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Dramaturgia teatral Inspirada em Teorias de Allan Kardec.

De: Nelson Peixoto

“É preciso aprender a dançar a música do coração sob o ritmo


incomparável do amor!”

Direitos autorais reservados ao Autor - CP/DRT 0009813/MS.

Campo Grande – MS, abril de 2005


Ficha Técnica:
Título oficial: Dance.
Titulo original: Além do grande arco-íres.
Assunto: Texto/roteiro para montagem teatral
Autor: Nelson de Souza Peixoto
Direitos Reservados ao autor CP/DRT 0009813/MS - (Campo Grande-MS)
Classificação Literária: Drama.
Classificação de censura: Livre.
Comentários: Dramaturgia Inspirada em Teorias de Allan Kardec.

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Abertura:
---------------------------------------1ª Parte----------------------------------------------

/Efeitos de fumaça e MÚSICA especial por todo o ambiente durante a entrada


do público. O ambiente deve ser enigmático, por tratar-se do sonho de Max.
Ao toque do último sinal, MAX surge no palco por entre os efeitos de fumaça
(usa pijama inteiriço e de cor clara). Caminha um tanto confuso, como se o
fizesse em lugar totalmente estranho. Olha para um lado e para o outro.
Começa a sussurrar/

Max: Onde estarei?.. Que lugar estranho!

/Caminha de um lado ao outro. Suspira profundamente. Quando surge Gabriel


(de 10 a 12 anos – vestes claras a totalmente brancas) com passos lentos,
parando à distância e abrindo um breve sorriso. Max volta-se, fixando o jovem
garoto/

Max: Olá! Que faz você também aqui neste local?

Gabriel: Está estranhando a paisagem a sua volta?

Max: Tudo parece tão diferente e instável...

Gabriel: Não se preocupe com as aparências externas. Na verdade elas são a


materialização do que pensamos e do que buscamos!

Max: Não entendi!

Gabriel: Estamos num local qualquer. A paisagem que vês agora é devido considerar-se
estar em local estranho e inexplicável. Quanto a mim, vim ao teu encontro por
motivos especiais...

Max: Ultimamente não vejo motivo especial em quase nada. Uma melancolia
infindável e um vazio imenso dominam meu ser!...

(caminha pra frente do palco, com voz profundamente triste. Apesar de estar
falando voltado para o público, não se trata de diálogo subjetivo, mas sim
direcionado a Gabriel quase às suas costas)

...Desde a infância meus dias parecem intermináveis. Tenho saudades de


lugares e pessoas na qual desconheço. Espero por alguém, como se esse

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alguém de repente fosse aparecer, no entanto, todos que aparecem não
preenchem minha expectativa de busca...
(volta-se para Gabriel)

Consegue me entender?

Gabriel: (sempre num sorriso amigo)

Sim!

/Max suspira profundamente. Caminha para um módulo muito branco às suas


costas e senta-se nele. O efeito de fumaça permanece/

Max: Por que estou aqui falando com estranhos sobre assuntos que dizem respeito
somente a mim?!

Gabriel: Não te preocupes com o local, nem com a situação em que te encontras.
Procure viver intensamente este momento em que a felicidade parece uma brisa
tênue a enaltecer nossos corações...

Max: (emocionado, quase em lágrimas)

Perdoa-me a emoção mas, sinto vontade de chorar sem que lágrimas brotem de
meus olhos...

Gabriel: O coração nem sempre precisa dos olhos para se expressar...

Max: (erguendo-se do módulo)

Quem é você!? Sinto uma alegria desconhecida bater em meu peito... és por
acaso quem espero?

Gabriel: Também!

/Faz-se um momento de silêncio. Do lado oposto, e envolta em efeitos também


de fumaça adentra Mirian (de 08 a 10 anos – vestes claras a totalmente
brancas).Está muito emocionada/

/Max volta-se para a garota e emociona-se ainda mais, gaguejando nas


palavras/

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Max: Meu Deus, estarei no céu ao lado de anjos?

Mírian: Não somos anjos, mas o amor que nos une, com certeza, traz um pouquinho do
céu...

Max: (olhando para o garoto e para a garota)

É indescritível a sensação que vivo neste instante. Vocês dois parecem


preencher o vazio de minha alma e acalmar a minha busca. Quem sois?

Mirian: Somos partes de sua vida....

Gabriel: Respiramos o mesmo ar e trilhamos o mesmo caminho.

/Mírian estende-lhe os braços. Max caminha vacilante para a garota e abraça-


a ternamente. Solta dos braços dela e volta-se para Gabriel/

Max: Por que este desejo de envolvê-los em meus braços? Acariciá-los


ternamente?...

Gabriel: Aproveitemos este momento e não questionemos muito...

Max: Posso abraçá-lo também?

/Gabriel junta-se a Mírian nos braços de Max – num terno abraço emocionado.
Ambos soltam dos braços de Max e vão afastando-se parando um pouco à
distância. Max começa a ficar apreensivo/

Max: Nem ao menos disseram seus nomes?

Gabriel: Nino!

Mírian: O meu é Lana!


(Num breve sorriso e característico movimento unindo cabeça e ombro)

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/Há uma pausa de silêncio. Max caminha novamente para frente e fixa o
público de forma hipnótica/

Max: Nino... Lana! Vocês não me são estranhos. Sinto uma lembrança vaga e esse
tão de voz parece ecoar de um passado distante. Ao vê-los sinto a falta de
alguém que não posso definir...

(caminha abatido e sua respiração torna-se ofegante, visivelmente


angustiado)

...Tenho a sensação de que espero alguém a quem amo e sei existir. Mas onde
estará esta pessoa que meu coração pressente e meus olhos desconhecem?

/Gabriel e Mírian vão afastando-se num sorriso/

Mírian: Busque-a e ela virá ao teu encontro!

Max: Já o fiz por variados meios, mas a busca parece em vão. A angústia e a
depressão tornaram meus dias insuportáveis...

Mírian: Nunca perca a esperança. Há leis superiores regendo nossos destinos.

Max: Vivo apaixonado por um sonho e amo alguém que meu coração parece
adivinhar...

Gabriel: Ah! Se soubéssemos quão grande é nossa capacidade de amar...

Max: Ajudem-me a encontrar quem amo e busco.

Gabriel: Se realmente a ama, reconhecê-la-á por entre a multidão! Lembre-se, a maneira


mais fácil de encontra-la é aprendendo a dançar... Dance, Max, dance!

Max: Dançar?

Mírian: Sim! É preciso aprender a dançar a música do coração, portanto, para


encontrar a quem buscas e amas... é preciso aprender a dançar!

/Gabriel e Mírian saem num sorriso. Max movimenta-se de um lado ao outro,


indeciso e confuso. Começa a sussurrar/

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Max: Dançar!... É preciso aprender a dançar!

/Vai se fazendo blecaute, até fechar totalmente num foco em Max/

/Surge Luz – Max encontra-se deitado (módulo ou cama) e Mário (adulto)


está próximo a ele, inclinado, despertando-o/

Mário: Max, acorda!

/Max, assustado, senta-se na cama. Esfrega os olhos, suspira profundamente/

Mário: Com que estava sonhando? Dizia o tempo todo: “dançar, dançar! Preciso
aprender a dançar”!

Max: Ah, Mário! Que saco! Por que foi me acordar?

Mário: Hum! Pelo jeito a coisa tava boa neste seu sonho, hem?! (Num sorriso
malicioso) Mas, de repente, aprender a dançar ser-lhe-á um bom remédio.
Ultimamente você anda muito triste socado neste quarto. Se quiser posso
armar um esquema pra...

Max: Não quero, Mário!

Mário: Puxa! Eu nem terminei o raciocínio.

Max: Besteira a gente deduz nas reticências!

Mário: Só quis ajudar! Mamãe anda preocupada com você!... eu também!

/Max, visivelmente depressivo, esfrega os cabelos/

/Mário aproxima carinhoso/

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Mário: Só estou tentando melhorar seu astral! Não quero entrar em sua privacidade,
mas se eu puder ajudar de alguma forma, conte comigo. Sabe que é o irmão
que eu mais amo.

Max: Sou seu único irmão, Mário!

Mário: Desculpe! Foi excesso de ênfase! Mas a intenção foi boa...

(aproxima do irmão, sentando ao seu lado e sorrindo levemente com


expressão irônica)

Mas, conta aí! Com quem estava sonhando? Você se mexia nesta cama com
um entusiasmo que eu vou te contar! Brincadeira! E não precisa desmentir que
“eu vi” o entusiasmo... (mostrando em direção ao quadril do irmão).

Max: Hum?! (demonstrando totalmente alheio às malicias do irmão)

Mário: Max, o trem já parou, a porta já abriu! É bom você descer, pois, esta é a sua
estação: estação terra! Vamos cara, acorda!

