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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO CEARÁ


Comarca de Fortaleza
36ª Vara Cível (SEJUD 1º Grau)
Rua Desembargador Floriano Benevides Magalhaes, 220, Edson Queiroz - CEP 60811-690, Fone:
(85)3492-8427, Fortaleza-CE - E-mail: for.36civel@tjce.jus.br

SENTENÇA

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjce.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0894880-18.2014.8.06.0001 e código A0B61B3.
Processo nº: 0894880-18.2014.8.06.0001
Classe: Procedimento Comum Cível
Assunto: Indenização por Dano Moral
Requerente: Eunício Oliveira
Requerido: Ciro Ferreira Gomes

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por ANTONIA DILCE RODRIGUES FEIJAO, liberado nos autos em 25/11/2021 às 14:10 .
I – RELATÓRIO

EUNÍCIO LOPES DE OLIVEIRA, por meio de procurador judicial,


ingressou com a presente AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS em face de
CIRO FERREIRA GOMES, todos qualificados nos autos, aduzindo que é Senador da
República, exercendo o mandato eletivo pautado no respeito e hombridade.

Assevera que o demandado, no dia 06 de setembro de 2014, transmitiu


comentários ofensivos à reputação e dignidade do autor como pessoa e homem público, na
rede social Facebook, extrapolando os limites éticos e a garantia constitucional à liberdade de
expressão. Acresce que as declarações feitas pelo demandado transcenderam qualquer debate
político e teve como propósito denegrir e vilipendiar a imagem e a honra do autor perante seu
eleitorado, aniquilando, portanto, seu patrimônio eleitoral.

Requer a condenação do demandado ao pagamento de reparação por danos


morais, com o valor a ser arbitrado por esse juízo e revertido em favor de instituições de
combate as drogas.

Com a inicial juntou a documentação de fls. 16/21.

O demandado ofereceu contestação às fls. 59/77, alegando que os comentários


e publicações atribuídos ao demandado traduzem o exercício ao direito constitucional da
liberdade de expressão, no contexto em que se inserem, de trocas de críticas entre notários
adversários políticos, são absolutamente inseparáveis da emissão de juízos de valor acerca das
qualidades e defeitos das pessoas públicas diretamente envolvidas nos comentários, de modo
que seu tolhimento implicaria violação direta ao próprio direito constitucional da liberdade de
crítica e de informação aos cidadãos, os quais alicerçam a estrutura da nossa democracia,
impondo, assim a improcedência da ação de reparação por danos morais.

Réplica às fls. 85/98, onde o requerente impugna as alegações feitas pelo autor
e renova o pedido exordial.

A tentativa de composição amigável restou inexitosa, fl. 100.

Sentença de procedência do às fls. 107/112, tendo o réu manejado recurso de


embargos de declaração, fls. 116/130, o qual foi julgado improvido.
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O réu ajuizou recurso de apelação, fl. 150/173), o qual foi provido nos termos
da ementa e acórdão nas fls. 248/252, para declarar nula a sentença.

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Retorno do feito a esse juízo, conforme certidão de fl. 259.

Instrução processual com a ouvida de testemunhas, fls. 270, 273, 287 e 288; na
sequência, as partes apresentaram razões finais na forma de memoriais escritos às folhas
292/304 e 305/318.

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II – FUNDAMENTAÇÃO

A questão sub examen traz à lume direitos de caráter fundamental expressos


nos incisos IV, V e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. A liberdade de manifestação do
pensamento, vedado o anonimato; o asseguramento do direito de resposta, proporcional ao
agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; a liberdade de expressão
da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura
ou licença, são direitos constitucionais que revelam uma natural interação.

A Constituição Federal assegurou, em igual patamar, a liberdade de


pensamento e o direito à honra. Nem poderia ser diferente, visto que a própria Constituição,
ao criar o Estado Democrático de Direito, tomou como princípio estruturante a dignidade da
pessoa humana.

