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Poder Judiciário da União

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS


TERRITÓRIOS

Órgão 1ª Turma Criminal

Processo N. APELAÇÃO CRIMINAL 0003504-88.2018.8.07.0009

APELANTE(S)

APELADO(S)
Relator Desembargador J. J. COSTA CARVALHO
Revisor Desembargador GILBERTO DE OLIVEIRA

Acórdão Nº 1364700

EMENTA

APELAÇÃO CRIMINAL. ESTUPRO DE VULNERAVEL. CUMULAÇÃO DA AGRAVANTE DO


ART. 61, II, “F” E ART. 226, II, AMBOS DO CP. POSSIBILIDADE. DANO MORAL IN RE IPSA.
TESE FIRMADA EM RECURSO REPETITIVO DO C. STJ. VALOR MÍNIMO FIXADO
PROPORCIONALMENTE. CONTINUIDADE DELITIVA. APLICAÇÃO DA FRAÇÃO MÁXIMA.
MANUTENÇÃO. DELITO COMETIDO POR LONGO ESPAÇO DE TEMPO E EM DEZ
SITUAÇÕES DISTINTAS. CONFISSÃO DO RÉU. PRECEDENTES DO C. STJ. REGIME
PRISIONAL. FIXAÇÃO LEGAL. DIREITO DE RECORRER EM LIBERDADE. FALTA DE
INTERESSE RECURSAL. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO.

1. Tratando-se de circunstâncias aplicadas em fases distintas da dosimetria da pena, quais sejam, a


agravante do art. 61, inciso II, alínea “f”, e a majorante do art. 226, inciso II, todos do CPB, sendo que
a primeira é utilizada na segunda fase da dosimetria em função do ambiente doméstico e a outra é
usada na terceira fase por cuidar da condição de padrasto, não há se falar em bis in idem.

2. “Nos casos de violência contra a mulher praticados no âmbito doméstico e familiar, é possível a
fixação de valor mínimo indenizatório a título de dano moral, desde que haja pedido expresso da
acusação ou da parte ofendida, ainda que não especificada a quantia, e independentemente de
instrução probatória." (REsp 1675874/MS, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, TERCEIRA
SEÇÃO, julgado em 28/02/2018, DJe 08/03/2018)

3. Revela-se razoável e proporcional o montante arbitrado a título de indenização mínima por danos
morais, já que atende à gravidade dos fatos e à capacidade econômica do réu.

4. É possível a majoração da pena em 2/3 (dois terços), pelacontinuidadedelitiva, nas hipóteses em


que as provas dos autos demonstram que os crimes foram cometidos em 10 (dez) situações distintas e
durante anos a fio.
5. Havendo imposição legal quanto ao regime prisional a ser aplicado em razão da pena corporal
estabelecida, não há se falar em abrandamento.

6. Carece de interesse recursal o pleito de revogação da prisão preventiva quando o próprio magistrado
sentenciante concede o direito de recorrer em liberdade ao réu.

7. Recurso conhecido e desprovido.

ACÓRDÃO

Acordam os Senhores Desembargadores do(a) 1ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito


Federal e dos Territórios, J. J. COSTA CARVALHO - Relator, GILBERTO DE OLIVEIRA - Revisor
e CESAR LOYOLA - 1º Vogal, sob a Presidência do Senhor Desembargador J. J. COSTA
CARVALHO, em proferir a seguinte decisão: NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO. UNÂNIME,
de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.

Brasília (DF), 25 de Agosto de 2021

Desembargador J. J. COSTA CARVALHO


Presidente e Relator

RELATÓRIO

Cuida-se de recurso de apelação criminal interposto por H. R. d. B., contra a r. sentença proferida pelo
d. Juiz da MM. do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Samambaia/DF, pela
qual julgou procedente apretensão punitiva estatal proposta e o condenou como incurso na prática do
crime descrito no art. 217-A, caput, c/c artigo 226, inciso II e art. 71, todos do Código Penal, tudo na
forma do art. 5º, inciso II, da Lei nº 11.340/2006, a cumprir uma pena de 20 (vinte) anos de reclusão,
no regime inicial fechado e, ainda, à indenização por danos morais no valor mínimo de R$ 10.000,00
(dez mil reais) (ID nº 16611233).

