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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ – UESPI

CAMPUS CLÓVIS MOURO- CCM


CURSO: LICENCIATURA PLENA EM HISTÓRIA
DICIPLINA: HISTÓRIA DO BRASIL COLONIAL
PROFESSOR: MARCELO NETO
ALUNOS: Elianara Neres de Sousa, Leonara Carolina da Silva, Rodrigo Coutinho Lopes, Wesley
Leon Nunes de Oliveira

MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA, Laura de
Mello e (Org.). História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América
Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 155-220

Texto 4: Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o candulu –Luiz Mott (p. 155)

O eixo temático tratado pelo autor Luiz Mott em o cotidiano e a vivência religiosa visto no próprio
título é religiosidade, o texto é marcado também pela escravidão, a privacidade, e a família. O texto
apresenta oito tópicos, em que o autor faz uma analogia entre duas realidades do período colonial
no Brasil: vivência pública e privada da fé, como era visto a religiosidade a partir da igreja e da
sociedade, os diferentes pontos positivos e negativos que a religiosidade tinha sobre as pessoas.

No tópico “ Religião Pública e Privada”, podemos destacar nessa época que o cristianismo se
tornou maioria e onde quer que você fosse existiam pessoas que se diziam católicas, isso incluía até
mesmo entre índios no Brasil. Foi-se estabelecido dois caminhos para os fiéis seguirem na época:
um deles o público e o outro o privado. Neste existiam um lado mais pessoal de cada cristão, que se
recolhiam a sua casa ou templos privados para assim realizarem seus ritos religiosos, enquanto no
outro se referencia as práticas públicas e comunitárias dos sacramentos e cerimônias. Para isso tudo,
questões privadas e públicas, é importante destacar a figura máxima e exemplo para todos: Jesus
Cristo.
Isso não é algo característico apenas do Brasil Colônia, isso remota desde os primórdios do
cristianismo onde primeiramente existiam também dois atos: um público chamado de liturgia e
outro privado ou contemplatio. Todas essas cerimônias tinham propósitos, um deles era o de
catalisador do etos comunitário, ou seja, funcionava como controlador social e tinha a manutenção
da hierarquia da Igreja. O objetivo desse controle era único: controlar a dispersão social dos
colonos.
Sabe-se também que além das questões de controle, missas e práticas religiosas tinham outro
motivo: procurar assegurar aos fiéis um caminho bom e seguro além de conseguir proteção divina e
ter sucesso contra o diabo. Sem falar também que para a Igreja quanto mais fiéis tivessem mais
dinheiro iria para seu bolso.
Dentro da religião cristã no Brasil Colônia, é interessante destacar que muitos rituais religiosos
eram praticados ou dentro de templos ou em casas particulares, visto que no Brasil da época as
cidades não tinham aquele ar do “Velho Mundo”, onde os ritos podiam acontecer ao ar livre. Então
as práticas dentro dos templos religiosos davam espaço para um problema, o constante “assédio
sexual” dos sacerdotes, por isso quem tinha dinheiro construía seu próprio templo em casa.
Por fim tem-se uma carência de atos religiosos e de sacerdotes. Quando o colono saia de Portugal e
vinha para a colônia, tomava um choque de realidade grande quando entrava no quesito religioso e
isso ao longo dos anos o levava a uma indiferença religiosa abrindo espaço para desvios e
heterodoxias.
Enquanto o cotidiano religioso se baseava em alguns trechos da bíblia como é o caso do “vigiai e orai, para
não cairdes em tentação”. Dessa forma frades e freiras se reunião com o público para realizar momentos de
celebração e adoração a Deus com a finalidade de entrar em comunhão com o mesmo e pedir proteção sob
sua vida. Além disso foi observado que, dentro do campo religioso o dia-a-dia do cidadão era dividido em 8
momentos: meia-noite e a oração das matinas, 3 da manhã e os laudes, 6 da manhã a prima, as 9 horas
terça, ao meio-dia a sexta, as 3 da tarde noa, por volta das 6 horas as vésperas e por fim às 8 horas as
completas.
Podemos citar também costumes como a importância da reza de ave-maria, a proteção de casas pelos
sacerdotes com água benta para trazer um bom futuro religioso, utilização de símbolos cristãos nas casas,
alguma gravura de santo, rosários, pequenas conchas com água benta, dentre outros. A razão para tais atos
era o de “lembrar do Reino dos Céus.” Costumavam rezar bastante também, até mesmo entre “sonecas”.
Acordavam no meio da noite para elevar sua alma junto a Deus e pedir por melhores dias. É interessante
ressaltar que famílias mais ricas possuíam em suas casas um cômodo específico para colocar santos e
quaisquer símbolos religiosos de sua preferência. Oratórios também era grandes costumes dentro das
residências, além da erguição de construções de templos religiosos sejam anexados à própria casa do cristão
ou em distâncias curtas da casa do indivíduo e para tal era necessário seguir um conjunto de regra
estabelecidas.
No pieguismo barroco vai caracterizar a vida religiosa, nos primórdios da religiosidade colonial, Luis
Palacin lembra que o catolicismo popular apresentava um gosto pela penitência, praticada não só no
âmbito privado, ma ainda em locais públicos. Na Carta anual da Companhia de Jesus de 1522, são
descritos atos de penitência que os alunos do colégio da Bahia praticavam. Em procissões,
religiosos e leigos, índios, portugueses e até o governador se entregavam a autoflagelação.

