 5, 7 e 9) como eixo a ordem do
significante e os de número par (2, 4, 6, 8 e 1 0) as questões do sujeito. Trata-se,

2
Remetemos o leitor menos familiari7.ado com essas gucstões ao escrito de Lacan "Função e campo
da faia e da linguagem em psicanáüse". Em: &:ritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998.

34 Saber, verdade e gozo


ine quivocamente, de estabelecer os pilares de uma teoria - mais do que isso, de
u m modo de trabalhar a teoria - que tem como via mestra a relação do sujeito do
inconsciente com o significante.
"O seminário, livro 10 : a angústia"3 é um primeiro corte nesse ciclo, e não é
an ó dino o fato de que o tema da angústia constitua o objeto de um primeiro
corte, cm uma clara exemplificação de que os "efeitos de real" da experiência do
saber do inconsciente afetam inflexivelmente a elaboração de um ensino que se
abriu a essa experiência. Já na primeira página desse seminário, Lacan indica que
varias categorias com que vinha trabalhando ao longo desses primeiros dez anos
estavam à "espera" de algo que as colocasse em seu devido lugar. Esse algo é a angústia.
Segue-se O seminário, livro 11: os quatro conceitos Fundamentais da psi GJJJálise4 - primeira elabo­
ração do corte do ano anterior, sobretudo das conseqüências da introdução do objeto
a, de uma distinção entre o inconsciente freudiano e o !aGJJJÍano (dito "nosso", por Lacan, em
relação ao freudiano5) a partir do qual os seminários não mais guardarão o caráter de
alternância entre a ordem do significante e a do sujeito, como ocorria até "O seminário,
livro 10". Esse seminário começa com um comentario sobre a "excomunhão" que
Lacan sofria, naquele momento, da IPA6, o que tampouco é sem relação com o momento
de corte que assinalamos, cm seu ensino, embora vá muito além disso.
Depois de O seminário, livro 11, mas ainda assim no campo por ele aberto, o ensino
de Lacan adentra em um momento um tanto árduo, que durará três anos e com­
preenderá três seminários ( 12, 1 3 e 14, respectivamente "Problemas cruciais da
psicanálise", "O objeto da psicanálise" e "A lógica do fantasma")7. Esse momento é
conhecido como releve logicíennc, que significa uma espécie de elaboração lógica que
toma o lugar central da elaboração que Lacan é levado a fazer em seu ensino, decor­
rente do que nele foi nesse momento introduzido. Em "O seminário, livro 15 : o ato
psicanalítico''8, verifica-se a abertura de um novo momento, que, segundo a proposta
que fazemos neste artigo, começa a preparar a grande virada de O seminário, livro 1 7.
Fundamentalmente, inicia-se uma revisão da amplitude e do alcance da noção
de significante, que começa a deixar de ser coextensivo ao campo da linguagem

1
LACAN, Jacques. "O seminário, livro 1 0: a angústia" ( 1 962-3). Inédito, documento de trabalho.
4
LACAN, Jacques . O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise ( 1 963 -4). Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 979.
1
l bid . , p . 2 3 : aula 11, "O inconsciente freudiano e o nosso", de 22 de fevereiro de 1 964.
6
lnternational Psychoanalytical Association, fundada, por Freud cm 1 91 O.
7 Essa seqü ência
de seminários de Lacan é, toda, inédita.
' Seminário também inédito.

O ºAvesso da
Psicanál i se" e a formação do psicanalista 35
(eixo central de todo o primeiro grande ciclo do ensino de Lacan) para, sem
refutá-lo como campo e como linguagem, ir além dele: o ato, como tal (e, como
tal, ele é um ato psicanalítico, o que não significa simplesmente o ato de alguém
que é psicanalista) é um significante. Eis uma das teses de "O seminário, livro 1 S".
"O seminário, livro 16: de um Outro ao outro'� retoma o objeto a à luz dessas
novas noções, que relativizam a primazia da lin guagem e do registro do Simbólico
cm relação ao campo do gozo e ao registro do Real, dando ao objeto a a dimensão
do "mais -de-gozar" e prepara, por assim dizer, a entrada da noção de discurso no
ensino de Lacan, em O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise.
Esse conjunto ordenado de referências histórico-cronológicas do ensino de
Lacan tem aqui unicamente o objetivo de precisar a lgumas balizas para que se
possa compreender a grande virada em que se constitui O seminário, livro 17 e sua
importância como momento crucial da formação do psicanalista. Consideramos
essa virada o se gundo grande corte no curso do ensino de Lacan.
A primeira grande afirmação do Aves-so, como passarei a chamar O seminário, livro 17
a partir desse momento, é a de que "o discurso é sem palavras", feita j á na primeira
lição, intitulada "Produção dos quatro discursos" 1 º. O discurso já não é, assim, nem
equivalente nem coextensivo à linguagem. O campo dos discursos não é o campo da
linguagem, que detinha a primazia no ensino pregresso de Lacan, mas de for ma
alguma é uma refutação, no sentido popperiano, desse campo. Não se trata de falsear
a importância da linguagem, nem mesmo reduzi-la, mas de incluir uma outra dimen­
são que não seria passível de inclusão no campo da linguagem tal como ele se estrutura .
Pode-se dizer que o objeto a faz parte do campo da lin guagem, uma vez que,
sem ele, a própria linguagem não poderia estruturar-se e a fala humana seria
impossível. Os limites do dizível, o impossível de dizer o desejo, por exemplo,
que já estavam indicados desde sempre por Lacan, já testemunhavam as incidências
do objeto a no campo da linguagem. Mas formular o que escapa a um campo,
constituindo-o, é coisa bem diferente de criar as condições de operati vidade disso
que escapa, ou , em uma palavra, torná-lo operante. É o discurso - e não a linguagem
- que torna operante o objeto a, além de estabelecer lugares de operatividade -
quatro - e modos de relação entre esses lugares nos quais não apenas o objeto a,
mas letras S 1 e S 2 e o sujeito do inconsciente operam.
É também Avesso que permite reler o corte da Ciência Moderna cm relação à
Epistcme antiga, também desde sempre indicada, como uma operação de discurso.

• Seminário inédito.
10
LACAN, Jacq ues. O seminário, /irra 1 7: o a,·esso da psicanálise. Op. cit. , p. 9-ss .
O Mestre antigo distingue-se do Significante Mestre, bem como o corte entre
ess e sig nificante, notado por uma letra (as letras é que operam no discurso, que é
se m palavras), S I ' e o significante do saber, notado pela letra S2 , já indica, por si só ,
0 efeito de castração 1 e de sexuação que operam os discursos a partir do advento
1

da Ciência. Tratar o real pelo simbólico, eis um projeto que só se apre ende no
nível do significante, que despoja o real a tratar de suas qualidades sensíveis,
empíricas ou anímicas. Incidentalmente, é o Avesso que permite compreender com
cla reza, e de uma vez por todas, que a Psicanálise só poderia remontar sua filiação
discursiva à Ciência clássica, moderna, galileana, para subvertê-la, e nunca à tradição
das Ciên cias ditas humanas, de surgimento histórico muito mais recente .
Correlativamente, o Mestre - e seu discurso - é ultrapassado , por um giro
dis cursivo, pela histérica : esta expõe, no próprio agenciamento de seu discurso,
aquilo que o mestre esconde no seu, e que constitui a sua verdade : a castração, a
divisão do sujeito. Isso significa que a histérica "sabe", discursivamente, mais que o
mestre, mas que paga com seu sintoma por esse saber. Homologamente, o analista
é aquele que faz com o discurso histérico um giro semelhante : coloca em posição
de agenciamento do seu discurso, no lugar dito do se mblant e do discurso, aquilo que
constitui a verdade do discurso da histérica, sua condição de objeto a. Não se
trata, assim, corno se diz correntemente sem muito rigor, de "fazer semblante de
objeto a", mas de tomá-lo como semblante do discurso. E é com isso que o analista
opera, produz efeitos de análise, leva o sujeito a uma outra posição no discurso,
que é a do Outro, ou do trabalho.
O Pai, o Édipo, a Metáfora e o Desejo - ou seja, as relações entre a Lei e o
Desejo - também não serão poupados da reviravolta de O se min ário, li vro 17. Grandes
figuras da teoria do fim dos anos 1950 1 2 , tais categorias perdem seu lugar de
pilares e de dete rminantes das vicissitudes últimas da experiência do sujeito em
análise . Se, na metáfora paterna de O s eminário, liv ro S e escritos conternporâneos 1 3 ,
cabia ao Nome-do-Pai a função maior de, remetendo-se tão-somente a outro signi­
ficante e nada mais (o Desejo -da-mãe), barrá -lo, substituí-lo cm se u l ugar na cadeia
(trata -se de uma substituição de lugar), a fim de produzir a significação fálica,
s erão ago ra as
arti culações entre o Falo como significante e a Castração que

11
lbid. , p. 8 1 -ss: "O Mestre castrado", aula VI, de 1 8 de fevereiro de 1 970.
12 L
A CAN; Jacques. O seminário, livro S: as formações do inconsciente ( 1 957-8) . Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1 998.
" LACAN, Jacques. "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose" ( 1 957-8).
Em : Escritos. Op. cit.
, p. 5 37-ss.
determinarão os destinos do sujeito. O Complexo de Édipo torna-se um sonho de
Freud, e a Castração toma seu lugar, como operação agenciada pelo Real (já o era,
desde O s eminário, livro 4 como agenciada pelo Pai Real, pelo que se vê, mais uma
14
,

vez, que o que Lacan elabora operativa e discursivamente no Avesso já se encontrava


indicado nos primórdios de seu ensino). O Nome-do - Pai perde sua primazia para
dar lugar ao Falo como significante do Desejo e do Gozo. Por isso, o Nome-do-Pai
será posteriormente pluralizado 1 5 , tornando-se os "nomes-do -pai" e articulando­
se aos três diferentes registros - simbólico, imaginário e real.
A experiência psicanalítica não pode, portanto, deixar de sofrer as conse­
qüências desses passos em seu próprio percurso. Uma análise, a ser conduzida até
o seu fim, não pode não ir além do Pai, não pode manter o sujeito em uma posição
em que ele sustenta o Pai e o Ideal do Eu, e isso depende fundamentalmente de
que o analista que conduz a experiência tenha admitido e elaborado, em sua própria
experiência, a queda do Pai e o luto dos Ideais.
Finalmente, e last but not least, a posição da Verdade em sua relação com o Saber
só pode ser devidamente apreendida a partir do Avesso . Tem-se a verdade cm grande
conta. Ama-se a verdade, e a expressão amor a verdade tornou -se clássica. É de Freud
a frase de que a relação analítica deve ser fundada no amor à verdade. Lacan
comenta essa frase, na aula intitulada "A impotência da verdade", de O se min ário, livro
1 7, e a coloca sob análise, ou seja, a analisa , mostrando o que pode haver de enga­
nador na verdade, quando a relação que o sujeito estabelece com ela é de amor.
Diz ele : "Não há por que ficar doido por ela"1 6 • E, a respeito do fato de que a
verdade tem vários rostos, diz: "o que poderia ser a primeira linha de conduta a
ser mantida pelos analistas seria desconfiar um pouco, não ficar de repente doido
por uma verdade, pelo primeiro rostinho bonito encontrado na esquina '� 7 •
Parece-nos, e não sem razão, que a verdade é a última palavra para o sujeito, e que
é ela que faz furo no saber, que, de outro modo, seria pleno ou absoluto. Mas Lacan faz
ver que a verdade é irmã do gozo que sua função é a de encobrir a castração , e que
18
,

o sujeito tem uma volta a mais a dar em termos de sua relação com a verdade.

LACI\N, Jacques. O seminário, livro 4: a relação de objeto ( 1 956-7). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
14

Editor, 1 995.
15
LACAN, Jacques. "O seminário, livro 2 1 : os nomes do pai". Inédito.
16
LACAN, Jacques . O seminário, lirro 17: o arcsso da psicanálise. Op. cit., p. 1 64.
17
l bi<l . , p. 1 64.
1
' Ibid. , p. 5 1 -ss: aula IV, "Verdade, irmã de gozo".

Saber, verdade e gozo


Mas, se a verdade efetivamente torna o saber incompletável, é porque ela é
habitada pelo real, ou, cm outras palavras, o real a toca, o que faz com que a
verdade só possa ser semidita 1 9 • Aqui se situa uma distinção importante - que
Lacan não deixa de fazer na lição citada - entre verdade e realidade, ambos os
termos utilizados por Freud, desde que tomemos o termo freudiano de realidade
[Realitat] cm sua relação com o real lacaniano, e não com a chamada realidade
compartilhada, imaginarizada, significada. Mas, como diz Lacan , "entre nós e a
realidade, há a verdade'no, frase topológica que significa que o sujeito está m ais
próximo da verdade que do real, a verdade não é a última palavra, ou se o é, é
porque o real, para além da verdade, não tem palavra.
A verdade, associada à impotência, tem, como esta, a função de encobrir a
impossibilidade. "Irmã do gozo"2 1 , a verdade, quando tomada pelo sujeito como
objeto de amor, serve a que ele, entorpecido pelo amor à verdade, encubra todas
as incidências do impossível do real em sua experiência, na vida e na análise, e
podemos dizer que a experiência analítica pode ficar travada em sua lógica inter na,
que conduz a seu fim, se tais conseqüências não puderem estar incluídas pelo
analista: como fazer a passagem do analisante ao analista, o des-ser do analista, a
queda do sujeito-suposto-saber, a assunção, pelo analisante que p assa a analista, do
saber suposto, que ele então se torna22 , já que "ele rejeitou o ser que nada queria
saber sobre a causa de seu fantasma"2 3 , se o amor à verdade continuar sendo um
lugar privilegiado e intangível do gozo do analista?
Muitas vezes testemunhamos concepções, da parte dos psicanalistas, acerca
do fim de análise, como se as operações implicadas nesse desenlace pudessem ser
sit uadas cm uma relação entre duas pessoas físicas - o analista e o analisante.
Assim, a famosa queda do sujeito suposto saber, o des-ser do analista, a destituição
subjetiva, entre outras operações, são entendidas como se, diante de um que cai (o
analista), o outro se pusesse de pé (o analisante passando a analista), como em uma
gangorra. Além de outras insuficiências, essa concepção, ainda muito neurótica,
diga-se de passagem, atesta o grau cm que ainda não foram tiradas as conseqüências
do Avesso: uma concepção que levasse cm conta o Avesso teria que situar tais operações

19
LACAN, Jacques. Telcrisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.
20
LACAN, Jacques. O seminário, lirro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit . , p. 1 66.
1
' Ibid . , p. 5 1-ss : aula IV, "Verdade, irmã de gozo".
21
LACAN, Jacques. "Proposição 9 de outuhro sobre o psicanalista da Escola", Sdlicet, vol. 1.
Paris, Scuil, 1968, tradução do autor.
21
Ibid.

O "Avesso da Psicanálise" e a formação do psicanalista


no plano discursivo, ou seja, no plano de um enlace entre quatro lugares ocupados
por diferentes letras ·e não no plano de uma relação entre duas pessoas, de tal
modo que a queda do sujeito suposto saber e o dcs-scr do analista possam concernir
a esse enlace: um analista só se faz quando caído, é assim que ele opera , e, caindo o
analista, aquele que encarnava essa função ao longo da análise, cai também, como
lugar, aquele que nesse momento advém como analista.
V ê -se o quanto o Avesso traz importantes conseqüências para a concepção
lacaniana de fim de análise, assim como inicia o processo pelo qual o Outro, desde
sempre lugar do significante, passa a ser o Outro Sexo, sexua-se, tornando-se mais
ainda o lugar do significante, mas do significante da falta no Outro, S (A). O Avesso é
o início do Mais ainda24 .
Concluo este artigo ( que é breve cm relação às numerosas conseqüências de
um seminário como o Avesso, que exigiriam muito mais) com uma exemplificação
do que começamos por dizer, as incidências do ensino de Lacan na formação do
psicanalista, e desta no próprio ensino de Lacan. Para isso, tomo um exemplo de
minha própria experiência.
Em artigo anterior, intitulado "Uma ciência sem coraçãoms, sustentei, entre
outras coisas, um debate com Jacques Alain -Miller, mais precisamente com uma
passagem de um importante texto seu intitulado "Vers un signifiant nouvcau" 26
["Rumo a um significante novo"], na qual o autor propõe que, no segundo momento
do ensino de Lacan, o momento final, não se trataria mais da busca da verdade no
saber, mas do saber no real. Para isso - e aqui resumo as argumentações respectivas
e constituintes do referido debate ao máximo - Miller aponta o momento anterior,
em que Lacan tinha uma concepção patctizada da verdade, quando, por exemplo,
em "La chose freudienne" 27 ["A Coisa freudiana"] ele diz : "Moi, la vérité, je parle"
["Eu, a verdade, falo"], e demonstra também que, ultrapassada essa patetização,
trata-se, no momento final do ensino de Lacan, de superar a problemática da
verdade e do saber e criar as condições pelas quais a psicanálise deveria "patamarizar­
se, igualar -se à ciência, visando o saber sobre o real"28 • Naquele momento de
minha formação, que é por mim concebida como permanente, opus-me a essa
démarchc millcriana, insistindo na sustentação da problemática saber /verdade como

24 LACAN, Jacques. O seminário, Ji1T0 20: mais ainda ( 1 972-3). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982 .
11
ELIA, Luciano. "Uma ciência sem coração", Ágora: Estudos cm Tcoria Psicanalítica, vol. 2 , n. 1 . Rio de
Janeiro, Contra Capa Livraria I Pós-graduação cm Teoria Psicanalítica UFRJ, 1999, p. 41 -ss.
16
MILLER, Jacqucs-Alain. "Vcrs un signifiant nouvcau", Rérue de l'École dela Cause Freudienne, 199 2 .
27 LACAN, Jacques. "La chose frcudiennc". E m : Escritos. Op. cit. , p. 402-ss.
forma de manter o furo no saber que é nele prcscntificado pela impossibilidade de
demonstrar a inexistência da relação sexual . Impossível a demonstrar, pelo saber,
a verdade da inexistência da relação sexual faz furo, e mantém aberta a questão,
que faz divisão de águas cm relação à ciência.
Mantenho minha posição quanto a essa sustentação (da problemática saber /
verdade), mas a r etifico quanto à posição da verdade, assinalando que esse deslo­
ca m ento é efeito de um cartel sobre o Avesso, que, na época, estava apenas cm seu
inÍcio. É importante assinalar que se t rata de um cartel porque sustento que essa
modalidade de trabalho, p rópria à for mação cm Escola, é aquela que permite que
os efeitos do discurso analítico se façam presentes na transmissão. Ainda me atinha,
na enunciação daquele debate, a um certo amor à v erdade que, posterio rmente,
veio a destituir-se, o que me levou a inte rpretar, no sentido que interpretação tem no
ensino de Lacan, ou seja, a p rodução de um sentido que rompe com as sinonímias
entre o antes e o depois da interpretação e que se faz pela via literal, de um modo
novo, a frase de Miller "a psicanálise deve igualar-se à ciência".
Se "igualar-se" quiser dizer "atingir o patamar da ciência" po rque ela estaria
aquém dele, ou seja, aspirar à ciência, manter, como Freud, u m "ideal de ciência",
nas palavras de Jean-Claude Milner29 , então continuo a rejeita r essa frase. Mas, na
nova inte rpretação da mesma frase, com seu mesmo barro literal, a frase pode ser
ouvida como "colocar-se lado a lado com a ciência", situa r-se no mesmo lugar,
acentuando (e não atenuando ou abolindo) assim a diferença radical entre a psica ­
nálise e a ciência - diferença que só é metodologicamente possível se a psicanálise
situar-se no mesmo patamar da ciência.
Não é importante sabe r qual das duas interpretações corresponde à intenção
enunciativa de meu interlocutor, e há razões para supo r que seu "igualamento"
visa a uma ce rta redução da diferença entre Ciência e Psicanálise, porquanto o seu
artigo dirige-se ao estabelecimento de um significante novo que, como a ciência,
p roduz invenções, no caso da psicanálise, o amor. O que importa aqui é traze r uma
e xe mplicação, a partir da experiência, e envolvendo uma produção textual, dos
efc �tos do ensino de Lacan na formação do analista, nos deslocamentos que esses
efeitos p roduzem, pa rticularizando-os no contexto de um seminá rio tão marcado
pelo eixo da subversão analítica 30 , como é o Avesso.

1, M ILLE R, Jacques-Alain . "Vers un signifiant nouveau", Révue


. de l'École de la Cause Freudicnne. Op.
Clt . , p. 1 7 .
1
' MI LN ER, Jean-Claude. A obra clara. Rio .
· de Janeiro: Jorge Zahar Editor' 1 996 .
w
N ome da primeira seção do seminário,
primeiro grupo de lições.

o "Avesso da
Ps i canál i se" e a formação do psicanalista
Instituto de Psicologia - UFRGS41
P A R T E II

Psicanálise e Universidade
P si canálise e universidade
e a instauração de discursividades
Sonia Alberti

O retorno a . . .
Quando Michel Foucault proferiu sua conferência sobre autoria', em fevereiro de
1969, Jacques Lacan, convidado a assisti -la, introduzia em seu seminário um novo
ponto de vista para tratar as questões freudianas: os discursos. Estamos falando de
"O seminário, livro 16: de um Outro ao outro", conforme fi gura no primeiro
capítulo de O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Nesse capítulo, Lacan observou:
"Aconteceu, no ano passado, que eu chamasse o saber de gozo do Outro"2 • Entre as
perguntas feitas a Foucault sobre a questão da autoria, a última implicava Lacan
diretamente: "O que pode significar o 'retorno ' como momento decisivo na
transformação de um campo de discurso?". ·
Foucault identificou Sigmund Freud como um dos dois mais importantes instau­
radores da discursividade (o outro sendo Karl Marx), especificando tratar-se de um
autor que estabeleceu uma infinita possibilidade de discursos, com não somente
cer to número de analogias, mas também certo número de diferenças (sic): "Freud
possibilitou certo número de diferenças cm relação a seus textos, seus conceitos,
suas hipóteses, que são todos da alçada do próprio discurso analítico'8 . Isso exigiria
·
um "retorno a' ongem · ), mas "o que se d eve entender por 'retorno a '�?. Esse
" (s1c
r etorno, respondeu própr Fouca
o io ult:

1
FOUCAULT, Michel. "Qu ' est-ce un auteur?" ( 1 969) , Littoral, n. 9. Paris, Eres, 1 98 3 . Essa
conferência possui uma tradução inédita no Brasil , realizada por Clarice Gatto e Jairo Gerbase.
Agradeço a ambos a gentileza de chamar minha atenção para essa versão distribuída entre
,
amigos. Será a cita aqu
da i.
2 LACAN
, Jacques. lc Séminairc, Li,rc XVII: L'Emws dc la ps chanalysc ( 1 969-70). Paris: Seuil , 1 991 , p. 1 2.
y
1
FO U CAULT, Michcl. "Qu'est-ce un auteur?". O p. cit. , p. 14.
4
lbid. , p. 1 6 .

43
se endereça ao que está presente no texto, mais precisamente, retorna-se ao
pr6prio texto, ao texto cm sua nudez e, ao mesmo tempo, retorna-se ao que
está marcado como furo, cm ausência, cm lacuna do texto. Retorna-se a um
certo vazio que o esquecimento esquivou ou mascarou, que recobriu com uma
falsa ou errada plenitude e o retorno deve redescobrir essa lacuna e essa falta. 1

Em outro contexto, instigada por Antonio Quinet, sugeri a hipótese de que


O seminário, livro 1 7: o aveil'o da psicanálise seria uma tentativa de responder às perguntas de
Foucault, com as quais Lacan já se confrontara no ano anterior. Essas perguntas se
encontram no fim da conferência, cuja introdução já anuncia a apresentação de um
projeto de pesquisa que o próprio Foucault não se via ainda em condições de realizar:
Infelizmente, o que trago hoje é muito pouco, temo-o, para merecer vossa atenção:
é um projeto que gostaria de vos submeter, um ensaio de análise do qual apenas
vislumbro as linhas gerais. Mas pareceu-me que, esforçando-me por trançá-las
diante de vós, pedindo-vos que as julgassem e retificassem, eu estaria, "como
bom neurótico", à procura de um duplo benefício: primeiro, aquele de subtrair
os resultados de vossas objeções para um trabalho que, a rigor, ainda não existe,
e aquele de fazê-lo se beneficiar, no momento de seu nascimento , não somente
de vosso apadrinhamento, mas de vossas sugestões.6

Chama a atenção a expressão utilizada por Foucault, "bom neurótico", mais


ainda cm função de, no parágrafo seguinte, ele dirigir esta fala a seu mestre: "certa­
mente tinha uma grande necessidade de que ele assistisse ao esboço deste [trabalho]
e que me ajudasse uma vez mais cm minhas incertezas". Como todo verdadeiro
pesquisador, sujeito da dúvida, Foucault se posicionou no discurso do histérico que
se dirige a um S 1 , o que poderá produzir um saber. E concluiu: "Mas, afinal de
contas, já que a ausência é o lugar primeiro do discurso, aceitem, peço-vos, que seja
a ele [ao mestre], em primeiro lugar, que eu me enderece esta tarde". Também é
di gna de atenção a observação de Foucault de que é a ausência o primeiro lugar do discurso.
Voltarei a isso. Por ora, concentremo-nos no fim de sua conferência, antes do debate.!

Para construir uma tip ologia dos discursos


Foucault encerrou sua conferência lamentando não ter trazido "nenhuma propo­
sição positiva", mas somente "direções para um possível trabalho, caminhos dei

; Ibid.
6
1hid. , p. 2.

44 Saber, verdade e gozo


aqui que esse texto interessa particularmente a nosso contexto:
a n áli se". É
foucault sugeriu que talvez fosse possível construir uma tipologia dos discursos. Essa
ti ol ogia se jus tificaria , segu ndo ele, uma vez que, "sem dúvida, existem
;op ric dadcs ou relações discursivas [ ... ) [às quais) é preciso se endereçar para
�is tinguir as g randes categorias de discursos' • Essas propriedades poderiam ser
17

ticais ou lógicas e teriam relação com a função de sustentação do discurso


gra rna
ria. Em nossa sociedade, por exemplo, há ce rto número de discursos
p ela auto . · textos "concernentes
funçao- " autor", assim como, na Idade Me' d 1a,
inv estidos da
e ao céu, à medicina e às doenças [... J só continham valor de verdade
à cosmologia
serem marcados pelo nome de seus autores. ' Hipócrates disse ',
na co ndição de
os discursos
' Plíni o conta ' [. . . J eram os índices com os quais eram marcados
como verdade iros',s.
desti nados a serem aceitos
Discursos marcados pelo significante mestre que lhes atribuiria valor de ver­
dade, inaugurando um novo tipo de discurso, mais tarde batizado por Lacan de
·
universitário e que se especificou cada vez m ais, de forma que hoje, "cm biologia
e cm medicina, a indicação do autor e da data de seu trabalho [... J não é simples­
mente uma maneira de indicar a fonte, mas de dar certo índice de 'confiabilidade '
cm relação às técnicas e aos objetos de experiência'�. Ora, biologia e medicina são
saberes (S ) sustentados no índice de confiabilidadc (S 1 ) de seus autores, e temos
aí , no texto de Foucault, a lógica da regência de um tipo de discurso - o universitário.
2

Nele se produzem teses, como afirmou Lacan, nas quais "o que quer que seja
dessa ord cm tcm rc1açao
- com um nome de au tor"'º. "O rdi nanamcnte
· ·
", prosscgwu,
"as pessoas se contentam com isso e é isso que assume o papel do significante
mestre" ' 1 . Atento à conferência, Lacan pôde m arcá-la, por sua própria genialidade,
com as letras S 1 e S 2 , pois um discurso é sempre determinado pela linguagem e S 1
e S 2 são sua referência mínima 2 •
1

Prosseguiu Foucault: "Talvez seja tempo de estudar os discursos [ ... J nas moda­
lidades de sua existência: os modos de circulação, de valorfração, de atribuição, de apropria-

7
lbid. , p. 1 8 .
" lbid. , p. 1 0, grifo meu.
' lbid.
,o LAC AN, Jacgucs . Lc
Séminairc, Lfrrp XVII: L 'Enrcrs de la psychanalysc. Op. cit . , p. 2 2 1 .
" lbid .
". Não ha' 1 ingu .
· agcm sem art1culaçao - de dois. s1gmficantcs,
. .
mesmo gue nem sempre essa arti-
culaça_o leve a uma significação, como
no caso da holófrasc.

PsicanáJ ·
!Se e universidade e a inst.auraçio de discursiridadcs 45
ção [ . .. ] ; a maneira pela qual eles se articulam nasrelações sociais" 1 3 • A questão é determinar
até que ponto essa proposição foi o cstopim que levou Lacan a se ocupar das questões
que O seminá rio, livro 17: o avesso da psicanálise finalmente inauguraria. Na aula que proferiu
logo cm seguida à conferência, em 26 de fevereiro de 1969, Lacan confessou que, cm
razão de Foucault ter utilizado a expressão "retorno a", ele se considerava "como tendo
sido convocado'*. Respondeu à convocação ocupando-se da relação entre verdade e
saber e observando que se a verdade é o lugar em que se produz a fala (sempre da
ordem da ficção), o saber implica a articulação entre verdade e traço unário, SI ' o que
deduziu da série de Fibonacci1 5, equiparando-a ao Vorste llu ngsrcpriiscntanz [o representante
da representação] de Freud, ou seja, a marca deixada, a inscrição significante. Isso se
deu em uma sessão de seu seminário dedicada a retomar a ética da psicanálise.
Foucault terminou sua conferência ar ticulando a questão discursiva ao estatuto
do sujeito, "para apreender os pontos de inserção, os modos de funcionamento e
as dependências do sujeito'%, ou ainda "como, segundo que condições e sob que
formas, algo como um sujeito pode aparecer na ordem dos discursos? Que lugar
pode ele ocupar cm cada tipo de discurso, que funções exercer, e obedecendo a
quais regras? Em suma, trata-se de retirar do sujeito seu papel de fundamento
originário e de analisá-lo como uma fun ção variável e complexa do disc ursam. Não só o
sujeito é conseqüência do discurso em uma "cultura cm que os discursos circula­
riam" 1 8, como também surge a questão: "Quais as localizações aí preparadas para
sujeitos possíveis? Quem pode preencher essas diversas funções de sujeito?"1 9.
No fim de O seminário, liv ro 17: o avesso da psicaná lise, Lacan retomou essa conferência,
justificando, de forma talvez extemporânea - mas o inconsciente é atemporal -, a
maneira de construir Scilice t, revista em que todos foram convocados a escrever
bons artigos, "alguma coisa estruturalmente rigorosa"zo , sem no entanto assiná-los,

11 FOUCAULT, Michel. "Qu'est-ce un auteur?". Op. cit. , p. 1 8 , grifo meu.


14
LACAN, Jacques. "O seminário, livro 1 6 : de um Outro ao outro". Inédito, aula de 26 de
fevereiro, grifo meu.
15 Toma-se um primeiro, 1 , por exemplo, repete-se esse 1 e soma-se. Obtém -se 2 e,
sucessivamente, somam-se sempre os dois últimos algarismos: 1 1 2 3 5 8 13 ... N. do E. Ver,
a esse respeito, o artigo de Nelma de Mello Cabral , neste volume, p. 77.
"' FOUCAULT, Michel. "Qu' est-ce un auteur?". Op. cit . , p. 1 8.
17
Ibid . , p. 1 9, grifo meu.
' " Ibid .
1
" Ibid .
10
LACAN, J acques. Lc Séminairc, Lirrc XVII: L'Enrcrs de la p;:vchana�vsc. Op. cit. , p. 2 2 2 .

46 Saber, verdade e gozo


pois isso "faria grande obstáculo a [. . . ] al guma coisa de dccente" , uma vez que o
21

"a utor" estaria end ereçando seu texto por um reconhecimento que só adviria se o
a r tig o não trouxesse idéias nem prcscntificassc uma cabeça pensante. Crítica ao
discurso umvcrs1tano : Eu nao sou , de 10rma a Iguma, um au tor "22. S e Frcu d e
· · ' · " -
e
Marx possibilitam infinitas leituras , como dizia Foucault, o que lhes atribui um
novo caráter como autores (ou seja , não são tanto autores , mas antes "instaurador es
de subj etividades") , para Lacan, a verdade fala. É esse o sentido que deu cm O semi ­
nári o, livro 17: o avesso da psicanáli se para o "retorno a .. ." citado por Foucault.
Quando o sujeito se interroga, o discurso em questão é o do histérico. N ele , é
0 sujeito que está sustentado pela verdade de um saber que não se sabe, já que é o
não-saber que enquadra o saber. É o discurso do histérico, por tanto, que, na
ar ticulação com o discurso do mestre, denuncia, com Foucault, que a ausência é o
primeiro lugar do discurso. Isso serve para introduzir a retomada da questão sobre
a ar ticulação entre psicanálise e universidade. A partir da instalação do discurso
universitário na Idade Média, surgiu a fi gura do autor que, no contexto da circulação
dos discursos , sustenta cada vez mais o discurso u niversitário, em que se produzem
teses e "é isso o que dá o peso ao nome"23 , momento no qual se pode dizer o que
quer que seja , desde que se tenha um nome . Disso se pode inferir o saber como
gozo de uma posição que apaga a versão subjetiva como desejante. Bem diferente
é o discurso psicanalítico que visa ao sujeito, razão de Lacan ter feito a experiência
de Scilicet, tentando furar a sustentação de um saber por um S 1 no lugar da verdade,
a fundamentar o saber como gozo do Outro .

Retomando uma questão freudiana:


"A psicanálise deve ser ensinada nas universidades?"
Há alguns anos a questão da transmissão da psicanálise se me impõe, por motivos
bastante óbvios: exerço-a a partir de uma formação psicanalítica - ou seja, a partir de
minha análise pessoal -, e como tal a transmito em minha clínica, nas atividades das
ins titu ições psicanalíticas e no âmbito da universidade, tanto nos cursos de graduação,
esp ecializaç ão e residência cm psicologia quanto, agora, no mestrado. A particular
pergunta que me motiva diz respeito às diferenças de cada uma dessas práticas, mais
es p ecificam ente, de que maneira se dão essas diferentes transmissões e por que são

" lbid.
22
lbid. p. 2 2 1 .
l1
'
lbid.
diferentes. Há também a questão da psicanálise na universidade, englobando sobretudo
as observações de Elisabeth Roudinesco sobre a vanguarda brasileira nesse campo e a
resistência, até há pouco tempo, tanto das instâncias universitárias quanto das instituições
psicanalíticas à determinação de um lugar para a psicanálise na universidade.
Embora sejam questões por demais complexas para que seja possível desen­
volvê -las cm um único trabalho, isso não me impede de iniciar seu desenvolvi­
mento, única forma de, diante delas, pôr-me a trabalho. E assim fazendo já duas
vezes nos últimos mcscs 24 , dei-me conta do quanto é necessário trabalhá-las melhor.
Há algo que talvez explique, de imediato, a razão de uma certa resistência à
psicanálise na universidade por parte de algumas instituições psicanalíticas no Brasil.
Trata-se, mais uma vez, do problema da tradução de Freud para o português, tão
grave e alardeado que já não é mais possível justificar a insistência nessa leitura. Em
um pequeno texto , publicado originalmente cm Gyógyászat, revista médica de Buda­
peste, em 19 19, Freud respondeu à pergunta de alguns estudantes de medicina que
se manifestavam pela inclusão da psicanálise no curso de medicina: "A psicanálise
deve ser ensinada nas universidades?". A versão publicada na Gesammcltc Werkc chamou
minha atenção por sua proximidade com o que eu mesma vinha tecendo cm relação
à questão, destoando, entretanto, da versão publicada pela Imago. Não retomarei
todo o texto, mas somente seus três primeiros parágrafos, que vão direto ao tcma2 5 .
Freud introduziu sua contribuição a esse debate - vejam que não é novo -obser­
vando que ele deve ser esclarecido a partir de dois pontos de vista [Standpunktcn]: o da
psicanálise e o da universidade. Tratarei somente do primeiro. Para Freud, era muito

" "Apresentação" (Em: ALBERT! , S. e ELIA, L. ( org. ). Clínica e pesquisa cm psicanálise. Rio de Janeiro:
Rios Ambiciosos, 2000, p. 7- 17) e "Psicanálise e universidade" (Pulsional: Rcrista de Psicanálise, ano
XIV, n. 144, abril 200 1 , p. 41-4).
2 ; Vcrsão cm português (volume 1 7 da Standard Edition) : "A questão da conveniência do ensino da
psicanálise nas universidades pode ser considerada sob dois pontos de vista: o da psicanálise e
o da universidade. (1) A inclusão da psicanálise no currículo universitário seria sem dúvida
olhada com satisfação por todo psicanalista. Ao mesmo tempo, é claro que o psicanalista pode
prescindir completamente da universidade sem qualquer prejuízo para si mesmo. Porque o
que ele necessita, cm matéria de teoria, pode ser obtido na literatura especializada e, avançando
ainda mais, nos encontros científicos das sociedades psicanalíticas, bem corno no contato pessoal
com os membros mais experimentados dessas sociedades. No que diz respeito a experiência
prática, além do que adquire com a sua própria análise pessoal, pode consegui-la ao levar a
cabo os tratamentos, uma vez que consiga supervisão e orientação de psicanalistas reconhecidos.
O fato de que urna organização dessa natureza exista, deve-se, na verdade, à exclusão da
psicanálise das universidades. E é, portanto, evidente que esses sistemas de organização
continuarão a desempenhar uma função efetiva enquanto persistir tal exclusão".
clara a diferença entr e esses dois contextos, essas duas instituições, como diria Lacan
m ui tos anos depois, esses dois discursos no laço social. Uma pergunta como essa
e xige um debate entr e ambas as par tes, de forma que cada uma verifique as possív eis
in terseções discursivas decorrentes de bons e / ou maus encontros. Tratava-se,
or tanto, já para Freud, de dois conjuntos diferentes, cada um com suas leis e seus
�cgulamcn tos, impossíveis de serem identificados entre si, mas passíveis de manterem
u m campo de interseção. Como isso se daria do lado da psicanálise?
Seg undo Freud, todo analista valora positivamente a inserção da psicanálise
seja dependente da
no cur rículo acadêmico, mas isso não significa que o analista
universidade. Ao contrário : ele adquire seus conhecimentos teóricos no estudo da
literatura analítica e os aprofunda durante as sessões científicas das associações
psicanalíticas no debate conceitua! [im Gcdankcn tausch] com seus membros. Ele aprende
0 man useio prático da técnica analítica par te cm sua própria análise, parte na de
pacientes sob supervisão de colegas mais e xpcrimcntados.
26

O que Freud afirmou - é preciso explicitá-lo - foi que o analista, como tal,
não é produto da universidade, e por tanto não é dependente dela. Um analista
nem mesmo se forma, como analista, pela universidade, por mais que ela possa
formar profissionais . O que demonstra que não houve qualquer originalidade cm
Lacan ao observar que o analista é produto de sua própria análise, senão a de
explicitá-lo nesses termos e refinar a proposta : "o analista só se autoriza de si
mesmo", a partir de sua própria análise e a par tir da possibilidade de se tornar
psicanalista de sua própria cxperiência 27 , âmbito assegurado pelo dispositivo por
ele proposto, o passe. Além disso, a psicanálise não só não equivale às profissões
de formação universitária, como tampouco é delas dcbitária . Voltaremos a isso.
Freud confirmou, cm 19 1 9, que a formação do analista se dá no tripé formação
continuada (debates científicos entre os pares nas associações psicanalíticas), análise
pessoal e supervisão de casos clínicos. Até aqui, não são graves as diferenças entre os
te xtos publicados na Gcsammcltc Wcrkc e na Imago. O problema se encontra no pará­
grafo seguinte: na tradução, fica assegurada ao âmbito da associação psicanalítica a
f�rmação do analista cn u an to houver resistência à psicanálise por parte da univer­
g
sidade, deixando subentendido que, no momento cm que a psicanálise deixar de ser
e xcluída pela · ·
umvers1·dade, Ja - e' garantiºdo que as assoc1açocs
" ' nao · al1ticas
· - ps1can ' · pcrs1s-

; FREUD, Sigrnund . "Soll die Psychoanalyse an den Universitaten gclehrt wcrdcn?" ( 1 9 1 9).
m : Gesammelte Werke. Frankfurt a.M. : Fischer Taschcnhuch 1 999
n , , p . 700 .
LACAN, Jacques. "Proposition du 9 octohrc 1 967 sur le psychanalyste
" de l'École" ( 1 967) . Em :
Acte de fondati·on ct autrcs tcxtes" , tire
· ' a' part <1 e l'Annua,re
·
I 982de /'Eco/e dela Cause Freudicnnc, p. 1 5 .

Psicana']"
ise e universidade e a instauração de cliscursfridadcs 49
tam ! Nada disso se lê na Gcsammcltc Wcrkc: "As organizações psicanalíticas devem sua
existência justamente à exclusão do âmbito da universidade e continuarã o a desem ­
penhar uma importante função de formação enquanto perdurar essa cxclusão'� 8 .
De minha leitura, entendo que não é a psicanálise que deve ser mantida excluída
da universidade para que perdurem as organizações psicanalíticas, mas elas próprias
devem ficar excluídas da universidade para manter a especificidade da psicanálise. Não
estar atento para essa diferença é correr o risco de questionar ou mesmo militar contra
a psicanálise na universidade, caso se queira preservar a função até hoje exercida pelas
associações psicanalíticas na formação dos analistas e nos debates científicos que dizem
respeito à psicanálise . Talvez tenha sido essa a razão de termos presenciado tantas vezes
a resistência, por parte de analistas institucionalizados, ou seja, vinculados a associações
psicanalíticas, à criação de cursos, programas ou mesmo disciplinas de psicanálise no
currículo regular das universidades. Não poderia ser diferente, já que Freud somava
todos os esforços para fortalecer a Associação Psicanalítica Internacional e , ao mesmo
tempo, propunha a inserção da psicanálise no currículo regular de um curso de medicina
cm Budapeste. Ele o justificou, no fim desse mesmo artigo, afirmando que o fato de ter
disciplinas de psicanálise na universidade e no hospital psiquiátrico não faz de ninguém
um analista. O estudante de medicina ainda está longe de realmente aprender psicanálise,
da mesma forma que o cirurgião tampouco sai da universidade experiente. Ele sabe
que, para isso, necessitará de longos anos de formação especializada nos hospitais.
As distorções na leitura desse texto tiveram outras conseqüências: generalizou­
se o endereçamento do texto e decidiu-se que, para Freud, somente médicos
poderiam estudar psicanálise. O próprio Freud denunciou esse engano quando,
cm 1927, viu-se obrigado a escrever um apêndice ao texto "A psicanálise leiga",
chegando a se per guntar se a tentativa dos médicos de se apoderarem da psicanálise
não levaria ao risco de sua destruição pela medicina, já que, de início, foram os
próprios médicos que a rejeitaram, maldisseram e condcnaram29 • Isso torna com­
preensível a citação recentemente publicada na Rede dos Estados Gerais da Psica­
nálise, encontrada po_r Paulo Medeiros, de uma carta de Freud a Oskar Pfistcr:

18
"Die psyehoanalytisehen Organisationen ihrerseits verdanken ihre Existcnz geradc dem
Ausschluss aus dem Univeristatsbctrieb un<l wer<len fortfahrcn, cinc wichtigc Ausbildungsfunk­
tion zu erfüllen, solangc dieser Aussehluss bestehcn blcibt" (FREUD, Sigmund. "Soll dic Psy­
choanalyse an dcn Univcrsitatcn gclehrt wcrdcn?'' (1919). Em : Gcsammcltc Wcrkc. Op. cit.).
19FREUD, Sigmund. "Nachwort zur ' Frage der Laienanalyse" (1927). Em: Studicnausgabc.
Frankfurt a. M . : S. Fischer, 1975, p. 343.

50 Saber, verdade e gozo


Não sei se o senhor adivinhou a ligação secreta entre "Análise leiga" e "(O futuro
de uma] Ilusão". Na primeira, quero proteger a análise dos médicos, na segunda,
dos sacerdotes . Quero entregá-l a a uma categoria que ainda não existe, uma
categoria de cura de almas seculares [wcltlichc Scclcsorgcrn] , que não necessitam de
ser m édicos e não podem ser sacerdotes. m

O que daí decorre é que não só o analista não precisa ter esta ou aquela formação
Isso tampouco significa que nenhum
acadêmi ca, como também não deve ser sacerdote.
sacerdote possa querer ser analista, mas que as duas práticas são incompatíveis e
Essa é uma questão
que, para ser o segundo, é preciso deixar de ser o primeiro.
a
in teressante , haja vista o fato de não poucos sacerdotes se submeterem tratamento
analítico. Se, como afirmou Lacan, toda análise é didática, esses sacerdotes poderão
optar por assumir a função de analista, caso suas análises cheguem ao fim, ou seja,
caso cheguem a produzir. . . um analista.
"O analista", disse Freud, "faz parte de uma categoria que ainda não existe, o que
implica não haver profissão para o analista". Com efeito, o analista é só, e em sua
solidão não há categoria senão, para retomar Lacan, a dos santos: "leigos tratadores de
almas"3 1 . Os santos descritos por Lacan não impõem em vida o respeito que lhes valem
depois, e tampouco os leigos tratadores de almas fazem caridade, razão de o analista
posicionar-se como dejeto e, como o santo, não ter mais efeito quando goza disso.
É desse lugar que o psicanalista transmite a psicanálise cm sua prática cotidiana
quando, sempre, novamente, recebe o sujeito - o que não o impede de rir, ao contrá ­
rio. Mas é um lugar bem diferente do ocupado por alguém que ensina. Um analista
não o é as 24 horas do dia. Seria impossível fazer isso sem, justamente, tirar daí um
gozo, o que impediria seu funcionamento. Além disso, é insuportável a solidão
determinada por seu ato. Ao se associarem, os analistas deixam de ser santos... às
vezes são mesmo a encarnação do diabo, como as histórias das cisões o testemu­
nham ! Mas são sujeitos e, como tais, divididos, apaixonados e sempre muito falantes,
como o sujeito histérico. Quando Lacan desenvolveu os quatro discursos que fazem
laço sociaP , sugeriu que aquele que ensina se encontra no lugar de agente do discurso
2

da histérica, que, interrogando o mestre, produz o saber.

'° Carta de 25 de novembro de 1 928, divulgada na Rede dos Estados Gerais da Psicanálise, orga­
_
:zada por Maria Cristina Magalhães. Faria somente uma pequena modificação, na tradução de
cura de almas seculares"para"seculares tratadores de almas", ou ainda "leigos tratadores de almas".
" LACAN, Jacques. Télérision. Paris: Seuil, 1 974, p. 28.
ll l
.ACAN, Jacques. Lc Sémina1rc, lirrc XVlf: L'Enrcrs dc la p�1·chanalysc. Op. cit.

Psi canál i s e e un i versi dade e a instauração Jc discursfridadcs Instituto de Psicologia • UFRGS 51

Biblioteca
Interrogar o mestre significa não se submeter a ele, dar vida aos significantes mes­
tres que não deixam de ser os próprios conceitos, sempre ver ificados novamente na
experiência . Eis de onde é possível ensinar cm uma associação psicanalítica ou em uma
escola de psicanálise. E eis também por que falar '1acanês", por exemplo, não transmite
nem ensina nada a ninguém, simplesmente porque não se está aí no lugar do sujeito,
agente do discurso da histérica, que, por definição, questiona. Para quem já fez a
experiência, é muito impressionante verificar que, efetivamente, só se avança no saber
psicanalítico quando se começa a trabalhar os significantes mestres a partir de Freud .
Há algo na leitura do texto freudiano que sempre me surpreende e só me é
possível avançar quando o levo em conta. Seria demais dizer que o texto de Freud
cria trilhamentos [Bahn ungcn ]? Talvcz não. É por isso que, na graduação, ponho meus
alunos para ler Freud. E ponto. É desconcertante como funciona! Por si só, Freud
estimula a curiosidade, derruba os preconceitos e desconcerta os narcisismos. Na
graduação, sou meio, instrumento para uma leitura do texto freudiano, pois deixo
a ele a função da transmissão. Ocorre que, às vezes, como instrumento, produzo
al guma transferência e, caso se verifique a partir de minha presença, ela seguirá os
caminhos que produzir. Às vezes se instala o algoritmo que Lacan legou cm "A propo­
sição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola". Particularmente,
prefiro que o semestre termine antes, cm respeito à análise do sujeito que, nova­
to, provavelmente terá dificuldades no trânsito entre os discursos.
Como instrumento para a leitura do texto freudiano, não sou diferente dos
mestres que, sustentados no sofrimento e na paixão dos sujeitos - - que há cm cada
estudante -, punham o outro a trabalho. O produto (as provas , as notas) deixa
sempre, no professor, a sensação de ter sido enganado, e nos alunos, a angústia de
serem vilipendiados. Como, cm sala de aula, mantenho-me bastante fiel ao papel
do professor, não é o discurso universitário que aí me determina, mas o do mestre.
Na pós-graduação é diferente, e é geralmente como sujeito no discurso da
histérica que compartilho com os pós-graduandos os temas de pesquisa. A diferença
entre a associação psicanalítica e o curso de pós-graduação reside no contexto: se
na primeira estou entre pares que me permitem avançar cm minha relação com a
causa freudiana , na segunda a psicanálise pede passagem, pois é sempre um estran­
geiro inquietante . É o lugar, aliás , que me parece melhor para ela . Se me inscrevo
no discurso da universidade, é na hora de seguir à risca suas normas e fazê -las
cumprir, mas não sem a consciência de que ainda aí sou sujeito, resto passível de
ser jogado fora . Não vejo outra posição para um analista no discurso da universidade
senão a da identificação com o sujeito reduzido a rcbotalho - sabendo, entretanto,
que esse lugar é do semblante.

52 Saber, verdade e gozo


O des ej o do psic an alista no campo
da s aúde mental : problem a s e
imp asses d a inserção d a psicanálise
em um hospital universitário
Doris Rinaldi

Uma das perguntas apresentadas a Jacques Lacan no programa realizado pela tele­
visão francesa cm 1974, e publicado no mesmo ano sob o título Télévision, diz
respeito ao lugar do psicanalista perante os trabalhadores de saúde mental , psicó­
logos, psicotcrapeutas e psiquiatras que, "nas bases e na dureza, agüentam toda a
miséria do mundo" 1 • Em sua resposta, a um só tempo irônica e enigmática, ele se
valeu da noção de discurso para indicar que "agüentar a miséria" é participar do
discurso que a condiciona - o do mestre -, mesmo que protestando contra ele. Ao
relacionar essa miséria ao discurso do capitalista, mestre moderno, Lacan o denun­
ciou, afirmando que isso não basta, podendo, inclusive, reforçá-lo.
Quanto ao psicanalista, chamou atenção para o discurso analítico, que confere
ex-sistência ao inconsciente freudiano, o que só é claramente atestado no discurso
da histérica. É o discurso analítico, como laço social determinado pela prática de
uma análise, que define o lugar do analista como o do "santo", não por fazer "carida­
de ", mas por bancar o "dejeto" e, com isso, realizar o que a estrutura desse discurso
impõe, isto é, "permitir ao sujeito do inconsciente tomá-lo como causa de seu desejo''.
Essa longa referência introduz o problema que pretendo abordar : o lugar do
p sicana lista junto aos demais trabalhadores da saúde mental que, nos hospitais
psiquiát ricos e nos serviços substitutivos instituídos pela reforma psiquiátrica,
lida m com a "mi s éria do mundo".

1
L ACAN, Jacques. Tclcvisio ( 1 974) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 993, p. 29.
1
lhid. , p. 33.
Perante essa miséria, não podemos esquecer as observações de Freud cm 1 9 19,
que, reconhecendo o reduzido âmbito de atuação da prática psicanalítica, limitada
aos consultórios privados, assinalou a necessidade de estender a clínica, por meio
da assistência pública, a amplas camadas da população. O que o motivou foi a
existência de uma imensa "miséria neurótica" que ameaça a saúde pública tanto
quanto as doenças orgânicas, exigindo , portanto, uma ação do psicanalista na
instituição pública3 •
Isso conduz a uma reflexão sobre o lugar da psicanálise na pólis, uma prática
que Lacan designou "psicanálise cm extensão" e que diz respeito à transmissão da
psicanálise não apenas pela via das instituições psicanalíticas, pelo ensino ou pelo
testemunho que· os analistas aí podem dar de seu percurso, mas também por sua
prática no âmbito das instituições públicas de assistência, nas quais, por meio de
laços sociais múltiplos, ela se defronta com outros discursos que sustentam dife­
rentes práticas no campo da saúde mental. Se, como lembrou Lacan, a "psicanálise
em extensão" está na estrita dependência do que ocorre na "psicanálise cm intcn­
são", sustentada pelo desejo do analista no tratamento oferecido a cada sujeito, é
no âmbito da "extensão" que esse desejo fará sua prova mais radical.
Não se trata, portanto, de reproduzir a velha oposição "público versus privado",
supondo uma extensão da psicanálise à instituição pública que resultaria na depre­
ciação da "verdadeira psicanálise", exercida no espaço privado dos consultórios .
Tal como apresentada em "Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista
da Escola'>4, a distinção entre "psicanálise em intensão" e "psicanálise cm extensão"
indica um . vínculo indissociável entre elas, evidenciando a lógica do discurso
analítico, no qual interno e externo se entrecruzam, uma vez que não há sujeito
sem Outro. A altcridade se encontra no próprio fundamento do conceito de sujeito
do inconsciente como efeito do significante. O suj eito é atravessado por essa altc­
ridade que o determina e, ao fazê-lo, o divide, posto que uma parte sua escapa ao
domínio do significante . Como resto dessa divisão, emerge o objeto causa de seu
desejo, ao mesmo tempo o mais íntimo e o mais estranho ao sujeito, "ex-timo",
como disse Lacan, procurando expressar nesse neologismo o ponto de encontro
entre interno e externo.

l FREUD, Sigmund. "Linhas de progresso na terapia psicanalítica" ( 1 91 9). Em: Obras completas,

vai. XVII . Rio de Janeiro : Imago, 1 976.


4
LACAN, Jacques. "Proposição de 9 de outubro de 1 967 sobre o psicanalista da Escola",
n. 46. Rio de Janeiro, C FRJ.
Boletim Maisum,
A discussão que pretendo desenvolver toma como base uma pesquisa realizada cm
uma instituição pública de saúde mental, de caráter univcrsitária5, em que a psicanálise
se insinua junto à prática médica e outras práticas psicotcrapêuticas. A vantagem que esse
"campo" oferece é o fato de tratar-se de uma instituição que alia o ensino universi tário à
assis tência, na qual nos deparamos com uma diversidade de saberes e práticas - desde 0
mais tradicional saber médico até as novas propostas de trabalho em saúde mental,
introduzidas pela reforma psiquiátrica brasileira -, estruturada em diferentes discursos .
Para pensar as questões surgidas nessa pesquisa, tomarei como referência a
teoria dos quatro discursos elaborada em O seminário, livro 1 7: o avesso da psi CiJIJá lis e , no
6

qual Lacan conceituou o discurso como uma estrutura necessária que põe cm
movim ento relações fundamentais decorrentes do fato de estarmos imersos na
linguagem. Partindo da forma fundamental da linguagem, que supõe a emergência
do sujeito, $, entre os significantes, uma vez que um significante (S) o representa
para outro significante (S), dessa operação sobrando um resto (a), ele apresentou
quatro modos de ordenação desses elementos que obedecem às seguintes questões:
quem ocupa o lugar de agente do discurso, a que outro ele se dirige, que verdade
o impulsiona e qual é a produção desse discurso. O sistema completo desses lugares,
aliado às possibilidades de inscrição dos elementos S 1 (significante mestre), S 1
(saber), a (mais-de-gozar) e $ (sujeito), resulta nos quatro discursos considerados
por Lacan os laços sociais fundamentais entre os seres falantes. São eles os discursos
do mestre, da histérica, do analista e o universitário.
Cada um del es é tomado por referência aos demais e a passagem de um ao
outro se efetiva a partir do movimento de um quarto de volta de seus elementos
pelos lugares. É o inconsciente, como instância dinâmica, que provoca essa passa­
gem, por meio da mudança do lugar cm que o efeito do significante se produz.
É importante assinalar que a teoria dos quatro discursos deriva do paradigma
fundador da teoria lacaniana do "inconsciente estruturado como uma linguagem",
mas o que Lacan explorou cm O seminário, livro 1 7: o avesso da psiCiJilálise foi a articulação
entre linguagem e gozo. A partir da formulação de que "o saber é o gozo do Outro",

' Trata -se do Projeto Integrado de Pesquisa " aúde, loucura e família: práticas socioinstitucionais
S
cm ser viço" , CNPq/UERJ,
coordenado por mim cm parceria com o professor Marco José de
Oliveira Duarte, que teve como campo empírico de investigação o Instituto de Psiquiatria da
U niversidade Federal do Rio de Janeiro (IPU B ) . O presente artigo tomou como base o relatório
d esse projeto ,
concluído cm julho de 2 00 1 .
" LAC A N, Jacque
s. O seminário, /irra 1 7: o arcsso da psicanálise ( 1969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1992 .
apresentada cm um seminário antcrior7 , desenvolveu a função do saber cm sua
dialética com o gozo, tomando os discurso s como aparelhos de gozo : o gozo que
resta ao falante por estar imerso na linguagem . O objeto a, definido anteriormente
como objeto causa de desejo, ganhou, cm O se minário, lii-r o J 7: o av esso da psicanálise, a
função de "mais -de-gozar", com base cm uma referência ao conceito de "mais ­
valia", formulado por Marx cm O capital. Nesse último seminário, esse objeto surge
cm diferentes lugares no esquema dos "quadrípodcs", indicando que a distribuição
e o manejo do gozo variam de acordo com o discurso.
O que Lacan procurou demonstrar foi que o gozo primitivo, mítico, que Freud
supôs ao termo do processo primário, com a inserção do aparato significante, está
perdido, e é isso que instaura a função do desejo. O "mais-de-gozar" é um "bônus",
um resto de gow que se produz no lugar da perda e que movimenta o circuito da repe ­
tição que comanda o desejo. Há uma dialética entre desejo e gozo que passa pelo
saber, fazendo com que nada seja mais importante no discurso que aquilo que diz
respeito ao gozo: "O discurso toca nisso sem cessar, posto que é dali que ele se origina'8 .
Essas formulações interessam -me particularmente por permitirem refletir
sobre o lugar da psicanálise na pólis, a partir de sua inserção no laço social e na
política, cm que diversas formas de laço social se confrontam. O reconhecimento
de que todo discurso é um meio de gozo é fundamental para pensar os discursos
como aparelhos de poder e, a partir daí, o lugar do discurso analítico como la ço
social determinado pela prática de uma análise.

A instituição
A instituição objeto de pesquisa é tradicionalmente médica e universitária, desen­
volvendo, desde sua fundação, atividades de ensino, pesquisa e assistência . Ao
longo de décadas, dedicou-se basicamente à formação médico-psiquiátrica articu­
lada à assistência . A presença de profissionais de outras formações era absolutamente
acessória, não influindo diretamente na clínica até fins da década de 1 980.
Na década de 1 990, observou-se uma abertura para outros campos de saber -
entre eles, a psicanálise -, paralelamente à reestruturação do serviço, sob a
influência das discussões travadas pelo movimento da reforma psiquiátrica, que
criou o campo da saúde mental. Ainda que essa instituição não estivesse no centro
de tais discussões, seus efeitos se fizeram presentes por meio de algumas mudanças

7
LACAN, Jacques. "O seminário, livro 1 6 : de um Outro ao outro". Inédito.
' Ihid.
enfermarias e ambulatório, assim
nas tradicionais estruturas de assistência, como
co mo na criação e ampliação dos novos dispositivos propostos pela reforma, tais
o Centro de Atenção Diária.
co mo CAPS e hospital-dia , que passaram a integrar
de dez equipes, cuja
E ssa refor mulação incidiu sobre a clínica, com a criação
mas que integra, além dos médicos
super visão fica a cargo de um psiquiatra,
assistentes sociais, terapeutas
res ide ntes, profissionais de outras áreas -- psicólogos,
ocupa ciona is, enfermeiros - e alunos dos diversos cursos de especialização, inclusive

c m clínica psicanalítica .
As mudanças visaram a favorecer um trabalho multidisciplinar na abordagem
da chamada "loucura", que ocorreu paripassu com a promoção da "humanização" do
trata mento, anteriormente de características marcadamente manicomiais, por meio
da modificação das regras de abertura das enfermarias, do fim da divisão por
gênero, da redução do tempo de internação, da diminuição da contenção física e
do uso abusivo de cletrochoques, além de alterações na estrutura do ambulatório,
com a implantação dos Grupos de Recepção a partir de 1995.
Tais transformações abriram espaço para a pluralização dos discursos, acom­
panhada da diversificação da clínica , que hoje não se restringe à clínica m édica.
A presença dos discursos da Reforma - sustentando os novos dispositivos de
assistência que compõem o Centro de Atenção Diária - e do psicanalítico - cuja
presença se faz notar no ambulatório vinculado ao curso de especialização em
clínica psicanalítica - traz, como conseqüência, novas concepções de tratamento
que rompem com o paradigma médico dominante .
É importante assinalar, entretanto, que o espaço d e atuação das várias abordagens
clínicas não é distribuído de forma equânime, nem se pode dizer que haja integração
entre elas, no sentido de uma assistência pautada pelo principio da interdisciplinaridade.
As transformações ocorridas quebraram o domínio exclusivo do discurso médico, mas
não chegaram a abalar sua hegemonia. É o Único que atravessa todos os setores,
sustentando a espinha dorsal da instituição através das equipes clínicas. Estas, por sua
vez, têm bastante autonomia, seguindo orientações diversas que dependem de
supervisores - sempre médicos - mais ou menos abertos à articulação com outros
saberes, evidenciando a inexistência de uma linha de trabalho claramente demarcada a
partir da direção da instituição. Se a pluralidade de orientações pode ser pensada como
fator positivo, que estimula a interlocução e a convivência com as diferenças, a
inexistência de uma proposta explícita de direção clínica para o conjunto da instituição
cria um vácuo no qual se reafirma o discurso médico tradicional.
Al ém disso, no cotidiano da assistência, a troca entre as equipes é reduzida,
o correndo
apenas eventualmente. O lugar oficial de intercâmbio são as reuniões

O d esej o d 57
o psicanalista no campo da saúde mental
clínicas, que se realizam uma vez por semana e promovem o encontro de profis ­
sionais, residentes e alunos do curso de especialização para as discussões. O acom­
panhamento de uma série dessas reuniões revelou a predominância do discurso
médico também na constr ução das histórias clínicas e nos debates travados, com
pouca participação de outros saberes.
Assim, apesar dos esforços pela transformação da instituição e das modificações
efetivamente realizadas, ainda temos uma organização marcada pela hierarquia e
pelos especialismos, o que leva à divisão de territórios : enquanto o discurso médico
atravessa toda a instituição, mas tem na enfermaria seu locus privilegiado, o discurso
da Reforma se limita ao Centro de Atenção Diária, e o psicanalítico, ao ambulatório.
A ênfase na internação faz com que grande parte dos pacient es ingresse na
instituição diretamente para as enfermarias, sem passar. pelo ambulatório. Isso
restringe a constituição de um espaço de escuta no qual o sujeito possa trazer sua
questão, o que poderia evitar internações desnecessárias, revelando um resquício
das velhas práticas manicomiais que se pretende ultrapassar.
Observa-se, portanto, que as transformações da assistência nessa instituição cons­
tituem ainda um processo em construção, cujo destino depende dos profissionais
envolvidos no trabalho e efetivamente interessados na mudança, entre eles os psica­
nalistas. Como afirma um dos entrevistados, psiquiatra, "a psiquiatria só abre mão
do seu lugar de exclusividade não porque queira, mas porque é forçada, e porque
não dá conta do objeto que ela mesmo constituiu, dizendo que iria dar conta".

Psiquiatria e psicanálise
A partir dessa fala, duas questões se apresentam: a primeira, relativa ao objeto da
psiquiatria, e a segunda, à relação entre esse objeto e a psicanálise.
De que objeto se trata? Como se sabe, a psiquiatria, como "medicina especial",
nasceu com Pinel e Esquirol na passagem do século XVIII para o XIX, a partir da
construção de um saber sobre a loucura que a transformou cm "doença mental" .
Esse nascimento é correlato ao do asilo, h erdeiro das antigas casas de internação,
que se constitui como espaço privilegiado de tratamento e cura da alienação mental.
A subordinação da experiência da loucura à ordem médica se dá "concomitante­
mente ao nascimento do moderno discurso médico , tributário da razão iluminista,
caracterizado pela crença no racionalismo científico e no poder da técnica'9 .

• RINALDI, Doris. "A ordem médica: a loucura como 'doença mental", Em Pau ta: Revis ta da Faculdade
dc Scniço Social da UERJ, n. 13. Rio de Janeiro, jul . / dez. 1 998.
Na "ordem médica" 1 0 , a razão esta no médico e o "erro", no doente . Na ordem
as ila r, isso é elevado à potência maxima, uma vez que a doença mental é identificada
à d esrazão, que, no entanto, guarda um resquício de razão que pode ser resgatado
p or meio do tratamento moral. A ambigüidadc da revolução pineliana reside no
fato de que a experiência subjetiva da loucura, ao mesmo tempo que encontra um
lugar para expressar sua verdade - o asilo -, vê-se, nesse mesmo lugar, objetificada
pelo saber médico, identificado à verdade e à razão. Isso não significa, entretanto,
que para a psiquiatria em seu nascedouro inexistisse sujeito na alienação mental.
A s próprias idéias de alienação e doença pressupõem um sujeito doente, que,
tomado como objeto do saber médico, sustenta os ideais de tratamento e cura.
o tratamento moral confere ao médico um lugar de poder e autoridade, diante
de um sujeito perdido nas "paixões da alma": poder moral e disciplinador, por
meio do qual o resgate da razão pode se efetivar.
A partir da teoria dos quatro discursos, podemos aproximar o discurso alienista
do discurso do mestre, nomeado por Lacan. Nele, o médico ocupa o lugar de mes­
tre que, com seu olhar e sua palavra, pode restabelecer o poder da razão, perdida no
turbilhão das paixões. É o significante mestre (S) que, em posição de comando, age
sobre o outro, o alienado, com o objetivo de promover uma mudança na "cadeia de
suas idéias" 1 1 • O produto do discurso do mestre é a constituição de um objeto (a)
que, nesse caso, é a "doença mental". É aí que se situa o gozo, subsumido pelo saber
(S 2 ) , uma vez que o objeto é uma produção do discurso, estando disjunto do sujeito
(8). Ele não aparece como causa de desejo para o mestre e, por isso, o discurso do
mestre é o único a tornar impossível a fantasia, uma vez que ela supõe a relação de a
com a divisão do sujeito ($ O a) ' 2 . Nesse sentido, o discurso do mestre é recalcador
para o próprio mestre, que é cego quanto à sua verdade.
O que a psicanalisc tem a dizer sobre isso? Em primeiro lugar, a descoberta freu­
diana do inconsciente questiona as certezas do sujeito racional, mostrando que existe
uma razão "que a própria razão desconhece" , e que concerne justamente às "paixões da
ahna,, · ao essas razões, de ordem inconsciente, que, em última instância, nos governam.
s-
Com isso, Freud subverteu a noção de doença mental, questionando a oposição normal
versus patológico
e abrindo a possibilidade de comunicação entre "razão" e "desrazão".

'º Exp ressão cunhada por Jean Clavreu l


(A ordem médica: poder e impotência do discurso médico. São
Paulo : Brasilie
ns e, 1983).
" J ULIEN, Philippe. "Pincl , Es quirol, Freud , Lacan", Littoral. Paris , Ercs , avril 1976.
12
LA CAN , Jacques . O seminário, livro 17: o aresso
da psicanálise. Op. cit. , p. 1 O 1 .