Não se conformando com os termos da r. sentença monocrática, dela apelou a d. defesa do acusado (ID
nº 15769613), requerendo nas razões recursais que foram apresentadas seja revista a dosimetria da
pena, pugnando, em suma: i) pela fixação da pena-base no mínimo legal; ii) seja reconhecida a
ocorrência de bis in idem em razão do reconhecimento da agravante do art. 61, II, “f”, do Código Penal
e da majorante do art. 226, II, do CPB; iii) pelo afastamento da aplicação da continuidade delitiva; iv)
pela fixação de regime mais brando de cumprimento de pena; v) pelo reconhecimento do direito de
recorrer em liberdade; e; vi) pela minoração do valor arbitrado a título de indenização por danos
morais.

O ilustre representante do Ministério Público em 1º Grau não apresentou contrarrazões formais,


conforme (ID nº 16611242).
A ilustrada Procuradoria Criminal Especializada oficiou pelo conhecimento e parcial provimento do
recurso, somente para minorar o quantum fixado pelos danos morais sofridos (ID nº 16696901).

É o relatório.

VOTOS

O Senhor Desembargador J. J. COSTA CARVALHO - Relator

Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso.

Conforme consta do relatório, cuida-se de recurso de apelação criminal interposto por H. R. d. B.,
contra a r. sentença proferida pelo d. Juiz da MM. do Juizado de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher de Samambaia/DF, pela qual julgou procedente apretensão punitiva estatal proposta
e o condenou como incurso na prática do crime descrito no art. 217-A, caput, c/c artigo 226, inciso II
e art. 71, todos do Código Penal, tudo na forma do art. 5º, inciso II, da Lei nº 11.340/2006, a cumprir
uma pena de 20 (vinte) anos de reclusão, no regime inicial fechado e, ainda, à indenização por danos
morais no valor mínimo de R$ 10.000,00 (dez mil reais) (ID nº 16611233).

Este o teor da peça inicial acusatória que fora ofertada em desfavor do acusado (ID nº 16610550):

“(...) Em datas que não se pode precisar, mas que se sabe ocorridas entre os anos de
2012 e 2018, na QR, Conjunto, Casa, Samambaia/DF, o denunciado, de modo consciente
e voluntário, por diversas vezes, praticou atos libidinosos diversos da conjunção carnal
com sua enteada T.V. d. A.S., nascida em 14/03/2004, menor de 14 anos à época dos
fatos.

Nas condições acima mencionadas, o denunciado, por diversas vezes, acariciou as partes
íntimas e introduziu seu dedo no ânus da vítima, enquanto se masturbava.

Em outras ocasiões, o denunciado obrigou a vítima a nele praticar sexo oral, além de
masturbá-lo.

Não satisfeito, em uma oportunidade, o denunciado chegou a tentar introduzir seu pênis
no ânus da vítima, que, devido a dor, pediu que o padrasto cessasse o ato.

Ressalte-se que o denunciado procurava recompensar a vítima amenizando os castigos


aplicados como meio de educação e dando-lhe dinheiro, celular, tablete.

Os delitos ocorreram no contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher, pois


o denunciado é padrasto da vítima" (...).

Embora a autoria e a materialidade da prática do crime que foi imputada ao acusado, ora apelante, não
ter sido temas objeto de insurgência recursal, certo é que restaram devidamente demonstradas pela
provas existentes nos autos, notadamente pela confissão do acusado, pelaPortaria de instauração de
Inquérito Policial nº 104/2018 – DPCA (ID nº 16610551 – fls. 4/5), Ocorrência Policial 127/2018 –
DPCA, Relatório nº 36/2019 – DPCA (ID nº 16610552 – fls. 48/54), depoimentos na fase instrutória,
e os demais elementos coligidos durante a tramitação processual, tudo formando um sólido conjunto
probatório suficiente e seguro para provar a prática do crime descrito na denúncia e apontar o acusado
como o seu autor.
Nas razões recursais que foram apresentadas, a d. defesa do acusado requer somente que seja revista a
dosimetria da pena, pugnando, em suma: i) pela fixação da pena-base no mínimo legal; ii) seja
reconhecida a ocorrência de bis in idem em razão do reconhecimento da agravante do art. 61, II, “f”,
do Código Penal e da majorante do art. 226, II, do CPB; iii) pelo afastamento da aplicação da
continuidade delitiva; iv) pela fixação de regime mais brando de cumprimento de pena; v) pelo
reconhecimento do direito de recorrer em liberdade; e; vi) pela minoração do valor arbitrado a título
de indenização por danos morais(ID nº 15769613).

