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Luiz Alberto Hanns

DICIONÁRIO COMENTADO
DO ALEMÃO DE FREUD

Série Analytica

Direção
Dr. Jayme Salomão

Imago
Copyright ri) Lui, Alberto I Ianns,
- 1996
Copidcsque:
LUCIA WATACHIN

Revisão:
MARCOS JOSÉ DA CUNHA

CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte
Sindicaco Nacional dos Editores de Livros, RJ

Hanns, Luiz Albeno


l-1219cl Dicionário comentado do alemão de Freud/ Luiz Alberto Hanns.
- Rio de.Janeiro: Imago Ed., 1996.
(Série Analycica)

Inclui bibliografia
ISBN 85-312-0521-2

1. Freud, Sigmund, 1856-1939 - Linguagem - Dicionários.


2. Psicanálise - Dicionários - Português. 3. Língua alemã -
Dicionários - Português. !. Título. II. Série.

CDD 150.195203
%-1451. CDU 159.964.2(038)

Reservados todos os direitos.


Nenhuma parte desta obra poderá ser
reproduzida por fococópia, microfilme,
processo fotomecânica ou eletrônico
sem permissão expressa da Editora.

199G

IMAGO EDITORA LTDA.


Rua Santos Rodrigues, 20 l-A - Estácio
20250-430 - Rio dejaneiro-RJ
Te!.: (021) 293-1092

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
a meu pai, Günther

a Eva, minha mãe


e a Daniela, esposa e companheira
Agradecimentos

Colaboraram passo a· passo, discutindo e revisando cada item, Fernanda Silveira


Corrêa e Birgit Hoos, a elas sou imensamente grato não só pela revisão e pelas pesquisas
adicionais como pela paciência para comigo. Também gostaria de ressaltar a consulto­
ria dada por Luiz Roberto Monzani e porJoão AzenhaJúnior nos pontos que me foram
mais difíceis.
Em especial sou grato à Maria Lúcia de Araújo Andrade, que além da leitura atenta
e sugestões, me auxiliou de modos bem diversos e significativos.
Agradeço ainda às várias críticas e sugestões de Cristián Bergweiler, José Miguel
Bairrão,José Luis da Silva, Ruth Mayer e Emma Eberlein O. F. Lima, que em momentos
críticos me ajudaram a encontrar outros caminhos.
Gostaria ainda de incluir nesses agradecimentos aqueles que me incentivaram a
iniciar esta empreitada,José Carlos Tei.,"eira de Camargo Filho, Luiz Claudio Figueire­
do, Arthur Nestrovski e os muitos colegas aqui não citados que enriqueceram o trabalho
com suas sugestões e estímulo.
Sumário

Apresentação 17
Algumas Questões de Tradução
e Breve Comentário sobre a Língua Alemã 21
Para Consultar os Verbetes 29
Metodologia Utilizada 33

Dicionário Comentado do Alemão de Freud 45

Afirmação: Bejahung 47
O Termo em Alemão 47
Etimologia e Termos Correlatos 48
Comparação com o Termo em Português 48
Exemplos de Uso em Freud 50
Comentários 51
Alienação, Alheamento: Entfremdung 5�
O Termo em Alemão 53
Etimologia e Termos Correlatos 54
Comparação com o Termo em Português 55
E,cemplos de Uso em Freud 56
Comentários 59
Angústia, Ansiedade, Medo: Angst 62
O Termo em Alemão 62
Etimologia e Termos Correlatos 63
Comparação com o Termo em Português 64
Exemplos de Uso em Freud 67
Comentários 71
A posteriori, Ação diferida: Nachtrãglichkeit 80
O Termo em Alemão 80
Etimologia e Termos Correlatos 82
Comparação com o Termo em Português 82
Exemplos de Uso em Freud 84
10

Comentários 86
Catexia, Investimento: Besetzung 89
O Termo em Alemão 89
Etimologia e Termos Correlatos 90
Comparação com o Termo em Português 91
Exemplos de Uso em Freud 93
Comentários 96
Compulsão, Obsessão, Pressão: Zwang 101
O Termo em Alemão 101
Etimologia e Termos Correlatos 102
Comparação com o Termo em Português 103
Exemplos de Uso em Freud 104
Comentários 106
A Consciência (substantivo): das Bewu�tsein 109
O Termo em Alemão lll
Etimologia e Termos Correlatos 111
Comparação com o Termo em Português ll3
Exemplos de Uso em Freud 115
Comentários 117
Defesa: Abwehr 121
O Termo em Alemão 121
Etimologia e Termos Correlatos 122
Comparação com o Termo em Português 123
Exemplos de Uso em Freud 124
Comentários 126
Descarga: Abfuhr 129
O Termo em Alemão 129
Eti�ologia e Termos Correlatos 130
Comparação com o Termo em Português 131
Exemplos de Uso em Freud 132
Comentários 134
Desejo: Wunsch 136
O Termo em Alemão 136
Elimologia e Termos Correlatos 137
Comparação com o Termo em Português 138
Exemplos de Uso em Freud 139
Comentários 143
Desejo, Prazer: Lust 147
O Termo em Alemão 147
Etimologia e Termos Correlatos 149
11

Comparação com o Termo em Português 150


Exemplos de Uso em Freud 152
Comentários 155
Deslocamento: Verschiebung 161
O Termo em Alemão 161
Etimologia e Termos .Correlatos 162
Comparação com o Termo em Português 163
Exemplos de Uso em Freud 165
Comentários 167
Dominação: Bemiichtigung 170
O Termo em Alemão 170
Etimologia e Termos Correlatos 171
Comparação com o Termo em Português 172
Exemplos de Uso em Freud 173
Comentários 174
Dominar: Bewiiltigen 176
O Termo em Alemão 176
Etimologia e Termos Correlatos 177
Comparação com o Termo em Português 178
Exemplos de Uso em Freud 179
Comentários 181
Domínio, Amansamento, Domação: Biindigung 183
O Termo em Alemão 183
Etimologia e Termos Correlatos 184
Comparação com o Termo em Português 184
Exemplos de Uso em Freud 186
Comentários 188
Elaboração ( 1 ): Bearbeitung 190
O Termo em Alemão 190
Etimologia e Termos Correlatos 191
Comparação com o Termo em Português 192
Exemplos de Uso em Freud 193
Comentários 195
Elaboração (2), Perlaboração: Durcharbeitung . 198
O Termo em Alemão 198
Etimologia e Termos Correlatos 199
Comparação com o Termo em Português 200
Exemplos de Uso em Freud 201
Comentários 203
12

Elaboração (3 ): Vemrbeitung 205


O Termo em Alemão 205
Etimologia e Termos Correlatos 206
Comparação com o Termo em Português 207
Exemplos de Uso em Freud 209
Comentários 211
Escolha de objeto por apoio (tipo de); Escolha
anaclítica de objeto (tipo de): Anlehnungstypus
der Objektwahl 214
O Termo em Alemão 214
Etimologia e Termos Correlatos 215
Comparação com o Termo em Português 216
Exemplos de Uso em Freud 217
Comentários 218
Estímulo, Excitação: Reiz 221
O Termo em Alemão 221
Etimologia e Termos Correlatos 222
Comparação com o Termo em Português 223
Exemplos de Uso em Freud 224
Comentários 228
Estranho, Lúgubre, Sinistro, Inquietante,
Macabro: das Unheimliche 231
O Termo em Alemão 232
Etimologia e Termos Correlatos 233
Comparação com o Termo em Português 234
Exemplos de Uso em Freud 235
Comentários 237
Facilitação: Bahnung 240
O Termo em Alemão 240
Etimologia e Termos Correlatos 241
Comparação com o Termo em Português 241
Exemplos de Uso em Freud 242
Comentários 244
Formação de compromisso: Kompromif3bildung 246
O Termo em Alemão 246
Etimologia e Termos Correlatos 247
Comparação com o Termo em Português 247
Exemplos de Uso em Freud 248
Comentários 250
13

Frustração: Versagung
Privação: das Versagen 252
O Termo em Alemão 252
Etimologia e Termos Correlatos 254
Comparação com o T�rmo em Português 255
Exemplos de Uso em J\reud 257
Comentários 259
Id ou "o isso": das Es 261
O Termo em Alemão 261
Etimologia e Termos Correlatos 263
Comparação com o Termo em Português 264
Exemplos de Uso em Freud 265
Comentários 2ô7
Idéia, Associação livre, Associação: Einfall 270
O Termo em Alemão 270
Etimologia e Termos Correlatos 271
Comparação com o Termo em Português 272
Exemplos de Uso em Freud 273
Comentários 275
Incompatível: Unvertrãglich 277
O Termo em Alemão 277
Etimologia e Termos Correlatos 278
Comparação com o Termo em Português 280
Exemplos de Uso em Freud 281
Comentários 283
Interpretação: Deutung 285
O Termo em Alemão 285
Etimologia e Termos Correlatos 286
Comparação com o Termo em Português 287
Exemplos de Uso em Freud 288
Comentários 290
Ligação: Bindung 293
O Termo em Alemão 293
Etimologia e Termos Correlatos 294
Comparação com o Termo em Português 295
Exemplos de Uso em Freud 296
Comentários 300
Negação ( 1 ), Recusa da realidade, Renegação: Verleugnung 303
O Termo em Alemão 303
Etimologia e Termos Correlatos 304
14

Comparação com o Termo em Português 305


Exemplos de Uso em Freud 307
Comentários 3 10
Negação (2), Denegação: Verneinung 3 14
O Termo em Alemão 314
Etimologia e Termos Correlatos 315
Comparação com o Termo em Português 316
Exemplos de Uso em Freud 318
Comentários 320
Pressão: Drang 324
O Termo em Alemão 324
Etimologia e Termos Correlatos 325
Comparação com o Termo em Português 326
Exemplos de Uso em Freud 327
Comentários 329
Psique, Alma, Mente: Seele 332
O Termo em Alemão 332
Etimologia e Termos Correlatos 333
Comparação com o Termo em Português 334
Exemplos de Uso em Freud 335
Comentários 336
Fusão, Instinto: Trieb 338
O Termo em Alemão 338
Etimologia e Termos Correlatos 343
Comparação com o Termo em Português 34 '1
Exemplos de Uso em Freud 346
Comentários 350
Recalque, Repressão: Verdrãngung 355
O Termo em Alemão 355
Etimologia e Termos Correlatos 356
Comparação cem o Termo em Português 358
Exemplos de Uso em Freud 359
Comentários 363
Rejeição, Forclusão, Preclusão, Repúdio: Verwerfung 368
O Termo em Alemão 368
Etimologia e Termos Correlatos 369
Comparação com o Termo em Português 370
Exemplos de Uso em Freud 372
Comentários 373
15

Representar, Figurar: Darstellen


Representabilidade, Figurabilidade: Darstellbarkeit
Consideração pela Figurabilidade: Rücksicht auf Darstellbarkeit 376
O Termo em Alemão 376
Etimologia e Termos . Correlatos 378
Comparação com o Termo em Português 379
Exemplos de Uso em Freud 381
Comentários 38 3
Representação: Vorstellung 386
O Termo em Alemão 386
Etimologia e Termos Correlatos 388
Comparação com o Termo em Português · 389
Exemplos de Uso em Freud 391
Comentários 396
Satisfação: Befriedigung 405
O Termo em Alemão 405
Etimologia e Termos Correlatos 4 06
Comparação com o Termo em Português 4 06
Exemplos de Uso em Freud 407
Comentários 4 09
Transferência: Übertragung 412
O Termo em Alemão 412
Etimologia e Termos Correlatos 4 13
Comparação com o Termo em Português 414
Exemplos de Uso em Freud 4 16
Comentários 418

Exemplos de Uso em Freud


(Texto Original Alemão ) 421
Glossário Alemão-Português 489
Glossário Português-Alemão . 492
Glossãrio Espanhol-Alemão 495
Glossário Francês-Alemão 497
Glossário Inglês-Alemão 499
Bibliografia 501
Bibliografia Adicional Comentada 502
Apresentação

Foram os tradutores de Freud e os psicanalistas estrangeiros que revelaram o valor


de várias palavras alemãs que hoje se transformaram em verdadeiros clássicos da
psicanálise. Isto não é de surpreender, já que, geralmente, só n os damos conta das
palavras que utilizamos quando temos dificuldade - em manuseá-las, ou se nos pomos
numa perspectiva externa ao nosso próprio idioma. Assim, se o leitor estrangeiro está
em desvantagem no estudo do texto freudiano, o leitor alemão, por vezes, nem mesmo
se dá conta das palavras, de tão naturais que lhe parecem.
Este livro procura tirar partido da condição de estrangeiro do leitor brasileiro
perante o texto alemão. Em vez de tentar, através da tradução, trazer verbetes germ â ­
nicos para o português, propõe-se aproximar o leitor dos termos alemães. Livre da
tarefa de optar por uma palavra equivalente em português, a qual ficaria em débito
com o original, este trabalho dedica-se a introduzir o leitor no universo das conotações
e dos significados dos termos alemães de mais difícil tradução.
Entre os verbetes escolhidos, não foram incluídos todos os termos que tradicional­
mente constam em vocabulários de psicanálise. Certos termos que, embora possuam
ricas conotações e sejam de uso literário, são utilizados por Freud de forma indiferen­
ciada e sem tirar proveito de suas características lingüísticas, e portanto foram excluí­
dos. Outros possuem características tão semelhantes ao português que nem sequer as
notamos. Foram incluídos aqueles que Freud empregou de maneira a imprimir uma
estampa ou melodia no texto, ou cuja tradução causa tal estranheza cm português que
vale a pena esclarecê-los.
Os critérios empregados para essa seleção estão detalhados na seção s-obre a
metodologia adotada neste livro (p. XIV).

A maioria dos verbetes aqui abordados foram também visitados por outros autores,
porém, em geral, com interesse diverso. 1
Numerosos autores ocupam-se da teoria da tradução e da questão do espírito e do
estilo da linguagem freudiana. Sua intenção é exam,iriar criticamente a tendência geral
das traduções, e não deter-se na problemática de termos isolados.Tratam de poucos
verbetes e o fazem a título de ilustração. Outros, com interesse voltado a questões da
teoria psicanalítica, remetem o leitor ao original alemão para invocar alguns aspectos

1 Ver comentário sobre a bibliografia adicional no final do livro (p. 476).


18 Apresentação

lingüísticos em apoio a um ponto de vista teórico. Também os dicionários técn icos de


psicanálise servem-se apenas marginalmente do alemão, apontando para os significa­
dos perdidos na tradução de um ou outro termo. Por fim, há os glossários e as traduções
críticas. Seu objetivo é mais próximo do deste livro, pois os tradutores, antes de optarem
por determinada equivalência, passam por reflexões semelhantes àquelas que o leitor
encontrará aqui e, geralmente, as partilham com o público em notas de rodapé,
apêndices ou volumes à parte.
Entretanto, conforme mencionado, o objetivo deste livro não é traduzir termos,
mas fornecer amplo suporte lingüístico nos casos em que a tradução de certos Yerbetes
encontra dificuldades suficientemente importantes para merecer um trabalho de
apoio.

A fim de facilitar a leitura, procurou-se dar a cada verbete um formato que


possibilitasse ao leitor visualizar o termo sob vários ângulos e consultá-lo conforme o
grau de profundidade desejado.
Cada verbete é apresentado em cinco módulos.
No primeiro, o leitor encontrará três itens. Inicialmente é apresentada a composi­
ção da palavra ( em alemão é muito útil decompor os termos em prefixos, radicais e
sufixos). Em seguida são elencados os significados coloquiais do termo, ilustrados por
exemplos retirados do cotidiano (adaptados e traduzidos para o português). Por fim
são discutidas as conotações que o termo tem no universo lingüístico germânico. Tanto
os significados como as conotações aparecem numerados, para melhor visualização.
No segundo módulo, é apresentada a etimologia do termo, quando possfrel desde
as raízes indo-européias, e é abordado seu campo semântico, isto é, outras palavras
derivadas, compostas ou correlatas.
No terceiro, o verbete é comparado com a palavra consagrada como correspon­
dente em português. Os termos dos dois idiomas são contrastados numa tabela, onde
se comparam ponto a ponto os significados e as conotações numerados, para ajudar o
leitor a circunscrever a palavra alemã através das diferenças e das semelhanças com o
português.
No quarto módulo, são apresentados exemplos de frases e parágrafos pertencentes
a diversas fases da obra freudiana, onde a palavra aparece em itálico (em alemão),
permitindo ao leitor visualizar sua inserção no contexto psicanalítico.
No quinto módulo, o uso freudiano dos termos é comentado à luz de aspectos
lingüísticos e teórico-psicanalíticos. Alguns dos verbetes são relacionados entre si,
formando arranjos de palavras ligados a determinados temas - por exemplo, ao corpo,
às imagens, aofechar-se, ao desejo etc. - , quase que Leitmotive freudianos que percorrem
o texto psicanalítico.
Apresentação 19

Espero que, com as informações que encontrará neste livro, o leitor possa prosse­
guir por sua conta o estudo de tais conexões lingüístico-temáticas e que possa ter uma
leitura mais rica, precisa e prazerosa do texto freudiano.
Algumas Questões de Tradução e
Breve Comentário sobre. a Língua Alemã

Quando uma ciência progride rapidamente, idéias que a princípioforam


expressas por indivíduos isolados logo se tornam de domínio fJúblico.
Assim, ninguém que hoje procure expor suas concepções sobre a histeria e
se·u fundamento psíquico pode evitar expressar e repetir uma porção de
idéias de outros, idéias que deixaram de serpatrimônio pessoal para passar
�o patrimônio público. É quase impossível citar sempre quem as expressou
pela primeira vez, e, além disso, corre-se o risco de imaginar ser produção
própria aquilo que foi dito por outros. Assim, peço que desculpem se aqui
houverpoucas citações e se nãofor rigorosamente diferenciado o que é meu
e de outros. Pouco do que será dito nas próximas páginas jlode ter
pretensões de originalidade.

Estudos sobre a Histeria.


J. Breuer ( 1895). Tradução livre [ESB 2, 195].

Poucos autores de língua alemã tiveram sua linguagem e estilo tão esmiuçados
quanto Freud. 1
Sua correspondência pessoal, os trabalhos universitários, os manuscritos e até os
livros que lia na infância são revirados à procura de marcas do seu estilo e de núcleos
temátiços. Tàmbém os lapsos, as repetições e outras pistas psicanalíticas deixadas por ,
Freud nos textos de cunho pessoal e teórico são garimpados na tentativa de articular
dados biográficos com temas e figuras de linguagem recorrentes. Numa espécie de I
radiografia estatística da obra, a informática tem sido colocada a serviço de levantamentos
. de correlações intratextuais, onde aspectos semânticos e de conteúdo têm sido an:ilisados
e classificados quantitativa e qualitativamente. Além disso, diversos termos-chaves têm sido
isolados e seguidos retroativamente, desde épocas anteriores à sua entrada na obra de r
Freud, até sua . origem em campos extra-analíticos, tais como a psiquiatria francesa, a
filosofia alemã, a religião judaica etc. Em paralelo, há tentativas de situar aspectos (
estilísticos e semânticos da obra com o caldo cultural do qual emergiu, estabelecendo-se (

Ver nota 1 da tpresentação.


22 Algumas Questões de Tradução

correlações com a linguagem da medicina germânica da época, com a psiquatria


romântica, com a filosofia, com o alemão judaico-vienense, bem como com o ídiche.
Alguns estudos focalizam Freud no' papel de tradutor. As traduções empreendidas
pelo jovem Freud de artigos médicos em francês e inglês para o alemão, bem como os
textos que redigiu nesses idiomas, têm sido analisadas na tentativa de evidenciar algo como
um "estilo de tradução" adotado pelo próprio Freud, visando assim dotar os atuais
tradutores de parâmetros adicionais para um trabalho mais fiel ao espírito freudiano.
Essa devassa a que a obra freudiana tem sido submetida desde os seus primórdios,
e mais particularmente a partir dos anos 70, tem propiciado significativos avanços à
sua leitura e tradução. Novas estampas têm aflorado, cujas tramas jaziam ocultas na
vastidão da obra freudiana e que somente o tempo, a distância e o estranhamento
permitiram enxergar.
Muitas vezes haverá algo de ficcional em tais análises, já que em qualquer obra
encontrar-se-ão tantas relações e simetrias quanto se desejar. Também é provável que,
ao nos apropriarmos da obra dessa forma, a tenhamos alienado de seu próprio autor;
afinal, Freud foi redigindo seu pensamento de forma viva e dentro do turbilhão de
idéias e palavras que vigiam em seu tempo.
Entretanto, é pelos rearranjos, pelas aberturas e até pelas distorções e mal-entendi­
dos que a obra se atualiza e continua revestindo-se de interesse para nós.
Seja qual for a avaliação da pertinência de cada um desses estudos, não é de
surpreender que, em face do interesse despertado pela linguagem freudiana e do volume
de debates, não haja tradução que sobreviva incólume ao atual crivo crítico. Se isto
contribui para a contínua melhora dos trabalhos, também deixa o leitor bastante inseguro
quanto ao que está lendo; e, portanto, talvez caibam aqui algumas palavras de consolo.
Ao longo do tempo tem se consolidado uma linha paralela de reflexão e pesquisa
sobre a história das diversas traduções. Estudam-se as biografias dos tradutores, o pano
de fundo cultural em que ocorreram tais traduções e sua inserção na política das
instituições psicanalíticas, procurando-se evidenciar os fatores que mais interferem em
seus rumos. Assim, no conjunto, as atuais traduções assentam em algumas décadas de
debates é pesquisas - tanto sobre o texto freudiano como sobre a própria atividade
de tradução - e oferecem ao leitor abordagens mais sofisticadas e críticas. , Mesmo
divergindo a respeito dos caminhos a tomar, as novas traduções já incorporaram a
importância de diferenciar determinados verbetes deixados de lado nas traduções mais
antigas. Hoje há também há uma tendência a depurar o jargão psicanalítico interna­
cional, antes calcado na tradução inglesa de Strachey, 1 a qual serviu de base normativa

Fundamentalmente a tradução inglesa, a Standa,d Edition of tJr.e Complete P:rychol.ogkal WOTks o[ Sig,nund freud, é um
u-abalho bem-cuidado. Deriva de um esforço pioneiro de compilação e é até hoje a mais completa sistematização
das obras de Freud. Todavia, por drcunstâncias de época, bem como por interferências de cunho pessoal e devido
a lutas políticas e teóricas no contexto institucional, algumas alinhavadas por Riccardo Steiner ( 1 991 ), peca por um
excesso de tecnicismo da linguagem. Ademais, não reproduz diversos aspectos estilísticos importantes, e tampouco
mantém diferenciações terminológicas atualmente incorporadas às traduções mais modernas.
Algumas Questões de Tradução 23

a boa parte das traduções, de alguns exageros de tecnicidade terminológica. Termos


como "catexia" , "escopofilia" etc. têm sido substituídos cada vez mais por outros mais
próximos do original alemão. Assim, apesar das muitas divergências, sobretudo no que
se refere ao grau de literalidade a procurar, há também convergências, e, de modo
geral, os novos trabalhos, tanto no exterior como no Brasil, têm-se destacado por
grande apuro técnico.
Além disso, não se deye perder de vista que as inevitáveis distorções inerentes ao
ato de tradução, somadas às interferências interpretativas, não podem ser eliminadas.
É um grande avanço poder cada vez mais explicitá-las, tornando dessa forma o público
leitor menos indefeso diante dos efeitos da tradução.

O Peso das Tradições na Terminologia


Psicanalítica Alemã, Francesa e Inglesa

Freqüentemente, determinadas opções de tradução da terminologia psicanalítica


adotadas no francês e no inglês causam certa estranheza, pois muitas vezes, elo ponto
de vista fingüístico, os termos eleitos como sinônimo,s não se correspondem.
Algumas das equivalências entre o inglês, o francês e o alemão, por mais inadequa­
das que pareçam, têm uma história antiga, em que se entrelaçam medicina, filosofia,
alquimia, religião e a própria evolução e formação das línguas. Já estavam estabelecidas
em traduções que há séculos se faziam e foram mantidas na terminologia da psiquiatria
e da psicanálise. Além disso, várias traduções para o alemão, inglês e francês eram feitas
através da língua culta comum, o latim. Isto gerou distorções típicas de qualquer tradução
triangular. Estenderam-se assim ao campo psicanalítico distorções de tradução que de
certa forma foram herdadas de outros campos e épocas anteriores.
Este é o caso de vários termos psicanalíticos - por exemplo, a palavra alemã Angst,
que a rigor significa "medo" e não corresponde exatamente nem à palavra francesa
angoisse ("angústia") e tampouco à palavra inglesa an:âety ("ansiedade"). Contudo, há
séculos estes três termos vêm sendo utilizados como equivalentes em diversas tradu­
ções. Também a palavra alemã Zwang ("obrigatoriedade", "coerção"), traduzi.da há
muito para o fra\icês e inglês como compulsion e obsession ("compulsão" e "obsessão"),
tem na realidade um significado bastante diverso destes.
As primeira� traduções de termos psicanalíticos para o inglês, francês e espanhol,
inclusive as realizadas pelo próprio Freud, apesar das especificidades da linguagem da
psicanálise, seguiram as tradições psiquiátricas e filosóficas de seus respectivos idio­
mas. É importante levar em conta o papel dessas tradições, ao deparar-se com
determinadas traduções vigentes no jargão psicanalítico internacional.
24 Breve Comentário sobre a Língua Alemã

Breve Comentá.rio sobre a Língua Alemã

Um dos encantos e também uma das dificuldades de tradução do alemão reside na


maneira de compor as palavras. Trata-se de uma língua em que se podem criar palavras
com certa facilidade combinando-se umas com as outras ou agregando-se partículas
aos radicais. As palavras alemãs muitas vezes são resultado de combinações de
elementos simples e conhecidos. Além disso, seu sentido pode ser modulado e
nuançado a partir de pequenas modificações em torno de uma raiz, com o acréscimo
de prefixos, sufixos ou mutações :vocálicas e consonantais ao radical, cunhando-se
termos extremamente específicos para certas ações.
Essa facilidade combinatória do alemão faz com que muitas palavras tendam a ser
auto-explicativas, pois compõem-se de elementos conhecidos. É comum que conceitos
abstratos sejam compostos pela junção de palavras simples e concretas.
O resultado é uma língua na qual palavras de uso corrente podem ser juntadas e
conectadas entre si, pois derivam: umas das outras. Surgem então extensas cadeias de
palavras relacionadas umas com·as outras.
A partir dessa interconexão . entre termos e devido à concretude e à imediata
compreensão de muitas palavras, ·o falante do alemão poderâ ter uma sensação de
unidade e visceralidade da língua. Várias palavras aléinãs utilizadas como conceitos
psicanalíticos designam sensações corpóreas, no nível mais íntimo. Outras descrevem
ações simples de grande plasticidade visual.
Talvez haja algum exagero na. conhecida afirmação de que o alemão seja a língua
da filosofia, mas essa espécie de cadeias semânticas, tão comum no alemão, facilita
muito um tipo de investigação, por vezes bastante especulativa, que pr_ocura esclarecer
a natureza de um conceito a partir da própria palavra que o designa. Em outros idiomas
indo-europeus, em regra, esse tipo de reflexão calcada na palavra que designa o
conceito só é possível retornando-se às raízes greco-latinas.
Freud especula com freqüência a respeito de conceitos a partir das palavras que os
designam, enveredando por digressões e estabelecendo conexões as mais interessantes.
Tudo isto torna a leitura ·do texto freudiano origiual freqüentemente muito
prazerosa e fluida, pois Freud, além de ter um estilo literário, preferia utilizar os termos
da língua coloquial, ou seja, palavras germânicas, evitando abusar de termos latinos e
gregos (que em alemão soam muito eniditos).
Além do mais, o próprio Freud, tirando partido de certas características do alemão,
atribui novos sentidos a termos originários de campos extra-analíticos, tornando a
terminologia psicanalítica espedalmente rica em conotações.
A seguir, para facilitar a consulta aos verbetes, serão especificadas algumas das
informações sobre o idioma alemão.
Breve Comentário sobre a Língua Alemã 25

Composição de palavras

No dia-a-dia do alemão moderno é possível criar palavras novas através de combi­


nações. Tal prática chega a ter caráter lúdico e é um importante recurso para a ironia
e o humor. Trata-se de um mecanismo utilizado para expressar idéias novas e originais,
criando-se palavras de fádl assimilação. É também um instrumento para traduzir
termos estrangeiros que ainda não têm correspondentes em alemão.
A composição é possível com qualquer palavra. Podem-se criar termos enormes,
formados por três, quatro ou cinco palavras ( o mais comum é o termo de até três
palavras).
Termos freudianos como Selbstzerstõrungstrieb (pulsão de autodestruição; e Bemiich­
tigungsdrang (ânsia de apoderar-se) resultam desse tipo de composição.
O efeito dessa forma de composição é a criação de palavras compactas. Em outros
idiomas indo-europeus freqüentemente temos de explicar os termos escrevendo-os de
forma li.near e inte_i;:çalando-os com preposições. Isto faz com que, em lugar de uma
designação compactai Õleiror-se defronte com uma quase-explicação.

Afixação (sufixos, prefixos, infixo's e - cirêunfixos)

No cotidiano dos falantes do alemão podem-se não só cunhar novos termos por
composição (unindo-se palavras), como lapidá-los através de afixação (geralmente por
prefixos e sufixos), tomando-os muito específicos para cada situação.
Nem sempre os prefixos alemães têm sentido único e constante, mas, por via de
regra, seus significados estabilizaram-se em algumas direções. Isto também ocorre, em
português por exemplo, com os prefixos "a-", "des-" e "pré-". Um falante pode deduzir
o sentido que uma palavra recém-criada adquirirá em certo contexto ao ser precedida
por um destes prefixos, como por exemplo em "aestético", "desouvir", "pré-tratamen­
to" etc. Entretanto, em ponuguês é mais restrita a possibilidade de conectar partículas
a raízes com o fim de especificar sentidos ou de criar novas palavras. Além disso, não
é _hábito tão disseminado. Em alemão, a liberdade para esse tipo de criação é bem mais
extensa. Há um grande número de prefi.··ws, e muitos têm sentido autônomo, funcio­
nando como preposições.
A título de ilustração, vale observar que há 12 variações dicionarizadas para o verbo
"trabalhar" (arbeiten), formadas a partir dos prefixos ab-, auf, aus-, be; ein-, er-, durch-,
nach-, mit-, ver-, V?r- e um- ( outras variações podem ser criadas). Freud utiliza principal­
mente seis dessas variações para designar formas específicas de trabalho psíquico:
aufarbeiten, bearbeiten, durcharbeiten, mitarbeiten, umarbeiten e verarbeiten.
26 Breve Comentário sobre a Língua Alemã

Mutações

As mutações consonantais e vocálicas no radical permitem criar ramos que serão


a base da formação de grandes grupos semânticos. Por exemplo, a partir do radical
bind·, formam�se as palavras Bindung ("ligação", "vínculo", "laços"), Band ("corda",
"fita", "correia") e Bund ("união", "federação", "aliança"). Neste caso o verbo binden
("amarrar"), que no imperfeito tem a forma band ("amarrava") e no particípio perfeito
gebunden ("amarrado"), gerou, a partir da substantivação que o capturou em diferentes
momentos de conjugação, estes três substantivos (Bindung, Band e Bund), sendo que
Bindung sofreu o acréscimo de um sufixo de substantivação (-ung). A conexão entre os
termos que sofreram mutações com freqüência é facilmente reconhecível - no caso
de Bindung, Band e Bund, além da semelhança que ainda guardam, trata-se da substan­
tivação de um mesmo verbo calcada em seus diferentes tempos verbais.
Atuando em conjunto, os mecanismos de "mutação", de "afixação" e de "compo­
sição" podem ampliar cada um dos três termos (Bindung, Band e Bund) para dezenas
ou centenas de palavras.
Freud emprega, por exemplo, a palavra Bindung ("fixação", ligação") e a faz
preceder do prefixo ent- (o qual indica "separação" e "afastamento"), formando a
palavra Entbindung ("desligamento", "liberação"); esta, ao se compor com Affekt
("afeto"), gera o termo Affektentbindung ("liberação de afeto").

Escutar-efalar-decompondo

A maioria das palavras dicionarizadas, mesmo as formadas p.9r composição e


afixação, são rotineiras e tendem a ser percebidas em alemão como conceitos fechados
e autônomos, herança de composições centenárias, às quais não se presta mais atenção
- algo semelhante ao que acontece em português quando se escuta a palavra
"descobrir", que normalmente não é pensada como "des-cobrir".
Entretanto, quando se trata de palavras novas, a relativa facilidade de prefixar, sufixar,
substantivar, adverbializar etc. exige do falante de . alemão, além da compreensão do
contexto, a "dedução" das palavras a partir dos elementos que as compõem. Também
para cunhar novos termos é necessário "prever" o resultado de certas combinações.
Além disso, o falante do alemão não só é lembrado da composição das palavras
quando as cria, mas às vezes também quando se trata da conjugação de verbos. Muitos
verbos são compostos por prefixo e radical. Quando conjugados, dividem-se em duas
partes: o radical fica perto do sujeito e o prefixo é colocado no final da frase. Conforme
a ambigüidade do contexto, é necessário escutar o final da frase para definir de que
verbo se trata. Há, portanto, diversas ocasiões em que a língua alemã exige que se
pratique um "escutar-e-falar-decompondo".
Breve Comentário sobre a Língua Alemã 27

Os significados e as conotações de termos da psicanálise muitas vezes remetem a


essa forma de "escutar-e-falar-decompondo", por isto, a explicação dos verbetes começa
com um comentário sobre a composição da palavra.

Termos germânico! e palavras de origem greco-latina germanizadas

Muitos termos germânicos referem-se às sensações primárias - por exemplo, o


verbo reizen ("estimular" ou "excitar"). Esta palavra está etimologicamente ligada ao
mesmo grupo semântico alemão de "riscar" (einritzen), "escrever" (schreiben), "atritar"
e "raspar" (reiben) e "rasgar" (zerrei)Jen). Usado no sentido de "provocar" e "irritar", este
vocábulo remete o ouvinte à imagem sensorial de "arranhar", "arder" ou "atritar"; por
exemplo, a tosse (Husten) nervosa (irritativa) era designada pela composição Reizhusten
("tosse irritativa"). Freud freqüentemente utiliza o termo Reiz ("estímulo") em conexão
com sensações corpóreas desagradáveis.
Outros termos são bastante concretos. A palavra alemã Leib ("corpo") refere-se a
um corpo de um ser vivente e, portanto, vincula-se ao processo vital. Não é aplicável,
como "corpo" em português, a objetos e entes abstratos (corpo da teoria, corpo de
bombeiros, corpos celestes). Quando um alemão fala,do Leib, tende a evocar o corpo
carnal. Quando utiliza a palavra de origem latina Kórper, também pode falar de seu
corpo vivo, mas tende a coisificá-lo como estrutura ou conceito.
Grande parte das palavras alemãs abstratas é cpmposta por partículas e p·or verbos
simples, que se referem a movimentos e gestos. Por exemplo, o vocábulo Vorstellung,
traduzido normalmente por "idéia", "concepção", ou ainda por "representação", é uma
substantivação do verbo vorstellen, que se compõe de stellen ("colocar", "pôr") e do
prefixo vor- ("ante", "diante de"). Sua composição evoca o ato de "colocar diante de si",
apelando, ao mesmo tempo, para o aspecto dinâmico de buscar algo de um repositório
de imagens e colocá-lo diante de si, como também para o aspecto fortemente imagéti­
co-visual. Isto ocorre sem que o falante tenha de apelar para as origens etimológicas
do termo. Esse sentido é fornecido pela língua viva, pois vor- e stellen são corriqueira­
mente utilizados em separado, como palavras autônomas. Em português tal sentido,
em parte, apareceria num dos sinônimos acima ("representar"), se o falante tivesse
presente o sentido da composição latina: re- ("de volta", "para trás", "novamente") e
praesentare ("tornar presente", "mostrar", "apresentar"). Mais remotamente, a lig�ção
com uma imagem também pode ser buscada nas origens de outro sinônimo mencio­
nado, a palavra "idéia", derivada do grego idéa (Gestalt, figura, forma, configuração),
oriunda da raiz indo-européia *ueid- ("ver", "reconhecer").
Em geral, a língua alemã dispõe, para cada termo germânico, de um equivalente
latino ou grego ''.germanizado" (por exemplo, provozieren - "provocar", Idee - "idéia",
Kõrper - "corpó"), mas o sentido dos termos de origem greco-latina em alemão é mais
mental e absti;ato e algumas vezes tem um ar de linguagem difícil. Os termos
28 Breve Comentário sobre a Língua Alemã

germân icos, mesmo quando abstratos, remetem o falante do alemão à experiência mais
imediata e concreta.
Entretanto, é necessário cuidado quanto a certas inferências sobre a terminologia
germân ica utilizada por Freud, pois nem sempre o fato de os termos germânicos terem
maior riqueza conotativa para o falante de alemão sign ifica que Freud os empregue de
maneira a produzir tais efeitos no leitor. Não é o termo em si, mas o contexto e a forma
como é inserido na frase que determinarão quais das suas possíveis conotações e
sentidos serão ativados para o leitor.
Se Freud utiliza alguns termos de forma a tirar partido de toda a riqueza conotativa
de determinadas palavras germân icas e estes comjustiça se tornaram verdadeiros cults
das traduções - por exemplo, besetzen ("catexizar", "investir") ou verleugnen (''recusar",
"negar") - , outros são empregados de forma tão indiferenciada que poderiam
oerfeitamente ser substituídos por alguma palavra aproximada sem perda de significa­
dos. É o que ocorre com as pal�vras Weib (".mulher-fêmea") e Frau ("�ulher-senhora" ),
que possuem amplo universo conotativo e que na língua coloquial podem ser usadas
de modos bastante diversos. Todavia, n os textos de Freud, alternam-se de forma quase
indistinta e aleatória, sem que se possam derivar quaisquer conseqüências teórico-psi­
canalíticas desse uso.

Alemão vienense

Além dos aspectos gramaticais e semânticos até agora comentados, cabe uma
observação sobre uma questão freqüentemente levantada a respeito das especificidades
do alemão vienense.
Freud utilizava-se do mesmo alemão culto falado em todos os __países de língua
alemã, que se designa de "alto-alemão" (Hochdeutsch). O grau de homogeneidade do
Hochdeutsch é semelhante ao do português culto falado nas diversas capitais brasileiras.
As grandes diferenças entre os falares regionais não são típicas do alto-alemão, mas
dos dialetos. Há maiores diferenças dialetais dentro de cada país do que n o alto-alemão
falado em diferentes países. As particularidades do alto-alemão falado numa região, a
pronúncia, a entonação e as expressões locais não chegam a constituir um dialeto e
pouco aparecem n o alemão escrito. Assim, o alemão de Freud pode ser partilhado com
naturalidade por não-austríacos, tais como o suíço Jung, o alemão Abraham, o húngaro
Ferenzci, e por n ós, seus leitores atuais.
Para Consultar os Verbetes

\
\
Os verbetes podem ser localizados diretamente pela sua designação em português.
Para as consultas a partir do espanhol, do francês e do inglês, ou pelo original alemão,
deverão ser utilizados os glossários que constam no final do livro (p. 360).
Os verbetes dos glossários precedidos de asterisco não figuram . como verbetes
autônomos, mas aparecem ou são citados no corpo do texto dos verbetes principais.

Itens e códigos utilizados

Cada verbete é precedido por um resumo que apenas delimita o tema.

Os primeiros dois módulos situam o verbete na lfrígua alemã.

Composição do termo: Apresenta e comenta separadamente o significado de cada um dos


prefixos, infixos, sufixos e radicais que compõem o termo.

Significados em alemão: Traz os vários significados da palavra, extraídos de dicionários


antigos e atuais, acompanhados de exemplos de frases cotidianas e literárias,
traduzidas do alemão para o português. Cada significado aparece numerado.

Conotações em alemão: Ressalta aspectos conotativos marcantes tanto na linguagem


corrente como no uso lingüístico que Freud faz do termo. Cada conotação é
precedjda por uma letra maiúscula.

Etimologia: Apresenta a etimologia da palavra e das partes que a compõem. Em geral


volta às prováveis fontes indo-européias. O asteriscos indicam que se trata de
suposição.

Termos correlatos, derivados e compostos: São apresentados outros termos que tenham o
mesmo prefixo ou o radical em comum com o verbete em foco. O leitor pode
visualizar os' efeitos que determinado prefixo, ou o radical em destaque, produz
quando entra na composição de outras palavras alemãs.
30 Para Consultar os Verbetes

O terceiro módulo compara o termo alemão com a palavra habitualmente utilizada


corno seu equivalente nas traduções psicanalíticas em português. Termos que não
possuem denotações e conotações no português coloquial (por exemplo, "função
escópica", "catexia" etc.) não são comparados com a palavra original alemã.

Significados adicionais do termo em português ausentes no equivalente alemão: Contém os


significados possuídos pela palavra portuguesa, mas não pelo termo original
alemão. Os significados são extraídos de um dicionário atual e acompanhados de
exemplos de frases cotidianas e literárias. Sua numeração prossegue a partir do
último número utilizado para identificar os significados do verbete em alemão.

Conotações adicionais do term-o em português ausentes na equi1..Jalente alemão: Traz as viri3.s


conotações que a palavra portuguesa possui e que não existem no verbete original
alemão. As letras que identificam cada conotação prosseguem a partir da última
letra utilizada para a conotação do verbete em alemão.

Resumo das diferenças de significados e conotações: Apresenta urna tabela contrastiva que
relaciona e compara ponto a ponto os significados e as conotações do termo em
alemão com os do termo em português que lhe serviu de tradução. A partir dos
números e letra, o leitor pode visualizar os pontos de correspondência ou as
diferenças entre os termos de cada idioma.

O quarto e o quinto módulos referem-se mais diretamente ao uso freudiano do


termo alemão. No quarto, são apresentados exemplos de frases e trei;hos da obra de
Freud; no quinto, tais exemplos são comentados e discutidos.

Exemplos de uso em Freud: São apresentados exemplos (frases isoladas ou parágrafos


inteiros) que permitem verificar a inserção do verbete no texto freudiano. Os
exemplos foram selecionados conforme critérios variados - alguns foram extraí­
dos de períodos diversos, outros provêm de um só artigo. Todos os exemplos são
numerados, pois no item seguinte, intitulado "Comentários", as considerações a
respeito dos exemplos referem-se a eles através desses números. Todos vêm com
indicação da fonte e da página, para que o leitor possa facilmente voltar ao texto
freudiano de onde foram retirados. São apresentados em português conforme a
tradução da Edição Standard Brasileira (segunda edição revisada). Foram também
acrescentadas notas de rodapé a fim de esclarecer algum aspecto n ão abrangido
pela tradução. Em alguns casos procedeu-se a uma tradução livre. Sem preocupa­
ções literárias, a tradução visa apenas destacar determinadas conotações e, em
Para Consultar os Verbetes 31

geral, procura seguir a estrutura e a cadência do original alemão. Exemplos no


original alemão encontram-se no final do livro (p. 421).

Comentários: Os aspectos lingüísticos do verbete são retomados e relacionados com os


exemplos do módulo anterior, que são comentados um a um e sempre indicados
por números. Procura-se evidenciar para o leitor brasileiro os efeitos de ênfase e
as correlações que as c�racterísticas lingüísticas do verbete, bem como o modo de
emprego dos termos por parte de Freud, produzem no texto alemão.

No final da maioria dos verbetes, o leitor encontrará indicações de outros termos a


eles relacionáveis, identificados por uma seta (�). Tais relações entre verbetes geralmen­
te são abordadas nos "Comentários" e aoenas ' .
reforcadas 'nelas setas indicativas.
Conforme mencionado na apresentação deste livro, trata-se de esboços e sugestões
para fazer aflorar alguns dos Leitmotive temáticos freudianos que percorrem o texto
psicanalítico.

Abreviações Bibliográficas

Edições das obras de Freud

A abreviação das obras de Freud é seguida da indicação do volume e da página


correspondente.

ESB Ediçiio Standard Bra.sdeira da.s Obra.s Psicológicas Completas de Sigmund Freud.
2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. 23 vol.
SA Freud - Studienausgabe. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag, 1989. 1 0 vol.
GW Gesammelte Werk. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag, 1985. 18 vol.

Dicionários de alemão e português

D Duden. Mannheirn, Wien, Zürich: Dudenverlag, 1 986. 10 vol.


DW Deutsches Worterbuch. Leipzig: 1854-1960, Neubearbeitung, A-Aktionszen­
trum, 1966-1986. 16 vai.
NDA Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1 986.
SBH Der Sprachbrockhaus. Leipzig: F.U. Brockhaus, 1 935.
WDW Wahrig-Deutsches Worterbuch. München: Verlagsgruppe Bertelsmann, 1993.
Metodologia Utilizada

As palavras não existem de per se, sempre se inserem num contexto em constante
mutação. No âmbito do alemão coloquial, em muitos casos, mesmo com o apoio de
dicionários, da fraseologia, de exemplos literários e de entrevistas, é difícil conseguir
objetividade na verificação dos sentidos e sobretudo das conotações. Ainda mais
complexo é estabelecer o emprego lingüístico freudiano da terminologia psicanalítica.
Fazer o texto freudiano falar por si é ficção. Um texto é lido, e cada leitor - e escola
de psicanálise - será mais sensível a determinados sentidos e conotações.
Entretanto, se não há como fazer uma leitura objetiva e neutra, é sempre possível
partilhar com o leitor as premissas e os critérios que sustentam as posições apresentadas.
A seguir, o leitor encontrará informações sobre os critérios que nortearam a escolha
de verbetes, sobre as fontes e critérios para fundamenta� as informações Iingüísticas
derivadas do âmbito coloquial e sobre a metodologi� utilizada na elaboração dos
comentários a respeito do emprego freudiano dos temÍos.

Critérios para seleção dos. verbetes

Do ponto de vista lingüístico, o critério de seleção dos verbetes guiou-se por dois
tipos de leitura, urna contrastiva, a outra literária.
A contrastiva é atenta à tradução do verbete isolado. Partindo das diferenças
entre o português e o alemão, busca restituir significados e conotações que se
perdem na tradução. Foram procurados aqueles termos que passam despercebidos
na leitura alemã, mas que, ao serem traduzidos, causam tal estranheza ou perda de
sentido em português que vale a pena retomá-los.
A literária procede do texto alemão. Aponta para aspectos semânticos e estilís­
ticos do texto freudiano. Busca evidenciar nos verbetes as características Iingüísticas
das quais Freud tirou partido para imprimir uma estampa ou melodia no Lexto.
Foram excluídos os verbetes que, apesar de possuírem ricas conotações semânticas
·e literárias, são empregados por Freud de forma restrita ao sentido imediato e
indiferente às nuances, isto é, sem tirar proveito de suas características Iingüísticas.
Todavia, a seleção de verbetes, além de pautar-se por questões lingüísticas, tem de
ser orientada por critérios de relevância teórico-psicanalítica. Por isso, procurou-se
incluir os verbete,s já clássicos, por terem sido ressaltados por teóricos e tradutores
34 Metodologia Utilizada

de orientações diversas, notadamente Bettelheim, Etcheverry, Lacan, Laplanche, Stra­


chey etc., bem como pelos índices remissivos de edições das obras completas alemãs e
de diversos dicionários de psicanálise. A exclusão de alguns verbetes privilegiados por
esses autores não se deve a questões de teoria psicanalítica, mas a critérios lingüísticos.
Apresentamos cada termo freudiano a partir do verbete em si, fazendo-o emanar
por conta própria os sentidos e as conotações, para só então procurá-los no fluxo do
texto freudiano: evidentemente se trata de um recurso didático de apresentação, pois
palavra, texto e contexto entrelaçam-se.
Entrecruzando-se as leituras linguísticas e os aspectos de relevância teórica e
levando-se em conta as peculiaridades da língua portuguesa, dos cerca de 200 termos­
base alemàes que constam nos diversos dicionários de psicanálise e nos índices das
traduções, foram descartados cerca de 160.

Foram excluídos:
1) Verbetes de origem greco-latina, tais como histeria (Hysterie), libido (Libido),
neurose (Neurose), sexualidade (Sexualitat) etc. Seus significados são praticamente os
mesmos em português.
. 2) Verbetes que não têm sentido ou conotação particularmente diferentes do
português, tais como sonho (Traum), autopreservação (Selbsterhaltung), meta (Ziel) etc.
3) Verbetes que, embora apresentem diferenças conotativas e denotativas com
relação às palavras que os traduzem, podem ser facilmente esclarecidos através de
traduções adicionais - por exemplo, a palavra Stauung, traduzida por "estase�·. mas
que corresponde a "represamento", ou ainda a palavra Schicksal traduzida com
freqüência por "vicissitude", mas que corresponde a "destino".
4) Verbetes que, apesar de possuírem diferenças conotativas com relação ao
português, às vezes difíceis de explicitar, não são utilizados por :Ereud de forma
diferenciada. Por exemplo, Leib (algo como "corpo carnal") e Weib (algo como "mulher­
fêmea" ou "a fêmea genérica"). Trata-se de termos que podem ser trocados no texto
freudian,o por equivalentes aproximados sem perda de sentido, pois Freud só os
emprega no sentido imediato e restrito, sem tirar partido de suas conotações.
5) Verbetes que, não obstant� possuam características lingüísticas interessantes e
sugestivas para reflexões no contexto analítico, não são empregados nem no alemão
coloquial nem no texto freudiano de forma a remeter a tais características. Por exemplo,
o verbo "repetir" (wiederholen), cuja composição é "buscar-de-novo", ou o substantivo
"cura" (Heilung), cuja etimologia se liga ao "inteiro" e ao "sagrado", e se diferencia
essencialmente da noção latina de "cura" , ou ainda o termo "culpa" (Schuld), cuja
polissemia, além do significado de "culpa", admite ainda o sentido de "dívida". São
todas características bastante sugestivas, mas que não aparecem nem no e mprego
cotidiano nem em Freud.
6) Verbetes maiores, compostos por palavras tratadas isoladamente neste livro. Por
exemplo, as palavras Triebbefriedigung ("satisfação da pulsão") ou Wunschvorstellung
Metodologia Utilizada 35

("representação do desejo") não são discutidas, pois seus componentes Trieb e Befriedi­
gung ou Wunsch e Vorstellung já constam como verbetes individuais.

Para os 40 verbetes incluídos, os principais critérios foram:


1 ) Verbetes cujas caraterísticas lingüísticas germânicas são usadas por Freud,
deliberadamente ou não, de forma a produzir efeitos estilísticos e semânticos importan­
tes para a melhor compre�nsão teórica de determinados aspectos. Trata-se, portanto,
de termos cuja leitura permite fazer aflorar uma estampa ou melodia que os interliga a
verbos, adjetivos, substantivos e a outros termos psicanalíticos, conferindo ao texto e à
teoria uma tonalidade que é evidente ao leitor alemão, mas que se perde em algumas
traduções. Por exemplo, a relação entre Reiz ("estímulo") e bewiiltigen ("dominar",
"enfrentar", "lidar"), ou a relação entre o verbo durcharbeiten ("elaborar", "perlaborar")
P 0 �,"1 l)�t�!"!��"º 1iV?·d�'Y"S°!f:!';!,i ( "!'"e�!�tê::ci�").

2) Verbetes que independentemente de sua efetiva importância semântica fazem


parte de uma tradição de debates entre tradutores e comentadores, como Seele ("alma",
"mente" e "psique").
3) Verbetes cuja tradução é problemática - por exemplo, Trieb ("pulsão", "instin­
to", "impulso"), Angst ("medo", "angústia" e "ansiedade") ou Vorstellung ("repre­
sentação", "idéia", "concepção", "imagem").
4) Verbetes cujas traduções inadequadas causará'm dificuldades de entendimento,
tais como binden, traduzido amiúde por "ligar" (muitas vezes entendido erroneamente
como "vincular"), mas cujo significado é "ligar"; na acepção mais física de "fixar",
"aprisionar", "atar" ou "amarrar", ou Versagung,' traduzido por "frustração" (com
freqüência entendido erroneamente como "sentimento de estar frustrado"), mas cujo
significado é "impedimento" ou "interdição".

A maioria dos verbetes foi incluída ou excluída em razão de uma superposição de


critérios. Em alguns casos, houve certa hesitação antes de tomar uma decisão, devido ao
fato de os motivos de exclusão e inclusão se contraporem, criando casos limítrofes. Isto
ocorreu, por exemplo, com o verbete unvertriiglich ("incompatível", "intolerável"), afinal
incluído, e com o verbete Spaltung ("cisão", "clivagem"), por fim excluído. Para o objetivo
deste livro, a relevância teórica é um critério necessário, mas não um critério suficie_nt;e;
portanto, nesses casos, mais do que uma concepção teórica e estrutural da obra freudiana,
valeu a análise dos trechos onde os termos aparecem, tentando-se, quando possível,
verificar até que ponto determinadas conotações distintivas do termo são ou não evocadas
para o leitor alemão do texto freudiano, bem como se há para o leitor brasileiro
1
dificuldade de entendimento em virtude de diferenças de polissemia e conotação.

Alguns verbetes apri,sentam maiores dificuldades, como por exemplo Abkõmmling("derivado"). Esta palavra designa
os derivados das i�éias ou representações recalcadas. Conotativamente, Abkõm,nling remete a um "descendente",
36 Metodologia Utilizada

Denotações e conotações

Fontes de consulta para as denotações

As denotações dos verbetes foram extraídas de dicionários. Em alemão


foram consultados três dicionários: Deutsches Wõrterbuch ( 1 854-1960), Der Sprach­
brockhaus ( 1 935) e Wahrig-Deutsches Wõrterbuch ( 1 993 ), e para a tradução, o
. Dicionário de Alemão-Por tuguês ( 1 987). Para comparações com o português, foi
utilizado o Novo Dicionário Aurélio ( 1 986). Também foram utilizados o dicionário
médico Lexicum Medicum Polyglottum ( 1 905) e o manual de neurologia Lehrbuch
der Nervenkrankheiten ( 1 894).

Estabilidade de significados

Em geral, o Deutsches Wõrterbuch ( 1 854-1 960) inclui usos e exemplos de até três
séculos atrás. Foram considerados apenas os sentidos que eram atuais ao final do
século :IDX e cotejados com um dicionário de 1 935 e outro de 1 993. Muitos verbetes
tornaram-se antiquados para determinado uso, ou já eram incomuns na época, porém
não foi encontrado nenhum verbete cujo significado se tenha realmente alterado a
ponto de causar dificuldades ou distorções de entendimento para os leitores alemães
atuais.

Critérios de classificação das denotações

Freqüentemente o leitor verá que não há coincidência entre os significados que


encontrará nos dicionários e os sentidos que foram atribuídos, neste livro, ao verbete.
Por vezes, dois ou três sentidos considerados diferentes no dicionário foram agrupados

"rebento" ou "filhote", ou ainda a algo -"proveniente". Há no termo ênfase no "brotar" de uma origem que gera
"descendência'', bem como a conotação de algo "vivo" e "autônomo". Tais conotações são mais presentes no termo
alemão do que na palavra portuguesa "derivado", aliás pouco usual como substantivo. No contexto psicanalítico,
tlbkõmmling remete à imagem de novas "idéias" que vão brotando da "idéia" ou "representação" recalcada e que,
como rebentos que passam a ter vida própria, vicejam na vida psíquica. Contudo, na teorização freudiana isto não
gera conseqüências muito diversas do termo "derivado", pois a concepção central de Freud a respeito destas "idéias"
é que sejam oriundas das idéias recalcadas e, por associações ao longo da malha de re•Jresentações, se afastem da
idéia original, vindo a situar-se em pontos mais afastados da malha de representações. Tais derivados não são mais
reconhecidos como originários de uma idéia recalcada, e graças a essa distância podem eventualmente entrar na
consciência ou assumir a forma de sintomas. Na palavra "derivado", utilizada na tradução brasileira, a noção
fundamental de "origem" e "descendência" não se perde. É verdade que Freud utiliza, em conexão com o substantivo
Abkõmmling, verbos e adjetivos ligados a vivacidade, energia e atividade; porém, se esta conotação de vitalidade e
autonomia não está presente na palavra "derivado", ela é devolvida pelo contexto e pelo sentido das frases freudianas,
mesmo no texto em português. Debruçar-se sobre esse tipo de diferença é necessário para um tradutor de Freud,
mas sobrecarregaria o gênero de leitura proposta neste livro; portanto, termos desse tipo foram afinal excluídos.
Metodologia Utilizada 3?

num só significado. Por exemplo, o verbete "representar" figura no Novo Dicionário


Aurélio como possuindo, entre outros, três sentidos, designados pelos números 3, 1 3 e
1 6. O conteúdo de cada um é diverso: 3) "participar de um espetáculo teatral, de filme,
etc., desempenhando um papel, interpretar: Procópio Ferreira representou magistralmente
O Harpagão de Moliere"; 1 3 ) "desempenhar as funções de ator: O célebre ator deixou de
representar ainda jovem"; e 16) "desempenhar um papel: As meninas representarão de anjo
nas festas marianas". Os 'três sentidos foram agrupados neste livro sob um único
significado: "interpretar, figurar: Na peça ele representará o vilão". Não se pretende com
isto corrigir critérios de classificação estabelecidos por lingüistas - esse tipo de
reagrupamento de sentidos foi feito sempre que pareceu mais confortável, para o nosso
manuseio, apagar certas sutilezas ou diferenças de sentido que não afetam o sentido
central do verbete no contexto psicanalítico.

Demarcação entre denotações e conotações

Não é fácil estabelecer critérios de demarcação entre as ordens da denotação e da


conotação. Foi considerado da ordem da conotação tudo o que não estivesse explicitado
no dicionário. Assim é possível que o leitor enco{!,tre, sob a rubrica de conotação,
aspectos que, de acordo com outros critérios, poderiam ser classificados de denotativos
e vice-versa. Foram também incluídas corno conotações várias ilações e deduções
lógicas, que a rigor não pertenceriam nem ao campo denotativo nem ao campo
conotativo. Entretanto, por serem decorrências lógicas de aspectos conotativos, foram
incluídas no item das conotações. É o caso, por exemplo, dos verbetes Abfuhr ("descar­
ga", "escoamento", "retirada") e Bahn ("via", "caminho"). Consid-:rou-se que Abfuhr
remete conotativamente à idéia de "deslocamento por urna via (Bahn) até a saída", pois
aquilo que é retirado ou escoado, em geral, percorre uma via ou caminho de saída.
Trata-se de urna ligação lógica (e também freqüente no texto freudiano). Portanto,
embora a idéia de percorrer urna Bahn não seja precisamente uma conotação de Abfuhr,
foi considerada como tal.

Conotações pessoais e coletivas

As conotações pertencem a um âmbito extradicionário, onde imperam a subjetivi­


dade individual e as referências culturais comuns a determinados grupos. Toda palavra,
conforme o contexto e o leitor, admite vários sentidos e muitas conotações. Qualquer
listagem de sentidos e conotações será sempre incompleta e distorcida pela cadeia de
associações e referências pessoais de cada falante. De Freud, que as empregou, e de nós
que as lemos. ;Há uma distância entre a compreensão individual e a idéia de que as
palavras tenham sentido fixo e sempre objetivo.
38 Metodologfa Utilizada

Alguns autores procuram rastrear a linguagem psicanalítica ao' nível pessoal e


íntimo de Freud. Aspectos como a influência do ídiche, da linguagem médica, do
alemão vienense, das leituras bíblicas de Freud, dos traços sensoriais mais marcantes
de sua infância, de suas neuroses pessoais etc. têm sido ressaltados como chaves
importantes para a leitura de sua obra. Tais investigações estão fora do âmbito deste
trabalho, que não visa perscrutar as influências e as intenções estilísticas de Frc:ud, mas
explicitar os sentidos e os efeitos conotativos mais evidentes e comuns produzidos sobre
o leitor alemão, bem como minimizar algumas distorções da tradução do alemão para
o português.
Por isso, o material, uma vez elaborado, foi submetido, através de entrevistas, a
alemães e austríacos de diversas regiões, idades e níveis sociais, para depurar o que
fosse excessivamente pessoal do autor e dar maior sustentação ao conteúdo. Assim, por
exemplo, no caso do verbete durcharbeiten ("perlaborar", "elaborar", "trabalhar"), as
entrevistas indicaram que era necessário diminuir a ênfase dada ao aspecto de "traba­
lho penoso e cansativo", inicialmente atribuído ao . termo. A conotação de algo
"exaustivo" é bastante presente no emprego freudiano do termo e emparelha-se com a
tarefa de vencer a resistência. Entretanto, apesar de ser uma conotação comum ao verbo
durcharbeiten em seu uso coloquial, é algo mais freudiano do que inerente ao termo.
As entrevistas visaram apenas eliminar as conotações que causaram estranhamento
a leitores diversos; não houve preocupação em seguir metodologicamente roteiros que
reduzissem os efeitos de sugestão que qualquer entrevista dirigida produz. Tampouco
houve a pretensão de considerar tais entrevistas como fome de legitimação estatística.

Etimologia

O item "Etimologia" foi incluído pelo interesse histórico. Seu valor para elucidar
o sentido do termo no alemão corrente, ou para eventuais inferências psicanalíticas, é
muito frágil. Por via de regra, as conexões etimológicas não são mais perceptíveis aos
falantes atuais; além disso, muitas das origens retroativamente traçadas são hipotéticas.
É o caso do termo "desejo" (Wunsch), supostamente derivado da raiz indo-européia
* wn[.)]-, ("circular", "vagar procurando por algo"). Provavelmente referia-se à ação de
procurar alimento ou de rastrear pistas na guerra. No indo-europeu, dessa raiz
derivaram os sentidos de "procurar", "desejar", "amar", "gostar", "exigir" e �necessitar".
No antigo indiano já se encontram as formas vánati ("deseja", "deseja intensamente",
"ama") e vanas- ("desejo intenso" , "vontade prazerosa") e no latim, venus, -eris ("prazer
amoroso"). Mais adiante os sentidos se estendem para "ter esperança", "supor",
"aceitar", "estar satisfeito". Em alemão, palavras como Wahn ("loucura"), gewohnen
("acostumar-se"), Wonne ("prazer"), gewirÍnen ( "vencer") e wohnen ( "morar") pertencem
ao mesmo tronco originário de Wunsch. No antigo alto-alemão a palavra tinha a forma
wunsc e já designava "ambição", "algo almejado".
Metodologia Ut111zada 39

Apesar do eventual sentido psicanalítico das conexões etimológicas entre "desejar",


"precisar", "ter prazer", "ter esperança" e "loucura", ele não é óbvio para os falantes
do alemão atual. Assim, quaisquer reflexões psicanalíticas a partir de tais conexões não
poderiam basear-se no alemão, mas teriam de calcar-se numa teoria psicanalítica da
linguagem que relacionasse semântica, etimologia e psicanálise.
Quanto à fonte consultf-da para levantamento das origens etimológicas, foi utilizado
o Herkunftswõrterbuch-Dude'n ( 1989). Não é o único dicionário etimológico alemão, mas
é considerado uma obra fundamental de referência.
Para a maioria dos verbetes foi possível encontrar referências a uma origem
indo-européia; nos casos em que nada constava, foram utilizadas referências a períodos
mais tardios, onde há fontes escritas. Alguns verbetes compostos ou prefixados são
mais difíceis de rastrear etimologicamente; nesses casos foram apenas apresentadas as
origens etimológicas das partes que compõem a palavra (afixos e radicais).

Termos correlatos, derivados e compostos

Para permitir ao leitor visualizar os efeitos que determinado prefixo ou radical


produz quando entra na composição da palavra, foram apresentadas outras palavras
que tenham o mesmo prefixo ou radical em comum cpm o verbete discutido. Conforme
citado nos comentários sobre a língua alemã (p. 24), nem sempre os prefixos ou os
radicais em destaque têm sentido único e constarite, mas, em geral, seus significados
estabilizaram-se em algumas direções. Ao se apresentarem termos correlatos derivados
e compostos, a intenção foi evidenciar algumas dessas vertentes de significado corre­
lacionadas com o sentido do termo em foco.

Comparação entre os termos alemães e os portugueses

Para a comparação com o português, foram privilegiadas as alternativas de


tradução compostas por palavras portuguesas com autonomia de sentido fora do
âmbito psicanalítico, tais como "investimento", "rejeição", "negação" e "recusa", em
vez de termos mais técnicos, tais como "catexia" ou "forclusão". Isto não significa, que
se considerem as alternativas do português corrente melhores do que os termos mais
técnicos - trata-se apenas do fato de que termos que não possuem denotações e
conotações no português coloquial são geralmente neologismos compostos por radi­
cais greco-latinos, ou galicismos, que não oferecem muito material de comparação com
termos alemães derivados da linguagem cotidiana.
Elaborou-se µma tabela comparativa para facilitar a visualização das semelhanças
e das diferenças 'entre os termos. A comparação dos termos em uma tabela contrastiva
é um empreendimento arriscado. Fixar, numerar e comparar grandezas não discrimi-
40 Metodologia Utilizada

náveis como números discretos (que saltam de unidade a unidade), mas que são
perceptíveis como fenômenos de gradação e predominância de sentidos e conotações,
é muitas vezes inviável. Além disso, há uma fluidez inerente aos sentidos e às
conotações, em virtude da peculiaridade com que cada sujeito usa as palavras no seu
idioma. Por fim, para desencorajar tal tentativa, há o fato de que as palavras dificil­
mente podem ser analisadas de per se, pois o contexto da frase, em geral, atribui à
palavra muiw de seu sentido, independentemente dela mesma.
Se, contudo, apresentamos tal tabela contrastiva, foi para facilitar a delimitação do
termo alemão a partir do português. Não houve a intenção de fixar de modo definitivo
os sentidos _e as possibilidades de cada palavra; trata-se de uma aproximação, de uma
maneira de circun�crever e dar contorno ao sentido e à tonalidade dos termos.

O emprego freudiano dos termos

Tal qual ocorreu na seleção de verbetes, também para se chegar aos sentidos e às
conotações no âmbito do texto freudiano, foi necessário entrecruzar as três grades de
leitura já mencionadas: uma contrastiva, em busca das diferenças entre o português e
o alemão, uma literária, em busca de efeitos estilísticos e semânticos, e uma teórico-psi­
canalítica, em busca de aspectos teóricos ressaltados pelo uso freudiano da palavra. As
três lei turas ocorrem simultaneamente, uma orientando a outra. Apenas onde foi
possível fazer as três leituras convergirem, foi considerado lícito sustentar determinada
afirmação sobre o significado e sobre as conotações do termo e incluí-los no item
"comentários".
A seguir, o leitor poderá observar, através do exemplo da palavra Erfüllung
("realização"), como se procedeu para situar os verbetes no texto freudiano.

Leitura contrastiva

A leitura contrastiva parte do português. Do ponto de vista do português, ao se


listarem possíveis significados da palavra Erfüllung ("realização", "satisfação", "cumpri­
mento"), é relevante o fato de seu emprego ser mais restrito em alemão. Em português
pode-se utilizar o termo "realização" com o significado de "tornar realidade" (realizar
um desejo), "cumprir" (cumprir urna promessa) e "satisfazer" (satisfazer urna expecta­
tiva ou desejo), bem corno no sentido de "fazer" (realizar uma boa gestão administra­
tiva). Em alemão a palavra Erfüllung não é empregada na última acepção. Cabe destacar
que, conotativamente, o termo alemão se liga à realização de desejos, sonhos, expecta­
tivas, pedidos, ideais e ao ambiente da fantasia, dos contos de fadas etc., mas o termo
Metodologia Utilizada 41

não tem vínculo com o sentido de "fazer" e tampouco com o de "satisfação" de desejos
mais imediatos (vontade, sofreguidão, desejo sexual). Numa leitura contrastiva partin­
do do inglês, possivelmente essa característica passaria despercebida, pois fulfillment
tem uso semelhante a Erfüllung e seria encaixado pelo leitor de forma "natural" no
f11Lxo do texto. Essa tonalidade conotativa em geral também se destaca de imediato
para o leitor alemão, poi)he parecer um tanto quanto óbvia.

Leitura literária

A leitura mais literária volta-se ao texto de Freud à procura de verbos, adjetivos e


substantivos associados, e também leva em conta o contexto.Tal leitura apontaria, entre
outras coisas, para uma predominância do uso de Erfüllung em composição com
Wunsch ("desejo"), formando a palavra Wunscherfüllung ("realização do desejo").
Outrossim, indicaria alta freqüência de emprego do termo no contexto da interpretação
dos sonhos e das alucinações. A palavra Wunsch também evoca em alemão o sentido
de "desejo" como algo almejado, imaginado, com freqüência pertinente ao âmbito do
sonho e do ideal, portanto diverso do desejo mais imediato (vontade, sofreguidão,
desejo sexual). Assim, diferenciando de modo mais nítido o termo Erfüllung ("realiza­
ção") da palavra "satisfação" e o termo Wunsch ("desejo") das palavras "vontade" e
"necessidade", fica mais evidente que Erfüllung não se aplica diretamente à esfera mais
corpórea, perceptiva ou sexual. Tais aspectos estabeleceriam lingüisticamente a ligação da
composição Wunscherjüllung ("realização do desejo") com uma tonalidade e conotação de
algo que percorre a esfera da fantasia, do imaginado. A leitura literária procura funda­
mentar essas conexões, que são iniciais e parciais, a partir do texto original de Freud e do
uso coloquial, sem apelar para o português e sem apoiar-se na teoria freudiana.

Leitura psicanalítica e lingüística

Por fim, uma leitura que entrecruze a língua alemã e os aspectos de cunho
teórico-psicanalítico poderia buscar trechos e textos de Freud onde é abordada a
questão da "realização" do desejo e compará-la com trechos sobre a "satisfação" do
desejo. Tal análise destacaria duas vertentes de verbos e substantivos interligados, uma
que remete ao desejo de cunho mais imaginário (Wunsch) e outra que remete ao desej o
d e natureza mais carnal e imediata ( Trieb - "pulsão", "instinto") ou (Lust - "desejo",
"vontade"). Isto permitiria desenvolver duas seqüências cujajustificativa seria demasia­
do longa, mas que são apresentadas apenas a título de ilustração:
42 Metodologia Utilizada

seqüência de Wunsch:
[Bild ("imagem") - Gediichtnis ("memória") - halluzinieren ("alucinar") - Erfül­
lung ("realização") - Wunsch ("desejo") - Vorstellung ("representação", "idéia") -
denken ("pensar")].

seqüência de Trieb e Lust:


[Reiz ("estímulo") - Partialtrieb ("pulsão parcial") - Organlust ("prazer de órgão")
Sexualfunktion ("função sexual") - Befriedigung ("satisfação")] .

E m ambas as seqüências há uma interessante correlação de significados e conota­


ções entre os verbetes - por exemplo, os termos que compõem a seqüência de Wunsch
e Erfüllung são mais imagéticos e ligados à fantasia; os da seqüência de Trieb e
Befriedigung são mais corpóreos, sensoriais e ligam-se àquilo que espicaça. Evidente­
mente ambas as vertentes não correm em separado: entrelaçam-se. Conforme o foco
de leitura, podem-se ainda constituir seqüências bem diversas - por exemplo, atraves­
sando-se em diagonal as seqüências acima, é possível desenvolver uma seqüência que
conduz do nível sensorial para o mental e representacion2l:

seqüência de Lust e Wunsch:


[Reiz ("estímulo") - Lust ("vontade", "desejo", "prazer") - halluzinieren ("aluci­
nar") - Wunsch ("desejo almejado") - Denken ("pensar") - Wortvorstellung ("repre­
sentação da palavra","imagem da palavra")].

Para desenvolver tais relações entre os termos e os temas freudianos é necessário


guiar-se por uma concepção teórica da obra que leve em conta o conjunto do
pensamento freudiano e a evolução conceituai pela qual determinados termos passa­
ram. Entretanto, apesar da importância das contribuições teóricas das diversas escolas
de psicanálise, mais do que esta ou aquela concepção teórica e estrutural da obra
freudiana, foi determinante a análise dos trechos originais onde os termos aparecem.
No caso da palavra Erfüllung, o termo acabou não figurando neste livro como verbete
autônomo, pois vincula-se de tal modo ao conceito de desejo (Wunsch) que foi incluido
nos comentários a respeito desde último.
· De forma geral, foram sempre analisados exemplos de frases e parágrafos de
diversos períodos da obra. Procurou-se verificar até que ponto conotações distintivas
do termo produzem um reforço enfático que sublinha determinadas conexões teóricas.
Trata-se de conexões entre verbetes que podem se guiar por critérios variados. Por
exemplo, em vez de palavras e conceitos ligados às "imagem" ou ao "corpo", poder-se-
Metodologia Utilizada 43

iam alinhar outros grupos de conceitos conforme processos de defesa que impliquem
"rechaço" e "fechamento", ou ainda segundo "graus de desconforto" etc.
Conforme mencionado na apresentação, tais relações são apenas alguns Leitmotive
freudianos que percorrem o texto psicanalítico; caberá ao leitor prossegui-los, ou
rearranjá-los. Trata-se de conexões e conotações que podem ser atribuídas aos verbetes
a partir de uma fundamentação que se apóia tanto sobre os dados lingüísticos do âmbito
coloquial quanto sobre os\ textos freudianos dos quais se extraíram os exemplos de
frases e trechos.

Critérios de escolha dos exemplos de frases e parágrafos da obra de Freud

Inicialmente, dos quase 200 termos-base, 92 verbetes foram pesquisados e testados.


Para cada um foi feita uma lista de trechos onde o verbete aparece. Muitos verbetes
foram mais tarde descartados por não se verificar, no conjunto de exemplos retirados
da obra, uma tendência de uso e um aproveitamento das conotações do termo por
parte de Freud. Isto ocorreu, por exemplo, com os verbetes Heilung ("cura") ou Weib
("mulher-fêmea"), que, conforme já visto, foram utilizados por Freud sem levar em
conta as conotações.
No caso dos termos em que foi possível confirmar uma nítida tendência de Freud
a empregá-los de maneira mais enfática, tirando proveito de conotações e correlações,
foram privilegiados os exemplos de trechos onde denotação e conotação são mais
evidentes. Portanto, nem sempre foram escolhidos os exemplos classicamente adotados
para ilustrar certos aspectos teórico-psicanalíticos a respeito de determinado conceito,
mas os trechos que melhor ilustram lingüisticamente os sentidos e as conotações alemãs
da palavra:
Em alguns casos só foi possível encontrar bons exemplos em artigos escritos num
determinado período da obra, ou mesmo num único artigo. Ocasionalmente foram
utilizados textos que, no percurso teórico de Freud, não são considerados centrais,
como também às vezes não se usaram exemplos oriundos de textos tidos como
fundamentais, por serem exemplos pouco ilustrativos do ponto de vista lingüístico.

Estabilidade de emprego e evolução na conceituação

Não se pode contar com uma estabilidade de sentido e conotação ao longo de toda
a obra, pois nem sempre Freud utiliza as palavras na acepção coloquial.
Embora valorize a sabedoria psicanalítica contida na linguagem comum e popular,
Freud emprega c9m freqüência termos psicanalíticos que são herança de usos psiquiá­
tricos e filosóficos, utilizando-os, desde o início, de maneira particular. Outros ora são
empregados de forma próxima ao uso coloquial, ora ganham autonomia teórica,
44 Metodologia Utilizada

transformam-se em conceitos psicanalíticos, perdendo o contato imediato com a


linguagem corrente.
Na obra de Freud isto ocorre com vários verbetes, utilizados ora num, ora noutro
sentido. É o caso de Angst ("medo", "angústia", "ansiedade"), Vorstellung ("repre­
sentação", "idéia", "concepção", "imagem") e Zwang ("obrigatoriedade", "coerção",
"compulsão", "obsessão"). Nos verbetes que possuem autonomia teórica ou que
sofreram mudanças de conceituação ao longo da obra, o leitor encontrará menção ao
fato.

Polissemia e contra-exemplos

As alterações no emprego do verbete em virtude de mudanças de conceituação não


devem ser confundidas com a polissemia natural da língua. Esta pode coexistir em
paralelo à evolução conceituai de certos termos. Verbetes polissêmicos podem ser
utilizados alternadamente em seus diversos sentidos. Em Freud, isto acontece com
termos como Übertragung ("transferência", "translado", "transposição", "contamina­
ção", �transmissão") e versagen ("fracassar", "privar", "proibir", "cometer lapso verbal"),
que conforme o contexto aparecem com diversos significados. Quando ocorrem, tais
casos são mencionados.
Outro efeito da polissemia é a substituição ocasional de um termo que tende a ser
usado em determinado contexto por um "sinônimo" de conotação bem diversa. Por
exemplo, os verbos beherrschen ("dominar"), bãndigen ("dominar", "amansar") e bewiil­
tigen ("lidar com", "dar conta"). Apesar de a língua alemã (e de Freud igualmente)
tender a utilizar. beherrschen de determinada forma e bãndigen e bewiiltigen de outra, os
três termos são intercambiáveis em certos contextos. Ocasionalmente Freud os utiliza
de modo indistinto. O emprego ocasional não desmente urna ce_ndência de uso
predominante para cada termo. Por conseguinte, o fato de haver contra-exemplos, em
que o termo em foco não é empregado com determinado sentido e conotação, não
significa que não haja uma nítida predominância de seu uso.
,,
DICIONARIO COMENTADO
DO ALEMÃO DE FREUD
Afirmação: Bejahung

E: Afirmación
F: AJ.firmation, acceptation
I: Affirmation

O substantivoBejahung e o verbo bejahen são geralmente traduzidos por "afirmação"


e "afirmar".
O significado de bejahen é dizer "sim", assentir, concordar. Conotativamente evoca
a explicitação do advérbio "sim". Também é empregado na linguagem da lógica.
Em português "afirmar" possui outros sentidos estranhos à palavra bejahen: signi­
fica "declarar", "falar com assertividade" e "impor-se" (afirmar-se).
Freud emprega o termo freqüentemente em conexão com verneinen (negar, dizer
"não"). apontando para a dicotomia entre o que é explicitamente verbalizado como
"sim" e "não" e os processos afetivos subjacentes.

---- ------ 0 Termo em AlemaO --- --- --- -

Composição do termo

be-: Prefixo que transforma o advérbio ja em verbo transitivo.


ja-: Corresponde ao advérbio ja ("sim").
-ung: Sufixo de substantivação que corresponde freqüentemente a "-ção" em
português.

Significados do verbo bejahen e do substantivo Bejahung

1) Responder que "sim", formular uma frase com o advérbio "sim", responder
afirmativamente, assentir, confirmar, aceitar, concordar (o verbo pode ser utilizado
como substantivo). Responder sim a uma pergunta (eine Frage bejahen). Em caso de uma
resposta afirmativa (Hinsichtlich einer bejahende Antwort).

Conotações de bejahen e Bejahung

A) A Bejahung' é uma resposta afirmativa; sua composição contém o advérbio "sim"


e evoca a presença de um "sim confirmatório". Embora uma Bejahung possa ser
48 AJirmação

formulada sem que se pronuncie um "sim" explícito, conotativamente tal concordância


é decorrência da inserção de um "sim".
B) A afirmação (Bejahung) em geral evoca a existência de uma frase anterior à qual
se refere. Enfatiza a aplicação ativa do ato de dizer "sim", em geral referindo-se à
confirmação de uma frase (pergunta ou afirmação) anterior.

--- ---- Etimologia e Termos Correlatos - ------

Etimologia

be-: do indo-europeu *bhi , derivado de *ambhi (em tomo de); assume no gótico a forma
bi-, no antigo alto-alemão bi-, no médio alto-alemão be-. Inicialmente designava, como
prefixo verbal, a direção espacial de um processo (por exemplo, befallen, atacar ou
acometer); mais tarde passou a indicar também a intervenção temporalmente limitada
sobre um objeto ou pessoa. No alemão atual funciona como prefixo que transforma
advérbios, substantivos, adjetivos e verbos intransitivos em verbos transiúvos.
ja-: A etimologia não está bem estabelecida. No gótico se encontra a forma ja, e no
antigo e no médio alto-alemão,fo. No século XVII o verbo bejahen significava "aprovar",
"conceder". Também era utilizado em oposição a verneinen.

Termos correlatos, derivados e compostos

Os termos abaixo, apesar de possuírem significados específicos, evocam em pri­


meiro plano um pronunciar explícito do ja ou do nein: Jasager: aqucle que não tem
opinião própria e sempre diz "sim";Jawort: uma palavra concordante (uma palavra de
"sim"); Neinsager: aquele que sempre rejeita tudo (que sempre diz "não"); verneinen:
dizer "não" (é a contrapartida de bejahen, refere-se basicamente à utilização do advérbio
nein [não] na frase).

----- Comparação com o Termo em Português -----

Significados adicionais de "afirmar"


e "afirmação" não presentes em bejahen

2) Declarar com firmeza, assumir auto;ia, comunicar firmemente (pode ser


utilizado como substantivo). Afirmo alto e bom som que desejo que tudo seja feito desta
forma.
Bejahung 49

3) Dizer, ter certeza, certificar (pode ser utilizado como substantivo). A testemunha
afirma que foi ele o autor do crime.
4) Dizer, falar (pode ser utilizado como substantivo). Afirma ter vindo ontem.
5) (Rflx) Impor-se, demonstrar segurança (pode ser utilizado como substantivo).
Ela quer se afirmar no grupo.
[Há ainda diversos outr0s usos semelhantes ou derivados.] [NDA, 56]

Conotações adicionais de "afirmar"


e "afirmação " não presentes em Bejahung

C) A palavra portuguesa "afirmação" refere-se primordialmente à explicitação


pública de um conteúdo. Em suas múltiplas variações (auto-afirmação, declarar etc.) o
termo aponta para certa assertividade.
D) "Afirmação" e "afirmar" não se referem a algo dito anteriormente (conotação
B ), mas se usam para declarar algo.
[Estas conotações não valem para o uso específico em lógica.]

Resumo das diferenças de significados e conotações ,,

alemão: Bejahung/bejahen português: afirmação/ afirmar

significados:
1 dizer sim, concordar, assentir 1-
2- 2 declarar firmemente
3- 3 certificar
4- 4 dizer
5- 5 impor-se
conotações:
A enfoca a presença do "sim" A­
B refere-se a frase anterior B-
C- e firme e público
D- D declaração autônoma

Ao se traduzir Bejahung por "afirmação" perde-se o sentido de explicitar uma


aceitação através do "sim" (sentido 1), ou seja, da existência de duas ações simultâneas
(dizer "sim" e confirmar, conotações A e B). Em português "afirmação" tem caráter
assertivo, forte e público e não se refere à aceitação de uma afirmação anterior.
50 Afirmação

------- Exemplos de Uso em Freud

J "Em ou tras palavras, quando um evento específico é inserido num sonho como
sonho 1 pelo próprio trabalho do sonho, isso implica a mais firme confirmação
(Bestiitigung) da realidade do evento - sua afirmação 2 (Bejahung) mais forte."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VI/C ( 1 900) [ESB 4, 32 1 -2]
1 Leia-se: quando um evento específico é inserido num sonho pelo próprio trabalho do
sonho, isso ( ... ).
2 Como se depreende da palavra "confirmação", a subseqüente Bejahung não é uma
afirmação, mas uma aceitação explícita, um "sim" pleno que confirma, admite e aceita algo dito
anteriormente...

2 "A negativa ( Verneinung) constitui um modo de tomar conhecimento do que está


reprimido; com efeito, já é uma suspensão da repressão, embora não, naturalmente,
urpa aceitação do que está reprimido. Podemos ver aqui como a função intelectual está
separada do processo afetivo. ( ...) Uma vez que afirmar' (bejahen) ou negar (verneinen)
o conteúdo de pensamentos é tarefa da função do julgamento intelectual. o que
estivemos dizendo nos levou à origem psicológica dessa função.�
"A Negativa" ( 1 925) [ESB 1 9, 296]
Trata-se aqui de confirmar, dizer "sim" ao conteúdo de pensamemos.

3 "O estudo do julgamento nos permite, talvez pela primeira vez, uma compreensão
interna (insight ) da origem de uma função intelectual a partir da ação recíproca dos
1

impulsos instintuais primários.Julgar é uma continuação, por toda a extensão das linhas
2
da conveniência, do processo original através do qual o ego integra as coisas a si, ou
as expel_e de si de acordo com o princípio do prazer. A polaridade de julgamento parece
corresponder à oposição dos dois grupos de instintos que supusemos existir. A
afirmação 3 (Bejahung) - como um substituto da união4- pertence a Eros; a negativa
(Verneinung) - o sucessor da expulsão - pertence ao instinto de destruição."
"A Negativa" ( 1 925) [ESB 19, 299-300]
I No original, em vez de insight, está a palavra alemã Einsicht, a qual significa compreensão;
o termo possui a conotação de uma "compreensão mais completa", e não o caráter de algo
súbito e abrupto, nem o aspecto de uma visão profundamente mobilizadora, quase emocionan­
te, que o termo insight tem no uso psicanalítico atual.
2 integra no sentido de inclui, incorpora.
afirmação no sentido de dizer sim, confirmar.
3

4
Em vez de união, unificação.
Bejahung 51

4 "É verdade que não aceitamos o 'não' (Nein) de uma pessoa em análise por seu
valor nominal; tampouco, porém, permitimos que seu 'sim' (Ja) seja aceito. Não há
justificação para que nos acusem de que invariavelmente deformamos suas observações
transformando-as em confirmação.
"Um simples 'sim' do paciente de modo algum não é ambíguo. Na verdade, pode
significar que ele reconhece a correção da construção que lhe foi apresentada, mas
também pode não ter sen't,ido ou mesmo merecer ser descrito como 'hipócrita', uma
vez que pode convir à sua resistência fazer uso de um assentimento em tais circunstân­
cias, a fim de prolongar o ocultamento de uma verdade que ainda não foi descoberta."
"Construções em Análise" ( 1 937) [ESB 23, 296-7]
Reformulando a tradução de todo o trecho: É verdade que não aceitamos plenamente o "não"
de uma pessoa em análise; tampouco, porém, deixamos que o seu "sim" seja válido. Não é justo
que nos acusem de reinterpretar sempre, em todos os casos, as declarações do paciente,
transformando-as em confirmações de nossas hipóteses.
Um "sim" direto do analisando tem múltiplos significados. Pode efetivamente indicar que
a construção escutada é reconhecida como correta, mas também pode não ter significado
algum, ou mesmo ser algo que poderíamos designar corno �dissimulação", pois pode ser
conveniente à sua resistência continuar, através de tal concordância, a ocultar a verdade não
revelada.

- ---------- - Comentários - -------- ---

O termo Bejahung não é muito freqüente em Freud. Sua importância teórica deriva
basicamente do seu uso em contraposição ao termo Verneinung ("dizer não", "negação",
"denegação", "negativa").
Por vezes, Bejahung é empregado isoladamente na acepção de "confirmar", "assen­
tir". No exemplo 1, retirado de A Interpretação dos Sonhos ( 1 900), é neste sentido que o
termo é usado.
Bejahen é utilizado por Freud em conjunto com verneinen no contexto da escuta e
da interpretação que o analista faz das falas do paciente; enfatiza o "expressar explícito
do advérbio sim". O paciente dirá "sim" ou "não", cabendo ao analista situar tais
assertivas.
No exemplo 4, retirado do artigo "Construções em Análise" ( 1937), não aparecem
os verbos, mas os respectivos advérbios ja (sim) e nein (não). Freud trata da acusação
freqüentemente feita à psicanálise de que os analistas interpretam arbitrariamente as
falas do paciente, sempre de modo que confirmem as teorias preconcebidas. Tais falas
produzem um "sim" ou um "não", os quais; segundo Freud, não devem ser tomados
· ao pé da letra. Aquilo que é confirmado pelo "sim" ou contestado pelo "não" deverá
52 AJirmação

ser considerado sob a égide da resistência e do recalque (o "sim" pode significar um


"não" e vice-versa).
No artigo "A Negativa" ( 1 925) o advérbio ja e a Bejahung são utilizados repetida­
mente em conexão com o conceito de Verneinung.
OJa e o Nein circulam nas esferas da função intelectual de atribuição de juízos. Esta
toma duas decisões de diferente ordem: 1) atribuir ou não determinadas características
a um objeto, e 2) decidir se o objeto está presente na realidade ou não.
Cabe ao ego-realidade atribuir juízos. A Bejahung e a Verneinung ocorrem como atos
da "capacidade dejulgamento/avaliação" ( Urteilsfunktion), a qual entra em contato com
certo conteúdo. Esse conteúdo é expresso sob a forma de uma frase, e é bejaht
(confirmado, retrucado com "sim"), ou verneint (negado, retrucado com "não"). Freud
relaciona esses processos intelectuais de negação e afirmação com mecanismos do
ego-prazer de projeção dos conteúdos desagradáveis e introjeção dos agradáveis
( exemplo 3).
Apesar de o "não" significar uma rejeição do material, implica entrar em contato
com o recalcado. A esíera intelectual não reflete de forma direta os processos afetivos
(exemplo 2). Neste sentido o "não" pode ser escutado como sendo também um "sim"
(admissão e rejeição).
No geral, o uso que Freud faz dos termos Bejahung e Verneinung enfatiza mais o
papel do "sim" e do "não" como significantes, símbolos verbais do assentimento
(integração) ou da discordância (expulsão), do que como indícios da efetiva aceitação
ou negação de conteúdos. Evocam a dicotomia entre o que é verbalizado formalmente
(o "sim" e o "não") e o conteúdo afetivo.

---"* Negação ( Verleugnung), Negação (Verneinung), Rejeição ( Verwerfung)


Alienação, Alheamento: Entfremdung

E: Enajenación
F: Étrangement
I: Estrangement

A palavra Entfremdung é traduzida, conforme o contexto, por "alienação", ocasio­


nalmente por "alheamento", "distanciamento" e "desrealização" (no sentido de "senti­
mento de irrealidade" ou "sensação de estranhamento"). Apesar de estas opções de
tradução se aproximarem dos diversos significados do termo alemão, este possui
características conotativas peculiares.
A tradução pelo termo "alienação" pode causar distorções de sentido e conotação.
Além de significar jurídica e comercialmente "cessão de posse" e "ven da", tem
significados na psiquiatria (loucura), na ciência política (falta de consciência política),
na economia política (falta de contato concreto com o produto do trabalho) e na
filosofia hegeliana.
Freud emprega o termo em diversas acepções, mas em geral, no texto freudiano,
Entfremdung evoca o processo de afastamento de materiais, instâncias ou conteúdos
psíquicos, que posteriormente n ão são mais recor,ihecidos e causam estranheza ao
sujeito.

