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REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary

BEAUVOIR, O PATRIARCADO E OS MITOS NAS RELAÇÕES

DE PODER ENTRE HOMENS E MULHERES.

BEAUVOIR, THE PATRIARCHATE AND MYTHS OF POWER

IN RELATIONS BETWEEN MEN AND WOMEN.

BEAUVOIR, EL PATRIARCADO Y MITOS DE PODER EN LAS

RELACIONES ENTRE HOMBRES Y MUJERES.

Maria Luzia Miranda Álvares

RESUMO: ensaio que analisa a obra “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir,


enfatizando a reflexão do conceito de patriarcado sobre o problema da participação
política formal das mulheres, e abordagem de alguns “fatos e mitos” que
contribuem para o jugo das mulheres. A obra foi construída em uma perspectiva
fenomenológica existencial de gênero, portanto ao mostrar a dinâmica das ações
femininas focaliza o conceito de “experiência vivida”, que contribui para
compreensão e o “desalinhamento” da perspectiva do status quo. Tal perspectiva
pode ser articulada as redes do conceito de gênero enquanto pauta de estudos das
relações sociais hierarquizadas, conceito defendido por outra teórica, Joan Scott.
Palavras-chave: Beauvouir, gênero, mulheres, patriarcado, existencialismo.
ABSTRACT: essay that analyzes the book "The Second Sex" by Simone de
Beauvoir, emphasizing reflection of the concept of patriarchy on the problem of
formal political participation of women, and some "myths and facts" approach that
contribute to the oppression of women . The project was built in an existential
phenomenological perspective of gender, so to show the dynamics of women's
actions focuses on the concept of "lived experience" that contributes to the
understanding and "misalignment" of the perspective of the status quo. Such a
perspective can be articulated networks of the concept of gender as a staff study of
hierarchical social relations, defended by another theoretical concept, Joan Scott.
Keywords: Beauvouir, gender, women, patriarchy, existentialism.
RESUMEN: ensayo que analiza el libro "El segundo sexo" de Simone de Beauvoir,
haciendo hincapié en la reflexión del concepto de patriarcado en el problema de la
participación política formal de las mujeres, y un poco de enfoque "mitos y
realidades" que contribuyen a la opresión de las mujeres . El proyecto fue
construido en un punto de vista fenomenológico existencial de género, por lo que
para mostrar la dinámica de las acciones de las mujeres se centra en el concepto
de "experiencia vivida" que contribuye a la comprensión y la "desalineación" de la
perspectiva de la situación actual. Esta perspectiva se puede articular redes del
concepto de género como un estudio personal de las relaciones sociales jerárquicas,
defendido por otro concepto teórico, Joan Scott.
Palabras clave: Beauvouir, el género, las mujeres, el patriarcado, el
existencialismo.

No século XXI são várias ações produzidas pelos


perceptíveis os avanços na diversos movimentos e
participação das mulheres no cientistas sociais, e das áreas
mundo público, derivados de de humanidades.
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Sobre as contribuições história do país. (Brah, 2006;