O desej o 1
' 0 psicanalista no campo da saúde mental 59
o campo do inconsciente, contudo, não se apresentou para Freud como objeto de um
saber que lhe era externo, posto que ele reconh eceu saber no próprio inconsciente:
saber que não se sabe, mas que se revela na fala de um sujeito.
O que está no centro de interesse da clínica psicanalítica não é a doença mental
como objeto, mas o sujeito em sua singularidade. Mas será o mesmo sujeito a que se
referiu a psiquiatria em seus primeiros passos? Como indica Philippe Julien, o sujeito
que nasce com a psiquiatria é efeito de uma retomada pela medicina, no decorrer do
século das luzes, de uma velha tradição filosófica : a sabedoria estóica. Foi em Cícero
que se buscou a noção de que o desregramento das "paixões da alma" provocaria a
perda da razão. Nas palavras do autor, "o sujeito da psiquiatria é o retomo do sujeito
filosófico da sabedoria antiga, isto é, do prindpio do poder sobre si, da enkratcia. Há em
cada um de nós um piloto, como dizia Platão, que dirige nossas faculdades e nossas
tendências, um pequeno mestre: pequeno homem de bem no homem. Tal é o sujeito'� 3 •
Esse sujeito suposto teria uma função de mestria, no sentido de harmonizar e sintetizar
as faculdades mais elevadas do homem - intelecto e vontade - e as paixões da alma.
É o prindpio da unificação que o rege, sob o império da razão.
Para a psicanálise, contudo, o sujeito é outro. É o sujeito do inconsciente,
dividido pela linguagem, que não se identifica a nenhum ser, a nenhuma substância
encarnada, ex-cêntrico a si mesmo. Dele só temos notícias por seus efeitos na fala,
e é à espera desses efeitos que permanece a escuta do psicanalista. O discurso do
analista, nesse s entido, é o avesso do discurso do m estre, pois o que está em lugar
de agente no discurso não é o significante mestre (S), mas o objeto a, como causa
de d esejo e lugar de gozo (mais-de-gozar). É ele que agirá sobre o sujeito, no
lugar do outro, para produzir o significante m estre (S1) que o marca e divide. Ao
contrário do discurso do mestre, que parte da exclusão da fantasia, no discurso do
analista esta vem para a boca de cena, em que o analista, ao ocupar o lugar de
agente, oferece-se como causa de desejo para o sujeito.
Além disso, se nesse momento de fundação da psiquiatria se podia supor, por
parte do saber médico, a consideração de um "resquício" de sujeito no alienado, a
própria ordem asilar sustentada pelo discurso médico se incumbiria de reduzi-lo
à condição de puro objeto.
Nas décadas de 1 980 e 1 990, a partir do desenvolvimento das neurociência s
e da moderna psicofar macologia, observou -se uma crescente afirmação da
chamada "psiquiatria biológica", que opera uma r edução da vida m ental à sintaxe

11
JULIEN, Philippe. "Pincl, Esquirol, Freud , Lacan", littoral. Op. cit. , p. 4 1 -2 .
neuronal • Esse processo não foi sem conseqüências para a clínica psiquiátrica,
14

te n do efeitos também no campo ético-político. A esse respeito, são bastante opor­


tu nas as obser vações de Joel Birman: "Parece-me evidente que a psiquiatria se
tra nsformou num canteiro de obras da indústria farmacêutica. As grandes trans­
nacionais de medicamentos psicofarmacológicos dominaram o campo psiquiátrico,
a tualme nte subsidiado por clas" .
15

As formulações de Lacan em O avesso da psicanálise são novamente esclarecedoras


porque permitem pensar essa nova face do discurso psiquiátrico. Ao aproximar a
psiquiatria pineliana do discurso do mestre, levo em conta que, nesse discurso, o
sa ber (S 2 ) está no lugar do outro, já que a psiquiatria pineliana parte da suposição
de um resquício de razão no louco, que o afasta da animalidade. Poderíamos apro­
ximá-la, então, do discurso do mestre antigo, ligado à tradição filosófica. já a atual
"psiquiatria biológica" estaria mais próxima do que Lacan chamou de discurso do
mestre moderno - o capitalista -, que ele identificou, nesse seminário, ao discurso
universitário, no qual a ciência se alicerça.
Em relação ao mestre antigo, o que se obser va é uma mudança no lugar do
saber. No discurso universitário, é o saber (S2 ) que ocupa o lugar de agente, instau­
rando a tirania do "tudo-saber", na afirmação da verdade científica. No lugar do
outro, está o objeto (a) a ser dominado por esse saber totalizante, e o produto é
um sujeito dividido ($) cm duas partes pelo saber médico : o homem e sua doença.
Mais que isso, esse homem, objetificado pelo saber científico, resume-se atualmente
às funções do cérebro, a informações genéticas. É a verdade do sujeito que se
encontra definitivamente excluída, uma vez que, como produto, ele se encontra
disjunto de sua marca fundamental (S ).
E importante ressaltar que a associação desse discurso ao discurso capitalista
' 1

subordi na a ciência aos imperativos do lucro da indústria farmacêutica, além de


transfor mar a assistência em uma empresa de produtividade, na qual a "eficiência"
do tratamento é medida por números. Ao tomar o sujeito como uma mercadoria
ª m ais, o discurso capitalista f az do "mais-de-gozar" apenas um valor a registrar ou
d ed uzir do que se acumula. Como disse
Lacan: "A sociedade de consumidores
ad quire seu sentido quando
ao 'elemento ', entre aspas, que se qualifica de humano

"v:e r SE RP A JR., Otávio. "Psicanális e, psiquiatria e a s edução d a completude". E m: QUINET,


A. (org.). Psicanálise e psiquiatria: controrérsias e con rergências. Rio de Janeiro: Rios A mbicios os , 2001.
1;
Bl �M AN, Joel."Des possessão, saber e loucura : s obre a s relações entre psicanális e e psiquiatria
hoje . Em: QUINET, A . (org.). Psicanálise e psiquiatria: controrérsias e conrergências. Op. cit., p. 22.

Ü dese1· o d .
o ps1cana1·1sta no camp o da sau'd e menta1 61
se dá O equivalente homogêneo de um mais-de-gozar qualquer, que é o produto
de nossa indústrià, um mais-de-gozar forjado'%. É o produto da indústria farma­
cêutica que surge aqui como equivalente desse "elemento humano", criando sin­
tomas e doenças que passam a definir o sujeito, objetificado pelo discurso. A recente
ênfase do discurso psiquiátrico na depressão e na criação de síndromes, como a do
pânico, é exemplo disso.
Mais tarde, em uma conferência em Milão, em maio de 1972 1 7 , Lacan apre­
sentaria o materna do discurso capitalista como um quinto discurso, a partir de
uma inversão, no discurso do mestre, dos lugares do significante mestre e do
sujeito. Todavia as considerações que fez em O avesso da psi canálise, vinculando-o ao
discurso universitário, são bastante ricas para a discussão das questões levantadas
na pesquisa, na qual, ao investigarmos o lugar da psicanálise na instituição, de­
frontamo-nos com as resistências que o discurso médico lhe opõe, seja pela via do
discurso do mestre, seja pela do discurso universitário.

O lugar da p sicanálise na instituição


As resistências à psicanálise foram objeto de um ensaio escrito por Freud em
1924 1 8 , no qual ele chamou a atenção para seu caráter composto, mostrando que
derivam não apenas de componentes intelectuais, ligados a considerações científi­
cas, mas também de fontes afetivas. Alguns anos antes, nas conferências na Uni­
versidade de V iena 1 9 , Freud abordara a relação entre os campos da psicanálise e da
psiquiatria, enfatizando a independência entre eles - o que não significa oposição .
Para ele, o que se opunha à psicanálise era não a psiquiatria, mas sim os psiquiatras1°.
Na instituição pesquisada, as relações entre psiquiatria e psicanálise se desen ­
volveram, durante certo período, no campo do discurso do mestre, no qual o
saber psicanalítico suplementa o saber médico-psiquiátrico, sem envolver-se dire­
tamente na assistência, considerada exclusividade médica. Essa situação se alterou
com o desenvolvimento da moderna psiquiatria biológica e com a intrusão da

16
LACAN, Jacque s. O seminário, lirro 1 7: o a vesso da psicanálise. Op. cit. , p. 76.
17
Cf. VA LA S, Pa trick. As dimensões do gozo: do mito da pulsão a deriva do gozo. Rio de Janeiro : Jorg e
Zahar Editor, p. 77, nota 1 38.
1 FREUD, Sigmund. "As resistências à psicanálise" ( 1924) . Em : Obras complew, v ol . XIX. Op. cit .
8

19
FREUD, Sigmund. "Conferências introdutórias sobre psicanálise" ( 19 1 6-7) . Em : Obras complew,
vol. XVI. Op. cit.
2
° FREUD, Sigmund. "Psicanálise e psiquiatria" (19 17). Em : Obras complcra.s, vol. XV. Op. cit. , p. 3 0 1.
psicanálise no campo da assistência, a partir do discurso do analista, tendo como
efeito o recr udescimento da resistência à psicanálise, como pode ser percebido
neste trecho da entrevista de um médico especializando cm psiquiatr ia :
[ . . . ) cu acho que a psiquiatria ficou muito atrasada no tempo por causa da psica­
nálise. Antigamente, qualquer ato bizarro era considerado esquizofrenia; hoje
cm dia, há uma ciência mesmo [ ... ) Eu acho que a psicanálise fez péssimos d.iag­
nosticos ao longo do tempo e abriu mão até de usar medicação, às vezes. (. . . ) Eu
acho que se perde tempo quando o paciente está precisando de uma intervenção
urgente e o psicanalista hesita mais cm dar a medicação [... ) Eu acho que feliz­
mente a indústria, os laboratórios, estão investindo bastante cm saúde mental , o
que cu acho fantástico.

O discurso mcdicalizante da psiquiatria biológica, fundado no binômio verdade


cientifica e eficiência, exerce um enorme poder de sedução sobre os médicos em
formação na instituição, uma vez que responde aos anseios de sucesso de uma socie­
dade de consumidores que procura eliminar, a qualquer preço e no menor tempo
possível, o sofrimento psíquico como marca do sujeito2 1 • Nessa Ótica, torna-se difícil
a interlocução com a psicanálise, que s ustenta sua presença justamente por meio da
escuta desse sofrimento, a partir da s uposição de que há um sujeito nele implicado.
Isso leva a que as relações entre psiquiatras e psicanalistas muitas vezes se apresentem
permeadas de mal-entendidos, não só pelas diferenças de concepção, mas também
pelo desconhecimento da especificidade do trabalho de cada um.
É importante lembrar que, por tratar-se de uma instituição vinculada à univer­
sidade - um hospital universitário -, uma diversidade de saberes e práticas clínicas
compartilham a assis tência, em atividades r ealizadas basicamente por alunos
(residentes médicos e especializandos de diferentes cursos), cabendo aos profissionais
as tarefas de s upervisão e ensino. Essa diversidade não resulta ' entretanto em um
'
trabalho interdisciplinar, no qual a cooperação entre os profissionais partiria da sin-
gularidade da intervenção de
cada um. No campo da assistência , a prática é gover­
nada p elo espec
ialismo, o que conduz à fragmentação e à hierarquização do traba­
lho, r eforçan
do, de um lado, o disc urso médico e, do outro, a divisão de territórios.
Sob o discurs · · e' a' pro d uçao
· ' · o que se visa
o uruvers 1tano, - de especia1istas, a partir da
tr ansmissao- de um sab er tota1izante sobre determinado campo, uma vez que é o
s ab cr (S )
2 qu e ocupa o lugar de agente do discurso. Se esse discurso institui uma

" para urn e xarnc


d ctaIhad o d essa questao, ver ROUDINESCO , Elisabcth. Por que a psicanálise?
.
Rio d e J aneir
o : Jorge Zahar Editor, 2000.
eq uivalência entre os saberes que introduz certa dialetização na ordem médic.:t ,
2

abrindo espaço para outros profissionais, não chega a subvertê-la. O que caracteriza o
discurso universitário, ao recolher e organizar os significantes entre si sem privilegiar
nenhum deles, é a tendência a preservar e reproduzir a ordem estabelecida. Nele há,
no lugar da verdade, o significante mestre (S), que funciona justamente para sustentar
a ordem do mestre. Disso resulta a tirania do saber, na qual a verdade como enigma
que move o desejo é anulada, sendo substituída por um signo. O que fica excluído,
portanto, é a verdade do sujeito, e este não é mais que um produto do discurso da
ciência, "consumível" como os outros. Nesse quadro, torna-se difícil um debate em
torno das diferentes abordagens clínicas que faça surgir algo novo. A tendência é a
reprodução das mesmas posições, preservando "cada macaco no seu galho".
Como se posicionam os psicanalistas perante esse quadro? Há o reconheci­
mento, de um lado, da responsabilidade dos médicos quanto ao tratamento básico
oferecido .pela instituição - internação - e, portanto, a aceitação da hierarquia
fundada no saber médico e, do outro, da importância de conviver com a pluralidade
de abordagens, por se tratar de uma instituição universitária. Em ambos os casos,
trata-se de tentar autorizar o trabalho da psicanálise dentro do hospital de maneira
sutil, "sem arrogância" e "sem hostilidade". A expressão mais freqüentemente
utilizada para evidenciar essa estratégia é "não bater de frente", que pode ser
traduzida, no sentido psicanalítico, por não criar, ou melhor, não reforçar as resis­
tências à psicanálise. Os psicanalistas entrevistados reconhecem as resistências pre­
sentes na instituição , não apenas por parte dos representantes do discurso médi­
co-psiquiátrico , mas também d e outros profissionais, muitas vezes vinculados ao
discurso da reforma psiquiátrica. Mais importante, entretanto, é a percepção de
que a resistência também se apresenta naqueles que pretendem sustentar a prática
psicanalítica na instituição.
Não se pode esquecer o valor da observação de Lacan quanto à questão da
resistência, que, em última instância, é sempre do analista , o que nos remete às
observações de Freud sobre suas fontes afetivas. Foi a partir da crítica aos pós­
freudianos, cuja prática se baseava na análise das resistências e na elaboração da
contratransferência, que Lacan destacou a resistência como dizendo respeito ao pró ­
prio analista. Isso o levou, em contrapartida, a formular a noção de "desejo do ana­
lista" como fundamento da ética da psicanálise. Ainda que essa formulação tenha

22
Cf. ALBERT) , Sonia. "Psicanálise: a última flor da medicina". Em : ALBERT), S. e ELIA, L­
(org.). Clínica e pesquisa cm psicanálise. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2000, p. 50.
contexto da condução de uma análise, isto é, no campo da "psicanálise
su rg ido no
crn in tcnsão", podemos considerá-la pertinente também no âmbito da "psicanálise
c rn e xtensão", em que o discurso psicanalítico se defronta com outros discursos.
A questão que se impõe, portanto, é como sustentar o desejo do analista em uma
institui ção de saúde mental que tem no discurso médico sua principal referência.
No caso estudado, apresenta-se uma série de dificuldades . Em primeiro lugar,
a pr áti ca psicanalítica na instituição é sustentada pelos alunos do curso de espe­
cializa ção cm clínica psicanalítica, exceção feita a uma psicanalista diretamente
li ga da à assistência, como parte da pesquisa que desenvolve. Isso traz al guns pro­
bl emas, já que eles não estão plenamente autorizados a ocupar o lugar de analista,
mesmo porque a universidade não visa a formar analistas2 • Sua ação se restringe
3

quase que exclusivamente ao ambulatório, e chama a atenção sua pouca familiari­


dade com as enfermarias e sua preferência por atender pacientes internados no
pátio aberto. No hospital-dia, no CAPS e nas oficinas, não existe atualmente qual­
quer participação da psicanálise, sendo esse espaço reconhecido como de domínio
da reforma psiquiátrica, o que confirma a divisão de territórios.
Nas equipes clínicas que constituem a espinha dorsal da instituição, a presença
da psicanálise é também bastante frágil . Nas mais abertas, o discurso psicanalítico
é considerado uma referência importante para um tipo de abordagem mais integral
cm psiquiatria e saúde mental, permitindo um trabalho mais articulado. Em outras,
contudo, mais estritamente médicas e hierarquizadas, a comunicação entre os
residentes cm psiquiatria e os especializandos cm psicanálise se torna bastante
difícil. Mais que diferenças de discurso, o que se apresenta nesses casos é uma
relação de dominação, fundada em um acordo tácito entre dominantes e dominados.
De um lado, os médicos praticamente "desconhecem" a presença de psicólogos
(especializandos em psicanálise) quando da discussão dos casos e das decisões sobre
diagnóstico, alta etc., tomando-os como meros acessórios. Do outro, esses últimos
aceitam essa posição ao silenciarem diante do poder médico, talvez pelo fato de os
alunos do curso de especialização
em clínica psicanalítica não se autorizarem a
º �upar o lugar de analistas e, portanto, não se sentirem
à vontade para sustentar o
discurso ps 1can
· · d1ante
'
al 1ti'co perante o discurso me' d 1co.
' Entretanto o s1· 1Aenc10 ' do
poder m - se restrmge· · ·
· a pouca part1c1paçao ·
- da ps1cana ·
' 11se
édico nao a e 1es, pms

" A for mação de analistas não depende de títulos acadêmicos,


estando fundada no tripé análise
p css oa1 , ensm
. o e supervisão, desenvolven do- se no âmbito das instituições (escolas) de
psicanalisc.
também se faz notar nas sessões clínicas que reúnem todos os profissionais e alunos
da instituição, nas quais se observa a predominância da discussão médica.
O ambulatório é, portanto, o loc us privilegiado de inserção da psicanálise na
instituição. Figuciredo 24 ressalta a importância do ambulatório como melhor local
para a prática da psicanálise nas instituições públicas, uma vez que "faculta o ir-e­
vir, mantém uma certa regularidade no atendimento pela marcação das consultas,
preserva um certo sigilo e propicia uma certa autonomia de trabalho para o profis­
sional"25. Contrapondo-se aos críticos que vêem no ambulatório uma reprodução
da clínica privada , introduz uma discussão sobre as relações entre o privado e o
público que nos interessa. Para a autora, o ambulatório "não é um simulacro do
consultório ; é o próprio consultório tornado público'>26 • O termo "público" diz
respeito, em primeiro lugar, ao fato de estar inserido no serviço público e, por
isso, atender gratuitamente todos aqueles que demandam atendimento. Em se­
gundo, à idéia de tornar público, visível, deixar transparecer o trabalho clínico,
com seus impasses e sucessos. Essa discussão põe cm pauta a questão da transmis­
são da psicanálise, que não se resume à intimidade do exercício da prática psicana­
lítica com cada sujeito, estando também presente no debate acerca dos impasses e
sucessos que fazem o cotidiano da clínica, no laço social com profissionais que
sustentam outros discursos.
Na instituição, diante das dificuldades e das barreiras impostas pela hegemonia
do saber m édico, esse debate praticamente não se dá. Tais barreiras, contudo , não
se constituem em proibições explícitas, e adquirem força pelo fato de serem legi­
timadas por aqueles que pretendem sustentar o discurso analítico, ao não tomar a
palavra. Isso fica evidente na fala de uma psicóloga, especializanda em clínica psi­
canalítica :
A gente não fala nada. Eu acho que a gente se intimida na sessão clínica, na frente
dos psiquiatras, dos residentes. [ ... ) Eu acho isso ruim porque mantém a gente
afastado e ainda cria um negócio como "o pessoal da clínica psicanalítica" e isso
potencializa essa separação que já existe. A gente não fala nada, acho que com
medo de virar público , porque acho que a psicanálise é tão privada , até mesmo
garantida . Nas nossas supervisões, com supervisores psicanalistas, a gente fala ,
eles falam, porque a gente se sente garantida.

24
FIGUEIREDO, Ana Cristina. Vastas confusões e atendimentos imperfeitos. Rio de Janeiro: Relume­
Dumará, 1 997.
25
Ibid . , p. 1 0.
26
Ibid . , p. 1 1 .

66 Saber, verdade e gozo


Calar- se diante do poder do discurso médico tem, como contrapar tida, 0
cm uma prática do "segredo", do privado, no qual não se corre o risc o
r efug iar - se
da exp osição pública. Como diz outra especializanda : "o trabalho no consultório é
rnais solitário, por isso eu acho que a gente pode errar mais". Buscam-se garantias
na intimidade e no sigilo requeridos pela prática psicanalítica, fazendo da psicanálise
urna prática "privativa" de cer to grupo. Nada mais distante da ética da psicanálise,
atravessada pelo permanente arriscar-se sustentado pelo desejo do analista. Quando
pr ocuramos essas garantias, cer tamente estamos resistindo. Trata-se aqui da resis­
tência do analista, manifesta também por cer to recuo diante do real da clínica, tal
como se evidencia na dificuldade de aproximação com o espaço da enfermaria -
recuo diante da psicose -, mas também diante desse real, do modo como comparece
no próprio ambulatório. A referência a casos "muito pesados", ''histórias muito
pesadas em termos culturais", de violência e miséria, revela as dificuldades com
que se defrontam os psicanalistas que trabalham tanto nesse quanto em outros
ambulatórios públicos.
Não há dúvida, contudo, de que a presença da psicanálise no ambulatório
representa uma conquista dos psicanalistas que levam a sério a proposta de Freud
de expansão da psicanálise para além dos consultórios par ticulares, visando a ofe­
recer assistência a amplas camadas da população. As diferenças que o atendimento
no ambulatório apresenta em relação ao tradicional set tin g analítico, com seus pa­
drões de ordenação do espaço e do tempo, são consideradas de ordem técnica, e
não ética. A orientação do trabalho se dá no sentido de sustentar a ética da psica­
nálise, como Freud indicou ao afirmar que "qualquer que seja a forma que essa
psicoterapia para o povo possa assumir, quaisquer que sejam os elementos dos
quais se componha, os seus ingredientes mais efetivos e mais importantes conti­
nuarão a ser, cer tamente, aqueles tomados à psicanálise estrita e não tendenciosa'�7 .
É impor tante destacar que a ética diz respeito não apenas à prática psicanalítica,
tal como se desenvolve em sua singularidade, mas também à afirmação do vigor
do discurso psicanalítico dentro da instituição, perante outros discursos, na "psi­
canálise em extensão"
. Apesar da insistência em sustentar essa proposta, as dificul­
dades estão presentes
e é preciso estar atento a elas. O padrão e o ritmo de trabalho
q e u ma inst
� ituição médica pública vinculada à universidade impõe muitas vezes
nao deixa ' · espec1'f 1ca
· de cada um, mwto · menos a
espaço para repensar a pratica

27 FREUD, Sigmund. "Linhas de progresso na teoria psicanalítica" ( 1 91 8) . Em : Obras completas,


voJ . XVII. Op. cit. , p. 2 1 1 .

º desejo do ps1cana
. i·1sta no campo da sau' d e menta
i lnst·1tuto denPsic olog ia - UFRGS 67

a... 1 : - .J. n. r "'.l ----


rela ção entre as diversas práticas. Corre-se o risco de "entrar no ritmo", como
disse uma entrevistada, e, com isso, reproduzir práticas burocratizadas e repetitivas
em que cada um apenas cumpre seu papel .
Com isso, não quero dizer que na universidade somente o discurso universitário
pode ter vigência. Ainda que ele tenha pregnância, é possível introduzir o discurso
analítico. No caso estudado, isso se verifica de maneira tímida, mas insistente :
É difícil, mas com muita insistência a gente vai conseguindo alguma sustentação
de uma ética psicanalítica dentro do hospital e dentro do ambulatório. É um
trabalho árduo, porque tem muita resistência. A gente vai conseguindo aos poucos
algo de uma ética da psicanálise, numa posição de causar um desejo dos alunos,
dos funcionários [ . . . ) . Nesse sentido é analítico, não só no trabalho com os pa­
cientes, é um trabalho mais amplo.

O "trabalho mais amplo" que se insinua nessa fala se refere à possibilidade de


a psicanálise causar o desejo de alunos, funcionários e profissionais, provocando
um deslocamento discursivo que rompa com as práticas normativas que anulam o
sujeito, tanto do lado do "paciente" quanto do lado do profissional. Quando se
muda de discurso, há sempre al guma emergência do discurso analítico. É esse
movimento que deve atingir os próprios psicanalistas em seu trabalho na instituição ,
de modo a ultrapassar as resistências e a cristalização de lugares que o discurso
universitário impõe. Para que a psicanálise prolifere, como advertiu Lacan em
1 974, é preciso sustentá-la como sintoma, para que o real insista: "Logo, tudo
depende de se o real insiste. Para isso, é preciso que a psicanálise falh e. É preciso
reconhecer que ela toma caminho e que tem ainda grandes chances de permanecer
um sintoma, de crescer e se multiplicar. Psicanalistas não mortos, carta segue"28 •
Com isso, entramos no discurso da histérica, aquele que atesta claramente a
ex-sistência do inconsciente, uma vez que é o sujeito dividido que está no lugar de
agente do discurso. O dilaceramento sintomático da histérica - pois é o objeto I'.
no lugar da verdade que a faz agir - desafia o m estre e o põe em posição d�
trabalho. Não se pode negar a fecundidade da interrogação histérica na construçã�
da psicanálise. Não foi o enigma da histeria que suscitou o desejo de Freud ? É �
real que insiste, sob a máscara do sintoma, questionando o saber constituído. Co mo
afirmou Lacan, quando se indaga de que saber se faz a lei, o saber cai na categoria:
de sintoma e, com ele, vem a verdade. Isso tem importância política para o trabalho
dos psicanalistas na instituição.

'" LACAN, J acques. "A terceira" ( 1 974), Chc vuoi? Psicanálise e Cultura, ano 1 , n. O, 1 986, p. 2 5 .

68 Saber, verdade e gozo


E m relação ao discurso da histérica, o discurso do analista avança um quarto
o real enigmático cm cena, ao situar o objeto a no lugar de agente,
d e ,· ol ta , pondo
di r ig indo- se ao sujeito ($) no lugar do outro . Foi com base na interrogação histérica
qu e el e se constituiu, justamente porque a histérica fez o mestre trabalhar e revelou
su a v e rdade: ele é castrado. Isso levou Freud a dar um passo adiante e não responder
do luga r de onde ela o interrogava, precipitando assim o lugar do analista. Sustentar
0 luga r de
objeto a como agente do discurso é, para o analista, uma tarefa impossível,
.
e p o r isso Lacan d es1gnou esse 1ugar como sendo do "santo", ague1 e que nao - esta'
ne m aí para o gozo, que é o "rebotalho do gozo" • Como todo santo é morto, o
29

e
analista so' pod e " 1azer de conta", «1azer
e e
semblante", quando se 01erece para o
suj eito como causa de seu desejo, o que não se aplica apenas a esse discurso, uma
vez que todo discurso põe cm jogo um "faz de conta", por meio do artifício simbó­
lico. E esse lugar de dejeto, como efeito do significante, que o analista ocupa ao
faze r operar o dispositivo analítico para que o significante mestre (S1 ) se destaque,
como marca do suj eito que é memória de gozo. O saber ocupa o lugar da verdade,
isto e, funciona no registro da verdade que é sempre não-toda. Não se trata,
portanto, do mesmo saber que está cm jogo no discurso universitário, mas do
saber inconsciente, que mantém uma face enigmática.
Aos psicanalistas "não mortos", portanto - que se defrontam com os impasses
criados pela inserção da psicanálise no hospital público, no qual a impotência,
como é comum a todo laço social, protege a impossibilidade -, cabe circular pelos
vários discursos, sem se deixar aprisionar cm nenhum deles, mtúto menos no
discurso universitário, fazendo da psicanálise apenas um saber sem furo. Ao apostar
na proposta freudiana, é preciso, sem medo de errar, fazer da psicanálise um sintoma
que prolifere e, como tal, faça eco e possa ser escutado.

" LACAN, Jacques. Telerisão. Op. cit.


PARTE III

Psicanálise e Ciência
A al e tosfera , lugar de obj etos
ag almáticos
Filippo O livieri

O seminário, livro 1 7: o avesso da psic an ális c foi uma das formulações mais criativas de Lacan,
1

cm que ele apresentou, de forma sistemática, a teoria dos discursos. O momento


lúst ór ico contemporâneo ao seminário é bastante interessante : na mesma época cm
que O homem enviava o primeiro vôo tripulado à lua, os conflitos sociais recrudesciam,
tendo como reflexo as manifestações estudantis. Sensível à contribuição da psicanálise
para os acontecimentos históricos, Lacan fez valiosas considerações sobre a ciência e
0 capitalismo, questionando os movimentos que assolavam a Europa - notadamentc

a França -, os Estados Unidos e o Brasil.


Neste trabalho serão discutidas as questões apresentadas no capítulo de O se­
minário, livro 17: o avesso da psicanálise intitulado "Os sulcos da aletosfera", no qual Lacan
fez importantes obser vações acerca da produção científica e suas ressonâncias sobre
o sujeito. São questões surpreendentemente atuais e que cada vez mais atravessam
o campo de interesse daqueles que reconhecem a relevância da discussão contida
cm "O mal-estar na civilização'12 •

A ciência como discurso


Lacan hesitou cm situar a ciência em um dos quatro discursos. Embora em "Os sulcos
da aletosfera" a tenha pensado a partir do discurso do mestrei, quatro anos mais tarde,
em Tel cvisão4, afirmou que teria quase a mesma estrutura do discurso histérico5 .

1
LACA N, Jacques. O seminário, li1ro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 992.
' FREUD, Sigmund. "O mal-estar na civilização" ( 1 929). Em: Obras completas, vol. XXI. Rio de
Janeiro : Imago, 1 980.
: LACA N, Jacques . O seminário, li1ro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit., p. 1 5 2 .
_ LACA N, Jacqu es. Tclevisão ( 1 974) . Rio d e Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 993.
' lbid. , p . 40.

71
No discurso histérico,. tem-se um sujeito dividido ($) no lugar do agen te, e
essa divisão se deve ao objeto a (mais-de-gozar) no lugar da verdade, o que remete
à verdade do sintoma. A histérica interroga o mestre (S 1 ) no lugar do Outro, que
produz um saber (S 2 ) no lugar da produção6 • Contudo o saber criado não dá conta
daquilo que o causa no lugar da verdade. Não há, por exemplo, um significante
que responda o que é ser uma mulher, mas apenas a impotência do saber produzido
pelo mestre, obrigando a histérica a refazer sua pergunta.
A convergência entre os discursos científico e histérico está no saber. O sujeito
histérico, assim como o sujeito da ciência, é suposto não saber. A histérica interroga
o mestre da mesma forma que o sujeito cartesiano, sujeito da ciência por excelência,
interroga o saber constituído. Lacan afirmou que, embora se trate de um saber
que logo estará defasado, o imperativo categórico da ciência é "Continue a saber ! '17 •
Assim, no saber médico, por exemplo - uma das ver tentes mais significativas do
discurso da ciência -, a medicação "de ponta" logo está ultrapassada: os objetos
criados pelo saber científico são sempre de "penúltima geração", e é nesse sentido
que o sujeito histérico e o da ciência se acoplam.
Entretanto Lacan afirmou que o discurso histérico tem quase a mesma estrutura
do científico , indicando a existência de uma divergência cm relação à verdade . No
materna do discurso histérico, encontra -se a no lugar da verdade, indicando a ver­
dade recalcada de seu sintoma. A ciência, no entanto, não quer saber nada da
verdade como causa, há Vcrwcrfung dessa verdade, o que indica uma tentativa de
repúdio da divisão do sujeito :
Quanto ao que ocorre com a ciência, não é de hoje que posso dizer o que me
parece ser a estrutura de sua relação com a verdade como causa, já que nosso
progresso neste ano deve contribuir para isso.
Abordá-la-ci através da estranha observação de que a prodigiosa fecundidade de
nossa ciência deve ser interrogada em sua relação com o seguinte aspecto, no
qual a ciência se sustentaria : que, da verdade como causa, ela quer-saber-nada. 8

No lugar em que, no discurso histérico, está o objeto a, no discurso da ciência


há vazio , ou seja, desconsidera-se, nesse discurso , o que causa a divisão do sujeito

6
Como Freud, impelido p elas histéricas a produzir um saber - no caso, a psicanálise.
7
LACAN, Jacques . O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit., p . 99.
8
LACAN, Jacques. "A ciência c a verdade" ( 1965) . Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge zahar
Editor, 1 998, p . 889.

72 Saber, verdade e gozo ;


o motivo de seu sofrimento e de sua interrogação ao m estre (isto é, seu
hi s téric o,
. A ciência considera o sintoma do ponto de vista fenomênico e tratá vel
si n t o ma )
ica, vale dizer, o discurso científico tenta banir aquilo que singulariza 0
;J c la quím
suj eito . Assim, no lugar do mais-de-gozar, temos X.

A c iê ncia e nossa percepção


Em "Os sulcos da aletosfera", Lacan afirmou : " Com efeito, não deveríamos esquecer,
d e qual quer modo, que a característica de nossa ciência não é ter produzido um
melhor e mais amplo conhecimento do mundo, mas sim ter feito surgir no mundo
'
coisas que de forma alguma existiam no plano de nossa percepção >9.
A ciência produz objetos que nos atraem, anteriormente chamados por Lacan
de ga dgcts. Nesse capítulo de O seminário, li vro 1 7: o av esso da psicanálise, deu a eles o curioso
nom e de latusas, pelas quais o mundo estaria cada vez mais povoado: "E quanto aos
pequenos objetos a que vão encontrar ao sair, no pavimento de todas as esquinas,
atrás de todas as vitrines, na proliferação desses objetos feitos para causar o desejo
de vocês, uma vez que agora é a ciência que o governa, pensem neles como latusas'rn.
Essa equiparação entre as latusas e o objeto a é de suma relevância, visto que a
produção de tais objetos e nossa fascinação por eles não se dão à toa. A ciência
"tenta nos fazer crer" que a relação sexual é possível, que o encontro amoroso
pode ser completo: veja-se todo o aparato fármaco-cosmético destinado a produzir
mulheres cada vez mais b elas, independentemente da idade. Para além da mera
preocupação estética, há a ilusão de um ideal de feminilidade completo e absoluto.
Segundo Lacan, a ciência tenta legitimar que o homem forma a mulhcr 1 1 ou, dito
de outra forma, que há um significante que dá consistência à fcminilidadc. 1 2

A aleto sfera é um lugar


Outro neologismo criado por Lacan foi a aletosfera, derivada da fusão das palavras
alethcia [do grego "verdade"] e atmosfera. A aletosf cra diz r espeito ao mundo

rnodcrno, povoado por um sem-número de ondas imperceptíveis que, no entanto,


ocupam lugares : de rádio, de TV, de internet. Lacan falou de ondas hertzianas :

' LACAN , Jacques. O seminário, livro 1 7 : o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 150.
' º lbid . , p.
1 51 ; 15 3.
" lbid. , p. 1 5 1 .
11
Mas também foi categórico cm afirmar que o verdadeiro pensamento científico deve estar
.
li ber to disso.

/\ aletos 1·era,
lugar de objetos agalmáticos 73
Trara-se justamente do lugar de fato ocupado - pelo quê? Falei há pouco de ondas. É disso que se trata.
Ondas hertzianas ou quaisquer outras, nenhuma fenomenologia da percepção nunca nos deu delas a menor
idéia, e com certeza jamais nos teria conduzido a elas.

Esse lugar, certamente não o chamamos de noosfcra, que estaria povoada por
nos mesmos. Se ha algo que, no caso, passa para o centésimo plano de tudo o que
pode nos interessar, é justamente isso. Mas lançando mão da aleteia de um modo
que nada tem de emocionalmente filosófico, vocês poderiam, a menos que achem
algo melhor, chama-la de alctosfcra . 1 1

A s latusas não estão apenas nas vitrinas: seu brilho agalmático chega até nós p or
meio de ondas que serpenteiam pelo ·ar e constituem a aletosfera . Lacan ressaltou
que basta ter um microfone para nos ligarmos a ela, e citou como exemplo a ida do
homem à lua, fato cm evidência à época. Mesmo estando na lua, os astronautas
estavam na aletosfera, uma vez que utilizavam ondas para se comunicar1 4.
Cada vez mais , a televisão nos acossa com intermináveis propagandas. A inter­
net, com seus sites de compra, tem forte apelo comercial, já se afigurando como
um verdadeiro mercado virtual. Dessa maneira, estamos como que capturados na
alctosfera, nessas ondas que causam nosso desejo e tentam fazer supor que o encon­
tro com o objeto é viável, quando não há objeto natural na ordem humana.
Cabe, então, perguntar se a aletosfera não seria um espaço reser vado ao gozo
e se o campo lacaniano, campo do gozo, também não estaria presente em seus
efeitos. Uma vez que o próprio Lacan equiparou as latusas e o objeto a, a resposta
provavelmente é afirmativa. Assim, o que torna cada latusa agalmática é o que
nela está contido de singu laridade : podendo ser um objeto qualquer, de modó
algum é qualquer objeto. Cada objeto é agalmático para um sujeito quando evocá
o brilho do objeto perdido ou, melhor dizendo, de sua perda. A aletosfcra pode:
ser perfeitamente articulada com o gozo, desde que este seja entendido como ci
encontro com algo faltoso.

A latusa é agalmática
Em O seminário, livro 8: a transferência 1 5 , Lacan discorreu sobre as questões do amor.
Utilizando-se de O banquete, de Platão, focalizou a relação de Sócrates e Alcibíades

1 1 Ibid . , p. 1 5 2 - 3 , grifo meu.


14 Não cs9ueçamos 9uc a voz é uma das formas do objeto a.

,; LACAN, Jac9ucs. O seminário, li�ro 8: a transferência (1 960-1 ). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 994,

74 Saber, verdade e gozo


11 0 que tange às vicissitudes entre o amante (era stes] e o amado ( eromenos]. Alcibíades
co mparou Sócrates aos silcnos , pequenas caixinhas que contêm coisas que c apturam
a a te nção , que possuem agalma. Disse Lacan :
Em primeiro lugar, é essa a aparência de Sócrates , que é nada menos que bela.
Mas , por outro lado, esse sileno não é simplesmente a imagem que se designa
or esse nome, é também uma embalagem que tem o aspecto usual de um sileno,
�m continente, uma maneira de apresentar alguma coisa. Isso devia se referir a
pequenos instrumentos da indústria da época, pequenos silenos que serviam de
caixinha de jóias, ou embalagens para oferta de presentes.
É justamente disso que se trata. Essa indicação topológica é essencial. O impor­
tante é o que está no interior. Agalma bem pode querer dizer ornamento ou
enfeite, mas aqui, antes de mais nada, j óia, objeto precioso - algo que está no
interior. E é desse modo que Alcibíades nos arranca à dialética do belo, que era
até aqui a via, o guia, o modo de captura, a caminho do desejável. Ele nos tira do
engano e a propósito do próprio Sócrates. 16

Note-se que Lacan fez uma referência topológica, afirmando que as latusas são
algo que se encontra no interior do sileno. Mais tarde, em O seminário, livro 1 7: o avc.s:so da psicanálise,
ele faria novo uso da topologia, ao dizer que a aletosfera é um lugar. Não poderíamos,
então, pensar nela como um lugar dentro do qual estão os objetos agalmáticos?
A questão do agalma se articula com a função do desejo humano. Em O banguetc,
tratava-se de objetos de fascínio que saíam da boca de Sócrates p ara seduzir a
todos , em especial, segundo Alcibíades, aos belos r apazes. Esses objetos são agal­
máticos porque são privilegiados do desejo e irão para cada um até o ponto limite
que Lacan chamou de metonímia do desejo inconsciente. Aí, o objeto agalmático
desempenha o papel sempre limitado e fugaz de causa de desejo. A função essencial
do agalma é produzir a metáfora do amor, na qual a imagem ilusóri a pode ser per ­
cebida pelo olho como real no nível do objeto do desejo.
Ora , nove anos após O seminário, livro 8: a transferência, Lacan chamaria esses objetos que
causam o desejo de latusas e, portanto, é legítimo afirmar que circulam na aletosfera.

O dis curs o histérico e a ciência


Vol te mos à ar t 1cu 1açao · · · ' d 10
' - entre os d 1scursos ' ' · e c1ent1
h 1stenco · 'f 1co. O ep1so · de
O banquete utili
zado como fio condutor de O seminário, livro 8: a transferência serve também
pa ra ilustrar
como se afigura a questão histérica, podendo-se encontrar cm Alei-

,. lbid., p. 141.
bíades o protótipo do sujeito histér ico que demanda um saber ao mestre. Sócrates,
contudo, esquiva-se desse lugar e afirma que o que interessa a Alcibíades é um
outro : quando este, discorrendo sobre o que há de agalmático no filósofo, reivindica
o saber que nele supõe, a atopia de Sócrates o impele a apontar que o agalma que
move Alcibíades se encontra em outro - no caso, Agatão.
V imos que o imperativo categórico da ciência é "Continue a saber ! ". Pode-se
supor essa demanda como sendo a mesma que o histérico lança ao mestre. Mas o
histérico mostra que o agalma está sempre em outro lugar: o objeto fascinante hoje
já não o será amanhã, uma vez que o agalma não está no objeto cm sua concretudc.
As histéricas que freqüentam os consultórios médicos exigem que se saiba sempre
mais. "Esse remédio não resolve nada, por isso estou aqui!", diz a paciente ao
analista cm uma entrevista preliminar, assim como as histéricas de Freud puseram
em questão o saber médico de sua época, levando-o a inventar a psicanálise.
Do mesmo modo, o "Continue a saber !" imposto pela ciência indica que os
objetos que povoam a aletosfera serão sempre destituídos. Pode-se pensar a
aletosfera como lugar cm que as latusas circulam, mas esse movimento depende
do "Continue a saber !". Ao aproximar os dois discursos, vemos que o sujeito da
ciência, assim como o histérico, exige a constante produção de um novo saber, e o
que é agalmático hoje se tornará fosco amanhã.
Lacan e o objeto a: uma articulação
e ntre psicanálise e matemática
N elma de Mello Cabral

o cerne deste artigo é uma reflexão sobre a constituição da economia pulsional .


A indagação que o atravessa é como se funda e como se sustenta o movimento
pulsional, questões que conduzem, no discurso freudiano, à i déia de uma perda
sofrida pelo vivente ao entrar no domínio da linguagem. Como testemunha dessa
perda, tem-se a experiência de uma falta, a constituição de um cavo ou vazio
chamado por Lacan de objeto a. Ao avançar sobre o terreno aberto por Freud eln
relação ao objeto perdido, Lacan desenvolveu a teoria do objeto a - como se
constitui , sua relação com o objeto da pulsão e o advento do sujeito e suas funções na
economia psíquica. O propósito deste artigo, portanto, é pensar o objeto a como
causa de desejo e como mais-de-gozar, motores da economia psíquica.
Para abordar o objeto a como causa de desejo, retomarei a analogia lacaniana
com a operação de divisão aritmética, apresentada em "O seminário, livro 1 0 : a
angústia" 1 • Nesse seminário, Lacan utilizou um dos sentidos do resto - a idéia de
falta - e sua relação com os demais termos envolvidos nessa operação para aborda r
a constituição de uma falta articulada à fundação do sujeito. E, paradoxalmente,
referiu-se ao objeto a como irracional 2. Suponho que o considerava um número
irracional e, com base nessa suposição, busco explorar a concepção de divisão
aritmética e as características de um número irracional, assim como o que estas
possibilitam entender do objeto a como causa de desejo.
Ao desenvolver, em O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise\ a teoria dos quatro
discursos, Lacan retomou a questão da perda e passou a tratá-la como pequeno

' LACAN, Jacques. "O seminário, livro 1 O: a angustia" (1962 - 3 ) . Inédito.


2
O s termos "quociente" e "resto" são específicos da divisão aritmética, que se restringe ao
conj unto dos numcros inteiros.
' LACAN , Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1994.
excesso - um ''bônus" de gozo encontrado na fundação do sujeito -·, mais-de-gozar.
Para abordar essa função do objeto a, percorreu o caminho das següências de Fibonacci
e, a fim de evidenciar a articulação entre as duas funções do objeto a -- causa de
desejo e mais-de-gozar -, a relação entre essas següências e o número áureo.
Abordo neste artigo, assim, dois modos pelos 9uais o objeto a foi d efinido no
discurso lacaniano4 - resto de uma operação de divisão do sujeito e efeito do

discurso do mestre -, ambos relacionados à fundação do sujeito e à constituição


de sua economia.

A constituição do objeto a
Para explicar a divisão do sujeito e definir o lugar de a nessa operação, Lacan recorreu
a uma analogia com a divisão aritmética5 • Para ser realizada, essa operação exige que
sejam dados dois números: o dividendo e o divisor. Do mesmo modo, para que ocorra
a divisão do sujeito, faz-se necessária a existência do Outro (A), concebido como espaço
aberto de significantes, e de um sujeito hipotético (ou primitivo), S. Como resultado,
o sujeito se inscreve no lugar do quociente como sujeito barrado (/,) em função de um
resto, que se separa do Outro ao resistir à assimilação da função significante. Lacan
chamou esse resto de objeto perdido e o designou com a letra a :

Na aritmética , o resto pode ser tomado, em u m sentido mais usual, como quan­
tidade que falta ao produto do quociente pelo divisor para se chegar ao dividendo
(dividendo = quociente x divisor + resto) ou, em um sentido não tão comum, como
quantidade que o dividendo possui a mais que o produto do quociente pelo divisor,
um excesso do dividendo (dividendo - resto = quociente x divisor) .
Pode-se extrair do caminho indicado por Lacan a constituição não somente de
uma falta na divisão do sujeito, mas também a de um pequeno excesso. Ao consi ­
derar a divisão para mostrar como se dá a fundação do sujeito e a constituição de

' O objeto a pode também ser abordado no contexto dos registros psíquicos: Real, Simbólico
e Imaginário. Com a descoberta da topologia do nó borromeano para pensar a amarração dos
três registros, Lacan mostrou que a existência de um nó articulando os três registros cava um
vazio central, representando o lugar do próprio nó , onde situou o objeto a.
; LACAN, Jacques. "O seminário, livro 10: a angústia". Op. cit.

78 Sahcr, verdade e gozo


impediu que os termos que definem "Outro", "objeto a", "sujeito
u!11 re sto, Lacan
barrado" fossem considerados substâncias. Assegurou-se assim
hi ot ét ico" e "sujeito
am tratados como termos operatórios. Sob certas condições, a divisão
d tque seri
garante a unicidade do quociente e do rcsto , assim nomeados justamente
arit m ética
6

unicidade. Pode-se pensar, do mesmo modo, que cm cada divisão do


d e v ido à sua
sujeito e o objeto a devem ser únicos, isto é, singulares. Resta identificar
s ujeito O
ições.
sob que cond
Mas esse não foi o único caminho pelo qual Lacan abordou a constituição do
na economia psíquica. Com a teoria dos quatro discurso?
obj eto a e sua participação
_ do m estre, da histérica, do analista e do universitário -, Lacan mostrou que é
ela via do gozo que se abrem as portas para a fundação do sujeito. Cada discur so
�od e ser explicado por meio de uma fórmula composta de quatro elemento! : S ,

s , objeto a e sujeito barrado ($), que se permutam por quatro lugares fixos -
1

a�entc, Outro, produção e verdade. Também fazem parte dessa fórmula a flecha
(�), designando impossibilidade, e a barra (-), que significa clivagem.
Dependendo do lugar em que se encontram os elementos a, $, S2 e S 1 , tem-se
como resultado a produção de um tipo de discurso. A passagem de um discurso a
outro exige a operação de um quarto de giro em seus elementos, caracterizando,
portanto, uma permutação circular9. Para Lacan, o discurso inaugural que instaura a
possibilidade de tratar o sujeito falante como habitado pela linguagem é ô do mestre.
O significante mestre, S 1 , intervém no campo do Outro, cm S 2 , provocando a
emergência do sujeito barrado ($). Essa intervenção é feita ao custo de uma perda,
a perda de gozo, que se presentifica como mais-de-gozar. Ao produzir como efeito
o mais-de-gozar, a intervenção significante evidencia a existência de uma causa, a
causa de desejo. Dessa forma, com a perda de gozo na fundação do sujeito, o mais­
de-gozar e a causa de desejo instauram a economia psíquica.

D ados D e d , números inteiros com d -:te O, existem e são Únicos dois inteiros q e r, tais que
6

D == d.q + r, se O < r < 1 d 1 -


LACAN, Jacqu es. O seminário, lirro 1 7: o arcsso da psicanálise. Op. cit.
.
7

• s_2 é o conjunto dos s1.gn1ficantcs


. que se articulam uns com os outros de acordo com uma deter-
minada ordem . Pode-se ' , cons1· derar S2 tanto o sab cr constitui
outro - quanto cada um dos significantes desse campo. S· é 'doosie estrutura ificante
do - o campo do
mestre,
, . que ganha
�-enaa
ao se destacar de uma cadeia e ocupar uma posição-chave: fundar uma cadeia si gnificante.
1 gn

D c modo geral, uma permutação circular consiste cm


uma ordenação sem início
9

n e l cmc ou fim clc


ntos · N a pcrmutaçao · lar, o que ·importa e, apenas a posição relativa dos elementos
- circu
entre si.

lacan e O
objeto a
Por meio da fórmula "o saber é o gozo do Outro" 10 , o mais-d e -gozar relaciona
saber e gozo . Ao surgir a inter venção significante pelo estabelecimento de uma relação
entre S 1 e S_,, há uma queda no campo do Outro de algo que é da ordem do gozo . J á a
causa de desejo relaciona verdade e desejo, por meio da fórmula "o desejo do homem
é o desejo do Outro" 1 1 • Para definir o objeto a e sua participação na economia do
falante, Lacan trilhou o caminho do formalismo matemático de Bourbaki, no qual um
símbolo é definido por sua relação com outro símbolo. O a é uma letra que se relaciona
com outras letras : isolado, não faz sentido. Todavia não somente mantém relação, como
pode ser permutado com outra letra, como acontece, por exemplo, nos quatro discursos.
Também pode ser apagado, rasurado ou ainda manipulado, como na fórmula D = dx + y,
em que, ao substituir D e d por dois inteiros quaisquer, sempre é possível encontrar
dois números inteiros x e y que satisfaçam a equação.
O a articula -se com A (Outro) e com g (sujeito barrado), se o contexto consi­
derado for a divisão do sujeito, ou então com S 1 (significante mestre), S 2 (bateria
significante) e g, se a abordagem for pela via do discurso do ser falante. Pode-se
inferir daí que Lacan nomeou um objeto que tem relações determinadas dentro
de um conjunto de letras. Não vejo nesse encaminhamento uma filiação ao forma­
lismo estrito, no qual a teoria consiste cm um jogo cujos objetos são destituídos
de significação. Em ambos os contextos, a invenção do objeto a decorre da neces­
sidade de explicar o surgimento do sujeito e o motor de sua existência.
Ao usar a letra a para designar o objeto perdido, Lacan a destituiu de qualquer
caráter dedutivo, isto é, ela não carrega consigo a possibilidade de dedução. Esta­
belece-se assim um cálculo local em que o manejo das letras possibilita extrair
proposições empíricas referentes à clínica psicanalítica . Segundo Milner, "um ma­
terna lacaniano, enquanto literal, funciona idealmente como uma matriz de pro­
dução de proposições empíricas" 1 2 •

O a como causa de desejo


Em O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na téC11Íca da psicanálisc13 , Lacan mostrou que a
modernidade se constitui sobre uma revolução realizada por Freud ao estabelecer que

'º LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o arrsso da psicanálise. Op. cit. , p. 1 3 .
11
LACAN, Jacques. "O seminario, livro 1 O: a angústia". Op. cit.
12
MILNER, Jean Claude. A obra clara ( 1 993). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 996, p. 1 06 .
11
LACAN, Jacques . O seminário, li,ro 2: o cu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise . Rio de Janeiro :
Jorge Zahar Editor, 1 98 5 .

80 Saber, verdade e gozo


0 mundo dos homens não é o mundo da essência e da aparência, como postulara a
fi ]osofia durante séculos, mas o mundo do desejo. A experiência freudiana lhe permitiu
para que existam homens - não como rebanho, mas como homens que
afir mar que,
fa ]a m, e falam constantemente do que lhes escapa -, é necessário o desejo do Outro,
e pre ciso a constituição de um conjunto de significantes . Isso equivale a dizer que
desse conjunto pode ser trocado por outro, desde que a relação
qua l qu cr elemento
suste nta seja o desejo do Outro. Tem-se, como afirmou Lacan, uma relação
que os . . .
] ' '
de equiva cnc1a cup moeda d e troca e "a moeda do d cseJo do Outro" .
14

É po r essa relação que o infante entra no reino do humano e, nele, o desejo


não está dado, mas se encontra para aquém da existência, insistindo em ser nomeado
pelo sujeito. Ao reconhecer e nomear seu desejo, o sujeito faz surgir uma nova
presença no mundo, ao mesmo tempo cm que cava wna falta, uma ausência. O desejo
é, assim , uma relação com a falta. Para pensar essa relação, retornemos ao recurso
lacaniano de utilizar a divisão aritmética para dar inteligibilidade à operação de
divisão do sujeito.
A emergência do sujeito ocorre se e somente se "deixa cair" um resto, a. "Deixar
cair" é essencial. Para que algo se precipite no momento de seu advento, faz-se ne­
cessário que o sujeito e o Outro deixem cair um resto, como acontece com o resto
da divisão aritmética. Isso significa dizer que o sujeito tem parte nessa operação : não
é só a mãe que desmama o filho ; este também toma parte em seu desmame.
A divisão aritmética pode ou não ser exata. No primeiro caso, o quociente cabe
no dividendo wn número n de vezes e a possibilidade de continuar a operação se
esgota ao obter O (zero) como resto. Estabelecer uma analogia com a divisão exata
implicaria pensar que nenhum significante se desprende do campo do Outro para
abrir a possibilidade de constituição de um novo campo de significantes; não haveria
a inscrição de uma falta nem, conseqüentemente, a instauração de wn movimento
desejante. Nada disso condiz com o que a experiência clínica mostrava a Lacan.
Uma divisão cujo · resto é um número inteiro também seria imprópria para
p ensar a participação do objeto a na economia pulsional, visto que isso significaria
ªfinitude do desejo. Pode-se concluir, portanto, que a divisão aritmética se esgota
na explicação da fundação do sujeito e da constituição do objeto a. Assim , as duas
possibilidades de resto de uma divisão da aritmética (O ou um número inteiro)
não servem como recurso para explicar como o objeto a participa da economia

_,, LACAN , Jacques. O seminário, lfrro S: as formações do inconsciente ( I 957-8) . Rio de Janeiro : Jorge
Zahar Editor, I 999, p. 263.

laca,, e. o b ·
o Jeto a 81
pulsional. Como já afirmei, Lacan considerava o objeto a irracional 1 5 • Entendo
disso um número irracional, e questiono o que ele possibilita compreender sobre a
noção de resto cm psicanálise.
De acordo com a teoria das equações, dado dois números reais D e d:;t:O,
sempre se pode encontrar dois outros números reais x e y, tais que D
= dx + y 6 •
Podemos tornar essa equação análoga à da divisão aritmética, isto é, à D = dq + r
e, por um abuso da linguagem, chamar as incógnitas x e y de quociente e resto,
respectivamente. Desse modo, podemos continuar considerando o objeto a como
resto e, como o universo de solução da equação não se restringe ao conjunto dos
números inteiros, podemos considerá-lo um número real. Nesse caso, ele pode ser
racional ou irracional. Suponhamos que seja um número racional e consideremo-lo
em sua expressão decimal periódica. Por exemplo 1,347289347289347289...
Observe que um número como esse pode ser escrito indefinidamente e que,
depois de certo tempo, os mesmos algarismos se repetem. Temos, nesse caso, a
repetição do mesmo, a reprodução de um período, um ciclo. Tomar o resto como
número racional para pensar o movimento pulsional implicaria conceituar a repe­
tição do humano apenas como reprodução do mesmo, o que não está de acordo
com a repetição nos sonhos traumáticos, na clínica e nas brincadeiras infantis,
destacadas por Freud cm "Além do princípio de prazer" 1 7 • A compulsão à repetição
de que trata a psicanálise não obedece a nenhum ciclo, pois põe em jogo uma
quantidade de força variável que atua de forma constante. Justifica-se, assim, a
razão de Lacan ter afirmado que o objeto a é irracional.
Os números irracionais não têm expressão exata, ou seja, a possibilidade de
escrevê-los nunca se esgota. Além disso, não apresentam o fenômeno de repetição
de um mesmo período, pois a cada algarismo segue-se outro, indefinidamente.
Em geral, escreve-se --/2 = 1,414... , mas é possível continuar:

'12 = 1,4 142 1. ..


'12 = 1,4 142 1356 2 37309504880 16887...

11
LACAN, Jacques. "O seminário , livro 1 O: a angústia". Op. cit.
16 Dados dois números quaisquer, existem infinitos números reais satisfazendo à equação D = dx + Y·
Basta arbitrar um valor qualquer para x e obter um valor para y (ou o contrário).
17
FREUD, Sigmund. "Além do princípio do prazer" ( 1 920). Em : Obras completas, vol . XVIII . Rio
de Janeiro: Imago, 1980.

82 Saber, verdade e gozo


Ne ssa incursão pelos números irracionais, ressaltam-se as características desse
úme ro : escritos como frações decimais, possuem expressões que não são
t i O de n
que há sempre a possibili dade de
('j� itas nem periódicas. Sua infinitudc, indicando
mais um algarismo, e sua fa lta de precisão, pois nunca se sabe o número
e s cre ver
uc ve m depois , constituem o fundamento para entender por que o resto caído
�o Out ro fecunda no sujeito, no momento de sua fundação, uma falta incomensu­
Essa falta dá início a um movimento: correr atrás do que escapa
rável e ind efinida.
e, ao en contra r algo para pôr nesse lugar, constatar que ainda assim há algo que
continua escapando.
A partir disso, a questão - o que é esse a, caído do Outro e que falta - pode ser
pensada por meio das características do número irracional. Assim como algo escapa
e sempre escapará ao número irracional, pois não há como precisá-lo, algo escapa ao
objeto a e não há como determiná-lo. Conseqüentemente, a forma de esse objeto se
fazer presente é como falta-a-ser, já que há sempre o que resta a dizer - porque lhe
faltam palavras ou porque as palavras não lhe ocorrem , não importa. Importa que
esse resto, dito, deixa um resto ainda a ser dito, e a série continua indefinidamente.

O a como mais-de- gozar


Um dos caminhos pelos quais Lacan explicou a perda de gozo na fundação do sujeito
foi por meio do mito do pai da horda primitiva, criado por Freud cm "Totem e
tabu" 1 8 • Nele, o pai é o senhor de todas as mulheres e tiranicamente interdita aos
fil hos o acesso a elas, expulsando-os da horda quando crescem. Senhor do gozo
absoluto, ele provoca inveja e ódio nos filhos, que coletivamente o matam e comem.
Comemoram o ato criminoso cm uma refeição totêmica, esperando com esse ato
incorporar o poder do pai, que também amavam. Tomados pela culpa e pelo desgas­
te da rivalidade para ocupar o lugar do pai real, os irmãos estabelecem um acordo
em que todos têm direito ao exercício da sexualidade, mas não ao gozo sem limites,
ou seja, nen hum deles poderá ocupar o lugar do pai. Com isso, a lei é instaurada e
passa a circular
entre os irmãos . O assassinato do pai da horda funda a cultura,
ab rindo esp
aço para a criação de um pai simbólico, edipiano, que transmitirá a seu
ô.lho qu e o excrc1c10 ·
' · da funçao
- paterna tem como cond1çao · - a' l e1.
' - a subm1ssao
Co mo o pai morto não goza daquilo que tem para gozar, mas mantém o gozo
sob sua
guar da, Lacan a r1rmou
· · ' l e "nao
que o rea l e' 1mposs1ve ' d e nao
- para - se

" FR EU D, Sigmund. "Totem e tabu" ( 1 9 1 3 ) . Em : Obras completas, vol . XIII. O . cit.


p
escrever" 1 9, já que, como mostra a repetição , a renúncia ao gozo não foi total. A repe­
tição se funda cm um retorno do gozo feito pela via do discurso e sempre fracas­
sado, pois essa via só se constitui se há desperdício de gozo - desperdício bcm­
vindo, pois é por meio dele que se institui o mais-de-gozar. O recurso de Lacan
para explicá-lo foi o conceito de "mais-valia".
Segundo Marx, na produção capitalista o operário sempre trabalha além do
tempo necessário p ara pagar a reprodução de sua força de trabalho, pois o contrato
estabelecido dá margem a um excedente de tempo que é apropriado pelo capitalista.
Esse tempo de trabalho a mais se chama "tempo suplementar" e corresponde a um
novo valor, que surge na fórmula do valor da mercadoria como r esíduo do valor
do produto. Marx chamou esse resíduo de mais-valia. Assim, se C ' é o valor da
mercadoria, então C ' = c + v + p, em que e é a soma de dinheiro investida em
meios de produção, v é a soma de dinheiro investida em força de trabalho e p é o
único valor original que brota desse processo pela ação da força de trabalho cm
um tempo suplcmentar 20 .
Assim como a mais-valia, denotada por p, é o resíduo obtido da força de
trabalho do operário, o objeto a como mais-de-gozar é o resíduo de um trabalho
de simbolização. Temos, então , que tanto a quanto p se referem ao resíduo obtido
de um trabalho, o que permitiu a Lacan inferir que o objeto a, como mais-dc­
gozar, é a mais -valia da economia psíquica. De fato o é, pois representa o excedente
da força pulsional não assimilado no trabalho de simbolização, ou ainda o resíduo
de gozo interditado pela linguagem para que o sujeito possa advir.
Lacan estabeleceu essa relação entre mais-valia e mais-de-gozar para, a partir do
discurso do mestre, responsável pela constituição do excesso, mostrar como o mais­
dc-gozar participa da economia de cada um dos discursos. No discurso do mestre, o
significante mestre, ao se dirigir para o saber como meio de gozo, opera uma clivagem
entre ele e o sujeito, produzindo um "excesso". Esse excesso, resultante do trabalho de
simbolização, não tem, nesse discurso, qualquer relação com a verdade:

significante mestre � saber


verdade gozo

19 LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: m ais ainda ( 1 972-3). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1 996, p. 1 27.
'" MARX, Karl . E/ capital ( 1 867). México: Fondo de Cultura Econômica, 1 980, p. 1 6 1 .

84 Saber, verdade e gozo


E nqua nto no discurso do mestre temos o significante mestre no lugar daquele
se faz agir, no discurso da histérica existe um sujeito desejante indagando
a q u em
os ·ignificantc mestre sobre seu gozo.

des ejo Outro


verdade p erda

To dav ia a impossibilidade de obter resposta está na própria maneira de lançar a


pergunta, m antendo-se o enigma. Como mostrou Lacan, o interessante para Dora não
era O gozo do Outro - tanto que o recusou quando obteve -, mas o saber como meio
de goz o. Pode-se dizer que, no discurso da histérica, o mais-de-gozar faz com que
qu al quer um , homem ou mullier, entre no movimento em busca do saber, razão pela
qual a experiência analítica institui a histerização do discurso , fundamentada pelo desejo
de saber agenciado pelo mais-de-gozar, isto é, pelo gozo do puro movimento.
Para Lacan , ao buscar um saber sobre a verdade, Freud instituiu um novo
discurso, o do analista. Com esse discurso, fez uma revolução na prática analítica,
ao mostrar que ela se funda na repetição, sendo que, cm cada repetição, o objeto a
aparece como mais-de-gozar. No lugar do agente, ou seja , daquele a quem se faz
agir, o mais-de-gozar interpela o sujeito do inconsciente.
Como essa interpelação é sustentada pelo saber no lugar da verdade, dela deve
resultar a produção do significante mestre pelo sujeito dividido. A separação entre o
significante mestre e o saber impede o acesso à verdade que regra o gozo, qualquer que
seja ela. Assim , no discurso do analista , o que advém do saber no lugar da verdade só se
sustenta mediante um scrnidizcr. Lacan evidenciou que o saber abordado no discurso
freudiano difere do conhecimento instintivo do animal sobre como se comportar diante
de um out ro, seja de sua espécie ou não. Também difere do conhecimento e da
rep resentação, tão cara aos filósofos. O saber de que se trata na experiência analítica é
0 sab er com
o meio de gozo, para fazê-lo .servir à verdade da condição do sujeito.
Em O seminár io, livro 1 1: os qua tro con cei tos da psicanális c2 1 , Lacan considerara que o
analista deve
ocupar o lugar do sujeito suposto saber. Em O se minário, liv ro 1 7: o avesso
da psica naL1s c,
entretanto , afirmou que o saber como meio de gozo não pode ser
s posto
� ao analista, o que significa dizer que a fórmula "sujeito suposto saber" não
dIZ re sp eit
o ao analista , que não sabe nada do mais-de-gozar do outro. É à medida

,,LA C A N , Jacques. O seminário, livro l i : os quatro conceitos fundamentais d a psicanálise. Rio de Janeiro :
Jorge Zahar
Edit or, 1979.

lacan
e o objeto a 85
que demanda uma fala - "Fale, fale qualquer coisa, fale tudo que lhe ocorrer" -
que o analista institui o analisando como sujeito suposto saber, e é daí que ele
poderá advir como analista: "É lá onde estava o mais-de-gozar, o gozar do outro,
'. .
que eu, a' med 1'da que profiiro o ato anal1t.J.co, devo advir"2l

As seqüências de Fibonacci e o número áureo


Para Lacan, o objeto a como mais-de-gozar é a energia que põe em movimento a
fala. Para mostrar a estreita articulação entre o mais-de-gozar, a inscrição da primei­
ra marca do falante e a repetição, lançou mão da matemática, cm particular a seqüência
de Fibonacci e o número áureo, e, para evidenciar a articulação entre o mais-de ­
gozar e a causa de desejo, colheu na aritmética a relação entre esses dois conceitos.
O número áureo ou razão áurea , conhecido desde os pitagóricos do séc. V
a. C., é , para grande surpresa dos matemáticos , o limite da seqüência de Fibonacci,
descrita em 1 202 no LJber Abad [livro de cálculo] de Leonardo de Pisa. Essa seqüência se
inicia com o número 1, chamado de primeiro termo. O segundo termo, 1 novamente,
é obtido da relação de identidade 1 = 1. Da soma, obtém-se o terceiro termo. Daí,
extraem-se os dois últimos (a segunda parcela e o resultado), que devem ser somados,
pondo sempre o número maior na segunda parcela, e obtém-se o quarto termo .
Repete-se o mesmo processo para obter o termo seguinte, e assim sucessivamente:

1= 1
1 + 1=2
1 + 2 = 3
2 + 3 =5
3 + 5 = 8
5 + 8 = 13
8 + 13 = 21
1 3 + 2 1 = 34

22 LACAN, Jacqucs. O seminário, /irra 17: o a rcsso da psicanálisc. Op. cit. , p. 50.
Obtém -se, assim, a seqüência 1 2 3 5 8 1 3 2 1 34 5 5 89 144. . .

formalmente, a seqüência de Fibonacci associa a cada número natural ri wn a .


Ao O (zero), associa 1 ; ao 1, valendo-se da identidade, associa 1 e, a partir daí, pa;a
cada n � 2, associa an, de for_ma que a n+ I = ªn- l + a n.
A fórmula que possibilita a formação da seqüência de Fibonacci expressa wna
l ei de recorrência de segunda ordem • Ao dividir cada termo da seqüência de Fibo­
23

na cci pelo termo seguinte, forma-se uma nova seqüência de números, defmida pm :
:2 4

Seus termos são:

2 3 5 8 13 21 34
2 3 5 8 13 21 34 55

Cada termo da seqüência de Fibonacci pode ser expresso em uma expressão


decimal :
0, 5 0,666... 0,6 0,62 5 0,6 15... 0,6 19... 0,6 17... 0,6 1 8 ...

Foi por essa seqüência que Lacan se interessou para abordar o objeto a como mais­
de-gozar. Há, na obtenção de cada termo, a repetição de wn número anterior, mas cm
outra posição (o denominador de qualquer termo da seqüência é o numerador do
termo seguinte) e, conseqüentemente, a produção de wn termo diferente do anterior.
Note que os termos dessa seqüência oscilam, pois o segundo termo é menor
que o pr imeiro, o terceiro, maior que o segundo, o quarto, menor que o terceiro
e assim por diante. A seqüência, portanto, não é crescente nem d ecrescente.

" Defimr uma seqüência por recorrência, ou recursivamente, consiste em defini-la por intcr-
rn édio de uma regra que permita calcular qualquer termo da seqüência cm função dos anteces­
sores im ediatos, como fez Leonardo de Pisa. Uma recorrência é dita de segunda ordem se cada
ter rno da seqüência é expresso em função dos dois antecessores imediatos. Nesse caso, para que
a seqüência fique bem determinada, é necessário o estabelecimento dos dois primeiros termos.
''
Escolhi p ara o desenvolvimento deste trabalho a seqüência obtida p ela divisão do antecedente
P lo co ns eq üente, cuja expressão é dada por u/ u. + , • considerada p or Lacan no capítulo "Os
e
sulcos da
aleto sfcra" de O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise, e não a expressa p or ele um p ouco
ab aixo, no
mesmo parágrafo.
Contudo a cada termo que se avança a diferença para o anterior se torna menor e
se aproxima de um número irracional : 0, 6 1 80 3 3 989... Estudando o comporta­
mento dessa seqüência, tem-se que a di ferença entre a0 e 0 , 6 1 8 ... é arbitrariamente
pequena para um n suficientemente grande. Isso significa que o limite da seqüência
de Fibonacci é 0, 6 1 8 .. .
Vejamos agora a relação entre a seqüência de Fibonacci e a razão áurea. Pri­
meiro, é importante ressaltar que os termos da seqüência de Fibonacci são frações
comuns que podem ser expressas em frações unitárias:

1 +1 1
1 + T+T 1 + 1 + -------
1 +
1
+ --
1 + 1

Para definir o número áureo ou razão áurea, tomemos um segmento de


extremos A e B:

A c B
a b

Diz-se que um ponto C desse segmento o divide em média e extrema razão se:

AC CB
AB AC

Para AC = a e C B = b, pode-se escrever a relação anterior do seguinte mod o:

a b
a +b a

A razão - é conhecida como razão áurea ou número áureo, e daí segue que
b
a
a = b2 + ah.
2

Dividindo cada termo da igualdade por a e fazendo m resulta q ue


2
b
= --;;- ,
m2 + m = 1.
O btém-se, a partir daí, uma equação do 2 º grau com duas raízes, uma negativa
e ou tra positiva. Como m > O, a solução encontrada é:

-V S - 1 b
m = -- :'.: 0,6 1 8 . . . � --;- = 0,6 1 8... ,
2

co nc l uindo-se então que o número áureo é, surpreendentemente, o limite da


seq ü ê ncia de Fibonacci.
Se O segmento considerado for unitário e a for um ponto interior desse seg-
mento , tem -se que:
1 =a
---
a+ 1

Como veremos, a presença de a cm ambas as razões possibilitou a Lacan pensar


0 objeto a como causa e efeito, isto é, como causa de desejo e como mais-de-gozar.