/Max fixa a frente. Volta a deitar-se encolhendo as pernas e assumindo


quase uma forma fetal/

/Mário olha um tanto decepcionado para o irmão, ergue o punho, segura um


pouco no ar, depois faz um gesto como se esmurrasse o espaço. Ergue-se e
caminha alguns passos para sair, quando Max volta-se para o público. Entra
suave MÚSICA/

Max: (subjetivo)
Papai falecera quando éramos ainda muito jovens. Mesmo com sua ausência,
eu, Mário e mamãe vivíamos num lar que podíamos afirmar: feliz e de muita
afinidade. Desde criança, revelei-me enigmático e triste. Naquele tempo,
apesar de meu estado a cada dia agravar-se, algo me dizia que ainda seria
muito feliz. Não sabia como, mas esta certeza acalentava-me o coração. Quanto
a Mário, amava-me sem exigências... o amor era sua melhor terapia!

/Max volta a posição quase fetal de antes/

/Mário dá alguns passos para sair, quando Max interrompe/

Max: Não quer mesmo saber do sonho?

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Mário: (dando de ombros)

Não!... Eu apenas perguntei por perguntar! Se não quiser contar não tem
problema, afinal, sonho é uma coisa muito particular, tanto que a gente sonha à
noite e sozinho.

Max: Mário, você está dizendo besteira de novo!

(Mário faz uma pausa, tipo desinteresse, de repente explode num choro
simulado e bizarro)
Mário: Pelo amor de Deus, conta logo este sonho que eu já não agüento mais de
curiosidade! (aproximando avidamente do irmão) Você dizia que queria
aprender a dançar, que era sua fascinação, que faria qualquer coisa pra entrar
na mesma academia que estou e que iria até me pedir para que eu o levasse! E
fazia uns movimentos interessantes assim.... (chacoalhando os quadris de
forma sensual)

Max: Você está exagerando, Mário!

/Mário sorri ligeiramente. Aproxima do irmão, acaricia os seus cabelos/

Mário: Estou brincando! Mas, de repente, fiquei feliz em ouvi-lo dizer, mesmo que em
sonho, que desejava aprender a dançar. Você poderia ir comigo para a
academia! Eu sempre lhe convidei mas nunca aceitou.

/Max desfaz-se da posição “quase fetal”, senta-se ao lado do irmão,


erguendo-se logo a seguir/

Max: (subjetivo)
Aquele foi um sonho especial. Lembrava vagamente da face de duas crianças
confessando-me amor e preenchendo-me da mais pura felicidade. Sentia
aumentar ainda mais o desejo de encontrar alguém que eu adivinhava por entre
a multidão. Jamais imaginara que algum dia fosse ceder aos insistentes
convites de meu irmão para acompanhá-lo em sua extravagante forma de ser
feliz. Ecoava em minha mente o convite inesquecível: “dance, dance”!

Mário: Eu não acredito! Aceita meu convite? De verdade?!

(Faz o mesmo gesto de esmurrar o ar e solta um grito de alegria)

Você vai achar demais, demais! Cara! Vou te ensinar alguns passos!

(Entra fundo musical apropriado e Mário tenta ensinar o irmão alguns passos
de dança)

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Mário: E aí, mano? Você não achou demais!?

Max: De menos, Mário! Vamos devagar! Vou apenas conhecer. Preciso sair um
pouco, ver novas pessoas.

Mário: A nossa instrutora vai te achar “O cara”! Com esse corpinho de bailarino
espanhol, você vai arrasar, uhhuuuu!

Max: Professora? Você está ficando louco. Pensei que era só homem. Vou morrer de
vergonha se tiver uma mulher por perto. Não sei dançar nem no banheiro...

Mário: No banheiro não se dança, Max, se canta! Deixa pra lá! Vem, vamos! Tira este
pijama horrível. Te empresto minhas roupas...

Max: Usar roupas iguais as suas!? Nem morto!

Mário: Sim, mano! É preciso aprender a viver com alegria, curtir cada momento com
intensidade! A vida é uma grande arte!... É preciso aprender a dançar. Dance,
Max, dance!

(fazendo mais alguns passos de dança)

/Blecaute. Surge MÚSICA – tipo (Loreena – faixa 11-2.51) – Foco num rapaz
elegantemente vestido, inclusive blazer – dançando alguns passos – Abre outro
foco concomitante em Max que tira a parte superior do pijama. Fecha
blecaute. Há movimentação – mudando os atores de foco – Surge mais um
dançarino e agora abre mais dois focos, além do de Max, que tira a parte
inferior do pijama ficando apenas com uma cueca tipo samba-canção. As
roupas de Max começam a surgir e agora a iluminação é mais geral –
enquanto ele troca de roupa, ficando igual aos demais – vão entrando alguns
módulos, no mesmo número de atores, pois quando Max terminar de se vestir
– a MÚSICA deverá ser retirada totalmente e todos deverão estar sentados,
divididos nos módulos – não há necessidade de expressões marcadas (a
expressão é a de alunos que aguarda o instrutor). Ouve-se passos de um
caminhar seguro e contínuo, alguns segundos depois adentra ao palco uma
moça de porte seguro, fixando todos num breve sorriso:/

Kate: Boa noite a todos. Sei que já aguardam há algum tempo a chegada da instrutora
mas, infelizmente Lorena não poderá estar conosco ainda. Mas assim que se
restabelecer, com certeza assumirá as aulas de nossa academia...

/Cleber adentra, aproximando de Kate/

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Kate: (Voltando-se para o rapaz) A aula de hoje prosseguirá com o instrutor
Cleber...
Kleber: As aulas com a professora Lorena são muito especiais, como especial é a sua
pessoa. Por minha parte farei o possível por tornar nossos momentos
igualmente especiais... (sorri ligeiramente)... Bem, vamos ao nosso
aquecimento!

/Suave MÚSICA invade o ambiente. Enquanto Kleber comanda o aquecimento


com os demais dançarinos, Max, de seu módulo, começa o diálogo subjetivo/

Max: (subjetivo) Ao ouvir aquele nome senti um misto de tristeza e saudade invadir-
me o coração! Como explicar tamanha emoção pelo simples fato de ouvir o
nome de uma pessoa?

(Ergue-se e começa andar por entre os bailarinos em aquecimento)

Foram dias de espera! As aulas prosseguiram com outros instrutores! Todos


comentavam as qualidades daquela mulher mas, por mais falassem, eu sabia
muito mais sobre ela. Sentia como se minha busca terminasse. Estava
apaixonado por alguém que nunca tinha visto. Era preciso silenciar e esperar.
As pessoas jamais compreenderiam o que se passava comigo!

/Os exercícios de aquecimento devem terminar juntamente com o término do


diálogo de Max acima. Quando Kate adentra novamente em cena, indo ao
encontro de Kleber, dando-lhe as mãos em contra-dança. Ao mesmo tempo os
casais vão se formando – com os mesmos alunos/atores em cena. Ao som de
suave valsa (idêntica ou semelhante a do Filme “Dança Comigo”) – os pares
deslizam pelo palco em suave bailar/

Kate: Ok! terminou nosso ensaio! Não faltem as próximas aulas pois precisamos
estar entre os primeiros no festival estadual de inverno... vocês merecem e
possuem todas as condições pra isto!

/Todos vão saindo de cena, Kate senta num dos módulos: expressão de
tristeza. Max pára mais ao centro do palco, um pouco à distância. Quando
Teddy aproxima da moça/

Teddy: Ela não virá na próxima semana?

Kate: Imprevisível. As crises de depressão parecem agravar a cada dia. Os


psiquiatras recomendaram acompanhamento psicológico também!

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Teddy: Da última vez que conversamos chorou o tempo todo e me disse um monte de
coisas confusas; que esperava por alguém, como se esse alguém de repente
fosse aparecer, no entanto, todos que apareceram não preencheram sua
expectativa de busca. Inclusive eu... por isto terminamos o namoro...

/Saem de cena/

Max: (Subjetivo) A cada comentário sobre Lorena mais próximo me fazia dela.
Passaram-se dois longos meses e a cada nova aula eu a aguardava sem
resultados. Uma voz parecia falar-me aos pensamentos que deveria perseverar
aprendendo tudo sob o ritmo harmonioso e perfeito da vida. Ah! Os dias se
arrastavam por sobre minha ansiedade!

/Começa a entrar rapazes e moças em clima de sala de aula/dança -


movimentação livre. Max dirige-se para uma marcação lateral. Adentra Kate
com um leve sorriso/

Kate: Como havíamos prometido, Lorena está entre nós e assumirá as aulas até o
concurso Estadual de dança. Portanto, com o talento de nossos alunos e a
competência de nossa querida instrutora, com certeza será muito difícil
escolher apenas um casal para concorrer ao concurso!

/Teddy adianta-se, aproximando de Kate e fala-lhe quase em confidencia. Sua


respiração é ligeiramente alterada pela emoção/

Teddy: Lorena está aí?!

Kate: Sim! Já está vindo!

/Seqüência X: Há um momento de pleno silêncio quando se ouve apenas os


ruídos das sandálias de Kate saindo. Uma MÚSICA (tipo – Loreena, faixa 6)
invade o ambiente. De forma harmônica e coreografada os casais sentam nos
módulos – cada um com expressões definidas no olhar, na face, na delicadeza
das mãos, no postar dos pés, no ajeitar-se ao módulo, etc. Lorena aparece em
cena com suavidade; pára por alguns instantes observando os alunos, logo
depois acompanha com o olhar os movimentos de Max que caminha para o
fundo, aproximando de um dos módulos. Ao chegar rente ao seu módulo, um
foco abre-se sobre ele, destacando-lhe a figura altiva, sentando-se por sua vez,
com suavidade em marcação pré-definida./

/Enquanto desenrola a seqüência X – por entre a MÚSICA surge o áudio /

Áudio: Os espíritos que se amam, buscam-se por entre a multidão!