No imaginário barroco, o mundo não passava de um campo de batalhas entre as forças do bem e as
hostes do maligno. Podemos agrupar os colonos do Brasil entre os católicos praticantes autênticos
que aceitavam convictamente os dogmas e ensinamentos da igreja, refletindo em várias práticas
exteriores de piedade; católicos praticantes superficiais, que cumpriam apenas rituais e deveres
religiosos, mais como encenação social do que como convicção interior; católicos displicentes, que
evitavam os sacramentos e as cerimônias por indiferença e descaso espiritual, incluindo, por vezes,
sincretismos em seu cotidiano; pseudocatólicos boa parte dos cristãos-novos, aimistas, libertinos e
ateus, que apenas como conveniência e camuflagem, para evitar a perseguição inquisitorial,
freqüentavam os rituais impostos.

Fazia parte da doutrinação dos fiéis no Brasil a crença de que Deus Onipotente, Justo Juiz e Senhor
dos Exércitos costumava castigar os pecadores enviando à humanidade pestes, pragas e
tempestades. Portanto, o medo dos castigos terrenos, como as doenças e desgraças, ou da punição
post-mortem, com as chamascaduras do purgatório, levavam muitos devotos à contrição e à via
estreita da virtude. Muitos penitentes chegavam a sentir prazer quando maceravam a carne com
disciplinas e cilícios, ou aceitavam humildemente reprimendas e castigos mesmo quando eram
inocentes.

Em donzelas recolhidas, Mott traz que os conventos e mosteiros femininos foram tardiamente
fundados no Brasil, inúmeras donzelas católicas fevorosas, não encontrando instituições religiosas
onde pudessem se consagrar de corpo e alma ao Divino Esposo, fizeram de suas próprias casas uma
espécie de claustro ou recolhimento, só saiam de suas casas para ouvir a missa, confessar e
comungar. Para alguns, ter em sua parentela ou agregados, santo, penitente ou beato dentro de casa
era garantia de prestígio, visita infindável de devotos e prestígio social. Várias são as falsas beatas e
embusteiras que foram descobertas nos processos da Inquisição portuguesa, teriam chegado a forjar
visões de dons preternaturais visando o prestígio social e as mordomias proporcionadas pelos
devotos.

Outra forma extremada de vivência religiosa era seguida dentro dos recolhimentos e conventos de
freiras, dezenas de beatas gozavam em vida da fama de santidade no Brasil colonial. A mais famosa
doía a africana e ex-prostituta Rosa Maria Egipcíaca de Vera Cruz, que foi considerada “ a maior
santa do céu, Esposa da Santíssima Trindade, Mãe de Misericórdia, Rainha dos vivos e Juíza dos
moortos”.

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