-- --- ---- 0 Termo em Alemão - - - - --- -

Composição do termo

ent-: Prefixo que indica geralmente um processo de separação ou afastamento .


frernd-: Corresponde à palavra frernd, cujo significado é "estranho", "estrangeiro",
"esquisito".
-ung: Sufixo de substantivação que corresponde freqüentemente a "-ção " em
português.

Significados do verbo
entfremden e do substantivo Entfremdung

1 ) Verbo reflexivo e transitivo; distanciar-se de outro, esfriar a relação, não mais ter
afeto e simpatia por outro (também utilizado como substantivo, significando alienação,
alheamento, isolamento, distância que leva um a tomar-se estranho ao outro). A esposa
se distanciou do ,marido. O distanciamento entre os dois era evidente.
54 Alienação, Alheamento

2) Deturpar, distorcer, introduzir algo estranho ao contexto inicial (também utili­


zado como substantivo). Aquilo foi deturpado de seu sentido original. (Eine Sache ihrem
Zweck emfremden.) Trata-se de uso pouco freqüente.
3) Sentimento de estranhamento, sentimento de alienação. O que eu vejo não é real.
Chama-se a isto de "sentimento de alienação". (Ver exemplo 8, "Um Distúrbio de Memória
na Acrópole".)

Conotações de entfremden e Entfremdung

A) A palavra evoca um processo dinâmico de afastamento entre dois elementos


que estavam próximos. Um se afasta do outro até o ponto em que se torna estranho
a ele. Este efeito se ressalta pelo prefixo ent-, que indica o movimento de afasta­
mento.
B) A Entfremdung, quando usada no sentido de sensação (sentido 4), implica a idéia
de que algo an teriormente conhecido assume uma forma "estranha" e causa certo
"espanto", colocando o sujeito diante de algo levemente "surreal". Não há nada de
sinistro ou ameaçador, apenas um pouco "esquisito", "diferente".

------- Etimologia e Termos Correlatos ---- - -

Etimologia

ent-: Derivado do substantivo indo-europeu *ant-s (face dianteira, testa, rosto),


no grego antí-, no latim ante-, no gótico and[a]-. No antigo alto-alemão e no médio
alto-alemão, o prefixo assume a forma ant- (significando "de encontro a", "contra")
é e usado em composição com substantivos e advérbios. Em verbos no antigo
al to-alemão era utilizada a derivação int-, no médio alto-alemão assume a forma
ent-. O sentido atual de "separação" derivou-se do sentido de "agir contra" . Muitos
verbos atuais com ent- são derivações de outros prefixos e nada têm do significado
de "separação" .
fremd: Sua origem é a mesma do atual prefixo alemão ver-, cujo significado na
forma indo-européia *per era aproximadamente "ir adiante". Do alemão comum, o
advérbio *fram (para adiante, continuar), no gótico Jram, no inglês from. Significava
originalmente "longínquo", depois "desconhecido", "não familiar" . No antigo alto­
alemão fram, no médio alto-alemão vram. Daí derivações como "aquele que vem de
longe", Fremder (estrangeiro), ou "turismo ", Fremd,enverkehr ("trânsi to de turistas-es­
trangeiros-forasteiros").
Entfremden: Encontra-se em textos do século XV com o sentido de pegar, tomar,
separar, roubar e tornar estranho.
Entfremdung

Termos correlatos, derivados e compostos

O radicalfremd- aponta para algo que é "estranho", "estrangeiro" ou "forasteiro" .


Fremde: terras estrangeiras, exteriores a o país; Fremder: o estrangeiro, pessoa d e fora;
bejremden: causar estranheza a outrem; Kommt mir Jremd vor. parece-me esquisito;
Fremdkorper: corpo estranho; Fremdenverkehr. turismo ( trânsito de estrangeiros); Frem·
denlegion: legião estrangeita; Fremdwort: palavra estrangeira.
O prefixo ent- indica separação, afastamento.
entführen: seqüestrar (führen = conduzir); entfernen: afastar (fern = longe); entlwmmen:
escapar (lwmmen = vir)

----- Comparação com o Termo em Português -----

Entjremdung será contrastado com "alienação", termo que, apesar de não ser a única
opção de tradução utilizada, tem certo peso e tradição na filosofia e na economia
políüca; quando inserido no contexto psicanalítico, acaba por introduzir alguns con­
teúdos estranhos à palavra Entfremdung.

Significados adicionais de
"alienar" e "alienação " não presentes em entfremden e Entfremdung

4) Cessão de bens (também utilizado como verbo): O carro está alienado.


5) Enlouquecimento, separação do mundo real (também utilizado como verbo) . A
nau dos alienados.
6) Não consciência de suas condições existenciais (também utilizado como substan­
tivo em economia, filosofia, sociologia e história): O operário vive alienado.

Conotações adicionais de
"alienação " não presentes em Entfremdung

C) "Alienação" contém aspectos semelhantes aos contidos em Entfremdung.


"Alienar-se " i ndica um processo de a fastamento que parte de um estado
anterior de proximidade. Contém o elemento do "estranho/estrangeiro" (alienígena)
e aponta para um isolamento (alienar-se do ambiente circundante). També m
possui conotação de estranheza p róxima à loucura ( o louco é designado por
"alienado"). Entretanto, no português corriqueiro atual, tais conexões não estão
muito p resentes. Em vez destas, o termo adquiriu conteúdos adicionais da filosofia
e da economia política.
56 Alienação, Alheamento

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: entfremden/Entjremdung português: alienar/ alienação

significados:
1 distanciar-se, esfriar o afeto 1 distanciar-se, esfriar o afeto
2 deturpar (pouco usado) 2-
3 sentimento de estranhamento 3-
4- 4 cessão de posse
5- 5 enlouquecimento
6- 6 inconsciência da realidade

conotações:
A o que era próximo se afasta A (raramente tem esta conotação)
e se estranha
B confronto com o desconhecido B (raramente tem esta conotação)
(surreal)
C- C conteúdos da filosofia e da política

Em alemão, o termo Entfremdung tem um aspecto fortemente dinâmico de separa­


ção (conotação A), de estranheza (sentido 3), quando algo outrora conhecido passa a
se mostrar como desconhecido (conotações A e B). Com freqüência, tem sido correta­
mente traduzido, conforme o contexto, por separação, distanciamento, alheamento,
sentimento de desrealização (talvez fosse melhor sentimento de estranhamento). A
tradução por "alienação" acrescenta, no contexto psicanalítico, um aspecto não exis­
tente no alemão, a idéia de loucura ou de inconsciência.

-------- Exemplos de Uso em Freud --------

1 "A alienação (Entfremdung) entre as esferas psíquica e somática no rumo tomado


pela excitação sexual é mais prontamente estabelecida nas mulheres que nos homens."
"Sobre os Fundamentos para Destacar da Neurastenia uma Síndro­
me Específica Denominada 'Neurose de Angústia "' ( 1894-5) [ESB 3,
108]

2 "A investigação sexual desses primeiros anos de infância é sempre feita na solidão;
significa um primeiro passo para a orientação autônoma no mundo e estabelece tim
intenso alheamento (Entfremdung) da criança frente às pessoas de seu meio que antes
gozavam de sua total confiança."
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1 905) [ESB 7, 1 84-5]
Entfremdung 57

3 "Em muitos histéricos, vê-se que a ausência precoce de um dos pais (por
morte, divórcio ou separação* (Entfremdung), em função da qual o remanescente
absorveu a totalidade do amor da criança, foi o determinante do sexo da pessoa
posteriormente escolhida como objeto sexual, com isso possibilitando-se a inversão
permanente."
, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1 905) [ESB 5, 2 1 6]
* O sentido do termo aqui não é de separação - divórcio, mas de distanciamento e esfriamento
da relação.

4 "Alguns indivíduos que não desenvolveram neuroses se lembram com muila


freqüência de ocasiões em que - em geral em conseqüência* de alguma leitura -
interpretaram e responderam dessa forma ao comportamento hostil dos pais. ( . . . ) O
estádio seguinte no desenvolvimento do afastamento (Entfremdung) do neurótico de
seus pais, que assim teve início, pode ser descrito como o 'romance familiar do
neurótico', sendo raramente lembrado conscientemente, mas podendo quase sempre
ser revelado pela psicanálise."
"Romances Familiares" ( 1 908-9) [ESB 9, 244]
* por influência de alguma leitura.

5 "Em segundo lugar, se é essa, na verdade, a natureza secreta do estranho


( Unheimlichen), · pode-se compreender por que o uso lingüístico estendeu 'o familiar'
(das Heimliche) para o seu oposto, 'o estranho' 1 (das Unheimliche), pois esse estranho2
(Fremdes) não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar (Heimliche) e há muito
estabelecido na mente, e que somente se alienou3 (entfremdet) desta através do processo
de repressão."
"O 'Estranho"' (1919) [ESB 17, 301 ]
1
estranho no sentido de inquietante, sinistro, que provoca calafrios.
2
estranho no sentido de forasteiro, estrangeiro, externo, alheio.
3 O sentido de alienou é de afastado, separado, transformado em estranho-alheio,

6 "Aquilo que é mau, que é estranho* (Fremd) ao ego, e aquilo que é externo' são,
para começar, idê �ticos."
"A Negativa" ( 1925) [ESB 19, 297]

"O que é meramente uma representação e subjetivo, é apenas interno; o que é real
está também lá Jora. ( ... ) Outra capacidade do poder de pensar oferece mais uma
contribuição à diferenciação (Entfremdung) entre aquilo que é subjetivo e aquilo que é
58 Alienação, Alheamento

objetivo. A reprodução de uma percepção como representação nem sempre é fiel; pode
ser modificada por omissões ou alterada pela fusão de vários elementos."
"A Negativa" ( 1 925) [ESB 19, 298]
* Fremd significa alheio no sentido de ser estranho, estrangeiro, esquisito; trata-se de um termo
que reúne simultaneamente as noções de "alteridade" e "estranhamento" .

7 "Aceitando uma palavra empregada por Nietzsche e acolhendo uma sugestão de


George Groddeck [1923], de ora em diante chamá-lo-emos de 'id'. Esse pronome
impessoal parece especialmente bem talhado para expressar a principal característica
dessa região da mente - o fato de ser alheia* (lchfremdheit) ao ego."
Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise; Conferência 31:
"A Dissecção da Personalidade Psíquica" (1932-3) [ESB 22, 92]
* Fremd significa alheio no sentido de ser estranho, estrangeiro, esquisito; trata-se de um termo
que reúne simultaneamente as noções de "alteridade" e "estranhamento".

8 "( ... ) que toda essa situação psíquica, de aparência tão confusa e tão difícil de
descrever, pode ser elucidada satisfatoriamente supondo-se que, no momento, tive (ou
poderia ter tido) um sentimento instantâneo: 'O que estou vendo aqui não é real'. Tal
sentimento é conhecido como 'sentimento de desrealização' (Entfremdungsgefühl). Fiz
um intento de afastar esse sentimento, e o consegui à custa de uma falsa afirmação
acerca do passado."
"Um Distúrbio de Memória na Acrópole" ( 1 936) [ESB 22, 299]

9 "Essas desrealizações (Entfremdungen) são fenômenos notáveis, * ainda pouco


compreendidos. Diz-se serem "sensações", mas, evidentemente, são processos comple­
xos, vinculados a conteúdos mentais peculiares e vinculados a operações feitas a
respeito destes conteúdos. ( ... ) Esses fenômenos podem ser observados sob duas formas:
a pessoa sente que uma parte da realidade, ou que uma parte do seu próprio eu, lhe é
estranha (Jremd). Nesse último caso, falamos em despersonalização; existe uma íntima
relação entre desrealizações e despersonalizações. (... ) Existe mais um outro grupo de
fenômenos que podem ser considerados como suas contrapartidas positivas - é o que se
conhece como 'fausse reconnaissance', 'déjà vu', 'déjà raconté' etc., ilusões em que
procuramos aceitar algo como pertencente ao nosso ego, do mesmo modo como, nas
desrealizações (Entfremdungen), nos empenhamos em manter algo fora de nós."
"Um Distúrbio de Memória na Acrópole" ( 1936) [ESB 22, 299-300]
* Em vez de notáveis, estranhos, esquisitos.
10 "Para os meus propósitos, ser-me-á suficiente retornar às características gerais
dos fenômenos da desrealização (Entfremdungsphiinomene). A primeira característica
Entfremdung 59

consiste em que todos eles servem ao objetivo de defesa; visam manter algo distanciado
do ego, visam rechaçá-lo."
"Um Distúrbio de Memória na Acrópole" (1936) [ESB 22, 300]

11 "A segunda característica geral das desrealizações (Entfremdungen) - sua


dependência do passado, .do repertório de recordações e de experiências angustiantes*
da infância, que talvez tenham sucumbido à repressão - não é aceita sem controvérsia."
"U� Distúrbio de Memória na Acrópole" (1936) [ESB 22, 30 1 ]
* N o original está a palavra peinlich, que não significa angustiante, mas constrangedor,
desagradável.

------- --- -- Comentários -- --- -------

Freud utiliza Entfremdung basicamente em dois senúdos, que correspondem a o


emprego coloquial: "afastamento/separação" e "sensação d e irrealidade e estranheza".
Na primeira acepção, a Entfremdung torna estranho um ao outro dois elementos
que antes eram familiares. É utilizada para descrever · inúmeros fenômenos da vida
psíquica: um afastamento, distanciamento ou estremecimento de relações entre pessoas
(exemplo 3); um afastamento da criança perante seus pais quando inicia suas investi·
gações sexuais ( exemplo 2); a reatualização desse afastamento quando da puberdade;
o afastamento mútuo entre instâncias ou dimensões intrapsíquicas (exemplos 6 e 7);
ou ainda para designar a diferenciação entre psíquico e somático (exemplo J).
A segunda acepção, Entjremdung como "a sensação de estar num contexto alterado",
deturpado, quase surreal, se aproxima lingüisticamente da noção de Entstellung ( defor­
mar, desfocar, deturpar, realocar, mudar as coisas de lugar etc.), muito utilizada por
Freud, no contexto dos sonhos, para descrever o desfiguramento dos pensamentos
latentes quando se transformam em manifestos.
O radical do termo Entjremdung (Jremd-) corresponde ao adjetivofremd (estrangeiro,
estranho, esquisito), que também aparece com certa freqüência no texto freudiano. N o
exemplo 7, onde trata do "id" (das Es) e m contraposição ao ego (das Ich), Freud emprega
o termo fremd (estranho, estrangeiro, esquisito) e define como principal característica
do Es o fato de ser "estranho/estrangeiro" ao próprio !eh.

Afastamento, estranhamento e distorção

Lingüisticamente há uma contigüidade entre as duas acepções de Entjremdung, o


sentido de "afastamento" e o de "estranheza". A conseqüência de um afastamento de
dois conteúdos que antes estavam próximos é que, no contato posterior entre esses dois
conteúdos, um parecerá ao outro "estrangeiro" ou "estranho".
60 Alienação, Alheamento

No artigo "A Negativa", de 1 925 (exemplo 6), os termos Fremd e Éntfremdung são
empregados em conexão com o processo de diferenciação entre o interno e o externo,
entre o subjetivo e o objetivo e entre o real e o imaginado. Nesse artigo, Freud aborda
a "capacidade de julgar". A esta cabe tomar duas decisões de diferente ordem: 1 )
atribuir determinadas características a u m objeto, e 2 ) decidir s e o objeto está presente
na realidade ou não.
No que tange à atribuição de julgamentos, Freud destaca que, pelos mecanismos
de projeção e introjeção, o ego-prazer considera aquilo que é bom como pertencente
ao eg-o, e aquilo que é "externo/estranho ao eu" (dem !eh Fremd) é igualado àquilo que
é mau.
Quanto ao ego-realidade, a ele cabe se assegurar da realidade ou da falsidade da
presença do objeto, para permitir que o sujeito reencontre o objeto do prazer na
realidade. Para confirmar a realidade é necessário que o sujeito verifique se as marcas
do objeto gravadas em sua memória coincidem com as marcas do objeto percebidas
no mundo exterior. Também envolve a diferenciação (afastamento) entre o dentro e o
fora. Entretanto, pode ocorrer que, ao reproduzir internamente o objeto que lhe
trouxe satisfação, o sujeito o deturpe ou distorça, contribuindo ainda mais para o
afastamento (Entfremdung) entre o subjetivo e o objetivo, cabendo então à "verifica­
ção de realidade" controlar até onde chega tal distorção. De certa forma, o
tratamento que Freud dá ao tema da diferenciação entre dentro e fora coloca a
Entfremdung próxima da questão da ilusão e das sensações, pois o "objetivo" ( o,real),
quando reproduzido internamente sob forma "subjetiva" (imaginado, vorgestell­
te) , pode estar sendo "distorcido", e precisa ser verificado pelo ego-realidade. Aliás,
esta concepção de distorção também existe na língua coloquial. (Ver sentido 2 de
Entfremdung mais acima no item "Significados do verbo entfremden e do substantivo
Entfremdung", p. 54.)
Todavia, a ilusão e as sensações de irrealidade são temas pertinentes ao conceito
de Entfrerndung tal corno aparecerá na Carta a Romain Rolland ( 1 936), referente a uma
vivência de distúrbios de memória na Acrópole ( exemplos 8, 9, 1 O e 11).

Entfremdung como sensação

No contexto do artigo "Um Distúrbio de Memória na Acrópole" ( 1936) se trata de


sensações de estranhamento e irrealidade momentâneas, tão fugazes corno o déjà vu, a
fausse reconaissance etc. (exemplo 9). Algo como um pedaço de uma realidade estranha que
se infiltra e insere na realidade familiar. É descrita por Freud como um mecanismo de
defesa que afasta uma parte da realidade e a nega (exemplo 10). Entretanto, de forma
diversa da Verleugnung (renegação, negação), pois enquanto na Verleugnung a realidade
que se apresenta como evidente é negada, como se pudesse ser apagada, na Entfremdung
a realidade é aceita, mas com muita estranheza, e bordeja o terreno da ilusão e alucinação.
Entfrerndung 61

Diversamente de outros mecanismos de defesa mais intensos e de duração mais


prolongada, como a alucinação, o recalque etc., a Entfremdung é da ordem das sensações
fugidias e comuns.
O conceito na sua segunda acepção faz parte do esforço freudiano de dar conta de
toda uma gama de fenômenos impressionísticos que se aproximam da ilusão. Algo
diverso das alucinações de natureza psicótica.
Também o artigo de Freud "O 'Estranho"' (Das Unheimliche, 1 927) aborda sensações
(Gefühle e Empfindungen) de estranhamento; contudo, apesar de ambos os conceitos
tratarem do retorno de algo que era próximo e foi recalcado (no exemplo 11 é
mencionada a ligação da Entfremdung com um passado eventualmente recalcado), n o
caso do das Unheimliche trata-se de um fenômeno de outra ordem de grandeza.
No exemplo 5, retirado do referido texto, são empregados os termos entfremden,
das Fremde e das Unheimliche. Sem entrar aqui em maiores detalhes sobre o das
Unheimliche, que é tratado como verbete separado sob a rubrica "O Estranho"/"O
sinistro", cabe ressaltar, a propósito do exemplo 5, que se trata de algo que era familiar,
se afasta (entfremdet sich) e, como elemento agora estranho (Fremd), assume um caráter
sinistro ( Unheimlich) quando a ele se agregam determinados elementos (a repetição,
medos arcaicos e o retorno maciço do recalcado).

� O Estranho (das Unheimliche)


Angústia, Ansiedade, Medo: Angst

E: Angustia
F: Angoisse
I: Anxiety

O termo Angst (literalmente significa "medo") é traduzido geralmente para o português


, como "ansiedade" (seguindo a vertente da tradução inglesa, anxiety) ou como "angústia"
(de acordo com a tendência francesa, angoisse). Nem sempre é possível diferenciar os
termos "medo", "ansiedade" e "angústia" entre si. Conforme o contexto, tanto Angst
("medo") como Furcht ("temor", palavra também ocasionalmente empregada por Freud)
podem corresponder a "ansiedade" e mais raramente a "angústia"; entretanto, a rigor, nem
Angst nem Furcht correspondem em alemão a "ansiedade" ou a "angústia" .
Apesar d e o verbete em foco ser a palavra Angst, o termo será tratado em conjunto
com Furcht, pois Freud abordou e comparou ambas as palavras.

---- ----- - 0 Termo em Alemão --------- -

Composição dos termos Angst e Furcht

Termos simples.

Significados dos termos Angst e Furcht

1) Angst significa medo. Geralmente indica um _sentimento de grande inquietude


perante ameaça real ou imaginária de dano. Pode variar da gradação de "receio" e "temor"
até "pânico" ou "pavor". Refere-se tanto a ameaças específicas (Angst vor, medo de) como
inespecíficas (Angst, medo). Tenho medo de ser mal interpretado (recear). Tenho medo de cães.
Morro de medo de vampiros (pavor). Sinto medo durante a noite (inespecífico).
2) Furcht significa medo no sentido de receio, temor. Refere-se a objetos específicos.
Tenho medo de ser mal interpretado (recear). Temo cães grandes e pretos, pois já tive uma
experiência traumática com um cão assim.

Conotações dos termos Angst e Furcht

A) Em alemão Angst significa "medo", abarcando desde os sentidos de "temor" e


"receio" até os sentidos intensos de "pânico" e "pavor". A palavra Furcht (receio, temor)
Angst 63

não abarca o pânico ou pavor imediato. Um animal perante o predador sente Angst,
não Furcht. A Furcht se liga freqüentemente à preocupação; a Angst pode ser mais
visceral e imediata, refere-se a um medo e indica reação intensa perante ameaça de
aniquilação ou dano (seja ela real ou imaginária, específica ou inespecífica). Quando
no sentido de pavor, pânico, normalmente não se emprega o termo Furcht, mas Angst.
Neste sentido, freqüentemente se aproxima do pavor, enquanto Furcht tem um caráter
mais antecipatório do qu� Angst.
B) Angst pode referir-se a objetos específicos ou inespecíficos. Diferentemente de
Angst, Furcht sempre se refere a objetos específicos. Ambos podem se referir a temores
por ameaças ainda distantes.
C) Sendo uma reação intensa, Ang,t evoca algo_ que se externaliza claramente. ( expres­
são facial, suor, voz etc.) e desencadeia uma ação (de ataque ou fuga), ou, mais raramente,
algo que causa tanto pavor que paralisa o sujeito. A palavra Angst é empregada em
composição com termos como "ataque de medo", "irrupção de medo" etc. Descreve
reações que se exteriorizam fortemente. Não há expressões como "ataque de Furcht"
(temor). Diversamente de Furcht, Angst liga-se a uma prontidão reativa ante o peri,�o.

---- - - Etimologia e Termos Correlatos -- -


- ---

Etimologia de Angst

Angst deriva-se da raiz indo-européia angh; que se refere a "apertado", "apertar",


"pressionar", "amarrar" (no alemão atual eng significa apertado). Ligadas à mesma
raiz estão as palavras ágchein do grego (estrangular), angina do latim (sensação de
sufocamento, aperto), e mais tarde angustia no latim (aperto) e á1hhas- no antigo
indiano (medo, angústia). No antigo alto-alemão assume a forma ang-ust e no médio
alto-alemão angest.
A etimologia de Furcht não está bem estabelecida.

Termos correlatos, derivados e compostos de Angst e Furcht

Angst: Os exemplos abaixo, retirados do alemão corrente, estão relacionados com


"medo" e não com "angústia" e "ansiedade" .
Angsthase: covardão (Hase = coelho, Angsthase = coelho medroso); ãngstigen: ame­
drontar; ãngstlich: medroso; Angstschrei (termo da linguagem de caça): por exemplo,
grito de medo da fêmea do veado durante perseguição de caça. Angstschweib: sudorese
produzida pelo medo.
,f. '

64 Angústia, Ansiedade, Medo

Furcht: Os exemplos abaixo indicam que, apesar de Furcht ser empregado geralmen­
te no sentido de "temor" e "receio", os derivados e compostos com Furcht também
pertencem ao campo dos grandes medos (por exemplo, o adjetivo " terrível"). Nenhum
destes usos se relaciona com "ansiedade" ou "angústia".
, furchtbar: terrível( mente);fürchterlich: horrível(mente), terrível( mente) gottesfürchtig:
temente a Deus; Furchtlosigkeit: intrepidez, coragem (literalmente: sem temor); Ehr­
furcht: respeito (literalmente: temor à honra).

----- Comparação com o Termo em Português -----

Significados adicionais de
"angústia " e "ansiedade " não presentes em Angst e Furcht

angústia
3) (angústia) Aflição intensa, inquietação, sofrimento por não poder agir, ansieda­
de. Estava angustiado de estar preso na cadeia, sem poder ajudar seus amigos. A mãe ficava
angustiada de não poder já abraçar o filho.
4) (angústia) Sofrimento, tormenta. É indescritível a angústia vivida pela família após
a perda de todos os bens. (Em alemão se usaria, por exemplo, a palavra Kummer).
5) (angústia) Sensação de sufocamento, agonia. Fico angustiado em elevadores. (Em
alemão se usaria sich beklommenfühlen.)

ansiedade
6) (ansiedade) Expectativa sofrida. A expectativa em torno da nota da prova o deixava
ansioso.
7) (ansiedade) Expectativa alegre. Estou ansioso por sair logo deférias e conhecer as ilhas
gregas.
8) (ansiedade) Espera afobada, inquietação. Fico ansioso sempre que ela fala, pois é
prolixa demais.

Conotações adicionais de
angústia" e "ansiedade " não presentes em Angst e Furcht

angústia
D) Em português "angústia" refere-se a algo mais próximo de uma "condição
existencial", trata-se de um "sofrimento", de algo que se "volta para o próprio sujeito"
(uma pessoa angustiada pode significar uma pessoa sofrida). No Dicionário Aurélio
( 1994, p. 123) se define "angustiado" como "aflito", "agoniado", "atormentado",
"atribulado" . Ao contrário das palavras utilizadas para definir a "ansiedade", mais
Angsr . 65

centradas na expectativa pelo que virá ( desejar, anelar etc.), as palavras utilizadas para
definir "angústia" se centram no sofrimento do sujeito e o descrevem.
A "angústia" pode ter causas bem diversas das do "medo" - por exemplo, pela
impossibilidade de reagir ("estou angustiado de estar preso e não poder me vingar
dos meus detratores"). Emprega-se o termo sem e com objeto específico (sentir-se
angustiado, ou estar angustiado com algo).
Em geral, "angústia{ é empregado em português corrente de maneira diversa
de "medo"; entretanto, por influência da linguagem psicanalítica, têm-se generali­
zado para a língua certos usos do termo como equivalente a "medo" e a "ansiedade":
"angústia perante os lobos", "angústia perante a ameaça de castração" etc. Conota­
tivamente, estes usos do termo "angústia" evocam com mais força a imagem de
"aflição" e "agonia", ao passo que em alemão a Angst evoca uma reação mais próxima
do "pavor".

ansiedade
E) A "ansiedade" se refere à "expectativa". Uma "expectativa inquieta" por algo
que ocorrerá. Pode ser a expectativa por uma alegria vindoura ("estou ansioso em
receber logo meu presente"), por uma ameaça ("estou ansioso com o resultado dos
exames médicos") ou simplesmente pelo desenlace de algo ("fico ansioso em filas
demoradas"). No Dicionário Aurélio ( 1 994, p. 127)' "ansiedade" aparece como um
sentimento de "ânsia", no sentido de se sentir ".oprimido", "angustiado"; "anelar",
"almejar"; "desejar com veemência".· É só no emprego da linguagem médica que o
dicionário a define como "receio sem objeto". De modo geral, emprega-se "ansiedade"
com e sem objeto específico.
No uso em português "medo" e "ansiedade" são dois sentimentos demarcados
como diversos e de conotações diferenciadas, mas que se podem bordejar ou superpor
em determinadas circunstâncias. Nem sempre é possível diferenciá-los com exatidão.
A "ansiedade", mesmo quando ligada ao "medo", se refere a uma inquietação medrosa
perante um perigo sem resolução, é uma ameaça que ainda não é imediata; o "medo"
é geralmente uma reação a algo mais imediato.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Angst/Furcht português: angústia/ansiedade


significados:
1 (A�ilot) receio/temor, pavor/pânico 1 -
2 (Furcht) receio/temor 2 -
3- 3 (angústia) aflição
intensa
4 - 4 (angústia) sofrimento
5 - ·5 (angústia) agonia, sufocamento
l
66 Angústia, Ans(edade, Medo

6 - 6 (ansiedade) expectativa sofrida


7 - 7 (ansiedade) expectativa alegre
8 - 8 (ansiedade) expectativa
afobada

conotações:
A Angst pode ligar-se a A-
ameaças imediatas.
B Angst e Furcht podem referir-se B ansiedade e angústia também
a ameaças específicas ou inespecíficas. podem referir-se a ameaças específicas
ou inespecíficas.

C Angst se exterioriza intensamente C-


(irrompe) e liga-se a um estado de
prontidão reativa para ataque/fuga.
D- D (angústia) se internaliza, foco no
sofrimento.
E- E (ansiedade) foco na expectativa.

Do ponto de vista lingüístico, ao traduzir-se Angst por "angústia" e "ansiedade",


perde-se o sentido 1 (medo-reação intensa) e as conotações A (ameaças imediatas)
e C (desencadeador de processos externalizados e intensos e de prontidão para a
ação). A utilização de "angústia" introduz aspectos menos presentes no termo
alemão, tais como "sofrimento" e "sufocamento" (sentidos ·3 , 4 e 5 e conotação D),
os quais enfocam um processo interno mais prolongado e menos ligado a "prontidão
reativa". "Ansiedade" liga-se ao sofrimeato pela "expectativa".
Evidentemente nem sempre é possível diferenciar os três termos, mas uma boa
imagem do termo Angst é a de um animal acuado, com os pêlos eri�ados e pronto
para fuga ou ataque, algo contíguo, mas diverso de "angústia" e "ansiedade".
Conforme o contexto, tanto Ang:st como Furcht podem corresponder a "ansiedade"
e mais raramente a "angústia". Em alemão não há bons equivalentes para "ansiedade";
em geral, empregam-se termos como Unruhe (inquietude), ãngstliche Erwartung ( expec­
tativa medrosa), Bange (ansiedade, medo), Sorge (preocupação por algo) etc.
Também não há bons equivalentes para "angús tia"; podem-se empregar palavras
como Beklommenheit (aperto, angústia), Bedrangni.s (apuro, aflição) etc.·
Entretanto, de forma geral, nem Angot nem Furcht correspondem em alemão a
"ansiedade" ou "angústia".

Comparando a palavra portuguesa "medo " com Angst

"Medo" em português é bastante parecido ao ter'mo alemão Angst. Tal como a


Angst, o "medo" abarca o sentido de "temor" e "receio" e os sentidos de "pânico" e
"pavor" . Pode referir-se a um objeto específico ("tenho medo de") ou a um objeto
Angst 61

inespecífico, designando um estado ("estou com medo", "sou medroso", "vivo com
medo" etc.). No sentido de "receio" e "temor" o termo português "medo" também
tende a significar "preocupação" ou "ansiedade" por algo que poderá acontecer. Em
geral, "medo " se refere a uma reação a um perigo real ou imaginário mais imediato.

--------·µemplos de Uso em Freud

1 "No caso dos afetos crônicos, tais como o pesar1 (Kummer) e a preocupação2
(Sorge), isto é, a angústia3 (Angst) prolongada, o quadro se complica por um estado de
grave fadiga, que, embora mantenha a distribuição não uniforme da excitação, reduz
sua intensidade."
Estudos sobre a Histeria (III) ( 1 893-5) [ESB 2, 2 09]
1 Para Kummer em vez de pesar, sofrimento angustiante ou preocupação angustiante.
2 Sorge sigp.ifica preocupação, ansiedade por, angústia por, ou seja, estados em que o sujeito tem
medo por aigo vindouro, mas tem de esperar e não pode agir.
3 Ang,t: é medo: o medo prolongado ou medo estendido adquire forte caráter antecípatório
e se aproxima de Kummer e de Sorge.

2 "A expectativa angustiada* (ãngstliche). Não eonheço melhor maneira de descre­


ver o que tenho em mente senão por esse nome e acrescentando alguns exemplos. Por
exemplo, uma mulher que sofre de expectativa angustiada* (angstliche) pensará numa
pneunomia fatal cada vez que seu marido tossir quando estiver resfriado, e com os
olhos da imaginação assistirá à passagem do funeral dele; se, dirigindo-se à sua casa,
observar duas pessoas paradas à porta da frente, não poderá evitar a idéia de que um
de seus filhos caiu da janela; quando ouve baterem à porta, imagina que sejam notícias
da.morte de alguém, e assim por diante - sendo que, em todas essas ocasiões, não há
nenhum fundamento específico para exagerar uma mera possibilidade."
"Sobre os Fundamentos para Destacar da Neurastenia uma Sín­
drome Específica Denominada 'Neurose de Angústia"' (1894)
[ESB 3, 93]
* ãngstliche significa literalmente medrosa: ãngrtliche Erwartung = "expectativa medrosa".]

3 "Nada além de uma derivação 1 do ataque de angústia (Angstanjalles); é' muito


freqüente o sobressalto noturno dos adultos (pavor nocturnos) _habitualmente ligado à
angústia2 (Angst), com dispnéia, suor etc."
· "Sobre os Fundamentos para Destacar da Neurastenia uma Síndrome
Específica Denominada 'Neurose de Angústia"' ( 1894) [ESB 3, 95]
1 derivação .no sentido de variante.
2
Aqui o termo é medo.
68 Angústia, Ansiedade, Medo

4 "A psique é invadida pelo afeto de angústia 1 (Angst) quando se sente incapaz de
lidar, por meio de uma reação apropriada, com a tarefa ( um perigo) vinda de fora; e
fica presa de uma neurose de angústia2 (Angst) quando se percebe incapaz de equilibrar
a excitação (sexual) vinda de dentro - em outras palavras, ela se comporta como se
estivesse projetando tal excitação para fora. O afeto e a neurose a ela correspondente
estão firmemente inter-relacionados. O primeiro é uma reação a uma excitação
exógena, e a segunda, uma reação à excitação endógena análoga. O afeto é um estado
que passa rapidamente, enquanto a neurose é um estado crônico, porque, enquanto a
excitaçio exógena age num único impacto, a excitação endógena atua como uma força
constante. Na neurose o sistema nervoso reage a uma fonte de excitação que é interna,
enquanto, no afeto correspondente, ele reage contra uma fonte análoga de excitação
que é externa."
"Sobre os Fundamentos para Destacar da Neurastenia uma Síndrome
Específica Denominada 'Neurose de Angústia"' (1894) [ESB 3, 109]
I
Aqui o sentido de Angst é de medo.
2
Freud, que ao longo de todo o artigo utiliza a designação nosológica Angstneurose (neurose
de angústia, ou neurose de ansiedade), cuja forma em alemão é compactada numa só palavra,
no trecho acima adota uma forma linear e explicativa, utilizando três palavras Neurose der Angst
(que em português equivaleria a dizer "neurose do medo"), ressaltando assim de que afeto se
trata na Angstneurose.

5 "Para fobias da espécie a que pertence a do pequeno Hans, e que são na reali'dade
as mais comuns, o nome 'histeria de angústia' (Angsthysterie) não me parece impróprio;
sugeri o termo para o Dr. W. Steckel."
"Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos" ( 1909)
-[ESB 1 0, 122]

6 "'Susto', 'medo' 1 (Furcht) e 'ansiedade' 1 (Angst) são palavras impropriamente


empregadas como expressões sinônimas; são, de fato, capazes de uma distinção 2 clara
em sua relação com o perigo. A 'ansiedade' 1 (Angst) descreve um estado particular de
e�e_e_r:ar ou preparar-se para elé,-:-ainda que possa ser desconhecid0-: O 'medo' 1 (Furcht)
exige um objeto definido de que se tenha temor (jürchtet). 'Susto', contudo, é o nome
que damos ao estado em que alguém fica quando entrou em perigo sem estar preparado
1
para ele, dando-se ênfase ao fator da surpresa. Não acredito que a ansiedade (Angst)
possa produzir neurose traumática; nela existe algo que protege o seu sujeito contra o
susto e, assim, contra as neuroses de susto."
Além do Princípio de Prazer ( 1920) [ESB 18, 23-4]
I Pode-se entender tanto Angst como Furcht por medo, temor ou receio. Ver diferença entre
ambos nos comentários mais adiante.
2
São de fato distinguíveis em sua relação com o perigo.
Angst 69

7 "No homem e nos animais superiores pareceria que o ato do nascimento, como
a primeira experiência de ansiedade* do indivíduo, imprimiu ao afeto de ansiedade*
certas formas características de expressão. Mas, embora reconhecendo essa vinculação,
não devemos dar-lhe ênfase indevida nem desprezar o fato de que a necessidade
biológica exige que uma situação de perigo deva ter um símbolo afetivo, de modo que
um símbolo dessa espécie teria em qualquer caso que ser criado. Além disso, não penso
que estejamos justificado� ao presumir que, sempre que haja uma irrupção* (Ausbruch)
de ansiedade (Angst), algo como uma reprodução da situação de nascimento se passe
na mente. Nem mesmo é certo que os ataques histéricos, embora originalmente fossem
reproduções traumáticas dessa natureza, conservem esse caráter de modo permanente."
Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) [ESB 20, 1 15]
* Ausbruch é termo que só se compõe com reações explosivas com que se descarregam para
fora os afetos: a "irrupção de uma revolta popular", a "irrupção de raiva-/ cólera" e a "irrupção
de pavo1/fobia/medo". Em alemão não é possível combinar Ambruch com termos que denotem
agonia, aflição e outros sofrimentos mais intemalizados.
Retraduzindo todo o trecho: No homem e nos seres a ele aparentados, o ato de nascimento,
sendo a primeira vivência de medo, parece ter imprimido à expressão do afeto de medo certos
traços característicos. Todavia não deveríamos superestimar a importância deste fato e, ao
reconhecê-lo, não devemos perder de vista que constit�ir um símbolo para o afeto elo medo,
algo útil para as situações de perigo, é urna necessidade biológica e ter-se-ia desenvolvido de
qualquer forma. Creio ser injustificado que em todos eis casos de irrupção de medo se presuma
que algo equiparável à situação de nascimento se passe na vida psíquica. Nem mesmo é seguro
que os ataques histéricos, os quais originalmente são reproduções traumáticas de vivências desse
tipo, mantenham esse caráter permanentemente.

8 "Ansiédade* (Angst) é, · portanto, um estado especial de desprazer com atos ele


descarga (AbÍuhraktionen) ao longo de trilhas específicas."
Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) [ESB 20, 156]
* Aqui Ang:st é usado no sentido de medo.

9 "A ansiedade 1 (Angst) é um estado afetivo, e como tal, naturalmente, só pod,e ser
sentida pelo ego. O id não pode ter angústia1 (Angst) como o ego, pois não é uma
organização e não pode fazer umjulgamento sobre situações de perigo. Por outro lado,
muitas vezes acontece ocorrer ou começar a ocorrer processos no id que fazem com que
o ego produza ansiedade (Angstentwicklung). Na realidade, é provável que as primeiras
repressões, bem como a maioria das ulteriores, sejam motivadas por uma ansiedade
(Angst) do ego dessa classe, 2 no tocante a processos específicos do id. Aqui estamos mais
urna vez fazendo uma distinção correta3 entre dois casos: o caso no qual ocorre algo no
id que ativa uma das situações de perigo para o ego e que o induz a emitir o sinal de
ansiedade (Angstsignal) para que a inibição se processe, e o caso no qual uma situação
70 Angústia, Ansiedade, Medo

análoga ao trauma de nascimento se estabelece no id, seguindo-se uma reação automática


de ansiedade (Angstreaktion). Os dois casos podem ser mais aproximados, se se ressaltar
que o segundo corresponde à situação de perigo mais antiga e original, ao passo que o
primeiro corresponde a qualquer um dos determinantes ulteriores de ansiedade (Angs ­
tbedingungen) que dela se tenha originado; ou, conforme aplicado à perturbação com
que de fato nos defrontamos, que o segundo caso é atuante na etiologia das neuroses
4
'atuais', ao passo que o primeiro permanece típico para o das psiconeuroses."
Inibições, Sintomas e Ansiedade ( 1 926) (ESB 20, 164-5]
1
Aqui Angst é medo.
2
Leia-se: ( ...) sejam motivados por este tipo de medo do eu perante processos específicos no id.
3
Em vez de distinção correta nós diferenciamos justificadamente.
4 Retraduzindo a última frase: Podem-se aproximar mais os dois casos, ressaltando que o
segundo corresponde à situação de perigo primeira e original, ao passo que o primeiro
corresponde a condições que geram medo, posteriormente deduzidas (derivadas) da situação
de perigo ini�ial e original. Ou referindo-se às afecções que verdadeiramente ocorrem: que o
segundo caso concretizou-se na etiologia das neuroses atuais, enquanto o primeiro permanece
característico para as psiconeuroses.

10 "A ansiedade 1 (Angst) tem uma inegável relação com a expectativa: é ansieda­
de \Angst) por algo. Tem uma qualidade de indefinição e falta de objeto. Em linguagem
precisa empregamos a palavra 'medo' 2 (Furcht) de preferência a 'ansiedade' 1 (Angst) se
tiver encontrado um objeto. ( ... ) O verdadeiro perigo (Realgefahr) é um perigo que é
conhecido, sendo a ansiedade realística3 (Realangst) a ansiedade 1 (Angst) por um perigo
conhecido dessa espécie. A ansiedade neurótica4 (neurotische Angst) é a ansiedade
(Angst) por um perigo desconhecido. O perigo neurótico (neurotisch'l! Gefahr) é assim
um perigo que tem ainda de ser descoberto. A análise tem revelado que se trata de
um perigo instintual (Triebgefahr). Levando esse perigo que não é conhecido do ego
até a consciência, o analista faz com 1ue a ansiedade neurótica4 (neurotische Angst) não
seja diferente da ansiedade realística (Realangst), de modo que com ela se pode lidar
da mesma maneira. Existem duas reações ao perigo real (Realgefahr). Uma reação afetiva,
uma irrupção de ansiedade1 (Angst,ausbruch). A outra é uma ação protetora."
Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) [ESB 20, 190]

"Podemos descobrir ainda mais sobre isso se, não contentes em rastrear a ansieda­
de 1 (Angst) no perigo, prosseguirmos indagando qual é a essência e o significado de
uma situação de perigo. Claramente, ela consiste na estimativa do paciente quanto à
sua própria força em comparação com a magnitude do perigo e no seu reconhecimento
de desamparo em face a este perigo - desamparo físico se o perigo for real e desamparo
psíquico se for instintual."
Inibições, Sintomas e Ansiedade ( 1926) [ESB 20, 1 9 1]
Angst 71
1
O termo Angst é utilizado aqui no sentido de medo.
2
Tanto Furcht como Angst significam medo. Ver observações a respeito das diferenças entre
ambos nos comentários.
3
Realangst não é ansiedade realística, trata-se de medo ante algo real.
4
Aqui se trata de medo neurótico, expressão que está sendo contraposta a medo ante algo
real.
'
\
1 1 "Com bastante freqüência, quando um neurótico é levado, por um estado de
ansiedade (Angstzustand) a esperar a ocorrência de algum acontecimento terrível, ele
de fato está simplesmente sob a influência de uma lembrança reprimida (que está
procurando ingressar na consciência, mas não pode tornar-se consciente} de que algo,
que era naquela ocasião terrificante, realmente aconteceu."
"Construções em Análise" ( 1 937) [ESB 23, 303]

----------- Comentários

O termo Ang:5t é um dos mais polêmicos entre os tradutores de Freud. Embora não
seja o objetivo deste livro engajar-se nos debates travados entre tradutores, a dificuldade
de tradução e a imp.-º.rtância teórjca do termo Angst justificam um exame mais detido
sobre o tema.
Conforme já mencionado, em alemão Ang:5t significa "medo", abarcando desde os
sentidos de "temor" e "receio" até os sentidos intensos de "pânico" e "pavor", podendo
referir-se ·a objetos específicos ou inespecíficos. Não há bons equivalentes em alemão
para "ansiedade" ou "angústia", e ocasionalmente os três termos ("angústia", "ansieda­
de" e "medo") podem se corresponder. Do ponto de vista lingüístico, não haveria por
que traduzir Ang:5t preponderantemente por "ansiedade" ou "angústia"; poder-se-ia
traduzir geralmente por "medo".
Todavia há um entremeio onde língua coloquial, tradições de tradução e teoria
psicanalítica se entrecruzam, exigindo algumas considerações.

Tradições do jargão psiquiátrico

A tradução' de Angst por "angústia" e "ansiedade", apesar de freqüentemente


destoar dos significados de cada um dos termos, já tem precedentes em traduções há
muito consolidadas em psiquiatria.
Strachey explica ter optado por traduzir Ang:5t por anxiety devido à tradição
psiquiátrica inglesa, a qual havia consolidado o termo técnico anxiety desde o século
xvn. Nas suis palavras: "O termo universalmente e talvez infelizmente adotado para
esse fim foi anxiety - infelizmente,já que anxiety tem apenas uma remota conexão com
12 Angústia, Ansiedade. Medo

qualquer dos usos em alemão de Angst" ("O Termo Angst e sua Tradução Inglesa" [ESB
3, 1 13]). Conforme Strachey, coloquialmente Angst pode ser traduzido para o inglês
por Jear, Jright e alarm.
Também Freud respeitou as equivalências do jargão técnico-psiquiátrico e empre­
gou no francês angoisse e anxieté.
O Lexicum Medicum Polyglotum, ( 1 906) traduz o termo Angst de diversas maneiras:
a Angstneurose do alemão aparece no inglês como anxiety neurosis e no francês como
névrose d 'ángoisse. O termo Angstiiquivalent é traduzido por phobic equivalent e équivalent
· phobic. Afreiflottierende Angst (medo livremente flutuante) é equiparada a generalized
anxiety e angoisse generalisée. No mesmo Lexicum, a palavra Angst é traduzida para o
inglês como anxiety, fear, terror e phobia; e para o francês, como angoisse, peur, phobie
e anxieté.
Fora do campo médico, nos próprios dicionários de língua alemã do século XIX,
onde o equivalente latim sempre figurava ao lado do termo germânico, a palavra Angst
é traduzida por lingüistas alemães por angustus ou anxius (DW, 359). Os três termos
(Angst, "ansiedade" e "angústia") têm uma raiz indo-européia comum, angh (apertar,
comprimir), mas tal fato não implica que os sentidos e as conotações originais se
tenham mantido. De qualquer maneira, pode-se dizer que os dicionários médicos que
faziam equivaler entre os idiomas o termo "medo" (Angst) e as palavras "ansiedade" ou
"angústia" até seguiam a tradição de equivalências já existentes no âmbito dos dicio­
nários da língua corrente.
Atualmente, o termo Angst tem se consolidado nas traduções psicanalíticas para o
português como "angústia" e "ansiedade", eventualmente como "medo", "temor" e
"receio". As traduções francesas e espanholas tendem a privilegiar "angústia"; as inglesas,
"ansiedade".

Por que problema de tradução?

Se psiquiátrica e psicanalíticamente, por uma questão de tradição, Angst, angoisse e


anxiety se equivalem como termos técnicos para designar os mesmos quadros patoló­
gicos, por que dever-se-iam considerar as diferenças entre estas palavras do ponto de
vista lingüístico? Aliás, em manuais médicos de classificação, tais como CID-9 ou
DSM-III-R, usados internacionalmente, os quadros psiquiátricos são classificados em
sistemas descritivos associados a códigos, que visam dirimir a influência da nomencla­
tura e tradições locais.
(( Ocorre que Freud transita, às vezes num mesmo parágrafo, de um uso coloquial
para um uso técnico, bem como freqüentemente emprega os termos de maneira que
se possa fazer uma dupla leitura (ora como designação nosológica, ora como afeto).
Além disso, Freud transcende o quadro estrito da nosologia psiquiátrica, abarcando
psicanalíticamente dimensões ligadas à língua e à cultura. \\
Angst 13

Qual é o afeto que Freud liga à Angstneurose (neurose de angústia/neurose de


ansiedade)? Q1:1_�1o Freud fala em Angst, está se referindo a "medo\ a "angústia" ou
a "ansiedade"? Os fenômenos emocionais que estes termos designam n os respectivos
idiomas são diferentes. No texto freudiano alemão os termos "angústia" e "ansiedade"
pouco estão presentes. Freud fala em "medos", "medo de espera", "medo prolongado",
"medo automático" etc. Çomo foi mencionado, não há bons equivalentes na língua
alemã para "angüstia" e "ansiedade", mas há termos bem mais próximos de "angústia"
e "ansiedade" do que Angst; entretanto, Freud não os utilizou. Por tudo isto a questão
da tradução de Angst vai além das querelas entre tradutores e se reveste de importância
para todos os leitores de Freud.

As duas teorias freudianas de Angst, os exemplos escolhidos do texto freudiano

Ao longo da obra de Freud encontram-se diversas elaborações a respeito da Ang�t.


O próprio Freud, após 1925, se refere com freqüência às suas duas teorias da Angst.
Embora até certo ponto ambas as teorias se superponham e entrelacem, diferenciam-se
em diversos aspectos, notadamente quanto à relação da Angst com o recalque.
Sem preten der entrar em maiores detalhes sobre o percurso e implicações
te óricas deste termo em Freud, pode-se dizer que, -aproximadamente até 1925, ele
considera a Angst o efeito de um. excesso de estírhulos (Reize) represados devido à
n ão satisfação pulsional. O sujeito impedido de descarregar a libido sexual sofre
sob o acúmulo de excitações, as quais, para con seguir se fazerem descarregar,
se transformariam em sintomas de medo ( ou an gústi a, ansiedade ), provocando
sudorese, taquicardia , contrações musculares etc. Circun stâncias externas concre­
tas ou uma maturação ainda insuficiente, impedindo o sujeito de satisfazer livre­
mente seus anseios pulsionais, produziriam então estados de Angst. É antiga a idéia,
em Freud, de que o excesso de Reize é vivÍdo pelo sujeito como algo avassalador que
o leva a um estado de medo e desamparo (Hilflosigkeit). O termo Hilflosigkeit é
carregado de in tensidade, expressa um es tado próximo do de sespero e do trauma.
Gen ericamente é um fr acasso n a descarga desse excesso de estímulos pela via
da satisfação que acabaria então se mani festan do como i n upção de me do. Esse
e stado é semelhante àquele que Rank em Das Trauma der Geburt ( 1924) descrnverá
como vivido pelo bebê, o qual após o nascimento é incapaz pelas p rópri a s forças
de remover o excesso de excitação pela via da satisfação e sucumbe à Angst. Com
relação ao recalque, Freud afirma que, por impedir o sujeito de satisfazer as exigências
pulsionais, o recalque acaba por produzir as várias formas de Angst neurótica (neuro­
tische Angst).
Mesmo tendo em 1925-6 reformulado sua teoria sobre a A.ng1t, Freud mantém a
idéia de que b sujeito exposto ao excesso de excitação vive uma situação de
desamparo, necessitando lidar (bewiiltigen) com o turbilhão ele estímulos que o
14 Angústia, Ansiedade, Medo

acometem. Após ter desenvolvido a segunda tópica, Freud passa a situar o Eu como
local do medo e apresenta outra concepção da relação entre "recalque" e Angst. Inverte
a seqüência anterior "rec'alque produz Angst " e afirma que será a Angst que o Eu sente
perante o perigo que levará o sujeito ao recalque. Basicamente, medos tais como o
temor à castração ou o medo de perda do amor materno é que levarão o sujeito a
recalcar suas tendências libidinais. Na 32ª Conferência, ao comparar suas duas teorias
sobre Angst, Freud se indaga a respeito da segunda teoria: "( ... ) como imaginamos agora
o processo de uma repressão sob a influência da Angst? O ego percebe que a
satisfação de uma exigência instintual deve, portanto, ser de algum modo suprimida,
paralisada, inativada. Sabemos que o ego consegue realizar tal tarefa, se é forte e se
atraiu o impulso instintual em questão para sua organização. Mas o que sucede no caso
da repressão é o impulso instintual ainda pertencer ao id, e que o ego se sente fraco.
Então o ego se serve de uma técnica no fundo idêntica ao pensar normal. O pensar é
um ato experimental executado com pequenas quantidades de energia, do mesmo
modo como um general muda pequenas figuras num mapa antes de colocar em
movimento seus grandes corpos de tropas. Assim, o ego antecipa a satisfação do
impulso instintual suspeito e permite efetuar-se a reprodução dos sentimentos
desprazerosos no início da situação de perigo temida. Com isto, o automatismo ,_
do princípio de prazer-desprazer é posto em ação e agora executa a repressão do
impulso instintual perigoso." (Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise; Con­
ferência 32: "Ansiedade e Vida Instintual") ( 1 932) [ESB 22, 1 2-3] .
Os comentários a seguir procurarão indicar que mesmo alterando sua concepção
sobre os mecanismos de geração de Angst e apesar de empregar o termo ora como
designação técnica de um quadro psiquiátrico, ora corno descrição fenomenológica
de sentimentos, ora numa acepção psicanalítica, a maneira como Freud utiliza a
palavra ao longo da obra tende a reunir as mesmas características-conotativas que
Angst possui no alemão coloquial. Pode-se dizer que Angst envolve simultaneamente:
o sentido de algo antecipalório (neste sentido, semelhante a "ansiedade"); algo que
produz sofrimento (neste sentido, semelhante a "angústia " ); um fenômeno de
caráter intenso, altamente reativo (neste sentido, significando "medo"); algo que se
vincula ao perigo e muitas vezes aproxima-se da fobia e do pavor (neste sentido,
assemelhando-se a "pânico").

Angst na forma de irrupções e ataques, e o pavor ante o perigo

No exemplo 3, Freud se refere a um acordar com pavor, em pânico e com medo (a


palavra Angst é utilizada isoladamente, no sentido inequívoco de medo), e compara
esse tipo de despertar ao "acesso/ataque de ansiedade/angústia". Independentemente
de se traduzir Angstanfall (ataque de medo) por "ataque de angústia", para manter uma
tradição nosológica francesa, ou por "ataque de ansiedade", seguindo a nosologia
Angst 75

inglesa, o fenômeno com o qual Freud compar,a o Angstanfall é o de um medo intenso


(pânico, pavor, suor, ataque etc.).
No exemplo 5, ao relacionar o "medo" com a "fobia", no caso do pequeno Hans,
Freud sugere denominar as "neuroses desse tipo" de Angsthysterie (literalmente "histeria
de medo"). A intensidade da palavra "fobia" é- equivalente a pânico. Ao sugerir que se
nomeie um quadro fóbico de Ang5thysterie, Freud dá um uso ao tenno Ang5t que equivale
ao que se entende no alemão coloquial por "medo" (uma reação intensa ante o perigo).
No exemplo 7, o termo Angst também é empregado de maneira que evoque um
estado semelhante ao pânico ou pavor; é com a palavra Ausbruch (irrupção) que
Freud compõe o termo "irrupção de Angst", Angstausbruch. A palavra Ausbruch designa
uma intensa explosão de algo acumulado que é descarregado. É um termo que não se
usa para designar estados internos de sofrimento (melancolia, angústia, ansiedade etc.)
Não se comporia em alemão os termos Bedrãngnis-ausbruch (irrupção de angústia) ou
Unruheausbruch (ataque de ansiedade). Em seguida é feito um paralelo com os
"ataques histéricos" (hysterischen Anfiillen); o termo Anfalle, já mencionado no
exemplo 3, por vezes também é utilizado por Freud em composição _com Angst
(Angstanfãlle). Também aí se trata de um termo tão intenso e explosivo como
'�irrupção". Apesar de advertir para que não se superestime a importância do
trauma de nascimento, ambos os termos são correlacionados com a situação
" traumática" do nascimento, indicando a intensidade do afeto Angst.
A idéia de Angst como um afeto intenso qtie irrompe, se liga à concepção de
descarga/saída (Abfuhr) dos estímulos (Reize) acumulados. A relação Angst/Abfuhr é
constantemente expressa por Freud tanto na sua primeira teoria, de que a Angst seria
uma descarga de libido represada, como na segunda, quando a Angst é entendida como
a causa da repressão (exemplo 9). Assim, nas suas formulações iniciais de 1 894 sobre
a "neurose de Angst", o medo é fruto de um excesso de excitação que não é
descarregado sexualmente ( exemplo 4). Igualmente no exemplo 8, escrito mais de
trinta anos depois ( em 1925-6 ), quando já havia reformulado a teoria da Angst, Freud
novamente ressalta essa mesma imagem de Angst corno um processo que procura
"escoamento/ descarga" (Abjuhr).
Apesar da mudança teórica, no exemplo 9 há certa conciliação entre ambas as
concepções. Freud mantém sua antiga teoria e a relaciona com a etiologia das neuroses
atuais e introduz a nova teoria como sendo característica para as psiconeurosés. Em
ambos os casos s'e trata de reação de medo perante o perigo.
Nos exemplos 4, 9 e 10, o termo Angst é vinculado às palavras "ameaças" e
"perigos".
Na segunda parte do exemplo 10, o tema do perigo é retomado: Freud se indaga a
respeito do que seria o elemento essencial na situação de perigo. Equiparando "medo"
real (medo ante um perigo real) ao "medo"interno (desamparo psíquico perante o perigo
pulsional), Freud considera que o essencial do medo é a avaliação da correlação de forças
76 Angústia, Ansiedade, Medo

entre nossas capacidades e o grau da ameaça. Aqui também se trata do termo Angst no
sentido corrente de "medo" (não se trata de "angústia" e "ansiedade").

Relação entre o afeto Angst e a Angstneurose

No exemplo 4, Freud, ainda no quadro da sua primeira teoria de Angst, emprega o


termo Angst como descrição de um afeto (sentido corrente de "medo") comparando-o com
a neurose que lhe corresponde, Neurose der Angst. Freud, que ao longo de todo o artigo,
utiliza a designação nosológica Angstneurose (traduzida habitualmente por neurose de
angústia ou neurose de ansiedade), cuja forma em alemão é compactada numa só palavra,
no trecho acima adota uma forma linear e explicativa, utilizando três palavras, Neurose der
Angst (que em português equivaleriam a "neurose do medo"), ressaltando assim de que
afeto se trata na Angstneurose.
Freud inicia por explicar que o que causa a Angst (aqui empregado no sentido de
medo) é um perigo externo que se aproxima, enquanto a Neurose der Angst (neurose
da Angst) seria causada pelo excesso de estímulos internos. Em seguida prossegue:
"o afeto (referindo-se a "medo") e a neurose a ele correspondente (referindo-se à
Angstneurose, que neste trecho designa como Neurose der Angst) estão em estreita
correlação, o primeiro uma reação à estimulação externa, o segundo uma reação à
excitação correspondente endógena". E então, para diferenciar o afeto "medo" (Angst)
da "neurose de Angst" (Neurose der Angst), Freud explica: "o afeto é um estado passageiro,
a neurose um crônico. ( ... ) Na neurose o sistema nervoso reage a uma fonte de excitação
que é interna, enquanto, no afeto correspondente, ele reage contra uma fonte análoga
de excitação que é externa".
Em todas estas frases, Freud insiste no paralelismo entre o medo (Angst) e a neurose
! de Angst (Angstneurose), ou, como ele a designa neste trecho, Neurose der Angst ( w neurose
;. do medo"). Deixa claro que o que diferencia ambos é a origem dos estímulos e sua
duração. A descrição que Freud faz da Angstneurose (Neurose der Angst) se assemelha a
algo como um "medo crônico", uma espécie de prontidão crônica a irrupções de medo.

Angst e medo prolongado, medo de espera, caráter antecipatório

Nos exemplos a seguir, retirados de diversos períodos, o sentido de Angstneurose é


o mesmo, indicando um estado de disposição ao medo, uma espécie de propensão a
irrupções de medo.
No exemplo 2, Freud sugere que se pode compreender o quadro da dngstliche
Erwartung a partir do nome que a designa e dos exemplos clínicos que ele cita a seguir.
O nome que designa dngstliche Erwartung é "expectativa medrosa" ("expectativa"
corresponde a Erwar tung e "medrosa" a iingstliche). Aqui angstliche é empregado
inequivocamente como "medrosa". Neste exemplo, Freud descreve o estado de uma
Angst 77

mulher disposta a conectar qualquer sinal externo a essa disposição interna, para então
sentir medo ante perigos imaginários de morte.
No artigo "Hemmung, Symptom und Angst", de 1 926, Freud descreve repetida­
mente os processos de prontidão reativa (Bereitschaj) para a ação detonada pelo medo
causado pela volta do recalcado, a qual reatualiza no sujeito o medo da ameaça de
aniquilação. Apesar de al�erar as explicações causais dos mecanismos envolvidos na
Angst, essa reatividade e pr:ontidão (Bereitschaj) para a descarga são uma constante n o
emprego freudiano do termo.
No exemplo 11, apesar da tradução por "estado de angústia", conotativamente se
trata de novo de um "estado de medo". Freud diz que o neurótico "espera a ocorrência
de algo tenebroso", referindo-se à pressão pelo retorno do recalcado. A disposição
constante de encontrar algo "tenebroso" é muito intensa e conotativamente próxima
da idéia de "pavor ou fobia crônicos".
Também no exemplo 1, de Breuer ( 1 893), a palavra Angst é empregada no sentido
de "medo", mas já na época era situada como um medo prolongado que se aproxima
da preocupação e da aflição, um afeto crônico.
No exemplo 9, Freud aborda a questão da Angst automática, do sinal de Angst, do
trauma e da situação de desamparo (Hiiflosigkeit). A ênfase de Freud quando trata da
Angstneurose é novamente na antecipação, na espera . .O sinal de Angst permite ao Eu
reconhecer e antecipar os sinais da chegada de s'ituações semelhantes às antigas
condições vigentes quando do trauma de nascimento. Estas haviam levado o sujeito a
uma situação de desamparo (Hiiflosigkeit) e causavam An�t. Assim, o Eu, se antecipan­
do, procura evitar a repetição desse estado de desamparo. Tal concepção aproxima o
conceito de Angst da idéia de "ansiedade fortemente carregada de medo", um estado
de disposição à irrupção do medo.
Alguns tradutores empregam em português "angústia" para o tipo de sentimentos
citados nestes exemplos, devido ao fato de Freud se referir a " medos prolongados" e
ligados a uma expectativa. Efetivamente Freud não cessa de enfatizar a ligação de Angst
com a espera. Talvez as composições com a palavra "ansiedade ", tais como "neurose
ansiosa" (An�tneurose) e "espera ansiosa" (Erwartun�angst), estejam mais próximas do
sentido dos termos alemães do que as composições com "angústia", pois em português
há maior proximidade entre os termos "ansiedade" e "medo". Entretanto, seja qual for
a opção de tradução, deve ser ressaltado que se trata, no caso da Angstneurose, de um
estado de disposiçao a irrupções de medo.

Medo específico (Furcht) x medo inespecífico (Angst)

A relação entre An�t e Furcht é uma questão já tradicional em psicanálise e tem


·· trazido certa di �iculdade terminológica. Será abordada a partir dos exemplos 10 e 6.
·�
' f. ,

18 Angústia, Ansiedade, Medo

Na primeira parte do exemplo 10, Freud lingüisticamente diferencia An_gJt (medo)


de Furcht (temor, receio). Afirma que An_gJt é usado para medos inespecíficos, se liga
à espera e à indefinição da ameaça, e Furcht (temor, receio) para medos específicos
(artigo "Hemmung, Symptom und Angst"). O mesmo tipo de definição se encontra
ainda hoje nos dicionários alemães. Contudo, no alemão corrente, ambos os termos são
utilizados para designar "medo" perante algo específico. Em expressões como "morrer de
medo de algo", ou "ter pavor" etc., é mais freqüentemente utilizado o termo Angst. O
próprio Freud utiliza An_g!t constantemente para designar "medos específicos" (An_gJt +
vor/medo + de). No parágrafo seguinte ao exemplo 10, o próprio Freud emprega o
termo An_gJt de maneira inversa ao que havia acabado de definir e diz: "( ... ) o medo real
(Rea!.an_gJt) é um medo (Ang,t) perante um perigo que conhecemos. O medo neurótico
(neurotische An_gJt) é o medo (Ang,t) perante um perigo que não conhecemos."
Esta diferenciação freudiana de Ang,t e Furchl repetida em diversos pontos da obra, levou
vários tradutores a optar por "angústia" e "ansiedade", pelo fato de que seriam geralmente
termos ligados a ameaças inespecíficas, assim como a Ang,t supostamente seria um medo
perante algo inespecífico. Entretanto, além de An_gJt ser utilizado para medos específicos,
em português nem sempre "angústia" e "ansiedade" se referem a ameaças inespecíficas
("estou ansioso com a nota do exame"; "estava angustiada com a doença do meu pai").
Possivelmente, ao diferenciar An_gJt e Furcht, Freud desejava preservar em ambos a
idéia de "medo" e apenas queria diferenciar "medo específico" ante um perigo real de
um "medo inespecífico" de espera, causado por uma ameaça desconhecida (a ameaça
pulsional), pois em seguida, ainda no mesmo parágrafo, prossegue: "Ao trazermos à
Consciência do Eu este perigo a ele desconhecido, apagamos a diferença entre medo
real (Realan_gJt) e medo neurótico (neurotische Angst), e podemos tratar este último como
fazemos com o primeiro". 1

Tomando esta última frase, se seguíssemos o critério de traduzir o medo específico (Realangst) por "medo" e o medo
inespecífico (neurotische Angst) por "ansiec:!:tde/angústia", teríamos o seguinte problema de lógica: a frase significaria
que, quando o objeto que causa a "ansiedade/angústia" é conhecido pelo Eu, o sentimento de "angústia/ansiedade"
se tran.:;formaria em "medo•. Ora, isw é ilógico, pois não é o fato de conhecer a ameaça que transforma a
"ansiedade/angústia" em medo: pode-se continuar simultaneamente com medo e ansioso e angustiado diante de
um perigo definido e conhecido (por exemplo, um réu que teme ser condenado à pena de morte). O caráter
ansiógeno é muiw mais librado à incerteza quanto ao desenlace e ao momento de contato com a ameaça do que ao
conhecimento de que perigo se trata. Ao contrário, "ansiedade" e "angústia• perante algo desconhecido podem estar
mais próximas do "medo• do que quando é conhecido o objeto (por exemplo, a sensação de que há uma ameaça
desconhecida rondando o sujeito pode causar um medo próximo do pavor, como se nota nos efeitos dramáticos
obtidos em filmes de suspense e terror). A utilização dos termos "angústia/ansiedade" na frase poderia fazer sentido
lógico se entendêssemos que a Realangst significa "angústia real" ou "ansiedade real", pois aí teríamos que a
"angústia/ansiedade neurótica" se iguala à "ansiedade/angústia real" quando o objeto se torna conhecido.
Entretanto, também esta opção não faz sentido, pois Realangst é claramente usado como significando "medo". No
parágrafo seguinte, pode-se constatar o emprego de Realangst no sentido de "medo": "No perigo real desenvolvemos
duas reações, a afetiva, a irrupção de medo (Angstau.sbruch), e a ação de proteção." Ora. a "angústia• residejustamente
em não poder reagir através da descarga e das ações de proteção (fuga ou ataque), e o mesmo vale para a "ansiedade",
a qual implica justamente ter de aguardar a chegada do perigo. O que Freud vincula a Realgefahr e Realangst é a
seqüência, de cunho biológico, da "irrupção de medo e a seguida reação de fuga ou acaque". Seria forçar o texto
imaginar que, na rápida ação descrita por Freud aqui, a seqüência pudesse ser:. "angústia e fuga-ou-ataque", ou
Angst 79

No exemplo 6, Freud novamente procura diferenciar Furcht (medo, temor) e Angst


(medo, temor), e dessa vez em cónjunto com Schreck (susto). Explica que o susto consiste
numa reação perante o perigo que nos chega de surpresa. Quanto a Furcht e Angst,
ambos pressupõem certa antecipação. No caso de Furcht, um objeto específico e no de
Angst, não. Se tomarmos esta diferenciação entre Furcht e Angst ao pé da letra, então
ambos os termos se referem a uma antecipação e a uma espera, ambos poderiam ser
traduzidos por "ansiedade''._; o que os diferenciaria seria a especificidade do perigo. Tal
especificidade, como já foi dito e exemplificado, não existe realmente em alemão, mas,
se a aceitássemos, o critério para traduzir Furcht e Angst não nos ajudaria na escolha de
um termo em português, pois tanto "medo" e "ansiedade" corno "angústia" podem se
referir a objetos específicos ou inespecífjcos. O que Freud evidentemente está tentando
ressaltar é o caráter antecipatório e inespecífico do medo. Neste sentido, por vezes
( nem sempre, comojá foi exemplificado), a palavra "ansiedade" pode ser uma tradução
viável, apesar de deslocar o peso da conotação para uma "inquietação indefinida",
quando na realidade se trata de um "medo indefinido".

À guisa de conclusão

Como se nota, o emprego de Angst implica urna enorme dificuldade para o tradutor.
Já há em português urna tradição de jargão, e soaria bastante estranho falar em medo
de espera, neurose de medo etc. Afêm disso, há situ�ções em que é difícil diferenciar
medo, angústia e ansiedade, e a ênfase de Freud na espera e na inespecificidade da
An!f5tneurose muitas vezes sugere um sentimento próximo da ansiedade.
1. Seja qual for o ter.m._\> CI!!� �� empregue na tradução) é importante que h leitor)tenha
em mente que em Arigst, mesmo quando se trata de um medo vago e antecipatório,
ocorre um estado de prontidão reativa, visceral, intensa, algo vinculado à sensação de
perigo e muitas vezes próximo da fobi� e_ do, pavor. Isto vale tanto para a primeira como
para a segunda teoria freudiana de Angst; . ·

� Repressão ( Verdrãngung), Descarga (Abfuhr)

"ansiedade e fuga-ou-ataque".
A posteriori, Ação diferida: Nachtriiglichkeit

E: Posteridac� posterior, posterioridad


F: Aprés-coup
I: Defjered action

Freud utiliza com certa freqüência o substantivo Nachtriiglichheit, geralmente tradu­


zido por "a posteriori", "ação deferida", "ação retardada" e "efeito retardado ", bem
como o adjetivo nachtriiglich, que significa "posteriormente" ou "a posteriori". Também
é comum o emprego de outros termos combinados com nachtraglich, como por exemplo
nachtraglich Gehorsam, "obediência adiada" ou "obediência a posteriori".
Estes termos são freqüentemente empregados pór Freud em itálico, para indicar a
importância que lhes confere.
Em alemão, tais palavras podem ser entendidas tanto no sentido de um " efeito
retardado" (uma manifestação que ocorre mais tarde) como no sentido de um retorno
ao passado (um acréscimo a posteriori).
Ambos os sentidos estão presentes no uso freudiano destes vocábulos.

--------- 0 Termo em Alemão ---------

Composição do termo

nach-: Prefixo que corresponde às preposições "para" ( em direção a) e "após". Como


prefixo verbal geralmente indica movimento adiante, em direção a alguém ou a uma
meta; também pode indicar repetição da ação ou acréscimo ulterior, ou ainda rev isão.
triig-: Radical do verbo tragen, carregar, portar, levar, usar no corpo (roup:1, corte
de cabelo etc.)
-lich: Sufixo de adjeúvação que corresponde freqüentemente a "-ável" em português.
-keit: Sufixo de substantivação que corresponde com freqüência a "-<lade" em português.

Significados do verbo nachtragen,


do adjetivo nachtrãglich e do substantivo Nachtrãglichkeit

1 nachtraglich: A posteriori, ulterior, posterior, mais tarde, depois, após. Agiu intem·
pestivamente, porém mais tarde, ponderando a respeito, se arrependeu. Posteriormente o efeito
do choque sefez sentir.
2 nachtragen: Guardar rancor. T;ata- se de uma pessoa rancorosa (no gerúndio: nachtra­
gend). [Na página 206 do Deutsches Worterbuch (DW), dos in'nãos Grimm, encon tni-se,
Nachtraglichkeit 81

para um uso mais antigo de nachtragen, a seguinte explicação: "guardar na memória


algo acontecido através de palavra ou ação, e cultivar o rancor secretamente; deixar
que o causador do acontecido o perceba; vingar-se".]
3 nachtragen: Levar ou portar algo atrás de alguém, seguir a pessoa carregando
pacotes etc. Vendo que ela esqueceu a bol.sa, ele a levou para eh
4 nachtragen: Inscrev�r a posteriori, complementar, incluir ou acrescentar algo num
texto. Ocorreram-me exemp{os que quero acrescentar no artigo.
5 Nachtrãglichkeit (não está dicionarizado, é pouco usual): Efeito retardado, a posteriori.

Conotações do verbo nachtragen,


·do adjetivo nachtrãglich e do substantivo Nachtrãglichkeit

A) O prefixo nach-, em conexão com determinados verbos, indica volta a um evento


passado para fazer um acréscimo. Em alemão, verbos como nachsehen ("verificar",
"checar" e "voltar para ver"), nachzahlen ("voltar a pagar mais tarde um suplemento ou
diferença"), nachholen ("recuperar", "reparar") evocam uma volta desse tipo. O subs­
tantivo Nachtrag também significa "adendo.", "acréscimo" .
. B) O adjetivo nachtraglich permite dupla leitura:
,
1 Pode indicar que o sujeito continua a carregar (tragen) até hoje o evento, e
que somente a posieriori o efeito se manifesta ("efeito retardado"): "Posteriormente o
efeito do choque se fez sentir".
2 Também pode significar que o sujeito volta ao passado ao encontro do evento
( ou, o que é equivalente, que o sujeito traz do passado o evento para o presente): "Agiu
intempestivamente, porém mais tarde, ponderando a respeito, se arrependeu". No DW,
206, figuram ao lado do termo nachtraglich as palavras nachgeholt (literalmente, buscado
de. novo) e nachholend (literalmente, buscando de novo); são conjugações do verbo
nachholen (literalmente, buscar de novo) citado na conotação A. Também aparece no
mesmo verbete o termo hinterdrein (literalmente, atrás para dentro), o qual significa
"posteriormente".
Tais equivalências apontam para "voltar ao passado" ("buscar o antigo evento",
"entrar no passado" etc.).
C) Tanto o sentido de "efeito retardado" quanto a idéia de "volta ao passado" podem
ser fruto de três processos diversos: podem desencadear-se como fruto de reflexão
intensa e consciente; podem originar-se de algo que fermentou nas profundezas e
aflorou subitamente; ou ainda podem ser efeito de ur ninsight resultante de um estímulo
externo. De qualquer forma, todos esses processos são resultados de um "trabalho
elaborativo ", pois após a vivência do evento o sujeito irá carregá-lo e maturá-lo no curso
da vida.
82 A posteriori, Ação diferida

- ------ Etimologia e Termos Correlatos -------

Etimologia

nach-: No antigo alto-alemão nah, significava inicialmente "perto de", depois passa
a significar "em direção a algo" e afinal adquire os sentidos de "atrás de algo",
"seguindo algo", "segundo", "conforme", "após" e "atrás". Os sentidos geográfico ("em
direção", "para"), temporal ("após") e de conjunção ("segundo", "conforme") derivam
todos da idéia de "seguir de perto".
-tragen: No gótico tinha a forma ga-dragan, originalmente "puxar", no antigo
alto-alem�o tragan e no médio alto-alemão tragen, "carregar" (no inglês atual resultou
em draw). Ligam-se a este tronco palavras alemãs como Tracht, "vestimenta", e Getreide,
"grãos ou cereais". A "vestimenta" é algo que se "porta-usa-carrega" e o "cereal" é
"portado-carregado" pela planta. Mais tarde o termo liga-se a situações e palavras
referentes a "transporte". No século xv encontram-se muitos termos compostos com
tragen, designando instrumentos de transporte; este termo também aparece na lingua­
gem burocrática administrativa e comercial (Auftragen/encomendar, Betragen/ montar
a_certa quantia etc.). O uso de tragen associado a outros prefixos e sufixos se estende a
dezenas de palavras, abarcando vários conceitos abstratos e concretos, tão polissêmi­
cos como o próprio termo nachtragen.

Termos correlatos, derivados e compostos

Ao conect_ar-se a verbos, nach- pode dotá-los de inúmeros significados; contudo, nos


exemplos abaixo, sempre indica retorno a algo que ficou para trás. Nachtrag: comple­
mento, àcréscimo; nachweinen: chorar por algo perdido; nachlesen: voltar a ler para
certificar-se ou atualizar-se.

----- Comp aração com o Termo em Português -----

Nachtrãglich e Nachtrãglichkeit são traduzidos por vezes como "ação diferida";


entretanto, não se referem especificamente a uma "ação", podem referir-se a pensa­
mentos, efeitos etc. De qualquer forma, à expressão "ação diferida" hão será abordada,
pois trata-se de termo técnico sem uso coloquial. Os termos serão contrastados com a
posteriori, locução corrente em português.
Nachtrâglichkeit 83

Significados adiciona·is de
a posteriori não presentes em nachtrãglich e Nachtrãglichkeit

Nada de relevante a contrastar entre os dois termos.

Conotações adicionais de
a posteriori não presentes em nachtrãglich e Nachtrãglichkeit

D) Em português a posteriori e "posteriormente" evocam a idéia de que o sujeito se


afastou temporalmente do evento e agora, com a devida distância, reconsidera
(rearranja mentalmente) o significado do evento. É como se, a partir de um posto
de observação mais afastado do evento, o sujeito pudesse então avaliá-lo de forma
diferente. O foco é sobre a distância temporal de visão/avaliação. Em alemão nachtrã­
glich enfoca a permanência de uma conexão entre o agora e o momento de então,
mantendo ambos interligados. Pode-se "carregar para o passado uma nova visão" (o
que leva a um retorno e a um acréscimo de algo que faltava) , ou então pode-se trazer
( carregar) do passado para o presente o evento antigo e acrescentar-lhe algo, atualizando-o.

Resumo das diferenças de significados e conota�?es

alemão português
nachtragen (verbo) acrescentar a posteriori (verbo)
nachtraglich (adjetivo) a posteriori, ulterior(mente) (adj/adv)
Nachtraglichkeit (substantivo) ação diferida, efeito retardado (subst)
efeito a posteriori

significados
1 (adjetivo) a posteriori 1 a posteriori
2 (verbo) guardar rancor 2-
3 (verbo) levar atrás de alguém 3-
4 (verbo) acrescentar a posteriori 4-
5 (substantivo) qualidade de ter 5 qualidade de ter
efeito retardado, efeito a posteriori efeito retardado, efeito a posteriori (subst)
conotações:
A volta para acrescentar A­
B dupla leitura: volta ao evento/ B-
evento permaneceu com o sujeito
C trabalho elaborativo C-
D- D foco sobre a distância temporal

O termo akmão implica que algo é refeito/re.modelado por acréscimo/retorno,


ou então que ,a lgo permanece latente e se manifesta posteriormente. Ao traduzir-se.
84 A posteriori, Ação diferida

nachtraglich por a posteriori perde-se a noção de "retorno" ao evento (conotação A) e a


idéia de "permanência" do evento ( conotação B ), bem como a referência a umcontínuo
processo elaborativo de "maturação-ressignificação" (conotação C).

--------Exemplos de Uso em Freud --------

1 "Mas, no momento em que ocorrem, elas só produzem efeito em grau muito


reduzido; muito mais importante é o seu efeito retardado (nachtragliche Wirkung), que
só pode ocorrer em períodos posteriores do crescimento. Este efeito retardado se
origina - como não poderia deixar de ser - nos traços deixados pelas experiências
sexuais infantis. ( ... ) Nestas breves indicações, não posso fazer mais do que mencionar
os principais fatores em que se baseia a teoria das psiconeuroses: a natureza adiada
(Nachtrãglichkeit) do efeito e o estado infantil do aparelho sexual e do instrumento
mental."
A Sexualidade na Etiologi,a das Neuroses (1898) [ESB 3, 250]

2 "Já que as manifestações das psiconeuroses provêm da ação retardada* (Nachtrii­


glichkeit) de traços psíquicos inconscientes, elas são acessíveis à psicoterapia. Mas, nesse
caso, a terapia deve seguir caminhos diferentes do único até hoje seguido: o da sugestão,
com ou sem hipnose."
A Sexualidade na Etiologia das Neuroses ( 1898) [ESB 3, 25 1 ]
* do efeito retardado.
3 "A interpretação do sonho agora me parecia completa. No dia seguinte, porém,
Dora ainda me trouxe um aditamento (Nachtrag). Esquecera-se de contar que todas as
vezes, depois de acordar, sentia cheiro de fumaça."
Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria ( 1901-5) [ESB 7, 74]

"A propósito disso ocorreu a Dora o adendo (Nachtrag) de que, depois da palavra
'quiser', havia um ponto de interrogação."
Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria ( 190 1-5) [ESB 7, 96]

[A respeito de um sonho.] "(. . . ) agora, porém, com o acréscimo das 'ninfas' que se
viam ao fundo 'do bosque denso',já não podia haver dúvidas. Era a geografia simbólica
do sexo!"
Frar;mentos da Análise de um Caso de Histeria ( 190 1-5) [ESB 7, 97]

[Nota 2]: "( ... ) no sentido de que os primeiros fragmentos do sonho a ser esquecidos,
e que só depois (nachtriiglich) são recordados, são sempre os mais importantes para a
Nachtrãglichkeit 85

compreensão do sonho. Extraí ali a conclusão de que também o esquecimento do sonho


deve ser explicado pela resistência intrapsíquica."
Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria ( 1 90 1-5) [ESB 7, 97)

4 "Constituiria um dos processos mais típicos se a ameaça de castração produzisse


um efeito adiado 1 (nach,trãglich), e se agora, um ano e três meses depois, ele fosse
oprimido pelo medo de t,e r de perder essa preciosa parte do seu ego. Em outros casos
de doença podemos observar uma semelhante operação adiada2 (nachtrãgliche Wirkun­
gen) de ordens e ameaças feitas na infância, casos nos quais o intervalo chega a cobrir
várias décadas, ou até mais. Conheço até casos nos quais uma 'obediência adiada'3
( "nachtrãgliche Gehorsam") sob influência da repressão desempenhou um papel prepon­
derante na determinação dos sintomas da doença.
"A parcela de esclarecimento dado a Hans, pouco tempo antes, quanto ao fato de
que as mulheres não possuem pipi, estava fadada a ter apenas um efeito destruidor
sobre sua autoconfiança e a ter originado seu complexo de castração.4 Por essa razão
é que ele ofereceu resistência à informação, e pela mesma razão ela não produziu efeitos
terapêuticos. Seria possível que houvesse seres vivos que não tivessem pif is? Se assim
fosse, não mais se poderia duvidar de que eles pudessem fazer desaparecer seu próprio
pipi e, se assim fosse, transformá-lo em mulher!"
"Análise de uma Fobia em um Menino deCinco Anos" ( 1 909) [ESB 10, 45-6]
I se a ameaça de castração viesse a manifestar um efeito a posteriori.
2 um semelhante efeito retardado.
3 O sentido é de obediência a posteriori, como se' a obediência viesse a cumprir posterior­
mente uma ordem antiga.
4 O fato _de as mulheres não possuírem fazedor de pipi s6 poderia ter um efeito avassalador
sobre sua autoconfiança e desp"mar o complexo de castração.
5 de que se lhe pudesse tirar ofazedor de pipi e igualm nte transformá-lo em mulher!

5 "O que até então fora interdito por sua existência real foi doravante proibido
pelos próprios filhos, de acordo com o procedimento psicológico que nos é tão familiar
nas psicanálises, sob o nome de 'obediência adiada' (nachtrãglichen Gehorsarns). A nula­
ram o próprio ato proibindo a morte do totem, o substituto do pai; e renunciaram aos
seus frutos abrindo mão da reivindicação às mulheres que agora tinham sido libertadas.
Criaram assim o·sentimento de culpa filial, os dois tabus fundamentais do totemismo,
que, por essa própria razão, corresponderam inevitavelmente aos dois desejos repri­
midos do complexo de Édipo."
Totem e Tabu ( 1912-3) [ESB 13, 171-2]

6 "Há um tipo especial de experiências da máxima importância, para a qual lembrança


alguma, via qe regra, pode ser recuperada. Trata-se de experiências que ocorreram em
86 A posteriori, Ação d!ferida

infância muito remota e não foram compreendidas e interpretadas na ocasião, mas


subseqüentemente (nachtrãglich) foram compreendidas e interpretadas."
"Recordar, Repetir e Elaborar" (1914) [ESB 12, 195]

7 "Não devemos esquecer a situação real que está por trás da descrição abreviada
dada no texto: o paciente sob análise, com mais de vinte e cinco anos de idade, estava
colocando as impressões e impulsos de seus quatro anos em palavras que não poderia
jamais encontrar naquela época. É simplesmente mais um caso de ação preterida*
(Nachtraglichkeit)."
História de uma Neurose Infantil ( 19 14-8) [ESB 17, 63, nota l]
* caso de efeito a posteriori.

8 "A observação que finalmente rompea sua crença é a visão dos órgãos genitais
femininos. Mais cedo ou mais tarde a criança, que tanto orgulho tem da posse de um
pênis, tem uma visão da região genital de uma menina e não pode deixar de
convencer-se da ausência de um pênis numa criatura assim semelhante a ela própria.
Com isso, a perda de seu próprio pênis fica imaginável e a ameaça de castração ganha
seu efeito adiado* (nachtraglich)."
"A Dissolução do Complexo de Édipo" ( 1 924) [ESB 19, 220]
* e a ameaça de castração passa a excercer um efeito a posteriori.

9 "Finalmente a análise nos demonstrou de maneira obscura como o fato de uma


criança em idade muito precoce escutar os pais copularem pode desencadear sua
primeira excitação sexual e como esse acontecimento pode, devido a seus efeitos
posteriores (nachtraglichen Wirkungen), agir como ponto de partida para todo o desen­
volvimento sexual da criança. ( ... ) É impossível, contudo, supor que essas observações
de coito sejam de ocorrência universal, de modo que a essa altura nos defrontamos
com o problema das 'fantasias primitivas'."
"Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica entre os Sexos" ( 1925)
[ESB 19, 312]

----------- Comentários -----------

Freud utiliza várias composições e formas do termo: nachtrãglich (posteriormente),


nachtrãglicM Wirkung (efeito retardado ou efeito a posteriori), nachtraglich Gehorsam
(obediência a posteriori), Nachtrag (adendo, acréscimo, aditamento) e Nachtrãglichkeit
(conforme já mencionado, substantivo pouco usual, que significa "qualidade de ser a
posteriori ou de ter efeito retardado").
Freqüentemente os emprega em itálico, indicando a importância que lhes confere.
Nachtraglichkeit 81

Aquilo que é nachtrãglich evoca um trânsito entre o presente e o passado. Pode


ocorrer uma manifestação retardada (postergada) do passado, o ··,qual, "fermentando"
ao longo do tempo, só mais tarde se faz sentir, criando um "efeito retardado" ; ou, em
vez disso, pode ocorrer um retorno ao passado ( ou, o que é equivalente, urna
presentificação do passado), realizando-se um acréscimo a posteriori de novos signifi­
cados a serem agregados.aos antigos eventos.
Psicanaliticamente, ap'esar de ambos os sentidos não serem excludentes, podem ser
esquematicamente separados:
- Um evento antigo permanece no inconsciente eventualmente como resultado do
recalque e continua a agir, determinando os sintomas que se farão perceptíveis mais
tarde (exemplos 1 e 2);
- Um evento antigo adquire sentido a posteriori quando, após alguma maturação
biológica e tendo acesso a novos contextos de significado, o sujeito liga o antigo evento
aos novos eventos e significados. Será portanto ressignificado por acréscimo, isto é,
pelo posterior retorno a ele (exemplos 6 e 7). Se através desses novos significados o
evento é reativado, tornando-se ameaçador, produzir-se-á um efeito traumático a
posteriori ( exemplo 8).
Entretanto, nem sempre é possível uma leitura tão· esquemática. No exemplo 4, o
advérbio é utilizado em combinações que remet7m a ambos os sentidos ( efeito a
posteriori e efeito retardado). Nesse exemplo Freud trata das ameaças de castração feitas
no passado ao pequeno Hans pela sua mãe, as quais se tornam significativas anos mais
tarde ao se conectarem a novos eventos ou significados (a informação de que mulheres
não possuem pênis). Por um lado, a informação da ausência do pênis na mulher é algo
que se acrescenta à antiga ameaça de castraçãojá proferida pela mãe e leva a uma "volta
ao passado" (ou a uma presentificação do passado). A antiga ameaça é ressignificada,
assumindo a proporção de uma ameaça plausível, que realmente poderia levar à
eliminação de seu pênis. Por outro lado, não se pode dizer que a antiga ameaça de
castraçãojazia inofensiva e apenas se ativou com o acréscimo da nova informação sobre
a anatomia feminina, adquirindo plausibilidade a posteriori. No segundo parágrafo
Freud explica que a nova informação não teve efeito de esclarecimento terapêutico e
o menino já vinha oferecendo resistência à n ova informação. Ora, essa resistência, bem
como a geração do "complexo de castração", só seria possível pelo fato de a ameaça de
castraçãojá ter estado fermentando e operando nas profundezas e erigindo resistências
à nova informação a respeito da diferença anatômica.
Ainda no exemplo 4, é mencionado, no primeiro parágrafo, o fenômeno da
"obediência adiada", cuja característica é ser uma manifestação tardia de material
anteriormente i:ecalcado, o qual continua a operar no inconsciente para se manifestar
mais adiante.
Mais do que um esquematismo univetorial, o termo nachtriiglich aponta para uma
atuação simultânea de dois vetores, conforme aparece no exemplo 4.
'.
·.;· -.,

88 A posteriori, Ação diferida

Nachtrãglichkeit e resistência

A ligação entre a Nachtriiglichkeit e a resistência não é mencionada só no exemplo 4,


reaparece em diversos outros momentos.
No texto Fra[!;Ynentos da Análise de um Caso de Histeria ( exemplo 3), após usar a palavra
Nachtrag, que significa "acréscimo", "adendo", na nota 2 da mesma página Freud
emprega o advérbio nachtrãglich (posteriormente) em conexão com o fenômeno da
resistência. Refere-se às conexões e às alterações que se processam intrapsiquicamente
no tempo que decorre entre os diversos relatos e omissões dos sonhos, revelando-se aí
a ação da resistência.
Pode-se dizer que, no tempo que decorre entre os evemos e as novas manifestações
a eles associadas, ocorre uma ação subterrânea da resistência. Esta é até certo ponto
responsável tanto pela defasagem temporal como pelas distorções nas represemações
( Vorstellungen) conectadas ao evento, bem como pela eventual rigidez e impermeabili­
dade a novas influências, apresentadas pelo material psíquico que se manifestará
"posteriormente" (nachtrãglich).
Nas suas diversas acepções, os mecanismos de interpretação retroativa e de eficácia
a posteriori libertam a compreensão analítica de uma causalidade e temporalidade
estritas.
Sem pretender avançar aqui nestas questões, vale dizer que o termo abre portas
para temas fundamentais: o sentimento de culpa, ligado amiúde por Freud a "obediên­
cia a posteriori/adiada" ( exemplos 4 e 5); a questão da integração posterior das fantasias
filogeneticamente herdadas, as chamadas "fantasias originárias" ( exemplo 9); e outras
questões, cuja importância foi especialmente destacada e explorada por Lacan, tais
como a linguagem, os traços mnésicos, a causalidade e a temporalidade.