O resto em p sicanálise, a seqüência de Fibonacci


/ I
e o numero aureo
Segundo Lacan, a cada operação de divisão do sujeito faz-se necessário que um
resto seja largado, caia como "resto caduco", como evidencia o engajamento do
falante em seus enguiças, em suas confusões e em seus csquecimentos25 • Pode-se
dizer, com ele, que a revolução freudiana está na descoberta de que "isso cai", e
não na de que "isso gira"26 • Dizer que "isso cai" implica admitir a constituição de
uma perda ocorrida com a divisão do sujeito e a formação de uma cadeia significante
incompleta, insuficiente, fazendo com que "isso cai" se apresente, após a queda,
como "isso gira". Pelo movimento da repetição, constitui-se um motor que faz
fala r. Para abordar a perda pela via energética, evidenciando a relação entre
repetição, gozo e traço unário, Lacan se valeu da seqüência de Fibonacci.
Vimos como, a partir de uma seqüência dada, pode-se engendrar uma nova
se qüência,
expressa em frações unitárias, dividindo o termo antecedente pelo
conse qüen
te. Para obter o primeiro termo da seqüência, associa-se ao O o número
1 ' q ue tam
bém pode ser escrito na forma de uma fração unitária, 1 / 1.

t> LA CA N, Jacques . u O scmmano


. , . . , . ,, .
16 , livro 1 0: a angustia . Op. c1t.
L AC AN, Jacques. O seminário, /irro 20: mais ainda. Op. cit. , p. 5 9 .
Foi no primeiro termo da seqüência de Fibonacci e cm sua lei de formação
que Lacan encontrou as chaves para sustentar que o advento do sujeito implica a
extração de uma marca, concebida por Freud cm "Psicologia de grupo e análise
do ego"27 como traço único, elemento mínimo da identificação primeira com o
outro, da relação mais precoce entre o eu e o outro, cm que o cu toma do objeto
amado apenas um traço. Para Lacan, o fundamental na inscrição desse traço é que
ela se faz não só a partir de uma identificação imaginária, mas também de uma
operação simbólica, que consiste na marcação de um "um" . Como afirmou cm
"O seminário, livro 10: a angústia" , não existe separação temporal entre a articu­
lação do sujeito ao outro e ao Outro. Ambos os registros, imaginário e simbólico,
iniciam sua constituição ao mesmo tempo, pois no momento em que o bebê se
apreende na experiência inaugural de reconhecimento no espelho, busca no adulto,
que representa o Outro, al guma forma de assentimento dessa experiência.
O modo de formação da seqüência de Fibonacci impede que ela seja finita, posto
que pode ser obtida a partir da repetição do primeiro termo e de uma lei de recorrência
que faz com que a correspondência entre o conjunto dos números naturais e o conjunto
dos números reais seja um a um. A seqüência de Fibonacci é, portanto, infinita e
enumerável. Recorrendo à relação entre o modo de formação da seqüência e sua
caracterização como infinita e enumerável, pode-se entender a afirmação lacaniana de
que o traço unário nunca está só, mas arrasta consigo "um enxame de significantesm8 •
Ao dar ao traço unário o estatuto de significante e situá-lo antes do sujeito, no
Outro, em um paralelo com a afirmação de que "no começo era o verbo", Lacan
ressaltou que, ao arranjar-se com esse verbo, o sujeito nada mais faz que arranjar­
se com o real. Mas se esse é o caminho pelo qual todos têm de passar para se
fazerem sujeitos, então é no traço unário "que tem origem tudo que interessa a
nós, como analistas'r.19, e isso não implica ficar preso nas artimanhas da origem do
sujeito, do mesmo modo que, na seqüência de Fibonacci, não importam os dois
primeiros termos da seqüência, uma vez que todas as seqüências obtidas pela
mesma lei de recorrência convergem para um mesmo número, o número áureo.
Tomando a seqüência de Fibonacci dada na forma de frações unitárias e as consi­
derações lacanianas contidas em "Os sulcos da aletosfcra", de O seminário, livro 17: o avesl'O da

FR EUD, Sigrnund. "Psicologia de grupo e análise do ego" ( 192 1). Em: Obras completas, v ol.
27

XVIII. Op. cit .


18
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o arcsso da psicanálise. Op. cit . , p. 143.
19
Ihid . , p. 44.

90 Saber, verdade e gozo


sicanálisc, pode-se entender a relação entre o traço unário e a repetição. Lacan considerou
: barra O sinal de divisão do sujeito e estabeleceu que, sobre ela, tem-se o traço unário,
1 (primeiro termo da seqüência), e, sob ela, a adjunção do a com a primeira repetição
do 1 . Dessa forma, a seqüência assim obtida pode ser reescrita como :

J + 1
a+ a+ a + --------
a+ 1
a+ a+
a+ 1
a+
a+ 1

Para obter cada termo da seqüência, repete-se a mesma lei, mas a repetição
não engendra o m esmo termo, e sim termos distintos, que se afastam do primeiro
para se aproximar do número áureo. Do mesmo modo que cada termo da seqüência
de Fibonacci é obtido a par tir de um outro, que é obtido de outro, o sujeito
advém do Outro, ou seja, é no Outro que ele colhe os significantes com os quais
poderá advir e forma uma cadeia .
A noção de tykhé permitiu a Lacan conceituar a compulsão de que Freud falara
como repetição com diferença. Mas como entender essa repetição diferencial no
falante? Assim como, por uma lei de recorrência de segunda ordem, obtém-se a
seqüência de Fibonacci, em que os termos são distintos um do outro, por uma lei
de formação (a castração) que se repete insistentemente como mau encontro,
novos significantes poderão fazer parte da cadeia que constitui cada falante. A partir
daí, pode-se dizer que a marca da singularidade do sujeito não é dada especifica­
mente por seus significantes, que podem ser substituídos, mas pelo mais-de-gozar,
que expressa na repetição a forma com que cada falante se assujeita à lei da castração
e assim escolhe e ordena suas cadeias significantes.
Das especificidades da seqüência de Fibonacci, Lacan pôde depreender que
não imp
or ta a origem, a divisão original, mas a existência desse ato que deixa
co mo
marca o traço unário, o primeiro significante, o ser marcado como "um" do
'.lual to dos procedemos. Basta uma Única repetição para o advento do sujeito e sua
�nscrição no cngcndramento do automatismo da repetição. Lacan recorreu à razão
aurca de · ' · para estab e1 eccr as re 1açocs · · eo
um segmento un1tano - entre o SUJCito
O utro e entr
e a causa de desejo e o mais -de-gozar :

o
a
Como vimos, um ponto a desse segmento o divide cm média e extrema razão
ou razao aurca se:
- 1

1
--- =a
a+ 1

O a é chamado número áureo e corresponde ao número irracional O,6 1 8 . . .


Para Lacan, o a da segunda razão (após o sinal da igualdade) é o efeito da divisão
do sujeito. Mas se existe efeito, existe causa: o a da primeira razão (antes do sinal de
igualdade). Do mesmo modo que o número áureo expressa sua infinitudc e
imprecisão, o objeto a, como efeito da linguagem, manifesta-se como falta-a -ser,
falta nunca preenchida. Por conseguinte, a proporção áurea de um segmento unitário
perrrúte entender a relação entre causa de desejo e mais-de-gozar, já que é pelo
efeito do discurso, o mais-de-gozar, que o sujeito pode reconhecer a causa de seu
desejo, o a da primeira razão. Além disso, a marca do 1, que também aparece nessa
razão, confronta "a adjunção da causa com a primeira repetição do l '80 .
Se, em "O seminário, livro 10: a angústia", Lacan considerara a angústia como
afeto e situara sua função entre o desejo e o gozo, no capítulo "Os sulcos da alctos­
fera" de O semin ário, livro 1 7: o avesso da p si canáli se, tomou a proporção áurea como imagem
do afeto para evidenciar a relação da causa de desejo com o mais-de-gozar. Ao
continuar a divisão do segmento unitário em média e extrema razão, obtém-se
uma seqüência infinita de divisões que indica como o número áureo subsiste à
mesma. Por ser um número irracional, pode ser representado por uma fração
contínua infinita 3 1 :

a+
a+

a+ -
a+

JO Ibid . , P· 1 49.
l i U m número real tem representação e m fração contínua infinita s e , e somente s e , e l e é u [Tl

número irracional.

92 Saber, verdade e gozo


Essa f ação que evidencia a subsistência do número áureo à divisão do segmento
r

unitario permite entender que o sujeito não é causa de si mesmo, mas traz consigo
0 g er me da
causa que ira cindi-lo novamente : a repetição de um encontro faltoso.
E m O seminário, livro 20: mais, ainda, Lacan articulou causa e gozo ao afirmar que 0
si g nifi cante é causa tanto material quanto final do gozo, pois sua inscrição cm uma
cad eia acar reta a interdição do gozo absoluto. Todavia se, por um lado, ocorre a
i n terdição do gozo pleno, por outro, surge um novo tipo de gozo, um bônus,
provocado pela inscrição do significante na cadeia .
Pode-se extrair da articulação entre os seminários abordados um deslocamento
no discurso lacaniano, da fórmula "O desejo do homem é o desejo do Outro" -
q ua ndo Lacan tomou o a como letra que cai do simbólico no real - para a fórmula
"O saber é o gozo do Outro" - quando afirmou que, em cada divisão do sujeito, o
a retor na, por meio da repetição, como mais-de-gozar. Esse deslocamento, análogo
ao freudiano, introduzido com a repetição em "Além do princípio de prazer",
mostra a existência de uma falta real e originária sofrida pelo vivente ao ser atin­
gido pela pulsão, o que faz dele um ser sexuado e mortal.
Essa é a falta presente não apenas na causa de desejo, mas em seu efeito, o
mais-de-gozar. Ao realizar uma subversão, deslocando "isso gira", e gira cm uma
cadeia significante, para "isso cai", e cai porque, como excesso, atinge o sujeito de
forma traumática, o que Lacan ressaltou foi a direção da experiência analítica,
oferecida por Freud a partir do conceito de pulsão de morte.
P A R T E IV

O lugar do Pai
O lugar do Pai
Elisabeth Freitas

[ . . . J dele não temos mais informações, exceto as oriundas


dos livros sagrados e as tradições escritas dos judeus.
Sigmund Freud, "Moisés e o monoteísmo"

A contraditória e problemática questão do pai é o ponto crucial da psicanálise,


pois marca seu destino entre ciência, filosofia e religião, permanecendo "eterna­
mente não- resolvida" 1 • Em busca de uma resposta à pergunta "O que é o pai?",
Erik Porge 2 seguiu os passos de Freud: do pai sedutor, passando pelo de "Uma
criança é espancada"3 , ao pai da horda primitiva. Segundo Porge, se Freud afirmara
a presença do pai na constituição da realidade psíquica, Lacan, ao retomá-lo, intro­
duziu o termo Nome-do-Pai e, ao tratar dessa questão em O seminário, livro 1 7: o avesso
da psicanálise, abordou o que, segundo ele, eram as três versões freudianas do pai:
Édipo, pai da horda primitiva e Moisés.
É "Moisés e o monoteísmo'* que fornece a chave das duas outras versões do
pai, pois se o Édipo e o pai da horda surgiram sob a forma de mitos, o texto sobre
Moisés foi uma criação que vinculou o pai à escrita, na qual Freud trata da invenção
da escrita do povo hebreu na construção do monoteísmo judaico para demonstrar
ª sobrevivência do lugar do pai como texto. Retomemos, portanto, as quatro
formas de Freud abordar a escrita psíquica, assim como aquela estabelecida por
Lacan para enodar a letra da obra freudiana5 .

1
LACAN , Jacques. O seminário, livro 4: a relação de objeto ( 1 956-7). Rio de Janeiro: Jorge
Zahar
Edito r, 1 995, p. 38 3 .

: P ORGE , Erik. Os nomes do Pai. Rio de Janeiro : Companhia de Freud , 1 998, p. 7 .


� REUD, Sigmund . "Uma criança é espancada" ( 1 9 1 9). Em : Obras completas, vai. XVII . Buenos
Aires: Amorr
ortu, 1 994.
: :RE UD, Sigmund. "Moisés e o monoteísmo" ( 1 9 3 9). Em: Obras completas, vai. XXIII. Op. cit.
.
A letra da obra de
Freud é uma obra escrita" (LACAN, Jacques. "O seminário, livro 1 8: de
urn discurso que não
seria do semblante" ( 1 970- 1 ). Inédito, aula 1 O, de 1 6 de junho de 1 97 1 ) .

95
Primeira : os textos mctapsicológicos (impressão de traços mnésicos ou escri ta
psíquica), que exigem o recurso à escrita cm forma de esquemas e diagramas para
substituir o aparelho neuronal de "Projeto para uma psicologia científica'" pela di ­
mensão tópica espacial do aparelho psíquico. Há cm Freud um recalcado irred u­
tível, um impossível a saber, ou melhor, não há anterioridade do saber inconsciente .
Segunda : a escrita dos mitos (Édipo e o pai da horda), que servem para dar
corpo ao pai, isto é, para indicar a noção de pai como referente ou "operador
simbólico a -histórico"7 •
Terceira : o texto "Moisés e o monoteísmo", que ocupa o lugar intrínseco do
pai como resultado de operações com a escrita . Para Freud, a deformação [Entst cllung]
de um texto tem duplo sentido: mudar a aparência e transferir, assemelhando -se
as lacunas , contradições e repetições nele encontradas a um assassinato .
Quar ta : o estilo freudiano de escrita manuscrita gó tica (cuja origem é oriental)
sobre grandes folhas de papel. Como afirmou Lacan, "a letra da obra de Freud é
uma obra escrita'>II, tendo sido o próprio Freud quem afirmou que "o escritor se
sente como um pai em relação à sua obra'19 •
Pode-se dizer que essas quatro escritas freudianas têm por condição o apaga­
mento do objeto do qual se originam. No mito primordial do pai mor to, a questão
da voz, como forma do desejo . do Outro e do nome impronunciávcl de Deus,
herdeira do grito do pai da horda assassinado pelos filhos , indica o lugar vazio,
essência do ponto velado referido ao enodamento do pai à pulsão. É essa a condição
do gozo que está no centro das questões freudianas, ou melhor, "não há outro
meio de aceder a esse vazio central da Coisa senão representá-lo, colocando um
dado objeto nesse lugar vazio através de um ato criador"'º.
Quinta: a elaboração lacaniana das escritas de Freud por meio da escrita borro­
meana, que exclui o sentido e enoda o aparelho psíquico, o pai e a imago Dei . A retirada
do campo místico-religioso do termo que funda o pai simbólico, isto é, que faz de
Deus o nome, ou Nome-do-Pai, reconfigura-o no nível de uma metáfora paterna.

6
FREUD, Sigm und. "Projeto para uma psicologia científica" ( 1 895). Em: Obras completas, vol. J .
Op. cit.
7
DÔR, Joel. O Pai e sua função em psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 99 1 , p. 1 3 .
8
LACAN, Jacques . "O seminário, livro 1 8 : de um discurso que não seria do semblante" . Op- cit,
9
FREUD, Sigmund. "Uma lembrança da infância de Leonardo da Vinci" ( 1 9 1 0) . Em : Qbf3S
completas, vol . XI. Buenos Aires: Amorrortu, 1 994, p. 1 1 3 .
'º JULIEN, Philippe. O estranho gozo do próximo. Rio d e Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 996, P· 1 l l -

0
96 Saber, verdade e go1-
C om o se escreve o pai cm Freud e cm Lacan? Suas respostas para a função do pai
r utura s ã o diferentes . Ao passo que Freud ar ticulou as figuras míticas na ten­
na c, s·t
. de con struir uma origem, Urvatcr [pai primcvo], que aponta para o Urvcrdriingt
tatl',,"
originário] ou a falta de significante significada pelo recalcamento, Lacan
[re cal q ue
a passagem do mito para a estrutura de linguagem a fim de substituir a
opcro u
rnctajJsi co logia freudiana, isto é, articular a estrutura dos diferentes mitos do pai
por Freud como metáforas, criando a metáfora do Nome-do-Pai . Em
com· tru ídos
as psi cos cs 1 1 , fez emergir três significantes que determinam sua trans-
0 scmin,írio, Jil'l'o 3:
rnis são : o Outr o, o Nome-do-Pai e a foraclusão. A redução do pai ao significante
Nome -do-Pai indica que as três versões freudianas do pai - Édipo, pai da horda e
Moi sés têm como condição de unificação a invenção do Outro (A), lugar de exceção .
Em Freud, é o texto "Moisés e o monoteísmo" que ordena a escrita psíquica
inconsciente, forma o sujeito e indica um originário que, para Lacan, é irremediavelmente
furad o. O pai de Freud, Moisés, ocupa esse lugar de exceção ou ponto de impossível, pois
indica o furo da não-relação sexual, que não se inscreve, ma� funciona como recurso
necessário para sua escritura. Logo, por meio da escrita de um texto, Freud constrói um
lugar contra a ameaça do absurdo e da morte, o lugar do pai, ou melhor, o Deus Moisés
como "o mesmo Deus de Akenaton, um Deus que seria Um"1 2 •
Na transmissão de Lacan, a trilogia paterna, ou os três registros enodados do
pai, foi pensada por meio da metáfora do Nome-do- Pai, que difere do materna da
metáfora pertinente às formações do inconsciente ou à lógica do processo primário
de "Instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud'� 3 • Nesse texto, a
metáfora como elemento da lógica do significante se escreve da seguinte forma:
f (S') S = S (+s)
s
A segunda escrita da metáfora, formulada em "De uma questão preliminar a
todo tratamento possível da psicose" 14 , aplica-se
à metáfora do Nome-do-Pai ou
rnetáfor a com o símbolo ou sintoma. Consoante
essa nova escrita, a Vcrwerfung [fo-

" LACAN , Jacgues . O seminário, li1TO 3: as psicoses ( 1 95 5-6). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 985 .
11
LAC,AN, Jacgues. O seminário, hro
_ 17: o avesso da psicanálise ( 1 969-70). Rio de Janeiro : Jorge Zahar
Ed itor, 1 99 2 , p. 1 09.
" LACAN, Jacgues. "Instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud" ( 1 957). Em:
º
Escritos R 10
· d e Jane1ro: Jorge Zahar Editor 1 998.
'
14
LACAN , Jacgues. . "De uma guestao · ·
- pre 1 1mmar a todo tratamento poss1vel da psicose" ( 1 958).
E rn.. Escritos.
.
Op. cit.

0 Jugar d P
o ,ai
97
raclusão] freudiana é indicada pela foraclusão do Nome-do-Pai, ou seja, este se
refere, por ausência, à significação simbólica do Falo, foracluído nas psicoses .

Nome d o Pai
De sejo da mãe
Desejo da m ãe
Nome do Pai
Nome do Pai (
----A
Phallus

Em "A significação do falo" 1 5 , o Nome-do Pai como falo significante é repre­


sentado por suplência de sua ausência ou impossibilidade, assim como sua foraclusão
na origem das psicoses, pois o sujeito da falta como seu fato significante produz
sintomaticamente a singularidade da metáfora paterna. Em 1 96 3 , Lacan empregaria
uma única vez o termo nãos-do-Pai [les nons -du-pere ], substituído em O seminário, liv ro
1 1: os qua tro con ceitos fundamentais da psi can álise, no qual a questão dos N ornes-do-Pai passa
a demarcar a singularidade de seu ensino. Após várias referências aos três registros
do pai, Lacan passaria a indicar, nos seminários "Les non-dupes errent"1 6 e "R. S . l." 1 7 ,
a conceituação dos nomes ou versões do Pai referidos borromeanamente a R, S e I :
pai real, pai simbólico e pai imaginário.

Pai simbólico
"O pai simbólico é impensável. Ele não está em lugar algum, ele não intervém em
nenhum lugarm s . Nome-do-Pai é o significante do pai morto, ou melhor, a inscrição,
no simbólico, da falta de significante do gozo. Embora seja um significante impro­
nunciável, sua operação se produz a cada vez que um nome próprio é promrnciado.
O sujeito, portanto, entra na ordem simbólica por meio da inscrição de um nome
no lugar vazio do Outro, autorizando a existência do sistema significante. É a
invenção do pai morto como interditor do gozo que funciona como estrutura
mítica no texto freudiano, em que o Deus Yahvé do monoteísmo diz: "Eu sou
aquele que sou", ou seja, é desse lugar que se origina a fala ou, segundo Lacan, que
o eu 1/e] pode advir.
Assim, o que funcionará como pai para um sujeito não é o genitor, que não
ocupa lugar no psiquismo, mas sim o significante do pai morto do tempo mítico
freudiano. Como Lacan afirmou, em Oseminário, livro 3: as psi coses, "antes que houvess e

15 LACAN, Jacques. "A significação do fal o" (195 8). Em : Escritos. Op. cit.
16
LACAN , Jacques . "Le Séminaire, Livre XXI: Les non-dupes errent" (1973-4) . Inédit o.
17
LACAN , Jacques . "O seminário, livro 2 2 : R .S.I." (1975) . Inédito.
18
LACAN, Jacques . O seminário, livro 4: a relação de objeto (1956-7). Rio de Janeiro: Jorge zahar
Editor, 1995.

98 Saber, verdade e gozo


_.....til
0 N o me-do-Pai, não havia pai, havia todas as espécies de outras coisas [... ] antes que
0 te rm
o pai se tenha instituído num cer to registro, historicamente não havia pai"1 9 •
Para a criança, o pai é instaurado pela mãe como nome cm um lugar terceiro,
ois algo lhe falta, e será a par tir desse ato que se fundará a autoridade do pai, pois
� a pa rtir do vazio que se marca o Nome-do-Pai: "O Nome-do-Pai redobra o lugar
do Outro, o significante do ternário simbólico, que constitui a lei do significante'to.
Logo, o pai simbólico é o que não pode faltar e, como dado irredutível, indica o
lugar da cx -sistência do pai, instaurando o lugar do pai simbólico na estrutura .

• • 1 •

Pai 1magmano
A partir do lugar terceiro instaurado pela mãe, ou o significante do Nome-do-Pai
que não é representável, a criança constrói, na saída do Édipo, um pai imaginário
todo-poderoso, um Deus. Esse pai imaginário tomado como mestre, como herói,
constitui a primeira identificação do ideal do eu, e será essa operação de recobri­
mento da falha real do simbólico pelo imaginário que dará lugar à organização
neurótica da personalidade: "não se coloca a questão do Édipo se não houver pai ;
inversamente, falar de Édipo é introduzir como essencial a função do pai '� 1 •

Pai real
Sob o véu do pai imaginário, o pai real, para além do mito de Édipo, funciona
como um operador estrutural. Em Freud, o pai real é o pai morto por assassinato,
isto é, tem como metáforas tanto o pai da horda quanto Moisés, o egípcio. O pai real
é também o real do pai, ou melhor, é aquele que faz da mulher a causa de seu desejo ;
logo, não é nem o pai da realidade nem o genitor. Não se demonstra nem se transmite,
e só é alcançado como o impossível a saber sobre a verdade da paternidade.
Como pai real, sua presença surge inevitavelmente para o filho a partir do mo­
mento cm que assume a consistência de seu desejo diante do desejo da mãe. Ao se
�onfrontar com a castração, a criança entra em um momento de incer teza pela
instância pa terna,
. "e e' isso
· - do pai· real como 1mposs1ve
que a afirmaçao · ' l esta' des-
tinada a m
ascarar" • Se o real surge do que é impossível no simbólico , a noção de pai
22

:: LACAN, Jacques. O seminário, livro 3: as psicoses. Op. cit. , p. 344.


LACAN, Jacques. "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose" ( 1 958) .
Ern , Escritos. Op. cit. , p. 584 .
:: LACAN, Jacques. Le Séminaire, Uvre V: Lcs formations de l'inconscien t ( 1 957-8). Paris: Seuil, 1 998.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p.
1 1 7.

0 111
ga� do Pai 99
real é cientificamente insustentável : "Eis o que permite articular o que verídicamente
corresponde à castração, [ ... ] o pai é aquele que não sabe nada da verdade"2 3 .
Assim, o pai imaginário é uma fantasia sem a qual nenhum pai real receberia
a investidura do pai simbólico. Dito de outro modo, o pai real é a impossibilidade
como tal; o pai simbólico, o silêncio como impossibilidade ; e o pai imaginário,
a promessa que declina a impossibilidade como possibilidade. Porque a posição
do pai real como impossível nos escapa, Freud operacionalizou a necessidade da
escrita enigmática de Moisés que aponta para a letra como sendo um nome sem
pai, pois "ela faz borda ; ela é corte da origem paterna do nome, pois que ela é
fundadora, sendo como letra princípio paterno" 4 .
2

Lacan criou sua última escrita com as letras R, S e I, o nó borromeano, neces­


sário para que a dimensão do sentido seja resposta do real. É essa escrita que torna
possível entrelaçar uma estrutura sem pai, sem outro, sem sujeito suposto saber,
sem princípio de exterioridade transcendental e que não apaga a questão da verdade
do pai real como impossível.
Na aula de 13 de maio de 1975, Lacan anunciou que o nó borromeano seria
chamado de "nó bo" e, na última aula de "O seminário, livro 2 3: o sintoma",
aproximou seu "nó bo" e o monte Nebo. Essa evocação do monte Nebo não nos
faz pensar no monte Sinai, em que Moisés recebeu as tábuas da Lei, mas sim no
lugar onde morreu. A relação entre nebo / noeud Bo alude a um trajeto que vai da
morte do pai primitivo à morte de Moisés, deixando-nos diante da resposta à
questão inicial : "O que é que Moisés, em nome de Deus [foutre nom de Di cu ] - é o
caso de dizer -, tem a ver com Édipo e o pai da horda primitiva? Com certeza
deve existir aí al guma coisa relativa ao conteúdo manifesto e ao conteúdo latente'>25 .
A resposta possível à questão "O que é o pai?" é
que Freud criou o pai Moisés
como escritura de seu sintoma, e que Lacan criou a metáfora do Nome-do-Pai ou o
quarto nó da escritura RSI, como equivalente à função do pai como sintoma : "o pai
é o quarto, sem o qual nada é possível no nó do simbólico, do imaginário, do real'�
6
-

21 Ibid . , p. 1 2 2 .
24 JULIEN, Philippe. "L'origine de la triade lacaniennc", Étudcs freudiennes, n. 33, p. 74. Cf. Lacan
(Lc Séminaire, forc XXll- R.S.l. (1 974-5). Paris: Le Graphe, 1 975): "enquanto seria ncccssaria para
aquilo do que se trata, a saber, o enodamento do imaginario, do simbólico e do real, essa função suple­
mentar, cm suma, de um toro a mais, cuja consistência deveria ser referida à função dita do Pai"·
2 5 LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o arcsso da psicanálisc. Op. cit. , p. 1 1 0. Em 1 3 de novembro
"
de 1 979, no seminario sobre a dissolução, Lacan afirmaria que "o nó borromeano é urn enigrnª
26
LACAN, Jacques. Lc Séminaire, Lirrc XXII: R.S.l. Op. cit.
J\_cerca da lei e seu estatuto
Cândida Regina Machado da Costa

Pretendo desenvolver, a partir de meu trabalho no Hospital de Custódia e Tratamento


Psiquiátrico Heitor Carrilho (antigo Manicômio Judiciário), uma reflexão sobre a lei
no campo da psicanálise e no estatuto jurídico. Iniciarei com alguns trechos de uma
reunião do grupo operativo, coordenado por mim e pela psicóloga Eliana Fadei.
Paciente A : "Doutora, depois que vocês vão embora, depois que fecham as
cortinas, o que manda é a lei da prisão, lá nas galerias é outra coisa. Pergunto: uma
lei por fora da lei?".
Paciente B [transferido ao Heitor Carrilho para avaliação psiquiátrica, compa­
rando o hospital ao presídio): "Isso aqui é a maior moleza, vocês não sabem o que
é a lei na prisão: se o preso cuspir no chão, apanha; se mexer nas coisas dos outros,
morre; se for estuprador, morre; se xingar, morre. Rola o maior respeito".
Paciente C [alcoolizado, dormiu com o cigarro aceso, ocasionando um incêndio,
e o locador do imóvel o processou por incêndio criminoso. Submetido a exame
pericial, constatou-se dependência de álcool e foi decretada medida de segurança
pelo período de um ano): "Eu estive um tempo na prisão e não quero nem saber
dessa lei. A liás, eu tomo o maior cuidado pra não pegar as gírias da prisão , o meu
lugar é lá fora, não era nem pra cu estar aqui".
Paciente X: "Não aceito a lei, esses policiais são todos uns corruptos, violentos.
Quer saber? São mais bandidos que os próprios bandidos, não 'tô nem aí pra lei" .
Intervenho: "E como é possível? Enquanto você disser que não está nem aí,
que não quer saber da lei, vai continuar encontrando a lei da pior forma possível".
S gue- se uma discussão sobre a corrupção no judiciário, a perseguição aos que

tem antece
dentes criminais, o descaso com os presos, a violência da polícia e os
�rim es dos políticos, ao fim da qual diz a psicóloga: " Engraçado vocês dizerem
lsso , bem
_ que vocês precisam de lei, porque dizem que não aceitam a lei, mas
criam. as 1 . .'
·
ei· s de voccs . O paciente
A " Y rcspon d e: "Q uan do cu c hcguc1,· a 1 e1 J3 estava ".
A "lei da prisão" existe não somente nas prisões do Brasil, como demonstrado por
Dr o
�� Varella em Estação Carandiru, mas também cm outros países. Presos por força da lei
jUrídic
a, os detentos criam suas próprias leis de convívio, ferozes e cruéis. Embalam a
crença ingênua, sustentada pelo discurso social, de que os presídios estão fora da
sociedade, quando na verdade são lugares sociais criados e refinados pela sociedade .
Interrogo aqui a contribuição da psicanálise para a compreensão da emergência
da lei e os motivos pelos quais a tradição ocidental desenvolveu um código escrito
ao qual se submete de forma tão radical. A escritura detém o poder de destituir
tudo que não é escrito : assinar uma confissão falaz tem valor de prova de crime,
ainda que posteriormente o acusado ne gue tê-lo cometido. Assim , a instituição
criada pela escritura adquire um peso impossível de ignorar quando se pensa os
atos delituosos: os criminosos mais sofisticados delinqüem na própria letra da lei
e, talvez exatamente por isso, dificilmente o texto da lei os alcança.
Tomei como base O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise, particularmente o capítulo
"A feroz ignorância de Yahvé", que traz preciosas contribuições a esse tema difícil,
marcando a interrogação do ser falante diante do incognoscível, do real , do eni gma
que é a vida . Essa interrogação põe em jogo a dimensão da palavra e a função do
escrito, já que não há sujeito fora da estrutura : o significante é o que representa o
sujeito para outro significante. Outra via importante indicada nesse capítulo é a
própria dimensão da palavra escrita, à qual o povo judeu se "curvou" e que ina�gurou
a tradição ocidental do estatuto jurídico da lei.
Abordarei, portanto, a lei e sua emergência como fatos de estrutura, condicionada
pela linguagem e pelas leis da linguagem incidindo no real, tendo a escrita como efeito.

A feroz ignorância de Yahvé


Lacan iniciou esse capítulo confessando profunda ignorância, ou seja, interrogando o
saber portado pela escrita hebraica. Em seguida, questionou a posição sustentada
por Freud cm "Moisés e o monoteísmo"', ao apoiar sua letra na teoria de Ernst
Sellin sobre um Moisés assassinado.
O que teria levado Freud a adotar a distorção promovida por Sellin no texto
hebraico? 2 Não foi a primeira vez que Freud defendeu teses "equivocadas" : em sua
longa transferência com Fliess, partilhara da concepção delirante da sexualidade
ligada ao nariz. Ora, Sellin foi o primeiro arqueólogo a trabalhar em sítios arqueo­
lógicos da Terra Santa, e há nessa passagem, portanto, uma tentativa de situar a
psicanálise no campo da ciência e a busca freudiana de apoio no mestre.

1
FREUD, Sigmund. "Moisés e o monoteísmo: três ensaios" ( 1939) . Em: Obras comp/et;Js, vol .
XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
2
Cujos motivos, segundo Lacan , não foram inconscientes.
Freud era um pioneiro, questionando e confrontando os outros campos da ciência
com uma metodologia robusta - e nesse sentido, estava em uma posição de mestre.
Co mo situou o pai, esse nó em que se deteve, e por que se deteve nele? Tratou dessa
tcmatica pela via do mito, do complexo de Édipo e de '"Totem e tabu" : a interdição do
3

interdição do incesto. Para dizer dessa interdição fundante, o recalque, lançou


gozo é a
rnão do mito. Em sua obra, o pai real não está explicitado, mas articulado como pai
imag inario, figura feroz: "o pai real, se é cabível restituí-lo a partir de Freud, articula-se
propriamente com o que só concerne ao pai imaginaria, a saber, a interdição do gozo .
>4

Sobre o p ai real
Passemos ao tema da emergência do discurso do mestre, tentando articulá -lo ao
real, esse ato inicial que opera um corte feroz e ignora tudo que não é de sua
ordem. Na tradição judaica, Yavhé é dessa ordem de ignorância radical que, falando
ao povo hebreu, instaura uma nova ordem e exige ruptura absoluta com todas as
crenças e todo o saber que não sejam de sua letra.
Para Lacan, esse corte deve ser definido como da ordem dos efeitos da linguagem:
Falava há pouco da ignorância. Para ser um pai, quero dizer, não só um pai real,
mas um pai do real, existem coisas que é preciso ignorar ferozmente. Seria pre­
ciso, de certa maneira, ignorar tudo o que não seja aquilo [... ]. Como o nível da
estrutura, devendo este ser definido como da ordem dos efeitos da linguagem' .

É assim que esse Deus sem nome e sem imagem se apresenta: "Sou Iahweh,
teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão". A entrega do Decálogo a
Moisés é dramática: "Os elementos visuais juntam-se aos elementos auditivos e
alcançam seu ápice no diálogo de Deus com Moisés''6. "É um diálogo singular, p elo
qual o trovão é identificado à voz de Yahvé, que fala a Moisés. O povo se mantém
irnóv el, no sopé da montanha, contemplando e escutando, trêmulo de medo'j].
,
E nessa cena exuberante que Moisés recebe as tábuas da Lei. Firma-se um pacto
[bcri t] não somente falado, mas escrito: um documento de aliança.
Yah vé não admite r ivais. V árias passagens do Antigo T estamento mostram sua
.
ira crn rel
ação aos adoradores de Baal : "Disse o Senhor a Moisés : toma todas as

FRE UD, Sigmund. "Totem e tabu" ( 1 9 1 3). Em: Obras completas, vai. XII. Op. cit.
1

' LACAN, Jacques . O seminário, lfrro 17: o avesso da psicanálise ( 1 969- 70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1 992.
' lbid. , p. 1 27.
Êxod o 1 9 , 1 9 .
6

GA RCIA LOPEZ, Félix. O Decálogo. São Paulo: Paulus, 1 995.


cabeças do povo e enforca-as ao Senhor ao ar livre, e a ardente ira do Senhor se
retirará de Israel''!!. Moisés não recebe tratamento distinto : autoritário e senho­
rial, Yahvé se dirige a toda Israel, ou seja, a todos e a nenhum em particular. É uma
operação de corte (recalque) que abre um discurso (do mestre):
Simplesmente porque houve Yahvé, e porque um certo discurso foi inaugurado,
discurso que trato de isolar éste ano como o avesso do discurso psicanalítico , a
saber, o discurso do mestre. Precisamente não sabemos mais nada.9

É preciso ressaltar que Yahvé apresentou a lei escrita porque os homens não a
liam em seus corações, onde sempre estivera. Tem-se, então, exigindo leitura,
uma lei sem palavra, o que cria uma impossibilidade: como ter acesso à palavra
antes da incidência da linguagem ?
Em " Les noms d u pere" 1 0 , Lacan situou o real : "Desse aí, pode-se dizer que um
Deus, isso se encontra no real". Trata-se de um instigante contraponto ao mito : a
estrutura. Se a temática do pai foi apresentada como um sonho de Freud, Lacan,
lendo-o como formação, ressaltou a operação de linguagem como condição para
o inconsciente. Aquilo que é do real, inacessível como pura manifestação da matéria
viva, terá de se articular, a partir da incidência da linguagem, de significante a signi­
ficante (o que supõe um sujeito) na obtenção de um gozo: mais-de-gozar, em
Lacan; mais-valia, em Marx.
Esse corte, essa operação que inaugura o inconsciente, é aquilo que Freud
denominara castração e articulara míticamente ao pai, partindo de sua prática
clínica e de sua própria experiência do inconsciente. Freud, que não deixara de
perceber a íntima conexão estabelecida por seus pacientes entre a sexualidade e a
dupla parental, construiu, a partir dela, o complexo de Édipo. Nesses relatos, viu
ser segregado um objeto especialíssimo, em torno do qual a criança, menino ou
menina, buscaria a via da sexuação e organizaria uma teoria sexual : o falo. O falo
é, assim, um operador Único para os dois sexos. Em seu retorno a Freud, Laca n
situou o falo não como objeto, mas como significante - um operador lógico para
ambos os sexos. O que é do real se articula de significante a significante com o
objetivo de obter um gozo, a partir da incidência da linguagem. Como a linguagem
é uma operação de corte (castração) que ignora tudo o que não é de sua ordem,
não há saber sobre o sexo pelo simples fato de que não há mais objeto do insti nto.

8
Números 25,4.
• LACAN, Jacques. O seminário, li,ro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit.
'° LACAN, Jacques. "Los nombres dei padre", aula 20 novicmbre 1 963. RD Ediciones Elctronica5-
f; perante a castração, esse buraco do real, esse deus sem nome e sem imagem,
ai real, que não pára de não se escrcver1 1 , que se ordena o discurso do mestre.
0 p
() q u e não pára de não se escrever é o real, o incognoscível, o impossível, o que
n ã o pode ser representado ; é, enfim, a vida como fenômeno. O inconsciente, que
;i r a de não se escrever e abre toda uma tradição dirigida à posteridade e à
12

�ad ci a das gerações, situa o pai simbólico. O que não pára de se escrever é conse­
ia da incidência da alingua, da insistência de sentido, o que supõe um sujeito.
q üên c
Es sa operação situará o gozo como futuro. O que se imaginariza, que não pára de
s e cs crc vcr , forjando as imagens mais tenebrosas da fúria, da incidência do buraco
13

d o real, situa o pai imaginário, e fala da captação imaginária operada pelo sentido,
pela imagem. Essa mitologia do pai, portador do falo, é uma construção do discurso.
Em "Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia'� 4 , ao tratar
dos crimes determinados pelo supereu, Lacan afirmou :
Se nossa experiência com psicopatas nos conduziu à dobradiça entre a natureza
e a cultura, descobrimos nela essa instância cega, essa instância obscura, cega e
tirânica [ . . . J [queJ nos revela sua aparição em um estágio tão precoce que parece
contemporâneo, e às vezes até anterior, à aparição do cu. 1 5

Essa instância, que em Freud era a identificação a o pai anterior a toda carga de objeto, é
exatamente o supcreu: "O supcreu é imperativo de gozo - ' Goza!"1 6 •
A fúria da palavra inaugural, que ignora ferozmente qualquer saber sobre a
origem que não seja seu nome impronunciável e sem imagem - YHVH -, f az da letra
sua lei . Pela incidência das leis de linguagem, o surgimento do sujeito é ético, porém
há nesse percurso uma perversão, um descaminho, uma pére version que o direciona
da linguagem à escritura (os dez mandamentos) . Nesse sentido, o pai real é interdição,
mas porta um paradoxo : é ao mesmo tempo proibição e mandamento de gozo .
A linguagem aponta um gozo a ser alcançado, e por isso lin agem é trabalho.
Em vários momentos de seus seminários, Lacan prometeu nunca mais falar
gu

dos Nomes-do-Pai. Ele operou um corte radical, dirigindo a interrogação da psi­


canális e do mito à estrutura, das narrativas míticas ao campo do gozo e à função

" LACAN, Ja cques. O seminário, livro 20: m ais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 992.
" lbid. , p. 1 26.
" lbid . , p. 1 27.
" LACAN , Ja cques. "Introdução t eórica às funções da psicanálise em criminologia"
( 1 95 0) .
Ern : Escritos. Madr i: Siglo Veintiuno , 1 989.
15
lbid.
16
LACAN , Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Op. cit.
do buraco do real, a castração. A investida topológica, tomando como referencial
o campo da matemática, particularmente o nó borromeano, leva a interrogação
lacaniana fundamentalmente ao campo do real. Em Freud e a judeidadc , Bctty Fuks
demonstra a implicação da tradição judaica no est atuto jurídico ocidental:
A idéia de um Deus não subsumido ao conhecido, ao familiar, instaurou um
vazio em torno do qual o judaísmo se estruturou, obrigando o povo ao esforço
de manter-se voltado para o incognoscível. Freud reconhece que a força desmi­
tologizante do segundo mandamento operou uma mudança radical na concepção
do homem sobre o universo e que a ciência seria descendente direta das idéias de
Moisés, pois concerne à leitura do que se encontra para além do visível . 1 7

Esse corte instaura o discurso do mestre, discurso da ciência jurídica, que não
pode deixar de se articular com a lei da estrutura. A abertura do campo da ciência
jurídica exclui o sujeito e, portanto, sua possibilidade de implicação, vale dizer,
sua responsabilidade. A tradição judaica mostra claramente esse encaminhamento
da lei jurídica a partir da lei mosaica. O povo judeu, que não construiu nenhum
grande império, nenhuma civilização, manteve sua tradição, sua identidade como
nação, totalmente ligada ao Decálogo e à Torah, ou seja, à escritura. A obediência
a Yahvé, descrita cm todo o Pentateuco como de uma ferocidade ímpar, retorna,
nesse processo de repressão secundária, social, nos vários momentos de perseguição
aos judeus. O que não é pouco, já que o próprio Cristo , filho dessa tradição,
introduziu uma nova ordem: mais uma vez, o retorno do recalcado.
A consolidação do cristianismo se fez com a mesma fúria implacável. Durante
a Idade Média, não parou de se escrever essa imaginarização da lei do pai terrível,
operada com crueldade desmedida e tendo como conseqüência o surgimento do
direito canônico, cm cuja tradição estamos inscritos: "Não se quer ver que a Justiça
está sempre no lugar do mito fundador e que a lógica interv ém aqui cegamente
para intimidar cada um a representar seu papel"1 8 •
Isso que não pára de não se escrever prolifera, exigindo o inconsciente, operação
de parar de não se escrever que solicita leitura na articulação de significante a
significante, cm que só é possível um sujeito advir : operação específica da psicanálise
e única possibilidade de implicação e responsabilidade do sujeito por seus atos.
Mas traz também a operação imaginária, de ordenação moral, que não pára de se
escrever, e a cada momento solicita novas leis, novas ordens, na vã tentativa de
implicar um sujeito desde sempre excluído.

17
FUKS, Betty Bernardo. Frcud c ajudcidadc: a rocação do cxílio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000 .
18 LEGENDRE, Pierre. O amor do censor. Rio de Janeiro: Forense, 1983.

1 06 Saber, verdade e gozo


Do mito social ao mito individual
I •
do neurot1co
Ângela de Fátima Vieira Bueno

Em O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise1 , Lacan afirmou que iria retomar o projeto
freudiano pelo avesso. Com esse intuito, propôs-se a distinguir o que está em
qu estão na estrutura necessária para a arquitetura de quatro discursos por meio dos
qu ais o laço social é estabelecido. Esses discursos foram denominados por ele
como o discurso do mestre (DM) , discurso da histérica (DH) , discurso do universitário (DU) e o
discurso analítico (DA). Essa estrutura ultrapassa em muito a palavra, uma vez que esta
advém da relação de um significante (S) com outro significante (S ) . Da relação
2
entre S1 e S2 emerge o sujeito ($) e dessa emergência resulta um resto (a). Estão
portanto aí designados os quatro elementos que compõem esses quatro discursos,
quais sejam: S 1 , S 2 , $ e a. Esses elementos se organizam articulados em quatro
lugares localizados acima e abaixo, à direita ou, acima e abaixo, à esquerda. Esses
lugares são designados como os espaços determinados para o agente, a verdade, o
outro e a produção .
A localização dos lugares acima designados toma o seu valor por um jogo no
funcionamento que possibilita a essas letras (S 1 , S2 , $ e a) ocuparem tais espaços de
medo equivalente. O que quer dizer isso? Quer dizer que os lugares acima descritos
são fix os, podendo todavia ser ocupados por qualquer uma das letras, que poderão
circular entre esses diferentes espaços. A o funcionarem nesses diferentes lugares,
essas letras passam a desempenhar a função que o lugar lhes confere, ou seja: de
agente, de verda
de, de outro ou de produção, em um determinado discurso. E desse
arranJ· o , d ·c
essa trama, do texto dessas 1etras , func10nan
· do nesses duerentes 1ugares,
que advê m os quatro discursos.
Es se modo de funcionamento permite afirmar que são equivalentes ou con­
gr u ente s
nos diferentes discursos ,·

1
l�CAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise ( 1 969-70) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar .
Editor, 1 992.

1 07
• no lugar do agente: DU(S) OH ($) DM(S ) :::: DA(a)
• no lugar da verdade: DU(S ) DH(a) D M(Z) :::: DA(S 2 )
• no lugar do Outro: D U (a) :::: DH(S I) DM(S 2 ) :::: DA($)
• no lugar da produção: OU ($) :::: DH(S) DM(a) :::: DA(S I)

É o lugar da verdade que, apesar de se situar sob a barra, impulsiona o discurso,


uma vez que é o não-saber sobre a verdade, presente em todos os discursos, que
promove a busca de um saber sobre a verdade subjetiva. Nesse sentido, pode-se
dizer que a lógica freudiana do recalque está presente nos discursos propostos por
Lacan, já que verdade, enquanto recalcada, insiste e comparece em um lugar "de
ordem", "de mandamento" em todos os diferentes discursos.
Para falar do lugar da verdade, Lacan retomou os mitos freudianos do pai da horda,
de Moisés e o complexo de Édipo. Esses três mitos têm como ponto comum o fato de
tratarem do assassinato do pai. Os dois primeiros tratam das conseqüências de tal ato,
enquanto fundante de uma lei social. E o complexo de Édipo é a metáfora freudiana
para abordar a inscrição da castração, lei simbólica, no psiquismo de cada indivíduo.
Por que Lacan se utilizou do mito para falar da verdade? É porque ele afirmou
que, por sua lei interna, a verdade só pode ser enunciada por um semidízer. E como o
mito se apresenta como um enigma, isto é, uma pergunta perigosa e mortal que
exige uma resposta, é ele o que melhor encarna a verdade. A verdade tem, portanto,
a mesma estrutura de um mito.
O que é um mito? Qual a função dos mitos na sociedade? Qual a função
psíquica do mito?
Este trabalho é uma elaboração das possíveis respostas para essas questões.

"Faz muito tempo . . . ": o mito social e


as teorias sexuais infantis
Em "A estrutura dos mitos"2 , Lévi-Strauss definiu tanto a função quanto a estrutura
dos mitos, fa zendo inclusive uma análise do mito de Édipo, afirmando que seus
estudos o haviam conduzido a constatações contraditórias. Em um mito, tu do
pode acontecer, pois a sucessão de acontecimentos não está aí sujeita a nenhu ma
regra de lógica ou de contigüidade, o que torna toda relação concebível possível .
Apesar de serem aparentemente arbitrários, no entanto, os mitos se reproduze m

2
LEVI-STRAUSS , Claude. "A estrutura dos mitos" ( 1 944-56). Em : Antropologia estrutural, vol . 7 .
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1 991 .
mesmos caracteres e detalhes nas diferentes regiões do mundo, o que faz
c o!l1 05
eles t enham o mesmo caráter de objeto absoluto, que garante sua trans­
co m q ue
rni ss ão cm qualquer lín gua, a despeito da pior tradução, uma vez que seu valor,
sua s ubstância, está na história narrada.
Na busca de compreender em o mito, alguns antropólogos sustentam que cada

so ci edade exprime neles seus sentimentos fundamentais comuns a toda a humani­


da d e - amor, ódio, vingança -, enquanto outros afirmam serem os mitos uma
t e ntativa de explicação dos fenômenos de difícil compreensão, tais como os fenô­
rn eno s astronômicos, meteorológicos e outros da mesma ordem.
O mito provém do discurso, é parte integrante da língua na qual ele é formula­
do e é conhecido pela palavra, ou seja, o mito é falado. De acordo com Saussure,
citado por Lévi -Strauss, a língua pertence ao domínio de um tempo reversível, en­
quanto a palavra pertence ao domínio de um tempo irreversível. Tal fato faz com
que o mito , por se situar, ao mesmo tempo, na língua e na palavra, tenha um caráter
de objeto absoluto, e comporte uma estrutura permanente garantindo-lhe um valor
intrínseco, que possibilita estabelecer uma relação simultânea entre o passado, o
pres ente e o futuro, numa atualização de acontecimentos num t empo que é,
simultaneamente, histórico e não-histórico. Para Lévi-Strauss, essa relação de simulta­
neidade, presente no mito, é muito semelhante à ideologia política. Para exemplificar
tal semelhança, ele cita um historiador francês, Michelet, que escreveu a respeito da
revolução francesa, marcando bem que naquele dia tudo era possível, inclusive a
presentificação do futuro em um rasgo de eternidade. Pode-se dizer que o momento
da queda da Bastilha - como em toda revolução, no instante em que é reconhecida
como vitoriosa - demarcou um corte radical com o projeto político anterior, ao
mesmo tempo em que simbolizou uma aposta em um futuro melhor para todo o
povo que acreditava naquela revolução. Naquele momento cabiam todos os sonhos
e to das as utopias de cada cidadão francês, fazendo com que aquele instante parecesse
eterno. É o corte paradi ático que o instante da tomada da Bastilha demarcou que
faz com que, tal qual em um mito, aquele momento presentifique, simultaneamente,
gm

0 presente
, o passado, o futuro e a eternidade.
O mit o, como todo ser lingüístico, é formado de grandes unidades constitutivas
qu e são denominadas de mit cmas . Estes
têm a natureza de um feixe de relações , que
�vi denciam um traço comum, que possibilita o estabelecimento de um sistema que
e, 0 mesmo
ª tempo, sincrônico e diacrônico, reunindo as propriedades da língua
e da pala
vra. É somente sob a forma de combinações de tais feixes que as unidades
consti tu
_ tivas adquirem urna função significante. Para se proceder à análise de um
tnito , Lé · emas seJam
· Strauss propoc
VI- - que os m1t · agrupa dos em co 1unas, separad as
por relações, de acordo com o traço comum que se pretende evidenciar. Cada
coluna comporta um tipo de relação refer ida a esse traço. Todavia as colunas, urna
cm sua relação com as outras, podem evidenciar traços inversos ou antagôn icos.
De modo que uma coluna pode, por exemplo, conter como traço comum as
relações de parentesco depreciadas, enquanto a outra coluna contenha as rela çõe s
de parentesco superestimadas. Vale destacar que esse tipo de análise proposta pelo
autor descarta a busca de uma versão que seja autêntica ou verdadeira de um determina do
mito. Sua proposta é definir o mito pelo conjunto de suas versões, de modo que o mito valha
'
que continue a ter o valor de mito, enquanto for entendido como tal.
Lévi-Strauss, apoiado na formulação freudiana, citou como exemplo ilustrativo
de análise o mito de Édipo e destacou que, nesse mito, o traço comum evidencia do
é a dificuldade para se caminhar ereto. E continuou dizendo que o problema colo­
cado por Freud, em termos edipianos, é que: "se trata sempre de compreender
como um pode nascer de dois : como se dá que não tenhamos um Único genitor,
mas uma mãe, e um pai a mais?"3 •
Essa questão colocada pelo autor sobre o mito de Édipo diz respeito ao enigma
do nascimento e à questão da função do pai . Sobre o enigma do nascimento, Freud,
em seus textos, afirmou que as teorias sexuais infantis são o modo pelo qual cada
criança, uma a uma, tenta responder tanto ao enigma do nascimento (de onde viemos)
quanto ao da morte (para onde vamos). Quando se referiu a "um pai a mais" Lévi­
Strauss não estaria, por um lado, apontando para além da triangulação edípica, uma
vez que é o pai, enquanto função, que transmite a lei da castração, cuja inscrição
simbólica é o passaporte necessário tanto para a determinação da sexualidade quanto
para a inserção social dos indivíduos? E, por outro, essa pergunta não nos remete à
questão para sempre não respondida, para nós analistas, sobre a função paterna?
No mesmo texto, Lévi-Strauss afirmou que os mitólogos sempre se perguntam
por que os mitos e, geralmente, a literatura oral, usam tão freqüentemente a
duplicação, triplicação ou quadruplicação de uma seqüência para contar uma
história. Se, por um lado, o autor destaca a preocupação dos estudiosos a resp eito
da função da repetição na estrutura mítica, por outro, ele responde dizendo ter a repetição
uma função própria que é tornar manifesta a estrutura do mito. Para o autor, todo mito é redu tí vel
a uma fórmula que adquire todo um sentido se levarmos em conta que, para
Freud, são exigidos dois traumas para que nasça o mito individual cm que consis te
uma neurose.

1 Jbid. , p. 250.
Lévi-Strauss concluiu, provisoriamente, que o sentido do mito se deve à
ma n eira pela qual seus elementos se encontram combinados ; que o mito provém
e é parte integrante da li nguagem, ainda que esta, tal como é utilizada no mito,
manifeste propriedades específicas ; e que tais propriedades são mais complexas
ntradas cm uma expressão lingüística qualquer.
que as enco
S empre que se referiu ao mito , tanto cm "O mito individual do neurótico"
uanto nos seminários A relação de objeto e O av esso da p sicaná lise, Lacan utilizou esse
!xto de Lévi-Strauss . Em O seminário, liwo 4, referiu-se ao mito em vários momentos
di sti nto s, sempre r eferidos à passagem da falta de objeto da frustração para a
castra ção . Nesse sentido, ele abordou tanto as teorias sexuais infantis quanto a
i
co nstrução mítica como recurso significante na fobia do pequeno Hans. Em O sem ­
nario, /irra 17, el e utilizou o mito para falar do S 2 , saber que advém no lugar da
verdade, no discurso do analista. Em "O mito individual do neurótico", utilizou a
noção de mito não só para demarcar a posição particular que a psicanálise ocupa
no conjunto das ciências, como também para dizer que "o mito é o que confere
uma fórmula discursiva a qualquer coisa que não pode ser transmitida na definição
da verdade, porque a definição da verdade não pode se apoiar senão em si mesma,
e é enquanto a palavra progride que ela se constitui"4.
Por que a palavra por si só não é suficiente para transmitir a verdade, urna vez
qu e o mito , que é uma narrativa, se utiliza de palavras? É porque uma palavra não
pode apreender a si mesma. É só estruturada como um mito, isto é, como uma
narrativa , que a palavra pode exprimir algo e adquirir valor de verdade subjetiva.
Uma palavra isolada não passa de uma articulação de fonemas determinados que
possuem um significado variável de acordo com o con texto no qual é utilizada.
É pelo fato de ser um só termo ou um só vocábulo que a palavra é insuficiente,
tan to para dizer da verdade quanto para narrar um mito. Para esse fim, ela só terá
ser ven tia se estiver estruturada em uma narrativa, que é uma história, composta
de vár ias palavras, com ao menos um personagem, um enredo, um tempo e um
espaço. Por isso, é só de modo mítico que a palavra pode exprimir a verdade. A pa­
lavra, fora da narrativa oral, não transmite o mito, assim como o significante fora
da cadeia não representa o sujeito.
Em O seminário, livro 4: a relação de objeto, Lacan retomou o mito enquanto uma narrativa
qu e por ta algo de atemporal, tendo cm seu conjunto um caráter de fic ção e podendo ser,
ª0 m esmo tempo, estável e maleável a modificações. Tal caráter inesgotável do

' LACAN, Jacg1.1cs. "O mito indivi<lual <lo neurótico" (1953). Lisboa: Assírio e Alvim , 1980, p. 49.
mito o torna uma espécie de molde que comporta um tipo de verdade relacionada
sempre com os temas da vida e da morte, da existência e da não-existência e do
nascimento, e cm especial, vindo a questionar a relação do homem com uma força
sagrada e secreta, maléfica ou benéfica. O mito se caracteriza também por um a
eficácia ambígua por tratar, ao mesmo tempo, de temas ligados à existência do
sujeito e ao fato de que ele é o sujeito de um sexo, de seu sexo natural. Assim, pa ra
Lacan, a verdade não pode ser separada do mito por ter uma estrutura de ficç ão .
Quando Lacan se refere à eficácia ambígua que caracteriza o mito, pode -se
entender com isso que tal característica está estritamente relacionada ao caráter
inesgotável do mito , que tem como conseqüência que um mesmo mito tenha
diversas versões verdadeiras respondendo e, ao mesmo tempo, não dizendo tudo
sobre o enigma do que é o ser humano. Decorre dessa resposta não toda, na qual
resta sempre algo por dizer, a repetição, que também faz parte da estrutura do
mito. É o mito, enquanto metáfora do enigma do ser, que vai dar ao humano uma
dimensão simbólica que lhe permita situar-se enquanto sujeito de seu sexo natural,
uma vez que nada no ser humano é natural, pois é o simbólico que marca o natural
no humano. Isto é: a natureza sexual do homem é simbólica.
Ao serem decompostos em mitemas, os mitos revelam uma surpreendente
unidade, que permite aproximar as narrativas míticas mais distantes, o que denota
o poder humano de manejar si gnificantes e de ser por estes manejados nos dando
a idéia do peso, da presença da instância significante enquanto tal, uma vez que os
elementos que compõem o mito em si mesmos não si gnificam nada, mas carregam
toda uma série, todo um feixe de si gnificações.
Lacan relacionou todas as teorias sexuais infantis e todas as atividades infantis
que são estruturadas cm torno dessas teorias à noção de mito e evidenciou o valor
dado a essas teorias por Freud. Segundo ele, tal valor se deve ao fato de que essas
teorias dizem respeito a toda atividade de pesquisa da criança cm relação à sua
atividade sexual e concernem ao conjunto do seu corpo, motivando todos os seus
temas afetivos, fazendo com que a criança venha a dirigir seus afetos ou afeiçõ es
de acordo com as linhas mestras de sua imagem. Isso faz com que as teorias sexu ais
infantis ultrapassem tudo aquilo que é considerado como uma atividade meram ent e
intelectual.
Em O seminário, livro 1 7, Lacan afirmou que, ao se analisar os mitcmas, que são
grupos contraditórios entre si, percebe-se a impossibilidade de colocar ess es
diferentes grupos em relação. Ele então deixa de lado o que Lévi -Strauss escreveu
e substitui essa contradição pela afirmação de que duas relações contraditóri as,
uma vez que cada uma delas é contraditória em si mesma, são idênticas. O que se
nessa afirmação é que a verdade não pode ser separada do mito, uma vez
sUS te n ta
� uc esta só pode ser enunciada, tal qual ele, por um semidizer. E se, como propõ e
l
L{ \' i - Strauss, cada versão do mito tem valor de verdade, a verdade do sujeito, que
quanto S 2 , no discurso do analista, é dessa mesma ordem.
adv ém en

A fantasia enquanto mito : a verdade de cada suj eito


Para Lacan, no discurso do analista, o que advém enquanto saber (S2 ) no lugar da
ve rdade é o mito, que é um saber do sujeito sobre si mesmo. Esse mito individual,
cm seu conteúdo manifesto, são as histórias relatadas pelos analisandos, e em seu
conte údo latente, é o saber que resulta da interpretação e que advém no lugar de S 1 •
Para falar do lugar da verdade, ele retomou os mitos freudianos de Édipo, de
Moisés e do pai da Horda. Com eles, Freud abordara wna questão que, segundo
Lacan, perpassa toda a sua obra como um ponto central e fecundo em torno do
qual toda a sua pesquisa se orientou: o que é ser um pai? Essa questão está formulada
no centro da experiência analítica como eternamente não resolvida.
Em "Totem e tabu" 5 , Freud criou o mito do assassinato do pai da horda, a
partir da hipótese de Darwin sobre os símios superiores e dos festivais totêmicos
- que eram festas realizadas, de tempos cm tempos, pelos aborígenes australianos,
nas quais o totem era morto, pranteado e devorado por todos. A hipótese levantada
por Freud nesse texto é de que, nos primórdios, os homens viviam em pequenas
hordas, governadas por um Único macho. Esse macho tinha para si todas as fêmeas
e, à medida que seus filhos machos iam crescendo, eram expulsos da horda e
cria vam hordas semelhantes. Um dia, os filhos se revoltaram contra esse pai e o
assassinaram. A seguir, percebendo a impossibilidade de um deles vir a ocupar o
lugar do pai morto, sob o risco de se exterminarem, criaram uma comunidade
fraterna. Nessa comunidade, a lei do pai morto, sob a égide da culpa filial, passou
ª vigorar com maior força, tendo como conseqüência os dois tabus fundamentais
do totemismo: n ã o matar o totem, uma vez que o totem era o substituto do pai ; e n ã o
ter rela ções sexuais in ces tuosas. Para Freud, era nos festivais totêmicos, repetição desse
ato ao mesmo tempo memorável e criminoso, que repousava o início de toda a
organização social, das restrições morais e da religião. Essas duas l eis vivas, n ão

matar e a p roi bi ção d o in cest o, são, portanto, anteriores aos mandamentos divinos que
nos foram legados por Moisés. As leis sociais existem para coibir tudo aquilo que

' F RE UD, Sigmund . "Totem e tabu"(l 912). Em : Obras completas, vol. XIII. Rio de Janeiro: Imago,
1980 .

113
Do rn·Ito
social a o mito individual d o neurótico
os homens desejam fazer. A lei, ao mesmo tempo que interdita, funda o des ej o,
fazendo com que não haja lei sem desejo e nem desejo sem lei.
A fraternidade social, que surge como decorrência do assassinato do pai da hor d�
e da impossibilidade de um dos irmãos vir a ocupar o seu lugar, funda-se no recalque �
sexualidade e da agressividade. E, como o recalcado sempre volta, não é à toa que Lac an
ressalta todo o esforço que gastamos para provar que somos irmãos . Se ser m os
irmãos implica tal dispêndio de energia, isso prova que não o somos, e qu e a
segregação está na origem da frater nidade. Todos os grupos sociais se baseiam na
segregação e se fundam na exclusão dos outros gr upos.
No texto "Moisés e o monoteísmo", Freud fez um paralelo entre o que acontece
com o povo judeu e com outros povos, explicando que a tradição, que sempre
comporta um certo esquecimento, exerce um poderoso efeito sobre a vida mental
dos povos. Ele afirmou que é nas tradições que vamos encontrar as heranças mais
arcaicas, recalcadas, que nos são transmitidas e que ressurgem posteriormente.
Foi baseado na idéia da evolução que Freud postulou tanto a existência de uma
pré-história da raça humana, que é esquecida, desconhecida, quanto ressaltou que é
esse desconhecimento (sempre presente na história da raça humana) o que se transmite.
Ainda nesse mesmo texto, Freud reafirmou que o totcmismo foi a primeira
forma de religião humana que, posteriormente, foi se desenvolvendo até a passagem
para a humanização, primeiro dos deuses que, com a introdução do judaísmo e
com sua continuação no cristianismo, tor naram-se um deus-pai-único. Freud
ressaltou, todavia, a existência de uma lacuna entre a legislação de Moisés, que é
o mensageiro dos mandamentos divinos, e a religião judaica posterior.
A história de Moisés é contada baseada na versão do historiador Scllin, que
diz que Moisés acabou sendo assassinado por seu povo. Esse assassinato não foi
registrado por escrito e ficou conhecido somente nos meios sacerdotais. Para Freud,
esse assassinato é uma repetição do assassinato do pai primevo, que ficou esquecido, e que, cm vez
de ter sido recordado pelo povo judaico, foi repetido, por meio de uma atuação .
Não proponho discutir se Moisés morreu assassinado ou não, pois ente nd o
que o que se mantém em jogo cm toda religião continua sendo o que Freud
recorta da importância de S. Paulo apóstolo para a religião cristã. São Paulo liga
a culpa ao pecado original, crime cometido contra Deus e que foi expiado pela
morte de seu filho Jesus, que é também assassinado, sem culpa, pelos roma n os.
Eu diria que, se os romanos não se culparam por essa morte, as religiões, d e
qualquer forma, encarregaram-se de transmitir uma culpa tão grande que, aliada
à ne urose, faz grandes estragos e traz grandes sofrimentos à vida humana até os
nossos dias.

1 14 Saher, verdade e gozo


No que se r efere ao mito de Édipo, Freud tomou emprestado o mito de Sófocles
ª ra fa
lar do que vem a ser o principal acontecimento da vida sexual infantil, que
P
primeira infância. Desde a "Car ta 7 1" a Flicss, Freud já fazia alusão ao
o co rre na ,
v
u c i ria ser a sua teoria do Complexo de Edipo. Posteriormente, ele desenvolveu
; t e ori a de que, na mais tenra infância, toda criança tem como primeiro objeto de
e sco lha sexual seu progenitor de sexo oposto, desenvolvendo uma relação de
ri va lizaçã o com o progenitor de seu mesmo sexo . Esse complexo ocorre simulta-
ncam cnt c ao complexo de castração, numa mesma cunhagem, e ambos ficam
esquecidos. E pela resolução do complexo de Edipo que se organiza o psiquismo
, '

d e t odo o ser humano, fato determinante para a futura inserção social de toda
cria nça, que tem conseqüências em toda a sua vida posterior de adulto.
Lacan se referiu ao complexo de Édipo sob a forma da metáfora paterna, que
vem a ser a organizadora psíquica que vai dar uma resolução à tríade imaginária
mãe-criança-falo, na qual o desejo da mãe tem um papel fundamental. É a metáfora
paterna, enquanto inscrevendo simbolicamente a impossibilidade de completude
de todo indivíduo humano, que vai possibilitar ao sujeito sua inscrição enquanto
sujeito do desejo. Essa é a insí gnia do ser humano na estrutura neurótica e na
estrutura perversa, apesar de, na perversão, o sujeito recorrer ao objeto fetiche
para não se haver com o fato do desejo ser da ordem do real e, assim, desmentir a
castração. Na psicose, a metáfora paterna é foracluída. A inscrição ou a foraclusão
dessa metáfora vai determinar a organização estr utural do psiquismo de todo
indivíduo humano de maneira irremediável, uma vez que não existe tratamento
que possibilite a nenhum indivíduo mudar de estrutura psíquica.
No meu entender, esses três mitos retomados por Lacan têm alguns pontos
comuns, quais sejam: a) estarem sempre ligados à exigência de um recalque de
um desejo de origem sexual e da agressividade; b) referirem-se sempre a uma
morte, acompanhada da culpa pelo assassinato de um pai ; c) serem fadados ao
esquecimento. Esse esquecimento vai acompanhar tanto a história pessoal do
indivíduo quanto a história da civilização ; d) terem valor de verdade por estarem
r eferidos a acontecimentos arcaicos da história da humanidade e da origem pessoal
�e todo indivíduo ; e) terem um significado que está para além da própria história,
individual ou social, escrita ou narrada.
A metáfora paterna, como toda metáfora assim o desi gna, é a inscrição simbólica
de uma falta real. No lugar da falta de um significante que diga do seu desejo, o
sujeito neurótico fixa, como um clichê cstereotípico, uma história , que passa a ter
0 valor de sua verdade subjetiva. Tal história, no caso da estrutura neurótica, corres­
ponde à construção de seu mito individual. Lá, no lugar da falta real, que não

D o rn ito s
ocial ao mito individual do neurótico 1 15
pode ser apreendida pela palavra, o mito permite, ao sujeito, imprimir uma fór m ula
discursiva que vale como sua verdade subjetiva. O mito, apreendido como a histór ia ,
como a epopéia do sujeito, permite-lhe exprimir, de forma imaginária, sua histó ria,
referida a seu grupo familiar originário. Tal história se configura, ao mesmo tempo,
como simbólica e como real. Como simbólica, trata-se de toda uma série, de todo
um conjunto de histórias que são passadas ao sujeito por sua tradição oral familiar,
e que se configura pela narração de al guns traços a respeito da união e da relação
dos seus pais, indo refletir, de modo fechado, para o sujeito, a relação inaugural
entre seu pai e sua mãe e ele próprio. Essa relação adquire seu valor de verdade
subjetiva, pela apreensão, subjetiva, que dela teve o sujeito, e não pela maneira
como ela, de fato, ocorreu. Como real, essa história vai dizer respeito ao que e
impossível de se dizer. É em suplência ao que não pode ser transmitido que 0

sujeito constrói o seu mito, a sua fantasia fundamental. Lacan nomeia esses traços
que são transmitidos ao sujeito como pertencentes à sua constelação originária,
naquilo que o simbólico preexiste a ele. Tais traços são, portanto, anteriores ao
seu nascimento e ao seu destino. O palco familiar serve como cenário fantasístico
para a narrativa mítica, ou edípica, de cada indivíduo. Nesse cenário vai se inscrever
toda a sua trama familiar, num tempo que é simultaneamente passado (herança
arcaica recebida pelo sujeito), presente (aqui e agora) e futuro, já que a fantasia
determina, por antecipação, a relação egóica a ser estabelecida pelo sujeito, assim
como a apreensão de sua imagem corporal e as relações de objeto que porventura
ele vier a estabelecer. É a fantasia, naquilo que vela e desvela a falta real, que vai
permitir ao indivíduo se relacionar com seus semelhantes, estabelecendo relações
de objeto a partir de um molde fixado por sua estrutura. A fixação desse molde
fantasístico se impõe enquanto repetição do real, âquê, tal qual os diferentes mitos
abordam o real em jogo na vida humana, no mundo. Por isso Lacan ressalta que é
impossível abordar seriamente a referência freudiana sem fazer intervir, além do
assassinato e do gozo, a dimensão da verdade, que é irmã do gozo. Se a verdade é
irmã do gozo, é porque a fantasia tem o valor de verdade subjetiva e desconheci da
para o sujeito e é, ao mesmo tempo, fonte de sofrimento e gozo . Arrisco dizer que
estão embutidas na fantasia tanto a pulsão de vida quanto a pulsão de morte.
De que somos culpados? Somos culpados da falta real. Essa culpa do real é
deslocada para o pecado nas di ferentes religiões.