dos movimentos feministas Butler, 2003)
temos a produção de teorias de Os estudos feministas
gêneros, e no campo das possuem diversos enfoques
legislações elaboradas no teóricos e metodológicos,
Brasil, e as que o país é assim, neste texto o foco é uma
signatário destacamos o II obra inserida nos estudos
Plano Nacional de Políticas para fenomenológicos existenciais de
as Mulheres, a Lei Nº 11.340, gênero.
de 7 de agosto de 2006, ou Consideramos que a
Maria da Penha, que leitura sistemática de “O
asseguram os direitos de Segundo Sexo” (1967) de
mulheres e propõem que Simone de Beauvoir1, instigou a
práticas devem ser acionadas reflexão do conceito de
como mecanismos de garantia patriarcado sobre o problema
e proteção desses direitos. da participação política formal
A partir da conceituação das mulheres. Mas, no mesmo
das diferenças entre as ritmo da escrita dessa autora
mulheres, da III Conferência que aponta “fatos e mitos”
Mundial contra o Racismo, subjugando as mulheres e, ao
Discriminação Racial, Xenofobia mesmo tempo, interroga estes
e Intolerâncias Correlatas, (em pontos construidos num
2001), têm sido evidenciadas processo de representação da
no debate sobre as opressões tradição escrita (áreas de
vividas pelas mulheres, à conhecimento, histórias etc), e
importância de se pensar e mostra a dinâmica das ações
reconhecer práticas feministas
1
Simone de Beauvoir (1908-1986) foi escritora,
transnacionais, de modo que filósofa existencialista e feminista francesa. Era
parceira de Jean-Paul Sartre, também filósofo
possa ser garantida à mulher existencialista que com ela e Maurice Merlau-
Ponty criou a célebre Revue Les Temps
negra brasileira a condição de Modernes. Para a teoria feminista “O Segundo
Sexo” (1949) se torna um dos bastiões da crítica
sujeito político e atuante na
à condição de opressão das mulheres.. “O
Segundo Sexo”, Difusão Eusopéia do Livro, 2ª
Edição, 1970, volumes 1 e 2,, 1967.

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femininas dentro da destino normal seria o


“experiência vivida”, a casamento que as
provocação pautou não só a transformaria em objeto da
leitura do “desalinhamento” da supremacia masculina.
perspectiva do status quo, mas (Beauvoir, 1967, Abertura).
se fortaleceu nas redes do Mas completa em outro
conceito de gênero enquanto parágrafo inicial:
pauta de estudos das relações NINGUÉM nasce mulher:
sociais hierarquizadas, conceito torna-se mulher. Nenhum
defendido por outra teórica, destino biológico, psíquico,
Joan Scott (1992)2. econômico define a forma que a
De Simone de Beauvoir é fêmea humana assume no seio
sugestivo o que ela observa na da sociedade; é o conjunto da
abertura do segundo volume do civilização que elabora esse
O Segundo Sexo quando, produto intermediário entre o
provocativamente, vai mostrar macho e o castrado que
em que deu aquele qualificam de feminino.
emaranhado de “mitos” que Somente a mediação de outrem
levava as mulheres a pode constituir um indivíduo
submeter-se ao “eterno como um Outro.(idem, p. 9)
feminino”: Na quarta parte do
Elas começam a afirmar segundo volume – A caminho
sua independência ante o da Libertação – A mulher
homem; não sem dificuldades e Independente (pags. 449- 500)
angústias porque, educadas por - Beauvoir evidencia alguns
mulheres num gineceu marcos de mudanças na
socialmente admitido, seu situação das mulheres, em
foco, as francesas:
2
Joan W. Scott é uma historiadora norte-
americana cuja atividade intelectual foi
O CÓDIGO francês não
direcionada na, década de 1980, para a “história mais inclui a obediência entre
das mulheres”, a partir da perspectiva de gênero.
Ocupa a cadeira Harold F. Linder do Instituto de os deveres da esposa, e toda
Estudos Avançados da Universidade de
Princeton (EUA). cidadã tornou-se eleitora; essas

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liberdades cívicas permanecem realidade de seu tempo (o livro


abstratas quando não se foi escrito no final da década de
acompanham de uma 1940 e publicado em 1949) em
autonomia econômica. (...) Não que o grande mote da
se deve, entretanto acreditar realização das mulheres estava
que a simples justaposição do na cultura do trabalho
direito de voto a um ofício profissional fora do espaço
constitua uma perfeita doméstico:
libertação: hoje o trabalho não A mulher que se liberta
é a liberdade. economicamente do homem
Dois outros excertos nem por isso alcança uma
desse capítulo apontam para a situação moral, social e
assimilação dos atributos psicológica idêntica à do
simbólicos que caracterizaram a homem. A maneira por que se
vivência feminina, empenha em sua profissão e a
condicionados como resultado ela se dedica depende do
do longo processo de contexto constituído pela forma
submissão a que este gênero global de sua vida.
foi submetido. No Volume I do livro
Por outro lado, a aponta para dois fatores que
estrutura social não foi convergiram para a atualização
profundamente modificada pela da condição da mulher e a
evolução da condição feminina; conquista total de sua pessoa:
este mundo, que sempre a participação no processo
pertenceu aos homens, produtivo e a libertação da
conserva ainda a forma que escravidão da reprodução o que
eles lhe imprimiram. É preciso quer dizer: a mulher liberta-se
não perder de vista esses fatos, de uma concepção de
dos quais a questão do trabalho “Natureza” imposta, durante o
feminino tira sua complexidade. Século XIX, pelas tecnologias
No excerto seguinte a que se inscrevem no controle
autora aponta para a própria da função reprodutora.