� O Estranho (das Unheimliche)


Catexia, Investimento: Besetzung

E: Carga ou investidura
I: Cathexis
F: Investissement

A tradução .habitual de .Besetzung é "catexia" ou "investimento". "Catexia" soa bastante


técnico e pouco compreensível na linguagem coloquial. "Investimento", até certo ponto,
corresponde a Besetzung, mas não possui as conotações específicas do termo em alemão.
Além disso, apresenta outros sentidos adicionais em português, estranhos ao co�ceito
freudiano original. Besetzung é portanto um termo de difícil tradução.
O verbo besetzen evoca a imagem de um espalhamento que preenche, ocupa e
bloqueia os espaços. O termo também possui um sentido de "colocar pessoas",
"ativar" .
As conotações de besetzen e Besetzung ligam-se à idéia de mobilidade e fluidez, algo
pertinente ao modelo freudiano de circulação energética, onde há vias, locus, fixações
e liberações, entradas e saídas, bloqueios etc.

j
-------- - 0 Termo em Alemão ---------

Composição do termo

be-: Prefixo que torna transitivos os verbos intransitivos. Em alguns casos indica
uma aproximação, um contato, ou o ato de tomar (pegar).
setz-: Corresponde ao radical do verbo setzen, que na forma transitiva significa
literalmente "colocar sentado", "assentar" ou "pôr/colocar" em geral.
-ung;. Sufixo de substantivação que corresponde freqüentemente a "-ção" em português.

Significados do verbo
besetzen e do substantivo Besetzung

1 ) Ocupar um' lugar (banco, cadeira, toalete etc.). O toalete está ocupado.
2) Inv,;tdir, tomar, ocupar militarmente (também utilizado como substantivo).. Opais
foi ocupado.
3) Preencher um cargo (também utilizado como substantivo). O novo governo
preencheu/ocupo.u todos os cargos com gente sua.
4) Ocupar um papel no teatro (também utilizado como substantivo). Falta distri­
buir/ocupar dois papéis na peça.
90 Catexia, Investimento

5) Aplicar, dotar de, prover de. Aplicar bordados dourados no vestido.

Conotações do verbo
besetzen e do substantivo Besetzung

A) O prefixo be-, em conjunção com o verbo setzen (assentar, colocar, pôr), remete
à ação de colocar num espaço um objeto que vem de outro lugar. A maneira de colocar
é semelhante a: "assentar" o objeto em determinado lugar, ocupando-o.
B) Tanto no sentido 1 como no 2, aquilo que é ocupado geralmente é algo que
ainda tinha espaço a ser preenchido. Uma vez tomado e ocupado, é como se as forças
que ocuparam tivessem se apossado ou tomado o local ou o objeto e o bloqueassem
(uma mesa ocupada num restaurante, uma aldeia ocupada pelo exército inimigo).
Imageticamente, ao ocupar, há um apossar-se do espaço e um espalhamento preen­
chendo/bloqueando a área.
C) Em geral o termo besetzen é empregado referindo-se a ocupar espaços ou funções
com pessoas. Nos sentidos 3 e 4 é como se se tratasse de funções vazias a serem
populadas; podemos imaginar cargos ou papéis teatrais livres e vazios que serão
preenchidos.
D) Há implícita certa mobilidade no termo besetzen, pois aquilo que é besetzt
(colocado/ocupado) pode ser retirado (entzogen ). Aquilo que é besetzt não se incorpora
em definitivo ao local ou ao objeto sobre o qual tinha sido "assentado". Em alemão há
quatro verbos básicos para "colocar" ou "pôr". Cada um especifica em que posição o
objeto foi "colocado": legen (colocar deitado), setzen (colocar sentado, assentar), stellen
(colocar de pé, erigir, montar etc.) e hãngen (pendurar). Cada um destes verbos pode
receber prefixos que lhes darão sentidos mais precisos. Todas essas formas de ''coloca­
ção" têm em comum o fato de serem bastante dinâmicas e reve-rsíveis. Há uma
plasticidade imagética (pode-se visualizar a posição) e uma mobilidade inerente a tais
verbos ( existe um sujeito que coloca e pode retirar novamente).

- ------ Etimologia e Termos Correlatos ---- -- -

Etimologia

be-: Do indo-europeu *bhi, derivado de *ambhi (em torno de); assume no gótico a
forma bi·, no antigo alto-alemão bi-, no médio alto-alemão be·. Inicialmente, como
prefixo verbal, designava a direção espacial de um processo (por exemplo, befallen,
atacar ou acometer); mais tarde indicava também a intervenção temporalmente limita­
da sobre um objeto ou pessoa. No alemão atual funciona como prefixo que transforma
advérbios, substantivos, adjetivos e verbos intransitivos em verbos transitivos.
Besetzung 91

-setzen: Da raiz indo-européia *sed- (sentar-se ou assentar, colocar em posição


sentada), no antigo alto-alemão assume a forma sizzen, no gótico sitan, no latim sedere
e no grego hézesthai. O antigo sentido do termo no alto-alemão é "ordenar", "'determi­
nar"; nos séculos xrv e xv significava também "estabelecer o direito jurídico", daí Gesetz
(lei/legislação). Gerou, ainda, substantivos como Satz (frase) Schriftsetzer (colocador de
letras, tipógrafo, escritor), Tonsetzer (colocador de tons, compositor) etc.
Desde o gótico, o termo.?esetzen (bisatjan) é utilizado nos sentidos de "tomar", "ocupar".

Termos correlatos, derivados e compostos

Como se pode notar, nos exemplos abaixo setzen está sempre se referindo �
estabelecer - assentar - fixar - colocar - pôr etc.:
beisetzen: colocar um caixão ao lado do outro na sepultura (assentar junto a);
Besatzung-. tripulação (aqueles que forarr.. colocados); Besitz: posse, propriedade (aquilo
que foi assentado); durchsetzen: impor (colocar do início ao fim); setz.en: colocar,
estabelecer, instalar; Setzkasten: caixa tipográfica (caixa de colocar - assentar); überset­
zen: traduzir, levar de uma margem-do rio a outra (assentar - colocar de-um lado para
o outro); Vorgesetzte: chefe, superior (aquele que está sentado adiante); Zusatz: adendo,
acréscimo (assentamento complementar).

----- Comparação com o Termo em Português -----

O verbo besetzen será contrastado somente com "investir", pois "catexizar" não é
vocábulo corrente em português. Os substantivos Besetzung e "investimento" não serão
tratados à parte, pois grosso modo têm as mesmas características conotativas que os
respectivos verbos.

Significados adicionais de
"investir" e "investimento " não presentes em besetzen

6) Aplicar ou colocar dinheiro, esforço, energia etc. (também utilizado como


substantivo). Investiu muito nessa relação amorosa.
7) Atacar, acometer, atirar-se com ímpeto. O animal investiu com todas asforças contra
seu perseguidor.
8) Colocar alguém num cargo, investir na posse de, eleger, nomear (diferente do
sentido 5, o qu�l se refere ao cargo e não à pessoa). Investiu-se do cargo de presidente.
[Exemplos ádaptados do NDA, 965; há ainda outros usos semelhantes, ou derivados
dos citados acima.]
92 Catexia, Investimento

Conotações adicionais de
"investir" não presentes em besetzen

E) Em português o foco da palavra "investir" não é um colocar que "assenta" ou


"instala" o objeto. É um colocar no sentido de "enfiar". Etimologicamente o termo
latino investire remete a "enfiar-se em algo". É provável que se referia originariameme
a "enfiar-se na roupa"; "in" (dentro, para dentro) e "vestir" (colocar roupa). Já besetzen,
mesmo no sentido 2 (ocupar militarmente), não-evoca a imagem de "penetração", mas
de "apoderar-se e espalhar-se, preenchendo, ocupando os espaços".

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: besetzen português: investir


significados:
1 ocupar lugar 1-
2 invadir, ocupar militarmente 2-
3 preencher cargo 3-
4 preencher papel de teatro 4-
5 aplicar, dotar de ( em geral,
em roupas) 5-
6 - 6 aplicar dinheiro, apostar em, aplicar
esforço
7 - 7 atacar, arremeter
8 - 8 dar posse a, em um cargo

conotações:
A assentar algo sobre/
em objeto/lugar/alguém A ­
B espaço recebe conteúdo, é tomado B -
C popular, vivificar A -
D plasticidade, mobilidade concreta D (investir é reversível, mas em geral
menos imagético)
E - E enfia/penetra

Ao traduzir-se besetzen por "investir" perdecse a idéia de "ocupar algo" (sentidos 1 e 2 e


conotação A), bem como a imagem de um "preenchimento" (sentidos 3 e 4 e conotações
B e C). Além disso, acrescentam-se ao .termo em português sentidos que seriam pouco
compreensíveis no contexto freudiano (sentidos 6, 7 e 8). Até certo ponto o sig�ificado
psicanalítico atribuído à palavra "investir", em português, pode se aproximar do termo
alemão se tentarmos imaginar plástica e dinamicamente o sentido 6 ("investir" como
Besetzung 93

"colocar") evocando a conotação D (visualizar o gesto concreto de "enfiar"). Pode-se então


eventualmente ter algo mais próximo do alemão, cujo caráter é bastante imagético.

---- ---- Exemplos de Uso em Freud

1 "Se combinarmos es'sa descrição dos neurônios com a concepção da teoria Q,


chegaremos à noção de um neurônio catexizado (besetzten), cheio* de determinada
Q, ao passo que, em outras circunstâncias, ele pode estar vazio."
"Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1895) [ESB 1, 3 18]
* Em vez de cheio, preenchido com.
2 "Para o ego, portanto, a regra biológica é a seguinte: Quando aparece urna
indicação 1 de realidade, aí então a catexia (Besetzung) perceptiva que existe simultanea­
mente deve ser hipercatexizada2 (übenubesetzen)."
"Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1895) [ESB 1, 385]
1
Em vez de indicação, sinal de realidade.
2
O sentido é de receber mais uma camada de catexia, uma catexia sobreposta catexia adicicmaL
'
3 "Eles* partilham esse caráter de indestrutibilidade com todos os outros atos
anímicos verdadeiramente inconscientes, isto é, que pertencem apenas ao sistema Ics.
São vias estabelecidas de urna vez por todas, quejamais caem em desuso e que, sempre
que uma excitação 1nconsciente volta a catexizá-las (wiederbesetzt), estão prontas a levar
o processo excitatório à descarga."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VII /C (1900) [ESB 5, 505, nota l]
* El.es refere-se aqui aos desejos inconscientes.

4 "Um componente essencial dessa vivência de satisfação é uma percepção especí­


fica (a da nutrição, em nosso exemplo) cuja imagem mnêmica fica associada, daí por
diante, ao traço mnêmico da excitação produzida pela necessidade. Em decorrência
do vínculo (Verknüpfung) assim estabelecido, na próxima vez em que essa necessidade
for despertada, surgirá de imediato uma moção (Regung) psíquica que procurará recate­
xizar (besetzen) a imagem mnêmica da percepção e reevocar a própria percepção, isto é,
restabelecer a situação de satisfação original. Uma moção (Regung) dessa espécie é o que
chamamos de desejo; ·o reaparecimento da percepção é a realização do desejo, e o caminho
mais curto para essa realização é a via que conduz diretamente da excitação produzida
pelo desejo par� uma completa catexia (Besetzung) da percepção. Nada nos impede de
preswrur que tenha havido um estado primiúvo do aparelho psíquico em que esse caminho
era realmente percorrido, isto é, em que o desejo terminava em alucinação. Logo, o
94 Cacexia. Investimento

objetivo dessa primeira atividade psíquica era produzir uma 'identidade perceptiva' -
uma repetição da percepção vinculada à satisfação da necessidade."
A Interpretação dos Sonhos, cap. XII/C ( 1 900) [ESl� 5, 5 16]

5 "Ele [ o pensamento] é essencialmente um tipo experimental de atuação acompa­


nhado por deslocamento de quantidades relativamente pequenas de catexia (Besetzungs­
1
quantitiiten), junto com o menor dispêndio (descarga) destas. Para este fim, foi
necessária a tr:;i.nsformação de catexias (Besetzungen) livremente móveis em catexias
(Besetzungen) vinculadas, o que se conseguiu mediante elevação do n ível de todo o
processo catexial (Besetzungsuorganges). É provável que o pensar fosse originalmente
inconsciente, na medida em que ultrapassava simples apresemações ideativas 2 e era
dirigido para as relações entre impressões de objetos, e que não adquiriu outras
qualidades perceptíveis à consciência até haver-se ligado a resíduos verbais." 3
"Formulações Sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental" ( 1 9 1 1 )
[ESB 12, 281]
Retraduzindo o trecho: Ele [o pensamentoJ é essencialmente uma ação-por-siinulaçiio (ou ação
1

por tentativa) acompanhada por um deslocar de pequenas quantidades de catexia, com pouco di.ipêndio
(descarga) destas.
2 representações, ou representações mentais.
3 e adquiriu outras qualidades perceptíveis à consciência através da ligação com os resíduos
verbais.

6 "Assim formamos uma idéia de que há uma catexia libidinal (Libidobesetzung)


original do ego, parte da qual é posteriormente transmitida a objetos, mas que
fundamentalmente persiste e está relacionada com as catexias objetais ( Objektbesetzun­
gen), assim como o corpo de uma ameba está relacionado com os ps-eudópo<los que
produz. ( . . . ) Tudo que observamos foram emanações dessa libido - as catexias objetais,
(Objektbesetzungen) que podem ser transmitidas e retiradas n ovamente."
"Sobre o Narcisismo: Uma Introdução" (19 14) [ESB 14, 92]

7 "( ... ) quando a catexia do ego (Jchbesetzung) com a libido excede certa quantidade."
"Sobre o Narcisismo: Uma Introdução" (1914) [ESB 14, 1 0 1 ]

8 "Com derivados não reprimidos do inconséiente, o destino de uma idéia específica


é, com freqüência, decidido pelo grau de sua atividade* (Aktivierung) ou catexia.."
"A Repressão" (1915) [ESB 14, 1 75]
* pelo grau de ativação ou catexia.
Retraduzindo o trecho: No caso dos derivados (descendentes, rebentos) não reprimidos do
inconsciente, freqüentemente o grau de ativação ou de investimento é que determinaní o destino
de cada representação (idéia).
Besetzung 95

9 "Deve tratar-se de uma retirada da catexia (Besetzung), mas a questão é: em que


sistema ocorre a retirada e a que sistema pertence a catexia (Besetzung) retirada?"
"O Inconsciente" ( 1915) [ESB 14, 207]

10 "A idéia reprimida permanece capaz de agir (aktionsfahig) no Ics. * e deve,


portanto, ter conservado �ua
. catexia (Besetzung)."
"O Inconsciente" ( 1915) [ESB 14, 207]
*permanece no lcs. com capacidade de entrar em ação.

11 "A idéia, portanto, ou permanece não catexizada (unbesetzt), ou recebe a catexia


do Ics., ou retém a catexia do Ics. que já possuía.
"Assim há uma retirada da catexia (Besetzung) (pré)-consciente, uma retenção da
catexia (Besetzung) inconsciente, ou uma substituição da catexia (Besetzung) pré-cons­
ciente por uma inconsciente. Notemos, além disto, que baseamos essas reflexões (por
assim dizer intencionalmente*) na suposição de que a transição do sistema Ics. para o
sistema seguinte não se processa pela efetuação de um novo registro, mas por uma
modificação em seu estado, uma alteração em sua catexia (Besetzung). Aqui a hipótese
funcional anulou facilmente a topográfica."
"O Inconsciente" ( 1915) [ESB 14, 207]
* No original Freud diz justamente o contrário: por assim dizer não intencionalmente.
12 "Necessitamos, por conseguinte, de outro processo que, no primeiro caso,
mantenha a repressão [isto é, o caso da pressão posterior 1 ] e, no segundo [isto é, o da
pressão primeva2], assegure o seu estabelecimento e continuidade. Esse outro processo
só pode ser encontrado mediante a suposição de uma anticatexia ( Gegenbesetzung), por
meio da qual o sistema Pcs. se protege da pressão que sofre por parte da idéia
inconsciente. ( ... ) A anticatexia (Gegenbesetzung) é o único mecanismo da repressão
primeva; 2 no caso da repressão propriamente dita ("pressão posterior" 1 ) verifica-se,
além disso, a retirada da catexia do Pcs. É bem possível que seja precisamente a catexia
retirada da idéia3 a utilizada para a anticatexia (Gegenbesetzung)."
"O Inconsciente" ( 1 9 1 5 ) [ESB 14, 208]
1
Freud utiliza o termoNachdrãngen para designar os recalques propriamente ditos, os quais
vêm após os recalques originais. Nachdrãngen significa literalmente "empurrar/desalojar após"
ou "empurrar/desalojar em seguida", ou seja, expressa a idéia de que um ato de empurrar/de­
salojar é seguido por outro e assim sucessivamente.
2
Freud utiliza.o termo Urverdrãngung para designar o primeiro recalque. Urverdrãngung
contém o prefixo ur-, utilizado para designar a ancestralidade e o fato de ser o primeiro de uma
linhagem.
3
idéia no sentido de representação interna.
96 Catexia, lnvestimenco

13 "O sistema Ics. contém as catexias da coisa (Sachbesetzungen), dos objetos, as


primeiras e verdadeiras catexias objetais ( Objehtbesetzungen); o sistema Pcs. ocorre
quando essa apresentação 1 (Vorstellung) da coisa é hipercatexizada (überbesetzt) através
da ligação2 (Verhnüpfungen) com as apresentações 1 da palavra que lhe correspondem.
São essas hipercatexias ( Überbesetzungen), podemos supor, que provocam uma organi­
zação psíquica mais elevada, possibilitando que o processo primário seja sucedido pelo
processo secundário, dominante no Pcs. Ora, também estamos em condições de
declarar precisamente o que é que a repressão nega à apresentação 1 rejeitada nas
neuroses de transferência: o que ela nega à apresentação 1 é a tradução em palavras
1
que permanecerá ligada2 (verknüpft) ao objeto. Uma apresentação que não seja posta
em palavras, ou um ato psíquico que hão seja hipercatexizado (überbesetzt), permanece
a partir de então no Ics. em estado de repressão."
"O Inconsciente" (19 15) [ESB 14, 230]
1 O sentido de apresentação é representação ou idéia.
2 As palavras ligada e ligação estão traduzidas de forma pouco clara. Geralmente se traduzem
as palavras gebunden e Bináung (atado, fixado, ligado) por ligada e ligação, termos relacionados
com a circulação e fixação da energia a um neurônio ou a uma representação; aqui se trata de
verknüpfen, termo que significa correlacionado, associado, conectado; o sentido é que as palavras
ficam conectadas/associadas com o objeto; não se trata dafixação (Bináung) da energia; mas do fluir
desta para ocupar (besetzen) e ativar conexões/associações (Verknüpfungen) entre representações
através de vias imerligadas. Para maiores detalhes, ver verbete "Ligação" (Bindung), pp. 293-97,
302-04.

---------- -- Comentários ---- - -----

O termo "catexia" ou "investimento "


é atilizado desde os primeiros textos freudiarws

De forma geral besetzen (investir, ocupar, carregar de, tomar) designa o ato de
"ocupar algo com energia psíquica" (um neurônio, uma representação, uma zona
corpórea, um objeto).
Inicialmente é empregado numa acepção mais concreta, neurológica, designando
a •ocupação" física dos neurônios pela energia psíquica (isto é, carregá-los de energia
e preenchê-los).
Mais adiante, ao longo da obra, o termo c'onhece um uso mais extenso e, apesar do
emprego inicial sempre ser retomado, é utilizado cada vez mais num sentido figurado,
referindo-se a aspectos funcionais e sistêmicos.
Não seria possível na presente abordagem, cujo foco é lingüístico, discorrer
detalhadamente sobre o percurso teórico da Besetzung na obra freudiana e suas
Beseczung 97

mumeras conexões com o processo de geração, circulação, distribuição, fixação e


ligação (Bindung) da energia psíquica. Os exemplos selecionados procuram ilustrar os
aspectos conotativos descritos nos itens lingüísticos.
O conteúdo com o qual algo é "catexizado" ou "investido " geralmente são os
"afetos", a "energia" ou a "libido ". Nos exemplos 6 e 7, a libido é utilizada para a
catexia (que é "colocada", "investida" ) . No exemplo 5, a expressão "quantidade ele
catexia" é até mesmo utilizada como equivalente a quantidade de energia. Em geral,
quan do se refere a objetos . (sejam narcísicos ou externos), Freud emprega o termo
"libido " .
A "catexia" o u "investimento" pode visar uma representação, o próprio eu, imagens,
conexões ou objetos externos. No exemplo 6 é um objeto que é visado, no exemplo 7
trata-se do próprio ego que é investido, e nos exemplos 8, 10 e 13 são as representações
(ou idéias) que são catexizadas.
Em todos estes exemplos trata-se de tomar/ocupar/preencher determinados ele­
mentos com certa quan tidade de energia.
A imagem de uma ação que preenche ou toma um espaço potencialmente vazio
está fortemente presente no termo e aparece no exemplo 1 do "Projeto para uma
Psicologia Científica" (1895). Ali o termo ainda é empregado numa acepção bastante
concreta. Esta mesma idéia de "ocupação " espacial de certa forma continua presente
ao longo de toda a obra.

Mobilidade e plasticidade

Quando se ressalta aqui a maleabilidade e a plasticidade da Besetzung, não se está


entrando na questão da repartição da en ergia investida em uma parte que será ligada
(atada, fixada, gebunden) e em outra circulante.
Essencialmente a energia psíquica é deslocável (verschiebbar), retirável (entziehbar,
exemplo 9) e recolocável (wieder besetzbar, exemplo J). Essa energia para o investi­
mento p rovém sempre de determinadas fontes, basicamente do id ou então ele
instâncias que " trabalhem" com energia "emprestada" do id. (Freud por vezes
descreve o ego como um cavaleiro que cavalga o id procurando refreá-lo e controlá-lo
com forças emprestadas do próprio id; ver O ego e o id, 1923 [ESB 19, 39]. A partir de
sua base, o "quantum de energia" pode então ocupar representações ao longo da rede
de associações.
No exemplo 4, Freud trata da questão da constituição da realização alucinatória do
desejo. A "catexia" tem um papel fundamental. Para que o sujeito associe a percepção
de uma n ecessidade com a percepção do objeto e com a percepção da satisfação, será
necessário que experiências anteriores tenham deixado traços mnêmicos ("vias facili­
tadas", Bahnungen, entre essas percepções ). Uma vez estabelecidas as vias, estas poderão
ser percorridas pela energia que "ocupará" as representações interligadas. Assim ,
98 Catexia, Investimento

quando surge uma "necessidade", a energia emanada dessa fonte pulsional mobilizará
todo o circuito, percorrendo a rede associativa e catexizando ( carregando de energia,
ativando) as representações associadas, criando assim a evocação alucinatória do objeto
e da satisfação associada à presença desse objeto. Essa "ocupação" (Besetzung), seja de
neurônios, seja de representações, ativará um conjunto de representações. A "ocupa­
ção" (Besetzung), no contexto alucinatório, gerará um acúmulo de tensão que não
poderá ser descarregada através da satisfação real.
Já no caso dos desejos que encontram satisfação real, a tensão será descarregada até
que novamente os desejos (indestrutíveis) voltem a produzir uma catexia (exemplo 3).
No exemplo 6, a plasticidade e a mobilidade da Besetzung são ilustradas pela imagem
utilizada por Freud. Compara a catexia que é realizada com energia libidinal do ego a
"emanações" ora estendidas em direção ao objeto extern o, ora recolhidas como
"pseudópos de animaizinhos protoplasmáticos (amebas)".
No exemplo 5, a mobilidade e a plasticidade da Besetzung são visualizáveis na
descrição do pensar como uma experimentação imaginária. Trata-se de uma espécie
de simulação mental através da ação de deslocar por tentativas pequenas quantidades
de energia catexizada e vin culada a certas representações, ativando percepções que
estão em determinada relação entre si.

A catexia que ativa

Conforme já mencionado ( conotação C), na linguagem coloquial os espaços ou


funções que estejam vagos em geral são "ocupados" (ou preenchidos, besetzt) com
pessoas, ou seja, com elementos viventes. No contexto psicanalítico em geral se
.
"ocupam"/"investem" (besetzt) tais espaços ou funções com energia. O efeito é seme­
lhante ao da " ocupação" por pessoas, pois o investimento/preenchimento psíquico com
energia coloca "em ação" ou "em funcionamento" algo que antes estava "vago"
("vazio"/"desocupado", unbesetzt), incapaz de ação. Nos exemplos 8 é 10 "ocupar"
(besetzen) é utilizado respectivamente no sentido de "ativação" (Aktivierung), ou de
colocar em "condições de agir/funcionar" (aktionsfahig).

Superinvestimento

O conceito de "superinvestimento", ou "hipercatexia" ( Überbesetzung; ilber = por


sobre), é expresso em alemão pela palavra überbesetzen, o que equivale a algo como
"ocupar com mais uma camada" (colocar por cima, sobrepor mais um investimento);
portanto, trata-se de um "investimento adicional ou suplementar". É e mpregado por
Freud em contextos diversos: pode referir-se a uma camada superposta de energia
colocada no sistema de percepção para preparar a psique para ativar a atenção
( exemplo 2), é usado também n o sentido de um reinvestimento libidinal adicional sobre
Beserzung 99

o ego nos processos psicóticos, ou ainda, corno no exemplo 13, pode referir-se a urna
camada adicional de significação colocada sobre as representações no processo do
pensamento.
No exemplo 13, Freud trata do importante processo de conexão ( Verknüpfung) das
representações ainda em estado mais primitivo (representações apenas dos objetos)
com as correspondentes·-representações verbais. Essa conexão permite à psique elevar­
se acima do processo primário e atingir um nível mais complexo de organização. O
processo de associação/conexão ( Verknüpfung) ocorre através da Überbesetzung, ou seja,
pela superposição de urna camada verbal sobre a camada imagética, estendendo assim
a rede de representações associadas e interligando a dimensão das representações da
coisa à dimensão das representações das palavras.

Contra-investimento

O termo "anticatexia" ou "contra-investimento" ( Gegenbesetzung; gegen = "contra")


designa o movimento de mobilizar um quantum de energia para se contrapor à pressão
que uma "idéia" (representação) ameaçadora faz para çhegar ao consciente. Conforme
indicado no exemplo 11, nesse processo há urna retirada da energia que ocupava a
"representação" ( energia que tinha sido "investida", "colocada" pelo pré-consciente).
Resta então nessa representação apenas a catexia do inconsciente (que já estava
presente). Também é possível que a "retirada" da catexia pré-consciente deixe a repre­
sentação "vaga" (unbesetzt, mesma palavra que se utiliza para designar em alemão o lugar
que está vago ou vazio). Esta será então reocupada por uma catexia inconsciente. De uma
forma ou de outra, seja esta catexia que restou, seja a nova catexia que chega do
inconsciente para ocupar a representação, continuará havendo uma pressão da repre­
sentação para chegar ao consciente. Isto exigirá então uma contracatexia para manter o
recalque. Trata-se de contrabalançar economicamente a força de pressão de retomo. A
catexia pré-consciente que estava colocada na representação foi retirada e ficou disponível
para ser deslocada para outra representação, permitindo o contra-investimento. Esse
contra-investimento, ao se realizar sobre outra representação correlacionada (associada,
verknüpft) à representação recalcada, de certa forma ocupa/bloqueia com a nova repre­
sentação investida (carregada de energia ativada) o acesso do material recalcaclo ao
consciente.
Como indicado no exemplo 12, a Gegenbesetzung é o mecanismo básico do recalque
e liga-se à idéia do recalque original. Está fora do escopo deste trabalho entrar em
maiores detalhes a respeito, mas a Gegenbesetzung é primordialmente o próprio meca­
nismo de recalque original (Freud supqe que a Gegenbesetzung seja urna força mobilizada
contra um excesso de excitações que inundam o sujeito ainda num período anterior à
diferenciação do superego (Inibições, Sintomas e Angústia ( 1 926) [ESB 20, 1 16] ver
100 Catexia, Investimento

exemplo 11 do verbete "Recalque"). Também nestes exemplos, a mobilidade e o poder


de ativação da Besetzung ficam evidenciados.
Como se pode depreender dos comentários acima, a Besetzung é um conceito central
no corpo teórico freudiano e apresenta significativas ligações com o "deslocamento"
(Verschiebung), a "facilitação" (Bahnung) e a "ligação" (Bindung), termos também
relacionados com a circulação e fixação energética,. bem como com o "recalque"
(Verdrãngung) e com a "vinculação" (Verknüpfung, Verbindung).

� Facilitação (Bahnung), Ligação (Bindung), Repressão (Verdrãngung), Desloca­


me'nto (Verschiebung)
Compulsão, Obsessão, Pressão: Zwang

E: Compulsión
F: Censure, compulsion, obsession, contrainte
I: Compulsion

Tomado isoladamente e apenas no sentido coloquial, Zwang tem um significado


diverso de "obsessão" e "compulsão". Não remete nem aos aspectos de fixação,
mania e perseguição da palavra "obsessão", nem ao aspecto de uma ação irrefreável
e incontrolada, que brota no sujeito e o faz agir, contido na palavra "compulsão" .
Apesar de n a linguagem psiquiátrica o s termos terem sentido próprio, autônomo
em relação ao uso coloquial, e designarem quadros sintomatológicos determinados, do
ponto de vista lingüístico as composições com Zwang evocam a imagem de um sujeito
sendo obrigado, contra a sua vontade, a agir ou pensar de determinada forma.

------ - - -- 0 Termo em Alemão ------ ----

Composição do termo

Termo simples.

Significados do verbo zwingen e do substantivo Zwang

1) Coação irresistível provocada por algo que força para certa ação, ato de compelir,
de forçar, de obrigar (também utilizado como verbo). A pressão legal o levou a pagar os
impostos atrasados.
2) Necessidade. Não há necessidade de agir tão rapidamente.
3) Obrigação. Ele age por obrigação.
4) Constrangimento, inibiçã� . El,e cowcou de lado o constrangimento e agiu desinibidamente.

Conotações de Zwang

A) O verbo zwingen ("obrigar", "forçar") expressa uma "coação forte", evoca a idéia
de "encurralar" de forma tal que o sujeito só possa agir numa direção. O verbo zwãngen,
do mesmo tronco etimológico, significa "comprimir", "fazer passar à força". Tal qual
o suco de uma fruta que, de tão espremido, é obrigado a escoar pelas incisões feitas
102 Compulsão, Obsessão. Pressão

na casca, o verbo zwingen remete à idéia de que, de tão comprimido, o sujeito só pode
escapar da pressão agindo na direção para a qual foi forçado.
B) A palavra Zwang evoca a noção de certa alterid.ade ( ou externalidade) da "fonte
que pressiona". Essa alteridade não significa que a "fonte de pressão" tenha de
localizar-se fora do sujeito, mas que, mesmo localizando-se dentro dele, seja percebida
como provinda de "uma parte" ou de um "objeto interno". Portanto, no caso de um
Zwang interno, reproduz-se essa "alteridade-externalidade" dentro do sujeito (algo
existe em mim e me força a agir em certa direção); é como se transformássemos uma
-parte de nós em "entidade autônoma" e em seguida imaginássemos que essa entidade
nos força a algo. Para designar o ato de "auto-impingir-se algo", diz-se sich einen Zwang
antun (praticar sobre si uma coação). Permanece aí uma "divisão da autonomia do e no
sujeito". Algo dentro dele o obriga a agir em certa direção.
C) Diferentemente de Drang (pressão), que evoca algo que "brota do núcleo do
sujeito" e leva o indivíduo a agir maciçamente, nem mesmo desejando contrapor-se ao
Drang (afinal, o Drang é de certa forma o resultado d.a transformação da "pressão" em
"vontade", ver página 108), o Zwang implica certo estranhamento do "eu com o eu" e
é resultado de uma força à qual o sujeito desejaria resistir.

-- ---- - Etimologia e Termos Correlatos ---- ---

Etimologia

Do verbo zwingen, no antigo alto-alemão twingen e dwingan, no médio alto-alemão


zwingen, twingen e dwingen. Seu significado era "comprimir", "pressionar", "acuar". A
atual grafia com "zw" se consolida nos séculos XIV e xv. A formação diferenciada de
zwingen, zwiingen e Zwang já é perceptível no antigo alto-alemão: zwiingen (dwengen,
"fazer apertar") e Zwang ( thwanga, plural, "ato de apertar-comprimir").

Termos correlatos, derivados e compostos

ungezwungen: livre, espontâneo; zwiingen: esmagar, apertar, comprimir;


Zwangsarbeit: trabalho servil, forçado; zwangslãufig-. necessariamente, sem outra
alternativa; zwingen: obrigar, coagir; zwingende Logik: lógica que se impõe, que obriga;
Zwinger: saída cercada ( cerca ou muro) para animais selvagens e cães.
O substantivo Zwinger expressa a idéia de "cercar-encurralar", "apertar-comprimir"
e obrigar o "escoamento-saída por uma só direção". O verbo zwãngen evoca claramente
a noção física de "aperto-compressão".
Zwang 103

----- Comparação com o Termo em Português -----

Significados adicionais de
"compulsão " e "obsessão " não presentes em Zwang

compulsão:
5) Ímpeto interno irrefreável de repetir. Umfumante compulsivo. Uma compulsão afalar.

obsessão:
6) Idéias de cunho persecutório, mania, estado patológico em que a mente está
tomada por uma idéia fixa. Esta preocupação constante com assaltos está se transformando
numa obsessão.

Conotações adicionais de
"compulsão " e "obsessão " não presentes em Zwang

D) "Compulsão" evoca o repetido e irrefreável "ímpeto" de praticar certa ação,


como que obrigado por uma força maior de "origem·interna e nuclear" que irrompe
no sujeito. A "compulsão" definida como "ato de cómpelir" se refere a um "impelir"
interno. Expressões como "fumante compulsivo", "compulsão a falar" etc. implicam
uma constante repetição da ação, a qual, por assim dizer, brota do sujeito, o que em
alemão se aproxima de Drang (pressão), Trieb (pulsão) e Bedürfnis (necessidade). Em
alemão não se expressaria coloquialmente esse fenômeno por Zwang.
E) "Obsessão" liga-se a idéias persecutórias, idéias fixas ou manias que não cessam
de ocupar a mente. Uma idéia obsessiva "ocupa" ou "toma", "domina" o sujeito. Do
ponto de vista lingüístico, é diverso da Zwangsidee, a qual descreve algo em que o
sujeito é forçado a pensar. O termo português enfatiza o aspecto de "possessão", bem
como a "incessante repetição"; a palavra alemã Zwang enfoca o aspecto daquilo que
é desagradável, sofrido e cindido nesse estado de estar sendo "forçado/obrigado" a
fazer algo ou a pensar em algo.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Zwang português: compulsão/obsessão


significados:
1 coação irresistível 1-
2 necessidade, 2-
3 obrigação 3-
4 constrangimento, inibição 4- .
104 Compulsão, Obsessão, Pressão

5- 5 (compulsão) vontade ou ímpeto


irrefreável
6- 6 (obsessão) mania, idéia fixa de
perseguição
conotações:
A encurralar/comprimir A­
B foco na "fonte-causa externa" B­
C estranhamento, sujeito quer resistir C-
D- D repetição e foco no que brota
irresistivelmente no sujeito
E- E mente tomada por idéia fixa
que não cessa

Ao traduzir-se o termo Zwang por "compulsão" ou "obsessão" não se enfatiza o caráter


ele "fonte-causa externa" ( conotações B e C) e o aspecto de algo que "encurrala", "comprime"
e obriga o sujeito a "sair" por uma direção imposta contra a sua vontade (sentidos 1, 2 e
conotação A). A palavra "compulsão" acrescenta a conotação de impulso irrefreável e a
palavra "obsessão" introduz a conotação ele mania ou idéia que "toma" o sujeito;

Rxemplos de Uso em Freud

1 "Outros porém rebelam-se contra o fato de sua inversão e a sentem como uma
compulsão 1 (Zwang) patológica.
"(Nota 1 : Essa rebeldia contra a2 inversão pode ser o que condic'.ona a possibilidade
de se receber a influência de um tratamento por sugestão ou pela psicanálise.)" [Nota
cio próprio Freud.]
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (rn05) [ESB 7, 129]
Compulsão tem aqui um sentido próximo de imposição.
I
2
Contra a imposição (Zwang) da inversão.

2 "Mas não devemos tentar inferir de tal denominação a natureza da enfermidade,


pois, a rigor, também outras espécies de fenômenos mentais mórbidos podem possuir
características 'obsessivas' (Zwangscharakter)."
"Atos Obsessivos e Práticas Religiosas" ( 1 907) [ESB 9, 1 2 1]
1
3 "É singular que tanto as compulsões (Zwang) como as proibições (ter de fazer
2
isso e não ter de fazer aquilo ) aplicam-se inicialmente só às atividades solitárias do
sujeito, e por muito tempo não afetam seu comportamento social. Conseqüentemente,
os que sofrem dessa enfermidade são capazes de manter o seu mal como assunto
particular, ocultando-o por muitos anos."
"Atos Obsessivos e Práticas Religiosas" ( 1 907) [ESB 9, 1 23]
Zwang 105
I
Apesar de. soar estranho em português, o sentido de Zwang aqui é de imposições ou coações.
2
Ao invés de não ter defazer aquilo e não poderfazer aquilo, no sentido de não ter permissão.

4 "Podemos dizer que aquele que sofre de compulsões 1 (Zwang) e proibições


comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de culpa, do qual,
entretanto, nada sabe, de modo que podemos denominá-lo de sentimento inconsciente
de culpa, apesar da apare.n te contradição dos termos."
"Atos Obsessivos e Práticas Religiosas" ( 1907) (ESB 9, 126]
I
Embora soe estranho em português, o sentido de Zwang aqui é de imposições ou coações.

5 "Durante a luta defensiva secundária que o paciente emprega contra as 'idéias


obsessivas' (Zwangsvorstellungen) que tentaram penetrar em sua consciência, revelam-se
estruturas* psíquicas que merecem receber uma designação especial. ( ... ) Não se trata
de considerações puramente racionais levantadas em oposição aos pensamentos obses­
sivos (Zwangsgedanken), mas sim, como o eram, de híbridos das duas espécies do pensar,
elas assumem determinadas premissas da obsessão que combatem; e portanto, usando
as armas da razão, se estabelecem numa base de pensamento patológico."
"Notas sobre um. Caso de Neurose Obsessiva" ( 1909) [ESB 10, 224]
/

*Em vez de estruturas, formações.

6 "A compulsão (Zwang) é, por outro lado, uma tentativa para alguma compensação
pela dúvida e para uma correção das intoleráveis condições de inibição das quais a
dúvida apresenta testemunho. Se o paciente, auxiliado pelo deslocamento, enfim
consegue decidir acerca de uma de suas intenções inibidas, a intenção deve ser
efetivada. É verdade que esta não é a sua intenção original, mas a energia represada
nessa última não pode deixar escapar a oportunidade de encontrar um escoamento
para a sua descarga, no ato substituto. Portanto essa energia se faz sentir ora em ordens,
ora em proibições, na medida em que o impulso de afeto ou o impulso hostil exerce o
controle da senda que conduz à descarga."
"Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva" ( 1909) [ESB 10, 224]

1
7 "Em última instância, pode-se supo r que toda compulsão (Zwang) interna que se
faz sentir no desénvolvimento dos seres humanos foi originalmente - isto é, na história
2
da humanidade - apenas compulsão (Zwang) externa."
"Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte" ( 19 15) (ESB 14, 3 19]
Não obstánte soe estranho em português, o sentido de Zwang aqui é de imposições ou
I

coações.
2 Em vez d,� compulsão externa, iiu}Jerer Zwan é, usado no sentido de coação exercida de fora.
g

(
106 Compulsão, Obsessão, Pressão

"Aprendemos que a compulsão* (Zwang) externa exercida sobre um ser humano


por sua educação e por seu ambiente produz ulterior transformação no sentido do bem
em sua vida instintual - um afastamento ulterior do egoísmo para o altruísmo. Esse,
porém, não é o efeito regular ou necessário da compulsão* (Zwang) externa. A educação
e o ambiente não só oferecem benefícios no tocante ao amor, como também empregam
outros tipos de incentivo, a saber, recompensas e punições.
"Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte" ( 1 915) [ESB 14, 320]
Em vez de compulsão ex!,erna, iiuJJerer Zwang é usado no sentido de coação exercida de fora.

8 "Acha-se em consonância com o curso do desenvolvimento humano que a coerção


(Zwang) externa se tome gradativamente internalizada, pois um agente mental especial, o
superego do homem, a assume e a inclui entre seus mandamentos. ( ... ) Ora, o grau desta
intemalização difere grandemente entre as diversas proibições instintuais. Com referência
às primeiras exigências culturais, que já mencionei, a intemalização parece ter sido ampla­
mente conseguida, se não levarmos em conta a exceção desagradável dos neuróticos."
O Futuro de uma Ilusão ( 1 927) [ESB 2 1 , 22]

--------- -- - Comentários ------- - ----

Conforme mencionado, o termo Zwang, além de ser utilizado no texto freudiano


como palavra isolada nas acepções coloquiais de "coação", "inibição" e "obrigação", é
freqüentemente composto com outras palavras para designar termos psiquiátricos:
Zwangsidee ( em geral traduzido por idéias obsessivas ou obsedantes ), Zwangshandlungen
(em geral traduzido por ações compulsivas), Zwangneurose (em geral _traduzido por
neurose obsessiva) etc.
Isoladamente e apenas no sentido coloquial, o termo Zwang não poderia ser
traduzido por "obsessão" e "compulsão". Não remete nem aos aspectos de fixação,
mania e perseguição da palavra "obsessão", nem ao aspecto de uma ação irrefreá­
vel, incontrolada, involuntária, que brota no sujeito e o faz agir, da palavra
"compulsão".
Entretanto, geralmente quando escrevia em inglês e francês, ou quando traduzia
desses idiomas para o alemão, Freud seguia as equivalências já estabelecidas pelo jargão
médico da época, no qual Zwang correspondia a "obsessão", "compulsão" e eventual-
mente "impulso".
Em geral, não é possível extrapolar os usos e as conotações habituais das palavras
coloquiais para os novos significados que adquirem quando entram em composições
de termos técnicos. Por via de regra, o jargão técnico se autonomiza do emprego
coloquial e muitas das conotações da linguagem corrente se esmaecem no contexto
técnico. Todavia, em Freud, dada a peculiaridade de sua linguagem, há certo trânsito
Zwang 107

entre as diversas dimensões (linguagem psiquiátrica, linguagem corrente, psicanálise


etc.), de forma que a descrição que faz desses quadros nosológicos freqüentemente se
relaciona com aspectos contidos na acepção corriqueira de Zwang.

O Zwang como fonte externa que força o sujeito

É a Freud que cabe o m�rito de ter distinguido a "neurose obsessiva" (Zwangsneurose)


da neurastenia em 1895, adotando em alemão uma designação já existente em psiquiatria
e que, conforme já mencionado, é utilizada independentemente do sentido de Zwang na
linguagem coloquial. Freud muitas vezes utiliza imagens que evocam a idéia de um sujeito
forçado a uma ação que não deseja, mas à qual não se sente capaz de resistir.
No exemplo 1, Freud fala em rebeldia do sujeito contra a sua inversão sexual, a qual
é sentida como se fosse um Zwangpatológico (no sentido de uma "imposição patológica").
Essa rebeldia do sujeito contra o Zwang é citada como eventualmente sendo a condição
para que o tratamento psicanalítico ou sugestivo possa influenciar o sujeito.
No exemplo 3, Freud menciona que os doentes sentem "ter que" (müssen) agir ou
pensar de determinada forma. Este "ter que" ou "precisar" indica obrigatoriedade
"forçada", é diverso do verbo brauchen (ser necessário, sentir necessidade de). Também
fala de um não ter permissão (nicht tun dürfen), o que . aponta para uma instância que
se impõe à vontade do sujeito. ,1

Com freqüência trata-se de um Zwang que o sújeito percebe como sendo uma
força quase externa que induz a determinada ação de maneira desagradável. N o
exemplo 5, é ressaltada essa "externalidade" com relação ao ego - Freud chega a
falar de uma luta secundária do paciente contra as idéias obsessivas que penetraram
seu con sciente.
No exemplo 8, a presença do superego aponta "outra instância" dentro do sujeito
que o "força" para certa direção. Diferente da conotação da palavra "compulsão", que
descreve algo que "emana" irresistivelmente do sujeito, o Zwang lhe é "imposto" e evoca
a presença de um "outro" que o força.
Nos exemplos 7 e 8, Freud dá a entender que todo Zwang tem uma "origem externa "
e é posteriormente internalizado, processo que (com exceção dos neuróticos) contribui
para um desenvolvimento cultural. Quando aborda fenômenos culturais em Totem e
Tabu ( 19 12-3) ou em O Futuro de uma Ilusão ( 1927), Freud enfoca as "proibições" e
"inibições" do Zwang, utilizando o termo no sentido de "coação-constrangimento"
(exemplo 8). Apesar de não deixar de vinculá-lo à neurose, o termo é empregado no
sentido mais genérico; também neste contexto, assume o caráter de uma "imposição
externa e obrigatória".
No exemplo 6, Freud descreve a compulsão como um processo de compensação
da "dúvida". Enquanto a dúvida não encontra resolução, há um acúmulo de energia
· represada, a qyal exerce uma pressão "insuportável" para escoar. A resolução da
t
108 Compulsão, Obsessão, Pressão

"dúvida" através do deslocamento permite que a energia acumulada encontre uma


possibilidade de saída através das representações deslocadas. O sujeito é assim forçado
a descarregá-la por determinada via, agindo então de forma compulsiva (ver conülação
A, a imagem do suco espremido).
Se conotativamente a palavra Zwang evoca os aspectos acima descritos, não se pode
exagerar nas extrapolações a partir de suas conotações. O próprio Freud, habitualmen­
te tão afeito às conotações, adverte que não se pode deduzir o sentido "desta afecção"
(referindo-se à Zwangsneurose) a partir do sentido lingüístico de sua designação (exem­
plo 2). Tampouco se deve esquecer que a Zwangsneurose produz sintomas obsessivos e
compulsivos de nuas fontes o paciente freqüentemente não se dá conta, não são
conscientes ( exemplo 4). Portanto, um aspecto importante da palavra Zwang ( o caráter
obrigatório de algo que se contrapõe a uma vontade e que é por excelência consciente)
não pode ser superestimado quando se trata do uso nosológico do termo.

Compulsão (Zwang), pressão (Drang) e pulsão (Trieb)

De modo geral, trata-se de três termos diversos. O Trieb é algo que aguilhoa e cuja
satisfação pode ser prazerosa, é um grande princípio da vida, da espécie, e um impulso
perene para a ação. O Zwang é resultado de um conflito pulsional que se instala e
submete o sujeito a um cerceamento, impondo-lhe uma direção. O Trieb impuls�ona e
o Zwang força e faz sofrer. Quanto a Drang, conforme mencionado, descreve algo
intermediário entre a vontade e a necessidade. Por exemplo, o Drang de urinar não
diferencia a necessidade ou a vontade, designa apenas o resultado da pressão que,
internalizada, se transforma em vontade-impulso para a ação.
Lingüisticamente, o Trieb designa uma força que coloca algo em movimento, o
Drang designa um impulso avassalador e o Zwang algo que é imposto ou forçado.
Evidentemente tais vertentes de sentido, apesar de diferenciadas, em certos contex­
tos podem estar próximas. Nem sempre Freud as emprega diferenciadamente. Em Além
do Princípio de Prazer ( 1 920) a expressão "compulsão à repetição" (Wiederholungszwang)
e a palavra Zwang isoladamente são utilizadas por Freud ocasionalmente quase como
sinônimos de Drang (pressão) e Trieb (pulsão). Nesse texto , o autor parece desejar
destacar o caráter avassalador e irresistível da determinação biológica à qual sucumbe
o sujeito, condenado a realizar a "pulsão" para além de sua vontade. Nesse contexto,
o uso de Zwang se ressalta por ser uma imposição do Trieb ào sujeito (ver exemplo 6
do verbete "Pressão" (Drang), p. 328).

� Pressão (Drang), Pulsão (Trieb)


A consciência (substantivo): das Bewuj3tsein
a Consciência moral (substantivo) das Gewissen
consciente (adjetivo) bewuj3t
conteúdos conscientes (substantivo) Bewuj3tes
conteúdos inconscientes (substantivo) l]nbewuj3tes
conteúdos pré-conscientes (substantivo) Vorbewuj3tes
inconsciente (adjetivo) unbewuj3t
o consciente (substantivo) das Bewuj3te
o inconsciente, inconsciente (substantivo) das Unbewuj3te
o fato de estar consciente (substantivo) die Bewuj3theit
o pré-consciente (substantivo) das Vorbewuj3te
pré-consciente (adjetivo) vorbewuj3t

(As versões em espanhol, francês e inglês, a seguir, não incluem os termos das
BewuJJte, BewuJJte:,; das UnbewuJJte, UnbewuJJtes, das VorbewuJJte, VorbewuJJtes, os quais, em
geral, não são diferenciados na maioria das traduções. As diferenciações feitas na versão
acima, em português, correm por conta do autor.)

Espanhol:
Conciencia Bewujltsein
Conciente bewujlt
Conciencia moral Gewissen
Condición de conciente Bewujltheit
lnconciente unbewujlt
Preconciente vorbewujlt
Francês:
Conscience Bewujltsein
Conscience, conscience moral Gewissen
Consciencialité BewuJJtheit
Conscient bewuJJt
Inconscient unbéwuJJt
Préconscient vorbewuJJt
1 /0 A Consciência

Inglês:
Being conscious Bewujltheit
Conscience ou awareness Bewujltsein
Conscience Gewissen
Conscious bewujlt
Preconscious Vorbewujlt
Unconscious unbewujlt

As composições e derivações com o termo bewujlt produzem efeitos em parte difíceis


de reproduzir em português:

1) A palavra Bewujltsein ("consciência") é composta por dois elementos, Bewujlt


("consciente") e sein ("ser/estar"). Foneticamente pode-se entender a palavraBewujltsein
como significando "a consciência", no sentido de instância psíquica (das Bewufltsein),
ou com o sentido de "o estar consciente", designando um estado (das BewujJtsein), ou
ainda como "estar ciente de" (bewufit sein, verbo e adjetivo).
2) As substantivações sem artigo, BewuJJtes, Unbewujltes e Vorbewufltes, equivalem
respectivamente a "conteúdos conscientes", "conteúdos inconscientes" e "conteúdos
pré-conscientes".
3) As substantivações com artigo, das BewujJte, das Unbewujlte e das Vorbewu)Jte, podem
ter dois significados. Designam uma instância psíquica (o Consciente, o Inconsciente e o
Pré-consciente) ou um material que se encontra em determinado estado: "o conteúdo
consciente", "o conteúdo inconsciente" e "o conteúdo pré-consciente".
4) A palavra BewujJtheit significa "estado de clareza" (lucidez, o fato de estar
consciente).
5 ) O termo Gewi.ssen tem o sentido de "consciência" na acepção de "instância moral que
julga".
Apesar da aparente semelhança entre alguns destes termos, faz-se n ecessário
diferenciá-los, pois Freud os utiliza em conjunto e em combinações variadas, para dar
destaque a determinados aspectos dinâmicos, econômicos, tópicos e descritivos.

Todos os termos enunciados acima serão abordados em conjunto, porque há


contigüidade e maleabilidade de uso entre eles. Inicialmente será dado destaque apenas
ao substantivo "consciência" (Bewuj]tsein). Os outros termos serão citados sucintamente
na seção II e retomados nos exemplos de uso em Freud.
Bewu�tsein 111

--------- 0 Termo em Alemão ------- --

Composição de Bewu.Btsein

be-: Prefixo que geral-!Ilente torna transitivos os verbos intransitivos. Neste caso
provavelmente indicava a qireção da ação do antigo verbo ao qual servia de prefixo.
wujlt-: Corresponde ao radical do particípio perfeito de um antigo verbo já extinto,
bewissen ( orientar-se, encontrar-se, saber de) [D. VII, 79].
-sein: Corresponde ao verbo sein, "ser" ou "estar".

Significados de Bewufitsein

1) Consciência como estado vígil ( contrário a estar desmaiado). Recobrou rapidamen­


te a consciência.
2) "O consciente" ( ou "a consciência"), como "função" ou "entidade" psíquica capaz
de "estar consciente". A consciência é o que nos torna humanos. Este tipo de lembranças não
está disponívelpara a consciência. Não sabemos onde se localiza no cérebro a área da consciência.
3) Estado de estar ciente, estado de estar sabendo de, estado cognitivamente capaz.
Ele fez tudo com plena consciência. Tem consciência de s(

Conotações de BewuBtsein

A) A palavra Bewujltsein (consciência) se compõe da combinação de bewujlt + sein


(estar + ciente), podendo ser auditivamente compreendida tanto como "consciência"
(sentidos 1, 2 e 3) quanto como "estar ciente" (verbo + adjetivo) (não confundir "estar
ciente" com o sentido 3, que se refere a um estado, "o estado de estar ciente"). Esta
dupla possibilidade de leitura é ocasionalmente explorada por Freud, como se verá
mais adiante.

------- Etimologia e Termos Correlatos - ----�-

Etimologia

be-: Do indo-europeu *bhi, derivado de *ambhi (em torno de); assume n o gótico a
forma bi-, no antigo alto-alemão bi-, no médio alto-alemão be-. Inicialmente designava,
como prefixo verbal, a direção espacial de um processo (por exemplo, befallen, atacar
ou acometer), .mais tarde passou a indicar também a intervenção temporalmente
1 12 A Consciência

limitada sobre um objeto ou pessoa. No alemão atual funciona como prefixo que
transforma advérbios, substantivos, adjetivos e verbos intransitivos em verbos transitivos.
-wissen: Derivado do indo-europeu, raiz * 'l}eid- (ver, localizar pela visão e "saber" no
sentido de ter visto), no grego idein (ver, reconhecer), idénai (saber), idéa (fenômeno,
aparição, Gestalt), no latim videre (ver), no gótico assume a forma witan, no antigo
alto-alemão wizzan, no médio alto-alemão wizzen. No grupo germânico wissen equivale
a "ter visto". Deste núcleo evoluíram palavras como weise (sábio), Witz (humor, chiste,
piada), Weise (modo, forma de aparição) . Como se pode notar, há uma ligação original
entre "saber", "ver" e "chiste ". Entretanto, esta ligação não era evidente para o falante
do alemão no século XIX.
Também BewujJtsein (consciência no sentido de estar ciente) e Gewissen (consciência
no sentido da entidade moral que julga) ligam-se ao verbo wissen.
A partir do século XVI, bewujJt aparece como forma adjetivada derivada de bewissen
( orientar-se, saber de algo, encontrar-se). Através da tradµção da Bíblia por Lutero, a
forma bewusst (estar orientado por uma clara consciência/saber) se impôs.
-sein: É um verbo cuja conjugação foi composta a partir de três fontes diversas:
1) da raiz indo-européia * J!es- (permanecer, morar, pernoitar) derivou-se o pretérito
imperfeito e o particípio perfeito (war, gewesen); desta raiz também originam-se termos
alemães como Wesen (essência ou ser vivo, entidade vivente).
2) da raiz indo-européia *es- (ser/estar) derivou-se o presente do indicativo (ist, sind,
seid); também no latim o presente esse, as palavras latinas ligadas a "essência" e no grego
einai (ser).
3) da raiz indo-européia *bheu- (crescer, tomar-se) derivou-se a conjugação da primeira
e da segunda pessoa no indicativo (bin, bist); também no latim o pretérito perfeito (fui).
A substantivação do infinitivo do verbo sein, "das Sein ': só se impôs JlO novo alto-ale­
mão; até então se utilizava a palavra Wei-en (essência ou ser vivo, entidade vivente).
BewujJtsein: A palavra BewujJtsein tem um longo percurso desde a filosofia grega.
Foi traduzida do grego para o latim e do latim para o alemão. Freqüente na filosofia
alemã, foi utilizada também por Kant. No século xvm passa a ser mais usada como
contraposição a "impotência", "inconsciência" (em alemão a palavra para desmaio ou
estado de coma é Ohnmacht, literalmente "sem poder" ou "sem potência"; seu sinônimo
é bewujJtlos, literalmente "sem consciência").

Termos correlatos, derivados e compostos

O verbo wissen e suas derivações se referem ao sentido "saber".


Wissen: saber; Wissensdrang: curiosidade, desejo de saber; wissentlich: intencional
(sabendo); wissenschaftlich: científico.
O verbo sein, ao ser composto com diversas palavras em alemão, geralmente indica "estar".
Bewul!,tsein 1 13

Das Dasein: a existência (literalmente, estar aí/aqui); das Vorhandensein: o estar


disponível, o estar presente (literalmente, estar perante a mão).

-- --- Comparação com o Tenno em Português -----

Sentidos adicionais de
"consciência" não presentes em Bewu.Btsein

4) Instância moral julgadora, consciência moral. Está com a consciência pesada.


Trabalha conscienciosamente (com honestidade e cuidado, de acordo com a boa cons­
ciência).
(Conforme mencionado, este sentido equivale à palavra alemã Gewissen. )

Conotações adicionais de
"consciência" não presentes em BewuBtsein

(Nada de relevante a contrastar com o alemão.)

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: das BewuJJtsein (substantivo) português: a consciência/o consciente

significados:
1 a consciência, estado vígil, 1 a consciência, estado
estar acordado vígil, estar acordado
2 entidade psíquica capaz de 2 entidade psíquica capaz de estar
estar consciente ( de ter consciência) consciente (de ter consciência)
3 o estado de consciência, estar 3 o estado de consciência, estar
cognitivamente capaz cognitivamente capaz
4- 4 instância julgadora
conotações:
A dupla leitura possível ( como verbo A-
+ adjetivo, ou como substantivo)

Ao se traduzir BewuJJtsein e Gewissen igualmente por "consciência" gera-se um


possível mal-entendido devido ao sentido 4, de instância moraljulgadora, não presente
n a palavra alemã.a Ademais, a dupla possibilidade de entendimento, à qual se alude na
··conotação A, nã? existe no termo português.
114 A Consciência

II

A seguir serão tratados em conjunto os adjetivos substantivados ( o hífen apenas foi


colocado para melhor visualização):

adjetivos (iniciados por letras minúsculas)

bewuJJt un-bewuj]t vor-bewuJJt


consciente in-consciente pré-consciente

substantivações de adjetivos (iniciadas por letras maiúsculas)

das BewuJJt-e das Un-bewuJJt-e das Vor-bewuJJt-e


o consciente o in-consciente o pré-consciente
Bewuj]t-es Un-bewuJJt-es Vor-bewuJJt-es
conteúdos conteúdos conteúdos
conscientes in-conscientes pré-conscientes

As substantivações sem artigo 1 BewvJJtes, UnbewuJJtes e VorbewuJJtes significam algo


que equivale aproximadamente a "conteúdos conscientes", "conteúdos inconscientes",
"conteúdos pré-conscientes". Quando se utiliza esta forma, está se atribuindo a quali­
dade de estar na consciência ou inconsciência ao(s) material(ais) em vez de atribuí-la
ao sujeito.
Quanto às substantivações com artigo, das BewuJJte, das UnbewuJJte e das Vorbewujlte,
podem ter dois significados. Designam uma instância psíquica (? Consciente, o
Inconsciente e o Pré-consciente); ou o mesmo que a substantivação sem artigo, só que
neste caso precedida de artigo ("o conteúdo consciente", "o conteúdo inconsciente",
"o conteúdo pré-consciente").
Estes termos serão retomados e situados n o texto freudiano mais adiante.

Em alemão, tal qual em português, podem-se substantivar adjetivos e verbos. Em português, geralmente a
substantivação é precedida de artigo (O Belo, O Inconsciente, O Falar etc.). Quando precedida do artigo, a
substantivação alemã, como em português, também pode designar uma qualidade genérica e ideal (O Belo) e
eventualmente uma função/instância (O Falar) ou um ser (O Estrangeiro).
Substantivações sem artigo são raras em português (por exemplo, no plural, referindo-se a pessoas: "feios e brutos
também amam"; no singular, referindo-se a características de materiais: "doce e azedo, quando presentes em boa
proporção, fazem um prato saboroso"; "quente e frio resultam em algo morno").
Em alemão a substantivação sem artigo é freqüente. Tal qual em português, também em alemão, quando a
substantivação não é precedida de artigo e utilizada no plural, designa um conjunto de elementos com determinada
característica comum (feios e brutos); empregada no singular, designa materiais (conteúdos) com determinada
qualidade (quente e frio, azedo e doce etc.). As substantivações no singular freqüentemente empregadas no texto
freudiano, "Inconsciente" ( Unhewu)Jtes), "Consciente" (B=JJtes) e "Pré-consciente" (VorbewujJtes), não se referem a
instâncias ou ao estado em que a pessoa se encontre, mas a materiais ou conteúdos.
BewuP.,tsein 115

BewuJJtheit: A palavra BewuJJtheit equivale aproximadamente a "estado de clareza",


"lucidez", "o fato de estar consciente". Não tem correspondência em português; ter-se-ia
de criar palavras esdrú.xulas como "consciendade" ou "consciendez" para tentar
reproduzi-la.

----- ---Exemplos de Uso em Freud - -------

1 "A resistência deveria ser contornada pelo trabalho da interpretação e por dar a
conhecer os resultados ao paciente. ( ... ) Contenta-se em estudar tudo o que se ache
presente, de momento, na superfície da mente do paciente, e emprega a arte da
interpretação principalmente para identificar as resistências que lá aparecem, e torná­
las conscientes (bewujltzumachen) ao paciente."
"Recordar, Repetir e Elaborar" ( 19 14) [ESB 12, 1 93]

2 "A divisão do psíquico em o que é consciente (Bewu.fltes - subst s/artigo) e o que é


inconsciente ( UnbewuJJtes - subst s/artigo) - constitui a premissa fundamental da
psicanálise, e somente ela torna possível a esta compreender os processos patológicos
da vida mental, que são tão comuns quanto importantes, e encontrar lugar para eles
na estrutura da ciência. Para dizê-lo mais uma vez, de modo diferente: a psicanálise não
pode situar a essência do psíquico na consciência1 (Bewujltsein), mas é obrigada a
encarar esta2 como uma qualidade do psíquico, que pode achar-se presente em
acréscimo a outras qualidades ou estar ausente."
0 Ego e o ld ( l 923) [ESB 19, 25]
1 Aqui o termo é utilizado no sentido de instância.
2 No original Freud emprega novamente o substantivo Bewujltsein, mas desta vez significan­
do "o estar consciente"; portanto, a frase seria: mas é obrigada a encarar este "estar consciente"
como uma qualidade do psíquico.

3 "'Estar consciente' (Bewu}Jt sein - verbo e adjetivo) é, em primeiro lugar, um termo


puramente descritivo, que repousa na percepção de caráter mais imediato e certo. ( ... )
Pelo contrário, um estado de consciência (Bewu)Jtseins) é, caracteristicamente, muito
transitório; uma idéia que é consciente (bewujlte - adjetivo) agora não o é mais um
momento depois, embora assim possa tornar-se novamente, em certas ocasiões que são
facilmente ocasionadas. ( ... ) Aqui inconsciente* ( Unbewu)Jt - subst e/artigo) coincide com
latente e capaz de tornar-se consciente (latentbewutj)seinsfãhig)."
O Ego e o Id ( 1923) [ESB 19, 26]
* Unbewujlt .é utilizado como a qualidade de estar inconsciente.
!16 A Consciência

4 "A psicologia barrara seu próprio acesso à região do id, insistindó num postulado
que é bastante plausível, mas insustentável: a saber, que todos os atos mentais são
conscientes para nós 1 (uns bewuj]t sind), que ser consciente2 (BewuJJt-sein) é o critério do
que é normal, 3 e que, se há processos em nosso cérebro que não são conscientes, não
merecem ser chamados de atos mentais e não são de qualquer interesse para a
psicologia.
A Questão da Análise Leiga (1926) [ESB 20, 224]
I Em alemão Akte die uns bewu)Jt sind significa "atos do quais estamos cientes".
Apesar p_e
haver contigüidade de sentido entre "ter consciência de" e "estar ciente de", não são termos
idênticos.
2
Aqui se trata de um jogo de palavras: o hífen ressalta a composição do termo (estar +
cien�e).
Em vez de: "( ... ) é o critério do que é p.ormal", leia-se: "( . . . ) é o atributo do que é
3

mental".

5 "É possível, então, que coisas tão importantes como nossa ética, nossa consciência
(Gewissen), nossos ideais não desempenham absolutamente qualquer papel nessas
perturbações profundas?"
A Questão da Análise Leiga (1926) [ESB 20, 235]

6 "Uma reflexão sobre essa relação dinâmica permite-nos, agora, distinguir duas
espécies de inconsciente* ( Unbewujltes - subst s/artigo) - uma que é facilmente transforma­
da, em circunstâncias de ocorrência freqüente, em algo consciente (BewuJJtes - subst
s/artigo); e uma outra, na qual essa transformação é difícil e apenas se realiza quando
sujeita a considerável dispêndio de esforços, ou, possivelmente, jamais se efetue,
absolutamente. Com a finalidade de evitar a ambigüidade no sentido de estarmo-nos
referindo a um ou a outro inconsciente (das UnbewuJJte - subst e/artigo), de estannos
usando a palavra no sentido descritivo ou no sentido dinâmico, utilizamo-nos de um
expediente permissível e simples. O inconsciente (Unbewu)Jte - subst e/artigo) que está
apenas latente e portanto facilmente se torna consciente (bewuj]t - adjetivo), denominamo-lo
"pré-consciente", (vorbewuJJt - adjetivo), e reservamos o termo "inconsciente" ( "unbewuJJt"
- adjetivo) para o outro. Temos agora três termos, "consciente" (bewuJJt - adjetivo),
"pré-consciente" ( vorbewuJJt - adjetivo) e "inconsciente" ( unbewuj]t - adjetivo), com os quais
podemos ser bem-sucedidos em nossa descrição dos fenômenos mentais. Repetindo:
o pré-consciente (das VorbewuJJte - subst e/artigo) também é inconsciente (unbewuj]t -
adjetivo) no sentido puramente descritivo, mas não lhe atribuímos esse nome, exceto
quando falamos sem a preocupação de conferir-lhe precisão, ou quando temos de fazer
a defesa da existência, na vida mental, de processos inconscientes (unbewu}Jter - adjetivo)
em geral."
Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise; Conferência 3 1:
"A Dissecção da Personalidade Psíquica" (1932) [ESB 22, 91]
Bewu!!,tsein 117

* Não se trata de duas espécies de inconsciente, mas de duas espécies de conteúdos que
podem estar em estado inconsciente. Ver observações a respeito do exemplo 6 no item
"Comentários".

7 "Sob o novo e poderoso impacto da existência de um extenso e importante


campo da vida mental, normalmente afastado do conhecimento do ego, de modo
que os processos que ri�le ocorrem têm de ser considerados como inconscientes
(unbewuj]te - adjetivo), em sentido verdadeiramente dinâmico, vimos a entender
o termo "inconsciente" ("unbewuj]t" - adjetivo) também num sentido topográfico ou
sistemático; passamos a falar em sistema do pré-consciente (des Vorbewuj]ten) e em
sistema do inconsciente (des Unbewuj]ten), em conflito entre o ego e o sistema lnc., e
temos empregado cada vez mais freqüentemente essa palavra cóm a finalidade de
assinalar, antes, uma região mental, do que para designar uma qualidade daquilo que
é mental."
Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise; Conferência 3 1 :
"A Dissecção da Personalidade Psíquica" ( 1 932) [ESB 22, 92]

------------ Comentários -------- - ---


/
Quando trata do Consciente e Inconsciente, Freud remete o leitor alternadamente
a aspectos descritivos, econômicos, dinâmicos e tópicos. Nas suas formulações há um
trânsito intermitente, às vezes até dentro do mesmo parágrafo, de uma dimensão para
outra. Essas transformações se fazem acompanhar gramaticalmente. Ora o termo é
usado como adjetivo ou advérbio, ora como substantivo, ou ainda em composições com
outros termos.
É importante que a tradução dê atenção a tais variações, não só porque Freud
serve-se desses recursos lingüísticos para ressaltar determinados aspectos, mas também
devido ao fato de poderem ocorrer mal-entendidos, como no exemplo 6, o qual será
comentado mais adiante.

das Bewufüsein (a consciência), BewuBt-sein e bewuBt sein (estar ciente çle)

Freud faz uso freqüente dos termos "consciente"/"inconsciente" a fim de ressaltar


a consciência como um estado dinâmico ( estado dinâmico ora atribuído ao material
psíquico [ às representações], ora ao sujeito).
Conforme mencionado, a palavraBewuJJtsein pode ser percebida como significando
"a consciência" (instância psíquica), "o estar consciente" (estado de consciência, isto é,
o estado vígifou qualidade de estar alerta) ou ainda como verbo ("estar ciente de",
"estar consci�nte de", "estar sabendo de").
118 A Consciência

No exemplo 4 Freud, com um procedimento bastante incomum para seu estilo,


joga com as diferentes possibilidades de entendimento do termo. Insere um hífen
em Bewujlt-sein, ressaltando a composição alemã do termo (estar + ciente) e criando
um efeito difícil de reproduzir em português, faz uso do substantivo ("a consciência"
ou "o estar consciente") como se fosse um atributo (adjetivo). Bewujlt-sein talvez possa
ser comparado a um estado provisório, uma substantivação ambígua que pode ser
entendida tanto como um "estar-ciente" quanto como um "ter-consciência". Em suas
palavras:
"A psicologia barrara seu próprio acesso à região do id, insistindo num
postulado que é bastante plausível, mas insustentável: a saber, que todos os atos
mentais nos são cientes (sind uns bewuj]t); que estar-ciente/ter-consciência (BewuJJt­
sein) é o atributo do que é mental, e que, se há processos não-conscientes em nosso
cérebro, não merecem ser chamados de atos mentais e não são de qualquer
- interesse para a psicologia".
No exemplo 3, Freud também ressalta o caráter de "transitoriedade" do estar na
"consciência". Destacando a perspectiva dinâmica, inicia a frase com o verbo e com o
adjetivo, bewuJJt sein (estar consciente), mas se refere a este bewujlt sein como sendo um
Terminus (um termo, um conceito), como se se tratasse de uma só palavra (como se
fosse o substantivo Bewujltsein ), mesclando assim as palavras foneticamente semelhantes
"consciência" (Bewujltsein) e "estar ciente" (bewujlt sein). A seguir, na mesma página, diz:
"Pelo contrário, um estado de consciência (Bewujltsein) é, caracteristicamente, muito
transitório; uma idéia que é consciente agora não o é mais um momento depois,
embora assim possa tornar-se novamente, em certas ocasiões que são facilmente
ocasionadas". E prosseguindo: "Aqui inconsciente coincide com latente e capaz de
tornar-se consciente".
Também é neste sentido que o tema é abordado no exemplo 2. Lá novamente Freud
faz uso de palavras que permitem duas leituras: diz que "a psicanálise não coloca a
essência do psíquico in das BewuJJtsein ('na consciência' 1significando 'instância' ou
'entidade')", mas que "das BewujJtsein ('o estar consciente') é uma qualidade que pode
ou não estar presente no psíquico".
Este trânsito no texto freudiano entre aquilo que irá aflorar ao consciente e aquilo
que permanecerá reprimido ou excluído também é lingüisticamente evocado pelo uso
de outras formas compostas com bewujlt.
No final do exemplo 3, Freud emprega uma composição entre os termos bewuJJt e
latent (latente): a palavra latentbewujltseinsfahig (!atentemente capaz de se tornar cons­
ciente). Também no exemplo 1 é utilizada uma composição que destaca o trânsito entre
estados: trata-se do verbo bewujltmachen ("tornar consciente").
A ênfase no aspecto dinâmico também é retomada nos exemplos 6 e· 7, que serão
comentados a seguir.
Bewu!l,tsein 119

Substantivações sem artigo: BewuBtes, UnbewuBtes e VorbewuBtes

Quando Freud se refere aos conteúdos psíquicos de um dos sistemas (consciente,


inconsciente e pré-consciente), estes são designados por esta forma, que não tem correspon­
dência habitual no português: substantivações sem artigo (por exemplo, Unbewujlt.es).
Dizer em alemão UnbewujJtes equivaleria a algo como "conteúdos inconscientes". É
freqüente em Freud o uso 'dessas substantivações (exemplos 2 e 6). Também. n esses
casos se trata de destacar o trânsito de um mesmo conteúdo psíquico entre sistemas,
referindo-se a representações que podem se tornar conscientes e representações
recalcadas mantidas em estado inconsciente.
No início do exemplo 6, Freud utiliza o substantivo sem art�go, ·unbewujJtes,
designando genericamente "materiais ou conteúdos em estado inconsciente" .
"Uma reflexão sobre essa relação dinâmica permite-nos, agora, distinguir duas
espécies de UnbewuJJtes (inconsciente - subst s/ artigo; aqui não se trata de duas espécies de
inconsciente, mas de duas espécies de material em estado inconsciente) - uma que é facilmente
transformada, em circun stâncias de ocorrência freqüente, em BewujJtes ( consciente -
aqui se trata' de materiais psíquicos que podem atingir o estado consciente); e uma outra, na
qual essa transformação é difícil e apenas se realiza quando sujeita a considerável dispêndio
de esforços, ou, possivelmente, jamais se efetue, absoluta,mente."
Portanto, n este exemplo, não se trata de dois incónscientes, conforme a tradução
brasileira, mas de dois tipos de material inconscie�te!
Em geral tais substantivações sem artigo servem para indicar grupos de material
psíquico em determinado estado e descrevem uma qualidade, não a tópica.

Substantivos precedidos de artigo

Ao abordar a tópica ( o local psíquico), ou para nomear a função psíquica, Freud


em geral usa as abreviações Ubw, Vbw e Bw (em português Ics., Pcs. e Cs.). Estas
abreviações referem-se aos substantivos sistema do inconsciente, ·sistema do pré-cons­
ciente e sistema do consciente (exemplo 7). Ocasionalmente utiliza para esse fim
adjetivos substantivados precedidos de artigo definido: das UnbewujJte, das BewujJte etc.
( "o" inconsciente, "o" consciente etc.) (exemplos 6 e 7). Raramente Freud emprega.tais
substantivações com artigo no sentido de "os conteúdos inconsciente" (ou "os conteú­
dos conscientes ou pré-conscientes").

Bewufitsein, Gewissen e Bewufitheit

Conforme já mencionado, em português se emprega a mesma palavra, "consciên­


cia", para desig:r;Í.ar tanto a "consciência moral" (Gewissen) quanto a "instância que está
120 A Consciência

ciente" (Bewujltsein). Geralmente o contexto esclarece de que "consciência" se trata


(exemplo 5).
A palavra Bewujltheit também ocorre no texto freudiano: é utilizada para descrever
o "estado de clareza" (lucidez, o fato de estar consciente). Entretanto, Freud não parece
dotar o termo de muita importância.
Defesa: Abwehr

E: Defensa
F: Défense
1: Defence

Apesar de corretamente traduzido por "defesa", Abwehr possui conotações diferen­


tes do termo português.
Os significados dicionarizados de abwehren são: 1) fazer retroceder, repelir; 2)
rejeitar; 3) afastar; 4) impedir.
Conotativamente fica implícito que os inimigos foram apenas afastados e não
destruídos, poderão retornar, daí o termo evocar certo estado de prontidão reativa.
Freud utiliza a palavra Abwehr num contexto de equilíbrio dinâmico entre forças
psíquicas e ressalta a idéia de que a função primordial da Abwehr é manter determinadas
ameaças afastadas da consciência.

---- - --- 0 Termo em Ale.ríião ---- -----

Composição do termo

ab-: A preposição ab delimita um ponto de partida, tanto para datas quanto para
localização espacial. O prefixo ab- liga-se com freqüência a verbos de movimento,
demarcando que algo se "destaca", "desprende" ou "ricocheteia".
Wehr: O substantivo Wehr significa "barragem", "açude", "dique". O verbo wehren
significa "impedir", "barrar", "evitar", "bloquear".

Significados do verbo
abwehren e do substantivo Abwehr

1) Defender, no sentido de repelir, rechaçar (também utilizado como substantivo).


O ataquefoi repelido com sucessso (verbo abwehren).
2) Rejeitar, repelir, não aceitar. Teve uma atitude de rejeição a esta idéia. Rejeitar um
elogio.
3) Afugentar, pôr em debandada, afastar. Afastóu as moscas da criança que dormia.
4) Impedir, Terão que impedir conseqüências graves (üble Folgen abwehren, verhindern).
[Os exemplos 2 a 4 foram adaptados do WDW, 135, e DW. 150.)
122 Defesa

Conotações do substantivo
Abwehr e do verbo abwehren

A) Abwehr compõe-se do prefixo ab- e da raiz wehr-. Conforme mencionado


acima, o prefixo ab- freqüentemente indica algo que se "destaca", "desprende", "é
arrancado" (um movimento que pode ser passivo ou ativo). Wehr, isoladamente,
significa "barragem", "açude", "dique". Evoca a idéia de "contenção", de "colocar um
. obstáculo". Em conjunto, o termo remete à imagem de uma barragem (Wehr) que
reenvia de volta algo que veio para atacar. Há a noção de desviar um movimento, tal
qual um escudo rechaça ou manda de volta tropas inimigas. É um tipo de defesa em
que se trata de fechar-se e repelir, de fazer o inimigo retroceder. Em linguagem militar
usa-se amiúde a palavra Abwehr.
B) O tipo de defesa denominado por Abwehr implica apenas que os inimigos foram
afastados; não especifica o seu destino, é possível que se reorganizem para um novo
ataque, ou não. Neste sentido é freqüente que Abwehr seja empregado em situações que
exijam permanente estado de prontidão.

------- Etimolo gia e Termos Correlatos -------

Etimologia

ab-: Derivado da raiz indo-européia *apo- (embora, a partir de). No gótico assume a
forma af, no antigo alto-alemão aba-, no grego apó- e no latim ab-. Permaneceu com o
sentido de preposição e advérbio que já possuía no gótico, sendo freqüentemente
substituído, no alemão moderno, pela preposição von ("de"). Continua servindo de
prefixo para verbos (em geral de movimento), muitas vezes demarcando o ponto de onde
o movimento parte.
Wehr: Da raiz indo-germânica *uer- ( cercar com gradeamento ou fortificação, cobrir,
t"\
fechar, guardar). No gótico o verbo assume a forma warjan, no antigo alto-alemão
werian- e no médio alto-alemão wern. Outros grupos semânticos interligados ao verbo
wehren são wahren (guardar), Wehr (originalmente cerca de trançado para aprisionar
peixes, mais tarde fortificação contra água) e Werk ( obra, fábrica, usina). No latim operire
(*op-uerire) significava "cobrir, fechar, tampar". No século XVI encontram-se termos
militares como abwehren (repelir com sucesso), e no século XVIII aparecem as formas
Abwehr (defesa) e verwehren (proibir, recusar).
Abwehr 123

Termos correlatos, derivados e compostos

Os termos compostos com ah freqüentemente indicam a ação de livrar-se de algo.


Em outros casos apontam para o sentido de "extrair" ou "destacar". Demarcam um
"continente a partir do qual" algo é tirado.
ablehnen: recusar, rechaçar; Abweff desvio (ab + caminho); Abwehrjagdflugzeug;. avião
de caça defensivo, que repele o inimigo (coisa-que-voa-para-caça-para-repelir); abzapfen:
fazer punção, obter dinheiro por embuste, extrair algo de alguém (ab + fazer escoar);
e,bhehen: sacar dinheiro de conta (ah + levantar).
O radical Wehr indica movimento de "fechamento", "obstrução", �barragem".
Wehr. dique, barragem; couraça; wehren: defender-se ou proibir, vetar; Wehran1age:
instalação de defosa; Wehrmacht: exército alemão do segundo Reich (força que faz retroceder).

--- -- Comparação com o Termo em Português - ----

Significados adicionais de
"defesa" e "defender" não presentes em Abwehr

5) Defesa e defender(-se) têm o sentido de r:e�istir, impedir um dano. Eles se


defenderam bem (em alemão se usaria o verbo verteidigen). As defesas inimigas foram
destruídas.

Conotações adicionais de
"defesa" não presentes em Abwehr

C) Em português, a palavra "defesa" designa uma ampla gama de atividades que


visam a proteção contra o ataque; quanto ao destino do atacante, nada se sabe (se foi
destruído, repelido, imobilizado). Expressões como "a melhor defesa é o ataque " seriam
inadequadas com a palavra Abwehr, pois esta implica certa fixação, inércia, não descreve
uma atividade de grande amplitude, mas, pelo contrário, o afugentar ou afastar dos
inimigos a partir de determinada posição.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Abwehr português: defesa

significados
1 fazer retroceder, repelir 1 repelir
2 rejeitar 2-
124 Defesa

3 afastar 3-
4 impedir 4-
5 - 5 resistir

conotações
A movimento de rechaçar A­
B inimigos são afastados, mas se B-
permanece em prontidão defensiva
C - C eventualmente atividades de grande
amplitude para proteção

Em português tende-se a utilizar a palavra "defesa" no sentido 5 (resistir, ou evitar


dano) e com a conotação C. Se a tradução não distorce seriamente o entendimento,
perde-se a dinâmica das conotações A (movimento de rechaço) e B (prontidão defen­
siva), as quais remetem a um cenário de forças em xeque e à continuidade de conflito.

----- --Exemplos de Uso em Freud --- -----

1 "Propus então a idéia de que a eclosão da histeria pode ser quase invariavelmente
atribuída a um conflito psíquico que emerge quando uma representação incompatível
detona uma defesa (Abwehr) por parte do ego e solicita um recalcamento. Na época, eu
não soube dizer quais seriam as circunstâncias em que um esforço defensivo (Abwehr)
desse tipo teria o efeito patológico de realmente jogar no inconsciente uma lembrança
que fosse aflitiva para o ego e de criar um sintoma histérico em seu lugar. Hoje porém
posso reparar essa omissão: a defesa (Abwehr) cumpre seu propósito de arremessar* a
representação incompatível (unvertrãglich) para fora da consciência quando há cenas
sexuais infantis presentes no sujeito (até então normal) sob a forma de lembranças
inconscientes, e quando a representação a ser recalcada pode vinrular-:Se em termos
lógicos e associativos com uma experiência infantil desse tipo."
"A Etiologia da Histeria" (1896) [ESB 3, 1 95]
* O verbo utilizado é drãngen, "empurrar", "forçar", cuja raiz é a mesma de verdrãngen,
"recalcar".

2 "De onde provém a energia empregada para transmitir* o sinal de desprazer?


Aqui podemos ser auxiliados pela idéia de que uma defesa (Abwehr) contra um processo
interno importuno será plasmada sobre a defesa (Abwehr) adotada contra um estímulo
externo, e de que o ego debela (Verteidigung) os perigos internos e externos, de igual
modo, ao longo de linhas idênticas. No caso de perigo externo, o organismo recorre
a tentativas de fuga. A primeira coisa que ele faz é retirar a catexia da percepção do objeto
perigoso; posteriormente, descobre que constitui um plano melhor realizar movimentos
musculares de tal natureza que tornem a percepção do objeto perigoso impossível, mesmo
Abwehr 125

na ausência de qualquer recusa para percebê-lo,* que é um plano melhor afastar-se da


esfera de perigo. A repressão é um equivalente a essa tentativa de fuga."
Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) [ESB 20, 114]
* O sentido da frase é: ( ... ) descobre que constitui plano melhor realizar movimentos
musculares de tal natureza que tornem a percepção do objeto perigoso impossível, mesmo
quando não há recusa de registrar a percepção de tal presença, isto é, torna, através de certos movimentos,
tal percepção impossíve� pois se afasta do campo de influência do estímulo ameaçador.

3 "Os sintomas que fazem parte dessa neurose se enquadram, em geral, em dois
grupos, cada um tendo urna tendência oposta. São ou proibições, precauções e expiação
- isto é, negativos quanto à natureza1 - ou são, ao contrário, satisfações substitutivas
que amiúde aparecem em disfarce simbólico. O grupo defensivo (abwehrende), n egativo
dos sintomas é o mais antigo dos dois; mas à medida que a doença se prolonga, as
satisfações, que zombam2 de todas as medidas defensivas (Abwehr), levam vantagem. A
formação de sintomas assinala um triunfo se consegue combinar a proibição com a
satisfação, de modo que o que era originalmente uma ordem defensiva ( abwehrende) ou
proibição adquire também a significância de uma satisfação; e a fim d:! alcançar essa
finalidade muitas vezes faz uso das trilhas associativas ID:ais engenhosas."
Inibições, Sintomas e A,nsiedade (1926) [ESB 20, 135-6]
Isto é, de natureza (no sentido de "essência") negati�a.
1
2 As satisfações, zombando
de todas as defesas, se to�nam preponderantes.

4 "A tarefa de defesa (Abwehr) contra uma percepção perigosa é, incidentalmente,


comum a todas as neuroses. Várias ordens e proibições na neurose obsessiva têm em
vista o mesmo fim."
Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) [ESB 20, 183]

5 "Substituí-a* depois pela palavra 'repressão', mas a relação entre as d1.1as conti­
nuou incerta. Constituirá uma vantagem indubitável, penso eu, reverter ao antigo
conceito de 'defesa' (Abwehr), contanto que o empreguemos explicitamente como uma
designação geral para todas as técnicas das quais o ego faz uso em conflitos que possam
conduzir a uma n eurose, ao passo que conservamos a palavra 'repressão' para o método
especial de defesa (Abwehrmethode) com o qual a linha de abordagem adotada por nossas
investigações nos tornou mais bem familiarizados no primeiro exemplo."
Inibições, Sintomas e Ansiedade ( 1 926) [ESB 20, 188]
* Refere-se à expressão "processo defensivo" - Abwehrvorgang.

6 "( ... ) por isto reconhecemos um aspecto essencial n o recalque histérico: o ato de
'mantê-la afastada (Abhaltung) da consciência. ( ... ) O processo através do qual a neurose
126 Defesa

obsessiva afasta (beseitigt) uma reivindicação pulsional ( ... ), o 'desfazer', sobre cuja
tendência defensiva (abwehrende) não pode haver dúvida."
Inibições, Sintomas e Ansiedade ( 1 926) [ESB 20, 188-9]

7 "Para os meus propósitos, ser-me-á suficiente retornar às características gerais


dos fenômenos da desrealização. 1 A primeira característica consiste em que todos eles
servem ao objetivo de defesa (Abwehr); visam manter algo àistanciado do ego, visam
rechaçá-lo (verleugnen).2 "
"Um Distúrbio de Memória na Acrópole" ( 1 936) [ESB 22, 300]
1
"Desrealização" no sentido de "estranhamento", "sensação de realidade alterada".
2
Em vez de "rechaçá-lo", no original está verleugnen. Traduzido habitualmente por "nega­
ção", "desmentido", "recusa", indica a tentativa de negar uma evidência que se apresenta diante
do sujeito.

- ----------- Comentários -------- ----

Com exceção dos exemplos 1 e 7, todos os outros são extraídos do texto Inibições,
Sintomas e Ansiedade ( 1 926), onde Freud trata detalhadamente deste conceito.
Ocasionalmente é utilizado o tenno Verteidigung (defesa) em vez de Abwehr (exem­
plo 2), mas Abwehr é empregado com mais freqüência.
A palavra Abwehr é usada desde os primeiros trabalhos de Freud: aparece, por
exemplo, no "Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1895) e nos Estudos sobre a
Histeria ( 1 895). Nesse período é comum encontrar o termo compondo designações
que mais tarde viriam a cair em desuso, como Abwehrneurosen (neuroses de defesa),
Abwehrhysterie (histeria de defesa), primãre Abwehr (defesa primária) etc.
Dur;mte algum tempo, Abwehr foi utilizado como equivalente a "recalque", mas, ao
longo da obra, o conceito de Abwehr sofreu muitas elaborações, sendo utilizado mais
tarde primordialmente como designação genérica para "mecanismos de defesa" (Ab­
wehrmechanismen ), englobando uma ampla gama de processos, tais como recalque,
projeção, negação etc. (exemplo 5).

Equilíbrio precário de forças

Conforme já mencionado, a palavra alemã indica um movimento de "fazer recuar",


"repelir", "rechaçar", evocando a idéia de que o inimigo foi afastado. Nada é dito sobre
o destino e resolução do conflito; fica implícito que as forças inimigas foram apenas
mantidas afastadas, eventualmente colocadas em cheque, e exigirão constante vigi­
lância.
Abwehr 127

Basicamente é usado com referência às ameaças pulsionais, cuja origem é interna,


ou com referência às percepções ligadas a tais pulsões. Como tais pulsões não podem
ser satisfeitas, pois sua realização seria inconciliável (intolerável, unvertrãglich) com o
princípio de realidade, as reivindicações pulsionais se acumulam e geram um excesso
de estúnulos ( estímulos que espicaçam, Reize), que causa desprazer ( Unlust). Para evitar
esse desprazer os representantes da pulsão têm então de ser afastados do campo da
consciência. No entanto, como a pulsão (Trieb, força que produz incessantemente Reize)
é gerada internamente e sempre se renova, a Abwehr apenas logra afastá-la de forma
precária. Mantém-se eventualmente um equilíbrio de forças, o qual tende a exigir certo
dispêndio de esforço.
No exemplo 2, Freud retoma um paralelo, freqüente em sua obra, entre a defesa
contra estímulos externos e a defesa contra estímulos internos. Menciona que a Abwehr
se dá contra os estímulos (Reize), os quais, acumulados, produzem desprazer. Quando
gerados internamente, não permitem a fuga ou a luta, exigindo outras formas de
afastamento das percepções - por exemplo, o recalque, Verdrãngung ( em alemão
Verdrãngung significa "empurrar de lado", "afastar"). A mesma conotação de Abwehr
como um ato de "manter algo afastado" aparece nas expressões utilizadas nos diversos
trechos do exemplo 6: "manter longe (Abhaltung do campo de consciência do eu";
"remover (beseitigen, colocar de lado) uma reivindicação pulsional"; "o desfazer (unge­
schehenmachen/fazer desacontecer), cujo sentido é sem dúvida de repelir (abwehren)".
O mesmo tipo de imagem é utilizado no exemplo4, referindo-se à "tarefa comum" de
todas as neuroses: "afastar as percepções perigosas".
Esse processo não é exclusivo do recalque; pode ocorrer, por exemplo, nas diversas
. formas de negação Verleugnung (negação, recusa), Verwerfung (rejeição, negação,
preclusão ); ver exemplo 7, onde é mencionada a Verleugnung.