Quanto a alegação de ocorrência de bis in idem, em razão do reconhecimento da agravante do art. 61,
II, “f”, do Código Penal e da majorante do art. 226, II, do Código Penal, vejo que a irresignação
carece de amparo, conforme será visto adiante.

Ora, a partir de uma interpretação teleológica da Lei nº 11.340/06, extrai-se que o legislador objetivou
dar uma maior proteção às mulheres, estabelecendo mecanismos de salvaguarda dos direitos de pessoa
do sexo feminino, quando sujeitas às situações de violência previstas na norma.

Nesse passo, importante consignar que a jurisprudência oriunda desta egrégia Corte de Justiça e do c.
STJ é firme no sentido de não se caracterizar bis in idem a aplicação da agravante do art. 61, II, “f”, do
CP em relação à dosimetria, em situações que tais, in verbis:

“DIREITO PENAL. DIREITO PROCESSUAL PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL.


VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA MULHER. VIOLAÇÃO DE
DOMICÍLIO QUALIFICADA. AMEAÇA. MATERIALIDADE E AUTORIA
COMPROVADAS. PROVA DOCUMENTAL, TESTEMUNHAL, PALAVRA DA VÍTIMA.
RELEVÂNCIA, COERÊNCIA, HARMONIA. DOSIMETRIA. AGRAVANTE. BIS IN
IDEM. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. POSSIBILIDADE. INDICAÇÃO DE
VALOR. DILAÇÃO PROBATÓRIA. DESNECESSIDADE. RECURSOS REPETITIVOS.
TEMA 983/STJ. CONDENAÇÃO MANTIDA.

(...)

3. A Lei 11.340/06 buscou trazer maior tutela para as vítimas de violência doméstica e
familiar, criando mecanismos para coibir e eliminar todas as formas de discriminação
contra as mulheres. Desse modo, ‘não caracteriza bis in idem a incidência da agravante
prevista na alínea 'f', II, do art. 61 do CP nos crimes cometidos em contexto de violência
doméstica’ (TJDFT, Acórdão n.1033847, 20150610131828APR, Relator: JAIR SOARES
2ª TURMA CRIMINAL, Data de Julgamento: 27/07/2017, Publicado no DJE:
01/08/2017. Pág.: 205/224).

(...)

7. Recurso conhecido e desprovido” (Acórdão n.1106878, 20150610126710APR,


Relator: MARIA IVATÔNIA 2ª TURMA CRIMINAL, Data de Julgamento: 28/06/2018,
Publicado no DJE: 04/07/2018. Pág.: 147/190) (g.n.)".

“RECURSO ESPECIAL. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. DOSIMETRIA. CONDIÇÃO DE


PADRASTO. AGRAVANTE. ARTIGO 61, II, "f", DO CP. MAJORANTE. ARTIGO 226, II,
DO CP. BIS IN IDEM. NÃO OCORRÊNCIA. RECURSO PROVIDO. 1. É assente nesta
Corte Superior que ‘Não caracteriza bis in idem a utilização da agravante genérica
prevista no art. 61, II, f, do Código Penal e da majorante específica do art. 226, II, do
Código Penal, tendo em vista que a circunstância utilizada pelo Tribunal de origem para
agravar a pena foi a prevalência de relações domésticas no ambiente intrafamiliar e
para aumentá-la na terceira fase, em razão da majorante específica, utilizou-se da
condição de padrasto da vítima, que são situações distintas’ (REsp 1645680/RS, Rel.
Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 14/02/2017, DJe
17/02/2017).
2. Recurso provido para restabelecer a sentença condenatória” (REsp 1708689/MG,
Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 05/06/2018, DJe
15/06/2018) (g.n.)".

Sendo assim, tratando-se de circunstâncias distintas, já que uma é utilizada na segunda fase da
dosimetria em função do ambiente doméstico, e a outra é usada na terceira fase por cuidar da condição
de padrasto, não há que se falar em bis in idem.

Quanto ao pleito de afastamento da continuidade delitiva, a d. defesa assevera não ser possível dizer
que os requisitos objetivos e subjetivos restaram preenchidos, mas a meu sentido sentido, sem razão.

No ponto, a leitura atenta do minucioso depoimento prestado pela vítima, evidencia diferentes e
diversas situações de constrangimento que ela teria sofrido, quando o acusado executava atos
revestidos de conotação sexual, tendentes à satisfação de sua lascívia.