1 16 Saber, verdade e gozo


o mestre castrado
Denise Blanc

D es de o início de seus trabalhos, Lacan esteve preocupado com a transmissão da


sica nálise em sua especificidade e rigor. Foi pensando nisso que, em O seminário,
rl'TO / 7: o avessoda psi canáfise, buscou reduzir O discurso ao mínimo OU , COIDO ele mesmo
proclamou , a "um d'1scurso sem palavras" , v1sando a, com l etras e maternas, "res-
1 •

gatar o alcance que a formalização matemática tem em relação ao real" •


2

Para Lacan, o discurso se defme como uma forma de laço social que articula o
cam po do sujeito ao campo do Outro. Cabe ressaltar, no entanto, que em cada dis­
curso existe um único sujeito, e que o outro do discurso não é o outro da realidade, e
sim a maneira como o sujeito em questão percebe, "fantasia" o outro, uma vez que esse
último está no campo do real. Ainda que o discurso ocorra não entre sujeitos, mas em
um mesmo sujeito, não se pode esquecer que sua importância reside em implicar a
referência ao outro: "São os discursos que estruturam o laço social"3 •
Lacan afirmou que o discurso é uma estrutura necessária que, embora suportada
pela linguagem, transcende a palavra. Em sua abordagem , estabeleceu quatro ele­
mentos (termos) na constituição de um discurso: S1 , significante mestre; S2 , saber;
a, mais-de-gozar (resto) ; e $, sujeito barrado, ocupando lugares distintos. A ssim,
"todo e qualquer discurso apresenta uma verdade que o move, sua mola propulsora,
sob r e a qual está assentado um agente, o qual se dirige a um outro, produtor, a fim
de obter deste uma produção''4.
A ordem em que os elementos se apresentam e a forma como se posicionam
mediante o deslocamento de um quarto de volta nos lugares de agente, outro, pro­
d ução e verda de definem cada um dos quatro discursos nomeados por Lacan:

LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise ( 1 969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
1

Editor, 1 992, p. 1 I .
2 OR
J GE, Marco Antonio Coutinho. Sexo e discurso cm Freud e lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1 988, p. 1 54.
1
ME LMAN, Charles. Clínica psicanalítica: artigos e conferências. Salvador: Ágalma / Editora da U FBA,
2000, p. 42 .
' JOR GE, M arco Antonio Coutinho. Sexo e discurso cm Freud e lacan. Op. cit. , p . 1 58 .

Instituto de Psi col ogi a - UFRGS1 1 7


mestre, histérica, analista e univer sitário. É importante lembrar que, ainda que os
elementos ocupem lugares diferentes, a relação entre eles se mantém sempre a
mesma . A partir dessa lógica lacaniana, comentarei a relação entre a histér ica e o
mestre cm contraponto à relação entre o obsessivo e o mestre e, mais especifica­
mente, a relação de ambos com um pai corno mestre .
É a partir do discurso do mestre que o sujeito entra no campo da linguagem e
é nele que surge a fórmula da relação fundamental:

Nessa fórmula, vê-se que o sujeito é representado pelo simbólico, mas está
fora dele. Como um significante é o que representa um sujeito para outro signifi­
cante, e não há nenhum significante que possa representar o sujeito integralmente ,
o que ternos é um sujeito barrado, ou dividido, além de um objeto a que não é
nem pode ser representado sequer parcialmente, posto que não tem representação
alguma e está perdido para sempre.
Tornemos, então, o discurso do mestre. Lacan privilegiou a dominante do
discurso, aquilo que dá o tom, que marca o estilo discursivo. Nesse discur so, o
agente é S 1 , o significante do falo que, embora não surja explicitamente, fala de
urna posição fálica quando um mestre fala, portando a lei que constitui o direito.
Por isso, não há na fala do mestre o sujeito dividido, que está recalcado: o significante
mestre se emite rumo a um saber - "o saber de um indivíduo castrado de seu
gozo, o saber do escravo, o saber do psicanalisando"5 - do outro, a fim de produzir
mais-de-gozar. O discurso do mestre opera por sugestão.
Na primeira rotação do discurso do mestre, tem-se o discurso da histérica.
O outro da histérica é S 1 (dominante do mestre) e, por isso, onde há histérica, há
mestre. O sujeito barrado no lugar do agente é o sintoma e "é cm torno do sintoma
que se situa e se ordena tudo o que é do discurso da histérica'"'. No campo do sujeito
estão a falta radical, $, e a (o real), e a histérica se dirige ao mestre porque acredita qu e
ele tem todas as palavras: S 1 e S 2 (o simbólico). O discurso da histérica visa a "fabricar,
como pode, um homem - um homem que seria movido pelo desejo de saber',i .

; KAUFMANN, Pierre. Dicionário enciclopédico de psicanálise. Rio de Janeiro: J orge Zahar Edito r,
1 996, p. 331.
6
LACAN, Jacques. O seminário, hro 1 7: o aresso da psicanálise. Op. cit. , p. 41.
7
Jbi<l. , p. 3 1 .
Embora a histérica se dirija ao mestre pedindo que ele produza um saber

sob re seu sintoma, ela se põe no lugar de objeto a (causa de desejo) , ou seja, ela
sab e q ue nenhum saber produzido pelo mestre dará conta de sua verdade. Assim,
s e O outro responde do lugar de mestre, a histérica o destitui.
No capítulo V I de O seminário, bvro 1 7: o avesso da psicanábsc, intitulado "O mestre cas­
trado", Lacan disse que anunciaria "algo novo , é que o significante mestre , ao ser emitido
na di reção dos meios do gozo que são aquilo que se chama o saber, não só induz, mas
determin a a castração" , e o que demonstra isso com mais clareza é o discurso da
8

histérica, que revela a relação do mestre com o saber, já que, em seu discurso, esse
saber surge como gozo. A histérica "tem o mérito de manter na instituição discursiva a
pergunta sobre o que vem a ser a relação sexual, ou seja, de como um sujeito pode
sustentá-la ou, melhor dizendo, não pode sustentá -la'':1. No entanto, apesar de não se
deixar enganar pelo mestre, ela permanece solidária a ele, tentando inclusive sustentar
seu lugar de mestria, da mesma forma como se relaciona com o pai, sempre idealizado.
A histérica é "afetada pela impotência do pai [... ] mas só há impotência por
comparação com um ideal de potência"1 0 • Assim , a histérica é aquela que desafia o
mestre para destituí-lo, pois não é o gozo do outro que ela quer, e sim o saber
como meio de gozo para dar suporte à verdade de que o mestre é castrado. Dessa
for ma, o discurso da histérica é aquele que conduz ao saber de que a linguagem
não dá conta do gozo e , portanto, sempre haverá algo que falta, um r esto.
O pai desempenha papel central na histeria: o de mestre. Sob o ângulo de
potência da criação , esse pai sustenta sua posição em relação à mulher, ocupando
a posição de pai idealiz ado. Na histeria, a função paterna se realiza com o movimento
que oscila do ser ao ter o falo , e é nesse intervalo que podem ser registrados os
pontos determinantes de sua organização. Trata-se de querer "conquistar o atributo
do qual o sujeito se considera injustamente desprovido"1 1 •
No sujeito histérico, a dinâmica do desejo acontece no nível do ter e, portanto,
.
Junto ao outro
, que supostamente o possui. Por isso, como assinala Dor, "uma
rnulher histérica vai se identificar, de bom grado, com uma outra mulher, desde
que essa última saiba se apresentar como alguém que não tem o falo, mas contudo
pode desejá-lo num outro" 1 2 • Foi justamente essa a particularidade que Lacan

M fbid . , p. 83.
' lbid . , p. 87.
:� KAU FMANN, Pierre. Dicionário cnciclopédico dc psicanálisc. Op. cit. , p. 249.
D OR, Joel. O pai e sua função cm psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 99 1 , p. 69.
"
l hid. ' p. 69.
observou no caso Dora: ela se identificava amorosamente com a Senhora K. e a
questão que apresentava estava ligada à feminilidade - o que é uma mulher ? B us ­
cando esclarecer essa associação entre o mestre e o pai idealizado da histér ica '
Lacan retomou o caso Dora e citou o texto "Psicologia das massas e anális e do
eu" 1 3 , em que Freud afirmou que o pai é aquele que preside a primeira identificação ,
sendo , por isso, aquele que merece o amor. Afinal , uma das três formas de identi­
ficação com o pai é justamente a de um pai todo-amor.
O pai de Dora era um homem doente, castrado em sua potência sexual , e ela
permanecia junto a ele, amparando-o em sua incapacidade e se portando de man eir a
contemplativa cm relação à Senhora K. , pois acreditava que ela sustentava o des ejo
de seu pai. Em seus sonhos , mais especificamente no segundo, o ponto princ ip al
era o fato de o pai simbólico ser o pai morto , mas ainda assim ocupar o lugar de
dono do saber ou , melhor dizendo , o lugar de mestre. No sonho , o pai está morto,
ou seja, surge como lugar vazio , sem comunicação , d eixando claro que a questão
está além de sua morte: Dora aproveita o fato de todos terem ido ao cemitério
para ler sobre assuntos proibidos , mostrando que para ela a importância do pai
estava diretamente relacionada ao que ele produzia de saber sobre a verdade.
Em nova rotação das letras , encontramos o discurso do analista. Nesse discurso,
a dominante é a falta (o real) , que se traduz pelo silêncio da subjetividade, do
sujeito do analista: ele se apresenta como um cadáver, pois o sujeito que o interessa
é o outro. Ele dá seu lugar ao sujeito do inconsciente e seu discurso é o Único que
favorece a inscrição do desejo , uma vez que só o próprio sujeito pode produzir
saber sobre si mesmo.
Na quarta e última rotação, deparamo-nos com o discurso universitário, consti­
tuído de respostas prontas e fechadas e que visa à universalidade ou, melhor dizendo,
a acabar com a diferença. O discurso universitário consagra a relação de ensino , pois
nele a dominante é o saber que toma o outro como objeto, buscando produzir um
sujeito informado. O que move o universitário é o afã de conquistar o conhecim ento
para repeti-lo acadêmica e rigorosamente, de modo a não permitir questionamentos.
Trata-se de um saber que se sabe, mas pertence a outro e é regido pelo comando do
mestre, já que a mestria do universitário está recalcada. Pode-se observar que, do lado
do sujeito , só há significante (puro falo, embora mesmo este se encontre apagado p elo
saber) e não há furo, pois a falta está toda no campo do Outro.

" FREUD, Sigmund. "Psicologia das massas e análise do cu" ( 1 920). Em: Obras completas, vo l.
XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1 974.

1 20 Saber, verdade e goz0


A partir dessas constatações, podemos pensar em uma equivalência entre o
so universitário e a neurose obsessiva, como fez Roland Chemama cm
d is c ur
"A lgumas reflexões sobre a neurose obsessiva a par tir dos 'quatro discursos 'H.
como o obsessivo, o universitário é um sujeito cheio de enunciados, mas
A s sim
s em e nunciação : ele fala, fala e não se sabe onde está, pois o tom de seu discurso
cJ i<l c o afeto. Diferentemente da histérica, a problemática do obsessivo está na
ord em do ser : serei eu o falo de minha mãe?
Lacan definiu o sujeito obsessivo como aquele que, na infância, sentiu-se forte­
mente amado pela mãe ou, em outras palavras, que teve estatuto de objeto pri­
vileg iado do desejo materno. Isso faz com que se apresente nostálgico de ser esse
obj eto junto ao qual a mãe encontraria o que era suposto esperar do pai. Em razão
da ambigüidade do discurso materno, surgiria na criança um dispositivo de suplência
à satisfação do desejo da mãe, sobre o qual estaria construída a lógica do sujeito
obse ssivo, e tal privilégio despertaria na criança um investimento libidinal precoce:
Assim como o desejo da mãe faz referência à investidura do Pai simbólico, con­
vocando a criança a assumir a castração que daí resulta, igualmente a satisfação
insuficiente desse desejo materno constitui um apelo regressivo à manutenção
da identificação fálica da criança. Daí a "nostalgia" de um retorno ao ser, vivamente
cobiçado, mas nunca plenamente realizado. 1 1

Dessa forma tão própria de inscrição da função paterna resulta a problemática


do obsessivo em relação ao desejo e à lei, gerando inclusive rivalidade e competição
com a fi gura paterna.
Em "História de uma neurose infantil »1 6 , Freud citou um episódio clássico a
propósito da postura do obsessivo :
[ ... ) também à tarde costumava fazer uma ronda por todas as imagens sagradas
penduradas na sala, levando consigo uma cadeira sobre a qual subia para beijar
piamente cada uma delas. O que era totalmente destoante desse cerimonial devoto
- ou, por outro lado, talvez fosse bastante coerente - é que se recordasse de
cer tos pensamentos, determinadas blasfêmias que lhe vinham à cabeça como
uma inspiração do diabo. Era obrigado a pensar "Deus-suíno" ou "Deus-merda". 1 7

CHEMAMA, Roland. "Algumas reflexões sobre a neurose obsessiva a partir dos 'quatro
14

discursos", Revista Lugar, n. 8 . Rio de Janeiro, Rio Sociedade Cultural Ltda. , 1 976.

' D OR, Joel. O pai c sua função cm psicanálisc. O p. cit. , p. 64.
16
FREUD, Sigmund. "História de uma neurose infantil" ( 1 9 1 7) . Em : Obras completas, vol. XVII.
Op. cit.
17
lbid. , p. 3 1 .
Como assinala Leclaire cm Desmascarar o rea/1 8 , esse conjunto de pressões e limites
assedia o sujeito obsessivo, fazendo vigorar o "imperativo da necessidade" e arrastando.
o para o "inferno do dever". Em essência, ele não se dispõe a correr o risco de se
confrontar com seu desejo inconsciente, daí resultando uma passividade masoquista .
O obsessivo apresenta tendência a se constituir como t udo para o outro. Para isso, deve
exercer controle sobre todas as coisas, a fim de que o outro não lhe escape. Na verd ade
,
o obsessivo permanece preso ao temor da castração pois, uma vez que houve inscrição
paterna, ele sabe que o lugar do Pai é impossível de conquistar. Assim, passa toda a vida
convocando o pai para assegurar-lhe o lugar, empenhando-se cm atualizá-lo a cada
instante e a cada ato, mesmo que isso implique uma posição submissa.
A neurose obsessiva consiste na carência de reconhecimento paterno. Para
fazer valer esse reconhecimento , o sujeito obsessivo se obriga a pagar um preço
extraordinariamente alto. Seu drama reside precisamente no fato de que ele tem
o reconhecimento, mas se julga sob o risco permanente de perdê-lo. O reconhe­
cimento lhe foi concedido antecipadamente, como uma espécie de adiantament o :
o pai o reconheceu para fazê-lo representante de seu desejo. A dificuldade é que,
na falta de reconhecimento posterior, o primordial fica ameaçado. Lacan acentuou
que o sujeito obsessivo está atrelado ao jogo petrificador que se estabelece entre o
mestre e o escravo, mostrando-se rigorosamente limitado às normas, às regras e
aos ditames da lei. Ele julga necessário assumir a posição submissa de não ter voz
(desejo), para que ela seja sempre a desse mestre que precisa idolatrar.
Lacan discriminou com precisão as diferenças entre as formas de inscr ição da
função paterna na histeria e na neurose obsessiva e, a par tir dessa distinção, classi ­
ficou a histeria como uma manifestação discursiva. A função paterna no neurótico
histérico é representada pelo outro castrado, sendo não apenas uma ameaça que
assusta, mas também um apelo que seduz e tranqüiliza. A fantasia de castração é
certamente angustiante, mas é a garantia que protege do perigo de experim entar
um gozo sem limites. Na neurose obsessiva, a função paterna é representada pelo
outro da lei : seu papel é proibir e punir severamente o desejo incestuoso. O obses­
sivo teme a lei, mas solicita que ela seja lembrada ininterruptamente, por meio de
ordens, proibições e mesmo castigos.
Por meio da teoria dos quatro discursos, vê-se que, enquanto a histeria mostra
a insuficiência do mestre denunciando sua castração, a neurose obsessiva b usca
defender-se da castração anulando as diferenças, em uma busca incessante de u ni ·

18 LE CLA IRE , Scrgc. Desmascarar o real. Lisboa: A ssírio & A lvim , 1977.

1 22 Saber, verdade e gozo


for mização. O objetivo do sujeito obsessivo é anular a subjetividade, intento nunca
re al izado, posto que, cm toda estrutura neurótica, o pai é a lei, e a lei produz
recalque. Se há retorno do recalcado, é porque o pai é falho, castrado, ou seja,
tan to na histeria quanto na neurose obsessiva o pai está aquém de sua função.
cm sua busca pelo fim da diferença, o sujeito obsessivo termina por preservá­
Assim,
la e m esmo acentuá-la por meio de suas normas particulares .
O discurso histérico é o que se opõe ao discurso universitário em razão de sua
ostura diante do mestre, contestando-o , mostrando onde ele falha. O histérico
p
revela que, embora o mestre produza o saber consumido pelo universitário, tam­
bé m ele não é completo, pois sua forma de saber exclui a dinâmica da verdade .
o histérico se presta, assim, a denunciar sistematicamente a castração do mestre.
Por isso, o discurso histérico é o sintoma do mestre pela produção de um saber:
"O discurso histérico é o retorno do recalcado que é o inconsciente constituído
de significantes mestres. O sujeito do inconsciente, ao interrogar os significantes
mestres, revela o saber desta verdade: o senhor é por função castrado ; a mestria
sobre o corpo é a renúncia ao gozo. Assim, essa interrogação produz os estigmas
dessa castração" 1 9 •
Por fim, a experiência psicanalítica não cansa de demonstrar que, enquanto ao
sujeito histérico tudo falta, ao obsessivo nada falta. O discurso do histérico elide a
falta no campo do outro, enquanto o do obsessivo a elide no campo do sujeito. Em
outras palavras, ao passo que o sujeito histérico ama o outro por julgá-lo completo,
pois é esse saber que lhe garante a possibilidade de um dia também vir a não ser
faltoso, o obsessivo acredita que deve ser amado pelo outro por sua inteireza.
Foram as histéricas que prontamente responderam à regra fundamental da
associação livre, e é por isso que se fala cm histcricização do sujeito: "faz dele um
sujeito a quem se solicita que abandone qualquer rcferência'720 • Foi o que Freud
fez: esc utou o pedido da histérica sobre seu sintoma, mas não respondeu com seu
sab er de mestre/médico, e sim como analista, do lugar de sujeito suposto saber
estab elecido pela transferência , permitindo que da própria histérica emergisse o
sab er sobre sua verdade. O trabalho da análise está ancorado justamente em facilitar
ª0 s uj eito o abandono de suas referências estáticas, passando a produzir significantes
q �e lh e possibilitem associar livremente e ascender ao lugar de autor de sua própria
,
his toria, mes
tre de seu próprio desejo.

" KAUFMANN, Pierre. Dicionário enciclopédico de psicanálise. Op. cit. , p. 250.


'º L
ACAN, J acques. O seminário, lirro 1 7: o aresso da psicanálisc. Op. cit. , p. 32.
PARTE V

Saber e verdade
A dialética hegeliana e o discurso
de Lacan . O paradigma do gozo
di scursivo
Mareia Mello de Lima

Lacan insistiu cm recorrer aos filósofos clássicos no sentido de demonstrar que


eles não podem ser ultrapassados no discurso científico, principalmente Georg
Wilhelm Friedrich Hegel, que conduziu toda sua pesquisa com a paixão de desvelar
que existe um objeto: o saber. A leitura de Fenomenologia do espírito deixa claro que,
nesse percurso, Hegel acreditava que o desenvolvimento dialético do ser se
realizaria como se fosse um êxtase do indivíduo numa identificação ideal com o
saber absoluto. Ele visava à perfeição da Sclbsbewusstsein, a consciência-de-si, pela via da
ideologia do espírito. Definiu o espírito como uma substância ética, viva e efeti va,
porque se trata de uma consciência instituída como razão que julga, uma verdade
que atinge o saber pelo fato de referir-se a uma consciência que tem razão e,
"como boa -consciência, é o espírito certo de si mesmo" 1 • Esse ponto de partida é
contrário à psicanálise, que justamente considera duvidoso entender o saber como
uma totalidade assim fechada, concluída, circunscrita em um absoluto. Apesar da
dissim etria, foi Hegel quem introduziu uma profunda análise crítica da noção de
verdade e o que ela condiciona ao f enômeno da significação do ser.
Para Lacan, "todo mundo é hegeliano sem sabê-lo, pois levamos muito longe
ªide ntificação do homem com seu saber, que é um saber acumulado'72 • No entanto,
não cesso u de
demonstrar que "não há nada em comum entre o sujeito do
Conhe cimento
e o sujeito do significante"3, ou seja, há uma diferença fundamental

1
H E GE L , Georg Wilhclm Friedrich. Fenomenologia do espírito, vol. l i (1807) . Petrópolis: Vo ze s ,
199 2 , p . 10.
' LACAN, Jacques . O seminário, /irra 2: o cu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro:
J orge Zahar Editor, 1985, p. 97.
1
LACAN, Jacques. O seminário, li>ro 17: o a,r:ssodapsiranálisc. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1992, p. 45.

1 25
entre o saber natural da consciência filosófica e o saber do inconsciente formu lad o
por Freud. No primeiro caso, a dialética saber-verdade acontece como se fos se
um fluxo contínuo do ser todo consciente no processamento da razão corn 0
objetivo de atingir o ideal. O aspecto crucial da teorização é que ela faz operar a
consciência e o espírito na função de duplo especular, cm face da idealiz ação
imaginária que cerca ambos os conceitos. Ao passo que, no campo freudiano, a
atribuição de saber é proveniente da identificação do sujeito com um traço unário4,
einzigcr Zug, modelo do saber absoluto. A psicanálise de orientação lacaniana exp lica
o saber através do significante primordial, a forma mais primitiva de inscrição do
sujeito do inconsciente. Revela o traço fundante de um saber originário mas, ao
mesmo tempo, representa um significante que falta. O sujeito surge daí corno
puro efeito. Sendo assim, a dialética saber-verdade só existe excluída. É na condição
de verdade foracluída que ela faz retorno, no sentido mesmo de uma foraclusão
gen eralizada que existe no surg imento do sujeito do significante.
O presente artigo abordará alguns conceitos da Fenomenologia do espírito que
servirão de base para mencionar a análise processada por Lacan sobre a doutrina
hegeliana. A prioridade será quanto à discussão sobre o saber absoluto e à alienação
instalada no centro da relação dialética senhor-escravo ; bem como determinados
pontos intimamente ligados a essa problemática, tais como a certeza do sujeito e
a verdade do objeto. A questão será verificar a articulação desses conceitos com a
lógica dos discursos, isto é, com a proposta de Lacan enunciada a partir de deter­
minadas escrituras formais e consideradas essenciais à definição do sujeito. A dis­
tinção imposta entre duas classes de saberes - a do S 1 e do S 2 - torna perfeitamente
cabível indagar qual a contribuição que a leitura daFcnomenologia oferece à psicanálise.
O eixo da orientação convergirá sobre o quinto paradigm a encontrado no ensino
de Lacan quanto à doutrina do gozo, trabalhado por Jacques-Alain Miller sob o
título de gozo discursivo5 •

A Fenomenologia hegeliana revista p or Lacan


Em 1 8 2 1, no prefácio de um livro sobre a filosofia do direito, Hegel criticou 0
estágio cm que se encontrava a filosofia, tendo apontado os erros de racio dni05

a
4
Cf. a tradução do alemão, adotada por Lacan, do termo cinziger Zug, citado por Freud ("Psicologi
,
de las massas y análisis dei yo" (1 9 2 1). Em: Obrascomplctas, vai. XVIII. Buenos Aires: Amorrortu
199 3 , p. 10 1 ).
1 l
MILLER, Jacques-Alain. "Os seis paradigmas do gozo", Opção Lacaniana, n. 26/ 27. São Pau o:
Eolia, abril 2000, p. 87-105 .

1 26
j
Saber, verdad-=.:.tl
_
vazios, tomados como falsos conceitos. Em seu ponto de vista, a filosofia
a r ciais e
o fundamento do racional, mostrar a importância do presente e do
� c\'cria ser
vitar o subjetivismo. A intenção era valorizar uma crítica ativa do existente
re a l e e
desafios da Aufhebung, termo utilizado para articular o conceito de
dia n t e dos
dialética de si mesmo. Prestigiar a razão significava facilitar a realização
sup e ração
sciente diante da realidade, posição bem distinta de uma racionalidade
do se r con
en vo lvida cm abstrações que não atingem o conceito, begriff Indicou, portanto ,
u c a objetividade seria o Único método científico adequado à construção do
�crda dciro objeto da ciência, resumindo sua opinião cm uma frase que se tornou
famosa: "o que é racional é real e o que é real é racional'�.
A citação traz embutidas as dimensões do real, wirklich, e da realidade, wirklichkeit,
e imp lica a noção de atividade : o real provém do movimento que se realiza através
da ação do homem. P rocedem daí duas interpretações. P rimeiro, a que descreve a
seqüência-chave da teorização , pré-requisito indispensável à compreensão da
definição: em Hegel, o real não é a mera existência de uma realidade dada, mas
algo proveniente da atividade que se realiza, que já se realizou ou está por se
realizar. Em segundo, nesse conjunto de operações surge impressa a problemática
central em torno da qual circula toda a Fenomenologia, o conceito de superação
dialética, sobre o qual Hegel inseriu várias significações. Segundo Jean Hyppolite,
o termo "ao mesmo tempo quer dizer negar, suprimir e conservar, e, no fundo, suspender
[.. . ). Freud nos diz nesse ponto : 'A denegação é uma Aufhebung do recalque, mas
nem por isso é uma aceitação do recalcado m. Em outras palavras, Hegel previa o
saber na via do movimento e da continuidade, assimilando o dado novo e persistindo
na série, na condição de se revelar aí um saber de forma diferenciada, elevada ,
semp re em suspenso no continuum.
A Fenomenologia é a seqüência lógica na composição desse processo dialético,
urna busca comprometida desde o não-saber até o saber concluído, por isso mesmo
análogo à p erfe
ição do espírito, modelo do ideal hegeliano. A obra centraliza o
estudo cm
torno de sete fi gu ras do movimento da consciência, uma sucessão
c Í rica de acontec
� imentos paradigmáticos que não se confundem, absolutamente,
corn etapa
s cronológicas do ser. A primeira consiste no saber imediato promovido

6
HEG E L, G eorg Wilhelm Friedrich. Princípios da filosofia do direito ( 1 8 1 6). Lisboa: Guimarães,
1 90, p . 1 3 .
�. As críticas hegelianas resumidas nesse parágrafo estão contidas nas 1 7 primeiras
Paginas do texto.
HYPP OLITE, Jean. "Comentário falado sobre a Vcrncinung de Freud" ( 1 954). Em: LACAN,
Jac:9ues. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, apêndice I, p. 895, grifo meu.
pela certeza sensível, e marca o início da experiência cu-objeto. É um mo del o
de­
consciência ainda difusa que adquire força de verdade priorizando a intuição: sa
be­
que o objeto existe, mas as relações de conhecimento são incipientes porq ue
a
consciência não reconhece ainda a totalidade de s uas propriedades . Dessa fo rm
a
a figura se liga mais ao puro movimento do que a um saber já cstab cle cid
º·
Entretanto, a certeza sensível instala uma primeira diferença: há um eu e U
il\
objeto mediatizados na consciência. A certeza provém do objeto, "mas ne m po
r
isso foi ainda suprassumida, se não apenas recambiada ao Eu'".
A_percci!ção - segunda figura dialética -inaugura um passo novo: inicia a qualifica.
ção do objeto fornecendo-lhe atributos até se defrontar com a unidade. O ato de
perceber não significa mais referir-se ao fenômeno intuitivo, mesmo porque O ato
em si é inconsistente, promove a ilusão, o objeto pode ou não ser apreendido. Instala.
se, portanto , a idéia da negação embutida na superação dialética : o sujeito conquista
a capacidade de duvidar. A percepção introduz uma nova propriedade na construção
do saber - o objeto Uno - mas conduz o aspecto logicizante daAufhebung, que nega 0
fenômeno e, concomitantemente, conserva-o. A característica universal do objeto
é, assim, posta à prova. A questão crítica, para a orientação lacaniana, é que Hegel
previu a apreensão do objeto e as possíveis correções diante das discordâncias com a
realidade. Se for incorreta, o passo seguinte deverá separar o incorreto do con tinuum
até então percebido. A essência objetiva é colocada no Uno excludente, separado,
com novas propriedades determinadas em relação às anteriores, porém agora sem o
caráter de negatividade: o objeto consiste "em ser seu apreender ao mesmo tempo
refletido cm si a partir do verdadeiro''9.
Se Hegel definiu a ilusão pelo ato de perceber, considerou a contradição pel a
diversidade q ue ocorre com o objeto, em termos de não manter a igualda de
esperada com a verdade, ou seja, a unidade da consciência com o Uno. Na figura
anterior havia um objeto e uma consciência separados ; na percepção, a consciê ncia
e o objeto visam à unificação : "A coisa é o Uno sobre si refletida [ . . . ] é um ser
diverso d uplicado ; mas é também Uno" 1 º. Isso significa que, no processo d e_
superação dialética, a consciência deixa de considerar o objeto como o igual � 5
1

mesmo e passa a considerar, nela própria, o desigual, pelo que foi excluído. A teo·

• HEGEL, GcorgWilhclm Fricdrich. "A certeza sensível ou: o Isto ou o Visar". Em: Fenomenolog
ia

do espírito, vol. I, cap. 1. Op. cit. , p. 77.


· do
9
HEGEL, Gcorg Wilhelm Fricdrich. "A percepção ou: a coisa e a ilusão". Em : frnomeno1ogia
espírito , vol. 1, cap. II. Op. cit. , p. 88.
'º Ibid. , p. 90.

1 28 Saber, verdade e go
º
i
- ão d cspriorizou o ato sob o prisma do sujeito e fez convergir a ênfase no
1 j,,: aç
ro csso perceptivo, conduzindo a operação através de um simples mimetismo
c

�o c u , de uma adaptação perante o igual a si mesmo . De fato, a almejada unidade


ºª1 co nsciência com o objeto não foi conseguida, pois tudo se restringiu a um

rcll cx o do objeto percebido sobre o cu. No entanto, tal questão não foi valorizada
or Hegel na mesma dimensão como foi introduzida no ensino de Lacan.
p
Lacan posicionou o objeto no campo da imagem, marcando a diferença fun­
da mental quanto à forma de teorizar sua atuação no real do sujeito e as formas de
emer gência revestidas de significação. Hegel buscava a unidade com a coisa apreen­
dida e não se deu conta do paradoxo no qual inseriu a formulação. As qualidades
do objeto hegeliano são de tal ordem que ele se revela à consciência no mesmo
movimento de negação daquilo com o qual a consciência se relaciona . Sem dúvida,
Lacan reconhecia o valor da especularidadc, mas não se deixou enganar pelas
"astúcias da razão"1 1 • Inseriu o paradoxo numa outra ordem : considerou a unidade
perdida e, ao mesmo tempo, capaz de produzir efeitos na constituição. Por isso
acentuou o privilégio do falo - o objeto freudiano por excelência - e seu caráter
de pura ficção, somente alcançável cm representações imaginárias, apesar dos
efeitos que produz no sujeito. Se a Aulhcbung hegeliana pretendeu retirar o aspecto
de negatividade do objeto, Lacan, ao contrário, considerou o falo um operador, o
significante que falta nessa Aulhcbung, no sentido mesmo que ele inaugura o processo
pelo seu desaparecimento 1 2 •
,\) Em função disso, o objeto a foi inventado por Lacan a partir dos efeitos de
causa prccipitadora do desejo: ele é feito de gozo, mas gozo foracluído. Essa
"pequena imagem exemplar do Estádio do Espelho" é um índice que dá conta da
ligação inaugural sujeito -Outro, porém trata-se de "uma imagem somente
projetada" 1 3 que caracteriza o vazio como lugar estruturante do desejo. Mesmo
considerando as variações das teorizações lacanianas operadas a partir de O seminário,
livro 20, mais ainda - que basicamente focaliza o real do gozo como propriedade do
corpo vivo - mesmo assim o objeto comportará, inevitavelmente, a dimensão do
logr o, do eqmvoco,
, . , .
uma vez que sua imagem sera, sempre correlata a uma ausencia.

" LACAN , Jacques. "Le Séminairc, livre XII : Problemcs cruciaux pour la psychanalyse" ( 1 964-
5 ) . Inédito, aula de 05 de maio de 1 965. Lacan se referiu ao mito hegeliano do saber absoluto,
id eal inconcebível cm que os caminhos da positivação do desejo refletem essas astúcias da
razão, em contraste com o desejo inconsciente, que está sempre determinado.
12
LACAN, Jacques. " A significação do falo" ( 1 958). Em: Escritos. Op. cit., p. 699 .
" LACAN, Jacques. "Lc Séminairc, livre X: L' Angoissc" ( 1 962 - 3 ) . Inédito, aulas de 28 de
novembro e 05 de dezembro de 1962.

S
Instituto de Ps ico log ia - UFRG
A dia! eti
' ca hegeliana e o discurso de Lacan
1 29
Conforme comentou Jacques-Alain Miller, ela se dá a ver, projeta-se no cam
po
escópico, porém o engodo subsiste: ela mostra e esconde, ou melhor, mostra
exatamente para esconder. "A imagem faz tela ao que não se pode ver" 1 4 • Assi m
na descrição do objeto mais -de-gozar 1 5 , o propósito de Lacan não foi retirar �
negatividade, cm termos de um Uno separado, como disse Hegel, mas intro duzir
o objeto num lugar diferenciado, definindo -o na posição de produção de urna
perda. O desvalor que a Fenomenologia do espírito conferiu à imagem, adquir iu, em
Lacan, outra significação: configurou o objeto no campo da ilusão, fornecendo .
lhe o estatuto de miragem do desejo.
A razão analítica reprSienta o terceiro movimento da consciência e consiste na
decomposição do material já apreendido, na depuração do conceito no âmbito da
razão. O eixo central gira em torno do entendimento, vcrstand, responsável por fazer
coincidir as várias leis da razão quando as forças entram cm conflito. O impass e
apontado por Hegel foi demonstrado pelo desconhecimento de uma reali dade
múltipla em função do acúmulo de fenômenos. O sujeito custa a apreender o novo
e prefere reiterar sobre um saber anterior que, por vezes, não traduz o universal.
"O entendimento suprassumiu com isso sua própria inverdade e a inverdade do
objeto ; e o que lhe resultou em conseqüência foi o conceito do verdadeiro [... ] que
não é ainda o conceito'> l 6. A v erdade está para ser efetivamente alcançada, o sonho
hegeliano se circunscreve ao universal, ao conceito, mas ainda é um vir-a-ser. Percebe­
se, então, o empenho em teorizar sobre a experiência do ser na dimensão do
conhecimento que deverá ser conquistado através da busca de uma unidade do real.

A dialética do senhor e do escravo


O objetivo deste artigo é concentrar a argumentação na quarta e na sétima figuras
da Fenomenologia do espírito, que tratam respectivamente da dialética senhor-escravo e
do saber absoluto. A quarta fi ura marca a descontinuidade na seqüência, o processo
sofre um salto para um outro plano. A consciência-de-si introduz a verdade e
g
ª
certeza, e destas se deduzem a categoria do desejo, apesar de todos os impasses que
ela causou ao hegelianismo. A dialética senhor-escravo aparece implicada nos conceitos

,
14
MILLER, Jacqucs-Alain. "Los cárcclcs dei gocc". Em : lmagcncs y miradas. Buenos Aires: E OL
1 994, p. 20.
1
' LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 1 7.

1 • HEGEL, Gcorg Wilhclm Fricdrich. "Força e entendimento; fenômeno e mundo supra-


sensível". Em: Fenomenologia do esqjiito, vol. I, cap. I l i. Op. cit. , p. 96.

1 30 Saber. verdade e gozO


j bc rclad c e alienação. A imóvel tautologia que caracterizou as figuras anteriores,
de J
º cu = cu, foi substituída pela selbstbcwusstscin, na qual o objeto é a própria vida,
O tip
d n1 clhor, a vida adquire o sentido de objeto da consciência-de-si. Não se trata mais
º cnsa r cm essências do mundo sensível ou cm reflexos percebidos, mas sim de
ti

de p
c ue "a consciência-de-si é desejo [... ]. Mediante a reflexão-sobre-si, o objeto
e){ ] i a r q
vida [. . . ] o objeto do desejo imediato é um ser vivo" 1 7 , o próprio eu.
veio-a -ser
A análise da questão pelo prisma da teoria do desejo revela novas diferenciações
fórmulas hegeliana e lacaniana concernentes à função do desejo, apesar
e nt r e a s
d e c){istir cm pontos comuns, pois ambas estão aí afetadas. O que interessa à fórmula
eliana é o willc, vontade, uma vez que o termo introduz a razão, ponto de
heg
par tida para o indivíduo atingir a liberdade. A vontade se exerce na superação do
arbítr io, facilitando à consciência lidar com as par ticularidades da d emanda,
promovendo o enriquecimento e a qualificação do eu ; de maneira que o desejo,
en quanto vontade, cumpre-se em sua própria satisfação. T eoricamente, Hegel falou
do sujei to do amor que tende à completude, tornou o Outro consistente, com
exist ência de realidade, uma consciência. Trata-se de uma psicologia do querer,
demasiadamente centrada no registro imaginário. Por isso, o conceito de desejo
responde mais ao apelo de duas consciências que esperam o reconhecimento, cuja
decisão se efetua pela luta de puro prestígio: obtém-se o que se deseja pela violência
em função da disputa situada no centro da dialética senhor-escravo. Todo esse
conjunto de relações adquire vigor na frase que, segundo Lacan, resume a fórmula
hegeliana do desejo: "Eu te amo, ainda que tu não o queiras"1 8 •
Quanto à fórmula lacaniana, o que interessa é o wunsch, desejo, o objeto que falta ao
Outro e ele não sabe, no sentido mesmo do objeto que o completaria de gozo, tanto
quanto ao $. Nesse caso, a definição do sujeito do inconsciente vem pelo paradoxo:
ele é causado pelo objeto perdido e identificado com um Outro inconsistente, que
não r epresenta um ponto no espaço ocupado por alguém, justamente porque é
cscópico, pura imagem. Na verdade, é um "Outro que não existe" 1 9 , no campo da

n H EGEL , Gcorg Wilhelm Friedrich. "Consciência-de-si. A verdade da certeza de si mesmo".


Em : Fenomenologia do espírito, vai. 1, cap. IV. Op. cit. , p. 120- 1 .
" LACAN, Jacques. "Lc Séminaire, livre X: L' Angoisse". Op. cit., aula de 2 1 de novembro de 1962.
O comentário de Lacan consiste na resposta ao psicanalista André Grecn, que pretendeu encontrar
no afor ismo lacaniano, "o desejo do homem é o desejo do Outro", uma fórmula hegeliana.
" ef. o materna incluído no título do seminário de curso conduzido cm Paris por Éric Laurent
e Jacqu es-Alain Miller, nos anos de 1996- 7, sob o título "L' Autre qui n' existe pas et ses comités
d ' é thique".
,
fantasia e da identificação ele só vale pelo que lhe falta, A. Assim, enquant o a
consciência hegeliana é um objeto que se sabe af etado pela vontade, o s uj eit
o
lacaniano é causado por um objeto que ele não sabe dizer: há um lugar onde el e s
e
perde. N esse sentido, a fórmula lacaniana é expressa por: "Eu te desejo, ain da que
não o saiba", frase que toca cm algo inarticulável, o objeto a, o indizível do desej o .
Em síntese, Lacan defendeu a fronteira entre o desejo e o amor : não há um s ujeit o
do amor, mas sim um sujeito do desejo que é vítima do amor2 °. O amor é
conseqüência e não causa, a causa é o objeto faltante. Hegel não trabalhava co m as
formulações do estádio do espelho , nem com os significantes e os registros, então só
pôde teorizar sob o ângulo da relação dual.
Por tais razões, interessa acompanhar na dialética senhor-escravo a tese heg eli ana
da reconciliação da consciência com a realidade, impondo ao indivíduo wna submissão
da racionalidade ao real. A articulação interessa porque faz emergir a fi gura do sujeito
dividido. Além disso, pode-se interpretar o êonceito de liberdade pela relação desejo ­
gozo estabelecida no âmago da dialética, na qual o sujeito aparece alienado ao dilema :
vontade versus privação. Apesar da interpretação, é conveniente reiterar que, até 0

fim da Fenomenologia do espírito, Hegel não cedeu em relação à cspecularidade imaginária.


Manteve a ênfase na comparação com outra consciência como estratégia essencial
para que o indivíduo se reconheça, sobretudo porque "a consciência só alcança sua
satisfação nwna outra consciência-de-si [... J. É uma consciência-de-si para wna outra
consciência -de -si" 2 1 • Tal reconhecimento é colocado sob a forma de uma dupla
significação que, por sua vez, retorna sob a forma de wna dupla ação, cada qual
referida a cada um dos elementos que compõem a dialética. A consciência se perde
em si mesma mas, ao processar a superação dialética cm relação à outra consciência,
"é a si mesma que vê no Outro [... ] seu ser-fora-de-si, é retido cm si"2 2 • Essa confron­
tação desencadeia a luta de vida ou morte pela liberdade que tanto contribui para
celebrizar a luta de puro prestígio. "Cada wn tende à morte do Outro [... ] aquele
agir do Outro inclui o arriscar a própria vida m3, significando que cada wn contém
elementos do outro e, por isso, ambos compartilham a mesma impotência. A unida de
do real, anteriormente visada, fraciona-se na oposição entre a consciência e a vi da ,

'º LACAN, Jacques. "Le Séminaire, livre IX: L'Identiflcation" ( 1 96 1 -2). Inédito, aula de 2 1 de
fevereiro de 1 962.
11
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito, cap. IV: Op. cit. , p. 1 25.
" Ibid. , p. 1 26-7.
" Ibid. , p. 1 2 8.

1 32 Saber, verdade e go1-0


desejo e o objeto : o conflito está instalado e a pretendida independência do
cn tl·e O
osta à prova.
cu e', p
Lacan encontrou em Hegel a justificativa da noção de alienação engendrada pela
cravidão. Tomando como exemplo a sentença "A bolsa ou a vida!", mostrou
vi. a da es
escolha forçada na qual se inscreve o surgimento do desejo, uma vez que
a l inha da
0 sentido
para o sujeito emerge no campo do Outro : se escolhe a liberdade, perde
escolhe a vida, tem-na amputada da liberdade. Recorreu inclusive aos
amba s , se
círc ulos de Euler, cuja ilustração figura o ser do sujeito sob o círculo do sen tido do Outro:
escolhendo o ser, o sujeito desaparec�, escapa, tomba no ponto de interseção dos
círc ulos, onde se situa o non -sens do inconsciente; escolhendo o sen tido, este só subsiste
mutilado . Por isso, as questões hegelianas sobre a liberdade e a alienação merecem
24

se r valorizada s. A liberdade é conquistada colocando a vida em risco, contudo a


morte é a privação da pretendida significação de reconhecimento pelo outro. Em
ambos os casos, o sujeito hegeliano se defronta com a alienação.
A relação senhor-escravo aparece, assim, conectada à dialética do reconheci­
mento e mostra a desigualdade entre ambos os participantes. Em Hegel, o saber,
a verdade e o gozo nascem do amo. O escravo trabalha e reforça a função do
senhor absoluto - esse é o lado positivo. O negativo é que em sua formação existem
o medo, o serviço, a disciplina, a obediência, tudo regulado pelo senhor absoluto
que, no fundo, é o medo da morte, e cujo veredicto é estabelecido pela verdade
do amo. Na luta de puro prestígio, o escravo renuncia à liberdade e ao gozo para
conservar a própria vida. O discurso social demonstra de forma clara que, ao
escravo, só resta a consciência de classe.
Lacan 25 subverteu o enunciado hegeliano enfocando a dissimetria, e não a
desigualdade. Mostrou que as leis do gozo não funcionam assim, pois o saber
nasce do e scravo. O erro da Fenomenolog ia foi atribuir ao amo o privilégio do gozo,
restando ao escravo somente o trabalho. Certamente o amo goza da disposição de
seu corpo no lazer e no Ócio, mas é o escravo quem lhe leva a coisa agradável, e
sab e o que lhe falta. Na verdad e, o escravo representa o ideal do senhor ; e o amo
é co mpleta
mente escravizado por esse estilo de saber que se apresenta sob a forma
da servidão do outro. De maneira que o senhor só pode ser reconhecido mediante

i• LACAN, Jacques. Lc Séminairc, livre XI: Lcsquatre conccptsfondamcntaux de la psychanal 'sc ( 1 963-4). Paris:
Seuil I Points, p. 2 �6- 7.
;

li
LACAN, Jacques. "Le Séminaire, livre XIV: La logique <lu fantasme" (1 966-7). Inédito, aula
de 3 1 <lc maio de 1 967.
a consciência do escravo, pois é este quem detém, de fato, a verdade do gozo. Fo
i
para não renunciar ao gozo que se tornou escravo, para dá-lo como obj et o a
o
senhor. Se o ideal do escravo é ser um corpo que obedece, é porque isso lhe clá
acesso ao gozo masoquista, essa posição de dejeto, de resto, tão bem ilustrada Pel
a
estrutura perversa .
Hegel forneceu três exemplos - a consciência estóica, o ceticismo e a consciência
infeliz - que favorecem a reflexão sobre o sujeito dividido. Os conceitos de liber da de
autonomia e certeza, propostos na explicação, falam muito mais da relação do suj eit�
com o gozo da sublimação do que das hipóteses que a razão propõe. São exempl os
que transcrevem uma verdadeira regulação do gozo através da formalização do sab er.
No caso da consciência estóica, a ação não está ligada nem à verdade do senhor n ern
à servidão do escravo. A questão crucial é a impassibilidade da consciência diant e da
dor e a liberdade em centralizar-se sobre si mesma. Ela se reconcilia com a realida de
através do traço de obstinação, sobrepondo-se ao eixo senhor-escravo para avançar
no campo do espírito, instância máxima do saber absoluto.
Quanto ao ceticismo, a insuperável contradição do eu precipita a descrença
absoluta. A autonomia do pensamento desencadeia aspectos de aniquilação e nega­
tividade, e a lei mor.l se desvanece em sua função de mandamento. Mas a liberdade
que a consciência quer alcançar - "essa ataraxia do pensar-se a si mesmo, a imutável
e verdadeira certeza de si mesmo"26 - conflui à descrição do gozo. As expressões
utilizadas por Hegel para definir a consciência cética são convincentes: consciên cia
perdida, con fus ão movimentada, des vario in cons ciente que os cila, desvanecer de clarado e outras, que
inserem no raciocínio certa inquietude dialética, inclusive a dúvida sobre a possi­
bilidade de alcançar o conceito. Na orientação lacaniana, a descrença só faz demons­
trar que o sujeito recua diante do real do gozo.
O último e mais importante dos exemplos - a consciência infeliz - to ca
diretament e no t ema do desamparo. Guarda vinculação com a dilaceração
fundamental mencionada por Freud em termos do traço masoquista erógeno dos
sujeitos, e sem dúvida r epresenta uma outra via de articular o gozo na teori a
lacaniana. Convém, entretanto, observar as diferenças, preservando os planos do
consciente e do inconsciente, do lugar diferenciado onde o desamparo se funda
para os sujeitos hegeliano e freudiano. Se a Spalt ung é cisão constitutiva para Fr eud ,
a consciência infeliz hegeliana não é uma instância antecipada e nem se instit ui a
partir de um corte. As cisões no hegelianismo são as contradições experim entadas

26
HEGEL, Georg Wilhclm Fricdrich. Fenomenologia do espírito, cap. IV Op. cit. , p. 1 39.

1 34 Saber, verdade e gozo


r ealidade: ela é livre e, ao mesmo tempo, incapaz de liberdade ; surge como o
p sultado de um descompasso da consciência-de-si ao tentar superar a dicotomia
a

rc
na dialética amo-escravo. E consciência cindida em função de "uma luta
rº\,ocada
p c e tra va [.. . ] a vitória é antes uma capitulação"27 que culmina na imutabilidade
u s
j0 pade
cer. A teorização da consciência infeliz proporciona excelentes contri­
buiçõ es sobre a psicologia da dor e sobre a passividade em render homenagem ao
entanto, a renúncia e a privação se introduzem no escrito de Hegel
outro. No
com o ele mento secundário , e não como dado primário , própr io ao real psicanalí­

ti co. Trata-se, no primeiro caso, de uma renúncia às decisões per tencentes ao


cam po do sacrifício, a consciência tem de dar provas para obter o reconheci­
m en to . Além disso , é renúncia da vontade , e não do desejo.

O saber absoluto
Ao término da Fenomenologia do espírito, a figura do saber absoluto foi definida como
uma essência espiritual a ser alcançada pela consciência, um universal, o puro
conceito. A razão é tão consciente da ação que engendra que di.ega mesmo a declarar
sua determinação no juízo infinito, "o Eu se denomina alma [ ... ] Das Dingist Jch, A Coisa
é Eu [ ... ] uma consciência-de-si cultivada"28 • A teoria visava à perfeição do espírito ,
mas deixou subentendida, por detrás dessa essência , a figura do supereu obsceno, tal
como defmida por Lacan. Hegel o tratou somente pela via da consciência-de-si moral, a
boa-consciência que fornece a certeza do saber. Porém é uma instância que remete o
sujeito ao real insuportável contido na realidade, essa mesma que Hegel se esforçou
em aprimorar por meio da Aulhebung, o conceito de superação dialética. O instinto de
conservação do eu - pano de fundo da dialética hegeliana - tem como essência o
medo da morte, que para Lacan é o "Mestre absoluto, subordinado ao medo narcísico
da les ão do corpo próprio"29 • A categoria do real lacaniano refere-se aqui ao corpo
lesado e dominado pela morte , tal como nas fantasias primitivas de fragmentação .
Do ponto de vista hegeliano, no entanto, a intenção foi legitimar a ação moral
do homem e conver ter o saber no instrumento para atingir a superação dialética,

2 7 l bid. , p. 1 4 1 .
'"
H EGEL, Georg Wilhelm Friedrich. "O Saber Absoluto". Em: Fenomenologia do espírito, vol. II,
cap. VIII. Op. cit. , p. 209, e cf. a expressão referida no parágrafo 791 da mesma obra. Grifo
meu.
'
29 LACAN, Jacques.
"A agressividade em psicanálise" ( 1 948) . Em : Escritos. Op. cit . , p. 1 22 - 3 .

A. dialé ti ca hegeliana e o discurso de Lacan


1 35
exercer a liberdade e reconhecer seus limites, renúncias e deveres. Por iss o
'a
consciência infeliz fornece uma saída para o sofrimento recorrendo ao esp írit o, a
o
Uno impenetrável, a fim de encontrar a suposta reconciliação com a reali dade
Concomitantemente, processa-se um discurso sobre as expectativas de gozo c o�
o objeto, considerado um Uno insuperável. "A esperança de tornar-se u m co m de
,
tem que ficar na esperança, isto é, sem implementação e sem presença' iº. A cisão
provoca a dor da alma pura que deseja ser reconhecida pelo objeto inating ív el, do
qual somente sente a essência. "Não pode apreender o Outro como algo singular
ou efetivo. Onde é procurado, não pode ser encontrado ; pois deve justamente ser
um além, algo que não se pode encontrar [ . . . ] é somente uma coisa tal que
d esvaneceu. Portanto, para a consciência, só pode fazer-se presente [... ] a luta de
um esforço que tem de fracassar" 3 1 •
Hegel reconheceu o sujeito dividido pelo saber, a alma pura que se sub mete
ao trabalho, r econhece a própria cisão e deseja um gozo que não pode s er
ultrapassado p elo princípio da superação dialética. Convém acompanhá-lo. "Mas
como chega, s em dúvida, à aniquilação [... ] e ao gozo, isso só lhe pode acontecer
essencialmente porque o imutável mesmo lhe abandona sua figura e lhe cede para
seu gozo [... ]. Essa cisão se apresenta em seu trabalhar e gozar por cindir-se cm
uma relação com a efetividade ou ser-para-si e em um ser-em-si [... J um dom
alheio, que o imutável concede igualmente à consciência para que dele goze'82 .
Aparentem ente, a consciência infeliz renunciou à satisfação, mas alcançou satisfações
substitutivas, pois ela é "desejo, trabalho e gozo, e como consciência ela quis, agiu
e gozou" 3 3 • A SelbsbcV1Ussts cin, assim reconciliada na figura da bela alma, atinge o absoluto,
o conceito, em suas significações unificadas de certeza do saber e de espír ito
operante, certo de si mesmo, que realiza no ser a vida do espírito absoluto. A bela
alma mediatiza as d esigualdades e funciona como cio da ligação entre o ser e o
espírito. Ela é "pura unidade translúcida ; é a consciência-de-si que sabe [... ] ª
auto-intuição do divino [ . . . ] . E o conceito cm sua verdade [... ] o saber do sa ber
puro [... J é o v erdadeiro objeto'*.

30
HEGEL, Georg Wilhclm Friedrich. Fenomenologia, cap. IV. Op. cit., p. 1 4 3 , grifo meu.
11 Ibid. , p. 1 45 .
12 Ibid . , p. 1 46-7. Nesse ponto, Hegel definiu o conceito de ser-para-si como a própria consciência ,
enquanto que o ser-em-si represen ta o além imutável , o espírito.
ll
Ibid . , p. 1 48 .
14
HEGEL, Georg Wilhelrn Fricdrich. Fenomenologia do espírito, cap. VIII. Op. cit . , p. 2 1 1 .

1 36 Saber, verdade e gozo


Ex atamente nessa via que envolve o espírito refletido sobre si mesmo e na posição
ber, Hegel introduziu a ciência, definindo-a através da síntese do desejo com o
d e sa
- Todo saber passa pela experiência como uma verdade sagrada na qual se crê,
obj eto
ó experiência é regulada e orientada na direção do espírito absoluto. Portanto,
pr pria
J iê ncia e ' fr uto d e um cu tao
- engran d ec1ºdo que se sab e em sua essenc1a mesma.
ac
A 0

E u rn discurso assegurado pela certeza de que o puro pensamento poderia, por si


mcs rno, merecer se intitular cpistéme, ciência. Essa conscientização do fenômeno
ci entífico, enaltecida durante todo o desenvolvimento da Fenomenologia do espírito, foi
critic ada por Lacan em seu famoso "Discurso de Roma", mostrando o quanto a
di al ética hegelian a foi realizada a partir da "suposição irônica de que tudo que é
racio nal é real, para precipitar no julgamento científico de que tudo que é real é
racio nal" 3 • Na verdade, Lacan reafirmava, nesse momento, a descoberta freudiana
5

qu e desc entra o sujeito imaginário reconstruído por Hegel na Fenomenologia do espírito.

O gozo discursivo
A teoria lacaniana do gozo foi resumida por Jacques-Alain Miller em seis diferentes
paradigmas. O quinto modelo - o gozo discursivo -sintetiza as articulações processadas
durante os anos de 1968 a 1970. Nesse período, um dos comentários mais mar­
cantes de Lacan 36 sobre a Fenomenologia foi no sentido de indicar que Hegel, através
da consciência-de-si, prolongou o cogito inaugural cartesiano, transformando o
aforismo "penso, logo existo" em um outro transcrito da seguinte forma: "sei que
penso". Por extensão, definiu os conceitos hegelianos de liberdade - "sou onde
quero" - e da ilusão - "sou onde penso". Assim, Lacan acentuou a diferença entre
o campo fr eudiano e a teoria hegeliana do saber : o traço informulável do trauma,
tr aduzido pelo "cu não sei", demonstra que a definição do desejo, em Freud, é um
desejo sempre desfalecente de saber, tal como no sonho "ele não sabia que estava
morto". Mas a beleza da filosofia hegeliana consiste cm sustentar o paradoxo. A ex­
cessiva referência à verdade serve para demonstrar que o pensamento quer esquecer
ª sent ença que designa seu início trágico - "eu não sei" - pois implica o corte
i naugural do ser. A importância clínica da função do sujeito suposto saber evidencia
que não podemos nos aproximar de uma terminação possível do saber.

LACAN, Jacques. "Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise" ( 1 95 3 ) . Em:


li

Escritos. O p. cit., p. 293. A crítica de Lacan se refere à citação de Hegel mencionada


na nota 6.
16
LACAN, Jacques. "Le Séminaire, livre XVI: D'un L' Autre à l'autre" ( 1 968 -9) . Inédito, aula
de 23 de abril de 1 969.

A d·IaJeti
' ca hegeliana e o discurso de Lacan
1 37
As contribuições lacanianas mais decisivas sobre a intercorrelação das temáticas
saber-gozo-verdade, lançadas no seminário sobre O avcsso da psícanálisc, estão implicad as
nos algoritmos dos quatros discursos, iniciados pela formalização do discurso do
mestre, também intitulado amo ou senhor. A lógica do surgimento do sujeito do
significante foi trabalhada a partir de uma estrutura inicial de discurso concentrada
na relação binária - S 1 � S 2 -, na qual se distinguem duas categorias de sab er.
O primeiro significa o saber absoluto e funciona como agente precipitador do discurso.
E o Um que inaugura a série, produzindo efeitos sobre os demais , no entanto trata-se
de um significante que falta, o Um a menos, e como tal, "um saber que não se sabe"37 .
O segundo termo - S2 - funciona como o lugar do Outro, já que o Um falta .

Representa o reservatório dos significantes , uma vez que contém o saber do Outro
- é o Outro da ordem do saber constituído e, enquanto significante, nada mais é que
um efeito do S • Lacan não hesitou cm chamá-lo "o gozo do Outro"38.
A intervenção do unário no campo significante promove a operação de perda,
1

na condição de revelar o objeto propiciador do gozo em seus efeitos de causa, Única


produção possível do sujeito em seu processo constitutivo. O resultado da operação
traz à luz a verdade inerente ao discurso do mestre: a posição do sujeito dividido
daquilo que o constitui propriamente. De maneira que, tomando como base a vertente
lacaniana do quinto paradi gma, o limite do saber será quanto ao que não pode ser
desvelado na r elação saber-verdade-gozo : "é pela exclusão do gozo que se sabc'69,
além de conferir à verdade o aspecto parcial de um "semidizer'>IO. O impasse do
sujeito na clínica consiste em responder a essas questões p ela via dos sintomas.
Jacques-Alain Miller observou que existem duas for mas de interpretação do
binário inicial4 1 . Primeiramente, a leitura que aponta o significante do saber não
podendo ser pensado sozinho, mas instituído numa cadeia que se repete, fazendo
com que o mínimo sejam dois, e o máximo o conjunto enumerável de significantes.
O Um é único, mas o S2 contém a multiplicidade reunida do conjunto, justificand o­
se aí Lacan ter distinguido o significante mestre do significante do saber : é 0
princípio da repetição inserido na cadeia significante. A segunda versão do binári o

17 LACAN, Jacques . O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit . , p. 27.


18 Ibid . , p. 1 2 .
19 LACAN, Jacques . "Le Séminaire, livre XVI: D'un Autre à l ' autre". Op. cit. , aula d e 2 1 dc
maio de 1 969.
40
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avcsso da psicanálisc. Op. cit. , p. 27.
4
1 MILLER, Jacques-Alain. "Os seis paradigmas do gozo". Op. cit . , p. 96.

1 38 Saber, verdade e goz


o
�ig n ifica traduzir o S 1 como o próprio conjunto significante, embora conjunto
, ,1 ,.io , porém introduzindo o S 2 como o significante da exceção, cujo valor lhe é atribu ído

no mate rna S (J,..), o significante da falta do Outro . Nesse sentido, ele é ao mesmo
42

t e m po suplementar cm r elação ao conjunto de todos os significante s qu e


repr esentam o sujeito, "e também se inscreve como menos no conjunt o dos
sig n ificantes que representam o sujcito" • Admite-se portanto, na dedução natural
43

d o binário, que o sujeito surge nesse intervalo: entre o Um impossível e o Outro


q ue não exist e .
Assim, a história do sujeito n a filosofia hegeliana está ligada à suposição indevida
d e um saber, justament e porque a interpretação caiu nas redes da paixão e do
confronto das consciências, deixando-se capturar pela crença da verdade-toda e
pela certeza absoluta. Mas o aspecto fascinante da teoria do conhecimento ali
incluída é o fato de Hegel ter constatado que, na falta do saber, reside a possibilidade
de existência do ser. Apesar de ter conduzido a formulação pelas vias imaginárias
do desejo, a intenção de Hegel era alcançar o real pleno - no sentido lacaniano -
aquele que nada falta, é completo, um todo. Hegel visava ao S 1 e, cm todo o
percurso, procurava o objeto. Enfim, a teorização promoveu o desejo de saber.
Por isso Lacan pôde reescrever a dialética senhor-escravo a partir do discurso
da histeria. Os entraves do amor traduzidos no desejo de reconhecimento, a forma
como conduziu seu próprio cogito, solidário ao Um idealizado, os objetivos sempre
voltados para o universal, todas essas particularidades falam de um saber que se
propõe como falta . Além disso, a inserção do gozo na relação do senhor e do
escravo - no sentido de o amo produzir um saber que o escravo, pelo trabalho,
invalida - como também o desejo de saber posto no para além, no absoluto, e
ainda os ecos do significante exclusão no exemplo da bela alma, todos esses traços da
teoria comprovam que Hegel se deslocou, durante o trajeto da Fenomenologia do
espírito, entre o impossível e a impotência. Esse foi o motivo pelo qual Lacan pôde
refer ir-se a ele, e pela via do discurso, como o mais sublime dos histéricos44 .

., D
esde "Subversão do sujeito e a dialética do desejo no inconsciente freudiano" (1960),
l�can oferecia ao S ($,.) o valor matêmico de um significante que falta, tendo utilizado o
aforismo "não há Outro do Outro". (Em : Escritos. Op. cit. , 833). Segundo Miller, o aforismo
não será mais enfatizado a partir do sexto paradigma do gozo, que transforma o Um no
verdadeiro Outro do Outro.
•,
M ILLER, Jacques-Alain. "Os seis paradigmas do gozo". Op. cit. , p. 96.
" lACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 33.

Instituto de Psicologia - UFRGS 1 39


k;lética
hegeliana e o discurso d e Lacan
"A. impotência da verdade" e
a homossexualidade
Acyr Maya

Introdução
1
A par tir da ênfase atribuída por Lacan à expressão freudiana "amor à verdade" , no
capítulo XII, "A impotência da verdade", gostaria de pensar o conceito de verdade
para a ciência e para a psicanálise no que diz respeito ao tema da homossexualidade,
tomando como fio condutor os quatro discursos propostos em O seminário, livro 1 7: o
avesso da psicanálise .
Nesse seminário, Lacan cita wn trecho de "Análise terminável e interminável'11 ,
em que Freud abordou as dificuldades do analista como obstáculo ao sucesso da análise,
a partir de wn artigo de Ferenc--Li1 . Ao comentar a conclusão de Ferenc--.c i, de que o
êxito das análises dependeria de o analista ter aprendido com seus "erros e equívocos",
Freud afirmou que isso não tornava o analista wn modelo de perfeição, wna vez que,
ao contrário do médico, cuja tuberculose pode ser wna vantagem no tratamento de
pacientes que sofrem dos pulmões, a sua subjetividade interfere no trabalho analítico.

O discurso do mestre e a ordem médica


Para Jean Clavreul4 , o discurso médico - próximo do discurso do mestre - é o
avesso do discurso psicanalítico, que ele parece tomar no mesmo sentido do discurso

LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicariá/isc ( 1 969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
1

Editor, 1 992 , p. 1 57.


1
FREUD, Sigmund. "Análise terminável e interminável" ( 1 937). Em: Obrascomplet.as, vol. XXIII.
Rio de Janeiro: Imago, 1 976, p. 2 8 1 - 2 .
FERENCZI, Sándor. " O problema d o fim d e análise" ( 1 927) . Em: Obras complct.ls, vol. IV. São
1

Paulo: Martins Fon�es, 1 992 .


CLAVRE UL , Jean . A ordem médica: poder e impotência do discurso médico. São Paulo: Brasiliense, 1 9 8 3 ,
p. 1 65 .

141
do analista descrito por Lacan. A "ordem médica", termo criado para ressaltar 0
caráter normativo do discurso médico, institui o bem e o mal do discurso religioso
corroborando o último.
Na Idade Média, a Igreja Católica e o Estado condenaram a sodomia e ntre
indivíduos do mesmo sexo, que gozara de alguma tolerância na cultura pagã do
Mundo Antigo 5 , criando um controle moral e legal da sexualidade : qualquer prática
sexual sem finalidade procriadora era considerada um "pecado contra a natureza"G.
Segundo o clero, uma vez violada, a natureza retaliava sob a forma de pestes e
catástrofes. O termo ''lepra" era empregado pela Igreja como "metáfora de doença"7
para descrever o ato homossexual , vinculando a homossexualidade à heresia, à
lepra e ao Diabo 8 • Os médicos, por sua vez, eram pressionados pelas autoridade s
para curar o vício da sodomia. Essa correlação entre homossexualidade e doe nça
reapareceu no século XIX, com um novo referente : o instinto sexual, que será
abordado adiante.
O discurso médico é, por excelência, um discurso normativo. Do mesmo modo
que a ordem jurídica institui uma ordem das coisas, o discurso médico instaura a
ordem no organismo, com o objetivo de curar o doente, trazê-lo de volta à
normalidade através de uma sanção terapêutica com função superegóica. O homem
normal /saudável é o ideal buscado pela medicina, constituindo sua ética, e a
sexualidade se insere nesse modelo como um bem9 , em nome da ''higiene sexual" 1 º.
Para o médico , o sintoma é um signo que porta uma informação sobre a doença.
Ordenando esse signo com outros, ele constitui uma cadeia de significantes, isto é,
o discurso médico e, a partir dele, uma significação : o diagnóstico, "ato de mestria"1 1 •
Fazendo do sintoma um signo, o médico exclui a verdade do sujeito.

; SPENCE R , Colin. Homossexualidade: uma história. Rio de Janeiro : Record, 1 995 , p. 1 1 9.


6 R ICHAR D S, Jeffi-ey. Sexo, desvio e danação: as minorias sexuais na Idade Média. Rio de Janeiro: Jo rge
Zahar Editor, 1 993, p. 1 36.
7
Ibid., p. 30.
8
Ibid., p. 1 43.
9 Uso "bem " no sentido dado por Lacan em O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1 959-60) : 0
"serviço dos bens". Materiais ou não , os bens são criados pelo mercado para atender às dem andas
forjadas por e le , e estão vinculados à "moral do poder". Lacan contrapôs a essa "m oral do
poder" a "ética do desejo", q ue é própria à psicanálise (cf. R INA LD I , Doris. A ética da diferença: um
debate entre antropologia e psicanálise. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1 996, p. 1 02) .
1
° CLAVREUL , Jean. A ordem médica: poder e impotênda do discurso médico. Op. cit., p. 1 07.
11
Ibid., p. 1 69.

1 42 Saber, verdade e gozo


o saber médico tem na doença seu objeto, ou sej a , a doença, uma vez
, ocupa o lugar de objeto a, não como indicador da falta de um sab er
conh ccidí;I
tO tal '
m otor do desejo de saber, mas como realidade, já que a ciência acredita na
do objeto-doença. Com sua constituição, dá-se o gozo da medici na,
existê ncia
uc c on sidera possuir um saber absoluto sobre o corpo do doente. Saber se torna ,
;ssirn , sinô nimo de verdade, e a história d a medicina se mede pelas verdad es
en contra das em sua evolução: tomando o saber totalizador da ideologia positivis ta
como única referência, ela integrou apenas os êxitos.

o discurso do analista e o sujeito da ciência


Ao contrário do discurso médico, que rechaça o sujeito e se protege do erro, o
discurso do analista não busca acerto e precisão, uma vez que, para a psicanálise, o
erro é a verdade do sujeito. Longe de estabelecer o ideal médico da normalidade,
12
0 anali sta faz de seus erros e equívocos sua verdade . Para Freud, a "psicopatologia"
integra nosso cotidiano ou, no bem-dizer de Lacan em O seminário, livro 1: os escritos
témicos de Freud 1 3 : "Nossos atos falhados são atos bem-sucedidos".
Em "A ciência e a verdade" 14 , Lacan afirmou que Descartes inaugurou a ciência
moderna com a noção de cogito. Se existe pensamento no sonho, então existe um
isso que pensa; logo, existe um sujeito1 5 • Dessa forma, o inconsciente é indissociável
do cogito e as· ciências exatas não são antagônicas às conjecturais. Foi a partir da
noção de "sujeito da ciência" que Lacan formulou a divisão entre saber e verdade.
Em "Função e campo da fala e da linguagem'%, ao postular que "o inconsciente é
estruturado como uma linguagem", ressaltou que o inconsciente é da ordem de
um saber, não o saber da representação ou da acumulação de conhecimento, mas
um saber que não se sabe - a verdade do sujeito 17 • Como não existe Outro do

12
FRE UD , Sigmund. "A nálise te rmináve l e inte rminável" ( 1 937) .Em : Obras complctas, vol. XXIII.
Op. cit . , p. 2 8 1 -2.
13
LACAN , Jacques. O seminário, lirro /: os escritos técnicos de Freud (1953-4). Rio de Janeiro : Jorge
Zahar Editor, 1986, p. 302 .
,.
LA CAN , Jacques. "A ciência e a ve rdade" (1 956) . Em : Escritos. Rio de Jane iro: Jorge Zahar
E dito r, 1 996, p. 870.
" MILNE R, Jean Claude . A obra clara : Lacan, a dência, a filosofia. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor,
1 996, p. 34.
1• L A C AN, Jacque s. "Função e campo da fala e da ling uagem" (195 3). Em : Escritos. Op. cit.
17
J ORGE , Marco A ntonio Coutinho. Fundamcntos da psicanálisc dc Frcud a Lacan , vol. 1. Rio de Janeiro :
Jorge Zahar Editor, 2000, p. 65 -7.