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/Some totalmente o áudio e som musical. Os atores em cena passam a
expressar-se com naturalidade. Lorena fixa a todos num sorriso terno./

Lorena: Daremos prosseguimento com a primeira modalidade já selecionada para


concorrermos no festival...

(suspira quase num sorriso)

...bem! Preciso de um voluntário!

/Os rapazes trocam olhares divertidos, quando um dentre eles destaca-se, indo
ao seu encontro/

Dançarino 1: Pode ser eu?

/Lorena sorri. MÚSICA surge no áudio (valsa-2 semelhante a do Filme


“Dança Comigo”). O casal baila com elegância e suavidade por alguns
segundos quando, ao passar pelo módulo onde estava localizado o
Dançarino_1 – ele fica, deixando Lorena livre./

Lorena: Vejo que não sentiram muito minha ausência. A professora Kate e o instrutor
Kleber têm me substituído com competência! Mas, vamos ao próximo desafio:
a segunda modalidade do concurso. Quem se candidata?

Dançarina1: (Erguendo-se num sorriso)


Indicamos um de nossos alunos iniciantes que tem se mostrado muito
esforçado: Max!

/Há um rápido burburinho entre risadas e comentários. Cessando assim que


Max ergue-se, fixando o público. Há total silêncio e nenhum fundo musical/

Max: (subjetivo)
Foi um momento indescritível estar diante àquela mulher que, para mim, não
era simplesmente uma bela mulher, mas a companheira de inúmeras
experiências na terra. Nossos sonhos, nossas esperanças, bailaram em minha
mente de forma encantadora. Tínhamos defeitos, problemas, dores e
sofrimentos a vencermos juntos... mas, o mais importante é que tínhamos um
ao outro e o momento pedia apenas que eu dançasse a música do coração...

/MÚSICA (Loreena – faixa 2). Max e Lorena aproximam-se. Parecem


trêmulos e emocionados. Os corpos se unem, as mãos se tocam – as faces
abrem-se num sorriso terno e os passos de dança surgem harmônicos e

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perfeitos. Ao fundo os atores começam a mover-se quase no mesmo ritmo. Do
lado esquerdo (fundo) começa a surgir efeitos de fumaça – Max e Lorena
asserenam os movimentos sob um foco de luz – seus lábios se unem,
apaixonados – quando surge num túnel de luz por entre a fumaça – Mírian (a
primeira filha) – seu sorriso e lindo – no compasso da MÚSICA ergue os
braços com elegância, uma das pernas levanta-se e faz uma posição de balé
para, logo depois, sob o foco que se forma – começar alguns passos no mesmo
compasso da música e dos pais – O foco desaparece de Mírian – abre-se uma
iluminação mais geral – Max e Lorena dançam mais alguns passos, dirigindo
para o lado oposto, quando novamente surge outro foco de luz (do lado direito
– fundo – começa outro efeito de fumaça) – o casal asserena os movimentos –
seus lábios pela segunda vez se unem e, por entre o efeito de fumaça e o túnel
de luz – Surge Gabriel (O segundo filho) – sorri e, de forma cavalheira, ajeita
o terninho e a gravata do smoking – passa as mãos sobre os cabelos. – Mírian
aproxima também sorridente sendo enlaçada pelo irmão e os quatro dançam.
Os dançarinos ao fundo vão transformando os módulos em sofá por entre
almofadas que surgem para compor o ambiente de sala. De repente Mírian
solta de Gabriel, reclamando – Max senta-se na poltrona, apoderando de um
jornal, disfarçando leitura e de vez e outra, durante a discussão, vai estar
olhando um e outro mostrando apenas os olhos. Lorena já traz um avental à
cintura e sobre ele coloca as mãos, admirada com a expressão da filha e o ar
irônico de Gabriel/

Mirian: Mamãe, o Gabriel tá muito duro. Deste jeito não vamos ser classificados para o
festival...

Gabriel: Eu não vou ficar dançando feito “mocinha”!

Mirian: Tá vendo, mãe, como ele é ignorante?

Lorena: Que é isso, Gabriel? Que preconceito besta! Dança é dança e não tem nada a
ver uma coisa com a outra...

Gabriel: Sei não!! O Marquinhos lá da academia começou amolecendo aqui,


amolecendo ali... hoje em dia... parece uma geléia!

Mirian: Olha, aí! Você tá vendo... eu vou arrumar outro par pra dançar comigo!
(quase chorosa)

Lorena: Meu Deus! Vocês dois vão me deixar louca. O festival é daqui a duas semanas
e estão indo muito bem. Por outro lado não dá tempo para arrumar outro par,
Mírian. Tem que ser seu irmão mesmo. E o senhor...

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(dirigindo ao filho)

...está muito errado quando diz essas besteiras...

Max: (resmunga atrás do jornal)

Não sei, não!

Lorena: Max, você quer calar a boca? Se não pode ajudar, pelo menos não atrapalha!

Max: Eu não estou falando nada, gente! Estou sussurrando aqui comigo mesmo... o
governo disse que o projeto de habitação que está lançando irá resolver a
situação dos desabrigados... eu apenas disse: Não sei, não!

/Gabriel sorri. Lorena tira o jornal das mãos de Max/

Lorena: Vá ajudar seus filhos a ensaiar. Será que não desgruda a bunda deste sofá
nunca?

/Mírian aproxima de Gabriel e sorri ligeiramente/

Mirian: Acho bom nos acertamos sozinhos! Porque ali vai começar tudo de novo...

Max: Lorena, estou curtindo meu feriado. É um direito que me assiste...

Lorena: Você tem direitos, eu não, pra mim sobra a cozinha, a casa, o tanque... além de
ter que trabalhar na segunda, igualzinho a você...

Max: Que exagero: a cozinha é umas locinhas tolas; a casa, mais limpa que bunda de
santo, nem precisa se preocupar, e o tanque... fala sério: você só joga a roupa lá
dentro, a máquina faz tudo!

Lorena: (batendo no marido com o avental)


Desgruda deste sofá e vá pelo menos ajudar seus filhos...

(Mirian e Gabriel já estão tentando fazer alguns passos de dança, alheios a


discussão)

Max: (defendendo-se da mulher e fazendo-se de vítima)

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Tá bom, tá bom! Eu já estou indo.

(Levanta-se)

Mas antes quero registrar aqui meu protesto...

(os filhos param e fixa os pais)

... E vocês dois estão de prova. Todo final de semana você me bate e esses dois
me escravizam aos seus caprichos... Eu sou um homem que sofre. Estou
injuriado!

/Lorena sorri ligeiramente/

Max: Venha cá, Gabriel...

/Gabriel acompanha o pai, Mírian a mãe. Divididos em duas laterais/

Max: Postura, meu filho! Queixo pra cima, mãos firmes nas mãos da companheira...

Lorena: Suavidade, minha filha! Os gestos de uma bailarina são finos e dóceis..
visivelmente delicados!

/Max dá uma rápida olhada para a Mulher e a filha, depois se volta para o
filho com expressões de malandragem/

Max: Não dê ouvidos à sua mãe e sua irmã, não! Homem não tem que ficar
rebolando e nem se desmanchando que nem gelatina em dia de calor. Negócio
é dançar ereto, firme... mais ou menos assim!

/Max faz um movimento com o quadril e as pernas, demonstrando virilidade.


Gabriel solta uma gargalhada. Lorena vira-se para eles/

Lorena: Max! É esta educação machista que está passando para seu filho?

Max: Você fala as coisas sem ter conhecimento de causa! Eu dizia pra ele que esses
caras que dançam durões não ganham concurso nenhum... Não é mesmo,
Gabriel?

/Gabriel está tentando fazer como o pai o ensinara há pouco e um tanto


distraído com a discussão em curso. Max cutuca o filho/

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Max: Pára, rapaz!

Mirian: Você está vendo, mamãe! Deste jeito, adeus sonho de classificação!

Lorena: Eu acho que você deve se retratar perante sua filha!

Max: Não! Tudo de novo, não!!!

/Max joga-se sobre o módulo/sofá ocultando a cabeça embaixo do jornal. Os


filhos sorriem quase as gargalhadas, quando Gabriel salta sobre o pai
derrubando-o ao chão. Mírian vem logo a seguir, e rolam pelo chão em
brincadeiras. Max desvencilha dos jovens, ergue-se, limpa a roupa, ajeitando-
se/

Max: Vamos ensaiar... agora é sério! Veja eu e sua mãe...

/Entra MÚSICA - Max e Lorena fazem alguns passos de dança, andam de um


lado ao outro, logo a seguir junta a eles os dois filhos – movimentam e saem
todos correndo como se o fizessem de uma montagem coreografada. Fica
apenas Max, ao centro, em diálogo subjetivo. Desaparece totalmente a
MÚSICA/

Max: (subjetivo) Nos amávamos e isto nos bastava. Lorena sempre foi o sol de
nossas vidas. Mírian e Gabriel duas pequenas estrelas a cintilar no céu de
nossas esperanças. Tínhamos nossos sonhos e os olhinhos de ambos brilhavam
num azul muito tênue quando falávamos no desejo de montar nossa academia
de arte para beneficiar os mais carentes. Era bom vê-los sentir e pensar no bem,
vibrando no mais puro amor à humanidade e a Deus...
(suspira profundamente)
Ah! A felicidade parecia invadir todos os recônditos de minha alma...