Se isso não bastasse, a narrativa da vítima converge, com efeito, com o interrogatório do próprio
acusado, onde ele confirma os relatos expostos, confirmando que acariciou as partes íntimas da vítima
por mais de 10 (dez) vezes.

No particular, o c. Superior Tribunal de Justiça sedimentou entendimento, o qual adoto, no sentido de


que aumento máximo da sanção, aplicando-se a fração de 2/3 (dois terços), tem sido usualmente
empregado em situações em que abusos tenham ocorrido por tempo prolongado, repetindo-se em
quantidade igual ou superior àquela utilizada para justificar a exasperação máxima, nas hipóteses em
que o número de infrações é conhecido.A ementa abaixo transcrita demonstra, em suma, o raciocínio
ora esposado, in verbis:

“PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO.


INADEQUAÇÃO. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. DOSIMETRIA. PENA-BASE.
CIRCUNSTÂNCIAS DO CRIME. MODUS OPERANDI. QUANTUM DE AUMENTO
PELA CONTINUIDADE DELITIVA. MOTIVAÇÃO IDÔNEA DECLINADA.
IMPRECISÃO QUANTO AO NÚMERO DE ATOS SEXUAIS. PRESCINDIBILIDADE.
CRIANÇA SUBMETIDA À PRÁTICA DE INÚMEROS ABUSOS SEXUAIS. FRAÇÃO DE
2/3 JUSTIFICADA. TERCEIRA FASE DA DOSIMETRIA. DUAS CAUSA DE AUMENTO
DE PENA. MÉTODO CONSECUTIVO. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE. WRIT NÃO
CONHECIDO.

(...)

5. Nos crimes sexuais envolvendo vulneráveis, torna-se bastante complexa a prova do


exato número de crimes cometidos. Tal imprecisão, contudo, não deve levar o aumento
da pena ao patamar mínimo. Especialmente quando o contexto apresentado nos autos
evidencia que os abusos sexuais foram praticados por diversas vezes e de forma
constante, até por que perpetrados pelo padrasto, em ambiente de convívio familiar,
sendo impossível precisar a quantidade de ofensas sexuais. Na hipótese, apesar de a
vítima não saber precisar o número exato de delitos cometidos, deixou claro que ‘os atos
se deram repetidamente, durante todo o transcurso dos anos de 2009 e 2010,
acontecendo sempre que permanecia sozinha na residência com seu ofensor, por pelo
menos dez vezes’. Por conseguinte, mostra-se apropriado o aumento da pena na
proporção máxima de 2/3.

(...)

7. Writ não conhecido. (HC 542.306/SC, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA
TURMA, julgado em 11/02/2020, DJe 14/02/2020 – g.n.)".

Desse modo, narrando a denúncia que “Em datas que não se pode precisar, mas que se sabe
ocorridas entre os anos de 2012 e 2018, na QR, Conjunto, Casa, Samambaia/DF, o denunciado, de
modo consciente e voluntário, por diversas vezes, praticou atos libidinosos diversos da conjunção
carnal com sua enteada T.V. d. A.S., nascida em 14/03/2004, menor de 14 anos à época dos fatos"
(...) e, ainda, levando-se em consideração que, tanto a vítima quanto o próprio apelante/réu, afirmaram
que os fatos ocorreram em 10 (dez) situações distintas, a aplicação da fração máxima prevista em lei,
em virtude do reconhecimento da continuidade delitiva, deve ser mantida.

De outra banda, em relação ao pedido de indenização por danos morais propriamente dito, o c.
Superior Tribunal de Justiça, por meio da egrégia 3ª Seção, decidiu/aprovou o tema nº 983, nos
moldes da sistemática do recurso repetitivo, fixando a tese no sentido de que: “Nos casos de violência
contra a mulher praticados no âmbito doméstico e familiar, é possível a fixação de valor mínimo
indenizatório a título de dano moral, desde que haja pedido expresso da acusação ou da parte
ofendida, ainda que não especificada a quantia, e independentemente de instrução probatória”. A
ementa lavrada para o julgado ficou assim redigida:

“RECURSO ESPECIAL. RECURSO SUBMETIDO AO RITO DOS REPETITIVOS (ART.