Abwehr e sintoma

Em geral, a Abwehr nos processos patológicos acaba por fracassar e produzir


sintomas, os quais permitem relativa satisfação pulsional. Entretanto, sintomas são
formações de compromisso ( em alemão Kompromi)J é um acordo em que ambos os lados
recuam e se conformam com uma solução de meio-termo); tais "compromissos" acabam
por não satisfazer a nenhum dos lados em conflito, aumentando ainda mais a
precariedade do equilíbrio de forças.
No exemplo J, é mencionado o fato de que urna representação intolerável é
"tocada", "empurrada" (aqui o verbo usado é drãngen) do consciente para o inconscien­
te, e no seu lugàr surge ó sintoma.
A conexão da Abwehr com o sintoma e a precariedade da Abwehr são ilustradas
também no exemplo 3, onde Freud trata da neurose obsessiva. Descreve a tendência
128 Defesa

de as pulsões se reimporem ao sujeito, conseguindo, através da formação de sintomas,


atingir alguma satisfação pulsional apesar das defesas.
De modo geral, a concepção de Abwehr, termo de uso também militar, remete a
situações de tensão sem resolução definitiva, realça aspectos dinâmicos e se constitui
num termo adequado para as metáforas de estratégia militar das quais Freud se serviu
repetidas vezes:

� Repressão ( Verdrangen), Negação ( Verleugnen), Forclusão ( Verwerfen)


Descarga: Abfuhr
E: Descarga
F: Décharge, éconduction
1: Discharge

A palavra "descarga" é uina tradução correta para Abfuhr, mas há aspectos conota­
tivos do termo alemão que não se mantêm em português.
O verbo abführen significa genericamente "conduzir daqui" (para além), "levar
embora"; o substantivo Abfuhr designa um' movimento de "retirada", "escoamento".
Ambos evocam imagens ligadas aos desdobramentos do ato de retirada: a utilização
de um suporte que carrega o objeto, conduzindo-o, através de uma via, para fora. Algo
diverso de uma "descarga" ou "disparo" abrupto.
Trata-se de um dos termos mais presentes em toda a obra freudiana.

----- ---- 0 Termo em Alemão ---- -----

Composição do termo

ab-: A preposição ab delimita um ponto de partida, tanto para datas quanto para
localização espacial. O prefixo ab- liga-se com freqüência a verbos de movimento,
demarcando um ponto de corte a partir do qual algo se "destaca", "separa" ou
"desprende".
fuhr: Remete ao verbo führen (conduzir veículos ou pessoas, liderar). Também
poderia remeter ao pretérito imperfeito do verbofahren ( dirigir veículo, dirigir-se com
veírulo, viajar, ir etc., transportar algo ou alguém em veículo). Ambos os verbos têm a
mesma origem etimológica.

Significados do verbo
abführen e do substantivo Abfuhr

1) Retirada de objetos com veículo (também utilizado como verbo). A retirada


(transporte) do lixo será realiz.ada amanhã.
2) Derrota numa luta a dois (muito pouco usado). Sofreu uma derrota na luta.
3) Rejeição, censura, repreensão (muito pouco usado). Recebeu wn fora/rejeição de
sua namorada.
4) (verbo) Le�ar embora, conduzir para além. Levem o prisioneiro daqui!
130 Descarga

Conotações de Abfuhr

A) Conforme mencionado acima, o prefixo ab- freqüentemente indica algo que se


"desprende". O verbo führen remete a "transporte", "condução" . Combinados, ab- e
führen ( o verbo abführen e o substantivo Abfuhr) evocam a demarcação de um ponto de
partida, ele onde materiais são retirados ou conduzidos para mais além.
B) O radical de Abfuhr refere-se ao verbo führen, que significa "conduzir", "levar",
"dirigir" ou "liderar". Não evoca a idéia de um movimento ou deslocamento abrupto,
tal qual ocorre amiúde com a palavra portuguesa "descarga". Em alemão, "la..xante" é
designado por/l.bführmittel (literalmente "meio de conduzir embora"). Neste caso fica
a imagem de que algo é conduzido para fora como que "fluindo", ou "escoando" numa
"corrente ou fluxo", e levando as impurezas do corpo embora (DW, 41).
C) A Abfuhr no sentido 1 ( de "retirada com veículo") freqüentemente se liga à idéia
de que algo é transportado ou conduzido por uma Bahn ( "via"); ver verbete "Facilita­
ção" (Bahnung) , p. 240. Há neste sentido uma ligação da Abfuhr ("retirada", "conduzir
daqui para além") com a Bahn ("via pela qual se transita") .
D ) O verbo abführen é transitivo, exigindo que algo o u alguém retire, transporte ou
evacue um o�jeto. A Abfuhr supõe a ação de um elemento/veículo, que sirva de
"suporte" e carregue consigo o objeto.

- ------ Etimologia e Termos Correlatos - -----

Etimologia

ab-: Derivado da raiz indo-européia *apo- (embora, a partir de). No gótico assume
a forma af, no antigo alto-alemão aba- , no grego apó- e no latim ab-. Permaneceu com
o sentido de preposição e advérbio quejá possuía no gótico, sendo no alemão m, >demo
freqüentemente substituído pela preposição von ("de"). Continua servindo de prefixo
para verbos (em geral de movimento), muitas vezes demarcando o ponto de onde o
movimento parte.
Fuhre: Derivado da mesma raiz indo-européia do verbo fahren (ir, dirigir veículo) e
do substantivo Fahrt (viagem, percurso). O verboführen (dirigir, conduzir, liderar) no
antigo alto-alemão tinha a forma fuoren, no médio alto-alemão vüeren, e significava
"colocar em movimento", "fazer ir", e depois "trazer" e "dirigir", "concl�1zir". No novo
alto-alemão, o substantivo Fuhr passa a combinar-se com inúmeros prefixos, assumindo
um amplo leque de significados. Já cedo Fuhr tinha o sentido de "percurso-viagem
durante a qual algo é transportado", bem como de "carga de veículo".
Abfuhr 131

Termos correlatos, derivados e compostos

Ab- pode combinar-se com verbos que designem a atividade de "destacar" ou


"extrair" . Demarca um "continente" a partir do qual algo é tirado.
Abfahrt: "partida", "saída"; Abführmittel: "laxante"; Abreahtion: "descarregar através
de reação afetos acumulados".
Os termos com Fuhr r�metem freqüentemente a "conduzir com veículo".
Fuhre: "carregamento", "frete" ; Fuhrmp,nn: "carreteiro", "cocheiro", "motorista";
Fuhrparh: "conjunto de automóveis de empresa de transporte".

----- Comparação com o Termo em Português - -- - -

Significados adicionais de
"descarga" e "descarregar" não presentes em Abfuhr

5) Retirar objetos de um veículo (navio, caminhão etc.) ( também u tilizado como


substantivo). A descarga do navio no porto foi lenta e custosa.
6) Disparo ou saída súbita de algo que é expelido,, -'ou que sai por sua própria conta
(também utilizado como substantivo). Descarga elétrica, descarga de tiros de metralhadora etc.
[Em português há ainda outros usos específicos ligados ao sentido 6 (vazão ele
líquidos-descarga da privada, descarga sólida etc.); NDA, 549, 550.J

Conotações adicionais de
"descarga" e "descarregar" não presentes em Ahfuhr

E) Em português ªdescarga" é freqüentemente entendido no sentido 6 co�o uma


rajada ou vazão abrupta · e autônoma. No contexto psicanalítico de textos traduzidos
para o português, expressões como "descarga de energia", "de libido", "de estímulos"
etc. são habitualmente compreendidas desta forma.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Abfuhr português: descarga


significados
1 retirar, levar· embora com veículo 1-
2 derrota nurµa luta 2-
3 rejeição, cerisura 3 ..:..
4 conduzir embora, levar 4-
132 Descarga

embora daqui
5- 5 retirar carga de um veículo
6- 6 disparo, rajada

conotações
A demarca saída a partir de um pomo A-
B saída menos abrupta (escoamento, B (no sentido 6 refere-se a algo mais
evacu� ção) abrupto)
C via d� escoamento desobstruída C (no sentido 6 pressupõe bom con­
dutor, material reativo)
D um suporte carrega o objeto D (não rio sentido 6)
E- E geralmente algo abrupto e autônomo

Em comparação com "descarga", o termo Abfuhr descreve um movimento menos


abrupto, tem o sentido de "escoamento" (sentido 1 e conotação B). Na medida em que
evoca o desdobramento do processo de "escoar", remete à imagem de um "suporte que
carrega ou conduz o material" (sentido 1 e conotação D), bem como a uma "via
aplainada" ( estrada, canos etc.) que permita a "retirada" (sentido 1 e conotação C).
"Descarga" em português muitas vezes expressa a idéia de "movimento abrupto" e
"autônomo" (sentido 6 e conotação E).

----- -- Exemplos de Uso em Freud

1 "Há portanto dois resultados possíveis para cada processo excitatório inconscien­
te. Ou bem ele fica por sua própria conta, caso em 9.ue acaba irrompendo em algum
ponto e, nessa ocasião isolada, encontra descarga 1 (AbfluJJ) para sua excitação na
motilidade, ou cai sob a influência do pré-consciente e sua excitação, em vez de ser
2
descarregada (abgeführt), fica Iigada (gebunden) pelo pré-consciente."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VIII/D ( 1900) [ESB 5, 526]
I
Aqui Freud utiliza o termo Abfluj) (escoar de líquidos) em vez de Abfuhr (retirada). O
sentido do trecho é: "( ... ) nessa ocasião isolada, encontra via de escoamento para sua excitação
através da motilidade."
2
O sentido deste trecho é: em vez de ser descarregada, é "fixada/atada" pelo pré-consciente.

2 "A eficácia terapêutica de seu procedimento foi explicada em função da descarga


(Abfuhr) do afeto, até ali como que 'estrangulado', preso às ações anímicas suprimidas*
(unterdrückten) ('ab-reação')."
"O Método Psicanalítico de Freud" (1904) [ESB 7, 233]
* como que "ent,1.lado", "atado" às ações psíquicas "suprimidas" (unterdrückten).
Abfuhr 13.]

3 "Assim essas formações de pensamento que foram retidas num estado de


inconsciência aspiram a uma expressão apropriada* a seu valor afetivo, a uma descarga
(Abfuhr), e, no caso da histeria, encontram-na mediante o processo de conversão em
fenômenos somáticos -justamente os sintomas histéricos."
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1905) [ESB 7, 1 54]
* Aspiram a uma expressão que esteja de acordo com seu valor afetivo.

4 "Esta disposição à inibição, que devo considerar como despesa real,* análoga à
mobilização no campo militar, será neste mesmo momento reconhecida como supér­
flua ou tardia, e portanto descarregada (abgeführt) em statu nascendi pelo riso."
O Chiste e sua Relação com o Inconsciente ( 1 905) [ESB 8, 175]
* considerar como um esforço verdadeiro.

5 "O que quer que coloque um processo psíquico em conexão com outros opera
contra a descarga (Abfuhr) da catexia excessiva e a põe a serviço de outro uso; o que
quer que isole um ato psíquico encoraja a descarga (Abfuhr)."
O Chiste e sua Relação com o Inconsciente ( 1905) [ESB 8, 255]

6 "Nova função foi então atribuída à desca�,g'a (Abfuhr) motora, que, sob o
predomínio do princípio do prazer, servira como meio de aliviar o aparelho mental
de adições de estímulos, e que realizara esta tarefa ao enviar inervações para o interior
do corpo ( conduzindo a movimentos expressivos, mímica facial e manifestações de
afeto). A descarga (Abfuhr) motora foi agora empregada na alteração apropriada da
realidade; foi transformada em ação."
"Formulações sobre os Dois Prinópios do Funcionamento Mental" (1911) [ESB 12, 280]

7 "Na histeria de conversão, a catexia instintual da idéia reprimida converte-se na


inervação do sintoma. Até que ponto e em que circunstâncias a idéia inconsciente é
esvaziada1 (drainiert) por essa descarga (Abfuhr) na inervação, de modo a suspender a
pressão2 que excerce sobre o sistema Cs. - essa e outras perguntas semelhantes devem
ser reservadas para uma investigação especial da histeria."
"O Inconsciente" (1915) [ESB 14, 2 1 2]
l O termo empregado no original é drainiert, "drenada".
2 de modo que ela (refere-se à idéia reprimida) possa suspender a pressão.

8 "Quando um processo passa de uma idéia* para outra, a primeira idéia* conserva
uma parte de sua catexia · e apenas uma pequena parcela é submetida a deslocamento.
Os deslocamentos e as condensações, tais como ocorrem no processo primário, são
excluídos ou bastante restringidos.
134 Descarga

"Essa circunstância levou Breuer a presumir a existência de dois estados diferentes de


energia catexial na vida mental: um em que a energia se acha tonicamente 'vinculada' e
outro no qual é livremente móvel e pressiona no sentido de uma descarga (Abfuhr). ( ... )
Além disso cabe ao sistema Pcs. efetuar a comunicação possível entre os diferentes
conteúdos icleacionais de modo que possam influenciar uns aos outros, a fim de dar-lhes
uma ordem no tempo e estabelecer uma censura ou várias censuras; também o 'teste de
realidade', bem como o princípio de realidade se encontram sob o seu domínio."
"O Inconsciente" ( 1 9 15) [ESB 14, 2 15-6]
*"Idéia" no sentido de "representação interna", ou "reprodução imagética interna".

9 "Ansiedade * é portanto um estado especial de desprazer com atos de descarga


(Abfithreaktionen) ao longo de trilhas específicas."
Inibições, Sintomas e Ansiedade ( 1926) [ESB 20, 156]
* "Ansiedade" no sentido de "medo".

------------ Comentários - --- --------

Abfuhr é utilizado com freqüência, na psiquiatria e na neurologia do século XIX,


referindo-se à "descarga" de estímulos- nervosos no âmbito fisiológico.
Ao longo da obra freudiana, o termo é um dos mais presentes, sendo empregado
desde o "Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1895).

Via e veículo

O conceito de Abfuhr envolve em geral a presença de vias e veículos que permitam


o escoamento/retirada dos estímulos acumulados. Nos exemplos 6 e 7, o papel de via
é desempenhado pelas inervações; no exemplo 9, pelas "trilhas específicas". No
exemplá 6, o "veículo" da descarga é a ação motora, no exemplo 4, "o riso", e nos
exemplos 7 e 3, a conversão para estados somáticos.

Circulação

Embora a Abfuhr seja um processo de escoamento, que se dirige em geral para fora,
implica uma livre circulação que passa por diversas vias internas. Freqüentemente Freud
contrapõe Abjuhr a termos que designam uma "fixação"/"aprisionamento" que impedem
tal livre circulação. No exemplo 8, a expressão "tonicamente vinculada" é contraposta a
"livremente móvel"; no exemplo 3, Freud menciona idéias que foram "retidas" e aspiram
a uma descarga; no exemplo 5, estar associativamente em "conexão" com as outras
representações impede a descarga; no exemplo 1, ao invés de ser descarregada, a excitação
1
1
Abfuhr 13.'J

fica "ligada-presa" pelo pré-consciente; no exemplo 2 a palavra "descarga" é contraposta


a estar "entalada", "presa a ações anímicas suprimidas". Em alguns textos Freud usa
alternadamente os termos Abflu)J (escoamento de líquido) e Abfuhr (ver exemplo 1). No
exemplo 5, chega a empregar a imagem de uma representação que é "drenada" através da
descarga. Essas imagens mais "líquidas" da Abfuhr apontam para um mecanismo de
"retirada" que se assemelha mais a um "escoar" através de vias interligadas do que a uma
"descarga".

Mecanismo processual

Conforme já mencionado, à palavra portuguesa "descarga" associa-se com freqüên­


cia a idéia de uma eliminação abrupta e autônoma de algo que se acumulou em excesso
(por exemplo, a descarga que ocorre nos processos fisiológicos que Freud descreve
quando trata do orgasmo ou do abreagieren). Entretanto, em geral, a conotação do
termo, mesmo nos casos em que Freud trata de "saída-escoamento" abrupto (coito,
onania etc.), enfatiza uma seqüência de desdobramentos envolvidos num mecanismo
de retirada mais processual.
Sem que se possa falar de um uso uniforme do termo em Freud, genericamente
Abfuhr pode ser inserido na seguinte seqüência:
A fonte pulsional produz estímulos (Reiz, excit�ção muitas vezes irritativa) que
formam uma "estase" (Stauung, represamento de estímulos). A "catexia" (Besetzung,
ocupação/invasão/tomada) de uma representação/idéia (Vorstellung) se torna intensa
(devido ao acúmulo), pressionando (drdngen, empurrar forçando) então pela descarga
(Abfuhr). Esse escoamento ocorre por vias associativas e motoras através de uma atividade
que sirva de veículo de transporte (o riso, o orgasmo, determinados pensamentos etc).
Eventualmente é possível que a representação esteja inibida (gehemmt, encurralada/breca­
da) pelo "recalque" (Verdrdngung, empurrar de lado), impedindo uma descarga mais
imediata. Através, por exemplo, de um deslocamento (Verschiebung, mudança de direção,
deslizar, alterar configuração), há uma "facilitação" (Bahnung, abrir cami�hos ou vias
aplainadas e desimpedidas), e a energia psíquica pode eventualmente escoar, ligada
(atada) à mesma 1 epresentação ou ligando-se a outras representações a esta associada.
Neste sentido, parte da energia, que estava imobilizada por estar "ligada" (gebunden,
amarrada/fixada) a representações recalcadas, pode então circular e escoar.
Quando a descarga externa não é possível, existe a alternativa de descarga interna,
por exemplo, através do que Freud denomina de "elaboração interna" (innere Verarbei­
tung), processo durante o qual a estase vai sendo dissolvida por reconfigurações (ver
verbete Verarbeitung, página 190).

� Ligação (Bindung), Estímulo (Reiz), Deslocamento (Verschiebung), Elaboração


·· ( Verarbeitung) ·
Desejo: Wunsch

E: Deseo
F: Désir ou souhait
I: Wish

O substantivo Wunsch é traduzido adequadamente por "desejo", mas em alemão o


termo tem um uso mais específico.
Em geral dirige-se ao que é almejado (mais distante e idealizado), rese:-vando-se
para o "desejo mais imediato" e mais próximo do "querer" outras palavras - por
exemplo, "vontade" (Lust) e "querer" ( Wille).
O verbo sich etwas wünschen (desejar + pronome reflexivo) é usado amiúde no campo
do imaginário-onírico para formular um "pedido" a ser realizado (às vezes por fadas,
magos etc.). Em português o emprego do termo é mais extenso e inclui com freqüência
aspectos mais imediatos ou sexuais.
No texto freudiano, Wunsch vincula-se a determinadas palavras do campo prepon­
derantemente representacional e se diferencia de Lust (vontade/desejo/prazer) e de
Begierde (desejo intenso, sofreguidão).

--------- - 0 Termo em Alemão --- ----- --

Composição do termo

Termo simples.

Significados do verbo
wünschen e do substantivo Wunsch

1 ) Pedido, voto formulado, sonho, algo almejado, o que se quer, ideal (também
utilizado como verbo). Pediu ao gênio da lâmpada que realizasse três desejos. Tenho já há
tempos o desejo de guiar uma vez este carro (sonho, algo que almejo).
2) Num nível mais prosaico e imediato, o querer, a vontade de fazer ou ter algo, o
desejo por algo, ou o desejo de possuir ou usufruir (também utilizado como verbo).
Tenho o desejo de dormir depois do almoço.
Wunsch 137

Conotações do substantivo
Wúnsch e do verbo wünschen

A) Em português a palavra "desejo" e em alemão o termo Wunsch podem ser


utilizados como "mediadores" entre o que o sujeito "quer" e a expressão social desse
"querer" na forma de "pedido" . Amenizam socialmente o "querer". Em ambos os
idiomas se usa, com a m�sma função amenizadora, a forma condicional de "gostar"
(mogen): "gostaria" (mochte), ou o imperfeito de "querer" (wollen): "queria" (wollte).
B) Wunsch e "desejo" também são utilizados para expressar algo menos imediato,
objetos que se apresentam para o sujeito como um "ideal", algo "sonhado", portanto
mais distante .

----- -- Etimologia e Termos Correlatos - - - - - -

Etimologia

Da raiz indo-européia *wn[� ]· ( circular, vagar pr9curando por algo). Provavelmen­


te referia-se a ações de procurar alimento ou rastréar pistas na guerra. Derivaram-se
muito cedo no inçlo-europeu os sentidos de "procurar/desejar", "amar", "gostar",
"exigir" e "necessitar". No antigo indiano. já se encontram as formas vánati (deseja,
deseja intensamente, ama) e vanas (o desejo intenso, a vontade prazerosa) e no latim
venus, -eris (prazer amoroso). Mais adiante os sentidos se estendem para "ter esperan­
ça", "supor", "aceitar", "estar satisfeito". Em alemão, palavras como Wahn (loucura),
gewohnen (acostumar-se), Wonne (prazer), gewinnen (vencer) e wohnen (morar) perten­
cem ao mesmo tronco originário de Wunsch. No antigo alto-alemão, a palavra tinha a
forma wunsc, no médio alto-alemão wunsch, ejá designava "ambição", "algo almejado".
Apesar do eventual sentido psicanalítico das conexões etimológicas entre "desejar",
"precisar", "ter prazer", "ter esperança" e "loucura", este tronco comum não é mais
perceptível aos falantes do alemão atual.

Termos correlatos, derivados e compostos

Wunschdenken: pensamento irrealista ditado mais pelo desejo do que pela realidade;
wunschlos: satisfeito (sem desejo); wiinschenswert: desejável (literalmente, que vale ser
desejado).
No primeiro e terceiro exemplo, o desejo se refere a objetos mais idealizados e
distantes.
138 Desejo

----- Comparação com o Termo em Português -----

Significados adicionais de
"desejar" e "desejo " não presentes em Wunsch

3) Desejo ou apetite sexual (também utilizado como verbo). Ele não está mais com
desejo pela esposa. Com a idade diminui o desejo.

Conotações adicionais de
"desejo " em português não presentes em Wunsch

C) O caráter de "desejo imperativo visceral", desejo intenso por um objeto, cobiça,


"fissura", em português, é exprimível pela palavra "desejo" ( "Ele deseja aquela mulher
para si." "Ela tem desejo de doces."). Em alemão o uso de Wunsch tornaria as frases
demasiado amenas exigindo, portanto, que se acrescentassem adjetivos, por exemplo,
brennender Wunsch (desejo ardente) etc.
D) O termo "desejo" em português pode, conforme o contexto, ter a conotação de
"vontade" ou "querer". Por exemplo, em frases como "ela não deseja ir ao cinema", ou
"passou-me o desejo de viajar". Em alemão tender-se-ia a utilizar a palavra Lust (vontade).

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Wunsch português: desejo

significados
1 voto formulado, pedido. sonho 1 voto formulado, pedido, sonho
2 o querer mais imediato 2 o querer mais imediato
(men9s usado)
3 - 3 desejo sexual
conotações
A ameniza o querer A ameniza o querer
B objeto distante, ideal sonhado B objeto distante, ideal sonhado
C- C "fissura", cobiça
D- D vontade

Wunsch no original cem um caráter fortemente imaginário, remete ao ideal, ao


sonho e a objetivos mais distantes e almejados. Em português "desejo" é de uso mais
extenso, referindo-se também à sexualidade e ao querer mais imediato.
O querer mais prosaico e imediato (sentido 2) não é muito usual em alemão. O
caráter sexual do termo "desejo" (sentido 3 e conotação C) não está contido na palavra
Wunsch 139

alemã Wunsch. Há outras palavras alemãs que expressam melhor estes aspectos, até
mesmo Lust e Begíerde quando devidamente contextualizadas.

- ------ Exemplos de Uso em Freud


1
1 "O estado de desejo ( Wunsch) resulta numa atração positiva para o objeto
2
desejado. ou mais precisamen te, por sua imagem mnêmica, a experiência da dor leva
à repulsa, 3 à aversão, por manter catexizada a imagem mnêmica hostil. Eis aqui a atração
de desejo ( Wunsch) primária e a defesa (repúdio) primária.
"A atração de desejo ( Wunsch) pode ser facilmente explicada pelo pressuposto ele
que a catexia da imagem mn êmica agradável ocorre num estado ele desejo 4 (Begiercle)
que supera amplamente em Q a catexia que ocorre quando há uma simples percepção,
de modo que a facilitação 5 particularmen te boa passa do núcleo para o neurônio
correspondente do pallium."
"Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1895) [ESB 1, 339-40]
1 O original não menciona a palavra "positiva".
2 Em vez de "experiência", "vivência".
3 Em vez de "repulsa", "repulsão".
4 Begierde significa algo semelhante a "sofreguidão"/'fissura", "desejo intenso".
5 "Facilitação" no sentido de interligação facilitada.

2 "O objetivo e o sentido dos sonhos (dos normais, pelo menos) podem ser
estabelecidos com certeza. Eles são realizações de desejos ( Wunscherjüllungen) - isto é,
processos primários que acompanham as experiências* de satisfação (Befriedigungser­
Zebnissen); e só não são reconhecidos como tal, porque a liberação de prazer (Lust) (a
reprodução de traços das descargas de prazer (Lust)) neles é escassa, pois, em geral,
eles seguem seu curso sem afeto (sem liberação motora). É muito fácil porém demons­
trar que esta é sua verdadeira natureza. É justamente por essa razão que me sin to
inclinado a deduzir que a catexia de desejo ( 1iVunsch) primária também foi de caráter
alucinatório. "
"Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1895) [ESB 1 , 356]
* Em vez de "experiências", "vivências".

3 "Um componente essencial dessa vivência de satisfação é uma percepção especí­


fica (a da nutrição, em nosso exemplo) cuja imagem mnêmica fica associada, daí por
1

diante, ao tr3ÇO mnêmico da excitação produzida pela necessi dade (Bedürfnis). Em


decorrência do vínculo a.�sim estabelecido, na próxim::i vez em que essa necessidade
(Bedürjiús) for despe1 t,ld:1, sur§;riri de imed iato uma moção (Regung/ p�íquica que
procurará rec:nexiLa1 a i i:t,<}.: rn mnêmíca da p, rcqiç,i, > ,:- 1\·e1·nc:t ; - ;, 1m\-.r i,1 percepção,
.,..•
f y

··�

140 Des(!jo
2
isto é, restabelecer a situação da satisfação original. Uma moção (Regung) dessa espécie
é o que chamamos de desejo (Wunsch); o reaparecimento da percepção é a realização
do desejo (Wunscherfüllung), e o caminho mais curto para essa realização (Wunscherfül­
lung) é a via que conduz diretamente da excitação produzida pelo desejo (Wunsch) para
uma completa catexia da percepção. Nada nos impede de presumir que tenha havido
um estado primitivo do aparelho psíquico - em que esse caminho era realmente
percorrido, isw é, em que o desejo (Wunsch) terminava em alucinação. Logo, o objetivo
dessa primeira atividade psíquica era produzir uma 'identidade perceptiva' - uma
repetição da percepção vinculada à satisfação da necessidade."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VII/C (1900) [ESB 5, 516]
1 No original: ( ... ) dessa vivência de satisfação é o "aparecimento" de uma percepção
específica ( ... ).
2 Regung é termo de difícil tradução (alguns tradutores têm optado por "moção de desejo"),
significa algo como "movimento inicial interno", tem a conotação de "iniciativa", "gesto inicial",
"esboço". Neste sentido é um esboço/gesto/moção. É empregado freqüentemente em compo­
sição composta com Wunsch; ver exemplo 1 1, abaixo.

4 ''Mas afinal o pensamento não passa de um substituto de um desejo alucinatório


(halluzinatorisches Wunschen), e é evidente que os sonhos têm de ser realizações de
desejos (Wunscherfüllung), uma vez que nada senão o desejo (Wunsch) pode colocar
nosso aparelho anímico em ação."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VII/C (1900) [ESB 5, 5 17]

5 "Enquanto* o desejo (Wunsch) do Ics. consegue encontrar expressão no sonho, depois ·


de sofrer toda sorte de distorções, o sistema dominante se recolhe num desejo (Wunsch) de
dormir, realiza esse desejo promovendo as modificações que consegue produzir nas catexias
no interior do aparelho psíquico, e persiste nesse desejo por toda a duração elo sono."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VII/C (1900) [ESB 5, 520]
* No texto original a palavra "enquanto" está em outro trecho: "O desejo do Ics. ( ... ) sorte
de distorções, enquanto o sistema dominante se recolhe ( ... )".

6 "A esse tipo de corrente no interior do aparelho, partindo do desprazer e


apontando para o prazer, demos o nome de 'desejo' (Wunsch); afirmamos que só o
desejo ( Wunsch) é capaz de pôr o aparelho em movimento e que o curso da excitação
dentro dele é automaticamente regulado pelas sensações de prazer e desprazer. O
primeiro desejar (Wünschen) parece ter consistido numa catexização alucinatória da
lembrança de satisfação. Essas alucinações, contudo, não podendo ser mantidas até o
esgotamento, mostraram-se insuficientes para promover a cessação da necessidade, ou,
por conseguinte, o prazer (Lust) 1 ligado (verbunden) à satisfação."
2

A foterpretação dos Sonhos, cap. VII/E (1900) [ESB 5, 542]


Wunsch 141
1
Lust não é o prazer pleno que se desdobra na cadência da fruição e do gozo, trata-se de
um prazer que circula na imediaticidade das sensações agradáveis que brotam e se renovam incessan­
temente durante ações prazerosas.
2
verbunden significa vinculado (conectado, associado); trata-se de algo diverso de gebunden
(ligado, atado, fixado).

7 "Retorno a linhas de pensamento já desenvolvidas em outra parte quando sugiro


que o estado de repouso psíquico foi originalmente perturbado pelas exigências
peremptórias das necessidades internas. Quando isto aconteceu, tudo que havia sido
pensado (desejado) (gewünscht) foi simplesmente apresentado de maneira alucinatória,
tal como ainda acontece hoje com nossos pensamentos oníricos a cada noite."
"Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental" ( 1 9 1 1 ) [ESB 12,
278]

8 "Com a introdução do princípio de realidade, uma das espécies de atividade de


pensamento foi separada; ela foi liberada do teste de realidade e permaneceu subordi­
nada somente ao princípio do prazer. Esta atividade é o fantasiar, que começa já nas
brincadeiras infantis, e posteriormente, conservada como devaneio, abandona a de-
pendência de objetos reais."
"Formulações sobre os Dois Princípios do Funcím;árnento Mental" ( 1 9 1 1 ) [ESB 12,
28 1-2]

9 "Durante a noite, a seqüência de �ensamentos consegue encontrar vinculações


(Verbindung) 1 com urna das tendências (Wünsche) inconscientes presentes desde a
infância na mente do que sonha, mas ordinariamente reprimida e excluída de sua vida
consciente."
"Uma Nota sobre o Inconsciente na Psicanálise" ( 19 12)
[ESB 12, 333]
Verbindungen são vinculações no sentido de interligações, conexões; diverge, pois, de
Bindung (ligação, fixação, atar a).
2 . " "d . "
Em vez de " tend enc1as
' , eseJ os .

10 "O núcleo do lcs. consiste em suas representações instintuais (Triebrepriisentan­


zen) 1 que procuram _descarregar sua catexia; isto é, consiste em impulsos carregados de
desejo (Wunschreguizgen). 2 Esses impulsos instintuais são coordenados entre si, existem
lado a lado sem se influenciarem mutuamente, e estão isentos de contradição mútua.
Quando dois impulsos carregados de desejo* ( Wunschregungen), cujas finalidades são
aparentemente incompatíveis, se tornam simultaneamente ativos, um dos impulsos não
reduz ou cancela o outro, mas os dois se combinam para formar uma finalidade
intermediária (KompromijJ), um meio-termo."
"O Inconsciente" ( 1915) [ESB 1 4, 2 13]
\

142 Desqo
1
Triebreprdsentanz significa "representante", "aquele que está no lugar de".
2
Wunschregung é termo de difícil tradução (algumas vezes tem sido traduzido como "moção
de desejo"), significa algo como "movimento inicial interno de desejo", tem a conotação de
"iniciativa de desejo", "gesto inicial de desejo", "esboço de desejo".

1 1 "Se, contudo, houvesse tais desejos ( Wünsche) pré-conscientes, o desejo onírico


( Traumwunsch) se associaria a eles, como um reforço muito eficaz dos mesmos. Temos
agora de considerar as outras vicissitudes sofridas por esse impulso carregado de desejo
( Wunschregung), 1 que em sua essência representa2 uma exigência instintual inconscien­
te e que se formou no Pcs. como um desejo onírico (Traumwunsch) (uma fantasia que
satisfaz o desejo (wunscherfüllende Phantasie)).3 A reflexão n os diz que esse impulso
carregado de desejo (Wunschregung) 1 pode seguir três caminhos diferentes. Pode seguir
o caminho que seria normal na vida de vitlia, exercendo pressão do Pcs. para a
consciência; pode desviar-se do Cs. e achar uma descarga motora direta; ou pode
tomar o caminho inesperado que a observação nos permite de fato traçar. No primeiro
5
caso, transformar-se-ia num delírio, tendo como conteúdo a satisfação do desejo
( Wunscherfüllung); no estado do sono, porém, isso jamais acontece."
"Suplemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos " (1915-7) [ESB 14, 258]
Wunschregung é termo de difícil tradução, não se trata de um "impulso carregado de
1

desejo"; alguns tradutores têm optado por "moção de desejo". O termo Regung significa algo
como "movimento inicial interno", tem a conotação de "iniciativa", "gesto inicial", "esboço".
Neste sentido é um "esboço/gesto/moção de desejo".
2
No original é ulilizado o verbo vertreten, "representar" no sentido de "estar no lugar de",
"substituir".
Em vez de: "Temos agora de considerar ( ... )", a frase toda no original é: "Trata-se dos
3

destinos ulteriores destas moções de desejo que em essência representam . a reivindicação


pulsional, a qual se formou no Pcs. como desejo onírico (uma fantasia que realiza o desejo)".
4
Em vez de "achar", "criar" ou "produzir".
Normalmente a palavra "satisfação " equivale ao termo alemão Be/riedigung("apaziguamen­
5

to"), mais utilizado para a intensidade e concretude corpórea das pulsões. O termo Erfüllung é
mais bem traduzido por "realização " e se refere a desejos e ao campo do onírico e imaginado.

12 "A experiência demonstrou ao indivíduo que não só é importante uma coisa


(Ding) (um objeto de satisfação para ele) possuir um bom atributo, assim merecendo
ser integrada ao seu ego, mas também que ela esteja no mundo externo, de modo que
ele possa se apossar dela sempre que dela necessitar (Bedürfniss). ( ...) Portanto, o
objetivo primeiro e imediato do teste de.realidade é não encontrar na percepção real
um objeto que corresponda ao representado (Vorgestellten), mas reencontrar tal objeto,
convencer-se de que ele está Já."
"A Negativa" (1925) [ESB 19, 298]
Wunsch 143

---- --- ----- Coment ários -- ----------

O termo Wunsch está presente desde as primeiras formulações de Freud; entretanto,


é na Interpretação dos Sonhos que será elaborado mais detalhadamente. Não está no
escopo deste trabalho retraçar o extenso percurso teórico do termo e sua inserção no
arcabouço da teoria freudiana, mas de forma geral pode-se dizer que o "desejo" circula
preponderantemente na esfera representacional, nas regiões do "pensamento", do
"sonho", da "fantasia", do "idealizado", do "imaginado", do "alucinado" e da "loucura".
Através dos trechos escolhidos como exemplos, serão ressaltadas as relações
lingüísticas e psicanalíticas de Wunsch com a satisfação (Befriedigung) e com a repre­
sentação (Vorstellung). O termo também será contrastado com as palavras Lust (dese­
jo/prazer/vontade) e Begierde (desejo intenso, conscupiscência, sofreguidão).

A "realização " (Erfüllung) do desejo


(Wunsch) e a "satisfação " (Befriecligung) da pulsão

Freud tende a utilizar para o termo "desejo" (Wunsch) a palavra "realização"


(Erfüllung) e para "pulsão" (Trieb) a palavra "satisfação". (Befriedigung ). Muito raramen­
te emprega o termo "satisfação" (Befriedigung) em conexão com "desejo" (Wunsch).
A palavra "realização" (Erfüllung) como tam�ém a palavra "desejo" ( Wunsch),
pertencem à esfera do idealizado, do almejado e .do onírico. Erfüllung é um termo
utilizado, por exemplo, em contos de fadas, para designar que o "desejo" (o pedido)
se concretizou, se realizou.
A palavra Befriedigung se refere geralmente à satisfação de uma necessidade
(Bedürfnis), a qual, se não for satisfeita, deixa o sujeito inquieto e em sofrimento. O
termo "satisfação" (Befriedigung) contém a raiz fried-, referente a "paz", e significa
literalmente "apaziguamento". Designa algo que aplaca a inquietude do estado de
necessidade. No exemplo ll, a tradução não levou em conta este uso diferenciado
(talvez devido ao fato de Freud utilizar, nesse trecho, Wunsch quase como sinônimo de
Trieb), mas ele pode ser verificado nas inserções colocadas entre parênteses, em letra
cursiva, no corpo do exemplo e nas observações a ele anexadas. De modo geral, a
Erfüllung apela para o investimento (catexia) ao nível da imaginação e da representação
almejadas, e a Bejriedigung aponta para vivências na imediaticidade do corpo.

Wunsch (desejo), Trieb (pulsão) e Lust (prazer-vontade)

A "pulsão" (ver verbete "Pulsão" (Trieb), p. 338) é inquietante e aguilhoa o sujeito,


necessítando ser_( apaziguada; sua meta é obter o prazer (Lust), desconsiderando
qualquer mediação. Sua expressão mais imediata é a Lust ( desejo-vontade e sensações
'{J:-:

144 Desljo

de prazer). Sendo uma manifestação mais direta do Trieb, o qual desconsidera a


realidade, a Lust constitui-se numa "tendência" ou "vontade" e não propriamente num
"desejo " . Expressa uma verdade do corpo de forma direta, quase sem mediação do
objeto (ver verbete "Desejo" (Lust), p. 147). Enquanto a Lust é de cunho mais auto-eró­
tico, o Wunsch se dirige a um objeto investido e imaginado, o qual faz a triangulação
entre o Wunsch e a Lust.
É neste sentido que, no exemplo 2, o termo Wunsch aparece em conexão com Lust.
O que fica na memória são vivências de prazer, de satisfação, sua reevocação se faz
pelo desejo ( Wunsch), que visa um objeto ou situação associada à vivência de prazer
(Lust), objeto este cuja presença é então alucinada.

Wunsch e o objeto

Conforme mencionado, em alemão a palavra "desejo" geralmente coloca em


primeiro plano objetos ou situações que são almejadas ou imaginadas e não aquilo que
se visa obter através do contato com tais objetos. No uso que Freud faz deste termo,
em geral a conexão do Wunsch é feita diretamente com o objeto e indiretamente com
a vivência de prazer que o contato com o objeto propiciou e deixou marcado em traços
de memória.
No exemplo 1, Freud utiliza neste sentido a expressão "objeto do desejo" ( Wu11,­
schobjekt). O objeto é que é visado em primeiro plano. A "atração do objeto" ocorre
pela lembrança de vivências agradáveis obtidas quando o sujeito esteve no estado de
Begierde ( que significa "fissura", alta necessidade, estado de sofreguidão). O estado de
Begierde é intermediário entre a necessidade (Bedürfnis) e o desejo ( Wunsch); lingüisti­
camente a Begierde é uma necessidade centrada intensamente sobre um objeto: expres­
sa-se como sofreguidão.
No exemplo 3. também aparece o objeto como se fosse o mediador entre a
necessidade (Bedürfnis) e a satisfação da necessidade (Bedürfnisbefriedigung). É ele, o
objeto, que é evocado, mas o que o Wunsch visa vai além do objeto: é reconstituir a
"vivência de satisfação" (Befriedigungserlebnis) que está na memória.

Desejo, alucinação e pensamento

O "desejo" ( Wunsch) se relaciona com uma necessidade do objeto, cujo contato


propiciou uma vivência a qual é reevocada. Essa necessidade então tenta ser satisfeita
pela "realização" (Erfüllung, preenchimento) do desejo, realização esta imaginária ou
real. Enquanto imaginária, essa reevocação do objeto, ou da vivência, coloca o Wunsch
na esfera da "alucinação" (exemplos 3 _e· 6).
De um modo ou de outro, a memória é que é ativada; abstraindo-se da realidade
imediata, ela presentifica o obje_to (exemplos 3 e 6). As esferas onde circula o desejo
Wunsch 145

( Wunsch) são representacionais, há uma contigüidade entre aquilo que é alucinado,


desejado e pensado.
Freud relaciona freqüentemente as atividades de alucinar, desejar e pensar. Nos
exemplos 4 (o "pensamento não passa de um substituto do desejo alucinatório") e 7
("tudo que havia sido pensado (desejado) foi simplesmente apresentado de maneira
alucinatória"), retirados de A Interpretação dos Sonhos ( 1 900) e do artigo "Formulações
sobre os Dois Princípios 'çlo Funcionamento Mental" ( 1 9 1 1), os termos "desejo" e
"pensar" são empregados em correlação direta com "alucinação".
No artigo "Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental"
( 1 9 1 1 ), Freud retoma e desenvolve a idéia de que o pensar (Denken) é inicialmente um
processo inconsciente de representação ( Vorstellung, imagem, pensamento imagético,
idéia). Trata-se de um processo no qual as vivências perceptivas, que relacionam o
objeto com a satisfação, são guardadas como traços de memória e colocadas a serviço
da "verificação da realidade" (verificação que ocorre quando o sujeiw atribui ou não
a qualidade de realidade a determinada percepção). Nesse nível o pensar é mais
imagético (vorstellen, representar-se internamente, imaginar, reproduzir internamente
imagens do objeto, das vivências e de algumas correlações). Mais tarde, quando os
restos de palavras são conectados a tais lembranças, o pensar se torna consciente e
verbalizável, elevando-se acima do nível preponderantemente imagético. Entretanto,
mesmo esse pensar consciente, verbalizável e capaz de.-ampliar relações, considerando
os limites impostos pelo princípio de realidade, conéinua sempre próximo do pensar
mais imagético e até alucinatório. É neste sentido qúe, no exemplo 8 do mesmo artigo,
uma das espécies da atividade do pensar ( o pensar ao abrigo do princípio de realidade)
é colocada em relação com o ato de fantasiar, com o jogo das crianças e com os sonhos
diurnos.
No artigo "A Negativa" ( 1925), onde Freud descreve as funções de julgamento e
pensamento, é dito que a "verificação da realidade" não visa encontrar na realidade
externa um objeto correspondente ao objeto imaginado internamente (representado),
mas "reencontrar" (wiederzufinden), referindo-se a reencontrar o objeto da satisfação
(Befriedigungsobjekt ou Ding) que deixou marcas de satisfação na memória ( exemplo 12).
Novamente aí as funções mais elevadas do juízo mantêm uma ligação entre a
Vorstellung (representação) e a necessidade (Bedürfnis), estando serviço da procura por
um objeto desejado.

Wunsch como representação


(Vorstellung) e representante (Reprãsentant) da pulsão

Freud utiliza amiúde a palavra Triebregung ("moção pulsional") como uma "inicia­
tiva/moção pulsional" que reivindica à psique a satisfação pulsional. A palavra alemã
· Regung designaum leve movimento, um esboço de gesto de origem interna, mas já
146 Desçjo

perceptível ao observador, algo que se manifesta. A Triebregung é uma manifestação


pulsional que se faz perceptível para o psíquico, se faz representar.
Entretanto, também é comum Freud empregar o termo Wunschregung ("moção de
desejo"), e o faz n o sentido de "representante" (Reprãsentant) da pulsão.
Wunschregungen são representantes da pulsão (estão em seu lugar, substituem-na)
na medida em que a representam no psíquico (exemplos 1 O e 11). Por outro lado, além
de serem "representantes" (Reprãsentant ou Vetreter), os desejos são, por excelência,
"representações" (vorstellungen, idéias, reproduções internas de imagens) na medida
em que fornecem forma e imagem (representando imageticamente as atividades, as
sensações e os objetos aos quais as pulsões se dirigem). Evocam um objeto que o sujeito
deseja possuir, iocar, incorporar (exemplo 3). No exemplo 12, o objeto desejado é algo
originariamente Vorgestellt (imaginado, representado) e que deve ser reencontrado: "( . . . )
o objetivo primeiro e imediato do teste de realidade não é encontrar na percepção real
um objeto que corresponda ao representado (Vorgestellten, no sentido de imaginado),
mas reencontrar tal objeto, convencer-se de que ele está lá".
Esse objeto procurado está associado às vivências originárias de prazer (Lust) e
satisfação (Befriedigung) imediata, que passam a ser "representadas" (vorgestellt, imagi­
nadas). Nesta acepção, Wunsch equivale a Vorstellung (representação/idéia/reprodução
interna de imagem).

Desejos disfarçados

Apesar de irremovível, o desejo ( Wunsch), enquanto manifestação sob a forma de


representação ( vorstellung), pode ser objeto de diversos mecanismos de defesa, podendo
ser investido, desinvestido, negado, recalcado etc. No exemplo 5, Freud fala em desejos
que se expressam de forma distorcida; trata-se de moções de desejo (Wunschregungen)
percebidas como ameaçadoras, que sofrem um recalque e ficam " latentes", só apare­
cendo na forma "manifesta" como "desejos disfarçados". Esse tipo de disfarce ocorre
através de vinculação (Verbindung, Verknüpfung) entre pensamentos (idéias) e desejos
há muito mantidos no inconsciente ( exemplo 9).

� Desejo/Prazer (Lust), Representação (Vorstellung)


Desejo, Prazer: Lust

E: Placer
F: Désir, souhait, plaisir
1: Pleasure

O termo Lust é habitualmente traduzido por "desejo", "prazer" e "vontade". As três


traduções, conforme o contexto, podem ser adequadas.
Os principais significados de Lust são "vontade/disposição de fazer algo" e "sensa­
ções corpóreas agradáveis".
Lust (vontade/desejo/prazer) é diverso de Wunsch (desejo), de Begierde ("fissura",
desejo intenso), Genujl (deleite, fruição, prazer) e da palavra "gozo" (no sentido de ápice
do prazer, orgasmo).
Na acepção de sensação prazerosa, a palavra enfatiza a sensação extraída da
atividade, visa a atividade e não o objeto. Designa aquilo que há de mais imediato e
irredutível na sensação, quando esta brota no corpo, antes ainda da fruição plena do
prazer e do gozo.
Freud emprega a palavra em conjunto com o an_tônimo Unlust (desprazer) e em
composição com inúmeros outros termos geralmenterelacionados com a pulsão (Trieb)
e com a pressão/ímpeto (Drang).
É um termo presente em algumas das mais fundamentais' elaborações freudianas,
tais como o princípio de prazer, a teoria das pulsões parciais, o conceito de prazer de
órgão, os conceitos de auto-erotismo e de narcisismo, e nas teorizações sobre o processo
de erogenização do corpo.

--------- 0 Termo em Alemão ---------

Composição do termo

Termo simples.

Significados de Lust

1 ) Quando seguido por um verbo, significa "vontade de fazer algo", "leve necessi­
dade", "tendência". Tenho vontade de comer, falar etc.
2) Quando seguido da preposição auf, significa "vontade de algo ou por algo", "a
fim de" (em geral algum objeto comestível). Estou afim de chocolate.
148 Dest;jo, Prazer

3) Se colocado num contexto adequado e usado sem complemento (estou com


vontade), significa desejo sexual inespecífico. Estou com desejo, com tesão. (Não é um uso
muito comum.)
4) O plural, Lüste, tem o sentido de desejos e prazeres de cunho mais libidinal-he­
donista. Aquele sujeito só pensa em ir atrás de seus prazeres.
5) Sensações corpóreas agradáveis (visuais, auditivas etc.). A criança sente cer to prazer
em movimentar o chocalho colorido.
[Exemplos adaptados do DW, 1314-27, do SBH, 385, e do WDW, 850.]

Conotações de Lust

[No dicionário Deutsches Wor terbuch, dos irmãos Grimm ( 1854-), o comentário que
introduz o verbete Lust situa-o entre a pulsão (Trieb) e o anseio psíquico ( o qual já é da
ordem do "desejo"): "( ... ) os sentidos serão diferenciados não só pela força, mas também
quanto à sua essência; os casos abordados abaixo estão mais ligados a uma pulsão/ins­
tinto ( Trieb) associada à natureza animal, os casos seguintes se referem mais a um anseio
psíquico e espiritual; entretanto, ocasionalmente ocorre uma compreensível transição
de um conceito para outro" (tradução livre, p. 1 3 15). A citação termina aqui, as
conotações abaixo não foram retiradas do referido dicionário e abordam outros
aspectos.]
A) O termo contém a noção de ânimo e vivacidade. Se alguém diz que tem Lust de
sair à noite, ou de ir ao teatro, fica implícito que está animado ( com predisposição a
divertir-se, com "pique", com vontade).
B) Lust liga-se à idéia de prazer no sentido de divertir-se. O conceitos de "diversão"
e "animação" são expressos em alemão por palavras do campo semântico de Lust: diz-se
lustig para algo "engraçado", "divertido", "animado", "alegre". Trata-se de um prazer
leve (talvez próximo do termo francês gaité). No caso do substantivo não se trata de
prazer ou diversão que flua na cadência plena, é algo que permanece brotando e
realimentando a "disposição a".
C) Refere-se ao processo psíquico no seu nascedouro. Enfatiza a vontade que brota:
mir kommt die Lust, "em mim aflora a vontade/desejo" (ou numa linguagem mais
popular, e não necessariamente sexual, "estou com tesão de fazer determinada coisa").
D) Há certa espontaneidade (quase frivolidade ou volubilidade) associada ao termo.
Usa-se para expressar o brotar súbito de humor e suas mudanças abruptas (mir kommt
und vergeht die Lust, "fiquei com vontade/perdi a vontade", "me animei/desanimei",
"mudei subitamente de vontade/idéia").
E) Utilizado sobretudo no plural (Lüste), ou ligado a certos substantivos (sentido 5,
de sensações corpóreas agradáveis), Lust evoca fortemente o prazer (no sentido de
sensação prazerosa) que se extrai ou obtém de certa atividade. A Lust liga-se mais aos
verbos que aos objetos. Pode ou não incluir objetos.
Lust 149

F) O prazer de Lust é diferente de gozo, no sentido de que gozo pode significar um


ápice, um orgasmo, enquanto Lust enfatiza mais o processo e a sensação de "ser
afetado/estimulado/ sensibilizado corporalmente nas suas sensações". Também é di­
verso da palavra "prazer", a qual pode descrever uma fruição plena e desdobrada de
certas sensações. A Lust permanece ligada à fronteira entre a disposição (vontade), o
"prazer antecipatório" e as sensações que começam a brotar. Novamente aí a palavra
"tesão" pode servir como equivalente, na medida em que descreve o brotar de sensações
de prazer e disposição para obter mais prazer, mesclando vontade-desejo-prazer. Em ,
alemão há outras palavras para designar a fruição do prazer, algo próximo do gozo
sem ápice ou de um desfrutar mais pleno: GenuJJ = prazer, curtição, gozo sem ápice;
SpaJJ = prazer, alegria, divertimento etc. Para designar o desejo ardente, a con cupiscên­
cia, utiliza-se a palavra Begierde.
G) É algo profundamente pessoal, privado e íntimo. É o prazer na sua forma mais
irredutível. Frases em que Lust é usado como "sensação prazerosa" - por exemplo: ich
empfinde Lust dabei (sinto/ derivo prazer nisto) - ou termos como Lustgefühl (sentimento
de prazer) evocam no falante do alemão a imagem de "sensações corpóreas indescrití­
veis e irredutivelmente pessoais e físicas".

- - - - --- Etimologia e Termos Correlatos - --- - --

Etimologia

Derivado do termo germamco *lütan (inclinar-se, inclinação, tendência a), no


gótico assume a forma lustus, no antigo e no médio alto-alemão lust._Ao longo do tempo
subdivide-se em dois ramos, um mais sexual, ligado ao "intenso desejo sexual" (que é
freqüentemente expresso em alemão por Begierde), e outro que passa a indicar "sensa­
ções agradáveis", designando "prazer e alegria".

Termos correlatos, derivados e compostos

Gelüste: prazeres de cunho libidinal-hedonista; gelü.sten nach: estar ansiando libidi­


n al-hedonisticamente por algo; Lü.sten nachgehen: ir atrás dos prazeres; lustig: divertido,
engraçado, animado; Lustgas: gás hilariante; Lü.stling: pessoa excitada, "tarado"; lustlos:
desanimado, triste, amargo; Lustseuche: sífilis (peste do prazer); Lustspiel: comédia.
Nos exemplos acima manifestam-se duas vertentes do termo, uma mais relacionada
com a sensualidade imediata (Gelü.ste, Lüste, Lüstling, Lustseuche) e outra dirigida ao
divertimento e à animação (lustig, lustlos, Lustgas, Lustspiel).
150 Dest!Jo, Prazer

----- Comparação com o Termo em Português -----

Significados adicionais de
"desejo " e "prazer" não presentes em Lust

desejo
6) Algo que se almeja, com que se sonha. Desejo um dia ser rico.
7) Pedido, voto formulado. Estes foram os três desejos que o gênio da lâmpada prometeu
realizar.

prazer
8) Sensação de satisfação, del,eite e alegria queflui. Sinto muito prazer em viajar o mundo.
Ele tem prazer na Ú!itura.
9) Honra, satisfação. É um prazer conhecê-lo. Temos finalmente o prazer de apresentar o
novo produto de nossa empresa ao grande público.
10) Gozo, deleite sexual. E/,es se entregaram aos prazeres do sexo.
[Exemplos adaptados do NDA (desejo), 555; (prazer), 1378.)

Conotações adicionais de
"desejo " e ''prazer" não presentes em Lust

desejo
H) "Desejo" em português pode designar, ao contrário do termo alemão Lust, algo
mais imaginário e menos corpóreo. Por exemplo, uma frase como "Desejo fazer doutorado
em Cambridge" implica que o falante tem vontade e provavelmente pensa em fazer planos
para viabilizar seu projeto, não se refere a sensações corpóreas associadas.
I) O termo "desejo" evoca com freqüência a visualização daquilo que se deseja.
J) O foco do termo "desejo" é sobre uma "meta", seja ela um objeto concreto ou
uma atividade pretendida.

prazer
K) "Prazer" refere-se mais à fruição (gozo, deleite) obtida, e aponta para o desdobra­
mento interno das sensações derivadas da recepção do estímulo, ao passo queLust ressalta
o brotar contínuo das sensações rente ao corpo e o conseqüente aumento de disposição.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Lust português: desejo; prazer


significados
Lust 151

1 desejo, vontade de fazer algo 1 (desejo) vontade de fazer algo


2 desejo, vontade por um objeto 2 (desejo é raramente usado neste sentido)
3 desejo sexual (raramente e apenas 3 (desejo) mais comumente usado no
se usado sem complemento; âmbito sexual em português
em geral empregam-se palavras do que em alemão
derivadas de Lust)
4 prazeres de cunho libidinal­ 4 (prazer) prazeres de cunho libidinal­
hedonista hedonista
5 sensações corpóreas agradáveis 5 (prazer) sensações corpóreas agradáveis
6- 6 (desejo) algo que se almeja, sonho
7- 7 (desejo) voto formulado, pedido
8 eventualmente pode ter este sentido 8 (prazer) alegria, deleite
9- 9 (prazer) honra
10 (raramente) 10 (prazer) deleite sexual, gozo sexual

conotações
A ânimo, "pique" A -
B prazer, diversão, alegria B (prazer) diversão, alegria
C ênfase no surgir, brotar da vontade C -
D espontaneidade, volubilidade D -
E sensação extraída de atividade E (prazer) sensação extraída de atividade
F mescla vontade, prazer e desejo F -
G sensação irredutível e indescritível G (prazer) �énsação irredutível e indescritível
H- H (desejo) certa volição, quase um projeto
1 - I (desejo) visualização do desejado
J - J (desejo}'f oco na meta
K foco na disposição K (prazer) foco no deleite e na fruição

Tanto em alemão como em português há um grande número de termos contíguos,


tais como "prazer", "gozo", "desejo", "vontade", "alegria", "diversão", "deleite" etc. As
diferenças são sutis, e por vezes o contexto pode anulá-Ias. A palavra Lust engloba tanto
o "desejo" (vontade e disposição) quanto o "prazer". Sem dúvida, as diferenças entre
Lust e "desejo" são mais nítidas do que aquelas entre Lust e "prazer".
Ao traduzir-se Lust por "desejo" recoloca-se o foco sobre o objeto almejado, algo
diverso do termo alemão; além disso, freqüentemente se compreende o termo n o
sentido sexual (sentido 3 , o qual é de uso mais literário no alemão) e perdem-se as
conotações C, E, F e G, que se referem ao circuito do brotar da vontade e seu imediato
efeito retroativo rente ao corpo. A tradução por "prazer" ou "gozo" também dá um
caráter sexual (sentido ·3 ) e se refere a uma fruição e plenitude que o termo Lust tem
de forma bastante restrita (sentido 5, de sensações corpóreas agradáveis, sentido 4, de
prazer mais libidinal-hedonista, e conotações C, E e F).
Tal qual em português, também em alemão, para expressar "vontade", "desejo",
"gozo" e "prazer", há muitos termos diferentes entre sí, por exemplo, "vontade", Wille;
"desejo", Wuns�h ou Begierde; "prazer", SpaJJ ou GenuJJ etc.
152 Desç;'o, Prazer

------ - Exemplos de Uso em Freud

1 "Até agora limitamo-nos a descrever o conteúdo da consciência de maneira


incompleta. Além da série de qualidades sensoriais, ela exibe outra muito diferente
daquela - a série de sensações de prazer (Lust) e desprazer ( Unlust), que agora clama
por uma interpretação. * Já que temos um certo conhecimento de uma tendência da
vida psíquica a evitar o desprazer ( Unlust), ficamos tentados a identificá-la com a
· tendência primária à inércia. ( ... ) Isso se traduziria: os neurônios mostram uma aptidão
ótima para receber o período do movimento neuronal para uma determinada [força
de J catexia; quando a catexia é mais intensa, eles produzem desprazer ( Unlust); quando
mais fraca, prazer (Lust) - até que, devido à falta de catexia, sua capacidade receptiva
se extingue. A força de movimento correspondente teria de ser construída com base
em dados como esses."
"Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1 895) [ESB 1, 330-1]
* "interpretação" no sentido de "esclarecimento, clarificação".

2 "Falta à linguagem vulgar [no caso da pulsão sexual] uma designação equivalente
à palavra 'fome'; a ciência vale-se para isso de 'libido'." [Nota 2, acrescentada em 1910:
Lamentavelmente a única palavra adequada na língua alemã, "Lust", é ambígua* e
designa tanto a sensação de necessidade quanto a de satisfação.]
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1 905) [ESB 7, 1 27]
* Freud não afirma que se trate de palavra ambígua, mas de vários sentidos.
Retraduzindo o trecho todo: Falta à linguagem popular uma designação correspondente à
palavra "fome"; a ciência utiliza para tal o termo "libido".
[Nota 2, acrescentada em 1 9 10: A única palavra alemã adequada é ''Lust", mas
infelizmente é um termo com vários significados e nomeia tanto a sensação de
necessidade como a de satisfação.]

"Ficaram-nos ainda inteiramente por esclarecer tanto a origem quanto a n atureza


da tensão sexual que surge simultaneamente com o prazer (Lust) ao serem satisfeitas
as zonas erógenas. A suposição mais óbvia, ou seja, a de que essa tensão brota de algum
modo do próprio prazer, (Lust), não só é muito improvável em si, como fica também
anulada ao considerarmos que, no prazer máximo (Lust), o qual se vincula à descarga
dos produtos sexuais, não se produz tensão alguma, porém, ao contrário, toda a tensão
é abolida. Assim, prazer (Lust) e tensão sexual só podem estar relacionados de maneira
indireta." [Nota 1, na mesma página: É sumamente instrutivo que a língua alemã, n o
uso da palavra "Lust", leve em conta* o mencionado papel das excitações sexuais
preparatórias, que ao mesmo tempo proporcionam uma cota de satisfação e contri­
buem para a tensão sexual. "Lust" tem um duplo sentido e designa tanto a sensação de
Lust 153

tensão sexual ("Ich habe Lust" = "eu gostaria", "sinto ímpeto (Drang) de") quanto o
sentimento de satisfação.]
Trê.s Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905) [ESB 7, 200]
* Em vez de "leve em conta", "contemple", ou "façajus a".

3 "Isso é tudo que pode ser dito à guisa de urna caracterização geral dos instintos
sexuais. São numerosos, erri.anarn de grande variedade de fontes orgânicas, atuam em
princípio independentemente um do outro e só alcançam uma síntese mais ou menos
completa numa etapa posterior. A finalidade pela qual cada um deles luta é a
consecução do 'prazer do órgão' (Organlust); somente quando a síntese é alcançada é
.
que eles entram a serviço da função reprodutora, tornando-se então identificáveis, de
modo geral, como instintos sexuais."
"Os Instintos e suas Vicissitudes" ( 1 9 15) [ESB 14, 146]

4uo amor deriva da capacidade do ego de satisfazer auto-eroticamente alguns dos


seus impulsos instincuais, pela obtenção do prazer do órgão ( Organlust). É originalmen­
te narcisista, passando então para objetos, que foram incorporados ao ego ampliado,
e expressando os esforços motores do ego em direção a esses objetos como fontes de
prazer (Lustquellen). Torna-se intimamente vinculado à atividade dos instintos sexuais
ulteriores e, quando estes são inteiramente sintetizados,* coincide com o impulso
sexual como um todo."
"Os Instintos e suas Vicissitudes" ( 19 15) [ESB 14,160]
* Trata-se da síntese de pulsões parciais em pulsões sexuais unificadas: ela vincula-se
intensamente à ativação das pulsões sexuais mais tardias; quando a síntese destas se completar,
coincidirá com o todo dos impulsos e esforços das pulsões sexuais.

5 "Podem os senhores, porém, dizer quando esse prazer do órgão ( Organlust),


originalmente indiferente, adquire o caráter sexual que indubitavelmente possui em
fases posteriores do desenvolvimento?"
Conferências Introdutórias sobre Psicaná,lise;
Conferência 2 1 : "O Desenvolvimento da Libido .e as Organizações Sexuais" ( 1 9 1 7)
[ESB 1 6, 379]

"Aqui não posso discutir se todo prazer do órgão ( Organlust) deva ser chamado de
sexual, ou se, além do sexual, há um outro que não merece ser chamado assim. É muito
pouco meu conhecimento a respeito do prazer do órgão (Organlust) e de suas causas;
e, em vista do caráter regressivo da análise em geral, não ficarei surpreso se, bem no
final, eu atingir-' aquilo que, por ora, são fatores indefiníveis."
154 Desdo, Prazer

Conferências Introdutórias sobre Psicanálise;


Conferência 2 1 : "O Desenvolvimento da Libido e as Organizações Sexuais" ( 1917)
[ESB 16, 380]

6 "Todo desprazer ( Unlust) deve assim coincidir com uma elevação e todo prazer
(Lust) com um rebaixamento da tensão mental devida ao estímulo; o princípio de
Nirvana ( e o princípio do prazer (Lust), que lhe é supostamente idêntico) estaria
inteiramente a serviço dos instintos de morte, cujo objetivo é conduzir a inquietação
da vida para a estabilidade do estado inorgânico, e teria a função de fornecer
advertências contra as exigências dos instintos de vida - a libido - que tentam
perturbar o curso pretendido da vida. Tal visão, porém, não pode ser correta. Parece
que na série de sensações de tensão temos um sentido imediato do aumento e
diminuição das quantidades de estímulo, e não se pode duvidar de que há tensões
prazerosas e relaxamentos desprazerosos da tensão. O estado de excitação sexual
constitui o exemplo mais notável de um aumento prazeroso desse tipo, mas certamente
não é o único.
"Prazer (Lust) e desprazer ( Unlust), portanto, não podem ser referidos a um aumento
ou diminuição de uma quantidade (que descrevemos como tensão devida ao estímulo),
embora obviamente muito tenham a ver com esse fator. Parece que eles dependem, não
desse fator quantitativo, mas de alguma característica dele que só podemos descrever como
qualitativa. Se pudéssemos dizer o que é essa característica qualitativa, estaríamos muito
mais avançados em psicologia. Talvez seja o ritmo, a seqüência temporal àe muqanças,
elevações e quedas na quantidade de estímulo. Não sabemos."
"O Problema Econômico do Masoquismo" ( 1 924)
[ESB 19, 199-200]

7 "Em meus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, na seção sobre as fontes da
sexualidade infantil, apresentei a proposição de que, 'no caso de um grande número
de proc«:;ssos internos, a excitação sexual surge como um efeito concomitante, tão logo
a intensidade desses processos passe além de certos limites quantitativos'. De fato, 'bem
. pode acontecer que nada de . considerável importância ocorra no organismo sem
contribuir com algum componente para a excitação do instinto sexual'. De acordo com
isso, a excitação do sofrimento e desprazer ( Unlusterregung) estaria fadada a ter também
o mesmo resultado. A ocorrência de tal excitação libiàinal simpática,* quando há
tensão devida ao sofrimento e ao desprazer ( Unlustspannung), seria um mecanismo
fisiológico infantil que deixa de operar mais tarde. Ela atingiria um grau variável de
desenvolvimento em constituições sexuais diferentes, mas, em todo caso, forneceria a
fundação psicológica sobre a qual a estrutura psíquica do masoquismo erógeno seria
posteriormente erigida."
"O Problema Econômico do Masoquismo" ( 1924) [ESB 19, 203-4]
* No sentido de excitação libidin�l "concomitante" ao sofrimento e desprazer.
Lust 155

8 "Mas onde a renúncia instintual, quando se dá por razões externas, é apenas


desprazerosa (unlustvoll), quando ela se deve a razões internas, em obediência ao
superego, ela tem um efeito econômico diferente. * Em acréscimo às inevitáveis
conseqüências desprazerosas ( Unlust), ela também traz ao ego um rendimento de
prazer (Lust) - uma satisfação substitutiva, por assim dizer. O ego se sente elevado;
orgulha-se da renúncia .instintual, como se ela constituísse uma realização de
valor."
Moisés e o Monoteísmo ( 1934-8) [ESB 23, 139]
* O sentido da frase é: Enquanto a renúncia à pulsão motivada por razões externas é
somente desagradável, aquela que ocorre por motivações internas, por obediência ao superego,
tem outros efeitos econômicos.

9 "Nenhum aspecto parece caracterizar melhor a civilização do que sua estima e


seu incentivo em relação às mais elt:vadas atividades mentais do homem - suas
realizações intelectuais, científicas e artísticas - e o papel fundamental que atribui às
idéias humanas. (... ) O fato de essas criações do homem [Freud refere-se às especulações
filosóficas e àquilo que se pode designar por ideais humanos] não serem mutuamente
independentes, mas, pelo contrário, se acharem estreit<!-mente entrelaçadas, aumenta
a dificuldade não apenas de descrevê-las, como tai;nbém de traçar sua derivação
psicológica. Se, de modo bastante geral, supusermos/que a força motivadora de todas
as atividades humanas é um esforço desenvolvido no sentido de duas metas confluen­
tes, a de utilidade* e a de obtenção de prazer (Lustgewinn), teremos de supor que isso
também é verdadeiro quanto às manifestações da civilização que acabamos de exami­
nar, embora só seja facilmente visível nas atividades científicas e estéticas."
O Mal-Estar na Civilização (1929-30) [ESB 2 1 , 324-5]
*No sentido de visar algo que seja útil.

- ---- - � - --- Comentários - --- - - ----- -

Lust como termo técnico

O emprego do. conceito de "prazer" (Lust) nos textos iniciais, como, por exemplo, no
"Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1895), é de caráter bastante técnico e pareado
com a Unlust (desprazer). Refere-se mais a um mecanismo quantitativo neuronal-energé­
tico de eliminaç�o do desconforto e da dor através da descarga do que a algo ligado ao
que se entende cóloquialmente por "prazer". Também as "sensações de prazer e desprazer"
- (Lust- e Unlustempfindungen) são utilizadas neste sentido mais "técnico" de designação de
1 '
·,
.... :.

156 Des�o, Prazer

afetos ligados a estímulos percebidos como agradáveis ou desagradáveis (exemplo 1).


Nisto Freud seguia a terminologia da psicofisiologia de sua época.
Ainda na Interpretação dos Sonhos ( 1900) Freud utiliza com mais freqüência o termo
Unlust do que Lust - nessa obra não é empregada a designação "princípio de prazer",
mas "princípio do desprazer" ( Unlustprinzip ).
Mais adiante o termo Lust passa a se tornar central. No texto "Formulações sobre
os Dois Princípios do Funcionamento Mental" ( 1 9 1 1 ), Freud substitui o "princípio do
desprazer" pelo "princípio de prazer", o qual é então colocado em contraposição ao
· "princípio de realidade".
Até certo ponto, os aspectos iniciais de Lust se manterão sempre presentes na visão
de Freud, mas à medida que vai elaborando sua teoria pulsional, desenvolvendo a
segunda tópica, introduzindo novas concepções, como a "pulsão de morte", e elabo­
rando os conceitos de "compulsão à repetição" e "masoquismo", o termo se torna
complexo.
Os exemplos a seguir procuram ilustrar os aspectos fortemente corpóreos que
caracterizam o termo, bem como sua relação com pulsão ( Trieb) e pressão (Drang).

Auto-erotismo

Conforme se pode depreender das significações e conotações de Lust já mencio­


nadas, há algo de fortemente auto-referente, e auto-erótico, no termo. Apesar· de o
objeto do desejo não estar excluído, o foco do termo incide sobre dois aspectos: "a
vontade que brota" e "o prazer sensorial" que deriva da "prática de atividades" (olhar,
mamar, comer etc.).
Esse enfeixamento de vontade, desejo e prazer, todos preponderantemente ativados
e vivenciados na imediaticidade das sensações corpóreas, configura uma espécie de
"verdade do corpo", onde o objeto entra apenas como um estímulo (exemplo 4) e onde
a mente por assim dizer registra e segue o processo.

Sensações difusas

Lust refere-se às agradáveis e difusas percepções sensoriais quando estas brotam


e circulam ainda no nascedouro do corpo (algo que se aproxima de um auto-erotis­
mo ). Do ponto de vista lingüístico, o termo Lust não descreve o desdobramento e
a cadência do prazer numa fruição plena, apenas permanece ao nível desse brotar
e das sensações iniciais. Sensorialmente, há uma proximidade entre a Lust sexual e
a não-sexual: ambas são uma sensação ainda indefinida derivada da própria atividade
do órgão (exemplo 5).
Lust 157

Prazer, vontade e desejo

Nos dois trechos do exemplo 2, respectivamente retirados das seções I e II do texto


Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1905), Freud trata de aspectos lingüísticos da
palavra Lust.
No primeiro (corresp\:mdente à p. 127) Freud evidencia o fato de o termo designar
simultaneamente a "vonta,de/disposição" e as "sensações prazerosas" derivadas de
determinada atividade. Ao refletir sobre qual termo da linguagem popular (linguagem
que se serve de palavras de origem germânica) seria um bom equivalente no âmbito
sexual à palavra "fome", Freud pondera que Lust não é um bom equivalente. Justifica
sua objeção ao termo alemão Lust por este não designar só a necessidade/vontade,
como as palavras "fome" ou "libido", mas também designar as sensações prazerosas
obtidas quando da satisfação. Opta então pelo vocábulo de origem latina "libido", o
qual seria um termo científico ( em alemão termos de origem latina geralmente soam
eruditos e técnicos).
No segundo trecho do exemplo 2 (correspondente à p. 200), além de retomar este
aspecto, Freud comenta o caráter inicial e quase preparatório do tipo de prazer
designado por Lust. Tratando da relação entre Lust e tensão, Freud diz: "É sumamente
instrutivo que a língua alemã, no uso da palavra 'Lust', leve em conta o mencionado
papel das excitações sexuais preparatórias, que ao mesmo tempo [grifo meu] proporcio­
nam urna cota de satisfação e contribuem para a tensão sexual. 'Lust' tem um duplo
sentido e designa tanto a sensação de tensão sexual (!eh habe Lust = 'eu gostaria', 'sinto
ímpeto (Drang) de') quanto o sentimento de satisfação".
Aqui a Lust é equiparada às "excitações sexuais preparatórias", as quais simultanea­
mente produzem satisfação e tensão sexual. A tensão sexual é equiparada a Drang
(disposição/vontade/ímpeto). Ou seja, a Lust produz simultaneamente Befriedigung
(satisfação) e Drang (vontade/necessidade). Lust se refere ao prazer quando este começa
a se manifestar (algo como um "formigamento"), sensações iniciais que são incessante­
mente produzidas enquanto dura o prazer, mas que ficam rente ao corpo, mesclando-se
ainda com a vontade e disposição. Neste sentido, o termo "tesão", do português
coloquial, seria um bom e quivalente para Lust, se não fosse do âmbito da gíria vulgar.

Prazer de órgão, pulsões parciais e síntese

A tentativa de "enfeixamento" das pulsões de autopreservação com as , pulsões


sexuais, presente mesmo nas primeiras formulações freudianas da teoria pulsional,
quando Freud áinda tentava separar a natureza das pulsões de autopreservação das
sexuais, coincide com o emprego do termo Lust na própria língua alemã. Como já
mencionado, esta engloba sob a rubrica de Lust tanto as sensações prazerosas como a
158 Desçjo, Prazer

vontade de praticar qualquer atividade, mesclando vontade, prazer e desejo, seja qual
for a origem e o órgão de referência.
Com a expressão "prazer de órgão" (Organlust) Freud tenta descrever esse circuito
quase fechado que brota e circula rente ao órgão. Esse prazer parcial, derivado da
atividade de pulsões parciais, ou de estimulos localizados, constitui a origem e a
essência do prazer sexual ao nível daquilo que é irredutível e não se restringe ao aspecto
puramente genital.
Mesmo após a maturação, o corpo erogenizado ainda será convocado para o prazer
· genital pela pré-ativação de determinadas zonas de prazer parcial, que em cada
indivíduo adquiriram alguma primazia na infância. Todavia, somente no decorrer do
desenvolvimento é que o prazer será dirigido a uma síntese que visa a reprodução por
via sexual (exemplos 3 e 4).

Plasticidade e mobilidade

Além de poder entrar a serviço da reprodução, a plasticidade e a mobilidade da


Lust permitem múltiplas e variadas formas de estimulação erótica, e até mesmo a
estimulação dolorosa pode ser integrada nesse processo. É o que Freud descreve no
exemplo 7, ao discorrer sobre o masoquismo.

Derivados da Lust nasfunções intelectuais e morais

Ao abordar o prazer ligado às atividades intelectuais (exemplo 9), ou ao compor­


tamento ético ( exemplos 8 e 9), Freud muitas vezes se remete às experiências infantis
de Lust. Estas, apesar de irem se tornando complexas e associativamente.se articularem
com funções mais mentais e abstratas, têm sua base na imediaticidade do corpo.

A natureza do prazer-desprazer

Em geral, Freud parte da idéia de que o prazer se caracterizaria por ser uma
sensação de alívio pela descarga da tensão e o desprazer por ser um acúmulo de tensão
devido a um excesso de estimulação. Trata-se de uma relação essencialmente quantita­
tiva e de cunho fisiológico.
Do ponto de vista lingüístico, não há na palavra Lust nada que se relacione com a
sensação de alívio pela cessação do desprazer ou devido à descarga de pressão; pelo
contrário, o termo Lust se refere a sensações irredutivelrnente prazerosas e a unia
animada disposição para certas ações. Há mesmo certo descompasso entre aquilo que
o termo designa como prazeroso e a concepção de Lust como "descarga" que traz alívio
para um desconforto ( Unlust, desprazer).
Lust 159

Mais adiante, quando desenvolve temas como a pulsão de morte, a questão do


masoquismo e a compulsão à repetição, Freud passa a relativizar essa concepção mais
estritamente quantitativa e aborda então aspectos qualitativos, até certo ponto reconciliando
o significado lingüístico da palavra com o conceito psicanalítico que ela designa.
No exemplo 6, extraído do texto "O Problema Econômico do Masoquismo" ( 1924),
após explicar que "Todo desprazer ( Unlust) deve assim coincidir com uma elevação e
todo prazer (Lust) com um rebaixamento da tensão mental devida ao estímulo ( ... )"
Freud acrescenta: "( ... ) não se pode duvidar que há tensões prazerosas e relaxamentos
desprazerosos da tensão. ( ... ) Prazer (Lust) e desprazer ( Unlust), portanto, não podem
ser referidos a um aumento ou diminuição de uma quantidade ( ... ), embora obviamente
muito tenham a ver com esse fator." E conclui sem concluir: "Parece que ,eles dependem,
não desse fator quantitativo, mas de alguma característica dele que só podemos
descrever como qualitativa. Se pudéssemos dizer o que é essa característica qualitativa,
estaríamos muito mais avançados em psicologia. Talvez seja o ritmo, a. seqüência
temporal de mudanças, elevações e quedas na quantidade de estímulo. Não sabemos".

Puls<i.o (Trieb), pressão (Drang) e "prazer-vontade" (Lust)

Na imediaticidade do corpo, a Lust (prazer·vonta,de/disposição) se liga à pulsão


(Trieb) (ver comentário dos irmãos Grimm no item '.!Conotações de Lust", p._ 148). O
que as pulsões visam em estado ainda parcial ê o pra?er no sentido mais direto e restrito,
o "prazer de órgão" (exemplo 3). Trata-se de um tipo de prazer tão imediato que não
convoca o corpo como um todo e tampouco en!olve uma grande elaboração das
representações.
Neste sentido, a pulsão (Trieb), entendida como um estímulo que reivindica à psique
ser descarregado e sendo "emanada" de fontes orgânicas, está ligada ao prazer-desejo
do órgão ( Organlust), e pode-se dizer que ela é a própria precondição de um querer
que só mais tarde será sintetizado (ver verbete "Pulsão" (Trieb), p. 338).
A palavraDrang também possui aspectos semelhantes a Trieb e Lust. O Drang enfeixa
o momento em que a "necessidade" e a "vontade" se mesclam e assumem a forma de
uma "tendência" ou "impulso" (em alemão Harndrang designa simultaneamente a
necessidade e a vontade de urinar).
Na linguagem coloquial as palavras "pressão" (Drang}, "pulsão" ( Trieb) e "prazer"
(Lust) podem ser equivalentes, significando "tendência", "impulso", "disposição" (no
exemplo 2, segundo parágrafo, nota 1, Freud designa o aspecto disposicional de Lust
por Dran�)-
Freudfreqüentemente aproxima Trieb a Drang (pressão) e a Lust (prazer-vontade).
No texto "O Instinto e suas Vicissitudes", de 1915 (páginas 150 a 154 do vol. XIV da
edição brasileira), as palavras compostas com Lust e com Trieb são usadas de forma
tão próxima que parecem equivaler-se. Ao longo dessas páginas, a "pulsão de olhar",
·,r:--o.
· .f

160 Desljo, Prazer

Schautrieb (pulsão escopofílica, ou pulsão escópica), e a Schaulust (escopofilia, ou


desejo/prazer de olhar) são emparelhadas. Lê-se na página 153:
" ( ... ) até agora consideramos dois pares de pulsões (Triebe) opostas:
sadismo - masoquismo e escopofilia - exibicionismo"
(Sadismus - Masochismus) (Schaulust - Zeigelust)

Termos psicanalíticos compostos com Lust (prazer-vontade)

Freud também utiliza o termo Lust combinado com outros substantivos. Em cada
combinação modula-se diferentemente o sentido e as conotações de Lust. Todos os
termos dos exemplos abaixo enfatizam alguns dos já mencionados aspectos conotati­
vos.
Referindo-se a sensações corpóreas prazerosas, wcalizadas, mas indefinidas:
Lustempfindung-. Sensações de prazer _
Organlust: Prazer de órgão
Lustgewinn: Ganho de prazer/de sensação prazerosa
Lustquellen: Fontes de sensações prazerosas
Referindo-se a prazeres específicos e derivados de atividades, disposição de praticar certa ação:
Riechlust: Prazer ou disposição de cheirar
Schaulust: Prazer ou disposição de olhar (prazer escópico)
Schmerzlust: Prazer ou disposição de sentir dor
Referindo-se à dimensão mais simbólica do prazer:
Verneinunglust: Prazer ou disposição de negar, de dizer "não"
Intellektuelle Lust: Prazer intelectual
Referindo-se à predisposição ou tendência de seguir a trilha das sensações ag:radáveis:
Lust-ich: Eu-prazer ( evoca lingüisticamente a imagem de um Eu dirigido aos
prazeres libidinal-hedonistas)
Lustprãmie: Prêmio de prazer
Lustprinzip: Princípio de prazer/de vontade

� Pressão (Drang), Estímulo (Reiz), Pulsão (Trieb), Desejo ( Wunsch)


Deslocamento: Verschiebung

E: Desplazamiento
F: Déplacement
I: Displacement

O termo Verschiebung, comumente traduzido por "deslocamento", possui conotações


psicanaliticamente importantes que se perdem no termo português.
O verbo verschieben tem os sentidos de "adiar", "postergar", ou "fazer deslizar" .
"deslocar sobre um trilho corrediço". Do ponto de vista conotativo, geralmente trata- s e
d e um movimento pequeno e leve (algo como fazer uma peça de u m mecanismo
deslizar levemente e alterar a configuração, mudando a sua regulagem) .
O termo Verschiebung está presente desde a s primeiras formulações psicanalíticas e
tem papel central n o construto freudian o.

----- - --- - 0 Termo em Alemão --- --- --- -


/
Composição do termo

ver-: Prefixo que em geral designa as conseqüências de "ir muito adiante" (seja
prolongar-se temporalmente, seja progredir geograficamente). Além disso, indica
fenômenos bastante contíguos: "transformação", "fechamento", "extinção", "gasto",
"perda", "lapsos" etc. Também pode indicar a "intensificação de uma ação" (a ação se
mantém "indo adiante" e eventualmente em excesso), bem como apontar para uma
ação de "ir ou ser levado embora", "ir ou ser levado a outro lugar".
schieb-: Radical referente ao verbo schieben, "empurrar" fazendo deslizar ou rodar.
-ung: Sufixo de substantivação que corresponde aproximadamente a "-ção" em
português.

Significados do verbo
verschieben e do substantivo Verschiebung

1) Adiar, postergar (também utilizado como substantivo). Ele posterga a viagem para
outra data.
2) Empurrar fazendo com que deslize, movimento de algo que é corrediço-regulá­
vel. Em geral pequen o movimento que altera a configuração pelo empurrar-deslizar,
·· ou que provoca �roca de posições entre elementos. Usa-se para mecanismos, trilhos em
162 Deslocamento

estações ferroviárias de manobras etc. (Também é utilizado como substantivo.) Houve


um deslocamento (no sentido de desregulagem, saída do prumo) nas hastes da impressora.
[Há outros significados mais específicos, como por exemplo "empenar" (para
madeiras etc.).]

Conotações do verbo
verschieben e do substantivo Verschiebung

A) Verschieben implica pequeno e leve movimento que faz "deslizar/desregular/mu­


dar a regulagem". O movimento ocorre através de leve fricção (algo se arrasta ou desliza
sobre outro objeto ou suporte, de modo semelhante às antigas réguas de cálculo).
B) O resultado desse movimento de deslize/arrasto é que o objeto não se separa
ou se afasta muito do contexto ou do local anterior. Há, portanto, contigüidade.
C) O movimento de Verschiebung, tal qual o "deslizar", corre sobre uma "trilha",
"trilho", ou por algum caminho de baixa resistência ao atrito. É, pois, um percurso
facilitado (propício/menos resistente).
D) Após o movimento de Verschiebung há um rearranjo, uma alteração global
provocada por uma nova posição de uma peça fundamental. Ou seja, uma nova
"configUFação" resultante de um reposicionamento, o qual pode tornar irreconhecível
a configuração anterior.

--- - --- Etimologia e Termos Correlatos - ------

Etimologi,a

ver-: Vários prefixos se fundiram no moderno ver-. Da raiz indo-européia *per, cujo
significado era equivalente a "conduzir para fora passando por sobre", derivam-se três
formas ainda arcaicas pertencentes ao tronco indo-europeu: * perfil, *pr- e *pro. No
gótico fair- (para fora), Jaúr- (adiante, já passado) e Jra- (embora, para adiante). Também
se encontra essa separação no grego (peri; par- e pro-) e no latim (per-, por- e p,ro-). Outros
prefixos ainda pertencem a este tronco, por exemplo, o latimprae- e sua forma germanizada
atual prã- ou ainda o grego pára (ao longo, muito para adiante). No alemão atual,
encontram-se prefixos, advérbios e preposições derivados desta raiz ind�uropéia co­
mum:.für (por, para, no lugar de), vor (adiante, diante de, desde) efort (algo que se foi, foi
embora, ver o "Fort-Da" de Freud, ESB, vol. XVIII, pp. 26-8) efern (longe, longínquo). Além
disso, este prefixo ""pre- evoluiu e deu origem a dezenas de palavras, tais como Frau
(mulher),fremd (estranho, estrangeiro),.first- (forma arcaica de "destacado"), Frist (prazo),
fahren (ir, conduzir, guiar), Gefahr (perigo) etc. Devido aos limites de espaço, não cabe aqui
Verschiebung 163

esclarecer mais detalhadamente; contudo, todos os casos mencionados têm origem no


conceito de "ir adiante" e freqüentemente de perder contato com a origem.
Dificilmente se podem ligar os atuais sentidos do prefixo ver- com sua forma oinária no
gótico. Muitas vezes corresponde à forma gótica fra- (para longe, desaparecido, embora),
quando utilizado com verbos que designam: 1) "transformar-assimilar" (verarbeiten); 2) "utili­
zar-gastar" (verbrauchen); 3) '.'estragar-apodrecer" (verderben); e 4) "desaparecer" (verschwznden).
Nestes quatro casos podem ser incluídos os verbos que expressam "fechamento"
(verschliejlen), como "obstruir" (verbauen). Também verbos que expressam "desperdício
de tempo", tais como "perder a hora" (verschlafen), "perder um compromisso" (versau­
men), e verbos de "lapso ou para enganar o outro", tais como "perder-se" (sich verlaufen)
e "seduzir" (verführen). No texto freudiano, os verbos que designam lapsos geralmente
possuem o prefixo ver-. Também se liga a adjetivos, produzindo verbos que descrevem
"causar um efeito", "embelezar" (verschõnern ); quando se liga a substantivos (versklaven,
verfilmen etc.) designa "transformação". Também verbos que designam o ato de "dotar",
"prover", ou "providenciar" (versehen), "dourar" (vergolden), "embalar-encaixotar" (vers­
chachteln). Além disso, ver- entrou no lugar de outros prefixos, tais como er- e zer-.
-schieben: Derivado da suposta raiz indo-européia *skeub[h]- (atirar para lá, empur­
rar, lançar). Mais tarde estabiliza-se no significado de "empurrar", "fazer deslizar". No
gótico (aj)skiuban, no antigo alto-alemão scioban e no 'médio alto-alemão schieben. A
forma substantivada é Schub. Liga-se a diversos subst;;µítivos tanto na forma Schub- como
na forma Schiebe-, sempre indicando objetos que deslizam: Schubfach, Schiebefach (gave­
ta), Schiebedach, Schiebefenster Uanela corrediça) etc.

Termos correlatos, derivados e compostos

Schiebefach: gaveta (compartimento que desliza); Schieberei: falcatrua, empurrar


discretamente; Schiebetür. porta corrediça; Schiebedach: teto solar (teto corrediço em
carros); verschiebbar: regulável, deslocável, deslizável; Verschiebeprobe: designa na gramá­
tica o deslocar/ deslizar de partes da frase (trocando as posições entre elementos) para
diferenciar melhor as funções dos termos ou segmentos da oração.

- ---- Comp aração com o Termo em Português - ----

Significados adicionais de
"deslocar" e "deslocamento " não presentes em verschiebung e verschieben

3) Afastar algo, tirar algo do lugar, em geral deslocar para local próximo (também
utilizado como substantivo). A baleia desloca grandes massas de água ao mover-se. Deslocou
a cama que estorvava a passagem.
164 Deslocamento

4) Transferir, mudar de lugar (também utilizado como substantivo). O funcionário


foi deslocado para outra Junção.
5) Usado na forma reflexiva (deslocar-se) significa percorrer detenninada distância,
ir, viajar etc. ( também utilizado como substantivo). Deslocando-se em enorme velocidade, a
nave se aproximava rapidamente do planeta.
[Exemplos adaptados do NDA, 567; há ainda outros sentidos, tais como "luxar",
"desarticular-se", "desprender-se" etc.]

Conotações adii:ionais de
"deslocamento " e "deslocar" não presentes em Verschiebung e verschieben

E) Em português o termo "deslocamento", além de se referir a pequenas distâncias


(sentido 3), pode também referir-se a intensos movimentos que cobrem gran des
distâncias (navios, naves espaciais deslocam-se pelos mares, pelo espaço sideral etc. ).
Em geral se refere a um movimento mais assertivo e nítido que Verschiebung. ''Desloca­
mento" pode ser empregado na ortopedia para designar pequenos movimentos de
luxação· ou desarticulação, mas se trata de algo diverso de ui:na reconfiguração por
troca de posições; há certa violência embutida no "deslocamento de clavículas" (omo­
platas etc.), ao contrário da Verschiebung, que é mais ligada a um deslizar.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Verschiebunglverschieben português: deslocamento/ deslocar


significados
1 adiar (empurrar para o futuro) 1 ( excepcionalmente pode ser usado
neste sentido)
2 fazer deslizar para perto/ 2-
alterar a configuração
3 - 3 afastar
4 - 4 transferir
5 - 5 viajar, cobrir grandes distâncias
conotações
A desliza sobre suporte A­
B contigüidade B­
C suporte de baixa resistência C­
D nova configuração D-
E - E geralmente movimento mais
nítido e assertivo

A tradução de verschieben por "deslocar" resulta na perda de quatro aspectos: a


pequenez e discrição de um movimento muitas vezes apenas insinuado (sentido 2,
Verschiebung 165

conotações B e C); a proximidade-contigüidade (conotação B ); associação de dois locais,


propiciada por um percurso ligado/facilitado (conotações A, B e C); nova roupa­
gem/configuração que torna irreconhecível a anterior (sentido 2, conotação D).