/Faz-se silêncio. Surge Gabriel e Mírian em passos lentos – vestindo uniforme


escolar e ambos trazendo maleta escolar. Ela com duas lindas tranças no
cabelo ou “chiquinhas”; ele com seu pequeno smoking. Param ao fundo,
juntinhos. MÚSICA suave e melancólica invade o ambiente (tipo Loreena faixa
4)/

Max: Recordo-me perfeitamente daquele dia. Era uma manhã chuvosa e quase fria.
Meus filhos despertaram cedo como faziam todos os dias para irem à escola...
Não sabia explicar, mas uma tristeza e um vazio rondavam meu coração...

(há uma pausa entre as lágrimas que quase brotam em sua garganta)

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Foi a última vez que eu os vi... depois eles partiram para uma terra
distante...onde meus olhos jamais os alcançariam...

Mírian: Papai, nós já vamos! Não vai nos abraçar?

Gabriel: Se não me abraçar não tirarei 10 na prova de hoje!


(num breve sorriso inocente)

/A tonalidade de luz é de um azul forte e tênue foco claro destaca os filhos um


pouco ao fundo do palco. Max caminha para os filhos sob fundo musical
profundamente melancólico e abraça os filhos com ternura/

Max: Eu os amo tanto... de uma maneira e intensidade que não posso compreender!

Mírian: Nós também te amamos, papai!

Gabriel: A você e a mamãe...


(num sorriso terno)

/Os meninos afastam um pouco/

Max: Não demorem... eu já estou morrendo de saudades!

Gabriel: Enquanto não chegarmos... dance com mamãe...

Mirian: (solta um sorriso encolhendo de uma forma característica a face ao ombro)


É isto mesmo... dance que nós aplaudiremos sempre!

/Os garotos saem acenando lentamente as mãozinhas, num sinal de adeus/

Max: (Subjetivo, indo mais a frente onde foco suave azul distingue-lhe as lágrimas)
...o carro escolar chocou-se contra um ônibus naquela manhã chuvosa... e de
todas as crianças... apenas meus dois filhos morreram... Era dia claro, mas para
mim e minha companheira de lutas e de dor... eram trevas de uma densa noite!

/Max deixa-se ir ao chão num pranto profundamente triste. Blecaute/

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/Ao voltar a iluminação, Max está sentado num módulo, bem próximo ao
público e conversa como se o fizesse com alguém a sua frente (algo como
psicólogo)/

Max: Sim!... faz quatro anos que meus filhos morreram.. .(pausa)
Nada justifica terem morrido tão cedo e, por quê entre tantas crianças apenas
eles?... (pausa)
Não! (revoltado)
Não me fale em Deus! Como posso conceber a idéia de um Deus caprichoso e
medíocre a brincar de feliz e infeliz com suas criaturas?!...
(pausa. Quando volta a falar está quase aos gritos)
Como você me pede para me conformar? Eu jamais vou me conformar, porque
jamais esquecerei meus filhos... (pequena pausa)
Ah! Por favor, eu não quero te ofender... mas você está dizendo besteiras! Eles
morreram, não existem mais... vivem apenas em meu coração e quando eu
morrer, morrerão comigo novamente.. assim é a vida... (pausa)
Sentido? Parece que nada tem sentido mesmo...

(acaricia os cabelos, balança a cabeça de um lado ao outro, parece se


emocionar, enxuga as lágrimas que vem aos olhos)

Lorena?!... Talvez seja um dos únicos motivos que ainda me prendem a vida!
Ela parece mais conformada, refugiou-se em reuniões religiosas que lhe
devolveram a vivacidade e uma alegria relativa... quanto a mim, prefiro não
fugir à realidade... e a realidade é a minha grande dor...

/Lorena surge com passos suaves às suas costas/

Lorena: Max...

Max: Hum!?

Lorena: Por que não volta a dançar?

Max: Não consigo...


(inclinando a cabeça ligeiramente)

Lorena: É preciso aprender a dançar com o coração a música com que Deus nos ensina
as lições da vida. Eu te amo... Te amo de uma maneira que não consigo
explicar, só sei que intensa e verdadeira!

/Max não diz nada. Ergue-se, caminhando até outra extremidade. Seu olhar
perde-se no horizonte e um profundo suspiro escapa-lhe do peito/

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/ Esta cena representa a tentativa de Lorena em voltar a normalidade na vida
íntima do casal: MÚSICA começa a invadir o ambiente em volume baixo. A
perna de Lorena surge de baixo para cima, em movimento suave, subindo
sobre as de Max. Ele inclina a cabeça para trás roçando a cabeça da mulher.
Seu corpo começa a mover ao ritmo da canção. De repente pára desanimado/

Max: Eu sinto muito...


(profundamente triste – extingue-se o som)

Lorena: Resta-nos um ao outro! Deus encontrará outra forma para preencher o vazio de
nossos corações até que possamos nos reunir novamente.

Max: Perdoa-me. Mas não posso comungar sua fé...

Lorena: Mas pode amar intensamente as pessoas; descobrir o sorriso de nossos filhos
que se foram na face daqueles que te cercam e que te amam.

/Um foco fecha-se sobre Max. Lorena sai de cena/

Max: (subjetivo)
Aos poucos fui descobrindo novos e grandiosos valores em Lorena. Ela não
era simplesmente minha mulher, era o elo indispensável ligando-me à vida e
ao amor... Ah! O amor era a canção irresistível convidando-nos para voltarmos
a dançar...

/Mário cai sobre um módulo de pernas e braços abertos. Max volta-se num
sorriso/

Mário: Max! Estou apaixonado!

Max: De novo?

Mário: Como de novo?

Max: É a oitava vez que você se apaixona só neste mês. Mamãe já não agüenta mais
ser apresentada a tantas noras!

/Mário ergue-se e aproxima do irmão, entusiasmado/

Mario: Agora é sério, mano! Ela é especial por demais.

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Max: Todas as anteriores também eram...

Mário: Quando a vi... meu coração bateu forte, minhas pernas tremeram e senti como
se fosse desmaiar...

Max: ...Um vazio abriu-se a sua frente, seus lábios umedeceram, uma sensação
totalmente inédita!

Mário: Como você sabe?

Max: Toda vez você diz a mesma coisa! Já decorei!

Mário: Mas desta vez não tenho dúvidas. É a mulher da minha vida!

Max: Todas as anteriores também eram!

Mário: Agora sinto que é acertei!

Max: É aluna nova lá da academia?!

Mário: É cara! Faz duas semanas que está dançando conosco!

Max: Tem menos de vinte anos?

Mário: Tem!

Max: Tem perfeita sintonia pra dançar com você?

Mário: Credo, Max! Como você adivinhou tudo isto?

Max: (num breve sorriso)


Sou seu irmão... seu único irmão.

/Mário afasta-se um pouco para o centro do palco, fixa o público/

Mário: Virou médium!

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/Faz-se luz geral, mas de tom carregado. Um foco distingue Max mais ao
centro que fala um tanto mais animado ao público, enquanto fundo musical
começa a surgir/

Max: (subjetivo)
Os anos se passavam! Com os carinhos de Lorena e de Mário, meu
inesquecível irmão, meu coração parecia reanimar-se para a vida... A ausência
de meus filhos era um vazio que jamais seria preenchido, mas era preciso
acompanhar o ritmo do coração daqueles que estavam a minha volta. Voltei a
dançar na companhia daquela mulher especial e inesquecível...

/Lorena reaparece indo na direção de Max, Mário surge ajeitando os cabelos


e o terno, esnobando beleza, uma moça vem ao seu encontro. Outros casais
surgem e forma um bailado lindo e rápido, quando Lorena, sentindo-se mal,
cambaleia nos braços do marido. A MÚSICA diminui o volume/

Max: Lorena!
(quase num grito, sentindo a mulher escorregar-se em seus braços indo ao
chão)

/Mário afasta o irmão, pega o pulso da cunhada/

Mário: Temos que levá-la ao médico... (aproxima do proscênio falando ao público em


tom preocupado)... por favor, alguém nos ajude... chame o médico, a
ambulância!

/A respiração de Mário é ofegante e difícil. Ao entrar a música abaixo,


caminha lentamente e concomitante a movimentação dos demais,postando
numa das laterais/

/MÚSICA melancólica volta ao ambiente. Max caminha para uma das laterais
do palco, de forma harmoniosa, dois rapazes sustentam Lorena para logo
depois entregá-la aos braços de Mário que a toma aos ombros, como numa
expressão de dança. Enquanto isto, os módulos são modificados,
transformando em cama com alvo lençol que se ergue no espaço, cobrindo o
móvel, para logo a seguir receber Lorena./

Max: (subjetivo)
Lorena estava gravemente doente. Inexplicavelmente a dor não havia
denunciado a presença do tumor diagnosticado logo a seguir. Meses e meses de
tratamento... Os médicos pareciam preocupados e inseguros, mas eu tinha
certeza que dentre alguns dias ela estaria em nosso lar... meu, dela e de nossos
filhos...
(senta-se aos pés da mulher que dorme).