Como cotejar, então, esses dois valores fundamentais quando há aparente


colisão. Para iluminar a questão, colaciono o ensinamento de Alberto Silva Franco e outros:

“É, por isso, que na linha desse entendimento torna-se necessário analisar
os limites que desenham as esferas de atuação tanto do princípio da
liberdade de expressão, quanto do direito à honra. Não é fácil, nem simples,
o estabelecimento dessa linha de demarcação, máxime porque ela trilha um
terreno de consistência movediça. (...) A liberdade de expressão e a honra
não devem ser analisadas sob a ótica de valores abstratos, distantes de lances
conjunturais porque, nesse caso, não seria possível compatibilizá-los e não se
encontraria, assim, nenhuma solução para os conflitos eventualmente
surgidos. Nenhum direito fundamental, calcado na Constituição Federal,
possuem, em verdade, valência absoluta frente a outros direitos também
fundamentais. Assim, só a situação concreta poderá ensejar uma equilibrada
e correta tomada de posição.” 1

O Superior Tribunal de Justiça estabeleceu, para situações de conflito entre


referidos direitos fundamentais, entre outros, os seguintes elementos de ponderação: o
compromisso ético com a informação verossímil; a preservação dos chamados direitos da
personalidade, entre os quais incluem-se os direitos à honra, à imagem, à privacidade e à
intimidade; e a vedação de veiculação de crítica com intuito de difamar, injuriar ou caluniar a
pessoa (animus injuriandi vel diffamandi). Nesse sentido:

1
Alberto Silva Franco e outros, in Leis Penais Especiais e sua Interpretação Jurisprudencial, vol. 2, 6ª edição,
pág. 1530.
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RECURSO ESPECIAL. RESPONSABILIDADE CIVIL. 1. NEGATIVA DE


PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. 2. EMBARGOS

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INFRINGENTES. DESNECESSÁRIA A ADSTRIÇÃO AOS FUNDAMENTOS
DO ACÓRDÃO EMBARGADO. LIMITAÇÃO SOMENTE QUANTO AOS
PONTOS A SEREM IMPUGNADOS. 3. REPARAÇÃO POR DANOS
MORAIS. MATÉRIA JORNALÍSTICA. ABUSO DO DIREITO DE
INFORMAR. AFRONTA AOS DIREITOS DE PERSONALIDADE.
INEXISTÊNCIA. AMBIENTE POLÍTICO MARCADO PELOS EMBATES
ENTRE AS PARTES CONTRÁRIAS. INFORMAÇÃO VEROSSÍMIL.

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AUSÊNCIA DE ANIMUS INJURIANDI VEL DIFFAMANDI. 4.
RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO; RECURSO
ADESIVO PREJUDICADO. 1. Verifica-se que o Tribunal de origem analisou
todas as questões relevantes para a solução da lide de forma fundamentada,
não havendo que se falar em negativa de prestação jurisdicional. 2. "O órgão
julgador dos embargos infringentes não fica adstrito aos fundamentos do voto
minoritário, devendo apenas ater-se à diferença havida entre a conclusão dos
votos vencedores e do vencido, no julgamento da apelação ou da ação
rescisória, de forma que é facultada ao recorrente a utilização de razões
diversas das expostas no voto vencido" (REsp 1095840/TO, Relatora Ministra
Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 25/08/2009, DJe 15/9/2009). 3.
Liberdade de informação e proteção aos direitos da personalidade. O
Superior Tribunal de Justiça estabeleceu, para situações de conflito entre
tais direitos fundamentais, entre outros, os seguintes elementos de
ponderação: a) o compromisso ético com a informação verossímil; b) a
preservação dos chamados direitos da personalidade, entre os quais incluem-
se os direitos à honra, à imagem, à privacidade e à intimidade; e c) a vedação
de veiculação de crítica jornalística com intuito de difamar, injuriar ou
caluniar a pessoa (animus injuriandi vel diffamandi). A assunção de cargos
corporativos ou públicos, como a presidência de uma seccional da OAB, torna
o sujeito uma pessoa pública, com atuação de interesse de todos advogados,
estando seus atos sujeitos a maior exposição e mais suscetíveis à mitigação
dos direitos de personalidade, principalmente por estar incurso em um cenário
político, com intenso debate corporativo. Dentro desta perspectiva, o
entrevistado não extrapolou os limites da liberdade de pensamento nem se
verificou o intuito de atingir a honra da antiga presidente da OAB/DF, já que
as informações relacionaram-se a questões de interesse do órgão de classe,
limitando-se a criticar, com cunho político, a gestão anterior, sem nenhuma
menção específica à pessoa da antiga presidente ou imputando alguma
conduta desonrosa capaz de ensejar o dever de indenizar. 4. Recurso especial
parcialmente provido. Recurso adesivo prejudicado2

No caso concreto, o autor aponta como ato ilícito as declarações feitas pelo
demandado no site Facebook, no dia 06/09/2014, com o seguinte teor, fl. 17:

Estou na luta para proteger nosso Ceará e nosso povo. Não sou candidato a
nada mas vou cumprir meu dever. O Pinóquio que fez crescer sua fortuna
2 REsp 1624388/DF, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em
07/03/2017, DJe 21/03/2017
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pessoal de R$ 36 milhões de reais para R$ 99 MILHÕES DE REAIS EM


APENAS TRÊS ANOS DE MANDATO DE SENADOR COM

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CONTRATOS OBSCUROS COM A PETROBRAS E OUTRAS
AGÊNCIAS FEDERAIS não se explica ao povo do estado que quer
governar...E me chama de desequilibrado. Falou a verdade pela primeira vez na
vida... sou mesmo... Em favor do Ceará, não tenho equilíbrio. Contra
corruptos, muito menos! Então Tá...Aceitei meu desequilíbrio...Que tal agora
ele dar uma simples explicação? Como foi isto? Levar 63 anos para acumular
uma imensa fortuna de R$ 36 milhões de reais e em apenas três anos e meio de

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senador virar o candidato de maior fortuna entre todos os candidatos, de todos
os partidos, de todos os estados, nestas eleições com um patrimônio pessoal de
estonteantes R$ 99 MILHÕES DE REAIS? Com a Petrobras como da
resposta? Pode me criticar, tentar me censurar, mas a resposta deveria ser
simples...

Como é notório, Pinóquio trata-se de personagem da literatura infantil, que


quando mente cresce o nariz, portanto, o demandado adjetiva o autor de mentiroso. O réu
ainda formula sérias acusações contra o autor ao questionar a origem do seu patrimônio
suscitando que a "fortuna" do promovente decorre de contratos obscuros com a Petrobrás,
entretanto não produziu qualquer prova que ateste que essa informação é verossímil, dessa
forma não observou o compromisso ético em somente divulgar informações verídicas e
amparadas em indícios de ocorrência de supostos crimes pelo autor.

Existem meios legítimos que o réu poderia se valer caso soubesse de fundados
indícios de prática de crime pelo autor, no entanto proferiu expressões em uma rede social que
em nada informou ou acrescentou ao saudável debate político no Estado do Ceará, valor
essencial no Estado Democrático de Direito.

As expressões do demandado em muito excedem ao direito de informar e da


livre manifestação do pensamento, pois evidenciam o propósito de difamar e injuriar o
adversário político, atribuindo-lhe a conduta de mentiroso e corrupto, ofendendo, destarte, a
honra e imagem do autor, configurando o dano moral, conforme assente na jurisprudência e
expresso no julgado abaixo transcrito:

DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. PUBLICAÇÃO DE MATÉRIA


JORNALÍSTICA CONSIDERADA LESIVA À HONRA DO AUTOR.
ADVERSÁRIO POLÍTICO. DANO MORAL CONFIGURADO.
INDENIZAÇÃO DEVIDA. DECLARAÇÕES DO RÉU QUE
TRANSBORDAM OS LIMITES DO DIREITO DE CRÍTICA. ABUSO DO
DIREITO. DANO MORAL CONFIGURADO. OFENSA A DIREITO DA
PERSONALIDADE. INDENIZAÇÃO DEVIDA.
1. O litígio revela, em certa medida, colisão entre dois direitos fundamentais,
consagrados tanto na Constituição Federal de 1988 quanto na legislação
infraconstitucional, como o direito à livre manifestação do pensamento, de
um lado, e a tutela dos direitos da personalidade, como a imagem e a honra,
de outro. 2. Embora seja livre a manifestação do pensamento - mormente em
épocas eleitorais, em que as críticas e os debates relativos a programas
políticos e problemas sociais são de suma importância, especialmente para
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formação da convicção do eleitorado -, tal direito não é absoluto. Ao


contrário, encontra rédeas tão necessárias para a consolidação do Estado

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Democrático de Direito quanto o direito à livre manifestação do pensamento.
São os direitos à honra e à imagem, ambos condensados na máxima
constitucional da dignidade da pessoa humana. 3. A liberdade de se
expressar, reclamar, criticar, enfim, de se exprimir, esbarra numa
condicionante ética, qual seja, o respeito ao próximo. O manto do direito de
manifestação não tolera abuso no uso de expressões que ofendam à
dignidade do ser humano; o exercício do direito de forma anormal ou