--------Exemplos de Uso em Freud

1 "O que ocorre seria algo da natureza de um 'deslocamento' (Verschiebung) - de


ênfase psíquica talvez? - por meio de elos intermediários; desse modo, representações
que originalmente só tinham uma carga fraca de intensidade recebem carga de
representações que eram originalmente mais intensamente 'catexizadas' e acabam por
adquirir força suficiente para lhes permitir forçar entrada na consciência.
"O processo é, porém, como se um deslocamento - digamos, da ênfase psíquica -
ocorresse por via de tais elos intermediários; representações mentais inicialmente
carregadas de fraca intensidade recebem a carga de representações que antes estavam
intensamente investidas (catexizadas) e passam a ter uma força tal, que lhes permite
forçar o acesso à consciência."
A Interpretação dos Sonhos, cap. V/A (1900) [ESB 4, 1 86]

2 "Podemos presumir, portanto, que o deslocamento do sonho (Traumverschie­


bung) 'k se dá por influência da mesma censura - ou seja, a censura da defesa
endopsíquica."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VI/B (1900) [ESB 4, 296]
* Aqui Traumverschiebung é usado no sentido de alteração de configuração do sonho causada
através de reposicionamento dos elementos que foram deslizados para outras posições.

3 "Os deslocamentos ( Verschiebungen) que examinamos até agora mostraram con­


sistir na substituição de alguma representação particular por outra estreitamente
associada* (nahestehende) a ela em algum aspecto, e foram utilizados para facilitar a
condensação. na medida em que por meio deles, em vez de dois elementos, um único
elemento intermediário comum a ambos penetra no sonho_"
A Interpretação dos Sonhos, cap. VI/D (1900) [ESB 5, 323]
*Aqui a proximidade entre dois elementos dentro da malha associativa é enfatizada p ela
palavra nahestehende = localizado próximo.

4 "As análises nos mostram, contudo, que existe uma outra espécie, e que ela se
revela numa mudança da expressão verbal dos pensamentos em causa. Em ambos os
casos há um deslocamento (Verschiebung) ao longo de uma cadeia de associações; mas
um processo do deslocamento (Verschiebung) pode ser, num caso, a substituição de um
'
,1�·-o

166 Deslocamento

elemento por outro, enquanto o resultado em outro caso pode ser o de um elemento
isolado ter sua forma verbal substituída por outra."
A Interpreta,ção dos Sonhos, cap. VI/D (1900) [ESB 5, 323]

5 "Esta segunda espécie de deslocamento ( Verschiebungen) que ocorre na formação


dos sonhos tem não apenas grande interesse teórico, como é também especialmente
adequada para explicar o aparecimento do fantástico absurdo em que os sonhos se
disfarçam. A direção tomada pelo deslocamento (Verschiebungen) geralmente resulta n o
· fato d e urna expressão insípida e abstrata do pensamento onírico ser trocada por uma
expressão pictórica e concreta."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VI/D ( 1900) [ESB 5, 323]

6 "A formação do substituto para a parcela ideacional [do representante instintual]


ocorreu por deslocamento (Verschiebung) ao longo de uma cadeia de conexões deter­
minada de maneira particular. A parcela quantitativa não desapareceu, mas foi trans­
formada em ansiedade."
"A Repressão" ( 19 15) [ESB 14, 1 79]

7 "A catexia [do Pcs.] que entrou em fuga se apega a uma idéia substitutiva que,
por um lado, se relaciona por associação à idéia rejeitada e, por outro, escapa à
repressão em vista de sua distância daquela idéia. Essa idéia substitutiva - um
substituto por deslocamento ( Verschiebungsersatz) - permite que o desenvolvimento, até
então desinibido, da ansiedade seja racionalizado. Ela passa a desempenhar o papel de
uma anticatexia para o sistema Cs. (Pcs.), protegendo-o contra uma emergên cia da
idéia reprimida n o Cs. Por outro lado, é, ou age como se fosse, o ponto de partida
para a liberação do afeto revestido de ansiedade, que agora se tornou inteiramente
desinibida."
"O Inconsciente" (1915) [ESB 14, 209]

8 "Notar-se-á, contudo, que, pela introdução desse outro mecanismo de transfor­


mação de amor em ódio, tacitamente fizemos outra suposição que merece ser enun­
ciada explicitamente. Fizemos cálculos como se existisse na mente- no ego ou no id -
1
uma energia deslocável (verschiebare ), a qual, neutra em si própria, pode ser adicionada
a um impulso erótico ou destrutivo qualitativamente diferenciado e aumentar a sua
catexia total. Sem presumir a existência de uma energia deslocável 1 (verschiebare) desse
2
tipo, não podemos prosseguir. ( ... ) Nos instintos componentes sexuais, que são
especialmente acessíveis à observação, é possível perceber alguns processos que per­
tencem à mesma categoria que estamos estudando. Vemos, por exemplo, que existe
2
certa comunicação entre os instintos componentes, que um instinto que deriva de uma
fonte erógena específica pode transmitir sua intensidade para reforçar outro instinto
compon ente2 que se origina de outra fonte, que a satisfação de determinado instinto
Verschiebung 167

pode tomar o lugar da satisfação de outro - e demais fatos da mesma natureza, que
devem incentivar-nos a nos aventurarmos por certas hipóteses."
O Ego e o ld ( 1 923) [ESB 19, 59-60]
I
Aqui deslocável é utilizado no sentido de algo que pode ter seu fluxo desviado (fazer deslizar
para outra direção).
2
A expressão "instinto' componente" deve ser lida como "pulsão parcial" ou "instinto
parcial".

9 "Se essa energia deslocável ( Verschiebungsenergie) é libido dessexualizada, ela


também pode ser descrita como energia sublimada, pois ainda reteria a finalidade
principal de Eros - a de unir e ligar - na medida em que auxilia no sentido de
estabelecer a unidade, ou a tendência à unidade, que é particularmente característica
do ego. Se os processos de pensamento, no sentido mais amplo, devem ser incluídos
entre esses deslocamentos ( Verschiebungen), então a atividade de pensar é também
suprida pela sublimação de forças motivadoras eróticas."
O Ego e o !d ( 1 923) [ESB 1 9, 59-6 1]

----------- - Comentários ·1'- ------ --- - -

O termo Verschiebung está presente desde as primeiras formulações psicanalíti­


cas.
O movimento de "deslocamento" (Verschiebung) ocorre juntamente com a "conden­
sação" ao nível do processo primário, onde prepondera o livre fluir da energia. Sendo
um dos processos básicos do funcionamento psíquico, pode estar a serviço de diversos
mecanismos. Serve à elaboração secundária, à censura ( exemplo 2), à sublimação e ao
próprio pensar (exemplo 9), bem como atua na formação de sintomas (as formações
substitutivas citadas no exemplo 6). Em determinadas condições pode estar a serviço
da própria condensação ( exemplo 3).
O termo é empregado, numa acepção mais concreta, como um deslizamento de
energia ao longo de vias de interligação neuronal (Bahnungen) ou, no sentido funcional,
como algo que percorre sistemas inter-relacionados (malhas de representações, zonas
erógenas ao longo• do corpo etc.).
Em todos esses processos o que é deslocado fundamentalmente é a energia, a qual
pode assumir a forma de libido, afeto, medo etc. Essa energia irá se deslocar, deslizar
e desviar para determinadas direções por rotas interligadas (Bahnen, caminhos; Bah-
nungen, facilitações).
168 Deslocamento

O deslizar ao longo de uma rede de elos próximos

O processo de Verschiebung implica um deslizar por vias (Bahnen), em pequenos


deslocamentos, ao longo de uma rede de elementos interligados, uns próximos aos outros.
Tal concepção fica evidenciada no emprego do termo nos exemplos 1, 3, 4, 6 e 7.
No exemplo 1 trata-se de "elos intermediários", no exemplo 3 de "representações
localizadas próximas umas das outras", no exemplo 4 é mencionada "uma cadeia de
. associações", no exemplo 6 Freud fala em deslocamento ao longo de uma "cadeia de
conexões". No exemplo 7, é a retirada da energia da representação recalcada e seu
deslocamento ao longo da cadeia, passando de elo a elo até atingir uma representação
associada suficientemente afastada daquela originalmente recalcada, que permitirão à
pulsão fazer-se representar à psique sem sofrer recalque.
O deslocamento (Verschiebung) das representações é na realidade um deslocamento
ao longo elas representações e ocorre através do investimento, do desinvestimento e do
contra-investimento de energia que ocupa ou desocupa determinadas representações,
ativando-as e desativando-as. É pela catexia (investimento) que esse tipo de deslocamen­
to ocorre e torna viável que uma representação aflore ou que um afeto se descarregue
(ver o papel da catexia nos exemplos 1, 6 e 7). Por esse processo, uma representação,
interligada a outras numa cadeia associativa, pode ser substituída por outra que esteja
a ela conectada.

Alternância de posições e reconfigurações

O termo Verschiebung liga-se à noção, freqüentemente ressaltada por Freud, de


plasticidade da energia libidinal. No exemplo 8, onde trata da transformação de Amor
em Ódio, Freud traça, na segunda parte do exemplo, um paralelo entre a transformação
qualitativa de Amor em Ódio e a alternância de intensidade entre as pulsões parciais.
Presume que as pulsões parciais estejam interligadas (como vasos intercomunicantes),
de forma que se revezam em intensidade através do fluir/ deslocar da energia entre
elas. Sua hipótese é que há uma energia indiferente que emana do estoque de libido e
que esta energia plástica, desviável, dirigível e deslocável está a serviço do princípio de
prazer, encontrando muitos caminhos (não importa quais) para evitar a estase e
conseguir a descarga. Pode alternar as zonas corpóreas, assumir a forma de energia
dessexualizada e servir à sublimação (exemplo 9), ou pode ainda transitar através de
qualquer outra forma de deslocamento. A deslocabilidade intra e intersistemas permite
alterações de configuração, substituição de representantes, recalque e conscientização,
bem como uma maleabilidade nas escolhas objetais e na transferência, sempre percor­
rendo rotas interligadas (vias associativas).
As reconfigurações promovidas pelo processo de Verschiebung não se restringem a
movimentos ao longo da trama em campos representacionais num mesmo registro.
Verschiebung 169

As associações podem se interligar num mesmo registro: por exemplo, n o registro


das palavras (no exemplo 4, passa-se de uma palavra a outra pela trama dos
significados ou pela trama ,dos significantes, designados por Freud de Wortjassung).
Também é possível passar de um registro a outro: por exemplo, do verbal ao pictórico
(no exemplo 5).
Estes dois eixos do des.Jocamento permitem que, no sonho, este se coloque simulta­
neamente a serviço da ce17-sura para distorcer o material e das exigências de repre­
sentabilidade pictórica. O novo material torna do irrecon hecível pode então chegar à
consciência.
Em todas estas acepções, o termo Verschiebung descreve o deslizar (autônomo ou
provocado) de um elemento ao longo de um suporte que interliga diversos pontos,
causando uma.alteração de configuração. Pode referir-se a deslocamentos ao longo do
corpo, das redes associativas de representações, das vias neuronais etc.
No. que tange ao resultado desse movimento, designa a alteração de configuração
causada pela mudança de posições dos elementos. Por exemplo, a expressão "deslocamento
do sonho" (Traumverschiebung) não significa que o sonho se desloque, mas que houve um
deslocamento entre elementos causando "alteração/distorção do sonho" (exemplo 2).

� Descarga (Abfuhr), Facilitação (Bahnung)


Dominação: Bemãchtigung
(Bemãchtigungstrieb: Pulsão de dominação)

E: Apoderamiento, dominio
F: Emprise
I: Mastering ou mastery

O verbo sich bemdchtigen (reflexivo) equivale em português a "apoderar-se".


Conotativamente o termo evoca alguma violência e refere-se a tomar um objeto
externo para si à força (apossar-se).
A expressão "pulsão de dominação" (Bemãchtigungstrieb) é empregada por Freud
para designar o impulso de tomar os objetos ou apoderar-se deles.

- - -- ------ 0 Termo em Alemão ------- ---

Composição do termo

be-: Como prefixo verbal, indica uma ação que promove a concretização da
qualidade do substantivo (Macht/Poder) e o transforma em verbo. Em alguns casos
indica uma aproximação, um contam ou o ato de tomar (pegar).
mãcht-: Corresponde ao mesmo radical do substantivo Macht, "poder", "domínio".
O verbo reflexivo sich bemãchtigen significa "apoderar-se" .
-ig-. Sufixo de adjetivação (como, por exemplo, o sufixo "-oso(a)" em português);
quando ligado à terminação -en (-igen) tem a função de verbalização.
-ung-. · Sufixo de substantivação que corresponde aproximadamente a "-ção" em
português.

Significados do verbo reflexivo


sich bemãchtigen e do substantivo Bemãchtigung

1 ) Apoderar-se, tomar, apossar-se (como substantivo é p ouco utilizado). As


tropas ocuparam/apoderaram-se da cidade. "O tempo é precioso, querida Psique, disse
ele, precisamos nos apossar dos momentos " (Wieland) [GW, 1 457] . Grande m e do
apoderou-se dele .
Bemachtigung 1 71

Conotações

A) Em português o verbo "a(poder)ar-se" possui a mesma raiz do substantivo


"poder". Em alemão be(mãcht)igen remete à raiz de Macht, que também significa
"poder". Evoca a idéia de adquirir poder ou posse.
B) Aquilo a que o sujeito se dirige para "tomar" ou "apoderar-se" é um objeto
externo. O verbo geralmente refere-se a objetos externos. É diferente do verbo
"dominar", que pode ser usado para referir-se ao controle que o sujeito tem sobre as
próprias capacidades ou tendências internas.
C) Bemãchtigen liga-se à idéia de certa violência, de subjugar à força.
D) O termo remete à imagem de ocupação, de posse. Trata-se de um domínio
maciço. O verbo usado na forma reflexiva (sich bemãchtigen) pode significar "adquirir
uma habilidade de manusear, manipular"; entretanto, mesmo nesta acepção, a ênfase
é na "tomada de posse" daquela habilidade.

-------Etimologia e Termos Corr_elatos - -- ----


/
Etimologia

be-: Do indo-europeu *bhi, derivado de *ambhi _(em torno de); assume no gótico a
forma bi-, no antigo alto-alemão bi- , no médio alto-alemão be-. Inicialmente designava,
como prefixo verbal, a direção espacial de um processo (por exemplo, befallen, atacar
ou acometer); mais tarde, passou a indicar também a intervenção temporalmente limitada
sobre um objeto ou pessoa. No alemão atual, funciona como prefixo que transforma
advérbios, substantivos, adjetivos e verbos intransitivos em verbos transitivos.
mãchtig (poderoso): Derivado da raiz indo-européia *mag-h- (verbo "poder"). Origi­
naram-se daí sentidos como "viabilizar", "tornar possível" (ermõglichen, mõglich). O
substantivo Macht significando "poder" se encontra no gdtico na forma mahts. No
antigo alto-alemão, maht. Do antigo germânico originou-se o adjetivo mehtic (poderoso;
no alemão atual mãchtig).

Termos correlatos, derivados e compostos

ermãchtigen: autorizar; Machthaber: potentado, governante, detentor do poder; mãch­


tig: poderoso (adjetivo), poderosamente (advérbio); Machtprobe: prova de força; ohn­
mãchtig: desmaiado (sem força, sem poder).
1 72 Dominação

----- Comparação com o Termo em Português - - --

Significados adicionais de
"dominar" em português não presentes em bemachtigen

2) Subjugar, manter sob sua vontade. Os assírios dominaram por muito tempo os povos
daquela região.
3) Manter controle sobre atos ou vontade de outrem ou sobre os próprios. Sua esposa
o dominava completamente. Os monges tibetanos conseguem dominar totalmente as emoções.
4) Refrear. Eles não puderam dominar o ódio.
5) Saber fazer, saber manusear. Ela domina o idioma perfeitamente.
6) Governar, reinar, dominar politicamente. O rei dominou aquele povo por duas gerações.
7) Preponderar. A colina dominava a cidade.
[Os exemplos de 2 a 7 foram adaptados do NDA, 607.]

Conotações adicionais de
"dominar" não presentes em bemãchtigen

E) "Dominar" remete à idéia de vigilância, de controle consciente e observante.


Liga-se a um domínio que permite uma regulação, ou dosar ou manter sob controle a
imensidade de certo fenômeno. Bemachtigen refere-se a um tipo de domínio m'a ciço,
em bloco, mais focado sobre a idéia de posse.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: bemiichtigen . português: dominar


significados
· 1 apoderar-se, tomar, apossar-se 1 ( eventualmente quando usado na voz passiva)
2 2 subjugar, manter sob o jugo
3 3 manter controle sobre atos ou vontade
4 4 refrear atos ou vontade
5 5 saber fazer
6 6 governar
7 7 preponderar
conotações
A evoca foneticamente a palavra "poder" A-
B visa objeto externo B (não necessariamente)
e toma à força C (não necessariamente)
D refere-se à posse D (não necessariamente)
E- E regulação, controle vigilante
Bemachtigung 1 73

Bemiichtigen enfatiza a dimensão do "tomar à força" (conotação C e sentido 1) e. de


"posse" (conotação D e sentido 1). A intensidade do apoderar-se refere-se a um objeto
visado (conotação B). A palavra portuguesa "dominar" pode referir-se a um espectro de
sentidos bem mais amplo, que envolve objetos externos ou internos, bem como sentimen­
tos. Além disso, pode abranger desde algo total e mais violento até um controle sutil.

- ---- ---Exemplos de Uso em Freud --- -----

1 "Segundo alguns autores, esta agressão mesclada à pulsão sexual é, na realidade,


um resíduo de desejos canibalísticos, e portanto uma co-participação do aparelho de
dominação (Bemãchtigungsapparates ). "
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905) [ESB 7, 149]

2 "Nos meninos, a preferência pela mãojá indica a importante contribuição que a pulsão
de dominação (Bemiichtigungstrúb)' está destinada a fazer para a atividade sexual masculina."
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1 905) [ESB 7, 176]

3 "A crueldade é perfeitamente natural no caráter)nfantil, já que a trava* que faz


a pulsão de dominação (Bemachtigungstrieb) deter-se ante a dor do outro - a capacidade
de compadecer-se - tem um desenvolvimento relativamente tardio."
Três Ensaios sobre a Teoria, da Sexualidade ( 1 905) [ESB 7, 1 80]
* "freio" ou "inibição".
4 "Sua atividade [da pulsão de saber] corresponde, de um lado, a uma forma sublimada
de dominação (Bemiichtigung) e, de outro, trabalha com a energia escopofílica."
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905) [ESB 7, 1 82]

5 "No caso do tabu, o contato proibido 1 obviamente não deve ser entendido num
sentido exclusivamente sexual, mas sim no sentido mais geral de atacar, de obter o
controle (Bemãchtigung), <le afirmar�se." 2
Totem e Tabu ( 1 9 12-3) [ESB 1 3 1 95]
1
o toque físico proibido.
2 de fazer valer a própria pessoa, de auto-afirmar-se.

6 "Não é plausível imaginar que esse sadismo seja realmente um instinto de morte que,
sob a influência da libido narcísica, foi expulso do ego e conseqüentemente só surgiu em
relação ao objeto? Ele entra em ação a serviço da função sexual. Durante a fase oral da
organização da libido, o ato de obtenção de domínio erótico (Liebesbemiichtigung) sobre o
· objeto coincide com a destruição desse objeto; posteriormente o instinto sádico se isola,
174 Dominação

e, finalmente, na fase de primazia genital, assume, para os fins da reprodução, a função


de dominar o objeto sexual até o ponto necessário à efetivação do ato sexual."
Além do Princípio do Prazer (1920) [ESB 18, 74]

7 "A libido tem a função de tomar inócuo o instinto destruidor e a realiza. desviando este
instinto, em grande parte para fora - e em breve com o aUXI1io de um sistema orgânico
especial, o aparelho muscular -, no sentido de objetos do mundo externo. O instinto é então
chamado de instinto destrutivo, instinto de donúnio (Bemãchtigung,trieb) ou vontade de poder."
"O Problema Econômico do Masoquismo n ( 1924) [ESB 19, 204]

------------ Comentários ---- - --

Bemãchtigung é utilizado para designar a "vontade de dominar" que brota da pulsão


no sentido de se apossar dos objetos. Quando é composto com a palavra Trieb, forma
Bemãchtigungstrieb ("pulsão de dominação"). O termo é empregado por Freud desde
os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905 ); posteriormente, no curso da evolução
da teoria pulsional, seu papel no corpo teórico freudiano vai se alterando.
Nas primeiras formulações freudianas trata-se de uma pulsão autônoma não-sexual
e relacionada com a agressividade; seu objetivo é apoderar-se de objetos. Freud supõe
que com a maturação da criança a "pulsão de dominação" se amalgame às pulsões
sexuais (exemplos 1 e 2), dotando-as de certa agressividade.
Não cabe aqui descrever a evolução do conceito, mas com o tempo Freud passa a
relacioná-lo com o sadismo e com a pulsão de morte, até que a Bemãchtigung termina
por perder a característica de uma pulsão autônoma. Passa então a ser descrita como
uma atividade da pulsão de morte que pode estar a serviço das pulsões sexuais, quando
estas envolvem a dominação de um objeto (exemplo 6).
Linguísticamente, o emprego freudiano do verbo bemiichtigen mantém-se próximo
da conotação do ato violento e visceral de "apoderar-se pela força".
O Bemãchtigungstrieb é uma pulsão dirigida a objetos. Refere-se a "apoderar-se de
objetos", e na sua forma mais imediata esse apoderar-se ocorre tomando o objeto com
as mãos e eventualmente incorporando-o oralmente. O exemplo 2, referindo-se à
"pulsão de dominação n em conexão com o sexo, destaca a importância da "mão" para
apoderar-se, tomar posse do objeto. No exemplo J, o termo é relacionado com o ato
de incorporar canibalisticamente, envolvendo assim o "comer".
Qualquer pulsão é sempre poderosa e, a rigor, irrefreável. A Bemãchtigungstrieb, na
sua essência pulsional, não conhece inibição (Hemmung), é total, violenta e destrutiva.
No exemplo 3, Freud debita a crueldade infantil a uma pulsão de dominação (Bemãch­
tigungstrieb) ainda não inibida pela capacidade de sentir empaticarliente (piedade).
Bemãchtigung 1 75

No exemplo 7, esse caráter violento e destrutivo também aparece. Freud descreve a


necessidade de dirigir a sua destruúbilidade ao exterior para que não se torne prejudicial
ao sujeito. Nesse contexto, há uma relação com o sadismo e com a pulsão de morte.
A relação de Bemiichtigung com a agressividade é também explicitada no contexto
do exemplo 5, retirado de Totem e Tabu (19 12), onde o desdobramento social da
atividade de Bemachtigung está a serviço da afirmação do sujeito no grupo.
Amalgamada a outras pµlsões, a Bemiichtigung é co-participante de múltiplas outras
atividades (ajá mencionada pulsão sexual, a pulsão de tocar, a pulsão de deglutir, a pulsão
de saber, o desejo de olhar etc.). No exemplo 4, a aúvidade sublimada de apoderar-se é
relacionada com a pulsão de saber e com o desejo de olhar.

--+ Pulsão (Trieb)


Dominar: Bewiiltigen

E: Dominar
F: Surmonter, maitriser
L Master

O verbo bewdltigen possui diversos significados, entre os quais "dar conta", "resol­
ver" e "superar". Conotativamente sugere que algo maior tem de ser enfrentado e
controlado pelo sujeito.
No texto freudiano, o termo é geralmente empregado em conexão com a atividade
do indivíduo de lidar com os estímulos pulsionais.

------- --- 0 Termo em Alemão ----------

Composição do termo

be-: Prefixo verbal que transforma verbos intransitivos em transitivos.


walt-: Corresponde ao radical do verbo walten (reinar, dominar etc.).
-igen: Sufixo verbal (isoladamente o sufixo -ig promove a adjetivação).

Significados do verbo
bewãltigen e do substantivo Bewãltigung

1 ) Dar conta, resolver, superar, enfrentar (também utilizado como substantivo). Não
conseguiu dar conta de comer tudo que estava no prato. Pôde enfrentar/superar as dificuldades.
A rede ferroviária deu conta da demanda.
2) Realizar, executar, terminar, levar a cabo (também utilizado como substantivo).
Executou/levou a cabo todo o trabalho.
3) Digerir, elaborar, absorver, superar emocionalmente (também utilizado como
substantivo). Conseguiu superar seu próprio passado.
[Exemplos adaptados do WDW, 266, e do SBH, 73.]

Conotações de bewãltigen e Bewãltigung

A) Bewaltigen remete ao processo dinâmico de "enfrentar" e "dar conta da tarefa"


(atividades ligadas a "processar", "pôr em ordem", "levar a cabo"). Evoca, portanto, o
aspecto de certa quantidade de trabalho e esforço a ser despendido.
Bewaltigen 1 77

B) Implica um resultado bem-sucedido; o emprego do verbo indica que o sujeito


conseguiu superar uma situação ou passar por uma adversidade.
C) O termo remete à idéia de enfrentamento de algo difícil, grande, que exigirá
certo empenho. A palavra alemã para algo grandioso, avassalador é überwãltigend (über,
sobre/super). Neste sentido, se alguém consegue bewaltigen algo, supõe-se que tenha
enfrentado algo de certo porte.
D) O radical de bewaltigen remete ao verbo walten (reinar, ser soberano, exercer
domínio). O verbo intransitivo walten é utilizado para um tipo de "domínio excercido
serenamente" ("aqui reina a paz", "nas florestas a natureza é soberana", "o soberano
reinava sobre seus súditos com sabedoria"). No caso do verbo waltern, trata-se de
"exercer domínio" de forma ampla, global, que consolida e deixa sereno.
Uma vez dominada (bewaltigt), a situação volta a estar sob controle. Todavia se trata
de um "domínio" sobre o "estado geral", um "retomar o controle" no sentido de
· "sobreviver, superar", e não um controle total e completo que permitia manusear,
manipular e dosar aquilo que se controla.

------- Etimologia e Termos Correlatos -------

Etimologia

be-: Do indo-europeu, derivado de *ambhi (em torno de); assume no gótico a forma
bi-, no antigo alto-alemão bi-, no médio alto-alemão be-. Como prefixo verbal, inicial­
mente designava a direção espacial de um processo (por exemplo, befallen, atacar ou
acometer); mais tarde, passou a indicar também a intervenção temporalmente limitada
sobre um objeto ou pessoa. No alemão atual, funciona como prefixo que transforma
advérbios, substantivos, adjetivos e verbos intransitivos ein verbos transitivos.
-walten: Derivado do verbo indo-europeu 'Tj,O,l-dh- (ser forte, dominar). O latim valere
(ser forte) e o gótico waldan são precursores do atual walten. No século xv, bewaltigen
expressa "mostrar-se capaz de colocar seus assuntos sob seu domínio", e überwãltigen,'
"subjugar/dominar". Palavras como "administrar" (verwalten, manter em ordem, sob
o seu domínio) e "vioi'ência" (Gewalt) também derivam-se da raiz walt-.

Termos correlatos, derivados e compostos

Gewalt: violência, força; gewaltig;. incrível, enorme, intenso, muito; überwaltigend:


avassalador, grandi�so, soberbo; verge-uJaltigen: estuprar; walten: reinar, ser soberano.
1 78 Dominar

----- Comparação com o Termo em Português ---- -

Significados adicionais de
"dominar" e "domínio " não presentes em bewãltigen

4) Subjugar, manter sob sua vontade (também empregado como substantivo). Os


assírios dominaram por muito tempo os povos daquela região.
5) Exercer grande influência (também empregado como substantivo). E/,a domina
seu marido.
6) Manter sob vigilância, manter o controle, refrear (também empregado como
substantivo). Eles não puderam dominar o ódio.
7) Saber fazer, saber manusear, conhecer muito bem o funcionamento ( também
empregado como substantivo). E/,a domina o idioma perfeitamente.
8) Governar, reinar, dominar politicamente (também empregado como substanti­
vo). O rei dominou aquele povo por duas gerações.
9) Preponderar. A colina dominava a cidade.
10) Ser tomado por algo, por uma dor, por um sentimento etc. (também empregado
como substantivo). Foi dominado pel,a paixão e abraçou impetuosamente sua amada.
[Os exemplos de 4 a 10 foram adaptados do NDA, 607.]

Conotações adicionais de
"dominar" não presentes em bewãltigen

E "Dominar" tem um uso mais amplo que bewãltigen e remete ao emprego de autoridade
e força que permite regular, dosar ou manter sob controle a intensidade de certo fenômeno.
Algo diverso de apenas recuperar o controle sobre o estado geral da situaçio.

Resumo· das diferenças de significados e conotações

alemão: bewaltigen português: dominar


significados
l dar conta 1-
2 realizar, levar a cabo 2-
3 absorver, superar emocionalmente 3-
4 - 4 subjugar
5 - 5 exercer grande influência
6 - 6 manter sob vigilância
7 - 7 saber fazer
8 - 8 govern.ar
9 - 9 preponderar
Bewaltigen 1 79

10 - 10 ser tomado por sentimento

conotações
A esforço para lidar com a situação A ­
B sobreviver-superar B -
C enfrentar algo avassalador C ­
D adquirir controle sobre o estado D -
geral
E- E autoridade e força, controle-regulação

Ao traduzir-se bewiiltigen por "dominar" perde-se a ênfase no sentido de uma ação


que visa "lidar com uma situação avassaladora e superá-la" (sentidos 1, 2 e 3 e
conotações A, B e C). "Dominar" tem o sentido de adquirir "controle e autoridade
sobre algo" (sentidos 4, 5, 6, 8 e 9, conotações E e F).

--- --- --Exemplos de Uso em Freud - --- ----

1 "Um egoísmo forte constitui uma proteção c�ritra o adoecer, mas, num último
recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a
cair doentes se, em conseqüência da frustração;* formos incapazes de amar. ( ...)
Reconhecemos nosso aparelho mental como sendo, acima de tudo, um dispositivo
destinado a dominar (Bewãltigung) as excitações que de outra forma seriam sentidas
como aflitivas ou teriam efeitos patogênicos. Sua elaboração na mente auxilia de forma
marcante . um escoamento das excitações que são incapazes de descarga direta para
fora, ou para as quais tal descarga é, no momento, indesejável. No primeiro caso,
contudo, é indiferente que esse processo interno de elaboração seja efetuado em objetos
reais ou imaginários. A diferença não surge senão depois - caso a transferência da
libido para objetos irreais (introversão) tenha ocasionado seu represamento."
"Sobre o Narcisismo: Uma Introdução" ( 19 14) [F.SB 14, 102)
* O texto originaf não se refere à incapacidade de amar devido à frustração, mas devido a
um impedimento. A tradução correta é: se, em conseqüência de sermos "impedidos''., pão
pudermos amar.

2 "Não façamos objeção por enquanto à indefinição dessa idéia e atribuamos ao


sistema nervoso a tarefa - falando em termos gerais - de dominar estímulos (Reiz.be­
wãltigung). Vemos então até que ponto o modelo simples do reflexo fisiológico se
complica com a. introdução dos instintos. Os instintos externos impõem uma única
tarefa: a de afastamento; isso é realizado por movimentos musculares, um dos quais
fin almente atinge esse objetivo e, sendo o movimento conveniente, torna-se a partir
180 Dominar

daí uma disposição hereditária. Não podemos aplicar este mecan ismo aos estímulos
instintuais que se 01iginam de dentro do organismo."
"Os Instintos e suas Vicissitudes" (1915) [ESB 14, 140]

3 "Não há mais possibilidade de impedir que o aparelho mental seja inundado com
grandes quantidades de estímulos: em vez disto, outro problema surge, o problema de
dominar (bewaltigen) as quantidades de estímulo que irromperam, e de vinculá-las*
. (binden), no sentido psíquico, a fim de que delas se possa então desvencilhar."
Além do Princípio do Prazer (1920) [ESB 18, 45]
* Não se trata de "vinculá-las" (verknüpfen), mas de "atá-las", "ligá-las" ou "fixá-las" (binden).

4 "( . . . ) que o ego fica reduzido a um estado de desamparo (Hilflosigkeit) em face de


uma tensão excessiva devida à necessidade, 1 como ocorreu na situação de nascimento,
e que a ansiedade é então gerada. Mais uma vez aqui, embora o assunto seja de somenos
ii:nportância, é bem possível que o que encontra descarga na geração de ansiedade é
2
precisamente o excedente da libido não utilizada."
Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) [ESB 20, 165]
1
devida a uma tensão excessiva gerada por um estado de necessidade.
2
Este exemplo não contém o termo bewiiltigen; foi incluído apenas por ligar-se tematica­
mente à questão do excesso de estímulos.

5 "( ... ) uma das formas através da qual o amor se manifesta - o amor sexual - nos
proporcionou a mais intensa experiência de uma transbordante (überwiiltigenden)*
sensação de prazer, fornecendo-n os um modelo para nossa busca da felicidade."
O Mal-Estar na Civilização (1930) [ESB 21, 100]
* Em alemão überwiiltigend significa "avassalador".

6 "( ... ) penso que a resposta à questão de como explicar os resultados variáveis 1 de
nossa terapia analítica, bem poderia ser a de que também n ós, esforçando-nos por
substituir repressões, que são inseguras, 2 por controles (Bewiiltigungen) egossintônicos
dignos de confiança, nem sempre alcançamos nosso objetivo em toda a sua extensão
- isto é, não o alcan çamos de modo bastante completo."
"Análise Terminável e Interminável" (1937) [ESB 23, 261]
1
resultados instáveis.
2
Em alemão undicht significa "mal vedado".
Bewãltigen 181

---- -------- C omentários ------------

Enquanto beherrschen e bãndigen geralmente são utilizados por Freud para designar a
tentativa do ego de dominar a pulsão (Trieb), o termo bewãltigen refere-se ao domínio dos
estímulos pulsionais (Triebreize). É empregado para descrever a tentativa da psique de dar
conta do turbilhão de "estímulos pulsionais" (Triebreize) que inunda, desorganiza e ameaça
arrastar o sujeito numa maré de excitações (estas imagens "hídricas" são freqüentemente
empregadas por Freud em conexão com a circulação e acúmulo de estímulos [Reize]).

Tentativas de domínio da pulsão e dos estímulos pulsionais

As exigências pulsionais, na realidade, são elas mesmas estímulos (Reize) gerados


internamente e de forma ininterrupta pelas fontes da pulsão (Triebquellen). Tais
estímulos circulam e se acumulam, causando uma estase (Stauung, literalmente repre­
samento, de novo um termo do campo hídrico) e sobrecarregando o sujeito com
estímulos que precisam ser então descarregados ou absorvidos.
Neste sentido pode-se dizer que a Bewiiltigung, tal qual a Biindigung e a Beherrschung,
faz parte do esforço para lidar com as exigências pulsionais, é uma tentativa de domínio
sobre as pulsões. Todavia, cada um destes verbos teüde a ser utilizado de forma diversa.
Se a Bandigung geralmente enfoca a tentativa do ego de refrear o estado bravio e
indomado das pulsões e do id, a Beherrschung é empregada com freqüência como uma
tentativa de domínio mais total e completo, enquanto a Bewiiltigung enfatiza o volume
avassalador de excitações que tem de ser enfrentado, controlado e superado pelo Eu.

Os estímulos como fenômeno avassalador

Conforme mencionado nas conotações de bewiiltigen, trata-se de um tipo de


domínio que descreve uma tentativa de lidar com algo de maior porte. É antiga a idéia,
em Freud, de que o excesso de Reize é vivido pelo sujeito como algo avassalador que
o leva a um estado de desamparo (Hilflosigkeit). Neste sentido, lidar com estímulos,
tentando conseguir sua descarga, é algo que se impõe para evitar um estado de
desamparo (Hiiflosigheit). O termo Hiiflosigkeit é carregado de intensidade, expressa
um estado próximo do desespero e do trauma. Esse estado é semelhante àquele vivido
pelo bebê, o qual após o nascimento é incapaz pelas próprias forças de remover o
excesso de excitação pela via da satisfação, sucumbindo à Angst (medo, eventualmente
ansiedade, ou angústia). Mesmo tendo, em 1926, reformulado sua teoria sobre a Angst,
Freud mantém a idéia de que o sujeito exposto ao excesso de excitação vive uma
situação de desamparo, necessitando lidar (bewãltigen) com o turbilhão de estímulos
que o acometem (exemplo 4, Inibições, Sintomas e Ansiedade).
182 Dominar

Pode-se dizer que, desde o nascimento, a Reizbewãltigung é uma: das principais


tarefas impostas à psique e da qual o sujeito terá de dar cabo ao longo de toda a vida.
O tema é abordado por Freud em diversos contextos.
No exemplo 3, retirado de Além do Princípio do Prazer, Freud utiliza a imagem de
uma inundação ou enchente de estímulos que não mais podem ser contidos e obrigam
o Eu a lidar/ enfrentar o turbilhão de estímulos que irrompe.
No exemplo 5, do texto O Mal-Estar na Civiliw.ção, as sensações de prazer que o amor
. sexual produz são descritas como "avassaladoras" (überwãltigend. avassalador e transbor­
dante). Apesar de tais estímulos poderem ser agradáveis, em geral, quando se acumulam,
provocam um insuportável aumento da tensão represada, a qual se torna aflitiva ou
eventualmente patogênica (exemplo 1 de "Sobre o Narcisismo: Uma Introdução").
No exemplo 6, extraído de "Análise Terminável e Interminável", a imagem de uma
inundação no Eu reaparece no termo undicht (equivalente a "mal vedado"), empregado
para descrever a insuficiência do recalque em conter o acúmulo de estímulos, o que
exige que se lide com eles de maneira egossintônica (ichgerechte Bewãltigung), isto é, de
maneira "adequada" e "de acordo" -com o ego.
A tarefa incessantemente recolocada ao Eu de eliminação de estímulos pode ser
levada a cabo através do sistema nervoso, por exemplo ativando a musculatura de modo
que permita uma descarga motora (exemplo 2, de "Os Instintos e suas Vicissitudes").
Se a descarga motora estiver impossibilitada, será pela "elaboração interna" (innere
Verarbeitung, um processamento interno) que a psique poderá eventualmente tentar dar
conta da tarefa. No exemplo 1, após descrever o papel do amor objetal para descarregar
o excesso de libido catexizada no Eu, Freud menciona a "elaboração interna" como
uma tentativa para a eliminação interna dos estímulos.

Comparando-se os termos bãndigen (dominar, refrear) e bewãltigen (dominar, dar


conta), ambos utilizados por Freud no sentido de "domínio", pode-se dizer que de
forma geral Bãndigen é um esforço de regulação dos efeitos do princípio de prazer,
visando evitar que as pulsões sigam indomadas atrás da satisfação imediata, sem levar
em conta os limites impostos pelo princípio de realidade. Mais tarde, também se referirá
à tentativa de refrear a atividade destrutiva da pulsão de morte. A BewéUtigung é um
trabalho interno de lidar com os estímulos dos quais o ego não tem como fugir. Em
ambos os casos, trata-se de "domínios" precários em diferentes esferas onde a pulsão
se manifesta de forma poderosa.

� Domínio (Bãndigung), Estímulo (Reiz), Pulsão (Trieb)


Domínio, Amansamento, Domação: Bãndigung

E: Domenamiento
F: Domptage
1: Mastering ou controlling

Bãndigen é geralmente traduzido por "dominar\ ou ainda por "amansar" e "do­


mar". Tais traduções. até certo ponto se aproximam dos significados do termo alemão,
os quais apontam para algo como uma tentativa de acalmar, subjugar e refrear.
O termo biindigen é empregado com freqüência por Freud para designar um tipo
de controle que o ego tenta excercer sobre as pulsões, refreando-as e colocando-lhes
rédeas.

--------- 0 Termo em Alemão - --------

Composição do termo

Bãnd: Corresponde ao substantivo Band, que �ignifica bandagem, cordão, banda,


correia, fita etc.
-(ig)ung-. Sufixo de substantivação semelhante a "-ção". Isoladamente -ig é um sufixo
de adjetivação.

Significados do verbo
bãndigen e do substantivo Bãndigung

1 ) Acalmar ( também utilizado como substantivo). Não sei como acalmar esta criança
tão irrequieta.
2) Reprimir, refrear momentaneamente (também utilizado como substantivo).
Refrear a raiva é por vezes impossível.
3) Domar, amansar, dominar; geralmente usado para animais ou, em linguagem
figurada, para designar um controle precário, mas mais definitivo (também utilizado
como substantivo). Tentava amansar o cavalo selvagem. "Refrear as inclinações " (Kant).
"Uma pessoa que na sua expressão mostrava o domínio sobre a vontade (Lust), o subjugar das
pulsões cegas (Triebe), almejando uma finalidade mais elevada" (Arnim).
[Exemplos adaptados do WDW, 229, e do DW, 1 101.]
184 Domínio, Amansamenro, Domação

Conotações de bãndigen e Bãndigung

A) Evoca imagens ligadas a "colocar sob amarras", "pôr rédeas", "moderar",


"diminuir a intensidade", "amansar", "acalmar". Colocar algo selvagem sob certo
controle. Contudo, aquilo que é controlado só o é parcialmente. Na realidade, aquilo
que foi gebandigt foi apenas retido, contido. Também se emprega o termo zügeln
(Zügel são as rédeas) para designar o ato de colocar sob rédeas, amansar, refrear,
controlar. Aliás, em português, "rédeas" tem a mesma raiz de "reter" (comum ao
retina do latim). Bdndigen também é usado para referir-se ao domar/ controlar cães
inquietos.

---- --- Etimologia e Termos Correlatos - ---- --

Etimologia

Da raiz indo-européia *bhendh- (ligar, amarrar), no antigo indiano badhnati. O


substantivo atual Band tinha no gótico a forma bandi, no antigo alto-alemão bant. Mais
adiante, também designava "ligação entre pessoas" (Bindung) e "união" (Bund). O verbo
bdndigen é registrado desde o .século XVII e deriva do adjetivo biindig (amarrado ou
conduzível sob amarras; utilizado com relação a cães).

Termos correlatos, derivados e compostos

band: amarrava (imperfeito do verbo binden); Band: amarra, barbante, corda,


cordão, correia, faixa, fita, laço, vínculo etc.; Band: tomo de um livro ( encadernar é
binden/amarrar, e Band provém de gebunden/encadernado); Bandage: banda para rodas
de trens, ligadura, bandagem (medicina); Bandbreite: amplitude de faixa de ondas (em
rádios); binden: amarrar, atar, ligar, fixar.
Todos os termos acima se referem a "banda" ou "faixa" e à idéia de "amarrar".

---- - Comparação com o Termo em Português --- --

Bdndigung será contrastado com "dominar", pois "amansamento" e "domar",


apesar de figurarem nas traduções da ESB, não são termos que tenham se consolidado
no jargão psicanalítico em português.
Bandigung 185

Significados adicionais de
"dominar" e "domínio " não presentes em bãndigen e Bãndigung

4) Algo se apodera de, toma, se apossa de, o indivíduo é passivamente tomado


(também utilizado como substantivo). Grande medo apoderou-se dele (dominou-o).
5) Saber manusear, co.r;i.hecer muito bem o funcionamento ( também utilizado como
substantivo). Ele dominava 'pários idiomas.
6) Subjugar, manter sob sua vontade (também utilizado como substantivo). Os
assírios dominaram por muito tempo os povos daquela região.
7) Manter controle sobre atos ou vontade de outrem ou sobre os próprios (também
utilizado como substantivo). Sua esposa o dominava completamente. Os monges tibetanos
conseguem dominar totalmente as emoções.
8) Governar, reinar, dominar politicamente (também utilizado como substantivo).
O rei dominou aquele povo por duas gerações.
9) Preponderar. A colina dominava a cidade.
[Os significados de 4 a 9 foram adaptados do NDA, 607.]

Conotações adicionais de
"dominar" e "domínio " não presentes em bãndigen e Bãndigung

B) "Dominar" abarca também um "domínio mais total". Um domínio tão total que
permite uma "regulação", "dosagem" (permite que se mantenha sob controle a inten­
sidade de certo fenômeno); portanto, é algo mais amplo do que "conter-reter-prender"
(bãndigen). "Dominar" pode ser usado com a idéia de "vigilância", de "controle
consciente" e "observante", algo mais distante que bãndigen, um controle mais precário,
só conseguido e mantido a custo.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: bãndigen português: dominar


significados
1 acalmar 1-
2 reprimir, refrear 2 reprimir, refrear
3 domar, amansar 3 domar, amansar
4 - 4 algo se apodera do sujeito
5 - 5 saber manusear, conhecer bem
6 - 6 subjugar
7 - 7 controlar atos ou vontade
8 - 8 governar, reinar
9 - 9 preponderar
186 Domínio, Amansamento, Domação

conotações
A conseguir conter algo selvagem A-
B- B regular, dosar e vigiar

A palavra "dominar" não deturpa o sentido do termo alemão, mas é bem mais
ampla que este é não direciona o entendimento para a idéia de um "domínio precário"
que apenas "segura-contém-mantém encurralado".
Freqüentemente bãndigen é traduzido por "amansar" e "domar", ambos são a!ternati-
. vas razoáveis, mas há al mas diferenças conotativas. "Amansar" em geral implica fazer
gu
ficar "manso", a coisa amansada perde o ímpeto selvagem, fica inofensiva, dócil, enquanto
bandigen enfoca a precariedade de um estado em que se "consegue apenas conter/refrear
algo selvagem". "Domar" evoca a idéia de "encurralar pela força" (pensar na imagem do
doma:dor de chicote), e neste sentido talvez se aproxime mais de bãndigen.

------ - E..-xemplos de Uso em Freud ------ --

1 "Quando criança intratável (unbãndig)* comportava-se como um menino ( ...)."


História.de uma Neurose Infantil ( 1914-8) [ESB 17, 35]
* Aqui, ao invés de biindigen, é empregado o adjetivo unbãndig, precedido pelo pre0xo de
negação un-.

2 "Uma criança que se comporta de forma indócil (unbãndig)* está fazendo uma
confissão e tentando provocar um castigo ( ...)."
História de uma Neurose Infantil (1914-8) [ESB 1 7, 43]
* Aqui, ao invés de bãndigen, é empregado o advérbio unbãndig precedido do prefixo de negação un-.
3 "O instinto (Trieb) reprimido nunca deixa de esforçar-se em busca da satisfação
. completa, que consistiria na repetição de uma experiência primária de satisfação. Forma­
ções reativas e substitutivas, bem como sublimações, não bastarão para remover a tensão
persistente do instinto reprimido, sendo que a diferença de quantidade entre o prazer da
satisfação que é exigida e a que é realmente conseguida, é que fornece o fator impulsio­
1
nador que não permite qualquer parada em nenhuma das posições alcançadas, mas nas
2
palavras do poeta 'pressiona sempre para a frente, indomado (ungebiindigt)'."
Além do Princípio do Prazer ( 1 920) [ESB 1 8, 60]
I Em vez de "mas", leia-se "mas sim".
2 Aqui,
ao invés de bãndigen, é empregado o verbo no particípio passado, precedido do
prefixo de negação un- (ungebiindigt).
Bandigung 187

4 "Em épocas posteriores a dominância do princípio do prazer é muitíssimo mais


segura, mas ele próprio não fugiu aos processos de sujeição (Biindigung) mais do que
os outros instintos em geral."
Além do Princípio do Prazer (1920) [ESB 18, 84]
Retraduzindo o trecho: Em épocas mais maduras o domínio do princípio de prazer está muito
mais assegurado, mas mesmo.este, como as outras pulsões, também não escapou de ser sujeitado
(Bãndigung).

5 "Não dispomos de �ualquer compreensão fisiológica das maneiras e meios pelos


quais esse amansamento (Biindigung) do instinto de morte pela libido pode ser
efetuado. ( ... ) só podemos presumir ( ... ) que ocorra uma fusão e amalgamação muito
ampla, em proporções variáveis. ( ... ) Não podemos presentemente imaginar a extensão
das partes dos instintos de morte que se recusam a serem amansadas (Biindigung)1
2 3
assim, por estarem vinculadas (Bindungen) a misturas de libido."
"O Problema Econômico do Masoquismo" ( 1 924) [ESB 1 9, 205]
1 Apesar de soar pouco usual, "amansamento" está conotativamente
próximo de Bãndigung.
2 Trata-se de Bindungen, isto é, estar ligada n.o sentido de "atada", "fixada"; não se trata
de vinculac!a (verknüpjt, verbunden), cujo sentido é estar "correlacionado", "associado".
3 Retraduzindo a última frase: Não é possível atualmente adivinhar quão grandes são as
parcelas das pulsões de morte que escapam de ser dmhinadas através da ligação (fixação,
ligadura) a acréscimos libidinais.

6 "A etiologia de todo distúrbio neurótico é, afinal de contas, uma etiologia mista.
Trata-se de uma questão de os instintos serem excessivamente fortes - o que equivale
a dizer recalcitrantes ao amansamento* (Biindigung) por parte do ego - dos efeitos de
traumas precoces (isto é, prematuros) que o ego imaturo foi incapaz de dominar."
"Análise Terminável e Interminável" ( 1937) [ESB 23, 251]
* Embora soe pouco usual, "amansamento" está conotativamente próximo de Bãndigung,
mas possivelmente, neste caso, "domar" seja uma ·opção mais adequada.

7 "É possível, mediante a terapia analítica, livrar-se de wn conflito entre wn instinto e


o ego, ou de umaexigênciainstintual patogênica ao ego, de modo permanente e definit;ivo?
Para evitar a má compreensão não é necessário, talvez, explicar mais exatamente o que se
quer dizer por 'livrar-se permanentemente de uma exigência instintual'. Certamente não
é 'fazer com que a exigênàa desapareça, de modo que nada mais se ouça dela novamente'.
Isso em geral é impossível, e tampouco, de modo algum, é de se desejar. Não, queremos
dizer outra coisa, _algo que pode ser descrito grosseiramente como um 'arnansamento' *
(Bãndigung) do instinto. Isto equivale a dizer que o instinto é colocado completamente
em harmonia coµi o ego, torna-se acessível a todas as influências das outras tendências
- neste último e qão mais busca seguir seu caminho independente para a satisfação."
188 Domínio, Amansamenco, Domação

"Análise Terminável e Interminável" ( 1 937) [ESB 23, 256-7]


* Apesar de soar pouco usual, "amansamento" está conotativamente próximo de Bândigung,
mas possivelmente, neste caso, "domar" seja uma opção mais adequada.

8 "Quando seus instintos não eram tão fortes, ela teve sucesso em amansá-los*
(Bãndigung), mas quando são reforçados, não se pode mais fazê-lo."
"Análise Terminável e Interminável" ( 1 937) [ESB 23, 369]
* Embora soe pouco usual, "amansamento" está conotativamente próximo de Biindigung,
mas possivelmente, neste caso, "domar" seja uma opção mais adequada.

------------ Comentários - ---- - ---

O termo Bãndigung é utilizado em conexão com pulsão (Trieb). A "dominação das


pulsões pelo ego" (Bãndigung der Triebe) significa colocar-lhes rédeas, subjugá-las,
colocar-lhes amarras.
Conforme já mencionado, na própria composição da palavra bãndigen ( dominar,
amansar, domar) há a noção de "colocar amarras", "colocar rédeas", tal qual se faz com
um animal selvagem (em alemão, para amansar-domar cães se diz Hunde bãndigen).
Freud também utiliza os termos beherrschen e bewãltigen em conexão com as pulsões;
contudo, trata-se de outro tipo de ênfase.
A Bãndigung remete à força da pulsão, podendo o ego no máximo refreá-la e
dirigi-la, pois a pulsão sempre impele ao movimento.
No exemplo 7, retirado de "Análise Terminável e Interminável" (1937), Freud
define o emprego do termo bãndigen:
"É possível, mediante a terapia analítica, livrar-se de um conflito entre um instinto e
o ego, ou de uma exigência instintual patogênica ao ego, de modo permanente e
definitivo? Para evitar a má compreensão não é necessário, talvez, explicar mais
exatamente o que se quer dizer por 'livrar-se permanentemente de uma exigência
instintual'. Certamente não é 'fazer com que a exigência desapareça, de modo que
nada mais se ouça dela novamente'. Isso em geral é impossível, e q1.mpouco, de modo
algum, é de se desejar. Não, queremos dizer outra coisa, algo que pode ser descrito
grosseiramente como um 'amansamento' (Bãndigung) do instinto. Isto equivale a dizer
que o instinto é colocado completamente em harmonia com o ego, torna-se acessível
a todas as influências das outras tendências neste último e não mais busca seguir seu
caminho independente para a satisfação".
No exemplo 3, Freud evoca a imagem da pulsão como algo indomado (unbãndig),
que segue seus próprios caminhos sempre para adiante.
Esta imagem da pulsão como algo selvagem (indomado) a ser amansado
reaparece com freqüência no texto freudiano . A l gumas vezes, a relação do
Bandigung 189

ego com as reivindicações pulsionais do id é comparada por Freud à relação. de


um cavaleiro com seu cavalo: "Assim ele ( o Eu, ou ego) se ·assemelha na relação com
o Isso ao cavaleiro, o qual deve colocar sob rédeas (zügeln, refrear) a força mais
potente do cavalo, com a diferença de que o cavaleiro o faz com suas próprias forças
e o Eu (ego) com forças emprestadas. Tal qual ao cavaleiro, se não quiser se separar
elo cavalo, naàa lhe resta além de conduzir o animal para onde ele quer ir, assim
também o Eu (ego) costuma transformar a Vontade do Isso (id) em ação, como s e
fosse sua própria". (O Ego e o Id) ( 1 923) [ESB 1 9 , 39; SA 3 , 294] (Tradução livre.)
O controle egóico é algo precário e ligado ao aspecto econômico de quantidades
de energia. Nos exemplos 6 e 8, novamente Freud relaciona a precariedade do
"domínio" do Eu sobre a pulsão com fatores quantativos.
Entretanto, apesar da intensidade das reivindicações pulsionais, o processo de "domi­
nação" tende a se instalar com a maturação do indivíduo. Com a inclusão do princípio de
realidade no processo psíquico, o princípio de prazer passa a ser mais regulado e as
pulsões serão até certo ponto "submetidas" pelo ego (exemplo 4).

O domínio da pulsão de morte

No exemplo 5, Freud trata da pulsão de morte. ,Esta é parcialmente mesclada e


ligada (atada) às pulsões sexuais. Mesclada e ligada à libido, dirige-se então para objetos
externos sob a forma de sadismo, e em parte permanece como resíduo interno sob a
forma de masoquismo. No contexto desse exemplo, extraído de "O Problema Econô­
mico do Masoquismo" ( 1 924), pode-se dizer que a força essencial da pulsão de morte
permanece atuando, contudo, ao conduzi-la parcialmente para determinados objetos;
se a libido não logra realmente dominá-la, pelo menos consegue refreá-la em seus
efeitos destrutivos.

Nos exemplos 1, 2 e 3 é empregado unbi:indig, o antônimo de bi:indig. Unbi:indig


significa "travesso", "inquieto", "selvagem", "indócil" etc. Pode ser usado para crianças,
pulsões, animais etc.
Certamente seria exagero considerar a Bi:indigung das pulsões e o verbo bi:indigen
um "conceito" psicanalítico, mas é interessante notar que se trata de uma palavra
importante utilizada .desde o "Projeto p ara uma Psicologia Científica" ( 1 895 ), e também
presente em textos mais tardios: Além do Princípio do Prazer (1920), "O Problema
Econômico do Masoquismo" ( 1923), "A Questão da Análise Leiga" (1926), O Mal-Estar
na Civilização (1930), Introdução a "Thomas Woodrow Wilson" (1930) e "Análise
Terminável e Interminável" ( 1937).

---* Dominar (Bewiiltigen), Pulsão (Trieb)


Elaboração ( 1 ): Bearbeitung

E: Elaboración
F: É/,aboration
I: Revision, elaboration

Bearbeiten é habitualmente traduzido por "elaborar" ou "trabalhar", mas seu


emprego guarda algumas diferenças com relação a ambas as alternativas de tradu­
ção.
Refere-se à ação de um sujeito que empenha um esforço de trabalho sobre um
objeto: "aplicar o trabalho sobre algum material", "operar sobre um material",
"lavrar".
A expressão jemanden bearbeiten (trabalhar uma pessoa) pode significar "persuadir
alguém". Utilizado para objetos ou materiais, etwas bearbeiten significa "operar sobre
algo", por exemplo, "trabalhar um diamante" (equivale a lapidá-lo), ou "trabalhar um
lote de terra" (lavrá-lo, ará-lo}.
O verbo "elaborar" não corresponde propriamente a bearbeiten. "Elaborar" geral­
mente refere-se a introduzir uma "qualidade de trabalho que melhora e refina o
material" (elabore melhor suas idéias), sentido que em alemão pode ser expresso pelo
verbo ausarbeiten. Na linguagem psicanalítica a palavra portuguesa "elaborar" refere-se
a "assimilar" ou "integrar" um material psíquico (elabore a dor, o ódio etc.}; em alemão
o termo utilizado é verarbeiten.

---- - ---- 0 Term o em Alemão ----- ----

Composição do termo

be-: O prefixo verbal be- transforma verbos intransitivos em transitivos.


-arbeiten: Corresponde ao·verbo "trabalhar".

Significados do verbo
bearbeiten e do substantivo Bearbeitung

1) Não há um sinônimo aproximado em português. Significa "trabalhar" quando


usado como verbo transitivo, algo como "aplicar" trabalho sobre um objeto (também
utilizado como substantivo). Trabalhar um texto (significa genericamente trabalhar sobre
o texto). Trabalhar um diamante (equivale a lapidá-lo). Uma pessoa a ser trabalhada (deve
Bearbeitung 191

ser convencida, persuadida). Trabalhar um lote de terra (lavrá-lo, ará-lo). [Exemplos


adaptados do WDW, 236.] ''.A religião da igreja tem maior prevalência no trabalhar o ser
humano em direção a um corpo ético comum do que a pura crença religiosa" (Kant). [Exemplo
retirado do DW, 1207.]

Conotações de bearbeitet?- e Bearbeitung

A) Bearbeiten evoca a idéia de que certa quantidade de trabalho está sendo aplicada,
sem especificar de que tipo de atividade se trata: não se sabe se se trata de "elaborar",
"dar acabamento", "modificar" etc. Se alguém nos diz que "trabalhou (bearbeitet) um
texto", apenas sabemos que ele trabalhou sobre o texto, nada se sabe sobre a natureza
e resultado do processo.

------- Etimologia e Termos Correlatos - - ----

Etimologia

be-: do indo-europeu *bhi, derivado de *ambhi (em tomo de); assume no gótico a
forma bi-, no antigo alto-alemão bi-, no médio alto-alemão be-. Como prefixo verbal,
inicialmente design�va a direção espacial de um processo (por exemplo, befaUen, atacar
ou acometer); mais tarde, passou a indicar também a intervenção temporalmente
limitada sobre um objeto ou pessoa. No alemão atual, funciona como prefixo · que
transforma advérbios, substantivos, adjetivos e verbos intransitivos em verbos transitivos.
-arbeiten: Supostamente o verbo é derivado da palavra indo-euto,péia ·*orbho-s
(criança órfã). O substantivo assume no gótico a forma arbaips, no antigo alto-alimão
ar[a)beit e no médio alto-alemão ar[e)bei e deriva supostamente de um antigo verbo
germânico, cujo sentido era "ser criança órfã obrigada a pesada atividade física" (a
palavra "herdeiro", Erbe, pertence a este tronco). Até o início do novo alto-alemão o
verbo arbeiten significava "esforço físico duro e cansativo", "flagelo". A partir de Lutero
o termo foi adquirindo um caráter mais positivo e ético, perdendo· o aspecto pejorativo
de "atividade degradante e humilhante". No gótico, o verbo tinha a forma arbaijan, no
antigo alto-alemão ar[a]beiten (torturar-se, sofrer, estar eni atividade cansativa) e no
médio alto-alemão ar[e]beiten. No novo alto-alemão, designa "atividade dirigida e útil"
e "atividade profissional" .

Termos correlatps, derivados e compostos

Nos casos, abaixo, a partícula be- torna transitivos verbç>s intransitivos. · ·


'
192 ElriÍJoração

be + arbeiten ( trabalhar): bearbeiten (trabalhar sobre algo)


be + dienen (ter serventia): bedienen (servir/prestar serviço a alguém)
be +Jolgen (seguir): befolgen (cumprir algo)

---- - Comparação com o Termo em Português -----

Bearbeitung será contrastado com a palavra "elaboração", pois esta tem sido a opção
mais freqüente nas atuais traduções.

Significados adicionais de
"elaborar" não presentes em bearbeiten

2) Aperfeiçoar. Elabore ainda mais o texto (trabalhe mais nele, desenvolva-o, aperfeiçoe-o).
Trata-se de algo já muito elaborado (trata-se de algo já bastante trabalhado, desenvolvido,
aperfeiçoado ou sofisticado).
3) Sofisticar, refinar trabalho do espírito que conduz a uma idéia ou conceito. Uma
teoria muito elaborada.
4) Criar_ Elaborei uma campanha publicitária.
5) Um processo interno, psíquico, de "digestão" ou "assimilação" (pert�nce à
linguagem psicanalítica)_ A viúva não pôde elaborar o luto.
[Os exemplos de 2 a 4 foram adaptados do NDA, 622.]

Conotações adicionais de
"elaborar" não presentes em bearbeiten

B) "Elaborar" pode ter a conotação de um repetido investimento de esforço e de


trabalho, mas evoca a idéia de "sofisticar" ou "aperfeiçoar" (sentidos 2 e 3). Ao
"elaborar-se" algo, consegue-se uma sofisticação obtida pelo trabalho repetidamente
aplicado sobre a tarefa. "Uma teoria muito elaborada" conota simultaneamente que foi
repetidamente trabalhada, como também que houve alguma sofisticação. Nos exem­
plos apresentados no sentido 1 de bearbeiten (lapidar, persuadir e lavrar) não se poderia
usar em português o termo "elaborar" ( elaborar um diamante/ elaborar uma pessoa/
elaborar a terra).

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: bearbeiten português: elaborar


Bearbeitung ] 93

significados
1 trabalhar sobre algo 1-
2 - 2 desenvolver aperfeiçoando
3 - 3 sofisticar
4 - 4 criar
5 - 5 assimilar

conotações
A foco sobre a ação de aplicar A-
o trabalho
B - B foco.na qualidade do
trabalho (sofisticação)

Como se nota, ao ser traduzido por «elaborar", bearbeiten perde a característica de


aplicação de trabalho sobre o objeto (sentido 1 e conotação A) e contamina-se com os
significados de "aperfeiçoar" (sentido 2 e conotação B), bem como com o significado
de "assimilar", mais pertinente à palavra verarbeiten (sentido 5).

--------Exemplos de Uso em freud

1 "Devemos antes presumir que, desde o início, as exigências dessa segunda


instância constituem uma das condições que o sonho precisa satisfazer, e que essa
condição, tal qual as formuladas pela condensação, pela censura imposta pela resistên­
cia e pela representabilidade, atua simultaneamente num sentido indutivo e seletivo
sobre o conjunto do material presente nos pensamentos oníricos. De qualquer modo,
porém, dentre as quatro condições para a formação do sonho, a que conhecemos por
último é aquela cujas exigências parecem exercer a influência menos compulsória nos
sonhos.
"A consideração que se segue torna altamente provável que a função psíquica que
empreende o que descrevemos como elaboração secundária (sekundãre Bearbeitung) do
conteúdo dos sonhos deva ser identificada com a atividade de nosso pensamento em
vigília. Nosso pensamento desperto (pré-consciente) comporta-se ante qualquer mate­
rial perceptivo com _ que se depare exatamente do mesmo modo que se comporta a
função ora examinada em relação ao conteúdo dos sonhos. É próprio de nosso
pensamento de vigi1ia estabelecer ordem nesse material, nele estruturar relações e
fazê-lo conformarsse a nossas expectativas de um todo inteligível."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VI/1 ( 1900) [ESB 5, 459-60]

2 "Entretanto o estudo das lembranças . encobridoras das pessoas e fantasias e


sonhos n oturnos revela que nos deparamos, aqui, com uma 'racionalização' especial-
194 Elahoração

mente oportuna* de um motivo inconsciente, um processo que pode ser comparado


à elaboração secundária (sekundiiren Bearbeítung) bem-sucedida de um sonho."
"Um Tipo Especial de Escolha de Objeto pelos Homens:
Contribuições à Psicologia do Amor I" ( 19 10) [ESB 1 1 , 155]
* especialmente bem-sucedida.

3 "Há também pessoas a quem não se pode impedir de mergulharem em algum


projeto inteiramente indesejável durante o tratamento e que somente depois ficam
· prontas para a análise* (analytische Bearbeitung) ou a esta acessíveis."
"Recordar, Repetir e Elaborar" ( 1 914) [ESB 12, 200]
* prontas para serem "submetidas ao trabalho analítico"; ou prontas para serem "trabalha­
das analiticamente".

4 "A revisão secundária 1 (sekundiire Bearbeitung) do produto da elaboração onírica2


(Traumarbeit) constitui um exemplo admirável da natureza e das pretensões de um
sistema. Existe em nós uma função intelectual que exige unidade, conexão3 e inteligi­
bilidade de qualquer material, seja da percepção ou do pensamento, que cai sob o seu
domínio e se, em conseqüência de circunstâncias especiais não pode estabelecer uma
conexão3 verdadeira, não hesita em fabricar uma falsa."
Totem e Tabu ( 1 9 1 2-3) [ESB 12, 1 19]
1" l b - secun clár'1a" .
e a oraçao
2
"trabalho do sonho".
3
"contexto".

5 "Sua elaboração (Bearbeitung), na mente, auxilia de forma marcante um escoa­


mento I das excitações que são incapazes de descarga direta para fora, ou para as quais
tal descarga é, no momento, indesejável. No primeiro caso, contudo, é indiferente que
este processo interno de elaboração2 ( Verarbeitung) seja efetuado em objetos reais ou
imaginários."
"Sobre o Narcisismo: Uma Introdução" ( 1914) [ESB 14, 102]
escoamento "interno".
1
2
Aqui se trata de outra palavra para "elaboração", Verarbeitung, a qual equivale aproxima­
damente a "transformação-assimilação".

6 "Sabemos que essa ansiedade pode ser transformada por uma elaboração
(Bearbeitung) psíquica ulterior, isto é, por conversão, formação de reação ou construção
de proteções (fobias)."
"Sobre o Narcisismo: Uma Introdução" ( 1 9 14) [ESB 14, 102-3]
Bearbeitung 195

7 "A conclusão do processo omnco consiste no conteúdo do pensamento -


regressivamente transformado e elaborado* (umgearbeitet) numa fantasia carregada de
desejo - tornando-se consciente como uma percepção sensorial; enquanto isto ocorre,
ele passa por uma revisão secundária (sekundãre Bearbeitung), à qual todo conceito
perceptual está sujeito."
"Suplemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos" (19 17) [ESB 14, 261 ]
* Aqui se trata de outra palavra para "elaboração", umarbeiten a qual equivale aproximada­
,
mente a "transfigurado-reformado" .
Retraduz.indo todo o trecho: "O término do sonhar se caracteriza pelo fato de que o conteúdo
do pensamento, regressivamente transformado em fantasia de desejo, se torna consciente sob
a forma de percepção sensorial. Durante esse processo, o conteúdo do pensamento passa pela
elaboração secundária, à qual todo e qualquer conteúdo perceptivo é submetido".

8 "De forças e destinos impessoais ninguém pode aproximar-se; permanecem


eternamente distantes. Contudo, se nos elementos se enfurecem paixões da mesma
forma que em nossas próprias almas, se a própria morte não for algo espontâneo, mas
o ato ·v iolento de uma Vontade maligna, se tudo na natureza forem Seres à nossa volta,
do mesmo tipo que conhecemos em nossa própria sociedade, então poderemos respirar
livremente, sentir-nos em casa no sobrenatural e lidar (bearbeiten) com nossa insensata
ansiedade através de meios psíquicos. ( ...) podemos tentar conjurá-los, apaziguá-los,
suborná-los e, influenciando-os assim, despojá-los de uma parte de seu poder."
O Futuro de uma Ilusão (1927) [ESB 21, 28]

9 "Voltaire tinha os derivativos 1 em mente, quando tenninou Candide com o


conse lho para cultivarmos2 �bearbeden) nosso próprio jardim, e a atividade científica
_
constitui também derivativo dessa espéci e."
O Mal-Estar na Civilização ( 1930) [ESB 21, 93]
l
Voltaire "visava as distrações" (no sentido de desviar ou distrair-se das misérias e
infortúnios).
2 ..
trabalharmos", "lavrarmos".
3
Em vez de "derivativo", "distração"/"difusão"/"difracção"/"desvio".

_________:_ __ _ Comentários ------- -- - --

Freu d freqüentemente utiliza Bearbeitung de acordo com o sentido coloquial já


menci onado.
Nessa acepção, a palavra designa genericamente a "atividade de trabalho que se
exerce sobre algum objeto ou pessoa" ( tratar, persuadir, lapidar, cultivar etc.). Esse uso
coloqu ial aparece nos exemplos 3 e 9.
196 ElalJoração

Nos exemplos 5, 6 e 8 o termo também é utilizado de forma inespecífica. Designa


um trabalho psíquico sobre determinado material, sem especificar de que trabalho se
trata. No exemplo 6, a "elaboração" (Bearbeitung) designa a atividade de lidar com o
material ansiógeno através de "conversão, formação de reação ou construção de
proteções". No exemplo 5, a "elaboração" (Bearbeitung) consiste em "transformar ou
processar" as excitações com o fim de possibilitar um escoamento interno. No exemplo
8, a "elaboração" (Bearbeitung) é um "conjurar, apaziguar, e subornar para despojar os
medos de seu poder ameaçador".

Sekundii.re Bearbeitung (elaboração secundária)

Já o conceito sekunddre Bearbeitung ("elaboração secundária" ) é empregado com


sentido analítico específico. Em geral, a "elaboração secundária" é tratada no contexto
da teoria dos sonhos. Designa a atividade e os efeitos do "trabalho inconsciente
realizado secundariamente sobre a estruturação do material onírico", isto é, trata-se de
um trabalho psíquico sobre o material ainda em estado bruto, para dar-lhe forma
apreensível. A sekunddre Bearbeitung o ordena e coloca em relações intelegíveis, de
acordo com as regras do processo secundário: inteligibilidade, consideração pela
reg:as do pensamento adequadas ao princípio de realidade etc.
Em conjunto com a "censura", com a "figurabilidade" (Darstellbarkeit) e com a
"condensação", essa ordenação do material onírico que ocorre de acordo com regras
de inteligibilidade permitirá que o material adquira um formato representável e
compreensível ao sonhador (exemplos 1 e 7).
Freud aproxima com freqüência o processo de "elaboração secundária" à atividade
do próprio "pensar" e da "racionalização", pois em estado vígil também há um trabalho
semelhante ao da constituição do sonho, de uma Bearbeitung ("elaboração" ) sobre as
percepções (exemplos 1, 2, 4 e 7).
Conotativamente, o conceito psicanalítico de sekundãre Bearbeitung corresponde ao
emprego coloquial do verbo como atividade de "lavra" ou "aplicação de trabalho" sobre
materiais em geral (por exemplo, lapidar uma pedra); entretanto, no caso psicanalítico
se trata de atividades precisas.

Freud emprega diversas palavras para "trabalho "

Conforme já mencionado, Freud emprega, além de bearbeiten, diferentes verbos


compostos com arbeiten (trabalhar) para descrever atividades psíquicas diversas, como,
entre outros, aujarbeiten, durcharbeiten, mitarbeiten, umarbeiten e verarbeiten.
O verbo aufarbeiten geralmente refere-se à atividade consciente do paciente de
"colocar em dia" (ou "dar conta de" ) o material que vai aparecendo e se acumulando
ao longo do trabalho analítico, isto é, o material a ser revisto, comentado, elaborado
Bearbeitung 197

etc. Umarbeiten é utilizado no sentido de "remodelar/reformar". É empregado colo­


quialmente em alemão para designar a idéia de dar novo formato a algo; usa-se, por
exemplo, para o trabalho de alfaiates sobre roupas velhas que são reformadas. No texto
freudiano, algumas vezes aparece no sentido de trabalho de distorção realizado para
dar outra aparência ao conteúdo desagradável de sonhos. O verbo mitarbeiten ( trabalhar
junto, colaborar) é mais utilizado nos escritos técnicos e se refere à colaboração ativa
do paciente.
Estes três verbos não são muito freqüentes. Maior presença e peso teórico possuem
os verbos durcharbeiten ("trabalhar do início ao fim sem interrupção") e verarbeiten
("transformar" e "absorver"), os quais são tratados como verbetes separados neste livro
(respectivamente nas páginas 198 e 205).
Nos exemplos 5 e 7, além de bearbeiten, são utilizados os verbos umarbeiten e
verarbeiten. Frente à variedade de composições com arbeiten, a tradução indiferenciada
de todo tipo de atividade psíquica por "elaboração" acarreta uma perda de sentido que
nem sempre o contexto permite recuperar. Como se procurou mostrar, o verbo
"elaborar", em português, acaba por introduzir uma dimensão de sentido ausente na
palavra bearbeiten: refere-se a uma "qualidade de trabalho que melhora-refina o
material" (elabore melhor suas idéias), bem como a "possibilidade de assimilação"
( elaborar o luto etc.), ao passo que no caso de bearbeiten se trata de aplicar certo
montante de trabalho sobre o material.

� Elaboração (2) (Durcharbeitung), Elaboração (3) ( Verarbeitung)


Elaboração (2), Perlaboração: Durcharbeitung

E: Trabajo elaborativo ou reelaboración


F: Perlaboration
1: Working-through

O verbo alemão durcharóeiten é habitualmente traduzido por "elaborar" ou "perla­


borar". Ambas as traduções se afastam em determinados aspectos do termo original.
Durcharbeiten expressa a idéia de "trabalhar-se através ( durch) de alguma tarefa", ou
ainda "percorrer ou atravessar uma tarefa do início ao fim".
Seu sentido dicionarizado é: 1 - estudar profundamente, examinar profundamente;
2 - trabalhar sem interrupção; 3 - superar dificuldades através do trabalho.
A conotação do termo evoca uma duração mais prolongada da ação e certo dispêndio
de esforço, algo como "embrenhar-se tarefa adentro e atravessá-la por inteiro".
Freud geralmente emprega o termo em relação com o trabalho e esforço a ser
empenhado para vencer a resistência.

---------- 0 Termo em Alemão --------- -

Composição do termo

durch-: Corresponde à locução prepositiva "através de" e à preposição "por". Como


prefixo verbal, indica a direção de um movimento ( entrar e novamente sair, atravessar),
bem como a superação de obstáculos. Também aponta para a idéia de acabar até o
final (completamente) e ainda duração ininterrupta (o tempo todo, sem interrupção).
-arbeiten: Corresponde ao verbo "trabalhar".

Significados do verbo
durcharbeiten e do substantivo Durcharbeitung

1) Debruçar-se detidamente sobre um material para estudá-lo profundamente,


examiná-lo, verificá-lo com muita atenção do início ao fim (também utilizado como
substantivo). O professor mandou o aluno estudar mais uma vez o livro. Examinei aten/amente
o relatório recebido da filial.
2)Trabalhar sem interrupção. Trabalhei por toda a noite.
3) (rflx - sich) Superando todas as dificuldades e obstáculos através do trabalho,
chegar ao objetivo ou ao final. Trabalhar tenazmente até o fin�l atravessando obstácu-
Durcharbeitung 199

los. Eles foram arduamente atravessando a mata cerrada (se trabalhando através do matagal­
sich durchs Gestrüpp durcharbeiten) [WDW, 367]. "A cerca viva cheia de espinhos me impedia
de passar, mas eu fui me trabalhando através dela" (Rabener 4,56) [DW, 1583].
[Comentário geral no DW, 1582-3: "trabalhar sobre algo com esforço físico ou
mental"; outros exemplos enumerados pelos autores: "trabalhar até ficar com as mãos
em carne viva" ou "trabalhar (surrar até o fim) crianças malcriadas para que se
comportem"; e ainda "esforço de penetrar, abrir caminho".]

Conotações de durcharbeiten e Durcharbeitung

A) Durcharbeiten evoca o movimento de atravessar, embrenhar-se num trabalho.


Trata-se de um avanço obtido pelo esforço da ação de trabalhar ao longo da tarefa.
B) O termo remete à idéia de chegar do começo ao fim, atravessar a tarefa inteira
até a sua conclusão. Não há uma idéia de atingir o objetivo no sentido de triunfar ou
conquistar (idéia pertencente ao verbo erarbeiten), trata-se apenas de chegar ao objeti­
vo-meta-final.

-------Etimologia e Termos Correlatos ---- - --

Etimologia

-Durch: Já com o significado de "através" o termo possui no gótico a forma paírh,


no antigo alto-alemão dur[u}h e no médio alto-alemão dur[ch]. No antigo indiano
tirá� (através, por sobre, além), no latim trans (por sobre - embora). No antigo
alto-alemão passa a ser usado metaforicamente para designar "através" no sentido de
"por/ através" ( elemento que indica uma intermediação, por exemplo, em frases como:
"Deus fala pela boca dos profetas"; "amadurecido pelo sofrimento").
arbeiten: Supostamente do indo-europeu *orbho-s ( criança órfã). O substantivo, no
gótico arbaips, no antigo alto-alemão ar[a}beit e no médio alto-alemão ar[e]beit, deriva
supostamente de um antigo verbo germânico, cujo sentido era "ser criança ºórfã
obrigada a pesada atividade física" (a palavra "herdeiro", Erbe, pertence a este tronco).
Até o início do novo alto-alemão o verbo arbeiten significava "esforço físico duro e
cansativo", "flagelo". A partir de Lutero o termo foi adquirindo um caráter mais
positivo e ético, perdendo o aspecto pejorativo de "atividade degradante e humilhan­
te". No gótico o verbo tinha a forma arbaijan, no antigo alto-alemão ar[a]beiten
( torturar-se, sofrer, estar em atividade cansativa) e no médio alto-alemão ar[eJbeiten. No
novo alto-alemão designa "atividade dirigida e útil" e "atividade profissional".
200 Elaboração

Termos correlatos, derivados e compostos

durch + halten (manter) - durchhalten: agüentar, suportar


durch + lesen (ler) - durchlesen: "dar uma lida", ou "ler cuidadosamente"
durch + machen (fazer) - durchmachen: sofrer, enfrentar provação, agüentar
durch + setzen (pôr/ colocar) - durchsetzen: impor, conseguir
Nestes casos, durch caracteriza uma "duração prolongada da ação". Remete à
imagem de "persistência" (o sujeito agüenta do começo ao fim, lê do começo ao fim,
·sobrevive, tem perseverança etc.).

----- Comparação com o Termo em Português - ----

Durcharbeiten será contrastado com "elaboração", pois este termo tem sido uma
freqüente opção de tradução e pertence ao português corrente. A outra alternativa
habitualmente adotada, a palavra "perlaboração", é um termo exclusivo do jargão
psicanalítico, introduzido a partir do francês.

Significados adicionais de
"elaborar" e "elaboração " não presentes em durcharbeiten

4) Aperfeiçoar (também utilizado como substantivo). Elabore ainda mais texto


(trabalhe mais nele, desenvolva-o, aperfeiçoe-o). Trata-se de algo já muito elaborado (trata-se de
algo já bastante trabalhado, desenvolvido, aperfeiçoado ou sofisticado).
5) Sofisticar, refinar (também utilizado como substantivo). Uma teoria muito elabo­
rada.
6) Criar (também utilizado como substantivo). Elaborei uma campanha publicitária.
7) Um processo interno, psíquico, de "digestão" ou "assimilação" (pertence à lingua­
gem psicanalítica; também utilizado como substantivo). A viúva não pôde el.aborar o luto.
[Os exemplos de 4 a 6 foram adaptados ào NDA, 622.]

Conotações adicionais de
"elaborar" e "elaboração " não presentes em durcharbeiten

C) "Elaborar" pode ter a conotação de um repetido investimento de esforço e de


trabalho, contudo ligado à idéia de sofisticar ou aperfeiçoar (sentidos 4 e 5). Ao
"elaborar-se" algo consegue-se uma sofisticação obtida pelo trabalho repetidamente
aplicado sobre a tarefa: "uma teoria muito elaborada" conota simultaneamente que foi
repetidamente trabalhada, como também que houve alguma sofisticação, refere-se
Durcharbeitung 201

basicamente à qualidade do trabalho aplicado. No sentido 7 (digerir psíquicamente),


o qual não é da linguagem corrente, mas foi incorporado a esta pela disseminação do
jargão analítico, o termo "elaboração" remete a um trabalho mais refinado e mental­
racional de absorção e transformação de afetos. Também neste caso se destaca uma
qualidade de trabalho não implícita no termo alemão durcharbeiten.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: durcharbeiten português: elaborar


significados
1 estudar, examinar profundamente 1-
2 trabalhar sem interrupção 2-
3 superar dificuldades pelo trabalho 3-
4- 4 aperfeiçoar
5- 5 sofisticar, refinar
6- 6 criar
7- 7 assimilar
conotações
A embrenhar-se com esforço A­
B atravessar a tarefa inteira B-
C - C foco na qualidade do
trabalho (sofisticação)

A tradução leva neste caso a uma perda dos sentidos 1 , 2 e 3, bem como das
conotações A e B, que destacam o "iniciar e prosseguir com esforço através da tarefa
até o seu final". Ao traduzir-se durcharbeiten por "elaborar" contamina-se o termo com
os sentidos 4, 5 e 7, mais mentais-racionais e ligados à idéia de "absorção-assimilação".
Além disso, a conotação do termo em português evoca algo como um trabalho
repetidamente aplicado que vai sofisticando o objeto, enquanto durcharbeiten implica
a progressão dentro da tarefa.

-------- Exemplos de Uso em Freud ------- -

1 "Em torno deste núcleo encontramos o que é muitas vezes urna quantidade
incrivelmente grande de outro material mnêmico que tem de ser elaborado* (durchar·
heiten) na análise e que está, como dissemos, arranjado numa ordem tríplice."
A Psicoterapia da Histeria (1895) [ESB 2, 280]
* tem de ser tTabr;,/J,,aJo/enfr,m.tado.
4i
202 Elaboração

2 "( ... ) O conteúdo de cada camada caracteriza-se por um grau igual de resistência,
e esse grau aumenta na proporção em que as camadas se acham mais perto do núcleo.
Assim há zonas dentro das quais existe um grau idêntico de modificação da consciência,
e os diferentes temas estendem-se através dessas zonas."
A Psicoterapia da Histeria ( 1895) (ESB 2, 280-1]

"( ... ) Apenas uma única lembrança de cada vez consegue entrar na consciência do
ego. O paciente que esteja ocupado em elaborar1 (Durcharbeitung) tal lembrança nada
vê daquilo que está empurrando2 e se esquece do que já conseguiu entrar.�
A Psicoterapia da Histeria (1895) [ESB 2, 282]
• ocupado em enfrentar/tentar vencer.
2
pressionando no sentido de querendo aflorar.
3 no sentido de já ter conseguido chegar/aflorar ao consciente.

3 "Meu movimento com a faca significava "meu esforço de conquista" ("Durchar­


beiten ") em questão. ( ... ) Eis a explicação do simbolismo. Vez por outra, cabe a mim nas
refeições cortar um bolo e distribuir as porções. Realizo esta tarefa com uma faca longa
e flexível, o que exige algum cuidado. Em particular, levantar habilmente as fatias
depois de terem sido cortadas traz certas dificuldades; a faca deve s�r empurrada
cuidadosamente por debaixo da fatia (correspondente ao lento 'esforço de conquista'
( 'Durcharbeiten ') para chegar aos 'fundamentos')."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VI/D ( 1900) [ESB 5, 328]

4 "Deve-se dar ao paciente tempo para conhecer melhor esta resistência com a qual
acabou de se familiarizar, para elaborá-la* (durchzuarbeiten), para superá-la, pela continua­
ção, em desafio a ela, do trabalho analítico segundo a regra fundamental da análise."
Recordar, Repetir e Elaborar ( 1914) [ESB 1 2, 202]
* pará enfrentá-la (vencê-la).

5 "Esta elaboração * (Durcharbeiten) das resistências pode, na prática, revelar-se uma


tarefa árdua para o sujeito da análise e uma prova de paciência para o analista."
Recordar, Repetir e Elaborar ( 19 14) [ESB 12, 202]
* este trabalho (enfrentamento) sobre as resistências.
6 "A quarta variedade, que decorre do id, é a resistência que, como acabamos de
ver, necessita de 'elaboração'* (Durcharbeitens)."
Inibições, Sintomas e Ansiedade ( 1926) [ESB 20, 1 85]
* necessita ser trabalhada (vencida, enfrentada).
Durcharbeitung 203

--- - ---- ----- Comentários ------------

Conforme mencionado, durcharbeiten evoca um esforço prolongado despendido ao


percorrer-se uma tarefa do início ao fim.
Não se pode afirmar que se trate de um conceito psicanalítico propriamente dito,
mas geralmente Freud utiliza durcharbeiten quando se trata de "trabalhar" sobre os
sonhos ou materiais fornecidos pela análise, para designar o trabalho de "vencer"
determinadas resistências. Nos exemplos de 1 a 6, o termo é empregado em conexão
com o tema da resistência.

Trabalho penoso sobre as resistências

Ao descrever a atividade de enfrentamento das resistências Freud muitas vezes


refere-se ao durcharbeiten como um trabalho penoso e prolongado.
Nos diversos exemplos abaixo o verbo é utilizado nesta acepção.
No exemplo 1 trata-se de enfrentar (vencer) "uma quantidade incrivelmente grande
de material disposto em camadas de resistência".
No exemplo 3 são utilizados os termos "lentidão" e "dificuldades". No exemplo 4
Freud fala em dar tempo para o paciente se "aprofunéiar" e "superar"; e no exemplo 5
afirma que se trata de "tarefa árdua, prova de paciência". No exemplo 2 o paciente está
tão empenhado na tarefa de durcharbeiten, a qual exige todo o seu esforço, que não se
apercebe de materiais psíquicos que estão aflorando e chegando à consciência.
No conjunto destes exemplos durcharbeiten é descrito como um penoso progredir
rio emaranhado de resistências.
A atividade de durcharbeiten em geral pressupõe um ego consciente ( do paciente
e/ou do analista) que se aplica em cima de certa tarefa; eventualmente ambos, analista
e paciente se debruçam, cada um a partir de seu lugar, sobre a tarefa de vencer as
resistências ( exemplo 5).

Durcharheiten e outros tipos de "elaboração "

Freud emprega diferentes verbos compostos com arbeiten (trabalhar) para descrever
atividades psíquicas'diversas, entre outros, aufarbeiten, bearbeiten, durcharbeiten, mitarbei­
ten, umarbeiten e verarbeiten.
O verbo aufarbeiten geralmente refere-se à atividade consciente do paciente de
"colocar em dia" (.ou dar conta de) o material que vai aparecendo e se acumulando ao
longo do trabalho analítico, isto é, o material a ser revisto, comentado, elaborado etc.
Umarbeiten é utilizado no sentido de "remodelar-reformar". É empregado coloquial­
·mente em alemão para designar a idéia de dar novo formato a algo; usa-se, por exemplo,
204 Elaboração

para o trabalho de alfaiates sobre roupas velhas que são reformadas. No texto freudiano
algumas vezes aparece no sentido de trabalho de distorção realizado para dar outra
aparência ao conteúdo desagradável de sonhos. O verbo mitarbeiten (trabalhar junto,
colaborar) é mais utilizado nos escritos técnicos e se refere à colaboração ativa do
paciente.
Estes três verbos n ão são muito freqüentes. Maior presença e peso teórico possuem
os verbos bearbeiten (aplicar trabalho sobre determinado material) e verarbeiten (trans­
formar e absorver), os quais são tratados como verbetes separados neste livro (respec­
·tivamente nas páginas 190 e 205 ).
Frente à variedade de composições com arbeiten, a tradução indiferenciada de todo
tipo de atividade psíquica por "elaboração" acarreta uma perda de sentido que nem
sempre o contexto permite recuperar.
Durcharbeiten e "elaborar" são dois termos diversos. O verbo "elaborar", em
· português, acaba por introduzir uma dimensão de sentido ausente na palavra durchar­
beiten: refere-se a uma "qualidade de trabalho que melhora-refina o material" (elabore
melhor suas idéias), bem como a "possibilidade de assimilação" (elaborar o luto etc.).
O resultado da atividade de durcharbeiten pode vir a permitir uma "elaboração"
posterior devido aos efeitos resultantes. Uma vez vencidas as. resistências, pode-se abrir
caminho para um "elaborar" no sentido da palavra bearbeiten (atividade sobre um
material), ou também podem ocorrer desdobramentos inconscientes que levem a um
"elaborar" no sentido de "assimilar" (verarbeiten) e "transformar" (umarbeiten). Entre­
tanto, cada uma dessas atividades refere-se a um campo e materiais diversos.

� Elaboração (1 ) (Bearbeitung), Elaboração (3) (Verarbeitung)


Elaboração (3): Verarbeitung

E: Elaboración, procesamiento
F: Élaboration
I: Elaboration

O termo Verarbeitung geralmente é traduzido por "elaboração" ou "processo de


elaboração". Possui em alemão conotações diversas do português.
Verarbeiten significa: 1 ) assimilar, digerir, absorver; ou 2) transformar, processar.
Na linguagem utilizada na produção industrial, o verbo verarbeiten designa o
"processamento" da matéria-prima ( sua transformação em produto). Quando aplicado
a processos emocionais internos significa "processar internamente".
Em geral, Freud utiliza o termo em conexão com os processos de resolução do
excesso de estímulos gerados por acontecimentos potencialmente ameaçadores.

-------- - 0 Termo em Alemão ---------

Composição do termo

ver-: Prefixo que em geral designa as conseqüências de "ir muito adiante" (seja
prolongar-se temporalmente, seja progredir geograficamente). Além disso, indica
fenômenos bastante contíguos: "transformação", "fechamento", "extinção", "gasto",
"perda", "lapsos" etc. Também pode indicar a "intensificação de uma ação" (a ação se
mantém "indo adiante" e eventualmente em excesso), bem como apontar para uma
ação de "ir ou ser levado embora", "ir ou ser levado a outro lugar".
-arbeiten: Corresponde ao verbo "trabalhar".