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/Max inclina a cabeça, a seguir oculta a face por entre as mãos, ergue a face e
fixa o alto. Toda seqüência de diálogo abaixo (até o próximo blecaute) é sob
fundo musical com tema triste e melancólico/

Max: Mário! (entusiasmado)


Lorena tem melhorado de forma inacreditável. Os médicos estão assustados
com seu restabelecimento....

/Max caminha a esmo pelo palco. Simultâneo a movimentação de Max está


entrando dois atores vestidos com terno preto, um deles traz um tule roxo com
cruz preta desenhada ao meio. Erguem ao alto, rodeando o módulo com o tule,
para logo a seguir postarem um de cada lado, em postura de introspecção.
Kate adentra com xale preto aos ombros, postando logo após Mário/

Max: Doutor, quando minha mulher poderá retornar ao lar? Creio que posso, eu
mesmo, medicá-la em nosso lar...

/Max volta-se para outra extremidade onde está KATE – aproxima da mulher/

Max: Kate, nossa grande amiga! Por que veio até o hospital? Devias esperar para
visitar-nos em nosso lar... ainda esta tarde Lorena receberá alta...

/Max procura de um lado ao outro, falando com os filhos “imaginários”,


enquanto Kate ergue o xale preto à cabeça, percorrendo o palco de um lado
ao outro, saindo com passos lentos. Mário faz o sinal da cruz e suas
Expressão é profundamente triste com olhar perdido no horizonte /

Max: Gabriel, Mírian... Ah! essas crianças passam o tempo todo na escola!

/Efeitos de fumaça pode surgir ao fundo/

/Blecaute se faz lento e novamente Max ajoelha-se ao chão em pranto profundo


e de intensa tristeza/

/Surge MÚSICA. Num foco à esquerda está Mário e uma garota,beijam-se


ávidos de prazer.. Do outro lado, em outro foco – Max veste roupas de tom
escuro com jaqueta de couro, se possível sentando num módulo bem próximo
ao público. Movimentos simultâneos: Mário aproxima da moça, com sorrisos
nos lábios, do outro lado Max enfia a mão por entre a jaqueta de couro e puxa
um revolver:/

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Mario: ... E então, convenci-te ir comigo para o Rio?

Moça: Os métodos são bons, mas ainda considero uma decisão precipitada! Por que
não continuarmos aqui em São Paulo?

Mario: Não! Conheço muito bem o Rio e tenho ótimos contatos com pessoas do meio
artístico. Logo seremos famosos!... (sorri ligeiramente irônico)
Duvida de meus dotes artísticos!

Moça: Claro que não! Mas mesmo assim sugiro aguardarmos um pouco mais aqui em
São Paulo... alguns meses!

Mario: Por que aguardar ainda mais?

Moça: Não estou em condições de viajar... eu estou grávida!...

Mário: Você está grávida? Ah! Meu Deus, eu não acredito?

Moça: Nosso filho, Mário...

Mário: Eu vou ser pai... eu vou ser pai!...

/Max tem a mão trêmula e fixa a arma a sua frente/

Moça: Peguei o resultado hoje na clínica...

/Mário aproxima da moça, ajoelhando e colocando a cabeça em sua barriga/

/Max chora convulsivamente/

Mário: Como bate forte o coraçãozinho...

Moça: Será um lindo menino...

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Mário: Como pode adivinhar se ainda está tão pequeno?

Moça: Vejo-o no brilho de seus olhos!

Mário: (quase sussurrando) ...


Nunca confessei isso a ninguém... mas ser pai é meu maior sonho! Pensava que
morreria sem viver esse sonho... Deus ouviu meu coração... Quero ouví-lo
dizer papai... papai...!

/O rapaz ergue-se boquiaberto. Emocionado até as lagrimas, é visível para


todos seu pranto de alegria – vai girando o corpo, dando as costas para a
moça, que sai por sua vez, a iluminação se abre em plano geral, Max,
visivelmente nervoso, volta-se para o irmão/

Max: Saia de meu quarto, Mário!

Mário: Dê-me esta arma, Max!...

Max: (trêmulo e segurando firme o revolver contra o peito)


Eu perdi tudo...

Mário: E o que significa perder tudo pra você? Acaso é o único que sofre no mundo? É
o único que perdeu pessoas amadas na vida? Não, Max, centenas, milhares de
outras pessoas estão vivendo a mesma situação e sabe o que a maioria delas
está fazendo neste instante? Lutando, respirando, vivendo...

Max: Eu tenho o direito de decidir até quando sofrer...

Mário: Não sobre a própria vida... ela é um Dom que não nos pertence....

Max: Pertence a Deus!..


(irônico)

Mário: Sim, isto mesmo, pertence a Deus...

Max: Um Deus que me levou tudo. Pois agora eu vou me vingar dele também. Vou
decidir o momento que eu quero morrer, não o que Ele ditar. Se Ele sente
prazer em ver as pessoas infelizes.... então vou lhe dar prazer ainda maior...

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Mário: Cale a boca, Max!

Max: Já me calei por todo este tempo, agora é minha vez de falar, de gritar, de
blasfemar...

/Mário dá um passo para o irmão/

Max: Não se aproxime, Mário!

/Mário vacila, tremulo/

Max: Eu vou te dar um tempo para que saia... o tempo suficiente para que distancie e
não ouça nada... Você não merece sofrer....

Mário: E por que eu não mereço sofrer?... Vamos, Max, (exalta-se)


Diga porque eu não mereço sofrer?

/Um silêncio se faz, Max treme retendo a arma contra o peito, seus lábios
movem indecisos/

Max: Porque... porque eu amo você!

Mário: Eu também te amo, cara! E se realmente acredita neste amor... fique conosco!...
acredite na vida... Viva por Lorena, por seus filhos!

/Max deixa o corpo cair lentamente sentando-se num módulo e ficando quase
totalmente de costas para Mário/

Max: Eu tentei...eu juro que tentei. Por todos esses meses procurei sentido para viver
sem Lorena, mas nada justifica. Minha única saída foi por fim a própria vida...
e se realmente existir algo além da morte....quem sabe seja esta a maneira de
unir-me definitivamente com quem amo...

/Enquanto Max fala o texto acima, Mário vai se aproximando pelas costas do
irmão, na intenção de retirar dele a arma. Quando avança e segura
igualmente a arma. Max sobressalta e ambos começam a disputar o revólver/

Mário: Solta esta arma, Max.. Não faça nenhuma besteira.

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Max: Me solta, Mário!....você ficou louco? (grita)

/Os dois homens rodam pelo palco agitados, até parar num foco que distingue
ambos – a cena é tensa/

Mário: Solta o revólver....solta!

Max: Tudo bem, eu vou soltar, mas se afaste. Isto pode te ferir!

Mário: Eu não vou deixar que você cometa uma besteira...

Max: Cuidado, você está pressionando minha mão....

/Breve pausa.Ouve-se um disparo do revólver. Um silêncio se faz. Está colado


um ao outro – um foco de luz fecha sobre eles. A arma cai ao chão. As reações
de ambos são idênticas dificultando distinguir qual deles foi ferido. O foco vai
sumindo até desaparecer completamente/

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -2ª Parte - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

/Foco abre-se: Max desperta (por sobre o módulo anteriormente coberto com
lençol branco). Move-se de um lado ao outro, agitado. Tem a sua volta dois
espíritos (Endora e Flávio – ambos adultos) trajando branco e suave sorriso
na face/

Endora: (tocando-lhe suavemente)


Acalme-se. Você está bem e entre amigos!

Max: Eu matei meu irmão! Ah! Meu Deus, por que não eu a morrer?

Endora: Seu irmão está bem! Não há motivo para se preocupar...

Max: Mário está bem? Então ele só se feriu? Por que estou neste hospital? Acaso me
feri também?

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Endora: Sim, mas não com tanta gravidade!

Max: (sentando-se no módulo e acariciando o próprio corpo)


Engraçado! Sinto-me estranho... e não me lembro de quase nada. Devo Ter
dormido muito. Há quanto tempo estou internado aqui? Quando poderei sair?
Mário tem vindo me visitar?

Endora: Não queira todas as respostas ao mesmo tempo! Acabaste de despertar de um


sono profundo... aos poucos as lembranças vão acudindo à sua memória...

/Max esfrega cabelos e face. Blecaute vai se dando lentamente... e por entre o
escuro:/

Max: (subjetivo)
O que é o tempo, as horas, os dias e as noites? Estava num local que não sabia
ao certo. Sabia apenas que, de alguma forma, a vida prosseguia sua marcha.
Quanto tempo estaria ali? Não poderia precisar!... Mesmo por entre os
inúmeros pesadelos ao recordar os fatos de minha vida... uma sensação de
esperança e paz acenava-me à distância...

/Volta iluminação ou abre-se um corredor de luz, por onde transita a paciente


e o enfermeiro/

Paciente: Vocês estão mentindo pra mim. Eu estou morta! Morri naquele acidente.
Porque querem me enganar? Eu estou morta, morta para sempre!

Enfermeiro: A morte não existe, minha irmã! Procure se acalmar...