1.036 DO CPC, C/C O ART. 256, I, DO RISTJ). VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR
CONTRA A MULHER. DANOS MORAIS. INDENIZAÇÃO MÍNIMA. ART. 397, IV, DO
CPP. PEDIDO NECESSÁRIO. PRODUÇÃO DE PROVA ESPECÍFICA DISPENSÁVEL.
DANO IN RE IPSA. FIXAÇÃO CONSOANTE PRUDENTE ARBÍTRIO DO JUÍZO.
RECURSO ESPECIAL PROVIDO.

1. O Superior Tribunal de Justiça - sob a influência dos princípios da dignidade da


pessoa humana (CF, art. 1º, III), da igualdade (CF, art. 5º, I) e da vedação a qualquer
discriminação atentatória dos direitos e das liberdades fundamentais (CF, art. 5º, XLI), e
em razão da determinação de que "O Estado assegurará a assistência à família na
pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no
âmbito de suas relações" (art. 226, § 8º) - tem avançado na maximização dos princípios e
das regras do novo subsistema jurídico introduzido em nosso ordenamento com a Lei nº
11.340/2006, vencendo a timidez hermenêutica no reproche à violência doméstica e
familiar contra a mulher, como deixam claro os verbetes sumulares n. 542, 588, 589 e
600.

2. Refutar, com veemência, a violência contra as mulheres implica defender sua


liberdade (para amar, pensar, trabalhar, se expressar), criar mecanismos para seu
fortalecimento, ampliar o raio de sua proteção jurídica e otimizar todos os instrumentos
normativos que de algum modo compensem ou atenuem o sofrimento e os malefícios
causados pela violência sofrida na condição de mulher.

3. A evolução legislativa ocorrida na última década em nosso sistema jurídico evidencia


uma tendência, também verificada em âmbito internacional, a uma maior valorização e
legitimação da vítima, particularmente a mulher, no processo penal.

4. Entre diversas outras inovações introduzidas no Código de Processo Penal com a


reforma de 2008, nomeadamente com a Lei n. 11.719/2008, destaca-se a inclusão do
inciso IV ao art. 387, que, consoante pacífica jurisprudência desta Corte Superior,
contempla a viabilidade de indenização para as duas espécies de dano - o material e o
moral -, desde que tenha havido a dedução de seu pedido na denúncia ou na queixa.

5. Mais robusta ainda há de ser tal compreensão quando se cuida de danos morais
experimentados pela mulher vítima de violência doméstica. Em tal situação, emerge a
inarredável compreensão de que a fixação, na sentença condenatória, de indenização, a
título de danos morais, para a vítima de violência doméstica, independe de indicação de
um valor líquido e certo pelo postulante da reparação de danos, podendo o quantum ser
fixado minimamente pelo Juiz sentenciante, de acordo com seu prudente arbítrio.

6. No âmbito da reparação dos danos morais - visto que, por óbvio, os danos materiais
dependem de comprovação do prejuízo, como sói ocorrer em ações de similar natureza -,
a Lei Maria da Penha, complementada pela reforma do Código de Processo Penal já
mencionada, passou a permitir que o juízo único - o criminal - possa decidir sobre um
montante que, relacionado à dor, ao sofrimento, à humilhação da vítima, de difícil
mensuração, deriva da própria prática criminosa experimentada.

7. Não se mostra razoável, a esse fim, a exigência de instrução probatória acerca do


dano psíquico, do grau de humilhação, da diminuição da autoestima etc., se a própria
conduta criminosa empregada pelo agressor já está imbuída de desonra, descrédito e
menosprezo à dignidade e ao valor da mulher como pessoa.

8. Também justifica a não exigência de produção de prova dos danos morais sofridos
com a violência doméstica a necessidade de melhor concretizar, com o suporte
processual já existente, o atendimento integral à mulher em situação de violência
doméstica, de sorte a reduzir sua revitimização e as possibilidades de violência
institucional, consubstanciadas em sucessivas oitivas e pleitos perante juízos diversos.

9. O que se há de exigir como prova, mediante o respeito ao devido processo penal, de


que são expressão o contraditório e a ampla defesa, é a própria imputação criminosa -
sob a regra, derivada da presunção de inocência, de que o onus probandi é
integralmente do órgão de acusação -, porque, uma vez demonstrada a agressão à
mulher, os danos psíquicos dela derivados são evidentes e nem têm mesmo como ser
demonstrados.