Significados do verbo verarbeiten

1 ) Assimilar, absorver; tornar assimilável, lidar emocionalmente (também utili­


zado como substantivo). Preciso absorver (digerir, elaborar emocionalmente) esta triste
notícia.
2) Processari transformar, submeter a processo de transformação; utiliza-se, por
exemplo, para a transformação operada na fábrica (também utilizado como substanti­
vo). Transform� (processar) a matéria-prima (Produkte verarbeiten).
206 Elaboração

[No DW, 83, o comentário de introdução ao verbete menciona "consumir através


do trabalho", "modificar através do trabalho" e também "modificar através de liga­
ção/conexão ( Verbindung) com outros objetos".]

Conotações do verbo
verarbeiten e do substantivo Verarbeitung

A) Verarbeiten indica uma transformação que extingue a forma anterior do material.


Essa transformação pode acontecer por dissolução e absorção ou por alteração estrutural.
B) Pode referir-se à transformação ao nível interno do sujeito, algo que ocorre sobre
os materiais psíquicos, alimentares e orgânicos em geral; portanto, é um termo
empregado para "sentimentos e pensamentos", no sentido de "processar e digerir/ab­
sorver fatos e acontecimentos".
C) O substantivo Verarbeitung sugere que a ação se mantém por um período mais
prolongado; trata-se de um processo, não de algo momentâneo.

------ - Etimologia e Termos Correlatos - -


- - - --

Etimofugia

ver-: Vários prefixos se fundiram no moderno ver-. Da raiz indo-européia *per, cujo
significado era equivalente a "conduzir para fora passando por sobre", derivam-se três
formas ainda arcaicas pertencentes ao tronco indo-europeu: *perfil, *pr- e *pro-. No
gótico faír- (para fora),/aúr- (adiante,já passado) eJra- (embora, para adiante). Também
se encontra essa separação no grego (peri-, par- e pro-) e no latim (per; por- e pro-). Outros
prefixos ainda pertencem a este tronco, por exemplo, o latim prae- e sua forma
germanizada atual prã- ou ainda o g rego pára (ao longo, muito para adiante). No alemão
atual, encontram-se prefixos, advérbios e preposições derivados desta raiz indo-euro­
péia comum:für (por, para, no lugar de), vor ( adiante, diante de, desde) efort ( algo que
se foi, foi embora, ver o "Fort-Da" de Freud, ESB, vai. XVIII, p. 26-8) e fern (longe,
longínquo). Além disso, este prefixo *pre- evoluiu e deu origem a dezenas de palavras,
tais como Frau (mulher), .fremd (estranho, estrangeiro), first- (forma arcaica de "desta­
cado"), Frist (prazo ),fahren (ir, conduzir, guiar), Gefahr (perigo) etc. Devido aos limites
de espaço, não cabe aqui esclarecer mais detalhadamente; contudo, todos os casos
mencionados têm origem no conceito de "ir adiante" e freqüentemente de perder
contato com a origem.
Dificilmente se podem ligar os atuais sentidos do prefixo ver- com sua forma trinária
no gótico. Muitas vezes corresponde à forma gótica fra- (para longe, desaparecido,
embora), quando utilizado com verbos que designam: 1) "transformar-assimilar"
Verarbeitung 207

(verarbeiten); 2) "utilizar-gastar" (verbrauchen); 3) "estragar-apodrecer" (verderben); 4)


"desaparecer" (verschwinden).
Nestes quatro casos podem ser incluídos verbos que expressam "fechamento"
(verschlie}Jen), como "obstruir" (verbauen). Também verbos que expressam "desperdício de
tempo", tais como "perder a hora" (verschlafen), "perder wn compromisso" (versiiumen), e
verbos de "lapso ou para enganar o outro", tais como "perder-se" (sich verlaufen) e "seduzir"
(verführen). No texto freudiano, os verbos que designam lapsos geralmente possuem o
prefixo ver-. Também se liga a adjetivos, produzindo verbos que descrevem "causar um
efeito", "embelezar" (verschonern); quando se liga a substantivos (versklaven, verfilmen etc.)
designa "transformação". Também serve de prefixo a verbos que designam o ato de
"dotar", "prover", ou "providenciar" (versehen), "dourar" (vergolden), "embalar-encaixotar"
(verschachteln). Além disso, ver- entrou no lugar de outros prefixos, tais como er- e zer-.
-arbeiten: Supostamente do indo-europeu *orbho-s (criança órfã). O substantivo, no
gótico arbaips, no antigo alto-alemão ar{ajbeit e no médio alto-alemão ar{e}beit, deriva
supostamente de um antigo verbo germânico, cujo sentido era "ser criança órfã
obrigada a pesada atividade física" (a palavra "herdeiro", Erbe, pertence a este tronco).
Até o . início do novo alto-alemão o verbo arbeiten significava "esforço físico duro e
cansativo", "flagelo". A partir de Lutero o termo foi adquirindo um caráter mais
positivo e ético, perdendo o aspecto pejorativo de "atividade degradante e humilhan­
te". No gótico, o verbo tinha a forma arbaijan, no ., antigo alto-alemão ar[ajbeiten
(torturar-se, sofrer, estar em atividade cansativa) e no inédio alto-alemão ar{e}beiten. No
novo alto-alemão designa "atividade dirigida e útil" 'e "atividade profissional".

Termos correlatos, derivados e compostos

Neste caso, nada de relevante há a acrescentar.

----- Comparação com o Termo em Português -----

Significados adicionais de
"elaborar" e "elaboração " não presentes em verarbeiten e Verarbeitung

3) Aperfeiçoar, preparar gradualmente e com trabalho. Elabore ainda mais o texto


(trabalhe mais nele, desenvolva-o, aperfeiçoe-o). Trata-se de algo já muito elaborado (trata-se de
algo já bastante trabalhado, desenvolvido, aperfeiçoado ou sofz.sticado).
4) Sofisticar, refinar. Uma teoria muito elaborada.
5) Criar, formar, fabricar. Trabalho do espírito que conduz a uma idéia ou conceito.
Elaborei uma campánha publicitária. Elaborei um novo produto químico.
[Exemplos adaptados do NDA, 622.]
208 Elaboração

Conotações adicionais de
"elaborar" não presentes em verarbeiten e Verarbeitung

D) O verbo português "elaborar" também pode referir-se ao processo de "assimi­


lação" (por exemplo, "elaborar o luto"), mas trata-se de jargão psicanalítico estranho
ao uso coloquial. Em português, expressões como "elaborar o luto" ou "elaborar uma
triste notícia" evocam uma "atividade mais mental" de "reorganizar", "dispor de", "pôr
ordem". Fora do campo psicanalítico, a "elaboração" ao nível interno é um "trabalho
do espírito que conduz a uma idéia, a um conceito" (Aurélio), enquanto verarbeiten é
atividade mais "visceral", mesmo quando também desenvolvida mentalmente.
E) "Elaborar" permanece contíguo a "elevar-se a níveis superiores de sofisticação"
(sentidos 3 e 4), ao passo que verarbeiten permanece próximo do sentido de verdauen
(digerir, absorver). "Elaborar" refere-se basicamente à qualidade do trabalho aplicado.
Mesmo quando utilizado no sentido 3 (elaboração de matéria-prima) o termo remete
a ter um produto mais sofisticado (elaborado), enquanto a Verarbeitung enfatiza o fato
de ter ocorrido um processamento ou transformação. .

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: verarbeiten português: elaborar


significados
1 assimilar, lidar emocionalmente com 1 (no jargão psicanalítico pode ter um
sentido semelhante ao do alemão)
2 transformar 2 (no processo fabril pode significar
"transformar"/"processar")
3 - 3 aperfeiçoar
4 - 4 sofisticar
5 - 5 criar
conotações
A extingue forma anterior A­
B digerir fatos e acontecimentos B­
C foco na duração de um processo C-
D- D trabalhar e sofisticar mentalmente
E- E foco na qualidade do trabalho

Ao traduzir-se verarbeiten por "elaborar" perdem-se dois aspectos: a perspectiva de


"digestão visceral" e de "profunda transformação operada sobre o material"; além
disso, há no termo alemão uma ênfase na prolongada duração do processo. Em
português, fora do âmbito analítico, o termo se liga a aspectos mais mentais e
qualitativos (conotações D e E).
Verarbeitung 209

-------- Exemplos de Uso em Freud --------

1 "A propósito, um mecanismo psíquico sadio tem outros métodos de lidar 1 com
o afeto de um trauma psíquico, mesmo que lhe sejam negadas a reação motora e a
reação por palavras - a saber, elaborando-o ( Verarbeitung) associativamente e produ­
zindo idéias constrastantes.'2 Mesmo que a pessoa insultada não retribua o golpe, nem
retruque com uma grosseria; ela pode ainda assim reduzir o afeto ligado ao insulto pela
evocação de idéias contrastantes, tais como a de seu valor pessoal, da indignidade de
seu inimigo, e assim por diante. Quer um homem.sadio lide com o insulto àe um modo
ou de outro, ele sempre consegue chegar ao resultado de que o afeto originalmente
intenso em sua memória acabe perdendo a intensidade, e finalmente, tendo perdido
seu afeto, a lembrança caia vítima do esquecimento e do processo de desgaste."
"Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos
Histéricos: Uma Conferência" (1893) [ESB 3, 45]
1 outros métodos de "liquidar"/"dar resolução".
2 associativamente pela "liquidação"/"resolução" através de idéias contrastantes.

2 "A neurastenia surge sempre que a descarga adequada (a ação adequada) é


substituída por uma menos adequada - por exemplo, quando o coito normal,
praticado nas condições mais favoráveis, é substituído pela masturbação ou pela
emissão espontânea. A neurose de angústia, por outro lado, é o produto de todos
os fatores que impedem a excitação sexual somática ser psíquicamente elaborada
( Verarbeitung)."
"Sobre os Fundamentos para Destacar da Neurastenia uma Síndrome
Específica Denominada 'Neurose deAngústia'" ( 1894-5) [ESB 3, 107]

3 "Sua elaboração (Bearbeitung)* na mente auxilia de forma marcante um escoa­


mento das excitações que são incapazes de descarga direta para fora, ou para as quais
tal descarga é no momento indesejável. No primeiro caso, contudo, é indiferente que
esse processo interno de elaboração (Verarbeitung) seja efetuado em objetos reais ou
imaginários. A diferença não surge senão depois - caso a transferência da libido para
objetos irreais (introversão) tenha ocasionado seu represamento. Nos parafrênicos, a
megalomania pennite uma semelhante elaboração ( Verarbeitung) interna da libido que
voltou ao ego."
"Sobre o Narcisismo: Uma Introdução" ( 1914) [ESB 14, 102]
* Bearbeitung designa genericamente qualquer atividade , de trabalho praticada sobre um
objeto, ou seja, trata-se do verbo "trabalhar" utilizado de forma transitiva.
210 Elaboração

4 "Não é que sua nova compreensão ficasse sem efeito extraordinariamente


poderoso, pois tomou-se um motivo para manter todo o processo do sonho sob
repressão e para excluí-lo de uma elaboração (Verarbeitung) posterior na consciência."
História de uma Neurose Infantil ( 1 9 1 4-8) [ESB 1 7, 1 0 1 ]

5 "Sob o domínio do sistema inconsciente, esse material havia sido trabalhado


( Verarbeitung) (pela condensação e pelo deslocamento) segundo uma forma que é
desconhecida ou apenas excepcionalmente permissível na vida normal - isto é, no
sistema pré-consciente."
Conferências Introdutórias sobre Psicanálise:
Conferência 19: "Resistência e Depressão" ( 1 9 15-7) [ESB 16, 349-50]

6 "Assim ficamos em dúvida quanto a saber se o impulso para elaborar (verarbeiten)


na mente alguma experiência de dominação, de modo a tomar-se senhor dela, pode
encontrar expressão como evento primário e independentemente do princípio de
prazer."
Além do Princípio do Prazer ( 1 920) [ESB 1 8, 28]
l?.etraduzindo o trecho todo: Assim, fica-se em dúvida se o impulso de elaborar (verarbeiten)
psíquicamente uma experiência que tenha sido impressionante, de adquirir domínio sobre ela,
pode se expressar de forma primária e independente do princípio de prazer.

7 "Estas considerações tomam possível encarar o medo da morte, tal qual o medo
da consciência,* como um desenvolvimento ( Verarbeitung) do medo de castração."
O Ego e o Id ( 1 923) [ESB 1 9, 75-6]
* Refere-se à consciência moral, ao sentimento de culpa.
8 "Constitui ainda um fato inegável que na abstinência sexual, na interferência
imprópria no curso da excitação sexual, ou se esta for desviada de ser elaborada
(Verarbeitung) psíquicamente, a ansiedade surge diretamente da libido; em outras
palavras, que o ego fica reduzido a um estado de desamparo em face de uma tensão
excessiva devida à necessidade,* corno ocorreu na situação do nascimento, e que a
ansiedade é então gerada."
Inibições, Sintomas e Ansiedade ( 1926) [ESB 20, 165]
* Refere-se às necessidades imediatas, como alimento, calor etc.
9 "Quanto mais a geração de ansiedade pode limitar-se a um mero sinal, tanto mais
o ego gasta em ações defensivas que importam1 em vincular2 (Bindung) psíquicamente
o impulso reprimido e tanto mais o processo se aproxima de uma superelaboração
norrnal3 (normalen Verarbeitung), embora, por certo, sem alcançá-la."
Verarbeitung 211

Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise;


Conferência 32: "Ansiedade e Vida.lnstintual" ( 1 933) [ESB 22, 1 14]
I Em vez de "que importam em", "se assemelham a".
2 vincular
no sentido de ligar "fixando".
3 Em vez de "superelaboração", "elaboração normal".

"Em alguns casos, o impulso instintual reprimido pode conservar sua catexia
libidinal e pode persistir inalterado no id, embora sujeito a constante pressão do ego.
Em outros casos, parece suceder que ele é totalmente destruído, enquanto sua libido é
desviada, permanentemente, por outras vias. Expressei meu ponto de vista de que é
isto que ocorre quando o complexo de Édipo é manejado normalmente - um caso como
é de se desejar, portanto não sendo simplesmente reprimido mas destruído no id."
Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise;
Conferência 32: "Ansiedade e Vida Instintual" (1933) [ESB 22, 1 16]

------------ Comentários ------------

Conforme mencionado, coloquialmente o termo Verarbeitung designa um processo


de "transformação" (decompondo, dissolvendo, rearranjando) ou de "assimilação"
(física ou psíquica). Tanto na linguagem coloquial como na industrial, o termo evoca
conotativamente a idéia de "processamento-transformação-desaparecimento".
Freud geralmente liga a Verarbeitung a um processo sadio de lidar (processar) com
um acúmulo de estímulos. É antiga a idéia, em Freud, de que o excesso de Reize é vivido
pelo sujeito como algo avassalador que o leva a um estado de desamparo (Hilflosigkeit).
Lidar com estímulos, tentando conseguir sua descarga, é algo que se impõe para evitar
um estado de desamparo (Hilflosigkeit). O termo Hilflósigkeit é carregado de intensida­
de, expressa um estado próximo do desespero e do trauma. Esse estado é semelhante
àquele vivido pelo bebê, ó qual após o nascimento é incapaz pelas próprias forças de
remover o excesso de excitação pela via da satisfação, sucumbindo à Angst (medo,
evemualmente ansiedade, ou angústia). Mesmo tendo, em 1926, reformulado sua teoria
sobre a Angrt, Freud mantém a idéia de que o sujeito exposto ao excesso de excitação
vive uma situação 'de desamparo, necessitando lidar (bewiiltigen) com o turbilhão de
estíinulos que o acometem.
Trata-se de dar conta de afetos ou de libido que incomodam ou ameaçam o ego. Uma
resolução "saudável" para eliminar tais excessos de estúnulos é a "descarga"; contudo, quando
esta não é possível por vias motoras ou verbais, é pela "elaboração associativa" (assoziative
Verarbeitung) qtie os estímulos acumulados podem ser assimilados ou transformados. É neste
sentido que Freud define o que entende por Verarbeitung no exemplo 1, de 1893.
212 Elaboração

Quarenta anos mais tarde, em 1933, tendo reformulado profundamente diversos


pressupostos psicanalíticos (teoria pulsional, a tópica, a teoria da angústia etc.), Freud
ainda continua a utilizar o termo nesta acepção (exemplo 9). Também nos exemplos
2 (de 1 894), 3 (de 1 920) e 8 (de 1 926), Freud, em contextos diferentes, designa por
Verarbeitung a liquidação interna do acúmulo de libido ou de excitações cuja descarga
externa é inviável.
Para além da vivência de nascimento, entre as várias causas de tal acúmulo
podem-se contar as experiências avassaladoras ou traumáticas que ocorrem ao longo
· da vida. Essas experiências têm de ser integradas/elaboradas. No exemplo 6, trata-se
de dar conta de uma experiência impressionante para o sujeito, no exemplo 7, é o medo
de castração que é elaborado e se transforma em medo perante a morte ou medo da
consciência moral. No exemplo 4, o termo é utilizado designando a atividade de
integração ria esfera consciente de material recalcado. A Verarbeitung é um importante
recurso para a integração de experiências avassaladoras, bem como para a tentativa de
dominação (Bewaltigung) das excitações excessivas.
Ocasionalmente o termo é empregado por Freud de forma "frouxa", sem se distinguir
como atividade específica de liquidação de estímulos e afetos incômodos. Esse é o caso
do exemplo 5, onde Freud, referindo-se à atividade de processar o material psíquico com
vista a viabilizá-lo para a representação no sonho, descreve o deslocamento e a condensação
como uma "elaboração" (verarbeitung). Todavia, de modo geral, enquanto atividade
psíquica, a "elaboração" (verarbeitung) é empregada para designar um trabalho de p,roces­
samento, transformação e integração (absorção) dos estímulos na psique.

Verarbeiten e outros tipos de "elaboração "

Freud emprega, além de verarbeiten, diferentes verbos compostos com arbeiten


("trabalhar") para descrever atividades psíquicas diversas, como, entre outros, aufar­
beiten, bearbeiten, durcharbeiten, mitarbeiten, umarbeiten e verarbeiten.
O verbo aufarbeiten geralmente refere-se à atividade consciente do paciente de "colocar
em dia" (ou "dar conta de") o material que vai aparecendo e se acumulando ao longo do
trabalho analítico, isto é, o material a ser revisto, comentado, elaborado etc. Umarbeiten é
utilizado no sentido de "remodelar-reformar". É empregado coloquialmente em alemão
para designar a idéia de dar novo formato a algo; usa-se, por exemplo, para o trabalho de
alfaiates sobre roupas velhas que são reformadas. No texto freudiano, algumas vezes
aparece no sentido de trabalho de distorção realizado para dar outra aparência ao
conteúdo desagradável de sonhos. O verbo mitarbeiten ("trabalhar junto", "colaborar") é
mais utilizado nos escritos técnicos e se refere à colaboração ativa do paciente.
Estes três verbos não são muito freqüentes. Maior presença e peso teórico possuem
os verbos bearbeiten ("aplicar trabalho sobre determinado material") e durcharbeiten
Verarbeitung 213

("trabalhar do início ao fim sem interrupção") os quais são tratados como verbetes
separados neste livro (respectivamente nas páginas 190 e 198).
Frente à variedade de composições com arbeiten, a tradução indiferenciada de todo
tipo de atividade psíquica por "elaboração" resulta numa perda de sentido que nem
sempre o contexto permite recuperar.

� Dominar (Bewiiltigen), Elaboração (1) (Bearbeitung), Elaboração (2) (Durcharbeitung),


Descarga (Abfuhr)
Escolha de objeto por apoio ( tipo de); Escolha ana­
clítica de objeto (tipo de): Anlehnungstypus der
Objektwahl

E : Elección de objeto por apuntalamiento; Elección de objeto anaclítica; de apoyo


F: Choix d 'objet par étayage
1: Anaclitic object choice

Anlehnungstypus der Objektwahl é traduzido habitualmente de duas formas: por


"tipo de escolha anaclítica" Qu por "tipo de escolha por apoio". Isoladamente o
termo Anlehnung tem sido traduzido de forma variada, conforme o contexto de cada
frase.
Em alemão, o verbo sich �nlehnen an (apoiar-se em) pode ter dois significados:
1 ) "encostar-se", "apoiar-se"; usado em sentido concreto, indicando o gesto físico;
ou 2) "tomar como modelo"; "imitar", sendo empregado em sentido mais figurado.
Em ambos os sentidos remete ao aproveitamento de um suporte anterior.
Freud geralmente emprega o termo em conexão com a escolha objetal.

--------- 0 Termo em Alemão ---------

Composição do termo

an-: Corresponde às preposições "a" ou "sobre", qu3:11do usadas para designar


localização espacial. "Estou sentado à (a + a) mesa", "Apoiou-se à (a + a) janela". Como
prefixo promove múltiplos efeitos, indica a aproximação de uma meta, bem como uma
ação em direção a alguma coisa ou a alguém. Também pode apontar para o contato,
para uma ligação ou para uma fixação de dois elementos.
lehn-: O mesmo radical da palavra Lehne, a qual significa "espaldar", "braço de um
móvel", "encosto" (referindo-se a poltronas, sofás, cadeiras etc.).
-ung(s): Sufixo de substantivação que corresponde aproximadamente a "-ção" em
português.
-typus: Palavra de origem latina que designa "categoria" ou "tipo".
[Observação: Discorrerem.os apenas sobre a palavra Anlehnung, pois o termo typus
não oferece maiores dificuldades de tradução.]
Anlehnungstypus der Objektwahl 215

Significados do verbo
anlehnen e do substantivo Anlehnung

1 ) Apoiar-se/recostar-se fisicamente em algo (espaldar, corrimão etc.). Apoiou-se no


corrimão e ficou observando a esposa.
2) Apoiar-se no sentido de imitar, orientar-se por (também utilizado como substan­
tivo). Apoiamo-nos no modelo japonês de administração.
3) Encostar. Encostar a porta. Encostou o ouvido aopeito dei.e e ouviu como batiaforte seu coração.

Conotações do verbo
anlehnen e do substantivo Anlehnung

A) O verbo sich anl.ehnen an significa "recostar-se em algo". Tanto o verbo quanto o


substantivo Anl,ehnung implicam o aproveitamento de um suporte/encosto que já existe.
No sentido concreto tal suporte/encosto é entendido como "suporte físico", em sentido
figurado, como "modelo". Evoca a idéia de contato ou ligação física entre dois elementos.

------- Etimologia e Termos Correlatos -------

Etimologi,a

an-: Derivado da raiz indo-européia *an-. (a algo, em direção a algo, ao longo de).
No grego aparece sob a forma aná, no gótico ana, no antigo alto-alemão an[a] e n o
médio alto-alemão an[e]. Ao ligar-se a verbos, geralmente indica a localização espacial
de determinada ação; quando usado em sentido figurado, indica uma relação.
-l,ehnen: Da raiz indo-européia *Kl.ei- (curvar-se, tender, compor), deu origem a diferen­
tes verbos que se fundiram, no novo alto-alemão, em l.ehnen (estar apoiado em ou colocar
algo contra um corpo). Encontra-se esta raiz também· em termos aparentados em outros
idiomas, como no inglês, to l,ean, ou no grego, klinein (que mais tarde, reintroduzido no
alemão, resulta em múltiplas palavras: Klima (clima), deklinieren (declinar) etc.).

Termos correlatos, derivados e compostos

sich auflehnen: opor-se ( originalmente apoiar-se em algo para opor-se a outrem);


Arml,ehne: braço de um móvel (braço de encosto); Lehnstuhl: poltrona, cadeira de braços
( cadeira de encosto).
Nos exemplos acima o radical lehn- aponta para o significado de · "apoio físico"
.· (sentido concreto).
216 Escolha de oqjeto

----- Comparaç�o com o Termo em Português - ----

Anlehnungstypus der Objektwahl é traduzido habitualmente de duas formas: por "tipo


de escolha anaclítica" ou por" "tipo de escolha por apoio". O termo "anaclítico", do
grego, soa bastante técnico e é desconhecido na linguagem coloquial; por isso, o termo
alemão será contrastado com a palavra "apoio".

· Significados adicionais de
"apoio " e "apoiar" não presentes em anlehnen e Anlehnung

4) Descarregar peso sobre algo ( também utilizado como substantivo). Apoiou-se sobre
as muletas e caminhou.
5) Ajudar (também utilizado como substantivo). Apoiarfinanceiramente.
6) Dar incentivo, solidar_iedade (também utilizado como substantivo). Nesta hora
difícil tenho recebido apoio de tódos.

Conotações adicionais de
"apoiar" e "apoio " não presentes em anlehnen e Anlehnlung

B) "Apoio" na acepção física (sentido 4) evoca a idéia de "apoiar-se" de modo que


se possa descarregar sobre outrem, ou sobre algo, um peso sentido como excessivo.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Anlehnung!anlehnen português: "apoio"/"apoiar"


significados
1 apoio físico/recostar-se 1-
2 apoio como imitação, tomar . 2 (pouco usual em português)
como modelo
3 encostar, tocar 3 encostar, tocar
4 - 4 apoio físico/ descarregar peso
5 5 apoio como ajuda
6 - 6 apoio como solidariedade
conotações
A aproveitamento de algo existente A (não é uma conotação freqüente)
B - B descarregar peso excessivo

Em português tende-se a compreender o termo "apoio" no sentido 4 (apoiar-se


soltando o peso verticalmente). A diferença em relação ao sentido 1 (apoiar-se recos-
Anlehnungstypus der Objektwahl 217

tando o peso horizontalmente) é bastante sutil para não causar problemas de entendi­
mento, mas há diferenças conotativas. Conotativamente, o termo alemão evoca o
aproveitamento de um suporte ou encosto preexistente. O termo psicanalítico compos­
to Anlehnungstypus der Objektwahl significa "tipo de escolha objetal apoiado em" e
refere-se ora ao sentido 1 , ora ao sentido 2. O sentido 2 é pouco usual em português,
mas no contexto da frase geralmente torna-se compreensível.
Os sentidos 5 e 6 são estranhos ao contexto analítico e dificilmente causam
mal-entendidos.

-------- Exemplos de Uso em Freud --------

1 "O encontro do objeto é, na verdade, um reencontro." [Nota acrescentada por


Freud em 1 9 15: A psicanálise ensina que há dois caminhos para o encontro do objeto;
o primeiro, mencionado no texto, dá-se por apoio (Anl.ehnung) em. modelos infantis
primitivos, e o segundo, o narcísico, busca o ego do próprio sujeito e vai reencontrá-lo
em outrem.]
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1 905) [ESB 7, 209]

2 "Combinam-se [as tendências homossexuais]agora com partes dos instintos do


ego e, como componentes "ligados"* (angelehnte), ajudam a constituir os instintos
sociais, contribuindo assim como um fator erótico para a amizade e a camaradagem,
para o l 'esprit de corps e o amor à humanidade em geral."
"Notas Psicanalíticas sobre um Relato Autobiográfico
de um Caso de Paranóia (dementia paranoides)" ( 1 9 1 1 ) [ESB 12, p. 84]
* Aqui não se trata de "ligados" (,gebunden, "atados"," fixados"), mas de angelehnt, no sentido
de "apoiados sobre", ou "recostados sobre"; portanto, de algo. mais solto e provisório do que
uma Bindung ("ligação que ata ou fixa").

3 "As primeiras satisfações sexuais auto-eróticas são experimentadas em relação


com funções vitais que servem à finalidade de autopreservação. Os instintos sexuais
estão, de início, ligados 1 (lehnen sich an) à satisfação dos instintos do ego; somente
depois é que eles se tornam independentes destes, e mesmo então encontramos uma
indicação dessa vinculação origina12 (Anlehnung) no fato de que os primeiros objetos
sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com sua alimentação,
cuidados e proteção: isto é, no primeiro caso a mãe ou quem quer que a substitua.
Lado a lado, contudo, com esse tipo e fonte de escolha objetal que pode ser
denominado o tipo 'anaclítico' (Anlehnungstypus), ou de 'ligação' (Anlehnungstypus),
a pesquisa da psicanálise revelou um segundo tipo, que não estávamos preparados
para encontrar."
�,
,.,
218 Escolha de oqjeto

" Sobre o Narcisismo: Uma Introdução" ( 1 9 14) [ESB 14, 1034]


1
de início "apóiam-se" na experiência de satisfação- dos instintos do ego.
2
"vinculação original" é usada no sentido de "apoiar-se em um modelo originalmente
experimentado".

4 "Logo qu� surgem, estão ligados 1 (lehnen an) aos instintos de autopreservação,
dos quais só gradativamente se separam; também na sua escolha2 objetal, seguem os
caminhos indicados pelos instintos do ego."
"Os Instintos e suas Vicissitudes" ( 1 9 15) [ESB 14, 1 45-6]
1 Aqui não se trata de "ligados" (,gebunden, "atados", "fixados"), mas de angelehnt, no sentido
de "apoiados sobre", ou "recostados sobre"; portanto, de algo mais solto e provisório do que
uma Bindung (ligação).
2 Aqui o texto não fala em
"escolha": "também na procura pelo objeto".
Retraduzindo todo o trecho: Em sua primeira ap�ição se apóiam inicialmente sobre as pulsões
de autopreservação, das quais elas somente se desligam aos pouco; e também na procura de
objeto, seguem os caminheis indicados pelas pulsões do Eu.

5 "Aceitando 1 (ln Anl,ehnung an) uma palavra empregada por Nietzsche e acolhendo
uma sugestão de George Groddeck [ 1923], de ora em diante chamá-lo-emos de 'id'.
Esse pronome impessoal parece especialmente bem talhado para expressar a principal
característica dessa região da mente - o fato de ser alheia2 ao ego."
Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise;
Conferência 3 1 : "A Dissecção da Personalidade Psíquica" ( 1932-3) [ESB 22, 92]
I
apoiando-me sobre (no sentido de " tomando como modelo") o emprego que Nietzsche
dava a esta palavra ( ... ).
2
Fremd significa "alheio" no sentido de ser estranho, estrangeiro, esquisito; trata-se de um
termo que reúne simultaneamente as noções de "alteridade" e "estranhamento".

-------- ---- Comentários ----�-- - ----

Em geral, Freud utiliza o substantivo Anlehnung e o verbo sich anlehnen em


conexão com o processo de escolha objetal. Os termos aparecem tanto isoladamente
corno na forma composta Anlehnungstypus der Objektwahl, cujo significado aproxima­
do é "tipo de escolha objetal apoiada em". Pode ser entendido numa acepção mais
física e concreta de "apoiar-se" (encostar-se), ou no sentido figurado de "apoiar-se
num modelo". Em ambos os casos . refere-se ao aproveitamento de um suporte
preexistente.
Anlehnungstypus der Objekrwahl 219

Rota que conduz ao objeto

Freud freqüentemente descreve a "escolha de objeto" de maneira bastante plástica,


como um processo de tentar "encontrar/achar" (finden) a rota que conduz a um objeto.
Nesse processo de procura, as pulsões sexuais inicialmente percorrem a mesma trilha
das pulsões de autopreserv:ação, apoiando-se nestas (por assim dizer, "encostando-se"
ou "apoiando-se" nas pulsõ�s de autopreservação ).
Essa imagem de "procura ativa por um oqjeto" reaparece em vários artigos. No
exemplo 1, retirado do texto Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ( 1 905), Freud
utiliza o termo Objektfindung (não se trata de "escolha", mas do ato de "encontrar" ou
"achar" o objeto) e menciona que há dois "caminhos" que conduzem ao objeto. A
mesma figura de uma interligação que conduz do sujeito ao objeto aparece no texto
"Sobre o Narcisismo: Uma Introdução", de 1 9 1 4 (E5Bl4, 92 ESB), onde Freud emprega
a imagem de pseudópodos amebóides os quais o ego estenderia à procura de objetos.
No exemplo 4, também é mencionada a imagem de "caminhos" que são apontados
pelas pulsões de autopreservação em direção ao objeto. Em todas essas formulações
evoca-se a procura por um "percurso" ou por um "caminho" que possa conduzir a
pulsão do sujeito até o objeto.

Encostar-se em, recostar-se sobre

A Anlehnung designa um encostar-se (amalgamar-se provisoriamente) nas pulsões


de autopreservação para percorrer com estas as rotas já abertas pelas pulsões do Eu.
Este é o sentido do exemplo 4, onde Freud diz que "Em sua primeira aparição se apóiam
inicialmente sobre as pulsões de autopreservação, das quais elas somente se desligam
aos poucos; e também na procura de objeto, seguem os caminhos indicados pelas
pulsões do Eu".
No exemplo 2, o termo também é empregado de forma bastante concreta e física,
no sentido de recostar-se a um suporte. Referindo-se aos desejos homossexuais, Freud
descreve que estes se apóiam rias pulsões do ego para constituir "as pulsões sociais de
camaradagem e amor à,,humanidade".

Apoiar-se em modelo

Em outros momentos, Anl,ehnung é utilizado de forma menos física, seu uso é


, figurativo, referindo-se a tomar um modelo por empréstimo ou a utilizar um modelo
preexistente.
No exemplo 3, trata-se de apoiar-se em experiências (vivências) de satisfação
anteriores. No ex�mplo 1, é também em sentido abstrato que o termo é empregado:
'Freud fala em "apoiar-se em modelos infantis". O mesmo vale para o exemplo 5, onde
220 Escolha de oijeto

o termo é empregado em outro contexto: Freud menciona o fato de apoiar-se sobre o


uso nietzschiano da palavra das Es.
Conotativamente, em todos estes empregos, permanece sempre a idéia de utilizar
um suporte preexistente (em geral que conduz do sujeito ao objeto) e de apoiar-se nele,
seja tal suporte um "veículo" para percorrer uma rota antes estabelecida, seja um
modelo de funcionamento anteriormente experimentado.

---+ Ligação (Bindung). Transferência ( Übertragung)


Estímulo, Excitação: Reiz

E: Excitación, estímulo
F: Excitation, attrait, stimulus
1: Stimulus ou excitation

Reiz é habitualmente traduzido por "estímulo" ou "excitação". Ambas as tradu­


ções estão corretas, mas há particularidades no termo alemão que se perdem na
tradução.
Geralmente utilizado em conexão com sensações corporais, o substantivo Reiz e o
verbo reizen se referem a um "estímulo" que, por falta de termo melhor, poderia ser
descrito como de natureza "irritativa"; trata-se de algo que "espicaça", "incita", "provo­
ca" e "aguilhoa". O termo é utilizado em relação com inúmeros conceitos-chaves
psicanalíticos, notadamente "pulsão" (Trieb) e "prazer" (Lust).

--------- 0 Termo em Alemão ---------

Composição do termo

Termo simples.

Significados do substantivo Reiz e do verbo reizen

1) Estímulo externo, aquilo que produz uma sensação, aquilo que desencadeia algo,
ato de excitar ( também utilizado como verbo). A excitação das células com uma corrente
elétrica foi na época um experimento revolucionário.
2) Sensação causada pelo estímulo, sensação de excitação não-sexual (também
utilizado como verbo). Sinto que uma ardência (irritação/coceira) na garganta me provor;a
esta tosse.
3) Efeito agradável, encanto, charme (também utilizado como verbo). Este conto
tem um charme/encanto indescritível. O charme/encantofeminino é irresistível. V':fa o encanto
desta região.
4) Comichão, atração, tentação (também utilizado como verbo). Sinto atração por
esta mulher. Ver estasfotos me tenta a viajar.
5) Verbo irritar, excitar (não tem o sentido de provocar excitação sexual). Ele está
muito irritado, mas fica calado.
· .P •

'
!.J,·-;.

222, Estímulo, Excitação

Conotações do substantivo Reiz e do verbo reizen

A) Por falta de um adjetivo melhor, pode-se designar o Reiz como um estímulo de


caráter "irritativo". Algo que, por assim dizer, se atrita com os nervos e os eriça, é quase um
processo de "inflamação alérgica". (Aliás, em alemão se designava um "ataque de tosse .. .
irritativa" por Reizhusten.) A própria etimologia (ver abaixo) remete a "lacerar", "riscar",
"friccionar". Utilizado no particípio passado (gereizt), o verbo reizen signifiça-"irntado".
B) Reiz designa tanto o estímulo que chega e "produz · um efeito excitatório
irritátivo" (sentido 1 ), quanto a sensação interna de "sentir uma excitação irritativa"
(sentido 2). A sensação é evocada no momento em que ocorre no nascedouro, no
instante em que o estímulo entra em contatei físico com os nervos. Trata-se de algo que,
imaginado ao nível físico-celular, designaria o momento exato de interface entre a
"chegada do estímulo" e o "sentir".
C) A palavraReiz pode significar "charme", "encanto" (sentido 3), superpondo-se com
a palavra Zauber (encanto, magia). Entretanto, em geral Reiz remete a um "charme" que
excita "provocando", "atiçando", "incitando", tal qual um tempero. Não é algo que "hipnotiza" e
"captura". Em português, "encanto" e "charme" evocam a idéia de algo que "agrada".
"Encantar" pode ser "hipnotizar magicamente" através de um "encantamento" (de fadas,
bruxas etc.). Cha:rrrze, em francês, tem a mesma origem da palavra portuguesa "encanto":
provém do latim carmem (canto, música, poesia, fórmula mágica de encantamento).

----- -- Etimologia e Termos Correlatos -------

Etimologia

O verbo reiz.en é derivado da raiz indo-européia *y,er- (rasgar, ranhurar). Trata-se


de uma,derivação do verbo reijJen, cujo significado original era "fazer um risco-arra­
nhão-ranhura", relacionando-se com "escrever" ou "desenhar". Hoje reij)en significa
"rasgar", "separar violentamente". Desde o século XVI, o particípio de reij3en (riss)
significa "esboço", "projeto" (AbriJJ der Psychoanalyse - "Projeto para uma Psicanálise").
Dessa época também data o sentido de hinrejJiend ["arrebatador" "sedutor" "atraente", cuja
composição é de hin + reijlen, algo que me "rasga" (reij3en) de onde estou e me leva para
além (hin)]. O termo einreiJJen ("destruir", "demolir"), indica algo muito intrusivo. Reiz na
sua forma própria, já diferenciado de reij3en, no antigo alto-alemão tem a forma reizzen
(movimentar, impulsionar, agulhar, atrair, ativar, excitar e chatear-irritar). Desde o século
XVII, o particípio presente reizend é usado no sentido de "sedutor", "gracioso". Também
reizbar aparece com o sentido de "facilmente irritável", "colérico". No século XVIII, Reiz é
usado tanto no sentido de "intervenção ou efeito no organismo" como na acepção de
"efeito atraente", "efeito sedutor", "efeito encantador".
Reiz 223

Termos correlatos, derivados e compostos

reizbar. excitável, irritável; Reizblase: bexiga propensa a ficar inflamada devido a


problemas hormonal-nervosos; reizend: encantador;
reizlos: insípido (los = sem; Reiz = estímulo, encanto); reizvoll: encantador (voll = cheio;
Reiz = encanto); Reizgas: gás lacrimogêneo (gas = gás; Reiz = irritativo; utilizado para
dissipar protestos de rua); Reizhusten: tosse irritativa_
Nestes exemplos, Reiz é utilizado nos dois sentidos: "excitar-irritar" e "excitar­
atrair". Tanto no sentido de algo incômodo quanto no sentido de encanto permanece
o caráter de algo que atiça.

----- Comparação com o Termo em Português -----

Significados adicionais de "estímulo ",


"estimular", "excitação" e "excitar" não presentes em Reiz e reizen

6) (estímulo) Ânimo, força, motivação ou apoio (também utilizado como verbo).


Recebeu um estímulo p�ra prosseguir nas pesquisas. o; elogios serviram-lhe de estímulo.
Sentiu-se estimulado a continuar trabalhando ainda mais intensamente.
7) (excitação) Estado de estar exaltado, eriçado, colocar o sentimento para fora
· (também utilizado como verbo). Sua excitação (euforia) era tanta que chegava ao exagero.
Estava excitado (irritado) com esta história, ficava vermelho de cólera e só esbrave­
java.
8) (excitação) Estado de grande interesse erótico, exaltação erótica (também
utilizado como verbo). Ficou excitado ao ver aquela boca senst1,al e tão belas pernas.

Conotações adicionais de
"estímulo " e "excitação " não presentes em Reiz e reizen

D) Em português, "estímulo" no sentido 6 possui a conotação de algo positivo e


agradável, tonificante.
E) Em português, "excitação" no sentido 7 (pessoa irritada/excitada/exaltada) e
no sentido 8 (pessoa "excitada sexualmente", "eroticamente agitada") enfoca a
"exteriorização" (desde um inchaço até uma explosão). Um "estado de estar exalta­
do" pode ocorrer devido à irritação ou ao prazer. Em alemão, essa exteriorização
não está tão assodada ao termo: ficar gereizt pode ser um estado interno que não é
exteriorizado.
'
t.;

224 Estímulo, Excitação

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Reiz português: excitação/ estímulo


significados
1 elemento externo que espicaça 1 tanto excitação quanto estímulo designam
elemento externo que espicaça
2 sensação causada pela estimulação 2 excitação também tem o sentido de sensação
causada pela estimulação
3 charme 3-
4 tentação 4-
5 irritação 5-
6- 6 (estímulo) força, apoio, motivação
7- 7 (excitação) estado de estar exaltado
( externalizar)
8- 8 estado de estar excitado sexualmente
conotações
A caráter irritativo A­
B interface e friccionar B­
e provocar C-
D- D (estímulo) algo tonificante
E- E (excitação) foco na exteriorização

A palavra "excitação" não ressalta o caráter de intrusão irritativa (sentidos '} e 5 e


conotações A e B) e o aspecto mobilizador (sentido 2 e conotação B) presentes na
palavra Reiz. Além disto pode-se contaminar o termo com os sentidos 7 e 8, que evocam
certa exaitação/exteriorização (tal qual o intumescimento de uma célula nervosa). Os
sentidos 7 e 8 correspondem aproximadamente à palavra alemã Erregung, também
empregada com freqüência por Freud.
A palavra portuguesa "estímulo" também não remete ao sentido irritativo e à
conseqüente sensação interna de sofrer uma estimulação irritativa.

- - ----- Exemplos de Uso em Freud

1 "As causas precipitadoras da dor são, por um lado, o aumento da quantidade:


toda excitação (Erregung) sensorial, mesmo a dos órgãos superiores dos sentidos, tende
a se transformar em dor à medida que o estímulo (Reizes) aumenta."
"Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1895) [ESB 1, 326]

2 "Em primeiro lugar, do ângulo da fisiologia. Isso nos forneceu o conceito de um


'estímulo' (Reizes) e o modelo do arco reflexo, segundo o qual um estímulo (Reiz)
Reiz 225

aplicado ao tecido vivo (substância nervosa) a partir de fora é descarregado por ação
para fora. Essa ação é conveniente na medida em que, afastando a substância estimulada
(gereizte) da influência do estímulo (Reizes), remove-a de sçu raio de atuação* (Reizwir­
kung)."
"Os Instintos e suas Vicissitudes" (1915) (ESB 14, 138]
* remove-a de seu campo'�e estimulação.
'

3 "Existem evidentemente outros estímulos (Reize à mente\ além daqueles de


natureza instintual (Triebreize), estímulos que se comportam muito mais como fisioló­
gicos. 2 Por exemplo, a luz forte que incide sobre a vista não é um estímulo instintual
(Triebreiz),já a secura da membrana mucosa da faringe ou a irritação da membrana mucosa
do estômago o são. ( ...)" [Nota 1 : Presumindo-se, naturalmente, que esses processos
internos sejam a base orgânica das respectivas necessidades de sede e de fome.]
"Os Instintos e suas Vicissitudes" ( 1 9 15) [ESB 14, 138]
outros est1mu
, 1os para a psique.
1 .
2
que se comportam de maneira muito mais semelhante aos estímulos fisiológicos.

4 "Obtivemos agora o material necessário para tr}l�armos uma distinção entre os


estímulos instintuais (Triebreiz) e outros estímulos (Reiz). (fisiológicos) que atuam na mente.
( ... ) Um instinto, por outro lado, jamais atua como ui:na força tjue imprime um impacto
momentâneo, mas sempre como um impacto constante.* Além disso, visto que ele incide
não a partir de fora mas de dentro do org;;11ismo, não há como fugir dele. O melhor termo
para caracterizar um estímulo instintual (Triebreiz) seria 'necessidade'."
"Os Instintos e suas Vicissitudes" ( 1 9 15) [ESB 14, 138]
* mas sempre como uma força constante.

5 "Não façamos objeção por enquanto à indefinição dessa idéia e atribuamos ao


sistema nervoso a tarefa - falando em termos gerais - de dominar estímulos (Reizbe­
wiiltigung). Vemos então até que ponto o modelo simples do reflexo fisiológico se
complica com a introdução dos instintos. Os estímulos (Reize) externos impõem urha
única tarefa: a de afastamento: isso é realizado por movimentos musculares, um dos
1

quais fin almente atinge esse objetivo e, sendo o movimento conveniente,2 torna-se ·a
partir daí uma disposição hereditária. Não p<;>demos aplicar e ste mecanismo aos
estímulos instintuais (Triebreize) que se originall\, de dentro do o rganismo."
"Os Instintos e suas Vicissitudes" ( 19 15) [ESB 1 4, 140]
única tarefa: afastar-se deles.
1
\
e, sendo o mais adequado, transforma-se numa disposição hereditária.
2

,' , l

\
226 Estímulo, Excitação

6 "(. . . ) certamente no sentido de que os sentimentos desagradáveis estão ligados


a um aumento e os sentimentos agradáveis estão ligados a uma diminuição do estímulo
(Reizes)."
"Os Instintos e suas Vicissitudes" (1915) [ESB 14, 141]

7 "( ... ) um 'instinto' nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira
entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos (Reize)
que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida da
exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com
o corpo."*
"Os Instintos e suas Vicissitudes" ( 1 915) [ESB 14, 1 42]
* como uma quantidade de trabalho exigido, o qual ê imposto ao psíquico devido à sua
conexão com o corpóreo. Ou, numa tradução mais livre: um quantum de reivindicação de
trabalho ao psíquico em decorrência de sua ligação com o corpóreo, uma espécie de tributo
que o psíquico deve à sua corporeidade.

8 "Por fonte de um instinto entendemos o processo somático que ocorre num órgão
ou parte do corpo, e cujo estimulo* (Reiz) é representado na vida mental por um
instinto."
"Os Instintos e suas Vicissitudes" ( 1 915) [ESB 14, 143]
* Pode ser entendido no sentido de um processo somático que produz um estímulo que se
faz representar na vida psíquica pela pulsão.

9 "Tornara-se irrequieto, irritável (reizbar) e violento. Ofendia-se por qualquer coisa


e depois tomava-se de raiva e berrava como um selvagem."
História de uma Neurose Infantil ( 1918) [ESB 17, 29]

1 O "Tornou-se um menino irritável (reizbar), um atormentador, e gratificava-se dessa


forma à custa de animais e seres humanos."
História de uma Neurose Infantil ( 1 9 1 8) [ESB 17, 40]

11 "Pode acontecer que um estimulo (Reiz) externo seja internalizado - corroendo


e destruindo, por exemplo, algum órgão corpóreo 1 -, de modo que surja uma nova
fonte de excitação constante e de aumento de tensão. Assim, o estímulo (Reiz) adquire
uma similaridade de longo alcance2 com um instinto ( Trieb). Sabemos que um caso
desse tipo é experimentado por nós como dor. A finalidade deste pseudo-instinto, no
entanto, consiste simplesmente na cessação da mudança no órgão e do desprazer que
lhe· é concomitante."
"A Repressão" (1915) [ESB 14, 169]
1
que um estímulo externo, por corroer e destruir um órgão, acabe se internalizando.
Reiz 227
2 adquira grande semelhança com a pulsão.
3
na cessação desta alteração ocorrida no órgão e do desprazer que lhe está associado.

12 "O desprazer específico do sofrimento 1 físico provavelmente resulta de que o


escudo protetor2 (Reizschutz) tenha sido atravessado3 numa área limitada."
Além do Princípio do Prazer ( 1 920) [ESB 18, 45]
1 da dor física.
2
Em vez de "escudo protetor", "proteção contra estímulos".
3 tenha sido rompida.

13 "Todo desprazer deve assim coincidir com uma elevação e todo prazer corri um
rebaixamento da tensão mental* devida ao estímulo (Reizspannung); o princípio de
Nirvana (e o princípio de prazer, que lhe é supostamente idêntico) estaria inteiramente a
serviço dos instintos de morte, cujo objetivo é conduzir a inquietação davida para a estabilidade
do estado inorgânico, e teria a função de fornecer advertências contra as exigências dos
instintos de vida - a libido - que tentam perturbar o curso pretendido da vida."
"O Problema Econômico do Masoquismo" ( 1924) [ESB 19, 200]
* todo prazer com um rebaixamento da tensão na psique produzida devido ao estímulo.
14 "Prazer e desprazer, portanto, não podem ser referidos a um aumento ou
dimínuição de uma quantidade (que descrevemos como tensão devida ao estímulo
(Reizspannung), embora obviamente muito tenham a ver com esse fator. Parece que eles
dependem, não desse fator quantitativo, mas de alguma característica dele que só
podemos descrever como qualitativa. Se pudéssemos dizer o que é essa característica
qualitativa estaríamos muito mais avançados em psicologia. Talvez seja o ritmo, a
seqüência temporal de mudanças, elevações e quedas na quantidade de estímulo
(Reiz.quantitãt). Não sabemos."
"O Problema Econômico do Masoquismo" (1924) [ESB 19, 200]

15 "De onde provém a energia empregada para transmitir o sinal de desprazer?


Aqui podemos ser auxiliados pela idéia de que uma defesa contra um processo interno
importuno será plasmada sobre a defesa adotada contra um estímulo (Reiz) externo, e
de que o ego debela os perigos internos e externos, de igual modo, ao longo de linhas
idênticas. No caso de perigo externo, o organismo recorre a tentativas de fuga. A primeira
coisa que ele faz é retirar a catexia da percepção do objeto perigoso; posteriormente,
descobre que constitui um plano melhor realizar movimentos musculares de tal
natureza que tornem a percepção do objeto perigoso impossível, mesmo na ausência
de qualquer recusa para percebê-lo, que é um plano melhor afastar-se da esfera de
perigo. A repressão é um equivalente a essa tentativa de fuga."
Inibições, Sintomas e Ansiedade (1925) [ESB 20, 1 14]
228 Estímulo, Excitação

----------- - Comentários - -----------

Havia uma concepção predominante, na psicofisiologia do século XIX, de que o


organismo teria uma tendência a descartar, através da ação neuromotora, quantidades
de excitação que passassem acima de determinados níveis. Freud adere desde o início
a essa concepção. Nos exemplos 2 e 5, tirados do texto "Os Instintos e suas Vicissitudes"
( 1 9 15), Freud ainda menciona essa visão fisiológica com referência aos estímulos
_externos e ao arco reflexo.
A preocupação em teorizar a respeito dos mecanismos que regulam a descarga de
"estímulos" (Reize) se mantém sempre presente ao longo de toda a obra de Freud, mas
assume feições diversas, à medida que ele desenvolve a teoria pulsional e introduz
considerações de ordem dinâmica e tópicas mais elaboradas.
Neste sentido, as formulações mais iniciais do "Princípio da inércia n eurônica", do
"l'.rincípio de constância", do "Princípio do prazer-desprazer", e em textos mais tardios
do "Princípio de n irvana" e da "pulsão de morte" (exemplo 13), todas podem ser
relacionadas com a questão de como o organismo lida com os estímulos (Reize), todavia
referindo-se cada vez menos a estímulos externos e cada vez mais a estímulos gerados
internamente pelas pulsões.
É antiga a idéia, em Freud, de que o excesso de Reize é vivido pelo sujeito como
algo avassalador que o leva a um estado de desamparo (Hiiflosigkeit). Neste sentido lidar
com estímulos, tentan do conseguir sua descarga, é algo que se impõe para evitar um
estado de desamparo (Hiiflosigkàt). O termo Hiiflosigkeit é carregado de intensidade,
expressa um estado próximo do desespero e do trauma. Esse estado é semelhante
àquele vividq pelo bebê, o qual após o nascimento é incapaz, pelas próprias forças, de
remover o excesso de excitação pela via da satisfação, sucumbindo à Angst (medo,
eventualmente ansiedade, ou angústia). Mesmo tendo, em 1926, reformulado sua teoria
sobre a Angst, Freud mantém a idéia de que o sujeito exposto ao excesso de excitação
vive uma situação de desamparo, n ecessitando lidar (bewaltigen) com o turbilhão de
estímulos que o acometem.
Pode-se dizer que desde o nascimento a Reizbewaltigung é uma das principais tarefas
impostas à psique e da qual o sujeito terá de dar cabo ao longo de toda a vida. O tema
é abordado por Freud em diversos contextos.
Freud também emprega o termo· Erregung, o qual designa tanto o estado de estar
excitado, como a ação de excitar. Diversamente de Reiz, o termo Erregung implica maior
exaltação (exteriorização); além disso, · Erregung geralmente designa estados, não o
estímulo isolado que circula pelo sistema nervoso e chega à mente, afetando a
consciência. No exemplo 1, há um aumento da excitação à medida que aumenta a
quantidade de "estímulo" (Reiz).
Aliás, o desconforto e o perigo representado pelo excesso de estímulos gerados
pelas fontes pulsionais e que circulam e se acumulam são freqüentemente descritos por
Reiz 229

Freud através de imagens "hídricas". Os estímulos "inundam", se "represam", "escoam",


atravessam defesas "permeáveis", são "drenados" etc. (ver comentários nos verbetes
"Descarga" (Abfuhr), pp. 1 34-35 e "Dominar" (Bewi:iltigen), pp. 181-82).

"Estímulo " e "pulsão "

Lingüisticamente, o termo Reiz pode designar dois momentos diversos: o estímulo


que chega à célula (um raio de luz, no exemplo 3) e o efeito de sua recepção interna
(no exemplo 3 o efeito é a sensação de ardência, secura).
A sensação ou efeito produzido por um "estímulo" externo também pode ser
percebido pelo psíquico, tal quais os estímulos gerados pela pulsão (exemp'o 3). O
que diferencia, grosso modo, um estímulo externo de uma pulsão é que as pulsões são
um tipo de estímulo gerado internamente, de forma ininterrupta e como força
constante (exemplo 4).
No exemplo 8, lê-se que o estímulo originário de processos somáticos num órgão
é representado na psique pela pulsão.
No texto "A Repressão", Freud chega a designar um estímulo extern') que foi
internalizado e que se transformou em dor cronificada de "pseudopulsão" (exemplo
11). Freqüentemente as · manifestações da pulsão são designadas como "estímulos
pulsionais" (Triebreize) (exemplos 2, 3 e 5).
Neste sentido, pode-se dizer que a pulsão é um tipo especial de estímulo e que a
característica da pulsão de ser algo que aguilhoa e espicaça, impulsionando o sujeito
para adiante, é bastante parecida à conotação da palavra Reiz, algo que produz
desconforto e mobiliza para a descarga.

O caráter irritativo e dolorido

No âmbito estritamente fisiológico, a palavra "estímulo" (Reiz) é empregada como


termo técnico. Designa a intrusão externa que age sobre a célula, não _cabendo aí
quaisquer considerações sobre as conotações do termo.
A conotação coloquial alemã de Reiz como "elemento irritativo" é um acréscimo à
leitura devido ao contexto psicanalítico e ao estilo da formulação freudiana, que
transita entre o técnico, o literário e o coloquial.
Freud amiúde· associa o Reiz ao desprazer e ao perigo (exemplos 1, 6, 1 1, 12 e 15).
O caráter irritativo do termo também aparece no exemplo, 3 através da comparação
com a secura da faringe (que depois coçará e provocará tosse) e com a ardência do
estômago. Nos exemplos 9 e 10 é utilizado o adjetivo "irritável" (reizbar), refe -iudo-se
ao comportamento do paciente conhecido como "Homem dos Lobos".
Para designar o mecanismo que protege o sujeito do desprazer e da dor, Freud
utiliza o termo Reizschutz (traduzido comumente por "paraexcitação" ou "proteção
230 Estímulo, Excitação

contra excitação") ( exemplo 12). A idéia de proteção (Schutz) é coerente com a conotação
de Reiz como sendo um estímulo-excitação que facilmente se torna excessivo e produz
tal desconforto que deixa o sujeito hilflos (indefeso, ou desamparado).
Com o desenvolvimento de suas formulações sobre a "compulsão à repetição"
(Além do Princípio de Prazer, 1 920) e sobre o "masoquismo" ("O Problema Econômico
do Masoquismo", 1924), Freud passa a transcender a relação direta "acúmulo de
estímulos/desprazer" e propõe que se considerem outros fatores de regulação do prazer,
além dos aspectos quantitativos dependentes da descarga: o ritmo, a seqüência, as
. elevações e quedas de quantidades etc. ( exemplo 14). Entretanto, a relação do desprazer
com um excesso de estimulação nunca é propriamente abandonada.

Um termo-base na obra freudiana

O termo "estímulo" (Reiz) se relaciona com diversos conceitos-chaves, como "pul­


são" (exemplo 7), "prazer" (exemplo 14), "defesas" (exemplo 15), e com muitos outros .
termos, como "estase", "vias facilitadas", "descarga" etc. Neste sentido, "estímulo"
(Reiz) pode ser considerado uma das palavras-base do construto freudiano.

---+ Descarga (Abfuhr), Dominar (Bewãltigen), Pulsão (Trieb)


Estranho, Lúgubre, Sinistro, Inquietante,
Macabro: das Unheimliche

E: Ominoso
F: Inquiétante, étrangeté
I: Uncanny ou feeling ofstrangeness

"Das Unheimliche': título original do artigo "O 'Estranho"', de 1 9 1 9, é traduzido


habitualmente por "o estranho" e "o sinistro". Significa algo "inquietante", "macabro",
"assustador", "esquisito", "misterioso" etc.
Nesse artigo, Freud aponta para o fato de que a palavra alemã teria certa ambigüi­
dade, oscilando entre o "familiar" e o "desconhecido". Relaciona tal ambigüidade com
a sensação de inquietude do sujeito pelo retorno do material recalcado (portanto
conhecido), o qual volta sob a forma de algo desconhecido e assustador. O termo
também é empregado por Freud em diversos outros textos.

Observação

Inicialmente será abordado o termo heimlich (adjetivo) e somente depois o substan­


tivo das Unheimliche, pois é nesta seqüência que procede Freud no artigo 'O Eslranho'
("Das Unheimliche '"). Ele começa chamando atenção para o fato de que a palavra J,eimlic!t
é usada em sentidos aparentemente antagônicos.

Sentidos do adjetivo heimlich

a) Familiar, conhecido Qá na época de Freud pouco usado).


b) Secreto, oculto.
c) Inquietante, estranho (atualmente pouco usado).
O ponto de "torção" em que heimlich passa de "familiar e conhecido" ,para
"inquietante e estranho" ocorre no sentido b: aquilo que é "secreto e oculto" pode ser
"familiar, íntimo erecôndito" para aquele que participa do segredo (pois acontece entre
quatro paredes, no "lar" = heim). Por outro lado, o "secreto e oculto" pode ser :;entido
como "escondido, furtivo e estranho" na avaliação dos outros excluídos.
Portanto, os sentidos a, b· e e formam uma seqüência que começa com o mais
"conhecido" e chega ao mais "estranho" justamente por uma contigüidade que pode
percorrer gradàções que se iniciam no familiar, passam pelo íntimo-secreto-furtivo e
conduzem ao <:!Stranho.
·,
._, _ ,

Estranho, Lúgubre
232

Após deter-se na palavra, Freud comenta que essa ambigüidade faz com que o termo
heimlich finalmente coincida com seu próprio antônimo, unheimlich (o qual possui o
sentido e: inquietante, sinistro, estranho).

Sentidos do adjetivo unheimlich

d) Levemente estranho, levemente assustador, inquietante, sinistro, esquisito, incô­


modo, mal-estar (semelhante ao sentido e de heimlich). Esta pessoa me parece esquisita
· (sinistra, inquietante).
e) Enorme, grandioso, gigantesco, fantástico. Estou com umafome gigantesca (e-norrne).
f) Muito, incrivelmente. Foi tudo muito (incrivelmente) rápido.
g) Indefinível; indeterminado, ansiógeno, inquietante. Sinto que uma tensão (algo
inquietante) paira no ar (mir ist unheimlich zumute).

Conotações de unheimlich

Remete a algo de insidioso, sussurrado (secreto), que está no ar. Assemelha-se à


sensação de algo grandioso que se arma sorrateiramente em torno do sujeito.
Como se nota, o adjetivo mantém nos sentidos d e g a acepção de estranhamento
indefinível e desconfortável, algo bem diferente do sentimento de pânico que se tem
diante de um fenômeno avassalador, catastrófico, súbito e bem definido.
Do ponto de vista estritamente lingüístico, a palavra unheimlich e a substantivação,
das Unheimliche, possuem somente os sentidos e e d: inquietante, sinistro. Não há no
emprego das palavras unheimlich e das Unheimliche as ambigüidades de sentido encon­
tradas em heimlich. As palavras unheimlich e das Unheimliche não possuem ligaç�o com
o sentido a, ou seja, com a vertente de sentido ligada ao conceito de ·ufamiliar".
Entretanto, do ponto de vista psicanalítico, ·conforme será abordado mais adiante,
Freud procura demonstrar que tal ambigüidade também se faz presente em das
Unheimliche.

--- ----- -- 0 Termo em Alemão ----------

Composição do termo

das: Artigo definido para palavras neutras.


un-: Prefixo de negação aproximadamente equivalente a udes", "in" em português.
Tal qual o "in" em português, também pode ter uma função aumentativa (por exemplo,
nas palavras "incrível", "inúmeros" etc.).
das Unheimliche 233

heim-: Corresponde à palavra Heim, "lar", "casa".


-lich: Sufixo de adjetivação aproximadamente equivalente a "-vel" ou "-oso" em
português.

Significados de das Unheimliche

1) Como em português, também em alemão não é comum empregar a substan­


tivação "o sinistro", "o estranho" (das Unheimliche ). Normalmente se emprega o
adjetivo e advérbio unheimlich ("sinistro", "estranho"). Uma vez substantivado, o
termo significaria algo equivalente a "coisa inquietante", "sinistra", "macabra",
"assustadora", "esquisita", "misteriosa", "estranha", "fantasmagórica" etc. "( ... ) o
animismo, a magia e a bruxaria, a onipotência dos pensamentos, a atitude do homem para
com a morte, e a repetição involuntária e o complexo de castração compreendem praticamente
todos os fatores que transformam o Amedrontador no Estranho (zu dern Unheimlichen). "
( 1 9 19) [ESB 17, 303].

Conotações de das Unheimliche

A) A sensação de estar diante do das Unheimliche deixa o sujeito indefeso, pois é "o
estranho" naquilo que possui de mais indefinível, iniprevisível.
B) É algo insidioso, sorrateiro, não se sabe quando se será atingido.
C) Não se sabe de onde provém o das Unheimliche, pois éjustamente algo indefinível
e sorrateiro.
D) O das Unheimliche se arma em torno do sujeito e é grandioso.
E) O das Unheimliche; ao se armar em torno do sujeito, está ou em breve estará
próximo e poderá atingi-lo.
F) Seremos em algum momento subitamente atingidos pelo das Unheimliche.
G) Há um conteúdo fantasmagórico que torna o das Unheimliche inapreensível e
inefável e o dota de certa "irrealidade" ou de um "realismo fantástico".

-------Etimologia e Termos Correlatos ------'--'----

Etimologia

A palavra heim deriva da raiz indo-européia *kei- (estar deitado), que indicava local
onde se instala, acampamento etc. No gótico assume a forma haims (aldeia); no antigo
alto-alemão e no médio alto-alemão aparece sob a forma heim, significando casa,
· moradia, pátria. O substantivo parece ter caído em desuso entre .os séculos XVi e xvm,
·.r . ,
"{
234 Estranho, lúgubre

permanecendo o uso do advérbio e adjetivo. Aparentemente sob a influência da palavra


inglesa home ( cuja origem é a mesma), o substantivo volta a ser empregado em alemão
nos séculos xvm e XIX. O uso do adjetivo e advérbio unheimlich designando uma
sensação de mal-estar, temor, calafrio etc. aparece mais claramente no século xvm.

Termos correlatos, derivados e compostos

Heim: lar, casa; heimfallen: cair na antiga posse; heimgehen: pode significar morrer
(gehen = ir/heim = lar); Heimat: pátria; heimzahlen: pagar de volta no sentido de vingar-se;
einheimisch: caseiro, doméstico, não-selvagem.
Nos exemplos acima, o sentido de heim remete a "lar", "posse", "local familiar" e
"local de origem".

----- C omparação com o Termo em Português - --- -

O termo das Unheimliche será contrastado com "o estranho", pois esta tradução tem
sido mais freqüente do que "o sinistro". Quanto a "inquietante", trata-se de tradução
apenas ocasional.

Significados adicionais do substantivo


"estranho " não presentes em das Unheimliche

2) Externo, estrangeiro. Aquele estranho circulando pelas ruas deixava todos muito
curiosos. Era estranho na cidade.

Conotações adicionais do substantivo


"o estranho " não presentes em das Unheimliche

H) Em português, "o estranho" pode evocar a idéia de alguma alteridade, de um


outro externo, forasteiro, que seja diferente e esquisito. Em alemão, esta idéia está mais
presente no termo Fremd, freqüentemente utilizado por Freud (ver verbete "Alienação"
[Enifremdung], p. 53). Unheimlich também é externo e estranho, mas centra-se na origem
fantasmagórica e sinistra.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: das Unheimliche português: o estranho


das Unheimliche 235

significados
1 sinistro, inquietante 1 sinistro, inquietante
2 - 2 estrangeiro
conotações
A nos deixa indefesos A ­
B não se sabe quando chega B -
C proveniência indeterminada C proveniência indeterminada
D se arma em torno de nós D-
E proximidade E -
F insidioso/súbito F -
G fantasmagórico C-
H- H alteridade

Ao traduzir-se o termo das Unheimliche por "o estranho" perdem-se as conotações


A, B, D, E, F e G, as quais transmitem uma sensação inquietante e fantasmagórica de
que algo cerca o sujeito sorrateiramente.

- ------ - Exemplos de Uso em F,:réud

1 "O tema do 'estranho' (das Unheimliche) é um ramo desse tipo. Relaciona-se


indubitavelmente com o que é assustador (Schreckhaften) - com o que provoca medo
(Angsterregend) e horror (Grauenerregend); certamente, também a palavra nem sempre
é usada num sentido claramente definível, de modo que tende a coincidir com aquilo
que desperta o medo em geral. Ainda assim podemos esperar que esteja presente um
núcleo especial de sensibilidade que justificou o uso de um termo conceituai peculiar.
Fica-se curioso para saber que núcleo comum é esse que nos permite distinguir como
'estranhas'* ( Unheimliches) determinadas coisas que estão dentro do campo do que é
amedrontador (Ângstlichen)."
"O 'Estranho"' (1919) [ESB 17, 276]
* "E.stranhas" no sentido de "sinistrasn, "inquietantes", "fantasmagóricas", "que provocam
calafrios".

2 "Se tomamos outro tipo de coisas, é fácil verificar que também é apenas esse fator
de repetição involuntária que cerca o que, de outra forma, seria bastante inocente, de
uma atmosfera estranha (unheimlich), e que nos impõe a idéia de algo fatídico e
inescapável, quando, em caso contrário, teríamos apenas falado em sorte."
"O 'Estranho"' ( 19 1 9) [ESB 1 7, 296]
Retraduzindo todo o trecho: Se tomannos outra série de experiências, reconheceremos sem
, dificuldade que a repetição involuntária é responsável pela transformação daquilo que é
'·,
!. . •

236 Estranho, lúgubre

inofensivo em algo sinistro e que nos impõe a idéia de algo fatídico e -inescapável, onde
normalmente falaríamos apenas de uma "coincidência".

3 "Pois é possível reconhecer na mente inconsciente a predominância de uma


compulsão à repetição, procedente dos impulsos instintuais e provavelmente inerente
à própria natureza dos instintos - uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer
sobre o princípio de prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu
caráter demoníaco, e ainda muito claramente expressa nos impulsos das crianças
pequenas; uma compulsão que é responsável, também, por uma parte do rumo tomado
pela análise dos pacientes neuróticos."
"O 'Estranho"' ( 1919) [ESB 17, 297-8]

4 "A nossa análise de exemplos do estranho ( Unheimlichen) reconduziu-nos à antiga


concepção animista do universo. Caracterizava-se esta pela idéia de que o mundo era
povoado por espíritos dos seres humanos; pela supervalorização narcísica, do sttjeito, de
seus próprios processos mentais; pela crença na onipotência dos pensamentos e a técnica
de magia baseada nessa crença; pela atribuição, a várias pessoas e coisas externas, de
poderes mágicos cuidadosamente graduados, ou 'mana'; bem como por todas as outras
criações, com a ajuda das quais o homem, no irrestrito narcisismo desse estádio de
desenvolvimento, empenhou-se em desviar as proibições manifestas da realidade."
"O 'Estranho'" ( 19 19) [ESB 17, 300]

5 "Em segundo 'lugar, se é essa, na verdade, a natureza secreta do estranho ( Unheimli­


chen ), pode-se compreender por que o uso lingüístico estendeu 'o familiar' (das Heimlíche)
para o seu oposto, 'o estranho' 1 (das Unheímliche), pois esse estranho2 (Fremdes) não é nada
novo ou alheio, porém alfo que é familiar (Heimliche) e há muito estabelecido na mente,
e que somente se alienou (entfremdet) desta através do processo de repressão."
"O 'Estranho'" ( 1 9 1 9) [ESB 17, 301]
1 "estranho" no sentido
de "inquietante", "sinistro", "que provoca calafrios".
2 "estranho" no sentido de "forasteiro", "estrangeiro", "externo", "alheio".
3 O sentido de "alienou" é de afastado", "separado", "transformado em estranho-alheio".
"

6 "Agora temos apenas algumas observações a acrescentar - pois o animismo, a


magia e a bruxaria, a onipotência dos pensamentos,.a atitude do homem para com a
morte, e a repetição involuntária e o complexo de castração ..
compreendem praticamen-
te todqs os fatores que transformam algo assustador 1 (Angstlichen) em algo estranho2
( Unheimlichen ). "
"O 'Emanho'" ( 1 919) [ESB 17, 303]
� "assust:d,,r" no sentido de "amedontrador"; ligado a A.ngst, "medo ante o perigo".
i "esmrnh0" nc, 5c:ntído de "inquietante", sinistro", "que provoca calafrios".
das Unheimliche 237

7 "O efeito estranho* (Unheirrúiche) da epilepsia e da loucura tem a mesma origem. O


leigo vênelas a ação de forças previamente insuspeitadas em seus semelhantes, mas ao mesmo
tempo está vagamente consciente dessas forças em remotas regiões do seu próprio ser."
"O 'Estranho'" ( 1919) [ESB 17, 303]
* "estranho" no sentido de "algo que causa estranhamento, incompreensível, inquietante,
sinistro, que provoca calafrios."

8 "( ... ) um estranho (unheimlich) efeito se apresenta quando se extingue a distinção


entre imaginação e realidade, corno quando algo que até então considerávamos
imaginário surge diante de nós como realidade."
"O 'Estranho'" ( 1 9 1 9) [ESB 17, 304]

9 "A nossa conclusão podia, então, afirmar-se assim: uma experiência estranha I
( Unheimliche) ocorre quando os complexos infantis que haviam sido reprimidos revivem
2
· uma vez mais por meio de alguma impressão, ou quando as crenças primitivas que
foram superadas parecem outra vez confirmar-se."
"O 'Estranho'" ( 19 1 9) [ESB 17, 310]
1
O sentido do trecho inicial é: "A nossa conclusão podia, então, afirmar-se assim: o caráter
sinistro da vivência ocorre quando os complexos infantis que (. . , )".]
2
"convicções " em vez de "crenças"; refere-se a "antigas teorias arcaicas"

1 O "A categoria que provém dos complexos reprimidos é mais resistente e perma­
1
nece tão poderosa na ficção como na experiência real, submetendo-se a urna exceção.
O estranho ( Unheimliche) que pertence à primeira categoria - a que �rocede de formas
2
de pensamentos que foram superadas - conserva o seu caráter (unheimlich) não
apenas na experiência, mas também na ficção, na medida em que o cenário seja de
realidade material; quando se lhe dá, porém, um cenário artificia! e arbitrário d:1 ficção,
pode perder aquele caráter."
"O 'Estranho'" (19 19) [ESB 17, 3 12]
1
"exceção" discutida por Freud em outro trecho do artigo.
2 Refere-se a fantasias originárias e idéias arcaicas.
3 o seu caráter "estranho", sinistro", "fantasmagórico".
"

------------ Comentários ------------

No artigo "O 'Estranho "' , Freud se ocupa detalhadamente do termo das Unheimliche,
trazendo exemplo� de dicionários, da fraseologia e conotações coloquiais. Apesar
de o foco do artigo ser a investigação da sensação psíquica de inquietude perante
"ó sinistro", Freud também investiga os recursos estilístico-literários habitualmente
�,
,. .
238 Estranho, Lúgubre

empregados por escritores para evocar a sensação de Unheimlichkeit, e traça paralelos


destas técnicas literárias com aspectos da teoria psicanalítica, notadamente com a
questão do retorno do recalcado.

Das Unheimliche e a irrealidade

A sensação de estar perante algo "estranho" torna-se ainda mais amedrontadora


para o sujeito quando se borram as fronteiras entre o real e o imaginário, jogando-o
na irrealidade ( exemplo 8). Entretanto, se a "irrealidade" pode acentuar este sentimen­
to, esta não é essencial para produzir a sensação de inquietação.
Freud lembra que na literatura podemos ser facilmente ambientados num mundo
ficcional e irreal e nos sentimos confortáveis nele após algumas páginas, da mesma forma
como podemos nos sentir aterrorizados num contexto não-ficcional de plena realidade.

Fantasias originais, compulsão à repetição e retorno do recalcado

O essencial para que se produza num conto a sensação de "inquietação" é que


entrem em cena determinados mecanismos psíquicos: por exemplo, o retorno do
recalcado sob a forma de medo, basicamente o complexo de castração ( exemplos 5, 9
e 10); ou ainda a compulsão à repetição, ligada à pulsão de morte, que visa o retorno
ao inorgânico ( exemplos 3 e 6 ); e medos ancestrais filogeneticamente incorporados
ao homem e apenas parcialmente superados peia cultura (exemplos 4, 6, 9 e JO).
Essa confluência entre o herdado-primitivo, a pulsão de morte e o retorno do
vivido-recalcado pode gerar a sensação de "inquietação" tanto dentro como fora do
contexto literário. Todavia, tomado isoladamente, o recalcado será o elemento funda­
mental (mais "resistente" nas palavras de Freud) que tenderá a aparecer sob a forma
de algo "sinistro" (unheimlich) em um ou outro contexto (exemplos 9 e 10).

Inquietação em face de uma presença indefinida e inapreensível

Freud liga a sensação de inquietação perante o "sinistro" (das Unheimliche) a um


medo que possui determinadas qualidades ( exemplo 1). Conforme mencionado,
conotativamente o termo das Unheimliche refere-se a algo que deixa o sujeito indefeso
diante de forças cuja proveniência não conhece e que o cercam de forma invisível.
Podem atacá-lo de qualquer lado, a qualquer momento, e são poderosas e inescapáveis
como o destino. Nos exemplos 2, 3, 4, 6 e 7 tais qualidades aparecem relacionadas com
o animismo, magia e morte; no exemplo 2, com "algo fatídico e inescapável"; no
exemplo 3, com "caráter demoníaco"; no exemplo 4, com "animismo, espíritos e
poderes mágicos"; no exemplo 6, com "animismo, magia e bruxaria"; e no exemplo 7,
com "forças insuspeitadas provenientes de remotas regiões do próprio ser".
das Unheimliche 239

Os termos unheimlich e suas substantivações ( Unheimlichkeit, Unheimliches, das


Unheimliche etc.) estão presentes em diversos momentos da obra de Freud. Além de
serem objeto do artigo 'O Estranho' ( 1 919), aparecem em textos como Totem e Tabu
( 1 9 1 2-3) [ESB 13, 38, 42, 108, 109 · nota l; SA 9, 3 1 1 , 3 15, 374 · nota 3], "Contribuições
à Psicologia da Vida Amorosa III: O Tabu da Virgindade" (1917-8) [ESB 1 1 , 183; SA 5,
2 1 7], Psicologia de Grupo e a Análise do Ego ( 192 1 ) [ESB 18, 158; SA 9, 1 17, 1 19] (textos
nos quais prevalece a tradução por "misterioso"), O Futuro de uma Ilusão ( 1 927) [ESB
2 1 , 28; SA 9, 151] (onde a tradução é "sobrenatural"), Novas Conferências Introdutórias
sobre Psicanálise (Conferência 25) ( 1 9 1 6-7) [ESB, 26, 465; SA 1 , 385] (onde a tradução
é "perigoso") e Moisés e o Monoteismo ( 1934-9) [ESB 23, 1 12; SA 9, 539] (onde o termo
é traduzido por "sinistro").

De forma geral, o termo se refere a uma sensação de inquietação mais prolongada


que coloca o sujeito em estado de prontidão reativa (assemelhado ao medo, Angst,
diante de um perigo indefinido que parece circundá-lo). Algo diverso dos fenômenos
de cunho mais impressionístico, como as sensações fugidias de estranhamento, entre
elas a Entfremdung, o déjà vu etc. O das Unheimliche é um prenúncio inquietante da
proximidade e iminência da aparição do recalcado. Por vezes, o recalcado vem
mesclado a medos ancestrais e é tornado ainda mais assustador pela repetição, o que
acaba por conferir à sua aparição o caráter de intencionalidade de uma trama macabra.
Estas outras impressões mais passageiras (Enifremdutig, o déjà vu etc.) são fenômenos
de menor ordem de grandeza, quase um reluzir rrÍomentâneo que, por assim dizer,
escapou por um instante do recalque.

-+ Alienação (Entfremdung), Repressão (Verdrangung)


'
. !. '
4>.,;,

Facilitação: Bahnung

E: Facilitación
F: Frayage
1: Facilitation

Bahnung é traduzido com freqüência por "facilitação" e gebahnt por "facilitado" ou


"vias estabelecidas". O termo alemão contém o radical Bahn, que significa "pista",
"caminho aplainado", "estrada" etc. O substantivo Bahnung expressa algo como "ato
de abrir pistas" ou "ato de abrir vias de trânsito". Geralmente é empregado no contexto
de interligações nervosas entre neurônios, ou corno interligação funcional que permite
o trânsito entre representações.

--------- 0 Termo em Alemão ---- -----

Composição do termo

Bahn-: Corresponde ao substantivo Bahn, o qual significa genericamente "caminho


aplainado" (pista, avenida, ferrovia, estrada, rota etc.).
-ung-. Sufixo de substantivação aproximadamente semelhante a "-ção" em portu­
guês.

Significados do verbo
bahnen e dos substantivos Bahn e Bahnung

1) Aplainar, nivelar. Como substantivo, Bahnung designa o ato de aplainar e Bahn


é a via aplainada, a pista. Aplainar (preparar) o caminho para o sucesso.
2) Tornar transitável. O rio assentou-se (cavou) em novo leito (Der Flufl hat sich ein neues
Bett gebahnt).
[Exemplos adaptado do WBW, 226, e do SBH, 44. ]

Conotações de bahnen, Bahnung e Bahn

A) O substantivo Bahn evoca a imagem de urna "via" ou "pista Lrans;·:· · ,·el". O


substantivo Bahnung é a substantivação do ato de "criar uma via", "escavar", "instalar",
"abrir" uma via transitável. A Bahnungimplica um processo dinâmico. Aquilo que "abre
caminhos" é algo que "revoluciona" (em alemão algo revolucionário e inovador é
Bahnung 241

expresso por bahnbrechend (palavra composta por brechend, gerúndio de "quebrante",


algo que rompe e abre espaço para a Banh, caminho). Num sentido menos impactante,
para expressar o ato de abrir caminhos, preparar terreno para novos desenvolvimentos,
usa-se uma imag em semelhante a aplainar o terreno e "deitar sobre ele vias", bahnen
legen (deitar/assentar picadas-vias-caminhos).
B) A Bahn é a princípio· algo plano e horizontal, uma pista pela qual se "desliza" ou
"transita" facilm ente. A Bahnung é, portanto, algo que foi instalado sobre terreno ele
difícil topografia. Pela Bahn o sujeito ou objeto corre ou flui.
C) A Bahn conduz de um ponto a outro; uma vez estabelecida, é uma ligação
privilegiada que interliga diretamente dois pontos.

------- Etimologia e Termos Correlatos ----

Etimo[ogia

Provavelmente o verbo origina-se da palavra gótica banja (batida, i'.npacto, golpe,


ferida) e significaria originalmente "abrir um caminho ou trilha transitável em terreno
inóspito golpeando a mata e o solo". Mais tarde adquire os sentidos de "caminho/trilha
lisa e nítida", "via de corrida" ou "via para andar". No médio alto-alemão assu111e a
forma ban[e].

Termos .correlatos, derivados e compostos

Autobahn: auto-estrada; Bahn: abreviação de "trem" (Eisenbahn, estrada ele ferro) ;


Bahnhof estação d e trem (literalmente pátio d e trem); Kegelbahn: pista de boliche;
Rennbahn: pista de corrida; Sternbahn: órbita ou trajeto de uma estrela (astronomia).
Em todos estes usos, o termo Bahn remete a "pista transitável e aplainada".

----- Comparação com o Termo em Português -- �--

Significados adicionais de
''facilitar" e ''facilitação" não presentes em bahnen e Bahnung

3) Remover dificuldades, obstáculos (o emprego como substantivo é pouco usual).


Se querfacilitar as_ coisas para nossos amigos, então fale com seus bons contatos no governo.
242 Faciliração

Conotações adicionais de
''facilitar" e ''facilitação " não presentes em bahnen e Bahnung

D) Em português, o termo não evoca nada relacionado com "ligação física entre
dois elementos", bem como não destaca o aspecto dinâmico de "fluir/ deslizar". Remete
a um processo de remoção de obstáculos que "facilita" o acesso. Contudo, seu uso é
mais figurado ou metafórico, referindo-se a obstáculos e acessos abstratos. Não tem a
concretude de Bahnung.
E) "Facilitação" pressupõe geralmente a intervenção de uma força ex-machina, de
uma entidade que intervém a favor de algo ou de alguém. Também pode se referir ao
próprio sujeiw que facilite ( ele mesmo deixando de resistir).

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: bahnen/Bahnung português: facilitar/facilitação

significados
� aplainar, aplainamento 1-
2 verbo: tornar transitável 2-
3- 3 remover obstáculos,
remoção de obstáculos

conotações
A irrompe abrindo caminhos A­
B via pela qual algo flui B­
e interligação privilegiada C-
entre dois pomos
D- D dar acesso e remover obstáculos; uso abstrato
E- E intervir a favor (de algo ou de alguém) ou
deixar de resistir

Ao traduzir-se Bahnung por "facilitação" passa-se da linguagem mais con creta


(sentidos 1 e 2) para a mais abstrata (sentido 3), bem como se perde a dimensão
dinâmica ( conotações A e B) e a noção de interligação (conotação C) pertinentes à
palavra Bahnung.

------- Exemplos de Uso em Freud

1 "Pode-se então dizer: a memória está representada pelas facilitações (Balmungen)


existentes entre os neurônios."*
Bahnung 243

"Projeto para urna Psicologia Científica" ( 1895) [ESB 1 , 320]


* "sistema de neurônios impermeáveis".

2 "Imaginemos o ego como uma rede de neurônios catexizados e bem facilitados


(gebahnter) entre si (. . . ). Logo, se o ego existe, ele deve inibir os processos psíquicos
primários."
"Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1 895) [ESB 1, 341]

3 "Para atingir seus objetivos - neste caso, possibilitar uma representação tolhida
pela censura- ele simplesmente percorre as vias quejá encontra estabelecidas (gebahnt)
no inconsciente; e dá preferência às transformações do material recalcado que também
se podem tornar conscientes sob a forma de chistes ou alusões, e de que se ach:.un tão
repletas nas fantasias dos pacientes neuróticos."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VI/D (1900) [ESB 5, 328-9]

4 "O excesso porém provém de fontes de afeto que antes permaneceram incons­
cientes e suprimidas. Essas fontes conseguem estabelecer um elo associativo com a
causa liberadora real,* e a desejada facilitação (Bahnung) da liberação (Entbindung) de
seu próprio afe to é aberta pela outra fonte de afeto1que é inobjetável e legítima."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VI/H ( 1 900) [ESB 5, 443]
conseguem estabelecer um elo associativo com o, "fator desencadeador" real.
Retraduzindo o trecho: O excesso provém de fontes de afeto que permaneceram incomcientes
e suprimidas. Estas conseguem, a partir de um fator desencadeador real, estabelecer um:,
conexão associativa com outra fonte de afetos, esta inobjetável e autorizada (admissível), a qual
abre assim uma via para a liberação do afetos anteriormente retidos e reprimidos.

5 "Eles [ os desejos inconscientes] partilham esse caráter de indestrutibilidade com


todos os outros atos anímicos verdadeiramente inconscientes, isto é, que pertencem
apenas ao sistema Ics. São vias estabelecidas (gebahnte) de uma vez por iodas, que jamais
caem em desuso e que, sempre que uma excitação inconsciente volta a catexiz;í.-las,
estão prontas a levar o processo excitatório à descarga."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VII/C ( 1 900) [ESB 5, 505/nota l ]

6 "Pode-se supor que, ao passar de determinado elemento para outro, a excitação tem
de vencer uma r�sistência e que é a diminuição da resistência assim alcançada qde dei..-xa
um traço permanente da excitação, isto é, uma facilitação (Bahnung). No sistema Cs., então,
uma resistência dessa espécie à passagem de determinado elemento não mais ex;stirá "
Além do Princípio do Prazer (1920) lESB 18, 42]
244 Facf/itação

7 "Ansiedade é, portanto, um estado especial de desprazer com atos de descarga


(Abfuhreahtionen) ao longo de trilhas (Bahnen) específicas."
Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) [ESB 20, 156]

------------ Comentários ------------

Bahn é um termo presente na neurologia do século x1x: designava as vias nervosas.


Conforme mencionado, o termo Bahnung (estabelecimento de vias) evoca a idéia
de dinamismo, pois remete à imagem de "abrir caminhos", "romper obstáculos e
aplainar". Além disso, a Bahnung estabelece uma interligação entre dois pontos pela
,qual coisas podem deslizar ou escoar.
De forma geral a Bahnung pode referir-se tanto a vias de interligação na acepção
concreta de interligações entre neurônios quanto a interligações entre representações,
desejos etc., numa acepção mais funcional de correlações, associações.

Um termo pouco freqüente, mas presente em alguns textos centrais

No "Projeto para uma Psicologia Científica" (1895) a palavra é utílizada com


bastante concretude, no sentido de "via", "caminho aplainado", "trilha indicada",
designando as ligações neuronais. A Bahnung ( "instalação de vias") deixaria um
"traço/rastro/pista" (Spur) definitivo (dauernd), estabelecendo um traçado associativo
da excitação.
Não cabe aqui discorrer sobre as inúmeras conexões das idéias contidas no
"Projeto" com os posteriores desdobramentos teóricos da teoria freudiana. Primordial­
mente naquele texto a "facilitação" se liga à constituição da memória (exemplo J);
entretanto, seu emprego também envolve aspectos que posteriormente, em outros
textos, receberão elaborações de cunho funcional, tópico e econômico. No exemplo 2,
retirado do mesmo artigo, o termo é err:pregado para descrever sistêmica e funcional­
mente uma quantidade de interligações neuronais (Bahnungen) capaz de inibir proces­
sos primários. Esse conjunto se constitui então funcionalmente como ego. Em outros
trechos do "Projeto", Freud descreve o papel das interligações neuronais facilitadas
(Bahnung) nos mecanismos psíquicos que envolvem o trânsito de quantidades de
energia e qualidades de afetos. Trata-se de um termo central, que mesmo mais tarde,
não sendo mais evocado nominalmente com tanta freqüência, permanece subjacente
a inúmeros conceitos, tais como "traço mnésico", "processamento associativo" ( Verabei­
tung), "associações" e "resistência" .
Na Interpretação dos Sonhos (1900), a palavra ainda é utilizada com alguma freqüên­
cia. No exemplo 3, extraído desse texto, a Bahnung liga-se aos processos de desloca-
Bahnung 245

mentos e condensação que se servem de vias facilitadas (gebahnte Wege) para percorrer
a rede de associações e catexizar representações aceitáveis para a censura (exemplo 3).
Também no texto Além do Princípio do Prazer (1920), o termo reaparece explicita­
mente quando Freud aborda a questão funcional da memória e da diferenciação
consciente/inconsciente e o sistema perceptivo (exemplo 6).

Vias de descarga

A Bahnung (estabelecimento de v ias) também se relaciona com o processo de


"descarga" (Abfuhr, escoamento, retirada). Ocasionalmente Freud emprega, em cone­
xão com o conceito de "descarga", a pal_avra Bahnen (vias), ou gebahnter Weg (caminho
facilitado). No exemplo 4, também retirado da Interpretação dos Sonhos, a Bahnung
permite o escoamento dos afetos para fora. No exemplo 5, onde Freud menciona a
importante noção de indestrutibilidade dos desejos, são os "caminhos facilitados para
sempre" (für allemal gebahnte Wege), que "nunca se extinguirão", que conduzirão a
excitação para "descarga" (Abfuhr, retirada, escoamento). Igualmente no exemplo 7,
retirado de Inibições, Sintomas e Ansiedade ( 1926), o substantivo Bahnen é utilizado por
Freud para designar as vias de descarga.
O conceito Bahnung pouco tem a ver com a palavra.portuguesa "facilitação", a não
ser no sentido de que se trata de uma via associativq instalada sem resistências e que
"facilita" o fluir dos afetos.

---; Descarga (Abfuhr), Elaboração (Verarbeitung), Deslocamento (Verschiefnmg)


t •

....