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Quanto aos direitos Ministro Charles de Gaulle


políticos, diz: (1944-1946) uma “saída” para
“...não foi sem dificuldade garantirem o seu estatuto de
que se conquistaram na França, cidadania pelo voto que só será
na Inglaterra, nos Estados assinado um ano depois. Esse
Unidos. Em 1867, Stuart Mill aspecto é um dos itens que
fazia, perante o Parlamento, a Simone trata desde o primeiro
primeira defesa oficialmente volume de seu livro, quando
pronunciada do voto feminino. recupera a presença de Stuart
Reclamava imperiosamente, em Mil, de Mary Wollstonecraft, na
seus escritos, a igualdade da Inglaterra, e de Condorcet, na
mulher e do homem no seio da França, pioneiros em torno da
família e da sociedade questão, e aponta para os
[dizendo]. "Estou convencido avanços do movimento
de que as relações sociais dos feminista no Século XX. Ao se
dois sexos, que subordinam um deter no caso da França de
sexo a outro em nome da lei, negar o direito do voto às
são más em si mesmas e francesas diz: “Mais
constituem um dos principais gravemente objeta-se com o
obstáculos que se opuseram ao interesse da família: o lugar da
progresso da humanidade; mulher é em casa; as
estou convencido de que devem discussões políticas
ser substituídas por uma provocariam a discórdia no lar”.
igualdade perfeita." (O Segundo E observa: “A despeito da
Sexo _Vol. I, p. 158) pobreza de todas essas
Mas a política não se fazia objeções, foi preciso esperar
apenas nesse âmbito, pois a até 1945 para que a francesa
luta sufragista ou pelo direito conquistasse todas as suas
do voto da mulher se inscrevia capacidades políticas” (p. 160,
na agenda mundial. Em 1945, vol. I).
as francesas estavam Essa ênfase na
negociando com o Primeiro participação política feminina

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inclui também as críticas ao homem com a mulher", disse


feminismo, não sem antes Marx". “Do caráter dessa
Simone demonstrar que relação decorre até que ponto o
assumira a filosofia desse homem se comprometeu como
movimento ao constatar: ser genérico, como homem; a
“...toda a história das mulheres relação do homem com a
foi feita pelos homens (....) mulher é a relação mais natural
eles é que sempre tiveram a do ser humano com o ser
sorte da mulher nas mãos; dela humano. Nela se mostra
não decidiram em função do portanto até que ponto o
interesse feminino(...) foi o comportamento natural do
conflito entre a família e o homem se tornou humano ou
Estado que então definiu o até que ponto o ser humano se
estatuto da mulher (...). E tornou seu ser natural, até que
segue avaliando a história de ponto sua natureza humana se
lutas e de conquistas que esse tornou sua natureza.3”
gênero empreendeu num E Simone conclui:
mundo marcado pelas leis e Não há como dizer
pelos costumes que excluíam as melhor. É dentro de um mundo
mulheres do estatuto de dado que cabe ao homem fazer
direitos da pessoa humana. triunfar o reino da liberdade;
Mas em seu estatuto para alcançar essa suprema
vivenciado de marxista vitória é, entre outras coisas,
existencialista, o ponto final de necessário que, para além de
sua ênfase sobre o sistema suas diferenciações naturais,
patriarcal dominante na vida homens e mulheres afirmem
das mulheres é dando a ideia a sem equívoco sua fraternidade
Marx, no último parágrafo do (idem, p. 500).
livro: O que parece importante
"A relação imediata, destacar é que ao procedimento
natural, necessária do homem
3
com o homem é a relação do Cf. Oeuvres philosophiques; tomo VI, segundo
Beauvoir.