"A i m p
otência da verdade" e a homossexualidade 1 43
Outro, instaura-se o sujeito do fracasso, da impotência: "Essa falta do verdadeiro
sobre o verdadeiro, que exige todos os fracassos que a metalinguagem constit ui
no que ela tem de falsa apar ência, é propriamente o lugar do Urvcrdriingung, do
recalque originário" 1 8 . Esse saber que não se sabe (S 2 ) ocupa, no discurso do ana­
lista, o lugar da verdade, e a verdade do sujeito é sempre um semidizer, uma v ez
que, devido à falta de inscrição psíquica da diferença sexual no inconsciente, r est a
o r eal, o impossível de ser sabido. O discurso do analista restitui, desse modo, 0

sujeito excluído pelo discurso médico.

"A impotência da verdade" e a homossexualidade


Algumas passagens do capítulo "A impotência da verdade" auxiliam a pensar o te ma
da homossexualidade na psicanálise e nos dias de hoje, ao tratar de temas como 0
sucesso do discurso do mestre através dos tempos, a mudança terminológica, no
.
texto f:reud1ano, de "curar" para "analisar", o "amor a\ verdade" e a segregaçao.
-
Tomando como referência maio de 1968 e a crise estudantil nas universidades,
Lacan se perguntou por que o discurso do mestre se estabeleceu tão solidamente ,
chegando à conclusão de que a mudança histórica ocorrida nesse discurso foi a
união entre o mais-de-gozar e o capital, o que lhe conferiu um "estilo capitalista".
Pode-se pensar o mesmo cm relação à homossexualidade, uma vez que, a partir
de determinado momento histórico - e embora o movimento gay surgido no fim
dos anos 1960 tenha exercido impor tante papel na promoção da liberdade sexual -, a
sexualidade foi atrelada ao serviço dos bens.
No século XVIII, as mudanças sociais decorrentes da ascensão do capitalismo e
do novo papel social da m ulher redimensionaram uma rigorosa divisão dos sexos
e gêneros, determinando lugares sociais para o homem e a mulher : a este, foi
designado o papel de "empreendedor" na vida pública, e àquela, o de "reprodutora"
na vida privada 1 9 • O comportamento homossexual, tolerado até então, passou a
ser rechaçado pelo novo padrão de competitividade ditado pela economia de mer­
cado, que inibia qualquer tipo de intimidade entre os homens. Além disso, por ser
uma prática sem finalidade procriadora, a homossexualidade não produzia novos
consumidores 20 • Mais tarde, com a criação do movimento gay, o capitalismo des co-

18 LACAN, Jacques. "A ciência e a verdade". Op. cit. , p. 8 82.


19 COSTA, Jurandir Freire. A face e o rcrso: estudos sobre o homocrotismo li. São Paulo: Escuta, 1 99 5 , P·
1 08 - 1 5.
'º SPENCER, Colin. Homo,�cxualidadc: uma história. Rio de Janeiro: Recorei, 1 995, p. 1 8 2-6.

144 Saber, verdade e gozo


. nos homossexuais um filão comercial, surgindo então o chamado "mercado
b r11-ia
rosa . " ' com produtos voltados para essa clientela.
A partir do século XIX, a medicina acrescentou ao conceito de sexo um outro
nte: o instinto sexual. Parte de nossa herança genética, esse instinto objetivaria
re fere
e à manutenção da espécie, o que deu ao conceito de família impor­
à reprodução
c política e econômica, por ser capaz de unir os instintos sexuais aos interesses
tân ia
capitalismo2 1 • A heterossexualidade havia se tornado um bem. Dessa for­
socia is do
rna, ao conceituar a homossexualidade como "desvio" ou "perversão" do instinto se­
xual , no sentido de perversidade, a medicina legitimou cientificamente os valores
sociais instituídos pela moral burguesa. Por fim, cm seu combate à homossexualidade,
0 catolicismo e o protestantismo aderiram à explicação médica que, tratando-a como

doença, materializou no corpo biológico os valores religiosos da culpa e do pecado.


Um dos temas mais recorrentes em relação à homossexualidade são suas causas.
Se até 1980 a psicologização da psicanálise dominava, via discursos médico e psico­
lógico, o chamado campo científico da homossexualidade, a partir de 1990 as
pesquisas se voltaram para sua determinação genética 22 • A ciência prossegue ainda
cm busca de uma explicação eficiente e totalizante da homossexualidade, tal qual
a iniciada no século XIX, reduzindo pulsão e sexualidade ao estatuto da biologia.
Vê -se aí a exclusão do sujeito. Se a virulência do conceito freudiano sobre a
desconexão entre pulsão e objeto, introduzido em "Três ensaios sobre a teoria da
,,
sexualidade" 2 3, deu 1ugar a\ "re 1açao
- de obJeto e ao "amor geruºtal"24 para me Ihor
º

atender à demanda dos bens sociais, o que dizer da suposta causa genética da homos­
sexualidade? Estaremos abrindo caminho para a eugenia da orientação sexual ?
Ao comentar as três profissões impossíveis estabelecidas por Freud em "Análise
terminável e interminável"25 , Lacan observou uma mudança conceituai significativa:

21
COSTA, Jurandir Freire. A face e o rerso: estudos sobre o homocrotismo ll. Op. cit. , p. 1 42 .
11
ISAY, Richard. Tornar-se gay: o caminho da auto-aceitação. São Paulo: Summus, 1 998, p. 1 57-8 .
21
FRE UD, Sigmund. "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" ( 1 905). Em : Obras completas,
vol. VII. Op. cit. , p. 1 48 -9.
Lacan criticou essas noções pbs-freudianas 9ue formulam a existência de um objeto ideal
24

9u e completaria o sujeito. É uma concepção 9ue se fundamenta na maturação instintual e


promove a "genitalização do desejo". Ver LACAN, Jac9ues. O seminário, livro / : os escritos técnicos de
Freud (Op. cit. , p. 2 3 3-50), O seminário, livro 4: a relação de objeto ( 1 95 6-7) (Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1 995, p. 9- 92) e O seminán·o, livro 7: a ética da psicanálise ( 1 959-60) (Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1 997, p. 1 7-8).
21
FREUD, Sigmund. "Análise terminável e interminável" ( 1 937). Em : Obras completas, vai XXIII.
Op. cit. , p. 2 8 1 - 2 .
.

1 45
11

A i m potência d a verdade" e a homossexualidade


antes de usar a palavra "analisar" (analysicrcn] , Freud usara "curar" [kuricr cnj 26 • Seguindo
Clavrcul 27 , "curar" diz respeito ao discurso médico, não ao psicanalítico. A fusão dos
discursos médico e religioso, traduzida por determinadas práticas homofóbicas q ue,
na atualidade, preconizam a cura, a salvação ou a morte dos homossexuais, mostra 0
esforço do discurso do mestre cm manter a sexualidade atrelada ao ser viço dos
bens. Haja vista que as pesquisas científicas seguem os ditames da economia de
mercado e que al guns segmentos religiosos enriquecem sob o nome de Deus.
Tendo formulado algumas considerações teóricas sobre a homossexualidade cm
diversos trabalhos - como "Leonardo da V inci e uma lembrança da sua infância''8 _'
Freud, longe de pretender um saber total, apontou o furo do saber, o impossível de
saber do real, indicando o sujeito e a multiplicidade de fatores que podem prodUZir
uma escolha de objeto homossexual. Em ''Três ensaios sobre a teoria da sexualidade''9,
afirmou que a psicanálise se recusava a considerar os homossexuais possuidores de
características psíquicas especiais ; frase que pode ser dirigida tanto à ciência da época
( e à atual) quanto aos analistas. Lacan, por sua vez, recomendou aos analistas que não
ficassem "doidos"30 , apaixonados pela verdade. É preciso desconfiar que a verdade
saiba mais do real, pois ele é impossível. Lacan ressalta que é por isso que psicanalisar
é impossível, como disse Freud. Além disso, o ato analítico não é sustentado pelo amor.
Em Oseminário, livro 20: mais , ainda 3 1 , Lacan afirmou que o amor "vem cm suplência à relação
sexual": sendo estruturalmente narcísico e diferente do gozo, o amor cria a ilusão do
UM perante o real da falta de objeto, obstruindo com isso a verdade da castração.
Em relação aos calorosos debates (comuns no contexto político de 1 968) sobre
a burguesia e o proletariado, Lacan afirmou que a "segregação"32 sempre ter á
força, reafirmando o que já dissera cm "Proposição de 9 de outubro de 1 967 sobre
o psicanalista da Escola"33 a respeito da segregação reser vada à humanidade. A des­
peito de o indivíduo ser de esquerda e assumir posição ao lado do proletariado, a

26
LACAN, Jacques. O seminário, lúro 17: o avesso da psicanálise. Op.cit. , p. 1 58.
27
CLAVREUL, Jean. A ordem médica: poder e impotência do discurso médico. Op. cit. , p. 1 77-95.
2 ' FREUD, Sigrnund. "Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância" ( 1 9 1 O) . Em : Obras
completas, vol. XI. Op. cit.
19
FREUD, Sigrnund. "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade". Op. cit. , p. 1 46.
'º LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o ai·esso da psicanálise . Op. cit. , p. 1 64.
11
LACAN, Jacques . O seminário, livro 20: mais, ainda ( 1 972 -3). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1 98 5 , p. 62.
" LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o aresso da psicanálise . Op. cit. , p. 1 70.
" LACAN, Jacques. "Proposição de 9 de outubro de 1 967 sobre o psicanalista da Esco1 a"
( 1 967), Documentos para uma Escola, ano 1 , n. O. Rio de Janeiro, Escola Letra Freudiana, si d , p. 41 ·

1 46 Saber, verdade e gozo


,rr ação está presente tanto neste quanto na burguesia. Lacan ilustrou esse
, e eg
· c� sa rnento com a frase de uma jovem: "Eu sou de pura raça p ro/etá ria" .
34

p o alerta de Lacan faz pensar sobre os efeitos, na clínica, de os analistas se


carem com o discurso dominante sobre a homossexualidade, seja o da rej ei­
identifi
iscurso médico), seja o da exaltação (discurso gay) . Deslocado de sua função
ção (d
de o bj eto a, causa do desejo (discurso do analista), o analista acaba por estimular a
se gr egação, uma vez que cm ambos os discursos o que está cm questão é o "amor
à ve rdade" : no discurso da rejeição, o amor à heterossexualidade; no da exaltação,
0 a mor
à homossexualidade.
Do ponto de vista teórico, o conceito pós-freudiano de amor genital também
ode ser tomado como "amor à verdade", ou seja, amor a determinado saber estabe­
p
lecido como verdade, tamponando a falta de objeto. Alguns homossexuais almejam o
ideal do amor genital • A meu ver, essa noção ficou aprisionada na genitalidade, isto é,
35

na relação homem-mulher, impedindo sua articulação com a homossexualidade. Em


função disso, alguns homossexuais podem acreditar, contrariando a fórmula de Lacan
de que "não há relação sexual'% , na existência de um objeto do mesmo sexo que
complete a falta estrutural do sujeito. Outros, por repudiarem seu desejo pelo mesmo
sexo, podem ver o homem e a mulher como objetos realmente feitos um para o outro.
Mantendo-nos no campo social , pode-se pensar o "amor à verdade" também em
relação ao movimento cm prol dos direitos dos homossexuais. Na conferência "A vida
sexual dos seres humanos" 37 , Freud criticou uma das reivindicações dos homossexuais
de sua época, a de serem a "elite da humanidade". Segundo ele, a homossexualidade faz
parte da constituição psíquica do sujeito e, portanto, os homossexuais não são superiores
nem inferiores aos heterossexuais. Cabe assinalar que o movimento gaycontemporâneo,
ao contrário dos homossexuais do início do século XIX, não afirma uma condição de
superioridade, mas luta pelo reconhecimento de seu direito à cidadania.
Costa fornece uma contribuição mais recente sobre o tema. Para ele, o movi­
rnento gay dos anos 1960-70, ao usar a glorificação de h eróis do passado, como
Balzac, Proust e Gide, para legitimar e engrandecer sua causa , acabou por reforçar

14 Grifo do autor.
" Comentário reali7.ado pelo psicanalista Sérgio Gondim na apresentação de meu traballio "O ideal
do amor genital e a falta de objeto", na Jornada lntcrcartéis da Escola Letra Freudiana, cm 2 5
de maio d e 200 1 .
1• LACAN , Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Op. cit. , p. 49.
17
F REU D, Sigmund. "Conferências introdutórias sobre psicanálise: conferência XX" ( 1 9 1 6-7).
Em: Obras comp/ct;Js, vol. XVI. Op. cit. , p. 357-60.

"A. i mp otência da verdade" e a homossexualidade 1 47


a idéia de que a homossexualidade é uma espécie de "povo, etnia, agrupam ento
político ou seita religiosa" 38 , como no exemplo da jovem de "pura raça proletária"
citado por Lacan. A partir daí, pode-se pensar a diferença entre o discurso do
"politicamente correto" (discurso do mestre) e o discurso do analista: o fato de
indivíduos do m esmo sexo se reunirem em torno de um ideal não significa que
todos sejam iguais nem que tenham os mesmos anseios e desejos.
Se, como mencionou Lacan, "tomar a palavra é embriagador"39 , ou seja, se a
linguagem pode ser manipulada, como no discurso do mestre, o discurso do anal ist a
permite a veiculação da palavra não como mestria, mas como "carniça", uma v ez
que visa a desalojar o significado, a essência, o ser e, assim, mostrar a inconsistência
do significante. Em uma "cultura como a nossa , que não cessa de produzir bens
para suprir a distância do desejo''40, em que a comercialização da homossexualidad e
na exploração de produtos dirigidos para o consumo gay não eliminou o preconceito,
visto que para o mercado o sujeito não existe, cm que o discurso do mestre, por
meio dos seus representantes, propaga a crença no ideal do amor genital, e, uma
vez que, segundo Lacan, é "o objeto a que permite arejar um pouquinho a função
do mais -de-gozar"41 , é o discurso do analista que permite que o objeto a gire. Se
não gira, o desejo range, acumula, vira mais-de-gozar, segregação.
Lacan acrescentou que "se quisermos que algo gire [.. . ] , não é certamente por
progrcssismo"42 . Em minha opinião, isso não significa desvalorizar a política ou "psi­
canalisar" o social, mas apontar para algo que escapa do avanço da ciência , da eco­
nomia e dos direitos humanos. Se o objeto da psicanálise não é o da realidade ana­
tômica, mas o da falta que causa o desejo , articulado através da fantasia do sujeito, o
discurso do analista, em intensão ou extensão, é o que pode p ermitir que a
homossexualidade deixe de ser um erro da natureza e passe a ser a verdade do sujeito .

18 COSTA, Jurandir Freire. A inocência e o vício: estudos sobre o homoeratismo. Rio de Janeiro: Relume
Dumará, 1 992, p. 50, grifo meu.
19 LACAN, Jacques. O seminário, /irra 17: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 1 59.
40
RINALDI, Doris. A ética da diferença: um debate entre antropologia e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1 996, p. 1 47.
4 1 LACAN, Jacques. O seminário, /irra 1 7: o a vesso da psicanálise. Op. cit . , p. 1 70.
42
Ibid.

1 48 Saber, verdade e go1-D


Que lugar para o sujeito na escola?
Maria Helena Coelho Martinho

Min ha prática em uma instituição educacional instigou-me a pensar o lugar do sujeito


na escola. Verifica-se nesse tipo de instituição uma multiplicidade de relações: alunos­
alunos , alunos-professores, pais-professores, pais-alunos, alunos-equipe pedagógica ,
pais-equipe pedagógica, professores-professores, professores-equipe pedagógica; enfim,
uma rede de relacionamentos na qual cada sujeito ocupa determinada posição em
relação ao outro. Nessa trama de relações, evidencia-se um mal-estar. É comum ouvir
professores enunciarem que a "toda criança-problema correspondem pais-problemà',
ou pais afirmando que os professores são responsáveis pelo baixo rendimento de seu
filho ou pela falta de controle disciplinar no grupo. Os alunos, por sua vez, reivindicam
professores mais afetivos, mais justos, ouvintes mais atentos. As múltiplas demandas -
da instituição, dos professores, dos pais, dos alunos - remetem a "O mal-estar na
civilização"1 , em que Freud considerou o relacionamento com outros homens a principal
causa do sofrimento humano. O mal-estar na civilização é, portanto, o mal-estar nos
laços sociais. Como afirmou em 1925: "Aceitei o bon mot que estabelece existirem três
profissões impossíveis - educar, curar e governar'12 -, reunindo psicanálise, educação e
a arte de governar. As três repousam sobre os poderes que um homem pode exercer
sobre o outro mediante a palavra e encontram seus limites de ação no fato de que não
se submete o inconsciente, pois é ele que nos sujeita.
A teoria lacaniana sobre os laços sociais se refere a essa afirmação, e a elas Lacan
acrescento u uma quarta impossibilidade: fazer desejar.Tais formas de relacionamento
- governar, educar, psicanalisar e fazer desejar - foram chamadas de discursos3, pelo
fato de os laços sociais serem tecidos e estruturados pela linguagem.

1
FREUD, Sigmund. "O mal-estar da civilização" (1930). Em : Obras completas, vol. XXI. Rio de
Janeiro : Imago , 1976.
2
FREUD, Sigm und. "Prefácio a Juventude desorientada , de Aichhorn" ( 1 925). Em : Obras completas,
vol. XIX. Op. cit. , p. 341.
1 LACAN
, Jacques. O seminário, livro 1 7: o arcsso da psicanálise ( 1960-70). Rio de Janeiro: Jorg e Zahar
E ditor, 1992.

Instituto de Psicologia - UFRGS 1 49


A preocupação lacaniana com o laço social e com os discursos que fazem l aç
o
social é importante para pensar o trabalho cm instituições. O discurso corno l aço
social é um modo de aparelhar o gozo com a linguagem, já que o processo civil

zatório exige do sujeito uma renúncia pulsional no estabelecimento das rel aç õ e
s
ou, dito de outra forma , todo laço social implica um enquadramento da p uls ão e
resulta cm perda de gozo. Todo discurso é, portanto, um aparelho de gozo.
A partir dos maternas, Lacan tratou daquilo que, embora esteja para alérn da
palavra, não subsiste sem a linguagem, formalizando os quatro discursos: dis eurso
da universidade, do mestre, da histérica e do analista, e nos legando um instru m ento
que serve não apenas à transmissão do saber psicanalítico, mas também ao diálogo
com outros campos do saber. Proponho, assim, pensar as relações em uma instit uição
educacional a partir das modalidades de laço social referidas por Lacan nos disc ursos .
Em razão de sua estrutura de produção de saber, uma instituição educacional
deveria assemelhar-se ao discurso histérico, em que há predomínio do sujeito da
interrogação, levando o mestre não só a querer saber, como também a prod uzir
saber. Contudo o que se verifica na prática são, predominantemente, os discursos
do mestre e do universitário. O primeiro, regido por uma ordem que funciona
sobre o recalcam ento da subjetividade, promove uma visão universalizante e
normativa da política educativa, cm geral sem preocupação com as diferenças
individuais e deixando de caracterizar cada um dos suj eitos como desejante e
singular. O segundo, regido pela ordem do saber, também visa à universalidade e
à univocidadc, havendo nele uma tirania do saber qu e exige obediência ao
mandamento "saiba tudo". Para Lacan, o discurso universitário é o próprio "discur so
da burocracia"4.
Por considerar, a partir de minha prática, que as instituições educacionais ope­
ram predominantemente nos discursos do m estre e do universitário, recorre rei
fundamentalmente a eles, com o propósito de articulá-los à prática institucio nal .
Antes, porém, retomarei brevemente a matemização lacaniana dos discursos.
Há sempre quatro lugares : o agente do discurso, que agencia o laço social ; 0
outro, aquele a quem o discurso se dirige; a produção, o resultado ou o que resta da
aparelhagem do gozo pelo discurso ; e a verdade, que sustenta o laço social e é ao
mesmo tempo escamoteada. Há também quatro elementos , que ocupa rão
sucessivamente esses lugares: S1 , o significante mestre ; S1 , o saber ; Í, o sujeito ; � a,
o objeto mais-de-gozar. Se cada um dos discursos tem um agente, isso não i mpli ca

• Ibid, p. 29.

O
1 50 Saber, verdade e goz
sujeito com o qual nos defrontamos esteja ocupando o lugar de agente: ele
q
IJC O

o d e estar cm qualquer uma das posições, pois são muitas as var iações que o
ps1.1J· c,i to pode tomar nos diferentes laços sociais em que transita.
o discurso do mestre é, fundamentalmente, o discurso fundador da civilização.
oduziu o discurso do mestre a partir da definição de sujeito : "sujeito é
Lacan intr
que um significante representa para outro significante';; . O discurso do
aq u il o
mes tre corresponde, assim, à própria instituição do sujeito, é o discurso do in­
cons cie nte. Para defini-lo, Lacan tomou emprestado de Hegel a dialética do senhor
e d o es cravo : as posições do senhor (S1 ) , de um lado, e do escravo (S2) , do outro,
se es tabelecem depois da luta que os opôs. Aquele que enfrentou a morte se torna
senhor e o que recuou diante dela se torna escravo. Uma vez estabelecidas as
posi ções, o escravo estaria do lado do gozo, ao qual o senhor só teria acesso através
do escravo. Foi a partir dessa dialética que Lacan afirmou que o saber do lado do
escravo (S 2) é um saber relativo ao gozo do mestre. Em suas palavras : "O escravo
sabe muitas coisas, mas o que sabe muito mais ainda é o que o senhor quer, mesmo
que este não o saiba, o que é o caso mais comum, pois sem isso ele não seria wn
scnhor" 6 • Pode-se observar, portanto, que, no discurso do mestre, S 1 como agente,
precisa do outro que detém o saber sobre sua posição para produzir a mais-valia, o
objeto a, o resto, o gozo que o mestre tira do trabalho do outro, que Lacan chamou
"mais -de-gozar".
O discurso do universitário realiza um quarto de giro para trás, wna retroação
do discurso do mestre. Nessa retroação, há uma "transmutação" do saber, realizada
pela filosofia, que constitui wn saber a partir do saber do escravo e o transforma
cm saber do senhor: "A filosofia, em sua função histórica, é uma extração, essa
traição, cu quase diria, do saber do escravo, para obter sua transmutação cm saber
de senhor"7 . Como essa transformação é a passagem para um saber teórico, o
dis curso universitário é, portanto, a modalidade moderna do discurso do mestre.
Pode-se afirmar que, a partir de Hegel, Lacan se referiu ao mestre antigo - o
tncstr c contemplativo - e ao mestre contemporâneo, associando o último ao capi-
talismo e · . . , .
ao d 1scurso un1vers1tano.
Há um nível de equivalência no funcionamento dos discursos do mestre e
llnivcr sitár 10
· : "Podenamos,
'
, assim,
· escrever que aqui·1o que no d 1scurso
' do mestre
e S 1 pode ser chamado de congruente ou equivaler ao que vem funcionar como
O

5
lbid, p. 1 1.
• lbid , p. 30.
lbid, p. 20.
7

Q11e 111gar
pata o sujeito na escola? 151
S 2 no discurso universitário, naquele que qualifiquei como tal para fixar as id éias
ou, ao menos, a acomodação mental'>!!:
M (S I ) = u (SJ
Em outras palavras, o saber do escravo (S2) vai se transformando cm um sa ber
teórico que agencia o discurso do universitário (S). Há uma tirania do saber que
exige obediência "cega" ao mandamento do saber, e a ordem que se apres enta é
"saiba tudo". Nesse discurso, a verdade do sujeito é rejeitada cm nome do "tudo
saber", e tudo que é tratado pelo saber (S2) é considerado objeto de gozo (a) .
Lacan apontou ainda outra equivalência n o funcionamento dos discur sos do
mestre e do universitário. No primeiro, o elemento que ocupa o lugar do outro , do
trabalho, é S 2 , o escravo, aquele que se deixa explorar pelo mestre; no segundo , é 0
'objeto a - segundo Lacan, o aluno. Pode-se pensar, portanto, que o saber que
agencia esse discurso se dirige ao aluno no lugar de objeto a, aluno-objeto, traba­
lhador escravizado a um saber teórico. Lacan brincou com as palavras, referindo­
se ao "a estudante", ou seja , criando um neologismo que pretende dizer algo sobre
o estudante: "O estudante se sente astudado. É astudado porque, como todo trabalhador,
ele tem de produzir al guma coisa''9.
Nessa articulação, a está no lugar de explorado ; trata-se do "a estudante", que
está no discurso de maneira "mascarada", sempre identificado ao objeto a, encarre­
gado de produzir o sujeito dividido ($), resto do saber científico. Ao identificar o
estudante no lugar de a no discurso universitário, Lacan fez uma analogia com a mais­
valia de Marx e afirmou que os estudantes são "equiparados a mais ou menos créditos,
ou seja, são etiquetados como créditos, unidades de valor'�º. Pode-se apreender que,
no discurso universitário, o "a estudante" é tomado como objeto e o aluno-obj eto
enunciará a reprodução dos enunciados dos quais se torna mero porta-voz.
O legado de Lacan sobre os discursos que fazem laço social possibilita r efleti r
sobre os lugares que o sujeito pode vir a ocupar em uma instituição educacional .
O aluno teria se transformado no escravo do saber científico contemporâ n eo?
O professor seria o mestre contemporâneo do saber científico? O pai , como
si gnificante, seria o agente do discurso do mestre? Na tentativa de articular e ssas
indagaçõ es à prática institucional, utilizarei a p eça de Wedekind "O desp er tar da

• Ibid, p. 96.
9
Jbid, p. 98.
'º Jbid , p. 1 9 1 .

1 52 Saber, verdad e e g
oiº
r im avcra" 1 , que trata de questões cruciais do jovem cm seu meio escolar. Embo ra
1

� p sicanálise não se proponha a analisar a estrutura de personagens, pode tirar


J rovcito do discurso literário para pesquisar sobre o sujeito, assim como o fizeram
� rc u d e Lacan: Freud comentou a peça de Wcdckind em 19071 2 , cm uma sessão

das q u artas-feiras com um grupo de psicanalistas, e Lacan prefaciou sua edição


fra nce sa .
13

A peça traz à tona experiências dos estudantes cm suas relações com os pais,
co l eg as e professores. A partir de um fragmento da obra, tentarei pensar o lugar
do s ujeito nos discursos do mestre e do universitário. Melchior, um dos protago­
nis tas, vive com os colegas o problema do Liceu:
Melchior: Gostaria de saber por que, ao certo, estamos nesse mundo?
Moritz: Ir à escola! Preferia ser um burro de carga! Por que vamos ao colégio?
Vamos ao colégio para que possam nos obrigar a fazer exames? E por que nos
fazem passar pelos exames? Para sermos deixados cair. Há sete que devem ser
reprovados. Na turma do ano que vem só cabem sessenta alunos. Trabalhar, tra­
balhar, eis o que vou fazer nem que os olhos me saiam da cabeça. Robcl já acu­
mulou seis reprovações. Eu já me meti cinco vezes nesse estado lamentável e não
corro mais o risco de que se reproduza tão cedo! Robe! não se matará, não tem
pais que lhe sacrifiquem tudo [... ] eu, se caio, é um golpe de matar para meu pai,
e o hospício para mamãe [... ] Se cu fracasso, quebro o pcscoço. 1 4

Essa passagem remete ao discurso universitário, que lida com o outro como
objeto e produz um sujeito dividido, barrado e condenado ao lugar da própria
ignorância. Em seu livro Sexo e discurso em Freud e lacan, Marco Antonio Coutinho
Jorge retoma os ensinamentos de Lacan em relação ao discurso universitário:
O Único discurso que considera o outro enquanto sujeito é o discurso analítico. Inver­
samente, o discurso_ universitário trata o outro enquanto objeto, o outro se encontra
nele objetificado. [... ] o que o discurso universitário transmite é a incidência do
saber depositado, preconcebido, sobre o outro objctificado. Ou seja, trata-se de

" W EDEKIND, Frank. L'Ercil du printemps ( 1 891 ) . Paris: Gallimard, 1 974. Fotocópia de uma
tradução da peça, arquivada sob n. 8 3 2 . 9w391 . l , na Biblioteca da UNIRIO / Rio de Janeiro.
11 0
comentário foi feito durante uma das reuniões das quartas-feiras da Sociedade Psicanalítica ,
que se tornaria, em abril de 1 908, a Sociedade Psicanalítica de Viena. Coube a Otto Rank
redigir a ata, co11fiada por Freud, em 1 93 8 , a P. Fedem e legada por este a Numberg.
" LACAN, Jacques. "Lacan sobre Wedekind: o despertar da primavera" ( 1 974), FALO, Revista
Brasileira do Campo Freudiano, n. 4/ 5 . Bahia, Fator, 1 989.
"' WEDEKIND, Frank. L'Ercil du printcmps. Op. cit.

Que lugar para o sujeito na escola?


153
um simbólico que pretende domar o real ou, dito de outro modo, de um real
subjugado. Por isso , no discurso univ ersitário, o outro silencia para que o saber
cristalizado fale. 1 5

Mais adiante, o autor esclarece que, tomado como objeto, o sujeito não tern.
mais voz ativa, restando-lhe o silêncio: "O que ele enunciará, a partir daí, nada
mais terá a ver com ele próprio e será, portanto, a reprodução dos enunciados dos
quais el� se torna mero porta-voz. Desse modo, a particularidade do estilo d o
sujeito é recusada, e sua enunciação, abolida'%.
A cena citada denuncia a burocracia do discurso universitário na escola de
Moritz: a obrigatoriedade dos exames, os resultados finais - aprovação ou repro­
vação -, a concorrência por vagas limitadas, a urgência de comprovação de um
saber. Pode-se observar que esse discurso se apresenta sob o mandamento "Saiba
tudo, não pare, continue a saber sempre mais", evidenciando a tirania do saber.
A fala de Moritz revela que os alunos de sua escola se encontram submetidos ao
discurso universitário : o estudante estaria na posição do outro, do trabalho, identificado
ao objeto a, no lugar de "a estudante", explorado, encarregado de produzir o sujeito
dividido, sofrido por não conseguir dar conta do ideal do saber científico - ou
seja, sofrido por não ser oniscicnte.
Moritz diz: "Na turma do ano que vem cabem sessenta alunos. Trabalhar, tra­
balhar, eis o que vou fazer nem que os olhos me saiam da cabeça . . .". No decorrer
da peça, ao contrário do que enunciara, Moritz não estuda, não trabalha, não
produz. Ele não se põe, como os outros alunos, na posição de objeto a no discurso
universitário que opera cm sua escola, mas simplesmente faz-de-conta de estudante,
fingindo que estuda e trabalha. Como não sabe o que fazer para escapar do man­
damento imposto pelo discurso, engana a si mesmo e nega seu fracasso escolar,
mantendo-se, diante do grupo, como aquele para quem tudo vai bem. A écna na
qual conversa com os amigos sobre os resultados dos exames ilustra esse argumento:
Moritz: Eu passei! Melchior, cu fui aprov ado, eu passei!
Limmcmeicr: Você não deve ter lido direito! Tirando os outros , com v ocê e Erncst
a classe fica com sessenta e um alunos e o número de v agas é sessenta!
Moritz: Por isso que eu demorei ! Lá estav a escrito que nós dois passávamos com

15
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Sexo e discurso cm Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge zahar
Editor, 1 997, p. 92 .
1
• Ibid , p. 147.

1 54 Saber, verdade e gozO


uma condição: no primeiro semestre eles vão escolher quem vai ficar. Ou ele ou
cu. Coitadinho do Robcl! Coitado ! Agora cu juro : não tenho mais medo nc­
nhum. 17

Diante da concorrência por uma vaga, Moritz entra cm angústia. Ele não pode
en frentar a concorrência imposta pelo discurso universitário, não está na posição do
outro, do trabalho, no discurso universitário, mas no lugar da produção no discurso do
mestre, ou seja, no lugar do objeto a, posição de resto, queda. Retomando sua fala
anterior: "Por que vamos ao colégio? Vamos ao colégio para que possam nos obrigar
a fazer exames? E por que nos fazem passar pelos exames? Para sermos deixados
cair". Com a expressão "deixar cair", Moritz denuncia seu lugar no discurso do
m estre: objeto que cai. Identificado a a, cai como resto, suicida-se.
Os professores de Moritz ocupam para ele a posição de um Outro onipotente,
um a autoridade absoluta, um Outro não barrado ; parecem não se importar com
seus apelos. Freud falara sobre isso em 1 9 1 0, na Sociedade Psicanalítica de V iena.
Ao discutir o suicídio dos jovens, afirmou que os professores deveriam ocupar -se
mais cm sustentar o aluno a partir do lugar da função paterna:
Se é o caso que o suicídio de jovens ocorre não só entre os alunos de escolas
secundárias, mas também entre aprendizes e outros, esse fato não absolve as
escolas secundárias; isso deve talvez ser interpretado como significando que, no
concernente a seus alunos, a escola secundária toma o lugar dos traumas com
que outros adolescentes se defrontam cm outras condições de vida. Mas uma
escola secundária deve conseguir mais do que não impelir seus alunos ao suicídio.
Ela deve lhes dar o desejo de viver e devia lhes oferecer apoio e amparo em uma
época de vida em que as condições de seu desenvolvimento as compelem a afrou­
xar seus vínculos com a casa dos pais e com a família. 1 8

Não pretendo que educadores respondam do lugar de agente (a) do discurso


do analista, lugar de semblante. Faz-se necessário que, inseridos em uma instituição,
os professores respondam do lugar de agente dos discursos do mestre e do univer­
sitário. Contudo espera-se que estejam advertidos do impossível para todo ser
falante, o que permite que não se esquivem quando tiverem de confrontar seus
alunos com regras e limites. Espera-se também que saibam que essas r egras e

1 WED EKIN D, Frank. L'Erci/ du printcmps. Op. cit.


7

8 FREU D , Sigmund. "Contribuições para uma discussão acerca do suicídio" ( 1 9 1 0). Em: Obras
1

completas, vol. XI , p. 2 1 7.

Que l ugar para o sujeito na escola?


1 55
limites só terão efeito se reconectarem o sujeito com a forma particular pela qua
l
as leis da linguagem impingiram, a cada um deles, a perda inevitável da qual pr e­
cisam tornar -se responsáveis para buscar o que desejam, para assumir seu desej o e
fazer dele causa de trabalho.
Os professores de Moritz não se ocuparam cm sustentar o aluno do l ugar
veiculado pela função paterna ; ao contrário, eles o deixam cair e ele se suicida. H á
duas leis possíveis de serem transmitidas pela escola : a lei veiculada pela fun ção
paterna barrando o desejo do Outro absoluto e a lei da pura interdição, que não
sustenta o sujeito desejante, mas o tiraniza, exigindo que trabalhe e deixe s eu
desejo para depois. Essa última era a lei vigente na escola de Moritz, lei da p ura
interdição, na qual o professor se posiciona no lugar do Outro não barrado, desca ­
racterizando o aluno como sujeito desejante. A cena do enterro de Moritz co nfir ma
a lei da pura interdição, através da fala do pai, que indica a rejeição do filho, e da
fala tirânica dos professores:
Pai de Moritz: O pequeno não era meu! Desde pequenina essa criança não me agradava.
Reitor: O suicídio, como atentado, para lá do possível pensável, à ordem moral do
mundo, é uma prova em favor dessa ordem moral do mundo, além do possível
pensável, naquilo que o suicídio poupa a ordem moral do mundo o cuidado de
pronunciar sua sentença e confirma que essa ordem existe.
Professor: Dissipado, depravado, esfarrapado, degenerado!
Reitor: De qualquer modo é altamente inverossímil que o tivéssemos podido fa­
zer passar para a classe superior.
Professor: Se o tivéssemos feito passar para a classe superior, na próxima primave­
ra ele estaria mor to, nenhuma dúvida quanto a isso!
Pai de Moritz: O pequeno não era meu ... O pequeno não era meu ...
Amigo: Eu também preciso trabalhar noites inteiras. Se ele tivesse aprendido a
história da literatura grega, não teria tido de se matar. 1 9

Moritz não responde às expectativas de seus pais : nunca foi bom aluno. Nas
palavras de Sonia Albcrti, "[... ] ele é literalmente aquele estudante ao qual Fr eud
se refere na discussão cm 1 9 1 0: incompreendido pelo pai ou substituto - e digo
incompreendido no sentido de não sustentado pela função paterna, posto q;-1_�
pai não per mite qualquer significação para o desejo -, Moritz suicida-se cm um a
,�o
última tentativa de barrar o circuito cm que ainda figurava como objeto de gozo

19 WEDEKIND, Frank. l 'crcil du printemps. Op. cit.


'º ALBERT(, Sonia. Esse sujeito adolescente. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 1 999, p. 1 3 2.

156 Saber, verdade e .gozo


o lugar do pai e o lugar do professor
[::in J 9 1 4, Frcud advertiu que o jovem ainda não está cm condições de enfrentar
21

soz inho as dificuldades do mundo adulto e, por isso, transfere para o professor a
figura paterna. Por essa razão, o professor deveria posicionar-se do lugar de poder
sup orta r essa sustentação. Segundo Freud, o professor sofre a mesma vicissitude que
a devido ao complexo de Édipo, e sua importância está não no que ele é, como
0 p i,

querem os pedagogos, mas no que ele representa na economia psíquica do sujeito.


Em al guns momentos, o professor provoca a mais enérgica oposição ; cm outros,
co mpleta submissão. Freud buscou as origens dessa ambivalência nas primeiras
relações objetais: a mãe, o pai e os irmãos serão substituídos pelo professor; para
el e serão "transferidos" afetos e emoções vividos com esses primeiros objetos.
Quando o filho descobre que o pai não é "mais sabido e poderoso", fica insatisfeito
com ele e aprende a criticá-lo, transferindo para o professor as expectativas antes
ligadas ao pai. Depois, destitui também o professor desse lugar ideal. Nas palavras
de Freud: "O pai também é reconhecido como aquele que perturba, por sua su ­
premacia, a vida pulsional: ele se torna o modelo que não só quer refletir, mas
também afastar, a fim de tomar o seu lugar"2 •
2

Wcdekind descreve uma cena na qual Melchior é interrogado pelo "conselho


tutelar" sobre um escrito encontrado pelo pai de Moritz quando procurava, nos
pertences do filho, um vestígio do que poderia tê-lo levado a se suicidar. O inter­
rogatório se dá pela suspeita de que Melchior teria escrito o famigerado tratado
intitulado "O coito", encontrado entre os objetos de Moritz.
Reitor: Você tem de responder às perguntas exatamente formuladas que cu lhe
faço na ordem, uma após a outra, e com um sim ou um não simplesmente!
Conhece esse escrito?
Melchior: Sim.
Reitor: A escrita desse escrito é sua?
Melchior: Sim.
Reitor: A concepção desse obsceno escrito lhe diz algu ma coisa?
Melchior: Sim. Eu lhe peço, senhor reitor, que me apresente uma única obscenidade.
Reitor: Você tem de responder às per guntas exatamente formuladas que lhe pro­
ponho por um sim ou por um não, simplesmente.
Melchior : Eu não consignei nada mais do que uma realidade que lhe é pcrfcita­
rncntc conhecida.

" FRE UD, Sigmund. "Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar" ( 1 91 4) . Em : Obras
cornpfctas, vol. XIII. Op. cit.
12
lbid . , p . 2 87.

Q11e · 111gar
para o sujeito na escola? 1 57
Reitor: Patife !
Melchior: Eu lhe peço que me mostre uma única ofensa aos costumes nesse escrito!
Reitor: Você imagina que eu desejo bancar o palhaço diante de você?
Melchior: Eu...
Reitor: Você tem também tão pouca deferência pela dignidade do inteiro corpo de
seus professores quanto senso de decência ante o sentimento de descrição inato
ao homem cheio de modéstia diante da ordem moral do mundo.
Melchior: Eu...
Reitor: Peço a nosso colega, escrivão, que feche o processo verbal !
Melchior: Eu...
Reitor: O que você tem é de se calar! Leve-o para fora! 23

Sem direito à palavra, Melchior é julgado e condenado por wn escrito dito obs­
ceno · que dera a Moritz antes de seu suiddio. Do lugar de agente no discurso do
mestre, o reitor não quer saber de nada, não tem wna escuta para o que Melchior tenta
dizer, ele quer simplesmente que as coisas andem no Liceu de acordo com a moral e os
bons costwnes, e é cm nome do bem que expulsa Melchior: "Um verdadeiro senhor
não deseja saber absolutamente nada - ele deseja que as coisas andem'�4 .
A última cena da peça de Wedekind se passa no cemitério e ilustra a relação
entre a função paterna e o laço social. Melchior, desolado pela morte da amiga
Wendla, causada pelo aborto de um filho seu, e desesperado com a expulsão do
Liceu, foge do reformatório para onde foi levado como punição e pula o muro do
cemi.t ério.
Melchior: Eis-me suspenso sobre... O que é que me mantém ainda em pé? O crime
chama o crime. Estou condenado à lama. Eu não era mau. E fui eu que a matei !
Resta-me o desespero. Não tenho direito de chorar aqui.
Moritz (o fantasma, com a cabeça cm seus braços entre os túmulos) : Um instante,
Melchior!
Melchior: De onde você vem?
Moritz: De lá, do muro lá adiante. Você derrubou minha cruz. Eu repouso junto
ao muro. Dê-me a mão. Você me agradecerá.
Melchior: Se aceito, Moritz, será por desprezo a mim mesmo. Eu me vejo um
pária. O que me dava coragem, agora j az no túmulo. Os Ímpetos nobres, não
posso mais decidir-me a estimá-los e não percebo coisa alguma que se atravesse
cm minha decadência. Sou a criatura mais execrável de todo o universo: 5

2
1 WEDEKIND, Frank. L'Eveil du printcmps. Op. cit.
24 LACA N, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit . , p. 2 1.
25
WEDEKIND, Frank. L'Evcil du printcmps. Op. cit.

1 58 Saber, verdade e g o
zO
Entra em cena o Homem Mascarado :
Homem Mascarado a Melchior: Mas você está tremendo de fome. Você não está ab­
solutamente cm condição de julgar. Vá embora (a Moritz) .
Melchior: Quem é você?
Homem Mascarado a Moritz: O que você tem a fazer aqui? Por que não está com a
cabeça no lugar?
Moritz: Eu me dei um tiro de revólver.
Homem Mascarado: Então fique no lugar que lhe cabe.
Moritz: Por favor, não me mande embora . . .
Melchior: Quem é o senhor?
Homem Mascarado: Faço a você uma proposta: queira confiar-se a mim. Meu pri­
meiro cuidado seria que você tivesse sucesso.
Melchior: O senhor é meu pai?
Homem Mascarado: Será que você não reconhece o senhor seu pai pela voz?
Melchior: Não.
Homem Mascarado: O senhor seu pai procura, nesse momento, consolação nos bra­
ços robustos de sua mãe. Eu lhe abro o mundo. Você perdeu momentaneamente
o equilíbrio com seu estado miserável. Um bom jantar quente na barriga e de
seu estado você verá.
Melchior (falando baixo para ele não escutar) : É preciso que ele seja o diabo em
pessoa! (Em voz alta:) Depois do mal que eu fiz, não será um jantar quente que
me restituirá o repouso!
Homem Mascarado: Depende do jantar! . . .
Melchior: Quem é o senhor? Não posso me confiar a um homem que não conheço!
Homem Mascarado: Você não aprenderá a me conhecer, a menos que se fie em mim . . .
Aliás, você não tem escolha.
Moritz: . . . Minha moral lançou-me para a morte . Foi por amor a meus caros pais
que usei a arma mortífera. "Teus pai e mãe honrarás a fim de viver longamente".
Para mim, esse mandamento recebeu um desmentido fenomenal.
Melchior: . . . cu posso lhe dizer categoricamente, senhor, se ainda agora cu esten­
desse a mão a Moritz sem qualquer cerimônia, minha moral, e só ela, teria sido
ª causa. Adeus caro Moritz. Onde esse homem me leva, eu não sei, mas é um
homem . 26

A p uberdade é marcada por uma passagem em que o sujeito neurótico pode


p erd er a fig
ura paterna idealizada. Para elaborar esse luto , o adolescente se torna
cr'ti co, m
p � uitas vezes usando de sarcasmos. Esse momento exige que o Nome-do-
ai c ompar
eça cm sua representação simbólica, ou seja, que esse pai do nome

,, lbid.
venha sustentar a função paterna. Na teoria psicanalítica, a metáfora pat cr
na
concerne à função do pai, que está no centro da questão do complexo de Édi
rcve1a da pe 1o mconsc1cnte.
Po
. .
,, A função do pai aponta o lugar no qual o pai intervém : antes de qua lqu
er
outra coisa, ele interdita a mãe, e é aí que se liga à lei primordial da proibiç ão
do
incesto. O materna lacaniano da metáfora revela que o desejo da mãe é uma si rnpl
cs
incó gnita para o sujeito, e o Nome-do-Pai vem barrar esse desejo. A partir d ess
e
momento, é o Nome-do-Pai que regula o Outro como determinado pela signifl. _
cação fálica, e será somente depois da aquisição do significante Nome-do-Pai que
a relação da mãe com a criança poderá ser expressa cm termos de desejo. Quando
esse significante não se inscreve no simbólico, tem-se a psicose: a criança se percebe
como objeto de gozo da mãe, e não como objeto de desejo. A fórmula da m etá fora
paterna esclarece, assim, que a função simbólica do pai é estruturante e, por isso
mesmo, castradora : barra o acesso ao mundo do gozo com a mãe.
A peça dramatiza a tentativa do fantasma de Moritz de convencer Melchior a
se matar. O Homem Mascarado, surgido das trevas, salva Melchior das garras do
fantasma Moritz, exercendo a função paterna de sustentar a vida do suj�_ito diante
do desmoronamento do mundo a seu redor. Assim, a função paterna pela qual
Melchior é marcado, é sustentada, na peça, pelo Homem Mascarado: é ele quem
barra o gozo pelo qual Melchior é tomado.
Melchior apela ao pai para fazer a barragem desse gozo não significantizado.
O Homem Mascarado recomenda a Melchior que ele não dê tanta importância
aos ú ltimos fatos, sugere que tudo por que está passando não é tão grave quan to
parece e oferece um jantar quente, sugerindo que isso dissiparia seu estado mis e ­
rável. Dessa forma, não só esvazia de sentido os últimos acontecimentos da vida
de Melchior, como também opera como referencial para o rapaz, evitando que
ele se deixe morrer. O Homem Mascarado permite a Melchior uma referência
simbólica, instalada pela função paterna, salvando-o das garras do fantasma Mo ri tz;
ele vem sustentar o sujeito diante do desamparo fundamental de sua demanda de
proteção. Em seu prefácio à peça, Lacan escreveu: "Entre os Nomes-do-Pai, existe
o do Homem Mascarado. Mas o Pai cm tantos e tantos que não há um que l he
convenha, senão o Nome do Nome do No�e:Não um Nome que seja seu Nom ·
e

' · · ' · S CJ· o faz-de-conta por cxcc l cn


- o Norne como ex-s1stcncia. ' ei a E 0
Propno, scnao ª
Homem Mascarado diz isso bastante bcm"27 .

27
LACAN, Jac9ucs. lacan sobre Wedekind: o despertar da prima vera. Op. cit. , p. 5 .
As mortes de Moritz e de Wcndla (grávida) trazem para Melchior o real da
cas tração. Diante dessas perdas, ele precisa fazer valer o significante Nome-do-Pai
ar a que possa sustentar a exceção. O pai exceção, figura mítica de "Totem e tabu",
� aqu ele que tem o falo, representa um pai que não teria sido castrado e que, portanto,
od e ditar as leis que barram o gozo. A necessidade de um pai ideal que sustente o
p
sui·eito diante do desamparo fundamental emerge cm sua demanda de proteção,
ap esar de Melchior já ter se deparado com um pai castrado, que dormia no aconchego
da mulher. Do lado dos substitutos dos pais, ou seja, do Outro social, Melchior não
en c ontra algo que lhe permita fazer do professor uma figura paterna eficaz. Há algo
na r elação com o Outro - lugar aqui ocupado pelo professor - que claudica, e
Melchior precisa fazer valer o significante Nome-do-Pai.
Os três registros do pai - real, simbólico e imaginário - constituem o sujeito
de sejan te com a inscrição da metáfora paterna, e isso permite a inscrição do sujeito
na relação com os o utros, fazendo dele um ser da cultura. Pode-se observar, nos
discursos lacanianos , que a inscrição do sujeito na relação com os outros se dá nos
luga res de agente e do o utro. Essa relação só pode ser estabelecida com o advento da
identificação primária ao pai, ou seja, S 1 - significante mestre, que engendra S2 -
é fundamental para o estabelecimento dos laços sociais .
O discurso do mestre - o discurso do inconsciente - é quase um protótipo da
operação de simbolização, ou seja, S1 em direção a S2 produz a, objeto que sobra
da operação do Nome-do-Pai. Na operação de simbolização, o pai simbólico (Nome­
do-Pai) , o pai morto, reduzido a puro significante, não impede que a incidência
do Nome-do-Pai deixe um resto, que vai apontar para o pai real, agente da castração.
-.:1- 0 pai real é um pai que goza e, ao mesmo tempo, priva. O pai do gozo, o pai
impossível, surge na clínica na imagem do pai que cometeu algum "pecado", e seu
gozo é localizado pelo sujeito cm seu sintoma. Sonia Alber ti explicitou esse argu­
1

mento:
[ .. . ] o que é próprio da cultura e que mantém um laço com o sujeito também é
próprio do mal-estar na civilização. Este, por sua vez, revela que jamais será
possível arrematar os três registros. Do lado do sujeito, algo sempre faz sintoma ;
do lado da cultura, pai-a-versão (pere-a-version), aversão. [... ) É tecendo voltas e
voltas em torno desse real impossível de dizer [... ) que os nós vão se consolidando
[... ] e o sujeito vai podendo, enfim, exercer-se como agente, movimentando o
laço social. 28

18
ALBERT) , Sonia. Esse sujeito adolescente. Op. cit., p. 1 64-5 .

Que lugar para o sujeito na escola?


Instituto de Psicologia - UFRGS 161
O lugar do aluno
Ao contrário do discurso analítico, que toca os sujeitos um a um, os discursos d
o
mestre e do universitário atingem as massas: governar corresponde ao pri m eiro
cm que o poder domina, e educar expressa o segundo, regido pelo saber. Q ual �
lugar para o aluno nesses discursos?
Ao longo da peça, Melchior faz giros em ambos os discursos. No discurso do
mestre, ocupa o lugar do outro: identificado ao escravo, submete-se à visão normati va
da política institucional, a uma ordem que funciona sobre o recalcamento de sua
subjetividade. Seus professores não tiveram uma atenção que lhe permitisse esco­
lher a vida: sem direito à palavra, é julgado e expulso do Liceu em nome do bem,
da moral e dos bons costumes. No discurso universitário, parece ocupar o mesmo
lugar, ou seja, o lugar do outro, porém identificado ao objeto a. Uma vez identificado
ao "a estudante", ele também silencia, para que o saber cristalizado ( S) fale. Há
uma exigência mínima do discurso universitário : é o professor quem fala, e 0

estudante se limita a imitar o professor quando fala. Imagina-se que o saber do


discurso universitário pode residir na dimensão do "bem-entendido", o que é sim­
plesmente impossível.
Ao situar, no discurso do analista, o saber (S) no lugar da verdade, Lacan indicou
que esse saber, como toda e qualquer verdade, tem estrutura de ficção, pois o que
está em jogo é o saber do próprio sujeito, que produz seus significantes particulares.
A verdad e do sujeito nesse discurso é a castração, e a verdade da castração é um
saber inconsciente que se sabe "furado", "não-todo" - é um saber sobre o Nome­
do-Pai, como se pode verificar na última cena da peça de Wedckind. Foi no discurso
do analista, portanto, que Lacan situou o Nome-do-Pai (S2 ), exatamente no lugar
da verdade da castração, que só se sustenta em um semidizer : "Simplesmente não
vejo por que eu falaria no Nome-do-Pai, posto que, de todo modo, onde ele se
situa, quer dizer, no nível em que o saber t em função de vcrdade"29 .
A peça torna possível verificar o que Lacan formula nos discursos que fazem
laço social, ou seja, a relação entre saber e gozo do Outro como campo de inter­
venção do significante. A partir dos discursos de Lacan, pode-se estabel ec er a
relação com a verdade que cada um deles encena : os discursos do mestre e do
universitário apontam para verdades que se opõem à do discurso do analista. O pri­
meiro traz o engodo, vela a verdade sobre a castração ; o segundo traz o significant e

29
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 102.

1 62 Sab er, verdade e gozo


no lugar da verdade e, por isso mesmo, a rejeita. O discurso do analista,
Jll cst re (S)
ªº con tr ário, pergunta para que servem essas formas de saber que velam, rejeitam
a dinâmica da verdade. Que efeito pode ter a descoberta de que a
e e xcluem
nunca é toda, que jamais completa o saber nos sujeitos que se inserem na
ve rda de
olítica educacional ?
p
Na peça de Wedekind, o professor geralmente se identifica , no discurso do
me stre, com o lugar do mestre (S) ; e no discurso universitário , com o lugar de
sabe r (S), lugar do mestre contemporâneo - o que não deveria ser diferente, pois
as posições de agente nesses discursos são necessárias aos laços sociais. Porém a
des cober ta de que a verdade nunca é toda, que jamais completará o saber, talvez
tivesse como efeito a possibilidade de desalojar o professor do lugar de "mestre­
sabe-tudo", permitindo o desvclamento da falta que propicia a transmissão do
desejo de saber. Não devemos esquecer, contudo, que o desejo de transmitir do
pr ofessor não basta : para que alguma transmissão seja possível, é preciso que o
aluno também se posicione como sujeito desejante e queira saber.
A peça de Wedekind ilustra que os grupos sociais ( e a escola de Melchior é um
deles) freqüentemente se organizam para dar consistência ao semblante do pai,
para fazer acreditar que ele é mais que mero semblante: é o significante que se
representa a si mesmo, é o Outro como lugar da lei. Isso tem efeitos nefastos, pois
anula o que a dimensão do semblante evidencia: a inconsistência do Outro.
O discurso do analista
00processo de reabilitação:
uma proposta de trabalho 1
Andréia Pinto dos Santos

A realização da clínica psicanalítica em instituições voltadas para a assistência e o


tratamento de Pessoas Portadoras de Deficiência (PPDs) tem por objetivo a elabora­
ção de propostas de intervenção que considerem a função preponderante do incons­
ciente na existência humana e a tentativa de estabelecer uma práxis que escape ao
modelo adaptativo. A partir dos textos freudianos e das formulações de Lacan cm
seu retorno a Freud, este trabalho visa a levantar algumas questões sobre a temática
da reabilitação de PPDs em um contexto marcado pelos discursos médico-cientificista
e pedagógico e por ações embasadas nas problemáticas sociais decorrentes de sua
inserção em atividades cotidianas (educação, trabalho, lazer etc.).
De acordo com o Decreto n . 3 . 298/99, a deficiência é definida por uma
perda ou anormalidade das funções fisiológicas ou psicológicas e estruturas físicas,
causando a incapacidade de realização de atividades dentro do padrão considerado
normal para o ser humano. O termo "incapacidade" se refere à redução efetiva e
acentuada da capacidade de desempenhar funções necessárias ao bem-estar pessoal
e à integração social, sendo imprescindível ao portador de deficiência o uso de
equipamentos, adaptações, meios e recursos especiais para o exercício de suas
ativi dades básicas e desejáveis2 • Estima-se que aproximadamente 1 0% da população
de cada país seja constituída por pessoas portadoras de al m tipo de deficiência.
gu

1
O presente artigo é fruto de uma pesquisa, iniciada cm março de 2000 e ainda em desenvol­
vimento , no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise, Instituto de Psicologia,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
' Decreto n. 3 . 298 , de 20 de dezembro de 1 999. Regulamenta a Lei n. 7 . 8 5 3 , de 24 de
ou tubro de 1 989, dispõe sobre a Política Nacional para Deficiência,
consolida as normas de
proteção e dá outras providências (Diário Oficial da União. Brasília, 2 1 de dezembro de 1 999)
.

1 65
Nos trabalhos direcionados a essas pessoas, o processo de reabilitação é co
cebido como "um meio de ajudar o indivíduo incapacitado a tirar o máxi rno d
tl-
e
suas capacidades para a satisfação salutar de suas necessidades e para a auto - reaJi_
zação. Isso significa restauração física máxima, reconhecimento mais confor táve)
da incapacidade, alteração nas metas, substituição de antigas satisfações por n ova
s
e desenvolvimento de recursos novos ou não utilizados"3 . Na tentativa de alcançar
as metas, que se encontram referenciadas na própria definição de reabilita ção
podemos, segundo literaturas relativas à mesma, constatar que o discurso vig ent�
nesse processo está embasado por al guns princípios, tais como :
• ajustamento às limitações ;
• reconhecimento / aceitação da incapacidade ;
• aprendizagem de novos compor tamentos compatíveis com a deficiência e a
realização de determinadas tarefas ;
• adaptação para integrar o deficiente à sociedade ;
• melhor compreensão da dinâmica, em situações diversas, dos comporta­
mentos do deficiente, possibilitando previsão e reconhecimento das dificul�
dades como compor tamentos a serem eliminados.

As práticas institucionais de assistência e tratamento dos deficientes definem o


sujeito por sua deficiência, deixando de abordar sua singularidade. Isso marca uma
distinção entre tais práticas e a psicanálise, uma vez que, na experiência analítica, o
deficiente é definido não por fatores ou traços biologicamente diferenciadores
(congênitos ou adquiridos), mas como categoria discursiva: sujeito marcado por
uma divisão estrutural e submetido à ordenação simbólica, isto é, aos mecanismos
de linguagem. A utilização da psicanálise como instrumento de análise e intervenção
sobre práticas vigentes no processo de reabilitação indica a necessidade de deslocar
o olhar da deficiência e direcioná -lo - sobretudo a escuta - para um mais-além4,
dando voz ao sujeito, seja ele o deficiente ou o profissional que com ele atua .
O sujeito, segundo a psicanálise, é efeito de discurso e a estrutura de tod o
discurso apresenta um corte, uma falha pela qual esse sujeito pode emergir. Lacan
estrutura quatro discursos (do mestre, da histérica, do analista e do universitá ri o )

1 YESNER, H. J. "Diagnóstico psicossocial e serviço social". Em: KRUSEN, X. Trarado dc m ediCÍJJª


fisica e reabilitação. São Paulo: Manole, 1986, p. 1 5 2 .
e
4
Cf. LIMA, L. M . N. "Uma abordagem psicanalítica da estimulação precoce". Monografia d
s e,
Curso de Especialização cm Psicanálise 1. Niterói , Universidade Federal Flum in e n
Departamento de Psicologia, 1998, p. 37.

1 66 Saber, verdade e gozo


i11 reguladores do laço social. Tomando-os como referência, abordarei a posição
co º
ujeito nos discursos atuais e suas práticas decorrentes. Por estar inserido no
do s
da linguagem, o sujeito faz laço so cial ocupando diferentes lugares em
fllundo
cad a dis curso, e é justamente por essa posição que podemos analisar e delimitar o
can1Pº de atuação da psicanálise e distingui-la das demais práticas, particularmente
diz respeito ao sujeito portador de deficiência.
no que
A teoria dos quatro discursos pode ser considerada decorrência do postulado
pri mor dial do ensino de Lacan : o inconsciente é estruturado como linguagem e,
porta nto, está submetido à lógica significante • Com base na teoria de Ferdinand
5

de Sa uss ure, que distingue no si gno uma fa ce do significante e outra do significado,


La can ultrapassa a concepção de linguagem como constituída de signos que expri­
rne m signifi cações, ressaltando a barra que divide significante e si gnificado e apre­
sentan do a prevalência do primeiro em relação ao segundo. Posteriormente, con­
ceit uou o sujeito do inconsciente como atravessado por essa mesma barra.
Essa teoria compreende quatro elementos que compõem a estr utura de todo
discurso : S 1 (significante mestre), designado pelo campo do Outro ; S2 (saber),
designado como ''bateria dos si gnificantes''6, ou seja, os significantes estruturados
no mundo ; a (objeto mais-de-gozar), desi gnado por algo que se define como perda
gerada no trajeto S 1 -S 2 , e $, sujeito dividido pela própria inserção na linguagem .
Como todo discurso possui uma verdade que o move, havendo um agente que se
direciona a um outro a fim de obter uma produção, definem-se os quatro lugares que
esses elementos podem ocupar no discurso. É a rotação dos quatro elementos nos
quatro lugares que fornecerá a configuração da estrutura de cada discurso formu­
lado por Lacan.
No discurso do mestre, o agente é S 1 (significante mestre), que se direciona
ao o utro, desi ado campo do saber (S), buscando representar o sujeito, que se
encontra abaixo da barra ($) para o S ; um sujeito, porém, que deve se reduzir a
gn

ser idêntico ao próprio significante, como se este representasse a si mesmo. O dis­


2

curso do mestre prima pela univocidade de sentido, transformando o significante


ern signo (aquilo que representa alguma coisa para alguém), ou seja, opera em
ter rnos de identidade, em detrimento da alteridade, sem deixar lugar para a plu­
ralidade de sentidos característica da lin agem.
gu

s Cf. JORGE, Marco Antonio Cou tinho. Sexo e discurso em Freud e lacan. Rio de Janeiro : Jorge
Zahar Editor, 1988, p. 158.
6
LACAN, Jacques . O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro : Jorge Zahar
E ditor, 1992, p. 1 1.

C) discurso do analista no processo de reabilitação 1 67


Articulando esse discurso à deficiência, tem-se que S 1 , seu significante, r epr e­
senta o sujeito ($) perante a sociedade, identificada como S2 • O deficiente é defini do
exclusivamente por um traço biologicamente diferenciador. Ao determinar o sujei to
por sua deficiência, anula-se sua singularidade.7 A divisão do sujeito pela qual se cons­
titui a particularidade de seu desejo se apresenta velada, abaixo da barra, no lugar da
verdade, entretanto, oculta - "a dimensão na qual ela se necessita como algo escondi­
do"8 . Dessa forma, o discurso do mestre apresenta-se totalitário excluindo a diferença
que marca cada sujeito cm função dessa perda primordial (designada pelo objeto a) e
que se constitui como único modo pelo qual a subjetividade pode se manifestar.
O discurso do mestre tem como contraponto o discurso anaütico. Enquanto
no primeiro a verdade é mantida escondida, no segundo o sujeito dividido se
evidencia a partir da histerização de seu discurso , ou seja, da "introdução estrutural,
mediante condições artificiais, do discurso da histérica'>9, da qual resulta um sujeito
motivado pelo desejo de saber o valor de seu próprio dizer, uma vez que é efeito
de uma falha gerada em algum lugar de seu próprio discurso.
A histérica , produtora de um homem movido pelo desejo de saber, promove
uma virada em termos de discurso , uma vez que, historicamente, o mestre sempre
extraiu o saber do o utro, obtendo dele sua completude e velando a divisão que se
encontra no lugar da verdade de seu discurso. A histérica denuncia a castração do
mestre, evidenciando o que ele prima por esconder, ou seja, o objeto a que institui
o desejo. O que se encontra em questão no discurso da histérica é o sujeito dividido
(Z), e este é o fundamento da experiência analítica: histericizar o discurso do
sujeito justamente porque, no discurso da histérica, ele ocupa o lugar de domi­
nância , de agente do discurso. No discurso do analista, o sujeito passa a ocupar o
lugar do o utro a quem se solicita que trabalhe, que produza os significantes que o
constituem e os ponha em relação com sua verdade.
A posição ocupada pelo psicanalista é a de objeto (objeto a), situado no lugar
de agente do discurso e cuja sustentação reside em S 2 , isto é, o saber no lugar da
verdade. Porém o saber situado como verdade se apresenta como enigma, interpela

7 A articulação entre o discurso do mestre e a deficiência encontra fundamento cm "A psicaná li se


e o suj eito de delito", cm que Luciano Elia apresenta um discurso ("do social") no qual se
pretende definir o sujeito somente através de determinados significantes, ressaltando, por tanto ,
que ele pode ir "além das determinações simbólicas que recebe" (ELIA, Luciano. "A psicanálise
e o sujeito de delito", Controvérsias cm Psicanálise, ano I , n. I . Rio de Janeiro, Editora Universitária
Santa Úrsula I Centro de Ensino, Pesquisa e Clínica cm Psicanálise, 1 998).
' LACAN, Jacques. O scminário, livro 1 7: o avcsso da psicanálisc. Op. cit. , p. 1 79.
• Ibid . , p. 3 1 .
0 s uje ito ($) e resulta na produção de S 1 - significante que reporta àquel e saber
e u c não se sabe, mas é constituinte do sujeito : o inconsciente. O que interessa ao
;n a l ista é um traço que marca o sujeito de forma singular - que o divide -, uma
,,cz que é desse traço que a verdade do sujeito , como desdobrament o de seu
d esejo, pode emergir.
Em suma, a oposição radical entre o discurso analítico e o discurso do mestre
con siste na afirmação de que o sujeito não é unívoco, uma vez que é justamente na
art icu lação de S 1 com S 2 que se apresenta uma falha através da qual ele se constitui .
Nessa relação S 1 -S 2 , algo permanece oculto em relação ao próprio significante: a
resposta do r eal à tentativahdc significação. Lacan denomina o fracasso do signifi­
cante como o "ser para a morte", e isso concerne ao sujeito porque o "ser para a
morte é o cartão de visita pelo qual um significante representa o sujeito para
outro significante" 10 • Mas nenhum significante dá conta de dizer o que é o sujeito,
pois algo sempre escapa. Esse "cartão de visita" porta o endereço da morte -
entendida como castração - em função do corte na relação S 1 -S 2 , implicando urna
perda que marca o advento do sujeito e cujo agente é o impossível, isto é, o real.
Em relação ao deficiente, a psicanálise sustenta que S 1 não diz o que é o sujeito.
Se, no discurso do mestre, o significante "deficiente" constitui o suj eito, tornando­
º um distúrbio psicofísico, funcional, a experiência analítica indica precisamente
que não há definição (consistência de ser) do sujeito a partir do significante: "Trata­
se precisamente de algo que liga, cm uma relação de razão, o significante S 1 a
outro significante S/'1 1 • Nessa relação, o que se apresenta são falhas, tropeços
pelos quais o inconsciente se manifesta.
O discurso do analista no processo de reabilitação pode apresentar uma nova
forma de abordar a deficiência, propondo outros meios de atuação junto a esses
sujeitos, de modo que não sejam identificados simplesmente pela p erturbação do
funcionamento psicofísico e suas implicações. Sua função é fazer emergir o discurso
do sujeito e, assim, permitir o surgimento do desejo inconsciente. É preciso ressaltar
que, corno indica o pensamento psicanalítico, o saber sobre o sujeito só pode advir
da fala que ele produz, e é a partir dessa fala que novas propostas de intervenção
podem ser apresentadas cm função de um dispositivo específico de escuta.
Analisando as práticas institucionais de reabilitação - envolvendo tratamento
rnédico e assistência social -, apresento a hipótese de que a atuação dos profissionais
pode ser localizada no discurso universitário, como instrumento de reprodução

' º lbid . , p.1 72 .