Formação de compromisso: Kompromij3bildung

E: Transacción, formación transaccional


F: Formation de compromis
I: Compromise Jormation

Kompromiflbildung é traduzido por "solução de compromisso" ou por "concilia­


ção".
A palavra alemã KompromijJ significa "compromisso" no sentido de "meio-termo",
designa uma situação em que ambos recuam para se entender.
De forma geral o termo é empregado em conexão com a idéia de viabilizar a
expressão de pulsões incompatíveis.
Será abordada somente a palavra KompromijJ, pois o termo Bildung ("formação")
não oferece maiores questões à tradução.

--------- 0 Termo em Alemão --- ------

Composição do termo

KompromijJ: Substantivo latino que significa "acordo de conciliação".

Significado de KompromiB

1) Solução intermediária, meio-termo. Após uma wnga discussão, chegaram a um acordo


(solução intermediária). Na vida é necessário aceitar certas coisas, conformar-se e encontrar um
meio-termo. (Man muJJ im Leben Kompromisse machen.) [WBW, 769; SBH, 328].

Conotações de Kompromillbildung

A) Quando há um acordo desse tipo, fica implícito que ambos os lados recuam
e fazem concessões, para superar um impasse (Kompromij]losung/solução de com­
promisso), ambos os lados cedem, mas ainda conseguem obter alguns direitos e
vantagens. Há algo da ordem de um "conformar-se" com uma solução possível.
Kompromil!,bildung 247

------ - Etimologia e Termos Correlatos -- - -- ---

Etimologi,a

Do latim com-promittere (prometer-se algo mutuamente). No século XV, passa a ser


mais usado no alemão como termo jurídico de equiparação, compensação, acordo.

Termos correlatos, derivados e compostos

Nada de relevante a acrescentar.

--- C omparação com o Termo em Português ---- -

Significados adicionais de
"compromisso " não presentes em KompromiB

2) Obrigação, promessa, palavra empenhada. As;úmi um compromisso que terei de


cumprir (comprometi-me a algo).
3) Horário marcado, atividade ou encontro combinado. A agenda estava repleta de
compromissos naquele dia.

Conotações adicionais de
"compromisso " não presentes em Kompromill

B) Em português "compromisso" pode, num uso mais vernacular, ser entendido


como "acordo n egociado", mas sua conotação enfatiza mais a obrigação ou responsa­
bilidade mútua que se cria do que o fato de haver um recuo mútuo.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Kompromi)J ' português: compromisso

sign ificados
1 solução intermediária 1 (raro em português e geralmente st�eito
a arbitragem) [NDA, 442]
2- 2 obrigação
3- 3 horário marcado
"
!. •

248 Fonnação de compromisso

conotações
A ambos recuam e se conformam A-
B- B foco na obrigatoriedade mútua

Enquanto em português "compromisso" expressa "assumir uma obrigação", "res­


ponsabilidade", "promessa", em alemão Kompromijl é o "acordo de meio-termo" para
superar um impasse. A tradução por "conciliação" também não reproduz a idéia de
superar um impasse por negociação.

------ - Exemplos de Uso em Freud

1 "Ferenczi (191 1), ao discutir algumas outras observações sobre o direcionamento dos
sonhos, comenta: 'Os sonhos elaboram por todos os ângulos os pensamentos que
ocupam no momento a vida anímica; abandonam uma imagem onírica quando* ela
ameaça o sucesso de uma realização de desejo e experimentam uma nova solução, até
finalmente lograrem criar uma realização de desejo que satisfaça às duas instâncias
anúnicas como uma solução de compromisso (lwmpromissuel[)' ." [Este parágrafo foi acrescen­
tado em 1914.]
A Interpretação dos Sonhos, cap. VII/C ( 1 900) [ESB 5, 521]
* quando "há uma ameaça de fracassar" a realização do desejo.
2 "Quando eles se impõem à nossa atenção* em determinado ponto, descobrimos,
pela análise do sintoma produzido, que esses pensamentos normais foram submetidos
a um tratamento anormal: foram transformados no sintoma por meio da condensação
e da formação de compromisso (Kompromijlbildung), através de associações superficiais
e do descaso pelas contradições, e também, possivelmente, pela via da regressão.
"Em vista da completa identidade entre os aspectos característicos do trabalho do
sonho e os da atividade psíquica que desemboca nos sintomas psiconeuróticos, sentimo­
nos autorizados a transpor para os sonhos as conclusões a que fomos levados pela histeria."
A Interpretação dos Sonhos, cap. VII/E ( 1900) [ESB5, 542]
* à nossa "percepção".
3a) "Fórmula 7 - Os sintomas histéricos surgem corno uma conciliação (KompromijJ) entre
dois impulsos afetivos e instintuais opostos, um dos quais tenta expressar um instinto
componente1 ou um constituinte da constituição sexual, enquanto o outro tenta suprimi-lo."
"Fantasias Histéricas e sua Relação com a Bissexualidade" ( 1 908) [ESB 9, 167]

b) "Essa nova descoberta não altera nossa sétima fórmula. Continua sendo verdade
que um sintoma histérico deve necessariamente representar uma conciliação2 (Kompro-
Kompromili,bildung 249
3
mijl) entre um impulso libidinal e um impulso repressor, mas pode também representar
a união de duas fantasias libidinais de caráter sexual oposto."
"Fantasias Histéricas e sua Relação com a Bissexualidade" ( 1 908) [ESB 9, 168]
1
um dos quais tenta expressar uma "pulsão parcial ou um elemento componente da
constituição sexual " , enquanto o outro tenta reprimi-lo.
2 necessariamente "corresponder a um compromisso (um acordo)" entre ( ... ).
3 ..correspon er" a' umao· - ( ... ).
d

4 "O núcleo do Ics. consiste em suas representações instintuais (Triebreprdsentan­


zen/ que procuram descarregar sua catexia; isto é, consiste em impulsos carregados de
desejo ( Wunschregungen). 2 Esses impulsos instintuais são coordenados entre si, existem
lado a lado sem se influenciarem mutuamente, e estão isentos de contradição mútua.
Quando dois impulsos carregados de desejo ( Wunschregungen), 2 cujas finalidades são
aparentemente incompatíveis (unqereinbar), se tornam simultaneamente ativos, um dos
impulsos não reduz ou cancela o outro, mas os dois se combinam para formar uma
finalidade intermediária (Kompromijl), um meio-termo."
"O Inconsciente" ( 1 915) [ESB 14, 2 1 3]
1 Triebrepri:isentanz significa "representante "aquele que está no lugar de" . .
",
2
Wunschregung é um termo de difícil tradução; algumas vezes tem sido traduzido como
"moção de desejo", significa algo como "movimento iniciá! interno de desejo", tem a conotação
de "iniciativa de desejo", "gesto inicial de desejo", "esboço de desejo".

5 "Em tal caso, o ego defende-se contra o impulso instintual mediante o mecanismo
da repressão. O material reprimido luta contra esse destino. Cria para si próprio, ao longo
de caminhos sobre os quais o ego não tem poder, uma representação substitutiva, que se
impõe ao ego mediante uma conciliação* (Kompromisses) - o sintoma. O ego descobre a
sua unidade ameaçada e prejudicada por esse intruso, e continua a lutar contra o sintoma,
tal como desviou o impulso instintual original. Tudo isto produz o quadro de neurose."
"Neurose e Psicose" ( 1 923) [ESB 19, 190]
* "mediante" um compromisso ("no sentido de solução de acordo").

6 "Os senhores também sabem que o conflito entre essas duas instâncias pode, sob
determinadas condições, produzir outras estruturas psíquicas que, assim como os
sonhos, são o resultado de conciliações (Kompromissen); e os senhores não haverão de
esperar que eu lhes repita aqui tudo o que estava contido em minha introdução à teoria
das neuroses, a fim de lhes demonstrar o que sabemos acerca dos fatores* determinan­
tes na formação de tais conciliações (Kompromi.flbildung). Os senhores perceberam que
o sonho é um produto patológico, o primeiro membro da classe que inclui os sintomas
histéricos, as obsessões e os delírios, sendo_, contudo, dif�renciado dos outros por sua
transitoriedade e por sua ocorr€!ncia sob rnndições gue fazem parte da vida normal."
250 Formação de compromisso

Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise;


Conferência 29: «Revisão da Teoria dos Sonhos" (1932-3) [ESB 22, 27]
* acerca das "condições" para tais formações de compromisso.

-------- - -- Comentários -------- --- -

Conforme mencionado, em alemão uma Komprornifllosung ("solução de compromis­


so") é o "acordo de meio-termo" para superar um impasse, é uma solução em que todos
cedem em alguns pontos para viabilizar o acordo. A palavra KompromijJbildung significa
"formação de compromisso".
Freud a utiliza desde seus primeiros textos analíticos. Embora Kompromij3bi1,dung seja um
· conceito de cunho mais técnico, a palavra mantém o sentidojá mencionado de uma formação
calcada num "meio-termo obtido por um acordo em que ambos os lados recuam".
No decorrer do tempo o conceito passa a ter um uso extensivo, para designar as
diversas combinações (sonhos, sintomas etc.) que viabilizam a manifestação de exigên­
cias pulsionais incompatíveis. Tal incompatibilidade geralmente é designada pela
palavra unvertraglich (intolerável, inassimilável, indigesto), a qual expressa a impossibilida­
de essencial de coexistência entre duas pulsões ou representações (às vezes Freud também
emprega a palavra de cunho mais lógico e neutro unvereinbar, «não unificável").
A incompatibilidade entre exigências pulsionais não se refere propriamente a um
conflito ao nível inconsciente (no inconsciente não há contradições), mas a um conflito
de interesses quando essas pulsões, sob a forma de representações, entram em contato
com instâncias ligadas à sua realização na realidade (exemplo 4).
Em geral, trata-se de um conflito entre representantes de exigências pulsionais
emanadas de instâncias psíquicas diversas. De forma mais direta, Freud às vezes
refere-se a um conflito entre pulsões. No exemplo 3-a, é mencionado um conflito entre
uma pulsão recalcada que pressiona para chegar à consciência e outra que trabalha no
sentido de recalcar. Ocasionalmente também pode tratar-se de duas pulsões opostas,
que procuram se fazer representar e disputam entre si a primazia (exemplo 3-b, "duas
fantasias libidinais de caráter sexual oposto").
O que torna as "formações de compromisso" possíveis é o fato de as exigências
pulsionais poderem ter uma forma de expressão amenizada através de deslocamentos,
condensações, conversões, associando representações substitutivas etc. (ver primeira
parte do exemplo 2 e exemplo 5). Tais mecanismos permitem então a constituição de
"formações de compromisso", que podem assumir formas variadas: sonhos, conversões,
obsessões ou chistes (exemplos 6 e 2).
Uma vez que ambos os lados "cedem", o material pode aflorar à consciência e obter
alguma satisfação ( exemplo 1). Entretanto., por ser uma "solução de compromisso"
(também designada por Freud "de meio-termo"), não se presta à satisfação maior da
Kompromil!,bildung 251

pulsão reprimida, e tampouco passa totalmente pelo crivo do recalque. Portanto, não
dando conta de satisfazer realmente a nenhum dos lados, a "formação de compromisso"
não evita que prossiga o conflito entre a pulsão que aflora e o recalque. Desse conflito
podem nascer pato1ogias psíquicas (exemplos 4 e 6).
Em todos os exemplos elencados (1 a 6) pode-se notar na palavra KornpromijJ a
conotação de um ,acordo em que há perdas para ambos os lados, algo que se aceita mas
que não é muito satisfatório, um estado precário de "acordo".
'
,.- .
·J •

Frustração: Versagung

Privação: das Versagen

E: Frustración, denegación
F: Frustration, refus, refusement (das Versagen)
I: Frustration

Versagung é geralmente traduzido por "frustração", palavra que não corresponde


exatamente ao termo alemão. O verbo versagen tem três vertentes de sentido: 1) (usado
de forma intransitiva) "falhar", "ratear", "fracassar"; 2) (usado de forma reflexiva)
"privar-se", "abdicar de", "renunciar a"; e 3) (usado de forma transitiva) "vedar o acesso
ao objetivo", "impedir", "proibir".
A5 três vertentes indicam a não-consecução do objetivo. O termo alemão não se
refere ao sentimento que acm;n panha o fracasso ou a proibição ( eventualmente decep­
ção ou frustração).
Os substantivos das Versagen e die Versagung tendem a se diferenciar entre si; por
via de regra, Versagen é utilizado para "fracasso" ou "falha" e Versagung para "privação",
"rejeição" ou "recusa de acesso".

--------- 0 Termo em Alemão -- -------

Composição do termo

ver-: Prefixo que em geral designa as conseqüências de "ir muito adiante" (seja
prolongar-se temporalmente, seja progredir geograficamente). Indica fenômenos bas­
tante contíguos: "transformação", "fechamento", "extinção", "gasto", "perda", "lapsos"
etc. Também pode indicar a "intensificação de uma ação" (a ação se mantém "indo
adiante" e eventualmente em excesso), bem como apontar para uma ação de "ir ou ser
levado embora", "ir ou ser levado a outro lugar".
sag-": Corresponde ao radical do verbo sagen, "dizer".
-ung: Sufixo de substantivação que freqüentemen_te · corresponde a "-ção'' em
português.
Versagung 253

Significados do verbo versagen,


do substantivo Versagen e do substantivo Versagung

1) (Verbo versagen): Fracassar, falhar, ratear, não corresponder à expectativa, entrar


em colapso. As pernas lhe fraquejaram. O substantivo Versagen significa ''fracasso",
"falha".
2) (Verbo versagen na forma reflexiva): Privar-se de, abdicar de. Ela se privou de
divertir-se. O substantivo Versagung; . atualmente incomum, significa "privação", "impe­
dimento" .
3 ) Recusar, rejeitar, proibir. Ele não lhe consentiu (proibiu de) sai1: O substantivo
Ver.rngung, atualmente incomum, significa "proibição", "recusa".
[Exemplos adaptados do WBW, 1370, do DW, 1 035, e do SBH, 70 1 .]

Conotações do verbo
versagen e dos su.bstantivos Versagung e Versagen

A) O termo versagen (no semido 1, verbo intransitivo) liga-se somente de forma


indireta ao sentimento de "decepção" ou "frustração,"-: Versagen significa que algo não
desempenha o esperado, há um "ratear", uma "falha", um "fracasso". Não há ênfase sobre
a emoção eventualmente associada. Entretanto, rastreando-se o efeito emocional da
"falha" ou do "ratear", chega-se no máximo a algo que poderia ser designado por
"frustração momentânea", uma decepção.
B) Nos sentidos 2 e 3 (privação e proibição), o foco é sobre a retirada do objeto, ou
sobre o ato de vedar o acesso ao objeto. Não abarca a conseqüência emocional que a
privação ou proibição provocam internamente (um eventual sentimento de frustração).
Há uma ênfase sobre a ação. Gramaticalmente, o emprego do verbo nos senlidos 2 e
3 é transitivo ("retiro/proíbo" algo "de/a alguém"). O objeto sofre ;i ação de ser
retirado e o sujeito sofre a ação de ser privado do acesso.
Conquanto a composição e o sentido de Versagung sejam semelhantes à palavra
portuguesa "interdição" (um dizer que fecha ou bloqueia), não são termos realmente
equivalentes, pois "interdição", antropológica e psicanaliticamente, tem conexão com
a lei paterna e com o tabu, liga-se à moral e possui certa solenidade. A Versagung é
simplesmente impedimento, proibição, bloqueio; algo de cunh<:> mais momentâneo e
localizado, desprovido da generalidade e força de um tabu ou de um interdito. Em
alemão, "frustrar a realização do desejo" (die Bejriedigung eines Wunsches versagen)
significa apenas "bloquear sua realização" (no sentido de privar o outro do acesso à
sua realização). .'
254 Frustração

------ - Etimologia e Termos Correlatos ---- -- -

Etimologia

ver-: Vários prefixos se fundiram no moderno ver-. Da raiz indo-européia ·*per, a


qual significava algo equivalente a "conduzir para fora passando por sobre", derivam-se
três formas ainda arcaicas pertencentes ao tronco indo-europeu: *per[i}, *pr- e �pro-. No
gótico faír- (para fora), e Jaúr- (adiante, já passado) e fra- (embora, para adiante).
Também se encontra esta separação no grego (peri-, par- e pro-) e no latim (per-, por- e
pro-). Outros prefixos ainda pertencem a este tronco, por exemplo, o latim prae- e sua
forma germanizada atual pra- ou ainda o grego pára (ao longo, muito para adiante). No
alemão atual encontram-se prefixos, advérbios e preposições derivados desla raiz
indo-européia comum:für (por, para, no lugar de), vor (adiante, diante de, desde) ejort
(algo que se foi, foi embora, ver o "Fort-Da" de Freud) efern (longe, longínquo). Além
disso, este prefixo *pre- evoluiu e deu origem a dezenas de palavras: Fratt (mulher),
fremd (estranho, estrangeiro),first- (forma arcaica de "destacado"), Frist (prazo),Jahren
(ir, conduzir, guiar), Gefahr (perigo) etc. Devido aos limites de espaço, não cabe aqui
esclarecer mais detalhadamente; contudo, todos os casos mencionados têm origem no
conceito de "ir adiante" e freqüentemente de perder contato com a origem.
Dificilmente se podem ligar os atuais sentidos do prefixo ver- com sua forma trinária
no gótico. Muitas vezes corresponde à forma gótica fra- (para longe, desaparecido,
embora), quando utilizado com verbos que designam: 1 ) "transformar-assimilar"
(verarbeiten); 2) "utilizar-gastar" (verbrauchen); 3) "estragar-apodrecer" (verderben); 4)
"desaparecer" (verschwinden).
Nestes quatro casos podem ser incluídos os verbos que expressam "fechamento"
(verschliejlen), como "obstruir" (verbauen). Também verbos que expressam "desperdício
de tempo", tais como "perder a hora" (verschlafen), "perder um compromisso" (versãu­
men), e ve::rbos de "lapso ou para enganar o outro", tais como "perder-se" (sich verlaufen)
e "seduzir" (verführen). No texto freudiano os verbos que designam lapsos geralmente
possuem o prefixo ver-. O prefixo liga-se ainda a adjetivos, produzindo verbos que
descrevem "causar um efeito", "embelezar" (verschõnern); quando se liga a substantivos
(vershlaven, verfilmen etc.) designa "transformação". Igualmente serve de prefixo a
verbos que designam o ato de "dotar", "prover", ou "providenciar" (versehen), "dourar"
(vergolden), "embalar-encaixotar" (verschachteln). Além disso, ver- entrou no lugar de outros
prefixos, tais como er- e zer-.
-sagen: Derivou-se da raiz indo-européia *seky- (observar, ver, seguir com os olhos).
Essa raiz gerou verbos e palavras pertencentes ao campo de "ver" (sehen), de onde se
originou o sentido de "notar"-"observar", os quais se estenderam para "mostrar" r
"anunciar" e finalmente para "dizer" (aliás, "observar" em português também possui
um duplo uso, referindo-se tanto ao campo visual de "ver-notar" quanto ao oral de
Versagung 255

"comentar"). No antigo alto-alemão o verbo "dizer" assume a forma sagen e no médio


alto-alemão sagen. No alemão atual, não se percebe mais a antiga ligação entre "dizer"
e sua origem visual, ligada a "ver".

Termos correlatos, derivados e compostos

Nos casos abaixo o prefixo ver- introduz os sentidos de "bloquear" ou "fechar",


portanto retirando ou impedindo o acesso a algo.
verbieten: proibir (prefixo ver- + verbo oferecer); verschliejlen: vedar, fechar (prefixo ver­
+ verbo fechar); verbauen: obstruir, tapar com construção (prefixo ver- + verbo construir).
Nos exemplos a seguir o verbo sagen significa "dizer" no sentido de afirmação.
absagen: desmarcar, cancelar; zusagen: confirmar; ansagen: anunciar.

----- Comparação com o Termo em Português -----

ó substantivo Versagung será contrastado com "frustração ", termo freqüentemente


empregado em traduções para o português. O verbo versagen e o substantivo Versagen
geralmente têm sido traduzidos por renunciar/renúncia ou privar/privação, não
causando maiores dificuldades de entendimento.

Significados adicionais de
"frustrar" e ''frustração " não presentes em versagen e Versagung

4) Sentimento: ter ou provocar amargura, insatisfação (utilizado como verbo


reflexivo ou substantivo). Ele é uma pessoa frustrada. Só conheceu frustrações na vida.
5) Impedir que se realize uma ação. Impedir satisfação. Solapar (utilizado geral­
mente como verbo). Frustraram o ataque. Dizem que uma criança necessita serfrustrada já
na tenra infância.

Conotações adicionais de
"frustrar" e ''frustração " não presentes em versagen e Versagung

C) Em português "frustrar", referindo-se ao sentimento causado pelo fracasso,


descreve a conseqüência mais prolongada de deixar alguém sofrendo as conseqüências
de não gozar da satisfação. O foco é sobre a ressonância interna no sujeito. Expressões
como "sujeito frustrado", "uma vida cheia de frustrações", "sentir-se frustrado numa
relação amorosà" apontam para um sofrimento prolongado, para as conseqüências da
não-satisfação gue irão amargurar o sujeito.
256 Frustração

D) "Frustrar uma ação" enfatiza impedir que tenha êxito, apagá-la, anulá-la.
Expressões como "frustrar alguém", "frustrar a ação inimiga" etc. enfatizam menos a
retirada do objeto ou o "vedar" o acesso (sentidos 2 e 3 em alemão), do que o
impedimento da realização da ação (sentido 5). O uso em português é no sentido de
solapar as condições para a ação e retirar seu empuxo, algo como provocar um
"murchar". Em alemão, versagen, nos sentidos 2 e 3, não tem esta conotação.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: versagen, das Versagen, português: frustrar, frustração


die Versagung
significados
1 fracassar/fracasso (versagen/ 1 (eventualmente pode também significar
das Versagen) fracassar, falhar)
2 privar-se de/privação (sich etwas 2 -
versagen/die Versagung)
3 proibir/proibição (jemandem ei:was 3-
versagen/die Versagung)
4- 4 provocar sentimento de sofrimento ou
amargura; amargura/sofrimento
5- 5 impedir/solapar; impedimento
conotações
A evoca somente um momento de A-
decepção
B bloqueio ao acesso, ou ausência B-
do objeto /ausência do objeto
C- C sofrimento prolongado
D- D foco no ato de solapar as condições de
satisfação

Ao traduzir-se versagen por "frustração" perde-se o sentido de fracasso/colapso


(sentido 1 , raramente presente em português). Tampouco se reproduz o significado
de "retirada do objeto" ou "impediment o de acesso" (sentidos 2 e 3 e conotação
B). Além disso, contamina-se o termo com aspectos do português (sentido 4 e
conotação C, uma amargura quase existencial que consome o sujeito, uma profun­
da decepção) .
Quanto aos substantivos do alemão, Versagen (fracasso) e Versagung ("privação" e
"proibição"), sendo todos traduzidos sob a mesma rubrica ("frustração"), empobrece-se
a diferenciação de sentidos constante no original. No sentido de "impedir", a palavra
"frustrar" em português refere-se à eliminação das condições de satisfação (sentido 5
e conotação D) e, de certa forma, assemelha-se ao sentido 3 (proibir).
Versagung 257

Apesar de versagen e "frustrar" terem os sentidos 3 e 5 em comum ( o de "impedir"


ou "proibir" o acesso), ao serem utilizadas em frases psicanalíticas as duas palavras se
prestam a provocar certas distorções devido à forte conexão da palavra portuguesa
"frustração" com o "sentimento de frustração", algo que pode se aproximar de um
estado crônico de desânimo e tristeza.

-------- Exemplos de Uso em Freud --------

1 "O efeito da frustração* (Versagung) reside em ela colocar em jogo os fatores


disposicionais que até então haviam sido inoperantes."
"Tipos de Desencadeamento da Neurose" (1912) [ESB 12, 292]
* Não se refere aqui ao sentimento, mas a "proibição" ou "impedimento".
2 "Há apenas duas possibilidades de permanecer sadio quando existe uma frustra­
ção 1 (Versagung) persistente no mundo real. A primeira é transformar a tensão psíquica
em energia ativa, que permanece voltada para o mundo externo e acaba por arrancar
dele uma satisfação real da libido. A segunda é renunciar à satisfação libidinal, sublimar
a libido represada e voltá-la para a consecução de obje'tivos que não são mais eróticos
2 1
e fogem à frustração (Versagung)."
"Tipos de Desencadeament� da Neurose" (1912) [ESB 12, 292]
Não se refere aqui ao sentimento, mas a "proibição" ou "impedimento".
1
2 Em vez de
"fogem à frustração", "evitam (circundam) o obstáculo (o impedimento)".

3 "Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último
recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair
doentes se, em conseqüência da frustração* (Vmagung), formos incapazes de amar. ( ... )
Reconhecemos nosso aparelho mental como sendo, acima de tudo, um dispositivo
destinado a dominar as excitações que de outra forma seriam sentidas como aflitivas ou
teriam efeitos patogênicos. Sua elaboração na mente auxilia de forma marcante um
escoamento das excitações que são incapazes de descarga direta para fora, ou para as quais
tal descarga é, no momento, indesejável. No primeiro caso, contudo, é indiferente que ésse
processo interno de elaboração seja efetuado em objetos reais ou imaginários. A diferença
não surge senão depois - caso a transferência da libido para objetos irreais (introversão)
tenha ocasionado seu represamento. ( ... ) Nos parafrênicos, a megalomania permite uma
semelhante elaboração interna da libido que voltou ao ego; talvez apenas quando a
megalomania falhe (versagt), o represamento da libido no ego se tome patogênico e inicie
o processo de recuperação que nos dá a impressão de ser uma doença."
"Sobre o Narcisismo: Uma Introdução" ( 1 9 14) [ESB 14, 102]
Frustração

* O texto original não se refere à incapacidade de amar devido à frustração, mas devido a
um impedimento. A tradução correta é: se, em conseqüência de sermos impedidos, não
pudermos amar.

4 "Lembrar-se-ão os senhores de que foi uma frustração* ( Versagung) que tornou o


paciente doente, e que seus sintomas servem-lhe de satisfações substitutivas."
"Linhas de Progresso na Terapia Psicanalítica" (19 18-9) [ESB 17, 205)
* Não se refere aqui ao sentimento, mas a "proibição" ou "impedimento".

5 "O tratamento analítico deve ser efetuado, na medida do possível, sob privação
(Entbehrung) - num estado de abstinência (Abstinenz). ( ... ) Lembrar-se-ão os senhores
de que foi uma frustração* (Versagung) que tornou o paciente doente, e que seus
sintomas servem-lhe de satisfações substitutivas. ( ... ) Cruel como possa parecer, deve­
mos cuidar para que o sofrimento do paciente, em grau de um modo ou de outro
efetivo, não acabe prematuramente."
"Linhas de Progresso na Terapia Psicanalítica" (19 1 8-9) [ESB 1 7, 205)
* Não se refere aqui ao sentimento, mas a "proibição" ou "impedimento".

6 "É conveniente negar-lhe (versagen) precisamente aquelas satisfações que mais


intensamente deseja e que mais importunamente* expressa."
"Linhas de Progresso na Terapia Psicanalítica" (19 18-9) [ESB 11, 207)
* e que mais "urgentemente" expressa/ou pelas quais mais "urgentemente" clama.

7 "Qual a satisfação a que ele renunciou (versagt)? E por que teve de renunciar
(versagen) a ela? ( ...) Não faremos qualquer progresso enquanto não tivermos passado
em revista a situação psíquica do menino corno um todo, quando ela veio à luz no curso
do tratamento analítico. Ele se encontrava, à época, na atitude edipiana ciumenta e
hostil em relação ao pai, a quem não obstante - salvo até onde a mãe dele era causa
de desavença - amava ternamente."
Inibições, Sintomas e Ansiedade ( 1926) [ESB 20, 123-4]

8 "A primeira destas duas alternativas pode ser levada a cabo por duas maneiras: na
realidade ou na transferência, em qualquer dos casos expondo o paciente a certa
quantidade de sofrimento real, mediante a frustração (Ver.sagung) e o represamento da
libido. Ora é verdade que já fazemos uso de urna técnica desse tipo em nosso procedimento
analítico comum, pois qual, de outra maneira, seria o significado da regra segundo a qual
a análise deve ser levada a cabo 'num estado de frustração' ( Versagung)?"
"Análise Terminável e Interminável" (1937) [ESB 23, 264)
Versagung 259

------------ Comentários ------------

Versagen, das Versagen e die Versagung

Freud utiliza o verbp versagen nas suas três acepções coloquiais: "fracassar" ou
"falhar" (última frase do exemplo 3); "privar-se ", "abdicar", "renunciar a" (exemplo 7);
e "bloquear", "impedir", "proibir o acesso" (exemplo 6).
O substantivo das Versagen é geralmente utilizado para designar o fracasso ou falha
na satisfação de certa pulsão por causas próprias, sem interferência externa.
Die Versagung normalmente refere-se à interdição ou ao impedimento da saüsfação.
Ocorre através de uma interferência externa que retira o objeto ou veda o acesso a ele
- por exemplo, devido a estratégias analíticas (exemplo 5).

Bloqueio à satisfação

Os termos referem-se a diversas formas de vedar ou impedir o acesso do sujeito à


satisfação. Tal impedimento pode ocorrer por ação deliberada do analista ou devido
a outras circunstâncias - por exemplo, pela inserçã9do sujeito no Édipo (exemplo 7).
Nos exemplos 5, 6 e 8, Freud cita ser necessário manter a privação e atualizar o
decorrente sofrimento para manter o progresso da análise.

Versagung como causa patogênica

De forma geral as diversas acepções do termo relacionam-se com a impossibilidade


de o sujeito descarregar estímulos (Reize), levando a um acúmulo de tensão.
O grau de resistência à privação e o conseqüente acúmulo de tensão variam de indivíduo
a indivíduo. No artigo "Tipos de Desencadeamento do Adoecimento Neurótico" ( 1912), a
Vmagung é definida como a causa etiológica do adoecimento em pacientes com fatores
disposicionais aúvados (constitucionalmente pouco resistentes à privação, exemplo 1).
A Versagung acaba por acarretar um aumento da estase (acúmulo de tensão,
exemplos 3 e 8) e pode se tornar patogênica se não puder ser reduzida - por exemplo,
pela "sublimação� (exemplo 2) - ou descarregada internamente (exemplo 3).
O sujeito neurótico, constitucionalmente menos capaz de resistir à privação ou bloqueio
da saúsfação pulsional, poderá, como resposta à privação (Venagung), fazer um esforço de
"substituição de objeto" ou "substituição de satisfação". Freud formula neste contexto a
idéia de "formação substitutiva" (Ersatzbildung) (exemplos 4 e 5). Seu sentido é restituir o
objeto ou a satjsfação. Tais formações podem não dar conta de quebrar por i nteiro o
bloqueio à satisfação pulsional, mas amenizam ocasionalmente o sofrimento. Na última
260 Frustração

frase do exemplo 3, Freud menciona o fracasso do mecanismo de satisfação pulsional pela


descarga interna numa situação em que a real satisfação e a descarga não são possíveis.

Versagung e sentimento de frustração

Em todos estes usos se nota que o emprego do termo pouco se refere ao sentimento
gue em português se designa por "frustração". Apesar do represamento de libido e do
decorrente sofrimento provocados pela Versagung (impedimento ou bloqueio), a tradu­
ção por "frustração" introduz uma tonalidade de amargura e de tristeza existencial não
presente no termo alemão.
Além dessa distorção de "tonalidade", a tradução que iguala Vmagung (fracasso,
bloqueio) ao sentimento de "frustração" introduz distorções de sentidos. Bastante ilustra­
tivo para esse tipo de confusão é o seguinte trecho do exemplo 3, retirado do texto "Sobre
o Narcisismo: Uma Introdução" (1912), traduzido por: "( ... ) estamos destinados a cair
doentes se, em conseqüência da frustração, formos incapazes de amar".
Na frase original Freud não afirma que é por estarmos "frustrados". que nos
tornamos incapazes de amar, mas que devido a um impedimento (bloqueio imposto,
ser impedido) não pudemos amar: "( ... ) estamos destinados a cair doentes se, em
conseqüência de um impedimento ( ou bloqueio imposto, proibição), não pudermos
amar" (wenn man injolge von Versagung nicht lieben kann).
Caso se deseje utilizar a palavra "frustrar" no sentido de "impedir", deve-se traduzir
a frase por "( ... ) estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência de ter sido
frustrada nossa tentativa de amar, somos impedidos de amar".
ld ou "o isso": das Es

E: Ello
F: Ça
1: Id
Quando introduz a chamada segunda tópica, Freud emprega o pronome es de
forma substantivada, das Es. Articula-o com duas outras instâncias, o Eu (das Ich) e o
Supereu (das Über-ich), também designadas por um pronome pessoal (ich, eu).
Quanto ao pronome es, é o pronome pessoal do gênero neutro; em alemão há
pronomes de três gêneros: masculino, feminino e neutro, respectivamente er (ele), sie
(ela) e es (neutro, semelhante ao it do inglês). O es é um pronome de múltiplos usos e
funções. Pode ser empregado em frases corriqueiras, referentes a objetos e pessoas de
gênero neutro, bem como em contextos que remetem a algo indefinido e inominávei
(fenômenos metereológicos, estados que acometem o sujeito etc.).
Seu emprego no contexto psicanalítico se presta bastante bem a evocar a imagem
de algo contido no sujeito mas que lhe é simultaneme1:1te estranho.
A substantivação das Es é uma criação filosófico-r,sicanalítica estranha ao emprego
coloquial. Seu significado, entretanto, remete ao pYonome pessoal es, de uso corrente
em alemão. Na sessão abaixo será tratado o uso de es como pronome pessoal.

------- --- 0 Termo em Alemão ------- ---

Composição do termo

Termo simples.

Significados do termo es

O pronome pessoal es tem inúmeros usos no alemão cotidiano; seguem-se alguns


dos principais, listados segundo a lógica gramatical e semântica alemã:
1 ) Pronome p�ssoal neutro da terceira pessoa, próximo ao it do inglês. Ela está aqui
(Es ist hier) [Refere-se a pessoa, animal ou objeto de gênero neutro, por exemplo, das
Kind, a criança.]
2) Pronome pessoal que se refere a conteúdos de frases ou objetos indicados em
frases precedentes. Eu não o creio (ich glaube es nicht). Ela o disse (Sie sagt es).
3) Pronomé pessoal utilizado com verbos impessoais. Chove (Es regnet). Neva aqui
(Es schneit).
262 !d ou "o isso "

4) Pronome pessoal utilizado com verbos que designam eventos de causas indeter­
minadas, crescimentos e ruídos. Floresce (Es blüht). Crepita (Es knistert).
5) Pronome pessoal utilizado com verbos que designam acontecimentos em si, onde
os participantes ficam em segundo plano, deixando a frase mais anônima (em alemão,
empregado freqüentemente na voz passiva). Falava-se, cantava-se e bebia-se (Es wurde
gesprochen, es wurde gesungen, es wurde getrunken).
6) Pronome pessoal utilizado com verbos que designam ações que independem do
sujeito. Eu não respiro, isso respira por mim (Jch atme nicht, es atmet in mir).
7) Pronome pessoal utilizado para verbos que designam sensações corpóreas e
psíquicas por influência externa. Algo difícil de reproduzir em português; poder-se-ia
tentar traduzir por Mefazfrio (Esfriert mich) [utilizado em vez de "sinto frio"] .
8) Como elemento que ocupa um lugar no início de frases. Era uma vez uma princesa
. (Es war einmal eine Prinzessin). Vieram meus dois filhos (Es kamen meine zwei Kinder).
[Exemplos adaptados do D 4, 555-8.]

Conotações do termo es

A) O pronome es designa com freqüência algo que se manifesta como que à revelia
do indivíduo, tendo a função de personalizar o que é indeterminado, impessoal e
indefinível, mas que pode ser apontado e circunscrito por um pró-nome. É co.-no se em
alemão não pudesse m existir frases sem sujeito nomeável (mesmo quando em portu­
guês corresponderiam a frases de sujeito oculto, inexistente ou indeterminado). Alguns
comentáiios a respeito, constantes na gramática alemã Duden-Grammatik [D 4, 555-8],
são bastante elucidativos: "( ... ) Enquanto alguns pesquisadores não reconhecem ao es
um valor como conteúdo e o consideram uma palavra de uso puramente formal ou
um sttjeito fictício, outros vêem no es a expressão verbal da ação de forças impessoais,
irracionais ou míticas. Entretanto, mesmo aqueles que são céticos com relação a
interpretações mitológicas deveriam admitir que nas frases a seguir o es designa causa
indefinidà de um acontecimento".
Em seguida os autores enumeram exemplos de uso do es dos quais apenas alguns
são reproduzidos aqui de forma resumida, bem como os respectivos comentários.
Seguindo a numeração do original, os comentários começam pelo número 2.
2. Para verbos de ruído: farfalha, es raschelt; range, es knistert. Segue o comentário
dos autores: "Na medida em que tais impressões auditivas apontam facilmente para o
reino do secreto, até mesmo do sinistro (des Unheimlichen), favorece-se tal interpretação
do es".
3. Verbos de sensações corporais ou psíquicas (seelischer Empfindungen): me faz fiio,
es friert mich; isso me exige por você [no sentido de "sinto saudades"] es verlangt mich
nach dir. Segue o comentário dos autores: "A maioria destas expressões parecem hoje
e m dia antiquadas. Elas em parte soam bíblica ou poeticamente. Privilegiamos atual-
das Es 263

mente formas pessoais, tais como: eu tenho fome, ich habe Hunger, formas estas
antigamente inexistentes na língua. Pode-se pressupor que o avanço das expressões
pessoais em detrimento das impessoais, nas quais o es apontava para uma influência
externa (Jremd) ífremd, em alemão, significa externo, estrangeiro, estranho], esteja
ligado à atitude mais autoconsciente do homem perante a natureza".
4. Forma de emprego impessoal de um verbo. O comentário dos autores: "Assim
um verbo pode a qualquer momento ser empregado de forma impessoal, quando se
desejar expressar que se trata de um acontecimento que de alguma maneira escapa à
vontade humana. ( ... ) O es pode ser considerado significativo, pois indica que aqui uma
força inexplicável e independente de nossa vontade entra em ação. Justamente os
escritores exploraram este tipo de possibilidade: 'Também não era eu que gritava,
gritava em mim, era um êxtase sagrado das dores' (Ich schrie nicht selbst, es schrie, es war
eine heilige Ekstase der Schmerzen) (Thomas Mann). Portanto é possível aind::t hoje a
qualquer momento inserir o es de forma que desempenhe uma função que em muito
extrapola o mero papel de sujeito gramatical fictício".
5. Para expressar ocorrências em si. Ocorrências nas quais a pessoa que as
ocasionou deve ficar em segundo plano, não expressas por construções verbais com es:
Comeu-se e bebeu-se, dançou-se e cantou-se (es wurde gegessen und getrunken, getanzt und
-'
gesungen ). 1
B) Tal qual o pronome "o" em português, também em alemão o pronome es tem
o papel de "resumo", de "compactar" o conteúdo que já foi mencionado numa frase
anterior (sentido 2).

Este conjunto de conotações será retomado mais adiante, no item que trata do
emprego do termo no contexto psicanalítico.

------- Etimologia e Termos Correlatos -------

Etimologia

Das raízes indo-européias *e- e *i-, das quais derivaram tanto o numeral "um" (ein)
quanto pronomes pessoais na terceira pessoa. No gótico is, ita, no latim is e id e no
antigo e no médio-alto alemão er e e� Mais tarde, formas declináveis se estabilizam no
antigo alto-alemão em imu, imo, iru, in[an], ira, iro, correspondendo no alemão atual a
ihm, ihr e ihn. No século xvm, ainda era comum a forma de tratamento er (ele) para
pessoas de nível social inferior. Os pronomes possessivos e a maioria das formas
declinadas de es ainda são idênticos às do pronome masculino er; entretanto, atualmente
seu uso é bastante diferenciado do pronome da terceira pessoa masculina.
,'
. '-ii·.�

264 !d 011 "o isso "

Termos correlatos, derivados e compostos

Não há.

---- - C omparação com o Termo em Português ----

O termo será contrastado com o pronome "isso", pois tanto a substantivação "o
isso" quanto o termo latino id são próprios do jargão psicanalítico, não sendo empre­
gados no português coloquial.

Significados adicionais do termo "isso " não presentes em es

9) "Isso" tem o significado usual de pronome demonstrativo e eventualmente de


interjeição. Isso me agrada. Isso! Muito bem!

Conotações adicionais do termo "isso " não presentes em es

Nada a acrescentar.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: es português: isso


significados
1 pronome pessoal neutro da terceira 1 -
pessoa
2 conteúdos de frases ou objetos 2 (eventualmente)
precedentes
3 verbos impessoais 3 -
4 eventos de causas indeterminadas 4 (eventualmente)
5 acontecimento com participantes 5-
anônimos (freqüentemente na voz passiva)
6 ações que independem do sujeito 6 (eventualmente)
7 sensações corpóreas e psíquicas 7 (eventualmente)
por influência externa
8 elemento no início de frases 8-
9- 9 pronome demonstrativo e interjeição
das Es 265

conotações
A personaliza a existência e A -
circunscreve o que é indefinido
B compacta conteúdos maiores B -

Os sentidos de 3 a 7 e a conotação A evocam certa indeterminação, impessoalidade


e externalidade, referem-se à "nomeação pró-nominal" de manifestações que não estão
personificadas. O sentido 2 e a conotação B enfatizam a função do es de referir-se a
conteúdos maiores (conotação B). A tradução por "o isso", embora pouco usual em
português, talvez permita aproximar-se de alguns sentidos e conotações do alemão,
pois em português pode-se empregar o pronome demonstrativo "isso" em várias
acepções de es (sentidos 2, 4, 6 e 7). A tradução por id procura reativar a proximidade
etimológica entre o id latino e o es germânico.

------- Exemplos de Uso em Freud

1 "Ora, acredito que lucraríamos seguindo a su,s-estão de um escritor que, por


motivos pessoais, assevera em vão que nada tem a ver com os rigores da ciência pura.
Estou falando de Georg Groddeck, o qual nunca se cansa de insistir que aquilo que
chamamos de nosso ego comporta-se essencialmente de um modo passivo na vida e
que, como ele o expressa, nós somos 'vividos' por forças desconhecidas e incontroláveis.
Todos nós tivemos impressões da mesma espécie, ainda que não nos tenham dominado
até a exclusão de todas as outras, e precisamos não sentir hesitação em encontrar um
lugar para a descoberta de Groddeck na estrutura da ciência. Proponho levá-Ia em
consideração chamando a entidade que tem início no sistema Pcpt. e começa por ser
Pcs. de ego, e seguindo Groddeck no chamar a outra parte da mente, pela qual essa
entidade se estende e que se comporta como se fosse Ics., de 'id' (das Es)."
O Ego e o Jd ( 1923) [ESB 1 9, 37]

2 "O próprio Groddeck, indubitavelmente, 1 seguiu o exemplo de Nietzsche, que


utilizava habitualmente este termo gramatical para tudo que é impessoal em nossa
2
na tureza, por assim dizer, sujeito à lei natural."
O Ego e o ld ( 1923) [ESB 1 9, 37]
1
"provavelmente", "aparentemente".
2 para aquilo que em nosso "ser" (ou "essência") é impessoal e, por assim dizer, "contingente
por força das leis da natureza".
'
4'

266 !d ou "o isso •

3 "Além disso, o ego procura aplicar a influência do mundo externo ao id (Es) e às


tendências deste,* e esforça-se por substituir o princípio de prazer, que reina irrestri­
tamente no id (Es), pelo princípio de realidade."
O Ego e o Id ( 1923) [ESB 19, 39]
* "deste" refere-se às tendências do id.
4 "O ego representa o que pode ser chamado de razão e senso comum, em contraste
com o id (Es), que contém as paixões. Tudo isto se coaduna às distinções populares a
que estamos familiarizados; ao mesmo tempo, contudo, só deve ser encarado como
confirmado na média* ou 'idealmente'."
O Ego e o Id ( 1 923) [ESB 19, 39]
* "na média" no sentido de "em geral", "em média".
5 "As experiências do ego parecem, a princípio, estar perdidas para a herança; mas,
quando se repetem com bastante freqüência e com intensidade suficiente em muitos
indivíduos, em gerações sucessivas, transformam-se, por assim dizer, em experiências
do id (.Es), cujas impressões são preservadas por herança_ Dessa maneira, no id (Es),
que é capaz de ser herdado, acham-se abrigados resíduos das existências de incontáveis
egos; e quando o ego forma o seu superego a partir do id (Es), pode talvez estar apenas
revivendo formas de antigos egos* e ressucitando-as."
O Ego e o Id ( 1 923) [ESB 19, 53]
* Em vez de "formas de antigos egos", leia-se: "antigas formas de ego".

6 "O id (Es), ao qual finalmente retomamos, não possui meios de demonstrar ao


ego amor ou ódio. Ele não pode dizer o que quer; não alcançou uma vontade unificada.
Eros e o instinto de morte lutam dentro dele; vimos com que armas um grupo de
instintos defende-se do outro_ Seria possível representar o id (Es) como se achando sob
o domínio dos silenciosos mas poc!erosos instintos de morte, que desejam ficar em paz
e (incitados pelo princípio de prazer) fazer repousar Eros, o promotor de desordens,
mas talvez isso seja desvalorizar o papel desempenhado por Eros."
O Ego e o !d ( 1 923) [ESB 19, 76]

7 "Aceitando uma palavra empregada por Nietzsche e acolhendo uma sugestão de


George Groddeck [ 1 923], de ora em diante chamá-lo-emos de id (.Es). Esse pronome
impessoal parece especialmente bem talhado para expressar a principal característica
dessa região da mente - o fato de ser alheia* ao ego."
Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise;
Conferência 3 1 : "A Dissecção da Personalidade Psíquica" ( 1932-3) [ESB 22, 92]
* Fremd significa "alheio" no sentido de ser "estranho", "estrangeiro", "esquisito"; trata-se
de um termo que reúne simultaneamente as noções de "alteridade" e "estranhamento".
das Es 267

- ----------- Comentários ----- -------

Freud começa a utilizar o termo das F,s a partir de 1923, adotando-o de Groddeck, o
qual, por sua vez, o teria adotado de Nietzsche (exemplo 2). A substantivação do pronome
es, das F.s, de que Groddeck e Freud se utilizam, não é comum na lingua?em corrente.

Contigüidade conotativa entre o pronome es e a substantivação das Es

Pode-se dizer que para o leitor alemão o efeiw desta substantivação i�comum é que
se transferem para o substantivo algumas das conotações do próprio pronome es já
mencionadas acima (ver conotações A e B). O das Es é um termo carregado de
"alteridade", que manifesta a sua existência como algo estranho ao próprio sujeito .
. Além disso, essa substantivação incomum evoca algo indefinido e prenhe de conteúdos
desconhecidos. Retomando algumas características lingüísticas do pronome es:
- O pronome es é usado para nomear pronominalmente fenômenos de natureza
indeterminada ou impessoal que se presentificam.
- Pode ser usado como sujeito gramatical daquilo que acomete o indivíduo
(principalmente no alemão mais antigo).
- O es refere-se com freqüência a objetos que possúem alguma indefinição.
- É usado como um "referência compactada" que nomeia de forma genérica
conteúdos de frases anteriores.

Relacionando os pronomes pessoais es e ich (eu)

Levando-se em conta que na segunda tópica Freud nomeia as instâncias psíquicas


através de substantivações de pronomes pessoais, "o eu" (das Ich), "o supereu" (das
Über-ich) e "o isso/id" (das Es), vale contrastar lingüisticamente o es com o ich.
Uma característica que o distingue é o fato de referir-se à terceira pessoa. Ocupa
uma posição radicalmente diversa da do "eu" e do "tu". Ao contrário do pronome "tu",
da segunda pessoa, o es não é diretamente abordável pelo "eu"; o "eu" apenas pode
referir-se ao es como a um terceiro. Neste sentido há um distanciamento maior entre o
"eu" e o es do que entre o "eu" e o "tu". Vale lembrar que a palavra fremd (di\'.tante,
estranho) aparece amiúde no pensamento de Freud com referência aos estranhamentos
sentidos pelo eu frente a terceiros ou àquilo que é externo. Também o verbo sich
entjremden ("separarar-se", "distanciar-se", "estranhar-se progressivamente") é empre­
gado por vezes corno processo de diferenciação e estranhamento progressivo entre
instâncias e funções psíquicas e entre pessoas [ver verbete "Alienação" (Entfremdung),
p. 53]. Outro componente que contribui para certo estranhamento inerente à relação
entre ich e es é o fato de que, apesar de em alemão se designarem tanto seres vivos como
268 !d ou "o isso "

objetos através dos gêneros masculino, feminino e neutro, o es tende a coísificar e


generalizar seres e a personalizar objetos ou coisas, situando-se freqüentemente na zona
intermediária entre a existência como "coisa" (das Ding) e como ser.

O das Es como conceito psicanalítico

O das Es, na teorização groddeckiana, é uma manifestação de um princípio maior,


algo "corno o Deus-Natureza de Goethe, uma força que rege a vida, onipresente e
inapreensível" (Epinay, 1983). Sem entrarmos nas diferenças entre as concepções
teóricas de Freud e Groddeck, pode-se afirmar que o termo não tem as mesmas
proporções e não ocupa o mesmo espaço em Freud; todavia, diversos aspectos lingüísticos
do pronome es também se fazem presentes no emprego psicanalítico do das Es.
Psicanalíticamente a substantivação das Es designa algo ligado a uma "sensação de
estranhamento" e "alteridade" que o próprio "eu" sente perante as manifestações psíquicas
de origem indeterminada que parecem acometê-lo à sua revelia (no exemplo 7, Freud fala
em um Es que é Ichfremd, estranho, distante, externo ao eu). O das Es é empregado para
nomear uma instância que possui um dinamismo e uma autonomia e que mobiliza e
"habita" o sujeito, muitas vezes ameaçando subjugá-lo (exemplos 1 e 3, onde o princípio
de prazer rege). Finalmente, o Es é uma palavra que se refere a um repositório de
conteúdos diversos, de energia, do somatório das pulsões etc. Essa função de repositó­
rio é indicada no exemplo 4, onde Freud menciona que o Es contém as paixõe� .
Há também alguns aspectos lingüísticos a comentar entre Trieb (pulsão) e das Es.
O termo Trieb abarca desde um princípio geral da vida até características arcaicas
incorporadas à espécie; e, por fim, também é utilizado em alemão para designar
manifestações que afetam a existência individual de cada um de nós e se fazem
representar psíquicamente no indivíduo. Além disso, o Trieb é algo que ao sujeito
parece vir de alhures e manifestar-se nele, aguilhoando-o para a ação.
De certa forma, tanto o pronome es quanto a substantivação das Es são empregados
em dimensões paralelas às do Trieb. O pronome pessoal designa fenômenos naturais
de grande porte, bem como os fenômenos que acometem o sujeito ao nível pessoal,
mas lhe parecem ocorrer por influência externa. No exemplo 2, o das Es é descrito
como "impessoal" e "essencial" à nossa natureza; no exemplo 5, como repositório de
formas ancestrais hereditárias; e no exemplo 1 Freud utiliza para o das Es a imagem de
forças poderosas e incontroláveis (também freqüentemente utilizada por Freud para
descrever as "pulsões").

O das Es e o das lch psicanalíticos

Não cabe aqui abordar a questão da gênese e o processo de diferenciação do ego a


partir do id; entretanto, se permanece certa dependência do ego com relação ao id,
das Es 269

por outro lado o poder das pulsões e do id sobre o ego não é total. Até certo ponto o
Es pode e deve ser "regulado". O Es contém pulsões contraditórias e não possui um
desejo único (exemplo 6). A tarefa do ego (Eu) não é nem eliminar o Es, o que seria
impossível, pois o ego (Eu) é parte dele, nem realizar todas as exigências do Es de
imediato (pois, além de contraditórias, não levam em conta a realidade). O ego (Eu)
procura regular a relação entre o princípio de prazer e o princípio de realidade,
colocando "rédeas" (biindigen) ao Es. No texto O Ego e o ld ( 1923) e na 3P Conferência
( 1932-3) Freud descreve o Es como um cavalo bravio, o que aliás guarda proximidade
com as conotações lingüísticas acima discutidas. Servindo-se da imagem do ego como
um "cavaleiro que cavalga o Es ", Freud diz que entretanto se trata de um cavaleiro que
o faz com "forças emprestadas" do id. Não podendo ou não querendo desvencilhar-se
do cavalo, só lhe resta "conduzi-lo até onde o animal quer ir"; assim também o "ego
costuma transformar em ação a vontade do Es, como se fosse a sua própria". Esta luta
do ego (Eu) por colocar em ação o desejo do Es, levando em conta a realidade, é
expressa ao longo da obra de Freud por certos verbos que refletem o esforço de
domínio do ego sobre as forças pulsionais contidas no Es: beherrschen (domínio total),
bewaltigen (dar conta de, lidar com) e bãndigen (refrear, domar, colocar rédeas).

Se não se pode afirmar que o conceito psicanalítico de das Es já habitava a língua


e a cultura alemãs, é possível dizer que o pronome es possui conotações que tornam a
escolha de Groddeck muito feliz.

� Pulsão (Trieb)
,,. ,.
'
Idéia, Associação livre, Associação: Einfall

E: Ocurrencia
F: Idée incidente
I: Association

A palavra Einfall é traduzida com freqüência por "livre associação", por "associa­
ção" e por "idéia". As traduções por "associação livre" e por "associação", conforme o
contexto, podem estar adequadas, entretanto, conotativamente, os termos Einfall e
"associação" são diversos.
Einfall é palavra corriqueira em alemão e significa "idéia que ocorre"; por via de
regra, evoca a imagem de algo que vem de fora e de forma súbita. "Associação"
(Assoziation), termo que ocasionalmente Freud utiliza de forma semelhante a Einfall,
em alemão tem uma tonalidade técnica, não pertence à linguagem corrente. No
sentido psicanalítico, remete à interligação entre representações ( Vorstellungen).
Freud e m geral emprega o termo Einfall no contexto d o fluxo de idéias que vão
ocorrendo e sendo verbalizadas pelo paciente em sessão.

---------- 0 Termo em Alemão ----- -----

Composição do termo

ein-: Como prefixo geralmente indica a direção de um movimento "para dentro",


ou que entra "em", e com freqüência equivale ao prefixo português "in".
fali: Corresponde ao substantivo Fali, que significa "queda" ou "caso".

Significados do verbo
einfallen e do substantivo Einfall

1) Desabar, desmoronar. O muro desabou ontem.


2) Invasão ( também como verbo). A invasão das hordas de hunos foi bem-suce­
dida.
3) Idéia que ocorre a alguém, idéia súbita, inspiração (também utilizado como
verbo). Tive uma idéia de repente.
4) Incidência - por exemplo, da luz (também utilizado como verbo). A incidência
da luz a esta hora sobre a mesa da sala é um belo espetáculo.
5) Emagrecer muito, murchar.. Está com o rosto murchado_
Einfall 271

[Há ainda outros usos específicos em áreas como mineração, caça, música etc.;
exemplos adaptados do WBW, 385, e do SBH, 1 38-9.]

Conotações de einfallen e Einfall

A) Ein- indica algo que "entra", "penetra". A palavra Fall, significa "queda". Einfall
evoca em certas frases a imagem de um despencar para dentro.
B) O termo Einfall remete a algo súbito e inesperado, tal qual uma idéia que "ocorre".
C) Freqüentemente a frase com einfallen em alemão se constrói com o pronome es
no papel de sujeito e o indivíduo como objeto indireto. Es tem uso semelhante ao it do
inglês, personifica fenômenos indefinidos ou impessoais. É como se a idéia viesse de
alhures ( ocorreu-me/veio-me uma idéia súbita) e o sujeito fosse um receptáculo
relativamente passivo [ver verbete "Id ou 'o isso"' (das Es), pp. 261-63].

------- Etimologia e Termos Correlatos -------

Etimologia

ein-: Derivado da forma indo-européia *en (dentro). No grego en, no latim in, no
gótico in, no médio e no alto-alemão in. Mais tarde a forma ein substitui in em diversas
composições de substantivos e verbos designando sempre uma direção (para dentro,
adentro). Liga-se a numerosos verbos que indicam inclusão.
fall: Substantivação do verbo fallen, do antigo alto-alemão fal/,an e do médio alto-ale­
mão vallen (cair), referindo-se a desmoronamento, queda, despencar. A substantivação Fall
significa "caso", "acontecimento", "ocorrência" e deriva da idéia da "queda de um dado"
e o conseqüente "caso de sorte ou azar". A partir do século xvr, começa a aparecer o uso
de Eirifall como referente a idéias súbitas, geralmente utilizado pelos místicos.

Termos correlatos, derivados e compostos

O prefixo ein- indica algo que entra (inclusão).


einführen: introduzir (literalmente "conduzir para dentro"); einwandern: imigrar
(literalmente "caminhar para dentro"); eingreiffen: interferir, intervir (literalmente
"agarrar para dentro"); einbauen: embutir (literalmente "construir para dentro").
Palavras comfallen indicam amiúde algo súbito que se abate (que acomete, ocorre ou cai).
befallen werden: ser tomado, ser invadido; Arifall: ataque ou surto; Fallbeil: guilhotina.
Outros exemplos com einfallen: einfaUsreich: rico em idéias, inspirado, original,
engenhoso; sich einfallen lassen zu: ousar ter determinada idéia ou atitude ( deixar-se ou
212 Idéia, Associação livre

permitir-se que acuda à mente tal idéia); was fallt lhnen ein?: como ousa? ( o que lhe
acode à mente? o que lhe ocorre?).

----- Comparação com o Termo em Português -----

O termo será contrastado com "associação", que, além de ser freqüente n os meios
psicanalíticos, é objeto de crítica no polêmico livro Freud e a Alma Humana ( 1 982), de
Bruno Bettelheim. A tradução de Einfall por "idéia" também é comum e por vezes pode
causar dificuldades quando se trata de diferenciá-la da "idéia" no sentido de "repre­
sentação" (Vorstellung).

Significados adicionais de
"associar" e "associação " não presentes em Einfall

6) Interligar, conectar, estabelecer correlação ou correspondência (também empre­


gado como substantivo). Associou essa imagem à figura de sua esposa amada.
7) Somar forças, fazer sociedade, unir-se, aliar-se, reunir-se (também empregado _ .
como substantivo). Associaram-se e iniciaram um empreendimento comum.

Conotações adicionais de
"associação " não presentes em Einfall

D) "Associação" evoca a idéia de atividade do sujeito. Em psicanálise é o paciente


quem associa; mesmo que dirigido pelo inconsciente, ele pratica a ação de ligar/inter­
conectar coisas.
E) Ao "associar-se" estão-se interligando coisas já disponíveis e conhecidas. EinJan
pelo contrário, traz algo de fora, de alhures. Neste sentido, Einfall se aproxima
conotativamente mais da idéia de "inspiração".

Distorções de significados e conotações

alemão: Einfall português: associação


significados
1 desabamento 1-
2 invasão 2-
3 idéia súbita 3-
4 incidência de luz, energia 4-
5 emagrecer, murchar 5-
Einfall 273

6- 6 interligar
7- 7 somar forças, aliar-se
conotações
A penetração e queda A­
B súbito B­
C idéia vem de alhures e acomete C-
o sujeito
D- D sujeito ativo
E - E liga coisas já disponíveis

Ao traduzir-se Einfall por "associação", perdem-se os sentidos 1, 2, 3 e 4 (o sentido


5 não é pertinente), bem como as conotações A, B e C; ou seja, a ênfase no sentido de
"idéia súbita" e "impacto". "Associação" contamina o termo com uma idéia de interligar
em rede os diversos conceitos ( Vorstellungen, representações).

- -�- -
- --Exemplos de Uso em Freud - - -
- -

1 "Se interferirmos com o paciente em sua reprodução das idéias (Einfãlle) que nele
estão jorrando,* poderemos 'enterrar' coisas que depois terão de ser liberadas com
grande dificuldade."
"A Psicoterapia da Histeria" (1895) [ESB 2, 283]
* Em vez de "que nele estão jorrando", que "estão fluindo em sua direção", ou ainda, "que
estão acorrendo em sua direção".

2 "Quanto às idéias (Einfalle) postas de lado sob toda sorte de pretextos ( como as
enumeradas na fórmula acima), Freud as encara como derivados das formações
psíquicas recalcadas (pensamentos e moções), como deturpações delas provocadas pela
resistência à sua produção."
"O Método Psicanalítico de Freud" (1903-4) [ESB 7, 235]

3 "Pois a nossa experiência demonstrou - e o fato pode ser confirmado com tanta
1
freqüência quanto o desejarmos - que, se as associações (freie Assoziationen) de um
2
paciente faltam, a interrupção pode invariavelmente ser removida pela garantia de que
ele está sendo dominado, momentaneamente, por uma associação3 (EinfalZes) relacio­
n ada com o próprio médico ou com algo a este vinculado. Assim que esta explicação
é fornecida, a interrupção é removida ou a situação se altera, de uma em que as
associações faltam para outra em que elas estão sendo retidas."4
"A Dinâmica da Transferência" ( 19 12) [ESB 12, 135]
1 Em vez de "associações", "associações livres;'.
��
214 Idéia, Associação livre
2 Em vez de "faltam", "falham
".
3 Einfall tem aqui o sentido de "idéia que lhe havia ocorrido".
4 Em vez de "retidas", "omiüdas", ou ainda "escondidas".

4 "Ao executarmos a técnica da psicanálise, continuamos exigindo que o paciente


produza, de tal forma, derivados 1 do reprimido, que, em conseqüência de sua distância
no tempo, 2 ou de sua distorção, eles possam passar pela censura do consciente. Na
realidade, as associações (Einfalle) que exigimos que o paciente faça3 sem sofrer a
influência4 de qualquer idéia intencional consciente ou de qualquer crítica, e a partir
das quais reconstituímos uma tradução consciente do representante reprimido - essas
associações nada mais são do que derivados 1 remotos e distorcidos desse tipo."
"A Repressão" ( 1 915) [ESB 14, 173]
1 "derivado" é empregado no sentido de "elementos oriundos do recalcado" . .
2 Freud não se refere à distância temporal, utiliza somente a palavra "distância" (Entfernung)
e refere-se à distância entre a idéia recalcada e a idéia derivada.
3 No original não há o verbo "fazer". Einfalle não são "feitos" ou "produzidos", eles "ocorrem",
"acontecem"; o que é exigido do paciente é que ele verbalize, sem intenção preconcebida e sem
crítica, tudo aquilo que lhe vá ocorrendo.
4 que o paciente "abdique" (ou "renuncie") a quaisquer idéias intencionais conscientes e a toda crítica.
Retraduzindo todo o trecho: No exercício da técnica psicanalítica convocamos o paciente
ininterruptamente a produzir tais derivados [rebentos] do recalcado, os quais, graças à sua
distância ou distorção, logram passar pela censura do consciente. Não são diferentes as "idéias"
(Einfiille) que lhe exigimos sob a renúncia de quaisquer intenções conscientes preconcebidas e
de qualquer críticà, e a partir das quais logramos constituir novamente uma tradução consciente
da representação (Reprã.sentanz) recalcada.

5 "No correr desse processo, observamos que o paciente pode continuar a desfiar sua
meada de associações* (Einfallsreihe), até ser levado de encontro a um pensamento, cuja
relação com o reprimido fique tão óbvia, que o force a repetir sua tentativa de repressão."
"A Repressão" ( 1915) [ESB 14, 173]
* no sentido de "seqüência de idéias que lhe vão ocorrendo".
6 "Estes atos não incluem parapraxias* e sonhos em pessoas sadias, mas também
tudo aquilo que é descrito como um sintoma psíquico ou uma obsessão nas doentes;
nossa experiência diária mais pessoal nos tem familiarizado com idéias (Einfallen) que
assomam à nossa mente vindas não sabemos de onde, e com conclusões intelectuais
que alcançamos não sabemos como."
"O Inconsciente" ( 1 9 15) [ESB 14, 192]
* "atos falhos", ou "lapsos" .
Einfall 275

7 "Nota de Strachey à terceira conferência sobre 'Parapraxias' (1915-6): "A frase


'thing that occurred him ' ('coisa que lhe ocorreu') está representando, aqui, a palavra
alemã Einfall, pois não existe equivalente satisfatório no inglês. A palavra aparece
constantemente no decurso destas conferências - duas ou três vezes na presente
passagem, repetidas vezes na Conferência VI, e em muitos pontos noutras partes; de
modo que é útil fazer algum comentário a esse respeito. É comumente traduzida por
'associação' (association) - uma palavra que merece objeção por ser ambígua e por
questão de princípio. Se uma pessoa está pensando em algo e dizemos que ela tem um
Einfall, tudo o que isso implica é que mais alguma coisa acudiu à sua mente. Contudo,
se dizemos que teve uma 'associação', parece implicar que essa coisa excedeme que
ocorreu é, de alguma forma, vinculada àquilo que estava pensando antes. Grande parte
da discussão contida nestas páginas gira em torno de saber se o segundo pensamento
é de fato vinculado ( ou é necessariamente vinculado) com o pensamento anterior - se
o Einfall é uma 'associação'. De modo que traduzir Einfall por 'associação' não pode
deixar de prejudicar a discussão. Não obstante, nem sempre é fácil evitar isso, mais
especialmente porque o próprio Freud emprega a Assoziation alemã como sinônimo de
Einfall, em particular na expressão freie Assoziation, que inevitavelmente deve ser
· traduzida como 'associação livre' (Jree association). Todo esforço será feito na presente
discussão para evitar a ambigüidade, mesmo à custa gé alguma fraseologia pouco hábil;
daí por diante, a necessidade de evitar a palavra assocíation se tornará menos premente'."
Conferências Introdutórias sobre Psicanálise;
Conferência 3: "Parapraxias" (1915-6) [ESB 15, 65-6]

------------ Comentários ------- ------

Ocasionalmente Freud utiliza Einfdlle, freie Assoziationen e Assoziationen de forma


pouco diferenciada.
No exemplo 3, Freud descreve um fluxo de "livre associações" (freie Assoziationen),
o qual pode se estancar quando surge um elemento (um Einfall) que esteja relacionado
com a pessoa do médico e bloqueie o livre prosseguimento das associações. Assim .que
se esclarece ao padente esse fato transferencial, os Einfãlle voltam.
No exemplo 5, Freud cunha a palavra "seqüência de Einfalle" (Einfallsreihe), usando
o termo de forma próxima ao sentido de "série de associações".
Em ambos os caso o Einfall é um elemento de uma série associativa, e a atividade
de ter Einfdlle pode ser considerada quase como equivalente a uma "associação livre"
ou a fazer "assodações" (ver comentários de Strachey a respeito no exemplo 7).
Entretanto, normalmente quando fala em "associações" (Assoziationen), Freud se refere
aos processos neuronais ou representacionais que interligam em rede as representações
276 Idéia, Associação livre

ou afetos, enquanto Einfall é habitualmente empregado para descrever o fluxo de "idéias


súbitas" que vão ocorrendo e sendo verbalizadas pelo paciente em sessão.
O termo composto "associação livre" (freie Assoziationen) é menos freqüente e
conotativamente enfatiza as interligações que subjazem aos Einfãlle, os quais têm a
aparência de serem fortuitos e soltos.

Deixar que as idéias venham

Conforme descrito, Einfall pode evocar a imagem de uma idéia que "despenca" na
mente do sujeito, algo que lhe ocorre ou sobrevém (no exemplo J, as idéias "fluem"
para dentro do p�ciente). Trata-se de um processo em que o paciente "deixa" que lhe
venham os Einfãlle. No exemplo 4, apesar de Freud dizer que "exige" que o paciente
produza derivados (descendentes, rebentos) do material recalcado, tal "produção"
consiste em que o paciente "abdique" das intenções preconcebidas e da censura.
Essa concepção implica uma escuta analítica centrada naquilo que provém do
inconsciente, como o lapso (exemplo 6), e, por conseguinte, uma postura que não
convoca o ego a trabalhar e buscar sentidos, mas, ao contrário, pede que o ego deixe
que lhe �enham do inconsciente os Einfãlle.

Distorção e disfarce, origem desconhecida

Lingüisticamente, a palavra indica algo que nos vem quase como se fosse "externo"
a nós. Psicanalíticamente, isto corresponde ao fato de os Einfãlle serem idéias ( Vorstel­
lungen, representações) recalcadas, que somente após terem sido distorcidas ao ponto
de não poderem mais ser reconhecidas, irão aflorar ao consciente ( exemplos 2 e 4). Os
Einfãlle nos parecem de origem desconhecida, não sabemos de onde vêm ( exemplo 6).
A idéia de que o material recalcado retorna ao sujeito como se fosse algo estranho
e externo a ele (mas simultaneamente conhecido e familiar) é freqüentemente retomada
por Freud; ver, por exemplo, os verbetes "Alienação" (Entfremdung), p. 53 e "Estranho"
(das Unheimliche), pp. 23 1-239.

De modo geral, pode-se dizer que uma idéia/representação ( Vorstellung) recalcada,


ao estabelecer vínculos associativos com outras representações menos ameaçadoras,
situadas em pontos mais afastados da cadeia associativa, permitirá ao conteúdo
recalcado aflorar à consciência, sob uma forma distorcida, sem o perigo de ser
reconhecido. Aparecerá então como · um Einfall verbalizado em sessão, o qual ao
paciente parece novo, súbito e inesperado, mas, sem que o sujeito o saib�, está
associativamente ligado ao material recalcado.
Incompatível: Unvertriiglich

E: Incompatible
F: Inconciliable
1: Incompatible

A tradução de unvertriiglich e Unvertriiglichkeit por "in compatível" e "incompatibi­


lidade" é correta, mas ao nível con otativo há diferenças de ênfase.
Unvertraglich sign ifica: 1) inassimilável, indigesto (faz mal à saúde); 2) inconciliável;
3) intratável.
Implica uma "recusa" e "impossibilidade" viscerais. Indica uma impossibilidade de
coabitação ou coexistência.
Freud geralmente emprega o termo com referência a representações ou idéias
intoleráveis para o Eu.

--------- - 0 Termo em Alemão ---- - --- -


-

Composição do termo

un-: Prefixo de negação cujo efeito é semelhante a "in" e "des" em português (por
exemplo, nas palavras "intolerável", "desagradável" etc.).
ver-: Prefixo que em geral designa as conseqüências de "ir muito adiante" (seja
prolongar-se temporalmente, seja progredir geograficamente). Indica fenômenos bas­
tante contíguos: "transformação", "fechamento", "extinção", "gasto", "perda", "lapsos"
etc. Também pode indicar a "intensificação de uma ação" (a ação se mantém "indo
adiante" e eventualmente em excesso), bem como apontar para uma ação de "ir ou ser
levado e mbora", "ir ou ser levado a outro lugar".
trãg-: Corresponde ao radical trag-, do verbo tragen (portar, carregar, usar, levar,
trazer e te.)
-lich: Sufixo de adjetivação que corresponde com freqüên cia a "-vel" em portu-
guês.

Significados de unvertrãglich

l ) Inassimilável, indigesto (faz mal à saúde), indigerível. Um alimento indigesto.


2) Incompatível, in conciliável, que n ão se coaduna. Estas duas concepções sao
incompatíveis. i,ra uma idéia que não se coadunava com sua concepção de mundo.
Incompatível

3) Intratável, insociável, briguento, conflituoso. Era um sujeito intratável.

Conotações de unvertrãglich

A) Há em unvertriiglich, no sentido 1 (indigesto-inassimilável) e muitas vezes


também no sentido 2 (inconciliável), a idéia de "recusa", de "quase impossibilidade"
de aceitar determinado conteúdo.
B) O termo evoca uma idéia de impossibilidade de coabitação ou coexistência. Sich
vertragen significa "dar-se bem com outrem", "harmonizar-se com outrem", "compor­
tar-se bem juntos", "entender-se bem com outrem", "combinar bem com outrem". Ao
ser precedido de un- (partícula de negação), o termo indica que dois ou mais conteúdos
"não se dão", "não se harmonizam". A idéia é que não podem estar juntos, pois não se
toleram (ertriiglich é tolerável, suportável) e são indigestos um ao outro (fazem-se
mutuamente mal).

----- -- Etimologia e Termos Correlatos ----- --

Etimologia

ver-: Vários prefixos se fundiram no moderno ver-. Da raiz indo-européia *per, cujo
significado era algo equivalente a "conduzir para fora passando por sobre", derivam-se
três formas ainda arcaicas pertencentes ao tronco indo-europeu: *perfil, *pr- e *pro-. No
góticofaír- (para fora).Jaúr- (adiante,já passado) efra- (embora, para adiante). Também
se encontra essa separação no grego (peri-, par- e pro-) e no latim (per-, por- e pro). Outros
prefixos ainda pertencem a este tronco, por exemplo, o latim prae- e sua forma
germanizada atual pra- ou ainda o grego pára ( ao longo, muito para adiante). No alemão
atual encontram-se prefixos, advérbios e preposições derivados desta raiz indo-euro­
péia comum: für (por, para, no lugar de), vor ( adiante, diante de, desde) e Jort ( algo que
se foi, foi embora; ver o "Fort-Da" de Freud, ESB, vol. XVIII, p. 26-8) e Jern (longe,
longínquo). Além disso, este prefixo *pre- evoluiu e deu origem a dezenas de palavras,
tais como Frau (mulher). fremd (estranho, estrangeiro), first- (forma arcaica de "desta­
cado"), Frist (prazo),Jahren (ir, conduzir, guiar), Gefahr (perigo) etc. Devido aos limites
de espaço, não cabe aqui esclarecer mais detalhadamente; contudo, todos os casos
mencionados têm origem no conceito de "ir adiante" e freqüentemente de perder
contato com a origem.
Dificilmente se podem ligar os atuais sentidos do prefixo ver- com sua forma trinária
no gótico. Muitas vezes corresponde à forma gótica fra- (para longe, desaparecido,
embora), quando utilizado com verbos que designam: 1 ) "transformar-assimilar"
unvertraglich 279

(verarbeiten); 2) "utilizar-ga star" (verbrauchen); 3) "estragar-apodrecer" (verderben); e 4)


"desaparecer" (verschwinden).
Nestes quatro casos podem ser incluídos verbos que expressam "fechamento"
(verschliejlen), como "obstruir" (verbauen). Também verbos que expressam "desperdício
de tempo", tais como "perder a hora" (verschlafen), "perder um compromisso " (versiiu­
men), e verbos de "lapso ou para enganar o outro", tais como "perder-se" (sich verlaufen)
e "seduzir" (verführen). No texto freudiano os verbos que designam lapsos geralmente
possuem o prefixo ver-. O prefixo liga-se ainda a adjetivos, produzindo verbos que
descrevem o "causar um efeito" , "embelezar" (verschonern); quando se liga a substanti­
vos, indica um devir (versklaven, verfilmen etc.). Igualmente serve de prefixo a verbos
que designam o ato de "dotar", "prover", ou "providenciar" (versehen), "dourar" (vergol­
den), "embalar-encaixotar" (verschachteln). Além disso, ver- entrou no lugar de outros
prefixos, tais como er- e zer-.
-tragen: No gótico ga-dragan, originalmente significava "puxar"; no antigo alto-ale­
mão tragan e no médio alto-alemão tragen tinham o sentido de "carregar" (no inglês
atual resultou em draw). Ligam-se a este tronco palavras alemãs como Tracht ("vesti­
menta'') e Getreide ("grãos ou cereais"). A "vestimenta" é algo que se "porta-usa-carrega"
e o "cereal" é "panado-carregado" pela planta. Mais tarde o termo liga-se a situações
e palavras referentes a "transporte". No século xv, encontram-se muitos termos com­
postos com tragen, designando instrumentos de transporte; também aparece na lingua­
gem burocrática administrativa e comercial (aujtragen/encomendar, betragen/montar
a certa quantia etc.). O uso de tragen associado a outros prefixos e sufixos se estende a
dezenas de palavras, abarcando conceitos abstratos e concretos. No século XVI, regis­
tra-se o uso de ertragen como "dar lucro", "ser útil"; mais tarde, no século xvu,
retroativamente assume o sentido de "suportar-sustentar" (materialmente) e "suportar­
agüentar" (metaforicamente). O advérbio ertrãglich, já no século xv1, designa aquilo
que é sustentável-suportável (material e afetivamente). Vertragen é usado originalmente
no antigo alto-alemão (séculos VIII a XI), na forma Jartragan, no sentido de ertragen
(suportar). Mais tarde acrescenta-se o sentido de "combinar", "fechar acordo" , e daí,
retroativamente, "acordo jurídico" (contrato, Vertrag) no século xv. Aquilo que é
"acordávekombinável" (uso jurídico antigo) é empregado no sentido de aceitável-su­
portável (uso material-comercial antigo) e acaba por estender-se a um uso atual amplo.

Termos correlatos, derivados e compostos

Ertragen: suportar, agüentar; Betragen: comportamento; Vertrag: contrato; zutrdglich:


útil ( termo já antiquado).
Tragen refere-se, nestes casos, a "manter", "carregar", "sustentar" (por exemplo,
contrato: "algo que sustenta/mantém a palavra"; comportamento: "algo que susten­
ta/mantém um .modo de ser" etc.).
280 Incompatível

--- - - Comparação com o Termo em Português -----

Significados adicionais de
"incompatível" não presentes em unvertrãglich

Nada ele relevante a constrastar.

Conotações adicionais de
"incompatível" não presentes em unvertrãglich

C) Em português, "compatível" (no sentido 2) remete em primeiro plano à


correspondência lógico-formal entre as coisas. "Tipos de sangue compatíveis" são tipos
que podem ser quimicamente combinados, "idéias compatíveis" são idéias que não se
contradizem. Neste sentido, também o termo "compatibilização" se refere à possibili­
dade de estruturar as condições para adequar conteúdos.
A palavra "incompatível" destaca o aspecto lógico-formal de "não correspondência"
entre dois ou mais conteúdos. Mesmo quando se diz que há num casal uma "incompa­
tibilidade ele gênios", apesar da forte carga afetiva de conflitos decorrentes dessa
"incompatibilidade", a "incompatibilidade" se refere em primeiro plano a uma "não
correspondência" de interesses e estilos entre duas pessoas. Em alemão o que a palavra
enfatiza é a "repulsa mútua", a "intolerabilidade", que faz com que a coexistência seja
"indigesta" e "intolerável".
D) Em português as eventuais "compatibilidades" viabilizam uma "ação" ou "efeito
conjunto" . Assim, por exemplo, numa transfusão sangüínea, dois tipos de sangue
poderão funcionar no corpo em conjunto, ou duas ideologias compatíveis poderão
atuarjuntas na luta frente a adversários, ou ainda num matrimônio a compatibilidade
de gênios permitirá que o casal viva a vida cortjugal adequadamente. A palavra
"incompatível" indica a impossibilidade de cooperação (ação conjunta), incompatibili­
dade entre dois sócios, incompatibilidade de sistemas eletrônicos etc. Conforme
mencionado na conotação C, o termo alemão Vertrãglichkeit abarca algo anterior.
Refere-se à possibilidade ou não de coexistência, isto, é de presença simultânea. Algo
que seja unvertraglich não pode nem mesmo estar presente, pois é "intolerável".

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: unvertraglich português: incompatível

significados
Unvercrãglich 281

1 inassimilável, indigesto 1-
(faz mal à saúde)
2 inconciliável 2 inconciliável
3 intratável 3-

conotações
A recusa-impossibilidade A-
B impossibilidade de coabitação B-
ou coexistência
e (aspecto lógico-formal C enfatiza o aspecto lógico-formal de
não· é enfatizado) "não correspondência" entre conteúdos
D- D refere-se à impossibilidade de uma "ação" ou
"efeito conjunto"

Ao traduzir-se unvertriiglich por "incompatível" perde-se a idéia de uma incompati­


bilidade visceral (sentidos 1 a 3 e conotação A), bem como a noção de que se trata de
uma impossibilidade de coexistência (conotação B). O termo português "incompatível"
enfoca a "não conciliabilidade lógico-formal" (sentido 2 e conotação C); além disso,
"incompatível", em português, implica a impossibilidade de uma ação conjunta e não
a impossibilidade de coexistência (conotação D).

----- - Exemplos de Uso em Freud

1 "Propus então a idéia de que a eclosão da histeria pode ser quase invariavelmente
atribuída a um conflito psíquico que emerge quando uma representação incompatível
(unvertriigliche) detona uma defesa por parte do ego e solicita um recalcamento. Na
época eu não soube dizer quais seriam as circunstâncias em que um esforço defensivo
desse tipo teria o efeito patológico de realmente jogar no inco_n sciente uma lembrança
que fosse aflitiva (peinliche) para o ego e de criar um sintoma histérico em seu lugar."
"A Etiologia da Histeria" ( 1 896 ) [ESB 3, 195]

2 "Hoje porém posso reparar essa omissão: a defesa cumpre seu propósito de
arremessar a representação incompatível (unvertrãgliche) para fora da consciência
quando há cenas Sexuais infantis presentes no sujeito {até então normal*) sob a forma
de lembranças inconscientes, e quando a representação a ser recalcada pode vincular-se
em termos lógicos e associativos com uma experiência infantil desse tipo.
"Visto que os esforços defensivos do ego dependem do desenvolvimento moral e
intelectual completo do sujeito, o fato de a histeria ser muito mais rara nas classes inferiores
do que o justificaria sua etiologia espeófica de:xa de ser imeiramente incompreensível."
�A Etíulngi,, dJ Histeri::i" ( 1 896 ) fESB i, 1 95 ]
282 /ncompadvel

* até então saudável.


3 "Trata-se de uma 'petite hysterie ' com seus mais comuns de todos os sintomas
somáticos e psíquicos: dispnéia, tussis nervosa, afonia e possivelmente enxaqueca, junto
com depressão, insociabilidade ( Unvertrãglichkeit) histérica e um taedium vitae que
provavelmente não era muito levado a sério."
Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria ( 1 901-5) [ESB 7, 30]

4 "Estes instintos nem sempre são compatíveis* entre si (vertragen sich nicht); seus
interesses amiúde entram em conflito. A oposição entre as idéias é apenas uma
expressão das lutas entre os vários instintos. Do ponto de vista de nossa tentativa de
explicação uma parte extrememente importante é desempenhada pela inegável oposi­
ção entre os instintos que favorecem a sexualidade, a consecução da satisfação sexual,
e os demais instintos que têm por objetivo a autopreservação do indivíduo - os instintos
do ego. Como disse o poeta, todos os instintos orgânicos que atuam em nossa mente
podem ser classificados como 'fome' ou 'amor'."
"Perturbação Psicogênica da Visão" ( 1 910) [ESB 1 1 , 199-200]
* nem sempre "se dão bem" ou: nem sempre "se entendem".
5 "Os neuróticos afastam-se da realidade por achá-la insuportável (unertrãglich) �
seja no todo ou em parte. O tipo mais extremo deste afastamento da realidade é
apresentado por certos casos de psicose alucinatória que procuram negar (verleugnet)
o evento específico que ocasionou o desencadeamento de sua insanidade ( Griesinger).
Mas, na verdade, todo neurótico faz o mesmo com algum fragmento da realidade."
"Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental" ( 1 9 1 1) [ESB 12, 277]

6 "Se estes esforços [libidinais], que são incompatíveis (unvertrãglich) com a indivi­
dualidade atual do paciente, adquirem intensidade suficiente, tem de resultar um
conflito entre eles e a outra parte da personalidade, que manteve sua relação com a
realidade. O conflito é solucionado pela formação de sintomas e seguido pelo desen­
cadeamento da doença manifesta."
"Tipos de Desencadeamento da Neurose" ( 1 9 12) [ESB 12, 293]

7 "O ideal de ego impõe severas condições à satisfação da libido por meio de
objetos, pois ele faz com que alguns deles sejam rejeitados por seu censor como sendo
incompatíveis (unvertrãglich ). "
"Sobre o Narcisismo: Uma Introdução" ( 1914) [ESB 14, 1 18]

8 "O florescimento precoce da vida sexual infantil está condenado à extinção


porque seus desejos são incompaúveis (Unvertraglichkeit) com a realidade e com a etapa
inadequada* de desenvolvimento a que a criança chegou."
unvertraglich 283

Além do Princípio do Prazer (1920) [ESB 18, 34]


* "com a insuficiência do estádio de desenvolvimento infantil".

9 "Se elas [as identificações objetais do ego] levarem a melhor e se tornarem


numerosas demais, indevidamente poderosas e incompatíveis (unvertrãglich) umas com
as outras, um resultado patológico não estará distante. Pode ocorrer uma ruptura do
ego, em conseqüência de as diferentes identificações se tornarem separadas umas das
outras através de resistências; talvez o segredo dos casos daquilo que é descrito como
'personalidade múltipla' seja que as diferentes identificações apoderem-se sucessiva­
mente da consciência."
O Ego e o Id ( 1923) [ESB 19, 45]

------------ Comentários ------------

Freud utiliza tanto unvereinbar como unvertrãglich para designar a "incompatibili­


dade" entre conteúdos, mas, conforme já mencionado, o termo unvertrãglich geralmen­
te evoca "intolerabilidade" e "inassimilabilidade" ("indigestibilidade"), ao passo que
unvereinbar (não unificável) destaca a "inconciliabilidade" e a "não correspondência
formal" entre conteúdos.
Há um caráter de rejeição visceral no termo unvertrãglich.

Conflito entre pul,sões e conflito entre instâncias

O uso freudiano da palavra "incompatibilidade" geralmente se refere a "intolera­


bilidade" sentida pelo ego frente à presença de determinados conteúdos representáveis.
Freud também se refere à intolerabilidade mútua entre representações ou identificações,
as quais não podem permanecer simultaneamente lado a lado. Quando aborda a
repulsa mútua entre duas pulsões, Freud não se refere a um conflito pulsional no
inconsciente (no inconsciente não há contradições), mas a um conflito de interesses
quando tais pulsões, sob a forma de representações, entram em contato com instâncias
ligadas à sua realização na realidade ( exemplos 6 e 4).
A repulsa mútua entre duas ou mais representações investidas e representáveis ao Eu,
ou a repulsa que o Eu tem por representações para ele incompatíveis, leva a tentativas de
lidar defensivamente com esses conteúdos -por exemplo, através do recalque, da negação,
do sintoma etc. (exemplos J, 2 e 6). Neste sentido as mobilizações defensivas contra
determinadas representações intoleráveis envolvem ações ao nível da censura, do Eu e do
superego ( exemplos 1, 2, 7 e 9 ). Esse estado de ."incompatibilidade", em que dois ou mais
conteúdos não po,dem estar lado a lado, se opõe à tendência erótica de unificação.
284 Incompatível

Intensidade de repulsa

A intensidade da rejeição que se expressa na Unvertriiglichkeit se faz notar nas


palavras utilizadas em conjunto com o termo: no exemplo 9 fala-se num "detonar",
numa "ruptura" do ego; no exemplo 1 o termo utilizado é "uma eclosão" de histeria;
nos exemplos 6 e 4 mencionam-se representações que não se "toleram" entre si e geram
lutas entre pulsões.
No exemplo 4, onde a rigor se trata de incompatibilidade de objetivos entre as
pulsões do Eu e as sexuais, portanto algo mais objetivo e lógico (próximo da acepção
portuguesa de "incompatível"), Freud utiliza a expressão vertragen sich nicht miteinander
("não se dão bem um com o outro"), exprimindo lingüisticamente um conflito afetivo
e intenso, algo como uma briga entre duas pulsões.
Ao final do exemplo 1 o caráter da intolerabilidade é especificado em função dos
preceitos morais e intelectuais, os quais não permitem aceitar determinadas idéias.
Freud designa as lembranças a elas associadas de peinlich (constrangedoras, desgosto­
sas, vergonhosas, desagradáveis), indicando assim a forte carga afetiva daquilo que é
unvertriiglich.
Freud emprega com freqüência o termo unertriiglich (insuportável) para designar
a reação do sujeito ante certos conteúdos psíquicos. A palavra unertriiglich (insuportá­
vel) é diversa de unvertriiglich (intolerável/incompatível), mas há certa contigüidade
conotativa e etimológica entre ambas. No exemplo 5 a insuportabilidade é vinculada
a aspectos da realidade rejeitados intensamente.
No exemplo 3, não se trata de pulsões ou idéias incompatíveis, mas do termo
psiquiátrico hysterische Unvertriiglichkeit, "insociabilidade histérica", expressão equiva­
lente a intratabilidade (ou intolerabilidade e inassimilabilidade). Neste caso, o termo
refere-se à inassimilabilidade para o "outro social" que convive com a paciente histérica.
Também nesse contexto a palavra evoca uma reação afetiva mais intensa.

A maior veemência e intensidade afetiva contida no termo alemão não significa


que não possa ser utilizado de forma neutra para constatar que dois ou mais conteúdos
sejam incompatíveis ( ou não se coadunem do ponto de vista da correspondência
formal), como ocorre no exemplo 8, mas em geral, conotativamente, unvertriiglich tende
a evocar a idéia de que os processos defensivos são desencadeados contra exigências
pulsionais intoleráveis e que ameaçam produzir grande "mal-estar" e conflito.
Interpretação: Deutung

E: Interpretación
F: Interprétation
1: Interpretation

A palavra Deutung é traduzida habitualmente por "interpretação", mas possui


conotações algo diversas do termo latino.
De forma geral, em alemão, a Deutung se refere a uma atividade interpretativa
centrada na descoberta dos sentidos não evidentes, dos significados adicionais.
O termo é empregado por Freud na acepção de uma compreensão que vá além dos
sentidos aparentes dos sonhos, dos lapsos, dos fenômenos transferenciais ele., bem
como para designar a comunicação desses sentidos ao paciente.

-------- - 0 Termo em Alemão - --- - - ---

Composição do termo

deut-: Radical do verbo deuten, "interpretar".


-ung;. Sufixo de substantivação que geralmente corresponde a "-ção" em português.