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metodológico intercorrente feministas franceses de sua


emergem as evidências de época, a precedência das
todas as situações vividas argumentações que o livro
nessa experiência, apontando revela ao favorecer a leitura
para comportamentos múltiplos abrangente das situações
de homens e mulheres, fugindo enunciadas entre os dois sexos,
ao poder naturalizado que se demonstra a intenção da
tornou submisso aos mitos e se escritora em apontar a
tornou prevalecente complexidade de vivências de
secularmente na vida das homens e mulheres, nunca
mulheres e dos homens. É o admitindo o essencialismo,
que mais tarde, no final do embora uma das críticas que o
século XX, será tratado pela livro recebeu seja sobre o
teoria do gênero, como centramento de Simone ao
categoria de análise mostrando termo “mulher”. Seus críticos
que as deixaram de referir, contudo
atitudes/comportamentos entre (caso tenham lido
os sexos são relacionais integralmente a obra), que logo
construídas nas bases das ao iniciar suas alegações sobre
relações de poder. as “experiências vividas”, a
Como se traduz essa autora registra não incorrer no
afinidade precoce entre a fatalismo essencialista de
construção argumentativa empregar as palavras “mulher”
beauvoiriana e a teoria de ou “feminino” com a dimensão
gênero? Apesar das críticas arquetípica ou a se restringir a
recebidas por essa obra “nenhuma essência imutável;
reflexiva e analítica em torno (...), posto que não espera
da situação (circunstanciada) enunciar “verdades eternas”,
da mulher (cf. Chaperon, mas descreve “o fundo comum
Sylvie, 1999) críticas proferidas sobre o qual se desenvolve toda
por intelectuais (esquerdistas, a existência feminina singular
direitistas), além de grupos de (p.7, v.II).

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Ao observarmos a trabalho, no lar, na participação


‘retradução cultural do política e pública, nas decisões
biológico’ deslocada para o uso pessoais ou coletivas entre os
analítico da categoria gênero gêneros.
problematizada como uma Nesse particular, ou seja,
construção social – e, pensando na reconfiguração da
consequentemente, histórica tão explorada “condição
vê-se esse estatuto feminina”, o feminismo contraiu
dimensionado através da obra dívidas pela ousadia intelectual
de Beauvoir para analisar a e política de Simone de
situação da mulher. Essa nova Beauvoir.
vertente será favorecida pelas
análises de outras intelectuais e Referências
teóricas mundiais, das várias BEAUVOIR, Simone.
áreas do conhecimento (1967) O Segundo Sexo,
(sociologia, antropologia, Volume 2. Difusão Européia do
filosofia política, psicanalistas Livro, 2ª Edição, 1970.
etc.) algumas com base nas BRAH, Avtar. Diferença,
grandes teorias, para diversidade, diferenciação.
esquadrinhar o sistema social e Cadernos Pagu. nº26, 2006.
identificar em que medida as pág. 329-376
relações de gênero BUTLER, Judith.
hierarquizadas interferem nos Problemas de gênero:
costumes e nas regras sociais e Feminismo e subversão da
eliminam as mulheres da identidade. Rio de Janeiro:
cidadania que lhes é devida Civilização Brasileira, 2003
como indivíduo. A teoria
feminista será o grande legado Nota sobre a autora: doutorado em
Ciência Política pelo Instituto
que essas incansáveis teóricas
Universitário de Pesquisas do Rio de
deixam ao paradigma das
Janeiro. Coordenadora do Grupo de
Ciências Humanas, ao tratarem Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes
das relações sociais no

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sobre Mulher e Gênero-GEPEM/UFPA,


desde 1994. luzia@ufpa.br Recebido em março de 2014

Aprovado em junho de 2014

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