" Ibid . , p . 1 2 8 .

o discurso d o analista no processo d e reabilitação Instituto de Psico logia - UFRGS 1 69


do discurso historicamente construído sobre a categoria "deficiência". É em fun ç ão
de teorias que evoluem ao longo da história na direção da normatização dos corp os
e do saber construído em torno da deficiência que se estabelecem as formas p elas
quais, atualmente, todos nós abordamos o sujeito portador de deficiência. D essa
forma, as práticas exercidas no processo de reabilitação partem de um saber já es­
truturado (agente) que deve ser aplicado sobre um outro, o deficiente, tomado como
indivíduo psicofísico determinado por sua deficiência. Espera-se do deficiente que
ele "compreenda e aceite" sua incapacidade e adquira os "comportamentos" necessários
para sua integração na sociedade (produção) sem, contudo, ouvi-lo em sua singula­
ridade e na particularidade de seu desejo. Eis a estrutura do discurso universitário.
Lacan afirma que o discurso universitário se apresenta como sustentação do
discurso do mestre. 1 2 Se neste o lugar da ordem, do mandamento, é ocupado por
S 1 (significante mestre), naquele o que se apresenta como agente é S2 (campo de
saber). O lugar de sua verdade - lugar de sustentação de cada discurso - é ocupado
pelo elemento que porta o mandamento do mestre, S1 , cujo i mperativo categórico
reside em saber sempre mais. Seu agente, portanto , é um saber constituído (S2 )
i mposto ao outro, e seu produto é um sujeito destituído dos significantes primor ­
diais que compõem sua própria história e produzido segundo um saber preestabe­
lecido. Esse outro a quem o agente do discurso se direciona é tomado como objeto
(a) e se torna mero reprodutor de enunciados nos quais a singularidade é abolida. 1 3
Dessa forma, a atuação do psicanalista junto aos profissionais que atuam com
deficientes deve pôr em questão a função desse saber, atento ao fato de que sustentar
o discurso do mestre - que construiu, ao longo da história, a categoria de deficientes
representados exclusivamente pela deficiência - significa corroborar com a i mposição
de leis morais e regras de conduta e, conseqüentemente, promover a segregação.
É p elo fato de o sujeito ser descentrado do EU e sua particulari dade residir em
seu desejo ( desejo inconsciente) que afirmo a i mpossibilidade de, a priori, adquir�r
um saber sobre o sujeito portador de deficiência, deter minar ou estabelecer regras
e padrões de tratamento específicos e prever respostas na tentativa de adaptá -lo;
i mpossibilidade, enfim, de trabalhar para todos da mesma for ma em função de
uma igualdade ilusória. Através da experiência de diversos profissionais e em meu
próprio cotidiano, verifiquei que os sujeitos respondem de formas diferentes,
encontrando saídas distintas para situações similares .

1 2 Ibid . , p. 1 74.
13
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Sexo e discurso cm Freud e Lacan. Op. cit. , p. 1 46-7.

1 70 Saber, verdade e gozo


'fanto Freud quanto Lacan deslocam a concepção de sujeito como sujeito da
r e pres entação, articulado à idéia de origem, e passam a abordá-lo como algo que
es tá por advir, uma construção constante. A par tir desse deslocamento, a psi­
can ális e se distancia da concepção de um ser unívoco e especifica sua atuação, pois
s e O sujeito é algo que advém, não havendo um momento em que se instaura
co rno tal, submetido a estruturas marcadas de forma defini tiva, ou seja, se não há
um único significante que o sustente, o que há são efeitos de sujeito. Abordá-lo
re qu er, fundamentalmente, escutá-lo.
As deficiências envolvem questões como perdas, danos à imagem corporal,
renúncias, privações e exclusões, tornando-se fundamental um trabalho de escuta
que per mita analisar de que forma o significante "deficiente" se apresenta para o
sujeito, entendendo-se que a posição subj etiva perante essas questões se constitui
cm condição primeira no processo de reabilitação e integração do sujeito no social.
O confronto entre o sujeito deficiente e algo da ordem de uma p erda eviden ­
ciada cm seu próprio corpo pode tanto produzir tentativas de mascarar essa falta
que se apresenta de forma tão imperativa quanto levar a assumi-la. Isso conduz a
dois desdobramentos: tomar a deficiência como uma espécie de "vantagem", tendo
cm vista as "desvantagens" que a mesma produz (a relação entre deficiência e
gozo) ou, a partir daquilo que incide sobre o corpo - a diferença -, construir
novas e criativas formas de se posicionar no mundo, tomando a deficiência não
como aquilo que identifica, constitui o sujeito, mas como o que o afeta. É nesse
segundo desdobramento que reside a aposta no trabalho do psicanalista em insti­
tuições de assistência e tratamento às P essoas Portadoras de Deficiência.
É fundamental para o processo de reabilitação poder ouvir, identificar e intervir
na posição ocupada pelo sujeito cm relação à sua deficiência - suas limitações e
restriç ões, o lugar destinado a ele p ela família e, sobretudo, suas possibilidades.
Deixar que o deficiente fale em vez de falar por ele e convidá-lo a trabalhar é o
que vislumbro como contribuições do psicanalista nesse contexto institucional de
reabilitação.
Debilidade mental: um transtorno
em relação ao saber e à verdade
Elisabeth da Rocha Miranda

O termo débil, do latim dehabili, significa inábil, desajeitado, desgraçado, possuidor


de memória infiel e fugidia 1 • Quando se acrescenta a ele o termo "mental", sai-se
do campo da fragilidade e do enfraquecimento de um corpo lesado para o campo
da psiquiatria e da psicanálise. Para a psicanálise, o que está em questão é o sujeito
do inconsciente e sua relação com o que o causa: o objeto como falta e sua apreensão
pelo significante.
No século XIX, a maioria dos autores restringia a debilidade mental ao conceito
de retardo, originado na teoria da degenerescência de Morei e Magnan. Em 1 905 ,
a partir dos estudos de Binet e Simon sobre a primeira escala de desenvolvimento
da inteligência, a debilidade passou a ser conceituada como déficit intelectual,
desconhecendo e destituindo de toda subjetividade a criança retardada.
Lacan evocou a debilidade mental em diversos momentos de seu ensino, e cm
todos anulou qualquer possibilidade de definição apoiada no déficit intelectual,
conceituando-a como doença fundamental do sujeito quanto ao saber: uma doença,
portanto, em relação com o saber inconsciente, sexual, saber este que porta a
verd ade do sujeito dividido pela linguagem e também sua forma de gozo. A debi­
lidade mental não é uma estrutura, no sentido que Lacan deu ao termo, mas
responde a uma posição do sujeito em relação ao saber e à verdade - posição
subjetiva que, como tal , revela-se no discurso. Nesse sentido, Lacan situa a
debilidade mental como "o fato de que um falante não esteja instalado cm um
discurso. Ele flutua entre dois discursos". Para entendermos essa definição que
Lacan dá à debilidade mental, faz-se necessário pensar o que é o discurso e sua
função no laço social. O discurso é uma conciliação específica dos gozos cm uma
sociedade, uma ordem com a qual cada época regula as modalidades e convivências

1
LAUDELINO FREIRE. Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro, 1 954.
do gozo, ou seja, o que é singular a cada sujeito ; é, cm suma, uma forma de laç
o
social que visa a barrar e ordenar o gozo.
Destaco dois momentos do ensino lacaniano cm que fica explícito o conceito
de discurso como o que freia o gozo : em 1967, no "Congresso sobre psicoses
infantis" - "Toda formação humana tem, por essência e não por acidente, de frear
o gozo"2 -, e em "A terceira", quando se refere ao sintoma como aquilo que p ro­
vém do real, interfere, opõe-se e objeta à conformidade do ser sociaP. Se o sin toma
oferece objeção à conformidade do ser social, é pelo que tem de gozo. Em sua
obra, Freud falara da civilização como o que tenta frear, ordenar a pulsão q ue &.
sempre acéfala. Na luta entre as exigências pulsionais do isso e as exigências do
eu, impostas pelo ideal do eu, cuja matriz simbólica é a identificação ao traço
colhido das insígnias paternas, há uma solução de compromisso : o sintoma. Mar ca
singular do sujeito, o sintoma se revela nas entrelinhas do discurso, que de al guma
forma se enquadra nos moldes da moral civilizada de cada época. Assim, pode-se
dizer que o discurso, para Lacan, é a civilização, para Freud .
No texto "O mal-estar na civilização", Freud observou que o maior sofrimento
humano é a relação do homem com o outro ; homo, homini lupus ou "o homem é o
lobo do homem'"\ como disse T homas Hobbes. Nesse texto, Freud comungou das
idéias de Hobbes e chegou a perguntar : "Quem, em face de toda a sua experiência
da vida e da história, terá coragem de discutir essa asserção?'�.
A civilização impõe enormes sacrifícios tanto à sexualidade do homem quanto
à sua agressividade e, assim, a moral civilizada é um mal necessário. Freud advertiu
contra a ilusão de que as sociedades primitivas poderiam ser invejadas por sua
maior liberdade pulsional. Os povos primitivos estariam "sujeitos a restrições de
outra espécie, talvez mais severas que aquelas que dizem respeito ao homem mo­
derno"6. Concluímos, com Freud, que o homem está fadado ao mal-estar do laço
social. Não há como estabelecer laço social sem perda de gozo. A tentativa de
coibir a pulsão é sempre fracassada, já que a coerção é inerente à própria pulsão,
e esse fracasso está atestado em "O mal-estar na civilização". O mal-estar advém

2 LACAN, Jacques. Enlànce alienée: l 'enfant, la psychose et l 'instituition. Paris : L'Es pace Analytique, 196? ·
3 LACAN, Jacques. "A terceira" (1975). Em : lntervencionesy textos 2. Buenos A ires : Manantial , 1993 ·
4
GAY, Peter. Freud: uma vida para nosso tempo. São P a ulo : Com panhia das Letras , 1989, p. 495 .
5 FREUD, Sigrnund. "E] males tar en la cultura" (1930). Em: Obras completas, vol. XXI. Bue nos
Aires : Amor rortu, 1998, p. 1 08.
6
[bid. , p. 112.

174 Saber, verdade e gozo


da impossibilidade presente cm cada discurso: impossibilidade de poder e de gozar
0 tempo todo. Freud indicou essa impossibilidade quando propôs as três tarefas

impossíveis: governar, educar e psicanalisar. Lacan acrescentou uma quarta, a que


Freud aprendera com as histéricas: fazer desejar. Poderíamos identificar essas quatro
i mpossibilidades propostas por Freud aos quatro discursos descritos por Lacan: o
do mestre, o da universidade, o do analista e o da histérica, r espectivamente.
O fato é que, apesar da impossibilidade presente nos discursos, fazemos laço
social. O humano é um ser de linguagem e, como tal, cm sua fala está implícita uma
demanda ao Outro, mas a impossibilidade de uma comunicação sem equívocos se
deve ao fato de que é o real, impossível de ser suportado, que estrutura os laços
sociais. O real impossível é o real não simbolizável, que está sempre retornando
como vazio de sentido. Nos laços sociais, surge como impossível de dizer, puro real
sem mediação da palavra, já que é da ordem do indizível e, por isso, insuportável.
O insuportável no real é o vazio de sentido, outra forma de falar do mal-estar
incrente ao falasser que Freud apontara como fruto da pulsão de morte. Esse r eal ,
puro vazio, presentifica-se de forma radical na psicose. E o que nos mostra um
jovem de oito anos ao não suportar os espaços vazios que aparecem na realidade,
como, por exemplo, na passagem em que ele se angustia com o lugar no banco do
pátio, que não pode permanecer vazio entre as pessoas sentadas. Observamos que a
emergência do real insuportável se dá quando a estrutura psicótica é desvelada ;
antes a debilidade cumpria sua função de mascarar a estrutura, impedindo os efeitos
de real avassalador. Lacan definiu a estr utura do discurso como sendo sem palavras:
"O discurso instaura relações fundamentais, mediante o instrumento da linguagem
no campo do gozo. Sem palavras, o discurso pode muito bem subsistir. Subsiste cm
certas relações fundamentais. Estas, literalmente, não poderiam se manter sem a
linguagem. Se são estruturas sem fala, não significa que sejam sem lin gem'17 • O par­
gua
ticular do que se fala, o que implica a singularidade do sujeito e, portanto, o que não
pode ser todo dito, está no universal da lin agem. O discurso é sem palavras, mas é
sustentado p�l;�ingularidade do sujeito, mesmo que isso escape ao próprio sujeito do
gu

disc urso. O inconsciente é um saber que funciona sem que o sujeito saiba e é equi­
vale nte ao discw-so do mestre, que, por sua vez, é o avesso do discurso do analista.
A debilidade mental é uma posição subjetiva em que justamente o sujeito não
sustenta o discurso com sua singularidade; esta é escamoteada, e quando escapa

7
LACA N, Jacques . O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise (1969-70) . Rio de Janeiro : Jorg e Zahar
Editor, 1992, p. 1 1 .
ao próprio sujeito, é recusada como algo que não lhe per tence. Comentando a
tese universitária de Anikc Lemaire , Lacan apontou um equívoco, aler tando que
"não é o mesmo dizer que o inconsciente é a condição da linguagem e a linguag em.
é a condição do inconsciente"ª. Debitou esse equívoco à passagem do discur s o
universitário para o do analista e disse que, de alguma forma, ele é obrigatório.
O discurso do analista tem leis próprias , e quando se faz sua tradução par a 0
discurso universitário, o equívoco se faz presente . O discurso universitário é da
ordem de um papel, de um lugar a sustentar, que é incontestavelmente um lug ar
de prestígio. O que agencia o discurso universitário é o saber prévio ao sujeito ,
saber cumulativo e incontestável dos grandes mestres.
"A linguagem é a condição do inconsciente e é o que é preciso entender par a
se estar no discurso do analista", afirmou Lacan9. Somos seres de linguagem , desna­
turalizados , esculpidos pelo significante. Flutuando entre os c!��l!1=_SQS, g j�il
nega a linguagem para não se s�b!_Tieter ao ir1co_nscie11�e , e surgir aí como suleito,
�este que é necessariamente marcado pela falta. O inconsciente não prcexis; à
linguagem , não há uma naturalidade que possa compor tar um saber todo. O sujeito
do inconsciente é efeito do significante, e é o significante que está na origem da
pulsão, que mor tifica, mata a coisa. Não há pulsão sem incidência do significante,
e o que resta é a libido. Nessa mor tificação , trata-se de que "o puro instinto de
vida [... J é o que justamente é subtraído ao ser vivo pelo fato de ele ser submetido
ao ciclo da reprodução sexuada. E é disso aí que são os representantes , os equiva­
lentes , todas as formas que se podem enumerar do objeto a" w.
A estrutura do sujeito do inconsciente é determinada pela incidência do signi­
ficante mas , na estrutura, nem tudo é significante. O objeto a faz parte da estrutura
como aquilo que marca o impossível de dizer. A estrutura do discurso implica a
estrutura da linguagem e mais o objeto a. Si gnificante e objeto a estruturam os
discursos topologicamente, isto é , segundo os lugares que ocupam , e a noção de
estrutura pode ser representada pelo materna S (A), significante da falta no Outro
em torno da qual se tece a cadeia significante. A estrutura obedece às leis do signi­
ficante, que se ar ticulam a partir de seus elementos e lugares ; a linguagem , porém ,
não recobre tudo. O significante da falta no Outro, no Outro barrado , faz parte da

• Ibid. , p. 39.
9
Ibid.
:
iro
'º LACAN, Jacques . O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Jane
Jorge Zahar Editor, 1 988, p. 186.

o
176 Saber, verdade e goz
es trutura: "Ao propormos a formalização do discurso, encontramos um elemento
de impossibilidade, que está na raiz, na base do que é um fato de estrutura"1 1 •
Existem fatos, que são os laços entre as pessoas, estabelecidos pelos discursos.
( 0 que se observa na clínica, que mostra que, sendo um fato apreendido, não há
co mo negá-lo. O sujeito débil porta-se como se não apreendesse os fotos pelo
d iscu rso, !': dessa forma flutua entre eles. Por exemplo, quando interrogamos Maria,
uma J�vem de 13 anos, sobre sua família, ela responde: "Papai, mamãe, filhinha,
dois irmãos. Pedro, não, Maria, eu sei botar sapato, eu vou lavar a mão", e passa a
descrever o que precisa fazer no refeitório antes de comer. Ao tentarmos retornar
à questão , Maria se cala. Na realidade, tem uma irmã, dois anos mais velha que
e la. A estrutura do discurso indica a repetição, cuja função foi definida por Freud
cm "Alem' do prmc1p10
· ' · do prazer". Ao comentar esse texto, Lacan afi1rmou: E' no "
nível da repetição que Freud se vê obrigado, pela própria estrutura do discurso, a
articular o instinto de morte [ . . . ]. A repetição é um ciclo da vida que acarreta a
desaparição dessa vida como tal, que é o retorno ao inanimado" 1 2 • Se a debilidade
mental mascara a estrutura, numa tentativa de abolir a falta inerente à vida no ser
falante, podemos pensar que é uma tentativa de retorno ao inanimado. Vejamos
então como poderíamos pensar o processo de repetição no sujeito débil.
,..J

A repetição visa a recuperar o gozo absoluto, sem perdas, e por isso mesmo
impossível, perdido desde sempre. Na busca desse gozo absoluto, jamais alcançado,
o que se rg>ete, de formas diferentes, é o fracasso. Na repetição freudiana, a
alucinação da primeira experiência de satisfação, que instala a estrutura, desencadeia
um processo de repetição que constitui no sujeito a ação do inconsciente. A primeira
marca da vivência de gozo, o primeiro significante, é recalcado em sua origem :
Urvcrdrangung, recalque primário. Daí por diante, a cadeia significante repete sempre,
insiste, tentando repetir a primeira vivência de gozo, segundo o princípio do retorno
do recalcado. A repetição é repetição de go� que nunca é o mesmo, e por isso é
perdido: "A repetição não quer dizer - o que a gente terminou, recomeça, como
ª digestão ou qualquer outra função fisiológica. A repetição é uma denotação
precisa de um traço que eu extraí para vocês do texto de Freud, como idêntico ao
traço unário, ao pequeno bastão, ao elemento de escrita, um traço na m_edida em
que comemora uma _irrupção de gozo" 1 3 •

11
LACAN, Jacques . O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit . , p. 43 .
12
Ibid.
" lbid . , P- 73.

Debi li dade mental 1 77


A repetição da primeira experiência de satisfação é sempre fracassada e rep ete
assim, as várias formas de fracasso. Quando S 1 , esse traço comemorativo da pri rneir;
experiência, se repete, já não é S 1 , mas S 2 • Daí em diante , a repetição será de s_
S 2 • Repetimos a irrupção daquele gozo e, ao mesmo tempo , não o a tingimos, pois
1

isso sempre rateia - "ça rate", como disse Lacan. O sujeito é produto dessa repetiç ão.
A repetição visando ao gozo produz perda, falta e, desse modo, o sujeito. É essa
. 1)perda que o débil não pode suportar.
/ A repetição implicando o significante e o gozo n�-9-é_a repetição de um ternpo
e

vivido original, mas tem a ver com uma causa suposta, u.rr:i passado supos.t:9 e
/
jamàis existido. O sujeito é indeterminado sob a cadeia significante e advém co rn
·uíítsignificante que sai da cadeia, retorna, e é ai que se produz o sujeito. Ess a
r- _..,,,--�- __.,,/'- -· \.

repetição cons titui a própria rede de significantes que faz parte do inconsciente, e
é ela que se organiza como saber inconsciente, definido por Lacan como S2 • O saber
é, portanto , o conjunto de significantes que se repetem, como fio condutor das
formações do i nconsciente, a partir da primeira experiência recalcada.
O sintoma que se articula ao gozo fixado pela fantasia está ordenado por esse
saber que trabalha no ser falante. É assim que o sujeito se cons titui, trabalhando
de forma organizada pelo gozo através de suas repetições, sintomas, atos falhas
etc. Se, como vimos, o saber inconsciente é produzido pela repetição que visa ao
gozo perdido desde sempre, podemos nos perguntar : qual o destino desse s_a ber
na debilidade mental? Essa repetição se dá pela via do discurso, mas o débil flutua
entre dois discursos, escamoteando a função mesma do discurso, ou seja, masca­
rando a presentificação da impossibilidade de gozo absoluto, a presentificação da
_fa)ta. O que não se pode recuperar na experiência de repetição, permanece só a
mais -valia do gozo, do mesmo modo que, para Marx, o valor do trabalho não
pode ser recuperado, restando a mais-valia :
[.. . ] o saber deriva primeiramente [... ] do traço unário, e, em seguida, de tudo o
que poderá se articular de significante. É a partir daí que se instaura essa dimensão
do gozo, que tanto pode teorizar quanto transformar em religião o viver na
apatia - e a apatia é o hedonismo. [ ... ] o que o impulsiona [o saber], o que
trabalha nele, o que o torna de uma outra ordem de saber, diversa desses saberes
harmonizantes [... ] , é a função do mais-de-gozar como tal. 14

Se não há "a função do mais-de-gozar como tal", essa que se produz na repetição,
não há construção de saber inconsciente. Na debilidade mental, não exist e ª
repetição que visa ao gozo produzindo saber ; o gozo permanece curto-circuitado no

1
• Ibid. , p. 48.

1 78 Saber, verdade e gozo


próprio corpo, na tentativa de impedir a perda, essa que aparece a cada repetição. É no
traço unário que tem origem o saber, articulado ao significante. Em outras palavras, é
pela via da repetição significante, como meio de gozar, que se dá o saber ; logo, o saber
é meio de gozo. Contudo nessa repetição ocorre uma perda, o mais-de-gozar, que, por
sua vez, impulsiona a própria repetição como tentativa de abolir a falta constitutiva do
sujeito. O objeto a produzido como perda de gozo na articulação do saber promove os
objetos mais-de-gozar substitutos dessa perda, criados para servirem de tampão. Lacan
afirmou que "é com o saber como meio de gozo que se produz o trabalho que tem um
sentido, obscuro. Esse sentido obscuro é o da verdade" • O que situa um sujeito em
5 1

relação à verdade e ao s. aber é o discurso, definido como "o que funda e define cada
rcalidade" • O discurso implica um sentido, um saber do que se fala e, para tanto, é
16

preciso que se esteja na norma fálica e em referência ao objeto.


Voltando à posição subjetiva do sujeito débil, usemos os estudos de Maud
Mannoni , publicados em 1964 com o título � criança_ retardada e _!Ua _I!lãe, em que a
abordagem em relação à debilidade mental muda de forma radical. Não é mais
possível considerar a debilidade um déficit e passa-se a uma abordagem em que o
suj eito está implicado. Para Mannoni, a debilidade mental é um sintoma. Nossa
hipótese trabalha a debilidade mental não como sintoma , mas sim como o que
vem velar a estrutura e, conseqüentemente, o sintoma da neurose. Para Freud, o
sintoma é um modo de satisfazer-se, o que significa, em termos lacanianos, �
modo de g�zar. Qual seria o modo de gozar do sujeito débil, e como ele se situaria
cm relação ao discurso ? Pierre Bruno afirmou que "os débeis caracterizam-se por
uma resistência sustentada, às vezes genial , contra tudo que poderia questionar a
veracidade do Outro do significante, para poder precaver-se melhor das dúvidas
que o assaltam no concernente ao Outro" 7 •
1

O Outro da lei é aí o senhor do saber, é o Outro a quem se deve atender a


todas as demandas, de forma inquestionável, mantendo dessa forma a verdade
como toda, como única, verdade que é depositada na demanda do Outro, tomada
como lei. No débil, vê-se a impossibilidade de separar a relação com o saber do
lugar da verdade. Para existir como toda, Única, a verdade não permite a presen ­
tificação d o saber inconsciente, sempre furado. Dessa forma, a debilidade impede
qu e o sujeito do inconsciente advenha através de sua� formações : atos falhas , lapsos

IS bid.
l
16
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda ( 1 972). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1 985 , p. 45 .
17
BRUNO, Pierre. "À côté de l a plaque", Ornicar?, n . 37. Paris, Navarin, 1 986, p . 39.

De bilidade mental 1 79
e m esmo sonhos. O su1c1to débil nao reconhece as manifestações de se u
inconsciente: ao ser interrogado com relação a um ato falho , por exemplo, ele dá
uma explicação, descrevendo a situação de for ma concreta e anulan do a
subjetividade. Situado entre os discursos, o débil ocupa sempre o lugar da verdade
que, em relação a ele, não se modifica. A verdade do débil é que ele é a significação
última, essa que satura o enigma do desejo da mãe e o sustenta em um ter mo
obscuro, como afirmou Lacan cm O seminário, livro 1 1: os quatro conceitos fundamentais da
psicanálise. Mas o que o débil apresenta dessa forma é uma mentira. O lugar da
verdade ocupado por ele é a mentira que endereça à mãe, vale dizer, a de admitir
o um do corpo como referência única: "O status de um discurso deve ser referido
ao laço social no qual os corpos habitam, ou seja , mostrando que nós, como corpos,
o homem como corpo , habita um disctll'so. Para termos um corpo, precisamos
habitar um discurso" 1 8 • Precisamos do registro do simbólico , pois o imaginár io do
corpo só se sustenta por ele4 O sujeito débil nega o corpo simbólico c , _iID--ªg!!!-ª1:,ia­
mcntc , oferece esse corpo como se ele pudesse existir sem sujeito, sob a forma de
objeto tampão da castração materna :\
A verdade do débil é efeito da maneira par ticular em que se dá a holófrase
(S 1 -S 2) , apoiada na referência ao gozo que remete à fusão no próprio corpo: é um
gozo cm curto-circuito, cm uma tentativa de fazer existir a relação sexuatn�ndo
a castração. Para o débil, a relação sexual se realizaria como união uniana , reduzida
imaginar iamente ao ato sexual : "Não é porque o sujeito s e coloca no lugar da
verdade que ele diz a verdade. Ao se colocar a serviço da verdade como Única, o
que o débil produz são as pérolas da mentira"1 9 •

O um na debilidade mental
Em "O seminário, livro 9: a identificação", Lacan estabeleceu uma diferença cla:-a
entre o um da unidade , Einheit, e o um da unicidade, Einzigkeit. O Einheit é o grande
um que dominou o pensamento de Platão a Kant, e sua função é o fundamento de
toda síntese : reunir, resumindo, tese e antítese. É o um que faz conjunto e determ ina
seus elementos, como o um do Belo, reunião de elementos que constituem toda ª
beleza de uma obra de arte. Para Kant, Einheit, o um como função sintética, é 0
modelo mesmo do que toda categoria traz consigo aprioristicamcnte, a função d e

'" LACAN, Jacques. "L' Étourdit" ( 1 972), Scilicct 4, vai . 4. Paris, Seuil, p. 30- 1 .
,. LACAN, Jacques. "O seminário, livro 1 6 : de um Outro ao outro" ( 1 969). Incdito, aula de
1 2 de fevereiro de 1 969.

1 80 Saber, verdade e gozo


u rna regra universal. É o um que constitui uma lei, a norma instituinte da civilização,
é O um de ''Totem e tabu", que determina o "para todos" da proibição do incesto.
A função do traço unário é diferente do finheit, que poderíamos definir como
círculo que reúne e sobre o qual desemboca, no nível da intuição imaginária, a
formalização lógica. O traço unário foi definido por Lacan como "coisa insituáv el",
uma aporia para o pensamento que consiste j ustamente no fato de que, quanto
rnai s apurado é esse traço, quanto mais simplificado, sem apêndices, mais adquire
a força de um reduzido. Esse um é o um da diferença : quanto mais se apaga a
diver sidade, mais ele encarna a diferença como tal, a diferença pura. "A função do
um na identificação, tal como a experiência freudiana a estr utura e a decompõ e
[ . . . ] é a função do que eu chamo traço unário',;,º. No traço unário, trata-se não da
primeira forma de identificação, Einverleibung, consumação do inirrúgo, do adversário,
do pai, mas da segunda, identificação ao traço. Freud situou a primeira no campo
do gozo (Lust] , como forma de identificação cuja função toma o pai como modelo
primitivo de investimento, anterior ao investimento na mãe. Trata-se de um
momento mítico.
Passamos do um da Einhcit, da �idade, para o um da Einzigkcit, da unicidade, do
um das virtudes da norma para o das virtudes da exceção. Foi nessa passagem que
Lacan ar ticulou a solidariedade do status do sujeito ligado àquele do traço unário. É a
partir de uma pequena diferença, ou seja, da redução máxima ao traço, à pequena
diferença onde ela não pode mais ser reduzida, que se institui o um da exceção,
traço distintivo do sujeito que o representa para outros significantes. O traço
unário está no campo do desejo, que se constitui na relação do sujeito com o
Outro. É o Outro que determina sua função, uma vez que o ideal do eu se inaugura
com ele ; esse traço distintivo do sujeito é seu suporte. A instância do ideal do cu
e seu mecanismo identificatório específico, a introjeção, comandam o modo pelo
qual o sujeito assimila sua imagem no espelho. O fato de o sujeito se organizar em
tor no de um ponto ideal fará com que suporte, no estádio do espelho, o real do
corpo fragm entado : "A satisfação narcísica que se desenvolve na relação ao ideal
do eu depende da possibilidade de referência ao termo simbólico primordial '� 1 •
Fr eud chamou esse termo simbólico primordial de Einzigcr Zur. Traduzindo-o
por traço unário, Lacan pôde concebê-lo como o significante que tampona o lugar

'º LACAN, Jacques. "O seminário, livro 9: a identificação" ( 1 962). Inédito, aula de 2 1 de
fevereiro de 1 96 2 .
2 1 LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a rransferênda ( 1 96 1 ). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 992 .

� ebilidade mental
Instituto de Psicologia - UFRGS 181
onde há elisão significante para o sujeito. O ideal do cu é justamente esse signi ficante
que, situado fora do sujeito , cm seu exterior, permite-lhe ter uma referência simbó.
lica. O traço unário é o que vem no lugar original do sujeito que , como conse qüên­
cia, será elidido para se reencontrar nas respostas do Outro que forem capazes de
traduzir o grito em apelo. Nasce daí a possibilidade de que algo se repita, insist a
nesse ponto mesmo de impossibilidade que o lugar vazio do sujeito abrirá no Out r o'.
Trata-se, portanto , da transformação do que era apenas uma matriz simbólica ,
no momento da antecipação da imagem como totalizadora no estádio do espelh o,
cm um traço de sustentação significante , o traço unário. Se , por um lado , o traç o
unário é o que se repete na cadeia formada como conseqüência de seu surgimento,
por outro será a sustentação dessa cadeia que circunscreverá uma realidade em
que os traços dos significantes constituirão o Outro como pura potência , como
tendo o poder de responder : "Essa será a constelação das insígnias que constit uirão,
para o sujeito , o ideal do eu , I (A)''22 •
A formação do ideal do eu é o revestimento do sujeito com as insígnias do
Outro , elementos si gnificantes que estão fora da cadeia e que, cm dado momento,
capturam o sujeito, marcando-o para sempre. O exemplo citado por Lacan foi a
tosse de Dora: "Tusso como meu pai". A tosse paterna é um significante. O ideal
do eu é a formação que virá nesse lugar simbólico, ligando-se às coordenadas
inconscientes do cu para dar-lhes consistência onde as imagens só fazem introduzir
tensão : esse outro que sou cu mesmo é outro diferente de mim. Entre a imagem
e o eu existe uma distância em que se instala o alheio, o estranho. O traço unário,
si gno do desejo do Outro , ordena-se a partir de um dito primeiro que decreta,
legisla e confere ao outro real sua obscura autoridadc23 . A matriz simbólica do
ideal do cu denuncia a Coi sa, o nada, e é o traço que irá apagá-la.
"Wo cs War, da durch das Eins Werdc Ich"24 ; aí onde estava a Coisa , aí , pelo
um , advirei eu. Será o traço unário que fará surgir o sujeito como aquele que
conta . O sujeito em relação ao um do traço unário é menos um , ou seja , ele é
chamado por esse traço , mas não se reduz a ele. Lacan propôs que o sujeito fosse
escrito como igual a um número que não existe , -V- 1 . A raiz quadrada de - 1 nã o

22
LACAN, Jacques. "Obser vação sobre o relatório de D a niel Lagache" ( 1960) . E m: Escritos.
Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1998, p. 686.
2l
LACAN, Jacques. "Subver são do sujeito e dialética do desejo no inconsci ente freu dia no"
( 1957) . Em: Escritos. Op. cit., p. 822.
24
LACAN, Jacques. "Le clivagc du sujct" ( 1970), Scilicct, n. 2 / 3. Paris, Seuil, 1970, p. 124.

182 Saber, verdade e gozo


cJdstc, é imaginária, e foi assim que Lacan situou o sujeito cm "O seminário, livro
9 : a identificação": "E porque há um sujeito que se marca a si mesmo ou não com
traço unário, que é 1 ou - 1 , que pode haver um -a, que o sujeito pode iden­
ti ficar-se à bola do neto de Freud, especialmente na conotação de sua falta".1 •
0
5

Pode-se dizer que é por meio do apelo ao um da diferença, ao traço unário,


que o sujeito pode fazer objeção ao um do todo. O sujeito também não se reduz
ao um do significante mestre, pois o "significante é o que representa o sujeito para
0 utro significante" ; logo, o sujeito não é o significante, mas se situa justamente
entre S 1 e S 2 , ou seja, fora da cadeia.
O sujeito parte do vazio tomado no sentido kantiano : lugar onde há um nada
[lccrc Gegenstand ohne Bregrill] • Embora seja um vazio em sua identificação com o traço
26

unár io, o sujeito é causado pelo objeto a, puro vazio, isto é, o objeto do desejo se
consti tui na relação com o Outro a partir da incidência do significante. Nessa primeira
marca significante, vinda do Outro, inclui-se a falta. O sujeito não se deixa determinar
pelo um porque o objeto que marca a falta traz uma singularidade inapreensível: o
objeto é apenas circunscrito e faz objeção à apreensão pelo um - "Há uma hiância
entre esse um e algo que se prende ao ser e, por trás do ser, se prende ao gozo',z7 •
O sujeito neurótico faz objeção ao um, nega-se a ser um, pondo-se do lado do
enxame [e ssaiin], de vários Uns. O sujeito débil se esforça para ser esse um, só um,
que sustentaria a veracidade do Outro. O um do débil é como uma senha que
serve para tudo e impede que se torne presente a equivocidade da língua, denun­
cia ndo a falta . O um do débil não é o um do traço unário, marca singular da
diferença, mas o um do todo. Não há, na debilidade mental, a repetição que visa
ao gozo, produzindo perda, o mais-de-gozar. Não há distinção de gozo ; ele se
apresenta sem objetos, como um corpo nu, "sem lenço nem documento", como diz
a música de Caetano Veloso. A paixão pelo um também faz do débil um brilhante
calculador, o que é diferentc de ser matemático. Os professores de crianças débeis se
surpreendem com o fato de esses sujeitos, que possuem tanta facilidade para cal­
cula r, terem tanta dificuldade para se inserir em um discurso. O débil não decifra
porque, para isso, é necessária uma distribuição, uma contabilização do gozo.
Pode-se dizer que o sujeito débil não decifra, mas calcula, porque não está como
tn cn os um, como a volta pulada nas cadeias significantes da demanda, mas como

,.' LACAN, Jacques. "O seminário, livro 9: a identificação". Op. cit.


16
Apud LACAN, Jacques. "O seminário, livro 9: a identificação". Op. cit.
2 7 LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Op. cit. , p. 1 4.

D ebi lidade mental 183


um-todo fixado no imaginário do corpo. Na articulação entre demanda e desejo, lacan
propôs a figura do toro, semelhante a urna bóia ou pneu, em que há um vazio central.
A demanda se expressaria cm sua função repetitiva dando voltas em torno desse vazio ,
como que percorrendo, cm drculos , o "dentro" e o "fora" do pneu. O sujeito neurótico
demanda incessantemente, pois o objeto é desde sempre perdido , não há co mo
apreender esse objeto a, causa do desejo que, por isso , alimenta a demanda. O �ujcito
débil não demanda, impede-se de desejar, e portanto sua contagem não inclui o menos
_um , já que O objeto
apresenta recoberto imag_inariarn_��te pelo Wll _do Cü�o
SC

um que se impõe pelo viés do imaginário: "Quando o ser falante se demonstra


consagrado à debilidade mental , ele o faz no imaginário"28 . A debilidade leva o ser
falante a pensar que o universo é apenas reflexo de seu corpo. Trata-se do corpo como
um , fusionado não com o corpo da mãe, como comentou Lacan a partir de sua resposta
a Mannoni , mas com ele mesmo. O sujeito débil põe a verdade do um do s;_� no
lugar do ideal do �u, matriz simbólica na constituição do cu. O prindpio da mctáfor;
90 ideal do eu consiste em substituir o mundo matcr11.o pelas insígnias do Out�o e, p_or
meio dessa substituição, produzir a significação fálica:

I (A) M
M <p
-� No sujeito débil , essa substituição não se dá: ele permanece imaginariamente
identificado ao mundo materno e, assim , mascara a estrutura, seja esta psicótica ,
neurótica ou perversa.
É preciso distinguir ainda a debilidade própria da neurose, que interroga a
verdade como se ela pudesse existir como única - a verdade assegurada pela fantasia
neurótica -, daquela que se identifica com o lugar da verdade de forma apaixonada.
Para saber do que se fala , é preciso saber que tudo que se diz tem uma n;{c_rência
ao falo e ao objeto. Para ler "nas entrelinhas", como disse Lacan em "O seminário,
-li�r� 2 2: R. S . I.", é preciso poder suportar a castração, poder abrir mão da suposiçã.0
do universo como reflexo do próprio corpo. É esse real que se apresenta para _o
sujeito débil como impossível de suportar.

A holófrase
Holófrase é um termo usado pela lingüística para designar a estrutura de algumas
línguas , denominadas holofrásicas. As línguas holofrásicas são aquelas cm que todos

4
'" I.ACAN, Jacques. "O seminário, livro 2 2 : R.S.I." (1 974-5). Inédito, aula de 1 0 de dezembro de 197 ·

1 84 Saber, verdade e go�


os componentes básicos de uma frase - sujeito, verbo e predicado - são aglutinados
cm uma só palavra.
Em O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud, Lacan definiu a holófrase como
um a expressão que não se pode decompor, tomando-a no contexto das teorias
sobre a origem da língua que defendem a anterioridade do pensamento em relação
à linguagem e a capacidade daquele de isolar os instrumentos necessários à sua
29
comunicação • Com Saussure, aprendemos que o isolamento da particulari dade
só ocorre no conjunto das significações por causa do significante, que adquire
valor em oposição ao conjunto dos outros significantes. Se o significante opera um
corte nas significações, o pensamento não pode ser invocado a priori, pois está
submetido aos significantes. Para os lingüistas, o "pensamento franquearia, por si
só, o estado de desvio, que marca a inteligência animal, para passar ao do símbolo" 30 .
Pensar é substituir coisa por palavra; portanto só pensamos com palavras. A pa­
lavra não recobre a coisa, mas a funda, torna-a presente sob um fundo de ausência.
A palavra é o que dá corpo à coisa, já que é só por nomeação que algo pode existir
como tal. Freud, em sua teoria da interpretação dos sonhos, advertiu que o sonho não
é imagem, e sim o que dizemos dela. Quando sonhamos, o fazemos com significantes.
Ainda em O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud, Lacan demonstrou que não há
continuidade entre imaginário e simbólico, entre o grito animal e a linguagem sim­
bólica do homem, revertendo a problemática da origem da linguagem, que é da ordem
simbólica. Se é a partir da ordem simbólica que as ordens real e imaginária se ordenam,
a holófrase só tem valor na ordem simbólica, vale dizer, é sempre holófrase de
significantes. Ao falar da fusão de corpos entre mãe e criança postulada por Mannoni 3 1 ,
Lacan advertiu que se tratava de fusão não de corpos, mas de significantes.

Holófrase e estrutura
Em O seminário, livro 1 1: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan utilizou a
holófrase como termo de estrutura, pondo cm série os casos em que ela se faz
presente: no fenômeno psicossomático; na criança débil, quando se introduz em sua
educação a dimensão psicótica; e na psicose. Em suas palavras: "Quando não há inter­
valo entre S e S , quando a primeira dupla de significantes se holofraseia, so�
1 2

29 LACAN, Jacques. O seminário, livro I: os escritos téaiicos de Frcud( l 954) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar

Editor, 1 986, p. 256-8.


'º lbid.
" LACAN, Jacques . O seminário, /i1ro li: os qu atro conceitos fundamcntJis da psicanálise . Op. cit. , p. 2 2 5 .
lidifica, temos uma série de casos , ainda que, cm cada um, o sujeito não ocu pe
0
mesmo lugar" 32 .
Em seu estudo sobre a holófrase, Stevens 33 observa que Lacan forjou o verbo
''holofrascar". Para Stevens, esse neologismo lacaniano aponta para a ho ]ófras e
como função, sem contingência fenomenológica, perdendo toda referência à ho .
lófrase concreta, própria das línguas holofrási cas ou do discurso corrente . Lacan
privilegiou a holófrase como termo de estrutura, tal qual a desenvolveu em "O se.
minário, livro 6 : o desejo e sua interpretação", a partir das interjeições com o
função de unidade da frase, chegando a afirmar que "O nome holófrase é interjei­
ção'*. Os exemplos que citou foram "Socorro !" e "Pão!" , referindo-se não mais ao
discurso da criança, mas ao universal. Em Oseminário, livro 1 1: os quatro conceitos fundamentais
da psicanálise, criou o materna S 1 -S 2 , conceituando a holófrase como solidificação
desse primeiro par si gnificante.
Um significante não pode desi gnar a si mesmo. Entre um significante e o signi­
ficante pelo qual se designa esse significante existe uma não-coincidência, uma falha,
um intervalo que permite a dimensão da metáfora. A dimensão metafórica é o que
possibilita que todo significante possa vir no lugar de um outro e então produzir
significação, que remete sempre a outro significante e a outra significação, fundando
para o sujeito o desejo do Outro, eni gmático e interrogável: "O próprio do significante
é de não poder significar-se a ele mesmo, sem engendrar qualquer falta lógica'85 .
A holófrase, a solidificação do primeiro par significante , impede a função do
si gnificante como tal, já que ele não pode desi gnar a si próprio. O efeito da holófrase
no sujeito psicótico é o de criar uma relação específica com o significante, uma
relação anômala, já que a cadeia significante é tomada em massa. Na psicose, o
si gnificante retorna no real, o que nos leva a dizer que ele desi gna a si mesmo.
No fenômeno psicossomático, o significante desaparece em seu valor de signi­
ficante ou, como disse Lacan, "algo que não é um si gnificante, mas que, mesmo
assim, só é concebível porque a indução significante, no nível do sujeito, se passou
de maneira que não põe cm jogo a afânise do sujeito"36 • O fenômeno psicossomático

12
Ibid.
" STEVE NS, Alexandre. "L'holophras e entre psychos e et ps ycossomatique", Ornicar?, n. 42.
Paris , Seuil, 1 987.
34 LACAN, Jacques . "O seminário, livro 6: o des ejo e sua int erpreta ção" (195 8). Inédito , a ula
de 03 de dezem bro de 1958.
i; LACAN, Jacques . O seminário, lirro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Op. cit., p. 2 3 6.
6
' Ibid., p. 2 15.

1 86 Saber, verdade e gozo


11ão é um significante, mas marca o corpo com um signo que, no sentido psicana­
lítico, não faz sintoma. Aí está toda a diferença da conversão histérica, em que o
significante é justamente o que se inscreve sobre o corpo. É o caso da paralisia do
braço da paciente de Freud : o que foi marcado no corpo foi a relação com o
próprio pai, sob o significante ''braço direito do pai". A conversão histérica é produto
de uma condensação, ou seja, "um mesmo material aparece em várias fantasias
7
histéricas pela via da condensação"3 .
A holófrase é uma solidificação da cadeia significante que se opõe à metáfora;
Jogo, não se trata de decomposição de significantes primordiais . É nisso que se
pode dizer que ela é um termo de estrutura. Quando Lacan afirmou que dois
significantes "se solidificam", "se holofraseiam", que não há intervalo entre eles,
estava dizendo que esses significantes não podem vir um no lugar do outro, um
cm substituição ao outro , pois ocupam o mesmo lugar. Na dimensão da metáfora,
o que se vê é justamente um processo de substituição e condensação.
Quando falamos do primeiro par ordenado de significantes, S1 -S 2 , remetemos
às operações de constituição do sujeito; alienação e separação. Esse primeiro par
ordenado de significantes é o que determina a divisão do sujeito e estabelece a
operação de alienação, que consiste em que "quando o sujeito aparece em alguma
parte como sentido, em outro lugar se manifesta como fading, como desapareci­
mcnto" 38 .
Sendo um significante o que representa um sujeito para outro significante, o
traço unário representa o sujeito cm sua introdução no campo do Outro , mas em
comparação com outro significante. O significante binário, Vorstellungsreprãsentanz, o
S 2 do par, é aquele através do qual o sujeito é representado e sobre o qual ele
desaparece na afânise. Esse S2 é o significante do par que faz entrar em jogo o
sujeito como falta.
Na holófrase, não existe um significante novo, mas a tomada em massa do
significante como tal . Se o primeiro par significante necessário ao processo de
alienação está solidificado, encontra-se radicalmente modificada a relação do sujeito
co mo si ificação que se produz sob o primeiro significante do par quando ele
gn
não é holofraseado, e seu desaparecimento, sua afânise, sob o segundo. O sujeito
s urge não mais como falta, mas como monolito , cuja significação se iguala à men-

17 FR EUD , Sigmund. "Aprcciacioncs gcncralcs sobre cl ataque his térico" (1 908) . Em : Obras
vol. IX. Op. cit., p. 207.
completas,
18
LACAN , Jacques . O seminário, li,ro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Op. cit ., p. 207.

Debilidade mental 1 87
sagem enunciada. Não há intervalo entre a mensagem e a significação, o que há é
uma colagem, na qual o sujeito não é o sujeito do desejo. A holófrase do pri m ei ro
par de significantes impede que a operação de separação, e a conseqüente q ueda
do objeto, se efetuem.
Lacan ar ticula a operação de separação no intervalo entre S 1 -S 2 , em que reside
o desejo : "é como derivação da cadeia significante que corre o regato do des ejo e
o sujeito deve aproveitar uma via de confluência para nela surpreender seu próp rio
fcedback"39 • O desejo, que é sempre desejo do Outro, porque reside no interval o
entre dois significantes primordiais, só se constitui para o sujeito como interrogáv el,
como r eferência possível à constituição de seu desejo, se for situado entr e os
significantes como falha, intervalo, falta no Outro. O desejo se constitui, então,
pela tentativa de recuperação de duas faltas que se recobrem : a falta no Outro, A,
e a falta no sujeito, $. A falta no Outro introduz o sujeito na questão do desejo e a
falta no próprio sujeito é a resposta possível a essa falta no Outro : "É uma falta
engendrada pelo tempo precedente que serve para responder à falta suscitada
pelo tempo seguinte'>40.
Na neurose, o sujeito surge como desejante, como afânise, no intervalo entre
os significantes do primeiro par ordenado S 1 -S 2 • Na psicose, a solidificação desses
significantes tem como efeito a impossibilidade de dialetização e simbolização do
significante, e é aí que ele retorna no real.
Para o sujeito débil, trata-se do recobrimento da estrutura . Na n eurose, reco­
brimento da falta no Outro ; na psicose, recobrimento da ausência da falta. Nos
dois casos, trata -se de tamponar os efeitos da estr utura a qual o sujeito é assujeitado.
Na neurose, o encobrimento do sintoma ; na psicose, o encobrimento da emergência
no real do que foi foracluído no simbólico. Para tal, o recurso de que se utiliza o
sujeito débil é tomar seu lugar no discurso da mãe, agarrando-se apaixonadam ente
a um significante que o nomeia e do qual se serve como o que o representa para o
mundo e para ele mesmo. O sujeito débil oculta, dessa forma, sua própria divisão,
fazendo um pelo viés do imaginário do corpo, fusionado com ele m esmo.
Diferentemente do um holofrásico da psicose, revelado na riqueza metoní mi ca
diante da impossibilidade metafórica, o um do débil se revela colado aos enunciados
maternos, tomados sem o equívo co da alíngua. Na psicose, o par S 1 -S 2 está
holofraseado sem a queda do objeto a. O objeto permanece do lado do sujeito :

19
LACAN, Jacques. " A direção do tratamento e os princípios d e seu poder" ( 1 95 8 ). Ern :
Escritos. Op. cit. , p. 629.
40
LACAN, Jacques. O seminário, !irra 1 1: os qu atro conceitos fu ndamentais da psicanálise. Op. cit . , p. 20 3 .

1 88 Saber, verdade e gozo


obj eto a mais ou ele mesmo objeto do Outro. Na debilidade, o S 1 -S2 está holofra­
scado, também sem a queda do objeto a, que permanece suspenso, encoberto pela
im agem do corpo, tanto na neurose, em que o objeto falta, quanto na psicose, na
qual o sujeito é ele próprio objeto do Outro. A qui, o vazio da significação não
emerge do Real e o sujeito se protege de sua própria estrutura .
PARTE VI

O camp o do gozo
Gozo e repetição: a diferença como
eixo da subversão analítica
Andréa de Abreu Souza

O tema da repetição, caro a Freud, começou a ganhar destaque em 1 9 1 4, como


parte de um conjunto conceituai que sustentava a análise em três tempos: recordar,
repetir e elaborar. Esse foi um momento decisivo: no mesmo ano, o texto "Sobre
0 narcisismo, uma introdução" ocupou a cena da psicanálise, lançando as bases

para a revisão da teoria das pulsões , em continuidade com o projeto freudiano de


construir um sólido arcabouço teórico sobre o inconsciente.
Já desde 1 892 podem ser encontrados na obra freudiana os ingredientes fun­
damentais para a abordagem dos processos em jogo no repetir. O trauma, o desejo
e a fantasia foram Ícones que, abordados pela .via da associação livre e da atenção
flutuante, articularam a idéia de retorno a algo que se passa na transferência.
Embora a análise encontre aí instrumentos para a interpretação, destaca-se algo
no núcleo do interpretável que permanece indizível. O umbigo do sonho, bem
como o que escapa à fala e se revela em ato, traz a indicação de um funcionamento
silencioso presente nas pulsões. Nesse ponto, repetição e pulsão vinculam-se sob
a égide do além do princípio de prazer, pondo em questão o que retorna para o
sujeito no campo de sua delicada relação com a morte.
Lacan realizou uma retomada de Freud tendo cm vista os eixos principais que
defi nem a psicanálise cm sua singularidade. Em O semin ário, livro 1 7: o avesso da psican áli se,
realizou uma leitura freudiana "pelo avesso", marcada por acréscimos singulares :
ao introduzir o s quatro discursos, a abordagem da função do objeto a destaca as
q ue stõ es em torno da categoria de gozo, intimamente ligada aos conceitos de
puls ão e repe tição. Nesse terreno , o Outro é essencial para pensar as possibilidades
de interpretação.
O que se desenvolve a partir daí diz respeito ao modo como comparecem,
para o suje
ito, as relações entre vida e morte, operações de junção entre as formas
de goz o e seus acessos pela via do repetir. Trata-se de um retorno que implica algo
da ordem do saber e da verdade e sua forma de ligação com aquilo que encontramos

191
na letra freudiana como pulsão de mor te e, cm Lacan, como endereço ao r eal.
O ponto nuclear dessa nova abordagem é a relação da função do desejar c m Utn
entrelaçamento com um objeto privilegiado, no qual se impõe o trajeto do go zo
surgido na referência a esse objeto, conferindo-lhe um novo estatuto. Com base
na teoria marxista da mais-valia, Lacan considerou o valor que o objeto ass utnc
para o sujeito, visto que advém da perda de gozo sexual. O objeto é requerido não
como t ransgressor, mas como bônus :
[... ] a perda do objeto é também a hiância, o buraco aberto em alguma coisa , que
não se sabe se é a representação da falta cm gozar, que se situa a partir do processo
do saber na medida em que ganha ali um acento totalmente diverso, por ser
desde então saber escandido pelo significante [.. . ]. Ver uma porta entreaberta
não é transpô-la [... ] não se trata aqui de transgressão, mas antes de irrupção,
queda no campo de algo que é da ordem do gozo - um bônus. 1

Lacan salientou o caráter de eni gma desse objeto de mais-valia, promovendo


a articulação de um saber que guarda um ponto indizível a uma verdade não
toda 2 • É j ustamente nesse lugar que surge a interpretação, e Lacan se valeu da
dialética hegeliana do senhor e do escravo para fazer notar o lugar do Outro entre
enunciado e enunciação :
A interpretação -aqueles que a usam se dão conta - é com freqüência estabelecida
por um enigma. Enigma colhido, tanto quanto possível , na trama do discurso do
psicanalisantc, e que você, o intérprete, de modo algum pode completar por si
mesmo, nem considerar, sem mentir, como confissão... Já no simples funciona­
mento das relações entre o senhor e o escravo, fica claro que o desejo do senhor
é o desejo do Outro, pois é o desejo que o escravo prcdispõe. 3

É nessa via eni gmática que se pode localizar a transferência, uma vez que, ao
delegar ao analista o lugar de suposto saber, este se torna causa de desejo. Assim,

' LACAN, Jacques . O seminário, lfrro 1 7: o avesso da psicanálise ( I 969- 70) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1 99 2 , p. 1 7 .
2
Essa articulação s e refere a o estatuto do objeto a n a teoria d e Lacan, indicador d e u m vazio
estrutural que permeia a noção de gozo. É importante notar que Lacan conferiu diferentes
estatutos a esse objeto a: coisa, causa de desejo, objeto da angústia e mais-de-gozar. Creio que ,
em O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise, tentou estabelecer as condições em que a surge como
causa de desejo e condição de gozo. Em Freud, encontramos esse ponto que escapa ao sentido
tanto como umbigo do sonho quanto como falta de saber qu anto ao objeto, ambos descritos cm "Tr's
e

ensaios sobre a teoria da sexualidade", de I 905 .


1
LACAN, Jacques . O seminário, livro 1 7: o arcsso d a psicanálise. Op. cit. , p . 3 5 .

1 92 · Saber, verdade e g020


a repetição não pode ser apreendida como o que define a transferência, e :Sim
como uma ocorrência que dela participa.4 A questão é o modo como essa ocorrência
se articula ao gozo.
A problemática do gozo está nas entrelinhas da obra freudiana, tendo como
suporte a via da repetição. Cabe perguntar, ao pensar nessas articulações e em
seus efeitos, de que o sujeito goza e sob quais aspectos se pode apreender a função
de gozar a partir da repetição. Esses apontamentos comparecem para grifar o
estatuto do objeto na ordem do discurso, estatuto que define as coordenadas do
que se apresenta como saber e verdade para cada um. Tanto o senhor quanto o
analista ocupam para um outro o lugar de objeto a, e o que deve ser levado em
conta é o modo como respondem desse lugar, a partir da perspectiva do gozo:
qu em goza e como goza? Partindo dessas linhas de elaboração, Lacan tomou como
tema central a posição do analista. Tal posição sustenta o que é instalado cm uma
análise pelo ato analítico, que se suporta no endereçamento do "Wo Es war, soll
!eh wcrden" freudiano :
O que define o analista? [ . . . ] análise, eis o que se espera de um psicanalista [ . . . ] .
O que é demandado ao psicanalista [ . . . ] com certeza não é o que corresponde a
esse sujeito suposto saber, no qual [ . . . ] pensou-se poder fundar a transferência
[ . . . ]. O que a análise instaura é justamente o contrário. O analista diz àquele que
está para começar -Vamos lá, diga qualquer coisa, vai ser maravilhoso. É ele que o
analista institui como sujeito suposto saber [ . . . ]. É lá onde estava o mais-de-gozar,
o gozar do outro, que eu, na medida cm que profiro o ato analítico, devo advir.1

Encontra-se nesse recorte o ponto de partida do qual se valeu Lacan para


situar a psicanálise cm um campo diverso da dialética do senhor e do escravo. Para
isso, definiu as diferenças entre o discurso do mestre e o discurso do analista,
enfatizando que um não deve ser tomado pelo outro.6 Considerando-se a linguagem

' "É moeda corrente ouvir-se, por exemplo, que a transferência é uma repetição. Não digo
que isso seja falso e que não haja repetição na transferência. Não digo que não tenha sido a
propósito da transferência que Freud abordou a repetição. Digo que o conceito de repetição
nada tem a ver com o de transferência" (LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 1 : os quatro conceitos
fundamentais da psicanálise ( 1 964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 98 5 , p. 36) .
5 LACAN, Jacques. O seminário, lilro 17: o arcsso da psicanálise. Op. cit. , p. 50.
6
Lacan tomou o discurso do mestre como o avesso do discurso do analista, o que se encontra
evidenciado na própria grafia dos discursos. No discurso do mestre, tem-se a posição de
quem sabe como agente, enquanto no discurso do analista o agente é o objeto a como causa do
desejo, lugar vazio. A preocupação de Lacan foi enfatizar que o analista não deve se tomar pelo
mestre, aquele que sabe, daí a posição do suposto saber.

-
Gozo e repetição
Instituto de Psicologia - UFRG! 1 93
como condição do inconsciente, são as leis da linguagem que sustentam a possibili ­
dade de um discurso. Todavia cada discurso carrega sua marca, na justa dependência
dos lugares ocupados por seus termos, ou seja, cada wn dos discursos é regido por
suas próprias leis. Assim, frisou Lacan, não é suficiente dizer que o desejo do homem.
é o desejo do Outro, sendo necessário pôr em evidência o modo corno esse Outro é
tornado como referência. Um passo decisivo nesse contexto foi sua afirmação de
que não há metalinguagem, ponto fundamental para a psicanálise, wna vez que é aí
que se denuncia a ordem canalha se contrapondo à ética do desejo :
Não há outra metalinguagem senão todas as formas de canalhice, se designarmos
assim as curiosas operações que se deduzem do seguinte, de que o desejo do
homem é o desejo do Outro. Toda canalhice repousa nisso, em querer ser o
Outro - refiro-me ao grande Outro -de alguém, ali onde se delineiam as figuras
em que seu desejo será captado. 7

Essa afirmação suscita questões sobre as relações entre o gozo e o campo da


linguagem. O mais-de-gozar, tornado corno resultante daquilo que a linguagem de­
termina, demonstra que a noção de retorno atrelada à pulsão de morte não se con­
funde com o retorno ao inanimado. É a partir dessa constatação que se pode apreen­
der os eixos da subversão analítica, destacadamente as políticas do gozo e do desejo.
Em cada wna dessas políticas, aquilo que é feito cm nome do objeto a d enuncia um
engodo e suscita a pergunta: "O que o sujeito repete?". É importante g rifar o estatuto
da repetição corno dimensão de perda em vista do fracasso da demanda, no caminho
dos paradoxos de wn gozo do qual advém o objeto corno mais-de-gozar. Pode-se
reconhecer, nesse enfoque, algo que caminha na direção daquilo que, na doutrina
freudiana, apresenta-se sob o nome de castração e encontra na morte seu último
termo - domínio do real, cm Lacan, cujo acesso direto permanece negado. É em
· torno disso que o sujeito esbarra com o que lhe acena corno a ordem do impossível.

A rep etição no gozo


No raciocínio freudiano, o conceito de repetição passa por diversas etapas. A reve­
lação de wn excesso traumático no aparelho psíquico é seu principal indicador: a
repetição do trauma mostra que não há sujeição do processo primário ao secundário .
A compulsão ao repetir tem, então, um caráter p ulsional ou, dito de outro modo,
a repetição se sustenta na força da pulsão. Mas o que a pulsão repete?

7
LACAN, Jacques. O seminário, lfrro 1 7: o arcsso da psicanálisc. Op. cit. , p. 57.

1 94 Saber, verdade e gozo


Em "Além do princípio de prazer", a pulsão é associada a um impulso que
habita o orgânico animado, visando a um estado anterior, abandonado por in­
fluências externas. Freud tratou essas influências corno forças perturbadoras, ao
lado de noções corno elasticidade e inércia na vida orgânica. O marco decisivo
dessa formulação é a noção de retorno, que diz respeito a marcas que exigem
imperiosamente uma retomada. Assim, inércia e elasticidade não são necessaria­
mente antagônicas, mas indicam um regime de inscrição: a elasticidade traria
uma marca inscrita dessa inércia. Aqui, a pulsão toma lugar corno força disposta a
retornar, e o esforço de conservação diz respeito à garantia de retorno. Na consi­
dera ção dessa descoberta, Freud admitiu que toda p ulsão mantém um caráter
conservador - essa tendência a repetir, retornar -, devendo ser apreendida como
pulsão de morte. 8 Ao retomar esse estatuto da pulsão de morte presente na repe­
tição, Lacan encontrou as coordenadas do gozo :
É o gozo, termo designado em sentido próprio, que necessita a repetição. Na me­
dida cm que há busca do gozo como repetição se produz o que está em jogo no
franqueamento freudiano - o que nos interessa como repetição, e se inscre,,e em
uma dialética do gozo, é propriamente aquilo que se dirige contra a vida. É no
nível da repetição que Freud se vê de algum modo obrigado, pela própria estrutura do
discurso, a articular o instinto de morte. 9

O importante nessa formulação é que não se pode tomar ao pé da letra a


identificação entre inconsciente e instinto. A noção de retorno ao inanimado deve
ser lida sob a perspectiva de um ponto fora do traçado, o qual, no entanto, encontra
seu sentido revelado a partir de algo estrutural : o que há aí de gozo. Lacan insistiu
no fato de que a repetição não obedece a uma função de ciclos de necessidade e
satisfa ção, mas a algo bem diferente. Resta , portanto , pôr em questão os modos
como a repetição comparece no discurso e no que é alheio a ele, tentando deter ­
minar se há uma estrutura da repetição.

' Em meu entender, essa mesma afirmação pode ser encontrada em Freud: "Não temos mais de
levar em conta a enigmática determinação do organismo (tão difícil de encaixar em qualquer
contexto) de manter sua própria existência frente a qualquer obstáculo. O que nos resta é o fato
de que o organismo deseja morrer apenas do seu próprio modo. Assim, originalmente, esses
guardiões da vida eram também os lacaios da morte" (FREUD. Sigmund. "Além do princípio de
prazer" ( 1 920). Em: Obras complew, vol. XVIII. Rio de Janeiro, Imago, 1 976, p. 57).
9
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 43, grifo meu.
Tratando-se de uma repetição de gozo, a linha do gozo é aquela contada como
excedente cm relação ao princípio de prazer, que encontra seu lugar de funciona­
mento como barragem para esse gozo. A repetição insiste pela via do desequilíbr io ,
ou seja, rompe a estabilidade através do estranhamento. Assim, a dimensão essencial
delineada por Freud, ligando a pulsão à repetição, é a de que as pulsões buscam a
ação para sua satisfação. Essa ação, no entanto , revela-se independente de qualquer
experiência de desprazer anterior, deixando patente que o trabalho da pulsão não
vai em direção ao equilíbrio psíquico buscando adaptar-se a algo dado a priori. Essa
constatação obrigou Freud a se deparar com o fato de que a pulsão não se encontra
ligada desde sempre. O aparelho psíquico está sujeito a um quantum de energia que
circula livremente .
Assim, o repetir na obra freudiana traça uma nova trajetória, que carrega em
seu bojo a pulsão de morte e impõe uma contradição: a criação de uma aliança
entre a noção de retorno exigido e a categoria de impossível que cerca esse mesmo
retorno. Encontra-se aí o psiquismo como sistema não-linear, que no entanto
possui um atrator particularmente estranho a partir do qual são determinadas
ações cuja marca é o que excede a circularidade totalizante . Um dos problemas
dessa abordagem é que se o gozo repetido tem como meta o retorno ao inanimado,
ele é da ordem do impossível, já que nesse caminho a única coisa que se pode
encontrar é a morte . Mas o que é a morte - agora repetida através do que excede
à vida - senão aquilo que, na leitura lacaniana, coaduna com a pulsão como vontade
de destruição, sempre disposta a recomeçar à custa de novos esforços? Surge então
a idéia de que, na repetição do gozo, algo se mostra como um custo com o qual o
sujeito tem de arcar.
Nesse sentido, será que se pode encarar o repetir como exercício de rigor
que, nessa tensão entre saber e verdade, busca dizer o indizível? Talvez esteja aí o
valor da interpretação: tradução que põe em evidência a função do Outro, a pro­
pósito do qual é revelada a aproximação da falta ao gozar. Cabe agora esclarecer
qual o ponto de ligação entre repetição e interpretação.

A interpretação mais além do autômaton


Para acompanhar Lacan , cm cuja obra a interpretação põe cm destaque as formas
de gozo , faz-se necessário recorrer à obra freudiana, nos momentos em que os
conceitos de repetição e pulsão são tomados_lado a lado. Tais momentos giram cm
torno do que sempre compareceu como fonte de desconhecimento : a essência do
que comanda os poderosos sentimentos de prazer e desprazer.

1 96 Saber, verdade e gozo


A expressão algo imperativo indica um retorno do mesmo, que chama a atenção porque
comparece à revelia de um comportamento que pode ser tanto ativo quanto passivo.
Um dos indicadores para pensar tais manifestações é o fracasso amoroso revelado
no seio da cultura, que não é monopólio dos n euróticos . O que faz Eros fracassar?
Essa questão levou Freud a uma região demoníaca , que situa o homem como não
guiado pela busca daquilo que supostamente lhe daria prazer: algo impera por
outras vias, retirando -o do regime da harmonia . Assim, o princípio de prazer se
encontra relacionado à defesa, como guardião contra os perigos externos e,
sobretudo, os aumentos de excitação interna. O ponto principal dessa abordagem
é o fato de que a pulsão é a fonte desse aumento, demonstrando a Íntima relação
entre sexo, amor e morte .
Com isso, o princípio de prazer ganha um novo estatuto, já que a pulsão de
vida, ruidosa em sua exigência de satisfação , trabalha ao lado de uma pulsão que
opera em silêncio. Diante dessa constatação, a psicanálise se afastou totalmente da
prerrogativa de uma natureza humana que encontraria sua origem e seu fim em
relação à vida, em detrimento da morte. Tal crença negaria o movimento da pulsão,
que não se restringe a pólos opostos e, muito menos, a uma coisa só. 1 0
Esse passo foi decisivo para o desenrolar do problema econômico do maso­
quismo e a hipótese de que o primeiro objeto da pulsão de morte é o eu. Em
1 924, Freud tratou o masoquismo como fenômeno que despreza o princípio de
prazer: dor e prazer seriam não sinalizadores de gradações de excitação, mas alvos,
idéia que se coaduna com a dinâmica que toma os três princípios - nirvana, prazer
e realidade - não como mutuamente excludentes, mas sim como distintos em sua
forma de funcionamento, tendo em comum o mesmo objetivo: manter a tensão
interna do aparelho psíquico o mais baixa possível.
O problema do masoquismo, ao evidenciar que as experiências calcadas na
pulsão de morte se sustentam em uma exigência de dor, promove uma revisão na
teoria sobre a libido, já que dor e desprazer provocariam uma excitação concomi­
tante à libidinosa. É nesse ponto que reside a afinidade entre sexualidade e morte,
visto que se há desejo de morte, este se manifesta em relação à satisfação sexual,
to rnando -se patente que a pulsão de morte encontra seu elo com a repetição e
que o homem pode se situar além do princípio de prazer, como Freud mencionou
e m 1 920.

'° FREUD. Sigmund. "Além do princípio de prazer" ( 1 920). Em : Obras completas, vol. XVIII. Op.
cit. , p. >. Ver nota 9.
Ao retomar essas formulações, Lacan afirmou que o gozo apresenta uma face
de imperativo categórico cm que a repetição tem caráter de autômaton , fazendo
com que aquilo que é requerido siga buscando os mesmos regimes de signos, be m
como os significantes que já se encontram disponíveis. No entanto , sendo a pulsão
o que move essa espécie de apelo , a busca de uma ação que visa à satisfação se
mostra para além do campo da aprendizagem - campo do instinto -, ao qual a
pulsão é avessa. A repetição do gozo está para além da obrigação, fadada ao mau
encontro com um retorno do qual surge uma ordem de significação não assimilável.
Eis o salto que marca o gozo e sua interpretação: a possibilidade de reconhecimento
do campo do desejo.

O gozo na rep etição


A proposta freudiana de uma descrição do aparelho psíquico lançou mão de três
modelos: o modelo neuronal de 1 8 9 5, o modelo Ótico de 1900 e o modelo da
vesícula viva de 1920. A excitação se manteve nas três abordagens, sendo a des­
continuidade o que confere certo caráter à relação desse aparelho com o mundo
exter no 1 1 , ou seja, a defesa é acionada perante o que retor na como experiência de
dor, sem que a criação de um escudo protetor seja suficiente em relação à excitação
interna . Em certas situações, portanto, a barreira de proteção está sujeita a um
funcionamento a partir do rompimento. Como as condições envolvidas na
experiência traumática se rela cionam com o modo de distribuição da libido, faz­
se necessário repensar o sentido de autoconser vação e retorno.

11
A noção lacaniana de descontinuidade pode ser lida a partir dos impasses que cercam o or­
ganismo concebido por Freud, que, a exemplo de uma máquina, é movido pela tendência a
retornar. Em Lacan, isso é o que retira o homem da perspectiva de um funcionamento natural
com base em etapas de desenvolvimento , que levariam a uma adaptação da qual se colheriam os
frutos da estabilidade. O que se desvela aí como descontinuidade é um campo regido por uma
discordância fundamental, que se guia por relações simbólicas sempre cercadas por um ponto de
inadequação. Trata-se de um fracasso ao qual o falante está condenado, por estar imerso no
mundo da linguagem.Todavia essa ordem que lhe confere uma "má forma" é, ao mesmo tempo,
o que lhe garante uma marca, em torno da qual se opera seu movimento de retorno. Essa
garantia de retorno foi tomada por Lacan como o que caracteriza o inconsciente: "Há, sem
dúvida, um princípio que leva a libido de volta à morte, porém não de uma maneira qualquer. Se
a levasse pelos mais curtos caminhos , o problema estaria resolvido. Mas é só pelos caminhos da
vida que ele a leva, aí é que está. . . Ele não pode ir para a morte por qualquer caminho" (LACAN,
Jacques. O seminário, /irro 2: o cu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise ( 1954-5). Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1 987, p. 107). Ver nota 1 3 .