Paciente: Se não estou morta deixem-me voltar pra casa. Não me prendam neste
hospício...

/Surge outro enfermeiro de inopino, fixando-os/

Enfermeiro: Levem-na e submetam-na a sonoterapia por mais algum tempo!

Paciente: (Sendo retirada pelo segundo enfermeiro – com voz rouca e triste)...Não quero
ficar aqui.... quero minha mãe... minha família! Me deixem ir!

/Durante todo o diálogo acima, Max expressa apreensão, anda de um lado ao


outro, sem saber o que fazer. No último diálogo do enfermeiro – Max começa

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a sentir o ferimento que o levou ao desencarne. Visivelmente enfraquecido,
senta-se ao módulo. Sua respiração torna-se difícil./

/Flavio adentra de ímpeto com expressão preocupada – trás à mão peças de


roupas brancas, colocando sobre o módulo e voltando sua atenção para Max/

Flavio: Max, você está bem?

Max: Agora me lembro de tudo... o acidente... dói muito meu corpo... e uma ferida
enorme abre-se em meu peito...

Flavio: Não pense no que passou. Fixe sua mente no presente. Sinta seu corpo
perfeito... sem dor e sem mácula, pois ele reagirá imediatamente ao comando
de sua mente...

Max: Sou um suicida... um suicida...

/A iluminação vai tornando-se pesada e efeitos de vento, chuvas e trovoadas


rompe por todos os lados/

Flavio: (demonstrando apreensão)


Não pense assim, Max... por favor, pense na vida, deseje viver...

/Max começa a se desesperar/

Max: Sou um suicida, sim! Eu me lembro... estava com o revolver e decidido a por
fim a própria vida...

Flavio: Procure orar, Max...

/Endora entra no ambiente que se forma entre densa iluminação, efeitos


sonoros e, vindo das coxias, gemidos profundos de dor e sofrimento./

Endora: Flávio, induzamo-lo a sair desse condicionamento mental ou o processo de


culpa poderá arrojá-lo ao baixo abismo...

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Max: Vejo a minha frente imenso abismo... milhares de seres vagando num lodaçal
imenso arrastando suas próprias chagas. Milhões de vermes corroem-lhes as
carnes que desfaz e recompõe num pesadelo que não tem fim...

/Enquanto Max diz o texto acima, os dois mentores colocam-se em prece. Aos
poucos os gemidos vindo das coxias desaparecem. Os efeitos sonoros
eletrônicos prosseguem ainda, um pouco mais brandos/

/Dois focos distinguem os mentores em prece/

Max: Por que devo sair deste local? Acaso não sou igualmente um suicida?

Endora: Recorde dos últimos momentos que antecederam ao seu desligamento do corpo
físico...

Max: Lembro-me que Mário surpreendeu-me pelas costas, tentando arrancar-me a


arma. Naquele momento meu único objetivo era defendê-lo. Não pensava em
aniquilar-me e tão pouco a meu irmão. Meu dedo estava no gatilho quando ele
puxou o revolver para si... depois um enorme silêncio se abriu a minha frente...

/Ao término do diálogo acima, todo o efeito sonoro desapareceu. Endora


aproxima/

Endora: Adentraste no mundo espiritual não como suicida, mas vítima de um acidente
fatal, pois nos seus últimos instantes de vida física seu desejo central foi
defender e preservar a vida de seu próprio irmão...

Max: Então eu não sou um suicida?! - Sorri ligeiramente – Sinto-me feliz e


imensamente aliviado por nada ter acontecido a Mário.

(senta-se, colocando às mãos cruzadas a altura da cabeça)

/Blecaute .Música. Quando a iluminação volta, Max caminha de um lado ao


outro. Pára um tanto pensativo, depois fixa as roupas brancas deixadas sobre
o módulo e os dois mentores em posição de oração...
Suave canção envolve o momento. Ele vai até as roupas e vai substituindo as
de cor forte que usa pelas peças brancas a sua frente. Depois de totalmente
vestido Endora e Flavio, abraçam-no carinhosamente e ao sair novamente
levam todas as peças de roupas que outrora Max usava. Ele volta-se para o
público. Pode-se ser feito coreografia como: dois tules, de cores diferentes
passando: um recolhe as roupas que Max está usando (de cores fortes) e o
outro tule trás as roupas brancas, enquanto ele gira em forma de dança no

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centro, sob foco suave, trocando as roupas. O ator já deverá estar usando
cueca Samba-canção branca/

Max: (subjetivo)
Adaptava-me aos poucos à nova realidade. A inércia parecia aumentar ainda
mais os conflitos que deixei na terra, mas que ainda viviam intensamente em
mim; por isso candidatei-me a ser útil servindo em todo conglomerado
hospitalar. A convivência com os recém chegados da terra despertava-me para
a realidade de que não somente eu sofria. Era preciso ajudar para ser ajudado...

/Max caminha com profunda tristeza, sentando-se ao módulo/

Max: Meus tutores naquela nova realidade com certeza sabiam tudo a meu respeito.
Tratavam-me com tanto carinho que não me sentia no direito de questionar
qualquer coisa... (pausa)
Por inúmeras vezes presenciaram-me as lágrimas que brotavam de meu peito
pela saudade incontrolável de meus filhos e de Lorena...

/MÚSICA – tipo Loreena faixa 4 – surge de fundo. Max emociona-se às


lagrimas/

Max: Por que não me falam sobre eles? Estavam mortos tanto quanto eu e, no
entanto, onde estariam? Talvez minha descrença em Deus quando na terra
havia condenado-me a triste destino!

/Some a música. Um foco-pino de luz surge numa outra marcação do palco,


some a iluminação onde está Max e este sai quase correndo entrando sob a luz
que se formou. Sua fisionomia é mais alegre a quase entusiasmo/

Max: (Subjetivo)
...Não sabia quanto tempo havia se passado; nossa contagem de tempo é
diferente da terra... talvez seis a oito anos. Naquele dia um pressentimento
maravilhoso e uma sensação de alegria invadiu-me o peito...

(Endora e Flávio estão entrando em cena)

...Foram Endora e Flávio, meus inseparáveis instrutores, que vieram trazer-me


a tão esperada notícia...

/Abre-se a iluminação/

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Flavio: Max! Temos acompanhado sua dedicação e esforços, igualmente seu silêncio
na renúncia de uma felicidade que acreditas não ser merecedor...

Endora: Todos merecemos ser felizes! Deus nos criou para a felicidade e para luz... e a
estamos construindo em nossos próprios corações.

Flavio: Trouxemos uma visita que há muito anseia vir ter contigo...

/Endora e Flávio afastam-se e logo a seguir aparece Lorena num terno


sorriso. Max passa a apresentar uma difícil respiração e o pranto sufoca-lhe
as palavras/

Lorena: Max... eu te amo, meu querido companheiro de lutas e de dor... E, é este amor
que nos mantém unidos sempre!...

/Max aproxima da mulher que o enlaça num terno abraço/

Max: Ah! Lorena... por mais dissesse lá na terra acreditá-la morta; meu coração
jamais deixou de crer na possibilidade deste reencontro...

/Max afasta-se procurando dominar a emoção, enxuga as lágrimas. Balança


os braços de forma quase criança, sorri ligeiramente. Uma valsa (tipo do filme
“dança-comigo” – começa a surgir de fundo) – Ele fica um tanto
envergonhado/

Endora: Não te envergonhes, Max. Aqui no mundo espiritual também dançamos a


música do coração e do amor....

Flávio: Dance, Max... dance! (num sorriso).

/Max e Lorena unem-se e movimentam num bailado harmonioso e feliz.


Quando de repente Max solta da mulher e parte para o diálogo subjetivo/

Max: (subjetivo)
Lorena pediu-me paciência quando lhe expressei o desejo ardente de
reencontrar nossos filhos, disse-me que estavam bem e no momento certo
estaria com eles. Silenciei por acreditar que já havia recebido acima de meus
merecimentos. Pairava em minha mente inúmeras dúvidas! Passei a questionar
os “porquês” da vida. Queria encontrar sentido para todos os sofrimentos que

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passei. Haveria uma resposta ou deveríamos sofrer como fatalidade comum a
todos?

/Hilário adentra – saem todos, ficando somente Max/

Hilário: Atendendo solicitações de corações que te amam, viemos ao seu encontro no


intuito de preparar-te para o futuro!

Max: Preparar-me?!

Hilário: Para avançar com segurança é preciso entender o passado e justificar o


presente!

/A iluminação faz intensa/

Hilário: Nesta sala, seus recursos mnemônicos serão acionados irradiando em ondas
mentais que, a tela a nossa frente, captará transformando em imagens
semelhantes às cinematográficas na terra; a diferença aqui é que estamos diante
do filme de nossas vidas registradas detalhadamente por nossa consciência...

Max: (Subjetivo) O local era iluminado e de aroma suave! Sensações estranhas


invadiram-me a mente... era como desenrolasse um filme em cenas
sucessivas... Não havia barreiras de tempo e o passado e presente extinguiram
dando lugar a sucessivos acontecimentos...

(pequena pausa. Max emociona-se ligeiramente, colocando as mãos sobre a


face)...

Agora me lembro!

Hilário: Sim, Max! Esta é sua reencarnação anterior. Nela encontrarás muitas respostas
para aquilo que consideravas injusto ou inexplicável...