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irregular deve sofrer reprimenda do ordenamento jurídico. 4. No caso, o que
se extrai da leitura dos excertos é, em suma, que o réu teria realizado
diretamente condutas ligadas a atos de improbidade administrativa e mau
uso de dinheiro público, seja ao custear viagem de membros do Ministério
Público à Suíça na busca de contas bancárias do recorrido, seja por
superfaturar obra pública do Estado, inclusive cometendo atos tipificados
como crime, unicamente com o suposto fim de perseguir o demandado. Salta
aos olhos, portanto, que não se trata de "simples manifestação do seu
pensamento e do exercício de seu legítimo direito de crítica", como pretende
demonstrar. Ao reverso, pelo que se depreende, houve deliberada intenção de
ofender a honra e imagem do Governador do Estado de São Paulo,
declaradamente adversário político do reclamado, e que na época disputava
as eleições para o mais alto cargo do Poder Executivo bandeirante,
imputando a ele a pecha de pessoa afeta ao cometimento de ilícitos penais e
administrativos. 5. Recurso especial provido.3

O egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, por sua 3ª Câmara de


Direito Privado, já teve oportunidade de julgar demanda semelhante em que pessoa ocupante
de cargo público foi ofendida por expressões veiculadas em uma rede social e que excederam
a garantia de liberdade de expressão:

DIREITO CONSTITUCIONAL E CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL EM AÇÃO


DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. PRELIMINARES DE
CARÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO E DE CERCEAMENTO DE
DEFESA REJEITADAS. PARTE AUTORA SECRETÁRIA MUNICIPAL
DE EDUCAÇÃO DE AQUIRAZ. COMENTÁRIOS DILVULGADOS EM
REDE SOCIAL. FACEBOOK. LIBERDADE DE EXPRESSÃO (ART. 5º,
IV, DA CF) X DIREITO À HONRA, IMAGEM INTIMIDADE E VIDA
PRIVADA (ART. 5°, V E X DA CF). PONDERAÇÃO NO CASO
CONCRETO. IMPUTADA À PARTE AUTORA ENVOLVIMENTO COM A
PRÁTICA DE DESVIO DE VERBAS PÚBLICAS. MENSAGENS
PUBLICADAS PELO REQUERIDO EXTRAPOLAM A MERA CRÍTICA
POLÍTICA E LIBERDADE DE EXPRESSÃO. EXCESSO VERIFICADO
NAS POSTAGENS. OFENSA À HONRA E IMAGEM DA APELADA. ATO
ILÍCITO CONFIGURADO. ARTIGOS 186, 187 E 927 DO CC.
EXISTÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR. DANO MORAL
CONSTATADO. QUANTUM REDUZIDO DE R$17.600,00 (DEZESSETE
3STJ
- REsp 1169337/SP - Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em
18/11/2014, DJe 18/12/2014.
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MIL E SEISCENTOS REAIS) PARA R$ 5.000,00 (CINCO MIL REAIS).


RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE. SENTENÇA

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PARCIALMENTE REFORMADA. RECURSO CONHECIDO E
PARCIALMENTE PROVIDO.
1. Preliminar de carência de fundamentação. O princípio da fundamentação
das decisões judiciais, previsto no art. 93, inciso IX da CF/88, e art. 489, §1º,
IV, do CPC, prevê que a decisão judicial somente será considerada não
fundamentada quando não enfrentar todos os argumentos deduzidos capazes
de infirmar a conclusão do julgador. Entretanto, não se confunde a ausência