1 98 Saber, verdade e gozo


Inaugura-se com isso a segunda teoria das pulsões, em que a pulsão sexual se
p õe do lado da vida, aparentemente em um regime de oposição à pulsão de morte.
1o davia Eros não se submete totalmente às exigências da civilização, assim como
e na dependência da satisfação sexual que o desejo de morte se faz valer. A insa­
tisfação das pulsões, ao lado de seu caráter elástico, demonstra que seu movimen­
to tem como alvo a repetição de uma experiência primária de satisfação. O ponto
cr ucial é que em toda classe de pulsões há uma meta autoconservadora, que se dá
pela operação de um retorno. Como esse caminho se acha obstruído no que
concerne à satisfação completa - ao retorno completo -, ele é forçado a criar
desvios por trilhas livres. Uma compreensão possível desse desenvolvimento freu­
diano é a de que a repetição está fadada a operar em um regime de diferença, ou
seja, há déficit entre a satisfação conseguida e a exigida.
A esse propósito, Lacan frisou que, na pulsão - que é por definição umakonstant­
kraft -, não se trata de ritmo, daí a repetição na obra freudiana não poder sofrer o
achatamento que corresponderia à noção de retorno cíclico. Desse modo, o gozo
calcado na repetição, que por sua vez se sustenta na pulsão, testemunha um desa­
cordo que sempre implica a insistência de um desejo em retornar, fadado a girar
sempre em volta de algo que aponta para o que não pode ser pré-visto. Essa é uma
das vias pelas quais se pode apreender a afirmação lacaniana de que o inconsciente
freudiano é ético: "O estatuto do inconsciente, que eu lhes indico tão frágil no
plano Ôntico, é ético" 1 2 , e que encontra seu sentido ao lado de outra afirmação de
Lacan, a de que o inconsciente se caracteriza pelo retorno - "a noção de
entrecruzamento, a função do retorno, Wicdcrkchr, é essencial. Não é apenas o
Wicdcrkehr no sentido do que foi recalcado - a constituição mesma do campo do
inconsciente se garante pelo Wiedcrkehr' 1 3 •
O repetir como operação de um regime de difcrença, em oposição à obrigação
de gozo, seria da ordem do direito ao gozo, que pode ser extraído do ponto cm
que o gozo da repetição implica um desejo de retorno e o mais-de-gozar comparece
como lugar que indica uma hiância: "Como tudo nos indica nos fatos, na experiência
e na clínica, a repetição se funda em um retorno do gozo. E o que a esse respeito
é propriamente articulado pelo próprio Freud é que, nessa mesma repetição,
produz-se algo que é defeito, fracasso" 14 • Trata-se aqui da repetição como tykhé, na

12 LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 1: os quatro conceitos fu ndamentais da psicanálise ( 1 964). Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 98 5 , p. 37.
11
Ibid. , p. 50.
1 LACAN, Jacques . O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit . , p. 44 .
4

Gozo e repetição 1 99
qual, para além do retorno do mesmo que jamais pode ser alcançado, o real
comparece, fazendo com que algo novo seja acrescentado ao repetir cm torno de
um furo. A repetição será levada em consideração como operação de reviramento
entre duas faces que não se opõem.
Assim, é do que há de perda de gozo que advém o objeto a, causa de desejo.
O gozo perdido é o que fornece justamente o próprio estatuto desse objeto perdido
para sempre, sendo possível, por essa via, apreender o sentido da afirmação
lacaniana de que no mais-de-gozar não se configura uma dimensão de transgressão :
Em função c;lc ser expressamente - e como tal - repetido, de ser marcado pela
repetição, o que se repete não poderia estar de outro modo , cm relação ao que
repete , senão cm perda. Em perda do que quiserem, em perda de velocidade, de
força - há algo que é perda. Freud insiste desde a origem nessa perda - na
pr6pria repetição há desperdício de gozo [... J. Aí é que se origina, no discurso
freudiano, a função do objeto perdido. 1 5

Saber, gozo e verdade


O conceito de repetição põe cm causa o status polêmico da pulsão de morte, que,
embora dê margem a uma série de leituras, tem como centro a posição do sujeito
em relação à morte.
A morte não entra em questão tendo por base um sujeito do conhecimento.
Para Freud , as aproximações do sujeito com a idéia de sua própria morte tomam
caminhos diversos, em torno do estranho. O que aí se revela é um deslocamento
que se presentifica no medo de morrer e que, paradoxalmente, apresenta-se como
familiar. O medo da morte possui um caráter de castração, que tantas vezes vemos
comparecer em formas discursivas pela via da paixão, do acidental e mesmo do
lúdico.
Já Lacan sublinhou que essa relação entre sujeito e morte escapa a um campo
determinado. É preciso estabelecer aqui a diferença entre saber e conhecimento:
"não há nada em comum entre o sujeito do conhecimento e o sujeito do signifi­
cante"16. É onde o ensino lacaniano promove o inconsciente estruturado pela lin­
guagem, fazendo entrar em cena o regime do significante, que faz do destino do
ser falante algo marcado por um ponto de perda, em função do qual temos acesso

11
Ibid. , p . 44 .
1
• Ibid . , p. 45 .

200 Saber, verdade e gozo


ao gozo. Assim, a incidência do campo cm que o sujeito advém , entre dois signifi­
cantes, constitui um ponto de reviramento cm relação ao p ensamento cartesiano
regido pelo penso, logo sou: o sujeito é o que escapa irremediavelmente da possi ­
bilidade de uma ordem plcna.
17

Aquilo que é possível dar a conhecer se instaura apenas como efeito de sujeito
num tempo a post eriori, no qual se destaca a dimensão do traço. É o sentido do
traço, marca de sua inserção no gozo, que comparece na repetição para além de
uma representação . Lacan localizou aí o que encontramos cm Freud como "saber
ancestral"1 8 • Assim, pode-se dizer que o sujeito que nos interessa está em um
tempo-lugar cuja referência é o traço unário:
O que descobrimos na experiência de qualquer psicanálise é justamente da ordem
do saber, e não do conhecimento ou da representação. Trata-se precisamente de
algo que liga, em sua relação de razão, um significante S1 a um outro significante
S2 [ • • • ] . O significante, então, se ar ticula por representar um sujeito j unto a
outro significante. É daí que partimos para dar sentido a essa repetição inaugural,
na medida em que ela é repetição que visa o gozo [ ... ]. E afirmo isto [ ... ] - que
é no traço unário que tem origem tudo o que nos interessa, a nós, analistas,
como saber. 1 9

Todo endereçamento que permeia o dizer na ordem do discurso encontra-se


calcado naquilo que diz r espeito à função do significante, ligado a uma relação pri­
mitiva entre saber e gozo: "o saber é coisa que se diz, que é dita [... ] o saber fala por
conta própria - eis o inconscicnte"20 • Isso repete. O inconsciente é aqui a referência
fundamental, uma vez que jogamos com um saber que se apresenta como não­
sabido, revelado como tropeço , lapso e desvio. Há, portanto, sempre um ponto de
nó , obstáculo a um saber concluído que porte uma verdade que leve à satisfação
total. Aí se encontra o lugar vazio, de onde são chamados inúmeros objetos.
Na tradição pós-freu diana, tais objetos foram abordados como tentativa de ob­
turação de uma falta, ao passo que cm Lacan o objeto porta em si mesmo essa falta
estrutural. É esse ponto de falta que se encontra no repetir, que promove o fracasso
da demanda e a articula com o desejo , sendo também o fio condutor que liga a
repetição ao gozo. No centro dessa experiência, esta é a maneira pela qual o sujeito

17
Para o esclarecimento desse ponto, remeto à pág. 1 94 e às notas 2 e 1 1 deste artigo.
18
lbid. ' p. 1 6.
19
Ibid., p. 28 e 44-5.
'º Ibid . , p. 66.

Gozo e repetição·
J11,tltutc, de Pclcnloaia • w;RGS 201
encontra um saber que pode ser tanto o que o sidera quanto o que é repelido :
Eis o essencial do que determina aquilo com que lidamos na exploração do in­
consciente - é a repetição [... ). A repetição não quer dizer - o que a gente
terminou, recomeça, como a digestão ou qualquer outra função fisiológica. A re­
petição é uma denotação precisa de um traço [ ... ) um traço na medida em que
comemora uma irrupção do gozo. 2 1

Saber e verdade são, portanto , inseparáveis dos efeitos da lin guagem , em que
o gozo é interditado e encontra seus impasses perante um absoluto impossível. Eis
onde se legitimou para Lacan a possibilidade de situar o saber inconsciente como
meio de gozo e a verdade não-toda como sua irmã. Ao lidar com o regime dos
significantes , estamos diante de um campo de equivalência que joga com a diferença.
O sujeito é ao mesmo tempo representado e não representado , restando sempre
alguma coisa que p ermanece oculta e exerce wna clivagem.
Contudo a verdade não pode ser simplesmente equiparada à divisão do sujeito
revelada por wn semidizer. A verdade reside em wn enigma que não pode ser apa­
gado, já que estamos no terreno da castração. Retomando o mito de Édipo , Lacan
observou que, na resposta ao enigma , o rei não encontrou a verdade. O que
aconteceu a Édipo, no momento cm que sua resposta à esfmge revelou a verdade, foi
justamente ter de perder os próprios olhos. Assim , o mito de Édipo traz a perspectiva
do terreno da verdade: zona de contorno , que há de se manter no nível da interrogação.
Não dá para dizer tudo ; logo, não dá para gozar de tudo. Essa perspectiva
pode ser encontrada em Freud no mito do assassinato do pai totêmico, ao qual
Lacan se referiu de maneira espirituosa , fazendo notar que realmente não dá para
ter todas as mulheres , uma vez que já é muito difícil saber o que fazer com uma.
A castração encontra seu lugar de lei simbólica, inaugurando o campo do desejo,
no qual só é possível gozar contornando o falo. Eis o bem-dizer, em que o reai
pode ser incluído no discurso como limite do simbólico .
Jogar com a v ida pela via da repetição é o modo através do qual o sujeito pode
dizer desse encontro que retorna sempre à mesma impossibilidade: encontrar o
objeto de sua demanda. 22 Entretanto há um núcleo inapreensível que permanece

2 1 Ibid . , p . 7 3 .
11
Em "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", Freud sublinhou que todo encontro com o
objeto é sempre um reencontro. Esse reencontro se refere ao objeto para sempre perdido, o
qual , como retomado por Lacan , denuncia uma falta estruturante no campo do desejo. A de­
manda consiste na crença de que há objeto e de que ele será encontrado um dia.
como insistência na busca de satisfação, e esse ponto - o real - só pode ser conside­
rado por intermédio do simbólico. A relação desses registros se faz notar nos estados
de desejo, cm que o sujeito se põe às voltas com o objeto perdido. O que se revela é
que esse objeto não coincide com o que é esperado e, uma vez que aquilo que se
apresenta só pode promover uma satisfação parcial, o sujeito repete uma busca que
o faz retornar sempre ao mesmo lugar: um vazio acompanhado da compulsão a
voltar a algo que revela um sujeito em fissura. Para Lacan, o mérito de Freud consistiu
justamente em ter mostrado essa dimensão de hiância, estrutural do inconsciente.
O fato de a pulsão de morte operar silenciosamente indica que há uma econo­
mia a partir do que é contabilizado pelo caminho das perdas marcadas como traços
que se repetem. Esse enlace de traçados é produtor de uma ficção contada por
cada um , cm que o gozo pode ser destacado pela via do sintoma como um bem­
dizer. Eis o processo que permeia a ética da psicanálise, a qual se evidencia na
repetição como lugar da diferença.23 Levando em conta esses aspectos, dos quais a
clínica fornece diversos testemunhos, resta a constatação de que, tal como provou
Freud, a psicanálise se exerce sempre a partir de seu caráter subversivo.24 Que
esse caráter, a exemplo de Lacan , seja bem-dito!

llJustamente porque falta objeto, a repetição pode ser lida em suas voltas como o que contorna
o vazio, levando o sujeito do campo da demanda para o campo do desejo. É importante destacar
que, cm O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, o estatuto ético "não ceder de seu desejo" pode ser
lido como "fazer valer a singularidade", sendo então possível uma articulação, em momentos
diferentes do ensino de Lacan, com "o gozo como a particularidade de um sujeito" e com "a
repetição tomada como diferença". Para essa abordagem do conceito de repetição, ver funda­
mentalmente O seminário, livro 1 1: os quatro conceitos fundamcn�is da psicanálise ( 1 964), em que Lacan
chamou a atenção para a diferenciação entre reprodução, rememoração e repetição, apontando
a tykhé como uma repetição que participa do real , indo além da insistência do retorno dos
mesmos signos e significantes.
24 Penso nesse caráter de subversão nos seguintes termos: o conceito de pulsão faz com que a
psicanálise não seja norteada pela idéia de um campo fechado. Sua referência não se encontra
em uma noção de estabilidade que possa considerar um aparato psíquico absoluto e pleno.
A partir daí, os passos dados por Freud se retiram de uma via naturalista, e essa saída progressiva
abre passagem para uma nova abordagem do homem, inserindo-o em uma ordem de contin­
gência submetida ao mutável , que se contrapõe à crença ilusória de um regime guiado pelo
necessário aliado ao eterno. O humano é, assim, aquilo que é guiado pela força de uma patência, a qual não permite
um congelamento do cu cm organiz.ações fixas. É aí que se pode extrair da obra freudiana uma ética que diz
respeito a um sujeito sempre aberto a novas exigências pulsionais que promovem sucessivas
reinscrições. Afinal, há algo mais subversivo que "Wo Es war soll Ich werden", apontando para
o verdadeiro lugar do cu?
A depressão e seus tropeços nos
arredores do gozo
Mara Viana de Castro

O discurso do capitalista produz objetos que visam a saturação


do sujeito, tamponando sua falta com gadgets propostos como
objetos de gozo e anulando toda questão sobre o desejo. Este tipo
de laço social faz crer que é possível ao sujeito encontrar satisfação
em um objeto.
Antonio Quinet, "A psiquiatria e sua ciência
nos discursos da contemporaneidade"

Do século IV a . C. ao século XVII, a aposta sobre a gênese da melancolia era o


corpo: Hipócrates afirmava que a melancolia seria resultado da ação da bílis negra
no baço. O alcance do desenvolvimento psiquiátrico durante o século XX se evi­
dencia nas classificações internacionais, nas diferentes psicoterapias e no surgimento
da psicofarmacologia. O conceito de melancolia foi perdendo visibilidade até desa­
parecer, sendo substituído pelo termo depressão. Considerada na visão contem­
porânea como o "novo mal do século", a depressão é atualmente descrita como
uma síndrome caracterizada por tristeza intensa, apragmatismo, abulia e culpa
que se verifica nas reprovações que o sujeito se faz e wna angústia que se torna
maior que a de costwne, enfim, uma lentificação dos processos psí quicos feita
pela classificação comportamental.
Apesar dos grandes debates e discussões, observa-se uma grande controvérsia
ent re os autores em relação a todos os seus aspectos, como a nosologia, os
mecanismos bioquímicos, neurofisiológicos, suas características clínicas e sua
terapêutica. É comwn referirem-se à heterogeneidade de suas manifestações clínicas
para justificar a necessidade de pesquisas e reflexões. O tratamento visa à supressão
sintomática do que é visível ao preço da evitação da investigação da causalidade.
Desse modo, o constante movimento da ciência em busca de novidades produz
efeitos não só 11D meio médico, mas sobretudo no discurso dos analisandos, que
pedem medicações por estarem apoiados na descrição dos sintomas depressivos
que é encontrada na propaganda feita na mídia. A freqüente busca pela felicidade
prometida pelos antidepressivos através do slogan "pílulas da felicidade" faz com que
as pessoas, a cada dia mais, escamoteiem em seus discursos elementos que poderiam,
no mínimo, produzir questionamentos sobre seu estado psíquico. O ser humano
parece ficar reduzido à deficiência de neurotransmissores, que são repostos atrav és
da ingestão de pílulas de "última geração". A revolução medicamentosa parece ter a
intenção de fabricar um novo homem proposto aos moldes do ideal social, embora
ainda não tenha sido fabricada uma medicação que cure uma "doença" psíquica. As
alterações do humor passam a ter, especificamente no arsenal psiquiátrico, uma
variação de nomes em seus manuais de classificação - cujo significante pivô é o
"transtorno depressivo" -, e a evitação de seu sofrimento torna-se banalizada.
Em "O mal estar na civilização" 1 , Freud afirmou que a droga seria uma forma
tosca de narcotizar o sofrimento humano. A angústia e a tristeza, sofrimentos
inerentes aos seres falantes, são cada vez mais, na atualidade, medicados com
ansiolíticos na intenção de barrar o sofrimento. A ciência quer um escravo da
medicação e quem ganha com isso é a indústria farmacêutica, fazendo promessas
de cura da depressão rumo à produção da felicidade de forma artificial, eliminando
do sujeito a possibilidade de se engajar com seu desejo. Assim, ele segue iludido,
com a concepção de uma falsa felicidade, imposta pelo consumo indiscriminado
de drogas, que vem constituindo uma nova modalidade de gozo, uma espécie de
permissividade para um novo tipo de toxicomania.
As posições subjetivas, a particularidade de cada sujeito cm relação ao desejo,
são desconsideradas numa clínica psiquiátrica que pretende a generalização e, por
conseqüência, a banalização do sofrimento humano. Assistimos aos consumidores
de drogas, à compulsão alimentar, às crises de pânico, às fobias, à enurese e até
mesmo à angústia neurótica serem tratados com antidepressivos. Uma das únicas
maneiras possíveis de fazer o sujeito interromper o uso medicamentoso é quando
os incômodos decorrentes dos efeitos colaterais demandam dele uma atitude que
leva a seu abandono. Em um atropelo coletivo, a ciência segue esquecendo que o
desconforto produzido internamente continuará a se estender em uma história.
Tratado como depressivo, o sujeito fica "viciado" na ingestão de pílulas como
objeto de satisfação. Embora a medicação não impeça que o tratamento analítico
prossiga, desde que não seja uma dose que cale o sujeito, a medicação vem se tornando
mais um sintoma da modernidade. Não tenho a intenção de descartar os benefícios

1
FREUD, Sigmund. "O mal-estar na civili7.ação" ( 1 929). Em: Obras completas, vol. XXI . Ri o d e
Janeiro: Imago, 1 977, p. 93.

206 Saber, verdade e gozo


terapêuticos que um antidepressivo pode trazer quando bem indicado, mas faço
objeção ao seu uso indiscriminado, amparado cm uma concepção tendenciosa que
reduz os sintomas psíquicos apenas à causalidade orgânica. Os parâmetros utilizados
para prescrição dos antidepressivos precisariam ser reavaliados.
Na sociedade contemporânea, portanto, a medicação surge como mais um
objeto de consumo, oferecido como objeto de desejo que promove uma nova
modalidade de economia libidinal, pautada pelo gozo. Ao basear-se no consumo e
na abundância de objetos que o capital pode criar e comprar, a cultura deteriora
as relações sociais entre os seres humanos e propõe ao sujeito a relação solitária
com o gadget2 . O consumo desenfreado desconhece a singularidade e desconsidera
o fato de que o desejo é subjetivo. O gozo advém quando o sujeito, em um engodo,
toma um objeto como se fosse algo que "satisfaz" o desejo.
V ivemos em uma cultura cujo lema atual é a "satisfação garantida" ou, seu
sinônimo , a "qualidade total". O aparente oferecimento de vantagens em troca de
seu investimento no trabalho e a satisfação do consumidor são os objetivos. Há de
se perguntar : para que tanta oferta de satisfação, por que o sujeito não se torna
imune ao oferecimento da satisfação? O que está cm questão é um oferecimento
que tem ressonância com o imperati vo supcr cgóico: goze! Em sua etimologia
latina, o ter mo satisfação advém de "satis", que significa "fazer o bastante", que
nunca se basta ou funciona, imperativamente, como "fazer bastante". Fazer mais.
O mais é o excesso, aquilo que transborda, é o gozo que, em sua concepção mais
pura, é definido por Lacan como aquilo que não serve pra nada3 • O ter mo satisfação4 é
diferente de Befriedigung5 , usado no texto original do alemão da obra freudiana, que
ao ser traduzido por satisfação, acaba perdendo sua noção, que dá idéia de tran­
qüilidade, de um "apaziguamento de uma inqui etude" ou ainda a volta a um estado
de paz . Ao passo que o termo satisfação cm português evoca a idéia de uma pessoa
cujo contentamento se faz presente mediante uma surpresa agradável.
Podemos ler o que se passa no mundo contemporâneo à luz do que Lacan
chamou de Discurso do Capitalista6 , que trabalharei cm seguida.

2 "Dispositivo mecânico, acessório, coisa prática, engenhosa, mas de utilidade relativa" (Dicionário
São Paulo: Melhoramentos, 1 96 1 ) .
Ilustrado Michaelis.
1 LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 98 2 , p. 1 1 .
4
BRUNO, Pierre. Satisfação e gozo. Belo Horizonte: Tahl, si d.
' HANNS, Luis. Dicionário comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1 996, p. 405 .
6
Ver também ALBERT!, Sonia. "Psicanálise: a última flor da medicina". Em: ALBERTI, S. e
ELIA, L. (org. ) . Clínica e pesquisa cm psicanálise. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 200 1 , p. 45.

A depressão e seus tro�eços nos arredores do .pozo 207


Lacan chamou de discursos quatro maternas que elaborou para expressar as
maneiras de viver na cultura, ditas por Freud7 : governar, educar, analisar, aos quais
Lacan acrescenta fazer desejar. Respectivamente denominados de Discurso do
Mestre, Discurso Universitário, Discurso do Analista e Discurso da Histérica.
Cada materna é exposto sob a forma de quatro elementos que ocuparão quatro
lugares em duas frações, sendo que, cada vez que os elementos sofrem um quarto
de giro, o discurso passa a ser diferente. Em cada fração, os lugares são fixos,
sendo assim designados : agente, outro, verdade, produção. E os elementos são
representados por $ - sujeito, S 1 - significante mestre, S2 - saber, e o objeto a -
objeto mais-de-gozar.
Após a formulação dos quatro Discursos, elaborados em O avesso da psicanálisc8 ,
Lacan trabalha na perspectiva de fazer uma derivação do Discurso do Mestre : o
Discurso do Capitalista, em 1972, e a partir do título de "O seminário, livro 1 8 :
de um discurso que não seria do semblante", para dizer que passou aquele ano
demonstrando que "este é um discurso completamente excluído'13 , pois "não há
nenhum discurso possível que não seja do semblante" 1 º.
E m ambos o s discursos, a seta segue de S 1 para S 2 , n o entanto n o Discurso do
Capitalista as setas laterais vão em sentido oposto ao do Discurso do Mestre, e não
há o deslocamento de a, como acontece nos quatro Discursos (do Mestre, da
Universidade, da Histérica e do Analista).
Ocorre uma inversão entre o S 1 e o S, o sujeito no lugar do agente, com a seta
dirigida do objeto a para o sujeito, o que indica que nesse discurso o laço do
sujeito se estabelece com o objeto de consumo. Não há seta que siga do agente 1i
ao outro S 2 • O sujeito da depressão, no caso, entraria no lugar do agente, o lugar
do outro é ocupado pelo saber da ciência e a medicação entraria como objeto que
serve à tentativa de tamponamento da falta. O sujeito é invadido pelo real e vira
um mero instrumento na mão da indústria farmacêutica. Ao seguirmos a direção
das setas diagonais, partindo de S 1, podemos fazer a seguinte leitura: o capital (S 1 )
investe no saber (S) da indústria farmacêutica, que produz a droga - objeto de
consumo - (a) para o consumidor ($) .

7 Freud se refere a governar, educar e analisar como "profissões impossíveis" cm dois textos:
"Prefácio a juventude desorientada, dcAichhorn" (1 925) e "Análise terminável e interminável" ( 1 937).
8 LACAN, Jacques. O seminário, li1ro 17: o al'esso dapsicanálisc. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 996.
9 LACAN, Jacques apud RIBEIRO, Marco Antonio Coutinho. "Capitalismo e esquizofrenia".

Em: ALBERT!, S. (org. ). Autismo e esquizofrenia na clínica da csquizc. Rio de Janeiro : Rios Ambiciosos,
1 999, p. 1 63-75 .
'º Ibid.

208 Saber, verdade e gozo


No Discurso do Capitalista, o desejo não está cm causa, a verdade do sujeito
passa a ser um comando, pois o a fica no lugar do objeto mais-de-gozar. Se 0

sujeito é movido pelo gozo, pelo mais-de-gozar, conseqüentemente ele estará


longe do prazer, mas dentro do consumismo. Ter é o lema. Esse Discurso desconhece
a dimensão da falta ou, dito de outro modo, o sujeito tem a ilusão de que está
longe da castração.
É possível inserir a ciência nesse mesmo discurso, refiro-me não a toda ciência,
mas a uma especificidade dela : a ncurociência, que exclui qualquer possibilidade
de par ticularização.
O significante mestre como dinheiro (capital) da indústria farmacêutica é 0

provedor das pesquisas desenvolvidas pelo saber científico. Com isso, há uma
vulgarização da depressão, que é atualmente diagnosticada ao menor sinal de angústia.
Esse é o retrato da cultura atual. Não há mais espaço para a tristeza, para a angústia,
para reflexões cm que o sofrimento psíquico possa modificar, salvo se não for tratado
como depressão. As "pílulas da felicidade", patrocinadas pelo capital, surgem como o
senhor absoluto e fazem do sujeito um proletário escravo de substâncias.
Tratando da banalização da depressão na contemporaneidade, Elisabeth Roudi-
nesco afirma :
Forma atenuada da antiga melancolia, a depressão domina a subjetividade con­
temporânea, tal como a histeria do fim do século XIX imperava cm Viena através
de Anna O. , a famosa paciente de Joseph Breuer, ou cm Paris com Augustine, a
célebre louca de Charcot na Salpêtricrc, às vésperas do terceiro milênio, a de­
pressão tornou-se a epidemia psíquica das sociedades democráticas, ao mesmo
tempo que multiplicam os tratamentos para oferecer a cada consumidor uma
solução honrosa. É claro que a tristeza não desapareceu, porém ela é cada vez
mais vi vida e tratada como uma depressão. 1 1

Não há como negar que existe tristeza e angústia nesse estado psíquico. Trata-se
de uma angústia paralisante , que aprisiona e impede o aparecimento do sujeito. Na
depressão, há uma invasão da angústia de forma maciça. Há um sofrimento que
causa improdutividade, as ações do sujeito ficam inibidas e ele, a serviço da tristeza
e com o cu libidinizado, m ergulha cm uma espécie de gozo paralisante, deixando a
cada dia que passa a depressão o dominar mais e mais. Como barrar esse gozo?
A experiência psicanalítica apresenta-se como um campo propício para que o
gozo possa ser barrado, pois o objeto poderá advir cm sua dimensão de causa. Ao

11
ROUDINESCO, Elisaheth. Por que psicanálisc?Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 999, p. 1 7.

A de pressão e seus tropeços nos arredores do gozo


Instituto de Psico ! O () i 1 - l !J:QGj 209
falar, o sujeito se implica em seu discurso , desenhando, através das "peripécias da
linguagem", um novo cenário para seus questionamentos, reflexões e aconte­
cimentos da vida. A palavra é a principal responsável por lidar com o mais-de­
gozar, pois ela convida o sujeito a fazer uma manobra pulsional e, de certa forma,
responsabilizar-se por seu sintoma. O sintoma tem uma relação estreita com a
libido e seu deciframento, que, segundo os ensinamentos de Freud, só poderá ser
feito através da linguagem.
Fazer com que o sujeito sofra um giro do mutismo depressivo ao dizer de sua
dor é a proposta psicanalítica. Não se trata de um tratamento a curto prazo e
muito menos do oferecimento de garantias, mas de uma aposta de que em algum
momento o campo do desejo se abrirá, configurando um novo panorama, o de
tornar-se autor de sua história, uma possível articulação do campo da linguagem
e do campo do gozo. Para tanto, o remédio é apenas a palavra, pois não há ainda
no mercado farmacêutico uma medicação que cure o mal-estar do sujeito desejante.
O desejo na velhice: notas sobre a
relação entre verdade e gozo
Julia Cristina Tosto Leite

Lá fora um vento vago


flerta com as ár vores,
provoca as cortinas
e as faz dançar ; em pensamento
mantenho o ritmo certo.
Lembrando as estações, cu toco
as coisas como se meus dedos
as fossem reaprender ;
cansada de explicações, a esta
altura eu me sinto melhor com a verdade.
Lá fora, o freixo da montanha
curva-se ao peso das frutas
cor de laranja
como sei os maduros demais; sinto
um puxão; a carne cede
à gravidade; mais próxima do solo
do que jamais estive próxi ma
do céu.
S. A. Katz, "Novos significados"1

A relação fraterna entre verdade e gozo é uma das articulações destacadas por
Lacan cm O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálisc2 • Neste artigo, buscamos retomar
al guns pontos da sustentação conceituai dessa formulação e, a partir destes, derivar
possíveis incidências para a consideração do desejo, eixo cm torno do qual focali­
zamos a discussão de nossa experiência clínica com o sujeito na velhice.

1
Em : MA RTZ, S.M. (org.). Quando cnrclheccr vou usarpúrpura. São P aulo : Marco Zero , 1 997, p. 90.
2 LACAN, Jac9ues. O seminário, /irra 1 7: o arcsso da psicanálise (1 969-70). Rio de Janeiro : Jorg e Zahar
Editor, 1 992, p. 5 1 -64.

21 1
A noção de verdade ganha, cm solo psicanalítico, um lugar que confere especi­
ficidade à constituição desse campo. Sabemos que, par tindo dos sintomas neuróticos,
Freud percorre um caminho que começa com a consideração do papel de experiências
de natureza sexual encerradas no passado infantil e culmina na descoberta do lugar
central do desejo e na afirmação do inconsciente como referido a uma outra realidade.
Ao reconhecer o terreno movediço que a preocupação com a diferenciação entre
verdade e falsificação colocava, concebe a noção de realidade psíquica como valor
decisivo na produção da neurose3 • O relato do paciente apontaria, portanto, a verdade
de seu desejo, tratando-se, na clínica, de buscar aí situar sua implicação subjetiva.
Assim, cm um primeiro momento, o inconsciente seria aquilo que está oculto sob o
recalque, emergindo através dos lapsos, esquecimentos e sonhos e estando presente
cm todas as ações do sujeito. Com a formulação da pulsão de morte, em 1 920,
revigorando o campo das intensidades não dominadas pelo princípio de prazer, Freud
retoma o valor do trabalho de ligação do psiquismo para aí também demarcar seu
limite. A verdade ganha, então, o estatuto de criação, inesgotável e ao mesmo tempo
precária, uma vez que a pulsão de morte tende a desfazer os laços feitos por Eros.
Na tradição poética e mítica grega, a verdade [alétheia ) tem o sentido de desve­
lamento do ser, lethe significando véu, encobrimento, e alpha, seu prefixo, designando
negação. Aludindo à manifestação Irevelação do ser, seu sentido seria primeiramente
ontológico, não se atendo à evidência fornecida pela experiência4 • Porém, portadora
de uma sombra essencial, designaria um mais além da palavra, o silêncio, o indizí­
vel 5 . Lacan dirá que a verdade só é acessível por um semidizer, porque além de sua
metade não há nada a dizer 6 •

Lacan e a verdade do desejo


Para Lacan, o sentido da experiência analítica é que "o inconsciente é este sujeito
desconhecido do eu"7 • Considerando esse descentramento como a marca funda-

1
FR EUD, Sigmund . "Confe rências introdutórias sob re psicanálise " ( 1 9 1 6-7 (1 9 1 5-7) ). Em :
Obras completas, vol . XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1 980, p. 428-30.
4
MA R CON DES, Danilo. Iniciação a história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro :
Jorge Zahar Editor, 1 997 , p. 266-7.
5 G A RCIA -ROZA , Luiz Alfredo. Palam e verdade na filosofia antiga e na psicanálise. Rio de Janeiro : Jorge
Zahar Editor, 1 998, p. 36.
6
LACAN, Ja cques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-70) . Op. cit . , p . 49 .
7
LACAN, Jacques. O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1 954-5). Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1 9R 'i . p. 6 1 .
mental da descoberta freudiana, reduzido nas práticas que visam ao eu em sua
dimensão de unidade, buscará, cm seu retorno a Freud, revitalizar sua importância.
O eu, no entanto, não seria um erro, no sentido de constituir uma verdade parcial :
É a partir dessa função imaginária que podemos conceber e explicar o que é 0
ego na análise. Não digo o ego na Psicologia, onde ele é função de síntese, mas 0
ego na análise, função dinâmica. O ego aí se manifesta como defesa, recusa. Aí
está inscrita toda a história das oposições sucessivas que o sujeito manifestou à
integração daquilo a que se chamará em seguida na teoria, em seguida somente,
suas pulsões as mais profundas e as mais desconhecidas. Em outros termos, nesses
momentos de resistência, tão bem indicados por Freud, apreendemos aquilo
através de que o movimento mesmo da experiência analítica isola a função fun­
damental do ego, o desconhecimento.8

É com a formulação sobre o estádio do espclho9 , sua leitura sobre o conceito


de narcisismo de Freud, que Lacan chamou a atenção para as relações do sujeito
com sua imagem :
Há inicialmente um narcisismo que se relaciona à imagem corporal . [ . . . J Ela faz
a unidade do sujeito, e nós a vemos se projetar de mil maneiras, até no que se
pode chamar a fonte imaginária do simbolismo, que é aquilo através de que o
simbolismo se liga ao sentimento, ao Selbstgefiihl, que o ser humano, o Mcnsch, tem
do seu próprio corpo. [ . . . J [Um segundo narcisismo se introduz] . O seu pattcrn
fundamental é imediatamente a relação com o outro. [ . . . J Vocês vêem aí que é
preciso distinguir entre as funções do eu - por um lado, elas desempenham para
o homem [ . . . ] um papel fundamental na estruturação da realidade - por outro,
elas devem no homem passar por essa alienação fundamental que constitui a
imagem refletida de si mesmo, que é o Ur-Ich, a forma original do Ich-Ideal, bem
como da relação com o outro. 1 0

A jubilação do estádio do espelho introduz o corpo na economia do gozo :


11
remetendo à completude subjetiva, também é um fora de si dilaccrante • Por
isso, Lacan situa nessa dialética especular a dimensão mortal da pulsão de morte:
na captura libidinal , o sujeito está submetido à vida eterna, mas essa etapa imaginária

8 LA C A N, Jacques. O seminário,
livro /: os escritos técnicos de Freud (1 953-4). R i o de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1986, p. 67.
9 LAC A N, Jacques . "O estádio do espelho com o formador da função do cu" [ 1949 ( 1936)] .

Em : Escritos. R io de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.


' 0 LA CAN, Jacques . O seminário, lil"ro f: os escritos técnicos dc Freud. Op. cit., p. 147-8.
11
VA LA S, P atrick. As dimensões do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edit or, 200 1, p. 48-9.

O desejo n a velhice 213


é obrigatória. Sua unidade ideal e, como tal, nunca atingida e sempre lhe escapando,
comporta, ao mesmo tempo, pontos que estruturam a relação com o mundo (0
desejo cativado pela imagem) e pontos através dos quais o sujeito se defronta com
seu rasgamento. É a linguagem que torna o sujeito desejante e, ao m esmo tempo,
mor tal 1 2 •
Se o princípio de prazer é enunciado como tendendo à cessação do prazer, 0

princípio de realidade poderia ser tomado como aquele que permite que o jogo
dure, ou seja, que o prazer se renove, que o combate não termine por falta de
combatentes. O desejo surge justamente ao se encarnar na palavra : "Este to be or not
to be é uma história completamente verbal"1 3 •
Um dos eixos da ar ticulação entre real, simbólico e imaginário, registros através
dos quais Lacan retoma a centralidade do inconsciente no campo da psicanálise, é
a noção de objeto. Para ele, o desejo está intrinsecamente ligado a uma falta, uma
vez que implica um movimento que busca reconstituir a primeira experiência de
satisfação. Tendo como fundamento o processo p ulsional, o objeto do desejo é,
assim, objeto metonímico. É o desejo que, revelando antes uma falta-a-ser, inscreve
a criança em uma relação complexa com a alteridade 4 :
1

Tão precoce quanto possível, inclusive antes da fixação da imagem própria do


sujeito, na primeira imagem estruturante do eu, está constituída a relação sim­
bólica, que introduz a dimensão do sujeito no mundo, capaz de criar uma realidade
outra que aquilo que se apresenta como realidade bruta, como encontro de duas
massas, como choque de duas bolas. É tão precoce quanto vocês possam conceber
que a experiência imaginária se inscreve num registro da ordem simbólica. Tudo
o que ocorre na relação de objeto está estruturado em função da história particular
do sujeito, e eis por que a análise é possível assim como a transferência. 1 5

Nesse sentido, interpretar não é mostrar ao sujeito que o que ele deseja é o
objeto sexual (orientado por imagens). A ordem libidinal se ligaria ao imaginário,
ao eu, com seu caráter de ordem e harmonia. Não se trata de reconhecer algo já
dado, mas de o sujeito, ao nomear seu desejo, fazê-lo surgir. O desejo, estando
aquém da existência, insiste. Segundo Lacan, Freud introduz um mais além do

1 2 lbid., p. 74.
13
LACAN, Jacques . O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na témica da psicanálise. Op. cit. , p. 29 3 .
14
DOR, Joel. Introdução a leitura de lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1 989, p. 1 39-47.
,; LACAN, Jacques . O seminário, livro 2: o cu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Op. cit. , p. 3 2 3-4.

214 Saber, verdade e gozo


princípio de prazer justamente no momento cm que os psicanalistas acreditam
que o desejo é desejo sexual , ou melhor, não entendem o que isso quer dizer.
Mais tarde, quando retoma o tema, Lacan sublinha que o que parece escandaloso
na articulação de Freud sobre o mais além é colocar, como recurso fundamental da
libido, a volta ao "repouso das pedras". Evocando o retorno ao inanimado, ao nível
mais baixo de tensão, não encontra, contudo, garantia de que algo aí não se mexa.
A "dor de ser", conforme diz Lacan, constitui o resíduo último da ligação entre Eros e
Tânatos: resta alguma coisa da libertação que Tânatos consegue com a agressividade
motora sob a forma de dor, que parece ligada à própria existência do ser vivo. 1 6
A ordem simbólica tenderia a um mais além do princípio de prazer, para além
dos limites da vida. É em "Édipo em Colona" que Lacan situa o mais além do
Édipo, quando a fala dos oráculos se realizou. Mantendo a convicção de que é
inocente (a ordem simbólica sentida como exterioridade) , Édipo se dilacera, es­
tando próximo do lugar em que a fala cessa. Nas palavras de Lacan, "És isto, que é
o mais longíquo de ti , isto que é o mais informe", e que é aquilo que provoca
angústia. A vida, assim , conjuga-se com a morte. 17
Com a segunda tópica freudiana, o que se delineia, segundo Lacan, é uma linha de
clivagem (não entre consciente e inconsciente) entre o recalcado, que tende à repetição
(a fala que insiste, tida cm exterioridade - o inconsciente), e o eu, que se situa na
ordem do imaginário. Eis aí a articulação entre a ordem simbólica e a pulsão de morte:
"A ordem simbólica, ao mesmo tempo não-sendo e insistindo para ser, eis a que visa
Freud quando nos fala da pulsão de morte como sendo o que há de mais fundamental
- uma ordem simbólica em pleno parto, vindo, insistindo para ser realizada'� 8 •
Lacan amarra a palavra à morte - por trás daquilo que é nomeado, o que
existe é inominável, aparentando-se à morte. 1 9

Não há sentido que não seja do desejo


Para Lacan, o sujeito, na verdade de seu desejo, é inseparável dos efeitos de lin­
guagem. 20 A via da verdade se constrói pelo caminho das equivocações, dos lapsos,

16
LACAN, Jacques. O seminário, livro S: as formações do inconsciente ( 1 957-8). Rio de Janeiro : Jorge
Zahar Editor, 1 999, p. 252-5.
17
LACAN, Jacques. O seminário, livro 2 : o eu n a teoria de Freud e n a técnica da psicanálise. Op. cit. , p. 288 -95 ·
18
lbid. , p. 407.
19
lbid. , p. 266.
20
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 5 8-9.

O desejo na velhice 215


dos tropeços da palavra - é por aí que o inconsciente faz suas irrupções. Porém há
mais um passo a ser dado em sua teorização .
É Wittgenstein, com Tractatus logíco-phílosophicus (herdeiro da tradição lógica e
crítica da filosofia), que lhe serve de inspiração. Debruçando-se sobre o problema
das relações entre lin guagem, pensamento e realidade, esse autor chega à seguinte
conclusão: "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar'>.1 1 • Para Lacan, ele
leva longe a idéia de chegar ao que pode ser chamado de verdadeiro e sustentado
como tal, postulando que não há verdade que não esteja inscrita em uma proposição
lógica. Fazendo da verdade o fundamento do saber, nada mais tem a dizer. Apro­
xima-se, de certa forma, da posição do analista , eliminando-se completamente de
seu discurso. Mas, afirma Lacan, ele está mais perto da posição do psicótico, de
"nada querer saber do recanto em que a verdade está em jogo"22 . O que há de
pavoroso na verdade é que ela põe cm seu lugar o lugar do Outro, ou seja , é a
metade do sujeito que tem a ver com o gozo do Outro.23
Lacan sublinha que o efeito de linguagem arranca do gozar um mais-de-gozar,
relacionado com a entropia, o que, como afirmou Freud , indica que há perda . Isso
quer dizer que o sujeito não pode esgotar a significação de seu ser pelo significan­
te. 24 A verdade é irmã do gozo interditado, onde se marca seu limite. 25 A morte
do pai em "Totem e tabu''26 delimita o gozo como parcial, o desejo insinuando-se
cm sua insatisfação fundamental. É assim que, no discurso do analista, o saber está
no lugar da verdade , esta só podendo ser enunciada por um semidizer. Ainda
assim, a impossibilidade, que é da ordem da estrutura, onde se marca o papel
estruturante da castração, protege-se com a impotência ("al guém pode")27. No
discurso do analista, avesso do discurso do mestre, o analista "está na posição mais
conveniente para fazer o que é justo fazer, a saber, interrogar como saber o que é
da verdade"28 •

21
WITIGENSTEIN, Ludwig. Tractatus logico-philosophicus ( 1 953). São Paulo: EDUSP, 1 994.
22 LACAN , Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 60.
21
Ibid. , p. 1 78 .
24
VALAS, Patrick. As dimensões do gozo. Op. cit. , p . 74.
25
LACAN, Jacques . O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 64.
26
FREUD, Sigmund. "Totem e tabu" ( 1 9 1 4) . Em: Obras completas, vol. XIII. Op. cit.
7 LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. 1 66.
2
28
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. ( 1 972 -3). Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor,
1 98 5 , p. 1 29.

216 Saber, verdade e gozo


A ética do desejo na clínica com idosos
De nossa experiência clínica cm um ambulatório de geriatria de um hospital ge­
ral, escolhemos dois pontos que ganham relevância no contexto da discussão deste
trabalho.
Em primeiro lugar, o que chama a atenção é que o termo velhice é marcado,
desde o campo social, por imagens que ressaltam a fragilidade do corpo como
valor negativo e que, não raramente, arrastam a subjetividade para um lugar não
menos pejorativo, cm que a singularidade é esquecida . Carneiro assinala que, na
tentativa de positivar a velhice na lógica do consumo que apóia a sociedade con­
temporânea, faz-se necessário acreditar que há aí um combate a ser travado, ou
seja , que é possível adiar ou afastar a morte29 • Mas o que é oferecido através das
imagens de plenitude, ainda assim, desvela o que pretende ocultar: a fragilidade do
corpo e da vida humana. Eis o temor que tem ensejado, ao longo da história, infindá ­
veis tentativas de apreender a velhice em uma racionalidade que o afaste, restando
ao sujeito a responsabilidade na construção de seu próprio caminho. Expressões
como "velho bem conservado" e "velho de espírito jovem" marcam bem a armadilha
sustentada pela sociedade contemporânea em busca do corpo eterno, ilusão em que
pode se enredar o sujeito. Maud Mannoni afirma que, comumente, esse termo ocupa
um lugar de verdade sobre o sujeito, um saber a priori. 30 Assim , a diversidade da
subjetivação possível perante o corpo fmito é apagada.
Em "O mal-estar na civilização", Freud sublinha que o corpo "permanecerá
sempre como uma estrutura passagei ra, com limitada capacidade de adaptação e
realização" e que esse reconhecimento, ao contrário de conduzir a um efeito para­
lisador, indicaria a direção da atividade. 3 1 Antes, já dissera que, ao acolhermos as
ilusões, poupamo-nos de sentimentos desagradáveis, embora seja inevitável seu
despedaçamento no choque com al guma parcela da realidade. Levada ao extremo,
a tendência de tomar como fortuita a causação da morte, despojando-a de seu

29
CA RNEIRO, Cláudia. "O corpo efêm ero", Cadernos do Tempo Psicanalítico, n. 4. R io de Janeiro,
1999, p. 23-35.
30 MANNONI, Maud. O nomeável e o inominável: a última palarra da vida. R io de Janeiro : Jorge Zahar
Editor, 1995 , p. 26.
11
FREUD , Sigm und. "O m al-estar na civilização" (1930 (1929) ). Em : Obras completas, vol . XXI.
R io de Janeiro : Im ago , 1980, p . 105.
caráter de término da vida, tornaria empobrecida a vida. 3 Assim, a busca da "res­
2

tauração do narcisismo ilimitado" desvelaria a própria constituição do cu, com sua


"aparência enganadora" de unidade e autonornia3 3 , e é nesse sentido que a cas­
tração, apontando a impossibilidade de completude, está na origem do desejo e
de sua possibilidade de sustentação até o fim da vida.
O segundo ponto que queremos discutir está situado na dimensão do mais
além do esforço de unidade e homeostase do cu . Em nossa experiência clínica,
encontramos não raramente um sujeito paralisado diante do desafio de manter
seu desejo perante o fluxo do tempo e as marcas de fragilidade do corpo e da vida,
acentuadas p ela velhice e pela doença.
O sofrimento aí se configura à maneira de um paradoxo : o refúgio no domínio
do cu, cm que o sujeito está capturado pela relação narcísica (refletido no apego ao
passado e na preocupação com o corpo), envolve, ao mesmo tempo, o risco de
estagnação do movimento do desejo e o esforço de lidar com a castração, recolocada
em jogo pelo corpo frágil. Pensar o desejo na velhice implica considerar o caráter
problemático da miragem do cu e sua relação com a ordem simbólica e seus limites.
Daí a importância do lugar da palavra, dimensão simbólica, que faz a mediação entre
o real e o imaginário, uma vez que o simbólico é o campo que permite ao sujeito
situar-se no intervalo , ocupando um lugar de ambigüidade, entre o falo e o furo.34
A ética da psicanálisc 35 , fundada no desejo e não em um ''bem supremo", afirma
a possibilidade de pensar uma clínica voltada para o sujeito também na velhice,
diversa do discurso gerontológico com seu caráter normativo, expresso em modelos
que visam à "boa velhice".
Lacan assinala que ceder ao desejo empurra o sujeito para o gozo mortífero.
É cm sua referência fálica que o desejo se mostra em sua insatisfação estrutural e ,
a o mesmo tempo, como ato sempre renovável. Recortar o s efeitos de gozo , cm
que o sujeito cede em seu desejo, implica, no discurso da psicanálise, a relação
com uma verdade sempre singular.

12
FREUD, Sigmund. "R eflexões para os tempos de guerra e morte" ( 1 9 1 5). Em : Obras completas,
vol. XIV. Rio de Janeiro : Im ago , 1 980.
li
FRE UD, Sigmund. "O mal-estar na civ ilização" (1929). Em : Obras completas, vol. XXI. Op.
cit. , p. 81-90.
34
JOR GE , Marco Antonio Coutinho. Fu ndamentos da psicanálise de Freud a lacan, vol. 1 : As bases conceituais.
Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2000, p. 100-1.
15
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1 988.

218 Saber, verdade e gozo


Consideramos que, na clínica com idosos, a possibilidade de recuperar algo da
ilusão que possa manter cm circulação o desejo, não esquecendo as cicatrizes
deixadas pelas perdas, só pode ser sustentada pela produção de um saber referido
ao inconsciente , uma verdade não toda, que aponta a importância e o limite da
palavra.
P A R T E VII

Psicose e laço social


Desejo e psicose:
uma breve introdução
Maritza Magalhães Garcia

Para abordar a questão do desejo na psicose, parti de O seminário, livro 7: a ética da


psicanálise1 , em que Lacan estabelece as "metas morais da psicanálise'>2 e conceitua
das Ding, e retornei a Freud em "O mal-estar na civilização'>l . Investigando a relação
entre desejo e castração, percebi que algo se delineava em torno do conceito de
supereu, e foi essa a via que acabou por se impor ao estudo. Pensar o supereu e seu
estatuto na psicose me levou ao conceito de gozo, introduzido por Lacan em O seminário,
livro 7: a ética da psicanálise e reformulado, após a conceituação do objeto a, em O seminário,
livro 1 7: o avesso da psicanálise4 . O caminho percorrido foi , portanto, da ética da psica­
nálise, campo do desejo, a seu avesso, campo do gozo; a baliza do percurso foi o
estudo da psicose como estrutura clínica privilegiada para pensar a questão do
sujeito tal como a psicanálise o concebe, assim como seus efeitos a céu aberto.
Em O seminário, livro 7: a ética dapgcanÁÍise, no início do capítulo intitulado "As metas morais
da psicanálise", Lacan perguntou: "Essa ameaça, esse dilaceramento do ser moral no
homem, é-nos permitido esquecê-lo na doutrina e na prática analíticas?''. Essa "ameaça"
se refere a "O mal-estar na civilização" - em que Freud definiu o supereu como instância
severa da qual não se pode esconder os desejos proibidos - ou, nas palavras de Lacan, "à
forma sob a qual a instância moral inscreve-se concretamente no homem',s.
Lacan falou dessas metas morais como "o que há de sempre velado" em uma
análise, ou seja, elas são inconscientes e, portanto, agem na surdina. Em relação à

1 LACAN, Jacques. O seminário, liffo 7: a étia da psicanálise ( 1 959-60). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1 98 8 .
' Ibid . , p . 362.
3 FREUD, Sigrnund. "O mal-estar na civilização" ( 1 930). Em: Obras completas, vol. XXI. Rio de
Janeiro : Imago, 1 980.
4
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise ( 1 969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1 992 .
5 LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Op. cit. , p. 3 6 3 .
função do analista, afirmou que "constituir-se como garante de que o sujeito possa
de qualquer maneira encontrar seu bem, mesmo na análise, é uma espécie de
trapaça", chamando a atenção para dois fatores :
1) A exigência de rigor e firmeza por parte do analista diante da "confrontação
com a condição humana", o que supõe levar cm consideração as conseqüências da
possível passagem da exigência de felicidade para o plano político (exigências
próprias do que Lacan denominou "serviço dos bens"). Aqui Lacan sinalizou outra
esfera, a do desejo : "O ordenamento do serviço dos bens no plano universal, no
entanto, não resolve o problema da relação atual de cada homem, nesse curto
espaço de tempo entre seu nascimento e sua morte, com seu próprio desejo".
2) "A função do desejo deve permanecer em uma relação fundamental com a
morte". Retomando a tragédia através do mito edípico e da peça Rei Lear, de Shakes­
peare, Lacan relembrou como "o limite dessa região se expressa para o homem em
seus termos derradeiros'06 • Trata-se de, ao mesmo tempo, "tocar no termo do que ele
[o homem) é e do que não é" e, nesse ponto, tanto Lcar quanto Édipo mostram-nos
que "aquele que avança nessa zona, avançando-se pela via derrisória de Lear ou pela via
trágica de Édipo, avançará sozinho e traído'q. Ainda cm O seminário, livro 7: a ética dapsicanálise,
Lacan pensou a passagem do homem comum - aquele que se põe a serviço dos bens -
ao herói trágico, após certo acesso ao campo do desejo: "Em cada um de nós há a via
traçada para um herói, e é justamente como homem comum que ele a efetiva'8 .
Se a morte - um dos nomes da castração -tem relação fundamental com a função do
desejo para o sujeito, pade-se depreender que, onde há desejo, há sujeito do inconsciente,
subentendendo-se o efeito da operação de castração no psiquismo humano. O acesso
chistoso, falho ou pela via dos sonhos ao campo do desejo carrega consigo a sombra do
recalque e da renúncia pulsional, ou seja, do momento atemporal que constitui
simbolicamente a civilização desde os primórdios, como afirmara Freud em 1930.
Lacan analisou a última frase de Édipo, me phynai, que significa "de preferência ,
não ser". Essas palavras parecem carregar consigo todo o arsenal da real função do
desejo. Quando dizemos "Eu sou . ..", imediatamente evocamos também aquilo
que não somos, mas de forma apagada, obscurecida. Como indicou Lacan, o signifi­
cante chega matando a Coisa [das Díng) . Lacan chegou a dizer que Édipo morre da
"morte verdadeira", pois "ele mesmo risca seu ser". Édipo, portanto, subsiste à cas-

6
Ibid. , p. 364.
7
Ibid. , p. 366.
8
Ibid. , p. 383.
tração: "uma subsistência na subtração dele mesmo da ordem do mundo'>J. Leio essa
"ordem do mundo" como a ordem simbólica à qual a linguagem se encontra
submetida, vale dizer, tudo o que, a partir do campo simbólico, torna-se possível
ordenar na relação dos homens com o mundo. Embora essa leitura da "ordem do
mundo" em que se torna presente a castração operando no registro simbólico seja
perceptível na estrutura neurótica, como se pode entendê-la na psic�se?
Para Schreber, o juiz psicótico que pôde escrever sua autobiografia 0 , era ne­
1

cessário inserir-se na "ordem do mundom 1 . Partindo de suas palavras sobre essa


peculiar reinserção, Freud constatou que se tratava de um recurso proporcionado
pelo delírio que permitia o reinvestimento libidinal no mundo externo.
Em ''Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" 2 , Freud indicou wn ponto distinto
1

de regressão da libido para cada wna das afecções, o que permite delinear wna clínica
diferencial para cada wna delas a partir do primeiro ponto de fixação. Em suas palavras :
"Na paranóia, a fixação à qual o paciente retorna por regressão é o estágio do narcisismo,
e na demência precoce é necessário utilizar wn estágio anterior a esse, que é o do auto­
erotismo infantil" 1 3 • Há vestígios dessa fixação libidinal nardsica também na megalo­
mania, que surge como sintoma e faz saltar aos olhos a inflação egóica presente nesses
quadros. Quase dez anos depois, em "Sobre o narcisismo: uma introdução" 4 , Freud
1

afirmou que a substituição de objetos (produto do recalque), na fantasia, da libido


retirada de pessoas e coisas do mundo externo não ocorre no psicótico, que dirige a
libido para o eu. Esse foi o ponto inicial do conceito de narcisismo, em oposição às
idéias de Jung sobre a dessexualização da libido na esquizofrenia.
Se partimos do principio de que efetivamente há sujeito na psicose, ainda que
wn sujeito fixado no horizonte em que reina a "ordem do mundo", como esse su­
jeito pode incluir algo da ordem do desejo, wna vez que o desejo carrega em sua
própria função uma relação íntima com a castração, inoperante na estrutura psicótica?
Responder a essa questão, trabalhosa e delicada, inclui a necessidade de verficar o que
se apresenta na experiência clínica. Antes, porém, revisemos alguns pontos teóricos.

9 Ibid. , p. 367.
'º SCHREBER, Daniel Paul. Memórias de um doentc dosncrvos (1 903). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1 995 .
11
A expressão é do próprio Schreber.
12
FREUD, Sigmund. "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" ( 1 905). Em : Obras completas,
vol. VII. Op. cit.
1 1 Ibid. , p. 205 .
14
FREUD, Sigmund. "Sobre o narcisismo, uma introdução" ( 1 9 1 4). Em: Obras completas, vol.
XIV: Op. cit.

Desejo e psicose 223


Por trás de todo desejo há o desejo do Outro. Essa síntese lacaniana parece
valer para todos, independentemente da estrutura clínica cm jogo. Na psicose,
contudo, cm razão da inoperância do significante Nome-do - Pai, amarrador do
registro simbólico, há a submersão total do sujeito no desejo não barrado, e por tanto
absolutamente ameaçador, da mãe, o que o faz se posicionar à mercê do gozo do
Outro. Como ocorre, então , a escolha - se é que se pode dizer assim - psicótica?
Em 1894, Freud iniciou uma discussão em torno do que chamou de "ncuropsi­
coses de dcfcsa" 1 5 • Incluem-se nesse grupo a histeria, as obsessões e certos casos de
"confusão alucinatória aguda" (definida por ele como "uma psicose'1 6) , que possuem
um aspecto comum: seus sintomas emergem de um mecanismo psíquico de defesa
inconsciente, como tentativa de recalcar uma representação Íncompatívcl que se opõe
aflitivamente ao eu. As noções de defesa e recalcamento se configuram como fios
condutores tanto para a neurose (histeria e obsessão) quanto para a psicose ("confusão
alucinatória"). Dois anos depois, cm "Observações adicionais sobre as ncuropsicoses
de defesa" 1 7 , Freud analisou um caso de "paranóia crônica" e considerou a existência de
um "mecarusmo · cspea"al d e rccalcamento»I B, cm funçao e " iracassar
- d e a "d e1esa e. por
completo e o "termo real" 1 9 do insulto, do qual o sujeito tentara se poupar, retornar
inalterado. A partir disso, concluiu que, na paranóia, entra cm jogo um uso peculiar do
mecanismo de projeção, constituindo-se a desconfiança como sintoma primário de
defesa : "Dessa maneira, o sujeito deixa de reconhecer a autocensw-a e, como que para
compensar isso, fica privado de proteção contra as autocensuras que retornam cm suas
representações delirantesmº. Mais tarde, essa discussão seria ampliada a partir das
descobertas sobre a sexualidade infantil, o complexo de Édipo, a interpretação dos
sonhos e a conseqüente constatação da insistência dos movimentos inconscientes.
Ainda em 1 896, em correspondência com Flicss2 1 , Freud demonstrou o que
ocorre com o psicÓtico em seu primeiro encontro com o sexo22 • Segundo ele, há

15 FREUD, Sigmund. "As neuropsicoses de defesa" ( 1 894). Em : Obras compleras, vol. III . Op. eit.
16
Ibid. , p . 64.
1 7 FREUD, Sigmund. "Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa" ( 1 896). Em :
Obras compleras, vol. III. Op. cit.
18
lbid. , p. 1 74.
19
lbid. , p. 1 8 1 .
20
Ibid. , p. 1 8 2 .
21
FREUD, Sigmund. "Rascunho K." ( 1 896) . Em: Obras completas. vol. I. Op. cit.
22
Trata-se da experiência sexual de caráter traumático de que Freud falou cm seu trabalho
sobre as neuropsicoses de defesa, de 1 894, já citado.

2 24 Saber, verdade e gozo


wna descrença na recriminação primária23 que é determinante na paranóia - trata­
se do Vcrsagcn dcs Glaubcns [fracasso das crenças]. Em seguida, buscou demonstrar a
etiologia das "neuroses de defesa" (nesse momento, histeria, obsessão, paranóia e
amência alucinatória aguda) a partir do caráter do primeiro encontro com o sexo e
do destino de seu significante, comparando a paranóia com a neurose obsessiva.
Na neurose obsessiva, a descrença não é wn fato de estrutura, mas wn índice da
fenda do sujeito, dividido entre a escrupulosidade (sintoma primário) e a idéia tornada
estranha devido à descrença (luta que resulta na formação dos sintomas secundários).
Na paranóia, Freud supôs que o primeiro encontro com a Coisa fosse também da
ordem de um prazer em demasia , mas afirmou desconhecer as condições clínicas que
determinam esse encontro. O afeto que marca o gozo na desconfiança, sintoma primário
da paranóia , é o desprazer atribuído ao Outro, e não à auto-recriminação. O afeto
acompanhado da recordação primeira, ou somente o afeto (gozo puro), retorna no
real (retorno do foracluído), podendo ser observado sob a forma de despedaçamento
do corpo, sensações de volúpia ou vozes alucinadas. Essas vozes, que para Freud eram
representantes do fenômeno essencial da psicose, são o sintoma de compromisso que
traz a recriminação rejeitada . O sujeito paranóico acredita nelas sem hesitação e se
sente obrigado a fornecer-lhes wna explicação. Assim, o delírio se torna presente.
Lacan deu à expressão Unglauben, utilizada por Freud em "Rascunho K.", o sentido
de "ausência de wn dos termos da crença, do termo que designa a divisão do su­
jeito"24. Mais tarde, em O seminário, livro 7: a ética dapsicanálise, propôs o termo "descrença"
e o aproximou da foraclusão: "Quanto à descrença, há aí, na nossa perspectiva , wna
posição de discurso que se concebe muito precisamente cm relação à Coisa [dasDing].
A Coisa aí é rejeitada no sentido próprio da Venvcrfimi'25 • Essa "posição de discurso"
foi desenvolvida nos termos do discurso da ciência, que foraclui o real.
No que se refere à posição do sujeito psicótico, no entanto, a descrença, cm sua
equivalência com a foraclusão, não incide na Coisa, mas na realidade psíquica, ou
seja, trata-se de foraclusão do significante, e não do real da Coisa. A descrença na
recriminação primária é correspondente à foraclusão do Nome-do-Pai. É porque é
foracluído do simbólico que o significante retorna no real sob a forma, por exemplo,
de alucinação verbal . Além disso, segundo Freud, a crença recusada à recriminação
não só é vinculada ao sintoma de compromisso, como também o comanda.

11
Na Edição standard brasileira das obras psicológicas completas, lê-se "autocensura primária".
24
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 1: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro :
Jorge Zahar Editor, 1 992 , p. 2 2 5 .
2
; LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Op. cit. , p . 1 64.

Desejo e psicose 225


Se abordamos a Coisa como gozo, vemos que a posição do sujeito psicótico
não é de rejeição. Ele, antes, é assujeitado, invadido pelo gozo no real. Na psicose,
0 significante, longe de barrar o gozo, é seu por tador, como se pode observar no
fenômeno da alucinação. O sujeito surge coisificado pelo significante.26 A ausência
da divisão do sujeito conduz à rejeição da afirmação primeira, assim como corres­
ponde, nos termos de "Rascunho K.", à ausência de crença na recriminação primária.
O psicótico não dá crédito ao Outro e, cm vez de crer, carrega consigo a certeza,
como no exemplo de Schreber, a quem Deus queria como sua mulher.
O sujeito neurótico , por sua vez, está apreendido entre a negação e a afirmação,
como demonstrou Freud em "A ncgativa"27 • O sujeito dá crédito ao Outro por saber
que o Outro não existe. Crê por não ter certeza de nada, por saber que não existe
um significante derradeiro que imponha a verdade última . Em relação a seus sin­
tomas, é um crente. Lacan afirmou que a crença se fundamenta no desvanecimento
do sentido, ou seja, sua dimensão é correlata ao momento em que o sentido se
desvanece. A crença se acompanha da não-crença, como no dito espanhol : ''No creo en
las brujas, pero que las hay, las haj'. Crença e não-crença, afirmação e denegação - a primeira
é condição da segunda, vale dizer, a afirmação é primária. Assim, a crença supõe a
divisão do sujeito, a operacionalidade do par de oposição significante (S1 -S).
A crença ou descrença na recriminação primária que acompanha o primeiro
encontro com o se xo parece determinante na escolha entre neurose ou psicose.
A crença permite seu recalcamento e sua operacionalidade no simbólico, daí a
possibilidade de mctaforização na formação do sintoma. A recriminação primária
é o que vem no lugar da Coisa inominável e a esvazia de gozo. Ela é o significante
que marca a Coisa como gozo perdido e impossível, como indicou Lacan cm O semi ­
nário, livro 7: a ética dapsicanálise, em meados de 1960. A recriminação primária, marcando
a Coisa como proibida, "é a expressão da lei no nível do fcnômeno'728 , é o que
desempenha a função de Nome-do-Pai.
Voltemos, após esse percurso teórico, à questão inicial sobre o "dilaceramento do
ser moral no homem". Em sua tese de doutorado, intitulada Da psicose paranóica em suas
relações com a personalidadc29 , Lacan citou o caso Aiméc, ilustrando uma nova categoria
nosológica - a paranóia de autopunição. Ele realizou um percurso cuidadoso através

16 QUINET, Antônio. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: orense Universitária, 2000.
F
27 FREUD, Sigmund. "A negativa" ( 1 925). Em : Obra compleras, vol. XIX. Op. cit.

28
QUINET, Antonio. Tcoria e clínica da psicose. Op. cit. , p. 74.
2• LACAN, Jacques. Da psicose paranóica cm suas relações com a personalidade ( 1 93 2 ) . Rio de Janeiro :
Forense Universitária, 1 987. Op. cit.

226 Saber, verdade e gozo


da história de vida e do delírio de Aimée, paciente de um hospital psiquiátrico francês,
até o momento em que partiu para o ato, agredindo uma célebre atriz - figura
condensadora de seu delírio de perseguição -, o que a levou a ser presa e transferida
para um sanatório. Lacan observou que o deürio de Aimée se desvanece não porque
cometeu o ato, mas porque foi castigada, objetivo maior contido na essência do ato.
Esse ponto é crucial, pois foi justamente a partir dele que Lacan trilhou o desenvol­
vimento do que chamou de paranóia de autopunição. Segundo ele, Aimée atinge a si
mesma e, "paradoxalmente, é apenas então que ela sente o alivio afetivo (choros) e a
queda brusca do delirio que caracterizam a satisfação da obsessão passional'"!º. Ele
atribuiu esse paradoxo à existência e ao "imenso alcance" dos mecanismos autopunitivos,
relacionando-os à teoria freudiana da gênese do supereu.
Logo adiante, ressaltou a importância da "noção energética" criada por Freud
através do conceito de libido e de sua ''base biológica, dada pelo metabolismo do
instinto sexual"3 1 , identificando a libido com o:
desejo, o Eros antigo tomado em uma acepção bem vasta [ ... ], como o conjunto
dos apetites do ser humano que ultrapassam suas estritas necessidades de con­
servação. [... ] A enor me preponderância desses instintos eróticos no determinismo
de uma ordem importante de perturbações e reações psíquicas é um dos fatos
globais mais bem demonstrados pela experiência psicanalítica. Diver sos fatos da
observação biológica tinham permitido desde há muito tempo entrever essa pre­
ponderância como uma propriedade fundamental de toda vida. 32

Em seguida, indicou a incidência do conceito freudiano de libido e suas proje­


ções objetais no complexo de Édipo, assim como o papel das fixações libidinais no
estudo dos sintomas das psicoses, a partir, especialmente, de um estádio de evolução
das tendências narcísicas que fez corresponder à formação dos mecanismos autopu­
nitivos ou do supereu: "A prevalência mórbida dos mecanismos de autopunição será
sempre acompanhada, portanto, de distúrbios que manifestam a função sexual'8 3 • Por
fim, relacionou a erotização dos objetos fraternos à idéia freudiana de homossexualidade
i nfantil, relacionada, cm "Totem e tabu", à gênese dos "instintos sociais'84.
. ,, .
Para Lacan , a "fi1xaçao
- narc1s1ca
, - homossexual" eram onundas d e
e a "pulsao
pontos evolutivos muito próximos da libido, quase contíguas no estádio de gênese

10
Ibid. , p. 25 1 .
" Ibid., p. 256.
12
Ibid. , p. 257.
" Ibid. , p. 260.
14
FREUD, Sigmund. "Totem e tabu" ( 1 9 1 3). Em: Obras completas, vol. XIII. Op. cit.

Desejo e psicose 227


do supereu , o que explicaria a "benignidade" relativa e a "curabilidade" da psicose
no caso Aimée35 • Em sua tese, Lacan empregou dois postulados dogmáticos da
psicanálise: a existência de certa tipicidade do desenvolvimento da personalidade
- isto é, certa coerência típica entre sua gênese e sua estrutura - e a equivalência
entre os diversos fenômenos da personalidade: "equivalência que se exprime no
uso comum do termo impreciso , porém imposto pelas necessidades do pensamento ,
de energia psíquica" 36 • A noção de energia psíquica supõe o conteúdo do que
chamou de "instinto sexual" ou "entidade da libido" e que mereceu especial inves­
tigação em seu estudo. Entre os elementos reveladores da personalidade na psicose,
destacou "as situações da história infantil do sujeito , as estruturas conceituais que
seu delírio revela e, por fim , as pulsões e as intenções que seu comportamento
social traduz" 37 •
Ref erindo-se aos textos "O eu e o isso"38 e "Além do princípio de prazer'>39 ,
nos quais Freud afirmou que , na gênese do eu , estaria o princípio de realidade,
oposto ao princípio de prazer, pelo qual são reguladas as pulsões do isso , Lacan
afirmou: "esse princípio de realidade só se distingue do princípio de prazer num
plano gnoseológico e, assim sendo, é ilegítimo fazê-lo intervir na gênese do eu ,
uma vez que ele implica o próprio eu como sujeito do conhecimento". Em se­
guida , falou da gênese do supereu , da reincorporação ao eu de uma parte do
mundo exterior, e do supereu como resultado de uma operação de separação
entre o eu , o mundo externo e o isso , definido como "a soma das pulsões cegas
por meio das quais se manifesta a vida" 40 . Como se pode ver, desde seus primeiros
contatos com a psicanálise, Lacan esteve preocupado com o problema do supereu,
seus m ecanismos autopunitivos e sua relação com as pulsões .
Já no início de O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, Lacan reconheceu a infiltração
do "imperativo moral" em toda a nossa experiência e defendeu a tese de que "a lei
moral , o mandamento moral , a presença da instância moral , é aquilo por meio do
qual , em nossa atividade estruturada pelo simbólico , presentifica-se o real - o real
como tal , o peso do real" 4 1 •

35 LACAN, Jacques. Da psicose p aranóica em suas relações com a personalidade ( 1 932). Op. cit . , p. 266.
36
lbid. , p. 328.
17 Ibid . , p. 3 3 1 .
38 FREUD, Sigmund. "O eu e o isso" ( 1 923). Em: Obras completas, vol. XIX. Op. cit.
39 FREUD, Sigmund. "Além do princípio de prazer" (1 920). Em: Obras completas, vol. XVIII. Op. cit.
40 L
ACAN, Jacques. Da psicose paranóica cm suas relações com a personalidade ( 1 932). Op. cit. , p. 332.
41
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Op. cit., p. 30- 1 .