Significados do verbo
deuten e do substantivo Deutung

1 ) "Interpretar" no sentido mais místico de "dar significado", "ler", "extrair sentidos


de algo" ( também empregado como substantivo). O profeta leu então ofuturo do seu povo
nas estrelas (semelhante ao uso de "ler" em português"ler cartas, tarô, búzios" etc.).
2) Apontar, chamar atenção para (usado com auf, deuten auf, nesta acepção o verbo
não é substantivável em Deutung). Chamou atenção para o chapéu da senho.ra.
3) Clarificar, ampliar, descobrir outros significados, dar outros sentidos além' do
óbvio (també m utilizado como substantivo). Interpretar textos talmúdicos é muito
difícil.
4) Decodificar, interpretar, igualmente utilizado em linguagem científica (também
empregado como substantivo). Não decodificou corretamente a expressão de alegria dela, e
sentiu-se caçoado. Não soubemos interpretar corretamente os dados do experimento.
[No DW, 1 054, são mencionadas as vertentes de sentido: "indicar apontando" ;
"interpretação/profecia"; "o sentido, o significado interno".]
286 Interpretação

Conotações de deuten e Deutung

A) Deutung, n o sentido 1, é utilizado para atividades de cunho mais místico. Algo


como a revelação de sentidos e significados contidos nos mistérios. Não se trata de
uma "revelação no sentido de vivência e conversão místicas", trata-se apenas do ato de
revelar um sentido misterioso. Evoca a imagem de um sábio, xamã ou iniciado que
pode "dar sentido" ao misterioso. Há autoridade absoluta daquele que deuten para o
outro. É diferente de interpretieren, uma "tradução" de um sentido. Interpretieren é uma
atividade mais pessoal e subjetiva.
B) Deuten, quando aplicado a textos (sentido 3), evoca a idéia de expor, clarificar,
tirar um sentido (Bedeutung) adicional, pois já há um sentido explícito. Em português
"interpretar um texto", em geral, implica "tentar dar um entendimento a um texto que
não está sendo entendido". Em alemão "deuten um texto" implica dar-lhe um sentido
adicional e mais profundo sobre um sentido já explícito e óbvio. Portanto, mais do que
"obter um sentido", trata-se de clarificar o texto, indo além do já compreendido na
aparência imediata.
C) O sentido 2 (apontar para) só se aplica quando o verbo deuten é usado com auf
Contudo, ao nível conotativo, há uma contigüidade entre o sentido 2 e os sentidos 1 e
3. Quando se usa Deutung nos sentidos 1 e 3 está se "revelan do algo", se "aponta" para
outra direção, para além do já evidente.

- ------ Etimologia e Termos Correlatos -------

Etimologia

A partir do sentido originário no germânico de peudo = povo (mais tarde deutsch


= alemão) derivou-se o significado "esclarecer o povo". O sentido posteriormente
expandiu-se para "traduzir de uma língua estrangeira". Etimologicamente, também
a palavra portuguesa "interpretar" se referia a uma atividade de "tradução", ainda
hoje guardando certa relação com este sentido (por exemplo, na designação profis­
sional de "tradutor-intérprete"), mas deuten foi se afastando deste significado antigo.
No antigo alto-alemão diuten significava "mostrar", "explicar", "traduzir", "expres­
sar", "significar", e n o médio alto-alemão o termo passa a ter o sentido de ausdeu·
ten/auslegen, designando atividades de interpretação e adivinhação - "ler mãos",
"ler sonhos" etc. Da acepção de "significar" ou "expressar" derivou-se a palavra
bedeuten (significar). Mostrar o "significado" (Bedeutung) designava um gesto expli­
cativo de apontar com o dedo da mão.
Deutung 287

Termos correlatos, derivados e compostos

Em todos os termos abaixo a idéia de "sentido" está presente.


bedeutend: significativo, importante (importante = carregado de sentido); Bedeutung:
sentido, significado; andeuten: indicar, insinuar (insinuar um sentido); ausdeuten: ler,
interpretar, destrinchar; deuteln: sofismar, interpretar excessivamente cada detalhe
(algo como "procurar pêlo em ovo"); deutlich: nítido; Deutlichkeit: clareza, nitidez;
verdeutlichen: esclarecer, tornar nítido (mostrar claramente o sentido); Umdeutung: o ato
de mudar a interpretação, de dar novo sentido, de transformar o sentido.

----- Comparação com o Termo em Português -----

Significados adicionais de
"interpretar" e "interpretação " não presentes em deuten

5) Representar um papel (também empregado como substantivo). Interpretar um


personagem numa peça.
6) Entender, compreender (semelhante ao sentido 4, mas mais subjetivo; também
utilizado como substantivo). O juiz interpretou de outro modo esta petição. Como você
interpreta o gesto dela?

Conotações adicionais de
"interpretação " não presentes em deuten

D) "Interpretar" pode ter o sentido de "traduzir" algo que não está sendo entendido
(tal qual na profissão de intérprete). Aquele que interpreta, por exemplo, um papel n o
teatro, transpõe u m sentidoj á existente para outra linguagem. Não se trata a í de descobrir
um sentido adicional antes oculto, mas de passar para uma linguagem inteligível.
E) Em geral, o termo "interpretação" é utilizado ou numa acepção mais técnica e
objetiva, tal como no sentido 4 ("decodificar dados"), ou numa acepção mais pessoa l
e subjetiva, como no sentido 6 , u m esforço individual e súbjetivo d e "entender". Em
ambos os casos a ênfase conotativa não é sobre um sentido adicional a ser descoberto,
mas em tomar compreensível um material ainda em estado bruto.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Deutung português: interpretação


- significados
'
288 Interpretação

1 decifração do sentido misterioso, 1 (eventualmente)


místico
2 (só usado com auj) apontar, indicar 2-
3 revelar sentido encoberto, além do 3 (eventualmente)
explícito
4 decodificar, decifrar algo inintelígível 4 decodificar, decifrar o ininteligível
5 - 5 representar um papel
6 (raramente) 6 entender

conotações
A atividade de um iniciado ou sábio A (raramente)
B já há um sentido explícito anterior B (raramente)
C apontar para outro sentido C (raramente)
D (raramente) D colocar em linguagem inteligível
E (raramente) E atividade ou mais técnica e objetiva ou
mais subjetiva e pessoal

A tradução de Deutung por "interpretação" tende a ignorar os sentidos 1, 2 e 3, os


quais indicam uma atividade de apontar sentidos adicionais. O mesmo ocorre com
relação às conotações A, B e C. Apesar das diferenças, ambos os termos podem ser
utilizados como sinônimos. Conforme o contexto, o termo "interpretação" pode ser
usado em português exatamente nas acepções e conotações de Deutung (por exemplo,
nas narrativas bíblicas, as interpretações feitas pelos profetas etc.), mas, em geral, o
termo não possui o sentido "revelatório" e mais "solene" do termo em alemão (em
português acaba por se introduzir um sentido ou mais técnico ou mais pessoal). Também
é verdade que a palavra Deutung, na acepção 4, pode ser empregada de forma que
signifique apenas uma atividade objetiva e técn ica de decodificação (sentido 6).
Entretanto, a palavra "interpretação", em português, tende a se referir a materiais
cujo sign ificado ainda não está claro e aos quais se procura "dar sentido", enquanto
a Deutung tende a "adicionar um novo sentido" além do sentido já evidente que o
material possui.

-------- Exemplos de Uso em Freud --------

1 "O título que escolhi para minha obra deixa claro quais das abordagens tradicio­
nais do problema dos sonhos estou inclinado a seguir. O objetivo que estabeleci perante
mim mesmo é demonstrar que os sonhos são passíveis de ser interpretados (Deutung);
e quaisquer contribuições que eu possa fazer para a solução dos problemas tratados
no último capítulo só surgirão como subprodutos no decorrer da execução de minha
Deutung 289

tarefa propriamente dita. Meu pressuposto de que os sonhos podem ser interpretados
(deutbar) coloca-me, de imediato, em oposição à teoria dominante sobre os sonhos e,
de fato, a todas as teorias dos sonhos, com a única exceção da de Scherner; pois
'interpretar' (deuten) um sonho implica atribuir 1 (angeben) a ele um 'sentido' - isto é,
substituí-lo por algo que se ajuste à cadeia de nossos atos mentais como um elo dotado
de validade e importância iguais ao restante."
A Interpretação dos Sonhos, cap. II ( 1900) [ESB 4, 1 19]
1 "indicar" a ele um "sentido" .
Retraduz.indo o final da última frase: ( ... ) isto é, substituí-lo por algo que possa se inserir
como elo equivalente e compatível com a articulação de nossas ações psíquicas.

2 "Quando se dispõe de um procedimento que permite avançar das associações até


o recalcado, das distorções até o distorcido, pode-se também tornar acessível à
consciência o que era antes inconsciente na vida anímica, mesmo sem a hipnose. Com
base nisso, Freud desenvolveu uma arte* de interpretação (Deutungskunst) à qual
compete a tarefa, por assim dizer, de extrair do minério bruto das associações
inintencionais o metal puro dos pensamentos recalcados. ( ... ) Os detaihes dessa técnica
( Technik) de interpretação (Deutungstechnik) ou de tradução ( Übersetzungstechnik) ainda
não foram publicados por Freud."
"O Método Psicanalítico de Freud" ( 19034) [ESB 7, 235]
*Kunst pode significar "arte", "habilidade" ou "técnica"; aqui Freud parece se referir a uma
"técnica".

3 "A resistência deveria ser contornada pelo trabalho da interpretação (Deutungsar­


beit) e por dar a conhecer os resultados ao paciente. ( ... ) Contenta-se em estudar tudo
o que se ache presente, de momento, na superfície da mente do paciente, e emprega
a arte* da interpretação (Deutungskunst) principalmente para identificar as resistências
que lá aparecem, e torná-las conscientes ao paciente."
"Recordar, Repetir e Elaborar" (19 14) [ESB 12, 193]
*Kunst pode significar "arte", "habilidade" ou "técnica"; aqui Freud parece se referir a uma
"técnica".

4 "A interpretação (Deutung) de um sonho incide em duas fases: a fase em que é


traduzido ( Übmetzung) e a fase em que é julgado ou seu valor foi deterrrúnado. Durante
a primeira não devemos permitir-nos ser influenciados, por nenhuma consideração,
pela segunda fase. É como se tivéssemos à frente um capítulo de alguma obra em língua
estrangeira - da autoria de Lívio, por exemplo. A primeira coisa que se deseja saber é
o que Lívio diz no capítulo, e depois disso surge a discussão, saber se o que foi lido é
uma narrativa hist6rica, uma lenda ou uma digressão por parte do autor."
· "Observações s9bre a Teoria e Prática da Interpretação de Sonhos" ( 1923) [ESB 19, 142]
� . ..

290 /nterprecação

5 "Em nossa interpretação (Deutung) tomamos a liberdade de desprezar a negativa


e de escolher 1 apenas o tema geral da associação (Einfalfs)." 2
"A Negativa" (1925) [ESB 19, 295]
e de escolher apenas o "conteúdo puro das idéias que ocorrem ao paciente".
I
2 Em vez de "associação", "idéia que ocorreu ao paciente".

6 "Se nas descrições da técnica analítica se fala tão pouco sobre 'construções', isso
se deve ao fato de que em troca se fala nas 'interpretações' (Deutungen) e seus efeitos.
Mas acho que 'construção' é de longe a descrição mais apropriada. 'Interpretação'
(Deutung) aplica-se a algo que se faz a al�um elemento isolado do material, tal qual urna
associação (Einfall) ou uma parapraxia. Trata-se de uma 'construção', porém, quando
se põe perante o sujeito da aná1ise 2 um fragmento de sua história primitiva, 3 que ele
esqueceu, aproximadamente da seguinte maneira: 'Até os onze anos de idade, você se
considerava o único e ilimitado possuidor de sua mãe; apareceu então outro bebê e lhe
trotLXe uma séria desilusão ( ... )'."
"Construções em Análise" (1937) [ESB 23, 295]
1
No original a enumeração prossegue: (... ) tal qual uma associação (Einfall "é idéia súbita
que ocorre"), uma parapraxia ("no sentido de lapso") "ou outros equivalentes".
2 perante o "ana,1sa

do " .
3 um fragmento de sua "pré-história esquecida, no sentido de "história anterior".

------------ Comentários -------- ----

O termo Deutung é empregado com freqüência no texto freudiano. Aparece como


termo-base no contexto dos sonhos para designar a "interpretação dos sonhos",
Traumdeutung, exemplos 1 e 4. Serve também para designar a atividade do psicanalista
de decÓdificar os fenômenos observados em sessão e deduzir os processos intrapsíquicos
do paciente, o chamado "trabalho de interpretação", Deutungsarbeit, exemplo 3. É também
utilizado quando o analista faz a "comunicação da interpretação", Mitteilung der Deutun&
momento no qual visa a conscientização (Bewufltmachung) do paciente ou a deflagração
de novas elaborações e associações, exemplos 3 e 6.

O sentido latente

Conforme já mencionado, mesmo sendo utilizada numa acepção técnica (decodi­


ficar/interpretar), a palavra Deutung pode ter a conotação de apontar para um sentido
adicional ao sentido já evidente. Psicanalíticamente isto se expressa pela pressuposição
da existência de um conteúdo latente subjacente ao material manifesto dos "lapsos",
Deutung 291

"sonhos", "associações" (Einfalle, idéias súbitas) e "fenômenos transferenciais". A


subseqüente comunicação da Deutung ao paciente significa então lhe "apontar" um
significado adicional/ oculto.
No exemplo 1, Freud fala de "indicar o sentido" (einen Sinn angeben), no exemplo
2, trata-se de "chegar das associações ao recalcado", da "distorção" ao "distorcido", no
exemplo 3 é mencionada a tarefa de "conscientizar o doente" das resistências e no
exemplo 5 trata-se de ir além da "negação" expressa pelo paciente e "selecionar o
conteúdo puro das associações". Há em todos estes exemplos a noção de um sentido
que se encontra oculto sob um material "distorcido", o qual tem de ser procurado,
descoberto e apontado, isto é, tornado consciente..

Uma técnica interpretativa

Muitas vezes Freud se refere à interpretação tanto como uma "técnica", Deutungs-
technik (segundo parágrafo do exemplo 2) quanto como uma "arte", Deutungskunst
(primeiro parágrafo do exemplo 2 e exemplo 3). A palavra Kunst significa "arte",
"habilidade" e "técnica". A Deutungskunst tem o sentido de uma "habilidade" ou "arte"
no manuseio e aplicação de uma técnica, trata-se de algo vinculado às capacidades
pessoais de quem a pratica, bem diverso de uma técnica no sentido puramente
tecnológico do termo. De maneira geral, a forma como Freud emprega os termos
Deutungskunst e Deutungstechnik é diversa tanto de uma "arte divinatória" quanto de
uma "tecnologia" desvinculada de quem a aplica.

Interpretação e tradução

Algumas vezes Freud utiliza termos como Übersetzungstechnik ( técnica de tradução),


tal como na segunda parte do exemplo 2, ou no exemplo 4, onde aborda a Deutung
num tom bastante didáúco, dividindo o processo de "interpretação" em duas fases,
uma de "tradução" ( Übersetzung) e outra de "avaliação". No exemplo 4, Freud diferencia
as palavras Übersetzung e Deutung seguindo precisamente o emprego coloquial em
alemão. Numa primeira fase trata-se da "tradução" ( Úbersetzung) do sonho, a qual
equivale a "traduzir" um texto de língua estrangeira, "por exemplo de Lívio"; para
depois então "discutir se se trata de um relato histórico, de uma lenda ou de uma
digressão do autor". É exatamente este o uso em alemão da palavra Deutung. Trabalha-
se com um material cujo sentido aparente (manifesto) está claro Uá foi "traduzido" do
latim para o alemão). A atividade de deuten (interpretá-lo) vai além da atividade de tê-lo
tornado inteligível ( de apenas tê-lo traduzido), trata-se de discutir o sentido/significado
que está oculto e se encontra para além do óbvio.
,.�.- ,
...
i
292 Interpretação

Interpretação e construção

Sobretudo nos textos a partir de 1920 encontra-se em Freud uma tendência a


empregar diferenciadamente os termos Deutung e Konstruktionen, em geral utilizando
Deutung para interpretações mais pontuais, cujo objetivo muitas vezes é desencadear
processos associativos e elaborativos, enquanto Konstruktionen tende a ser empregado
para descrever hipóteses mais largas, semelhantes a uma tentativa de reconstrução
arqueológica (paralelo traçado no texto "Construções em Análise ", 1937 [SA Ergan­
zungsband, 397-8); [ESB 23, 295), ver também exemplo 6, retirado do mesmo texto).

Deutung e Interpretation (interpretação)

Ambos os termos não têm uso diferenciado em Freud, o qual emprega alternada­
mente a palavra germânica Deutung e a latina Interpretieren. É mais freqüente o uso do
termo germânico, o qual, como foi mencionado, remete a outras conotações do que a
palavra "interpretação" e é mais compreensível e corrente para os leitores alemães.

Apesar da contigüidade de sentidos e conotações entre os vários termos correlacio­


nados com Deutung (tradução, entendimento, adivinhação, decodificação etc.), o termo
não designa nem uma atividade de "tradução", nem uma "arte divinatória"; trata-se
muito mais de uma técnica para se chegar ao sentido oculto ou latente e posteriormente
· revelá-lo (apontá-lo). É uma operação que exige habilidade (arte) e técnica daquele que
a pratica e um voto de confiança daquele que se submete a ela.
Ligação: Bindung

E: Ligazón
F: Liaison
1: Binding

O termo Bindung é habitualmente traduzido por "ligação", "vínculo" e ocasional­


mente por "laço". Em alemão, Bindung pode significar "ligação afetiva" (laços) ou
"ligação física" (fixação, estar atado, preso).
Freud muitas vezes emprega o termo em conexão com a regulação do processo
primário, onde se faz necessária a dominação das excitações que circulam livres e
precisam ser "fixadas/atadas" para viabilizar a existência do organismo. Também é
usado com referência a "ligar/atar" pulsões entre si, bem como para designar o
"ligar/atar" de pulsões a determinadas representações.

---------- 0 Termo em Alemão ----- - -- - -

Composição do termo

bind-: Corresponde ao radical do verbo binden, cujo significado mais imedia­


to é "atar", "ligar", "juntar", "amarrar", "encadernar", "enfeixar", "combinar" (quí­
mica ) .
-ung-. Sufixo d e substantivação, corresponde geralmente a "-ção" e m português.

Significados do verbo
binden e do substantivo Bindung

1 ) Vínculo afetivo, relação afetiva com alguém ou algo. Designa vínculos de


amizade, contatos e comunicação, afinida de, relação amorosa, compromisso .etc .
Há uma forte ligação entre estas duas pessoas. (Pode referir-se a políticos, amantes,
amigos etc. )
2 ) Fixação, aprisionamento (também utilizado como verbo). A fixação (comprometi­
mento, aplicação) de uma quantia tão grande de capital na esfera da produção impede a
companhia de investir na comercialização.
[Tanto em alemão como em português, o termo é utilizado em inúmeros outros
sentidos especíi'icos de linguagens de áreas técnico-científicas, da química, da
tecelagem, da física etc. (por exemplo, em química, a expressão "ligações iônicas").]
,..
294 ligação

Conotações de binden e Bindung

A) Usado no sentido 1, Bindung remete à palavra "laços" (há laços que os unem).
Mesmo em seu sentido mais figurado e afetivo, o termo mantém a imagem de uma
ligação física (barbante, fio etc.), sempre indica aquilo que "liga-aproxima-une". Não
se trata de "relação" no sentido de "conexão lógica", mas "aquilo que enlaça". Não se
pode utilizar Bindung para dizer "que há uma ligação entre dois fatos", mas pode-se
dizer que "há uma ligação entre dois amigos".
B) Usado no sentido 2, o termo também evoca a imagem de "fixação", "aprisiona­
mento", "imobilização". Por exemplo, Marx utiliza o termo Kapitalbindung (fixação de
capital) para investimentos em determinados bens que "imobilizam", "amarram",
"fixam" o capital em máquinas, estoques, lojas etc., e o seu antônimo, Kapitalentbindung
(liberação de capital), em processos que "liberam", "libertam", �desatam" o capital
(quando o produto é vendido e transformado em capital monetário que pode circular
livremente). Freud também emprega os termos Bindung (fixação, imobilização) e
Entbindung (liberação, desamarrar) referindo-se à fixação e à libertação nos processos
de circulação nas diversas dimensões psíquicas.

------- Etimologia e Termos Correlatos - -- -


- --

Etimologia

Derivado da raiz indo-européia *bhendh- ("fixar", "atar", "amarrar", "ligar"), binden


mantém até hoje estes sentidos. No gótico assume a forma bindan, no antigo alto-alemão
bintan e no médio alto-alemão já aparece a atual forma binden. Derivaram-se daí
inúmeros substantivos, por exemplo Band (faixa), Bund (união). O verbo se estendeu
para alé_m dos sentidos estritos de "amarrar" e "fixar" para os significados mais
abstratos de 'Juntar" e "manter unido". Conectando-se a prefixos (ab-, an-, auf, ein-, um-,
vor; zu; Jest- etc.) deu origem a numerosos novos sentidos, tanto concretos quanto
abstratos, todos ligados à idéia de "atar" ou "desatar".

Termos correlatos, derivados e compostos

Bindfaden: barbante; verbinden: ligar, relacionar, interconectar ( também no sentido


figurado e abstrato de estabelecer conexões lógicas); Bund: união, aliança; Bindehaut:
tecido conjuntivo (pele que liga); Bindestrich: hífen (traço que liga); Bindewort: conjun­
ção (palavra que liga); entbinden: libertar, desamarrar, parir, dar à luz; Band: tira, faixa;
einbinden: encadernar (amarrar folhas entre si); unverbindlich: sem compromisso.
Em todos estes exemplos há uma idéia de atar, enlaçar e amarrar.
Bindung 295

----- Comparação com o Termo em Português - - ---

Sentidos adicionais de
"ligação " e "ligar" não presentes em Bindung e Binden

3) Correlação, conexão lógica, correspondência lógico-temática, articulação (tam­


bém utilizado como verbo). Esta teoria tem ligação com aquela. Há uma relação entre estes
dois textos. Há uma ligação entre estes dois eventos.
4) Interligação física ou funcional (também utilizado como verbo). Há uma via de
ligação entre o continente e a ilha: trata-se do serviço de balsa semanal. A ligação hidráulica
interligava os dois sistemas.
5) Interligar, ativar, acender. Não podemos ainda ligar as luzes.

Conotações adicionais de
"ligação " "ligar" não presentes em Bindung e Binden

C) Na acepção de "correlação", "ligação lógica ou temática" (sentido 3), o termo


indica uma "conexão", uma correspondência lógica entre pontos (ou por identidade
ou por conexão causal). Em alemão se expressa esse-tipo de ligação por Verbindung,
Beziehung ou Verknüpfung.
D) Apesar de a palavra "ligação" também evocar em português algo que "une" e
"fixa" um elemento ao outro, há um sentido de "estabelecer uma ponte", que permite
"transitar" entre dois elos. Uma "ligação hidráulica ou elétrica" permite o fluir de água ou
energia entre dois pontos. O termo português "ligação" coloca dois ou mais elementos em
contato para uma troca (sentido 4, ligação telefônica, ponte ou estrada que liga duas
cidades etc.), enquanto Bindung evoca uma ligação que fixa um elemento ao outro. Em
alemão se expressa o tipo de interligação do sentido 4 pela palavra Verbindung, ou,
numa acepção mais concreta, o termo aparece no texto freudiano como Bahnung,
traduzido por "facilitação", mas que designa via de interligação entre dois pontos.

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: Bindung português: ligação

significados
1 relação-vínculo afetivo (não uma 1 relação-vínculo afetivo (não uma
conexão lógica) conexão lógica)
2 fixação, aprisionamento 2-
3 - 3 conexão lógica, correlação
4 - 4 interligação física ou funcional
5 - 5 ativar, interligar
' 296 Ligação

conotações
A imagem de laços, fios que atam A imagem de laços, fios que atam
B fixação, imobilização B-
C - C correspondência lógica, articulação,
correlação
D - D ponte, interligação que permite contato mútuo

Em geral, na tradução portuguesa do texto freudiano, o termo é entendido nos


sentidos 1 , 3 e eventualmente 4. Perde-se em muitos casos a noção de que Freud utiliza
Bindung basicamente no sentido 2 (fixar). Quando não o utiliza no sentido 2, usa-o no
sentido 1 (laço afetivo), mas não nos sentidos 3 e 4, para os quais se empregam em
alemão outras palavras. Quanto às conotações, perde-se com a tradução a conotação
B ( de imobilização) e acrescentam-se as conotações C e D ( de articulação e conexão).
Em português "ligação" se refere a três diferentes dimensões: a ligação como "laço
afetivo", a ligação como "ponte que interliga" (ligação hidráulica, contato entre duas
empresas) e a ligação corno "conexão" ou "articulação de correspondências lógico-te­
máticas" (há urna ligação entre dois eventos).

- ------ Exemplos de Uso em Freud

1 "Imaginemos o ego como uma rede de neurônios catexizados e bem facilitados


(gebahnter) entre si (...). Logo se o ego existe, ele deve inibir os processos psíquicos primários."
"Projeto para urna Psicologia Científica" ( 1 895) [ESB 1, 341]

"Ternos aqui dois requisitos aparentemente contraditórios: a catexia forte e o


deslocamento forte. Se quisermos conciliá-los, chegaremos à hipótese do que é, por
assim dizer, um estado ligado (gebunden) do neurônio, que, embora na presença de
urna catexia elevada, permite apenas uma corrente pequena. Essa hipótese se torna
mais plausível ao considerarmos que a corrente de um neurônio é obviamente
influenciada pelas catexias que a rodeiam. Ora, o próprio ego é urna massa de
neurônios dessa espécie, que se agarram a suas catexias - isto é, que estão em estado
ligado (gebunden), e isso, com toda a certeza, só pode suceder como resultado de seus
efeitos mútuos. ( ... )
"Assim os processos de pensamento seriam mecanicamente caracterizados por esse
estado de ligação �ebunden Zustandes), que combina uma catexia elevada com uma
corrente pequena. E possível conceber outros processos e que a corrente seja propor­
cional à catexia - os processos com descarga desinibida."
"Projeto para uma Psicologia Científica" ( 1895) [ESB 1 , 383]
Bindung 291

2 "O excesso porém provém de fontes de afeto que antes permaneceram inconscientes
e suprimidas (unterdrückt). Essas fontes conseguem estabelecer um elo (Verbindung)
associativo com a causa liberadora real,* e a desejada facilitação (Bahnung) da liberação
(Entbindung) de seu próprio afeto é aberta pela outra fonte de afeto que é inobjetável e
legitima."
A Interpretação do Sonhos, cap. VI/H (1900) [ESB 5, 443]
1
*conseguem estabelecer um elo associativo com o "fator desencadeador" real.
Retraduzindo o trecho: O excesso provém de fontes de afeto que permaneceram inconscientes
e reprimidas e suprimidas (unterdrückt). Estas conseguem, a partir de uma fator desencadeador
real, estabelecer uma conexão (Verbindung) associativa com outra fonte de afetos, inobjetável e
autorizada (admissível), a qual abre assim uma via (Bahnung, facilitação) para a liberação
(Entbindung, desatar, desligar) do afetos anteriormente retidos e reprimidos.

3 "Temos motivos suficientes para supor que existe uma repressão primeva., uma
primeira fase de repressão, que consiste em negar entrada no consciente ao repre­
sentante psíquico (ideacional) do instinto. Com isso, estabelece-se uma fixação (Fixie­
rung); a partir de então, o representante em questão continua inalterado, e o i11stimo
permanece ligado (gebunden) a ele."
"A Repressão" ( 19 1 5) [ESB 1 4, 1 7 1 ]

4 "Isto é alcançado pelo fato de que todo o ambiente 1 associado da1 idéia
substitutiva é catexizado com intensidade e 1ecial, exibindo, assim, um elevado grau
de sensibilidade à excitação. A excitação de qualquer ponto dessa estrutura externa,
dada a sua ligação3 (Verknüpfung) com a idéia substitutiva, deve, inevitavelmente, dar
lugar a um ligeiro desenvolvimento da ansiedade; isso passa a ser utilizado como sinal
para inibir, por meio de uma nova fuga da catexia [ do Pcs.], o progresso posterior do
4

desenvolvimento da ansiedade. ( ... ) Essas precauções, naturalmente, limitam-se a


resguardar a idéia substitutiva de excitações que vêm de fora, através da percepção;
nunca a protegem da excitação instintual, que alcança a idéia substitutiva a partir da
direção de seu elo5 ( Verbindung) com a idéia reprimida."
"O Inconsciente" ( 1 915) [ESB 1 4, 210]
1
( ... ) todo o ambiente "circundante" associado à idéia substitutiva.
2 A excitação em qualquer ponto.
3 "ligação" no sentido de "conexão/relação/correspondência/associação".
... ) a "progressão" do desenvolvimento da ansiedade.
4(
5
"elo" no sentido de "conexão/relação/correspondência/associação".

5 "Esta circunstância levou Breuer a presumir a existência de dois estados diferentes


de energia catexial na vida mental: um em que a energia se acha tonicamente 'vinculada'
· (gebundenen) e outro no qual é livremente móvel e pressiona no sentido da descarga.
298 ligação

Em minha opinião essa distinção representa a compreensão interna* (insight) mais


profunda que alcançamos até agora a respeito da natureza da energia nervosa, e não
vejo como podemos evitar fazê-la."
"O Inconsciente" ( 1 915) [ESB 14, 215-6)
* representa a "compreensão" mais profunda que alcançamos até agora.

6 "Visto que todos os impulsos instintuais têm os sistemas inconscientes como seu
ponto de impacto,* quase não constitui novidade dizer que eles obedecem ao processo
psíquico primário. É fácil ainda identificar o processo psíquico primário com a 'catexia
livremente móvel' de Breuer, e o processo secundário, com alterações cm sua 'catexia
vinculada (gebundene) ou tônica'. Se assim é, seria tarefa dos estratos mais elevados do
aparelho mental sujeitar2 (binden) a excitação instintual que atinge o processo primário.
Um fracasso em efetuar essa sujeição2 (Bindung) provocaria um distúrbio análogo a
uma neurose traumática, e somente após haver sido efetuada [refere-se a Bindung] é
que seria possível à dominância do princípio de prazer ( e de sua modificação, o
princípio de realidade) avançar sem obstáculos. Até então, a outra tarefa do aparelho
mental, a tarefa de dominar ou sujeitar1 (binden) as excitações, teria precedência, não,
na verdade, em oposição ao princípio de prazer, mas independentemente dele e, até
certo ponto, desprezando-o."
Além do Princípio do Prazer (1920) [ESB 18, 51-2]
I
Leia-se: Como todos os impulsos instintuais atacam (agridem, afetam) os sistemas
inconscientes, quase não. . .
2 Em vez de sujeitar, leia-se atar, fixar.

7 "Tentaremos nossa sorte então com a suposição de que as relações amorosas ( ou,
para empregar expressão mais neutra, os laços emocionais (Gefühlsbindungen)) consti­
tuem também a essência da mente grupal."
Psicologia de Grupo e a Análise do Ego ( 192 1 ) [ESB 18, 1 17]

8 "Presumimos que o pai· da horda primeva, devido à sua intolerância sexual,


compeliu todos os filhos à abstinência, forçando-os assim a laços (Bindungen) inibidos
em seus objetivos (zielgehemmte Bindungen), enquanto reservava para si a liberdade de
gozo sexual, permanecendo, desse modo, sem vínculos1 (ungebunden). Todos os vínculos
(Bindungen) de que um grupo depende têm o caráter de instintos inibidos em seus
objetivos. Porém, aqui nos aproximamos da discussão de um novo assunto, que trata da
relação existente entre os instintos diretamente sexuais e a formação dos grupos." 2
Psicologia de Grupo e a Análise do Ego ( 192 1) [ESB 18, 175]
1
permanecendo desse modo "livre".
2 e a constituição das massas.
Bindung 299

1
9 "Na realidade, o crescimento de laços emocionais (Gefühlsbindungen) desse tipo,
com seus começos despropositados, 1 fornece uma via muito freqüentada1 para a
escolha sexual de objeto. Pfister, em sua Frommigkeit des Grafen von Zinzendor ( 191 0),
forneceu um exemplo extremamente claro e certamente não isolado de quão facilmente
até um intenso vínculo (Bindung) religioso pode converter-se em ardente excitação
sexual. Por outro lado, também é muito comum aos impulsos sexuais2 de pequena
duração em si mesmos transformarem-se em laço (Bindung) permanente e puramente
afetuoso; e a consolidação de um apaixonado casamento de amor repousa em grande
parte nesse processo."
Psicologia de Grupo e a Análise do Ego ( 1 92 1 ) [ESB 18, 175]
1
o "surgimento" de tais laços emocionais, inicialmente "sem propósito" definido, fornece
uma via "freqüente" para a escolha sexual do objeto.
2 impulsos sexuais ''diretos" e de pequena duração.

1 O "Se essa energia deslocável é libido dessexualizada, ela também pode ser descrita
corno energia sublimada, pois ainda reteria a finalidade principal de Eros - a de unir e
ligar* (zu vereinigrn und zu binden, festzuhalten) - na medida em que auxilia no sentido de
estabelecer a unidade, ou tendência à unidade, que é particularmente característica do ego . "
O Ego e o Id ( 1 923) [ESB 1 9 , 6 1 ]
* E m alemão Freud utiliza três verbos: "unir" (zu vereinigen), "ligar (atar)" (zu binden) e
"segurar (manter preso)" (Jestzuhalten).

1 1 "Nos organismos (multicelulares ), a libido enfrenta o instinto de morte ou destrui­


ção neles dominante e procura desintegrar [aqui há um equívoco do tradutor: quem
procura desintegrar o organismo é o instinto de morte] o organismo celular e conduzir
1
cada organismo unicelular separado [que o compõe] para um estado de estabilidade
inorgânica (por mais relativa que essa possa ser). A libido tem a missão de tornar inócuo
o instinto destruidor e a realiza desviando esse instinto, em grande parte para fora -
e em breve com amu1io de um sistema orgânico especial, o aparelho muscular - no
sentido2 de objetos do mundo externo. ( ... ) Esse é o sadismo propriamente dito. Outra
porção não compartilha dessa transposição para fora; permanece dentro do organismo
e, com auxilio da excitação sexual acompanhante acima descrita,3 lá fica libidinalmente
presa (gebunden). É nessa porção que temos de identificar o masoquismo original,
erógeno. Não dispomos de qualquer compreensão fisiológica das maneiras e meios
pelos quais esse amansamento do instinto de morte pela libido pode ser efetuado. No
que concerne ao campo psicanalítico de idéias, só podemos presumir que se realiza uma
fusão e amalgamação muito mais ampla, em proporções variáveis, das duas classes de
instintos, de modo que jamais temos de lidar com instintos de vida puros ou instintos de
morte puros, mas apenas com misturas deles, em quantidades diferentes."
"O Problema Econômico do Masoquismo" ( 1 924) [ESB 19, 204-5]
,....
'
300 Ligação
I
e conduzir "cada célula simples" para um estado ( ...).
º
2 em d1reçao
- a.
3
e, com ama1io da "mencionada excitação sexual concomitante", lá fica libidinalmente
fixado-preso.

------- ----- Comentários ----- -------

No "Projeto para uma Psicologia Científica" (1895), o termo Bindung tem função
de destaque: é utilizado em sentido restrito designando a ligação (fixação) da energia
nos neurônios ( exemplo 1 ). Contrapõe-se ao processo primário, onde predomina o
estado de livre deslocamento e descarga. O ego inibe (hemmt, freia) esse fluxo de energia
circulante e liga-o (ata-o) aos neurônios, reduzindo a circulação a níveis mais "fracos".
Essa concepção mecânica tem implicações funcionais bastante complexas que não cabe
abordar aqui.
Em textos posteriores, até 1 920, o termo não é mais empregado com muita
freqüência.
A partir de "Além do Princípio do Prazer" ( 1 920), a Bindung (ligação) e a Entbindung
(liberação) voltam a ter destaque, na obra freudiana, como mecanismos fundamentais
na regulação psíquica.
De forma geral, o termo Bindung é empregado em sentido ampÍo, abarcando as
atividades ligadas a Eros, cuja finalidade é "unir, ligar, reter ( ... ) no sentido de formar
uma unidade" (exemplo 10).

Binden como atar, fixar

Em g.eral, Freud emprega os termos gebunden ( "atadas", "fixadas") e ungebunden


( "desatadas", "livres") com relação a elementos energéticos circulantes ( energia psíqui­
ca, pulsões, afetos etc.) que tendem à descarga (exemplos 3 e 5). Ao serem ligados
(fixados, atados) a determinadas representações, cessam de circular, ou passam a
fazê-lo de forma vinculada e mais estável (atada a determinada representação). Uma
vez disciplinada a energia outrora livre, certa ordem pode se instalar, e o princípio de
realidade se impõe, regulando a realização do princípio de prazer: "um fracasso em
efetuar essa sujeição 1 (Bindung) provocaria um distúrbio análogo a uma neurose
traumática, e somente após haver sido efetuada [refere-se aBindung] é que seria possível
à dominância do princípio de prazer (e de sua modificação, o princípio de realidade)
avançar sem obstáculos" (exemplo 6).
O mecanismo de ligação também entra em ação quando se trata de anular ou
reduzir a ação da pulsão de morte. Fundindo-a (mesclando-a, mischen), ou ligando-a
Bindung 301

(binden) às pulsões sexuais, a libido logra proteger parcialmente o organismo da


agressão, conduzindo a pulsão destrutiva para objetivos eróticos ( exemplo 11).

1 Ao invés de "sujeição", leia-se ligação-atamento-fixação.

,Bindung no sentido de vínculo afetivo

Quando trata das relações objetais ( estabelecimento de laços afetivos, da transfe­


rência etc.), Freud utiliza o termo "ligação" numa acepção mais coloquial, no sentido
de "laços" que unem e vinculam, fixando um indivíduo a outro ( exemplos 7, 8 e 9).
Por vezes o termo evoca os dois sentidos, "laços afetivos" e "estar atado/fixado".
No exemplo 8, Freud fala em zielgehemmte Bindungen ("laços que estão inibidos na sua
tentativa de atingir a meta"). Nesta frase o termo expressa simultaneamente a idéia de
os filhos estarem "ligados afetivamente", através de "laços" (no sentido figurado de
vínculos), e estarem "atados" (de maneira quase concreta), portanto "fixados" nos dois
sentidos e impedidos de agir para atingir a "meta" (no caso, trata-se da meta de
satisfazer suas pulsões sexuais com as fêmeas pertencentes ao pai primevo ). Em seguida
é empregado o termo ungebunden no sentido de "não atado", "livre para circular e agir".

Bindung, Verbindung!Verknüpfung e Bahnung, termos a diferenciar

Bahnung equivale a via aplainada, caminho que interliga; em português poder-se-ia


designar esse tipo de conexão física por "ligação" (ligações nervosas entre neurônios);
entretanto, em traduções psicanalíticas, o termo é denominado "facilitação", pois são
conexões que oferecem um caminho facilitado, sem resistência.
Numa acepção mais fisiológica, designa vias nervosas que compõem a malha de inervações
e privilegiam a ligação (Bahnung) entre determinados neurônios. Do ponto de vista
funcional, Bahnungen são as vias da rede associativa que interligam determinadas repre­
sentações.
Os termos Verbindung ou Verknüpfung são usados na acepção de "interligação"
lógico-temática (relações de correspondência, articulação, conexão, vínculo, elo, asso­
ciação etc.). São empregados no sentido de correlações associativas entre representações,
afetos, lembranças, idéias etc.
A palavra Bindung, conforme mencionado, significa "fixação", seja no nível mecâ­
nico-fisiológico, seja do ponto de vista funcional e dinâmico.
Freqüentemente os termos são colocados em correspondências funcionais, como
no exemplo 2, onde aparecem os termos Bahnung, Verbindung e (Ent)bindung. Neste
caso se trata de urna correlação (conexão associativa) que se estabelece entre duas
fontes de afeto, implicando a abertura de uma via (Bahnung) a qual permite �soltar"
.(Entbinden, desligar, desatar) afetos anteriormente reprimidos_
302 Ligaçào

Geralmente o contexto situa o leitor a respeito de que termo se trata, mas com freqüência
os termos Verbindung, Verknüpfung e Bindung não são diferenciados na tradução. São
traduzidos indistintamente por palavras como "ligação", "laço", "relação", "elo" ou ''vínculo".
No exemplo 4, trata-se de "articulações" ou "conexões lógico-temáticas" ( Verbindung
e Verknüpfung). Freud descreve como se estabelece uma relação de correspondência
entre as representações; todavia, na tradução é utilizada ora a palavra "ligação" para
Verknüpfung, ora a palavra "elo" para Verbindung. Todas estas alternativas de tradução
são admissíveis, desde que o leitor as entenda como "interligação, correlação", não as
confundindo nem com Bindung, cujo sentido é "fixação-estar atado", nem com Bahnung
(facilitação), cujo sentido é "via de ligação, interligação".
No exemplo 1, Freud afirma que o ego consiste em uma rede de neurônios bem
"facilitados" (gebahnt) entre si. (O sentido de gebahnt é o de neurônios bem interligados
fisicamente através de vias neuronais.) A seguir define o ego como uma massa de
neurônios em "estado ligado" - aqui o sentido não é nem de estarem ativados, nem de
estarem interligados, mas de estarem num estado em que a energia está a eles ata<la, fixada.
Também neste caso é necessário que o leitor tenha presente que "facilitado" significa
interligado física ou funcionalmente, e que gebunden tem o sentido de '.ttado, fixado.

� Facilitação (Bahnung)
Negação ( 1 ), Recusa da realidade, Renegação:
Verleugnung

E: Desmentida
F: Déni
I: Denial, disavowal

O termo verleugnen é freqüentemente traduzido por "negação", às vezes por


"rejeição\ "recusa", ou ainda "repúdio". Trata-se de um tipo específico de "negação"
que se aproxima de "desmentir" e "renegar".
A palavra alemã verleugnen permanece ambígua entre a verdade e a mentira. Seus
significados podem referir-se a: 1) desmentir algo; 2) agir contra a própria natureza; 3)
negar a própria presença ( quando usado na fonna reflexiva significa "mandar dizer
que não se está presente").
O termo quase sempre se refere a uma tentativa de negar algo afinnado ou admitido
antes. Freud o descreve como mecanismo de defesa em diversos contextos, notadamen­
te quando aborda a psicose e no artigo "Fetichismo" ( 1927).

--------- 0 Termo em Alemão -------- -

Composição do termo

ver-: Prefixo que em geral designa as conseqüências de "ir muito adiante" (seja
prolongar-se temporalmente, seja progredir geograficamente). Além disso, indica
fenômenos bastante contíguos: "transformação", "fechamento", "extinção", "gasto",
"perda", "lapsos" etc. Também pode indicar a "intensificação de uma ação" (a ação se
mantém "indo adiante" e eventualmente em excesso), bem como apontar para uma
ação de "ir ou ser levado embora", "ir ou ser levado a outro lugar".
-leugnen: Corresponde ao verbo leugnen, que significa "negar", "desmentir", !'con­
testar a veracidade".

Sentidos do verbo
verleugnen e do substantivo Verleugnung

1) Renegar, negar algo ( diferente de "abjurar", que significa "renunciar solenemente").


Ele nega (rtJ.nega) sua crença (Er verleugnet seinen Glauben).
.

·,
,..
304 Negação, Recusa da realidade

2) Agir contra a própria natureza, negar-se a si mesmo (também utilizado como


substantivo). Ao trabalhar no comércio, ele está negando suas próprias tendências artísticas.
Sua natureza viking não se deixava renegar.
3) Usado na forma reflexiva, significa "mandar dizer que não se está presente". Ele mandou
dizer a,os visitantes que não se eru;ontra:ua em casa (Er li.ess sich bei den Besuchern verleugnen).
[Exemplos adaptados do WBW, 1366, e do SBH, 700.]

Conotações de verleugnen e Verleugnung

A) Há no termo verleugnen a idéia de "negar a presença-existência" (sentidos 1 , 2 e


3). Trata-se de "dizer que não está lá". Freqüentemente é como se o sujeito soubesse
que aquilo que é rejeitado existe, mas continua a negar sua existência ou presença.
Nestes casos, o que o termo alemão evoca, em primeiro plano, não é uma postura
negativa de discordância com relação ao conteúdo do objeto, mas a contestação da
veracidade de sua existência. O que é. "desmentido" é a própria existência do objeto.
B) O termo alemão verleugnen, nos sentidos 1, 2 e 3, é uma contestação que permanece
colocada em xeque, não tem resolução definitiva, tem de ser sempre renovada pelo
sujeito, pois não elimina o material rejeitado, cuja presença o sujeito tenta negar.
C) Há certa ambigüidade entre verdade e mentira que somente o contexto poderia
retirar do termo. Permanece, assim, um "diálogo" sobre a existência ou não do
conteúdo negado.

------- Etimologia e Termos Correlatos ---- - -

Etimologia

ver-: Vários prefixos se fundiram no moderno ver-. Da raiz indo-européia *per, cujo
significado era equivalente a "conduzir para fora passando por sobre", derivam-se três
formas ainda arcaicas pertencentes ao tronco indo-europeu: *perfil, *pr- e *pro-. No
góticoJaír- (para fora),Jaúr- (adiante,já passado) eJra- (embora, para adiante). Também
se encontra essa separação no grego (peri-, par- e pro-) e no latim (per; por- e pro-). Outros
prefixos ainda pertencem a este tronco, por exemplo, o latim prae- e sua forma
germanizada atual prii- ou ainda o grego pára (ao longo, muito para adiante). No alemão
atual, encontram-se prefixos, advérbios e preposições derivados desta raiz indo-euro­
péia comum:far (por, para, no lugar de), vor (adiante, diante de, desde) ejort (algo que
se foi, foi embora, ver o "Fort-Da" de Freud, ESB, vol. XVIII, p. 26-8) e fern (lorige,
longínquo). Além disso, este prefixo *pre- evoluiu e deu origem a dezenas de palavras,
tais como Frau (mulher), Jremd (estranho, estrangeiro), jirst- (forma arcaica de "desta­
cado"), Frist (prazo),Jahren (ir, conduzir, guiar), Gejahr (perigo) etc. Devido aos limites
Verleugnung 305

de espaço, não cabe aqui esclarecer mais detalhadamente; contudo, todos os casos
mencionados têm origem no conceito de "ir adiante" e freqüentemente de perder
contato com a origem.
Dificilmente se podem ligar os atuais sentidos do prefixo ver- com sua forma trinária
no gótico. Muitas vezes corresponde à forma gótica fra- (para longe, desaparecido,
embora), quando utilizado com verbos que designam: 1) "transformar-assimilar"
(verarbeiten); 2) "utilizar-gastar" (verbrauchen); 3) "estragar-apodrecer" (verderben); e 4)
"desaparecer" (verschwinden).
Nestes quatro casos podem ser incluídos verbos que expressam "fechamento" (verschlie­
j3en), tais como "obstruir" (verbauen). Também verbos que expressam "desperdício de
tempo", tais corno "perder a hora" (verschlafen), "perder um compromisso" (versãumen), e
verbos de "lapso ou para enganar o outro", tais como "perder-se" (sich verlaufen) e "seduzir"
(verführen). No texto freudiano, os verbos que designam lapsos geralmente possuem o
prefixo ver-. Também se liga a adjetivos, produzindo verbos que descrevem "causar um
efeito", "embelezar" (verschõnern); quando se liga a substantivos (versklaven, verfilmen etc.)
designa "transformação". Também serve de prefixo a verbos que designam o ato de
"dota,r", "prover", ou "providenciar" (versehen), "dourar" (vergolden), "embalar-encaixotar"
(vmchachteln). Além disso, ver- entrou no lugar de outros prefixos, tais como er- e zer-.
-leugnen: Da raiz indo-européia *leugh- (mentir). No gótico luigan, no antigo
alto-alemão liogan, no médio alto-alemão liegen e no novo alto-alemão lügen (mentir).
Do mesmo tronco deriva-se o verbo [eugnen, no gótic!o laugnjan, no antigo alto-alemão
louganen e no médio alto-alemão lõugenen. O verbo é derivado de um substantivo
germânico extinto, *laugna- (mentira, acobertamento). Verleugnen, no antigo alto-ale­
mãofarlougnen e no médio alto-alemão verlougen[en], significava "não aderir a alguém
ou a uma causa" (não reconhecer adesão-filiação), aproximando-se na época do atual
sentido de "renegar".

Termos correlatos, derivados e compostos

Nada de relevante a acrescentar.

----- Comp aração com o Termo em Português -----

Significados adicionais de
"negar" e "renegar" não presentes em verleugnen

4) (Negar) Não conceder, proibir. Negar o apoio militar aos aliados. Negaram aos pobres
o acesso ao programa de ajuda.
5) (Negar) R�cusar-se a certa ação. Negou-se (recusou-se) a nos ajudar.
306 Negação, Recusa da realidade

6) (Negar) Contestar, discordar. Negam a importância desteJato.


7) (Renegar) Abandonar oficialmente, abjurar oficialmente, negar. Ele renegou
(abjurou) sua adesão à religião católica.
8) (Renegar) Execrar, desprezar, prescindir de, negar. Ele renega a própria família.

Conotações adicionais de
"negar" e "renegar" não presentes em verleugnen

D) "Negar" é um termo de significado bastante amplo e in�specífico. Evoca em


primeiro plano uma recusa genérica, englobando sentidos bem diversos: abjurar, trair,
desmentir, recusar, proibir etc.
'E) "Renegar" aproxima-se de "trair", "abjurar". Apesar de poder ser usado para dar
a idéia de "negar algo verdadeiro", "renegar" refere-se também à noção de "trair",
"mudar de lado, aderir ao adversário" (um renegado).

Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: verleugnen português: negar/ renegar


significados
1 desmentir/(re)negar algo 1 (negar) desmentir algo
2 agir contra a própria natureza 2 (negar/renegar) agir contra a própria natureza
3 negar a própria presença 3 (negar) negar a própria presença
4- 4 (negar) não conceder, proibir
5- 5 (negar) recusar-se a certa ação
6- 6 (negar) discordar
7- 7 (renegar) abandonar oficialmente, abjurar
8- 8 (renegar) execrar, desprezar, prescindir
conotações
A contestar a veracidade da A-
existência
B fica em xeque, sem resolução B­
C ambigüidade entre verdade e C-
mentira
D D (negar) recusa genérica, engloba vários
sentidos
E- E (renegar) trair, abjurar, mudar de lado, aderir

Ao traduzir-se verleugnen por "negar", perde-se a ambigüidade entre a verdade e a


mentira (sentidos 1 a 3 e conotação C), bem como o esforço em manter uma "versão"
em contradição com a percepção (sentido 3 e conotações A e B).
Verleugnung 307

O termo "negar", em português, acrescenta sentidos e conotações não existentes


em alemão: os sentidos de recusar-se· a algo ou confrontar e discordar (sentidos 4 e 6).
"Renegar" tem o sentido de um rompimento e mudança de partido nem sempre
existente no termo em alemão.

-�------ Exemp los de Uso em Freud --- -----

1 "As palavras de um menino pequeno quando vê os genitaís de sua irmãzinha


demonstram que o seu preconceito já é suficientemente forte para falsear* (beugen) sua
· percepção. Ele não se refere à ausência do pênis, mas comenta invariavelmente, com intenção
consoladora: 'O dela ainda é muito pequeno, mas vai aumentar quando ela crescer'.".
·
"Sobre as Teorias Sexuais das Crianças" ( 1 908) [ESB 9, 219]
* beugen significa dobrar, fletir.

2 "Os n euróticos afastam-se da realidade por achá-la insuportável (unertri:iglich) -


seja no todo ou em parte. O tipo mais extremo deste afastamento da realidade é
api"esentado por certos casos de psicose alucinatória que procuram negar (verleugnet)
o evento específico que ocasionou o desencadeamento de sua insanidade ( Griesinger).
Mas, na verdade, todo neurótico faz o mesmo com algum fragmento da realidade."
�Formulações sobre os Dois Princípios do Fnncionamento Mental" ( 19 1 1) [ESB 12, 277]

3 "O sobrevivente nega (verleugnet) assim que tenha algum dia alimentado quais­
quer sentimentos hostis contra o morto querido ( ... )."
Totem e Tabu ( 1 9 12-3) [ESB 13, 82-3]

4 "O estudo das neuroses infanús expõe a completa inadequação dessas tentativas
superficiais e arbitrárias de reinterpretação. Mostra o papel predominante que é
desempenhado n a formação das neuroses por aquelas forças libidinais 1 tão impulsiva­
mente rejeitadas ( verleugneten}, e revela a ausência de quaisquer aspirações no sentido
de objetivos culturais remotos, dos quais a criança nada sabe ainda e que não podem,
portanto, ter qualquer significado para ela."
História de uma Neurose Infantil (1914-8) [ESB 17, 22]
1
. no texto original consta: "forças pulsionais Iibídinais."
2 em vez de "tão impulsivamente", leia-se: "freqüentemente".

5 "Assim, a o�igem da negação ( Verleugnung) da morte, que descrevemos corno uma


ati,tude 'convencional e cultural', remonta aos tempos mais antigos."
"Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte" (19 15) [ESB 1 4, 334]
308 Negação, Recusa da realidade

6 "A amência é a reação a uma perda que a realidade afirma, mas que o ego tem
de negar (verleugnet), por achá-la insuportável (unertriiglich). ( ... ) A amência apresenta
o interessante espetáculo de um rompimento entre o ego e um dos seus órgãos* - talvez
o que tivesse sido o seu servidor mais fiel e estivesse mais intimamente vinculado a ele."
"Suplemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos" (1915-17) [ESB 14, 265-6]
* Refere-se ao aparelho perceptivo.

7 "Sabemos como as crianças reagem às suas primeiras impressões da ausência de


1
um pênis. Rejeitam (leugnen) o fato 2 e acreditam que elas realmente, ainda assim, vêem
um pênis."
"A Organização Genital Infantil" (1923) [ESB 19, 181-2]
leugnen significa contestar, ou questionar a existência ou a validade.
1
2 Em vez de ''fato", "a falta".

8 "Ela [referindo-se a uma paciente neurótica cuja irmã morreu] se afastou do valor
da mudança* que ocorrera na realidade, reprimindo ( verleugnem) a exigência instintual
que havia surgido - isto é, seu amor pelo cunhado. A reação psicótica teria sido uma
rejeição (verleugnen) do fato da morte da irmã."
"A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose" (1924) [ESB 19, 230]
* O- sentido da frase é que ela desvaloriza ou subestima os efeitos da mudança ,de fato
ocorrida (a morte da irmã e a súbita disponibilidade do cunhado amado) e reprime a exigência
pulsional ( ... ).

9 "( ... ) a neurose não repudia (verleugnet) a realidade, apenas a ignora; a psicose a
repudia (verleugnet) e tenta substituí-la."
"A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose" (1924) [ESB 19, 231]

1 O "Ou ainda pode estabelecer-se um processo que eu gostaria de chamar de


'rejeição' ( Verleugnung), processo que na vida mental das crianças não p arece incomum
nem muito perigoso, mas em um adulto significaria o começo de uma psicose."
"Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica entre os Sexos"
(1925) [ESB 19, 314-5]

11 "( ... ) ela [a religião] abrange 1 um sistema de ilusões plenas de desejo 2juntamente
com o repúdio ( Verleugnung) da realidade ( ... )."
O Futuro de uma Ilusão (1927) [ESB 21, 58]
1
ela contém.
2 O sentido é de: "ilusões calcadas no desejo".
Verleugnung 30!:t

12 "Se quisermos diferenciar mais nitidamente a vicissitude* da idéia como distinta


daquela do afeto, e reservar a palavra Verdrãngung ['repressão'] para o afeto, então a
palavra alemã correta para a vicissitude* da idéia seria Verleugnung ['rejeição']."
"Fetichismo" (1927) [ESB 2 1 , 180]
*Em vez de "vicissitude", "destino".

13 "Na situação que estamos considerando, pelo contrário, vemos que a percepção
continuou1 e que uma ação muito enérgica foi empreendida para manter a rejeição
(Verleugnung). Não é verdade que depois que a criança fez sua observação2 da mulher
tenha conservado inalterada sua crença de que as mulheres possuem um falo."
"Fetichismo" ( 1927) [ESB 21, 1 8 1 ]
1 que a percepção "continuou presente" e que ( ... ).
2 que a criança, após ter observado a "figura da mulher", tenha ( ... ).

14 "Em casos bastante sutis, tanto a rejeição (Verleugnung) quanto a afirmação da


castração encontraram caminho na construção do próprio fetiche. Assim ocorreu no
caso de um homem cujo fetiche era um suporte atlético* que também podia ser usado
como calção de banho."
"Fetichismo" ( 1927) [ESB 2 1 , 1 84]
,
* Não se trata de um suporte atlético, mas de uma espécie de tanga às vezes feita com tiras.

15 "A mesma forma de pensar é possivelmente responsável pelo fato de que a


relação de Wilson com outras pessoas fosse tão carregada de atitudes pouco corretas I
( Unaufrichtigkeit), de uma postura pouco séria2 ( Unzuverlãssigke-it) e de uma tendência
a negar (Verleugnung) a verdade, o que de qualquer maneira é de chamar atenção na
pessoa de um idealista."
"Thomas Woodrow Wilson" ( 1930-60)
[Tradução livre. G.W. Nachtragsband, S. 688-9]
1 Termo difícil de traduzir, significa certa desonestidade para consigo mesmo e para com
os outros, é um comportamento não inteiramente correto e transparente.
2
Significa alguém que não mantém aquilo que combina, alguém com quem não se pode
contar _(ou porque muda de opinião, ou porque é negligente, incompetente).

16 "Para os meus propósitos, ser-me-á suficiente retomar às características ger:ús dos


fenômenos da desrealização. A primeira característica consiste em que todos eles servem ao
objetivo de defesa; visam manter algo distanciado do ego, visam rechaçá-lo (verl.eugnen)."
"Um Distúrbio de Memória na Acrópole" ( 1 936) [ESB 22, 300]

17 "Os delírios dos pacientes parecem-me ser os equivalentes das construções que
erguemos no d�curso do tratamento analítico - tentativas de explicação e de cura,
. ,. .
i�

310 Negação, Recusa da realidade

embora seja verdade que estas, sob as condições de uma psicose, não podem fazer mais
do que substituir o fragmento de realidade que está sendo rejeitado (verleugnet) no
presente por outro fragmento que já foi rejeitado (verleugnet) no passado remoto."
"Construções em Análise" ( 1937) [ESB 13, 303]

---- -------- Comentários --- - --------

Ao longo da obra de Freud, os diversos termos empregados no sentido de "negação"


psíquica ( Verdriingung, Verleugnung, Verneinung e Verwerfung) vão adquirindo certas
preponderâncias de uso, sem que se possa afirmar que Freud lhes tenha conferido
papéis rígidos e únicos nos processos psíquicos. Nos escritos mais tardios (principal­
mente a partir de "Fetichismo"), o termo Verl,eugnung é utilizado freqüentemente com
referência ao mecanismo perverso do fetiche. Lingüisticamente os quatro termos
mantêm em Freud diferenças de sentido e conotação bem demarcadas.

Ambigüidade

O verbo verleugnen é semelhante ao verbo leugnen, ambos são etimologicamente


derivados da mesma raiz do verbo lügen (mentir) e mantêm certa ambigüidade quanto
a verdade e mentira, não se sabe se se trata de algo verdadeiro ou falseado. Aquele que
verleugnen com freqüência, nega, publicamente e a si mesmo, algo que já sabe mas não
suporta. O exemplo 15 é bastante ilustrativo de como se utiliza o termo em alemão.
Nesse exemplo, que aborda a personalidade do presidente Woodrow Wilson, Freud
alinha três características que bordejam a mentira e a desonestidade, sem realmente
sê-lo. Trata-se da Unaufrichtigkeit (não ser inteiramente correto), da Unzuverlãssigkeit
(não confiabilidade, alguém com quem não se pode contar) .e da Neigung z.ur Verleug·
nung der Wahrheit (tendência a negar (verleugnen) a verdade, algo diverso da mentira).
Apesar de Freud, ao longo de sua obra, não empregar o termo psicanaliticamente de
maneira uniforme, lingüisticamente o termo mantém sempre esta conotação coloquial,
de algo não muito correto, uma distorção que não chega a se configurar como mentira
(algo consciente e planejado), mas que nega a verdade.
Numa acepção psicanalítica, estas conotações lingüísticas são bastante adequadas
para descrever a atitude contraditória em que o sujeito mantém simultaneamente a
(re)negação (Verleugnung) e a asserção (Behauptung). Esta mesma ambigüidade se
reproduz no objeto de fetiche. No exemplo 14, Freud descreve um objeto desse tipo
(uma espécie de tanga), o qual se presta simultaneamente a encobrir a diferença sexual
e afirmar a castração da fêmea.
Verleugnung 311

Negação de evidências

O termo é empregado por Freud com relação à negação de algo que é evidente e
se impõe frente ao sujeito. Nos exemplos 11 e 9, é a própria realidade que é negada,
no exemplo 13, trata-se de negar a percepção. No exemplo 4, são as inquestionáveis e
evidentes forças libidinais já presentes nas crianças que os opositores da psicanálise
tentam negar/desmentir. No exemplo 5, também se trata de negar algo que aparece
como evidência perante os vivos: a morte. Em todos esses exemplos a tentativa é de
negar algo cuja presença se impõe à percepção.

Negação de representações

Numa acepção coloquial, o termo verleugnen é utilizado também para descrever a


tentativa de negar ou renegar as próprias tendências. Este é o significado do verbo no
exemplo 3, onde os sentimentos hostis que os vivos nutriam para com o morto são negados.
Entretanto, de forma geral, Freud define que o que é negado são as representações
(Vorstellungen) e não os afetos (exemplo 12). Afetos podem sofrer parcialmente o
destino do recalque ( Verdrãngung) ou circulam e se descarregam através de outros
mecanismos. As Vorstellungen são "idéias" compostas de material representável (articu­
lação ao nível interno de percepções, imagens acústicas, visuais, olfativas, palavras etc.),
são a reprodução e a elaboração lógico-temática interna das percepções recolhidas.
Neste sentido, as Vorstellungen são a representação interna da realidade e, portanto,
serão o objeto da recusa e da distorção.

O esforço exigido

A "negação" empreendida pela Verleugnung é basicamente ligada à percepção


( Wahrnehmung) de uma presença (Gegenwart, ãu�ere Realitãt), representada por uma
Vorstellung, cujo conteúdo é insuportável (exemplo 6). Entretanto, tratando-se de algo
que é evidente e se impõe ao sujeito, esse material permanece dialetizando com a
tentativa do sujeito de não "vê-lo". Não se trata de uma negação que encontre resolução
definitiva, pois o material negado permanece presente, exigindo esforço para ma:nter
a negação. No exemplo 13, Freud menciona a necessidade de "uma ação enérgica para
manter a Verleugnung".

Neurose, perversão e psicose; a negação da castração

Conforme já mencionado, apesar de ser também utilizado em conexão com a


demarcação entre neurose e psicose ( exemplos 2, 6, 8, 9, 10 e 1 7), nas formulações mais
312 Negação, Recusa da realidade

tardias de Freud, há uma tendência a reservar ao termo verleugnen papel preponderante


no fetiche e na perversão em geral. Todavia, mesmo nos seus últimos textos, o termo
ainda é muitas vezes empregado de forma mais livre, como no exemplo 16, de 1936, o
qual trata do fenômeno impressionístico da Entfremdung (desrealização, sentimento de
alienação), ou no exemplo 17, de 1937, onde se trata do tema da psicose.
A rigor não se pode considerar a Verleugnung, em Freud, um mecanismo exclusivo
da perversão; Freud o emprega no sentido genérico de negar uma evidência intolerável.
Para ele a a diferenciação psicanalítica entre a psicose, e a perversão reside no encaminha­
mento psíquico dos conflitos e contradições decorrentes da Verleugnung.
De forma geral, o que diferencia o emprego do termo Verleugnung nos dois quadros
é a forma de resolução do conflito. O conflito básico em jogo é a questão da castração;
após a Verleugnung da castração, o psicótico tende a substituir a realidade, só dando
vazão à vertente que nega a castração; portanto, na psicose a negação da castração
preponderará. O perverso unifica simultaneamente a negação da castração (recusa de
reconhecer a castração) e seu reconhecimento, através, por exemplo, do fetiche ou de
outros tipos de substituição (exemplo i4).
Freud confere papel de destaque à negação da ausência do pênis na mulher e
estabelece uma conexão dessa negação com o complexo de castração e com a
perversão. Já em 1905, nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, pode-se ler: "Essa
convicção é energicamente sustentada pelos meninos, obstinadamente defendida
contra as contradições que logo resultam da observação, e somente abandonadas após
sérias lutas internas (complexo de castração). As formaçõe.s substitutivas desse pênis
perdido da mulher desempenham um grande papel na forma assumida pelas diversas
perversões" (ESB, vol. VII, p. 183/S. 101, Band V).
No exemplo 1, de 1908, é também da castração que se trata. Para descrever essa
negação infantil da ausência do pênis, Freud utiliza a palavra beugen (distorcer, fletir),
afirmando que a criança flete (beugt) a realidade. No exemplo 7, de 1 923, igualmente
se trata de negar o que se vê: Freud diz que a criança leugnet (contesta a verdade) e
passa a acreditar que vê um pênis.

Verleugnung (negação, recusa), Verwerfung (rejeição, forclusão, preclusão),


Verneinung (negação, denegação, negativa) e Verdrãngung (repressão, recalque)

Sem pretender contrastá-los enquanto termos psicanalíticos, restringir-nos-emos


a observar que, do ponto de vista lingüístico, o termo Verwerfung (muitas vezes
utilizado em referência à psicose) remete a uma eliminação/liquidação (arremessar
para longe), a palavra Verleugnung evoca um processo em que a negação permanece
tendo de ser reeditada Uá que o confronto com a realidade não cessa), a palavra
Verdrãngung se refere a um desalojar ( colocar de lado), de forma que não se tenha de
Verleugnung 313

confrontar o material recalcado (mas este permanece próximo, pressionando pelo


retorno), e o termo Verneinung abarca a negação no nível do julgamento, daquilo que
é falado na dimensão lógico-formal (psicanaliticamente também se liga à projeção e à
expulsão).
Estes quatro termos possuem sentidos e conotações bastante diversos que devem
ser levados em consideração durante a leitura do texto freudiano.

� Repressão (Verdrangung), Negação (Verneinung), Rejeição, Forclusão (Verwerfung)


Negação (2), Denegação: Verneinung

E: Negación
F: Négation, dénégation
1: Negation

O termo verneinen corresponde às palavras portuguesas "negar" e "denegar";


contudo, em alemão, evoca no falante a idéia de negar rebatendo algo com um "não"
(nein). Neste sentido poderia ser traduzido por "dizer n ão". As palavras "negar" e
"den egar" possuem um espectro de significados bem mais amplo do que verneinen
("negar" e "denegar" podem significar rejeitar, não conceder, retratar, desmentir,
renegar etc.) e não remetem o falante a explicitar o significante "não". O substantivo
Verneinung é geralmente traduzido por "negativa", ou "denegação".
No artigo "Die Verneinung" (1925 ), Freud utiliza o substantivo Verneinung (negação)
pareado com a Bejahung (afirmação) no contexto da escuta analítica do "não" ou do
"sim" explicitados pelo paciente durante o fluxo da fala em sessão e os relaciona com
mecanismos psíquicos mais arcaicos.

----- -- --- 0 Termo em Alemão ------- ---

Composição do termo

ver-: Prefixo que em geral designa as conseqüências de "ir muito adiante" (seja
prolongar-se temporalmente, seja progredir geograficamente). Além disso, in dica
fenômenos bastante contíguos: "transformação", "fechamento", "extinção", "gasto",
"perda"; "lapsos" etc. Também pode indicar a "intensificação de uma ação" ( a ação se
mantém "indo adiante" e eventualmente em excesso), bem como apontar para uma
ação de "ir ou ser levado embora", "ir ou ser levado a outro lugar".
-nein: Corresponde ao advérbio de negação nein.
[Observação: Em alemão há duas formas de negação que correspondem ao "não"
do português, nein e nicht: 1) nein é um "não" utilizado no início de frases ("Não (nein),
ela não (nicht) virá hoje."), também pode ser usado como exclamação isolada, ou ain da
como substantivo ("Recebi um n ítido 'não'."); 2) nicht, é empregado n a negação de
verbos, advérbios, pronomes e adjetivos. Há uma semelhança entre nein e nicht em
alemão e a diferenciação feita no inglês en tre no e not.]
_-en: Sufixo verbal do infinitivo.
Vemeinung 315

Significados do verbo
verneinen e do substantivo Verneinung

1 ) Dizer "não" (negação gramatical inserindo na frase o advérbio de negação "não";


também é empregado na linguagem da lógica, mas trata-se de um uso específico); não
aceitar, recusar, negar (também utilizado como substantivo). Ela disse não (deu uma
resposta negativa, negou). Ele discorda (rejeita) desta visão de mundo. Ela tem uma postura
negativa perante esta idéia (einer Idee verneinend gegenüberstehen).

Conotações de verneinen e Verneinung

A) A Verneinung remete ao aspecto formal-gramatical da frase·, negar através da


inserção do advérbio de negação "não". Ao se negar gramaticalmente a frase, o seu
conteúdo também será negado, mas há diversos outros verbos que são mais usados
quando se quer indicar discordância ou rejeição (ablehnen, in Frage stellen, verwerfen
etc.). Quando se emprega o verbo verneinen, coloca-se conotativamente em destaque o
responder com "não", símbolo ou emblema da negação. Evoca a idéia de rebater algo
com um "não". A própria composição do verbo aponta para esta conotação, pois é uma
verbalização do advérbio de negação nein. É comum em alemão empregar os advérbios
nein (não) e ja (sim) como substantivos que significam uma rejeição ou aceit;;i.ção, por
exemplo, em frases como "Será que terei que ouvir um 'não' de novo, ou desta vez me
brindará com um 'sim'?"; ou "Respondeu com um decidido 'não' aos pedidos deles".

-- ----- Etimologia e Termos Correlatos -------

Etimologi,a

ver-: Vários prefixos se fundiram no moderno ver-- Da raiz indo-européia *per, cujo
significado era equivalente a "conduzir para fora passando por sobre", derivam-se três
formas ainda arcaicas pertencentes ao tronco indo-europeu: *per[i], *pr- e *pro-. No gótico
faír- (para fora), faúr- (adiante, já passado) e Jra- (embora, para adiante). Também se
encontra essa separação no grego (peri; par- e pro-) e no latim (per-, por- e pro-). Outros
prefixos ainda pertencem a este tronco, por exemplo, o latimprae- e sua forma germanizada
atual prã- ou ainda o grego pára (ao longo, muito para adiante). No alemão atual,
encontram-se prefixos, advérbios e preposições derivados desta raiz indo-européia co­
mum: for (por, para, no lugar de), vor (adiante, diante de, desde) efort (algo que se foi, foi
embora, ver o "Fort-Da" de Freud, ESB, vol. XVIII, p. 26-8) efern (longe, longínquo). Além
disso, este prefixo *pre- evoluiu e deu origem a dezenas de palavras, tais como Frau
(mulher),fremd (estranho, estrangeiro),.fint- (forma arcaica de "destacado"), Frist (prazo),
316 Negação, Denegação

fahren (ir, conduzir, guiar), Gefahr (perigo) etc. Devido aos limites de espaço, não cabe aqui
esclarecer mais detalhadamente; contudo, todos os casos mencionados têm uma origem
no conceito de "ir adiante" e freqüentemente de perder contato com a origem.
Dificilmente se podem ligar os atuais sentidos do prefixo ver- com sua forma trinária
no gótico. Muitas vezes corresponde à forma gótica fra- (para longe, desaparecido,
embora), quando utilizado com verbos que designam: 1) "transformar-assimilar"
(verarbeiten); 2) "utilizar-gastar" (verbrauchen); 3) "estragar-apodrecer" (verderben); e 4)
"desaparecer" (verschwinden).
Nestes quatro casos podem ser incluídos verbos que expressam "fechamento"
(verschlie)Jen), tais como "obstruir" (verbauen). Também verbos que expressam "desper­
dício de tempo", tais como "perder a hora" (verschlafen), "perder um compromisso"
(versaumen), e verbos de "lapso ou para enganar o outro", tais como "perder-se" (sich
verlaufen) e "seduzir" (verführen). No texto freudiano, os verbos que designam lapsos
geralmente possuem o prefixo ver-. Também se liga a adjetivos, produzindo verbos que
descrevem "causar um efeito", "embelezar" (verschiinern); quando se liga a substantivos
(versklaven, verfilmen etc.) designa transformação. Também servem de prefixo a verbos que
designam o ato de "dotar", "prover", ou "providenciar" (versehen), "dourar" (vergolden),
"embalar-encaixotar" (verschachteln). Além disso, ver- entrou no lugar de outros prefixos,
tais como er- e z.er-.
-nein: Derivado da partícula de negação do antigo alto-alemão ni (não) e do artigo
indefinido neutro ein (um). O advérbio de negação assume no antigo e no médio
alto-alemão a forma nein e significava originalmente "não um". A partícula ni também
está contida em palavras como nicht (negação de verbos, advérbios, adjetivos e
pronomes), nie (nunca), niemand (ninguém) etc.

Termos correlatos, derivados e compostos

Os termos abaixo, apesar de possuírem significados específicos, evocam um


pronunciar explícito do nein (não) ou do ja (sim).
Neinsager: aquele que sempre rejeita tudo (que sempre diz "não"); im Verneinungsfall:
no caso de resposta negativa, no caso de dizernein ("não"); bejahen: assentir, dizer "sim"
(é a contrapartida de verneinen, refere-se basicamente à utilização do advérbio ja (sim)
na frase); Jawort: uma palavra concordante (um "sim"); Jasager: aquele que não tem
opinião própria e sempre diz "sim".

----- Comparação coni o Termo em Português ---- -

Verneinung e verneinen serão somente contrastados com "negação" e "negar", pois


"denegação", apesar de pertencer ao português, não é termo de uso muito corrente,
Verneinung 317

tendo sido introduzido no jargão psicanalítico através da palavra francesa dénégation.


Quanto ao termo "negativa", normalmente é utilizado em português como adjetivo;
entretanto, seu emprego como substantivo ("uma negativa") se recobriria bastante bem
com vários aspectos da palavra alemã Verneinung (ver NDA, 1 186). Todavia, esta forma
substantivada não se tem generalizado no jargão analítico, possivelmente devido ao
fato de, apesar de correta, soar pouco usual (ver mais adiante, no item "Exemplos de
uso em Freud», as traduções da ESB que utilizam o termo).

Significados adicionais de
"negar" e "negação " não presentes em verneinen e Verneinung

2) Renegar, agir contra sua natureza, trair sua natureza (também utilizado como
substantivo). Ele nega suas convicções.
3) Não permitir, recusar-se a certa ação. Nega-se a nos ajudar. Negamos-lhe o acesso.

Conotações adicionais de
"negar" e "negação " não presentes em verneinen e Verneinung

B) "Negar", em português, é um termo de uso -:1mplo que expressa diversas formas


de recusa. Nos sentidos 1 , 2 e 3 remete a certo grau de confrontação e discordância.
Exemplos como "nega-lhe ajuda", "nega as virtudes da esposa", "nega-lhe o direito"
estão mais centrados no conteúdo e na idéia de "confronto"; não remetem nem ao
aspecto lógico formal da frase, nem ao advérbio "não".

· Resumo das diferenças de significados e conotações

alemão: verneinen português: negar

significados
1 dizer "não", rejeitar (negação 1 (em português esta idéia
pelo uso do "não") se expressa melhor pelo substantivo "negativa")
2 (raramente) 2 renegar
3 (raramente) 3 não conceder

conotações
A foco sobre o advérbio "não" A (pode conter uma negação de
cunho lógico-gramatical, mas sem o foco
sobre o advérbio "não")
B (uso mafa restrito) B genérico para discordâncias
\
318 Negação, Denegação

Ao traduzir-se verneinen por "negar", perde-se a característica de simultaneamente


evocar a explicitação do advérbio "não" e rejeitar um conteúdo apresentado ao sujeito
(sentido 1 e conotação A). Além disso, infiltram-se os sentidos 2 e 3, mais pertinentes
à palavra em português.

------ - Exemplos de Uso em Freud

1 "Assim o conteúdo de uma imagem ou idéia reprimida pode abrir caminho até a
consciência, com a condição de que seja negado* (verneinen)."
"A Negativa" ( 1925) [ESB 1 9, 295]
* de que seja "negável", ou: de que seja "passível de negação".

2 "A n egativa ( Verneinung) constitui um modo de tomar conhecimento do que está


sendo reprimido; com efeito, já é uma suspensão da repressão, embora não, natural­
mente, uma aceitação do que está reprimido. Podemos ver como, aqui, a função
intelectual está separada do processo afetivo. Com o auxílio da n egativa* ( Verneinung)
apenas uma conseqüência do processo de repressão é desfeita, ou seja, o fato de o
conteúdo ideativo daquilo que está reprimido não atingir a consciência."
"A Negativa" (1925) [ESB 19, 296]
* Aqui havia um equívoco na tradução brasileira: no lugar do termo correto "negativa",
constava "repressão ".

3 "No decurso do trabalho analítico ( ...). Temos êxito em vencer também a negativa
( Verneinung) e ocasionar uma plena aceitação intelectual do reprimido, porém o
processo* repressivo em si próprio não é, com isso, ainda removido."
"A Negativa" ( 1925) [ESB 19, 296]
* "processo" no sentido de "ocorrência".

4 "De vez que afirmar (bejahen) ou n egar (verneinen) o conteúdo de pensamenços é


tarefa da função do j ulgamento intelectual, o que estivemos dizendo* n os levou à
origem psicológica dessa função. Negar (verneinen) algo em umjulgamento é n o fundo
dizer: 'Isso é algo que eu preferiria reprimir'."
"A Negativa" (1925) [ESB 19, 297]
* Em vez de "o que estivemos dizendo", "as afirmações que fizemos acima nos conduzem
assim à origem psicológica dessa função".

5 "Umjuízo negativo* é um substituto intelectual da repressão, o seu 'não' é a marca


distintiva da repressão, um certificado de origem - tal qual como, digamos, 'Made in
Verneinung 319

Germany' . Com o al1Xl1 io do símbolo da negativa (Verneinungssymbols), o pensar se


liberta das restrições da repressão e se enriquece com o material indispensável ao seu
funcionamento correto."
"A Negativa" (1925) [ESB 19, 297]
* No original, em vez de "juízo negativo " está Verurteilung, algo como uma "condenação ou
''.juízo condenatório".

6 "O estudo dojulgamento nos permite, talvez pela primeira vez, uma compreensão
interna (insight) da origem de uma função intelectual a partir da ação recíproca dos
1

impulsos instintuais primários."


"A Negativa" (1925) [ESB 19, 299]

"A polaridade de julgamento parece corresponder à oposição dos dois grupos de


instintos que supusemos existir. A afirmação (Bejahung) - como um substitu'to da
2
união - pertence a Eros; a negativa ( Verneinung) - o sucessor da expulsão - pertence
ao instinto de destruição."
"A Negativa" (1925) [ESB 19, 299-300}
1 No original, em vez de insight, está a palavra alemã Einsicht, a qual significa "compreen-
·
são"; o termo possui a conotação de uma "compreensão mais completa", e não possui o- caráter
de algo súbito e abrupto, nem o aspecto de uma visão· profundamente mobilizadora, quase
emocionante, que o termo insight tem em português.
2
Em vez de "união", "unificação".

7 "O desempenho da função de julgamento, contudo, não se tornou possível até


que a criação do símbolo da negativa ( Verneinung) dotou o pensar de uma primeira
1
medida de liberdade das conseqüências da repressão, e, com isso, da compulsão
(Zwang) do princípio de prazer.
"Esta visão da negativa (Verneinung) ajusta muito bem ao fato de que, na análise,
jamais descobrimos um não no2 inconsciente e que o reconhecimento3 do inconsciente
por parte do ego se exprime numa fórmula negativa. Não há p rova mais contu�dente
de que fomos bem-sucedidos em nosso esforço de revelar o inconsciente do que o
momento em que o p aciente reage a ele com as palavras 'Não pensei isso' ou 'Não
4
pensei (sequer ) nisso'."
"A Negativa" ( 1925) [ESB 19, 3 0Q]
1
Aqui Zwang não está sendo usado no sentido técnico de "compulsão", - mas no sentido
coloquial de "domínio" ("ditadura", "tirania", "obrigatoriedade"). Ver verbete "Compulsão"
(Zwang), pp. 101 e 106-8.
2 Em vez de no inconsciente, IUJ inconsciente, no sentido de "proveniente de".
3 "reconhecimento" no sentido de "admissão, reconhecer legitimidade, validar, aceitar".
Jamais
4 "' • n
.
320 Negação, Denegação

Retraduzindo todo o trecho: A atividade da função de julgamento, todavia, só se viabiliza


através da criação do símbolo da negativa, o qual confere ao pensar certo grau de liberdade
com relação às conseqüências do recalque e assim também com relação ao jugo do princípio
de prazer.
Coaduna-se muito bem com esta concepção da negativa o fato de que na análise não se
encontra um "não" proveniente do inconsciente e de que a admissão do inconsciente por parte
do Eu se expressa por uma fórmula negativa. Não há prova mais contundente de que logramos
revelar o inconsciente do que quando o analisando reage com à frase: "Não pensei isto" ou:
"Nisto não tinha Gamais) pensado".

8 "É verdade que não aceitamos o 'não' (Nein) de uma pessoa em análise por seu
valor nominal; tampouco porém permitimos que seu 'sim' (la) seja aceito. Não há
justificação para que nos acusem de que invariavelmente deformamos suas observações
transformando-as e m confirmação.
"( ... ) Um simples 'sim' do paciente de modo algum não é ambíguo. Na verdade,
pode significar que ele reconhece a correção da construção que lhe foi apresentada, mas
também pode não ter sentido ou mesmo merecer ser descrito como 'hipócrita', de uma
vez que pode convir à sua resistência fazer uso de um assentimento em tais circunstân- ,_ .
cias, a fim de prolongar o ocultamento de uma verdade que ainda não foi descoberta."
"Construções em Análise" ( 1 937) [ESB 23, 296-7]
Retraduzindo todo o trecho: É verdade que não aceitamos plenamente o "não" de uma pessoa
em análise; tampouco, porém, deixamos que o seu "sim" seja válido. Não éjusto que nos acusem
de em todos os casos sempre reinterpretar as declarações do paciente transformando-as em
confirmações de nossas hipóteses.
( ... ) Um "sim" direto do analisando tem múltiplos significados. Pode efetivamente indicar
que a construção escutada é reconhecida [admitida] como correta, mas também pode não ter
significado algum, ou mesmo ser algo que poderíamos designar como "dissimulação", pois pode
ser conveniente à sua resistência continuar, através de tal concordância, a ocultar a verdade não
revelada.

------------ Comentários ----------- -

O termo Verneinung é geralmente empregado n o contexto da escuta e da interpre­


tação que o analista faz das falas do paciente. Verneinen (negar, rejeitar) evoca o ato de
"dizer não" e bejahen (afirmar, assentir) o ato de "dizer sim". Já foi mencionado que
lingüisticamente ambos possuem dupla natureza: a Verneinung remete tanto à dimensão
de "rejeitar um conteúdo" ("negar") quanto à verbalização pela qual se expressa essa
negação (utilizando o símbolo da negação, o "não"). O mesmo vale para a Bejahung.
Verneinung 321

O uso que Freud faz da Bejahung e da Verneinung tira partido desta característica
lingüística dos cermos, enfatiza o papel do "sim" e do "não" como significantes, não se
restringindo a tomá·los como indício de efetivo assentimento ou discordância. O
paciente dirá "sim" ou "não", cabendo ao analista situar o significado de tais assertivas
para além do seu sentido imediato.
No exemplo 8, retirado do artigo "Construções em Análise" ( 1 937), não aparecem
os verbos bejahen e verneinen, mas os respectivos advérbios ja (sim) e nein (não). Freud
trata da acusação muitas vezes imputada à psicanálise de que os analistas interpretam
arbitrariamente as falas do paciente, sempre de modo a confirmar as teorias já
preconcebidas. Tais falas produzem um "sim" ou um "não", os quais, segundo Freud,
não devem ser tomados ao pé da letra. Aquilo que é confirmado pelo "sim" ou
contestado pelo "não" deverá se considerado sob a égide da resistência e do recalque
( o "sim" pode significar um "não" e vice-versa).

Verneinung como função do ego-realidade e do ego-prazer

No artigo "A Negativa" ( 1925), cujo título em alemão é "Die Verneinung", Freud
trata mais detalhadamente do significado psicanalítico da Verneinung e da Bejahung.
O]a e o Nein circulam nas esferas da função intelectual de atribuição dejuízos. A esta
esfera cabe tomar duas decisões de diferente ordem: 1) atribuir ou não determinadas
características a um objeto, e 2) decidir se o objeto está presente na realidade ou não.
Basicamente é função do ego-realidade atribuir juízos.
A Bejahung e a Verneinung ocorrem como atos da "capacidade de julgamento/ava­
liação" (Urteilsfunktion) a qual entra em contato com certo conteúdo. Esste conteúdo é
expresso sob a fomia de uma frase, ele é bejaht (confirmado, aceito, retrucado com "sim")
ou verneint (negado, rejeitado, retrucado com "não"). Entretanto, essa atividade intelectual
do ego-realidade deriva-se de origens psicológicas arcaicas ligadas ao ego-prazer.
É característico do ego-prazer projetar para fora os conteúdos desagradáveis e
introjetar os agradáveis. Ao expulsar ou incorporar conteúdos, acentua-se a diferencia­
ção do "dentro" e do "fora". Inicialmente aquilo que é expulso é mau, é idêntico ao
que é externo e é percebido como estranho. O bom é retido, ou introjetado, e é
percebido como familiar.
Com a diferenciação do subjetivo (alucinado, imaginado e pensado) e <lo real
(aquilo que é objetivo, externo), engendra-se a constituição do ego-realidade. A este
caberá colocar o pensar a serviço do desejo, no sentido de reencontrar no mundo
exterior os antigos objetos de satisfação introjetados. Submete os objetos externos ao
teste de realidade, separando o que é real do que é alucinado. Atribui juízos sobre a
realidade, negando ou afirmando determinadas características, bem como a presença
ou a ausência d.o s objetos.
322 /1/egaçã� Denegação

Entretanto, além de servirem à função racional (intelectual) de atribuir e verbalizar


juízos sobre a realidade, as atividades de verneinen e bejahen continuam ligadas a funções
arcaicas do ego-prazer (a "expulsão" ou a "incorporação" de determinados conteúdos
conforme caracteristicas de prazer-desprazer). Através da Verneinung, o sujeito nega
determinados conteúdos que lhe são potencialmente desagradáveis. Esse tipo de
Verneinung é a dimensão verbal-intelectual da função básica de "expulsão" atuante no
ego-prazer. Pei;tence à pulsão de destruição, ao passo que a Bejahung é um substituto
da "unificação 1, e pertence a Eros (exemplo 6).

Verneinung e recalque

A Verneinung na fala do paciente é indício da presença de material recalcado e da


resistência contra este. É uma forma particular de lidar com a pressão da idéia recalcada
para chegar à consciência, pois permite que a psique entre em contato com um
conteúdo necessário ao funcionamento do sujeito, mas que, sendo inaceitável, é
m,mtido a certa distância pela rejeição verbal e intelectual (exemplos 4, 5 e 7). No início
do referido artigo, Freud comenta que uma afirmação negativa do tipo "Agora o senhor
vai pensar que quero dizer algo insultuoso, mas realmente não tenho essa intenção" é
um repúdio, por projeção, de uma idéia que acaba realmente de ocorrer. É uma
admissão ou reconhecimento por parte do ego da presença do recalcado.
Neste sentido Freud diz que a Verneinung é um substituto intelectual do recalque.
Pela dimensão lingüística de negar ou aceitar através dos símbolos "não" ou "sim",
viabiliza-se esse contato com o material recalcado ( exemplos 1 e 2) e se reproduz uma
espécie de recalque ao nível intelectual. Essa rejeição ao recalcado continua ativa
mesmo que através da análise se logre a aceitação do conteúdo negado. Ou seja, mesmo
logrando-se transformar a Verneinung em Bejahung, o processo de repressão não é
suspenso (exemplo 3). Uma eventual Bejahung obtida ao nível intelectual ficará igual­
mente restrita à esfera lógico-gramatical da frase e separada do processo afetivo, tal
como a Verneinung. Através da relativa separação entre a dimensão lógico-verbal e os
processos afetivos (separação citada no exemplo 2) a psique logra lidar intelectualmente
com o material recalcado.
Freud conclui o artigo:
"A atividade da função de julgamento, todavia, só se viabiliza através da criação do
símbolo da negativa ( Verneinung), o qual confere ao pensar certo grau de liberdade
com relação às conseqüências do recalque e assim também com relação ao jugo do
princípio de prazer. Coaduna-se muito bem a esta concepção da negativa ( Verneinung)
o fato de que na análise não se encontra um 'não' (Nein) proveniente do inconsciente
e que a admissão do inconsciente por parte do Eu se expressa por uma fórmula negativa.
Não há prova mais contundente de que logramos revelar o inconsciente do que quando
Verneinung 323

o analisando reage com a frase: 'Não pensei isto', ou: 'Nisto não tinha Qamais)
pensado'." (exemplo 7).

� Afirmação (Bejahung), Repressão ( Verdrangung)


Pressão: Drang

E: Presión, esjuerzo
F: Poussée
I: Pressure

Em alemão, o substantivo Drang significa tanto um ímpeto ou pressão para descarga


corporal (necessidade/urgência) quanto uma forte aspiração ou ânsia.
"Abarca o arco entre a necessidade (algo de ordem mais fisiológica) e a ânsia (algo
de ordem da vontade).
É utilizado por Freud em conexão com pulsão (Trieb) e freqüentemente considera­
do como seu elemento essencial.
O substantivo Drang, o verbo driingen e o gerúndio driingend são habitualmente
traduzidos como "pressão", "pressionar" e "pressionante", eventualmente e.orno "im­
pulso", "impelir" e "impelente", ou ainda corno "necessidade".

---------- 0 Termo em Alemão ----------

Composição do termo

Termo simples.

Significados do verbo
drãngen e do substantivo Drang

1) Pressão corporal interna que obriga (urge) a uma ação de descarga. Necessidade
de urinar, defecar etc. (Harndrang, Stuhldrang etc.)
2) Corrente poderosa, fluxo (também utilizado corno verbo urgir). Agiu assim, pois
estava sob pressão do tempo (im Drang der Zeit). Sob pressão dos negócios acaba-se por ignorar
as necessidades pessoais (im Drang der Geschiifte). "Escrevi na época sob a pressão/ânsia de
atividade (... ) " (de Klinger para Goethe). O tempo urge, temos que agir.
3) Intenso desejo, ânsia, forte aspiração ou vontade (também utilizado como verbo).
Impulso ou ímpeto por liberdade, por vingança etc. (Im Drang nach Freiheit. Im Drang nach
Rache.) "É trabalho vão esclarecer a pessoas coisas as quais elas não têm desejo/ímpeto · de
entender" (Scheeling, Weltseele, 293).
4) Empurrar, acotovel