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de fundamentação com a fundamentação sucinta, mas que possui contornos
suficientes que justifiquem a decisão prolatada pelo magistrado, conforme
ocorreu no caso concreto 2. Preliminar de cerceamento de defesa por ausência
de intimação para apresentação de memoriais. No Processo Civil, os
memoriais não são peça obrigatória, constituindo a oportunidade para as
partes se manifestarem acerca da prova testemunhal produzida. In casu, na
audiência de instrução, o magistrado determinou a conclusão para julgamento
e a parte nada opôs, não podendo, neste momento, alegar a nulidade por
ausência de intimação para oferecer razões finais. 3. Cinge-se a controvérsia
recursal em verificar se as manifestações realizadas pelo promovido, nas
redes sociais, extrapolaram os limites da liberdade de expressão a ponto de
ferir a honra e imagem da pessoa da autora, e, por conseguinte, geraram
direito à reparação por danos morais. 4. Inicialmente, cumpre registrar que
o direito à liberdade de manifestação do pensamento está consagrado na
Constituição da República de 1988 (art. 5º, IV), encontrando-se protegida,
portanto, a livre manifestação da opinião, e proibida a censura. A Carta
Magna, por outro lado, contrapõe à liberdade de expressão, direitos de iguais
valores, consistentes na inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da
honra e da imagem das pessoas, assegurando direito de indenização pelos
danos material e moral decorrentes da violação de tais direitos (artigo 5º, V e
X). 5. Para a configuração do dano extrapatrimonial suscitado pelo
requerente, a vítima deve provar dolo ou culpa stricto sensu do agente em
denegrir sua imagem ao publicar, nas redes sociais, manifestações negativas
a seu respeito, segundo a teoria subjetiva adotada em nosso diploma civil,
nos termos dos artigos 927, 186 e 187 do CC. 6. Sustenta a parte autora que
teve sua honra ofendida por diversas ofensas praticadas pelo réu em
postagens realizadas através de rede social (Facebook), por meio de
expressões e acusações caluniosas e injuriosas a seu respeito, ofendendo a
sua honra e a sua dignidade. 7. Compulsando aos autos, verifica-se que
existiu Comissão Parlamentar de Inquérito -CPI instaurada pela Câmara
Municipal do Município de Aquiraz para apurar denúncias de eventual
ilicitude praticada no procedimento de desapropriação de um terreno onde
seria construído uma escola municipal e, em razão do seu cargo público, a
parte autora figurou como denunciada na referida CPI. 8. Diante das
peculiaridades que envolvem o caso sub judice, ainda que considerando o
conteúdo pessoal e político dos comentários contidos nas redes sociais do
apelante, verifica-se que houve excesso à liberdade de manifestação em clara
violação à honra e imagem da autora. 9. No caso em tela, resta evidenciada a
conduta (dolosa) do réu, que, ao utilizar a sua rede social (Facebook) veicula
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informações e comentários que visam disseminar informações de que a parte


autora está envolvida em desvios de verbas públicas, integrando uma

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quadrilha especializada em pilhar os cofres públicos, sem, contudo, haver a
comprovação e consequente condenação da requerente atinente às aludidas
práticas. Ademais, as mensagens publicadas pelo requerido extrapolam a
mera crítica política, ainda que eventualmente mais rígida, a exemplo da
conotação pejorativa dos termos "veaca" e "mais suja que pau de
galinheiro", que são agravadas pelo fato de terem sido proferidas em rede
social (Facebook) em ambiente virtual, o qual tem amplo poder de

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divulgação e disseminação, conforme se verifica da vasta documentação
acostada aos autos às fls. 22/27 e 123/147. 10. Conforme asseverou o juízo de
origem, "as provas testemunhais colhidas em audiência de instrução
corroboram indubitavelmente a repercussão e disseminação das informações
prestadas pelo promovido, bem como a potencialidade lesiva capaz de
provocar o abalo experimentado pela autora por contra da conduta do
promovido ao desqualificar a imagem e a honra da requerente" 11. Portanto,
o dano resta caracterizado, uma vez que tais publicações ocasionaram
prejuízo da honra do agente, configurando, portanto, ato ilícito, porquanto
violou o patrimônio jurídico personalíssimo do indivíduo (Art. 5°, V e X, da
CF), restando igualmente presente o nexo de causalidade no presente caso,
uma vez que a parte autora sofreu os aludidos danos em razão dos atos
praticados pela ré. Sobre o tema, veja-se o entendimento jurisprudencial,
inclusive desta Egrégia Corte de Justiça: 12. Diante das peculiaridades do
caso concreto, bem quanto em atenção ao teor das expressões proferidas, o
quantum fixado em R$ R$17.600,00 (dezessete mil e seiscentos reais) merece
reforma para R$ 5.000,00 (cinco mil reais), posto que razoável e
proporcional para compensar o dano sofrido sem, contudo, implicar em
enriquecimento sem causa, bem como possui caráter igualmente pedagógico.
13. Recurso conhecido e parcialmente provido4

Na fase instrutória as testemunhas ouvidas declararam que é comum o


acirramento do debate político em campanhas eleitorais onde os candidatos fazem críticas
mútuas; o réu e o autor eram adversários políticos na campanha eleitoral de 2014, uma vez
que o réu apoiava o então candidato a governador Camilo Santana que disputava com o autor,
Eunício Oliveira. Afirmaram as testemunhas que o autor já proferiu expressões contra o réu na
imprensa, tais como maluco, destemperado, desequilibrado e lixo.