228 Saber, verdade e gozo


Na psicose, pode-se chamar de supereu o que volta, no real, com a dimensão
característica de exigência de gozo da função paterna. Embora anunciando-se no
real, trata-se de uma manifestação superegóica que mantém as características do
supcrcu neurótico e que não deixa de ser reconhecida como por tadora de uma
exigência formulada como imperativo de gozo nos parâmetros impostos pela
filiação. O imperativo sempre convida ao gozo fálico mas, na psicose, deparamo­
nos com um imperativo para além da exigência paterna. Trata-se da demanda
imaginária do O utro, que parece enunciar-se como apelo ao sacrifício do sujeito,
ao menos até que algo como uma metáfora delirante se constitua.
Estamos percorrendo, através da psicanálise, algumas curvas da famosa "estrada
do pai", a que Lacan se referiu cm O seminário, livro 3: aspsicoses42 • Em O seminário, livro 17:
o avesso da psicanálise, encontra-se uma importante indicação para essa jornada: no
caminho trilhado pelo avesso, há uma parte chamada "Para além do Complexo de
Édipo" e um curioso capítulo intitulado "Do mito à estrutura"43 . Essa via conduz
do Édipo - "o sonho de Freud'># - ao mito de "Totem e tabu" e, deste, ao que se
enunciou no ensino de Lacan como algo da ordem do real no conceito de estrutura
em psicanálise. Pode-se dizer que, a cada retorno a Freud, Lacan realizou uma
nova conceitualização da estrutura e do Outro, sem contudo excluir as anteriores.
Há toda uma reinterpretação da psicanálise visível na obra de Lacan a partir do
desenvolvimento do campo da linguagem. É possível seguir com ele da noção de
uma primazia do significante a das Ding e à conceitualização do objeto a, quando temos
a introdução ao Real a partir das formulações em torno do que há de metonímico no
desejo, ou seja, a partir do furo que o significante da lei faz no Outro, de onde se
conclui que nem tudo é significante. Foi a partir desse ponto que se deu o desenvol­
vimento da questão dos laços sociais no campo do gozo, estruturado como campo
operatório pelos discursos propriamente ditos, que funcionam como aparelhagem
de gozo inserida na linguagem. "O discurso instaura relações fundamentais, mediante
o instrumento da linguagem, no campo do gozo',is, afirmou Lacan, chamando atenção
para o fato de que há um gozo implicado em cada discurso.
Dessa forma, O avesso dapsicanálise inaugurou a trilha teórica que introduz o campo
da linguagem no campo do gozo e conduz da noção de estrutura subjetiva às de
estruturas discursivas. Lacan as definiu como "um discurso sem palavras'116 , um

41 LACAN, Jacques. O seminário, li1T0 3: aspsicoses ( 1 955-6). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 992.
< J LACAN, Jacques. O seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise. Op. cit.
44
Jbid. , p. 1 1 0.
45
Jbid. , p. 1 1 .
46
Jbid.
discurso que passa não necessariamente pela fala, mas pela linguagem. Contudo,
uma vez que é definido no laço social47 , o sujeito está implicado no discurso, o que
supõe a verificação de seu posicionamento cm relação ao gozo. Certamente não
foi por acaso que Lacan partiu de "O mal-estar na civilização" para efetivar esse
retorno a Freud: foi o mesmo texto que o motivara a ir de encontro à Coisa (das
Ding) em A ética da psicanálise, em que fez a primeira conceituação de gozo e por onde
iniciamos este estudo.
Tomando a psicanálise por seu avesso, Lacan se deparou com o discurso da civi­
lização, que é o discurso do mestre. Se Freud afirmara que o maior sofrimento hu­
mano é a relação com os outros homens, ressaltando a renúncia pulsional na base
civilizatória, Lacan pensou o viés inverso: o modo como se estrutura a cultura e como,
a partir dela, posiciona-se a psicanálise. Percebeu, então, que é justamente aquilo que
se encontra excluído da civilização - o objeto a como resto de gozo - o que, na verdade,
a estrutura. É o objeto a que ordena tanto a linguagem quanto a civilização.
No capítulo "Do mito à estrutura", tratou da morte ou, mais especificamente,
do assassinato do pai, registro mítico que pode ser reconhecido na base de "Totem
e tabu". Segundo Lacan, para que se dê a instauração da castração, a morte do pai
deve comparecer de al guma forma. A partir das formulações de Freud, não só se
torna impossível supor que tudo é permitido, desde que Deus esteja morto, como
se atesta o contrário : "nossa experiência é que Deus estámorto tem como resposta nada
mais é permitido". A preocupação lacaniana em decantar esse ponto lançou luz sobre
uma especificidade de saber trazida pela psicanálise:
É a partir da morte do pai que se edifica a interdição desse gozo [o de dormir com
a mãe) como primária. [ . . : J É aí, no mito de Édipo tal como nos é enunciado, que
está a chave do gozo. [ . . . ) O mito de Édipo, no nível trágico em que Freud se
apropria dele, mostra precisamente que o assassinato do pai é a condição do gozo.48

Quase se pode fazer equivaler a recriminação primária - resposta do sujeito


ao primeiro encontro com o sexo, sendo a crença .ou descrença o fator que incide
na escolha entre neurose ou psicose - à operação de um recalque primário que se

47
Refiro-me à seguinte definição: "um significante é aquilo que representa o sujeito para um
outro significante. Esse significante será portanto o significante para o qual todos os outros
significantes representam o sujeito: quer dizer, à falta desse significante, todos os outros não
representariam nada" (LACAN, Jacques. "Subversão do sujeito e dialética do desejo no incons­
ciente freudiano" ( 1 960). Em: Escritos. füo de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. Op. cit. , p. 819).
48
LACAN , Jacques. O seminário, livro 1 7· o avesso da psicanálise. Op. cit. , p. J 13.

2 30 Saber, verdade e gozo


instaura diante de um concomitante interdito ao gozo, já que a estr utura do sujeito
depende da introdução do significante que resulta desse primeiro encontro. Mas
Lacan seguiu demonstrando a equivalência entre o pai morto e o gozo, presente
no mito freudiano, através do fato de que é esse pai morto que porta o gozo, que
o carrega originalmente. Essa equivalência é entendida como operador estr utural
j ustamente por r evelar o real, o impossível de ser simbolizado. Lacan o chamou
de pai real, pai original, agente da castração. Em suas palavras: "A castração é a
operação real introduzida pela incidência do significante, seja ele qual for, na relação
do sexo. [... ] ela determina o pai como esse real impossível que dissemos'"9 •
Não há causa de desejo que não resulte dessa operação : essa é a lei que se
apresenta à psicanálise e parece sustentar a amarração dos três registros - imagi­
nário, simbólico e real - na neurose ; os mesmos que parecem se desvincular na
estrutura psicótica.
Contudo, nas relações do sujeito com o gozo, uma relação êxtima se impõe. No
advento da metáfora paterna, barrado o desejo da mãe, torna-se impossível para o
sujeito o acesso ao gozo. Algo do gozo não se submete às leis do significante e,
portanto, refere-se ao que é mais Íntimo e mais estranho ao sujeito, ou seja, traz o
"peso do real", está essencialmente ligado ao corpo e comporta um indizível. Gozo
e significante, ao se incluírem, excluem-se; avizinham-se, mas se opõem. A exi­
gência do supereu, imperativo de gozo, não é a lei simbólica por onde se ordena o
desejo. Se o sujeito avança na direção de um gozo desenfreado, ele se despedaça.
O suj eito psicótico está mergulhado no gozo que incide no real de seu corpo
e, sem mediação fálica, encontra muitas dificuldades no estabelecimento de al gum
laço social. A falta de um lugar simbólico para o pai implica que este só possa ser
real ou imaginário. "Quando o pai é afastado desse lugar que o teria feito Pai, isso
não o ausenta ; pelo contrário, isso o torna terrivelmente presente e real, como é
a mãe"50 , nas palavras de Solai Rabinovitch. Como então se pode dizer que há um
sujeito do gozo, assim como se fala d e um sujeito do desejo na neurose, se o gozo
traz a abolição do sujeito? Essa questão parecer conduzir a algo na origem do
sujeito e, talvez por isso, Miller tenha dito que "a psicose é uma questão de sujeito
porque conduz aos confins de sua produção',s 1 •

'9 Ibid., p. 1 2 1 .
0
' R A BINOVITCH, Solai. A foraclusão: presos do lado de fora. R io de Janeiro : Jorge Zahar Editor,
200 1 , p. 85.
" MILLE R , Jacque s - Alain. "Suplem ento topológico a 'De una cuestión preliminar . .." ( 1 979).
Em: Maternas, vol. I. Buenos A ires : Manantial , 1 987, p . 1 8 1 .

Desejo e psicose 2 31
Afinal, o que está foracluído do simbólico na psicose não é o real da Coisa,
mas o significante, mais cspccificamcntc o Nome-do-Pai. Após uma "morte subjetiva"
que entrega o sujeito ao real do gozo do Outro, para que algo do sujeito se torne
presente para o psicótico faz-se necessário que ele delire. Esse delírio que vem em seu
socorro possibilita, a ele que é dito como fora-do-discurso, tratar o gozo e entrar no
discurso. Assim, ao sujeito naufragado do Edipo resta uma ilha a ser construída pela
paranóia ou, em outras palavras, é possível reacessar o funcionamento do imaginário
criando significantes que não somente portam, mas também encarnam, o real. Isso
significa que, identificando o gozo no lugar do Outro, o paranóico elege um significante
que o represente para outro significante, de acordo com uma das definições de sujeito
no ensino de Lacan. Como exemplo, temos o sujeito que se torna "mulher de Deus",
em Schreber, ou o que se identifica como "uma cobaia barata da engenharia biofísica",
nas palavras de uma paciente atendida por mim em um hospital psiquiátrico carioca.
Contudo o que se exibe de paranóico nesses casos é o tratamento possível de
um real avassalador através do simbólico, ainda que trôpego, acidentado. Essa é a
demanda prínceps do psicótico, o que lhe permitiria escapar da retaliação imaginária
apresentada pelo que há de avassalador no desejo da mãe. Segundo Philippe Julicn52 ,
a verdadeira demanda de análise é a do sujeito psicótico: a busca de um nome, de
algum significante que o designe .
Mas não é exatamente disso que trata a psicanálise, de acolher o real para que
o sujeito se apresente? Se tomamos a clínica como o que necessariamente porta o
real, a clínica com psicóticos traz essa marca em relevo, a céu aberto. Aquilo que
não cessa de não se escrever exige sempre novas articulações e inclui o sujeito cm
toda sua produção 53 ; produção que, na estrutura psicótica, revela-se urgente,
maciça, turbilhonante e voraz. Como dizia o Homem dos lobos, com seu inseparável
espelhinho, "estas cicatrizes jamais dcsaparecem"54 .

5 2 JULIEN, Philippe. As psicoses: um estudo sobre a paranóia comum (1997). Rio de Janeiro: Companhia
de Freud, 1999.
" Quanto ao sujeito na psicose, ver a tese de doutorado de Ângela Pequeno de Andrade, na
qual a autora desenvolve os dois temas de maneira brilhante e bastante esclarecedora ("Sujeito
e psicose". Tese de Doutoramento. Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
IPUB, 2 000).
54
BRUNSWICK, Mack apud AULAGNIER, Piera. "Observações sobre a estrutura psicótica".
Em: KATZ, C. S. (org. ) . Psicose, uma leitura psicanalítica. São Paulo: Escuta, 1991.
Algumas considerações sobre
S 1 e o laço social na psicose

Ana Paula Corrêa Sarton

Trata-se do significante mestre. Seria um modo de pedir que


reparem de que maneira algo que se expande na linguagem, como
um rastro de pólvora, é legível, quer dizer se engancha, faz discurso.
Jacques Lacan, "Radiophonie"

O discurso
Em seu Dicionário de filosofia, Gérard Durozoi descreveu o discurso como "a expressão
do pensamento racional sob a forma de uma série de juízos que dizem respeito a
operações e conceitos parciais" 1 , acrescentando que, segwido a lógica de Morgan,
o discurso designa um universo e é determinado por ele, ou seja , existe um "uni­
verso do discurso": "A raposa mente ' é verdadeiro no universo da fábula, mas não
no da zoologia" 2 • André Lalande, por sua vez, cm Vocabulário técnico e crítico da filosofia,
definiu discurso como a operação intelectual efetuada através de uma sucessão de
operações elementares parciais e sucessivas3 •
Já no terreno da psicanálise, Pierre Kaufmann deu relevo à articulação entre o
discurso e a noção de laço social : "Resta portanto indagar, em se tratando do dis­
curso, isto é, da realidade social da comunicação, acerca da mutação que sofrem ai os
determinantes da cadeia significante: significado , significante substituivo'\ Roland
Chemama , por fim, definiu discurso como a "organização da comunicação, sobretudo
da linguagem, específica do sujeito com os significantes e com o objeto, que são
determinantes, para o indivíduo, e que regulam as formas de vínculo social',s.

1
DUROZOI, Gérard & ROUSSEL, André. Dicionário de filosofia ( 1 990) . Campinas: Papiros, 1 996.
2 Ibid.
1
LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico de filosofia ( 1 926). São Paulo: Martins Fontes , 1 996 .
4
KAUFMANN, Pierre. Dicionário enciclopédico depsicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 993.
; CHEMAMA , Roland. Dicionário de psicanálise ( 1 993). Porto Alegre: Artes Médicas, 1 995 .
A noção de discurso perpassa toda a obra de Lacan. Estabelecida já desde O se­
minário, livro 1: os escritos térnicos de Freud - discurso "é o enunciado pleno, é aquele em
que há não somente um verbo, mas um sujeito, um nome" 6 -, permaneceu até
seus últimos seminários e conferências. Mas foi a partir de 1 969, ano em que
Lacan concebeu os quatro discursos, que a noção se tornou um conceito, vindo a
ocupar um lugar mais específico em sua obra, ligado ao laço social.
Em 19 5 3, Lacan escreveu "Função e campo da fala e da linguagem em psicaná­
lise", mostrando a "deterioração do discurso analítico'>? provocada pela negligência
dos analistas com a fala, a linguagem e o discurso. Para Lacan, a psicanálise só
opera no campo da linguagem, pois mesmo o que é da ordem da pulsão de morte
e do real deixará sua marca - ou sua não-marca - nesse campo. Sobre a articulação
entre pulsão de morte e linguagem, há, em O seminário, livro 1 1 : os guatro conceitos funda­
mentais da psicanálise, urna elaboração dessa relação pelo viés da repetição : tiquê e autô­
maton. O autômaton seria a repetição significante, a própria sobredeterminação sig­
nificante, a "insistência dos signos aos quais nos vemos comandados pelo princípio
de prazer" 8 , para além da qual se encontra o real. A tiguê seria o encontro faltoso
com o real, a repetição da falta que, mesmo assim, só pode se realizar se houver ao
menos um significante inscr ito : "Nossa tarefa será demonstrar que esses conceitos
só adquirem pleno sentido ao se orientarem em um campo de linguagem, ao se
ordenarem na função da fala" 9 •
Já nesse texto de 19 5 3, 1 7 anos antes da elaboração da teoria dos quatro
discursos, Lacan atr ibuiu ao discurso o campo em que ocorre a análise e em que a
verdade do sujeito pode advir, relacionando discurso e verdade - relação que se
manteria até 1970. Ele chamou o conjunto da fala do analisante de discurso, tornando
o termo como correlato à história do sujeito. O termo discurso traria consigo,
portanto, a noção de fala mais próxima à verdade do sujeito, fala plena .
Em uma análise, a fala plena está do lado da "análise da resistência, da inter­
pretação simbólica"'º, da subjetividade do obsessivo e da histérica. É a fala que, ao
trazer em seu bojo o passado, a história do sujeito e o discurso ao qual ele se

6
LACAN, Jacques. O seminário, livro /: os escritos térnicos de Freud ( 1 95 3-4). Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1 986, p. 283.
7
Ibid. , p. 245 .
" LACAN, Jacques. O seminário, livro 1/;' os quatro conceitos fundamentais da psicanálise ( 1 964). Rio de Ja­
neiro: Jorge Zahar Editor, 1 98 5 , p. 56.
9
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Op. cit. , p. 247.
'º Ibid. , p. 2 5 5 .

2 34 Saber, verdade e gozo


identificou, realizados no momento presente, "funda uma verdade"' ' . À fala plena
Lacan opôs a fala vazia, que ocorre quando "o sujeito parece falar cm vão de
alguém que, mesmo lhe sendo semelhante a ponto de ele se enganar, nunca se
aliará à assunção de seu desejo" 1 2 • Lacan afirmou que o analista, a par tir de suas
pontuações, opera na análise "dando sentido ao discurso do sujeito'H ; o que é fala
vazia se tornará, pelo efeito da análise, fala plena. Da fala vazia à plena, o discur so
se constitui e o sujeito advém com sua verdade .
No caso da psicose, o sujeito fala, não há dúvida, e se toma ou não cm um
discurso. Por isso, é pela psicose que se pode perceber quando o discurso não faz
laço social e também quando um sujeito está fora-do-discurso: "O giro dos quatro
discursos, distintos e formalizados por Lacan, é feito para mostrar que não existe
discurso que não seja do semblante . O próprio giro somente se mantém sobre 0

fundamento do sujeito fora discurso m4


.

Em alguns casos de esquizofrenia ou em alguns sur tos psicóticos graves - no


caso de Schrcbcr, por exemplo -, o sujeito perde sua identificação ao traço unário,
S 1 , perdendo, dessa forma, os "axiomas da partida" 1 5 que o inscrevem em uma cadeia
de significantes e que marcam seu gozo particular : "se o esquizofrênico é esse sujeito
para quem todo o simbólico é real, é mesmo a partir de sua posição subjetiva que se
pode perceber que, para os outros sujeitos, o simbólico é apenas um semblante'� 6 •
É através da relação entre semblante e verdade que se pode localizar o destino
tomado pelos conceitos de fala plena e fala vazia no ensino de Lacan . Do irúcio dos
anos 1950 ao início dos anos 1970, o chamado primeiro tempo do ensino de
Lacan , pode-se perceber que ele considerava o Outro lugar da verdade : haveria
uma verdade do sintoma, uma significação sintomática ainda a ser alcançada , que
seria mais pró xima da verdade do sujeito. Mas "essas verdades permitem fazer a
análise seguir ao infinito"1 7 • No curso de uma análise, caberia ao analisando passar
da fala vazia à plena .

1 1 Ibid.
12 Ibid.
1 1 Ibid. , p. 2 5 3 .
14 MILLER, Jacques-Alain. "Clinique ironique", Revue la Cause Freudienne, n. 2 3 . Paris, 1 993, P · 8 .
" STEVENS, Alexandre. "Le renouvellement d e la clinique par Lacan", Feuillets du Courtil. Leers
Nord, Champ Freudicn Belgiquc, 1 997, p. 1 6.
16
• MILLER, Jacqucs-Alain. "Clinique ironique", Revue La Cause Freudienne. Op. cit . , p. 8 .
17
STEVENS, Alexandre. "Le renouvellemcnt d e l a clinique par Lacan", Feuillets du Courtil. Op.
cit. , p. 1 6 .

Instituto de Psicologia � UFRGS


--- Bibl ioteca
No segundo tempo de seu ensino, "a verdade é somente um semblante", ou
seja, fala plena e fala vazia não mais se opõem. Cito Alexandre Stevens em seu
artigo de 1997, "A renovação da clínica por Lacan": "Poderia-se dizer que nesse
primeiro tempo o saber como semblante e o saber-verdade se opõem. [... ) No
segundo tempo do ensino de Lacan, Lacan faz valer que saber-semblante e saber­
verdade são muito mais próximos do que se podia crernt 8 .
Em "Radiofonia", o conceito de discurso surge em toda sua importância . Nele,
Lacan propôs a teoria dos quatro discursos e iniciou sua definição, que teria conti­
nuidade em O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. No primeiro, defmiu a estrutura do
discurso como sendo o real, que é o giro de um discurso para outro. No segundo,
começou a trabalhar o laço social através do que chamou de quatro discursos : do
mestre, da histérica, do universitário e do analista. Esses discursos são constituídos por
quatro termos, as funções próprias do discurso: S 1, o significante mestre; S2, o saber; 8,
o sujeito ; a, o mais-de-gozar. Segundo Lacan, o funcionamento do discurso depende de
uma divisão entre o significante mestre e o saber, entre S 1 e S 2, ou mellior, da inscrição
do significante mestre, S 1 , ordenador da cadeia significante e da linguagem.
Em "O seminário, livro 1 8: de um discurso que não seria do semblante",
Lacan seguiu traballiando o discurso como artefato, como semblante. O discurso
não é semblante de al guma coisa, ele já é em si mesmo um semblante. Apresenta
uma economia de gozo baseada na articulação e na posição dos quatro elementos
que o formam. Semblante, para a psicanálise de orientação lacaniana, "é o que
parece ser sem nada esconder"19 .
Sobre a relação entre semblante e discurso, Lacan fez uma analogia entre o
comportamento animal e o humano no que diz respeito à identidade de gênero e
a relação sexual. Segundo ele, a ostentação animal que precede a relação sexual
entre os animais seria um semblante20. No compor tamento sexual humano, algo
desse semblante animal permanece, com uma diferença : "é veiculado num discur­
so"2 1 . E é somente p elo discurso que se pode aceder ao que "não seria do semblante",
ou seja, o discurso do analista .

18
Ibid . , p . 1 7 .
9 MOREL, Genevieve. "Anatomia analítica". Em : Psicanálise: problemas ao feminino. Campinas:
1

Papirus, 1 996, p. 1 2 2 .
' LACAN, Jacques. "Le Séminaire, Livre XVIII: D ' un discours qui ne serait pas d u semblant" .
0

Inédito, aula de 1 3 de janeiro de 1 97 1 .


" Ibid.
Até 1970, isto é, até a teoria dos quatro discursos, Lacan articulou O gozo ao
significante, à linguagem. A partir de então, passou a diferenciar signifi cante de
letra e o que é falado do que é escrito. A teoria dos quatro discursos se locali za
,
por tanto, em um momento do ensino de Lacan em que a letra começou a ser mais
elaborada. A letra escreve o gozo do su1'eito, sem necessariamente remeter S1 a s
A letra é o próprio arcabouço do discurso ou, melhor dizendo, cada discur so é
2'

como se fosse uma letra, já que ele cifra algo do gozo particular. O discurso não é
impor tante somente porque produz significação. Ele é crucial porque, como 0

discurso do analista, produz significantes mestres, "S 1 ," , ou seja, escreve traços
que , mesmo separados de S 2 , cifram e nomeiam o gozo. A letra mostra como S
prescinde de S 2 para nomear algo do gozo, podendo funcionar como letra. Um
1

exemplo dessa função de S 1 : um paciente que tinha de escrever, com máquina de


raspar cabelo, a letra "A", inicial de seu nome próprio, na nuca, de dois em dois
dias, senão era como se não existisse, não tivesse corpo.
Há uma divisão intransponí vel entre a fala e a escrita, entre o gozo e o sem­
blante: "O signifi cante não é a letra m Assim, o materna S (Íi,.), por exemplo ,
2

mostra que a fala não traduz o que S (A) quer dizer, mas pode se apoiar nessa
escrita. É como o nome próprio: ele é uma escrita sem tradução, mas é da inscrição
do nome próprio que o sujeito pode falar, pode produzir uma significação. O nome
próprio proporciona uma signifi cação justamente por remeter à ausência de signi­
ficação. Na neurose, o nome, a nomeação, conduz ao falo, já que o falo é a signifi­
cação dita do neurótico . O falo é, por tanto , um dos Nomes-do-Pai. É um signifi­
cante capaz de dar um sentido ao desejo da mãe , como na metáfora paterna,
engendrando um sentido.
O discurso analítico é aquele que produz S 1 , Esse discurso é acessível à psicose?
Não é pela produção de S 1 que o sujeito psicótico pode vir a fazer laço social?
Como no caso de Schreber, que estabilizou seu quadro psicótico após a segunda
longa internação pela via da construção de um S 1 : ser a mulher de Deus. Essa
construção delirante se sustentou na identificação de Schreber com a mulher, que
proporcionou a ele um corpo - com seios e nádegas femininas - e lhe deu um
destino, uma inscrição simbólica na cultura : copular com Deus para gerar uma
nova raça de seres humanos. Além disso, localizava algo de seu gozo : ele gozava
com a volúpia de uma mulher. Eis os três registros, imaginário, simbólico e real,
enodados pelo sintoma ser mulher.

22
Ibid. , aula de I O c;le março d e 1 97 1 .
Desse modo, Lacan relacionou a letra ao traço unário. A letra é o litoral, a
borda do furo. "É do apagamento do traço que se designa o sujeito. Isso se marca
então cm dois tempos para que se distinga isso que é traçado. Litura... lituraterrc,
risco de nenhum traço que já esteja antes, é o que aterra o litoral"2 3 • É a escrita
que dá sustentação a todos os gozos, o que pode ser verificado nos discursos: o
arcabouço que o ser falante constrói, pela escrita, visando a organizar seus gozos.

S 1 no discurso do mestre
Para definir o que é discurso, Lacan partiu do significante mestre, S 1 , que, nesse
discurso, está na posição de semblante. No discurso do mestre, S 1 é aquele signi­
ficante que age em uma cadeia de significantes já existente (S2) e que, por ter
estatuto de exceção, é o significante que porta o traço distintivo do sujeito. O dis­
curso que mostra essa função de S 1 é o do mestre. Nele, o laço social se faz quando
se ocupa o lugar de mestre, a castração não aparece, não se parte do não saber,
mas do saber sem furo : '\ é aquele que deve ser visto como interveniente. Ele
intervém numa bateria significante que não temos direito al gum, jamais, de con­
siderar dispersa, de considerar que já não integra a rede do que se chama um
sabcr" 24 •
Dessa ação de S 1 sobre S 2 (cadeia significante) e do surgimento do sujeito,
algo se define como uma perda, que é o objeto a, objeto mais-de -gozar. O saber é
o caminho pulsional traçado por cada sujeito no lugar de um instinto inexistente
para o ser humano. Esse caminho resiste à tendência ao Nirvana. O princípio de
prazer, assim como o discurso, são, em Freud e em Lacan, aquilo que poderíamos
i gualar a esse caminho.
É a partir do traço unário que se pode pensar a pulsão, já que ambos estão inter ­
relacionados. Com a inscrição de S 1 , há uma repetição significante : S2 , que representa
a cadeia significante. \ foi chamado por Lacan de saber. Essa repetição, esse par
significante, é o próprio gozo do sujeito , a marca pulsional. Tem-se aí o princípio de
prazer: cm S 1 , a primeira experiência de satisfação ; em S2 , a tentativa de reencontrar
o objeto da primeira experiência de satisfação, para gozar dele pela segunda vez.
O par significante demonstra que houve gozo e uma perda de gozo, o que leva o
sujeito a tentar reencontrar o primeiro momento de puro gozo.

23
Ibid., aula d e 1 2 de maio d e 1 97 1 .
24 LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso de psicanálise ( 1 969-70). Rio d e Janeiro : Jorge
Zahar Editor, 1 992 , p. 1 1 .

238 Saber, verdade e gozo


O aparelho psíquico freudiano, pulsional, existe quando algo da pulsão se es­
creve, marca-se como representação. Essa marca foi chamada por Lacan de S1 • Essa
primeira marca se constrói pela identificação com o Outro, com um traço do Outro.
O discurso do mestre tem como característica principal ter S1 no lugar de
agente e S2 no lugar do outro. Nesse discurso, não existe S1 sem S2 (S 1 � SJ. S 1
isolado permanece sem significação, podendo virar um insulto, como no caso
relatado por Lacan da jovem que escuta "Porca!". Nesse caso clínico, S1 intervém
sobre S2 , o que permite a significação. "Porca!" foi a entrada no discurso do mestre
dessa paciente de Lacan. Pode-se observar como ela produziu uma significação
(delirante) tentando se representar como sujeito. O laço social que se forma a
partir do discurso do mestre é o do sujeito na posição daquele que responde, de
quem tem a resposta certa a dar - o que, obviamente, tende a claudicar, visto que
não é possível saber tudo. Só se pode fazer semblante desse saber.

S 1 ("Porca!") S2 ("Eu venho do salsicheiro")


g a (significação)

Na psicose, não ocorre identificação primária com o pai, mas com algum
outro significante que pode vir no lugar do significante do Nome-do-Pai, dando­
lhe suplência e possibilitando ao sujeito dar uma significação, que não a significação
fálica, ao mundo. Isso quer dizer que o sujeito psicótico pode ter acesso ao discurso,
ao laço social, através do discurso do mestre, como mostra o exemplo acima,
desde que ele produza alguma significação delirante.
Na neurose, há identificação primária com o pai. Portanto S1 como Nome­
do-Pai intervém sobre a cadeia, S2 , o que produz sentido.

S 1 (Nome-do-Pai) S2 (filho)
g a (significação fálica)

S 1 no discurso da histérica
Esse tipo de laço social apresenta o sujeito dividido no lugar dominante. S 1 está na
posição do outro, para quem o discurso se dirige. O sujeito se dirige ao significante
mestre, produzindo um saber e tendo como verdade o gozo : "O próprio sujeito,
histérico, se aliena do significante mestre como aquele que o significante divide,

Algumas considerações sobre S 1 e o laço social na psicose 239


aquele que se recusa a dar-lhe corpo. [ ... ) Seguindo o efeito do significante mestre,
a histérica não é escrava"2 5 .
O discurso da histérica provoca o desejo de saber sobre o objeto a, sobre o
gozo. O agente do discurso se constitui e se ordena em torno do sintoma, que é o
próprio sujeito dividido. Nesse discurso, podemos pensar o psicótico vivendo uma
pseudo-histeria ou, como se diz no jargão psiquiátrico, sujeitos que apresentam
plasticidade histérica. Como exemplo de pseudo-histeria em psicóticos, temos a
brilhante descrição feita por Hélene Dcutsch cm seu artigo "Diversos problemas
afetivos e suas relações com a esquizofrenia", de 1942, publicado na lntcrnation al c
Zcitschrift liir Psychanalysc. No artigo, ela descreve as "personalidades como se": "A identi ­
ficação com o que os outros pensam e sentem é a expressão dessa plasticidade
passiva e o indivíduo é capaz da maior fidelidade e da maior perfídia"26 •
Deutsch mostra como esses sujeitos apresentam semelhanças aparentes com a
histeria. Agem "corno se" fossem histéricos, mas não o são : "Como pela capacidade
de identificação, essa sugestionabilidade é diferente daquela da histeria, para qual
o investimento objetal é condição necessária; no indivíduo 'como se ', a sugcstio­
nabilidade deve ser atribuída à passividade e à identificação de um autômato"27 .
N o discurso d a histérica a o psicótico, portanto, resta apenas uma identificação
imaginária que tende a fracassar, pois o que a histérica quer é um mestre e, no
caso da psicose, esse mestre acaba reinando e o sujeito, submetendo-se a ele .

S 1 no discurso universitário
No discurso universitário, S 1 ocupa o lugar da verdade. S 1 é o ideal, o "cu do
mestrc"28 , aquele cu que contém um saber verdadeiro, completo. Em minha
opinião, o sujeito psicótico pode fazer laço social por meio do discurso universitário.
Não é rara a relação do sujeito com o ideal, com um saber que vem de Deus, da
mãe, do Outro , saber inquestionável ao qual o sujeito se cur va e segue. Mas nesse
discurso, assim como no da histérica, o sujeito psicótico está submetido ao gozo
do Outro, em uma posição passiva e alienada diante de seu próprio gozo.

25 LACAN, Jacques. "R adiophonie" ( 1 970), Scilicet, n . 2/ 3 . P aris, Seuil, p. 8 8 .


26
DEUTSCH, Helen . "Divers troubles affectives et leurs rappor ts avec la schizophrénie". Em:
Paris: Payo t , 1 970, p. 225.
ú psychanalysc des nél'roscs.
27
Ibid., p. 226.
28
LACAN, Jacques. "R adiophonic" (1 970) , Scilicct, n . 2/ 3. Op. cit .

240 Saber, verdade e gozo


S 1 no discurso do analista
O discurso do analista é a via mais provável de o psicótico fazer laço social. Primei­
ramente, porque o saber está no lugar da verdade, "isso define o que deve ser a
estrutura do que se chama uma interpretação"29 • O psicótico , como sujeito, é seu
próprio intérprete. Seja pelo delírio, pela arte ou por outra forma de suplência, 0
sujeito psicótico é aquele que se insere no discurso - quando se insere - na posição
de objeto a, que tem a vertente da causa do desejo e a vertente de resto. Em segundo
lugar, porque esse discurso produz significantes mestres: ele escreve S1 , Isso é crucial
na clínica das psicoses. A inscrição de S1 já é em si mesma um caminho para a pulsão,
escreve algo do gozo, que nem sempre leva à significação, ao S2 •
Essa liberdade de interpretação, indicada pelo saber no lugar da verdade, ar­
ticulada à produção de S1 , cirCW1screve uma possibilidade de laço social para o psicótico
que não a de escravo do Outro ou resto, rebotalho desse Outro.
A clínica da psicose mostra como "a fala abre a via para a escrita'>Jo. A inscrição
de S 1 é fruto do discurso do analista . Assim, pode-se pensar no laço social na psicose:
Quando Lacan, em 1 969-70, estabelece os quatro discursos, é justamente ao
que visa: incluir no âmbito das relações humanas um laço social cm que o agente
não se identifica, nem se suporta, do Nome-do-Pai. Assim, levantaria a hipótese
que esse para além do pai com o qual esbarramos algumas vezes na obra de
Lacan presentifica-sc, no que diz respeito ao laço social, no discurso do analista. 31

Há casos de psicose nos quais, mesmo após um surto, o sujeito pode conseguir
construir um S 1 , mesmo não sendo pelo discurso do mestre, ou seja, pela significação
delirante. A partir do discurso do analista, ocorre a produção de S1 , que tem como
efeito a identificação a um traço significante que faça funcionar a cadeia significante
como tal: por seu caráter de exceção, por ser S 1 o traço de um gozo singular do sujeito.
Lacan afirmou que, na psicose, na ausência do Nome-do-Pai, o psicótico se faz pai do
nome: "Isso nos leva a um outro nível, o nível onde não está somente o Nome-do-Pai,
mas onde está também o Pai do Nome. Quero dizer que o pai é aquele que nomeià82 •

29
LACAN, Jacques . O seminário, livro 1 7: o avesso de psicanálise. Op. cit. , p. 3 4 .
'º LACAN, Jacques. "Le Séminaire, Livre XVIII: D ' un discours qui ne serait pas du semblant".
Op. cit. , aula de 1 7 de fevereiro de 1 97 1 .
'' ALBERT), Sonia. Essc siycito adolescente ( 1 995). Rio de Janeiro : Rios Ambiciosos, 1 999, p. 2 1 3 .
2
' LACAN, Jacques. "Conferência de Genebra sobre o sintoma" ( 1 975). Em : lntcrrcnciones }'
textos, n. 2 . Buenos Aires: Manantial, 1 998.

Algumas considerações sobre S 1 e o laço social na psicose 24 1


Ato e discurso no dispositivo analítico
1
com o autismo e a psicose infantil
Kátia Wainstock Alves dos Santos

Função vem a ser esse algo que entra no real, que nele jamais
havia entrado, e que corresponde não a descobrir, experimentar,
cingir, destacar, deduzir, nada disso, e sim a escrever - escrever
duas ordens de relações.
Jacques Lacan

Este artigo consiste em uma articulação entre os efeitos que se produzem cm uma
experiência clínica com o saber teórico da psicanálise; Única maneira, cm meu
entender, de fazer avançar o conhecimento nesse campo de saber. A clínica se
desenvolve no Centro de Atenção Psicossocial Infanta-juvenil Pequeno Hans, dirigido
a sujeitos que o campo social denomina crianças e adolescentes, e que a psicanálise
nomeia de autistas e psicóticos. Meu objetivo é esclarecer o modo como a psicanálise
opera nessa experiência que é uma nova possibilidade de sua aplicação: uma expe­
riência clínica inserida na rede de atenção pública, municipal, de saúde e que faz
parte, juntamente com outros "CAPS", da resposta que o município do Rio de Janeiro
vem construindo para a questão da assistência cm saúde mental.
O dispositivo analítico posto cm função no Centro de Atenção Psicossocial
Infanta-juvenil (CAPSI) Pequeno Hans define-se como uma nova possibilidade de
aplicação da psicanálise tanto pela especificidade de constituir-se em uma iniciativa
clínica de acesso público dirigida a sujeitos autistas e psicóticos quanto pelo fato
de estar em função para o um-a-um do coletivo, o que implica vigorar fora da
abordagem convencional, individual, do consultório. Estivemos, de imediato,
confrontados com a produção de muitos efeitos, o que foi, para nós, uma sur presa,
uma vez que esperávamos encontrar predominantemente as dificuldades e a neces­
sidade de muito tempo de trabalho para que alguma mudança, ainda que pequena,

1
Este artigo constitui uma elaboração a partir de um fragmento da Dissertação de Mestrado
da autora, intitulada "O dispositivo psicanalítico na clínica institucional do autismo e da psicose
infantil", apresentada ao Programa de Pós-Graduação cm Psicanálise da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro, cm dezembro de 200 1 .

243
pudesse ser observada, dada a gravidade das problemáticas que estávamos nos
dispondo a enfrentar. A surpresa causada pelo quase imediatismo dos r esultados
impôs a necessidade de tentar explicá-los.
Nossa aposta é a de que é possível instaurar o dispositivo analítico para abordar
o autismo e a psicose infantil cm uma inici ativa clínico-institucional sem que para
isso tenhamos de proceder a adaptações. Isso nos conduz na direção de considerar
a prática analítica como sendo uma só, ou seja, ela não se especializa em crianças,
adolescentes, adultos; n euróticos, psicóticos e perversos.
A experiência clínica em psicanálise ocupa um lugar e possui valor absolutamente
diferenciado e fundamental, inigualável no campo dos saberes. É a partir de seu
estabelecimento que temos as condições necessárias ao manejo diferenciado que se
impõe pelas tensões surgidas no dispositivo analítico. Dadas as peculiaridades da
relação entre teoria e prática nesse campo de saber - especificamente aquela que
requer que a experiência clínica afirme-se como o lugar próprio da produção de
saber, e não aquele da aplicação do saber teórico, como acontece em outros campos -,
pensamos que para fazer avançar o conhecimento em psicanálise trata-se de instaurar
a experiência analítica e de sustentar a psicanálise na radicalidade de sua intervenção
para que as especificidades, tais como a da_psic<>se; quando desencadeada na infânqa,
? • por tanto, co�gurada sob a forma do /a�e da psicose infantil, possam ser
acolhidas e transmutadas cm saber teórico.
Essa estrutura clínica impõe questões ao dispositivo analítico , uma das quais,
no caso do autismo, é a ausência da fala, via de acesso ao inconsciente. Consideramos
essas e outras questões, que se impõem e constituem-se como impasses, uma
exigência de trabalho. Exigênci a essa que se atualiza em duas vertentes: a clínica,
ao nos lançarmos na sustentação da posição de analistas diante daqueles que não
falam, no caso do autismo, ou que falam , embora de forma a reproduzir a fala do
outro, ou seja, falam sem ter operado a inver são da fala, no caso da psicose infantil ;
e a que se atualiza impondo a arti culação com o saber teórico como buscamos
proceder com a elaboração deste artigo.
Iniciaremos com a análise dos dois pólos daquilo que constitui o dispositivo
analítico: a tarefa do anali sante e a intervenção analítica, no sentido de tentar
lançar al guma luz no que insiste como efeito próprio do encontro do sujeito com
os limites precisos da experiência analítica e, em seguida, tentar cernir o aspecto
diferencial que assume essa proposta que se desenvolve no CAPSI Pequeno Hans.
A experiência analítica situa-se em oposição à experiência comum porquanto
ela é preparada, o que quer dizer que ela está sustentada por teses que a estruturam,
advindas do saber teórico da psicanálise, e que nela opera um instrumento que é

244 Saber, verdade e gozo


a encarnação da teoria, chamado de associação livre. O desejo do analista ; 0 ato
analítico de apostar no sujeito suposto saber e a intervenção analítica são os
elementos que fornecem o suporte significante da experiência psicanalítica, ou
seja, preparam-na para que ela seja capaz de produzir o analisante.
Esse a specto do analisante ser uma produção da estr utura c hamada de
experiência psicanalítica foi desenvolvido por Lacan cm "O seminário, livro 1 5: 0

ato psicanalítico" • Nesse seminário , Lacan compara a _E�odução do analisante com


2

,!produção de uma máquina, qt1e circula no meio - �ie�tífico, uma vez que se solicita
que ele abandone qualquer referência e que produza significantes que constituam
a associação livre. Através desses significantes, tudo que diz respeito ao destino
desse sujeito, à sua verdade e à sua realidade, se tornará presente. É no trabalho
do analisante de articular em significantes todo o seu vivido, tudo que é da ordem
da multiplicidade de dimensões existentes, uma multiplicidade de dados e de
elementos substanciais, que se constitui a produção do anali sante.3
É precisamente porque a experiência analítica faz circular mais e mais esses significantes,
trazidos pelo discurso do analisante, até que o sujeito possa abandonar a posição que ele
assume diante de todos esses termos, todos eles plasmados como objetos da fantasia, que
a realidade do sujeito se modifica, a vida concreta muda, pois terá sido possível analisar a
repetição. Esse é o efeito de uma análise, que é um efeito de real, uma vez que remete o
· sujeito ao impossível\e, com isso, o que se escreve é a inconsistência do Outro. Dito de
outro modo, é a partir das notícias do impossível de tudo dizer, do impossível de se dizer
o que se é, e, portanto, do caráter contingente das significações, que temos efeitos de
escrita da incompletude do Outro. Por tanto, esta expressão - "a produção do
analisante" -, cujo duplo sentido remete, primeiro, ao analisante como aquilo que é
produzido, ou seja, ele não se encontra independentedo dispositivo analítico pois constitui­
se como uma resposta ao desejo do analista , e, segundo, aquilo que o analisante produz ,
ou seja, a produção fervilhante de S 1 -, será mais bem entendida na condensação dos dois
sentidos, ou seja, o analisante é instituído pela experiência clínica e ele é. o seu trab_<llho.
No livro 17 dd]semmario, mtitul�o O avesso dapsicanálise, �ixo temático da presente
coletânea, Lacan retoma essa idéia e a faz avançar apresentando uma formalização
que produz um deslocamento da idéia de que a lingu;gern é o sinônimo dç
estrutura ; para afirmar que ''há estruturas'>! . A linguagem deixa de ser a estrutura

2
LACAN, Jacque s. "O seminário, l ivro 1 5 : o ato psicanalítico" (1 967-8). Inédito.
' Jbid. , aula de 07 de feve reiro de 1 968.
' LACAN, Jacques . O seminário, lirro 1 7: o al'esso da psicanálise ( 1 969-70) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1 992, p. 1 1 .

Instituto de Psicolo�tà ·� Uf�ij%


--- BiblioteCJ ----
Ato e discurso no dispositivo analítico com o autismo e a psicose infantil 245
para ser o instrumento mediante o qual instaura-se um certo número de relações
estáveis, chamadas de discursos, que se mantêm independentes da ocorrência das pala­
vras. O esquema produzido por Lacan, chamado de discurso, supõe a linguagem e
considera estruturado um discurso, quer dizer, o que condiciona toda palavra e todo
ato que ali possa se produzir. É assim que Lacan distingue quatro estruturas, nomea­
damente, o discurso do mestre, o discurso da histérica, o discurso do analista e o
discurso universitário, definindo-as como diferentes formas de laço social, fundados
na linguagem, ou, dito de outro modo, como as modalidades de laços sociais exis­
tentes, que não só estão inscritas na realidade como participam dos seus pilares.
Com isso, Lacan concebe estruturas que incluem o objeto a, definido por ele como o
cfeito de perda, que se dá no trajeto de intervenção de S1 junto a um outro significante do
sistema, S2 , de onde surge o sujeito como dividido, /,. Isso permite que os discursos arti­
culem ordens heterogêneas como as do significante e do gozo. A relação entre o objeto a e o
gozo, o autor vai esclarecer ao designar o ponto de onde ela foi extraída do discurso de
Freud, qual seja, da função do objeto perdido que traz o sentido da repetição no ser falante,
uma vez que "a repetição tem uma certa relação com aquilo que, desse saber, é o limite - e
que se chama gozo'.,.,. Dessa forma, pade-se diferenciar a relação do sujeito com a linguagem
da articulação do sujeito ao discurso, pois nessa última está implicada, de modo mais radical,
a abordagem do real, ou seja, a direção ética que vai orientar o analista a estar sempre
comprometido com o impossível de saber, o que impede de se tomarem os efeitos
terapêuticos, surgidos na trajetória da análise, como ponto de chegada.
_ ;17 Qs disfursos estão esquematizados a p�_r!i_i- 1�_ q1.1atro lugares nomeada�ente:
agente; ���1e) trab_alh�� pi:oduç�-� .-q�� serão ocupados por quatro letras, ou
seja, $, S 1 , S2 , a . Lacan inicia a produção do primeiro discurso partindo da relação
fundamental da estrutura significante definida por ele como sendo a de um
significante com um outro significante, de onde resultam a emergência do sujeito
e um efeito de perda, chamado de gozo e designado pela letra a.
Pela operação de quarto de giro, ele obtém sempre quatro estruturas, uma
vez que a sucessão de letras dessa álgebra não pode ser desarrumada. A função que
assume cada discurso depende da letra que o agencia, ou seja, existe uma relação
necessária entre o agente e o trabalho de forma que aquilo que se produz em cada
discurso cumpra a função do agente. No discurso do mestre, por exemplo, existe
a necessidade de que, no saber, que nesse discurso ocupa o lugar do trabalho, algo
se produza que cumpra a função do significante mestrc6.

' Ibid . , p. 1 3 .
6
Ibid . , p. 1 80.

246 Saber, verdade e gozo


A partir dessa formalização, Lacan vai apresentar a idéia de que o analisante é
uma produção da experiência analítica da seguinte forma :
O que o analista institui como experiência analítica pode-se dizer simplesmente
- é a histerização do discurso. Em outras palavras, é a introdução estrutural,
mediante condições artificiais, do discurso da histérica, aquele que está indicado
aqui com um H maiúsculo. 7

O analista, uma vez que ele é alguém que "paga com a sua p essoa'lfl, ou seja ,
que consegue subtrair toda sua subjetividade e emprestá-la como suporte aos
fenômenos singulares da transferência , e, dessa forma, operar, como objeto a, 0

agenciamento de um novo laço social, instaura o analisante em sua tarefa, o u


ainda, leva-o a articular o inconsciente em discurso.
-X/Com� se dá a instauração do analisante em sua tarefa, se estamos diante dç
crianças autistas e psicóticas? Naturalmente a tarefa não é a de associar livremente.
A associação livre é a via de acesso ao inconsciente quando é por esse efeito de
linguagem que podemos isolar o sujeito. Isolá-lo do eu. O dispositivo analítico, na
abordagem ao sujeito autista e psicótico, tem, inicialmente, a fnnção de limpar o
terreno para que a criança, já instaurada em uma tarefa, possa executá-la livremente.
Isso não exclui que, em um segundo tempo, o sujeito advenha elegendo algo para
endereçar ao analista e que esse trabalho se modifique pela intervenção analítica.
Com o irúcio das atividades desse Centro de Atenção Psicossocial, seguimos o
procedimento da escuta analítica, o que implicou o a companhamento dessas
crianças e jovens para que eles nos dessem as pistas de qual o projeto cm que o
sujeito está envolvido. Foi, então, a partir dessa escuta analítica, que implica a
sustentação do lugar de analista diante de sujeitos a utistas e psicóti cos - a susten­
tação da responsabilidade de analista e do não-recuo diante de seu ato -, que nos
surpreendemos com o fato de essas crianças e jovens revelcll"em-se sujeitos que j_á
chegam em um trabalho. Esse trabalho é exercido principalment e p ela via da
ação. Essa ação não pode ser, por nós, definida como estereotipada, como u�
testemunho que se oferece através de ruínas, ou simplesmente expressão de de­
generescência, mas nossa hipótese é que essa ação diz fundamentalmente do modo
de comparecimento do sujeito na psicose infantil e no autismo.

7
Ibid . , p. 3 1 .
8
LACAN, Jacques. "A direção da cura e os princípios de seu poder" ( 1 96 1 ) . Em: Escritos. Ri o de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998 , p. 593 .

Ato e discurso no dispositivo analítico com o autismo e a psicose infantil 24-7


Sabemos que entre o trabalho do delírio e o trabalho que encontramos na clínica do
autismo existe uma diferença que não deve ser eliminada. Na paranóia, o trabalho é feito
por uma elaboração que faz as vez es de uma instância terceira, ou seja, o delírio é uma
interpretação que confere palavras à experiênçia ��_psi_cótico com os retornos do real; no
autismo, esse trabalho, apesar de ser significante, não pode ser considerado como um tra­
balho de elaboração. Essa diferença deve-se à especificidade da estrutura psicótica quando
desencadeada de forma tão precoce, como é o caso da psicose infantil e do autismo.
Encontramos , freqüentemente , na literatura psicanalítica acerca da psicose, a
afirmação de que na clínica das psicoses não é o ato _analítico que dá irúcio à tarefa do
anahsante, uma vez que o sujeito já chega em um trabalho. Se o anahsante é uma
produção do dispositivo analítico, isso poderia levar a pensar que, na clínica das psicoses,
o dispositivo analítico não produz o anahsante. Não foi isso, no entanto, que pudemos
observar na experiência clínica que se desenvolve no CAPSI Pequeno Hans.
Pensamos que, se o trabalho que já vinha se desenvolvendo mantém-se inalterado,
podemos concluir que nenhum efeito do discurso analítico se deu, já que esses efeitos
não dependem de um querer do anahsta. Com o agenciamento do discurso analítico ,
antes, o que ocorre é uma diferença, entre a tarefa do anahsante na neurose e na
psicose, perfeitamente condizente com as formas de constituição subjetiva , próprias
a cada estrutura clínica. O que nos conduz à idéia de que o discurso analítico é uma
estrutura capaz de recolher o real em jogo nas estruturas clínicas.
Constatamos que operar como a o agenciamento de um discurso imphca supor o
sujeito no campo do Outro, o que adiciona um diferencial, cujos efeitos são sentidos
como uma resposta imediata à presença do anahsta, na tarefa existente. Supor sujeito
no campo do Outro causa efeitos , não deixa intacta a tarefa que vinha sendo
empreendida, uma vez que incide sobre esta modificando-a, ou seja, produzindo o
anahsante. O fato de existir um suporte significante que permite à criança executar
hvremente o trabalho que ela já vinha reahzando torna possível que os atos se articulem
como construções ordenadas, tornando visível uma lógica significante, o que estabelece
as condições de possibilidade para a transmissão de saber, como se verá adiante.
--0 A operação do anahsta é fazer discurso. Se, na clínica da psicose infantil e do autismo,
não temos a associação verbal dos significantes, assim como os efeitos de hnguagem
que são a metáfora e a metonímia, temos a ação do sujeito que põe em jogo os termos
que fazem o discurso, a partir da articul�- d;;-s�� trabalho �onstante em �;�érie
cuja ordem é de discurso � não de hnguagem. Não estou a.firmando que os sÜjeitos
autistas e os psicóticos estão articulados em um discurso, mas que , ao encontrar os
hmites precisos da experiência analítica, é possível ver em seus atos uma articulação
que faz surgir os termos da lógica significante, quais sejam, S 1 , S , a e
'l
2

248 Saber, verdade e gozo


O ato do sujeito autista e do sujeito psicótico tem a característica de ser sincrônico
no sentido de que é desprovido da dimensão da diacronia, com a qual não se vê
intrincado, o que revela a particularidade da relação do sujeito com o significante,
nessa estrutura clínica, que traz o "inconsciente a céu aberto". Esse ato é significante.
Embora ele não represente um sujeito para outro significante, por estar foracluído o
Nome-do-Pai, traz o sujeito sob o significante, ou seja, supõe um sujeito. Nos termos
concebidos por Lacan na produção dos quatro discursos, temos :

s1

O sujeito, portanto, não comparece pela fala, mas pela via do ato, e esse fato
decorre da falta de articulação do sujeito a um discurso. Porém, esse ato põe em
jogo os termos que fazem discurso. Com a instauração da experiência analítica é
possível, então, que esse S1 se articule a outro significante, à medida que ele se
encadeie cm uma série de atos. Teremos, então, os termos do discurso do m estre.

Podemos observar que a experiência analítica opera com esses sujeitos de modo a
que o inconsciente se articule em discurso. Observamos, também, que no trabalho
realizado pelo sujeito, nessa clínica, a insistência da repetição do ato remete-nos à
dimensão que não pára de trabalhar para que o simbólico venha se articular a um real
que ainda não faz parte dele. A partir desses elementos teóricos , podemos pensar que
essa insistência é própria da não-articulação do sujeito em um discurso. No encontro
desse sujeito com o suporte significante próprio à experiência analítica deu-se, como
já dissemos, a intervenção de S 1 junto a outro significante, S2 , o que possibilitou o
encadeamento das ações, tornando visível uma lógica significante. Com isso é possível
ao analista ler o surgido dessa lógica e dirigir sua intervenção para que um efeito de
simbolização se produza. Isso completa o discurso do mestre com todos os seus termos.
Ao operar a articulação do inconsciente em discurso, o analista causa esse
significante-mestre, S 1 , que se apresenta na clínica através da dimensão do ato, de
modo a que ele passe a funcionar necessariamente de forma a que, da sua articulação
ao outro significante, S2 , produza-se algo que cumpra a função de significante mestre.
E qual é essa função? É a que define a legibilidade do discurso, nos dirá Lacan". Esse
autor concebe o que torna qualquer texto legível como sendo a introdução do S1 , do

9
LACAN, Jacques. "A direção da cura e os princípios de seu poder" ( 1 96 1 ). Em: Escritos. Op.
cit. , p. 1 80.

Ato e discurso no dispositivo analítico com o autismo e a psicose infantil 249


significante mestre, de forma que, da sua articulação ao outro significante, produza ­
se a, que vai surgir como um ponto de basta, interrompendo o deslizamento infinito
da ar ticulação significante, produzindo efeito de simbolização e, conseqüentemente,
uma perda de gozo . Isso condiz com o que observamos na clínica : quando se
produz um efei to de simbolização, a insistência repetitiva da ação cessa.
E assim que as formalizações de Lacan referentes à arti culação do sujeito ao
discurso nos proporcionam mais elementos teóricos para que possamos estr uturá­
los à experiência clínica no sentido de esclarecer os efeitos surgidos, assim como
impõe-se a nós a elaboração necessária que faz com que esses elementos incidam
na clínica, ou seja, na forma como concebemos a direção do tratamento.
Retomemos, então, o ponto deixado acima para posterior desenvolvimento,
sobre as condições de possibilidade da transmissão de saber, nessa clí nica, uma vez
que o sujeito autista é suposto por um saber -fazer, o que quer dizer que esse saber
não se apresenta por uma face articulada, ou seja, pela f ala. Estamos agora de
posse dos elementos que faltavam para que a questão seja desdobrada.
Na clínica da psicose infantil e do autismo, se não temos a fala ou se a temos como
a reprodução da fala do outro, a atividade que aí se apresenta vem mostrar que esse
sujeito está "cm cheio" no significante. O trabalho constante que é por elas empreen­
dido, cm ato, é significante, e é através desse trabalho que o sujeito se apresenta como
um "inconsciente a céu aberto". A função desse trabalho é a de tratar o gozo, que é a
dimensão que se separa do corpo no encontro com a linguagem. A dimensão do ato
comparece, então, como uma construção própria, um recurso, um aparelho de suplência
para tratar o gozo na abordagem do sujeito à realidade.
Com o início da experiência clínica, não só foi possível a articulação do incons­
ciente cm discurso como também a produção dos efeitos de discurso. O saber-fazer
pôde articular-se cm uma ordem de discurso de modo que visualizássemos a lógica
dos significantes "realizada" em ato, como também surgissem efeitos de simbolização,
efeitos de escrito, que "irrealizam" a dimensão da ação, pois com eles a insistência
repetitiva cessa. Para o analista, trata-se de dispor do significante para ler. O dispositivo
analítico não é o equivalente, por redução, a uma técnica própria à abordagem
exclusiva das neuroses. Podemos afirmar que, estruturalmente, não há diferença
entre a experiência analítica que se desenvolve no CAPSI Pequeno Hans e qualquer
o utra experi ência analítica. No entanto há um aspecto dif erencial qua ndo a
experiência analítica se estrutura cm uma iniciativa público -insti tucional trazido
pelo "estar entre muitos" que incide sobre a tarefa do analisante.
O coletivo, na forma como ele está estr uturado, quer dizer, sem prcscntificar
qualquer demanda, como já é próprio da presença do analista, intensifica essa

250 Saber, verdade e gozo


característica, ou seja, ele dilui ainda mais a presença do Outro, que normalmente
é sentida como persecutória. O "estar entre muitos" funciona, ao contrário do que
fcnomcnologicamcntc pode parecer, como um ncutralizador dos signos da presença
do Outro, ou seja, ele contribui como operador de uma ausência, uma vez que
desfaz a situação da análise como sendo aquela que envolve duas pessoas, analista
e analisante. O encontro desses sujei tos com o analista é desencadeador de muitas
diferenças. A primeira dessas diferenças e a mais freqüentemente encontrada cm
praticamente todas as crianças é o compromisso, que elas passam a demonstrar e
de que passam a falar, com seus dias e horários de trabalho no CAPSI. É certo que,
nesse caso, estamos fazendo uma distinção entre esse compromisso e a facilidade
com que essas crianças aderem às rotinas.
Observamos também um aumento da fala, a busca do olhar quando antes este
só se esquivava ou era completamente opaco, enfim, eles chegam como são e ao
encontrarem um Outro que não está ali para educar, ensinar, entreter, divertir, propor
atividades, organizar uma rotina, e também não está para responder do mesmo
lugar que o Outro do sujeito, dão sinais de alguns deslocamentos e conseguem
executar livremente um trabalho que é singular e constantemente empreendido.
Portanto, é dessa forma que a prática institucional pode cxcrccr"efeitos terapêuticos",
pois assim é possível eliminar certos acréscimos que, supomos, estão aí colocados
para fazerem face à demanda do Outro. É dessa forma também que é possível visualizar
o movimento de repetição em que o sujeito está ancorado.
Muitos dos efeitos iniciais que surgem com a entrada da criança no serviço são
também decorrentes do fato de, pela primeira vez, esses sujeitos poderem contar
com um suporte, promovido pela presença do analista e pela intervenção analítica,
e que vai funcionar como um outro recurso, que não o da repetição, para tratar o
gozo e a angústia. Isso que é sem lei, sem mediação, que leva a criança a entrar cm
contato direto com os corpos, e algumas vezes toma a forma de agressão auto e
heterodirigida ; que busca a destruição de objetos ou o apossar-se e o consumir
tudo, todo objeto e o objeto todo; isso que é o terreno cm que a palavra até então
nunca funcionou como mediação, tão freqüente de se encontrar na clínica do autismo
e da psicose infantil e que nos remete aos limites do humano; logo, isso que é insuportável
encontra a possibilidade inédita de estar suportado pelo discurso do analista, o que
abre a possibilidade da diferença se escrever. Quanto ao que muda, logo nesse primeiro
tempo, minha hipótese é que esses deslocamentos surgem como resposta imediata ao
Outro que não se faz presente através de uma demanda, como já foi dito acima, mas
que oferta uma presença, vazia de toda e qualquer demanda, capaz de promover a
abertura ao que a cri;i n,·, ,J;.,

Ato e discurso no dispositivo analítico com o autismo e a psicose infantil 25 1


Em relação ao que a criança diz, o aspecto significante prevalece, tanto como material
sonoro, na fala, quanto como material de ação no trabalho constante que é, por ela,
realizado. As palavras enunciadas se apresentam como não estando dirigidas a alguém.
Elas também saem da boca das crianças mais parecendo uma descarga motora, como na
emissão de um ruído, que em virtude de um desejo de falar. A dimensão de apelo à
resposta do Outro, presente em toda fala, aqui está ausente, o que resulta em deparanno­
nos com uma massa sonora que a prindpio não parece portadora de um significado.
A escuta do analista, que tem como ponto de partida a aposta no sujeito à linguagem,
comparece aqui através da insistência em autenticar o recebimento de um dito. O que
conduz, como observamos, a um aumento da fala e de seu endereçamento, pois a criança
passa a se reconhecer como agente desses ditos, assim como a estar convocada a dizer.
Da mesma forma, a atividade constante que é, por elas, empreendida, inicialmente,
não dá sinais de levar em conta nada nem ninguém do ambiente, a não ser aquilo que
se faz necessário para sua execução. O analista acompanha esse empreendimento adicio­
nando alguns significantes no sentido de recortar esse movimento de fluxo contínuo.
Aquilo que, nesse primeiro tempo, não muda, constitui-se, então, como borda de um
campo que se abre ao trabalho analítico propriamente dito. Normalmente, esse trabalho
se inicia a partir de uma intervenção analítica que tem o valor de corte na tentativa do
sujeito de alocar o analista na posição de Outro gozador. Constatamos, também, que a
intervenção do analista modifica a ação que anteriormente o sujeito realizava sozinho,
uma vez que o analista passa a ser solicitado a integrá-la. Essa diferença se deve a uma
manobra na transferência operada pelo analista, já que, pelo modo peculiar que o
sujeito psicótico tem de responder ao Outro, sem esse manejo, o analista será alocado
como Outro da vontade de gozo, que toma o sujeito por objeto, ficando a transferência
reduzida à repetição, o que inviabilizaria o trabalho.
Concluímos, assim, o presente artigo - cm que procuramos empreender uma
análise dos dois pólos que constituem o dispositivo analítico, ou seja, a tarefa do analisante
e a intervenção analítica, na tentativa de cernir a aspecto diferencial que assume a
clínica no CAPSI Pequeno Hans -, dizendo que essa clínica opera com todos os termos
da experiência analítica tal como ela foi concebida por Freud e elaborada por Lacan,
par ticularizando, nessa elaboração, as contribuições absolutamente inovadoras que Lacan
introduz em O seminário, livro 17. O discurso, destacado do campo da linguagem sem no
entanto romper com ele, permite identificar no significante a dimensão do ato que
pôde colocar o dispositivo analítico em função em uma clínica institucional e pública
com autistas e psicóticos. Se a originalidade da psicanálise está na criação de um
dispositivo que é capaz de acoiher o real, acreditamos que isso tem sido possível na
experiência que serviu de eixo para esta contribuição.
Sobre os autores
Acyr Maya
Psicólogo. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise
do IP /UERJ . Bolsista da FAPERJ . Psicanalista participante da Escola Letra Freudiana.

Ana Paula Corrêa Sartori


Psicóloga. Psicanalista. Mestre pelo Programa de Pós- Graduação em Pesquisa e Clínica
em Psicanálise do IP/UERJ . Correspondente da Seção Rio de Janeiro da Escola Brasileira
de Psicanálise.

Andréa de Abreu Souza


Psicanalista. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psica­
nálise do IP/ UERJ .

Andréia Pinto dos Santos


Psicóloga. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica cm Psicaná­
lise do IP /UERJ . Participante da Práxis Lacaniana, Formação em Escola.

Ângela de Fátima Vieira Bueno


Psicanalista. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psica­
nálise do IP/ UERJ .

Cândida Regina Machado da Costa


Psiquiatra. Psicanalista. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em
Psicanálise do IP/ UERJ . Membro psicanalista do Instituto Tempos Modernos (ITM). Psiquiatra
assistente e perita do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Heitor Carrilho.

Denise Blanc
Psicóloga. Psicanalista. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em
Psicanálise do IP /UERJ . Bolsista da CAPES. Associada ao Corpo Freudiano do Rio de Janeiro.

Doris Rinaldi
Professora do Programa de Pós-Graduação cm Pesquisa e Clínica cm Psicanálise do IP I
UERJ . Professora Adjunta do IP /UERJ . Procientista. Doutora cm Antropologia Social pelo
Museu Nacional/UFRJ . Bolsista de Produtividade CNPq. Psicanalista. Membro da Inter­
secção Psicanalítica do Brasil. Autora de A ética da diferença: um debate entre psicanálise e antropologia
(Rio de Janeiro : EdUERJ /J orgc Zahar Editor, 1 996) e de A terra do santo e o mundo dos engenhos:
estudo de uma comunidade rural nordestina (Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1 980) .
Elisabeth da Rocha Miranda
Psicanalista . Mestre pelo Programa de Pós-Graduação cm Pesquisa e Clínica cm Psicanálise
do JP/UERJ . Membro de Formações Clínicas do Campo Lacaniano.

Elisabeth Freitas
Psicanalista. Mcstranda do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica cm Psica­
nálise do IP/ UERJ. Membro da Letra Freudiana do Rio de Ja�eiro.

Filippo Olivieri
Psicanalista. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação cm Pesquisa e Clínica em Psicanálise
do IP/UERJ .

Julia Cristina Tosto Leite


Psicóloga . Psicanalista com formação pelo Instituto Sedes Sapicntiae de São Paulo. Mes­
tranda do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica cm Psicanálise do IP / UERJ .

Kátia Wainstock Alves dos Santos


Psicanalista . Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise
do IP/UERJ . Membro do Laço Analítico Escola de Psicanálise . Membro integrante da
equipe técnica do CAPSI (Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvcnil) Pequeno Hans,
da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

Luciano Elia
Professor Titular de Psicanálise do Instituto de Psicologia da UERJ. Coodenador-Adjunto
do Programa de Pós-Graduação cm Psicanálise e Coordenador do Curso de Especialização
cm Psicanálise e Saúde Mental do mesmo Instituto. Psicanalista. Membro do Laço Analítico
Escola de Psicanálise.

Mara Viana de Castro


Psicóloga. Psicanalista. Especialista cm Psicologia Clínica e Saúde Mental pela FINP. Mestre
pelo Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do IP / UERJ . Profes­
sora do Unicentro Newton Paiva, Belo Horizonte.

Mareia Mcllo de Lima


Psicóloga. Psicanalista. Doutora pela Universidade de São Paulo (USP). Professora do
Mestrado e do Curso de Especialização cm Psicanálise e Saúde Mental do Programa de
Pós-Graduação cm Pesquisa e Clínica cm Psicanálise do IP! UERJ . Professora adjunta e
chefe do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) do IP/UERJ . Membro da Seção Rio de
Janeiro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP-RJ).
Marco Antonio Coutinho Jorge
Psiquiatra . Psicanalista. Diretor do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro - Escola de Psica­
nálise, instituição-membro de Convergência - Movimento Lacaniano para a Psicanálise
Freudiana. Membro Correspondente no Estrangeiro do Mouvement du Cout Frcudien
(Paris) . Professor adjunto do Instituto de Psicologia da UERJ . Autor de Fundamentos da psicanálise
de Freud a Lican, vol . 1 : As bases conceituais (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000) e Sexo e
discurso cm Freud e Lican (Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1 988). Co-autor de Freud (Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002).

Maria Helena Coelho Martinho


Psicanalista. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação cm Pesquisa e Clínica em Psicanálise
do IP/UERJ. Membro de Formações Clínicas do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro e da
Associação de Fóruns do Campo Lacaniano.

Maritza Magalhães Garcia


Psicóloga. Psicanalista. Especializada em Atendimento Psicanalítico em Instituição - IPUB/
UFRJ . Mestranda do Programa de Pós-Graduação cm Pesquisa e Clínica em Psicanálise
do IP/ UERJ.

N elma de Mello Cabral


Psicóloga. Psicanalista. Bacharel cm Matemática. Mcstranda do Programa de Pós-Gra­
duação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do IP/ UERJ.

Sonia Alberti
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do
IP / UERJ . Professora Adjunta do IP / UERJ . Procientista. Doutora em Psicologia pela Uni­
versidade de Paris X, Nanterre. Psicanalista. Membro de Formações Clínicas do Campo
Lacaniano do Rio de Janeiro e da Associação Fóruns do Campo Lacaniano. Autora de Esse
sujeito adolescente (Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 1 999, 2ª ed. ) e organizadora de Autismo
e esquizofrenia na dínica da esquize (Rio de Janeiro : Rios Ambiciosos, 1 999) .

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