/MÚSICA de dança francesa (de salão e épica França, século XVIII a XIX) –
Um casal ou mais passa dançando por entre Max/

Max: (subjetivo)
Eu era dançarino de renomada companhia francesa de arte! Contrariando os
desejos do senhor meu pai, fugi de casa ainda muito jovem para realizar meus
sonhos de fortuna e prazer. De caráter libertino e desregrado, nunca dei

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importância aos valores de família, a ela , só Jean, meu adorado e inesquecível
irmão menor, prendia-me. Se retornasse à família seria sim, para buscá-lo para
viver definitivamente ao meu lado...

/Os rapazes com taças à mão bebem vinho em abundância e entre risinhos as
mulheres colocam acessórios na roupa branca que Max usa, denotando trajes
épicos Franceses. Ele bebe várias taças por entre carícias e beijos em várias
delas. Os rapazes postam-se de repente, cada um em sua marcação e saem de
cena por um lado – enquanto, concomitantemente – as moças agrupam-se em
risinhos indiscretos, quase saindo de cena, no outro lado das coxias/

Mademoisele_1: (versar para o francês) Joseph, por que não vem conosco? Dizem que
os bailarinos de Mont-de-Marsan são inesquecíveis... E, quando dançam
fora dos palcos ensandece até mesmo as mais refinadas damas da
intocável Normandia! /irônica e sensual/

Max: (Versar para o francês) Lisonjeias-me com doces palavras. Vejo em


teus olhos que me deseja com loucura, por minha vez, prometo que hei
de faze-las todas muito felizes ainda esta noite!

(todas soltam risinhos quase abafados e saem).

Max: As inúmeras orgias e excessos condenáveis praticados nos porões luxuosos dos
“châteaus” requintados da cidade luz, abriram-me fenda profunda na alma.
Desiludido com o amor, desejei fugir àquela rotina de promiscuidade e
insensatez aceitando o convite para uma turnê em Madri. Foi logo depois da
última apresentação da “Compagnie art d’France”, quando pequeno grupo de
“muchachas” vindo de Tarancón foi anunciado para homenagear a famosa
companhia francesa, com uma singela apresentação de dança tradicional
local...

/MÚSICA TRADICIONAL ESPANHOLA surge de fundo. No foco na


extremidade oposta surge Lorena, uma moça e um rapaz (usando figurino
espanhol típico). Dançam seqüência curta, saem os acompanhantes, ficando
apenas Lorena em cena /

Max: Lá estava ela... Carmem! A mulher que eu adivinhava em pensamento, estava


ali, a alguns metros de meu corpo... de meus lábios.

Max: (subjetivo)
Hervê atirou-me para o palco em gargalhadas e gritou que eu dançasse com a
bella muchacha... Ela virou-se e sorriu-me... ainda pude ouvir os gritos de meu
amigo: “dance, Joseph, dance”!

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/A MÚSICA “HABANERA DA ÓPERA CARMEM, DE BIZET” surge. Ele se
aproxima e a toma aos braços em passos firmes e sensuais. Dançam por
alguns instantes, quando efeito de fumaça vai surgindo do lado esquerdo –
aparece Gabriel/Nino (trajando roupinhas épicas_espanha). O casal
prossegue em mais alguns passos, quando do lado direito outro efeito de
fumaça e Mirian/Lana aparece com um lindo sorriso, trajando vestido e
arranjos épicos_espanha – une-se ao irmão e os quatro dançam./

/ Max solta-se dos braços de Lorena e distancia um pouco, enquanto mãe e


filhos refugiam-se num módulo ao fundo, formando o seguinte quadro: mãe
(com olhar triste e perdido no horizonte, expressão de profunda tristeza e
sofrimento), Mírian/Lana (agarrada ao braço da mãe, parece proteger-se ou
aquecer em noite fria), Gabriel/Nino (deitado – com a cabeça ao colo da mãe,
tendo as pernas ligeiramente encolhidas, também expressando frio, tristeza e
fome)./

/MÚSICA. Max caminha posicionando atrás do quadro que se forma.


Acaricia os dois filhos/

Max: (Subjetivo) Carmem presenteara-me com dois lindos filhos: Nino e Lana! Ali,
naquele lar pobre e simples vivíamos presos uns aos outros. Eles pareciam
felizes e conformados, mas algo me inquietava. Aquele lar, apesar de preencher
o vazio de outrora, não satisfazia minha sede de conquista e poder. Paris
continuava acenando-me às regalias e ao prazer...

/Extingue a música anterior. Surgem efeitos de vento e chuva leve. Obs.: esse
efeito deve ser bem mais suave que o sugerido em cena anterior/

Max: (subjetivo)
Lembro-me perfeitamente daquela noite fria ao me despedir de Carmem e
meus dois filhos. Prometi que voltaria em breve, era o tempo de ganhar um
pouco mais de recursos em Paris para posteriormente nos regalarmos em Madri
numa vida farta e cheia de luxo... Ela não disse uma palavra... apenas duas
grossas lágrimas desceram de seus olhos...ergueu-se do banco torpe e velho e
me abraçou forte...

(Max volta-se para o foco que distingue o quadro formado por sua família e
assiste a luz ir diminuindo até desaparecer-lhes a fisionomia no blecaute
localizado).

/Max volta-se novamente para o público/

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Max: (subjetivo)
Anos depois soube que meus dois filhos não resistiram a epidemia de Tifo que
avassalou parte da Espanha. Arrasado emocionalmente me entreguei aos
excessos de toda sorte envolvendo-me com as mais baixas expressões da arte
a fim de arrumar recursos mínimos para sobreviver na decadência que me
encontrava. Desiludido e doente, anos depois decidi voltar à Madri e aos braços
de Carmem que, de alguma maneira, deveria ainda me esperar...

/Carmem sobressalta-se surpresa/

Carmem: Joseph!

Max: Carmem!... perdoa-me tê-la abandonado à própria sorte, mas agradeço a Deus,
pois vejo que Ele soube te recompensar os sacrifícios...

(Sob fundo musical melancólico começa a falar denotando na expressão e na


voz, profunda tristeza ao recordar os fatos ocorrido na ausência do marido.
Segue efeitos sonoros de trem – CD-Sound Effects7/8, faixa 8 ou 18)

Carmem: (subjetivo) ...Nossos filhos jamais te esqueceram e jamais deixaram de te


esperar. Todas as tardes ao ouvirem o apito do trem próximo a estação...
debruçavam no parapeito de nossa velha sacada e seus olhinhos buscavam o
final da estrada de chão batido sempre empoeirada e vazia. Nas vezes quando
despontava alguém à distância por entre a poeira da velha estrada, corriam
gritando: “Mamãe, é o papai... eu tenho certeza que é o papai!”! (pausa) Eu
sabia que não era e cortava-me o coração vê-los retornar com os olhinhos rasos
em lágrimas, mas ainda confiantes a dizer: “Mamãe, quando vai chegar o
próximo trem?” – Daqui a alguns dias, meus filhos... daqui a alguns dias!....
(senta vagarosamente ao módulo, enquanto Max vira-se para o público)

Max: (subjetivo)
Carmem sozinha e desamparada refugiou-se em pensão modesta onde prestava
serviços domésticos à paga de algumas moedas e favores de moradia...

(Max começa a alterar o estado emocional – respiração quase ofegante.


Esfrega as mãos uma contra a outra)

...Ali conheceu jovem dançarino também francês que fugira dos pais em tenra
idade e entregou-se aos dons artísticos. Sabendo dos dotes de Carmem,
apresenta-a ao dono de sua Companhia e ela, devido não ser tão jovem para a
dança, é aceita como instrutora dos jovens iniciantes. Mesmo com a diferença
de idade logo ardente paixão brotou entre eles!

(volta-se para a mulher, algo decepcionado. Diálogo objetivo)

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Soube que você amanciou-se com um rapazola da companhia de dança vinda
de Clermont-Ferrand. Acaso enlouqueceste?

Carmem: Não cobre direitos que não os tem. Aceitei, sim, a dedicação com que me
apresentou o jeune garçon. Mas só o fiz por considerá-lo distante para
sempre...

/Max avança para a mulher segurando-a firme e beijando lhe sofregamente o


pescoço e ombro/

Max: Não acredito que me esqueceu! Abandone este homem, peça-o que suma de
sua vida. Eu sei que ainda me deseja e me ama como antes!

/Carmem afasta-se do marido, dá alguns passos e volta-se/

Carmem: Joseph, confesso que no passado te amei como homem e companheiro, mas
agora, outro divide meus prazeres de mulher. Você terá sempre o meu mais
puro e verdadeiro amor, um amor que não sei como lhe explicar, mas que é
intenso e verdadeiro. No entanto, agora devo dedicação e respeito àquele que
me amparou nos momentos mais difíceis de dor e sofrimento...

/Faz total silêncio. Ouve-se apenas o ruído dos sapatos da mulher saindo de
cena/

/Max refugia-se revoltado sob outro foco/

Max: (Subjetivo)
A revolta e o desejo de vingança dominou-me os dias e as horas.

/Max pega uma arma cano curto, épico – tipo guarucha (pistola que se
carregava pela boca-cano) por sobre um dos módulos/

Passei a vigiar Carmem às espreitas, aguardando o momento propício...