No entanto, nada acresceram se as expressões proferidas pelo réu, no dia 06 de


setembro de 2014, na rede social Facebook, objeto dessa demanda, têm relação com as
alegadas expressões proferidas pelo autor.

Ademais, conforme o julgado colacionado, mesmo em disputas eleitorais,


ocasiões que os ânimos e debates políticos/partidários ficam mais exaltados, o promovido tem
o dever de não extrapolar os limites da garantia fundamental da liberdade de expressão
ofendendo a honra do autor, e dessa forma manter o equilíbrio em seus atos, mesmo quando o
propósito seja combater a corrupção no Estado do Ceará.
4 Apelação Cível nº 0098216-27.2015.8.06.0034, Relator (a): LIRA RAMOS DE OLIVEIRA; Órgão julgador:
3ª Câmara de Direito Privado, Data do julgamento: 16/09/2020; Data de registro: 16/09/2020
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Os candidatos e seus apoiadores não estão imunes a obrigação de observar os


limites da garantia fundamental da liberdade de expressão e as demais normas constitucionais

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e infra constitucionais, uma vez que nesse período não há "suspensão" do ordenamento
jurídico, todas as normas continuam válidas para todos, inclusive para aqueles que disputam
cargos eletivos.

Nesse mesmo raciocínio, a suposta ocorrência de agressões recíprocas entre o


autor e o promovido não justifica o proferimento de declarações que violem os direitos de
personalidade do autor, para tanto deveria o promovido se valer de meios legais e legítimos

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para se defender das supostas provocações.

Dispõe o artigo 186 do Código Civil que: aquele que, por ação ou omissão
voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito. Acrescentando o artigo 927: "Aquele que, por ato
ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo".

As expressões do demandado, exacerbando o direito de livre expressão e


manifestação do pensamento, macularam a honra e a imagem do autor, causando-lhe danos
morais, fazendo nascer a obrigação de reparação do dano.

Para a fixação do quantum indenizatório não existe parâmetro legal,


posicionando-se a doutrina e a jurisprudência pela utilização do princípio da razoabilidade,
observados alguns critérios como a situação econômica do autor do dano, a repercussão do
fato, a posição política, econômica e social da vítima, visando ainda compensar a vítima e
afligir razoavelmente o autor do dano, contudo, evitando qualquer possibilidade de patrocinar
enriquecimento sem causa.

Apreciando os elementos supra em cotejo com a prova dos autos, verifica-se


que o autor foi Senador da República, o demandado trata-se também de político de renome
nacional, fixo a indenização no valor de R$ 8.000,00 (oito mil reais), o que considero razoável
para compensar o dano sofrido pela vítima, tendo em vista que a mesma declarou que
pretende doar o valor indenizatório, demonstrando que pretende muito mais a declaração do
seu direito do que a compensação pecuniária.

III – DISPOSITIVO

Pelo exposto, JULGO PROCEDENTE o pedido do autor, e condeno o


promovido a indenizá-lo a título de reparação por dano moral, no valor de R$ 8.000,00 (oito
mil reais), incidindo juros de mora de 1% ao mês, a partir da citação, e correção monetária
pelo IPCA a partir do arbitramento, na forma da súmula 362 do STJ, o que faço com
fundamento nos artigos 186 e 927 do Código Civil.

Condeno o promovido em custas processuais e honorários advocatícios, estes


no montante de 15% (quinze por cento) sobre o valor da condenação, conforme determina o
artigo 85, § 2º, do CPC.

Transitada esta em julgado, arquivem-se os autos com baixa na distribuição.


fls. 327

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO CEARÁ


Comarca de Fortaleza
36ª Vara Cível (SEJUD 1º Grau)
Rua Desembargador Floriano Benevides Magalhaes, 220, Edson Queiroz - CEP 60811-690, Fone:
(85)3492-8427, Fortaleza-CE - E-mail: for.36civel@tjce.jus.br

P. R. I.

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjce.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0894880-18.2014.8.06.0001 e código A0B61B3.
Fortaleza/CE, 25 de novembro de 2021.

Antonia Dilce Rodrigues Feijão


Juíza de Direito

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por ANTONIA DILCE RODRIGUES FEIJAO, liberado nos autos em 25/11/2021 às 14:10 .

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