10. Recurso especial provido para restabelecer a indenização mínima fixada em favor
pelo Juízo de primeiro grau, a título de danos morais à vítima da violência doméstica.

TESE: Nos casos de violência contra a mulher praticados no âmbito doméstico e


familiar, é possível a fixação de valor mínimo indenizatório a título de dano moral, desde
que haja pedido expresso da acusação ou da parte ofendida, ainda que não especificada
a quantia, e independentemente de instrução probatória."

(REsp 1675874/MS, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, TERCEIRA SEÇÃO,


julgado em 28/02/2018, DJe 08/03/2018)".

Ora, provado o fato lesivo, despiciendo falar-se em outra prova, haja vista a consumação do dano
moral ter-se operado com o cometimento do delito em situação de violência doméstica (dano in re
ipsa). Ou seja, para efeitos de indenização por danos morais o dissabor da vítima é presumido,
segundo um juízo de razoabilidade, tendo em vista a gravidade do ilícito penal em si praticado pelo
réu.

No que tange ao quantum indenizatório, convém frisar que inexiste critério científico para se medir
quantitativamente a intensidade do dano moral. Cumpre ao julgador sopesar tanto o caráter de
indenização à vítima, quanto o de sanção ao causador do dano, para que o quantum indenizatório seja
efetivamente adequado e proporcional ao prejuízo efetivamente experimentado.

Entretanto, a fixação do montante no processo penal restringe-se a um valor mínimo, o que não
impede a vítima de buscar sua liquidação no juízo cível para majorar o quantum mínimo aqui a ser
fixado.

Limitados estes marcos e ao considerar as peculiaridades do caso concreto, entendo que o valor fixado
na sentença (R$ 10.000,00 – dez mil reais) encontra-se adequado e satisfaz minimamente a vítima,
encontrando-se compatível com um patamar do vulto dos interesses em conflito e compatível com os
dissabores e transtornos experimentados, os quais foram suficientes a desarticular os valores morais e
éticos, que restaram maculados.

Já no que pertine ao pleito para fixação de regime mais brando de cumprimento de pena e de
reconhecimento do direito de recorrer em liberdade, analiso-os no decorrer da dosimetria da pena.
- PRIMEIRA FASE:

Em atenção ao contido no art. 59 do CPB, não se verificam circunstâncias judiciais desfavoráveis ao


acusado, ficando a pena-base fixada em 08 (oito) anos de reclusão. Mantenho.

- SEGUNDA-FASE:

Presentes a agravante do art. 61, II, “f”, do CPB e a atenuante da confissão espontânea, foi promovida
a compensação entre ambas e mantida a pena intermediária em 08 (oito) anos de reclusão. Nada a
reparar.

- TERCEIRA FASE:

Ausentes quaisquer causas de diminuição.

Ainda nessa fase, imperioso registrar a presença da causa de aumento de pena do art. 226, inciso II, do
CPB, por se tratar o acusado de padrasto da vítima à época dos fatos, motivo pelo qual a pena foi
aumentada de metade, por exercer autoridade sobre ela. Assim, foi fixada a reprimenda em 12
(doze) anos de reclusão. Conservo.

DA CONTINUIDADE DELITIVA:

Ao fim, atento ao fato de que o delito fora cometido em continuidade delitiva (art. 71 do CP) e,
conforme restou demonstrado, por 10 (dez) ocasiões distintas, foi acrescido 2/3 (dois terços), elevando
a sanção, fixando-a, definitivamente, em 20 (vinte) anos de reclusão. Mantenho.

Por expressa previsão legal, o regime inicial deve ser o fechado, tendo em vista o quantum da pena
corporal, nos termos do art. 33, § 2º, “a”, do CP.

Inviável a concessão dos benefícios do art. 44 e do art. 77 do Código Penal, em razão do tempo
totalizado pela pena corporal.

Por fim, quanto ao pleito de reconhecimento do direito de recorrer em liberdade do apelante, verifico
não haver interesse recursal neste ponto. Na verdade, o acusado respondeu ao processo em liberdade e
a ele foi concedido o direito de recorrer nesta condição.

Ante o exposto, nego provimento ao recurso e mantenho, na íntegra, a r. sentença fustigada.

É como voto.

O Senhor Desembargador GILBERTO DE OLIVEIRA - Revisor


Com o relator
O Senhor Desembargador CESAR LOYOLA - 1º Vogal
Com o relator

DECISÃO

NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO. UNÂNIME

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