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Mª Clara Pietrani.

“Os desafios do sistema prisional brasileiro”.

Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita,
na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. Todavia, o
que se observa, no atual cenário brasileiro, é o oposto do que o autor prega, uma vez que
há desafios do sistema prisional no Brasil. Nesse sentido, é necessário analisar tal quadro,
que demanda ações para revertê-lo, intrinsecamente ligadas à intolerância social e à
negligência estatal.
Salienta-se, de início, que os impasses da estrutura carcerária são indício, principal-
mente, da concepção equivocada da sociedade. Conforme o escritor Roberto Crema, o
termo “normose” é um conjunto de hábitos considerados normais pelo consenso social
que, na realidade, são patogênicos. Sob esse viés, é possível traçar um paralelo entre o
postulado do autor e o contexto atual, sobretudo no que tange aos entraves das dinâmi-
cas dos presídios, uma vez que o preconceito social em relação aos ex-detentos é uma
veracidade brasileira. Em virtude disso, o presidiário, ao deixar a prisão, tenta recomeçar
uma nova vida, mas encontra dificuldades para se inserir no meio laboral e escolar, devi-
do ao estigma social em relação a eles, o que coadjuva para o retorno dessas pessoas
para o crime. Logo, é preciso reverter tal postura social.
Outrossim, frisa-se o descaso do Poder Público como fator impulsionador das
adversidades do funcionamento das prisões do Brasil. Segundo o filósofo contratualista
John Locke, o Estado deve zelar pelo direito de todos. Entretanto, tal princípio não é veri-
ficado na conjuntura do país, na medida em que o governo se abstém de investir, de mo-
do eficaz, no asseguramento dos direitos básicos - tais como, saúde, segurança, alimen-
tação, lazer e infraestrutura - dos detentos. Em decorrência dessas ações governamen-
tais, eleva-se os desafios do sistema carcerário no contexto nacional, circunstância a qual
favorece a permanência das séries de criminalidades, visto que o modo de agir das pri-
sões apenas pune, não reeduca. Assim, torna-se nítida a displicência estatal na questão.
Infere-se, pois, que fatores sociais e estatais são quesitos que obstaculizam o combate
dos desafios do sistema prisional brasileiro. Dessarte, urge que as mídias, a exemplo, TV
e redes sociais, informem as pessoas a respeito das contrariedades no funcionamento
das prisões, por meio de vídeos elucidativos e campanhas de conscientização, a fim de
reprimir o estigma social associado aos detentos e ex-detentos. Ademais, é imperioso
que o Estado, na condição de garantidor dos direitos individuais, invista, de maneira
eficaz, nas penitenciárias, por intermédio da designação de verbas, com o objetivo de
oferecer uma estrutura adequada e, assim, garantir a dignidade e a reeducação desses
indivíduos. Desse modo, a “sociedade perfeita”, idealizada por More, efetivar-se-á no
Brasil.

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