/Ouve-se risadas e conversas abafadas vindo do outro lado do palco: Carmem


(Lorena) e Jean (Mário) trocam carícias, na intimidade dos aposentos. Luz
vai abrindo-se sobre o casal/

...Aquela noite pareceu-me adequada... a janela ficara entreaberta e entrei,


espreitando à porta dos aposentos...

/Carmem (Lorena) e Jean (Mário) beijam-se ávidos de prazer./

37
/Obs: Versar o diálogo abaixo para: ele (sotaque francês), ela (sotaque
espanhol) podendo alguns termos como “por que?”, “filho”; “Paris” serem ditos
totalmente nos idiomas de origem/

Jean/Mario: ... E então, convenci-te ir comigo para Paris?

Carmem: Os métodos são bons, mas ainda considero-te precipitado! Por que não Veneza,
Roma?

Jean/Mario: Não! Conheço muito bem Paris e tenho ótimo relacionamento com os nobres
da corte... (sorri ligeiramente irônico)
...e, muitos deles admiram meus dotes...artísticos!

Carmem/Lorena: Hum! Por isso mesmo sugiro aguardemos um pouco mais aqui em
Madri... alguns meses!

Jean/Mario: Por que aguardar ainda mais? Pois se partirmos, livramo-nos definitivamente
de seu ex-mari...

Carmem/Lorena: Não estou em condições de viajar... espero um filho...

Jean/Mario: Um filho?!...meu?

Carmem/Lorena: Sim! Nosso...

/Jean_Mário emociona-se indo quase a lágrimas./

Jean/Mario: (quase sussurrando)


...Nunca confessei isso a ninguém... mas sempre sonhei ter a alegria de um
filho nos braços... E agora a bela notícia que vou ser pai... eu vou ser pai... eu
vou ser pai...

/Mário_Jean vai virando o corpo, emocionado, quando depara com Max


apontando-lhe o revólver. Ele pára assustado, Carmem/Lorena entra na
frente/

/Max treme, visivelmente descontrolado/

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Max: Saia da frente dele, Carmem! Ou atiro em você também...

Carmem/Lorena: Joseph, você enlouqueceu!?

Max: Eu já te falei pra sair da frente dele...

/Carmem-Lorena aproxima alguns passos de Max/

Carmem/Lorena: Se quiser matá-lo terá que fazer a mim também...

Max: Não me importa... antes vê-la morta que nos braços de outro...

/Mário-Jean age abruptamente, afastando Carmem de sua frente e avançando


contra Max. Há um silêncio – apenas as respirações ofegantes dos dois
homens disputando a arma em luta corpo a corpo. Os movimentos seguem até
parar sob foco de luz e um disparo ecoa. Ambos paralisam, ficam assim por
alguns segundos. Depois Jean começa a tremer o corpo levemente para logo a
seguir cair pesadamente ao chão./

/Blecaute se faz. Quando volta a iluminação, Max (usando roupas brancas)


está sentado no módulo central/

Max: (Subjetivo)
Lorena definhou num leito de dor e desencarnou meses depois. Arrastei-me
anos a fio, aguardando a morte como alivio e libertação, mas ela tardou a
chegar e me condenei a uma velhice mórbida e só...

/Max fica visivelmente emocionado. Tem Hilário próximo a si e este lhe


acaricia levemente os cabelos num gesto de carinho/

Max: (expressa profunda tristeza)


Alguns dias depois fiquei conhecendo a verdade sobre aquele rapazola que o
destino colocou em meu caminho... era Jean, o irmãozinho que abandonei em
tenra idade com meus pais no convívio pobre da vida no campo...

/Acaricia os cabelos, expressando decepção/

Meu Deus! Jean e Mário são a mesma pessoa em corpo e tempo diferentes...

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Hilário: O destino coloca as pessoas que amamos entrecruzando nossos caminhos. Se,
ás vezes a dor ou a tragédia nos recolhe em suas tramas é porque em outros
tempos olvidamos os recursos divinos do amor e do perdão!

/MÚSICA de teor um tanto mais alegre acompanha a entrada de Lorena,


Endora e Flávio. Max ergue-se e abraça cada um deles. Depois, um tanto
constrangido, Max afasta-se para uma lateral e volta-se para Hilário, quando
vai pronunciar alguma indagação, Hilário interrompe num sorriso/

Hilário: Já sabemos de sua ansiedade e de seus questionamentos! Por que seus filhos
Gabriel e Mírian continuam distantes?!

Max: Desculpe-me! Não questionei antes por considerar-me indigno de tal privilégio,
o que ainda me considero...

Hilário: Tudo tem seu momento certo na vida e, se guardarmos a sabedoria da


paciência, a providência divina se encarrega de fazer tudo acontecer em
harmonia e visando o nosso próprio bem!

Lorena: Deus permitiu-nos estar reunidos novamente...

Max: Lorena... então poderei ver meus adorados filhos?

Lorena: Sim, Max! Nossos adorados filhos e companheiros do caminho...

Flávio: (adiantando num sorriso)


Mas antes de falarmos de seus filhos, gostaria de relatar uma lição que aprendi
quando encarnado com meu inesquecível pai... ele sempre me ensinou que
homem quando dança não pode mexer muito a cintura... que homem deve
dançar mais ou menos assim...

(Flávio imita o pai ensinando-o a dançar)

Max: Gabriel !!!

/Endora solta um risonho alto, encolhendo o queixo próximo ao ombro, numa


forma característica/

Max: Mírian!! O mesmo sorriso... Ah! Meu Deus... são meus dois filhos que por todo
este tempo me auxiliaram em silêncio....

/Todos sorriem divertidos. Os dois filhos abraçam-no ternamente.Max Chora/

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Gabriel: (Após afastar-se ligeiramente) Não chores! Toda dor é um aprendizado
necessário e um crescimento para Deus!

Endora: Na terra a paternidade uniu-nos ao teu coração, agora, aqui no mundo


espiritual, o amor é o vinculo indestrutível atando-nos uns aos outros!...
brindemos a vida!

Max: Eu os amo de forma que não sei explicar. Perdoe-me os erros e a indiferença!

Lorena: (falando a Max) Resgatamos pela dor em família a negligência aos seus valores
no passado. Mas agora, conquistamos o crédito de reunir-nos com equilíbrio
para os trabalhos urgentes que a terra nos requer...

/Max volta-se para o público, normalmente/

Max: (subjetivo)
Cerca de dois anos depois do calendário terrestre, Hilário nos reuniu
novamente para novas informações. Dava-se início ao planejamento de nossa
próxima experiência física...

(voltando-se para Hilário)

... Reencarnar?

Hilário: Sim! Vocês conseguiram resgatar dívidas em comum e, agora mais


harmonizados, é o momento adequado para candidatar-vos ao serviço
edificante. A terra espera por nós e, é lá que construiremos o céu que
desejamos habitar!

Flávio: Lembra de nossos sonhos? Queríamos construir uma enorme companhia de


arte onde seus frutos rendessem aprendizado, luz e amparo aos desamparados
do caminho...

Hilário: Chegou o momento da luz de nossos sonhos iluminar a terra. Você e Lorena
descerão primeiro para mais tarde receber dois filhos com dotes especiais no
campo da arte... Gabriel e Mírian...

Max: E Mário, meu adorado irmão?

Hilário: Provavelmente você receberá um neto muito parecido com ele...


(num breve sorriso)

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Renascerás na cidade Luz de Paris onde receberás as primeiras noções de arte
contemporânea, enquanto Lorena sorrirá nas terras brasileiras com forte
vocação artística ligada a educação religiosa...

Max: Mas como nos encontraremos assim tão distantes!

Hilário: Os espíritos que se amam, buscam-se por entre a multidão!

Endora: Com certeza estaremos sussurrando em seus ouvidos: Dance, Max, dance! É
preciso aprender a dançar a música do coração sob o ritmo incomparável do
amor!

/Max aproxima de Endora e a envolve num terno abraço. Logo após afasta-se,
indo ao proscênio – fixa o público e num breve sorriso, diz/

Max: (Subjetivo) Obrigado por permitir-me narrar, através de sua mediunidade, um


pouquinho da minha história... e, a minha história, com certeza, tem um pouco
da sua!

/MÚSICA Loreena “tema da peça” – faixa 2. As luzes vão transformando-se


em coloridas. Hilário dirige-se para foco na lateral. Lorena e Max vão
aproximando um do outro/

Hilário: ...E nós, percorremos o tempo escrevendo nossa história dentro da grande
história de Deus. De experiência em experiência vamos aprendendo a dançar a
sublime canção da vida e do amor! Por isso é preciso aprender a dançar!
Dance, dance... dancemos todos nós!

/A MÚSICA aumenta o volume – Max e Lorena dançam. Alguns segundos


depois outros casais começam a aparecer dançando por entre os corredores
da platéia, outros se colocam lado a lado com o casal. E assim, todos, todos
dançam!/

fim.

(Período de concepção da obra: Início: 21/04/2005 - Término: 29/04/2005)

Obs: As músicas sugeridas nas rubricas não são de caráter obrigatório para produção do espetáculo.
Mas servem para nortear o estilo com que foi concebida a obra.

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